KU8Um .1,86.1 ■<■••: •'^:^v,>;«f.;%^5i«%jssgwHp( MANUAL WRWWTRP. • Jv, «SIM W&fâmm •*■■■ ■ 1 <0f c&cf«J3 MANUAL DA PARTEIRA ou PEQUElNA COMPILAÇÃO J)E CONSELHOS NA ARTE ÜE PARTEJAR, ESCRITA EM LINGUAGEM FAMILIAR. / JOAQUIM ANTÔNIO ALVES RIBEIRO, DOUTOR EM MEDICINA PELA UNIVERSIDADE * DE CAMBHIDGE, ESTADOS UNIDOS, APPROVADO PELA IMPERIAL ESCOLA DE MEDICINA DA BAHIA, MEMBRO DA SOCIEDADE MEDICA DE MASSACHUSETTS, SÓCIO CORRESPONDENTE DA ACADEMIA IM- PERIAL DE MEDICINA DO KIO DE JANEIRO, MEMBRO CORRESPON- DENTE DA SOCIEDADE DE HISTORIA NATURAL DE FRANKFURT AM MAIN, CAVALLEIRO DA IMPERIAL ORDEM DA ROSA, EX- MEDICO DO PARTIDO PUBLICO DESTA PROVÍNCIA, MEDICO DO HOSPITAL DA_ SANTA CASA DE MISERICÓRDIA D'ESTA CIDADE, DEPUTADO A ASSEMBLEA LEGISLATIVA PROVINCIAL, s Estampa V., utero ... . i'.i Apparelho da geração..............21 Ovarios...................21 Mama (estampa VI.)...............23 Considerações gemes...............26 Menstruação............ 27 Prenhez...................29 Sinaes da gestação ................31 Estampa VII...................34 Toque....................35 Auscultação..................35 Estampa VIII..................37 Feto e suas dependências.............38 Historia do feto.................40 Nutrição do feto................43 Circulação do feto................44 Estampa IX. (attitude do feto) . .•.........46 Cabeça do feto (estampa X.)............47 üescripeão das differentes partes do feto........48 Diâmetros da cabeça (estampa XI.)..... . 4ü Tronco....................53 Extremidades.................53 Do Parto Manual................53 Apresentações e posições do feto..........54 Estampa XII. (apresentação cefalica).........56 » XIII. ( » pelvica).........57 » XIV. ( » de uma das regiões).....58 Posições do feto................62 Estampa XV. (Posição occipito-lateral direita).....63 » XVI. ("Dilatarão da boca do utero).......65 XV Pag. Contracções uterinas ..... ......68 Mechanismo do parto natural....... . ... 71 Estampa XVII..................73 » XVIII.................77 » XIX..................78 » XX..................811 » XXI.................83 )) XXII..................84 Dequitadura (espontânea)............93 » pela arte..............94 Obrigações da Parteira..............98 Considerações geraes sobre o parto difflculloso .... lo.í Estampa XXIII.................107 Partejamento manual nas apresentações do feto pela pelve . 108 Considerações sobre a versão...........111 PARTE PRIMEIRA. ARTE DE PARTOS. PRELIMINARES. Entende-se por arte de partos, uma collecção de preceilos, e regras, destinadas a prestar os con- venientes auxílios á mulher na occasião de- parir. Da-se o nome de parto, em geral, aos actos e acções que se executao, para o feto seja expellido, ou extrahido do lugar, onde elie teve o seo desen- volvimento. A expulsão, ou a extracção das pareas, ou secun- dinas com que o acto do parto he consummado, se chama dequitadura. Chama-se parturição, quando essencialmente o utero expulsa o feto; denomina-se partijamento, quando o feto he extrahido por meio de um processo opera- torio, manual, ou instrumental. 1 • 2 A mulher que está parindo chama-se parluriente; e chama-se tãobem puerpera a mulher que pario, durante o tempo do seo regimento. Dá-se o nome de feto ao ser gerado, e completa- mente formado, em quanto existe dentro do ventre materno. Antes de sua perfeita organisação se chama em- bryão. São conhecidas com o nome de pareas, ou se- cundinas, as partes que formão os envoltórios do feio no utero; compoem-se de placenta, cordão um- bilical e das membranas chorion, e arhnios. Considerados esles phenomenos rias duas cathe- gorias de parlo fácil e difficil, ao primeiro se dá o nome de Eutochia, e ao segundo de Dystochia. Para se poder comprehender bem o mechanisino do parlo fácil, e prestar-se efficaces soecorros ao difficil, he necessário ler-se adquirido algum co- nhecimento das estructuras ou formação da bacia da mulher; das suas partes geradoras externas e inter- nas; e da conformação e estruetura do feto, parti- cularmente da cabeça. Tão bem he indispensável á parteira, para bem desempenhar o seo ministério, que ella se instrua em tudo, que caracterisa a prenhez, e que annuncia, ou manifesta a execução do parto; bem como dos cuidados que deve prestar á mulher no estado de parturienle e de puerpera, e ao recém- nascido. Estampa I. Influxo celeste no corpo da mulher segundo Aristotele. Aries. Gemini. Câncer Libra. / Sagittarius. 4 É como curiosidade que apresentamos esta estampa. Elie dividio os doze signos do Zodiaco dando a cada um uma parte correspondente ao corpo da mulher, governada porx cada um dos signos, como se vê na estampa acima, e seguinte Explicação. Aries — governando a cabeça e rosto. Taurus — o pescoço. Gemini — os braços e mãos. Câncer — os peitos e estômago. Leo — as costas e coração. Virgo — o ventre e intestinos. Libra — os rins e lofnbos. Scorpio — as partes secretas. Sagittarius — as coxas. Capricornius — os joelhos. Aquarius — as pernas. Pisces — os pés. CAPITULO I. Das partes da geração da mulher. As partes da geração da mulher se dividem em partes duras, e em partes brandas. Artigo Io. Das partes duras. As partes duras são aquellas, a que estão ligados os órgãos geradores: na mulher adulta constituem um só corpo denominado bacia, ou pelvis. 5 Estampa II. Bacia ou pelvis. •r&~ ~~w-^ a. osso sacro. b. c. c. « coccyx. fossas cotyloides, ou inserção dos ossos coxaes, ou bu d. d. e. e. racos subpubianos. bordo superior. bordo inferior. face externa. f-f-f-f-g-h.h. i. i. l.l.l.l. face interna. symphyse pubiana.. buracos sagrados. fossas iliacas externas. estreito superior. íi m. excavação ou pequena lincin. ». n. ossos ischions. «. ti. cristas iliacas. Secção Ia. Da bacia. A bacia he uma espécie de circulo ósseo, colocado na parte inferior da columna vertebral, e por cima dos ossos femures, ou das coxas. Entrão na sua conformação os ossos sacro e coccyx na parte pos- terior e media; e os ossos da coxa nas partes an- terior e lateraes. Nota-se-lhe duas faces, uma externa, e outra interna; e dons bordos, um superior e outro inferior. Face externa: Assignalam-se quatro regiões: Ia anterior onde existe a symphyse pubiana, os buracos subpubianos, e os lados e mais posteriormente as fossas cotyloides: 2a posterior, convexa de alto a baixo, concava de um lado ao outro na metade superior, e se lhe ob- servaõ, na linha mediana, os tuberculos posteriores do sacro; a terminação do canal sagrado, a articulação sacra coccygiana e de cada lado os buracos sagrados i posteriores, e mais um profundo rego vertical entre o sacro e osso coxal, e as espinhas iliacas posteriores: 3a e 4a lateraes onde se observaõ na parte superior de cada uma, as fossas iliacas externas; na parte inferior os bordos das fossas cotyloides, as chanfra- duras sacro-ischiaticas, e os ligamentos do mesmo nome. ( Face interna: He separada em duas porções, por uma restriçcão que se lhe nota, chamada estreito superior ou abdo- minal. A primeira, ou porção superior, se denomina grande bacia; e a inferior, se chama excavação ou pequena bacia. Grande bacia: Rastantemente larga no sentido transversal tem na parte posterior uma projectura formada pelo corpo da ultima vertebra lombar; e de cada lado se lhe nota a parte superior da symphyse sacro-iliaca, e a fossa iliaca interna. Estreito superior: He traçado por uma linha proeminente, formada pelo angulo sacro-vertebral, dirige-se sobre o mesmo sacro para a parte anterior de um e outro lado, sobre a porção iliaca, que limita a fossa do mesmo nome, continua pelo bordo superior da porção pubiana, e vai terminar na symphyse do mesmo nome. 0 plano d'este estreito tem uma inclinação de traz para diante, que augmenta ou diminue segundo a altitude da mulher, e segundo o estado de vacuidade, ou de plenitude no utero. O eixo d'este estreito he representado por uma linha, que começa no umbigo, passa pelo centro do mesmo estreito, e acaba no meio da face interna do terço inferior do sacro. .A excavação he um canal curvado, cujos limites são os estreitos abdominal e perineal. Marcão-se-lhe quatro regiões: Ia anterior, concava transversalmente, e lançada de cima para baixo, e de diante para atraz; tem no meio a symphyse pubiana; de cada s lado os buracos subpubianos onde existem, em cada um, os canaes oblíquos, por onde passão os vasos e nervos obturadores: 2a posterior, concava perpen- dicularmente, lançada^ obliquamente de cima para baixo, e de diante para atraz; mostra no meio solda- duras transversaes, indícios das separações primi- tivas do osso, e a articulação sacro-coccygiana, e aos lados as embocaduras dos buracos sagrados: 3a e 4a lateraes, subdivididas em duas porções, uma óssea anterior, correspondente ao fundo da fossa cotyloide, e porção do corpo do ischion do seo lado; outra branda posterior, limitada na parte superior pelo bordo da chanfradura' sacro-ischiatica, e na parte in- ferior pelos ligamentos do mesmo nome, e cheias pelos músculos pyramidaes nas bacias frescas. A porção óssea está lançada obliquamente de modo tal que se aproxima da do lado opposto, na sua parte anterior e inferior, e se afasta na sua parte posterior e superior,-e a porção branda aproxima-se da opposta na parte posterior e inferior, e afasta-se na parte anterior e superior. Estas duas porções das regiões lateraes se chamão planos inclinados, que se continuão, os primeiros com a região anterior, e os segundos com a região posterior. As espinhas ischiaticas estão postas no lugar da juneçãp ou união d'estes dois planos. O bordo superior tem uma dilatada circunferência, um tanto inclinada para a parte anterior: nota-se-lhe da parte posterior para a anterior, a face superior da ultima vertebra lombar, a qual entra no comple- mento da bacia; o ligamento ilio-lombar um de cada lado; os dois terços anteriores da crista iliaca; as 9 espinhas iliacas anteriores, duas superiores e duas inferiores; as eminências ilio-pectineas; o bordo su- perior do ramo horizontal dos púbis; a espinha pu- biana, e a symphyse do mesmo nome. O bordo inferior conhecido tãobem pelo nome de estreito perineal, he formado pelo ponta e lados do osso coccyx; pelas margens dos ligamentos sacro- ischiaticos, tuberosidades ischiaticas, ramos ascen- dentes dos ischions, e descendentes dos púbis, e margem inferior do ligamento triangular. Na parte anterior d'este bordo existe a arcada pubiana, limitada inferior e posteriormente pelas tube- rosidades ischiaticas, e superiormente pelo ligamento triangular da symphyse dos púbis. O eixo d'este estreito se marca por uma linha que passando pelo meio do seo diâmetro antero-posterior, vai terminar no meio do promontorio sacro. Para se obter o eixo da excavação lança-se uma linha desde o meio da terceira peça óssea do sacro, que deve vir passar por entre a parte anterior das tuberosidades ischiaticas. Esta linha crusando aquella que marca o eixo do districto superior, forma com ella um angulo ob- tuso com a área para a parte anterior, a qual re- presenta o eixo da excavação. 10 Estampa III. Dimensões da bacia. Diâmetros. Secção 2a. Dimensões da bacia. A grande bacia medida transversalmente, a sepa- ração que ha entre uma crista iliaca e a outra, acha-se ter no maior afastamento, de 10 á 11 polle- gadas; de uma das espinhas anterior e superior á A. li. Ante G. II. Tran CD. -postem i'1'so. E. F.\ Oblíquos, 11 outra, de 9 á 10 pollegadas. A extensão da parte posterior á anterior he maior ou menor, segundo o alongamento das paredes abdominaes. O estreito abdominal tem quatro diâmetros: Io an- tero-posterior, ou sacro-pubiano, e tem 4 pollegadas mais ou menos; 2o transverso ou iliaco, e tem 5 pol- legadas mais ou menos; 3o e 4o oblíquos, tendo cada um 4y2 pollegadas mais ou menos. São estes os diâmetros, ou as distancias entre os pontos proe- minentes do grande buraco da bacia, sendo os 4 de grande importância mesmo para a Parteira. Da união dos ossos da bacia. Na idade tenra a bacia he composta de muitos ossos, alguns dos quaes depois da puberdade se unem para formar um só; porem na mulher adulta esta cavidade óssea consiste em quatro ossos: Io o osso sacro e 2o coccygeo; 3o e 4o os iliacos ou tão- bem chamados innominados. Estes ossos são firme- mente unidos por uma substancia fibro-cartilaginosa interposta nos lugares onde elles se unem, e ahi os liga fortemente, resultando d'esta união tantos nomes scientificos, 'e differentes, quantos são os pontos onde estes ossos se apresentão para unirem-se, e resul- tando ainda d'estas uniões a formação da cavidade pelvica, a qual he dividida interiormente em duas partes, como ja fica dito, por uma restricção cha- mada districto superior. Ja tendo largamente des- cripto a grande bacia, passarei a descrever a pequena bacia, a qual tãobem ja fica anteriormente descripta com o nome de excavações; apenas accrescentarei, lá que ella he quasi cylindrica, maior no meio, e curva para a frente terminada superiormente pelo districto, chamado á entrada, e inferiormente pelo perineal. Secção 3a. Do uso da bacia. A bacia tem por uso sustentar o tronco; dar in- serimento no seo exterior, ás partes brandas dos membros inferiores; fornecer as cavidades onde se articulão os ossos femuris; acolher e proteger, no seo interior, a bexiga urinaria, o intestino recto, o utero, as trompas uterinas, e os ovarios. No tempo da prenhez ampara o' utero, e da-lhe uma conveniente direcção. Na occasião do parto dá passagem ao feto, e im- prime-lhe um favorável andamento. A bacia he onde se fixão também as partes bran- das quer de um quer de outro sexo, que servem para a geração. Secção 4a. Da bacia revestida com as partes brandas. Nas partes lateraes do estreito abdominal existem de cada lado os músculos psoas e iliacos, e os vasos e nervos iliacos, que alguma cousa lhe diminuem o diâmetro transversal. Na excavação os músculos pyramidaes, os vasos e os nervos gluteos e ischiaticos, passando pelo 13 grande buraco sacro-ischiatico, enchem este espaço, e completão, posterior e lateralmente, as paredes da excavação. Na parte anterior, o músculo obturador interno enche a fossa do mesmo nome, e completa o tapa- mento do pequeno buraco sacro-ischiatico, por onde este músculo sahe com os vasos e nervos pudendos. A dimensão antero-posterior da excavação he um pouco diminuída pela presença do intestino recto, bexiga urinaria, e de alguma gordura depositada /nos espaços cellulosos. O fundo do estreito perineal he fechado por dois planos musculares, o mais interior he formado pelos músculos levantadores do ano, e ischio-coccygianos, e o exterior pelos músculos, sphincter do ano, o transverso do perineo, o constrictor da vagina, e os ischios-cavernosos. Secção 5a. Dos vícios da bacia. A bacia pode apresentar defeitos nas suas differentes partes; cujos defeitos podem comprehender não só a grande como a pequena bacia, e mais o estreito superior, o inferior, e a excavação. Não entramos aqui na descripção minuciosa d',esses defeitos, porque não he absolutamente necessário para o fim d'este livrinho, e porque também só são elles interessantes nos seos pontos de vista para o Medico parteiro, e como não escrevemos agora para elles, temos assim deixado essa omissão que para a parteira não ser- viria de maior esclarecimento. 14 Secção 6a. Das partes brandas da mulher. 0 numero dos órgãos, que da parte da mulher, concorrem para a reproducção, excedem muito aos que constituem o apparelho gerador do homem, e as funcções d'estes são simples comparativamente ás complicadas dos órgãos do apparelho da mulher; os quaes desde a acção do coito offerecem uma con- tinuidade de phenomenos que nos obrigão a dividil- os em classes ou apparelhos; d'este arranjo resulta Io órgãos exteriores: 2o apparelho da gestação, e finalmente os órgãos productores do leite, os que bem que não sejão genitaes, são com tudo os que con- cluem a grande obra da geração fornecendo o pri- meiro e próprio alimento para a nova creatura. Todos os órgãos genitaes de que vamos tratar são sugeitos a diversas alterações em conseqüência de coitos mui freqüentes, repetidas prenhezes, por en- fermidades, e idades mui avançadas. Os primeiros d'estes órgãos constituem um appa- relho externo, que caracterisa o bello sexo, e esta- belece os preliminares do coito; estas partes chama- das pudendas, devemos consideral-as, como natural- mente se apresentão. §. Io. Das partes do pudor. As parles do pudor são a vulva, ou fenda dos grandes lábios, dirigida da parte supero-anterior para a postero-inferior, limitada no primeiro sentido pelo monte de Venus, eminência triangular coberta de cabellos na puberdade ate a velhice; no segundo sentido he limitada por uma prega membranosa trans- 15 versai chamada commissura dos grandes lábios, e a qual se segue o primeiro espaço, que a separa do ânus, e composto de partes molles, que fazem im- portante parle durante o parto, e pode chamar-se o assoalho da bacia, lateralmente esta commissura he limitada pelos grandes lábios, duas pregas mais ou menos espessas, e que descem do monte de Venus a terminarem no perineo; continuando por fora com a pelle das coixas, e assim indicando o seo limite por um rego mais ou menos profundo. Entre os grandes lábios, a vulva apresenta uma serie de objectos, que observados da parte superior para a inferior são Io o clitoris, espécie de pequeno penis mais ou menos saliente, e he sugeito a algumas moléstias, e coberto em grande parte pelas ninfas, ou pequenos lábios. 2o Estes pequenos lábios, pregas cristiformes, que nascidas da face interna dos gran- des lábios, correspondem em baixo ao orifício do canal vulvo-uterino, ou vagina, e em cima abração o clitoris. 3o O vestibulo, espaço triangular com- prehendido entre o clitoris, o meato urinario, e os pequenos lábios lateralmente. 4" O meato urinario, pequeno tuberculo circular, que termina na boca an- terior ou externa do canal que communica interior- mente com a bexiga urinaria. 5o O orifício vulvular do canal vulvo-uterino, ou a vagina, passagem de communicação entre a vulva e o utero, mostrando, nas virgens, uma membrana, ou pellinha, em forma de meia lua, a qual se chama hymen, ou carunculos myrtiformes, pequenos tuberculos que resultão da dís ■ frucção d'esta membrana, que pode faltar originaria- mente sem que a mulher tenhaperdido a sua virgindade. l(i A extensão d'esle canal varia de 5 a 6 pollegadas, na idade madura, e na sua extensão offcrece uma ligeira curva com differentes dimensões, na sua face circumferencial; esle canal tem differentes usos — a dar passagem aos productos do utero, como o mens- truo, o feto, &c. e n'elle tem lugar a emissão do li- quido seminal do homem, que d'elle passa para a cavidade do utero, ás trompas genitaes, e d'estas ■^os ovarios. Este canal tem sido propriamente classi- ficado como pertencendo aos órgãos internos. A vulva, e mais partes pudendas tem por uso auxiliarem á acção do coito, e o nascimento do feto, cedendo á seos impulsos por causa da exten- sibilidade do tecido de suas pregas. 6o Finalmente, uma pequena prega limitando uma pequena depressão digita), ou fossa navicular assim chamada. Vista anterior ou frontal da bacia da mulher, tendo as paredes do ventre removidas para mostrar os órgãos infernos. .4. Bexiga urinaria. B. Utero. D. Recto, ou intestino recto. 2 18 e. e. Ovarios. f.f. Tubos de Fallopio. i. i. Intestinos delgados. r. r. Ligamentos do utero. § 2o. Dos órgãos internos. O primeiro d'estes órgãos ja fica descripto acima debaixo do nome de Vagina. 2o o utero, vulgarmente madre, he um órgão con- cavo, e situado na pequena bacia; o intestino recto lhe fica posterior, e a bexiga urinaria cm sentido opposto; seos lados pegão-se com as partes lateraes da bacia por extensas pregas, chamadas ligamentos largos do utero; sua parte superior, ou fundo, he livre, e lhe correspondem as circumvoluções dos in- testinos; sua parte inferior chamada colo he abraçada pela terminação da Vagincfc elie fambem apresenta uma parte media, ou corpo, mais uma abertura transversal, a boca, limitada por dois lábios, dos quaes é mais salienle o posterior. Corte vertical do utero, e vagina. a. a. a. paredes do utero cortadas. b. cavidade. c. colo. f. f. trompas uterinas, ou de Fallopio. g. oriíicio uterino. 34 áO d. vagina. e. e. bordos cortados da vagina. Este órgão apresenta uma pequena cavidade re- lativamente ao seo volume, cuja cavidade he irregular- mente triangular; nos ângulos superiores d'esta cavi- dade se observão dois delicados orifícios, correspon- dentes ás cavidades das trompas ulerinas, e na parle inferior o orifício do utero, procedido de uma pe- quena dilatarão chamada cavidade do colo, a qual he como que separada da cavidade do corpo por uma espécie de canal mais ou menos pronunciado. Os usos essenciaes do utero, alem dos ja acima mencionados, são de servir de aposento ao feto, e nutri-lo em todo o tempo de nove meses pouco mais ou menos, ate que se effectue o seo nascimento. O colo do utero soffre muitas alterações pelas prenhezes. Nas virgens elie he longo c ponludo, e alguma cousa alargado no meio: nas mulheres, que tem tido filhos, elie he consideravelmente mais curto, mais obtuso, e menos regular na sua forma; a sua boca também soffre consideráveis alterações pela mesma causa: nas mulheres, que nunca parirão, ella se apresenta como um pequeno talho quasi imperceptível ao toque, porem depois da prenhez ella se alarga, e continua mais ou menos permanentemente aberta. Este órgão he abundantemente supprido de ar- térias, veias, e nervos; por tanto resulta d'esse ar- ranjo, a grande irrilabilidade, que elie nos indica em suas moléstias. O utero, por causa de sua structura própria, he 21 susceptível de dilatar-se a um tamanho extraordinário, e depois contrahir-se a seo tamanho original pouco mais ou menos; elie, quer no estado da prenhez ou não, he retido em sua posição por seos próprios liga- mentos. § 3o. Do apparelho da geração. 0 apparelho, onde o germen humano existe para .ser fecundado, e passar ao Qrgão da gestação, consta dos ovarios, e trompas genitaes, órgãos segundo á natureza os mais importantes da geração. As trompas genitaes, ouuterinas, são dois canaes nascidos de cada angulo superior do utero, e cuja figura o seo nome indica, sendo um de cada lado; em seo trajecto, cada trompa genital he mais ou menos flexuosa, e apresenta quatro, ou cinco polle- gadas de extensão, e duas extremidades, uma interna ou uterina, he muito delgada, mas logo depois en- grossa successivamente até a sua extremidade livre, a qual termina por uma espécie de franja rubra que constitue o seo pavilhão. As trompas genitaes, recebendo do utero o sêmen, o transmittem aos ovarios para a vivificação do ger- men; ao depois recebem o ovolo vivificado e transmit- tem-no à cavidade do utero por uma espécie de movimento, que lhe he próprio. Dos ovarios. 3o. Os ovarios são dois pequenos corpos ovaes, ou glândulas, que os antigos consideravão como testículos da mulher. Distinguem-se em direito e 22 esquerdo postos em cada lado do utero. Na época da puberdade apparecem nos ovarios pequenos sa- quinhos transparentes, que contem um certo liquido, no meio do qual nada um pequeno ovo chamado germen humano. Estes saquinhos, ou vesiculas, julgão- se depósitos de outros tantos germens imperceptíveis, porem capazes de deixarem estes domicilios, logo que sejão tocados pelo sêmen. Na mulher os ovarios são os primeiros órgãos da geração, como os testículos são para o homem; por- tanto o testículo he o órgão, que no homem ministra a matéria fecundante no acto da geração; na mulher o ovario appresenta o pequeno ovo, o qual sendo vivificado, deve constituir a nova creatura. Como temos visto a bexiga urinaria, e o recto tem relações importantes no processo do parto pelas suas posições, sendo a bexiga urinaria situada, na parte antero-inferior do tronco na grande bacia por cima do utero, o recto, ou a terminação do intestino grosso, passa pela pequena bacia por baixo do utero, e vagina para terminar no ano. • Structura da mama ou peito. a. a. bordos cortados da pelle. 6. b. retalho da pelle tirado fora. c. c. c. gordura ou tecido cellular que forma a belleza da mama. 24 d. d. cellulas da glândula. c. e. e. tubos que levão o leite da glândula para o bico do peito, ou mama, f. bico do peito, ou mamilla. Das mamas. 4o. Suppõe-se que a serie dos órgãos genitaes da mulher acaba nas mamas, ou seios em caso de rigorosa civilidade, porque a grande obra da geração não he completa sem a cooperação d'estes órgãos; não só pela intima sympathia que existe n'elles, e os propriamente geradores, como pela reciprocidade, que as mamas estabelecem entre a mãi e o filho, e sobre tudo por serem os órgãos secretorios do leite, alimento indispensável para a nova creatura nos pri- meiros tempos dè sua vida. No entretanto, como as mamas estão naturalmente associadas com a nutrição infantil, e estão sujeitas a varias affecções durante a prenhez, e em outros perío- dos, he conveniente ter algum conhecimento d'elles. Estes órgãos são mui pouco desenvolvidos ate os annos precedentes á puberdade; quando as meninas se considerão approximadas da apparição da mens- truação, he então que seus seios se desenvolvem, e adquirem suas elegantes formas; a sua pelle mostra- se liza, clara, e singularmente delicada, agradável a vista, e ainda mais ao toque. Se as considerarmos n'essa época de florescência da mulher, na qual a natureza aperfeiçoa todos os órgãos, e predispõe, e apura as graças em ambos os sexos, e por uma imperiosa necessidade desafia suas mutuas relações: então he que propriamente se 25 lhe declara a côr na areola, plano circular, rubro, contíguo a pelle, e participa dos atributos da pupilla, mamilla, ou vulgarmente bico do peito, tuberculo de côr rubra nas jovens, e mais ou menos obscurecido e rugoso nas idades mais avançadas, he lambem do- tado de uma sensibilidade particular que desafia, e ratifica o amor da mãi para com o filho, e que nas jovens he susceptível de certo gráo de movimentos que a1 tornão mais rubra. Este estado de perfeição permanece por mais ou menos tempo, e pode ser que ate ao uso do coito, porem entre o grande numero das jovens, particularmente no nosse clima, onde causas physicas e moraes tem grande influencia na constituição, muitas não vão alem dos dezoito annos de idade sem experimentarem mudanças bastantes sensiveis nas apparencias d'estes órgãos: então he que a natureza, mal lograda nas esperanças de seos desejos, consente, d'alguma maneira, na decadência d'estas partes que mudão um pouco de sua figura, resistência, e elegância. Finalmente as mamas consideradas d'esta maneira são dois corpos hemisphericos situados na parte an- terior e media do peito, um de cada lado, separados por um intervallo vertical propriamente chamado seio. Estes órgãos secretores do leite appresenlão em seo centro uma grande glândula envolvida em diversos tecidos de varias structuras que lhes dão maior ou menor volume. Na substancia d'estas glândulas existem um numero immenso de pequenas cellulas, ou vesiculas, nas quaes por algum processo inexplicável o leite he se- gregado, ou feito do sangue: nascem d'estas vesiculas 2G pequenos tubos, ou canaes, que se estendem e unem- se para formar outros maiores, ate que todo o leite he somente levado á mamilla por poucos tubos, cujas terminações são na mamilla de tal maneira conlrahida sobre si que apenas o chupar da criança, ou a pressão mesmo do leite, quando as mamas estão mui cheias, as abre, e o leite escapa no seio como he geralmente sabido por muitas mulheres. As duas glândulas das mamas não estão immediata- mente unidas, porem existe entre ellas uma sym- pathia mui intima. A falta ou abundância do leite alem de outras causas, também depende do tamanho das glândulas. CAPITULO II. Considerações »geraes. O grande objecto, para o qual todos os órgãos da mulher concorrem com suas funcções variadas, he o de gerar, e trazer ate o nascimento uma nova craatura. Para esse fim elles se auxilião mutuamente, tendo cada um sua parte especifica que representa no grande phenomeno. Não he possível dar aqui uma descripção com- pleta de todos os acontecimentos d'este admirável phenomeno; porem uma legeira descripção de seos estados principaes, será sufficiente para se entender o objecto do presente trabalho. 27 Por tanto devo recapitular os usos de alguns ór- gãos ja acima tratados, indispensáveis a este phe- nomeno, e depois explicar o processo da geração, e desenvolvimento do feto. Io. O utero não he mais do que o receptaculo no qual o ovo vivificado he lançado, e onde soffre todas as mudanças maravilhosas e pelas quaes o ovo he ultimamente desenvolvido em um ser humano perfeito; portanto o seu uso principal consiste no desenvolvimento do feto, o qual não pode ser effectuado perfeitamente em outra qualquer parte do corpo. 2o. Os ovarios, como ja fica dito, são duas pe- quenas glândulas, cujo uso he formar o germen, ou ovo, do qual a nova creatura he desenvolvida. A structura dos ovarios he simples, e a maneira pela qual elles produzem o ovo não he ainda bem explicada ou entendida. Com tudo o certo he que elles são indispensáveis á geração por serem as partes mais essenciaes do systema gerador da mulher. Chama-se ovo, na espécie humana, e nos irra- cionaes viviparos, a um saco membranoso, ovoide, que contem um certo principio, que sendo unido ao sêmen do homem, e vivificado que seja, constitue o feto en futuro. 3o. A menstruação parece ser um processo re- sultando do desenvolvimento e acção salutar dos órgãos femininos, e cujo phenomeno he essencial ao bem estar da mulher: ate certo tempo mui pouco se sabia d'este phenomeno tão importante, quanto notável ao systema feminino: as theorias mais vagas e illusorias forão avançadas para esclarecer esse 28 phenomeno, e os trabalhos que successivamente ap- parecião continhão nada mais do que as mesmas theorias repetidas em differentes linguagens, ate que as investigações dos physiologistas modernos vierão esclarecer a escuridão, com a qual este phenomeno se achava envolvido. A idade na qual este phenomeno principia apparecer, varia muito segundo os climas, porem no nosso inler- tropical, elie se mostra em geral dos 13 aos 15 an- nos, e he tanto mais tardio quanto mais se approxima dos climas mais frios, e dos pólos. Depois do apparecimento do mensfruo, (regras, ou lua, ou accostumado como vulgarmente se diz,) a duração da fluxão sangüínea de cada período mens- trual he mui variável em differentes mulheres, não só no numero dos dias, no qual o sangue he excre- tado, como tãobem na quantidade, que ellas perdem. O nome desta funcção indica que ella se reproduz mensalmente. Entretanto deve-se entender que nada he absoluta- mente regular, assim como em muitos outros pontos da physiologia humana, na qual uma infinidade de circunstancias, vem impor muitíssimas alterações na marcha natural de nossas funcções. Em muitas mulheres a apparição do menstruo tem lugar de 28 em 28 dias e em outras mais cedo ou mais tarde, dependendo de causas physicas, e moraes que contribuem para o desenvolvimento pre- maturo do instincto reproductor nas moças; então n'esta época fazem-se mudanças perceptíveis na moral d'ellas, tornando-se pensativas, mais acauteladas, ellas corão, e suspirão facilmente ao menor indicio 29 de affecção amorosa para com o outro sexo, e he tãobem n'esta crise que todos os cuidados hygienicos devêm ser com maior razão indicados á mulher, cuja constituição ja naturalmente sensível, se acha forte- mente alterada pelas crises menstruaes. Os cuidados que a primeira apparição do menstruo requer são deixados á candura maternâl: he ella quem deve guiar á moça pubere nos novos caminhos, que deve percorrer, e admoestal-a contra os perigos da vida durante e mui principalmente n'este período critico: pois com muita razão, um celebre author, Francez Tissot, disse que a moça que lê romances aos onze annos terá ataques de nervos aos vinte. Estabelecida que seja a menstruação ella deve continuar regularmente, sem outra interrupção senão a do tempo da prenhez e da amamentação, até a idade de 45 a 50 annos, período considerado profícuo, e no qual á menstruação geralmente cessa; no entretanto este período não he absolutamente fixo, porque sabe- se que a menstruação termina as vezes mais cedo ou mais tarde nas differentes mulheres. Secção Ia. Artigo Io. — Da Prenhez. As ultimas considerações geraes nos trouxerão ao ponto da geração, ou o primeiro desenvolvimento do novo ser: por tanto devemos em seguida demonstrar os seos vários estados de desenvolvimento, e mostrar 30 como elie he nutrido, e sustido em sua própria posição; torna-se assim necessário para pudermos entender a origem de muitas aífecções, e accidentes, que occorrem, durante a gestação, e também ex- plicar os vários signaes pelos quaes se podem deter- minar, que uma mulher está ou não grávida; e final- mente devemos designar com o nome de prenhez o estado da mulher que concebeo, e traz no seo ventre o producto da concepção. Este estado começa no instante da concepção, e acaba com o parto: a sua duração he de nove meses solares, ou de duzentos e setenta dias: podendo com tudo prolongar-se ou diminuir-se este prazo por mais ou menos dias. As prenhezes se distinguem em verdadeiras e fal- sas: as verdadeiras são aquellas, em que o baixo ventre se engrandece pela desenvolução normal dos productos da concepção: e as falsas são aquellas, em que o augmento do baixo ventre he devido ao desen- volvimento de productos mórbidos. As prenhezes verdadeiras se dividem em intra- uterinas, quando o feto estji contido d'entro do utero, e em extra-uterinas quando está fora d'elle. As intra-uterinas podem ser: Io simples, se o utero contem um só feto; 2o duplas, tríplices, &c. se o utero contem 2, 3 ou mais fetos; 3o complicadas, se o utero encerra alem do feto, um producto anormal. As extra-uterinas também se dividem: Io em ovaricas, quando he no ovario que o producto conce- bido se desenvolve: 2o em tubaricas, se he nas tubas; 3o em peritoneas, se he no peritoneo; 4o em inter- sticiaes, se he na substancia do irresmo utero. 31 He da prenhez intra-uterina que somente nos vamos occupar. Da prenhez intra-uterina. A prenhez intra-uterina he caracterisada pelo en- grandecimento do utero, e pelo desenvolvimento dos productos da concepção, do que resulta manifestar- se na mulher uma serie de phenomenos, que con- stituem o estado da gestação. A apparição d'estes phenomenos, como signaes da gestação, e o successivo desenvolvimento do feto fará o objecto das seguintes secções. Secção 2a. Dos signaes da gestação. Estes signaes se referem á concepção e á prenhez. Io. Os signaes da concepção são pouco apreciáveis, e alguns de mui pouca duração; e isto he tanto assim que o maior numero de mulheres não se re- cordão d'elles. Diz-se porem, que quando concebem, tem na copula um maior prazer; que depois são acommettidas de uma dor semelhante á dor de eólica; que percebem movimentos vermiculares por todo o baixo ventre; que sentem pesado o utero; e final- mente que são affectados de ancias, de náuseas, de vômitos, de prostração de forças, de tristeza, de pal- lidez, de encovamento dos olhos, e de decomposição das feições do rosto. 2o. Os signaes da prenhez podem ser distinguidos em signaes de persuasão, e em signaes de convic- 32 ção; os primeiros se deprehendem dos raciocínios, e os segundos das explorações. Io. Signaes de persuasão: consistem estes signaes: Io no desapparecimento das menstruações sem causa conhecida; 2o no progressivo augmento do volume do ventre da parte inferior para a superior; 3" na elevação do umbigo; 4o na turgencia das mamas, tesura dos seos bicos, obscurecimento das suas areo- las, e excreção de lympha leitosa; 5o na manifestação dos enjôos, fastio, ptyalismo, náuseas, e vômitos; 6o finalmente na modificação de muitos dos seos actos moraes. 2o. Signaes de convicção: conseguem-se estes signaes empregando-se vários meios exploradores para por meio delles obter-se o conhecimento do augmento do volume do utero, e a presença e desenvolvimento do feto contido d'entre d'el)e. Estes meios explora- dores consistem: Io no apalpar; 2o no tocar, e 3o no auscultàr. Para se praticar na mulher qualquer d'estas três explorações, será necessário pô-la em uma con- veniente posição, isto he, deitada, ou de pé. Na primeira será posta horizontalmente em uma cama sobre o dorso, ou de costas com as espadoas um pouco elevadas, as coxas erguidas para o tronco, e as pernas dobradas contra as mesmas coxas. N'esta posição as paredes do baixo ventre tornadas brandas, pode-se, apalpando-as, perceber atravez d'ellas, o estado do utero; também n'esta posição mandando- se afastar as coxas á mulher, se facilita mais a in- troducção do dedo na vulva, e levar o extremo d'elle pela vagina á ir tocar no orifício do ulero. Na segunda conservar-se-ha a mulher de pé,, en- 33 costada ou apoiada á um traste, que lhe sirva de arrimo, e amparo. Io. Apalpar; pondo-se as palmas das mãos sobre- as paredes abdominaes, percebe-se, por cima dos ossos púbis, ao 3° mez da gestação, um corpo arre- dondado, que he o fundo do utero; ao 5o mez o mesmo fundo mais subido ate duas pollegadas abaixo do umbigo; ao 6o mez existindo duas pollegadas por cima do mesmo umbigo; ao 7o mez occupando a parte inferior da região epigastrica;"e ao 8o mez em que o fundo do utero tem chegado ao máximo da sua elevação, dever-se-ha perceber approximado ao appendice xifoideo. Também pelo apalpar se pode sentir os movi- mentos actívos ou passivos do feto d'entre do utero, com os quaes não só se verifica a prenhez, como ainda o estar vivo o mesmo feto; porem esta ex- ploração só deve ser praticada no quarto mez depois da concepção, tempo em que se suppõe ter a or- ganisação do feto ja adquirido a aptidão para mover- se. Basta appliçar simplesmente as palmas das mãos ás paredes abdominaes, correspondentes ao utero, para perceber o movimento de um corpo, que vem topar contra as mesmas mãos. Tendo-se anticipadamente esfriado as mãos por qualquer maneira, poder-se-ha obter um melhor re- sultado. Também pelo processo de percutir as paredes abdominaes, como se faz nas hydropesias (ascites) para se sentir o ondejar da água, se pode perceber os movimentos do feto. 3 Esta estampa mostra a maneira de fazer-se o toque, ou ballotment. 1 Feto. 2 Placenta. 3 Dedo indicador do parteiro. i Mão esquerda sobre o ventre. A. Bexiga urinaria. H. Meato urinario, ou boca da bexiga. 35 i. i. Intestinos delgados. j.j. Osso da espinha. D. Intestino recto. q. Perineo. k. Púbis. 2o. Tocar: pratica-se introduzindo o dedo indica- dor na vagina da mulher, ate com a sua ponta ir topar no orifício uterino; e por este meio não só se verifica a gravidez como também se pode colher alguns outros signaes diagnósticos obstetricios. A mulher estará ou deitada, ou de pé, como ja dissemos; a Parteira unta o dedo indicador de uma das mãos, em uma substancia oleosa, e o introduz na vulva, com o bordo radial voltado para a parte superior da arcada púbica, conduzindo-o pela vagina ate chegar ao orifício uterino. Explora-lhe então os seus lábios para conhecer >a espessura d'elles, e o caracter da sua fenda: o estado em que o eólio do utero se acha e o volume que esta víscera apresenta, a qual eleva ou suspende, para lhe avaliar o pezo, e tãobem os movimentos espontâneos do feto. Em quanto está procedendo a estes exames, tem a outra mão applicada ás paredes abdominaes, e com ella está comprimindo o fundo do utero. 3o. Auscultar: exerce-se de dois modos, mediata, ou immediatamente. Por qualquer d'estes dois meios sente-se algumas vezes, os movimentos pulsivos cir- culatórios do feto, contido no ventre materno, que verificados nenhuma duvida resta da existência da prenhez, e da vida do feto. 3* 3(1 Na auscultacão mediata se usa do instrumento, cvlindro, ou stetoscopo. Faz-se uso d'elle pondo um dos seos extremos nas paredes abdominaes da mu- lher, no ponto onde provavelmente deve corresponder o dorso do feto, e o outro extremo do cylindro en- costa-se á orelha de quem ausculta, de modo que fique exaclamente ajustado o furo do cylindro ao conducto auditivo da mesma orelha. Na auscultacão immediata a Parteira applica a sua orelha, sem ter nada de permeio, ás paredes abdo- minaes. Este modo de auscultacão he preferido por muitos, e eu o adopto, porem offerece certos incon- venientes de que o outro está isento. 0 habito de auscultar, d'esta ou d'aquella maneira, he quem deve decidir da escolha. He na ametade anterior do ab- dômen, que a auscultacão immediata deve ser feita; he entre as arcadas cruzaes, direita e esquerda, e o umbigo da mulher, que devem ser escutadas, com o stetoscopo, as pulsações circulatórias do feto. 37 Estampa VIII, Corte do utero grávido para mostrar o ovo, ou futuro feto perto de um mez, e suas dependências. 38 Explicação. a. a. a. Paredes do utero. b. b. Embryão. c. Differentes vasos que formão o cordão umbelical pegado a d. d. Placenta. c. Vitellus, ou ovo. f. /'. /'. Membrana caduca que forra o utero. g. g. Membrana chorion. h. Amniatica que envolve o embryão, í. i. Vasos que unem a placenta ao utero. j. Mucosidades. k. k. Trompas uterinas. (. Boca do utero, ou orifício uterino. m. Vagina. Secção 3a. Do feto e das suas dependências. Io. O feto, pequeno ente da espécie humana, ex- iste na cavidade do utero, mergulhado em uma liquido, e com elie encerrado em um saco membranoso, cha- mado ovo, ate ao seo termo da gestação, periodo que oecupa desde a passagem do ovo emprenhado para o utero, ate a sahida da nova creatura. Este saco he pegado a uma certa parte da superfície do utero, por um corpo brando, e esponjoso chamado placenta; órgão que forma uma parte das paredes do saco, e dá origem a um cordão, chamado umbili- cal,- o qual pela outra extremidade segura o feto. 39 2o. Da geração, e do desenvolvimento do feto. A concepção he um acto que se executa indepen- dente da vontade; não obstante haver opiniões em contrario, que pretendem provar que os sexos podem ser procreados a vontade. 0 certo he que o estado moral dos dois indivíduos, a actividade com a qual executao o acto da funcção geradora, tem uma certa influencia sobre o seo resultado; por tanto as quali- dades physicas e moraes, futuras da nova creatura, estão de alguma maneira debaixo da nossa vontade; e d'aqui nasce o adagio, que nunca um grande homem gerou grandes homens, e os descendentes das personagens illustradas quasi sempre são indignos de seos Pais; por tanto como regra geral, não pode haver filhos notáveis pelo talento, onde não existe amor verdadeiramente mutuo entre os Pais, e eis a razão porque muitos homens notáveis se encontrão entre os bastardos, que são os verdadeiros filhos do amor. A espécie humana he geralmente unipara, no entre- tanto não he raro ver-se nascerem gêmeos, e ja tive occasião de observar exemplos de mais de três crean- ças; existem varias opiniões pretendendo esclarecer a causa de tantas creanças em uma só prenhez, porem como ellas são mais hypotheticas do que prováveis, e são mais propriamente interessantes ao Medico, por isso deixo de apresental-as. 0 desenvolvimento de um ser humano perfeita- mente formado do ovo, que lhe deo origem, he um dos mais admiráveis phenomenos da natureza que pudemos considerar. Ainda não está perfeitamente 40 determinado se o ovo he emprenhado antes de ser trazido para o utero, ou se depois d'ahi chegar, porem seja como for a opinião que muitos authores offereceni, ainda nada tem sido descuberto no utero se não depois de alguns dias da concepção ter ap- parentemente occorrido. Alguns physiologistas nos dizem que o germen da nova creatura pode-se achar no utero perto do sexto dia, porem outros nos assegurão que o germen não pode ser achado no utero antes do duodecimo dia, período, que principiaremos ,a considerar do desenvolvimento do feto. 3o. Historia do feto. Alenj do que ja fica dito, consideraremos aqui em seguida uma lista de phenomenos continuados desde a origem do germen nos ovarios e sua vivi- ficação ate o nascimento da nova creatura. No duodecimo dia considerando que desde o mo- mento da concepção o germen fecundado no ovario desce depois de alguns dias para a cavidade do utero, se examinarmos o embryão, elie appresenta-se de- baixo de um aspecto mucoso, ou gelatinoso, e ainda sem membranas, ou suas cubertas, então he ao mesmo tempo a cavidade do utero forrada por uma substancia molle, segregada pelas paredes internas de sua cavidade, e que depois torna-se em forma de membrana franqueando-se Jogo ao embryão, para a sua primeira cuberta, ficando entretanto pegada por um ponto á superfície interna do utero, onde ha de se formar depois a placenta. O embryão n'este tempo he de forma semi-ellip- 41 tica, tendo uma extremidade mais grossa, constituindo a cabeça, e a outra mais estreita, sendo a parte in- ferior, o tronco. O embryão neste estado mede pouco mais ou menos 2 ou 3 linhas de comprimento. Elie se acha pegado pelo centro da curva ao cordão umbilical. Essa primeira membrana do ovo chamada caduca, que consiste de duas folhas distinctas, segundo Hunter; são formadas depois de uma só membrana a reflectida, ou ovarica, somente pegada á um certo ponto do utero, por uma substancia polposa e vascular, da qual se forma a placenta. Desta exposição subentende- se que as membranas do ovo são 3, das quaes, em seguida, darei a própria descripção. O embryão d'entro de 25 dias he do tamanho com- parando pela sua semelhança, de uma formiga, como ja tenho visto, então elie principia a tomar mais consistência, e existem signaes das partes futuras, das quaes se hão de formar os ossos; uma pequena depressão visível denota o pescoço, a qual indica a separação entre a cabeça e o tronco: no primeiro mez o embryão he do tamanho de uma abelha; pe- quenas excrescencias, em estado rudimentario, são visíveis, e constituem depois os membros ou extre- midades; a cabeça he do mesmo tamanho que o resto do corpo; os olhos são distintamente visíveis como dois pequenos pontos pretos, divisa-se a boca e as aberturas do nariz, e de cada lado da cara os rudimentos das orelhas são apparentes. No segundo mez cada parte tem-se tornado muito mais desenvolvida, e a forma geral he aquella de uma creatura humana; as extremidades superiores 4á são mais alongadas, e as inferiores tornão-se distinctas; os dedos são visíveis; em varias partes existem pontos de ossificação: os rudimentos dos primeiros dentes são tãobem visíveis. Este pequeno corpo pesa uma oitava, e mede uma pollegada de comprimento. No terceiro mez todas as partes essenciaes são bem visíveis, e distinctas, as palpebras também distinctas, porem firmemente fechadas, os beiços perfeitos, o coração bate com certa força; os dedos são bem definidos, e os músculos tornão-se apparentes. Os órgãos da geração são notavelmente salientes; no entretanto he difficultoso distinguir-se o sexo. Neste tempo pesa perto de 2% onças, e mede de 4 a 5 pollegadas mais ou menos. No quarto mez o desenvolvimento he notavelmente augmentado, a maior parte dos ossos estão formados, e os rudimentos dos segundos dentes são visíveis de- baixo dos primeiros, elie pesa de 7 a 8 onças e mede 6 a 7 pollegadas; os sexos são perfeitamente distinctos. Nesta época o utero está tão grande que ja não cabe na parte inferior da bacia, e então sobe, e esta mudança tem sido chamada, o primeiro bullimento, ou apressamento da gestação. No quinto mez, todas as partes estão maiores e apparecendo mais perfeitas, os pulmões se augmen- tão, e são capazes de dilatação,>a pelle torna-se mais forte, o lugar das unhas distincto, elie mede de 8 a 10 pollegadas, e pesa de 15 a' 16 onças. No sexto mez, as unhas são notáveis, finos pellos principião á adornarem a cabeça, elie mede de 17 ou mais pollegadas, e pesa de 1% ate duas libras. No sétimo mez, todas as partes tem adquerido 43 rapidamente maior consistência, volume, e proporções mais perfeitas, elie mede 14 pollegadas, e pesa perto de 3 libras, e então ja pode viver fora do utero. Os dois meses restantes, para completar a gesta- ção, são empregados em augmentar o tamanho, e peso, e dar mais força a todas as partes da nova creatura: pois nenhum phenomeno novo se apresenta. Nessa época todas as funcções tem-se tornado activas, a pelle torna-se corada, e a respiração oc- corre; a nova creatura pode agora experimentar as sensações communs de dor, fome, calor, frio, e he capaz de conservar uma existência independente se for trazida ao mundo. 4o. Nutrição do feto. Existem varias e multiplicadas theorias cheias de toda lógica, para demonstrar os meios pelos quaes a nova creatura se nutre; porem he agora geral- mente admettido pelos physiologistas, que o material requerido pelo feto para sua nutrição he obtido do sangue da mãi; com tudo disputa-se, se o sangue maternal he levado directamente, em seo estado or- dinário, ao corpo da nova creatura, ou se elie soffre primeiramente algum processo preparativo, como suppoem, e acreditão muitos authores modernos. Desde o periodo ma,is cedo da gestação uma das membranas he coberta na sua face esterior por pe- quenos vasos; em certo tempo estes vasos tem augmentado muito em seu tamanho e numero tal que tornão-se em um corpo vascular e esponjoso de for- ma de pastel, chamado placenta; he ella, como vemos, quasi inteiramente formada de vasos sangui- 44 neos; os quaes são duas artérias e uma veia, que se ramificão muitíssimas vezes, para dar forma cir- cular e esponjosa da placenta. Estas duas artérias e veia formão o cordão um- bilical, o qual segura o feto na placenta, a qual he pegada por uma de suas faces á uma parte da face interna do utero, estabelecendo assim relações im- mediatas entre a mãi e o feto. 5o. Da placenta e circulação do sangue. A placenta apresenta duas faces, uma uterina, ou interna do utero, desigual e pegada ao utero por vasos communicantes, innumeraveis, e de delicadeza extrema: a outra face fetal dá origem ao cordão um- bilical. A placenta he mais grossa no centro do que em outra qualquer parte de sua circumferencia, e suas dimensões são mui variáveis, assim como os do cordão umbilical; os vasos sangüíneos da placenta, os do cordão umbilical, e os do feto são semelhantes aos do corpo maternal. As artérias que vem da parte esquerda do cora- ção conduzem o sangue puro, contendo todas as matérias para formar e nutrir todas as partes do systema: as veias contendo o sangue em seo estado impuro, e o conduzindo ao lado direito do coração, e d'ahi o transmitindo aos pulmões para ser puri- ficado pelo acto da respiração. Por tanto a marcha do sangue he da parte esquerda do coração maternal por meio de suas artérias ate chegar ás artérias do utero, e d'ahi passa, para as da placenta, e depois para as do umbigo, as quaes conduzem o sangue para o corpo do feto, quando o sangue tem circulado 45 nas suas artérias supprindo o material para o cres- cimento, e desenvolvimento do feto; o sangue torna- se por isso impuro, e passando para as suas veias, como no corpo maternal, e destas veias para as do umbigo e placenta, e apparentemente para as da mãi; he por ellas, que o sangue he levado á parte direita do coração maternal, e por sua acção he levado aos seus pulmões para ser outra vez puri- ficado pela respiração. Esta explicação da communicacão sangüínea entre a mãi e o filho, parece um tanto hypothetica, porem he a mais razoável que se pode tirar das multiplica- dissimas theorias de vários authores; e concluímos dizendo, que alem desta communicacão entre a mãi e o filho, existe uma circulação própria e particular ao feto, a qual principia e termina na placenta; porem a natureza deste livrinho não permite que entremos nas particularidades d'esta circulação; pois que ella occupa em lugar das mais interessantes na physiologia humana, e para puder-se entendel-a he necessário um certo conhecimento da anatomia descriptiva das partes que concorrem para tal circulação; por tanto o que temos dito he sufficiente para satisfazer a na- tureza desta obra. 46 Estampa IX. Attitude do feto. 6o. Attitude do feto dentro do utero. Nos fins da prenhez o corpo do feto está um pouco curvado sobre sua parle anterior, tem a ponta do queixo inferior encostada á parte superior do peito; os braços encostados ás partes lateraes do tronco, com os antebraços crusados e as mãos ap- plicadas ao rosto; as coxas estão approximadas á cavidade abdominal, com as pernas em flexão, crusa- das, e com os calcanhares encostados ás nádegas. 47 N'este estado, a superfície exterior do feto des- creve uma linha oval por todos os lados, que o con- forma ou ajusta com a configuração da víscera que o contem. Estampa X. 3 A cabeça do feto he geralmente dividida em craneo e rosto ou face. Figuras 1 e 2. 1.1. Os dois ossos frontaes, que deve contar-se como um. 2. 2.---;---parietaes. 3. 3. O occipital. 4. 4. Os dois ossos temporaes o esphenoide e ethmoide não ap- parecem. 5. Maxillar superior. 6. Os molares, 7. Maxillar inferior. 48 A. Begião dos dois ossos próprios do nariz, os dois unguis, os dois turbinados, os dois palatinos , o vomer. A. B. C. Sutura sagital. o.o. Suturas fronto-pnrietaes. í. Suturas lambdoides. B. Fontanella anterior. C. — posterior. (. — temporaes. 7°. Descripção das differentes partes do feto. O feto se divide em cabeça, tronco, e extremi- dades: e cada uma destas parles se subdividem em differentes regiões. § 1. A cabeça tem uma figura arredondada, uma notável dureza, e he quem primeiro se apresenta ao estreito superior no maior numero das parturições. (Veja-se a estampa IX.) Divide-se em craneo e rosto; porem sendo os ossos que entrão na composição destas duas partes, quem lhe dá a rejeza que a caracterisa, são elles que nos vão occupar, particularmente os do cianeo, por ser esta parte da cabeça a que mais figura no -fenômeno da parturição. Oito ossos são os que essencialmente entrão na composição do craneo, o frontal, os dois parietaes, o occipital, os dois temporaes, o esphenoide, e o ethmoide. Quatorze entrão na conformação do rosto: os dois próprios do nariz, os dois unguis, os dois maxillares superiores, os dois mollares, os dois turbinados, os dois palatinos, o vomer e o maxillar inferior. 49 Estampa XI. M. O. Mentum occi pitai. O. F. Fronto occipilal. B. S. Occipito-brigmateco. B. P. Figura 2 — Bi-parietal. F. S. Vértice Basilar. B.M. Mentum frontal. Deixo de indicar outros diâmetros porque no pre- sente trabalho só fallo dos que se achão acima no- tados. Designão-se os seguintes diâmetros na cabeça, que são linhas suppostas, que a atravessão em differentes pontos. Io. Diâmetro: mentum occipital, começa na ponta da barba e termina na parte mais proeminente do 4 50 occipital: tem pouco mais ou menos 5 pollegadas: 2o fronto occipital; parte de eminência nasal e acaba na prominencia occipital, tem 4 pollegadas: 3o occi- pito-bregmatico; vai do meio da fonlanella anterior, e acaba entre a prominencia e buraco occipital: tem 4 pollegadas; 4o bi-parietal, vai de uma a outra eminência parietal; tem 3% pollegadas: 5o vértice basilar, que começa na parte mais elevada da cabeça e termina na parte anterior do buraco occipital: tem 3 pollegadas e meia: 6o mentum frontal: principia na ponta da harba, e acaba no meio da testa, onde principião os cabellos; tem tãobem Ires pollegadas e meia. Três circumferencias são indicadas na cabeça do feto: Ia grande circumferencia, que he uma linha, que a percorre, partindo do meio da testa, passa pelo occiput, ou base do craneo, ponta da barba, e ter- mina no lugar onde cometou: tem mais ou menos 15 pollegadas: 2a mediana, que a sua linha partindo do meio da testa passa por cima de uma das emi- nências parietaes, protuberancia occipital, sobre a outra eminência parietal para acabar no ponto d'onde partio: tem 13 pollegadas: 3a pequena; começa na moleirinha ou fonlanella anterior, passa por cima de uma das eminências parietaes, base do craneo, pela outra eminência parietal, e finaliza na mesma mo- leirinha: tem 11 pollegadas. Todo- o volume da cabeça do feto, como o das mais partes, não tem uma permanente fixidade; a sua structura lhe permite o poderem ser reducidos pela acção comprimente do utero, na occasião do parto, ou por um instrumento, que obre do mesmo modo. 51 A parte, craneo he que mais se falicita á reducção, porque n'esta época da vida os bordos dos ossos que entrão na composição da abobada achão-se um pouco distantes um dos outros, e ligados por por- ções membranosas, que lhes permitem não só a sua approximação, mas também sobreporem-se, o que necessariamente deve diminuir o volume da cabeça na sua totalidade. Marcão-se na cabeça cinco regiões, ou ovaes, Io uma superior que sé lhe nota, na parte posterior o ápice, ou remate, um pouco aquém da fontanella occipito- parietal, na parte media do vértice, e na parte an- terior a fontanella bregmatíca, e he limitada na parte inferior pela circumferencia occipito-írontal: 2o uma inferior representada pela base do craneo, e parte posterior da face: 3o outra anterior, representada pela face, e está encerrada na circumferencia mento- frontal: 4o e 5o lateraes ou temporaes comprehen- didas nos espaços, que as três precedentes regiões deixão entre si. Estampa IX. As suturas e fontanellas merecem bastante con- templação, porque a favor d'ellas he que a parteira pode conhecer no começo do parto, a posição da cabeça: Ia Sutura sagittal, começando na raiz do nariz, e acabando na parte superior do occipital: 2a fronto-parietal que crusa a precedente, e resulta da união do osso frontal com os dois parietaes: 3a occipito-parietal, he a bifurcação da sutura sagittal; provem da união do osso occipital com os dois parie- taes. 4* 52 Nos lugares do encrusamento das suturas, e de sua terminação ha uns espaços chamados fontanellas em numero de seis: porem sô individuaremos duas, que são indispensável conhecer-se. Ia Fontanella bregmatíca: he o espaço que está entre os dois ângulos superiores e anteriores dos parietaes, e dos das duas ametades do osso frontal: e tem uma forma quadrada. 2a Fontanella occipital: he o espaço membranoso, que está no concurso dos dois ângulos superiores e posteriores dos ossos parie- taes, e do angulo superior do occipital; tem a forma triangular, e he mais pequena que a precedente. As quatro fontanellas restantes, duas são nas partes lateraes anteriores e inferiores da cabeça nos pontos do concurso dos ossos parietal, coronal, tem- poral e esphenoide: e duas nas partes lateraes poste- riores e inferiores da cabeça nos pontos do concurso dos ossos parietal, occipital, e temporal. A cabeça articula-se com a columna vertebral pela juncção do osso occipital á primeira vertebra cervical. Esta articulação só permite á cabeça fazer os movi- mentos de flexão e extensão. A primeira vertebra cervical se articula com a segunda: esta arliculação está disposta de tal modo, que permite á cabeça o fazer movimentos rodatorios, os quaes quando ex- cedem um quarto do circulo, podem causar a morte da criança. § 2o. O tronco começa na base da cabeça, e acaba no extremo perineal. Notão-se-lhe quatro faces: Ia anterior dividida em quatro regiões, que são a cervical anterior, a externa costal, a abdominal, e a pubiana. 2a a posterior dividida também em quatro 53 regiões, que são a cervical posterior, a dorsal, a lombar, e a glutea: 3a e 4a as lateraes divididas cada uma em duas regiões, que são a costal e a da quadril. § 3". As extremidades se distinguem ein duas superiores thoracicas, e duas inferiores abdominaes. As primeiras se dividem, cada uma, em quatro partes, que são: espadoa, braço, ante-braço e mão. As se- gundas se dividem cada uma em três partes, que são: coxa, perna, e pé. CAPITULO III. DO PARTO NATURAL OU EUTOCHIA. Considerações geraes. No parto natural se comprehendem dois phenomenos, que não obstante se confundirem na sua execução, com tudo devem ser estudados separadamente para serem bem comprehendidos. O primeiro d'estes phenomenos, as contracções uterinas, dependentes da vitalidade, que as pro- move, e sollicita, são quem activamente expulsão o feto e seus annexos. O segundo, os movimentos do feto, subordinados ás leis mechanicas, são a conse- qüência das contracções uterinas, a quem passiva- mente elie obedece transitando pela fieira óssea da bacia. 54 Este ultimo phenomeno constitue o mechanismo do parto natural, e he elie que mais particularmente nos deve occupar; porem antes-de expormos o seu processo, devemos fazer conhecer as diversas con- dições de situação e correspondência, em que o feto se pode achar com o estreito superior da bacia, no momento em que se manifestão os signaes do parto. Duas circumstancias devem ser distinguidas nas correspondências do feto com o estreito abdominal da mãi; a da sua apresentação, e a da sua posição. Por tanto as apresentações, as posições, as contrac- ções uterinas, e o mechanismo do parto são os ob- jectos que vão ser tratados nas seguintes secções; e para tornar-nos melhor entendidos, pelo vulgo, nas descripções seguintes, deixaremos os nomes, e pontos puramente scientificos, e explicaremos todos esses phenomenos impropriamente fallando em linguagem vulgar. Secção Ia. Das apresentações e posições do feto. No principio do parto o feto pode apresentar differentes partes do seo corpo, e ellas podem estar em differentes posições relativamente ás differentes partes da bacia: por taes variedades originarão-se muitas e multiplicadas classificações mais scientificas do que praticas; apesar de tantas classificações pouco importa; desde que todas ellas indicão uma mesma 55 cousa debaixo de differentes linguagens. No entre- tanto adoptaremos as que forem mais simples e pra- ticas para o nosso fim; e por tanto temos visto que o ,feto pode apresentar-se á boca do utero ou pela cabeça, a parte mais commum, ou pelas extremi- dades inferiores, mais freqüentes depois da cabeça, ou por varias partes do tronco, que he menos fre- qüente de todas as apresentações. Em cada uma d'estas três apresentações completas, pode haver certas variações, como: a cabeça pode apresentar-se pelo craneo, ou pela face; a parte in- ferior do corpo pelos pés, ou joelhos; e o tronco pelas nádegas ou parte direita, ou esquerda, inclina- das para atraz ou para adiante. Resumindo estas considerações iremos ver como designa-se com o nome de apresentação, a presença de uma das regiões do feto, no orifício uterino e estreito abdominal da parturiente no começo da par- turição. Apresentação cefalica ou primeira a mais commum, tendo as costas do feto virados para o lado esquerdo da mãi. o. Indica a situação do coração fetal. Apresentação pelvica pelas nádegas. a. Indica a situação do coração do feto. 58 Estampa XIV. Posição do feto na apresentação de uma das regiões do tronco, sendo a mais commum a do hombro direito ou a posição cefalo-iliaca esquerda. 0 feto se apresenta n'estas partes principalmente por três regiões; Io pela cefalica ou cabeça, — Estampa XII. — 2o pela pelvica ou nádegas; — Es- tampa XIII. — é 3o por uma ou outra das regiões lateraes do tronco; — Estampa XIV. — Quando o feto se apresenta pela extremidade 59 cefalica ao estreito abdominal, a cabeça se acha ou em completa flexão, ou em completa extensão. No primeiro caso a região sincipicial ou parietal, he quem entra para a excavação; no segundo caso a região facial he a que penetra na pequena bacia. Por tanto nas apresentações cefalicas se comprehen- dem as do vértice, e as da face. Quando o feto se apresenta no mesmo estreito pela extremidade pelvica, nas quaes se incluem as nádegas, coxas e pernas; umas vezes estas partes se apresentão todas juntas no estreito, outras vezes quer antes, quer durante o curso do parto, as coxas com as pernas sobem ao longo da face anterior do tronco, e só as nádegas se apresentão: outras vezes as nádegas se achão um pouco arredadas do mesmo estreito, e os pés são que penetrão n'elle; e outras vezes, porem com menos freqüência, as pernas se prolongão pela parte posterior das coxas, que se achão afastadas do tronco, e os joelhos entrão para o estreito. Eis a razão porque tem sido admittidas três dis- tinctas apresentações da extremidade pelvica, e se tem descripto uma particular parturição de cada uma d'ellas: porem como estas são accidentaes e não in- fluem essencialmente no mechanismo da parturição, ellas só devem ter uma única denominação, a de apresentação pelvica: porque he mais conveniente para o nosso fim. Quando a cabeça ou a pelve do feto*, uma ou outra se apresentar no estreito abdominal da par- turiente, ordinariamente se offerece perpendicular- mente; e o grande diâmetro do seu oval que se GO prolonga da região sincipicial ao coccyx, fica parallelo com o eixo do mesmo estreito. Vestas circumstancias a sutura sagittal, e a parte superior dos dois parietaes, nas apresentações do vértice da cabeça; o nariz, a boca, e as maxillas (ou queixos) nas apresentações da face; e o sulco, (ou rego) que separa as nádegas, uma parte d'ellas, o ano, e os órgãos genitaes, nas apresentações da pelve são que hão de comparecer no estreito ab- dominal. Com tudo, ou porque o feto tenha um pequeno volume, ou porque o utero tenha uma maior capaci- dade, por qualquer d'estes motivos succede algumas vezes o feto alterar a sua attitude, e inclinar-se mais ou menos na região que está disposta a apresentar- se, e desvial-o do eixo do estreito; porem este desvio não tira da apresentação o seu essencial caracter, e no maior numero de casos o resultado he favorável, porque as contracções uterinas, e o progresso natural e regular da parturição, gradualmente estabelecem a região apresentada no seo typo normal. Quando occidentalmente o feto se apresenta pelo tronco no estreito abdominal, commummente he por um dos seus lados, e por isso dividimos o tronco em duas ametades, comprehendendo em cada uma d'ellas a espadoa, a região costal, e o hypocondrio, con- junctamente com a metade correspondente á região anterior do peito e abdômen, e á região posterior do dorso e lombos. Resulta d'isto, que nas apresentações do tronco se admittem duas, designadas com os nomes de região lateral direita, e região lateral esquerda. 61 « N'estas apresentações quasi sempre prevalece a presença de uma das espadoas; porem qualquer outra parte das regiões lateraes se pode apresentar no estreito abdominal. Merecem muita importância estes esclarecimentos sobre as irregularidades que podem occorrer nas apresentações do vértice da cabeça, da face, e da pelve; Io porque elles podem alterar os signaes característicos ordinários de cada uma d'estas apre- sentações; e 2o porque, ainda que nem sempre causem prejuízo á parturição, podem com tudo difíicultal-a, e em alguns casos reclamar a necessidade de as evitai ou de as remediar. Pelo que diz respeito ás apre- sentações das regiões lateraes do tronco, quer ellas sejão francas, quer sejão irregulares, jamais a Par- teira deve em taes apresentações confiar o parto ás forças da natureza, por quanto só pelos recursos da arte he que elie pode ser effectuado. Todas as apresentações podem ser reduzidas a três, que vem a ser: Ia. Apresentação cefalica, em que se compre- hende a do vértice, e da face. 2a. Apresentação pelvica, em que se comprehende a das nádegas, das pernas, e dos joelhos; as duas ultimas devem ser consideradas como variedades da primeira; porem idênticas no mechanismo da expul- são do feto. 3a. Apresentação lateral do tronco, que compre- hende as apresentações do lado direito, ou do lado esquerdo; a apresentação porem de qualquer lado do tronco deve ser reputada imprópria para o parto se fazer espontaneamente. Secção 2. Das posições do feto. Da-se o nome de posição ás particulares corres- pondências das diversas partes das regiões do feto, com os diversos pontos do estreito superior da bacia da parturiente, pois temos, por ser mais fácil, adop- tado a divisão da bacia em duas metades lateraes, uma esquerda e outra direita. Esta divisão da bacia para as posições só deve ser considerada no estreito superior como pontos de reconhecimento. Quando o feto se apresenta á entrada do estreito cfa bacia por qualquer das regiões do seo oval, as correspondências das suas differentes partes com este circulo ósseo, e com a viscera que o contem, não devem sempre ser as mesmas. Se he a cabeça, que se colloca como succede as mais das vezes no estreito superior, a reconhecel-a, só nos esclarece a parte que o feto se apresenta, porem não nos mostra ainda as correspondências das suas regiões anteriores, posteriores, e lateraes com os diversos pontos do utero; e só pela situação par- ticular da mesma cabeça, com relação aos differentes pontos da circumferencia do estreito, he que aquellas correspondências nos podem ser reveladas. Por tanto comprehende-se que he de sumiria im- portância obter exacto conhecimento das posições; classificar-lhe as suas differenças; e dar-lhe um nome particular. Nas apresentações francas do vértice da cabeça, a parte mais saliente do osso occipital, he o ponto indicante, e está em correspondência com a metade esquerda, ou direita do estreito abdominal, do que 63 resullão duas posições, uma occipito-lateral esquerda, (Estampa XII.) e outra occipito-lateral direita. Estampa XV. Posição occipito-lateral direita. a. indica a situarão do coração do feto. 64 Na apresentação da face deve-se adoptar a mesma regra no estado das posições, por exemplo, umas vezes a ponta da barba do feto que he o ponto in- dicador, corresponde á mtetade lateral direita do estreito abdominal da bacia da parturiente, e outras vezes á metade lateral esquerda do mesmo estreito, e por isso nás apresentações desta região só devem ser consideradas praticamente duas posições, uma mento-lateral direita, e outra mento-lateral esquerda. Nas apresentações da extremidade pelvica se deve admitter lambem duas posições, porque o osso sacro he o ponto indicador das posições sacro-anterior, e sacro-posterior. Nas apresentações do tronco, pelas suas regiões lateraes, admittimos, como nas precedentes apresen- tações duas posições, primeira céfalo-lateral esquerda, e segunda céfalo-lateral direita. D'esta maneira temos visto, que as apresentações, e posições podem variar tanto quanto são os pontos do feto, que estão em correspondência com os diffe- rentes pontos do estreito superior da bacia da par- turiente; porem tantas e variadas apresentações, e posições são mais engenhosas do que praticas, pois que são mui pouco atlendidas no mechanismo do parto praticamente fallando. Só se pode saber, com alguma certeza, qual a parte do feto que se apresenta na entrada do estreito quando na realidade o parto tem principiado, e o utero soffrido alguma dilatação; he então que se examinando a parturiente por meio do toque, (per vaginam) achar-se-ha que quando a cabeça se apre- senta, ella nos dá a sensação de um tumor redondo 65 Estampa XVI. Estas figuras indicão a dilatação da boca do utero no primeiro e segundo periodo, como se discreve nas paginas seguintes. Fig. Ia. A. Indica o bolso das águas no primeiro periodo. Fig. 2a. .4. O bolso das .águas no segundo periodo. e firme, occupando todo o espaço que o dedo pode alcançar, differindo inteiramente de outra qualquer parte; pouco mais tarde introduzindo-se o dedo dentro da boca do utero sentir-se-ha a cabeça do feto como um tumor ósseo, macio, arredondado e elástico; 5 66 algumas vezes existe alguma difficuldade de sentir-se esta apresentação por causa de uma grande quanti- dade das agoas, formando um maior saco (Estampa XVI. figuras Ia e 2a A.) do que de ordinário, e occupando de tal maneira as partes, que priva á não experiente parteira o reconhecimento da apresentação, e as vezes • o próprio saco das agoas pode ser, como tem sido, tomado pela cabeça do feto; portanto algum cuidado e attenção he de necessidade extrema. Mais tarde a face pode ser reconhecida, senlindo- se a boca, nariz, e elevando-se o dedo um pouco para cima e para qualquer dos lados da face, as orelhas podem ser sentidas. Nas apresentações das extremidades ha pouco difficuldade de se reconhecel-as pelos pés ou joelhos occupando á parte. As nádegas certamente apresentão alguma seme- lhança com a cabeça, porem a sensação, que nos dão, são tão differentes que não he possível nos en- ganar facilmente; porque podemos sentir o grande rego dividindo as nádegas ate chegarmos com o dedo no entrepernas. Nas apresentações irregulares, como dos braços, ou de uma perna, ou ambas juntas ao mesmo tempo, he necessário somente apalpar com o dedo essas partes para logo conhecer as suas for- mas, e as suas relações. A parteira deve reconhecer apresentação particular o mais cedo.possível; porque as vezes será necessário corregir alguma menos favorável. Fazendo-se estes exames não se deve usar de violência alguma; porque pode causar algum damno, que possa demorar o progresso do parto. 67 O tronco he geralmente fácil de se reconher, quasi sempre um dos hombros (Estampa XIII.) occupa a passagem, ou está perto d'ella de maneira que pode- mos passar o dedo debaixo do sovaco; os hombros, as custellas, as espadoas dão uma sensação ao dedo mui differente da cabeça, e outras partes, que não nos podem enganar facilmente. Será prudente quando as Parteiras acharem-se de alguma maneira embaraçadas pelo resultado de seus exames, que os conselhos do medico sejão imme. diatamente ouvidos, antes que ellas intervenhão de qualquer maneira no estado da parturiente, que ne- cessariamente deve-se achar anciosa pelo seu futuro; pois hoje depois de experiências pessoaes não me admiro d'esse estado ancioso das parturientes, por- que lhes he natural: mas sim da coragem das nossas Patrícias que se entregão, n'essa época, aos cuidados de certas mulheres que, se diz, chamarem-se Par- teiras, e muitas d'ellas, quando muito sabem, apenas mal sabem ler. A posição é geralmente de pouca importância, porque em todas as apresentações do feto, o parto natural, ou espontâneo tem lugar em qualquer posição favorável, em que esteja a apresentação. Nas apresentações desfavoráveis a mesma assis- tência he requerida tanto em uma como em outra posição. A maneira de conhecer a posição he pelo toque, e depois que as membranas, ou saco das águas, se romperem, he, quando a cabeça pode ser distincta- mente sentida. Deixo de dar as direcções para o reconhecimento 68 das posições, por ser-de pouca necessidade n'esle trabalho, e por causa de que, quando for de neces- sidade reconhecer-se a posição, para melhorar o estado desfavorável da parturiente, não admitto a intervenção das Parteiras communs, e sim a inter- venção dos Médicos. CAPITULO IV. Secção 1. Das contracções uterinas. Uma successão de esforços, mais ou menos vehe- mentes, conhecidos pelo nome de contracções uterinas, e vulgarmente pelas dores do parto, despende a mu- lher no acto de parir. Este acto pode ser distínguido em dous tempos, e incluir-se no primeiro todos os phenomenos que se manifestão na mulher, desde que começa o parto, até que o orifício uterino esteja completamente dila- tado; (Estampa XV. fig. 2) e no segundo todos os que succedem, desde esta época, ate que o feto seja ex- pulsado. Io. Phenomenos do primeiro tempo. Quando o termo da prenhez se approxima, alguns dias antes de começar o parto, o utero desce um 69 pouco para a excavação, pelo que o epigastrio, vulgar- mente o estômago, se desembaraça, a digestão e respiração se facilitão, e as partes genitaes humede- cem-se mais alguma cousa. 0 parto se declara então por curtas e ligeiras dores, na parte inferior do utero com grandes inter- vallos entre si. Estas dores restringem, e endurecem o utero, e fazem com que o seu orifício alternativa- mente se alargue, e aperte, e que affluão para o interior da vagina mucosidades viscosas. As dores progressivamente vão tornando-se mais repetidas, mais fortes e mais longas, seguindo-se a dilatação do ori- fício, e as membranas, que envolvem o feto, começão a penetrar na dilatação e a formar a chamada bolsa das águas, (Estampa XV. fig. 1) que o deve ir alar- gando na repetição dos dores, que são immediata conseqüência das contracções uterinas, nascem, cres- cem, diminuem, e extinguem-se do mesmo modo que as contracções uterinas apparecem, augmentão, afrouxão e desaparecem. Posto que as dores geralmente incommodão bas- tante as parturientes, com tudo ellas expressão os seus quexumes segundo a sua sensibilidade, o seu heroísmo, ou a sua pusillanimidade. As dores que começão o trabalho do parto, se denominão ferretoadas. Quando ellas são mais longas, mais violentas e mais approximadas, chamão-se-lhe preparadoras. Tem o nome de expulsivas, quando.ellas são mais intensas e duradouras, e quando os seus intervallos são pequenos, e finalmente se lhe tem conferido o impróprio nome de quebradiças aquellas dores, que 70 impelleni o feio para fora, e que causão os puxos, ou tenesmos, e que se acompanhão das contracções, quasi convulsivas, de todo o corpo. 2o. Phenomenos do segundo tempo. Os phenomenos do segundo tempo pouco differein dos do primeiro, excepto na,sua intensidade que he excessivamente maior. O calor do corpo, que augmenta com a força da dòr, he seguido de copioso suor, esfrião-se-lhe os pés, e em algumas parturientes se mnnifestão per- turbações nas faculdades intelectuaes. Não obstante serem as dores muito mais activas, a parturiente geralmente as suporta com mais resig- nação, e goza nos seus intervallos um completo so- cego. Tem então começado o segundo tempo, no qual ja o saco das águas deve estar grande (Estampa XV. fig. 2) pelos esforços naturaes, e então faltando o apoio á bolsa ou saco das águas, pelo excessivo alargamento do orificio uterino, e impellido com mais força pelo fluido amniotico elie rompe-se, o liquido que o enche sahe com força, e a pos elie, a cabeça, ou a pelve do feto, vem occupar o orificio uterino, a quem rolha, e por este modo susta a sahida do resto das águas, que existem na cavidade do utero, d'onde sahem parcellas nos intervallos das dores. Pelas subsequentes dores, a parte do feto que se apresenta, avança, franquea o orificio uterino e estreito abdominal, ate vir entrar na vagina, a qual se alarga e alonga. As mais partes se distendem; os esforços se activão, 71 acompanhados de tremores convulsivos e de gemidos da parturiente. Ha finalmente uma contracção, ou dor muito prolongada, ou duas successivas, em con- seqüência do que a cabeça do feto he expulsada para fora da vulva; e depois de um pequeno inter- vallo outra dor se declara, porem menos vehemente, que expelle o corpo do feto com o restante das águas, que o utero contenha dentro de si. Pouco depois de um curto e suave socego, so- brevem novas contracções uterinas, com as quaes são expulsadas as secuhdinas. Não he possível fixar o tempo que dura o tra- balho do parto natural; porem os seus limites são pouco mais ou menos de algumas horas. CAPITULO V. Secção 1. Do mechanismo do parto natural nas apresen- tações cefalicas, e pelvicas (Estampa XI, XII.) Os antigos pensavão que o feto, por seus próprios esforços contribuía para a sua sahida ao mundo; porem hoje está provado que o feto durante o parto he perfeitamente passivo; porque sabemos, que geral- mente fallando, um feto morto he expulsado quasi cora a mesma facilidade, como uni vivo; por tanto 72 o agente principal no parto he o utero, assistido pelos músculos abdominaes, e provavelmente lambem pelo diaphragma, sendo a sua acção involuntária; por isso podemos dizer, que o parto consiste em uma acção mixta, em parte voluntária, porque o pode retardar; porem especialmente involuntária, porque a assistência que a parturiente contribue, por seos próprios esforços, não pode ser comparada com a força-propelladora do utero, que está inteiramente independente do seu governo. Os caracteres geraes do p'arto são os mesmos em todos os casos, porem existe uma diversidade nos seus detalhes. Algumas vezes elie he complicado por irregulari- dades, ou perigos, e he sempre attendido com mais ou menos soffrimentos, cuja duração varia ' muito em differentes mulheres, e nas mesmas em diversas prenhezes. Secção 2. Comprehendemos n'esta secção: Io o mechanismo do parto natural nas apresentações cefalicas pelo vér- tice; e 2o o mechanismo do parto natural nas apre- sentações pelvicas pelas nádegas, pés, e joelhos. 73 Estampa XVII. Esta estampa indica a cabeça do feto apenas entrando no estreito superior, na apresentação cefalica pelo vértice. Io. Mechanismo do parto natural nas apre- sentações cefalicas pelo vértice. N'estas apresentações se reconhece estar o feto convenientemente locado no utero: Io se o baixo • 74 ventre da parturiente offerece uma figura redonda, lisa, pontuda no centro, e achatada nos lados; e 2o se ella tem sempre sentido os movimentos do feto em um só lugar do abdômen, quer a esquerda, quer a direita: assim como pelo meio da investigação no interior da vagina, se o dedo topa com um corpo espherico, plano e duro. A direcção das suturas e a situação das fonta- nellas he que esclarece a posição da cabeça do feto nó estreito abdominal da parturiente. Estes signaes são custosos de se obter quando a cabeça do feto está laçada muito alto; quando entre ella e as membranas houver muito liquido accumu- lado; quando a bolsa das águas se conservar muito tensa; e quando o couro cabelludo estiver intumecido, ou inchado. Em duas differentes posições o vértice da cabeça do feto se apresenta no estreito superior da bacia da parturiente: Io com o parietal direito mais descido e voltado para os ossos púbis, e com a fontanella occipital voltada para a parte esquerda e um pouco anterior da bacia; e 2o com o parietal esquerdo mais descido e voltado para os púbis, e com a fontanella occipital voltada ptera a parte direita e um pouco posterior da bacia. Em qualquer posição, que a cabeça do feto se apresente, na apresentação da cabeça pelo vértice, a mais freqüente, he a occipital anterior esquerda, do que a occipital posterior direita em grande pro- porção; por isso tem-se chamado, a mais freqüente, primeira posição do vértice, e a menos freqüente, segunda posição do vértice. 75 Pelo que diz respeito a outras posições do vér- tice, admittidas por muitos authores, taes posições não podem entrar na classificação das posições pri- mitivas por não terem sido observadas, quando as bacias tem uma regular conformação, e os fetos um volume proporcional, e por isso as considero, como posições extraordinárias do vértice; e quasi que n'esta cathegoria deveriâo também ser classificadas as apre- sentações e posições da face pela sua raridade; assim deixo de tratar a" ellas por não ser necessário n'este nosso trabalho. 2°. Parturição na primeira e segunda posição do vértice. No começo da parturição, quando o orificio uterino tem principiado a diratar-se, o dedo apenas pode locar em um corpo convexo e duro. Quando pelo progresso das contracções uterinas o orificio se tem alargado mais e que a bolsa das águas se tem rom- pido, encontra-se no seu centro e um pouco anterior- mente uma eminência conoide, que he a bossa parietal direita; e para a parte posterior o ápice da cabeça, ou a parte media da sutura sagitlal, voltada para o corpo da primeira ou segunda peça óssea do sacro; a fontanella occipital dirigida para a eminência ilio- pectinea esquerda; e a fontanella frontal para a parte superior da chanfradura sciatica direita. Na parturição da segunda posição do vértice, a primitiva situação da cabeça he como na precedente, também obHqua, com a differença porem, que a fon- tanella frontal occupa o lugar, que na primeira posi- 76 ção occupava a fontanella occipital; e o parietal esquerdo he quem se acha mais descido na excava- ção: por tanto vemos que nesta posição os pontos principaes, que se apresentão para o nosso reconhe- cimento, apenas differem em sentido opposto, e como o restante do mechanismo da parturição seja effectuado do mesmo modo como na primeira posição, só en- trarei na exposição geral dos phenomenos da par- turição pela apresentação da cabeça, englobando a descripção das duas posições do vértice; porque a execução do parto, tanto na primeira, como na se- gunda, deve ser reputada fácil e vantajosa para a mãi e para o filho. Em um periodo mais adiantado da parturição e immediatamente depois do rompimento da bolsa das águas, ou da dianteira, a cabeça do feto franqueia o estreito superior da bacia da parturiente (Estampa XVII.) e penetra com vagar na excavação. As duas fontanellas não descem no mesmo nivel; commummente a occipital desce por detraz do buraco subpubico esquerdo em quanto que a fontanella fron- tal sobe por diante da chanfradura ischiatica direita, e o diâmetro occipito-bregmatico da'cabeça acha-se então no parallelo do diâmetro oblíquo da bacia, que está lançado da parte anterior e esquerda, para a parte posterior e direita. Este movimento de flexão da cabeça, pelo qual ella roda sobre si, se executa na articulação delia com o pescoço. 77 Estampa XVIII. Esta estampaindica a cabeça mais descida do estreito superior. Pela continuação repetida das contracções uterinas a cabeça desce, o craneo apoia com força sobre o pavimento da bacia, e a protuberancia occipital se aproxima da vulva, o perineo se distende e alonga, tornando-se excessivamente mui convexo; a vulva alarga-se, e fica quasi parallela com a superfície an- terior do tronco, e apparece por entre os grandes lábios parte da região occipital. 78 Novas contracções, mais violentas, mais duradou- ras, e mais approximadas, fazem rodar a cabeça sobre o seu eixo vertical, ou sobre o peito com o qual o angulo superior e posterior do parietal direito se volta para a vulva, ficando o ramo direito da sulura lambdoida parallelo ao ramo descendente do púbis esquerdo, e a fontanella occipital próxima da abertura \ulvar um pouco a esquerda. Estampa XIX. Esta estampa indica a cabeça ja mais abaixo do eslreilo do que a precedente, e forcejando sobre o pavimento da bacia, e principiando a fazer movimento rodalorio. 79 Este movimento rodatorio da cabeça sobre o seu eixo vertical he feito na articulação axis-ateloida; e tanto n'este movimento rodatorio, como no antece- dente, o tronco do feto não intervém n'elles. Disposta por este modo a cabeça para franquear o estreito perineal e a vulva, uma forte contracção uterina ou duas successivas produzem os seguintes effeitos. A commissura posterior da vulva comprime a testa do feto, e faz com que a região cervical posterior apoie-se sobre o bordo inferior da sym- physe pubiana, que" a região occipital se eleve para o Monte deVenus da parturiente, como na estampa XX. e que simultaneamente a commissura vá com rapidez re- cuando e escorregando sobre a testa e face do feto, discobrindo-lhe seguidamente a fontanella anterior, as bossas frontaes, olhos, nariz, boca, e ponta da barba. Na occasião em que a cabeça do feto fica desem- baraçada da vulva, a profuberancia occipital se volta para a parte anterior da coxa esquerda da parturiente, e a face para a parte posterior da coxa direita. Este movimento da cabeça he effectuado pela elasti- cidade das carnes nas partes brandas do pescoço do feto, ao qual se tem dado o nome de movimento de restituição. As espadoas se apresentão no estreito abdominal no momento, em que a cabeça penetra na excavação, a direita por detraz do buraco subpubico direito, e a esquerda por diante da symphyse sacro-iliaca esquerda, e n'esta disposição vão entrando na exca- vação em proporção que a cabeça for franqueando o estreito perineal e abertura vulvar. 80 Esta estampa mostra a cabeça do feto principiando a nascer, e a maneira de supportar o perineo. 81 Chegadas ao fundo da excavação, tanto ellas como o tronco do feto executao um movimento rodatorio, por meio do qual a espadoa direita se volta para a arcada púbica, e a esquerda, para a curvadura do osso sacro; e a cabeça obedecendo ao movimento do tronco, coloca-se transversalmente entre as coixas da parturiente, e ao mesmo tempo o tronco do feto se curva sobre o seu lado direito para se adaptar á conformação da excavação. A espadoa direita he a primeira que sahe para fora do estreito perineal, por baixo da arcada púbica; e depois a espadoa esquerda por cima da commis- sura posterior da vulva, seguindo-se immediatamente a sahida do resto do corpo do feto, que he deter- minada pela força que o impelle, pela sua forma conoide, pelo unto ceboso que o cobre, pelas mu- cosidades e líquidos que lubrificão as partes genitaes, e pela compulsão que a elasticidade dos tecidos brandos, que revestem a bacia, lhe imprimem. Estes movimentos curiosos fazem o feto nascer em uma direcção espiral, de maneira que cada parte possa passar atravez da bacia da maneira a mais favorável. 3o. Considerações sobre o mechanismo do parto nas outras posições da cabeça prin- cipalmente nas apresentações cefalicas pela face. Precisamente os mesmos movimentos tem lugar, tanto n'estas como nas outras posições da cabeça, excepto que n'estas ella faz uma rotação mais longa. 6 82 Nas posições anteriores a parle posterior da ca- beça acha-se um pouco mais inclinada para o lado esquerdo do púbis e portanto não tem que fazer grande rotação para passar de baixo do púbis; porem nas posições posteriores a cabeça está por detraz, e por tanto tem que fazer uma grande rotação para alcançar a mesma posição, resulta d'isso que a rota- ção he mais difíicultosa, mais longa, e as vezes pode ser perigosa para o feto. Nos outros movimentos não existe differença al- guma notável; porem devemos nos lembrar, que elles occorrem de maneira opposta ás outras posições an- teriores, porque o occipital está no lado direito em lugar do esquerdo. O mechanismo do parto he ex- actamente o mesmo, e todos os movimentos occorrem na mesma ordem como na primeira posição; torna-se por isso supérfluo descrever-lhe o mechanismo, no que não faríamos senão repetir, o que dissemos na antecedente posição ou na primeira. Em todas as outras posições, e suas variedades, nada ha de nota especial, ou que seja material na pratica, o parto sendo quasi sempre o mesmo em todas ellas. Em qualquer posição que a cabeça se apresentar a parte posterior d'ella quasi sempre vem para a frente por baixo do púbis, ainda que tenha de fazer uma grande rotação. A causa d'isso suppõe-se ser a forma particular das partes que dão um movimento espiral na sua descida, e a forma da abertura externa, que sendo mais longa de diante para atraz, só pode deixar o diâmetro mais longo da cabeça passar na mesma direcção. Esta estampa mostra a posição dos gêmeos como se discreve na pagina 85. a. a. Indica a situação do coração dos fetos. tí* Esta estampa mostra a posição dos tríplices como estão arrumados. 85 4o. Quando existem gêmeos ou mais, nem sempre elles se apresentão pela cabeça, porem um delles quasi sempre se apresenta pelos pés (como nas estampas XXI e XXII) e freqüentemente as partes ja estão tão dilatadas pela passagem do primeiro, que o segundo nasce sem fazer quasi rotação alguma, sendo quasi os mesmos movimentos. O espaço decorrido do nascimento de um ao ou- tro he muito variável. 5o. Mechanismo do parto natural nas apre- sentações pelvicas pelas nádegas, pés, ou joelhos. Nas apresentações do feto, pela sua extremidade pelvica (Estampa XII.) o orificio uterino, e estreito abdominal, as parturiçoes quasi sempre se effectuão com pequena differença no seu nascimento, não obs- tante as nádegas, os pés, ou os joelhos virem adiante; comtudo alguma differença se nota pelo que respeita ao tempo que a parturição dura; a pratica mostra serem mais demoradas aquellas em que o feto se apresenta pelas nádegas, e mais promptas aquellas, em qüe os pés vem primeiro. Não obstante a identidade do mechanismo das parturiçoes nas apresentações pela pelve he com tudo indispensável mencionar os signaes que nos fazem conhecer, e os que caracterisão as suas dis- tinctas apresentações. As paredes abdominaes das mulheres magras, e d'aquellas que tem tido muitas prenhezes, geralmente são brandas e flaccidas, e pelo apalpar se pode conhecer atravez d'ellas, a cabeça 86 do ' feto na parte superior do utero, se este órgão contem dentro em si pequena quantidade de água. Pela exploração interna, (per vaginam) a parteira encontra quando as nádegas se apresentão um corpo volumoso prominente, arredondado, de menor resis- tência que a cabeça, no qual não pode distinguir nenhuma de suas partes no começo da parturição. antes do rompimento do saco das águas; porem de- pois do fluxo d'ellas perceberá no centro o sulco, que divide as nádegas, o orificio anal, por detraz do qual está a ponta do coccyx, e por diante as partes genitaes; e n'estas apresentações pelvicas quasi sem- pre os dedos que explorão vem cheios de meconio, ou ferrado. Estas partes podem alterar a sua configuração caracteristica, se por qualquer causa ellas se apre- sentão entumecidas; n'este estado só a dureza da ponta do coccyx he que pode nos fazer esclarecer a parte apresentante. Quando os pés se anticipão ás nádegas, commum- mente elles vem juntos, e a sua configuração não pode ser confundida com qualquer outra parte do feto, quer venhão descobertos, ou mesmo ainda en- volvidos nas membranas, antes do fluxo das águas. Nas apresentações pelos joelhos, estas partes podem confundir-se com as dos cotovelos do feto; porem os primeiros alem de mais volumosos, e me- nos aguçados que os segundos, devem achar-se mais approximados, e o reconhecimento das coxas e per- nas, que com elles se continuão, deve dissipar qual- quer duvida. Quando o feto se apresenta pelas nádegas, o seo 87 dorso se corresponde com a parle anterior da parede do utero, na primeira posição, e com a parte pos- terior na segunda: e os quadris ficão mais ou menos parallelos com qualquer dos diâmetros oblíquos da bacia. Quando a apresentação do feto he ou pelos pés, ou joelhos, o dorso e os quadris se achão situados como na precedente apresentação; porem os calca- nhares e as tíbias (ossos das pernas) são quem caracterizo as posições: achando-se quaesquer d'estas partes correspondendo na primeira posição com a parte anterior da bacia, e na segunda posição com a parte posterior. 6o. Parturição na primeira posição das náde- gas, pés, ou joelhos. A attitude do feto dentro do utero, nas apresen- tações pela pelve he similhante aquella que elie tem nas apresentações pelo vértice da cabeça pelo que os pés achando-se próximos das coxas no começo da parturição, aquelles órgãos podem ser ambos to- cados ao mesmo tempo pelo dedo da Parteira, na exploração que fizer. Se os pés estiverem um pouco mais elevados que as nádegas, quando estas descerem elles subirão e se prolongarão pelo baixo ventre e peito, e só sa- hirão conjunctamente com estas partes pelo progresso da parturição. Achando-se os pés apoiados sobre as nádegas, succede as vezes, que quando estas vão entrar no estreito abdominal, suspendem-se aquelles no bordo 88 do mesmo estreito, e obrigão as coxas a afastarem-se do baixo ventre e a fazer então a apresentação pelos joelhos, o que he com tudo mui raro. Succede também vir os pés conjunctamente com as nádegas, porem aquelles adiantarem-se mais que estas, e a apresentação ser então propriamente pe- los pés. No começo do trabalho da parturição, quer as nádegas estejão postas na posição transversa, quer na oblíqua, sempre o quadril, que está voltado para os ossos púbis, he o primeiro que desce pelo im- pulso das contracções uterinas. Na primeira posição o quadril esquerdo he que quasi sempre se acha voltado para a parte anterior, e pelos esforços contractis do utero he quem pri- meiro penetra na excavação e vem apresentar-se á vulva, quando ella está começando a dilatar-se. Pela repetição das contracções as nádegas peneltão na mesma vulva, o quadril esquerdo roda para a parle anterior ate vir occupar a arcada púbica, na qual se apoia, em quanto que o outro quadril, que está oc- cupando a parte opposta, e que deve percorrer um maior espaço, caminha sobre o perineo, que está muito distendido. Logo que os quadris tem sabido fora da vulva o baixo ventre do feto se volta para a parte interna e posterior da coxa direita da par- turiente. O resto do tronco caminha n'esta mesma direcção. e na proporção que o peito do feto vai approximando- se do estreito inferior da bacia, as espadoas franqueão o estreito abdominal pelo mesmo diâmetro obliquo. Então o peito do feto penetra no estreito perineal da 89 bacia, com os braços crusados na parte anterior, e os cotovelos encostados aos flancos correspondentes. Em quanto as espadoas percorrem pela excava- ção, a cabeça do feto, que em todo o tempo do tra- balho se tem conservado em completa flexão, com o mento apoiado contra o peito, penetra o estreito abdominal pelo diâmetro oblíquo, que crusa aquelle por onde as espadoas entrarão para a excavação, apresentando-se pelo seu diâmetro bregmatico. As contracções uterinas obrigão a cabeça a fazer um movimento rodatorio sobre o seu eixo transversal, com o qual o occiput escora na arcada púbica, e o, mento, e após elie o resto da face avança sobre o perineo, ao mesmo tempo que a cabeça vai subindo para o monte de venus ate ficar fora da vulva. O quadril direito he que algumas vezes, n'esla primeira posição toma esta direcção, seja primitiva- mente, seja no progresso da parturição. Então o feto percorre a bacia da mesma maneira como no caso precedente; porem com esta differença e vem a ser, que a superficie do seu corpo caminha em outra direcção relativa ás paredes do utero; isto he, a superficie anterior do feto que no primeiro caso está voltada para o lado direito da bacia, n'este se- gundo se volta para o lado esquerdo, e a cabeça franquea o estreito superior pelo diâmetro obliquo que vai da parte anterior e direita para a parte pos- terior e esquerda, correspondendo-lhe a testa á svm- physe sacro-iliaca esquerda. 90 7o. Parturição na segunda posição das náde- gas, pés e joelhos. Yesta segunda posição a superfície anterior do feto está voltada para a parte anterior da parturiente com o quadril esquerdo dirigido para a parte poste- rior um pouco obliquamente; posição que o feto con- serva entrando para a excavação ate se approximar ao estreito perineal. Os quadris franqueão a vulva no diâmetro coccy- gio-pubiano; porem logo que estão desembaraçados das partes brandas da parturiente voltão a sua super- ficie anterior para a parte interna e posterior da coxa esquerda. A maneira como a cabeça entra para a excavação, percorre a sua cavidade e sabe pelo estreito inferior, he em tudo igual á da primeira posição. Vesta segunda posição pode acontecer, que o quadril esquerdo rode para a parte anterior, ou no começo da parturição no seu progresso. N'este caso as nádegas caminhão pela excavação, e são impelli- das para fora da vulva, como antecedentemente dis- semos, com a differença porem, que a superficie anterior do feto fica então voltada para a parte an- terior e direita da parturiente. Este movimento roda- torio he feito como no precedente, ou logo quando as nádegas sahem para fora da vulva, ou na occasião da sahida do tronco; e então a superficie anterior do feto se volta para a parte interna e posterior da coxa direita da parturiente e a cabeça franquea o estreito superior da bacia com a testa voltada para o fundo da fossa cotyloide direita. Tanto em um como em outro dos precedentes 91 casos, tem-se visto, particularmente se o feto tem pequeno volume, e está com o seu plano anterior voltado para a direita ou para a esquerda, ter sido compelido o tronco a sahir pela vulva n'esta posição, ate as espadoas, e executar um movimento rodatorio, determinado algumas vezes por uma única contracção, que completamente o expulsa; de maneira que a sua superficie anterior fica perfeitamente em uma posição opposta. Por este movimento a superficie anterior do feto, que antes da contracção estava na primeira posição, por exemplo, voltada para a parte posterior e direita, fica repentinamente voltada para a parte anterior e esquerda. Succede algumas vezes também nas apresentações das nádegas não estar o mento do feto apoiado sobre o peito, e sim o seu occiput todo voltado para o dorso. Então o tronco, posto na primeira ou segunda posição, franquea a pelve da maneira que referimos, ate a cabeça se apresentar no estreito abdominal: a ponta da barba (mento) fica correspondendo a um dos ossos iliacos, e a região sincipital ao outro opposto. Disposta a cabeça d'esta maneira, penetra no estreito abdominal, e a proporção que profunda na excavação vai fazendo uma volta espiral, de modo que quando o tronco tem sahido para fora da vulva, a região sincipital se aloja na concavidade sacro- coccygiana, e a base da mandibula na arcada, a re- gião cervical posterior e em seguida occiput, a região sincipital, e a testa, franqueão a vulva por cima da commissura posterior, ate completamente ficar desem- baraçada a cabeça do feto. 92 Como regra geral estes partos são menos favo- ráveis, que os nas apresentações da cabeça: por isso que elles são commummente mais longos, mais do- lorosos, e mais debilitantes, porem quasi sempre espontâneos, e nem sempre de necessidade, perigosos para a parturiente. Cabe aqui tornar a recommendar as Parteiras toda a prudência no manejo d'estes partos, e repito ainda, que quando ellas não possão distinguir claramente as posições, e que tenhão reconhecido a apresenta- ção, que como fica dilo antecedentemente, que o nascimento do feto possa ter lugar espontaneamente, ou mesmo quando ellas tenhão alguma duvida, que ou recorra logo aos conselhos de algum medico, ou então espere por mais algumas horas afim de que o progresso do parto dê lugar a que se conheção . com mais facilidade as partes e não se ponhão a mecher no que não devem com o fim de quererem milhorar o que realmente ainda ignorão: será milhor confiar tudo da natureza do que ajuda-la sem saber o que se faz: principalmente em relação ás nossas Parteiras, e que como ja disse não tem instrucção alguma, e que geralmente querem impor de sabias, quando realmente, as mais instruídas ou praticas apenas são meras aparadeiras de crianças: com essas expressões não quero offender o amor próprio de alguma; porem sim dizer uma verdade reconhecida por todos, e sobre a qual desejava ser contestado; o que porem nas circumstancias actuaes no Ceará he uma impossibilidade. 93 CAPITULO VI. DA DEQUITADURA OU DELIVRAMENTO. Considerações geraes. 0 que vai fazer o objecto das seguintes secções. he a dequitadura ou delivramento, que consiste na sahida das secundinas, e a consummação do parto. Este accontecimento deve ser olhado i° como con- seqüência de parto simples; 2o de partos de dois, ou mais fetos; e 3o de um aborto. Secção Ia. Da dequitadura espontânea nos partos simples. Devemos considera-la de dois modos: Io como con- seqüência da acção espontânea do utero, e 2o pro- vocada por meio da arte. Io. O mechanismo da dequitadura espontânea se faz por Ires actos distinctos: no primeiro a placenta, ou secundinas he descollada, ou rompidas as ligações que a prendem á superficie interna do utero, em conseqüência das suas contracções, expendidas no empenho de expulsar o feto: no segundo a placenta, conjunctamente com as membranas, que com ellas estão ligadas, se precipita abandonado ao seu pró- prio pezo, no collo do utero e na vagina, onde per- manece por mais ou menos tempo, em quanto novas 94 contracções as não removem; e no terceiro ella he expulsada para fora da vulva, tanto pelas restriecões dos tecidos dos órgãos, onde ella se acha depositada. O espaço de tempo, que medèa enlre a expulsão do feto, e o das secundinas, he mui variável; umas vezes ellas sahem immediatamente após do feto; ou- tras vezes tardão de uma hora ate seis dias e mais, e as vezes, sem que resulte maior damno á puer- pera, como ja temos visto, de uma tão prolongada demora dentro do utero; porem aconselho de não esperar mais que algumas horas se for conveniente e se no fim d'ellas a placenta não liver sabido deve- mos então recorrer aos meios d'arte. A pratica tem mostrado, que nas mulheres de constituição forte e robusta, que no parto expendem vehementes contracções, e nas em que com muita anticipação á sahida do feto, as águas forão expul- sadas, e n'aquellas em que o parto teve unia mais prolongada duração, a sahida das pareas suecede logo depois da sahida do feto: pelo contrario o de- livramento he tanto mais demorado, quanto as mu- lheres são mais frouxas e brandas, quanto mais as águas se tem conservado clausuradas no utero, e quanto mais prompta tem sido a expulsão do feio. 2o. Da dequitadura pela arte. Posto que a dequitadura possa demorar-se sem inconveniente para a puerpera, com tudo tem-se adop- tado o não se conservar por muito tempo retidas as pareas nas partes genitaes da mulher. 95 Quando a Parteira tiver obtido o conhecimento que a placenta esta descollada, e que o utero não tem sufficiente força para a expellir, o que provavel- mente se reconhece pela presença de um tumor globoso no hypogastrico, pelas brandas • contracções que o utero exerce, por dores na região lombar, pelo pezo que a mulher sente no intestino recto, e final- mente por se encontrar no orificio do utero uma parte da placenta procedente, a Parteira procederá á extracção das secundinas pelo seguinte modo. Pega no cordão umbilical, que está fora de vulva, e que ja deve n'esse tempo estar separado da criança pelos meios sabidos por todos, o mais próximo pos- sível do orificio vulvar, envolve-o em um pedaço de panno de linho, enrola-o nos dois dedos mediano e indicador, e segura-o com o pollegar: então começa com toda prudência a fazer brandas tracções pelo cordão ja para baixo e ja para os lados e insistindo nos empuxões, n'esta ou n'aquella direcção, com mais ou menos força, segundo que a placenta cede, ou resiste, ate a sua extracção: nada de pressa e nem de grosseiro manejo porque elles podem produzir graves invonvenientes. Quando a placenta por esses meios não se tem descollada, e a extracção não pode ser effectuada como temos indicado, a Parteira não deve proseguir nas tentativas. A retenção das secundinas, n'esse caso, provindo talvez da completa inacção do utero, da restricção do seu orificio interno, do excessivo volume da placenta, ou da sua interna adhesão ás paredes internas do utero, n'este caso he preciso recorrer a um medico 96 para emprehender meios mais effícazes ou confiar á natureza o cuidado de as expulsar. 3o. Da dequitadura nos partos de dois ou mais fetos. A Parteira só deve emprehender o delivramento n'estes partos, quando todos os fetos tiverem sido expulsados ou extrahidos. Logo que a expulsão de todos os fetos tiver sido effectuada, e que o ut^ro contrahindo-se, indique » disposição para o delivramento, a Parteira, reunindo os cordões umbilicaes das placentas, que existem dentro do utero, os torcerá, e lhes promoverá a sa- hida da maneira que ja indicamos antecedentemente como se fora uma só. •4o. Do delivramento depois do aborto. Succedendo o aborto nos Ires primeiros meses da gestação, no maior numero de casos, o ovo sabe inteiro de dentro do utero, como tenho um exemplar na minha collecção; porem algumas vezes acontece romperem-se as membranas, sahir o producto da con- cepção, e ficai1 collada a placenta á superfície interna do mesmo utero, onde se conserva por alguns dias; outras vezes ella ahi permanece, ate ser de novo occupado o órgão gestador por outro producto fecun- dado, sem ter sahido d'elle a placenta pertencente ao antecedente aborto. Acontecendo o aborto ern uma época mais a-vanrada 97 da prenhez, o phenomeno de ficarem retidas dentro do utero as membranas com a placenta, também pode succeder. N'este caso a expulsão das secundinas deve ser confiada as contracções do utero: Io porque os factos provão que os descollamentos da placenta são tanto mais fáceis nos abortos, quanto estes succedem em épocas mais distantes da concepção; 2o porque o ficarem demoradas as secundinas no utero, por algum tempo, ou dias, não tem d'isso resultado graves pre- juízos, como mesmo aqui ja tenho visto; 3o porque as tentativas para a extracção das secundinas, n'estas épocas da prenhez, não podem ser levadas a effeito, ou porque o cordão umbilical não he bastante resis- tente, ou porque o utero não he sufficientemente amplo para n'elle se poder introduzir a mão. Com tudo se uma porção da placenta se apre- sentar no orificio uterino, a Parteira diligenciará a extracção d'ella pela maneira que lhe parecer mais conveniente, observando o que ja temos dito. No caso porem de apparecerem symptomas de grave consideração he do dever da Parteira reclamar de prompto os auxílios de algum medico que obrará como for conveniente. 7 iis CAPITULO VII. Das obrigações da Parteira para com a Par- turiente. Todas as vezes que o parto estiver adiantado a Parteira cuidará nos arranjos que são necessários para tal fim, e principiará regulando a temperatura do ar atmospherico do quarto em que a mulher pare; o excesso de calor, frio, e humidade pode causar prejuízo; os cheiros activos podem ser nocivos a parturiente. A Parteira deve ter toda attenção para com o ves- tuário, para que elie não cause o menor constran- gimento á mulher em trabalho; o melhor vestuário he um roupão todo desatacado sem aspas de baleia, ou uma camisola de chita como geralmente he sabido entre as tamilias. Não convém fazer uso de alimentos sólidos du- rante o trabalho do parlo, e mui particularmente se seu progresso for regular, com tudo quanto se pro- longar, uma alimentação pode ser concedida á par- turiente, porem a Parteira deverá cuidar em uma alimentação de fácil digestão, e proporcional á forca e vigor do estômago e com parcimônia; n'esse caso a melhor alimentação deverá consistir de caldos de galinha ou carne, com algumas fatias de pão torrado, ou uma sopa como acima, ou de arroz. Não permitirá as bebidas estimulantes, ou muito azedas; a água pura, ou assucarada são as bebidas que milhor servirão. Ter cuidado nas evacuações das matérias fecaes, 99 e das urinas, se não se fizerem voluntariamente de- verão ser promovidas, antes da parturiente entrar no trabalho do parto, pelos meios mais promptos. Para aquellas convém o uso de clysteres de água morna, e de duas onças de olio de ricino, e para as ourinas, ou banhos mornos, ou o catheterismo feito pelo medico que para isso deverá ser chamado quanto mais cedo melhor. A Parteira deverá se lembrar que as impressões moraes, tristes, ou mesmo excessivamente alegres serão poupadas á parturiente; assim como algum exercicio moderado na câmara, em que a parturiente se achar recolhida, lhe sara permetido, porque só será obrigada á ficar na cama, ou em uma cadeira expressamente feita .para esse fim, como he geral- mente entre nós; quando de todo ja não puder andar não consentir que. ella para em outra qualquer posi- ção senão deitada sobre uma cama com um arranjo apropriado; porque assim tem a vantagem de estar mais a seu commodo, e de poder escolher differentes posições e attitudes; e depois de parir poder con- servar-se nella por mais algum tempo. A parturiente só será obrigada a ficar na cama, como dizia antecedentemente, quando o orificio uterino estiver completamente dilatado, ou aberto, ou quando as partes, pelas quaes o feto a elie se apresentar, tiverem franqueado o estreito perineal, porque então n'esse tempo ja a parturiente não poderá feixar mais as suas coxas, e também não se agüentará mais em pé. No momento das dores expulsivas, a sua posição 7* 100 deverá ser de barriga para cima, como se diz vulgar- mente, e com as pernas abertas, ou em supinação, ainda que muitas mulheres, particularmente as In- glesas, parem deitadas de lado, tendo entre as coxas um grande travesseiro para as conservar abertas. Deverá ter a cabeça e os hombros um pouco le- vantados, as coxas em flexão sobre a bacia, e as pernas sobre as coxas, e os joelhos convenientemente separados. Em relação a essa posição da parturiente a Par- teira se collocará sentada em uma cadeira de sufti- ciente altura, posta ao lado direito da cama, e in- troduzindo a mão por baixo das coberturas da cama, por entre as coxas e perna direita da paciente, a habilitará a exercer todas as.acções convenientes sem a descobrir; cujas acções consistirão em ex- plorar as partes genitaes, quando for preciso, e sustentar o perineo, quando for impellido pela cabeça do feto, para que esta na sua sahida não o rompa, como acontece muitas vezes; e para prevenir seme- lhante acontecimento, a Parteira na posição ja dita o apoiará, como na estampa XIX., com a face palmar da mão, de maneira que lhe fique mais conveniente, e assim conterá sem fazer força quando as dores expulsivas empurrarem a cabeça do feto que disten- derá muito o perineo, e n'esse tempo he que o apoio deverá ser feito com delicadeza, cedendo-se um pouco, quando a cabeça do feto foiçar sobre elie ate a sua sahida para fora, quando ella com a outra mão a sustentar, e só deixará o apoio do perineo depois que os hombros do feto tiverem sahido, então apanhará a criança como he de costume. 101 2o. Dos cuidados da Parteira para com a recemparida. Depois da mulher ter expulsado, ou lhe terem sido extrahidas as secundinas, a Parteira a conser- vará por algum tempo no lugar em que pario para descançar um pouco, e mesmo deixar o sangue que necessariamente ainda deve correr em quantidade; como para lhe limpar depois as partes, e as vezes as coxas sujas pelo mesmo sangue, o que fará com uma esponja, ou pannos velhos, molhados em água morna. Depois de bem enxugadas as partes, mudará as roupas da puerpera que estiverem sujas, e mo- lhadas, substituindo-as por outras limpas e enxutas. Poderá então mudal-a para outra cama, se for conveniente, a qual com anticipação deverá estar preparada, e no meio se deverá botar um lençol do- brado, sobre o qual descançarão as nádegas, e as partes genitaes da mulher tendo entre as pernas to- alhas ou guardanapos para enxugar, ou embeber al- gum sangue, que ainda possa correr, e para apanhar os lochios que correrão depois: enrolar-lhe-ha em torno do baixo ventre uma faxa larga, ou atadura, que lhe fique bem justa ao corpo, ou alguma cousa apertada, mais para comprimir as vísceras, ou. en- tranhas ahi contidas e prevenir qualquer congestão do que para evitar o engrandecimento das paredes do ventre, como geralmente se acredita. Recommendará, que se lhe evite tudo aquillo que lhe possa incommodar, e promoverá todo o silencio, para que a parida durma bem tranquillamente. A limpeza não só será conservada em tudo que se 102 achar em contado com a recem-parida, como tam- bém em tudo que estiver no quarto, e por isso as roupas sujas ou molhadas serão tiradas para outra parte, e serão todos os dias, e tantas vezes quantas forem precisas, substituídas por outras, com as com- petentes cautelas. Prescrever-lhe-ha uma boa e restricta dieta, con- cedendo-lhe alguns caldos de galinha ou carne com arroz, ou pão; e se o estômago da parida poder comportar, poderá conceder-lhe mais alguma cousa, com tanto que seja de fácil digestão, e unicamente lhe permitirá fazer uso das bebidas emollientes, ou água pura. Essa dieta será conservada ate apparecer a chamada febre de leite. A parteira nãó se discuidará das excreções da urina e matérias fecaes, e a fluxão lochial, e não permitirá que a mulher se levante em quanto essa fluxão for abundante, e em quanto as partes se con- servarem frouxas e brandas. 3o. Do cuidado da Parteira para com o re- cém-nascido. Assim que o feto tem franqueado a vulva da par- turiente, a Parteira o põe deitado de lado, atraves- sado entre as coxas da mesma com o dorso voltado para as partes genitaes delia. Examina se o cordão umbilical está enrolado no pescoço, ou em outra qualquer parte do corpo do recém-nascido para o desembaraçar e cortar depois, esperando com tudo que elie chore ou grite ou que as artérias umbilicaes deixem de pulsar, ou bater para o incisar ou cortar. 103 Antes de praticar o corte do cordão o atará quando muito seis dedos transversos aquém ou a cima do umbigo, devendo o corte ser feito um dedo abaixo do alado entre elie e o mesmo umbigo. Põe a criança sobre um lençol enxuto, e a cobre com uma ponta conservando a porção do cordão cortada apertada entre os dedos, ou passará outra ligadura para obstar a sahida do sangue. Antes de apertar o nó examina a porção do cordão, a qual pode conter em si uma porção de intestino, que fará recolher para o ventre pelo buraco umbilical por brandas pressões, quando uma tal hérnia existir. A jygadura deverá ser feita um ou dous de- dos transversos distante da superficie abdominal dando-lhe sufficiente aperto para obliterar as artérias umbilicaes; e para desvanecer todo o medo de he- morragia, ou frouxo de sangue, uma segunda liga- dura um pouco afastada da outra poderá ser appli- cada. Segue-se limpar a criança para o que a Parteira a mette em um banho, cuja quentura exceda a aquella da recém-nascida; untará pelo corpo todo um pouco de óleo de amêndoas doce e depois tirará o azeite passando um pouco de sabão fino, e de- pois de bem lavada a enxuga convenientemente com um lençol para depois a vestir. O vestuário deverá ser feito como he geralmente sabido por todas as famílias. Embrulha o pedaço do cordão em um bocado de panno de linho fino e brando, e o põe transver- salmente sobre um dos lados do abdômen, ou barriga, e sobre o umbigo uma compressa, ou atadura, man- 104 tendo tudo como he sabido com um cinteiro ligeira- mente apertado para conter lambem o ventre. Quando tiver cabido o cordão, ou o que vulgar- mente chamão o umbigo, o uso da compressa deve continuar ainda por alguns dias: ella deve ser secca, e pulverisado o umbigo com pós de folhas de murta, ou licopodio, quando n'elle hajão huinidades. Todas as partes da criança devem ser escropulo- samente examinadas pela Parteira antes de começar a yestil- a, afim de lhe descobrir algum defeito, ou vicio orgânico, quando o haja para ser remediado como for possível. PARTE SEGUNDA. CONSIDERAÇÕES GERAES SOBRE O PARTO DIFFÍCULTOSO OU DYSTOCHIA. O parto se difficulta e mesmo é impossível effectuar-se pelos esforços naturaes da parturiente, por mui variadas causas que provindo umas d'ellas e outras do feto, não podem ser removidas sem que se recorra a processos operatorios obstetrieios que por sua natureza os chamaremos partijamentos instrumentaes, e manuaes. Em quanto aos primeiros não admittimos de ma- neira alguma a intervenção da Parteira, e nem este livrinho está preparado para isso; porem em quanto aos segundos, ainda que também não admitíamos a intervenção d'ella, onde possa haver Médicos, com tudo darei algumas ligeiras explicações somente para a versão do feto quando for necessário, e isso mesmo no caso de impossibilidade de não haver médicos. 106 Io. A Parteira nunca einpiehenderá o parleja- inento manual, quando supposer desproporção abso- luta entre o volume, ou tamanho, da cabeça do feto e os diâmetros dos estreitos da bacia da parturiente, e só sim o poderá exercer quando não houver mé- dicos, e quando as partes genitaes da parturiente tiverem uma normal cstruclura; assim como quando os accidentes mórbidos occorridos se tiverem agra- vado a tal ponto, que toda a demora se torne funesla, ou que a presença de um medico se julgue muito demorada. 107 Estampa XXIII. Processo do partejamento manual nas apresentações do feto pela pelve, e versão na apresentação da espa- doa e braço. 108 2". Do partejamento manual nas apresenta- ções do feto pela pelve. Quando occorrer qualquer accidente em um parto, no qual o feto se tinha apresentado ao estreito ab- dominal pela sua extremidade pelvica, e que seja necessário effectual-o pelos'auxílios da arte, eis a maneira como a Parteira deve conduzir-se. Situa a parturiente sobre o seu dorso no bordo da cama com as nádegas elevadas e excedendo um pouco o mesmo bordo; as coxas e pernas como ja ficão descriptas antecedentemente, e seguras por ajudantes; reconhece as partes apresentadas do feto e as suas correspondências com aquellas da parlu- riente; procura-lhe os pés para os trazer para fora da vulva ambos juntamente, quando lhe seja possível, ou por cada vez. Envolve cada um em uma toalha fina e enxuta e lhe pega com a mão esquerda no pé esquerdo, e com a mão direita no pé direito, se o dorso do feto corresponde ao lado esquerdo da bacia da parturiente, e vice versa se corresponde ao lado direito da mesma. Os pés devem ser apprehendidos por extensas superfícies, para ser menos doloroso o effeito das compressões protegidas as suas articulações, ou jun- ctas, e quando as coxas do feto tiverem sahido para fora da vulva, as mãos da Parteira devem ir pegar então nas partes superiores das pernas por onde se artículâo com as mesmas coxas. O feto deve ser puxado para a parte inferior sobre o bordo anterior do perineo. Dando-lhe uma direcção espiral, ate que o seu dorso corresponda um dos ramos da arcada púbica, e o peito ao ligamento sacro- 109 ischialico opposto. Conduzido o feto por esta ma- neira, as espadoas e o diâmetro bi-parietal se esta- belecem em um dos diâmetros oblíquos do estreito abdominal, e os diâmetros dorso-thoracicos, e occi- peto-frontaes no diâmetro do estreito, que cruza o antecedente. As mãos da Parteira que abrangião o feto pelas nádegas devem ser transportadas uma para a parte anterior e inferior, e a outra para a parte posterior e superior do tronco do mesmo feto, ficando'os de- dos mediano e indicador da primeira prolongados pelo baixo ventre um pouco afastados, recebendo no seu intervallo a parte correspondente do cordão umbilical, para ficar ao abrigo de qualquer compressão, ou aperto. Se o cordão estiver mui estirado, ou alguma parte d'elle passar por entre as pernas do feto, a Parteira, com os dedos pollegar e indicador da mão que corresponde á parte anterior do mesmo feto, puxará pelo cordão ate ter tirado para fora da vulva uma porção, que forme um seio proporcional ao com- primento da parte do feto, que deve sahir, e que for necessário para o desembaraçar. Logo que as espadoas tenhão franqueado o estreito superior da bacia, a Parteira as conduzirá na direc- ção do diâmetro antero-posterior da excavação, e le- vantará o tronco do feto para o púbis da parturiente, ate a espadoa, que está superior, ter franqueado o estreito perineal cuja sahida deve ser ajudada pelos dedos indicador e pollegar da mão que correspondia ao dorso do feto, e o tira, introduzindo o primeiro dedo sobre a mesma espadoa, e o segundo por baixo do subaco, escorrega com elles pelo braço do feto, 110 e o tira para fora da vulva, approxima-o do tronco, e com esta mão segura o feto, e o .abaixa em totali- dade para o perineo da parturiente; e com a mão que o segurava pela parte anterior faz uma similhante manobra para desembaraçar a outra espadoa, e ex- trahir o braço que se achava por detraz dos púbis, e o prolonga pelo tronco. Eaz então subir os dedos indicador e mediano da mão que acabou de extrahir o ultimo braço, pela sua parle anterior, ate estes terem chegado á mandibula ou queixo superior, onde firma as suas extremidades aos lados do nariz, e i sustenta o feto: prolonga os mesmos dedos da outra mão pelo dorso ate alcançar o occiput, onde apoia as suas pontas. Seguro d'esta maneira o feto, a Parteira o faz rodar sobre o seu eixo perpendicular, ate que o diâmetro fronto-occipital da cabeça corresponda ao diâmetro sacro-pubiano da parturiente. Procede então a extracção da cabeça pela seguinte maneira: faz elevar o tronco do feto para o Monte de Venus da parturiente, obrigando ao mesmo tempo a cabeça a fazer um movimento de flexão determinado por uma acção impellente sobre o occiput e as maxillas, com os dedos que se achavão postos nestas partes. A ponta da barba do feto apparece na vulva, de- pois a face e a testa, com a appariçâo da qual a Parteira faz abaixar o feto em totalidade para o pe- rineo e com este movimento o occiput franquea o estreito perineal e abertura vulvar, sahindo por baixo da parte superior da arcada púbica. Toda esta serie de movimentos e de tracções serão executadas pela Parteira de urna maneira regular 111 e uniforme, assimilhando o quanto for possível, aquelles produzidos pela natureza nos partos espontâneos. 3o. Considerações sobre a versão. (EstampaXXIII.) Quando em qualquer das apresentações se offerecem casos, que tornem indispensável extrahir o feto por uma operação manual, ella não pode ser effectuada sem previamente se ter feito a versão d'elle. Consiste esta em uma volta que se faz dar ao mesmo feto dentro do utero, trazendo para o seu orificio os pes. Como no maior numero de casos se encontrão geralmente as apresentações das espadoas, com o braço as vezes de fora, he sobre esta apresentação que em conclusão trataremos. Da versão nas apresentações das espadoas, N'estas apresentações, quasi sempre a mão do feto, que corresponde a espadoa apresentada, se acha na vagina, ou fora da vulva; o tronco em uma direc- ção quasi transversal, e portanto o parto nunca pode ser effectuado sem que a posição viciosa seja inver- tida em uma posição regular. Os pes do feto devem occupar o lado direito da parturiente, quando a cabeça se achar postada no lado esquerdo, com a mão esquerda procedente, quando o thorax olhar para a parte anterior, e com a mão direita procedente, se o thorax estiver voltado para a parte posterior. Estarão dirigidos os pés do feto para o lado es- querdo da parturiente se a cabeça d'elle occupar o lado direito, com a mão direita procedente, se o 112 thorax estivei voltado para a parte anterior, e com a mão esquerda procedente, se estiver o peito voltado para a parte posterior. Será mais fácil a Parteira se guiar também pela regra abaixo. Se a mão direita do feto estivei- de fora da vulva com a palma dirigida anteriormente, a cabeça deve estar sobre o illio direito e a face olhando para diante: se ella estiver de fora com a palma virada para o ânus da parturiente, a cabeça do feto deve estar sobre o illio esquerdo e a face olhando para a espinha dorsal da parturiente. Se for a mão esquerda, as correspondências são as mesmas porem em sen- tido opposto. A situação da parturiente deve ser como na dos antecedentes partejamentos. A Parteira prepara e dispõe a mão, que deve introduzir no utero, servindo- se da esquerda, se o thorax do feto estiver voltado para a parte anterior; e da direita se o thorax estiver voltado para a parte posterior. O braço do feto, que está procedente lhe servirá de guia para lhe percorrer o lado mais descido ate lhe encontrar as nádegas, descer pelas coxas e ap- prehender-lhe um ou os dois pés para os trazer para a vulva; fazendo meios de introduzir o braço na mesma direcção que sahio, cingindo-se em todo o resto da manobra as regras e preceitos, que forào mencionados nos antecedentes partejamentos. FIM. Leipzig. Impresso por F. A. Brockhaus. pM\ ''^» m^ 1 .ywx ||fe '/;':& if|&í: -vjíí il^M - ■m>* *k-V& $>$&!&£ v<*:j »r,a». **»*