Uheuraalisino chronico nodoso ESTXJDO SOBRE 0 RHEUMATISMO CHRONICO NODOSO TXA lIWAIIíCSIA E SBXJ THACTAMENTO A’ PROPOSITO DE UM CASO OBSERVADO EM UMA MENINA DE 2 ANNOS EMEIO, CURADO PELO EMPREGO DAS CORRENTES GALVANICAS PELO 2d:k. moncokvo Membro da Academia de Medicina do Rio de Janeiro ; professor honorário da Facuidade de Medicina de Santiago do Ghili; correspondente da Sociedade de Medicina de Pariz, da Socie- dade medica dTmulação da mesma cidade, da Sociedade franceza de hygiene, da Sociedade de medicina publica e de hygiene profissional de Pariz, das Sociedades de Medicina de Marselha, Alger, Lishôa, Genebra, Santiago, Rnenos-Ayres, etc., etc. RIO DE JANEIRO Typographia Académica—Rua d’A,juda n. 47 1879 HSTTKOIDXJOÇA.O As noções mais precisas que possuímos hoje sobre o rheu- matismo articular chronico são de data tão recente e ainda tão longe estão de ser completas, que não devemos desprezar os factos que, para seu estudo, se mostrem profícuos. Não será para recusar-se toda a contribuição, pequena embora, que venha elucidar, mais ou menos completamente, alguns dos numerosos pontos obscuros da historia desta entidade mórbida. Aindahoje esta parte do estudo do rheumatismo articular é, como muito bem diz o Sr. E. Besnier, « uma das menos familiares á generalidade dos médicos, por falta de uma des- cripção geral e methodica, sufficientemente desinvolvida, que abranja as diversas partes da historia da moléstia.)) Este autor procurou reparar essa lacuna e, com eífeito, a elle se deve talvez a melhor descripção geral que actualmente existe do rheumatismo chronico, no seu notável artigo sobre esta moléstia, composto para o dicciouario de medicina de De- chambre. (1) Não obstante, porém, o muito que já conhecemos sobre este assumpto, graças sobretudo ás recentes investigações de Gar- rod, Charcot, Cornil e Ranvier, larga margem se acha ainda aberta á novas indagações, muitas questões perduram até agora insolúveis ou duvidosas. O caso que deu origem á este estudo, e que foi o objecto de nossa observação,parecendo-nos digno deattenção pelas suas condições etiologicas, pela marcha da arthropathia e não menos egualmente pelo meio therapeutico, a que julgamos poder attribuir a feliz terminação do mal—a applicação de correntes galvanicas, entendemos dever dal-o á publicidade, archivando-o entre os documentos que terão de servir para novos estudos. Sendo esta a primeira monographia que apparece sobre o rheumatismo chronico da infanda, deverá necessariamente conter muitas lacunas, que serão preenchidas pela observa- ção de novos factos desta ordem. (1) Dia. encyc. des sc. médt. IV, 1877, art. lUiumatisrae. Rheumatismo chronico nodoso na infancia e seu tractamento A menina A., fluminense, de 2 annos de edade, filha do Br. B. M., foi desde o seu nascimento muito debil. Seus pais e seus avós, tanto maternos como paternos, nunca sof- freram de moléstia alguma diathesica, transmissivel por he- rança ; apenas suamãi, dotada de um temperamento lympha- tico exagerado, soífre de hysteria complicada de chloro- anemia. Seu pai é robusto e gozou sempre de excellente saude. Be organisação muito fraca, não poude a menina A. soffrer sensiveis modificações em sua constituição em virtude do irregular aleitamento a que foi subjeita, sendo amarneu- 2 tada successivamente por differentes e más amas, algumas deixas escrophulosas e rheumaticas. Com poucos mezes de edade foi accommettida de coqueluche, que prolongou-se por muito tempo basiante intensa, compromettendo-lhe consi- deravelmente a nutrição. A sua debilidade accentuou-se então ainda mais ; não tinha a vivacidade natural em uma criança de sua edade, conservava-se inerte, indolente, apresentando engorgitamentos ganglionares e erupções impetiginosas. A criança empallidecia e mostrava-se inappetente. Seu desenvolvimento era lento. Sendo em taes condições submet- tida á um tractamento adequado, representado pelo oleo de figado de bacalhau, phosphato de cal e banhos salgados» obteve algumas melhoras modificando-se um pouco mais a sua nutrição ; tornou-se mais viva, menos indifterente ás distracções, renasceu-lhe o appetite, e ficou mais corada. Em tão lisongeiras condições, adquiridas á custa de perse- verante tractamento medico e hygienico, quando começava a reparar-se o seu estado geral, sem causa apreciável, sem intervenção do frio ou da humidade, em meiados do mez de Junho de 1874, apresentaram-se os joelhos da doentinha tumefactos, bastante dolorosos os movimentos espontâneos ou provocados, achando-se a pelle dessa região densa, luzidia e avermelhada. Temperatura febril (+3B pela manhã), pulso frequente e pequeno, alguma sede. Prescrevemos-lhe uma poção com bicarbonato de soda e linimento volátil em fricções sobre as duas articulações com- promettidas. No dia seguinte a temperatura havia baixado (+37, 8 pela manha), o pulso menos frequente e mais cheio. As dores, porém, ainda eram pronunciadas. A menina não poude por essa razão dormir tranquillamente. Proseguimos no mesmo tractamento. 3 Poucos dias depois novas articulações são compromettidas: ambas as articulações radio-carpeanas e tibio-tarseanas. Apresentavam-se tumefactas, bastante dolorosas e ligeira- mente avermelhadas. Os movimentos communicados à essas articulações arrancavam gritos á pobre criança. A tempera- tura conservava-se, entretanto, normal. A doente permanecia completamente immovel, sem poder fazer uso dos seus quatro membros. Os traços do soffrimento se desenhavam no sem- blante da doentinha, que supportava, todavia, com admirá- vel coragem, a sua situação. Abatimento, insomnia, inappe- tencia, digestões difflceis. Pelo exame attento do apparelho circulatório não se descobria o menor corapromettimento das serosas cardiacas. Foi-lhe prescripta uma poção com iodu- reto de potássio, na dóse de 30 centigrammas por dia, e fric- ções sobre os pontos aífectados com linimento terebenthinado opiado. Muitos dias depois do uso desta medicação a tumefacção diminuio e tornaram-se um pouco menos dolorosas as articu- lações. Eram, porém, estas as únicas modificações operadas pelo iodureto de potássio : a criança permanecia tolhida» impossibilitada de ter-se em pé e menos de andar. A sua nu- trição prejudicava-se progressivamente e afinal foi também invadida a articulação da primeira com a segunda phalange do dedo indicador esquerdo ; o edema circumscreveu-se a esse limitado espaço, formando ahi uma nodosidade ; o menor movimento impresso á essa pequena articulação despertava dores muito intensas. Proseguindo na administração do iodureto, associado então á algumas gottas de tinctura de colchico e ás hadigmmages com a tinctura de iodo sobre as articulações aflectadas, con- seguimos ver diminuir, um pouco mais que até então, o edema e as dores provocadas pelos movimentos comrnuni- cados. Sobrevindo, porém, pouco depois um fluxo diarrheico. 4 devido provavelmente ao colchico, suspendêraos o uso da poção. No dia 24 de Julho, alguns dias depois desta interrupção, a doentinha, que se achava em melhores condições relativa- mente á marcha sempre crescente da moléstia, foi subitamente surprehendida por uma exacerbação de todos os symptomas: apresentou-se febril, pelle quente e secca (-j-38°),pulso pe- queno e frequente (115 pulsações), grande prostração, sêde intensa, inappetencia absoluta, diurese diminuida, suores frequentes e copiosos durante a noite; dores articulares muito mais intensas, conservando-se a pobre menina totalmente immovel em decúbito dorsal; a mais leve pressão exercida sobre as articulações arrancava angustiosos gritos á pa- ciente. O edema e o rubor accentuaram-se notavelmente, generalisando-se aquelle por ambas as pernas e pés. Ao nivel das quatro grandes articulações elle se tornava mais saliente, formando grossas nodosidades de consistência elastica. Nesses pontos era a temperatura mais elevada. A doente sente muito prurido na pelle correspondente á essas articu- lações e nas dos membros tboraxicos onde foram feitas as badigeonnages de tinctura de iodo. Uma gramma de sulpbato de quinina em duas dóses, pela manban e á noite. Prescrevê- mos-lhe ainda a seguinte poção para tomar duas colheres de chá todas as horas: Infusão de digitalis .... 100 grammas Nitrato de potassa 2 » Xarope de flores de larangeira 20 » 25 de Julho. Cederam os phenomenos de reacção geral; a temperatura baixou, diminuio um pouco o edema dos membros abdomiuaes. As dores são menos intensas ; a doente dormiu mais tranquillameute á noite. 5 Passou a tomar uma colher, todas as horas, de uma poção com genciana e bicarbonato de soda. Fricções com pomada de hydriodato de potassa e unguento napolitano. Compressão methodica das articulações. 26 a. 29 de Julho.—Estado estacionário, persistência do edema e das dores articulares. Ao nivel da articulação dos punhos a turnefacção, renitente e bem limitada, fórma uma nodosidade bastante saliente. As articulações phalangeanas dos pollegares e dos indicadores, assim como as dos grandes artelhos, acham-se invadidas por nodosidades extremamente dolorosas. Algum derrame synovial dos joelhos, percebido pela flu- ctuação. Emmagrocimento, inappetencia, pallidez cada vez mais accentuada. A infeliz criança não pode sair do decúbito dorsal, guar- dando a mais completa immobilidade para evitar as intensas dores provocadas pelos mais leves movimentos. Resolvêmo- nos a ensaiar a tinctura de iodo internamente, administran- do-lhe duas gottas por dia, suspensas em meio calix de infu- são de genciana ; sendo uma depois do almoço e outra depois do jantar. Duchas de areia quente sobre as arti- culações. 6de Agosto.—O borrelete nodoso das articulações tibio- tarseanas e femuro-tibiaes é bastante pronunciado, orheu- matismo tornou-se francamente chronico: nenhuma reacção geral e antes a temperatura pouco elevada. Até o fim da primeira quinzena de Setembro persistiu este estado com alternativas de melhoras e peioras, consistindo apenas aquellas na mineração das dores e alguma mobilidade das grossas articulações, pois as pequenas não soífriam a menor modificação e eram sobretudo mais dolorosas do que as outras. Os másculos dos antebraços e das pernas, sub- mettidos â quasi absoluta inércia, por tão longo espaço de 6 tempo, entraram a atropliiar-se, particularmente os dos membros abdominaes, que guardavam maior immobilidade que os outros. Pela figura juncta melhor idéa se poderá fazer do aspecto geral da doente e das deformações trazidas pela moléstia. A nutrição geral cada vez mais se alterava, além de tudo pelo prolongado uso dos preparados iodados, que foram então supprimidos. O distincto professor, o Sr. Dr, Torres Homem, sendo ouvido por nós, em consulta, não reconheceu, como já nos havia acontecido, nenhuma manifestação visceral do rheuma- tismo. Prescrevemos então, de commum accordo, o uso do oleo de figado de bacalhau, de proto-iodureto de ferro, de malt com lupulo de Bechaux, e banhos sulfurosos. Durante dons mezes esteve a doentinha subjeita á esta medicação, e apenas o estado geral parecia modificar-se um pouco favoravelmente ; as alterações locaes nenhuma modi- ficação soffreram. A menor alteração atmospherica trazia exacerbação das dores e augmento do derrame synovial. O proto-iodureto de ferro foi substituído pelo licor arsenical de Fowler, segundo o preceito formulado pelo Sr. Gueneau 7 de Mussy, que julga heróica a medicação arsenical, em casos taes. Começamos, pois, pela dóse de uma gotta por dia e fomos gradualmente augmentando até cinco gottas. Em Fevereiro de 1875, resumia-se a observação no seguinte; São percebidas algumas melhoras para o lado do estado local. As articulações tibio-tarseanas são aquellas cujas melhoras se têm mostrado mais tardias, o que é em grande parte devido á obstinada posição, que guarda desde algum tempo a doentinha, mantendo as pernas pendentes ; posição que embaraça notavelmente a circulação venosa. O edema nodoso ainda é bastante saliente, e renitente. As articulações têm se tornado, corntudo, menos dolorosas; percebe-se, ao impri- mir-se-lhes alguns movimentos, uma crepitação characte- ristica, que indica a ruptura das adherencias articulares e das stalactites osteophy ticas, formadas nas cartilagens dessas articulações. Apyrexia constante. Os resultados da medicação arsenical accentuaram-se também para o lado do estado geral; o appetite desinvolveu-se em larga escala ; o estado moral reanimou-se um pouco mais; a physionomia tornou-se mais calma, revelando menos soífrimento. Os tegumentos chegaram mesmo a recobrar um pouco o seu colorido normal. Emflm, conservava-se assentada a nossa doenti- nha, quando não podia, um mez antes, sair do decúbito dor- sal, tão dolorosos eram-lhe os menores movimentos espon- tâneos. Durante todo o mez de Março insistimos na medicação ar- senical, sem que, afora a reparação das forças da doentinha, houvesse sensível modificação, além das que fizemos ha pouco notar, Tinharnos, por assim dizer, exgotado os recur- sos therapeuticos, ou melhor os meios julgados heroicos em casos desta ordem e, entretanto, alguns resultados obtidos mantinham-se estacionários, sem que as melhoras progre- 8 dissem 6 saisse a pobre menina desse tormentoso 4atu quo. Só um unico meio faltava-nos ensaiar e desse não tinbamos até então experiencia pessoal em relação aos casos desta ordem. Este agente ainda não posto em practica era a ele- ctricidade. Era, pois, chegado o momento de fazer uso das correntes continuas. Como ao mesmo tempo fosse a estação favoravel e conviesse á doentinha uma mudança de resi- dência para o campo, confiámos a applicação da electricidade ao medico da localidade para onde foi aquella transportada. Dispondo de um apparelho de correntes continuas de Ruhmkorff, encetou este collega as suas sessões diarias, de- morando os dous eléctrodos sobre as articulações durante dez minutos (total da sessão), fazendo depois passar corren- tes interrompidas sobre os musculos atrophiados e inertes. Serviu-se a principio de 12 e, finalmente, de 24 elementos. As sessões foram raramente interrompidas durante o longo periodo de seis mezes. Os felizes resultados que aguardavamos deste tão pode- roso agente não se fizeram muito esperar, e, em pouco tempo, fomos informados de que o liquido synovial do joelho havia diminuido progressivamente, que as nodosidades tibio- tarseanas (que sobrepujavam as dos punhos) haviam soffrido alguma diminuição, recuperando estas articulações alguns movimentos. Ao mesmo tempo a diurese havia se exagerado admiravelmente, deixando a urina um considerável deposito de phosphatos e uratos. Estas melhoras não ficaram estacionarias e antes foram, pelo contrario, accentuando-se progressivamente até o fim de Abril do mesmo anno de 1875. Então as articulações tanto dos punhos como dos joelhos haviam recuperado uma grande parte dos seus movimentos, ao passo que se achava conside- ravelmente melhorado o estado geral da criança, satisfação desta, bom appetite, fáceis digestões. Nestas favoráveis con- 9 dições regressou a nossa pequena doente ao Rio de Janeiro, onde continuámos a vêl-a do dia 6 de Setembro em diante. 6 de Setembro.—Observávamos então o seguinte : Estado geral consideravelmente melhorado, tegumentos mais corados, olhar animado ; boa physionomia ; a menina havia começado a engordar alguma cousa. Extensão incom- pleta dos membros inferiores, devida á retracção dos mús- culos e ligamentos dos joelhos (pseudo-ankylose), o que a embaraçava de conservar-se de pé; desvio lateral externo das pernas, particularmente da esquerda (ankylose angular). Contractura dos musculos flexores das pernas sobre as coixas e destas sobre o tronco; retracção dos ligamentos posteriores dos joelhos, impedindo, como já dissemos, a extensão das per- nas. Imprimindo-se ás articulações compromettidas alguns movimentos mais energicos no sentido contrario á retracção fibro-muscular, percebia-se facilmente o ruido de crepitação, devido á ruptura das stalactites osteophyticas. As nodosidades haviam diminuído consideravelmente em todas as articulações compromettidas, mesmo nas phalan- gianas, sendo mais livres e menos dolorosos os movimentos, quer espontâneos, quer communicados. O derramamento synovial dos joelhos era quasi nullo, ao passo que era percebido ainda manifestamente ao nivel das articulações tibio-tarseanas, particularmente abaixo do ma- leolo esquerdo. A doentinha já applicava os pés sobre o solo, mas ainda não podia equilibrar-se, nem executar alguns pas- sos vacill. ntes sem ser mantida por alguém. Os musculos dos antebraços e dos membros abdominaes achavam-se mais túmidos e funccionavam alguns, como os extensores, mais livremente; a dyskinesia havia diminuído sensivelmente. A contractilidade electro-muscular diminuída especialmente nos flexores. Havia ainda a notar-se a contra- ctura do musculo psoas-iliaco e dos flexores das coixas, que não permittia a extensão completa do tronco, quando era a doentinha mantida de pé ; qualquer esforço empregado para vencer essa resistência despertava dores intoleráveis, que não deixavam prolongar-se por muito tempo essa tentativa. Bom appetite e regulares digestões. Diurese ainda abundante com depositos de uratos e phosphatos. A figura 2 dá uma idéa exacta da attitude da doentinha. Proseguimos no emprego das correntes continuas, combinando-as com as de in- ducção. Eaziamos passar as primeiras atra- véz das articulações affectadas e as segun- das pelos musculos dos quatro membros. No primeiro caso serviamo-nos de um ap- parelho de Gaiífe de vinte e quatro elemen- tos (chlorureto de prata), e no segundo de um pequeno apparelho do mesmo autor electro-magnetico (bisulfato de mercúrio), sendo o total das sessões de 10 minutos. Elias eram feitas diariamente, alternando as de correntes continuas com as de faradisação. Depois de cada uma das sessões, collocavamos a criança sobre uma mesa e procedíamos á practica da mas- sage, fazendo executar successivamente cada articulação mo- vimentos methodicos e regulares de flexão e extensão, ven- cendo gradualmente as adherencias e retracções. Os bons resultados colhidos com estes meios tornaram-se cada vez mais salientes e, no fim da primeira quinzena de Outubro, isto é, completadas mais quarenta sessões de ele- ctrisação e de massagc, mantinha-se a doente de pé, sem au- xilio alheio, e andava em posição quasi vertical; sendo apenas ainda perceptível o desvio angular externo do joelho es- querdo. As nodosidades e as dores tinham-se dissipado in- teiramente. Fig. 2. Nestas condições interrompemos o emprego da electrici- dade e entregámos aos movimentos naturaes o complemento da cura, que poderemos chamar—radical; porquanto, já dons annos e meio são decorridos e nenhum vestígio existe hoje da terrível moléstia, que parecia querer zombar dos mais heroicos agentes therapeuticos. A criança tem-se desenvolvido regularmente até agora, sem que nesse longo periodo decorrido desde o seu restabe- lecimento houvesse sobrevindo a mais leve manifestação rheumatica. Acompanhámos sempre de perto a menina A., e aguardámos um longo lapso de tempo para poder apreciar e julgar dos decisivos effeitos das correntes eléctricas. Para sua melhor comprehensão, resumiremos pela se- guinte fórma o caso que fica detalhadamente descripto : Tracta-se de uma menina de dous annos apenas de edade, profundamente lymphatica, amamentada por differentes amas, todas mal constituídas e affectadas de moléstias dia- thesicas, debilitada por uma coqueluche intensa e prolon- gada, que é inesperadamente affectada de rheumatismo ar- ticular subagudo, assestado nas articulações dos joelhos. Dissipados os symptomas febris, novas outras articulações são invadidas (radio-carpeanas e tibio-tarseanas), mas sem reacção geral. As articulações permanecem compromettidas durante um mez, e, findo este periodo de estacionamento, novos symptomas de reacção geral sobrevem seguidos de exacerbação das desordens articulares e de edema inflam- matorio de ambas as pernas. Dissipada esta segunda crise, torna-se o rheumatismo francamente chronico, á medida que as nodosidades se desenham accentuadamente, tanto nas ar- ticulações já invadidas como em algumas outras pequenas dos artelhos e das fihalanges. Estas alterações permanecem sem modificação sensível por longos oito mezes, effectuando-se durante esse tempo as retracções fibrosas e musculares, que trouxeram desvios d )s membros, e as atrophias musculares resultantes da inér- cia a que foi condemnada a doente. A’ excepção de algumas vantagens colhidas para o lado do estado geral, graças á medicação arsenical, nenhum outro agente therapeutico, d’entre tantos postos em practica, pro- porcionou á doente melhoras decisivas. Desde, porém, que recorremos á electro-therapia, a modificação regressiva das arthropathias marchou progressivamente e, ao termo de oito mezes de perseverante emprego de tão poderoso meio, o re- sultado patenteou-se superior á nossa espectativa, operan- do-se uma cura radical. Acornpanhando-se com attenção a evolução da moléstia da menina A., e estudando-se as desordens anatómicas delia de- pendentes, não se poderá pôr duvida em classifical-a como pertencente ao typo do rheumatismo chronico, denominado pelo Sr. professor Charcot—rheumatismo articular chronico progressivo, qualificado também por G-arrod como arthrile rheu- matica e descripto por Trousseau e outros autores sob o nome mais generico de rheumatismo nodoso. Como circumstancia digna de nota, pela sua raridade, era neste caso o rheuma- tismo nodoso precedido do da fórma aguda e subaguda. Ninguém ignora a divergência existente ainda hoje entre os dous pathologistas que mais detidamente se hão occupado com o estudo do rheumatismo chronico. O Sr. Charcot, cujas ultimas investigações nos têm assaz esclarecido sobre as alterações anatómicas e a evolução symptomatologica desta moléstia, inclue a fórma nodosa entre as mais legitimas do rheumatismo, ao passo que Garrod persiste em excluil-a, sem comtudo attribuil-a á gotta, etc., considerando-a como uma entidade mórbida distincta. A maioria dos autores é, entretanto, concorde em acceitar a classificação estabelecida pelo professor Charcot. A que fórma clinica pertencerá o caso em questão, cTentre aquellas tão sabiamente impressas por este distincto autor ao typo de que tractamos ? Não devemos hesitar em referil-o á primeira fórma—rheu- matismo chronico progressivo. A fixidade das alterações articulares, a intensidade menos exagerada das lesões osteo-cartilaginosas, a prompta atro- phia muscular, a maneira accentuada e rapida por que se apresentam os desvios, as exacerbações agudas destacadas por espaços mais ou menos longos, o grave e precoce compro- mettimento do estado geral: taes são os characteres que dis- tinguem essa primeira fórraa e também eram esses os que encontrámos no caso por nós observado. E’ ainda esta a fórma que mais de frequência se nota nos indivíduos moços: ella acornmette um grande numero de articulações, affecta no seu começo os characteres do rheumatismo articular agudo ou subagudo, produz desordens articulares e peri-articulares muito dolorosas; não sendo forçosamente inamovíveis os des- vios e as retracções consecutivas (Charcot e E. Besnier). A maneira feliz por que terminou o rheumatismo osseo da nossa doentinha constitue, pois, mais um elemento que em- presta grande valor á esta observação. Do que precede, pois, podemos concluir que o rheumatis- mo observado na menina A. revestio-se de todos os charac- teres que distinguem a fórraa rapida, (primeira fórma) do typo—articular chronico progressivo. Si formos indagar das condições etiologicas do rheumatis- mo chronico, chegaremos á convicção de que assaz excepcio- nal é o caso vertente, attendendo-se á raridade notável da moléstia na primeira infancia. Os autores que se têm consagrado á observação e ao estudo das moléstias da infancia são quasi unanimes em reconhecer este facto. Para emprestar mais valor á esta asserção, e tor- nar patente a observação feita nos diversos paizes a este res- peito, passaremos a fazer uma resenha do juizo emittido pelos diversos autores a que nos referimos. Os escriptores do século passado parecem não ter dirigido absolutamente a sua attenção para o rheumatismo da infan- da, ou não era então esta moléstia senão muito excepcional- mente encontrada nas primeiras epochas da vida, ainda mesmo na segunda infancia. E’ assim que Gautier Harris (1703) (1), e Brouzet (1754) (2) guardam inteiro silencio acerca do rheumatismo ; este ultimo nem mesmo á elle se refere no capitulo de sua obra consagrado âs moléstias raras e extraor- dinárias da infancia. Boerhave, em seus aphorismos com- mentados por Yan Swieten, (1759) (3), Rosen (1778) (4). Chambon (1779) (5) nada adiantaram aos seus predeces- sores, Aquelles que escreveram dahi em diante mostram-se a tal respeito quasi tão silenciosos como os primeiros : Hume (1802) (6), Armstrong (1808) (7), Capuron (1820) (8), Ha- (1) Traité des maladies aigude des enfants. Paris, 1738. (2i Essai sur Péducation médicale des enfants et leur maladies. Paris, 1754. (5) Traiu des mal. des enf., trad. du latin des aph. de Boerhave com. par M. le baron do Van Swieten, etc., par M. Paul Avignon, 1759. (4) Traité des mal. des enfants. Trad. du suédois par M. Le Febvre de Vi)- lebrune. Paris. (5) Des mal. des enfants. Paris, an VII. (6) Observations nn lhe origin and treatment of internai anã externat dis- eases of children. Dublin. (7) Anaccount ofthe diseases incidem to children.'Khondon. (8) Traité des maladies des enfants jusqu’ à ia puberté. Paris, 1820, 2me éd. Milton (1824) (1) e Denis (1826) (2) nada escreveram sobre este assumpto em seus tractados das moléstias infantis. Berton (1837) (3) afíirma que as affecções rheumaticas são raras nas crianças, sendo observadas apenas algumas vezes nas proximidades da puberdade ; « seus ataques são então muito menos communs ainda que em outras epocbas da vida.» Yalleix (1838) (4), em sua preciosa obra sobre as moléstias da infancia, nada diz sobre o assumpto que nos occupa. Richard (de Nancy) (5), tractando da ankylose e da contrac- tura, apenas refere-se, rapidamente e de passagem, ás «aífec- çOes rheumaticas propagadas até os tendões » entre as nume- rosas causas capazes de produzirem os desvios dos membros ; nada mais diz, porém, sobre o rheumatismo chronico na infancia. Na clinica da faculdade de medicina de Strasbourg-, du- rante os annos escolares de 1837 á 1840, sobre 800 doentes que tractou, V. Stoeber (6) observou apenas um caso de rlieu- matismo, liraitando-se a enuncial-o no quadro estatístico, sem declaração da edade da criança. No hospital de crianças do Havre não encontrou o Dr, Yanier, durante os annos de 1841 e 1842, um só caso de rheumatismo. (7) (1) Hints of thetreatment of the principal ãiseases of infancy and chil- doocl. Edinburgli. (2) Iteeherches d’anatomia el dephys. sur plusieurs mal. des enfants. Commercy. (3) Traité des mal. des enfants. Paris, 1837. (4) Clinique des mal. des enf. Paris, 1838. (5) Traiuprat. des mal. des enf., Paris, 1839, p. 581. (6) La clinique des mal. des enf. à la faculte de Strasbourg, 1841. (7) La clinique des hôp. des enfants, redigée et publiéô par le docteur Vanier ãic Havre, 1841—1842. Becquerel (1842) (Ij, assim como Legendre (1846) (2) e Fabre (1847) (3) guardam inteiro silencio acerca do rbeuma- tismo na infancia. Rilliet e Bartbez (1853) (4) dizem que os rheumatismos gottosos e chronicos são por tal forma ex- cepcionaes nas primeiras edades, que se julgaram autorisa- dos á não se occupar delles em seu importante tractado clás- sico, aliás assaz completo. Em dez casos de rheumatisrao agudo observaram estes au- tores quatro em crianças de quatro a cinco annos.—Elles citam ainda um facto de rheumatismo relativo a uma criança de sete mezes, publicado pelo Dr. Stager de "Windau. Na decima edição do tractado de Underwood (1856) (5) nem uma palavra se encontra sobre esta moléstia. O mesmo succede em relação ao tractado da Barrier (1861) (6), dei- xando este autor de referir-se uma só vez ao rheumatismo. A primeira monograpbia publicada sobre o rheumatismo agudo da infancia foi a de Claisse em 1864 (7), mas entre as observações citadas por este autor, não se encontra urna só relativa a criança de menos de 5 annos. O Sr. H. Roger, que dirigiu por grande numero de annos e com o maior proveito para a sciencia um dos serviços mé- dicos do Hospital de crianças de Pariz, declara haver obser- vado um certo numero de casos de rheumatismo agudo na (1) Jraité théorique et pratique des mal. des enf. Paris. (2) Recherchcs anatomo-patfi. et. cl. sur quelqués mal. de Venfance, Paris, (3) Bibliolhèque du méd. praticien (Maladies des enf.) Paris. (4) Traiu cl. et. prat. des mal. des enf. Paris, 1853, t. 11, p. 114. (5) Treatise on the diseases of children. lOtli. ed. wiíh adcitionsby H, Davies. London. (6) Traiu pratique des maladies de Venfance. Paris, 3meéd., 1861. (7) Burhum. art. aiguchezlesenf. Th, de Paris. infanda, mas depois dos oito aunos (1). Não conhecemos caso algum de rheumatismo chronico da primeira infancia publicado por este eminente observador. Na Irlanda, Fleetwood Churchill (1870) (2), que escreveu um dos mais apreciados tractados sobre a pathologia infantil, não dedica uma só pagina do seu volumoso livro ao rheuma- tismo e nem siquer a elle allude mesmo de passagem. Na Italia, o mesmo resultado negativo se observa; Galligo (1871) (3), autor do mais recente tractado publicado nesse paiz sobre as moléstias da primeira edade, cala-se inteira- mente sobre o assumpto que nos occupa. Yogel, na Alie manha (1872), acredita ser mui raramente encontrado o rheumatismo articular agudo em crianças, du- rante a primeira infancia. Este eminente pathologista cita como extraordinário um caso que observou em uma criança de 1 anuo e 9 mezes. «Mais, diz elle, détait là un cas fort exceptionnel; car les auteurs n’ont généralment recontré la maladie que chez des enfants âgés de six ans et au delà » (4). C, Picot que escreveu uma excellente these (1872) (5), sobre este assumpto, a segunda monographia no seu genero depois da de Claisse, pôde colher em menos de um anno, no hospital de crianças, 39 casos de rheumatismo; nenhum delles porém em criança menor de 7 annos. Segundo o mesmo autor, era uma estatística organisada pelo professor G. Sée, dos doentes tractados durante 4 annos naquelle mesmo hospital, constante de 11,500, encontram-se 100 casos de rheumatismo. vl) Archivesgénér. duméd. Paris, 1863—1863. [2) The diseases ofchildren. 3th ed., Dublin, 1870 . (3) Jgiene c Malattiedei Bambir.i.Seconda edizione póstuma. Firenze, 187' (4| Traité èlémeh)aire des mal. de Venfance. Trad. de Culrnann et Sengel Paris, 1872, p. 330. (o) J)u rhum, aigu ede ses ãiv.manif. chez les enf. Paris, 1872, p. 12 J. Steiner (1874) (1), professor de moléstias de crianças na Universidade de Praga, assim se exprime á este respeito, no seu Compendio : «Do grande grupo das affecçues rbeuma- ticas a unica quasi absolutamente observada na infancia vem a ser o rbeumatismo articular agudo. » (2). Mais alem accres- centa o mesmo autor : « O rbeumatismo (referindo-se ao agudo) não é moléstia da primeira infancia, elle é muito mais frequentemente encontrado depois dos cinco annos de edade, posto que, em casos excepcionaes, possa ser encontrado em crianças de edade superior á esta ultima. (3) Forsyth Meigs e W. Pepper (1874) (4), médicos dos hospi- taes da Pensylvania, escreveram em sua importantíssima obra o segminte : « A primeira infancia parece protegida até certo ponto contra esta aífecção (o rbeumatismo). Rilliet e Bartbez referem um caso occorrido na edade de sete mezes ; a época, porém, menos adiantada em que elles encontraram esta moléstia, era alguns casos, foi a de quatro annos. Nós observámos um caso no segundo anno e vários outros entre o fim do segundo e o quinto anno. » Escrevendo um dos mais completos e volumosos tractados que possuímos hoje sobre a pathologia da infancia, não arriscaram estes distinctos observadores uma só palavra sobre a artbrite rheumatica, limitando-se, como acabamos de ver, ao rbeumatismo agudo, que elles consideram rarissimo na primeira edade. Ch. West (5), medico do Hospital de crianças de Londres, occupando-se accidentalmente do rbeumatismo em uma de (1) Compendium of childrm’s diseases. Transi, from the2d. germ. ed. by Lawson Tait. London, 1874. (2) Loc. cit., p. 334. (3) Loc. cit., p. 336. (4) *4 practical treatrise of the diseases ofchildren. London, íifth ed, 1874- (5) Ltçons sur las maladios des enfants, trad. par le Dr. Archambault. Paris, 1875. suas lições, diz que as estatisticas conscienciosas do Hospital de S. Bartholomeu dao, para os tres annos de 1869 a 1871, um total de 819 casos de rheumatismo agudo em todas as edades, e que destes apenas 76 foram verificados dos cinco aos quinze annos. Nem um só caso foi observado antes dos cinco annos. O distiucto professor de Londres nem uma só vez se refere ao rheumatismo cbronico. Durante todo o tempo que frequentámos os serviços do nosso distincto mestre, o Sr. Bouchut, no Hospital das crian- ças em Pariz, apenas tivemos occasião de observar raros casos de rheumatismo articular agudo, em meninas que já tocavam a época da puberdade. Aqui observámos, ha poucos mezes, nm caso de rheumatismo poly-articular agudo, com- plicado de pericardite, em uma menina de seis annos. Em Janeiro de 1875, recebemos do eminente professor a que acabamos de referir-nos a seguinte cominunicação, á res- peito do rheumatismo chronico nodôso na infancia : « Je n’ai pas vu souvent le rbumatisrne noueux chez les enfants, mais cette année j’en ai eu deux cas, dont un chez un enfant de trois ans. J’en ai peut-êire vu, en vingt ans, une demi-douzaine; c’est ce qui fait que je n’en ai pas parlé dans les cinq pré- mières éditions de mon livre (1). Dans la sixième j’en ai fait mentiouer, mais d’une forme très écourtée. » E’ conveniente fazermos notar que o theatro de observação do Sr. Bouchut é um dos mais vastos que se possa encontrnr, pois, além dos seus serviços do referido Hospital de crianças e das consultas, neste consideravelmente concorridas, possue uma das mais extensas clientelas de moléstias infantis. Póde-se, assim, aquilatar qual o valor da estatística deste preclaro obser- vador, que apenas seis casos de rheumatismo nodôso encon- trou no longo periodo de sua vida clinica. (I) Traitéprat. desmal. des nonveau nés, ães enfants à lamam, et dela, sec.enf., 6mo éd., Paris, 1875. Lewis Smith (1876), medico do Hospital de crianças de New-York e que consagra um interessante capitulo ao rheu- matismo agrido em seu tractado especial (1), pronuncia-se mais largamente sobre a frequência desta moléstia na pri- meira infancia. Antes da edade dos cinco annos, diz este autor, ella é « comparativamente rara, mas provavelmente não tão pouco frequente como, em geral, se pensa.'» Lewis Smith foi levado a afflrmar este facto por haver tido occasião de observar desordens valvulares em crianças daquella edade, desordens que deveriam ter sido originadas pelo rheuma- tismo, comquanto não houvessem sempre confessado os pais das doentes a precedencia de um ou mais ataques desta affecção. Mas, é preciso notar-se que Steffen (2), citado pelo proprio autor, bem como o Sr. Bouchut (3) provaram suf- íicientemente que as lesões valvulares podem resultar de uma endocardite produzida concoraittantemente com muitas outras affecções febris agudas. As pesquizas cadavéricas á que procedeu este ultimo au- tor fizeram vêr que, sobre 200 autopsias feitas ao acaso sobre crianças mortas das moléstias as mais diversas, nove déci- mos dos cadaveres apresentavam traços de endocardite vege- tante mais ou menos accentuados. Deante destes factos não achamos procedente a razão adduzida por Smith para asse- gurar a frequência provável do rheurnatismo agudo na pri- meira infancia, Elle declara ter observado casos em que os symptomas agudos do rheuraatisrno se dissiparam, permanecendo com- promettidas as articulações. Um dos rarissimos exemplos de (1) A treatise on the diseases of infancy and childtod. Tliird. ed., London, 1876, p. 309. (2) Jahrbuch fur Kinderk., 1870. (3) Recherches anat. et cl. sur Vendocardite végètante et ulcereusc ães mal. aiguées febriles, Paris, 1875, p. 9. rheumatismo chronico em baixa edade que conhecemos é o que resumidamente refere este eminente clinico no capi- tulo alludido de sua obra. Pelo seu alto interesse julgamos dever aqui reproduzil-o : « E. H., menina de 3 1/2 annos de edade, apresentada ao Bellevue Hospital (Fevereiro de 1871), teve febre intermittente na edade de nove para quinze mezes. Passou bem desde então até á edade de dous annos, quando foi accommettida de rheumatismo, começando pelos torno- zellos e estendendo-se ás outras juntas. As articulações dos joelhos e das coixas somente em parte recobraram a sua mo- bilidade. Tanto as pernas como as coixas ficaram em flexão permanente, de modo á tornar-se o andar demorado e diífl- cultoso. Era impossível estender-se as pernas sem despertar grande dor, e, si se tantava vencer a flexão da articulação coxo-femural, produzia-se uma curvatura da columna ver- tebral, similhante á que se observa na coxalgia. » (1) O re- sultado desta observação não é indicado pelo seu autor. Ella é evidentemente um exemplo de rheumatismo poly- articular chronico, desenvolvido em uma criança da mais tenra edade e no seu genero o mais bem averiguado de que temos noticia, sendo mesmo a sua observação acompanhada de uma estampa que melhor esclarece a natureza do caso. Apezar, porém, de toda a sua raridade, destaca-se, como menos notável, daquelle que faz o assumpto desta memória. Da rapida descripção da doentinha de Lewis depreheude-se, de feito, que as alterações arthropathicas deviam pertencer ás que characterisam o rheumatismo chronico simples [super- ficial] dos aiultos, no qual são as alterações anatómicas pu- ramente periphericas, não se dando assim as deformações, as nodosidades, os derrames synoviaes, etc., que constituem o rheumatismo osseo nodoso. (1) Loc. cit., p. 809. No livro mais recentemente publicado sobre a pathologia infantil—o Manual dos Srs. A. D’Espine eC. Picot—(lB77) (1), a frequência do rheumatismo é considerada muito rara antes dos cinco annos; sendo para elles tão excepcional o rheu- matismo chronico, que não julgaram dever com elle occu- par-se. (2) Para não limitar aos tractados especiaeseste balanço, recor- ramos aos autores clássicos, que, por sua vasta observação e aturada practica, possam esclarecer a questão que estudamos. Em seu precioso livro sobre a nosographia medica confir- mava Bouillaud (3) o que já havia expendido em seu monu- mental tractado do rheuraatismo articular, exprimindo-se pelo segminte modo; « I/âge..., quel qu’il soit, ne préserve pas absolument de I’arthrite rhumatique. Cette maladie pa- rait sévir néanmoins de préference sur les sujets de douze à quarante ans. « Elle n’épargne pas toujours les enfants très jeunes en- core. J’ai vu des enfants de sept ans et au-dessons frappés de cette maladie avec coincidence de très forte endocardite.» Este eminente clinico não cita caso algum de rheuma- tismo chronico observado na infancia. Em 72 casos de rheumatismo agudo, tractados por Chomel, apenas dous pertenciam á crianças, sendo uma de oito annos e outra de nove. J.-P, Frank (4) era de opinião que o rheumatismo desin- volve-se somente na edade média da vida ou na velhice. A proposito da etiologia das aífecções rheumaticas, em geral, assim se pronuncia o professor Monneret (1):«.... on (1) Manuel prat. des mal. de I'enfance. Paris, 1877. (2) Loc. cit. p. 129. (5) Traité de nosographit méd.,t. 1. Paris, 1846, p. 486. [4j Traité de méd. prat. de Jean-Pierre Franh, trad. dn Jatin par Coudereau, Paris, 1842, t, 11, p. 597. 23 naít avec la diathèse rhumatismale, mais ou ne devient rhu- matisant, en général, que de vingt d trente ans. » Ern todo o correr do artigo consagrado á esta moléstia, em seu tractado de pathologia, não se refere ao rheumatismo chronico nas primeiras épocas da vida. Mais explicito é Grisolle : « le rhumatisme, diz elle, rare dans Penfance, \oresque inconnu an-dessous de la sixième an- née, se montre surtout de quinze à quaranfce ans. » (2) Em quarenta e cinco casos, apenas encontrei, diz Macario (3), entre 5 e 10 annos, tres casos ; abaixo desta edade ne- nhum. Elle referia-se ao rheumatismo articular agudo tão somente. Na opinião de Niemayer, « Penfance jouit d'une immunilê parfaite à Pégard de Parthrite déforraante. Quelques cas iso- lés de cette maladie s’observant déjà à Pépoque de la pu- berté. » (4) O Sr. V. Cornil, porém, em uma nota á este tre- cho, vai mais longe : « nous avons eu occasion, diz elle, de voir plusieurs fois le rhumatisme noueux ches des enfants.» Segundo Behier e Hardy (5), o rheumatismo articular agudo não'se apresenta nos primeiros annos da vida, sendo princi- palmente entre os quinze e quarenta annos encontrada esta aífeccão. Em relação á etiologia do rheumatismo nodoso, acreditam elles que a edade não parece exercer grande influencia, a les observatious ayant montré que la maladie pouvait com- mencer avaní vingt ans, et se développer jusqiPà Pâge de soixante ans. » (6) O professor Jaccoud aíflrma que a poly- (1) Traité élément. de path. int. Paris, 1865, t. 11, p. 427. (2) Traité de path. int. Paris, 1865, 9me. éd.. p. 1004. (3) Durhum. et ãe la diach. rhum. Paris, 1837, 2me. éd., p. 5. (4) Eléments de path. int. et de Ihér., trad. rev. et an. par M. V. Gornil. Paris, 1869, 2me. éd., t. 11, p, 477. (5) Traité élém. de path. int. Paris, t. I, 2me. éd., 1859, p. 216. (6) Loc. cit., p. 232. arthrite deformante « est inconnue chez Fenfant et Fadoles- cent. » (1) Desde Landré-Bauvais (2) e Haygarth (3), os autores que se occupararn posteriormente com o estudo da poly-arthrite deformante pouca attenção prestaram á frequência desta affecção nas primeiras épocas da vida, justificando por sua parte a lacuna que se encontra nos trabalhos consagrados á pathologia da infancia. Alguns casos são, porém, citados por alguns desses auto- res : Heberden vio o rheumatismo articular agudo em uma criança de quatro annos ; Fuller (4) observou duas crianças com rheumatismo poly-articular agudo, sendo uma de vinte mezes e a outra de dons annos e nove mezes; Richardson (5) sobre 1004 mortos de rheumatismo, em Londres, encontrou 16 casos era crianças de edade inferior á cinco annos e 226 em individuos comprehendidos entre cinco e vinte annos. O professor Charcot, cujas importantes investigações repre- sentam as ultimas conquistas da sciencia moderna neste terreno, não deixou em silencio este interessante ponto do assumpto em questão. Segundo este eminente observador (6), o periodo clássico do rheumatismo articular agudo estende-se dos quinze aos trinta annos, « mais cette affection, diz elle, n’est pas rare aux prémières années de la vie; on la voit se déveiopperchez les enfants de cinq à dix ans.... » As suas observações, bem como as de Trastour, demons- tram que o rheumatismo nodoso predomina nos dous pe- (1) Traité de path. int. Pans, 1871, t. 11, p. 558. (7) Doit-on admettre une nouvelle especo de goutte sous la ãenomina- tion dc goutte asthénique primitive ? Th. de Paris, au VIII. (3) A criticai History of the nodosity of the Joints. London, 1813. (4) Onrhumatism, etc., third éd., London, 1870. (5) Lancet, 1854, t. I, p. 138. (6) Lewns sur lesmai, des vieillards. Paris, 1868. riodos ; dos vinte aos trinta annos e dos quarenta aos ses- senta. Não obstante, assegura o mesmo autor poder-se en- contrar a artlirite deformante quer antes quer depois destes períodos, e appella, em abono de sua asserção, para cinco obtervações, das quaes lhe pertencem tres. A primeira é relativa à um caso apresentado pelo Sr. La- borde á Sociedade de biologia de Pariz : tractava-se de um me- nino de oito annos que apresentava todas as deformações characteristicas do rheumatismo nodoso. A moléstia havia começado na edade de quatro annos. A segunda refere-se ao caso colhido pelo Sr. Martel, no hospital Sainte-Eugenie, serviço do Sr. Dr. Barthez. Neste doente, de dez annos de edade, o rheumatismo articular chronico, complicado de pericardite, só mais tarde tornou-se francamente nodoso, accentuando-se as deformações chara- cteristicas. Os factos pertencentes ao Sr. Charcot são os seguintes : Obs. Ia—« Une infirme de la Salpêtrière, qui avait écé élevée dans une habitation humide, a été frappée d’un rhu- matisme noueux à l’âge de dix ans. » Obs. , 2a—« Une autre infirme du même hôspice, qui avait vécu pendant son enfance dans une loge humide, a été prise à l’âge de seize ans. » Obs. 3a—« Un homrae élevé dans une de ces carrières abaudonnées sur les bords de la Loire, qui servent fréquem- ment d’habitations, fut atteint du rhumatisme noueux á Tâge de vingt ans. » Em resumo, acredita o Sr. Charcot que a polj-arthrite de- formante póde apresentar-se antes dos vinte annos, havendo observado um caso aos 20, um aos 16 e outro aos 10 annos; sendo o facto trazido pelo Sr. Laborde á Sociedade de bio- logia aquelle, depois dos referidos por L. Smith e Bouchut, até agora encontrado em tão baixa edade —4 annos. 0 Sr. Durand-Fardel observa que, em 17 casos cujo começo precisou, apenas dous datavam da edade de 15 annos. (1) Resta-nos, para ser completa a investigação que proce- demos sobre este ponto etiologdco do rheumatismo, averiguar a frequência da moléstia na cidade do Rio de Janeiro, theatro da nossa observação. Si fossemos aquilatar a frequência do rheumatismo na capital do Brazil pela cifra mortuaria for- necida por esta aífecção, chegaríamos á conclusão: que pouco frequentemente acomraette ella os habitantes desta cidade. Entretanto, na carência de dados que não sejam os da estatística mortuaria, julgamos poder assegurar, todavia, que o rheumatismo avulta entre as moléstias que predomi- nam no Rio de Janeiro. Elle, porém, raras vezes causa direc- tamente a morte, mas sim tardiamente, em virtude das lesões consecutivas que se imprimem, graças a elle, nas differentes vísceras do organismo. Assim, em um período de quatro annos, de 1869 á 1872, sobre o total de 38,868 fallecimentos, apenas figuram 79 devidos ao rheumatismo, o que é, com effeito, uma cifra mui diminuta em relação ás demais mo- léstias egualmente frequentes nessa cidade; sendo ainda para notar-se que, durante o anno de 1870, comprehendido naquelle período de tempo, nenhum caso fatal de çheuma- tismo foi archivado na estatística mortuaria. Passando a es- pecificar a cifra da mortalidade por conta dessa aífecção re- lativamente á edade, no já mencionado espaço de tempo, diremos que dos 79 casos acima indicados apenas cinco per- tencem á infancia; sendo um no periodo comprehendido entre 1 e 4 annos, dous entre 4 e 7 e os outros dous entre 7 e 5. Pelo quadro seguinte vêr-se-ha a distribuição desses casos em relação á mortalidade total, á do rheumatismo e a cada um dos annos indicados. (i) Traité pratique des mal. chront. I, Paris, 1868, p, 404' 27 Anãos Mortalidade total Mortalidade pelo rliemnatismo Mortalidade pelo rliemnatismo na infancia 1869 8,668 11 0 1870 10,115 0 0 1871 9,547 32 2 1872 10,538 36 3 Total 38,868 76 5 Por elle vê-se que durante dous annos consecutivos, 1869—1870, nenhum caso de rheumatismo na infancia foi archivado na estatistica mortuaria, Lamentamos que os factos pertencentes aos dous últimos annos do quatriennio não possam ser bem discriminados quanto á edade precisa das crianças fallecidas. Entretanto, uma só vez verificou-se um caso fatal da moléstia no periodo de 1 a 4 annos. Nas es- tatísticas organisadas entre nós não se destacam os casos de rheumatismo agudo dos de rheumatismo chronico. No estudo que publicou o Sr. Barão de Lavradio sobre a mortalidade das crianças no Rio de Janeiro (1845—1868), em seu Rela- tório de hygiene publica de 1870 (1), trabalho consciencioso e muito bem elaborado, não faz uma só vez allusão á morta- lidade pelo rheumatismo, quer agudo quer chronico ; ana- lysando elle com precisão as moléstias que mais contribuiram para a mortalidade das crianças nesta capital durante o men- cionado periodo. De tudo quanto fica exposto, julgamos poder chegar ás seguintes conclusões finaes em relação a este ponto etiolo- gico do rheumatismo : Ia Que o rheumatismo articular agudo é, na infancia, ex- cessivarnente raro antes dos cinco annos. Em demonstração (1) Da mortalidade da cidade do Rio de Janeiro, e em particular da das crianças, In-Relatorio do presidmte da Junta central d'hygiene pu- blica. Rio de Janeiro, 1870. desta conclusão adduziremos o quadro resumido dos factos precedentemente assigmados : í Stager de Windau. ’ Vog-el. (Fuller. [ Fuller. I Heberden. ) Meig-s e Pepper. ißichardson. f Rilliet e Barthez. / Picot. : Yogel. \ Steiner. ] Bouchut. \ Moncorvo. i Bouillaud. f Grisolle. \Macario, etc. Dos 7 mezes a I anno, 3 casos Dos 2 annos aos 5. Raros casos Maior numero de casos observados. Dos 5 annos em diante 2o Que o rhenmatismo poly-articular clironico (nodoso) é quasi desconhecido na primeira infancia, pois apenas conse- guimos reunir qualro factos hem averiguados desta affecção em tal periodo da existência; um citado por Bouchut (3 annos), outro por L. Srnith (3 1/2 annos), outro apresen- tado por Lahorde (8 annos), e o quarto —o que faz o assumpto da nossa observação, o unico até hoje encontrado, que o saibamos, em tão baixa edade (2 annos). 3o Que o rheumatismo nodoso, embora menos raro na segunda infancia, póde, comtudo, ser observado nesta épocha da vida. Os cinco casos pertencentes a ; Martel (10 annos), Charcot (10 e 16 annos), Durand-Fardel (2 de 15 annos), assim como os observados pelo Sr. Bouchut bem o de- monstram. Confirmando, pois, o que já dissemos, julgamos digna de todo o interesse a observação de nossa pequena doente, quando fôsse mesmo encarada sob este unico ponto de vista —a edade. Os observadores não se mostram inteiramente accordes quanto á frequência do rheumatismo articular agudo nos dous sexos, durante a infancia. Rilliet e Bartbez declaram que, tanto no hospital como na clinica civil, encontraram maior numero de meninos aífectados de rheumatismo agudo. O Sr. Bouchut pronuncia-se do mesmo modo. Meigs e Pepper affirrnam, entretanto, que segundo a sua obser- vação pessoal predomina a moléstia no sexo feminino. Do registro do hospital de crianças de Londres, orga- nisado por Tackwel, resulta que de 478 casos tractados neste hospital, durante dezeseis annos, 252 verificam-se no sexo feminino e somente 226 no sexo opposto. Dos 47 factos recolhidos por Picot no hospital de crianças de Pariz, 31 pertenciam á meninos e apenas 16 á meninas Puller en- controu, em quinze doentes, 4 meninos e 11 meninas. Pelas estatisticas feitas nos hospitaes de Pariz, durante quatro annos (1868, 1869, 1872 e 1873), vê-se que de 305 crianças ahi tractadas de rheumatismo, 179 pertenciam ao sexo masculino e 122 ao feminino. Resumindo os algarismos citais, chegaremos, pois, á seguinte conclusão sobre a frequência do rheumatismo arti- cular agudo em relação ao sexo ; Dos 841 casos de rheumatismo tractados nos hospitaes de Londres (Tackwel), de Pariz (Picot e E. Besnier) e por Fuller, 401 pertenciam ao sexo feminino e 440 ao mas- culino ; o que dá um excesso de 39 para o segundo. O sexo feminino é, por sem duvida, na edade adulta o mais predisposto á esta affecção sob a sua fórma chronica. O rheu~ matismo nodoso, diz o Sr. Charcot, é incomparavelmente mais frequente nas mulheres (Trastour, Yidal). O exame comparativo dos recolhidos era Bicêtre e das enfermas da Salpêtrière basta, segundo elle, para coníirmal-o. Con- sultando os nove casos que recolhemos pertencentes tanto á primeira como á segunda infancia veremos, pelo se- guinte quadro, que somente tres factos são relativos ao sexo masculino, emquanto que os seis outros ao sexo fe- minino. 30 AUTORES NUMERO DE CASOS SEXO MASCULINO FEMININO Moncoryo 1 1 Bouchut 1 1 L. Smith 1 1 Laborde 1 1 Martel 1 1 Charcot 1 1 Charcot I 1 D-Fardel 1 1 D.-Fardel 1 1 Total. 9 3 6 Os factos que possuímos nos autorisam, portanto, a esta- belecer para a infanda a mesma predominância observada na edade adulta quanto ao sexo. A hereditariedade parece demonstrada como uma das po- derosas influencias sobre o desenvolvimento do rheuma- tismo e alguns autores chegam mesmo á concluir que á ella se subordina a maioria dos factos observados nas primeiras edades. Steiner, que liga o maior apreço á esta condição etiologica, cita como um exemplo frisante, que elle proprio teve occasião de observar, o de doze crianças, cuja mãi soífrêra de rheumatismo agudo com localisação cardiaca, as quaes vieram a ser todas affectadas dessa mesma moléstia antes dos vinte annos. Em vinte e seis casos, cuja observação recolheu Picot no hospital de crianças de Pariz, 14 vezes figurava o rheuma- tismo em seus ascendentes. O mesmo verificou Fuller em oito casos sobre quinze. O Sr. Charcot considera fóra de toda a duvida a transmis- são hereditária, tanto do rheumatismo nodoso como do rheumatismo de Heberden. Em quarenta e cinco casos Trastour descobrio dez vezes que o pai ou a mãi dos doentes era rheumatico ; cifra que, com o Sr. Besnier, julgamos inferior á realidade. Facto in- teressante e comprobativo : aquelle autor viu por tres vezes mulheres soffrendo de rheumatismo darem á luz crianças já affectadas do mal. O Sr. Charcot, que também reproduz estes factos, cita, por sua vez, o caso de uma mulher em tracta- mento de rheumatismo nodoso na Salpêtrière edo qual tanto a filha como a neta já experimentavam dores nas pequenas articulações. Os pais da criança que observámos nunca soffreram de rheumatismo, quer agudo quer chronico ; le- vámos mais longe as nossas perquizas e pudemos averiguar que os avós, quer paternos quer maternos, nunca estiveram também subjeitos á esta aífecção sob qualquer de suas fórmas. As demais observações já acima mencionadas não nos esclarecem a este respeito. Embora esta e outras excepções se apresentem, julgamos, comtudo, provada a poderosa influencia desta causa. Todos os estados morbidos constitucionaes, que acarretam pro- fundo depauperamento do organismo, as moléstias, em geral, susceptiveis de comprometter a nutrição são, na edade adul- ta, qualificadas causas predisponentes do rheumatismo arti- cular agudo e do rheumatismo chronico, em particular. Entre as primeiras, figura de um modo saliente o estado diathesico conhecido sob a denomin ição de escrofulose e, por- tanto, ao seu lado avulta o lymphatismo, que não é mais que o preludio daquella. Nós somos propensos á qualificar esta predisposição como especifica, attendendo á grande aífini- dade observada entre um e outro estado morbido. Este nosso modo de ver é acceito por vários observadores de boa nota. 32 Entre outros, o Sr. Besnier (1) declara que alguns annos de observação no hospital S. Luiz, sólo clássico da escrófula, demonstraram-lhe á evidencia este facto. Em nossa pequena doente, em quem falhavam os antecedentes hereditários, á não ser o temperamento extremamente lymphatico de sua mãi, haviam, além da fraqueza congénita, manifestações precoces do lymphatismo exagerado, senão mesmo da escro- fulose incipiente, representada já pelas adenites, já pela derrnatose characteristica. Em terreno já tão preparado veiu apparecer mais um elemento congenere em relação á dystro- phia, isto é, uma coqueluche intensa e prolongada, que só por si é tantas vezes a precursora ou, melhor, a productora de uma tuberculose consecufva e terminal. Mas não era tudo ; uma causa de alto vah r, e de ordem hygienica, veiu ainda associar-se ás de ordem pathologica o vicio de ali- mentação, no caso vertente aleitamento. Cruveilhier denominava o rheumatismo gottôso—gôtta das mulheres, Landré-Bauvais o chamava—gôtta da indi- gência ; pois bem, ambas estas denominações podiam fun- dir-se em uma só—gôtta das mulheres pobres. E’ a moléstia que, pelo menos nos paizes temperados, disputa as victimas da miséria ás garras da tuberculose. Não é só, neste caso, a habitação insalubre e húmida que concorre á producção do mal, não é unicamente o trabalho exagerado, é talvez mais que tudo isso—a alimentação in- suficiente, porque a boa nutrição pode attenuar ou equili- brar as primeiras. E, como estas condições sociaes são exten- sivas á todas as edades e á ambos os sexos, não andava de alguma sorte errado G-arrod, considerando a moléstia possi- vel em um e outro sexo e em qualquer epocha da vida. Ora, emquanto ao abrigo da influencia de uma habitação baixa e húmida e das varias outras condições anti-hygieni- cas, inherentes á miséria, não estava, entretanto, a nossa (i) Loc. cit., p. 471. 33 doentinha, pelo aleitamento imperfeito e vicioso, subjeita ao que corresponde na edade adulta a uma alimentação insuffi- ciente? A edade avançada das amas, a substituição frequente destas, as suas affecções constitucionaes, representam exa- ctamente os elementos negativos que, na classe indigente, se resumem na falta de recursos. Essa menina, pois, escrofulosa, depauperada pela coquelu- che e mal nutrida por um aleitamento imperfeito, não se achava em condições favoráveis á terminação que teve o rheumatismo, á principio subagudo, precursor da arthrite deformante ? Estamos convictos de que menos raros seriam os casos desta ordem entre nós, si causas climáticas e de outra natu- reza não os deixassem supplantados pela tuberculose, em nosso paiz, em que a inanição seria na primeira edade uma calamidade commum e irreparável, si esses pequenos orga- nismos, privados do seu reparador natural,—o leite, não se adaptassem providencialmente algumas vezes á intervenção prematura de uma alimentação imprópria e intempestiva. Garrod acredita que as bemorrhagias abundantes, as ges- tacões repetidas, o aleitamento imperfeito,—causas debilitan- tes,—podem só por si dar origem á arthrite deformante. Em certo numero de casos só á estas causas attribue elle o desenvolvimento do rheumatismo nodoso, deixando de admittir com alguns autores, como Niemayer, a preexistencia de uma disposição especifica. O Sr. Cliarcot confirma com toda a sua competência o va- lor desta causa. «Oa ne saurait contester, diz elle, Pinfluence de la misère et d’une mauvatse alimenta',ion sur le dévelop- pement du rhumatisme ; les indigents des workhouses, en Amgleterre et en Mande, présentent des nombreux cas de rbumatisme noueux, ce qui demontre bien qu’il s’agit là (Time maladie surtout plébéienne, quoique I’opinion con- traire ait été soutenue par Haygarth.» (1) Insistimos sobre a influencia desta condição etioligica, porque julgamos que a sua acção se demonstra mais pro- nunciadamente nos dous extremos da vida. Sob muitos pontos de vista as predisposições mórbidas offerecem sensi- veis analogias nestes dous períodos da existência. A influen- cia da má alimentação ainda nao foi estudada em relação ás causas individuaes predisponentes do rheumatismo chro- nico na infancia; e nós chamamos aqui para ella a attenção dos observadores que proseguirem no estudo desta affecção. Quando novos factos vierem grupar-se aos que já possuimos, e fornecerem, portanto, maior copia de elementos compara- tivos para deducções geraes, crêmos bem que terá de figurar a alimentação entre as mais poderosas causas do rheuma- tismo chronico das crianças. 34 Á frente das causas extrinsecas desta affecção, tanto aguda como chronica, aponta-se o frio. Em relação particularmente ao rheumatismo osseo, não é a acção brusca do frio que pre- side ao seu desenvolvimento. Não estamos muito longe de crer que a humidade tenha, sem razão, muitas vezes patro- cinado a invasão de rheumatismos chronicos, cuja verda- deira ou principal causa passára desapercebida ou fora mal inquirida. Si o frio húmido ou, melhor, as habitações bai- xas, pouco ventiladas, assestadas em terrenos húmidos, mal escoados, se constituíssem uma poderosa causa occasional da moléstia, nenhum paiz ou, para melhor especificar, ne- nhuma cidade seria mais flagellada pelas affecções rheuma- ticas desta ordem que a do Rio de Janeiro, onde, além de todos os elementos de insalubridade que avultam em uma (1) Loc. cit.,p. 226. 35 cidade sem hygiene publica nem privada, torna-se saliente a influencia dessa causa. Além do sólo baixo, sem o declive necessário, nem esgoto de aguas pluviaes, quanto ás ruas, as casas privadas de ventilação profícua, assestadas quasi immediatamente sobre o chão, representam uma fonte permanente de humidade e uma calamidade que afflige, quasi sem excepção, na capital do Brazil, a classe indigente. Entretanto, em um periodo de quatro annos (1869-1872), e sobre a mortalidade total de 38,668, apenas 79 fallecimentos correram por conta do rheu- matismo. Infelizmente, nas estatísticas feitas entre nós, não se distinguem as diversas fórmas da moléstia, de modo a serem mais precisas as suas deducções. Este nosso modo de vêr, quanto á infancia, é de alguma sorte acceito pelo Sr. Charcot, relativamente á velhice, jul- gando exagerada a opinião de Beau á este respeito. Todos sabem a importância que ligava este sabio clinico ao frio sobre a producção do rheumatismo. Certos estados morbidos actuam, segundo alguns autores, de um modo favoravel ao desenvolvimento da polyarthrite deformante; assim, a erysipela da face, a escarlatina, a blennorrhagia, e mesmo a dysmenorrhéa têm sido citadas como causas predisponentes da moléstia em questão. A chlorose foi também por Musgrave incluída entre ellas, citando elle vários exemplos de arthrihs e chlorosi, que, na opinião autorisada de Charcot, pertencem evidentemente ao rheumatismo nodoso. Monneret acredita que a chlorose possa exercer uma in- fluencia desfavorável sobre a marcha do rheumatismo agu- do, fazendo-o tornar-se chronico e localisar-se com as des- ordens characteristicas da arthrite deformante (1). Antes de estudarmos a influencia desta condição mórbida (1) Loc. cit., t. 111, p. 106. 36 em relação á infancia, julgamos dever dizer duas palavras sobre a clilorose antes da puberdade. Sauvages, em sua Nosologia, entre as cinco variedades de clilorose verdadeira, que distinguia da falsa cblorose, admittia a da chlorose das crjanças. Um grande numero de crianças, segundo elle, adquirem, desde o berço, o habito de comer terra, cal, etc., tornando-se por isso magras e pal- lidas (1). Esta aberração, julgada, entretanto, extra-physio- logica por Sauvages, ó antes, como faz justamente sentir o professor Parrot, um habito normal na maioria das crianças de baixa edade. Entre nós, seria mais natural referir á hy- pohemia tropical os casos de pica exagerada, observados na infancia. Pela nossa parte, nunca tivemos occasião de observar, senão nesta moléstia, essas perversões tão salientes do appetite nas crianças. Hufeland, Marshall-Hall, Jolly, Cabaret, Cazin (de Gand), também admittem vagamente que a chlorose possa affectar a infancia. Em 18 de Outubro de 1859, Nonat, em uma carta dirigida â Academia de Medi- cina, foi o primeiro á pretender firmar de um modo defini- tivo a frequência da chlorose na infancia. Em 1864 ainda voltou elle a esta questão, consagrando, em seu tractado sobre a chlorose, um capitulo á chlorose das crianças, ba- seando-se em 68 casos, segundo elle bem averiguados (de 1 a 15 annos), dos quaes 41 em meninas e 27 em meninos (2). O professor G. Sée também admitte a chlorose antes da puberdade, devida a uma alteração da nutrição despropor- cional ao desenvolvimento do organismo. Nós, porém, pensamos com o Sr. Parrot (3), que a chlorose não existe antes da puberdade. Nunca encontrámos, em nossa practica, um só caso bem averiguado desta moléstia, e (1) Nosologie. Paris, 1771. (7) Traité théor. et prat. cie la chlorose, avec une étuãe spéciale sur la chlorose des enfants. Paris, 1864, p. 119. (3) Dict. enc. des sc. môd., t. VII, Paris, 1874, art. Chlorose. 37 o Sr. professor Bouchut confirma o resultado da nossa obser- vação. Os pretendidos casos de chlorose, observados por Nonat, nao eram, quanto á nós, mais que anemias lig'adas a varias causas, como sejam o lymphatismo, a escrofulose, etc. Sao anemias consecutivas e nao uma agdobulia essencial. Ainda, a bulha de sôpro, que Nonat considera pathogno- mouica da chlorose, mesmo na infancia, nao tem sido encon- trada, ou antes tornou-se o objecto de formal contestação da parte dos Srs. Bouchut, West, Parrot e Roger. « Le soufflé inorganique, diz este ultimo autor, c’est-à-dire tenant à la chlorose ou à Panémie est très-rare chez Venfant... » (1). Seja-nos relevada esta pequena digressão sobre a chlorose da infancia, afim de tornar patente um facto ainda até hoje, em geral, mal averiguado, sobretudo, entre nós. Julgando- nos, pois, autorisados a excluir esta entidade mórbida do quadro pathologico da infancia, estamos ipso facto certos da nulla influencia desta causa sobre a arthrite deformante. Porquanto, si se admittisse a extrema frequência da chlorose na infancia, como pretende Nonat, influindo ella provada- mente sobre a producçao e a marcha do rheumatismo, como verificaram para os adultos, Musgrave, Monneret e alguns outros, teria certamente de representar papel saliente entre as causas pathologicas do rheumatismo nodoso nas primei- ras edades. Passando a um ligeiro estudo sobre a geographia medica, devemos, antes de tudo, lastimar a imperfeição dos dados estatisticos que existem a este respeito ; accentuando- se nesta moléstia, mais que em qualquer outra, o atrazo em que ainda se acha a climatologia medica. Consultando-se as (1) Roger, loc. cil., e J. Ghevalier ; De Pendo cardite rhum. chez Venfant. Th. de Paris, 1877, p. 47. 38 differentes fontes, em que se acham registrados os dados relativos á frequência e á mortalidade do rheumatismo, ve- rifica-se a mais deplorável confusão entre as diversas fórmas da moléstia, sendo que nos archivos mais completos se limi- tam apenas os seus autores á especificação do rheumatismo articular, deixando de distinguir o agudo do chronico. Eis porque neste rápido exame vêr-nos-hemos coagidos a jogar quasi sempre com as cifras que representam a fre- quência do rheumatismo articular em geral. Si a gotta é uma affecção quasi desconhecida nos climas tropicaes, o rheumatismo chronico nodoso, embora bastante raro, não deixa, entretanto, de ser em alguns paizes obser- vado. Em Sydney, na Australia, o rheumatismo articular offe- rece uma certa frequência na practica, sendo, no dizer do Dr. F. Bourse, encontrados menos casos de gotta do que na Inglaterra. (1) Não estarão entre estes alguns compre- hendidos por conta da arthrite deformante ? A gotta é, por assim dizer, desconhecida na Algeria, se- gundo o Sr. E. Bertherand, e julgamos que também o rheu- matismo chronico, pois a este não se refere em seu importante livro o citado autor. (2) No Cabo da Boa Esperança, em um periodo de 1822 a 1834, e sobre um total de 1689 doentes, apenas 29 soffriam de rheumatismo ; 10 pertencentes ás tropas dos hotteutotes e 19 ás européas. (3) Si o rheumatismo articular agudo é demasiado raro nas Antilhas, como afflrmam Dutrouleau (4), St. Yel (5), Rufz {1) Contríbutions a la géogr. médioale (Aiistralie-Sydaeyl in-Arch. da med. nav., t. 11, Paris, 187 G, p. 163. (■1) Meãecine ethygiène des Árabes. Paris, 1855. (3) Boudin. Trailé de géog. et destatist. méd., etc., Paris, 1857, p. 280. (4) Dict. encgc. desse, méd., t. V. Paris, 1866, art.—Antilhs. (5) Traité des maladics des regions intcrtropicales, Paris, 1868, p. 416. 39 de La visou (I) e Chassaniol (2), não parece o mesmo inteira- mente acontecer com a arthrite deformante, que muitos incluíram em suas observações sob a denominação commum de gôtta. Si St. Yel afíirma ser o rheumatismo cbronico mais raro ainda que o agudo, á d’elle se contrapõe a observação de Dutrouleau, que assegura o contrario. « La goutte, dont fai vu plmieurs cas chez dee no ir sde la clasée aisée aux AntUlex, diz o Dr. Chassaniol, ne s’est jamais affectée à mon observation chez les indigènes en Afrique, même sur le littoral. » Em Tunis predomina francamente a fórma cjironica da moléstia segundo as informações de Rabatel e G-. Tiraut (3). Na Cochinchina franceza, a observação do Dr, Richard demonstra serem bastante frequentes as aflfecções .rheurna- ticas, tanto articulares como musculares (4) ; o mesmo suc- cede em Tahitti (Ilha da Sociedade) (5). Quanto ao México, assegura Jcurdanet, ser nelle pouco frequente a arthrite rheumatica (6). Alguns médicos fran- cezes, como Duplouy, dizem que a gôita (não será antes o rheumatismo nodoso ?) é mais rebelde no Chile, do que em outra qualquer parte (7). No Perú são menos frequentes as affecções rheumaticas, parecendo dominar o rheuma- tismo muscular. Como já acima fizemos sentir, ainda não dispomos de elementos suficientes para julgar com precisão das questões (1) Chronologie ães maladies de la ville de Saint-Pierre. (Martinique) de Vannée 'BSI a Vannée 1856, in-Arch. de méd. nav. t. XII, 1869. p. 139. (2) Contributions ala pathologié de la race nêgre, ia-Arch. demed-nav. t. 111, 1865, p. 508. (3) Notes méd. recueillies en Tunisie (Lyon médical., n. 13, t. XVI, 21 juin, 1874.) (4) Essai de topogr. méd. dela Cochinohine française, in-Arch. de méd. nav., t. I, Paris, 1864, p. 342. (51 G ont. ala geogr. med. \n-Arch de med nav., 1. IV, 1865, p. 290. (6) Le Mexique et VAmerique trogioale, Paris, 1864, p. 342. (7) Cont. ala geogr. med., ia-Arch. de med. nav., t. 11, Paris, 1864, p. 107. que se prendem á climatologia medica do rheamatismo. O Sr. Professor Charcot exprime-se a este proposito, dizendo que a geographia medica do rheumatismo ainda está por fazer-se ; sendo que em relação ao rheumatismo chronico on ne possède aucun renseignemenl précis. Pelo que toca ao Rio de Janeiro, já fizemos notar a pequena mortalidade por conta do rheumatismo agudo, não dispondo de dados que nos esclareçam sobre o grau de frequência da poly-arthrite deformante. Si quizermos especificar o exame desta questão quanto á infancia, menos ainda poderemos adiantar ao pouco que já deixámos averiguado. No estudo da symptomatologia do rheumatismo chronico lia a notar-se, antes de tudo, a evolução que segue a moléstia, pois que, sob este ponto de vista, póde ella offerecerdous typos distinctos, que se revestem de characteres especiaes. Entre esses dous typos ou formas—lenta e rapida, outras in- termediárias podem, comtudo, apresentar-se. Nos individuos ainda moços, entre os quinze e trinta annos, segue, em geral, o rheumatismo uma evolução mais rapida ; foi esta a fórma que apresentou ern nossa doentinha a moléstia, e também, cremos, na do Dr. Lewis Smith, já acima referida. Os symptomas geraes são nesta fórma mais accusados ; or- dinariamente a invasão do mal é acompanhada dos pheno- menos de reacção febril, proprios do rheumatismo articular agudo e sub-agudo. Foi exactamente, como vimos, o que succedeu na doente da nossa observação, na qual o compromettimento das duas primeiras articulações (as dos joelhos) coincidiu com a eleva- ção da temperatura e frequência do pulso. Os suores abun- dantes também se mostram frequentes no primeiro periodo da moléstia. A febre costuma tomar o typo remittente, ha- vendo exacerbações separadas por intervallos mais ou menos longos de remissão. Em nossa doente tornaram-se aquellasbem salientes, coincidindo quasi sempre corn o com- promettimento de novas articulações. Como nella observá- mos, a reacção febril se dissipa afinal para permanecerem as desordens anatómicas cbaracteristicas do rbeumatismo no- doso. Pretendem alguns autores que neste caso se tracte de um rbeumatismo agudo, que tornou-se posteriormente cbronico; entende, porém, o Sr. Cbarcot que é o rbeumatismo chro- nico d'emblée, apresentando em sua marcha alguns cbara- cteres do estado agudo. No caso que deu origem ao nosso estudo, podemos as- segmrar que a moléstia revelou-se, nos primeiros dias, com todos os cbaracteres manifestos e proprios do rbeumatismo agudo; e quem acompanhar com attenção a sua evolução, precedentemente descripta, não poderá qualifical-o de rbeu- matísmo cbronico d'emblée. Cremos bem que os casos desta ordem não sejam frequentes, e isso mesmo fizemos desde logo sentir nas primeiras linhas de nossas reflexões. Os outros signaes que cbaracterisam a forma rapida da moléstia são os seguintes ; а. o compromettimento simultâneo ou successivo de grande numero de articulações, e quasi sempre symetricamente; б, a fixidade da sua séde ; c. a maior intensidade das dores articulares e musculares; d. a accentuação mais notável da tumefacção e do rubor nasjunctas affectadas ; e. as retracções musculares mais pronunciadas. A fórma rapida, cuja duração póde variar de um a quatro annos, oflferece um prognostico muito mais grave que a lenta ; a moléstia dissipa-se, cessam as dôres, porém ficam as deformações e os desvios refractários, no maior numero das vezes, aos meios therapeuticos de toda a sorte. Raras vezes teve o Sr. Cbarcot occasião de ver desapparece- rem as deformações ósseas. Na fórma lenta (gôtta senil de Geisl), peculiar á edade avançada, a invasão da moléstia opéra-se no sentido inverso da precedente : as articulações são compromettidas isolada- mente, cada uma por sua vez, sendo ao mesmo tempo a reacção febril quasi nulla ; em alguns casos ella deixa de apresentar-se mesmo. Os phenomenos : dor, rubor e tu me facção são neste caso muito menos pronunciados : a primeira é de ordinário menos viva e esta ultima deixa de existir ás vezes. Si na fórma rapida predominam as retracções musculares, nesta se tornam mais salientes as deformações ósseas. O prognostico é, toda- via, então menos grave. Estas duas fórmas representam para o Sr. Charcot um typo clinico que elle denominou do rheumatismõ articular chronico progressivo, attendendo ao character saliente da ten- dência da moléstia á generalisar-se. Esta denominação é aliás tão bem cabida, quanto os dons.outros typos clinicos por elle estabelecidos offerecem o character cornmum da lo- calisação. [Rheumatismõ articular chronico parcial e rheumatismõ de Helerden.) Nós só da primeira, entretanto, nos occuparernos, por ser, como na doentinha em questão, a unica possivel na infancia; sendo o rheumacismo chronico parcial, por assim dizer, um privilegio da velhice adiantada, bem como o rheumatismõ de Heberden, cuja natureza rheumatica é aliás impu- gnada por observadores da melhor nota. Havendo, pois, passado ligeiramente em revista os pheno- menos geraes do rheumatismõ chronico, estudemos agora particularmente os phenomenos locaes characteristicos da moléstia. A. invasão desta assemelha-se, no primeiro periodo, á do rheumatismõ agudo e sub-agudo como já vimos, e as mani- festações articulares são, como naquelle, representadas então pela dor, ordinariamente intensa quando é a sua invasão rapida, pelo rubor pronunciado da pelle e tumefacção dos tecidos que rodeiam a articulação. 43 Estes phenomenos assentam-se, porém, com menos mobi- lidade que no rheumatismo agudo. E’ a fixidade d'emblée um dos mais accusados signaes da poly-arthrite deformante e que é ainda muitas vezes o primeiro indicio da chronicidade. Vimos na nossa doentinba que as articulações compromet- tidas uma vez assim permaneceram até a terminação do mal, que se effectuou simultaneamente para todas ellas. Conjunctamente com os phenomenos que acabamos deas- signar é muito frequente observar-se, ainda mesmo nas pri- meiras épocas, a retracção spasmodica dos musculos, que dão origem a attitudes viciosas dos membros. Esses mesmos musculos tornam-se de ordinário muito sensiveis ; sobrevêm verdadeiras caimbras dolorosas, que parecem resultar da propagação das dores articulares aos musculos. A, sensibilidade conserva-se exaltada, em alguns casos, permanentemente até um periodo adiantado da moléstia. O edema peri-articular se accentua gradualmente, aprofun- dando-se, e afinal se apresentam mesmo derrames synoviaes, como tivemos occasião de verificar, na menina A., nas articulações dos joelfios e.tibio-tarseanas. Ao mesmo tempo que isso se dá, os borreletes osseos vão-se desenvolvendo nas extremidades articulares, produzindo as nodosidades chara- cteristicas. Muitas vezes a perda das relações se dá entre as superfícies ósseas e verdadeiras luxações podem então ser observadas. Os tecidos fibrosos retraem-se gradualmente, difíicultando pouco e pouco a mobilidade articular ; muitas vezes esta cessa inteirarnente, conservando-se o membro em semi-flexão (ankylose cellular). Vimos em nossa doente que a retracção fibrosa mostrou-se muito cedo, impossibili- tando-lhe quasi absolutamente os movimentos articulares. Quando elles são obtidos, havendo sobretudo intervenção alheia para exagpral-os um pouco, percebe-se pelo tocar e mesmo á distancia um ruido particular de crepitação, que resulta da ruptura das stalactites osteophyticas formadas entre as cartilagens articulares, e mesmo em torno destas. Em geral, são as articulações compromettidas na razão inversa do seu volume, sendo as grandes articulações affec- tadas posteriormente às pequenas. Mas, para a confirma- ção desta regra, ha excepções, e uma delias verificou-se na pequena doente submettida á nossa observação. Nella havia ainda á notar-se um outro facto menos commum, e vinha a ser : o compromettimento inicial das junctas dos membros abdominaes ; observando-se como regra geral o contrario no rheumatismo nodoso. A invasão symétrica das junctas é também uma regra p er- tencente á marcha do rheumatismo chronico progressivo e que por si o destaca da gôtta. Esta symetria se verifica egualmente em relação ás pequenas articulações. As observações de Fuller, de Trastour, Charcot e de outros eminentes clinicos tornaram patente uma especie de im- munidade de que parecem gozar certas articulações como a da coixa e da espadua ; isso, porém, não é invariável, existindo alguns casos, embora muito raros, de compro- mettimento destas articulações. Uma circumstancia, que chamou a attenção do Sr. Char- cot, vem a ser a marcha centrípeta das desordens articulares, as quaes invadem quasi sempre primeiramente as articu- lações periphericas e vão depois ganhando progressiva- mente as grossas articulações dos membros. Este modo de invasão é mais frequente quando segue a moléstia uma evolução lenta ; em outras condições nota o Sr. Char- cot que a moléstia se generalisa desde logo. O ultimo periodo do rheumatismo nodoso é quasi sempre representado pelas deformações e desvios dos membros. As attitudes viciosas destes nem sempre procedem das 'lesões ósseas, mas em muitos casos resultam das retracções musculares e fibrosas. O Sr. Charcot, estudando, como ninguém o fizera antes delle, os characteres proprios das deformações, reconheceu que ellas eram subjeitas á leis regulares, e chegou a estabelecer para as das extremidades 45 superiores dous typos distinctos, que por sua vez admittem variantes. O primeiro, que é o mais frequente, cliaracterisa-se, segun- do aquelle observador ; « Io Peia flexão em angulo obtuso, recto ou mesmo agudo, da pbalangetta sobre a phalangina ; « 2o Pela extensão da pbalangina sobre a phalange ; « 3* Pela flexão da phalange sobre a cabeça dos meta- carpeanos ; « 4o Pela flexão, em angulo menos obtuso, dos metacar- peanos e do carpo sobre os ossos do antebraço ; « 5o Em grande numero de casos, existe uma inclinação em massa de todas asphalanges para o bordo cubital da mão, depois um desvio em sentido inverso das phalanginas sobre as phalanges. » Na primeira variedade do primeiro typo deixa de eflec- tuar-se a extensão da phalangina sobre a phalange, conser- vando-se os outros demais characteres. Foi esta variedade que observámos em nossa pequena doente. No segundo typo a deformação das phalanges opera-se no sentido inverso da do typo precedente, e apenas é mais pronunciada a flexão do carpo sobre os ossos do antebraço. Em nossa doentinha havia ainda a notar-se o compromet- imento da articulação phalangiana do pollegar, achando-se livre a articulação metacarpo-phalangiana que é de ordi- nário invadida. A segunda phalange achava-se em flexão sobre a primeira. Como muito frequememente acontece, as articulações do cotovello e escapulo-humeral offere- ciam, no fim de certo temro, alguma rigeza. Nos últimos periodos da moléstia, quando já têm cessado as dores e todos os phenomeuos de reacção, os rnusculos entregues á completa inércia ou retrahidos espasmodica- mente começam a atrophiar-se, soífrendo o seu tecido a degeneração gordurosa. A contracção dos rnusculos oppos- tos aos que se atrophiam origina desvios e altitudes vicio- sas dos membros, que se tornam irremediáveis quando a metamorphose regressiva tem invadido a totalidade do musculo. Este acaba ainda por perder a sua contractili- dade electrica. Em nossa doente vimos, no decurso da moléstia, apre- sentar-se uma vez uma infiltração edematosa das pernas, a qual attribuimos em grande parte ao embaraço de circu- lação dos membros, entregues por muito tempo á mais completa immobilidade. Nos individuos velbos observou o Sr. Charcot, muito frequentes vezes, esse estado edematôso, simulando a elephantiase; pelo que julgou este autor dever estabelecer duas fórmas para as desordens ulteriores das partes molles nos membros affectados do rheumatismo nodoso, sendo esta denominada edematosa em opposição á outra, em que predomina a atrophia muscular e o emana- grecimento das partes molles, denominada atrophica. Adém das consequências da stase sanguinea, e do edema nos membros abdominaes, soffrem estes deformações, des- vios e attitudes viciosas, analogas àquellas descriptas nos membros superiores e consecutivas ás desordens articulares correspondentes. O grosso artelho, no qual se assestam com predilecção as nodosidades, além de deformado, desvia-se de ordinário, para cima e para fóra, e, em nossa doente, foi exactamente o que tivemos occasião de observar. Nas articulações tibio-tarseanas, as lesões determinadas pelo rheumatismo originam também desvios e attitudes que podem simular, em alguns casos, as differeutes modalidades do pied bot (Besnier). iás attitudes viciosas e as deformações das pernas, por conta das desordens articulares dos joelhos, eram, tanto em nossa doente como na do Sr. L. Srnitli, a reproducção mais ou menos approximada das que se encontram frequenteraente na velhice ; a flexão da perna sobre a coíxa e desta sobre o tronco, a saliência dos condylos do femur, pronunciadaraeute o interno, o desvio lateral externo da rotula,—eis, em re- sumo, as deformações e a attitude observadas nas duas doen- tes a que acabamos de referir-nos e também aquellas que fi- guram nas descripções classicas do Sr. Charcot. Nos dons únicos casos, cuja historia conhecemos, a articu- lação coxo-femural foi poupada, como sóe acontecer na edade adulta e na velhice. Havia, com effeito, na menina A., certa rigidez articular, mas essa parecia dependente da irnrnobilidade quasi com- pleta a que por tão long-o espaço de tempo ficara entregue a doente. E, na verdade, verificou o Sr. Charcot, nas doentes da Salpêtrière, que outras articulações, depois de prolongada duração da moléstia, podem tornar-se completamente rijas e incapazes de funccionar, como acontece ás articulações ver- tebraes, ficando em certos casos condemnados os infelizes pa- cientes a absoluta irnrnobilidade sobre um leito, durante todo o resto de sua existência. Assegura o illustre professor que doentes ha que têm supportado por mais de 20 annos este cruel supplicio. Nenhum facto, entretanto, nos assegura, que possa o mesmo succeder ás crianças, uma vez aífectadas do rheuma- tismo osseo progressivo. Mas, não é preciso tanto para o mar- tyrio-de uma infeliz criança em taes condições ; emquanto perduram as attitudes viciosas que descrevemos nos mem- bros inferiores, torna-se quasi impossivel o andar, e em al- gumas circumstancias, como vimos na menina A., a própria posição vertical, sem o auxilio alheio. Passando agora a occupar-nos com as localisações visce- raes do rheumatismo chronico nodoso na infancia, só nos re- feriremos ás membranas cardíacas, porquanto nenhum outro facto ainda hoje possuímos que nos autorise a julgar daquellas que podem sobrevir, como nas outras edades, para varias outras vísceras do organismo. E’ esta em todo o caso uma lacuna, que só mais tarde se poderá talvez preencher em 48 presença de novos factos attentarnente examinados. Antes, porém, de passarmos ao estudo desta questão, seja-nos per- mittido um rápido exame sobre a frequência e condições do desenvolvimento da peri e da endocardite na infancia. Um facto parece boje acceito pela maioria dos médicos que se entregam ao estudo da pathologia infantil; vem á ser a pre- disposição das crianças á pericardite, em muito maior escala do que acontece com os adultos. Hughes (1) dizia mesmo ser a primeira infancia uma condição favoravel ás aífecções do centro circulatório. Nenhum período da infancia parece, na verdade, ser sobre outros poupado á phlegmasia do peri- cárdio e os factos o comprovam ; Billard (2) encontrou em uma criança de dous dias adherencias tão solidas entre as duas folhas do pericárdio, que julgou dever admittir que re- presentavam ellas os vestigios de uma pericardite des- envolvida durante a evolução fetal. Este mesmo autor observa que em cerca de 700 autopsias, practicadas em crian- ças fallecidas no Hospicio dos Expostos de Pariz, reconheceu elle a existência de 7 pericardites bem characterisadas. Ker- kensteiner, Bednar e Weber também encontraram pericar- dites em crianças recem-nascidas. O professor Tardieu com- municou ao Dr. Blache (3) haver muitas vezes encontrado traços de pericardites, mais ou menos recentes, em fetos e recem-nascidos, que tivera occasião de autopsiar em seus exames raedico-legaes. Já em 1826, Sjlvain Denis havia feito sentir a frequência das placas leitosas adherentes á folha vis- ceral do pericárdio nas crianças por elle autopsiadas. (4) Depois dos trabalhos de Kreysig, de Bouillaud e deLatham, relativos á frequência das aífecções cardiacas subordinadas ao rheumatismo articular agudo nos adultos, foram os obser- (1) Lond. Med. Gax., nov., 1844. (2) Loc. cit., p. 624. (3) Essai sur les mal, du coeur ohez les enf., Th. de Paris. 1869, p. 104. (4) Loc, oit.,]). 363. vadores que a alies se seguiram verificando que a infanda se mostra mais predisposta ás localisações cardiacas do rheumatismo. Berton, que completou a obra de Billard, foi um dos pri- meiros a chamar a attenção dos clinicos para este facto. (1) Rilliet e Barthez também declaram haver encontrado 4 vezes a pericardite em 11 casos de rheumatismo articular (2). Bau- delocque, que julgava excessivamente raras na infancia as affecções rheumaticas, teve occasião de observar no primeiro trimestre de 1833, quatro casos de rheumatismo articular agudo, dos quaes foram tres complicados de pericardite, ha- vendo dous terminado fatalmente (3). Mac-Leod (citado por Blache) encontrou signaes de pericardite na metade das crian- ças affectadas de rheumatismo que teve occasião de observar. Yieusseux, Davis e Wells, mencionados por Puchelt, já haviam também anteriormeute citado casos de pericardite em crianças, evidentemente subordinada ao rheumatismo. Todd (4) e Churchill (5) encontraram casos de pericardite em muito tenra edade, não considerando o primeiro destes au- tores rara a moléstia durante a primeira infancia. Galligo era de opinião que a inflammação do pericárdio e do endo- cardio é muito mais frequente na infancia do que outr’ora se pensava, quasi sempre consecutiva á uma outra moléstia, especialmente ao rheumatismo articular-agudo (6). Yogel observou a presença das localisações cardiacas em um terço dos casos de rheumatismo agudo na infancia. Meigs e Pepper (7) também admittem que a pericardite póde ser encontrada em qualquer periodo da infancia. (1) Loc. cit. (2) Loc. cit., t. 1, p. 628. (3) Gazelte Médioale de Paris, 2tne sér., t. X, 1834, p 4103. (4) Medicai Gazette, Dec. 25, 1846. (õ) The ãiseases ofchildren, 3 ed. Dublin, 1870. (6) Loc. cit., p. 853. (7) Loc. cit., p. 291. 50 Por seu lado, West tem verificado a existência dessa phlegrnasia em crianças, mesmo nos casos de rheumatismo os mais benignos, ainda quando os syrapcomas febris e as desordens locaes apresentavam mui pequena intensidade. « C’est pour quoi, diz elle, toute menace de rhumatisme doit être surveillée, avec la plus vive sollicitude dans un jeune sujet, puis qu’une complication aussi sérieuse qu’une maladie du coeur, peut accompagner des symptomes géné- raux du rhumatisme extrèrnement légers. » (1) A observação do illustre clinico inglez, como muito bem fez sentir o Sr. Picot, oppõem-se, em relação á infancia, á lei formulada para os adultos por Bouillaud e segundo a qual as localisações cardiacas coincidem mais frequentemente com o rheumatismo poly-arfcicular muito intenso. Fuller, que admitte a predominância das phlegmasias cardiacas rheu- maticas na infancia, julga poder explicar este facto pela maior irritabilidade do coração nessa epoeha da vida ; outros attribuem-no ao excesso de funccionalisrno do orgão. Em França, os observadores mais modernos chegaram ao resultado definitivo da predisposição manifesta da infancia para as phlegmasias cardiacas dependentes particularmente do rheumatismo. Tal é, com eífeito, a opinião dos Srs_ Bouchut e H, Roger. Este notável pratico, diante do grande numero de factos oíferecidos á sua observação, chegxm á conclusão que se deve considerar como fatal, na infancia, a lei de coincidência do rheumatismo com as affecções cardiacas (2). Basta, com eífeito, alguma frequência dos hospitaes es- peciaes da infancia para chegar-se promptarnente á mesma conclusão do Sr. H. Roger. Os Drs. Chaisse e Picot, que, como já foi dicto, occuparam-se em suas theses inauguraes com o estudo do rheumatismo articular na infancia, co- lheram nos serviços do Hospital de crianças de Pariz grande numero de factos em abono daquelle asserto. (1) Loc. cit., p. 638. (2) Arch. gènér. de med., 1868. As considerações que acabamos de expender ácerca da pericardite na infancia têm quasi inteira applicação á endo- cardite; sendo para notar-se que esta phlegmasia é, relativa- mente á primeira, muito mais frequente (1). As numerosas autopsias praticadas pelo Sr. Bouchut, a que jâ acima nos referimos, vieram demonstrar plenamente a frequência da endocardite nas moléstias febris agudas da infancia, parti- cularmente no rbeumatismo. Sobre os 65 casos colhidos pelos Srs. Chaisse e Picot no Hospital das crianças, contam-se para mais de 35 endocar- dites ou cêíca de 53 °/0. A lei estabelecida pelo Sr. Roger e que ha pouco reproduzimos tem, sobretudo, applicacão á endocardite. Parece facto relatirnente averiguado que, uma vez adquirida a diathese rheurnatica, póde a endocardite desenvolver-se, qualquer que seja a manifestação pela qual aquella se revele, O Sr. professor Gubler teve occasião de observar dous casos de endocardite desenvolvida em dous meninos, um dos quaes. de 6 annos, consecutivamente ao torticolis. Estas duas observações se acham consignadas na já mencionada these do Dr. Blache. O Dr. Archarabault encontrou um caso e o Dr. Martineau dous outros, no decurso de um erythema papuloso. O Dr. J. Chevalier, que cita estes tres factos, também conseguio colher, nos serviços dos Srs. Roger e Archambault, varias observações de rbeumatismo sub-agudo e assás benigno, coincidindo com a manifestação de endocardites bem charac- terisadas. O apparecimento da endocardite no curso da choréa, moléstia considerada de natureza rheurnatica na pluralidade dos casos, não é mais um argumento em f ivor da these acima enunciada ? (3) As numerosas auptosias praticadas por Friedreich, Rauchfous (de S. Petersburgo), Ferber (de Hombourg) e blache (René), demonstraram a frequência não pequena da endocardite durante a vida uterina. Elles verifi- caram aiuda que a phlegmasia se iocalisa de preferencia no Coração direito o que parece depender da circulação especial do feto. Bright, Copland, Todd, Kirkes, Nairne, Beg bie, foram os primeiros á fazer sentir a correlação entre a choréa e as affecções cardíacas agudss e particularmente a endocardite. Posteriormente os estudos feitos sobre a clio éa pelos Srs. professores G. Sée, Rotli, Botrel, H. Roger 3 ,T. Simon tor- naram evidente a frequência notável da endocardite vege- tante no decurso da choréa, cuja natureza rheumatica foi também por elies demonstrada para a grande maioria dos casos, como egualmente o fizeram Tackwell, Hillier, Cham- bers e West, na Inglaterra, Yogel e Rornberg, na Allemanhai Meigs e Pepper, na America. O Sr. Roger creou mesmo a denominação de choréa cardíaca, para designar a nevrose acompanhada da localisaçao cardíaca. Elle collecciouou não menos de 71 casos bem averiguados desta fórma da choréa. A coincidência da endocardite e a choréa sem manifestações articulares rheumaticas parece deixar, como dizíamos, bem patente a extrema predisposição da infancia para as affec- ções agudas do coração sob a influencia do rheumatismo o mais ligeiro, independentemente das arthropathias. De tudo, pois, quanto precede em relação á peri e á endocardite, na infancia, podemos concluir : 1. A coincidência da phlegmasia das membranas car- díacas constitue a regra geral no rheumatismo articular agudo e sub-agudo, na infancia. 2. A localisaçao cardíaca não guarda, na infancia, relação com a extensão e a intensidade das manifestações rheumaticas articulares. 3. Qualquer das manifestações da aífecção rheumatica póde egualmente acompanhar-se das localisações cardíacas. Estabelecidas estas leis geraes que presidem, nas pri- meiras edades, ao desenvolvimento das affecções agudas do centro circulatório, cumpre-nos averiguar qual o gráo de frequência dessas mesmas affecções sob a influencia do rheumatismo chronico progressivo. Na edade adulta ou melhor na velhice (a menos predis- clevidamente apreciadas sobre o cadaver, ou porque já se hão dissipado na pliase ultima do mal, ou por serem tão pouco accentuadas no seu começo, que furtam-se facilmente ao exame. As outras partes componentes da articulação são egual- mente compromettidas no decurso da moléstia. A neoforma- ção hyperplasica invade também o periosteo, os ligamentos, os tendões e até os proprios musculos. As vegetações nelles produsidas infiltram-se também de saes calcareos e adquirem ás vezes considerável desenvolvimento. Billroth (1) especifica com certa minuciosidade os characteres desses osteophytos peri-articulares. Segundo faz notar este eminente observa- dor, elles são lisos, arredondados e não ponteagudos ; dir- se-bia, escreve elle, uma substancia liquida, densa, que se houvesse derramado sobre a articulação e se solidificasse á medida que fosse sendo lançada. Estes osteophytos são, se- gundo o mesmo autor, constituídos por uma substancia ossea compacta e não porosa. O estudo histologico das lesões articulares demonstra, á evidencia, que o processo morbido consiste, como dizíamos, em uma proliferação cellular do tecido cartilaginosoe fibroso, As cellulas das cartilagens segmentam-se e multiplicam-se, ao passo que augmentam as dimensões das capsulas primi- tivas, que encerram então outras capsulas secundarias. Ranvier e Cornil (2) observaram urnas vezes a capsula pri- mitiva contendo outras secundarias comprehendidasem uma capsula coramum, outras vezes as mesmas capsulas secun- darias isoladas sob o involucro da primitiva. O numero das cellulas augmenta consideravelmente ás vezes, Rindefleisch encontrou mesmo até vinte, contidas em uma mesma capsula (1) Loc. citp. 594. (?) Manuel d'histológiepalhologique, Paris, 1869, p. 417. primitiva. Quando estas capsulas se achara em extremo distendidas e estam situadas na superfície da cartilagem, rompem-se afinal, derramando o seu conteúdo na cavidade articular ; aquellas que estam profundamente situadas acabam por abrir-se umas nas outras. A substancia funda- mental da cartilagem se adelgaça e acaba por constituir um tecido vesiculôso, como quer Rindefleisch, extrernamente frágil, e ao qual emprestam as capsulas cartilaginosas aug- mentadas alguma solidez. O tecido assim modificado divide-se em filamentos fi- brilares, dirigidos pela maior parte perpendicularmente á superfície articular. A fraca resistência que elle ofterece explica a sua facil destruição nos pontos em que a pressão e o attrito articular se operam em maior escala; é por este processo que a superfície ossea acaba em muitos casos por se denudar; todo este trabalho, simultaneamente forma- dor e regressivo, é, todavia, como já dissemos,essencialmente lento. Na membrana synovial póde se encontrar também a multiplicação das cellulas cartilaginosas normalmente existentes nas suas villosidades (cellulas de Kliiker), e é desta multiplicação das cellulas preexistentes que resulta a formação de tecido cartilaginoso nas franjas da synovial e a producção dos corpos estranhos sesseis ou pediculados na cavidade articular. Por um processo analogo ao da osteite se opera a for- mação da lamina ossea subjacente á cartilagem que se destróe. As cellulas visinhas do tecido osseo se segmentam, as capsulas primitivas se rompem, e o seu conteúdo é lan- çado no interior dos espaços medullares. A transformação destas cellulas embryonarias em corpúsculos osseos é que dá origem á camada ossea de eburnação. O esvasiamento das capsulas primitivas profundas da cartilagem é precedido de um trabalho de rarefacção o ssea peri-capsular. 0 processo de eburnação, é pois, como se vê, analogo ao da osteite condensante de Rindefleisch ou producliva de Ranvier. Billrotli acredita, como já fizemos notar, que a eburnação seja devida á irritação inflammatoria resultante do attrito ; Ranvier e Cornil também pensam que algumas vezes a in- flammação possa propagar-se directamente ao tecido espon- joso e determinar uma eburnação inflammatoria. Isso parece, com effeito, dever acontecer quando novas laminas ósseas tenham de vir substituir á precedente que se gasta á custa do attrito. Neste caso é possivel que a irritação promova uma inflammação directa do tecido esponjoso subjacente. Charcot acredita que a destruição dos meniscos e dos ligamentos inter-articulares se opera por um processo analogo ao das cartilagens de incrustação. O resultado de todas estas alterações intra e extra articula- res vem a ser no maior numero de vezes a ankylose cellular ; todos os observadores estão de accordo quanto á extrema raridade da ankylose ossea nestes casos. Pelo menos na infancia cremos bera que ella não venha a ser obser- vada, como não o foi até agora. Demais, o processo irritativo não attinge os limites últimos de sua evolução senão na fórma parcial do rheumatisrao chronico, e esta é até hoje desconhecida na infancia. Sabe-se,com eífeito,que nessa fórma de moléstia as vegetações, a usura, a eburnação, a rarefac- ção ossea, etc., tocam os extremos de sua intensidade. O exame do sangue no rheumatismo chronico dos adultos nenhuma noção especial parece ter até hoje fornecido. As in- vestigações feitas por Charcot, tendentes a descobrir a pre- sença de acido urico no sangue e na serosidade, deram resul- tados negativos. Em trinta e cinco doentes de rheumatisrao chronico não conseguiu elle encontrar traços desse corpo. A constituição do sangue modifica-se necessariamente em um período adiantado do mal, sendo clinicamente verificada a existência quasi invariável de uma anemia mais ou menos accentuada. Em nossa doente a secrecção urinaria augmentou conside- ravelmente durante operiodo regressivo da moléstia, deposi- tando-se no vaso que recebia o liquido uma abundante camada constituída particularmente por phosphatos alcalinos e terrosos. A. decomposição da urina effectuava-se com grande rapidez. Novas investigações dirigidas neste sentido virão elucidar este ponto ainda insuíficientemente averiguado da historia da moléstia. 0 rheumatismo clironico nodoso é uma moléstia, cujo diagnostico não é absolutamente diííicil, desde que se pro- ceda a um exame attento da natureza das alterações arti- culares, da maneira por que ellas se desinvolveram, assim como dos desvios e das attifcudes viciosas consecutivas. Algumas aftecções existem, comtudo, capazes de offerecer certa analogia apparente com ella, tornando, á primeira vista, menos facil a distincção. Entre estas figura em pri- meiro lugar a golta. O exame attento das arthropathias, dos phenomeuos geraes que as acompanham, a edade dos doentes etc. conduzirão, porém, facilmente o practico ao re- conhecimento exacto da moléstia. Nós passaremos a accen- tuar resumidamente os signaes mais salientes que separam clinicamente as duas entidades mórbidas. A gotta é, sem contestação, uma das moléstias mais ra- ramente observadas antes da puberdade, e não conhecemos mesmo ;um só caso bem averiguado desta affecção na pri- meira infanda. Em nosso paiz, em que é ella quasi desconhecida, ainda posta a essa localisação), constituem as manifestações desta ordem urr. facto provado, lioje, por um certo numero de observações, entre outras as colhidas pelo Sr. Professor Charcot. Em alguns casos é, com effeito, possivel crêr-se que o comproraettimento do coração sobrevenha no decurso do periodo agudo ou subagudo do rheumatismo, quando elle não se apresenta chronico d'emblée. Em nove autopsias, que practicou, em 1863, o Sr. Charcot, conjunctamente com o Sr. Cornil, quatro vezes foram encontrados vestígios de pericardite. O eminente clinico da Salpêtrière addicionou a estes mais um interessante caso observado pelo Dr. Cb. Mauriac no Hospíce des Ménages. Stokes e Adams não admit- tem, entretanto, a frequência das localisações cardíacas no rheumatismo nodoso dos adultos. Quanto á endocardiíe, tem ella sido não muito raramente encontrada por observadores da ordem de Trastour, de Beau, Ollivier, Komberg e de Charcot. « Le plus souvent, diz este eminente professor, il y a eu, chez ces sujets, à une époque antérieure, une attaque de rhumatisme articulaire aigu : mais j’ai recueilli un assez grand nombre d’obser- vations dans lesquelles rendocardite s’est développée chez des rhumatisants chroniques, sans que la maladie ait jamais affectée la forme aiguée. » (1) Si, pois, na velhice, em que menos predominam a pericardite e a endocardite agudas, revelam os factos a sua presença em um certo numero de indivíduos affectados do rheumatismo osseo, é, por via de regra, acceitavel a hypothese de que seja a localisação car- díaca um facto de não pequena frequência no rheumatismo chronico da infancia. Os casos que conseguimos archivar neste trabalho e que apenas attingem, como vimos, o nu- (1) Loa. citp. !88. mero de nove, somente em um se tornou patente a locali- sação cardíaca. No caso que nos pertence não pudemos reconhecer indicio claro de uma manifestação desta ordem ; dos outros apenas encontramos rapida menção, sem dado algum que eluci- dasse esta questão. A observação unica, á que alludimos, é a que colheu o Dr. Martel no serviço do Dr. Barthez (Hospital das crianças). O Sr. Charcot, que a cita, resume-a nos se- guintes termos : « Chez un enfaiit de dix ans, atteiut de rlmmatisme clironique, 011 vit se développer une péricardite caractérisée par des bruits de frotement àla région précordiale. Cette affection, du reste, ne persista pas longtemps. Le rhu- matisme avait subi une exacerbation pendant la durée de la péricardite ; cet enfant présenta plus ta rd à un très- haut degré les déforrnations caractéristiques du rhumatisme noueux. » (1) Infelizmente, é esta a unica observação pertencente á in- fância, na qual se archiva a infiammaçao cardíaca, ma- nifestamente ligada ao rheumatismo chronico. Devemos fazer notar que nelle desenvolveu-se a pericardite em um periodo ainda pouco adiantado da moléstia, isto ó, ainda antes das deformações. E’ bern para crêr-se que seja, com effeito, a primeira phase da moléstia aquella durante a qual se manifestem as localisações cardíacas, podendo mesmo ser que, mais tarde quando attinga ella o periodo das defor- mações consecutivas, se não encontrem, em certos casos, vestígios do compromettimento do coração ; sabendo-se que a endocardite e a pericardite são na infancia mais suscepti- (l) Loc, cit., p. 100. veis do que em outra qualquer edade de uma terminação feliz e prornpta. Parece, portanto, fóra de duvida que as affecções cardiacas podem sobrevir, nas primeiras edades, sob a influencia do rheumatismo chronico progressivo, sem que possamos ainda aquilatar o grau de frequência das mesmas affecções em relação ás demais edades em idênticas condições. Só novos factos poderão esclarecer este poncto ainda obscuro da patbologia da infanda. As investigações necroscopicas ainda não foram até boje eraprehendidas, que o-saibamos, na infancia, em relação ao rheumatismo chronico nodoso, e isso parece devido, corno em nossa doente, á feliz terminação dos raros casos desta ordem encontrados nas primeiras epochas da vida. Parece, comtudo» fóra de duvida que as lesões observadas nas outras edades podem mais ou menos profundamente produzir-se nas crian- ças de baixa edade, como parecem clinicamente demonstrar os raros casos archivados neste nosso estudo. Em qualquer periodo da existência em que se desenvolva a moléstia, o processo iuflammatorio offerece de notável o seguinte: extre- ma lentidão de sua evolução, a ausência constante de suppura- ção. O processo morbido consiste em uma neoformação hyperplasica das cartilagens diarthrodiaes, dasynovial e das demais partes componentes da articulação. Convém todavia notar-se que, ao lado deste processo neoplasico, observa-se simultaneamente um trabalho regressivo, consistindo na des- aggregação, na usura do tecido cartilaginoso. O Professor Billroth compara com muita propriedade a associação destes dous processos oppostos em um mesmo poncto do orga- nismo com o que se observa na carie e no processo ulcerativo em geral (1). A hyperplasia e a usura constituem,pois, os dous (1) Elém. de path. chir. génér., trad. franc., Paris, 1&68, p. 593. processos fundamentaes da poly-arfchrite deformante; delles procedem todas as alterações anotomicas characteristicas da moléstia. O trabalho morbido compromette á principio as cartilagens diarthrodiaes, e invade posterior e successivamente a syno- vial,o periosteo, o osso, etc. A superfície livre das cartilagens torna-se rugosa, bosselada, e mais tarde adquire o tecido uma certa fragilidade, em virtude da qual se fragmenta facilmente em pequenas fibras, e desaggrega-se mesmo, á final, em alguns pontos, deixando a descoberto a superfície ossea sub- jacente. A usura completa da cartilagem só se opera, entre- tanto, em ura periodo muito adiantado da moléstia, quando sobretudo as superfícies articulares estiveram, durante todo o tempo delia, subjeitas a repetidos attritos e a fortes pressões. A camada ossea delgada que se fórma sob a cartilagem á medida que esta se destroe é pelo Professor Rindefleish attri- buida á uma osteite condensante, sendo esta, na opinião de Billroth, o resultado da irritação mechanica do attrito. Uma certa porção das extremidades ósseas póde ser progres- sivamente destruída por este processo, dando lugar muitas vezes a deformações e luxações irreparáveis. A’ proporção que esta usura cartilaginosa e ossea se opera, a neoformação hyperplasica prosegue gradualmente na peripheria das car- tilagens diarthrodiaes; as vegetações se-infiltram de saes calcareos, constituindo os osteophytos. Idêntico processo formador se effectua na synovial: ella começa por vascularisar-se; os seus prolongamentos se en- tumecem, as villosidades destes se multiplicam e as cellulas cartilaginosas nellas normalmente existentes (cellulas de Klliker) segmentam-se. O liquido synovial, entretanto, não augmenta de ordinário. Nos dous períodos extremos da mo- léstia, as alterações próprias da synovial não podem ser menos probabilidade haverá de ser encontrada nas pri- meiras edades. Quanto ao rheumatismo chronico, os factos precedentemente archivados deixaram demonstrado que pode elle affectar, embora raramente, crianças da mais baixa edade. A gotta exerce uma predilecção manifesta para o sexo masculino, segundo resulta das estatísticas de todos os paizes em que domina ella ; o rheumatismo chronico com- promette ao contrario de preferencia o sexo feminino. A gottaaffecta indistinctamente tanto os indivíduos fortes e robustos como os debeis; a polyarthrite deformante é, como já o fizemos vêr, uma affecçao inherente á miséria e uma das consequências delia : a primeira destas entidades mórbidas reina quasi exclusivamente na alta esphera so- cial e parece em grande parte ligada á hygiene alimentar da classe rica; a segunda é, pelo contrario, subordinada ás privações de toda a sorte, sobretudo á má alimentação. Aquella compromette, em regra geral, de preferencia as pequenas articulações e particularmente o grosso artelho ; esta affecta simultaneamente as grandes e pequenas articu- lações. A presença dos tophos é para o Sr. Charcot um character especifico; elle faz notar que, quando as nodosidades rheu- maticas perfuram a pelle, a parte descoberta é constituída por tecido osseo e nao por concrecções tophaceas. O modo de desenvolvimento da gotta é characteristico e essencialmente diverso do da polyarthrite deformante. Os primeiros attaques daquella sao representados por cri- ses periódicas mais ou menos affastadas; a.polyarthrite defor- mante ou succede ás manifestações agudas do rlieuraatismo, ou se apresenta chronica d'emblée, nao soffre interrupções; podem sobrevir exacerbações febris é verdade, mas a sua marcha é essencialmente lenta e progressiva. A gotta poderá aífectar maior numero de articulações, sobrevindo também as retracções musculares analogas ás do rheumatismo chronico; mas a uniformidade e symetria das arthropathias, a natureza das nodosidades, a ankylose cellular, a rigidez articular, etc., farão dissipar qualquer duvida sobre o diagnostico. A maior diííiculdade deste far-se-ha sentir, como muito bem observa o Sr. E. Besnier (1), entre os casos de gotta sem lophos e o rheumatismo chronico sem osteopbytos mani- festos. Nestes casos, a edade, as condições sociaes do doente, o desenvolvimento e a marcha da moléstia, os antecedentes hereditários, etc., poderão orientar o practico. As localisa- ções visceraes da gotta constituem egualmente um elemento importante para o diagnostico, sobretudo as que se observam para o lado do centro circulatório e do apparelho renal. As localisações cardíacas da gotta e da arthrite defor- mante effectuam-se, com effeito, por dous processos diver- sos : as alterações anatómicas impressas ao coração pela gotta consistem em uma degeneração gordurosa das fibras musculares deste orgão ; no rheumatismo chronico nodoso são as lesões cardíacas essencialmente inflammatorias, asses- tadas no pericárdio, e só consecutivamente se affecta o tecido mascular (Charcot). As alterações nephreticas são extremamente frequentes na gotta, constituindo por assim dizer a regra. Só em casos muito adiantados de rheumatismo chronico, na Salpêtrière, tiveram os Srs. Cornil e Charcot frequentes occasiões de ve- rificar a presença de uma nephrite alburainosa. Na infancia não cremos que se «tivesse observado esta sorte de alterações, nem sabemos que tenham sido feitas investigações neste sentido. (1) Loc. cit., p. 694. As desordens gastricas tão bem descriptas pelo Sr. Charcot na gotta e que representam uma das mais frequentes loca- lisações desta moléstia não são observadas na polyarthrite deformante. No seguinte quadro podemos resumir os signaes distin- ctivos das duas affecções em questão. GOTTA Desconhecida na primeira infancia. Predomina no sexo mascu- lino. Affecta de ordinário os in- divíduos fortes e robustos. E’ peculiar ás classes abas- tadas e aos indivíduos que abusam dos prazeres da mesa. Assesta-se de preferencia nas pequenas articulações. Marcha subjeita a intermit- tencia. As saliências peri-articula- res são constituídas por con- creções tophaceas. Presença de acido urico no sangue e na serosidade. Localisações cardíacas li- mitadas ao tecido muscular. Desordens gastricas charac- teristicas. Alterações renaes quasi in- falliveis.* RHEUMATISMO NODOSO Raro na infancia, muito menos porém que a gotta. Observa-se geralmente no sexo feminino. Desenvolve-se de preferen- cia nos individuos fracos e depauperados. Commum aos indigentes, subjeitos,portanto,a uma ali- mentação viciosa. Corapromette simultanea- mente as grandes e pequenas articulações. Marclia lentae progressiva. Nodosidades ósseas fazendo corpo com os tecidos articu- lares. Ausência de acido urico nos líquidos do organismo. Localisações cardíacas es- sencialmente inflammatorias, assestadas primittivamente nas membranas. Ausência de desordens gás- tricas characteristicas. Lesões renaes muito tar- dias. As arthrites chronicas, subordinadas particularmente á escrophulose, assaz commum na infancia, não podem ser con- fundidas com as arthropathias do rheumatismo chronicopro- gressivo. Antes de tudo, muitos cirurgiões que se tem occu- pado das affecções externas da infancia, como Holmes e P. Guersant, não consideram a existência da diathese isola- damente com a causa immediata da arthrite, mas admittem a intervenção de uma influencia traumatica como determi- nante das lesões articulares. Estas lesões são, de ordinário, limitadas á uma unica articulação, ás grandes como as do joelho sobretudo, e só por uma mui rara excepção poderão assestar-se nas pequenas. Na arthrite chronica o processo inflammatorio parece ter, ordinariamente, o seu ponto de partida no tecido osseo ; na polyarthrite deformante aquelle tem sua séde primittiva nas cartilagens diarthrodiaes e delias se propaga ao tecido osseo. A suppuraçao, que é infallivel na arthrite escrophulosa, náo se produz absolutamente no rheumatismo nodoso. Outros signaes locaes da arthropathia escrophulosa tornam ainda mais facil o diagnostico diíferencial. As fuugosidades peri- articulares, os abcessos, as fistulas rectas ou tortuosas, pelas quaes se eliminam muitas vezes sequestros osseos, e, final- mente, um elemento de grande valor também: a dor, pre- cedendo por algum tempo as lesões articulares,characterisam de modo tao saliente a arthrite chronica escrophulosa, que difficilmente se poderá confundil-a com a polyarthrite de- formante. A periostite phlegmonosa, descripta por Schutzenberger (de Strasbourg) e tao acuradamente estudada por Giraldès (1), ainda menos analogia poderá offerecer com a moléstia com que nos-occupamos. Como a arthrite escrophulosa é asyme- trica, assesta-se em um só membro e também reconhece (i) Leçons cliniques sur les malaãies chirurgicales des enfants, Paris, 1869, p. 588. como causa determinante c traumatismo. Demais, a séde da dor, ora acima ora abaixo da articulação, a grande extensão do edema, que simula antes uma lympbatite, os vastos abcessos profundos, a suppuração prolongada não poderão deixar pairar duvidas no espirito do nractico. Até 1831, era crença geral que certas artbropathias de origem mal averiguada podiam depender de uma causa de natureza rheumatica; Mitchell, eminente cirurgião ameri- cano, procurou então fazer crêr que estas alterações articu- lares eram ligadas a uma lesão medullar (1). O interessante trabalho de Mitchell cabio, entretanto, no olvido até 1868. Só trinta e sete annos depois foi, com effeito, que os Srs. Cbarcot (2) e Benjamin Bell 13) procuraram de- monstrar que as lesões cerebraes e medullares podem dar origem a verdadeiras artbropathias delias exclusivamente dependentes. Os posteriores estudos do Sr. Cbarcot, e as investigações de Benjamin Bali, Joffroy, Blum, Gombault, Berret, Mitchell filho, Cbifford, Albutt e Roseutbal vieram successivamente confirmar o resultado das precedentes ob- servações. Estas artbropathias tem sido, entretanto, melhor estu- dadas em relação á esclerose posterior da medulla e á atro- pina muscular progressiva. A ataxia locomotriz progressiva tem, como se sabe, de ordinário, nrn começo muito obscuro, revelando-se, antes de qualquer outra desordem characteris- tica, por dores vagas, erraticas e algumas vezes demoradas (I) American Journal of the Medicai Sciences,V. VIII, 1831, p. 55. (5) Sur quelques arthropathies qui paraissent dependre d'une lesion du cerveau et de la moelle épinière. (Arch. dephys., t. I, Janv., 1868). (3) On diseases o( the Joints connected vrilh Locomotor ataxy {Med. Tim. and Gas., Oct. 31, 1868.) nas articulações, simulando dores rheumaticas. Ao lado desta marcha insidiosa da moléstia, de certos phenomenos morbidos mal accentuados, póde ser, em alguns casos, ob- servado o apparecimento de lesões articulares, cuja verda- deira natureza póde passar desapercebida. No período cora- preliendido entre os 20 e 50 annos, em que de preferencia se desenvolve a moléstia, a presença destas arthropathias, que se mostram ordinariamente na phase inicial da moléstia, coincidindo com outros symptomas mal definidos que podem ser attribuidos, como faz notar Rosenthal, á influencia rheumatica, trará alguma dificuldade para o diagnostico differencial com a polyarthrite deformante. Na infancia, porém, não poderá haver confusão entre estas duas entidades mórbidas. Primeiro que tudo, a ataxia lo- comotriz é uma moléstia excessivamente rara na segunda infancia e parece que ainda não encontrada na primeira. Du- chenne (de Boulogne) cita um caso observado em uma me- nina de 18 annos ; Rosenthal assegura mesmo nunca haver observado a ataxia na infancia (1). Os autores que se têm consagrado ao estudo da pathologia infantil não fazem egualmente menção desta moléstia. Pela nossa parte, cumpre-nos declarar que ainda não a encon- trámos em crianças mesmo tocando a puberdade. Ainda, o modo de desenvolvimento das alterações articulares, os seus characteres anatómicos, a sua marcha, etc., fornecerão ele- mentos precisos para um diagnostico seguro. As desordens articulares da ataxia desenvolvem-se rapidamente, sem pro- droraos, sem reacção febril; as grandes articulações são de preferencia as cornpromettidas e mais raramente as pe- quenas. A tumefacção considerável que se observa na arti- culação aífectada é devida a um vasto derrame synovial e (1) Jraité clin. des mal. du syst, nervtrad. fr., Paris, 1878, p. 378. ao edema, devendo-se notar que a pelle que a reveste não se mostra alterada era seu colorido. A. ausência da dor permitte à articulação uma certa mobilidade articular compatível com as desordens já produzidas. O Sr. Charcot vio doentes que andavam e utilisavam-se dos membros sem grande soffrimento. A marcha das lesões é bastante rapida, de sorte que, em pouco tempo, se apresentam as luxações e os des- vios dos membros. Ainda mesmo no período mais adiantado da arthropathia, a sensibilidade local não se exalta, e isto constitue um elemento de grande valor para o diagnostico. Blum cita mesmo casos de doentes que luxavam e reduziam as articulações compromettidas sem accusar a mais leve dor. Os traços salientes da arthropathia ataxici que acabamos de accentuar tornam, na verdade, impossível a confusão com aquelles pertencentes ao rheumatismo chronico, parti- cularmente nas primeiras edades. As desordens articulares consecutivas e ligadas á atrophia muscular progressiva mais facilmente se distinguem das arthropathias rheumaticas. Está hoje fora de duvida que a atrophia muscular progressiva affecta também a infancia, e assim o provam as observações de Duchenne (de Boulogne), de Hammond e de alguns outros autores. Mas estes mesmos observadores têm feito sentir que a moléstia se apresenta então sobumafórma distincta daquella encontrada na edade adulta. Com eífeito, são os musculos da face os primeiros compromettidos e posteriormente os dos membros supe- riores ; só tardiamente, depois de um período de tempo bastante variavel, chegam a ser affectados os musculos dos membros abdominaes. A coincidência, pois. das arthropathias com as atrophias musculares da face, dos braços, os characteres proprios dessas alterações articulares, analogos aos que descrevemos na ataxia, não permittirão a mais leve duvida em relação ao diagnostico. Demais ainda não possuimos uma só observação destas arthropathias encontradas na infancia concomitantemente com a atropina muscular progressiva ; mesmo as mais re- centes observações de Duchenne não fazem absolutamente menção delias (1). 0 rheumatismo nodôso bem se póde chamar a cmx medico- rum, tão refractaria se mostra aos proprios meios julgados heroicos e tão tardiamente se apresentam os resultados, quando não são aquelles porventura estereis. Muitas vezes o grande embaraço da cura procede da falta de persistência do doente, que não conta, desacoroçoado, com as possíveis melhoras provenientes da insistência do tractaraento. Poucos são, na verdade, os pacientes que percorrem, até esgotal-os, os variados meios therapeuticos postos ao seu alcance; em regra geral, não fazem elles mais que ensaial-os, abandonando-os promptamente desde que a promettida efíicacia não se faz facilmente sentir. Seja qual fôr o agente capaz de realizar a cura, em um caso dado, nada se poderá conseguir, n’esta especie mórbida, sem prolongar-se devida- mente o seu emprego. Póde-se, portanto, considerar bastante diíßLcil a cura radical do rheumatismo nodôso, si não impos- sível, quando venha sobretudo associar-se aos demais ele- mentos contrários á falta de auxilio, de paciência e de pru- dência da parte do doente. O concurso d’este muito póde cooperar para o bom exito do tractamento. Entretanto, é preciso considerar-se que a situação do doente, sua edade (1) Vide- Defrélectrisation localisée, 3me. éd., Paris, 1872. e varias outras condiçOes individuaes entram poderosamente ern linha de conta para as probabilidades do resultado. Na infancia, certamente, o prognostico será muito menos desfavorável que nas edades adiantadas, em que predomina o movimento de decomposição, em que as forças vitaes já se vão extinguindo e muito pouco auxiliam á intervenção da arte. Os doentes pertencentes á classe indigente, habi- tando localidades baixas e húmidas, casas mal ventiladas e desprovidas das mais simples vantagens hygienicas, sub- jeitos á uma alimentação insufficiente e de má qualidade, achar-se-hão egualmente em condições muito pouco favorá- veis á feliz terminação da moléstia. Nós estamos convictos de que, embora seja a polyarthrite deformante uma aífecção essencialmente tenaz, muito ha a esperar, na infancia, de uma therapeutica instituída, desde logo, com critério e demora sufíiciente para julgar-se da inefíicia real ou apparente dos agentes empregados. Os elementos negativos se mostram em muito menor escala que nas outras edades. Além de todas as condições inheren- tes á organisação própria da criança, está provado que só excepcionalmente attinge n’ella a moléstia o periodo extremo de sua evolução. O prognostico é, pois, em regra geral, menos desfavorável que na edade adulta ou na velhice. Sem nos occuparmos do tractamento do periodo subagudo, que precede algumas vezes o desenvolvimento das lesões characteristicas do rheumatismo nodôso, e contra o qual se mostram de ordinário estereis os meios os mais bem dirigi- dos, passaremos desde já a tractar dos diíferentes agentes dirigidos contra esta aífecção em seu periodo de chronici- dade, demorando-nos particularmente no exame d’aquelles cuja eííicacia nos parece mais accentuada ou cujo emprego está menos divulgado.na practica medica. lodudos.—Magendie foi, secundo parece, o primeiro á in- troduzir o iodo na therapeutica do rheumatismo. Entre as manifestações desta diatliese em que ensaiou o il- lustre physiologista os preparados iodados, figura o rheuma- tismo clironico. Elie prescrevia o iodureto de potássio na dose de 2 a 4 grammas. Posteriormente a Magendio, Bounier tarnhem propoz o emprego do iodureto de potássio, em dose, porém, muito inferior, prescrevendo 25 centigrammas por dia. Já em 1829, Montault publicara varias observações sobre o emprego do iodo no tractamento da gotta e do rheuma- tismo. (1) Successivos ensaios dos iodados foram depois feitos no rheumatismo chronico, os resultados, porém, nem sempre corresponderam á espectativa dos practicos. E’ assim que vemos, em 1813, o professor Forget, de Strasburgo, fazer notar que, em dois annos de multiplicadas experiencias fei- tas com o iodureto de potássio na moléstia em questão, resul- tados muito pouco satisfactorios houvera obtido. Em 1850, outras observações appareceram chamando de novo a attenção dos médicos para a medicação iodada no rheumatismo chronico. Novos feitos em favor do iodureto de potássio foram assim divulgados por Massart no seio da Academia de Medicina de Pariz (2). Em 1852, o Sr. Lasègue, então interno de Trousseau, fez sentir os eífeitos vantajosos da tintura de iodo, empregada internamento nos casos menos rebeldes de polyarthrite de- formante. Estes primeiros ensaios foram pouco depois con- (!) Observations sur I’emploi de Viode dam le traitemcnt de la gonttc et rhumatisme; in Journal génèral de médecine, t. GVII, 1829. (2) lodore de poíassium contre le rhumatisme chroniquc ; in Buli. dt l'Académie de méd. Paris, 1850-1851, t. XVI, p. 578. tirmados por Delioux de Savigmac, que publicou dous casos de rheumatismo chronico curados pela administração da tintura de iodo, addicionada de iodureto de potássio, sob a seguinte formula : Poção gommosa a formula Tintura de iodo 75 centigram. lodureto de potássio. . . 5 » A dóse da tintura de iodo foi gradualmente elevada alg’r.,so. Idênticos resultados se fizeram sentir em vários casos mais em que haviam falhado outros medicamentos. Quanto á inter- pretação destes factos, assim se exprimia este autor : « II est fort difflcile de s’expliquer son mode d’action en pareil cas. Cependant on ne peut s’empêcher de rapprocher de son in- fluence sur le rhumatisme articulaire et sur la gymtte les goufiements d’articulation que les traitements iodiques pour d’autres maladies ont déterrninés sur certains sujets... Cette action physiologique élective sur les articulations devient- elle à I’occasion une substitution thérapeutique ? C’est une explication, mais elle n’est pas de nature à satisfaire tous les esprits. (1) » A acção da tintura de iodo contra o rheumatismo nodoso foi, porém, especialmente accentuada mais tarde pelo pro- fessor Lasègme, que, reproduzindo os seus primeiros ensaios no serviço de Trousseau, consegmio colleccionar vários casos frisantes de polyarthrite deforrnante curados por aquelle meio, os quaes foram publicados nos Archivos yeraes de medi- cina (2). A dóse do medicamento dada pelo Sr. Lasègme foi progressivamente elevada de oito a dez gottas, duas vezes (1) De Viodc dans le traitement du rJmmatisme, de la goutte, des crampes et des contractures; in-Bull. génér de thérap., t. XLIX, Paris, 1855. (2) Ardi. génér. de méd. 1856, t. Yítí, sino série. 72 por dia, até 5 e 6 grammas, no decurso das refeições ; to- mando por excipiente um pouco d’agua ou de preferencia o vinho de Hespanha, que mascara melhor o sabor do iodo. Nunca teve o autor occasião de observar phenomenos de iodismo,nememmagrecimentoprogressivo; os doentes nunca mostraram repugnância ao medicamento apezar de sua pro- longada administração. Naopinião de Trousseau, não possue esta medicação uma acção especifica no caso era questão, por isso que a sua eíßcacia não é constante ; elle a considerava antes como um modificador favoravel da nutrição, podendo também, em certos casos, exercer uma influencia indirecta sobre a arthropathia (1). O tempo parece haver se en- carregado de comprovar esta apreciação do illustre clinico do Hôtel-Dieu ; os numerosos insuccessos verificados pelos practicos de todos os paizes têm demonstrado, com effeito, que a tintara de iodo está muito longe de offerecer a garantia que lhe era a principio attribuida. Não queremos com isso dizer que se deva proscrever este medicamento da therapeutica da polyarthrite deformante, mesmo porque tem-se observado que a pluralidade dos doentes o-supporta sem accidentes, e nós isso temos visto mesmo na infancia. Em uma affecção da ordem daquella de que nos occupamos nenhum meio de algum valor poderá nem deverá ser abandonado, somente por não ser conside- rado um especifico, visto como nenhum conhecemos que tal titulo mereça no caso em questão. Em nossa doentinba os iodados mostraram-se quasi inertes, porém inoffensivos; apezar da sua tenra edade, pudemos administrar-lhe impu- nemente a tintura de iodo. Bem duvida alguma, affec- tando a moléstia crianças profundarnente escróphulosas, os iodados convirão ser applicados, pois, quando nenhuma (1) Clin. méd.r t. Ilf, Paris, 1868, p. 384. modificação exercerem sobre as arthropathias, muito pode- rão concorrer para modificar o estado constitucional dos doentes, estado que é, sem contestação, um embaraço á resolução da moléstia accidental. E’ nestas condições que julgamos dever aproveitar o oleo de figado de bacalháo, por muitos autores aconselhado contra o rheumatismo articu- lar chronico. O professor Forget, de Strasburgo, asse- gurava, em 1843, que, em sua practica assás extensa, se mostrara o oleo de figado de bacalháo inteiramente inerte no tractamento desta entidade mórbida. Obser- vava elle que, em regra geral, os doentes delicados de modo algum subjeitavam-se ao uso desta substancia, e aquelles que submettiam-se a isso acabavam, em pouco tempo, por adquirir uma repugnância invencivel ao medi- camento. Dos dez doentes do professor Forget, que tiveram a constância de usar do oleo de figado durante muitos mezes, nenhum experimentou effeitos manifestamente favoráveis ou a moléstia cedeu como com qualquer outro medicamento (1). Este descrédito lançado in hmine contra o oleo de figado de bacalháo nos parece sobremodo exagerado; pelo menos a tolerância delle na infancia é um facto geralmente obser- vado por quantos se occupam das moléstias das primeiras edades. Si não exerce provadamente este agente uma acção especifica, como cremos, sobre o rheumatismo nodôso, muito bons serviços poderá, entretanto, prestar como um succedaneo dos iodados e como ura excellente tonico mo- dificador da nutrição, tão enfraquecida na hypothese vertente. Ainda hoje perdura, como ja dizia Trousseau, um perfeito desaccordo entre os médicos, relativarnente ao valor thera- peutico do oleo de figado de bacalháo no rheumatismo (l) Buli. génér de thérap., Paris, t. XXV, 1843, p. 7. chronico. Segundo Muller, por elle citado, este agente me- dicamentoso só conviria no tractamento de duas especies de rheumatisrao : o rheumatismo musculo-fibrôso e o rheuma- tismo fibroso ; o primeiro reconhecendo por causa a miséria, a hereditariedade e a diathese escrophulosa ; o segundo o frio e a humidade (1). Nestas duas formas mesmo acreditava o illustre clinico do Hôtel-Dieu que só de um modo indirecto actua o medicamento, não modificando propriamente a diathese rheumatica, mas melhorando a nutrição gravemente compromettida. Preparações arsenicaes.—Jenkinson (deManchester), Bardsley (2), Kellie (3), Begbie (4), Fuller (5), e Garrod (6) na Ingla- terra, Beau (7), Gueneau de Mussy (8), e Charcot (9) era França tem aconselhado e empregado o arsénico no rheu- matismo chronico e particularmente na polyarthrite defor- mante. Ninguém, porém, insistiu com tanta confiança no emprego deste precioso agente therapeutico como o Sr. Gueneau de Mussy. Este eminente clinico não administra o arsénico internamento, sinão quando os banhos contendo, (1) Traité de ihérap., Bme. cdParis, 1868, p. 352 C Buli. dela Soe. méd. prat., 1851-1852. (2) Medicai Reports. Lor.don, 1807. (3) Edinb. meã. and Siirg. Journ., 1808. (4) Edinb. med. and Surg. Journal, 1858. (5) Loc. cit. (6) La Goutte, sa nature, son trailcment et Ic rhumatisme goutteux, trad. franc., Paris 1867. (7) Traitement de Varthrite nevreuse par Vacide arsónieux a I'interieur. Jn Gaz. deshòp., Paris, juilleí 1864. (8) JDe Vemploi des hains á Varséniaíe de sonde contre le rhumatisme noueux. Lu Gaz. des hôp,. aôut, 1861—Du traitement du, rhumatisme noueux par les bains arsénicaux. In Buli. génér. de thèrap., sept., 1863.—Leçons sur le rhumatisme chronique. Iu Ga", des hóp,, janv. et fév. 1873. (9) Loc. cil., p. 246. em dissolução, o medicamento são contra-indicados ou im- possíveis de serem usados pelos doentes. No primeiro caso elle dá preferencia ao licor de Fowler ou a uma solução de arseniato de soda. O Sr. Gueneau de Mussy faz variar o tractamento balneario conforme o character da moléstia. Quando ella se apresenta francamente chronica, prescreve banhos contendo em dissolução : Sub-carbonato de soda . . . 100 a 150 gram. Arseniato de soda la 8 » Associadamente faz tomar internamente ; lodureto de potássio. ... 24 a 75 centigr. Extracto de quina .... 50 centigr. a 1 gram. Quer em pílulas, quer em poção ; em pequenas dóses antes das refeições, de modo a poupar o mais possivel a regula- ridade das funcções digestivas. Quando o rheuraatísmo não é francamente chronico e succede á forma aguda ou sub- aguda, quando o systema nervoso do doente se acha sob a influencia de uma certa excitação, prefere o autor o emprego exclusivo do arseniato de soda (na dóse de 2 a 10 gram.), supprimindo o carbonato de soda, que torna o banho mais estimulante. Algumas vezes, com o fim de approximar a composição do banho á das aguas mineraes, que encerram também uma matéria organica, associa-lhe 270 grammas de gelatina. A temperatura daquelle deve variar entre 33 a 36 graus centigr., não só para facilitar a absorpção, como para activar o eífeito estimulante delle. A sua duração deve ser de 3/4 de hora à 1 hora e meia. O eminente clinico aconselha á principio ura banho por dia, podendo-se progressivamente augmental-os até 4 diariamente, havendo perfeita tolerância da parte do doente. Convem fazer, corntudo, algumas ■interrupções de modo a deixar moderar-se a excitação que elles produzam, tendo-se sempre em vista os primeiros effeitos obtidos, antes de pro- seguir no seu emprego. Depois de cada banho o doente deve guardar o leito por espaço de uma á duas horas, durante as quaes se produz uma transpiração mais ou menos copiosa. Quando a excitação do banho se exagera, aconselha o autor a semente de cicuta em pilulas (na dóse de 5 a 10 centigr.), associada aos pós de Dower ou á massa de cynoglossa. Fluxão para a pelle, diaphorese, augmento da secreção renal, erythema e prurido mais ou menos generalisado, taes são os effeitos experimentados ordinariamente pelos doentes. O Sr. Gueneau de Mussy verificou egualmente que as arthropathias se modificavam muito favoravelmente, sobre- tudo quando as lesões ósseas não se achavam muito adian- tadas, A tumefacção e a rigeza articular cediam, e as deformações mesmo diminuíam, permittiudo alguns movi- mentos aos membros. Não convem, segundo o autor, interromper prematura- mente o banho, logo que as melhoras se annunciam, mas prolongal-os até que a cura se possa julgar definitiva. Elle acha prudente repetil-os todos os annos, na estação apro- priada, em numero de 15 a 25. O Sr. professor Charcot, que ensaiou com algum proveito, em certos casos, a medicação arsenical na Salpêtrière, affirma que ella mostrou-se improfícua ou mesmo nociva nos casos muito inveterados do rheumatismo nodoso, sobretudo nas doentes de edade muito adiantada. A explicação do effeito do arsénico, sob a fórma de banhos, ainda não foi dada. Villemin,Reveil eDucom, pharmaceutico da Salpêtrière, que procuraram descobrir na urina traços do medicamento, depois dos banhos, chegaram a resultados to- talmente negativos. Para o Sr. Gueneau de Mussy, porém, os effeitos therapeuticos estão fóra de toda a duvida ; o facto clinico é, segando elle, incontestável. Pensa o illustre clinico que alguma absorpção, embora li- mitada, sempre se faça, por isso que a acção do banho arse- nical é analoga á do arsénico administrado internamente. Entretanto, o Sr. Charcot julga muito provável que estes dous methodos não actuem do mesmo modo sobre o orga- nismo, admittindo-se mesmo que sejam ambos egualmente efficazes para combater a moléstia, o que elle, coratudo, põe em duvida. E’ fácil, portanto, concluir-se que a questão da medicação arsenical na polyarthrite deformante ainda está longe de ser resolvida. Na pequena doente, que faz o assumpto da nossa obser- vação, fizemos prolongado emprego do arsénico internamente e somos levados a confessar que, alem das vantagens colhi- das para o lado do estado geral, algumas modificações favo- ráveis pudemos observar para as arthropathias. As melhoras, porem, não progrediram e, como vimos, tivemos de recorrer a outros meios. Alcalinos.—Não só no rheurnatismo articular agudo, como no chronico é desde muito tempo empregado o bicarbonato de soda. Entretanto, os resultados verificados pelos diffe- rentes practicos não se acham de accordo. E’ assim que vemos de um lado Garrod assegurar que os effeitos da medi- cação alcalina são muito menos salientes na polyarthrite deformante que nas outras manifestações subagudas e chro- nicas do rheurnatismo ; ao passo que aíflrma o Sr. Charcot ser esta a medicação que mais confiança lhe merece, se- gundo a sua experiencia pessoal. Elle o emprega era alta dose, de 30 a 40 grammas por dia e durante muitas semanas, sem haver jamais observado os symptomas de uma dissolução do sangue. E’ preciso, todavia, notar-se que o bicarbonato de soda foi de preferencia empregado pelo Sr. Charcot durante as exa- cerbações febris da moléstia. Nós também o administramos á nossa pequena doente na phase subaguda do rheumatismo, mas nao nos atrevemos a usar de doses elevadas. A proposito das doses altas dos alcalinos nesta aíFecção nos inclinamos a abraçar as doctrinas do Sr. E. Besnier, que a este respeito assim se exprime no seu já mencionado artigo do Diccionario de Decbarnbre : « Dans presque toutes les tentatives que j’ai faites et toutes les fois que j’ai pu acquérir la preuve certaine (chose souvent bien ardue dans nos hôpitaux) que les doses prescriptes étaient réellement administrées en totalité, entre le poids de 10 à 20 grarnmes du médicament, il surveaait de I’intole- rance, de la diarrbée, de I’excitation vésicale, et parfois, surtout dans le rhumatisme chronique, une exacerbation qui semblait suivre de près I’emploi du médicament. C’est donc une médication qui ne peut pas être I’object d’une formule fixe ; I’action de ce médicament étant très variable suivant les conditions individuelles, et devant être mesurée pour cbaque cas particulier. Je ne saurais, d’autre part, trop engager les auteurs qui prescriront des doses élevées de ce médicament à s’assurer directement que les doses sont réellement prises par les malades, précaution à laquelle ne songent généralement pas assez les expérimentateurs en thérapeutique, sur notre terrain hospitalier, si déplora- blement défectueux sons ce rapport. » (1) O nitrato de potassa, em alta dose, precouisado outr’ora por alguns médicos e particularmente por Martin-Solon, está hoje quasi banido do tractamento da artbrite defor- (1) Loc. citp. 707. mante, a menos que não haja opportunidade para empre- gal-o em alguma das exacerbações subagudas do mal. O Professor Forget já assegurava que no rheumatismo chronico se mostrava o mais das vezes sem eífeito este me- dicamento. Este sal de potassa é hoje quasi que exclusivamente admi- nistrado na forma aguda ou subaguda do rheumatismo. Guaiaco.—O Sr. Charcot afflrma haver empregado com van- tagens analogas ás do arsénico a tinctura ammoniacal de guaiaco. O primeiro eífeito do medicamento é, segundo elle, uma exasperação dos symptomas locáes ; á esta, porem, succede uma melhora notável ; a mobilidade das articulações reapparece no fim de certo tempo e o doente experimenta um allivio manifesto. Nenhuma experiencia possuimos a este respeito, nem nos consta que os resultados preconisados pelo Sr. Charcot hajam sido obtidos por outros practicos. Na infancia, pelo menos, não conhecemos emprego algum desta ordem. Medicação Saiicylica.— Em sua interessante communicação feita, em 1877, á Academia de medicina de Pariz (1), sobre as propriedades therapeuticas do acido salicylico e do salicylato de soda, citou o professor Germain Sée vários casos de cura de polyarthrite deformante, devida a este novo medicamento. O resultado das suas observações foi o seguinte : Em dous velhos tractados no hospital, nenhum successo ; em um terceiro caso de rheumatismo nodoso, em um indi- víduo moço ainda, houve uma melhora considerável. (1) Etudes sur Vacide salicylique et les salicylates *, traitment durhuma- tisme aigu et chronique, ãe la goutte et de diverses affections du système ntrvcux sensitif par les salicylates. In Buli. de Vacad. deméd. de Paris, t. V, Sroesér., 1877, p. 735. Em sua practica civil, colheu ainda o eminente professor tres casos dos mais frisantes. No primeiro, que datava de 16 annos, a moléstia havia in- vadido as quatro grandes articulações dos membros inferio- res, os punhos, os dedos, e a columna vertebral; o uso dos quatro membros tornara-se impossível. Em 15 dias de trac- tamento, as articulações superiores recuperaram a sua mo- bilidade, restando apenas na occasião da communicação al- guma rigidez das articulações tibio-tarseanas. No segundo caso, a moléstia compromettera os joelhos e os dedos. O terceiro era relativo á uma senhora de quarenta e dons annos, que soffria, já havia dons annos, de polyarthrite deformante, compromettendo quasi a totalidade das articulações dos membros ; havia insomnia e anorexia, alem de exacerbações febris. No fim de oito dias do tractamento, as dôres dissipa- ram-se, os joelhos ficaram livres. A cura não ponde ser, porem, completa pela diíficuldade de supportar a doente mais de 4 a 5 grammas do medicamento. O Sr. Sée foi precedido nestes ensaios por Sticker, era 1876. As conclusões deste observador foram, porem, total- mente oppostas ; elle considerou inteirarnento inútil o acido salicylico no rheurnatismo chronico, por isso que não possue a propriedade de provocar a reabsorpção dos exsudatos já formados. Em dons casos de rheurnatismo polyarticular chronico vulgar sobrevindo á um ataque franco de rheuma- tismo agudo, tractados pelo Professor Jaccoud, os resultados não corresponderam á sua espectativa. (1) Depois desta primeira communicação á Academia de medi- cina, vários outros casos de cura do rheumatismo chronico ponde reunir o Sr. Sée, entre os quaes quatro de polyarthrite deformante. Outros factos de rheumatismo chronico perten- (i) Buli. de PAcad. de méã. de Paris, {. V., 2me sér,, 1877, p. 829. centes aos Srs. Bouchard, Luys, Ricord, Brochin, e Soulatre (deJouy) dar mais força as suas conclusões (1). O Sr. Séo declara que os effeitos do medicamento não se podem obter sinão a custa de certos inconvenientes, taes como : perturbações auditivas, zoadas, surdez mais ou menos pronunciada e, á principio, anciedade de duração variavel; estes accidentes desapparecem, entretanto, afinal, manten- do-se as mesmas doses. Elle não considera, como Immermann (de Bâle) e outros médicos, o acido salicylico o especifico do rheurnatismo. Para nós, diz elle, este medicamento tem uma triplice propriedade ; Io calmar rapidamente as dores ; 2o di- minuir os engorgitamentos articulares ; 3o favorecer a elimi- nação de certos princípios do sangue (acido urico, uratos). Alem da propriedade antithermica, que parece sufficiente- mente demonstrada pelas numerosas observaaões feitas na Inglaterra, em França, na Allemanha e na Suissa, uma outra parece possuir em alto gráu o acido salicylico —a proprie- dade analgésica. Alem das provas clinicas consignadas nas differentes observações, a experimentação physiologica a que procedeu o Sr. Laborde sobre cães deixou bem de- monstrado este facto. A acção physiologica do salicylato de soda, diz este autor, se exerce de um modo predominante, electivo, sobre os pheno- menos da sensibilidade á dôr. Elle chega mesmo a dizer que talvez seja exclusivamente por esta acção analgésica que o acido salicylico intervenha na cufa do rheurnatismo articular (2). Pondo de parte a questão do mecanismo da sua acção, os casos archivados pelo Sr. Sée autorisam a proseguir-se no ensaio deste novo agente therapeutico no tractamento da polyarthrite deformante. No estado actual dos nossos co- (1) Loc. cit., p. 938. (2) Buli. deVAcaã. de mèd., t- V, 2rae Se.,;. Paris, 1877, p. 976. nhecimentos a este respeito, nem os insuccessos dos Srs. Stricker e Jaccoud, nem as vantagens preconisadas pelo illustre professor francez nos autorisam a formular um juizo definitivo. No caso, porém, em que se haja de ad- ministrar o salicylato, entendemos que se deva usar de toda a prudência e critério, como judiciosamente aconselham os Srs. Gueneau de Mussy e Bouchardat. Todavia, cumpre fazer notar que as crianças toleram tão bem como os adultos esta substancia, desde que não se transponham os limites da tolerância. Nós já o havemos administrado na infancia, em outros casos, sem o menor accidente; o mesmo tem acontecido ao Sr. Archambault, em Pariz. Não possuimos nem conhecemos caso algum do emprego do salicylato no rheumatismo nodoso da infancia, mas entende- mos dever chamar para elle a attenção dos practicos, que talvez possam d ahi colher inesperadas vantagens, sobretudo nos periodos menos adiantados do mal, pelo menos contra as exacerbações febris tão frequentes nesta afíecção. E’ esta, pois, uma questão practica á explorar. Nos casos de rheumatismo chronico em que empregou o sa- I licylato de soda, o Sr, Sée elevou a dóse do medicamento até oito grammas por dia e a manteve sempre durante o tracta- mento. Elle entende que as doses fraas mostram-se inertes. Tractando-se da infancia, nós aconselhamos que se não ex- ceda de seis grammas por dia, começando-se o tractameuto por uma dóse inferior a esta, até conhecer-se o gráo de tole- rância do pequeno doente. Damos preferencia, entre todas as preparações oíficinaes, á solução titrada doDr. Clin, da qual cada colher de sopa contêm duas grammas do sal. Convém administrar-se fraccionadamente a dóse a empregar-se em vinte e quatro horas, diluida em agua assucarada ou em vi- nho, segundo a preferencia dos doentes. Diluido, a acção irritante do salicylato sobre a mucosa gastrica é quasi nulla. Medicação tópica.—As badigeonmges de tintara de iodo figuram á frente das applicações locaes mais usadas nas differentes formas de rlieumatismo clironico. Na polyarthrite defor- mante é. com effeito, um dos meios revulsivos mais vantajo- samente empregados e que muito póde contribuir para a resolução das desordens articulares. Em nossa pequena doente foi este um dos meios de que mais uso fizemos local- mente e que algumas melhoras proporcionou-nos. A medica- ção tópica revulsiva não póde exercer, de certo, uma acção mauifestamente curativa, mas, como auxiliar das metamor- phoses regressivas, de muita utilidade se mostra nestes casos. Em uma interessante memória lida, em 25 de Julho de 1851, perante a. Academia de medicina da Bélgica, propôz o Sr. Jú- lio Guérin um novo methodo de tractamento,que denominou de Siibio-dermico (uucçues stibiadas) e cujo fim é supprimir as dôres das juntas nas aífecções rheumaticas articulares, tanto agudas como chronicas. Applicando a pomada stibiada como meio revulsivo, notou o Sr. Guérin que muitas vezes a erupção cutanea ordinariamente provocada por ella deixava de apparecer, sem deficiência dos effeitos- desejados. Mais tarde verificou ainda que, nestes casos, era em parte absor- vido o medicamento ; do que resultavam effeitos locaes e geraes simultaneamente; os primeiros constituidos pelo desapparecimento mais ou menos rápido da dor e diminuição considerável da tumefacção local; os segundos representados pelo enfraquecimento do pulso, pallidez da face, humidade da pelle,mais tarde por vertigens, tendencia ao vomito e rao por symptomas de intoxicação stibiada. O autor entendeu dever então distinguir neste caso a acção revulsiva, com formação de pustulas, da que elle deno- nomina dynamica local e geral. Para melhor interpretação dos effeitos therapeuticos da medicação em questão, o Sr. Guérin considera tres períodos distinctos das arthropathias: 84 o primeiro, incipiente {du début), characterisado pelas desordens da sensibilidade, o segundo dynamico, quando as desordens não tem affectado a nutrição local, e finalmente o periodo orgânico, durante o qual se operam as lesões nutritivas. E’ no primeiro destes tres períodos que a me- dicação stibio-dymmica actúa mais vantajosamente ; no se- gundo os seus effeitos são menos accentuados e no terceiro quasi sempre nullos. Elle aconselha que se façam uncções, tres vezes por dia, loco dolenti, com a pomada stibiada. O autor refere-se, em sua memória, á casos de rheurna- tismo gottôso, nos quaes esta medicação operou com suc- cesso. Ainda ha pouco, tocando n’este assumpto, na Aca- demia de Medicina de Pariz, á proposito da discussão ahi travada sobre o salicylato de soda, tornou a confirmar com grande convicção os seus primitivos ensaios, appellando para os subsequentes successos obtidos tanto em sua prac- ticacomo na de outros collegas (1). Nenhuma experiencia pessoal possuímos nós acerca da medicação stihio-dermica do Sr. Julio Gnérin, mas, contando, como elle proprio assegura, com os effeitos adynamicos con- secutivos á absorpção stibiada, acreditamos que, só muito cautelosamente, se deva pôr em practica este methodo de tractarnento ; particularmente nas crianças, que são, por via de regra, menos tolerantes que os adultos dos preparados antimoniaes. Si a verdadeira acção desta medicação se dirige particular- mente sobre o elemento—dor, como confessa o Sr. Guérin, facil será substituil-a por outra congeuere e menos perigosa pelos effeitos de sua absorpção. As fricções calmantes, anodynas, poderão ser associadas aos outros meios de combater as dores articulares, particu- (1) Essaisur la rnélhode stibio-dermique; rnemoire Ia à l'Acadéraie de mé- decine de Belgiqae, séance du 25 Juillet. InGaz. méd. de Paris, 1851, p. 685.—8u1i. de PAcad. de méd., t, V, 2me Sér., Paris, 1877, p. 1026. larmente durante as exacerbações febris ; elles são bem pre- feríveis, como dizíamos, á medicação stihio-dermica do Sr. Guérin. As fricções balsamicas e ammoniacaes poderão convir, como adjuvantes, em alguns casos. As ducbas de vapor são também aconselhadas com muito proveito. Como meio resolutivo e calmante ao mesmo tempo, li- gava grande apreço Trousseau aos banhos ou duchas de arêa quente. O processo por elle seguido resume-se no segminte : ou mergulha-se a parte aífectada em um sacco contendo arêa na mais alta temperatura que puder sup- portar o doente, ou faz-se sobre ella cahir a arêa. O banho, que deve durar de 1 a 2 horas, pode ser repetido duas a tres vezes por dia. Este meio, preconisado com tanto inte- resse pelo illustre professor, mostrou-se inteiramente im- profícuo no caso que nos pertence, apezar de havermos rigorosamente observado, no seu emprego, as regras indi- cadas pelo sen autor. Medicação lalnearia.—Floyer, Boynard, Ptearn, Fred. Hof- fmann, Pouteau e outros já haviam louvado as vantagens da agua fria na therapeutica das manifestações chronicas do rheumatismo : quem, porém, primeiro regularisou este methodo de tractamento no rheumatismo chronico foi Bon- net, de Lyon (1). Antes delle, entretanto, Barrier, chirur- gião do Hôtel-Dieu de Lyon, já havia publicado vários casos de rhematismo chronico graves, contra os quaes a hydrotherapia alcançára os mais notáveis resultados (2). Para taes eífutos, aconselhava o illustre professor de Lyon que se prolongue devidamente o tractamento, mesmo du- rante alguns mezes ; dizia elle que doentes curados nos es- (1) Traité des malaãies des articulations, 1.1, Paris, 1845, p. 528, (2) Gas. des hõp., 1842. tabelecimentos hydrotherapicos, ahi haviam ficado muitas semanas sem experimentar melhoras. Para elle a hydrothe- rapia é, sobretudo, indicada quando a moléstia reconhece particularmente por causa a humidade. Esta medicação activando as funcções da pelle, a circulação geral, preenche nestes casos a indicação causal. Fleury, que a este methodo therapeutico consagrou uma vida inteira de estudos e de experiencias, não deixou' de observar a influencia da hy- drotherapia sobre a polyarthrite deformante. Yarios factos por elle minuciosamente colhidos provaram que a agua fria, manejada por mãos babeis e adextradas, póde proporcio- nar successos inesperados, mesmo nos casos os menos pro- mettedores na apparencia. « Nous sommes convaincues, diz elle, qu’un traitement énergique bien dirige, employé dès le début de cette forme de rhumatisrne articulaire chronique etalors que la maladie n’a pas produit des désordres irrémédiables, en empechêrait les progrès, préviendrait les suites déplorables dont elle est la cause, et diminuerait de beaucoup le nombre des ma- Iheureux voués à la triste existence dont nous venons d'es- quisser le tableau. « Cette conviction est née en nous de Pobservation d’un certain nombre de malades arrivés à Bellevue, à divers dégrés de I’affectiou rhumatismale chro- nique, même alors que Pankylose avait commencé à envair les surfaces articulaires, et qui par un traitement hydrothé- rapique combiné avec les mouvéments graduellement forcés des articulations, ont fini, au bout d’un temps varia- ble suivant la gravité et Pancienneté de la maladie, par re- couvrer le complet usage de leur membre (1). » Tanto por seus effeitos directos e revulsivos como pela sua acção indirecta, tónica, não duvidamos que, em certas con- diçGes especiaes, convenha o emprego do tractamento hydria- (I) Trailé thérap. et olin. d’hyãrothérapie, 3™“ éd., Paris, 1866, p. 1067. 87 tico; não crêmos, entretanto, que a sua eíficacia seja cons- tante. E’, além disto, difficil de ser posto em practica em todos os casos. Os doentes extremamente depauperados, em profundo g’ráo de cachexia, nem sempre supportarão impu- nemente a intervenção deste meio. Nestas condições poder- se-ha recorrer ás compressas húmidas e revestidas exterior- mente de íianella sobre as articulações aífectadas, como aconselhava Bonnet, de Lyon. As aguas mineraes, usadas sob a fórma de banhos, con- stituem um dos methodos de tractarnento mais vulgarmeutp recommendados, particularmente na Europa. Todavia, os seus resultados são muito diversamente apreciados pelos differentes practicos que a elles têm recorrido. O que parece dever-se concluir das numerosas observações archivadas é que, para cada doente especial, tal agua, melhor do que outra, convirá; a priori, é quasi impossivel assegurar-se qual a fonte a que se deve elle dirigir. Muitas vezes, depois de as haver ensaiado differentes, chega afinal por acertar com a que lhe proporciona melhoras inesperadas. Em geral, são as aguas sulphurosas e alcalinas aquellas de preferencia aconselhadas nestes casos. O Sr. G-ueneau de Mussy, que, como vimos, recorre exclusivamente aos banhos arsenicaes, diz haver observado que as aguas thermo-sulphurosas exas- peram as dores e o trabalho morbido, sem que esta excitação aproveitasse á resolução da moléstia. O mesmo aconte- ceu-lhe com os banhos artiíicialmente preparados. Em nossa doente os banhos sulphurosos mostraram-se também infruc- tiferos. Niemeyer parecia acreditar que os effeitos desta medica- ção eram antes dependentes da temperatura elevada d’agua, mas o Sr. professor Lasègue, depois de repetidas experiên- cias feitas debaixo do ponto de vista chimico, chegou á per- feita convicção de que a temperatura representa o elemento capital na medicação balnearia. Notou o distincto professor que a agua egualmente mine- ralisada, porém em duas temperaturas differentes, produzia eifeitos distinctos. Passou elle então a ensaiar os banhos d’agiia simples, cuja temperatura era gradualmente elevada, até a de 40 a 45 gráos. Experimentando-os em doentes affec- tados de polyarthrite deformante ejá condemnados a guar- dar irremediavelmente o leito, vio apresentarem-se successos inesperados. Os movimentos tornaram-se menos embaraça- dos, as nodosidades e a rigidez articular modificavam-se muito favoravelmente. Aquelles em que prolongou, durante mezes, os banhos quentes, em numero de dous por dia, puderam mesmo levantar-se, andar e até descer escadas. Segundo o Sr. Lasègue, esta medicação, além de economica, tem a vantagem de poder ser prolongada indefinidamente, sem que o habito venha anniquilar os seus effeitos. Elle não os considera, entretanto, um verdadeiro meio curativo, mas capaz de exercer uma influencia favoravel bem demonstrada sobre certos symptomas, mui particular- mente nas épocas das exacerbações activas do mal. O autor prescreve certas regras que se devem guardar na adminis- tração dos banhos e das quaes depende o bom exito delles. A duração do banho deve ser de 20 a3O minutos, quando muito. A temperatura de entrada deve ser sempre inferior áda sahida. A elevação de temperatura convem ser gra- duassem transição brusca. A temperatura maxima indicada pelo Sr. Lasègue é de 48°, a media de 45°, grau de calor que não deve, porém, ser mantido além de 10 minutos, convindo que a parte do corpo não immersa n’agua fique preservada da acção dos vapores d’esta. Depois do banho o doente guardará tranquillamente o leito por algum tempo. O autor julga inúteis as duchas frias e as fricções depois do banho quente (1). (]) Ardi. génér. ãc méd., Paris,novembro, 1874. Si novos factos de cura vierem grupar-se aos que possue o illustre professor, tornar-se-ha este methodo therapeutico preferivel a medicação therrnal ordinariamente seguida, não só por sua economia, como ainda pela vantagem de ser accessivel aos doentes desprovidos dos recursos da for- tuna, aos quaes é absolutamente impossivel uma estação de aguas. Segundo uma communicação particular que nos dirigiu o Sr. Dr. Boucbut, esta medicação mostrára-se provei- tosa em algumas crianças que tractára de rheumatismo nodoso. Os banhos do mar são muito apregoados mesmo pelo vulgo, em nosso paiz, contra todas as formas do rheu- matismo, quer agudo, quer chronico. Doentes ha que se entregam cegamente a este recurso, sem ouvir os conselhos de um profissional, ignorando, por sem duvida, que elle não é isempto, si não de perigos, pelo menos de inconve- nientes sérios. Quando se queira ensaiar o uso desta medicação, será conveniente fazer comprehender ao doente o valor rigoroso das regras que devem presidir ao uso dos banhos. Não conhecemos caso algum bem averiguado de rheumatismo nodoso melhorado ou curado por este meio; na opinião, entretanto, de alguns hydrologistas elle tem se mostrado nullo no rheumatismo chronico em geral. Em relação ás crianças de tenra edade, entendemos que os banhos salg’ados só devem ser administrados em casa, elevando-se a temperatura d’agua. A respeito dos banhos de mar nas primeiras edades, não devemos calar um pe- queno protesto contra o uso geralmente seguido entre nós de serem levadas ao mar crianças ainda mui tenras. Não poderiamos, entretanto, melhor exprimir o nosso modo de pensar a este respeito do que transcrevendo as mui judicio- sas considerações adduzidas sobre esta questão pelo Dr. Roccas, medico inspector dos banhos de mar de Tronvide (1). « Tous les ans je vois des exemples fâcheux de cette ardeur imprudente des parents qui les porte à baigner dans la mer, mêrae des enfants de 8a 10 móis! Je ne saurais trop m’élever contre cette pratique aussi pénlleuse que peu mo- tivée, en dépit de quelques exemples heureux. « Je suis tout à fait de même avis que Mr. le Dr. Alexis Moreau, qui ne conseille pas les bains de mer pour les très- jeunes enfants (jusqn’à 2 et 3 ans), et je suis même plus timoré que lui; car à2et 3 ans, et même à 4, je préfère encore les bains de mer cliauds. » Tal é também a practica que seguimos e que aconselhamos a abraçar-se, tendo-se em vista ensaiar os banhos salgados nas crianças affectadas do rheumatismo chronico menores de quatro annos. Electricidade medica.—-Segundo Baierlacher (2), foi Schmt- zer o primeiro que lembrou-se de fazer applicação da electri- cidade ao tractamento do rheumatismo nodoso. Caheu e depois delle Froriep, de Berlim (3), em 1843, preconisaram as vantagens colhidas d’a faradisação nos rheumatismos chronicos. Os resultados annunciados por este autor foram, porém, esquecidos durante dez annos; só em 1854 é que vemos voltar a esta questão o Dr. Moritz Mayor (4), o qual, entre outras moléstias submettidas com successo á intervenção das correntes eléctricas (de inducção), indica o rheuma- (1) Traité pratique desiains de mer, 2me. éd., Paris, 1862, p. 163. (2) Dielnduction's-Elektricitat. Mrnberg, 1857, p. 218. (3) Die rheumatische Scliwiele. Dcrlin, 1843, p. 35. (4) Die Elcctricitat in ihrer Anwendung auf prsktisclie Medicin, BerJin, 1854. tismo clironico. Elle explicava estes effeitos pela acção ex- citante da electricidade sobre os vasos sanguíneos e lym- phaticos, augmentando a sua tonicidade. Pouco depois, o professor Remak, de Berlim, sem ter conhecimento das observações precedentemente consigmadas pelos autores que acabámos de citar, obteve em dous casos de rheumatisrno clironico tão notáveis effeitos com o em- prego das correntes continuas, que fez delias o objecto de uma communicação á Academia de Medicina de Pariz, em Setembro de 1856, Foi Remak o primeiro que applicou as correntes continuas ao tractamento do rheumatisrno. Estu- dando a acção por elle denominada catalyptica destas cor- rentes, verificou elle que os seus effeitos se faziam particu- larmente sentir sobre as desordens consecutivas ás arthro- pathias. Insistindo na practica deste precioso meio, acabou o illustre professor por introduzir deíinitivamente a elec- tricidade dynamica na therapeutica da moléstia que nos occupa. Segundo elle, o emprego methodico destas corren- tes consiste : 1. Em provocar a catalyse no interior da parte tendinosa da articulação aífectada ou de inflammação, ou de exsuda- ção, ou de exclerose ; 2. Em excitar ou accelerar o fluxo de líquidos por acções que actuam sobre os vasos que se dirigem para a articulação; 3. Em fazer dissipar a acção muscular que complica muitas vezes a arthrite ; 4. Em fazer desapparecer as contracturas secundarias dos músculos, contracturas entretidas pela dor e pela irri- tação iníiammatoria ; 5. Em combater, emíim, os estados paralyticos que aífec- tam os musculos, consecutivamente á inflammação, á inércia e á rigidez articular (1). (I) Galvanotliérapie. Trad. frane. de Marpaia. Paris, 1860, p. 324. Em 1869, em interessantes artigos publicados na Gazeta dos Hospitaes, de Pariz (1), preconisou novamente o Dr. Ché- ron o emprego das correntes continuas no tractamento do rheumatismo nodoso, citando curiosos factos comprobativos das vantagens coibidas com este agente therapeutico. A sua observação a este respeito resume-se no seguinte trecho, que passamos a reproduzir ; cc As dores desapparecem ou se attenuam com um pe- queno numero de applicações. Certas ankvloses, quando a atrophia não se tem inteirameute apoderado das articula- ções, podem cessar sob sua influencia. As incrustações cal- careas, as contracturas, as retracções e as atrophias mus- culares, que resultam do rheumatismo nodoso, são sempre modificadas e muitas vezes curadas por este meio de tra- ctamento. » O Sr. Chéron admitte ainda uma acção geral das correntes continuas sobre toda a economia, capaz de excitar as func- ções abatidas, modificando favoravelmente a nutrição, de modo a poder melhor reagir o organismo contra a diathese rheumatica. « As provas desta acção geral, debaixo do ponto de vista clinico, diz elle, têm-se no desapparecimento da maior parte das complicações visceraes que acompanham o rheumatismo nodoso e na melhora rapida da saude dos rheumaticos. » O Sr. Professor Jaccoud revela também o maior enthu- siasmo por esta medicação. » Quando todos os meios médicos empregados têm-se mostrado improfícuos, quando existem já tumefacções ósseas e fibrosas, nodosidades e stalactites, seria, na sua opinião, perder tempo com medicamentos, cuja competência está perfeitamente demonstrada em taes casos ; deve-se sem demora fazer intervir a unica medicação que ainda oflferece alguma probabilidade de successo ; é a elec- (1) &azdes hôp., Paris, 1869, trisação methodica dasjunctas por meio das correntes con- tinuas (1). » Estes resultados parecem dever ser tanto mais prováveis quanto menos adiantada estiver a moléstia e mais moço fôr o doente. Assim se póde explicar os eífeitos popco satisfac- torios obtidos pelo Sr. Onimus nas doentes do serviço do Sr. Charcot, na Salpêtrière, em 1872 (2). Este eminente elec- trotherapista partilha, com effeito, as opiniões de Remak e acredita que nas arthropathias chronicas, quer sejam ligadas ao rheumatismo e á gotta, quer sejam dependentes de uma causa traumatica, são as correntes continuas de uma utili- dade incontestável, devendo ser mesmo ensaiadas nos casos apparentemente incuráveis (3). Os successos obtidos em França e na Allemanha tem sido egualmente colhidos, na Inglaterra. Althaus, notável electrotherapista de Londres, reconhecendo a inefíicacia frequente dos differentes agentes therapeuticos no rheu- matismo nodoso, foi levado a recorrer a este meio, que prestou-lhe os mais decididos serviços. «Embora esteja longe, diz elle, de consideral-o como um especifico ou panacéa para todos os casos de rheumatismo gottôso, tenho já apreciado bastantes effeitos delle para convencer-me que, nos casos em que os mais bem acceitos meios médicos e hydrotherapicos, intelligente e perseverantemente seguidos, por muitos mezes e annos, têm deixado os pacientes não melhores, porém peiores do que d’antes, as correntes continuas judiciosamente administradas podem ser muito uteis.» O eminente Professor de Londres assegura que a electri- cidade também actua sobre o estado geral, corrigindo a nu- (1) Traíté depath. int., t. 11, Paris, 1871, p. 562. (2) Recherches polir servir principalement á Vhistoire dcs courants con- iinus, par E. Gustave Lelorain. Th. de Paris, 1872. (1) E. Onimus et Gh. Legros. Traité dCéleciridté médicale. Paris, 1873, p.747. trição viciada, modificando as dyspepsias frequentes, que embaraçam a administração dos medicamentos tonicos e reparadores, e combatendo a insomnia, que, nesta moléstia, constitue-se tantas vezes um dos mais cruéis martyrios para o doente, resultando não só da immobilidade e da posição pouco commoda que o doente ó forçado á guardar, como também da falta de exercício ao ar livre. Para a obtenção destes dons effeitos o Dr. Altbaus applica o polo positivo, provido de um conductor de larga superfície, sobre a região cervical e o polo negativo sobre a região epigastrica; prolon- gando durante cinco minutos cada sessão. Os effeitos locáes e directos se fazem sentir contra as dores articulares e as defor- mações. No primeiro caso, fez applicar o polo positivo pro- vido de um pequeno electrodo sobre o ponto doloroso e o ne- gativo com um largo electrodo sobre a visinhança daquelle. Elle aífirma que o resultado desta applicação é, as vezes, quasi magico ; uma dor fina, durando mezes e annos, dissipa-se inteiramente, em certos casos após uma ou duas sessões. Não se pode fazer idéa, assegura ainda o autor, dos bons effeitos produzidos sobre as deformações, mesmo extensas, sobretudo quando os doentes não são muito velhos. Para isso tornam-se, porém, precisas muita paciência e perseverança tanto da parte do doente como da do medico. Para conseguir este resultado procede á electrisação do sympathico cervical. As sessões devem ser diarias ou repe- tidas 3 a 4 vezes por semana, durante um mez ou seis se- manas. No caso de apparecerem melhoras, ellas devem ser prolongadas por muito mais tempo ; si, entretanto, a moléstia conservar-se estacionaria, convirá então interromper o trac- tarnento por um mez ou mais, para recomeçal-o depois. (1) (1) On lhe ireatment of rhumatic gout by the aid of the constant galva- nic current, by J. Althaus. In-Brit. Meci. Journ., 28 septv 1872.—.4 Treatise of Medicai Electricity thcorical and practical. Third edition, London, 1873, p. 6229. Para o Sr. Onimus não é de rigor grande precisão na constância e regularidade dos apparelhos, nem tão pouco, como se torna necessário em outras condições, ter em grande conta a acção differente das pilhas. Para as applicações loco dolenti é-lhe indifferente a direcção da corrente, bem como a sua acção chimica, uma vez que não seja levada ao ponto de produzir escharas (1). Poore e Tibbitts, mais recentemente ainda (1877), accusa- ram as vantagens resultantes da galvanisação localisada. Este ultimo autor aconselha a passagem de uma corrente, tão forte quanto possa supportar a doente, atravez da arti- culação comproraettida, durante alguns minutos; sendo a direcção da mesma corrente frequentemente invertida pelo commutador dos poios. (2) A opinião tão autorisada de Remak, Jaccoud, Onimus e Althaus induziu-nos a ensaiar, finalmente, era nossa pequena doente, as correntes continuas ; o seu emprego foi, como vimos, extrernamente prolongado, e, á custa dessa perseve- rança e da docilidade excepcional da menina A., alcançamos o mais explendido dos resultados, superior a toda a espectq- tiva. Os differentes meios postos em practica haviam se mos- trado estereis ou de medíocre efíicacia; a moléstia tornava-se estacionaria e a infeliz criança parecia condernuada á pri- vação de todos os seus movimentos. A electrisação dirigida sobre a columna vertebral e atravez das articulações doentes acabou por dissolver por assim dizer as nodosidades, modificar as deformações e combater as contracturas e a atropina incipiente dos musculos. A este (1) Loc. cít., p. 747. (7) Hcrbert Tibbilts. A . Handhookof Medicai auã Surqical Electricity, Second editíon, London, 1877, p. 217. precioso agente, pois, julgamos dever attribuir a cura da nossa pequena doente. O galvanismo, como a electrotherapia em geral, ainda está longe de adquirir direito de domicilio entre nós ; e um dos primeiros embaraços á sua vulgarisação na practica me- dica parece depender, era grande parte, da aversão que votam os doentes a essa medicação, injustamente receiosos de perigos imaginários e de soffrimentos que de nenhum modo provocam as correntes continuas pelo menos. Quando os musculos, com o progresso do mal, hajam começado a atrophiar-se ou se achem sob a eminencia desta metamorphose, e um certo gráo de paralysia se haja já denunciado, julgamos conveniente alternar, como fizemos em nossa doente, o emprego do galvanismo com as cor- rentes de inducção dirigidas sobre os musculos compro- mettidos. Diante de tão inesperado successo como foi o que neste trabalho deixamos archivado, animado pelos brilhantes re- sultados preconisados pelos practicos já acima declinados, fazemos um appello aos nossos collegas brazileiros, indu- zindo-os a ensaiar o galvanismo nos casos desta ordem; esperando que novas conquistas virão dar ganho de causa ás nossas previsões. Medicação tónica.—O uso da electricidade não prejudica a administração simultânea de meios tendentes a melhorar a nutrição geral; antes, pelo contrario, como faz notar Althaus, ella contribue para tornar o estomago tolerante e apto a receber taes medicamentos. Nestas condições, o oleo de figado de bacalháo, a quina, a genciana, o lupulo, o ferro, particularmente o iodureto de ferro, convirão perfei- tamente. Quando a imraobilidade do doente seja demasia- damente prolongada, quando não lhe seja permittido algum exercicio ao ar livre, com vantagem poder-se-ha recorrer ás inhalações de oxigeno, tão pouco usadas entre nós e aliás um precioso meio a pôr em practica em casos taes. Maeadufa.—Logo que as melhoras por conta da electrici- dade começam a patentear-se, que alguma mobilidade vão adquirindo os membros retrahidos e contracturados, um auxilio efficaz para activar os resultados é a maçadura (massage}, methodicamente exercida, como fizemos na doente de nossa observação. Os movimentos alternados e brandos de flexão e de extensão, as fricções seccas e repetidas vão assim vencendo as falsas ankyloses e corrigindo as attitudes viciosas dos membros. Em ultima analyse, no caso de mos_ trar-se de todo improfícua esta practica, aconselhamos o em- prego do processo indicado por Bonnet, de Lyon (1), para o tractamento das deformações dependentes da coxalgia, con- sistindo no methodo de reducção [rédressemmt) immediata, por meio de uma operação ou de reducção lenta e gradual por macbinas. Estes dous metbodos, porém, só devem ser postos em practica como um complemento do tractamento anti-rheumatico, quando as nodosidades e as deformações se acharem quasi totalmente removidas. Nas crianças o pro- cesso do Sr. Bonnet, de Lyon, assegura o mais decidido exito, completando a cura e apagando os vestigios da mo- léstia. FIM (I) Vide A. Bonnet. Nouvelles méthodes dejraitment des maladies articu- aires, 3me. éd., Paris, 1860. .^IPIPEINnDICIB Já havia sido terminado este trabalho, quando á Sociedade de biologia de Pariz, em sessão de 14 de Junho de 1877, fez o Sr. Dr. Daily a communicação de um caso de rheumatismo nodôso em um menino, tractado com successo pelas correntes galvanicas. Para tornar, pois, completo o nosso estudo, en- tendemos dever transcrever o resumo desta communicação e da discussão por ella provocada, publicado na Gazeta Hebdomadaria. (1) SESSÃO DE 14 DE JUNHO « 0 Sr. Daily apresenta uma observação relativa á um menino affectado de rheumatismo nodoso, e no qual o orador empregou com o maior successo as duchas, as manipulações e as correntes continuas. Elle fazia por dia quatro horas de tractamento. Â. electricidade foi sobretudo dirigida contra o elemento —atrophia muscular. « O Sr. Cadet-Gassicourt faz notar a este respeito que o rheumatismo é muito menos raro do que se pensa na in- fância. » SESSÃO DE 27 DE JUNHO « O Sr. Daily apresenta o pequeno doente, do qual se occu- pou na precedente sessão. Os dedos são characteristicos, apresentando o aspecto de garras; as articulações phalan- geanas são alem disso a séde de pequenas concreções topha- ceas, algumas das quaes já se eliminaram. (1) Gaz. heb. de méd. et ãe chir. Paris 1877, p. 464. « O Sr. Blache considera o rheumatísmo nodoso da infanda como raro sem duvida, porem menos do que se pensa. Verda- de seja que o Sr. Roger, cuja experiencia é, entretanto, grande, nunca o observou. O Sr. Blache viu um caso destes em uma criança de dous annos, que foi curada pela maçadura (■massage), pelos banhos e pela electricidade. » Esta pequena discussão, havida posteriormente á termi- nação do nosso estudo, em nada invalida as conclusões a que nelle chegamos; antes, pelo contrario, deixando patentes mais dous casos bem averiguados da polyarthrite deformante na infanda, deu ganho de causa ao enthusiasmo que profes- samos pelo tractamento galvanico, por isso que ambos os casos citados deveram a sua cura a este precioso agente therapeutico. BIBLIOO-EAPHIA . Gantier-ISarris.—Trailé des maladies aiguées des enfanls. Paris, 1738. m-onzet.—Essai sur l’éducation médicale des enfants et sur Jeurs ma- Indies. Paris, 1754. van Swielen,—Traité des mal. des enf. trad. du Jatin des aphor.de Roerhave com. par M. le haron de Yan Swicten, par M. Paul. Avignon. 1759. Rose»».—Traité des mal. des enf., trad. du suédois par M. Le Febvre de VilJebrune. 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IVEOINrGOIVVO Membro da Academia de Medicina do Rio de Janeiro; professor honorário da Faculdade de Medicina de Santiago do Chile; correspondente da Sociedade de Medicina de Pariz, da Socie- dade medica d’Emulação da mesma cidade, da Sociedade franceza de hygiene, da Sociedade de medicina publica e de hygiene profissional de Pariz, das Sociedades de Medicina de Marselha, Alger, Lisbôa, Genebra, Santiago, Buenos-Ayres, etc., etc. RIO DE JANEIRO Typographia Académica—Rua d’Ajuda n. 47 1879