TRATADO DE PELO Dr. Agostinho José de Souza Lima f • > Medico pela Faculdade do Rio de Janeiro; Lente de medicina legal e toxioologia da mesma Faculdade ; Bacharel em lettras pelo antigo Collegio de D. Pedro II; Membro titular e ex-Presidente da Academia de Medicina ; Membro honorário do Instituto Pharmacoutico do Rio de Janeiro ; Membro correspondente da Sociedade de Medicina-legal de New-York, da Sociedade de Hygiene de ParU e do Circulo Medico Argentino; Vice-Presidente da Sociedade Medico-Pharmaceutica de Beneíicencia e Socoorros Mutuos e da Sociedade Auxiliadora da Industria*Naciónal; Ex-Direotor do antigo Hospicio de Pedro II ; Inspeotor geral de hygiene. Official da Instrueção publica, em França. RIO DE JANEIRO IMPRENSA HXT.A.OXOISTAIL, 1890 1339-00 INTRODUCCÃO E’ este, creio, o primeiro trabalho didactieo que sobre toxicologia é dado á luz no Brazil, e tanto bastará para attenuar o rigor e severidade da critica. Longe de mim o pretensão de o considerar um tratado completo sobre assumpto tão importante e vasto, e por outro lado tão pouco explorado entre nós; é apenas um modesto livro contendo desenvolvimentos sufficientes sobre o estudo clinico dos principaes venenos, e a exposição circumstanciada dos meios de os procurar e reconhecer nas pesquizas toxicologicas, tanto nos indivíduos sujeitos á sua acção, como nas victimas de seus funestos effeitos. Nem outro motivo levou-me a reunir em compendio as noções capitaes e mais importantes sobre toxicologia, além da necessidade, que ninguém desconhece ou contesta, de um trabalho nacional, sobre esta sciencia. Com effeito, tratando-se de venenos, encontram-se nas obras estrangeiras noticia de alguns, cujo conhecimento não nos interessa tão de perto em um curso elementar; entretanto não se occupam seus autores com outros, que merecem nossa attenção, ou porque são peculiares á natu- reza brazileira, ou porque são mais conhecidos e empre- gados entre nós. IV Nestas vistas, pois, e despido de toda a pretensão que não seja a de preencher uma lacuna deixada pelos dous sábios mestres que me precederam na cadeira, resolvi publicar este primeiro volume, que dedico especialmente ao uso dos alumnos. Si não corresponderão justo flm a que o destino, nem por isso desanimarei, e em nova edição procurarei corrigir as faltas de exposição, mesmo os erros de doutrina, que porventura forem apontados por uma critica imparcial e competente. Dividirei a matéria em duas partes : Ia parte, gerai, em que tratarei da historia, definição e classificação dos venenos, seu modo de absorpçâo, de acção, de distribuiçãoe(de eliminação; dasymptomatologia, anatomia pathologica e therapeutica geral dos envenena- mentos, e finalmente da marcha geral da analyse toxi- cologica, incluindo a experimentação physiologica. 2a parte, especial, em que me occuparei com a historia particular de cada veneno e sua pesquiza nas investigações medico-iegaes. Terminarei o estudo desta parte com algumas noções mais essenciaes sobre as ptomainas, debaixo do ponto de vista particular em que o estudo destas substancias interessa á toxicologia e constitue um complemento indispensável em qualquer tratado, o mais elementar, desta sciencia. Antes de entrar em matéria, direi que conservo para o assumpto deste trabalho a denominação de toxicologia, sómente por ser aquella com que figura esta disciplina no plano de ensino da Faculdade, seja no curso medico, seja no curso pharmaceutico. Devo, porém, notar, que em relação a este ultimo curso, a denominação de toxicologia é im- V própria e sem razão de ser. Com effeito, constando esta sciencia de uma parte chimica e outra clinico, é claro que esta não póde ser ensinado aos alumnos desse curso, ou ao menos não se podem exigir delles as respectivas provas de habilitações, que dependem de conhecimentos prévios, estranhos á indole dos seus estudos ; neste caso se acham a symptomatologia, a anatomia pathologica e a therapeutica dos envenenamentos, que constituem a parte clinica da toxicologia. 1 Chimica toxicologica, ou toxicologia chimica, segundo a expressão de Mohr, no seu livro que traz este titulo, é que devia ser o nome dado a essa parte da minha cadeira, que a penúltima reforma da Faculdade incluiu no programma do curso pharmaceutic.o. A ultima reforma, que ainda não foi posta em execução, e ao que parece não será, extingue dos cursos da Faculdade, como disciplina especial, a toxicologia, commettendo natu- ralmente a parte clinica deste estudo ás clinicas medicas, visto que também é supprimida a pathologia respectiva, e a parte chimica á cadeira novamente creada de chimica analytica. Ainda mais, direi que seria preferivel a denominação de chimica legal, porque, abrangendo todo o campo da chimica applicada á pesquiza toxicologica, comprehenderia mais 1 Costumo, é verdade, abrir uma excepção para a parte da therapeutica incumbida de eliminar o veneno existente ainda no tubo gastro-intestinal, pelos vomitivos e purgativos, e precipital-o cu neutralizal-o pelos antidotos ; visto como, esta applicação nem sempre exige o diagnostico ; este póde ser dispensado todas as vezes que o proprio envenenado, ou alguém por elle. que saiba, declare qual o veneno ingerido, e nestas condições deve estar o phar- maceutico, e si fosse possível, qualquer outro indivíduo, habilitado a prestar esses primeiros soccorros, de cuja opportunidade e promptidão depende a vida da pessoa envenenada. Quanto á outra parle da therapeutica, a que consiste no emprego dos meios antagonistas, essa é puramente da competência medica. VI outra ordem de estudos e de exames perfeitamente ao alcance official dos alumnos deste curso, e nos quaes, depois de formados, poderiam ser peritos juntamente com os médicos, como auxiliares preciosos na technica dos la- boratórios ; esses exames são os que se referem ao reconhe- cimento de manchas de varias especies (sangue, esperma, etc.)> ao reconhecimento dos cabellos e dos pellos em geral, bem como das matérias com que podem estar elles tintos, do tecido das roupas para a determinação de sua origem e natureza; de uma escripta qualquer, sobre que recaiam suspeitas de falsificação, para o descobrimento da tinta nella empregada, etc., etc. Tuto isto é objecto de chimica legal, estranho á toxi- cologia, e por isso á cadeira que com esse nome figura no programma do curso pharmaceutico. Por emquanto, publico este primeiro volume sobre a parte da minha cadeira commum aos dous cursos, para ser util assim a maior numero de alumnos; si for bem succedido neste tentamen metterei mãos á obra em relação á segunda parte, medicina legal, que pertence exclusi- vamente ao programma do curso medico, além de que, achando-se em vesperas de ser reformado o codigo cri- minal, como de facto o foi, tudo quanto eu escrevesse e publicasse sobre este assumpto, teria de ser alterado pelas disposições diversas adoptadas no novo codigo. 0 Autor PRIMEIRA PARTE GENERALIDADES Toxicologia, segundo a maior parte dos autores, vem de dous radicaes gregos, que significão sciencia dos venenos l. Na opinião singular e até certo ponto extravagante de Tar- dieu, esta sciencia não existe, não tem razão de ser. Para elle a toxicologia não é mais (e assim insensivelmente a define) do que um conjuncto artificial de certas noções de chimica, his- toria natural, physiologia, nosologia, anatomia pathologica e therapeutica, relativas a diversas substancias chamadas ve- nenos . Assim deve ser, continua elle, porque os venenos não teem existência nem caracteres proprios ; não constituem uma classe, um grupo natural de agentes, cuja essencia possa ser definida e caracterisada, pois que todas as substancias a que se tem dado o nome de venenos perdem ou adquirem, conforme certas circumstancias extrínsecas, suas propriedades toxicas. O veneno, diz elle ainda, é uma causa de morte violenta ; é uma arma nas mãos do criminoso, e não existe sinão com a condição de ter obrado; não se revela e não se define sinão pelos seus effeitos. 1 Segundo Mohr, vem de toxikos em grego, que significa pertencente a arco (toxos), referindo-se aos venenos com que os indios hervam as settas. 2 T OXICOLOGIA Entretanto o mesmo Tardieu se deixa manifestamente trahir quando declara mais adeante que acceita a definição de envene- namento, formulada pela lei penal franceza, que diz: « E’ qualificado de envenenamento todo o attentado contra a vida de uma pessoa, por effeito de substancias que podem dar a morte mais ou menos promptamente, de qualquer maneira que tenham sido empregadas ou administradas. » Não é claro e patente que esta disposição envolve, salvo certas restricções i, a definição satisfactoria do que se deve en- tender por venenos ? Que importa que os venenos sejam também medicamentos em dóses menores, e que muitos destes se tornem venenos em dòses maiores ? Que importa que não tenham caracteres proprios, e não se possam definir sinâo pelos effeitos que determinam ? Não basta a differença extrema, a opposição manifesta desses effeitos para elemento de definição ? Alguns ha que são também alimentos. Por exemplo, o ál- cool, que em pequena dóse é reputado um alimento respiratório (como se dizia na antiga physiologia) ; em dóse mais elevada é um medicamento excitante diffusivo, e além de certos limites torna-se um veneno estupefaciente. A mesma substancia é, pois, um alimento emquanto concorre para a nutrição e para a vida, um medicamento quando cura, ou modifica favoravelmente a marcha e terminação das mo- léstias, e um veneno quando produz desordens graves na eco- nomia e a morte, Si a physiologia estuda os corpos sob o ponto de vista de sua acção nutritiva, e a therapeutica, de sua acção medicinal, 1 Entre essas restricções, sem as quaes a definição éincorrecta e inaccei- tavel, e não faltando na questão de dóse, figura a que se refere ao modo de applicação, de maneira que, por exemplo, o chumbo, que é indubitavelmente um veneno quando ingerido, deixa de o ser, podendo matar muito mais de- pressa, quando, sob a fórma de bala, penetra no corpo, atirada por uma arma de fogo. GENERALIDADES á toxicologia compete o seu estudo sob o ponto de vista de sua acção toxica. De outro modo a matéria medica não teria igualmente existência própria, porquanto o seu objecto é todo puramente de chimica e botanica. Tardieu, que recusa á toxicologia os íoros de uma sciencia, e, por cohereucia com esse principio, intitula o seu livro Es- tudo medico-legal e clinico dos envenenamentos, desenvolve o assumpto encarando-o pelas mesmas faces que todos os outros autores de toxicologia, isto é, occupa-se e estende-se mesmo, com prejuizo flagrante dessa eoherencia, com a historia na- tural de cada substancia toxica, e suas propriedades e reacções caracteristicas, si é uma especie chimica, seus caracteres bo- tânicos, si é uma planta. Repete, portanto, matéria que se deve suppor estudada e conhecida, e que não tem razão de ser em um livro que trata dos envenenamentos (e não dos venenos). Yê-se, pois, que Tardieu, recusando a estes corpos uma existência própria, não differe no fundo nem mesmo de Flandin, cuja obra tem justamente por titulo—Tratado dos venenos (e não dos envenenamentos). Uma tal uniformidade de vistas, e de plano adoptado no estudo da toxicologia pelos diversos autores torna esta questão de venenos e envenenamentos uma verdadeira questão de pa- lavras, que nada adeanta ; estes são effeitos especiaes de causas communs, é verdade, mas que teem pelos menos uma existência virtual, e cujos signaes caracteristicos podem-se determinar por uma definição consentânea com as exigências da accepção medico-legal. De mais, si, considerando a ordem natural em que se succede o estudo das diversas matérias de que se compoem os cursos medico e pbarmaceutico nas Faculdades, póde-se até certo ponto defender e justificar esta doutrina de Tardieu, por isso que a toxicologia pertence ás ultimas series dos dous cursos quando os alumnos teem já conhecimento sufficiente dos venenos 4 TOXICOLOGIA (da sua historia natural om chimica e botanica, das suas virtudes medicinaes em matéria medica e pharmacologia), e só lhes falta conhecer os seus effeitos toxicos, o mesmo não succede quando se considera a sciencia toxicologica em abso- luto, que qualquer pessoa que não frequente curso algum na Faculdade póde desejar aprender, e não ha razão para que não comece por conhecer os venenos, antes de estudar os seus effeitos ; a noção do veneno é neste caso uma preliminar, cuja omissão seria indesculpável. Entretanto, reflectindo bem, vê-se que nem uma nem outra expressão, venenos e envenenamentos, basta isoladamonte para abranger o objecto da toxicologia ; esta não póde ser definida a sciencia que trata dos venenos ou dos envenenamentos, por- quanto isso importa apenas em traduzir os radicaes gregos de que se compõe aquella palavra ; é uma traducção, e quasi uma synonimia e não uma definição. Cumpre que nesta se determinem os pontos de vista pelos quaes se deve encarar uma ou outra daquellas expressões, o sentido em que devem ser tomadas, e então veremos que ellas não se excluem, que não são incom- pativeis, que, pelo contrario, se completam, por isso que, de facto, a toxicologia comprehende não só o estudo dos venenos e portanto dos seus caracteres, dos meios de os pesquizar, como dos envenenamentos, isto é, dos seus effeitos e dos meios de os reconhecer e tratar. Assim parece ter pensado Mohr, quando na introducção de seu livro 1 se pronuncia da maneira seguinte: « a toxicologia, ou sciencia dos venenos, abrange duas partes : uma physiolo- gico-medica, e outra chimica ; a primeira se occupa do modo de ac?ão dos venenos, dos phenomenos do envenenamento, dos meios empregados para combattel-os (antídotos) 2. A parte 1 Toxicologie chimique, 1876. 2 Elle ainda se refere, nesta indicação, aos meios therapeuticos que são applicados contra os phe,->omenos immediatos do envenenamento agudo e contra os seus effeitos morbidos consecutivos e chronicos, que são verda- deiras enfermidades. GENERALIDADES 5 chimica trata da pesquiza dos venenos nos restos dos alimentos, nas matérias vomitadas, e, em caso de morte, no proprio cadaver. » Assim, -pois, á parte aquella etymologia original, que Mohr assignala a um dos radicaes da palavra toxicologia, ó perfeita- mente correcta e acceitavel a interpretação scientifica que a esta expressão dá esse professor. Si, porém, é facil definir toxicologia, o mesmo não succede com a palavra veneno, cuia significação é diffici 1 precisar em termos rigorosos, como passo a demonstrar. Definição de veneno Duas circumstaneies capitaes se deve ter em vista na defi- nição de veneno, que etn todo o caso deve ser subordinada á indole da legislação de cada povo e aos termos das respectivas disposições criminaes : vem a ser a questão de dóse, e o modo de acção das substancias toxicas, local ou geral. De facto, desde os primeiros tempos, todos os autores teem ligado importância a um ou a outro destes dous elementos isoladamente, ou a ambos simultaneamente como passo a mostrar pela indicação das defi- nições mais conhecidas e dignas de menção. Mead, Plenck, Orfila, Mahon, Foderé, Gmelin, Toulmouche e outros chamam veneno « toda substancia que, tomada in- ternamente ou applicada de qualquer modo sobre o corpo vivo, em pequena dóse, destróe a saude ou a vida». Frank e Devergie dizem que é « toda substancia que, tomada internamente ou applicada externamente ao corpo do homem, em pequena dóse, é capaz de alterar a saude ou destruir a vida, sem obrar mecanicamente e sem se reproduzir». Esóa definição, mais rigorosa do que as primeiras por limitar a acção do veneno ao corpo humano, em vez de a estender a 6 TOXICOLOGIA todo ser vivo, mais correcta ainda porque exclue da classe dos venenos propriamente ditos os virus, si ainda é permittido denominar assim os agentes morbigenicos susceptiveis de re- reproduzir-se, pecca todavia pela eliminação dos corpos que obram mecanicamente, e em certas circumstancias se appro- ximam moral e criminalmente dos verdadeiros venenos. D’ahi em deante todas as definições dadas a este vocábulo encerram essa condicional, que, perante as disposições contidas no nosso formulário do processo criminal, não podemos adoptar, quando as considerações de ordem moral não bastassem para justificar a denominação de venenos, applicada aos agentes irritantes e corrosivos, desde que são empregados nas dóses e em outras condições ordinárias dos envenenamentos. Bellini define veneno: «toda substancia solúvel ou capaz de se tornar solúvel, que, actuando sobre o organismo animal, altera a saude ou destróe a vida, não tanto em razão de sua natureza particular, como principalmente em virtude de sua quantidade relativa». Flandin define: «toda substancia inassimilavel que, pe- netrando no organismo por absorpção, produz mais ou menos rapidamente effeitos funestos, a moléstia ou a morte». Taylor define : « toda substancia que, introduzida, por absorpção, no sangue, é capaz de affectar seriamente a saude ou destruir a vida ». Yulpian apresenta a seguinte definição, que Chapuis adopta também como a melhor que se pode dar, no estado actual da sciencia; para elle « os venenos são substancias que, intro- duzidas por absorpção no organismo, determinam alterações es- tructuraes ou perturbações funccionaes mais ou menos graves, e podem mesmo, quando a sua acção attinge um alto gráo de intensidade, determinar a morte ou pelo menos pôr a vida em perigo». Como se vê, não fazem estes últimos autores questão de dóse ; e mesmo para Taylor importaria ella restricção da accepção po- GENERALIDADES 7 pular, que elle julga sem fundamento na linguagem medica, porquanto excluiria do numero dos venenos muitos compostos cujas propriedades toxicas não podem ser contestadas, mas que só obram como taes quando administrados em altas doses. E’, porém, este um reparo menos judicioso, que não enfra- quece o valor daquella restricção, adoptando-se a expressão — quantidade relativa, como na definição de Bellini; — isto é, si o arsénico, os compostos cjanicos e os principios activos das plantas obram como venenos em pequeninas quantidades, em dóses ainda menores são todos elles medicamentos, frequente- mente empregados; — si, pelo contrario, o nitro, e muitos outros saes alcalinos só se tornam venenos em proporções consideráveis, è que de sua natureza também não produzem effeitos simples- mente therapeuticqs sinão em dóses relativamente grandes. O mesmo Rabuteau, que na primeira edição de sua obra modestamente intitulada — Elementos de toxicologia — , fazia intervir na definição de veneno a questão de dóse ; na segunda e ultima eliminou esta circumstancia e define o veneno « todo agente chimico capaz de produzir a morte ou affectar grave- mente a saude, actuando sobre os elementos anatómicos ou sobre os humores». Isto quanto á dóse. Apreciando agora estas definições com referencia á outra circumstancia, relativa ao modo de acção dos venenos, si de- vendo exercel-a penetrando no organismo por via de absorpção, ou si independente disso, nota-se que Anglada, Frank, Devergie, Flandin, Taylor, Vulpian, Rabuteau e mesmo Bellini estabe- lecem directa ou indirectamente, como elemento de definição de veneno, aquella condição restrictiva, em virtude da qual são con- sideradas taes, çPentre as substancias que podem dar a morte, etc., aquellas que obram por via de absorpção, que, sendo le- vadas à torrente circulatória, e distribuídas com o sangue no intimo dos tecidos, ahi exercem a sua acção, atacando de prefe- rencia antes uns do que outros, sendo depois eliminados em mais 8 TOXICOLOGIA ou menos tempo pelos emunctorios naturaes. Desta maneira devia ser excluído do dominio da toxicologia, no rigor de sua accepção, o estudo dos agentes irritantes, cáusticos e corrosivos, que exercem uma acção puramente mecanica ou de contacto, determinando a morte pelos estragos causados sobre os tecidos por onde elles trajectam. Entretanto, ainda que seja esta a idéa corrente, sustentada por todos os autores de medicina legal e toxicologia, não ha um só, excepto Casper, que, tratando desta matéria, não se occupe com o estudo destes corpos, e, o que é mais, constituindo um grupo constante e invariável, com a mesma denominação em todos, a despeito das differenças de divisão e classificação dos venenos por elles adoptados . A razão, porém, deste facto, que parece á primeira vista attestar incoherencia manifesta de prin- cipios, descobre-se facilmente, em que peze a Devergie, que censurou a Anglada a distincção justa e razoavel que elle estabeleceu entre a accepção medica e a accepção legal ou j uri- dica, que se deve ligar â palavra veneno. Com effeito, si na linguagem medica os verdadeiros venenos, em absoluto, são aquelles que actuamsobreo organismo por via de absorpção, é inquestionável que, tratando-se de toxi- cologia como um estudo complementar de medicina legal, somos forçados, para satisfazer o espirito claro da lei, a con- templar, com prejuízo daquelia condição physiologica, entre os venenos, e classificar como taes perante as disposições doscodigos de todos os paizes, todos os corpos que, ingeridos ou applicados externamente, podem occasionar desordens graves na economia, e mesmo a morte, qualquer que seja a maneira de obrar. Nesse numero se acham, como veremos adeante, os ácidos e alcalis concentrados, os purgativos drásticos, o chloro, o bromo e o iodo, o kerosene, o vidro moido, etc. Comprehende-se bem que, perante a lei, perante a justiça e a moral, devem se achar nas mesmas condições os indivíduos que dão a morte ao seu semelhante, fazendo-o ingerir seja um GENERALIDADES 9 composto arsenical ou o acido sulphurico, seja um preparado de chumbo, de mercúrio ou o oleo de croton, o vidro moido, etc. E, portanto, em beneficio desta equidade, que está na con- sciência de todos e nos legítimos interesses da justiça, devemos sacrificar aquella restricção impertinente, puramente especula- tiva, introduzida na definição medico-legal de veneno, e que daria, nas mãos dos advogados, valioso elemento de defesa para a absolvição dos homicidas deste genero. Perante o nosso codigo criminal, mais do que outro qual- quer, julgo eu, tem todo o cabimento essa interpretação, que dá mais latitude á palavra veneno, porquanto elle o não define, e apenas consigna como um meio de morte, ao lado do fogoe da agua (incêndio, inundação), cujo emprego constitue uma cir- cumstancia aggravante no crime de homicídio. Mais importante e justificável é a questão de dóse, que não póde deixar de figurar na definição de veneno para distin- guil-o de medicamento, imico com que se póde confundir, e do qual só se differença por essa circumstancia. Si a mesma sub- stancia desenvolve ora effeitos medicinaes, ora eífeitos toxicos, conforme a dóse, segue-se que esta circumstancia é capital como elemento de definição de veneno. E si é em dóses maiores que a substancia deixa de ser medicamento para constituir-se veneno, a referencia a essa condição deve ser feita peias palavras — dóse relativamente grande — em vez de se dizer — dóse pequena. Demais, a calcular pelos termos em que estão concebidos os quesitos relativos a esta regra no formulário do processo cri- minal 1 vê-se que ainda maior complicação veem elíes introduzir 1 Sétima regra : Quando se irai,ar de envenenamento, o juiz perguntará o seguinte : 1. Si houve proD-nação de veneno interior ou exteriormente. 2. Qual eUe seja. 3. Si era de taí qualidade e em dóse tal que causasse a morte ou pudesse causa■ -a. 4 0 S<. não a podendo causar, produziu ou podia produzir grave incom- modo de saúde, ou não. 5 0 Qua' seja esse iacommodo. 6.° Si resuitou ou póde resultar aleijão, ou deformidade, ou inhabilitação ou destruição de algum orgão ou membro. 10 TOXICOLOGIA na definição do veneno, por isso que admittem que este possa produzir aleijão, deformidade, destruição ou inhabilitaçâo de algum orgão ou membro (tal è a matéria do ultimo quesito, que assim se confunde com um dos que se referem aos ferimentos e outras offensas physicas); por ahi se é levado a crer que o formuFsta comp:mhendeq no numero dos envenenamentos os factos de applicação externa de cáusticos chimicos ou poten- ciaes, o que não é razoave!. Sem acompanhar a posição commoda de alguns toxicologis- tas que, como Beck, Christison. Casper, Dragendoríf e Hettet, evitam as difficuldades desta definição omittindo-a, entendo que é preciso adoptar uma que esteja de harmonia com as nossas respectivas disposições penaes. Assim, pois, neste intuito, e tendo de accommodar a defini- ção ás exigências ou indicações dos quesitos consignados em nosso formulário do processo criminal, cumpre ter em vista um ultimo ponto capital, e vem a ser : excluir da definição os agen- tes vulnerantes, que são também corpos que, introduzidos na economia (uma bala, um punhal), podem matar; para isto basta lembrar que, comquanto se devam considerar venenos os agentes irritantes cáusticos e corrosivos, que obram por acção tópica intensissima e antes que sejam absorvidos, todavia são suostan- cias absorviveis e elimináveis e assim se distinguem daquelles agentes. Finalmente, deve-se ainda considerar o que diz respeito ás peçonhas dos animaes, que foram excluídas da definição de veneno desde Devergie, quando additou-lhe as palavras « sem obrar mecanicamente e sem se reproduzir», e que outros incluem nella, como um caso particular; são venenos especiaes representados por humores ou líquidos de secreção physiologica de certos animaes, assim como os virus são productos pathologicos, cujo estudo não compete propriamente á toxi- cologia. Recapitulando e pondo em contribuição todos estes dados, GENERALIDADES 11 creio que se póde construir a definição de veneno nestes termos : Por veneno deve-se entender, entre nós, toda substancia estranha á categoria dos agentes vulnerantes e pathogenicos, que, introduzida ou applicada de qualquer modo ao corpo humano em certa quantidade, relativamente grande, produz mais ou menos rapidamente acoidentes graves na economia, que podem terminar pela morte, ou deixar defeitos permanentes e irremediáveis. Fica assim, pois, o vicio inherente a esta ultima parte da definição, que comprehende o objecto do sexto e ultimo quesito relativo ao envenenamento, por conta e responsabilidade exclu siva do formulista, que foi em tal assumpto obscuro e pouco meticuloso, confundindo as questões e creando sérios embaraços na pratica forense, quanto aos limites que convém traçar entre os effeitos puramente physicos ou traumáticos (queimaduras) e os effeitos toxicos produzidos pelos cáusticos chimicos, appli- cados externamente ao corpo de um individuo. Esboço historico Os venenos teem sido conhecidos em todos os tempos e por todos os povos, e póde-se dizer com Flanciin. que os homens os teem preparado e utilisado com tanto mais arte quanto elles teem vivido epn uma civilisação menos adeantada. O historiador Sismondi affirma que a toxicologia foi o pri- meiro ramo da chimica, cultivada entre os povos barbaros. Durante muitos séculos e em épocas jã florescentes de algumas nações que depois representaram papel proeminente no mundo civilisado, o veneno foi a arma predilecta para a perpe- tração de homicidios. 12 TOXICOLOGIA Explica-se bem este facto, attendendo, de um lado, para a defieenc'a de outros meios de morte menos espectaculosos e relativamente mais suaves e insidiosos, então procurados no intuito de satisfazer odiose vinganças, alimentados muitas vezes por simples interesses e conveniências particulares ; de outro lado, para a impossibilidade, ligada ao atrazo e impotência da sciencia, de reconhecer e demonstrar essa causa violenta e cri- minosa de morte, acarretando como consequência pratica a im- punidade quasi constante de seus autores ; tanto mais quanto difficilmente podia cahir sob a acção da justiça a maior parte delles, pela sua posição quer social quer pecuniária. E'que a preparação dos venenos, embora grosseira, em- pyrica e mysteriosa, bem como o conhecimento de sua acção lethifera, precederam de muito a descoberta dos meios de sua determinação e pesquiza, para a prova judicial dos crimes e sua competente repressão penal. Esta parte da toxicologia, que, é objecto da chimica legal, nasceu muito depois e tem recebido nestes últimos tempos um desenvolvimento tão accentuado, que si para a pesquiza dos venenos orgânicos os methodos conheci- dos deixam ainda muito a desejar, e são ainda sujeitos a nume- rosas causas de erro e de insuccesso, a respeito dos venenos mineraes mais conhecidos pôde-se dizer que nenhum escapará mais hoje á applicação conveniente dos processos ohimicos que teem por fim descobril-os e pol-os em evidencia. E’ incontestável que os progressos da chimica toxicologica teem sido um paradeiro efficaz contra a pratica, antigamente muito commum e vulgar, dos envenenamentos, e será para o futuro, quando seus processos e methodos de investigação fo- rem mais aperfeiçoados, uma garantia a favor da sociedade contra a mão assassina dos envenenadores. Considerando a toxicologia incorporada á medicina legal, repetirei, com Desmaze l, que não se pôde fazer mais bello elo- 1 Historia da medicina legal em França. GENERALIDADES 13 gio desta sciencia do que assignalar o facto da diminuição notável dos crimes de envenenamento, à medida que ella progride. « Póde-se bem attribuir, diz Molir, aos progressos da toxi- cologia chimica a raridade maior dos envenenamentos... « A diminuição dos homicidios deste genero é já uma con- quista importante, que a humanidade deve aos progressos da sciencia « A sciencia attingirá tanto mais completamente seu fim e corresponderá tanto mais perfeitamente aos desejos e interesses da sociedade, quanto o instrumental for mais completo e ao mesmo tempo menos occasião tiver de ser uíilisado ». Deixando passar sem critica a época nebulosa dos tempos pri- mitivos e mythologicos dos envenenamentos, que celebrisaram os nomes de Medéa, Circéa e outras entidades dadas á mesma arte, correndo um véo sobre esses tempos obscuros, e atraves- sando séculos, vou percorrer em rápidos traços a parte da his- toria dos venenos, em que ella se apresenta despida de toda a ficção, de toda a phantasmagoria, de toda a intervenção sobre- natural. Começarei pelo Império Romano, no reinado de Augusto, no qual instituiu-se a primeira diligencia me* dico-legal a proposito da denuncia de uma escola ou officina de venenos, em que muitas senhoras romanas foram accusadas, e algumas presas. Duas dentre ellas, Cornelia e Serpia, soffre- ram, como prova, a consequência funesta da acção de seus pró- prios preparados. Depois de Augusto, que, segundo alguns, por sua vez morreu envenenado por Livia sua amante i, seguiu-se Tiberio, cujo reinado foi assignalado pelo envenenamento dos últimos mem- bros da familia de Augusto: Druso e Germânico. O corpo deste ultimo foi exposto nu, na praça de Antiochia, afim de que o povo se pudesse certificar de que havia sido envenenado. A 1 Outeos historiadores de nota contestam este facto ; entre elles, Jacoby (Estudos sobre a selecção, etc.), acha-o mesmo absurdo e inverosimil, por motivos que parecem muito razoaveis. 14 TOXICOLOGIA historia aponta o nome de Plaucina como autora deste attentado, a cuja punição fugiu, protegida por Livia. Succederam-se outros imperadores. Caligula, Cláudio, Nero mancharam seu throno com um grande numero de enve- nenamentos, dos quaes se contam, entre os mais notáveis, os do proprio Cláudio e de Britannico, por meio de venenos pre- parados pela famosa Locusta. Mulher criminosa, foi já depois de condemnada á pena capital, escandalosamente protegida por Nero, que a suhtrahiu á morte, alcjando-a em seu palacio. Locusta foi a Medéa ou a Circéa de seu tempo, com a difteren- ça, porém, de que empregava composições menos mysteriosas, que tinham por base muito provavelmente o sublimado cor- rosivo e a que reunia, conforme os effeitos mais ou menos rápidos desejados, certos extractos vegetaes, e os sulíuretos de arsénico, já conhecidos com as denominações de sandaraco e ouropimenta. Locusta esboçou, ao que parece, essa poly- pharmacia, adoptada mais tarde como systema de preparação de remediospor Galeno e outros médicos, e chamada pharmacia ga leni ca. Correm os tempos, passam-se 14 séculos, e a Italia, que já tinha sido o berço da sciencia ou antes da arte dos venenos, o theatro de tantos horrores devidos á sua acção, foi ainda o paiz que mais se distinguiu pela serie numerosa de envenena- mentos celebres nas mais elevadas jerarchias sociaes, onde serviram de outros tantos degràos quer para o throno, quer para o solio pontifício ; fizeram-se por esta fôrma muitos reis e muitos papas. Está a historia prenhe de factos desta natu- reza, em que o veneno foi a arma predilecta empregada pela nobreza, pela alta sociedade, para a satisfação da inveja, de toda a especie de ambições infrenes e criminosas, que condu- ziam ao roubo de grandes fortunas, á usurpação de posições e titulos honorificos. A familia inteira de Rodrigo Borgia, o qual, para eterna vergonha do christianismo, foi papa, com o nome de Alexan- GENERALIDADES dre VI, tornou-se celebre pelos envenenamentos que praticara e-de que foram victimas alguns membros dessa mesma família, inclusive o proprio papa. Quaes eram, porém, os venenos dos Borgias a historia não diz positivamente, mas indica entre outros uma preparação secreta* chamada cantarella, empregada ora em pó, ora em liquido, e que suppõe-se, com boas ra.tões, ter por base um composto arsenical, si não era o propr.u) acido ar- senioso, já bastante conhecido então, a que, segundo alguns, era misturada a baba peçonhenta de algutn animal. O que ó verda- de é que essa famosa canta relia, cuja origem e etymologica, bem como sua verdadeira composição, são ignoradas, produzia nas mães de seus autores os effeitus determinados de morte rapida ou lenta, porém certa, conforme convinha aos seus infames interesses. Percorrendo a historia de outros paizes, encontra-se o nome do celebre imperador Ivan IV, soberano de todas as Rússia?., que, na linguagem hyperbolica dos historiadores, fez um Relogio de venenos, porque podia contar as horas de seus dias por outros tantos envenenamentos ; nada porém se saoe sobre a natureza dos seus preparados. Casou-se successiva- mente com sete mulheres e a todas matou por meio de veneno; levou a sua barbaridade e malvadez ao ponto de se comprazer com os sofirimeatos dè suas victimas, estudando a arte de os prolongar á vontade, assistindo impassivel ao quadro pungente da agonia lenta que precedia a morte. Factos bem authenticos de envenenamentos celebres pullu- lam na historia de todos os paizes, sem que os escriptores tenham mencionado a natureza dos agentes toxicos emprega- dos. Para não citar sinão alguns exemplos, limitarnos-hemos aos seguintes: na Hespanha, a morte de D. João, e do ministro Escovedo, pelo rei Piulippe II ; na Allemanha, a morte de Henr.que IV, o cruel, de seu filho Frederico II, de seu neto Conrado i.V ; na Inglaterra, os factos registrados em relação á familia dos Plantagenets, dos Tudors, dos Stuarts, e muitos 16 TOXICOLOGIA outros que assignalaram os reinados de Henrique II e VIII, e de Jacques I; na França, Childeberto II, Lothario I, Luiz V, Carlos Y, que succumbiram também ao veneno. No século XVII, em um terceiro periodo da historia da toxi- cologia, é ainda a Italia que se inscreve á frente das outras nações, como theatro fecundo de novas scenas de envenena- mentos, e é ainda uma mulher, a hypocrita Tophana, que teve as honras da época. A famosa agua de sua composição — que ella distribuía gratuitamente, a troco apenas de uma esmola, com a denominação de agua de S. Nicoláo, agoinha de Nápoles, e foi depois mais conhecida com o nome de agua tophana — era um veneno terrível, cujos effeitos, promptos ou tardios, ella sabia e ensinava a graduar, determinando-os antecipadamente. Sem que haja certeza, suppõe-se, todavia, que a agua tophana era de composição semelhante, si não idêntica, á cancarella dos Borgias, tendo por base um composto arsenical. Ella fez um numero considerarei de victimas, e ainda depois da morte de sua autora, que foi sentenciada e executada, serviu nas mãos de uma associação infame de grande numero de mulheres, capi- taneadas pela velha Spara, herdeira dos segredos de Tophana, cujo fim depravado era proporcionar ás suas companheiras de sexo o meio de desembaraçar-se de seus maridos detestados ou já impotentes. A pratica dos envenenamentos reappareceu em França, no meiado do século XVII, e nessa época, a historia registra com horror os nomes da Marqueza de Brinvilliers e de seu amante e complice o cavalleiro Gaudin de Santa Cruz, da mais triste e inglória, celebridade. Aquelia mulher incendiaria e adultera 1 assignalou a sua vida inteira por uma serie de crimes de enve- 1 Era uma titulai* de grande fortuna, cuja renda ex*a avaliada em 40.000 libras, e que envenenou seu pai. sua mãi, seus irmãos e muitas outras pessoas estraicias á sua iamilia antes de ser suspeitada capaz de semelhantes crimes; porque, dizem outros, ella acobertava seus actos com a apparencia da maior devoção e caridade. Com-ssava,-se assiduamente e (requentava os liospitaes, onde íazia com geito a experiencia de seus venenos, distribuindo-os sob a fórma de biscoutos aos doentes pobres. GENERALIDADES 17 nenamentos e de escândalos de immoralidade e prostituição, que a tornariam uma digna descendente de Ivan IY, ou de Alexandre VI. Ella mesma depois, condem nada à morte, im- pudentemente o confessou antes de ser decapitada e queimada (1676), legando um inventario completo do seu arsenal toxico 1 pelo qual vê-se que, ao lado de diversos embrulhos, caixas e pa- cotes, contendo opio, regulo de antimonio, arsénico, pedra infer- nal e alguns sulphatos venenosos (vitriolos), havia sobretudo uma quantidade notável de sublimado corrosivo. E’ esta mesma substancia que tornou-se a base da composição dos celebres pós de successão, que tantas victimas fizeram em favor da ganancia infrene do ouro e da ambição cega de gloria e cargos hono- ríficos. Foi por esse tempo, em 1680, que instituiu-se perto da Bastilha a chamada camara ardente, ou camara dos venenos, onde eram exclusivamente julgados e sentenciados os envene- nadores, os fabricantes e vendedores daquelles pós, cujo uso tanto se tinha vulgarisado. No espaço de quatro annos este tribunal julgou 226 indi- víduos, dos quaes 138 mulheres! Mais de metade !! E’ notável e tradicional essa interferencia predilecta das mulheres, e sobretudo das mulheres velhas, quer na preparação clandestina de beberagens illicitas, ora venenosas, ora abor- tivas, etc., etc., quer na exhibição de praticas mysteriosas e truanices de toda a especie, com que exploravam para fins diversos a ignorância e credulidade publica. Das primitivas envenenadoras e prophetisas de outras éras, resta-nos hoje como lembrança a praga das mésinheiras e cartomantes. Por essa mesma época, repetiram-se em França as scenas de veneficios praticados na Italia pela velha Spara e suas successoras. Era então La Yoisin a cabeça de uma com- 1 Era pouca mais ou menos o mesmo inventario legado quatro annos antes, por occasião da morte de seu amante, Santa Cruz, que a precedeu no tumulo, e que desde então havia sido descoberto pela policia. toxicjloou 2 18 TOXICOLOGIA panhía secreta de envenenadoras, que vivia desse criminoso commercio, e cuja clientela era immensa, sobretudo entre as pessoas de seu sexo, ás quaesellas proporcionavam os meios de fazer abortar, de apressar sua viuvez para herdarem dos ma- ridos ou tornarem a esposar outros, etc. Felizmente essa mulher infame e algumas de suas compa- nheiras, por ella mesma denunciadas, pagaram com a vida seus crimes. A nefanda exploração, porém, não se extinguiu, e conti- nuou, qual cabeça de hydra, a minar e pôr em jogo os mais sordidos interesses nas mãos de um celebre charlatão e envene- nador, por nome Barenton, que succedeu a La Yoisin, e fez também sua época. Um século depois, em 1776, apparece o nome de Desrues, indigitado autor de alguns veneficios, e outros muitos nomes, de então para cá, illustraram vergonhosamente a historia dos enve- nenamentos, que foram sendo, todavia, muito menos frequentes, graças á perseguição efficaz que já soffriam seus autores, ao eífeito moral ligado á instituição de um tribunal especial, des- tinado exclusivamenteà syndicancia e repressão detaes crimes. Mencionarei ainda os nomes de Margarida Zvanziger, Mar- garida Gottfried e Castaing, entre os envenenadores celebres que viveram no começo deste século, no qual teem sido ainda mais raros os factos escandalosos de veneficio e pertencem quasi todos a historia contemporânea da França, aquelles de que ha noticia nos livros de toxicologia : taes são os que deram nome aos seguintes processos : Eml823 é julgado, em Paris, o processo Boursier, em que o indivíduo deste nome suppoz-se ter sido envenenado com arsénico por sua mulher e um criado, que por falta de provas irrefragaveis, foram absolvidos. Pouco tempo depois, seguiu-se a morte do assassino Souf- flard, que, ao ouvir ler a sua sentença capital, envenenou-se com arsénico. GENERALIDADES 19 Sete annos mais tarde, o Duque de Praslin morre igual- mente envenenado com essa substancia. Em 1840 apparece uma das causas mais celebres : é rela- tiva ao processo Mme. Lafarge, accusada de ter envenenado, ainda com arsénico, seu marido. Já então era conhecido o arparelho de Marsh, que prestou nas pesquizas desse corpo os mais assignalados serviços. Em 1843, um facto analogo a este ultimo agita-se nos tri- bunaes : é de novo uma mulher, Mme. Lacoste, accusada de veneficio na pessoa de seu marido, também por meio de arsénico. Este foi encontrado e denunciado pelos peritos, dos quaes um, Devergie, tendo aventado a idéa da possibilidade de provir o toxico de medicamentos, de que o finado fez uso por largo tempo, deu logar á absolvição dessa mulher. Em 1851, o tribunal de Rennes, condemnou uma mulher por nome Helena Jegado, como autora de morte por envenena- mento em 26 pessoas, e tentativa desse crime em outras oito, sempre com arsénico. Nesse mesmo anno, na Bélgica, occupou a attenção dos tri- bunaes um veneficio dos mais notáveis, pelas circumstancias particulares que o acompanharam, pela posição social do autor, e pela natureza mjsteriosa do toxico, que foi pela pri- meira vez empregado. Foi o envenenamento de Gustavo Fou- gnies, pelo seu cunhado o Conde de Bocarmé, por meio da nico- tina, eque deu em resultado o conhecimento do celebre methodo de pesquizas devido a Stass. Dahi para cá, seguem-se dous factos que abalaram e escan- dalisaram o mundo medico, porque apparecem como réos de semelhante crime dous inedicos. Um na Inglaterra, em 1856, oDr.W. Palmer, condemnado á morte e executado por ter envenenado com tartaro emetico um seu amigo. Outro em França, em 1864, o Dr. Couty de La Pommerais, medico ho- moeopatha, que teve a mesma sorte, e foi guilhotinado, como autor do envenenamento da infeliz viuva Paw, e muito pro- 20 TOXICOLOGIA provavelmente também de sua sogra, dous annos antes, ambas com a digitalina. O facto, porém, mais recente desta serie foi occorrido em 1887, na capital da Hollanda, onde uma perversa mulher, por nome Van der Linden, envenenou 102 pessoas, com arsénico, das quaes 27 succumbiram, 45 ficaram gravemente doentes, e as outras experimentaram apenas ligeiras perturbações. Vi- vendo do officio de enfermeira, ella inscrevia todas as pessoas accessiveis aos seus sinistros intentos em diversas sociedades, adeantava as respectivas joias, e depois envenenava-as lenta- mente para reclamar em seu nome as mensalidades que as mesmas sociedades reservam para seus associados doentes ; e em caso de morte, a contribuição destinada ao enterro ! Essa mulher foi condemnada á reclusão perpetua, naturalmente porque na Hollanda está abolida a pena de morte h Não deixarei este assumpto sem mencionar os numerosos envenenamentos que, a titulo de punição, enlutaram as paginas da historia do Egypto, ainda no começo do século actual; taes são os occasionados pela pena chamada do pecegueiro 2, a que eram condemnados todos aquelles que revelassem os segredos da arte sagrada de Hermes. Não deixarei, finalmente, sem registrar com indignação as praticas barbaras e cruéis, verdadeiros veneficios perante a sã moral, perpetrados ostensivamente, como prova judiciaria, por alguns povos atrazados, dir-se-hia mesmo selvagens, e votados ao obscurantismo mais ferrenho. Neste caso estão os venenos de prova do Gabon e do Tan- ghen. O primeiro é a casca da raiz de uma planta da familia das Loganiaceas (m’boundou), cujo macerato era administrado 1 Agita-se actual-mente perante os tribunaes do Porto, em Portugal, um processo celebre, relativo a uma serie de envenenamentos imputados a um medico, lente da escola medico-cirurgica, na pessoa de vários membros da familia de sua mulher, herdeiros com elle da grande fortuna que possue o pai desta. 2 Segundo HoefFer (Dicc. de chimica), este veneno era extraindo das folhas, flores e fructos do pecegueiro. GENERALIDADE^ 21 pelos padres ou feiticeiros aos accusados, por elles mesmos, do envenenamento de todos quanto morriam (pois não admittiam outra causa de morte). Minutos depois de terem ingerido esta tisana, as victimas eram obrigadas, para provar sua inno- cencia, a saltar um bastão collocado horizontalmente a dous pés, pouco mais ou menos, distante do chão, o que raramente podiam fazer, em virtude daacção nevrosthenica ou tetanisante deste toxico, até certo ponto congenere e svnergico da strychnina. Expiavam então sua pretendida culpa no meio de torturas atrozes : si eram escravos, eram amarrados a uma arvore e esfaqueados, ou queimados vivos, ou finalmente entregues a tribus anthropophagas. O outro veneno celebro debaixo deste ponto de vista é o cha- mado Tanghen (Tanghinia venenifera), cujas victimas se contam já por muitos milhares de pessoas, sacrificadas na ilha de Ma- dagascar e em outras regiões da África a esta prova judiciaria sui generis, executada em larga escala, para o descobrimento de crimes, com ceremonial proprio desses povos ignorantes e fe- tichistas. Os accusados bebiam, primeiramente, aguadearroze depois engoliam, sem mastigar, tres pedaços de pelle de frango, do tamanho de um dollar ; tomavam em seguida a semente do Tanghen raspada e misturada com sueco de bananeira ou, se- gundo Virey, com o sueco das folhas de cardamomo ; segundo outros, ainda, é a infusão da amêndoa desta planta que lhes davam a beber. Si elles rejeitavam pelo vomito o veneno, ou, conforme referem alguns historiadores, si com o vomito eram expellidos os tres pedaços de pelle de frango intactos, eram os infelizes decla- rados innocentes ; no caso contrario, eram considerados crimi- nosos e então punidos com os mais cruéis supplicios, não dando tempo ao veneno de acabar a sua obra. Precipitavam-se sobre elles eo matavam a lançadas, ou quebrando-lhes a cabeça, ou estrangulando-os, ou sepultando-os vivos, ou, finalmente, entregando-os á voracidade de animaes carnívoros ! Cousa notável, tal era a violência do veneno, que muitos 22 TOXICOLOGIA succumbiam antes mesmo de apurada a prova de sua innocencia ou criminalidade, e os mesmos julgados innocentes vinham a morrer em consequência dos effeitos funestos do veneno, apenas consolados com essa idéa, e livres dos martyrios, que no caso contrario lhes inflingiam ! Esta prova judiciaria era executada em larga escala, sob a denominação de ordalia (de ordeal-poison, em inglez, veneno de prova). Diz-se que de uma só vez, por occasião de uma destas ordalias, morreram umas seis mil pessoas, e Flandin refere que no espaço de 12 annos póde-se calcular em cento e cincoenta mil pessoas as que, só na ilha de Mascagascar, teem sido victimadas por este processo barbaro e estúpido, que ainda no principio deste século era praticado, mas que felizmente consta estar hoje abolido, ao menos com caracter official e publico. Modo de acção dos venenos De duas maneiras podem actuar os venenos sobre a economia: local e geralmente ; estes dous modos de acção não se excluem, e pelo contrario observam-se de ordinário simultaneamente, apenqs com predominância de um sobre o outro. Assim, por exemplo, o primeiro modo é sempre o resultado da acção corrosiva, desor- ganisadora, dos ácidos fortes e cencentrados, dos alcalis cáus- ticos e outros corpos que matam exclusivamente pelos estragos mais ou menos extensos e profundos, que determinam sobre os tecidos com que so poem em contacto; o segundo modo é aquelle pelo qual obram todos os outros venenos, que, sendo absorvidos pelas diversas vias, e penetrando na torrente cir- culatória, vão actuar intimamente sobre os elementos anato- micos dos solidos e liquidos que compoem a economia ; d’onde resultam desordens graves que acarretam a morte, notando-se que d’entre estes agentes ha muitos que exercem também uma GENERALIDADES 23 acçãQ local de irritação mais ou menos pronunciada, que repre- senta porém um papel secundário no mecanismo da morte. A absorpção dos venenos póde-se effectuar de vários modos, não fallando na injecção intravenosa, quasi exclusivamente em- pregada em experiencias physiologicas, e são: Io, pela mucosa broncho-pulmonar ; 2o, pela iqucosagastro- intestinal ; 3o, pela pelle. Neste ultimo caso, ainda a absorpção pôde ter logar de tres maneiras, conforme o veneno é applicado sobre a pelle sã ou intacta (banhos, cataplasmas, fpmentações); poder-se-ha chamar methodo epidérmico; dentro da pelle, ou sobre esta, prévia- mente denudada, despidq de sua epiderme (methodo endermico); por baixo da pelle op no tecido cellular sub-cutaneo (methodo hypoderinico). Em rigor, esta ultima applicação não se pôde chamar cutanea, porquanto o tecido cellular subjacente á pelle não faz parte deste tegumento ; em todo o caso a introducção das sub- stancias debaixo da pelle, por meio de injecçõeshypodermicas, é, depois das inhalações, o modo mais rápido e seguro de adminis- tracção, quer para os medicamentos, quer para os venenos. A rapidez da absorpção não ó a mesma atravez destas diffe- rentes vias; ella depende principalmente da estructura an- atómica dos tecidos; assim ella é maior naquelles que $ão desprovidos de epithelio ou em que elle é constituido por uma simples camada de tecido pavimentoso ; por exemplo : as cellulas pulmonares. Varia ainda naquelles que são revestidos dessa camada, conforme a sua tenuidade ou delgadeza, e por isso a absorpção é mais prompta nas serosasylo que nas mucosas. A ex- tensão da superfície é também um factor importante aconside- rar-se no phenomeno da absorpção, ecuja influencia é intuitiva. l.° A mucosa broncho-pulmonar representa incontestavel- mente a via mais rapida de absorpção, em virtude dessas condições, que permittem, em um momento dado, o contacto, por assim dizer, directo do veneno com o sangue, em uma 24 TOXICOLOGIA grande extensão; sómente não se presta sinão á applicação de productos aeriformes ou suspensos na atmosphera, em um estado de divisão extrema, reduzidos a partículas subtis e impalpáveis (methodo athmiatrico). E’ principalmente atravez desta membrana que penetram na economia os- princípios que determinam as intoxicações lentas e chronicas, cha- madas profissionaes, nas fabricas e outros estabelecimentos em que se manipulam substancias toxicas, voláteis sobretudo, taes como : o phosphoro, o arsénico, o antimonio, o mercúrio, etc., em que os indivíduos empregados nesses misteres vivem constantemente mergulhados em uma atmosphera viciada pela presença de pós impalpáveis e gaze* ou vapores deleterios. E’ à absorpção prompta pelas vias aereas que se devem infelizmente muitos exemplos de mortes quasi instantaneas, taes como a de Gehlen, por ter inhalado com força uma só bolha de gaz hydrogenio arseniado; de Scheele, por ter re- spirado accidentalmente acido cyanhydrico em uma de suas preparações no laboratorio; de Clemente VII, por ter respirado os vapores arsenicaes de uma tocha, que expressamente pre- pararam e acenderam junto delle, etc. 1 2o A absorpção pela mucosa gastro-intestinal é a que serve mais frequentemente para a propinação de venenos, justamente porque podem elles ser administrados de mistura com os alimentos, comquanto seja por esta fórma ainda mais demorada a sua acção, salvo casos excepcionaes, em virtude das modi- ficações que experimentam os princípios toxicos, não só da parte dos suecos digestivos, como da parte das matérias alimen- tares ingeridas, conforme adeante mostrarei. E’ claro que refere-se também a esta via de absorpção a introducção das substâncias toxicas por meio de clysteres ; notando-se que, si em geral a absorpção é mais rapida atravez da mucosa gastrica do que pelo recto, com certos venenos dá-se o contrario: são 1 Sbriziolo cita este facto attribuindo-o a Leopoldo I. GENERALIDADES 25 mais facilmente absorvidos pela mucosa rectal do que pela do estomago, por exemplo o opio, os principios activos da bella- dona, os saes de strychnina (não o alcaloide livre). Diversas causas podem fazer variar a maior ou menor ra- pidez da absorpção dos venenos pela mucosa gastro-intestinal : Io, o estado physico das substancias; ella é mais facil para os líquidos do que para os soiidos, porém, neste estado, mais, quando o corpo se acha pulverisado, do que em fragmentos mais ou menos volumosos ; 2o, o eúlado de vacuidade ou de plenitude do estomago; neste ultimo a absorpção é mais lenta, excepto para os cyanuretos, por exemplo, que, na pre- sença dos ácidos mesmo fracos que acompanham os alimentos (vinagre, sueco de limão), decompoem-se em maior proporção do que só com o acido do sueco gástrico, e occasionam eífeitos mais promptos, pelo desenvolvimento do acido cyanhydrico ; 3o, a natureza das matérias alimentares contidas no esto- mago. E’ certo que entre ellas encontram-se sempre gorduras, que em geral embaraçam e retardam a absorpção dos venenos, excepto o phosphoro e a cantharidina, que, nessas condições, serão mais promptamente levados á torrente circulatória, pela sua solubilidade nos excipientes graxos. 3.° A absorpção atra vez da pelle sã eintacta, não denudada, é a que se faz mais difficilmente e exige um tempo muito mais longo de contacto com os principios toxicos. Ainda assim, Ra- buteau resume o seu modo de pensar a tal respeito na seguinte regra, que, si não exprime em absoluto uma verdade, è pelo menos perfeitamente acceitavel; a saber: « a absorpção das substancias gazosas e voláteis é notável, a das matérias solidas e fixas, porém, quer dissolvidas em agua, quer incorporadas a excipientes graxos, é nulla ou infinitesimal» ; na segunda edição de seu livro, o autor substitue esta ultima expressão dizendo « é nulla ou muito lenta ». Si a observação clinica mostra positivamente que, por appli- cações externas sómente, manifestam-se effeitos evidentes irre- 26 TOXICOLOGJA cusaveis, devidos â absorpção (methodo iatroleptico ou iatro- liptico), é preciso confessar que esses factos referem-se a substancias que são, por si ou por seus productos, voláteis, como acontece com o mercúrio, com o iodo e também com as cantharidas, cujo principio activo está naquellas condições. Segundo Rabuteau, nenhum resultado, nenhuma prova positiva se obtem em favor da absorpção cutanea com o uso de bqnhos, mesmo prolongados, em cozimentos de plantas dotadas de propriedades medicinaes energicas (belladona, digitalis, etc.)> assim como a immersão na agua simples, deraorada durante dias consecutivos, não faz desapparecer nem diminue a sêde, o que prova não ser ella absorvida* A este respeito, e contra a absorpção pela pelle, lê-se no Journal d’hygiène, de 23 de janeiro deste anno, uma interes- sante comrnunicação do Dr. Keller (de Rheinfelden), feita á Sociedade Franceza de Hygiene, em que demonstra com uma serie de experiencias próprias, continuadas por Stass (de Bru- xellas) e Ritter (de Berlim), que « a pelle sã e intacta do homem não absorve no banho nenhum principio vindo do exterior », tal èq conclusão a que elle chegou, parecendo, entre outras, muito concludente a experiencia de Stass, com baqhos tendo eni dis- solução arseniato de potássio. A pelle, uma vez despida da sua epiderme, torna-se uma via mqis prompta de absorpção, embora poucas vezes seja utilisada como meio de envenenamento ; todavia, qlguns factos se teem observado, e que referem-se á applicação externa de substan- ciqs que reúnem à propriedade toxica geral a acção local irri- tante e caustica, taes como certas paassas arsenicaes, e sti- biadas, que, em contacto com a pelle, a queimam e permittem que os respectivos venenos sejam facilmente absorvidos atravez das superfícies ulceradas. Certas circumstancias locaes influem sobre a rapidez da absorpção, e neste caso se acha, por exeniplo, o estado parti- cular dos tecidos ; assim, segundo Bellini, ella é menos rapida GENERALIDADES 27 nos tecidos congestos e inflammados, e naquelles em que o veneno entra em combinação com as matérias albuminoides. Em relação a certos estados geraes morbidos, póde-se dizer cora o mesmo auctor que a absorção, sendo mais lenta e demo- rada nos estados plethorico, asphyxico, syncopal, typhoidéo, apesthesico, algido e febril, é mais rapida nos anémicos, sobre- tudo por hemorhagias quer naturaes, quer artificiaes. Si da absorpção dos venenos passarmos a considerar os seus effeitos, notaremos que por sua vez elles variam: Io, conforme a natureza particular de cada pessoa, conforme este complexo de condições organicas individuaes indefiníveis, que se chamam idiosyncrasias ; 2o, com as dóses, e na razão directa delias, comquanto a observação mostre que nem sempre a violência dos effeitos guarda esta proporção com a quantidade de veneno in- gerido, visto como, em circumstancias especiaes, tem aconte- cido que dóses cavallares de veneno, sendo immediatamente rejeitadas pelo vomito, não teem acarretado a morte ; 3o, com os hábitos eas profissões. Estes dous factores, porém, exercem sua influencia de modo diverso, e até mesmo em sentido contrario; o qpe é,á primeira vista, um paradoxo, um contrasenso tanto mais notável, quauto é geralmente sabido que as profissões çream hábitos. E' facto de observação vulgar que o uso continuado de pequenas dóses, gradualipente crpsçentes, de certos venenos, estabelece uma tolerância tal, que difficilmente os indivíduos podem ser mais envenenados por essas substancias ; antes, pelo contrario, si o uso é inveterado não o podem mais abandonar bruscamente, sem perturbações na saude ordinaria dos mesmos, e as quaes não podem ser efficazraente combatidas e debelladas sinão restabelecendo-se o funesto habito, cuja suppressão deve, pois, ser gradual, para não acarretar esses inconvenientes. E’ o caso da toxicophagia, sobre a qual julgo aqui oppor- tuno dizer algumas palavras: Todos comprehendem o valor real do vocábulo foxico- phagia, cuja significação etymologica, entretanto, exprime o 28 TOXICOLOGIA facto de se poder impunemente comer veneno, de dons radi- caes gregos, que isso querem dizer. E’, como se vê sem difficuldade, uma hyperbole, com a qual se pretende assignalar o phenomeno da tolerância extraor- dinária e excepcional que se adquire para as dóses relativa- mente elevadas de veneno, ou antes de certos venenos. A’ pri- meira vista nada tem de admiravel e surprehendente este facto, que acha explicação plausível e satisfactoria na força ou poder do habito. Com effeito, não ha quem ignore até que ponto póde influir esta circumstancia na resistência gradualmente crescente, oífe- recida pelo organismo aos effeitos toxicos de varias substan- cias ; entre outros exemplos bastar-me-hia citar o da tole- rância adquirida quasi universalmente em relação ao fumo ou tabaco, ainda que à custa de perturbações mais ou menos sérias, que todos experimentam no principio. E’ como um tri- buto pesado, pago em maior ou menor escala por todos os estreantes desse vicio, altamente nocivo e prejudicial, sob qualquer fôrma que se considere o seu uso. São verdadeiros phenomenos de envenenamento, que deviam constituir uma lição, um profícuo e salutar aviso para não proseguirem no vicio, mas que de nada servem deante das ex- igências estúpidas da moda e do poder contagioso da imitação. Não obstante aquelles effeitos iniciaes desagradaveis e nimia- mente incommodos, a capitulação é considerada uma prova de fraqueza ou máo gosto, e por isso reincidem com tanto mais facilidade, quanto de cada vez os phenomenos experimentados são menos accentuados, até que chegam assim a habituar-se, a escravisar-se mesmo ao uso de uma planta, da qual entretanto extrahe-se um dos venenos mais violentos que se conhece. Dahi a serie immensa de accidentes e estados morbidos attribuidos com justa razão, directa ou indirectamente, ao uso e abuso do fumo ; .é um estupefaciente de acção energica, que não póde ser indifferente à saude dos seus apreciadores. GENERALIDADES 29 Não é preciso esforço de imaginação para accommodar este facto á ordem daquelles que constituem no fundo a toxico- phagia, embora não se trate aqui positivamente da ingestão de veneno, porém de sua absorpção, em substancia ou em vapores, atravez da mucosa buccal, nasal e broncho-pulmonar, isto é, mascado, cheirado e fumado, principalmente quando tragado. A mesma reflexão póde-se applicar ao álcool; é também um veneno energico, cujos effeitos nos que se arriscam ás primeiras libações, e mesmo nos habituados-e viciosos, em doses mais elevadas, são bastante conhecidos por todos e presenciados diariamente em toda a parte, proporcionando espectaculos os mais contristadores e degradantes para a especie hamana. Ainda aqui não se trata, é verdade, no sentido rigoroso e etymologico da palavra, de toxicophagia e sim dir-se-hia antes de toxicopocia ou toxicodipsia, pois que o veneno é in- gerido sob a fôrma de bebida ; porém o mecanismo physiologico da pretendida immunidade é inteiramoiite o mesmo. Cumpre confessar, entretanto, que as consequências funes- tas devidas ao abuso do nlcool são muito mais constantes e certas do que as que se faz depender do tabagismo ou nicotismo. Ou seja porque os principies toxicos do fumo são em parte destruídos ou soffrem alterações profundas em sua constituição chimica, não só pelas fôrmas variadas do seu uso, como pelos processos industriaes de sua preparação; ou seja porque o abuso do álcool é ainda mais espalhado e se exerce em maior escala, parece-me fóra de duvida que os estragos do alcoolismo soprepujam em extensão e intensidade aos determinados pelo abuso do fumo, aliás considerado mais toxico do que elle. Em todo o caso, uma consideração suggere ao espirito o estudo desta questão, e vem a ser, que a tolerância ou resis- tência à acção destes dous terríveis venenos é mais apparente do que real, porquanto elles minam lentamente a existência dos indivíduos sujeitos á sua influencia, vindo a manifestar-se mais cedo ou mais tarde os effeitos deleterios assignalados. E’ 30 TOXICOLOGIA uma questão de tempo, particularmente, como já disse com relação ao álcool. Além destas substancias, lia" uma terceira que se comporta como aquellas, embora em muito menor escala, porque affecta quasi exclusivamente um povo: é o opio. Esse povo, porém, que é o chinez, paga a este veneno um pesàdissimo tributo de ordem physica e intellectual, representado pelo complexo de phenomenos toxicos que caracterisam o meconismo chronico, e que me dispenso de enumerar aqui. O modo por que elles usam e abusam do opio constitue, mais propriamente talvez do que os dous citados antes, um exemplo de toxicophagia. Si, porém, assim não deve ser entendida esta expressão, e si ella deve ser reservada para os casos em que os indivíduos não experimentam a menor alteração em sua saude, a não ser de melhoria, então nada do que tenho dito até aqui comprehende- se no assumpto, que assim fica limitado ao caso do arsénico, cujo uso em pequenas dóses, gradualmente crescentes até chegar a dóses relativamente altas, constitue o caso particular da toxicophagia chamado arsenicophagia; e ainda assim, exami- nando com attenção os dados scientificos apresentados em apoio deste facto, seremos forçados a guardar reserva sobre a exten- são e verdadeiro sentido em que deve ser tomada eacceita aquella expressão, conforme demonstrarei quando tratar espe- cialmente deste assumpto, a proposito do estudo do envenena- mento pelo arsénico. Resta, porém, saber si essa immunidade relativa verifica-se também nos individuos que manipulam os venenos, parti- cularmente o arsénico, e cuja profissão os obriga a viver, por assim dizer, em um ambiente toxico ; si elles são ou não sujeitos á intoxicação profissional ? A este respeito o que a observação tem demonstrado e en- sina é que os individuos veem a soffrer necessariamente mais tarde ou. mais cedo as consequências do meio deleterio em que GENERALIDADES 31 passara a maior parte do tempo, e os phenomenos daquella fôrma de intoxicação declaram-se com todo o seu cortejo. A’ primeira vista, afigura-se este facto um paradoxo. Si, como já disse, é certo e reconhecido por todos que as profissões creaín hábitos, e estes por sua vez geram immunidades, a conclusão que se impõe ao espirito é que as profissões deviam constituir uma das condições mais favoráveis e adequadas para o estabe- lecimento desta resistência excepcionalá acção dos venenos, em que repousam os phenomenos de toxicophagia. Reflectindo, porém, alcança-se facilmente a explicação do facto, e para isso basta attender para a escala em que se dá o movimento rela- tivo de absorpção e de eliminação, sendo incontestável que, nas profissões de ambiente toxico, esta é vencida e sobrepujada por aquella, em virtude da extensa e larga superfície de absorpção representada pela pelle, pela mucosa gastro-intestinal, e sobre- tudo pela mucosa broncho-pulmonar ; que todas entram em jogo neste funesto concurso. Em taes circumstancias, com effeito, a atmosphera impregnada de particulas toxicas, que umas se diluem por volatilidade, outras se suspendem por extrema divi- sibilidade, leva ao interior do organismo esses mesmos princi- pios por diversas fôrmas: ora penetrando na bocca, impregnando a saliva, que, insensivelmente deglutida em parte, os vae arras- tando até o estomago; ora, os individuos com as mãos sujas das substancias deleterias em que trabalham, levam á bocca alimentos, cigarros e charutos, que assim tornam-se porta- dores das referidas substancias ; ora,em contacto constantemente com as partes descobertas do corpo, rosto e mãos, sobretudo estas, e mesmo por intermédio das roupas muitas vezes impregnadas das matérias toxicas, com o resto da superfície cutanea, depoem-se sobre a pelle em transpiração esses principios, que assim se dis- solvem no suor, directa ou indirectamente, a favor do acido normal deste liquido, e vão se insinuando no organisimo, em- bora por esta ultima via em proporção minima ou infinitesimal, tratando-se de substancias que não são gazosas ou voláteis. 32 TOXICOLOGIA Não é preciso lembrar aqui que refiro-me á pelle no seu estado de integridade phvsiologica ; pois que, privada de sua camada epidérmica, ella offerece uma via facil de absorpção (metliodo4 endermico). Está bem visto, igualmente, que não me refiro á via hypodermica, que é inquestionavelmente uma das portas mais francas de penetração de venenos, e de que os autores impropriamente se occupam quando tratam da absor- pção pela pelle ; e, conforme já ponderei, nada tem que ver com o tegumento externo a injecção subcutânea, desde que a elle não pertencem os tecidos que representam a superfície absor- vente. Ora, sendo assim, ó indiscutivel que as fontes de eliminação tornam-se insuflicientes para dar sabida aos venenos ; rompe-se o equilibrio e elles tendem a accumular-se. No fim de um tempo variavel, começam os primeiros symptomas da intoxi- cação chronica, que cada vez mais se accentuam, produzindo verdadeiras enfermidades, sómente curáveis com o abandono da profissão e do meio habitual da vida dos individuos, além de um tratamento conveniente. Não querendo ou não podendo elles adoptar esta resolução, chegam as desordens toxicas a um ponto em que nem mesmo este recurso lhes aproveita, e teem fatalmente de pagar com a existência a sua dedicação ou teimosia. Resumindo, pois, direi que, em doses pequenas e reiteradas com intervallos sufRcientes, ou mesmo progressivamente cres- centes, de arsénico e outros venenos, sua eliminação pelos omunctorios naturaes tem tempo de se effectuar e compensar vantajosamente a absorpção; conseguintemente impedindo sua accumulação e suas consequências funestas. Nas intoxicações profíssionaes não se dá o mesmo ; e, seja pela quantidade, seja pela acção continuada e incessante dos princípios deleterios, no fim de algum tempo a absorpção sobrepuja a eliminação, favorece e dispõe para a saturação da economia, deixando, mesmo depois de retirada a causa, alte- GENERALIDADES 33 rações raais ou menos profundas, quasi sempre permanentes e incuráveis. Tal é, no meu modo de ver, a explicação do facto, appa- rentemente contradictorio e paradoxal, relativo á influencia inversa dos hábitos e das profissões, quando aquelles são muito frequentemente consequências destas. Sobre estes dados póde-se estabelecer a regra seguinte : « a tolerância para os venenos, ou a faculdade de resistir aos seus effeitos, está na razão directa dos hábitos e inversa das profissões ». Seja, porém, como fòr, uma vez absorvido o veneno, e levado pela torrente circulatória ao interior dos orgãos, aos últimos elementos anatómicos dos tecidos, era de esperar que fosse em todos elles igualmente espalhado e distribuido. Ao contrario disso, a observação mostra que essa distribuição, vária e irre- gular, em virtude da qual certas partes da economia recebem e guardam maior contingente de veneno do que outras, obedece em parte a uma lei de physiologia pathologica, que Rabuteau enuncia por estas palavras : « uma substancia impressiona tanto mais vivamente os orgãos e os tecidos quanto elles são mais vascularisados, quanto os seus elementos são mais irrigados ». Mas esta lei não rege sinão uma parte da diffusão dos ve- nenos, visto como não explica a razão pela qual os pulmões, sendo do numero dos orgãos mais irrigados, não são dos mais impressionáveis, isto é, dos que recebem maior quota nesse dividendo. E’ o fígado o orgão de predilecção, o receptaculo onde se accumula e deposita maior proporção de quasi todos, sinão de todos os venenos ; e provavelmente outras circum- stancias ainda desconhecidas influem sobre este phenomeno, por sua natureza complexo. Em todo o caso cumpre notar que, sendo os venenos prin- cipios inassimilaveis, estranhos á composição normal dos te- cidos e prejudiciaesá sua estabilidade e integridade physiolo- gica, tendem a ser eliminados. TOXICOLOOIA. 3 34 TOXIGQLOGIA Da eliminação dos venenos Este trabalho salutar da nossa economia effectua-se por vias diversas, representadas pelos apparelhos de secreção, que são os emunctorios naturaes, e termina em um tempo va- riável para os differentes venenos; por outro lado, si alguns delles são eliminados em natureza, taes quaes foram absorvidos, outros experimentam certas modificações em sua composição. A eliminação dos venenos faz-se principalmente: Io, pelas glandulas ; 2o, pela mucosa broncho-pulmonar ; 3o, pela su- perfície cutanea. Entre as glandulas são especialmente os rins (?) e o fígado aquellas cujas secreções proporcionam para a maior parte dos venenos a via de eliminação ao mesmo tempo mais larga e mais accessivel ás applicações therapeuticas e investigações toxicologicas, comquanto seja por via de regra a urina rara e escassa nos envenenamentos ; para os venenos gazosos e vo- láteis são os pulmões que offerecem a porta mais franca de eli- minação ; para o mercúrio, ella se faz em muito maior escala pelas glandulas salivares, e pelo pancreas. A duração da eliminação varia conforme a natureza do ve- neno, sua solubilidade ou insolubilidade, sua diffusibilidade, ou a dos productos que elles formam em contacto com o sangue, ao lado de certas condições individuaes que não podem ser de- terminadas. Começa por assim dizer desde os primeiros momentos de sua introducção na economia, e termina, para o nitro e sul- phatos alcalinos, em 24 horas ; para os alcaloides em geral, em tres dias ; segundo o que as experiencias de Orfila, Rabuteau e outros teem demonstrado, só se póde considerar completa, para o arsénico e o sublimado corrosivo, no fim de um mez ; para o tartaro emetico, de quatro mezes; para o nitrato de prata, de GENERALIDADES 35 cinco mezes 1; para o sulfato de cobre e o acetato de chumbo, de seis a oito mezes, etc. E’, porém, tão difficil esta apreciação, tão dependente e su- jeita á influencia de circumstancias diversas, que não se póde ligar grande valor áquellesalgarismos ; elles exprimem, quando muito, médias approximadas. Nas differentes especies animaes varia ainda a duração da eliminação, conforme uma lei providencial que Chatin enuncia por esta forma : «A maior rapidez da eliminação está na razão inversa da faculdade de resistir ao veneno », isto é, tanto mais depressa se elimina o veneno, quanto menos póde o ani- mal resistir aos seus effeitos, pela intolerância maior que para elle offerece sua natureza particular. Quanto ao estado em que os venenos são absorvidos e elimi- nados, podem se dar tres hypotheses : Ia, uns passam em natureza, sem alteração alguma; exemplo : o oxydo de carbono, o acido prussico, o álcool (?), o ether, o chloroformio, os alcaloides, etc. ; 2a, outros, são modificados no estomago e intestinos pelo contacto com os suecos digestivos e depois eliminados no estado em que são absorvidos : ahi se acham todos os corpos que se decompoem na presença do acido chlorhydrico e dos chloru- retos alcalinos do sueco gástrico ; por exemplo: os cyanuretos, os carbonatos, que dão logar ao desprendimento do acido cyan- hydrico, do gaz carbonico ; os saes de prata e de chumbo, que precipitam em parte no estado de chloruretos. E’ verdade, e cumpre notar, que, si se trata de dóses toxicas de um sal solúvel de prata ou de chumbo, não é certamente a proporção decomposta que é absorvida; pelo contrario, depois de gasta nesta reacção toda a quantidade, aliás muito pequena, que existe de chloro no sueco gástrico, o excesso daquelles saes penetra 1 Refere Chandellon (Tratado de toxicologia e chimica legal), que Van Geuas encontrou prata em quasl todos os tecidos de um individuo que havia sido submefctido 16 annos antes (!) ao tratamento por preparados desse metal. 36 TOXICOLOGIA directamente na circulação. Em doses medicinaes, porém, a pequena quantidade de sal argentico ou plumbico introduzido de cada vez no estomago encontra chloro sufficiente não só para precipital-os, mas ainda para redissolvel-os, no estado de chloruretos duplos solúveis, em que são absorvidos. As mesmas reflexões cabem aos proto-saes solúveis de mer- cúrio ; sómente estes não são em geral empregados nem como medicamentos nem como venenos; os únicos que teem applica- ção em medicina são o proto-iodureto e o proto-ehlorureto de mercúrio (calomelanos), ambos insolúveis. Segundo a theoria de Mialhe, muito racional, ainda que não cabalmente demons- trada 11a pratica pela experiencia, este ultimo sal, em dóses fraccionadas, como alterante, é absorvido sempre no estado de bichlorureto ; em dóses elevadas, porém, como purgativo, passa sem alteração, e obra então mecanicamente, como um corpo estranho irritante. Quanto aos ioduretos de mercúrio, separa-se 0 metal, queé eliminado depois em natureza, ou em algum estado particular de combinação não conhecida ; 3a, é ò caso muito mais complexo das substancias que, sendo ou não absorvidas taes quaes são ingeridas, soffrem depois no sangue transformações diversas antes de sua eliminação. São de tres ordens estas metamorphoses, a saber: oxydação, reducção e desdobramento. No primeiro caso estão os sulphuretos, hyposulphitos e sulphitos, que se transformam em sulphatos; os hvpophosphitos em phosphatos; os acetatos, citratos, tartratos e em geral todos os saes alcalinos de acido orgânico, e mesmo esses ácidos livres, em carbonatos respectivos ( de sodio, neste ultimo caso); os mesmos cyanatos suppõe-se que não escapam a esta metamorphose, e a ella se attribue sua inocuidade relativa. Quanto ao acido oxalico, nada se sabe de positivo, mas parece antes comportar-se como os do 3o grupo. O segundo caso applica-se, por exemplo, aos hypochloritos e chloratos, que são reduzidos ao estado de chloruretos ; os bro- GENERALIDADES 37 matos ao de bromuretos; os iodatos ao de ioduretos ; o perchlo- rureto de ferro ao de proto-chlorureto do mesmo metal, etc. O terceiro caso, finalmente, comprehende muito menor nu- mero de corpos, que são os seguintes: o chloral, que, adminis- trado em pequenas dóses, se desdobra, sob a acção dos alcalis ou seus carbonatos, em formiato respectivo e chloroformio 1 ; este, que por sua vez, sob a mesma influencia, desdobra-se em chlorureto e formiato ; o acido oxalico, que se presume com boas razões, desdobrar-se por deshydratação em gaz carbonico e oxydo de carbono ; o tannino (acido tannico), que, converten- do-se em acido gallico, soffre um verdadeiro desdobramento mollecular, do qual não resultam dous corpos diversos, mas duas molleculas do mesmo corpo, pelo que, é aquelle corpo também chamado acido di-gallico. Lei atómica ou thermica applicada á toxicologia Dos estudos e observações que fez Rabuteau em 1867, e das experiencias a que procedeu sobre o grão variavel de energia toxica dos diversos venenos, chegou ao conhecimento de que 1 Sei quão discutida e controversa é esta opinião, que alguns thera- peutas não admittem. Para estes o chloral obra como tal, sem essa trans- formação, que é inteiramente hypothetica ; entretanto, penso que, si em grande dóse de cada vez, em dóse massiça, como se diz, a maior parte deste agente actúa em natureza, porque essa decomposição não depende só da substancia ingerida, mas da quantidade de reagente intra-organico ; quando administrada em dóses pequenas, embora repetidas até uma somma corre- spondente áquella, tudo leva a crer que esse desdobramento se effectua, attendendo á facilidade com que o chloral, na presença de qualquer alcali, ou carbonato alcalino, mesmo relativamente fraco, como são os alcalis terrosos, e até a frio, produz o chloroformio por aquella transformação. Deve ser, portanto, muito difficil que escape a ella esse corpo, em contacto com o carbonato alcalino do sangue, e na temperatura normal deste, muito mais favoravel á reacção. Si os effeitos do chloral e do chloroformio não são inteiramènte idênticos, como deveriam ser na opinião dos adversários desta doutrina —e tal é uma das suas maiores objecções — é isso devido ás differenças resul- tanles do modo de administração, das condições do estado nascente, sendo certo que esses effeitos modificam-se segundo estas circumstancias até para o mesmo agente ; assim, por exemplo, como differem com o chloroformio, quando inhalado e quando ingerido, devem modificar-se quando formado no seio do proprio sangue. 38 TOXICOLOGIA existe uma certa relação, por assim dizer, constante e invariá- vel eíitre essa propriedade e o peso atomico dos corpos simples que entram em sua composição. Ora, como segundo o principio de Dulong e Petit, esse peso atomico está na razão inversa dos calores específicos, segue-se que também aquella relação se verifica com a mesma constância a respeito dos alga- rismos que representam esta condição physica de cada um dos elementos. D’ahi os nomes de lei atómica ou thermica, que Rabuteau formulou nos seguintes termos : os metaes, e em geral os corpos elementares, são tanto mais activos, tanto mais toxicos, quanto elles teem um peso atomico mais elevado, ou um calor especifico mais baixo. Por outras palavras, a energia toxica dos diversos elementos, particularmente os metaes, está 11a trazão directa de seu peso atomico e inversa do seu calor especifico. Esta lei passou sem contestação e foi mesmo sustentada até estes últimos annos por vários experimentadores ; por ella os metaes são dispostos em cinco grupos, em que elles se succedem na ordem exacta dos algarismos, que representam 0 respectivo peso atomico. Assim temos : Io, metaes pouco activos, desde 0 lithio (7) até 0 magnésio (24) ; 2o, metaes activos, desde 0 potássio (39) até 0 cobalto (59); 3o, metaes muito activos, desde 0 cobre (63) até 0 stroncio (87,5) ; 4o, metaes toxicos, desde a prata (108) até 0 antimonio (122); 5o, metaes muito toxicos, desde 0 baryo (137) até 0 bismutho (210). E’ claro que estas designações de grupos não teem valor absoluto, não querem dizer que os corpos simplesmente activos não possam ser toxicos, nem que estes não possam deixar de sel-o. Questão de dóse, modo de administração e outras cir- cumstancias especiaes. Entre os metalloides também se verifica esta lei, ao menos, por exemplo, entre os do grupo diatomico: oxygenio, enxofre, selenio e telluro. GENERALIDADES 39 Attendendo-se para a ordem em que se acham collocadosos metaes, e para as propriedades de que gozam, assignaladas na acção dynamica que exercem sobre o organismo, não se pôde deixar de reconhecer que, ainda mesmo que houvesse exce- pções reconhecidas a esta regra, ella não seria por isso invali- dada; acredito, porém, que as que se teem apontado não são sinão apparentes e derivam de uma observação superficial e viciosa ; por exemplo, de se querer comparar compostos solúveis e inso- lúveis indistinctamente, quando nesta apreciação cumpre ter em vista, tanto quanto fôr possível, o mesmo gráo de solubili- dade, que é a condição physica que preside á diffusão mais ou menos rapida dos corpos na economia. Assim é que causa a todos especie o logar elevado em que se acha o bismutho naquella seriação atómica e que lhe devia con- ferir a maxima energia toxica, quando é geralmente sabido que um dos seus compostos (o sub-nitrato) administra-se todos os dias em dóses consideráveis sem o menor inconveniente, se- gundo o conselho de Monneret e outros. Esta objecção, porém, é de todo o ponto improcedente, por- que trata-se neste caso de um producto completamente inso- lúvel nos liquidos neutros e alcalinos, e portanto inerte ou pouco activo, obrando como absorvente por acção mecanica. Em taes condições, qualquer que fosse o metal que fizesse parte do composto, sua acção particular seria nullificada deante da- quella propriedade physica. Assim é, por exemplo, que dos dous chloruretos mercuriaes, um, queé solúvel (o sublimado corro- sivo), é extremamente venenoso, ao passo que o outro (o calo- melanos), que aliás na mesma quantidade encerra mais mer- cúrio do que o primeiro, por ser insolúvel é inoffensivo, e em alta dóse obra como purgativo. A mesma differença nota-se igualmente entre os dous ioduretos de mercúrio. Ninguém com certeza iria avaliar a actividade toxica dos saes de baryo e de chumbo pela acção nulla ou quasi nulla que sobre a eGonomia exercem os respectivos sulfatos, nem a dos 40 TOXICOLOGIA compostos antimoniaes solúveis pelas dóses altas em que se pôde applicar impunemente o bi-antimoniato de potássio, impropria- mente chamado nas pharmacias oxydo branco de antimonio. Finalmente, todos sabem que o oxalato de cálcio jámais poderá servir de titulo de aferição para a propriedade nimiamente de- leteria dos oxalatos solúveis, e por consequência do sal de azedas. E’ indispensável neste confronto, como já disse, jogar tanto quanto fôr possivel com o mesmo gráo de solubilidade ou diffusibilidade. Debaixo deste ponto de vista, está verificado que ossaes solúveis de bismutho são muito venenosos, e entre elles sobretudo ha um, o emetico de bismutho (tartrato bismutho- potassico), que é excessivamente toxico. A outra objecção, que aliás me parece mais séria, ainda assim resolve-se hoje facilmente depois dos estudos minuciosos realizados ultimamente sobre a matéria por vários experimen- tadores do mais elevado conceito. Refiro-me ao cobre, que, pelo logar que occupa na serie, em virtude de seu peso atomico re- lativamente baixo (63), figura no grupo dos muito activos, e ainda destes é o menos activo ! Ora, esta classificação parece attentar contra tudo o que os hygienistas teem estabelecido até certa época sobre o cobre, firmados em dados de observação, que hoje se reconhece terem sido pouco rigorosos, si não de todo erroneos ou falsos. Com effeito, a questão dá inocuidade do cobre tem sido nestes últimos tempos completamente discutida, e,póde-se dizer, está hoje julgada á luz da evidencia dos factos na sua mais justa e exacta interpretação. Antigamente attribuiam-sea este metal propriedades toxicas exaggeradas, tornando-o responsável não sómente pelos enve- nenamentos agudos, determinados em geral com fim suicida, mediante a ingestão destas cores verdes do commercio, que servem para a preparação de tintas de pintura, sob as deno- minações de verdete, verdePariz, etc., como também respon- GENERALIDADES 41 sável pelos envenenamentos ordinariamente accidentaes, e de forma sub-aguda e chronica, produzidos pelo emprego de utensilios de cobre, na preparação culinaria de nossos alimen- tos, e bem assim de processos industriaes postos em pratica para a conservação e coloração artificial de alguns delles. A discussão, porém, deste assumpto aqui me levaria muito longe, e como é bastante vasto, importante e susceptivel de largo desenvolvimento, emprazo-me para discutil-o a propo- sito do estudo do envenenamento pelo cobre. Por emquanto contentar-me-hei em declarar que nenhuma destas accusações pôde mais hoje em boa doutrina ser appli- cada ao cobre, visto como, entrando constantemente na compo- sição daquellas tintas verdes o arsenito ou o aceto-arsenito de cobre (verde de Scheele e de Schweinfurt), sobretudo este ul- timo, muito mais facilmente atacavel pelo sueco acido do esto- mago, e sendo os compostos arsenicaes incomparavelmente mais toxicos que os de cobre, não vejo por que razão se hãodeattri- buir a este metal e não áquelle metalloide os effeitos funestos observados em taes circumstancias. Estes envenenamentos devem, pois, a justo titulo, figurar entre os envenenamentos pelos compostos arsenicaes. Os de fórma sub-aguda e chronica, devidos, segundo pre- sumpções infundadas, aos utensilios de cobre e outros usos deste metal na nossa alimentação, está hoje provado a toda a evidencia por observações e experiencias rigorosas e conclu- dentes, praticadas por Galippe, Toussaint e muitos outros, que devem antes ser dados á conta do chumbo, que existe sempre ao lado do cobre, do zinco ou do estanho, ou independente delles, em vasilhames de preparação e conservação dos alimen- tos e bebidas, ou seja no revestimento interior das panellas estanhadas e de barro vidrado, ou seja na solda empregada para unir as peças que formam as latas, ou que compoem ap- parelhos de distillação e outros, ou seja no forro interno dos depositos de agua, e nos tubos de derivação da mesma para as 42 TOXICOLOGIA casas, ou seja nos grãos empregados na lavagem de garrafas destinadas a conter líquidos mais ou menos ácidos, taes como vinhos, vinagres, etc., ou seja nas laminas de estanho, ordina- riamente plombifero, com que se revestem os páos de chocolate, e se forram as caixas de chá e os botes de rapé, ou seja em ma- térias corantes imprudentemente utilisadas em doces, e mesmo em substancias alimentícias do uso diário, ou seja no proprio crystal dos copos e outros vasos, em cuja composição entra o chumbo ; emfim, em mil outras circumstancias o chumbo in- sinua-se sorrateiramente em nosso corpo, acarretando des- ordens, umas caracteristicas e patentes, outras talvez ainda disfarçadas e não bem conhecidas, emprestadas ao cobre. Para maiores esclarecimentos, veja-se o excellente livro de Gautier sobre o cobre e o chumbo. Limito-me, por emquanto, a estas breves considerações, afim de mostrar que a collocação do cobre no 3o grupo deRabuteau, em que se acham os corpos muito activos e não ainda essencial- mente toxicos, é perfeitamente justificada e constitue um exem- plo, antes do que uma excepção, da lei atómica ou thermica. Quando mesmo fossem procedentes as objecções relativas aos dous metaes (bismutho e cobre), si outras não houvesse além destas, comprehende-se claramente que ellas viriam antes corroborar do que enfraquecer e invalidar uma lei, que, applicavel a uma serie de 65 corpos simples, com excepção apenas de dous, constitue uma das regras mais bem funda- mentadas. Não dissimularei, entretanto, que outro ponto de vista digno de attenção surge agora depois dos estudos feitos ultimamente por Husemann, e referidos por Nothnagel e Rossbach,no seu excellente tratado de matéria medica e therapeutica, e que S9 impõe á cogitação dos toxicologistas ; vem a ser, que, segundo esse notável observador, com os metaes alcalinos dá-se inteira- mente o inverso do que a lei de Rabuteau estabelece, isto é, que o rubidio, cujo peso atomico é 85, e cujo logar na classificação GENERALIDADES 43 atómica é superior ao cobre no grupo dos muito activos, não é toxico, ao passo que o lithio, representado por 7, é mais activo do que os outros metaes congeneres ? 1 Na sua opinião, os saes metallicos desenvolvem uma acti- vidade tanto maior, em iguaes condições de solubilidade e dif- fusão, quanto elles encerram maior quantidade de metal; e por consequência essa propriedade, diz elle, está na razão inversa do peso atómica do acido (?) (sendo este por sua natureza inerte). Assim, por exemplo, o chlorureto de potássio e o de lithio teriam um poder toxico pouco mais ou menos igual, si não fosse a proporção relativa dos dous metaes ; o primeiro destes saes contém 16% de lithio e o segundo 52% de potássio. Pondo de parte a impropriedade da expressão peso atomico de acido, nota-se mais que Husemannécontradictorio, e mesmo incomprehensivel, quando, depois de annunciar que o lithio é mais activo e toxico do que os outros metaes alcalinos, acaba por confessar o contrario, explicando a differença em favor do potássio, pela quantidade em peso em que cada um faz parte da combinação chloruretada. Ora, a primeira destas proposições carece de fundamento, pois que não cita o autor as experiencias em que baseou o seu juizo a tal respeito, o que tanto mais se tornava preciso, quanto esta opinião vinha destruir uma doutrina apoiada na observação e pratica de quasi todos os clinicos. Não tenho experiencias próprias a oppor ao modo de pensar de Husemann, mas repugna-me acceitar a sua contestação áquella doutrina, sem reserva e sem provas convincentes. Quanto á segunda, em que elleacceita o facto, porém não á interpretação de Rabuteau, é facil de ver que a differença é mais apparente do que real, e que a explicação apresentada pelo con- tradictor allemão é antes capciosa ; porquanto é sabido que essa quantidade, diversa para os differentes corpos, porém constante 1 O ponto de interrogação é nosso, para manifestar a duvida sobre esta proposição. 44 TOXICOLOGIA e invariável para cada corpo em uma mesma combinação, é expressa por algarismos, que constituem os antigos equivalentes, e correspondem mais ou menos exactamente, na moderna theoria chimica, aos que representam o peso atomico. Sómente Ra- buteau, talvez menos pretencioso, limitou-se a assignalar uma relação, que é, a meu ver, perfeitamente rigorosa, a respeito da grande maioria, si não da quasi totalidade dos corpos a que applicou a lei atómica, e tanto basta para que ella tenha os foros de uma verdade. Husemann foi mais longe e pretendeu descobrir nessa relação, expressa em numeros equivalentes, que guardam estreita proporção com os do peso atomico, a razão de ser, a essencia, a causa intima do facto. E’, pois, uma questão nova a perquirir e elucidar, mas que no fundo não destróe nem modifica a lei atómica ou thermica de Rabuteau. Symptomatologia, anatomia—pathologica e therapeutica geral dos envenenamentos Symptomatologia Os symptomas que mais frequentemente se observam por occasião dos envenenamentos são de duas ordens : locaes e geraes. Os primeiros se traduzem por phenomenos proprios de uma gastro-enterite, mais ou menos intensa e extensa, visto como quasi todos são dotados em maior ou menor escala de pro- priedades irritantes, e, pelo seu contacto com a mucosa do tubo digestivo, dão logar a uma inflammação aguda, sub-aguda ou chronica, conforme a dóse, e outras circumstancias que mais adeante serão estudadas. Assim, em geral, sobrevem logo, ou algum tempo depois da ingestão do veneno, uma dor mais ou menos viva na região epi- GENERALIDADES 45 gastrica, propagando-se ao ventre, vomitose evacuações alvinas, mais ou menos abundantes, de caracter diverso conforme o ve- neno, sede ardente, insaciável. Taes são as perturbações do apparelho gastro-intestinal, que rompem ordinariamente a marcha dos phenomenos. Seguem-se os symptomas geraes, que são devidosá absorpção e acção dynamica das substancias, e que se traduzem por des- ordens notáveis da circulação, da respiração, da calorifícação e da innervação. Estas perturbações, que offerecem também um typooucunho caracteristico diverso, conforme os venenos, serão descriptas a proposito do estudo de cada um. O que se pode dizer de mais geral é que pela maior parte elles exercem uma acção hyposthenisante mais ou menos pro- nunciada ; dyspnéa, resfriamento, prostração de forças e des- ordens nervosas as mais variadas e complexas, terminando por convulsões ou paralysia e a morte. Algumas vezes, porém acontece que pela violência da explosão dos symptomas elles não se succedem com esta regularidade dos casos typicos: os phenomenos de uma e outra ordem se manifestam simultanea- mente, e ás vezes mais raramente só estes últimos. A marcha dos envenenamentos póde ser dividida simples- mente em duas fôrmas : aguda e chronica, ou então em quatro : superaguda ou fulminante, aguda, sub-agudaechronica, o que depende da violência e successão dos symptomas, sua duração ou época de terminação, que póde ser de algumas horas ou mesmo de alguns minutos, assim como de muitos dias, semanas, mezes e até mesmo annos inteiros (intoxicações profissionaes). Ha além destas, uma fórma latente, anómala, que se observa em certos envenenamentos. Anatomia pathologica As lesões anatomo-pathologicas produzidas pelos envenena- mentos são, assim como os symptomas, de duas ordens : locaes 46 TOXICOLOGIA e geraes. As primeiras se encontram nos pontos de contacto com o veneno, na mucosa da bocca, do esophago, estomago e dos intestinos, e se traduzem por alterações inflammatorias, hyperhemias, hemorrhagias capillares, ecchymoses, erosões, ulcerações e até perfurações. As lesões geraes são as que se observam no parenchyma dos orgãos, especialmente no figado e rins, na estructura interna dos tecidos, e até mesmo nos glóbu- los do sangue, nas fibras musculares, nos canaliculos nervosos, na profundidade dos elementos glandulares, nas cellulas do epithelio. Estas alterações profundas são de natureza diversa: hemor- rhagica e inflammatoria, notando-se em alguns casos, princi- palmente no envenenamento pelo phosphoro, pelo arsénico e pelo antimonio, uma degeneração gordurosa mais ou menos generalisada. A pelle offerece também modificações, que serão descriptas na parte especial; e quanto ao sangue, de ordinário escuro, ennegrecido e mais fluido, apresenta-se em alguns en- venenamentos vermelho, rutilante; em geral, porém, seu aspecto e consistência dependem mais da morte rapida ou lenta do que da natureza do veneno . O diagnostico differencial só póde ser convenientemente tra- tado e discutido a proposito do estudo particular de cada veneno. Si é verdade que algumas enfermidades, algumas moléstias naturaes pela sua invasão brusca, symptomatologia insólita, marcha rapida e terminação fatal no meio de soffrimentos, podem se confundir com envenenamentos, não são por certo as mesmas para todos elles, e não se podem traçar regras geraes para o estudo comparativo dos estados pathologicos, dos accidentes morbidos que podem simular cada especie de envenenamento. Therapeutica A therapeutica dos envenenamentos é um dos artigos mais importantes desta primeira parte, que versa sobre generali- GENERALIDADES 47 dades de toxicologia ; a que presta-se mais ao estabelecimento de regras e preceitos geraes que devem presidir ás applicações mais acertadas e efficazes para debellar os envenenamentos e conjurar as suas funestas consequências, nos casos indetermi- nados, emquanto se não chega ao conhecimento de sua espe- cie, qualidade ou natureza. Yaria a conducta do medico conforme se trata de minis- trar os primeiros cuidados aos indivíduos que teem ingerido veneno, afim de impedir ou embaraçar a sua absorpção, ou, quando, tendo já decorrido os primeiros momentos, as primeiras horas e a absorpção se tenha effectuado em totalidade ou em parte, se trata de prestar os soccorros mais adequados e pro- fícuos, afim de combater os effeitos geraes, dynamicos, devidos à sua acção deleteria e mortífera sobre as fontes da vida. Póde-se, pois, debaixo deste ponto de vista dividir a the- rapeutica geral dos envenenamentos em duas partes : prophy- lactica e curativa. A primeira que se applica indistincta- mente a todos os casos de intoxicação não chronica, salvo algumas indicações especiaes, que serão opportunamente men- cionadas, basea-se no emprego dos meios evacuantes, e dos antídotos ou contra venenos. Os meios evacuantes, compre- hendidos todos os que são apropriados a promover a eli- minação dos venenos, quer pelos vomitos quer pelas dejecções, e para os quaes poderemos crear a denominação de ale- xitoxicos i, ainda se dividem, em relação aos vomitivos, em mecânicos e pharmacologicos. Os primeiros consistem na titillação da uvula e do pharynge com o dedo, ou com as 1 Este nome, composto de duas palavras gregas, que significam expettir veneno, me parece mais adequado ao íim a que se destinam taes meios, do que a denominação antiga e obsoleta de substancias a'exipharmacas, vagamente applicada aos medicamentos que teem a propriedade de expettir. embora os empregassem particularmente contra os veuenos, e sobretudo contra as peço.- nhas. Não abrangendo outi’os meios que não são medicamentosos, e demais não indicando os prmcipios estranhos contra os quaes devem exercer sua acção elirninadora, segue-se que esta ultima expressão é menos precisa e correcba do que a que eu proponho, e que especifica o fim da prescripção sem restringir o meio ou agente. 48 TOXICOLOGIA barbas de umapenna, e, no caso de insensibilidade a estas pro- vocações, no emprego de uma bomba gastrica ou sonda eso- phagiana, munida da competente seringa. Com o auxilio deste instrumento, extrahem-se os liquidos contidos no estomago, e póde-se proceder a uma verdadeira lavagem desta cavidade, introduzindo e retirando alternadamente novas quantidades de agua fria ou morna, até que esta saia limpa. Chandellon lembra com razão que esta applicação tem a vantagem de poupar os abalos determinados pelos esforços dos vomitos, e deve ser pois preferida nos envenenamentos pelos narcóticos, e outras sub- stancias cujos eífeitos para o lado do cerebro possam ser compromettidos e aggravados com esses abalos. Cumpre aqui confessar que não tem este recurso, na opinião sensata de Mohr, produzido os resultados favoráveis desejados, porquanto, além de que não se encontra a todo o momento á mão, é sempre de uma applicação diíficil e incom- moda, enâo retira completamente a matéria toxica contida no estomago, no tempo necessário para impedir a sua absorpção ; finalmente, pôde até occasionar lesões deste orgão, sobretudo quando já irritado, inflammado e suas paredes amollecidas pela acção do veneno. Os meios pharmacologicos consistem no emprego de me- dicamentos vomitivos, que podem ser muito uteis, quando precisamente indicados, assim como muito arriscados e pe- rigosos, quando se não tem conhecimento prévio da natureza do veneno, visto como todos os emeticos mineraes, na accepção therapeutica (tartaro stibiado, sulfato de zinco, e de cobre), são por sua vez toxicos ; ora suppondo que seja um delles o veneno de que se trata, não se fará sinão aggravar as con- dições do paciente e concorrer para sua morte administran- do-lhe mais da mesma substancia cujos eífeitos se procura combater. Quanto á ipecacuanha, é de acção muito mais lenta e por isso pouco usada em taes casos. 49 GENERALIDADES Tem-se proposto ultimamente para este effeito o emprego da aponiorphina, em injecções hypodermicas. Como se sabe, è um derivado da morphina, que goza exclusivamente, e em alto gráo, da propriedade vomitiva ; nada mais racional, pois, do que esperar toda a vantagem de sua applicação em taes casos. Por outro lado, porém, a violência de acção deste principio exige tão grande reserva e prudência no seu emprego que não tem sido ainda bastante experimentado, para que se possa contar no numero dos agentes de confiança nesta parte da therapeutica geral dos envenenamentos. Yale mais em taes casos recorrer aos meios mecânicos eao emprego dos oleos e da albumina, que, comquanto não sejam propriamente vomitivos, produzem effeito pela repugnância e enjôo que causa a sua ingestão. Administra-se de ordinário o azeite doce, o oleo de ricino, a clara d’ovo batida, etc.; a mesma agua morna pura, dada a beber em grande quantidade, é util. Deve-se acceitar como regra geral essa pratica, que na maior parte dos casos aproveita e preenche mesmo mais de uma in- dicação . E’ assim que, além de provocarem o vomito, os oleos, se misturando com os venenos, retardam a sua absorpção, e obram finalmente como purgativos, promovendo a sua eliminação pelas dejecções ; cumpre, porém, exceptuar o phosphoro e acanthari- dina, que, sendo solúveis nos oleos, quer fixos, quer voláteis l, seriam nestas condições mais facil e promptamente absor- vidos. Quanto á agua albuminosa, offerece dupla vantagem, visto como, além de ser um meio nauseante, é um dos melhores con- travenenos dos saes toxicos formados com os metaes das ultimas classes, particularmente com o chumbo, o cobre e o mercúrio ; sómente releva notar que, si no envenenamento pelos dous pri- 1 Mais adeante, no estudo especial do phosphoro, explicarei por que a essencia da therebenihina, sendo um oleo volátil, é todavia até hoje o seu melhor antidoto. TOXICOLOOIA 4 50 TOXICOLOGIA meiros póde-se e deve-se empregar grande quantidade de albu- mina de uma vez, para precipitar todo o metal no estado de composto insolúvel, quando se tratar do mercúrio é preciso administrar pequenas quantidades repetidas, e alternadas com os meios vomitivos, attendendo a que o albuminato mercurial é solúvel em um excesso de albumina; além disso é preciso lembrar que a albumina não precipita os saes duplos de mer- cúrio e um metal alcalino, e seria improfícuo contra o envene- namento produzido por elles; cumpre notar igualmente que não ha necessidade de separar a clara, da gemma do ovo, para obter a agua albuminosa, destinada a esse uso ; não havendo inconveniente algum em que a gemma entre nesta preparação' é inútil, e em pura perda, o tempo gasto naquella separação ; devem-se bater juntamente os dous principios do ovo cm. A agua morna, emfim, si por si só é um meio simplesmente auxiliar, presta o maior serviço como vehiculo de algum pur- gativo salino. Com eífeito, é preciso não perder de vista que os vomitivos, sejam quaes forem, não teem acção sinão sobre o veneno contido no estomago, e portanto não expellem e nem exercem influencia sobre a porção que jà tenha passado adeante nos intestinos, onde é susceptivel de ser absorvida, e proseguir o envenenamento. Para desembaraçar o resto do tubo degestivo do veneno, penso, com Mohr, que o meio mais seguro e mais efficaz consiste no emprego dos purgativos salinos, dissolvidos em grande quan- tidade de agua morna. Não somente, diz elle, estes saes impe- dem a absorpção do chylo pelas villosidades intestinaes, como ainda fazem sahir serosidade dos vasos para o canal digestivo. Prescrevem-se pois 30 a 60 grammas de sulfato de sodio ou de magnésio, em quatro ou cinco vezes seu peso d’agua morna, e, na falta delles, de chlorureto de sodio, que tem a mesma pro- priedade em igual dóse ; este encontra-se á mão em todas as casas, e é até mais facil e menos desagradavel de se ingerir. Segundo Chandellon, elle obra também como vomitivo. GENERALIDADES 51 Mohr aconselha proceder do modo seguinte : Lança-se em um grande copo duas colheres de sôpa cheias de sal de cozinha, ajunta-se agua, mórna de preferencia, para facilitar a dissolução, agita-se vivamente, e dá-se a beber de uma vez. Fica em geral no fundo uma certa porção de sal não dissolvido; sobre este residuo ajunta-se de novo agua, que se torna a fazer beber, e assim por deante, até que se consiga administrar algumas colheres do sal. Nestas condições, em virtude das leis da endosmose, estabè- lece-se a corrente da serosidade do sangue para os intestinos e cessa a absorpção. A mesma agua do mar e certas aguas mineraes (de Kissin- singen, de Friedrichshall, etc.) podem prestar grandes ser- viços . Tenho, porém, o maior escrupulo em aconselhar o uso do chlorureto de sodio, como meio geral de tratamento, atten- dendo ao que parece estar estabelecido em relação a certos chloruretos insolúveis ou pouco solúveis, por exemplo os de chumbo, prata e mercúrio (no minimo), que se dissolvem a favor dos chloruretos alcalinos, pela formação de saes duplos (chlorosaes) solúveis etoxicos. Alternadamente com estas primeiras applicações expolia- tivas, e em seguida a ellas, lança-se mão dos antidotos ou contravenenos. Não ha uma doutrina uniforme sobre o que se deve entender por estas expressões, citando-se alguns auctores que não ad- mittem verdadeiros antidotos ou contra venenos, o que é tanto menos para admirar quanto outros negam a existência dos ve- nenos . Segundo Mohr, assim se designam as substancias capazes de impedir ou attenuar no interior do corpo a acção de um veneno. Esta definição, muito vaga e muito geral, abrange não só os corpos que actuam pelo contacto e pelas reacções chimicas que se passam entre elles e o veneno, desnaturando-o, como tam- 52 TOXICOLOGIA bem as substancias antagonistas, que se oppoem, por sua acção physiologica, aos effeitos dynamicos do principio toxico, sem caracter algum especifico, do mesmo modo que se oppoem ás ma- nifestações symptomaticas semelhantes, si não idênticas, ligadas a moléstias naturaes. Neste caso estão os medicamentos tonicos e estimulantes contra a adynamia, os hyposthenisantes contra o erethismo febril e as phlegmasias, os antispasmodicos e seda- tivos do systema nervoso contra as convulsões, os excitadores reflexos da medulla contra as paralysias, os narcóticos contra a insomnia, etc., qualquer que seja a causa, a origem, a condição pathogenica de todos estes accidentes morbidos. Ha, pois, evidentemente uma diflerença de acção conside- rável entre as substancias chamadas antagonistas, de um lado, e os antidotos ou contra-venenos do outro. Considero synonymas estas duas ultimas expressões, e sem fundamento, ou pelo menos sem vantagem, adistincção estabele- cida pelo Dr. Vieira Souto, na sua excellente these sobre este assumpto, em 1887. Para elledeve-se entender por contra-ve- nenos as substancias que, incorporando-se à matéria toxica, exercem sobre ella acção puramente mecanica, impedindo a sua diluição e portanto a absorpção. Julgo preferivel abrir para estes agentes uma classificação especial de palliativos, excluindo-os do numero dos meios propriamente therapeuticos ; estes abrangem sómente os antidotos e os antagonistas. Póde-se ainda admittir entre estes grupos de medicamentos a divisão adoptada no tratamento de qualquer moléstia natural, em pre- ventivo ou prophylatico e curativo. Nestas condições só os antagonistas preencheriam esta ulti- ma indicação, porque dirigem-se aos effeitos geraes, dynamicos produzidos pelo veneno, aos symptomas do envenenamento con- firmado. Quanto aos outros, que tendem a impedira aborpção dos venenos e sua penetração na economia, condição do enve- nenamento para aquelles que obram e matam por esta maneira, esses são simplesmente meios palliativos quando exercem 53 GENERALIDADES acção physica ou mecanica, e verdadeiros antídotos quando exercem acção chimica ; só para estes se deve reservar indistin- ctamente as expressões contra-veneno ou antídoto, pois que são quasi a traducção uma da outra: antídoto quer dizer o que se dá contra, ou o contra daquillo que se deu a tomar. O Dr. Souza Lopes, adjunto da cadeira de medicina legal e toxicologia, em um artigo publicado na Revista dos cursos práticos e theoricos da Faciddade (5°anno), sobre novos an- tídotos que elle propõe para o tratamento dos envenenamentos pelos alcaloides, discorreu sobre a verdadeira significação da palavra antidoto, que considera, como eu, synonymo de contra-veneno, dando-lhe porém uma latitude demasiada, com a qual não concordo. Elle define antidoto ou contra-veneno todo o agente que se oppõe no organismo á presença do veneno, e divide estes agentes em duas classes, conforme elles impedem a absorpção do veneno, ou favorecem a sua eliminação, quer se trate do veneno ainda existente no tubo digestivo e portanto ainda não absorvido, quer se trate daquelle que tem penetrado na corrente circulatória, e até mesmo já se fixado nos tecidos mais intimos da economia. A Ia classe elle subdivide em tres grupos, conforme os ditos agentes obram por acção physiologica (vomitivos e purga- tivos), por acção chimica (neutralisantes e precipitantes chi- micos), ou por acção physica (mecânicos e precipitantes phy- sicos1). A segunda classe ésubdividida em dous grupos de antídotos, conforme elles obram por acção physiologica (diuréticos, diapho- 1 Neste grupo o autor considera antídotos mecânicos os que eu chamo palliativos,isto é, meios inertes, representados por féculas, oleos, carvão etc., que, misturando-se com os venenos, embaraçam ou retardam sua absorpção, e reserva a denominação feliz de precipitantes physicos para os liquidos nos quaes os venenos se precipitam sómente pela sua insolubilidade nelles ; assim, por exemplo, elle descobriu que, sendo os alcaloides em geral insolúveis nas soluções dos purgativos salinos (chlorureto de sodlo, sulphato de magnésio ou de sodio), a administração destes corpos trará a precipitação daquelles princípios toxicos. O mesmo se daria, por exemplo, com a administração da agua contra tinturas de resinas toxicas, etc, 54 TOXICOLOGIA reticos, purgativos choleagogos, etc.), ou por acção chimica (dissolventes). Não concordo com esta amplitude exaggerada que o meu illustre collega confere á palavra antidoto, não tanto porque comprehenda nesta denominação os meios geraes, communs, representados pelos diversos agentes da medicação espoliativa (vomitivos, purgativos, diuréticos, sudorificos, etc.), que pro- movem a eliminação do veneno, visto como foi assim conside- rado nos tempos primitivos, em que as substancias dotadas dessa propriedade eram designadas pelo epitheto de alexiphar- macas, e constitue ainda hoje doutrina patrocinada e acceita por nomes respeitáveis (Gubler e Mohr)1. Estes dous autores levam ainda mais longe a significação de antidotos, applicando esta denominação até às próprias substancias que, não encon- trando mais o veneno no organismo, todavia combatem os seus eífeitos. Para estas o Dr. Souza Lopes adopta com razão a de- signação geralmente acceita de substancias antagonistas, que são, na opinião singular de Gubler, os antidotos propriamente ditos, antidotos physiologicos ou dynamicos ! E’, no meu modo de pensar, deplorável esta confusão entre duas classes tão distinctas de agentes, dos quaes uns actuam sobre o veneno, ou oppoem-se á sua presença na economia como quero Dr. Souza Lopes, e outros oppoem-se aos seus eífeitos locaes ou geraes, por uma acção exclusivamente physiologica. Por este lado, pois, acho perfeitamente correcta a restricção adoptadapor este meu collega e prestimoso auxiliar na cadeira ; onde, porém, entendo que pecca a latitude de sua accepção dada á palavra antidotos, tornando-se mesmo original e extravagante é em estendei-a até abranger meios que não ,são medicamentos, até abranger applicações puramente mecanicas : a excitação 1 Gubler pronuncia-se francamente neste sentido, no seu artigo sobre antidoto, inserto no Dicc. de Dechambre, e Mohr, sem desenvolver esta dou- trina, todavia a deixa transparecer na sua deíinição de antidoto «toda substancia capaz de impedir ou attenuar dentro do corpo a acção de um ve- neno ». GENERALIDADES 55 do pharynge, por exemplo, é para elle um antídoto physiolo- gico ! Eu comprehendo, sob a denominação de antídoto pro- priamente dito, toda substancia que actua sobre o proprio veneno, modificando mais ou menos profundamente sua natu- reza chimica, e, por consequência, suas propriedades toxicas, em virtude da formação de um composto insolúvel ou pouco solúvel e, portanto, inerte ou pouco activo, ou então solúvel, porém de acção inteiramente diversa. No Io caso, elle obra como precipitante, por exemplo: os saes solúveis de cálcio para os oxalatos, os sulfatos solúveis para os saes de baryo, etc.; no 2o, como simples neutralisante, por exemplo : os ácidos e os alcalis entre si, que servem-se mutuamente de antídotos, produzindo saes solúveis, dotados em geral de acção dialytica, conveniente em taes casos. Nos casos, aliás muito frequentes, em que o composto for- mado não é completamente insolúvel, nem portanto inteiramente inoffensivo, por via de regra não se deve deixal-o permanecer muito tempo dentro do tubo gastro-intestinal, onde, a favor dos suecos digestivos, uns de reacção acida, outros alcalinos, póde ser redissolvido e continuar assim um envenenamento apenas interrompido. Dahi resulta a necessidade imprescindível de administrar-se evacuantes alternadamente com os antí- dotos, quando estes não gozam por sua vez dessa dupla pro- priedade. Ha, com effeito, purgativos que são também ex- cellentes contravenenos, por exemplo: a magnesia alva, ou melhor, a calcinada, para os compostos de arsénico e para quasi todos os saes formados com os metaes das ultimas classes, arseniato de magnésio e oxydos metal- licos insolúveis ; taes são ainda o sulfato de sodio e o de magné- sio, o phosphato e o chlorureto de sodio (?) para os saes de chumbo e de prata, com os quaes formam compostos insolú- veis ou mui pouco solúveis, depois eliminados pela acção cathartica daquelles antídotos. 56 TÓXICOLOGIA Preenchida, pois, essa dupla indicação de precipitar ou neutralisar o veneno por meio de antídotos e de eliminal-o, seja em natureza, seja modificado poraquelles agentes, afim de oppor barreira á absorpção, na qual está todo o perigo, resta, para completar esta parte da therapeutica dos envenenamentos, combater, pelos emollientes, pelo repouso e um regimen dieté- tico apropriado, a irritação mais ou menos pronunciada e outras perturbações gastro-intestinaes devidas á acção local dos venenos, conforme seu contacto mais ou menos prolongado. Nos casos, porém, em que não tenha mais logar a applica- ção destes meios, ou porque já seja tarde para se pretender encontrar o veneno nas vias digestivas, ou porque os antídotos empregados tenham sido improfícuos e, apezar delles, tenham-se declarado francamente os phenomenos geraes devidos á absorpção, pouco ou nada ha mais que ver com o veneno e com os seus antídotos, e só por um excesso de escrupulo nesta hypo- these recommenda-se ainda não desprezar este recurso. Aqui a conducta do clinico é inteiramente diversa : trata-se de pôr em pratica uma medicina curativa puramente sympto- matica, baseada no emprego de substancias chamadas antago- nistas, isto é, daquellas que, sem acção chimica alguma sobre os venenos, combatem os seus effeitos, como si estes fossem devidos a qualquer condição pathogenica. Dahi vem que, si por um lado esta therapeutica põde ser tão variada e multiplicada quanto ás mesmas manifestações mórbidas, por outro lado, em virtude do caracterda medicação symptomatica, não offerece na pratica as garantias e vantagens reaes que se almeja obter. Conter os vomitos e as evacuações alvinas, que já se teem tornado rebeldes, incoercíveis e, portanto, fatigantes e pre- judiciaes ; levantar as forças abatidas ou, ao contrario, deprimil-as, si ha exaltação febril das funcções; promover o appetite e o somno, provocar uma diurese abundante e salutar, activar a calorifícação peripherica diminuída, acalmar as dôres GENERALIDADES 57 e excitações nervosas, desafiar a contractilidade muscular abo- lida, etc., é tudo quanto ha a fazer, e os meios são os mesmos recursos therapeuticos ordinários, efficazmente secundados pelo regimen dietetico mais adequado. A este respeito, porém, cumpre deixar bem claro : 1. Que não se conhece até hoje antagonistas propriamente dos venenos, porém sim de symptomas isolados dos envenena- mentos, e portanto, não se pôde confiar na acção de uma unica dessas substancias para combater os effeitos múltiplos de outra qualquer ; por exemplo : na belladona contra o opio e vice- versa, no chloral e nos bromuretos contra a strychnina, nesta contra o curare e vice-versa ; 2. Que, ainda mesmo indicados diversos meios contra os effeitos de um só veneno, devem elles ser escolhidos com todo o critério entre aquelles que parecem exercer sua acção intima 11a economia sobre os mesmos elementos anatómicos, e não prescrevera esmo, empiricamente, substancias que não são sinão apparentemente antagonistas, porquanto oppoem-se, é ver- dade, a certos phenomenos morbidos que se procura combater, porém não impedem a marcha do envenenamento, nem a sua terminação pela morte. Isto explica a razão pela qual muitas substancias, reputadas incompativeis dynamicamente pela opposição manifesta de um só ou mesmo de alguns de seus effeitos, não 0 sendo em sua natureza e acção intima, admi- nistra-se todos os dias, asssociadas, em formulas que dão os melhores resultados ; 0 que seria, si a incompatibilidade fosse completa, uma pratica absurda l. Com muita vantagem e clareza dissertou 0 Dr. Vieira Souto sobre este ponto, concluindo que a idéa do antagonismo toxico 2 é uma inverdade, que não se estriba em argumento 1 Y. a minha these de concurso, em 1871, sobre substancias incompativeis. 2 Elle nega também o antagonismo therapeutico, que eu julgo perfeitamenta demonstrado. 58 TOXICOLOGIA logico de valor. Para proval-o, eu não poderia fazer melhor do que transcrever as suas próprias palavras: « Assim, por exemplo, diz elle, o álcool vinico, produzindo notável diminuição nas manifestações convulsivas do envenena- mento pela strychnina, pareceu, a principio, substancia anta- gónica do poderoso alcaloide das strychnos. As celebres obser- vações do Dr. Morey, referidas no jornal medico de Chicago, sobre a pretendida immunidade para o envenenamento pela strychnina, que apresentam os individuos ébrios, não foram confirmadas pelas pacientes investigações do Dr. Stachini, de Florença, que sobre tal assumpto instituiu uma serie curiosa de experimentações, que podem ser citadas como modelos de technica e boa interpretação physiologica. « Os resultados das observações de Rossbach e Frõlich sobre a atropina e a eserina, contrahindo e dilatando a pupilla, foram seriamente contestados por Harnack. « Si a acção paralysante da atropina parece annullar o effeito excitante da physostigmina, o agente excitante não pôde por sua vez neutralisar a acção paralysante de seu supposto antagonista. « Além disto, si particularmente sobre a iris este phenomeno curioso pôde ser observado em coelhos, nada se pôde concluir em relação aos effeitos que sobre outros tecidos, orgãos e func- ções podem as mesmas substancias produzir. « Desde que Liebreich afíirmou as propriedades hypnoticas do chloral, começou de ser ensaiada a acção antagónica desta substancia sobre a strychnina. « Resulta das famosas experiencias de Yulpian, que, sinos cães a que se administram dóses mortaesde strychnina as injec- ções intravenosas de chloral impedem o apparecimento de ataques convulsivos, não deixam elles, entretanto, de succum- bir, ainda que em tempo mais demorado. A morte neste caso è simplesmente retardada. « Os numerosos factos de observações, em que o cliloral ou o GENERALIDADES 59 chloroformio teem podido annullar os effeitos de doses toxicas de strychnina, foram escrupulosamente reunidos por Husemann, que, procurando conhecer do antagonismo de taes substancias, nada entretanto conclue de positivo sobre esses factos observa- dos e experiencias realizadas. « A atropina, excitando o centro respiratório, parece con- stituir um verdadeiro antagonista do chloral, que determina a paralysia do mesmo centro. Entretanto as experiencias de Husemann, por mais cautelosamente que tivessem sido feitas, apenas tendem a demonstrar o antagonismo real que as duas substancias apresentam em relação ao centro respiratório, sendo que, nos differentes animaes sujeitos a experiencias, muito diversos foram os effeitos observados, salvando-se uns e succumbindomuitos outros. « O interessante facto, referido por Husemann, do doente intoxicado por 20 grammas de chloral, que se salvou com a injecção hypodermica de 1/2 milligramma de atropina, é talvez unico na sciencia. « Si o curare, por sua acção diurética, pôde favorecer a eliminação da strychnina, torna-se um bom meio a em- pregar e que indirectamente contribue para a cura, não póde comtudo ser julgado nem mesmo antagonista indirecto. « O curare e a strychnina dissimulam os seus respectivos effeitos e não são antagonistas, porque, si um actua sobre as placas terminaes dos nervos motores, trazendo a paralysia, a outra determina forte effeito de excitação nos centros motores ; não teem, portanto, acções que se contrariem no mesmo elemento e tecidos. « Os estudos experimentaes, varias vezes realizados sobre o antagonismo entre a muscarina e a atropina, aliás sendo dos mais bem feitos, não nos conduzem também a boa conclusão scientifica sobre a realidade de seu valor como antagonistas. « As hypersecreções glandulares determinadas pelo principio activo do agancus muscarius, que são consideravelmente mo- TOXICOLOGIA dificadas com a intervenção da atropina, foram o phenomeno que, vivamente interessando os observadores, os conduziu a experimentar até que ponto podem chegar as suas propriedades antagonistas. « Schmiedeberg e Koppe, depois de haverem demonstrado a parada do coração em diástole com a administração da muscarina, provaram mais que todos os effeitos toxicos pro- duzidos por esta substancia são promptamente annullados, quando se injecta no sangue pequeníssimas doses de atropina. « Ainda mais, a administração de 1/2 milligramma de atro- pina a um animal impede absolutamente o apparecimento dos phenomenos de intoxicação proprios da muscarina. « Sobre as secreções glandulares é tão promptae manifesta a acção antagónica destas substancias, que, adaptando uma canula aos canaes de Warthon para receber a saliva que se escoa abundantemente após a administração da muscarina, a minima dóse de atropina que se venha a administrar nestas condições faz suspender immediatamente o corrimento da saliva, como si se fechasse as torneiras de que fossem providos taes canaes. « O antagonismo, pois, destas duas substancias é um facto provado experimentalmente. «Desta serie deexperiencias, todavia, nada é permittido concluir em relação ao homem, porque é sabido que os cães, gatos e coelhos resistem a dóses relativamente elevadas de atropina, e o homem é muito sensível a esta substancia, não se lhe podendo applicar por esse motivo, em grâo equiva- lente, dóses que se presumem ser, em quantidade, antago- nistas . « Ainda que as experiencias physiologicas tendam a de- monstrar que as excitações, o delirio e as allucinações produ- zidas pela atropina sejam facilmente combatidas pela muscarina, pela physostigmina e pilocarpina, entretanto é ainda á mor- phina que em taes casos se recorre. GENERALIDADES 61 « Não se teem apresentado factos clínicos de envenenamento pela muscarina, que tenham podido ser debellados pela atropina, para se julgar de seu valor antagónico no homem.» O que tenho expendido até aqui refere-se, como já preveni, aos envenenamentos de marcha aguda, super-aguda e sub- aguda. A therapeutica geral das intoxicações chronicas e pro- fissionaes repousa sobre bases semelhantes, e até certo ponto idênticas, mas segundo um mecanismo differente quanto aos / meios de eliminação dos venenos. Tratando-se de desembaraçar o organismo de partículas toxicas accumuladas em seu seio, e que teem acarretado des- ordens por assim dizer permanentes, verdadeiras enfermidades, nãotemlogar a applicação dos antídotos propriamente ditos, mas prevalece a mesma regra, que se basea na medicação espo- liativa e antagonista, com a differença ainda de que, em relação à Ia parte, nada ha que ver com o emprego dos vomitivos e sim tudo a esperar primeiro dos purgativos, particularmente dos choleagogos, isto é, dos que teem acção electiva sobre a secreção hepato-biliar, afim de expellir o veneno que se tem accumulado no fígado ; 2o, dos meios capazes de arrancar o veneno deposi- tado nos tecidos mais profundos da economia, e introduzindo-o de novo na torrente circulatória, facilitar-se a sua eliminação pelos emunctorios naturaes, o que se consegue a favor de me- dicamentos que tenham a propriedade de formar com os prin- cípios metallicos toxicos compostos solúveis, por exemplo : os bromuretos alcalinos para o cobre, os ioduretos para o chumbo e o mercúrio l, etc. Depois os purgativos geraes, os diuréticos e sudoríficos incumbem-se do resto. Prestados estes primeiros cuidados, ou mesmo emquanto 1 Comquanto os bromuretos e ioduretos destes metaes sejani no pri- meiro momento insolúveis, todavia em presença de um excesso de bromuretos e ioduretos alcalinos formam saes duplos perfeitamente soluv is. Além disso, é preciso notar que Gubler contesta e combate a acção puramente chimica destes agentes, que elle explica antes pela acção dynamica que exercem, exagge- rando a desnutrição dos tecidos. 62 TOXICOLOGIA isto se faz, combate-se por meio dos antagonistas e de uma boa hygiene as lesões materiaes que teem resultado. Por uma theoria mal deduzida, tem-se aconselhado o uso da limonada sulfurica e dos sulfatos solúveis na intoxicação satur- nina chronica afim de levar o chumbo ao estado de sulfato insolúvel, esquecendo-se que, si por esta fôrma se embaraça a absorpção das particulas que possam existir nas vias digestivas, por outro lado mais se aprisiona a porção já absorvida, difficul- tando a sua eliminação. Para facilitar o estudo e comprehensão da therapeutica geral dos envenenamentos, organisei o seguinte quadro, que, parece-me, attingirâ este intuito. Quadro synoptico da tli.erapeu.ti.ca geral dos envenenamentos Titillação do pharynge, com o dedo ou as barba- , de uma penna, bomba gastrica (tubo de Faus cher). Agua morna em quantidade, solução de albumina ou ovo crú batido. Evacuantes ou eliminad ores Vomitivos Mecânicos, [Ipecacuanha, sulphato de zinco, sulphato de cobre, ' tartaro emetico e injecção hypodermica de apo- f morphina. Medicinaes Purgativos Magnesia (alva ou calcinada), sal amargo, sal de Glauber e sal commum (de cozinha). Mixtos, Oleos em geral, tartaro emetico. ÍTannino (em geral, infusos adstringentes). Magnesia, agua de cinzas ou de sabão. Aguas sulphurosas e sulpbureto de ferro. Albumina e caseina (ovo crú e leite). Antidotos ou contra-venenos Precipitantes i Geraos. Modureto de potássio iodado para os alcaloides. }Essência de terebenthina — para o phosphoro. IHydrato de peroxydo de ferro para o arsénico, [ etc. Especiaes, \Neutralisantes.. Os ácidos contra os alcalis e vice-versa. /Irritantes — Emollientes ; leite em abundancia. Iíyposthenisan tes [Vinho generoso e outros alcoolicos, excitantes dilfusivos1 J estimulantes energicos ; fricções seccas ; sinapismos e outros ' revulsivos ; banhos quentes. Antagónicos ou antergicos 'Estupefacientes |Em geral os mesmos meios e mais os anti-spasmodicos ; o opio, i o almiscar ; o café forte ; os banhos á aupla temperatura. Narcóticos. trias sobre a cabeça ; correntes continuas ascendentes, ' café concentrado, revulsivos fortes; solanaceas virosas, f especialmente a belladona. i Nevrosthenicos Calmantes e sedativos ; opio, bromuretos alcalinos, chloral, ether, chloroformio, correntes continuas descendentes, etc, GENERALIDADES 63 Classificação dos venenos A historia da classificação dos venenos pôde ser dividida em tres períodos, conforme as bases sobre que tem sido ella assentada pelos toxicologistas, e estas conforme as idéas ou tendências de cada época. Nos primeiros tempos, em que por assim dizer dominava a influencia dos estudos de sciencias naturaes, em que não existia anatomia pathologica, nem experimentação physio- logica, a classificação dos venenos teve por base a origem e procedência das substancias toxicas. Em um segundo periodo, sob os auspicios das doutrinas da escola physiologica, nasceu a classificação, baseada sobre o exame e apreciação dos phenomenos geraes e das manifestações symptomaticas de cada especie toxica. Na terceira e ultima época as vistas são completamente differentes, e a classificação moderna é assentada sobre conhe- cimentos muito mais precisos e delicados de anatomia e chimica pathologica, tendo por base as alterações determinadas pelos princípios toxicos, não sobre as funcções e sobre osorgãos, mas sobre os elementos histologicos que os constituem. Resumindo, denominarei estas classificações, segundo o espirito que as presidiu e os dados acima declarados, em natural, physiologica e histológica ou anatomo-pathologica. A. Classificação natural Plenck foi o primeiro que em 1785 distinguiu os venenos em quatro classes : animaes, vegetaes, mineraes e gazosos ou vaporosos (halituosa) ; e subdividiu depois cada classe em muitos grupos, segundo certos outros pontos de vista. 64 TOXICOLOGIA Depois appareceu Mahon (1801), o primeiro professor 1 de medicina legal e policia medica de Pariz, e que dividiu também os venenos em animaes, vegetaes e mineraes, porem supprimiu a classe dos halituosa e subdividiu cada uma das outras em voláteis ou gazosos, e fixos e solidos. Mais tarde, Flandin, depois de muitos outros que adopta- ram outras classificações, restabeleceu a base primitiva e distinguiu os venenos em animaes, vegetaes e mineraes. Galtier dividiu-os em orgânicos, inorgânicos e gazosos. Husemann em orgânicos e inorgânicos, subdividindo a primeira destas classes em animaes, vegetaes e cliimicos, a segunda em metaes e metalloides. B. Classificação physiologica Foderé dividiu em seis classes: Ia, sépticos ; 2a estupefac- cientes ou narcóticos ; 3a, narcotico-acres ; 4a acres ou rubefa- cientes ; 5a, corrosivos ou escharoticos ; 6a, adstringentes. Orfila, que a principio adoptou a classificação de Foderé, depois modificou-a supprimindo a classe dos adstringentes, que incluiu nas outras ; fundiu a 4a e a 5a sob a denominação de irritantes, ficando, pois, reduzidas a quatro classes: sépticos, narcóticos, narcotico-acres e irritantes, que elle ainda subdi- vidio em animaes, vegetaes e mineraes. Devergie acceitou esta ultima classificação, embora confes- sando os seus defeitos. Christison e depois delle Beck abraçaram -a igualmente, porém reduzindo as quatro classes a tres sómente pela suppres- são da dos venenos sépticos, que elles incluiram nas outras, Casper, sem pretenção alguma e até ligando pouco valor ás classificações, porque ellas são inúteis para a pratica da 1 Em ordem chronologíca. GENERALIDADES 65 medicina legal, dá como a menos má a seguinte: os venenos são divididos em cinco classes: Ia, venenos corrosivos irritantes, que produzem phenomenos de irritação em todos os gráos, e com todas as suas consequências : ulcerações, gangrenas, etc. (exemplo: ácidos mineraes, compostos de arsénico, de mer- cúrio, de zinco, de antimonio, acido oxalico, alcalis, phosphoro, purgativos drásticos, cogumellos venenosos, cantharidas etc.); a 2a, venenos hyperhemiantes, que matam pela congestão san- guínea, ora do cerebro, ora dos pulmões, ora do coração e ora da medulla (exemplo: os opiáceos, a belladona, a noz vomica, o estramonio, o fumo, o meimendro, a cicuta, a digitalis, os alcaloides destas plantas, os gazes irrespiráveis e o álcool etc.); a 3a, venenos nevro-paralysantes, que matam por paralysia do centro nervoso (exemplo : acido prussico e cyanuretos diversos, esporão de centeio, chloroformio, etc.) ; 4a, venenos tabificos, que actuain de um modo lento, alterando profunda- mente a digestão, d’onde resulta a nutrição incompleta, em- magrecimento, consumpção e morte (exemplo : vapores de arsénico, de chumbo, de mercúrio, e provavelmente a maior parte dos vapores metallicos, o subnitrato de bismutho, o al- vaiade, etc.); 5a, finalmente, venenos sépticos ou putrefa- cientes, e são os que trazem a morte por decomposição do sangue (exemplo: princípios toxicos de matérias alimentares alteradas, e productos morbidos, como pús, etc.). Tardieu, em ultimo logar, deu muito maior desenvolvimento a esta mesma base e estabeleceu uma classificação que por muito tempo foi official e a unica professada geralmente nos cursos. Elle applicou-as, porém, aos envenenamentos enão aos venenos, cuja existência, como já fiz ver, negava. Dividiu, pois, os envenenamentos em cinco classes, conforme eram elles pro- duzidos pelos agentes : Io, irritantes e corrosivos ; 2o, hypos- thenisantes ou choleriformes ; 3o, estupefacientes ; 4o, narcó- ticos ; 5o, nevrosthenicos ou tetanisantes. A Ia classe, que representa um grupo fixo em todas estas TOXICOLOGIA TOXICOLOGIA classificações* comprehende os envenenamentos que teem por caracter essencial uma acção local que pode ir até á inflamma- ção a mais violenta, á corrosão e á desorganisação dos tecidos por onde trajectam os venenos, exemplo : os ácidos fortes e al- calis concentrados* o cliloro, o bromo, e o ioio, os sulfuretos al- calinos e os purgativos drásticos, A 2a (hyposthenisantes ou choleriformes) ó a que tem por caracter essencial certas manifestações geraes resultantes da absorpção das substancias, em desaccordo com os plienomeuos lo- caes, que são pouco pronunciados ou mesmo nu lios; consistem em uma depressão rapidae profunda das forças vitaes, ligada muitas vezesa uma alteração manifesta do sangue (exemplo: os prepara-, dos de arsénico, de mercúrio, de estanho* de bismutho, de cobre, de antimonio, o phosphoro, o nitro, o sal de azedas ; a digitalis e a cicuta, bem como seus princípios activos). A 3a, a dos envenenamentos que teem por caracter saliente uma acção directa, especial e depressiva sobre o systema ner- voso, correspondente ao que se chama em semeiotica estupor ou estupefacção; abrange os agentes pela maior parte comprehen- didos na classe primitiva dos narcotico-acres (exemplo : as pre- parações de chumbo, acido carbonico, o oxydo de carbono, o hydrogeno sulfuretado e carburetado, o ether , o chloroformio* o álcool;, a belladona,. o fumo e outras solaneas virosas, ou seus alcaloides, os cogumellos toxicos). A 4a, a dos venenos narcóticos, que são os que desenvolvem uma acção especial e distincta, que não se póde melhor caracte- risar do que pelo nome de narcotismo (exemplo : o opio e seus derivados). A 5a, a dos venenos nevrosthenicos, que se caracterisam essencialmente por excitações violentas dos centros nervosos, podendo ir até o ponto de produzirem a morte quasi instanta- neamente (exemplo : a noz vomica e seus alcaloides, o acido prussico, o aconito, o, sulfato de quinina, as cantharidas, a camphora, etc.) GENERALIDADES 67 Cumprindo-me fundamentar as razões pelas quaes não posso adoptar a classificação de Tardieu, seguida nesta cadeira pelo meu antecessor e mestre, direi que o defeito capital que nella se nota é que, afóra o grupo dos agentes irritantes e cáus- ticos, os outros quatro não offerecem caracteres bastante extremados, visto como se baseam em um conjuncto de sympto- mas que nem sempre se accentuam, e se definem com a clareza necessária, e não apresentam differenças muitas vezes notáveis na sua physionomia e successão. Por exemplo, o segundo grupo, das substancias hyposthenisantes, é assim chamado porque ellas determinam um estado de adynamia, depressão de forças mais ou menos profunda; porém, bem considerados, e todos os outros venenos,'até mesmo o opio e os nevrosthenicos pro- duzem effeitos semelhantes, em maior ou menor escala, em um periodo variavel do envenenamento. Por outro lado os narcóticos e sobretudo os estupefaccientes apresentam muitas vezes pbenomenos convulsivos, proprios dos nevrosthenicos; estes por sua vez e ainda melhor os estupefacientes dão logar a um estado de somnolencia ou narcotismo mais ou menos pronunciado. Ainda mais, entre os narcóticos e estupefacientes, que nos primeiros tempos foram confundidos na mesma classe, os traços caracteristicos não são bastante accentuados, sendo certo que o symptoma clinico que os distingue é muitas vezes representado por uma expressão commum, que torna o diagnostico differencial extremamente difficil. Assim, pois, não se podendo traçar limites fixos e invariá- veis entre as manifestações symptomaticas de cada grupo de venenos, segue-se que a classificação firmada sobre semelhante base é por sua nutureza defeituosa e falha. Esta classificação está longe de ser perfeita; ella encerra vicios palpaveis, pelos quaes não pódeser acceitasem reservas. Entretanto, força é confessar que offerece um lado pelo qual merece preferencia sobre as outras, ou pelo menos não póde ser 68 TOXICOLOGIA desprezada : é o lado pratico ou clinico, que a torna com certeza mais estável e menos accessivel ás revoluções operadas pelos progressos constantes dos estudos médicos. Classificação histológica Pertence a Taylor e a Rabuteau ; Taylor, que foi o primeiro, esboçou apenas esta classificação, considerando todos os venenos, excepto os de acção puramente local, como exercendo directa ou indirectamente sua acção sobre os elementos anatómicos nervosos, e debaixo deste ponto de vista dividiu-os em nevro- ticos e irritantes ; os primeiros subdividos em cerebraes, espi- nhaes e cerebro-espinhaes e os outros em animaes, vegetaes e mineraes ; estes últimos, finalmente, em metallicos e não metal- licos. Rabuteau, porém, mais modernamente ampliando estas mesmas vistas, estudando mais de perto, por experiencias bem dirigidas, a acção intima dos venenos, quer sobre os solidos, quer sobre os liquidos da economia, principalmente sobre o sangue, organisou uma classificação, que me parece mais ra- cional e scientifíca, estribada sobre caracteres mais bem extre- mados e definidos e que exprime a este respeito os progressos e o estado actual da toxicologia. Rabuteau distribue os venenos em cinco classes : Ia, hematicos ; 2a, nevroticos ; 3a, nevro-musculares ; 4a, musculares ; 5a, irritantes ou corrosivos. l.° Os hematicos, divididos por sua vez em dous grupos: globulares e plasmicos, são caracterisados pela acção que exer- cem ou sobre a hemoglobina, à qual se fixam ou fazem experi- mentar certas alterações que a analyse espectral tem podido ou não revelar (ven : globulares) ; ou sobre a composição do plas- ma, que modificam mais ou menos profundamente (ven : pias- GENERALIDADES 69 micos). São exemplos do Io grupo: o oxydo de carbono, o acido prussico, o acido sulphydrico, o sulphydrato de ammonea, o ptiosphoro, o arsénico e o álcool. Exemplos do 2o grupo : os vapores nitrosos, os saes de prata injectados nas veias e em geral a maior parte dos saes metallicos obrando em dóses pe- quenas e reiteradas. 2. Os nevroticos, que teem acção especial sobre os elementos nervosos, são divididos em tres grupos : Io, o dos paralyse-mo- tores, que actuam sobre aj placas terminaes, acarretando a paralysia do systema nervoso-motor (exemplo: o curare, a fava de Calabar, o aconito, a cicuta e seus respectivos alcaloides); 2o, o dos espinhaes, que actuam sobre a medulla, exaggerando seu poder reflexo ; (exemplo : a noz vomica, as cantliaridas e seus alcaloides); 3o, o dos cerebro-espinhaes, que exercem sua acção ao mesmo tempo sobre os elementos anatómicos do cerebro e da medulla (exemplos : o chloroformio, o ether, o opio e seus de- rivados). 3. Os nevro-musculares, caracterisados pela acção mixta que exercem sobre o elemento nervoso e muscular, teem sido divididos por outros em vasculares e cardíacos. Rabuteau, porém, rejeita esta divisão, porque não admitte venenos de orgãos, porém dos elementos que os compoem. São exemplos desta classe as solanaceas virosas e seus alca- loides, a digitalis e seu principio activo, os antimoniaes, o gaz carbonico, etc. 4. Os venenos musculares comprehendem todos aquelles cuja influencia se exerce sobre a fibra muscular ; ora paraly- sando-a, produzem abatimento e prostração considerável de forças, são os paralyso-musculares (exemplo : quasi todos os saes metallicos, o colchico, a veratrina, etc), ora excitando-a, determinam contracções ; são os excito-musculares (exemplo : o esporão de centeio). 5. Os irritantes são sempre os mesmos em quasi todas as classificações. 70 TOXICOLOGIA Comquanto me pareça ser esta classificação mais bem estabelecida e preferivel ás outras, não é todavia perfeita, não se pôde considerar isenta de defeitos ; o proprio Rabuteau declara que não tem a pretenção de apresental-a como uma classificação systematica ; pelo contrario, previne até uma das objecções de que é passível, e vem a ser, que, assim como nade Tardieu, também alguns venenos apparecem em mais de um grupo ; por exemplo, os saes metallicos como venenos hema- ticos plasmicos, e como venenos musculares; mas cumpre notar que esta circumstancia está ligada ás dóses e ao modo de administração das substancias, que fazem variar sensivelmente os effeitos, imprimindo um caracter e uma physionomia parti- cular á intoxicação. Em pequenas dóses e continuas, os saes metallicos obram como os venenos do primeiro grupo, e, em dóse mais elevada e toxica, como os do segundo. Não é, porém, só isso; nota-se mais na classificação de Rabuteau incoherencia e contradicção com os seus princípios, na subdivisão que adoptou para os venenos nevroticos, dos quaes um dos tres grupos é caracterisado por uma acção phy- siologica ou dynamica, e os outros dous pela acção exercida sobre orgãos e não sobre elementos anatómicos, quando, para obedecer a esse principio, recusou acceitar a divisão que alguns propuzeram, para os venenos nevro-musculares, em cardiacos e vasculares. Longe, porém, de considerar isto um defeito sensivel na classificação de Rabuteau, penso que não devem ser tidas como incompatíveis as duas bases que serviram a este professor e a Tardieu, acreditando mesmo que ellas podem ser aprovei- tadas, completando-se uma á outra na classificação que imaginei e que adeante exponho em um quadro. De accôrdo com Chapuis, eu penso que na verdade a unica classificação exacta seria aquellaque tivesse por base, como a de Rabuteau, a acção intima e elementar dos venenos; mas esta é ainda mal conhecida e determinada, e por ora são muito imperfeitos GENERALIDADES os nossos conhecimentos a este respeito, o que sujeita a clas- sificação ás mudanças impostas pelos progressos ulteriores dos estudos médicos. Por isso é de opinião o mesmo Chapuis que, sob o ponto de vista judiciário, não ha necessidade alguma de classificar os venenos sob uma forma systematica, bastando tratar successivamente de cada um delles, admittindô todavia um grupamento racional. Neste sentido acceita a divisão adoptada por Bouis, na sua parte de chimica legal da obra de Briand e Chaudé. E\ como se vê, uma classificação disfarçada, na qual os venenos são divididos em tres grupos: Io, corpos simples e seus compostos, comprehendendo loides e ácidos mineraes; 2o, gazes e vapores, abrangendo os líquidos espirituosos; 3°* combinações organicas, incluindo ácidos orgânicos, alcaloides e diversas substancias toxicas de origem animal ou vegetal. Sendo esta distribuição de venenos pautada sobre as mesmas bases das classificações primitivas, simples é verdade, porém sem vantagens praticas e sem vistas scientificas, não merece mais do que ellas. De mais, si, conforme a opinião de Chapuis, não ha ntúcs*- sidadi de classificações systematicas no estudo nos venenos sob o ponto de vista judiciário, não se pôde negar pelo menos a conveniência didactica de seu grupamento por classes, offere- cendo traços communs em relação quer á symptomatologia* quer á anatomia pathologica, quer a ambos estes dados. E’ este ultimo, como já disse, o alvitre que resolvi abraçar, fundindo e accommodando em uma classificação os princípios estabelecidos por Tardieu e Rabuteau, conforme passo a repre- sentar no quadro annexo. Divido os venenos em dous grandes grupos, conforme elles obram, por acção local ou mecanica, e por acção geral ou dyna- mica. No primeiro, dos irritantes physicos, por eniquanto apenas se acha o vidro moido ; o segundo, que comprehende os irri- tantes chimicos ou pharmaceuticos, se subdivide em ácidos, 72 TOXICOLOGIA (sulfurico, chlorhydrico, azotico), alcalinos (potassa, soda, ammona), e neutros (chloro, bromo, iodo, purgativos drásticos, kerozene, etc.) O segundo grande grupo divide-se em tres classes e duas sub- classes— as primeiras representadas pelas substancias toxicas que exercem acção isolada sobre um dos tres elementos anato - micos da economia: oglobulo sanguineo, a cellula nervosa e a fibra muscular, e as ultimas, que abrangem os venenos mixtos, intermediários, que affectam igualmente dous desses elementos. Ia classe—Venenos hematicos—Dividem-se em globu- lares e plasmicos, conforme a parte do sangue especialmente compromettida; estes últimos, que correspondem aos venenos tabificos de Casper, comprehendem os productos nitrosos e a maior parte dos saes metallicos, porém actuando em dóses pe- quenas e reiteradas (fôrma chronica) ; os primeiros, que são todos hyposthenisantes ou choleriformes, comprehendem o phos- phoro, o arsénico, o antimonio (?)l, o nitro, o sal de azedas, etc. 2a classe — Venenos nevroticos, subdivididos em periphe- ricos e centraes ; os primeiros são os paralyso-motores e estu- pefacientes (exemplo : o curare (?), a fava deCalabar, o aconito, a cicuta, etc.); estes últimos abrangem os venenos espinhaes ou medulares (excito-motores, nevrosthenicos ou tetanisantes, taes como a noz-vomica, a fava de Santo Ignacio, as cantharidas) e os cerebraes, ou antes cerebro-espinhaes, correspondendo aos narcóticos, sedativos e moderadores reflexos; neste caso se acham o opio e seus derivados, o chloroformio e o ether. 3a classe — Venenos myoticos 2, subdivididos em para- lysantes (hypomyoticos), e exitantes ou convulsionantes (hy- permyoticos); nestes conta-se por ora apenas o esporão de centeio, e nos outros, grande numero de saes metallicos em dóses 1 0 ponto de interrogação ao lado do nome de alguns venenos indica que o logar que elles occcupam na classificação é ainda duvidoso. 2 São os venenos chamados musculares de Rabuteau : dei aquella denominação para harmonia de origem etymologica, evitando _a linguagem hybrida de que se serve este autor. GENERALIDADES 73 massiças (cobre, zinco, estanho, bismutho, mercúrio, etc. e também a veratrina). As duas sub-classes são a dos neuro-hematicos, e neuro- myoticos . Entre os primeiros, contam-se venenos convulsionantes ou epileptiformes (exemplo: os compostos cyanicos), e venenos estu- pefacientes (o álcool, o chloral, o oxydo de carbono, etc ) Os segundos, distribuidos conforme a predominância do systema ou apparelho mais compromettido, em cerebro-espi- nhaes, que são todos estupefacientes, taes como : as solaneas virosas, os cogumellos, os preparados de chumbo e o gaz carbonico; e cardio-vasculares, que são hyposthenisantes (exemplo : a digitalis e o antimonio(?) ). Quadro d.o olassiflcação dos venenos Acção local ou mecanica 'Irritantes physicos— vidro moido, etc. Irritantes chimicos / ou pharmaceuticos' Ácidos — sulfurico, chlorhydrico, azotico. Alcalis— potassa, soda, ammonia. Neutros — chloro, bromo, iodo, purgativos drásticos, kero- sene. Hematicos globulares (hyposthenisantes ou choleriformes), phosphoro, arsénico, antunonio (?), nitro, sal de azedas, etc. 'plasmicos (tabiflcos de Caspjr) — os saes metallicos e:n dóses pequenas , reiteradas, vapores nitrosos. Neuro-hematicos, jconvulsionnntes ou epileptiformes—comp. cyanicos, etc. 'estupefacientes—álcool, phenol, oxydo de carbono, etc. Âcção geral ou dynamica Neuróticos /peripherico-i, (paralyso- notores, estupefacientes) — curare (?), fava de ' Galabar, aconito, cicuta, etc. espinhaes excito-motores ne- vrosthenicos ou te- tanisantes noz-vomica , can- tharidas, fava de Santo Ignacio. fcentraes Icerebraes ou ce- rebro-espinhaes. "sedativos ou mode- 1 radores reflexos, { narcóticos opio, chloroformio e ether. cerebro-espinhaes (estupefaccientes) —solanaeeas virosas, cogumellos, chumbo, gaz carbonico (?). Neuro-myoticos •cardio-vasculares (hyposthenisantes) — digitalis, antimo- nio (?). hypomyoticos (paralysantes)—veratrina, cobre, zinco, estanho, bis- niutho, mercúrio, etc. My o ticos \hypermyoticos (convulsionantes)— esporão de centeio. 74 TOXICOLOG IA O Dr. Antonio M. Teixeira, digno preparador da cadeira de medicina legal e toxicologia, e medico consultante da policia, em um opusculo, que publicou sobre analyse toxi- cologica, apresenta um quadro synoptico, compendiando todas estas classificações com as suas principaes divisões, e que, por facilitar o respectivo estudo, aqui reproduzo: Classificaçao de 'Plenck —Vegetaes, mineraes, animaes e halituosos 1785 Mauon —A mesma, supprimindo os halituosos e subdividindo as tres res- tantes em voláteis e fixos 1801 IFlandin —Mineraes, vegetaes e animaes 1846 lGaltier —Inorgânicos, orgânicos e gazosos 1855 'Huskmann ..—Mais ou menos a anterior 1865 Chapuis —Corpos simples e seus compostos, gazes e vapores, combinações organicas 1882 Classificações naturaea ■Foderí: 'i.°—Sépticos. 2.°—Estupefacientes ou narcóticos. )3.°—Narcotico-acres. |4.°—Acres ou rubefacientes. '5.°—Corrosivos ou escharoticos. 16.0—Adstringentes 1813 Classificações baseadas nas manifestações physiologicas 'l.°—Irritantes. )2.°—Narcóticos. Í3.°—Narcotico-acres. [4.0—Se ptic 0 s 184g Classificação de Orfila |Becke Chkis- TISON íl.°—Irritantes. /2.°—Narcóticos. (3.°—Narcotico-acres 1836 fl.°—Irritantes e corrosivos. 12.°—Hyperhermiantes. ;3.°—Nevro-paralysantes. 14.0—Tabiflcos. (5.°—Sépticos ou putrefacientes. [Caspee l.o—Irritantes. i2. °—Hyp osthenisantes. '3.°—Estupefacientes. |4.°—Narcóticos. ,5.°—Nevrosthenicos 1875 (Tardieu il.°—Irritantes.—Mineraes (metaliicos e não), vegetaes e animaes. 12 0—Nevroticos.—Cerebraes, espinhaes e cerebro-espinhaes. Classificações anatómicas racionaes Classificação de Taylor l.°—Hematicos.—Globulares e plasmicos. .2.°—Nevroticos.— Paralyso-motores, espinhaes e cerebro-es- ) pinhaes. )3. °—Nevr o - musculares. 14.0—Musculares. V5.°—Irritantes e corrosivos 1873 JRabuteau. Souza Lima. l.°—Acção local.— Irritantes physicos e chimicos. la cias. Hematicos ,( '2a » Neuróticos.. '3a » Myoticos. lasub-clas. Neuro-hematicos. 2a sub-clas. Neuro-myoticos.. 1886 )2.°— Acção [ geral..,.. GENERALIDADES 75 Chimica legal applicada á toxicologiaj ou Chimica toxicologica E’ a parte que se occupa da pesquiza e demonstração do ve- neno nos restos de alimentos, nos remedios e outras preparações pharmaceuticas, nas matérias lançadas pelos vomitos ou pelas dejecções, e, finalmente, em casos terminados pela morte, nos orgãos e líquidos do proprio cadaver, quer tenha sido ou não já inhumado, nos objectos que o cercam e até na mesma terra dos cemitérios. Ella exige conhecimentos profundos de chimica geral, po- rém estudados debaixo do ponto de vista de sua applicação a este fim todo especial. E’ uma verdade reconhecida por todos os to- xicologistas, que não basta para ser chimico legista saber mesmo bem a chimica geral, e muito menos os outros ramos da medi- cina e da pharmacia. Conforme exprime-se Mohr, « póde-se ser um excellente chimico, um excellente medico, ou um excellente pharmaceutico sem entretanto ter-se feito um estudo aprofun- dado da toxicologia. » Elle vae mais longe e diz : « Nunca um chimico ou um pharmaceutico deve emprehender uma pesquiza medico-legal sem haver previamente e muitas vezes effectuado os trabalhos respectivos com substancias puras e conhecidas ; durante a qual nada deve aprender e sómente pôr em contri- buição o que já sabe. Com as substancias puras, em qualquer gráo de diluição é que elle deve aprender a conhecer as reacções afim de adquirir a segurança do juizo. Deve depois misturar as substancias puras com matérias animaes, afim de conhecer e assenhorear-se das mudanças que a mistura de corpos estranhos exerce sobre as reacções. Ninguém póde possuir sufficientemente os conhecimentos necessários para estas diligencias sem se ter familiarisado com a pratica das operações ou ter adquirido certa habilidade no manejo dos apparelhos. 76 TOXICOLOGIA Debaixo deste ponto de vista, duas circumstancias capitaes contribuem para crear na pratica embaraços mais ou menos sérios, uns vencíveis, e outros insuperáveis. Uma refere-se á quantidade, em geral muito pequena, de substancia to- xica introduzida na economia e distribuída em todos os orgãos na proporção de sua riqueza vascular e das funcções correspon- dentes ao seu papel physiologico, e d’onde resulta que uma par- cella, ás vezes insignificante e inapreciável, pôde caber a cada um delles. A importância deste facto sobe de ponto, porém, quando se consideram as perdas que occorrem pela eliminação dos venenos, quer espontaneamente quer provocadas com o emprego dos meios evacuantes ou de simples lavagem gastro-intestinal (vomitivos e purgativos), na primeira phase do envenena- mento, quer depois da absorpção e atravez dos emunctorios na- turaes, mediante os recursos de que a therapeutica dispõe para exaggerar as funcções das glandulas e outros orgãos congeneres no mecanismo desse processo physio-biologico. Desta fôrma tanto mais notável é essa perda, quanto maior é a volatilidade ou antes a diffusibilidade dos venenos. A outra circumstancia diz respeito ao estado particular em que estes corpos se fixam nos tecidos que compoem os nossos orgãos, formando com os seus princípios elementares proteicos combinações estáveis e fixas, cuja natureza e constituição mol- lecular é ainda mal conhecida, e por isso não tem sido determi- nada. São estes compostos que, para os venenos metallicos, se consideram e denominam albuminatos dos respectivos metaes, e que, quando mesmo não sejam verdadeiras e legitimas combi- nações chimicas, são incontestavelmente o producto resultante da união intima que se estabelece entre as substancias orgâ- nicas albuminoides e os princípios toxicos occultando-os, pela desproporção enorme de massa, bem como pela sua natureza e propriedades especiaes, aos meios mais rigorosos e seguros do separação dos mesmos venenos, afim de chegar-se ao seu reco- nhecimento . GENERALIDADES 77 Dahi as dificuldades praticas extraordinárias da pesquiza toxicologica, as quaes só bem comprehendem os que se dão a essa penosa e ingratíssima tarefa, que exige do analysta muito mais do que noções mesmo completas e os conhecimentos pre- cisos de chimica geral. Indagando-se atè que ponto póde realmente influir nas reacções geraes dos corpos a presença de matérias estranhas de natureza organica e principalmente de origem animal, fica-se surprehcndido deante da tenacidade com que resistem á acção do calor, com que acompanham, atravez de todas as operações chimicas do laboratorio, os productos que se procura libertar de sua perniciosa influencia. Tem-se o habito de dizer e repetir todos os dias, e até certo ponto com razão, que as matérias organicas são facilmente al- teráveis, decomponiveis pelo calor, e que uma temperatura bastante elevada as destróe completamente. Quando, porém, vae-se applicar este principio ás questões praticas da chimica legal, onde se joga com quantidades consideráveis dessas matérias, ás vezes já putrefactas, relativamente á pequena proporção de substancias toxicas que ellas encerram, e das quaes é preciso primeiramente separar, afim de se poder evn- dencial-as pelas suas reacções caracteristicas, então é que se conhece quanto é difficil obter-se esta separação completa dos últimos traços, dos menores vestígios da matéria organica, sobretudo de gordura, a despeito dos melhores e mais eficazes processos de sua destruição, baseados, como se verá mais adeante, no emprego do calor, dos ácidos mineraes concen- trados, dos alcalis cáusticos, do nitro em fusão, do chloro nascente, etc. Por outro lado, é preciso descer aos estudos práticos no laboratorio para se verificar até que ponto póde influir a pre- sença de pequenas quantidades de matéria organica no resul- tado das reacções mais sensíveis o caracteristicas dos corpos : umas falham completamente, e outras apresentam-se masca- 78 TOXICOLOGIA radas, de modo que pouco ou nenhum auxilio prestam nas ana- lyses toxicologicas. Ninguém melhor do que Orfila, no seu tempo, comprehendeu os inconvenientes ligados á presença de matérias organicas nestes ensaios ; ninguém melhor do que elle reconheceu a ne- cessidade e ao mesmo tempo a difficuldade de as separar intei- ramente para a devida clareza das reacções — « Mefiez-vous de la malière organique », repetia elle a cada instante aos seus discípulos, como um estribilho invariável de suas lições de to- xicologia, e nesta sentença, tão breve quão judiciosa, resumia Orfila uma lição cheia de verdade e sabedoria. Experiências muito simples feitas sobre os saes metallicos, quando tratados pelos seus reactivos ordinários na presença de matérias organicas, de proposito misturadas, demonstram ca- balmente a necessidade de os desembaraçar dessa ganga especial que os occulta aos ensaios rigorosos, precisos para sua evidenciação. Para o reconhecimento dos venenos mineraes, excepto o phosphoro e alguns outros, podem-se empregar diversos meios de destruição da matéria organica, sem que elles sejam prejudi- cados ; e ainda assim a analyse ê cercada de grandes difficul- dades. Muito maiores tornam-se estas quando se trata de venenos por sua vez também orgânicos, e para cuja separação são necessários outros artifícios indirectos, especiaes, que mais adeante serão indicados. Estas diíficuldades inherentes á presença de matérias orga- nicas nas analyses toxicologicas tornam-se ainda mais accen- tuadas, e ás vezes insuperáveis, quando se tem de procurar os venenos nas vísceras de um cadaver já inhumado de certo tempo e em estado de putrefacção adeantada, porquanto alguns venenos mineraes podem ter sido alterados e disseminados fóra do cadaver, e os orgânicos podem ter desapparecido ou ter sido destruídos, sendo poucos deste numero os que resistem ás primeiras phases da decomposição pútrida. Assim por GENERALIDADES 79 exemplo: o phosphoro, pela facilidade extrema de se oxidar e na pequena quantidade em que é toxico, póde ter tido tempo de soífrer lentamente essa transformação, mesmo debaixo da terra, passar ao estado de acido phosphorico e depois ao de phosphato. Que conclusão, pergunta-se, póde-se tirar da presença e reconhe- cimento do phosphoro neste estado, em que justamente faz parte integrante e fundamental do nosso esqueleto, e existe espalhado em menor escala pelo resto da nossa economia ? Que concluir do facto de se encontrar o phosphoro em taes condições, quando assim existe elle no nosso organismo na quantidade total de dous a tres kilogrammos ? Finalmente, é aqui occasião de não deixar em silencio uma causa de erro que, hoje mais do que nunca, deve preoccupar a attenção do toxicologista nas suas investigações post mortem, e cujo conhecimento é devido aos recentes e importantíssimos trabalhos de Selmi, na Italia, e Gautier, em França, os quaes assignalaram a descoberta de certos corpos dotados de reacção alcalina, alguns de acção eminentemente deleteria, que se ori- ginam da decomposição pútrida de matérias animaes, verda- deiros alcaloides cadavéricos que elles denominaram ptomainas ou mais propriamente, segundo Chapuis, ptoaminas, e que vieram complicar extraordinariamente os resultados das pes- quizas toxicologicas. A existência destes princípios nos corpos em decomposição veio constituir mais um escolho, e acarretar mais uma séria complicação nas pesquizas toxicologicas, como é facil avaliar não sómente pela semelhança das reacções chimicas, com as dos al- caloides em geral, e que torna difficilima sua discriminação, como pela symptomatologia própria daquelles que gozam de acção deleteria, e que muito se approxima também da de certos alcaloides, uns estupefacientes e hypostenisantes, outros nevros- thenicos. Dahi a necessidade de procederem agora os peritos chimicos, mais do que nunca, com o máximo cuidado e escrupulo, no in- 80 TOXICOLOGIA tuito de remover e evitar esta causa de perturbação, que pôde ser de consequências lamentáveis. Discutirei, porém, mais por miudo esta questão a proposito do estudo da experimentação physiologica, e em artigo especial que lhe consagro no fim. Não fallarei aqui de outras difficuldades que são antes de interpretação e não competem propriamente ao chimico legista ; competem; antes ao medico legista, e mais do que a estes ás mesmas autoridades policiaes e judiciarias. Elias dizem respeito às substancias que, comquanto sejam toxicas no estado em que são encontradas, podem ser estranhas á causa da morte e ter outra origem diversa da de um envenenamento. Como bem diz Otto, examinar si o veneno achado tem podido ser introduzido nas matérias suspeitas de outro modo, que não com um fim cri- minoso, não pertence as attribuições do chimico, esim aos advogados e juizes. Sómente quando lhe forem dirigidos que- sitos nesse sentido é que lhe cumprirá responder como perito. Em geral elle deve se restringir ás questões que lhe forem propostas, salvo si deparar alguma circumstancia que julgue de interesse e importância para a causa de que se trata. Alguns factos provam que substancias toxicas podem ser encontradas no corpo, nos alimentos, etc., sem que tenha havido envenenamento ; assim por exemplo, nos toxicophagos e particularmente nos arsenicophagos, ellas podem provir desse habito extravagante. O antimonio revelado pela analyse póde ser devido a um vomitorio de tartaro que o individuo, envenenado ou não, tenha tomado. Ainda mais vestígios ou mesmo pequenas quantidades de cobre, e mesmo de chumbo não autorizam a concluir por um envenenamento, porque, nessas condições, existem por assim dizer constantemente em nossos alimentos e bebidas, em virtude de circumstancias muito diversas. Entre nós, mais do que em parte alguma, convém accentuar bem esta circumstancia, para despertar a attenção de nossas GENERALIDADES 81 autoridades publicas, em geral alheias a estas noções que são capitaes para o bom desempenho de suas funcções e garantia dos exames por ellas incumbidos aos peritos. Aqui tem-se o péssimo habito de confiar exclusivamente nos resul- tados da analyse chimicapara o descobrimento de um crime de venefício ; prescinde-se de tudo o mais que é igualmente essen- cial para chegar-se áquellefim, e vem a ser : a descripção dos phenomenos insolitos apresentados pelo individuo antes de morrer, e a dos signaes cadavéricos e lesões anatomo-patho- logicas observadas pela necropsia. Estes dados teem a vantagem de encaminhar melhor a pesquiza toxicologica, limitando o campo da mesma, pela natureza da suspeita a que taes ele- mentos conduzem. De mais, é preciso notar, diz com razão Otto, que em um processo de venefício não se toma unicamente por base o descobrimento do veneno ; o exame chimico só é recla- mado quando ha provas sufficientes, pelo menos suspeitas vehe- mentes, de um envenenamento. Entretanto o que se pratica entre nós é a negação completa, destes sãos principios e o resul- tado éo que se tem visto, quasi sempre negativo. Mandam-se, para analysar, visceras recolhidas sem critério, faltando ás vezes algumas das mais importantes na especie, muito mal acondicionadas, sem o menor esclarecimento, sem a menor in- formação sobre o motivo de suspeita e outras circumstancias de interesse capital, e pergunta-se si nellas existe veneno. Deante de um problema completamente vago e indeterminado, como este, tem o perito chimico de proceder à pesquiza de todos os venenos conhecidos, e susceptiveis de serem caracterisados e postos em evidencia pelos methodos mais rigorosos de analyse, para chegar a um resultado, que póde ser affirmativo enão con- stitue sempre prova irrefragavel da morte por envenenamento, pelas razões acima indicadas ; ou a um resultado negativo, que não exclue a morte por esta causa, attendendo a que os pro- cessos chimicos não alcançam sinão um certo numero de vene- nos ; fóra estes, existe um grande numero, que, ou são intei- TOXICOLOGU 6 82 TOXICOLOGIA ramente desconhecidos na sciencia, ou quando sejam conhecidos, sua separação, seus caracteres e meios de evidenciação ainda são de todo ignorados. E’, pois, para estes casos indeterminados que convém, sobre- tudo, instituir um methodo ou marcha geral de analyse toxicologica ; o que farei mais adeante, depois de estudar os processos de destruição da matéria organica, applicados à separação dos venenos metallicos, e em seguida aquelles pelos quaes se isolam, sem essa destruição, os venenos por sua vez orgânicos (os alcaloides, por exemplo), bem como os mineraes que, sendo voláteis, podem ser separados e obtidos por simples distillação. Dito isto, vejamos quaes teem sido os artifícios imaginados pelos toxicologistas para vencer estas difficuldades, e mediante os quaes se procede hoje para chegar-se á solução definitiva dos problemas relativos á pesquiza dos venenos, sobretudo nos casos indeterminados, infelizmente os que mais vezes se apre- sentam na pratica. Os grandes methodos de analyse toxicologica abrangem dous tempos, a saber : a separação e o reconhecimento dos venenos. Este ultimo constitue um ensaio simplesmente de chi- mica geral, baseado no emprego dos reactivos conhecidos como os mais sensiveis e caracteristicos ; no primeiro, porém, reside toda a especialidade da sciencia pratica dos venenos, que ensina arrancal-os dos orgãos e de qualquer substancia organica, onde elles se achem domiciliados. Processos geraes de destruição da matéria organica Comprehendem todos os processos de pesquiza toxicologica que implicam destruição da matéria organica, e que vamos passar em revista, detendo-nos mais particularmente na apreciação dos mais importantes, e por isso recommendados e adoptados GENERALIDADES 83 de preferencia pelos toxicologistas. Elles são destinados á pes- quiza dos venenos metallicos, e podem se reduzir a dous methodos, sendo o primeiro em que se emprega o fogo nu ; o se- gundo em que se recorre a certos agentes chimicos energicos, sós ou auxiliados pela acção do calor. PRIMEIRO METHODO — PROCESSO UNICO Carhonisação directa pelo fogo Consiste em submetter a matéria a analysar á acção de uma temperatura bastante elevada, em vaso aberto (capsula de porcellana ou platina), atéreduzil-a a carvão; depois trata-se o residuo por agua acidulada com acido chlorhydrico ou azo- tico, filtra-se, e no liquido que passa ensaiam-se os diversos reactivos para o reconhecimento do veneno. Este processo, porém, pelo numero limitado de venenos a que pôde ser applicado, não tem caracter de generalidade. Com effeito, entre os metaes estranhos à economia, que formam compostos toxicos mais communs, não podem ser denunciados por este processo sinão o cobre e talvez o chumbo, que resistem áquella temperatura. Para Dragendorff e outros, e eu penso com elles, nem mesmo este ultimo, que, em parte ao menos, pôde-se volatilisar. 1 1 Deste facto decorre uma applicação pratica da mais subida importância, e vem a ser a que se refere á cremação ou incineração dos corpos, como me- thodo de extincção dos mesmos, que acarretará necessariamente o desappare- cimento e a perda da maior parte dos venenos, impossibilitando a sua pes- quiza e verificação. Como todos sabem, é esteounico ponto para mim vulne- rável de semelhante systema, e pelo qual se torna inacceitavel na pratica, sem prejuizos para a sociedade, os qiaes reputo mais sérios e graves do que os que se attribne exatreradamente aos effluvios dos cemitjrios. Julgo não dever ex- planar-se aqui esta questão, da q tal já fiz objecto de um folheto, que corre impresso e onde se encontramos desenvolvimentos precisos. 84 TOXICOLOGIA SEGUNDO METHODO Conta vários processos, conforme a natureza dos agentes chimicos empregados, e que podem ser distribuídos em tres grupos : o Io comprehende os ácidos mineraes concentrados; o 2o os nitratos alcalinos; o 3o o chloro e seus compostos oxygenados. A —Ácidos 1.° Acido azotico.— Pela primeira vez empregado e recom- mendadopor Thenard e Oríila em 1839, este acido, segundo Tar- dieu, não opera a destruição completa das matérias organicas, mas transforma-as tão profundamente que presta-se bem ao fim a que é destinado. Executa-se aquecendo primeiramente o acido em uma capsula e ajuntando, por pequenas porções, peso igual ou um pouco menor, da matéria organica, previamente dividida em pequenos fragmentos, até que fique tudo reduzido a um carvão leve e esponjoso. Humedece-se-o com agua regia, secca-se ao calor, trata-se pela agua simples ou ainda acidulada, evapora-se de novo a secco, e no residuo, dissolvido em agua distillada, procura-se o veneno pelos meios ordinários. Este processo offerece apenas um unico inconveniente, que é a deflagração das matérias, e dahi perda de trabalho e pe- rigo para o operador. Previne-se, porém, esta circumstancia coma modificação proposta por Filhol, que manda ajuntar a cada 100 grs. de acido azotico 10 a 15 gottas de acido sul- furico l. A experiencia tem mostrado que a mistura assim preparada ó isenta de inconvenientes, e poderia servir como base de um processo geral, applicavel à pesquiza de todos os venenos me- tallicos. 1 Esta modificação corresponde á que foi lembrada por Schueider ao pro* cesso de Flandin e Danger, e de que mais adeante darei noticia. GENERALIDADES 85 2.° Acido chlorhydrico.— Póde-se executar o processo de dons modos, conforme o acido é empregado já feito ou no estado nascente. No primeiro caso, as matérias organicas são tratadas pelo acido chlorhydrico concentrado e quente, depois ajunta-se um pouco d’agua distillada, filtra-se, e no liquido que passa segue-se o methodo de Reinsch : Mergulha-se por tempo suf- ficiente, pelo menos 24 horas, uma lamina bem limpa de cobre, estanho ou zinco, afim de sobre ella depositar-se o metal to- xico, por phenomeno de substituição. Quando mesmo fosse tão facil e tão simples, este processo, que na pratica encontra varias causas de insuccesso, tem o grande defeito de introduzir no li- quido a examinar metaes estranhos e também toxicos, com- plicando assim os resultados. E’ verdade que este ultimo inconveniente póde ser evitado com a modificação de Roussin, que aconselha dar preferencia ao emprego de uma lamina de magnésio, visto como precipita o cobre, o chumbo, o estanho, a prata, o bismutho, o zinco, o cádmio, etc., e tem a vantagem de não ser toxico. Seria preciso, porém, remover aquellas outras causas de in- successo, communs a todos os processos em que se lança mão do acido chlorhydrico : 1. a A destruição da matéria organica é incompleta. O pro- prio Mohr, que adopta um desses processos, confessa este facto, dizendo que os tecidos endurecem (raccornissent), sob a in- fluencia deste acido, eo amido e a dextrina se sacharificam. 2. a O arsénico póde perder-se, no estado de chlorureto de arsénico, volátil. 3. a Muitos metaes e alguns de seus compostos, difficilmente solúveis e só parcialmente atacados pelo acido, ficariam na grande massa de residuo, de mistura com matérias ainda não destruidas. Ha ainda outro modo de se empregar o acido chlorhy- drico já preparado, e é segundo o processo de Drunty, aper- feiçoado por Duflos e Hirch, Distilla-se a matéria suspeita, 86 TOXICOLOGIA com a metade do seu peso de acido, em uma retorta de vidro tubulada, aquecida em um banho de chlorureto de cálcio ; a retorta communica com um balão contendo agua distillada (30 grams.). Quando tem passado todo o liquido, trata-se o residuo que fica na retorta pelo dobro do seu peso de álcool a 80°i filtra-se, esgota-se, repetindo algumas vezes este trata- mento, evapora-se os liquidos alcoolicos, e o residuo aquoso reune-se ao producto da distillação. Desta maneira não se perde o arsénico e póde-se até separal-o do estanho, do bis- mutho, do chumbo e do antimonio. Apezar, porém, destas pequenas vantagens, o processo não tem sido usado. Finalmente para terminar a exposição dos processos que se referem ao acido chlorhydrico, resta-me fallar do de Schneider e Fyfe, em que elle é empregado no estado nascente, e é espe- cialmente applicavel á pesquiza do arsénico. Para isso mis- tura-se a matéria suspeita com um excesso de chlorureto de sodio, fundido, lança-se n’uma retorta e aquece-se ajuntando pouco a pouco, por pequenas porções, acido sulfurico. E’ pre- ciso evitar um grande excesso deste acido, que poderia ser reduzido parcialmente, produzindo gaz sulfuroso. Diz-se que o residuo encerra os chloruretos melallicos toxicos e até mesmo uma parte do de arsénico, que não é tão volátil, como geralmente se pensa ; entretanto não me parece acceitavel esta doutrina, porque esses chloruretos não se poderiam formar; e uma vez formados, não teriam estabilidade na presença do acido sulfurico ; importaria isso em admittir no seio da mesma mistura duas reacções inversas, isto é, decomposição de um chlorureto pelo acido sulfurico para a producção de outro chlorureto, sob a mesma influencia, o que seria absurdo, desde que a quantidade de acido não é a strictamente necessária para decompor só o chlorureto de sodio, e ha sempre um pequeno excesso. Além disso cumpre notar que, quando as matérias encer- ram sulfureto de arsénico ou de antimonio, uma parte destes GENERALIDADES 87 corpos deposita-se no collo da retorta, ou porque tenham sido volatilisados ou acarretados mecanicamente, ou porque, depois de decompostos, se tenham regenerado, pela differença de tem- peratura, na parte menos quente do apparelho. Sonneschein prefere o emprego do acido chlorydrico gazoso, fazendo condensar os chloruretos voláteis em um balão munido de um tubo, que mergulha n’agua distillada. 3. Agua regia.— Descripto por Naquet, este processo, segundo Gerhardt e Chancel, pertence a Malagutti é Sarzeaud, modificado por Bechamp. Além de simples, parece isento de maiores inconvenientes, e pratica-se do modo seguinte! Em uma retorta de vidro, communicando com um recipiente, lan- ça-se agua regia, e depois a matéria organica em pequenos fragmentos; a reacção começa mesmo a frio, mas póde-se actival-a pela approximação de algumas brazas ; toda a ma- téria ô dissolvida, menos a parte gordurosa, que sobrenada; desmonta-se o apparelho, reune-se o liquido condensado ao da retorta, deixa-se resfriar n’utn vaso, separa-se a gordura, fil- trando em papel previamente humedecido, e no liquido ensaia-se os reactivos para o reconhecimento do principio toxico. 4. Acido sulfurico.— Processo de Flandin e Danger, a que Tardieu dá preferencia sobre todos os outros, e que por isso foi o mais usado em França durante muito tempo. Executa-se da maneira seguinte: Depois de divididas as matérias organicas em pequenos fragmentos, trata-se por */»» V» de seu peso de acido sulfurico concentrado, aquece-se em banho de areia, em uma capsula ou em um apparelho fechado de distillação, cuja retorta deve ser bastante espaçosa, tendo uma abertura tapada com rolha de esmeril, por onde se introduz a matéria sem deixar tocar nas paredes. Mantem-se a temperatura necessária para entreter uma ebullição moderada, evitando os sobresaltos da matéria superaquecida, que póde causar estragos e perdas ; durante o tempo também necessário para que toda parte liquida desappareça fica como residuo um 88 TOXICOLOGIA carvão perfeitamento secco, leve, poroso, brilhante e friável, não desprendendo mais vapores de acido sulfurico. Deixa-se resfriar e retira-se o carvão, desaggregando-o com a ponta de um bastão, pulverisa-se n’um gral bem secco e passa-se para uma capsula, onde se trata por d/10 de seu peso de acido nitrico (seria melhor, segundo Gaultier de Claubry, a agua regia), secca-se de novo e expõe-se á acção do calor, até desapparecerem os últimos vestígios de vapores nitrosos; esgota-se o carvão por agua distillada quente ou fervendo, filtra-se e no liquido experimenta-se os reactivos, podendo uma pequena porção ser introduzida no apparelho de Marsch l. No processo primitivo a carbonisação era feita em vaso aberto, em uma capsula por exemplo ; porém Orfíla e Jacque- lain notaram que assim se expunha á perda de uma parte do arsénico, no estado de chlorureto volátil, em virtude do chlo- rureto de sodio, que conteem naturalmente as matérias animaes. Foi Berard quem recommendou primeiro o apparelho fechado, que alias tem também os seus inconvenientes. Segundo Dra- gendorff, produz-se uma espuma que torna a marcha da operação muito difficil; por minha parte, nas analyses que pratiquei juntamente com o distincto preparador da Faculdade, o Sr Dr. Borges da Costa, observei sempre que quando a operação corre um pouco menos moderadamente e sobretudo quando se trabalha sobre vísceras carregadas de gordura, esta escapa á acção destruidora do acido sulfurico, acama-se na superfície interna das paredes da retorta e no collo, mistura-se depois com o producto distillado contido no balão recipiente, perturbando assim os ensaios ulteriores a que esse liquido se presta para a pesquiza do veneno. Esta circumstancia, além de que priva o operador de poder acompanhar a marcha da carbonisação das matérias, por causa da camada de gordura, que tira a transpa- 1 0 carvão obtido é guardado para exames ulteriores tendentes a verificar a presença de certos toxicos que ahi podem ficar retidos no estado de combinação insolúvel, pax-ticularmente o chumbo e o antimonio. GENERALIDADES 89 rencia do vidro, não permitte retirar o carvão formado, sinão quebrando-se a retorta, o que não é sem alguma importância. Mas não é tudo. Naquet fez notar que, mesmo nas condições mais favoráveis, o carvão retem muitas vezes uma pequena quantidade de acido sulfurico, que pode ser por elle reduzido ao estado de acido sulfuroso, o que é um grande inconveniente quando se trata da pesquiza do arsénico ou do antimonio, em que uma parte do liquido tem de ser introduzida no apparellio de Marsch ; ahi, pela acção do hydrogeno nascente, passa por sua vez esse acido ao estado de gaz sulphydrico, que dá logar á producçãodo sulfureto daquelles metalloides, cuja presença não seria accusada. 1 Sem contestar o facto, direi que não me parece justificada a objecção de Naquet, porquanto o tratamento ulterior do carvão sulfurico pelo acido nitrico, como mandam os autores do pro- cesso, evitaria aquelle accidente, visto como sob sua influencia o gaz sulfuroso formado seria super-oxydado, regenerando-se o acido sulfurico, accidente este que Gaultier diz nunca ter observado, e que também Naquet sô viu uma vez; é, porém, o caso de dizer-se que uma experiencia positiva valem 20 nega- tivas. Ha, finalmente, ainda um meio de evitar essa causa de erro ou de insuccesso, e que consiste, segundo a modificação de Schneider,em carbonisar as matérias com uma mistura de acido sulphurico e azotico; é pouco mais ou menos a mesma apre- sentada por Filhol ao processo de Thenard e Orfila. Assim póde-se executal-o em vaso aberto, sem risco de perda do ar- sénico ; o que não livra, porém, de outro inconveniente ligado a esta circumstancia, e vem a ser : que os productos de decom- posição que se desprendem das matérias sobrecarregadas de principios gordurosos espalham-se na atmosphera, impregnam 1 Nem se poderia produzir uma mudança de côr apreciável dentro do ap- parelho, devido á formação de algum de-tes sulfurdos, em virtude da peque* nissima quantidade de metalloide que ahi deve existir. 90 TOXICOLOGIA de modo tenaz as roupas e adherem ao cabello e á barba, tor- nando assim o processo por demais fastidioso e repugnante. Em todo o caso devo dizer que o processo de Flandin e Danger, alias um dos mais seguros e vantajosos para as pesquizas toxicologicas, está longe de ser, como pretende Tardieu, o unico que permitte obter sob um pequeno volume líquidos completa- mente isentos de matéria organica, em que os metaes se acham pela maior parte no estado de azotatos solúveis, excepto o chumbo, o antimonio, o ouro, e mesmo em parte o bismutho ; estes ficam retidos no carvão, no estado de sulfatos ou de oxydos insolúveis, e do qual se retira por artifícios especiaes, que serão indicados opportunamente. Ultimamente Boutmy apresentou um processo de destruição das matérias organicas, que não passa de uma modificação do de Flandin e Danger. Consiste, como este, em tratar estas ma- térias successivamente por acido sulfurico e azotico, porém com a differença que este ultimo, em vez de ser lançado no carvão secco e pulverisado, resultante do tratamento pelo acido sulfu- rico, é addicionado em maior quantidade, e por mais de uma vez, durante o primeiro tempo da operação, e concorre efficaz- mente com este acido no trabalho da carbonisação e destruição daquellâs matérias. Devo confessar que este processo é realmente vantajoso, e parece um dos mais seguros e expeditos, porque dá em menos tempo que os outros, como producto final, um liquido em condições de ser entregue aos ensaios subsequentes. Não deixarei este artigo sem mencionar um ultimo precesso, e ainda mais recente, imaginado e proposto por Pouchet, cuja descripção compete de direito neste logar, mas cujo valor pratico não posso ainda garantir, porque não tive occasião de o experimentar. Consiste este processo em tratar as matérias a analysar em uma grande capsula de porcellana, com 25 °/Q de bisulfato de potássio, a que se ajunta uma quantidade corre- spondente ao seu peso de acido azotico fumegante. O ataque, muito violento no começo, exige depois uma pequena elevação GENERALIDADES 91 de temperatura. E’ nesta primeira phase da operação que convém parar, quando se tem sómente em vista a pesquiza do arsénico ou do antimonio. Lança-se então acido sulphurico puro (66° B.) em grande excesso para que as matérias fiquem li- quidas, aquece-se durante certo tempo em temperatura vizinha da ebullição do acido sulphurico ; então todos os compostos orgânicos que podiam ter escapado à acção do acido azotico são destruidos, e o carbono completamente oxydado. Si, porém, assim não acontece, projecta-se no liquido alguns crystaes de nitro puro, aquece-se de novo até a producção de abundantes vapores brancos de acido sulfurico. Obtem-se desta maneira um residuo salino, que dissolvido n’agua, fornece um liquido perfeitamente limpido e transparente, levemente corado, no qual deve existir o principio mineral toxico, no estado de sulphato, em presença de um excesso de acido sulfu- rico. Neste liquido final faz-se passar uma corrente electrica, desenvolvida por uma pilha, composta de quatro elementos de Bunsen, ou de uma pilha de gaz Clamond, que é preferivel, por causa da constância da corrente ; no polo negativo, represen- tado por um electrodio de platina, forma-se o deposito metallico que se retira para submetter aos convenientes ensaios. Este processo, que repousa sob o principio de que é possivel aquecer impunemente até 300° ou 400° os elementos mineraes contidos em uma mistura de acido sulphurico e bisulphato de potássio, e a qual retem os corpos mais voláteis e decomponiveis, offerece a vantagem de realizar a destruição completa das matérias organicas, sem prejuizo das substancias rnineraes toxicas, cuja perda, ou evita absolutamente, ou reduz ao mi- nimo. E’ assim que Arm. Gautier disse ter podido reconhecer até meio milligrammo dechumboem 100 grammasde matérias sub- mettidas á analyse (conservas alimentares, urina, porções de yisceras de indivíduos victimas de intoxicação saturnina, etc.). 92 TOXICOLOGIA Diz o mesmo autorque poude, por este processo, verificar a exis- tência do mercúrio em 200 grammos de um figado gorduroso, a que se tinha addicionado meio milligrammo de sublimado cor- rosivo. B —Nitratos l.° Nitrato de po'assio (nitro) — Foi Rapp quem, em 1817, apresentou o primeiro processo de destruição da matéria orgâ- nica para os ensaios toxicologicos, baseado na acção forte- mente oxydante e comburente do nitro em fusão ignea. Póde-se proceder de dous modos: ou faz-se fundir previamente o nitro em um cadinho de barro ou de porcellana e depois lança-se sobre elle a matéria organica bem dividida e por pequenas por- ções até a destruição completa, ou mistura-se primeiramente esta com o sal, a frio, e lança-se no cadinho incandescente com o mesmo cuidado, afim de evitar a deflagração e projecção da substancia para fóra. Orfila e outros teem proposto uma alteração importante, que consiste em fazer ferver primeiramente as matérias orgâ- nicas com o acido nitrico ou com a potassa, e depois neutra- lisar o liquido pela addição do alcali ou do acido, reconstituindo assim o sal primitivo. Apezar, porém, desta modificação, o pro- cesso de Rapp offerece alguns inconvenientes : é muito demo- rado e perigoso, e pôde falhar completamente a respeito de certos principios voláteis, por exemplo o mercúrio, dando logar a perdas sensíveis em relação ao estanho e ao antimonio. Por outro lado, nas condições especiaes em que o cadinho é aque- cido, pode elle ser atacado, introduzindo no producto final elementos estranhos. Este processo póde-se applicar perfeita- mente à pesquiza do arsénico, que é fixado no estado de arseniato de potássio, com a condição de se fazer desapparecer GENERALIDADES 93 completamente todo o azo tato e azotito que possa ter escapado à decomposição do nitro, afim de evitar dentro do appa- relho de Marsh a formação de vapores nitrosos ; é o que con- segue-se tratando o residuo da calcinação por acido sulfurico e separando depois o sulfato de potássio por crystallisação. O processo de Wõhler e Siebold, baseado ainda no emprego do nitro em fusão, não ê mais do que outra modificação do pro- cesso de Rapp. Com eífeito, elles mandam aquecer primeiro as matérias com seu peso de acido nitrico, e neutralisar depois a massa liomogenea que resulta por meio da potassa, soda ou seu carbonato ; ajunta-se então à mistura uma porção de nitro igual ao peso da matéria, evapora-se a secco, agitando continua- mente; este residuo é lançado por pequenas porções em um cadinho de porcellana incandescente, o que produz uma pequena deflagração, que se espera para ajuntar nova porção da mistura ; póde-se mesmo addicionar mais nitro até embranque- cimento e completa combustão da matéria. Este processo, que assim como o de Rapp, leva os metaes ao gráo máximo de oxydação, resente-se dos mesmos defeitos e tem mais sobre elles o de accumular grande quantidade de sal alcalino no residuo. Para obviar este ultimo inconveniente, Dragendorff lembra antes o emprego de nitrato de ammonio, que se presta ao mesmo fim sem deixar residuo. 2.° Nitrato de cálcio — Proposto por Devergie, este processo consiste em aquecer as matérias organicas divididas, com 10 a 15 % de seu peso de potassa, até que sejam desaggregadas, for- mando um liquido espesso ; depois ajunta-se o nitrato de cálcio até consistência de massa, que se faz seccar perfeitamente ao calor e inflamma-se com um carvão incandescente. A mistura arde lentamente como uma isca, sem deflagração nem chamma, e deixa por ultimo um residuo branco, que se trata por acido chlorhydrico diluido, filtra-se, e no liquido procura-se o ve- neno. E’ um processo este que reconheci e acredito, por espe- riencia própria, só ter o defeito de não se prestar á pesquiza de 94 TOXICOLOGIA mercúrio, que se perde todo ou em grande parte. Quanto ao inconveniente, notado por Naquet, da impureza constante da potassa e do nitrato de cálcio, póde-se evitar dispondo-se de substancias puras, adrede preparadas. C — Chloro e seus compostos oxygenados 1,° Chloro. Deve-se a Jacquelain a idéa do emprego deste corpo como agente de destruição da matéria organica, e sobre o qual baseou o seu processo, que se executa da maneira seguinte : Tritura-se a matéria em um gral, por intermédio da arêa fina e bem lavada, acidula-se com acido chlorhydrico ou agua regia, aquece-se durante algum tempo a mistura, suspende-se n’agua fria, e faz-se passar uma corrente de chloro em excesso, até que fique reduzida a flocos brancos separados, ou reunidos formando massa caseiforme homogenea ; deixa-se em um frasco arrolhado durante 24 horas, depois filtra-se, e para expellir o chloro livre, ou se aquece o liquido durante algum tempo, ou se faz passar uma corrente seja de gaz sulfuroso, seja de gaz carbonico, aquecendo-se depois o liquido para desembaraçai-o do excesso de qualquer destes gazes, cujo papel é differente: o Io obra chimicamente superoxidando-se á custa do oxygeno da agua, cujo hydrogeno se une ao chloro para formar acido chlorhydrico, e o 2o obra mecanicamente. Tem-se assim uma solução, onde se procura o veneno. Boissenot propoz uma modificação a este processo, que consiste em um meio facil e commodo de producção de chloro, pela reacção do acido chlorhydrico, cahindo em fio continuo sobre o chlorureto de cal do commercio, em um apparelho apropriado. O processo de Jacquelin tem sido a meu ver injustamente esquecido e abandonado, porquanto, ao poder de desorganisar e GENERALIDADES 95 transformar as matérias organicas, reune elle o de descoral-as ; póde com vantagem ser applicado á pesquiza do arsénico, e mesmo de outros princípios toxicos, prevenindo-se de que é no resíduo, e não no liquido, que se deve procurar o chumbo, a prata, e em parte o mercúrio, ahi retidos no estado de chio - ruretos pouco ou nada solúveis.1 Se, como diz Mohr, nenhum corpo orgânico é completamente destruído pelo chloro, de maneira que resulte agua egaz carbonico, nem mesmo o álcool, producto rico em hydrogeneo ; si os compos os mais hydro- carbonados, taes como as gorduras, são ainda menos atacados, o mesmo se dá em maior ou menor gráo com todos os outros agentes chimicos de destruição, que são imperfeitos nos limites impostos pela sua natureza especial, e pela dos venenos a des- cobrir e pôr em evidencia. 2.° Euchlorina — Assim se chama a mistura de chloro e peroxydo de chloro, resultante da acção do acido chlorhydrico sobre o chlorato de potássio. O primeiro processo baseado sobre esta reacção foi indicado em 1838 por Duflos e Millon, para a pesquiza do arsénico ; depois successivamente modificado e applicado á pesquiza de outros venenos por vários toxi- cologistas, entre os quaes se contam Otto, Husemann, Fre- senius e Babo, e o Dr. Ferreira de Abreu, (depois Barão de Theresopolis), é hoje um dos mais recommendados como methodo geral de destruição da matéria organica, applicavel á pesquiza de todos os venenos metallicos. Foi em 1848 que, estando em França este illustre professor brazileiro, uma das glorias e dos talentos mais robustos da Faculdade de Medicina da capital, escreveu sobre este assumpto uma these intitulada — Nouveau procèdè pour la recherche des poisons mêtalliques — que elle defendeu perante a Fa- culdade de Medicina de Pariz, e que foi apresentada e lida perante a Academia de seiencias da mesma cidade. Ora, como 1 Em geral, nestas condições, o mercúrio é quasi todo levado ao estado de bi-chlorureto, solúvel. 96 TOXICOLOGIA já disse, o emprego ou pelo menos a idéa da acção combinada do acido chlorhydrico e do chlorato não era inteiramente uma novidade, pois datava de 10 annos antes; entretanto é certo que ao Dr. Ferreira de Abreu deve-se a descri pção mais completa, detalhada e minuciosa do processo, que foi repro- duzido, e com elogios, no Jornal de hygiene de Pariz, redigido pelo Dr. Pietra Santa (numero de Agosto de 18/9), e entre nós, também no Progresso medico. Consiste em tratar as matérias organicas, conveniente- mente divididas, por metade do seu peso de acido chlorhydrico puro e fumegante, em um balão aquecido em B. de areia, cuja abertura, relativamente larga, ó fechada por uma rôlha de vidro, que dá passagem a dous tubos, sendo um longo e bas- tante grosso (55 centimetros de comprimento, e 1 centimetro de largura), por onde se introduz o chlorato de potássio por pequenas porções, e outro tubo commum de desprendimento, que vai a um provete contendo agua distillada, collocado n’um banho d’agua, mantida fresca. Aquece-se a mistura durante 4 horas, pelo menos, em uma temperatura próxima da ebullição ; retira-se então do banho de areia o balão e aquece-se a fogo nu até ferver, durante 2 ou 3 minutos. Depois começa-se a introduzir pelo grosso tubo os crystaes de chlorato de potássio, até chegar-se á proporção de 16 a 18 grammas de sal, para cada 100 grammas de matéria suspeita. A cada addição do chlorato ha uma viva reacção e desprendimento abundante de gazes; o liquido clarèa cada vez mais e torna-se completamente limpido, de uma cor amarella esverdeada, que depende sobretudo de grande excesso de chloro que fica em dissolução, tanto no li- quido do balão como na agua do provete; deixa-se resfriar, e reune-se esta áquelle, depois de o ter filtrado, afim de separar pequenos fragmentos de carvão, e uma substancia resinoide que fica como resíduo; aquece-se para expellir o chloro livre e submette-se o liquido final ao tratamento pelo hydrogeno sul-* phuretado, e aos ensaios ulteriores da pesquiza. GENERALIDADES 97 No processo de Fresenius e Babo aquecem-se as matérias com o seu peso de acido chlorhydrico, pouco mais ou menos, em B. M., e é durante esse tempo que se vai addicionando o chlo- rato de potássio, sempre com muito cuidado, por pequenas por- ções, para evitar a maior violência da reacção. Neste modo de proceder nota-se que o liquido espuma e cresce dentro do appa- relho, e pôde chegar a transbordar, sobretudo si as matérias conteem muito amido, assucarou álcool; este ultimo principal- mente occasiona sobresaltos temíveis. Operando-se, porém, com as devidas precauções, evita-se bem este inconveniente, e ob- tém-se com qualquer dos dous processos, que pouco diíferem um do outro, os resultados mais completos e satisfactorios, em que peze a Tardieu e sobretudo a Mohr. O primeiro declara que não deposita confiança nestes resultados, porque as matérias organicas não são destruidase sim apenas dissolvidas, accumu- ladas portanto, em grande quantidade, no liquido final. Mohr vai mais longe e considera mesmo um erro a addição do chio- rato de potássio ao acido chlorhydrico, porquanto os productos da reacção não só não destroem a matéria organica e sómente a transformam, como introduzem no objecto da pesquiza grande proporção de substancias estranhas, Assim é, por exemplo, diz elle, que, no tratamento ulterior pelo acido sulphydrico, a pre- cipitação dos sulfuretos é pelo menos retardada si não impedida, e demais, entre os corpos dissolvidos a favor do chloro figu- ram alguns poucos que, por sua insolubilidade n’agua e mesmo no acido chlorhydrico, poderiam existir no estomago e intestinos impunemente, sem que fossem causa de envenenamento, por exemplo: os sulfuretos de arsénico, de cobre, de mercúrio, de zinco e de antimonio. Mohr acredita que o tratamento pelo acido chlorhydrico só é na maior parte dos casos sufficiente, e em uma hypothese em que é admissível e póde ser util a presença do chloro livre, elle prefere e aconselha empregar directamente este gaz, antes do que lançar mão da reacção do acido chlorhydrico sobre o chio- Toxicor.oau 7 98 TOXIGOLOGIA rato de potássio. Essa hypothese verifica-se quando se encontra, por exemplo, alguns daquelles sulfuretos insolúveis fóra do estomogo e intestinos, em orgãos onde, no estado em que se achão, não pódem ter sido levados por absorpção, e sim formados pela união de um composto solúvel, que é absorvido, com o enxofre das matérias albuminoides ; então, diz elle, depois de resultados negativos pelo acido chlorhydrico só, submette-se á acção de uma corrente de chloro, que atacando aquelles sulfu- retos, dissolvendo os respectivos metaes, permittirà o seu reco- nhecimento . Não vejo razão nestas objecções de Mohr. Quanto á pri- meira parte, si com o chloro e compostos chlorados no estado nascente, actuando sobre o producto do tratamento prévio das matérias pelo acido chlorhydrico ou mesmo independente disso, não se consegue a destruição destas, muito menos com qual- quer dos outros processos baseados sobre o emprego de rea- gentes chimicos, em geral de acção menos energica sobre as matérias organicas ; o proprio acido sulfurico concentrado por si só não preenche melhor este fim, e só quando à sua acção se reune a do acido azotico, como no processo de Boutmy, é que se obtem resultados comparáveis aos da euchlorina. Além disso, é improcedente a segunda objecção relativa á decomposição de compostos insolúveis, embora de principios toxicos que possam existir no estomago de um individuo, sem que tenham sido a causa da sua morte, porquanto o mesmo facto se dá com outros processos de destruição da matéria or- gânica . Demais, em contraposição a Tardieu e Mohr encontra-se Naquet, em cujo opinião o processo de Fresenius e Babo (e portanto a fortiori de Ferreira de Abreu) é um dos melhores, hoje adoptado de preferencia por grande numero de toxico- logistas, e no qual elle só acha o inconveniente de levar a prata e o chumbo ao estado de combinação insolúvel n’um caso, pouco solúvel no outro. E’ porém facil de ver que esse receio, com GENERALIDADES 99 referencia ao chumbo, é inteiramente gratuito, porquanto o chlorureto respectivo é bastante solúvel no acido chlorhydrico mesmo diluido, em cujo seio elle aqui se fôrma, alem de que nada impediria, prevenido disto, de procural-o, bem como a prata, noresiduo. Dragendorff pronuncia-se de um modo ainda mais favoravel e lisongeiro acerca deste processo; elle pensa que, si a des- truição da matéria organica não é completa, é pelo menos bastante sufficiente na immensa maioria dos casos, notando-se que aquellas que não são destruidas são facilmente separadas pela filtração ; somente acha inconveniente quanto á gordura, não só porque difficulta a lavagem do residuo, que é portanto incompleta, como também póde reter certa quantidade, embora pequena, de principio toxico, conforme diz elle ter ficado pro- vado a respeito do arsénico. Cumpre notar, porém, que nesta apreciação não se refere Dragendorff ao processo de Ferreira de Abreu, que, bem executado, não deixa residuo gorduroso, e sim antes uma substancia como que resinoide, em uma occa- sião em que todo o arsénico deve-se ter passado no estado de chlorureto volátil para a agua do provete, durante as pri- meiras quatro horas de aquecimento das matérias com acido chlorhydrico, em um apparelho fechado, de distillação. O mesmo receio de Dragendorff, relativamente aos chloru- retos de chumbo e de prata, manifestou também Schneider quanto ao de mercúrio no minimo, que podia, diz elle, ficar retido sobre o filtro ; não prevalece esta objecção, porque no seio de um liquido quente, contendo acido chlorhydrico, em que se desenvolve chloro nascente e se fôrma um chlorureto alcalino, todo o mercúrio seria forçosamente levado ao estado de bichlorureto (sublimado corrosivo) ou de chlorureto duplo solúvel. Não tem, pois, razão de ser a modificação, proposta por elle, de substituir neste processo o acido chlorhydrico por acido nitrico, cujo emprego seria muito perigoso pela violência maior da reacção, podendo occasionar explosão da mistura, além do 100 TOXICOLOGIA inconveniente ligado á difficuldade de expeli ir atè os últimos traços de productos nitrosos, cuja presença é nociva à clareza dos resultados nas pesquizas toxicologicas. O methodo do Dr. Ferreira de Abreu é, pois, effectivamente um dos melhores e dos rnais seguros para a destruição da materica organica ; o unico defeito que lhe noto reside no modo de addicionamento do chio rato de potássio, atra vez de um tudo encravado n’uma rolha de vidro, e que não ó nem póde ser bastante grosso ou largo para permittir a quéda do sal dentro balão, sem adherir ás paredes do tubo e acamar-se nellas, embaraçando e retardando a marcha do processo, além do perigo que offerece esse deposito de chlorato em uma super- fície mais ou menos quente. Depois de se ter aquecido as maté- rias previamente em acido chlorhydrico, durante 4 horas, em um apparelho fechado, os chloruretos voláteis que se puderem formar deverão estar recolhidos no provete collector, e, por- tanto, a addiçâo do chlorato alcalino póde ser feita até em vaso aberto, passando-se o liquido para uma capsula, por exemplo. Em todo o caso, em logar do balão, para compôr o apparelho de distillação, tenho me servido de uma retorta tubulada, e que se abre levantando a rolha todas as vezes que se tem de lançar o chlorato ; não ha nisso o menor inconve- niente, e facilita-se a operação. Terminarei esta parte dando noticia de um novo processo de destruição de matéria organica, que parece conduzir a resul- tados os mais satisfactorios e completos, e que não se filia a nenhum dos tres grupos indicados neste estudo critico. E’ devido a Verrhyken, e basêa-se na acção combinada do calor e do Para isso introduz-se uma pequena quan- tidade da matéria a analysar (5 a 10 gram.), previamente sêcca, em um tubo de vidro bem forte, ao qual se faz chegar em tres pontos differentes de sua extensão, e atravez de tubos igualmente fortes, o oxygeno também sêcco. Na extremidade daquelle tubo é adaptado um apparelho de bolas contendo agua. Aquece-se o tubo de combustão, lentamente, come- 101 GENERALIDADES çando pela parte não occupada pela substancia, afim de evitar que esta se inflamme, e só quando o tubo tem ficado vermelho é que se aquece o ponto em que ella se acha, até que a matéria organica seja completamente destruída. Deixa-se então resfriar o systema de tubos, mantendo, porém, a corrente de oxygeno ; lava-se-o com acido azotico concentrado e quente, depois com a agua do apparelho de bolas, fervendo, e ao liquido que passa póde-se dar o destino seguido nos outros processos. Methodos de separação do principio toxico, sem des- truição da matéria organica Applicão-se estes methodos á pesquiza de todos venenos de origem organica, seja animal ou vegetal,e dos que, sendo inor- gânicos, são voláteis em baixa temperatura ou facilmente oxydaveis, por exemplo o phosphoro. Fundão-se em artifícios diversos que se referem a duas ordens de ensaios : a saber, physicos e chimicos. Os primeiros baseam-se no emprego da distillação das matérias suspeitas e da dialyse de Graham ; os últimos em uma série de reacções chimicas (combinações, de composições, precipitações, etc.) A distillação, sendo executada em apparelhos e condições especiaes, conforme é destinada à separação e reconhecimento do phosphoro, do acido cyanhydrico ou do chloroformio, etc., será por sua vez descripta a proposito do estudo de cada um daquelles corpos. Passo, pois, a tratar Da dialyse de Graham applicada á toxicologia Descoberto em 1861 ou 1862, por Thomaz Graham, este methodo de analyse, que Mohr considera como a mais impor- tante conquista da toxicologia, tem por fim a separação natu- 102 TOXICOLOGIA ral e espontânea das substancias crystalloides, entre as quaes se incluem em geral todos os venenos conhecidos, das matérias amorphas, colloides, com que se acham misturadas, em cujo numero secomprehendem os tecidos da economia. Funda-se nas leis que presidem aos phenomenos de diffusão dos corpos, por endosmose e exosmose, que se operam mecanicamente atravez de certas membranas de origem quer animal quer vegetal ; elles verificão-se atravez mesmo de camadas de certas sub- stancias mineraes, preenchendo as mesmas condições physicas, daquelles diaphragmas, taes como, segundo Guignet, os vasos de argilla das pilhas de Bunsen, que podem prestar-se perfeita- mente para o mesmo fim. Uma porção de bexiga, de intestino ou esophago de boi, uma camada de albumina coagulada, e, melhor do que tudo isso, o pergaminho vegetal chamado, ou papel pergaminho, servem de preferencia como membrana dialysadora. A operaçSo executa-se em apparelhos chamados dialysa- dores, que podem ser de vidro ou de gutta percha, e que teem formatos e tamanhos diversos. A disposição mais commum é a que representa a fig. 1: uma peneira ou tamis de pharmacia, cuja parede circular é de gutta percha, tendo fixada e estendida FIG. 1 103 GENERALIDADEb com igualdade em um de seus bordos, em fôrma de tambor, a membrana dialysadora. Dentro lança-se as matérias suspeitas, e mergulha-se o dialysador em um vaso cylindrico ou uma cuba circular de vidro, contendo agua distillada ; deixa-se fluctuar de modo que a agua da cuba não possa franquear o bordo livre do dialysador, e misturar-se com as matérias ahi contidas. O vaso exterior, em geral de vidro, só varia de dimensões, e o dialysador, podendo ser de qualquer substancia que se reste a isso, apresenta também fôrmas diversas. Mohr imaginou um dialysador simples e engenhoso que consiste em um copo ordinário, no qual colloca-se um filtro feito do proprio papel-pergaminho, cuja extremidade aberta descansa sobre o bordo livre do copo (fíg 2). FIG. 2 Depois que se tem dado tempo sufficiente para se esta- belecer a diffusão, retira-se o liquido exterior por meio de um chupete ou de um siphão, e põe-se nova quantidade de agua, repetindo-se esta operação tantas vezes quantas forem ne- cessárias para extrahir a maxima parte dos princípios solidos diffusiveis contidos nas matérias suspeitas. Reunem-se estes liquidos e nelles se procura o veneno pelos meios ordinários. 104 TOXICOLOGIA A dialyse não é, como póde parecer à primeira vista, uma simples filtração ; ha differenças capitaes entre uma e outra. Não creio com Mohr que na dialyse, ao contrario da filtração, passe atravez da membrana dialysadora sómente o corpo solido, e não o liquido em que é dissolvido ; mas é fóra de duvida que na filtração opera como causa unica do phenomeno a força de gravidade, ao passo que na dialyse é a differençade densidade e composição chimica, e, portanto, a tendencia natural à igualdade de partilha, que dirige a corrente osmotica; esta è inde- pendente da igualdade de nivel nos dous liquidos, á qual, no primeiro caso, anniquilaria a força que preside á separação do corpo solúvel, como em um systema de vasos communicantes, e na hypothese de se achar o filtro banhado pelo proprio liquido que o atravessa. Além disso, a albumina, a gomma, a gelatina, etc., passão atravez de um filtro, e não de um septo dialysador, donde se vê que não ha relação absoluta entre corpos solúveis e dialysáveis. Thomaz Graham dividiu, como se sabe, todas as substancias conhecidas em duas classes: crystalloides e colloides. A primeira, muito mais numerosa, que abrange todos os princípios orgânicos e inorgânicos crystallisaveis, solúveis e sapidos; a outra que comprehende em geral os princípios organisados, amorphos, insolúveis e insípidos e as substancias viscosas, albuminosas, gelatinosas que, não só não gozam daquella propriedade, como pelo contrario, se deixam em certas condições atravessar pelos crystalloides, servindo de diaphragma ou camada dialy- sadora. Quando se lança no dialysador uma mistura de matérias colloides e cristalloides, estes últimos separam-se daquelles atravez da membrana dialysadora, e vem-se dissolver na agua exterior ; ora, é este justamente o caso de uma analyse toxico- logica, visto como em geral todos os venenos metallicos e os alcaloides conhecidos comportam-se como crystalloides, a respeito dos tecidos organisados e mesmo dos liquidos da GENERALIDADES 105 economia, que pertencem á classe dos colloides ; assim as porções de vísceras que encerram princípios toxicos, esmagadas com agua, e lançadas no dialysador, os cedem ao liquido exterior, onde podem ser depois denunciados. Partindo destes dados, e dos excellentes resultados colhidos em grande numero de operações de chimica com a dialyse, que tem servido não só para separar, mas até para preparar certos corpos em estado em que não eram antes conhecidos, a applica- ção deste methodo ás pesquizas toxicologicas é a mais bem legi- timada possivel. Entretanto muito falta ainda para que a dialyse de Graham, em relação a este fim especial, venha a cor- responder á espectativa dos seus apologistas, e mereça a con- fiança que, prematuramente, se tem depositado nella. Si quando se trata de isolar e reconhecer venenos encontra- dos ainda no estomago e intestinos, apenas misturados com substancias alimentícias, se pode recorrer com vantagem ao methodo dialytico de Graham, o mesmo não acontece com os princípios toxicos levados ao intimo dos orgãos e tecidos por via de absorpção, porquanto é de crer, segundo o que parece estabelecido em- chimica biologica, que elles ahi não existam mais no caracter primitivo, nem tenhão sómente experimentado as modificações jà indicadas por parte dos suecos digestivos, mas sim no estado de verdadeira combinação, embora não conhe- cida ou definida, com os elementos anatómicos, com as ma- térias proteicas, formando neste ultimo caso o que se tem convencionado chamar albuminatos. Tal é uma das causas evi- dentes de insuccesso ; nestas condições, os phenomenos dialy- ticos são notavelmente perturbados, e seus reultados, muito menos claros e positivos, não podem satisfazer as exigências da chimica legal. Em segundo logar, e este inconveniente mais se faz sentir em relação aos venenos orgânicos, a solução obtida nunca retem a totalidade das substancias crystalloides, e só se consegue extrahir a maior parte delias, renovando-se muitas vezes a agua 106 TOXICOLOGIA do dialysador, o que dá em resultado soluções extremamente diluídas, que se precisa concentrar depois, para que os reactivos possam accusar a sua presença. Com effeito, segundo o prin- cipio que rege a dialyse, de cada vez que funcciona o dialysa- dor a agua recebe somente metade da proporção de matérias crystalloides, contidas na mistura ; chegado este momento, pára a corrente exosmotica, visto estabelecer-se o equilibrio de com- posição e densidade ; em operações consecutivas vai-se retirando sempre a metade somente da porção que fica de cada vez, nunca pois attingindo a sua totalidade, já por si pequena, tratando-se de envenenamentos. E\ portanto, um processo excessivamente moroso e pouco sensível para as pesquizas toxicologicas delicadas, não passa, na opinião de Chapuis, Dragendorff e Héttet, de um ensaio prelimi- nar, julgo dizer melhor, de um ensaio complementar. Se- gundo Otto, este methodo não pôde servir sinão raramente na pesquiza de certos venenos ; elle diz mais, que não pôde imagi- nar de momento um caso em que o proferisse aos processos ordinariamente empregados. Assim, pois, discutido o valor da dialyse de Graham, e limi- tado o campo de sua applicação em chimica toxicologica, termi- narei aconselhando com o proprio Mohr, que quando se puder recorrer com vantagem a outros processos mais seguros, evitar- se-ha por emquanto este methodo, que, além de exigir muito tempo, não permitte uma separação completa dos venenos. Processos chimicos O methodo das reacções chimicas, destinado especialmente á pesquiza dos alcaloides, abrange vários processos, dosquaes o mais importante, e ao mesmo tempo o mais antigamente conhe- cido é devido a Stass, por elle executado com o mais brilhante successo na causa celebre em que foi victima Fougnies, enve- nenado com a nicotina pelo seu cunhado, o conde deBeaucarmé. GENERALIDADES 107 Até essa occasião a pesquiza dos alcaloides estava entregue á sorte de processos por demais deficientes, incompletos e man- cos, sem caracter de generalidade. Assim, por exemplo, elles fundavam-se ora no emprego do carvão animal, ora do sub-ace- tato de chumbo. O carvão animal tinha por fim descorar as matérias orgâ- nicas suspeitas, reter as suas impurezas, e collocar os liquidos em condições menos complicadas para o estudo das propriedades caracteristicas de cada um dos alcaloides ; porém, ignoravam os antigos chimicos que justamente o carvão animal, nestas operações, retém, de mistura com matérias corantes e impurezas, parte, si não a totalidade dos mesmos alcaloides ; tanto que re- centemente tem sido lembrado e proposto o emprego daquelle meio como base de um processo, que tem por fim aproveitar a propriedade absorvente de que goza em relação aos mesmos alcaloides fixos, particularmente á strychnina, procurando-se depois retiral-os por dissolventes apropriados, não do liquido que passa, porém da massa carbonosa. Quanto ao sub-acetato de chumbo, também era empregado com o fim de precipitar as matérias animaes albuminoides, deixando no liquido os alcaloides, privados deste excesso de impurezas, para os seus respectivos ensaios. Mas essa preci- pitação, sendo muito incompleta, e não depurando sufFiciente- mente os liquidos para a clareza das reacções, além de introduzir nelles um elemento extranho toxico, fez com que este processo fosse esquecido e rejeitado por Stass, que, depois de accurado es- tudo, encontrou bases mais seguras para a extracção e reco- nhecimento dos alcaloides. METHODO DE STASS Tres são os princípios que servem de base a este methodo, a saber: Io, todos os alcaloides até hoje conhecidos formam com os diversos ácidos, particularmente com o acido tartarico, 108 TOXICOLOGIA saes ácidos, solúveis na agua e no álcool ; 2o, estes saes, uma vez dissolvidos, são decompostos pelos alcalis mineraes, se- parando-se os alcaloides, que ou se precipitãoou ficam pelo seu estado de hydratação, e pequena quantidade, dissolvidos na agua ; 3o, todos os alcaloides são mais ou menos bastante so- lúveis em uma quantidade sufficiente deether. Executa-se o processo de Stass do modo seguinte : Divide-se em pequenos fragmentos a matéria organica sus- peita, mistura-se com o dobro de seu peso de álcool puro a 95 c. e ajunta-se 1 a 2 grammasde acido tartarico puro, previamente dissolvido em álcool; lança-se tudo em um balão, aquece-se em banho de areia, a 70° por espaço de meia hora, deixa-se resfriar, filtra-se, lava-se o residuo com mais álcool concentrado, filtra-se de novo, reunem-seos liquidos alcoolicos, que devem ter em dissolução o tartrato acido do alcaloide ; concentra-se a brando calor, a 35 c. no máximo, facilitando- se a evaporação por meio de uma corrente de ar, com um folie. Quando a maior parte do álcool tem desapparecid©, e tem-se separado uma certa proporção de matérias gordurosas, filtra-se o liquido aquoso em papel previamente humedecido ; o liquido que passa é posto a evaporar ou no vazio da machina pneumá- tica, ou dentro de uma campana ao lado de uma substancia for- temente deshydratante , por exemplo: acido sulfurico concen- trado ou cal caustica. O residuo que fica retoma-se pelo álcool absoluto, filtra-se, deixa-se seccar por evaporação espontânea ; trata-se outra vez o novo residuo pela menor quantidade pos- sível de agua distillada, lança-se n’um pròvete e junta-se, por pequenas porções, bicarbonato de potássio puro, secco e pulve- risado, até que não haja mais a effervescencia que produz cada addição do sal; agita-se de vez em quando o liquido, afim de activar a reacção e o desprendimento gazoso. Nestas condições tem-se formado o tartrato alcalino, e separado o alcaloide, que por momentos pode ficar, como disse, dissolvido no liquido ; então ajunta-se 4 a 5 vezes, ou mais, de seu volume de ether bem puro 109 GENERALIDADES e agita-se fortemente. Deixa-se em repouso no mesmo provete, ou melhor, em um funil de vidro com torneira ; quando a ca- mada etherea, que fica na parte superior e deve ter em dissolu- ção o alcaloide, tem-se tornado limpida, separa-se por decan- tação, com auxilio de um siphão, ou melhor abrindo a torneira do funil. Então tira-se uma pequena porção desse ether, aban- dona-se á evaporação espontânea, que tem logar em alguns ins- tantes. De tresuma: ou nada se observa, ou nota-se, no caso da presença de um alcaloide liquido e volátil, que durante a evapo- ração formam-se strias oleosas, de cheiro proprio, viroso, cara- cteristico ; ou quando elle é solido e fixo, o residuo que fica da solução etherea deve manifestar ao papel de tournesol uma re- acção alcalina maisou menos pronunciada. Daqui por deante o caminho a seguir é diverso, e a con- ducta do chimico é determinada pela natureza do grupo de alcaloides, que se presume ter encontrado. Tudo se reduz a levar o alcaloide, por meio de combinações estáveis e definidas, ao estado de se poder reconhecel-o pelos seus caracteres proprios. Este processo, comquanto ainda hoje a muitos respeitos seja superior aos que teem sido apresentados posteriormente, deixa muito a desejar, e está longe de satisfazer as exigências da to- xicologia na pesquiza dos alcaloides ; para alguns delles, por exemplo, para a morphina e sobretudo para a strychnina, é de uma infidelidade lamentável. Muitas objecções se teem levantado contra o processo de Stass, sendo as principaes as seguintes : 1. a E’extremamente longo e fastidioso; só aquella eva- poração do soluto aquoso, sem o auxilio de calor, dura ordi- nariamente de um a dous mezes e ás vezes mais, conforme a quantidade de liquido e o artificio empregado para apres- sal-a. 2. a Os tartratos de alcaloides não são todos bastante solú- veis no álcool, nem completamente insolúveis no ether. 110 TOXICOLOGIA 3. a 0 ether por sua vez, não dissolve com a mesma facili- dade todos os alcaloides; assim por exemplo, a morphina é pouco solúvel e a strychnina quasi insolúvel. O mesmo alca- loide pôde ser solúvel ou insolúvel, conforme está em estado amorpho ou crystallisado. 4. a A passagem dos alcaloides de uma solução alcalina para o ether, e reciprocamente deste para um liquido acido, não se faz de um modo completo para todos aquelles corpos (exemplo: a morphina e a cicutina). Apezar, porém, de todos os defeitos assignalados em relação ao processo de Stass, e que effectivamente attenuam seu valor pratico nos casos de pesquizas especiaes de alguns alcaloides, como methodo geral, applicavel aos casos indeterminados, con- tinua a ser o melhor que se conhece, preferível a todos os outros que se tem imaginado posteriormente para substitui]-o ; tal é a opinião geral de todos os toxicologistas. A condição de successo está em seguir á risca todas as recommendações do autor, por mais impertinentes que pareçam, e consagrar o maior cuidado e attenção em todas as pequenas operações reclamadas na execução technica deste methodo. As modificações propostas por alguns chimicos com o fim de introduzir aperfeiçoamentos no methodo geral, remediando al- guns de seus inconvenientes, referem-se umas ao acido empre- gado para salinifícar o alcaloide, outras ao alcali de que se lança mão para decompor o sal de alcaloide formado, e outras, emfim, ao vehiculo neutro a que se deve recorrer para dissolver o al- caloide. Assim, quanto á natureza do dissolvente, Põllnitz aconse- lhou o emprego do ether acético, em substituição ao ether normal, para isolar a morphina. Valser mostrou que este vehiculo convinha igualmente para a extracção de outros alcaloides. Uslar e Erdmann lembraram o álcool amylico ; Rodgers e Girdword, Prollius, Husemann, e Thomas dão preferencia ao chloroformio, que, sobretudo para a stry- 111 GENERALIDADES chnina, é de uma vantagem extraordinária. Dragendorff recommendou o uso da benzina para a separação primeira- mente da strychnina, e depois de todos os outros alcaloides, mas confessa, apezar de todos estes ensaios, que a chimica não possue ainda um dissolvente que convenha igualmente bem a todos os casos particulares. Comquanto nenhum inconveniente se tenha observado em relação ao emprego do acido tartarico, todavia, diversos autores propuzeram também outros ácidos para o mesmo fim (chlor- hydrico, acético, sulfurico); assim como lembraram outros alcalinos (potassa, soda ou ammonea), para substituir o bicar- bonato de potássio no processo de Stass, como é facil de ver pelo quadro seguinte: AUTORES ÁCIDOS ALCALIS DISSOLVENTES Stass Acido tartarico.... Bicarb. de potássio. Ether normal. Ether acético. Robert e Girdword... Acido chlorhydrico. 1'dem Idem. Idem. Idem. Benzina. Uslar e Erdraann Acido chlorhydrico. Idem Álcool amylico. Schrõder, servindo-se das mesmas bases do processo de Stass, simplificou extraordinariamente a sua marcha do modo seguinte : elle manda tratar immediatamente as matérias sus- peitas, bem divididas, pelo bicarbonato de potássio ou de sodio, e depois agitar com bastante ether. Deixa-se em repouso, separa-se a camada etherea, sobre a qual lança-se um pouco de 112 TOXICOLOGIA agua levemente acidulada por acido sulfurico, neutralisa-se o liquido pela soda e retira-se o alcaloide por meio de nova porção do ether, que pela evaporação o deixa como re- síduo. Comquanto mais simples, evidentemente este processo não parece mais rigoroso e nem mesmo tanto quanto o de Stass. Flandin propoz também um processo expedito e pratico, que permitte descobrir rapidamente a existência de um alcaloide; sómente não é bastante delicado e preciso para quantidades mí- nimas destes corpos. Mistura-se intimamente ou mesmo tri- tura-se as matérias suspeitas com cal ou baryta, secca-se a massa em B. M. e trata-se successivamente por cada um dos dissolventes geraes dos alcaloides (álcool, ether e chloroformio). Em geral é sufficiente o emprego do álcool fervendo; esgota-se por este liquido, que deve conter o alcaloide, e mais as gorduras e resinas ; por isso apresenta-se mais ou menos corado. Re- tira-se o álcool por distillação, e o residuo, depois de levemente acidulado por acido sulfurico, trata-se pelo ether afim de se- parar as gorduras e não o alcaloide, que neste caso se procura no residuo, decompondo-se por um alcali o sulfato formado e redissolvendo o alcaloide, posto em liberdade, por um vehiculo neutro apropriado. Uma ultima observação relativa ao processo de Stass, e que realça a sua importância e superioridade, como methodo geral de pesquiza, vem a ser, que elle se applica também com vantagem a certos princípios immediatos orgânicos toxicos, não alcalinos, taes como a digitalina, simplesmente tendo-se o cuidado de modificar ou inverter dous tempos da operação, segundo o con- selho e recommendação de Otto ; depois de tratar as matérias pelo acido tartarico e obtido o soluto aquoso que fica da eva- poração e filtração do liquido alcoolico primitivo, elle manda ajuntar o ether antes de lançar o carbonato alcalino ; nestas condições, a digitalina é dissolvida naquelle menstruo, donde por evaporação deposita-se. 113 GENERALIDADES Além destas modificações, que se referem a differenças entre os ácidos, os alcalis e os dissolventes empregados, mas em que o espirito dos processos é o mesmo, ha outro methodo de pes- buiza dos alcaloides, comprehendendo diversos processos dignos de menção e que teem por base a precipitação destes corpos no estado de combinações insolúveis, donde são depois separados por meio de artifícios especiaes. Póde-se dizer que este methodo abrange tantos processos, quantos são os precipitantes geraes dos alcaloides ; 1 em todos elles a marcha a seguir é a do Processo de Mayer Trata-se as matérias organicas por acido chlorhydrico di- luído, filtra-se, concentra-se a solução a brando calor (25 a 30°), lança-se um daquelles precipitantes geraes dos alcaloides ; for- ma-se um precipitado, que se deixa depositar e se recolhe sobre um filtro, lava-se com agua pura, mistura-se com um pouco de baryta e introduz-se a mistura nhim balão communicando com um apparelho de bolas de Liebig, que contém acido chlorhydrico; aquece-se levemente o balão, no qual deverá existir o alcaloide, si fôr solido e fixo, misturado com o chlorureto de baryo formado ; si, porém, for liquido e volátil, se desprenderá, sendo fixado na sua passagem pelo acido contido no apparelho de bolas de Liebig. Resta separar os dous productos, e isso consegue-se fazendo passar na mistura do balão uma corrente de gaz carbonico, até precipitar todo o baryo no estado de carbonato, insolúvel, le- vando outra vez o alcaloide ao estado de chlorydrato; este, re- tirado pelo álcool e decomposto por um alcali ou um carbonato alcalino, deixa em liberdade o alcaloide que, dissolvido no ether ou em algum outro vehiculo mais apropriado, depois, pela evaporação deste, se apresenta em condições de se denunciar pelos reactivos. 1 Os mais importantes são tres: o acido phospho-molybdico. -O iodureto iodurado de potássio e o iodureto duplo de potássio e mercúrio. toxicolojIA 8 114 TOXICOLOGIA Este processo, que incontestavelmente é simples em theoria e expedito na pratica, não offerece bastante garantia de suc~ cesso, porquanto, segundo diz Dragendorff, (referindo-se a um delles, o acido phospho-molybdico), o precipitado formado por muitas bases yegetaes não teem estabilidade sufficiente para impedir que ellas experimentem decomposições secundarias; por isso não acredita que este methodo seja susceptivel de uma applicação geral. Em rigôr, todos os outros precipitantes geraes dos alca- loides poderão servir, com certas restricções, nos mesmos casos, e são os ácidos metatungstico, phospho-antimonico, tannico e picrico ; osioduretos duplos de potássio e cádmio, de potássio e bismutho ; os perchloruretos de platina, de ouro e de mercúrio ; o sulfocyanato de potássio, etc. Marcha geral da analyse toxicologica Depois de ter estudado os diversos processos de separação dos venenos, com ou sem destruição de matéria organica, vejamos como se os poem em contribuição para o reconheci- mento dos mesmos venenos. Antes de tudo, porém, devo dizer que os signaes ou fontes de instrucção que podem dirigir o me- dico e o chimico legista neste genero de investigações são de quatro ordens : Io, signaes clínicos, fornecidos pela sym- ptomatologia, abrangendo o estudo dos phenomenos observados em vida do indivíduo, dos commemorativos e mais esclare- cimentos ; 2o, signaes anatómicos ou necroscopicos, fornecidos pelo exame externo do cadaver e pelas lesões anatomo-patho- logicas, reveladas pela autopsia; 3o, signaes chimicos, for- necidos pela analyse toxicologica das visceras, humores do organismo, matérias vomitadas ou contidas no tubo digestivo, GENERALIDADES 115 emfím, toda a substancia suspeita, cujo exame interessara uma indagação deste genero ; 4o, a dos signaes physiologicos, for- necidos pela experimentação physiologica, applicada, como ensaio complementar á verificação de certos princípios activos orgânicos. Na impossibilidade de se abranger em um mesmo methodo geral de analyse os processos destinados á pesquiza de todos os venenos conhecidos, referir-me-hei sómente, na exposição que se segue, áquelles que são mais frequentemente empregados como meios de morte, e que mais vezes teem sido e serão objecto de pesquizas toxicologicas. Quando se tratar de um caso indeterminado, de um pro- blema inteiramente vago, em que nada se sabe relativamente ás duas primeiras fontes de instrucção, em que nenhum dado, nenhuma informação, nenhuma suspeita vem orientar o chimico e restringir o campo das investigações, de modo a comprehender um pequeno numero ou grupo de venenos, ou mesmo uma só especie toxica, é preciso dispor as matérias a examinar em tres porções, sendo uma destinada á pesquiza dos venenos voláteis, qualquer que seja a sua origem e natureza, outra á pesquiza dos venenos metallicos, a terceira reservada á dos alcaloides. Como, porém, a distillação empregada para o isolamento dos venenos voláteis, taes como o phosphoro, o chloroformio, o acido prussico etc., não inutilisão, nem prejudicam as matérias e permittem que estas sirvam depois para a investigação dos outros princípios toxicos, póde-se dividil-as em duas porções sómente, uma (A) para os venenos inorgânicos ; outra (B) para os venenos orgânicos, procedendo-se da maneira seguinte: A.— Toma-se uma certa porção das matérias (200 gram mas)e depois de ter procurado reconhecer se desprendem algum cheiro particular caracteristico, depois de haver consultado os papeis corados de tournesol, de modo a poder excluir a pre- sença de um dos venenos irritantes, ácidos ou alcalinos, submette-se-as á pesquiza do phosphoro, em um apparelho 116 TOXICOLOGIA especial chamado de Mitscherlich, que mais adeante será de- scripto a proposito do estudo desse corpo. Ahi as matérias são aquecidas geralmente em banho de areia, depois de se ter addicionado algumas gottas de acido, que pôde ser sulfurico ou chlorhydrico, conforme o processo de destruição da matéria organica, que se tenha em vista em- pregar : de Flandin e Danger, ou de Ferreira de Abreu. Os productos gazosos que distillam, e podem conter certos venenos voláteis, são recolhidos em um provete contendo agua distillada, que se guarda para ensaios ulteriores. Chegando-se a resultados negativos com esta primeira operação, leva-se as substancias a analysar para o apparelho em que a matéria organica tem de ser submettida a um dos processos geraes de destruição já mencionados, e observa-se rigorosamente as regras traçadas pelos seus autores, de modo a obter-se um liquido final, destituido o mais possivel de princípios orgânicos e nas condições de se poder ensaiar os reactivos necessários á veri- ficação da existência de algum dos venenos, reservando uma pequena parte para o apparelho de Marsh. Entretanto, como em geral não se consegue este resultado, e o liquido obtido retém sempre certa quantidade, embora pequena, de matéria organica, qualquer que seja o agente chimico empregado, ó conselho de todos os toxicologistas que se procure precipitar o composto metallico existente no liquido, sob a fôrma de uma combinação insolúvel, d’onde pela acção de certos reactivos se pôde desembaraçar o veneno dos últimos traços daquella. matéria, visto como, nestas operações chimicas successivas, as impurezas vão abandonando pouco a pouco os corpos com que se achavam misturadas. Um dos meios mais geralmente usados para chegar-se a esse desideratum consiste em tratar o liquido pelo hydrogeno sulfuretado; para isso faz-se passar uma corrente desse gaz a excesso durante meia a uma hora, quando muito, não sendo preciso empregar-se neste processo 12 ou mais horas, como GENERALIDADES 117 recommendam quasi todos os autores ; seria, na opinião de Mohr, perder tempo, trabalho e reactivo, inutilmente. Convém, entretando, para o bom andamento da operação, ter em vista certas circumstancias com o fim de poupar, sem prejuízo, esse trabalho enfadonho e desagradavel; entre outras, farei sentir a justa observação de Mohr em relação ao sulfureto de ferro empregado na preparação do acido sulphydrico : si o sulfureto nativo (pyrites) tem o grave inconveniente de ser arsenical, o artificial, retendo de ordinário um excesso de ferro, que fica livre, dà logar à producção do hvdrogeno, cuja presença faz com que uma grande parte do acido sulphydrico atravesse o liquido sem ser absorvido ; e póde acontecer que, contando já com um excesso deste gaz, pelo cheiro forte que exhala, se suspenda a operação, não tendo na realidade passado a quan- tidade muitas vezes necessária para a precipitação dos sulfu- retos metallicos. Afim de evitar este escolho, Mohr aconselha preparar o gaz sulphydrico de preferencia com sulfureto de baryo. Porém, como este corpo não se encontra em geral feito, ó pre- ciso começar por preparal-o, segundo um processo especial, que me parece difficil, moroso e complicado, de modo que será muitas vezes mais facil e menos incommodo prolongar por mais tempo a corrente do acido sulphydrico, obtido mesmo com o sulfureto artificial. Mas então será muito mais conveniente lançar mão de um dos apparelhos especiaes cons- truídos de modo a fornecer o gaz em qualquer occasião. Ha diversos apparelhos destes, que, no excellente livro de Mohr, veem descriptos e desenhados, e dos quaes passo a dar uma idéa. O primeiro é uma modificação, que creio que lhe pertence, do apparelho de Deville, e que consiste em um vaso ou frasco contendo acido chlorhydrico, communicando por sua parte inferior, por meio de um tubo de borracha, com a base de um provete bi-estrangulado, contendo sulfureto de ferro, fundido, 118 TOXICOLOGIA em pequenos pedaços. Superiormente se acha o tubo de despren- dimento do gaz. O vaso de acido chlorhydrico, podendo pela mo- bilidade do tubo estar collocado mais acima ou mais abaixo do nivel dosai contido no provete, presta-se a estabelecer e a sus- pender a operação à vontade (fig. 3). Fia. 3 Outro apparelho também simples e muito commodo é o de Babo, que compõe-se de duas bolas de vidro, das quaes uma contém acido chlorhydico, e outra o sulfureto de ferro, commu- nicando entre si por um tubo horizontal, fixado em uma taboa; esta descança sobre um eixo em torno do qual pôde ser posto em movimento o systema no sentido vertical, de modo a ficar, ora uma, ora outra em nivel superior, conforme se quer promover a reacção ou interrompel-a ; a entrada do ar, para facilitar o corrimento do liquido, faz-se por um artificio muito simples. O apparelho de Pohl, compõe-se de um frasco, no qual se lança acido sulfurico diluido até o meio, pouco mais ou menos, GENERALIDADES 119 e cuja rolha dá passagem com attrito a um bastão de vidro ter- minado inferiormente em um gancho, onde se suspende uma cesta ou capsula de vidro perfurada, contendo o sulfureto de ferro, eque mergulha ou se retira do liquido á vontade, con- forme a necessidade; o gaz sulphydrico tem sahida por um tubo dessecante, que atravessa também a rolha. Estes dous últimos apparelhos não servem em gerai sinão quando se precisa de pequenas quantidades de gaz, e teem o inconveniente de ficar obstruídos, e deixarem de funccionar, pelo sulfato ferroso que se fôrma na reacção. E’ melhor lançar mão do apparelho de Kipp (fig. 4), apro- priado a fornecer maior quantidade de gaz, o a servir por tempo FIG. 4 mais longo. Compõe-se de um balão de dous bôjos, um maior, inferior, contendo agua acidulada ; outro menor, superior, no qual se tem lançado o sulfureto de ferro em grossos fragmentos, d’onde parte, por uma abertura lateral, o tubo de desprendimento dogaz. Emborcado sobre este vaso se acha um terceiro contendo 120 TOXIGOLOGIA o mesmo liquido, e cujo longo collo penetra até o balão infe- rior, para onde corre o dito liquido e d’onde também reflue para aquelle balão, conforme, abrindo ou fechando a torneira do gaz, se faz ou não funccionar o apparelho. Ferreira de Abreu, porém, aconselha submetter o precipi- tado formado por este gaz ao mesmo tratamento, para a destruição dos últimos traços de matéria organica, o que se pratica recolhendo-o e lavando-o sobre um filtro, depois aque- cendo-o em um pequeno balão, com um pouco de acido chlor- hydrico e alguns crystaes de chlorato de potássio, etc. O liquido obtido encerra quasi todos os principios toxicos (arsénico, antimonio, mercúrio, cobre, chumbo, estanho, bis- mutho, etc.) O zinco deve-se procurar no primeiro liquido resultante do tratamento pelo acido sulphydrico, e a prata no residuo da primeira operação. No processo de Flandin e Danger mandam seus autores neutralisar primeiro o liquido pela ammonea, antes de fazer passar a corrente de acido sulphydrico. Para isso separa-se uma pequena quantidade de liquido ; sobre a maior porção se lança ammonea, gottaa gotta, até que se manifeste leve turvação, que se faz desapparecer addicionando a porção reservada, de modo que fique antes ligeiramente acido. No fim de24horasde repouso tem-se formado um deposito, que póde ser amarello ou preto. No primeiro caso póde o precipitado ser de algum sulfureto dessa cor (arsénico ou antimonio), ou póde ser formado sómente por enxofre, resultante da decomposição do acido sulphydrico sob a influencia do acido azotico do liquido ; nesta hypothese o corpo se fundiria em temperatura pouco superior a 100% arderia sem residuo, com côr e cheiro caracteristicos, e não apresen- taria as reacções próprias daquelles sulfuretos, que se re- conhece do modo seguinte: lava-se o precipitado com uma dissolução de acido sulphydrico, em vez de agua pura, e tra- ta-se pelo acido nitrico, concentrado e fervendo; depois eva- pora-se o liquido, dissolve-se o residuo em agua distillada pura, GENERALIDADES 121 ou acidulada por acido chlorhydrico ou tartarico, e introduz-se no apparelho de Marsh, onde se manifestarão os caracteres proprios do arsénico ou do antimonio, que serão estudados mais adiante. Nos casos em que o acido sulphydrico não dá precipitado al- gum, ou este é constituído sómente por enxofre, nem por isso se está autorizado acexcluir a presença do arsénico, que achando- se no estado de acido arsénico no liquido, lenta e difficil- mente é precipitado pelo acido sulphydrico, sendo preciso, ou reduzil-o previamente ao estado de acido arsenioso por meio de uma corrente de gaz sulphuroso, para se formar o sulfureto que então se deposita, ou aquecer o liquido, depois de filtrado, para expellir todo o acido sulphydrico, concentrarão 10° do seu volume, e ensaiai-o no apparelho de Marsh. Si o precipitado primitivo é preto ou muito escuro, decan- ta-se com cuidado o liquido, lança-se agua distillada fervida, decanta-se de novo, repete-se mesmo esta operação mais uma vez; depois, põe-se n’uma capsula, secca-se emB.M., trata-se por acido nítrico, aquece-se até quasi a ebullição, e até queMão se desprendam mais vapores nitrosos; redissolve-se o residuo n’agua e separa-se em varias porções destinadas ao reconhe- cimento dos princípios metallicos que ahi podem existir, sobre- tudo o cobre, o chumbo, o mercúrio e o bismutho, por meio das reacções caracteristicas, que serão indicadas opportuna- mente. Quando todos estes ensaios teem produzido resultados ne- gativos, recorre-se ao primitivo carvão sulfurico, onde podem ter ficado retidos o antimonio, a prata, o chumbo e até em parte o mesmo bismutho. Divide-se também em varias por- ções sobre as quaes se opera separadamente afim de verificar a presença daquelles corpos. Para o antimonio jjtrata-se o carvão por uma solução de acido tartarico, faz-se ferver durante alguns instantes, fil- tra-se, e o liquido é introduzido no apparelho de Marsh. 122 TOXICOLOGIA Para o chumbo e o bismutho poderia convir o mesmo acido tartarico, porém em geral opera-se de outro modo; quanto ao primeiro, trata-se o carvão por uma solução de carbonato de sodio, faz-se ferver durante meia hora, fil- tra-se, lavando-se com agua o producto que fica sobre o filtro, até que o liquido não tenha mais reacção alcalina ; rega-se depois com agua acidulada por acido azotico, que se faz passar mais de uma vez sobre o filtro, lava-se com agua distillada, e os liquidos reunidos são evaporados a residuo secco em B. M.; este, redissolvido, presta-se aos ensaios apropriados. Quanto ao bismutho (caso muito menos frequente), e mesmo á prata, se poderia chegar a isolar e reconhecer, tratando-se o carvão por nitrato de baryo, que em dupla decomposição com o sulfato de bismutho—ou o de prata—daria oazotato respectivo, solúvel em agua acidulada pelo mesmo acido, e o sulfato de baryo insolúvel nesse meio; aquecendo pois durante algum tempo a mistura e filtrando-se, separa-se o liquido, no qual [se pôde verificar pelos reactivos proprios a presença d’aquelles corpos. Sendo negativos os resultados fornecidos por esta primeira operação, passa-se á pesquiza dos princípios toxicos orgâ- nicos . B—'Toma-se para isso a segunda porção das vísceras, di- vide-se-as bem, dilue-se n’um pouco d’agua e submette-se â distillação em um apparelho composto de retorta tubulada, ou balão, communicando, por meio de um pequeno tubo de vidro contendo algodão cardado, com um tubo maior de porcellana vidrada, que atravessa um forno de reverbéro e termina em um systema de bolas de Liebig, contendo solução de nitrato de prata ao 20°, levemente acidulada por acido azotico. A abertura da retorta dá passagem a um tubo que mergulha profundamente na sua pansa e é posto em com- municação, por meio de um tubo de borracha, com a extremi- dade de um pequeno folie. Aquece-se primeiramente sõ a retorta GENERALIDADES 123 em B. M. mantendo a temperatura de 40% pouco maisou menos, dirigindo-se uma corrente de ar moderado dentro do apparelho, por meio do folie, afim de facilitar a passagem dos productos yolateis até o tubo de bolas de Líebig, que, além do papel chimico que lhe é reservado neste ensaio, serve também de regulador da marcha da operação, pela maior ou menor rapi- dez com que as bolhas se succedem atravessando o liquido. Si a solução de nitrato de prata se turva sensivelmente ou deixa manifestar algum precipitado, recolhe-se á parte para ser examinado, afim de verificar, pelos meios proprios e ordi- nários, si se trata de algum producto chlorado, ou de acido cyanhydrico desprendido das matérias, tendo-se formado no primeiro caso o chlorureto de prata e no segundo o cya- nureto respectivo. Si no fim de tempo suíficiente nenhuma turvação apresenta o soluto argentico, aquece-se lentamente o tubo de porcellana até a temperatura rubra e depois de estar neste ponto recomeça-se o trabalho do folie. Si agora forma-se um precipitado na solução de nitrato de prata, retira-se o liquido com o deposito, que nestas condições não pôde ser devido sinão ao chlorureto argentico ; e então a conclusão a tirar-se é que, não havendo chloro antes, no primeiro ensaio, e apparecendo agora depois que o tubo de porcellana é fortemente aquecido, é que as matérias encerravam provavelmente o chloroformio, ou, o que é mais raro, algum outro composto orgânico chlorado, sem acção sobre o nitrato de prata, sinão depois da sua decomposição pelo calor. Para não correr o risco de perder-se o chloro- formio no primeiro tempo da operação, emquanto se aquece a retorta, conservando o tubo de porcellana frio, póde-se fazel-o em um só tempo, aquecendo desde o começo este tubo, tendo-se o cuidado de collocar entre elle e a retorta outro frasco de nitrato de prata, conforme melhor farei sentir no estudo par- ticular da pesquiza do chloroformio. Assim também, em logar de receber o producto distillado no sal de prata, póde-se recolher em um pouco d’agua distil- 124 TOXICOLOGIA lada, para nesta solução proceder aos competentes ensaios ’ tem a vantagem este moclus faciendi de permittir reconhecer outros productos voláteis (álcool, ether, etc.), dos quaes nenhuma reacção ha a esperar do sal argentico. Si ainda desta vez nenhuma alteração se observa no liquido, prosegue-se nos ensaios ulteriores. Estes ensaios ulteriores referem-se á pesquiza dos alca- loides, por meio do processo de Stass, ou qualquer de suas mo- dificações já mencionadas, que oífereça as mesmas bases de garantia e condições de melhor successo. As matérias a analysar podem ser transportadas para o balão em que ellas teem de experimentar a nova serie de ope- rações, cujos resultados são já conhecidos. Quando ainda depois deste exame não se chega a resultado algum, ou porque de facto não exista nas matérias uma quan- tidade de alcaloide susceptivel de ser denunciado pelos seus reactivos mais sensiveis, ou porque elle seja da natureza desses para os quaes a chimica não possue ainda meios rigorosos e precisos de caracterisar e pôr em evidencia, recorre-se então como ultima esperança, nesta contingência vaga e indeterminada em que se acha o perito, á Experimentação physiologica Este methodo, que aliás nestes últimos tempos tem adqui- rido uma importância incontestável, como um dos mais seguros e fidedignos para a determinação da acção de substancias me- dicinaes e toxicas, não è, todavia, uma pratica recente. Ella foi já de mais tempo abraçada com enthusiasmo por Orfila, que fez da experimentação a base de seu methodo, com o qual abriu uma via inteiramente nova aos estudos de toxi- cologia; elle o praticava, porém, com vistas diversas. Com effeito, Orfila pretendia estudar por este meio a acção physiologica das substancias ainda não conhecidas, transpor- GENERALIDADES 125 tando e concluindo dos seus effeitos nas outras especies animaes para o homem. Ora, apezar dos inconvenientes ligados a este methodo, não se póde contestar os immensos serviços que prestou â sciencia, sobretudo em uma época menos adeantada, em que faltava a observação clinica, em que outro não podia ser o caminho a seguir, tendo-se de partir do desconhecido para o conhe- cido . Analysando com reflexão e calma as bases em que assenta este methodo e os serviços reaes que é licito esperar de sua applicação á toxicologia, vê-se que aquellas são muito infleis e pouco seguras, e que estes são, portanto, muito contestáveis ou, pelo menos, limitados a certas condições especiaes de ana- lyse que, por serem ignoradas, podem levar a conclusões in- teiramente erróneas ou falsas. As causas de erro, de que se resente o methodo experi- mental de Orfila são de duas ordens: uma refere-se ás vivi - secções que se é forçado a praticar, afim de melhor proceder á apreciação exacta dos resultados e effeitos intimos das sub- stancias sobre cada orgão, cada apparelho ou cada funcção. Assim, por exemplo, a ligadura do esophago, feita depois da administração de uma substancia, afim de garantir a sua absorpção, impedindo o vomito ; a abertura das cavidades, para inspecção dos orgãos nellas contidos; as incisões praticadas nelles ; a ablação parcial ou total de alguns ; as secções de ner- vos e inusculos, e outras mutilações, não podem ser indiffe- rentes e devem necessariamente imprimir uma perturbação tal nas manifestações da vida, no funccionalismo orgânico dessas pobres victimas, que os effeitos das substancias não podem deixar de ser mais ou menos consideravelmente modificados, e, longe talvez, em muitos casos, de representar sua verdadeira e legitima acção nas circumstancias ordinárias e normaes. A mesma reflexão applica-se ao emprego dos meios mecâ- nicos de contensão forçada, ou de agentes medicinaes toxicos, 126 TOXICOLOGIA por exemplo: o chloroformio, o chloral e particularmente o curare, com que se promove e consegue a necessária impassibili- dade para a pratica das vivisecções, e para a observação calma e paciente dos factos experimentaes. E’ uma situação toda especial e anómala, que não póde deixar de influir sobre os efíeitos determinados pela acção das substancias em estudo, desvirtuando-as e produzindo outros estranhos, que complicam forçosamente a solução do problema. A segunda causa de infidelidade nos resultados do methodo em questão procede do erro de se concluir absolutamente de umas especies para outras, e destas para o homem, ainda mesmo das que lhe são mais próximas na escala zoologica. Ha muitas vezes differenças notáveis relativamente a esses efíeitos, e ninguém desconhece o facto muito vulgar, que está no dominio de todos, de que certas plantas e substancias mineraes são venenosas para uns e completamente inoffensivas para outros. Poderia citar em abono desta verdade innumeros exemplos, entre os quaes mencionarei os seguintes: a pequena cicuta (aethusa cynapium) é só venenosa para o homem e para os passaros ; o phellandrio aquatico é mortal para os cavallos e não para os bois ; o aconito, que o é para os lobos e outros animaes, é comido sem perigo pelos cavallos e pelas cabras; estas ultimas supportam quantidades relativamente consideráveis de noz vomica ; os camellos comem com prazer as euphorbias ; os cavallos, o fumo; as vaccas, o colchico ; as gallinhas, as cantharidas, etc.; os estorninhos nu- trem-se impunemente com sementes da grande cicuta (conium maculatum); os faizões, com as do estramonio ; os corvos, com as do joio ; os porcos, com a raiz do meimendro, as coloquintidas e os cogumellos venenosos (amanitas). Todas estas substancias são nimiamente toxicas para o homem. Ainda mais, a belladona é sem acção sensivel sobre os ratos, coelhos e outros roedores, assim como o arsénico sobre os gatos e mesmo sobre os cães, ainda que não seja sinão pela facilidade e promptidão com que estes animaes vomitam o composto GENERALIDADES 127 arsenical; o mesmo não succede aos ratos, que não resistem á acção deste veneno, contra o que affirma Devergie, que neste ponto enganou-se completamente; diz elle também que para os lobos o arsénico não passa de um drástico. Uma pequena dóse de bromureto de potássio (bastam 10 centigr.), occasiona accidentes funestos nos gatos, e é inoffensiva para os coelhos, pombos e outros animaes ; finalmente, a morphina, tão poderosa e activa no homem, sobretudo em crianças, é perfeita- mente tolerada e póde ser ingerida em altas dóses pelos cães, 1 aliás tão susceptiveis e tão facilmente impressionáveis á acção da strychnina, etc. Poderia ainda alongar esta relação com muitos outros exem- plos ; porém, bastam estes para provar o que acima deixei dito sobre a differença de acção dos venenos nas diversas especies animaes e no homem, sem que todavia jure pela exactidão e fidelidade de todos estes dados. E’ possivel que alguns careçam de demonstração scientifica, e a respeito de outros tenha havido equivoco nas fontes onde colhi a maior parte delles, especial- mente na obra de medicina legal de Devergie ; ahi por exem- plo, encontrei duas indicações que não são verdadeiras : uma é a que se refere á pretendida inocuidade do arsénico para os ratos, quando essa propriedade, que eu chamarei muricida, do acido arsenioso é até consagrada em um dos nomes commerciaes pelo qual é conhecido este producto em França (mort aux rats); nem de outro agente me sirvo em casa para extinguir esses damninhos animaes. Outra indicação escandalosamente inexacta é a que diz re- speito á agua ou sueco de mandioca,’ diz Devergie, dejuma no- ticia que extrahiu de Anglada, que por sua vez declarou ter ouvido ou copiado de um Dr. Barros (?), que este liquido, tão temido no Brazil pelos cavallos, serve ao contrario para matar 1 Cláudio Bernard díz ter injectado duas grammas de um sal de mor- phina em um cão, que não morreu. Deguize, Dupuy e Leuret applicaram cinco grammas em outro, que apresentou perturbações graves, mas ainda escapou ! quando um a dous centigrammos fazem um homem dormir. 128 TOXICOLOGIA a sede aos porcos! E’ possível que estes animaes procurem essa agua para tal fim, mas não é menos verdade que succumbem todos, e ás vezes quasi fulminados, à violência e rapidez desse veneno ; é possível que o instincto (ou intelligencia) mais apu- rado nos cavallos do que nos pórcos leve os primeiros a evitar o que estes buscam, sem saber que naquelle sueco bebem a morte ; pois é facto positivo e de observação vulgar, que a agua de mandioca é um veneno terrível e prompto para todos esses animaes domésticos, seja ou não o acido prussico o principio toxico que lhe dá essa propriedade, o que não está ainda bem averiguado, conforme terei occasião de explicar a proposito do estudo dos venenos cyanicos. Occorre além disto que, certos animaes, ainda mesmo debaixo da acção de substancias emeticas para o homem, nunca vomitam ; por exemplo : cavallos, coelhos e gallinaceos. Demais, certas funeções em algumas especies animaes offe- recem caracteres particulares differentes daquelles que, mesmo no estado normal, se passa no homem, e que não podem rigoro- samente ser tomados para termos de comparação no estudo da experimentação physiologica, como succede com a circulação nos cães, em que ella é normalmente irregular e por vezes intermittente. Finalmente, o volume e as proporções relativas dos animaes não parecem indifferentes aos effeitos dos venenos; é pelo menos o que se pôde concluir de alguns factos, entre os quaes o citado por Chapuis, salvo o caso de uma refractariedade exce- pcional, de um elephante que, em 1820, na cidade de Genebra, devendo ser sacrificado, resistiu a tres onças (quasi 100 gram- mas) de acido prussico, e depois a dóse igual de acido arsenioso ! Em resumo, as circumstancias que influem e fazem variar os resultados da experimentação physiologica, como melhodo de estudo, são as seguintes: Ia, os effeitos produzidos sobre as especies animaes devem necessariamente resentir-se das perturbações ligadas quer ás GENERALIDADES 129 mutilações e vivisecções praticadas para os apreciar melhor, quer aos artifícios mecânicos ou medicamentosos empregados para impedir o menor movimento, para suffocar as mani- festações de dor, para garantir, emfím, a precisa impassibi- lidade ; 2a, quando mesmo os effeitos observados nestas condições estranhas e anormaes sejam a expressão da verdade e corres- pondam aos que cada substancia determina no estado natural do animal, deve-se contar com as differenças assignaladas no transporte desses effeitos para a especie humana ; não se está autorizado a concluir que elles sejam ahi representados pelos mesmos phenomenos desenvolvidos in anima vili. Como methodo de pesquiza toxicologica, resente-se esta pratica de outros dous vicios não menos importantes, e que, não sendo conhecidos e previstos, podem conduzir a conclusões erróneas e falsas, e são os seguintes : Io, por mais que os effeitos de certos venenos sejam communs e exactamente os mesmos na especie humana e nas outras espe- cies animaes, nunca se poderá estar seguro de que são taes effei- tos exclusivos desses venenos, para poderem constituir uma prova irrefragavel de sua presença nas matérias submettidas á analyse ; 2o, intimamente misturados com estas matérias, e ás vezes combinados com os seus elementos proteicos ou albuminoides, os venenos não podem ser entregues á prova physiologica sinão com a condição de serem desembaraçados daquella ganga espe- cial, por sua natureza séptica e, portanto, nimiamente toxica, capaz de produzir por si só, independente de qualquer veneno estranho, nos animaes em que fôr experimentada, pertur- bações graves que podem terminar pela morte, offerecendo, pela marcha e physionomia dos symptomas, a maior analogia com alguns dos envenenamentos conhecidos, ora como si fora pela di- gitalina ou outros agentes hyposthenisantes, ora pela strychnina ou outros nevrosthenicos e tetanisantes. TOXICOLOGIA 9 130 TOXICOLOGIA Foi por não prevenirem ou esquecerem este formidável escôlho, que nelle escaparam de esbarrar-se os dous notáveis peritos (Tardieu e Roussin), que serviram no processo La Pom- merais, e de que se livraram pela abundancia de prova do enve- enamento, em factos e circumstancias independentes do exame de chimica .legal que lhes foi confiado, conforme farei ver, tra- tando do envenenamento pela digitalina. Naturalmente novos estudos serão feitos, novos aperfeiçoa- mentos serão introduzidos nos processos de analyse, bem assim no methodo de experimentação physiologica, que pelo systema actual, como meio de pesquiza e caracterisação de veneno, muito deixa a desejar, e póde conduzir a erros deploráveis, como aquelle que commetteram Tardieu e Roussin, no processo La Pommerais. E’ preciso separar o mais completamente possivel o veneno dessa impureza séptica que a envolve e acompanha, para poder- se evidencial-o, seja pelas suas reacções chimicas, seja pela sua acção physiologica. Mais tarde, a proposito do estudo da digi- talis, e no capitulo especial consagrado ás ptomainas, voltarei a este assumpto para completar sua critica. Muito falta ainda para que a experimentação physiologica, que aliás é um recurso precioso para a caracterisação de certos principios activos, se torne uma prova irrefragavel nas pes- quizas toxicologicas. Por emquanto póde-se concluir : 1. Que, como methodo de estudo, póde e deve continuar a ser criteriosamente applicado, para se reconhecer si uma sub- stancia ó ou não toxica ; 2. Que, fóra desta circumstancia, como methodo de pes- quiza, não tem valor real sinão quando é praticado com uma substancia já isolada e chimicamente pura, e não póde por si só, no estado actual dasciencia, estabelecer a prova da identidade do um certo e determinado veneno. Aqui termina a parte geral da toxicologia ; para ser com- pleta, eu deveria, antes de passar ao estudo da parte especial, GENERALIDADES 131 occupar-me com as noções de jurisprudência medica relativa ao papel do medico e do pharmaceutico ou do chimico, como peritos, em questões de envenenamento ; mas como esse papel não differe, na essencia, daquelle que desempenha o medico em re- lação a outros crimes, deixo este assumpto para quando escrever o meu livro de medicina legal, onde acha mais legitimo logar. SEGUNDA PARTE ESTUDO ESPECIAL DE CADA VENENO PRIMEIRA CLASSE Venenos irritantes, acres e corrosivos Constitue ura grupo numeroso de corpos, que não são, rigo- rosamente fallando, venenos, mas que são considerados taes, ou pelo menos descriptos como taes por todos os autores de toxi- cologia, por aquelles mesmos que exigem como condição da definição de veneno a sua penetração na economia por via de absorpção ; e assim deve ser, conforme já tive ensejo de dizer, attendendo a ponderações de ordem moral, deante das quaes de- vem ser equiparados os criminosos de morte que empregam seja um veneno propriamente dito, seja qualquer substancia que in- gerida produza o mesmo resultado funesto, embora por meca- nismo diverso. Ora, os agentes deste grupo determinam a morte pelas le- sões locaes produzidas sobre todos os pontos de seu contacto com a mucosa das primeiras vias, com as paredes do tubo di- gestivo, quando ingeridos em dóses massiças, ou em soluções concentradas. Não quer isso dizer que os venenos propriamente ditos, os quaes obram por absorpção, não gozem de propriedades irritantes : muitos delles, quasi todos os venenos mineraes e em particular os venenos metallicos, em maior ou menor escala exercem acção caustica e corrosiva (o acido arsenioso, o 134 IRRITANTES EM GERAL tartaro stibiado, o bichlorureto de mercúrio, que até por esse motivo è chamado sublimado corrosivo, etc., etc.), porém não matam geralmente pelas desordens locaes que occasionam, e sim pelas perturbações geraes e profundas que acarretam ; assim como è fóra de duvida que os agentes irritantes não são absolutamente destituidos de acção geral, e a exercem todas as vezes que são ingeridos em pequenas quantidades e sobre- tudo em certo grau de diluição, tornando-se alguns delles, nestas condições, verdadeiros venenos (o iodo, o bromo, sul- phuretos etc.). Não è pois, correcto dizer-se que os venenos irritantes são aquelles que gozam de propriedades causticas corrosivas, ou que determinam uma infiammação mais ou menos viva do tubo digestivo; è mais exacto e rigoroso dizer-se que assim se chamam os corpos que matam por esta acção local irritante, dando logar á inflammação e desorganisação mais ou menos in- tensa e extensa dos tecidos com que se poem em contacto de- morado . Conforme se acha indicado no quadro da classificação dos venenos irritantes, elles dividem-se em dous grupos : um, dos que exercem acção physica ou mecanica ; outro, dos que exercem acção chimica. O Io encerra exclusivamente o vidro moido, de que não trato aqui especialmente, porque não ha ainda estudos nem observações fidedignas sobre elle. E’ geralmente reputado entre nós um veneno violento, e tanto mais perigoso, quanto está ao alcance facílimo de qualquer. Entretanto eu não conheço um caso authentico de morte de- vida a este corpo e, póde-se affirmar, sem medo de errar, que se tem exagerado por demais os eífeitos de tal envenenamento; visto como o vidro moido não se constitue um agente mortífero sinão quando reduzido a pó relativamente grosseiro, que opera como um conjuncto de numerosos e pequeníssimos pu- nhaes, que vão ferindo e dilacerando todos os pontos de con- 135 TOXICOLOGIA tacto com a superfície interna das paredes do tubo gastro-in- testinal, dando origem a uma verdadeira gastro-enterite trau- matica. Neste estado, porém, não secomprehende que possa tal veneno ser propinado a alguém despercebidamente ; para que o possa ser com mais facilidade, ou menos difíiculdade, torna-se preciso que elle esteja em estado de pó finissimo, subtil e impai pavel, em que naturalmente perde aquella funesta propriedade. Os agentes do segundo grupo obram por acção chimica, e subdividem-se em tres classes, conforme a sua reacção é acida, alcalina ou neutra. Os da primeira classe, muito mais importantes, abrangem os ácidos sulphurico, nitrico e chlorhydrico, não admittindo aqui os ácidos phenico, oxalico 1 e em geral nenhum acido orgânico, contraaopinião insustentável deTardieu eRabuteau. Dentre aquelles tratarei com mais desenvolvimento do acido sulphurico, que è o que tem dado logar ao maior numero de envenenamentos. Os da segunda classe comprehendem os alcalis mineraes (potassa e ammonia) e seus subcarbonatos; não incluo nella 1 Chapuis coivtempla o ácido oxalico no número ou ao lado dos acido- mineraes, dizendo que está nisso de accordo com a opinião de muitos aus tores, que ainda consideram esse acido como tal. Para justifical-ã, lembra que o acido oxalico não dá carvão, quando submettido á calcinação, e decompõe-se, desdobrando-se em acido carbonico e oxydo de barboiio, ele- mentos puramente mineraes.— E’ para causar verdadeiro espanto este argu- mento do citado autor, só admissivel em uma época ííiais atrasada dâ chi- mica, pois a opinião que elle adopta é hoje insustentável perante a definição geralmente acceita da chimica organica, e a verdadeira interpretação dos mes- mos phenomenos indicados em favor dessa doutrina, visto como qualquer composto orgânico póde não deixar residuo carbonoso pela calcinação, desdo que esta for levada a umã temperatura bastante alta, e ao coiitactb franco do ar. Por outro lado, o facto de considerar-se o oxydo de carbono e o gaz carbonico elementos mineraes, é uma razão meraménte tradicioiíal, que não é scientificamenta demonstrada; pois, é fora de .duvida que esses dous corpos acham tanto ou mais legitimamente Seu logar entre os compostos or- gânicos, como anhydridos de ácidos orgânicos. Assim, o oxido de carbono é o anhydrido do acido formico (G H 202 —H 20 —0 O), e o gaz carbonico é o anhydrido de um acido que é o primeiro termo hypothetico da serie dos ácidos derivados do3 glycols, na qiial Se encontra a Sua fórmula. Si áinda não fdi obtido isolado, isso não prova, não implica sua não existência. Finalmente, quando mesmo pudesse o acido oxalico figurar entre os áci- dos mineraes chimicamente, nunca o poderia ser sob o ponto de vista toxi- cologico ; é um erro, porque seus efíeitos toxicos derivam de sua acção geral e não local, conforme adiante mostrarei. 136 IRRITANTES ÁCIDOS os sulphuretos alcalinos, que, comquanto muito irritantes, comportam-se antes como verdadeiros venenos, produzindo effeitos funestos devidos á absorpção. Os da terceira, finalmente, abrangemos metalloides haloge- nos (chloro, bromo e iodo), os purgativos drásticos e outros productos vegetaes dotados de acção caustica, etc. Excluo desta classe a veratrina, que erroneamente ècomprehendida nella por Tardieu : sem negar certa acção irritante a este alcaloide, está longe de ser um agente cáustico e corrosivo ; por outro lado, a sua acção geral é tão accentuada e violenta, que só a ella se deve attribuir a morte causada por esse principio. PRIMEIRO GRUPO IRRITANTES ÁCIDOS Envenenamento pelo acido sulphurico O uso variadíssimo e as numerosas applicações a que se presta o acido sulphurico, também conhecido antigamente pelo nome de oleo de vitriolo, bem como o seu baixo preço explicão a facilidade com que se pôde obtel-o no commercio, e a frequência dos envenenamentos occasionados por este agente, não obstante as propriedades physicas e organolepticas desfavoráveis ao seu emprego como veneno. Elles teem sido algumas vezes acci- dentaes, raramente criminosos, e quasi sempre porsuicidio. Neste ultimo caso se acham os envenenamentos occorridos na Prussia e sobretudo em Berlim, onde, segundo Casper, os nove décimos dos suicídios realizados por meio de venenos, teem sido com o acido sulphurico. Os raros envenenamentos criminosos commettidos com este agente teem sido observados principalmente em crianças, não fallando nos casos em que elle tem sido projectado sobre o rosto das pessoas, com o fim de as desfigurar de modo visivel e inde- delevel. TOXICOLOGIA 137 Aqui no Rio de Janeiro já se deu, pelo menos um facto authentico desta natureza, entre duas mulheres, por motivo de rivalidades e ciúmes. Em um caso citado por Marco Sbriziolo 1 sobreveio a morte, mesmo por este processo. Os envenenamentos accidentaes occasionados pelo acido sulphurico teem-se observado por engano ou distracção, quando administrado internamente e em clysteres, em vez de outra substancia, ou em dóse excessiva, sendo mesmo o dito acido prescripto sob a fórma de agua de Rabel, elixir de Haller, etc., em que elle è frequentemente usado. Sabe-se de indivíduos que teem tomado qualquer destes preparados ás colheres de sopa, em vez de gottas, sobretudo o ultimo, que é formado de partes iguaes de acido sulphurico e álcool. Cita-se o caso de uma mulher que serviu-se deste acido por oleo de linhaça para um clyster, e o de uma criança a quem se o administrou por engano com o oleo de ricino. Marco Sbriziolo refere o caso de morte em uma moça, que estando gravida e querendo abortar, lançou mão do acido sulphurico, injectando-o na vagina, na quantidade de meio litro. Difficilmente se poderá organisar uma estatistica dos enve- nenamentos devidos a este acido. Diz aquelle autor que ein 930 envenenamentos occorridos na Inglaterra, França e Dina- marca, 100 correm por conta do acido em questão (Hasselt). Em 527 casos fataes que se deram na Inglaterra, de 1837 a 1838, só dous pertenciam ao dito acido. No hospital geral de Yienna o numero destes envenenamentos alcançou quasi a metade do numero total (13 sobre 30). Flandin refere que, entre 180 casos observados de 1841 a 1846 conta-se apenas 11 produzidos pelo acido sulphurico. Em Berlim, como já disse, Casper avalia em 9/10 dos envene- namentos, os occasionados por este acido. 1 Trattato teoricoe pratico di tossicologia, 1884. 138 IRRITANTES ÁCIDOS As dóses toxicas do acido sulphurico dependem essen- cialmente de seu estado de concentração ; a dòse minima que se sabe ter acarretado a morte é a de 40 gottas (pouco mais ou menos 17S grammas), administrada a uma criança de cerca de um anno de idade, em vez do oleo de ricino. Para um adulto pôde se considerar a dose de 3 a 4 grammas, como já sendo ca- paz deoccasionar a morte, embora em um prazo de tempo mais dilatado; Christison cita um caso de morte em sete dias com a dose de 3 grammas apenas (!) Na dóse de 15 grammas, tem se visto ella sobrevir no fim de algumas horas. IsSo não quer dizer que uma dose maior seja à fortiori ne- cessariamente fatal ; conhecem-se alguns exemplos de cura de individaos que teem ingerido 30 a 60 grammas de acido sulphu- rico. Biett cita mesmo um facto excepcional desta natureza, com a dose de 90 grammas (!) Mas é provável, como bem pondera Rabuteau, que nestes casos os doentes tivessem immediata- mente vomitado o agente corrosivo, ou este não estivesse suffi- cientemen te concentrado. Symptomas ; signaes clínicos. Logo apoz a ingestão do acido sulphurioo declaram-se com extrema violência os symptomas do envenenamento ; os doentes accusam dores agudas, atrozes e violentas, que se estendem da boca até o estomago ; teem tosse, constricção na garganta e vomitos abundantes que não trazem allivio algum, e antes ex- ageram os soffrimentos e angustias desses infelizes. As matérias rejeitadas pelo vomito offerecem caracteres particulares : são de côr vermelha escura, e sobretudo as que apparecem tardiamente apresentam a cor de chocolate, devida à mistura de Sangue já alterado ; ellas manifestam reacção for- temente acida, e produzem effervescencia quando cahem sobre chão de mármore ou fragmentos de giz, pelo desprendimento de gaz carbonico. A dor epigastrica continua intensa e propaga-se TOXICOLOGIA 139 muitas vezes até o peito, sob a forma de caimbras dolorosas, como diz Rabuteau, arrancando gritos aos mais estoicos. A face é pallida, decomposta, os olhos fundos, encovados, o pulso é pequeno, frequente e como convulsivo, as urinas são raras ou supprimidas, as extremidades resfriam-se, a pelle cobre-se de suor frio ; não ha diarrhéa, e as evacuações que se apresentam são geralmente solidas e de cor escura plúmbea, sendo mais frequente a prisão de ventre. Sobrevém dyspnéa, oppressão e verdadeiro terror, seguido de profundo abatimento, a que assistem intactas em geral as faculdades intellectuaes, até os momentos que precedem a mor~ te. Nessa occasião, e ás vezes muito antes, os doentes apresen- tam um estado de coma profundo ou de convulsões fortissi- mas. A morte chega em tempo muito variavel dentro de 15 a 20 horas, como no fim de 2 a 5 dias. Taylor, entretanto, cita uma observação deRapp, de intoxi- cação aguda com a dóse de 100 grammas de acido sulphurico, e que terminou pela morte em tres quartos de hora (!) (Rabuteau) e outro, já antes referido por Sinclair, de uma criança de 4 an- nos, que morreu em quatro horas (Tardieu). A duração media? é, segundo aquelle autor, de 18 a 24 ou 36 horas. Craigié refere um caso de morte em tres horas e meia, e Remer outro, em duas horas (Tardieu). Ella pôde ser devida a um edema da glotte, que determina a asphyxia, sobretudo quando um pouco de acido insinua-se pelas vias aereas, ou a uma perfuração do estomago que determina uma peritonite superaguda e rapidamente mortal. Si nenhum destes accidentes se manifesta, então a morte pôde sobrevir muito mais tarde como consequência de accidentes tardios gra- ves, por exemplo : hemorrhagias consecutivas á queda de es- charas do estomago, destruição de artérias e estreitamento do esophago resultantes daacção corrosiva do acido, e outras vezes uma dyspepsia rebelde e incurável que acarreta a morte no mais profundo marasmo. 140 IRRITANTES ÁCIDOS Esta dyspepsia é acompanhada de constipação tenaz de ventre que Rabutean explica pela formação do sulphato de sodio no sangue ; pois elle pretende ter demonstrado que este sal, e em geral os purgativos salinos introduzidos na torrente cir- culatória, prendem o ventre, em vez de purgar. Lesões anatomo-pathológicas ; signaes necroscopicos. A putrefacção é mais retardada, segundo Casper, pela neutralisação da ammonea que se vai formando. Estes signaes podem ser observados externa e internamente. Os primeiros, que aliás nem sempre se apresentam, consistem em manchas de queimadura, escharas nos lábios e em redor da boca, muitas vezes no pescoço e no peito ; ellas são a princi- pio de cor branca acinzentada, e tornam-se escuras ennegre- cidas no fim de algumas horas. Quando os olhos são alcan. çados pelo acido, observam-se os phenomenos de uma ophtal- mia intensa, e ás vezes a destruição completa desses orgãos. As lesões internas notam-se na cavidade buccal, em toda a extensão do esophago, no estomago e mesmo em outros pontos sob a forma de strias ou placas gangrenosas, mais ou menos extensas e profundas, de cor parda ennegrecida, cobertas de um inducto pultaceo, como que pulverulento, muito diverso portanto de uma producção pseudo-membranosa. No esophago principalmente a escharainteressa toda a espessura do canal. O estomago apresenta a superfície interna denegrida, já antes mesmo da formação da eschara, devida essa cor ao sangue ahi derramadoe carbonisado pela acção do acido sulphurico, mas em geral nota-se a mucosa que revesteeste orgão, semeada de largas placas vermelhas e pretas, inflammada e amollecida em vários pontos, destacando-se em retalhos mais ou menos largos. Em outros pontos a lesão não se limita á mucosa, e a própria parede do estomago pôde ser carbonisada em parte de sua espessura e em maior ou menor extensão, produzindo escharas TOXICOLOGIA 141 pretas de dimensões correspondentes ; outras vezes, emfim, a lesão é mais profunda e determina uma ou mais perfurações, de bordos irregulares fortemente denegridos, e por onde o conteú- do do estomago derrama-se na cavidade peritoneal, levando sua acção corrosiva e destruidora aos orgãos ahi existentes, e com que se põe em contacto. Independente desta circumstancia, o fígado e o baço apre- sentam uma modificação notável em sua còr e consistência ; tor- nam-se mais duros, talvez por causa da coagulação da albumina (Rab.). Gubler eBurder encontraram a degeneração gordurosa do fígado em alguns casos, enos rins, em outros, lesões próprias da nephrite parenchymatosa. Em geral, os intestinos delgados e grossos não participam destas alterações; sua mucosa ou conserva-se intacta ou apresenta, quando muito, alguns vestigios de inflammação. Entretanto Tardieu cita um caso de envenenamento pelo sul- phato de anil (ou melhor anil sulphurico), no qual toda a superfície do tubo digestivo, mesmo até o grosso intestino, mostrava-se tinta de azul. A bexiga é ordinariamente vazia, ou então contém uma pequena quantidade de urina sanguinolenta, ás vezes corada também em azul, qu; ndo o envenenamento tem logar por aquella substancia. Os orgãos respiratórios são também profundamente com- promettidos, sobretudo quando o veneno penetra nas vias aereas; os pulmões podem se achar então igualmente carbo- nisados, em maior ou menor extensão. O coração encerra coágulos volumosos; cousa notável, estes coágulos também encontram-se 11a aorta e em muitos outros vasos, taes como na artéria femural, nas veias iliacas, nas artérias e veias mezaraicas, coronaria, etc., que se apre- sentam túrgidas e duras, como se tivessem recebido uma injecção anatómica, O resto do sangue que escapa à coagu- lação se apresenta espesso e rubro cereja, segundo Casper, com 142 IRRITANTES ÁCIDOS reacção acida, o que para alguns é simplesmente um pheno- meno cadavérico, porquanto Manukopf, citado por M. Sbriziolo, diz ter observado reacção alcalina no sangue de um indivíduo ainda vivo, envenenado com acido sulfurico. Nos casos de intoxicação sub-aguda ou chronica pelo acido suphurico, as lesões occupam o esophago, o estomago e os intestinos. O esophago é a séde de uma inflammação lenta, caracte- risada pela formação successiva de falsas membranas, muito adherentes e de côr cinzenta, outras vezes pelo apparecimento de um phlegmão suppurado no tecido cellular adjacente, e ainda outras, finalmente, de estreitamentos fibrosos, muito re" sistentes, quasi invencíveis. No estomago póde-se não encontrar mais do que os signaes de uma gastrite chronica, com espessamento geral das camdaas que constituem suas paredes, e um aspecto particular da mucosa, que se apresenta como que granuloso, semeado de ulcerações irregulares de côr ardosiada. Outras vezes a per- furação interessa a artéria coronaria, determinando uma hema- temese fulminante; em alguns casos teem-se formado adhe- rencias ao redor da eschara destacada. Finalmente no estomago a lesão mais commum em taes casos e reputada, por assim dizer, caracteristica (Tardieu), é o estreitamento deste orgão. Nos intestinos podem se observar as mesmas alterações que no estomago. Diagnostico differencial Os caracteres deste envenenamento são tão manifestos e accentuados que é difficil confundil-os com outra aífecção; entretanto, algumas podem offerecer certa analogia ; taes são a perfuração espontânea (?) do estomago e intestinos, o estran- gulamento interno e a gastrite phlegmonosa. TOXICOLOGIA 143 No primeiro caso o accidente nunca sobrevém em meio de uma saude perfeita; é sempre precedido de perturbações no- táveis e persistentes das funcções digestivas, ou de alguma affecção aguda, febril e bem definida. Demais, a dòr aguda e atroz da perfuração, devida a qualquer destas causas, nunca principia na garganta e no esophogo ; manifesta-se indistincta- menteem qualquer ponto do ventre, que se torna tenso, meteo- risado e muito doloroso. As matérias vomitadas são esver- deadas e sem reacção accentuada ; pela autopsia se reconhecerá nestes casos ausência de queimadura e de eschara em toda a extensão do tubo gastro-intestinal, mesmo no ponto corre- spondente á perfuração. Os outros orgãos vizinhos não apre- sentam lesão alguma apreciável. O estrangulamento interno não sobrevém á ingestão de algum alimento ou bebida, mas, em geral, a um esforço ou movimento brusco; a dor não se assesta no epigastrio, porém em qualquer outro ponto do ventre, que se torna tympanico e volumoso; os vomitos, a principio alimentares ou mucosos, tornam-se depois biliosos e porfim estercoraes. A gastrite aguda phlegmonosa offerece uma marcha menos rapida, acompanhada de movimento febril, quasi sempre com delirio. Além disso, notar-se-ha a ausência de phenomenos de dor urente, queimadura na boca, na garganta enoesophago. A mucosa gastrica mais uniformemente inflammada, sem placas vermelhas ou pretas, nem escharas gangrenosas, apre- senta-se levantada por uma camada de pús infiltrada no tecido cellular subjacente. Mais facil é de confundir, e portanto mais difficil de distin- guir o envenenamento pelo acido sulphurico com o produzido por outros agentes fortemente irritantes e corrosivos. A não serem os dados rigorosos e seguros fornecidos pela analyse chimíca, que se póde effectuar em vida do doente nas matérias rejeitadas pelos vomitos, e depois de morto no conteúdo do estomago, pelo que respeita aos symptomas, nenhum ha que 144 IRRITANTES ÁCIDOS possa servir, de modo irrefragavel, para o diagnostico diffe- rencial. Assim, apenas se pôde dizer que o acido sulphurico é de todos os liquidos corrosivos o que produz manchas mais in- tensas, escharas mais negras e profundas, e quando se trata do emprego do anil sulphurico, deve-se encontrar ao lado desses signaes a cor azul impregnando a mucosa gastro-intestinal. Tratamento Para combater este envenenamento, deve-se administrar incontinente e a largos tragos uma grande quantidade de agua morna, afim de promover os vomitos e ao mesmo tempo diluir o mais possivel o acido, sem correr o inconveniente do emprego d’agua fria, que neste caso, pela sua mistura com o acido sulphurico, daria logar a uma elevação considerável de tem- peratura, sufficiente para aggravar os phenomenos de phlogose gastrica, e comprometter ainda mais a situação afílictiva do paciente ; cumpre estar prevenido desta circumstancia, tanto mais quanto elle deve ter uma sede insaciável, uma avidez extraordinária para a agua fria ou gelada, que seria impru- dente conceder. Também deve-se evitar o mais possivel o emprego da bomba gastrica, que poderia augmentar o traumatismo, produzido pelo agente corrosivo, e provocar alguma ruptura imminente do estomago. Como antidotos, os que se impõem como mais racionaes e adequados são os alcalis ou seus carbonatos. Não é, porém, indifferente empregar uns ou outros destes corpos. A primeira idéa que occorre ao espirito é administrar os alcalis mais energicos, cuja reacção seja correspondente á acidez do producto ingerido, afim de obter a neutralisação mais com- pleta e rapida; entretanto, seria um erro, de consequências TOXICOLOGIA 145 funestas, applicar em taes casos a potassa, a sóda ou a ammo- nea, que, chimicamente fallando, são as que preencheriam aquelle fim, Na qualidade de agentes corrosivos, quasi da mesma força, estes alcalis poderiam aggravar os phenomenos de envenenamento, e apressar a morte, por isso que, não se sabendo a quantidade de acido ingerido, não se poderia graduar a do alcali necessário para a sua neutralisação. Póde-se, porém, administrar os carbonatos de potássio ou de sódio, principal- mente sob a fôrma de agua de cinzas, ou agua de sabão (sal potassico de ácidos graxos), porém em grande porção, de modo a supprir pela quantidade a sua fraqueza alcalina re- lativa. A magnesia alva (carbonato de magnésio) e o giz (carbonato de cálcio) são também preconisados como vanta- josos neste caso ; porém discordo desta applicação, tão acon- selhada, entre outros, por Tardieu, e acompanho a reflexão judiciosa de Rabuteau sobre o inconveniente do emprego de qualquer carbonato, como antídoto do acido sulphurico e dos ácidos em geral : vem a ser que, decompondo-se dentro do estomago, desenvolvem em um tempo dado grande proporção de gaz carbonico, que exercendo pressão brusca sobre as paredes desse orgão, naturalmente inflammado e ulcerado, poderá precipitar a sua ruptura, exacerbando em todo caso, e independente deste accidente funesto, as dôres do doente. O verdadeiro antídoto do acido sulphurico é a magnesia calcinada, que se póde administrar impunemente em alta dóse ; combinando-se com o acido, fôrma um sal neutro, purgativo, de acção profícua neste caso, além de que a mesma magnesia, dada em excesso, concorrerá para este benefico resultado. Conjurado o perigo, e dominados os symptomas assustado- res, e mais graves, resta tratar da inflammação que fica, pelos meios communs: emollientes, calmantes, ás vezes alguma emissão sanguinea local, dieta lactea, repouso, etc. TOXICOLOGU 10 146 IRRITANTES ÁCIDOS Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Cumpre ter em vista nesta pesquiza duas liypotheses : uma, em que o acido existe ainda livre no estomago e outros orgãos do cada ver ; outra, em que elle póde ter se combinado e neutra - lisado em sua totalidade, pela natureza alcalaina dos anti- dotos empregados, ou sómente em parte pela acção dos liquidos alcalinos normaes da economia, como pela da ammonea resul- tante da putrefacção cadavérica, como, finalmente, pela decom- posição dos chloruretos e outros saes, que aquelle acido encontra em sua passagem. Chandellon aponta mais duas hypotheses : a de se ter combinado acido com certos princípios orgânicos, for- mando compostos duplos, ea de ter reagido sobre o álcool, pro- duzindo o ether. Em todoo caso cumpre verificar, antes de tudo, a acidez das matérias contidas no canal digestivo, bem como rejeitadas pelo vomito. Na primeira liypothese, diversos processos, inclusive a dia- lyse, de que aqui não tratarei, teem sido postos em pratica para isolar e caracterisar o acido sulphurico : 1,° Consiste em tratar as matérias a analysar pelo álcool, que, se misturando em todas proporções com aquelle acido, o abandonará depois pela evaporação, tendo sido previamente separado delias pelo filtro. No producto obtido se ensaiará alguns dos reactivos appropriados, entre os quaes um sal solúvel de baryo ; mas deve-se estar prevenido de que, sendo essa operação demorada, dâ-se em maior ou menor escala a reacção entre o acido e o álcool, e da qual resulta o acido sul- phovinico (ethyl-sulphurico), que, não precipitando o sal de baryo, póde trazer confusão e ser causa de erro. Evita-se, é verdade, este inconveniente empregando a agua distillada, em vez do álcool. Lava-se com ella as matérias submettidas á analyse, filtra-se, e sobre o liquido filtrado lança-se o chlorureto de baryo, que fórma um precipitado mais TOXICOLOGIA 147 ou menos abundante ; este é por sua vez lavado, misturado com carvão, e calcinado em um pequeno cadinho. Depois, dilue-se o residuo com um pouco d’agua, deita-se uma gotta desta solução em uma lamina ou moeda de prata, e ajunta-se ao resto do liquido algumas gottas de acido chlorhydrico. Si o precipitado fôr de sulphato de baryo, transformado em sulphureto pela acção reductora do carvão incandescente, deixará uma nódoa preta na lamina ou moeda e desprenderá, pela addição do acido, gaz sulphydrico, facilmente reconhecivel peloseu cheiro proprio, ou pelo ensaio com o papel plum- bico. Este processo, porém, diz Tardieu, além de ser de uma sen- sibilidade duvidosa, não póde attestar a preexistencia real do acido sulphurico livre e distinguil-o dos sulphatos que a econo- mia encerra normalmente, e que dão a mesma reacção com o sal solúvel de baryo. Entretanto, como ensaio preliminar deve ser tentado e torna-se de grande valor, quando tiver sido previa- mente verificada a recação fortemente acida e se obtiver um abundante precipitado ; nem aquella nem este póde correr por conta dos sulphatos da economia. 2.° Orfila aconselha diluir primeiro as matérias suspeitas em muita agua, e tratar por uma certa quantidade de ether, que dissolve o acido sulphurico e o abandona pela evaporação espontânea, depois de convenientemente separada por decan- tação a camada etherea. Também este methodo não inspira grande confiança, porque não é bastante sensivel. Segundo Guibourt, o ether não tira á solução aquosa sinão uma pequena quantidade de acido, e quando ella encerra no mini mo uma trigésima parte, menos do que isso o ether não separa (Chapuis). Na opinião de Tardieu, si em alguns casos se observa o contrario, é que a decantação do ether, effectuada antecipada ou precipitadamente, arrasta comsigo um pouco de liquido acido. Demais, continúa elle, explicar-se-hia difficilmente como o ether, semafiinidade alguma para o acido sul- 148 IRRITANTES ÁCIDOS phurico ordinário, possa tirar este ultimo à agua, que o retém aliás com tanta energia. 3. Dilue-se as matérias n’agua distillada, e passa-se atra- vez de um panno ou coador ; obtem-se um liquido turvo, que se filtra, ou mesmo sem isso evapora-se até uma consistência semi-xaroposa ; introduz-se este liquido espesso em um tubo de ensaio, fechado 11’uma extremidade, de mistura com um pouco de limalha de cobre. Aquece-se de novo até que se desprenda gaz sulphuroso, que se reconhece, quer pelo cheiro particular caracteristico, quer pelo ensaio com 0 papel iodico-amidonado, cuja coloração accusa a existência de acido sulphurico. Ainda este processo não é bastante rigoroso, porque, segundo Chapuis, só pode dar resultado com soluções sobrecarregadas de acido. Demais, as matérias orgânicas contidas no liquido decom- pondo-se igualmente pelo calor, produzem vaporesempyreuma- ticos, cujo cheiro activo, mascarando 0 do acido sulphuroso, póde fazel-o passar desapercebido, e além disso comportam-se do mesmo modo em presença daquelle papel reactivo, independente de acido : esta ultima circumstancia, sobretudo, é de natureza a annullar todo 0 valor do ensaio, quando seu resultado é posi- tivo, podendo-se, porém, excluir a presença de acido sulphu- rico na hypothese contrária. 4. Introduz-se as matérias suspeitas em uma retorta de vidro, devidamente lutada e communicando com um recipiente resfriado ; distilla-se estas matérias até residuo secco, elevan- do-se gradualmente a temperatura atéo vermelho, e sobre 0 producto distillado, que deve conter acido sulphuroso, prove- niente da reducção do acido sulphurico pelas matérias organicas, faz-se passar uma corrente de chloro, que reconstitue de novo este mesmo acido, pela oxj-dação indirectado acido sulphuroso. Não é também este processo superior aos precedentes ; elle offerece muitos inconvenientes, que 0 tornam impraticável. Assim, 0 liquido distillado é fortemente corado, de cheiro nau- seabundo, sobrecarregado de princípios empyreumaticos e TÒXICOLOGIA outros, que a filtração, mesmo em papel previamente molhado, não consegue separar. Demais, o gaz sulphuroso não condensa- se todo ; pelo contrario, uma grande quantidade perde-se nos vapores brancos que se desprendem para o fim da operação. Finalmente, é natural, e mesmo provável, que as matérias ani- maes, contendo normalmente sulphatos, possam dar lugar a formação do sulphato ou sulphito de ammoneo, que passa no producto distillado, e pode trazer confusão. 5.° Tem-se lembrado de lançar mão do assucar para revelar a presença do acido sulphurico, tirando partido da propriedade que tem aquelle principio immediato orgânico,de alterar-se ra- pidamente em contacto com este acido, tornando-se verde-escuro ou mesmo preto, sobretudo a quente, e sem que seja preciso uma temperatura elevada. Este processo seria perfeitamente aceitavel si se tratasse de líquidos privados de outras matérias organicas, que também são atacadas mais ou menos profundamente pelo acido sul- phurico concentrado; o que não succede com os que são submet- tidos a este ensaio e que são carregados dessas matérias, mas- carando por tal forma a reacção que tornam o processo vicioso e nullo. 6.0 Tardieu e Roussin pretendem ter corrigido todos os defei tos dos processos anteriores, substituindo-os pelo seguinte que lhes ê de facto preferível, embora mais custoso : Basea-se no emprego da quinina para neutralisar o acido sulphurico, e formar com elle um sulphato, que ao contrario de todos os sul- phatos mineraes, ésolúvel no álcool. Para isso começa-se por preparar o hjdrato de quinina, precipitando-o de uma solução limpida de bisulphato desta base, pela ammonea, em pequeno excesso ; lava-se bem o precipitado, atèque a agua de lavagem não precipite mais pelo chlorureto de baryo. Assim obtida a quinina, faz-se digerir as matérias a analysar com agua distil- lada durante algumas horas ; fiiltra-se, lança-se o liquido fil- trado em uma capsula de porcellana e ajunta-se o hydrato de 150 IRRITANTES ÁCIDOS quinina até neiitralisação completa ; evapora-se em B. M. atêa consistência de extracto semi-fluido, e trata-se este resíduo por álcool absoluto, varias vezes. Reunem-se os líquidos alcoo- licos, que devem ter em solução o sulphato de quinina (e só este), filtra-se e evapora-se de novo ; o extracto obtido é redissolvido em um pouco d’agua distillada fervendo, e filtrado immediata- mente, ainda quente. Si a quantidade de sulphato de quinina é considerável, o sal crystallisará pelo resfriamento ; si porém, é muito fraca, ensaia-se no liquido os reactivos proprios do acido sulphnrico, que serão daqui a pouco enumerados. Na opinião de Chapuis, este processo apezar da superioridade sobre os outros anteriormente descriptos, não está ao abrigo de toda a critica. Assim, diz elle, é certo que os siilphatos mineraes neutros são insolúveis no álcool concentrado, mas são um pouco solúveis no álcool fracamente diluido, e pode bem ser que, quando se mistura ao extracto semi-fluido o álcool absoluto, este se dilua o sufficiente para dissolver um pouco de outros, sulphatos, podendo fazer pensar gratuitamente em um envene- namento pelo acido sulphurico. Acho por demais severa e menos justa, mesmo improcedente, esta objecção de Chapuis, porquanto a mistura de álcool absoluto com um extracto semi- fluido nunca poderá diluir bastante aquelle vehiculo para tornal-o dissolvente de sulphatos mineraes, desde que, segundo o ditado autor concorda, elles são insolúveis no álcool concen- trado, muito forte ; não precisa ser absoluto. Dragendorff oppõe a mesma consideração, porém sómente quanto â pesquizã do acido nitrico, para o qual, mutatis mutan- dis, Tardieu e Roussin recommendam o seu processo. Diz aquelle autor qUe o aldool póde dissolver uma pequena quantidade de nitrato de dalcio> dé rriagnesio, de ãmmonio e mesmo de sódió. Lê-se mais na obra do ilhistre professor de Dorpát, qUe Rabuteau modiflcára o processo em questão, substituindo o álcool vinico pelo álcool amylico ; no livro de toxicologia, porém desté âUtorj não encoiitrei semelhailte indicação. TOXICOLOGIA 151 Segunda hypothese : quando não existe mais acido livre. E’ muito mais complicado o problema nestas condições, por- queo organismo contém uma proporção notável de sulphatos ; só a quantidade eliminada pelas urinas foi achada, em média, porVogel, 2?r,094 ; Rabuteau encontrou sempre mais do que isso: entre e 3gr,785. O processo geralmente aconse- lhado para evitar este escolho, consiste em dosar os sulphatos existentes em um peso dado de vísceras e substancias alimentares vomitadas, ou contidas no tubo digestivo do supposto envene- nado ; por outro lado dosar as que forem encontradas no mesmo peso de orgãos e princípios analogos pertencentes a um indivíduo que tenha succumbido a uma morte natural. Quando a diffe rença da proporção de sulphatos em ume outro caso fôr consi- derável e extraordinária, e ainda mais com o concurso dos dados fornecidos pelos commemorativos, pelas lesões anatomo- pathologicas verificadas pela autopsia, pode-se concluir em fa- vor de um envenenamento pelo acido sulphurico. A dosagem deste acido effectua-se facilmente calcinando as matérias, de mistura com nitro puro, depois de as ter previa- mente neutralisado por meio da soda e seccado bem. Trata-se o resíduo pela agua, filtra-se, e precipita-se pelo chlorureto ou azotato de baryo ; ou então submette-se esse mesmo residuo á ebullição com acido nítrico diluido, filtra-se e lança-se o mesmo reactivo. Lava-se o precipitado por decantação, depois recolhe-se-o em um pequeno filtro, que si secca perfeitamente* destaca-se-o do filtro, calcina-se-o, incinerando também à parte o proprio filtro; as cinzas deste são addicionadas ao precipi- tado. Seu peso multiplicado por 0,m3430 indica o peso do acido sulphurico. Deduzindo-se por approximação o peso deste acido normalmente contido na economia, tem-se o peso do acido sul- phurico estranho, tomado ou propinado. Para completar a enunciação dos methodos de pesquiza do acido sulphurico, resta-me fallar do exame das vestes e roupas pertencentes ao envenenado, e que podem ter sido tocadas, e 152 IRRITANTES AGIDOS manchadas ou destruídas pelo agente corrosivo. Antes de tudo cumpre lembrar que nos tecidos pretos a mancha é vermelha ; nos de linho ou algodão brancos, ella é preta, salvo quando teem sido immediatamente lavadas ; apresenta-se então incolor. Os que são tinctos de azul (indigo ou azul da Prussia) não manifes- tam alteração ; mas em todo o caso os pontos manchados pelo acido tornam-se friáveis e rompem-se com extrema facilidade. Para demonstrar nelles a existência de acido sulphurico trata-se a porção manchada, por agua distillada, filtra-se, e no liquido ensaiam-se as reacções caracteristicas deste acido. E’ delias que passo a tratar em seguida; são principalmente quatro, a saber: 1. a Imbebe-se um papel de filtro bem alvo no liquido e secca-se depois em temperatura conveniente ; o resultado é que o acido, perdendo agua nesta operação, concentra-se bastante para exercer sua acção carbonisante sobre o papel, que fica ennegrecido. Reacção de Lassaigne, que não tem grande valor pratico. 2. a Em vez do papel, outros propoem empregar o assucar: Colloca-se em uma capsula um pequeno torrão de assucar, sobre elle lança-se algumas gottas do acido e aquece-se em B. M. ; nestas condições o acido, tornando-se concentrado, decompõe e carbonisa o assucar, que se torna verde-escuro ou mesmo preto. 3. a Tratado pelo nitrato de chumbo, forma-se um preci- pitado branco, pesado, de sulphato de chumbo, insolúvel nos ácidos diluídos, mas solúvel nos ácidos concentrados e fervendo, solúvel também nos saes ammoniacaes, sobretudo no acetato de ammonio. 4. a Um sal solúvel de baryo (o nitrato ou o chlorureto) con- stitueo reactivo por excellencia do acido sulphurico, livre ou combinado, no estado de sulphato solúvel. Fôrma com elle um precipitado branco, insolúvel em todos os vehiculos ordinários. Para maior prova de que este precipitado é o sulphato de baryo, separa-se-o do liquido, mistura-se com carvão e TOXICOLOGIA 153 aquece-se; elle converte-se em sulphureto, que, pela addição de algumas gottas de um acido, decompõe-se e desprende o gaz sulphydrico, facilmente reconheci rei pelo cheiro, ou pelo ensaio com o papel plumbico. Fervido ou mesmo fundido com os carbonatos alcalinos, elle regenera o sulphato alcalino e precipita-se o carbonato de baryo. Tardieu ensina um ensaio muito sensivel e delicado para demonstrar a presença de pequenas quantidades de um sul- phato no liquido a examinar: Mistura-se-o com um pouco de carbonato de sodio e carvão muito puros; acama-se esta mistura em uma pequena colher de platina, e aquece-se fortemente á chamma do maçarico, durante alguns minutos; colloca-se depois n’uma lamina de prata e humedece-se com algumas gottas d’agua. A lamina tornar - se-ha amarella ou preta (conforme a quantidade inicial de sulphato),devido á for- mação de sulphureto de prata. Envenenamento pelos ácidos nítrico e chlorhydrico Proponho-me a fazer o estudo destes dous ácidos em um mesmo capitulo, porque o seu uso muito menos frequente, como venenos, e a sua semelhança notável de acção com a do acido sulphurico, dispensão naturalmente de entrar em maiores desenvolvimentos a respeito de cada um em separado, excepto na parte relativa aos signaes chimicos e methodos especiaes de pesquiza. No que respeita aos signaes clínicos e necroscopicos, bastará assignalar os phenomenos differenciaes, pelos quaes se poderá chegar a discriminar esses tres ácidos. Antes disso, porém, cumpre-me corrigir e salvar uma apreciação menos exacta de Tardieu, reproduzida em parte, sem commentario, por Chapuis, com referencia aos casos, por elle citados, de accidentes toxicos devidos aos vapores nitrosos, e que o illustre professor leva indistinctamente á conta dos 154 IRRITANTES ÁCIDOS envenenamentos determinados pelo acido nitrico. Assim, diz elle. « Convém mencionar os effeitos deleterios que podem produzir os vapores de acido nitrico, a que estão expostos, por accidente, os empregados de laboratorio e trabalhadores de fa- bricas de certos productos chimicos, ou manufactura de algodão- polvora. Taylor cita vários casos em que a inspiração desses vapo- res determinou dyspnéa, tosse violenta e suffocação mortal em algumas horas. A congestão dos orgãos respiratórios, a acidez do sangue, e a inflammação do endocardio e da membrana interna dos grossos vasos explicão esta morte rapida. Eu mesmo dei noticia 1 de um accidente grave, que, ha pouco tempo, em uma fabrica de acido sulphurico, situada perto de Paris, custou a vida a dous obreiros, e pôz em perigo a de outros ; ellesoccupa- vam-se em limpar camaras de chumbo, que não haviam sido previamente bastante arejadas e expuzeram-se á acção de va- pores nitrosos, que occasionaram as referidas desordens » etc. O que, porém, mais aggrava e compromette esta citação do Tardieu, é o seguinte conceito com que elle termina este trecho de sua obra : « Mas estes factos não são, propriamente fallando, envenenamentos. » (!) J ustamente o contrario era o que elle deveria ter dito : esses factos são antes de verdadeiro envenenamento, devidos á ab- sorpção rapida de vapores nitrosos, atravez da mucosa broncho- ptilmonar, e sua acção extremamente toxica sobre o sangue, particularmente sobre o plasma sanguíneo, de accôrdo com a classificação, que me parece justa e razoavel, de Rabuteau, que considera esses vapores um veneno hematico-pias mico. Quererá Tardieu attribuir taes effeitos sómente á asphyxia, como se tratasse de gazes simplesmente irrespiráveis e não toxicos? Mas então calie em contradicção flagrante quando, no começo do citado trecho, diz :« Convém mencionar os effeitos deleterios que podem produzir os vapores do acido nitrico, etc.» 1 E’tude sur les maladies accidentellement produites, etc, (Ann.. de hyg. et méd. lég, 2e serie, t. XV). TOXICOLÓGIA 155 Ecomo afastar ou escurecer a acção deleteria, e nimiamente deleteria, desses vapores, para dar á conta sómente da asphyxia as consequências funestas que elles acarretam ? Convenhamos, pois, que todos esses factos nada teem que ver com a historia do envenenamento occasionado pelo acido nitrico, em substancia, obrando como agente corrosivo e desorganisador dos tecidos vivos com que se põe em contacto. Nestas condições, diz Rabuteau que Tartra, que, segundo Sbriziolo, foi quem escreveu a melhor e mais completa monographia sobre envene- namento pelo acido nitrico, não pôde colleccionar sinão 56 casos observados durante quatro séculos. (!) Diz mais, que a estatistica dos envenenamentos criminosos em França, no periodo de 1851 a 1863,mão apresenta, sobre 617 casos, sinão tres deter- minados pelo acido nitrico. Refere Chapuis que a estatistica total em França, desde 1840, consigna sómente 11 casos desta natureza. De 1840 a 1845, cinco casos; de 1850 a 1855 quatro, e de 1855 a 1885 apenas dous; emfim, apenas uns 30 a 40 casos mais, de que ha noticia em todo este século, A dóse mais fraca de acido nitrico, que tem causado a morte é, segundo Taylor, de 3 V2 grammas ; isso deu-se em um menino de 13 annos, que succumbiu em 36 horas. Em outros casos, 8 grammas teem acarretado a morte de individuos adul- tos, ao passo que com 15 grammas jà se tem observado, pelo menos um caso de cura, não se podendo marcar a dóse ma- xima daquelle acido que se póde ingerir impunemente. Quanto ao acido chlorhydrico ou muriatico, é muito menor o numero de envenenamentos conhecidos, que elle tem occa- sionado; diz Rabuteau que a sciencia registra apenas uns seis ou sete casos, e todos terminados pela morte, em um espaço que variou entre 18 horas e 55 dias. Sbriziolo diz que jà se contam 19 casos deste envenenamento. Segundo Chapuis, na estatistica oflicial dos envenenamentos criminosos em França, figuram apenas oito casos, de 1835 a 1885 (50 annos) ! A dófce toxica minima ingerida de acido chlorhydrico, isto é, 156 IRRITANTES ÁCIDOS da solução concentrada deste gaz, que é o estado em que com esse nome se vende e é empregado em diversos fins medicinaes e industriaes, é de 15 grammas ; e neste caso, a morte sobreveio no fim de 18 horas. Sbriziolo falia de observações em que a morte se deu com 8 a 10 grammas deste acido. Symptomas ; signaes clínicos As manifestações locaes determinadas por qualquer destes dous ácidos lembram as do acido sulphurico ; sua intensidade, ceteris paribus, póde-se dizer um pouco menor, pela differença de energia entre os tres ácidos no mesmo gráo de concentração; mas em compensação a extensão das lesões é geralmente maior pela volatilidade dos ácidos nitrico e chlorhydrico, sobretudo deste ultimo, cujo estado natural é mesmo gazoso, e permitte levar muito mais longe a sua acção. O acido nitrico, eliminan- do-se facilmente pelas urinas, permitte reconhecel-o, submet- tendo-as a uma das reacções caracteristicas deste acido : a cor rosea ou avermelhada com acido sulphurico concentrado, e sul- fato de ferro. Além desta circumstancia, o que mais póde servir para o diagnostico differencial deduz-se da cor e aspecto das manchas produzidas pelo contacto do acido. Assim, com o acido nitrico, por exemplo, ellas são, nos lábios, de cor amarella de óca muito particular ; a lingua, que é tumefacta, também apresenta a cor amarella citrina, contrastando com outros pontos do interior da boca e da garganta, que offerecem uma cor branca; os dentes igualmente amarellos. No envenenamento pelo acido chlorhydrico as manchas que se observam em redor da boca, nos lábios e no interior da boca são de cor branca suja, ou antes acinzentada ; os vomitos offerecem muitas vezes a cor e aspecto da borra de café. TOXICOLOGIA 157 Lesões anatomo-patliologicas ; signaes necroscopicos Também estas lesões, no envenenamento pelo acido nitricos manifestam a maior analogia com as determinadas pelo acido sulphurico ; distinguem-se, porém, pela menor profundidade. Encontram-se nos pontos de contacto com a mucosa das primeiras vias digestivas as manchas amarellas, caracteristicas, que os alcalis não fazem desapparecer. Acredita-se que ellas não são um phenomeno puramente tinctorial e sim o resultado de uma combinação do radical nitroso com os principios albuminoides, donde a formação de um acido denominado xantho-pro- teico. Na boca, na lingua e no esophago o epithelio se apresenta como que crestado e forrado, de cor cinzenta violacea, outras vezes substituido por uma crosta amarella alaranjada. Do interior do canal esophagiano se destaca ás vezes em grande extensão a mucosa sob a fórrna de um estojo ou tubo, de côr citrina. O estomago contém muitas vezes um liquido amarel- lado, sua superfície apresenta manchas vermelhas côr de tijolo, ou denegridas, porém cercadas de uma aureola amarellada. Na mucosa do larynge observam-se também phenomenos ana- logos. O mais, como no envenenamento pelo acido sulphurico. Si se trata do acido chlorhydrico, muito mais raramente ficam ao redor da boca e nos lábios manchas caracteristicas ; a mucosa da lingua e da boca, sobretudo o fundo desta cavidade, offerece uma côr branca acinzentada e ás vezes o aspecto de uma superfície coberta de falsas membranas espessas e largas, que se estendem pelo esophago até o estomago. Nada mais de particular. Tratamento E’ o mesmo exactamente recommenclado contra o envene- namento pelo aciclo sulphurico, sómente não havendo tanto a receiar, como neste caso, do emprego, em larga escala, da agua 158 IRRITANTES AGIDOS fria, seja com o acido nítrico ou com o chlorhydrico. Ama- gnesia calcinada é o recurso soberano com que mais se deve con- tar para neucralisal-os, e expellir depois o producto formado . Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos A pesquiza do acido nitrico é facil, só offerece difficuldade quando as matérias a analysar encerram apenas traços do ve- neno, por exemplo, quando a exhumação tem lugar muito tem- po depois da morte. O exame deve se effectuar sobre porções de todo o tubo digestivo, particularmente o pharynge, o eso- phago e o estomago, juntamente com o conteúdo deste, a ma- téria dos vomitose a urina. Depois de ter verificado a reacção francamente acida destas matérias, submette-se-as a um dos processos seguintes: 1. Satura-se-as por meio do carbonato de cálcio perfeitamente puro, empregando-se ligeiro excesso deste sal; leva-se a massa quedalii resulta ao B. M. durante algum tempo, até que fique inteiramente sêcca ; passa-se o residuo para um gral de vidro, e pulverisa-se. Introduz-se depois em um balão com tres vezes o seu peso de álcool 90° ; leva-se de novo ao B. M,, até principio de ebullição, côa-se em um panno bem fino e previamente lavado com álcool ; filtra-se e evapora-se, até residuo espesso e xaroposo, em B. M. Trata-se este residuo por|agua distillada e filtra-se de novo ; neste liquido, que contém todo o azotato de cálcio, formado com o acido das matérias suspeitas, ensaia-se os reactivos caracteristicos deste acido, applicaveis ás suas com- binações salinas. 2. Tardieu e Roussin recommendam o mesmo processo aconselhado para o acido sulphurico, que consiste em saturar as matérias depois de convenientemente divididas e diluídas em agua distillada , com hydrato de quinina recentemente prepa- rado e muito puro, conforme jà ficou dito a proposito deste ultimo acido. Evapora-se o liquido em B. M. e o residuo trata- TOXICOLOGIA 159 se por álcool absoluto tepiclo, que dissolve todo o azotato de quinina. Filtra-se e evapora-se com cuidado, até consistência xaroposa, esgota-se por agua distillada quente e filtrá-se de novo. A solução aquosa deverá conter, no estado de nitrato de quinina, todo o acido nitrico das matérias supeitas. Dahi pòde-se obter o azotato de potássio, tratando o sal quinico pela po- tassa, que precipita o alcaloide, combinando-se com o respe- ctivo acido. O liquido filtrado e evaporado deixa muitas vezes crystallisar o nitrato alcalino, si a proporção de acido existente è considerável. Demais, no liquido se podem verificar as reac- ções caracteristicas deste sal e portanto do acido nitrico. Estes dous processos podem conduzir a resultados sufficien- temente rigorosos, por isso que é indifferente accusar a pre- sença de acido nitrico livre ou combinado, desde que em ne- nhum destes estados existe normalmente na economia, em que peze á opinião de Chapuis : elle acha que o processo de Roussin não está ao abrigo de causas de erro, porque, por exemplo, o álcool dissolve proporções notáveis de azotato de cálcio de ma- gnésio e mesmo de sodio, e portanto não prova a existência do acido livre. Quid inde ? A mesma critica elle applica ao 3o, processo de Dragendorff, que consiste em tratar dire- ctamente as matérias organicas por álcool absoluto; filtra-se de- pois o liquido e nelle procura-se caracterisar a presença do acido nitrico pelos seus reactivos proprios. Julgo que a objecção mais poderosa contra este processo é a circumstancia de ser o liquido final pela proporção de álcool e matéria organica menos proprio para se promover em seu seio as reacções caracteris- ticas do acido nitrico. 4.°, Chapuis propõe substituir este processo pelo seu, que tem a vantagem de revelar a presença do acido nitrico livre nas matérias suspeitas, desde que se tenha verificado a ausên- cia dos ácidos mineraes livres (?)—Diluem-se as matérias com um pouco d’agua, na qual deixa-se em maceração durante algum tempo; côa-se em umpanno, passa-se o liquido para uma 160 IRRITANTES ÁCIDOS retorta tubulada, communicando com um recipiente resfriado, e contendo um pouco d’agua distillada; aquece-se em banho de oleo, a 110°, pouco mais ou menos. A maior parte do acido nitrico distilla, e, no fim da operação, vê-se apparecer vapores rutilantes, que vão se condensar no recipiente. O liquido dis- tillado, quasi sempre fortemente corado, é addicionado de um excesso de pofcassa e evaporado até secura; redissolve-se o resi- duo em um pouco cTag-ua distillada; filtra-se, e no liquido en- saia-se os reactivos proprios do acido nitrico. Seja como fôr, as reacçòes caracteristicas do acido nitrico são as seguintes: 1 .a Posto em contacto com a brucina ou com a morphina, córaem vermelho mais ou menos intenso ; o acido sulphurico communica-lhes, quando muito, uma cor rosea. Esta reacção é sensivel ao millesimo com a brucina. Si em vez de acido livre, se tratar de um nitrato, è preciso então decompôl-o para pôr em liberdade o acido nitrico, o que se consegue mediante aaddição de algumas gottas de acido sulphurico puro e concentrado ; ma- nifesta-se a côr vermelha 11a zona de separação. 2. a O sulphato de anilina comporta-se também como a bru- cina. Prepara-se este reactivo dissolvendo 10 gottas de anilina commercial em 50 grammas de acido sulfurico fraco ; mistu- ra-se com elle 0 producto suspeito, e ajunta-se 0 dobro de seu volume de acido sulphurico concentrado. 3. a No estado de nitrato, colloca-se uma particula deste sal n’uma pequena capsula ou pires de porcellana, e ajunta-se uma gotta do reactivo de Sprengel ; 1 produz-se uma côr vermelha, que a ammonea converte em amarello. 4. a A solução sulphurica de indigo (anil) é descorada pelo acido nitrico, ou antes pelos vapores nitrosos ; pelo que, esta reacção se obtem aquecendo a mistura, si se trata de acido 1 Prepara-se este reactivo dissolvendo 1 p. de phenol era 4p. de acido sulturico concentrado e addicionando 2 p. d’agua. TOXICOLOGIA 161 livre, ou a frio si se trata de um nitrato, porém, na presença de acido sulphurico concentrado. 5. a Mistura-se uma parte do residuo, ou liquido final, com um excesso de soda e evapora-se a secco, para expellir algum sal ammoniacal que exista. Dragendorff aconselha mesmo re- petir esta operação, afim de garantir a eliminação desta impu- reza. Depois dissolve-se o residuo em 4 vezes o seu volume d’agua e aquece-se com aluminio em pó; então o acido nitrico transforma-se em ammonea, que se volatilisa e se reconhece pelos seus caracteres (cheiro, reacção sobre os papeis corados, fumaça branca com acido chlorhydrico etc). As duas reacções principaes do acido nitrico são as seguintes: 6. a Com uma solução sulphurica de proto-sulphato de fer- ro, ou com este mesmo sal no estado solido, em presença de um excesso de acido sulphurico, e antes de operar-se a sua dissolução nelle, dâ uma côr que varia do roseo ao vermelho escuro. Para isso, introduz-se uma pequena quantidade do liquido a examinar em um tubo de ensaio, e ajunta-se um volume igual de acido sulphurico puro e concentrado; agita-se a mistura, que se aquece espontaneamente pela reacção que ahi se passa; deixa-se resfriar e addiciona-se com muito cuidado, para não misturar os liquidos, um pouco de solução recente de proto-sulphato de ferro puro. Si a quantidade de acido nitrico existente é muito fraca, manifesta-se na camada ou zona intermediária uma côr vermelha purpurina, levemente escura, que estende-se pouco a pouco e invade toda a massa li- quida. Si a proporção do acido é considerável, a coloração tor- na-se mais carregada, até mesmo ás vezes preta. Ella desappa- rece pelo calor, e o liquido se descora, emittindo vapores ruti- lantes nitrosos. Esta reacção é extremamente sensivel e deli- cada, mas exige, segundo este modo de executar o ensaio, não alterar a ordem indicada em que se deve empregar os reagentes. Pode-se, todavia, operar de outro modo : Em um tubo de ensaio introduz-se o liquido suspeito e um TOXICOLOOIA il 162 IRRITANTES AGIDOS crystal de sulpliato ferroso, bem lavado e transparente; deixa-se então cahir com toda a cautela sobre a parte próxima á borda do tubo o acido sulphurico concentrado e puro, que, pela sua maior densidade, desce, vai até o fundo do tubo, levantando a solução nitrica e o crystal ; este tinge-se na sua peripheria de um violáceo cor de flor de pecegueiro, devido á dissolução par- cial do crystal nos vapores nitrosos. Este ensaio é de uma applicação mais geral, porque permitte operar mesmo com líquidos corados; o crystal ferroso ficando sempre entre as duas camadas liquidas e sobre a de acido sul- phurico, manifestará, nos pontos de contacto com este, aquella coloração caracteristica. 7.a Aquecido em presença do cobre metallico, o acido nitri- co decompõe-se em parte, desprendendo vapores rutilantes e deixando um liquido esverdeado ou francamente verde, repre- sentando uma solução de nitrato de cobre. Procede-se a este ensaio ajuntando sempre um pouco de acido sulphurico ao liquido suspeito, para o caso em que se tratar de um nitrato ; introduz-se o liquido assim acidulado em um tubo de ensaio, com uma certa quantidade de limalha ou rasuras de cobre, e aquece-se ; dá-se a reacção conforme ficou dito. Mas, como ella pôde se apresentar muito confusa e duvidosa, pelo estado de grande diluição do producto sus- peito, alguns autores propoem tirar partido, em um só ensaio, destas duas ultimas reacções, pondo em communicação o tubo, onde se executa a reacção do cobre, com um vidro ou frasco contendo a solução de sulpliato ferroso, por meio de um tubo de vidro duas vezes curvo em angulo recto, partindo daquelle e mergulhando nesta atravez de uma rolha perfurada. Aquece-se brandamente o primeiro, cuja atmosphera ou cuja porção vazia se tingirá de uma cor amarella mais ou menos intensa ; e no segundo, conforme a quantidade de princípios ni- trosos, a solução ferrea manifestará ja cor simplesmente rosea, purpurina ou vermelha. TOXICOLOGIA 163 Poderia ainda lembrar que todo nitrato secco, lançado so- bre brazas, activa a combustão, produzindo uma especie de crepitação particular. Finalmente, como ultima noção relativa à pesquiza do acido nitrico, convém não esquecer que elle tinge fortemente deama- rello as substancias organicas, e notavelmente a pelle, pela for- mação, como já disse, do acido xantho-proteico. Si o perito tiver de proceder ao exame de manchas suspeitas de serem desta natureza, deverá pôr em pratica os ensaios recommendados por Dragendorff, e verificar que a agua, o álcool e a benzina não modificam a cor amarella. Humedecidas com ammoneaou potas- sa, as manchas tomam uma cor alaranjada (no que se distin- guem da mancha semelhente produzida pelo acido chrysopha- nico, que se tornaria vermelha); torna-se ainda mais pronun- ciada aquella cor quando se emprega uma mistura de potassa e cyanureto de potássio, e que se aquece brandamente. Neste caso, as manchas só se poderião confundir com as determinadas pelo acido picrico e stryphnico (Chevreuil), que aliás se distin- guem por outros caracteres. As que são devidas ao iodo se reconheceriam com facilidade pela cor mais carregada, e o desap- parecimento desta em presença de um alcali. A prova, porém,mais cabal e positiva da origem nítrica de uma mancha pôde ser dada pelo ensaio seguinte : corta-se o pedaço de tecido manchado e lança-se em uma pequena capsula com uma dissolução fraca de bicarbonato de potássio ou de sodio ; aquece-se brandamente, filtra-se eevapora-se o liquido até seccura, dissol- ve-se o residuoem algumas gottas de agua distillada, e nella se reproduz a mesma serie de reacções caracteristicas, já indicadas. Pesquiza do acido chlorhydrico No envenenamento por este acido, e quando elle é ingerido em grande quantidade, deve-se encontrar nas matérias vo- mitadas e antes de qualquer applicação, a reacção francamente 164 IRRITANTES ÁCIDOS acida, como com os dons precedentemente estudados ; no caso que tenham sido administradas substancias alcalinas para o neutralizarem, as analyses devem revelar uma proporção ex- traordinária de chloruretos, cuja origem se pôde ter a certeza de ser devida ao acido chlorhydrico estranho á economia. Comeffeito, a pesquiza deste acido oíferece debaixo deste ponto de vista alguma difficuldade, quando elle é em pequena quantidade, visto como existe normalmente na economia ; o sueco gástrico o encerra 11a proporção de tres por mil, segundo as ana- lyses de Schmidt (Rabuteau). Demais, os differentes liquidos e tecidos do organismo conteem chlorureto de sodio, e resulta de experiencias instituidas por Oríila, que diversas substancias ali- mentares (o caldo, o café, etc.), privadas de acido chlorhydrico livre, quando submettidas em uma retorta á distillação, até a sua carbonisação, fornecem um producto liquido, empyreuma- tico, que precipita o nitrato de prata ; este precipitado, que é in- solúvel no acido nitrico fervente, é formado pelo chlorureto de prata, mas em proporção minima. Por outro lado, si se envenena um cão com algumas gram- mas de acido chlorhydrico docommercio, e que se submette á distillação cuidadosa o estomago do animal com todo o seu conteúdo, verifica-se com sorpreza que os productos distillados não envermelhecem o tournesol e não encerram acido chlor- hydrico. Este resultado é constante, diz Tardieu, comtanto que não se aqueça demasiadamente a retorta, de modo a evitar a carbonisação da matéria nella contida ; do contrario passará á distillação uma certa quantidade de acido chlorhydrico, reco- nhecivel pelos seus caracteres. Mesmo assim não passará todo o acido existente nas matérias organicas, porquanto o residuo carbonoso retem tenazmente uma proporção notável do acido, que só é posto em liberdade na temperatura rubra. Yarios processos teem sido propostos e empregados para a pesquiza do acido chlorhydrico. Um dos mais simples, sinão o o mais simples, consiste em distillar as matérias liquidas ou TOXICOLOGIA 165 semifluidas constituídas pelo conteúdo do estomago e intestinos, porções destes e outros orgãos da economia e a matéria dos vo- mitos. Pratica-se esta operação em um apparelho de distillação commum de laboratorio; no liquido distillado, e separado do recipiente, ensaia-se os reactivos proprios do acido chlorhydrico, e que serão daqui a pouco mencionados. Este processo, porém, não é bastante rigoroso senão com o au- xilio de ensaios complementares, indispensáveis para assegurar o seu valor toxicologico. Assim, por exemplo, durante a distil- lação pôde ser arrastado um pouco de chlorureto de sodio, e mais facilmente ainda de chlorureto deammonio, que se com- portam do mesmo modo e dão com o reactivo argentico o mesmo resultado ; antes pois de empregar este reactivo, deve-se retirar uma pequena quantidade do liquido recolhido no recipiente, evaporar a secco, e no residuo verificar a presença de um dos chloruretos. Ainda mais, Chapuis faz ver que o liquido distillado encerra sempre, de mistura com o acido volatilisado, productos empyreu maticos, que reduzem o nitrato de prata e o precipitam em preto, mascarando e occultando o precipitado branco de chlorureto de prata, que por sua vez é reduzido por aquelles princípios. Para corrigir esta causa de erro é preciso fazer ferver a mis- tura do reactivo com o liquido distillado, com um excesso de acido nitrico, afim de oxydar todas as substancias estranhas e deixar intacto o chlorureto. Este processo, diz Rabuteau, ébom quando o acido se acha em quantidade notável nas matérias submettidas ao exame, e sobretudo si se tem o cuidado, que elle recommenda, de fazer passar nellas uma corrente de ar, de gaz carbonico ou de hy- drogeno, afim de favorecer o desprendimento do acido chlo- rhydrico. Tardieu e Roussin recommendam o processo seguinte : Divide-se as vísceras em pequenos fragmentos, e reduz-se, com a matéria dos vomitos, a uma especie de mingáo claro, 166 IRRITANTES ÁCIDOS que se separa era duas porções. Toma-se uma porção, sa- tura-se com um grande excesso de carbonato de sodio puro, e evapora-se em B. M. até seccura quasi completa. Evapora-se também separadamente a outra porção, sem saturação prévia, e calcina-se cada residuo em um cadinho de porcellana, até com- pleta carbonisação. Esgota-se a massa carbonosa que resulta de cada operação destas, com igual volume d’agua distillada, e filtra-se ; acidula-se fortemente cada solução com acido nitrico puro e addicionado de um excesso de nitrato de prata. Forma- se constantemente neste caso um precipitado em cada solução, por isso que os líquidos alimentares e as vísceras encerram chloruretos no estado normal. Recolhe-se ainda separadamente os dous precipitados em filtros de papel Berzelius, esgota-se-os com lavagens successivas, e depois de bem seccos, são calcinados com os respectivos filtros em pequenas canoas de porcellana e, por fim, pesados os resíduos em uma balança de precisão. Si a quantidade de chlorureto de prata é sensivelmente a mesma nos dous casos, ter-se-ha a prova cabal de que não existia acido chlorhydrico livre nas matérias supeitas. Si a porção saturada pelo carbonato alcalino fornece uma quantidade de chlorureto de prata muito mais considerável do que a não saturada, é evi- dente que este excesso de chloro verificado pela analyse não póde ser dado á conta dos chloruretos normaes da economia nem dos alimentos, e que, portanto, provém de uma origem estranha. Rabuteau, fazendo a apreciação deste processo, declara que elle dá certamente bom resultado só nesta ultima hypo- thesee, demais, não se póde affirmar que o excesso de chloro re- velado pela analyse, na porção saturada, não possa provir, em parte, dos chloruretos naturaes da economia e dos alimentos. Além disso, os que admittem que a acidez do sueco gástrico é devida ao acido láctico ou ao phosphato acido de cálcio, objectam contra este processo, que estes dous corpos decompoem, durante a evaporação e a calcinação, uma parte dos chio- TOXICOLOGIA 167 ruretos naturaes, o que explicaria o alludido excesso de chloro. Nos casos em que os envenenados tenham recebido soccorros e se lhes tenha administrado substancias alcalinas, convertendo a totalidade do acido chlorhydrico em chlorureto, seria pre- ciso proceder a um exame comparativo com um peso de peão e de carne crua, igual ao das matérias sujeitas â ana- lyse. Bouis propõe outro processo de pesquiza de acido chlo- rhydrico, que consiste, não em isolar este acido, mas em caracterisar a sua presença pelo chloro que elle des- envolve em certas circumstancias. Sabe-se que quando se aquece o acido chlorhydrico com peroxydode chumbo ou de manganez, ou ainda com chlorato de potássio, desprende-se chloro e obtem-se como residuo um chlorureto respectivo ; neste ultimo caso, fórma-se também, ao mesmo tempo que o chloro, o peroxydo de chloro, cuja mistura com aquelle gaz constitue o producto designado pelo nome de euchlorina. (V. os proc. de destruição das matérias organicas de Fresenius e Babo, e de Ferreira de Abreu.) Si, em vez do chlorato de potássio, se emprega o nitrato da mesma base, o chloro será misturado de peroxydo de azoto, constituindo a dissolução destes dous gazes e que se chama agua regia, ou pelo menos a parte activa deste liquido; isto não se dará si se tratar de um chlorureto, em vez de acido chlorhydrico livre. Nas condições ordinárias das pesquizas toxicologicas, diz Chapuis, o desprendimento gazoso do chloro é diífícil de per- ceber em presença de matérias organicas; não se deve, pois, esperar caracterisal-o nem pela reacção sobre o papel ioduro- amidonado, nem pela que exerce sobre o acido sulphuroso, transformando-o em acido sulphurico, porém, pondo em contri- buição a sua acção dissolvente sobre o ouro, segundo o conselho e indicação de Bouis. Elle manda proceder do seguinte modo : Passa-se as matérias suspeitas, previamente aciduladas com 168 IRRITANTES ÁCIDOS acido acético puro, atravez de um panno com espressão, e filtra- se em papel o liquido turvo que corre. No liquido filtrado ajun- ta-se alguns fragmentos de chlorato de potássio e uma delgada lamina ou folha de ouro ; aquece-se brandamente em B. M. du- rante uma ou duas horas. Si no liquido existe o menor traço de acido chlorhydricodivre, o ouro ó atacado e forma-se o chlorureto respectivo. Decanta-se o liquido, e nelle verifica-se a presença deste corpo pela reacção do proto-chlorureto de estanho, que dá logar á producção de uma côr purpurina, conhecida com o nome de purpura de Cassius. Por este processo tem-se chegado a reconhecer alguns centésimos de acido chlorhydrico, mesmo em uma grande quantidade de liquido. Como já disse, com os chloruretos não se obtem aquella reacção, ella é, entretanto, tão sensivel com o acido livre, que pôde comprometter o resul- tado da pesquiza, deixando alguma duvida, por causa do acido chlorhydrico normal do sueco gástrico. E’ esta pelo menos a unica objecção que Chapuis assignala contra este processo e que eu com franqueza julgo menos procedente, porquanto, no envenenamento pelo acido chlorhydrico, deve-se encontrar sempre uma proporção bastante notável de acido chlorhydrico (ou de chlorureto, si elle tem sido neutralisado pelos alcalinos) e nunca a proporção minima, capaz de estabelecer confusão com a que normalmente existe no sueco gástrico. As reacções caracteristicas do acido chlorhydrico são as seguintes : l.a O nitrato de prata determina um precipitado branco, em forma de leite coalhado, completamente insolúvel na agua e em quasi todos os líquidos ácidos, ainda mesmo concentrados, seja a frio ou a quente, sobretudo no acido nitrico mesmo fervendo. O acido chlorhydrico, concentrado, todavia, dissolve este precipitado, que reapparece pela addição da agua, e torna-se então insolúvel; éporém muito solúvel na ammonea, no cyanureto de potássio e no hyposulphito desodio. Além disso, exposto á luz torna-se em pouco tempo roxo escuro ; difficil- TOXICOLOGIA 169 mente se pôde conservar este producto com a côr branca, mesmo com os meios geralmente usados para pol-o ao abrigo desta causa, que mais ou menos exerce lentamente sua influencia. Podendo surgir duvidas a respeito da natureza do chlorureto de prata, assim alterado pela luz, o perito pode a todo tempo, se quizer ou fôr preciso, transformal-o em um chlorureto alcalino e reproduzir com este as reacções próprias deste genero de saes. Para isso, mistura-se aquelle chlorureto com tres vezes seu peso de carbonato de sodio e uma pequena de quantidade carvão bem lavado ; calcina-se a mistura até a temperatura rubra cereja em um pequeno cadinho de porcellana, trata-se o residuo por agua distillada e filtra-se : o liquido que passa contém o chlorureto alcalino. 2. a Aquecido com uma solução de chlorato de potássio, o acido fôrma chloro gazoso, que se desprende com a sua côr esverdeada caracteristica, deixando como residuo o chlorureto de potássio. 3. a Os chloruretos, aquecidos com dichromato de potássioe acido sulphurico, produzem abundantes vapores vermelhos de acido chloro-chromico. Recebendo-se estes vapores em uma solução alcalina, obtem-se, por decomposição daquelle acido, o chlorureto e o chromato respectivo, este com a côr vermelha. Não terminarei este artigo relativo á pesquiza dos tres ácidos mineraes sem referir-me ao methodo proposto por Tardieu e Roussin, para o caso em que se tenha de pesquizar em um só tempo todos tres. Para isso introduz-se as matérias em uma retorta munida de um recipiente tubulado e resfriado, distilla-se em B. de areia, e, com toda a cautela, examinando de vez em quando o producto distillado. Desde que elle se apresente com reacção acida, muda-se de recipiente e leva-se a distillação até residuo secco, evitando entretanto exceder a temperatura de 110°. Notar-se-ha o seguinte: si o residuo da retorta tor- na-se ennegrecido e carbonisado, exhalando um cheiro mais ou menos vivo de gaz sulphuroso, facilmente reconhecivel, e o 170 IRRITANTES ALCALINOS liquido distillado não precipita ou apenas turva o nitrato de prata, é que se trata de acido sulphurico. Si aquelle residuo se apresentar antes amarellado, tornan- do-se a atmosphera interior do apparelho da mesma côr, sobretudo para o fim da operação, é que se trata de acido nitrico. Si, finalmente, qualquer que seja a côr do residuo, não se observar os vapores amarellos, eo liquido distillado, que deve ser francamente acido, precipitar mais ou menos abundan- temente o nitrato de prata em branco, com os caracteres já descriptos, é que se trata de acido chlorhydrico. Envenenamento pelos alcalis cáusticos Estes venenos, tão differentes dos ácidos em relação as suas propriedades chimicas, de reacção inteiramente contrária á des- tes corpos, a ponto de servirem-se mutuamente de antidotos, approximam-se de tal maneira delles, quanto á natureza das le- sões, que determinam em contacto com os tecidos vivos e que são a causa da morte, que não se pôde deixar de os contemplar no mesmo grupo dos agentes irritantes cáusticos e corrosivos. A este respeito estão de accordo todos os autores, não sendo, em rigor, necessário estudar separadamente o alcali volátil, ammonea, cu- ja acção local é pouco mais ou menos a mesma que a dos alcalis fixos, dependendo as pequenas differenças que se podem obser- var, em parte, da circumstancia da volatilidade da ammonea, e, portanto, da maior extensão das lesões, e talvez da sua menor profundidade, em parte, como succede entre quaesquer venenos synergicos, de sua dóse e gráo de concentração. Farei por isso o estudo englobado do envenenamento pelos alcalis mineraes cáusticos, assignalando o que fôr commum a todos, e o que fôr peculiar a cada um delles, á ammonea, de um lado, e aos alcalis TOXICOLOGIA 171 fixos (potassa e soda) do outro, porque estes dous exercem inteiramente a mesma acção. Cumpre notar que os carbonatos básicos (subcarbonatos) destas bases se comportam exactamente como ellas, apenas em gráo muito menor de intensidade. O mesmo, porém, não se pôde dizer dos bicarbonatos, dos quaes o de sodio não é propriamen- te toxico, e só póde tornar-se tal em dóses extremamente fortes; o de potássio é venenoso, mas de acção local insignificante ou nulla, e de acção geral que o approxima com mais direito dos venenos musculares. O envenenamento pelos alcalis fixos,ou seus carbonatos, tem sido o mais das vezes accidental, algumas vezes como meio de suicidio, raramente criminoso ; é sobretudo a lixivia de potassa ou soda do commercio, empregada em varias industrias (fabri- cas de sabão, tintas &) e grande numero de operações chimi- cas, que teem dado logar â maior parte desses accidentes. Tardieu considera também, como solução de potassa, que já tem occasionado um certo numero de envenenamentos, a agua de Javelle (chlorureto de potassa), uzada frequentemente pelas lavadeiras. Entretanto me parece menos correctaa classificação deste producto como um veneno propriamente irritante e corro- sivo ; sem negar-lhe essa propriedade, todavia, é preciso não desconhecer, nem desprezar a acção geral dynamica, que deve correr por conta do cliloro, que nelle se desenvolve incessan- temente, e é talvez o principal factor dos seus effeitos funestos. As doses toxicas destes alcalis variam ; segundo Tardieu, bas- tão 10 a 20 grammas de potassa ou de soda, e 150 a 200 gram- mas de agua de Javelle para determinarem accidentes mortaes. O envenenamento pela ammonia liquida 1 tem sido muito raro; mas existem alguns exemplos de suicídios, de accidentes e outros de homicídios perpetrados com a propinaçâo deste vene- 1 Assim se chama impropriamente no commercio a solução do gaz ammo- niaco; o nome de ammonea liquida compete em chimica ao producto da liquefacção do gaz, pelo augmento depressão e abaixamento de temperatura, 172 IRRITANTES ALCALINOS no, que se encontra facilmente á mão, pela variedade deapplica- ções medicinaes e industriaes (tincturarias, fabricas de tecidos, de rapé etc.). Segundo Rabuteau, conhecem-se uns 17 casos au- thenticos de envenenamento pela ammonia, e dos quaes 8, em que ella foi empregada como meio de suicidio. Destes 17 casos, dous, citados por Fonssagrives e Rullié, referem-se ao emprego da agua sedativa, que obra como veneno pela ammonia que en- cerra. Um caso accidental grave, porém não mortal, citado por Souchard, deu-se por inhalação do gaz ammoniaco. Emfim, o mesmo Rabuteau menciona mais 2 casos, dos quaes um mortal, 1 devidos á introducção da ammonia liquida nas veias. Marco Sbriziolo apresenta no seu tratado um quadro esta- tístico de 33 casos de envenenamento, de que elle encontrou noticia ou referencia nas obras de medicina legal, não fallando em mais 4 casos devidos ao carbonato de ammonia. Por esse quadro vê-se que o maior numero (27) foi o resultado da inges- tão de ammonia liquida. Destes 27, dos quaes 12 sararam e 15 morreram, eram 19 homens e 8 mulheres; 14 foram de enve- nenamentos accidentaes, 9 de suicidio, 3 por conta de applica- ção medicinal e 1 de homicídio. Dos outros casos, 5 foram a consequência da inhalação do gaz ammoniaco, e todos em ho- mens, dos quaes 4 por accidentes e 1 por applicação therapeu- tica ; 2 succumbiram e 3 curaram-se. O ultimo facto é o de um menino, em quem uma desastrada e fatal injecção hypoder- mica de ammonia foi causa da sua morte ; é naturalmente o mesmo facto citado por Paget, a que se refere Rabuteau. Na opinião d’este autor, a dose de 2 a 4 grammas desta su- bstancia, internamente, é capaz de produzir accidentes graves ; 30 grammas determinam quasi fatalmente a morte, a menos que seja logo rejeitada, pelo vomito, uma porção do veneno. Quanto á agua sedativa, tem acarretado a morte na dóse de 250 grammas. 1 Paget, tentando fazer desapparecer um ncevus maternus, em uma criança de 2 annos, por meio de injecção de ammonea, deu-lhe a morte em um mi- nuto, precedida sómente de convulsões. TOXICOLOGIA 173 Symptomas; signaes clínicos Os symptomas d’este envenenamento começão por uma sen- sação de adstricção e queimadura na bocca, na garganta, ao lon- go do oesophago e no estomago; manifestão-se dores atrozes, que Rabuteau explica pela descamação rapida do epithelio e denuda- mento das papillas. Sobrevêm nauseas e, na maior parte dos casos, vomitos de reacção francamente alcalina, cheiro ammo- niacal, e mais tarde, dejecções alvinas abundantes, muitas vezes sanguinolentas, e acompanhadas sempre de cólicas violentas; estas se fazem sentir ainda mesmo que faltem as evacuações, o que se dá, em geral, quando o veneno tem sido vomitado em maior ou menor quantidade. Logo depois os doentes accusam anciedade extrema ecahem em estado de verdadeira prostração, com resfriamento geral, tremores convulsivos nos membros, suores frios e viscosos, e soluços. O pulso torna-se frequente, porém pequeno, miserável e quasi imperceptivel; e a morte sobrevém no fim de algumas horas, de 3 a 24 horas, raramente mais, salvo nos casos menos agudos, em que ella pode-se demorar até alguns mezes, durante os quaes os doentes arrastam uma existência desgraçada; elles succumbem ás consequências de uma gastro-enterite chronica, com ulcerações, e ás vezes com estreitamentos simples ou múltiplos do oesophago ou dos intestinos. Nestes casos a morte tem logar por inanição e marasmo. Qando o envenenamento é causado pela ammonia, assigna- lam os autores, em geral, as mesmas manifestações; na descri- pção, que delias fazem, referem-se a algumas pequenas circumstancias, que não mencionam a proposito do envenena- mento pelos alcalis fixos, mas que, estou certo, podem ser obser- vados indistinctamente em um e em outros, dependendo menos da natureza dos agentes toxicos, do que da sua dóse e outras 174 IRRITANTES ALCALINOS cireumstancias que podem fazer variar um pouco os respectivos effeitos.1 Assim, por exemplo, dizem que os vomitos, podem ser também estriados de sangue, como as dejecções ; que o excesso das dores faz muitas vezes perder os sentidos aos doentes ; que a face é pallida, os olhos injectados e como desvairados, os lábios inchados; o resfriamento do corpo, acompanhado de cyanose; a voz nimiamente fraca, ou de todo extincta. Os doentes accusam ’ dyspnéa e oppressão extrema, accidentada por uma tosse catarrhal intensa, e morrem muitas vezes asphy- xiados em consequência da tumefacção rapidamente crescente do larynge, com hypersecreção bronchica, ás vezes sanguino- lenta, quando o liquido cáustico tem penetrado nas vias respi- ratórias, ou o facto è devido á inhalação da ammonia. Diz mais, Tardieu, que, nos casos em que o envenenamento è causado pela agua sedativa, observam-se desordens nervosas: convulsões, delirio e coma, que podem ser devidas á camphora que ella contém. Em geral, segundo pensa Rabuteau, a morte não sobrevém tão rapidamente, como nos envenamentos agudos pelos alcalis fixos ; ella demora-se desde alguns dias até algumas semanas. Nos primeiros dias persiste a dòr na garganta e no estomago, c ha insomnia e difficuldade ou mesmo impossibilidade de deglu- tição ; a salivação torna-se abundante, a lingua tumefacta, continuam os vomitos e a diarrhéa, que, como elles, é muitas vezes sanguinolenta; a sede é intensa. Manifestam-se dores agudas nos membros, às vezes formigamento e dormência ; o pulso é frequente, porém fraco. Mais tarde a pelle apresenta-se ictérica, e cobre-se de uma erupção, tal como o erythema e a purpura, e ás vezes de placas erysipelatosas. Sobrevém, em 1 Entretanto é preciso reconhecer que alguns auctores (Chandellon e outros) assignalão para a amrnonea uma acção geral, que parece produzir seus effeitos sobre a hemoglobina, mas que fóse manifesta com alguma intensidade quando a dose tem sido forte. TOXICOLOGIA 175 alguns casos, subdelirio, apezar de que em geral as faculdades intellectuaes conservam-se intactas, e por fim a morte, depois de muitas horas, ou de alguns dias. Nos casos em que a dóse tem sido menor, ou o veneno rejeitado incontinenti pelos vomitos, ou em que soccorros bem dirigidos teem sido prestados ao paciente, os symptomas dimi- nuem gradual mente de intensidade, manifesta-se uma expe- ctoração ou antes umaexpuição abundante de mucosidades, misturadas com grande quantidade de saliva e um pouco de sangue ; a respiração torna-se mais regular e desembaraçada, o pulso se levanta, as forças vão apparecendo e os doentes se restabelecem no fim de algumas semanas, tendo conservado ainda, durante quasi todo esse tempo, alguma differença na voz e nos movimentos de deglutição. Segundo Tardieu, o accidente que offerece mais tenacidade e perigo é o ptyalismo, em que a quantidade de saliva, em um caso observado por Fonssagrives, chegou a tres litros em 24 horas, vindo a ceder, como si se tra- tasse de um accidente mercurial, com o emprego do chlorato de potássio. Lesões anatomo-pathologicas ; sigaaes necroscopicos Os lábios, a lingua e a garganta são a séde de uma inchação considerável; toda a mucosa das primeiras vias digestivas, que teve contacto com o agente corrosivo, apresenta-se rubra, amol- lecida e tumefacta, tendo perdido seu epithelio ; o estomago, pela maior demora ahi do veneno, offerece alterações mais profundas e extensas, que podem ir até a perfuração ou então mais fre- quentemente até o amollecimento de todo o orgão, com os cara- cteres de uma especie de gangrena húmida. A mucosa dos intestinos delgados é descamada e rubra, com pontos mais escu* 176 IRRITANTES ALCALINOS ros, denegridos. No larynge nota-se igualmente uma congestão mais ou menos intensa. Nos casos em que a morte é demorada e tardia, se acha estreitamentos do oesophago, com aspecto lardaceo das paredes do mesmo, especial mente assestados nas proximidades do cardia, a uns 4 ou 5 centimetros distante deste orifício. Em uma observação de Behier, citada na obra de Rabuteau, foi encontrado um estreitamento no terço inferior do oesophago, cuja mucosa endurecida, era como que forrada por um tecido cellular hypertrophiado, semi-transparente, analogo ao tecido lardaceo. Em outra observação, citada por Tardieu, trata-se de um individuo, cujo canal oesophagiano offerecia um estreita- mento, e, acima delle, uma dilatação considerável, uma especie de diverticulum, no qual os alimentos demoravam e soffriam um começo ou preparativo de digestão. Finalmente, em outro caso referido por Boudet, observou-se o facto mais curioso de dous estreitamentos e duas dilatações alternando-se na ordem do caso anterior. Quando o envenenamento tem logar pela ammonia, então observam-se, segundo Potain (Rabuteau), no habito externo do cadaver, principalmente nos membros superiores, placas ery- thematosas, e além disso uma intumescência notável das pálpe- bras e da conjunctiva. Internamente as lesões que se encontram são da mesma natureza que quando se trata dos alcalis fixos : ulcerações, escharas, sangue derramado em maior ou menor quantidade no tubo gastro-intestinal, e uma phlegmasia mais ou menos pronunciada em toda mucosa deste canal, etc. O fíga- do e os rins offerecem muitas vezes os caracteres de uma dege- neração gordurosa bem accentuada. Nas vias aéreas encontra-se injecção forte de toda a mucosa, com exsudações pseudo-mem- braniformes, extensas, um verdadeiro croup bronchico, na phrase de Tardieu e Bellini. Os pulmões apresentam-se conges- tionados, inflammados e hepatisados. Nas lesões que caracterisam o envenenamento pela am- TOXICOLOGIA 177 monia, notam-se, segundo este professor, dous factos de certa importância, a saber: a steatose do fígado e dos rins, e a diflu- encia e incoagulabilidade do sangue 1 Tratamento Para combater efficazmente o envenenamento pelos alcalis, seja fixo ou volátil, deve-se preencher, mutatis mutandis, as mesmas indicações, como si se tratasse dos ácidos concentrados isto é, fazer vomitar pelos meios mechanicos (excluindo, todavia, a bomba gastrica), pelo emprego da agua morna ou albuminosa em muita quantidade, e dos oleos em substancia, que reúnem mais a vantagem de se saponifícarem com os alcalis; depois neutralisal-os pelos seus antidotos cliimicos naturaes, que são neste caso os ácidos, escolhendo de preferencia ácidos orgâ- nicos, que se possam administrar impunemente em grande excesso, por exemplo, o acido tartarico ou citrico, ou melhor, o sueco do limão e o vinagre. Não se poderia, sem inconve- niente serio e mesmo sem perigo, lançar mão de ácidos mais fortes, na medida da energia dos alcalis ingeridos, como ve- nenos, pela mesma razão exposta a proposito do emprego dos alcalis contra os ácidos. 1 Segundo Bogomoloff e KoschlakoíF (DragendorfF) as alterações que o principio corante do sangue experimenta sob a acção da ammonia asseme- lham-se ás que produz o liydrogenio phosphorado. Na opinião de Bellini ellas teem mais analogia com as determinadas pelo hydrogenio sulfuretado, ou pelo sulfureto de ammonio ; em todo o caso vê-se que a ammonia faz a transição entre os venenos irritantes e os hernaticosou neuro-hematicos. A oxyhemoglobina torna-se primeiro amarellada. depois amarella-pardo, o por íim verde escuro; as listras de absorpção desapparecem pouco apouco, o sangue torna-se mais claro e mais fluido. Entretanto, segundo as inves- tigações de líirt, confirmadas p>r DragendorfF, verilica-se nos animaes mortos por inhalação de vapores ammoniacaes, que o sangue ofíerece uma cor mais carregada, mas pode ao contacto do ar tornar-se rapidamente vermelho- claro e dar o espectro normal. Globulos vermelhos deste sangue achavam-se também intactos. De modo que, na opinião daquelle autor, não se pôde esta- belecer diagnostico certo do envenenamento pela ammonia, baseado sobre o exame espetroscopico ou microscopico do sangue ; pelo menos elle duvida disso. TOXICOLOOIA 12 178 IRRITANTES ALCALINOS Cabe aqui, porém, lembrar as judiciosas ponderações feitas Sobre o valor real destas applicações pelo adjuncto da cadeira, Dr. Souza Lopes, em um bem elaborado artigo, inserto n’um dos numeros da Revista dos cursos práticos e theoricos da Faculdade. Elle aponta alguns inconvenientes, ainda não previstos pelos autores, no emprego dos ácidos, quaesquer que sejam, contra os alcalis, e mostra ser muito mais racional nestes casos a administração do sulfato de magnésio, que elle propõe como o verdadeiro antidoto dos alcalis. E, com effeito, não se podendo recorrer aos ácidos mais energicos que deviam em principio ser preferidos, lança-se mão dos mais brandos, não sem algum prejuizo da indicação, que não é tão efficazmente preenchida, tão completamente satisfeita. Em vez disso, empre- gando o sulfato de magnésio em alta dóse, dá-se a decomposição deste sal pelo alcali ingerido, a formação do sulfato respectivo, inoffensivo, e a magnesia que fica separada, auxilia a acção purgativa do sal, varrendo o tubo digestivo, da substancia es- tranha. Tanta confiança tem com razão aquelle collega no successo deste meio, que acha que não se deve perder tempo com o emprego de vomitivos, cuja acção benefica é contrabalançada pelo inconveniente, talvez maior, dos esforços de vomitos nas condições especiaes em que se deve achar o estomago desses indi- viduos, e da passagem do alcali cáustico outra vez pelo oeso- phago e pela bocca estendendo a sua acção corrosiva a pontos desse trajecto que podiam não ter sido tocados pelo alcali na sua ingestão. Conjurados os accidentes mais graves e o perigo da morte, resta debellar os phenomenos inflammatorios (stomatite e gastro-enterite) pelos collutoriose tisanas emollientes, regimen lácteo, etc. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Debaixo do ponto de vista medico-legal, duas circum- stancias dominam a historia da pesquiza dos alcalis fixos, a TOXICOLOGIA 179 saber: sua transformação rapida em carbonatos, ao contacto do ar, e a existência de certos saes de sodio e de potássio no estado normal do organismo, dos quaes é preciso distinguir aquelles. Do mesmo modo, a respeito do envenenamento pela ammo- nia, occorrem outras duas circumstancias, que dominam a his- toria de sua pesquiza toxicologica, e vem a ser a perda facil e rapida desse alcali pela sua volatilidade, e a formação de productos ammoniacaes no processo da decomposição pútrida. A carbonatação dos alcalis fixos se faz com tanta rapidez ao contacto livre do ar, que bastam algumas horas para que essa transformação se effectue, e, portanto, se as matérias que os conteem não forem incontinenti recolhidas e encerradas em um vaso bem fechado, não se achará nellas mais do que os respectivos carbonatos. No seio dos orgãos, porém, e notavel- mente dentro do canal gastro-intestinal, onde o accesso do ar não é tão franco, a carbonatação dos alcalis é muito mais de- morada, e póde levar alguns ou muitos dias para se completar. Em todo o caso, a reacção alcalina que essas matérias offerecem aos papeis reactivos é sensivelmente a mesma, e é isso que cumpre verificar antes de tudo. O que distingue de um modo geral os alcalis dos seus carbonatos, é a maneira porque se comportam em presença de um acido, dando logar, só com estes últimos, à effervescencia devida ao desprendimento degaz carbonico. E’ verdade que os sulphuretos alcalinos teem igual- mente reacção alcalina, mas não se póde confundil-os com aquelles, pelo cheiro sulphydrico que exhalam constan- temente. Releva estar de sobre aviso sobre a possibilidade de ter o envenenado recebido soccorros convenientes, e, portanto, inge- rido como antídoto uma grande quantidade de ácidos, que poderão não só neutralisar completamente os alcalis, como mesmo, sendo em excesso, communicar ás matérias a analysar uma reacção mais ou menos francamente acida. 180 IRRITANTES ALCALINOS Tardieu e Roussin declaram que nenhum methodo bastante rigoroso foi apresentado ou conhecido antes delles para a pes- quiza da potassa e da soda, nos envenenamentos por estes alcalis, e por isso apresentam o seu, que acreditam satis- fazer a todas as exigências da analyse em taes casos. Este methodo, que vem textualmente reproduzido no livro de Chapuis, comprehende dous processos : um destinado ao exame das vísceras do cadaver e matérias suspeitas, no curto prazo em que os acalis se conservam no estado de liberdade, outro para as pesquizas em que, pelo tempo mais ou menos longo de inhumação, elles teem experimentado a conversão total em carbonatos. a) Na primeira hypothese corta-se o estomago e intestinos delgados em pequenas porções, que se introduz em um frasco de boca larga, contendo, até ao meio, agua distillada, pre- viamente fervida e resfriada ; lança-se ahi também a matéria dos vomitos que se tiver recolhido e acaba-se de encher o frasco com agua distillada nas mesmas condições. Deixa-se toda essa massa durante 12 horas em maceração, espreme-se depois rapidamente em um panno lavado com agua distillada, filtra-se em um apparelho fechado, ou coberto por uma campana de vidro. Corre lentamente um liquido, de ordinário bastante corado ; quando cessa esse corrimento, divide-se-o em duas porções iguaes, depois de haver verificado, por meio do papel Vermelho de tournesol, sua reacção alcalina. Por meio de um liquido acido previamente titulado (que se pòde preparar dis- solvendo em agua distillada 5 por 100 de acido oxalicocrystal- lisado) 1 e com o auxilio do uma buretta graduada commum, determina-se o titulo alcalimetricò da primeira porção do liquido ; o numero obtido refere-se naturalmente â quantidade de alcali total contido na solução, seja livre ou combinado. Na segunda porção do liquido filtrado lança-se uma solução concentrada e perfeitamente neutra de chlorureto de baryo, até 1 Póde ser o acido sulphurico (Rabuteau). TOXICOLOGIA 181 que não se forme mais precipitado, porque um leve excesso de sal bary tico não prejudica o resultado da operação. Todo o carbonato alcalino é separado no estado de carbonato de baryo, insolúvel. Filtrado de novo, o liquido não deve apresentar mais reacção alcalina ao tournesol, si todo o alcali tem sido carbo- natado. Quando se manifestar ainda aquella reacção, isso significa que existe ainda no estado de liberdade uma parte do alcali, facil de determinar, muito approximadamente ao menos, mediante novo ensaio alcalimetrico. b) Na segunda hypothese, quando a exhumação e a analyse dos orgãos do cadaver se fazem tardiamente, já estando a putre- facção adeantada, tem-se então formado uma certa quantidade de saes ammoniacaes e principalmente carbonato de ammonio, cuja reacção alcalina é inteiramente a mesma do seu congenere zodicoou potassico. Procede-se neste caso do modo seguinte : Divide-se também o tubo gastro-intestinal em pequeninos pedaços, que se faz digerir, durante 12 horas pelo menos, em uma quantidade conveniente de agua distillada, que se mantém na temperatura de 40°. Depois espreme-se atravez de um panno bem limpo (lavado com agua distillada), filtra-se em papel Ber- selius. O liquido que passa evapora-se primeiramente em B. M. até que o residuo não perca mais de seu peso ; em seguida aquece-se este residuo a 120°, até o desapparecimento completo do cheiro ammoniacal, e até que um papel vermelho de tournesol exposto aos vapores que se desprendem não denuncie mais a presença de traços do alcali volátil. Deixa-se resfriar e trata-se o residuo por uma pequena quantidade de agua distillada tépida. Filtra-se de novo o liquido e mistura-se em um frasco arrolhado a esmeril, com tres vezes seu volume de álcool a 90°. For- ma-se um deposito, que se lava por decantação e, repetidas vezes, com álcool, secca-se e calcina-se em uma capsula de porcellana. Depois do resfriamento esgota-se o residuo com uma pequena quantidade de agua fervendo e filtra-se. Si o liquido encerra uma proporção notável de carbonato de 182 IRRITANTES ALCALINOS potássio ou de sodio, é muito provável que se trate de um envenenamento pelo alcali respectivo ; si é muito considerável essa quantidade, não póderá haver duvida sobre esse envene- namento. Em todo caso deve-se guardar alguma reserva nesta conclusão, e não affirmal-a categoricamente sinão quando a proporção do carbonato alcalino encontrada é incompara- velmente superior á que poderiam fornecer os productos da economia normal, e para isso não ô fóra de proposito dizer como se procede á dosagem dos saes de potássio: precipita-se uma certa quantidade do liquido obtido, pelo chlorureto de platina, tendo-se previamente neutralisado o liquido com acido chlorhydrico e sempre empregando-se um excesso do reactivo, para se precipitar conjunctamente o chloro-pla- tinato de potássio e o de sodio ; recolhe-se o residuo, secca-se cuidadosamente em B. M., lava-se-o depois com uma mistura de 4 partes de álcool e 1 de ether, até que passe comple- tamente incolor. Secca-se de novo e pesa-se com o proprio filtro, previamente tarado a 110°. Faz-se a proporção par- tindo do seguinte dado : que 100 partes deste residuo en- cerrão 19.272 de potassa. Nos casos em que, pela administração dos ácidos como antidotos, os alcalis se teem salinificado, Rabuteau manda destruir as matérias organicas suspeitas pela carbonisação directa, e nas cinzas procura-se os alcalis ou seus carbonatos, que resistem ás mais altas temperaturas ; para isso trata-se por acido nitrico diluido, filtra-se e no liquido ensaia-se os reactivos. As reacções caracteristicas da potassa e seus saes são as seguintes, além da reacção fortemente alcalina (quando se trata dos alcalis livres ou carbonatados) : l.a Tratados pelo acidotartarico (solução concentrada e em excesso) formam um precipitado branco, crystallino e pesado, de bitartrato de potássio ou cremor de tartaro, solúvel no TOXICOLOGIA 183 carbonato de potássio ou de ammonio. E’ preciso excesso do acido para se darem as condições da formação deste sal, e ainda assim, para a sua precipitação facil no estado crystallino é necessário atritar fortemente com um bastão de vidro as paredes do cálice em que se faz a reacção. Uma quantidade menor e insufficiente de acido apenas permitte a formação do artrato neutro, que, sendo solúvel, não se precipita nem mesmo com o artificio indicado. 2. a O chlorureto de platina produz nas soluções convenien- temente concentradas um precipitado amarello, crystallino, de chloro-platinato de potássio, mui pouco solúvel ou quasi insolúvel na agua, e inteiramente insolúvel no álcool e na mistura do álcool e ether. Pela calcinação deixa um residuo constituido por uma mistura de chlorureto de potássio, e platina finamente dividida, no que se distingue dos saes ammoniacaes, que também dão um precipitado analogo com o chlorureto de platina, mas calcinado deixa como residuo sómente a platina. 3. a Os ácidos perchlorico e hydrofluosilico formam nos saes de potássio um precipitado branco, no primeiro caso crystallino, no segundo gelatinoso e fluorescente (Dragendorff). 4. a O acido picrico ou carboazotico precipita em amarello, e o picrato alcalino que se deposita goza da mesma propriedade explosiva do acido livre. 5. a O sulfato de aluminio, nas soluções concentradas de potassa, dá um precipitado de alúmen (sulphato duplo). 6. a Finalmente, um fio de platina, curvado na ponta, ou terminado em um pequeno gancho, mergulhado por esta extre- midade na solução de potassa e exposto á chamma do ma- çarico, dá logar á producção de uma cor roxa, que se percebe melhor olhando atravez de um vidro azul intenso de cobalto (Dragendorff.) Quanto á sóda e seus saes, caracterisam-se por ausência de precipitados com qualquer dos reactivos precedentes, com 184 IRRITANTES ALCALINOS os quaes formam saes facilmente solúveis ; não ha senão dous ensaios conhecidos, que possam por seus resultados positivos denunciar a presença da soda n’um liquido suspeito, e veem a ser : 1. (via húmida).— A solução do bi-meta-antimoniato de potássio, fôrma com ella um precipitado branco, crystal- lino, de bi-meta-antimoniato de sodio. Chapuis recommenda algumas precauções que julga necessárias para o bom exito desta reacção. Assim, deve-se antes de tudo lavar diversas vezes o sal antimonial com agua quente, depois com agua fria, e preparara sua dissolução a quente. Etnprega-se, porém, o reactivo depois de frio, e agita-se com um bastão de vidro a mistura durante alguns instantes. Nestas condições forma-se promptamente o precipitado crystallino, já indicado; elle deve-se apresentar neste estado, porque, segundo aquelleautor, tem-se observado que em liquidos mesmo não contendo traço algum de sal de soda, o dito reactivo determina o apparecimento de um precipitado, porém amorpho, nunca crystallino. De- ve-se, pois, recorrer sempre ao microscopio para a correcta interpretação deste ensaio. 2. (via ignea). — Aquecendo na chamma interior do ma- çarico um fio de platina curvo, molhado em uma dissolução de soda caustica, a parte exterior da chamma se córa forte- mente de amarello ; e, segundo DragendorfF, póde-se até certo ponto julgar da proporção de sodio, allumiando com esta chamma um papel revestido de bi-iodureto de mercúrio ver- melho ; elle tomará uma cor vermelho-pallida, quando houver pouco sodio, e francamente amarella, quando houver muito. Finalmente, Tardieu lembra com razão, que, expostas ao ar livre, em um vidro de relogio e durante 24 horas, uma pe- quena quantidade de solução de potassa e de soda separadas, a de potassa se conservará liquida, emquanto a de soda se encherá de crystaes de carbonato respectivo. Saturadas uma e outra por acido nítrico e postas a evaporar lentamente em TÒXICOLOGIA 185 um vidro de relogio, a solução potassica fornecerá longas agulhas prismáticas, e a de sodio crystaes granulosos rliom- boed ricos. Pesquiza da ammonea E’esta uma pesquiza em geral facil, mas seu resultado se torna muitas vezes de interpretação difficil, sinão impossível, pelas circumstancias já apontadas, dependentes da volatilidade deste alcali, cujo estado natural é mesmo gazoso, e da formação de productos ammoniacaes durante certa phase da putrefacção do cadaver. Chapuis accrescenta que nas pesquizas toxico- logicas a ammonea póde ter ainda outra origem ; assim, na autopsia dos envenenados pelo cyanureto de potássio do com- mercio, só ou misturado de cyanato de potássio, desenvolve-se cheiro sensivelmente ammoniacal por occasião da abertura das primeiras vias digestivas. Sabe-se que nestas condições esse corpo decompõe-se mais ou menos rapidamente em carbonato de potássio e ammonea. Tardieu acredita que a determinação da ammonea, como causa de envenenamento, não épossível, e não poderá ter uma significação precisa, sinão quando feita pouco tempo depois da morte da victima. Só nesta hypothese o veneno póde-se achar no estado de alcali livre na matéria dos vomitos e no tubo digestivo, ou bem então neutralisado pelos ácidos administrados como antídotos. Si a dose da ammonea ingerida tem sido con- siderável, pela abertura de oesophago, do estomago e intestinos deve sentir-se o cheiro forte, irritante e caracteristico da ammonea; o papel envermelhecido de tournesol exposto na atmosphera próxima da superfície de todo este canal, ou das matérias vomitadas, manifestará a reacção alcalina. Para isolar-se a ammonea submette-se as matérias a 186 IRRITANTES ALCALINOS analysar á distillação, introduzindo-as em pequeninas porções èm uma retorta tubulada, espaçosa, com uma quantidade d’agua distillada sufficiente para tornal-as em consistência de papa. A retorta, que communica com um balão recipiente por intermédio de um refrigerante de Liebig, é aquecida cui- dadosamente até que os últimos productos condensados não offereçam reacção alcalina. Si for preciso, ajunta-se mais agua ás matérias contidas na retorta, e prosegue-se á distil- lação até o ponto indicado. Reunem-se os liquidos distillados, satura-se-os com um pequeno excesso de acido sulphurico, afim de fixar a ammonea no estado de sulphato deammonio. Evapora-se depois estes liquidos em B. M. até seccura com- pleta, passa-se o residuo para outro apparelho de distillação, porém menor, com o seu refrigerante de Liebig, e terminado por um pequeno frasco cercado de gelo ; introduz-se pela abertura da retorta uma solução concentrada de potassa, tapa-se rapi- damente com uma rolha a esmeril e faz-se funccionar o apparelho. Basta aquecer brandamente a retorta para obter-se um desprendimento regular de ammonea, que se vai dissolvendo na agua do frasco, e na qual se procede ao reconhecimento da ammonea pelas suas reacções caracteristicas. Rabuteau simplifica este processo de separação e ao mesmo tempo de dosagem da ammonea, aconselhando que se submetta á distillação as matérias suspeitas, addicionadas de álcool forte e recolha-se o gaz em uma solução de acido chlorhydrico. Precipita-se depois a ammonea pelo chlorureto de platina no estado de chlorureto duplo, que se recolhe, secca-se bem e calcina-se. Fica como residuo platina, de cujo peso se deduz o da ammonea, por uma proporção conhecida (pag. 189). Si se trata da ammonea combinada, ou neutralisada pelos ácidos, ajunta-se soda ás matérias e distilla-se; a ammonea que se desprende se reconhece e se dosa como no processo anterior. Convém nesta operação addicionar um pouco de álcool bastante forte, afim de impedir a reacção da soda sobre TOXICOLOGIA 187 os princípios albuminoides, e donde resulta a formação da ammonea. Póde-se também operar de outra maneira : misturando as matérias suspeitas com leite de cal, e collocando-as dentro de uma campana, por cima ou ao lado de um vaso contendo uma solução titulada de acido sulphurico; deixa-se assim ficar durante 2 ou 3 dias, no fim dos quaes determina-se de novo o titulo do acido, agora mais baixo em virtude de sua neutra- lisação parcial pela ammonea desprendida na reacção da cal sobre o sal ammoniacal. O numero de centímetros cúbicos de acido sulphurico que teem sido neutralisados pela ammonea, multiplicado por 0,0017, representa o peso do gaz am- moniaco. Nos casos de envenenamento por inhalaçâo do gaz am- moniaco, e em que a morte tem sido rapida, Rabuteau acon- selha procurar a presença do gaz nas vias aereas, introduzindo uma sonda na trachóa-arteria, aspirando o gaz e fazendo-o atravessar uma solução de acido sulphurico ou chlorhydrico. Recommenda mais o mesmo autor pesquizar e mesmo dosar approximadamente a ammonea na atmosphera do recinto onde se deu o envenenamento. As propriedades e reacções caracteristicas da ammonea são as seguintes : Reacção alcalina franca, cheiro forte e particu- lar, sui generis. Approximando-se do liquido um bastão de vidro molhado em acido chlorhydrico desenvolve-se uma fumaça branca mais ou menos intensa, conforme a quantidade da ammonea. Um pedaço de papel Berzelius, embebido em uma solução aquosa de hematoxylina, recentemente preparada (1:100), toma uma cor roxa azulada, magnifica, quando se expõe aos va- pores ammoniacaes. Si o papel fòr embebido em uma solução alcoolicade acido rosolico, tomará uma bella côr vermelha pur- purina. Com o papel de phenolphtaleina a côr será francamente vermelha, ao passo que será vermelha escura com o papel 188 IRRITANTES ALCALINOS embebido no reactivo de Nessler 1 Este mesmo reactivo pode ser empregado directamente nas soluções ammoniacaes. A ammonea livre ainda se caracterisa pelos seguintes en- saios : Io Em contacto com os proto-saes de mercúrio, os córa ou os precipita em preto, conforme as condições da reacção, ao passo que precipita abundantemente em branco uma solução de bi- chlorureto de mercúrio. No primeiro caso, o precipitado ê constituido por uma mistura de protoxydo de mercúrio e mer- cúrio reduzido ; no segundo, o corpo que se deposita, antiga- mente conhecido pelo nome de pó de Alembroth, representa um chlorureto duplo ammoniaco-mercurial, ou mais correcta- mente segundo a doutrina moderna, um chloroamidureto de mercúrio. 2o Lançado em uma solução de persal d3 cobre produz, em pequena quantidade, um precipitado branco azulado, de hydrato cúprico, facilmente solúvel em um excesso de ammonea, to- mando o liquido a côr azul celeste intensa, pela formação de um sal duplo cupro-ammoniacal. 3o O acido molybdico, dissolvido em um excesso de acido chlorydrico, e na presença de acido pliosphorico, dálogara um abundante precipitado amarello, sobretudo pela ebullição, n’um liquido contendo mesmo traços de ammonea (Tardieu). Finalmente, si em vez de ammonea livre, se tiver de caracte- risar e pôr em evidencia um sal desta base, então recorrer-se- ha aos seguintes ensaios : 4o Com um excesso de acido tartarico obtem-se um precipi- tado branco, crystallino, como nos saesde potássio, dos quaes se distingue facilmente, tratando o producto que então se fórma (bi-tratato de ammonio), assim como outro qualquer 1 Solução alcalina de iodhrydrargyvato de potássio, que se prepara mist rando uma parte de solução de chlorureto de mercúrio com duas e meia de iodureto de potássio dissolvido em seis partes d’agua, e juntando seis partes de hydrato de potássio dissolvido em outras seis partes d’agua; di- luindo tudo em 36 partes d’agua (Dragendorff). TOXICOLOGIA 189 sal ammoniacal por um alcali fixo ; desprender-se-ha ammo- nea, reconhecivel pelos seus caracteres. o° Como chlorureto de platina produz-se igualmente um precipitado amarello de chloro-platinato de ammonio, que differe do seu congenere de potássio, porque, calcinado, deixa como residuo sómente a platina. Este precipitado pode ser uti- lisado para a dosagem da ammonia, partindo do principio de que elle encerra por 100—7,61 deste alcali. SEGUNDA CLASSE Venenos hematicos Assim se chamam (de aima, sangue, em grego), aquelles que atacam directamente a composição do sangue, determinando uma alteração mais ou menos profunda dos seus elementos ; conforme esta acção se exerce mais particularmente sobre os globulos ou sobre o plasma, subdivide-se esta classe em dous grupos : venenos globulares e plasmicos. Com effeito, o sangue é composto de duas partes distinctas, a saber: Ia, globulos vermelhos ou hematias,que, nas condi- ções normaes, formam mais de metade de seu peso e são os portadores do oxygeno do ar para todos os elementos e tecidos da economia ; 2a, plasma, que por sua vez é o portador dos globulos, e o dissolvente especial de gaz carbonico, de que o sangue se desembaraça nos pulmões. Os globulos vermelhos devem sua cor a um principio corante solido e crystallisavel, que se extrahe do sangue por dous pro- cessos : o Io, devido a Hope Seyler, consiste em tratar pelo álcool o sangue previamente desfibrinado, com igual volume d’agua ; abandona-se depois por 24 horas o frasco que contém o VENENOS IIEMATICOS liquido no gelo, ou melhor n’uma mistura refrigerante ; for- mam-se os respectivos crystaes, que se separa pelo filtro, e purifica-se por crystallisações successivas. O 2o processo, que parece mais simples, consiste em ajuntar gotta á gotta oether normal ao sangue, também previamente desfibrinado ; agita-se fortemente a mistura que, abandonada ao repouso, deixa depo- sitar os crystaes. A hemoglobina do sangue humano, bem como do cão, crystallisa em longos prismas rectangulares, variando a fôrma nas outras especies animaes; é solúvel na glycerina, pouco solúvel n’agua, insolúvel no álcool, no ether, no chloroformio e nos oleos fixos eessenciaes. Existe na proporção de 87°/o nos globulos. A sua dosagem se executa segundo o processo de Grehant, baseado sobre a maxima quantidade, em volume, do oxygenio que o sangue pôde absorver a- 15°, sob a pressão ordinaria. O exame espectroscopico do sangue, ou simplesmente de uma solução de hemoglobina oxygenada, constitue um dos meios mais delicados e sensiveis de evidenciar a presença deste principio. Com effeito, o espectro da absorpção do sangue se caracterisa invariavelmente por duas listras escuras, entre as listras D. e E. de Fraunhoffer ; facto pela primeira vez obser- vado porHope Seyler, em 1862, e que se verifica ainda sensi- velmente com a dissolução de hemoglobina em 10:000 partes d’agua. Este espectro, porém, experimenta uma modificação importante sob a influencia de vários agentes reductores ; assim, por exemplo, quando submettida á acção de certos venenos, que se comportam como esses agentes, ella perde o seu oxygeno ; examinado ao espectroscopio, apresenta uma só listra escura em logar, eno meio justamente, das duas primeiras que desapparecem : chama-se a isto o espectro de absorpção da hemoglobina reduzida, descoberto por Stockes. . E’ presumidamente esta uma das reacções produzidas sobre o sangue por alguns venenos, que por isso são denominados TOXICOLOGIA 191 hematicos globulares. Rabuteau cita como exemplos deste grupo, entre outros, o phosphoro e o arsénico. Entretanto, me encarregarei de mostrar, a proposito do estudo de cada um destes corpos, que, sem negar-lhes propriedade reductora, sem negar que a exerção sobre a hemoglobina, todavia ella não explica a acção violenta e rapida destes dous venenos ; seus eíFeitos toxicos não podem ser dados á conta dessa propriedade, nas dóses minimas em que elles os provocam e podem acarretar a morte. Mais razoavel e admissivel é a theoria de Ritter e outros, fundada sobre a alteração histológica, antes do que chimica, que esses venenos exercem sobre os globulos sanguíneos, dis- sociando-os, deformando-os e mesmo destruindo-os, donde a di- minuição considerável do seu numero e a formação relativa- mente abundante e rapida de crystaes de hemoglobina. Tanto mais racional se me afigura esta hypothese, quanto ella appro- xima do phosphoro e sobretudo do arsénico o antimonio, que, segundo aquelles auctores, se comporta do mesmo modo. 1 A estes ajuntarei o acido oxalico e os oxalatos ácidos (sal de azedas); elles exercem sobre o sangue uma influencia manifesta e talvez complexa, que, todavia, não está bem conhecida e de- terminada, conforme mostrarei, quando tratar deste envene- namento . Outras vezes, porém, a hemoglobina perde effectivamente o seu oxigeno, sob a influencia de certos venenos, que depois se combinam com ella, substituindo-se ao gaz deslocado, produ- zindo compostos, ainda não bem definidos, tendo, porém, os mesmos caracteres espectroscopicos da oxy-hemoglobina : exemplo, o oxydode carbono, queexpelleo oxigeno deste prin- cipio e o substitue volume a volume, ormando a combinação denominada hemoglobina oxy-carbonica. 1 Sempre intrigou-me a collocação tão diversa do arsénico e do antimonio, na classificação de Rabuteau, quando estes dois corpos affectão as maiores analogias sob qualquer ponto de vista que se considere ; por isso eu os con- templo no mesmo grupo da minha classificação, embora guardando a reserva que me impõe a falta de dados e provas convincentes. 192 PHOSPHORO Ainda outras vezes parece provado que o veneno se une á hemoglobina normal, com todos os seus elementos, sem perda prévia do seu oxygeno ; é isso o que acredita-ee que acontece com o acido cyanhydrico, e donde resulta a formação de um pro- ducto mal conhecido e cujos caracteres não estão bem determi- nados, a que Rabuteau deu entretanto o nome de cyanhydrato de hemoglobina. Finalmente, outros venenos, além da acçâo que exercem so- bre o oxygeno da hemoglobina, atacam também o ferro contido neste principio orgânico, donde resulta a côr ainda mais escura e carregada do sangue ; é o que se acredita que succede com o acido sulphydrico e com os sulfuretos alcalinos, dando logar, muito provavelmente, no sangue á formação do sulphureto de ferro, preto. Releva, porém, notar que os venenos dos tres últimos grupos não são exclusivamente hematicos e sim neuro-hematicos. Dos hematicos propriamente ditos tratarei sómente, pela natureza desta obra, do phosphoro, do arsénico e do sal de azedas, dei- xando mesmo, por emquanto, o antimonio no logar em que o classificou Rabuteau. Envenenamento pelo phosphoro O phosphoro, que em épocas mais remotas, e ainda muito tempo depois da sua descoberta, não figurava no catalogo dos venenos conhecidos, porque também suas applicações industriaes eram muito limitadas, só ha uns 30 annos é que começou a ser empregado nessa qualidade ; dalii por deante foi augmentando de tal maneira o numero das victimas, foram-se multiplicando por tal forma os casos de envenenamento pelo phosphoro, que, ha uns 15 ou 20 annos a esta parte em França como entre nós, o seu algarismo chegou a occupar o primeiro logar na estatis- VENENOS HEMATICOS 193 tica respectiva, substituindo assim o acido arsenioso, que até então gozava este triste privilegio. Em 617 crimes de envenenamento commettidos nesse paiz, de 1851 a 1863, 170 vezes o foram por meio de phosphoro, por- tanto 27,5 °f0; de 1860a 1872 registraram-se 141 envenena- mentos criminosos, dos quaes 74, portanto 52,4 %> Por conta do phosphoro. 1 No Rio de Janeiro, pelo menos, durante algum tempo, foi verdadeira moda ou mania o envenenamento pelo phosphoro, como meio predilecto de suicidio ; concorrendo mais para isso a facilidade de obter e ingerir o veneno, pelo uso que delle se faz em certos misteres da vida domestica, do que o conheci- mento prévio da violência de seus effeitos, e péde-se dizer quasi a certeza da morte, desde que não sejam ministrados de prompto os soccorros médicos. 2 Com effeito, a frequência dos envenenamentos pelo phosphoro tem acompanhado de perto, si não tem sido a consequência da vulgarisação desta substancia em certas applicações domesticas, que a põe ao alcance de todos, como se vê nos chamados phos- phoros de cêra, hoje já pouco usados, e nas massas ou prepara- ções destinadas a matar baratas, ratos, etc. Felizmente, com os progressos realizados modernamente na chimica industrial, tem-se podido prescindir do emprego do phosphoro normal na 1 Bellini faz notar que muitas vezes os dous envenenamentos coincidem, porque o phosphoro do commercio é frequentemente arsenical. * Todavia conhecem-se alguns factos criminosos com o emprego do phos- phoro ; entre elles citarei um occorridoem Pernambuco, não ha muitos annos, na pessoa de um estudante de direito, hoje já formado, e a quem haviam man- dado de presente umas frutas e uma lata de marmelada. Tendo comido por varias vezes um pouco dessas substancias,que lhe occasionaram desordens gastricas naturalmeate attribuidas a indigestões, esse moço começou a sentir perturbações geraes insólitas e sobretudo um grande enfraquecimento nas per- nas, um principio de paralysia, que lhe despertaram a idéa da possibilidade de uma intoxicação, de uma tentativa de veneftcio. Decidiu-se a vir a esta capital, tratar-se convenientemente e tirar a limpo essa questão ; para isso trouxe um resto das referidas fr itas e da marmelada, que por indicação minha entregou ao distincto preparador da cadeira de medicina legal. Não lhe foi dffiicil descobrir na marmelada a presença de fragmentos decabecinhas de phosphoros de cèra, em que o veneno se revelou com todos os seus caracteres ; nas frutas o resultado da analyse foi negativo, porquanto, estando já completamente podres, naturalmente o phosphoro ter-se-hia volatilisado ou oxydado. toxicologia 13 194 PHOSPHORO fabricação dos palitos phosphoricos, 1 quer servindo-se de uma variedade allotropica daquelle metalloide (phosphoro ver- melho), destituida de propriedades toxicas, 2 quer lançando mão de preparações em que não entra phosphoro algum, como acontece nesses palitos phosphoricos ultimamente introduzidos no consumo publico, e que, em virtude da composição parti- cular da sua extremidade inflammavel, não accendem sinão attri- tados na lixa especialmente preparada e adherente a um dos lados da caixa; o que é, além domais, uma garantia contra in- cêndios. Isso explica a geral acceitação e preferencia que teem tido estes productos sobre os outros, que deviam ser mesmo objecto de severa prohibição. Os envenenamentos pelo phosphoro teem sido muito mais vezes a obra do suicidio, e de accidentes imprevistos do que de crimes de homicídios. O phosphoro é um agente excessivamente toxico no estado de hydrogeno phosphoretado, de phos- phureto solúvel ou facilmente decomponivel, e principal- mente no estado elementar, em que elle entra na composição quer de fórmulas medicinaes, quer de preparações industriaes. Ao contrario do que se pensava em outros tempos, em que até se procurava evitar a oxydação do phosphoro, no tra- tamento da respectiva intoxicação, hoje acredita-se geralmente, fundado nas experiencias de Tardieu, Rabuteau e outros, que sob a fôrma de qualquer de seus compostos oxygenados o phosphoro torna-se inoffensivo. Entretanto, parece que ultima- mente Schulz 3 pretende ter mostrado que sómente os ácidos 1 Na fabricação das massas phosphoricas destinadas a matar baratas e ratos, peia natureza mesma do íim a que se propoem, não pode deixar de en- trar o phosphoro normal ou outro principio toxico. 2 E’ esta a doutrina corrente, comquanto Bednar (de Vienna), citado por Gubler, tenha visto neste estado produzir no ftm de muito tempo, e em pequenas dóses, symptomas de excitaçao, tremores e convulsões clonicas. Demais Nasse e Neumann parecem ter demonstrado recentemente que o phosphoro vermelho é inoflensivo quando ingerido, porque não é absorvido pelo tubo digestivo, mas quando injectado nas veias determina os symptomas e lesões caracteristicas do phosphorismo, entre as quaes a steatose visceral (Chandellon). 3 Arch. fur exper : pathol. and pliarmakol : T. 18 — pags. 174 a 208. VENENOS HEMATICOS 195 hypophosphoroso e orthophosphorico são privados de toda a acção toxica ; porém que os outros todos são venenosos, quando injectados, no estado de saes sodicos, no tecido cellular sub- cutâneo ; e, cousa singular, os ácidos deste grupo teem todos numero impar de átomos de oxygenio, ao passo que nos do primeiro esse numero é par (Chandellon) ; dahi vem que a pomada e as massas phosphoradas, quando velhas, perdem em parte ou em totalidade suas propriedades toxicas, porque nellas o phosphoro ou tem experimentado a modificação allotropica, ou tem-se oxydado. E’ ainda por esta ultima razão que as cabecinhas de phosphoro, desmanchadas n’agua e assim guar- dadas durante certo tempo, antes de sua applicação, muitas vezes deixaram de produzir os phenomenos francos de envene- namento. As dóses toxicas do phosphoro variam em limites mui pe- quenos ; alguns centigrammos, para os adultos, alguns milli- grammos para as crianças, bastam para produzir accidentes graves e a morte. Assim, a dóse mortal deste veneno é con- siderada por Tardieu entre 15 a 30 centigr., o que parece demais. Hasselfc fixa essa dóse entre 5 a 15 centigr., e, segundo Chandellon, póde-se abaixar ainda mais estes limites, porque conhece-se um caso de morte occorrido em uma mulher de 52 annos, com seis centigr. apenas de phosphoro, tomados em quatro dias, e que Sbriziolo reputa a dóse menor de que se conhece um caso fatal; entretanto Chandellon cita outro caso de morte, em que a dóse deste veneno foi apenas de 7,5 milli- grammos. Kessler refere o de um menino que succumbiu em tres quartos de hora, apoz a ingestão de 34 milligr. de phos- phoro ; Laffargue menciona ocaso de outro, com dous annos de idade, que morreu por ter engolido oito cabecinhas de phospho- ros, que correspondem, no máximo, a cinco milligr. deste veneno, porquanto ellas encerram de 12 a 65 milligr. de Phosphoro por cento. E’ esta variante enorme na proporção de veneno contido nos palitos phosphoricos que explica o facto, 196 PHOSPHORO referido por Chandellon, de não ter morrido um indivíduo que ingeriu umas 4.000 cabecinhas dos mesmos, quando Harting diz ter observado accidentes sérios em outro que ingeriu uma só delias (!) Symptomas ; signaes clínicos Falk dividiu as manifestações do envenenamento pelo phosphoro em tres ordens : phosphorismo intestinal agudo, cerebro-espinhal e pneumo-gástrico ; mas póde-se considerar melhor com Rabuteau duas ordens de symptomas: locaes e geraes, ou classifical-os, segundo Tardieu, em relação ás tres formas mais notáveis deste envenenamento : commum, ner- vosa e hemorrhagica. Estas fôrmas apresentam-se ás vezes isoladamente e bem discriminadas, porém na maior parte dos casos succedem-se, e constituem por assim dizer períodos de um mesmo envenena- mento ; farei todavia a exposição dos respectivos symptomas segundo a ordem de frequência em que costumam a ma- nifestar-se , notando-se que os phenomenos locaes devidos á acção de contacto (phosphorismo intestinal agudo, de Falk) são os que abrem a scena em qualquer das tres fôrmas. 1 1 A acção local do phosphoro parece não ser ainda bem conhecida; pelo menos a tal respeito encontra-se divergência radical em alguns autores. E’ assim que no tratado de matéria medica de Fonsagrives lê-se o seguinte: « O phosphoro branco, applicado sobre os tecidos, exerce sobre elles uma acção muito poderosa, que pode ir mesmo até destruil-os completamente. Suppõe-se que esta acção é principalmente chimica, e devida á subtraeção energica do oxygeno e do hydrogeno das substancias organicas para a formação de acido hypophosphoroso e hydrogeno phospboretado. A eschara produzida pelo phos- phoro é um obstáculo á sua absorpção ; assim tem-se observado que as quei- maduras causadas por este corpo não acarretam nenhum dos effeitos geraes que lhe são peculiares. » « Ao contrario disso, diz Gubler, as experiencias de Ranvier demonstram a innocuidade relativa do phosphoro introduzido no tecido cellular subcutâ- neo, onde não determina nem dòr, nem trabalho inflammatorio em qualquer gráo, mas simplesmente parada do processo nutritivo e formador dos ele- mentos histologicos, com transformação gordurosa consecutiva. O facto observado por Trasbot confirma estes resultados : um cão engole um pequeno VENENOS HEMATICOS 197 Logo após a ingestão de phosphoro sobreveem eructações al- liaceas, phosphorescentes, e dahi a 5 ou 6 horas, pouco mais ou menos, ás vezes antes, dores fortes no estomago, que se pro- pagam ao ventre ; depois, nauseas seguidas de vomitos mucosos ou biliosos, raras vezes sanguinolentos ; cólicas fortes acompa- nhadas de diarrhéa, alteração dos traços, quéda do pulso, abaixamento de temperatura, dyspnéa, caimbras, tremores; mais tarde, formigamento e anesthesia ou paraiysia. O suor e as urinas tornam-se phosphorescentes. No fim de dous, tres a quatro dias phenomenos muito mais graves se apresentam e com expressão de alterações mais profundas : taes são uma ictericia mais ou menos extensa e generalisada, ás vezes acompanhada de uma erupção de urticaria, outras vezes de manchas róseas, hemorrhagicas ; manifesta-se ao mesmo tempo a albuminúria symptomatica da degeneração gordurosa dos rins, e outros signaes proprios de uma alteração mais profunda destes orgãos; assim é que na urina encontram-se, nos casos mais graves, cylindros epitheliaes, globulos sanguíneos, pigmento e ácidos biliares ; mais raramente tyrosina, leucina, e final- mente, nos casos fataes, grande quantidade de acido láctico. Sobrevem então cephalalgia.Jnsomnia, tenesmo vesical e dys- uria em todos os gráos (ischuria, stranguria), devendo notar-se que, sendo o phosphoro incontestavelmente um medicamento aphrodisiaco, nos casos de envenenamento falta, por via de regra, a excitação venerea ou genital exagerada. bastão de phosphoro, sem que dahi resulte nenhum accidente ; mais tarde, porém, o bastão é achado em um abcesso (!) >» Nothnagel e Rossbach acceitam esta interpretação do processo physio-pa- thologico attribuidoao phosphoro, porém íiliam-o á sua acção irritante local, modiiicada segundo a dóse ingerida. « Assim, em dóse elevada, dizem elles, o phosphoro exerce uma acção fortemente irritante sobre certos tecidos, prin- cipalmente sobre os elementos parenchymatosos especiaes do fígado, dos rins, do estomago e dos musculos, e esta acção irritante dá como resultado, em pouco tempo, a degeneração gordurosa, a necrobiose dos tecidas aíléctados (Yirchow). Em pequenas dóses por muito tempo continuadas, os supraditos tecidos ficam perfeitamente sqos e a acção irritante do phosphoro se exerce sobre outros, particularmente as substancias osteogeneas e o tecido intersticial do estomago e do fígado, dando por sua vez um resultado contrario, a hyper- genese dos tecidos affectados. No primeiro caso ha mortificação; no se- gundo, superactividade organica. » 198 PHOSPHORO Passado este periodo, apparecem outra vez vomitos extre- mamente fatigantes, evacuações alvinas dolorosas e por fim a morte, no meio de coma ou collapso mais ou menos profundo, precedido ou não de delirio e convulsões. Estes últimos phenomenos mais graves podem falhar e to- davia sobrevir a morte rapidamente, depois de uma remissão franca dos symptomas nas condições as mais favoráveis, e me- lhores esperanças de cura, comquanto não se tenha observado casos verdadeiramente fulminantes de envenenamento pelo phos- phoro ; o mais rápido que se conhece é o referido por Habershon, que terminou pela morte no fim de meia hora (Chandellon). Nas crianças muito tenras, os symptomas podem se limitar a alguns vomitos, somnolencia e convulsões, que terminam pela morte. Na fôrma nervosa predominam os phenomenos devidos a perturbações mais ou menos graves da innervação, desde o principio do envenenamento ; assim, os individuos sentem dor- mência, formigamento, caimbras e sobresaltos nos membros, e apresentam trismus, syncopes repetidas, delirio, agitação e coma, a que se segue a morte no fim de sete a dez dias. A terceira fôrma, hemorrhagica, é caracterisada pelos phe- nomenos correlativos de uma dyscrasia sanguínea profunda e rapida ; donde a tendencia ás hemorrhagias, que se manifestam por todas as vias, começando pelos vomitos e evacuações que são de sangue ; sobreveem epistaxis, hemoptisis, metrorrhagias, pontilhado subcutâneo sob a fôrma de manchas petechiaes, e outras perdas, que assim repetidas e continuadas levam os indi- viduos a um estado de anemia profunda que pôde durar alguns mezes e termina quasi sempre pela morte, no meio de accidentes nervosos, ataxicos. Além destas fôrmas que se referem á marcha aguda, e sub- aguda do envenenamento pelo phosphoro, ha outra de marcha lenta e chronica que caracterisa a intoxicação profissional, isto é, aquella a que estão sujeitos e de que são de ordinário VENENOS IIEMATICOS 199 victimas os indivíduos que trabalham com o phosphoro, na fabricação dos palitos phosphorieos e outros artigos em que entra este metalloide ; elles experimentam lentamente os effeitos da acção hematica globular do phosphoro, chegando, mesmo sem hemorrhagias, a um estado dystrophico e cachetico, em que se accentua, como nota dominante especial, a necrose dos ossos maxillares, e sobretudo do maxillar inferior. Já se tem visto esta necrose invadir os ossos do craneo e causar a morte por meningite. Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos. No habito externo nota-se tez ictérica mais ou menos accen- tuada, conforme o período e fôrma do envenenamento, em que o indivíduo succumbiu. Abrindo-se o cadaver pôde-se achar ainda no estomago e intestinos fragmentos de phosphoro e restos da massa ou pre- paração ingerida, que se reconhece pela phosphorescencia e cheiro alliaceo. A mucosa do estomago apresenta-se rubra em diversos pontos de sua superfície, assim como no esophago e intestinos, placas echymoticas ou gangrenosas, mesmo ul- cerações, e, segundo Tardieu, conira a opinião de Rabuteau, até com perfurações da parede. Si estas lesões falham, encon- tram-se sempre, pelo menos, pequenas manchas echymoticas ou pontos hemorrhagicos no mesentereo, no peritoneo visceral, na pleura, no pericárdio, e mesmo no endocardio. Os pulmões e o encephalo nada apresentam de particular ; o coração em geral é mollee descorado, contendo sangue difíluente. As lesões, porém, si não caracteristicas, ao menos mais importantes, são representadas pela degeneração gordurosa do fígado, rins, glandulas do estomago, coração e por ultimo todos os musculos. Pela primeira vez observada por Brera, em 1789, só foi melhor estudada e convenientemente interpretada 200 PHOSPHORO depois por Hauff de Kirchkeim e por GeorgeLewin, ern 1861, e outros que se lhe seguiram. A steatose não é uma lesão ana- tómica exclusiva do envenenamento pelo phosphoro ; encon- tra-se em alguns outros envenenamentos, bem como em certas condições pathogenicas diversas. Em todo o caso ella se desen- volve no fígado e nos rins pela transformação das cellulas hepá- ticas e renaes, que se enchem de granulações gordurosas em grande quantidade e acabam por desapparecer completamente, deixando estas ultimas os tubos descamados ; os glomerulos de Malpighi experimentam a mesma alteração, o que explica o apparecimento da albumina. As fibras musculares ora perdem simplesmente a sua estriação, ora são totalmente substituidas por um conjuncto de granulações gordurosas. Diagnostico differencial O envenenamento pelo phosphoro difScilmente se poderá confundir com qualquer moléstia, quando se assiste desde o principio á explosão dos symptomas, e portanto quando se pôde surprehender as propriedades physicas caracteristicas da pre- sença de phosphoro, na boca e nas matérias vomitadas. Passado porém este periodo e sobretudo nas fôrmas menos agudas do en- venenamento, elle póde se confundir com a ictericia grave e com a steatose hepatica. A ictericia grave, maligna ou perniciosa (atrophia aguda do fígado) apresenta uma semelhança tal de symptomas que alguns clinicos, sobretudo allemães, teem chegado a negar a existência daquella entidade mórbida, dando por conta do mesmo envenenamento pelo phosphoro os casos daquella mo- léstia que a sciencia tem registrado. Entretanto julgo que se a deve considerar antes como uma affecção rara, é verdade, mas perfeitamente descripta por Monneret e que se distingue do envenenamento, não fallando nos phenomenos iniciaes, pela VENENOS HEMATICOS 201 icterícia mais precoce e mais generalisada, pela febre que a acompanha e ausência de períodos de remissão ou sedação prolon- gada, como se observa pela acção do phosphoro. Quanto á steatose symptomatica do figado e outros orgãos, ao passo que pôde faltar no phosphorismo agudo, observa-se em certas moléstias, taes como a atrophia amarella aguda do figado, e certos envenenamentos, particularmente pelo arsénico ; mas em nenhum caso ella se mostra mais generalizada, e so- bretudo mais rapida em desenvolver-se do que na intoxicação pelo phosphoro. O arsenicismo agudo pôde até certo ponto confundir-se com o envenenamento em questão ; mas naquelle os accidentes gás- tricos são muito mais notáveis, a sensação de constricção na garganta, mais constante, as erupções cutaneas mais frequentes e caracteristicas, as hemorrhagias menos abundantes, as lesões communs em geral mais accusadas. Mechanismo da acção toxica Quando se procura explicar a absorpção do phosphoro e dar conta da intensidade e violência de sua acção, tratando-se de um corpo insolúvel e que evidentemente nesse estado ê levado em totalidade ou em parte á torrente circulatória, o que ainda comprova a sua eliminação em natureza pelo suor e pelas urinas, que se tornam phosphorescentes, reconhece-se que nenhuma das theorias apresentadas satisfaz o espirito. A primeira, e mais antiga, partilhada por Munk, Leiden e outros, é a que admitte a oxydação do phosphoro dentro do esto- mago e sua transformação em acido phosphoroso e phosphorico, ou também phosphatico que representa a mistura dos dous. Esta doutrina é de todo o ponto insustentável, depois das expe- riências positivas de Tardieu, Rabuteau e outros, que demons- tram áevidencia: Io, que o phosphoro pôde demorar-se muito 202 phosphoro tempo dentro do tubo digestivo sem se oxydar, e ser expellido em grande parte pelas fezes; 2o, que nenhum dos compostos oxygenados de phosphoro é toxico; antes parecem inoffensivos, podendo ser administrados em grandes dóses, sem perigo; sómente o acido phosphorico poderia produzir phenoménos de envenenamentos, porém muito differentes e devidos á sua acção do contacto, irritante e corrosiva, como os outros agentes desta natureza. Donde resulta claramente que, si nós podessemos oxydar de prompto o phosphoro, logo depois de ser ingerido, teríamos o meio mais seguro e efficaz de conjurar os seus effeitos; seria esse meio o verdadeiro antídoto daquelle veneno l. Pois bem, ó pouco mais ou menos isso que se con- segue com a applicação em taes casos da essencia de tere- benthina do commercio, como adiante mostrarei, aproposito da therapeutica A segunda theoria é a dos que acreditam que o phosphoro é realmente absorvido em natureza, porém dissolvido pelas ma- térias graxas e albuminoides contidas nos suecos gastro-intes- tinaes e nas substancias alimentares. Esta doutrina, aliás mais razoavel e verosímil do que a precedente, deixa ainda muito a desejar na explicação do facto, quando se pensa na quan- tidade extremamente pequena de princípios daquella natureza existentes nos suecos digestivos, e na demora relativa da absorpção dos corpos gordurosos; entretanto, ébem possível e provável, que uma certa proporção de phosphoro seja assim levado átorrente circulatória. A terceira theoria, adoptada por Schuchard, Dybkousky e outros, é a que pretende explicar a absorpção do phosphoro no estado de hydrogeno phosphoretado, appellando para a identi- 1 Todavia, é preciso não dissimular que, segundo uma observação de Personne, a oxydação incompleta do phosphoro poderia ser perigosa, porquanto, o pliosphoro dissolvido em acido phosphoroso espalha-se com muito mais facilidade na circulação, e torna-se extremamente venenoso. E’ talvez por isso que Gubler não i’epellô inteiramente a idéa de que uma parte da acção toxica do phosphoro deve ser attribuida aos seus oxydos. VENENOS IIEMATICOS 203 dade de acção, e para a semelhança de effeitos com aquelles que se observam nos casos de envenenamentos por este gaz, di- rectamente, ou, quando após a ingestão do phosphureto de cálcio, elle se desenvolve dentro do estomago pela acção do sueco gástrico. Sómente cumpre saber donde vem o hydrogeno para esta transformação do phosphoro. E’ verdade que, se- gundo Bellini, existe sempre hydrogeno livre dentro do tubo intestinal, proveniente da digestão dos alimentos. Por outro lado, areacção alcalina do sueco intestinal póde explicara pro- ducção do hydrogeno phosphoretado, visto como este gaz, também chamado phosphamina, se prepara no laboratorio aquecendo-se o phosphoro em presença de um alcali terroso. Mas lá a quantidade, quer de alcali, quer de hydrogeno livre, ó tão pequenaquetorna a explicação pouco plausível, não podendo pois ser acceita, sem reservas, no estado actual da sciencia. Finalmente, uma quarta theoria admittida, em parte, por Orfíla, Reveil, Bamberger, Eulenberg e Gubler, a mais se- ductora e verosímil, é a de que o phosphoro é absorvido e penetra na rede capillar dos tecidos á custa da sua extrema volatilidade e da diffusão de seus vapores, seja por si mesmos, seja acarretados pelo hydrogeno phosphoretado, pois é pre- ciso ainda notar que, segundo Nysten, Lewin, Múnke Leyden, contra a opinião de Lechorché, esse gaz não é toxico por si mesmo, e sim por causa das partículas de phosphoro, ou antes, do vapor deste metalloide, de que se carrega 11a sua prepa- ração . Si das theorias com que se tem pretendido explicar a ab- sorpção, e sobretudo a absorpção rapida do phosphoro, passarmos a considerar a sua acção sobre 0 sangue, e 0 mecanismo da morte, não nos acharemos menos embaraçados, porquanto, a despeito da reconhecida e provada propriedade altamente re- ductora do phosphoro, ligada á sua extrema affinidade para 0 oxygeno, é facil mostrar como ó deficiente e insustentável a theoria, aliás patrocinada por Eulenberg, Reveil, Lecorché, que 204 PHOSPHORO sebasêa nesta pretendida acção, exercida pelo phosphoro sobre a hemoglobina normal, produzindo um estado de anoxhemia e anemia brusca, e phenomenos de verdadeira asphjxia interna. Gubler combateu, com razão e vantagem, esta hypothese, que parece não resistir a uma discussão aprofundada. « Como, diz elle, conciliar a idéa de privação de oxygeno, com os phe- nomenos de excitação geral que se seguem á administração do phosphoro em dóses therapeuticas ? E si as dóses toxicas matam por anoxhemia, e, conseguintemente, por parada do movimento nutritivo, como é que a economia se apresenta sobrecarregada de productos de desassimilação organica ? Além disso, um dos pontos fundamentaes sobre os quaes se apoia a doutrina da anoxhemia, está longe de ser solidamente estabelecido ; em logar de sangue negro da asphyxia, tem-se achado sangue rutilante. (Currié, Vigier, etc.) Demais, se- gundo um calculo muito bem deduzido de Dusart e Parrot, 15 milligrammas de phosphoro absorvem, para se oxydar, sómente 18 milligrammas de oxygeno, seja 12 co. Ora, cada inspiração introduzindo cerca de 25 a 30 00 de ar, isto é, 5 a 6 00 de oxy- geno, segue-se que duas boas inspirações suppririam o cres- cimento de despeza determinado pela combustão do phosphoro, e bastaria elevar de 18 a 20 o numero das respirações em cada minuto, para anniquilar completamente os effeitos funestos de 15 milligrammas de phosphoro, renovados a cada instante ; o que excede a toda realidade. » Segundo um calculo mais simples de Hermann, um centi- gramma de phosphoro, que já é uma dóse toxica, consumiria para se transformar em acido phosphorico somente 13 centi- grammas de oxigeno, perda sem duvida insufficiente para explicar a morte de um adulto. Currié, Vigier, Jeannel e outros, estabelecem, que uma perda mesmo cinco vezes maior, pro- duzida, portanto, por cinco centigrammas de phosphoro (dose mortal), não pôde ser sensivelmente compromettedora para a hematose. VENENOS HEMATICOS 205 Nestas condições, Gubler imaginou uma theoria realmente muito engenhosa e seductora, com quanto ainda carecendo de demonstração pratica. Para elle os symptomas de phospho- nismo agudo reconhecem por causa um phenomeno molecular, desprezado até aqui, e vem a ser o poder ozonificante do phos- phoro que arde ou queima. Com effeito, por esta combustão, uma minima quantidade de oxygeno é desviada da funcção re- spiratória ; mas a porção restante, que é a quasi totalidade, adquire a cada instante um crescimento enorme de poder com- burente. Não sómente a hematocausia torna-se mais intensa, mas a desnutrição, inclusive a dos globulos sanguíneos, se acha singularmente accelerada ; a anemia succede a esta actividade desordenada, e os resíduos orgânicos, desdobrados em matérias graxas (dahi a steatose), bem assim outros corpos diversos, accumulam-se nos tecidos, reduzem os orgãos á impotência, embaraçam as grandes funcções e tornam a vida impossível. A acção energica do ozona seria ainda secundada pelo facto da condensação do oxygeno preexistente, donde resultaria dimi- nuição de pressão dos gazes interiores, e, por consequência, introducção, em cada inspiração, de uma quantidade de oxygeno superior á média normal. A falta de combustibilidade e ausência de ozonificação con- secutiva explicariam, segundo a theoria de Gubler, a innocui-* dade do phosphoro amorpho ou vermelho, que, todavia, partilharia com o outro a propriedade de alterar o organismo, penetrando lentamente na sua trama, como na intoxicação lenta pelo arsénico ou pelas emanações saturninas. Segundo Ritter, citado por Bellini, o phosphoro se comporta mais provavelmente como o arsénico, determinando a dissociação dos globulos sanguíneos, sua deformação e até sua destruição em parte, donde a hypo-globulia rapida que se manifesta e a producção facil de crystaes de hemoglobina. Esta theoria é muito mais admissivel do que a da reducção da hemoglobina, por mais de uma razão, insustentável. 206 PHOSPHORO A’ vista do que acabo de expor, repetirei com Dragendorff, que, — « não sabemos ainda por que razão o phosphoro é um veneno tão temivel, mesmo em doses fracas ». Tratamento Convém, como sempre, afim de impedir a absorpção do veneno, lançar mão de vomitivos ; e neste caso, si já se tem a certeza de que se trata do envenenamento pelo phosphoro, usar de preferencia, segundo o conselho de Damourette e Bam- berger, do sulfato de cobre, que, além da propriedade emetica, preenche também o papel de antidoto, visto como é reduzido pelo phosphoro ao estado de phosphureto de cobre, insolúvel. Deve-se, neste caso particular, condemnar o emprego dos oleosos, que, dissolvendo o phosphoro, só poderiam favo- recer a sua absorpção, aggravando as condições do paciente. Por minha parte proscrevo também o emprego dos alcalinos, por exemplo, das cinzas, do sabão, e mesmo da magnesia, que ainda hoje alguns recommendam seguindo a tradição dos que esposavam a theoria da oxydação do phosphoro, para a sua absorpção, afim de neutralizar os ácidos formados; ao passo que estes meios, sobre serem inúteis, podem ser nimiamente prejudiciaes, dando logar, por uma reacção muito conhecida, à producção de hydrogeno phosphoretado, tão venenoso, sinâo mais, do que o proprio phosphoro. De muito maior proveito são certas substancias inertes, que obram mecanicamente, envol- vendo o veneno e roubando-o por assim dizer ao contacto com as superfícies absorventes (farinha, polvilho, etc.) O medicamento, porém, unicoque até hoje se tem mostrado mais efficaz, e de mais confiança contra o envenenamento pelo phosphoro, é a essencia de terebenthina do commercio; deve, por- tanto, ser administrada incontinenti. Lembrada pela primeira VENENOS HEMATICOS 207 vez por Letheby e Personne 1 sob a influencia de um duplo erro de doutrina ou apreciação, é ella ainda empregada hoje como o melhor antidoto do phosphoro, por um principio theorico inteiramente diverso daquelle que presidiu sua primi- tiva applicação, isto é : admittida naquelle tempo a oxydação do phosphoro como condição de sua absorpção e de sua acção toxica, e sendo a essencia de terebenthina um hydro-carbureto, nada mais natural do que oppor-se-lhe esta substancia para im- pedir aquella transformação. Mas está provado que não sómente não é pela oxydação que o phosphoro se torna venenoso, como nem a essencia de terebenthina, por não conter em sua composição oxygeno, é apta para impedir aquella metamorphose; pelo contrario, convém justamente promover o mais depressa e com- pletamente possível a oxydação do phosphoro, e nenhum meio pratico se conhece mais apropriado do que a dita essencia, que, como todas as outras, exposta ao ar, retem uma certa quan- tidade de oxygeno, e de oxygeno condensado, isto é, de ozona, que ainda melhor se presta áquelle effeito. Constitue-se, pois, a essencia de terebenthina neste caso, segundo a theoria de Thiernesse, que eu adopto, apenas o vehi- culo ou portador do verdadeiro antidoto que é o oxygeno, e cuja acção não se exerce sómente sobre a porção do phosphoro não absorvido, mas também sobre a que já o tiver sido, repa- rando ou reconstituindo o edifício globular do sangue, profun- mente alterado por aquelle agente. Com effeito, Mayer e Rabu- teau aconselham as inhalações do oxygeno como muito profícuas em taes casos. Gubler acredita que as outras essencias hydro-carbonadas preencheriam o mesmo fim, em virtude da mesma propriedade ozonificante. Entretanto, cumpre não dissimular que esta theoria 1 Segundo Gubler e Marcos Sbriziolo, antes destes, já o Dr. Andant, de Dax, em 1868, havia experimentado com bom resultado este meio, aliás empregado de longa data em uma fabrica de palitos phosphoricos de Staflord, na Inglaterra, para preservar os operários da influencia deleteria do plios- horo. 208 PHOSPHORO é inconciliável com a admittida pelo autor dos commentarios therapeuticos para explicar a acção do phosphoro sobre os te- cidos orgânicos, e não poderá prevalecer, si esta ultima for de facto a verdadeira. Seria absurdo administrar ozona, quando a introducção ou a formação deste corpo na economia for a causa das perturbações graves que ella experimenta. E’ bem possível, pois, que a theoria da applicação da essencia de terebenthina contra este envenenamento seja a es- tabelecida por Julio Lefort, e vem a ser que a essencia forma com o metalloide dous compostos muito pouco toxicos (ainda assim toxicos !), a saber : os ácidos hi/pophosphoroso, mono e di-terebenthico. Nestas condições é indiíferente o estado ou qualidade da essencia, seja a do commercio, bruta, seja a rectifícada e pura do laboratorio. Bellini aconselha também o hydrato de peroxydo de ferro. Depois, si a terminação é favoravel, cuida-se de combater a irritação gastro-intestinal, pelos meios ordinários : regimen brando, emollientes, etc. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Em virtude da facilidade extrema de oxydação o phosphoro difficilmente se conserva no estado elementar 1 nos corpos, e em poucos dias desapparece2 transformando-se em acido phospho- 1 Refere Fonssagrives que Lockyer acaba de demonstrar que o phoaphoro, aquecido em um tubo, com cobre, fornece um gaz que revela ao espectroscopio as fachas caracteristicas do hydrogeno. Segundo este ensaio, o phosphoro não seria mais um corpo simples, mas um composto de hydrogeno e um radical ainda não determinado : é um ponto de vista inteiramente novo, cuja eluci- dação não se deve fazer esperar, 2 Fresenius em um caso de envenenamento pelo phosphoro, no exame a que procedeu depois de sete dias, não encontrou mais o veneno ; e assim deve succeder todas as vezes que os corpos forem autopsiados e as visceras expostas ao contacto do ar. Naquelles que o não forem, o phosphoro poderá ser, e segundo Sbriziolo tem sido, encontrado ainda muitas semanas depois da inhumação. Bellini recommenda examinar sobretudo a matéria dosvomitos, ou o conteúdo do estomago, onde este veneno se pôde conservar inalterado durante esse mesmo prazo. VENENOS HEMATICOS 209 rico depois em phosphatos, cujo reconhecimento nada prova nas investigações toxicologicas, porquanto, neste estado, como já disse, existe elle na nossa economia normalmente em proporção considerável (2 a 3 kilogr.); é por isso que se teem multiplicado os processos e artifícios destinados á pesquiza daquelle agente em natureza. Póde-se descobrir directamente o phosphoro nas matérias vomitadas, na urina, e até mesmo nas fezes, observando-se no escuro o phenomeno da phosphorescencia, mais accentuado pela agitação, e procurando-se no claro, com o auxilio de uma lente, pequenas partículas do veneno para submettel-as aos meios usuaes de analyse. Recolhe-se para esta analyse o conteúdo do estomago, do tubo intestinal, o sangue e porções do fígado. E’ preciso que o exame se estenda a todo o tubo digestivo, porque Dragendorff diz ter uma vez encontrado o phosphoro no ccecum, quando não existia nem no estomago, nem no duodeno. Ha dous methodos a seguir na pesquiza do phosphoro : um que chamarei physico, e consiste em evidencial-o pelas suas propriedades physicas caracteristicas (cheiro e phosphores- cencia) ; e outro, chimico, que tem por fim demonstrar a pre- sença daquelle corpo por algumas de suas reacções mais sen- síveis, pelos caracteres de alguns de seus compostos. E’ ao primeiro methodo que refere-se o processo devido a Mitscherlich, que tão justa nomeada e reputação tem adquirido. Methodo physico. Io processo, de Orfila. Examina-se directamente as matérias contidas no estomago ou vomitadas, afim de separar as partículas phosphorescentes ; quando isso não é possível, elle recommenda dividir essas matérias em duas por- ções : numa lança-se um pouco de solução de nitrato de prata, que, pela reducção ao estado inetallico, dará uma côr de castanha escura ou de azeitona, depois preta; a outra porção aquece-se sobre uma chapa afim de verificar em diversos pontos a chamma branca que produz a combustão do phosphoro. Este ensaio, TOXICOLOGU 14 210 PHOSPHORO porém, é muito deficiente e incompleto para autorizar uma con- clusão rigorosa, e por isso justamente esquecido ou abandonado. 2o processo, de Lipowitz. Faz-se digerir por algum tempo em vaso fechado a matéria suspeita, levemente acidulada por acido sulfurico, com alguns pedacinhos de enxofre, do tamanho de ervilhas, agitando-se de vez em quando a mistura; deixa-se resfriar, e retira-se os fragmentos de enxofre, que se apresentam revestidos e impregnados de phosphoro; o que se verifica, attritando-os e quebrando-os entre os dedos, depois de bem enxutos. Nota-se o cheiro ea fumaça caracteristica, luminosa quando se observa no escuro, da mesma fôrma que succede com palitos phosphoricos de uso coinmum, em que a phos- phorescencia persiste tenazmente nos dedos; é um ensaio que se pôde reproduzir em todo o tempo, conservando-se esses fragmentos dentro d’agua. Não é preciso proceder como manda Lipowitz á distillação, seja em um apparelho qualquer, seja no de Mitscherlich, como aconselha Mulder, porque esta opera- ção nada adianta áquelle ensaio, aliás muito mais simples, em relação ao phosphoro acamado sobre os pedacinhos do enxofre; por outro lado, não exerce acção sobre o que tem penetrado o seu interior. Este processorecommenda-se especial- mente para os casos em que os orgãos a examinar são enviados aos peritos em maceração no álcool ou contendo accidentalmente outros productos, que, assim como os vapores deste liquido, impedem o phenomeno da phosphorescencia i. 3o processo, que Tardieu attribue a Reveil, Dragendorff a Taylor, e Naquet a uma commissão da Academia de Sciencias, composta de Dumas, Pelouze e Cl. Bernard. Funda-se no emprego do sulfureto de carbono como dissolvente do phos- 1 0 autor manda também, para completar o ensaio, tratar o liquido ou aã matérias a analysar por agua chlorada, bem como os fragmentos de enxofre por acido azotico, afim de levar tanto o phosphoro depositado sobre o en- xofre, como o que tivesse escapado a este destino, ao estado de acido phos- phorico, e depois caracterisal-o pelos seus reacti vos, que mais adiante serão mencionados. Por este methodo diz Lipowitz que chega-se a reconhecer nos alimentos 1/140 de phosphoro ; tal a sua sensibilidade. VENENOS HEMATICOS 211 phoro, que depois separa-se por evaporação espontânea do vehiculo. Não tem a menor vantagem sobre os outros e antes lhes é inferior : Io, porque a dissolução não se póde eífectuar convenientemente, sinão seccando-se primeiro as matérias sus- peitas no vazio da machina pneumática, no que se gasta um tempo immenso ; em 2o logar, porque o sulfureto de carbono dissolve com o phosphoro a gordura contida naquellas ma- térias, o que traz complicação para os ensaios ulteriores. Fio. 5 Estes podem, entretanto, ser executados no mesmo residuo im- puro, promovendo-se a superoxydação do phosphoro e sua trans- formação pelo acido nitrico ou pelo chloro em acido phosphorico, facil de se caracterisar pelos seus reactivos ordinários; para isso Naquet lembrou um meio, que se basêa no emprego do mesmo apparelho que Flandin e Danger imaginaram para o reconhecimento do arsénico (fig. 5). Mistura-se a dissolução sulfo-carbónica de phosphoro com álcool bem puro, introduz-se esta mistura em uma pequena lampada de álcool, cuja mécha deve ser de amiantho fino ; accende-se, e 212 PHOSPHORO recebe-se a chamma no tubo do apparelho ; pela combustão formam-se gazes sulfuroso e carbonico, vapor d’agua e acido phosphoroso. A agua condensa-se no tubo e cahe na capsula arrastando comsigo este acido e em parte aquelles dous gazes ; evapora-se até seccar o liquido obtido, ajunta-se acido nitrico, evapora-se de novo, e depois de se ter redissolvido na agua ammoniacal, verifica-se a presença do acido phosphorico pelas suas reacções caracteristicas. Apezar deste artificio, o processo, além de não ser mais rigoroso, pôde até induzir a erro si acaso o individuo que se diz envenenado usou, na sua alimentação, de miolos ou mesmo de ovos, que encerram naturalmente phosphoro no estado de acido phospho-glycerico. Assim, parece provado que é preferivel sempre recolher e apresentar á justiça, como peça de convicção, o phosphoro em substancia. No tratado de toxicologia de Marco Sbriziolo encontra-se a descripção minuciosa de outro processo fundado sobre o emprego do sulfureto de carbono, devido a Selmi, e que elle destina especialmente para os casos em que o phosphoro se achar nas vísceras e líquidos orgânicos de mistura com alguma das substancias que costumam embaraçar ou impedir total- mente o phenomeno da phosphorescencia, por exemplo, quando ellas estiverem conservadas no álcool. Por muito complicado, e sem vantagens assignaladas sobre os outros que geralmente são de preferencia empregados nesta pesquiza, não dou delle aqui noticia detalhada e limito-me a esta referencia. 4o processo, de Mitscherlich. Tem por fim a separação e reconhecimento do phosphoro pela distillação, em condições convenientes. Executa-se em qualquer dos apparelhos de vidro, destinados nos laboratorios a essa operação, devendo porém ser munidos de peças refrigerantes apropriadas à con- densação mais completa dos vapores de phosphoro. O ap- parelho denominado de Mitscherlich não foi expressamente inventado para este ensaio toxicologico ; delle se serviu muitas vezes o seu autor para a preparação do ether e outros VENENOS HEMÀTICOS 213 productos obtidos por distillação. Consta em geral de um balão de vidro, communicando com um longo tubo recto ou em espiral (serpentino) também de vidro, immerso em agua fria constantemente renovada, e despejando em um frasco os pro- ductos que distillam (figs. 6 e 7). Em vez do balão pôde ser Fia. 6 empregada uma retorta, communicando então com um re- frigerante de Liebig, sendo preferível o serpentino, como peça condensadora, por offerecer, em menor volume, muito maior superfície. As matérias suspeitas são reduzidas a favor de um pouco d’agua a uma especie de papa, e aciduladas por acido sulfurico, chlorhydrico ou tartarico, com o duplo fim: Io, de saccharifícar os princípios amylaceos que podem envolver e occultar o phosphoro ; 2o, no caso de exame sobre matérias putrefactas, neutralizar a ammonea que se forma na decom- posição pútrida dos corpos, e que, na qualidade de alcali, con- verteria o phosphoro em hypophosphito e hydrogeno phos- phoretado, impedindo o phenomeno da phosphorescencia. 214 PHOSPHORO Na opinião de Molir, este receio é exaggerado, sinão mesmo infundado, porquanto, sendo a ammonea extremamente volátil, se desprenderá toda nos primeiros momentos da distillação, antes de atacar o phosphoro. Malapert, de seu lado, reprova o emprego do acido sulfurico neste ensaio, pelo inconveniente de introduzir um principio estranho que pôde ter sido a causa de um envenena- mento, e cuja ausência nas matérias a analysar, deve ter sido previamente reconhecida e demonstrada, o que, aliás, é facil Pia. 7 de praticar. Em todo o caso parece-me que, podendo haver maior inconveniente em não acidular as matérias destinadas a esta pesquiza, deve-se fazel-o, com a cautela acima recom- mendada, por meio do acido sulfurico, tartarico ou mesmo chlorhydrico 1 (nunca o azotico), conforme o processo geral de destruição da matéria organica, que se tem em vista em- 1 Sómente estes últimos não exercem uma acção tão prompta e completa sobre as substancias amylaceas. VENENOS HEMATICOS pregar, de modo a aproveitar o producto desta operação, no caso de resultados negativos. As matérias são aquecidas em B. M., ou em B. de areia, ou finalmente em forno de gaz ou de carvão. Durante a distillação do phosphoro, como se trata de caracterisar este corpo pelo plienomeno da phosphores- cencia, é de rigorosa necessidade proceder a essa observação na obscuridade a mais perfeita, e para isso, ou colloca-se todo o apparelho em um compartimento completamente escuro, ou envolve-se a peça refrigerante com um panno preto, bem opaco, deixando apenas uma estreita fresta ou abertura por onde se acompanha a marcha da operação. Então, si ha phosphoro, previstas e evitadas todas as causas de erro, que mais adiante indicarei, por pequena que seja a quantidade, nota-se em vários pontos do tubo resfriado ou nas voltas do serpentino, scintillações ou rastilhos de luz viva e fugaz, que se succedem amiudadamente emquanto dura a distillação e condensação dos vapores de phosphoro. Nas condições mais favoráveis de successo este apparelho é de uma sensibilidade prodigiosa, como se pôde avaliar pelos exemplos seguintes: Fresenius e Neubauer observaram a phosphorescencia durante meia hora, com uma solução de um milligr. de phosphoro em 200.000 partes de vehiculo ; Husemam e Marmé apreciaram distinctamenteo mesmo phenomeno, du- rante cinco horas, com o conteúdo do estomago de um coelho envenenado com 1 gram. de oleo phosphorado. E’ preciso evitar escrupulosamente que algum raio lumi- noso, proveniente ou do fóco de calor que aquece as matérias, ou de outra qualquer fonte, se vá applicar sobre a peça con- densadora e perturbar o resultado da observação. Além disso, cumpre igualmente verificar, antes da operação, sendo possivel, a ausência de qualquer dos corpos que podem em- baraçar ou mesmo nullificar o phenomeno da phosphores- cencia; taes são: o petroleo, obenzol, o creosoto, o alcatrão, o sulphureto de carbono, o acido sulphydrico, a ammonea, o 216 PHOSPHORO gaz earbonico, o ethyleno, o ether sulphurico, o álcool.e a es- sência de terebenthina 1. De todos estes corpos são sómente os dous últimos que mais interessam ao toxicologista, relativa- mente á pesquiza do phosphoro : o álcool, porque serve geral- mente de meio de conservação para as vísceras e outras maté- rias que não podem ser submettidas incontinenti á analyse toxicologica ; e a essencia de terebenthina, porque se deve suppor que, si o indivíduo envenenado pelo phosphoro recebeu algum soccorro medico, tomou esta substancia que é o seu melhor antídoto. Nestes casos, pois, não se póde contar com a prova da phosphorescencia no apparelho de Mitscherlich. Dahi vem que, si observado claramente este phe- nomeno luminoso, nenhuma duvida póde ficar sobre a presença do phosphoro, quando o resultado for negativo não se deve abso- lutamente concluir pela ausência daquelle corpo, ainda mesmo que nenhuma das causas citadas tenha influenciado, porquanto, segundo Scherer e outros, si não houver mais do que uma peque- nina quantidade de phosphoro, elle póde oxydar-se mesmo dentro do balão ou retorta, e negar-se á distillação. Para evitar-se mais esta possibilidade de erro, e mesmo porque no caso de resultado positivo a maior parte do phosphoro, si não todo, se oxyda durante a condensação dos vapores, impedindo a apresentação da peça de convicção. Scherer e Fresenius e Neubauer aconselham impedir a phosphorescencia, fazendo passar, ou desenvolvendo no interior do apparelho, uma corrente de gaz earbonico, durante a distillação que, neste 1 Sbriziolo inclue também neste numero a infusão de chá ; PolstoríF e Meuschinz, citados por Chandellon, indicam igualmente, como se achando no mesmo caso, os dous chloruretos de mercúrio. Schwanert, citado por Otto, também observou que, além destes, muitos outros compostos metallicos impedem a phosphorescencia no apparelho de Mitscherlich, provavelmente porque transformam o phosphoro em phosphu- retos lixos nas condições deste ensaio: neste caso se acham os saes solúveis de chumbo, de prata, de bismutho, de cobre e de cádmio ; e alg ins iaso- luveis, como o sulfato de chumbo e o chlorureto de prata. Remedeia-se, porém, este inconveniente levando as matérias suspeitas ao apparelho de Dusart e Blondlot, onde os phosphuretos são facilmente reduzidos pelo hydrogeno nascente, e o phosphoro se reconhece pelo modo que será indi- cado. VENENOS HEMATICOS 217 caso, póde ser feita mesmo no claro ; para isso basta lançar dentro do balão ou retorta alguns pequenos fragmentos de már- more, que, em presença do liquido acido ahi contido, dará logar á formação desse gaz, conforme Scherer aconselha (Sbriziolo). Este artificio, que póde ser empregado desde o começo da operação, ou em meio delia quando até ahi seu resultado é negativo, não contraria sinão dentro do apparelho a exhibição da phosphorescencia, porque permitteobserval-a depois pela agitação do liquido ao qual vae ter todo o phosphoro distillado, nestas condições, sem alteração ; póde-se, pois, recolhel-o e guardal-o para servir de peça de convicção, ou submettel-o a novos ensaios ulteriores. Assim, alguns autores recommendam oxydal-o pelo acido nitrico ou pela agua de chloro concentrada, e verificar no liquido ou no residuo de sua evaporação os cara- cteres da presença do acido phosphorico ; é, porém, menos rigo- rosa e concludente esta prova, porque, segundo Calvert, for- mam-se, durante a putrefacção das matérias animaes, compostos phosphorados voláteis, que dão por oxydação acido phosphorico. Methodo chimico. Io processo, de Scherer. Funda-se este processo na reacção que exercem sobre o nitrato de prata o phosphoro e seus compostos oxygenados inferiores (acido phosphoroso e hypophosphoroso); o sal é reduzido, separa-se neste caso a prata metallica de mistura com uma certa quanti- dade de phosphureto de prata, ou sómente este phosphureto. Desta reacção se póde tirar partido, como um ensaio com- plementar do apparelho de Mitscherlich, recebendo-se os pro- ductos que distillam na solução do sal argentico em vez- de agua distillado, e recolhendo-se o precipitado para submettel-o aos ensaios ulteriores de que é susceptivel, e adiante serão in- dicados. E’ tão sensivel a reacção, que se realiza mesmo com os vapores de phosphoro sobre uma lamina de papel de filtro, pre- viamente imbebida na solução do sal argentico ; executa-se em um pequeno balão ou tubo de ensaio, que se tapa com uma rolha de cortiça, levemente chanfrada de um lado e em cuja extre- 218 PHOSPHORO midade interior se suspende a tira de papel sensibilisado ; depois que se aquece por algum tempo o liquido introduzido no tubo, o papel se torna ennegrecido mais ou menos fortemente, conforme a quantidade de phosphoro 1. E’, como se vê, um ensaio commodo, simples e expedito, mas que, entretanto, não tem valor absoluto ; si é verdade que no caso de resultado negativo póde-se estar seguro da ausência de phosphoro, quando o papel argentico é ennegrecido este effeito pôde ser dado á conta de varias outras causas; assim, por exem- plo, o acido formico, o acido sulphydrico que póde provir da decomposição das matérias organicas, as próprias particulas organicas, ou outros productos delias emanados, ainda não bem conhecidos, exercem acção reductora sobre o nitrato de prata. Scherer previne a objecção relativa ao acido sulphydrico, recom- mendando proceder ao ensaio, servindo-se também successiva, ou simultaneamente, de um papel imbebido antes na solução de um sal de chumbo, que não é alterado pelos vapores de phosphoro ou seus hypo-acidos e denuncia os menores traços do composto sulfurado. Então, si sómente o papel argenticoaccusar o phe- nomeno da reducção, póde-se excluir a presença do acido sul- phydrico, e as probabilidades crescem em favor do phosphoro. Ainda assim, Fresenius e Neubauer indicaram outra causa de erro, manifestando o receio de que a pequena porção de ozona desenvolvida nesta reacção, pela oxydação lenta do phosphoro, possa escurecer o papel plumbico, independente de acido sul- phydrico, dando logar á formação de um pouco de peroxydo de chumbo (côr de pulga). Este receio é porém infundado, porque das experiencias feitas directamente para elucidar esta ques- tão resulta que em um vaso qualquer, cujas paredes se teem tornado opacas pelos vapores de phosphoro, não se forma aquelle composto saturnino. Demais, quando mesmo tivesse razão de ser a circumstancia lembrada por aquelles chimicos, bastaria 1 Uma simples cabecinha de phosphoro de cêra dá uma serie de expe- riências, inutilisando vários papeis. VENENOS HEMATICOS para assegurar o resultado, segundo o conselho de Dragendorff, substituir neste ensaio o papel plumbico por outro preparado com uma dissolução que fosse igualmente reactivo sensivel para o acido sulphydrico, por exemplo, de nitro-prussiato de sodio, de acido arsenioso, de chlorureto de antimonio, etc. Scherer, porém, não deixou seu processo sem um recurso supremo contra estas objecções. Partindo do principio de que o producto que se precipita no sal de prata, e que tinge ou im- pregna o papel submettido aos vapores de phosphoro, é o phos- phureto de prata, elle aconselha procurar o metalloide no dito papel ou no precipitado formado na respectiva solução. Para isso lava-se com agua fervendo, separa-se toda a prata por meio de acido chlorhydrico ou de agua regia e demonstra-se no liquido a presença do phosphoro pelo molybdato de ammonio, ou outros reactivos igualmente sensiveis. Procedendo desta maneira, uma ultima difficuldade se pôde apresentar, é a de empregar neste ensaio um papel completamente isento de phosphatos; o que, aliás, se me afigura uma circumstancia insignificante para perturbar os resultados. 2o processo, de Dusart, modificado por Blondlot. Dusart observou pela primeira vez que, fazendo passar uma corrente de hydrogeno atravez de substancias contendo phosphoro, acido phosphoroso, ou um phosphureto, e inflam mando-se o gaz, elle arde com chamma verde caracteristica; essa cor mais se accentua quando se esmaga a chamma contra uma superfície branca e fria, segundo Mohr, pela regra de que as cores se tornam mais vivas e intensas em temperaturas mais baixas. 1 Blondlot lembrou-se que o hydrogeno podia ser preparado ao lado das substancias, e o apparelho ordinariamente empregado para esse fim nos laboratorios presta-se a este ensaio com tres condições: Ia, servir-se de um zinco perfeitamente puro, visto como a chamma do hydrogeno muitas vezes apresenta reflexos 1 Este phenomeno observa-se melhor no claro, segundo Dragendorff, e no escuro, segundo Mohr. 220 PHOSPHORO esverdeados, devidos á presença de phosphureto de zinco, que impurifica frequentemente o zinco do commercio; 2a, fazer passar o gaz atravez de fragmentos de potassa, ou de pedra pomes imbebida em uma solução deste alcali, afim de prival-o completamente dos menores traços de hydrogeno sulphuretado, arseniado e antimoniado, que viriam perturbar os resultados ; 3a, evitar a presença de álcool, de ether, oleos voláteis e outras matérias organicas que embaraçam a reacção. Para melhor exito da operação convém mais que o orifício terminal, onde o Figí. 8 gaz é inflammado, seja de platina, porque do contrario o matiz amarellado da chamma, proveniente da soda do vidro, pôde mascarar a cor verde do phosphoro. Mohr imaginou um apparelho muito engenhoso (fig.8),que offerece a vantagem de mostrar ao mesmo tempo a chamma do VENENOS HEMATICOS hydrogeno puro, e a deste gaz depois de atravessar substancias contendo phosphoro. Consta de um frasco productor de hydro- geno, igual ao que foi descripto para a preparação do hydrogeno sulfuretado (íig. 4), que é posto em communicação com um frasco, contendo solução neutra de nitrato de prata, afim de reter o phosphoro que o hydrogeno possa acarretar do zinco ; deste frasco o gaz vae ter a outro onde se acham as matérias suspeitas, por meio de um tubo do qual parte outro em angulo recto, afinado na ponta, por onde se desprende o hydrogeno puro; no frasco terminal existe outro tubo que dá sahida ao hydrogeno phosphoretado. Inflammam-se os dous gazes, e da comparação das duas chammas resulta a certeza da presença ou ausência do phosphoro naquellas matérias 1. A producção da cor verde no apparelho de Dusart e Blondlot para a pesquiza do phosphoro é na realidade extremamente sensivel ; mas, na opinião de Mohr, não é tão comprobativa, como a phosphorescencia e o cheiro. Selmi, no processo complicado a que ha pouco alludi, depois de isolar o phosphoro por meio do sulfureto de carbono, serve-se também, para caracterisal-o, da reacção do hydrogeno e da com- bustão do gaz que então se forma, não para exhibir e observar os caracteres da chamma, mas para recolher os productos dessa combustão, e reconhecer nellesa presença do acido phosphorico. Para isso, elle propõe inflammar o gaz dentro de um tubo horizontal, de 2 centimetros de diâmetro, bruscamente es- treitado e curvo na extremidade, para onde se dirigem os vapores formados, graças a um artificio muito simples de aspiração, que os obriga a precipitarem-se e dissolverem-se na agua contida em um frasco, onde mergulha essa extremidade curva. 1 Não se poderá obter a um tempo as duas chammas, com a clareza pre-, cisa, sinão quando o desenvolvimento gazoso for bastante considerável para alimentar ambas; fóra disso nos contentaremos com a observação alternada das mesmas, em curtos intervallos. 222 PHOSPHORO 3o processo, de Fresenius e Neubauer. E’ um processo mixto e bem combinado, que começa no apparelho de Mitscherlich, e passando pelo processo de Scherer, termina no de Dusart eBlondlot. Distilla-seem B. M. durante uma ou duas horas as matérias suspeitas, aciduladas com acido sulphurico, sem as precauções necessárias para a producção da phosphores- cencia, pelo contrario evitando-se inteiramente o phenomeno, mediante uma corrente de gaz carbonico e recebendo-se os lí- quidos que distillam em um frasco ou provete contendo solução de nitrato de prata. Quando neste reactivo nenhuma alteração se manifesta, póde-se excluir a presença do phosphoro ; si, porém, se forma um precipitado preto, que pelo repouso se deposita, póde elle ser devido a muitas causas cuja natureza cumpre determinar. Para isso recolhe-se o precipitado num filtro, lava-se e submette-se á acção do hydrogeno nascente no apparelho de Dusart e Blondlot, que resolverá a questão. Naquet considera este processo superior ao de Mitscher- lich, tendo sobre elle a vantagem de não ser perturbado em seus resultados pela presença de qualquer substancia estranha. Mohr, porém, não pensa do mesmo modo, e diz positivamente, que não julga demonstrada a existência do phosphoro, sem que se tenha manifestado a phosphorescencia e o cheiro. Comquanto me pareça exaggerada esta opinião, póde-se acceital-a na pratica e tornar mais completo o processo de Fresenius e Neubauer, distillando-se algum tempo primeira- mente no apparelho de Mitscherlich, nas condições mais fa- voráveis para a observação daquellas propriedades physi- cas, e depois, no caso de resultado negativo, proseguindo-se a operação segundo o conselho e as vistas dos dous autores. Outrosim, formado o precipitado no sal de prata, elle póde ser dividido èm duas porções, das quaes, uma seguirá o destino estabelecido no processo, e a outra será submettida ao ensaio já indicado, que tem por fim levar o phosphoro ao estado de acido phosphorico, e caracterisar sua presença pelos seus reactivos mais sensiveis e apropriados. VENENOS HEMATICOS 223 4o processo, de Tassinari, mencionado e descripto por Sbriziolo. Este processo, aliás digno de toda a acceitação, consiste em aquecer a matéria suspeita com uma solução de potassa caustica, em um balão communicando, de um lado, com um gazo- metro de azoto, e do outro, com um systema de bolas de Liebig contendo solução de nitrato de prata, passando primeiramente em um tubo cheio de algodão. Varre-se o ar do apparelho pelo azoto que se faz desprender do gazometro, e aquece-se o balão contendo a mistura, donde resulta a formação de hydrogeno phosphoretado, que vae reduzir o nitrato de prata; deposita-se a prata metallica e fica no liquido acido phosphorico. Separa-se este pelo filtro, precipita-se o resto do sal de prata, não re- duzido, por meio de acido chlorhydrico, evapora-se, e o residuo, constituido exclusivamente por acido phosphorico, submette-se aos ensaios apropriados à sua demonstração. Para terminar a historia toxicologica do phosphoro, resta-me consignar aqui um ultimo methodo de pesquiza, imaginado por Christofle Beilsten, e que se funda na analyse espectral applicada aos vapores do metalloide, atravessando a chamma do hydrogeno. Percebe-se tres riscas verdes, das quaes duas mais intensas, ao lado da risca amarella do sodio ; e, entre esta eaquellas duas, uma terceira, menos visivel. Os dados, porém, fornecidos pelo espectroscopio em re- lação ao phosphoro não são por emquanto bem positivos, e nem os caracteres bastante extremados para que se deposite nelles a necessária confiança. Envenenamento pelo arsénico 0 arsénico, não sendo toxico por si mesmo, no estado ele- mentar, como demonstram numerosas experiencias, e sim indi- rectamente pelas impurezas que encerra ou pelos compostos que forma, sobretudo com o hydrogeno e com o oxygenò, fica 224 ARSÉNICO subentendido, que se emprega na linguagem toxicologica muitas vezes o nome de arsénico, para significar de um modo abreviado esses mesmos compostos, particularmente o acido arsenioso, que é o typo da classe, e cujo estudo resume a historia toxicologica de todos elles. O acido arsenioso é um veneno para a maior parte dos seres que vivem na natureza, 'inclusive os vegetaes. Algumas espe- cies botanicas inferiores, entretanto, escapam a esta regra geral: as soluções arsenicaes nutrem mesmo o mucor imper- ceptibilis D. C., assim como uma alga filamentosa próxima dos Leptomitus ou dos Hygrocrocis. Pelo que diz respeito á especie humana, é um dos venenos mais antigamente conhecidos e mais frequentemente empregados pela mão do crime ; durante um longo periodo da vida da hu- manidade foi mesmo aquelle cujas victimas se contam pelo algarismo mais elevado nas estatisticas judiciarias de que ha noticia, aquelle que por sua vez mais tem occupado a attenção dos chimicos legistas e ao qual deve a toxicologia seu maior im- pulso e desenvolvimento, pela descoberta dos methodos mais precisos e rigorosos de destruição da matéria organica destinados á pesquiza dos venenos em geral. Os factos attribuidos a Calpurnio ; os que se referem â morte de Ladislau, rei de Nápoles e do papa Clemente VII ; a numerosa serie de envenenamentos celebres praticados pelo papa Alexandre VI e outros membros da familia Borgia ; os commettidos pela Marqueza de Brinvilliers e o cavalleiro Santa Cruz, seu amante ; e ainda muitos outros assignalados na his- toria, foram a obra do arsénico, empregado sob diversas fôrmas e denominações, porquanto, segundo todas as probabilidades, a terrivel agua tophana, também chamada aguinha de Nápoles, os pòs florentinos, tão celebres na politica de outros tempos, os pôs de successão, tão vulgarizados no século XVII, os cosméticos orientaes e tantas outras preparações desta natureza, tinham por base de sua composição o arsénico. VENENOS HEMATICOS 225 Os envenenamentos por este corpo, principalmente os produ- zidos com fim criminoso, tornaram-se de certo tempo a esta par- te muito menos frequentes ; ainda assim neste século as esta- tisticas estrangeiras registram grande numero de factos, como se lê em uma estatistica apresentada por Tardieu, em que os envenenamentos pelos arsenicaes figuram 11a proporção de quasi um terço sobre 0 algarismo total dos envenenamentos. 1 Muito 1 No espaço de 50 annos (de 1825 a 1875) a estatística franceza registra 2.045 envenenamentos, dos quaes 804 por conta do arsénico. Enire os factos mais recentes e notorios de envenenamentos múltiplos pelos arsenicaes registrarei dous occorridos ultimamente em França. Um, em que se verificou terem sido os envenenamentos meramente acci- dentaes, occasionados pelo uso de uma partida de vinho, no qual havia sido addicionado acido arsenioso, por engano, em vez de gesso. Este facto deu-se em 1888, em Hyères, onde 435 pessoas foram acommettidas no espaço de cinco mezes de symptomas insólitos, apparentando, pela sua semelhança, o desen- volvimento de uma moléstia nova na localidade, com caracter endemico ou epidemico, e que os médicos não puderam diagnosticar. Conforme se lê no magnifico relatorio apresentado sobre esta questão pelo Dr. Cougit e publi- cado nos Annaes de medicina legal e hygicve publica desse anno, vê-se que a moléstia começava muitas vezes por febre, pelle quente, pulso accelerado, in- jecção das conjunctivas, tosse frequente, inchação daspalpebras e das faces, lingua saburrosa, dores no estomago, sensação de acrimonia na garganta, cólicas mais ou menos fortes, nauseas, vomitos ora alimentares, ora biliosos, e diarrhéa. Por estes symptomas pensaram os médicos de Hyères, a prin- cipio, em uma febre mucosa larvada, e mais tarde em uma grippe particular de natureza infecciosa. Observaram, porém, depois, que na mesma familia os que bebiam ex- olusivamente agua nada soffriam, e a moléstia atacava sómente os que usavam de vinho. A attenção geral foi então despertada para este ponto, e tanto mais se confirmavam as suspeitas do vinho intoxicado, quanto, com a continuação do seu uso, os symptomas se foram accentuando cada vez mais, e não deixaram a menor duvida sobre a sua origem. Os doentes apresentaram então fraqueza muscular dos ante-braços e pernas, prostração, paralysias mais ou menos completas, acrodvnia. desca- mação abundante na planta dos pés, cuja pelle era secca, muito dura, de côr roxa ; manchas escuras pelo corpo, particularmente nas pernas e nos pés, onde, assim como nos ante-braços e nas mãos, cs doentes accusavam viva comichã), e mesmo dores intensas que tornavam-se á noite mais vio- lentas, e com o caracter de dores terebrantes. Essas manchas, mais tarde, eram substituídas por erupções diversas; nunca se observou nesses doentes, dos quaes poucos succumbiram, nem syncopes, nem anciedade precordial, nem convulsões, nem tympanismo. Por essa occasião foi praticada a exhumação e autopsia em 11 cadaveres, únicas suppostas victimas do envenenamento arsenical, seus orgãos sub- mettidos ao exame histologico pelo Dr. Fontan, professor de histologia na escola naval de Toulon, e á analyse chimica pelo perito adiante mencio- nado. O exame histologico revelou como causa da morte dos outros, tuberculose chronica, em um, não podendo o perito, em um segundo cadaver, desco- brir essa causa, por falta de elementos anatómicos ; e quanto aos outros nove, a morte pôde ser attribuida a uma inflammação gastro-intestinal, cuja natureza só a analyse chimica podia revelar. Os peritos encarregados desta, descobriram quantidade notável de arsénico no figado de um ter- TOXICOLOGIA 15 226 ARSÉNICO mais raros nestes últimos annos, elles não desappareceram de todo; Io, pela facilidade com que se encontra o arsénico sob diversas fôrmas no commercio, não só em pharmacias e droga- rias, mas até abusivamente em lojas de ferragens, onde existe fazendo parte da composição de tintas verdes, usadas na pintura; 2o, pela multiplicidade do seu emprego sob essas diversas fôrmas em applicações quer therapeuticas, quer industriaes eató domes- ticas ; 3o, pela sua actividade toxica, mesmo em pequena dóse, e tratando-se do acido arsenioso, pela facilidade de sua admi- nistração de mistura com alimentos e bebidas, em que passa despercebido a favor de seus caracteres physicos mais appa- rentes: um pó branco, semelhante ao polvilho ou á farinha de trigo, completamente inodoro, de fraco sabor, antes levemente adocicado. ceiro, e quantidade extremamente fraca, mesmo duvidosa, no fígado de um quarto individuo ; donde elles concluíram que a morte dos tres primeiros íoi devida á ingestão do acido arsenioso. No exame dos vinlios, feito pelo Dr Sambuc, encontrou-se desde traços até 6 centigrammas por litro de acido arsenioso (sendo que por engano o citado relatorio falia uma das vezes em 16 centigrammas). O outro facto, que ha de occupar um logar nas causas celebres dos annaes judiciários francezes, é concernente ao envenenamento criminoso de 13 pes- soas, das quaes tres morreram, por um pharmaceutico do Havre, ainda no anno passado. Este facto serviu de objecto a um dos relatórios mais minuciosos e inter- essantes que eu conheço sobre tal assumpto e que pelo seu desenvolvimento e extensão vem publicado por secções em tres numeros dos Annaes de medicina legal e hygiene publica do anno de 1889 ; elle constitue uma contribuição im- portantíssima ao estudo das intoxicações arsenicaes. E’ o processo chamado Pastré-Beaussier (nome do réo), em que foram peritos Brouardel e Pouchet, cujo relatorio consta de tres capítulos. No primeiro, elles dão o resultado da syndicancia policial, reproduzindo textualmente o depoimento que lhes foi pedido, quando a causa passou do civel ao criminal. No segundo, elles transcrevem o auto da accusação feita contra Pastré-Beaussier, o relatorio medico legal que redigiram, e as objecções que lhes foram dirigidas nos tri- bunaes. No terceiro, finalmente, elles discutem os pontos essenciaes que lhes parecem resultar da historia desta questão, relativamente a certas fôrmas de intoxicação arsenical, e sobretudo no que respeita ás paralysias desta natu- reza. O estudo particular deste ultimo symptoma foi efíicazmente auxiliado pelo Dr. Marie, antigo chefe de clinica do professor Charcot, de maneira a evitar, antes que as autopsias tivessem revelado a verdadeira origem dos acci- dentes toxicos do Havre, certas causas de erro nesta apreciação. As para- lysias arsenicaes, é verdade, teem sido já assignaladas e descriptas por vários observadores, especialmente por Imbert e Gourbeyre, mas os últimos estudos que sobre ella proporcionou o processo Pastré-Beaussier levaram ainda mais longe o conhecimento da pathogenia deste accidente toxico, como adeante mostrarei. VENENOS HEMATICOS 227 E’ naturalmente em virtude destas circumstancias que o acido arsenioso, mais rigorosamente fallando anhydride arse- nioso, conhecido no commercio pelo nome de arsénico branco, sem ser o composto arsenical mais toxico, tem sido de preferencia ornais empregado como tal, nos envenenamentos criminosos. Na ordem de actividade toxica aquelle que occupa o pri- meiro logar é o gaz hydrogeno arseniado, cuja inhalação pôde produzir a morte quasi instantanea, como se diz ter acontecido ao chimico Gehlen. Em segundo logar vêm os compostos caco- dylicos, que teem por base de sua composição o oxydo do radical cacodylo, que é oarseniureto de methyla ou a dimethyl-arsina, também chamado licor fumegante de Cadet. Segue-se em terceiro logar o acido arsénico e os arseniatos solúveis. Em quarto, finalmente, o acido arsenioso e os seus derivados, igualmente solúveis. 1 De um modo geral póde-se dizer que os mesmos preparados insolúveis de arsénico não são inoffensivos, pela facilidade de sua decomposição sob a influencia de reagentes ácidos; é isso o que explica os envenenamentos occasionados pelos dous sul- furetos de arsénico 2 : o vermelho ou rosalgar, e o amarello ou ouro-pimenta, ambos conhecidos de longa data, e empregados pelos mais antigos envenenadores, e cujos effeitos lentos elles graduavam á medida de seus sordidos interesses. E’ isso ainda o que explica os envenenamentos determinados pelas tintas verdes do commercio denominadas verdete e, im- propriamente, verde Paris.\3 Ella é constituída em grande parte por productos arse- nicaes: arseniato de cobre (verde Mitis ou de Vienna), arsenito de cobre (verde de Scheele), e aceto-arsenito de cobre (verde 1 M. Sbriziolo, contra a opinião geral, reputa os ácidos arsénico e arse- nioso dotados pouco mais ou menos da mesma actividade toxica. 2 Não fallando na proporção variavel do acido arsenioso, que os sulphu- retos do commercio encerram (30 a 50 °/0, diz Chandellon). 3 Digo impropriamente, porque o verdadeiro verde Paris é um derivado de anilina. 228 ARSÉNICO de Schweinfurt), tendo talvez de mistura algum outro com- posto mais activo de arsénico, que tornam taes preparados nimiamente toxicos, e produzindo envenenamentos de fórma aguda, quando ingeridos em grande quantidade, como geral- mente succede nos casos de suicídio por esse meio, aliás fre- quentes entre nós. EUes são também a causa de envenenamentos accidentaes devidos ao uso que se faz em larga escala destas matérias na coloração verde de papeis pintados, de tecidos de fazendas i, de flores artifíciaes, brinquedos e até mesmo de doces seccos e outros productos de confeitaria, o que é seve- ramente prohibido. Quanto ao acido arsenioso, cumpre ainda lembrar que elle póde ser mais ou menos activo, conforme o seu estado phy- sico ; encontra-se no commercio em pó ou em fragmentos mais ou menos volumosos ; estes se apresentam em dous estados designados em chimica pelos nomes de vitreo e porcellanado. 2 O primeiro, que é de aspecto crystallino na linguagem vulgar porque ê transparente como vidro ou crystal, é justamente amor- pho ; assim se apresenta logo queé preparado, e durante pouco tempo se conserva neste estado. Expostos ao contacto do ar, os fragmentos vão soffrendo um processo de crystallisação lenta e gradual, que marcha da peripheria para o centro, e em virtude do qual tornam-se opacos ou porcellanados. Pois bem, neste estado, cuja estructura crystallisada escapa aos olhos desar- mados de instrumentos pela agglomeração compacta de peque- níssimos crystaes, o acido arsenioso é tres vezes menos solúvel n’agua 3, e, portanto, na mesma proporção menos toxico. 1 Hetet e Rabtiteau referem que Zinreok achou em 20 vara8 de tarlatana verde 300 grammas de verde Schvveinfurt, contendo, portanto, 60 grammas de arsénico ! 2 E’ singular a confusão que faz Rabuteau entre as denominações dadas a estes dous estados: el!e considera synonymas as expressões vitroso, e por- çellanico que distingue de opaco, contra o que está geralmente admittido em chimica. 3 No álcool diluído (a 56 c ) é justamente o contrario que se observa, se- gundo Girardin: o acido opaco é tres vezes mais solúvel do que o vitreo. No álcool absoluto, porém, este é quatro vezes mais solúvel do que o opaco. VENENOS HEMATICOS 229 Reduzido a pó, como ordinariamente se encontra nas pharma- cias, elle se acha todo neste ultimo estado, e assim é empre- gado em grande numero de formulas e preparações quer de uso interno quer de uso externo, que teem dado logar a muitos envenenamentos, pela maior parte accidentaes; exemplo, os pós e a solução mineral de Boudin, o licor de Fowler, as massas de Frei Cosme e de Rousselot. 1 Na industria da taxidermia, que se occupa da conservação de pelles e outros despojos de animaes, usa-se de um sabão fortemente arsenical chamado de Be- cceur 2, que tem sido por vezes a causa de accidentes fu- nestos. Não deixarei esta parte da historia toxicologica do arsénico sem tocar na questão da arsenicophagia para completar o que a este respeito já disse no estudo da toxicophagia em geral. Antes disso, porém, vejamos qual a dóse toxica do acido arse- nioso. Segundo Lachese Filho (de Angers), que a este re- speito escreveu uma excellente memória, 6 milligrammas deste acido podem produzir perturbações ligeiras, 1 a 3centigrammas symptomas de envenenamento, e 5 a 10 centigrammas a morte. Yan Hasselt marca 10 a 15 centigrammas para dóse toxica ; não é raro, porém, ou pelo menos não é extraordinário, que dóses maiores do que esta ultima não acarretem a morte e restrinjam a sua acção a alguns accidentes sem maior gravidade ; entre- tanto é este o limite minimo geralmente admittido para a dóse mortal do acido arsenioso, que Monro, mais exigente ou mais escrupuloso, faz baixar até 14 milligrammas. O que, porém, não se póde acceitar de modo algum, é a doseexaggerada, excessiva de uma e meia gramma (!) marcada por Cbristison, para esse limite; deve ter sido necessariamente engano do eminente 1 Estas e outras preparações de uso externo, pela sua acção caustiea e corrosiva, abrem a porta de absorpção e por isso é que, applicadas para destruir tumores malignos, teem por vezes occasionado accidentes graves e a morte. * Compõe-se este sabão de partes iguaes de acido arsenioso, sabão de Marselha e agua, a que se ajunta um pouco de carbonato de potássio, cal viva e camphora. 230 ARSÉNICO toxicologista inglez, ou de quem traduziu a sua obra. Só á força de habito inveterado se póde chegar a ingerir impunemente, de uma só vez, uma quantidade dez vezes menor. 1 E’ isso o que se pretende que succede com os habitantes de algumas regiões do Tyrol, da baixa Áustria, da Styria e sobretudo das montanhas que a separam da Hungria. Elles começam, em geral, segundo consta, por uma dóse inferior a1/* grão (1 a 2 centigr.), que repetem algumas vezes por semana, e augmentam depois pouco a pouco, até in- gerirem impunemente uma quantidade 10 vezes maior ; cita-se o facto de um indivíduo sexagenário, gozando boa saude, que sustentou este habito durante 40 annos, tendo-o já herdado de seu pae; e outro, um octogenário ainda robusto, não obstante ter usado do arsénico desde longos annos. Estes factos, porém, excepcionalissimos, são apontados sem esclarecimentos necessários relativamente á natureza do com- posto arsenical, ao modo e condições do seu emprego, ás dóses maximas attingidas de cada vez, e não constituem por isso prova esmagadora e decisiva em favor da realidade dos bene- fícios auferidos com a arsenicophagia, conforme adeante mos- trarei . Diz-se que os arsenicophagos procuram com esse habito dous fins : O primeiro funda-se sobre a propriedade eupneica do arsé- nico, em virtude da qual elles se sentem com o seu uso mais leves, mais voláteis por assim dizer, sua respiração mais livre e facil durante a ascensão penosa das montanhas. Este resultado, verdadeiro ou não, está, em todo o caso, perfeita- 1 E’ verdade que Yan Hasselt refere que um director de fabifica, perto de Salzburg, tomava diariamente 23 grãos ( i gr. 487 ! ) de arsénico. Este facto é de todo o ponto inverosimil e inacreditável e carece de confirmação fidedigna. 2 São principalmente as moças camponezas dessas regiões que, para apurarem seus dotes physicos, teem recorrido muitas vezes com bons resul- tados a este expediente, segundo refere Tschudi, citado por Tardieu ; al- gumas, porém, diz esse historiador, teem pago com a vida um tal requinte de vaidade e faceirice. VENENOS HEMATICOS 231 mente de accordo com uma das indicações mais legitimas dos preparados arsenicaes ; todos reconhecem os bons eflfeitos desta medicação no tratamento das moléstias que se acompanham de grande dyspnóa (accessos de asthma, tosse coqueluche, etc). O segundo fim que teem em vista os arsenicophagos con- siste em adquirirem melhor disposição de saude, vitalidade, energia e um certo grão de gordura. 1 Basêa-se talvez esta applicação, na propriedade, que chamarei eucrasica e adipo- genica, attribuida ao uso habitual do arsénico na alimentação dos cavallos ; ella é posta em pratica em muitas coudelarias européas, principalmente em Yienna, com o fim de communi- car a estes animaes maior agilidade e força, aspecto luzidio e elegante e outras qualidades que os tornam de maior preço e estimação. Para isso addicionam á ração de aveia uma pitada de acido arsenioso, ou envolvem em um panninho um pequeno fragmento deste acido, do tamanho de uma ervilha, e prendem ao freio, de modo a ficar dentro da boca, durante a mastigação, dissolvendo-se pouco a pouco. 1 Teem pretendido alguns observadores explicar taes resul- tados appellando para o maior consumo de albuminoides no organismo, de sorte que essa corpulência, por assim dizer ar- tificial, é um augmento inútil de volume, um melhoramento illusorio e apparente, porquanto a gordura é formada â custa de principios albuminoides, mais necessários ao organismo. Outros, porém, partidários da arsenicophagia, e crentes nas suas vantagens reaes, não admittem essa explicação, e dizem como Sbriziolo, por exemplo, que a acção do arsénico se exerce igualmente em relação ás substancias azotadas e não azotadas, 1 Esta pratica tem sido igualmente applicada a outros animaes, porém resta saber, como bem diz Delioux de Savignac, si este modo de tratamento dos animaes não communica qualidades nocivas á carne daquelles que servem á nossa alimentação. « E’ tanto mais difficil, continúa elle, apreciar os factos relativos á arsenicophagia, que elles escapam a toda a expli- cação plausível ; evitemos, entretanto, de tentar reproduzir estes factos (sobre cuja completa realidade guardamos reservas) em nossa hygiene racional e em nossa therapeutica.» 232 ARSÉNICO dando em resultado menor despeza nas trocas nutritivas, o que equivale a maior receita. Isso demonstra-se claramente, diz este toxicologista : Io, pelo crescimento da energia e vita- lidade do animal; 2o, pelo pequeno abaixamento de tempe- ratura ; 3o, pela diminuição de acido carbonico ; 4o, pela diminuição de uréa e acido urico. O arsénico, pois, pela sua acção retardadora sobre as trocas materiaes nutritivas e sobre a oxydação dos tecidos, au- gmenta o peso do corpo e a resistência ás fadigas, melhora o estado geral e faz sentir menos a fome. A ser verdadeira esta doutrina, nada mais é preciso accre- scentar ás apregoadas virtudes do arsénico para eleval-o á altura de um principio alimenticio, embora indirecto, e neste caso estão muitas substancias de uso ordinário na nossa ali- mentação, e que são chamadas alimentos de poupança. Ainda mais, acreditam os defensores da arsenicophagia que, uma vez estabelecido o habito em questão, não podem os arsenicophagos abandonal-o mais, sob pena de soffrerem então os effeitos proprios do envenenamento pelo arsénico ! Na opinião de Gubler, que não parece repellir esta crença, esses effeitos dependem da combustão exaggerada, verdadeira- mente febril, que se apodera dos organismos habituados por tanto tempo â acção moderadora do veneno. Sbriziolo vae mais longe no enthusiasmo de sua arsenico- philia e diz que, provavelmente, em consequência da estagnação organica e diminuição da hematocausia, o organismo reage pouco ás dóses gradualmente crescentes de arsénico ; mas si se interrompe bruscamente o seu uso, o que importa em re- stabelecer o primitivo vigor da nutrição, então o veneno accumulado começa a lançar-se de novo na torrente circula- tória, e dahi os phenomenos proprios da intoxicação. Por esta theoria, que o toxicologista italiano confessa ser vulnerável, e sómente acceitavel em falta de outra mais plau- sível, elle admitte a possibilidade de accumulação de veneno, VENENOS HEMATICOS 233 qualquer que elle seja, no organismo, compatível com um es- tado real de boa saude ! Já disse e repito, como conciliar esta doutrina com os factos de arsenicismo chronico, tão bem averiguados e demonstrados, descriptos por todos os autores com as cores mais negras, e produzindo tão grande numero de victimas ? Não quero já referir-me aos casos de intoxicação profissional, em que os infe- lizes operários absorvem e fixam, no fim de certo tempo, maior quantidade de arsénico do que a introduzida pelo uso habitual deste veneno. Mas o que dizer das consequências funestas assignaladas para o uso simplesmente medicinal do arsénico, quando por demais prolongado, sem interrupção, e no qual ainda assim nunca se chega a administrar a dose que os arsenicophagos pretendem ingerir impunemente? E’ o proprio Sbriziolo quem o diz, cahindo na mais pal- pável e flagrante contradicção: « O arsénico elimina-se em maxima parte pelos rins, mas essa eliminação não corresponde ás dóses successivamente introduzidas no organismo ; de ma- neira que esta substancia é accumulaticia, e deve-se ser por isso muito cauteloso na sua administração aos doentes. » Mais adiante diz ainda o professor italiano: « Si dóses muito grandes de arsénico são ingeridas durante um certo tempo, ou si se repetem por muito tempo as pequenas do- ses, o que, pela propriedade accumulaticia, vale o mesmo, ma- nifesta-se o envenenamento chronico.» Já antes, em outro periodo de sua obra, o citado autor se pronuncia de modo mais positivo, quando diz: « 0 tratamento arsenical prolongado, sem a indispensável precaução de suspendei-o de vez em quando, para impedir uma grande accumulação, pòde determinar uma grave cachexia to- xica ! » Sem que o arsénico seja considerado entre os venenos facilmente accumulaticios, como pensa Sbriziolo, que deveria ser o primeiro a recusar-lhô essa propriedade para ser cohe- 234 ARSÉNICO rente e justificara sua adhesão á pratica daarsenicophagia, todavia é verdade que o uso muito prolongado dessa substan- cia, mesmo em dóses medicinaes, ou em menos tempo, em dóses que pouco excedam a ellas, pôde acarretar phenomenos de intoxicação. Haja vista o facto referido por Brouardel e Pouchet no relatorio sobre o processo Pastré-Beaussier, e que havia sido communicado á sociedade de medicina legal de Paris, pelo Dr. Gaillard, em 1873. Um medico havia prescripto a uma moça de 22 annos, que soffria de um eczema, o licor de Fowler, na dóse de 15 gottas pela manhã, e outras 15 á noite, durante quinze dias (15 milli- grammas por dia) ; augmentando depois disso mais uma ter- ceira dósede 15 gottas, durante outros quinze dias (22 milli- grammas por dia) e finalmente, elevando as tres dóses diarias a 20 gottas cada vez (32 milligrammas por dia). Pois bem, ella nada sentiu nas duas primeiras quinzenas ; mas, quando quiz tomar as 60 gottas por dia, teve vomitos, caimbras, dôres nos membros, etc., e até paralysia! E’ diííicil explicar a manifestação de desordens tão serias» alteração tão profunda na saude de uma pessoa, que tomou o arsénico em dóses gradualmente crescentes, a principio per- feitamente toleradas ! Si essas dóses foram por demais altas para os fins therapeuticos, não o deviam ser para habituar-se a pessoa ao seu uso e contrahir o habito da arsenicophagia. Como explicar e conciliar estes factos? Será que a tolerância para o arsénico, ao contrario do que se verifica, para outros agentes toxicos, é maior da parte de individuos sãos, do que de doentes? Será que, além destas, outras circumstancias, quergeraes, quer individuaes, favorecem essa tolerância entre os habitantes das regiões montanhosas da Europa, já mencionadas ; pois, de outras não se falia, além daquella zona, aliás nas mesmas condições topographicas ou antes orographicas, em que a arsenicophagia tenha sido observada ? VENENOS HEMATICOS 235 Até uma resposta satisfactoria a estas perguntas, penso que devemos concordar com Rossbach e Nothnagel, que em tudo isto parece que ha alguma phantasia e exaggeração, e que é preciso apurar a verdade desses factos, ainda não demonstrada de um modo cabal e peremptório. Na opinião sensata destes no- táveis therapeutistas, não existe na sciencia uma só observação que possa dar a certeza absoluta da realidade dos mesmos; a maior parte das communicações emanam de observadores no- velleiros (Tchudi, Bibra,etc.) e não representam o fructo de um estudo attento e scientifico da questão. Em nenhuma delias se acha determinada qual a natureza da preparação arsenical in- gerida, nem a sua dóse precisa, nem a quantidade da mesma absorvida, nem finalmente a quantidade evacuada. Quanto á acção do acido arsenioso sobre o augmento da pa- nicula adiposa e da força muscular, etc., dizem aquelles autores, nenhuma observação rigorosa existe que tenha determinado em taes casos, como seria preciso, qual a quantidade de azoto ab- sorvido e qual a eliminada, e que leve a pôr estes effeitos á conta antes do acido arsenioso do que da ingestão de maior quantidade de alimento. Emfím, a explicação que se costuma dar destes effeitos, invocando a demora das trocas nutritivas produzida por aquelle agente, perde todo o seu valor deante das observações recentes, que demonstram que o acido arsenioso accelera as trocas nutritivas, em vez de as retardar. Sobretudo, para mim se me afigura ainda menos ve- rosímil, e quasi inacreditável a natureza das consequências attribuidas á suspensão do uso habitual do arsénico, eque se traduzem por phenomenos de um verdadeiro envenena- mento devido a essa mesma substancia. Comprehende-se facil- mente que a suppressão brusca de um vicio inveterado não seja indifferente ao organismo, e elle resinta-se dessa falta, apre- sentando desordens pathologicas, que não se removem sinão re- stabelecendo-se o mesmo vicio, cujo desapparecimento deve ser, pois, lento e gradual; porém que taes desordens sejam o enve- 236 ARSÉNICO nenamento pela substancia, justarnente quando ella deixa de im- pressionar o organismo, parece-me inadmissível; seria conferir ao veneno a propriedade ou virtude de constituir um correctivo, uma barreira opposta aos seus proprios effeitos. Esta historia de arsenicophagia tem dado logar, sobretudo da parte das pessoas do povo, a abusos muito prejudiciaes e pe_ rigosos, e sou levado, com Nothnagel e Rossbach, a considerar infundada e inverosímil, até prova scientifica do contrario, essa immunidade, maisdo que isso, esse melhoramento real da saude, devido ao uso habitual do arsénico em dóses sempre crescentes. Pretende-se que essa prova já fora dada em mais de um congresso medico, e mesmo aquelles dous professores faliam de um arsenicophago que fora apresentado no congresso dos na • turalistas de Graz, e que ingeriu de uma vez 40 centigrammas de sulfureto de arsénico, e em cuja urina acharam-se traços de arsénico. Mas esta prova é insuficiente, porque trata-se de um com- posto arsenical, quasi inoffensivo, ou pelo menos muito pouco activo, para que seja possível e perfeitamente explicável essa to- lerância excepcional. Mesmo com o acido arsenioso, que é muito venenoso, apezar de sua fraca solubilidade, ainda este facto não attinge as raias do sobrenatural, e não assume as proporções de um milagre, desde que for convenientemente regulado e gra- duado o uso do composto arsenical, de modo a manter-se o equilíbrio indispensável entre a absorpção e a eliminação, afim de impedir a accumulação do veneno, e consequente- mente jos phenomenos de arsenicismo chronico, resultado inevitável desde que se rompe aquelle equilíbrio, e a re- ceita arsenical na nossa economia sobrepuja a respectiva des- peza, como acontece em todas as intoxicações chronicas e pro- fissionaes, a que não escapa a occasionada pelo proprio arsénico. E’ certo que este veneno não goza de privilegio algum debaixo deste ponto de vista, e os indivíduos que delle usam em dóses medicinaes um pouco altas e por muito tempo, ou aquelles que VENENOS HEM ÁTICOS 237 o manipulam, que se occupam na fabricação de seus preparados, vêm a soffrer, no fim de tempo mais ou menos longo, osphe- nomenos de intoxicação lenta e chronica ; porque razão, pois, os arsenicophagos, em vez de pagarem caro esse tributo, não só adquirem uma immunidade especial para o veneno, mas até logram com o seu uso habitual vantagens reaes para o seu or- ganismo? Que differença póde haver entre ingerir por habito dóses gradualmente crescentes de um veneno, que em todo o caso não excedem de certo limite, e absorver o mesmo veneno lenta e insensivelmente, ao mesmo tempo por todas as super- fícies expostas aos vapores e particulas toxicas, que constituem o ambiente deleterio em que vivem esses industriaes ? Não ha outra differença (e esta é a explicação do facto), sinão que neste ultimo caso mais facilmente a absorpção sobre- puja e vence a eliminação ; rompe-se oequilibrio, que é a ga- rantia dos arsenicophagos, e sobrevêm então os phenomenos de arsenicismo profissional devidos á accumulação do veneno, a que elles não escapariam nas mesmas condições. Tanto mais racional e acceitavel é esta explicação, quanto ella assenta sobre um dado de observação assignalado pelos autores : a facilidade da eliminação do arsénico, a difficuldade relativa de sua accumulação no organismo. Taylor diz mesmo que é um veneno que não se accumula, e elimina-se rapida- mente pelas urinas ; segundo Nothnagel e Rossbach, a elimi- nação do arsénico começa a effectuar-se nas cinco primeiras ho- ras e termina geralmente no fim de dous a tres dias ; para Gubler, póde ir no máximo até seis semanas ; Kirchgãssner cita um facto desta natu reza (Dragendorff), donde resulta que, na autopsia de uma pessoa que só veio a succumbir muitos dias depois do envenenamento por este corpo, não se o encontra mais ; rara- mente teem-se achado traços deste veneno em individuos mortos dez a vinte dias depois da ingestão do mesmo, ao passo que, quando a morte é rapida, tem-se podido descobrir o arsénico nos restos mortaes até dez e vinte annos depois da inhumação. 238 ARSÉNICO Symptomas ; signaes clínicos Assim como para o phosphoro, Falk estabelece para o es- tudo da symptomatologia do envenenamento agudo pelo arsé- nico quatro fôrmas baseadas sobre a localisação dos symptomas e designadas pelos nomes de arsenicismo cutâneo, intestinal, cerebro-espinhal e asphyxico. E’ porém sem vantagem alguma esta discriminação especial, que por isso tem sido abandonada. Tardieu divide também em quatro fôrmas, denominadas super-aguda, aguda, sub-aguda e latente. Penso com Rabuteau que estas divisões múltiplas fatigam inutilmente a memória, e é muito difficil, ás vezes impossivel, distinguil-as na pratica. As tres primeiras fôrmas representam apenas gráos diversos de intensidade nos phenomenos de in- toxicação aguda; constituem, pois, a fôrma aguda de Rabuteau, na qual se pôde mesmo incluir a chamada latente de Tardieu, que é uma fôrma anómala e rara deste envenenamento. Assim, pois, dividirei, com Rabuteau, o envenenamento ar- senical, bem como em geral todos os outros, em agudo e lento ou chronico. Poder-se-hia adoptar para o envenenamento agudo a sub- divisão proposta por Marco Sbriziolo em duas fôrmas : uma que è muito mais frequente, representada pelos phenomenos inten- sissimos de gastro-enteritetoxica; e outra mais rara, pelas per- turbações do systema cerebro-espinhal, que caracterisa a fôrma narcótica ou paralytica. Não ha, porém, necessidade de estabe- lecer esta distincção, porquanto mais commummenteo envene- namento arsenical acompanha-se dos phenomenos proprios de ambas estas fôrmas, predominando ora uns, ora outros, notan- do-se que os accidentes narcóticos ou paralyticos, que se apre- sentam, em geral, de modo mais pronunciado nas fôrmas menos agudas e sobretudo na intoxicação chronica, podem se observar também na fôrma francamente aguda, com exclusão das mani- VENENOS HEMATICOS 239 festações locaes, e constituem então a fôrma latente descripta por Tardieu. Fôrma aguda.—Entre os primeiros symptomas, um quarto de hora, meia hora, até uma hora apoz a ingestão de uma dóse toxica de arsénico sobrevêm vomitos; raramente elles se apresentam mais tarde, depois de 6, 8, 12 e rnais horas, e isto se dá em geral quando o veneno tem sido ingerido de mistura com alimentos. Então os vomitos são constituidos por matérias alimentares, no meio das quaes se podem notar muitas vezes grumos brancos de acido arsenioso. Depois, as matérias rejei- tadas pelo vomito tornam-se esbranquiçadas, raramente co- radas de vermelho. Ao mesmo tempo o doente sente uma sede insaciávele dores cruciantes no estomago, que se propagam ao ventre; apparecem dejecções alvinas abundantes- de matérias esbran- quiçadas e amarelladas, exhalando fétido terrivel. Seguem-se os phenomenos geraes devidos á absorpção, caracterisados por alteração profunda dos traços physionomicos, com anniquila- mento geral das forças ; os batimentos cardiacos precipitam-se, tornam-se irregulares, intermittentes; manifesta-se resfria- mento considerável das extremidades, que se estende ao resto do corpo ; o rosto apresenta-se livido, a ponta do nariz e orelhas como geladas, os olhos encovados e fundos, as urinas são diminuidas e até mesmo supprimidas ; caimbras dolorosas nas massas musculares dos membros completam o cortejo de sym- ptomas, que assemelham o mais possivel esta fôrma do arseni- cismo agudo á cholera-morbus, da qual será difficil distinguir, sobretudo em uma constituição medica epidemica. A morte sobre- vém dentro de poucas horas ou no fim de alguns dias, no máximo. 1 Dahi a designação synonymica de choleriformes, 1 Lê-se no tratado da Sbriziolo que em um caso a morte se verificou em chias horas e meia. • Foster (d’Huntingdon) refere ter visto um caso de um menino que suc- cumbiu em duas horas, depois de ter tomado arsénico. Diz-se mesmo que já foi observado um caso de morte, por este veneno, no fim de 20 minutos apenas ; ao passo que outros tsem durado muitos dias, 240 ARSÉNICO dada porTardieu aos agentes hyposthenisantes em geral, parti- cularmente ao arsénico e ao antimonio. Outras vezes os vomitos, depois de muito repetidos, cessam de repente, sobre vem uma melhora rapida, mas apparente, porquanto a sede, a sensação de queimadura no tubo digestivo, a fraqueza geral persistem ; o doente experimenta dyspnóa ; apparecem depois manifestações cutaneas, que consistem em manchas petechiaes, ora vesiculosas, ora papulosas, ás vezes acompanhadas de suffusão ictérica ; as urinas são raras, e por vezes albuminosas ; pulsações cardiacas cada vez mais fracas ; o resfriamento invade o corpo e a morte chega no fim de dous a dez dias. Succede, porém, ás vezes que os phenomenos gastro-intes- tinaes falham completamente, por circumstancias especiaes que tornam a absorpção prompta, e são os symptomas geraes que se apresentam e se succedem mais ou menos rapidamente, ter- minando pela morte, como na forma aguda ou super-aguda, dentro de poucas horas : é a fórma latente de Tardieu. Em geral, em todos estes casos as faculdades intellectuaes conservam-se intactas. Fórma chronica.— Nesta fórma os primeiros symptomas que se apresentam são vomitos que se repetem de tempos em tempos, com sensação de acrimonia e calor urente na garganta e no estomago; estes vomitos são em geral biliosos, provo- cados pela ingestão de qualquer alimento e acompanhados mais tarde de cólicas violentas e digestões difficeis. Sobrevêm dores nos membros, cansaço, vertigens, e mesmo syncopes ou então ataques convulsivos, 1 depois epistaxis e outras hemorrhagias, como o citado por Taylor, em que o individuo, tendo tomado 220 grãos de arsénico (cerca de 3 gram. ), veiu a faliecer sómente no fim de sete dias, no Guy’s Hospital, em 1847. Finalmente, em um caso do Dr. a morte teve logar no 17° dia, não obstante a alta dóse de veneno, que se diz não haver sido encontrado no corpo! 1 Estes phenomenos não foram observados nos envenenamentos occorridos em Hyères, conforme atraz ficou dito. VENENOS HEMATICOS 241 manchas petechiaes, erupções miliares, alteração progressiva dos traços, e eminagrecimento, quéda dos cabellos, que acabam por communicar uma apparencia de velhice prematura. Por ultimo manifestam-se contracturas nos dedos e artelhos, tre- mores, hyperesthesia com sensações bruscas de calor e frio, e finalmente a paraplegia, podendo durar este estado muitos mezes e mesmo alguns annos, até que a morte vem pôr termo a tantos soffrimentos, a que estão sujeitos, segundo Tardieu, os indi- viduos que ingerem dóses repetidas e successivas de arsénico. 1 Não estarão neste caso os arsenicophagos ? 1 Não posso furtar-me ao desejo de resumir aqui algumas das observações expendidas sobre este assumpto no relatorio medico-legal de Brouardel e Ponchet, a proposito das intoxicações do Havre, e no qual se referiram também aos factos occorridos em Hyères. Elias apresentaram mais ou menos regularmente as seguintes phases : l.° Desordens do apparelho digestivo ; 2. Catarrlio laryngéo e bronchico, periodo em que predominam as erupções ; 3. Perturbações da sensibilidade (periodo aerodynico); 4.° Paralysias. I. Na primeira phase, eram ás vezes simples indisposições, com phenomenos de embaraço gástrico, sem febre e outras vezes acompanhadas de febre, com caracter de febre mucosa, ou mesmo typhoide. Os vomitos se manifestaram bruscamente, sem grandes dôres epigastricas nem sensação de queimadura; eram em geral abundantes, e constituídos por liquidos muco-biliosos; Notaram mais vezes constipação de ventre do que diarrhéa, que em alguns casos foi sanguinolenta. II. A segunda phase apresentou-se com a frequência e os caracteres proprios de uma epidemia de r/rippe espasmódica; ora coryza intensa, com injecção das conjunctivas e lacrimejamento, ora catarrho bronchico caracte- ristico, com tosse e escarros mucosos, ás vezes sanguinolentos; ora rou- quidão e aphonia com ou mesmo sem tosse. Ao mesmo tempo processaram-se as dermatoses sob as fôrmas de rubores e erythemas diversos em differentes partes do corpo com esfoliações epidérmicas furfuraceas ou escamosas; erupções pustulosas ou vesico-pustulosas, placas pigmentadas, etc. ; em alguns casos até mesmo queda das unhas. III. Na terceira phase tiveram occasião de observar uma cephalalgia intensa e rebelde; entorpecimento nos braços e pernas, muitas vezes acom- panhado de caimbras; ás vezes dòres lancinantes e contusivas, principalmente nas articulações tibio-tarsianas, e tarso-metatarsianas. Diminuição apenas da sensibilidade, mas não verdadeira anesthesia, sobretudo nos membros inferiores. Os sentidos em geral conservados, ao passo que o senso genital, quasi constantemente diminuído ou abolido. As secreções, em particular a da pelle, pareceram augmentadas nos doentes moços. IV. Na quarta phase as desordens motoras começavam por um certo gráo de paresia muscular, que gradualmente se ia augmentando; os in- dividuos no andar atiravam com as pernas para deante, até que mais tarde nem isso podiam mais fazer; arrastavam-se então, apoiados sobre qualquer objecto, e só assim conseguiam conservar-se de pé. No periodo mais adeantado da paralysia só podiam estar assentados, e os pés fortemente estendidos, como fazendo seguimento alinha recta tirada sobreotibia. Os peritos alludem neste jxmto a estudos curiosos feitos por elles sobre a distribuição destas paralysias nos differentes musculos, sua excitabilidade á percussão, á electricidade faradica e galvanica. Além disso notaram ausência completa dos reflexos dos membros inferiores. TOXICOLOGU 16 242 ARSÉNICO Aquelles, porém, que, pela sua profissão, se expõem á in- fluencia de um ambiente deleterio impregnado de vapores e partículas arsenicaes, esses experimentam uma serie de accidentes geraes e sobretudo locaes, que communicam ou im- primem uma physionomia diversa ao arsenicismo chronico, segundo a descripção de Rabuteau. Os primeiros são con- stituídos por fastio, nauseas, vomitos e outras perturbações digestivas, dysenteria, cephalalgias rebeldes, palpitações, ver- tigens, dysuria, por fim paralysias 1 e um estado cachetico pronunciado, complicado de hydropesias. Os accidentes locaes, provenientes do contacto dos pôs arsenicaes com as partes expostas do corpo, traduzem-se por conjunctivites acompanhadas de lacrimejamento constante, coryza com ulcerações das fossas nasaes (verdadeiro ozena), ás vezes com perfuração e perda do septo, stomatites com ptyalysmo mais ou menos abundante, tumefaeção das gengivas com uma ourela esbranquiçada ou cinzenta azulada, anginas, laryngites com rouquidão, bronchite com tosse secca, e dys- pnéa intensa. Na pelle nota-se um erythema ou exanthema papuloso, outras vezes o eczema ou a urticaria acompanhados de vivo prurido, assestado de preferencia na região inguinal e axillar} no cotovello, no joelho e espaços intercostaes; formam-se ulce- rações offerecendo a maior analogia com algumas manifestações syphiliticas, particularmente nos dedos e artelhos, acar- retando a quédadas unhas. Terminação —1 A cura foi a regra nestes casos, embora precedendo uma convalescença sempre longa, e que chegou a durar mais de um anno. Em geral, a morte sobrevem o mais das vezes por parada do coração : em outros casos, menos agudos ou mais demorados, ella é a consequência de lesões estructuraes do ligado, dos rins e dos musculos, representadas pela sclerose desses orgãos, como no alcoolismo chronico. 1 Elias limitam-se em geral aos membros inferiores, porém Nothnagel e Rossbach, Christison, Gubler, etc., dizem ter observado paralysias gene- ralisadas, e com os caracteres das de origem saturnina, affectando mais vezes os musculos extensores do que os flexores, e seguidas de atrophia muscular. VENENOS HEM ÁTICOS 243 Lesões anatomo-patliologicas ; signaes necroscopíeos Os cadaveres dos indivíduos envenenados com grandes dóses de arsénico resistem notavelmente á putrefacção; o que, como se sabe, tem sido aproveitado para a pratica dos em- balsamamentos, em que o arsénico faz a base da composição dos melhores líquidos conservadores, ainda que de emprego inconveniente, pelos embaraços que póde acarretar nos casos de pesquiza toxicologica por suspeita de veneficio. O habito externo offerece ao exame as manifestações cutaneas descriptas na symptomatologia. As lesões produzidas pelo arsénico observam-se particular- mente para o lado do tubo digestivo, dos orgãos parenchy- matosos, da pelle, e também do sangue. 1 Desde a boca, por todo o trajecto das primeiras vias, notam-se os signaes da passagem de um corpo irritante e mesmo cáus- tico : vermelhidão intensa e tumefacção da lingua, das gen- givas, do pharynge e até do esophago. O estomago apresenta ora simples amollecimento de sua mucosa, ora, mais vezes, duas, tres ou mais placas de cor vio- lácea ennegrecida, assestadas 11a grande curvatura do orgão, de fôrma oval ou arredondada e dé dimensões variaveis, resultantes de infiltrações sanguíneas submucosas; ellas podem se apre- sentar excoriadas e mesmo gangrenosas. Nos intestinos, principalmente no duodeno, no appendice vermicular e no coecum, notam-se muitas vezes lesões semelhantes, em geral superficiaes, outras vezes mais profundas, interessando a camada musculosa, e até mesmo, porém mais raramente, toda a espessura da parede intestinal, produzindo ulcerações com perfuração. 1 Segundo Hermann e outros, também os orgãos genito-urinarios são a séde de uma inflammação mais ou menos intensa, sobretudo nos casos de applicação tópica do arsénico, em que se chegou a observar gangrena do penis, do anus, da vagina e do collo uterino (M. Sbriziolo). 244 ARSÉNICO Tardieu aponta como a lesão mais saliente uma especie de erupção psorenterica formada pelo desenvolvimento dos folliculos intestinaes isolados, em tudo semelhante á que se observa na cholera-morbus. Muitas vezes encontram-se no tubo digestivo grumos brancos (de acido arsenioso) e amarellos (desulfureto de arsénico), porém constituidos também, segundo Tardieu e outros, por um conjuncto de albumina e gordura. Os pulmões são engorgitados e cobertos na sua superfície de ecchy- moses subpleuraes largas e diífusas ; na sua espessura notam-se ás vezes pequenos focos apopléticos. As mesmas manchas ecchy- moticas apparecem também nas membranas do coração, porém menores e irregulares. A alteração, porém, mais importante nestes casos é a steatose de diversos orgãos, principalmente do fígado e dos rins; então as cellulas hepaticas enchem-se de granulações e depositos de gordura e por fím se destroem em grande numero, com pre- juízo da funcção glycogenica do fígado, e da producção da diabetes traumatica pela picada do 4o ventrículo. Os tubos, quer da substancia cor tical, quer da substancia medullar dos rins, apresentam-se também gordurosos, privados de epithelio, bem como os glomerulos de Malpighi, podendo chegar a degeneração até á destruição completa do parenchyma renal, que é substituído por um detritus gorduroso. As fibras musculares, sobretudo as do coração, soffrem também a mesma alteração, porém em um período mais adeantado do envene- namento, e menos frequentemente do que com o phosphoro. Diagnostico differencial Entre as moléstias que se assemelham e se podem confundir com o envenenamento agudo pelo acido arsenioso, nenhuma leva palmas á cholera-morbus, cujo quadro das principaes ma- nifestações symptomatioas e algumas lesões necroscopicas são VENENOS HEMATICOS 245 por assim dizer communs com o dito envenenamento ; nem ha melhor meio de o caracterisar do que referindo-se a esta en- tidade mórbida. Si uma constituição medica epidemica tem grande valor, como elemento de probabilidade em favor da moléstia antes do que do envenenamento, no que respeita aos casos esporádicos dobram as difficuldades do diagnostico dif- ferencial. Deve-se para isto prestar toda a attenção aos dados seguintes: No envenenamento arsenical os individuos experimentam sempre sensação de aperto e acrimonia na garganta. Os sym- ptomas se precipitam e se succedem mais rapidamente para uma terminação fatal, sem aquella diarrhéa prodromica ou premonitória, que se observa antes da explosão dos phenomenos cholericos. O período da reacçâo é menos franco e menos prolongado. As erupções cutaneas, além de mais variadas, só no envenenamento se apresentam em fórma de petechias. Passando ás lesões cadavéricas, os traços de analogia tornam ainda muito possivel e facil a confusão. Distinguem-se pelo seguinte: Nos envenenados, o globo ocular não apresenta a mancha vermelha própria dos cholericos, nem o habito externo um gráo tão profundo de emaciação ; não se nota repleção tão considerável do systema venoso, nem, segundo Tardieu, uma certa consistência especial poisseuse na superfície das mem- branas serosas. Além disso, a existência de granulações brancas e amarellas nos intestinos, sem os caracteres proprios das pro- ducções e concreções rhiziformes do cholera, e finalmente as manifestações mais accentuadas por conta do elemento he- morrhagico, distinguem o envenenamento arsenical. Duas outras affecções podem, ainda que menos facilmente, simular este envenenamento, e são a febre perniciosa algida, e uma forte indigestão. Quanto á primeira, bastará, para evitar-se a confusão, attender para o estado das glandulas hepatica e splenica, 246 ARSÉNICO séde de modificações apreciáveis por conta do elemento mala- rico, que é a condição etiologica dessa febre (congestão ou engorgitamento do figado, outras vezes amollecimento do baço) e para a ausência dos plienomenos irritativos gastro- intestinaes. Quanto à indigestão, é mais difficil o engano, attendendo-se para a natureza dos vomitos e a ausência dos symptomas geraes, que se traduzem pelas desordens da circulação, da respiração e da secreção urinaria. Entre os outros envenenamentos, si de um lado todos os agentes contra-estimulantes e deprimentes offerecem um fundo commum de hyposthenia e adynamia pronunciada, no quadro symptomatologico respectivo, por outro lado muitos outros symptomas especiaes, que serão descriptos no estudo particular de cada um, servem para discriminal-os sem maior dif- ficuldade. Só ha o envenenamento pelo tartaro stibiado, que mais se assemelha e póde-se confundir com o envenenamento arsenical, do qual se distingue pelo sabor metallico desagradavel e nau- seante, pela violência menor dos symptomas, pela terminação menos vezes e menos rapidamente funesta, e finalmente pelos caracteres peculiares da erupção varioliforme. Mecanismo da acção toxica Algumas theorias teem sido imaginadas para explicar este mecanismo e das quaes uma, que teve outr’ora seu favor, sustentada por Orfíla e Taylor, está hoje inteiramente abando- nada: éa que attribue aos arsenicaes a acção própria dos venenos irritantes e cáusticos. Comquanto elles exerçam acção local desta natureza, em maior ou menor gráo, não é entretanto por ella que matam. Estes estragos concorrem naturalmente para a terminação funesta e podem mesmo apres- VENENOS HEMATICOS 247 sal-a, mas não representam o principal papel no mecanismo da morte. Para proval-o, basta lembrar a fôrma latente do arse- nicismo agudo, descripta por Tardieu, em que faltam comple- tamente os phenomenos devidos á acção local. A segunda theoria, mais corrente, é a que explica este en- venenamento e a morte por elle occasionada, pela alteração pro- funda que exercem os compostos arsenicaes sobre as hematias. Segundo experiencias, que não são talvez muito positivas e concludentes, como se pretende, a hemoglobina é mais ou menos completamente reduzida, de modo permanente ou definitivo, visto como torna-se depois indifferente á acção do oxygeno, não readquirindo mais, pelo menos de modo apreciável, as suas primitivas qualidades physiologicas. Contra esta theoria, a meu ver, levanta-se uma objecção, que julgo muito séria, no que respeita â supposta acção re- ductora exercida sobre a hemoglobina : é que esta acção e por- tanto a energia toxica deveria ser tanto maior quanto menos oxygenado fosse o composto arsenical, e ainda maior tratando-se do proprio arsénico no estado elementar. Ao contrario disso, a actividade toxica cresce na proporção do gráo de oxydação do arsénico, e é mesmo nulla ou quasi nulla para o metalloide livre. O acido arsénico, o mais toxico destes compostos ,éaquelle que nenhuma acção reductora pôde exercer, visto ter a sua affinidade para o oxygeno totalmente satisfeita. Além disso, póde-se applicar, mutatis mutandis, ao ar- sénico a mesma reflexão e o mesmo calculo, que a respeito do phosphoro, para demonstrar que a quantidade de oxygeno per- dida pela hemoglobina em virtude de uma dóse toxica do arsénico, é insufficiente para explicaras perturbações graves e rapidamente mortaes. Parece, pois, insustentável esta parte da theoria, ficando de pé, emquanto outra melhor não se apresenta, a acção des- organizadora e destruidora do arsénico sobre aquelle principio fundamental do sangue, exercida em larga escala, privando-o ARSÉNICO de suas funcções physiologicas. Segundo Ritter, os globulos são dissociados, deformados, depois dissolvidos e destruídos em parte, a ponto de que a hemoglobina póie mesmo crjstallizar ; pôde-se considerar esta uma terceira theoria, applicada pelo autor também ao phosphorismo. Alguns teem imaginado outra theoria hematica do arsénico (será a quarta), baseada sobre acções inversas e successivas entre os ácidos de arsénico, que são agentes de oxydação, e cujos productos de reducção são facilmente oxygenados de novo. Assim, segundo Binz e Schulz, o acido arsénico se transforma em acido arsenioso, em contacto dos princípios orgânicos frescos ; pelo contrario, este se converte naquelle em outras circumstancias, por exemplo em digestão a 38c com o tecido pancreatico também fresco. E’ provável, pois, que na eco- nomia o acido arsenioso soffra uma serie de reducções e oxyda- ções em presença da albumina organizada e dos tecidos cuja nutrição é muito activa. Explicar-se-hia, desta fôrma, sua localisação e predominância nos apparelhos glandulares do in- testino, no tecido nervoso, no figado, onde ha diminuição de glycogeno e augmento da uréa em virtude da actividade das trocas nutritivas. Explicar-se-hia, igualmente, por este pro- cesso a steatose visceral. E’ possível e provável que a acção dos arsenicaes se estenda também aos elementos nervosos da vida organica, e só assim se poderá dar conta da violência dos symptomas toxicos e do me- canismo da morte por estes agentes. Gubler reconhece e confessa que este mecanismo ainda é muito imperfeitamente conhecido ; todavia, pensa e acredita que o arsénico exerce uma influencia moderadora directa ou indirecta sobre a combustão respiratória (hematocausia) por alteração dos globulos sanguíneos, ou então, por inter- médio de uma acção sthenica sobre o apparelho nervoso vaso- motor. VENENOS HEMATICOS 249 Tratamento Nos primeiros momentos que se seguem á ingestão do ve- neno, como é de regra expeílil-o de prompto, eleve-se admi- nistrar um vomitivo de ipecacuanha, de preferencia aos de base mineral, ou então, o que será melhor, limitar-se ao emprego dos meios mecânicos, visto a tendencia natural para o vomito sob a influenciado composto arsénica!. Prescreve-se também pur- gativos, entre os quaes deve-se preferir os oleos, que teem a propriedade de retardar a absorpção do veneno, e melhor do que elles, a magnesia hy d ratada, que tem a vantagem de obrar também como antidoto. E’ mesmo o melhor antídoto que se conhece contra o arsénico, dentre os tres mais impor- tantes que se teem aconselhado, porque precipita-o sob a fórma de um arsenitoou de um arseniato insolúvel, ou pouco solúvel, e varre depois os intestinos, actuando como purgativo. Con- vém que seja recentemente preparado, ou prepara-se mesmo na occasião com muita facilidade, pela acção daammonea sobre um salmagnesiano, tendo-se o cuidado de lavar bem o precipitado para livral-o de algum alcali que tenha ficado livre. O segundo antidoto, em ordem de importância na minha opinião, é o persulfureto de ferro hydratado, recommendado por Sandras e Bouchardat. Obtem-se também facilmente pela acção de um sulfureto alcalino sobre um persal de ferro. É preciso que este antidoto seja preparado artificialmente; o sulfureto de ferro nativo não serve absolutamente, porque è de ordinário arsenical. Tem-se em vista com este meio formar dous compostos insolúveis com o veneno: o sulfureto de arsé- nico, e o arsenito ou arseniato de ferro. Em terceiro logar vem o hydrato de peroxydo de ferro, proposto por Bunsen, e geralmente preconizado por todos os toxicologistas como um dos melhores antídotos do arsénico ; tem por fim converter este veneno em um arsenito ou arse- 250 ARSÉNICO niatode ferro, insolúvel. Deve ser também preparado de fresco ou na occasião, precipitando-se um persal de ferro por um alcali, e tendo-se o mesmo cuidado exigido para a preparação da magnesia. 1 Apozo emprego destes dous últimos antidotosé indispensável a applicação de purgativos oleosos ou salinos, visto queelles não gozam desta propriedade, e não se deve descançar sobre a insolubilidade dos compostos formados, que não é absoluta; por isso não devem ser conservados nos intestinos. Desde, porém, que o veneno tem penetrado por absorpção na torrente circulatória, aconselham-se diversas medicações, con- forme a violência maior ou menor de certa ordem de sympto- mas. Orfila recommendava com instancia o uso dos diuréticos e propunha uma bebida composta de tres litros de aguacommum, um dito de agua de Selters, meio litro de vinho branco e 30 a 40 grammas de nitro. Esta formula deve ser absolutamente rejeitada com a dóse de nitro que encerra ; ella não preenche o fim que tinha em vista o autor, porque sobre não ser diurética nesta dóse excessiva 2, o nitro deve antes produzir effeitos geraes deprimentes e hyposthenisantes, synergicos com os do veneno ; é portanto contra-indicado. Eliminado o nitro, a for- mula presta-se, como bebida acidula-gazosa e excitante dif- fusiva, a combater vantajosamente alguns phenomenos gastro- intestinaes e o estado adynamico. Com effeito, o vinho e os al- coolicos em geral são preconizados com o duplo fim de levantar as forças do organismo e facilitar a eliminação do veneno pelos emunctorios naturaes. O opio é também indicado (Gubler). Além disso deve-se auxiliar esta medicação com fricções seccas e outras applicações estimulantes sobre a pelle, com banhos eclys- teres oleosos, emollientes, e um regimen analeptico e substan- cial ; ás vezes é preciso recorrer ao emprego da electricidade. 1 Rouger aconselha o perchlorureto de ferro associado á magnesia ; o que até certo ponto importa em dar o peroxydo de ferro. 2 Rabuteau nega a propriedade diurética do nitro em qualquer dóse (elementos de therapeuticá). VENENOS HEMATICOS 251 Para os casos de intoxicação profissional são de importância capital os cuidados hygienicos, que consistem no uso de uma mascara de gaze, durante o trabalho nas officinas, onde deve ser vedado fazer qualquer refeição. Convém lavar sempre as mãos com agua acidulada por acido chlorhydrico, e inter- romper ou cessar definitivamente o trabalho, logo que se de- clarem os symptomas da intoxicação. Aproveitam muito nestes casos, o uso de banhos sulfurosos, e internamente o iodureto de potássio, segundo Gubler, não porque se apodere do arsénico para entregal-o â torrente circulatória e arras- tal-o assim para fóra do organismo, como geralmente se pensa, mas porque favorece a desnutrição dos orgãos, de que o ve- neno fazia já parte integrante. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Sempre que for possível, devem ser submettidas â analyse, para esta pesquiza, porções de diversos orgãos, particular - mente do fígado, que até estes últimos tempos tem sido reputado o receptaculo especial e predilecto do arsénico, bem como da maior parte dos venenos. Segundo, porém, a opinião de Bellini, Dragendorff, Scolosuboff e outros autores modernos, de confor- midade com as investigações mais recentes sobre a distribuição do arsénico na economia, sabe-se hoje que este toxico se ac- cumula em maior proporção nos centros nervosos e nos ossos, onde parece substituir-se ao phosphoro. O ultimo destes auto- res, citado por Nothnagel e Rossbach, diz ter achado no cerebro de um envenenado 30 vezes mais arsénico do que no fígado e nos musculos. Este facto, de que os dous notá- veis professores de lena e Wurtzburg parecem duvidar, attendendo para a raridade das paralysias nesta intoxicação, não parece mais hoje ser contestado, depois dos importantes estudos feitos por Cougit no processo Villeneuve (vinhos de 252 ARSÉNICO Hyères), o por B rou ardei e Pouchet no processo Pastré Beaus- sier ; elles mostraram a frequência deste symptoma em certas formas de arsenicismo, e confirmaram, em relação aos ossos, o resultado das experiencias de Dragendorff neste sentido, em 1879, das quaes chegou elle a esta conclusão: qualquer que seja o modo de introducção do arsénico na economia, este se accumula muito sensivelmente no tecido esponjoso dos ossos, e ahi se fixa de tal maneira, que sua presença pôde ser revelada nos ossos do craneo, e nas vertebras principalmente, mesmo algum tempo depois que todo o traço do veneno tem já desapparecido das visceras, em que se localisa de preferencia, inclusive o figado. Por occasião dos estudos de Brouardel e Pouchet, foi verifi- cada a presença de arsénico também 11a pelle nos pellos dos animaes submettidos âs experiencias com este toxico, bem como nos cabellos de alguns dos envenenados por Pastré Beaussier. Assim, com 100 grammas dos cabellos de uma mulher, elles obtiveram um annel arsenical de 1 milligramma pouco mais ou menos ; com 40 grammas de cabellos e outros pellos de seu marido, ambos victimas daquelle crime, con- seguiram um annel arsenical de 1 a2 milligrammas. O mesmo se poderia dizer a respeito das unhas. Destes factos concluíram os dous notáveis peritos que a presença do arsénico nos ossos do craneo, nas vertebras, na pelle, nos cabellos e unhas das pessoas envenenadas e mortas com esta substancia, deve assignalar, entre os factos definiti- vamente adquiridos para a toxicologia humana, a localisação do arsénico no tecido esponjoso dos ossos, bem como sua elimi- nação pelas cellulas epidérmicas. Estes orgãos, pois, e bem assim vários líquidos da sangue, urina, etc. devem, sendo possível, ser recolhidos para a analyse toxicologica, não fallando no conteúdo do estomago e dos intestinos e nas matérias vomitadas, onde 0 veneno pôde ser encontrado em natureza e reconhecido por ensaios chimicos VENENOS HEMATICOS 253 directos. Para isso separa-se cora todo o cuidado das matérias com que estão misturados os grumos brancos ou amarellados e submette-se a um dos processos ordinários por via húmida ou secca, independente de destruição de matéria organica. Para a pesquiza do arsénico nas visceras e humores da economia póde-se lançar mão, por assim dizer, indistinctamente de qualquer dos processos chimicos de destruição de matéria organica, já descriptos ; porquanto foram quasi todos imaginados especialmente a proposito de factos confirmados ou suspeitos de envenenamento pelo arsénico, ou directamente para a pesquiza do veneno, ou indirectamente para evitar a sua perda, nos casos indeterminados. Prefere-se, todavia, um dos quatro seguintes: 1.0 Processo de Flandin e Danger. 2.° Processo de Fresenius e Babo ou de Ferreirade Abreu. 3.0 Processo de Schneider e Fyfe. 4.° Processo de Wòhler e Siebold. Cumpre notar, antes de tudo, que nos processos em que se emprega o acido sulfurico é preciso regular bem a tempera- tura, e dirigir a operação de modo a evitar a reducção mesmo parcial deste acido, e a formação do gaz sulfuroso ou sulphy- drico. Outrosim, naquelles em que se lança mão do acido azotico deve-se fazer eliminar totalmente os vapores nitrosos, e finalmente, em todo o caso, promover o mais completamente possivel a destruição da matéria organica. Os inconvenientes ligados ã presença desses gazes e vapores estranhos, e im- purezas organicas, no liquido final destinado a ser introduzido no apparelho de March, serão indicados a proposito do estudo deste apparelho. Recorrendo ao processo de Wòhler e Siebold, si por um lado é de grande vantagem empregar uma proporção notável de nitro, necessária para a destruição completa da ma- téria organica, por outro ha inconveniente no excesso deste sal, assim como do azotato proveniente de sua decomposição 254 ARSÉNICO parcial, e do qual é preciso desembaraçar o liquido, tratando-o por acido sulphurico, até que os vapores rutilantes nitrosos sejam substituidos por fumaças brancas daquelle acido; se- para-se depois o sulphato alcalino por crystallização. Segundo Fresenius, não se deve ter o receio de alguns chi- micos relativamente á perda de uma certa quantidade de arsé- nico, porquanto isso só teria logar na temperatura em que o proprio acido sulphurico se volatilizasse. No processo de Schneider e Fyfe, o chlorureto de arsénico pode ser condensado e recebido nesse estado em um balão reci- piente resfriado e secco ; ordinariamente, porém, faz-se terminar o apparelho por um tubo de bolas de Liebig, contendo agua, onde o chlorureto arsenical chegando decompõe-se sem ácidos arsenioso e chlorhydrico, e fica assim em condições favoráveis para a reacção do acido sulphydrico e precipitação do sulphu- reto de arsénico. O liquido final resultante de qualquer destes processos, observadas todas as regras, poderia ser logo introduzido no apparelho de March. Para maior cautela e segurança, porém, os toxicologistas aconselham submetter primeiramente o dito liquido á acção do gaz sulphydrico, afim de precipitar e separar o sulphureto de arsénico. Para isso faz-se passar uma corrente desse gaz até excesso, servindo-se de algum dos apparelhos e processos já descriptos. Como, porém, o arsénico póde existir e existe naturalmente antes no estado de acido arsénico, cuja precipitação pelo gaz sulphydrico é mais lenta e difficil, Wòhler, e Fresenius e Babo propuzeram reduzir primeiramente aquelle acido ao estado de acido arsenioso, mediante o emprego do gaz sulfuroso, ou melhor do bisulfito de sodio, si o liquido já é bastante acido, e previamenfce privado, pelo calor, de todos os vapores nitrosos e chlorados ; deve-se ter o cuidado de aquecer de novo para expellir o excesso de gaz sulphuroso. Esta precaução, porém, não tem utilidade sinão quando se tem pressa de concluir a VENENOS HEMATICOS 255 analyse, ou quando as matérias submettidas á mesma estão misturadas de princípios ferruginosos, como acontece nos cadá- veres dos envenenados, que teem tomado preparações de ferro como antídoto. Obtido o precipitado supposto de ser constituído por sulphu- reto de arsénico, trata-se de demonstrar a sua natureza e pôr em evidencia o arsénico, Para isto existem cinco methodos, a saber: oxydação, re- ducção, substituição, electrolyse e dialyse. Methodo de oxydação —a) Por via ignea. Separado e lavado o precipitado, mistura-se com seu peso de carbonato de sodio e o dobro de azotatode sodio ; secca-se e projecta-se tudo num cadinho de porcellana, seguindo-se dahi a marcha do processo Wõhler eSiebold. b) Por via húmida. Trata-se o residuo ainda sobre o filtro por ammonea, que dissolve todo o sulphureto do arsénico. Passa um liquido escuro, que neutraliza por acido sulphurico diluido; ajunta-se mais acido (o dobro da quantidade já empre- gada), evapora-se em uma capsula de porcellana, evitando que a temperatura exceda de 170°, addicionando de vez em quando alguns centigrammas de nitrato de sodio. Quando tudo é dissolvido, e que começam a desprender-se vapores brancos de acido sulphurico, ficando um liquido ama- rello, a operação é terminada. Methodo de reducção — Pertencem a este methodo (por via ignea) alguns ensaios preliminares de muito valor, que se executam de preferencia directamente sobre o proprio composto arsenical encontrado no tubo digestivo ou na matéria dos vomitos, e cuidadosamente separado. l.° Lançado sobre brazas, desprende fumaça branca com cheiro alliaceo. 1 1 A causa a que è devido este cheiro, que aliás não é exclusivo do arsé- nico nestas circumstancias, porque também se percebe na oxydação lenta do phosphoro, não é ainda conhecida. Sente-se, todas as vezes que o arsénico é volatilizado em contacto com o ar, quando nem o metalloide nem o anhy- 256 Arsénico 2. Misturado com 4 ou 5 vezes seu peso de acetato de potássio ou de sodio, e aquecido em tubo fechado numa extre- midade, desprende fumaça branca e pesada, mais abundante, e com cheiro alliaceo forte, desagradavel, repugnante e caracte- ristico de cacodyio, que então se forma. 3. Collocado em outro tubo igual, tendo por cima uma camada de carvão em pó, e aquecido este primeiramente, depois aquelle, o composto arsenical ó reduzido e o arsénico livre deposita-se mais adeante no tubo sob a fórma de um annel metallico. Como, porém, o arsénico pôde achar-se em estado de combinação directamente volátil, ou diflicilmente redu- ctivel a este artificio tão simples, e portanto se corra o risco de perdel-o e não accusal-o, ó mais seguro substituir ao carvão o cyanureto de potássio, ou então o fluxo negro, que, como se sabe, é uma mistura de carvão e carbonato de potássio; 1 agentes reductores, que podem ser misturados com o composto arsenical, e cuja vantagem está em proporcionar ao lado do carvão o alcali que tem por fim fixar o arsénico sob a fórma de uma combinação facilmente reductivel. Para maior garantia do ensaio, alguns autores aconselham misturar qualquer daquelles agentes com um pouco de carbo- nato de sodio, que outros reprovam, porque acreditam que, nada adeantando ao processo, augmentam o intumescimento da massa e perturbam o ensaio. Entretanto diz Chapuis que si se tratar do sulfureto de arsénico, sobretudo misturado de enxofre, este artificio é necessário, porque o cyanureto alcalino só não dá resultado. drido arsenioso, que é o producto formado nestas condições, emittem cheiro algum. Dalii duas theorias, que se tem imaginado para explicar tal cheiro : ou um phenomeno momentâneo correlativo da mesma oxydação, assim como se pretende que succede com certas essencias, e do mesmo modo que outros phenomenos physicos acompanham em geral as acções chimicas, ou então a formação de um composto arsenical intermediário ainda não conhecido nem isolado, algum snboxydo de arsénico, dotado talvez desse cheiro. Neste ensaio o composto arsenical é primeiro reduzido pelo carvão incandescente, e depois o arsénico livre reoxyda-se ; em uma superfície quente qualquer o facto não se daria sinão com o proprio arsénico elementar. 1 Está bem visto que, em vez deste corpo, que é producto da calcinação do cremor do tartaro, póde-se fazer expressamente a mistura que elle representa. VENENOS HEMATICOS 257 Cumpre ainda notar que, segundo esse autor, a presença dos saes de bismutho e de antimonio, dos oxydos alcalinos e alcalino-terrosos não embaraça aquella reacção; mas a dos oxydos de chumbo, de cobre, de prata, de nickel, de cobalto e de ferro se oppoem a ella. Processo de Berzelius—Recolhe-se o precipitado n’um filtro, lava-se com agua distillada quente, dissolve-se na am- monia e evapora-se o residuo ainda húmido, mistura-se com um excesso de carbonato de sodio, secca-se e submette-se á acção combinada do calor e de uma corrente de hydrogeno puro e secco, atravez de um tubo contendo chlorureto de cálcio fundido ; ou então, primeiramente, segundo Duflos e Hirsh, atravez de algodão impregnado de uma solução de subli- mado corrosivo, e segundo Dragendorff, de pedra pomes imbebidaem outra de sulfato de prata; depois vem o tubo con- tendo na primeira metade potassa caustica, e na segunda chlorureto de cálcio. Nestas condições forma-se o sulfo-arseniato de sodio, que decompõe-se parcialmente : o arsénico livre deposita-se sob a fôrma de um annel metallico, com os caracteres que mais adeante serão descriptos. O apparelho apresentado por Mohr para este processo parece de grande vantagem; ao menos dá-nos a segurança de que o arsénico achado não provém nem do zinco, nem do acido sulphurico. Tem-se, entretanto, reconhecido neste processo o duplo inconveniente : Io, de não isolar todo o arsénico, porquanto uma parte se desprende e se perde no estado de hydrogeno arseniado, e a porção que se acha em estado de sulfo-sal, resiste á decom- posição pelo hydrogeno, é irreductivel; 2o, porque compre- hende também o antimonio, que separa-se e deposita-se ao mesmo tempo que o arsénico. Processo de Fresemus e Babo— Reduz-se o sulfureto de arsénico segundo o artificio de que se lança mão no ensaio pyrognostico já indicado e que consiste em aquecer o sulfureto TOXICOLOGIA 17 258 ARSÉNICO unido a uma mistura composta de uma parte de cyanureto de potássio e tres partes de carbonato de sodio, facilitando-se porém a reacção por uma corrente de gaz carbonico, em um apparelho extremamente simples. Compõe-se de um frasco productor de gaz carbonico, contendo fragmentos de pedra calcarea, sobre os quaes se lança acido chlorhydrico, outro menor contendo acido sulfurico ou chlorureto de cálcio para seccar o gaz, e termina com um tubo de reducção. Segundo Rose, Mohr e Dragendorff, ainda este processo não é perfeito, porque, si por um lado impede a volatilisação do antimonio e do estanho, e é a sua única vantagem real, por outro lado facilita por demais a do arsénico, de maneira que este corpo se perde em proporção notável, acarretado pela cor- rente gazosa, o que se denuncia pelo cheiro alliac ;o que exhala, além da parte do arsénico, que, unindo-se ao metal alcalino, forma um arseniureto de sodio, que escapa á sublimação. Otto pensa do mesmo modo e lembra, para evitar esta perda, operar em um tubo simples a mistura de uma pequena quantidade de carbonato calcareo, que ao calor rubro daria um desprendimento sufficiente de gaz carbonico. Mohr propõe ainda outro processo, que se recommenda por sua simplicidade e precisão. Consiste no seguinte: Mistura-se intimamente n’um gral o sulfureto de arsénico obti lo pela dissolução na ammonia ou no carbonato de ammonio e depois evaporado asecco, com oxalato neutro de sodio bem secco, e introduz-se tudo num tubo de ensaio fechado incompletamente com uma rolha de greda ; aquece-se fortemente durante um quarto de hora a meia hora, mantendo-se o tubo inclinado ou mesmo collocado horizontalmente, porém de maneira a que o vidro não se amolleça e não se curve. Obtem-se promptamente um deposito metallico brilhante e muito claro. Nesta reacção o oxalato decompõe-se fornecendo gaz carbonico e oxydo de carbono, e este ultimo, que ó um poderoso reductor, comporta-se como hydrogeno nascente. VENENOS HEMATICOS 259 Ha também um processo mixto, isto é, dereducção precedida de oxydação, devido a Mohr, e que elle considera o mais simples para separar todo o arsénico, sem o emprego de appa- relhos. E’ o seguinte : trata-se o sulfureto arsenical por uma quantidade conveniente de acido nitrico e algumas gottas de acido chlorhydrico; forma-se acido arsénico, evapora-se até residuo secco, que é constituido por este acido. Dissol- ve-se-o em algumas gottas de agua quente, reduz-se á massa por meio de um pouco de carvão em pó grosso,1 e secca~se per- feitamente bem por meio do calor; colloca-se no fundo de um tubo de ensaio, de paredes espessas, e por cima uma camada daquelle mesmo pó de carvão. Aquece-se primeiramente esta camada superior e depois a mistura. Si ha ainda alguma hu- midade que se condensa nas paredes do tubo, enxuga-se por meio de um papel de filtro enrolado na ponta de um bastão. Nesta operação obtem-se a quantidade total de arsénico, sob a fórma de um bello deposito annullar. O mesmo Mohr propõe ainda outro modo de proceder, que consiste em obter primeiramente o arseniato ammoniaco- magnesiano, e decompol-o depois em temperatura rubra pelo hydrogeno. Para isso oxyda-se o sulphureto de arsénico por acido nitrico concentrado, ajunta-se ammonia, e trata-se depois pela mistura de um sal solúvel de magnésio e chlorureto de ammonio. Forma-se o sal duplo insolúvel, que se precipita, lava-se o precipitado sobre o filtro, secca-se e submette-se á acção do hydrogeno, ou do cyanureto de potássio, nos apparelhos respectivos. Duflos e Hirsh por sua vez apresentaram uma modificação ao processo primitivo de Berzelius,que o torna também um pro- cesso mixto, e consiste em converter o sulfureto de arsénico em acido arsénico por meio do acido nitrico. Depois neutraliza-se 1 Será melhor si for feito de pinheiro manso (sapin), porque de outras especies encerra em geral substancias bituminosas que perturbam os resul- tados. 260 ARSÉNICO pela potassa, e mistura-se com um pouco.de fluxo negro (cremor de tartaro calcinado) e agua, para formar pequenos cylindros, que se seccam completamente e se submettem á corrente do hydrogeno, em qualquer dos apparelhos proprios. Nestas condições é certo que todo o arsénico é isolado, mas não se evita nem a perda por conta da volatilisação de certa quantidade de hydrogeno arseniado, nem a confusão com o antimonio. Ha, porém, debaixo deste ponto de vista um ultimo pro- cesso que, embora mais complicado, dá resultados mais segu- ros, é o de Zwenger : 0 precipitado de sulphureto de arsénico, depois de lavado, põe-se n’uma capsula, rega-se com acido ni- trico concentrado e evapora-se a secco. 0 residuo, fundido com azotato de sodio, é lançado n’agua, e o liquido trata-se por uma mistura de sulphato ou chlorureto de magnésio, chlorureto de ammonio e ammonia. Forma-se o precipitado crystallino de ar- seniato ammmoniaco-magnesiano, que se lava com agua ammo- niacal e secca-se. Mistura-se com um pouquinho de carvão, carbonato de sodio, e o decuplo do seu peso de oxalato de sodio secco introduz-se n’um tubo de vidro forte, fechado n’uma extre- midade, aquece-se a parte inferior até á camada arsenical, que se reconhece pela côr preta do carvão ( e tal é o unico fim da sua presença neste processo). Expellido o ar pela mistura gazosa (CO e CO 2) resultante da decomposição parcial do oxalato, fecha-se a outra extremidade do tubo, á lampada, e aquece-se então a mistura arsenical. Obtem-se o deposito annullar perfei- tamente constituído. E’certo que por este artificio evitam-se as causas de erro de outros processos, e não tem sinão o inconveniente de uma insi- gnificante perda de arsénico, porque a insolubilidade do arseniato ammoniaco-magnesiano não é absoluta. Apparelho de Marsh1—Talé oapparelho que tem recebido o applauso e a confiança geral, e que mais nomeada e reputação 1 Otto denomina èste âppai'elho: de Berzelius—Marsh, para recordar o aper> feiçoamento complementar introduzido por aquelle chimico, que primeiro in* VENENOS HEMATICOS 261 tem grangeado para a pesquiza do arsénico. Vou descrevel-o primeiro, para fazer depois a sua critica e justa apreciação, mostrando quaes as suas vantagens, suas causas de erro, suas condições de successo, e portanto qual o seu verdadeiro valor pratico. Este apparelho, que em sua essencia, em seu fundo, nada tem de especial e novo, pois não passa de um apparelho pro- ductor de hydrogeno, foi pela primeira vez applicado aos ensaios toxicologicos do arsénico em 1836, por um simples operário do arsenal de Londres, chamado James Marsh, que, sem ser chi- mico, e apenas um curioso, conquistou com essa feliz àpplicação um titulo de merecida e immorredoura celebridade. Funda-se a pesquiza do arsénico por este apparelho nos seguintes princípios, aliás já conhecidos: 1. O hydrogeno nascente reduz facilmente qualquer dos com- postos oxygenados solúveis de arsénico e seus respectivos saes, separando o arsénico. 2. O mesmo hydrogeno une-se depois ao arsénico posto em liberdadee forma o gaz hydrogeno arseniado. 1 3. Este gaz, sendo fortemente aquecido, decompõe-se nos seus dous elementos, e o arsénico deposita-se sob a fôrma de annel, na parte menos quente do tubo. 4. Inflammado na extremidade afinada por onde se escapa, arde como chammalivida particular, que, esmagada de encontro a uma superfície branca e fria, deixa depositar manchas pretas alouradas, constituídas por arsénico elementar, tantas quantos forem os pontos tocados pela cliamma. O apparelho de Marsh, na sua fôrma primitiva e mais simples, constava apenas de um tubo em U, de ramos desiguaes, aberto dicou a separação do arsénico pela reducção do hydrogeno arseniado por meio do calor, isto é, a formação do annel arsenical; o primitivo apparelho de Marsh só tinha em vista a prod ;cção de manchas pela combustão do gaz. Por mais plausivel que pareça esta rectificação, ella importa não pequena injustiça ao modesto autor do apparelho, cujo nome deve em todo caso figurar em primeiro logar : seja o apparelho Marsh—Berzelius. 1 Segundo Dragendorff, forma-se também sempre uma pequena quantidade de hydrureto solido. 262 ARSÉNICO na extremidade do ramo maior, por onde se introduz o zinco e o acido sulphurico diluido, tendo uma chave ou torneira no ramo mais curto, que é terminado em ponta para o escapamento do gaz e sua combustão (fig. 9). Fia. 9 Depois, modificado por Chevallier, era representado por um provete com pé, cuja rolha é bi-perfurada para dar passagem a um tubo de desprendimento e a outro destinado â introducção do liquido, tendo-se no provete lançado previamente o zinco. Orfila, por sua vez, modificou também o apparelho substi- tuindo o provete por um frasco bi-tubulado. Mais tarde outras modificações importantes foram sendo introduzidas por Berzelius, Liebig, Kapelin, Kampmann e Otto e, finalmente, por uma commissâo da Academia de Sciencias, composta de Thenard, Dumas, Boussingault e Regnault. O apparelho de Marsh, completo e aperfeiçoado, tal qual é usado hoje, consta do seguinte (fig. 10) : Uma garrafinha de rolha biperfurada, ou um frasco bi-tubulado i, destinado á producção de hydrogeno. Para isso lança-se primeiro no 1 Este frasco deve ser pequeno, porque a sensibilidade do apparelho está na razão inversa das suas dimensões (Ohandellon). Demais, no apparelho descripto por este autor, o frasco, em vez de ser bi-tubulado, é tri-tubulado, aproveitando-se a terceira abertura para a passagem de um pequeno syphão, VENENOS HEMATICOS 263 frasco aparas ou fragmentos de zinco muito puro ; depois ajunta-se acido sulphurico também muito puro/ previa- mente diluido ao 8o ou 9o, e já resfriado, de maneira que a mistura occupe um terço mais ou menos da capacidade do frasco. Por uma das aberturas passa um tubo de segurança, que também serve para a introducção dos líquidos no apparelho; FI3. 10 pela outra, parte um tubo curvo em angulo recto, tendo uma dilatação ou ampola destinada a receber o vapor d’agua que se condensa no seu trajecto ; dahi vae ter a um tubo horizontal, de muito maior diâmetro, contendo amian- tho, 1 que representa o papel de um filtro deseccador, incum- bido de reter as partículas d’agua e outras (zinco, acido sul- phurico), que porventura sejam acarretadas com o gaz. cujo ramo mais curto deve mergulhar no liquido até ao fundo do mesmo; é uma boa modificação, que tem por fim permittir esvasiar o frasco, quando for preciso, sem desmontar o apparelho ; mais adeante será explicado como isso se faz. (V. a fig. na parte relativa á pesquiza do antimonio). 1 Em vez do amiantho, póde-se empregar o chlorureto de cálcio fundido, ou então, segundo a recommendaçào de Otto adoptada por Chandellon, na primeira metade do tubo fragmentos de potassa caustica, e na outra o chlo- rureto de cálcio, com o fim, diz elle, de evitar a formação de traços de acido chlorhydrico resultante da reacção de partículas sulphuricas, arrastadas pelo gaz, sobre o chlorureto calcico. Além disso a potassa tem a vantagem de fixar 03 traços de gaz sulphydrico, que, segundo Kolbe, se formam facilmente, sempre que pela falta de conveniente e prévia diluição de acido sulphurico, ou por qualquer outro motivo, a temperatura interna do frasco attinge 30°. O emprego da potassa, p>rém, não convém nos casos indeterminados, e sómente quando se está certo da ausência do antimonio, porquanto, segundo observações de Eragendorfl', ella decompõe o gaz hydrogeno antimoniado ou stibamina, e o faria escapar aos meios ordinários de seu reconhecimento neste apparelho. Isto póde não ser um inconveniente, porquanto proporciona o meio de separar o arsénico do antimonio na hypothese da coexistência dos dous venenos, procurando-se o ultimo no alcali empregado. 264 ARSÉNICO A este tubo segue-se outro e o ultimo, mais estreito e mais longo (5 a 7 millimetros de largura e 5 a 7 decimetros de com- primento), e que deve ser de vidro resistente, pouco fusivel, inteiramente isento de chumbo ede arsénico, vidro da Bohemia, destinado a ser fortemente aquecido em um ou mais pontos de sua extensão, para a decomposição do gaz hydrogeno arseniado, e formação do annel arsenical. Este aquecimento póde-se fazer por meio de uma lampada de álcool de Argand á dupla corrente, ou de um bico de Bunsen que Otto considera insufficiente, ou de uma grelha servida por gaz (Dragendoríf). Na duvida sobre a qualidade e resistência do vidro do tubo, reveste-se a parte, que tem de ser aquecida, com uma folha delgada de cobre ou latão (clinquant), que tem a vantagem de regularisar melhor o calor, e, no caso de amollecimento do vidro, evitar a curvatura e obliteração do tubo, 1 Nestas condições o gaz decomposto e o arsénico separado deposita-se em fôrma de annel, que pôde ser recuado, pela sua volatilidade, para um ponto mais afastado, e si o tubo é suffi- cientemente longo, permittir obter mais de um annel arsenical. Inflamma-se depois o gaz na extremidade do tubo, afim de se recolher as manchas arsenicaes.; para isso esmaga-se a chamma de encontro a um pires ou uma capsula de porcellana branca e fria, tendo-se o cuidado de renovar os pontos de contacto com a chamma, apenas em um delles se tem formado o deposito arse- nical, para evitar que o calor da mesma o faça desapparecer por volatilidade.2 1 Segundo o conselho de Otto, adoptado por Tardieu e Chandellon, este tubo deve apresentar ura ou mais estrangulamentos, em vários pontos e sua extre- midade livre voltada para cima, curvando-se para isso o tubo, em angulo recfco ou ligeiramente obliquo, para, quando se tenha recolhido as manchas precisas, voltal-o para baixo e mergulhal-o n’uma solução de nitrato de prata, contida em um frasco, que depois Naquet substituiu por um systema de bolas de Liebig. 2 Ipso facto seria um erro empregar uma superfície quente, porque impediria a deposição do arsénico, sem esquecer a recommendação de Otto, de que uma superfície muito mais fria do que o ambiente também ofíerece o inconveniente de condensar primeiro o vapor d’agua, e fazer sobrenadar no liquido o arsénico sob a fôrma de uma pellicula escura. VENENOS HEMATICOS 265 0 que ahi se passa é muito simples. Na combustão viva do gaz hydrogeno arseuiado queimam-se os dous elementos que o compoem, formando vapor d’agua e anhydrido arsenioso. Quando com a approximação de uma superfície fria se abaixa a temperatura da chamma, e se embaraça o accesso do ar e portanto do oxygeno, então o elemento menos combustível, que è neste caso o arsénico, escapa á combustão e deposita-se sob a fôrma de manchas, cuja natureza se conhece e se demonstra, assim como a dos anneis, por ensaios rigorosos e sensiveis, que serão expostos mais adeante. Alguns toxicologistas ligam importância secundaria a estas manchas; porém Orfila, Tardieu e muitos outros combatem este modo de pensar, porque, dizem elles, os anneis arsenicaes não se prestam a toda serie de reacções que se pôde realizar com as manchas, visto que estas se produzem com muito mais faci- lidade, e se multiplicam em grande numero ao tempo em que se pôde apenas obter um annel arsenical bem pronunciado. Entre- tanto creio ser de boa regra começar por obter esse annel, por isso que, dada a hypothese de uma pequena quantidade de arsénico, não se podendo saber o momento preciso em que começa a desprender-se o hydrogeno arseniado, para se pôr em pratica o artificio destinado a recolher as manchas, correr-se-hia o risco de perder-se o arsénico, salvo si desde o principio da operação e incessantemente, sem interrupção, se impuzesse o chimico o trabalho ingrato e fatigante de consultar a chamma. Parece, pois, melhor promover desde logo o aquecimento do tubo; e demais, nada impede de proceder ao mesmo tempo aos dous en- saios: aquecendo o tubo e inflammandoo gaz, tem-se a garantia de reter e aproveitar o menor traço de arsénico, que atravesse o tubo no estado de gaz hydrogeno arseniado ; o que resistir á reducção não escapará á combustão, e assim se poderá obter ao mesmo tempo annel e manchas. O funccionamento, porém, deste apparelho, tão importante por sua delicadeza e extrema sensibilidade na pesquiza do 266 ARSÉNICO arsénico, depende do conhecimento das causas de erro que podem comprometter os seus resultados, e das condições de successo, que cumpre rigorosamente observar, para que esses resultados inspirem toda a confiança. E’ o que passo a desenvolver : A — As causas de erro procedem de impurezas e principios estranhos, seja preexistentes nos corpos empregados para a producção do hydrogeno, seja introduzidos no apparelho juntamente com o liquido a analysar, seja, finalmente, for- mados no seu interior por circumstancias desfavoráveis á reacção que ahi se passa. Algumas dessas impurezas teem mais de uma origem, e por isso o seu estudo não será feito segundo estas circumstancias, mas segundo sua natureza ; julgo assim mais methodico. As impurezas que podem acompanhar os ingredientes em- pregados são : o proprio arsénico, no zinco e no acido sulphu- rico de commercio 1 e productos nitrosos. As que podem ser introduzidas com o liquido a analysar são : os mesmos productos nitrosos, além disso o chloro, o acido chlorhydrico, o acido sulphuroso e sulphydrico, e final- mente traços de matéria organica. Os principios estranhos que podem ser formados no interior do apparelho pela própria reacção que ahi se passa são : o acido sulphuroso e sulphydrico. 1. bastante obvio e intuitivo o inconveniente ligado á presença do arsénico dentro de um apparelho destinado a pes- quizas toxicologicas, para que me dispense de insistir nisto. 2. Os productos nitrosos (que provêm ou do proprio processo de fabricação industrial do acido sulfurico, quando este não é depois purificado, ou dos processos de destruição da matéria organica em que se emprega o acido azotico) teem o grande inconveniente de impedir a formação do gaz hydrogeno 1 Neste ultimo, quando é preparado com pyrites de ferro (sulfureto na- tivo), em vez de o ser com enxofre. VENENOS HEMATICOS 267 arseniado, mesmo na presença dos elementos que ocompoem; em seu logar forma-se o hydrureto solido de arsénico, fixo, que occulta o veneno aos seus meios de caracterisação neste apparelho. Dragendorff acredita mesmo que este composto se forma sempre, e diz que nas suas experiencias nunca conse- guiu, por causa disso, fazer desprender todo o arsénico. Co- nhece-se, ê verdade, hoje um correctivo efficaz a oppor contra esta causa de erro : basea-se na influencia que exercem certos saes metallicos ou certos metaes (chumbo, cobre, bismutho mercúrio, etc.) e sobretudo certos principios orgânicos (assucar, gomma, etc.); elles decompoem o dito hydrureto solido, trans- formando-o em gaz hydrogeno arseniado. Esta circumstancia, porém, acarreta por sua vez uma nova causa de erro, que torna a applicação prévia daquelle correctivo imprescindível, sempre que se trabalha com este apparelho, e vem a ser que, quando se empregar ao mesmo tempo um acido sulphurico nitroso e um zinco impuro do commercio contendo arsénico, este passará despercebido na experiencia em branco, autorizando o chimico inexperiente ou descuidado a jurar sobre a pureza dos seus ingredientes, ao menos sobre a ausência do arsénico, o que é essencial ríuma pesquiza deste corpo. Pois bem, succede que justamente depois de introduzido no apparelho o liquido a analysar, é que appa- rece o arsénico, fazendo crer muito naturalmente que elle provém do liquido, e portanto das matérias submettidas á ana- lyse, quando póde ter sido o resultado da reacção entre o hydru- reto solido de arsénico formado naquellas condições e alguma substancia organica contida ainda no mesmo liquido, aliás isento completamente do menor vestígio de arsénico ! Hypothese gravíssima esta, que enfraquece o valor absoluto da experien- cia em branco e justifica a necessidade de operar com ingre- dientes puríssimos, adrede preparados. Todavia ella póde adquirir esse valor observadas as condições de successo, que serão daqui a pouco indicadas. 268 ARSÉNICO E’ preciso ainda lembrar, por outro lado, que esta pureza extrema dos ingredientes não só retarda sensivelmente a reacçâo que se estabelece entre elles, como póde embaraçar o desprendimento do hydrogeno e diminuir a quantidade deste gaz, que deve entrar na combinação arsenical; uma parte do hydrogeno (Mohr) e do arsénico (Otto) deposita-se sobre o pro- prio zinco, formando uma especie de pilha. Inconvenientes aliás sem importância e que se remedeia facilmente com a presença de fios de platina, no frasco productor de hydrogeno, ou, como propõe Dragendoríf, galvanisando-se previamente o zinco em- pregado com um revestimento de platina ou de prata. 1 3.° A introducção de gaz sulphuroso ou a sua formação dentro do apparelho de March, pela reducção parcial do acido sulphurico, póde comprometter muito a pesquiza do arsénico, porquanto na presença do hydrogeno nascente esse gaz reduz-se por sua vez e converte-se em gaz sulphydrico, que actuando sobre o composto arsenical forma o sulfureto respectivo, in- solúvel e fixo, e que portanto furta o veneno aos meios de sua evidenciação. O gaz sulphuroso póde provir do tratamento das matérias organicas pelo acido sulphurico (proc. de Flandin e Danger) ou, dentro do apparelho, da addição de grande quan- tidade de acido sulphurico, sobretudo não estando elle conve- nientemente diluido, o que dá logar a uma reacção tumultuosa, elevação considerável de temperatura, desprendimento brusco de hydrogeno, que nestas condições reage sobre o proprio acido sulphurico. As cautelas a pôr em pratica para evitar e corrigir este grande inconveniente, que é um motivo de in- successo, impõem-se por sua natureza, e serão recommendadas adeante. 1 Platina-se o zinco addicionando-se ao acido diluído algumas gottas de chlorurefco de platina; quando o desprendimento do gaz começa a tornar-se tumultuoso, retira-se o acido e lava-se o zinco com agua. Õ zinco assim platinado offerece mais a vantagem de desenvolver maior actividade na reacção com o acido sulphurico ; donde resulta que o desprendimento gazoso persistirá ainda, quando o liquido attinja um gráo de concentração que seria bastante para impedir o ataque do zinco não platinado (Chandeílon). VENENOS HEM ÁTICOS 269 4. A presença de chloro no apparelho é ainda outra causa de erro, a que cumpre attender; elle deriva dos processos de destruição de matéria organica baseados no emprego de misturas chlorogenicas, quando não se tem tido o cuidado in- adiável de expellir pelos meios proprios e conhecidos todo o chloro livre do liquido resultante desse tratamento, como é de regra. Os inconvenientes desse elemento estranho consistem ou 11a formação directa do chlorureto de arsénico, volátil e incom- bustivel, podendo escapará decomposição pelo calor acarretando 0 veneno, ou na producção do acido chlorhydrico, que, além de poder dar nascimento a este composto arsenical, poderia igual- mente actuar sobre 0 zinco, formando 0 chlorureto de zinco, também volátil, e que, decompondo-se pelo calor, daria depositos metallicos até certo ponto semelhantes aos do arsénico (segundo Wackenroder), 1 circumstancias aliás sem importância, á vista das reacções a que taes depositos devem ser submettidos e que discriminarão com toda a evidencia sua natureza. 5. Finalmente, a presença de traços de matéria organica que tem resistido aos processos chimicos de sua destruição, perturba a marcha da operação ; a mistura contida no frasco espuma, cresce e transborda mesmo, insinuando-se por entre as rolhas ou penetra nos tubos que dahi emergem. Acalma-se, porém, facilmente este incidente, lançando no frasco um pouco de álcool ou de oleo puro. Outro inconveniente, aliás menos importante, assignalado por alguns toxicologistas é a carbonização destes princípios orgânicos e a formação de manchas carbonosas, cuja natureza, entretanto, e facil reconhecer pelos ensaios ulteriores. B — As condições de successo no funccionamento do appa- relho de Marsh são as seguintes : l.a Elle deve ser montado, como todo 0 apparelho, com 1 Beckurts, citado por Dragendorff, põe em duvida este facto, e mostra que se pôde até sem inconveniente substituir neste apparelho 0 acido sul- phurico por acido chlorhydrico. 270 ARSÉNICO as peças necessárias, perfeitamente ajustadas, por meio de rolhas todas novas, ou que pelo menos não tenham servido em apparelho destinado ao mesmo fim. Conhece-se que está bem montado, e que nada elle perde nem recebe do ar exterior pela má qualidade ou má applicação das rolhas, tapando com o dedo a extremidade do tubo terminal, e vendo si o liquido do frasco sobe rapidamente pelo tubo de segurança. Repe- tindo-se mesmo algumas vezes esta experiencia, fazendo de cada vez o liquido chegar o mais alto possivel e deixando cahir bruscamente a columna liquida pela retirada do dedo, facilita-se a expulsão completa do ar do interior do apparelho ; isto é indispensável para a observância do preceito ele- mentar, que manda não inflammar antes disso o gaz que se escapa por essa extremidade, afim de evitar uma explosão perigosa, produzida pela combustão da mistura detonante formada pelo hydrogeno com o oxygeno do ar. 1 1 0 Dr. Domingos Freire, distincto professor de chimica organica e biologica, imaginou addicionar ao apparelho de Marsh um tubo avisador, sobre o qual escreveu um artigo na Gazeta Mcdioa Brazileira, em maio de 1882, e que tem por fim prevenir o operador do momento em que já não existe ar no apparelho, e póde-se inflammar sem perigo o gaz que nelle se desprende, como também serve para aprisionar os menores traços de arsénico, do hydrogeno arseniado que porventura escape á decomposição pelo calor. E’ um tubo em U, contendo uma solução de perchlorureto de ouro e fios de platina. Emquanto, diz elle, se conservar inalterado o reactivo, é que lá ainda não chegou o hydrogeno ; logo que este gaz atravessa o liquido, este começa a turvar-se e deixa depositar ouro reduzido sobre os fios de platina. Si já for o hydrogeno arseniado que lá chegue, também reduzirá o sal de ouro; o arsénico ahi ficará retido, e poderá ser reconhecido. Confesso que não comprehendo a vantagem deste artificio, lembrado e proposto pelo meu illustrado colRga. Em primeiro logar, desde que o appa- relho começa a funccionar, o hydrogeno formado se mistura logo, pela sua extrema diííusibilidade e pressão interior, com o ar existente e com elle se escapa, constituindo a mistura detonante e já reductora do reactivo ad hoo; daria pois prematuro e falso aviso. Si o ár fosse varrido, como se diz em francez, de proahe en proclie, sem se misturar com o hydrogeno, então não haveria risco de explosão, nem portanto necessidade" do tubo avisador, por isso que, depois que o ar tivesse sido totalmente expellido, o hydrogeno se inflammaria, mas sem detonação. Em segundo logar figura o Dr. Freire uma hypothese, que importa um grave defeito de technica, geralmente condemnado quando se trabalha com o apparelho de Marsh, e é de já se haver introduzido nelle o liquido sus- peito, antes de se inflammar o gaz, contra a recommendação expressa de todos os toxicologistas, que mandam proceder á experiencia em branco, para veri- ficação da pureza dos reagentes. Em todo o caso, qualquer que seja a origem do arsénico que se propõe denunciar, o tubo avisador do Dr. Freire, ou da matéria suspeita ou como impureza de algum dos reagentes, ainda assim VENENOS HEMATICOS 271 2.a Empregar, para a producção do hydrogeno, acido sul— phurico e zinco puríssimos, não se devendo confiar naquelles que no commercio são vendidos com essa declaração ; elles devem ser preparados ad hoc, de sorte que sua pureza esteja á prova dos ensaios mais rigorosos. Para isso, aquece-se o acido sulphurico, segundo o conselho de Bussy e Buignet, em banho de areia, em uma capsula de porcellana, com 10 grams. por 1.000 de sal de nitro ; depois de começar a ebullição, ajunta-se 10 grams. de sulfato de ammonio e distilla-se, desprezando a primeira e ultima quinta parte. Quanto ao zinco, deve ser previamente distillado. Segundo Tardieu, porém, não basta este recurso, para prival-o dos últimos traços de arsénico ; é preciso que seja fundido e lançado bruscamente n’agua, onde se converte em massas porosas, que se reduz a pó grosseiro ; aquece-se depois fortemente em um cadinho, em presença do nitro, e por fim é lavado. Póde-se também utilisar com vantagem para este fim do deposito electrolytico de zinco, que se forma pela acção de alguns elementos de Bunsen sobre uma dissolução de sulfato de zinco puro. Selmi propõe fundir o zinco com chlorureto de ammonio em um cadinho; o arsénico que elle possa conter se volatilisará no estado de chlorureto de arsénico. E’ pois um zinco nestas condições que se deve introduzir no frasco productor de hydro- geno, e sobre elle, depois de montado o apparelho conforme as veio tarde a lembrança, que nenhuma vantagem offerece sobre o emprego do nitrato de prata, proposto ha mais tempo por Naquet e Otto para recolher todo o arsénico desprendido no estado de hydrogeno arseniado, em vez de o decompor para a producção de anneis e manchas. Demais, Dragendorfi' e Otto, que também faliam no emprego do chlornreto de ouro como meio de receber o hydrogeno arseniado, não o adoptam nem aconselham, porque, segundo suas experiencias, um pouco do gaz escapa á decomposição ; é muito menos sensivel do que o nitrato de prata, em qie peze á opinião de Lassaigne e de Sbriziolo. Como artificio avisador, muito mais expedito e economico se me afigura o processo posto em pratica no laboratorio de toxicologia pelo preparador da cadeira, que consiste em pòr em eommunicação, por meio de um tubo de borracha, a extremidade do apparelho com uma cuba d’agua e receber o gaz que se desprende em tubos de ensaio, á guiza de pequenos provetes, successivamente renovados, emquanto a experiencia com a chamma em cada um delles produzir uma pequena explosão, reveladora da mistura detonante, até que ella não se manifeste mais. 272 ARSÉNICO regras e indicações estabelecidas, addicionar o acido sulphu- rico diluido. Para remover essa difficuldade Roussin propõe substituir o zinco pelo magnésio, mais facil de obter puro. Outros acon- selham desprender o hydrogeno pela reacção do aluminio sobre o hydrato sodico. Naquet, porém, entende mais acertado, á vista de tantos requisitos, prescindir inteiramente deste processo de prepa- ração do hydrogeno, e substituil-o pela mistura de amalgama de sodio com agua ; nestas condições dá-se dupla decomposição, forma-se soda, o mercúrio precipita-se, e desprende-se o hy- drogeno perfeitamente puro, desde que se tenha empregado um amalgama obtido com elementos puros. E’, porém, um processo pouco pratico, ainda não adoptado nos laboratorios. 3. a Convém que o frasco descance em um banho d’agua fria para moderar a temperatura desenvolvida pela reacção interior. 4. a Depois de esperar o prazo razoavel para varrer todo o ar atmospherico do interior do apparelho, ou o aviso dado por um signal qualquer efficazmente adoptado, intlamma-se o gaz, e procede-se ao que se chama uma oxperiencia em branco, durante meia hora pelo menos, 1 tendo-se tido o cuidado de introduzir antes no frasco um pouco de assucar crystallisado, e alguns tios de platina, quando não se tenha empregado o zinco previamente platinado, para o fim já declarado. Deve-se durante esse tempo consultar a cada instante a chamma, como se pratica para recolher as manchas. Succede muitas vezes, sobretudo sem esta ultima precaução relativa á addição dos fios de platina ou á galvanização prévia do zinco, que essa experiencia esgota a acção do acido em- pregado ; ella torna-se muito fraca e quasi nulla, e é preciso 1 Sbriziolo é mesmo de parecer que, para maior segurança, deve-se deixar gastar nesta experiencia toda a porção do zinco empregada, porque si elle contiver pequenissima quantidade de arsénico, este de ordinário accumula-se especialmente na ultima porção do metal, não atacada. (?) VENENOS HEMATICOS então renovai-o, esvasiando primeiro o liquido pelo tubo em siphão, indicado 11a modificação de Chandellon. Para isso in- terrompe-se 0 desprendimento do gaz, tapando a extremidade terminal do apparelho ou impedindo a sua passagem em qualquer ponto do mesmo onde haja um tubo de união, de bor- racha ; 0 gaz accumulado no frasco productor recalca 0 liquido, e este escapa-se. Verificada pelos resultados negativos desta prova a pureza dos ingredientes, sobretudo quando elles não tenham sido ex- pressamente preparados para este effeito, é occasião de intro- duzir 0 liquido suspeito, e 0 faz-se por pequenas porções. A esse tempo já se terá aquecido o tubo terminal no ponto protegido pela lamina metallica, e se continuará a consultar do mesmo modo a chamma com as precauções aconselhadas. Deve-se procurar obter dous ou tres anneis metallicos no mesmo tubo ou em tubos differentes; e recolher 0 maior numero possivel de manchas, afim de submetter (estas e aquelles) aos competentes e indispensáveis ensaios, visto como si os resultados negativos obtidos com 0 apparelho de Marsh ex- cluem completamente a presença do arsénico, a formação de anneis e manchas não constitue prova da presença deste corpo sinão quando a sua natureza é posta em evidencia pelos referidos ensaios. Com effeito, também‘0 antimonio comporta-se exacta- mentecomo 0 arsénico no apparelho de Marsh, e é delle sobre- tudo que cumpre distinguir, quando não se tenha empregado os meios de separar um do outro, adoptando-se 0 conselho de Otto em relação ao preparo do tubo deseccador, ou a modificação importante de Naquet sobre 0 modo de receber 0 gaz ; ella será descripta mais adeante neste mesmo artigo e também a pro- posito do estudo da pesquiza do antimonio. * 1 Em certos casos, sobretudo quando o desprendimento gazoso é muito violento, manifestam-se no tubo de reducção depositos estranhos, por exemplo, de zinco e de producíos carbonosos. Os primeiros, quando se tem empregado, em vez de acido sulfurico, o chlorhydrico para desenvolver hydrogeno, sem a precaução recommendada por Otto no preparo do tubo que o gaz formado tem TOXICOLOOIA 18 274 ARSÉNICO Os caracteres do annel e manchas de arsénico, e pelos quaes se consegue discriminai-os do antimonio, são os seguintes: 1. O deposito arsenical apresenta-se sob a fôrma de uma tenue camada metallica, brilhante, que, particularmente nas manchas, offerece um reflexo alourado ou ruivo, bem distincto; ao passo que o deposito antimonial, mesmo nas manchas, é de uma côr preta mais fechada, e quasi sem brilho. Além disso, ao passo que o annel arsenical se forma de cada vez em um ponto unico além da parte do tubo aquecido, o antimonial, por ser o hydrogeneo antimoniado mais facilmente decomponivel pelo calor, divide-se, e parte se deposita também em um ponto áquem do foco calorífico. 2. O annel arsenical, aquecido no mesmo tubo, fóra do contacto do ar, volatilisa-se e deposita-se outra vez mais adeante; póde-se assim fazel-o mudar muitas vezes de logar si o tubo for sufficientemente longo. Separado o tubo, fran- camente aberto nas duas extremidades, e aquecido o annel arsenical, tendo-se o tubo em direcção obliqua, para estabelecer uma corrente mais facil de ar, elle volatilisa-se ainda, porém oxydando-se, e deposita-se no estado de anhydrido arse- nioso, sob a fôrma de um annel branco, crystallino, constituído por uma agglomeração de pequenos octaedros ou tetraedros, perfeitamente visíveis por meio de uma lente. Nesta experiencia desenvolve-se o cheiro alliaco caracteristico. O annel antimonial aquecido n’uma atmosphera não oxy- dante, funde-se primeiro, depois volatilisa-se, porém mais difficilmente, quando se eleva muito a temperatura; si for ao de atravessar. Elle arrasta entãocomsigo partículas de chlorureto de zinco, que é também reductivel pela acção do calor forte. Distinguem-se os depositos de zinco, porque dissolvidos no acido nitrico, não precipitam pelo nitrato de prata ammoniacal; demais, apresentam asreacções dos saes de zinco, entre as quaes destaca-se o precipitado branco pelo acido sulphydrico ou sulfuretos alcalinos. Os depositos carbonosos produzem-se quando o liquido a analysar, intro- duzido no apparelho, encerra matéria organica. Reconhece-se-os, porque não sé dissolvem sinão em parte, com extrema lentidão, no acido nitrico concentrado e fervendo. Aquecidos á temperatura rubra em contacto com o ar, desappa- recem sem deixar residuo, nem emittir cheiro. VENENOS HEMATICOS 275 contacto do ar, deposita-se sob a fôrma de um annel branco, amorpho, de oxydo de antimonio, sem haver exhalado cheiro algum. 3. Uma solução de hypochlorito de soda (agua de Labar- raque) 1 dissolve rapidamente o deposito arsenical e não exerce acção sobre o de antimonio (reactivo de Bischoff). Se- gundo Wackenroder, quando coexistem os dous corpos na mesma mancha, é a parte peripherica que se dissolve, porque è ahi que se acha de preferencia o arsénico por differença de volatilidade ; a parte central, constituida pelo antimonio, con- serva-se intacta. 4. O deposito arsenical é transformado em sulphureto amarello pelos sulphuretos alcalinos; assim, por exemplo, quando se molha as manchas com um pouco de sulphureto de ammonio e que se evapora com precaução, ellas tornam-se ama- relias pela formação daquelle composto ; as de antimonio, nas mesmas condições, ficam avermelhadas, porque tal é a cor do respectivo sulphureto. Com o annel metallico póde-se obter esta reacção, fazendo atravessar o tubo por uma corrente de gaz sulphydrico (Rose), aquecendo-se levemente o ponto occupado pelo deposito (Fresenius e Pettenkoffer). Si depois se tratar pelo acido chlorhydrico o deposito, ou fizer passar uma corrente deste gaz sobre elle, o sulfureto de arsénico ficará intacto, ao passo que o de antimonio desapparecerá; uma solução de car- bonato de ammonio fará o inverso. 5. Algumas gottas de acido azotico diluido dissolvem mesmo a frio o deposito metallico. seja de arsénico ou de anti- monio, e o liquido acido que dahi resulta, no primeiro caso, tratado por uma solução de azotato de prata ammoniacal, ou neutralizado por um alcali e tratado por azotato de prata 1 Não sei porque uns recommendam que este reactivo seja preparado por dupla decomposição, e outros que elle seja privado de chloro livre, quando a própria agua chlorada preenche o mesmo fim. Otto aconselha o processo de preparação pelo chloro sobre a solução de carbonato de sodio. 276 ARSÉNICO simples, dará um precipitado amarello de arsenito de prata. Com o antimonio não formará precipitado algum. Separado, antes desta reacção, um pouco do liquido primitivo, e submettido á acção do acido sulphydrico, dará o sulphureto amarello com o arsénico e avermelhado com o antimonio. Si porém se tratar o deposito metallico por acido azotico concentrado, ou melhor por agua regia, em qualquer dos casos elle desapparecerá, levados os dous metalloides ao gráo máximo de oxydação ; pela evaporação obtem-se um residuo branco, constituído por acido arsénico ou acido antimonico. Retomando-se este residuo por agua distillada e tratando-se o liquido pelo nitrato de prata nas mesmas condições acima, forma-se com o arsénico um pre- cipitado vermelho cor de barro ou tijolo, de arseniato de prata ; com o antimonio nada se observa. 6. Pela acção do ozona o arsénico transforma-se rapida- mente em acido arsénico, e o liquido envermelhece francamente o tournesol; o antimonio oxyda-se lentamente dando um pro- ducto que não exerce acção sobre o papel corado. Esta reacção faz-se principalmente com as manchas, expondo-se a capsula debaixo de uma campana com um pedaço de phosphoro húmido ; mas não é rigorosa, porque a acidez pôde ser devida a prc- ductos oxigenados do phosphoro, que se condensam. 7. Os vapores de iodo (reacção deLassaigne) e os de bromo tornam o deposito metallico de arsénico amarellado e o de anti- monio avermelhado ; si se aquece brandamente, ou então si se expõe ao contacto do ar, ou ainda, conforme tenho observado, a um excesso dos mesmo vapores, o deposito desapparece ; mas no logar por elle occupado, o acido sulphydrico restabelece a mancha amarella com o arsénico e avermelhada com o anti- monio, pela formação dos respectivos sulfuretos, que aammonia dissolve no primeiro caso, e não altera no segundo. Póde-se executar esta reacção, segundo o conselho de Husson, fazendo chegar o hydrogeno arseniado sobre um pequeno fragmento de iodo levemente aquecido; o iodureto de arsénico formado VENENOS HEMATICOS 277 sublima-se e crystalliza, podendo ser reconhecido pelo ensaio acima indicado. Ha ainda outros ensaios que teem sido propostos e que Otto considera com razão inferiores, podendo induzir a erro : O vapor do phosphoro húmido faz desapparecer rapida- mente as manchas arsenicaes e lentamente as antimoniaes. O chlorato de potássio dissolve pouco a pouco as manchas arsenicaes, e não exerce acção sobre as antimoniaes. O contrario se dá com uma solução concentrada de nitro- prussiatode sodio. Nas mesmas condições o iodato de potássio dissolve as manchas arsenicaes dando um liquido cor de canella, ao passo que não altera as manchas antimoniaes mesmo depois de 3 ou 4 horas de contacto. Nas condições as mais favoráveis de successo, o apparelho de Marsh é de uma sensibilidade e precisão inexcediveis. Segundo as experiencias de Otto, uma solução encerrando um milligramma de acido arsenioso já deixa um deposito conside- rável, e fracções de milligramma até mesmo lll00 de milligr. deixam um deposito bem visivel. Zwenger estabelece como limite de sensibilidade lf10 de milligr. Tardieu acredita que o apparelho de Marsh póde apreciar até millionesimos de arsénico, seguindo-se outro processo para receber e fixar este elemento, de modo a evitara minima perda : é o processo apre- sentado por Otto e Naquet e cujas vantagens também Dragen- dorff reconhece, pelo que recommenda sempre pôr em pratica, tanto mais quanto não impede a obtenção do annel metallico. Consiste em fazer passar o hydrogeno arseniado, todo ou sómente aquelle que escapa á decomposição pelo calor em um systema de bolas de Liebig, contendo solução de nitrato de prata ou de sulfato de prata (Dragendorff), o qual para esse fim será posto em communicação com o apparelho de Marsh. Si houver anti- monio de mistura com o arsénico, ainda esta modificação presta relevante serviço, porque offerece o meio de separar completa- 278 ARSÉNICO mente um do outro. Em qualquer hypothese, no sal argentico forma-se um precipitado preto que, no caso do arsénico, é constituido por prata reduzida, ficando o metalloide toxico no liquido no estado de acido arsenioso (Dragendorff) ou de acido arsénico (Tardieu, Otto, etc.) Se no caso do antimonio, será constituido por prata e antimonureto de prata, donde será facil separar este metalloide por um ensaio, que será opportuna- mente descripto. A’ vista do que fica exposto, vê-se claramente que, si o appa- relho de Marsh não é a ultima palavra na sciencia sobre a pesquiza do arsénico, não merece a condemnação injusta a que o vota o eminente chimico Mohr, que parece unico nesta sin- gular apreciação. Para terminar este longo artigo, passarei rapida vista sobre os outros methodos de pesquiza menos usados e muito menos fidedignos. Methodo de substituição e de electrolyse. Io processo, de Raspail. Fervem-se as matérias suspeitas com potassa cáus- tica, filtra-se e lança-se uma gotta do liquido sobre a super- fície limada de um disco de latão, que representa uma agglo- meração de pequenos elementos voltaicos formados pela juxtaposição de cobre e zinco 2; ajunta-se ao liquido uma gotta de agua de chloro, e no fim de pouco tempo, si ha arsé- nico, este se apresentará formando uma mancha brilhante. Como, porém, não é sómente com o arsénico que isto se observa, o mesmo Raspail propõe outro modo de executar o seu processo, 1 Para caracterisar ahi o arsénico, basta filtrar o liquido, e, como elle deve conter excesso de nitrato de prata, addicionar uma gotta de ammonia, que dará o precipitado amarello do arsenito de prata; si falhar este ensaio, é porque todo o sal argentico foi decomposto na reaeção, e então íar-se-ha chegar uma corrente de gaz sulphydrico, que precipitará o sulphureto ama- rello de arsénico. Póde-se também desde o principio proceder a esta reaeção, separando primeiro toda a prata, pelo acido chlorhydrico, no estado de chlorureto de prata. s E’admiravel que, apezar de se tratar de uma liga, e portanto de uma combinação, se verifique esta propriedade. VENENOS HEMATICOS 279 e que permitte um ensaio ulterior, no intuito de verificar a natureza do deposito metallico. Para isso imbebe-se succes- sivamente aparas de latão no liquido suspeito, e em agua chlorada, e depois de secco o inducto que reveste a superfície levam-se as aparas a um tubo, que se aquece; o arsénico volatiliza-se, etc., etc. 2o processo, de Hugo Reinsch. Pouco mais ou menos baseado no mesmo principio do de Raspail, executa-se do modo seguinte: Fazem-se digerir as matérias suspeitas com acido chlorhydrico diluido, filtra-se, e no liquido põe-se de immersão prolongada uma lamina ou um grosso fio de latão, ou mesmo de cobre, sobre o qual o arsénico se deposita, formando um inducto cinzento mais ou menos escuro. Este processo é reputado com justa razão muito delicado e expedito, e talvez menos susceptivel de occasionar perda do arsénico do que o proprio apparelho de Marsh, pois permitte extrahir do liquido a examinar até a ultima molécula do veneno ; por isso é preciso repetir o ensaio, immergindo no liquido nova lamina de cada vez que for retirada uma com o referido inducto, até que ella saia inteiramente limpa. Si desde o primeiro ensaio o resultado for negativo, póde-se ter a certeza da ausência do arsénico ; quando porém se apresentar o referido inducto, será preciso examinar attentamente os seus caracteres, para pôr em evidencia a sua natureza, visto como pôde ser de prata, mer- cúrio etc., que se comportam nestas condições do mesmo modo. Ainda mais, o proprio Reinsch reconheceu que mesmo os gazes sulfuroso e selenioso podem produzir um deposito seme- lhante ; o que ó importante saber, porquanto alguns teem recom- mendado, para facilitara precipitação do acido arsénico pelogaz sulphydrico, ajuntar previamente o gaz sulphuroso ; é pois mais uma razão para que se procure retirar até os últimos traços desse gaz. Este processo também não se presta para o caso de soluções muito acidas, porque o cobre da liga vem a ser 280 ARSÉNICO atacado durante o tempo que leva a substituição, e isso per- turba os resultados. Os caracteres do inducto arsenical são os seguintes: é muito adherente ao metal e por isso não sahe pelo attrito dos dedos e não os mancha 1 ; destaca-se em pequenas palhetas, quando se agita com ammonia; dissolve-se com desprendimento de hydrogeno em uma solução fervendo de partes iguaes de acido cbílorhydrico e agua ; bem secco e aque- cido ao contacto franco do ar, obtem-se um deposito crystallino branco de anhydrido arsenioso. Um methodo, porém, essencialmente electrolytico é o que abrange os processos Osann, de Gaultier de Claubry, de Bloxam e outros. Consiste em isolar o arsénico no estado de hydrogeno arseniado por meio da electrolyse, e é reputado por Dragendorff talvez o mais sensível de todos. Põe-se acido sulphurico puro e o liquido suspeito num tubo em U, do qual um dos ramos é aberto e recebe o electrodio positivo de uma pilha de Grove, e o outro é fechado por uma rolha tri- perfurada, dando passagem: o Io, a um fio isolado do ambiente, mas posto em communicação com o polo negativo da pilha e terminado dentro do tubo por uma lamina de platina ; o 2o, a um tubo recto, que mergulha no liquido ; e o 3o, a um outro de desprendimento. Bloxam propoz uma modificação a este apparelho, porém que só aproveita para o caso em que se dispõe de grande quantidade de liquido, e por isso omitto sua descripção. Methodo dialytico. Comprehende um unico processo, que já tem sido empregado com successo na pesquiza do arsénico ; mas, segundo Dragendorff, o liquido dialysado contém sempre uma certa quantidade de matéria organica, que convém retirar, antes de proseguir a analyse ; é um processo muito lento e fastidioso, e sem nenhuma vantagem sobre os outros estudados até aqui. 1 E fixa-se com tal tenacidade que já se encontrou e reconheceu clara- mente o arsénico depositado em uma téla de cobre, mesmo depois de 25 an- nos(!) exposta ao ar (Sbriziolo). VENENOS HEMATICOS 281 Envenenamento pelo acido oxalico e pelo sal de azedas Estes dous productos são frequentemente empregados em varias industrias, taes como tinturarias, fabricas de tecidos, de chapéos de palha, etc., e também em certos usos domésticos, por exemplo, para arear objectos de cobre ou de ferro, para tirar da roupa branca nodoas de ferro, de tinta de escrever feita com este metal, etc. Demais, elles offerecem alguma seme- lhança com certos saes usados em medicina, principalmente com o sulphato de magnésio e o cremor tartaro solúvel. Dahi os en- ganos deploráveis que se teem dado não poucas vezes, aviando-se nas pharmaçias o sal de azedas por estes dous purgativos. Cumpre porém notar antes de tudo que é mais commummente utilisado para esses diversos misteres o acido livre do que o com- binado com a potassa, no estado de sal de azedas h O producto geralmente encontrado á venda no commercio com este nome é o mesmo acido oxalico. Os effeitos determinados por um outro são pouco mais ou menos os mesmos, com pequenas variantes, que serão opportunamente indicadas ; os meios de combater os envenenamentos produzidos por ambos, bem como os meios de pesquizar os dous venenos, são também os mesmos, com pe- quena differença apenas em relação a este ultimo ponto, con- forme adeante se verá. Todas estas circumstancias, que serão evidenciadas na expo- sição do assumpto, mostram que o estudo dos dous corpos pôde e deve ser feito simultaneamente, contra o modo de pensar de Tardieu, que os classificou em grupos diversos : o acido oxa- lico entre os irritantes, e o oxalato acido de potássio (sal de azedas) entre os agentes hyposthenisantes, ao lado do nitro. Discordo inteiramente neste ponto da opinião dosabio professor, 1 0 povo chama sal azedo, o que facilita ainda mais o engano com o sal amargo. 282 SAL DE AZEDAS a qual discutirei a proposito do estudo do mecanismo da acção toxica e da morte occasionada por estes venenos. Por outro lado, Rabuteau, reunindo os dous venenos em uma mesma classe, a dos irritantes e corrosivos, commette um erro, que eu já mostrei ser elle o primeiro a reconhecer e con- fessar, sem dar uma razão plausível que justifique essa classi- ficação, ainda reproduzida na moderna edição de seu livro. Sendo, como diz Tardieu, o acido oxalico o mais importante dos ácidos orgânicos, debaixo do ponto de vista toxicologico, e entre os quaes representa o mesmo papel que o acido sul- phurico entre os ácidos mineraes, penso que elle deve ser con- siderado o typo do grupo oxalico, cujo estudo abrange os de seus derivados alcalinos, particularmente o sal de azedas, que se acredita ser formado pela mistura, em proporções variaveis, debie quadri-oxalato de potássio. E’ neste estado que elle existe naturalmente em certos vegetaes, particularmente nas azedinhas, dogenero oxalis, donde veiu o nome daquelle sal. O maior numero de envenenamentos por este producto se tem observado na Inglaterra, e quasi sempre accidentalou por suicidio. Entre nós não teern sido pouco frequentes e quasi todos accidentaes; entre estes citarei o que tive occasião de observar em uma senhora, casada com um conhecido industrial portu- guez aqui estabelecido com fabrica dechapéos. Tendo mandado por uma criada buscar em uma pharmacia da confiança da casa, sal amargo, ingeriu uma porção correspondente de sal de azedas, que por engano esta havia pedido e o pharmaceutico não teve escrupulo em aviar, por saber que a criada pertencia a uma casa onde, pela natureza da industria ahi exercida, muito uso se fazia dessa substancia, e por vezes a tinha for- necido. Não tardaram a se manifestar os symptomas de um envenenamento agudo, que felizmente pôde ser conjurado, por terem sido a tempo prestados os soccorros apropriados. De vários outros factos semelhantes, como disse quasi todos accidentaes, teem dado noticias as folhas que se publicam entre VENENOS HEMATICOS 283 nós. Entretanto um caso, fatal também, observei em minha clinica, occorrido em um moço, que suicidou-se ingerindo uma dóse brutal deste veneno; elle apresentou uma fôrma francamente hemorrhagica, como não vejo descripta nos auto- res, com relação a este envenenamento ; e traduziu-se por uma hematemese e enterorrhagia abundante, que natural- mente apressaram-lhe a morte. Chandellon diz que teem sido victimas deste envenenamento algumas crianças, por terem ingerido substancias em que entra o acido oxalico, por exemplo, a tinta azul. Outra circumstancia que se tem prestado a estes enganos fataes é o de empregar-se frequentemente este acido com o nome de sal de assucar para limpar objectos de cobre. A dóse necessária para produzir a morte é difficil de pre- cisar ; 10 a 15 grammas são sufficientes, e si Barker observou um caso de cura em um indivíduo que ingeriu 30 grammas, Tardieu por seu lado refere outro de morte em um moço de 16 annos, que apenas tomou duas grammas. E’ um veneno energico, que os inglezes consideram como o mais poderoso dos venenos vulgares. Rabuteau distingue duas fôrmas de envenenamento pelo acido oxalico, aguda e chronica ; mas são tão mal definidos os poucos symptomas que elle assignala para esta ultima, que não bastam para caracterisal-a, e outros autores não a reco- nhecem . Por isso me occuparei sómente com a descripção da fôrma aguda. Symptomas; signaes clínicos 0 acido oxalico produz effeitos de duas ordens: locaes e geraes. Os primeiros accentuam-se mais no quadro symptoma- tologico, quando ingerido no estado solido ou em solução con- centrada. Si, porém, a solução oxalica é diluida, ou quando o producto administrado é o sal de azedas, então dominam os 284 SAL DE AZEDAS symptomas geraes devidos á absorpção. Nestes casos, ella é muito mais rapida, porque as soluções concentradas cau- terisam os tecidos e os tornam impróprios à absorpção. Diz Chandellon que póde-se injectar, sem consequência, debaixo da pelle de um cão um pouco desta solução ; o liquido distende o tecido cellular e fôrma um pequeno kysto, cujas paredes Inflammadas e cauterisadas oppoem-se á absorpção do toxico. Em geral, porém, não ha sinão uma differença de intensidade nos eíFeitos de uma e outra ordem, como succede ordinariamente com todos os venenos metallicos. No primeiro caso os doentes experimentam logo um sabor acido mordicante e nauseoso, uma dor urente na garganta, e que se propaga até ao estomago. Depois sobreveem vomitos, que se tornam frequentes, rebeldes e incoerciveis, acompanhados muitas vezes de grande affrontação. As matérias vomitadas offerecem reacção acida, mais pro- nunciada com o acido livre, do que com o sal de azedas, que se conhece pela effervescencia que ellas determinam cahindo sobre o giz ou uma superfície de mármore. Raramente essas matérias são brancas ; de ordinário ellas são de côr vermelha escura mais ou menos carregada, devida á presença de sangue. Tem-se observado, como no caso fatal por mim referido, verdadeira hematemese. O estomago è então séde de dores mais vivas, e todo o abdómen apresenta uma sensibilidade extrema. Dentro de pouco tempo declaram-se os phenomenos geraes consecutivos á absorpção, e então manifesta-se um estado de enfraquecimento muscular considerável, os doentes não se podem mais suster, suas pupillas dilatam-se, a vista torna-se escura ; os batimentos cardiacos muito lentos, o pulso pequeno, quasi imperceptivel; a pelle é fria e viscosa, a face é li vida, as pontas dos dedos ficam arroxeadas, a respiração diíficil e rara ; apparecem por fim convulsões parciaes ou mesmo geraes, como tetanicas, outras vezes é o estupor e o coma que precedem a morte. Esta é em alguns casos tão rapida, que mal se pôde VENENOS HEM A TICOS 285 acompanhar a successão dos symptomas ; estes se precipitam e se resumem em vomitos repetidos e abatimento profundo. Então os doentes succumbem em poucos minutos (8, 15, 20 e 30 mi- nutos), segundo observaram Christison, Taylor, Chevaliier e Tripier, sendo o facto de morte mais rapida que se conhece por este envenenamento o referido por Ogilvy, em que ella sobre- veiu no fim de tres minutos. Mais ordinariamente a duração é de algumas horas ou de alguns dias. Cumpre notar desde já, para fundamentar a critica da clas- sificação do acido oxalico por Tardieu e Rabuteau, que è este, pouco mais ou menos, o quadro symptomatologico traçado por ambos para o envenenamento agudo por esse corpo. Rabuteau, como já disse, não descreve separadamente a intoxicação pelo sal de azedas, cuja classificação é para elle a mesma da do acido livre. Tardieu, porém, entende que a symptomatologia do oxalismo agudo pelo sal de azedas é differente, e a estuda entre os hyposthenisantes, ao lado do nitro. Sua descripção, entre- tanto, não justifica este modo de ver, como passo a mostrar : « Seus effeitos, diz elle, são quasi instantâneos e se annun- ciam por uma sensação de dor no estomago, anciedade precordial e desfallecimentos repetidos. Os voinitos faltam muitas vezes e são substituídos por algumas nauseas ; outras vezes, porém, são violentos e pertinazes. O pulso cahe muito depressa, é pe- queno, fraco e depressivel; a pelle se resfria ; o corpo é agitado por um calefrio quasi continuo. As dores se fixam no epigastrio e em um ponto correspondente da região dorsal. A vista es- curece; as pupillas dilatam-se; as syncopes se renovam e se multiplicam ; os doentes cahem em prostração comatosa, ou são tomados de delirio e convulsões, e succumbem dentro de poucas horas, ou mais rapidamente ainda. » Como se vê, é difficil descobrir aqui differenças essenciaes entre esta symptomatologia e a descripta por Tardieu para o acido oxalico. Muito mais differente é a forma particular e anómala mencionada por Christison, que consiste especialmente 286 SAL DE AZEDAS em uma aífecção dos rins, caracterisada por dores violentas na região lombar e das extremidades inferiores, e ardência na emissão das urinas. Si o envenenamento é menos grave, ou pôde ser conveniente- mente combatido em tempo para que a terminação não seja mortal, então os doentes soffrem durante muitos dias alguns effeitos locaes e geraes do veneno ; taes são a inchação dolorosa da boca, da garganta e da lingua com certa difficuldade na deglutição; esta ultima apresenta-se rubra, como que escoriada. O estomago conserva-se muito sensivel e inflam- mado; muitas vezes apparecem vomitos e diarrhéa, com tympanismo do ventre. A sede è viva, a voz rouca ou extincta, os membros inferiores como que entorpecidos; nos musculos, em geral, e particularmente da face e dos membros, experi- mentam os doentes picadas dolorosas. Lesões anatomo-pathologieas ; signaes necroscopicos Oexamedotubo digestivo, começando pela boca, revela o seguinte : a mucosa que forra esta cavidade, bem como a lingua, o pharynge, o esophago e o estomago, é branca, amollecida e despojada de seu epithelio em certos pontos, e outras vezes destruida. Este ultimo orgão encerra um liquido escuro, côr de café torrado, de reacção francamente acida e consistência gelatinosa. Sua superfície interna não apresenta manchas ou placas ecchymoticas nem erosões, quando a morte tem sido muito rapida. Nos casos menos agudos a mucosa gastrica è a sêde de uma hyperhemia pronunciada, em que os capillares parecem engorgitados de sangue negro e coagulado. As mesmas lesões se podem observar na primeira porção dos intestinos : na sua porção inferior elles ofíerecem algumas vezes traços de inflammação, sem perfuração, em todo o caso. VENENOS HEMATICOS 287 Tem-se assignalado algumas vezes uma forte hyperhemia do cerebro; outras vezes, porém, este orgão parece ainda mais pallido do que nas condições ordinárias. Circumstancia notável é que o sangue, e em geral os tecidos apresentam uma cor vermelha intensa, pouco mais ou menos, como no envenenamento pelo oxydo de carbono. Thompson diz ter notado reacção acida no sangue destes envenenados. Finalmente, nos rins tem-se observado nestes casos a pre- sença de crystaes de oxalato de cálcio em um infarctus ura tico mais ou menos semelhante aos depositos de urato sodico, descri- ptos por Parrot nos rins dos recem-nascidos. Do diagnostico differencial do oxalismo agudo não se occupam em geral os autores ; e parece mesmo que dificilmente se poderá confundir este envenenamento com qualquer outra intoxicação ou moléstia natural. O conjuncto de symptomas locaes e geraes, indicando a propriedade irritante e ao mesmo tempo deprimente de um veneno de acção rapida ; além disso as manifestações hemorrhagicas atravez da mucosa gastro-intesti- nal; a reacção acida das matérias vomitadas, cuja natureza se pôde verificar por uma dissolução acética de um sal calcareo* bastam para caracterisar o envenenamento oxalico. Além disso nos casos de autopsia, tem-se mais um dado ou elemento valioso de apreciação no estado particular do sangue. Mécanismo áa acçâo toiitía Ainda não se conhece satisfactoriamente este mecanismo, sujeito por emquanto a theorias que deixam muito a desejar para uma demonstração inexpugnável. Que o acido oxalico não mata pelos eífeitos locaes devidos á sua acção de contacto, é facto de que está convencido o proprio Rabuteau, apezar de o incluir, com flagrante incoherencia, entre os venenos irritantes. São delle estas palavras: « E’ im- 288 SAL DE AZEDAS possível não ver no acido oxalico sinão um veneno corrosivo. Irei raais longe, dizendo que os effeitos corrosivos locaes nada são, que a acção geral é tudo, equeé sómente esta acção a causa da morte, todas as vezes que a vida cessa pouco tempo depois da ingestão do veneno. Por outro lado, ver-se-ha mais adeante que o oxalato de sodio, que não é corrosivo, é um veneno energico.. » Não póde ser mais eloquente em favor da acção geral dy- namica do acido oxalico, quem devia ter interesse em sustentar e justificar a classificação contraria por elle adoptada para este corpo. O mesmo Gubler, cuja opinião, para mim estranhavel, éque a paralysia, a cyanose e os outros phenomenos de collapso se filiam naturalmente ás desordens que teem sua sede nos orgãos digestivos, confessa que não se póde negar a influencia das dóses não massiças sobre o systema nervoso directamente, e acaba citando a opinião de Kobert e Kussener, que reconheceram uma acção manifesta sobre o centro vaso-motor, a principio excitado e por fim paralysado. A doutrina mais corrente è que o acido oxalico exerce acção primitiva e directa sobre o sangue. Qual seja,porém, esta acção é o que não se sabe positivamente, porquanto as tres theorias imaginadas para explical-a, encontram serias objecções. A primeira é a que approxima o acido oxalico dos outros ácidos orgânicos, sob o ponto de vista da metamorphose que elles experimentam no organismo, transformando-se, por effeito de oxygenação parcial ou total, em gaz carbonicoe carbonatos, acarretando areducção da hemoglobina,e portanto a anoxhemia. Contra esta theoria, porém, levanta-se: Io, o estado do san- gue, que se apresenta, no envenenamento oxalico, vermelho e rutilante, em vez de escuro e negro, como seria, si se realizasse aquella metamorphose. Demais, si o acido oxalico fosse com- pletamente queimado na economia, não passaria tão facilmente e em tão sensível proporção nas urinas, constituindo o pheno*- VENENOS HEMATICOS 289 meno da oxaluria, originando os depositos oxalo-calcareos observados nos rins. 1 Este phenomeno prova que a eliminação do acido oxalico effectua-se pelas urinas, sem transformação, escapando parcial ou totalmente á combustão organica. A outra theoria, em todo o caso mais plausivel e acceitavel, é a que approxima o envenenamento oxalico ao produzido pelo oxydo de carbono, e explica o estado do sangue e outros signaes clinicos e necroscopicospela formação deste gaz no seio do orga- nismo, o que não póde ter logar sinão por deshydratação e conse- cutivo desdobramento daquelle acido, de que resulta effectiva* mente o oxydo de carbono ao lado do gaz carbonico. Oppõe-se a esta theoria, si assim se póde dizer, a falta de condições bio-chimi- cas, pelo menos conhecidas, que determinem essa reacção, que no laboratorio só se obtem por meio de uma temperatura elevada, ou dos agentes deshydratantes, taes como o acido sulfurico concentrado. Quanto á falta de observação espectroscopica, con- firmando esta doutrina, não procede, porquanto, si Rabuteau declara que, examinando ao espectroscopio sangue addicionado de acido oxalico,viu as duas fitas de absorpção da hemoglobina, sem modificação sensivel, suffraga implicitamente a theoria, visto como tal é o caracter espectroscopico da hemoglobina oxycarbonica. A terceira hypothese, queéa menos sustentável, e não tem encontrado adeptos entre os toxicologistas, é a de Ousum, que faz derivar a acção toxica do acido oxalico da formação do oxalato de cálcio, cujos pequenos crystaes, agglomerados e mis- turados com a fibrina do sangue, iriam constituir embolias nas ultimas ramificações da artéria pulmonar. Na opinião de Van Hasselt, a acção geral do acido oxalico se exerceria sobre o coração e os centros nervosos. Ainda que as experiencias de Rabuteau pareçam demonstrar que este acido não actua nem sobre os musculos, nem sobre o systema nervoso» 1 Demais, não tornaria o sangue aciclo, conforme se diz ter sido verificado por Thompson, citado porBellini. TOXICOLOGIA 19 290 SAL DE AZEDAS todavia acreditam alguns que o coração, sobretudo, não é es- tranho ao mecanismo da morte pelo acido oxalico. Bellini, por exemplo, pretende que a paralysia cardiaca é um phenomeno constante neste envenenamento e que precede sempre a morte. Seria, neste caso, o unico exemplo conhecido para uma ter- ceira sub-classe : a dos myo-hematicos. Tratamento Empregam-se, como sempre, todos os meios para desemba- raçar o mais depressa possivel o estomago, do veneno, preferin- do-se os meios mecânicos, dos quaes, entretanto, é preciso excluir a bomba gastrica, pelos perigos de sua introducção em uma cavi- dade, cuja superfície póde estar inflammada, amollecida ou mes- mo ulcerada. A disposição para os vomitos, quando elles não se manifestem pelaacçãodo proprio veneno, é tal que facilmente se os provocam com titillações na uvulae com a administração de poções oleosas. Rabuteau condemna o emprego de liquidos aquosos, porque favoreceriam a absorpção do veneno, o que é mais uma prova da sua incolierencia, incluindo o acido oxalico entre os agentes irritantes; neste caso nada haveria que receiar dessa applicação, ao contrario perfeitamente racional. Mais importante julgo a proscripção das soluções alcalinas (agua de cinzas, de sabão, etc.), que, transformando o acido oxalico em sal de azedas, apenas attenuariam a acção do con- tacto, com prejuizo da acção geral, naturalmente aggravada por esta circumstancia. Os verdadeiros antidotos do acido oxalico ou do seu derivado potassico 1 limitam-se a dous : a cal e a magnesia, sendo esta 1 E’ notável que na opinião de Chapuis os antidotos dos oxalatos não devem ser os mesmos do acido oxalico ; diz elle que contra aquelles saes o carbonato de cálcio e o hydrato de magnésio não podem ser de utili- dade alguma (!) e propõe, para substituir, uma solução de chlorureto de cálcio fracamente ammoniacal, ou melhor, uma solução de chlorureto de magnésio na dóse de 20 a 30 grammas e algumas vezes mais. Penso que não ha motivo VENENOS HEMATICOS 291 ultima muito preferivel áquella, por causa da sua acção também purgativa, e apezar de não formar um composto com- pletamente insolúvel. Como precipitante chimico do acido oxa- lico, a cal é superior á magnesia, porém esta vale mais como antidoto, porque preenche satisfactoriamente duas indicações capitaes. Em todo o caso, quando se tenha de empregar a cal, aconselha-se recorrer ao carbonato, que se encontra facilmente à mão sob a forma de giz, comquanto não seja sem inconve- niente o desenvolvimento de gaz carbonico, que resulta de sua decomposição no tubo digestivo, dilatando suas paredes amol- lecidas ou ulceradas, e podendo occasionar sua ruptura. E’por isso que, podendo-se, para os fins therapeuticos neste caso, prescrever indistinctamente a magnesia calcinada, ou a ma- gnesia alva que é o seu carbonato, deve-se, todavia, preferir aquella. Alguns propoem substituil-a pelo chlorureto de magnésio, que, sendo também purgativo em alta dóse, preencheria igual- mente as duas indicações; porém entendo que, si para into- xicação pelo sal de azedas, esta applicação é racional e pro- veitosa, porque estabelece-se a dupla decomposição entre o veneno e o antidoto, quando se tratar de acido oxalico puro tem o inconveniente de ficar livre, pela precipitação do oxa- lato calcareo, o acido chlorhydrico, com prejuizo e aggravação dos phenomenos locaes. A irritação que elles deixam reclama, como complemento, uma medicação emolliente e calmante, e um regimen ade- quado. Fôrma chronica. Esta fôrma da intoxicação se denuncia e se caracterisa essencialmente pelo phenomeno da oxaluria, de ordem chimica que justifique absolutamente esta restricção (sobretudo em relação ao carbonato calcareo), e na quantidade em que convém admi- nistral-os, sem contestar a aeção mais efficaz que estes dous antidotos desenvolvem, quando empregados contra o acido oxalico livre, do que contra o sei derivado potassico : neste ultimo caso, a influencia da massa póde vencer, em favor do alcali terroso, a differença de affinidade e energia chimica em relação á potassa. 292 SAL DE AZEDAS que por sua vez é a consequência do accumulo de acido oxa- lico no sangue ; elle pôde provir ou dos vegetaes que o conteem normalmente e servem á nossa alimentação e como remedio l, ou póde mesmo formar-se no seio da economia em estados pathologicos diversos. Entre elles Lehmann contempla os que trazem perturbações da respiração com diminuição na absor- pçâo do oxygeno ; outros assignalam a febre typhoide, a gota, as moléstias do coração e a leucorrhéa. A’s vezes tem-se observado uma oxaluria accidental, passageira, por abuso de bebidas gazosas, ou substancias saccharinas. Entre os symptomas que caracterisam a diathese oxalica nota-se: o emmagrecimento, uma pallidez especial, flatu- lência, sensação de oppressão na região epigastrica, desordens dyspepticas, dôres nas costas e nos hombros, perturbações nervosas notáveis pela irritabilidade de caracter, pela me- lancolia, pelos receios exaggerados ; emfim, um estado subfe- bril, que se revela por certa vivacidade de pulso, e certo grão de seccura da pelle. O tratamento da oxaluria deve consistir, segundo Begbie, no emprego dos meios seguintes: vestes quentes de lã, banhos tépidos, uso de farináceos, de leite e de carnes, e como medica- mentos : nitro e limonada chlorhydrica ou nitro-muriatica. Gallois aconselha os alcalinos. Ao lado disto, recommendam os autores abstinência relativa de saccharinos, e absoluta de todo o alimento, medicamento ou condimento contendo acido oxalico (azedinhas, rhuibarbo, to- mates, etc.) Pesquiza toxicologica; signaes chimícos Nesta pesquiza póde-se proceder de modo a isolar e reco- nhecer o acido oxalico ou o oxalato, conforme tenha sido um ou outro o agente toxico que deu causa á morte. 1 Exemplo: a azedinha, o rhuibai-bo, a genciana, a valeriana, etc. VENENOS HEMATICOS 293 A— Pesquiza do acido oxalico. l.° Recolhera-se as maté- rias suspeitas (porções do tubo digestivo *, seu conteúdo, a matéria dos vomitos, sangue, rins, e urinas) ; reduz-se a uma massa clara pela addição de agua distillada, côa-se em um panno e o liquido que passa evapora-se em B. M. até seccura. Retoma-se o residuo pelo álcool forte (Rabuteau prefere o álcool amylico), que só dissolve o acido oxalico e não o oxalato ; filtra-se, concentra-se pelo calor e abandona-se ao resfriamento. O acido crystalliza, quando as substancias organicas e outras impurezas, que o liquido possa ainda conter, não se opponhama isso. Nestas circumstancias, porém, neutraliza-se pela ammonia e trata-se por chloruretode cálcio ou acetato de cálcio, segundo Tardieu, que precipita todo o acido oxalico no estado de oxalato de cálcio. Recolhe-se sobre o filtro o precipitado, que se lava com agua fervendo, decompõe-se por acido sulphurico diluido e ajunta-se grande quantidade de álcool. Separa-se pelo filtro o precipitado de sulphato calcareo, e o liquido submette-se aos reactivos proprios do acido oxalico, ou faz-se crystallizar pri- meiro, para verificar seus caracteres neste estado, ensaian- do-se os reactivos em uma nova dissolução feita com os crys- taes. 2.° As matérias são preparadas como no processo prece- dente, e o liquido obtido é tratado por uma solução de acetato de chumbo : abandona-se durante algumas horas. Deposita-se um precipitado branco de oxalato de chumbo, que se separa por meio do filtro. Retira-se dahi, e depois de lavado suspend.e-se n’agua e submette-se a uma corrente de gaz sulphydrico. Obtem-se um abundante precipitado preto de sulphureto de chumbo, que também se separa pelo filtro, passando o liquido que re- presenta a dissolução de acido oxalico, contendo um excesso de acido sulphydrico, que é preciso eliminar. Evapora-se até 1 Segundo Bisehoff, citado por Chandellon, na mucosa gastrica póde-se encontrar sempre, pelo exame microscopico, pequenos prismas clinorhombicos de oxalato calcico. 294 SAL DE AZEDAS consistência conveniente, e no liquido ensaia-se as reacções do acido oxalico ou abandona-se ao resfriamento e repouso, melhor será no vazio da machina pneumática ou dentro de uma campana ao lado de acido sulphurico concentrado, para se obter o acido crystallizado, e proceder depois aos ensaios demons- trativos de sua natureza. 3.° Roussin propõe o mesmo processo que emprega para os ácidos mineraes, e consiste em converter o acido oxalico em sal de quinina e isolar depois o acido por meio do álcool. Para isso, reduzidas as matérias a um liquido, como nos dous processos anteriores, trata-se por um leve excesso de hydrato de quinina recentemente precipitado. Evapora-se a mistura em B. M. até seccura e trata-se o residuo por álcool a 35, que dissolve o oxalato de quinina. Concentra-se o liquido abrando calor, ajunta-se um pouco de agua, e lançam-se algumas gottas de ammonia, que precipita a quinina, unindo-se ao acido oxalico. Filtra-se e no liquido que passa, representando uma dissolução de oxalato de ammonio, ensaia-se as reacções dos oxalatos solúveis ; ou então, si se quer separar o acido, trata-se esta solução por acetato de chumbo, para precipital-o sob a fôrma de oxalato plumbico, e dahi por deante segue-se como no processo precedente. B — Pesquiza dos oxalatos. Depois de haver por meio dos processos supra indicados retirado a totalidade do acido oxalico, ou reconhecido sua ausência, retoma-se o residuo pela agua, e ajunta-se algumas gottas de acido sulphurico. Sobre o liquido acido, desembaraçado das matérias organicas por filtração, addiciona-se acetato de chumbo, abandona-se a mistura du- rante algumas horas, e filtra-se de novo. O precipitado re- colhido sobre o filtro e lavado é decomposto pelo hydrogeno sulphuretado. Separa-se pelo filtro o sulphureto de chumbo formado, e faz-se crystallizar o acido oxalico como no se- gundo processo, ou se submette sua solução aos competentes ensaios. VENENOS HEMATICOS 295 Os caracteres do acido oxalico são os seguintes : E’ um corpo solido, branco, inodoro, de sabor acido, quente e picante, crystallizavel em prismas obliquos de quatro faces, solúvel em oito partes de agua fria e em seu peso de agua fervendo, muito solúvel no álcool. Em solução aquosa, caracterisa-se pelas seguintes reacções : l.a Forma nas dissoluções dos saes de cálcio, sobretudo quando previamente neutralizado pelaammonia, isto é, no estado de oxalato respectivo, um precipitado branco, inteiramente insolúvel na agua e no acido acético, e solúvel por decom- posição nos ácidos mineraes fortes (sulphurico, nitrico e chlorhydrico). Si, em vez de empregar para esta reacção o chlorureto ou o nitrato de cálcio, cuja precipitação não é caracteristica do acido oxalico, sinão quando se verifica a insolubilidade do precipitado no acido acético, se recorrer ao acetato ou ao sulphato de cálcio, este ensaio ulterior tor- na-se desnecessário ; no primeiro caso, porque o precipitado se forma no seio do acido acético, que fica livre pela decomposição do acetato ; no segundo caso, porque nenhum outro corpo co- nhecido constitue um reactivo tão sensivel pará os saes de cálcio, que seja capaz de precipitar uma dissolução tão fraca, tão diluida, Como a que se póde obter com o sulphato calcareo ; este corpo é, como se sabe, quasi insolúvel. Em todo o caso, para completar a reacção dos saes cal- careos, póde-se proceder de varias maneiras com o precipi- tado obtido, afim de demonstrar a sua natureza. a) Sendo aquecido, depois de seccado, decompõe-se par- cialmente, com desprendimento de oxydo de carbono, conver- tendo-se em carbonato de cálcio ; si for calcinado, e portanto em temperatura mais elevada, a decomposição é completa, e fica como residuo sómente cal. Donde, um corpo que pelaacção do calor dá effervescencia com os ácidos, o que antes não fazia, e acaba por deixar como residuo a cal, desprendendo oxydo de carbono e gaz carbonico, é o oxalato de cálcio. 296 SAL DE AZEDAS b) Triturado em um gral com álcool a 85 e algumas gottas de acido sulphurico, decompõe-se em sulphato de cálcio e acido oxalico que fica livre, e póde-se separar por filtração para obter crystallizado, segundo o artificio jà mencionado. 2. a O acido oxalico e qualquer de seus saes, inclusive o mesmo oxalato calcareo, sendo aquecido em um tubo de ensaio com acido sulphurico concentrado, deshydrata-se e produz dous gazes : carbonico e oxydo de carbono, cuja união devia constituir a anhydride oxalica, até hoje ainda não obtida ; reconhece-se-os fazendo-os atravessar uma solução alcalina, a agua de cal por exemplo, destinada a fixar o gaz carbonico, e inflammando na extremidade do tubo o oxydo de carbono, que arde com chamma azul. Si nesta reacção se empregar o acido sulphurico diluido e o peroxydo de manganez ( mistura oxydante ), forma-se e desprende-se sómente gaz carbonico. 3. a O acido oxalico é um agente reductor notável de alguns saes metallicos ; assim, por exemplo, na dissolução do nitrato de prata elle forma a principio um precipitado branco, solúvel no acido azotico, que escurece e mesmo ennegrece, sendo aquecido; por um calor mais forte, detona. O chlorureto de ouro é reduzido a quente pelo acido oxalico, dando logar a um deposito de palhetas brilhantes de ouro me- tallico, que revestem e douram as paredes do tubo, ao mesmo tempo que se desprende gaz carbonico. O permanganato de potássio, addicionado de uma gotta de acido sulphurico, se descora, quando aquecido em presença do acido oxalico. Não terminarei este assumpto sem me referir ao exame directo e microscopico que se póde praticar com proveito sobre a urina dos envenenados por este acido, que ahi deve existir no estado de oxalato calcareo, crystallizado. Para proceder-se a este exame recolhe-se a urina em um calix, onde se a deixa repousar durante algumas horas, afim de dar tempo a deposi- VENENOS HEMATICOS 297 tar-se o sal no fundo. Colhe-se com um chupete algumasgottas do liquido da camada inferior, colloca-se sobre uma lamina e cobre-se esta com uma laminula ; leva-se ao campo do micros- copio, e ahi cada crystal se apresenta com a íorma de um pequeno octaedro muito regular, transparente e muito refrin- gente, como uma pequena sobrecarta vista pela face posterior. A dosagem do acido oxalico póde-se fazer por dous pro- cessos : no primeiro, se deduz a quantidade do acido, do peso do oxalato de cálcio obtido, perfeitamente lavado e secco. Si for incinerado e convertido em cal, o peso obtido, multiplicado pelo numero 1,60696, dará o peso do acido oxalico. No segundo, essa illaçáo é tirada da proporção de gaz carbonico despren- lido pelo oxydante sulpho-inanganico actuando sobre o acido cxalico, e que se conhece pela diíferença de peso da mistura co reactivo com o acido, antes e depois da reacção ; o que se executa facil e rapidamente em um apparelho denominado ds Geissler. Esta dosagem, porém, é dispensável na maioria dos casos prnque em geral, nos envenenamentos por este corpo, elle é enpregado em dóses bastante fortes para não deixar duvidas m pesquiza sobre a sua origem, como se pôde julgar pelos dous eiemplos referidos na obra de Chandellon: Reinke extrahiu do c;daver de um individuo, morto em 10 minutos apoz a ingestão d* acido oxalico, 6 grammas deste acido ; e Bischoff, de outro c;daver quasi nas mesmas condições, retirou 2sr-,28 de acido ocalico, de porções do estomago, intestinos eseu conteúdo, pe- sando 2.240 grammas, além de quantidades menores, que pôde retirar do fígado, do coração e do sangue ahi contido, dos rins e da urina, não tendo encontrado esse veneno nem no cerebro, nem nos musculos. 298 PHENOL PRIMEIRA SUB-CLASSE Venenos neuro-hematicos Envenenamento pelo acido plnenico (phenol) Este corpo, cujo verdadeiro nome chimico é phenol, repre- sentando o typo de uma funcção chimica especial, que reune alguns dos caracteres dos álcoois e dos ácidos, sem pertencer de direito a nenhum destes grupos, é também conhecido com a denominação de acido carbolico. Tem sido nestes úl- timos annos causa de envenenamentos frequentes, e alguns graves, devidos ao uso, ou antes ao abuso que delle se ten feito quer externa, quer mesmo internamente, como anti- séptico. Os factos de envenenamentos accidentaes occasionado; seja por erro, seja por mà direcção no emprego desse medica- mento, teem sido observados principalmente na Inglaterra depoi da vulgarização do methodo listeriano nos curativos. Diz Du jardin Beaumetz que elle tem causado mais de 200 morte: depois da sua introducçâo na therapeutica. Além disso, porém, conhecem-se já numerosos factos d< homicidios praticados com esse agente toxico, tão ao alcance dt todo o mundo, pela sua propriedade desinfectante. Sua appli- cação sobre a pelle, em fricções ou no curativo de feridas, ou em injecções em cavidades do corpo, tem acarretado consequências funestas e, segundo Nothnagel e Rossbach, a absorpção do phenol se faz rapidamente atra vez da pelle, mesmo intacta, como das mucosas e também do tecido cellular sub- cutâneo, quando ahi injectado ; muito mais facilmente pôde esse agente insinuar-se e penetrar na torrente circulatória VENENOS NEURO-HEMATICOS 299 atravez de soluções de continuidade da pelle (feridas ou ulce- rações) . 1 Ingerido na dóse de 15 a 20 e 30 grammas, diz Tardieu que o phenol é um dos venenos mais energicos e mais rápidos ; para aquelles primeiros therapeutistas a dóse é já considerada mortal de 5 grammas para cima. Gubler affirma que 3 a 4 grammas para o homem, apenas 2 decigrammas (!) para a mulher, e ainda menos para as crianças bastam para deter- minar a morte. Dujardin Beaumetz diz que a dóse de 1 a 2 grammas póde acarretar a morte de um adulto, e lembra o caso, referido por Valade, de um envenenamento com phenomenos convulsivos, quando a dóse absorvida não excedia de 25 centigrammas (!). Segundo Mairet, Pilatte e Combenale a dóse mortal nos animaes superiores seria 15/100000 do peso do animal ; o que daria para um homem de 65 kilogrammas a dóse de 9,75 gr. de phenol (Chandellon). Symptomas; signaes clínicos Na qualidade de substancia fortemente irritante e caustica, o phenol determina phenomenos locaes mais ou menos pro- nunciados, que todavia não são em geral a causa da morte. Estes symptomas traduzem-se por uma sensação de ustão e queimadura intensa nas primeiras vias digestivas e no esto- 1 Hoppe Seyler conta a historia de dous indivíduos, que para se curarem de sarna se friccionaram mutuamente com uma mistura sobrecarregada de phenol. Emquanto soffriam esta applicação elles exclamavam, um para o outro, que estavam tontos e como ébrios, queixando-se ao mesmo tempo de violentas dôres nos pontos friccionados. Acudiram aos seus gritos e foram achar ambos sem sentidos, apoiados sobre moveis, que lhes estavam proximos. Um succumbiu muito pouco tempo depois e o outro voltou lenta- mente a si e sarou ; pôde então referir que sentiu a principio uma forte tensão na cabeça, depois vertigens, e cahiu desfallecido. Baader, citado p >r Dujardin Beaumetz, conta que uma mulher, que soffria de uma sciatica, experimentou symptomas graves (estertor, resfriamento e collapso) de intoxicação pelo phenol, em consequência de uma fricção feita na região glútea com glycerina plienicada (a 50 por 100), estando a pelle in- tacta e não tendo empregado nesta applicação mais do que a quantidade de uma colher de chá da mistura ! (E’ extraordinário !) 300 PHENOL mago ; sobreveem nauseas, que não são sempre seguidas de vomitos com o cheiro proprio do phenol, que o hálito também exhala, e quando elles apparecem não são abundantes. Pouco depois se manifestam os symptomas geraes graves, devidos á absorpção ; os doentes perdem os sentidos, cahem rapidamente em estado comatoso, acompanhado de resolução muscular completa e insensibilidade, mesmo aos excitantes mais violentos, taes como a electricidade. O pulso torna-se frequente, irregular, pequeno, filiforme ; os mesmos batimentos cardiacos são qnasi imperceptiveis. A pelle se resfria, sobretudo nas extremidades, que ficam como geladas; o corpo se cobre de suor frio. As pupillas são con- trahidas, as conjunctivas são insensíveis. A respiração torna- se oífegante, tracheal, estertorosa, expellindo pela boca .uma espuma leitosa, até que a morte sobrevem em geral no espaço de 1 a 10 horas. Um phenomeno curioso e constante no envenenamento pelo acido phenico é o que offerecem as urinas, que se tornam escuras, quasi pretas ; é uma verdadeira melanuria devida, se- gundo Fonssagrives, á presença do indican, e, segundo Bau- mann e Preuss, à hydroquinona e á pyrocatechina ; esta côr desapparece pela ebullição da urina com um alcali, e não tem relação alguma com a matéria corante do sangue, porque ahi não se encontra albumina. Este phenomeno observa-se princi- palmente, diz Gubler, quando o acido phenico é absorvido pela pelle ; não tem sinão importância secundaria em clinica, e não indica absolutamente a saturação do organismo por essa sub- stancia, como se tem pensado. Segundo Salkousky, o mesmo phenomeno se observa pela penetração do phenol atravez de uma ferida, donde elle conclue que esta côr deve ser determi- nada por um producto de oxydação intermediário, formado antes da absorpção, sobre a própria superfície cutanea. Para este autor, finalmente, a intensidade maior da côr não cor- responde á riqueza da urina em phenol. VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 301 Em todo o caso, a cor melanica da urina nos casos de intoxicação phenica não deve ser attribuida sempre, como parece acreditar Hettet, á presença de ácidos biliares. E’ ver- dade que ás vezes ella se acompanha de um processo ictérico, que explica a eliminação destes princípios pela urina, e então a sua côr carregada póde ser em parte devida ou augmentada por esta circumstancia. Ordinariamente uma parte do veneno (30 a 60 % segundo as experiencias de Tauber e Munk, em cavallos e cães), passa nas urinas sob a fôrma de acido phenil-sulphurico ou sulphophenico, e neste caso ellas, aquecidas em contacto com os ácidos, des- prendem o cheiro pronunciado de phenol, pelo desdobramento daquelle producto em acido sulphurico e phenol. Esta elimi- nação pelas urinas verifica-se logo no fim de duas horas ; pela exhalação pulmonar ainda é mais rapida, bastam 30 minutos. Kúhne observou também albuminúria, apoz o emprego dedóses toxicas de phenol. Outra circumstancia notável é que nos animaes (mammiferos e passaros) dóses toxicas de phenol produzem sempre con- vulsões clonicas e tónicas, a que depois se segue a paralysia, ao passo que na especie humana é logo a paralysia que se apresenta. Só se conhece um caso de envenenamento pelo acido phenico em que se manifestaram espasmos convulsivos, seguidos de accessos tetânicos, mas foi em uma criança de dous annos ; o que não admira, pela facilidade com que nessa idade se observa esse phenomeno, por occasião de qualquer perturbação funccional ou organica, ou mesmo espontanea- mente. Este facto, referido por Winslou, vem citado na obra de Nothnagel e Rossbach. Lesões anatomo-pattologicas ; signaes necroscopicos Os orgãos do cadaver, o sangue e a urina exhalam o cheiro pronunciado do acido phenico. A mucosa das primeiras vias 302 PHENOL apresentam-se retrahidas e endurecidas, com escharas pretas ou simplesmente manchas brancas. Segundo Tardieu e Gubler, a côr branca uniforme se observa mais frequentemente na boca, nopharynge e no esophago até á entrada do estomago ; Ahi, como na mucosa que forra o duodeno, ella é ás vezes for- temente injectada e ulcerada, semeada de placas brancas. As mesmas alterações podem se encontrar no larynge, na trachéa e nos bronchios ; ellas falham em geral quando a morte tem sido muito rapida. Nos pulmões notam-se infarctos sanguíneos, e Paul Bert observou lesões próprias de uma verdadeira pneumonia em animaes submettidos por elle a experiencias de intoxicação chronica por este agente. O co- ração é flácido e um pouco gorduroso, as cavidades direitas ordinariamente vazias, as esquerdas cheias de sangue ; este è fluido e muito escuro. Nos casos em que a morte é rapida, como em outras experiencias do mesmo physiologista, o sangue é vermelho no coração esquerdo ; demais, o mesmo sangue escuro, exposto ao ar, envermelhtce e se coagula. Tem-se encontrado também no flgado e nos rins a degene- ração granulo-gordurosa. Nenhum derrame sanguíneo se tem observado no encephalo, que, ao contrario, se apresenta o mais das vezes pai lido e como anemiado. Diagnostico differencial O envenenamento pelo acido phenico apresenta pontos de contacto e semelhança com o produzido pelos agentes irri- tantes e corrosivos, não só quanto á acção local, como a alguns phenomenos geraes, ligados ás desordens da respiração, da circulação e da calorificação ; mas distingue-se sobretudo pelas perturbações nervosas e intellectuaes, que neste ultimocaso não se notam. Assim, a perda dos sentidos, o coma, a paralysia de movimento e de sentimento, ao lado dos symptomas de irri- tação local, da côr preta das urinas e o cheiro proprio do acido VENENOS NEURO-HEMATICOS 303 phenico, caracterisam o envenenamento por este corpo. De- baixo deste ponto de vista, elle se comporta em parte como as substancias pertencentes ás duas funcções chimicas, de cujas propriedades participa, a saber, os ácidos e os álcoois ; os primeiros, no que respeita aos phenomenos locaes, e estes úl- timos quanto aos symptomas geraes. Mecanismo da acção toxica Como dizem Nothnagel e Rossbach, acreditava-se outr’ora que o phenol percorria o organismo sem soffrer modificação alguma, eliminando-se em natureza pelas urinas ; mas não é assim, porque sabe-se hoje que elle transforma-se em diversas substancias denominadas phenol-geradoras, das quaes uma Baumann demonstrou ser o verdadeiro acido sulfo-phenico ou phenii-sulphurico1. E’ neste estado principal mente que o phenol absorvido em pequena quantidade se apresenta na urina; quando em maior dóse, porém, apparecem productos de transformação ulterior, por falta de quantidade sufficiente de sulphatos. Esta eliminação do phenol pelas urinas effectua-se muito rapidamente, conforme já disse, de modo que não ha receio de sua accumulação na economia. O mecanismo da producção dos phenomenos toxicos produ- zidos pelo phenol é muito complexo e ainda não está perfeita- mente elucidado. Todavia, as experiencias rigorosas de Labée e de Paul Bert confirmam em parte a doutrina de Lemaire e de Neumann, que o consideravam como um veneno do systema nervoso 2. O phenol exerce particularmente sua acção sobre o 1 Este composto forma-se pela reacção do phenol sobre os sulpbatos naturaes da economia, o que serviu de base ao methodo de tratamento recom- mendado por Baumann. 2 Nas intoxicações experimentaes são frequentes, si não mesmo a regra geral, tremores e movimentos convulsivos, sobre cuja etiologia divergem os autores. Assim, Salkonsky os attribue á superexcitabilidade medullar ; Th. Husemann e Haynes, á excitação dos centros ancephalicos, etc. 304 PHENOL cerebello e sobre o bulbo, diz Gubler ; mas elle obra também sobre o grande sympathico. Nem todos os effeitos geraes, porém, desenvolvidos por este corpo, podem ser dados á conta de sua acção directa sobre os centros nervosos ; muitos se pro- duzem pela influencia das acções reflexas, ligadas ás desordens anatómicas do tubo digestivo. Rabuteau, que aliás estuda indevidamente este veneno na classe dos irritantes e corrosivos, reconhece nelle, além da acção sobre o systema nervoso, uma acção sobre o sangue, em- bora não determinada. Por isso, considera o phenol como um veneno ao mesmo tempo irritante, nevrotico e hematico. Gubler acredita que elle se comporta com os globulos sanguí- neos provavelmente como com os micro-organismos animaes e vegetaes: eíles se retrahem, tornam-se granulosos e menos refringentes (E. Labée). Além disso, o sangue em massa é coagulado rapidamente pela acção do phenol, tomando a côr vermelha do tijolo, que depois passa a côr parda ennegrecida. Tratamento E’ ainda muito limitada e pobre a therapeutica deste enve- nenamento, porque não se conhecem meios eíflcazes e seguros de o combater; entretanto, póde-se tirar grande partido dos vomitivos mecânicos, evitando o mais possível o emprego da bomba gastrica, por causa do estado inflammatorio do esto- mago. Em que peze á opinião de Rabuteau, deve ser de grande vantagem a administração da albumina, que, se coagulando pela acção do acido phenico, embora não forme com elle com- posto conhecido, naturalmente o envolve e modifica sensivel- mente sua acção, O leite pôde também prestar o mesmo ser- viço. Baumann recommenda muito o emprego do sulfato de sodio, que forma o sulpho-phenato sodico, inoffensivo ; outros aconselham os alcalinos, que pouco efíeito podem produzir, VENENOS NEURO-HEM ÁTICOS 305 porque não se trata de ura verdadeiro acido ; o phenol dissolve os carbonatos alcalinos sem decomposição completa destes, e em todo caso une-se aos alcalis, produzindo saes dotados, em gráo menor, das mesmas propriedades. Dous meios indicam os autores, como os de maior proveito e utilidade para debellar este envenenamento : um, preconisado por Calvert, consiste na applicação de uma mistura de azeite doce ou oleo de amên- doas doces com oleo de ricino ; outro, por Husemann e Um- methun, consiste no emprego do saccharafco de cálcio, afim de obter-se o phenato calcico, pouco solúvel. Não se conhece a theoria chimica que preside a estas indi- cações, nem parece que a pratica tenha sanccionado de modo satisfactorio os seus effeitos. Pesquiza toxicologica; signaes cMmicos Deve-se recolher para esta pesquiza a matéria dos vomitos, o conteúdo do estomago e duodeno, as urinas, o sangue, por- ções do figado, baço, rins e cerebro. Todas estas matérias exhalam o cheiro proprio do phenol, que se torna mais pronun- ciado quando eilas são aquecidas com um acido. Nota-se, além disto, que os orgãos do cadaver resistem mais tempo, sem de- composição, pela propriedade antiputrescivel do phenol. O sangue, que, como já disse, é fluido, quasi negro e torna-se rubro quando exposto ao ar, examinado ao micro- scopio, apresenta os globulos vermelhos desempilhados e ten- dendo a grupar-se por meio de facetas polyedricas ; demais, são misturados com abundantes granulações gordurosas. As urinas são turvas, e muitas vezes albuminosas, de cor preta ou verde garrafa, eilas encerram geralmente o phenol no estado de acido sulpho-phenico, comquanto não se deva tirar conclusão rigorosa em favor de um envenenamento sómente pelo facto da presença nellas desse acido conjugado, sinão TOXICOLOOIA 20 306 PIIENOL quando em proporção notável, visto comoelle póde-se encontrar no producto da distillação da urina normal, em pequena quan- tidade. Pôde acontecer também que em certas moléstias (na obstrucção intestinal, por exemplo), a quantidade do phenol augmente consideravelmente, sem que este producto tenha sido introduzido no organismo. Nencky, Salkowsky e outros demonstraram que o phenol se fôrma ao mesmo tempo que o indol na decomposição das substancias albuminoides pela acção do fermento pancreatico; por consequência o augmento de sua proporção deve depender também do genero de alimen- tação. Segundo DragendorfF, tem-se achado que em geral os carnivoros eliminam pela urina mais acido sulpho-phenico do que os herbivoros. Nothnagel e Rossbach, e Miink, ao con- trario, dizem que os principios phenol-geradores existem nor- malmente na urina dos animaes, sobretudo dos herbivoros ; entretanto, continuam elles, a alimentação vegetal não pôde ser considerada a unica origem daquelles principios, porque se encontram igualmente na urina dos que são submettidos a um regimen exclusivamente animal 1. Ainda mais, tem-se reconhecido e verificado que pequenas quantidades de phenol nos restos de alimentos, no conteúdo do estomago e sobretudo dos intestinos podem provir do uso de carnes de fumeiro e do uso do castoreo. Por outro lado, a au- sência do phenol ou seu derivado na urina não exclue absoluta- mente a ingestão deste corpo. Estas ponderações impõem a obrigação de se proceder com muita circumspecção nesta pesquiza. EUa se faz por distillação na presença de um acido. Para isso divide-se as matérias e dilue-se em quantidade sufficiente de agua distillada ; addiciona- se um pequeno excesso de acido sulphurico, chlorhydrico, tar- tarico ou phosphorico, e introduz-se em um apparelho distilla- torio. Aquece-se a fogo nú ou em um banho de chlorureto de , 1 Segundo Mtink, com a alimentação variada e mixta do homem, elle elimina diariamente pela urina 0,024 a 0,069 gr. de phenol. VENENOS NEURO-HEMATICOS 307 cálcio, porém brandamente, para evitar sobresalto e projecções da mistura, até que se obtenha no recipiente o terço do volume total do mesmo. Quando o liquido recolhido não se apresenta limpido e incolor rectifica-se submettendo-se à nova distillação e recolhendo-se os 3/4 sómente do producto. Assim obtido, elle se denuncia logo pelo cheiro particular do phenol. Si, porém, este cheiro não é bem pronunciado, e é mascarado pela presença de outros princípios voláteis, cumpre separal-os recorrendo-se ao seguinte artificio: Lança-se o li- quido distillado em um provete estreito com seu volume de ether, agita-se durante alguns instantes, e abandona-se ao re- pouso; decanta-se então a camada etherea que sobrenada, deita-se em uma capsula de porcellana e evapora-se na tempe- ratura de 40c. O ether se volatiliza, e vê-se então formar nas ultimas gottas que restam do liquido estrias como que oleosas, pesadas, acompanhadas de opalescencia notável, e com o cheiro proprio do phenol. Para se pesquizar este corpo somente na urina, póde-se se- guir um processo rápido e expedito, que consiste em tratar di- rectamente este liquido pelo ether, depois de o ter acidulado com acido tartarico ou sulplmrico, ou então, ajuntar a £00 gram. de urina, 16 gram. de agua e 4 gram. de acido sulphurico, aquecer a 50° durante uma hora, pouco mais ou menos. Depois do resfriamento, ajunta-se um volume de ál- cool igual ao do volume total da mistura ; filtra-se e ensaia-se directamente sobre o liquido as reacções do acido phenico. No leite, a pesquiza do phenol se pôde realizar do mesmo modo, tendo-se o cuidado de filtrar depois da addição do acido para separar o coagulo formado pela caseina. Si se trata de sangue sómente, toma-se 100 gram. deste liquido, a que se ajunta 2 gram. de acido sulphurico diluido em 98 gram. de agua, e filtra-se depois de uma hora de contacto. O liquido que passa deixa pelo repouso depositar Compostos insolúveis ; separa-se por decantação, addiciona-se 308 PHENOL um volume de álcool a 903 e filtra-se, depois de alguma agi- tação. Sobre o producto filtrado ensaia-se os reactivos do phe- 110I. Quando o sangue se acha coagulado, é preciso dividil-o em um gral com arêa, para submettel-o ao tratamento acido. Os caracteres do phenol são os seguintes : E’ um corpo solido, de sabor ardente e cáustico, que crystalliza em longas agulhas sem côr, fnsiveis a 40°, ou a 42°,2 segundo outros. O phenol ordinário impuro começa a fundir-se desde 35°, e mesmo abaixo 1 ; é a este phenomeno que se deve attribuir sua deliquescencia apparente. Com effeito elle é mui pouco solúvel n’agua, e por isso não pôde ser deli- quescente; é muito solúvel no álcool e no ether. Arde com chamma fuliginosa, e não exerce acção sobre o papel de tour- nesol. Aquecido com os alcalis fixos, dá productos crystalliza- dos ; aquecido por muito tempo com a ammonia, produz a ani- lina. Aquecido com o acido nitrico, forma compostos nitrados, dos quaes o mais importante é o acido picrico. Suas reacções caracteristicas são as seguintes : l.a Pedaços de pinheiro manso, imbebidos em uma solução pheníca, e depois molhados com acido nitrico ou chlorhydrico, adquirem uma côr azul franca, quando expostos ao sol. Esta reacçâo não tem grande valor, porque Ritter e Wagner viram-a produzir-se só com este ultimo acido, independente de phenol (Chapuis). Fazendo-se actuar os dous ácidos (uma gotta de acido ni- trico e algumas de acido chlorhydrico) sobre o phenol, manifes- ta-se uma côr purpurina carmesim (Chandellon). Segundo Tommassi, naquella primeira reacção convém ad- dicionar um pouco de chlorato de potássio, que não prejudica a 1 A impureza que produz este abaixamento do ponto de fusão, e por- tanto a deliquescencia apparente eespontânea do phenol, é ocresol. VENENOS NEURO-HEMATICOS 309 côr azul, e pelo contrario impede a producção de uma tinta es- verdeada que a mascára (Dujardin Beaumetz). Davy propõe, para obter essa côr, o acido sulpho-motybdico (acido sulphurico, contendo */10 ou mesmo i/l00 de acido moly- bdico); ajuntando tres ou quatro gottas desta solução ao phe- nol, e sobretudo aquecendo a mistura em uma placa de porcel- lana, manifesta-se a côr azul (Dujardin Beaumetz). 2. a O phenol, tratado pelo acido nitrico, experimenta uma viva reacção com desprendimento abundante de vapores ruti- lantes, e forma-se um liquido vermelho escuro, que aquecido a 100° torna-se amarello e deixa depositar pelo resfriamento, si ha quantidade sufficientede phenol, laminas amarellas, crystal- linas, de acido picrico (carbolico, chrysolepico ou mais cor- rectamente trinitro-phenico). Também esta reacção não é abso- lutameiite caracteristica, porque produz-se todas as vezes que se faz actuar o acido nitrico sobre a seda, o benjoim, o aloes, o anil e outras substancias. 3. a Em uma solução de hypochlorito de cal, si se ajuntam algumas gottas de ammonia, havendo acido phenico, mani- festa-se uma bella côr azul (Lex). Esta reacção é commum com os ácidos thymico e cresylico. 4. a Ospersaes de ferro, e sobretudo o perchlorureto, com- municam ao phenol uma côr azul pura ou azul roxa, que também se obtem nas mesmas condições com o acido melilo- tico e com o acido salycilico; a reacção é mesmo muito mais sensivel com este ultimo. 5. a A agua bromada precipita as soluções de phenol e forma o tribromo-phenol, de côr branca amarellada e cheiro fé- tido particular; este precipitado, introduzido em um tubo de ensaio, tratado por amalgama de sodio e um pouco d’agua e levemente aquecido, desdobra-se em bromureto de sodio e phe- nol sodico. Decantado o liquido e tratado pelo acido sul- phurico diluido, separa-se o phenol com o seu cheiro proprio (Landolt). 310 PHENOL 6. a Uma solução de hypochlorito de soda addicionada de uma gotta de anilina, em contacto com uma solução phenica, toma uma bella cor azul, que vira para o vermelho pela acção dos ácidos, e azulesce de novo pela addição de um excesso de alcali (Jacquemin). Forma-se nesta reacção o erythro-phenato de sodio ; ellaé muito sensivel e caracteristica, mas exige certos requisitos ; assim, não se produz bem sinão em um meio alcalino; a presença de chloro e de ácidos livres prejudica o ensaio. Por isso, é preciso, sobretudo nas soluções concentradas, evitar um excesso de hypochlorito, e póde-se alcalinisar o liquido com algumas gottas de ammonia, em vez da anilina. 7. a Misturando-se ao liquido phenico uma solução de proto- azotato de mercúrio, contendo um pouco de acido nitroso, e aquecendo, produz-se uma cor rosea (Plíigge). Dragendorff diz ter obtido um resultado ainda mais bello empregando mesmo a frio, sem aquecer, o deuto nitrato de mercúrio, também nitroso, ou então o reactivo de Millon, que tem por base este sal; de- posita-se mercúrio metallico. 8. a Ajunta-se uma gotta de solução phenica a um liquido preparado da maneira seguinte : lança-se um pouco de chlorato de potássio em acido chlorhydrico concentrado ; quando o chloro se tem desprendido, durante 10 minutos, deita-se volume e meio d’agua, e depois de ter eliminado todo o chloro da parte superior do vaso, derrama-se ammonia liquida, quanto baste para formar uma camada de 6 centímetros acima da mistura. Obtem-se então uma cor vermelha-rosea ou vermelha escura (Rice). 9. a O reactivo de Frõhde (acido sulpho-molybdidico) cora em azul o phenol. 10. a Collocando-se em um tubo de ensaio volumes iguaes de acido sulphurico e da solução phenicada, e projectando-se na mistura ainda quente pela juncção dos dous corpos alguns grãos de nitro, vê-se produzir uma estria roxa nos pontos de con- tacto de cada partícula com o liquido, que, pela agitação, adquire todo, aquella côr, VENENOS NEURO-IIEMÁTICOS 311 Dosagem do acido phenico.— Esta operação torna-se ne- cessária, attendendo à existência normal do phenol em certos orgãos ou certos líquidos da economia, embora em pequeníssima proporção, que não se póde confundir com a quantidade em que este corpo desenvolve effeitos toxicos lethaes. Conhecem-se dous processos para chegar-se a este resultado: o de Dagener e o de Giacosa, que é uma modificação do primeiro. O processo de Dagener repousa sobre a reacção do bromo : Começa-se por fazer uma solução conhecida de bromo no bromureto de potássio, depois deixa-se cahir gotta a gotta esta solução no liquido suspeito de conter o phenol, até que não se forme mais precipitado, isto é, até ligeiro excesso de bromo; separa-se o precipitado, que é constituído por tribromo-phenol, secca-se, pesa-se e faz-se o calculo partindo deste principio, que seis molleculas de bromo estabelecem dupla decomposição com uma de phenol, e dahi resulta uma de tribromo-phenol e tres de acido bromhydrico. A modificação de Giacosa consiste no emprego de uma solução de hypobromito de potássio, em vez da solução de bromo. Dilue-se esta solução de tal maneira que 50cent. cub. correspondam a 10 cent. cub. de uma solução de phenol a 0,5 %. Este liquido deve ser conservado em um vidro preto e n’um logar fresco. Para dosar, colloca-se 50 cent. cub, da solução titulada de hypobromito em um copo de Bohemia, e deixa-se cahir o soluto phenico até descoramento. Depois, bastam algumas gottas mais deste soluto para que o liquido perca a propriedade deazulescer uma gotta de gomma rala de amido, iodurada, depositada sobre uma placa de porcellana. Este processo é reputado preferível ao precedente. Envenenamento pelo álcool Indubitavelmente não é aqui o logar mais proprio para consagrar á historia deste envenenamento, debaixo do ponto de 312 ÁLCOOL vista em que mais interessa o seu estudo ; elle representa, é verdade, como diz Tardieu, uma mui pequena parte do vasto assumpto do alcoolismo, que pertence por mais de um titulo á medicina legal, á medicina mental, á hygiene e á clinica ; mas este é o alcoolismo chronico. Ha, porém, evidentemente casos fataes, embora muito raros, rarissimos mesmo, entre nós, em que a morte tem sido a consequência da ingestão de uma grande dóse de bebida alcoolica, por indivíduos pouco habituados ou ainda não habituados a bebidas desta natureza, antes do que por alcoolistas de profissão. O estudo desta fôrma aguda de intoxicação pelo álcool pertence de direito á toxicologia e constitue um dos capítulos mais importantes desta sciencia, si não pela frequência dos seus effeitos agudos, ao menos pela vulgarização quasi universal desse veneno privilegiado, cujos effeitos lentos, múltiplos e os mais variados entram como factor poderoso no numero das causas de degradação physica, moral e intellectual da humanidade. Não é possível que o estudo de um agente desta ordem deva ser omittido em uma obra de toxicologia, não podendo relevar a Tardieu essa lacuna, que elle pretende justificar naturalmente com a declaração acima transcripta, e por principio de co- herencia ; isto é, não escrevendo elle um tratado de venenos e sim de envenenamentos, e não interessando precisamente á toxicologia a historia do alcoolismo, entendeu que nada tinha que fazer com o estudo do álcool. Limitou-se por isso a uma simples menção consagrada em duas paginas apenas de seu livro a proposito de uma observação. O álcool vinico ou ethylico (espirito de vinho) (e é a este que se refere sempre que se não determina a especie), é o segundo termo de uma serie homologa, oxygenada, derivada dos hydro- carburetos da serie graxa, e cuja formula corresponde exacta- menteá destes, mais um atomo de oxygeno. São os álcoois mo- noatomicos, dos quaes se conhecem já bem uns 21 termos, a começar pelo álcool methylico (espirito de madeira), que é o primeiro da serie. VENENOS NEURO-HEMATICOS 313 0 mais importante, porém, debaixo de qualquer ponto de vista que se considere, e sobretudo pelo uso e abuso que delle se faz, sob todas as fôrmas, é o álcool vinico. Das curiosas experiencias emprehendidas nestes últimos annos por Dujardin Beaumetz e Audigé chegaram estes observadores ás seguintes conclusões: A—Todos os álcoois, quer pertençam á serie monoatomica, quer ás series polyatomicas, são dotados de propriedades toxicas. Explicando esta proposição, elles abrem excepção apenas para o álcool cetylico, queé solido e completamente insolúvel; e confessam que, em relação aos álcoois polyatomicos, não experimentaram sinão com a glycerina, sendo naturalmente levados, por bem fundada analogia e deducção lógica, a gene- ralizar daquella forma a sua conclusão. B— Na serie monoatomica a intensidade da acção toxica depende: Io, da constituição atómica dos álcoois e de sua origem ; 2o, de sua solubilidade ; 3o, das decomposições que podem soífrer, seja ao ar livre, seja na economia; 4o, dos differentes modos de sua administração ; Desenvolvendo esta segunda conclusão, os citados experi- mentadores estabelecem as seguintes leis ou regras: 1 .a Para os álcoois da mesma origem a acção toxica é tanto mais intensa, quanto suas formulas atómicas são mais elevadas. Debaixo deste ponto de vista elles dividem a serie dos álcoois monoatomicos em tres grupos: O primeiro comprehende os álcoois por fermentação, nos quaes a actividade toxica segue em progressão mathematica o crescimento das respectivas formulas. O segundo é constituido pelo álcool methylico, que elles consideram um pouco mais toxico do que o álcool ethylico, comquanto de formula mais simples que a deste, e portanto 314 ÁLCOOL inferior na serie.1 O terceiro grupo, finalmente, abrange os álcoois que se obteem de ordinário por synthese, taes como o senanthylico e caprylico, que, quando puros e não obstante suas formulas relativamente elevadas, seu gráo maior de com- plicação mollecular, não são ou quasi não são mais toxicos do que o álcool vinico. 2 2.a Para que um álcool goze de propriedades toxicas é preciso que elle seja solúvel, ou bem que encontre na economia substancias que facilitem sua dissolução. Isto está perfeitamente de accordo com o principio geral que preside à absorpção das substancias toxicas, em virtude do qual tornam-se inoffensivos ou pouco activos os compostos insolúveis dos mesmos elementos, cujas combinações solúveis são mais ou menos venenosas. A regra, pois, estabelecida 1 Nothnagel e Rossbach não admittem nem mesmo esta excepção ; na sua opinião o álcool methylico é 15 vezes menos activo do que o ethylico, e 30 vezes menos do que o amylico. Isto vem corroborar ainda mais a lei atómica ou thermica de Rabuteau, applicada aos corpos simples. 4 Neste sentido organizaram Dujardin Beaumetz e Audigé o seguinte quadro, que resultou de suas pacientes investigações: DESIGNAÇÃO DOS ALCOOLS E SEUS DERIVADOS DOSES TOXI POR KILO CÃO puros CAS MÉDIAS DO PESO DO diluidos AJcool ethylico C2 Hs 0 8,00 7,75 Aldehyde acética C2 H4 0 » 1 a 1,25 Ether acético C2H302,C2H3 » 4,00 Álcool pcopylico C3 H8 0 3.90 3,75 Álcool b ityíico C4 H10O 2,00 1,85 Álcool amylico Cõ H120 1,70 1,50 a 1,60 Álcool methvlico C H4 0 » 7,00 Acetona C3 H6 0 » 5,00 Álcool senanthvlico... C7 H160 8.00 » álcool caprylico C8 H180 7 a 7,50 » Álcool cetylico C1GH340 » » Álcool isopropylico, C3 H8 0 » 3,70 a 3,80 Glycerina C3 II8 O3 » 8,50 a 9,00 VENENOS NEURO-IIEMATICOS 315 por Dujardin Beaumetz a respeito dos álcoois, assim como a de Rabuteau applicada aos corpos simples, depende daquella con- dição physica. E’ bem possivel, e provável mesmo, que, com os progressos ulteriores da chimica organica, se chegue a generalizar esta lei, reconhecendo a sua veracidade em todos os compostos re- gularmente seriados. 3. a A presença de aldehydes e de etheres nos álcoois au- gmenta o poder toxico destes últimos. Com eifeito os dous notáveis experimentadores verificaram que a aldehyde e o ether acético, por exemplo, gozavam de propriedades toxicas especiaes, muito mais intensas do que as do álcool ethylico, seu gerador. O mesmo se dá com a acetona, que se acha principalmente no álcool methylico do commercio, exaggerando a sua acção toxica ; sem ella, quando puro, este producto é muito menos nocivo, o que parece dar ganho de causa á opinião já citada de Nothnagel e Rossbach, sobre a actividade relativa dos dous primeiros termos da serie alcoolica monoatomica. Guardando ainda reservas, Dujardin Beaumetz e Audigé pensam, todavia, que a decomposição possivel dos álcoois no organismo, pode explicar em parte os seus effeitos toxicos. 4. a O modo de introducção dos álcoois na economia póde modificar suas propriedades toxicas. A este respeito os autores em questão pronunciam-se a priori, sem provas experimentaes ; pois nas suas experiencias serviram-se quasi exclusivamente da via hypodermica, pare- cendo-lhes que por este methodo a absorção se effectuava tão rapidamente e talvez de modo mais completo do que pelo esto- mago. Cumpre não perder de vista que, além destas circumstancias supra mencionadas, e assim como para os outros venenos, o poder toxico dos álcoois varia, conforme a quantidade em que é ingerido, de uma só vez ou por dóses pequenas repetidas e 316 ÁLCOOL crescentes, e conforme ainda a resistência ou tolerância maior ou menor dos individuos, segundo sua idade, sexo e constitui- ção, e sobretudo segundo seus hábitos de intemperança. Para não alongar de mais este trabalho, tratarei exclusiva- mente do álcool vinico ou ethylico, com o desenvolvimento que sua importância exige, dentro dos limites desta obra. Antes de tudo devo lembrar que é áquelle álcool que devem todos os líquidos espirituosos as propriedades que os tornam procurados, e nos quaes elle existe em maior ou menor pro- porção. Essas bebidas dividem-se naturalmente em duas classes: 1 .a Os álcoois ou espiritos, os licores e em geral todos os productos distillados, mais ou menos ricos daquelle principio, e dos quaes a especie de titulo alcoolico inferior é represen- tada pela aguardente. 2.a As bebidas fermentadas, que teem por typo e mais apreciado specimen o vinho, mas o verdadeiro vinho de uva, ao qual se reune também a cerveja, a cidra, a perada (poirée), etc. Estas bebidas devem essencialmente suas propriedades to- xicas aos productos do primeiro grupo que encerram em sua composição, sem esquecer que, ao lado e de mistura com o álcool etylico, existe sempre uma quantidade variavel de ou- tros álcoois, superiores na serie chimica, porém muito inferio- res em qualidade commercial e sobretudo em valor hygienico (dir-se-hia melhor em valor therapeutico). Elles se originam na mesma preparação das supraditas bebidas, como productos secundários, que augmentam e exaggeram suas propriedades toxicas. 1 1 Entra os numerosos productos que encerram os álcoois de industria convém não esquecer o furfurol ou aldehyile pyromucica, que se forma á custa do farelo, na sacharilicação sulphurica doscereaes, e passa depois para os pr >ductos de distillação do liquido fermentado. E’ um liquido incolor, que escirece rapidamente ao contacto do ar, e dotado de um cheiro que lembra ao mesmo tempo o da essencia de canella e o da de amêndoas amargas. Applicada|aos animaes, produz verdadeiros ataques epileptiformes, e isso explica a frequência destes accidentes no alcoolismo observado na Escossia VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 317 Fóra estas impurezas, que resultam, como se vê, de vicios de preparação, outras substancias muitas vezes nocivas e to- xicas são fraudulentamente addicionadas na fabricação arti- ficial de taes bebidas, para lhes coinmunicar a cor e o cheiro (bouquet) imitantes aos de sua composição natural ; no primeiro caso estão em geral as matérias corantes derivadas da anilina e outras, e no segundo as diversas essencias artificiaes, taes como o oleo de vinho (francez ou allemão), o oleo essencial de borra de vinho, 1 etc. Em todo caso fica subentendido que, perante a toxicologia, álcool significa qualquer desses liquidos distillados ou fer- mentados que o eonteem ; álcoois são todas essas bebidas espiri- tuosas, cujo uso habitual nas mesas das pessoas de boa saude não tem absolutamente justificação, e são a causa frequente de phenomenos de alcoolismo, que, mais cedo ou mais tarde, veem a experimentar, e a sciencia registra indistinctamente por conta do principio alcoolico. Só excepcionalmente se apontam factos de envenenamento, occasionados pelo proprio espirito de vinho em substancia (não fallando, por não ser aqui o logar, daquelles em que tem sido aproveitada a sua inflammabilidade, imbebendo-se com elle as roupas e ateando-se fogo), comprehendendo poremos queteem sido determinados pela inhalação dos seus vapores, igualmente e na Irlanda, onde os bebedores não usam do absinthio, que na França e em outros paizes é a causa desses accldentes. Eli.es bebem álcoois de ce- reaes e os residuos de sua distillação, nos quaes se acha a maior parte do furfurol. 1 Além destas essencias, conhecem-se hoje muitas outras com que se substituem as essencias naturaes, na fabricação das bebidas espirituosas assim falsificadas, por exemplo, a aldehyde salycilica, que empregam para substituir na composição do vermuth e do bitter a essencia de rainha dos prados (spirtea ulmaria), communicando-lhes a propriedade convulsivante epileptigena do absinthio, no qual ella é talvez devida ou augmentada pela acção de um bouquet artificial de que faz parte o salycilato de methyla, porquanto este producto, que também entra na composição daquellas duas bebidas, em vez da essencia de winter green (gaultheria procumbens), goza dessa propriedade. Emfim, no licor de noyau, o cheiro cyanico é dado por uma mistura de aldehyde benzoica (essencia de amêndoas amargas) e benzonitrila, mis- tura nimiamente toxica e de acção tetanisante. 318 ÁLCOOL toxicos, sinão mais perigosos ainda. E’ disso exemplo um facto citado por Gubler, occorrido em um individuo, de lima tempe- rança a toda prova, que morreu por haver transvasado grandes quantidades de aguardente no recinto confinado de uma adega, em cuja atmosphera, impregnada daquelles vapores, elle foi encontrado sem sentidos, e não pôde escapar às consequências dessa intoxicação, apezar dos cuidados de Gubler. Fóra estes casos, trata-se geralmente da ingestão de bebidas alcoólicas e não de álcoois. O álcool vinico tem sido raramente empregado com preme - dilação como meio suicida; Raoer cita o facto de uma moça, que tentou contra os seus dias bebendo uma pintay deste liquido. Com razão diz Rabuteau que são raros os suicidios com preme- ditação por este meio, visto como todos os outros em que os indivíduos teem sido victimas de excessos alcoolicos repetidos, não deixam de serem ultima analjse suicidios lentos ; exemplos desta natureza pullulam na historia de todos os povos e em todas as classes da sociedade ; suas consequências, seus effeitos nós os vemos todos os dias quer na clinica civil, quer na clinica nosocomial. E ainda não somos com toda a certeza o povo que a este respeito paga o mais pesado tributo, o que mais triste espectaculo offerece; os mesmos estrangeiros, insuspeitos por- tanto, o dizem e confessam, como tive occasião de ouvir declarar solemnemente perante uma sessão da Academia ex-Imperial de Medicina um habil cirurgião francez que aqui esteve entrenós, o Dr. Fort. Bordier, na sua excellènte Geograpliia medica, diz também ter visto mais ébrios em cinco dias 11a Inglaterra, do que em cinco annos no Brazil. Monin, no seu precioso Estudo medico-social sobre 0 al- coolismo, diz que este flagello dos climas torridos é quasi desco- nhecido no Rio de Janeiro, por causa do grande consumo que ahi se faz do café, que elle considera um antídoto physiologico e um 1 Antiga nledida porfcugueza, equivalente a 3 quartilhos. VENENOS NEURO-HEMATICOS 319 antídoto social do álcool, a tal ponto que, continua o autor, os immigrantes que aqui chegam, acabam por aborrecer ou detestar as bebidas alcoólicas em troco da affeição profunda pelo café, dando assim um exemplo, que devia ser imitado pela velha Europa. Diz elle ter-se inspirado na opinião, aliás autorizada, do finado Barão de Theresopolis, que só por uma honrosa e descul- pável hvperbole podia ter avançado semelhante proposição, lnfelizmente não é tão pouco conhecido o alcoolismo entre nós, e sobretudo estão longe os immigrantes de dar aquelle invejado exemplo de temperança. Demais, sem negar o antidotismo physiologico, mais corre- ctamente o antagonismo toxico do café a respeito do álcool, todavia póde-se, com Bergeret, contestar-lhe a virtude de um antídoto social contra as devastações do alcoolismo, porquanto, segundo a sua justa observação, o café arrasta os seus apre- ciadores a um consumo mais considerável de líquidos espirituosos (kirsch, rhum, licores, etc.); ha poucas pessoas que tomem o café só, sem este acompanhamento obrigado e prejudicial. 1 Si passarmos a contemplar os effeitos das grandes libações, sobretudo em estreantes no vicio, ou por occasião de imprudentes e brutaes apostas, mesmo entre os habituados a elle, ainda mais raros são entre nós estes factos, muito frequentes em outros paizes, como em França, e mais communs ainda na Rússia, por exemplo. De uma estatística consignada na obra de toxicologia de Rabuteau, vê-se que ha nesse paiz, por anno, mais de 600 casos de intoxicação aguda pelo álcool, ao passo que em França regulam estes casos pela terça parte, pouco mais ou menos, por- quanto no espaço de sete annos (de 1810 a 1847) houve 1.622 1 E’ desta opinião também o Dr. Tourdot, que, em uma memória sobre o alcoolismo do Sena Inferior, publicada em 1886, pinta com côres carregadas a parte que pertence ao café no desenvolvimento que tem tomado o alcoolismo nesta localidade. O café torna-se entre os bebedores normandos um pretexto para as suas libações : uma vez no botequim, pedem café, e logo que bebem o primeiro gole, substituem a porção tirada na caicara por aguardente, e assim, de cada vez que vão esvaziando-a vão enchendo-a de novo com esta bebida, da qual chegam a ingerir ás vezes de 200 a 400 grammas (!) 320 ÁLCOOL mortes devidas a essa causa. Em quatro annos (de 1838 a 1842) contaram-se 263 factos desta ordem na Suécia e Noruega. Para Taylor, a dóse minima debrandi/ que tenha produzido a morte é de 90 a 125 grammas, em um menino de sete annos. Segundo uma indicação de Todd, em que parece haver engano na transcripção de Rabuteau, a dóse de 92 onças e meia (quasi tres litros !) de gin (aguardente de zimbro) occasionara a morte de uma menina de tres annos ; 32 onças (cerca de um litro) de rhum dariam a morte a um individuo adulto ; entretanto, em um caso, outro soífreu accidentes graves, mas escapou, de uma dóse de 250 grammas de álcool. Symptomas signaes clínicos Fôrma aguda. — Póde-se distinguir com Rabuteau tres gráos na symptomatologia do alcoolismo agudo. Io gráo — Consiste em um estado de excitação, que dura duas ou tres horas, e seguida de ligeira depressão ; é o estado que precede a embriaguez, e que mais ou menos todos teern alguma vez experimentado. Penso que estes phenomenos, que apenas constituem os prodromos da embriaguez, não deviam figurar como gráo ou periodo do alcoolismo agudo. 2o gráo — E’ o estado de embriaguez confirmada: começa por incerteza e hesitação dos movimentos nos membros inferiores, todavia mesmo cambaleando o individuo conserva-se bem de pé, e si cahe, póde facilmente levantar-se. Suas faculdades intel- lectuaes são enfraquecidas ou entorpecidas ; elle mostra loqua- cidade, sente zunido nos ouvidos, e apresenta ás vezes delirio furioso. Este estado dura ordinariamente tres a seis horas, ás vezes mais, e termina por uma depressão muito mais consi- derável do que no primeiro gráo. 3o gráo — Caracterisa-se este estado, que é o da embriaguez toxica, segundo a expressão de Gubler, pelos phenomenos que constituem o alcoolismo agudo propriamente dito ; á incoorde- VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 321 nação dos movimentos e da palavra que se tem tornado manifesta, segue-se a paralysia com anesthesia, que invade os membros inferiores e superiores. O individuo tem vomitos e evacuações involuntárias; seu rosto torna-se tumefacto, vultuoso, outras vezes pallido, a boca espumante, as conjunctivas injectadas, as pupillas dilatadas, raramente contrahidas, outras vezes loucas ; sua respiração è lenta, ruidosa, estertorosa, por causa da para- lysia do véo do paladar e dos musculos do larynge. O pulso torna-se fraco, miserável; a pelle coberta de suor frio e viscoso ; sobrevem resfriamento, prostração geral e coma profundo, que ainda pôde terminar pela cura do doente ; neste caso subsiste sempre por algum tempo um estado de depressão geral. Outras vezes quando o coma dura muitas horas, sobrevem a morte, consecutiva ou a phenomenos asphyxicos, ou a complicações inflammatorias agudas, seja para o pulmão, seja para o ence- phalo, particularmente as meningeas. Segundo alguns observadores, o methodo sueco de trata- mento da dipsomania, também chamado methodo de Berzelius- Schreiber, que consiste em não permittir aos infelizes al- coolistas, alimentos que não sejam preparados em aguar- dente, e bebidas que não sejam misturadas com ella, tem feito muitas victimas ; alguns teem succumbido em meia hora (Taylor) ou mesmo em poucos minutos (Orfila). Nas crianças tem-se observado convulsões precedendo a morte, o que não admira, attendendo á frequência deste phenomeno em qualquer estado morbido agudo, nessa idade, seja por acção reflexa e desordem puramente funccional, seja por accidentes inflammatorios meningo-cerebraes. Na idade adulta este phenomeno só tem sido observado como effeito do absinthio 1; convulsão epileptiforme ou mesmo o verdadeiro ataque epiléptico communica uma physionomia especial aos 1 Assim se chama por convenção o licor conhecido por este nome e que tem por base o absinthio; nas mesmas condições se acha a agua vulne- raria, agua de arcabuz ou alcoolato vulnerário, embora mais empregado em uso externo. TOXICOLOSU 21 322 ÁLCOOL phenomenos que caracterisam esta modalidade do alcoolismo, a que, por aquelle motivo, se dà o nome de absinthismo. A este respeito escreveu o Dr. Casa Nova, em 1885, um pequeno mas importante trabalho, cujas conclusões julgo acertado transcrever aqui, e o farei a proposito do alcoolismo chronico, onde teem melhor cabimento. Lesõas anatomo-patliologicas ; signass necroscopicos A rigidez cadavérica é normal ou antes um pouco exagge- rada; aputrefacção processa-se mais lentamente, contra a opinião de Nothnagel e Rossbach. Muitos observadores, entre os quaes Percy, Corvisart, Jocobi e Magnan, teem assignalado a presença de lesões mais ou menos pronunciadas na mucosa do tubo gas- tro-intestinal : sugillações, manchas ecchymoticas, ou mesmo derramamento sanguineo, seja 11a espessura das paredes, seja dentro do canal ; outros, como Casper, as teem negado. Elias dependem essencialmente do grào de concentração do liquido alcoolico. O sangue é sempre mais fluido e escuro. Os orgãos thoracicos e abdominaes nada apresentam de notável; porém Maschka observou edema pulmonar e Magnan achou muitas vezes nos pulmões, em suas experiencias sobre animaes, alterações diversas: congestões parciaes e até pontos apopléticos. Também notou no figado e rins hyperhemia considerável, porém raramente focos hemorrhagicos. A medulla e 0 cerebro, bem como as suas membranas, apresentam-se injectadas ; vê-se pequenas infiltrações sangui- neas na pia-mater ; ás vezes na superfície da arachnoide. Se- gundo Magnan, são frequentes as hemorrhagias meningeanas e mais no homem do que nos outros animaes. Diagnostico differencial Entre as moléstias naturaes, è facil de confundir em certos casos com este envenenamento a congestão e a hemorrhagia VENENOS NEURO-IIEMATICOS 323 cerebro-meningéa, por isso mesmo que estes accidentes são geralmente a causa próxima ou immediata da morte naquelle envenenamento, de maneira que torna-se adi fferença uma questão etiologica puramente ; e quasi o unico signal que vem em auxilio do verdadeiro diagnostico é o cheiro fortemente alcoolico que o corpo exhala, sobretudo dos orgãos internos, pela aber- tura do cada ver. Entre os envenenamentos, é o determinado pelo opio o que mais se approxima dos phenomenos de alcoolismo agudo, do qual é muito difficil distinguir quando o cheiro proprio de uma e de outra substancia não se apresenta claro e não impressiona vivamente o olfacto ; de nada servindo por inconstantes, na minha opinião, os outros signaes differenciaes indicados por Taylor, a saber: no meconismo, o coma se manifesta lentamente e sem excitação prévia, o rosto é pallido eapupilla contrahida. Mecanismo da acção toxica Rabuteau classifica o álcool entre os venenos hematicos globulares, mas elle proprio confessa que acha motivos espe- ciaes para collocar este veneno também entre os nevroticos, ao lado do chloroformio e doether. Antes de tudo, nenhuma duvida resta de que o álcool exerça umaacção manifesta sobre o sangue, como provam as experiencias de Bouchardat, do mesmo Rabuteau e outros muitos obser- vadores ; donde, no dominio da acção physiologica, a diminuição da uréa e o abaixamanto da temperatura animal, e no da acção toxica, o mesmo resfriamento considerável consecutivo ás dóses excessivas e a steatose que se desenvolve lentamente. Mas, além de que os phenomenos thermicos mencionados e os accidentes asphyxicos podem depender da resolução muscular, e de uma depressão profunda do systema nervoso, aco-parti- cipação deste systema nas manifestações anatómicas e clinicas do alcoolismo é inquestionável. Assim, a difficuldade e inco- 324 ÁLCOOL ordenação dos movimentos, a paraiysia e a anesthesia são a consequência da acção nevrotica do álcool, o que justifica o facto assignalado nas pesquizas toxicologicas desta substancia, e é que o cerebro é um dos orgãos que fornecem mais álcool á analyse. Nesta ordem de considerações, Rabuteau chega mesmo a declarar que o álcool não possue a propriedade de reduzir a hemoglobina, mas inclue-o ainda no grupo dos venenos hema- ticos, até que novas investigações venham estabelecer e firmar seu verdadeiro logar no quadro da classificação dos venenos, mesmo porque é possivel, diz elle, que a hemoglobina adquira sob a influencia deste agente a propriedade de fixar menor quantidade de oxygeno, e o plasma experimente também certas modificações. Demais, na opinião de Monin, o álcool asphyxia os globulos de sangue, do qual elimina o oxygeno para substi- tuil-o pelo acido carbonico. Carece de provas esta theoria que o autor não acompanha de demonstração alguma, mas ella é perfeitamente acceitavel. Muito mais repugna admittir, por inverosímil, a theoria inteiramente gratuita de Mialhe, baseada 11a coagulação do sangue pelo álcool, e na pretendida obstrucção por embolia dos capillares sanguíneos pelos coágulos formados. Si 0 estado em que são eliminados da economia os medica- mentos e os venenos devem ser 0 critério para se poder julgar das metamorphoses que elles experimentam no seio da mesma, a respeito do álcool nada ha de positivo, porquanto ainda duas theorias disputam a explicação desses phenomenos, sem que se tenha feito toda a luz sobre elles. e sem que qualquer delias possa ser acceita com exclusão da outra ; parecendo que a ver- dade está em parte em ambas. Uma pretende que todo 0 álcool é queimado mais ou menos completamente no organismo, dando agua e aldehyda; esta por sua vez se transformaria em acido acético, e este final- mente em agua, gaz carbonico e acido oxalico (?). VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 325 A outra é dos quo acreditam que o álcool se elimina em substancia: neste numero se acha Rabuteau, que adduz em favor da mesma as seguintes considerações: 1. a Porque repousa sobre experiencias e investigações bem conduzidas, quer no homem quer nos animaes, realizadas por Ludger Lallemand, Perrin e Duroy, que encontraram álcool em natureza, e não aldehyda nem acido acético, quer na urina, quer nos productos da respiração e da perspiração cutanea. 2. a Porque si o álcool fosse um alimento respiratório, como querem os sectários da primeira theoria, augmentaria a tempe- ratura animal, ao passo que a diminue notavelmente. Demais, si elle formasse acido oxalico na economia, a oxaluria seria frequente, o que não foi ainda assignalado. Aquelles tres chimicos serviram-se para denunciar o álcool nas suas pesquizas experimentaes, do reactivo de Luton (mistura de acido sulphurico e bichromato de potássio); mas, não igno- rando que também a aldehyda reduz este reactivo e se comporta em sua presença como o álcool, se encarregaram de prevenir e responder a esta objecção, fazendo passar os gazes da respiração e da perspiração primeiramente atravez de uma solução de ni- trato de prata, que seria reduzido pela aldehyda e não pelo álcool. Procedendo com esta precaução, verificaram que nem uma alteração experimentava o sal argentico, que é bastante para revelar a ausência da aldehyde. Assim como a aldehyde, também não se tem podido demonstrar a formação do acido acético no organismo de um individuo alcoolisado ; o que con- corda perfeitamente com as observações feitas sobre o sangue depois da absorpção mesmo de grandes quantidades de uma bebida alcoolica, e que provaram não soffrer elle mudança de cor apreciável; sómente nos casos em que a morte sobrevem consecutivamente á paralysia da respiração é que o accumulo de gaz carbonico no sangue lhe communica, como em todas as asphyxias, uma cor escura ennegrecida. Outros, porém, julgam esta opinião pouco verosimil, e 326 ÁLCOOL entendem que não põde ser demonstrada de modo inconcusso sinão por uma equação perfeita entre a quantidade de álcool ingerido e a excretada pelo animal. Ora, elles nunca jogaram nos seus cálculos sinão com uma parte do álcool, e demais, não contam, para explicar os resultados negativos das analyses feitas sobre o sangue em relação aosproductos daoxydaçâodo álcool, que estes productos (aldehyde e acido acético), também susce- ptiveis de oxydação, transformam-se por ultimo em gaz carbó- nico e agua. Além disso, Em. Baudet, em França, Hugo Schulinus, na Rússia e Edw. Smith, na Inglaterra, mostraram experiental- mente que, longe de representar toda a massa ingerida, o álcool eliminado em natureza pelas secreções constitue apenas uma pequena fracção, porquanto a combustão respiratória destroe uma proporção, muito mais considerável; tal é também a opinião de Gubler. Para elle a decomposição do alcooi é tanto mais completa no sangue, quanto a quantidade absorvida é menor; e esse producto não é expellido sem alteração, sinão quando ingerido em dóses immoderadas. Esta opinião é uma variante da doutrina já antes sustentada por Liebig, que pretende que uma parte do álcool absorvido é pela sua volatilidade e diffusibilidade expellida sem decompo- sição, porém a maior parte, sobretudo por occasião das dóses avantajadas, ou muito repetidas, não póde escapar a ella e se oxyda na torrente circulatória; entretanto, por mais racional e plausivel que pareça esta theoria, ella não passa de uma con- jectura, de uma hypothese. O que é indiscutivel e todos os observadores concordam em reconhecer, é que uma parte do álcool, pelo menos, elimina-se em natureza, muito pouco tempo depois de sua ingestão, atravez dos pulmões, dos rins e da pelle. Segundo Subbotinet Yoit, cinco horas depois da ingestão do álcool, 2 por 100 da quantidade ingerida teem sido eliminados pelas urinas, 5 por 100 pela exhalação pulmonar e cutanea, sendo quasi nulla a porcentagem que pertence a esta ultima VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 327 superfície. Binzet e Heubach acham estes numeros exaggerados, sobretudo os que se referem á eliminação pelos pulmões; a quantidade expirada nas primeiras cinco horas não é mesmo apreciável e não é exacto que se possa sentir álcool ou seus pro- ductos de oxydação no ar expirado pelas pessoas que acabam de beber vinho, rhum, cognac, cachaça, etc., percebe-se antes o cheiro dos ethers e das essencias empyreumaticas, difficilmente combustiveis, que estão misturadas a esses liquidos. Desta apreciação resulta que parece mais natural concluir em favor da doutrina de Rabuteau, isto é, de que o álcool pôde ainda ser considerado um veneno hematico, não porque reduza a hemoglobina, mas porque exerce sobre ella uma acção cataly- tica, dynamica ou qualquer outra ainda não bem deter- minada. Suffragam esta presumpção as experiencias directas de Harley, que demonstram que o álcool se oppõe á oxydação do sangue, e as de Schmiedeberg, que provam que elle demora a absorpção do oxygeno fóra do organismo. A acção do álcool, porém, não se limita aos globulos san- guineos. Para se dar conta exacta dos phenomenos múltiplos que elle occasiona, é preciso forçosamente admittir uma in- fluencia toxica directa sobre o systema nervoso. Sem pretender especificar esta influencia, Gubler com muita razão lembra que ella pôde não ser estranha ou indifferente á affinidade chimica desse veneno para os princípios immediatos que entram na com- posição do apparelho sensitivo-motor. O álcool impregna sem duvida a lecithina. e os corpos graxos contidos nas cellulas e nos tubos nervosos, assim corno a alizarina, a matéria hema- pheica e o pigmento biliar imbebem o periosteo e os tecidos fibrosos. A ausência de albumina no liquido cephalo-rachidiano favorece esta penetração atravez do ependymo, nas partes do encephalo que formam as paredes dos ventrículos lateraes e do ventriculo medullar. Tem pois todo cabimento pensar, como Gubler, que o álcool chegado ao seio da substancia nervosa torna-se para ella um 328 ÁLCOOL agente de excitação ou de estupefacção, conforme a dóse ou con- forme a phase do envenenamento, porquanto o collapso succede sempre ao excesso de actividade. Isto justifica perfeitamente a minha classificação de veneno neuro-hematico para o álcool. Tratamento O primeiro gráo de embriaguez dispensa qualquer trata- mento ; em geral dissipa-se com o repouso e o somno natural. Entretanto aconselha-se o uso do café, particularmente sem assucar, e com effeito, não sómente a cafeina, como acredita Ra- buteau, mas os principios aromáticos e o oleo volátil ou cafeona podem contribuir para uma excitação favoravel e salutar do systema nervoso e das funcções organicas. No segundo periodo é preciso desembaraçar immediatamente o estomago, por meio de vomitivos mecânicos ou da bomba gastrica; penso com aquelle autor que devem ser rejeitados os vomitivos mineraes. Recommenda-se muito commummenteo uso doacetado de ammonio, do carbonato de ammonio, e mesmo de algumas gottas de ammonia em um pouco d’agua: é uma applicação tradicional, que, entretanto, não preenche indicação positiva, e apenas pôde aproveitar a titulo de excitante diffusivono periodo de collapso. Segundo Mialhe, o alcali volátil tem a propriedade de dissolver os pretendidos coágulos de albumina, que obstruem os capil- lares. Esta theoria parece insustentável e não justifica o em- prego da ammonia. Será, como presume Gubler, que, em virtude da maior affi- nidade da ammonia para a agua, ella desloque os vapores de álcool e facilite a sua eliminação ? E’ o que não se sabe nem se pôde admittir facilmente, attendendo a que semelhante expli- cação não pôde applicar-se sinão ao uso da ammonia em inha- lação.pois sómente no estado gazoso.em que ó nimiamente solúvel, ella poderia preencher aquelle fim ; dissolvida porém na agua, VENENOS NEURO-IIEMÁTICOS 329 quando já tem satisfeita sua affinidade para este liquido, não se comprehende como possa mais desempenhai-o. Em todo o caso, é um recurso, que deve ser manejado com cautela, porque, segundo Rabuteau, já tem occasionado accidentes graves. Roesch considera gratuitamente o acido acético como an- tídoto do álcool; entretanto, clysteres de vinagre, assim como os de agua salgada, produzem uma excitação favoravel. Creio que não teem outro effeito gottas de sueco de limão applicadas ao ouvido e tão preconisadas entre o povo. Não ha, pois, antídoto propriamente dito do álcool, e em casos mais graves, que não cedam a estes meios indirectos e brandos, deve-se recorrer ás aflusões frias sobre a cabeça, ás fricções seccas sobre o corpo, e outros revulsivos mais fortes. As inhalações de oxygeno devem ser uteis, e mesmo uma pequena sangria geral ou local, conforme as condições indivi- duaes, preferindo-se, neste ultimo caso, sanguesugas á região mastoidiana. Em um caso extremo de imminencia de asphyxia Simpson diz ter praticado com proveito a tracheotomia. Como substancias antagonistas Gubler indica os saes de quinina, a digitalis e a belladona, cujo emprego póde ser van- tajoso. Fôrma chronica doalcoolismo. — E’ esta parte do estudo clinico do envenenamento pelo álcool que escapa propriamente á indole deste livro ; mas entendo que não devo omittir total- mente uma noticia sobre este assumpto, pelo interesse que o liga ao estudo das diversas qualidades de álcool e bebidas fermentadas. O álcool, usado de um modo continuo e immoderado, deter- mina uma irritação mais ou menos viva dos orgãos que experi- mentam seu contacto muito repetido, e outras lesões nomeada- mente a sclerose e mais tarde, sobretudo favorecido por dispo- sições individuaes particulares, a steatose. Esta acção com- plexa se exerce principalmente sobre o apparelho digestivo e circulatório e sobre o systema nervoso. 330 ÁLCOOL As perturbações digestivas são as rnais communs e as que abrem a scena nos phenoraenos do alcoolismo. A importância ligada de preferencia ás desordens cerebraes explica-se em razão de sua gravidade; mas indubitavelmente os casos de loucura alcoolica são muito menos frequentes do que as dyspepsias e inflammações gastro-intestinaes da mesma ori- gem. Nos alcoolistas, mesmo aquelles que não bebem sinão vinho, diz Albert Larbaletrier, 1 mas em grande quantidade, desen- volve-se mais ou menos rapidamente uma gastrite chronica, com o seu cortejo de symptomas ordinários (fastio, dores de estomago, regurgitações acidas, etc.); é a gastrite crapulosa dos antigos, diz Bergeret, a qual offerece, entre outros, um symptoma muito particular : o vomito quotidiano e matinal (vomitus pota- torum), constituído por um liquido claro, cusparento e como que albuminoso (glaireux), que era apituita dos antigos. Em alguns casos raros apparecem vomitos sanguinolentos com a expressão de uma verdadeira gastrite ulcerosa, a que sobrevêm muitas vezes diarrhéas rebeldes e fataes. O fígado é quasi tantas vezes atacado como o estomago ; nos indivíduos ao mesmo tempo gastronomos e de vida sedentária, desenvolve-se a degeneração gordurosa daquelle orgão. Porém» o mais das vezes processa-se a hepatite intersticial, a cirrhose especial designada pelos autores inglezes gin drinkers liver. Os signaes desta lesão são a principio mal caracterisados ; deve-se suspeital-a quando os alcoolistas apresentam augmento de volume do orgão, dor surda na região occupada pelo mesmo. Mais tarde, por embaraços da veia-porta, sobrevem derramamento ascitico e hydropesia em geral, que pela sua extensão pôde ser a causa próxima da morte ; tal é a origem do provérbio francez « quem viveu no vinho, morre n’agua ». 1 L’alcool au polnt de vue chimique, agricole, industriei, hygienique et fiscal — 1888. VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 331 São sobretudo, diz Monin, os bebedores de álcool concen- trado (aguardente, vinho puro1, cervejas fortes) que natural- mente succumbem â cirrhose. Os bebedores de álcool fraco (cidra, cerveja de Munich, etc.) morrem antes do mal de Bright e outras lesões dos rins. Como estes, todas as vis- ceras abdominaes e o peritoneo podem soffrer degenerações gordurosas, ultimo gráo da degradação dos tecidos vivos, ver- dadeira cadaverisação dos elementos cellulares, analoga â que é produzida pelo arsénico, pelo phosphoro, etc. Segundo Crocq, ainda mais intensas, variadas e terríveis são as lesões devidas ao alcoolismo, do que as occasionadas por estes dous últimos venenos (Monin). Entre as que mais frequentemente se observa nos indivíduos alcoólatras figuram as que teem sua séde no apparelho cardio- vascular, que representam uma das causas de morte a que elles pagam pesado tributo ; neste caso estão as myocardites, a hypertrophia, o aneurisma activo, a pericardite, a endocardite ulcerosa, a steatose, a atheromasia, etc. Os orgãos respiratórios tomam também parte neste funesto cortejo, e são a séde frequente de bronchitese pneumonias. O álcool exerce uma influencia notável sobre a producção datisica, e principalmente sobre sua fórma galopante. Assim como o assucar na diabetes, o álcool parece favoravel ao desenvolvi- mento do bacillo da tuberculose. A influencia do álcool sobre os centros nervosos, e particular- mente sobre o cerebro, é das mais accentuadas e geralmente reconhecidas. Todas as lesões cerebraes podem ser causadas pelo álcool, diz Monin. Em alguns indivíduos manifestam-se logo em começo pertur- bações da motilidade, caracterisadas por um tremor particular das mãos, sobretudo ao tomarem com ellas qualquer objecto ; outras vezes apresenta-se este symptoma em uma phase mais 1 Elle quer dizer aqui vinho sem agua. 332 ÁLCOOL adeantada do envenenamento, quando as faculdades moraes e intellectuaes começam a ser compromettidas ; ha então dimi- nuição e enfraquecimento notável da memória, da intelligencia e da sensibilidade. Depois experimentam tremores geraes, for- migamentos, caimbras, perturbações visuaes, insomnias re- beldes, etc. Mais tarde, quando a degeneração gordurosa e outras alte- rações estructuraes dos orgãos, sob a denominação moderna de diathese fibrosa ou arterio-capillarite fibrosa, tem progredido e tem multiplicado seus estragos, arrastando fatalmente as suas victimas a uma morte mais ou menos próxima, desen- rola-se a serie mais grave dos phenomenos que constituem a encephalopathia alcoolica, e que, começando no delirium tre- mens, acabam na demencia confirmada e na paraljsia geral (verdadeira ou falsa) dos alienados, ligada ao processo escle- rosico intersticial, que invade o cerebro. O delirium tremem, como seu nome indica, é caracterisado pelo delirio e pelo tremor. Não é uma simples titubeação, é o mais das vezes uma agitação convulsiva, choreiforme, que,unida á physionomia estúpida e apatetada, imprime um cunho parti- cular a esses desgraçados ; elles são preza de allucinações des- agradáveis, terrificas, representando animaes asquerosos de grandes dimensões, phantasmas que os perseguem. Nesta marcha fatal os alcoolistas não raras vezes são arras- tados até ao suicidio ouaohomicidio, e chegam ao ultimo termo de degradação mental, que os leva a dar entrada num cárcere ou em um asylo de alienados, onde vão acabar seus dias.1 1 Entre nós acredito que exerce uma influencia perniciosa como incentivo e causa indirecta, mas poderosa, do alcoolismo a disposição do nosso codigo criminal (art. 18 § 9o) que considera attenuante a circumstancia da embria- guez. E’ verdade que para isso devem concorrer os requidtos estabelecidos nesse mesmo paragrapho, isto é: Io, não ter antes delia o delinquente formado projecto do crime: 2o, não ter sido procurada por elle como meio de o animar á perpetração do crime ; 3o, que o delinquente não seja costumado em tal es- tado a commetter crimes. Comprehende-se bem a difflculdade pratica de se apurar a intervenção e concurso destes requisitos, e a frequência e o successo com que a circumstancia VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 333 Mas não é tudo; o que é mais triste é que o alcoolista por via de regra lega á sua prole a mais deplorável das heranças: ella resente-se da influencia perniciosa daquelle veneno, e os seus filhos trazem em geral os elementos de uma predisposição accentuada para o mesmo vicio, ou independente delle, para as differentes nevropathias e até para a própria loucura, condem- nados assim á mesma sorte de seus paes, quando não são rouba- dos prematuramente ávida. Ninguém melhor do que Monin synthetisou em mais breves palavras a acção deleteria do álcool, esse veneno ethnico, o mais espalhado, na expressão feliz de Lancereaux. « Elle altera a natureza do sangue, lesa as vísceras, endu- rece e degenera os orgãos, causa a obtusão funccional, supprime a resistência ás fadigas e ás privações, aggrava as feridas, pre- para à mortalidade das epidemias, envelhece prematuramente os individuos, embrutece a raça, e consome o prestigio das nações. Para alterar assim os orgãos e perturbar todas as func- ções é preciso que o álcool possua uma predilecção particular para os tecidos mais frágeis, e os menos resistentes: os dos centros nervosos. E’ por isso que o vemos povoar sem tregoas os asylos e as prisões. O álcoolé o poderoso factor do suicídio, da loucura eda criminalidade.» Não deixarei esta parte da historia do alcoolismo chronico sem referir-me de passagem a um genero de alcoolismo lento, profissional, de que o professor A. Luton fez objecto de um in- teressante artigo inserto nos Annaes de medicina legal e da embriaguez é explorada pelos delinquentes para obterem a attenuação que a lei lhes faculta, além da maior coragem (falsa coragem) que nesse estado elles desenvolvem. Entendo que devia ser extensiva ao fòro commum a sabia disposição das nossas leis militares, que consideram a embriaguez uma circumstancia aggra- vante dos crimes. Nesse sentido folgo de ler1 num dos últimos numeros dos Annaes de medi- cina legal e hygiene publica deste anno a seguinte proposta apresentada pelo Dr. Doviller, de Paris, entre as medidas tendentes a attenuar o estrago do alcoolismo em França: « Em nenhum caso em matéria criminal admittir como cii’cumstancia attenuante a embriaguez. » 334 ÁLCOOL hygiene 'publica, de 1880. E’ o que se observa nos provadores, guardas de adegas, negociantes de vinhos, distilladores, etc. Estes individuos vivem, por assim dizer, em um ambiente impregnado de álcool; o veneno se insinua no seu organismo lenta, porém incessantemente, e determina, ainda nos menos desabusados, uma fôrma mais discreta do alcoolismo que, come- çando por simples desarranjos das funcções digestivas, acabam por produzir uma degeneração atheromatosa cardio-vascular e abreviar-lhes muito a sua vida. E’ verdade que, em relação aos provadores de vinho, póde-se mesmo acceitar as judiciosas ponderações de Marandon de Mon- tyel, que, em um artigo não menos interessante, publicado muito mais recentemente nos mesmos annaes (1888), protesta contra essa explicação applicada áquelles profíssionaes, visto como para bem desempenharem o papel que lhes incumbe não precisam nem devem ingerir os vinhos; devem limitar-se a apreciar-lhes o cheiro e o paladar, este ultimo, só pelo contacto e alguma demora na boca, sobretudo nos pontos onde a faculdade gustativa é mais intensa, depois rejeítal-os. «Ils degustent, et ne goútent pas les vins», diz o illustre alienista de Marseille. Pelo menos assim fazem os bons provadores, que julgam nociva a pratica contraria. Não se deve responsabilisar a profissão exer- cida por esta maneira pelos factos relativos aos provadores que se alcoolisam por gosto ou por vicio, mas em todo caso sem necessidade. Si do que respeita aos effeitos do álcool e das bebidas alcoólicas em geral, passarmos a contemplar os que são determinados pelas bebidas espirituosas que teem por base o absinthio ou em cuja composição entra uma forte proporção desta planta (o licor de absinthio, a agua vulneraria ou de arcabuz, etc.), então veremos que esses effeitos são ainda mais desastrosos, si é possivel, ou pelo menos sua marcha ainda mais precipitada e fatal para a ruina physica, moral e intel- lectual dos individuos que delles usam, bem como para os VENENOS NE URO-HEMÁTICOS 335 desgraçados que delles descendem. Felizmente, entre nós, não é ainda muito vulgarizado o gosto pelo absinthio, e Deus permitta que nunca tenhamos de assignalar o desenvolvimento de semelhante vicio, geralmente reputado ainda mais pernicioso do que o das outras bebidas espirituosas. Em França, diz Monin, é nos exercitos (que elle chama com quasi todos os sociologistas a grande escola da alcoolisação) que se contrahem os hábitos do absinthismo, e onde elles fazem mais victimas do que as balas e a cholera reunidas. Dóses relativamente minimas, porém repetidas, de absinthio, tomadas mesmo como um apperitivo bastam para occasionar uma irritação mais ou menos intensa do estomago e perturbações cerebraes, com accidentes convulsivos e epileptiformes, que são a nota caracteristica desta intoxicação. Assim, o appetite embota-se e desapparece, a digestão torna-se difficil e dolorosa, acompanhada de flatulência e vomitos. A garganta séca, os desejos venereos diminuem, e acabam por extinguir-se cedo, na mais completa impotência. E’, porém, sobre os centros nervosos que mais accentuadamente se faz sentir a influencia deleteria do absinthio, pelo que é justamente denominado em França « une grande vitesse pour Charenton » 1. Sob sua acção os individuos tornam-se tristes ou irritáveis e arrebatados, sensiveis á dor e ás menores emoções; sua memória falha e perde-se, sua lingua torna-se hesitante e desordenada, seus sonhos são delirantes, incoherentes e ter- rificos, succedendo-se ou acompanhando-se de allucinações dos sentidos. O absinthismo confirmado distingue-se pelas vertigens, pelo delirio e pelo ataque epiléptico. Lancereaux insiste também sobre as dores articulares e nevrálgicas, e o formigamento dos membros, exasperando-se de noite, assim como a sensibilidade e a dor, sobretudo nas extremidades 1 Asylo de alienados. 336 ÁLCOOL inferiores; a cócega plantar, por exemplo, é um verdadeiro supplicio para os absinthistas. Ao passo que a sensibilidade cutanea ao tacto e ao calor é embotada, a pressão sobre as fossas iliacas é sensivel como nas hystericas. Nota-se tremor constante da face, como de quem faz caretas; manifestam-se caimbras, sobresaltos nocturnos e pbenomenos convulsivos epileptiformes, vertigens, atordoamento de cabeça, impotência muscular, que pôde ir até á paralysia. O Dr. Casanova, em um recente opusculo, que escreveu sobre as intoxicações chronicas pelo álcool e pelo absinthio, estabelece uma serie de conclusões muito judiciosas, que por extensas não transcrevo aqui; limitar-me-hei a consignar que, na sua opinião, o signal mais extremado e distinctivo do absinthismo chronico é a hypersthesia excessiva que se assesta em tres fócos principaes, a saber : a região plantar, as paredes lateraes do abdómen e a columna vertebral. Ella pode coexistir com zonas de anesthesia, e, assim como esta, apresenta-se symetrica, revelando-se, quer pela pressão, quer pela cócega ou por qualquer contacto. Observam-se muitas vezes pontos nevrálgicos. No alcoolismo chronico, diz elle, o facto dominante é a anesthesia, que occupa de preferencia as extremidades, sobretudo inferiores. Atravez desta serie de manifestações mórbidas, pela maior parte communs ao alcoolismo, o absinthista caminha ver- tiginosamente para a loucura, ou, conforme melhor se exprime Morache, passa de um salto aos últimos accidentes desta enfer- midade, com as suas tendências mais perigosas para o suicídio e o crime. No intuito de dar uma idéa do poder toxico da essencia de absinthio, Monin cita a experiencia de Bouchardat, é verdade que praticada sobre peixes. Tendo alguns desses animaes em dous vasos contendo cada um 1 litro d’agua, deitou elle 6 gottas de acido prussico em um dos vasos, e no outro 6 gottas da referida essencia; os peixes existentes VENENOS NEURO-HEMATICOS 337 neste segundo vaso morreram mais depressa do que os do outro. Entretanto, Monin acredita que são as sophisticações, que tornam o licor de absinthio ainda mais nocivo; é o emprego de essencias diversas, entre as quaes figura a do absinthio, de mistura com álcoois de má qualidade, corados pela gomma-gutta ou pelo sulphato de cobre. Seja como for, si tal é geralmçnte o producto que com aquelle nome é vendido e usado, fica de pé tudo quanto aqui temos dito sobre elle, apenas em pallido resumo. Não abandonarei este assumpto sem algumas considerações tendentes a mostrar mais uma vez e a tornar bem claro o meu pensamento sobre o valor hygienico do álcool e das bebidas espi- rituosas em geral, e sua influencia na genese dos phenomenos de alcoolismo chronico. Em primeiro logar, é facto que não soífre contestação que todo o álcool é um veneno ; que o mesmo álcool vinico não es- capa a esta qualificação, não goza de privilegio algum, e é apenas menos toxico do que os outros ; portanto basta esta cir- cumstancia para justificar a proposição emittida atrás, de que os líquidos alcoolicos e fermentados não teem que fazer nas nossas mesas, como bebida usual; que a quota relativamente insignificante de princípios uteis não é de modo algum compen- sada pelos males que devem resultar do uso quotidiano de um producto dotado em qualquer gráo de propriedades to- xicas, ainda mesmo respeitando-se de cada vez ou em cada dia o limite de tolerância para essas bebidas, e que se deve acreditar que é mais apparente do que real; pois está provado á saciedade pela observação clinica que não é preciso usar dessas bebidas ao ponto de experimentar immediatamente os seus effeitos inebriantes, não é preciso emfím ser bêbado, para soffrer as corísequencias funestas do alcoolismo ; dóses toleradas, que se approximam daquelle limite, conduzem, embora mais lenta- mente, ao mesmo resultado os bebedores que Luton chama TOXICOLOGIA 22 338 ÁLCOOL inconscientes, mas que o não são sempre. Em geral, são indi- víduos de boa sociedade, vivendo bem, e que ingerem insensi- velmente quantidades consideráveis de álcool sob todas as fôrmas : vinhos generosos, licores finos, etc. Si é verdade que nelles a circumstancia de uma alimentação abundante e repa- radora compensa um pouco a acção muito directa do álcool, por outro lado a facilidade em satisfazer sua paixão pela bebida, as libações continuadas e repetidas acabam por exceder os limites de resistência, e por crear uma especie de alcoolismo, la- tente a principio, porém depois bem caracteristico. Yê-se então, diz Luton, indisposições vagas, debilidades funccionaes, depres- são de todo o organismo, emfim a miséria physiologica no meio da fartura ; tudo isso produzido pelo excesso da receita. Sob este aspecto o alcoolismo nos ameaça de modo tanto mais per- nicioso, quanto é ignorado, ou então negado com indignação. Si essas bebidas gozam de virtudes tónicas e estimulantes, então são remedios, e é preciso concordar de que não necessi- tamos delles no estado normal, physiologico. Ninguém deve tomar diariamente e inutilmente um remedio ; como tal, tem suas indicações especiaes, que muitas vezes não podem mais preencher pelo uso habitual que delle fazem. Além disso, cumpre não esquecer que, ao lado daquellas virtudes que recommendam taes bebidas aos seus apreciadores, ellas podem, mesmo em quantidades supportadas, perturbar ou pelo menos demorar o trabalho da digestão pela propriedade antifermen- tescivel de que goza o álcool. Quanto ás crianças, mais rigorosa deve ser a abstenção de todo e qualquer liquido espirituoso, pelos perigos maiores e mais precoces a que as expõem taes bebidas. Sinto ainda mais fortalecida a minha convicção a este respeito com a opinião insuspeita de Monin, que não é adverso ao uso moderado dos alcoolicos, e que diz o seguinte: « Nenhuma destas odiosas bebidas deve entrar no regimen alimentar das crianças.. * VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 339 « 0 vinho puro 1 e o álcool são para a infancia agentes energicos, verdadeiramente medicamentosos, e que a hygiene deve banir absolutamente do regimen normal nas pessoas novas de boa saude. » Em segundo logar, dos dous grupos em que as bebidas alcoólicas se dividem, é fóra de toda a duvida que os productos distillados são mais nocivos e perniciosos, e nesse numero se acham todas as bebidas chamadas brancas e em geral os vinhos artificiaes, que, apezar de coloridos, participam muitas vezes do gráo alcoolico daquellas, e mesmo da qualidade do álcool, sobretudo os vinhos artificiaes estrangeiros, fabricados ordina- riamente com álcoois de qualidade inferior e mais toxicos, como são todos os que se obteem por distillação dos cereaes, da betterraba, da batata, e até do proprio bagaço da uva. São esses álcoois e sobretudo o amylico (oleo de batata), que impurificam commummente as bebidas espirituosas e fermen- tadas, em maior ou menor proporção, e exaggeram o seu poder toxico. Elle reside, pois, antes na quantidadee qualidade do ál- cool, que constitue a sua parte liquida, do que nos artifícios empregados, para emprestar a essas bebidas certas proprie- dades, ou melhor, certos requisitos que realçam o seu valor commercial e a sua procura. Não ignoro nem contesto que indus- triaes menos escrupulosos empregam ainda alguns princípios corantes e aromáticos altamente prejudiciaes na fabricação de taes productos, mas em geral o maior veneno que ellas encerram é o proprio álcool, e é para completar esta demonstração com palavras mais autorizadas, que faço as seguintes citações: Fallando do álcool, Gubler nos seus commentarios therapeu- ticos (pag. 502) exprime-se do modo seguinte: « A proposito, eu poderia, terminando, dizer algumas palavras sobre os usos 1 Comprehende-se bem que Monin refere-se com esta expressão ao vinho só, sem agia; pois, quando muito diluido n’agua, formando o que os francezes chamam cau rougic, elle acha que se póde consentir usar. Não quer, pois, dizer dè modo algum que prefira o vinho impuro. 340 ÁLCOOL dietéticos do álcool; ora, como a meu ver elles são nullos, me absterei disso. « Sem ir até proferir, com um medico inglez, que é um bê- bado o homem que não pôde dispensar seu calix de licor, julgo util declarar que o uso habitual deste estimulante diffusivo não offerece vantagem alguma, fóra de suas qualidades gustativas e que pôde tornar-se perigoso por sua acção tópica sobre o esto- mago e seus effeitos diffusos. « Deixemos, pois, ás prescripções medicas este maravilhoso medicamento, melhor collocado nas pharmacias do que nas mesas.» E’ verdade que este autor refere-se ao álcool e não ás bebi- das alcoólicas, que elle considera o mais das vezes sem incon- venientes e até salutares. Deixarei, porém, que a esta restri- cção contradictoriarespondam outros mais competentes. Já na convenção sanitaria do Big-Rapid (Michigan) uma das communicações mais interessantes ahi feitas foi cer- tamente a do Dr. David sobre o álcool e seus effeitos como alimento, como remedio e como veneno. O sabio pratico se pro- nuncia formalmente contra o uso do álcool, por mais moderado que seja, pela boa razão de que nunca se sabe onde se deve parar no plano inclinado do alcoolismo. Depois de ter combatido os erros populares relativos ao poder dos alcoolicos, como comple- mento da alimentação, como substituto dos viveres e como for- tificante, o orador distingue em muito justos limites os effeitos beneficos que se podem colher do álcool em medicina, e que para elle são relativamente minimos. Os inconvenientes excedem de muito as vantagens, e, feitas as contas, o álcool deve ser considerado antes de tudo como um veneno. German See, no seu bello tratado sobre o Regimen ali- mentar, diz o seguinte, á pag. 149 : « Resumindo esta longa e imparcial historia dos effeitos do álcool sobre o organismo, chegamos a destruir graves prejuízos e a formular os dados certos deste problema, que interessa todos VENENOS NEURO-HEMATICOS 341 os povos civilisados e deve forçar a attenção de todos os gover- nos. O álcool não é, como se acreditava, um verdadeiro ali- mento ; elle não constitue nem um modo de aquecimento, nem um excitante durável da circulação, nem um productor certo das forças ; seu papel consiste em moderar a desnutrição, e em- baraçar ou impedir temporariamente o gasto incessante e phy- siologico de nossos tecidos corporaes ; por isso mesmo elle auxilia indirectamente a manutenção integral do equilibrio entre as receitas alimentares e as despezas organicas. « Pela dóse forte repetida, abusiva, todas as vantagens são perdidas, todos os perigos do alcoolismo apparecem . « O estudo dos eífeitos do álcool se acha em todo o sentido applicavelá acção do vinho, que forma o typo dos líquidos fer- mentados, e deve grande parte das suas propriedades á sua riqueza alcoolica. < O vinho obra como um álcool; elle contém algumas ma- térias saccharinas e albuminoides, sobretudo saes que são utili- sados na economia, e o tannino dos vinhos tintos, que offerece vantagens reaes no estado são, e graves inconvenientes nos dyspepticos ; mas, na realidade, é o álcool que domina, e o abuso do vinho pôde conduzir ao alcoolismo. (Lancereaux cita a cirrhose do figado.) « Pretende-se que nos paizes vinícolas o uso do vinho é menos pernicioso do que naquelles em que esse producto é raro e importado. A immunidade dependeria do habito contrahido desde a infancia e da pureza do vinho ; ora, é precisamente quando o vinho é puro que elle contém mais álcool e ether. Quanto a esse costume, datando da mais tenra idade, constitue para a criança uma pratica detestável, e para o adulto uma impregnação alcoolica lenta, insidiosa e pérfida dos tecidos do organismo, principalmente do coração, dos vasos do fígado ; elle não se embriaga, mas se alcoolisa. Tudo que ha a dizer em favor do vinho ó quedastres bebidas fermentadas: vinho, licor e cerveja, é elle o menos perigoso.» ÁLCOOL 0 professor Bali nas suas excellentes Lições sobre as mo- léstias mentaes pronuncia-se do modo seguinte: « Todas as bebidas fermentadas, mesmo o vinho natural, en- cerram álcoois nocivos é incontestável que grande numero de bêbados que nunca usaram sinão vinho natural, teem apre- sentado todas as desordens do alcoolismo. « Demais, não é sómente aos álcoois que se deve attribuir a influencia nociva das bebidas fermentadas. A differença bem co- nhecida entre o vinho tinto e o vinho branco depende sobre- tudo da presença de certos princípios aromáticos que dão ao vinho branco propriedades excitantes e o tornam muito nocivo para o systema nervoso. « E’ inquestionável que o vinho, mesmo natural, pôde no fim de tempo alcoolisar os tecidos, quando se usa delle em ex- cesso. No cantão de Vaud, na Suissa, onde se consome quasi exclusivamente vinho dopaiz, a cirrhoseé frequente eo delirio alcoolico muito commum.» Bergeret, no seu interessante livrinho sobre o alcoolismo, começa logo á primeira pagina formulando e propondo a si mesmo esta pergunta: si as bebidas alcoólicas são necessárias ao homem ? a que responde peremptoriamente não ! Innu- meros factos, diz elle, demonstram que o homem bem consti- tuido, gozando de boa saude, não só não tem necessidade de beber liquidos fermentados, como se acha melhor de não fazer uso delles. Esses factos constam da historia de todos os tempos e de todos os povos, e constituem uma prova edificante da sã doutrina defendida por Bergeret e que eu adopto de braços abertos. Vê-se, por exemplo, nas ilhas do mar do Sul, indígenas em estado de sociedade relativamente adeantado, que nunca conheceram bebidas espirituosas, e que, entretanto, desenvolvem uma força e agilidade surprehendedora. Os Romanos não concediam a seus soldados outra bebida além da agua e vinagre. VENENOS NEURO-HEMAlTICOS 343 0 vinho é prohibido entre os musulmanos. Perguntai aos francezes que teem feito as campanhas da África, si a absti- nência das bebidas espirituosas diminue a energia moral do arabe, a agilidade do beduino e a robustez do kabyla. Todos os habitantes da África septentrional, diz Jolly citado por Bergeret, os do Egypto, das costas do Oceano e da Ethiopia, da Asia Menor, do Indostão, da Pérsia, da Tartaria, da Servia, da Macedonia, da Bulgaria, que vivem sob a lei do Alcorão, pelo vigor de sua constituição parecem desafiar todos os bebedores de absinthio e aguardente, e justificar sua reputação proverbial: Elles são fortes como turcos. O grande Frederico tinha prohibido que se distribuisse aguardente aos bellos typos de soldados que elle havia reunido para o seu serviço, em Potsdam. A França não manda for- necer ao seu exercito bebida alguma espirituosa, sinão em circumstancias muito especiaes. A historia aponta um grande numero de homens eminentes, que nunca usaram de bebidas alcoólicas e chegaram a uma idade muito avançada ; taes são Demosthenes, Locke, Newton, Haller e muitos outros. Nunca um homem de genio, um escriptor notável, um grande jurisconsulto ou estadista pôde ser dado á intempe- rança . Encontram-se ainda actualmente muitos exemplos de lon- gevidade e saude prospera em individuos que nunca beberam vinho ou qualquer outra bebida espirituosa. Bergeret diz ter tido muitas vezes occasião de observar esses obreiros piemon- tezes, cujos braços vigorosos eram occupados em abrir estradas atra vez da rocha a mais dura, e que em geral não bebiam vinho sinão aos domingos; mas, por isso mesmo, a segunda- feira era o dia da semana em que o medico era mais vezes chamado para lhes prestar cuidados. São essas as idéas que tenho sempre sustentado em relação ao valor hygienico do álcool, e que externei ha cinco annos 344 ÁLCOOL perante a Academia de Medicina, por occasião da celebre dis- cussão que nella se travou sobre vinhos naturaes e artifíciaes. Seja-me permittido reproduzir aqui o trecho final do meu ultimo discurso sobre esta questão, relativo ás conclusões a que chegou o professor inglez Carpenter, em um notável opús- culo, com o qual conquistou o prémio de 100 guinéos, que um philantropo anonymo, em tempo, offereceu a quem escrevesse o melhor trabalho sobre os effeitos das bebidas alcoólicas. Estas conclusões são as seguintes : 1. a Uma grande parte das misérias humanas, inclusive a pobreza, a moléstia e o crime, teem por causa o uso das bebidas alcoólicas ou fermentadas. 2. a A saude a mais perfeita é compativel com a abstenção total dessas bebidas envenenadas, sejam a aguardente, os vinhos, a cerveja, etc. 3. a As pessoas acostumadas a estas bebidas podem, sem in- conveniente, cessar o seu uso, gradual ou mesmo brusca- mente . 4. a A abstinência absoluta e universal de todas as bebidas alcoólicas contribuiria poderosamente para a saude e prosperi- dade, bem-estar e moralidade da especie humana. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Para esta pesquiza devem ser escolhidos de preferencia o san- gue, o cerebroe o fígado, bem como os líquidos contidos no tubo digestivo. Reduz-se as matérias solidas a pequenos fragmentos, addicionando, si for preciso, um pouco d’agua, afim de lhes dar maior fluidez, introduz-se num balão ou numa retorta, e dis- tilla-se, recolhendo-se o producto em um recipiente convenien- temente resfriado. Rectifica-se este liquido redistillando-o sobre chlorureto de cálcio fundido, ou sobre carbonato de po- tássio perfeitamente secco. VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 345 Reconhece-se o álcool pelo seu cheiro e pela propriedade de inflammar-se ao contacto de uma chamma, dando por sua vez uma chamma azulada, pouco illuminante e sem fuligem. Demais, tratado por uma mistura de acido sulphurico e bi- chromato de potássio (1 de bichromato para 800 de acido), des- prende-se cheiro de aldehyde e o liquido torna-se verde, em virtude da reducção do acido chromico ao estado de oxydo verde de chromo, que em presença de um excesso de acido sulphurico não póde deixar de formar o sulphato de chromo, também verde. Taylor modificou este ensaio do modo seguinte: elle faz passar o producto distillado em um tubo de vidro contendo fibras de amiantho previamente calcinado, impregnadas de uma mistura de bichromato de potássio e acido sulphurico ; o acido chromico é reduzido ao estado de oxydo verde de chromo e os vapores que passam exhalam cheiro de aldehyde. Quando este cheiro não seja bem pronunciado, e visto que o hydrogeno sulphuretado produz o mesmo resultado no reactivo sulpho- chromico, Taylor aconselha tomar um pouco do producto dis- tillado, addicionar algumas gottas de potassa e lançar a mis- tura numa solução fraca de nitro-prussiato de sodio, que manifestaria a cor azul violeta, própria dos sulphuretos alcalinos neste caso. E’ esta a reacção utilisada no processo de pesquiza de Lal- lemant, Perrin e Duroy, que em seguida descreverei. Ella é muito sensivel, mas tem o inconveniente de não ser exclusiva do álcool ; o ether, a aldehyde, a acetona e em geral todos os principios orgânicos exercem a mesma acção reductora sobre o acido chromico, e portanto o ensaio não tem valor pratico de prova irrefragavel, sinão quando o álcool póde ser caracterisado pelo seu cheiro e algumas das outras propriedades ou reacções. Elias são as seguintes: Lieben propõe tirar partido da reacção do álcool sobre o iodo na presença de um alcali, donde resulta a producção de 346 ÁLCOOL iodoformio. Para isso aquece-se um pouco do liquido em um tubo de ensaio, ajuntando algumas gottas de potassa e uma pequena quantidade de iodo, fonna-se immediatamente, ou no fim de algum tempo, um precipitado amarello, crystallino, que em parte se dissolve no liquido, dando-lhe a côr amarella e o cheiro proprio caracteristico do iodoformio. Este ensaio muito delicado, mas exige certo habito e pericia, porque depende do emprego das proporções necessárias dos dous re- activos. Muitas vezes falha, devido á quantidade insuficiente ou a um pequeno excesso de qualquer delles ; nas condições mais favoráveis, mesmo a frio, obtem-se resultado agitando-se fortemente o tubo. Hager modificou este ensaio do modo seguinte: elle emprega uma solução de iodureto de potássio (iodureto de potássio em 5 ou 6 vezes seu peso d’agua) superiodado, e uma solução de potassa no 10°. O liquido a analysar é aquecido a 40 ou a 50° addicionado de 5 a 6 gottas da solução alcalina, depois da solução iodada, até tomar a côr amarella avermelhada escura ; ajunta-se de novo uma pequena quantidade de potassa até descoramento ; o iodoformio se deposita no fundo do tubo. Dizem Dragendorff e Chapuis que esta reacção não ô exclu- siva do álcool, e que outros muitos corpos, que aliás não citam, comportam-se do mesmo modo que elle, convindo notar que não está neste caso o ether puro, completamente privado de álcool; o do commercio. é verdade, dá em geral essa reacção, mas porque encerra traços daquelle corpo. A acetona, porém, está naquelle numero, e é devido naturalmente á sua presença na urina 1 de certas pessoas, sobretudo em certas moléstias, que os productos de distillação deste liquido formam na solução alcalina de iodo um precipitado amarello de iodoformio, com a differença de ser amorpho. E’ o proprio Lieben que chama a attenção sobre este facto importante na pesquiza do álcool. 1 Segundo os estudos de Bechamp, como adeante mostrarei, não é preciso invocar a presença da acetona na urina para explicar esta reacção do álcool; elle entende que é o proprio álcool que ahi existe. VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 347 Múntz affirma, que é a reacção mais sensível e pretende ter reconhecido ao microscopio crystaes de iodoformio formados em uma solução alcoolica a il30.000 (!) Poderia chegar, diz elle, aperfeiçoando o ensaio, a encontrar n’agua i/1.t00.000 de ál- cool (!!) Elle emprega o iodo e o carbonato de sodio, aquece um pouco e abandona por 24 horas, decanta com precaução o liquido e examina o deposito ao microscopio ; cousa notável, os crys- taes serão tanto mais regulares, quanto a quantidade de álcool é mais fraca. Outro ensaio consiste em promover no producto distilladoa formação do ether butyrico, reconhecível pelo seu cheiro agradavel de essencia de morangos segundo uns, e de ananaz segundo outros. Paraisso basta ajuntar ao liquido 2 a 3 grammas de acido sulphurico concentrado, e, depois de alguns segundos de agitação, 1 a 3 gottas de acido butyrico. Este ensaio, que não é dos mais rigorosos, porque depende de uma impressão subjectiva um pouco variavel, Chapuis attribue a Ritter, e Hêtet a Dragendorff. No mesmo caso se acha provavelmente o ensaio proposto e descripto por Berthelot: Baseia-se na reacção do álcool sobre o chlorureto de benzoila, convertendo-o em benzoata de ethyla ou ether benzoico, cujo cheiro particular caracteristico é ainda claramente perceptivel nas soluções a 1 %. E’ talvez mais seguro do que estes dous o ensaio seguinte: Aquecido com acido sulphurico e um alcali, dá logar á pro- ducção do ether acético, dotado de cheiro caracteristico. Bucheim recommenda o seguinte processo: Introduz-se a matéria suspeita, depois de finamente dividida, em uma retorta tubulada ; neutraliza-se com uma solução fraca de potassa, si ella é acida e aquece-se em B. M. ou em B. de chlorureto de cálcio. O collo da retorta sendo mantido em posição horizontal, introduz-se nelle uma pequena canoa de platina ou de porcel- lana, contendo platina reduzida (noir de platine), e presa em cada uma das extremidades uma tira de papel azul de turnesol. 348 ÁLCOOL Si no liquido existe álcool, o papel do lado da retorta perma- necerá azul, ao passo que o do lado opposto tornar-se-ha vermelho pela acção do acido acético formado pela oxydação do álcool. Si se consegue recolher algumas gottas deste liquido acido, completa-se o ensaio, neutralizando-o pela potassa, evaporando até seccura, misturando o residuo com um pou- quinho de acido arsenioso e aquecendo em um pequeno tubo de vidro ; desprende-se o cheiro alliaceo particular e repugnante do oxydo de cacodylo. Póde-se executar este ensaio por um processo mais simples : Expõe-se uma pequena quantidade do liquido distillado dentro de uma campana, em presença da esponja de platina ; no fim de pouco tempo, si existe álcool, o liquido torna-se acido, em virtude da sua oxydação, e formação de acido acético. O mesmo, porém, succederia com o ether, pelo que este ensaio não seria ainda decisivo. O mesmo succede com o ensaio lembrado por Davy : Elle emprega uma solução sulfo-molybdica, que se obtem dissol- vendo até á saturação acido molybdico em acido sulphurico concentrado, puro e fervendo. Si uma gotta de liquido distil- lado suspeito não contém sinão traços de álcool, dá com o reactivo de Davy uma côr azul ferrete. Tem, porém, como já disse, um valor relativo ; donde se conclue que nenhum destes ensaios isoladamente pôde servir para caracterisar o álcool; é preciso reunir os resultados positivos de alguns delles para se pôr em evidencia a presença deste veneno nas matérias a analysar. Dentre elles o que tem merecido maior favor e importância é o que se funda no emprego do reactivo chromico de Luton. Sobre elle estabeleceram Ludger Lallemant, Perrin e Duroy um processo mais rigoroso e sensivel do que os precedentes, e que poderia servir até para a dosagem ou ensaio volumétrico do álcool, pelas proporções determinadas dos liquidos. O apparelho compõe-se do seguinte (fig. 11) : VENENOS NEURO-HEMATICOS Fig. li 350 ÁLCOOL Um balão com a capacidade de um litro, que se colloca dentro de uma capsula com agua, servindo de banho-maria ; è fechado por uma rolha, atravessada por dous tubos de vidro: O primeiro que mergulha no liquido suspeito, contido no balão, une-se a um longo tubo de borracha proveniente de um gazo- metro cheio de ar. O segundo, duas vezes curvo em angulo recto, vae ter a um pequeno balão, contendo cal viva dividida em pequenos fragmentos. Deste balão parte um tubo que vae ter a outro igual e com o mesmo conteúdo; dahi elle é posto em communicação, pelo mesmo artificio, successivamente com dous tubos de ensaio ou pequenos provetes contendo a mistura sulpho- chromica (1 decigr. de bichromato para 30 grammas 1 de acido sulphurico), devendo cada pequeno provete conter 2 grammas do reactivo. Prepara-se ou dispõe-se primeiramente o apparelho, lança-se no grande balão as matérias suspeitas, diluídas n’agua quando são muito consistentes ; aquece-se em banho-maria, fazendo chegar no interior do balão uma corrente de ar procedente do gazometro ; então os vapores hydro-alcoolicos são arras- tados e vão-se porem contacto com a cal, atra vez da qual elles seccame deshydratam-se, e penetram nos tubos que conteem o reactivo, onde estabelecem a reacção já indicada. E’ preciso ter o cuidado de aquecer de tempos em tempos os dous balões contendo cal, para desprender os vapores alco- olicos, que poderiam se condensar ao mesmo tempo que os d’agua ; ainda mais, si a operação se prolongar muito tempo, será mesmo necessário renovar a cal, para evitar sua satu- ração deshydratante. Com este apparelho aperfeiçoado seus autores obtiveram a reducção rapida do acido chromico, operando sobre 90 gram- mas de liquido (30 de sangue e GO de agua), a que haviam addicionado apenas 2 decigrammas de álcool. 1 Rabuteau escreve 300 grammas (para 1 deeigramma), o que é certa- mente engano. Seria correcto e exacto referindo-se a 1 gramma em vez de ser a 1 deeigramma. VENENOS NEURO-HEMATÍCOS 351 Múntz desconfia desta sensibilidade exaggerada, e affirma ter assim achado álcool por toda a parte, na agua da chuva, da neve, do mar, no solo, etc.; a agua do Sena lhe forneceu 1 gramma de álcool por metro cubico. (! ?) O que ê verdade, é que os estudos de Bechamps mos- traram que se forma álcool nas matérias animaes em putrefac- ção, e mais ainda, elle diz ter achado álcool na intimidade dos tecidos, nos orgãos e em certos liquidos da economia (leite, urina, etc.) O conhecimento destes factos é importante nas pesquizas toxicologicas, porque demonstram que não basta encontrar álcool nos tecidos putrefactos ou mesmo nos tecidos sãos para assegurar que este liquido foi primitivamente ingerido e pôde ter sido a causa da intoxicação alcoolica. Envenenamento pelo oxydo de carbono (Vapor de carvão e gaz de illuminação) Os envenenamentos pelo oxydo de carbono teem sido muito frequentes, sobretudo em França, onde elles occupam logar dos mais elevados na estatistica das mortes devidas a essa causa. Na maior parte das vezes teem sido accidentaes, em outras teem sido voluntários e como meio de suicidio. Em todo o caso, porém, cumpre já notar que nenhum destes factos re- íere-se ao emprego do gaz oxydo de carbono puro, e sim do vapor do carvão ou do gaz de illuminação, mas sobretudo do primeiro, cuja acção toxica é, pòde-se dizer, exclusivamente dependente daquelle gaz, antes do que do gaz carbonico que se produz na mesma occasião durante a combustão do carvão. Pelo contrario, se é levado a reconhecer que no vapor de carvão este gaz attenua ou diminue a energia toxica do oxydo de car- bono, que é muito mais venenoso do que a mistura dos dous gazes, que constitue o referido vapor de carvão. 352 OXYDO DE CARBONO E’ por isso que, variando a proporção dos dous gazes con- forme as circumstancias em que arde o carvão, o vapor que dahi resulta não desenvolve sempre a mesma actividade to- xica ; ella varia também, e é muito maior quando se estabe- lecem as condições de uma combustão incompleta, que são aquellas em que se produz maior quantidade de oxydo de car- bono. Os envenenamentos por este gaz teem-se dado em conse- quência ora de fogareiros conservados accesos dentro de quar- tos fechados, ora de fogões de inverno, sem chaminé ou cuja chaminé tem se obstruído, ora de officinas metallurgicas para os que dormem na vizinhança dos fornos, e ao alcance dos va- pores que elles desprendem. Em certos paizes, principalmente na Hespanha, quasi não se serve, como meio de aquecimento, sinão de carvões ardendo no meio do compartimento, dentro de uma bacia de cobre ; são os chamados brazeiros. Mas não se observam accidentes mais frequentes produzidos por este péssimo e perigoso systema, porque o frio raramente exige o seu emprego, e demais as ja- nellas são mal fechadas e permittem o arejo sufficiente. Em França, durante muito tempo, usou-se de taes brazeiros e não poucos accidentes funestos registram os annaes toxicologicos, devidos a essa causa. Desde 1783, Mercier, em seu livro curioso publicado em Amsterdam com o titulo O Quadro de Paris, assignalou os pe- rigos do vapor do carvão queimado sem precauções, e os quaes derivam da decomposição e diffusibilidade do mesmo vapor. Dahi para cá os accidentes se teem multiplicado, principalmente segundo Artigalas 1 depois que se introduziram os fogões aper- feiçoados ! sobretudo o fogão americano, no qual, pela sua dis- posição particular, a tiragem é excessivamente lenta, e as contra-correntes se estabelecem com muita facilidade, derra- 1 Autor de uma excellente these apresentada á faculdade de medicina de Paris, em 1883, sobre as Aspliyxias toxicas, e da qual extrahi muitos es- clarecimentos importantes para a historia deste envenenamento. VENENOS NEURO-HEMATICOS 353 mando no compartimento onde elle arde, quantidades conside- ráveis de oxydo de carbono, segundo Boutmy 16 por 100 ! ! Este autor e outros, taes como Leroy de Mericourt, Lagneau, Henry de Boyer, etc., citam observações de envenenamentos produzidos por estes fogões, sem desconhecer que o calorifero Mousseron, que é um apparelho privado de chaminé e qualquer outra communicação com o ar exterior, é muito mais perigoso, e por isso quasi esquecido e abandonado. Os mais usados actual- mente são dotados de uma boa chaminé, que é a garantia contra a diffusão do vapor carbonoso na peça em que elles funccionam, e portanto contra seus effeitos toxicos, não só porque dessa fórma são levados para o exterior os productos da combustão, como estabelecendo-se a corrente de ar sobre o brazeiro, a combustão é viva e quasi completa, dando logar á producção minimaou nulla de oxydo de carbono.Quando, porém, a tiragem é insufficiente, ou quando os carvões que ardem são abafados por uma camada de carvão frio superposto, embara- çando o accesso do ar e portanto do oxygeno, então a com- bustão é incompleta, e desenvolve-sô muito maior quantidade de oxydo de carbono. Parece-me mais razoavel e plausivel esta theoria, do que a que explica a maior producção do oxydo de carbono nestas condições pela reducção do gaz carbonico formado nos carvões que ardem por baixo, em presença de um excesso de carvão frio ou pouco quente, que o mesmo gaz tem de atravessar. Contra esta theoria oppõe-se essa propriedade emprestada ao carvão, que delia absolutamente não goza emquanto não é superaquecido. Posto em pratica este meio de suicidio, que em certo tempo foi por assim dizer moda em Paris, consistindo em deixar arder um brazeiro sem chaminé, no quarto de dormir, hermeticamente fechado, ainda assim os effeitos teem variado conforme as con- dições em que funcciona o dito brazeiro, a tal ponto que, segundo pondera Rabuteau, alguns infelizes viram mesmo falhar o seu intento sinistro, servindo-se de carvões já completamente in- toxicologia 23 354 OXYDO DE CARBONO candescentes, e cujo vapor é quasi exclusivamente constituído pelo gaz carbonico. Não quer isto dizer que a producção deste gaz seja indiffe- rente, sem acção nociva sobre indivíduos encerrados em com- partimentos de atmosphera confinada. Basta esta circumstancia para que, independente de qualquer fóco de combustão, o ar se torne pouco a pouco viciado e improprio para supprir as necessi- dades da respiração, e portanto para manter a vida no fim de um prazo mais ou menos longo. Si, porém, ao lado desta alteração do ar pela combustão respiratória, se reune a que é occasionada pela queima do carvão, em muito menos tempo essa atmosphera se torna irrespirável e incompatível com a vida ; são dous fócos, o pulmão e o brazeiro, que alimentam-se do mesmo principio, o oxygeno, e o substituem no ar confinado pelo mesmo producto, o gaz carbonico. Além disso o aquecimento do ar interior do quarto, que chega rapidamente a uma temperatura elevada, ográodesec- cura considerável, que cada vez mais se accentua, e também se- gundo Artigalas, os resíduos ou detritos irritantes que resultam da carbonização da poeira atmospherica de encontro ás paredes do brazeiro superaquecido, não fallando jà dos princípios orgânicos do ar expirado, representam factores importantes no meca- nismo das asphyxias toxicas deste genero, e cujos effeitos com- plicam e aggravam os phenomenos correlativos. Entretanto é fóra de duvida que o principio verdadeiramente toxico do vapor de carbono é o oxydo de carbono ; vários expe- rimentadores se encarregaram de demonstrar á evidencia esta proposição. Elles sujeitaram diversos animaes (aves e mammi- feros), successivamente á influencia de atmospheras contendo proporções variaveis de oxydo de carbono, de gaz carbonico e até de proto-carbureto de hydrogeno, e reconheceram que ao oxydo de carbono deve o vapor de carvão toda a sua actividade toxica. Demais, chegaram á conclusão de que basta 1 a 2 por 100 deste gaz na atmosphera de um compartimento para tornal-a VENENOS NEURO-HEMATICOS 355 capaz de produzir accidentes graves; em proporção um pouco mais elevada, 4 a 5 por 100, ella adquire propriedades eminen- temente deleterias. Agora, quanto ao gaz de illuminação. E’ uma mistura muito complexa, constituida por quantidades variaveis de hydrogeno, proto-carbureto de hydrogeno e oxydo de carbono, ainda mais: de ethyleno, propyleno, azoto, oxygeno, gaz carbonico e vapor d’agua ; mistura que resulta, como se sabe, da distillação do alcatrão de carvão de pedra, e que é também toxica, contendo, nas condições de maior pureza que a industria a pôde fornecer, de 5 a 13 por 100 de oxydo de carbono. Numerosos exemplos existem já consignados de mortes de- vidas á inhalação do gaz de illuminação, não combusto, por fugas mais ou menos abundantes e prolongadas das respectivas fabricas e encanamentos, impregnando a atmosphera de com- partimentos fechados ou mal arejados e communicando-lhe propriedades deleterias, que experiencias e observações necros- copicas fidedignas levam a attribuir ao oxydo de carbono. Estudando a influencia que porventura possam exercer outros productos que fazem parte do gaz de illuminação, taes como os carburetos de hydrogeno, que Devergie e Orfila reputam dotados de acção toxica, veremos que experiencias recentes instifcuidas por Layet, Traube, Eulenberg, Christison, Davy, Berthelot e outros deram resultados negativos debaixo deste ponto de vista, isto é, em favor da inocuidade relativa desses carburetos, sobretudo do proto-carbureto que sempre se mostrou menos activo que o bi-carbureto (ethyleno); também pouco pôde influir pela sua minima proporção no gaz (de 4 a 5 °/0). Baseado nesses dados, Artigalas repete com Layet que a mistura illu- minante mata pelo oxydo de carbono que encerra. Si considerarmos agora os productos resultantes da com- bustão desse gaz, em salas ou peças em que a ventilação seja insufficiente, reconheceremos que elles introduzem na respectiva 356 OXYDO DE CARBONO atmosphera uma quantidade notável de gaz toxico, sobretudo quando se usa de bicos em cauda de peixe, chamados bicos de Manchester, que fornecem, é verdade, a luz a mais intensa debaixo da menor pressão, mas que só permittem a combustão incompleta da mistura gazosa que os atravessa. Demais, não é sómente como meio de illuminação, mas também como meio de aquecimento, que se emprega muitas vezes o gaz de hulha. O aquecimento por este systema, em que se serve de apparelhos imperfeitos sem corrente de ar, lança na atmosphera do recinto todos os productos da combustão, que vi- ciam, alteram e damnificam o ar, sobretudo pela presença de quantidades relativamente consideráveis de oxydo de carbono. 1 Symptomas; signaes clínicos Rabuteau, acompanhando o plano de Tourdes no estudo desta questão, distingue dous periodos na intoxicação pelo oxydo de carbono: o primeiro de excitação caracterisada pela acceleração do pulso e da respiração, e algumas vezes por con- vulsões ; o segundo, de depressão ou de anesthesia, no qual se observa a demora do pulso e da respiração, e em seguida a insensibilidade. Algumas vezes, porém, a marcha do envenenamento é tão rapida, que não permitte esta discriminação e os dous periodos como que se confundem. O individuo cahe logo privado de movimento e de sentimento, as pulsações cardiacas diminuem e acabam por extinguir-se em pouco tempo. Quando os symptomas se succedem gradualmente, como no primeiro caso, que é o mais frequente, os individuos experimentam cepha- lalgia intensa, violenta, com sensação de peso e atordoamento de cabeça, e compressão nas têmporas ; manifesta-se então uma 1 Os progressos recentemente realizados sobre as variadas applicações da electricidade tendem, felizmente, a substituir com immensa vantagem o gaz de carvão de pedra como fonte de luz, pela luz electrica» VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 357 dor periorbitaria e frontal, que se reune á dor temporal de cada lado e propaga-se para a parte posterior, até encontrar-se, cerrando a cabeça como que em um circulo de ferro. A vista é turva e escura, interrompida de espaço a espaço por clarões fugitivos; os olhos são levemente dolorosos e lacrimejantes. Nos ouvidos percebe-se forte zoada ou sibilo que se exaggera e torna-se tão incommodo pela acção de qualquer choque, que parece fazer arrebentar a cabeça. Em certos casos appa- recem vomitos precedidos de espreguiçamentos, bocejos e algum ptyalismo. Sobreveem vertigens, tremores, vacillação nos movimentos, fraqueza muscular considerável, respiração accelerada a prin- cipio, depois estertorosa e lenta, oppressão acompanhada de dores lancinantes no peito, batimentos cardiacos tumultuosos. Quasi ao mesmo tempo manifesta-se insensibilidade, paralysia a que segue-se a morte por parada súbita da respiração no meio de um estado de calma, pelo menos apparente. Outras vezes ella é precedida de agonia e convulsões, e neste caso os doentes apresentam o symptoma clinico das contracções teta- nicas, com o rosto violáceo e cyanotico, com a escuma branca escapando-se dentre os lábios, com dyspnéa, anciedade e outros phenomenos asphyxicos que terminam pela morte, ainda por syncope respiratória antes da parada do coração. Si a intoxicação não é mortal, os doentes experimentam, voltando a si, um tremor geral, dores profundas na cabeça e no peito, zunido nos ouvidos, escurecimento da vista e um anniquilamento geral de forças ; alguns teem delirio furioso. Em todo o caso, a convalescença é longa e a cura difficil, seja por accidentes estranhos á symptomatologia da intoxicação e que a complicam, taes como pneumonias lobulares, congestões das meningeas cerebraes, etc., seja pela rebeldia extraordiná- ria de outros, que pertencem á marcha natural da mesma, como succede com as paralysias de sentimento e de movimento-* que persistem, em alguns casos, até muitos mezes. 358 OXYDO DE .CARBONO .Comquanto tenha ficado provado que o gaz de illuminação deve a sua energia toxica ao oxydo de carbono, todavia Ar- tigalas na sua these assignala pequenas differenças, na re- spectiva symptomatologia, observadas nas especies animaes em que estudou os effeitos comparativos dos dous venenos. Assim, por exemplo, na intoxicação por este ultimo gaz o symptoma inicial e constante é a dilatação dos vasos das orelhas, que são animados de tremores fibrillares ; o que Klebs attribue ao enfraquecimento do musculo cardiaco, e á paralysia das fibras musculares lisas. No outro caso nunca se nota este symptoma. O oxydo de carbono puro, sómente misturado com ar atmos- pherico, parece ter uma acçâo mais forte e mais directa sobre o coração do que o gaz de illuminação. A asphyxia por este gaz caracterisa-se a principio por convulsões tónicas, com espasmos, interrompidos constantemente por movimentos plinicos. Ainda mais, neste caso acham-se pela autopsia lesões especiaes, que serão indicadas adeante. 1 1 Não contente com esta descripção summaria dos symptomas do envene- namento carbonoso, pouco mais ou menos como se encontra nos tratados de toxicologia, Artigalas estuda separada e detalhadamente cada um dos principaes symptomas, do modo por que passo a resumir. Elle divide os symptomas em dous grupos : accidentes immediatos consti- tuindo o período de asphyxia propriamente dita, e accidentes consecutivos, tardios ou remotos. i.° Symptomas immediatos — Entre elles destaca-se a cephalalgia, que é constante, pertinaz ô rebelde, accusada por todos os envenenados com o oxydo de carbono. No mesmo caso se acham as perturbações auditivas, que começam como que por assobios nos ouvidos, devidos á tensão anormal da membrana do tympano, esta por sua vez produzida pelo augmento da frequência dos movi- mentos respiratórios, e consecutiva rarefacção do ar contido na caixa do tympano. Depois este phenomeno é substituído por zoada ou zumbido, effeito do augmento de tensão dos canaes semicirculares. Ao lado destas perturbações e de sensações subjectivas luminosas vem-se juntar uma dôr thorácica, retro-esternal, violenta e dilacerante, ainda que menos duradoura do que a cephalalgia, e que parecem incompatíveis com essas mortes accidentaes occorridas durante a noite. Porém explica-se este facto attendendo a que, durante a noite ou durante o somno, a respiração é muito mais lenta e superficial, as trocas moleculares são menos activas, e a oxydação dos tecidos menos profunda. Conseguintemente, menor quantidade de oxydo de carbono é absorvido, sua penetração na torrente circulatória é mais lenta, donde resulta que não ha surpreza bulhar; o ceptro respi- ratório é gradualmente impressionado, os phenomenos reaccionarios dolorosos pouco accentuados ou nullos, seguidos da morte sem convulsões. Logo depois desta dôr thoracica sobreveem as desordens das funcçôes digestivas, já mencio- nadas na symptomatologia. VENENOS NEURO-HEMATICOS 359 Não terminarei esta parte sem dizer duas palavras sobre a intoxicação chronica pelo oxydo de carbono, de que falia Arti- Nesta apreciação o alludido autor refere-se também á influencia do tem- peramento e da idade sobre a marchada intoxicação. Sabe-se que os ani- maes recem-nascidos apresentam uma resistência particular ás causas de asphyxia, pela razão muito simples de que os tecidos desses animaes estão em um estado de entorpecimento physiologico tal que a oxydação de seus ele- mentos constitutivos não é immediatamente indispensável á persistência da vida nelles. E’ evidente que a respiração, sendo muito menos activa nesses animaes, a absorpção dos princípios gazosos, quaesquer que sejam, é muito menos activa. Mas, quando os animaes teem passado uma certa idade, variável conforme a especie, a nutrição torna-se mais activa do que nos animaes adultos, de sorte que os effeitos toxicos são muito mais rápidos. Cousa menos explicável e mais incomprehensivel é a influencia do tempe- ramento ; entretanto ella verifica-se sob a invocação vaga e mysteriosa das idiosyncrasias. As convulsões, que se observa sempre na asphyxia, aguda pelo vapor de carvão, podem faltar na asphyxia lenta e gradual pelo gaz de illuminação. Elias caracterisam tres periodos distinctos, que se succedem regularmente, na maioria dos casos : Io, convulsões clonicas coordenadas com um fim dado pela vontade; convulsões puras com gritos; convulsões silenciosas, cjkmicas a principio, depois tetanicas. Sobre cada um destes grupos, Arti- galas expende algumas reflexões cheias de interesse, e passa a estudar as perturbações da sensibilidade, a respeito das quaes elle chama a attençao para algumas particularidades dignas de nota. Segundo observações de Faure, a anesthesia, que é um phenomeno conco- mitante de toda a asphyxia, qualquer que seja o seu mecanismo, e sobretudo das asphyxias toxicas, póde neste caso ser absoluta e completa em todo o corpo, excepto na parte superior do peito que ainda póde conservar toda a sua sensibi- lidade e dar logar, pela applicação de um ferro em braza, ao reflexo respira- tório. Cumpre notar que, antes da anesthesia, observa-se claramente um estado de hypersthesia. com exaggeração dos reflexos. 0 simples toque produz espasmos musculares. Este phenomeno se desenvolve partindo das zonas màis afastadas do centro, e diffunde-se por todo o corpo, respeitando, porém, como já disse, a parte anterior do thorax, quando a morte não é a terminação necessária da intoxicação. Ao lado disto nota-se dilatação da pupilla com insensibilidade da mesma, que também se torna absoluta nos casos mortaes. As alterações vaso-motoras immediatas, que teem sido assignaladas, limi- tam-se a inchações localisadas e placas de côr vermelha escura situadas em diversos pontos da superfície do corpo, mas sobretudo naquellesque teem soffrido a pressão de um objecto resistente. Klebs descreveu nos animaes asphyxiados com o oxydo de carbono um tremor particular das orelhas com hyperhemia intensa das mesmas. Outros autores allemães observaram uma paralysia com dilatação, alguns dizem alongamento dos vasos craneanos dos ramos arteriaes das meningeas cerebro-racbidianas : é talvez ahi que se deve procurar a explicação das paralysias transitórias ou permanentes ligadas a esta causa. As desordens cardiacas nesta intoxicação podem ser divididas em dous periodos de duração variavel, conforme o modo do envenenamento e a inten- sidade do agente toxico : o primeiro é o periodo de excitação, muito curto e passageiro, pouco apreciável nos casos ordinários, acarretando pequeno augmento de pressão no systema circulatório. O segundo é assígnalado pela paralysia vascular, no quàl as contracções cardiacas apresentam succes- sivamente os tres caracteres seguintes : Io, maior frequência e intensidade dos batimentos ; 2o, estes tornam-se precipitados e irregulares (arrythmia cardíaca); 3o, as fibras do coração se paralysam, dando pulsações cada vez mais fracas e distanciadas, até á parada definitiva. Estes phenomenos podem ser resumidos do modo seguinte : atonia das paredes, com dimi- 360 OXYDO DE CARBONO galas, observada em algumas profissões que expõem os indi- viduos aos effeitos de uma asphyxia lenta por este gaz. São, pois, intoxicações profissionaes, que acommettem, por exemplo, as engommadeiras, os cozinheiros, os operários das minas de carvão de pedra, das fabricas de gaz, os penteadores de lã e linho, etc. 1 As engommadeiras soffrem de cephalalgia e enxaquecas fre- quentes ; tornam-se, além disso, em geral anémicas, chloro- ticas, leucorrheicas, e apresentam por vezes um ligeiro edema generalisado. Os cozinheiros, além da cephalalgia e vertigens que os per- nuição da pressão intra-arterial, demora do curso do sangue, insuffi- ciencia das contracções do coração e por fim paralysia deste orgão. Os movimentos respiratórios acceleram-se também a principio e se pre- cipitam depois de modo notável, com desordem rythmica ; este estado dura um t mpo variavel, a que succede ás vezes um periodo de calma, nem sempre real, porquanto tem acontecido muitas vezes, nas experiencias sobre animaes, que depois de restabelecida a respiração, quando todoo perigo parece conjurado, de repente, sem motivo, esta funcção pára, continuando ainda o coração a bater durante alguns segundos. Na opinião de Artigalas, este facto parece não poder ser attribuido sinão a lesões bulbares, que quasi nunca falham nas asphyxias pelo oxydo de carbono. Em todo o caso, neste envenenamento a morte tem logar por parada gra- dual ou brusca da respiração. 2.° Symptomas consecutivos— São aquelles que, ou começam durante a convalescença da intoxicação, ou bem apparecem nos primeiros dias após a cessação dos symptomas immediatos asphyxicos. Dividem-se em dous grupos: perturbações mentaes e perturbações somaticas ( da motilidade e da sensibi- lidade). As primeiras são caracterisadas em geral por phenomenos de depressão ; só muito raramente se tem observado superactividade cerebral rapida e passageira; ellas parecem depender de lesões corticaes transitórias. A regra, porém, naquelles casos é o enfraquecimento das funcções cerebraes até á imbecilidade, e os symptomas psychicos da paralysia geral, com perda da memória, da palavra, da vista e do ouvido. As perturbações somaticas são representadas por paralysias que ora affectam sómente os nervos motores, ora os sensitivos, ora os mixtos, ora uns e outros combinadamente. Artigalas acredita que ha duas classes de para- lysias oxycarbonicas : em uma, a lesão é diífusa e ataca, não os troncos ner- vosos, mas suas extremidades terminaes ; em outras, a lesão anatómica é uma nevrite, que póde acabar por uma paralysia ascendente aguda. Nestas ultimas é que se observam as alterações vaso-motoras periphericas muito ac- centuadas (herpes, zona, pemphigus e finalmente escharas de marcha rapida, como nas moléstias medullares). Os membros paralysados são por vezes a sede de dores fugazes, súbitas, passageiras, de duração e violência variá- veis, ora comparáveis ás dôres fulgurantes de certas myelites, ora ás ver- dadeiras caimbras musculares. Algumas vezes, porém excepcionalmente, a sensibilidade normal se conserva intacta. 1 Estea soffrem pela circumstancia de trabalharem com pentes especiaes aquecidos, para o que teem sempre perto delles fogareiros em actividade.. VENENOS NEURO-HEMATICOS 361 seguem, são sujeitos a congestões visceraes, e veem a soffrer de perturbações da vista e erupções cutaneas eczematosas. Os outros industriaes supracitados são igualmente expostos a algumas destas consequências, e outras derivadas da inha- lação das poeiras irritantes que enchem por assim dizer a atmos- phera em que trabalham. Em resumo os caracteres desta intoxicação veem a ser os seguintes: cephalalgia, vertigens, anemia pronunciada com- plicada de lesões broncho-pulmonares. Lesões anatomo-patliologicas ; signaes necroscopicos Segundo Rabuteau, o cadaver dos envenenados pelo vapor de carvão conserva durante muito tempo seu calor, o resfriamento, assim como aputrefacção, se processa lentamente ; tem-se visto a cor verde, que annuncia o começo desta, não se manifestar sinão no fim de oito a dez dias. O que ha, porém, de mais notável nos cadaveres destes en- venenados é o brilho persistente da córnea, e a cor rosea ou mesmo vermelha em placas situadas em diversas regiões do corpo, principalmente na face interna das coxas e na parte in- ferior do abdómen, nas curvas dos membros, no peito, no pes- coço e no rosto. A vermelhidão é ainda mais notável e accen- tuada nos orgãos internos, na mucosa das vias respiratórias e do tubo intestinal, nas serosas, emfim nos musculos e nas vísceras parenchymatosas. O sangue é fluido e rutilante, 1 é elle que communica aos tecidos a cor vermelha tão pronunciada nestes casos. Taes são os signaes cadavéricos mais constantes, sinão cara- cteristicos, do envenenamento pelo oxydo de carbono, seja sob a fórma de vapor de carvão, seja no estado degaz de illumina- 1 Devergie achou uma vez o sangue negro, e póde-se apresentar assim, quando, como nesse caso, a autopsia for feita mais de um dia depois da morte do individuo. 362 OXYDO DE CARBONO ção. Póde-se ainda accrescentar que Siebenhaar e Lehraann, que fizeram um estudo especial deste veneno, nunca encontra- ram no cerebro as extravasações sanguineas assignaladas por Schumacher, Portal e outros. Quando muito, conforme se lê na these de Artigalas, nos casos em que a asphyxia é brusca, acham-se hemorrhagias miliares, microscópicas, na espessura do assoalho do quarto ventrículo, no núcleo central do pneumo- gastrico : como bem diz este escríptor, as lesões medullares e encephalicas nas victimas destas asphyxias toxicas teem sido antes suppostas, do que observadas. As lesões dos nervos, descriptas por Leudet, de Rouen, consistem em nevrite inter- sticial, ás vezes também em perinevrite. Klebs e Pokrowski observaram que a asphyxia pelo oxydo de carbono determinava no figado, nos rins e no baço fócos que soffriam a degeneração caseosa, e tornavam-se núcleos de uma hyperplasia conjunctiva considerável. Finalmente, tem-se feito questão até da attitude e posição do cafiaver no momento da morte devida a esta causa ; circum- stancia que, bem estudada, nenhuma importância merece. Mecanismo da acção toxica São as experiencias interessantes de Cl. Bernard e os traba- lhos modernos de Nysten, Grehant, e outros observadores sobre o sangue dos envenenados por este gaz, que nos dão a expli- cação completa e satisfactoria do mecanismo de sua acção. Um facto domina toda a anatomia e a physiologia pathologica do envenenamento pelo oxydo de carbono : é que elle se une e se fixa á hemoglobina com perda do seu oxygeno, substituindo-o volume a volume, produzindo a hemoglobina oxycarbonica, combinação firme e estável, que, segundo Hoppe Seyler, se tem podido obter sob a fórma crystallina. Neste estado o sangue parece normal, coagula-se bem, seus globulos se deformam menos depressa, conservam mais tempo que os globulos de VENENOS NEURO-HEMATICOS 363 sangue commurn sua côr vermelha, e entretanto tem-se tor- nado completamente improprio para a hematose, tem perdido de uma vez sua faculdade de absorpção para o oxygeno ; é como si fosse subtrahido da torrente circulatória. Ainda mais, examinada ao espectroscopio, a hemoglobina oxycarbonica comporta-se quasi exactamente como a oxyhemo- globina ; seu espectro é semelhante e offerece as mesmas duas listras de absorpção entre as lettras D e E da escala de Frau- nhoífer. Distingue-se, porém, da hemoglobina normal: Io, pela sua indifferença á acção dos agentes reductores, taes como o acido sulphydrico e o sulphydrato de ammonea, que não alte- ram aquelles caracteres espectroscopicos ; 2o, pela resistência que offerece á acção de uma corrente de azoto, dehydrogeno, de gaz carbonico, que não deslocam o oxydo de carbono da hemo- globina oxycarbonica, como deslocam o oxygeno da oxyhemoglo- bina. Sómente o bioxydo de azoto exerce facilmente aquella in- fluencia e se substitue ao gaz carbonoso, dando o espectro exacto da hemoglobina azotica, não fallando nos meios que, transfor- mando a hemoglobina em hematina, facilmente eliminam o gaz toxico do sangue ( calor, ácidos, etc.) O oxygeno expelle também o oxydo de carbono, porém mais lenta e difficilmente. E’ esta a alteração primordial e fundamen- tal deste gaz, da qual decorrem naturalmente as lesões paren- chymatosas e funccionaes do envenenamento produzido pela sua absorpção. Uma vez profundamente compromettida a estructura globular do sangue, e ipso facto prejudicado o seu papel physiologico, os tecidos, não recebendo mais os elementos necessários â sua vida, são fatalmente votados á morte depois de affectados, nos casos de intoxicação lenta, de degeneração necrobiotica ; esta degeneração se acompanha por vezes de hy- perplasia conjunctiva. Sob a mesma influencia se processa a paralysia da túnica média dos vasos e da maior parte dos mús- culos da vida organica. Em consequência da dilatação dos vasos ha demora na circulação, stases nas regiões periphericas e 364 OXYDO DE CARBONO insufficiencia das contracções do coração. Os núcleos nervosos cardíacos são igualmente affectados (Klebs). Pokrowsky attribue o coma á compressão do cerebro pelos plexus venosos dilatados (?). E’ provável, diz com razão Artigalas, que investigações histológicas mais completas venham revelar a existência de lesões nas cellulas nervosas da camada cortical do cerebro; mas até ao presente não é sinão por inducção que se as tem admit- tido, sem as ter verificado. Tratamento A asphyxia oxycarbonica de marcha aguda offerece pouco tempo e fraca probabilidade de exito a toda a therapeutica exequível de momento. A indicação mais urgente a preencher consiste em proporcionar aos indivíduos, o mais depressa possí- vel, ar puro e livre, ou melhor, oxygeno, promovendo pelos meios mecânicos conhecidos a respiração artificial, forçando pois esta funcção, si ella não se pôde effectuar naturalmente. O inhalador de Limousin constitue nestes casos um precioso recurso. Artigalas parece não confiar muito nesta applicação, atten- dendo a que a hemoglobina oxycarbonica resiste considera- velmente á acção do oxygeno, como já ficou dito ; este diífi- cilmente consegue expellir o gaz toxico de sua combinação com a matéria corante do sangue. Mas, em primeiro logar, deve-se sustentar esta applicação por muito tempo, por quanto tem-se visto indivíduos durarem, em estado de morte apparente sob a influencia dessa lethargia toxica, quatro, seis e até doze horas (diz Rabuteau), e ainda se restabelecerem ! Em segundo logar, não se deve confiar exclusivamente nesse meio ; é preciso auxiliar e secundar o seu emprego com outros, taes como fricções geraes pelo corpo com vinagre diluido, aspersões d’agua fria sobre o rosto e o thorax, sinapismos vo- VENENOS NEURO-HEMATICOS 365 lantes e outros revulsivos cutâneos, a electricidade, espe- cialmente sob a fôrma de correntes ascendentes, collocando-se o polo positivo no anus ou em qualquer ponto da extremidade inferior do tronco, e outro na boca ou na nuca. As injecções hypodermicas de ether são igualmente muito proveitosas. A cauterisação da parte superior do thorax tem sido empre- gada com vantagem por Faure. Alguns aconselham a sangria geral, que Rabuteau julga pelo menos inútil quando a circulação faz-se lenta e dificil- mente, porém que não repugna a Artigalas. Este acredita que seu emprego deve prevenir a accumulação de sangue nos vasos dilatados dos orgãos, quando o coração recomeça a contra- hir-se com força; mas em todo o caso a sangria deve ser pequena, e repetida em caso de necessidade, antes do que abun- dante de uma vez. Em vez, porém, da sangria, que sómente desembaraça o or- ganismo de uma parte de sangue alterado pelo veneno, penso com Artigalas que seria muito mais racional completar a applicação, substituindo-o por sangue estranho e puro, e em boas condições. Com estas vistas elle propõe a transfusão de sangue, depois da sangria. Mas este methodo, além de nimia- mente moroso nestas circumstancias, não é sem perigo; por isso não pôde ser applicado sinão em casos mui restrictos. Até agora os ensaios praticados neste sentido teem sido geral- mente mal succedidos. Na Allemanha, sobretudo, onde a trans- fusão tem sido mais vezes empregada com este intuito, os resultados teem sido máos; não se conhece mesmo sinão um unico successo, observado e descripto por Liihe, medico do exercito prussiano. Os excellentes resultados annunciados por Landois, na sua obra sobre a transfusão do sangue, re- ferem-se a experiencias sobre animaes; mas todas as vezes que se tentou applicar ao homem esses dados da physiologia experimental, a terminação foi funesta. Artigalas cita duas 366 OXYDO DE CARBONO observações em que os envenenados pareceram reanimar-se e melhorar com este methodo de tratamento, mas succumbiram ; o que elle attribue em parte á imperfeição dos apparelhos utilisados nesse mister, mesmo o de Roussel, que é o melhor. Landois e Eulenberg propoem o seu emprego como methodo geral de tratamento nas intoxicações agudas, em que ha sem- pre conveniência de substituir o sangue envenenado ; porém até aqui sómente se apontam numerosos casos de bom exito no envenenamento pelo acido phenico. Em resumo, o tratamento da intoxicação pelo oxydo de carbono (vapor de carvão ou gaz de illuminação) consiste no seguinte : Estabelecer uma aeração activa, praticar a respiração arti- ficial durante algumas horas consecutivamente. Applicar um thermo-cauterio na parte anterior do thorax, e outros exci- tantes ordinários (flagellação, sinapismos, etc.) em outros pontos do corpo. Empregar injecções subcutâneas de ether, correntes electricas ascendentes, inhalações de oxygeno, e finalmente uma sangria, seguida, sendo possivel, de trans- fusão do sangue. O tratamento completa-se com o uso de medicamentos cordiaes, e outros reclamados por indicações puramente symptomaticas de momento. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Nesta pesquiza deve-se procurar e demonstrar a presença do oxydo de carbono, sempre que for possivel, não sómente no sangue do envenenado, como também na atmosphera do recinto em que elle expirou, A — Analyse do sangue : O primeiro phenomeno que se salienta no exame do sangue dos asphyxiados por este gaz é a sua cor vermelha rutilante, persistente, como a do sangue arterial ; mas como este signal não é exclusivo do oxydo de carbono, pois que se manifesta VENENOS NEURO-HEMATICOS 367 também com o acido cyanhydrico, com o acido oxalico, etc,, cumpre pôr em contribuição as reacções chimicas do gaz, seja no proprio sangue, seja fóra delle, empregando primeiro os meios para o separar deste liquido. No primeiro, procede-se para mais segurança estabelecen- do-se comparação dessas reacções com a que offerece o sangue normal. Assim, por exemplo, segundoHoppe Seyler, o sangue oxycarbonico desfibrinado e misturado com o duplo de seu volume de potassa ou de soda (a 1,3 de densidade), dá uma massa vermelha coagulada, ao passo que, nas mesmas con- dições, o sangue normal produz uma massa escura esverdeada ou mesmo preta. Eulenberg diz que esta solução alcalina do sangue into- xicado toma uma cor vermelha-carmim pela addição de chlo- rureto de cálcio, ou ainda melhor, segundo Ritter, de acetato de chumbo; ao passo que a do sangue normal córa-se em pardo-escuro sujo. Outros chloruretos, taes como os de sodio, de ammonio, de baryo, de chumbo e de estanho comportam-se do mesmo modo que o de cálcio. Segundo Ritter, o acetato de chumbo dá melhor resultado. O sublimado corrosivo produz com o sangue intoxicado uma côr de flor de pecegueiro ; com o sangue normal elle córa em vermelho escuro. O sangue oxycarbonico sendo fervido forma um coagulo vermelho côr de tijolo ; com o sangue ordinário o coagulo é cinzento claro. O processo, porém, mais delicado e scientifico, mas que pela sua difficuldade demanda grande habito e exercicio, é o que se basêa na analyse espectral do sangue intoxicado, para a verifi- cação de seus caracteres espectroscopicos, que, sendo seme- lhantes aos da oxyhemoglobina, distinguem-se: Primeiramente, porque os agentes oxydantes, taes como o permanganato de potássio, o chlorato de potássio, etc., transformam rapida- mente esta ultima em methemoglobina, emquanto que a 368 OXYDO DE CARBONO reacção é muito mais lenta e difficil com a hemoglobina oxycarbonica. Weyl e von Aurep recommendam um processo de reconhecimento do gaz toxico, fundado na apreciação desta propriedade ao espectroscopio. Observar-se-ha, neste caso, a fita de absorpção da methemoglobina (que Taederholm acredita ser um peroxydo de hemoglobina) situada entre os ns. 37 e 41 ; com a hemoglobina oxycarbonica, esta fita de absorpção não se manifestará. Suppondo mesmo que a oxydação da hemoglobina oxycar- bonica se tenha feito tão rapidamente como a da oxyhemo- globina, poder-se-hia voltar ao ponto de partida para ensaios ulteriores. Para isso basta ajuntar algumas gottas de sulphu- reto de ammonio á solução de methemoglobina ; qualquer que seja a sua origem, obter-se-ha oxy hemoglobina em um caso, e hemoglobina oxycarbonica em outro. Em segundo logar, empregando-se logo desde começo em outra porção de sangue submettido a exame espectroscopico esse mesmo agente reductor, 1 e esperando o resultado final e tardio do ensaio anterior, reconhece-se que as fitas de absor- pção do sangue intoxicado não desapparecem, ainda mesmo no fim de alguns dias. Elle conserva esta propriedade optica, se- gundo Eulenberg, durante algumas semanas, mesmo depois de secco; ao passo que com sangue normal bastam alguns minutos para se apresentar a lista própria da hemoglobina reduzida. Jaderlohm confirma estes factos, reconhecendo, porém, que, quando se quer guardar por muito tempo o sangue para sub- mettel-o ao exame espectroscopico, é preciso ajuntar o seu volume de solução de borax, saturada a frio; por este artificio elle tem conservado essa propriedade durante mezes e até annos! 1 Em vez do sulphureto de ammonio para esta reducção, Stokes recom- menda o emprego de uma solução de 5 por 100 de proto-chlorureto de estanho, que se mistura com acido tartarico, e depois com uma quantidade de ammonia sufficiente para neutralizar o liquido. VENENOS NEURO-IIEMATICOS 369 Ainda mais, segundo Prehyer, o sangue intoxicado pelo oxydo de carbono não perde sua reacção espectroscopica, quando se ajunta cyanureto de potássio, e que se aquece a mistura por 5 minutos a 39°. O sangue normal nas mesmas circumstancias perde as 2 listas de absorpção da hemoglobina, que são substi- tuídas por uma larga fita situada em um ponto intermediário. Vejamos agora quaes os processos empregados para extrahir do sangue o oxydo de carbono e pôl-o em evidencia por algum de seus caracteres. Conhecem-se dous que attingem este fim. Por meio de um aspirador faz-se passar o ar suspeito atravez de uma serie de tres tubos em U contendo: o primeiro acido sulphurico para fixar a ammonia; o segundo, fragmentos de acetato de chumbo para reter o acido sulphydrico, eo ultimo uma solução de chlorureto de palladio, que é reduzido pelo oxydo de carbono, precipitando-se o metal sob a forma de um corpo negro, de aspecto sedoso. O terceiro tubo póde ser sub- stituído por um frasco ou systema de bolas de Liebig. Kiihne contesta este facto, e Dragendorff parece duvidar delle, ou pelo menos guarda reservas, attendendo para a diffi- culdade com o que oxygeno do ar desloca e expelle o oxydo de carbono fixado pela hemoglobina, quando está provado que justamente o contrario é que se dá, isto é, o oxygeno desta é com a maior facilidade deslocado e substituído pelo gaz toxico. A mesma objecção levanta-se contra o outro processo, que consiste em fazer passar uma corrente de oxygeno, ou simples- mente de ar (diz Rabuteau), sobre o sangue intoxicado, do qual desloca e separa o gaz toxico, este atravessa depois um tubo de porcellana ou de vidro forte contendo oxydo de cobre aquecido até á temperatura rubra ; recolhe-se finalmente o gaz (que agora tem-se convertido em gaz carbonico), em rum frasco contendo agua de cal, ou em um systema de bolas de Liebig contendo solução de potassa. Do peso do gaz carbonico deduz-se o peso do oxydo de carbono, partindo deste principio jà estabe- lecido, de que a 11 daquelle correspondem 7 deste ultimo. OXICOLOGIA 24 370 OXYDO DE CARBONO B — Analyse do ar. Póde-se proceder a esta analyse por diversos processos: Hoppe Seyler indica um ensaio muito simples e expedito, porém pouco rigoroso, que consiste em agitar um pouco de sangue são com o ar suspeito, que, si contiver oxydo de carbono, lhe communicará uma cor vermelha rutilante, indifferente á acção de algumas gottas de hydrato de sodio ; sem a influencia do gaz toxico o sangue tomaria nas mesmas circumstancias uma cor escura, devida á producção da hematina. Além disso o sangue normal convertido por essa fórma em sangue oxy-car- bonado se poderá denunciar ao exame espectropico pelos caracteres já assignalados. Dragendorff lembra ainda outro meio que vem a ser col- locar na atmosphera suspeita um pequeno animal, um camon- dongo por exemplo, e examinar depois o seu sangue, caso apresente phenomenos de envenenamento. Hempel aconselha collocar o animal entre dous funis de vidro, applicados um contra o outro pela sua parte larga, e mantidos mediante um annel de borracha; fazer então passar atravez desse apparelho cinco a dez litros do ar suspeito. Desta maneira póde-se, diz elle, reconhecer meio millesimo de oxydo de carbono no dito ar. Outro methodo mais delicado e preciso consiste em oxydar o oxydo de carbono, para transformal-o em gaz carbonico, e fixar este por meio de uma solução alcalina ; tomar a differença de peso antes e depois, e dahi deduzir por um calculo simples a quantidade do oxydo de carbono. Neste sentido póde-se seguir dous processos : Um consiste no emprego do oxydo de cobre, conforme foi descripto a proposito da analyse do sangue. O outro, ainda mais simples porque se executa mesmo a frio, basêa-se na acção oxydante do acido chromico. Para isso faz-se passar o ar suspeito, por meio de um aspirador, em um apparelho á potassa primeiramente, depois em um tubo con- tendo pedra pomes embebida em solução concentrada de acido chromico, e por fim outra vez em um apparelho á potassa, VENENOS NEURO-HEMATICOS 371 previamente tarado. O augmento de peso depois da operação corre por conta do gaz carbonico, donde é facil deduzir a proporção do oxydo de carbono. Finalmente, póde ser posto em pratica nesta pesquiza o pro- cesso indicado anteriormente e que se funda na reducção do chlorureto de palladio, posto que não seja bastante rigoroso e exacto, porquanto, como bem pondera Dragendorff, os hydro- carburetos existentes no gaz de illuminação reduzem igualmente o sal de palladio, não se-podendo por isso tirar deste ensaio uma conclusão absoluta. Envenenamento pelo acido sulphydrico (hydrogeneo sul- phuretado) Os accidentes produzidos pela absorpção deste gaz teem-se observado principalmente como consequência das exhalações das latrinas e esgotos, onde elle existe, quer livre, quer combinado no estado de sulphureto de ammonio ; são em geral os trabalha- dores que se empregam no serviço de concertos e desobstrucção dos esgotos as victimas desta especie de asphyxia, cujos eífeitos se manifestam muitas vezes com uma rapidez extraordinária, de modo que esses individuos succumbem quasi subitamente e no mesmo logar em que recebem a influencia perniciosa dessas emanações, como acontece também com as asphyxias experimen- taes determinadas por esse gaz. O acido sulphydrico é de facto um dos gazes mais nocivos e perigosos, quando inspirado, isto é, quando absorvido pela mucosa bronco-pulmonar, cuja extensão e condições anatomo- histologicas favorecem sua penetração rapida na torrente san- guinea, onde exerce a acção toxica que lhe é própria. Entretanto é notável que se póde ingeril-o impunemente, que se póde mesmo injectal-o no systema venoso em dóses que occasionariam accidentes graves, si fossem introduzidas no sangue arterial 372 AGIDO SULPHYDRICO pelas vias respiratórias, porque nestas circumstancias é aquella mesma superfície broncho-pulmonar, onde o gaz chega facilmente pela sua extrema diffusibilidade, que lhe ofíerece a porta franca e prompta para sua eliminação, como é facil veri- ficar experimentalmente, collocando-se em frente ao focinho de um animal, injectado com uma solução sulphydrica, um papel impregnado em acetato de chumbo; este será immediata- mente ennegrecido pela formação do sulphureto de chumbo. A coloração é um pouco mais tardia quando a solução gazosa é injectada no recto. E’ possível também que uma certa quantidade de gaz seja eliminada pelas urinas no estado de sulphato, porque parece demonstrado que os sulphuretos se oxydam no organismo. Estes factos explicam o uso inoffensivo das aguas chamadas sulphurosas. 1 Artigalas occupa-se também neste capitulo de sua these comas exhalações das sepulturas nos cemitérios ; porém, como elle proprio confessa, si se pôde em parte referir ao acido sulphydrico os accidentes que estas exhalações teem occasio- nado, é fóra de duvida que sua influencia é ajudada por muitas outras circumstancias. Portanto o estudo desta as- phyxia não deve em rigor abranger a que pôde ser produzida por essa causa complexa e problemática. 2 Symptomas; signaes clínicos O phenomeno assignalado pelos primeiros observadores em relação aos accidentes asphyxicos determinados pela inha- lação do gaz sulphydrico é a rapidez e quasi insiantaneidade 1 Dá-se impropriamente este nome a aguas mais ou menos sobrecarregadas de acido s lphydrico livre, ou combinado no estado de sulphuretos alcalinos ; deviam pois, ser denominadas aguas sulphydricaS ou sulphuretadas, e não sulphurosas, que dão idéa de conterem acido sulphuroso. 2 Veja-se sobre este assumpto o meu folheto intitulado — da Cremação dos cadaveres. VENENOS NEURO-HEMATICOS 373 da morte nos indivíduos que respiram em um momento dado uma atmosphera fortemente impregnada por este gaz ; de modo que, nestes casos, por assim dizer fulminantes, a sym- ptomatologia reduz-se a um grito de dôr ou de extrema afflicção seguido de morte. Nos casos menos agudos, depois deste grito inicial, manifestam-se desordens da respiração e da circulação ; os batimentos cardíacos, assim como os movimentos respira- tórios, demoram-se e em pouco tempo cessam. Nota-se mais enfraquecimento geral, dilatação da pupilla e relaxação dos sphyncteres; a morte sobrevem precedida ou não de convulsões. Estas quasi nunca falham nas asphyxias ex- perimentaes. Em outros casos observa-se rijeza dos musculos peitoraes e thoracicos superiores, com respiração curta e irregular, acompanhada de grande peso ou oppressão sobre o peito, que faz com que na giria dos operários elles chamem de chumbo a esta asphyxia pelo hydrogeno sulphuretado. O rosto torna-se vultuoso e cyanotico, contrastando com a pallidez da pelle ; vê-se muitas vezes espuma na boca. Esses infelizes queixam- se de constricção 11a garganta e uma dôr viva no epigastrio, a pupilla é a principio contrahida e depois dilatada ; os mus- culos, como que tetanisados, entram mais tarde em convulsões clonicas. Alguns phenomenos peculiares aos indivíduos que se expõem ás emanações das latrinas parecem justificar até certo ponto uma fórma chronica desta intoxicação caracterisada pela irri- tação das mucosas accessiveis em geral, particularmente da conjunctiva oculo-palpebral, devida á acção dos gazes irri- tantes que nesses fócos se originam (0 acido sulphydrico e a ammonea, sobretudo esta). [Chama-se em francez mitte a essa conjunctivite mais propriamente ciliar, porque se localisa de preferencia no bordo livre das palpebras, acarretando a quéda dos cilios. Muitas vezes apparece também uma tosse teimosa, mesmo com escarros de sangue. 374 ACIDO SULPHYDRICO Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos Nos corpos dos indivíduos asphyxiados pelo gaz sulphy- drico, a putrefacção desenvolve-se e marcha rapidamente . elles exhalam o cheiro proprio deste gaz. Pela abertura do cada ver encontra-se o sangue negro, os orgãos parenchyma- tosos engorgitados de sangue negro ; até mesmo os musculos se apresentam muitas vezes (nem sempre) ennegrecidos ; elles são flaccidos e não se contrahem mais immediatamente depois da morte ou difficilmente respondem á excitação electrica. Laborde diz ter observado nestes casos congestão e pontos hemorrhagicos no núcleo do pneumogastrico, que podem até produzir rupturas vasculares, o que, segundo Artigalas, nada tem de caracteristico da acção do gaz sulphydrico. Mecanismo da acção toxica A causa directa da morte neste envenenamento é também a acção exercida pelo acido sulphydrico sobre os globulos vermelhos do sangue, que tornam-se impróprios ou impres- táveis para a hematose. Qual seja, porém, esta acção não está ainda tão satisfactoriamente conhecida e determinada, como a do oxydo de carbono. Acredita-se com bons fundamentos, sem que seja uma theoria inexpugnável, que o referido acido com- porta-se como um agente reductor sobre a hemoglobina, que assim perde o seu oxygeno ; esta theoria, que applica-se ainda melhor aossulphuretos alcalinos, justifica-se em parte pela cir- cumstancia relativa ao estado em que estes corpos são eliminados da economia, no estado de sulphatos, portanto oxydados. Examinado ao espectroscopio o sangue sulphuretado offerece tres listras: duas lateraes mais apagadas, que sãojas da oxyhemoglobína, e uma central mais viva ; esta desapparece rapidamente quando se faz passar no sangue desfibrinado ou na solução de hemoglobina reduzida uma corrente de oxygeno, que se substitue ao acido sulphydrico. E’bem provável e na- VENENOS NEURO-HEMATICOS 375 tural que uma parte deste acido se combine com o ferro do sangue formando o sulphureto preto, que tinge desta cor o mesmo sangue e os tecidos muito ricos deste liquido. Seja como for, ao lado desta alteração, que o sangue expe- rimenta, e que parece insuficiente para explicar só por si a rapidez e a violência dos symptomas da intoxicação sulphy- drica, admitte-se também que uma parte do gaz levado em natureza até aos elementos nervosos do bulbo, os perturba, abolindo suas fmicções. A intoxicação do sangue póde ser ainda pequena ou insignificante e jâ o centro nervoso re- spiratório profundamente affectado, dahi a morte pela parada da respiração, muito antes da das pulsações cardíacas. Do que fica exposto resalta esta diíferença importante, que cumpre assignalar na acção dos dous gazes toxicos que acabo de estudar, reunidos aliás sob a mesma classificação de venenos neuro-hematicos : o oxydo de carbono combina-se com a he- moglobina, substituindo-se ao oxygeno na composição deste principio e inutilizando-o para os seus fins physiologicos, ao passo que o acido sulphydrico reduz em parte a oxyhemoglo- bina, outra parte une-se provavelmente ao ferro, alterando assim a constituição chimica dessa substancia; mas outra parte actua em natureza e mais promptamente sobre o centro ner- voso respiratório, occasionando a morte rapida e ás vezes súbita. Tratamento Contra esta intoxicação, pouco susceptivel, pela sua vio- lência, de um tratamento profícuo, preconizava-se outr’ora as inhalações de chloro e de ether, as affusões frias, a ammonea, a sangria, etc. A applicação do chloro parece perfeitamente racional, comquanto a pratica não se tenha pronunciado sobre sua efficacia ; elle decompõe o acido sulphydrico, formando o enxofre que é inoffensivo, e o acido chlorhydrico, quando muito irritante. 376 ACIDO SULPHYDRICO 0 emprego do ether, Rabuteau reputa até irracional. As affusões frias não parecem a este autor bem indicadas em um estado em que o corpo geralmente se resfria. Não acho plausivel e acceitavel esta razão, visto como tal appli- cação de nenhum modo augmenta ou aggrava este resfria- mento ; ella actua como um meio perturbador, ou antes como um derivativo cutâneo desafiando a calorificação peripherica. Quanto á sangria, Rabuteau acredita que pôde ser algumas vezes util, mas em geral renuncia ao seu emprego. A indicação mais racional e urgente a preencher consiste em promover activamente a respiração artificial, e sobretudo em administrar inhalações de oxygeno, com o fim de expellir o mais promptamente possível o gaz toxico fixado pelo sangue, e restabelecer as condições physiologicas deste. Deve-se auxiliar esta applicação, nos casos do desfallecimento e collapso, fazendo o indivíduo respirar por alguns instantes a ammonea, e para isso se faz chegar proximo do nariz e da boca o frasco contendo este liquido, ou uma esponja embebida em sua solução fraca. Só por esta fôrma a ammonia póde aproveitar nestes casos, nada se podendo esperar do seu emprego como neutralizante chimico do acido sulphydrico, porque o sulphydrato de ammonea não é talvez menos nocivo e perigoso. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Esta pesquiza deve-se realizar também em relação ao sangue do indivíduo intoxicado e á atmosphera do recinto em que se deu o obito. A— Analyse do ar: Denuncia-se antes de tudo a presença do gaz sulphydrico em qualquer recinto pelo cheiro particular, activissimo e desagra- dável de ovos podres. Uma lamina brilhante de prata ou de cobre reveste-se em pouco tempo de um inducto ennegrecido, quando exposta a essa atmosphera. Papeis reactivos preparados com VENENOS NEURO-HEMATICOS 377 soluções de acido arsenioso, ou de um sal de cádmio, se coram nas mesmas condições em amarello. O papel plumbico torna-se preto ; o de nitro-prussiato desodio ammoniacal fica azul arro- xado, etc. B—Analyse do sangue : Si considerarmos a modificação que o gaz sulphydrico exerce sobre o sangue, encontraremos um meio precioso de seu reconhe- cimento no exame dos caracteres espectroscopicos já descriptos. Como ensaio complementar indispensável recorre-se a um artificio capaz de isolar do sangue o gaz sulphydrico para esta- belecer sobre elle as suas reacções caracteristicas, devendo-se procedera este exame, sempre que for possivel immediatamente depois da morte, por isso que a putrefacção desenvolve acido sulphydrico, e póde ser causa de erro. Para isso faz-se passar sobre o sangue uma corrente de azoto por exemplo, de qualquer gaz inerte em geral segundo Dragendorff, ou mesmo segundo Chapuis, de oxygeno, de oxydo de carbono, ou de gaz carbonico. Em todo caso o acido sulphydrico póde ser caracterisado no estado gazoso, ou no estado de combinação. Elle dá com os saes de bismutho, de chumbo e de prata precipitados pretos ; com os arsenitos (em solução acida), pre- cipitado amarello ; com os saes de antimonio precipitado ver- melho ou amarello alaranjado. Combinado com os alcalis, dá com o nitro-prussiato de sodio uma cor roxa, com reflexos purpurinos. Fisher indicou como caracteristica e mais sensivel do que a reacção precedente e do que a dos saes de chumbo, a seguinte : A uma solução chlorhydrica de acido sulphydrico ajunta-se uma pequena quantidade de sulphato de paramido-dimethylanilina, e depois uma ou duas gottas de solução de perchlorureto de ferro; manifesta-se uma bella côr azul, devida á formação de um derivado methylado do violete de Lauth, conhecido no com- mercio das matérias corantes pelo nome de azul de methylena, que vem a ser umaindamina tetramethylada e sulphurada. 378 ACIDO PRUSSICO Envenenamento pelo acido cyanhyãrico ou prussico Referem-se á historia toxicologica deste corpo os envenena- mentos determinados por todos os outros venenos cyanicos em geral, sejam productos chimicos, ou especies pharmaceuticas, sejam absorvidos directamente no estado em que são admi- nistrados, ou decompostos, experimentando reacções donde re- sulte o desprendimento daquelle acido, por cuja conta correm todos os effeitos. Cumpre, porém, desde já estabelecer que, si todos os venenos cyanicos, que são também os medicamentos desse nome, são compostos cyanicos, porque se caracterisam pela presença con- stante do radical cyanogeno (C Az), nem todos os compostos cyanicos são venenos ou medicamentos cyanicos, porque não operam nem pelo radical de sua composição, nem por productos de sua decomposição. Com effeito, alguns ha que são reputados inoffensivos, em vista de experiencias a que se tem procedido ; são, por exemplo, os cyanatos, que, na qualidade de saes oxyge- nados de acido orgânico, naturalmente transformam-se dentro da economia em carbonatos das respectivas bases, perdendo assim a sua primitiva propriedade deleteria ; outros, em virtude de uma constituição chimica especial, quando puros, são comple- tamente inoffensivos e gozam, em*dóse elevada, deacção purga- tiva : são os ferro e ferri-cyanuretos (prussiatos amarello e vermelho), não fallando no azul da Prussia e no de Turnbull, cuja insolubilidade concorre com aquella circumstancia para a sua inocuidade, e por si bastaria para tornal-os inertes. Chan- dellon nesse numero certos cyanuretos, taes como os de ouro, nickel, cobalto, chromo e palladio, que são indecom- poniveis pelos ácidos diluidos. Dentre os que gozam de propriedades toxicas, nem todos se comportam verdadeiramente como o acido cyanhydrico ; assim por exemplo, o cyanureto de mercúrio, que só actua como um veneno cyanico, neuro-hematico globular, quando é dado em VENENOS NEURO-HEMATICOS 379 dóse massiça, mas obra como um veneno mercurial lento, neuro-hematico mais propriamente plasmico, si é em dóses pe- quenas e repetidas. Os sulphocyanatos alcalinos obram sempre como venenos myoticos(musculares), mais pela base potassica, do que pelo acido sulpho-cyanico, que, segundo Chandellon, parece pouco venenoso. Estabelecidos estes principios, passo a tratar do envenena- mento pelo acido cyanhydrico, que abrange também os produ- zidos pelos cyanuretos simples e duplos, solúveis, excepto os do radical cyano-ferro, bem como pelos preparados pharmaceu- ticos de louro cereja, de amêndoas amargas, de pecegueiro e finalmente talvez pela nossa agua de mandioca. 1 Quasi todos os envenenamentos conhecidos por estas substancias teem sido accidentaes ; pertencem a este numero os factos citados por Tardieu : Io, de Scheele, que se diz ter sido victima da inhalação de vapores cyanicos, em uma das suas preparações chimicas ; 2o, de um estudante de medicina, que escapou de ter a mesma sorte, por se ter demorado n’um compar- timento onde se preparava acido cyanhydrico ; 3o,de sete epilé- pticos, que succumbiram em Bicètre, em 1829, aos effeitos de um xarope de acido cyanhydrico mal dosado ; e 4o, finalmente, de um photographo que esteve quasi á morte por uma dupla imprudência: querendo tirar uma nodoa que lhe tinha deixado 1 Digo talvez, porquanto em negar que esta agua contenha acido prus- sico, todavia a analyse feita pelo Dr. Theodoro Peckolt sobre ella, não accusou mais do que traços ou uma quantidade pequenissima, insuiiiciente para explicar a actividade e energia toxica desse liquido. Nelíe descobriu o mesmo chimico outro principio toxico volátil, a que attribue principal mente aquella fatal propriedade; provavelmente o mesmo encontrado por O. Henry e Boutron Chalard, e que no começo elles julgaram ser o acido cyanhydrico, conforme se lê em Fonssagrives (Tratado de matéria medica). Gubler nos seus Commentarios therapeuticos diz também que a raiz de mandioca no estado fresco encerra dous principios de acção toxica violenta, entre autre de l'acide cyanhydrique. Tudo isto mostra que é sem fundamento a opinião, aliás autorizada, de Dragendorff, de que a agua de mandioca contém notável quantidade de acido prussico. Esta agua, pela acção do calor, como pela fermentação, perde esses prin- cipios toxicos, transformando-se em um liquido sem propriedades deleterias, conhecido pelo nome de manipueira, e ultimamente muito preconizado como remedio heroico contra a hydropesia. 380 ACIDO PRUSSICO nos dedos o nitrato de prata, esfregou-os com cyanureto de potássio, ficando retida pelas unhas uma pequena quantidade, que produziu os primeiros phenomenos do envenenamento, entre os quaes uma dor viva, que chamou sua attenção para a causa do mal; procurando desembaraçar-se mais rapidamente do veneno, teve a infeliz idéa de lavar os dedos com vinagre, que, decom- pondo o cyanureto, e pondo em liberdade o acido cyanhydrico, aggravou mais as suas condições, pela maior facilidade de absorpção e maior rapidez da acção deste corpo. Em certos paizes, na Allemanha e na Áustria por exemplo, o cyanureto de potássio tem sido frequentemente empregado como meio de suicídio. Uma estatística de Lesser, em 1883, menciona 73 casos desta natureza. Na Inglaterra, diz Taylor, que nos annos de 1837 a 1838 contaram-se 27 casos de suicídios com venenos cyanicos. Em França os factos registrados são em muito menor numero ; os dous últimos relativos a esses enve- nenamentos e occorridos em Lyon, fizeram o objecto de um interessante folheto publicado por Lacassagne e Hougounenk, em 1888. O acido cyanhydrico é um dos venenos mais subtis e violen- tos que se conhece ; costuma-se mesmo apontal-o como o typo dos venenos, o mais activo de todos. Entretanto, alguns toxico- logistas acreditam que a nicotina, a cicutina e mesmo a aconitina crystallizada lhe são comparáveis nesta fatal proprie- dade. O acido prussico anhydrico mata um adulto na dóse de 75 milligramm., segundo Hussemann, e na de 50 milligramm., segundo Tardieu. A essencia de amêndoas amargas impura encerra 8 a 14 % de acido prussico, de sorte que para Van Hasselt ella determina accidentes mortaes na dóse de 1 a2drachmas(3,9 a 7,8 gram.) A agua de louro-cereja da pharmacopéa hollandeza, que contém 0,839 por mil de acido prussico, já causou a morte na dóse de 60 a 90 gram. Na opinião de Taylor, 20 gram. de amêndoas amargas VENENOS NEURO-HEMATICOS 381 representam uma dóse mortal, porque ellas podem produzir por fermentação 0,24 ou 0,35 % (segundo Geiger) de acido prus- sico. 12 centigr. decyanureto de potássio puro constituem uma dóse mortal, porque correspondem a 5 centigr. de acido anhy- dro ; o cyanureto do commercio é muito menos activo por causa das impurezas que encerra em proporções variaveis. Symptomas; signaes clínicos Dous casos se apresentam, conforme a dóse tem sido de uma só vez sufficiente para produzir bruscamente phenomenos agudos e terminação rapida pela morte, ou conforme as dóses teem sido fracas e repetidas, occasionando um envenenamento de marcha lenta, cuja terminação póde ser pela cura. No primeiro caso, o individuo cahe ás vezes como si fosse acommettido de um violento ataque epiléptico, entrando, apoz um grito (a que os inglezes ligam um valor pathognomico especial), em convulsões horriveis, que cessam com a morte no fim de alguns minutos. Foi por isso que Pereira denominou o acido cyanhydrico venenum epileptifaciens. Outras vezes a morte sobrevem, sem um grito, sem uma palavra articulada, principalmente por occasião da inspiração larga de vapores cya- nicos e da injecção intra-venosa de algum destes compostos. Outras vezes, finalmente, sobretudo si a marcha é menos aguda, a circulação torna-se irregular, o pulso a principio accelerado, depois torna-se deprimido, pequeno e fugitivo; a respiração é laboriosa, com esta particularidade, que a inspiração éconvuF siva (saccadèe), e a inspiração lenta, mas igual. A face fria, túrgida e livida ou pallida, os olhos salientes e brilhantes, ainda até algum tempo depois da morte, a pupilla dilatada, jmmovel, os queixos cerrados, a boca com espuma sanguino- lenta ; por fim, um suor frio banha o corpo todo e a vida ex- tingue-se. 382 ACIDO PRUSSICO No segundo caso, manifestam-se nauseas, anciedade, oppressão no peito, palpitações, cephalalgia, mais tarde appa- recem os mesmos phenomenosjá indicados, porém em menor escala (gritos, convulsões, espuma na boca, olhos brilhantes, etc.); sobrevem depois demora da circulação e da respiração, insensibilidade, relaxação muscular, resfriamento e morte no meio da calma e um profundo anniquilamento de forças. Quando a terminação é favoravel, nota-se uma remissão gra- dual dos symptomas. Lesões anatomo-pathologicas; signaes necroscopicos No envenenamento pelo acido cyanhydrico os cadaveres apresentam uma rigidez muito pronunciada e mais prolongada ; sómente a respeito da epoca da putrefacção variam as opiniões: mais rapida segundo Orfila, mais retardada segundo Rabu- teau, Taylor e Dragendorff. A pelle e unhas ficam lividas, os dedos contrahidos, a face intumescida, os queixos cerrados, os olhos conservam-se brilhantes, e a pupilla dilatada. Pela autopsia sente-se que todos os orgãos internos exhalam cheiro mais ou menos activo de acido cyanhydrico, que chega a pro- duzir tonturas de cabeça. O estomago e intestinos apresentam placas vermelhas, disseminadas, devidas a infiltrações sanguí- neas ; nos outros orgãos (pulmões, fígado, rins, etc.), até mesmo nocerebro, medulla e suas membranas, notam-se hyperhemias, congestões sanguíneas mais ou menos intensas. O coração é flaccido, o sangue mais difluente ou ao contrario mais espesso, porém não coagulado, e, segundo Hufeland, de uma côr azul ferrete rutilante. Ralph diz mesmo ter observado pequeninas massas azues, constituídas por azul da Prussia. Nos dous factos observados por Lacassagne e Hougounenk, que fizeram objecto do folheto já citado, relativamente a dous indivíduos que succumbiram victimas do cyanureto de potássio, foram assignaladas algumas eircumstancias dignas de interesse VENENOS NEURO-HEM ÁTICOS 383 e menção. Assim, por exemplo, a solução diluida de sangue apresentou ao espectroscopio as fachas de absorpção da hemo- globina normal e não da cyanhemoglobina, e o exame chimico não revelou nesta amostra de sangue a presença daquelle cyanureto. Outro facto importante e de grande alcance pratico, pela con- fusão que póde trazer na apreciação dos dados necroscopicos, é o cheiro franco de ammonia, encontrado no conteúdo do duodeno e dos intestinos delgados, devido, segundo aquelles autores, à decomposição do cyanureto ou antes do cyanato de potássio pelos suecos alcalinos desta parte do tubo digestivo 1 ; notan- do-se que mesmo no conteúdo do estomago, sobretudo junto do pyloro, sente-se também cheiro ammoniacal (comquanto a reacção ahi não seja mais a mesma, pela natureza acida do respectivo sueco), por causa da volatilidade do alcali, que natu- ralmente sobe e diífunde-se nessa cavidade. Dahi os signaes de irritação ou mesmo inflammação mais ou menos viva da mucosa gastro-intestinal, com amollecimento da mesma, erosões, etc., encontrados nas duas autopsias a que se referem as observações supracitadas. Mecanismo da acção toxica Diversas theorias teem sido imaginadas para explicar os effeitos toxicos e a morte pelo acido cyanhydrico, sobretudo a rapidez e promptidão com que ella póde sobrevir nos casos ful- minantes ; chegando-se por isso a acreditar que elle matava i 0 cyanureto do commercio contém sempre, é verdade, uma proporção variavel de cyanato, mas não sei por que fazem Lacassagne e Hongounenk intervir o sueco alcalino na reacção deste ultimo, quando a transformação do cyanato de potássio em carbonato de potássio e ammonia se efteciua pela simples acção da agua ou do ar húmido ; e nem é forçosamente preciso que a ammonea prove iha só do cyanato, que acompanha de ordinário o cyanureto, por oxydação deste corpo, quando se sabe que o mesmo cyanureto, decom- pondo-se íentamente ao contacto doar por parte de seu g az carbonico, des- prende o acido cyanhydrico, que por sua vez decompõe-se produzindo a am- monea. 384 ACIDO PRUSSICO antes de ser absorvido. Porém Krimer e Preger demonstraram que decorre sempre tempo sufficiente (15 segundos em média) para permittir ao sangue fazer a volta completa do organismo. As principaes theorias referem-se à acção exercida pelo acido cyanhydrico sobre o sangue, e entre outros experimen- tadores, Lecorchè e Meuriot, Hoppe Seyler e Schõnbein, Claude Bernard, Rabuteau e Prehyer admittiram e demonstraram a formação de uma combinação deste acido com a hemoglobina, oxygenada ou não, sem ou com metamorphose prévia. Assim, por exemplo, este ultimo admitte a transformação da hemo- globina em hematina, sob a influencia daquelle acido, com o qual se combina ; funda-se para isso nos resultados da analyse espectral, porquanto os caracteres espectroscopicos desta com- binação são inteiramente idênticos áquelles que se teem obser- vado com o producto obtido directamente, fazendo reagir o acido cyanhydrico sobre uma solução alcalina de hematina. A outra theoria pertence a Rabuteau, o qual, baseando-se sobre novas experiencias, acredita que o acido cyanhydrico se une á hemoglobina oxygenada, sem alteração prévia, formando um composto mal definido, que se comporta ao espectroscopio do mesmo modo que a homoglobina reduzida i. Rabuteau confirma todavia que a acção deste veneno terrivel sobre aquelle prin- cipio do sangue não é tão bem conhecida como a que sobre elle exercem outros venenos da mesma classe e grupo ;por exemplo: o oxydo de carbono. Seja como for, qualquer destas theorias é 1 Esta theoria é baseada sobre experiencias feitas com o acido cyanhy- drico e o sangue desfibrinado, em temperatura de 35° a 40°. Operando-se, porém, em condições diversas e especiaes, como fez por exemplo Cl. Bernard, empregando temperatura sufficientemente baixa, obtem-se uma combinação estável, crystallizando sob a mesma fórma que a hemoglobina oxygenada, e cujo espectro é inteiramente semelhante ao desta ultima. Verificou mais este physiologista que o sangue venoso agitado com acido prussico conservava sua côr escura quando era sublrahido á influencia do ar; mas agifada esia mis- tura em contacto com o ar, ou antes com oxygenopuro, adquiria uma côr ver- melha persistente: facto que até aqui só havia sido bem observado pela acção do oxydo de carbono. Entretanto em um dos sete epilépticos de Bicêtre, que foi sangrado, Murat verificou que o sangue era negro e muito fluido, contra o resultado dessa experiencia de Cl. Bernard, e como bem faz notar Fonssagrives a pretendida rutilancia do sangue pelo acido cyanhydrico é antes um facto de laboratorio do que um facto de clinica. VENENOS NE URO-II EM ÁTICOS 385 igualmente admissível, e explica a perturbação profunda da hematose que, segundo Gaetgens, se traduz por absorpção do oxygeno e exhalação de gaz carbonico, em menor escala ; donde resulta a cor mais rubra do sangue venoso, a demora das com- bustões, o abaixamento da temperatura, cephalalgia, vertigens e o collapso. 1 Além desta acção especial sobre o sangue, o acido cyan- hydrico actua também sobre o systema nervoso, diminuindo ou mesmo abolindo a sensibilidade e a contractibilidade, como é facil de verificar expondo os dedos por algum tempo aos va- pores do acido cyanhydrico, ou tocando com elles a planta denominada sensitiva (mimosa sensitiva); esta perde a pro- priedade curiosa pela qual é conhecida, e os dedos ficam en- torpecidos. 2 Diagnostico differencial Poucas moléstias e poucos envenenamentos podem simular o envenenamento pelo acido cyanhydrico. Entre as primeiras é a epilepsia, ou antes o ataque epilé- ptico, que mais de perlo se assemelha ; distingue-se, porém, pelas mesmas convulsões, que na moléstia trazem um cunho e certos traços particulares caracteristicos ; são a principio to- nicas, logo depois clonicas, mais accentuadas num lado do corpo do que no outro ; donde a tortura da face, que, com o reviramento dos olhos, o dicrotismo do pulso, a perda absoluta dos sentidos, etc., completam o quadro differencial. 1 E’menos satistactoria a theoria de Gublar; para elle «o acido prussico embaraçando ou impedindo a hematose por sua acção catalytica e toxica sobre as hematias, supprirne a influencia viviíicante do systema nervoso e suspende instantaneamente o jogo de todas as grandes funcções » (!?) O que isto quer dizer é dirticil de penetrar. 2 Na memória, publicada por Lacassagne e Hougounenck, lê-se que estes autores não acceitam a theoria hemadca. que julgam insufficiente e obscura para explicar o mecanismo da morte pelo acido prussico. « Certos autores, dizem elles, teem visto no acido prussico um veneno do systema nervoso central e particularmente do bulbo ; a promptidão dos efleitos toxicos pareceria justificar este modo de ver. Porém até prova do contrario e deante doseffeitos toxicos que esse acido exerce sobre todas as ceilulas vivas, qual- quer que seja o gráo de sua organização, é melhor consideral-o um veneno de todos os tecidos indistinctamente, mas sobretudo da cellula nervosa.» TOXicoLoau 25 386 ACIDO PRUSSICO 0 ataque apoplectico cerebral assemelha-se â fórma ful- minante do envenenamento cyanico, e já foi motivo de uma confusão deplorável no processo Pralet, em França. Neste, o derramamento mais limitado e circumscripto não tem os cara- cteres dos fócos da hemorrhagia cerebral, a qual, além disso, acompanha-se de hemiplegia, quenaquelle não se observa. Quanto á apoplexia meningéa, mais commum na morte por alcoolismo agudo, aindaé mais difficil de distinguir; mas neste caso a morte é muito menos rapida, a respiração não é sus- pensa, e sim sómente embaraçada e estertorosa. Falta emfim a rigidez cadavérica persistente, mais própria do envenenamento pelo acido prussico, e o cheiro particular deste corpo, que é substituído pelo do álcool. Entre os venenos é a strychnina que produz effeitos mais semelhantes aos do acido cyanhydrico, mas ainda aqui a distincção é facil, visto como no primeiro caso nota-se uma ver- dadeira rijeza tetanica, com abalos geraes do corpo, remissão franca de tempos a tempos separando os paroxysmos, marcha e duração mais longa, etc. Também o envenenamento pelo opio apresenta alguns traços de analogia, todavia não tem o caracter fulminante e a terminação rapida da intoxicação cyanica. As convulsões só apparecem no ultimo periodo, e notam-se algumas vezes remi- niscências que não se observam neste envenenamento. Emfim a nicotina, a cicutina e mesmo a aconitina podem matar tão rapidamente como o acido cyanhydrico ; para as duas primeiras tem grande valor pratico o cheiro especial dos orgãos do cadaver, e em todo caso á analyse chimica compete dissipar todas as duvidas. Tratamento Varia conforme o modo de administração do veneno: pri- meiro, quando o acido cyanhydrico tem sido absorvido pelas VENENOS NEURO-HEMATICOS 387 vias respiratórias urge combater os seus effeitos pela inhalação de gazes ou vapores capazes de os neutralizar. E’ assim que Thenard e CL Bernard propoem o emprego do chloro, da ammonea e do ether : o chloro, com o fim de de- compor o acido cyanhydrico, não se podendo, porém, confiar no resultado desta pratica, visto como o cyanogeno posto em liber- dade é tão toxico como elle ; a ammonea, com o fim de neutra- lizar aquelle acido, o que também nada adianta, porquanto o cyanhydrato ou cyanureto formado é tão perigoso como o acido cyanhydrico livre ; o ether, finalmente, cujo emprego é mais racional, porque retarda a circulação e demora a absorpção ; não é todavia um verdadeiro antagonista, pois que apenas pôde oppôr-se aos gritos, ás convulsões, mas não impede a morte produzida pelo acido cyanhydrico. Rognetta aconselha o uso dos alcoolicos, que realmente podem aproveitar, já estimulando o organismo, já facilitando a eliminação do veneno pelas urinas e pela transpiração. Além disso, fricções seccas' ou com álcool camphorado, sinapismos, aspersões frias sobre o rosto, e, melhor do que ellas, as duchas frias sobre a cabeça e a espinha dorsal com o resto do corpo immerso em um banho quente, são de grande van- tagem. O meio, porém, maisenergico consistiria incontestavel- mente nas inhalações de oxygeno, afim de restabelecer a compo- sição normal do sangue e portanto a hematose, si fossem de applicação momentânea, facil e prompta; para substituil-as lança-se mão dos processos da respiração artificial mecanica. O segundo caso é aquelle em que o composto cyanico tem sido ingerido. Deve-se o mais depressa possivel provocar os vomitos, ou praticar a lavagem do estomago com a bomba gastrica, e immediatamente depois administrar os antidotos ; para isso tem-se recommendado a solução de chloro ou de um hypochlorito (agua de Labarraque), até mesmo a de nitrato de prata, que é um meio perigoso e inconveniente. Porém os melhores recursos, comquanto sejam todos nestas condições 388 ACIDO PRUSSICO muito infleis, são : o peroxydo ou o sulfureto de ferro hydra- tado, que forma o cyanureto de ferro, insolúvel; a mistura acon- selhada por Smith, composta de carbonato de sodio e sulfato ferroso, com o fim de obter a formação de um ferro-cyanureto alcalino, solúvel, porém sem acçâo toxica ; segundo Nothnagel e Rossbach, a magnesia, o álcool camphoradoe a belladona, ou melhor, segundo Preyher, a injecção hypodermica de atropina, até agora reputado o antagonista mais seguro deste veneno, na opinião de Gubler. Ella pòde ser substituida pelos seus syner- gicos, a hyoscyamina ou duboisina. Todas estas applicações não excluem, nem dispensam o em- prego dos outros meios geraes acima indicados : os alcoolicos, os opiáceos, asduchas, o banho á dupla temperatura e a respi- ração artificial, em falta da inhalação de oxygeno. Pasquiza toxicologica ; signaes chimicos Para que esta pesquiza seja bem succedida é preciso que o exame das vísceras não se faça demorar muito, sobretudo tra- tando-se do acido cyannydrico livre, tão facil de desapparecer, pela sua instabilidade e volatilidade. Quanto aos cyanuretos metallicos, que resistem mais á putrefacção, podem ser encon- trados ainda depois de alguns dias. Assim Dragendoríf diz ter retirado acido prussico do cadaver de um indivíduo envenenado pelo cyanureto de potássio, e exhumado oito dias depois da morte ; em outra occasião conseguiu isolar aquelle acido, do estomago de um cão envenenado com o mesmo toxico, e cujo cadaver havia sido conservado no laboratorio quatro mezes. Finalmente, Brame reconheceu o dito acido em corpos de cães o gatos envenenados com cyanuretos diversos, e inhumados durante um mez (Chandellon). Eis como se procede nesta pesquiza. Toma-se o conteúdo do estomago e das primeiras vias, porções de alguns orgãos ricos de sangue, que se divide em VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 389 pequenos fragmentos, o proprio sangue, a urina, etc. ; mistu- ra-se bem estas matérias, a favor de um pouco d’agua, si não houver liquido sufficiente. Acidula-se levemente com acido sulfurico, ou melhor com acido tartarico ou phosphorico, e distilla-se em uma retorta de vidro, communicando por meio do refrigerante de Liebig com um balão recipiente ; aque- ce-se a retorta em um banho de chlorureto de cálcio, não exce- dendo, porém, a temperatura de 110°, e recolhe-se os productos distillados, fraccionadamente, afim de submettel-os aos respe- ctivos ensaios. Póde-se, porém, fixar immediatamente o acido cyanhydrico distillado, livre ou no estado de cyanureto volátil, fazendo-o chegar a uma solução de nitrato de prata existente num frasco, provete ou apparelho de bolas de Liebig ; ahi se precipita o cyanureto de prata, que se separa pelo filtro, e se submette aos ensaios comprobativos de sua natureza. Póde-se, finalmente, o que é melhor, dividir a operação e recolher os productos que distillam, parte num estado, parte no outro. Segundo o Dr. Souza Lopes, no emprego do nitrato de prata ha uma causa de erro ainda não conhecida: « Verificámos, diz elle, que uma solução de nitrato de prata dissolve um pouco de cyanureto de prata ; que uma solução de nitrato de prata, agitada com cyanureto de prata e depois filtrada, precipitada a prata por um excesso de chlorureto de sodio e de novo filtrada, dá pelos reactivos convenientes a reacção do azul da Prussia. « Por conseguinte, si usarmos da solução de nitrato de prata, os vapores de acido cyanhydrico podem ser em quantidade tão pequena que todo o cyanureto de prata formado se dissolva á custa do azotado de prata restante, e o chimico legista, julgando pela ausência de precipitado, será levado a erro, acreditando na ausência do acido cyanhydrico, cujos vestigios passarão assim despercebidos. « Descobrimos um meio para evitar essa causa de erro : basta substituirmos o azotato de prata pelo azotato de prata 390 ACIDO PRUSSICO ammoniacal, cuja solução é precipitada pelos mais ligeiros vesti- gios de acido cyanhydrico, visto o cyanureto de prata não ser solúvel no azotato de prata ammoniacal. « Mas é absolutamente necessário que o azotato de prata ammoniacal não contenha o menor excesso de ammonea, que recuse dissolver, de todo, o oxydo de prata. » E’ preciso, entretanto, não concluir nestes casos sómente pela formação do precipitado, porque muitas vezes elle appa- rece, ou pelo menos turva-se sensivelmente o liquido, na ausência de qualquer composto cyanico. O corpo branco que ou se deposita ou fica em suspensão reconhece-se facilmente ser o chlorureto de prata, devido quer ao acido chlorhydrico do sueco gástrico, si as paredes ou o conteúdo do estomago fazem parte das matérias a analysar, quer principalmente ao resul- tante da decomposição dos chloruretos alcalinos do sangue, urina e outros líquidos da economia, sob a influencia do acido sulfurico addicionado áquellas matérias. E por que se ajunta o acido sulphurico ou outro qualquer ? Porque sem a sua presença sómente passariam á distillação o acido cyanhydrico ou o cyanureto de ammonio volátil, e nahy- pothese de um envenenamento pelo cyanureto de potássio, que é fixo e resiste ás mais altas temperaturas, este não seria accusado, ficaria na retorta não decomposto, salvo uma pe- queníssima quantidade, que poderia ser atacada pelo acido natural do estomago ou das substancias alimentares, e fornecer á distillação traços de acido cyanhydrico. Justamente para determinar a natureza do producto cyanico ingerido, Rabuteau aconselha proceder a esta operação em dous tempos : no Io sem acido estranho, e no 2o com um pouco de acido, de pre- ferencia o chlorhydrico, afim de comprehender também o caso do cyanureto de mercúrio, que, como se sabe, é indifferente ao acido sulfurico e aos oxy-acidos em geral. Occorre, porém, mais de umaobjecção contra o emprego dos ácidos mineraes, principalmento o sulfurico, na pesquiza do VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 391 acido prussico,e vem a ser: 1°, que elles podem levar mais longe a sua acção e decompôr também algum cyanureto de radical cyano-ferro, que não é toxico, e que poderia ter sido adminis- trado com um fim therapeutico, ou mesmo ingerido na per- suasão de ser um veneno, sem que entretanto tenha sido a causa da morte; 2o, em certas condições de temperatura e gráo de diluição elles exercem sobre o acido cyanhydrico acção hy- dratante, donde resulta a formação de um producto inteiramente diverso e inoffensivo, o formiato de aminonio, circumstancia esta que ainda não vi lembrada por nenhum toxicologista. O meio de evitar estas causas de erro consiste em ensaiar directamente no liquido filtrado proveniente do estomago, ou melhor na urina, si se a tem á disposição, a acção de um proto- sal e de um persal de ferro separadamente, afim de reconhecer a existência de um ferri-ou ferro-cyanureto de potássio, em qualquer dos casos pela producção de um precipitado de azul de Turnbull ou de azul da Prussia. Póde-se também proceder immediatamente, sem aquelle ensaio prévio, á distillação em condições especiaes. E’assim que Taylor recommenda operar em uma temperatura muito baixa, acidulando as matérias muito fracarnente com acido tartarico, o que de todo não deixa de ter inconveniente, porque este acido também decompõe parcialmente o cyanureto ama- rello, mesmo nestas condições desfavoráveis. Põllnitz aconselha estabelecer a reacçâo do azul da Prussia dentro mesmo da retorta e antes da distillação, ajuntando o perchlorureto de ferro, depois um pouco de potassa, e por fim uma pequena quantidade de acido tartarico. Este recurso porém não aproveita, segundo Dragendorff, sinão quando se tem o cuidado de separar completamente pelo filtro todo o azul da Prussia formado ; do contrario passa sempre um pouco de acido cyanhydrico. Ainda assim corre-se o risco de trans- formar em azul da Prussia não só o ferro-cyanureto, mas o proprio cyanureto simples de potássio. 392 ACIDO PRUSSICO Dragendorff propõe outro meio, que é apenas uma modifica- ção do processo de Põllnitz, sem vantagens reaes sobre elle. Depois de acidular brandamente a matéria, ajunta-se uma so- lução neutra de perchlorureto de ferro, filtra-se e distilla-se na presença de um excesso de tartrato neutro de cálcio. Segundo aquelle autor, separa-se facilmente o acido cyanhydrico do ferro-cyanureto fazendo passar uma corrente de ar atravez das matérias suspeitas, mesmo a frio, recebendo os productos acar- retados, em um tubo de bolas de Liebig, contendo uma solução alcalina, onde é fixado o acido cyanhydrico, e depois revelado pelos seus caracteres neste estado. A critica destes e outros processos de pesquiza do acido cyanhydrico foi a meu ver magistralmente feita pelo Dr. Souza Lopes, adjunto da cadeira de medicina legal e toxicologia, em um interessante artigo publicado na Revista dos cursos theo- ricos e práticos da Faculdade (5o anno, Io semestre) ; e como, ao lado de sua justa apreciação, elle offerece c propõe modifica- ções importantes para o bom exito desta pesquiza, dou aqui a palavra ao distincto collega. Eis como elle se exprime: « Este processo (refere-se ao que elle denomina de Põllnitz- Dragendorff) apresenta dous inconvenientes; só serve para o caso particular do prussiato amarello, si substituirmos o per- chlorureto de ferro pelo sulfato ferroso ; não serve porém para o caso de coexistir com os cyanuretos toxicos o sulfo- cyanato que, segundo o proprio Dragendorff e contra expe- riências nossas, produz acido cyanhydrico quando distillado em presença do acido tartarico. Além desse inconveniente, existe outro mais grave. Neste processo o acido ferro- cyanhydrico é posto em liberdade, embora durante uma phase bastante curta, sendo esse acido muito alteravel, capaz em presença do ar atmospherico e de outros corpos oxygenados de- se transformar em azul da Prussia com producção de acido, cyanhydrico. Por esse motivo este processo nas mãos de um VENENOS NEURO-HEM ÁTICOS 393 chimico legista pouco exercitado póde induzir a erro, fazendo acreditar na presença de cyanuretos toxicos, quando existirem sómente cyanuretos não toxicos. Para admittirmos essa hy- pothese, basta a seguinte experiencia : Dissolvémos um pouco de ferro-cyanureto de potássio puro em agua potável, acidu- lámos ligeiramente com acido sulfurico; alguns instantes depois a solução começou a apresentar uma cor esverdinhada, que indicava decomposição do acido ferro-cyanhydrico pelo ar. Pelo perchlorureto de ferro precipitámos todo o acido ferro- cyanhydrico, separámos o azul da Prussia pelo filtro, alcali- nizámos pela ammonia em excesso o liquido filtrado, juntámos sulfato ferroso-ferrico e acidulámos pelo acido chlorhydrico ; nova porção de azul da Prussia formou-se, a qual foi sepa- rada pelo repouso e pelo filtro. Esta nova porção de azul da Prussia indica a presença de acido cyanhydrico, que não podia provir sinão da alteração experimentada pelo acido ferro-cyan- hydrico livre. Esta experiencia demonstra os grandes cui- dados que o chimico legista deve ter para evitar a facil oxydação do acido ferro-cyanhydrico; a agua empregada deve sempre não ser arejada, deve ser agua distillada, os líquidos contidos no estomago também devem ser aquecidos, afim de expellir-se o ar que possa conter. Um chimico pouco habil, pois, poderia facilmente ser levado a erro ; por conseguinte só aconselha- ríamos este processo si não houvesse outro sem o mesmo incon- veniente. « O processo de Otto consiste emacidularo liquido suspeito, neutralizal-o em seguida pelo carbonato de cálcio em excesso e distillal-o. Este processo também apresenta dous inconve- nientes : um delles consiste também em pôr o acido ferro- cyanhydrico em liberdade; por conseguinte, está sujeito á mesma censura que fizemos ao processo de Pollnitz-Dragen- dorff. O outro inconveniente, por ser commum ao processo de Jacquemin, guardaremos para discutil-o em seguida, na critica deste processo. 394 ACIDO PRUSSICO « 0 processo de Jacquemin consiste em decompôr os cya- nuretos toxicos por uma corrente de acido carbonico, que não tem a mesma acção sobre o ferro-cyanureto. Este processo é actualmente o preferido pelos autores. « Elle também apresenta dous inconvenientes, um dos quaes se verifica pela seguinte experiencia, que passamos a de- screver: Fizemos atravessar uma corrente de acido carbonico por uma solução de ferro-cyanureto de potássio, aquecida a 50°. O ferro-cyanureto estava chimicamente puro ; o acido carbonico, obtido pela reacção do acido chio rhy d rico sobre már- more, era lavado em um frasco de Woulf, cheio até ao meio de uma solução forte de carbonato de sodio ; depois de atra- vessar essa solução, era dirigido para um vaso deseccador cheio de fragmentos de mármore, desse vaso era conduzido para um balão aquecido a 50°, contendo a solução de ferro- cyanureto ; depois de passar por esta solução o gaz carbonico atravessava agua distillada que se achava em um calix. A experiencia funccionou durante duas horas sem se manifestar phenomeno algum importante. No fim desse tempo, porém, notámos que a solução de ferro-cyanureto começava a tur- var-se e a agua distillada começava a ter o cheiro de acido prussico. No fim de quatro horas a solução de ferro-cyanureto estava francamente alterada e a agua distillada do calix tratada pelos reactivos convenientes dava a reacção do azul da Prussia e a reacção do sulfo-cyanato ferrico, reacções que ca- racterisam a presença do acido cyanhydrico. « Para que não se pudesse attribuir a decomposição do ferro-cyanureto e formação do acido prussico aos vapores do acido chlorhydrico, que tivessem escapado à lavagem do carbonato de sodio e á acção dos fragmentos de mármore, substituímos a fonte productora de acido carbonico por outra, cujos ingredientes não fossem voláteis. Usámos da mistura do acido oxalicoe bicarbonato de sodio seccos, que introduzimos em um frasco bi-tubulado, e por um tubo de VENENOS NEURO-HEMATICOS 395 segurança era S introduzimos agua por pequenas porções. O acido carbonico assim obtido e depois de atravessar a solução de carbonato de sodio e os fragmentos de mármore continuou a alterar a solução de ferro-cyanureto no fim de duas horas com producção de acido cyanhydrico. « As nossas experiencias foram repetidas mais de uma vez, sempre com o mesmo resultado. « Acreditamos que si experimentadores affirmam que o acido carbonico não decompõe o ferro-cyanureto, é por não terem demorado com as experiencias o tempo necessário. O acido carbonico decompõe o ferro-cyanureto muito len- tamente, não é na primeira hora de contacto que a reacção começa ; é necessário esperar duas, tres, quatro e mesmo mais horas para verificar-se o facto. « Em virtude de nossa experiencia, uma vez que o gaz carbonico ataca o ferro-cyanureto de potássio, embora len- tamente, não nos póde inspirar confiança completa o processo de Jacquemin, sobretudo havendo necessidade de distillar-se demoradamente os liquidos suspeitos, já por ter de se operar em baixa temperatura, já por ter Socoloff verificado que o acido cyanhydrico não passa nas primeiras porções do liquido distillado, mas sim nas que vêm depois. « O outro inconveniente, que é comm-.m ao processo de Otto, constitue uma causa de erro ainda não cogitada pelos autores. « Por experiencias a que procedémos temos verificado que a solução neutra de ferro-cyanureto de potássio, distillada na temperatura de 50° a 60°, em presença da mistura de um sal ammoniacal e chlorureto de sodio, produz acido cyanhydrico, sob a fórma de cyanureto de ammonio volátil. Si o sal ammoniacal for o chlorhydrato, a mesma reacção se dá, sem necessitar a intervenção do chlorureto de sodio. « E’ mesmo desse modo que se prepara o cyanureto de ammonio. Este corpo, como já vimos, tem grande tendencia a formar-se, em virtude de sua grande volatilidade. 396 ACIDO PRUSSICO « A presença constante do chlorureto de sodio nos líquidos da nossa economia e o emprego therapeutico dos saes ammo- niacaes concorrem para que na pratica essa causa de erro possa se dar, e por conseguinte o chimico legista, em caso de pesquiza dos cyanuretos toxicos em presença dos não toxicos, deve não se esquecer delia e saber evital-a. Os processos de Otto e Jacquemin estão sujeitos a essa causa de erro. « A’ vista do que acabamos de expor, os principaes pro- cessos aconselhados pelos autores para pesquizar os cyanuretos toxicos em presença dos não toxicos, apresentam inconvenientes mais ou menos sérios. « Imaginamos o seguinte processo, que não apresenta os inconvenientes por nõs acima indicados : o liquido suspeito filtrado é collocado em um balão sem rolha, com cal hydratada em excesso e aquecido a 100° em banho-maria. A cal tem por fim decompor os saes ammoniacaes e pôr em liberdade a ammonia, que é expeliida pelo calor. « O aquecimento deve durar emquanto o liquido emittir vapores que azuleçam o papel vermelho de tournesol. Logo que não houver mais emissão de vapores ammoniacaes, devemos filtrar o liquido ainda quente e collocal-o em uma retorta com um excesso de bi-carbonato de sodio puro. « Aquece-se em seguida em banho-maria a 60°, re- colhendo-se o liquido distillado em um recipiente refrigerado. O bi-carbonato de sodio na temperatura de 60° decompõe os cyanuretos alcalinos, sem producção de acido carbonico, transformando-se em carbonato neutro, e pondo em liberdade o acido cyanhydrico. O bi-carbonato não exerce a menor acção sobre o ferro-cyanureto, si a temperatura for de 60° ; si ella, porém, subir a 70°, o bi-carbonato se decompõe e o acido carbonico produzido actuará sobre o ferro-cyanureto, embora lentamente . Por conseguinte é absolutamente ne- cessário conservar a temperatura entre 50° e 60°, não devendo nunca subir acima desta ultima. VENENOS NEURO-HEMÁTICOS 397 « Si o cyanureto toxico que co-existir com o ferro- cyanureto de potássio for o cyanureto de mercúrio, elle não será decomposto pelo bi-carbonato de sodio. Mas nessa hypothese, que ainda não foi lembrada pelos autores, os pro- cessos de Põllnitz-Dragendorff, o de Otto e o de Jacquemin não servem para pesquizar o acido cyanhydrico. « Para o nosso processo nessa hypothese dar bom re- sultado, basta, depois de ter verificado a ausência dos cyanuretos alcalinos, lançar dentro da retorta um pouco de sulfureto de sodio. Este corpo, que não tem acção sobre o ferro-cy anu reto de potássio, decompõe o cyanureto de mercúrio por dupla decomposição, produzindo sulfureto de mercúrio e cyanureto de sodio, que, encontrando o bi-carbonato de sodio, se decompõe por sua vez, deixando livre o acido cyanhydrico que distilla. « Esse nosso processo apresenta, pois, sobre os outros as seguintes vantagens : è de applicaçâo geral, isto é, serve para pesquizar os cyanuretos toxicos em presença de qualquer composto cyanico não toxico; não põe o acido ferro-cyanhy- drico em liberdade; ainda que a operação dure muitas horas, não produza menor quantidade de acido cyanhydrico em presença dos cyanuretos não toxicos; serve também para pesquizar o cyanureto de mercúrio em presença desses cyanuretos.» Os caracteres dos venenos cyanicos são : l.° Acido cyanhydrico (HCAz ou HCy): Quando anhydro, é um liquido sem cor, de cheiro caracte- ristico de amêndoas amargas ou de persevejo, e sabor muito amargo; solidifica-se a 15°, e ferve a 26,5 ; è inflammavel e arde com chamma violeta; menos denso do que a agua (0,6917), è muito solúvel nella e no álcool, dando uma reacção fraca- mente acida. Esta solução, na proporção de 1 parte de acido e 8,5 d’agua, constitue o chamado acido cyanhydrico medicinal. Altera-se cem extrema facilidade pela acção da luz, e len- 398 ACIDO PRUSSICO tamente, ainda mesmo guardada em vidros proprios, ao abrigo daquella influencia ; dessa decomposição resultam : ammonia, cyanureto e formiato de ammonio, que se desprendem pouco a pouco, deixando como resíduo um corpo escuro, ainda não bem definido, chamado paracyanogeno. Todavia, segundo Gautier, essa alteração é sempre devida a alguma substancia estranha : agua, ou traços de ammonia ; perfeitamente puro, por exemplo quando preparado com o cyanureto de prata, conserva-se indefinidamente. Em todo caso é certo que o acido cyanhy- drico conserva-se melhor em solução alcoolica, ou na presença de algumas gottas apenas de um acido mineral, do sulfurico por exemplo, que entretanto, como já disse, em certo gráo de diluição e temperatura, transforma o acido cyanhydrico em formiato de ammonio, por phenomeno de hydratação. 2.° Cyanureto de potássio (KCy): Muito usado pelos photographos e douradores, apresenta-se no commercio sob a fórma de massas amorphas, irregulares, e ás vezes de bastões ou cylindros ; em condições especiaes pôde crystallizar em fórma de cubos. E’ branco, muito solúvel n’agua, mesmo deliquescente e hygroscopico, dando um liquido de reacção alcalina, cheiro prussico e ao mesmo tempo ammo- niacal devido á alteração facil e rapida que experimenta ao contacto do ar, e donde resultam acido cyanhydrico e os pro- ductos de sua decomposição. O cyanureto de potássio anhydro é fixo; fóra do contacto do ar resiste ás mais altas tempera- turas; na presença delle, porém, converte-se em cyanato e altera-se profundamente si estiver hydratado, ao passo que mesmo anhydro decompõe-se com extrema facilidade sob a influencia dos ácidos os mais fracos, por exemplo o carbonico. As especies pharmaceuticas mais conhecidas que devem sua acção ao acido cyanhydrico, comquanto elle não preexista em sua composição, vêm a ser as seguintes: Amêndoas amargas: fructos ou antes sementes do fructo de uma rosacea (amygdalus communis, var. amara), que en- VENENOS NEURO-HEMATICOS 399 cerram um principio immediato orgânico azotado, fermentes- civel, chamado amygdalina; e outro não azotado chamado emulsina ou sinaptase, que é o fermento especial daquella. Seccos não exercem acção uma sobre a outra e acham-se por isso reunidas nas amêndoas amargas, como nas dos caroços de pecegos, etc.; em presença d’agua, porém, dá-se a reacção e a amygdalina decompõe-se fornecendo glycose, aldehyde benzoica (essencia de amêndoas amargas) e acido cyanhydrico. Nenhum daquelles dous principios goza de acção toxica iso- ladamente, não podendo, porém ser administrados juntos, nem ao mesmo tempo por vias differentes porque representam uma mistura toxigena, aliás podendo ser utilizada como uma pre- paração cyanica dentro dos limites e nas proporções deter- minadas por Wõhler. No commercio encontram-se muitas vezes amêndoas amargas misturadas com as doces, o que é um facto lamentável, visto como entregues estas ultimas ao consumo nas confeitarias, depois de revestidas de uma camada de matéria saccharina, sob a denominação simples de amên- doas, podem aquellas passar despercebidas, sobretudo das crianças que são ávidas e abusam de taes gulodices, e occa- sionar accidentes sérios de envenenamento. As amêndoas amargas, bem como as folhas de louro- cereja, fornecem por distillação uma agua muito usada em medicina, e que encerra, segundo Geiger, um por 100 de seu peso de acido cyanhydrico medicinal; pôde em grande dóse (60 grammas, por exemplo) provocar phenomenos de enve- nenamento . As folhas de pecegueiro estão provavelmente no mesmo caso. Quanto á agua de mandioca, já disse á pag.379o pouco que a este respeito se sabe. Dito isto, passo a indicar as reacções mais sensiveis do acido cyanhydrico e dos cyanuretos alcalinos; algumas se manifestam só com o acido livre, outras só com os cyanuretos, 400 ACIDO pRussico outras indifferentemente num estado ou noutro ; ainda mais, umas, as tres primeiras, são communs a outros corpos; as cinco ultimas exclusivas do acido cyanhydrico, o mais das vezes no estado de combinação: 1. a O proto-nitrato de mercúrio dá com o acido cyan- hydrico ou com um cyanureto alcalino um precipitado cinzento escuro ou mesmo preto, de mercúrio metallico ; é um effeito de reducção que também produz o acido formico a quente, etc. 2. a Uma solução de acido picrico ou carboazotico em contacto com um cyanureto alcalino, no fim de certo tempo, a frio ou rapidamente a quente (50 ou 60°), toma uma côr vermelha escura, vinhosa ; estareacção, que se attribue geral- mente a Dragendorff, e que elle diz pertencer a Braun, é commum com a que exercem outros corpos reductores, taes como os sulfuretos alcalinos. 3. a Algumas gottas de tintura de guaiaco recentemente preparada, ou pelo menos conservada ao abrigo da luz, e obtida em proporções convenientes (tres de resina para 100 de álcool), misturadas com uma ou duas gottas de solução de sulfato de cobre, dão uma côr azul mais ou menos intensa em contacto com o acido cyanhydrico livre. Para tornar mais clara a reacção è preciso : Io, addicionar um pouco de álcool, quanto baste para dissolver a resina precipitada pelo liquido aquoso, que por isso achava-se turvo, e quanto não chegue para precipitar por sua vez o sulfato de cobre, in- solúvel naquelle vehiculo; 2°, agitar a mistura com um pouco que dissolve o producto azul (?), separando-o do resto do liquido, e formando na parte inferior uma camada de pouca altura, mais fortemente colorida. Póde- se fazer o ensaio de outro modo : servindo-se de um papel previamente imbebido na solução dos dous reactivos, e que depois de secco suspende-se dentro do tubo ou frasco con- tendo a matéria suspeita, acidulada. VENENOS NEURO-HEMA TICOS 401 Esta reacção, attribuida por todos a Pagenstecher e Schõn- bein, Mohr atfirma ter sido conhecida e executada desde 1828 ou 1829 por um dos pharmaceuticos que trabalhavam com seu pae no laboratorio deste; também, assim como as duas reacções precedentes, não tem ella outro valor sinão de autorizar a exclusão de acido cyanhydrico quando o resultado for negativo, não se podendo concluir pela sua existência no caso contrario, porquanto é uma reacção commum a muitos outros corpos, a saber: ammonia, chloro, iodo, acido azotico e chromico, agua oxygenada, perchloruretode ferro, etc. 4. a Algumas gottas da solução de sulfato de cobre addi- cionadas ao liquido contendo um cyanureto alcalino, dão um precipitado branco, íloconoso, de cyanureto de cobre (reacção de Lassaigne). Si se tratar de acido cyanhydrico livre, é preciso ajuntar, segundo Chandellon, um pouco de acido sulphuroso ; geralmente porém addiciona-se uma so- lução de potassa ou de soda, até formar-se um ligeiro pre- cipitado de bioxydo de cobre, que depois se dissolve em um pequeno excesso de acido sulfurico ou azotico; em taes condições o cyanureto de cobre, insolúvel nestes dous ácidos, apparece sob a fôrma de flocos brancos, que lentamente se depositam (reacção de Lassaigne). 5. a Um sal mixto de ferro (no mínimo e no máximo, isto é, a mistura de um proto e um per sal de ferro) dà com o cyanu- reto alcalino um precipitado azul, chamado da Prussia ou de Berlin; sómente para maior clareza do resultado é necessário ajuntar algumas gottas de acido chlorhydrico, afim de dissolver a pequena quantidade de oxydos de ferro precipitados na, mesma occasião pelo alcali do cyanureto, e que mascaram a còr do pre- cipitado. Quando se tratar do acido cyanhydrico livre, então é preciso antes saturar por um alcali, e proceder depois como no primeiro caso. Ainda assim a cor azul do producto for- mado não se accentua franca no seio de um liquido em geral esverdinhado ; por isso recolhe-se o precipitado num filtro, e TOXICOLOOXA 26 402 ACIDO PRUSSICO ahi então reconhece-se á evidencia este caracter physico. Como não é indifferente sempre nas reacções a ordem em que se em- pregam os reactivos, para melhor successo deste ensaio Huse- man propõe tratar primeiramente o liquido suspeito por um sal ferroso e o alcali; depois ferver, acidular com acido chlorhy- drico, e ajuntar então o sal ferrico.1 Mohr aconselha de prefe- rencia ao sulfato de ferro commum, sempre acido, o sulfato duplo de ferro e ammonio, que se pôde obter perfeitamente neutro. 6. a O sulfureto de ammonio sulfurado, isto é, já amarei - lecido por um excesso de enxofre, evaporado juntamente com o liquido suspeito até quasi residuo secco, ou pelo menos até desapparecerem os vapores sulphydricos, e tornar-se o liquido claro, depois tratado por uma ou duas gottas de solução de per- chlorureto de ferro, produz uma cor vermelha de sangue, de- vida ao sulfocyanato de ferro que se forma. E’ conveniente, para facilitar a reacção, ajuntará mistura uma gotta de solução de soda segundo o conselho de Almen, ou melhor, de acido chlorhydrico segundo Dragendoríf e outros chimicos; mas sobretudo é indispensável expellir pelo calor o excesso do sulfureto alcalino, que ficando livre no liquido perturbaria os resultados, dando logar, em presença do persal de ferro, a um precipitado preto do sulfureto respectivo. Com aquella pre- caução, porém, a reacção torna-se extremamente delicada e sensivel e póde-se realizar com a maior clareza, operando sobre quantidades minimas, em um vidro de relogio. 7. a Ajunta-se ao liquido distillado algumas gottas de uma solução de nitrito de potássio, duas a tres gottas de perchlo- rureto de ferro e acido sulphurico, até dar uma côr amarella clara ; ferve-se, e depois do resfriamento ajunta-se ammonia e 1 Otto reprova esta maneira de proceder, porquanto obter-se-hia o oxydo ferroso-ferrico em estado crystallino e portanto dificilmente solúvel no acido chlorhydrico. Póde-se realizar este ensaio empregando sómente o sal ferroso, cujo oxydo, precipitado e redisssolvido a favor daquelle acido, origina o chlorureto fer- rico, que actuando sobre o prussiato amarello formado, produziria o azul da Prussia. VENENOS NEURO-HEMATICOS 403 filtra-se. Forma-se ahi o nitro-prussiato de potássio, que em presença do sulphureto de ammonio em solução fraca, toma uma bella cor violeta (reacção de Yortmann), cuja sensibilidade elle calcula que permitte reconhecer o acido prussico nas so- luções diluidas a llmm (!) (Chandellon). 8.a O nitrato de prata lançado na solução de um cyanureto alcalino forma um precipitado branco, muito semelhante ao de chlorureto de prata, isto é, floconoso, com o aspecto de leite coalhado, muito solúvel na ammonia e insolúvel no acido chlorhydrico, e mesmo no acido azotico a frio, porém solúvel neste ultimo acido concentrado e quente, no que já se distingue daquelle corpo. Ha porém outros caracteres positivos da natureza deste precipitado : Io, o cyanureto de prata, aquecido a secco em um tubo terminado em ponta fina, de- compõe-se em prata metallica que fica misturada a um residuo negro de paracyanureto de prata, e cyanogeno que se desprende ; este, sendo inflammado, arde com chamma purpurina caracteris- tica. (O chlorureto de prata, pela acção do calor funde-se, e torna-se pelo resfriamento em uma substancia cornea.) 2o, o cyanureto de prata em contacto com o proto-nitrato de mercúrio fica preto, para isto basta uma gotta deste reactivo le- vado na extremidade de um agitador, o que não se dá com o chlorureto. Por outro lado este fica rapidamente roxo escuro quando é exposto á influencia directa da luz solar, ao passo que o cyanureto ou conserva-se branco (Mohr), ou só no fim de muito tempo apresenta um leve colorido arroxeado, o que al- guns chimicos attribuem a traços de chlorureto misturado com o cyanureto1. 3o, aquecido levemente em um tubo es- treito, de mistura com uma pequenina quantidade de iodo, dá logar á producção de iodureto de cyanogeno, volátil, que crys- talliza e se deposita nas paredes do tubo em fórma de tenuís- simas agulhas brilhantes, melhor visíveis como auxilio de uma 1 Rabuteau não tem razão quando affirma que neste ensaio o cyanu- reto de prata se comporta exactamente como o chlorureto. 404 ACIDO PRUSSICO lente, e que se podem conservar indefinidamente como peça de convicção, porque são susceptiveis de reproduzir em todo o tempo o azul da Prussia, submettidas aos reactivos apro- priados. Este ensaio, engenhoso e dos mais delicados, devido a Ossian Henry filho e Umbert, recommenda-se pela facili- dade da execução. Segundo oDr. Souza Lopes, pode-se obter essas mesmas reacções, rapida e commodamente, de outro modo. Eis como elle se exprime: « Dissolvamos o cyanureto de prata na menor porção possivel de hyposulfito de sodio, juntemos em seguida sulfato ferroso e depois um ligeiro excesso de potassa ; agitemos a solução em contacto com o ar e juntemos então um excesso de acido chlorhydrico; o azul da Prussia formado deve ser sepa- rado immediatamente pelo filtro, não só porque a reacção adquire maior sensibilidade, como também para evitar que elle seja mascarado pelo sulfureto de prata, que se precipita no fim de algum tempo. A reacção do sulfo-cyanato ferrico se obtem tratando o cyanureto de prata por um excesso da solução diluida de sulfureto do ammonio, filtra-se para separar o sulfureto de prata, e o liquido filtrado evapora-se brandamente a banho-maria em uma capsula, até residuo quasi secco ; a esse residuo junta-se, de uma solução diluida de perchlorureto de ferro acidulada pelo acido chlorhydrico, quanto baste para manifestar-se a bella cor vermelha. « Também podemos com o cyanureto de prata obter a reacção de Lassaigne: basta dissolver o cyanureto argentico em hypo-sulfito de sodio, e juntar em seguida algumas gottas de uma solução de sulfato de cobre para apparecer um preci- pitado branco, que reconhecemos ser o cyanureto cuproso. « Ha uma reacção bastante sensivel, que póde servir para caracterisar o acido cyanhydrico, reacção que tem sido comple- tamente esquecida pelos autores. O acido cyanhydrico è facil- mente convertido em ferro-cyanureto de potássio, do qual o sulfato de cobre éum reactivo muito sensivel. Por conseguinte, VENENOS NEURO-HEMATICOS 405 basta tratar a solução de acido cyanhydrico por um pouco de sulfato ferroso, depois um excesso de potassa e tratar o liquido filtrado por uma solução de sulfato de cobre fortemente acidu- lada pelo acido acético, para apparecer o precipitado vinhoso de ferro-cyanureto de cobre, que caracterisa a existência do acido cyanhydrico. * Esta reacção é sobretudo de grande valor, pela facilidade com que ella póde ser unida á reacção do azul da Prussia, tornando-a ainda mais caracteristica. « Para fazer-se a união das duas reacções basta recolher-se em um filtro o precipitado de azul da Prussia e transformal-o pela solução de potassa em ferro-cyanureto de potássio, o liquido filtrado dá com a solução de sulfato de cobre, acidulada pelo acido acético, o precipitado vinhoso de ferro-cyanureto de cobre. Assim, por esta reacção, não só fica demonstrado que o liquido primitivo continha acido cyanhydrico, mas também que o precipitado azul era realmente o ferro-cyanureto ferrico, o azul da Prussia.» Quanto ao cyanureto de mercúrio, é um composto con- stituido á custa de aífinidades muito energicas, e que offerece um exemplo de estabilidade excepcional. Goza de propriedades singulares e por isso variam um pouco os meios deanalyse e re- conhecimento, e sua solução não precipita pelos alcalis (seja fixo ou volátil), nem pelo nitrato de prata, nem pelo iodureto de potássio, nem por um sal mixto de ferro. Este cyanureto não é decomposto pelos oxyacidos, mas sim pelos hydracidos, que, formando os respectivos saes haloides, poem em liberdade o acido cyanhydrico; com o acido sulphydrico, por exemplo, precipita-se o sulphureto preto de mercúrio ; com o acido chlorhydrico nada se precipita, porque forma-se o bichlorureto de mercúrio, que é solúvel e se póde caracterisar pelas suas reacções próprias. Tratado o cyanureto mercurico por este acido em presença de aparas ou fios de ferro, durante 1/4 de hora, depois filtrado o liquido, nelle se póde estabelecer a reacção caracteristica do 406 ACIDO PRUSSICO azul da Prussia. Finalmente, o cyanureto de mercúrio, melhor ainda do que o de prata, decompõe-se pelo calor, fornecendo mercúrio metallico e cyanogeno, facilmente reconhecivel. Por conseguinte, direi com o Dr. Souza Lopes, o cyanureto de mercúrio faz excepção aoscyanuretos simples solúveis e não tem podido ser pesquizado com elles. Por esse motivo o chimico legista, com prejuizo de tempo, é obrigado, quando verificar, no correr de uma pesquiza indeterminada, a existência do mercúrio, a voltar muitas vezes á pesquiza dos cyanuretos, para indagar por um processo especial da existência do cyanureto de mer- cúrio, que, como já disse, é um veneno cyanico quando ingerido em dóse massiça e um veneno mercurial quando administrado em dóse fraccionada. Para obviar esse inconveniente, para que o chimico legista possa pesquizar commodamente o cyanureto de mercúrio, logo em seguida á pesquiza dos cyanuretos alca- linos, eis como se pronuncia aquelle nosso collega : « Si aquecermos a solução de chlorureto de ammonio com a de cyanureto de mercúrio, forma-se chlorureto duplo de mer- cúrio e ammonio e cyanureto de ammonio. Esta reacção é devida á grande volatilidade do cyanureto de ammonio, que é recolhido no liquido distillado. Esta mesma reacção é muito accelerada pela presença do acido tartarico, mas nesse caso o cyanureto de ammonio apenas formado é decomposto por esse acido, que apodera-se da ammonia pondo em liberdade o acido cyanhydrico que distilla. Tomando por base essa reacção, imaginámos o nosso processo : Depois de termos pesquizado os cyanuretos alcalinos, distillando o liquido suspeito acidulado pelo acido tartarico, juntámos a esse liquido chlorureto de ammonio, e procedendo a nova distillação, recolhémos separa- damente o novo producto distillado, que deve conter o acido cyanhydrico proveniente do cyanureto de mercúrio. « Procedendo desse modo pudemos pesquizar consecutiva- mente com o mesmo apparelho todos os cyanuretos simples tóxi- cos, o que não deixa de ser de grande vantagem e commodidade VENENOS NEURÓTICOS 407 para o chimico legista, visto tornar-se a pesquiza mais uni- forme. » Sonnescheim emprega o methodo seguinte : elle esgota as matérias suspeitas pelo álcool; evapora até residuo secco, que dissolve n’agua, e divide depois a solução em duas partes. Distilla uma com acido sulphurico concentrado e addicionado em quantidade sufficiente para obter uma solução a 1/5 ; e no liquido distillado pesquiza o acido cyanhydrico. A outra porção elle aquece em uma retorta com acido cblorhydrico e chlorureto de potássio, expelle o chloro da mistura, ajunta agua e precipita o mercúrio pelo ouro metallico, seja por substituição ou por electrolyse. TERCEIRA CLASSE Venenos neuróticos Assim se chamam aquelles que exercem acção especial sobre o systema nervoso ; dividem-se, como já disse, em periphericos e centraes. Os primeiros correspondem aos paralyso-motores de Rabuteau e com prebendem o curare, a fava de Calabar, o aconito e a cicuta, e seus princípios activos. Comquanto estes tres últimos sejam mais importantes pela frequência maior de seu emprego como agentes medicamentosos e toxicos, me occuparei mais particularmente e com mais desenvolvimento do curare, por ser um veneno curioso e activis- simo, preparado pelos selvicoias do norte do Brazil (e também das Guyanas), e cujo estudo interessa naturalmente mais de perto á toxicologia brazileira; tanto mais quanto sobre esse estudo reina grande confusão entre os autores estrangeiros, na parte que se refere á composição e preparação do veneno, como a algumas de suas propriedades chimicas e dynamicas. A este 408 ACONITO respeito existem jà trabalhos muito interessantes e dignos de attenção, feitos entre nós, quer no Museu Nacional pelo Dr. J. B. de Lacerda, em collaboração com o fallecido pro- fessor Couty, quer na Faculdade de Medicina da Capital, pelo Dr. Ribeiro Guimarães, quando preparador da cadeira de matéria, medica e therapeutica. Folgo de consignar aqui o resultado desses trabalhos, que vieram trazer muita luz ao estudo do curare, e fazem honra a seus autores e á sciencia medica brazileira. Envenenamento pelo aconito e pela aconitina O nome de aconito pertence a varias especies do genero aco- nitum (fam. das Rainunculaceas). Elias são quasi todas venenosas, mas em gráos differentes ; as mais activas e peri- gosas são o Ac. hjcoctonum (aconito mata lobo), o Ac. ferox que se encontra nos paizes quentes, notavelmente na índia, eolc. napellus, cultivado na Europa pela belleza de suas flores. Conhece-se mais o Ac. anthora, que é mui pouco to- xico, segundo Schroff; o Ac. paniculatum, que é quasi inerte segundo Flemming; o Ac. heterophyllum, que não é toxico ; o Ac. multifidum eo Ac. rotundifolium, cujas raizes são comestiveis ; o Ac. septentrionale, cujas folhas servem de ali- mento aos Laponios. De todas estas especies é o Ac. napellus o mais em- pregado, e constitueo aconito official. Tem occasionado algumas vezes envenenamento nas mesmas circumstancias que a cicuta e certas solaneas virosas, isto ô, por descuido ou engano, pela semelhança que offerecem algumas de suas partes com as de plantas de uso ordinário : as folhas da cicuta com as da salsa hortense, os fructos da belladona com as cerejas, e a raiz do aconito com a do nabo ou rabano, donde veiu o nome da especie napellus, que significa pequeno nabo. Suas folhas asse- melham-se ás do aipo. VENENOS NEURÓTICOS 409 Em outros casos, esses envenenamentos teem sido devidos a prescripções imprudentes, erros de posologia e de applicação das respectivas formulas. E’ sobretudo na Inglaterra que se tem observado o maior numero de factos de aconitismo agudo, quer accidentaes quer criminosos, seja com o pó da raiz de aconito, seja com a sua tintura, queé venenosa mesmo em dose bastante fraca ; sem que se possa dar credito á historia, mais que inverosímil, a que se refere Fonsaggrives, de moças que se diz terem morrido por trazerem á cintura um ramo de flores de aconito. ODr. Jules Bassot 1 apresenta uma serie de 11 observa- ções de envenenamento pelo aconito e pela aconitina, dos quaes sete relativos a accidentes, tres por motivos de suicídio e um de homicídio. Destes 11 casos, afora o de homicídio, somente tres foram fataes : o de um pharmaceutico que suicidou-se tomando de uma vez 8 grãos de aconitina allemã ; o de outro indivíduo a quem foi prescripta a dóse imprudente de 20 a 60 gottas de uma solução de 0,2 °/0 de aconitina allemã, de hora em hora, sendo que por maior infelicidade, foi aviada aconitina franceza, muito mais activa. O terceiro facto, Anal- mente, refere-se a uma mulher, que matou-se ingerindo a dóse brutal de tres chicaras (das de chá) de tintura de aconito. Dos demais casos terminados pela cura, alguns foram benignos, como por exemplo o de um envenenamento produzido por fri- cções com uma pomada composta de 15 grammas de banha e 5 centigrammas de aconitina. Outros, porém, foram graves, entre elles o de uma mulher em quem se applicou uma injecção hypodermica de aconitina, por engano com a morphina e na dóse que esta costuma ser empregada ; o de outra mulher que tomou de uma vez cinco pilulas de aconitina com V4 de milli- grammaem cada uma, sendo a prescripção para tomar cinco por dia, uma de cada vez, o que mesmo assim poderia occasia- 1 E’tude médico-legale de 1’empoisonement par l’aconitine—1889. 410 ACONITO nar phenomenos de intoxicação, porque em outro caso uma mulher achou-se envenenada com essa dóse tomando-a separa- damente. Finalmente um indivíduo que para curar-se de uma nevralgia rebelde ingeriu no espaço de uma noite umas 18 pastilhas de Wyeth, contendo cada uma 1/260 de aconitina, esteve em risco de morte. A aconitina é, pois, um dos venenos mais energicos do reino vegetal. Os antigos davam-lhe por isso o epitheto depardia- lankes (mata panthera). Uma de suas especies ainda é conhe- cida pelo nome de mata lobo. Dizem alguns historiadores que Calpurnio Bestia, um dos exploradores de Catilina, matou suas mulheres com aconito. 1 A mythologia grega faz provir esta planta da espuma do Cerbero, e o Dr. J. Bassot a cita como fazendo parte dos venenos de Medéa. (?) Elle diz mais, que o aconito entrava juntamente com a cicuta na composição dos preparados de Locusta ; que os Scythas e os Gaulezes serviam-se delia para envenenar suas armas; que o Acon. ferox é a mais toxica de todas as especies deste genero, e é por isso o veneno typico dos indios, que o empregam com o nome de bish para hervar suas flechas. Além dos casos em que a tintura destinada a uso externo tem sido ingerida em quantidade notável, Tardieu cita o facto do Dr. Male (de Birminghan), que morreu envenenado por ter tomado 80 gottas da referida tintura, em dez dóses, no espaço de quatro dias, sendo que a maior dóse tomada de cada vez não excedeu de 10 gottas ; Rabuteau refere um caso de morte devida a 25 centigrammas de extracto fresco de aconito,. Taylor indica a quantidade de quatro grammas da raiz como a dóse minima que tem produzido accidentes mortaes. Finalmente, na idade média sacrificavam-se os criminosos com um preparado desta planta. 1 Outros attribuem estes factos ao emprego do arsénico VENENOS NEURÓTICOS O aconito napello é um veneno geral ; não se conhece quasi especie animal superior ou indifferente aos seus effeitos ; assim, mata os bois e as cabras nos pastos em que elle nasce espontaneamente. O nome de lycoctonum (mata lobo) dado a uma das especies do aconito, faz crer na sua acção toxica sobre este animal. Os gatos não são menos impressionáveis; os roedores e outros estão no mesmo caso, pelo que se em- prega o pó da raiz do aconito incorporado à manteiga, como meio de destruição dos ratos e também dos persevejos. As gralhas são singularmente tolerantes em relação aos pombos e ás gallinhas, que são mais susceptiveis. Das curiosas experiencias a que procedeu o Dr. P. Wa- gner na Universidade de Dorpat, relativamente á dóse mortal por kilo de cada animal, em diversas especies póde-se tirar a conclusão seguinte : « Quanto mais elevado se acha collocado o animal na serie zoologica menor é a dóse necessária para deter- minar a morte. » O aconito é uma planta vivaz, que cresce principalmente nos bosques e nos prados, e deve suas propriedades medicinaes e toxicas a um principio activo, alcalino, chamado aconitina 1 assignalado pela primeira vez por Brandes em 1819, depois estudado por Geiger e Hesse 2, Berthemot (?), Stahfschmidt, Morton, Schroff, Hottot e Liegeois, mais recentemente por Duquesnel e Grehant, que o obtiveram em estado de pureza, em 1870. E’ um veneno terrivel comparável á cicutina e á nicotina segundo uns, á digitalina segundo outros, a tal ponto que cinco milligrammas podem matar um adulto ; Pereira cita o facto de uma mulher, que escapou de morrer só com um milligrammade aconitina, que é dóse toxica para um cão. 1 Não é acceita por todos a natureza alcalina deste corpo, porquanto Du- quesnel acredita que é uma glycoside com a formula C27 H40 AzO10, eA Wright e Luff o consideram o ether monobenzoico da aconitina, com a for- mula C46 H39 AzO*2. * Segundo Fonsagrives e outros, foram estes os descobridores da aconitina em 1833; talvez a tivessem primeiro isolado e melhor estudado, conforma pensam alguns. 412 ACONITO Este alcaloide existe em todas as partes do vegetal, porém é a raiz que encerra maior proporção. Demais, cumpre notar que existem varias qualidades de aconitina, das quaes' uma preparada na Allemanha por Merck nem merece bem esse nome, porque sua actividade é 20 a 30 vezes menor do que a do verdadeiro alcaloide, que sómente era conhecido até pouco tempo no estado amorpho. Foi em 1860 que Groves extrahiu do aconito nap. um alcaloide crystallizado, emquanto na França só em 1871 Duquesnel a pôde obter isolada neste estado, ora mais ordinariamente, sob a fórma de crystaes rhombicos, ora mais raramente, em crystaes prismáticos monoclinicos. Ha pois quatro variedades de aconitina, que, segundo Du- quesnel, são as seguintes em ordem de actividade : Ia, aconitina crystallizada de Duquesnel ; 2a, dita amorpha do Codex(proc. Hottot); 3a, dita franceza do commercio, e4a, dita allemã ou de Merck. 1 Além da aconitina, e comquanto não exista analyse com- pleta do aconito, sabe-se que esta planta encerra outros princípios activos, a saber : a napellina, nepalina ou pseudo- aconitina, extrahida especialmente do Ac. ferox, chamado aconito de Nepaul, a aconellina, descoberta em 1864 por Smith (de Edimburgo), que parece idêntica á precedente, a acolyctina ou lycaconitina obtida por Huschsmann, em 1865, do Ac. lycoctonun, donde por contracção das duas palavras o nome dado a esse principio. O aconito encerra também muito provavelmente um oleo volátil acre, ainda não isolado e um acido denominado aconitico, com o qual estão com- binados aquelles alcaloides na planta. 1 Além destas, Julio Bassot menciona no seu trabalho a aconitina ingleza de Morson, e a de Friedlander, que elle affirma ser 170 vezes menos activa do que a de Duquesnel, notando-se mais que da experiencia que refere, feita em pardaes com diversas variedades de aconitina, resulta que, ao menos nestes passaros, a aconitina franceza do commercio se mostra menos activa do que a allemã, de Merck. VENENOS NEURÓTICOS 413 Finalmente, a actividade toxica do aconito varia muito conforme as suas fôrmas pharmaceuticas e seu modo de preparação ; em todo caso, seus effeitos, nas dóses toxicas, são ordinariamente muito rápidos. Symptomas; signaes clínicos Nos casos observados na especie humana, os effeitos de uma dóse toxica de aconitina começam em geral no fim de uma hora a hora e meia, por tremores nas extremidades, acom- panhados de vomitos e lypothimias; depois sobreveem caimbras dolorosas, e entorpecimento na face, nos lábios e nos membros, devido a uma depressibilidade muscular geral. O doente queixa-se de uma forte sensação de aperto na cabeça, as pupillas são muitas vezes, porém nem sempre, dilatadas; o rosto é pallido, a respiração e a phonação diíficeis, as pulsações cardíacas tumultuosas, rapidas e nimiamente fracas ; a pelle, e sobretudo as extremidades, frias e cyanoticas; finalmente, manifesta-se um estado de angustia e agitação extrema a que se segue a morte, ora por asphyxia, ora por syncope. Si em vez do aconito for a aconitina a substancia in- gerida, ella determinará uma dôr ardente na boca, no eso- phago e no estomago, salivação, nauseas, eructações, cólicas, e mais tarde uma sensação de calor geral com rubor na face ; no fim de uma hora manifestam-se formigamentos com contracções fibrillares, ou então comichões intensas e outras sensações estranhas, que precedem a anesthesia geral. Depois apparecem dores lancinantes no trajecto do pri- meiro ramo do trigemeo, cephalalgia, vertigens, zunido nos ouvidos* photophobia, ambliopia, dilatação de pupillas e perda dos sentidos. As pulsações cardíacas, que se acceleram um pouco a principio, logo depois demoram-se, tornam-se cada vez mais lentas, irregulares, e chegam a parar completamente em 414 ACONITO diástole. A respiração retarda-se desde o começo ; torna-se mais profunda e laboriosa e cada vez mais lenta, até cessar também. A temperatura do corpo baixa gradualmente. O enfraquecimento muscular com sensação de rijeza nos membros, seguido de paralysia dos mesmos, tornam os re- spectivos movimentos quasi impossiveis, e os individuos quasi immoveis. A voz se extingue, a prostração é extrema ; sobrevem grande anciedade, com cyanose, que põe termo aos pheno- menos asphyxicos. O Dr. J. Bassot assignala em uma de suas observações um symptoma particular, de que nenhum autor falia: é uma especie de pseudo-hydrophobia. Além disso, diz elle que a aconitina, introduzida entre as palpebras, produz uma viva irritação com rubor, lacrimejamento e contracção muito pas- sageira das pupillas. Sobre as mucosas, sobre a pelle denudada por um vesicatório no tecido cellular sub-cutaneo, ella pro- voca uma sensação de ardência ou comichão viva e persistente. Partilha com a veratrina a propriedade esternutatoria ; as menores particulas que penetrem no nariz occasionam espirros repetidos e dor de garganta ou uma espectoração abundante. Na boca determina uma sensação de agulhadas e formigamento com salivação, analogamente ao que se produz com a raiz de pyrethro. Lesões anatomo-pathologicas; signaes necroscopicos Muito pouco ha que dizer a este respeito, porquanto as lesões que teem sido assignaladas nada apresentam de cara- cteristicas, e podem faltar completamente, conforme se tem verificado em experiencias sobre animaes. Cita-se, por exem- plo, a congestão dos pulmões e das meningeas, a distensão e flaccidez do coração, contendo um sangue fluido; todos estes phenomenos são communs a outros envenenamentos. VENENOS NEURÓTICOS 415 0 mesmo pelo que respeita aos que são devidos á acção de contacto. Com certas preparações de aconito póde-se ob- servar uma inflammáção, em gráo variavel, da mucosa gastro- intestinal e que nada tem de particular. Mecanismo da acção toxica Nada é mais discutido ainda hoje, diz Gubler, do que a acção da aconitina sobre o systema nervoso. Eis sobre este assumpto o estado actuai da sciencia: Na opinião de Harley e Fottergill, a aconitina obra sobre o bulbo rachidiano á feição da strychnina, affectando espe- cialmente uma zona comprehendendo as raizes dos nervos vago, hypoglosso e espinhal, para dahi attingir, porém mais fracamente, a origem do 3o par. Outros autores (Hunter, Mackensie, Franceschini, La- borde, Sydney Ringer, Murrell, etc.) admittem que esse alcaloide determina a paralysia dos nervos sensitivos, e para o primeiro destes autores também a das raizes posteriores dos nervos espinhaes. Guillaud (Th. de Montpellier, 1874) parece ter estudado a fundo esta questão, e das experiências próprias que fez concluiu admittindo a theoria de Liegeois, segundo a qual a aconitina obra primeiramente sobre o systema nervoso cen- tral, exaltando a principio sua propriedade excito-motriz, pa- ralysando-a depois. Em seguida acredita elle que este veneno paralysa successivamente os nervos sensitivos, os nervos se- cretores, os nervos motores, o systema nervoso sympathico e os musculos. E’ sómente por intermédio do bulbo que elle aífecta a respiração e o coração. Quanto á natureza desta acção especial exercida sobre o systema nervoso, nada se sabe de positivo ; Guillaud presume que não se trata aqui provavelmente de uma desordem vaso-motora, porém de uma perturbação nutritiva (ext. deJ. Bassot). 416 ACONITO Ainda mais importantes do que as experiencias de Guil- laud sobre o assumpto parecem os trabalhos physiologicos de Paulo Wagner, executados sob a direbção de Dragendorfi e Júrgens, na Faculdade russa de Dorpat ; eile serviu-se da aconitina crystallizada de Duquesnel e a empregou sobre uma serie de animaes de diversas classes da escala zoologica: mam- miferos, aves, reptis, batracios, entre os invertebrados as te- nias, e finalmente desceu até aos pequenos organismos unicel- lulares. Eis as conclusões a que chegou o Dr. Wagner : 1. a A aconitina não é um veneno do protoplasma. 2. a As perturbações respiratórias occasionadas pela aconi- tina teem sua origem em primeira linha em uma excitação dos feixes centrípetos do nervo vago, em segundo logar em uma paralysia do proprio centro respiratório. 3. a As penúltimas extremidades do vago cardíaco são rapidamente paralysadas, ao passo que as ultimas extremi- dades, isto é, osganglioscardiacosde parada são primeiramente excitados e depois paralysados. 4. a A aconitina diminue a velocidade do sangue nos or- gãos da circulação. O centro motor da dilatação pupillar é também primeiro excitado, depois paralysado. Segundo Laborde, a aconitina actua de modo predominante sobre a porção bulbar espinhal do myeloencephalo, e conse- cutivamente sobre o grande sympathico, por intermédio do qual exerce uma influencia mais ou menos profunda sobre as principaes funcções da economia ; dahi, na sua opinião, a morte sempre por asphyxia. Hottot e Liegeois, segundo Nothnagel e Rossbach, acreditam que a aconitina exerce sua acção sobre a medulla, ao passo que em Dujardin Beaumetz se lê que esses autores, bem como Hirtz, Gubler e outros, a consideram um veneno cerebral. 1 1 Não é isto o que diz o Dr. J. Basâot sobre a opinião daquelles dous experimentadores ; para elles a aconitina exerce sua acção primeiramente sobre o cerebro e os centros nervosos (e não sómente sobre a medulla), e depois sobre os nervos periphericos. VENENOS NEURÓTICOS 417 Para a maior parte dos autores, porém, ella obra como um paralyso-motor, seja exercendo sua acção sobre a porção cervical do grande sympathico, e sobre os ganglios auto-mo- tores do coração, como acredita Aschsharumow, ou seja, como pensam outros (Grehant, Rabuteau, etc.), sobre as extremi- dades periphericas, ou as placas terminaes dos nervos motores. E’ mesmo esta a opinião mais geral sobre o mecanismo da acção toxica deste alcaloide, justificando assim a classificação de Rabuteau a respeito deste veneno. Também divergem os autores quanto ao modo de conside- rar a acção da aconitina sobre o centro circulatório. Assim, alguns, como Lewin e Rosenthal, admittem que ella o paralysa directamente por uma acção especial e primitiva, sendo o cerebro sempre respeitado, ao passo que outros, como Harley, sustentam que ella não impressiona este orgão sinão secun- dariamente, depois de ter occasionado a asphyxia. Rabuteau attribue este resultado à paralysia do pneumo-gastrico, que deixa de moderar as contracções cardiacas, e á dos ganglios auto-motores respectivos, o que as torna muito fracas. Tratamento Apoz a administração de um emetico, ou de applicações mecanicas que o substituam, deve-se recorrer aò tannino, ou algum hydroleo rico deste principio, que precipite a aconitina. Tem-se aconselhado igualmente o emprego da tintura de iodo, ou melhor, da solução de iodureto de potássio iodurado, que também precipita o alcaloide. O tratamento ulterior deve ser baseado no emprego de exci- tantes, taes como o vinho e outros alcoolicos associados a uma infusão de plantas aromaticas e antagonistas da natureza da atropina e da digitalina, manejada com a maior prudência. Póde-se recorrer também á respiração artificial, comquanto- não tenha aqui outro valor mais do que o de um meio auxiliar TOXICOLOGIA 27 418 ACONITO e indirecto, excepto para Laborde, que reputa-o um recurso precioso e legitimamente indicado, de accordo com a sua dou- trina sobre o mecanismo da morte nestes casos. Pesquiza toxicologica ; signaes botânicos e chimicos O aconito officinal reconhece-se pelos seguintes caracteres: sua raiz é carnosa e fusiforme ou antes napiforme, fornecendo radi- culasem toda a sua superfície. As folhas são alternas, longas e decompostas em lobos profundamente divididos, lineares, de cor verde escura e brilhantes na face superior. As flores são em cachos, longamente pedunculadas ; o calix, de cor azul ferrete ou branco formado de cinco sepalos, dos quaes o posterior cobre os lateraes e tem a fôrma de um capuz; a corolla, de côr azul, é composta de 8 petalos, dos quaes os 3 inferiores abortam muitas vezes e só vingam 5: os superiores são estreitos e terminados em uma especie de pequeno sacco. O fructo é um folliculo proveniente do desenvolvimento de 3 a 5 carpellas, encerrando sementes numerosas, de superfície enrugada. Nas pesquizas toxicologicas relativas a este envenenamento, diz Dragendorff, cumpre distinguir os casos em que se trata da aconitina pura, e da aconitina impura ou allemã chamada, ou ainda da própria planta que os fornece, ou seus preparados pharmaceu ticos. Afóra os caracteres botânicos da planta, já descriptos, e para os casos em que o exame versar sobre ella, em todos os mais procede-se no sentido de pôr em evidencia as propriedades e reacções chimicas que podem caracterisar os seus principios activos ou revelar a sua presença na composição dos referidos preparados. Cumpre, porém, notar que a aconitina resiste muito pouco aos phenomenos da putrefacção. Ella não se acha sinão muito ex- cepcionalmente no sangue, sem duvida por causa de sua altera- bilidade em presença dos alcalis ; encontram-se apenas traços em VENENOS NEURÓTICOS 419 certos orgãos (pulmões, coração, baço, centros nervosos, sobre- tudo a medulla). Os rins e a urina também encerram mui pe- quena quantidade. E’ principalmente na matéria dos vomitos, nas paredes e no conteúdo do tubo digestivo que a aconitina deve ser de preferencia procurada. Portanto, são especialmente estas matérias que devem servir para a pesquiza deste alcaloide, e onde se pôde esperar encontral-o em quasi sua totalidade, si a morte seguiu-se de perto á absorpção do veneno. Rabuteau aconselha para isolar delias a aconitina, sem distincção de pu- reza ou qualidade commercial, o methodo deStass. Dragendorff mesmo parece recommendar indirectamente este methodo, quando diz que para a separação deste alcaloide é de toda conveniência esgotar im mediatamente as substancias suspeitas pelo álcool, juntando um pouco de acido tartarico e, depois de eliminar por distillação o excesso do álcool, alcali- nisar o liquido, de preferencia com bicarbonato de sodio. O Dr. Julio Bassot propõe o methodo de Stass modificado por Otto. Quanto ás propriedades e reacções peculiares a estes alca- loides, ninguém melhor do que o professor de Dorpat parece tel-as estudado e descripto, por isso o acompanharei nesta expo- sição, resumindo. A aconitina é um corpo solido, branco, inodoro, de sabor amargo e picante particular, crystallizavel, como já disse, em pequenas laminas rhombicas, ou em prismas do systema mono- clinio ; é insolúvel n’agua, mesmo a 100°, na glycerina e nos oleos de petroleo, bastante solúvel no álcool, no ether, na ben- zina e no chloroformio. E’ uma base fracamente alcalina, porém forma saes perfei- tamente definidos com os ácidos. Pela acção dos ácidos mine- raes diluídos a quente, perde uma molécula dagua e se trans- forma em apoaconitina, analoga á apomorphina. A aconitina pura não dá reacções coloridas com o acido sul- phurico, nem com este acido e o assucar, nem com o acido 420 ACONITO phosphorico; porém, nas soluções levemente aciduladas pelo acido acético, em que ella exista até á minima proporção de 7S00 de miiligramma, forma com o iodureto de potássio uma combinação crystallina, que se obtem facilmente seccando a mistura e tirando ao residuo o excesso de iodureto de potássio por meio de uma gotta d’agua. Esses crystaes, vistos ao mi- croscopio, teem a fôrma de pequeninas laminas ou tabulas. Evita-se a confusão da aconitina pura com a quinidina, pelas reacções coradas desta ultima, sensabor amargo, etc. Além disso, aquelle alcaloide precipita também com muita facilidade em soluções muito diluidas pela agua iodada, pela agua bromada, pelo bromureto de potássio bromado, pelo iodureto duplo de potássio e mercúrio, pelo chlorureto de ouro, pelos ácidos phospho-molybdico e phospho-tungstico, pelo acido per-iodico e pelo tannino. Agora, quanto à aconitina impura ou allemã (commer- cial): Aquecida com precaução em um vidro de relogio com um ou dous centim. cub. de acido phosphorico officinal, torna-se pouco a pouco avermelhada, depois roxa, si se con- tinua a aquecer com as mesmas cautelas (agitando a mistura e soprando por cima). Segundo Otto, a digitalina commercial e a delphinina comportam-se do mesmo modo, mas distin- guem-se, porque estas em solução sulphurica coram com a agua bromada, e aquellanão. O acido sulpburico concentrado dá um liquido amarello, que carrega-se mais no fim de um a dous minutos ; passa depois, conforme a quantidade do alcaloide, ácôr parda avermelhada, e por ultimo, no fim de 24 horas, á cor arroxeada. O liquido torna-se logo rôxo si a mistura é aquecida. Si o acido for diluido, o resultado será menos patente e pôde mesmo falhar si a diluição for grande. O acido phospho-molybdico dá um precipitado cinzento, que torna-se lentamente azulado com o tempo e rapidamente pela addição da ammonia. VENENOS NEURÓTICOS 421 0 iodnreto duplo de potássio e mercúrio dá um precipitado branco, que, aquecido até seccura, torna-se vermelho ; aque- cido com acido azotico toma logo esta ultima cor. Tratado a frio pelo peroxydo de baryo e acido sulphurico, cora em ama- rello, e si se aquece, em vermelho (Duquesnel). O acido sulfo-molybdico (reactivo de Frõhde) dá uma côr amarella escura, que desmerece pouco a pouco. As soluções de aconitina commercial precipitam igualmente pela tintura de iodo, pelo chlorureto de ouro, pelo iodureto de bismutho ou de cádmio e de potássio, e pelo tannino. O bichlorureto de mercúrio, o bichromato de potássio, o sulfocvanato de potássio e o acido picrico não precipitam a aconitina sinão em soluções concentradas ; e o chlorureto de pla- tina, nem mesmo nestas condições, diz Dragendoríf. 1 Este autor recommenda também muito a experimentação physiologica como meio de distinguir a aconitina, sem dizer, entretanto, qualé a sua propriedade physio-pathologica ou phy- sio-toxica caracteristica ; e nem se encontra phenomeno algum da symptomatologia deste envenenamento que possa servir de baseou criterium para essa deducçâo. De facto, Laborde e Duquesnel pretendem que se pôde tirar partido do ensaio physiologico, mas não fornecem indicações claras e satisfactorias para chegar-se á caracterisação do veneno, não inspirando bastante confiança o methodo por elles se- guido nas suas experiencias, e que consistiu no confronto dos phenomenos apresentados ao mesmo tempo, por duas rãas submettidas, uma á injecção de uma solução de aconitina pura, contendo apenas uns 0,0003 de alcaloide, e outra á in- jecção de quantidade igual do principio toxico extrahido das vis- ceras a examinar. O parallelismo daacção das duas substancias e a morte dos animaes pouco mais ou menos no mesmo tempo 1 Contra a opinião geral dos autores, quo apontam este reactivo como precipitando a aconitina em amarello, 422 ACONITO constituem, na opinião de Laborde e Duquesnel, uma prova de que esse veneno é a aconitina. Não contentes, porém, com essa observação, elles assignala- ram como podendo servir para caracterisar este alcaloide a acção que elle exerce sobre o rhythmo e as pulsações cardiacas. Esta acção, que foi representada em traçados graphicos pelos dous experimentadores, consiste essencialmente no augmento da amplitude da pulsação, que dobra quasi a linha de ascensão do traçado, e na acceleração dos batimentos cardiacos no pe- ríodo de excitação- Notam-se além disso intermittencias francas e assiste-se assim a perturbações que traduzem uma verda- deira ataxia cardíaca, segundo a expressão empregada por Laborde. Em um periodo mais adeantado, a acceleração das con- tracções do coração pôde ir até uma especie de tetanização mais ou menos passageira. A intervenção prévia do curare e da atropina impedem a aconitina de exercer esta influencia sobre o coração. Quanto á acção mydriatica da aconitina, elles reconhecem que não serve de prova, que è uma indicação de pouco valor, porquanto outros alcaloides gozam delia no mesmo ou em maior gráo. Não tratarei das reacções dos outros alcaloides do aconito, pela confusão que ainda reina a respeito de sua verdadeira natu- reza e composição. Assim, por exemplo, Dragendorff distingue a napellina da nepolina, que Fonssagrives considera idênticas. Para este autor a própria aconellina parece idêntica áquellas duas, das quaes o professor allemão considera distincta. Por outro lado, Dragendorff diz ter extrahido do Acon. lycoctonum. não um, porém dous alcaloides, que elle denominou lycaconitina e myoctonina, dando como producto de decom- posição de ambas (pela acção de uma lixivia fraca de soda) a lycoctonina, que lembra, mais do que aquelles dous nomes, a especie progenitora. Ainda mais, não se sabe si a lycaconitina VENENOS NEURÓTICOS 423 é, como parece, a acolyctina, assignalada por Fonssagrives nesta mesma especie. Finalmente, alguns autores indicam como alcaloides clara- mente definidos e bem estudados do aconito, além da aconitina, e da pseudo-aconitina, a picro-aconitina, que outros nem men- cionam. Envenenamento pela cicuta e pela cicutina Dá-se vulgarmente o nome de cicuta a diversas plantas toxicas pertencentes aos generos: Conium, Cicuta e JEthusa, da fam. das Umbelliferas ; a cada um destes generos corre- sponde uma especie determinada, mais conhecida no uso medi- cinal, e vem a ser o Conium maculatum, que é a cicuta man- chada, grande cicuta ou cicuta officinal ; a Cicuta virosa ou cicutaria aquatica e a JEthusa cynapium, que é a pequena cicuta ou cicuta dos jardins. Rabuteau, Cornevin e Dujardin Beaumetz ajuntam a estas tres especies uma quarta do genero phéllandrium, ou cenanthe segundo outros: o phéllandrium aquaticum ou cenanthe phel- landrium (phellandrio aquatico ou funcho d’agua), que é muito menos activo e toxico do que as outras, ao menos para o homem. Segundo este ultimo autor, ella é muito perigosa para certos animaes, e mesmo mortal para os cavallos, comquanto se leia a este respeito informação contraria em Fonssagrives, que aponta os cavallos, cs carneiros e os coelhos como exemplos de tolerância relativa para toda a cicuta, sem fallardas cabras, que parecem refractarias á sua acção. Tardieu e Cornevin mencionam mais outra planta venenosa desta familia : o CEnanthe crocata, que não é propriamente uma cicuta, mas cujo rhizoma tuberoso e amarello asseme- lha-se á da cenoura; é por isso conhecida na Europa por cenoura brava ou selvagem (navet du diable), cujo estudo 424 CICUTA toxicologico foi já o objecto de uma memória importante escripta pelo Dr. Bloc, em 1873, em que este autor registra 48 casos de envenenamento accidental, produzido pela ingestão desta um- bellifera. Já muito antes, em 1845, Toulmouche havia referido o caso de uma mulher, que para se desembaraçar de seu marido, tentou fazel-o comer uma sopa preparada com aquellas raizes, cujo gosto acre, porém, o advertiu em tempo da sinistra in- tenção . A cicuta virosa, por sua vez, tem uma raiz volumosa, es- branquiçada e carnosa, napiforme, offerecendo interiormente lacunas cheias de um sueco amarellado, amargo, que tem occasionado na especie humana enganos fataes, pela confusão facil na apparencia dessa raiz com algumas outras comestiveis, particularmente com o aipo (Cornevin). Outros enganos, igualmente fataes, teem-se observado entre as verdadeiras cicutas e alguns vegetaes usados como con- dimento na nossa alimentação, especialmente a salsa da horta, cujas folhas se confundem facilmente com as das um- belliferas toxicas. O mesmo, porém, não se póde dizer do agrião, cuja pretendida semelhança com as cicutas é, sem o menor fundamento, motivo de preoccupação geral do povo entre nós. As tres primeiras especies de cicuta, que são as mais impor- tantes, são todas muito venenosas, tanto mais quanto crescem em um clima mais quente, dotadas pouco mais ou menos do mesmo grào de actividade toxica, e muito fáceis de se con- fundirem entre si pelos caracteres botânicos, cuja descripção farei mais adeante ; entretanto, considera-se como a mais energica das tres a cicuta virosa ; em seguida a grande cicuta e por ultimo a pequena cicuta. Todas tres são conhecidas desde a mais remota antiguidade, tendo sido a cicuta virosa, segundo uns, e segundo outros a grande cicuta, o veneno propinado a Socrates e a Phocion, e que era administrado nessa época entre os Gregos, mais pro- VENENOS NEURÓTICOS 425 priamente entre os Àthenienses e os habitantes da Massilia, como meio de execução judicial. Nesta ultima localidade, diz Yalerio Máximo que era fornecida uma bebida preparada com cicuta áquelles que obtinham do Senado permissão para se matarem. Tournefort, por seu lado, affirma que na ilha de Ceos havia uma lei que ordenava a propinação da cicuta aos que pas- sassem dos 60 annos, pela insufficiencia dos recursos de ali- mentação para prover á sua subsistência. Fóra os casos mencionados, as circumstancias nas quaes estas plantas teem occasionado envenenamentos são pouco va- riadas, e limitam-se a abusos ou enganos no emprego de certos preparados medicinaes, em que entra sobretudo o extracto de cicuta, cuja posologia é arriscada e infiel, pelas differenças de actividade das respectivas plantas, conforme a sua especie, idade, as condições telluricas de seu crescimento, etc., e até o modo de preparação do extracto ; pelo que considera-se em França extracto officinal o obtido com o sueco depurado. Da grande cicuta, quando verde, todas as partes aereas são venenosas ; notando-se, porém, que as folhas são mais perigosas antes da floração do que depois, attendendo a que o principio toxico emigra então em grande parte para o fructo ; este é mais activo antes da sua maturidade do que depois. A raiz encerra apenas quantidades minimas dos alcaloides da planta. A cocção tira as propriedades deleterias desta umbellifera, e Plinio diz mesmo que se pôde comel-a guizada. Das diversas especies de cicuta é sómente a grande cicuta que deve suas propriedades e acção toxica ao alcaloide liquido e volátil, que em todas as obras de chimica é denominado cicutina, conina ou conicina, 1 descoberto e isolado pela 1 Os doas últimos nomes conveem mais a este alcaloide, porque derivam naturalmente do genero botânico (conium), onde existe e donde éextrahido; a denominação de cicutina deveria ser reservada para o alcaloide toxico da cicuta virosa, o qual ainda não foi sufficientemente estudado e parece não ser bem conhecido ; todavia Ankum e de Bõhm deram-lhe o nome de cicutoxina, para distinguil-o daquelle, assim como chamaram cynapina ao principio activo da pequena cicuta (Aãhusa cynapium) (Chandellon). 426 CICUTA primeira vez, em 1827, por Brandes segundo uns, por Giescke segundo outros. 1 Esta especie de cicuta encerra mais, além da conicina, a methylconina, quasi tão activa como ella; a ethylconina e a conhydrina, que são reputadas menos energicas. Ainda mais, as analyses teem revelado na composição desta planta um acido particular chamado coneico, um oleo volátil (conylena), ao qual deve a planta o seu cheiro especial; resina, matéria corante, albumina, lenhoso e saes. Diz Tardieu que não conhece facto algum bem averiguado, de envenenamento pela cicutina ; em um caso em que se sus- peitou o emprego criminoso deste alcaloide na Allemanha, eque foi submettido ao juizo e parecer do Collegio medico, Casper e Mithcherlich não reconheceram prova alguma decisiva da pre- sença desse veneno. Entretanto Rabuteau e Chandellon referem um acto occorrido em Dessau, em 1861, relativo a uma mulher, por nome Luiza Berger, envenenada com este alcaloide por seu amante, o Dr. Hermann JahndeQuellendorff. Os peritos Voley e Reissner acharam em suas pesquizas provas concludentes da existência da cicutina no conteúdo do estomago e intestinos da victima; ella havia succumbido em poucos minutos á ingestão de 10a 15 gottas daquelle terrivel toxico. Nem tanto era preciso; posto que não seja bem conhecida a dóse de conicina necessária para matar um homem, a julgar pelos resultados das experiencias feitas sobre os outros animaes, deve bastar uma quantidade minima, correspondente á dóse to- xica de nicotina, cuja energia toxica, bem como a da cicutina, Christison julga comparável á do acido prussico. Elle pôde matar coelhos, gatos e cães em alguns minutos e até mesmo em alguns segundos, instillando-lhes entre as palpebras ou no fundo da boca algumas gottas de cicutina. Van Hasselt também considera 1 Alguns chimicos attribuem a descoberta deste alcaloide a Geiger, que outros acreditam ter sido quem, em 1861, o obteve pela primeira vez no estado de pureza. VENENOS NEURÓTICOS 427 a dóse de 5 centigr. a 1 decigr. de conicina mortal para esses animaes, ao passo que Yan Praag eleva esta dóse a 12 centigr. para os gatos e cães e a desce até 16 milligr. para os coelhos. Entretanto, diz Chandellon que o nosso organismo é sus- ceptivel de habituar-se a um veneno tão violento, e refere a observação de Andhouy, citado por Husemann, que chegou a administrara um doente até 4 decigram. de uma vez, e pôde fazel-o tomar, sem accidentes, no espaço de 45 dias, 4 gram. desse alcaloide. Symptomas ; signaes clínicos Logo depois da ingestão de um preparado toxico de cicuta, em gerai em menos de uma hora, os envenenados experimentam tonturas, vertigens, cephalalgia muito aguda, titubeaçâo na falia e no andar, como si fossem ébrios. A’s vezes, porém, não sempre, sobrevem uma anciedade precordial com violenta cardialgia, seccura da garganta, sêde intensa, dysphagia, acompanhadas de esforços inúteis e fatigantes de vomitos. A face torna-se pallida, a physionomia profundamente alterada, conservando-se ainda intacta a intelligencia ; os doentes perdem a falia e teem o olhar fixo, as pupiilas a principio contrahidas* depois dilatadas, a vista turva e por vezes abolida, comquanto pareçam ainda ouvir. Em seguida, movimentos espasmódicos e contracções teta- nicas agitam os membros, continuando as lypothymias, que se repetem por intervallos ; depois uma especie de estupor se apodera dos doentes, nos quaes a respiração estertorosa parece o unico signal de vida ; o corpo resfria-se, a pelle apresenta-se em alguns pontos livida, a cabeça e mesmo outras partes incham, os olhos tornam-se salientes. Em alguns casos ma- nifesta-se delirio furioso e convulsões epileptiformes, que terminam rapidamente pela morte no fim de 3, 4 a 6 horas. 428 CICUTA Nada se sabe sobre a acção especial da conicina, sinão pelas experiencias feitas em animaes por Orfila, Christison, Rabuteau e outros toxicologistas, bem como pelas que alguns observadores corajosos e decididos praticaram em si mesmos e em outros individuos. Em relação a estas ultimas lê-se no tratado de toxicologia de Chandellon que Dworzak, Heinrich e Dilluberger sentiram apoz a absorpção de 1/4 de gotta desse alcaloide ligeiros symptomas, traduzindo-se por ardência na boca e na garganta, que parece ser arranhada, calor no rosto e na cabeça, ce- phalalgia. Após a ingestão de uma gotta experimentaram vertigem, fraqueza, desfallecimento, incerteza no andar, per- turbações da vista com dilatação da pupilla, caimbras nos gastrocnemios e em outras massas musculares, acceleração, depois demora do pulso. Earle e Wight accusaram os mesmos symptomas e ainda mais formigamento na pelle. Wight, além disso, ficou aphonico durante algum tempo. Quanto ás experiencias sobre os outros animaes, pela descripção que se encontra em alguns autores, nomeadamente no livro de Gubler, vê-se que não ha differenças sensiveis a assignalar, sinão no que respeita á intensidade dos phenomenos, quer locaes, quer geraes. No ponto em que a conicina é inoculada manifesta-se hyperhemia, e o animal accusa com gritos a dor resultante da acção irritante do alcaloide, quando concentrado e livre; ella é devida, segundo Chandellon, á affinidade do veneno para as matérias albuminoides e não se exerce com intensidade sinão sobre a conjunctiva e as mucosas de epithelio delgado. Pouco tempo depois, o animal é acommettido de tremor e paralysia do trem posterior, com persistência temporária da sensibilidade, que por fim se embota e desapparece pouco a pouco. Sobreveem soluços e convulsões ordinariamenteclonicas, VENENOS NEURÓTICOS 429 mas ás vezes tónicas affectando os membros, posteriores e também às vezes os anteriores ; pupillas geralmente dilatadas. Nota-se espuma espessa e sanguinolenta na boca. A re- spiração, cada vez mais lenta, pára afinal, emquanto o coração continúa a pulsar ainda por algum tempo, até á morte, que chega no fim de 3 a 50 minutos na maior parte dos casos. A ordem em que apparecem estes symptomas, bem assim sua intensidade, não offerece regularidade alguma e póde-se dizer, de um modo geral, que ellas variam não sómente con- forme a especie animal e as disposições individuaes, como também as dóses e a constituição chimica do alcaloide. Assim, um homem bem disposto e robusto, ricamente innervado, diz aquelle professor, resistirá muito mais do que outro enfra- quecido por moléstias, excessos venereos, ou outra qualquer circumstancia. Pretende-se também que a actividade mus- cular se oppõe aos effeitos toxicos da cicutina, e que uma criança turbulenta tem mais probabilidade de escapar, do que um homem sedentário e inactivo. Essas diíferenças, porém, podem depender menos das con- dições indicadas do que da qualidade do alcaloide, que im- prime um aspecto diverso na symptomatologia do cicutismo agudo, accentuando certos traços e modificando ou mesmo supprimindo outros. Ora predominam os phenomenos con- vulsivos ou de ataxia espinhal, outras vezes os phenomenos paralyticos, e a vida extingue-se sem lucta apparente; o col- lapso muscular sobrevem, assim como o estupor geral, sem ser precedido de grandes desordens da motricidade. Este ultimo caso se apresenta com a conicina de Christison, ao passo que o primeiro se observa com a de Morson, na qual, segundo Brown e Fraser, a analyse chimica demonstra uma forte proporção de methylconina. Ora, os dous sábios inglezes notam justamente que a acção da methylconina se approxima da da cicutina de Morson e 430 CICUTA se exerce mais sobre a medulla espinhal e menos sobre os nervos motores; è natural, portanto, que á presença deste derivado e sobretudo da elhyconicina, segundo Pelissard, deva o alcaloide de Morson as diíFerenças pharmaco-dynamicas que o separam da conina de Christison. Entretanto, ellas não são ainda satisfactoriamente expli- cadas só por esta circumstancia, porquanto a conina de Morson possue uma energia toxica muito inferior à conina de Chris- tison, e demais, a methylconina determina em dóse fraca a paralysia nervosa e em dóse forte a paralysia espinhal, ao contrario do que se passa com a conicina de Morson, na qual, por isso, alguns admittem uma modificação molecular na con- stituição do alcaloide, ou a existência de um principio parti- cular, que poderia bem, na opinião de Brown e Fraser, não ser mais do que a ammonea. Finalmente, outras conicinas pretendidas puras encerram também uma substancia resinoide, cujas propriedades se appro- xirnam das do curare (Vulpian). Lesões anatomo-pathologieas; signaes necroscopicos Nos cadaveres dos individuos envenenados com a cicuta ou seu alcaloide,aputrefacção manifesta-se mais cedo; notam-se na superfície do corpo placas lividas, e por vezes manchas petechiaes, verdadeiras extravasações sanguineas lenticulares, que se encontram também interiormente, em diversos orgãos, como na superfície do coração e dos intestinos. Em quasi todos observam-se congestões passivas, por exemplo, nas meningeas no cerebro, nos pulmões e no baço. O sangue é negro e fluido, apenas forma alguns grumos pouco consistentes no coração# A mucosa gastro-intestinal apresenta em alguns casos man- chas como que gangrenosas, constituídas por placas ecchymo- ticas. Dentro do estomago podem-se achar ás vezes restos de folhas, de hastes ou de raizes da cicuta, que, segundo Christison, venenos neuróticos 431 reconhece-se pertencerem a esta planta triturando em um gral com uma solução de potassa, para desenvolver o cheiro cara- cteristico da conicina. Mas, como bem diz Tardieu, este signal é muito incerto e não se pôde esperar tirar partido delle quando se tratar de qualquer dos preparados pharmaceuticos da planta. Mecanismo da acção toxica As opiniões a este respeito, diz Gubler, são numerosas e disparatadas. O Dr. Casaubon considera a cicutina como um veneno hematico, e faz derivar todas as desordens organicas que ella acarreta, das alterações dos globulos vermelhos. Esta theoria parece de alguma sorte confirmada pelas obser- vações interessantes de Martin Damourette e Pelvet sobre o estado do fluido sanguineo nas proximidades das feridas de inoculação do alcaloide. Pondera, porém, com razão Gubler, que é difflcil explicar por esta acção unica sobre as hematias todo o cortejo de symptomas do cicutismo agudo, no qual predominam os phenomenos nervosos, e entre elles as lesões da hematose são as ultimas a apparecer. Com mais fundamento a cicutina é geralmente reputada um veneno do systema nervoso ; sómente segundo o periodo de sua acção e o aspecto da scena mórbida, parece poder ser considerada ora um excitante, ora um estupefaciente, seja da sensibilidade, seja do movimento. Gubler assim pensa, acre- ditando que ella obra mais sobre o movimento do que sobre a sensibilidade, e sempre com acção estupefaciente, ex- plicando os phenomenos de irritabilidade espinhal, não por augmento do poder excito-motor, como no strychnismo, mas pela perda da faculdade cohibitiva do centro espinhal, assemelhando-se as convulsões que dahi procedem áquellas que dependem de um esgoto sanguineo. Além disso a cicutina exerce sobre os centros nervosos uma tal ou qual acção narcótica ou sedativa, demonstrada 432 CICUTA pelos effeitos therapeuticos da cicuta contra os accidentes dolorosos, sobretudo os que affectam a innervação do 5o par. Finalmente, este alcaloide goza também de uma acção hypocinetica manifesta e evidente, exercendo-se sobre todos os apparelhos de movimentos voluntários, os da vida ve- getativa, até ás fontes da circulação e da respiração, sendo a morte devida á parada desta ultima funcção. Quanto aos pontos do system a nervoso directamente atacados pelo veneno das cicutas, a maior parte dos autores o considera um veneno paralyso-motor de origem peripherica, isto é, affectando especialmente as placas terminaes dos nervos motores, justificando a classificação de Rabuteau para este agente, que, na opinião de Gubler, estende também a sua influencia até á medulla espinhal, deprimindo seu poder excito-motor, sem embargo das convulsões que apparecem, e são neste caso, para esse autor, como já disse, de fundo hyposthenico. Christison e outros reputavam a cicutina com acção sobre a medulla. Albers, Brown, etc., explicavam-a por paralysia cerebral; Schroff fazia residir sua acção sobre a medulla alongada, e Bossi, ao mesmo tempo sobre o bulbo e a ponte de Varole. Contra esta doutrina se levanta Rabuteau, que, nas experiencias a que procedeu, verificou que são os nervos motores que são impressionados pela conicina, e como a irritabilidade muscular persiste, são as extremidades desses nervos, suas placas motoras terminaes que são paralysadas, do mesmo modo que succede com o aconito, o curare e a fava de Calabar. 1 1 Lè-se em Chandellon. que as expôriencias de Kcillikeí, Gufctmann, Bamouíette e Pelvet também demonstraram que a cicutina paralysa as terminações dos nervos motores nos musculos. VENENOS NEURÓTICOS 433 Tratamento Depois de ter provocado os vomitos pelos meios de momento mais promptos, administrar-se-ha aos envenenados com a cicuta uma preparação vegetal fortemente adstringente, ou o mesmo tannino em substancia. Em seu logar póde-se empregar a agua iodada ou uma solução de iodureto de potássio iodurado, que precipitam a cicutina ; talvez a agua chlorada e bromada pre- stem igualmente bom serviço neste caso. E’ conveniente fazer vomitar de novo e prescrevem-se em seguida os antagonistas. Nestas condições se acha o vinho, que passava outr’ora pelo veneno da cicuta ; os alcoolicos em geral são aqui perfeitamente indicados. O café forte e os excitantes diffusivos, bem como os revulsivos cutâneos volantes, são de grande utilidade. A picrotoxina, a strychnina e, o que é mais notável, a própria oenanthe crocata, da mesma familia, são na opinião de Gubler antagonistas directos, embora parciaes, da cicutina. Finalmente, deve-se recorrer, como um auxiliar pode- roso, àrespiração artificial. Pesquiza toxicologica ; signaes botânicos e chimicos Quando a intoxicação é o resultado da ingestão de folhas, raizes ou sementes de qualquer das umbelliferas virosas, pó- de-se, ainda que com muita difficuldade, reconhecel-as pelo exame de seus caracteres botânicos, que são os seguintes: l.° A cicuta officinal ou grande cicuta, é uma planta bisan- nual, que cresce á beira dos caminhos eem terrenos sombrios ; tem um a um e meio metro de altura, haste cylindrica, fistu- losa, lisa, semeada de manchas de cor de rosa ou purpurinas.1 As folhas são grandes, alternas, pinnatifidas (tripinnadas), pon- tudas, de cor verde-escura, cheiro forte e macias ao tacto ; são formadas de lobos curtos, incisados, cujo conjuncto aífecta 1 Donde o nome da especie — maoulatum. TOXICOLOGIA 2S 434 cicuta uma disposição triangular. As flores são brancas, dispostas em umbellas compostas, muito abertas, providas de cinco pe- talos e cinco estames alternos entre si; de um involucro poly- phyllo reflectido, e de invollucelos de tres a cinco foliolos collocados por fóra da umbella. O fructo é sub-globuloso ou ovoide, comprimido lateralmente, formado de dous mericarpos çom cinco soldaduras salientes. 2. A cicuta virosa ou aquatica, é uma planta vivaz que cresce nas margens das lagoas e tanques, e só attinge a altura de meio metro (um metro, segundo Cornevin) ; a haste é fis- tulosa e ramosa. As folhas são aladas e formadas de dous ou tres foliolos com segmentos lanceolados, estreitos e denteados ou antes serreados; as inferiores teem um longo peciolo oco. As flores são também pequenas e brancas, dispostas em umbellas compostas, privadas de involucro, porém providas de invol- lucelos polyphyllos, cinco petalos e cinco estames alternados. O fructo é sub-globuloso, contraindo lateral mente, apresentando cristãs achatadas, e valleculos com um canal oleoresinifero. 3. A pequena cicuta ou cicuta dos jardins, é uma planta annual, de meio metro de altura. A haste é ramosa, lisa, cannelada, de côr parda avermelhada ou vermelho-escura na base. As folhas, de côr verde escura, são bi-ou trialadas, de foliolos pontudos e pinnatifldos, profundamente incisados. As flores, igualmente brancas e dispostas em umbellas compostas, como a precedente, desprovidas de invólucros, porém munidas de invollucelos, com tres foliolos unilateraes pendentes do lado exterior ; os petalos são brancos, desiguaes, ovaes, chanfrados em cima, e terminados por uma lingueta curva para dentro. O fructo é globuloso ou ovoide, composto de dous mericarpos, com cinco cristãs salientes e espessas. E’ esta ultima que mais se assemelha com a salsa hortense, cujos caracteres são os seguintes : As folhas teem segmentos ovaes cuneiformes, e exhalam cheiro agradavel ; as flores são de côr verde amarellada, VENENOS NEURÓTICOS 435 em umbellas providas de involucro, no que só póde con- fundir-se com a grande cicuta, aliás muito differente no porte e nas dimensões. Ofructoé comprimido perpendicular- mente á commissura, e apresenta cristãs filiformes. Basta o cheiro viroso e um pouco nauseabundo das cicutas quando attritadar, para discriminal-as da salsa. Cauvet reune estes caracteres differenciaes em um quadro synoptico, que Chapuis transcreve no seu livro, e eu faço o mesmo aqui : SALSA CICUTA Caule Verde, nem vermelho, nem manchado. Avermelhado na base e com manchas ru- bro-escuras. Folhas Bipinnadas de segmentos largos e lobos cuneiformes denteados. Tripinnadas de segmentos numerosos, es- treitos, agudos, denteados. Envoltorio .. De 6 a 8 foliolos. Nullo. Involucellos. j De 6 a 10 foliolos, dispostos circularmente. De 3 foliolos lançados para o bordo ante- rior da umbella. Flores Côr amarella esverdeada. Brancas. Fructos Ovoides, alongados, de cris- tãs pouco salientes. Ovoides, arredondados, de cristãs salien- tes e espessas. Cheiro Aromático, agradavel. Viroso e nauseabundo. Para isolar-se o alcaloide, o processo mais recommendado e geralmente seguido (Chapuis, Rabuteau, etc.) é o de Stass, tendo o cuidado de abrevial-o o mais possivel, afim de evitar o contacto prolongado do ar, que pelo seu oxygeno altera a conicina. Dragendorff, entretanto, não julga esse methodo o mais proprio para a separação deste alcaloide. O mesmo elle pensa a respeito do processo de Uslar e Erdmann, e declara ter ob- tido bons resultados agitando a solução alcalina primeiramente com o álcool amylico, tirando depois o alcaloide a este liquido por agua acidulada, e fazendo-o passar no ether. 436 CICUTA 0 melhor processo, diz aquelle autor, para a pesquiza de todos os alcaloides voláteis, consiste em tratar a solução acida pela benzina, que elimina as substancias estranhas, e tirar depois o alcaloide agitando a solução ammoniacal com ether de petroleo puro. A evaporação faz-se em um vidro de relogio humedecido por acido chlorhydrico concentrado, em uma tem- peratura que não deve exceder de 30°. O residuo ô submettido aos ensaios geraesdos alcaloides. Tem-se proposto isolar aconicina (bem como a nicotina) por distillação. As matérias suspeitas são transformadas pela addição d’agua em uma massa fluida, à qual ajunta-se um excesso de solução potassica, e a mistura é distillada em uma retorta de vidro, munida de um recipiente resfriado. O liquido concentrado terá o cheiro do alcaloide; dissolvido no ether, pela evaporação deste corpo, se separa sob a fôrma de gotteletas como que oleosas, que, evaporadas na mão, exhalam o cheiro caracteristico de cada um dos alcaloides. Propriedades e reacções : A conicina è um liquido claro ou incolor, de aspecto olea- ginoso facilmente alteravel sob a influencia do ar, da luz e do calor, que escurece e como que resinifica ; distilla sem alteração ao abrigo do contacto do ar, ferve de 187°,5 a 189°, e finalmente a 212°, segundo outros ; todavia emitte vapores em temperatura inferior a 100°, e exhala um cheiro forte e activo samelhante ao de rato ou de urina de rato. E’ pouco solúvel n’agua, menos do que a nicotina, entretanto, por excepção de regra, um pouco rnais n’agua fria do que na quente; émuito solúvel no álcool, no ether, nos oleos fixos e voláteis, na benzina e no chloroformio. Tem sabor acre e cáustico. Coagula a albumina (é talvez o unico alcaloide que goza desta propriedade) e precipita um grande numero de oxydos metallicos de suas dissoluções salinas ; pôde ate expellir a am- monia. VENENOS NEURÓTICOS 437 Seus vapores, em contacto com os do acido chlorhydrico dão fumaças brancas de chlorhydrato de cicutina. Ella neutraliza os ácidos e forma saes facilmente decompo- niveis, cujas reacções são as seguintes : 1. a Sob a influencia de uma corrente de gaz acido chlorhy- drico, ou mesmo tratada a quente pela solução deste acido, toma uma côr purpurina, que passa lentamente ao azul ferrete ; esta cor, segundo DragendorfF e outros, é devida antes ás impurezas do alcaloide, e é tanto menos patente, quanto este è mais puro. 2. a Aquecida em um tubo de ensaio com uma mistura de acido sulphurico e bichromato de potássio, desprende acido bu- tyrico, reconhecivel pelo seu cheiro penetrante e caracteristico: Sãó estas as duas reacções especiaes da cicutina, assigna- ladas por Tardieu ; entretanto DragendorfF não considera de- monstrada a presença deste alcaloide, sinão quando se póde verificar as reacções seguintes : 3. a O residuo obtido pela evaporação do ether de petroleo em um vidro de relogio, humedecido com acido chlorhydrico, crys- talliza, eoscrystaes vistos ao microscopio devem se apresentar em fôrma de agulhas, de pequenos prismas ou de arborisações. 4. a Estes crystaes devem ser activos sobre a luz polarisada. 5. a Exhalam o cheiro particular e caracteristico deconicina. 6. a Dissolvidos em agua levemente acidulada por acido sul- phurico, precipita pelo iodureto de bismutho e potássio, bem como pelo acido phosphomolybdico. Chapuis lembra mais outras reacções, que são as seguintes : 7. a A agua de chloro turva fortemente a solução aquosa de conicina. Chandeilon considera também esta reacção caracte- risticada conicina, mas diz que não se produz sinão nas soluções bastante concentradas. Obtem-se-a, porém, das soluções bas- tante diluídas, substituindo-se a agua de chloro por uma solução de hypochlorito alcalino. 8. a A mistura de uma solução de sulphato de alumínio e outra de conicina, deixa depositar, no fim de certo tempo, pe- 438 CURARE quenos crystaes octaedricos, que parecem ser formados por um sal duplo de alumínio e cicutina. 9. a O chlorureto de ouro forma um precipitado branco amarellado, insolúvel no acido chiorhydrico. 10. a O bichlorureto de mercúrio dá um abundante preci- pitado, solúvel no acido chi orhyd rico. 11. a O chlorureto de platina não precipita as soluções aquosas diluídas dos saes da conicina, porque o chlorureto du- plo (do metal e alcaloide) é solúvel n’agua, embora insolúvel no álcool e no ether. Para terminar a historia deste envenenamento, direi que Tardieu pretende, baseado em experiencias de Orfila e Chris- tison, tirar partido da experimentação physiologica como meio de pesquíza da conicina ; os effeitos, porém, produzidos sobre as especies animaes são muito vagos e confusos, e não autorizam uma conclusão rigorosa sobre a natureza deste alcaloide. Envenenamento pelo curare O curare, também chamado ourari, worali, ou woorara, é um producto extractiforme, de composição complexa, obtido com o sueco de diversas plantas, entre as quaes figuram princi- palmente varias especies do gen. Strychnos. Até o fim do século XVI, elleera exclusivamente conhecido e empregado pelos indígenas como arma de guerra e de caça, isto ó, como um meio terrível e certo de levar a morte aos seus inimigos, e como um meio seguro e inoffensivo de abater os animaes destinados á sua alimentação ; para isso serviam-se de settas hervadas, e neste caso curarisadas, que, conforme a tra- dição, elles manejavam com uma força e destreza proverbiaes. Não deixa de ser singular e curiosa esta ultima applicação, á primeira vista inverosímil, de um veneno dos mais violentos, servindo como arma de caça e permittindo que esta seja ingerida VENENOS NEURÓTICOS 439 sem inconveniente. Mas, diz Fonssagrives, está bem demonstrado que o estomago é para elle uma barreira difficil de vencer, e é preciso administrar a um animal quantidades relativamente consideráveis de curare para produzir o envenenamento e a morte. Cl. Bernard mostrou que havia ahi uma simples questão de dóse e de rapidez de absorpção, e que, quando se faz ingerir curare a animaes novos e previamente postos em dieta, vê-se apparecerem os accidentes, como si fosse por injecção hypoder- mica. Não é menos verdade, entretanto, pondera Fonssagrives, que ha para a realização do mesmo effeito, entre a dóse minima ingerida e a inoculada, uma diíferença muito mais considerável do que para os outros venenos. Segundo Gubler, o curare póde ser tomado impunemente pelas vias digestivas, isemptas de escoriações ou de ulcerações, porque o estomago o digere sem duvida, ou não absorve sinão mui lentamente, e dá tempo á sua eliminação fácil do orga- nismo, que se faz particularmente pelas urinas. Elle é entre- tanto absorvido sem alteração pela mucosa rectal e bronchica, e em geral por todas as mucosas, excepto a da bexiga. 1 A explicação desse facto, á primeira vista extraordinário, re- lativo á historia do curare e a uma de suas primitivas applica- ções, reside, a meu ver, na acção poderosa que exerce o chloru- reto de sodio sobre elle, do qual é verdadeiro antidoto, e na existência deste sal na composição do sueco gástrico, ainda mais, favorecida pela demora do contacto e da absorpção. Esta propriedade do sal de cozinha sobre o curare é um facto adqui- rido na sciencia, e cujo conhecimento me foi dado pela primeira 1 Na opinião de Nothnagel e R,ossbach, esta immunidade ligada á admi- nistração do curare pelas primeiras vias depende de que a absorpção palas mucosas sando muito lenia, e a eliminação muito rapida, a quanlidade de veneno existente no sangue em um momento dado nunca é bastante consi- derável para occasionar os phenomenos de envenenamento. Póde-se, pois, sem perigo, chupar uma ferida curarisada. Para provocar em um animal accidentes toxicos pela ingestão do curara, é preciso ou dar dóses massiças do veneno, para que a absorpção sobrep ije a eliminação, ou então ligar pre- viamente as artérias renaes para impedir que esta se faça, segundo as expe- riências de Cl. Bernard, de Hermann, etc. 440 CURARE vez, ha alguns 10 annos, pelo Sr. João Barboza Rodrigues, distincto botânico brazileiro e cultor das línguas indígenas, .ex- director do Museu Botânico de Manàos, no Amazonas, e actual director do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Tive occasião de ver e praticar com elle em aula, na Escola de Medicina, ex- periências neste sentido, que deram resultados constantes e positivos em favor desse antidotismo. Sempre que na ferida de inoculação do curare se applicava em tempo aquelle sal, os animaes escapavam, ao passo que as feridas praticadas com a mesma haste curarisada em outros não tratados por aquelle meio determinavam mais ou menos promptamente a morte. O curare foi pela primeira vez surprehendido aos selvagens que o preparam, em 1595, pelo viajante Walter Raleigh, por occasião do descobrimento da Guyana, e nesse mesmo anno levado á Europa nas próprias flechas. Ahi começou a attrahir a justa curiosidade dos chimicos e dos physiologistas, e a ser objecto de estudos e investigações, que todavia durante muitos annos, durante quasi tres séculos, pouco adiantaram sobre a verdadeira composição e processo exacto da preparação desse veneno terrível, ao qual está reservado papel assignalado na clinica, como já tem na therapeutica experimental. Além do mysterio de que os indígenas cercam esta prepa- ração, do sigillo que guardam obstinadamente sobre os seus componentes principaes, dos embaraços emanados das condições especiaes da vida, costumes e idioma destas tribus, tornando-as difficilmente accessiveis aos exploradores, que se teem achado no meio delias, de modo que cada qual presume ter conseguido a posse do verdadeiro segredo, e apresenta uma formula differente, um modus faciendi inteiramente diverso, além de tudo isso occorre mais que o curare não tem de facto sempre a mesma composição; ella varia conforme as differentes tribus que a preparam, não, porém, segundo o Dr. E. Guimarães, na sua parte essencial ou fundamental, mas nos outros elementos VENENOS NEURÓTICOS 441 secundários e menos importantes, com que por ignorância ou por calculada astúcia complicam o seu preparado. Dahi proveem em grande parte as differenças notáveis que se observam na côr, na consistência, na solubilidade, na ener- gia, e até mesmo em certas particularidades da acção geral, dynamica sobre os animaes, entre os diversos curares, embora tenham todos como caracteristico phvsiologico os effeitos para- lyso-motores que desenvolvem nelles. Em todo caso elles são, na exacta e precisa descripção do Dr. E. Guimarães, extractos aquosos ou suecos vegetaes solidifi- cados por evaporação; de côr mais ou menos negra, quando em grandes fragmentos, terrea, amarellada ou avermelhada, quando pulverisados ou dissolvidos; de cheiro empyreumatico mais ou menos viroso; de sabor amargo; inalteráveis pelo calor e muito quebradiços, apresentando em sua superfície de secção recente o aspecto brilhante dos corpos resinoides ; são geral- mente conservados em pequenas panellinhas de barro. 1 Elles são incompletamente solúveis na agua, apresentando suas soluções filtradas, que gozam de reacção acida, uma côr amarellada ou vermelha mais ou menos intensa; são também parcialmente solúveis no álcool e no chloroformio, ernquanto o ether só lhes toma a pequena quantidade de substancia graxa que conteem. No que respeita á composição do curare, variam as indica- ções fornecidas pelos autores. Segundo aquellas que Vulpian encontrou e colheu nos tra- balhos interessantes de Planchon, a planta que dá ao curare sua acção especial não é a mesma em todos os paizes em que os na- turaes fabricam este veneno ; assim por exemplo na Guyana Ingleza é sobretudo a strychnos toxifera, que fornece a substancia paralysante ; ajunta-se a ella o sueco da strychnos 1 Outros são conservados em pequenas cabacinhas, notando-se que não é nunca o mesmo curare que vem ora em uma vasilha ora em outra; é sem- pre de procedência diversa, e em relação com a tribu que o prepara. 442 CURARE Schomburgkii e o da strychnos cogens. Nas regiões do Alto Amazonas é a strychnos Castelneana, associada muitas vezes ao cocculus toxifera. Na zona do Rio Negro é a strychnos Gu- hlerii. Emfim na Alta Guyana Franceza é outra strychnea do mesmo genero, que Planchon propõe chamar Str. Crevauxii. Além disso, tem-se pretendido que entravam na composição deste agente toxico matérias animaes provenientes de especies particulares de formigas, de serpentes venenosas, ou de sapos, etc. Vulpian affirmacom toda a certeza que o curare de que se serviu no laboratorio não contém peçonha de sapo. 0 mesmo pensa elle a respeito da perereca (Philobates chocoensis), com que aliás os indígenas da Columbia envenenam suas flechas destinadas á caça. Rabuteau distingue tres especies de curare, a que dá até nomes um pouco diversos. A primeira é o curare das cabacinhas, também chamado makusi-uari, porque é usado entre os Makusis da Guyana Ingleza ; é extrahido das cascas e grêlos da Str. toxifera, a que ajuntam também as cascas da Str. Schomburgkii e da Str. cogens, os ramos novos de uma xanthoxylea (o manacá), certas partes de uma especie do gen. Cissus (muramú). Fazem ferver tudo n’agua durante 48 horas, depois evaporam ao solo producto da decocção. E’ a formula de Rob. e Rich. Schomburgh, que dizem ter assistido á preparação. Não leva nem formigas, nem dentes de cobras venenosas. A segunda qualidade de curare é a das panellinhas: vem, se- gundo Cl. Bernard, das margens do Amazonas, onde é preparado por indios da tribu dos Ticunas. Rabuteau que Humboldt a viu obter pela decocção da casca de um cipó chamado mava- curé, attribuido por Klots ao gen. Rouhamon ; reunia-se o 1 Voisin e Lionville, que escreveram um trabalho interessante sobre esta especie de curare, e que foi publicado nos Annaes de Medicina leg%l e Hygiene publica de 1866, a denomina de curare de Carrey, do nome do viajante que offereceu-lh’as para estudo. VENENOS NEURÓTICOS 443 sueco expresso de outra planta, provavelmente de uma stry- chnea. Accrescenta mais o mesmo autor, que esta variedade é menos estimada do que a precedente. Uma terceira qualidade è a que elle chama urari-ura, pre- parado pelos Yuris ou índios do Yupara, do Norte do Brazil. Segundo Martius, que fez conhecer a Rabuteau este veneno, elle constitue um dos mais importantes artigos de commercio entre os indios. E’ obtido com o sueco concreto do Rouliamon guyanesis, com o extracto aquoso do piper geniculatum, do ficus atrox, etc.; addicionam-se, em certas localidades, ainda outras substancias, entre as quaes o sueco leitoso da Hura crepitam {assacú), do Euphorbia crotonifolia, os fructos do Gualtheria venefeiorum, etc. Dos estudos realizados pelo Dr. E. Guimarães resulta que o curare primitivo indigena é essencialmente constituído pelo sueco ou extracto de uma unica planta do genero strychnos, que é a Str. toxifera na Guyana ingleza, a Str. Castelneana ou Gublerii no Amazonas, a Str. Crevauxii na Guyana Franceza, e segundo o Dr. Couty ainda a Str. Aubletii, em outros logares, As outras substancias accessorias, que, como disse, elles mis- turam por ignorância ou astúcia, são os extractos do piper caudatum, do cocculus toxifera, da petiveria álliacea, da hura crepitam, do caladium bicolor, etc. Na opinião do Dr. Couty, as outras plantas de que elles usam, em geral em muito pequena quantidade e mesmo rara- mente empregam, em nada augmentam ou exaggeram a intensidade da acção toxica do curare, antes a enfraquecem ou modificam, porque uma delias (o assacú) é apenas um agente nimiamente irritante; otinhorão goza de acção pyretogenea ; o cocculus (coque do Levante) é mais p ropriamente um nevros- thenico ou convulsionante, portanto ate certo ponto antagonista das especies curarigenas. Robustece esta maneira de pensar do professor francez a circumstancia de que elle e o Dr. Lacerda obtiveram um 444 CURARE curare completo e muito activo, macerando n’agua ou no álcool, ou submettendo á ebullição o córtex dos caules ou das raizes da Str. triplinervia, do Piauhy, que abunda no Rio de Janeiro. Sua acção sobre a economia animal é inteiramente semelhante á do curare indígena, quer sob o ponto de vista de seus effeitos physiologicos, quer de sua actividade toxica. Este conhecimento, adquirido entre nós pelas investigações interessantes dosdouscitados experimentadores, ó de um alcance scientifico e pratico extraordinário, e além de restabelecer a verdade relativamente a esta parte da historia pharmaco-toxi- cologica do curare, veiu proporcionar para o futuro applicações importantíssimas no terreno da physiologia e da therapeutica experimentaes. Graças áquellas investigações, como bem diz o Dr. E. Gui- marães, sabe-se hoje que a qualidade das cascas das strychneas, empregadas na preparação do curare, bem como a proporção deste producto por ellas fornecido, varia conforme a idade do vegetal, as dimensões do seu caule e a região em que vegeta ; que, por exemplo, os extractos obtidos com as cascas das plantas idosas são muito activos e muito toxicos, emquanto que ,é im- potente para paralysar os movimentos dos membros e da re- spiração o extracto fornecido pelas cascas da planta nova. Foram esses estudos experimentaes que demonstraram a influencia do modo de preparação do curare sobre sua energia toxica, ensinando que a acção do calor é suíficiente para transformar em um producto inerte o curare activo da stri/chnos triplinervia, que só resiste á ebullição quando pre- parado com cascas de uma planta jâ idosa. Foram ainda esses mesmos estudos, que provaram, con- firmando assim uma velha hypothese de Gubler, que as flores e fructos daquella strychnea fornecem productos convulsi- vantes como a strychnina e a nicotina, emquanto que os ramos dão um curare que só paralysa os movimentos presididos pelos musculos lisos, e asj raizes um curare completo do- VENENOS NEURÓTICOS 445 tado de todas as propriedades physiologicas dos corares indígenas. Foram finalmente essas pacientes investigações que mos- traram que a strychnos Gardnerii só fornece um curare paralyso-motor dos musculos lisos, quaesquer que sejam sua idade, seu desenvolvimento e a região de que proveem, e quaesquer que sejam as partes vegeíaes utilisadas para a con- fecção do extracto. Comprehende-se bem que o emprego do curare simples, chamado também oflicinal, offerece em relação ao dos indígenas, quer em physiologia experimental, quer na clinica, numerosas vantagens, que derivam da unidade de sua composição e do conhecimento exacto de sua natureza, hoje precisamente definida. Com effeito, além de ser muito mais economico, e sobretudo muito mais facil e menos arriscado o processo de obtenção do curare officinal, pode elle, observada a uniformidade no modo de preparação, apresentar a constância de acção e invariabilidade de energia de que mais ou menos gozam todos os extractos vegetaes utilisados em medicina, o que facilita e notavelmente simplifica sua posologia, tornando-se desnecessário o trabalho de determinai-a mediante experiencia sobre animaes para cada curare differente, como o exigia até hoje o emprego conscien- cioso do curare indígena. 1 A razão deste facto já foi dada anteriormente : reside na complicação inútil e ás vezes em parte prejudicial do preparo deste veneno pelos selvicolas ; cir- cumstancia já assignalada porVulpianem suas Lições sobre as substancias medicamentosas e toxicas, a proposito de uma nota sobre um curare de Venezuela, estudado por Gubler, que 1 E como é preciso para isso adoptar um titulo ou padrão determinado de actividade toxica para os curares indigenas, seja aquelle que propõe e estabe- lece Fonssagrives. Paía elle um bom curare deve pôr em estado de mortô apparente um coelho de 3 kilogrammas, se si lhe injecta 3 milligrammas deste veneno. As dósès therapeuticas devem ser referidas a um curare que preencha esta condição. 446 CURARE evidentemente differe de um modo notável dos curares clássicos, porque determina nos animaes effeitos especiaes de excitação dos centros nervosos e não produz, sinão com mais tempo e em maior dóse, a paralysia ordinaria dos musculos de fibras estriadas. E’ incontestável, diz o citado autor, que se encontram algumas differenças entre os diversos curares, relativamente a certas particularidades de sua acção. Ha variedades que» actuando sobre os nervos motores da vida animal, com tanta energia como outros, exercem também sobre o coração ligeira influencia, mais ou menos analoga á da digitalina, Outros curares, como teve occasião de observar Bochefontaine, parecem exercer sobre os musculos de fibras estriadas uma fraca acção veratrinisante, paralysando seus nervos. Estas differenças dependem da qualidade e quantidade de extractos de plantas estranhas, misturadas aos das strychneas indigenas na fabricação do curare. Como quer que seja, o curare deve suas propriedades a um principio activo, alcaloidico, denominado curarina, pela primeira vez extrahido por Boussingaulte Roulin, que a obti- veram no estado de uma substancia amorpha, como que cornea quando secca, porém muito hygrometrica. Foi Preyher que isolou e obteve, em 1865, a verdadeira curarina crystallizada ; é um corpo branco, de reacção alcalina não oxigenado, muito hygrometrico, escurecendo ao contacto do ar e que forma com os ácidos saes deliquescentes ; crystalliza em prismas quadran- gulares, sem côr, muito solúveis n’agua e no álcool, insolúveis no ether, na benzina, na essencia de terebenthina e no sulphureto de carbono. Reputa-se a curarina 20 vezes mais activa do que o curare. Depois do que fica exposto, e antes ainda de passar pro- priamente ao estudo do envenenamento pelo curare, si qui- zermos reflectir sobre a historia deste veneno, veremos que se pôde dividil-a, como o Dr. E. Guimarães, em tres períodos, VENENOS NEURÓTICOS 447 modificando uma de suas datas. O primeiro, que começa com Walter Raleigh, em 1595, época da descoberta do curare, vae até Castelnau em 1844, e comprehende assim o prazo de 293 annos, durante o qual só eram conhecidas as duas propriedades justificativas das suas primitivas applicações, a de ser um veneno terrível quando inoculado, e a de ser uma substancia innocua quando ingerida. O segundo periodo começa em 1844 com os estudos expe- rimentaes de Cláudio Bernard, e vae, não até 1870 como esta- belece aquelle collega, mas até um pouco antes, até 1865, data assignalada pela obtenção da curarina crystallizada por Preyher. Todo este periodo de 21 annos foi preenchido pelos referidos trabalhos, que tanta honra fizeram a esse grande mestre e á sua escola physiologica : elles foram publicados sob o titulo de Lições sobre as substancias toxicas e medicinaes. O terceiro periodo vem desde essa data, 1865, até nossos dias, e abrange as mais recentes e interessantes investi- gações experimentaes sobre o curare, as quaes recommendam á historia os nomes de Vulpian, Paul Bert, Otto Funcke, Bezold, Yoisin, Bochefontaine, Boudete, Rosenthal, Richet, Couty, Lacerda e por fim o Dr. E. Guimarães. Os trabalhos memoráveis dos tres últimos poderão a justo titulo constituir uma phase nova, mais recente, destacada deste periodo. Symptomas e signaes clínicos; mecanismo da acção toxica E’ ainda muito resumida esta parte do estudo toxico- logico do curarismo, porque fallecem observações fidedignas deste envenenamento na especie humana. Referem-se, porém, sem muita precisão, alguns factos, que se diz haverem sido presenciados em indivíduos feridos de morte por indios selvagens com settas curarisadas. Assim, por exemplo, Rabuteau transcreve um trecho de Cl. Bernard, em que 448 CURARE cita o facto de um indio, alcançado pela própria flecha que elle disparou para o alto, contra um macaco; tendo falhado a pontaria, ella veiu feril-o no braço. Elle teve apenas tempo de dizer e lamentar com voz entrecortada que nunca mais empunharia o seu arco ; prostrou-se em terra, despediu-se de seu companheiro e morreu. Tudo quanto se sabe de mais positivo a respeito da symptomatologia deste envenenamento é o resultado de experiencias e observações nas outras especies animaes, e nellas o primeiro effeito e o mais importante, produzido pelo curare, mesmo em dóses excessivamente pequenas, è o que se exerce sobre as terminações dos nervos motores nos musculos estriados; ellas se paralysam completamente começando pelas do trem posterior, emquanto os troncos dos nervos motores, os orgãos centraes da innervação, a própria substancia dos musculos estriados conservam ainda sua excita- bilidade. Este facto, cuja importância é capital no estudo da ir- ritabilidade muscular, foi descoberto por Kõlliker e confirmado depois por Cl. Bernard e todos os outros experimentadores. Por isso, logo depois de uma injecção hypodermica de curare, os animaes cahem como esgotados de fadiga ; fazem alguns esforços inúteis para se levantar, tornam-se em pouco tempo immoveis, cessam de respirar e morrem, sem que as excitações dolorosas as mais vivas tenham conseguido despertar o menor movimento. Nos animaes de sangue quente a morte é devida à parada da respiração por pa- ralysia respectiva ; é uma verdadeira asphyxia, e algumas con- vulsões que precedem este desfecho são ainda ligadas a este genero de morte, isto é, dependem da excitação pro- duzida sobre a medulla espinhal pelo gaz carbonico accumulado no sangue. As rãs, ao contrario, que, como se sabe, quando privadas dos pulmões podem ainda viver, absorvendo pela pelle quantidade sufficiente de oxygeno, resistem muito mais á acção do curare. VENENOS NEURÓTICOS 449 Neste facto baseou-se uma das applicações praticas mais interessantes da curarisação, e vem a ser o seu emprego como meio de immobilisar, sem o auxilio de meios mecânicos violentos, os animaes destinados às vivisecções de physiologia experimental; emquanto elles se acliam sob a influencia da paralysia curarica, mantem-se a respiração artificial por pro- cessos hoje em uso nos respectivos laboratorios, e remove-se assim essa causa de morte, dando tempo ás experiencias e á eliminação do veneno; o que tem logar quasi exclusiva- mente, ou pelo menos em muito maior escala, pelas urinas. Nota-se neste envenenamento hypersecreção geral, e sobretudo urinaria; as urinas, além de muito abundantes, conteem um pouco de assucar. Os phenomenos observados no homem por Preyer e outros physiologistas, por effeito de fracas dóses de curare (1 a 5 centigr.), são os seguintes, conforme os descreveu Nothnagel e Rossbach : congestão cerebral, cephalalgia violenta mas passageira, sensação de fadiga, apathia, augmento con- siderável da secreção da saliva, das lagrimas, do suor, da urina e do muco nasal ; assucar nas urinas, pulso mais forte e mais rápido, respiração mais frequente, elevação de tem- peratura. Em dóses mais elevadas (1 decigr.), manifestam-se os seguintes phenomenos, segundo Yoisin e Lionville, citados pelos mesmos autores: calefrio, contracções cardiacas accele- radas e mais fracas, elevação de temperatura, augmento das secreções, angustia e perturbações visuaes, paralysia dos membros inferiores, cephalalgia intensa, conservação dos sen- tidos e da sensibilidade. Procurando a explicação destes phenomenos e a in- terpretação do mecanismo da acção toxica e da morte produzida pelo curare, reconhece-se que a theoria dominante na sciencia é a de Cl. Bernard, acceita por Yulpian e pela pluralidade dos toxicologistas : é que este formidável veneno paralysa os nervos de movimento, actuando sobre suas TOXICOLOQ TA 29 450 CURARE extremidades, sobre suas placas terminaes, ou mais resumi- damente, o curare mata a extremidade peripherica do nervo motor. Sem pretender levantar discussão, aqui um pouco des- locada, relativa a esse problema de physiologia experi- mental e á serie de investigações que para sua solução se teem realizado, direi todavia que a doutrina de Cl. Bernard é hoje, em absoluto, dificilmente sustentável, e parece pro- fundamente abalada depois dos trabalhos já citados, executados entre nós pelos dous professores do Museu Nacional, e pelo ex-preparador de matéria medica e therapeutica da Faculdade. Com effeito elles autorizam a concluir, conforme se lê em um artigo da Revista dos cursos práticos e theoricos da Fa- culdade, publicado por este ultimo, que nos animaes completa- mente paralysados pelo curare a motricidade, ou melhor, a excitabilidade de todos os elementos motores do systema nervoso da vida de relação é durante longo tempo normal ou augmentada, desde o cerebro até á peripheria dos nervos mo- tores. Demais, analysando todos os phenomenos que, variadas as condições relativas á dóse e á natureza ou proveniência do curare, bem como aos animaes empregados nas experiencias, podem manifestar-se durante a curarisação, verificou-se não só que esta intoxicação apresenta tres phases perfeitamente dis- tinctas pela natureza diversa e mesmo opposta dos effeitos ob- servados em cada uma delias, como ainda que, conforme a ausência, a predominância e a duração de cada uma destas pha- ses, a curarisação póde offerecer variadíssimas fôrmas, desde a curarisação classica de Cl. Bernard, em que o facto predominante é a paralysia do nervo motor, que supprime os movimentos da vida de relação, até á da curarisação, não menos real, dos ner- vos motores dos vasos, das pupillas, etc., em que, ao lado da suppressão completa dos movimentos da vida de nutrição, persistem, por assim dizer, intactas as funcções dos nervos mo- tores dos musculos estriados. VENENOS NEURÓTICOS 451 A primeira phase, denominada pelo professor Couty, de ex- citação, é caracterisada por agitação constante do animal, acom- panhada de hypersthesia cutanea e de gritos, por contracções choreicas irregulares e asymetricas dos seus musculos, tremor parcial ou generalisado, hypersecreção salivar e lacrimal, dila- tação pupillar, micção e defecação frequentes, hyperexcitabili- dade do pneumo-gastrico, augmento de tensão arterial e de- mora do pulso, acabando com elevação mais ou menos notável de temperatura tanto peripherica como central, e finalmente, augmento da excitabilidade das fibras nervosas motoras e das fibras musculares estriadas. Estes phenomenos não podem ser attribuidos á asphyxia incipiente, como pensou Cl. Bernard, porque manifesta-se a despeito do emprego da respiração arti- ficial; nem também á adulteração do curare por substancias convulsionantes, como acreditou Paul Bert, porque os pro- duzem igualmente os mais puros curares officinaes. Na segunda phase da curarisação, que é a mais conhecida dos physiologistas e therapeutas, porque nella se resumiu du- rante muito tempo toda a intoxicação, apresentam-se, como ca- racteres principaes, a paralysia dos apparelhos motores peri- phericos da vid?. de relação, que perdem successivamente sua excitabilidade funccional e experimental, só desapparecendo esta, vinte, trinta e quarenta minutos depois de abolida total- mente aquella, de modo que deixam de obedecer ás incitações mo- toras habituaes dos centros nervosos que presidem aos movi- mentos voluntários, quando ainda reagem energicamente aos excitantes experimentaes : electricidade, strychnina ou asphy- xia ; é a phase de paralysia physiologica. Finalmente, na terceira phase da curarisação e da paralysia experimental os apparelhos motores periphericos da vida de nutrição representados principalmente pelo grande sympathico, pelo pneumo-gastrico e pelos musculos lisos, são por sua vez affe- ctados pelo curare e, como consequência de sua paralysia, dà-se a perda dos reflexos cardíacos, a suppressão progressiva 452 CURARE da excitabilidade do pneumo-gastrico, o abaixamento da pres- são sanguínea, a abolição da thermogenese, e assim o animal succumbe paralysado em todas as suas funcções por este mesmo curare que, no começo de sua acção, a todas havia excitado. Em ultima analyse, pois, o curare determina phenomenos que, pela origem e natureza dos elementos primitivamente affectados, assemelham-se aos produzidos pelos venenos mus- culares , taes como a veratrina ; e pela physionomia e suc- cessão desses mesmos phenomenos, o curare approxima-se, mais do que parece, da strychnina, longe de ser um seu an- tagonista real, pela excitação que caracterisa a phase inicial da curarisaçâo. Esta proposição, por mais paradoxal que se afigure à pri- meira vista, torna-se menos estranhavel deante dos estudos recentes feitos sobre o curare e que parecem demonstrar que elle é talvez um derivado methylico ou ethylico da strychnina, ou então, conforme suppunha Gubler (e esta hypothese já havia sido emittida antes delle por Schroff, por Crum Brown e Th. Fraser), as propriedades caracteristicas do curare poderiam ser talvez attribuidas à methyl ou à ethyl strychnina, formada por uma transformação da strychnina durante as operações necessárias á preparação do curare. 1 Os signaes cadavéricos e as lesões do envenenamento pelo curare são ainda desconhecidos; ne- nhum autor, pelo menos, se occupa delles, por isso nada posso adeantar. Tratamento Muito pouco ha que dizer sobre os meios a empregar contra o envenenamento pelo curare, que felizmente ainda não preoccupa a atterção dos clínicos. Como antídoto, já o disse no 1 Ainda mais fortalece esta presumpção a semelhança notável das rea- cções chimicas da curarina com a strychnina. VENENOS NEURÓTICOS 453 começo deste artigo e repito, considero de uma efficacia a toda a prova o chlorureto de sodio, de modo que applicado ao mesmo tempo ou pouco depois que o curare, em uma ferida, neutraliza completamente os seus effeitos. Obra por acção chimica ainda não conhecida, porque administrado interna- mente, ou mesmo applicado hypodermicamente em ponto diffe- rente daquelle em que é inoculado o curare, não preenche o mesmo fim, não dá resultado. O alúmen pôde substituir o sal commum nesta indicação, porém é um antidoto mais fraco. No mesmo caso está o bromo, que aliás também póde ser em- pregado com vantagem topicamente. Antes porém de recorrer a estes meios que podem não estar á mão no momento da neces- sidade, convém incontinente sugar a ferida, a applicar uma ligadura que impeça ou embarace a circulação venosa. Feito isto, promove-se a respiração artificial, que se mantém em- quanto duram os phenomenos de envenenamento. Nenhum antagonista tem sido apresentado capaz de pre- encher efficazmente este papel; a strychnina, e em geral os excitadores reflexos da medulla não aproveitam absolutamente neste caso. Pesquiza toxicologica ; signaes ahimicos Recolhe-se para esta pesquiza os líquidos do cadaver, parti- cularmente a urina, não se devendo desprezar os orgãos que de ordinário servem nestas analyses, e mesmo uma porção de tecido muscular. O sangue, Rabuteau aconselha submetter ao processo da dialyse de Graham; mas acha que se podem evaporar com cautela estas matérias e tratar pelo methodo de Stass, ou pelo de DragendorfF. Este chimico basêa o seu methodo de separação da curarina nos seguintes dados: l.° Uma solução sulphurica de curarina não abandona traços do alcaloide nem ao ether, nem á benzina, nem ao ether 454 CURARE de petroleo ; o álcool amyiico e o chloroformio não dissolvem sinão quantidades insignificantes. 2. Esta solução neutralizada pela ammonia ou pela ma- gnesia não abandona a curarina, ou sómente deixa traços aos dous últimos dissolventes. 3. O álcool a 95° dissolve ao contrario toda a curarina da solução precedente em certas circumstancias. 4. A curarina póde depois da evaporação do extracto al- coolico ser isolada do residuo por meio d’agua ; ella se dissolve bem n’agua distillada . 5. O álcool rouba de novo o alcaloide ao residuo secco da solução aquosa e ás vezes em um estado de pureza sufficiente para que se possa sujeital-o ás reacções chimicas e phy si o lógicas, que lhe são próprias. Com estas indicações acredita Dragendorff que a confusão da curarina com a strychnina, com que tanto se assemelha, é im- possível; mas acha que ás vezes é preciso purificar completa- mente o alcaloide para bastante clareza dos resultados, e para isso propoem, elle e Kock, um processo que consiste em tratar a solução amylica da curarina por acido sulphurico puro, preci- pitar depois este pela baryta, retirar o excesso desta base por uma corrente de gaz carbonico, e evaporara secco, esgotando o residuo pelo chloroformio, etc. Este mesmo methodo de purificação do alcaloide elle diz ter empregado com vantagem para a sua separação das matérias organicas. Boussingault Roullin propõe o seguinte processo: preci- pitar a curarina pelo tannino, dissolver o tannato formado pelo acido oxalico, que tem essa propriedade, evaporar esta solução a secco com um excesso de magnesia, e tratar o residuo pelo álcool, que dissolve a curarina, Preyer recommenda um dos processos seguintes: ou preci- pitar a solução pelo phosphomolybdato de sodio, e decompor depois este precipitado pela baryta, para separar a curarina, ou VENENOS NEURÓTICOS 455 precipitar pelo sublimado corrosivo e decompor o producto formado por acido sulphydrico, para isolar o alcaloide. Dragendorff não acha vantagem em nenhum destes proces- sos, aliás mais expeditos, si não mais rigorosos do que o delle. Seja como for, sobre o residuo obtido experimenta-se reacções da curarina, que aliás não são bem definidas e ca- racteristicas, e sobre as quaes ha divergência entre os autores. Assim, começando pelo acido sulphurico concentrado, que dá, segundo Ed. Wilh (Dicc. de Wurtz), Voisin, Hètet, Rabu- teau e Bouis \ com a curarina uma bella cor azul. Dragendorff (pag. 257) diz que deve ser esta a côr dessa reacção, mas elle nunca obteve sinão uma côr roxa pallida, que se carrega mais depois de hora e meia, passando ao vermelho ; continua a modificar-se e passa finalmente no fim de quatro a cinco horas á côr de rosa persistente. Bellini diz que cora em azul intenso ou roxo pallido, e Pouchet, * sempre rôxo. A reacção produz-se muito bem com uma solução que não en- cerre sinão seis centos, de milligr.; torna-se ainda mais bello o resultado, quando se aquece a solução sulphurica em B.M. Otto falia sómente da primeira phase da reacção, e ahi está de accordo com Dragendorff. Yulpian Chapuis, Chandellon e Dragendorff (pag. 182), porém, dizem que o acido sulphurico cora em vermelho a curarina, o que pôde ser o resultado de impurezas, como pensa Hetet, ou de alguma modificação impressa pelo processo adoptado de separação do alcaloide ; porquanto o mesmo Rabuteau, referindo-se ao processo de Dragendorff, diz que os residuos chloroformicos tomam com aquelle acido uma côr vermelha, quando antes tinha declarado que a côr dessa reacção era azul. Em todo o caso, vermelha ou azul, este resultado é muito differente do que se passa com a strychnina em presença do 1 Autor da parte de chimica legal na obra de Briand e Chaudé. 2 Autor da parte de chimica legal na obra de Legrand du Saulles. 456 CURARE mesmo acido ; ella ou não se altera ou é apenas levemente co- rada em amarello. E isto é muito importante, porque si antes de addicionar o acido sulphurmo se misturar o bichromato de potássio, manifesta-se com qualquer dos dous alcaloides o mesmo resultado, isto é, uma serie constante de côres: azul, que passa rapidamente ao roxo, depois ao vermelho, e mais lentamente ao amarello persistente. Donde se conclue que, procedendo-se á reacção por esta ul- tima forma, não se poderia distinguir os dous alcaloides um do outro, ao passo que, tratando-se primeiramente o producto suspeito pelo acido sulphurico, ter-se-ha o meio de os discri- minar. O reactivo de Erdmann cora a principio a curarina em roxo escuro, depois em violete puro, o que a distingue da brucina. O acido azotico concentrado produz uma cor de purpura. A agua dechloronão modifica a curarina de modo sensivel, o que também a distingue da strychnina. O cyanuretode platina e potássio dá um precipitado ama- rello que se dissolve a quente. A mistura resfriada turva-se e fica azul; pela addição de acido chlorhydrico torna-se rôxo (Sachs). As outras reacções são mais communs aos outros alca- loides. Como recurso complementar para pôr em evidencia este ve- neno, aconselham os chimicos a experiencia physiologica. Venenos neuróticos centraes Dividem-se em espinhaes e cerebro-espinhaes, conforme a parte dos centros nervosos de preferencia compromettida pelo veneno. Entre os primeiros que se caracterisam pela acção exci- to-motora, ou excitadora reflexa da medulla, se acham as espe- VENENOS NEURÓTICOS 457 cies de outro grupo de strychneas, cujas propriedades residem na strychnina e seus congeneres, igazurina e brucina. 1 Ao lado destes venenos encontram-se também na mesma classe as cantharidas, o sulfato de quinina, o oxygeno compri- mido, que figuram em geral no numero dos agentes nevrosthe- nicos ou tetanisantes, da classificação de Tardieu. Envenenamento pela strychnina O grupo strychnifero das strychneas, que alguns conside- ram tribu das Loganiaceas ou Spigeliaceas, é constituído pelas seguintes especies do gen. strychnos: 1. a Str. nux vomica : Vomiqueiro, de cuja noz se extrahe toda a strychnina officinal, e cuja casca, conhecida no com- mercio com o nome de falsa angustura 2, fornece a brucina. 2. a Str. Ignatii ou Ignatia amara: Fava de St. Ignacio, mas a verdadeira fava de St. Ignacio 3, que é tres vezes mais rica de strychnina do que a precedente. k 1 Esta nome improprio, e que só serve para perpetuar um erro scienti- fico, foi dado na supposição de que a planta donde provinha era a Bruoea antidysenterica, da familia das Simarubeas, quando é extrahida da casca de vomiqueiro ou falsa angustura, onde exista em maior proporção do que a strychnina, competindo-lhe mais adequadamente os nomes de vomicina, pseudC angustina, ou mesmo de oaniramina, como tem sido proposto por vários chimieos. Existe também na própria noz vomica, na mesma proporção. ! Assim chamada para distinguir da verdadeira angustura, que é uma casca muito parecida com ella, e que entretanto provém de uma planta muito diversa: Galipcea cusparia ou febrífuga segundo outros, familia das Rutaceas, tribu das Cusparideas. Esta goza de acção muito differente, é apenas tónica e febrifuga, porém não toxica. 5 Digo por esta fórma para não confundir-se este vegetal com aquelle que no Brazil recebe impropriamente o mesmo nome. Entre nós chama-se fava de St. Ignacio uma planta do gen. Fevillea ( F. trilobata), da familia das Nhandirobeas ou Cucurbitaceas. Goza de propriedades muito diversasj: é purgativa e suppõe-se mesmo que seja um antagonista da outra planta omonyma. Fonssagrives falia também nesta circumstancia. 4 E’ notável que, sendo ella tres vezes mais rica de strychnina do que a St. nux vomica, seja esta preferida para a extraeção desse alcaloide ; mas a razão é simples, e está, em que a fava de St. Ignacio, originaria das ilhas Phi- lippinas e da Cochinchina, é extremamente rara no mercado, e portanto muito mais cara, de maneira que vale a pena lançar mão antes do vomiqueiro para aquelle fim. 458 STRYCHNINA Str. colubrina, Str.ligustrina, Str. tieutée outras menos conhecidas, ainda não utilisadas.1 Os principios activos destas plantas são os seus tres alca- loides, já indicados na ordem de sua energia toxica : a stry- chnina, a igazurina e a brucina. Com effeito, todas tres gozam exactamente da mesma acção dynamica e toxica, apenas com intensidade diversa ; sendo que não está precisamente calculada e determinada qual essa differença de uma para outra. Todavia, acredita Magendie que a brucina é 12 vezes, Vulpian 10 a 15 vezes, Andral 24 vezes, e Nothnagel e Rossbach 38 vezes menos activa de que a strychnina. Quanto á igazurina, ha mesmo duvidas sobre sua natureza ; si é uma especie chimica definida ou si é antes uma mistura de vários alcaloides, como pensa Schutzemberg, que diz já ter isolado delia nada menos de nove (!) desses principios. Outros a consideram como brucina impura (Jurgensene Schenstone). Seja como for, essas bases acham-se no vegetal combinadas com um acido particular : o acido igazurico ou strychnico (Fonssagrives) no estado de igazuratos solúveis; seu estudo toxicologico não precisa, pois, ser feito, sinão a respeito da mais importante, que é a strychnina, podendo se applicar ás outras, coeteris paribus, tudo quefor expendido sobre esta. O envenenamento pela strychnina, considerado por Tardieu raro e mesmo excepcional em França, segundo Dragendorff tem-se multiplicado nestes últimos annos ; quasi sempre, po- rém, elle tem sido casual. Com effeito, ou por descuido com algumas destas composições infelizmente usadas na Ingla- terra para matar ratos e baratas 2, ou por engano quer na 1 Além dos dons grupos toxicos do gen. strychnos: o gr ipo curarigeno, paralyso-mobor e o grupo propriamente strychnitero, convulsionante e excito- motor, ha um terceiro grupo de especies do mesmo genero privadas inteiramente de acção toxica, dotadas de acção tónica e anti-tebril: Str. potatorum, Str. pseudo quina, que não encerram alcaloides, nem das strychneas, nem das verdadeiras quinas. * Elias vendem-se "sob as denominações de Batll’s vermin Killer ou Buttlcr’s vermin Killer,ye são compostas de strychnina, fécula de batata e azul da Prussia ou pó de carvão. VENENOS NEURÓTICOS 459 preparação de formulas contendo alguns dos productos das strychneas, quer na sua administração aos doentes, teem-se dado accidentes toxicos ás vezes terminados pela morte, como no caso de que falia Emmert, citado por Fonssagrives, de um menino que morreu depois de ter tomado, por engano, cozimento de falsa angustura. Entre nós, além de alguns suicidios realizados por este meio que a imprensa tem registrado, conheço dous casos de enve- nenamento accidental pela strychnina, devidos á presença deste corpo de mistura no chlorhydrato de quinina.1 1 (Jm destes casos pertenceu á minha clinica e foi terminado pela cura ; delle referirei alguns pormenores, que julgo interessantes. Era uma senhora portugueza, de 35 a 40 annos de idade, lymphatica, porém forte e sofTrendo de uma hemicrania antiga e rebelde, a quem prescrevi o chlorhydrato de qui- nina, na dóse de uma gramma dividida em 3 papeis, para tomar 1 de 2 em 2 horas. Escolhi esse sal, de preferencia ao sulfato da mesma base, para illudir sem prejuizo da indicação, a natural e invencivel repugnância que manifestava por este ultimo a doente, como geralmente succede entre opovo. Momentos depois de ter ingerido a dóse do primeiro papel começou ella a experimentar phenomenos insolitos, que rapidamente se foram aggravando e se traduzi- ram por contracções tetanicas. a principio parciaes, depois geraes, até ao ponto de uma asphyxia imminente, segundo a marcha ordinaria dos sympto- mas do strychnismo agudo. Nestas condições, não estando eu presente, foi ás pressas procurado e en- contrado um collega que, hesitando entre um accesso pernicioso de fórma tetanica e um envenenamento pela uma poção calmante e anti-spasmodica. Pouco tempo, quasi duas horas depois, chegando eu, encontrei a doente ain- da luctando em contracções violentas, e sob a influencia do mesmo cortejo sym- ptomatico, não obstante haver lançado uma ou duas vezes, e tomado algumas dóses da alludida poção. Levei incontinente um dos papelinhos restantes á pharmacia, quo existia contigua á casa da doente, e ahi ensaiando um dos reactivos mais sensiveis e caracteristicos da strychnina, reconheci que se tratava po3itivamente de um envenenamento por este alcaloide. Assim lirmado o diagnostico, empreguei de prompto os meios geralmente considerados os mais eflicazes e rigorosos para debellar esse envenenamento, internamente os oleos, o tannino e depois o bromureto de potássio, o chloral, e extername ite fricções largas com pomada de helladona e chloroformio. Tive a fortuna de, no fim de outras duas horas, poder deixar ajdoente em uma re- missão franca e definitiva de todos os symptomas, a que se seguiu a conva- lescença lenta, e só depois de muitos dias a cura completa. Indagando a origem daquelle facto, na pharmacia onde foi aviada a receita, vi que existia ainda em um frasco trazendo o rotulo de chlorhy- drato de quinina, grande porção de um producto branco, com apparencia in- suspeita deste sal, porém que, examinado alli mesmo perante o pharma- ceutico, verificou-se ser constituído por uma mistura de chlorhydrato de quinina e de strychnina ! que o pharmaceutico declarou haver assim recebido de seu fornecedor na Europa. O producto era da fabrica Lamoureux e Gendret ! Pois bem. O que ha de mais importamte neste facto é que sete annos de- pois (1879), em S. Paulo, se dera outro inteiramente analogo, tendo sido victima um preto e escapando de sel-o ama senhora, que tomaram uma pre- 460 STRYCHNINA E’ para admirar que entre nós não sejam mais frequentes os envenenamentos accidentaes pela strychnina, porquanto é este o veneno de que se servem os guardas-flscaes da municipali- dade, por uma postura da mesma, para preparar as chamadas bolas, com que matam cães que vagam nas ruas. Raramente a strychnina tem sido propinada como meio ho- micida. Entretanto ha pelo menos dous processos celebres em que ella foi empregada com esse fim : o Io, em que foi autor o Dr. Palmer na Inglaterra ; e o 2o, em que foi réo o professor Denne, de Berne, na Suissa, em 1864. A dóse menor de pó de noz vomica que tem determinado a morte ó de ( quasi duas grammas ), correspondendo por- tanto a 0,01 de strychnina, comquanto se tenha observado casos de cura com a dóse de 9 a 11 l/i grammas do referido pó. A actividade toxica de extracto de noz vomica varia muito, de sorte que não é possivel estabelecer a sua dóse mortal; tem se visto produzir a morte na dóse de 0,163, ao passo que alguns médicos a teem administrado sem inconvenientes na dóse de 0,5 a 1,5. A tintura de noz vomica poderia matar um adulto na dóse de 8 a 11 grammas. Quanto á strychnina, bastam alguns centigrs. para deter- minar a morte. Tajdor refere alguns casos funestos após a ingestão de 2 a 4 centigrs. do alcaloide. Rabuteau cita a obser- vação de. uma moça de 13 annos, que succumbiu depois de ter ingerido 3 centigrs. de strychnina; entretanto diz ter visto restabelecer-se um homem adulto que tomou 3 decigrs., por- tanto uma dóse dez vezes maior. Em injecção hypodermica, paração em que entrava o celebre chlorhydrato de quinina, receitado por um medico : este mesmo, para mostrar a confiança que tinha na innocuidade do medicamento, provou-o, e sentiu algumas perturbações, que felizmente cederam. Examinado o producto em S. Paulo, e depois aqui na extincta Junta Central de Hygiene Publica, da qual eu era então um dos peritos chi- micos, e para onde veiu remettido o vidro contendo um resto da substancia, tive occasião de verificar que esta amostra era constituida pela mesma ter- rível mistura, e procedente da mesma fabrica ! ! Triste e singular coinci- dência ! VENENOS NÉUROTICOS 461 Christison reputa inevitavelmente mortal a dóse de25 milligrs.: uma quantidade menor mesmo seria já bastante arriscada e capaz de acarretar aquella terminação, conforme as experiên- cias feitas por Vulpian, cujos resultados foram os seguintes (referentes ao chlorhydrato dessa base): « A injecção subcutânea de 1 milligr. deste sal póde matar um coelho adulto; cães de média estatura podem succumbir a uma injecção de 2 l/s a 3 milligr. do mesmo sal. No homem a dóse de 2 centigr. deste ou qualquer outro sal de strychnina, sendo ingerida de uma só vez, póde pôr a vida em perigo, e em injecção subcutânea metade dessa dóse seria certamente muito perigosa. Na dóse de 7*0 de milligr. produz accidentes tetânicos em rãs muito vi- gorosas, e póde matar rapidamente outras mais fracas. » Symptomas; signaes clínicos A explosão dos symptomas varia conforme a dóse, o modo de administração do alcaloide 1 e outras circumstancias ; ella tem logar em alguns minutos, si o veneno é inoculado hypo- dermicamente ; de 7* de hora a 7, hora, si ô ingerido. Sómente, conforme o estado de vacuidade ou de plenitude do estomago, póde também variar a rapidez da absorpção, e ainda neste caso, conforme a natureza das matérias ahi contidas, ella póde ser mais ou menos retardada. Assim acontece, por exemplo, quando essas matérias são sobrecarregadas de gor- dura, ao passo que os ácidos das substancias alimentares, no 1 Ha um modo curioso e singulai4, indicado por Schuler, de applicação do alcaloide, capaz de produzir um envenenamento agudo, de marcha rapida, sem deixar vestígios para o descobrimento do veneno, sinão nos canaes lacrimaes e nas con junctivas oculares (?); consiste em fazer insinuar no angulo interno do olho de um individuo, durante o somno, 5 a 15 centigr. de strychnina. Bellini menciona entre os casos a que se refere a historia do envenena- mento pela strychnina, a de indivíduos que teem suecumbido apresentando symptomas de tétano, depois de terem comido extracto de carne de Liebig, provavelmente alterado ; poi; está provado que dessa alteração originam-sa venenos sépticos (ptomainas), que podem matar ora por acçao narcótica, ora por acção tetanisante ; mas isso nada tem que ver com a strychnina, e admira semelhante confusão da parte de Bellini. 462 STRYCHNINA caso do emprego da strychnina livre, salinificam-a e favo- recem a sua dissolução eportanto;ua absorpção. A ingestão da strychnina, ainda em minima dóse, deixa um sabor exces- sivamente amargo, que se conserva como um resaibo tenaz na garganta ; logo depois, sem nauseas, e muito menos vomi- tos, sinão em casos raros e excepcionaes e precedida apenas por bocejos e pandiculações, sobrevem uma sensação de aperto nas têmporas e na nuca, contracções dolorosas nos mús- culos desta região e nos masseteres, traduzindo-se por um verdadeiro trismo. Depois, apparecem superexcitações bruscas e abalos convulsivos, que se estendem rapidamente a todos os quatro membros, como descargas electricas, que âs vezes chegam a levantar momentaneamente todo o corpo sobre a cama, e se repetem sob a influencia das menores impressões súbitas do tacto e do ouvido; muitas vezes, ou quasi sempre, invadem também os musculos do esophago, larynge e do penis, embaraçando a deglutição e a palavra, e provocando erecções dolorosas. Nestas circumstancias manifesta-se a rigeza tetanica, na maior parte dos casos em opisthotonos, no qual os envenena- dos conservam-se immoveis, com a cabeça fortemente tensa para a traz, e os pés esticados um pouco para dentro, formando ás vezes o corpo um perfeito arco de circulo, com a concavidade para a traz. Mais raramente a curvatura faz-se para adiante (emprosthotonos), ou para um dos lados (pleurosthotonos) ; mas em todo caso, o corpo parece como formado de uma só peça que se póde suspender, sem dobrar, por uma de suas extremidades. O rosto é pallido e contrahido, ofíerecendo um aspecto particular, caracteristico ; o pescoço incha, os lábios tornam-se cyanoticos, as pupillas dilatam-se. A respiração é fraca, lenta, entrecortada e profunda, ou mesmo suspensa por momentos, em imminencia de asphyxia pela contracção tetanica dos musculos respiratórios. A circulação é demorada, irregular, ás vezes VENENOS NEURÓTICOS 463 também interrompida pela tetanização do musculo cardiaco, e dahi a estase do sangue e a cyanose ; entretanto, a intelligencia conserva-se intacta e clara. Duram, termo medio, 2 a 3 minutos estas crises, sob cuja influencia os envenenados soffrem dores horriveis, e ás quaes succede um periodo de remissão mais ou menos franca, um estado de calma, de repouso relativo, que não significa sempre interrupção real na marcha do envenenamento, porquanto, com pequenos intervallos variaveis, reproduzem-se os accessos, seja espontaneamente, seja pela impressão brusca, embora leve, de qualquer circumstancia que affecte os orgãos dos senti- dos : o menor abalo ou barulho, um raio de luz, uma corrente forte de ar, etc. Nesta alternativa, e no meio de um destes paroxysmos que se succedem cada vez mais violentos e mais amiudados, os individuos succumbem á asphyxia por suffocação determinada pela tetanização da caixa thoraxica ou do coração. Si elles resistem a esta causa mais frequente de morte no strychnismo agudo, nem por isto podem se considerar salvos, porque vêm muitas vezes a fallecer em um estado de collapso profundo, consequência do esgoto nervoso, da paralysia cerebro-espinhal, que é a phase terminal deste envenenamento. A rapidez da morte varia ; tem-se visto sobrevir alguns mi- nutos apoz a ingestão do toxico, e portanto na primeira crise tetanica : em um caso no fim de 20 minutos, em outro apenas depois de 5 minutos ! Outras vezes, porém, e mais ordinariamente no fim de 4 a 6 horas ou nos casos menos agudos, de alguns dias. Quando o envenenamento é menos grave e tende á termi- nação pela cura, nota-se que os phenomenos se vão modificando gradualmente e a cura tem logar no fim de uma semana; porém as dores continuam e prolongam-se ainda por muito tempo, ficando tal ou qual rijeza muscular, perturbação da vista, fastio e diarrhéa, ou outrasylesordens gastro-intestinaes. 464 STRYCHNINA Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos Os cadaveres dos indivíduos strychnisados apresentam-se em estado de rigidez pronunciada e duradoura, que pôde per- manecer, dizem os autores, algumas semanas e até mesmo 1 a 2 mezes (!), o que só é admissível nos terrenos e climas desfa- voráveis á decomposição rapida dos corpos. Em diversos pon- tos da superfície da pelle notam-se, segundo Rabuteau, manchas vermelhas e cor cyanotica. Pela abertura das cavidades observa-se o seguinte : O estomago, em geral intacto, excepto nos casos em que a morte tem sido causada pela administração do pó da noz vo- mica, que por ser irritante, deixa um rubor pronunciado em fórma de placas, em alguns pontos de toda a mucosa gastro- intestinal. O coração apresenta-se ora cheio, ora, mais frequen- temente, quasi vazio de sangue, conforme a morte tem sido o resultado de uma asphyxia rapida, ou ao contrario de um esgoto nervoso, acompanhando antes um estado agonico mais lento. O sangue ordinariamente é mais fluido, e de cor mais escura. Os pulmões ora sãos, ora mais ou menos congestio- nados e raramente com ruptura de algumas vesículas. As alterações mais importantes e constantes são as que se encontram para o lado dos centros nervosos, particularmente das membranas que os envolvem. Nota-se uma hyperhemia mais ou menos forte, e mesmo extravasações sanguíneas entre a arachnoide e a pia-mater, e entre a dura-mater rachidiana e o canal vertebral. A substancia nervosa do eixo cerebro-espinhal participa também destas alterações e apresentam, porém em menor escala, na maior parte das vezes, phenomenos de congestão, quando muito pequenos pontos hemorrhagieos, e algum amollecimento da medulla. VENENOS NEURÓTICOS 465 Diagnostico differencial As únicas moléstias que offerecem analogia notável com o envenenamento pela strychnina são o tétano, e em menor gráo a epilepsia, quando ella termina pela morte. Neste caso o accesso convulsivo é unicoe muito mais longo, differentemente do que occorre no envenenamento em que a morte ò precedida de vários accessos ou paroxysmos, em geral de curta duração. Demais no ataque ha perda completa dos sentidos e da sensibilidade reflexa, immobilidade da iris, dicro- tismo do pulso e um conjuncto de phenomenos que tornam a discriminação facil. Pela autopsia encontram-se alterações pro- fundas e antigas no cerebro, que não existem no strychnismo. Quanto ao tétano a confusão é muito facil e justificada, po- rém distingue-se pela invasão precedida de prodromos, consti- tuidos por calefrios, quebramento de forças, insomnia, vertigens, ceplialalgia com tensão dolorosa na base do peito, em relação com as inserções do diaphragma, estes plienomenos duram alguns dias. No envenenamento a explosão dos effeitos toxicos é muito mais prompta e mesmo brusca ás vezes, sem prodromos. Além disso, no tétano os symptomas começam pelo trismus e rijeza cervical posterior ; dahi se estende ao tronco e aos membros ; no fim de muitas horas ou de alguns dias é que a contracção chega ao seu máximo de intensidade, ao passo que ella marcha rapidamente e invade em pouco tempo todo o corpo. O facto mais saliente, o signal de maior importância é o que se deduz da marcha e successão dos symptomas. No envenenamento as crises convulsivas são separadas por intervallos de perfeita resolução muscular, emquanto no tétano a rigidez muscular é permanente e sobre ella dão-se intercaladamente os paro- xysmos representados por exacerbações momentâneas da con- tractura. Finalmente, no envenenamento a morte vem muito mais rapidamente, dentro de poucas horas, ao passo que no tétano sobrevem em geral só no fim de muitos dias. TOXICOLOCtIA 30 466 STHYCHNINA Mecanismo da acção toxica Alguns toxicologistas attribuem a morte a lesões cerebraes que nem sempre se observam, e que em todo caso não a ex- plicam satisfactoriamente na maior parte dos casos ; pelo menos nos animaes invertebrados a theoria caduca. Como bem diz Gubler, os centros nervosos encephalicos são poupados pela strychnina ; pelo menos é facto averiguado que elles não influem para a manifestação dos symptomas de strychnismo, que se desenvolvem e se manteem independente daquelles centros, conforme demonstram experiencias feitas em animaes decapitados. Sómente a duvida começa em precisar o pontoou pontos de predilecção da acção do veneno, entre as differentes divisões do apparelho espinhal e dos nervos que delle derivam. Com effeito as convulsões tónicas podem depender de tres condições próximas: a contractura muscular protopathica, a sensibilidade exaltada dos filetes nervosos eisodicos, que põe em jogo as acções reflexas, e o augmento exaggerado do poder excito-motor da medulla. E’sobre esta ultima que assenta a theoria geralmente acceita e cabalmente demonstrada por dados experimentaes rigorosos de vários physiologistas e notáveis observadores. Longo e fastidioso, além de um pouco deslocado, seria con- signar aqui a serie numerosa de experiencias e interpretações de que tem sido objecto o estudo da acção physiologica e toxica da strychnina, bastando dizer que é o assumpto de quatro das bei Ias lições deVulpian sobre substancias toxicas e medica- mentosas occupando 176 paginas do seu interessante livro que traz este titulo. Em rápidos traços lembrarei apenas que differentes hypo- theses teem sido imaginadas para explicar os phenomenos geraes dynamicos devidos ao strychnismo. Assim Cayrade, Muller, Engelhart e outros admittiram na medulla a existência de centros especiaes de acção para os di- VENENOS NEURÓTICOS 467 versos movimentos de extensão, de flexão, de adducção e abducção, e que sómente os primeiros eram atacados pela strychnina. Rollet explica pela differença de excitabilidade das fibras motoras que entram nas fibras mixtas (?!). Para Magendie a strychnina actua mecanicamente exci- tando a substancia cinzenta do bulbo rachidiano e da medulla, como si fosse uma descarga electrica. Outros, taes como Richter, reviveram em parte a theoria de Magendie. Stannius admitte como causa daquelles phenomenos uma excitação directa, exercida primeiramente sobre as fibras sensitivas e mais particularmente sobre as raizes dos nervos sensitivos e raizes posteriores dos nervos mixtos. Yeiu depois Cl. Bernard, que pretende ter demonstrado uma acção destruidora successiva da propriedade physiologica das fibras nervosas sensitivas, das fibras nervosas motoras e até dos musculos. Para elle a strychnina é o veneno da fibra sensitiva, assim como o curare é o veneno da fibra motora. A theoria, porém, corrente e dominante na sciencia, e cujos defensores são Yan Deen, Mayer, Marshall Hall, Brown Se- quard, Yulpian, Tardieu, Rabuteau, etc., é a que attribue os phenomenos do strychnismo ao augmento da excitabilidade dos centros bulbo-medullares, ou por outra, á exaggeração do poder reflexo da medulla, o qual tem sur. séde na substancia cinzenta ; donde, as contracções sempre por acção reflexa, in- clusive a mesma contracção inicial, dependente de excitações subjectivas. A abolição dessas contracções sob a influencia dos agentes anesthesicos é, entre outras, uma prova em fa- vor desta doutrina. Gubler explica o tétano toxico como o resultado de uma successão de acções e reacções entre as differentes divisões do apparelho sensitivo-motor; verdadeiro circulo vicioso, no qual, em virtude de uma tensão dynamica hypernormal, o 468 STRYCHNINA nervo sensitivo levemente impressionado provoca vivamente a medulla ; esta reage com violência sobre o apparelho motor, que por sua vez responde energicamente, donde volta nova excitação centrípeta, seguida de nova descarga espinhal, e assim por diante. Quanto à extensão forçada produzida pelo opisthotonos strychnico resulta, segundo Vulpian da predo- minância de acção sobre os extensores antes do que sobre os flexores. Desta theoria infere o notável autor dos Commentarios therapeuticos, e com elle outros, o mecanismo da morte pela strychnina, que, a seu ver, deriva de condições diversas: suspensão da hematose (asphyxia), demora e parada do coração (syncope), choque ou abalo nervoso particularmente medullar ; lesões secundarias : hemorrhagias do lado dos centros nervosos ou de outras vísceras, bem como alterações do sangue, que sobreveem fatalmente sob a influencia da contracção mus- cular sustentada ou repetida (acidez do musculo, producto de uma desassimilação mais abundante), etc. Outros acreditam em uma alteração ainda desconhecida da substancia cinzenta do eixo cerebro-rachidiano. Outros finalmente teem considerado como causa da morte, diz Dujardin Beaumetz, a excessiva elevação de temperatura que se observa algumas vezes no tétano strychnico ; entretanto, esta circumstancia não poderia explicar a morte na maior parte dos casos, em que falta a hyperhemia. Depois das experiencias e dos estudos de Rabuteau e outros, a doutrina mais corrente a respeito do mecanismo da morte nos envenenados pela strychnina, é que os animaes de sangue quente, inclusive o homem, são victimas da asphyxia, por teta- nização dos musculos respiratórios ; os vertebrados de sangue frio eos invertebrados succumbem antes ao esgotamento nervoso. De um modo geral pòde-se dizer, com Nothnagel e Rossbach que, si os animaes strychnisados não morrem em um dos paro- xysmos do tétano, por apnéa ou por syncope, como acontece por VENENOS NEIJROTICOS exemplo ás rãs, que como se sabe não podem ser asphyxiadas graças à respiração cutanea supplementar, acabam por succum- bir, quando a dose do veneno tem sido mortal, aos progressos da paralysia dos mesmos orgãos centraes, que no começo do en- venenamento tinham apresentado grande exaltação de sua ex- citabilidade. E ahi está, sinão um traço da analogia entre a strychnina e a curarina, ao menos o ponto fraco e vulnerável do pretendido antagonismo entre os dois venenos. Tardieu, baseado sobre experiencias de Cl. Bernard e obser- vações próprias, rejeita esta theoria porque lhe falta o apoio dos caracteres anatómicos. Com effeito, neste caso a asphyxia seria por suffocação.e esta se caracterisa, na sua opinião, porecchy- moses subpleuraes que não se teem observado nas autopsias dos animaes strychnisados. Porém, esta doutrina de Tardieu não é nem pôde ser acceita sem muitas reservas, sobretudo quando elle não adianta hypothese mais plausivel para a explicação do mesmo facto; e a ausência daquelles signaes cadavéricos, que hoje se sabe não serem thanatognomonicos daquella especie de asphyxia, não invalida a theoria que sobre elles sebasea. Tratamento E’ de regra, sobretudo quando se chega nos primeiros mo- mentos do envenenamento, provocar os vomitos pelos meios me- cânicos, notando-se porém que neste caso, mais do que em outro qualquer, é difficil sinão impossivel a applicação da bomba gás- trica, pela contracção tenaz dos masseteres, cerrando a bocca ; muitas vezes é preciso para esse fim aproveitar alguma falha de dentes, por onde também se faz administrar os medicamentos. Em seguida a estes primeiros cuidados recorre-se aos antídotos, dos quaes os mais importantes são o tannino, o iodo e provavel- mente o chloro. Dentre elles o tannino, proposto porGuibourt e Ludicke, é o que deve ser preferido, porque é o unico que se 470 STRYCHNINA póde empregar com franqueza em altas dóses sem outro incon- veniente, além do que resulta de sua propriedade adstringente, anexosmotica; de maneira que após sua administração deve-se impreterivelmente prescrever uma boa dóse de qualquer pur- gativo salino, ou melhor de oleo de ricino, auxiliando o seu effeito por clysteres da mesma natureza. E’ claro que na falta de tannino podem servir os hydroleos fortemente adstringentes. O iodo e o chloro merecem muito menos confiança, porque, na qualidade de agentes summamente irritantes, não podem ser applicados sinão com a maior reserva, e si for possível, na quantidade necessária ou apenas sufficiente para precipitar o veneno ingerido ; em excesso a essa quantidade seus inconve- nientes são palpaveis. Demais, segundo Rabuteau, a experien- cia ainda não se tem pronunciado a respeito da efficacia destes agentes. E’ verdade que R. Bellini e Bardet confirmam e preconisam a excellencia do chloro como antídoto da strychnina; este ultimo pretende ter curado por esse meio 16 cães sobre 20 envenenados com este alcaloide ; mas, diz Dujardin Beaumetz, de cujo diccionario é colhida esta noticia, que, tendo Bardet em- pregado também nesses casos o emetico, a elle deve evidente- mente pertencer uma parte dos successos. Em todo caso, o iodo administra-se sob a fórma de iodu- reto iodurado de potássio ; e o chloro, proposto por Dumas e Orfila, sob a fórma de agua de chloro ou de um hypochlorito solúvel (agua de Labarraque). Releva ainda notar que sobre a acção do chloro encontra-se no livro de chimica de Nacquet uma proposição que invalida completamente a indicação deste corpo como antídoto da strychnina, e vem a ser que elle a precipita, é verdade, mas que o producto formado, que è um seu derivado chlorado, a trichloro- strychnina, insolúvel na agua e nos ácidos, é todavia tão vene- noso como o proprio alcaloide (!). A’ priori póde-se duvidar deste facto, que seria em todo caso a unica excepção á regra, VENENOS NEURÓTICOS 471 em virtude da qual toda substancia, completamente insolúvel como essa, é inoffensiva ou pouco activa. Gubler aconselha também o chlorureto de sodio. Depois que o veneno tem penetrado na economia e os phe- nomenos dynamicos se teem desenvolvido, recorre-se aos anta- gonistas, escolhendo de preferencia os que pertencem ao grupo dos moderadores reflexos ou cerebro-espinhaes, taes como o opio e seus derivados l, o ether, o chloroformio, o chloral, e os bromuretos alcalinos. Muitos outros teem sido recommendados para o mesmo fim, e são tirados do grupo dos paralyso-motores e dos nevro-mus- culares. Vejamos porém a legitimidade destas indicações, e os resultados reaes que se pôde esperar delias. l.° Paralyso-motores (a cicuta, o aconito e especialmente a fava de Calabar ou eserina, e o curare). Sobre estes direi apenas que, além de serem medicamentos perigosissimos e venenos por sua vez violentos, não exercem sinão uma acção apparentemente contrária á da strychnina, porquanto elles pa- ralysam ou supprimem a contractilidade muscular, actuando sobre pontos diversos do organismo e por um mecanismo especial, que não justifica aquelle antagonismo; elles actuam especial- mente sobre as extremidades periphericas dos nervos motores, e nada ou muito pouco sobre a medulla, que é o orgão de prefe- rencia compromettido pelo alcaloide. Dahi vem que as manifes- tações symptomaticas podem parecer oppor-se, sem prejuizo da acção intima particular de cada substancia, acarretando a 1 Desses derivados, que comprehendem também os respectivos alcaloides, cumpre exceptuar a IheíJainco, que é tetanisante. e, segundo Nothnagel e Rossbach, ainda mais energico do que a brucina, porquanto esta é 38 vezes e aquella apenas 24 vezes menos energica do que a strychnina. Na opinião destes autores a thebaina não é propriamente o unico alca- loide do opio dotado de propriedades qualitativamente semelhantes ás da strychnina, porquanto a codei ia, a liudaninae a hydrocobarnina são também convulsi mantes ; mas não figuram em rigor entre os agrnbes synergicos da strychnina, e antes são excluidos desse numero, porque exercem ao mesmo tempo uma acção estupefaciente sobre a actividade cerebral, que predomina sobre a outra ; esta é avaliada nesta fraca proporção em relação á strychnina: a laudanina 49 vezes, a codeina 85 vezes, ea hydrocotar nina 340 vezes menos activa do que ella. 472 STRYCHNINA morte até mesmo mais promptamente pelo concurso das duas. O curare mascára apenas os effeitos da strychnina como faria uma secção nervosa. (E. Labée.) Por outro lado ainda occorre que si a fava de Calabar e o curare teem o poder de impedir as contracções tetanicas da strychnina, sem conjurar os seus effeitos mortaes, esta é impotente para desafiar contracções nos membros de um animal curarisado. 2. O segundo grupo é o dos nevro-musculares : o fumo e em geral as solaneas virosas e seus respectivos alcaloides. Al- guns toxicologistas teem acreditado que estas substancias se oppoem manifestamente aos effeitos do strychnismo, pelo facto de que teem muitas vezes aproveitado no tratamento do tétano, attendendoá semelhança desta moléstia com aquelle envenena- mento. Entretanto, experiencias de Rabuteau, Papillon e outros demonstram que, na qualidade de venenos nevro-musculares, a nicotina e seus congeneres augmentam a acção convulsionante da strychnina, excitam o systema nervoso e muscular, especial- mente na parte que affecta a vida organica ou vegetativa ; depois paralysa não sómente os musculos que dependem desta innervação, como também os de fibra estriada, de maneira que tornam-se debaixo deste ponto de vista até synergicos daquelle alcaloide, porque determinam um esgoto nervoso, que junta-se ao que succede ás convulsões strychnicas e acarretam mais rapidamente a morte por paralysia do apparelho respiratório. 3. O terceiro grupo é o dos moderadores reflexos, cujo em- prego é muito mais racional, comquanto o antagonismo não seja ainda completo, comquanto os phenomenos de antagonismo sejam mais complexos ; elles estendem sua acção ao cerebro, não directamente affectado pela strychnina que é um veneno sómente espinhal, ou quando muito bulbo-medullar. Das experiencias de Rabuteau resulta que, por exemplo, o chloro- formioé um meio clinico de combater com vantagem as con- vulsões tetanicas produzidas pela strychnina, mas não impede VENENOS NEURÓTICOS 473 a morte por este veneno; atè parece concorrer também para ella pela depressão profunda do system a nervoso reflexo, que caracterisa o período de collapso da anesthesia chloroformica. Por isso pensam alguns que é preferível administral-o interna- mente, porque obra então antes como um antispasmodico util, do que como um anesthesico perigoso. O chloral pôde também determinar duplo effeito, conforme a dóse ingerida. Como antagonista, e isso mesmo infiel, da strychnina ella só póde aproveitar em dóses fraccionadas e repetidas com pequenos intervallos, e neste caso obra peio chloroformio a que dá origem na torrente circulatória, em pre- sença do carbonato alcalino do sangue. Em dóse massiça o chloral ó absorvido directamente, não sendo todo decomposto por falta de quantidade necessária do alcali em um tempo dado ; opera então em natureza com acção excitante, até certo ponto synergica da strychnina. 1 O ether actua do mesmo modo que o chloroformio ; póde ser applicado como elle em inhalações, e obra então como anes- thesico ou internamente, e neste caso como antispasmodico ; sómente é menos perigoso, e por isso em todo caso lhe deve ser preferido. Os bromuretos alcalinos são de grande utilidade no strych- nismo agudo, mas ainda não podem conjurar com vantagem os seus effeitos mortaes, porque não exercem verdadeira acção 1 Não pensa assim Vulpian, que parece depositar muita confiança neste agente, empregado em injecções intravenosas, contra o strychnismo experi- mental, atalpouto que julga-se autorizado a aconselhar semelhante pratica mesmo na especie humana, a despeito de reconhecer os perigos que lhe são inherentes. Oré ( de Bordeaux ) também se mostra enthusiasta deste methodo de applicação do cbloral, que elle aconselha nos casos de envenenamento por grande dóse de strychnina, escolhendo para injecção a veia cephalica ou a saphena, onde é muito menos perigosa do que na jugular, tendo-se sobretudo o cuidado de fazer introducção lentamente. Dujardin Beaumetz, sem adoptar semelhante pratica, todavia considera o chloral como um dos melhores agentes a oppor ao strychnismo ; o que até agora tem dado seguramente mais esperanças, para não dizer maior numero de successos. Cita factos que parecem muito convincentes da efficacia relativa deste meio, cuja applicação elle prefere fazer pela via gastrica, em clyster, ou melhor em injecção hvpodermica. 474 STRYCHNINA antagónica em relação aos elementos compromettidos da eco- nomia, e muito particularmente o bromureto de potássio, que, si como bromureto é um agente de sedação reflexa, como sal de potássio ó um nevro-muscular, deprime a contractilidade mus- cular, podendo produzir uma paralysia que em nada se oppõe á acção toxica e á morte pela strychnina. 1 Por isso Rabuteau aconselha de preferencia o bromureto de sodio, que não tem este ultimo inconveniente. O opio e seus princípios narcóticos ou soporiferos ( a mor- phina e a narceina sobretudo) j podem aproveitar muito e prestar grande serviço contra certos phenomenos do stry- chnismo (convulsões e dores); porém o resultado das obser- vações feitas neste sentido deixam ainda muita incerteza sobre o antagonismo real entre estas substancias e a stry- chnina . Segundo O. Schaugnessy, citado por Gubler, o haschisch, e melhor o seu principio activo, a canabina, seria o antago- nista por excellencia (elle chama antídoto physiologico) da strychnina ; mas o unico facto conhecido em favor deste me- dicamento não prova o seu antagonismo. Também ha mais de um facto conhecido, favoravel ao emprego nestes casos do acido cyanhydrico, que ninguém considera verdadeiro antagonista da strychnina, da qual pa- rece antes synergica, pois estão collocados no mesmo grupo, na classificação de Tardieu ( nevrostenicos ou tetanisantes). Melhor do que qualquer destes meios é a paraaldehyde, que segundo algumas observações goza do poder de deprimir a excitabilidade reflexa da substancia cinzenta do centro bulbo- medullar ; é por isso reputada por Yinc. Cervello, E. Morselli, 1 E’essa tambsm a opinião de Vulpian ; elle acredita que o bromureto de potássio não pôde prestar nenhum serviço nos casos em que uma dóse mortal de strychnina tenha sido ingerida. Seria preciso fazer absorver uma quantidade de bromureto si.fficiente para reduzir a reflectividade da me- dulla e do bulbo ao seu minimo. Ora não haveria tempo de conseguir este resultado, e quando elle se manifestasse, não seria sem perigo, tão grande como o da própria intoxicação strychnica, VENENOS NEURÓTICOS 475 Bokai, Dujardin-Beaumetz e Coudray, legitima antagonista da strychnina. Carece porém de confirmação esta doutrina. Pritchard e Arnett propoem o emprego da camphora, e Yalenti y Vivo recommendam antes o do bromureto de cam- phora, sem factos fidedignos que abonem as suas vantagens. Alguns médicos italianos, particularmente Rognetta, pre- conisam o álcool como excellente antagonista da strychnina, nada se podendo dizer de positivo a este respeito, por falta de experiencias e provas concludentes. No mesmo caso está o nitrito de amyla indicado por Barnes. Em 1883 o jornal medico de Dublin chamou a attenção dos clinicos sobre o emprego da lutidina (obtida pela distillação da cinchonidina com a potassacaustica), quesuppõe-se gozar de acção antagonista da strychnina ; esta propriedade, porém, não ficou tirada a limpo por experiencias ou observações que me- reçam fé. Das investigações recentes de Bignon (de Lima), que não merecem maior confiança, parece resultar que a cocaina deve ser por sua vez incluida no numero dos antagonistas do stry- chnismo ; mas seus effeitos parciaes e muito limitados, e os perigos de sua applicação, a tornam de pouco ou nenhum valor em taes casos. Finalmente, segundo Coze, também a urethana vem se collocar ao lado destes meios na therapeutica da intoxicação strychnica, sem que esteja verificado o proveito real que se póde tirar do seu emprego. Gubler, Richter, Rosenthal, Leube e outros recommendam também a respiração artificial e as inhalações de oxygeno. Emquanto se administra os antagonistas, escolhidos de preferencia no 3o grupo (moderadores reflexos ), procura-se supprir a deficiência de sua acção e vigorar a prescripção com o auxilio de outros meios; taes são internamente os al- coolicos, segundo o conselho de Rognetta, que favorecem a 476 STRYCHNINA eliminação do veneno , e externamente as affusões frias, ou mesmo a queda de um fio de agua sobre a cabeça e nuca, em- quanto o resto do corpo é mergulhado em um banho quente; emissões sanguíneas locaes (ventosas sarjadas ao longo da espinha) ou mesmo uma sangria geral, revulsivos ás extre- midades (sinapismos), electricidade (correntes continuas as- cendentes), emfim até mesmo a tracheotomia. Quanto aos cuidados hygienicos, são também de grande valor e consistem em subtrahiro envenenado a todas as causas de excitações, até da própria luz diffusa, devendo elle estar em um quarto meio escuro. Pesquiza toxicologica : signaes chimicos Osorgãos recolhidos e destinados a esta analyse devem ser principalmente o estomago e os intestinos, com o seu conteúdo, e bem assim o figado, como em geral em todas as pesquizas deste genero. E’ neste orgão sobretudo que se localisa a strychnina, cuja presença nelle póde ser verificada mesmo quando o indi- viduo tenha vivido muitos dias depois da ingestão do veneno. Na falta destas vísceras, ou mesmo para reunira ellas em caso de necessidade, deve-se separar os rins e as glandulas salivares ( por onde se eliminam de preferencia os alcaloides das stry- clineas ), um pouco de sangue e sobretudo a urina que for encontrada na bexiga do cadaver ou que tiver sido recolhida em vida do indivíduo. Também tem-se encontrado a strychnina no coração, e na medulla alongada dos envenenados com este alcaloide, porém em muito menor proporção ; no cerebro ainda menos, ordina- riamente mesmo ahi não se acha (Herapath, Gay, Dragendorff). Por isso taes orgãos não se prestam em geral a esta pesquiza. Póde-se chegar a isolar e reconhecer a presença da stry- chnina e seus cengeneres, ainda por muito tempo depois da morte, porque são dos alcaloides que mais resistem á decompo- VENENOS NEURÓTICOS 477 sição putrida dos corpos (Dragendorff e outros). Assim Stevenson retirou strychnina dos orgãos putrefactos de um cavallo morto havia tres semanas. Numeby encontrou-a em cadaveres de ani- maes em putrefacção no fim de 43 dias. Chandellon diz que, em 100 gr. de sangue, e 2 milligrammas de brucina, abandonada uma mistura durante 3 mezes â putrefacção, póde-se isolar e re- conhecer este alcaloide. Macadam, citado por Dragendorff, affirma ter achado strychnina em restos de animaes envene- nados com ella, haveria tres annos. Finalmente citam os autores o facto, que parece extraordinário, de haver Fresenius conse- guido extrahir a strychnina de um cadaver inhumado ha 11 annos! Segundo Moller, póde-se reconhecer a presença da strychni- na na saliva do homem, 2 a 3 minutos depois de uma injecção hypodermica desta substancia, quando sómente uma hora depois e ordinariamente depois de 2 ou 3 horas, é que ella apparece na urina. Em compensação, conforme as experiencias de Masing e de Rautenfeld, por esta ultima secreção a eliminação prolonga- se consideravelmente ; acha-se ainda strychnina 60 horas depois da ingestão de uma só dóse de 3 milligr. ; e mesmo até 5 ou 6 dias depois de dóses repetidas de 2 ou 3 milligr. ( Chandellon). Na opinião de alguns autores o alcaloide elimina-se em natureza ; segundo outros, porem, tendo soffrido uma alteração qualquer que não é bem conhecida. Plugge diz que provavel- mente se oxyda em parte no organismo, comquantoas experien- cias de Rautenfeld não tenham revelado a presença de nenhum producto dessa oxydação. A pesquiza da strychnina executa-se por differentes proces- sos, que são os seguintes: Io, o de Stass (veja pag. 107). E’ talvez o menos conve- niente, por causa da pouca solubilidade ou quasi insolubilidade da strychnina no ether. Jaussen modificou e simplificou recentemente este processo de modo a ser applicado especialmente à pesquiza do alcaloide 478 STRYCHNINA em questão, prescindindo do emprego do ether: Trata-se as matérias suspeitas pelo álcool acidulado por 2grammas de acido tartarico, filtra-se, evapora-se em baixa temperatura o soluto alcoolico, separam-se as matérias graxas e albuminoides, lava-se o residuo, dissolve-se em agua distillada e ajunta-se bicarbonato de sodio que separa a strychnina ; esta se conserva tempora- riamente em dissolução a favor do excesso de gaz carbonico e precipita-se o alcaloide. Finalmente, para obter-se puro, trata-se por acido sulphurico diluido e depois por carbonato de sodio e pelo ether que o dissolve e o abandona pela evaporação em estado de se poder caracterisar pelas suas reacções próprias. 2o, o de Uslar e Erdmann, em que se lança mão, como já disse, do acido chlorhydrico para acidular as matérias suspeitas e do álcool amylico para dissolver o alcaloide ; também não offerece vantagens, entre outros motivos, porque esse álcool raramente se encontra no commercio em estado de pureza ne- cessária para servir a este fim, e demais, pela evaporação, emitte vapores incommodos e irritantes, que provocam a tosse ; calarei por isso sua descripção. Os processos mais seguros e recommendados especialmente para a pesquiza da strychnina são os seguintes: 3o, o de Dragendorff, também adoptado por Mohr ; execu- ta-se da maneira seguinte : Dividem-se bem as matérias suspeitas e ajunta-se 710 de seu peso de acido sulphurico, põe-se em digestão durante algu- mas horas na temperatura de 50°; espreme-se, e o residuo é submettido ao mesmo tratamento com uma nova quantidade de agua acidulada na mesma proporção. Reunem-se os líquidos, evapora-se até consistência de xarope ou extracto molle, nunca até secura ; lança-se o triplo ou o quadrupulo de álcool concen- trado (a 95°), faz -se digerir de novo ou deixa-se simplesmente em repouso durante24 horas, filtra-se, separa-se por distillação o álcool, e o liquido aquoso que fica mistura-se com 20 a 30 grammas de benzina pura ; aquece-se a 60° ou 70° agitando-se VENENOS NEURÓTICOS sempre, e separa-se por meio de um funil com chave ou de um frasco apropriado a este effeito. Póde-se repetir a lavagem com a benzina, que tem por fim retirar a maior parte das maté- rias corantes, e mão tem acção sobre o alcaloide emquanto o liquido é acido, porque elle ahi existe no estado de combinação salina, insolúvel naquelle agente. A porção do liquido acido que fica é tratada pela ammonia em excesso até reacção al- calina, aquecida a 40c e 50°, de mistura com 50 grammas de benzina, agitando-se constantemente ; separa-se esta ultima que agora deve ter dissolvido todo o alcaloide, posto em liber- dade pela ammonia. Repete-se esta operação, reune-se toda a benzina, que pela evaporação espontânea ou a mui brando calor, abandona o alcaloide. Si elle não se apresenta suíficientemente puro, redissolve-se a favor de um pouco d’agua acidulada e trata-se de novo pela ammonia e pela benzina, que agora deixa um residuo puro, si esta ultima for por sua vez de pureza reco- nhecida, e além disso privada completamente d’agua ; do con- trario formam-se productos de alteração que impedem de veri- ficar facilmente pequenas quantidades do alcaloide. Entre nós difficilmente se encontra benzina nestas condições ; a que ha no commercio é antes uma especie de petroleo que não se presta a este ensaio delicado, porque não dissolve os princí- pios corantes, e fortemente agitado com as matérias suspeitas conserva-se sempre incolor. Foi isso o que tive occasião de observar nas analyses toxicologicas que tenho praticado, pelo que abandonei esse processo apezar da vantagem que lhe reconhece Mohr, e vem a ser a de retirar a quantidade total do alcaloide, evitando a perda que sempre resulta nos outros processos de precipitação, decomposição do precipitado, filtração e dissolução consecutivas. 4o, o de Rodgers e Girdward, baseado sobre a solubilidade da strychnina e quasi insolubilidade dos princípios corantes no chloroformio; é o processo que merece maior confiança e o que dá resultados mais satisfactorios nesta pesquiza, conforme 480 STRYCHNINA tive occasião de verificar varias vezes em experiencias minhas. Esgotam-se as matérias suspeitas por acido chlorhydrico diluido, filtra-se, evapora-se a secco, em B. M., trata-se o residuo pelo álcool, evapora-se outra vez até seccura nas mesmas condi- ções, ajunta-se de novo agua distillada, filtra-se, neutraliza- se e mesmo supersatura-se pela ammonia ; agita-se tudo com chloroformio, deixa-se repousar, separa-se a camada chloro- formica por meio de um chupete ou de um funil com chave, abandona-se á evaporação espontânea e obtem-se o alcaloide, porém ainda colorido e impuro. Trata-se por acido sulphurico (mesmo concentrado, porque não altera a strychnina), afim de carbonizar as substancias órganicas que constituem as im- purezas ; depois de algumas horas junta-se agua, filtra-se e lança-se outra vez ammonia e chloroformio, separa-se este, etc., repetindo-se esta operação ate que o residuo obtido não seja ennegrecido pelo acido sulphurico. Prollius segue e aconselha um processo que é o mesmo de Rodgers e Girdward, com a differença de que as matérias sus- peitas são tratadas por acido tartarico, como no processo de Stass, em vez de acido chlorhydrico ; mas não offerece van- tagem e só dá bom resultado quando a strychnina existe em proporção mais notável. 5o, o de Graham e Hoffmann, que foi pela primeira vez e com successo empregado com o fim particular de isolar a stry- chnina da cerveja, porém que Macadam e outros teem genera- lisado e applicado á pesquiza não só da strychnina, mas de outros alcaloides, em vísceras e matérias recolhidas do cadaver. Repousa este processo na propriedade que tem o carvão animal de fixar e reter os alcaloides existentes nos líquidos que o atravessam, e donde podem ser extrahidos pelo álcool. Executa-se do modo seguinte : Incorpora-se ao liquido 3 °/0 de carvão animal e deixa-se por 24 horas, agitando-se de vez em quando ; depois filtra-se e lava-se sobre o filtro 2 ou 3 vezes com agua pura. Faz-se ferver com 4 a 5 vezes seu peso de álcool a VENENOS NEURÓTICOS 481 90° durante meia hora, aproveitando-se o álcool em um appa- relho de refluxo ou de condensação, isto é, em um balão com- municando com o refrigerante de Liebig ; filtra-se ainda fer- vendo, evapora-se, retoma-se o resíduo por uma solução fraca de potassa, agita-se com ether ordinário, separa-se a camada etherea, que por evaporação deixa o alcaloide em estado de sufficiente pureza para o ensaio com os reactivos. Para a pesquiza dos alcaloides é preciso começar por tornar liquidas as matérias animaes, fazendo-as macerar previamente em agua levemente acidulada por acido oxalico ; depois filtra- se e procede-se no liquido como em relação á cerveja. Este processo presta-se perfeitamente ao reconhecimento da strychnina; sua presença nas urinas, segundo Rabuteau, poderia ser assim demonstrada. Segundo Dragendoríf, apresenta inconvenientes ligados á presença de impurezas, de corpos estranhos no carvão por mais bem preparado que seja, e a al- guma perda resultante de que o carvão não aprisiona a totali- dade do alcaloide contido nos líquidos a examinar; assim como, segundo Ritter, o álcool depois não dissolve por sua vez todo que o carvão tem retido. Qualquer porém que seja o processo empregado, sobre o producto final obtido, promovem-se os ensaios necessários para caracterisar a strychnina. E’um corpo solido, branco, inodoro, de sabor excessiva- mente amargo ; quasi insolúvel n’agua (solúvel em 6.067 partes de agua fria, e 2.500 de agua fervendo), insolúvel no álcool absoluto e no ether anhydro, pouco solúvel no ether normal, solúvel no álcool ordinário (a 85), 1 porém muito mais solúvel no álcool amylico, na benzina e no chloroformio. Crys- talliza em pequenos crystaes rhomboedricos (prismáticos qua- drangulares, pertencentes ao svstema rhomboedrico). Tem 1 E’notável esta circumstancia de um corpo insolúvel em dons líquidos isoladamente e solúvel na mistura delles ; é o que se dá aqui com a agua e o álcool ou o ether. TOXICOLOGIA 31 482 STRYCHNINA reacção alcalina franca e neutraliza perfeitamente os ácidos, formando saes definidos, crystallizaveis, solúveis e ainda mais toxicos do que o alcaloide livre. Os reactivos geraes dos alcaloides comportam-se a respeito da strychnina da maneira seguinte: Os alcalis mineraes fixos, bem como a ammonia, dão um precipitado branco, crystallino, de strychnina. O chlorureto de platina dá um precipitado branco amarei - lado ou mesmo amarello, cuja solução alcoolica fervendo deixa depositar pelo resfriamento flocos crystallinos, com o aspecto de ouro mussivo (bisulphureto de estanho). O chlorureto de ouro dá um precipitado amarello sujo, que se separa de sua dissolução alcoolica, sob a fórma de peque- nos crystaes de cor amarella avermelhada. O bichlorureto de mercúrio e o cyanureto do mesmo metal dão um precipitado branco, que, ora rapida ora lentamente, se torna crystallino. O sulpho-cyanato de potássio dá igualmente um precipitado branco constituido por finissimas agulhas, grupadas em es- trellas. O iodureto de potássio iodurado dá um precipitado ver- melho côr de kermes, solúvel no álcool fervendo, que o aban- dona pelo resfriamento em pequenos crystaes prismáticos, bi- refringentes, da mesma côr. Este reactivo, comquanto não seja exclusivo da strychnina, tem grande valor pratico pela sua extrema sensibilidade. O acido picrico dá um precipitado verde-amarellado, crystal- lino, também muito sensivel. O tannino dá um precipitado branco ; é reputado ainda mais sensivel do que o precedente. As reacções porém caracteristicas da strychnina e que devem ser consultadas para pôr em evidencia este alcaloide, nas pesquizas toxicologicas, são as seguintes : l.a O acido iodico cora a strychnina em azul, depois em VENENOS NEURÓTICOS 483 vermelho puro, e por fim em vermelho vinhoso, sem deposito de iodo ; para isso opera-se sobre a solução sulphurica do alcaloide. Si se junta com precaução e por pequenas quantidades agua commum, não deixando aquecer a mistura, manifesta-se logo esta ultima cor, que mantem-se firme e persiste mesmo até um e dousdias. Um centigr. de strychnina pôde corar por este meio 1 litro de agua. Letheby propõe, para tornar mais sensível o ensaio, decom- por a solução sulfo-strychnica pela electricídade, na presença daquelle reactivo. Para isso o liquido é collocado em uma capsula de platina que communica com o polo positivo de uma pilha ; introduz-se um fio de platina, que é posto em communi- cação com o polo negativo. Basta um elemento de Bunsen ; logo que começa a funccionar a corrente, o liquido fica vermelho. Por este artificio delicado Yry, Burg e DragendoríF descobri- ram 1 millesimo de milligram. de strychnina; tal é a sua sensibilidade. Si esta reacção não é exclusiva deste alcaloide, dá-se somente mais com a brucina, o que já é uma grande vantagem. 2. a O chloro forma nas suas soluções, mesmo diluídas, um precipitado branco, constituído por um derivado chlorado de strychnina, a trichloro-strychnina, completamente insolúvel n’agua e nos ácidos, solúvel na ammonia. Este corpo, segundo Naquet, conserva as propriedades toxicas do alcaloide, o que é um facto extraordinário e singular, a ser exacto. Esta reacção se faz ou por meio de uma corrente de chloro, porém acidulando previamente o liquido com acido chlorhydrico, ou então com a mesma solução de chloro, que de ordinário já contem um pouco daquelle acido por decomposição lenta da agua e se acha assim nas condições mais favoráveis para o ensaio. 3. a Dissolvido em acido chlorhydrico (a 1,12), fazendo-se ferver o liquido, e addicionando-se depois um traço de acido nitrico, produz-se uma cor vermelha, que o menor excesso deste ultimo acido impede de se manifestar. 484 STRYCHNINA 4. a Juntando-se á strychnina 2 a 3 gottas de uma solução ehlorhydrica de chlorureto de zinco, e evaporando-se até sec- cura em banho de vapor, desenvolve-se uma cor rosea averme- lhada (Chandellon). 5. a O bichromato de potássio dá um precipitado amarello crystallino l, de chromato de strychnina, que, tratado pelo acido sulphurico concentrado, toma de prompto a côr azul in- tensa, que passa rapidamente ao roxo, depois ao vermelho epor fim ao amarello persistente, soffrendo transformações que não são ainda conhecidas, que não foram interpretadas. A trans- ição da côr azul á roxa é tão rapida e fugitiva que passa facil- mente despercebida, o que faz com que alguns autores omittam esta côr, dando a rôxa como a primeira que se manifesta, Chan- dellon por exemplo. Esta reacção é caracteristica da strych- nina e além disso muitissimo sensível, até um millionesimo, segundo Otto; pôde-se executal-a também de outras maneiras : ou misturando-se previamente o alcaloide com o bichromato em pó, e juntando depois o acido sulphurico, ou atacando primeiramente esse corpo pelo acido sulphurico e addicionando em seguida o bichromato alcalino. Como quer que seja, o resul- tado é o mesmo, porém destes dois o ultimo modo de proceder é mais correcto e mais preciso ou rigoroso, porque permitte distinguir logo a strychnina da curarina, que com ella se asse- melha nesta reacção, com a unica differença, que só pela acção do acido (independente do bichromato) cora em azul segundo uns, em vermelho arroxeado segundo outros, o que não succede à strychnina, dando depois a mesma serie de côres que com esta, pela addição do sal chromico. Alguns outros productos oxygenados comportam-se nesta reacção como o bichromato de potássio, taes são : o peroxydo de chumbo (oxydo côr de pulga), o peroxydo de manganez, o prussiato vermelho, o permanganato, o perchlorato e o per- 1 Segundo Mohr, de um reflexo azulado que eu nunca pude observar. VENENOS NEURÓTICOS 485 iodato de potássio, e finalmente o oxydo de cerio. Como o meio mais sensivel Wenzel recommenda o permanganato de potássio, e Sonnescheim o oxydo de cerio, os quaes, dizem elles, dão cores mais estáveis, suecedendo-se por transições mais lentas. Penso com Dragendorff e Otto que nenhuma vantagem offerecem estes compostos sobre o bichromato, que goza da mesma ou maior sensibilidade e é mais facil se ter sempre á mão ; ainda mais, em experiencias a que procedi, achei o oxydo de cerio muito menos sensivel do que os outros nesta reacção. Demais, na opi- nião de Dragendorff, este oxydo não reage sómente sobre a stry- chnina, mas ainda sobre algumas outras soluções sulphuricas de alcaloides (brucina, morphina, narcotina, codeina, quinina, veratrina, atropina, solanina, emetina, colchicina, etc.), dando côres diversas, que podem trazer perturbação na interpretação dos resultados. O engano é porém muito mais facil com a anilina sobre a qual a mistura sulfo-cerica produz ora a cor azul, ora a cor roxa franca (conforme as condições do acido), e portanto as côres iniciaes da reacção própria da strychnina nas mesmas condições ; o que aliás acontece igualmente com o bichromato, mas este não dà com a strychnina a reacção desde que se empregue um acido sulfuricodiluido(penta-hydra- tado), ao passo que mesmo nestas condições a anilina se cora ainda em azul franco. Além disso na solução sulfurica de strychnina, a menor parcella de bichromato produz a cor azul e roxa, que muda rapidamente pela fórma já indicada, ao passo que com a anilina è preciso maior porção do sal, é mais lenta a reacção, e mais fixa e duradoura a cor ; levaás vezes horas. Quanto ao permanganato de potássio, como bem diz Cha- puis, tem mais o inconveniente da sua cor própria, que pôde mascarar e confundir o ensaio. Ha, porém, um composto que parece competir vantajosa- mente com o acido chromico para caracterisar a strychnina; é o acido sulfo-vanadico (reactivo de Mandelin), que obtem-se 486 STRYCHNINA dissolvendo o vanadato de ammonio em acido sulphurico mono- hydratado. Dá com o alcaloide a mesma serie de cores, mas com transições mais demoradas do que com o bichromato, sendo qne a cor vermelha pôde ser restabelecida pela addição da agua, depois de terminada a reacção. Diz Dragendoríf que 1 millesimo de milligr. produz ainda uma cor azul bem visivel. Para maior clareza do ensaio, convém proceder da maneira seguinte, conforme o conselho de Otto: Dissolve-se o producto suspeito em algumas gottas de acido sulphurico concentrado, em uma pequena capsula, e lança-se depois um fragmento de bi- chromato alcalino, inclinando e movendo em varias direcções a capsula, ou fazendo percorrer com a extremidade de um bastão um crystal de bichromato em diversos pontos da mesma, onde existe a solução acida ; formâm-se estrias azues e roxas, tanto mais bellas quanto a camada do liquido em contacto com o crystal é mais delgada. E’ preferível o emprego do bichromato solido, porque gradua-se com o bastão a quantidade estricta- mente necessária para a nitidez do resultado, que depende da proporção relativa dos corpos em presença e do gráo de con- centração do acido sulfurico. Nasanalyses toxicologicas porém é preferível, segundo Otto e Horsley, o primeiro modus faciendi, isto é, precipitação pelo bichromato, porque proporciona o meio de em duas simples ope- rações separar e caracterisar a strychnina. Acredito que a maior vantagem que esse methodo offerece consiste em permittir actuar directamente sobre líquidos orgânicos impuros, contendo strychnina, no seio dos quaes o chromato alcalino forma o pre- cipitado de chromato de strychnina, que pôde ser separado pelo filtro, perfeitamente lavado, depois seccado e guardado, como peça de convicção ou corpo de delicto, para nelle demonstrar-se em qualquer tempo a presença do alcaloide toxico. Devo, entretanto, ponderar que comquanto estas duas rea- cções (a do chloro e a do bichromato, sobretudo a ultima) sejam VENENOS NEURÓTICOS reputadas cora razão caracteristicas da strychnina, cumpre não ligar-lhes um valor absoluto, e estar de sobreaviso, a respeito de certas circuinstancias que se podem apre- sentar nos exames chimico-legaes, e comprometter ou falsear o resultado dos mesmos. Assim é que o calor, diz Chapuis, oppõe-se á producção da cor violete ; é preciso pois evitar com cuidado neste ensaio elevação de temperatura. O chloro exerce a mesma influencia e é por isso que, segundo o citado autor, a reacção não se faz bem com o chlorhydrato do alcaloide, por- quanto em presença da mistura oxydante (sulfo-chromica, sulfo- manganica ou Sulfo-plumbica) desenvolve-se aquelle gaz. Mohr diz também que com o nitrato de strychnina falha, natural- mente por causa dos vapores nitrosos que se desprendem e pre- judicam a reacção. Um escolho, porém, que se me afigura muito mais grave é o que resulta da presença de matérias organicas no producto a analysar. Si em pequena quantidade certas substancias dessa natureza ou contendo em sua composição principios que nella teem sua origem não impedem, nem perturbam a reacção chromica da strychnina, e neste caso se acham o amido, a dextrina, a san- tonina, o acido tartarico e seus saes, mesmo a quinina l, outro tanto não acontece, por exemplo, com o assucar ( Dragen- dorff e Mohr), e com a morphina (Horsley eMohr), que exer- cem aquella influencia oppondo-se à citada reacção. 1 Incluo aqui também a quinina, contra a opinião de Mohr, que a men- ciona no numero do3 corpos que oppoem-se ou embaraçam a reacção chromica da strychnina. Discordo neste ponto doillustre professor da Universidade de Bonn, porque tive occasião de observar e verificar muitas vezes que em uma mistura dos alcaloides ou seus saes, as respectivas reacções se exhibem com toda a clareza, uma não prejudicando a outra, a menos talvez que existam em proporções muito desiguaes ; a primeira vez que observei este facto foi no exame dos pós tomados pela doente cuja historia em começo referi. Estou neste ponto de perfeito accordo com Elle declara que a presença da strichnina póde ser facilmente verificada em uma mistura de quinina ou de cindhoriina, quando qualquer destes alcaloides não predomina muito. Se- gundo as experiencias de Masing, 25 milligr. de sulfato de strychnina podem ser reconhecidos em20 vezes seu peso de sulphato de quinina. Folgo de encon- trar no livro do eminente professor da Universidade de Dorpat a confirmação desta observação que desde 1871 eu j“â havia feito. 488 STRYCHNINA Segundo Dragendorff, também notáveis proporções de bru- cina podem mascarar as reacções da strychnina ; mas, além de que reconhecendo-se a existência daquelle alcaloide, nem por isso ficaria menos provado o envenenamento por um principio congenere pertencente á mesma especie botanica, raramente esta circumstancia se pôde apresentar na pratica, porquanto os productos pharmaceuticos das strychneas não encerram quanti- dade sufficiente ou necessária de brucina para darem esse resul- tado. No que respeita á presença da morphina, a questão torna-se pratieamente muito séria, em que pezeá opinião de Otto, por- quanto é muito natural encontrar-se reunida à strychnina nos orgãos e matérias organicas pertencentes a um indivíduo enve- nenado por esta ultima, e convenientemente tratado, attendendo a que o opio e seus derivados são tidos entre os antagonistas de mais confiança para conjurar algumas de suas manifestações symptomaticas, e tanto mais póde esta circumstancia embaraçar o reconhecimento da strychnina, quanto, na qualidade de mode- radores reflexos, o opio e sobretudo alguns de seus alcaloides, impedindo ou attenuando consideravelmente as convulsões tetaniformes, podem invalidar ou enfraquecer o resultado da experimentação physiologica, que é um recurso precioso, e ás vezes talvez o unico para demonstrar o envenenamento pela strychnina. Mas felizmente, segundo Reese, Masing, etc, só em grande excesso sobre a strychnina é que a morphina póde im- pedir a dita reacção. Outra circumstancia concernente a esta hypothese é a que se refere aos restos ou traços de princípios orgânicos estranhos que sempre existem no producto do tratamento das vísceras e matérias organicas submettidas á analyse. Como todos sabem e já foi anteriormente dito a proposito da pesquiza do álcool, essas matérias reduzem o acido chromico ; mas, conforme tive occasião de observar juntamente com o meu ex-companheiro de trabalho no laboratorio de medicina legal, o Dr. Borges da VENENOS NEURÓTICOS 489 Costa, nem sempre se apresenta a cor verde franca do oxydo de chromo, producto desta reducção ; algumas vezes a vimos levemente azulada ou tirando sobre o azul, não sendo conhecida a verdadeira causa deste facto, que ainda não encontrei indicado nos autores. Comprehende-se quanto esta circumstancia póde trazer confusão e duvidas no espirito do chimico legista, e as quaes elle deve e póde até certo ponto evitar, não operando sobre resíduos que sejam mesmo levemente corados; estes devem ser o mais possivel claros e isentos de quaesquer impurezas. Esta recommendação é de uma importância capital, para prevenir essa causa de erro, não só quanto á reacção do acido chromico sobre a strychnina, como quanto á do chloro, e até mesmo quanto ao ensaio physiologico respectivo. Com effeito, o chloro exerce sobre as matérias organicas umaacçãodescorante poderosa; ellas tornam-se esbranquiçadas ou completamente brancas sob a influencia daquelle agente, como succede quando submettidas ao processo de destruição, de Jacquelin. Nestas condições, as impurezas organicas que acompanham o producto suspeito podem ser descoradas, tornando-se brancacentas, apparentando a reacção própria do chloro sobre a strychnina, e donde resulta, como já disse, a formação do trichloro-strychnina. A experimentação physiologica, por sua vez, exige, para ficar ao abrigo desta grave objecção, que o producto destinado a ser inoculado nos animaes seja completamente privado de princípios cadavéricos, que iriam complicar os resultados, visto que são em geral toxicos, e alguns determinam effeitos compa- ráveis aos dos venenos nevrosthenicos ou tetanisantes, con- forme já fiz ver, a proposito do estudo geral sobre esse methodo de pesquiza toxicologica. Nas condições mais favoráveis e convenientes elle constitue um recurso de subido alcance, e que deve sempre ser ensaiado quando se tratar de principios activos dotados de propriedades physiologicas conhecidas e caracteris- ticas. A este numero pertence a strychnina, escolhendo-se de 490 STRYCHNINA preferencia rãs, que são talvez os animaes de maior sensibili- dade reflexa à acção deste veneno 1; alguns centésimos de milligr. applicados pelo methodo hjpodermico em rãs, deter- minam mais ou menos promptamente violentas contracções tetanicas. Em certos casos, porém, acontece que ellas não se declaram espontaneamente, por insufficiencia da dóse ou outra circumstancia não conhecida, mas então provocam-se com facilidade por meio de qualquer estimulo ou excitação : o toque de um objecto sobre o corpo dos batracios, a agitação forte da agua em que elles nadam, um ruido brusco qual- quer, etc. Para maior clareza e garantia do resultado procede-se con- forme aconselham Tardieu e Roussin, isto é, lança-se mão de mais duas rãs, em uma das quaes se injecta algumas gottas de um soluto de sal de strychnina, afim de comparar os effeiios que nellas devem produzir o alcaloide em substancia e o producto final resultante obtido pelo tratamento das matérias organicas suspeitas ; a terceira rã ficará no seu estado natural para servir por assim dizer de testemunha. Por minha parte julgo inútil e dispensável este papel confiado á terceira rã, parecendo-me de muito mais utilidade aproveital-a para inocular-se um extracto de matérias animaes, não contendo nenhuma substancia toxica estranha á que é de sua própria natureza, isto é, aos princí- pios sépticos cadavéricos (ptoaminas). Desta fórma o confronto seria mais significativo e concludente. i Experimentalmente assim é, segundo Nothnagel e Rossbach, porque o peso desses animaes é muito pequeno em relação ao dos outros. Elíes não são de facto os mais seusiveis á acção da strychnina ; o mais sensível a este veneno justamente é o homem. Os animaes que o são menos são a rã, o gallo e o ouriço caixeiro; não fallando em alguns invertebrados que resistem consideravelmente á strycbnisação. Alguns passaros alectorides também supportam dóses relativamente elevadas de strychnina introduzida no papo, o que os fez parecera Leube refractarios a este veneno; mas explicam aquelles autores esse facto pela demora de absorpção nessa cavidade (?), porque quando injectado hypodermicamente em dóses muito mais fracas, elles suc- cumbem sempre. O mesmo não succede porém aos coelhos, que morrem mats depressa quando a strychnina é introduzida no estomago, do que quando applicada em injecção hypodermica. o que é um facto singular e excepcrioíiltl, digno de menção. VENENOS NEUROTIGOS 491 Quanto á brucina, que é perfeitamente synergica da stry- chnina, apenas muito menos violenta do que ella, reconhece-se pelos caracteres seguintes : E’ um corpo solido, branco, inodoro e muito amargo, crys- tallizavel em prismas quadrangulares obliquos, solúveis no álcool mesmo absoluto, no álcool amylico, na benzina e no cbloroformio, insolúveis no ether anhydro. Tem reacção alca- lina, satura os ácidos formando saes definidos e crystallizaveis. Comporta-se em presença dos dous reactivos especiaes da strycbnina de modo diverso. Assim: 1.0 O acido chromico dà logar á formação de bellos crystaes amarellos, grupados ás vezes em estrellas, mas em todo caso muito differentes dos que fornece a strychnina nas mesmas con- dições. 2. O chloro gazoso, atravessando uma solução chlorhy- drica da brucina não a precipita, mas o liquido toma uma côr rosea ou vermelha intensa, que a ammonia faz virar ao ama- rello. A agua chlorada tinge de côr de rosa clara as soluções concentradas dos saes de brucina. A reacção, porém, caracteristica deste alcaloide é a que se obtem mediante o ensaio seguinte: 3. O acido nitrico, só ou misturado com uma pequena quantidade de acido sulphurico (reactivo de Erdmann), tinge de vermelho côr de sangue a brucina ou seus saes ; e o liquido torna-se de um rôxo intenso, quando se junta protochlorureto de estanho ou sulphydrato de ammonia. Stanislau Cotton prefere o emprego do sulphureto de sodio, que não me parece ter vantagem alguma sobre aquelles dous. Em todo caso esse resultado póde-se obter mesmo a frio, com a condição porém de não haver excesso de acido nitrico, nem de sulphureto ; quando se emprega um excesso de qualquer dos sulphuretos alcalinos, o liquido toma a côr verde. Por estes motivos é preferivel lançar mão do sal estanhoso, e quanto ao excesso de acido nitrico, remedeia-se aquecendo o 492 CHLOROFORMIO liquido a 40° ou 50°, até que não se desprendam mais vapores amarellos de peroxydo de azoto, misturados de azotito de ethyla (ether nitroso). Nesta reacção a brucina converte-se em uma nova base organica chamada cacothelyna, cuja composição e propriedades não são ainda bem conhecidas, assim como não se conhece a theoria da reacção que se passa com o protochlo- rureto de estanho. O liquido vermelho primitivo resultante da acção do acido nitrico sobre a brucina descora-se pouco a pouco até que fica amarello, mas readquire a cor vermelha viva, quando se ajunta um pouco de peroxydo de manganez, e toma a cor verde, quando tratado pelo bichromato de potássio. Na prova physiologica comporta-se como a strychnina. Envenenamento pelo chloroformio Entendo, com Rabuteau, e contra o modo de pensar de Tardieu, que na historia toxicologica do chloroformio deve-se comprehender não sómente os casos de administração interna deste agente, como os devidos á sua inhalação, seja ou não propositalmente como meio de homicidio, ou accidentalmente por occasião da anesthesia cirúrgica. Para que os casos de morte por inhalação não devessem ser contemplados no estudo dosenvenenamentos pelo chloroformio, era preciso que sò fossem sempre accidentaes, e neste caso, como diz Tardieu, não inter- essaria à medicina legal sinão debaixo do ponto de vista da responsabilidade medica. Mas jâexiste consignado mais de um facto de homicidio por esse processo ; além do que se refere a um medico de Berlin, que em 1830 serviu-se da inhalação de chlo- roformio para matar sua mulher e seus dous filhos, conhece-se outro crime dessa natureza praticado mais recentemente em Portugal, por um deputado portuguez na pessoa de sua mulher, senhora brazileira, contra quem lançou mão daquelle meio. VENENOS NEURÓTICOS 493 Considerarei, pois, separadamente os dous casos, começando pela inhalação. Combinando as estatisticas americana e ingleza, relativas aos accidentes mortaes devidos á inhalação do chloroformio, empregado como meio anesthesico, Morgan achou 53 mortes sobre 153.260 indivíduos chloroformisados, isto é, 1 para 2.373. Outros teem assignalado uma porcentagem differente muito mais favoravel á estatística do chloroformio. Assim Gubler, reunindo os dados que lhe foram communicados por Giraldés, apresenta as seguintes indicações : Richardson : 35.162 chloroformisações (em 4 series)— 11 mortos, ou um para 3.196; — Joseph Barnes (dos Estados Unidos) : 80.000 chloroformisações — 7 mortos, ou 1 para 11.428 ; — e finalmente Syme (de Edimburgo) e Elner (de Stras- burgo): 21.000 chloroformisações sem caso algum de morte. Sommando-se, tem-se 136.162 anesthesias pelo chloroformio com 18 mortos apenas, o que dá uma porcentagem de 1 para 7.453. Ainda mais, tendo em consideração os resultados obtidos nas operações cirúrgicas praticadas nos exercitos alliados na Cri- mèa, eno exercito francez na Italia, chega-se a resultados ainda mais favoráveis ao chloroformio, que o tornam tres vezes menos activo e perigoso do que o ether, em vez de ser 8 vezes mais do que o estabelecem aquelles primeiros dados. Assim o exer- cito inglez só perdeu um soldado, e o exercito francez nenhum. Admittindo, é verdade que sem dados officiaes rigorosos, um minimo de 30.000 chloroformisações em toda a campanha, tem-se 1 para 15.000. Discutindo a razão daquella mortalidade, Gubler entende que é devida á falta de certas precauções relativamente a impurezas do agente anesthesico, e ao modo de sua applicação, ou alguma outra circumstancia estranha ao medicamento, A quantidade de chloroformio necessária para occasionar a morte varia de modo considerável, e tanto quanto se póde ra- zoavelmente deduzir das interessantes e curiosas experiencias 494 CHLOROFORMIO de Duroy, Perrin e Lallemant executadas sobre cães, a morte sobrevem ao homem antes que seu organismo contenha 3 grammasde chloroformio : cita-se mesmo um caso de intoxica- ção mortal sobrevindo apoz a inhalação de 15 gottas apenas deste corpo ! (Dicc. de Med. de Jacoud.) Ora, é para notar-se que este algarismo, que Rabuteau ainda julga exaggerado, differe e é muito inferior ao que representa a quantidade geralmente applicada para produzir a anesthesia cirúrgica; sobretudo nas grandes operações, nas operações demoradas ella chega muito frequentemente a 15 e 30 grammas, ou mesmo mais. Mas não se trata aqui da quantidade total gasta no processo da inhalação e da qual grande parte se perde, porém sómente da que é absorvida pelo individuo. Quanto á dóse toxica de chloroformio administrada inter- namente ou ingerida, é ainda mais difficil de determinar, por- quanto, si se conhece um caso de morte occorrido em uma criança que ingeriu apenas 3 grammas deste veneno, a sciencia registra outros em que dóses incomparavelmente mais elevadas, embora em adultos, não acarretaram a morte ; em um delles, citado por quasi todos os autores, o individuo havia tomado 60 grammas de chloroformio; em outro, mencionado por Taylor, a quem foi communicado por Jackson, o individuo tendo ingerido a enorme quantidade de 120 grammas, ainda logrou escapar, depois de experimentar accidentes muito graves. Symptomas ; signaes clínicos A — Inhalação. Depois da impressão desagradavel provocada pelas primeiras inspirações de chloroformio e que se traduz por salivação, lacrimejamento e tosse com expectoração mucosa, e apenas estabelecida a tolerância local, o primeiro phenomeno que se apresenta é uma sensação de calor que se irradia do peito para as extremidades e se espalha por todo o corpo, acompanhada VENENOS NEURÓTICOS 495 de certo bem-estar devido ao desapparecimento de todas as pe- quenas impressões desagradaveis habituaes ( comichões, pressão das roupas, etc. ) Seguem-se logo zoada e sibilos nos ouvidos, formigamentos e picadas nos membros, frémitos vibratórios, entorpecimento geral com delirio ruidoso, alegre e gesticula- torio; as idéas perdem sua clareza, a palavra é obscura e con- fusa; a vista e o ouvido tornam-se indistinctos ; todos os objectos parecem separados dos olhos como por um véo ; os sons se afiguram surdos e longínquos. Segundo Atkinson, os sentidos se obliteram successivamente na ordem seguinte: gosto, olfacto, tacto, vista e ouvido; este ultimo torna-se mesmo ás vezes exaltado, durante certo tempo da chloroformisação. Si ainda não se tem manifestado o delirio franco, sobrevem agora com caracter e intensidade variaveis, segundo os indi- víduos : uns cantam e riem-se expandindo sem reservas todas as suas alegrias, com revelações amorosas e referencias eró- ticas, muitas vezes em linguagem livre. Outros choram e lamen- tam-se com violentas increpações e recriminações sobre os motivos de sua desgraça, etc. Elles entram em contracções vio- lentas, e desenvolvem uma força extraordinária, na lucta que estabelecem para se desembaraçarem do agente anesthesico e daquelles que o applicam. Ao lado destes phenomenos nota-se que o rosto fica ver- melho, a pelle quente e húmida ; apparecem frequentemente vomitos, sobretudo si os indivíduos teem comido pouco tempo antes ; o pulso e os movimentos respiratórios tornam-se mais accelerados, até que declara-se a anesthesia completa. Então, aos phenomenos de excitação succede o repouso de espirito e de corpo ; os musculos se relaxam, excepto o masseter, que é o ultimo que se paralysa, os membros cahem pesadamente como os de um cada ver. O chloroformisado não oppõe mais resistência alguma aos movimentos que se lhe imprime ; a sensibilidade desapparece completamente, sendo em ultimo logar a da região 496 CHLOROFORMIO tem poro-frontal. Cessa toda a acção reflexa; sòmente as pupillas, em geral contrahidas, dilatam-se ainda, quando se excita a pelle ou o sentido do ouvido. Esta propriedade mesmo extingue-se com a abolição com- pleta de todos os sentidos; os olhos fecham-se e o individuo dorme o somno anesthesico, no qual, como no somno natural, resona, ou sonha, murmurando palavras incoherentes, A circulação ea respiração retomam o seu rythmo natural, ape- nas mais fraco e mais lento ; esta ultima faz-se ás vezes com ruido, proveniente da paralysia do véo do paladar. E’ o ver- dadeiro estado comatoso ou soporoso. Si a chloroformisação ultrapassa este limite, então a para- lysia torna-se completa, o movimento de dilatação reflexa das pupillas não se produz mais, a respiração e as pulsações car- díacas constituem os únicos signaes de vida; mas estas se enfraquecem cada vez mais, o pulso torna-se filiforme, irregu- lar, intermittente ; manifesta-se a cyanose das extremidades, saliência dos globos oculares com dilatação permanente das pupillas, o rosto empallidece, e sobrevem emfím a morte por paralysia da respiração ou do coração. Quando se suspende em tempo a chloroformisação, os indiví- duos despertam no fim de alguns minutos, ás vezes depois de algumas horas, e curam-se em pouco tempo das perturbações occasionadas pelo envenenamento. Muitos teem ainda nauseas e mesmo vomitos, cephalalgia intensa durante as primeiras 24 horas ; outros, icterícia, e em alguns até albuminúria, que tudo vem a ceder facilmente depois deste prazo. Resumindo, póde-se dividir com Rabuteau, Chandellon, Jobertde Lamballe, Blandin, etc., a marcha deste envenenamento em tres per iodos, a saber: Io, excitação, que, segundo Paul Bert, é devida á impres- são exercida pelos vapores do chloroformio sobre as vias respiratórias, e que não é constante ou pôde ser evitada, seja fazendo-se respirar muito lentamente esses vapores, seja fazen- VENENOS NEURÓTICOS 497 do-os penetrar por uma aberturapraticadana trachèa, como elle verificou em experiencias sobre animaes; 2o, um periodo de insensibilidade, no qual o augmento de frequência do pulso e o rubor da face, observados durante a excitação, são substituidos pela demora da circulação, aspecto normal da face, começo da dilatação da pupilla, diminuição e desapparecimento da sensibilidade; 3o, um periodo de resolução, caracterisado pela demora maior da circulação ( 50 a 60 pulsações ), dilatação confirmada das pupillas, insensibilidade e cessação completa dos movi- mentos . Estes symptomas desapparecem com a suspensão da chloro- formisação, sem deixar outros phenomenos mais, além de alguns vomitos e ligeira fraqueza. Mas si a absorpção dos vaporeschlo- roformicos continua e excede de certos limites, a morte é a consequência. Oindividuo empallidece de repente; a respira- ção, que era larga e regular, bem que lenta, cessa subitamente de todo; o pulso torna-se cada vez menos frequente, até que cessa de bater também por sua vez. Muito mais raramente é a cir- culação que pára em primeiro logar. Nothnagel e Rossbach, Bouisson, Dujardin Beaumetz e outros comparam os eífeitos produzidos pelo chioroformio aos da embriaguez alcoolica. e os dividem em dousperiodos sómente, a saber : um de excitação e outro de paralysia. Estes dous periodos variam muito de intensidade e duração, conforme certas circumstancias individuaes. Assim, nas crianças bastam algumas inhalações para occasionar a perda completa dos sen- tidos e da sensibilidade. Nas pessoas adultas muito excitáveis, ou dadas a bebidas espirituosas, o periodo de excitação geral prolonga-se e exaggera-se consideravelmente e póde mesmo, sobretudo nos ébrios de profissão, manifestar-se sob a fórma de verdadeiros accessos de delirio furioso ; em alguns individuos ó preciso empregar dóses por assim dizer mortaes para se obter a anesthesia completa. TOXICOLOtíIA 32 CHLOROFORMIO Gubler compara antes, com mais propriedade, os effeitos da chloroformisação aos do etherismo agudo e distingue quatro phases : a Ia, nimiamente curta e rapida, ó a da excitação tópica das vias respiratórias ; 2a, a da excitação geral, con- secutiva á absorpção do producto; 3a, a da estupefacção, com perda das propriedades sensitivas e motoras pertencentes ã vida de relação ; 4a, a do torpor das funcções da vida vege- tativa, com abaixamento da calorificação e da hematose, ex- tincção dos movimentos respiratórios e paraiysia do coração. Desprezando, diz o autor, a primeira phase, que é sem impor- tância, ficam os tres periodos seguintes : ebriedade, estupor e collapso. A differença para elle entre os effeitos dos dous anesthesicos citados está em que o chloroformio, em virtude de sua maior actividade e violência, acarreta mais rapidamente os phenomenos toxicos, ainda quando as duas primeiras phases sejam muito fugitivas ou passem mesmo despercebidas. Chega-se muitas vezes bruscamente ao periodo de estupor e ao de collapso, que pôde ser fatal. B — Ingestão do chloroformio. Os effeitos devidos a este modo de administração divi- de m-se em locaes e geraes. Os effeitos locaes traduzem-so por phenomenos de irri- tação mais ou menos intensa e extensa sobre a mucosa do tubo digestivo: a boca torna-se quente, a garganta vermelha e dolorosa; a região epigastria é a séde de dores violentas, mas todo o ventre è muito sensivel á pressão. Sobreveem fre- quentemente vomitos, mais ainda do que na inhalação, em que elies já não são raros. Não admira esta acção irritante, que se exerce e é facil verificar mesmo sobre a pelle, onde o chloroformio demorado por algum tempo em contacto, determina uma sensação a principio de frio, depois calor urente e comichão ardente. A pelle cobre-se de uma erupção erythematosa de pequenas vesiculas, semelhantes ás produzidas pelo oleo de croton. VENENOS NEUROTÍCOS 499 Quando a evaporação do chloroformio é embaraçada por qualquer meio e o contacto se prolonga, póde-se observar mesmo uma eschariflcação mais ou menos profunda, sobretudo si elle é impuro, quer por vicio de preparação, isto é, tendo sido preparado com álcool de baixa qualidade, quer pela alte- ração que experimenta sob a influencia da luz, e donde resulta, segundo Personne, a formação do gaz chloroxycarbonico, que ê toxico, e elle encerra nestas condições. Quando, porém, a evaporação do chloroformio depositado sobre a pelle é rapida, e sua applicação se repete por certo tempo, á excitação dolorosa da mesma succede a insensibilidade ou anesthesia local, que deve ser attribuida em parte ao frio determinado pela evaporação, em parte á paralysia directa dos nervos cutâneos, pelo chloroformio que tem penetrado por absor- pção na pelle. Gubler parece não acceitar a primeira explicação, aliás perfeitamente correcta em relação ao ether, attendendo á menor volatilidade daquelle producto eá sua acção irritante e caustica. O vapor do chloroformio determina igualmente um certo gráo de insensibilidade da parte que nelle é mergulhada por algum tempo. Introduzido debaixo da pelle por injecção hypodermica, o chloroformio irrita fortemente os tecidos, inflamma-os e pôde produzir um abcesso ou mesmo uma eschara. Fonssagrives cita um facto desta natureza em um indivíduo que soffreuessa applicação por causa de uma nevralgia facial rebelde, e donde resultou uma deformidade devida â perda de uma pequena porção de tecido mortificado. Entretanto, segundo Gubler, o chloroformio é bem tolerado nestes casos pelo tecido cellular, quando a injecção é profunda. Os effeitos geraes são os que derivam de sua acção sobre o systema nervoso e sobre a superfície broncho-pulmonar pela qual os vapores chloroformicos se eliminam. Esses effeitos mani- festam-se rapidamente dentro de 10 a 20 minutos, começando por 500 CHLOROFORMIO atordoamento e peso de cabeça, a que se segue um estado seme- lhante ao da embriaguez, com incoherencia de idéas ; a respi- ração torna-se estertorosa, a circulação retarda-se, o pulso é lento e fraco, apelle resfria-se, as pupillas apresentam-se ora di- latadas, ora contrahidas; sobrevem depois o coma, acompanhado de completa insensibilidade, de resolução muscular, ou dephe- nomenos convulsivos, que agitam o corpo, eás vezes mesmo uma especie de ataque epileptiforme, que precede a morte. Si os doentes resistem, e a terminação não é funesta, elles despertam lentamente deste estado ; apparecem vomitos, dôr de garganta, por vezes icterícia, tosse e um ligeiro catarrho bron- chico, que cedem no fim de pouco tempo ; além disso durante essa curta convalescença o ventre é doloroso e preso. Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscòpicos E’ nos orgãos intra-thoracicos que se encontram as lesões maisimportantes deste envenenamento. Assim, as grossas veias e as cavidades direitas do coração são cheias de sangue negro e fluido ; as cavidades esquerdas ordinariamente vazias, ou contendo algum sangue, que pôde ser escuro ou vermelho e rutilante, segundo a morte tem sido mais demorada ou mais rapida. Tem-se assignalado no sangue a presença de vesículas aeri- formes (?) ou oleosas segundo outros, cuja origem ainda não se conhece, ou pelo menos não foi explicada ; na opinião de alguns, são devidas a um estado de putrefacção incipiente, mas ellas teem sido observadas mesmo em cadaveres frescos, sem o menor indicio de decomposição. O sangue, bem como os orgãos todos do cadaver exhalam o cheiro proprio dechloroformio, si a autopsia não ó tão retardada que de tempo a se volatilisar o agente anesthesico. A mucosa do larynge e da trachéa é mais ou menos fortemente injectada, VENENOS NEURÓTICOS 501 sobretudo si elle tem sido applicado em inhalações ; assim como succede à mucosa gastrica, quando ingerido. Os pulmões teem sido achados hyperemiados na mór parte das vezes ; em outras elles se apresentam normaes, de cor rosea, seu tecido crepitante e espumoso pela secção, sem conges- tão, nem ecchymoses, nem emphysema. O cerebro e a medulla são algumas vezes aséde de hyper- hemias ; de ordinário, porém, apresentam-se no estado normal. Diagnostico differencial Pouco se póde dizer sobre este ponto, e nem disso occupam- se os autores, porquanto difficilmente se poderá confundir este envenenamento com qualquer outro, ou com qualquer molés- tia, attendendo-se aos caracteres com que se processa a anes- thesia, com resolução muscular completa, sob a influencia de um agente, cujo cheiro activo e particular não passará des- percebido ou desconhecido. Mecanismo da acção toxica A acção do chloroformio é geral sobre o mundo vivo, diz Dujardin Beaumetz (Dicc. de Therap., etc.) ; desde os bacte- rianos até ao homem, vegetaes e animaes não se podem subtra- hir ao seu poder. Cl. Bernard mostrou que se podia anesthe- siar, por meio da agua chloroformisada, os fermentos figura- dos, suspender os phenomenos de germinação e a propriedade motriz da sensitiva e outras plantas, que assim apresentam um verdadeiro estado de narcose, comparável á dos animaes. Este anesthesico, agente terrivel que tira a dor e algumas vezes também a vida, é absorvido em natureza por todas as super- fícies do corpo; pelas mucosas e atravez da pelle, como demons- tram experiencias rigorosas, feitas com todas as precauções possiveis, para evitar que elle pudesse penetrar o organismo por 502 CHLOROFORMIO outra via (Rõhrig) ; elle pretende que se pôde assim anesthe- siar um animal dentro de hora e meia. Segundo Parisot, substancias que em solução aquosa não podem ser absorvidas atravez da pelle intacta podem sôl-o com certa facilidade por intermédio do chloroformio, exemplo: a atropina. Introduzido no sangue, não se sabe ainda como elle ahi se comporta, sendo certo que, apezar da reacção alcalina desse meio, nunca se pôde descobrir, diz Bucheim, a presença de um dos productos nor- maes da decomposição do chloroformio nessas condições (ácidos chlorhydrico e formico, ou antes um chlorureto e um for- miato ). 1 Demais, o chloroformio é eliminado em maior escala, em natureza; provavelmente, porém, uma pequena parte, pelo menos nos casos de ingestão do medicamento, soífre aquelle desdobramento, que é sua reacção caracteristica em presença dos alcalis, e donde lhe veiu o nome pelo qual é conhecido, sendo seus nomes chimicos: ether methylchlorhvdrico ou chlorureto de methyla, bichlorados. 2 Si se mistura directamente com chloroformio sangue tirado de uma veia, verifica-se que elle soífre alterações notáveis. Os. globulos ou endurecem (Samson) ou incham, tornam-se es- phericos e acabam por se dissolverem ; este sangue, exposto ao oxygeno, deixa depositar crystaes de hemoglobina ( Bõttcher ), e forma-se além disto um precipitado molle, vermelho claro, muito rico em chloro, do qual, entretanto, não se póde extrahir sinâo pequena quantidade de chloroformio. Para Schmiedeberg e outros deve-se admittir que o chlo- roformio entra em combinação intima com os globulos ou com o seu protagon (Hermann); entretanto esta theoria é 1 Chlorureto ou acido chlorhydrico, mas não cliloro, como diz errada- mente Fonssagrives. 1 E não chlorureto de mcthylcna bichlorado, como se lê, por engano ou erro, em Fonssagrives; o que não admira, porque elle diz que o chloroformio é o acido formico, no qual as bres moléculas de oxygeno são substituídas por de chloro !!! Verdadeiro disparate, VENENOS NEURÓTICOS 503 insustentável, porque essa combinação não tem logar fora do corpo em presença do oxygeno, conforme foi assignalado por aquelle experimentador. O que é verdade é que a acçâo dos agentes reductores sobre o sangue é embaraçada, e effe- ctua-se mais lentamente quando elle é misturado com o chloroformio ; si se tem observado algumas vezes ictericia pelo chloroformio, não está provado que seja ictericia hema- pheica (Gubler). Parte dos symptomas deste envenenamento parece refe- rir-se ao embaraço da hematose; a melhor prova deste facto reside no estado já descripto em que é encontrado o sangue nos cadaveres desses indivíduos. Sendo assim, póde-se suppôr que o chloroformio expelle a principio o gaz carbonico em dissolução; depois, em certas condições, elle oppõe-se á sua formação ulterior, impedindo a combustão respiratória, não precisamente porque seja queimado, mas porque embaraça o conflicto do oxygeno com os globulos vermelhos. Todavia, diz Gubler, como a anoxhemia é sem importância no chloroformismo, quando a chloroformisação é bem dirigida, deve-se attribuir a uma lesão primitiva do systema nervoso a maior importância na genese dos phenomenos deste envenena- mento. E’ sobre as cellulas nervosas que o chloroformio exerce sua acção fundamental ; qual ella seja, porém, ainda não se conhece. Estamos por ora reduzidos a simples conje- cturas ; taes são, por ex. as seguintes : de Lacassagne, admit- tindo que o chloroformio supprime as vibrações das moléculas nervosas; deL. Hermann, imaginando que esse agente, assim como outros congeneres e synergicos, actua inchando e dis- solvendo o protagon do nervo vivo, de modo que a inten- sidade da acção anesthesica depende do gráo do poder dissol- vente desses corpos sobre esta substancia ; de Kussmaul e de Ranke, acreditando que o chloroformio modifica profunda- mente on coagula a albumina dos nervos, porque elles obser- varam : o Io, que uma solução de clara dovo tratada por 504 CHLOROFORMIO este agente filtrava-se inais facilmente e se coagulava com roais difficuldade; o 2°, que uma solução de substancia ner- vosa filtrada e perfeitamente limpida turvava-se em pouco tempo, quando se fazia passar uma corrente de vapores chlo- roformicos. Demais, estas duas observações parecem accordes com o facto da coagulação da myosina nos musculos dos animaes chloroformisados. Tem-se pensado ainda, porém gratuitamente, que os effeitos deste anesthesico devem ser attribuidos á hyperhemia (Cartes) ou á anemia (Cl. Bernard) dos centros nervosos, etc. Na opinião de Gubler, de todas as theorias emittidas para explicarem a anesthesia chloroformica, a mais plausivel, ou por outra, a unica verdadeira mente plausivel, é a da impregnação dos elementos histologicos do systema nervoso, trazendo modi- ficações funccionaes consecutivas, com perda successiva de sua impressionabilidade ás excitações electricas e outras. Segundo Nothnagel e Rossbach o chloroformio, e bem assim o álcool, altera directamente a substancia nervosa, como provam as experiencias de Bernstein, Ranke, etc., fazendo actuar o anesthesico sobre nervos descobertos em animaes, pelos quaes verificaram que a excitabilidade desses orgãos, a principio exal- tada, acaba por se extinguir. Si se suspende em tempo a acção do chloroformio, os nervos podem voltar ao estado normal ; no caso contrario elles morrem. São as cellulas nervosas, e antes de tudo, as cellulas sensiveis situadas na substancia cinzenta dos hemispherios cerebraes, que soffrem mais rapidamente a influencia do chloroformio ; as cellulas intermediárias dos reflexos, e as motoras resistem mais, como prova a própria marcha e successão dos phenomenos de envenenamento, além das experiencias directas praticadas neste sentido, que o confir- mam . Fazendo abstracção dos casos em que a morte é devida seja á impureza do chloroformio, seja á sua mistura durante ainha- lação com uma quantidade insufficiente de ar, á fraqueza da VENENOS NEURÓTICOS 505 respiração ou à obliteração da glotte \ não permittindo a en- trada de ar sufficiente nos pulmões (asphyxia), seja a lesões organicas do coração, seja emfím ao choque operatorio, a morte pelo chloroformio póde-se produzir de duas maneiras diffe- rentes: ou pela syncope cardíaca, por parada brusca do orgão central da circulação consecutiva á paralysia de seus appareltios musculo-motores, ou pela paralysia do centro respiratório no bulbo rachidiano, e parada súbita da respectiva funcção (syn- cope respiratória) ; tal é também o modo de pensar de Vulpian. Richardson, a quem a historia dos anesthesicos deve um grande numero de factos interessantes e deducções engenhosas, penetrou mais profundamente na interpretação do mecanismo da sideração chloroformica, e estabeleceu quatro ordens de acci- dentes que a explicam : Io, apnéa syncopal, por superexcitação da mucosa broncho- pulmonar, espasmo, ischemia pulmonar, anoxhemia e suspensão dos movimentos cardiacos por estimulo do pneumo-gastrico ; 2o, syncope epileptiforme, seguida de espasmo arterial generalisado por galvanisação do sympathico, ischemia cerebral, um estado de anervia cardiaca na expressão de Gubler, e pa- rada do orgão acompanhada de movimentos convulsivos, na sua opinião, asthenicos; 3o, paralysia do coração, dependente da absorpção de dòses massiças de veneno ; 4o, choque ou abalo violento occasionado pela dor intensa nos casos de dóses fracas e grandes operações. Algumas vezes, finalmente, a morte sobrevem sómente 24 horas depois da chloroformisação, o que é devido, no pa- recer de Gubler, aos progressos da lesão da substancia nervosa central, qualquer que ella seja, podendo sel-o talvez em muitos casos a accidentes correlativos, até certo ponto estranhos 1 Esta causa mecanica de asphyxia dá-se algumas vezes não só quando a lingua volta-se para trás, como si tendesse a ser deglutida, como quando a epiglotte, recalcada fortemente, fecha a entrada das vias aereas. 506 CHLOROFORMIO áquella causa. Deve-se pensar assim, attendendo-se á facilidade notável de eliminação do chloroformio pela mucosa broncho- pulmonar, pela pelle e pelos rins. Atra vez da primeira superfície faz-se muito rapidamente, em 10 a 15 minutos ; quando muito, em uma hora ella termina. Por esta ultima via a eliminação é menos prompta ; começa umas quatro horas depois da narcose, e completa-se no fim de 14 horas. O chloroformio acha-se na urina, em parte sem alteração, em parte tendo soffrido uma metamorphose, da qual resulta augmento sensivel dos respectivos chloruretos, e a proprie- dade que adquire a urina, de reduzir o reactivo cupro-alcalino. Isto demonstra, a meu ver claramente, o desdobramento do chloroformio no sangue em chlorureto e um formiato, queé o agente reductor. Tratamento Nos casos de inhalação do chloroformio, deve-se antes de tudo examinar a lingua para ver si é ella a causa mecanica da asphyxia, que se pôde remover puxando-a para fóra por meio de uma pinça, e desenvolver toda a actividade possivel em restabelecer e regularisar a respiração pelos artifícios jà conhecidos para este effeito. Pratica-se mesmo a insuflação directa ou por meio de um folie, ou melhor, ministra-se inha- lações de oxygeno. Applicam-se também com proveito cor- rentes electricas ascendentes, introduzindo-se o polo positivo no anus e o negativo na boca, as quaes obram augmentando a excitabilidade reflexa da medulla. Onimus e Legros preco- nisam este recurso como dando resultados surprehendedores, que Rabuteau confirma. Facilita-se a circulação peripherica e a calorifícação por meio da flagellação e outros estimulantes cutâneos, taes como fricções seccas, botijas quentes, etc. Con- vém, além disso, inclinar a cabeça do individuo para baixo, para restabelecer a circulação cerebral, e promover a acção e excitabilidade nervosa correspondente. VENENOS NEURÓTICOS 507 Si o chloroformio tem sido ingerido, então procura-se eli- minal-o o raais promptaraente possivel do estomago por meio da bomba gastrica, e combater depois não só os phenomenos locaes de irritação, para o que não ha recommendação alguma especial a formular, como os phenomenos geraes de absorpção. Para este effeito prestam-se os excitantes diffusivos, não alcoo- licos, os saes ammoniacaes voláteis; a própria ammonea approximada do nariz, as aspersões frias sobre o rosto como excitantes reflexos, constituem applicações vulgares em taes casos. Finalmente tem-se proposto contra os accidentes que ficam, apoz vencida a crise do collapso, o uso da strychnina, cujo antagonismo em relação ao chloroformio já foi discutido a proposito do estudo deste alcaloide. Infelizmente não se conhece antidoto algum contra o chlo- roformio. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Segundo as experiencias de Perrin, Lallemant e Duroy o chloroformio se localisa e se accumula especialmente no cerebro eno fígado; são estes, pois, os orgãos que de prefe- rencia devem ser recolhidos para a pesquiza deste veneno; entretanto, é conveniente reunir a essas visceras porções do baço, rins e pulmões e um pouco de sangue e urina. Póde-se esperar encontrar o chloroformio no corpo de um individuo intoxicado por esta substancia, ainda algumas horas e mesmo alguns dias depois da morte *, porquanto a sua vo- latilisação é relativamente mais lenta do que a eliminação que se processa em vida atra vez das secreções em geral, parti- cularmente pela exhalação pulmonar. Entretanto é de regra ou de rigor não demorar esta pesquiza para não deixar per- der-se todo o chloroformio. 1 Ritter diz ter podido verificar a existência do chloroformio nos orgãos de um coelho envenenado dez dias antes. 508 CHLOROFORMIO Apezar de sua volatilidade, sua pesquiza não se faz em geral por simples distillação, porquanto o chloroformio se iria misturar no liquido distillado, com productos voláteis diversos, cuja separação seria difficil, embaraçando a caracterisação daquelle veneno.. O melhor processo a empregar nestes casos pertence a Perrin, Lallemant e Duroy, e basêa-se na decomposição do chloroíormio, ou antes dos vapores deste corpo, em temperatura elevada (rubra), com producção de chloro ou de acido chlorhydrico e chlorureto de carbono, que, recebidos em frasco apropriado, contendo solução de nitrato de prata, a precipitam ; o que não faz o chloroformio, quando não decomposto e puro. 0 apparellio que elles imaginaram, e de que se servem para esta pesquiza, compõe-se de um balão (póde ser uma retorta tu- balada ), descançando em um B. M. d'agua a 40°, e communi- cando por meio de um pequeno tubo de vidro curvado em angulo recto e encerrando algodão cardado, com outro mais longo e calibroso de porcellana vidrada, que atravessa um forno de reverbero e termina em um systema de bolas de Liebig, con- tendo solução de nitrato de prata a 20c, levemente acidulada por acido nitrico. A rolha do balão dâ passagem a um tubo que mergulha nas matérias lançadas no seu interior, e é posto em communicação pela sua extremidade externa, por meio de um tubo de borracha, com um pequeno folie. Para evitar a penetração, no apparelho, da menor quanti- dade de chloro que possa existir accidentalmente na atmosphera, Chapuis lembra a conveniência de adaptar-se um segundo systema de bolas de Liebig, sensibilisado, entre o folie e o balão. Aquece*se primeiramente só o balão, em B. M., na tempe- ratura de 40° pouco mais ou menos, dirigindo-se com o folie uma corrente moderada de ar dentro do apparelho, afim de facilitar a passagem dos productos voláteis até à peça terminal do mesmo, a qual, como já disse, é um systema de bolas de Liebig ; além do papel chimico que lhe está reservado neste VENENOS NEURÓTICOS 509 processo, serve também de regulador da marcha da operação pela maior ou menor rapidez com que as bolhas gazosas se suc- cedem atravessando o liquido. Si a solução de nitrato de prata se turva simplesmente ou deixa manifestar algum precipitado, recolhe-se-o á parte para ser examinado, afim de verificar pelos meios apropriados si se trata de um chlorureto ou de um cyanureto de prata. Si no fim de um tempo sufficiente nenhuma turvação ou deposito apresenta a solução argentica, o que indica que nas matérias a analysar não existe chloro nem cyanogeno, nem seus respectivos hydracidos e saes haloides voláteis, é então o momento de aquecer fortemente o tubo de porcellana até á temperatura rubra e recomeçar-se o trabalho do folie, para que os vapores de chloroformio, si acaso ahi existe esta substancia, decompon- do-se ao calor na passagem por aquelle tubo incandescente, produzam o chloro ou o acido chlorhydrico, que vae sedenunciar pela reacção sobre o sal de prata, no qual forma um precipi- tado branco, com caracteres geralmente conhecidos, e que d’aqui a pouco mencionarei. Tal é o methodo de pesquiza com o apparelho de Perrin, Duroy e Lallemant, e no qual reconhecem os toxicologistas o unico defeito de não habilitar o chimico a uma conclusão rigo- rosa, por isso que não é o chloroformio a unica substancia chlo- rada organica que, sendo indifferente nas condições ordinárias ao nitrato de prata, produz por decomposição ignea chloro ou acido chlorhydrico, que reage sobre este corpo ; confessam, porém, todos que entre as substancias desta natureza mais co- nhecidas e usadas como veneno não ha sinão o chloroformio que se comporta por esta fórma, e a ellese devem attribuir os re- sultados positivos fornecidos por este ensaio. Eu encontro, porém, um inconveniente muito maior e que, na minha opinião, enfraquece, si não nullifica o seu valor pratico: vem a ser que, durante o tempo em que se aquece o balão, sem aquecer o tubo de porcellana, para verificar a 510 CHLOROFORMIO presença ou ausência de chloro ou producto chlorado estranho ao chloroformio, este corpo, si ahi existe, pela sua volatilidade é eliminado e perde-se todo ou em parte, e não pôde mais ser accusado quando chega a occasião de pesquizal-o. Para evitar esta causa de erro na apreciação e interpretação dos resultados negativos obtidos, imaginei que seria de maior vantagem pro- ceder a esta operação em um só tempo, adoptando o artifício aliás jà lembrado por Calliot, de que falia Dragendorff, na pri- meira edição do seu Manual de toxicologia, e consiste em interpor entre o balão e o tubo de porcellana um terceiro systema de bolas de Liebig. Calliot manda também reunir a este tubo mais um frasco lavador, e desse modo se está seguro, diz elle, que a espuma que se forma ás vezes não embaraçará a operação, e que os productos acarretados pelo ar atravez das matérias suspeitas não precipitam o sal de prata sinão depois que são decompostos pelo calor. Vê-se por este enunciado que, apezar de pertencer a outro a idéa desse systema de bolas com o fím mencionado, creio ser eu o primeiro a lembrar o funccionamento em um só tempo com o apparelho composto como vae representado na figura 12. E’ pouco mais ou menos o que fizeram Fresenius e Neubauer, or- ganizando um methodo de pesquiza do phosphoro, no qual aproveitam successivamente os processos de Mitscherlich, de Scherer e de Dusart e Blondlot. Nestas condições, aquece-se ao mesmo tempo o balão e o tubo de porcellana ; o chloro do ar atmospherico é fixado no primeiro systema de bolas, o que preexiste nas matérias a ana- lysar no segundo, e o que provém da decomposição do chloro- formio no terceiro e ultimo. Como já disse, em vez do balão pòde ser empregada uma retorta tubulada ; além disso também, o forno de reverbero a carvão pôde ser substituído por uma grelha servida por bicos de gaz, e finalmente os systemas de bolas de Liebig não são os únicos a preencher no apparelho os fins a que são destinados ; VENENOS NEURÓTICOS 511 pio. 12 512 CHLOROFORMIO em seu logar pode-se collocar provetes ou frascos contendo a solução de nitrato de prata, comquanto sejam incontestavel- mente preferiveis aquelles tubos, por offerecerem maior trajecto aos gazes que atravessam o liquido. Chapuis lembra outro meio que dispensa o tubo de Calliot, e permitte realizar a operação em um sò tempo; consiste em alcalinisar previamente as matérias suspeitas, addicionando- lkes um pouco de potassa caustica, que tem por fim fixar o chloro ou o acido chlorhydrico. Mas este artificio é improce- dente, porquanto o alcali reagiria também sobre o chlorofor- mio, decompondo-o em formiato e chlorureto, subtrahindo-o ao ensaio acima descripto. Além disto, num caso indeterminado, estas matérias ficariam em condições desfavoráveis para serem submettidas ás pesquizas de outros venenos voláteis, isoláveis por distillação (acido prussico, certos cyanuretos, pliosphoro). Schmiedeberg indica um processo que não é sinão uma va- riante do de Chapuis, com pequena vantagem sobre elle : consiste em decompor o chloroformio pelo calor e pela cal, que elle manda introduzir previamente no tubo de porcellana. A pequena vantagem que eu encontroe Chapuis desconhece in- justamente, é a de se prestar o methodo para a separação e dosagem do chloroformio. Os inconvenientes assignalados por este autor são dous, a saber: um derivado da decomposição in- completa do chloroformio, do qual, portanto, uma parte per- de-se e escapa a este meio de fixação e dosagem. O outro procede da difficuldade de se obter cal bastante pura, inteiramente isenta de chloro, tal como requer este ensaio, para não ser augmentada a proporção de chlorureto, e dada à conta da quantidade de chloroformio analysado. Dragendorff, ao con- trario, parece dar grande importância a este processo, que elle descreve minuciosamente. Chandellon aconselha examinar separadamente : Io, a ma- téria dos vomitos e o conteúdo do estomago e dos intestinos ; 2o, o sangue e as visceras; 3o, a urina. 513 VENENOS NEURÓTICOS Para o exame do sangue e das vísceras elle adopta o me- thodo de Lallemant, Perrin e Duroy, modificando o seu appa- relho : Io, coma collocação de uma pequena garrafinha (fiole), suspensa entre o balão e o tubo principal, a qual deve ser mantida em temperatura de 65° a 70°, para servir de recipiente ás substancias condensáveis nesta temperatura, e separal-as assim dochloroformio, que não está neste caso ; 2o, com a col- locação de um aspirador na extremidade terminal do apparelho, em vez do folie adaptado á extremidade inicial. Demais, o tubo principal é aquecido por bicos de gaz. Parao exame das matérias vomitadas e recolhidas do esto- mago e intestinos, Chandellon propõe submettel-as á distillação simples sem decomposição, aquecendo-as em um balão commu- nicando com um recipiente, por intermédio de um refrigerante de Liebig, em B. M. ou de solução de chlorureto calcico, cuja temperatura seja elevada a 105° ou a 110 c. Facilita-se a operação por uma corrente de ar, mediante qualquer dos arti- fícios indicados. Obtem-se um liquido, no qual póde-se reco- nhecer a presença do chloroformio, pelos seus caracteres e reaccões próprias. Quanto ao exame da urina, por isso que elle ahi se acha sem- pre em quantidade muito pequena, Chandellon prefere o pro- cesso recommendado por Lustgarten, que consiste em acidular fortemente a urina com acido chlorhydrico, distillar até redu- zir-se á metade do seu volume, agitar o producto distillado comether, decantar este liquido, abandonal-o á evaporação es- pontânea, dissolver o residuo em uma lixivia de soda, een- saial-o com o reactivo do autor (veja mais adiante). Grehant e Quinquaud adoptaram recentemente um pro- cesso simples e expedito, que vem descripto na ultima edição de Chapuis, e que póde se prestar á separação e dosagem do chloroformio. Os princípios fundamentaes deste processo re- pousam : Io, sobre a distillação do sangue e outros líquidos da economia, no vaeuo, para a obtenção do chloroformio em solu- TOXICOLOCIIA 33 514 CHLOROFORMIO ção ou em vapor ; 2o, sobre a propriedade indirecta, de que elle goza, de reduzir o licor cupro-alcalino na temperatura de 100°. Basta, pois, extrahir o cliloroformio por distillação com- mum e submetter uma certa quantidade á acção do calor em presença de um volume de solução de Bai reswill, que seja com- pletamente reduzido. Resta comparar a quantidade de liquido descorado com a que reduz uma quantidade determinada de chloroformio em solução titulada, para se conhecer, por uma simples regra de proporção, a quantidade do cliloroformio con- tida no liquido distillado, e portanto a proporção contida em um volume dado de sangue. Isolado o chloroformio, por qualquer methodo procede-se ao reconhecimento de seus caracteres e de suas reacções mais importantes. E’ um liquido incolor, muito movei, de cheiro ethereo par- ticular e activissimo, sabor adocicado com sensação de frio rapidamente seguido de calor urente ; é mais denso do que a agua (1,48), na qual é mui pouco solúvel ou quasi insolúvel. Lançado nella precipita-se no fundo sob a fôrma de gottas como que oleosas ; é muito solúvel no álcool o no etlier, e por sua vez dissolve um grande numero de corpos, especialmente os corpos graxos, dos quaes é o melhor dissolvente. Ferve a 60c e não se inflamma ; pelo contrario, diz Chapuis, seus va- pores pesados extinguem os corpos em combustão ; entretanto, quando se inflamma uma mecha imbebida em chloroformio ou quando se a introduz assim na chamma de uma lampada, elle arde com chamma vermelha fuliginosa, com reflexos esverdea- dos ou orla desta côr. 1 Não precipita a solução de nitrato de prata, nem exerce acção sobre o reactivo de Luton (mistura de bichromato de potássio e acido sulpliu rico). 1 Rabutean diz erradamente que esta côr é caracferistica dos compostos de chloro. Além de que muitos não dão chamma com essa côr (e o chlorofor- mio em rigor é um delles), outros compostos não chlorados a produzem (acido borico e saes voláteis de cobre), VENENOS NEURÓTICOS 515 Suas reacções caracteristicas são as seguintes : 1 .a Tratado por uma corrente de hydrogeno sulphuretado debaixo d’agua, forma-se um corpo branco, crystallizado, com cheiro de alho e ainda não bem determinado ; 2. a Aquecido com uma solução alcoolica de soda ou de potassa e algumas gottas de anilina, dà nascimento a um corpo de cheiro penetrante repellente e absolutamente caracteristico ; Hofmann, que indicou esta reacção. demonstrou que nella se forma o cyanureto dephenvla (C 11II3, C Az), isomero da benzo- nitrilao da phenylcarbylamina (?). 3. a Na temperatura de 100° reduz o licor cupro-alcalino. 4. a Aquecido com um pouco de naphtol e solução concen- trada de soda ou de potassa, produz uma côr azul que des- apparece rapidamente (reacção de Lustgartoa). 5. a Agitado no seio de uma solução fraca de ioduretode potássio, pela addição de algumas gottas de acido nitrico-ni- troso obtem-se uma bella côr de amethysta, devida ao iodo posto em liberdade e dissolvido no chloroforinio. Envenenamento pelo opio e seus derivados A historia deste envenenamento è uma das mais impor- tantes da toxicologia moderna, não sómente pela frequência dos accidentes e dos suicídios realizados com o emprego dos variados agentes comprehendidos sob aquella denominação, como pelo desenvolvimento que tem tomado ultimamente o estudo desses mesmos agentes, sob qualquer ponto de vista que se considere. EUes constituem por si só uma classe inteira, a dos nar- cóticos, na classificação de Tardieu, e abrangem grande numero de substancias medicinaes e toxicas, começando pela planta que fornece a maior parte do opio: Papa ver somni- ferum, var. albiwi, da fam. das Papaveraceas, papoula ou 516 OPIO E MORPHINA dormideira branca, de que Chapuis indica duas sub-variedades : alongada e deprimida, distinctas pela configuração da capsula, mas representando o mesmo valor pharmacologico. Além desta, ha outras variedades, menos apreciadas pela qualidade inferior do opio que produzem : o Pap. somniferum glábrum (opio da Turquia e da índia), e o P. somniferum nigrum (opio da Europa). E’ preciso, porém, como bem pondera Fonssagrives, não ligar a estas especificações botanicas muita importância, por- quanto as propriedades dos diversos opios dependem menos da variedade da planta que os fornece, do que dos cuidados com a cultura da mesma, e dos processos de extracção e conservação do respectivo sueco. O opio, assim chamado do vocábulo grego (oto;), que quer dizer sueco, como para significar o rei dos suecos, o sueco por excellencia, é o producto obtido por incisões praticadas ao longo das capsulas do Papaver somniferum (cabeças de dormi- deiras). Liquido leitoso no estado natural da planta, este sueco escorre naturalmente por aquellas incisões, concreta-se e escurece ao ar, e apresenta-se no commercio sob a fôrma de massas, bolos ou pães mais ou menos volumosos, com aspecto e caracteres exteriores um pouco diversos, conforme a procedência e qualidade. Ha tres qualidades mais importantes de opio, que são as seguintes na ordem do seu valor commercial: 1. a Opio de Smyrna, da Anatolia ou da Asia Menor, que é o mais estimado e mais caro, porque é o mais rico em morphina; encerra 13 e 14 % deste alcaloide. 2. a Opio de Constantinopla ou da Turquia, que pouco se distingue do precedente, e alguns, como D. Haubury e Fluckiger, consideram idênticos 1; Merk e Christison pre- 1 Dujardin Beaumet.z pensa também do mesmo modo. No importan- tíssimo artigo que elle consagra ao estudo e descripção do opio, em seu Dicc. de Tnerapeutica, etc., vê-se que considera idênticos os opios da VENENOS NEURÓTICOS 517 tendem mesmo ter achado nelle até 14,5 por 100 de mor- phina! Entretanto Guibourt estabeleceu seus caracteres diíferenciaes, e officinalmente o opio turco é reputado inferior ao de Smyrna, tendo 10 a 12 por 100 de morphina. 3. a Opio thebaico, de Alexandria ou do Egypto, que representa uma qualidade ainda mais baixa que as duas pre- cedentes, por ser mais pobre em morphina, comquanto os dados sobre a porcentagem deste alcaloide variem conside- ravelmente segundo os autores: 2 a 3 % (Rabuteau), 6 a 7 % (Merck), 8,43 % (Christison), 9,5 % (Guibourt), e 10 a 12 % (Gastinel). Para este ultimo, pois, o opio thebaico seria igual ao da Turquia. Além destas tres qualidades officinaes de opio, conlie- cem-se outras que são dignas de nota. 4. a Opio da Pérsia ou de Trebizonda, a que Rabuteau liga um valor quasi igual ao de Smyrna; é, segundo Fons- sagrives, pouco rico em morphina, comquanto também muito variaveis as indicações fornecidas pelos autores a este respeito : 1 % (Merck), 4,95 % (Guibourt), 8,40 % (Caries), 8 a 10 % (Reveil). Este ultimo encontrou igualmente de mistura muita glycose, attingindo mesmo á proporção de 31,6 por 100, devido ao emprego do mel na sua manipulação. Além da glycose tem-se também assignalado a presença do oleo de linhaça, que, segundo informação fidedigna, em Teheran, é addicio- nado ao opio na proporção de 1 kilo para 12 de opio, não fallando em outras impurezas mais grosseiras, de que fallarei daqui a pouco. 5. a Opio da índia ou de Bengala, que é relativamente pobre em morphina; as melhores amostras desta qualidade não conteem mais do que 8 a 9 % do alcaloide, em geral Turquia, de Smyrna e de Constantinopla, sob a denominação commum de opio da Asia-Menor. Pertencem a esta qualidade commercial os opios de Ghewe, de Amasia, de Mallatia, de Magnesia, de Salonica ou de Kutchina, de Balukhussar, de Cotaya, de Taushan, de Angora e de Ivorahissassar. Na sua opinião o bom opio de Smyrna deve ter 12 a 15 % de morphina; quando tem menos que 10 % deve-se acreditar que está falsificado. 518 OPIO E MORPHINA nem tanto, senclo que a sua porcentagem ordinaria é apenas de 3 a 4 por 100; entretanto Rabuteau também considera este opio de valor superior ao do Egypto o quasi igual ao de Smyrna. 6. a Opio da Algeria, que não tem sido ainda muito explorado, mas promette dar resultado. Contém 4 % (Bussy) a 5 % (Payen) de morphina. 7. a Opio francez ou affium, a respeito do qual variam os algarismos que representam sua riqueza em morphina; elle encerra, segundo Pelletier e Caventou, desde 8 a 22! por 100, deste alcaloide; o que assignala para este producto um gráo de subido valor commercial, comparável e até superior aos opios de mais afamada procedência. Entretanto, não tem o commercio francez podido tirar todo o partido desta circumstancia, para fazer competir o seu affium com os opios do Oriente que a França importa. A cultura da papoula somnifera não se tem mesmo vulgarizado nesse paiz, pelo que Fonssagrives entendo que elle só tem que felicitar-se, attendendo aos perigos da vulgarisação de mais um veneno ao lado do fumo e do álcool. O tributo pago a essa im- portação, diz o erudito professor de Montpellier, é nada, á vista do que pagaria a França ao embrutecimento e á morte, si o seu povo fosse de theriakis (assim se chamam os opio- phagos). E’ verdade, infelizmente, que de alguns annos a esta parte a clinica tem registrado uma affecção nova, devida ao abuso, não do opio, mas da morphina : a morphinomania, paixão não menos tyrannica, que tem-se desenvolvido ul ti mamente com intensidade em França, mas cujos estragos estão longe de com- parar-se com os que dependem da opiophagia. Tem-se feito numerosas tentativas de cultura de papoulas e producção do opio em outros paizes da Europa (Inglaterra, Escossia, Allemanlia, Italia, Grécia, e mesmo a Suécia); mas os resultados não teem correspondido ainda á espectativa. VENENO NEURÓTICOS 519 Além dessas especies ou qualidades de opio, encontram-se na obra jà citada de Dnjardin Beaumetz as seguintes indicações: Opio da China, cuja producção é objecto de cultura rela- tivamente muito recente; comquanto tivesse começo desde 1736, foi só nestes últimos annos que tomou uma extensão consi- derável. E’ vendido com diversas denominações, conforme os territórios ou províncias onde é preparado; sua proporção em morphina é por ora muito baixa (no máximo 5,1 °/0), e portanto seu valor commercial muito fraco. Opio da Australia, mais rico do que o precedente, visto como encerra 10 a 11,5% de morphina; é pouco conhecido e ainda não explorado, pela pequena e incipiente cultura donde elle provém. Opio da África, preparado em terrenos comprados recen- temente no Moçambique por uma companhia portugueza. Parece não estar reservado auspicioso futuro ao opio desta procedência, que, segundo Dujardin Beaumetz, é falsificado com 80 a 100 °/0 de uma substancia, por ora só conhecida dos interessados europeus. Opio da Bulgaria, producto de muito valor, cuja maior parte é consumida no proprio paiz, e cujo restante é exportado e vendido em Constantinopla como opio da Turquia ; contém de 7 a 20 % de morphina. Opio americano, ainda muito novo, porém de boa quali- dade, pois encerra 15 % de morphina, em condições de fazer concurrencia vantajosa com os opios das procedências mais afamadas. Continuando a enumeração dos productos que formam a classe dos opiáceos, e antes de passar ao estudo dos preparados pharmaceuticos e dos princípios iirmediatos activos, devo ainda lembrar a existência de um producto obtido pela contusão e expressão de todas as partes verdes da papoula somnifera, segundo outros obtido pela decocção da mesma, e consecutiva evaporação, ao qual deram os antigos a denominação de meco- 520 OPIO E MORPHINA nio S que ainda hoje se conserva. Elleé, pois, ou o sueco expresso e concreto da planta ou o extracto aquoso da mesma, si não é uma mistura de ambos, com que naturalmente falsificam em larga escala o opio, porquanto, segundo Fonssagrives, o opio de primeira escolha e puro é habitualmente reservado para o consumo dos proprios paizes productores. E’ entretanto a falsi- ficação menos prejudicial e menos condemnavel, porque trata-se de uma substancia synergica do opio, apenas muito mais fraca do que elle, por isso que os princípios activos da papoula somnifera existem em todas as partes do vegetal, excepto nas sementes 2. O ineconio está para o opio assim como o thridaceo para o lactucario. Muitas outras substancias estranhas, de natureza diversa, que constituem verdadeiras impurezas, algumas simplesmente inertes, outras repugnantes, outras até nocivas, teem sido addi- cionadas ao opio, taes como serragem de madeira, pez, sabão, extractos diversos, passas, gomma arabica, gesso, argilla, bosta, fumo, etc. 3 Os preparados pharmaceuticos obtidos com o opio são em grande numero : taes são o extracto aquoso ou gommoso de opio, a tintura thebaica, os laudanums (de Sydenham e de Rousseau), os elixires paregoricos (de Dublin e de Edimburgo), os pós de Dower, a massa de cynoglossa, o diascordio, a celebre e antiquíssima theriaga, as gottas pretas inglezas (black drops), etc. 1 Da palavra grega [r/]X(óviov que'quer dizer sueco de papoulas. 2 Destas extrahe-se por expressão um oleo fixo, completamente inerte, conhecido pelo nome de oleo branco, em francez pelo de huile de oeillettc, e que o autor de um formulário brazileiro (sinto dizel-o !) traduziu por oleo de cravo!, naturalmente pela semelhança daqueila palavra com a que em francez significa esta flôr. Esse oleo pó le ser e é utilisado para misturar com outros, empregados em usos domésticos, até mesmo em preparações culinárias. 3 E’ notável que nos paizes productores de opio se lhe ajunte, por interesse puramente commercial, para attender a não sei que conveniência ou neces- sidade, o fumo, quando entre nós diz-se que se pratica o inverso, isto é, se ajunta o opio ao fumo, para lhe emprestar certas qualidades apreciadas pelos consumidores. VENENOS NEURÓTICOS 521 De todos estes preparados é principalmente o laudano de Sydenham (vinho de opio composto) que tem occasionado maior numero de accidentes toxicos, sobretudo na Inglaterra. Os phenomenos de envenenamento produzidos por esses diversos preparados de opio nãodifferem essencialmente ; são os mesmos, com differença apenas de intensidade, e por isso farei o seu estudo englobadamente, assignalando na exposição uma ou outra circumstancia que seja peculiar a este ou áquelle pre- parado. O mesmo, porém, não succede com os principios immediatos naturaes da composição do opio, que são em tão grande numero, que com muito espirito chama Fonssagrives a este producto uma verdadeira theriaga natural. Com effeito as analyses feitas sobre elle já teem revelado a existência de uns 20 alca- loides, dos quaes são bem conhecidos e estudados seis : morphina, codeína, narceina, narcotina, papaverina e thebaina. Sobre os outros divergem um pouco as indicações dos auto- res; são os seguintes : paramorphina, laudanina, laudano- sina, codamina, cryptopina, proiopina, lanthopina, hydro- cotarnina, rhceadina (ou porphyroxina), opianina, gnosco- pina, etc. Segundo Hesse, o opio encerra pelo menos 15 alcaloides, que elle divide em quatro grupos, caracterisados pela reacção corada que exerce sobre elles o acido sulphurico puro. Io grupo, da morphina : subdividido em dous sub-grupos, que comprehendem os seguintes alcaloides : a — morphina, codeina e pseudo-morphina (cor verde intensa) ; b — laudanina, codamina e laudanosina (còr roxa avermelhada). 2o grupo, da thebaina: thebaina, cryptopina e protopina (cor verde intensa passando á roxa). 3o grupo, da papaverina : subdividido em dous grupos : a — papaverina (cor rôxa intensa) ; b — narceina e lanthopina (cor negra pardacenta ou parda escura). 522 OPIO E MORPHINA 4* grupo, da narcotina : narcotina e hydrocotarnina (cor rôxa avermelhada). E’ bem possível, lembra com razão Fonssagrives, que todos estes alcaloides tão diversos (pelo menos alguns delles) derivem de um pequeno numero, por effeito das reacções chimicas que se operam na vida da planta, e o que confirma esta previsão é que já se tem podido artificialmente passar do um alcaloide a outro. Além destes princípios, o opio encerra ainda os seguintes : A meconina ou opianyla, que é uma substancia neutra, ternaria, não azotada, uma especie de álcool polyatomico, que, segundo Harley, goza em fraco gráo de propriedades calmantes e soporiferas, mas é difficilmente absorvido pelo estomago. O acido meconico, como qual se acham combinadas as bases or- gânicas, matéria extractioa, borracha, resina, gomma, cera, oleo graxo, oleo volalil, albumina, lenhoso, vestígios de acido sulphurico, etc. De todos estes princípios immediatos, os mais importantes, debaixo de qualquer ponto de vista que se considere, são os seis alcaloides já citados e particularmente os tres primeiros, a respeito dos quaes os conhecimentos clínicos teem adeantado muito nestes últimos tempos. Elles exercem acções complexas, algumas muito differentes, e mesmo oppostas ou antagonistas entre si: pelo que, julgo de todo o interesso, contra a opinião de Tardieu neste particular, referir-me primeiro separadamente a cada um desses alcaloides, para discriminar essas acções, antes de fazer o estudo geral do meconismo agudo e chronico ; assim se chama o envenenamento pelo opio. Antes de tudo, porém, devo dizer que sobre este assumpto terei de alludir ás memoráveis experiencias de Cl. Bernard, feitas em animaes, e sobre as quaes este grande physiologista firmou as diversas propriedades de que gozam os alcaloides do opio. Os resultados dessas experiencias não foram ainda destruídos nem contestados, e representam portanto a doutrina corrente VENENOS NEURÓTICOS 523 relativamente a essas propriedades, porém applicadas a outras especies animaes que não o homem, em cães sobretudo, que são de uma tolerância admiravel para o opio e particular- mente para alguns dos seus alcaloide>; resistem a dóses que matariam a qualquer homem. Neste, as observações de Rabu- teau, confirmadas por outros, toem levado a conclusões muito differentes, que em todo caso vieram restabelecer a doutrina primitiva sobre a base em que assentava a classificação commer- cial dos opios, isto è, a sua riqueza em morphina, considerado a principio, e outra vez agora, como o titulo ou critério do seu merecimento e valor pharmacologico, como a verdadeira base daquella classificação. As experiencias de Cl. Bernard em outros animaes des- truíram completamente esta supremacia da morphina, que deixou de ser o alcaloide mais importante do opio debaixo do ponto de vista de qualquer das tres propriedades assignaladas e estudadas por aquelle notável physiologista. Com effeito, elle distinguiu nesses alcaloides tres propriedades : soporifera, convulsionante e toxica. Em relação à primeira, sómente tres alcaloides foram clas- sificados na ordem seguinte : narceina, morphina e codeina ; os outros não manifestaram essa propriedade. Quanto á segunda, todos, menos a narceina, exercem acção convulsionanie na ordem seguinte : thebaina, papaverina, narcotina, codeina e morphina. Com referencia à terceira propriedade, nenhum fezexcepção; todos são toxicos na ordem seguinte: thebaina, codeina, papa- verina, narceina, morphina e narcotina. De maneira que a morphina ficava em penúltimo logar na ordem soporifera e toxica, e em ultimo logar quanto á pro- priedade convulsionante, segundo esta classificação. Si ella pudesse prevalecer com relação à especie humana, grande per- turbação acarretaria nos processos ou ensaios opiometricos, que deveriam ser subordinados á riqueza em thebaina e narceina. 524 OPIO E MORPHINA Mas, como já disse, as observações ulteriores feitas na espe- cie liumana, não só relativamente a essas tres propriedades, como ainda a outras, vieram fazer justiça à morphina e resti- tuir-lhe o seu logar na ordem de importância dos alcaloides do opio: é o mais activo de todos, quer debaixo desse tríplice ponto de vista, quer como anexosmotico, analgésico, etc. A coliocação de Rabuteau é a seguinte : Ordem soporifera : morphina, narceina e codeina. Ordem toxica: morphina, codeina, thebaina, papaverina, narceina e narcotina. Ordem analgésica: morphina, narceina, thebaina, papave- rina e codeina. (A narcotina não parece ser analgésica.) Ordem anexosmotica: morphina e narceina. (As outras não gozam desta propriedade.) Assim pois, recapitulando estes dados com referencia ao homem, eis o que fica assentado : Morphina: o mais soporifero, analgésico, anexosmoticoe toxico de todos os alcaloides do opio. Codeina: não é analgésica nem anexosmotica; é pouco sopo- rifera e convulsionante, e a mais toxica depois da morphina. Narceina: pouco toxica e não convulsionante ; é amais anexosmotica, analgésica e soporifera depois da morphina. Narcotina: pouco ou nada toxica ; não é soporifera nem analgésica, porém convulsionante (em terceiro logar na re- lação) . Papaverina : não é soporifera nem anexosmotica; pouco analgésica, bastante toxica e muito convulsionante (em segundo logar na relação). Thébaina\ não soporifera nem anexosmotica; bastante analgésica e ainda mais convulsionante e toxica (é a pri- meira debaixo deste ponto de vista. 1 1 Fronmíiller nega esta propriedade á thebaina, não se sabe baseado em que dados. Entretanto Gubler, fhunado sobre as observações mais fide- dignas de Cl. Bernard, Muller, Falk, Vulpian e outros, entende que seria até importante classificar os opios no commercio conforme sua riqueza em VENENOS NEURÓTICOS 525 Quanto aos outros alcaloides, cuja proporção não excede de 1 por 100 na composição do opio, eis o pouco que se sabe: A metamorphina, a cryptopina e a opianina produzem eífeitos semelhantes aos da morphina, da narcotina e da narceina. 1 A hydrocotharnina, a porphyroxina e a lauda- nina 2 obram pouco mais ou menos como a codeina. A lauda- nosina comporta-se como a thebaina ; provoca phenomenos es- pasmódicos, convulsivos, analogos aos produzidos pela strych- nina. krhoeadina é, ao que parece, completamente inactiva. 3 Dada esta noticia sobre os alcaloides do opio e para completar a indicação dos seus derivados, resta-me failar de dous prin- cipios immediatos, não preexistentes no opio, porém obtidos com dous de seus alcaloides, pela acção do acido chlorhydrico e mesmo outros, em certas condições de temperatura e concentração ; refiro-me á apomorphina e á apocodeina. São productos de des- hydratação da morphina e da codeina, e que gozam de acção emetica pronunciada, na dose minima de cinco milligrammas a 1 centigram. no máximo, pelo estomago ou mais facil e prom- ptamente em injecção hypodermica. Nestas condições nenhuma acção exercem das que pertencem aos alcaloides seus geradores e nessa propriedade basêa-se a applicação therapeutica, daquelles dous productos, particularmente da apomorphina, que é mais bem conhecida e estudada. Em dóses elevadas, e assim se considera de 20 centigr. para cima, ella perde a acção dormitiva, determina uma narcose profunda, verdadeiro coma thebaina, por ser o principio mais deleterio e perigoso. Debaixo deste ponto de vista diz elle que Merck achou 1 por 100 de thebaina no opio de Bengala, e Pelletier não a encontrou no opio francez. Parece suspeita tanta vantagem em relação a este ultimo producto. Já este mesmo chimico francez chegou a assignalar nelle a porcentagem mais elevada (até 22%) de morphina. o principio mais importante do opio como medicamento; e não acha nem vestígios do seu principio mais nocivo e toxico. E’ o ideal dos opios ! e ainda não pôde desthronar os outros. 1 Kluger considera a opianina um soporifero tão energico como a mor- phina. (?) 2 Esta ultima, Gubler cita como tetanisante ao lado da laudanosina. 3 A pseudomorphina também não parece toxica. A cotarnina parece obrar sobre os nervos motores, a modo do curare. 526 OPIO E MORPHINA com dilatação de pupillas, phenomenos accentuados de para- plegia inferior e por fim a morte. O envenenamento criminoso pelo opioè raro, mas é, segundo Tardio u, o mais frequente de todos, si se contam os suicídios que correm por sua conta, e os accidentes que lhes devem ser attribuidos. A frequência dos suicídios por este agente toxico e os seus derivados explica-se pela idéa que faz geralmente o povo, de que elles não fazem soffrer, ede que por este meio a morte é suave. Quanto aos accidentes, são pela maior parte devidos a applicações imprudentes e desastradas do opio, em condições de manifesta intolerância ou de uma susceptibilidade exaggerada para este veneno ; teem-se observado factos desta natureza, principalmente em crianças de tenra idade, que assim como os velhos, não supportam dóses relativamente fracas de opio. E’ na Inglaterra sobretudo que taesenvenenamentos teem sido mais communs e frequentes, como prova uma estatística consignada na obra de Taylor, de 349 envenenamentos (em 1840), dos quaes 75 foram occasionados pelo opio, e deste numero 12 pertencem a crianças menores de 5 annos. Saboka (Journ: fiir Kinderkrankheiten, 184G) refere seis casos de envenenamento em crianças de 2 a 7 annos pelo em- prego moderado da tintura de opio ou do xarope diacodio, e das quaes duas morreram. Dujardin Beaumetz observa um caso analogo fatal em uma criança de 8 mezes, em quem se applicou um clyster com oito gottas de tintura de opio. Rabuteau diz que se tom visto crianças de colo,menores de um armo, succumbirem à ingestão de uma ou duas gottas de laudano de Sydenham. Isto explica também a morte de algumas, a quem amas perversas teem administrado, para acalmal-as, um simples chà de dormideiras. Trousseau estabeleceu que uma só gotta de laudano póde occasionar uma depressão comatosa inquietante em crianças de 1 anno, e por isso recommenda o maior cuidado c eserupulo VENENOS NEURÓTICOS 527 na prescripção dos opiáceos nesta idade, e sò em dóses muito fraccionadas. Parrot vae mais longe, e aconselha banir da the- rapeutica infantil semelhantes preparações. 1 Mesmo em adultos ellas teem produzido accidentes fataes; Chandellon cita o caso de um indivíduo quesuccumbiu depois de ter tomado uma infusão feita com duas capsulas de dormideiras. Marc refere, segundo Werner, o facto de lima mulher, que com 1/8 de grão de opio em clyster cabia sempre em lipo- thymia. Gery falia de outra pessoa que apresentou svmptomas de intoxicação grave, com 2 centigrammas apenas (menos de 1/2 grão) de extracto gommoso de opio. Taylor dà noticia de um caso citado pelo Dr. Scharcey, em um indivíduo adulto, apenas com a dóse minima de 01/25 de extracto em duas pílulas, tomadas de uma vez, e sabe de ou tros terminados pela cura com altas dóses de laudano ; neste caso estão facto de uma mulher, que se diz ter tomado impunemente 8 onças (250 grammas) de tintura de opio. Como a respeito de todos os venenos, ó muito difficil precisar a dóse minima toxica do opio ; elia varia por influencia de circumstancias múltiplas 2. Ue um modo geral con- sidera-se mortal a dóse de 1 a 2 grammas de opio, que 1 Não sè sabe a que attribuir esta differença, mas acredita Dujardin Beaumetz que ao menos uma parte do segredo está 11a desproporção entre 0 pe3o do encephalo e o do corpo da mesma pessoa, nas duas idades. No recem-nascido o encephalo está, termo medio, para o peso do corpo como 1:8, ao passo que no adulto esta proporção é 1:40. O opio chega, portanto, em um tempo dado em maior quantidade no cerebro da criança do que no adulto, e como são os centros nervosos os orgãos de preferencia atacados e comprom et idos por este veneno, segue-se que a in toxicação sobrevem naquella, cinco vezes pelo menos mais rapida ou ma is grave do que neste. De outro lado é indubitável que 0 tecido dos centros nervosos da criança, mais malleavel e menos resistente, torna-se mais impressionavel ao choque thebaico do que o tecido encephalico do adulto. 2 Além da idade, do se- o e das idiosyncrasias particulares, ha a considerar o estado de moléstia, que n odilica também notavelmente a receptividade para o opio e seus alcaloides. São as moléstias do systema nervoso que augmentam em geral mais a tolerância para este agente. Trousseau assignalou especialmente a choréa ; cita a observação de uma mulher, que pôde tomar sem accidentes até 1 1/2 gramma de morphina; de um indivíduo que, ocommettido de dores osteocopas atrizes, chegou, em dóses progressivas, a beber 200 a 250 grammas de la dano de Rousseau por dia! Levado pelo desespero ao suicídio por este meio, tomou de uma vez 750 grammas deste preparado 528 OPIO E MORPHINA corresponde de 0,50 a 1 gramma do respectivo extracto, de 4 a 8 grammas de laudano de Rousseau, o dobro do laudano de Sydenham (que tem a metade do opio), etc. E’ notável que a absorpção do opio é mais activa e rapida pela via rectal do que pelo estomago ; applicado mesmo sobre a pelle intacta, não denudada, pôde trazer o nar- cotismo. Conta-se que uma forte dóse de laudano empre- gada para regar uma cataplasma mantida muito tempo sobre a pelle pôde acarretar a morte. Tardieu diz ter visto um facto desta natureza com 30 grammas de laudano, e Christison cita outro igual, com a mesma dóse, em applicação externa. Quanto àpelle denudada da epiderme, offerece natu- ralmente uma porta facil de penetração do veneno. Eu já vi um caso de intoxicação aguda pelo opio e terminado pela morte, devido á applicação do linimento oleo-calcareo opiado sobre uma larga queimadura de 2o gráo, em um menino de dous annos de idade ! Outra circumstancia que favorece o apparecimento dos phenomenos de meconismo é a que deriva de certos estados morbidos, affectando os rins e embaraçando a eliminação do veneno pela secreção urinaria; é o que succede com a moléstia de Bright. O opio é um veneno para a generalidade dos animaes, sendo que gatos, cães e coelhos, os herbivoros e os gal- linaceos são os que resistem mais à sua acção; diz-se mesmo que os coelhos comem impunemente as dormideiras. A acção narcótica e soporifera do opio estende-se também a alguns vegetaes, como se póde ver experimentando sobre aquelles que são dotados de movimento. e apsnas conseguiu tres horas de somno !! Facto de que aliás Dujardin Beaumeiz duvida com razão. A nevralgia facial, o tétano, a hydrophobia, etc., exaggeram também a tolerância para os opiáceos: tem-se visto doentes destas aífecções, que supportam sem narcose 30 a 50 centigrammas de opio por dia. Segundo Sibbern e Hunter, os syphiliticos estão no mesmo caso. VENENOS NEURÓTICOS 529 Symptomas; signaes clinicos Envenenamento agudo. Neste envenenamento Tardieu distingue uma fórma superaguda ou fulminante, que elle des- creve nestes termos: A ingestão do veneno é quasi immediatamente seguida de um somno comatoso, que nada póde vencer ; a respiração è estertorosa, e deste estado de narcotismo profundo os indivíduos envenenados passam sem transição à morte, no espaço de 3/4 de hora a uma ou duas horas. Raramente esta é precedida de alguns movimentos convulsivos; as pupillas são neste caso constantemente dilatadas. Na fôrma simplesmente aguda, que é a mais commum, os eífeitos começam ordinariamente depois de meia a uma hora, após a ingestão do veneno, ás vezes mais cedo no fim de alguns minutos, por peso de cabeça, atordoamento, mesmo vertigens, exaltação dos sentidos ao menor ruido, á luz um pouco viva. Um calor intenso se espalha por todo o corpo, o pulso bate forte, a lingua e a garganta se apresentam seccas. Observam-se por vezes nauseas, nem sempre seguidas de vomitos (estes são mais frequentes com a morphina do que com o opio em substancia ) 4; as matérias dos vomitos exhalam o cheiro caracteristico do opio2, e mais particular- mente ainda do laudano, si o envenenamento foi por este prepa- rado ; cheiro que já se faz sentir no proprio hálito do indi- víduo, e que naturalmente não se póde manifestar com os alcaloides. 1 Sem que tenlia dados experimentaes para dar a razão positiva deste facto, acredito que elle é devido á presença de traços de apomor- phina, formada na mesma occasião em que se preparam os dous saes mais usados de morphina, o sulfato e o chlorhydrato; pois é justamente pela acção do acido sulphurico e sobretudo do acido chlorhydrico sobre este alcaloide, em circumstancias especiaes, que se obtem aquelle principio emetico. 2 Este cheiro é realmente um signal caracteristico, sem esquecer, todavia, que é commum com o lactucario ; mas este corpo não é veneno, pelo menos que se possa comparar e confundir com o opio. TOX1COLCKHA 3Í 530 OPIO E MORPHINA Todas as secreções, especialmente a secreção urinaria, são diminuidas ou suspensas; ha por via de regra prisão de ventre, e só na ultima phase do envenenamento diarrhéa ; por vezes vê-se apparecer em varias regiões do corpo, sobretudo no tronco e nos membros, uma erupção papulosa ou vesiculosa, ao lado de um prurido vivo e muito incominodo em toda a pelle. Depois, os doentes cahem em estado de entor- pecimento, a respiração é embaraçada e lenta, a ponto de não dar mais de quatro ou cinco inspirações por minuto ! Diz Tardieu que este primeiro periodo pôde faltar, ou pelo menos pôde acontecer que, sob a influencia de uma dóse mais elevada, sobrevenham desde o principio symptomas francos de excitação cerebral, com entorpecimento geral, resolução muscular e insensibilidade. O rosto injectado, o olhar fixo, as pupillas ordinariamente contrahidas e in- sensíveis á luz; mais tarde, á medida que a paralysia invade todos os sphyncteres, e que a terminação fatal se approxima, ellas dilatam-se, e em um caso referido por Taylor, elle encontrou-as de um lado contrahidas, de outro dilatadas. Ha dyspnéa considerável; a circulação, em começo acce- lerada, torna-se lenta; o pulso pequeno, quasi imper- ceptivel, as extremidades resfriam-se, o rosto apresenta-se agora pallido, os lábios arroxeados; apparece o coma, e algumas vezes, sobretudo nas crianças, convulsões, a que se segue a morte. Em certos casos a terminação não é tão rapida, e obser- vam-se remissões francas, embora de curta duração. Depois de algumas alternativas desta natureza, os doentes entram em estado de agitação, delirio com allucinações, pesadelos e coma, e succutnbem no fim dedous a cinco dias, raramente em mais tempo. Em outros casos, felizmente mais frequentes, os accidentes vão-se dissipando gradualmente; então a respiração se rea- nima e se regularisa, os suores apparecem quentes e VENENOS NEURÓTICOS 531 abundantes, a sensibilidade e a intelligencia voltam pro- gressivamente, as secreções se restabelecem ; tudo annuncia uma terminação feliz. Entretanto a convalescença é longa ; leva muitos dias, durante os quaes os doentes teem ainda vomitos frequentes, obtusão da sensibilidade geral, fra- queza muscular considerável, lipothymias, seccura da garganta, e muitas vezes constipação de ventre rebelde. / Lesões anatomo-pathologicas; signaes necroscopicos O cadaver é pallido, descorado ; a rigidez cadavérica esta- belece-se rapidamente, a decomposição pode ser retardada, porém marcha depressa quando tem começado. Pela abertura do corpo, e sobretudo do estomago, sente-se o cheiro viroso proprio do opio, si foi com elle ou seus preparados mais activos o envenenamento. Si foi o laudano de Sydenham, nota-se em todos os pontos da mucosa gastro-intestinal tocados por este liquido a côr amarella, devida ao açafrão que entra em sua composição. Tourdes viu um caso em que esta côr se esten- dia desde a boca até dous metros adeante do pyloro. Esta superfície offerece outras vezes os matizes mais variados, resul- tantes da mistura da côr amarella do medicamento, com a vermelha dependente da injecção forte da mucosa, em fôrma de estrias, manchas e verdadeiras arboirsações. Dir-se-hia um envenenamento pelo acido nitrico, si não fôra a ausência de lesões devidas á sua acção corrosiva. Encontra-se nos principaes orgãos, e sobretudo nos pulmões e no cerebro, uma congestão sanguínea muito considerável. O sangue é negro, algumas vezes fluido, outras vezes coagulado, formando no coração e nos grossos vasos coágulos fíbrinosos, densos e descorados, principalmente quando a morte for pre- cedida de agonia prolongada. A congestão cerebral, sobretudo peripherica, acompanha-se algumas vezes de pequenos focos de apoplexia capillar, mais vezes de uma infiltração abundante 532 OPIO E MORPHINA de serosidade sub-arachnoidiana e de um derramamento da mesma natureza nos ventrículos. Os pulmões são fortemente hyperhemiados ; muito rara- mente são a séde de núcleos apopléticos. E’ frequente observar uma congestão notável dos orgãos sexuaes e dos rins, sem que os envenenados pelo opio venham a morrer sempre, como pretende Barbier, em estado de erecção penil. Tâes são as lesões mais constantes que deixa o meconismo agudo, comquanto não sejam especificas e caracteristicas desta intoxicação. Diagnostico differencial Ha duas moléstias que offerecem notável semelhança com o envenenamento pelo opio ; são : a congestão e apoplexia cere- braes, a congestão e apoplexia pulmonares ; o que é tanto mais natural quanto esse envenenamento produz por si congestão dos dous orgãos. Neste caso, porém, ellaé menos intensa e não chega a determinar o derramamento apoplético e a hemiplegia consecutiva, ou outra fórma de paralysia, que sempre acom- panha o ataque apoplético ; pela autopsia, pois, encontram-se esses fócos hemorrhagicos, que faltam no envenenamento. Além disso, os ataques dessa natureza, como diz Taylor, sobreveem em geral muitas horas depois da refeição, e são raros em idade in- ferior a 30 annos. Quanto â congestão pulmonar, distingue-se pela ausência dos phenomenos cerebraes proprios do envenenamento em questão, de nada servindo, na minha opinião, o signal lembrado por Tardieu, por ser commum aos dous casos, isto é, que a con- gestão, que no envenenamento não vae até ao ponto de produzir fócos apopléticos nos pulmões, sómente nelle se acompanha de dyspnéa e esputos sanguíneos. Cumpre mencionar também a asphyxia pelo vapor de carvão e o alcoolismo agudo, como se approximando até certo ponto VENENOS NEURÓTICOS 533 do envenenamento polo opio. Basta para discriminar a asphyxia o exame attento do habito externo do cadaver, que nos asphy- xiados se apresenta com largas manchas de côr rosea ou ver- melhas, dando um aspecto como que marmoreo ; nos envene- nados é pallido e a pelle como que arripiada (chair de poule). O alcoolismo agudo distingue-se pelo cheiro franco e cara- cteristico de álcool, como pelas apoplexias meningéa e pulmo- nar, que faltam no meconismo. O envenenamento pelas solaneas virosas, em geral pelos es- tupefacientes, diíficilmente se pôde confundir com o que é deter- minado pelo opio, attendendo-se ás perturbações tão variadas da sensibilidade e da myotilidade, que caracterisam a acção daquelles agentes. Ha notáveis differenças e até opposição de symptomas, comquanto não haja antagonismo toxico entre os effeitos produzidos por um e por outro. Tratamento No começo deve-se prescrever um vomitivo, seja o tartaro emetico, seja, como preferem os inglezes, o sulfato de zinco (meia a uma gramma), ou o sulfato de cobre (30 a 40 centigrammas). Como auxiliar desta medicação, AYood aconselha o emprego de affusões frias sobre a cabeça. Mas, quando o envenenamento é muito agudo e a prostração é considerável, em vez daquelles meios deprimentes, deve-se preferir o uso da bomba gastrica, que permitte a lavagem do estomago, ao mesmo tempo que facilita a administração dos antidotos. Entre estes indicam geralmente os autores o iodureto iodu- rado de potássio, o tannino, e em geral as preparações adstrin- gentes. O café obra por este principio em parte, mas certamente não são estranhas á sua acção outras substancias preexistentes na composição desta semente (cafeina, etc.) ou formadas du- rante sua torrefacção (cafeona, etc.) Por esse motivo a infusão 534 OPIO E MORPHINA forte e quente do café, que realmente é de uma efficacia a toda prova para combater os phenomenos de meconismo agudo, actua mais como antagonista do que rigorosamente como antidoto ; seu uso deve ser continuado e em larga escala. Elle promove a transpiração e a diurese ; favorece, pois, a eliminação do ve- neno, e produz uma excitação salutar para o lado do cerebro, contrariando efficazmente a somnolencia ou narcose própria deste envenenamento. Tardieu liga muita importância a este recurso e a todos os outros que com elle tendem a reanimar a respiração e as funcções cerebraes. Ao lado do café aconselha também como um tratamento racional, ede muito mais confiança do que inspiram os antidotos mais recommendados, o emprego dos estimulantes diflusivos, a ammonia por exemplo, os revulsivos energicos, a applicação do martello de Mayor na base do peito, as inhalações de oxygeno, e ás vezes emissões sanguineas e clysteres purgativos. Noth- nagel e Rossbach lembram a conveniência de uma injecção hypodermica de camphora, e reprovam as sangrias, porque não só os phenomenos cerebraes dependem apenas em minima parte da hyperhemia cerebral, como ellas não desembaraçam o organismo sinão de uma quantidade infinitesimal de veneno. Prestam porém, certamente, relevantes serviços os meios mecânicos de respiração e sobretudo a electricidade ; esta póde ser applicada ou sob a fórma de correntes ascendentes, ou me- diante a faradisação do nervo phrenico. Ha toda vantagem em despertar constantemente o envenenado e impedir o somno comatoso em que tende a cahir por effeito do narcotico ; para isso, além dos meios já citados, os inglezes aconselham o emprego dos movimentos forçados, do tratamento dito ambulatório, cha- mando o doente pelo seu nome, fazendo-o andar tanto quanto for possivel. Chega emfim a occasião de lançar mão dos antagonistas, e entre elles os que se apresentam com elementos mais favoráveis são as solaneas virosas e sobretudo a belladona e seu principio VENENOS NEURÓTICOS 535 activo, a atropina; entretanto, como vou mostrar, é preciso não confiar demasiadamente nesse antagonismo, que é mais apparente do que real, ou por outra, é limitado a certos effeitos, cuja opposição manifesta justifica o emprego clinico de uma substancia contra a outra ; mas este facto não autoriza a esperar resultado completo dessa applicaçâo, quando se trata do con- juncto dos effeitos toxicos. Elles podem se desenvolver parai- lelamente e occasionar um duplo envenenamento ainda mais perigoso e funesto. Data de muito tempo esse pretendido antagonismo entre o opio e a belladona. Entrevisto desde 1570, foi em 1661 e mais tarde em 1776, que Horstius e Baucher assignalaram os primeiros fa- ctos de envenenamento pela belladona, curados com o auxilio do opio. Graves e Corrigan, em 1838, sustentaram esse antago- nismo, e ainda hoje Fonssagrives e outros partilham essa dou- trina. Porém, observações rigorosas feitas recentemente por Ousum, Camus e Denis e que veem consignadas na obra de Rabuteau, bem como outras não menos fidedignas a que se re- ferem Tardieu, Gubler, Ducroix, Georges, Constantin Paul e Harley, vieram enfraquecer notavelmente e reduzir ao seu justo valor a doutrina desse antagonismo. Delle salvaram-se apenas as duas acções physiologicas oppostas, que legitimam as respectivas applicações therapeuticas: a belladona dilata a pu- pilla e promove a diarrhéa, ao passo que o opio em geral con- trahe a pupilla e constipa o ventre ; mais nada. 1 Quanto ao antagonismo toxico, é hoje insustentável, acre- dita-se que os casos de cura de meconismo agudo attribuidos á belladona se explicam bem pela acção de outros meios empre- gados simultaneamente ou por uma terminação feliz, natural e 1 Fonssagrives diz que a morphina demora o pulso, e a atropina oacce- lera ; entretanto, accrescenta que, applicada a morphina a um individ 10 cujo pulso seja excitado previamente pela atropina, em logir da sedação circula- tória, observa-se ao contrario uma rapidez maior do pulso do que a produzida peia atropina só. O mesmo succede quando se administra simultaneamente os dous alcaloides, não só sobre essa funcção, como sobre a respiração também. 536 OPIO E MORPIIINA espontânea, que não è rara neste envenenamento. Quando muito, até que se faça toda a luz sobre esta questão, póde-áe acceitar o conselho de Nothnagel e Rossbach, que mandam tentar uma injecção hypodermica de atropina (1 milligramma), quando num caso desta ordem todos os recursos ordinários tenham sido improfícuos, e o envenenado esteja em imminencia de morte. Todavia devo dizer que Gubler recusa hoje formalmente esse antagonismo como illusorio, e substitue com toda a con- fiança a belladona pelo sulfato de quinina, que elle preconisa como o melhor antagonista do opio. Cita factos de sua obser- vação em favor desta applicação. Fôrma lenia ou chronica. E’ a que se observa nos fuma- dores de opio, e sobretudo, em muito maior escala, nos opio- phagos ou theriakis, que são os comedores de opio ; ella tem sido descripta por Engelbert, Kumpfer, Hammer Botta, Rigler, Oppenheim, Landerer, Little e muitos outros. Uma das noticias mais interessantes a este respeito pertence a Oppenheim e vem reproduzida em um estudo medico-legal sobre seguros de vida, por Taylor e Tardieu, publicado nos Annaesde Medicina legal e hygiene publica de 1866. Não se trata, pois, aqui, nem faliam os autores,, de intoxi- cação profissional, a que deveriam estar sujeitos os individuos que manipulam o opio e que sobretudo preparam a enorme quantidade consumida sob a fôrma de cigarro e em cachimbo, objecto aliás de uma industria que não pôde ser salubre, exer- cida em grande, principalmente na China. Referem-se todos os autores, na descripção do meconismo chronico, áquellas duas classes de consumidores do opio. 1 .a Os que teem o péssimo habito de mascar e comer o opio soffrem mais ou menos rapidamente uma alteração profunda em sua saude: tornam-se nimiamente magros, seu rosto ama- rello e desfeito, seu andar vacillante, sua espinha dorsal forte- mente curvada paradeante, seus olhos fundos e como vidrados. VENENOS NEURÓTICOS 537 Suas funcções digestivas fazem-se mal ; elles teem fastio e prisão de ventre rebelde. Suas forças physicas e intellectuaes vão sendo gradualmente anniquiladas, e dão-lhes por fim um ar de perfeita imbecilidade. Nesta triste situação, mais imperiosa se vae tornando para esses infelizes a necessidade do funesto estimulante, e de cada vez em maiores dóses. Mais tarde, a prisão de ventre é substituída por diarrhéa incoercível. Com o systema nervoso profundamente affectado, elles veem asoffrer de nevralgias rebeldes, e outros padecimentos que teem essa origem e que o mesmo opio não allivia mais : tremor nos membros, vertigens frequentes, delirio, insomnia, impotência genital e mesmo paralysia geral. Emfím, diversas affecções pulmonares e cardíacas: a asthma, o hydrothorax, o edema pulmonar, a ectasia do coração veem apressar a terminação fatal deste envenenamento, que é um verdadeiro suicídio lento. As infelizes victimas deste pernicioso vicio raramente chegam â idade de 40 annos, e não o podem abandonar e supprimir sem risco de aggravarem ainda mais sua desgraçada situação. Acreditam alguns observadores que nessas condições manifes- tam-se os phenomenos que caracterisam uma nova face do meco- nismo chronico: cephalalgia, depravação dos sentidos, insomnia, espasmos, fadiga muscular, nauseas, dores no peito, tosse e por vezes perturbações da intelligencia, allucinações da vista, etc. Estes symptomas prolongam-se durante muitos mezes e deixam como consequência uma alteração profunda do gosto, dor- mência constante e mesmo dores nos membros, resfriamento das extremidades, etc. Assim vivem e acabam neste verdadeiro estado de miséria organica indivíduos que começaram pro- curando no opio effeitos cordiaes exhilariantes, sonhos alegres e prazenteiros, phantasias de felicidade e bem-estar.1 1 Ha sobrètudo um symptoma visual que ainda não fixou bem a attenção dos clínicos, e que entretanto se apresenta com caracter permanente entre os opiophagos : é a asthenopia muscular por insufficiencia dos rectos internos (Yon Graef). 538 OPIO E MORPHINA Attrahidos por estas primeiras e insidiosas impressões, elles deixam-se arrastar até ao abysmo já descripto em que prematu- ramente precipitam sua desgraçada existência, e cujas funestas consequências, assim como para o fumo e sobretudo para o álcool, perpetuam e se multiplicam fatalmente na especie, assignalando como se sabe os traços caracteristicos de uma raça inteira. 2.° Aquelles que se contentam em fumar o opio, e isso con- stitue um habito permittido e por assim dizer obrigado na boa sociedade chineza, resistem por muito mais tempo á acção desse veneno, e só por abuso e mesmo por um uso muito pro- longado veem a soffrer as suas consequências. Ainda assim ellas oíferecem uma physionomia diversa da que caracterisa os opio- phagos ou theriakis. Emquanto estes são arrastados mais ou menos rapidamente a um estado de verdadeira miséria orgâ- nica, de degradação physica e mental, os effeitos da fumaça do opio processam-se mais lentamente e desenvolvem-se em duas phases bem distinctas. Na primeira, que é toda de excitação, e na qual se manteem os fumantes mais moderados e razoaveis, as faculdades intelle- ctuaes se exaltam, a imaginação se extasia em sonhos alegres, a energia muscular parece augmentar, toda a sensação de dôr e toda a attribulação de espirito desapparece ; uma especie de entorpecimento cheio de encanto apodera-se desses individuos, que geralmente recorrem á fumaça do opio ou para com- bater suas dores physicas e moraes, ou para buscar sob sua influencia a precisa coragem para certos commettimentos, menos, porém, a acção propriamente aphrodisiaca de que ella não goza. A segunda phase, que se observa nos viciosos inveterados e descomedidos, caracterisa-se pelo abatimento geral, physico e intellectual ; então os seus sonhos tornam-se pesados e fati- gantes, seguidos, ao despertarem, de percepções vagas, peso e mesmo dores de cabeça, máo-estar ; sobreveem insomnias, fastio e outros effeitos proprios do meconisco chronico em geral. VENENOS NEURÓTICOS 539 A differença é patente e o facto explica-se e comprehende-se bem, attendendo a que os fumantes não aspiram sinão a fu- maça do opio, e este é queimado depois de experimentar certas manipulações, que alteram ou modificam mais ou menos profun- damente sua composição primitiva, ao passo que os opiophagos ingerem e absorvem a droga inteira, no seu estado natural, con- servando portanto todos os seus principios activos e deleterios. Com efíeito o opio destinado áquelle uso é primeiro desman- chado n’agua, e este liquido posto a ferver durante certo tempo a fogo nú ; depois transvasa-se-o para bacias ou tachos de cobre, onde é evaporado pelo mesmo processo e por fim o residuo solido obtido, rapidamente seccado sobre brazas em fornos espe- ciaes. Depois desta serie de operações, o opio é guardado durante uns tres mezes antes de ser entregue ao consumo ; nesse tempo elle acaba por perder completamente o cheiro viroso que lhe é proprio, e exhala um cheiro agradavel, que lembra ao mesmo tempo o da violeta e o da avelã, e constitue um dosattractivos para os seus apreciadores. Neste estado é que o opio é queimado em cachimbos, cujo tubo, feito de bambu, mede geralmente 20, 30 a 40 centimetros de comprimento, no máximo. A que principios, pois, deve a fumaça de tal opio as suas propriedades ? E’ o que não se sabe ainda. Comquanto a mor- phina não seja propriamente volátil, e se decomponha em temperatura elevada, não se póde negar que uma certa quan- tidade do alcaloide é arrastada, não decomposta, com a fumaça, pois que se o encontra no sarro (dross) que incrusta as super- fícies internas do cachimbo. Por outro lado não parece que qualquer porção dessa quan- tidade chegue á boca do fumante, porque neste caso elle sen- tiria o sabor amargo e mesmo um pouco acre da morphina ; ao contrario, o sabor que experimenta é aromatico e suave. Isso está de accordo com a observação de Reveil, que diz não ter achado na fumaça do opio a morphina. 540 OPIO E MORPHINA Ainda mais, não é a riqueza do opio em morphina que lhe dá o maior titulo de procura e extracção para este mister, do mesmo modo que não são as qualidades de fumo mais ricas de nicotina, as que teem maior apreço e valor commercial : o afa- mado fumo de Havana é um dos mais pobres deste principio. Geralmente os bons apreciadores do opio rejeitam aquelle que porventura de proposito é addicionado de morphina, como os amantes mais selectos das bebidas espirituosas recusam as que offerecem um titulo alcoolico muito elevado á custa de álcoois estranhos. Si, portanto, o papel da morphina nos effeitos experimen- tados pelos fumadores de opio é insignificante, para não dizer inteiramente nullo, resta saber a que substancia devem ser elles attribuidos ; problema ainda não resolvido, e cuja solução seria das mais interessantes ; ella daria a verdadeira chave da differença tão notável entre as consequências produzidas pela fumaça do opio preparado, e as que determina pela ingestão do opio bruto. Recapitulando esta symptomatologia, Rabuteau pretende poder distribuir os principaes effeitos toxicos do opio pelos seus diversos alcaloides. Assim para elle a somnolencia, o estupor, o coma e as nauseas, são produzidos pela morphina ; a consti- pação de ventre depende da acção anexosmotica da morphina e da narceina ; a myose pupillar é devida aos outros alcaloides ; a mydriase nos casos de intoxicação hyperaguda á morphina, cuja acção torna-se então preponderante, etc. E’ porém esta uma apreciação puramente especulativa, sem demonstração pratica. Mais importante é discriminar a acção especial que corres- ponde a cada um dos alcaloides do opio obrando isoladamente, visto que ella não é a mesma para todos ; neste sentido, porém, julgo sufficiente o que deixei dito em principio. Só- mente a respeito da morphina cabem algumas considerações mais, attendendo-se ao largo emprego, ao abuso mesmo que VENENOS NEURÓTICOS 541 de certo tempo a esta parte se faz desse alcaloide, quer inter- namente, quer sobretudo em injecções hypodermicas. Tem havido verdadeira paixão ou mania por este methodo de appli- cação da morphina, que já recebeu a denominação de morphino- mania. De um modo geral póde-se dizer que a morphina produz a mesma serie de effeitos que correm por conta do opio em substancia. As únicas differenças que se podem assignalar são as seguintes : O periodo de excitação cerebral e cardio-vascular é mais accentuado, mais longo e mais bem caracterisado no opio do que na morphina ; com esta os phenomenos hypercyneticos falham, mas o somno é mais prompto, mais calmo e mais profundo, o que é devido à ausência dos princípios antergicos, convulsionantes, que com ella coexistem na 'composição do opio, e em parte, segundo Gubler, a que a morphina parece produzir em menor gráo do que o opio phenomenos congestivos. Em pequenas doses é antes o opio do que o alcaloide que determina um estimulo particular das funcções intellectuaes, activando-as e proporcionando aos theriákis o estado de ebriedade alegre (pointe d’opium), que esses apreciadores não encontram na morphina. Por outro lado, ella excita menos do que o opio a funcção thermogenetica, e provoca menos a diaphorese, sem duvida porque a proporção eliminada pela pelle é inferior á somma dos princípios activos de uma dóse equivalente de opio. Finalmente, pretende-se que o opio, em dóses fracas, goza de acção aphrodisiaca, que não parece possuir a morphina, ao passo que esta, em compensação, segundo alguns obser- vadores, produz mais do que elle effeitos paralysanfces para o lado da bexiga. 542 OPIO E MORPHINA Mecanismo da acção toxica Uma vez absorvida, a morphina distribue-se pelos diversos orgãos da economia, exercendo particularmente sua acção sobre o cerebro; elimina-se rapidamente pela se- creção urinaria, sem ter soffrido modificação alguma conhecida e apreciável. 1 A eliminação começa logo dentro de poucas horas e termina no fim de 12 a 50 horas, o que, com- binado com a absorpção relativamente mais lenta pelas vias gastricas, explica a difficuldade de accumulação deste veneno na economia, e a facilidade de resistência aos seus effeitos. Yejamos agora o que se passa no cerebro, qual a theoria mais racional da acção que sobre elle exerce a mor- phina . Os phenomenos psychicos produzidos por este alcaloide mostram que elle excita, a principio, as cellulas da substancia cinzenta, depois diminue a sua excitabilidade, e por fim as paralysa. Alguns negam esta phase inicial de excitação, devendo-se attribuir os phenomenos, que como tal são traduzidos, á ruptura do equilibrio das diversas funcções cerebraes. Durante o somno morphinico, dizem Nothnagel e Rossbach, ora o cerebro contém muito sangue, em excesso mesmo, ora contém muito pouco; parece, pois, que não é permittido attribuir a acção hypnotica da morphina á modificação da circulação cerebral, como seadmittia outr’ora. E’ muito mais racional fazer intervir aqui uma alteração directa das cellulas cerebraes pela morphina. Si, porém, se trata de uma combinação do alcaloide com os principios albuminoides destas cellulas, assim como foi demonstrado que se passa com a albumina morta, ou si se trata sim- 1 Todavia Dragendorff diz que nada se oppõe a admittir que uma parta do alcaloide seja decomposta no sangue. VENENOS NEURÓTICOS 543 plesmente de uma acção de contacto modificando a vitalidade da cellula central, é o que não se sabe. Seja como for, a alteração que experimentam as cellulas nervosas cerebraes é profunda e persistente, como provam o somno prolongado que dahi resulta e as perturbações intellectuaes, que nos opiophagos ou nos morphiomanos persistem ainda muito tempo depois da suspensão do uso do veneno. E’ verdade que Dragendorff declara não ter chegado a des- cobrir a presença da morphina no cerebro dos indivíduos mortos sob a influencia deste alcaloide. Entretanto, Binz comparando no campo do microscopio tres porções de substancia cinzenta cerebral, das quaes uma havia sido collocada em uma solução de chlorureto de sodio, outra em sulfato de atropina e a ter- ceira em sulfato de morphina, achou nas duas primeiras prepa- rações as cellulas claras, de contornos vagos, a matéria inter- cellular transparente, emquanto que na preparação morphinada as cellulas apresentavam contornos accentuados, seu proto- plasma era turvo e a substancia intercellular escura. Por observações repetidas, Binz formulou esta conclusão : de que sõ os agentes hypnoticos, portanto também o ether, o chloral eochloroformio, podem dar este aspecto turvo, parti- cular ás cellulas cerebraes. Em todo caso são os ganglios cerebraes que, de todas as peças do systema nervoso, mais directa e vivamente são compromettidos pelo veneno. Bucheim faz notar que os animaes os mais sensíveis á acção da morphina são aquelles que apresentam maior desen- volvimento cerebral ; que, na especie humana, as raças mais intelligentes, os europeus, experimentam mais depressa os phenomenos do narcotismo, ao passo que as raças inferiores manifestam antes os da excitação. Esta theoria, porém, soffre numerosas excepções que a tornam muito vulnerável e puramente hypothetica, deixando-a em duvida quanto á verdadeira acção que exercem os opiáceos 544 OPIO E MORPHINA sobre o cerebro. Portanto, debaixo deste ponto de vista podemos confessar francamente com Dujardin Beaumetz que não esta- mos inais adiantados do que o personagem de Moliére, em cuja boca o espirituoso comediographo francez collocou uma de suas satyras mais pungentes, na resposta que deu á seguinte pergunta: « Quare opium facit dormirei quia est in eo virtus dormitiva », disse elle. Quanto à medulla espinhal, não é atacada pelo opio sinão depois que o cerebro soífre sua acção ; as pequenas dóses ou as dóses médias determinam phenomenos de excitação e exaltação da motilidade. As dóses elevadas acabam por paralysar em grande parte a propriedade excito-motriz da medulla. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Nesta pesquiza o perito chimico deve procurar, não só caracterisar a presença da morphina, por assim dizer o unico alcaloide importante do opio para o toxicologista, como também isolar e pôr em evidencia outros principios de sua composição, entre os quaes o acido meconico e a narcotina, si for possível. Si pela analyse não se encontrar sinão a morphina, sem esses outros principios do opio, é que o envenenamento teve logar por esse alcaloide ou um de seus saes. Si, ao mesmo tempo que a morphina, chega-se a demonstrar a presença do acido meconico, deve-se então concluir que o agente toxico de que se trata é o opio em substancia ou um de seus preparados pharmaceuticos. Esta conclusão se póde tirar quando, mesmo na ausência dos caracteres da morphina e da narcotina, se verificar as reacções caracteristicas do acido meconico, que é exclusivo da composição do opio e não existe em nenhum outro producto ; sobretudo si ao lado desta prova chimica se encontrar, pela autopsia, o cheiro proprio do opio, e a côr especial communicada á mucosa gastro-intestinal por um de seus preparados, o laudano de Sydenham. VENENOS NEURÓTICOS 545 Felizmente esta pesquiza póde-se fazer ainda com exito algum tempo depois da inhumação, porquanto a morphina é como a strychnina, um dos alcaloides que resistem mais á de- composição dos corpos. Dragendorff diz que a pôde encontrar no fim do algumas semanas em uma mistura de matérias orgâ- nicas diversas. Tardieu eRoussin reconheceram a presença desse alcaloide no fim de mais de 45 dias, em uma mistura de 500 grammas de fígado de boi e meia gramma de extracto de opio, abandonadas á putrefacção. Langonné, em Brest, achou mor- phina nocadaver de um indivíduo envenenado pelo laudano de Sydenham, e inhumado havia mais de seis mezes ! Stass pretende ter demonstrado a existência da morphina em todas as partes de um cadaver inhumado ha 13 mezes! (é extraordinário). Final- mente Taylor diz ter encontrado esse alcaloide em uma mistura de meconato de morphina com matérias putresciveis, abando- nadas ao contacto do ar durante 14 mezes! ! As matérias que devem ser submettidas a esta analyse são : as rejeitadas pelos vomitos, o conteúdo do estomago e intes- tinos (mesmo fezes), sangue, urina e porções do fígado. Devem ser divididas em duas partes : uma destinada á pesquiza do acido meconico, eoutra à da morphina, ou antes, á dos alcaloides do opio. A— Pesquiza do acido meconico: Seccam-se as matérias em B. M., esgota-se-a por álcool aci- dulado com acido chlorhydrico. O liquido alcoolico è filtrado e depois evaporado nas mesmas condições, até seccura ; este re- síduo ó tratado por agua fervendo, filtra-se de novo ainda quente o liquido, que pelo resfriamento abandona na sua superfície substancias graxas que se solidificam. Separam-se estas matérias e agita-se o liquido com abenzina, para retirar os princípios corantes1; decanta-se por meio de um funil de chave o 1 Com as matérias corantes sahe também maior ou menor quantidade dos alcaloides do opio ; gaarda-se , pois, este liquido para investigações ulte- riores em relação a elles. TOXICOLOGIA. 35 OPIO E MORPHINA liquido aquoso que occupa a camada inferior, faz-se ferver e neutraliza-se pela magnesia. Ahi deve-se achar o acido meconico no estado de meconato de magnésio, solúvel, que pôde ser sub- mettido aos reactivos. Si estiver turvo o liquido, filtra-se pri- meiro ; si estiver muito diluido, concentra-se pelo calor. Final- mente em vez da magnesia póde-se empregar a ammonia. As reacções principaes do acido meconico e dos meconatos solúveis são as seguintes : Precipitam em branco pelo acetato de chumbo e pelo azotato de prata ; este ultimo precipitado, sendo aquecido, torna-se amarello. Precipitam em branco pelo azotato mercuroso e em amarello pelo azotato mercurico. Dão um precipitado amarello esverdeado ou verde ama- rellado com os saes de cobre. A reacçâo porém mais importante do acido meconico é a que elle exerce sobre o perchlorureto de ferro : produz uma cor vermelha de sangue, devida á formação do meconato de ferro, que é completamente insolúvel no ether, e não soffre alteração, ou pelo menos a sua cor não é facilmente destruida pelo calor, pelo acido chlorhydrico e outros ácidos mineraes diluidos, pelo perchlorureto de ouro ou de mercúrio. Nos liquidos contendo tannino (chã, cerveja, etc.) a acção do sal ferrico é mascarada, mas uma pequena quantidade de acido sulfurico diluido faz desapparecer o tannato de ferro e manifestar-se a cor vermelha do meconato. O acido sulfuroso e o clilorureto de estanho destroem essa cor. A verificação destas propriedades é necessária para tornar a reacção caracteristica daquelle acido ou seus saes solúveis, e distinguil-os de qualquer dos sulfocyanatos alcalinos, bem como dos ácidos acético e formico, que se comportam de modo analogo em presença do mencionado reactivo. Mas, além de que os sulfocyanatos precipitam as soluções cúpricas em branco, dão com o sal ferrico uma cor vermelha devida á formação do VENENOS NEURÓTICOS 547 sulfocyanato respectivo, que é solúvel no ether e descora pelo chlorureto de ouro. Quanto aos ácidos acético e forraico, e cujo resultado não é tão igual e tão facil de confundir, distinguem-se porque, além de menos intensa, a cor vermelha desapparece, quer pela acção do calor, quer pela do acido chlorhydrico. Demais, nãopóde pre- occupar muito o chimico a presença de taes ácidos no processo seguido, porquanto, si elles existissem no liquido primitivo, deviam ter sido expellidos durante a evaporação até residuo secco. No caso de se desejar obter separado o acido meconico para guardar como peça de convicção, póde-sepôr em pratica o pro- cesso de Dragendorff, que consiste no seguinte: Acidula-se muito ligeiramente as matérias a analysar com acido chlorhydrico e esgota-se a frio ; agita-se o liquido com álcool amylico, que lhe tira todo o acido meconico, lava-se a camada alcoolica com um pouco de agua, e abandona-se á eva- poração ; deposita-se o acido meconico, porém ainda impuro. Purifica-se retomando o acido pela agua fervendo ; evapora-se o liquido filtrado e dissolve-se o residuo no álcool ( ethylico), que abandona agora o acido, crystallizado sob a fôrma de pe- quenas escamas transparentes, com as quaes se podem repro- duzir as suas reacções próprias e caracteristicas. B — Pesquiza dos alcaloides. Póde-se seguir nesta pesquiza o methodo de Stass; mas não é o mais rigoroso e seguro, por causa da pouca solubilidade, ou antes, da quasi indissolubilidade da morphina no ether. Para obviar este inconveniente Tardieu apresenta um processo, que é uma modificação ad hoc do de Stass, no qual emprega a ammonia, em vez do bi-carbonato de potássio, para decompor o tartrato de morphina e precipitar esta, que é dissolvida por intermédio do álcool a 95°, em vez de ether. Além disso, para seccar o residuo em que se acha o alcaloide, antes de o tratar pelo álcool, o autor o manda seccar em B. M. ou em uma 548 OPIO 12 MORPIIINA estufa especial de ar quente de M. Coulier, que elle julga muito própria para este effeito. Este processo, porém, é muito moroso. Roussin propõe substituir o ether pelo álcool, mediante o artificio seguinte: A solução aquosa que encerra o veneno é introduzida em um frasco arrolhado a esmeril, no qual ella deve occupar pouco mais ou menos 1/3 de sua capacidade. Ajunta-se ao liquido um volume igual de álcool a 95° , depois lança-se pouco a pouco carbonato de potássio puro e secco, agitando-se fortemente até ao momento em que o liquido separa-se em duas camadas, uma in- ferior, constituída pela solução aquosa de carbonato alcalino, e outra superior, representando a dissolução alcoolica de mor- phina. Por simples evaporação então obtem-se o alcaloide já crystallizado. Alguns outros processos especiaes teem sido imaginados para esta pesquiza, porém o melhor delles, e a que Rabuteau liga mais importância, é o de Dragendoríf, o mesmo já de- scripto para a pesquiza da strychnina, substituindo a benzina pelo álcool amylico. E’ indispensável, quando se sabe que as matérias suspeitas encerram muita morphina, que a dissolução do alcaloide no álcool amylico e a separação do soluto assim obtido do liquido aquoso esgotado tenham logar em tempera- tura elevada; ó preciso também que se possa dissolver o alca- loide no álcool amylico immediatamente depois de sua sepa- ração da dissolução salina, pois que, desde que a morphina tem-se tornado crystallizada, perde parte de sua solubilidade no álcool amylico. Pela evaporação das soluções amylieas misturadas, a morphina fica geralmente no estado amorpho. Não ha que receiar perdapor volátilisação. Ainda mais, diz Dragendoríf que a pesquiza da morphina na bilis e na urina exige que as soluções aciduladas sejam esgotadas um grande numero de vezes pelo álcool amylico, de maneira que os ácidos biliares e a uréa sejam eliminados com- pletamente. Do contrario o álcool amylico separaria estes corpos VENENOS NEURÓTICOS 549 da solução ammoniacal ao mesmo tempo que a morphina, cuja pureza iriam alterar. A presença dos ácidos biliares, sobretudo, poderia trazer graves inconvenientes, porque dão com o reactivo de Fròlide uma cor um pouco semelhante á que elle dá com a morphina. Por causa desta circumstancia Bruneau imaginou um processo especial para a pesquiza da morphina nas urinas ; é o seguinte: Filtra-se a urina, addiciona-se acido tartarico (0,15 por 100) e mistura-se intimamente com tres vezes seu vo- lume de álcool amylico. A mistura é mantida durante algum tempo a 50 ou 70° e decanta-se então a solução amylica de tartarato de morphina ; póde-se repetir este tratamento muitas vezes. Os líquidos alcoolicos são reunidos e addicionados de agua ammoniacal, que tem por fim decompor o tartarato de morphina e manter esta sómente em dissolução no álcool amylico, que evaporado a deixa como residuo. Alguns outros processos teem sido aconselhados para esta pesquiza; entre elles destacam-se os que se fundam sobre a precipitação da morphina pelo tannino, pelo iodureto iodurado de potássio, pelo acido phosphomolybdico. Mas, como bem diz Tardieu, elles occasionam perdas notáveis de veneno, cuja sepa- ração nestas condições apresenta grandes diíficuldades. Neste sentido Guhl recoinmendou um methodo que, na opi- nião de Dragendoríf, só tem algum valor quando as matérias sujeitas á analyse são ricas de morphina ; consiste na precipi- tação do alcaloide pelo bicarbonato de sodio, desembaraçando-o das matérias estranhas por meio do ether, antes de recolher pelo filtro o precipitado. Si, porém, se quizer ir mais longe e chegar em um só me- thodo de pesquiza até á separação do acido meconico, da meco- nina e dos differentes alcaloides do opio, em um caso de envene- namento por esta substancia, então cumpre seguiras indicações fornecidas pelo sabio professor da Universidade de Dorpat. Eis a marcha que elle propõe, acceita por Chandellon: 550 OPIO E MORPHINA 1. 0 liquido filtrado, acido (proveniente da digestão das matérias a analysar), é tratado duas vezes pela benzina, que dissolve a meconina. 2. Este liquido acido é tratado pelo álcool amylico, que separa o acido meconico. 3. Tira-se a este liquido o álcool amylico que elle retém, agitando com ether de petroleo. 4. O liquido acido é neutralizado por um excesso de ammo- nia e agitado depois com a benzina ; repete-se este tratamento duas ou tres vezes. Evaporam-se os liquidos reunidos e o resi- duo é constituído pela codeina, narcotina e thebaina. 1 5. A solução ammoniacal é depois tratada pelo chlorofor- mio, que dissolve uma parte da narceina e da morphina e as abandona pela evaporação. 6. Ajunta-se então álcool amylico, que dissolve o resto destes dous alcaloides. Seja, porém, qual for o methodo empregado, obtido o residuo e a solução que encerra os alcaloides, passa-se a caracterisal-os pelas suas propriedades e reacções, que são as seguintes: Morphina — Apresenta-se sob a fórma de crystaes pris- máticos, de seis faces, incolores, brilhantes, inodoros, de sabor amargo, diíficilmente solúveis n’agua, quasi insolúveis no ether, no chloroformio e na benzina, bastante solúveis no álcool vinico e no álcool amylico, sobretudo á quente. Sua solução possue reacção alcalina. Combina-se bem com ácidos, formando saes geralmente crystallizaveis, solúveis iTagua e no álcool vinico e insolúveis no ether e no álcool amylico. E’ neste estado que melhor se podem pôr em evidencia as suas reacções: l.a Pelos alcalis fixos, em pequena quantidade, forma-se lentamente um deposito crystallino de morphina, solúvel em excesso de reactivo; com a ammonia dá-se o mesmo 1 Nestas mesmas circumstancias, diz Dragendorft' em outro logar da sua obra que se separa também um pouco de papaverina. VENENOS NEURÓTICOS 551 resultado, mas a morphina precipitada é menos solúvel em excesso deste alcali. Em todo caso, estas dissoluções diffi- cilmente cedem a morphina ao ether, ao passo que cedem com facilidade, toda, ao álcool amylico, sobretudo quente. 2. a Pelos carbonatos alcalinos precipita-se a morphina insolúvel em excesso de reactivo. 3. a O acido azotico dá com a morphina ou seus saes uma côr vermelha amarellada, que passa ao amarello em um ou dous minutos ; descora pelo sulphureto de ammonio e córa em vermelho escuro pelo chlorureto estanhoso, distin- guindo-se nisto da brucina, que nas mesmas condições dá côr violete, com estes dous reactivos. 4. a O reactivo de Erdmann (acido sulpho-azotico) dá uma côr vermelha arroxeada segundo uns, azul arroxeada segundo outros, que passa ao vermelho carregado e por fim ao alaranjado (Os hypochloritos, os chloratos õ o chloro podem substituir o acido azotico nesta reacção). 5. a O reactivo de Frõhde (acido sulfo-molybdico) dá com a morphina ou seus saes uma bella côr roxa, tirando sobre o vermelho, que passa logo ao verde escuro sujo, e depois ao amarello. Este reactivo, que foi expressamente proposto por Frõhde para a morphina, não deve ser conservado além de uma ou duas semanas, porque torna-se facilmente inactivo (Nagelwoort). 6. a Os saes ferricos, particularmente o persulfato, coram a morphina em azul intenso, que passa ao verde em pouco tempo. Esta reacção é muito sensível, mas depende de certas precauções indispensáveis. Assim, o sal ferrico deve ser empregado em solução concentrada e tão neutra quanto for possível; nestas condições basta uma gotta da solução. Convém evitar aqui tanto o menor excesso de acido no reactivo, que impediria a côr, como um excesso do mesmo reactivo no ensaio, que faria apparecer logo em começo a côr verde, devida à combinação do amarello do sal ferrico com o azul resultante 552 OPIO E MORPHINA (la reacção ; na presença da strychnina ella perde mniío a sua sensibilidade. Tardieu diz que também a presença do álcool, ou uma temperatura superior a 50 °, impedem a producção da côr azul. 7. a O acido iodico e periodico, ou (o que é a mesma cousa) uma mistura de iodato de potássio e acido sulphurico, são reduzidos pela morphina mesmo a frio ; separa-se o iodo, que córa o liquido em amarello, si ha apenas traços do alcaloide, ou em vermelho escuro, si ha maior quantidade. Neste caso o cheiro proprio e a côr roxa, que o iodo livre desprende pelo aquecimento, dispensam qualquer outro ensaio ou prova ulterior. Si, porém, a côr amarella é apenas suspeita de ser devida ao iodo posto em liberdade, adquire-se a certeza lançando mão de um dos reagentes mais sensiveis para este corpo: o chloroformio ou o sulphureto de carbono, que o dissolvem tomando a côr rosea, com um matiz levemente arroxeado de amethysta; ou a gomma de amido, que toma uma bella côr azul, devida ao iodureto de amido. Na especie, porém, releva notar que esta ultima reacção, poi causas desconhe- cidas falha muito facilmente, parecendo não ser indifferente o modus faciendi. Ornais seguro é aquelle em que se mistura a gomma com acido iodico ou com a morphina para depois jun- tar esta ou aquelle, do que ajuntar a gomma â mistura dos dous corpos. Cousa notável, a côr amarella-avermelhada do iodo livre torna-se mais intensa pela addição da ammonia, o que é im- portante para distinguir (caso na especie fosse possivel a con- fusão) a morphina, de certas matérias albuminoides da urina, etc. que também reduzem o acido iodico, mas a côr do iodo desapparece pelo alcali volátil. A strychnina não impede esta reacção. 8. a O nitrato de prata e outros saes metallicos são reduzi- dos pela morphina, que, entre os alcaloides naturaes, goza ella sô, ou pelo menos em maior escala do que os outros, dessa pro- VENENOS NEURÓTICOS 553 priedade. 0 precipitado obtido corresponde á natureza do metal reduzido. Pretende-se mesmo que a acção que a morphina exerce sobre os persaes de ferro é um effeito de reducção, formando-se o chamado morphito de ferro. Si antes de ajuntar o persal de ferro se faz reagir primeiro sobre a morphina o ferri- cyanureto de potássio, produz-se então o azul da Prussia, de- vido á reducção do prussiato vermelho a ferro-cj^anureto (prussiato amarello), e sua acção consecutiva sobre o sal ferrico, exactamente como suçcede com as ptomainas em geral, com as quaes nesta reacção se confunde a morphina. A solução ammoniacal de sulphato de cobre é corada em verde esmeralda pela morphina. O chlorureto de ouro dá com este alcaloide uma cor ama- rella carregada, que passa rapidamente ao azul e por fim ao roxo. 9. a Com a morphina aquecida com algumas gottas de acido sulphurico puro, addicionando-se um pouco de perchlorato de potássio, obtem-se uma cor parda escura, muito sensivel ( reacção de Siebold). 10. a A agua de chloro dá á morphina uma cor amarellada ; pela addição da ammonia ella passa ao vermelho e mais tarde á cor parda. Em uma mistura de quinina e morphina, ainda o re- sultado é o mesmo, salvo si a proporção desta ultima ê inferior a um millesimo ; neste caso dá-se a reacção própria da quinina com esses reactivos. 11. a O acido phosphomoljbdico dá um precipitado amarello que, segundo Struve, é immediatamente corado em azul pelo acido sulphurico concentrado ; aquecendo-se, fica de cor parda escura. A potassa o córa também em azul, que depois torna-se pardo e por fim avermelhado. 12. a Misturada comacido sulphurico concentrado e um pouco de arseniato de sodio, produz-se, segundo Tattersatt, uma côr roxa suja, que passa ao verde-mar. Aquecendo-se a massa, 554 OPIO E MORPHINA torna-se de cor cinzenta carregada. Yitali, porém, diz que aquecendo-se logo a mistura do alcaloide com os dous reagentes, obtem-se uma cor roxa azul, depois verde-clara ; pela addição da agua, torna-se vermelha-rósea e azul, e volta á cor verde pelo contacto com aammonia. 13.*- Agita-se durante meia hora uma mistura de acido acé- tico e minio em pó fino, filtra-se o liquido, do qual se deposita uma gotta em uma lamina de vidro collocada sobre uma folha de papel, e sobre ella deitam-se duas ou tres gottas de uma so- lução de acetato de morphina; aquecendo-se a calor brando obtem-se um residuo secco, arredondado, decôr amarella pallida a principio, que vae tornando-se pouco a pouco mais intensa, de um amarello-vermelho ; mais tarde apresenta-se levemente violáceo e toma por fim a côr de borra de vinho. Este ensaio é aconselhado por Selmi. Codeína — Apresenta-se sob a fórma de grandes crys- taes incolores, em octaedros de base rectangular, inodoros e de sabor amargo, solúveis n’agua, e mais ainda no álcool vinico e amylico, no ether e na benzina 1; sua solução possue reacção alcalina. Os ácidos diluidos dissolvem a co- deína e formam com ella saes quasi todos facilmente crys- tallizaveis e muito solúveis n’agua. Estas soluções comportam-se do seguinte modo em pre- sença dos reactivos: Os alcalis fixos não as precipitam sinão incompletamente. A ammonia igualmente não as precipita, sobretudo era excesso. Os bicarbonatos alcalinos não as precipitam a frio. Distingue-se a codeina da morphina: a) por propriedades negativas em relação a algumas das reacções caracteristicas desta: — a do acido azotico, a do acido iodico, a do chloro e a dos persaes de ferro. Com o acido azotico a codeina apenas córa em amarello, e com os outros dous reactivos não soífre alteração sensível; 1 0 chloroformio dissolva facilmente a codeina e a separa de suas solu- ções alcalinas; mas não tem acção sobre ella nas soluções acidas. VENENOS NEURÓTICOS 555 b) por algumas reacções que lhe são próprias: 1. a O acido sulphurico concentrado e quente dá uma côr verde escura intensa, que torna-se vermelha pelo resfriamento. 2. a O acido sulpho-azotico (reactivo de Erdmann) dá uma bella côr azul, que se produz ás vezes depois de muitas horas (72). 3. a O acido sulfo-vanadico (reactivo de Mandelin) commu- nica uma côr verde azul, ou mesmo francamente azul. 4. a O acido sulpho-molvbdico (reactivo de Frõhde) pro- duz uma côr verde suja, que se torna em azul; depois de 24 horas a côr muda para o amarello pallido. 5. a Lafon observou uma côr verde muito intensa sob a acção de uma mistura de uma parte de seleniato de ammonio com 36 de acido sulphurico concentrado. Além destas, ha outras reacções menos importantes, porque são communs com a morphina: 1 .a Misturada com assucar, é corada em vermelho vinhoso pelo acido sulphurico, sobretudo si se ajunta uma pequena quantidade de agua bromada. 2. a Uma solução sulphurica de codeina, addicionada de uma solução desulphureto de sodio e aquecida, dá uma mistura côr de carne, depois roxa e por fim verde intensa. 3. a Si à solução sulphurica de codeina se ajuntam alguns crystaes de azotito de sodio, a mistura toma a côr verde, que passa ao azul e termina em pardo, etc. etc. Pellagri imaginou outro ensaio baseado sobre a trans- formação da morphina em apomorphina, e em seguida sobre as reacções desta. Procede-se do modo seguinte: O residuo suspeito é dissolvido em acido chlorhydrico concentrado, addicionado de algumas gottas de acido sulphurico e aquecido em banho de oleo, de 100° a 120c. No caso de presença da mor- phina, produz-se nas bordas da capsula uma côr purpurina, e quando todo o acido chlorhydrico é evaporado o acido sul- phurico que fica toma uma côr vermelha. Retira-se então 556 OPIO E MORPIIINA a capsula do banho, deita-se do novo acido chlorhydrico, que se neutraliza depois com bicarbonato de sodio, desenvolve-se logo uma côr violeteque não se altera ao contacto do ar, e ó insolúvel no etlier. Si agora se ajunta acido iodhydrico iodurado em solução concentrada, a côr violete passa ao verde e póde-se então dissolver no etlier, que tomará a côr purpurina. Esta reacção, segundo o autor, é commum com a codeina, que se comporta do mesmo modo. Narceina — Apresenta-se sob a fôrma de agulhas brancas, alongadas, sedosas, pouco solúveis n’agua, solúveis no álcool e insolúveis no etlier. O acido sulphurico concentrado dissolve a narceina a frio produzindo uma côr vermelha intensa, que passa ao verde quando se aquece. A reacção caracteristica deste alcaloide é a côr azul que produz em contacto com o iodo, corno si fosse o amido. O melhor meio de obter esta côr consiste em projectar um pouco de narceina em pó fino n’uma solução composta de agua l&p., iodureto de potássio 2 p. e iodo 1 p. O calor e os alcalis bastam para destruir esta côr. Narcotinci — Os caracteres deste alcaloide só teem im- portância em chimica legal, pelo auxilio que trazem á pesquiza e reconhecimento da intoxicação pelo opio e seus derivados; por si, elle não ó reputado venenoso. Apresenta-se sob a fôrma decrystaes prismáticos, incolores, inodoros, mui pouco solúveis ou mesmo quasi insolúveis n’agua, e sua solução é neutra aos papeis reactivos ; são mais ou menos solúveis no álcool, no etlier, no chloroformio e na benzina. Os ácidos diluidos (excepto o acético) dissolvem a narco- tina, formando saes pouco estáveis e ainda mal conhecidos. A ammonia, em geral as bases alcalinas e seus carbonatos precipitam-a ; e os precipitados difticilmente se dissolvem em excesso de reactivo. As poucas reacções que lhe são próprias são as seguintes : VENENOS NEURÓTICOS Aquecida com acido sulphurieo concentrado toma a cor vermelha; Dragendorf prefere empregar o acido sulphurieo diluido e concentrar depois a mistura pelo calor; assim obtem-se um resíduo vermelho, bem distincto ainda com 1 milligramma de narcotina. Este residuo, resfriado e depois humedecido com um traço de acido azotico ou de azotito de sodio, passa ao roxo. Esta côr se produz sem addição de acido azotico, quando se aquece a 200. Pretende-se que a côr vermelha inicial communicada pelo acido sulphurieo não deve ser attribuida á narcotina, e sim á laudanina, que sempre a acompanha. 0 reactivo de Frôhde transforma a narcotina em um liquido verde; juntando-se um excesso de moljbdato de sodio obtem-se uma côr vermelha-cereja muito viva e muito sensível até 0,1 de milligramma. 0 acido sulpho-vanadico córa em vermelho cinabrio, depois em vermelho-pardo e finalmente em vermelho-carmin. A agua de chloro produz uma côr esverdeada, que a ammonia faz passar ao amarello. Por não serem ainda empregadas a thebaina ea papaverina, deixo de referir os seus caracteres. Igualmente penso que pouco tem que fazer aqui a experi- mentação physiologica como recurso de pesquiza; mas quando se queira lançar mão delia, é preciso fazel-o segundo as regras já estabelecidas, empregando um producto puro, isento de matérias animaes, e nunca o seu extracto alcoolico, como leviana e imprudentemente aconselha Tardieu, embora exija que elle seja o mais puro e concentrado possivel. Pergunta-se que quer dizer extracto alcoolico puro de matérias animaes? não é de certo isento destas matérias, e por consequência tanto mais estranho semelhante conselho quanto a esse tempo (1875) já haviam sido descobertas as ptomainas, e antes disso desde tempos remotos foram conhecidos os perigos e effeitos funestos das inoculações de princípios cadavéricos. 558 BELLADONA SEGUNDA SUB-CLASSE Venenos nevro-myoticos (nevro-musculares) Envenenamento pelas solanaceas virosas e em particular pela belladona Esta denominação abrange um grupo naturalíssimo de vegetaes toxicos da familia das Solanaceas, subdividida em varias tribus, a saber : das Atropeas, das Hyoscyameas e das Datureas, embora estas ultimas sejam consideradas por alguns (Bentham e Hooker) sub-tribu das Hyoscyameas. Comquanto existam plantas toxicas em outras tribus desta familia, como na das Solaneas propriamente ditas, em diversas especies do genero Solanum, e na das Nicotianeas, que teem por typo o fumo (nicotiana tabacum), ellas não se comprehendem sob aquella denominação de solaneas virosas, reservada nos tratados de toxicologia especialmente para a belladona, o mei- mendro eo estramonio. As nicotianeas não somente pelos seus caracteres botânicos, mas sobretudo por suas propriedades toxicas, constituem um grupo um pouco mais afastado, do qual alguns phytologistas fazem tribu de uma sub-familia das Sola- naceas, ou mesmo de uma familia distincta, a das Cestrineas. No genero Solanum, ao lado de um grande numero de vegetaes comestíveis, usados diariamente quer como alimento, quer como condimento, por exemplo : o Sol. tuberosum (batata ingleza) ; Sol. melongena, Sol. ovigerum, Sol. esculentum (bringella branca e roxa) ; Sol. gilô (giló) ; Sol. lycopersicum (tomate), etc., encontram-se outros que servem muito menos vezes para este effeito e em condições especiaes, por exemplo : Sol. nigrum (a herva moura ou suê), que Tardieu e Rabuteau incluem no numero das solaneas virosas, e cujas folhas entre» VENENOS NEURO-MYOTICOS 559 tanto comem-se impunemente quando preparadas ao fogo ; o Sol. verbascifolium ou Sol. grandiflorum ( fructa de lobo;, cujo mesocarpo carnoso é misturado á massa de goiabas e marmellos na confecção dos doces em pasta, destes fructos ; o Sol. ambrosickcum (Juá amarello), cujos fructos são saborosos. Outras especies finalmente do mesmo genero Solanum são exclusivamente medicinaes, por exemplo : Sol. dulcamara (doce amarga) e Sol. paniculatum (jurubeba), etc. Entretanto nenhuma destas especies é absolutamente inof- fensiva; todas ellas encerram um principio activo reputado toxico, a solanina, 1 a cujos effeitos escapam os individuos que usam de taes plantas, ou porque se servem de partes do vegetal, isentas ou muito pobres desse principio, ou porque este se perde ou se modifica em totalidade ou parcialmente nos processos culinários por que passam. Assim por exemplo: comem-se guisadas, portanto cozidas e temperadas, as folhas da herva moura e também os fructos da bringella e do gilò, porque crus são venenosos ; demais, em relação áquella è nos fructos que existe a maior proporção de solanina. As ba- tatas são sempre preparadas ao fogo, e além disso descascadas ou despelladas e privadas de grelos, onde se accumula mais esse principio, e donde se o extrahe de preferencia. Os tomates raramente'se comem crus, e ainda neste caso condimentados com outras substancias que podem talvez alterar as proprie- dades toxicas da solanina, que aliás ahi existe em pequena quantidade. As folhas das especies conhecidas vulgarmente pelos nomes de arrebenta-boi e arrebenta-cavallo {Sol. arrebenta) e outras, se acredita que produzem no gado uma tympanite geralmente mortal, quando seus fructos são inoffensivos, ao menos para a especie humana ; as próprias crianças comem e apreciam a polpa branca e doce que elles encerram. 1 Greralmente contemplada entre os alcaloides, comporta-se antes como uma glycoside ; é esta sua verdadeira funcção chimica. 560 BELLADONA Outra planta, que com a herva moura e o fumo Rabuteau descreve no grupo das solaneas virosas, é a chamada man- dragora; esta porem com mais propriedade do que aquellas duas, porque representa uma especie do genero at7'opa, se- gundo uns, do genero mandragora segundo outros, mas que em todo caso deve sua acção toxica ao mesmo alcaloide da bel- ladona (atropina). Essa planta, de que Rabuteau cita tres espe- cies, não tem sinão uma importância histórica, pelo papel que representou na antiguidade entre as mãos dos mágicos e fei- ticeiros. Com beberagens que tinham por base de sua com- posição a mandragora, elles determinavam um estado de le- thargia que simulava a morte, para mostrarem a extensão de seu poder, fazendo depois cessar este estado, e portanto fazendo crer 11a resurreição dos indivíduos. A raiz desta planta fervida em vinho era administrada i como anesthesico aos operandos, segundo refere Dioscorides. Assim pois reduzirei 0 estudo das solaneas virosas propria- mente ditas ás tres plantas: belladona, estramonio e meimendro, que apezar de serem especies de generos differentes, offerecem entre si a maior analogia possível de propriedades, para não dizer perfeita identidade de acção, visto como ella não varia sinão em grão de intensidade, sendo a mais activa 0 estramonio, seguindo-se depois a belladona, e por ultimo 0 meimendro. Em cada uma delias é verdade que as analyses teem assi- gnalado a existência de um alcaloide de nome diverso, tirado do genero a que pertence (daturina, atropina e hyoscyamina ), mas cuja natureza os estudos mais recentes tendem a mostrar que não differe sensivelmente, parecendo já, quanto á datu- rina e á atropina, demonstrada sua completa identidade (Planta, Dragendorff, etc.) 2 1 Ainda se poderia accrescentar a esta serie a espécie dogen. Duboisia: D. myoporoides, donde se extrahe a duboisina, idêntica á hyoscyamina. 2 Chandeílon diz que, segundo Planta, Ladenburg e Schmidt, a preten- dida dalurina não é mais do que uma mistura de atropina e de hyoscya- mina : e para este ultimo cliiinico é a atropina que ahi se acha em maior proporção, quer na belladona quer no estramonio. VENENOS NEURO-MYOTICOS 561 Firmada, porém, esta noção chimica a respeito da natureza desses alcaloides, parece á primeira vista que ella oppõe-se á differença da energia toxica estabelecida entre as tres plantas que os encerram, mas explica-se bem o facto attendendo a que é naturalmente devido á proporção diversa do principio activo contido em um mesmo peso de cada um dos vegetaes ; o estramonio seria o mais rico deste mesmo principio e assim por diante, do mesmo modo que as differentes partes da mesmo planta não gozam ou não desenvolvem a mesma energia toxica por causa da distribuição desigual do seu principio activo. Entretanto cumpre confessar que a identidade da hyoscya- mina com os outros dous alcaloides carece ainda de provas mais convincentes, no estado actual da sciencia. Comquanto não seja a belladona a mais toxica das tres solaneas, é comtudo a mais importante, a mais empregada e conhecida, aquella cujo estudo serve de padrão ao grupo. Delia pois me occuparei exclusivamente, indicando de pas- sagem na sua historia as particularidades dignas de menção com referencia âs outras duas, deixando para um capitulo es- pecial separado o estudo toxicologico do fumo. A belladona (atropa belladona) foi designada em 1845 pelo nome de Solatrum furiale e de Sol. minus, por Saladinus de Ascoli; recebeu em 1542 a denominação do Solanum somni- ferun, dada pelo botânico ailemão Leonard Fuchs. Foi depois descripta com os nomes de Solanum hortense, Sol. furiosum, Sol. lelhale, mais tarde Belladona baccifera (Lam), Belladona trichotoma (Scop) e finalmente de Atropa belladona (Lin); denominação, que lembra duas circumstancias inteiramente diversas: atropa, que segundo uns provém do Grego alropos, que significa cruel, segundo outros do nome de uma das tres parcas, symbolisando a funcção lethifera desta entidade my- thologica; e belladona, tirada do uso que antigamente delia faziam sobretudo na Italia, muitas damas ou donas para se TOXICOLOOIA 36 562 BELLADONA tornarem bellas, à custa de alguns phenomenos de intoxicação atropica que lhes emprestavam por momentos essas qualidades : faces fortemente coradas pelas manchas vermelhas, escarlati- niformes, produzidas sobre a pelle, e olhos pretos devidos á dilatação das pupillas, fazendo desapparecer a iris de outras cores menos apreciadas. A historia da belladona è muito obscura. Sabe-se entre- tanto, que os Syrios serviam-se delia, segundo Giacomini, para afugentar idéas tristes e promover uma embriaguez erótica. Entrava também na composição dos philtros amorosos a que se attribuia, não virtudes aphrodisiacas ‘, mas a proprie- dade de tornar sem resistência e mais accessiveis os entes cobiçados para a satisfação de desejos sensuaes, principalmente pela perda momentânea da voz e dos sentidos ; esta aphonia deli- rante foi igualmente aproveitada em outros tempos pelos sal- teadores chamados Endormeurs, que infestaram alguns paizes da Europa, e que por essa fórma tornavam mudas e passivas as suas victimas. Outro effeito desta planta de que se tirou ou se propoz tirar partido antigamente è o phenomeno da dysphagia, acompa- nhada de sensação notável do aperto na garganta. Encontra-se no livro de Porta sobre arte culinaria uma receita destinada a impedir a deglutição aos frequentadores importunos de nossas mezas : consistia em ministrar-lhes, a titulo ironico de ape- ritivo, tres horas antes da refeição, um vinho no qual se tinha feito digerir uma certa quantidade de raiz de belladona em pó ; á hora de comer não podiam fazel-o. A maior parte dos envenenamentos conhecidos, que tem sido determinados pela belladona são accidentaes e devidos a en- ganos desastrosos com os fructos desta planta, que quando maduros, muito se parecem com cerejas, e mais illudem e attrahem, sobretudo as crianças, pelo seu sabor adocicado. 1 Rabuteau interpreta essa applicação como baseada sobre taes virtudes, contestadas por outros. VENENOS NEURO-MYOTICOS 563 Muitos casos destes existem registrados na sciencia, comquanto não sejam taes fructos as partes mais toxicas do vegetal. O mais conhecido e também o mais importante é o referido por Gaultier de Claubry, e de que elle foi testemunha em 1813 : o envenenamento de 160 soldados, que em um acampamento comeram fructos de belladona, sabendo que o faziam. Não diz a citação que a tal respeito li na obra de Cornevin sobre plantas toxicas, quantos desses soldados succumbiram, si é que todos não escaparam; porquanto, segundo este auctor, a ingestão de dois a tres fructos não occasiona accidente algum, em numero maior, até 25 e 30, manifestam a signaes de enve- nenamento, que em geral não terminam pela morte ; além deste numero é que elles produzem perturbações graves seguidas de morte. Outras vezes os envenenamentos teem sido o resultado de dóses therapeuticas e exageradas além da tolerância indivi- dual, ou de trocas com remedios destinados a uso externo. Conhecem-se finalmente casos em que o envenenamento tem sido produzido pelas mesmas applicações externas muito demo- radas. Giscaro reuniu um certo numero de exemplos desta natureza com o emplastro de belladona em certas regiões do corpo, e com a pomada respectiva applicada no collo do utero. Todas as partes da planta são toxicas, porém desigualmente conforme a distribuição do principio activo que ella encerra; este principio activo, descoberto por Brandes, e depois melhor estudado por Geiger e Hesse, é a atropina. Debaixo desse ponto de vista é a raiz, que contém a maior proporção, e por- tanto a parte mais activa e toxica do vegetal; ella é duas vezes segundo uns, e cinco vezes segundo outros, mais energica do que as folhas e as flores. Além disso, essa actividade dos diversos orgãos ainda depende da estação ou melhor do periodo de ve- getação em que a planta é colhida; um pouco antes da floração a raiz é mais rica de atropina, e ainda assim, trezentas vezes menos activa que este alcaloide. Nos fructos a pellicula 564 BELLADONA exterior (epicarpo) parece conter mais atropina do que o sueco. Além da atropina, que, segundo Brandes, existe na planta no estado de hypermalato (malato acido), a belladona encerra em sua composição saes, substancias azotadas, amido, gomma, lenhoso, chlorophylla, cêra e um principio singular denominado pseudo-toxina. Mais tarde, Richter descobriu a presença de um acido, visinho do acido benzoico, que denominou atropico ; e Húbschmam outro alcaloide votatil, crystallisavel, distincto da atropina, a que deu o nome de belladonina. Segundo Nothnagel e Rossbach, a atropina e a belladonina, bem como os alcaloides das outras solaneas virosas, podem ser consideradas como uma tropina, na qual um atomo de hydro- geno tem sido substituido pelo radical de um acido: o acido tropico para a primeira, o acido belladonico para a segunda, o daturico (?) para a daturina, e o hyoscyamico para a hyoscya- mina. Friedel mostrou recentemente que, fazendo actuar o acido chlorhydrico sobre esse principio denomi-nado tropina. produz-se a atropina ; si forem outros ácidos, por uma reacção analoga formam-se alcaloides, por elle chamados tropinas, uns activos sobre a pupilla, outros indifferentes; um delles, designado pelo nome de homatropina, é synergico da atropina. A susceptibilidade das differentes especies animaes e mes- mo de diversos indivíduos da mesma especie para a acção deste vegetal è muito variavel; elle é um dos que mais se prestam para a observação das differenças de receptividade toxica. Ve- neno violento para o homem, e os animaes carnívoros (cães e gatos, etc.), a belladona e seu alcaloide são tolerados em alta dóse pelos herbívoros, granivoros, alguns roedores (porcos da índia, coelhos e ratos) cavallos, bois e ruminantes em geral, pombos. Os coelhos e os caracóes comem impunemente a bella- dona, e podem mesmo durante algumas semanas nutrir-se ex- clusivamente com as folhas desta planta, sem experimentar accidentes graves, o que è devido segundo Cornevin e ou- VENENOS NKURO-MYOTICOS 565 tros á facilidade extrema de eliminação do veneno pelas urinas desses animaes, que encerram em taes casos quantidade notável do mesmo. Na opinião de Hceckel esta immunidade ou extraor- dinária resistência se explica talvez pela destruição ou ao menos pela alteração profunda que o principio activo da belladona soffre na torrente circulatória, sendo eliminado em um estado que não se conhece. 1 Se em vez de administrar pelas vias gastricas, se applica em injecção subcutânea, diz Cornevin que os coelhos não re- sistem e succumbem. Entretanto, segundo Dujardin Beaumetz, Meuriot poude injectar hypodermicamente 50 centigrs. de sul- phato de atropina em um desses animaes, sem determinar a morte nem mesmo accidentes toxicos2 ; é preciso em geral para isso uma gramma do alcaloide, isto è, uma quantidade dez vezes maior do que a sufficiente para matar um homem. Os animaes vertebrados parecem, segundo Hceckel, tanto mais sensíveis ás solaneas virosas, quanto seu System a nervoso è mais perfeito. Hertevig pretende que os grandes ruminantes são mais sensíveis á acção da belladona, do que os cavallos ; é assim que Gohier e outros experimentadores puderam dar um kilogramma da planta a estes animaes, mesmo durante tres dias, sem acarretar desordens pathologicas bem accentuadas. A dóse minima do pó da raiz de belladona capaz de pro- duzir accidentes graves no adulto é de sessenta centigrs., diz Rabuteau; do extracto bastam quinze a vinte centigrs.; um a dous miligrs. de atropina em injecção hypodermica. Os fructos, como já fiz ver, só podem determinar estes mes- mos accidentes quando ingeridos em certo numero, nunca me- 1 Segundo uina experiencia de Dragendorff, essa eliminação completa-se dentro de 36 horas ; além deste prazo não se encontra mais atropina na urina. 2 Não é isto o que se lê em Rabuteau ; elle diz que Meuriot tendo in- jectado 25 a 50 centigr. de sulfato de atropina no tecido cellular subcu- tâneo de coelhos, 10 a 25 centigrs. em porquinhos da índia observou nelles ac- celeração dos batimentos cardiacos, pequena dilatação de pupilla, injecção das orelhas, emíim diarrhéa persistente por muito tempo. BELLADONA nor de tres ou quatro. E’ notável que taes phenomenos, que parecem pela sua gravidade annunciar uma morte próxima, muitas vezes se modificam favoravelmente, e são seguidos de cura rapida e completa; isto é, os symptomas do envenena- mento pelas solaneas virosas são mais aterradores do que real- mente perigosos, e o numero de suas victimas muito menor do que se poderia acreditar á primeira vista1. Symptomas ; signaes clínicos Elles apparecem logo depois da ingestão do veneno, ou no fim de um tempo variaveí, conforme a parte vegetal e a pre- paração ingerida : quinze a vinte minutos si for uma dissolu- ção de sulphato de atropina, meia a uma liora se for um preparado da planta, etc. Um dos primeiros symptomas e o que persiste mais tempo, ainda quando outros phenomenos tenham jà cessado, consiste na dilatação da pupilla, que pode chegar ao ponto de desappa- racer quasi, reduzindo-se a iris a uma fita circular estreitis- sima, insensivel á acção da luz. A vista torna-se turva e con- fusa; sobreveem diplopia, chromopsia, por vezes micropsia, e em alguns casos mesmo amaurose. 2 Os doentes accusam uma sensação particular de sec- cura e aperto na garganta, toda a mucosa buccal apresenta- se rubra earida. Apparecem vertigens, nauseas, raramente vomitos, sem diarrhéa, que entretanto é um phenomeno por assim dizer constante com doses physiologicas da belladona; para o fim, as mesmas evacuações involuntárias que se obser- 1 Bem como para o opio e a morpliina, a intensidade toxica da atro- pina é modificada por certos estados morbidos ; assim os individuos atacados de choréa, os idiotas e os insensatos, diz Chandellon, manifestam certa to- lerância para este veneno, ao passo que as pessoas nervosas e sobretudo as hystericas são muit > sensíveis a elle. 2 Mr. Tufeull, citado por Tardieu, diz ter visto duas vezes a pupilla contrahida durante o somno, e dilatada sómente durante a vigília. VENENOS NEURO-MYOTICOS 567 vam consecutivamente á paralysia intestinal não são de ordi- nário diarrheicas. A respiração e a circulação se acceleram, mas os batimentos cardiacos são fracos, e por isso o pulso é frequente, porém pequeno e concentrado; por excepção de regra tem-se-o en- contrado cheio, duro e vibrante, e então o rosto é túrgido, os olhos injectados de sangue, o olhar fixo e como que apate- tado. Toda a pelle, que se apresenta quente e secca, é a séde de uma comichão extremamente viva e incommoda, e cobre-se de uma erupção erythematosa escarlatiniforme. O Dr. Morei, de Gand, notou em dois casos deste envene- namento todos os signaes de uma verdadeira laryngite: dor no larynge, voz rouca e expectoração de escarros perolados. A secreção urinaria é diminuida quando não inteiramente supprimida; outras vezes éa micção que não se faz, por para- lysia da bexiga, ou faz-se mal e com difficuldade, como nocan- tharidismo. Manifestam-se então allucinações e um delirio especial, ora alegre, porém manso e erotico, ora furioso e com agita- ção, que leva os doentes a correr ou a executar movimentos impulsivos, rápidos e extravagantes, saltos, danças, etc. Outras vezes se tem notado, ao contrario, por occasião de dóses mais fortes, impossibilidade completa de movimentos l. Em todo o caso, após este delirio succede um verdadeiro estado de estupor e de coma, com carphologia, convulsões e resfriamento geral, que precedem a morte ; esta sobrevem no fim de algumas horas ou mesmo de alguns dias. 1 Rabuteau cita como exemplo o caso de um porteiro, alfaiate, cpie por effeito de atropinismo agudo manifestou um estado de verdadeiro somnam- bulismo ; assentado em sua cama, na mesma attitude que sobre um banco de trabalho, e insensivel a todos os objectos exteriores, nada via nem ou- via do que sa passava em redor delle ; parecia exclusivamente òccupado com o seu trabalho ; executava todos os moviment>s como se estivesse no livre exercicio de suâ occupação habitual. Depois, acreditando v-r alguém entrar na sua loja, elle comprimentava, tomava um ar risonho, mordia os lábios como que para fallar (estava aphonico), e procurava ouvir a res- posta. Este estado durou umas 15 horas (Seriendière). 568 BELLADONA Nos casos de cura diminuem pouco a pouco os symptomas; apparece ás vezes uma pequena reacção febril, acompanhada de suores abundantes, que são em geral de bom agouro. A cura completa-se ordinariamente em menos de uma semana. Lasõas anatomo-pathologicas: signaes necroscopicos Estão longe de ser constantes e caracteristicas estas lesões, que pelo que se tem observado principalmente nas outras especies animaes, consistem o mais das vezes em um estado congestivo muito notável dos pulmões, das meningeas e mesmo do cerebro, estendendo-se até a retina. Nos pulmões acha-se pequenos pontos de hyperhemia parcial, que se reúnem formando grupos mais numerosos na superfície do que no interior desses orgãos, e regular mente disseminados da base até o apice. Do lado das meningeas, os seios venosos são cheios de sangue, a pia mater é fortemente injectada. A hyperhemia é sobretudo accentuada na base do cerebro, nos plexos choroides e ventriculos lateraes. A congestão da retina se mostra prin- cipalmente no envenenamento lento progressivo ; ella é o pri- meiro gráo das hemorrhagias intersticiaes, de que se tem visto numerosos exemplos. Quanto ao estado do tubo digestivo, refere Taylor, a quem se deve talvez o maior numero de autopsias em envenenados pela belladona, que nota-se pallidez e flaccidez da mucosa gastro-intestinal, com algumas manchas vermelhas nas vizi- nhanças do cardia. A’s vezes ella apresenta-se tinta pelo sueco das bagas de belladona, quando o envenenamento tem logar pela sua ingestão ; então encontram-se restos das mesmas, e as pequeninas sementes reniformes e cinzentas, no estomago ou nos intestinos. (Estas sementes medem apenas 2 millimetros de comprimento ; confundem-se facilmente com as do meimendro, um pouco mais claras e ainda mais pequenas (lai1/? millim. VENENOS NEURO-MYOTICOS 569 Distinguem-se porém das do estramonio que são pretas e medem 4 a 5 rnillim. de extensão). Nota-se também na boca e no esophago essas manchas. Nos casos em que o veneno tem sido a atropina ou outro alcaloide das solaneas virosas, não se observam plienomenos devidos á acção de contacto, senão quando o vehiculo é de sua natureza irritante, por exemplo o álcool, etc. Diagnostico differancial Como elementos suficientes de diagnostico para se não con- fundir este envenenamento com outros, ou com qualquer moléstia, basta attender para a acção que exercem as solaneas virosas e seus principios sobre a pupilla, sobre o systema ner- voso em geral, a fôrma particular e a manifestação precoz do delirio, a insensibilidade, a seccura e constricção de garganta, acompanhada de dysphagia e djsphonia, as manchas escarla- tiniformes sobre a superfície cutanea. A subitaneidade e ao mesmo tempo a fugacidade relativa destes symptomas não permittem referil-os a uma affecção or- gânica dos centros nervosos. Mecanismo da acção toxica Como já disse, em dóse physiologica a belladona accelera a circulação e a respiração, augmenta a pressão arterial, activa a excreção urinaria e produz diarrhéa ; em dóse toxica, depois destes primeiros effeitos, manifestam-se outros, muitas vezes oppostos. Assim, as pulsações cardiacas continuam a ser rapidas porque o pneumo-gástrico é paralysado, porém são enfraque- cidas porque os ganglios auto-motores e o musculo cardiaco se acham igualmente compromettidos. A pressão arterial diminue por causa da paralysia das fibras lisas, e donde resulta também diminuição da excreção urinaria. A temperatura peripherica 570 BELLADONA eleva-se muitas vezes, ao passo que o calor interno baixa em consequência da demora da respiração e da circulação. Da pa- ralysia dos vaso-motores e das fibras lisas dos vasos resulta a dilatação das arteriolas, a coloração rubra dos tegumentos por congestão passiva. A actividade cerebral experimenta a principio uma exci- tação das mais intensas, a que succede um estado inteiramente opposto, que se traduz, segundo Betzold, pela paralysia dos centros cerebraes moderadores, imaginados por este auctor, antes do que demonstrados por quem quer que seja, e cuja funcção consiste em moderar as impulsões motoras e affec- tivas. Esta doutrina, porém, é puramente hypothetica, ainda não firmada em provas sufficientes, porque ainda não foram bem determinados, nem são conhecidos taes centros. Sem du- vida os effeitos da belladona e da atropina sobre o cerebro apresentam grande analogia com os effeitos produzidos pelas substancias inebriantes (álcool, opio, haschish, etc.), e em todo o caso elles não devem ser postos à conta das desordens circulatórias. Na opinião de Gubler esses effeitos achariam sua explicação na faculdade que adquire a retina de conservar por mais tempo do que no estado normal as impresões visuaes, que muito lentamente transmitlidas se superpõem e não levam ao cerebro mais do que as percepções perturbadas de imagens confusas. Além desta singular maneira de pensar de Gubler, uma das theorias que teem sido invocadas para explicar a acção da atro- pina sobre as funcções cerebraes, é a que admitte que ha oli- ghemia cerebral por estimulo do apparelho vaso-constrictor, e neste caso osaccidentes que se produzem derivam desta desor- dem circulatória ; entretanto a ischemia cerebral, realizada ex- perimentalmente pela ligadura das carotidas ou pela acção de certos medicamentos, não se acompanha das perturbações espe- ciaes que resultam da acção toxica da belladona. Não se pode deixar de referil-os á uma acção própria da atropina sobre as VENENOS NEURO-MYOTICOS 571 cellulas cerebraes, e a uma modificação passageira do funccio- nalismo destas. A acção da atropina sobre a medulla também não tem sido claramente determinadai, mas, segundo Nothnagel e Ross- bach, nos animaes de sangue quente esta acção consiste a prin- cipio em um augmento, e por fim uma diminuição e paralysia da excitabilidade reflexa ; sendo que as convulsões que prece- dem a morte nestes casos devem ser antes interpretadas como convulsões de origem asphyxica, devidas a accumulo de gaz carbonico no sangue. Nos animaes de sangue frio é o con- trário, a medulla eo cerebro são primitivamente invadidos pela paralysia, os movimentos voluntários e os movimentos respira- tórios se suspendem, os reflexos desapparecem, Nestes animaes é preciso empregar dóses relativamente altas de atropina para fazer baixar a excitabilidade dos nervos sensiveis. Os nervos motores, na rã por exemplo, exigem para separalysar, quantidades consideráveis de veneno. São as ter- minações nervosas intra-musculares que parecem ser primeiro atacadas pela paralysia; só depois o são os cordões nervosos. Além disso, a influencia da atropina sobre os musculos estriados é muito curiosa; a substancia própria destes orgãos conserva toda a sua excitabilidade, quer nos animaes de sangue quente, quer nos de sangue frio. E’ somente quando o veneno tem sido injectado directamente no musculo por intermédio de um vaso muscular, que se vê a energia contractil e a vitalidade do musculo envenenado diminuir rapidamente (Rossbach). Mer- gulhados em uma solução de atropina, os musculos da rã per- dem toda a sua excitabilidade. Nestes animaes o alcaloide des- troe a sensibilidade, depois a excitabilidade dos nervos motores, mas não attinge senão em dóse muito elevada a irritabilidade própria dos musculos. No homem elle diminue a sensibilidade, mas em geral não a abole completamente ; entretanto Gubler e 1 Para Brown-Sequard ella diminue o poder reflexo da medulla ; para Meuriot e outros, ao contrario augmenta. 572 BELLADONA outros teem observado nestes casos anesthesia completa. A morte pela atropina, é devida á paralysia do coração. Não discutirei aqui a acção interessante e compiexa da atro- pina sobre os olhos, particularmente sobre a pupilla, porque è mais uma questão de physiologia do que de toxicologia. Tratamento Deve-se immediatamente, sempre que for possivel, admi- nistrar um emetico, si antes disso não se puder empregar a bomba gastrica, e outros meios mechanicos. Os purgativos são igualmente indicados. Como antidotos continuam a figurar os mesmos já recommen- dados contra os outros alcaloides toxicos, a saber : o tannino e o iodo, este sob a fôrma da solução iodo-tannica, ou de iodureto de potássio iodurado. Segundo Rabuteau são uteis as soluções alcalinas pela propriedade que gozam de destruir a atropina ; Garrod aconselha o carvão animal. Tem-se proposto igualmente a sangria como meio de combater a hyperhemia ; mas ella pode ser substituida com vantagem pelos pediluvios sinapisados e clysteres purgativos. Os alcoolicos conveem em qualquer periodo do envenenamento, mesmo no do coma, menos pelo estimulo favoravel que deter- minam, do que pelo augmento das funcções secretoras, faci- litando a eliminação do veneno. Dos antagonistas lembrados para combater os eífeitos do atro- pinismo, mencionam todos os autores em primeiros logar o opio ou antes a morphina. Pouco temos necessidade de accrescentar aqui ao que deixamos dito sobre este assumpto, tratando do envenenamento por esta ultima substancia. Sem duvida a morphina, determinando a contracção da pupilla, a narcose, a paralysia vaso-motora e consecutiva congestão vascular, parece bem contraria á atropina, que provoca a dilatação VENENOS NEURO-MYOTICOS 573 pupillar, a insomnia e a ischomia por estreitamento dos vasos. Entretanto, as duas substancias estão longe de ser ver- dadeiramente antagonistas, como aliás acreditaram muitos observadores desde Horstius- (1661), Boucher de Lille (1776), Cazin, Corrigan, Giacomini e Graves, Anderson (1854), Ben- jamin Bell e Behier (1859), e mais recentemente ainda Cl. Ber- nard, Blondeau, Constantin Paul, etc. Contra esta theoria apresentam-se em primeiro logar as vantagens therapeuticas incontestáveis colhidas todos os dias com a associação dos dous medicamentos, e a qual seria absurda si os respectivos effeitos se contrabalançassem e se destruíssem. Em segundo logar as experiencias rigorosas e concludentes de Bois de Aurillac, de Camus em 1865, e de Denis em 1869, vieram abalar profundamente esse pretendido antagonismo entre o opio e a belladona. Em primeiro logar, como bem diz Gubler, a acção myosica do opio é incomparavelmente mais fraca do que a acção my- driatica da atropina ; seria pois baldado tentar impedir esta ultima pela administração das preparações de opio ou de seus principaes alcaloides. Para neutralisar a mydriase causada por uma dose insignificante de atropina, seria necessário empregar quantidades massiças e perigosas de inorphina. Em segundo logar, nada prova que os alcaloides do opio e o da belladona exerçam igualmente sua influencia sobre as mesmas divisões do systema nervoso ou sobre os mesmos apparelhos orgânicos. Demais, as variações de intensidade de seus effeitos conforme os orgãos, os tecidos e as condições diversas do pheno- meno não seguem precisamente as mesmas curvas crescentes e decrescentes, podendo a acção da morphina attingir seu máximo em um ponto da economia, ao mesmo tempo que a da atropina poderia estar em seu apogeu em outro differente. De facto si os effeitos sedativos do opio e da belladona se su- perpõem e se completam ; si outros effeitos medicinaes isolada- mente se neutralisam, nada demonstra o antagonismo toxico 574 BELLADONA entre essas duas substancias, com cuja applicação de um contra o outro é preciso não contar absolutamente na pratica. O mesmo se pode dizer relativamente ao pretendido e apre- goado antagonismo entre a atropina eaeserina (principio activo da fava de Calabar). Apontam-se, é verdade, alguns factos que parecem abonar esse antagonismo, por exemplo, o de Klein- wãcter, occorrido em 1864, o de Bourneville em 1867, e mais do que estes, os importantes estudos experimentaes de Th. Fraser, distincto physiologista, a quem se deve o conhecimento dos effei- tos da fava de calabar sobre a pupilla, e os do Comité de Edim- burgo presidido por Hugo Bennett, que mostram o antagonismo experimental entre esses dous venenos, porém, em limites muito estreitos. Sem duvida a atropina dilata e a eserina contrahe a pupilla, e a acção desta neutralisa em parte a acção da primeira ; porém o estudo dos effeitos physiologicos e toxicos demonstra que estes dous venenos não obram exactamente sobre os mesmos elementos anatómicos ; donde o seu antagonismo incompleto, apparente, e portanto enganador, visto como em dóse toxica seus effeitos depressivos se associam e podem marchar parallela- mente, concorrendo para apressar a terminação fatal. Si alguma vez a fava de Calabar pareceu aproveitar no en- venenamento pela belladona, não foi senão exagerando a diu- rese e promovendo ou facilitando a eliminação do veneno, do mesmo modo que se acredita actuar o curare em relação à stry- chnina. Menciona-se também como antagonistas da atropina o hy- drato de bromai, apilorcapina e a muscarina ; porém quanto ao primeiro, o antagonismo é somente parcial, limitado ao pheno- meno da hypersialia determinada por esta substancia nos ani- maes, e que é a causa da sua morte ; isto é, a asphixia devida à obstrucção das vias aereas pela grande quantidade de muco e de saliva formada pelo veneno, e a que a belladona oppõe-se mais ou menos efficazmente. Isso mesmo porém justifica apenas a applicação desta contra o bromai, mas não o inverso. VENENOS NEURO-MYOTIGOS 575 A mesma reflexão cabe ao antagonismo entre a pilocarpina e a atropina, porquanto esta contrapõe-se em absoluto à acção sudorífica e sialagoga do jaborandy; destroe o seu effeito atresiante ou myosico sobre a pupilla, suspende a sua acção peristaltica sobre o intestino, e reanima os movimentos car- díacos retardados ou supprimidos por aquella planta ou seu principio activo. Mas destes dados não se conclue racionalmente que ha vantagens reaes na applicação inversa. Finalmente a muscarina, principio activo do agaricus mus- caritis, tem, segundo Schmiedeberge Koppe, a propriedade de augmentar a acção dos pneu mo-gástricos, e por consequência demorar os movimentos cardíacos, ao mesmo tempo que modi- fica os phenomenos de hematose. Debaixo deste ponto de vista puramente physiologico, ella seria antagonista da atro- pina ; mas quanto aos effeitos toxicos, sómente a atropina se mostra antagonista da muscarina, sem que o inverso esteja suíficientemente provado. O sulphato de quinina, segundo Gubler, neutralisa talvez os effeitos da atropina sobre a medulla. Na sua opinião são também consideradas antagonistas parciaes da atropina, com- quanto sem valor clinico provado, a digitalina, a ergotina, talvez a strychnina, e finalmente, segundo Preyher, também o acido cyanhydrico. Em seguida ao estudo da belladona, cabe naturalmente o do estramonio, cujo principo activo é reputado por Planta, Dra- gendorff e outros, inteiramente idêntico ao daquella solana- cea (atropina): 1 é o genero Datura e a especie D. stramo- nium, chamada em francez pomme epineuse, e entre nós, figueira do inferno. Foi conhecida também desde alta anti- guidade com o nome de herva dos mágicos, pelas applicações a que se prestava nas mãos desses embusteiros, ao mesmo tempo que a mandragora. Servia no Oriente para o mesmo fim 1 Para outros 4 antes um isomero da atropina. 576 BELLADONA que a belladona entre os Endormeurs da idade média ; certos Árabes nomadas, especialmente nos arredores de Meca, alcu- nhados mercadores da Tartaria, esperam os peregrinos na sua passagem para esta cidade, hospedam-n’os, embriagam-n'os com preparados da datura para os roubarem á vontade. Com ella preparavam também os philtros amorosos, como com a bella- dona, particularmente com a especie datura albo.a mais em- pregada para este effeito pela sua propriedade narcótica mais accentuada do que a do estramonio, que delia goza em dóse mais elevada, e portanto mais perigosa. Ha ainda a especie D. sanguínea, utilisada pelos indios da America central para inebriar seus filhos, pela estúpida idéa que fazem de que neste estado podem elles descobrir as jazidas de ouro, marcadas pelos logares em que caliem sob a influ- encia desse estupefaciente. Os Thugs, nas índias Orientaes, empregam igualmente as sementes ou um extracto desta espe- cie para commetterem mais facilmente seus crimes. Conhecem-se mais as especies : D. metei, que fornece aos Árabes a famosa noz metei ou betei, cujas sementes elles usam. D. tatula, menos toxica do que o estramonio. D. ferox, applicada na China e no Thibet, como narcótica. D. arbórea e D. fastuosa, trombeta branca e roxa, muito coramum entre nós. O envenenamento pelo estramonio è muito menos fre- quente do que os produzidos pela belladona, e além disso quasi sempre accidental. Segundo Trousseau a datura é duas vezes mais activa do que a belladona, o que significa [que encerra para o mesmo peso, dobrada quantidade de alcaloide. Um centig. de ex- tracto, a infusão de 30 centigrs. de folhas seccas, bastariam para provocar em uma criança delirio intenso ; no adulto este phenomeno poderia ser determinado pela ingestão de 20 a 40 centigrs. de extracto, ou duas a tres grams. de folhas em in- fusão. Rabuteau cita uma observação em que a ingestão de um VENENOS NEURO-MYOTICOS 577 copo de infuso feito com quatro grams. de folhas de datura em um litro de agua produziu accidentes toxicos As exhalações que se desprendem da planta fresca podem occasionar cephalalgia, vertigens e outros effeitos. Duguid, citado por Dujardin Beaumetz, refere que um homem que tomou por engano um decocto de tres fructos de es- tramonio, por bardana, escapou de morrer envenenado. Frank deFrankenaucita outros de meninos de sete a 14 annos que co- meram sementes de datura, e ficaram todos envenenados, como hydrophobos, com delirio furioso, insomnia rebelde e outros phenomenos que todavia não acarretaram a morte. Os symptomas do envenenamento pelo estramonio não diffe- rem essencialmente dos que offerece o atropinismo. Todavia, segundo Rabuteau, os preparados dessa planta determinam uma irritação maior das primeiras vias, e com mais frequência ou em maior escala os phenomenos caracteristicos da excitação genesica. Em compensação produzem menos vezes convulsões. No mais os symptomas se assemelham bastante para que seja dispensável descrevei-os separadamente. As lesões anatomo-pathologicas não são differentes, nem mais positivas do que as poucas assignaladas a proposito do envenenamento pela belladona. O tratamento é igualmente o mesmo. Em terceiro logar segue-se o estudo do meimendro, planta do genero Hyoscyamus, e de que ha diversas especies. A mais importante é o meimendro negro ( H. niger ); é a especie offi- cinal, a mais activa, comquanto menos de que as especies dos dois generos estudados anterior mente. Essa actividade varia nas differentes partes da planta ; é mais notável nas folhas, depois nas sementes, na raiz e no caule. Em cada uma delias ainda varia conforme a proporção do alcaloide, por sua vez dependente de certas circumstancias da vida do vegetal (flora- ção, fructificação, etc.), bem como de certas condições topogra- phicas e climáticas, donde emana a regra de se colher as TOXICOtOGU 37 578 13ELLADONA folhas do meimendro antes da floração, e as sementes depois da maturidade completa do fructo. Toda a planta exhala cheiro forte, penetrante, desagradavel que diminue muito com a dessecação. Ella tem occasionado maior numero de envenenamentos accidentaes do que o estra- monio, pelo engano frequente de sua raiz com a do aipo, da chicória seJvagem, e até da cenoura. Rabuteau transcreve uma citação de Wepfer, relativa ao envenenamento de alguns reli- giosos de um convento, que comeram sem saber duas raizes de meimendro misturadas com as da chicória ; todavia salvaram-se todos. As folhas, apezar de menos activas do que a raiz, e sobre- tudo as sementes, muito mais do que esta, teem sido causa destes accidentes; segundo Murray bastam umas "20 sementes para produzirem phenomenos toxicos graves. Diz Cornevin que o gado em geral não toca nesta planta, comquanto pareça que as cabras e as vaccas gozam de certa immunidade para ellas; contam mesmo Rodet e Baillot que ha paizes em que se mistura ao alimento dos animaes que se quer engordar pequenas quantidades de sementes de meimendro ou de estramonio. Os sj-mptomas, a marcha, e terminação próprias deste envenenamento offerecem a maior analogia e semelhança com as da belladona e do estramonio, com pequenas differenças. Teem se assignaladado as seguintes : A hyoscyamina não determina, senão excepcionalmente o erythema, o rubor escarlatiniforme da pelle ; os Drs. Oulmont e Laurent, 1 citados por Tardieu, dizem mesmo nunca terem observado este phenomeno. Ella não produz em geral, como a atropina, delirio furioso, mas antes simples somnolencia, com allucinação muito especial, que consiste em se sentirem os envenenados como que no ar, desprendidos do chão onde 1 Arcli. de pbys. norai. et patíi — 1870 — Th. de Paris — 1870. VENENOS NEURO-MYOTICOS 579 não parecem pisar. A hyoscyamina obra menos energica- mente sobre a pupilla do que a atropina ; a mydriase produ- zida poraquelle alcaloide, se processa mais lentamente e por isso prolonga-se também mais tempo, sendo pois mais difficil em apparecer como em dissipar-se. Emquanto a belladona deter- mina frequentemente o phenomeno da micropsia, que consiste em ver os objectos menores do que são na realidade, o mei- mendro ao contrario, mais ordinariamente os faz ver maiores do que são no estado natural, augmentando o campo visual à maneira de uma lente ou um microscopio ; diz-se que este phe- nomeno, chamado megalopsia, observa-se constantemente com a especie H. physaloides (que alguns fazem pertencer ao gen. Scopolia), e que por isso tem sido denominado microscopio ve- getal ou microscopio de Flora. No envenenamento pela hyoscyamina nota-se muitas vezes uma salivação abundante, que nunca ou quasi nunca se observa na intoxicação atropinica, em que a regra é a seccura extra- ordinária da bocca e da garganta. Finalmente a cura é muito mais frequente do que nos enve- nenamentos pela belladona e pelo estramonio. Nada se sabe de positivo sobre as lesões anatomo-patholo- gicas deste envenenamento, porque não se conhece autopsia alguma, senão por experiencias feitas sobre outros animaes. As outras especies conhecidas deste genero são: II. albus, meimendro branco, tão venenoso segundo uns, e um pouco menos segundo outros, do que a especie prece- dente. II. aureus ou auratus, muticus, etc., e outras menos importantes, apenas históricas. O meimendro encerra em sua composição dous alcaloides : a hyoscyamina e a hyoscyna. A hyoscyamina, prevista por Brandes e Runge (1822-1824), foi isolada primeiro por Geiger e Hesse, em 1833, e depois melhor estudada por outros chimicos que a obtiveram crystal- lizada ; não é, ao que parece, exclusiva da composição do mei- 580 BELLADONA mendro. Segundo Ladenburg, a quem se deve os estudos mais recentes e completos sobre este alcaloide, elle encontra-se também nas outras duas solanaceas virosas ena Duboisia myo- poroides, cujo principio activo, denominado duboisina, hoje se acredita ser perfeitamente idêntico á hyoscyamina ; esta é por sua vez, na opinião daquelle autor, pelo menos isomera da atropina ou daturina. Dá-se o nome de hyoscyna a um alcaloide resultante, se- gundo Hohn e Reichardt, da decomposição ou antes do desdo- bramento da hyoscyamina pelo calor, em presença do hydrato de baryo. Ladenburg, porém, demonstrou que, além deste producto secundário, que elle considera idêntico á atropina, existe no meimendro, e só nesta planta, um alcaloide a que deu esse mesmo nome, e que se obtem das aguas mães da pre- paração da hyoscyamina. Buchheim diz ter descoberto no meimendro um terceiro alcaloide que denominou siherramina, que é porém ainda mal conhecido. Pesquiza toxicologica ; signaes ctiimicos Em um envenenamento produzido pelas solanaceas virosas ou seus derivados, deve o perito dirigir suas vistas sobre a matéria dos vomitos e das evacuações, sobre o conteúdo do tubo digestivo, sangue e urinas. Deve, antes de tudo, pro- turar descobrir alguns restos de vegetal (folhas, flores, fructos e sementes), cujo exame pôde fornecer excellentes indicações para a boa direcção da sua pesquiza. Quando a intoxicação é devida aos fructos da belladona, as matérias vomitadas ou contidas ainda no estomago apresen- jarão uma cor violacea, de borra de vinho, e um cheiro parti- cular, um pouco viroso e como levemente alcoolico. Muitas vezes se poderá encontrar nessas matérias ou nas fezes, quer á expellidas, quer existentes nos intestinos, esses fructos VENENOS NEURO-MYOTICOS 581 ainda inteiros, ou restos dos mesmos divididos pela mastigação, entre os quaes será facil notar e reconhecer grande numero de pequeninas sementes reniformes, com os caracteres já descriptos. A côr vermelha arroxeada do epicarpo das bagas de bella- dona não tem verdadeira importância, sinão quando acom- panhada das respectivas sementes. Acha-se também muitas vezes, nestes casos, uma substancia fluorescente, solúvel nos ácidos e no álcool amylico, e que Richter descreveu com o nome de matéria fluorescente azul; ella existe quer nos fructos, quer nas sementes e nas folhas da belladona, assim como já foi também encontrada no Scopolia orientalis, que, além da solanina, encerra um alcaloide mydriatico. As sementes de estramonio e de meimendro conteem geral- mente um corpo fluorescente, porém verde, solúvel no álcool concentrado, e que não existe nas outras partes destas plantas (Dragendorff). Para a pesquiza dos alcaloides das solaneas virosas, deve-se utilizar especialmente do sangue e da urina do cadaver, reser- vando-se a matéria dos vomitos e das evacuações, e o conteúdo do tubo digestivo, mais particularmente para a pesquiza dos fragmentos ou restos vegetaes. Póde-se esperar encontrar a atropina ainda mesmo algum tempo depois da inhumação do cadaver, porque Dragendorff affirma ter conseguido retiral-a do residuo de uma digestão artificial, abandonado á putrefacção em um logar quente, durante dous mezes e meio. O methodo a seguir de preferencia nesta pesquiza deve ser o de Stass, substituindo-se, porém, o ether pelo chloroformio, que dissolve melhor a atropina. O alcaloide obtido será depois tratado pela ammonea (em pequeno excesso), e ainda depois pelo ether. Nestas condições a atropina sómente se poderá con- fundir com a codeina e a aconitina ; esta separa-se pela acção do perchlorureto de ferro, que não a precipita. Os outros dous alcaloides, precipitados por este reactivo, poderão ser facil- 582 BELLADONA mente discriminados quer por seus caracteres physico-chimicos, quer por seus effeitos physiologicos, sobretudo pela acção que exercem sobre a pupilla. Pôde-se também adoptarcom vantagem as modificações desse methodo por Uslar e Erdmann, e que consistem em em- pregar o acido chlorhydrico em vez do tartarico ou oxalico, e o álcool amylico em vez do etlier. Deve-se, porém, estar previ- nido de que no fim da operação, quando se evapora a solução amylica de atropina, volatilisa-se uma certa quantidade desta base e outra decompõe-se. Evita-se esta perda, seguindo o conselho de Dragendorff, que consiste em retirar o alcaloide por meio d’agua acidulada, em vez de evaporar a solução. O liquido acido é depois separado do álcool amylico, tratado pela ammo- nia, agitado com o ether, que dissolve a atropina posta em liberdade pelo alcali mineral. Pela evaporação da camada etherea obtem-se o alcaloide, que se trata de caracterisar. Póde-se, finalmente, substituir o ether e o álcool amylico como agente de solução, pela benzina, segundo o methodo de Dragendorff*, que, na opinião de Chapuis, não tem aqui a sua melhor applicação, por causa da propriedade que tem a atropina de crystallizar facilmente na benzina, sobretudo pelo resfriamento desta, quando a solução é feita a quente. Prevenido, porém, desta circumstancia, póde-se recorrer com vantagem a esse methodo, que fornece o alcaloide nas melhores condições de isolamento e pureza. Para pesquizar a hyoscyamina, diz Chapuis, dever-se-ha seguir os mesmos methodos e cercar-se das mesmas precauções. Assim como a atropina, ella pôde igualmente se volatilizar com o vapor d’agua, e a fortiori com o do álcool amylico. O pro- cesso de Stass ó pois perfeitamente indicado ; a hyoscyamina é bastante solúvel no ether, para poder ser isolada completamente das matérias organicas que a encerram. Nada direi sobre a pesquiza da daturina, pop ser, como já disse, idêntica á atropina. VENENOS NEURO-MYOTICOS 583 Os meios de reconhecimento e evidenciação destes alcaloides são de duas ordens : chi mica e physiologica. A.—Signaes chimicos. A atropina é um alcaloide solido, branco, que se apresenta sob o aspecto de uma massa brilhante, formada pela agglome* ração de pequenos crvstaes, em agulhas sedosas, prismáticas e muito finas. Ella é inodora, e de sabor acre e amargo; reacção alcalina. Funde a 90c segundo uns, a 114c ou 115°,5 segundo outros, e volatilisa-se a 140°, decompondo-se em parte. E’ mui pouco solúvel na agua; exige 54 a 60 partes de agua quente e 200 a 300 de agua fria para dissolver. E’ bastante solúvel no álcool vinico, um pouco menos no ether, e muito mais no chloroformio e no álcool amylico. Sua solução aquosa, exposta por muito tempo ao contacto do ar, altera-se : a atropina torna-se amarellada, incrystallizavel, e adquire cheiro nauseabundo, sem prejuizo de sua propriedade toxica. Combina-se com os ácidos fracos ou diluídos e fôrma saes difficilmente crystallizaveis, porém facilmente solúveis na agua. Segundo Bourgoin, pela electrolyse os saes de atropina, em solução acida, manifestam no polo positivo uma cor amarella, e desprendem cheiro de essencia de amêndoas amargas (Ra- buteau ). A potassa, a soda ou seus sub-carbonatos precipitam a atropina de suas soluções acidas ou neutras; o precipitado, a principio pulverulento, toma depois o aspecto crystallino, e é insolúvel em excesso de reactivo. Os bicarbonatos alcalinos não precipitam os saes de atropina. A ammonia os precipita, e o precipitado é solúvel em ex- cesso de reactivo. Aquecida por tempo sufficiente em presença dos alcalis fixos e da agua de baryta, a atropina fixa uma mo- lécula de agua, e decompõe-se fornecendo acido tropico e tropina (segundo Kraut e Losser). O chlorureto de ouro dá com as soluções acéticas de atro- pina um precipitado amarello ou amarello-esverdeado, con- 584 BELLADONA forme o gráo de concentração da solução. Nesta reacção, reputada caracteristica por Chapuis, deposita-se o sal duplo de ouro e atropina, sob o aspecto de um oleo que se solidifica rapi- damente e crystallisa na agua quente, levemente acidulada por acido chlorhydrico. O chlorureto de platina fôrma nos saes de atropina um precipitado amarello muito solúvel no acido chlorhydrico. A tintura de iodo e o iodureto de potássio iodurado dão um precipitado cor de kermes. O bichlorureto de mercúrio, assim como o iodhydrargyrato de potássio, precipitam em branco. Si, a conselho de Gerard e Schweissinger, se emprega uma solução alcoolica do sublimado (5p. 100 da soluc. obtida com 50 p. 100 dosai), produz-se, aquecendo levemente, um preci- pitado vermelho de bioxydo de mercúrio. Esta reacção distin- gue a atropina da homatropina e da hyoscyamina, que não dão tal precipitado, sinão em circumstancias muito especiaes, e cercando-se de certas cautelas (Dragendoríf). As duas reacções chimicas mais importantes da atropina são as seguintes: l.a Tratada pelo acido sulphurico concentrado, ella toma uma côr rosea escura, e desprende um cheiro agradavel, que tem sido diversamente comparado: por Gulielmo, ao da flor de laranjeira ; por Otto e Chandellon, ao da spircea (rainha dos prados); por Dragendoríf e outros, ao da flor de ameixeira ; por Pfeifer, ao das amêndoas amargas, etc. Este cheiro torna-se mais pronunciado, segundo Chapuis, quando se aquece a mis- tura e se junta depois algumas gottas d’agua ; segundo Dragen- dorff, quando, procedendo deste modo, se serve de uma mistura de acido sulphurico e bichromato de potássio (Pfeifer), ou mo- lybdato de sodio ou de ammonio (Herbst); neste caso, diz Cha- puis que desprende-se um cheiro forte de benjoim. Na opinião de Brunner, a melhor maneira de operar consiste em collocar numa capsula de porcellana alguns crystaes de VENENOS NEURO-MYOTICOS 585 acido chromico, juntar a atropina, e aquecer até que se forme o oxydo verde de chromo, pela reducção daquelle acido. Tem contra si esta reacçãodo acido sulphurico sobre a atro- pina, que uma quantidade notável do alcaloide é destruida. pelo acido ; o cheiro que desprende póde não ser percebido de modo caracteristico, e assim perde-se a peça de convicção. Mais segura e fidedigna é : 2a, a reacção de Yitali de Plaisance. Ella obtem-se lançando tres a quatro gottasde acido nitricofumegante sobre a atropina e evaporando em B. M. até seccura; fica um residuo amarellado que se dissolve em uma solução alcoolica de potassa (em álcool a 90c), dando uma cor rôxa purpurina, levemente avermelhada, passando rapidamente ao vermelho vinhoso, depois vermelho sujo. Pretende-se que esta reacção ésensivel até ao millesimo de milligramma de atropina. Arnold aconselha empregar nesta reacção de preferencia o acido nitrico nascente, fazendo actuar uma mistura de acido sulphurico e nitrato de sodio. Ella é commum coma homatropina, com a hyoscyamina e a hyoscyna, mas esta circumstancia não destroe nem enfraquece o valor da reacção, porque esses principios são derivados ou congeneres da atro- pina. Produz-se também com a pseudo-aconitina (?) (Chan- dellon). Si, entretanto, sequizer chegar a distinguir a atropina da hyoscyamina, póde-se recorrer â reacção proposta por Gerard e Schweissinger com a solução alcoolica de sublimado corrosivo, e ainda a outras, por exemplo : O acido picrico, que dá com a atropina um precipitado crys- tallino, e com a hyoscyamina uma especie de oleo, solidificando- se immediatamente em laminas. O iodureto de potássio iodado, ao contrario, dá um precipi- tado logo crystallino com esta ultima, ao passo que fôrma com a atropina uma especie de oleo escuro, que crystallisa só no fim de um certo tempo. BKLLADONA 0 chlorureto de ouro forma com a hyoscyamina um sal duplo, que não se funde n’agua fervendo ; sua solução aquosa não é reduzida nem pela ebullição nem por uma longa exposição á luz; as soluções quentes não se turvam sinão pelo resfria- mento. À atropina comporta-se em presença deste reactivo muito differentemente, e da maneira já retro-mencionada. Os alcalis mineraes, finalmente, não precipitam as soluções diluidas dos saes de hyoscyamina, porque esta é um pouco solú- vel n’agua ; as soluções concentradas, porém, precipitam. Aque- cida em presença dos alcalis, desprendem-se vapores alcalinos, e o liquido deixa depositar grandes crystaes prismáticos, eftlores- centes, solúveis n’agua e no álcool, precipitáveis de sua solução aquosa pelo acido chlorhydrico, O precipitado branco formado, torna-se amarello à luz, como succede com a santonina, a cuja composição corresponde a desse corpo; razão pela qual Klet- zinsky considera a hyoscyamina como a nitrila daquella gly- coside. B. —Signaes physiologicos. Estes signaes resumem-se 11a acção fortemente mydriatica dos alcaloides das solaneas virosas, sobretudo da atropina, cuja sensibilidade para este effeito é tal que basta, segundo Graéffa 0,0001, e segundo Ruiter 0,000,000,5 (!) do alcaloide para produzil-o; éno homem,no cão e no gato, sobretudo no homem, que elle se manifesta com mais intensidade; a rã é também sensivel ainda que muito menos a esta propriedade, da qual se tem proposto tirar partido como methodo de pesquiza toxicolo- gica. O ensaio physiologico pòde se praticar detres maneiras : por administração pelas primeiras vias, por injecção hypodermica e por instillação no olho ; qualquer porém que seja 0 methodo a seguir deve-se empregar um producto no estado de maior pu- reza possivel, afim de evitar a confusão que pode occasionar a presença de matérias organicas sépticas e deleterias por sua natureza. VENENOS NEURO-MYOT1COS 587 Além desta condição, que è capital, convirá cercar-se de ou- tros cuidados, que são meticulosamente descriptos por Tardieu, e reproduzidos por Chapuis 1 Assim, o local em que se tem de operar deve ser o mais claro possível, e em alto dia, que é a occasião mais favoravel. Antes de procederá applicação da substancia, deve-se examinar attentamente o diâmetro dapu- pilla do animal submettido a ensaio. E’ preferível tomar para isso dous cães da mesma estatura, dos quaes um Acará intacto 1 A este respeito Rabuteau faz injustas increpações a Tardieu, pare- cendo não conhecer ou não ter lido a segunda edição do tratado de envenena- mentos deste professor ; poisaccusa-o de commetter um singular esquecimento, para nã > di/.er um erro, recommendando servir-se de coelhos, na experimen- tação physiologica dos effeitos da atropina, quando se sabe que estes animaes são muito refractarios á acção dassolaneas e seus alcaloides. Para justificar-se Rabuteau'transcreve na ultima edição do seu livro de toxicologia, publicado em 1887, o trecho da primeira edição da obra de Tar- dieu, que é allusivo a esta questão, quando, desde 1875 (12 annos antes) em que este autor publicou a sua segunda edição, elle corrigiu esse erro ou modilico i a sua opinião, de modo que não cita mais o coelho, entre os ani- maes, que se prestam áquella prova physiologica. Tanto mais estranho esta aecusação de Rabuteau a Tardieu que de facto 1’cvio c augmentou consideravelmente o seu livro na 2a edição, quanto é aquelle professor o menos competente para fazel-o. visto como a 2a edição de seus « Elementos de toxicologia », é quasi a reprodução da Ia com os mesmos erros, alguns grosseiros o imperdoáveis. Parece pelo volume muito maior uma edição muito augraentada mas a differençaé somente de typo maior. Para prova do que avanço, citarei as passagens seguintes : Pag. 78— Tratando das amêndoas amargas, diz que ellas conteem um fermento chamado emulsina ou synaptase e mais adiante, na mesma pagina, diz «nem a emulsina nem a synaptase é toxica », etc. Napag. 8.5— diz que o cyanureto de prata muda de côr á luz como o chlorureto de prata. Quando seja exacta essa alteração, que é contestada por outros e attribuida a traços de chlorureto de mistura com o cyanu- reto, em todo o caso nunca essa mudança de còr se faz como no chlorureto. Napag. 138— diz que o acido arsenioso, quando em massas, apre- senta-se em dous estados differentes : vítreo ou porcellanado (synonimos !) e opaco ; quando este é que é o synonimo deporeellanado. Pag. 198— Tratando do reactivo de Luton, na pesquiza do álcool, para a dosagem deste corpo, diz que se obtém um liquido titulado pela so- lução de um decigramma de bicliromato de potássio em 300 grammas de acido sulphurico(? !) quando é em 31 grammas deste acido Pag. 331— Em uma estatística de mortes produzidas pelo chloroformio e pelo e:ber, diz que Morgan achou 53 mortes em 152.263 casos de anesthesia pelo chlroformio, isto é, 1 em 23.200 (!) e 4 mortos em 92.8Í5 casos de anes- thesia pelo ether, isto é, 1 em. 2.373; evidentemente estão trocadas estas simplificações da porcen tagem correspondente aos dois anesthesicos. Nãofallo já na proposição errónea que á mesma pagina se lè, de que a chamma verde, com que arde o chloroformio (? !) é caracteiistica dos compostos chlorados (!) Pag. 692— Diz que o acido nitrico fumegante se apresenta sob a fórma de um liquido corado em vermelho (!) Pag. 731— Depois de ter dito que nunca se observa perfuração do estomago, nos envenenamentos pelo acido chlorhydico, na pagina seguinte diz qus se tem achado por vezes (parfois) perfurações múltiplas, etc. 588 BELLADONA para servir de termo de comparação. Ao outro administra-se pela boca, por meio de um funil, ou dâ-se a beber, diluindo em um pouco mais de agua, uma parte do liquido obtido pela solu- ção do producto isolado das matérias a analysar. Conseguido isso, o effeito não tarda a se produzir ; no fim de 20 a 30 minu- tos manifesta-se a dilatação da pupilla, cuja marcha progres- siva o operador acompanhará, até a morte do animal ou seu restabelecimento. O methodo hypodermico é ainda mais delicado e sensivel. Deve-se operar nas mesmas condições, em local e dia claro, para se poder observar com todo o rigor os effeitos pupillares do alcaloide. Com outra porção do liquido suspeito pratica-se uma injecção, penetrando a agulha da seringa de Pravaz de preferencia na parte interna da côxa, ou então para evitar que o animal possa lamber o logar, na parte superior do pescoço por exemplo, proximo ás primeiras vertebras. Não convindo introduzir de cada vez ou em cada ponto do corpo do animal mais do que duas grammas de liquido, deve-se con- central-o mais si for muito maior a quantidade destinada a este ensaio, ou repetir as injecções em mais de uma região do corpo. Por este methodo, no fim de cinco a 10 minutos manifesta-se a dilatação pupillar. Finalmente, o terceiro methodo, que consiste na applicação directa do producto suspeito sobre a conjunctiva ocular, exige ainda maior escrupulo na preparação do liquido destinado a este ensaio ; elle deve ser reduzido á quantidade apenas de al- gumas gottas, e o mais neutro ou menos acido possivel. O melhor processo a seguir me parece o que foi empregado por Pouchet em uma pesquiza desta natureza, de que elle foi en- carregado como perito. A um pouco do producto obtido pela acção da benzina sobre as soluções alcalinas addiciona-se o acido acético puro e o liquido ê abandonado á evaporação espon- tânea, dentro de uma campana, ao lado de um pouco de po- tassa caustica, destinada a absorver a humidade bem como os VENENOS NEURO-MYOTICOS 589 vapores do acido em excesso. Depois de secco ajunta-se algumas gottas de agua distillada, e é este liquido que se instilla no olho de um cão ou de um gato, em logar e dia sufficientemente claro. A pupilla deste ultimo animal, que é quasi linear, começa a dilatar-se dous minutos depois da ap- plicação. E’ tanto mais delicado e interessante este ensaio, quanto elle pode ser executado em um só dos olhos do animal ficando para confronto o outro que nestas condições, conser- va-se indifferente. A dialyse também tem sido lembrada para a pesquiza da atropina, mas seus resultados deixam muito a desejar, por isso limito-me a esta simples menção. Envenenamento pelo fumo 1 e pela nicotina O envenenamento pelo fumo, nicotiana tabacum 2 merece logar distincto num livro de toxicologia. Desde a introducção desta planta na Europa e desde que seu uso, debaixo de todas as fôrmas, se desenvolveu tão prodigiosamente, numerosos casos de envenenamento teem sido registrados á sua conta ; é verdade que a maior parte accidentaes, ou occasionados por 1 E’ o nome aliás improprio, pelo qual é ordinariamente conhecida entre nos a especie bota nica — nicotiana tabacum ; seu verdadeiro nome é tabaco, que indevidamenfce se applica ao producto pulverulento usado como esternutatorio, sob a denominação commun de rapé. A palavra tabaco provém, segundo uns, do nome do primitivo cachimbo dos naturaes da America, e segundo outros, do nome de uma das pequenas Antilhas, próxima da costa de Venezuela (Ilha de Tobacco), onde foi primeiro conhecido o vegetal, ou donde sahiram as primeiras remessas para a Europa ; é esta a etymologia mais geralmente aceita. Ha quem a faça provir de Tabasco, nome de uma cidade do México, cujos habitantes mascavam as folhas seccas dessa planta, com a denominação de petun. 2 Conhecem-se muitas outras especies do gen. Nicotiana, a saber: N. rústica, (pequeno fumo, fumo de folhas redondas, fumo femea, fumo do México); N. macrophylla, N. paniculata, N. glutinosa, N■ fruticosa, N. petiolata, N. quadnvalvis, N. repanáa, N. pérsica, N. clúnensis, N. asia- tica,N. glauca,etc. Todas porém são consideradas menos activas do que a N. tabacum, que é por isso a mais importante, a especie classica ou offi- cinal. 590 FUMO E NICOTINA enganos e erros deploráveis ; alguns, porém, criminosos. Muitas vezes a morte foi a consequência desses factos, e penso com Tardieu, Chandellon e a maior parte dos toxico- lologistas, que indubitavelmente o fumo deve ser collocado entre os venenos mais temiveis. Elle deve suas propriedades toxicas a um principio activo, que se pretende ter sido assignalado pela primeira vez por Vauquelin, em 1809; mas parece que já muito antes disso era conhecido ou pelo menos suspeitado, conforme se deduz do trecho de um discurso sobre o tabaco, publicado em Paris, em 1693, por Baillard ; esse trecho reza o seguinte : « Alguns, todavia, para provarem que o tabaco é venenoso, invocaram a experiencia de certa quintessencia desta planta, que foi tra- zida de Florença a Paris, ha algum tempo, e da qual uma só goita introduzida em uma picada faz morrer na mesma hora ». Como bem pondera Tardieu, édifficil não ver ahi a indicação formal da nicotina. Em todo caso ella sé foi bem conhecida depois dos trabalhos de Reiman e Posselt, Boutron e Henry, Barrai e Schlesing. Até 1851, era reputada um producto curioso, toxico em muito pequenas doses, de preparação e conservação difficil. Os progressos ulteriores da chimica organica, e sobretudo os numerosos trabalhos executados no laboratorio da manu- factura dos tabacos de Paris, adiantaram consideravelmente o estudo chimico da nicotina. Mas, como veneno, sua historia era ainda obscura e incompleta, nenhum processo se conhecia para a sua pesquiza, quando naquella epoca memorável, ou mais exactamente nos últimos mezes do anno de 1850, um facto criminoso dos mais celebres nos annaes da toxicologia, o en- venenamento de Gustavo Fougnies pelo seu cunhado o conde de Bocarmé, por meio da nicotina, veiu provocar e offerecer opportunidade para novos estudos sobre este alcaloide e dar logar a um dos mais notáveis trabalhos de medicina legal em- prehendidos neste século. VENENOS NEURO-MYOTICOS Depois da publicação do importante relatorio redigido pelo sabio chimico belga Stass, que foi perito nesta questão, asciencia adquiriu mais um methodo de pesquiza dos alca- loides, que é, como bem diz Tardieu, um modelo de sagacidade e precisão. O tabaco é uma planta annual, da familia das Solanaceas, originaria da America Meridional e que se diz ter sido enviada pela primeira vez á França, em 15G0, com destino á rainha Ca- tharina ou Maria de Medieis, pelo embaixador francez junto ã Còrte de Portugal, João Nicot, donde veiu o nome scientifico de nicotiana com que essa planta é classificada em botanica. Entretanto ao que parece, não é bem exacta esta ephemeride> porque está averiguado que foi o monge André Thevet, quem teve essa triste gloria dous annos antes l. Nicot não fez mais de que vulgarisar o uso do vegetal preparado especialmente sob a fórma de pó. Não foi porém a França o primeiro paiz da Europa que co- nheceu a venenosa planta, pois que já em 1518, suas folhas e se- mentes foram enviadas a Carlos V, na Allemanha, pelo missio- nário hespanhol Fr. Romano Pane. Consta mais que os pri- meiros pés de tabaco foram cultivados em Lisboa, para onde haviam sido remettidos por Francisco Hernandez de Toledo, que a fez igualmente conhecida na Hespanha. O Cardeal Santa Cruz a introduziu na Italia, e Francisco Drak, na Inglaterra ; só mais tarde appareceu em outros paizes. Recommendou-se este vegetal a principio por applicações exclusivamente medicinaes, com a reputação de presumidas e exageradas virtudes, que lhe valeram algumas de suas deno- minações, sendo outras tiradas dos nomes das pessoas que mais se salientaram em sua propaganda : herva divina, herva santa, 1 Eis o que diz a historia sobre a indicação com que André Thevet importou em França o tabaco : « herva perfumada, muito salubre para fazer distil- lar e consumir os humores supérfluos do cerebro, que faz passar a fome e a sède, e da qual os christãos estabelecidos na America tornavam-se maravilho- samente ávidos e cubiçosos». 592 FUMO E NICOTINA herva sagrada, 1 remedio contra todos os males, panacéa an- tartica, herva da Rainha, herva do Grão Prior, herva do Embaixador, herva de Nicot. Não tardou muito a que o fumo fosse introduzido no uso ordinário, conquistando adhesões que se multiplicaram menos pela primeira impressão de suas qua- lidades organolepticas, ede seus primeiros effeitos inquestiona- velmente desagradareis, do que pela força poderosa e magnética do contagio por imitação, em que pese á opinião de Nothnagel e Rossbach, que acreditam que as propriedades physiologicas do fumo contribuiram em grande parte para isso ! 2 Inexplicável e digna de lastima esta natureza humana ! Fosse por principio systematico ou capricho, fosse pelo conhecimento dos males já occasionados pelo uso do tabaco ou fosse como medida de hygiene administrativa dictada pela presumpção dos effeitos perniciosos que poderia acarretar para 1 Segundo alguns autores estas tres denominações teem outra origem muito particular de que adiante darei noticia. 2 Na excellente these de Aug. Baret, sustentada em Pariz (1879) sobre o fumo, as manufacturas, e os fumantes, elle aprecia meticulosamente as diversas circumstancias que podem explicar o uso do fumo, e pensa do modo seguinte: Quando os marinheiros de Christovao Colombo partilharam com os índios a herva que elles fumavam, quem sabe si não era antes por necessidade do que por curiosidade que o fizeram. Na America si é constantemente perse- guido por mosquitos, e talvez que os seus naturaes lançassem mão do fumo, para afugentar esse« insectos. Importada nos diversos paizes, foi naturalmente pela attracção da novidade, que usaram dessa planta, e depois continuaram a fazel-o não mais por utilidade, mas por mil outras razões, pela maior parte sem jjrande importância. Fuma-se por espirito de imitação ; para exemplo disso ahi estão as cri- anças, que põe seu amor proprio á prova do fumo, persuadindo-se de que assim já são homens. Fuma-se sobretudo por habito, e é este habito que crêa a necessidade, bastante imperiosa, para fazer com que os fumantes, entre o pão e o fumo, não hesitem em preferir o ultimo ! Fuma-se ainda para provocar a sêde das bebidas. Fuma-se por distraeção, e não é esse de certo o menor motivo ou pretexto de semelhante vicio. Quem não sabe que para muitas pessoas o fumo, como diz Michel Levy, é o remedio desta moléstia da civilisação que se chama spleen, Fuma-se, finalmente, por uma necessidade de sensação qualquer. Assim, o selvagem da America, o soldado de ronda, o molle habitante das regiões tropicaes, o ocioso das cidades, o turco prematuramente gasto pelos ex- cessos venereos e mergulhado na dupla inércia do fanatismo e do despotismo, usando do fumo, como os nossos amadores elegantes, do baile e do theatro, como o poeta, do café, como o sabio, da leitura, etc., tudo se resolve em um grande movei da humanidade — a sensação. VENENOS NEURO-MYOTICOS 593 o futuro o seu abuso, levantou-se em pouco tempo uma verdadeira cruzada contra o fumo ; ella foi inaugurada por Jacques I, de Inglaterra, que em 1604 publicou nesse sentido um opusculo, intitulado da misocapnia (odio ao fumo). O papa Urbano VIII condemnou em bulia especial o uso do rapé, prohibindo e fazendo apprehender as competentes bo- cetas que fossem vistas nas mãos de qualquer individuo dentro das igrejas, incursos por isso empena de excominunhão. O Sultão Amurat IY, os Schahs da Pérsia: Abbas e Sephi, e o Grão Duque de Mosco via Michel Federowich ordenaram cortar a ponta do nariz aos tabaquistas e os lábios aos fuma- dores. Diz-se ainda que este ultimo também mandava applicar 60 chibatadas á planta dos pés, e que o sultão, para requinte de desprezo e escarneo, mandava-os enforcar fumando. Pesadissimos impostos foram lançados sobre o commercio do fumo ; de todos os lados uma propaganda activa fulminava o uso habitual do fumo. Até 1670, em alguns cantões da Suissa, os fumantes eram multados. Ao contrario disso, todas estas medidas coercitivas e vio- lentas pareciam produzir eífeito inteiramente opposto, attra- hindo e desafiando maior curiosidade sobre esta planta vene- nosa e detestável, que, apezar de tudo foi dilatando os seus domínios e chegou por assim dizer a avassalar e escravisar o mundo. Na feliz e espirituosa phrase de Arnouldpóde-se avançar que todos usam do fumo : desde o Laponio até o Boschman, desde o Yankee até o oriental, desde o mendigo até o rei, desde o operário até o frade ! Assim como a respeito do álcool, a parte mais interessante da historia do fumo é a que se refere aos eífeitos determi- nados pelo seu uso e abuso habitual, aos phenomenos de into- xicação lenta e chronica, também chamada nicofismo chro- nico, ou simplesmente tabagismo. Depois de occupar-me com o estudo da fórma aguda do envenenamento pelo fumo, passarei a tratar do tabagismo, T0XIC0L0G1A 38 594 EU MO E NICOTINA comquanto seja uma questão mais de hygiene e de clinica do que propriamente de toxicologia. Antes disso, porém, preciso e devo completar estas gene- ralidades sobre o assumpto, com uma noticia sobre a compo- sição do tabaco, suas qualidades e preparações commerciaes. Segundo uma analyse, já antiga, de Posselt e Reimaun as folhas do fumo encerram o seguinte : nicotina, nicotianina, albumina, resina verde ou amarella, matéria glutinosa, matéria extractiva amarga, gomma, fibra lenhosa, acido ma- lico, malato de ammonio, de potássio e de cálcio ; sulfato, chlorureto e nitrato de potássio, phosphato de cálcio, siliça e agua. A nicotina, que é o principio activo, ahi existe na porcentagem média de seis centigrammas. Pela incineração estas folhas deixam 20 por 100 deresiduo, no qual a proporção das matérias insolúveis excede de muito o das solúveis, e são constituídas na sua maior parte por car- bonato calcareo (Dujardin Beaumetz). Schloesing achou na composição extremamente complexa do tabaco as seguintes substancias : Bases mineraes (potassa, cal, magnesia, ammonia, oxydos de ferro e de manganez ) ; áci- dos mineraes ( azotico, chlorhydrico, sulfurico, phosphorico e silicico ) ; ácidos orgânicos ( malico, citrico, acético, oxalico, pectico e ulmico ) ; Base organica ( nicotina). Outros corpos orgânicos ( nicotianina, resinas amarella e verde, cêra ou ma- téria graxa, princípios azotados, cellulose). A analyse mais recente, que é a de Conwell, revelou na composição do tabaco o seguinte : mucilagem, gomma, tannino, acido gallico, chlorophylla, matéria pulverulenta verde, oleo amarello tendo o cheiro, o gosto e as propriedades da planta, resina amarella pallida, matéria corante vermelha, nicotina, nicotianina e um principio analogo á morphina ( Gubler ). 1 1 Esta analyse não está completa, ella refere-se naturalmente aos prin- cipios orgânicos sómente, porque faltam os inorgânicos. VENENOS NEURO-MYOTICOS 595 A nicotianina é uma essencia solida, volátil, solúvel se- gundo uns, insolúvel segundo outros no álcool e no ether ; é de sabor amargo e tem o aspecto da camphora, mas o cheiro do fumo, e por isso chamada a camphora do fumo. E’ bem possi- vel, dizem Hermbstadt, Landerer e Buchner, que seja uma combinação de nicotina com um acido volátil. O principio mais activo e toxico do tabaco éa nicotina, alca- loide liquido e volátil, de reacção fortemente basica, cheiro intenso e pronunciado de fumo, sabor acre e cáustico muito solúvel na agua, no álcool e no ether. Quando seccas ao sol as folhas de tabaco perdem o cheiro proprio desse alcaloide não tanto pela sua volatisação, segundo Tardieu, como pela sua combinação com os ácidos naturaes, ou com outros, formados accidentalmente. Si o tabaco é conser- vado em logar secco, então mui fraca alteração soffre. Segundo Cornevin a dessecação não tira ao tabaco as suas propriedades deleterias ; sua agua de maceração ou decocção é extremamente perigosa. Humedecido, entra em fermentação, altera-se e exhala cheiro forte de ammonia e de nicotina, esta sendo des- locada poraquella de suas combinações salinas. O fumo preparado tem cheiro forte, mas encerra menor proporção de alcaloide do que as folhas seccas. A nicotina existe em todas as partes do vegetal, mais nas folhas do que nas sementes. Apresenta-se, logo que acaba de ser preparada, sob a fórmade um liquido claro, que difficilmente se conserva neste estado ; exposta á luz, e apezar mesmo de todas as cautelas para evitar a influencia deste agente, altera-se e ennegrece. E’ uma base energica, que neutraliza os ácidos, com os quaes fôrma saes crystallizaveis, porém deliquescentes. Sendo a nicotina o principio activo toxico do fumo, não é, todavia, aquelle a que deve exclusivamente o seu valor commercial. Para demonstrar esta asserção basta consultar as analyses que se teem feito sobre diversas variedades de tabaco e esta- belecer o confronto entre a sua riqueza em nicotina e a sua 596 FUMO E NICOTINA classificação e apreço commercial. Ahi se verá que o fumo mais rico deste principio é o de Lot e Lot Garonne, que tem perto de 8 %. Segue-se o da Virginia, Ile Vilaine e Kentucky, que teem 6 a 7 % ; vem depois o de Maryland e o da AI sacia que encerram apenas dous e tanto a 3 % ou pouco mais. O de Havana, afamado como dos mais fortes na opinião dos aprecia- dores, não contém em geral sinão 2 %, e ainda menos encerra o da Turquia, um dos mais pobres em nicotina. 1 Quanto aos fumos brazileiros, sabe-se que as analyses feitas pelo Dr. Peckolt, e transcriptas na tliese doDr. Furquim Wer- neck, deram o seguinte resultado : Dos Descalvados (S. Paulo)... 1 gr.,065 °/0 ou 10,65 por 1000 Do Pará 0,850 °/0 ou 8,50 por 1000 De Cantagallo 6,474 °/0 ou 6,33 por 10)0 Do Pomba 0,633 °/o ou 6,33 por 1000 Estes dados distanciam-se muito dos que as analyses teem revelado nos fumos estrangeiros ; o mesmo não succede com as indicações fornecidas pelo pharmaceutico Mello Moraes, obse- quiosamente cedidas peloDr. Moura Brazil ao Dr. Gama Fer- nandes, como contribuição para a sua tliese inaugural sobre o envenenamento pelo fumo ; ellas dão para o fumo de Borba, do Pomba, Goyano, de Barbacena, do Rio Novo (Daniel) os se- guintes algarismos : 0,8 — 8 — 9,3 — 9,87 — por cento ; re- sultados correspondentes aos obtidos com os melhores fumos estrangeiros. Não sei como interpretar esta differença conside- rável ! 1 As indicações fornecidas por Boutron e O. Henry, consignadas no livro de Historia Natural das drogas simples, de Guibourt, variam um pouco destas e estabelecem uma proporção mais elevada para a riqueza nicotina do fumo de Havana (8,64) e muito menor para a do fumo de Lot (6,48); mas ainda assim não é aquelle o fumo mais rico do alcaloide, conforme as analyses que serviram de base a essas indicações, porquanto, lá se acham o fumo da Virginia com 10 %, os da Ilha cie Vilaine e do Norte com 11,20 e 11,28 %. Destes dados analyticos deduzem-se applicações praticas importantes, que assignalarei mais adiante no .estudo do tabagismo. V ENENOS N E U RO - M YOTICOS 597 Seja como for, o fumo tal qual se colhe, não se presta e não é proprio para os usos a que se destina. As folhas são ricas em matérias albuminosas, que produzem pela combustão um cheiro desagradavel de chifre queimado. Demais, são em geral bas- tante carregadas de nicotina para que sejam muito perigosas. A preparação do fumo tem justamente por fim destruir as substancias albuminoides, diminuir sua riqueza em nicotina, desenvolver o aroma proprio do tabaco, e, emfim, darás folhas a fôrma que convém para que possam ser empregadas nos usos ordinários. A parte mais importante deste preparo é a fermentação a que são sujeitas estas folhas, e que se promove molhando-as com agua salgada, e acamando-as em grandes pilhas ; abando- na-se tudo por tempo sufficiente, regulando o calor que se desen- volve nesta operação espontânea, de modo que não exceda de 35a. O sal tem por fim impedir a putrefacção do tabaco e garantir a conservação dos productos. Em seguida as folhas são postas a seccar ao ar e comprimidas depois em tonneis, onde ficam por muito tempo, ás vezes por annos. Dahi, conforme a natureza da fabricação, o fumo é submettido ainda a uma serie de manipulações especiaes, que tem por fim imprimir as fôrmas e qualidades dos respectivos productos (cigarros, charutos, rapé ). Nestas condições o fumo perde necessariamente uma parte da nicotina, que se tem calculado em metade ou em dous terços e modifica-se a combinação natural da proporção que resta, além de substancias estranhas que são addicionadas para sa- tisfazer certas exigências commerciaes. Assim, a nicotina se acha no tabaco fermentado, em parte no estado de liberdade, e em parte no de acetato, ao passo que existe no estado de ma- lato na planta fresca. Numerosas e variadas são as condições nas quaes o tabaco tem podido occasionar euvenenamentos, sem falar da influencia deleteria e perniciosa que elle exerce sobre os individuos em- 598 FUMO E NICOTINA pregados na fabricação dos productos commerciaes a que é applicado (cigarros, charutos, rapé, etc.), e sobretudo em certas operações preliminares, correlativas dessa industria, como sejam : desfiar e picar fumo em rôlo, seccal-o ao fogo, ou immergil-o em um banho especial chamado de mel de fumo, que é uma especie de extracto concentrado dessa planta ; sem fallar ainda na acção não menos nociva e prejudicial que experi- mentam, ou a que se expõe os viciosos que delia usam e abusam. O fumo já tem sido administrado algumas vezes, com intenção criminosa, em maceração no vinho ou em decocção na agua. Diz-se que o celebre poeta Santeuil expirou no meio de dores atrozes por ter bebido um calix de vinho de Hespanha, no qual se havia por perverso gracejo lançado fumo. Merat, citado por Dujardin Beaumetz, refere que de uma vez estiveram em risco de morte, tendo apresentado svmptomas francos de envenenamento (anciedade, desfallecimentos, vomitos repe- tidos), varias pessoas que comeram umas ameixas cozidas, nas quaes por maldade alguém tinha misturado um pouco de fumo. Já tem servido igualmente como meio de suicidio, como no caso citado por Dujardin Beaumetz, de um jardineiro, que succumbiu rapidamente depois de ter ingerido de proposito um pouco do sueco de fumo, destinado á destruição de percevejos e outros insectos. O maior numero de factos, porém, refere-se a intoxicações accidentaes, occasionadas pelo uso therapeutico do fumo, quer interna, quer externamente e em clysteres ; o que torna o nu- mero desses envenenamentos, em absoluto, pequeno, ó o uso rela- tivamente limitado que se faz dos preparados dessa planta, pelo receio mesmo de sua energia toxica. A nicotina, seu principio activo por excellencia, diz muito bem Chandellon, que, sob o ponto de vista da intensidade e rapidez de seus effeitos, deve ser collocada ao lado do acido prussico e da aconitina ; é na sua opinião 16 vezes mais toxica do que a cicutina, que é o alca- loide com que mais se assemelha, no que respeita ás proprie- VENENOS NEURO-MYOTICOS 599 dades chimicas. Entretanto esta avaliação não assenta sobre dados rigorosos, porque o mesmo Chandellon confessa que ainda não se conhece bem a dóze da nicotina capaz de determinar a morte de um homem, como adiante mostrarei. Entre os factos de envenenamentos accidentaes que se re- ferem ao uso externo do tabaco, citam-se os que resultaram : do emprego do sueco expresso desta planta sobre um exanthema chronico ; os do emprego deste sueco, ou de um linimento preparado com manteiga e fumo sobre ulcerações de tinha favosa; de fricções feitas com residuos de fumo sobre pontos denudados da superfície cutanea ; da applicação de tabaco em pó sobre ulceras de qualquer natureza 1 e de pannos embebidos em cozimento , infusão ou maceração concentrada de fumo, demorados sobre uma parte mais ou menos extensa do corpo. A este ultimo caso pertencem os factos deRougon, referidos á sociedade de medicina publica de Paris, da applicação tópica destes líquidos para destruir bichos de pés (pulex penetrans); os indivíduos tiveram vomitos, diarrhéa, suores frios, ten- dência ao collapso, depressão e ataxia cardíaca, etc. E’ também deste genero o facto analogo observado por Meyer em uma mulher de 50 annos, que teve vomitos, soluços, oppressão com crises de verdadeira suffocação, abatimento extremo, resfriamento das extremidades, suor frio e viscoso, pulso lento e intermittente, etc ; Polk refere, igualmente, que folhas seccas de fumo untadas de mel e que foram applicadas em certas regiões do corpo de um camponez, moço e robusto, com o fim de combater o rheumatismo de que elle soííria, pro- duziram cephalagia, vertigens, tremores nos membros, nauseas, vomitos, pulso pequeno e apressado, etc. Independente do uso therapeutico existem outros factos accidentaes de intoxicação nicotica, taes como o referido por (*) Como por exemplo na pequena ulcera umbilical dos recemnascidos : já vi accidentes graves devidos a esta pratica, aliás commum entre nós, e que eu condemno absolutamente. FUMO E NICOTINA Dujardin Beaumetz e transcripto do Edimburg med. journ. 1855, de um alienado que ingeriu 30 a 40 grams. de fumo e apresentou convulsões tetaniformes violentas, vomitos, dejecções repetidas, pulso miserável, etc. ; morreu no fim de sete horas em um estado de verdadeira rijeza tetanica ( fôrma raríssima, para não dizer anómala, deste envenenamento). A. Depierris cita o caso de tres chins que, tendo dormido em um compartimento fechado, onde havia 60 kilogramm. de fumo, sofíreram accidentes toxicos graves, dosquaes dous morreram. Um dos factos mais curiosos de envenenamento, devido à absorpção de fumo pela pelle, é o que foi communicado á Aca- demia de Sciencias em Paris pelo Dr. Namias, de Veneza. « Um contrabandista cobriu por varias vezes todo o seu corpo com folhas de fumo, que elle assim occultava e subtrahia ao paga- mento do imposto ; os princípios voláteis e toxicos do fumo hu- medecido pelo suor forão absorvidos e determinaram plieno- menos de intoxicação que cederam ao uso de bebidas alcoólicas e laudano ». Como este facto Gallavardin encontrou outro em jor- naes de medicina anteriores. O primeiro citado por Wildebrand, éo seguinte: Todos os soldados ( hussards ) de um batalhão fizeram o mesmo que o indivíduo acima mencionado, com o fim de passarem o fumo como contrabando, e apezar de serem grandes fumantes, experimentaram os mesmos symptomas de envenenamento. Os clysteres, impropriamente considerados applicações externas, feitos com o cozimento ou com a infusão do tabaco, na dóse de quatro a oito grams. da planta, já teem sido causa de intoxicações mortaes, e ainda não é esta a dóse mínima capaz de matar um adulto. Taylor considera a dóse de 1 &r,03, como podendo dar este resultado em certas circuinstancias. A nicotina actúa como veneno sobre todos os animaes ; to- davia observa-se uma resistência variavel aos seus effeitos , conforme as especies. E’ assim que os cavallos podem comer sem inconveniente quantidades relativamente grandes de tabaco, VENENOS NEURO-MYOTICOS 601 e não succumbem sinão com a absorpção de 8, 218 de nicotina pura, ao passo que os cães de grande estatura morrem com a dóse de 5 a 10 centig. 1 O envenenamento pelo fumo póde ser agudo ou chronico ; este ultimo, habitual ou profissional. Symptomas, signaes clínicos Envenenamento agudo.—Alguns minutos depois da ingestão de uma dóse toxica de fumo, os indivíduos sentem cephalalgia, vertigens, dores abdominaes intensas, nauseas com salivação abundante, vomitose evacuações alvinas de matérias muitas vezes com cheiro pronunciado de fumo. A vista torna-se con- fusa, a pupilla a principio contrahida e depois dilatada ; o rosto empallidece e decompõe-se, e os indivíduos cahem em estado de estupor, ou então de agitação e angustia, interrompido por gritos e convulsões parciaes ou geraes, às vezes tetaniformes. O corpo todo, notavelmente a fronte e as mãos se cobrem de suores frios ; os movimentos voluntários tornam-se difficeis, a circulação e a respiração, a principio acceleradas, vão-se retar- dando rapidamente ; esta ultima apresenta-se embaraçada, es- tertorosa. A morte sobrevem no fim de alguns minutos ou de poucas horas, quasi sempre por asphyxia progressiva, em estado comatoso, com ou sem convulsões, mas em geral sem delirio, no que, bem como na acção sialagoga do fumo, na myose pupillar que é a regra no começo da intoxicação, e, finalmente na ausên- cia de manifestações cutaneas, distingue-se bem o nicotismo agudo do envenenamento occasionado pelo grupo das solanaceas virosas propriamente ditas, em particular, do atropinismo. 1 líaines estabeleceu a dóse toxica deste alcaloide para as d i lie reates es- pecies animaes, referindo-se ao peso destes: 1/100 de gotta (0,gr000513) para 1 kilo de rato. 1 /73 de gotta (0,00068 ) para 1 kilo de gato. l/40 de gotta (0,00128 ) para 1 kilo de coelho. 602 FUMO E NICOTINA Em casos menos agudos os primeiros symptomas podem durar mais ou menos tempo, muitas horas ou mesmo alguns dias, e dissipar-se pouco a pouco. Em definitivo, como diz Gubler, o que caracterisa principal- mente o tabaco é a acção poderosamente depressiva sobre o sys- tema nervoso, ecom especialidade sobre a circulação. As dóses fortes fulminam por assim dizer os animaes ; as dóses médias determinam convulsões clonicas e tónicas, depois paralysias e matam por asphyxia. E’, pois, um veneno neurotico, que tem alguns pontos de contacto com os periphericos ou paralyso-mo- tores (cicuta, fava de Calabar), e outros como os espinhaes ou excito-motores (noz vomica, fava de Santo Ignacio). Porém se approxima ainda mais da digitalis, pela sua acção sobre o centro circulatório ; donde a sua classificação de neuro-myotico, ao lado das outras solaneas, das quaes a outros respeitos, como jà disse, o tabaco se destaca. Si se trata da nicotina, o envenenamento póde durar alguns segundos, e ser quasi fulminante ; ella é promptamente mortal na dóse de 1 a 2 gottas ; pelo menos esta dóse é sufficiente para matar o cão mais robusto, applicada na lingua ou na con- junctiva ocular do animal.1 No homem bastam pequenas doses de nicotina (1 a 3 miligrams.), para determinar accidentes toxicos graves e persistentes, segundo experiencias pessoaes de Dworgak e Heuvrich, citados por Nothnagel e Rossbach; 8 a 16 centigs. representam na opinião de Schroff, uma dóse mortal para o homem. O primeiro e o mais notável dos envenenamentos por este al- caloide é o já citado, relativo ao Conde de Bocarmé, na Bélgica, eml851. 1 Segundo Wleminky a conjunctiva ocular é de todas as superlicies do corpo a que absorve mais promptamente a nicotina ; não sendo revestida nem de epithelio, nem de uma camada de muco, como as vias digestivas, essa mucosa deixa atravessar rapidamente esse veneno. VENENOS NEURO-MYOqiCOS 603 Lesões anatomo-pathologicas; signaes necroscopicos No envenenamento pela nicotina, como succedeu com o cunhado e victima do Conde de Boearmé, que succumbiu cinco minutos depois de ter ingerido uma dóse relativamente grande de nicotina, observam-se principalmente lesões locaes devidas á acção fortemente irritante e caustica do veneno. Assim, a linguaé volumosa e tumefacta, de côr azulada escura, 1 a mu- cosa bucal amollecida e friável, destacando-se com facilidade ; o mesmo se dá com a mucosa do pharynge e do esophago, que se apresenta rubra e injectada. O estomago igualmente deixa ver, sobretudo em redor do orifício pylorico, largas placas livi- das, ennegrecidas, circumscriptas, interessando a mucosa e a ca- mada muscular. Os vasos do peritoneo que cobrem o estomago estão cheios de uma massa coagulada, preta. O duodeno forte- mente injectado, mas sem as placas lividas que se notam no estomago. Os pulmões apenas um pouco congestionados, o coração nada apresentava de notável, o sangue negro e mais fluido. Os orgãos do cadaver exhalam cheiro pronunciado de nicotina. Nos casos de envenenamento por preparados pharmaceuticos de tabaco o sangue é igualmente negro e fluido ; observa-se tam- bém hyperhemia frequente das meningeas cerebro-espinhaes, do fígado e dos rins ; a mucosa gastrica ou a rectal apresentam suffusões e manchas ecchymoticas, conforme o veneno tenha sido administrado pelas primeiras vias ou em clysteres. Pela abertura do estomago e dos intestinos percebe-se cheiro proprio do fumo. Nota-se mais, segundo alguns, rigidez excessiva do cadaver e demora na putrefacção. 1 Foi assim que se apresentou no caso em questão; em outros casos segundo alguns observadores ella é encontrada branca acinzentada, bem como os lábios, brancos e como pergaminhados. FUMO ]•: NICOTINA Tratamento A rapidez e gravidade do envenenamento pelo fumo impõe o dever de actuar o mais promptamente possível, fazendo vo- mitar o doente pelos meios mecânicos ; empregando a lavagem do estomago pela bomba gastrica, sempre que for possível. Como antídotos não se conhece um só que seja especial ao fumo; recorre-se aos dous precipitantes geraes dos alcaloides mais proveitosos nestes casos : o iodureto de potássio iodurado e sobretudo o tannino, ou, em seu logar qualquer preparação rica deste principio. A infusão forte de café, e se houver á mão, de café não torrado, tem sido muito recommendada. Na opinião de Berrutti e Villa o tannino é inefficaz, porque o tannato dé nicotina è solúvel no acido chlorhydrico diluido, e este suppõe-se existir no sueco gástrico ; mas admittindo mesmo que assim seja, sua quantidade, por minimr., é insufficiente para dissolver um grande precipitado e na presença de um excesso de tannino, como é de regra empregar. Em todo caso é fóra de du- vida que por este meio se retarda pelo menos consideravelmente a absorpção do veneno, e dá-se tempo a que seja expellido pelos evacu antes. Tem-se aconselhado contra a nicotina os ácidos (acido acé- tico, sueco de limão, etc.); não se póde esperar desta pratica outra vantagem, e essa muito pequena, a não ser de salini- ficar o alcaloide e formar productos menos facilmente diffu- siveis, attenuando apenas a marcha do envenenamento. Lança-se mão depois, dos meios antagonistas, auxiliados pelas affusões frias na cabeça, pela respiração artificial. Pre- screve-se então preparações opiadas, as bebidas alcoólicas, em geral todos os meios excitantes ao mesmo tempo diuréticos, injecções subcutâneas de ether, etc. Diz Gubler, que Thompson preconisa nestes casos o emprego da essencia de sassafraz. mas a observação clinica ainda não se pronunciou sobre o valor deste meio. VENENOS NEURO-MYOTICOS 605 Intoxicação chronica.— Ella pode ser habitual ou pro- fissional . A—Intoxicação habitual (tabagismo): Muito se tem escripto em hygiene e em clinica para dis- cutir a influencia que exerce o uso e abuso do fumo, em suas diversas fôrmas, sobre a saude dos consumidores ; é uma das questões mais controversas de hygiene, e na qual, com mais razão do que a respeito do álcool, eu adopto a opinião daquelles que condemnam esse uso, como insidiosamente prejudicial e nocivo á saude ; já não fallo do abuso, porque os males que elle acarreta são obvios, e ninguém seriamentepõe em duvida. Não creio que se tenha exagerado muito os inconvenientes pelos quaes se torna responsável ouso habitual do fumo, por- que não ha motivo para essa attitude systematicamente hostil daquelles que, não usando do fumo, lhe são indifferentes; ao passo que è presumivel e mais facil uma disposição apaixonada- mente favoravel, um juizo menos imparcial da parte daquelles que, escravos do vicio, defendem-o a todo o transe e empres- tam-lhe até virtudes. 1 Eu disse que com mais razão do que a respeito do álcool me pronuncio desta fórma, porque o álcool em mui pequenas dóses pôde preencher o papel de um alimento ternário ou respiratório, em todo o caso inútil ; ao passo que o fumo não corresponde a nenhuma necessidade organica ; não é somente inútil, é prejudicial. Nem póde deixar de ser assim tratando-se de uma planta, da qual se extrahe um dos mais violentos ve- nenos que se conhece, comparável ao acido prussico, mesmo na opinião insuspeita de Nothnagel e Rossbach. Não serve de argumento em favor da pretendida innocui- dade do tabaco preparado, a circumstancia de que elle não ó usado em natureza, e soffre para isso diversas manipulações 1 Assim, pretendem elles em sua fanatica cegueira, que nem sómente o uso do fumo é inoffensivo, como é até util, salutar e hygienico ! E’ proposição esta que me julgo dispensado de discutir e ocioso de contestar. 606 FUMO E NICOTINA que fazem perder, como já disse, a metade ou mesmo os dous terços da nicotina ; basta essa proporção que resta do veneno para tornar perigosa e nociva qualquer preparação daquella planta. Em segundo logar, não serve também de argumento e ga- rantia em favor dos fumistas, a circumstancia de que o fumo é queimado, e, portanto, a nicotina que ainda existe decompõe-se, o que torna inoffensivo pelo menos este modo de usar do fumo; completo engano! Uma parte da nicotina volatilisa-se sem decomposição, como provam as analyses rigorosas de Melsens e outros chimicos francezes, que assignalaram a presença da nicotina na fumaça do tabaco. Como elle diz, a prova deste facto adquire-se facilmente por um ensaio muito simples, que consiste em fazer passar os vapores do fumo atravez de uma solução de acido phospho-molybdico; fórma-se ahi um precipitado amarello, que se póde isolar para investigar a sua natureza e reconhecer que é constituído pelo sal respectivo de nicotina. Por este artificio affirma que pôde extrahir 30gramm. de nicotina do liquido condensado, proveniente da combustão de 4 7, kilog. de fumo. Em vez de proceder assim, póde-se fazer como nas expe- riências de Heubel e Rosenthal, em que a fumaça atravessa suc- cessivamente vários líquidos (agua, álcool, acido sulphurico, etc.), e todos elles encerram nicotina, que se póde caracterisar pelos seus reactivos proprios. Admittindo, porém, mesmo que essa fumaça não contenha absolutamente o alcaloide, como pretendem e affirmão alguns chimicos allemães, entre os quaes citam-se os nomes de Yohl e Eulenberg, ella encerra, segundo demonstram as suas pró- prias analyses, gaz carbonico, oxydo de carbono, acido cyan- hydrico, e cyanureto de ammonio (!), a que outros ajuntam cyanuretos e isocyanuretos de radicaes alcoolicos, carburetos de hydrogeno, álcool methylico, e ainda outros compostos aldehydicos e acetonicos. VENENOS NEURO-MYOTICOS 607 Mas, não é tudo ; tem-se ultimamente descoberto e verifi- cado nos vapores do fumo a presença das bases pertencentes á seriepyridica, a saber: a pyridina, a picolina, a lutidina, a collidina, etc., que são nimiamente toxicas. E’ um ponto de vista novo e interessante que vem invalidar e destruir essa ob- jecção dos fumistas. Não lhes aproveitam finalmente os exemplos de longevidade de que tanto se gabam, porquanto, além de que elles são relati- vamente raros e por isso são apontados, ninguém pôde prever qual seria a saude desses indivíduos, a perfeição de suas facul- dades e de seus sentidos, e que idade alcançariam esses velhos apreciadores do fumo, si não fosse o envenenamento lento. O fumo é usado de tres maneiras : mascado, cheirado ou antes sorvido em pó pelas narinas, e fumado. Tomarei em consideração particularmente este ultimo modo, que é o mais diffundido e vulgarisado. Os outros dous teem preoccupado menos a attenção dos hygienistas. O uso do rapé é apenas mais repugnante, porém inques- tionavelmente menos nocivo ; seus inconvenientes quasi que se limitam á acção local irritante : inflammação chronica, ás vezes ulcerações da mucosa nasal, talvez mesmo certas producções ma- lignas que teem sua séde nesta região, embotamento do olfacto, modificação da voz e da conformação do nariz, etc., por quanto os ingredientes que se misturam ao rapé, afastam-o muito das con- dições de um pó feito sómente de fumo 1 ; elle encerra segundo Vohl e Eulenberg apenas 3 a 6 centigr. por 100 de nicotina (?). Entretanto, lê-se em Dujardin Beaumetz, naturalmente por uma differençade marca ou qualidade commercial, e, portanto, de formula ou processo de preparação, que o rapé contém 0,85 a 2 % de nicotina (!). E’ este producto que levado mais profunda- 1 Tinha-se antigamente, diz Bouant, o costume de perfumar as folhas destinadas á fabricação do rapé com diversas misturas ( melaço, agua de ameixas seccas, de violetas, de páo rosa, etc. ) Hoje tem-se abandonado esta pratica; porém, algumas pessoas ainda usam aromatisar o seu rapé com a semente da fava Tonka oucumurú (dipterix odorata), do mesmo modo que alguns fumantes, reputados de máo gosto, apreciam charutos oom canella. 608 Fumo e nicotina mente pela inspiração forçada e ruidosa dos tabaquistas póde produzir o catarrho do pharynge e do estomago, e mesmo aeci- dentes mais graves. Dizem Nothnagel e Rossbach que já se teem dado casos íãtaes pela ingestão (?), segundo este meca- nismo, de 2a 4 gram. de rapé. O habito de mascar fumo, sobre ser nimianamente detes- tável, está longe de ser o mais inoffensivo, como acredita Gubler ; o que elle explica pela preparação especial que soífre a planta destinada a este uso e que lhe tira os principios toxicos. Na sua opinião, o fumo actúa assim localmente, e raras vezes ou em pequena escala produz os effeitos geraes proprios de sua acção. Nothnagel e Rossbach pensam do mesmo modo e demonstram essa asserção com factos de accidentes muito mais graves e mesmo a morte, em indivíduos que, em vez daquelle fumo especial e proprio para este uso, serviram-se do fumo cominum de charuto ; um morreu depois de haver mascado a porção correspondente á metade de um charuto. Ignoro e sinto não conhecer qual seja essa preparação especial a que se referem os illustres professores, que não a descrevem ; no Dicc. de chimica de Bouant encontro a noticia de um processo que é o mesmo seguido entre nós para a preparação do fumo chamado em corda ou em rolo, que passa por ser dos mais activos, e presta-se depois de picado e seccado ao calor do fogo, á confecção dos cigarros, devendo, portanto, ter perdido nesta operação parte da sua primitiva virulência, ainda mais attenuada depois pela maneira de usar dos cigarros. Sendo porém assim, sou antes levado a crer que ha falta de observação rigorosa a tal respeito, porquanto, Le Roy de Mericourt, emi- nente medico da marinha franceza, e que também parece partilhar essa doutrina, teve occasião de observar no presidio deBrest, onde serviu, accidentes graves e mortaes consecutivos á deglutição inconsciente ou proposital do tal fumo, a ponto de que tornou-se proverbial e entrou na giria commum a expressão avaler sa chique, para significar—morrer. VENENOS NEURO-MYOTICOS 609 Não parece pois, essa pretendida inocuidade uma sim- ples questão de fabrico do fumo ; é antes o resultado do modo de seu uso e de certas circumstancias indivi- duaes. Si os inconvenientes daquelle péssimo e asqueroso habito não se fazem sentir de modo mais frequente e accentuado é porque elle é posto em pratica em muito menor escala, quasi exclusivamente pelos individuos de raça preta, cuja orga- nização mais robusta, e por assim dizer refractaria a certas causas de moléstia, permitte resistir muito mais á acção de semelhante vicio. Demais, em geral, elles não mascam pro- priamente o fumo, collocam-o em um ponto da bocca entre a bochecha e a arcada dentaria, e ahi o conservam, cuspinhando constantemente, de modo que o mesmo pedaço serve assim para muitas vezes. E’ propriamente ao uso do fumo queimado e aspirado que se referem as consequências assignaladas pelos que teem escripto sobre este assumpto ; ellas podem variar, dadas as mesmas circumstancias de qualidade e quantidade de fumo, bem como de tolerância individual, conforme o habito de cada um ; uns tomando o cigarro ou o charuto directamente com os lábios, outros mediante uma piteira ; outros preferindo o cachimbo. Também variam conforme a fumaça é ou não tragada antes de ser expellida. Como quer que seja, esses effeitos podem ser divididos em locaes e geraes. Os primeiros são o resultado daacção irritante do fumo sobre os lábios, sobre a mucosa da bocca e da garganta, auxiliada pelo calor mais ou menos forte transmittido pela fumaça quente, como pelo contacto directo ou indirecto do charuto ou cigarro. Dahtf o calor e a seccura da bocca e da garganta, ás vezes mesmo inflammação granulosa e ulceração destas partes ; os lá- bios sobretudo participam deste estado, e a estas circumstancias se liga geralmente grande importância, como factor etiolcgico TOXICOLOCIA 39 610 FUMO E NICOTINA na producção dos epitheliomas ecancroides desta região. A sa- livação é abundante e torna-se uma causa notável de enfraque- cimento quando a saliva é toda cuspida fóra, ou então uma causa de perturbações digestivas gastricas, quando assim im- pregnada dos princípios do fumo è ella deglutida. Os dentes revestem-se, sobretudo na face interna, de um inducto negro, si não são mesmo deteriorados, contra a presumpção geral dos apreciadores, que consideram o fumo um meio de conser- vação e asseio dos dentes. Os eífeitos geraes começam por nauseas, vomitos, cephalal- gia, vertigens, suores frios, diarrhéa, palpitações decoração, ás vezes verdadeira arrythmiacom intermittencia de pulso, outras vezes accessos de angina de peito. São estes os primeiros phenomenos que invariavelmente sentem, em maior ou menor escala, os neophytos do vicio ; não ha um só que não tenha pago esse tributo. Não obstante a impressão desagradavel e repugnante, que os estreantes experimentam, e que deveria servir de profícuo aviso para não reincidirem, elles cedem, como já disse, mais depressa ás solicitações imprudentes dos viciosos, à imitação de seus exemplos, com tanto mais disposição e coragem quanto de cada vez soffrem menos, supportam melhor o veneno, que 1 D33tle 1795 já Soemmeiúng attribuia ao uso do cachimbo a manifestação cancerosa do labio. Segundo Ro ix, Lallemand, Le Roy d'Etiolles, Rigolde Gaillec, Lebert c Bouisson, o habito de fumar cachimbo de tubo curto, (brúle gueule, em francez) basta por si só para produzir o epithelioma dos lábios e da lingua. Reichnitiz diz que em parte alguma do mundo é tão frequente o cancroide destes orgãos como na Hungria, o que elle affirma ser devido ao vicio muito commum ahi de mascarem fumo forte, e pitarem cachimbo com tubo de páo, excessivamente curto. Quasi todos os cirurgiões citam nas suas obras factos de cancros da lingua, que julgam devidos a esta circumstaucia, seja como causa determinante seja só como predisponente. O Dr. Baret ( já citado ) que não é suspeito, porque acha que o uso do fumo póde ser permittido á maior parte das pessoas, e póde mesmo ser acon- selhado (!) a mui pequeno numero, entende que deve ser formal e absoluta- mente prohiiúdo a outras ; por exemplo, ás que teem qualquer affecção da bocca. Muitas vezes placas mucosas assestadas nesta região em indi- viduos svphiliticos, tornam-se rebeldes e incuráveis emquanto elles não deixam de fumar. VENENOS NEURO-MYOTICOS pouco a pouco se vae constituindo uma necessidade adaptada à segunda natureza, creada pela força de um habito prejudicial. Ha factos mesmo de morte por occasião destas estréas no vicio, ou de apostas imprudentes entre fumantes. Cita-se, por exemplo, o de um moço que succumbiu depois de ter fumado pela primeira vez dous cachimbos ; dous outros que fumaram sem interrupção um 17 e outro 18 cachimbos, morreram ambos.1 As digestões tornam-se difficeis, laboriosas e irregulares, em virtude da acção estupefaciente exercida pelo fumo sobre a innervação gastrica, donde a paresia ou atonia das paredes do estomago, por causa da saliva queê deglutida impregnada dos principios toxicos, ainda aggravada pelaperda de toda a quan- tidade que é lançada fóra, com grande prejuízo da funcção digestiva commettida a esse liquido. E’ um facto que para mim não soffre contestação, que o fumo é uma das causas mais frequentes das dvspepsias, ou pelo menos de sua rebeldia e incurabilidade. Não creio (e o tenho dito com franqueza aos dyspepticos fumantes que me teem consultado) que elles se possam curar radicalmente emquanto não conseguirem renunciar para sempre o seu vicio. A propriedade attribuida por Trousseau a um cigarro ou charuto fumado pela manhã, de regularisar as funcções intestinaes, é a meu ver illusoria; póde-se explicar este effeito por uma questão de habito simplesmente. E1* attestado pela observação meticulosa dos factos, que o abuso e mesmo o uso prolongado do fumo acaba por occasionar uma especie ou fôrma particular de dyspepsia, chamada dos fumistas, sem desconhecer, todavia, que á sua acção se reune muitas vezes a de outras substancias não menos perniciosas , o álcool, por exemplo, cujo abuso, conforme fazem notar muitos autores, se encontra igualmente em grande numero de 1 Em Dujardin Beaumetz lè-se que Murray cita o facto de dous irmãos que foram victimas da imprudência de fumarem sete e oito cachimbos conse- cutivos. E’ provavelmente o mesmo facto, e neste caso em alguma das citações lia engano ao numero de cachimbos. 612 FUMO E NICOTINA furaistas ; porque o fumo produzindo seccura das mucosas e irritando-as, excita a sêde, ou antes a necessidade de molhar a garganta, o que elles preferem fazer com qualquer be- bida alcoolica antes do que com agua pura ; chamam a isto na giria brazileira — matar o bicho. Por isso é que os fumantes extremados são em geral também alcoolistas. Em seguida a estes symptomas sobreveem aquelles que pro- cedem de desordens mais ou menos profundas da innervação, especialmente as que se reflectem sobre o coração e os orgãos dos sentidos ; palpitações, tremores, nevralgias, um enfraque- cimento notável da memória e da vista (amblyopia nicotica), com abatimento geral de forças. Estes phenomenos que são assignalados por todos os observadores, tomam algumas vezes caracter mais grave; assim, para o lado do coração notam-se irregularidades e intermittencias, e mesmo uma verdadeira angina de peito, segundo Graves, Beau, Huchard e Peter. Este ultimo diz ter notado o fumo exercer sempre uma acção nociva sobre os doentes de lesões cardíacas. Decaisne observou numerosos casos desta natureza, e achou 21 casos de intermittencias de pulso sobre 28 fumistas ; elle denomina narcotismo (não será antes nicotisrno ?) do coração a este estado anginoso particular. Vallin, que não épessimista arespeitodo fumo, cujos males elle acredita que se tem exagerado, leu perante a Sociedade de Medicina Publica de Paris, em 1883, uma communicação importante àcerca dos effeitos do tabagismo sobre o coração ; nella refere vários casos de desordens cardíacas, imputáveis exclusivamente a essa causa. Um delles, sobretudo, mais in- teressante, é o de um official, moço e robusto, que ha um anno soffria accessos de angina do peito, que foram se tornando mais frequentes e aggravando-se e o obrigaram a recolher-se ao hospital. Ahi, Yallin o encontrou com dores retro-sternaes atrozes, entorpecimento doloroso no lado esquerdo do pescoço, angustia extrema, rosto pallido, suor frio, tendencia á syn- VENENOS NEURO-MYOTICOS 613 cope, respiração profunda e suspirosa, pulso lento e irregular (52 pulsações) com intermittencias. Arguido, por exclusão de outras condições etiologicas ou pathogenicas deste estado, sobre o vicio de fumar, respondeu que fumou muito outr’ora, mas que por conselho e prohibição expressa do medico de seu regi- mento, havia deixado completamente, desde tres mezes; o que era para elle um sacrifício tanto maior quanto seu irmão e mais cinco ou seis companheiros se reuniam todas as noutes no seu quarto, das 8 ás 11, e ahi fumavam. Estava explicada a causa da continuação e rebeldia dos phenoinenos de taba- gismo, que cessaram totalmente coma sua remoção. Ainda ultimamente o Dr. H. Favarger, escreveu um bello artigo publicado no Wiener Medizin Wochenschrift, 1887, n. 11, sobre a intoxicação chronica pelo fumo e sua influen- cia sobre o coração e sobre o estomago. Na primeira parte elle mostra a serie de perturbações a principio funccionaes em que o phenomeno dominante é a hy- perkinesia cardiaca, e depois organicas, em que se observa alguns symptomas analogos aos que se nota na myocardite chronica e na degeneração gordurosa (pulso irregular, inter- mittente, dicroto, de frequência variavel, que pôde ir de 60 a 160 por minutos). Elle teve occasião de tratar grande numero de doentes de nicotismo chronico ; em um que falleceu, praticou a autopsia e encontrou o coração gorduroso, ischemia geral e derramamento pleuritico (deve ser pericardico) ; justamente as lesões próprias da nicotina sobre o centro circulatório, segundo Germain Sée. No estomago desse mesmo individuo, que em vida tinha tido hematemese, encontrou uma ulcera de estomago. No que respeita aos orgâos dos sentidos é manifesta a in- fluencia perniciosa do uso e abuso do tabaco. Em primeiro plano se collocam as perturbações visuaes : myose, scotoma, amblyopia, e até a mesma amaurose chamada dos fumistas e mascadores, segundo attestam numerosos factos registrados nos annaes da ophtalmologia. 614 FUMO E NICOTINA Depois dos trabalhos memoráveis de Mackensie, Desmar- res, Sichel pae, Hutchinson, Wordsworth, Critchett, Yelut, Masselon, Galezousky, Ch. Martin e Fieuzal, ficou demonstrada a existência e frequência relativa de uma amblyopiade origem nicotica, que, até 1865, Cuzconãoadmittia e Follin considerava excessivamente rara. Ella se caracterisa pelos symptomas se- guintes : diminuição da visão á distancia (myopia) e confu- são das cores (dyschromatopsia) ; offerece muitos pontos de contacto com a amblyopia alcoolica, tornando-se muito difficil discriminar as duas especies nos viciosos incursos nas duas con- dições etiologicas (ao mesmo tempo fumantes e bebedores). Entre outros, porém, Ch. Martin, em uma excellente theso sobre este assumpto, 1878, estabelece os dados sobre que deve ser assentado o diagnostico differencial da amblyopia que, em taes casos, frequentemente apresentam caracteres mixtos, pela acção concurrente das duas causas, o que a torna muito mais grave. Em resumo, dizem Pécholier ( art. Dicc. de Dechambre ) e Dujardin Beaumetz, esta especie de amblyopia toxica pode ser binocular, monocularcom scotoma central, e mixta (nicotica e al* coolica). O exame do olho com o optalmoscopio mostra Io, atresia das arteriolas ; 2o, varicosidade das veias ; 3o, anemia pupillar. Não só mente a visão, mas a audição também soffre a in- fluencia deleteria do tabagismo, como se lê nas licções de Tri- quet, que já em 1863 descreveu uma otite peculiar aos fuman- tes, ainda que outros estejam convencidos que os individuos observados por Triquet poderião ser também alcoolistas. As desordens de innervação determinadas pelo tabagismo se manifestam, ora por simples vertigens, que não teem outra causa e sobre as quaes tanto insistiram Cersoy ( de Langres )e mais recentemente Decaisne ; ora por perturbações mais serias que reflectem-se principalmente sobre a funcção da circulação, e das quaes já me occupei. Não admira isso, sabendo-se que é o systema nervoso que recebe o abalo mais intenso produzido pela VENENOS NEURO-MYOTICOS 615 intoxicação nicotica, e delle é o bulbo rachidiano a parte mais rapidamente affectada. Entre as desordens de innervação, mais assignaladas, como devidas ao abuso do fumo, figura a depressão notável das funcções genitaes, que póde ir até a impotência completa nas ultimas phases do tabagismo. Além dos factos experimentaes, que parecem provar á evidencia a acção anaphrodisiaca do fumo, pretendem alguns que os nomes de herva santa e herva divina, que esta planta recebeu, originaram-se dessa proprie- dade, em virtude da qual póde qualquer, sem esforço nem sacrifício, tornar-se casto e santo. Dahi dizem outros, a razão de seu consumo em muitos conventos da Italia (!); o que» em todo o caso, de nenhum modo justificaria a lembrança original e infelicissima de Deurcaux, propondo o uso obrigatorio do fumo, nos collegios para preservar os meninos do ona- nismo (!!). Ao contrario disso devia-lhes ser expressa e severamente prohibido, imitando o que se pratica na Prussia e na Suissa» onde é prohibido o fumo a todos os menores de 16 annos. Em geral todos os hygienistas condemnam semelhante vicio nas mulheres e nas crianças. Finalmente, no que diz respeito às faculdades intellectuaes> julgo ser um facto assaz provado e reconhecido, a influencia nociva que sobre ellas exerce o fumo ; começa affectando de um modo sensivel e notável a memória, e depois, em período mais adeantado e grave do tabagismo, vem a comprometter o uso da razão, de modo que, ao lado de uma amnésia completa, sobre- vém mais tarde a serie de perturbações mentaes que caracte- risam a loucura nicotica. A este cortejo de symptomas vem reunir-se, nos viciosos mais recalcitrantes e cuja organização oíferece menor resis- tência, o conjuncto de phenomenos que symbolisam uma ver- dadeira velhice precoz e os conduzem a uma morte prematura ; o que fez dizer a Decourcelle, com espirito, em uma de 616 FUMO E NICOTINA suas formulas humorísticas \ «Fumer, absorption reciproque du tabac par Vhomme et de Vhomme par le tabac ». B — Intoxicação profissional: Esta começa, e em geral póde-se dizer que se caracterisa pela mesma serie de manifestações symptomaticas que a into- xicação por habito, tanto mais quanto os mesmos operários que se empregam nessa desgraçada profissão, que é mais um meio de morte do que de vida, são ordinariamente outros tantos fu- mantes, e assim duplamente expõem-se á influencia deleteria desse veneno que lhes mina a existência, aggravada pelas condições anti-hygienicas em que vivem. Agglomerados em salas de trabalho e commodos de dormida relativamente pe- quenos e mal arejados, si a tudo isso se junta uma alimentação insufficiente, a sedentariedade, a posição um pouca forçada que guardam todo o dia, estes infelizes não tardam a pagar o tributo dessa intoxicação lenta, ou a ser victimas de moléstias que, no concurso dessas circumstancias, encontram elementos os mais favoráveis para o seu desenvolvimento. Neste numero registram as estatísticas a tuberculose pulmonar, em cujo algarismo de mortalidade figuram com largo contingente os cigarreiros, charuteiros e outros de occupação congenere, a despeito da pretendida acção antizymotica e parasiticida do fumo, e da natureza microbiana daquella affecção. 2 Zanker descreveu com o nome de tabacosis uma pneumoconiose, que 1 Witkouski — Les joyensetés de la médecine. 2 Devo, todavia, dizer que, além de varias applicações do fumo, umas scientificas, outras vulgares e domesticas, que justificam a acção parasi- ticida dessa planta, causou-me especie um facto occorrido na epidemia de febre amarella que grassou nesta capital em 1876, e o qual consignei, com um ponto de interrogação, no meu relatorio sobre o movimento da enferma- ria que me foi confiada: e foi a tal ou qual immunidade dessa profissão, em relação aos acommettidos pela epidemia, pois, dos 237, que deram entrada na referida enfermaria, nenbum só era empregado em fabricas de fumo, ci- garra ou charutos. Esta observação não parece nenhuma banalidade por ter sido citada e rep *tida no Tratado àas febres, de Corre, que a julga digna de estudo e atten- ção ; ella está de accordo com a observação do Visconde Simeão, que diz ter verificado a acção prophylatica da atmosphera das fabricas de fumo contra certas moléstias epidemicas, VENENOS NEURO-MYOTICOS 617 lhe parece poder ser produzida pelo pó do tabaco. Em duas autopsias elle encontrou os pulmões atrophiados, e semeados de pequenas manchas escuras. Uma feição particular que esta profissão imprime áquelles infelizes é a cor macilenta especial, que resulta do estado geral dyscrasico e anémico, modificado pela impregnação da pelle à custa do pó suspenso na atmosphera insalubre dessas officinas do veneno e da morte ! E dizer-se que ellas representam um ramo importantis- simo de commercio licito e uma fonte de enorme renda para o Estado! E o Estado a constituir-se assim uma verdadeira empreza funeraria, vivendo e prosperando á custa do abastardamento e da morte lenta de seus contribuintes ! E a economia política e a hygiene administrativa a se confessarem impotentes para supprimir tão pernicioso vicio, contentando-se em regulamental-o, qual outra especie de pro- stituição ! E as armas imperiaes no tempo da monarchia, bem como as actuaes no dominio da republica, a ostentarem desassombradas perante o mundo a figurada lethifera planta, como si devessem symbolisar o reino da morte ! Que digno pendant não seria neste caso, em vez do café, um emblema por exemplo da febre amarella ! Não se póde seriamente duvidar das alterações lentas, mas profundas, que experimentam os operários das fabricas de fumo e dos seus productos, quando se reflecte que na urina delles, bem como no liquido amniotico das mulheres empregadas no mesmo mister, as analyses teem revelado a presença do alca- loide toxico. Estas ultimas são também victimas dessa into- xicação; suas funcções catameniaes perturbam-se ; se concebem, os abortos são frequentes, e, raramente levam a gestação a seu termo ; quando isso acontece, a saude dos filhos é visivelmente precaria e, em geral elles não vingam. FUMO F. NICOTINA Sei que ha opiniões contrarias, mesmo da parte de alguns hygienistas, entre os quaes Parent Duchatelet, sobretudo, que, não só contesta esta acção maléfica do fumo, mas chega a affir- mar que as fabricas de fumo são excellentes logares em que a saude não se altera de maneira alguma, etc. E’ um cumulo de optimismo que compromette a causa; ella vae de encontro ao que a própria razão calma e desapaixonada comprehende e acceita, e ao que a observação imparcial dos factos tem de- monstrado. Em um trabalho publicado, em 1880, na Revista ãe hy- giene e de policia sanitaria sobre o nicotismo profissional, (T. II pag. 900), por Jacquemart, elido no Congresso Interna- cional de Hygiene, em Turim, elle conclue que a manipulação do fumoé para as operarias uma causa frequente de partos pre- maturos ; e que ellas não devem amamentar seus filhos. Francis Jacques fez a este respeito pacientes investigações, e em uma these que escreveu sobre a Intoxicação pelo tabaco nas manufacturas—-1881, desenvolveu magistralmente este assumpto, mostrando toda a successão dos effeitos do nicotismo, que elle dividiu em primitivos e consecutivos. Os primeiros são: tosse secca e convulsiva, coryza, diarrhéa, vomitos, ptyalismo, polyuria, palpitações, cephalalgia o vertigens. Depois de 15 dias a tres semanas estabelece-se a tolerância, e no fim de um tempo mais longo, variavel conforme circumstancias diversas, sobreveem os effeitos tardios entre os quaes reapparecem a diarrhéa e os vomitos; estes são constituidos por um liquido claro, viscoso, sem acrimonia nem acidez. Confirma as obser- vações de Jacquemart sobre a saude das operarias. Muito poderia augmentar o registro das opiniões favoráveis à influencia funesta da manipulação do fumo sobre os empregados das respectivas fabricas, mas isso me levaria muito longe, e, julgo sufficientemente defendida a classificação que tem sido, com toda a razão, applicada a taes estabelecimentos: incom- modos e insalubres. Ao menos assim teem sido considerados VENENOS NEURO-MYOTICOS entre nós pelas autoridades sanitarias, que, infelizmente ainda não conseguiram obter dos poderes públicos os meios de tornar effectiva a remoção destes estabelecimentos para fóra do peri- metro da cidade, tanto inais necessária quanto elles affectam também a saude dos moradores vizinhos, como posso attestar de observação pessoal. As lesões anatomo-pathologicas nos casos de tabagismo, não variam sensivelmente das do nicotismo chronico em geral; ha porém, um signal cadavérico verificado por Grehant em suas experiencias sobre cães : é a côr rutilante do sangue e dos tecidos, que se attribue com boas razões ao oxydo de carbono, e mesmo ao cyanureto de ammonio formados durante a combus- tão do fumo. A’vista da impossibilidade de se impedir o uso habitual do fumo, que assumiu as proporções de uma calamitosa necessi- dade publica, impossibilidade reconhecida pelas mesmas socie- dades que em alguns paizes da Europa se teem organizado para a propaganda contra o fumo, resignam-se os hygienistas á regular o vicio, a aconselhar as medidas adequadas a attenua- rem o mais possível suas consequências funestas. 1. a Convém não fumar em jejum, não engulir saliva im- pregnada de fumo, e não tragar a fumaça. 2. a Comvem não utilisar pontas de charutos ou cigarros ; estes depois de apagados não devem servir mais. 3. a Convém não fumarem recintos mal arejados, sobretudo em companhia de outros fumantes. 4. a Convém usar de piteiras longas, não metallicas, para attenuar o calor da fumaça e evitar o contacto directo do fumo com os lábios, e a dissolução de seus princípios nocivos na saliva. 5. a Convém preferir o uso dos cachimbos de longo tubo, que permittem esfriar mais a fumaça e prival-a de grande parte dos princípios toxicos pyridicos resultantes da combustão do fumo, que se depositam nas paredes do tubo, sob a fôrma de 620 FUMO E NICOTINA um resíduo preto, viroso, rico daquelles princípios, e conheci- dos vulgarmente com o nome de sarro T. Debaixo deste ponto de vista é preciso confessar que os Tur- cos levam vantagem sobre os povos civilisados, com os seus cachimbos de combustor fixo e tubos de longo comprimento e muitas voltas, que a fumaça percorre depois de atravessar um reservatório d’agua, onde se lava e se priva daquelles resíduos nimiamente toxicos ; notando-se que elles tinham menos neces- sidade destas precauções, porque usam de um fumo muito fraco, e dos mais pobres em nicotina. Por isso os médicos là des- conhecem a amblyopia nicotica. Ainda mais, os mahometanos não usam de bebidas alcoólicas. Não terminarei este artigo sem consagrar aqui um preito de homenagem a um distincto collega, o Sr. Dr. Feliciano Bitten- court, que entre nós, na tribuna da Gloria, se tem esforçado com as energias do seu talento e de seu estudo para condemnar o uso do fumo, como dos mais prejudiciaes ao indivíduo e à especie, portanto, á sociedade e á humanidade. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Apezar de ser uma substancia facilmente alteravel em con- tacto com o ar, passa sem decomposição no organismo e é eli- minada em natureza, podendo encontrar-se em todos os orgãos da economia, e em todos os productos de secrecção, mesmo muito tempo depois da inhumação e da putrefacção do cadaver, segundo Melsens. Elle diz que pôde verificar, ainda no fim de sete annos (!) a existência da nicotina na lingua de dous cães que haviam sido envenenados por Stass, com duas grammas deste 1 Segundo Nothnagel e Rossbach, no cachimbo a combustão do fumo se faz com mais difliculdade, do que quando sob a fórma de charuto ou cigarro ; este queima ao contacto mais livre do ar. Daquella combustão incompleta re- sulta a formação, em maior escala, da pyridina, que é a base mais toxica da serie, e dahi o inconveniente maior do cachimbo, quando o tubo não é suffi- cientemente longo para facilitar o deposito do sarro. Quando, ao contrario a combustão é completa, e sobretudo favorecida por qualid.aije especial do fumo, o producto é principalmente constituido pela colidina, que é muito menos activa ; a cinza nesta caso é branca. VENENOS NEURO-MYOTICOS alcaloide; è verdade que esses orgãos foram assim guardados em frascos tapados, estes depois mettidos em uma caixa e enterrado s. Recolhe-se pois, para a pesquiza indistinctamenteuma porção dos principaes orgãos e liquidos do cadaver e submette-se ao methodo de Stass,que foi justamente imaginado e posto em pra- tica por este chimico para a pesquiza deste alcaloide, no processo Bocarmé (Y. pag. 107). E’ preciso, segundo o conselho dos to- xicologista, em geral, seguir exactamente o methodo executado por Stass, afim de chegar a resultados positivos e satisfactorios ; Chapuis, Tardieu, Hetêt e outros são deste parecer. Dragendorff, porém, não acha esse methodo o mais applicavel á especie em questão, em virtude da volatilidade e facilidade de perda do veneno ; na sua opinião o melhor processo para a pes- quiza de todos os alcaloides liquidos e voláteis consiste em tratar a solução acidulada com acido tartarico, pela benzina, que eli- mina as substancias estranhas e retirar depois o alcaloide, agi- tando a solução ammonialisada comether de petroleo, o mais leve e inodoro possivel. Faz-se a evaporação em vidro de relogio hu- medecido pelo acido chlorhydrico concentrado, em uma tem- peratura que não deve exceder de 30 °. O resíduo obtido é ex- aminado pelos reactivos que o autor indica em outra parte do seu livro. Reconhece-se muitas vezes o alcaloide, diz elle, quando sua quantidade é notável, pelo cheiro de sua solução no petroleo ; e, neste caso, pode-se mesmo evaporar sem ajuntar acido. Per- de-se sempre um pouco pela evaporação simples. Este processo permittiu a Dragendorff reconhecer facilmente dous centigr. de nicotina dissolvida em 100 ou 200 gramm. de liquidos encerrando matérias organicas. Chandellon descreve para essa pesquiza o methodo seguinte, que, todavia, não offerece vantagens assignaladasaos dous retro- mencionados porque, não obstante sua facil execução, dá logar àdecomposição parcial da nicotina: Submette-se á distillação em banho de chlorureto de cálcio 622 FUMO E NICOTINA as matérias suspeitas, divididas, reduzidas a uma especie de mingáo e depois alcalinisadas com hydrato de potássio ou de sodio. Mantem-se a distillação bastante tempo, afim de volati- lisar toda a nicotina. O producto recolhido é acidulado por um fraco excesso de acido oxalico e evaporado á secco. Retoma-se o residuo pelo álcool, que retira o azotato de nicotina e o separa das matérias insolúveis estranhas, notavelmente oxalato de ammonio. Filtra-se e evapora-se a solução alcoolica, cujo residuo redissolvido num pouco de agua, é alcalinisado de novo e depois agitado por duas vezes com ether. Reunem-se as duas soluções ethereas, agita-se com agua distillada para laval-as, põe-se em contacto durante 24 horas com chlorureto de cálcio, fundido, afim de tirar-lhes toda a agua e deixa-se-as evaporar espontaneamente. Obtem-se a nicotina sob a fôrma de pequenas gottas, como que oleaginosas. Quanto aos meios de caracterisar este alcaloide, são os seguintes: l.° Cheiro acre e viroso, particular. 2.0 Reacção fortemente alcalina ao turnesol. 3. Seus saes deliquescentes e difficilmente cristallisaveis, são decompostos pelas bases alcalinas e alcalino-terrosas, sepa- rando-se a nicotina. Por sua vez, ella decompõe e precipita as soluções dos saes metallicos (de estanho, chumbo, zinco e mer- cúrio, em branco ; de cobre em azul, etc.) 4. Em presença do gaz acido chlorhydrico dá, assim como a ammonia, fumaças brancas do respectivo chlorhydrato ; misturada e aquecida com o acido dà um liquido de cor ròxa. 5. O acido azotico a córa em amarello alaranjado. 6. O chloro e o bromo produzem uma côr vermelha de sangue ; pela acção da luz e do calor (temperatura de 80°) for- mam-se longas agulhas crystallinas, que desappurecem a um calor mais elevado. 7. Com o acido sulphurico puro toma uma côr vinhosa, que pelo calor, torna-se mais carregada como de bòrra de VENENOS NEURO-MYOTICOS vinlio; si se faz ferver ennegrece, desprendendo gaz sul- ph u roso. 8. O tannino fórma um precipitado branco, um pouco solúvel no acido chlorhydrico. O acido gallico dà um precipi- tado floconnoso. 9. Projectada sobre o acido chromico secco, inflamma-se com producção de um cheiro camphorado kde tabaco (Kletzinsky, citado por Dragendorff). 10. Córa em vermelho pela tintura de iodo; como tempo depositam-se agulhas de cor vermelha rubim. Roussin indica outra maneira de proceder em que o resul- tado é mais claro e sensível. Ajunta-se a uma solução etherea de nicotina seu volume de outra igual de iodo, depositam-se longas agulhas crystallinas, no fim de alguns segundos. 11. A solução de iodureto iodurado de potássio dà um precipitado amarello, que dasapparece no fim de algum tempo ; si se junta mais iodo forma-se um precipitado côr de kermes, que vem igualmente a desapparecer. 12. O iodureto duplo de mercúrio e potássio dà com as soluções neutras um precipitado branco amarellado, queadhere ás paredes do vaso sob a fórma de uma camada pulverulenta, na qual, depois de24 horas, veem-se pequenos crystaes. 13. O bichlorureto de mercúrio precipita em branco as soluções neutras, e turva sensivelmente as soluções diluídas até Viooo de nicotina. Si nesta reacção emprega-se uma solução fraca de chlorhydrato de nicotina, e o reactivo em quantidade bastante para que a mistura comece a turvar-se de modo persis- tente, depositam-se pouco a pouco grossos prismas incoloreáj Constituídos, segundo Fittig, por um sal duplo (das duas bases). 14. O chlorureto de ouro forma com a solução de nicotina fim precipitado vermelho alaranjado, facilmente solúvel em excesso do alcaloide ; na solução de seus saes, porém, o precipi- tado é amarello floconosó, difficilmente solúvel no acido chlor- hydrico. 624 CHUMBO 15.° 0 chlorureto de platina determina a formação de um precipitado branco, levemente amarellado, floconoso, amorpho, que se dissolve á quente, e se precipita de novo pelo resfria- mento sob a fórma de crystaes amarellos, microscopicos. Nas soluções acidas (com acido chlorhydrico) a reacção não se dá immediatamente, mas no fim de algum tempo deposita-se um sal duplo, crystallisado em prismas obliquos de quatro faces. De todas estas reacções, as que Chandellon considera cara- cteristicas da nicotina são as do acido chromico, do acido chlor- hydrico e a do iodo. Como complemento a este methodo de pesquiza da nicotina póde-se também recorrer á experimentação physiologica, que, todavia, por si, não fornece critério seguro para a caracterisação deste veneno. Não pensa assim Chandellon, para quem a reacção physio- logica tem uma importância tanto mais considerável quanto nem sempre se pôde obter as reacções chimicas caracteristicas , e as que se produzem muito se assemelham ás de algumas ptomainas. E’ notável, entretanto, que na descripção que dà do resultado desta experimentação praticada em rãs, segundo o conselho de Wachenfeld, não se encontram phenomenos inteira- mente peculiares á acção da nicotina, que não se possam também confundir com os de outros venenos. Envenenamento pelo chumbo Consideradas as diversas fôrmas clinicas que reveste o en- venenamento pelo chumbo ou antes pelos seus numerosos compostos, quer solúveis quer insolúveis, tem toda a razão Tardieu em dizer que elle é de todos o mais frequente, figu- rando neste computo com o maior contingente as intoxicações accidentaes e profissionaes. Limitando-se, porém, á estatística dos casos de suicidio ede veneficio, istoé, aos casos de ingestão voluntária ou criminosa, então este envenenamento é dos VENENOS NEURO-MYOTICOS 625 mais raros. Discordo porém daquelle professor quando diz que é o que acontece pouco mais ou menos com o cobre, com o qual o chumbo offerece debaixo deste ponto de vista mais de uma analogia. Já deixei demonstrado que se devem consi- derar rarissimos os verdadeiros envenenamentos occasionados por aquelle metal, qualquer que seja a sua fôrma clinica. Da legitima interpretação dos factos attribuidos á acção to- xica do cobre resulta que, em primeiro logar, a actividade toxica deste metal está longe de ser a que teem pretendido alguns autores, baseados em observações viciosas e superficiaes ; em segundo logar, o maior numero desses factos deve correr exactamente por conta do chumbo, sorrateiramente insinuan- do-se por mil fôrmas na economia, coexistindo como impu- reza ao lado do cobre, e dos metaes (estanho e zinco), que com este constituem as ligas de tão variado emprego, conhecidas pelos nomes de bronze e latão. Ninguém melhor do queArmand Gautier, no seu precioso livro sobre o cobre e o chumbo, estudou e discriminou a parte que compete a cada um destes metaes nas intoxicações, que lhes são imputadas. Elle demonstrou que, si a actividade toxica do cobre é discutivel, si não è mesmo contestável, a do chumbo impõe-se com toda a eloquência dos factos imparcial- mente observados, e cuidadosamente examinados, de modo a justificarem a sua inscripção em um dos logares mais ele- vados da relação dos venenos, segundo a lei atómica de Ra- buteau. Em dóses fortes como em dóses fracas, todas as preparações plumbicas, mesmo as insolúveis, diz Gautier, são vene- nosas ou muito perigosas ; questão de tempo. Si em peso igual ha venenos mais temiveis do que o chum- bo, nenhum ha cujas múltiplas fôrmas de absorpção sejam tão variadas, nem tão insidiosas. Elle pôde penetrar o nosso orga- nismo por todas as vias : pela pelle, e pelas mucosas broncho- pulmonar e gastro-intestinal. Absorvido em pequenas dóses, TOXICOLOaU 40 626 CHUMBO mesmo na quantidade mínima em que todos estamos expostos a receber a influencia deleteria dos compostos plumbicos, seus effeitos passam a principio despercebidos e podem serattribuidos a muitas causas diversas; elles não se declaram e se caracte- risam sinão quando as dóses do veneno excedem este limite muito variavel, que cada organismo pôde supportar. Até lá, porém, se confundem facilmente com os effeitos devidos a muitas outras causas de debilitação e deperecimento. Infelizmente os progressos da industria moderna tendem cada vez mais, em vez de restringir, antes a multiplicar o uso deste perigoso metal, no meio em que vivemos. Cada um de nós está diariamente em contacto directo ou indirecto com alguns de seus derivados; assim, nas paredes pintadas de nossas casas, nos papeis que as forram, nos moveis de que nos servimos, nos utensílios em que se guardam ou se pre- param iguarias, na louça e porcellana em que comemos, nos crystaes em que bebemos, no couro de nossos calçados, na lã e na seda de nossas vestes, nos cosméticos, nos encanamentos e depositos de agua, etc., existe o fatal veneno que os antigos alchimistas dedicaram a Saturno, e representavam pelo signo do planeta deste nome. 1 E’ isto o que fez dizer com muita verdade a Potain que nós vivemos em umaatmosphera de chumbo. Pedirei a Gautier a indicação minuciosa de todas essas cir- cumstancias em que este metal toxico se offerece à nossa ab- sorpção. Elle divide as causas accidentaes do saturnismo chro- nico em tres grupos, que podem-se reduzir a dous, a saber ingesta o applicata; os do primeiro grupo se subdividem em outros dous, alimentos e medicamentos. 1 Está denominação, que aUás ainda hoje se conservaadjectivada, para de- signar os compostos de chumbo, foi dada a este metal, ou porque o conside- ravam o mais antigo entre os metaes, ou porque lhe at ribuiam a propriedade de absorver e destruir todos os outros, em apparencia, por anilogia com perverso instincto imputado ao pae dos deusas, de quem a fabula conta que devorava os proprios filhos. 627 VENENOS NEURO-MYOTICOS A.—Ingesta—1.° Alimentos, bebidas e condimentos Pão—Fabricado com farinha contendo chumbo com que se obturam os buracos e falhas das peças dos moinhos : — cozido em fornos aquecidos com lenha feita de taboas pintadas de branco (alvaiade). Manteiga—Colorida com chromato de chumbo. Assucar—Preparado pelo processo de Scoffern ; — vasado em fôrmas pintadas de branco (alvaiade). Conservas e fructos — Envolvidos em papeis metallicos contendo chumbo : Doces—Corados com minio, ou com chromato de chumbo ; — envolvidos em papeis de aspecto achamalotado, que é plumbifero. Alimentos—Preparados em vasos estanhados (com o es- tanho do commercio, que é sempre plumbifero); — conservados em folhas ou em latas soldadas com a solda commum, que é uma liga de chumbo—(conservas alimentares, em particular peixes e substancias gordurosas); — envolvidos em papeis metallicos plumbiferos (productos de charcuterie — (comidas frias); — conservados em vasos vidrados ou esmaltados, cujo re- vestimento encerra chumbo. Agua—Demorada em reservatórios de chumbo, em contacto com o ar; — de chuva, aparada de tectos de zinco (plumbifero) ou tendo corrido em canos de chumbo ; — distillada em apparelhos estanhados. Vinhos — Concertados e adoçados com lithargyrio ; — feitos sob prensas ajustadas com peças de chumbo; — introduzidos em garrafas lavadas com grãos de chumbo, dos quaes tenham ficado alguns; — ácidos, guardados em vasos de crystal e sobretudo em vasos de louça vidrada. 628 CHUMBO Cervejas e cidras — Clarificadas e adoçadas com litliar- gyrio; — vasadas em tubos de estanho commum. Agua de Seltz — Feita com agua plumbifera, fabricada em apparelhos estanhados. Vinagre — Preparado ou guardado em vasos contendo chumbo ou metaes plumbiferos. Rhum e aguardente — Distillados e guardados em vasos de chumbo ou contendo este metal. Caídas de assucar — Clarificadas com acetato le chumbo. Chá — Guardado em caixas forradas com lamina de chum- bo, ou papel de estanho commum. Chocolate — Embrulhado em papeis de estanho. Queijos — Envolvidos em chumbo ou papeis de estanho. Caça morta à carga de chumbo — Conservada em sal- moura ou qualquer môlho acido. 2.° Medicamentos Aqui estão comprehendidas todas as preparações satur- ninas applicadas interna e externamente, e cujo uso prolon- gado ou imprudente póde acarretar phenomenos de intoxi- cação. Ao lado destas preparações, cita Gautier o subnitrato debismutho que póde conter o chumbo como impureza e occa- sionar os mesmos phenomenos. B.— Applicata ( e circnmfusa também) Habitações e embarcações—Pintadas de branco, portanto com alvaiade. Oleados ou encerados — Que servem para forrar carrinhos de crianças, e pannos adamascados com que se forram as mesas de jantar. VENENOS X EURO - M Y OTICOS 629 Combustível—Constituído por taboas pintadas. Brinquedos de criança — Coloridos com preparados de chumbo. Rapé—Conservado em botes de chumbo. Obreias—Coloridas com minio, ou com amarellode chromo (chromato de chumbo ). Cartões de visita, achamalotados, em cuja fabricação entra o chumbo. Tecidos de lã e seda—Carregados de chumbo. Rendas—Clareadas por meio do acetato de chumbo. Calçado—Feito de couro embranquecido interiormente com um composto plumbico. Louças e crystaes—Contendo chumbo, ou envernizados com esmaltes plumbiferos. Phosphoros—Decabecinhas vermelhas ou escuras, em cuja coloração entra o chumbo. Vasilhame de cozinha, estanhado. Como se vê, as circumstancias que nos expõem a absorver o chumbo são variadas e múltiplas, e por assim dizer de acção incessante ; mas, como bem diz Gautier, entre todas, a que elle considera mais grave, é o uso cada vez mais espalhado hoje do consumo de carnes, peixes, legumes e fructos conservados pelo processo de Appert, em latas de folha de Flandres, sol- dadas com uma liga plumbifera. Pondo em pratica os mais rigorosos methodos de analyse, Gautier pôde chegar a dosar a proporção do chumbo por kilo, contida em algumas destas conservas alimentares. As que en- cerram menor quantidade são as carnes, das quaes Gautier encontrou apenas traços, examinando duas qualidades ou marcas differentes. Os legumes conteem deOa5 milligrammos por kilo, e nas conservas de peixes, particularmente nas sardinhas de Nantes, elle achou de 20 a 50 milligrammos de chumbo por kilo (média 35 milligrammos). Cumpre notar que esta quan- tidade augmenta ainda com o tempo que dura a conservação, 630 CHUMBO tendo aquelle chimico praticado suas analyses e experiencias em conservas de um a tres annos. No numero das intoxicações saturninas accidentaes merece especial menção a que se origina do uso da agua potável atra- vessando encanamentos de chumbo, e sobretudo guardada em depositos forrados com este metal. Tem sido esta uma questão largamente debatida, e cuja historia e discussão mais pertence ao dominio da hygiene. Entretanto, pelo interesse do assumpto e as relações que o ligam ao estudo da toxicologia, aqui resu- mirei o que sobre elle julgo mais importante. Sabe-se que entre nós, como em Paris e em muitas das grandes cidades, as aguas potáveis percorrem em longa ex- tensão canos ou grossos tubos de ferro ; dahi são levadas e distribuidas nas casas por pequenas ramificações de chumbo. Sabe-se também que as aguas mais puras, algumas aguas de fontes, as aguas da chuva e particularmente a agua distil- lada, porém sufficientemente arejada, quando demoram em re- servatórios de chumbo, atacam este metal, graças ao concurso do oxygeno e do gaz carbonico, e podem dissolvel-o em quan- tidade sufficiente para determinar accidentes graves. O exemplo mais celebre é o do envenenamento de 13 pessoas da familia de Orléans, no castello de Claremont, em 1849, por aguas prove- nientes de uma cisterna de chumbo, e nas quaes a analyse feita por Hoffmann revelou 14 milligrammos de chumbo por litro. Faraday observou muitos casos de envenenamento saturnino lento em indivíduos que bebiam agua de chuva, apanhada da que cahia em tectos e canos de chumbo. No tribunal de Yorkshide Summer agitou-se em tempo um processo curioso, intentado por um indivíduo que ficou paralytico dos braços, e apresentou outros symptomas proprios do saturnismo chronico em consequência do uso de aguas conduzidas por encanamentos de chumbo, nas quaes a analyse revelou de 0,0054 a 0,0134 por litro, deste metal. VENENOS NEURO-MYOTICOS 631 Como estes, é provável que tenham occorrido innumeros factos, cuja verdadeira etiologia tenha passado despercebida, e não se me dá de acreditar que outra origem não teem as cólicas tão frequentes nos recem-nascidos, acompanhadas como são ordinariamente de prisão rebelde de ventre. E’ uma idéa ape- nas que offereço ao estudo e juizo dos competentes. Para melhor dar conta desta influencia do chumbo sobre a agua potável, distinguirei, com Gautier, os trescasos seguintes: 1. Demora da agua em contacto com tubos e depositos novos de chumbo— A.s pacientes investigações daquelle chimico o levaram a concluir que, nas condições as mais favoráveis, a agua de fonte ou de rio, correndo ou demorando em tubos novos de chumbo, não encerra, dissolvido ou em suspensão, quasi além de um decimilligrammo do metal por litro. 2. Demora da agua em contacto com tubos velhos de chumbo — As conclusões a que Gautier chegou são estas : a) Que a agua potável dissolve e carrega, de tubos nestas condições, uma quantidade minima do metal; b) Que esta quantidade varia com a natureza da agua ; é tanto maior quanto mais pura emais arejada é a agu? . Pôde tornar-se sobretudo perigosa com a agua de chuva ou com agua distillada ; c) Que é imprudente beber estas aguas, quando ellas teem permanecido algum tempo em tubos e depositos novos ou velhos, especialmente na presença do ar. 3. Passagem apenas da agua em tubos de chumbo, de pequena extensão. O mesmo chimico chegou em relação a este ponto, ao seguinte resultado : O simples corrimento da agua atravez de pequenos encanamentos de 20 a 30 metros, que são as condições habituaes de sua distribuição nas casas, não intro- duz na agua nenhuma quantidade apreciável do metal toxico. Chandellon resume no seguinte trecho o estado actual da sciencia sobre este assumpto : « Si bem que haja muitas vezes discordância nos resultados obtidos por diversos sábios 632 CHUMBO que se teem occupado desta questão, está hoje definitiva- mente assentado que a agua distillada e arejada forma na superfície deste metal uma camada de oxydo, do qual uma mui pequena parte se dissolve no estado de hydrato ; a inten- sidade da alteração é proporcional á quantidade de oxygeno dissolvido 11a agua, e a facilidade com que elle pôde ir sendo substituido, à medida que vae se fixando. « Sabe-se também que as aguas naturaes dissolvem 0 chumbo quando encerram nitratos, nitritos, ou matérias organicas sus- ceptiveis de produzirem por decomposição estes generos de saes; que as aguas ricas de acido carbonico, de carbonato, sul- pliato ou phosphato calcicos atacam 0 chumbo, mas não 0 dis- solvem, porque 0 metal cobre-se de um inducto branco, inso- lúvel, que não communica ás aguas propriedades deleterias sinão quando elle se destaca e é posto em suspensão; que, emfim, as aguas contendo chlorureto de sodio não atacam 0 chumbo. « Estes dados não são todavia suffícientes para estabelecer, em todos os casos, si uma certa agua, canalisada em tubos de chumbo, é ou não toxica. Segundo Dragendorff, seria preciso sempre recorrer á analyse chimica e á experimentação phy- siologica, para saber si a agua tem ou não dissolvido metal; sómente as considerações theoricas não permittem resolver a priori esta questão. » Muitos chimicos pretendem, diz Marcos Sbriziolo, que 0 chumbo, em presença dos sulphatos dissolvidos na agua potável, fica como si fosse na agua privada de ar, não é atacado ; 0 que, além de não estar provado, não se póde applicar às aguas po- táveis em geral, que não encerram sómente este genero de saes. Elias conteem outros, e além disso principios orgânicos azo- tados, que facilitam essa alteração do chumbo, e portanto a das mesmas aguas. Demais, sua composição não é sempre invariavelmente a mesma em qualquer epoca do anno, e dahi vem que podem VENENOS NEURO-MYOTICOS accidentalmente exercer esta influencia sobre o chumbo aguas até então indifferentes a este metal, que por isso Sbriziolo con- demna de modo absoluto, como material de encanamentos de aguas potáveis. Christisou diz ter verificado que uma agua limpida e pura, que circula em tubos desta natureza, acaba por conter uma proporção de carbonato plumbieo mais que sufficiente para pro- duzir alteração da saude aos que delia fizerem uso. Baruel e Merat acharam em uma agua guardada dous mezes em um deposito forrado de chumbo, 62 gram. de hydrato e carbonato deste metal. Entre nós também foi agitada esta magna questão e sub- mettidapelo governo ha 13 annos (1877) ao estudo e parecer de uma commissão por elle nomeada para esse fim, composta dos mais competentes profissionaes l. Esta commissão, ou antes uma das sub-commissões em que ella foi dividida, analysou a agua da Carioca depois de passar por um longo encanamento de chumbo (738 m.) e colhida quer antes, quer depois de entrar em um reservatório do mesmo metal; em quatro exames consecutivos os reactivos indicaram a presença de chumbo, porém na proporção infima de 0,000309, em média, por litro ! 2 Outra secção analysou a agua dos rios Santo Antonio, S. Pedro e Ouro, deixando-a em contacto com um cano de chumbo novo durante 14 dias e encontrou apenas a pro- porção de 0,002 por litro. À 3a secção encarregou-se das aguas do Jardim Botânico que haviam percorrido encanamentos de chumbo, e em nem- (1) Esta commissão compoz-se cios seguintes profissionaes: conselheiro Visconde do Rio Branco (como presidente ) e membros: Visconde de Santa Isabel, Barão de Lavradio, Barão da Villa da Barra, Dr. Moraes e Valle, Dr. Dias da Cruz, Dr. Pertence, Dr. Pizarro, Dr. Felicio dos Santos, Dr. João Silva, professor Ernesto Guignet, Máximo I. Furtado de Mendonça, en- genheiros F. Carlos da Luz, Bento Sobragy, Paula Freitas, André R,ebouças e Luiz R. Vieira Souto. (a) Ella analysou também a agua do rio Macacos, escoada por uma tu- bagem plumbica recente, obtendo em resultado 0,000696 de chumbo por litro ! 634 CHUMBO uma encontrou quantidade de sal plumbico que pudesse ser dosada. A 4a secção, finalmente, foi incumbida de analysar a agua do rio Maracanã, colhida em differentes pontos da cidade, ou guardada por prazos diversos em tubos e reservatórios de chumbo ; em 46 experiencias a maxima quantidade de chumbo encontrado foi de 0,00065 por litro ! Baseada sobre estes resultados, a commissão formulou e apresentou as seguintes conclusões, respondendo aos quesitos que lhe foram propostos: 1 .a Não ha necessidade da substituição da tubagem e dos reservatórios (!) de chumbo, que actualmente existem no Rio de Janeiro. 2.a Pôde sem inconveniente para a saude publica continuar o emprego dos tubos de derivação e reservatórios de chumbo nos trabalhos de abastecimento de agua á capital do Império. Tenho até aqui me occupado com as causas accidentaes de intoxicação saturnina ; resta, para completar esta parte, tratar das intoxicações profissionaes, que fazem tão grande numero de victimas, e cujos estragos nós observamos diariamente por assim dizer nos infelizes pintores, que pagam ao chumbo, do qual tiram custoso meio de subsistência, pesadíssimo tributo. A este respeito também Gautier discriminou tres ordens de profissões, que expõem os indivíduos á influencia deleteria do chumbo: 1 .a Profissões que os expõem á acção de poeiras plumbiferas : Fabricantes das diversas côres que teem por base preparados deste metal; fabricação de papeis pintados, de phosphoros, de esmaltes de toda natureza. Pintores de edifícios, carros, etc. Soldadores, e trabalhadores das fabricas de louça, porcel- lana e crystaes. Cardadores de fios tintos com sulphureto de chumbo, e operários que trabalham em tecidos de algodão e lã, em pellos, em rendas, e outros artigos. Lustradores de pelles e cartões de visitas. Polidores de typos de imprensa, etc. VENENOS NEURO-MYOTICOS 635 2. a Profissões que expõem a pelle dos indivíduos ao con- tacto com diversos compostos plumbicos: Fabricantes de certas tintas (alvaiade, etc.), de cartões de visita achamalotados, de louça ecrystaes, de papeis pintados e oleados ; esmaltadores e pintores sobre vidro e porcellana ; pintores de aquarella ; envernizadores sobre metaes; doura- dores, perfumistas e photographos ; trabalhadores de fabricas de seda (carregada de acetato de chumbo e lithargyrio); actores (pelos arrebiques de que se servem), etc. 3. a Profissões que poem os indivíduos em contacto com o proprio chumbo metallico: Latoeiros, fundidores de chumbo, latão e bronze, estanha- dores, espelhadores, polidores de typos, typographos, doura- dores, caldeireiros, fabricantes de chumbo de caça, lapida- rios, joalheiros e ourives, etc. De todas estas profissões, porém, comprehendendo os tres grupos, a que sacrifica maior numero de victimas ao satur- mismo é sem duvida a dos pintores, apezar de manipularem preparados insolúveis de chumbo (alvaiade, amarello de chromo); mas além de que esta arte’é exercida em larga es- cala, e portanto abrange um numero enorme de indivíduos que a ella se dedicam, elles não observam cuidado algum hy- gienico, que possa conjurar ou remover essa fatal con- sequência. Usam de uma roupa chamada de trabalho, sempre a mesma, impregnada de tintas como uma palheta, e cujo con- tacto durante todo o dia com o corpo, muitas vezes suado, dá em resultado a transformação parcial dos compostos plum- bicos insolúveis, pela acidez do suor, em productos absorvíveis pela pelle, comquanto seja esta a via mais fraca de penetração dos venenos. A absorpção dá-se, porém, em muito maior es- cala pela mucosa broncho-pulmonar e pela das primeiras vias, quando, ao sacudirem esta roupa de trabalho (quequasi nunca se lava), ás vezes nos estreitos commodos que elles habitam, impregna-se a sua atmosphera, já viciada peloconfinamento, da CHUMBO poeira metallica toxica ; esta vae sendo acarretada pela inspi- ração, e em parte deglutida com a saliva. Na opinião de M. Sbriziolo a via gastro-intestinal por si só concorre ainda mais poderosamente para esses funestos effeitos, em virtude daquella circumstancia e da facilidade com que esses individuos servem-se das mãos sujas de tintas para levarem â bocca certos alimentos e cigarros, que com as mesmas teem preparados. No tubo digestivo esses compostos plumbicos insolúveis, fa- cilmente atacaveis pelas menores influencias acidas ou alcali- nas, transformam-se em productos solúveis, absorviveis. Além do alvaiade (carbonato de chumbo), conhecem-se mais os seguintes : os oxydos obtidos por via secca, por calcinação ao ar, e que se chamam lithargyrio (quando tem sido fun- dido) e massicote (quando não o tem sido). Os diversos mi- niuns, que são também oxydos de chumbo, porém oxydos sa- linos (verdadeiros plumbatos de chumbo). Os differentes aceta- tos deste metal, e dosquaessão mais conhecidos e empregados o acetato neutro, também chamado sal de Saturno, assucar de Saturno, e o sub-acetato ou acetato básico, denominado em pharmacia extracto de Saturno. O iodureto de chumbo, o azotato e o sulphato de chumbo, etc., etc. E’ muito diífícil precisar a dóse minima dos diversos com- postos saturninos o necessária para acarretara morte. Teem-se observado accidentes sérios, porém não mortaes, produzidos pela ingestão de algumas grammas de acetato de chumbo ; ha mesmo um facto desta natureza occorrido em um moço que tomou apenas 15 centigrammos deste sal em tres dias. Taylor diz ter visto perto de 500 pessoas envenenadas em gráos differentes, por terem comido pão fabricado com uma farinha á qual se achava accidentalmente misturada uma pe- quena quantidade de acetato plumbico (1.120 grammos em 80 saccos de farinha). Um adulto morreu depois de ter bebido cerca de meio copo de vinho tirado de uma garrafa, na qual existiam alguns grãos de chumbo. VENENOS NEURO-MYOTICOS 637 Devergie cita o facto de um indivíduo a quem foram re- ceitadas pilulas de acetato de chumbo, contendo 5 centigram- mos cada uma, para tomar uma por dia. Logo com a primeira elle sentiu cólicas; com a segunda, eífeitos mais notáveis, e com a terceira, accidentes bastante graves, que despertaram a attenção das autoridades. De um modo geral, porém, dizem os autores que a quan- tidade verdadeiramente toxica deste sal, deve ser nunca me- nor de 10 granimos, comquanto não faltem exemplos, embora excepcionaes, de cura com dóses muito maiores (30 granimos e mais). Teem-se dado estes factos de ordinário porque os doentes vomitam incontinenti a maior porção do veneno. O carbonato de chumbo mesmo, apezar de insolúvel, tem occasionado alguns envenenamentos subagudos, fataes. A intoxicação saturnina pôde ser aguda ou chronica. Symptomas ; signaes clínicos A — Intoxicação aguda. Apoz a ingestão de um sal solúvel de chumbo, em geral o acetato neutro, os envenenados sentem o sabor adocicado persistente proprio dos compostos plumbicos, seguido depois de sabor styptico desagradavel, com sensação incommoda de constricção na garganta, a ponto de embaraçar a falia. Este estado é acompanhado de calor urente na bocca, no esophago e no estomago; sobreveem nauseas, nem sempre seguidas de vomitos, que nunca são abundantes, e muitas vezes faltam; quando elles se apresentam são constituídos por maté- rias esbranquiçadas, leitosas, porque encerram chlorureto de chumbo, formado no estomago; ás vezes são amarelladas, biliosas e mais raramente mesma sanguinolentas. Declaram-se então dores agudas e intensas no ventre, acompanhadas mais frequentemente de diarrhéa, nestes casos de saturnismo agudo e contra a opinião de M. Sbriziolo, ora, menos vezes, de consti- pação de ventre, que ao contrario é a regra quasi invariável 638 CHUMBO nos casos de intoxicação chronica; a matéria das evacuações é preta, devida á formação de sulphureto de chumbo, pelo acido sulphydrico dos gazes intestinaes. Entre os symptomas ligados á absorpção do veneno, nota-se diminuição dos batimentos cardíacos, e dahi grande enfraque- cimento do pulso, que chega a 40 pulsações por minuto; alte- ração dos traços, pallidez do rosto, lividez dos lábios, resfria- mento, caimbras, entorpecimento dos membros inferiores, paralysia das extremidades, anesthesia, prostração geral; as gengivas offerecem por vezes uma orla azulada, os dentes são ennegrecidos, o hálito é fétido, ea voz extingue-se. Sobreveem soluços, syncopes, convulsões e por ultimo um estupor coma- toso a que se segue a morte no fim de dous ou tres dias. Quando a terminação não é funesta, os envenenados, depois de um periodo de abatimento acompanhado de alguns pheno- menos nervosos, apresentam febre intensa, com dor persistente no epigastrio, que vem a desapparecer, ficando ainda por tempo uma dyspepsia rebelde e uma especie de apatetamento, que se dissipam lentamente. Lesões anatomo-patliologicas; signaes necroscopicos Estas lesões são pouco accentuadas, e nenhuma existe que seja caracteristica do saturnismo agudo. A mucosa das primeiras vias é amollecida, em alguns pontos rubra, escoriada em outros e coberta de um inducto brancacento ou amarellado, devido segundo alguns á formação de chlorureto ou albuminato de chumbo, segundo outros á mortificação completa das camadas superficiaes da mucosa. Raramente encontram-se os signaes de uma inflammação do estomago ; sua superfície interna deixa ver também uma substancia branca, adherente, disposta em linhas ou estrias numerosas, considerada gratuitamente por Orfila como signal caracteristico do envenenamento pelo acetato pl um bico. VENENOS NEURO-MYOTICOS 639 Os pulmões apresentam-se ora sãos, ora ecchymosados. Os centros nervosos são mais ou menos injectados. Os tubos dos rins teem se achado alterados, o que explica o phenomeno da albuminúria saturnina, comquanto esta tenha sido observada sem aquella condição pathogenica, parecendo antes depender nestes casos da alteração do plasma sanguíneo. Mecanismo da acção toxica Os compostos plumbicos, administrados em dóses moderadas, transformam-se muito provavelmente no sueco gástrico em chlorureto ou albuininato de chumbo, ou melhor em chloro- albuminato duplo de chumbo e sodio. Neste estado elle penetra na torrente circulatória, e ahi os globulos sanguíneos, mas não o serum (Milton), o transportam e o espalham na maior parte dos orgãos e tecidos, nos quaes o metal se fixa no estado de albuminato. Dahi elle não se mobilisa e não se desprende sinão mui lenta e diíficilmente para eliminar-se pouco a pouco com a bile, com a urina, e um pouco com o suor. Esta eliminação, porém, é consideravelmente favorecida pela acção de certos agentes de solubilisação chimica ou de desnutrição organica, como succede com o ioduretode potássio. Quanto aos phenomenos dynamicos, na opinião e classificação de Rabuteau, o chumbo é um veneno simplesmente muscular por causa da fraqueza e demora do pulso, do entorpecimento e paralysia das extremidades, do abatimento geral, etc. Entre- tanto, salta aos olhos que está longe esta interpretação, por demais superficial, de compendiar os phenomenos variados e complexos, as diversas organopathias que caracterisam os effeitos da in- toxicação saturnina, sobretudo na sua fórma chronica. Como bem diz Gubler, tanto é facil dar conta do modo de acção das pre- parações saturninas de momento empregadas em dóses toxicas, e que se explica em rigor pelas suas propriedades adstringentes, 640 CHUMBO coagulantes e irritantes, quanto é difficil interpretar a theoria do saturnismo chronico, até hoje obscura. Nothnagel e Rossbach confessam a grande difficuldade que offerece a explicação satisfactoria dos phenomenos devidos a este envenenamento, por falta ou deficiência de experiências sobre as alterações funccionaes queelle determina. O proprio Heubel, que fez a este respeito mm trabalho critico importante, funda toda a sua theoria na maior ou menor quantidade de chumbo que as analyses revelam nos diversos orgãos. Elle destroe assim as theorias antigas, sem estabelecer a sua sobre base mais solida. Deixando de lado a opinião de Flack e de Clarus, que attribuem os phenomenos do envene- namento plumbico a uma alteração toxica do sangue e dos humores, a um estado chloro-anemico do sangue, porquanto outras condições hematicas analogas, outras dyscrasias mais profundas do sangue estranhas ao saturnismo, não deter- minam os accidentes nervosos proprios deste envenenamento, Heubel levanta-se principalmente contra as theorias de Henle, de Hitzig e de Gusserow. Segundo Henle, o chumbo, depois de ter penetrado na tor- rente circulatória, iria exercer sobre os elementos cellulares dos tecidos a mesma acção adstringente que exerce quando appli- cado topicamente; dahi o espasmo das fibras musculares, lisas e estriadas, aquellas sobretudo, notavelmente das dos vasos. O estreitamento do calibre das artérias faria com que o sangue se accumulasse nas veias, que por sua dilatação exerceriam pressão sobre os troncos nervosos ; donde a principio arthralgia e espasmos, depois anesthesia e paralysia. As cólicas resul- tariam desta mesma contracção dos musculos lisos dos intestinos, da bexiga. Quanto aos phenomenos encephalopathicos, seriam devidos à hyperhemia venosa da cavidade craneana; Rosenstein ao contrário os attribue à anemia cerebral determinada pela contracção dos vasos. O estreitamento geral das artérias daria logar, segundo Henle, à diminuição de todas as ex- 641 VENENOS NEURO-MYOTICOS sudações liquidas e a uma riqueza maior do sangue em plasma. 1 Segundo Hitzig, as artérias seriam pelo contrario repletas, occasionando stase no systema capillar, augmento das se- creções, diminuição da massa geral do sangue, empobrecimento deste e hydrohemia. 2 Gusserow, tendo achado que os musculos encerravam grande quantidade de chumbo, admitte com Rabuteau uma alteração directa destes orgãos pelo veneno. Traube crê dever considerar os accidentes cerebraes como de origem uremica, e esta ligada por sua vez á alteração saturnina dos rins. Na sua critica Heubel parte desta idéa, em ultima analvse justa, que os orgãos e os tecidos sobre os quaes actúa de prefe- rencia uma substancia, teem para ella uma affinidade chi- mica particular, e a retem em quantidade mais notável, não fallando na parte que pertence ao sangue, como o inter- mediário obrigado, atravez do qual a substancia se dissemina nos tecidos; não fallando ainda nos orgãos de excreção, atravez dos quaes ella tem de passar para abandonar o orga- nismo. Pelas analyses rigorosas de Heubel a distribuição do chum- bo nos diversos orgãos é a seguinte : Os ossos, os rins e o fí- gado são os que encerram maior porção ; depois veem o cerebro e a medulla que conteem muito menos ; em terceiro logar, os musculos estriados e lisos, que ainda conteem menos, e final- mente o sangue, que apenas encerra traços de chumbo. Estes 1 Contra esta theoria, inteiramente hypotlietica e insuíiiciente para explicar os phenomenos do saturnismo, basta oppôr esta ponderação de que o sulpbato de ferro e o alúmen são certamente mais adstringentes do que os compostos de chumbo, e em nada se assemelha a sua symptomatologia á da intoxicação por estes compostos. 2 Esta doutrina esbarra-se deante da seguinte consideração, que justa- mente o sangue não contém sinão traços de chumbo, e este ahi se acha combinado com a albumina: ora nenhum albuminato metallico produz effeitos locaes do composto metallico em liberdade. Toxicologia 41 642 CHUMBO dados mostram positivamente que as theorias de Gusserow, do Rabuteau, e mesmo a de Henle è insubsistente einsustentável. Desde que são os centros nervosos que fixam maior quanti- dade de chumbo do que os outros orgãos, à excepção das glân- dulas e dos ossos, Heubel julga-se autorizado a admittir que é o tecido nervoso que tem maisaffinidade para o chumbo, e sendo de facto elle mais impressionado por pequenas dõses deste veneno do que outros orgãos por quantidades maiores, attribue com Tanquerel des Planches quasi todos os phenomenos toxicos à alteração da substancia nervosa. Assim, as cólicas saturninas dependeriam, na sua opinião, da diminuição dos movimentos peristalticos dos intestinos, consecutiva a um estado paralytico dos ganglios intestinaes, ou a uma irritação do nervo splanchnico ; as dores seriam pois simplesmente de caracter nevrálgico, e não resultantes de um estado espas- módico, ao qual oppõe-sejâ por si a constipação de ventre. Outros exprimem mais vagamente esta theoria, admittindo uma nevrose do plexo intestinal, que Hermann acredita ser de natureza peripherica, attendendo á diminuição da dor pela pressão moderada, quando este phenomeno nota-se muito fre- quentemente nas nevralgias de origem central. Eulenberg con- sidera a cólica de chumbo como uma nevrose mixta do plexo me- saraico e celiaco. Seja como for, esta nevralgia, ou de um modo mais geral, esta nevrose intestinal, pode bem ser explicada pela theoria de Rabuteau que a attribue à impregnação pelas molé- culas plumbicas, dos elementos anatómicos nervosos do intes- tino, e depois dos da própria parede abdominal por embebição ou pelo contacto em que se acham com essa parte do tubo di- gestivo. Em todo o caso, ficam fóra do combate varias outras theorias que teem sido emittidas para explicarem este accidente satur- nino ; taessão as que o attribuem a uma inflammação intestinal (Bordeu, Broussais, etc. ) ; à prisão de ventre e contracções violentas exercidas sobre as matérias fecaes endurecidas ( Gar- VENENOS NE UEO-MYOTICOS 643 dane, Traube, etc. ) ; à pneuraatose intestinal (Desbois, etc.); á contracção espasmódica dos musculos abdominaes (Grisolle, etc. ) ; á contracção destes mesmos musculos e do diaphragma ( Giacomini, Briquet, etc. ) Falta uma explicação clara para o phenomeno da arthralgia, que Rabuteau interpreta muito racionalmente pela impregnação das massas musculares pelas partículas plumbicas. Assim como as manifestações cerebraes não teem, para este autor, outra origem a não ser a alteração directa dos elementos cellulares nervosos pelo chumbo ; doutrina que é esposada também por Heubel. A paralysia muscular é, para Heubel, a consequência, não da paralysia ou inércia das cellulas, ou das próprias fibras musculares, mas o effeito da paralysia dos nervos motores que nellas se distribuem. O Jeperecimento ea atropina dos musculos, mais rápidos na paralysia saturnina do que nas outras para- lysias, provém das desordens de nutrição que acompanham este processo morbido. Raymond, sob a direcção de Vulpian, mostrou que os nervos musculares, assim como as raizes anteriores, ficavam inteiramente intactos na intoxicação chronica pelo chumbo. Existem ainda outras hypotheses não menos importantes, para explicarem esta paralysia, e Friedlander, por exemplo, admitte uma myosite primitiva produzida pelo chumbo, se- guida de nevrite ascendente secundaria. Zeucker, Leyden e Ferrier referem este phenomeno a uma nevrite peripherica. Yulpian, Remack e Dejerine consideram a affecção ligada a uma polimyelite anterior. Popoff, emfim, mais recentemente (1886), attribue todos os accidentes saturninos ( caimbras, anesthe- sias, paralysias, etc.) a uma myelite central aguda ou diíFusa, sem lesões do systema nervoso peripherico, como no arseni- cismo e no hydrargyrismo. Tudo isto mostra quanta obscuridade reina ainda sobre este assumpto ; não se sabe ao certo nem mesmo si a paralysia 644 CHUMBO saturnina é de origem central ou peripherica, porquanto o maior argumento em apoio desta ultima hypothese, a reacção de degeneração de Erb, não prevalece, porque se tem observado também em algumas paralysias, centraes, medullares. Em favor da primeira hypothese, entre outras razões, além da symetria com que o mal se desenvolve, conhece-se um caso bem averiguado de degeneração e regeneração dos nervos pe- riphericos (caso de Westphall, citado por M. Sbriziolo). A demorados batimentos cardiacose a lentidão do pulso são provenientes de uma acção reflexa, determinada pelas fibras centripetas do trisplanchnico. Esta intérpretação, que parece perfeitamente correcta e acceitavel, dá ganho de causa á clas- sificação de Tardieu para o chumbo, que elle separa com razão dos outros metaes toxicos, para accommodar no grupo dos agentes estupefacientes, ao lado das solaneas, virosas, etc. ; é o unico veneno metallico desta classe. Gubler resume a acção intima do chumbo nestes termos: diminuição da hematocausia e do erethismo dos capillares sanguineos, com demora consecutiva da hematopoiese e al- teração da composição chimica e da estructura dos tecidos. A anesthesia peripherica, as paralysias, o delirio e as con- vulsões reconheceriam antes por causa a alteração trophica do systema nervoso, devida à presença do metal na estructura organica respectiva; esta alteração originaria por sua vez perturbações funccionaes variadas, umas favorecidas pela anemia geral ou local, outras directamente provocadas pelos raptus congestivos mais ou menos violentos. Nos accidentes dolorosos representados pelas duas pri- meiras manifestações da fórma chronica do saturnismo (as cólicas e arthralgias), parece razoavel admittir-se com Ra- buteau que elles resultam, ao menos em parte, da acção local exercida pelas particulas metallicas que impregnam os respe- ctivos tecidos sobre as extremidades nervosas das circumvoluções intestinaese da musculatura dos membros. VENENOS NEURO-MYOTICOS 645 Diagnostico differencial A fôrma aguda do saturnismo póde-se confundir até certo ponto com as cólicas hepaticas e nephriticas, pela subitanei- dade e intensidade dos accidentes communs, sobretudo das dores abdominaes e os vomitos, alteração dos traços denotando grande soffrimento, suores frios, etc.; mas distinguem-se estas duas moléstias, do envenenamento, pela séde das dores, mais particularmente na região do figado ou dos rins, pelos vomitos muito mais constantes e repetidos, seccos ou biliosos, não apresentando os flocos ou grumos brancos, constituidos, no caso do chumbo, por um composto deste metal; o que mais se pôde evidenciar, tratando por uma dissolução de acido sulphydrico, ou de sulphureto de ammonio, que os tornaria decôr preta. Além disso, nas duas moléstias notam-se symptomas correspondentes ás desordens das funcções dos respecfcivos orgãos; assim, nas cólicas hepaticas a ictericia, de causa mecanica, representada pelo embaraço ao curso da bilis, e nas nephriticas, de phenomenos de dysuria, ou micção acom- panhada da eliminação de areias ou cálculos, etc. Em ambas, finalmente, o estado mental não soffre alteração, e não apresenta portanto os caracteres do estupor comatoso proprio do satur- nismo . E’ muito mais difficil confundir este envenenamento com uma enterite simples, ou com uma febre gastrica. Como bem diz Tardieu, a natureza dos symptomas, a dôr epigastrica muito mais intensa, a fetidez do hálito, a violência das perturbações nervosas, a marcha mais rapida, e poderia accrescentar a ausência de apparato febril na phase mais aguda dos soffri- mentos, bastam para discriminar e caracterisar a intoxicação. Entre os envenenamentos agudos só o produzido pelos com- postos cúpricos póde offerecer alguma semelhança; e ainda assim ha differenças notáveis que o afastam da intoxicação pelo chumbo. Assim, o sabor metallico e de azinhavre num caso, e CHUMBO adocicado no outro ; a listra ou orla gengival que é vermelha nos envenenados pelo cobre, azul ardoziada nos saturninos ; a matéria dos vomitos, que nestes é branca ou amarellada, o naquelles, verde ou azul, e sobre a qual a ammonia e o ferro- cyanureto de potássio, de outra o iodureto de potássio, podem revelar as reacções caracteristicas. A marcha e encadeamento dos symptomas, eas desordens especiaes do systema nervoso no ultimo caso, completariam o diagnostico differencial. Tratamento Chegado nos primeiros momentos depois da ingestão de um composto plumbico, convém sem perda de tempo fazer vomitar o doente, sendo preferivel, segundo Rabuteau, o emprego dos vomitivos vegetaes, da ipecacuanha, aconselhada por Iíasselt e outros, em logar do sulphato de zinco, recommendado por Taylor. Aqui julgo mais acertado e adopto o conselho do professor inglez, porquanto o sulphato metallico preenche neste caso a dupla indicação de vomitivo e antídoto. E’de regra preferir taes medicamentos nestas condições. Si os sulphatos. solúveis representam papel importante como antídotos dos saes de chumbo, a escolha do sulphato de zinco ou de cobre entre os vomitivos impõe-se naturalmente por este principio. Entretanto póde-se tirar partido também do emprego da agua morna simples e sobretudo da agua albuminosa e do leite, nauseante que precipita abundantemente os saes plumbicos, não fallando nas applicações mecanicas (titillação do pharynge, lavagem do estomago, etc.) No numero dos antídotos destes venenos figuram em pri- meiro logar os sulphatos de sodio (sal de Glauber) e de ma- gnésio (sal de Epson, ou sal amargo), que além de precipitarem o chumbo sob a fôrma de um sulphato insolúvel, em excesso produzem effeito purgativo, salutar, varrendo este producto do tubo intestinal, Ao lado destes dons purgativos salinos. VENENOS NEURO-MYOTICOS 647 Christison propõe o emprego do phosphato de sodio nas mesmas dóses, mas que não offerece vantagem alguma sobre aquelles dous ; forma um producto (phosphato de chumbo), segundo Rabuteau, menos inoffensivo do que o sulphato respectivo. Não me parece prudente a administração do sal de cozinha, que Mohr considera o contra-veneno mais racional e mais geral para todos os toxicos. Neste caso o chlorureto de sodio poderia dissolver o sal plumbico no estado de chlorureto duplo. Menos feliz ainda è sem duvida a idéa de applicar o alúmen e o sulphato de ferro, que apezar de serem sulphatos solúveis, poderiam occasionar effeitos irritantes e adstringentes, e mesmo nocivos na dose em que seria preciso prescrevel-os como preci- pitante chimico dos saesplumbicos. Depois dos dous purgativos salinos já indicados, os anti- dotos mais profícuos que se conhece são o acido sulphydrieo, os sulphuretos solúveis, portanto as aguas sulphurosas eo mesmo sesqui-sulphureto de ferro proposto por Bouchardat. Os primei- ros formam o sulphureto de chumbo, insolúvel, 1 e o ultimo, além deste producto, póde pelo ferro que fica livre precipitar o chumbo metallico de sua dissolução. À magnesia calcinada preenche também aqui o duplo papel que o torna um antidoto tão recommendado. 1 E’ curiosa e original a doutrina de Tardieu, em virtude da qual este eminente professor parece ligar pouco valor ao emprego do acido sulphydrieo e sulphuretos solúveis como antídotos de chumbo. «Estes corpos, diz elle, introduzidas na economia soffrem uma combustão unmediata, são rapida- mente decompostos, e tornam-se ineptos desde então a perseguir até a massa do sangue e as ultimas ramificações da rede arterial e venosa o sal plum- bico que ahi circula e determina o envenenamento (!)... « Os sulphatos alcalinos ao contrario, continua elle, solúveis, e principal- mente o sulphato de magnésio, não soffrem alteração alguma nos orgãos, são rapidamente levados para a torrente circulatória, onde sua acção decomponente sobre os saes de chumbo póde immediatamente se produzir (!!) » E’ o caso de repetir com o poeta latino: Quando que honus dormitat... Onde se viu esperar de um antidoto, isto é, de um corpo que neste caso tem por fim precipitar o veneno sob a fórma de um composto insolúvel, outro efieito que não seja impedir ou embaraçar a absorpção do veneno ? Como pretender levar a acção de um precipitante chimico até á torrente circulatória a té á intimidade dos tecidos, e cujo resultado seria contrario aos intuitos do medico, fixando ainda mais o veneno no organismo antes do què promovendo ou facilitando sua eliminação? 648 CHUMBO Quanto aos phenomenos geraes devidos à absorpção, não ha indicação especial relativa a este veneno ; a medicação é toda symptomatica, e portanto procede-se como ,nos casos em que os symptomas são ligados a qualquer influencia mórbida. Fôrma chronica.— E’ a fôrma mais com mu m ; ella é em muitos casos accidental e póde ser em alguns consecutiva ao envenenamento agudo, porém mais ordinariamente é profis- sional . Em certos casos bastam alguns dias para que os pri- meiros accidentes se manifestem ; porém, o mais das vezes, elles se apresentam só depois de alguns mezes ou mais tempo de per- manência em uma atmosphera viciada por emanações satur- ninas, ou de exercicio em uma profissão que por outro modo exponha os indivíduos à sua influencia. Os primeiros symptomas são precedidos de prodromos caracteristicos das affecções saturninas, si assim se póde chamar a pallidez, o emmagrecimento, a cor levemente ama- rella e como que subicterica da pelle e da sclerotica, coincidindo com a cor carregada das urinas; diminuição de forças, sabor adocicado e depois estyptico, hálito saburral e fétido, gengivas amollecidas ou retrahidas, descalçando os dentes, ao nivel de cujo collo vê-se nellas a orla cinzenta, azulada, designada pelo nome de listra de Burton; em logar deste phenomeno nota-se ás vezes uma côr ardosiada disposta em pontilhado fino, na face interna dos lábios. 1 Estes phenomenos que mais rigorosamente devem ser con- siderados já symptomas iniciaes da intoxicação antes do que os seus prodromos, duram ás vezes um tempo mais ou menos 1 Grehant pretende ter determinado chimicamente a natureza da matéria que produz esta côr, pelo processo seguinte: os fragmentos da mucosa buccal foram tratados pela agua oxygenada, e as manchas perderam sua côr escura, tornando-se inteiramente brancas. Depois de uma lavagem com agua dia.- tillada, a addição de acido sulphydrico diluido fez reapparecer a côr escura primitiva. Ora, sabe-se que o sulphureto de chumbo, preto, torna-se branco pela acção da agua oxygenada, convertendo-se em sulphato de chumbo, que, tratado pelo acido sulphydrico, ennegrece de novo. Dahi elle concluiu que os ditos fragmentos da mucosa buccal eram manchados pelo sulphureto de chumbo. VENENOS NEURO-MYOTICOS 649 longo, sem perturbar gravemente a saude geral dos indivíduos, até que fazem explosão os phenomenos que caracterisam a serie das manifestações profundas do saturnismo, as organopathias saturninas. Elias são de quatro ordens: cólicas, dores nos membros, paralysias e affecções cerebraes, cuja ordem de fre- quência, segundo Tanquerel, póde ser expressa por estes alga- rismos: 12: 8:2: 1. Na maior parte dos casos é pelas cólicas que começam os accidentes ; algumas vezes, porém, mais raramente são as arth- ralgias ou os phenomenos cerebraes, sobretudo as convulsões epileptiformes ou um estado comatoso que annunciam a inva- são do mal. Em casos ainda muito mais raros sobrevem, antes de qualquer outro sjmptoma, uma amaurose que se processa bruscamente ou vertigens euma cephalalgia persistente. Quasi sempre observa-se também desde o começo uma anesthesia local limitada o mais das vezes á analgesia, tendo sua séde nos braços e ante-braços. A cólica saturnina, cólica de chumbo, ou cólica dos pintores é caracterisada por uma dor mais ou menos viva e aguda,contu- siva ou dilacerante, localisada na região umbilical e irradiando- se para a região lombar e orgãosgenitaes ; ella é continua, mas sujeita a exacerbações irregulares, durante as quaes os doentes, no meio da anciedade a mais cruel, gritam e rolam na cama, opprimindo o ventre moderadamente de encontro a qualquer resistência macia ou mesmo com as mãos, porque acham nisso allivio ; sobreveem nauseas e eructações quasi sempre seguidas de yomitos biliosos ou porraceos, e ás vezes de uma verdadeira icterícia ; a prisão de ventre é rebelde, as urinas raras ou diffi- ceis. O pulso conserva-se natural, mas o rosto exprime angus- tia e soffrimento, os olhos são fundos, o ventre em geral retra- hido ; a lingua é branca, ás vezes limpa, a sede variavel, o fastio de morte. Ordinariamente estas cólicas, que duram ás vezes um a dous septenarios, repetem-se de tempos a tempos si os indi- CHVMBO viduos continuam expostos á mesma causa, e são já acom- panhadas ou seguidas de arthralgias, isto é, dores nos membros 1 (sobretudo nos membros inferiores), mais frequentemente nas massas musculares, lombares e thoracicas, porém também nas articulações, simulando as dores do rheumatismo muscular e articular. Elias são devidas igualmente á impregnação destes tecidos pelas particulas plumbicas. Em uma pbase mais adeantada da intoxicação saturnina sobreveem as desordens para o lado do systema nervoso, tra- duzindo-se por paralysia, e accidentes cerebraes diversos em geral graves e irremediáveis. A paralysia é sempre parcial e limitada a certos musculos, offerecendo este caracter particular que caracterisa a paralysia saturnina: é que nos membros, ella affecta exclusivamente os extensores, sobretudo os do punho e dos dedos. Algumas vezes outros musculos podem ser affectados, taes como os da lingua, da larynge e do thorax. Os doentes andam com o corpo curvado para deante, teem muitas vezes tremor dos lábios ; outros, aphonia, e podem vir a morrer asphyxiados pela para- lysia da glote e dos musculos respiratórios. Charcot e Gombault observaram, em um caso de saturnismo profissional, a atropbia muscular generalisada atacando um numero considerável de musculos. Ao mesmo tempo que se processa esta nevropatbia, mani- festa-se analgesia cutanea, tão bem estudada por Monouvriez, absoluta em relação ás picadas e ás queimaduras, raramente estendendo-se a todo o corpo, mais vezes limitada à sua metade direita, mais accentuada ainda no membro superior direito, especialmente na mão e no punho. Coin esta analgesia franca observa-se também anesthesia, isto é, a perda da sensibilidade táctil, sempre mais pronunciada do lado direito, sendo muito 1 Vem de apôpov em grego, que significa membro, e por vicio se tem applic tdo exclusivamente á articulação. VENENOS NEURO-MYOTICOS 651 menos vezes compromettidas as outras especies de sensibilidade (á temperatura e ás cócegas). Finalmente, como ultimo termo das desordens que caracte- risam esta intoxicação, manifesta-se a encephalopathia satur- nina, representada por uma das tres fôrmas ou modalidades cli- nicas, perfeitamente discriminadas por Grisolle conforme o syndroma dominante, sob as denominações de fôrma comatosa, delirante e convulsiva ou epileptiforme. Ora, estes accidentes apparecem bruscamente, ora são precedidos, durante alguns dias, de cephalalgia, vertigens, convulsões, apatetamento, tris- teza vaga, formigamento nos membros, etc. Algumas vezes estes accidentes se complicam, apresentando caracteres proprios de duas ou de todas tres fôrmas ; as convulsões epileptifor- mes podem ser precedidas de delirio ou de coma. Apoz varias alternativas, em que estas perturbações dissipam-se e repetem-se, de cada vez mais intensas e prolon- gadas, os doentes ou succumbem com phenomenos de asphy- xia, ou victimas de uma especie de apoplexia súbita, ou cahem em um estado de loucufa confirmada, no qual podem viver ainda alguns annos, mas são irremediavelmente per- didos. Os signaes cadavéricos peculiares a esta fôrma de intoxi- cação saturnina começam a denunciar-se logo á inspecção do habito externo, pela cor amarella terrosa, subicterica, com emmagrecimento profundo, contracturas permanentes das extremidades pela paralysia dos extensores, a listra de Burton nas gengivas, etc. Pela autopsia observa-se algumas vezes estreitamento appa- rente dos intestinos, produzido pelas cólicas violentas e repe- tidas. Nos casos em que os accidentes cerebraes teem sido in- tensos e prolongados, pôde-se achar augmento de volume e densidade da massa encephalica ; suas circumvoluções acha- tadas, apresentando uma cor amarella quasi uniforme. Os rins são a sôde de uma descamação epithelial franca nos seus 652 CHUMBO canaliculos e póde sofFrer uma degeneração correspondente á albuminúria manifestada em vida dos individuos. Estes offerecem as alterações próprias da moléstia de Bright. O diagnostico differencial do saturnismo chronico deve ser estudado em relação ás diversas organopathias que o caracte- risam; mas, em geral, nãoédifficil discriminal-o, attendendopara o encadeamento dos symptomas pathognomonicos deste envene- namento. Assim a cólica de chumbo differe do estrangulamento interno e da peritonite, com que se póde confundir, pela séde particular da dor, retracção do ventre, allivio produzido pela pressão, natureza dos vomitos, e cessação rapida dos accidentes sob a influencia de purgativos. Quanto âs chamadas cólicas vegetaes ou cólicas seccas de Madrid, do Poitou, de Devonshire, daNormandia, parece verificado pelos estudos dos mais conspi- cuos observadores, que não são outra cousa sinão as mesmas cólicas saturninas, cuja verdadeira causa passou despercebida.1 As arthralgias saturninas distinguem-se do rheumatismo chronico pela ausência de inchação das articulações, e por sua marcha muito lenta ; e das dores osteocopas da syphilis, pela ausência de exostoses, e impotência do tratamento especifico. A paralysia saturnina differença-se das de outra origem pela sua séde limitada aos inusculos extensores ; e quanto á amaurose, que também é um accidente paralytico, pela sua invasão brusca, simultânea nos dous olhos, e suas relações possiveis com as lesões renaes e a albuminúria. Finalmente os phenomenos convulsivos saturninos differem da epilepsia por seu desenvolvimento brusco, ausência de aura e de vertigem bem caracterisada, violência dos ataques e sua repetição frequente em curto intervallo, comparadas com a volta rapida e ás vezes definitiva da cura. A fórma deli- rante da encephalopathia saturnina é mais difficil de distin- 1 0 Dr. Felicio dos Santos, um dos membros da commissão acima men- cionada, no relatorio que corre impresso, faz sentir que tem observado positivamente em Minas casos destas cólicas seccas, para cuja etiologia não se póde invocar o saturnismo. VENENOS NEURO-MYOTICOS 653 guir quando se apresenta só, e é sobretudo pela marcha da affecção, que se póde discriminar do delirio alcoolico e ma- níaco. Demais, para estas diversas modalidades clinicas do saturnismo cerebral e principalmente para a forma comatosa, os commemorativos e o conjuncto da physionomia dos doentes, assim como os caracteres subictericos da urina, e a albu- minúria, com restos ou elementos anatómicos dos tubuli re- colhidos na urina, constituem poderosos meios de diagnostico. O tratamento é tão variado quanto são as manifestações mórbidas do saturnismo chronico, e não cabe nos limites de um tratado elementar de toxicologia desenvolver este as- sumpto, que pertence mais propriamente á pathologia e á clinica medica. Entretanto uma primeira indicação domina toda a therapeutica das intoxicações chronicas e portanto com legitima applicação a esta ; vem a ser promover por todos os meios, e o mais rapidamente possível, a eliminação do ve- neno . Neste sentido os diuréticos, os sudoríficos e sobretudo os purgativos preenchem directa ou indirectamente este intuito. Estes últimos são duplamente indicados, porquanto, além da propriedade expoliativa, combatem um dos phenomenos mais constantes e rebeldes do envenenamento saturnino, a constipa- ção do ventre. A eliminação do veneno é eíficazmente auxiliada e favorecida pela administração do bromureto e do iodureto de potássio, deste ultimo sobretudo, quando não pelo principio de iatro-chimica que assignala para este medicamento a propriedade dissolvente do chumbo, em virtude da formação de um iodo- sal solúvel, ao menos pela doutrina pharmacodynamica de Gu- bler, que o considera um agente poderoso de desnutrição, e como tal se encarrega de restituir á torrente circulatória as combinações metallicas retidas na intimidade dos tecidos. Uma segunda indicação que se deve ter em vista preencher é a reclamada pelo elemento dôr, que é um dos symptomas predominantes nas primeiras manifestações do saturnismo chronico, as cólicas e as arthralgias. Para isso recorre-se 654 C1IUMI50 ao emprego dos anodynos e sedativos de maior confiança, preferindo-se o chlorai e o bromureto de potássio ao opio e seus derivados, para evitara acção anexosmotica e constipante desta substancia, aqui de todo o ponto inconveniente e atê por isso contra-indicada. A tal ponto se tem sempre receiado o emprego deste medicamento, que, antes de serem conhecidos e usados aquelles outros dous, se aconselhava a própria theriaga; que apezar de ser um preparado de opio, elle ahi se acha associado a um grande numero de outras substancias que cor- rigem e attenuam consideravelmente a referida propriedade. No celebre e clássico tratamento chamado da Caridade, instituído em Paris, em 1602, pelos religiosos italianos que fundaram o hospital daquelle nome, encontra-se detalhadamente mencionado todo o formulário prescripto neste tratamento, constando as formulas de bolos, clysteres, etc. destinados a pre- encher estas duas indicações : a eliminação do veneno e o resta- belecimento das íuncções intestiuaes por meio de purgativos drásticos, e a sedação das dores por meio de applicações cal- mantes, de que fazia parte e mesmo base a theriaga, hoje com razão abandonada. Uma terceira indicação, finalmente, exigida pela paralysia e phenomenos de depressão profunda da innervação, deve ser desempenhada pelos nevrosthenicos tanto medicamentosos, como pelos de acção physica: a strychnina, o phosphureto de zinco, a electrotherapia, ahydrotherapia, etc. (duchas, banhos sul- phurosos, etc.) Quanto aos accidentes cerebraes, oppõe-se os revuisivos e outros meios, que só em cada caso particular poderão ser escolhidos, á vista da multiplicidade de fôrmas de que se póde revestir a encephalopathia saturnina. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Uma questão se apresenta aqui antes de tudo, ainda que pareça hoje peremptoriamente julgada e resolvida à luz da VENENOS NEURO-MYOTICOS verdadeira interpretação dos factos, é a que se refere ao sup- posto chumbo normal da economia. Houve quem pretendesse e admittisse semelhante doutrina, e aos nomes respeitáveis de Orfila e Devergie, que estão nesse numero, se deve ainda o alludir-se a esta questão em alguns tratados de toxicologia. Está demonstrado que, si as analyses revelam chumbo no nosso organismo, é porque é ahi intro- duzido accidentalmente pelos ingesta e applicata, já uão fallando em alguma impureza de reactivos, ou na presença também accidental do chumbo em objectos utilisados nessas analyses. Elle é um metal bastante toxico em qualquer estado ou combinação, para que possa impunemente fazer parte integrante da composição de nossos tecidos. Sómente é preciso estar prevenido contra uma causa do erro e vem a ser a possibilidade de provir o chumbo encon- trado na pesquiza toxicologica, dos accessorios que acompa- nham os corpos e em contacto com elles : caixão, roupas, flores, ornamentos diversos, etc. O chumbo póde ser pesquizado e encontrado nos cadaveres ainda muito tempo depois de sua inhumação ; as matérias que devem ser recolhidas de preferencia são, além das que existirem dentro do tubo gastro-intestinal, e das que tiverem sido rejei- tadas pelos vomitos e mesmo pelas evacuações, porções desse mesmo tubo, do figado, dos rins, do systema nervoso central, dos músculos, e um pouco de urina. Nos casos de envenena- mento chronico devem ser também examinados os ossos. A pesquiza póde ser executada directamente sobre partí- culas do composto plumbico achado no conteúdo do estomago, e nas matérias vomitadas. Recolhidas essas partículas, e conve- nientemente lavadas ou dissolvidas, podem ser submettidas aos competentes reactivos e ensaios. Mas como elles não differem dos que devem ser postos em pratica no liquido proveniente do tratamento das matérias organicas, ou no precipitado nclle formado pelo acido sulphydrico, serão indicados mais adeante 656 CHUMBO depois do estudo dos processos de destruição dessas matérias, mais adequado ao caso vertente. Não me occuparei com o processo de carbonisação directa, a fogo nú, que seria o meio mais completo, porque, segundo Dragendorff e outros, correr-se-hia o risco de perder o chumbo nessas condições de temperatura. Afora este, todos os outros processos, todos os processos chi- micos, emfim, prestam-se a este tratamento na pesquiza do chumbo, sendo mais recommendados os que se baseam no em- prego dos ácidos concentrados e da mistura oxychlorogenica. Assim o processo de Flandin eDanger é perfeitamente appli- cavel à especie, com a condição, porém, de não se desprezar o carvão sulphurico, que, do mesmo modo que para o antimonio, deve ser examinado à parte, visto como ahi pôde ter ficado retida uma certa quantidade de chumbo, no estado de sulfato, insolúvel e dificilmente ou incompletamente atacavel pelo acido nitrico. 1 Esta parte do carvão deve ser posta a ferver com uma so- lução de carbonato de sodio ou de potássio, puro, durante meia a uma hora ; lança-se num filtro, lava-se o residuocom agua, depois rega-se ahi mesmo sobre o filtro com acido nitrico di- luído. A solução filtrada é concentrada si for preciso, ou mesmo evaporada até resíduo secco, que será dissolvido por agua distil- lada, e submettido aos reactivos e ensaios apropriados. Em vez deste meio, póde-se tratar o carvão sulphurico por acido chlorhy- drico concentrado e fervendo, que dissolve o sulphato de chumbo. O antigo processo de Orfila, baseado na acção do acido ni- trico, ou o moderno processo de Boutmy em que se empregam os dous ácidos nitrico e sulfurico, como já havia sido aconse- lhado na modificação proposta por Filhol ao de Orfila, servem perfeitamente para a destruição da matéria organica na pes- quiza do chumbo. 1 0 acido sulfurico deve ser inteiramente isento de chumbo, que quasi sempre contém, proveniente das camaras de chumbo em que é preparado. VENENOS N EU RO- M YÚTICOS 657 Alguns autores, porém, dào preferencia ao processo de Fresenius e Babo, e portanto ao do Dr. Ferreira de Abreu, perfeitamente applicavel a esta pesquiza, e nos quaes o chumbo é levado ao estado do chlorureto, bastante solúvel em um meio acido e quente, como aquelle que resulta desse tratamento ; o que destroe a objecção que contra elle se tem levantado. Tardieu e M. Sbriziolo apresentam outros processos que julgam sobretudo vantajosos, quando se dispõe de uma pequena quantidade de matéria, composta em grande parte de tecidos solidos pouco embebidos de líquidos. Consiste no seguinte: Dividem-se bem estes tecidos em pequenos pedacinhos, mistu- rain-se depois intimamente em um gral com metade de seu peso de carbonato de sodio, puro e secco. Secca-se a massa que dahi resulta em B. M., tão completamente quanto possível, lança-se em um cadinho de porcellana, com tampa, de modo a occupar no máximo metade da capacidade do cadinho. Aquece-se gradualmente, seja em um pequeno forno, sejaá lampada de Berzelius, chamada de dupla corrente de ar, do maneira a evitar a intumescência e o transbordamento de massa. Depois, augmenta-se o calor até á temperatura sufficiente para fundir o carbonato de sodio. Chegado a este posto, deixa-se baixar a temperatura pouco a pouco até resfriamento com- pleto do cadinho, que se retira do forno, enxuga-se exterior- mente com muito cuidado, e introduz-se em uma grande ca- psula de porcellana contendo agua distillada, fervendo. Con- tinua-se a ebullição até que toda a massa vitrosa do cadinho seja completamente dissolvida. O liquido da capsula abandonado ao repouso durante alguns instantes é decantado com cuidado, de maneira a separar toda a porção carbonosa e salina em suspensão, deixando no fundo o residuo ou deposito metallico. Repete-se varias vezes esta lavagem, e si ha chumbo, encontram-se no fundo pequenos grãos de cor branca acinzentada, brilhantes, queéfacil juntar, reco- lher e seccar sobre uma folha de papel de filtro. Reconhece-se TOXTCJSLOSIA Í2 658 CHUMBO pelos seus caracteres physicos, e dissolve-se depois no acido ní- trico diluído para submettel-o aos ensaios e reactivos caracte- ristioos deste metal. Cumpre, porém, não esquecer, conforme já ficou dito no es- tudo geral dos processos de destruição da matéria organica, que para a pesquizado chumbo, o mais rigoroso e sensível é o imaginado e proposto por Pouchet, tão vantajosamente emprega- do e preconisado por Gautier, em que pese á opinião de Chapuis, que não julga este processo de tanta utilidade para o chumbo como para o arsénico. Além de longo e minucioso, diz elle, de- manda o emprego de uma multidão de reactivos puros, cousa sempre delicada em toxicologia. Em todo o caso, seja qual for o processo posto em pratica, obtem-se um liquido final, que se submette ainda quente, á acção de uma corrente de gaz sulphydrieo durante uma hora pelo menos ; deixa-se em repouso em vaso fechado até ao dia se- guinte para dar tempo a reunir e acamar-se no fundo o depo- sito de sulphureto de chumbo, tendo o cuidado antes,de expellir todo o chloro ou producto nitroso, que possa existir no liquido, conforme o processo de destruição empregado. Na grande maioria dos casos, sem esta precaução com o sul- phureto precipita-se também uma certa quantidade de enxofre, que perturba os ensaios ulteriores. Demais, o precipitado não é sempre immediatamente preto ; elle apparece a principio com a côr vermelha, si ha chumbo dissolvido no estado de chlorureto a favor de acido chlorhydrico, devido á formação de chloro-sul- phurèto de chumbo ; só depois é que se apresenta o sulphureto de chumbo, preto. Succede ás vezes que este sulphureto émisturado com outros sulphuretos metallicos; purifica-se-o por digestão em sulphy- drato de ammonia, que separa o grupo arsénico, e depois, por dis- solução em acido nitrico, e precipitação consecutiva poracido sul. phurico em sulphato alcalino. Com o precipitado formado proce- de-se como com o carvão sulphurico contendo sulphato de chumbo. VENENOS NEURO-MYOTICOS 659 Além disso o sulphureto de chumbo obtido è quasi sempre misturado com restos de matéria organica não destruída. Para desembaraçal-o desta impureza, Ferreira de Abreu recommenda sujeital-o ao mesmo tratamento pelo acido chlorhydrico e chlo- rato de potássio, e depois de novo pelo gaz sulphydrico. Dragen- dorff aconselha o seguinte meio : dissolve-se em acido nitrico e trata-se esta solução por um pouco de azotado de ammonio ; eva- pora-se e calcina-se o residuo em um cadinho de porcellana ; o residuo dissolve-se de novo na agua levemente acidulada por acido nitrico. Os ensaios que teem por fim pôr em evidencia o chumbo e caracterisar a presença deste corpo nos productos obtidos, são de duas ordens : por via seccae por via húmida. l.° Por via secca ou ignea (ensaio pyrognostico por meio de maçarico).— Opera-se com o precipitado de sulphureto de chumbo, como com qualquer composto solido deste metal. Se- gundo Tardieu é o methodo talvez mais commodo e mais seguro para se reconhecer pequenas quantidades de saes de chumbo ; mas exige muita pratica, muito habito de manejar esse instrumento. Para isso mistura-se o corpo com uma pequena quantidade de carbonato de sodio secco, colloca-se a mistura numa cavidade praticada em um carvão, e dirige-se sobre ella a chamma de reducção do maçarico, que forma a camada média, mais brilhante1; obtem-secomo resultado pequenos grãos bri- lhantes, de chumbo metallico, encravados no carvão e cercados de uma orla ou leve camada amarellada, constituída por oxydo deste metal. Retira-se então com a penta de um canivete a porção do carvão onde estão encrustados os grãos metallicos, 1 Além deste ensaio, podem*se executar outros em que se utilisa a chamma de oxydação do maçarico : Io, mistura-se o composto plumbico com borax, no qual introduz-se a alça formada na extremidade de um fio de platina e aquece-se na chimma exterkr do instr imento; obtem-se uma pé- rola amarelladi, que torna-se incolor pelo resfriamento; 2o, empr°gando-se em vez do borax o carbonato de sodio, nas mesmas condições, obtem-se ao contrario uma pérola clara emqnanto está quente, e que torna-se amarellada e opaca apoz o resfriamento. CIIUMBO tritura-se grosseiramente em um gral de agatha, com agua distillada, decanta-se com cautela a agua que sobrenada, e sobre elles procede-se á verificação dos seus caracteres phy- sicos (malleabilidade, fusibilidade, propriedade de riscar o papel, etc.) Trata-se depois por acido azotico diluido, evapora-se o li- quido, eoresiduo secco, formado por azotato de chumbo, dissol- ve-se na agua distillada; esta solução submette-se às reacções próprias de chumbo, que constituem o ensaio por via húmida. 2.° Por via húmida.—As reacções do chumbo podem ser realizadas sobre o liquido obtido como acima, ou directamente preparado pela acçào do acido nitrico ou chlorhydrico fervendo sobre o sulphureto de chumbo. O acido nitrico fervendo dissolve-o parcialmente le- vando-o ao estado de nitrato, e em parte também ao estado de sulphato, insolúvel, o que complica o ensaio ulterior, que todavia pode ser executado em relação a uma e a outra parte. Por isso, Chapuis prefere com razão o acido chlorhy- drico fervendo, que decompõe totalmente o sulphureto de chumbo, formando o chlorureto, bastante solúvel na agua fervendo, e que pelo resfriamento deixa depositar crvstaes daquelle sal. No liquido ainda quente podem-se ensaiar os seguintes reacti- vos: 1. Os alcalis fixos (potassa e soda) ou seus carbonatos, que dão precipitado branco de hydrato de chumbo ou de carbonato respectivo (alvaiade), solúvel cm excesso de alcali. 2. A ammonia, precipitado branco, formado por um sub- sal de chumbo, insolúvel em excesso de reactivo. 3. O phosphato de sodio, um precipitado branco de plios- phatode chumbo, insolúvel no acido acético. (Este precipitado lavado, seccado e aquecido sobre carvão nachammadeoxydação do maçarico, funde-se rapidamente em um globulo incolor, que pelo resfriamento toma exteriormente facetas crvs- tallinas.) VENENOS NEURO-MYOTÍCOS 4. 0 acido sulphurico e os sulphafcos solúveis, precipitado branco de sulphato declmmbo, insolúvel no acido nítrico a frio, solúvel nos alcalis fixos, no acido chlorhydrico e nitrico fer- vendo, e no tartrato de ammonio. Fervido com um carbonato alcalino decompõe-se, dando logar ã formação de carbonato plumbico; pelo acido sulphydrico cora em preto, conver- tendo-se em sulphureto. 5. O ferrocyanureto de potássio, precipitado branco. 0.° O tannino, precipitado amarello sujo. 7. O chromato de potássio, precipitado amarello de chro- mato de chumbo (jaune de chrôme), passando ao alaranjado pelo calor; é solúvel nos alcalis fixos, e insolúvel no acido acético e no acido azotico diluído. 8. O iodureto de potássio, precipitado amarello de iodureto de chumbo, solúvel na potassa caustica, e em um excesso de reactivo pela formação do iodureto duplo respectivo ; é também solúvel na agua fervendo, donde se precipita pelo resfriamento em bellas palhetas amarellas, brilhantes, côr de ouro e mesmo simulando perfeitamente ouro. 1 0.n O acido sulphydrico o o sulphureto de ammonio, precipitado preto de sulphureto de chumbo, insolúvel nos alcalis, nos sulphuretos alcalinos e mesmo nos ácidos diluidos ; porém solúvel nos ácidos concentrados. Com o acido nitrico, conforme seu gráo de concentração, ou forma-se nitrato de chumbo, ou uma parte do sulphureto oxydando-se converte-se em sulphato. Nas soluções acidas de chlorureto de chumbo o precipitado é primeiramente vermelho pela formação de chloro- sulphureto ; depois, continuando a reacção, torna-se preto. Em outro qualquer sal solúvel de chumbo sendo o sulphureto alcalino muito sulphuretado, o precipitado apresenta-se também vermelho escuro antes de tornar-se preto. * Põde-se obter este iodtireto crystallino, mesmo a frio, operando-se com «ma solução muito diluida e leverneute acida, deitando o reactivo gotta á gotta e sem agitação do liquido. 662 CHUMBO Em resumo, baseam-se, as reacções caracteristicas do chum- bo em precipitados de tres côres: branca, com os alcalis e seus carbonatos, phosphatos, sulphatos, mesmo chloruretos solúveis (nas soluções concentradas) e ferro-cyanureto de potássio ; amarella, com o tannino, o iodureto e o chromato de potássio, e preta, com o acido sulphydrico e sulphuretos alcalinos. Antes porém de proceder a estes ensaios, ou ao mesmo tempo que isso se faz, em outra porção do liquido póde-se pôr em pratica o methodo da substituição e o da electrolyse. 1. c O da substituição executa-se do modo seguinte: Im- merge-se no liquido uma lamina de magnésio ou de zinco (este ultimo é mais usado), bem polida, e deixa-se assim até ao dia seguinte. O chumbo deposita-se sobre o metal estra- nho, formando uma camada mais ou menos espessa, conforme a quantidade do metal; retira-se o deposito agitando-se a lamina dentro da agua quente em uma pequena capsula, ajudando-se com a raspagem por meio de outra lamina igual. Reune-se o metal assim amorpho, opaco e secco entre duas folhas de papel de filtro, e faz-se fundir á chumma de reducção em um globulo metallieo brilhante, malleavel, fusivel, riscando como lapis o papel, etc. Si se quizer póde-se proceder com este deposito, como no ensaio por via ignea. 2. O da electrolyse applicado á pesquiza do chumbo per- tence a Gusserow. Póde-se empregar, segundo este autor, o dialysador de Graham, lançando no vaso exterior agua acidulada por acido sulphurico. Duas laminas de plrtina são collocadas urna na parte inferior, outra na parte superior da membrana dialysadora, e ligados por meio de fios de platina, a primeira ao pólo positivo de uma pilha de Grove, de quatro elementos, a segunda ao pólo negativo da mesma. Esta ultima se cobre no fim de 8 a 15 horas de um inducto cinzento ou preto, de chumbo. Trata-se esta parte da lamina por acido nitrico fervendo que ataca e dissolve o chumbo, e é sem acção VENENOS NEURO-MYOTICOS 663 sobre a platina. O azotato plurabico formado é dissolvido n’agua e sujeito aos reactivos já indicados. Mayençon e Bergeret imaginaram outro processo electroly- tico mais simples e expedito, e que recommendam especialmente para a pesquiza do chumbo na urina. Consiste em mergulhar no liquido, previumente alcalinisado, um par galvanico composto de uma haste de alumínio na qual se enrola um fio de platina ; este, contendo o inducto plumbico, é submettido á acção do chloro gazoso, e depois applicado sobre diversos pontos de um papel embebido em solução de iodureco de potássio, onde deixará traçados amarellos. Póde-se também submetter o fio platino-plumbico aos vapores de acido nitrico, e passeial-o depois sobre um papel embebido na solução de um sulphureto alcalino, no qual deixará traçados de cor preta. Envenenamento 'pelo antimonio O antimonio é um corpo simples, elementar, cuja descoberta e applicações primitivas constituem uma pagina das mais inter- essantes na historia da chimica. Ainda cercada de sombras e mysteriosa própria individualidade a quem se deve a descoberta deste corpo, comprehende-se quantas duvidas e incertezas en- cerra essa historia. Todos os autores são unanimes em attribuir o conhecimento do antimonio a um alchimista celebre do fim do século XV e principio do século XVI, por nome Ba- silio Valentim, frade benedictino do convento de S. Pedro, em Erfurt, na Prussia ; porém, segundo Hoeffer, 1 das indagações a que se procedeu sobre este ponto, resulta que semelhante nome não se encontra nem na lista provincial dos benedictinos de Erfurt, nem na lista geral dos frades dessa ordem, lista existente nos archivos de Roma. Para esse historiador, pois, Basilio Valentim é o pseudonymo de um indivíduo, cujo ver- dadeiro nome é ainda ignorado. 1 Historia da chimica. 664 ANTIMONIO Entre as numerosas obras attribuidas a elle sobre o anti- monio destaca-se a que tem por titulo — Currus triumphalis antimonii, onde seu autor, tomado de enthusiasmo por esse metalloide, eleva suas virtudes, decanta seus prodígios, deno- mina-o uma das sete maravilhas do mundo, e com o seu uso pro- mette não sómente saude e gordura, mas até riqueza e fortuna. Elle dizia do antimonio, que purificava o corpo tanto quanto nos trabalhos de chimica mineralógica purificava o ouro ! Referem os autores que, com o innocente fim de engordar os seus companheiros de claustro, Basilio Valentim lhes admi- nistrava preparados desse corpo, mas seus effeitos não corre- sponderam aos louváveis e fraternaes intuitos do temerário monge, e muitos dos seus confrades soffreram as consequências dessa imprudência ; não poucos pagaram com a vida tão es- tranho interesse pelo bem-estar e gozos mundanos. Destes insuccessos, segundo alguns, provém a etymologia mais racional e mais verosímil da palavra antimonio, de anti- moine (fr.) ou anti-monaco (ital.), contra monge. Outros porém contestam esta origem, e acreditam queella vem de anti-monos (dous radicaes gregos que significam con- tra só, sósinho), para exprimir o facto de nunca achar-se este metalloide só, na natureza, e sim reunida a outros. O antimonio metallico, também chamado regulo (pequeno rei) 1 de antimonio, não é venenoso, e foi empregado anti- gamente em substancia, aproveitando-se a facilidade de sua alteração em contacto com líquidos ácidos, e a formação de pro- ductossolúveis, que desenvolvem, embora em menor escala, os effeitos proprios dos antimoniaes. Assim, de duas maneiras serviam-se os antigos do antimonio : 1 ,a Sob a fórma de pequenas balas ou pilulas, que ingeridas e postas em contacto com o sueco gástrico eram parcialmente 1 Por causa das qualidades nobres que lhe atlribuiram, e o separavam dos metaes ordinários, e pela facilidade de ligar-se ao ouro. considerado o rei dos metaes. VI•: N ENOS N E U iãO - M YO TIGO S atacadas na sua camada mais externa e depois expellidas apenas um pouco menores, porém em condições de serem colhidas, lavadas e de novo utilisadas para outros, até que se extin- guiam ; dalii o nome de pilulas eternas ou perpetuas, verdadeiras pilulas de família. 2.a Sob a fórma de copos e cálices, quer só, quer unido ao es- tanho nos quaes se dava a beber vinho branco ou pouco tinto, que depois de algum tempo de demora nestes vasos, adquiria propriedades vomitivas, devidas A formação do tartaro emetico, pela reacção do cremor de tartaro (bitartarato de potássio), que existe na composição natural do vinho sobre o antiinonio ; eram por isso chamados copos emeticos (pocula emetica ). Todos os compostos antimoniaes gozam em maior ou menor escala da mesma acção geral ou dy na mica sobre a economia, sendo que o mais activo de todos elles, o mais importante, o que serve de typo ao grupo, ó o tartaro stibiado ou tartaro emetico. Este corpo é duplamente emetico, não só debaixo do ponto de vista therapeutico, como agente vomitivo, como debaixo do ponto de vista chimico, como tartrato duplo de um metal alcalino e um radical oxygenado de atomicidade correspon- dente. Dá-se em chimica organica o nome de emetico a todo o corpo que tem esta composição, independente de sua acção therapeutica. Dahi vem que se o tartrato duplo de potássio e anti- monyla é emetico por constituição chimica, e por acção me- dicinal, outros emeticos ha que são purgativos (tartrato borico-potassico ou cremor de tartaro solúvel), e ainda outros que obram como tonicos e reconstituintes (tartrato ferrico- potassico), etc. Os compostos de antimonio são em grande numero, e todos teem recebido nomes particulares, com que em epoca remota sobretudo foram mais conhecidos; são os seguintes: o protoxydo (flores fixas de antimonio), acido antimonioso 666 antimonio (neve ou flores argentinas de antimonio), acido antimonico (matéria perolada de Kerkringer), proto-sulphureto (vidro ou fígado de antimonio, crocus metallorum, etc.), oxysulphureto hydratado (kermes mineral); persulphureto (enxofre dou- rado de antimonio), bi-antimoniato de potássio ou antes bi- meta-antimoniato de potássio (impropriamente chamado ainda hoje oxydo branco de antimonio, antimonio diaphoretico, etc.); tri-chlorureto (oleo ou manteiga de antimonio), etc. Todos estes compostos são em geral pouco solúveis, ou mesmo insolúveis em agua 1; o ultimo decompõe-se nella formando um corpo branco insolúvel: o oxy-chlorureto de antimonio, mais correctamente o chlorureto de antimonyla, outr’ora designado pelo nome de pós de Algaroth. O chlorureto de antimonio é medicamento cáustico e corro- sivo, e como tal tem sido empregado só externamente. Os outros compostos antiinoniaes são pela sua insolubi- lidade quasi privados de acção local apreciável; quando in- geridos são parcialmente decompostos pelos suecos gastro-in- testinaes, e a parte solúvel absorvida determina effeitos geraes que se approximam dos do tartaro emetico, também chamado sal de tartaro de Mynsicht, do nome do chimico a quem se attribue sua descoberta. Este, que é o unico bastante solúvel na agua, sem de- composição, goza de dupla acção: Leal e geral. Como topico é empregado externamente incorporado à banha, na compo- sição da pomada chamada stibiada ou de Autenrieth, e todos sabem os effeitos locaes desta applicação sobre a pelle, pro- duzindo queimaduras com ulcerações largas e profundas, muito dolorosas e de difficil cicatrização. Diluido na agua ou em algum vehiculo apropriado e em 1 Sobretudo os oxydos e os sulfuretos, que por isso Chandellon con- sidera, mesmo em doses fortes, incapazes de produzirem um enve .enamento agudo. Qu .ndo muito, seu aso continuado por muito tempo pode occasionar imoxicação chronica ; notando-se, porem, que estes compostos sao algumas vezes arsenicaes, e neste caso não admira que possam dar aqueile resultado* VENENOS NEURO-MYOTICOS 667 dóse conveniente constitue um medicamento preciosissimo e muito vulgarizado, cujos effeitos podem ser simplesmente vomitivos, emeto-catharticos, ou então deprimentes e contra- estimulantes, conforme a dóse e o modo de administração, que aqui não é o logar de discriminar. Em todo caso, si de um modo geral o envenamento mortal pelo tartaro emetico tem sido relativamente raro, sobretudo com fim criminoso, não é menos verdade que são muito mais frequentes do que se pensa os accidentes graves occasionados pelo uso que se faz desse medicamento, e não poucas vezes a morte tem sido a consequência da administração intempestiva do chamado vomitorio de tartaro, sobretudo tm crianças, ou mesmo em adultos pelo facto de uma susceptibilidade indivi- dual exaggerada. 1 Em certos casos o tartaro emetico tem sido ingerido também com intenção suicida. Os envenenamentos criminosos que a sciencia registra por este agente, se teem dado sobretudo na In- glaterra, onde ultimamente foram julgados dous processos cele- bres, em que foram réosdous médicos: Palmer e Pritchard. Por aqui se vê quanto é difficil a respeito do tartaro, mais do que de outros agentes, determinar os limites de dóses medicinaes e toxicas. As primeiras teem sido levadas segundo o methodo chamado rasoriano até uma gram. e mais por dia, em casos de resistência excepcional communi- cada por certas moléstias ; dóses essas que no estado normal são já de sobra para produzirem envenenamentos mortaes. Taylor diz com razão que, nesse estado, deve-se considerar a dóse de 10 a 12 centigr. tomados de uma só vez por um adulto, como capaz de acarretar a morte. Segundo No- 1 Eu já observei um destes casos de intolerância manifesta ás menores doses de tartaro em um individuo adulto, em quem um vomitorio com a dóse miuima ordinaria deste medicamento, para tal eifeito, occasionou um verda- deiro envenename to, que p >z em risco sua vida. Por outro lado, certos estados morbidos estabelecem uma tolerância extraordinana e excepcional, para dóses elevadas de tartaro, são sobretudo as pneumonias, o tétano, e até mesmo a choréa. 668 ANTIMONIO thnagel o Rossbacli, cinco centigr. e lima dóse ainda menor pôde ser sufficiente para dar este resultado, principalmente si a actividade cardíaca do indivíduo é enfraquecida por uma causa qualquer. Elles admiram-se que antigos médicos tenham prescripto a seus doentes atacados de moléstias febris, até 15 grammas de tartaro, sem determinar acci- dentes, mas não negam a possibilidade destes factos, comquanto não sejam cercados de garantias completas ; é possível, dizem elles, que, debaixo da influencia de uma febre intensa, a mucosa digestiva não tenha absorvido o veneno sinão em pequena quantidade, ou então que o systema nervoso tenha reagido differenternente do estado normal, ou emfim que o veneno tenha sido em grande parte vomitado. Como quer que seja, ó uma grande imprudência administrar taes dóses; é preciso convir nisso, sobretudo hoje que se conhece melhor a acção do tartaro emetico, e que se sabe que elle pôde occasionar consequências gravíssimas. Diz Gubler que, longe de indicar um modo de acção novo da parte do tartaro, a tolerância não significa outra cousa sinão o abatimento da economia, determinado pela moléstia ou pelo remedio, ou pelas duas circuinstancias a um tempo; e nessas condições, não impede a continuação dos seus effeitos ordinários e fundamentaes sobre os orgãos digestivos e o resto do systema, a saber : o estado nauseoso, a hypercrinia da mucosa digestiva e das glandulas annexas, o collapso do coração e dos musculos voluntários, o resfriamento, etc. Para esse professor a tolerância nunca se observa de chofro em indivíduos sãos ou cujo estado de forças seja satisfactorio ; salvo os casos de anesthesia da mucosa gastrica, e certas desordens de innervação, só se observa em indivíduos esgotados, ou cujas grandes funcções são profundamente perturbadas por uma affecção geral de natureza virulenta ou séptica, ou por lesões graves de orgão ou apparelho essencial á vida. Segundo Yan Hasselt, teem-se observado symptomas de VENENOS NEURO-MYOTICOS 669 intoxicação grave apoz a ingestão de 0,65 a 1,30, e mesmo de 0,195 a 0,26 de tartaro emetico. Em crianças a morte já tem sido a consequência da administração de 5 centigr. deste corpo; Tardieu e Taylor dizem ter visto um facto desta natureza. Marcos Sbriziolo cita o facto de um robusto enfermeiro do hospital Pammotone, de Génova, que suc- cumbiu em poucas horas, depois de ter tomado um vomitorio de tartaro, com 10 centigr. desta substancia. Em compensação contam-se outros factos extraordinários, como de uma moça, de que falia este ultimo autor, que in- geriu por engano uma colherinha (das de chá) de tartaro ; foi atacada de enterite, perdeu os cabellos, mas restabele- ceu-se no fim de tres semanas. O envenenamento póde ser agudo ou chronico. Symptomas ; signaes clinicos Fôrma aguda. Alguns minutos, um quarto de hora, ou meia hora depois da ingestão do tartaro, o paciente accusa um sabor metallico desagradavel, tem nauseas e vomitos abundantes e repetidos, acompanhados de dores epigastricas violentas, e logo depois evacuações alvinas liquidas e copiosas, ás vezes umas e outras com sangue ; além disso, sensação de calor urente na garganta e difficuldade de engolir ; o ventre é ora flaccido, retrahido, ora meteorisado. Em pouco tempo os phenomenos geraes da absorpção co- meçam a manifestar-,se ; apparecem lipothymias, syncopes e um estado de grande agitação. Os movimentos cardíacos e re- spiratórios são por momento rápidos, mas já enfraquecidos, de- pois retardam-se; o pulso torna-se pequeno, miserável, quasi insensível. As urinas são raras, e mesmo supprimiJas, as extremidades se resfriam, a pelle torna-se cyanotica ; sobre- vém prostração extrema, impossibilidade de movimentos, tremores nos lábios e nas extremidades, caimbras, ás vezes 670 ANTIMONIO algum delirio, convulsões, e morte por parada da circulação, no fim de oito a doze horas nas crianças, e de um a seis dias nos adultos. Nos casos mais agudos os symptomas se asse- melham pouco mais ou menos, como os do arsenicismo agudo, aos da cholera-morbus (algidez ou cholera stibiada). Em certos ca os, por effeito de dòses muito altas, não se observam vomitos, nem outros phenomenos iniciaes indicados, e os symptomas limitam-se a evacuações alvinas, anniquilamento extremo, algumas convulsões e a morte como que por side- ração e parada da circulação; seria uma fôrma latente ou anómala do stibismo agudo, analoga á que Tardieu descreve em relação ao arsénico. Si a terminação fatal não é tão rapida, depois do quinto ou sexto dia começam a apparecer pelo corpo, em diversas regiões, uma erupção vesico-pustulosa, semelhante á que é o resultado da applicação da pomada stibiada, e que por sua vez offerece todos os caracteres da erupção variolica (é o stibialismo cutâ- neo, exanthema ou ecthyma stibiado); ella se manifesta sobretudo nas partes genitaes, nos membros, nas costas, e a evo- lução das pustulas se processa exactamente como as da va- ríola, com a differença de que não são acompanhadas de apparato febril. Quando as pustulas são muito grandes, ás vezes, em vez de seccarem formando crostas que se destacam, deixando apenas marcas, permanentes ou não, rompem-se e transfor- mam-se em ulceras suppurantes, profundas, dolorosas, ás quaes succedem cicatrizes indeleveis e até viciosas. O mais das vezes, diz Tardieu, os indivíduos envenenados por uma só dose de tartaro emetico escapam á morte. A abun- dancia e a subitaneidade dos vomitos, que seoppoem á absorpção do veneno, e a reacçãoque póde-se operar bastante rapidamente, limitam os phenomenos de envenenamento a seu primeiro pe- ríodo. Pouco a pouco vae cedendo o abatimento, as forças vão lentamente se restabelecendo, a face torna-se animada, a lín- gua vermelha, o pulso mais cheio, duro e frequente, e a pelle se VENENOS NEURO-MYOTICOS 671 reaquece. Resta apenas alguma dor no estomago, cephalalgia e uma sensação contusiva geral ; mas estes accidentes desap- parecem pouco a pouco, e a cura se opera em oito ou quinze dias. Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos O exame do cadaver, nos casos de stibismo agudo, não fornece sempre dados positivos; entretanto as lesões mais importantes são aquellas que se podem encontrar no tubo digestivo; consistem na hypertrophia dos folliculos, ou mesmo em uma erupção pustulosa an-iloga á que se observa na superfície cutanea, com amollecimento e exsudação crupal na mucosa das primeiras vias, sobretudo na que forra o intestino. Nota-se ás vezes rubor inflammatorio mais ou menos vivo debaixo da fôrma de placas, ou de pontilhado, como revelou a autopsia das mulheres envenenadas pelo Dr. Pritchard, na Inglaterra ; outras vezes são extravasa- ções sanguíneas sub-mucosas (Rayer), eaindaem outros casos verdadeiras hemorrhagias (Trousseau), com amollecimento e ulcerações da mucosa (Tardieu). Tem-se encontrado sobre a superfície da mucosa gastro-intestinal um inducto enne- grecido espesso e viscoso, e por vezes sanguinolento. O fígado é ordinariamente volumoso e pôde mesmo apresentar um certo gráo de degeneração gordurosa. O baço tem sido achado também augmentado de volume, e de as- pecto marmoreo, com manchas pretas. Os pulmões são muitas vezes congestionados, e em alguns casos mesmo deixam ver verdadeiros infarctus apopléticos ; a mucosa das vias aereas é rubra. Magendie insistiu sobre estes phenomenos pulmo- nares que elle verificou sempre, de modo constante, nas suas experiencias em animaes ; mas, ainda elles não teem significação caracteristica em relação a tal envenenamento, porque se observam frequentemente em outros* 672 AISTIMONIO Para o lado do encephalo nota-se infiltração serosa, con- gestão das meningeas, congestão e arnollecimento da sub- stancia cerebral, que pôde apresentar pontos gangrenados, como em um caso referido por Sbriziolo. O coração não offerece alteração alguma apreciável, além da steatose, nos casos de stibismo clironico; diz-se que suas cavidades são vazias, que o sangue é negro e fluido, ou pelo menos incompletamente coagulado. Os globulos vermelhos se apresentam ao microscopio dissociados ; a matéria corante rapidamente se separa e forma crystaes de hemoglobina, como com o arsénico. Nos casos de intoxicação lenta, então ainda menos accen- tuadas são as lesões cadavéricas, e podem ser mesmo nullas, conforme já foi verificado algumas vezes; no habito externo se reconhecerá a erupção própria do stibismo cutâneo, notando-se que em uma das observações referidas por Sbriziolo, de enve- nenamento agudo, ella se mostrou com o caracter de uma erupção escarlatiniforme. Diagnostico diferencial A marcha e as manifestações mórbidas do stibismo agudo não se distinguem facilmente das que resultam do envenena- mento agudo pelo arsénico e pelo cobre 1 ; porém o sabor metallico especial, que não é o deste ultimo, a violência menor dos symptomas, a natureza particular da erupção, a terminação menos vezes funesta, seriam, na opinião de Tardieu, os melhores caracteres a invocar em favor da intoxicação anti- monial, sem lhes dar todavia valor absoluto. Quanto á forma lenta desta intoxicação, consecutiva a dóses pequenas e continuadas por algum tempo de qualquer composto 1 Menciono aqui o cobre, sem dever talvez fazsl-o, porquanto si se refere ás tintas verdes do commercio, então é ao mesmo arsénico que ellas devem sua acção toxica, e si se trata dos saes puros daq ielle metal, então os symptomas que ejles desenvolvem são talvez bastante differentes. VENENOS NEUllO-MYOTICOS 673 antimonial, afFecta uma marcha insidiosa, que a torna mais difficil de reconhecer e debellar. E’ a esta fôrma que se referem os factos mais notáveis ultimamente registrados de veneficio por este agente, e cujos svmptomas foram perfeitamente descriptos por Taylor, que teve occasião de os presenciar. Os principaes são os seguintes : nauseas prolongadas, vomitos de matérias mucosas e biliosas, um grande abatimento, evacuações diarrheicas, alternando com a constipação de ventre, pulso pequeno, frequente, rosto pallido, a voz e a força muscular por assim dizer perdidas e extinctas, a pelle fria e coberta de suores viscosos, syncopes e a morte no meio de um anniquila- mento completo. Também foram observadas as erupções ca- racteristicas e um certo gráo de icterícia. A marcha destes symptomas é sujeita a remissões de duração variavel, ea recahidas repetidas; assim, arrastam os infelizes alguns mezcs de soffrimentos cruéis ató que succumbem, sem agonia, apoz algumas convulsões. Mecanismo da acção toxica A absorpção do tartaro emetico, difficil pela pelle intacta que lhe oppõe sua camada epidérmica, opera-se facilmente atravez da pelle denudada ou ferida (methodo endermico), e de todas as mucosas, particularmente da mucosa gastro-intestinal, sem que seja necessário invocar a transformação prévia em chlorureto de antimonio, como queria Mialhe, nem a formação de hydrogeno antimoniado, pelo hydrogeno nascente da fermentação dos ali- mentos, como quer Bellini. Sabe-se com effeito que apezar das numerosas incompatibi- lidades do tartaro emetico, invitro, o liquido acido do estomago não o decompõe sinão difficilmente e os líquidos alcalinos dos in- testinos também só o decompoem com muita lentidão. E’ preciso notar ainda que todo o tartaro introduzido no estomago não é absorvido; uma grande parte é rejeitada pelos vomitos, outra TOXICOLOCÍU -Í3 674 ANTIMONIO muito menor é decomposta, e tornada insolúvel é expellida com as fezes. Este destino tem igualmente parte do tartaro injectado debaixo da pelle ou directamente no sangue, por isso que eli- mina-se em parte atra vez dessa superfície. A eliminação final, porém, e em maior escala, se effectua pelas urinas ; faz-se tam- bém pelo suor, pela saliva, e até pelo leite. A esta eliminação atravez da pelle e da mucosa do tubo di- gestivo liga-se a propriedade ecthymogenica do tartaro, se- gundo a expressão de Fonssagrives, isto é, aquella em virtude da qual se processam as erupções de ecthyma stibiado, cutâneo e gastro-intestinal, propriedade que elle só admitte, por acção directa, por applicação tópica das preparações stibiadas, e não pelo seu uso interno ; nega absolutamente este facto, aífirmado por quasi todos os toxicologistas, e perfeitamente consentâneo com o phenomeno idêntico geralmente admittido relativo á eli- minação de outros venenos. Quanto á pustulação stibiada da garganta, dada como signal de saturação antimonial e como prova de erupção consecutiva, o citado professor de Montpellier a considera também de causa local, e tem deixado de a observar nos casos mesmo de uso prolongado do tartaro emetico, desde que adoptou a pratica de fazer os doentes gargarejarem com agua pura, logo depois da ingestão de cada dóse. Gubler por sua vez também duvida que o tartaro em dóse therapeutica, e eliminado mesmo em proporção notável, possa determinar phenomenos phlegmasicos para o lado da pelle, ou dos orgãos urinários. Com mais forte razão diz elle que não póde admittir o facto da pustulação secundaria, tanto na pelle como na mucosa digestiva, como consequência da pretendida saturação antimonial, sendo tão facil de explicar na sua opinião esse facto pela acção irritante local e immediata do tartaro, de qualquer modo posto em contacto com essas superfícies. E’ ainda a esta acção local, mais do que á acção geral, que o illustre professor de Paris liga maior importância para explicar VENENOS NEURO-MYOTICOS 675 os phenomenos toxicos e a morte nos casos de stibismo agudo ; esta é para elle a consequência de uma verdadeira gastrite, o que é mais raro, ou de ulcerações circumscriptas da mucosa, complicadas de gangrena e de peritonite localisada ! quando é certo que, segundo Rayer, Grisolle, Strambio, Taylor, Beau e outros observadores, algumas vezes o envenenado succumbe aos effeitos da cholera stibiada, isto é, á enorme espoliação serosa, e anniquilamento rápido de forças por essa perda e pelos esforços dos vomitos, sem apresentar nenhuma alteração ana- tómica séria das primeiras vias. Muitas outras vezes, quasi sempre para não dizer sempre, conforme se exprimem Nothnagel e Rossbach, a morte resulta da paralysia cardiaca brusca, da parada do coração em diás- tole e syncope consecutiva. Sem negar absolutamente esta acção hypocynetica cardio-vascular, especialmente do cora- ção, Gubler julga-se autorizado a não conferir importância real sinão aos effeitos topicos sobre o tubo digestivo, e ás sympathias que elles despertam no resto do organismo. Respeitando esta theoria singular e extravagante do no- tável professor, tendo em consideração as divergências que sobre este assumpto ainda reinam na sciencia, sou levado a guardar reservas, e nutrir serias apprehensões de que al- guma parte do mecanismo da acção toxica do tartaro eme- tico deve ser encontrada no sangue, ou então nenhuma sobre este liquido exerce o arsénico ; tal é a analogia immensa que existe entre este metalloide e o antimonio debaixo de qual- quer ponto de vista que se considere, que elles não podem figurar em grupos tão diversos na classificação toxicologica; aquelle como um hematico globular, este como um neuro- myotico (nevro-muscular), quando ambos determinam pheno- menos choleriformes, perfeitamente semelhantes, sinão idên- ticos. Mais fortalecem e corroboram esta minha idéa, as opiniões que alguns observadores teem avançado a tal re- speito e neste mesmo sentido Koschlakoff e Bogomaloff, diz 676 ANTIMONIO Sbriziolo, observaram effeito igual ao doi dous venenos sobre o sangue. Já Miallie havia admittido a hypothese de que os an- timoniaes produzem no sangue um composto insolúvel, em- baraçando ou impedindo as transmutações organicas. Outros acreditaram mesmo na reducção da hemoglobina pelo antimonio, ainda que sem provas demonstrativas, como também não existem a respeito do arsénico, não obstante ser ainda considerado um veneno hemato-globular. Bellini e outros interpretam a acção hematica dos dous venenos, bem como a do phosphoro, pela diminuição e disso- ciação dos globulos sanguíneos, e formação rapida no sangue de crystaes de hemoglobina. Ainda mais, como bem diz Fons- sagrives, o tartaro emetico, em doses continuadas, ô susce- ptivel, como o arsénico, de produzir uma especie de cachexia, cujo traço constante é representado pela steatose visceral, em particular do coração e do fígado. Esta cachexia stibiada se acompanha de albuminúria segundo Nobiling, e acarreta a deformação dos globulos sanguíneos, segundo Barbarau. Quanto á influencia do tartaro emetico sobre o systema ner- voso, é patente. Em uma primeira phase (dóse therapeutica) este veneno solicita o poder excito-motor da medulla, dos nervos espinhaes e dos nervos ganglionares, e por elles todo o systema vaso-motor. Em uma segunda phase (dóse toxica) elle deprime o poder destes mesmos nervos, como faz também o arsénico, e esta de- pressão se manifesta especialmente com enfraquecimento respi- ratório e cardíaco, até á parada deste orgão e daquella funcção. Cumpre notar que a parada não depende propriamente da acção do veneno sobre o systema central, porque dá-se mesmo nas experiencias em que a medulla é destruída (Naunyn). A fraque- za respiratória depende para uns da desordem de innervação central; para outros, porém (Bucheim, etc.), de uma influen- cia directa exercida sobre o systema muscular, parecendo VENENOS NEURO-MYOTICOS mais razoavel que as duas acções concorram para este effeito. Em todo caso, porém, releva ponderar que este effeito pa- ralytico sobre o coração, e o System a muscular em geral, não procede, como pretendia Nobiling, da presença do potássio na composição do tartaro emetico, porquanto o mesmo resultado se observa com o tartratode sodio e antimonio, e com o tartrato simples de antimonio. Tratamento Deve-se favorecer os vomitos e as evacuações, quando o veneno não tem já determinado sufficientemente estes effeitos, para que elle tenha sido expellido ; são preferiveis os meios mecânicos, a agua morna, a agua albuminosa, os oleos, os clysteres purgativos. Em seguida administra-se os antídotos, e neste caso não ha muito onde escolher, porquanto conhecem-se muito poucos que possam preencher esta indicação : são o tannino, e em qualquer preparado adstringente rico deste principio ; as aguas sulphurosas ea rnagnesia calcinada. Quando o tubo digestivo não tem podido ser desembaraçado do veneno, em tempo de impedir a absorpção, e elle tem pene- trado na torrente circulatória, deve-se prescrever os diuréticos e sudoríficos, especialmente os alcoolicos ; póde-se empregar também a bebida diurética, de Orfila, porém, supprimindo-se o nitro, que é inconveniente. Ao lado dos alcoolicos deve-se lançar mão de todos os meios capazes de levantar as forças do doente epromover a calorificação peripherica. Os excitantes dif- fusivos, as fricções seccas, as botijas quentes ás extremidades, os sinapismos volantes, os banhos aromáticos ou de agua sim- ples, porém em alta temperatura, todos estes meios devem ser empregados como si se tratasse de uma hypothermia, de um es- tado adynamico devido a qualquer outra causa mórbida. 678 ANTIMONIO A’s vezes, mesmo desde o principio, os vomitos tornam-se excessivos e pertinazes, e constituem um incommodo summa- mente fatigante que convém combater com os meios ordinários applicados para este fim : poção anti-emetica de Rivière, bebidas geladas, revulsivos ao epigastrio, etc. O mesmo a respeito das evacuações. Nos casos de intoxicação chronica, os diuréticos e purga- tivos administrados de tempos em tempos são uteis, ao lado dos tonicos (amargos vegetaes e mesmo ferruginosos.), dos nevros- thenicos (noz vomica, strychnina, etc.), que devem constituir a base da medicação ordinaria. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos O antimonio pôde ser encontrado, segundo DragendorfF, em um cadaver inhumado depois de longos annos, e aqui não ha que temer, como no caso do arsénico, que o veneno provenha do terreno do cemiterio. E’ sobretudo no figado que se deve procurar o antimonio ; com effeito as experiencias de Flandin e Danger mostram que esse orgão encerra cem vezes mais deste metalloide do que as urinas. O baço e os rins também reteem quantidades notáveis. Os pulmões não conteem sinão traços. Recolher-se-hão pois para a analyse porções do figado, do baço e dos rins, matérias existentes no tubo digestivo ou rejeitadas pelos vomitos, e bem assim urina, sangue, etc. A pesquiza do antimonio póde-se realizar por tres methodos differentes, a que se referem vários processos, que passo a in- dicar, segundo o plano de Chapuis: l.° Sem destruição das matérias organicas. Processo de Reinsh, usado especialmente na Inglaterra, segundo Sbriziolo. Faz-se ferver as matérias suspeitas com um pouco de acido chlorhydrico e uma lamina de cobre per- feitamente limpa. No fim de algum tempo, si existe antimonio, a superfície do cobre se reveste de um inducto preto tirando VENENOS NEURO-MYOTICOS 679 sobre o roxo. Introduzida a lamina em um pequeno tubo de ensaio e aquecida, não se forma nenhum deposito branco, e quando se forma não é crystallino ; no que se distingue do arsénico nas mesmas condições. Todavia este processo não é reputado bastante rigoroso. Em vez de proceder por esta maneira pôde-se executar este ensaio segundo o methodo descripto por Sbriziolo e Chandellon, que consiste em collocar o liquido suspeito, acidulado com acido chlorhydrico, em uma capsula um pouco funda de platina, e tocar depois a superfície interna da capsula, atravez do liquido, com uma lamina de zinco puro, demorando esse contacto suf- ficientemente. Nesse ponto os dous metaes representam um par voltaico que promovem a electrolyse do composto antimonial, precipitando-se todo o antimonio sobre a platina. Derrama-se fora o liquido, lança-se na capsula acido nitrico e evapora-se até seccura; o residuo que é oxydo de antimonio, ou antes acido antimonico, é dissolvido em acido chlorhydrico con- centrado. Dilué-se depois o liquido convenientemente, e sub- mette-se a uma corrente de hydrogeno sulphuretado, que dará o precipitado amarello alaranjado caracteristico do sulphureto de antimonio. Este processo, que é aliás mais rigoroso do que o precedente, póde-se applicar com vantagem á pesquiza do antimonio de mistura, por exemplo, com substancias alimentares vomitadas ou encontradas no estomago e intestinos pela autopsia; como aquelle,. porém, não serve para denunciar o veneno absorvido e intimamente combinado com os elementos anato- micos dos tecidos. 2.° Com destruição incompleta ou transformação das ma- térias organicas. Chapuis refere a este methodo o processo de Fresenius e Babo, que também é aconselhado por Tardieu e outros toxi- cologistas, e cuja descripção dispenso-me de reproduzir aqui, porque já foi dada na parte geral desta obra. 680 ANTIMONIO Assim como este processo, também pòde ser empregado o de Millon e o de Ferreira de Abreu, sobretudo este ultimo que se baseia no mesmo principio e lhes è mesmo preferivel, pelas razões apresentadas na sua descripção. 1 Em qualquer dos dous processos o producto final conterá o antimonio no estado de clilorureto. Póde-se também utilisar para esta pesquiza o processo de Flandin e Danger, que naturalmente deve ser incluido neste methodo, com a condição de se não desprezar o carvão sulpliu- rico, no qual pôde ter ficado retido o antimonio, no estado de sulpliato de antimonio. Parte deste carvão (porque outra parte deve ser reservada para a pesquiza do chumbo), é para isso misturada e agitada com um pouco de agua addicionada de algumas grammas de acido tartarico puro, e leva-se á ebullição durante alguns minutos. A massa lançada sobre um filtro deixa correr um liquido contendo o tartrato de antimonio, que pôde ser revelado pelas suas reacções caracteristicas, ou introduzido no apparelho de Marsh para ser ahi evidenciado pela fórma adeante indicada. 3.° Com destruição completa das matérias organicas.2 A este methodo refere Chapuis o processo especial de Naquet destinado à pesquiza do antimonio. Consiste no se- guinte: faz-se a frio uma mistura de azotato de sodio, acido sulphurico e matérias suspeitas, na proporção de 25 grammas do primeiro, 39 do segundo para 100 de matérias a analysar. Aquece-se com precaução a principio, leva-se a residuo secco que depois se carboniza completamente. O carvão obtido 1 Sbriziolo descreve o processo de Millon, no seu primeiro tempo (de- struição da maíeria organica), quasi exactamente como Ferreira de Abreu fez 10 annos depois, 11a sua these já citada ; sómente differe 0 daquelle toxico- logista na parte em que se trata de isolar 0 veneno, e para o que elle em- pregava 0 ensaio da substituição por meio de uma lamina de estanho, mer- gulhada 24 horas no liquido. Delia era retirado o metalloide pelo acido chlorhydrico, e 0 soluto convenientemente preparado era introduzido no apparelho de Marsh. 2 Não cito 0 processo por carbonização directa, que é impraticável para 0 antimonio por ser volátil, VENENOS NEURO-MYOTICOS 681 é pulverisado, e fervido com uma dissolução de acido tarta- rico. O bi-meta antimoniato de sodio, insolúvel, que contém o carvão, se transforma em tartrato duplo de antimonio e sodio, solúvel; filtra-se o liquido que passa, e divide-se em duas partes, uma para nella ensaiar os reactivos proprios do anti- monio, e outra que se introduz no apparelho de Marsh. Entre os ensaios de que é susceptivel o liquido final resul- tante do tratamento das matérias organicas, figuram aquelles que se executam com o precipitado obtido com a corrente de hydrogeno sulphuretado. Dragendorff aconselha tratar este precipitado por carbonato de ammonio, separar por meio do filtro a porção dissolvida por este ultimo (que conterão sulfu- reto de arsénico, si existir concomitantemente este metalloide ), do residuo insolúvel que é constituido por sulphureto de anti- monio ; este é fortemente aquecido com azotato de sodio, e o producto da oxydação esgotado pela agua quente. O antimo- niato de sodio é dissolvido num pouco de acido sulphurico e ensaiado no apparelho de Marsh, ou então ó misturado com cyanureto de potássio, e reduzido ao estado metallico por calci- nação em um cadinho de porcellana ; o antimonio reduzido pôde ser desembaraçado, por lavagens com agua, de princípios es- tranhos, e depois examinado 011 guardado como peça de con- vicção . Quanto ao apparelho de Marsh pouco tenho a accrescentar ao que sobre seu emprego nesta pesquiza tive occasião de referir tratando do arsénico. Conhecida toda a historia deste celebre apparelho, seu manejo e funccionamento e o immenso partido que delle se pôde tirar na pesquiza dos dous metalloides toxicos, cujos caracteres differenciaes foram minuciosamente discrimi- nados, resta-me indicar algumas modificações introduzidas no dito apparelho especialmente para a pesquiza do antimonio. Chapuis descreve como apparelho de Dragendorff, ou antes como processo deste autor, aquelle em que se emprega a potassa caustica para absorver e decompor o gaz hydrogeno 682 ANTIMONIO antimoniado, chamado também stibamina. Póde-se servir para isso, diz elle, de um frasco de Woolf ordinário, que se põe em communicação com um tubo em U ou um provete estrangulado com pé, contendo uma camada de 10 a 12 centimetros pouco maisou menos de potassa caustica. O hydrogeno antimoniado formado no frasco productor do hydrogeno, é decomposto pelo alcali, que se cobre de um inducto metallico, constituído se- gundo se suppõe por antimoniureto de potássio ; esta liga é por sua vez rapidamente decomposta sendo lançada n’agua, ou mesmo só em contacto com o ar. Entretanto, compulsando o manual de toxicologia do illustre professor de Dorpat, não encontro semelhante apparelho ou processo ; pelo contrario ahi lê-se a seguinte recommendação : « Lembrarei sómente que nunca se deve fazer passar o gaz antimoniado sobre potassa solida, porque esta o decompõe total- mente, e os fragmentos do alcali cobrem-se de um inducto escuro, etc.» A modificação mais importante do apparelho de Marsh em relação á pesquiza do antimonio, basea-se na acção reductora do hydrogeno antimoniado sobre o nitrato de prata, no qual forma-se um precipitado preto de antimonireto de prata, ou melhor uma mistura de prata e oxydo de antimonio, se- gundo outros. Neste sentido faz-se chegar a corrente do gaz a um tubo de Liebig, contendo a solução argentica, o qual para isso deve ser posto em communicação com a extremidade terminal do apparelho, nada tendo que fazer aqui o chamado tubo de reducção. Em vez do tubo de Liebig, póde-se empregar o tubo de Otto, curvo em angulo recto, e mergulhando num frasco, contendo o nitrato de prata, depois de ter servido para a producção de chamma e colheita das manchas (fíg. 13) Como já disse a proposito do arsénico, este processo appli- ca-se perfeitamente ao caso de uma mistura deste metalloide com o antimonio, caso que se póde dar ou quando um indivi- VENENOS NEURO-MYOTICOS 683 duo sob a influencia de uma medicação arsenical ou stibiada é intoxicado pelo tartaro emetico ou um preparado de arsénico, ou quando envenenado pelo arsénico, toma como vomitivo o tartaro. Fia, 13 Naquelle ensaio separam-se completamente os dous venenos, ficando o arsénico no liquido e o antimonio no precipitado. Para se demonstrar nelle a presença deste metalloide, póde-se pôr em pratica um dos processos seguintes : 1. Separa-se o precipitado por um filtro, ferve-se com uma solução de cremor de tartaro que dissolve o antimonio no estado de tartaro emetico. Basta então acidular com umas gottas de acido chlorhydrico, tratar por uma corrente de gaz sulphydrico, para formar-se logo o precipitado amarello ala- ranjado de sulphureto de antimonio. 2. O precipitado é aquecido em um cadinho com uma mis- tura de carbonato e azotato de potássio. Forma-se assim anti- moniato de potássio; esgota-se a massa pela agua acidulada por acido chlorhydrico, filtra-se e obtem-se um liquido, que se pode submetter aos reactivos proprios do antimonio. As reacções caracteristicas dos saes de antimonio variam um pouco, conforme o estado ou natureza da combinação em que 684 ANTIMONIO este metalloide se acha. Ha portanto reacções geraes ou communs e reacções especiaes. Elias devem ser estudadas particular- mente em relação ao tartaro emetico, que, como já disse, é o composto antimonial mais importante, o mais toxico e o unico que tem occasionado os envenenamentos agudos desta classe. O tartaro emetico é um corpo solido, branco, que se apre- senta sob a fôrma de crystaes transparentes mais ou menos modificados em tetraedros e octaedros; é solúvel em 15 partes d’agua fria e duas d’agua quente, insolúvel no álcool, que por isso o precipita de sua dissolução aquosa. Esta tem um sabor levemente adocicado e metallico, com resaibo desagradavel; decompõe-se quando abandonada ao contacto do ar e deixa um deposito branco. Aquecido, escurece e deshydrata-se; depois desprende cheiro de caramello (nunca alliaceo, que indicaria a presença do arsé- nico) e converte-se em uma mistura composta de carvão e car- bonato de potássio. Comporta-se em presença dos reactivos do modo seguinte: A potassa caustica dá um precipitado branco, volumoso, facilmente solúvel em excesso de reactivo. A ammonia ou seu carbonato dá um precipitado branco incompleto, que se forma, ou pelo menos sereune lentamente. (O precipitado nestes casos é constituído por oxydo de anti- monio.) O acido azotico ou o sulphurico, forma um precipitado branco, abundante, insolúvel em excesso de reactivo (Dragen- dorff). 1 O acido chlorhydrieo dá o mesmo precipitado, mas solúvel em excesso de reactivo. (O precipitado nestes casos é formado por um sub-sal de antimonio.) O acido oxalico também precipita lenta e incompletamente as soluções de emetico. *. Tardieu diz que este precipitado é solúvel era excesso de' reactivo. VENENOS NEURO-MYOTICOS 685 0 tannino dâ um precipitado branco amarellado, volumoso. O chlorureto de ouro é reduzido lentamente a frio, um pouco mais rapidamente a quente, depositando-se o ouro metallico. O acido sulphydrico e o sulphydrato de ammonia dão muito lentamente 1 um precipitado amarello alaranjado ou averme- lhado de sulphureto de antimonio, insolúvel no acido chlorhy- drico diluido, pouco solúvel na ammonia, porém muito solúvel nos sulphuretos alcalinos (portanto no sulphydrato de ammonia) eno acido chlorhydrico concentrado e quente. Este precipitado forma-se rapidamente nas soluções de tartaro, quando previa- mente aciduladas ou aquecidas. O perchlorureto de ferro dá um precipitado amarello, solúvel em excesso de reactivo quando a solução é diluida (Clauss), mas antes de se dissolver o precipitado torna-se gela- tinoso. As soluções concentradas não precipitam. O ferro-cyanureto de potássio não precipita. Os saes haloides de antimonio, que teem por typo o chloru- reto deste metalloide, comportam-se como as dissoluções de tartaro emetico, em algumas destas reacções, mas distinguem-se nas seguintes: Pela acção simples da agua decompõe-se, e precipita-se um sal haloide de antimonyla, que no chlorureto de antimonio é o chamado pó de Algaroth. O chlorureto de ouro é reduzido promptamente. O acido sulphydrico e o sulphydrato de ammonia precipitam mesmo a frio immediata e abundantemente, apresentando-se o precipitado com os mesmos caracteres já descriptos. O perchlorureto de ferro não precipita. O ferro-cyanureto de potássio forma um precipitado de cor branca, insolúvel mesmo em excesso de acido chlorhydrico. Ambos os grupos de saes, porém estes mais facilmente que os do primeiro, decompoem-se por substituição, isto é, pela *. Dragenclorff diz que nestas condições nem se produz mesmo o preci- pitado. 686 DIGIT ALIS immersão de alguns metaes, por exemplo: o estanho, o cobre e o zinco, sobre os quaes se deposita o antimonio separado. Aquecidos com um carbonato alcalino numa cavidade pra- ticada em um pedaço de carvão, sob a influencia da chamma de reducção, projectada com o maçarico, elles reduzem-se e obtem-se um globulo de antimonio, que pôde ser separado e guardado, para em todo o tempo prestar-se á verificação de seus caracteres e de suas reacções. Misturados com bórax e aquecidos ainda ao maçarico, os saes antimoniaes dão um vidro transparente, amarello quando quente, e branco depois de frio. Aquecidos na chamma de oxydação, deixam como residuo um inducto branco amarellado de oxydo de antimonio crys- tallizado. Sendo tão vulgarizado o uso dos antimoniaes como medica- mento, não se está autorizado a diagnosticar uma intoxicação por qualquer destes compostos, quando a quantidade revelada pela analyse for pequena, insignificante. Por isso será sempre conveniente proceder á dosagem do antimonio, o que se consegue pesando o proprio antimonio elementar separado na decom- posição electrolytica, ha pouco indicada (pag. 679), empregando todas as cautelas precisas para a segurança deste resultado. Póde-se também dosar o antimonio no estado de sulfureto. Recolhe-se este precipitado sobre um filtro tarado, secca-se, priva-se do excesso de enxofre pelo sulphureto de carbono, secca- se de novo a 100°, até que duas pesagens successivas indiquem o mesmo peso ; depois faz-se o calculo, partindo do principio de que 100 partes do sulphureto correspondem a 71,47 de an- timonio livre. Envenenamento pela ãigitalis e pela digitalina Uma das causas mais celebres na historia dos envenena- mentos criminosos deste século, é sem duvida a que se refere ao VENENOS NEURO-MYOTIGOS 687 processo Couty de La Pommerais, medico homoeopatha, que em 1864, em Paris, foi accusado deter envenenado com digita - lina a viuva Paw. Celebre pelas circumstancias que pre- cederam e acompanharam a morte desta infeliz mulher, e pelo fim desastrado a que foi arrastado o seu autor, que pagou com a vida o seu nefando crime, sendo guilhotinado em praça publica, tornou-se este facto ainda mais celebre na parte que affecta os estudos de chimica legal, assignalando uma phase das mais interessantes nos progressos da toxicologia. Com effeito, foi desta data em deante que a attenção dos chi- micos e toxicologistas começou a ser seriamente despertada para o estudo do principio activo da digitalis, que aliás já era conhe- cido desde uns vinte annos antes (1844), data da sua descoberta, por Homolle e Quevenne. Estes foram os primeiros que isolaram a digitalina, mas sua natureza e constituição chimica, bem como suas propriedades e reacções, ficaram ainda por muito tempo ignoradas. Até áquella epoca memorável, muito fraco e quasi nullo era o contingente offerecido pela pharmacologia e pela chimica sobre a composição da digitalis, assim como sobre as propriedades e caracteres de seu principio activo mais impor- tante . Foi devido a essa circumstancia que Tardieu e Roussin, que foram os peritos encarregados da pesquiza do veneno nas ma- térias vomitadas pela victima, como nos orgãos e líquidos re- colhidos do seu cadaver, viram-se a braços com as maiores dif- ficuldades, em um mundo de incertezas, desbravando caminhos mal conhecidos e pouco explorados para acharem a incógnita daquelle obscuro problema, sobre o qual devia assentar a sen- tença e punição do criminoso. Elles souberam haver-se com o necessário escrupulo, com a devida reserva nas conclusões que formularam, e que con- stituem por isso um modelo ou exemplo digno de ser imitado ; mas, como já tive occasião de dizer, as premissas foram infeliz- mente viciosissimas, porquanto na falta de reacções chimicas 688 DIGITALIS caracteristicas da digitalina, recorreram os peritos ao ensaio physiologico sobre outros animaes (rãs ecães), inoculando-lhes extractos preparados com as referidas matérias, sem contar com a influencia deleteria dos principios sépticos contidos nessas matérias, e cujos effeitos poderiam se manifestar por sympto- mas de intoxicação, semelhantes aos do veneno procurado, e independente delle. Felizmente para os interesses sagrados da justiça, outras provas do crime vieram dar áquellas conclusões a certeza que ellas por si não inspiraram, salvando-se assim a responsa- bilidade tremenda que pesou sobre a consciência dos peritos, e que poz em grande risco sua reputação scientifica e profissional. Para melhor desafiar os estudos sobre um veneno, que tão fatalmente assignalava sua apparição nos dominios da medicina judiciaria, a Academia de Sciencias de Paris, em 1864, nesse mesmo anno portanto, estabeleceu um prémio, denominado Orfila, para ser conferido áquelle que apresentasse o melhor trabalho sobre a digitalina, debaixo do ponto de vista chimico e toxicologico. Nomeio de tantos profissionaes que se empe- nharam na conquista daquelle prémio, coube elle oito annos depois ao pharmaceutico Nativelle, que pela primeira vez obteve e exhibiu a digitalina crystallizada, discriminando a sua verdadeira funcção chimica, as suas propriedades e reacções caracteristicas. Este principio, assim chamado do nome generico da planta donde é extrahido, Digitalis purpurea, 1 da familia das Scrophularineas, existe em todas as partes do vegetal, mas 1 Por sua vez o nome Digitalis purpurea provém da forma da corolla (em dedo de 1 iva ) e de sua côr purpurina. E’ chamada também dedaleira, dedo da Virgem, luva de N. S. Linda flor cultivada pela sua belleza nos jardins da Europa. Além desta especie conhecem-se mais as seguintes : D. lutca, assim des- ignada pela côr amarella de suas flores ; segundo alguns, unico traço differen- cial entre ella e a digitalis purpurea. D. thapsis, D. tomentosa, D. ochroleuca, também descripta com os nomes de I). grandiflora e D. ambigua. Nada se sabe de positivo sobre a actividade destas plantas, comparativamente com a especie oíficinal. VENENOS NEURO-MYOTICOS 689 sobretudo nas sementes : entretanto são geralmente preferidas as folhas para as preparações pharmaceuticas e applicações me- dicinaes, como para a extracção da digitalina. Com effeito Biichner, analysando essas sementes, encontrou nellas maior proporção deste principio ; mas, a superioridade que elle lhes attribue sobre as folhas, debaixo do tríplice ponto de vista de sua actividade, constância de energia e facilidade de conser- vação, è, na opinião de Fonssagrives, muito discutível, e essas pretendidas vantagens não teem prevalecido contra o ha- bito de empregar-se de preferencia as folhas.1 Elle acredita que não ha interesse em servir-se antes de sementes, e que, assim como para o colchico, do qual se empregam os bulbos e as sementes, e para e a belladona, que dá á pharmacia suas folhas e suas raizes, ha uma especie de confusão que é preciso tanto mais evitar quanto um certo peso das diversas partes do mesmo vegetal está bem longe de conter quantidade igual dos seus princípios activos. As flores parecem também conter um principio idêntico ao das folhas ; as capsulas (fructos) gozam das mesmas proprie- dades que ellas ; todavia, como já disse, são as folhas exclu- sivamente utilisadas em França, para a obtenção da digitalina dessa procedência, que, segundo Nativelle, é uma mistura de tres substancias : uma amorpha, resinosa, inactiva (digitina); uma crystallizavel e insolúvel na agua, mais solúvel no ether e no chloroformio (digitalina), eoutra solúvel na agua, de activi- dade comparável á desta (digitaleina). Estas indicações, porém, não são muito rigorosas e teem sido modificadas por estudos posteriores muito mais completos. 1 Recommenda-S3 mais colhel-as de preferencia no segando anno de vida do vegetal, e ante3 que as sementes estejam maduras (Dujardin Beaumetz), antes mesmo da floração (Cornevin ), contra a opinião que parece isolada de Schneider ; elle pretende que as folhas são mais ricas de digitalina mesmo no primeiro anno de vegetação, porém, sendo colhidas em agosto ou setembro. Ainda mais, cumpre notar que considera-se as folhas caulinares mais activas do que as radicaes ; as da planta silvestre mais do que as da cultivada nos jardins, etc. Bãnalmente, a deseccaçao a calor brando e mesmo a cocção segundo Cornevin, não destroe a propriedade toxica da digitalis. TOXICOLOOIA 4í 690 DIGITAL IS Assim Blacquart operando sobre a digitalina do commercio, que elle considera formada pela mistura de duas digitalinas, uma amorpha, outra crystallizada, tentou e conseguiu separar esta por meio de tratamentos successivos com agua fervendo, álcool e ether, obtendo um producto crystallizado, em nada diíferente do de Nativelle, que julga entretanto mais activo do que essa. Além disso occorre que ao lado da digitalina franceza, que é mais conhecida e espalhada no commercio, existe a de origem allemã, a digitalina de Merck e Kossmann, que é extrahida das sementes antes do que das folhas, muito solúvel na agua, por- tanto necessariamente mais activa do que a outra que é quasi insolúvel; suppõe-se constituida principalmente por digitaleina. Em resumo, pois, conhecem-se actualmente quatro varie- dades de digitalina, a saber : Ia, a digitalina primitiva, amor- pha de Homolle e Quevenne ; 2a, a digitalina crystallizada de Nativelle; 3a, a digitalina crystallizada de Blacquart; 4a, a digitalina allemã, ou digitalina solúvel de Merck e Kossmann. Existe, segundo Gubler, uma 5a variedade por assim dizer intermediária entre a digitalina amorpha e a crystallizada: é a digitalina globular de Roucher, na qual este chimico de- monstrou a existência de uma crystallização, visivel sómente com o auxilio do instrumentos augmentativos. Na opinião daquelle professor, ella é de uma energia comparável á da digi- talina amorpha, e por consequência inferior de duas ou tres vezes á actividade da digitalina crystallizada de Nativelle, no homem 1; porquanto, em outras especies animaes, nas rãs por exemplo, diz Gubler que a digitalina amorpha pareceu produzir quasi constantemente effeitos toxicos mais promptos, e com mais certeza mortaes do que a variedade crystallizada, conforme experiencias realizadas nos hospitaes Gros Caillou, e testemunhadas por elle e outros observadores. 1 Rabuteau acredita que a digitalina amorpha é dez vezes menos activa do que a crystallizada de .Nativelle. VENENOS NEUP.O-MYOTICOS 691 Pelo que fica exposto se vê que reina ainda alguma confusão no estado actual da sciencia ácerca do principal agente toxico da digitalis, e que, apezar da descoberta de Nativelle, o seu producto não teve a acceitação que seria de esperar, não tem sido vulgarizado e não conseguiu substituir nas applicações therapeuticas a primitiva digitalina amorpha e impura de Ho- molle e Quevenne, cuja actividade, cem vezes maior do que a mesma dóse do pó da planta, oíFerece todas as facilidades de administração. Demais, não está demonstrado clinicamente que a digitalina crystallizada tenha acção mais constante do q u aquella, e por outro lado, sua maior energia toxica torna mais delicada e perigosa sua dosagem. Foi esta ao menos a decisão proferida pela Academia de Bruxellas, em 1874, e com a qual se conforma perfeitamente o professor Fonssagrives. Nothnagel e Rossbach vão mais longe, e aconselham de pre- ferencia o uso da planta mãe, ao de seus principios activos; porquanto, aquelles que recentemente teem sido isolados no estado de pureza por Schmiedeberg, a saber : a digitoxina, a digitalina e a digitaleina, não podem ou pelo menos não devem, segundo este chimico, ser utilisados na pratica. Na sua opinião, a digitoxina seria dos tres principios o que parece mais proprio para os usos therapeuticos ; ella determina, com effeito, em mui pequenas dóses (0,001), a acção caracteristica da digitalis, e bem que exista em pequena quantidade na planta, todavia é facil de obtel-a em estado de pureza ,* mas sua com- pleta insolubilidade n’agua, e as dóses minimas nas quaes ô preciso administral-a para produzir effeitos therapeuticos, não permittem contar com uma absorpção regular, de sorte que não se poderia dirigir, como se quizesse, a intensidade de sua acção. Accresce mais o inconveniente que tem, de occasionar vomitos. A digitalina e a digitaleina pareceriam prestar-se ainda me- lhor ás exigências da pratica medica, porque, possuindo as propriedades caracteristicas da digitalis sobre a actividade cardiaca, são desprovidas da acção irritante local da digi- 692 DIGITALIS toxina; mas infelizmente é muito difficil obtel-as em estado de pureza. Quanto ás digitalinas impuras do commercio, sua composição, extremamente variavel, é um motivo sufficiente para que não seja recommendado o seu emprego. Das sábias investigações de Schmiedeberg, em 1875, sobre a digitalis, resulta que esta planta encerra os quatro principios seguintes, que elle pôde obter puros: Io, digitonina, que é um producto analogo à saponina, tanto debaixo do ponto de vista chimico, como physiologico ; è solúvel n’agua, insolúvel no ál- cool absoluto frio, no chloroformio, na benzina e no ether, dando como derivados a digitoresina, a digitoneina, a digito- genina e a parodigitogenina ; 2o, digitalina, glycoside, inso- lúvel n’agua fria, solúvel no álcool e no acido acético, dando por decomposição a digitaliresina ; 3o, a digi/aleina, outra glycoside que espuma com a agua, é solúvel nella e fornece pela ebullição nos ácidos diluidos, assucar e a digitaliresina; 4o, a digitoxina, matéria crystallizavel, estranha á consti- tuição das glycosides, dando por decomposição a digitoxiresina, muito solúvel no ether. Esta ultima é a que produz effeitos mais energicos e proprie- dades toxicas, 6 a 10 vezes mais intensas do que as outras glycosides. Possue além disso acção local irritante, de que estas não gozam. Sendo injectada debaixo da pelle, mesmo em dóse extremamente fraca, ella produz uma inflammação plile- gmonosa seguida de suppuração. E’ provavelmente a este principio que, na opinião de Nothnagel eRossbach, se devem attribuir os vomitos violentos e a diarrhéa que se manifestam nos casos de digitalismo agudo, e naquelles em que se admi- nistra sómente a digitoxina ; o facto é, dizem elles, que esses dous symptomas não teem origem central. Outros observadores teem assignalado a presença de certos principios mais, dos quaes muitos, segundo Rabuteau, não teem sinão uma existência problemática> e alguns podem não ser VENENOS NEURO-MYOTICOS differentes dos já mencionados. Estão neste caso talvez o digi- talino, a digitalide, a ãigitalose, a digitalosina, a digitali- crina, a digitaliretina, os ácidos digitalico, digitaleico, antirrhinico, etc. Os envenenamentos pela digitalis e pela digitalina são raros, dizem Rabuteau, Chandellon, etc.; não são muito raros, dizem Tardieu e outros; mas em todo caso, e nisto estão os toxicologistas de accordo, teem sido em geral accidentaes. Co- nhecem-se, segundo aquelle autor, uns 30 casos de envene- namentos desta natureza produzidos pela infusão, pela tintura, pelo extracto, pelo sueco expresso, pelo proprio pó das folhas de digitalis, e todos foram o resultado ou de engano na admi- nistração de remedios, ou de dóses exaggeradas imprudente- mente prescriptas; um terço desses casos foi seguido de morte, alguns dos quaes, apenas quatro, pertencem á digitalina ; Tar- dieu cita igualmente exemplos de suicídios por esta substancia. Quanto a envenenamentos criminosos, conhecem-se também alguns devidos á administração do sueco fresco da digitalis, como abortivo, e o facto já mencionado produzido pela digita- lina, que Rabuteau não considera scientificamente demonstrado. A digitalina é um veneno poderoso para a quasi totalidade dos animaes, excepto os sapos (Vulpian, Blacquart). Para os indivíduos adultos da especie humana, na dóse de 1 a 2 grammas do pó das folhas de digitalis, que correspondem a 1 ou 2 centigrammas de digitalina de Homolle e Quevenne, esta substancia é considerada toxica, capaz de produzir a morte, ou pelo menos accidentes muito graves, que dificil- mente podem ser debellados. Uma colherinha das de chá, de tintura de digitalis, escapou de dar a morte a uma mulher. Tem-se visto sobrevir accidentes mortaes com 2 a 3 grammas de sueco fresco da planta, com 8 a 12 grammas da planta em infusão ou decocção. Quanto aos princípios activos, conforme já o disse, tam- bém variam suas dóses toxicas. Assim a digitoxina, queé a mais 694 DIGITALIS energica, mata um cão na dóse de 0,008, tim gato na de 0,001, e um coelho na de 0,005 a 0,006. Vem depois a digitalina e a digitaieina, que são de seis a 10 vezes menos venenosas, e a digitonina, dotada de fraca acção toxica. Bouchardat e Sandras viram manifestar-se em homens accidentes temiveis apoz a absorpção, nas 24 horas, de 0,008 de digitalina ; entretanto Leroux refere o caso de um velho septuagenário, que não morreu depois de haver tomado em duas doses 35 milligrammas de digitalina, e Chereau observou um doente que supportou 4 a 4,5 centigrammas de digitalina ! (Chandellon). Penso que se tem feito ultimamente uso demasiado e abuso relativo da digitalis e da digitalina, tanto mais peri- goso quanto é um veneíío de eliminação relativamente difficil, e portanto de accumulação facil. No fim de seis a dez dias, dóses therapeuticas podem produzir phenomenos correspon- dentes aos da dóse total, como si esta fosse applicada de uma vez. O envenenamento pela digitalis e pela digitalina, em geral, só é de forma aguda. Symptomas ; signaes clínicos Em dóses pequenas, repetidas e accumuladas, os effeitos toxicos podem se manifestar tardiamente, só no fim de muitos dias ou de algumas semanãs ; porém em dóse massiça esses effeitos declaram-se no fim de uma a tres horas e ás vezes mais rapidamente ainda. Apoz um estado de máo-estar indefinido os individuos são acorhmettidos de nauseãs è vomitos violentos, penosos e repe- tidos 1 ; as matérias rejeitadas, são liquidas, espumosas, de côr esverdeada. Os individuos experimentam hm calor fortíssimo na 1 Este èffôitò é attribuiclo por alguns á preserfça de outra planta que se parece e se confunde com a digitalis: é a gratiola, também chamada pequena digitalis. VENENOS NEURO-MYOTICOS 695 cabeça, ás vezes cephalalgia insupportavel, vertigens, escure- cimento da vista, zoada nos ouvidos e um abatimento geral. O pulso é forte e precipitado, como o são as pancadas cardiacas ; e os doentes sentem então uma anciedade precordial intensa. Depois, a circulação retarda-se, o pulso vae-se tornando menos frequente, mais raro, e cahe até 50 e mesmo 40 pulsações por minuto. A região epigastrica é muito sensivel e dolorosa ; a face é pallida e de momentos a outros fortemente corada, os olhos injectados e salientes. Por esse tempo os vomitos ou continuam ou se renovam com a mesma violência e pertinácia. A se- creção urinaria diminue consideravelmente. O enfraquecimento é profundo, as perturbações da visão per- sistem e accentuam-se, occasionando phenomenos de daltonismo (confusão das cores); as pupillas são dilatadas e a iris immovel. A lingua é saburrosa, porém vermelha na ponta e nos bordos, outras vezes secca e contrahida. Christison diz tel-a observado uma vez muito inflammada, com salivação abundante e hálito fétido. A respiração é suspirosa, profunda e desigual. A impulsão cardiaca diminue; o pulso torna-se lento, irre- gular, filiforme e intermittente. Ora ha diarrhéa da mesma natureza que os vomitos, ora as evacuações são supprimidas, assim como as urinas. A prostração é extrema, a ponto de que difficilmente podem os doentes articular uma phrase ou uma palavra, comquanto a intelligencia permaneça ainda intacta. Nos últimos momentos porém sobrevem algum delirio, câim- bras, movimentos convulsivos, sobresaltos tendinosos, soluços, evacuações involuntárias, suores frios abundantes, e a morte porsyncope ou paralysia cardiaca, antes mesmo da parada dos movimentos respiratórios. Ella chega ordinariamente no fim do segundo ou terceiro dia, ás vezes depois de cinco, ou 10 dias. Em um caso citado por Tardieu, a morte deu-se no 13° dia ; raramente tem logar dentro de poucas horas, e conside- ra-se excepcional o facto communicado por Barth á Sociedade Anatómica, de uma mulher soffrendo anasarca (?), e que, be- 696 DIGITALIS bendo por engano 25 grammas de tintura de digitalis, des- tinada a fricções, expirou como fulminada no fim de 3/4 de hora; sem outros symptomas além de vomitos abundantes, máo-estar geral e uma dor muito viva no epigastrio. Ha, porém, uma especie de fôrma lenta do digitalismo, con- secutiva á acção accumulada do veneno administrado durante muito tempo, de um modo continuo e em pequenas dóses appa- rentemente bem toleradas. Em um momento dado, seus effeitos fazem explosão, começando por uma syncope ou então por uma dor frontal muito viva, com escurecimento quasi completo da vista. Em um caso observou-se o apparecimento brusco de uma hemiplegia, precedida apenas de uma syncope. Esta se repete ; sobreveem depois vomitos, ás vezes diarrhéa, depois convulsões, delirio, uma demora notável do pulso, insensibilidade geral, e a morte, ora no fim de alguns dias, ora muito mais rapida, até mesmo fulminante, como em um caso de Elliotson, citado por Taylor. Quando o envenenamento não termina pela morte, no fim de alguns dias cessam os vomitos, restabelece-se a secreção uri- naria, volta a calorificação peripherica normal; a respiração e a circulação se regularisam, o pulso readquire os seus caracteres physiologicos, etc. Mas, durante um tempo muito longo ainda, semanas e até mezes, o estomago conserva-se doloroso, a cabeça pesada e vertiginosa, as forças abatidas, a visão perturbada e fraca. Tem-se observado por vezos um ruido de sopro chloro- anemico na base do coração e nos grossos vasos, e certa desigual- dade no pulso, conforme se observou no caso de Hutchinson, de quedà noticia Rabuteau, o qual, tendo tomado 420 gottas (mais de 20 grammas) de tintura de digitalis, em dous dias, só ficou completamente restabelecido no fim de dous mezes. Tardieu descreve em separado os symptomas do envene- namento pela digitalina ; mas não assignala diíferença apre- ciável dos que representam e caracterisam a intoxicação por um preparado da digitalis. Apenas pela maior energia do VENENOS NEURO-MYOTICOS veneno é natural que a marcha dos seus effeitos deva ser muito mais rapida e precipitada, a terminação pela morte mais frequente e mais certa. Além disso, a natureza das maté- rias vomitadas póde modificar-se, si a cor verde com que elles se apresentam neste ultimo caso, é devida ao preparado da planta, aos principios corantes naturaes desta, antes do que âs condições especiaes do liquido constituido pela hyper- secreção gastrica. Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos Rabuteau aponta dous únicos signaes necroscopicos que, diz elle, teem sido observados em casos fataes de envenena- mento pela digitalis no homem, e veem a ser, em um, as mem- branas do cerebro muito injectadas, a mucosa estomacal rubra em alguns pontos sómente (Taylor); em outro, um pouco de se- rosidade no pericárdio e o estomago parcialmente phlogosado (Causse d’Albi). Não ha de facto lesões caracteristicas deste envenenamento, e em alguns casos, segundo Tardieu, se tem encontrado os or- gãos do cadaver em apparencia absolutamente sãos. Além daquellas duas lesões e do estado do sangue, que este profes- sor achou imperfeitamente coagulado e enchendo desigualmente as quatro cavidades do coração, uma unica circumstancia des- pertou a sua attenção no caso por elle autopsiado : foi o es- tado de conservação do cadaver, exhumado treze dias depois da inhumação. Isto, como se vê, é muito pouco, é nada mesmo para re- presentar a anatomia pathologica de um envenenamento. O coração, orgão que maisdirecta e particularmente soffrea influencia do veneno, e que poderia attestar os seus effeitos, é mudo a esta indagação ; não apresenta alteração alguma apre- ciável . 698 DIGITALIS Diagnostico differencial As moléstias naturaes que se podem assemelhar ao envene- namento pela digitalis são poucas ; entre elias mencionarei a hemorrhagia interna e a cholera morbus. A primeira se distingue pela ausência dos symptomas iniciaes da intoxicação ; os vomitos repetidos e abundantes, as vertigens, a cephalalgia intensa, as perturbações visuaes, as desordens circulatórias, etc., bastam para excluir a idéa daquella causa de morte, em geral um accidente ou epiphenomeno de estados morbidos diversos que não podem passar despercebidos. Quanto á cholera morbus, alguns destes symptomas, sobre- tudo os últimos, ao lado da natureza particular das matérias vomitadas, da ausência de cyanose e de erupção, e finalmente o facto do desapparecimento gradual dos accidentes, sem reacção violenta e tvphica nos casos terminados pela cura, servem para caracterisar o digitalismo e impedir a sua confusão com aquella terrivel moléstia. As intoxicações agudas pelo arsénico, pelo cobre e pelo tar- taro emetico oíferecem muitas analogias de symptomas com o envenenamento pela digitalis e pela digitalina ; mas, além do sabor metallico, que nada tem de comparável com o sabor ni- miamente amargo destes dous venenos, convém notar os signaes de inflammação gastro-intestinal franca, as erupções cutaneas peculiares a cada uma dessas intoxicações metallicas, e ainda mais, a ausência das desordens de innervação próprias da acçâo da digitalis e sua glycoside. Finalmente, para solver toda a duvida, basta lançar mão de um reactivo, o sulphydrato de ammonia, e ajuntal-o á ma- téria dos vomitos, que tomará a côr própria dos respectivos sulphuretos (amarella, preta ou avermelhada). Pela autopsia, ainda mais facil é a discriminação entre os envenenamentos metallicos, que deixam lesões patentes e caracteristicas pelo menos da acção tópica, e o digitalismo, que não se revela por signal algum de valor. VENENOS NEURO-MYOTICOS 699 Mecanismo da acção toxica Opiniões coíitradictorias teem sido eraittidas sobre o modo de acção da digitalis e da digitalina, sendo que o principal phenomeno dentre os seus effeitos, a demora do pulso e a sedação circulatória, teem sido explicados ora pela paralysia do coração (Orfila, Stannius, Dybkowsky e Pelikan), ora pela narcose do mesmo orgão (Bouillaud), ora pela sua toni- flcação (Htchinson, Beau, Briquet, Lelion, etc.), ora por uma especie de galvanisação do myocardio (Gubler), ora pela acção vaso-motora da digitalis (Legroux, Marey, Beranger Feraud), ora pela influencia que ella exerce sobre os ganglios auto- motores do coração (Germain Sée), ora íinalmente actuando de um modo especial e directo sobre o orgão central da circulação (Vulpian), pelo motivo de que Uma solução concentrada de di- gitalina, posta em contacto com o coração, para-o em diástole nos animaes de sangiíe quente, e em systole nos de sangue frio. Estes effeitos, porem, são já de ordem toxica. Á digitalis tem sido considerada um regulador e retardador dos batimentos cardiacos por Withering, Cullen, Beddoés, Klingade, Yassal, Bidault, Wittfield, Crawford, Macdonald, Clutterbruck, Schevilgué, etc., um regulador e accelerador por Joerg,tSanders, Hutchinson, etc. A muitos estudos e discussões tem dado logar este assum- pto, e seus resultados não teem sido perdidos, porquanto teem derramado immensa luz sobre o conhecimento da ácção phy- siologica da digitalis, sobre suas verdadeiras propriedades me- dicinaes e portanto sobre suas legitimas indicações thera- peuticas. Não é aqui porém o logar de consignar esses estudos e discussões, que não dizem respeito propriamente á acção tóxica dessa planta e seu principio activo. A theoria physio-dynamica do digitalismo se resume no seguinte: Io, èin doses moderadas, em dóses medicinaes a digitalis 700 DIGITALIS produz sempre augmento de tensão activa, arterial e cardíaca ; não é pois um deprimente ou sedativo da circulação central. E’ antes um regulador e tonico do apparelho cardio-vascular, é antes a quina do coração, segundo a expressão de Beau, do que o opio deste orgão, como a classificava Bouillaud, e foi em outro tempo doutrina geralmente acceita. 2o, em dóses toxicas, os symptomas do digitalismo são inteiramente differentes e reconhecem condições organicas op- postas, como bem diz Gubler. A diminuição da tensão vascular, o enfraquecimento, a acceleração e a desordem do pulso che- gando até á cessação dos batimentos cardíacos, e a mesma anuria, exprimem a paralysia progressiva do systema circula- tório. Somente, emquanto Stanius considera esta paralysia como primitiva, outros pensam com Bouley, Reynal e aquelle illustre professor de therapeutica, que a debilitação dos nervos musculares é um phenomeno secundário, consecutivo á su- perexcitação ; é o esgotamento que succedeao excesso de acção. Para explicar os mesmos phenoinenos, certos physiologistas invocam a influencia do nervo depressor de Cyon, ramo do la- ryngeu superior e do pneumogastrico, e cuja excitação por in- termédio da medulla teria por effeito paralyzar a contracti- lidade vascular e conseguintemente enfraquecer a tensão, au- gmentar a frequência do pulso e embaraçar a circulação. Si se quizer acompanhar de mais perto a evolução das ma- nifestações symptomaticas do digitalismo, póde-se-as dividir, como faz Dujardin Beaumetz, em tres pliases. Na primeira nota-se demora sensível do pulso e augmento da pressão intra-vascular. A demora parece depender não só da acção sobre o systema nervoso, como também de uma acção directa sobre a fibra cardíaca e os respectivos ganglios auto- motores. Quanto á pressão vascular, evidentemente elevada, segundo demonstram os traçados sphygmograpliicos obtidos por Chauveau e Marey, Cl. Bernard, Siredey, Legroux, Bordier, C. Paul, etc., contra o parecer de Traube, Hirtz, Onimus e VENENOS NEURO-MYOTICOS 701 Coblentz, é acompanhada de estreitamento das artérias peri- phericas, sobretudo na cavidade abdominal e determinada sem duvida por uma excitação do centro vaso-motor e dos appa- relhos nervosos vasculares periphericos. Esses traçados foram confirmados pelo hemodynamometro (Briquet). Na segunda phase, isto é, quando a digitalis é administrada em dóses fortes, nota-se, ao contrario, acceleração manifesta do pulso, devida à paralysia dos nervos moderadores cardiacos e talvez também a uma excitação dos nervos acceleradores ( Notlinagel e Rossbach). Ao mesmo tempo a pressão sanguinea diminue, depois de repetidas oscillações. Na terceira phase, provocada por dóses mortaes da di- gitalis, os batimentos cardiacos são muito irregulares e se en- fraquecem progressivamente, ao mesmo tempo que a pressão sanguinea baixa cada vez mais, até que elles cessam de todo por paralysia do myocardio. Em resumo, a morte pôde sobrevir nestes casos tanto pelos phenomenos reflexos ligados ás lesões do tubo digestivo, como principalmente pelas desordens geraes de innervação cardio- vascular e paralysia consecutiva ao excesso de acção. Este ultimo mecanismo émuito mais importante e frequente, e a elle, segundo Notlinagel e Rossbach e outros, deve ser attri- buidaa morte no envenenamento pela digitalis. Ella não exerce influencia directa sobre o systema nervoso central, nem sobre a respiração ; si determina perturbações para este lado é indi- rectamente, em consequência de sua acção sobre a circulação, particularmente sobre o coração e também sobre os musculos em geral. Fica assim em parte justificada a classificação de veneno neuro-myotico cardio-vascnlar, tão legitimamente como a de hyposthenisante, conforme o plano de Tardieu. Tratamento Muito limitada é a primeira parte da therapeutica do envenenamento pela digitalis, porquanto não se conhece ainda 702 DIGITALIS para este veneno antídoto seguro. O que satisfaz melhor esta indicação, e é geralmente aconselhado, é o tannino ; mas não inspira toda a confiança porque è fraco precipitante daquelle corpo, pois precipita sómente a digitonina e a digitaleina (Chan- dellon). O iodureto iodurado de potássio, lembrado por alguns, é completamente inefficaz ; não precipita a digitalina. Portanto, depois de provocar os vomitos, empregando de preferencia os meios mecânicos e outros, taes como a agua morna, os oleos, a albumina, etc., evitando o emprego dos emeticos propriamente ditos, para poupar maior depressão de forças ao doente, lança-se mão do tannino ou de uma preparação forte- mente adstringente, que, si não impede, embaraça e demora a absorpção do veneno, em parte precipitando-o, em parte modifi- cando por momentos o estado da superfície absorvente. Em seguida faz-se preciso varrer ou lavar o estomago e os intestinos por meio dos purgativos salinos ou oleosos, dados pelas primeiras vias e auxiliados por clysteres. Quando, porém, o veneno tem penetrado na torrente circula- tória, e já se manifestam os seus eífeitos geraes, então não ha tempo a perder na applicação dos meios excitantes, sobretudo os excitantes diffusivos, os nevrosthenicos ; são os alcoolicos os mais indicados pela vantagem ainda de facilitar a eliminação do veneno. Prescreve-se o vinho branco misturado com qual- quer agua fortemente gazosa, agua de siphão por exemplo, ou então o Champagne, etc., e também o café forte. Ao mesmo tempo fazem-se fricções seccas com flanella ou baêta previamente aquecida, por todo o corpo, applicam-se lar- gos sinapismos volantes, botijas quentes nas extremidades ; banhos aromáticos ou de vapor, etc.; conveem os diuréticos, mas devem ser condemnados os que tiverem por base o nitro. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Esta pesquiza é uma das mais difficeis e delicadas da chi- mica legal, todavia ella póde-se executar com bom resultado VENENOS NEURO-MYOTICOS 703 ainda mesmo algum tempo depois da inhumação dos corpos de individuos envenenados pela digitalina; esta resiste mais do que se pensa geralmente á decomposição. O mesmo succede com a digitaleina, segundo Dragendorff, que diz ter podido ex- trahir esta glycoside do conteúdo estomacal de um porco, no qual se achavam duas folhas de digitalis, havia quatro mezes. Deve-se recolher para esta analyse a matéria dos yomitos e das dejecções, o proprio estomago, os intestinos e seu con- teúdo. Submettem-se estas matérias ao methodo de Stass com a modificação proposta por Otto, ou ao de Dragendorff, â dialyse de Graham, e finalmente á experimentação physio- logica. A modificação de Otto ao methodo de Stass consiste em supprimir o tempo da operação no qual se faz intervir o carbonato alcalino, e juntar logo á solução acida o ether, que tem a propriedade de separar delia a digitalina dissol- vendo-a . O processo de Dragendorff consiste no seguinte: Trituram-se as matérias, concentram-se-as por evaporação lenta, addiciona-se acido acético em quantidade sufficiente para que a mistura contenha uns 50 % « no fim de algum tempo, diluem-se n’agua de modo a formar uma especie de papa, faz-se digerir durante 24 horas em temperatura de 40 a 50°. Jun- tam-se depois tres volumes de álcool, põe-se a digerir de novo durante outras 24 horas ; filtra-se, distilla-se o álcool e agi- ta-se o residuo aquoso primeiramente com ether de petroleo, que tira as impurezas, e depois com metade de seu volume de benzina pura, que se apodera da digitalina. Repete-se este ultimo tratamento segunda vez ; o liquido aquoso trata-se pelo chloroformio, que rouba a digitaleina. Por este processo separam-se depois estas duas glycosides. Dragendorff, porém, não sabe si a digitonina e a digitoxina são também extrahidas ao mesmo tempo. Sob o ponto de 704 DIGITALIS vista prático, diz elle, «sua presença nos extractos obtidos é indiíferente, porque ellas dão as principaes reacções da digi- talina, o que para ocaso è bastante». Entretanto, segundo Chandellon, é muito provável que ao menos traços da digitonina ahi devam-se achar, por ser ella solúvel em uma mistura de chloroformio e álcool ; e, quanto à digitonina, sendo solúvel no chloroformio, deve ser encontrada no residuo da evaporação deste liquido. Homolle aconselha operar da maneira seguinte : As matérias suspeitas são lançadas num filtro, ou antes submettidas á expressão atravez de um panno ; secca-se o re- siduo com muita precaução, pulverisa-se e esgota-se por um tratamento alcoolico, que se repete duas ou tres vezes. De outro lado, tomam-se os liquidos separados, agitam-se-os com chloro- formio, evaporam-se e o residuo dissolve-se em álcool.Reunem-se osdous liquidos alcoolicos, misturam-se e mesmo trituram-se com hydrato de chumbo, recentemente precipitado ; deixam-se algum tempo em contacto e filtram-se. Descoram-se com carvão animal, evaporam-se ató consistência de xarope e esgota-se este pelo chloroformio. A solução chloroformica é evaporada com precaução; retoma-se o residuo pelo álcool a 50° para separar algumas impurezas. Assim é este processo descripto no Manual de toxicologia de Dragendorff. Rabuteau, porém, descreve um pouco differentemente : Depois da mistura intima dos liquidos animaes com o hydrato plumbico, diz elle, addiciona-se um volume igual de álcool a 95c, filtra-se, evapora-se em baixa temperatura. Depois que se separam, durante a evaporação, flocos de matéria graxa ou al- buminoide, lança-se o liquido sobre um filtro previamente hu- medecido com agua distillada. Continua-se a evaporação, e quando o liquido fica em consistência de xarope espesso, lança- se num provete, agita-se com metade de seu volume de chlo- roformio, que se separa por meio de um chupete. Este trata- mento é repetido duas ou tres vezes, e o chloroformio recolhido VENENOS NEURO-MYOTICOS 705 é evaporado ao ar, por pequenas doses successivas, em uma capsula de porcellana ; chega-se assim a reunir em uma pe- quena superfície o residuo que, por uma evaporação em massa, formaria uma camada diffusa e tão tenue que não se poderia recolhel-a sem perda. Si o extracto chloroformico não ficar inteiramente privado de matéria graxa, poder-se-ha fazer com precaução uma lavagem por meio da benzina. Vè-se, diz Rabuteau, que no processo de Homolle a ben- zina não é propriamente empregada como meio de isolamento da digitalina, e sim antes como meio de purificação; mas o autor recommenda effectuar com muita cautela as lavagens com aquelle liquido, que, mesmo a frio, dissolve uma certa quanti- dade de digitalina. Demais, não separa, como no processo de Dragendorff a digitalina da digitaleina. Paton modificou o processo de Homolle da maneira seguinte : elle manda mis- turar os extractos aquosos descorados pelo carvão animal, com acetato neutro de chumbo, até que não se forme mais preci- pitado; depois filtrar, e precipitar o liquido filtrado pelo acetato básico de chumbo e uma solução alcoolicade ammonia. Filtra-se de novo, e o residuo suspende-se n’agua ; submette-se esta a uma corrente dehydrogeneo sulphuretado e filtra-se de novo. No liquido filtrado deve se achar a digitaleina, ao passo que a digitalina é extrahida pelo chloroformio, do precipitado de sulphureto de chumbo. Quanto á dyalise de Graham, poderia ser dispensada nesta pesquiza, onde por assim dizer nada vem adeantar ao resultado, sobretudo tratando-se de vísceras em estado de decomposição. Tardieu e Roussin, increpados por terem omittido este methodo no seu memorável trabalho, relativo ao processo La Pom- merais, defenderam-se perfeitamente mostrando sua completa inutilidade. As propriedades e reacções dos quatro princípios da digi- talis isolados por Schmiedeberg são as seguintes : Digitalina. E’ um corpo branco, neutro, inodoro, geral- Toxicologia 45 706 DIGITALIS mente em pó amorpho ou pequenas massas globulares ; quasi insolúvel na agua, mesmo fervendo, solúvel no álcool, ao qual communica um sabor amargo, menos solúvel no etlier, na benzina e no cliloroformio puro. Digitaleina. Solúvel na agua, no álcool e no etlier, porém insolúvel na benzina ; sabor amargo. Digitoxina. Crystallina, insolúvel na agua, pouco so- lúvel no etlier e bastante solúvel no álcool. Digitonina. Branca, amorpha, solúvel em todas as proporções na agua, com a qual sendo agitada faz espuma ; pouco solúvel no álcool frio e mais a [quente, porém insolúvel no etlier, no cliloroformio e na benzina. As reacções destes princípios são as seguintes : l.a O acido chlorhydrico córa a digitalina crystallizada em verde amarellado; a digitalina amorpha, em amarello claro ; a digitonina, pela ebullição, em vermelho grenat, ou roxo; a digitoxina em verde ou verde amarellado, segundo alguns. A digitalina amorpha do commercio, como acima se vê, comporta-se em presença deste reactivo pouco mais ou menos como a variedade crystallizada e pura, o que vae de encontro á observação de Homolle e Quevenne, confirmada por Tardieu e Roussin, de que a cor obtida com o acido chlorhydrico é antes devida a impurezas que acompanham esses productos, do que á digitalina pura ; esta não daria côr alguma na sua opi- nião. Além disto, Lefort faz sentir que nesta reacção desen- volve-se o cheiro proprio e caracteristico do pó de digitalis. 2*a O acido sulphurico concentrado dissolve e córa a digitalina em pardo esverdeado, ou pardo escuro; a digita- leina, em avermelhado; a digitoxina, em verde ou pardo escuro ; a digitonina, em vermelho escuro. Esta ultima dá com acido sulphurico, diluido em duas ou tres partes de agua,uma solução incolor, que aquecida passa successivamente ao vermelho, ao vermelho grenat e ao vermelho violete, como succede também com o acido chlorhydrico a quente. Estas reacções podem servir VENENOS NEURO-MYOTICOS 707 para distinguir a digitonina dos tres outros principios da digitalis, e da saponina; estes se comportam como em presença do acido sulphurico concentrado. Applicado á digitalina ordinaria este reactivo, segundo uns (Chapuis, etc.), produz-se uma cor verde, que muda para o ver- melho violáceo quando se agita o liquido com a ponta de um bastão molhado em agua bromada; Grandeau acha esta reacção muito sensivel. Si se expõe a mistura aos vapores de bromo, ella toma instantaneamente a cor roxa, cuja intensidade ou matiz varia conforme a proporção da digitalina. Só a delphi- nina apresenta esta mesma reacção, mas como ella não é acar- retada pelo ether, quando em solução acida, não ha receio de confusão. Segundo outros (Tardieu, Roussin, etc.), com o acido sul- phurico concentrado a digitalina toma a cor parda escura, e dissolve-se no acido, corando-se em vermelho. Si se lança esta mistura em 3 ou 4 vezes seu volume d’agua, o liquido toma a cor verde, e deixa depositar lentamente um pó verde; á me- dida que se forma este deposito o liquido vae descorando e tor- nando-se amarello. Segundo Dragendorff, esta reacção dá-se com a digitalina e a digitaleina em presença de acido sulphu- rico e bromo. 3. a O acido sulphurico com os ácidos biliares coram em vermelho a digitalina, a digitaleina, e a digitonina, mas não a digitoxina. 4. a Uma mistura em partes iguaes de acido sulphurico concentrado e álcool, dissolve a digitalina; si se aquece ató o apparecimento de uma cor amarellada, depois, pela addição de uma gotta de solução de per-chlorureto'de ferro, torna-se azulada. Esta reacção, devida a Lafon, é sensivel até um milligramma 1 e pertence naturalmente á digitalina propria- mente dita, visto que se produz com a digitalina franceza. 1 Em ensaios que fiz nunca pude verificai esta sensibilidade. 708 DIGITALIS 5. a 0 tannino, dizem todos os autores, precipita incomple- tamente a digitalina, e o precipitado, que não é de todo inso- lúvel na agua, porquanto lhe communica sabor amargo pronun- ciado, é muito solúvel no álcool. Entretanto, depois da discri- minação dos differentes princípios activos da digitalis, sabe-se que este reactivo justamente não precipita a digitalina propria- mente dita, e sim a digitaleina e a digitonina. 6. a A solução ammoniacal de acetato neutro de chumbo precipita também estes dous últimos corpos. 7. a O acido phosphorico xaroposo e o chloral anhydro córam em verde a digitalina de Nativelle (Fluckiger). 8. a O reactivo de Fròhde dá com a digitalina (qual?) uma côr alaranjada intensa, passando rapidamente ao vermelho cereja, ao pardo escuro depois de meia hora ; 24 horas depois a solução amarellada contém flocos negros. 9. a O acido azotico concentrado ataca energicamente a di- gitalina (qual?) produzindo vapores rutilantes, e dando-lhe uma côr amarella alaranjada, que passa depois ao amarello dourado persistente. Segundo Tardieu e Roussin formam-se nesta reacção acido oxalico e um acido nitrado analogo, sinão idêntico, ao acido carbo-azotico. 10. a O acido phospho-molybdico (reactivo de Vry), dá nas soluções de digitalina um precipitado amarello, que torna-se verde pelo aquecimento, ou mesmo a frio, porém lentamente, e depois azul pela addição da ammonia. Esta reacção é de Trapp (segundo Dragendorff), que a viu produzir-se mesmo com 0,0006 de digitalina ; é, pois, nimiamente sensivel, e admira que tenha falhado nas mãos de Tardieu, que cita aquelle acido entre os reactivos que não precipitam a digitalina (!). Sómente ella não é exclusiva da digitalina, o que torna o seu valor pra- tico muito limitado, porquanto écommum com algumas outras substancias organicas, entre as quaes alguns alcaloides, cujos precipitados amarellos, formados com este reactivo, viram lenta e espontaneamente para o verde ou para o azul, em conse- VENENOS NEURO-MYOTICOS 709 quencia da reducção do acido molybdico (em um oxydo salino desta côr) pelo proprio alcaloide ou algum principio estranho que o acompanhe. 1 A ammonia por sua vez dissolve estes pre- cipitados, tomando o liquido ora a côr azul (com a berberina e a conicina), ora a côr verde (com a brucina e a codeina). O bichlorureto de mercúrio, o iodureto de potássio iodurado, o iodhydrargyrato de potássio, o nitrato o bichromato de potássio, etc. não exercem acção sobre a solução digitalina . Como complemento aos methodos de pesquiza e reconheci- mento deste veneno, resta-me fallar da experimentação phy- siologica, tomando para base da discussão a que foi posta em prática por Tardieu e Roussin, no processo La-Pommerais. Acompanharei Rabuteau na critica do methodo seguido por estes profissionaes. Elles procederam da fôrma seguinte: 1. Fizeram um extracto alcoolico das matérias obtidas pela raspagem da parte do assoalho, manchada pelos vomitos da viuva Paw, e o inocularam em incisões praticadas na face interna das coxas de um cão robusto e sadio, que succumbiu no fim de 10 horas. Outra porção do mesmo extracto (2 grammas diluídas num pouco d’agua) administraram a um coelho, que veiu a morrer tres quartos de hora depois. Finalmente uma ter- ceira porção injectaram em uma rã, ao lado de outra que recebeu digitalina para servir de termo de comparação; ambas suc- cumbiram pouco mais ou menos da mesma fôrma, isto é, apre- sentando demora considerável, com irregularidade dos bati- mentos cardíacos (estando o coração descoberto). 2. Para confronto fizeram um extracto alcoolico com o producto da raspagem de outra parte do assoalho não tocada pelos vomitos, e deram a beber a um coelho (na dóse de 4 grammas) que não apresentou symptoma algum de intoxicação. 1 E’ muito provável que a côr verde intermediária em todas estas reacções promovidas pelo acido phosphomolybdico sejam antes devidas a um effeito puramente tinctorial, resultante da combinação da porção amarella não transformada do precipitado ou do reactivo, com a que já soffreu essa transfor- mação em azul, pois como se sabe destas duas côres gera-se o verde. 710 DIGITALIS 3.0 Fizeram extractos provenientes do estomago e intestinos da victima (extractos alcoolicos, depois extractos aquosos com o residuo do tratamento pelo álcool); uma porção introduziram em uma ferida incisa praticada na coxa de um cão adulto e vigoroso, que teve vomitos, demora notável da circulação, mas sarou no fim de seis dias ; outra inocularam em um coelho que morreu rapidamente. Estes resultados levaram os referidos peritos a se pronun- ciarda maneira por que o fizeram no seu relatorio: « Os eífeitos desenvolvidos nos animaes submettidos á expe- rimentação se assemelham tanto com os produzidos pela digi- talina que, sem que o possamos afflrmar; fortes presumpções nos levam a crer que a viuva Paw succumbiu a um envene- namento pela digitalina.» Ora, na opinião sensata de Rabuteau, estas conclusões deixam muito a desejar, e assentam sobre dados mal interpretados e mesmo erroneos, considerados á luz da sciencia moderna. As causas de erro neste caso procedem de tres circumstan- cias : Ia, natureza das substancias inoculadas e administradas aos animaes; 2a, as especies desses animaes submettidas a semelhante prova ; 3a, o exclusivismo da interpretação. 1 .a Essas substancias foram, como já disse, extractos con- stituídos por substancias animaes em decomposição, e principios cadavéricos, capazes por si só de determinarem phenomenos de intoxicação e a morte, por septicemia, com alguns symptomas analogos aos do digitalismo. Tardieu e Roussin previram e julgaram ter evitado esta causa de erro, porquanto declararam o seguinte: « nenhum corpo organizado, nem fermento pútrido, sendo solúvel no álcool a 95% não hesitamos em dizer que os extractos alcoolicos não poderão encerrar nenhum virus, nem fermento pútrido capaz de produzir a morte por infecção local. A experiencia directa confirma inteiramente estas observações ; a carne a mais pútrida não cede á agua nem ao álcool nenhum principio solúvel susceptivel de determinar um envenenamento VENENOS NEURO-MYOTICOS 711 qualquer, seja que se administre o extracto destas soluções interiormente ou por via endermica. Theoricamente, como expe- rimentalmente, a presença de fermentos ou de matérias toxicas existindo em uma solução alcoolica de carnes pútridas não tem o menor fundamento e não representa sinão uma phantasia do imaginação.» Entretanto, objecta Rabuteau, essas provas experimentaes não foram exhibidas, e o resultado delias seria contrario, con- forme demostraram as investigações de Fagge e Stevenson, de Homolle e outros. Os primeiros verificaram que os extractos alcoolicos ( com álcool a 95°) de matérias vomitadas por doen- tes, ou encontradas no estomago de cadaveres de homem ou de cão, produziram effeitos toxicosapplicados em rãs. Por seu lado Homolle experimentou em um porco da índia o extracto alcoolico ( com álcool a 95°) do estomago de um vitello meio putrefacto, e viu o animal succumbir em uma hora e 10 minutos, sem ter apresentado convulsões; apenas a respiração tinha-se tornado lenta, embaraçada e suspirosa, e os batimentos cardiacos insensíveis. Além disso, já em 1822, muito anteriormente a esta causa celebre, Gaspar e Stick haviam verificado que os extractos cadavéricos injectados debaixo da pelle de um animal eram extremamente toxicos. Veiu posteriormente a descoberta das ptomainas, como já disse, confirmar o resultado destas expe- riências, e invalidar ou pelo menos enfraquecer consideravel- mente as conclusões de Tardieu e Roussin. Nada, pois, justifica estes chimicos não terem isolado primeiramente o veneno, para o experimentar em outros animaes, a exemplo da conducta rigorosa e correcta de Stass, a proposito da pesquiza da nicotina ; e tanto mais esta censura ó justa e merecida, quanto si de facto aquelles extractos animaes pudessem conter bastante digitalina para envenenar animaes submettidos á sua acção, é que ella se achava ahi em quantidade sufficiente para ser isolada e caracterisada. 712 DIGITALIS 2. a A segunda causa de erro está em terem elles esten- dido suas experiencias a cães, que são os animaes menos pró- prios, menos competentes para a verificação dos effeitos de depressão e paralysia cardio-vascular, determinados pela di- gitalina; visto como é de observação vulgar, confirmada por muitos physiologistas, que mesmo no estado physiologico e normal as pulsações cardíacas do cão são irregulares e inter- mittentes. Os effeitos emeticos por sua vez não podem ser produzidos e estudados nos porquinhos da índia, assim como não poderiam sel-o nos cavallos, e outros animaes que em hypothese ne- nhuma vomitam ; facto que parece terem esquecido, por não acreditar ignorado dos peritos que assignalaram o appare- cimento de vomitos em uma dessas experiencias. 3. a Quando mesmo ficasse demonstrado que os extractos animaes empregados actuaram por algum principio vegetal toxico, e não por agentes sépticos ; quando mesmo ficasse pro- vado que os phenomenos observados na circulação dos animaes sujeitos a experiencias traduzissem a acção de um veneno cardio- vascular, ainda assim a conclusão não se impunha forçosa- mente em favor da digitalina, porquanto não é a unica sub- stancia que goza dessa propriedade. Hoje conhecem-se muitas outras que exercem a mesma acção e podem ser isoladas por um processo analogo, e são as seguintes : Convallamarina, glycoside insolúvel na agua, segundo uns, solúvel segundo outros l, que se extrahe das flores da convallaria maialis (signo de Salomão). Distingue-se da digita- lina pelas reacções seguintes: O acido sulfurico concentrado a córa em amarello, que passa ao vermelho escuro, e quando se ajunta um pouco da agua ou quando attrahe a humi- dade atmospherica, toma a cor rôxa. A agua bromada ad- dicionada á solução sulphurica a torna de côr parda ; o acido 1 Ha talvez confusão entre esta glycoide e a convallarina extrahida da mesma planta, mas que não é synergica da digitalis (Dragendorff). VENENOS NEURO-MYOTICOS 713 chlorhydrico produz o mesmo effeito. Finalmente o tannino não precipita. Scillipicrina, scillitoxina e sobretudo a scillaina, extra- hidas dos bulbos da scilla. Esta ultima, que tem uma actividade comparável á da digitoxina, é uma glycoside dificilmente solúvel na agua, solúvel no álcool; dá com o acido chlorhydrico um liquido avermelhado, que deixa flocos verdes quando se aquece. Dá com o acido sulphurico um liquido de cor parda, offerecendo depois uma fluorescência verde. A scillipicrina é muito hygroscopica, facilmente solúvel na agua, ao passo que a scillitoxina é insolúvel neste meio, e no ether facilmente solúvel. O acido sulphurico concentrado córa em vermelho, que torna-se pardo. O acido azotico também a córa em vermelho, que depois fica verde. Helleboreina, um dos princípios activos da raiz de varias especies de helleboro ; é uma glycoside solúvel na agua, pouco no ether, dificilmente solúvel no álcool e no chlo- roformio. O acido sulphurico concentrado, ou mesmo um pouco diluido, a córa em vermelho intenso magnifico. O acido chlorhydrico não a altera. Neriodorina, glycoside isolada do nerium odorum; 1 ella é dificilmente solúvel na agua e no ether, facilmente so- lúvel no chloroformio e no álcool. O acido sulphurico a dissolve corando em pardo amarellado ; o bromo ou o acido azotico torna a solução rôxa. O reactivo de Frõhde a córa em roxo avermelhado, depois em roxo azulado. O perchlorureto de ferro dá-lhe uma côr parda avermelhada. Saponina, glycoside que existe nas plantas da familia das Caryophyladas, nos castanheiros da índia, e sobretudo na casca da Quillaia saponaria, vendida no commercio com o nome de páo de panamá, e donde se a extrahe de preferencia, A saponina impura do commercio dá muitas vezes com o acido 1 Não será nerium oleandcr ? 714 DIGITALIS sulphurico e o bromo uma reacção analoga á da digitaleina; mas a saponina pura tratada por este acido concentrado toma uma côr parda, que vae-se tornando pouco a pouco azul arro- xeada ; com esse mesmo acido um pouco diluido toma pouco a pouco uma bella côr de purpura. O reactivo de Fròlide dá-lhe uma côr escura que em certos pontos torna-se roxa. A saponina é muito solúvel na agua, com a qual sendo agitada forma grande quantidade de espuma ; basta 7i000 para este effeito, dalii deriva o seu nome. EUa emulsiona as resinas, as gorduras, acamphora, etc.; é insolúvel noether, um pouco solúvel 11a benzina, mais no cliloroformio. Seu sabor é a principio doce, depois adstringente e acre; é um ester- nutario poderoso. Suas soluções turvam-se ou mesmo precipitam-se pelo tannino ; 0 nitrato de prata e a solução cupro-alcalina são reduzidos lentamente pela ebullição. A agua de baryta e 0 sub-acetato de chumbo precipitam em branco. O acido phosphorico não exerce acção, 0 que dis- tingue a saponina da digitalina e da digitaleina. Senegina, extrahida da polygala senega, é provavelmente, segundo Dragendorff, idêntica á saponina. Smilacinci, é uma mistura cujo elemento essencial é a parillina; extrahida da salsaparrilha. O acido sulphurico e 0 reactivo de Frõhde a dissolvem com uma côr parda, depois vermelha. O acido sulphurico diluido dá pouca côr, mas ajun- tando cautelosamente agua nesta solução, ella fica vermelha. Graciolina, glycoside extrahida da gratiola (pequena digitalis); é branca, crystallina, solúvel na agua fervendo e no álcool; de sabor amargo. O acido sulphurico e 0 reactivo de Frõhde dão-lhe uma côr alaranjada, que passa ao vermelho magnifico com 0 primeiro reactivo, e ao verde com 0 segundo. O acido sulphurico e 0 bromo a coram em pardo esverdeado, depois em pardo, mas não em vermelho. O acido azotico fumegante a dissolve com a côr alaranjada; a agua a separa deste liquido. 715 VENENOS MYOTICOS QUARTA CLASSE Venenos myoticos (musculares) Envenenamento pelas Colchicaceas Como bem diz Cornevin, si a familia das Colchicaceas ou Melauthaceas encerra apenas um pequeno numero de especies, por um triste privilegio são todas venenosas. Elias referem-se principalmente a tres generos: Colchicum, Yeratrum e Schoeno- caulon ou Sabadilla: O genero Colchicum comprehende umas 20 especies eu- ropéas e mediterrâneas, das quaes a mais importante, a mais conhecida e espalhada, e também a mais venenosa, é o C. autum- nale, colchico do outomno, vulgarmente chamado em França açafrão bastardo, mata cães, etc., conforme as localidades. E’ uma hervaque cresce nos prados húmidos da Europa Occi- dental ; todas as partes da planta são venenosas, e esta pro- priedade não se perde com a deseccação. Sómente as folhas, depois da formação e da maturação das sementes, tornam-se me- nos toxicas. O mesmo succede no momento da floração aos bulbos, que são a parte quasi de preferencia exclusivamente empregada em medicina. O vinho de colchico ( obtido quer com os bulbos, quer com as sementes) tem occasionado alguns accidentes toxicos no homem ; outros preparados e a própria planta teem dado logar a envenenamentos accidentaes, em todo caso por appli- cações medicinaes, e raramente pela ingestão de qualquer das partes desta planta como alimento, ou de mistura com os nossos alimentos. Assim Murray, citado por Fonssagrives, aponta entre outros factos os seguintes : Duas crianças, que ingeriram por brinca- 716 COLCHICO deira colchico, não tardaram a succumbir ; mais tres que en- goliram sementes desta planta soffreram perturbações graves em sua saude, e uma delias morreu. Uma menina, que tomou tres ou quatro flores de colchico, com o fim de combater uma febre intermittente, apresentou symptomas de envenenamento e morreu no fim de tres dias. Um camponez experimentou acciden- tes graves por ter comido bulbo de colchico. Finalmente Stõrck em suas experiencias tomou apenas um grão (?) do sueco deste bulbo em miolo de pão, e sentiu dor ardente no estomago, dysuria e estranguria, soluços, cólicas, cephalalgia e uma fraqueza que persistiu ainda muitos dias. Os animaesem geral também soffrem a acção deleteria deste vegetal, que elles encontram commummente nos campos e pastos da Europa; não o procuram, é verdade, por causa de seu sabor acre ; mas os bois, que accidentalmente comem suas folhas, expoem-se a inflammações de intestinos que podem acar- retar a morte. Um cão, que ingeriu pouco mais de 2 gram. de pó de bulbos de colchico misturado com carne, succumbiu no fim de duas horas. Emfim, á propriedade nimiamente toxica do colchico, li- ga-se a pretendida etymologia do seu nome, que se diz provir de ser esta planta muito abundante na Colchidia, paiz celebre na antiguidade por seus venenos. Alóm da especie C. autumnale, citam os autores outras que são sem maior importância ( C. napolitanum, C. monta- num, C. arenarium, C. alpinum, etc.) O genero Veratrum abrange também varias especies, das quaes são mais conhecidas, ou pelo menos offerecem maior in- teresse, na opinião de Cornevin, as duas: V. álbum (veratro branco, também chamado impropriamente helleboro branco), e V. nigrum (helleboro preto). Estas duas especies abundam na Europa ; a primeira, diz Rabuteau, cresce nas montanhas, principalmente nos Alpes, nos pastos montanhosos da Suissa, da Provença, do Piemonte, VENENOS MYOTICOS 717 na Áustria, na Grécia e até na Sibéria. A segunda encontra-se nesta ultima região, e mais, no Sul da Allemanha e em toda a França. A respeito das outras especies acham-se nos autores apenas indicações ligeiras e um pouco discordantes ou confusas. Elles citam o V. lobelianum, que cresce nos Alpes ; o V. vi- ride, que é indígena da America do Norte; e o V. sabadilla que outros classificam no genero Sabadilla, esp. S. offieinalis, ou ainda no genero Àsagrêa, esp. A. offieinalis (cevadilha das Antilhas). Ha ainda a esp. V. offieinalis, que os autores não dizem positivamente, mas parece ser a mesma sabadilla ou asa- gréa offieinalis; ella encontra-se principalmente no México, e fornece pequenos fructos ou sementes semelhantes aos grãos de cevada, ou antes de cevadinha (cevadilha do México). O genero Schcenocaulon, que para alguns autores é diffe- rente dos dous precedentes, outros não distinguem destes ; e a especie unica, que por todos é assignalada : Sch. officinale, de Gay, parece ser a mesma descripta e classificada no gen. Vera- trum, por Schlechtendall, no gen. sabadilla,por Brandt, e no gen. Asagréa, por Lindley. Estas plantas todas devem suas propriedades toxicas a prin- cípios alcalinos, que a principio foram considerados idênticos ; mais tarde, porém, Geiger e Hesse mostraram que o alcaloide do colchico era distincto daquelle que existe nas especies do gen. Yeratrum ou sabadilla. Ao primeiro deu-se o nome de colchicina; ella se acha em todas as partes do vegetal, particularmente nos bulbos e nas sementes, que são as mais empregadas em medicina. Pretende-se que as sementes encerram maior proporção de alcaloide, e são por isso reputadas mais activas e toxicas; segundo Aschoff e Bley essa proporção é de 0,208 % i. 1 Segundo Oberlin, a colchicina de Hesse e Geiger e que elle nunca pôde obter crystallizada, é um producto complexo, do qual conseguiu retirar ou- 718 COLCHICO A colchicina não tem ainda occasionado envenenamentos, de que se encontre noticia veridica nos autores, 1 ao passo que já se teem assignalado muitos casos de intoxicação pelo colchico ou seus preparados officinaes ; pela maior parte teem sido acci- dentaes, alguns motivados por suicídio e apenas um por homi- cídio, referido por Galtier. Os casos accidentaes teem occorrido ou em crianças por comerem flores ou bulbos de colchico, ou mesmo em adultos por terem tomado dóses relativamente elevadas de preparados desta planta, quasi sempre usando imprudentemente de formulas secretas de base de colchico, annunciadas como effícazes contra o rheumatismo. Outras vezes os accidentes foram o resultado de engano e troca de remédios. A historia clinica e chimica deste envenenamento é ainda mal conhecida, de modo que nem todos os tratadistas se occupam com ella, e por isso não me alongarei sobre o seu estudo, limitando-me a uma rapida noticia, e reservando maior desenvolvimento para o estudo toxicologico da vera- trina, que é mais importante. Segundo Van Hasselt a menor dose de vinho ou de tintura de colchico capaz de produzir a morte não excederia de 2 a 3 drachmas (8 a 12 gram.) ; a maior parte das intoxicações conhecidas, teem sido occasionadas por dóses maiores, como nos dous casos citados por Taylor, com o emprego de 1 a 1 l/i onça (31 a 47 gram.) de vinho de colchico ; Roux cita cinco casos de envenenamento mortal com 60 gram. deste mesmo preparado, tio principio diverso, neutro e facilmente crystallizavel, para o qual propoz o nome de colchioeina (Cornevin ). E’ diííerente o que se lê em DragendorfT a este respeito; para elle a colchi- ceina não passa de um producto de transformação da colchicina, sob a influen- cia dos ácidos, etc. 1 Em 1885, deu-se em Paris tun facto suspeito, desta natureza, de que foi accusado um individuo na pessoa de sua mulher. Porém, os resultados das investigações medico-legaes a que se procedeu oito mezes depois da inhumação do cadaver, não deixaram positivamente demonstrado semelhante envenenamento, conforme se lê num minucioso relatorio apresentado por Brouardel na Sociedade de med. leg-. de França, e publicado nos Annaes de hygiene publica e medicina-legal, de 1886. venenos myoticos 719 dados a beber por engano em logar de vinho de quina, a cinco forçados (Chandellon). Quanto á colchicina, Schacht acredita que é perigoso para o homem já na dose de 5 a 6 milligr. ( i/10 de grão). Symptomas ; signaes clínicos Como bem diz Cornevin, os symptomas deste envenenamento nada teem de caracteristicos e são communs com os que apre- sentam os envenenamentos pelas substancias purgativas drásti- cas ; sua invasão não é em geral muito prompta ou brusca; mesmo nas condições de mais facil absorpção, elles só começam a manifestar-se umas duas horas depois. Esta circumstancia, longe de ser favoravel ao successo dos meios de tratamento, embaraçam-os pelo caracter insidioso do envenenamento, e a difficuldade de encontrar mais nas primeiras vias o veneno, afim de obstar sua absorpção. Esses symptomas são os seguintes: salivação abundante, nauseas, vomitos, com sensação de calor urente, e grande aperto 11a garganta, dores epigastricas violentas, cólicas e evacuações diarrheicas abundantes, tornando-se para 0 fim dysentericas, sanguinolentas, acompanhadas de tenesmos. Uri- nas copiosas, respiração curta, accelerada, diíficil, depois morosa. Pulso fraco, pequeno e intermittente, resfriamento geral, com suores frios e cyanose nas extremidades, collapso e morte no fim de 16 horas até seis dias. Não ha opinião uniforme sobre a acção intima do colchico, e o mecanismo da morte por esta substancia ; mas ao que parece mais provado, ella actua particularmente sobre 0 systema muscular, ou antes, como quer Rabuteau, sobre a fibra muscular; para outros sua acção se exerce sobre os nervos motores e sensitivos, produzindo a sua paralysia. 720 COLCHICO Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos Resumem-se os signaes mais dignos de menção em uma hyperhemia ou inflammação mais ou menos viva da mucosa gastro-intestinal, principalmente do grosso intestino, e ainda mais particularmente do recto, onde se observam ás vezes si- gnaes de hemorrhagia e ulcerações. Os rins são igualmente inflammados, e a bexiga vazia ou quasi vazia. Sangue coagulado, abundante no ventriculo direito, em pequena quantidade no esquerdo ; no coração nada de notável, bem como nos pulmões. Um pouco de congestão das meningéas, e ás vezes também no figado; mais nada. Tratamento Yeja adeante o da veratrina, do qual não diífere. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Esta pesquiza é susceptivel de exito ainda mesmo algum tempo depois da inhumação, porque a colchicina resiste bas- tante à putrefacção, como parecem ter demonstrado as experiên- cias de Ogier, que pôde reconhecer claramente esta substancia em vísceras de cães envenenados com ella e inhumados durante cinco e meio mezes. (Ann. de hyg. publ. e med.-leg. 1886.) Póde-se lançar mão, para esta pesquiza, de qualquer dos processos geraes já descriptos para os outros alcaloides, tendo o cuidado de empregar um acido orgânico, de purificar as so- luções acidas pelo ether de petroleo, e separar o alcaloide por meio do benzol, do álcool amylico ou do chloroformio. Wittstock propõe para esta pesquiza o seguinte processo, que elle empregou uma vez com successo: Dilue-se o conteúdo do estomago em grande quantidade de álcool acidulado por algumas gottas de acido chlorhydrico ; VENENOS MYOTÍCOS 721 agita-se vivamente a mistura, íiltra-se e evapora-se até á consistência de xarope, em temperatura de 36 a 40°. Retoma- se o residuo pela agua, que separa uma parte da gordura ; fil- tra-se a solução aquosa, evapora-se a calor brando e trata-se o residuo pelo álcool. Esta solução alcoolica é por sua vez filtrada e evaporada até consistência xaroposa, e o residuo re- tomado pela agua, á qual se junta 2 grammas de magnesia e 90 grammas de etlier. Deixa-se em digestão demorada, decanta-se o ether e abandona-se á evaporação espontânea. Pela terceira e ultima vez redissolve-se na agua o residuo, e nesta solução expe- rimentam-se os reactivos proprios. Pondo de parte os que são communs aos outros alcaloides, e limitando-me a indicar sómente os que dão reacções caracteris- ticas, são os seguintes: 1. O acido sulphurico hydratado cora a colchicina em amarello. 2. O perchlorureto de ferro córa em verde intenso as soluções de colchicina, e dará um precipitado de azul da Prussia, si se tiver ajuntado o ferricyanureto de potássio, pela reducção deste corpo. 3. A agua de chloro produz nellas um precipitado ama- rello, que se dissolve na anmonia com uma côr alaranjada. 4. O acido azotico concentrado (1,4 de D.) córa em roxo claro, que passa rapidamente ao vermelho escuro ; pela addição de algumas gottas de agua, torna-se amarello, que por sua vez, em presença da potassa ou da soda, passa á côr vermelha viva. Ob tem-se uma bella còr viole te dissolvendo a colchicina em acido sulphurico concentrado, e ajuntando um crystal de nitrato de potássio, ou então tratando-se pelo acido azotico o precipitado formado pelo acido phosphomolybdico nas soluções de colchicina (Chandellon). Esta reacção é indicada diíferen- temente por Dragendorff ; si a uma solução de colchicina em acido sulphurico se addiciona uma gotta de acido azotico ou um pouco de nitro, o liquido toma uma còr verde, que passa xoxicotoaiA 43 722 COLCHICO ao azul, ao rôxo e ao amarello pallido ; pela acção do alcali torna-se vermelho cor de tijolo. Esta discordância depende, segundo Brouardel e Pouchet, 1 das condições diversas em que o ensaio é executado pelos differentes autores. Assim, uns não indicam a concentração do acido azotico empregado, o que não è indifferente; outros aconselham lançar mão do acido azotico primeiro, addicionado depois de acido sulphurico, etc. Seja, porém, como fôr, pensam aquelles chimicos que ha pouca vantagem e até mesmo inconveniente no emprego simultâneo do acido azotico e sulphurico, porquanto este ultimo tem facili- dade de carbonizar parcialmente o residuo impuro submettido à analyse, e mascarar a côr. Na opinião de Schutzenberger (que também com Vulpian foi ouvido no processo em questão), essas differenças podem se explicar pela influencia de matérias estranhas no extracto chloroformico obtido, que nunca sendo inteiramente eliminadas, devem modificar até certo ponto a clareza das reacções. Demais, a côr vermelha alaranjada produzida pela acção do alcali (2a parte do ensaio), diz Schutzenberger que tem um valor restricto porque existem muitas matérias organicas azotadas, pertencentes ao organismo animal, que se comportam analoga- mente. Elle parece dar mais importância ao reactivo de Mandelin (sulfo-vanadato de ammonio), que córa a colchicina em verde intenso, passando rapidamente á côr parda violacea. Em todo caso esta reacção, combinada com a do acido nitrico, tem para esse chimico uma importância real na pesquiza da colchicina. Quanto á veratrina, existe em maior ou menor proporção em todas as especies de genero Yeratrum ou Sabadilla ; a mais rica porém desse principio, donde se o extrahe de preferencia, é o Ver. ou Saò. officinarum (cevadilha do México). Ella foi descoberta em 1818, por Meisner, que denominou sabadillina, 1 V. o relatorio já citado, em que se encontra um estudo interessante sobre as reacções deste alcaloide e sua historia toxicologica. VENENOS MYOTICOS nome adoptado por Brandes e outros chimicos. Pelletier e Caventou porém deram-lhe o nome de veratrina, pelo qual è geralmente conhecida, ficando a denominação de sabadillina para outro alcaloide, isolado das mesmas plantas por Couerbe. Ao lado destes encontra-se também a jervina, sobretudo nas especies V. viride e V. lobelianum que, segundo alguns, não encerram veratrina; o que não está demonstrado. Os envenenamentos pela veratrina, por productos obtidos com as plantas que a conteem, pela maior parte teem sido acci- dentaes ; assim, por exemplo, um grande numero destes factos se tem observado apoz a ingestão do pó de veratro branco, em logar de pimenta do reino, ou então tomado mesmo como remedio, porém por engano, em dóse excessiva, como também já tem succedido com a tintura desta planta. Outras vezes por depravado gracejo, teem alguns perversos ajuntado um pouco desse pó à cerveja e outras bebidas. Citam-se também factos de indivíduos que teem ingerido prepa- rados contendo esse veneno, até ao ponto de sentirem perturba- ções no coração, para fazerem crer em uma affecção deste orgão, com o fim de se libertarem do serviço militar. Emfim, a applicaçâo externa de alguns desses preparados, parasiticidas, sobretudo estando a pelle escoriada ou ferida, tem sido igualmente causa de accidentes toxicos. A dóse toxica da veratrina, para a especie humana, não está ainda bem determinada ; segundo Taylor, ella póde occa- sionar a morte já na dóse de 3 a 4 milligrammas, que parece com razão a Rabuteau exaggerada, salvo si se tratar de uma criança de idade muito tenra ; fóra disso, seus effeitos se limitarão a vomitos abundantes e algumas cólicas. Dá-se frequentemente nesta dóse como medicamento sem nenhuma consequência funesta. Forke, já citado por Chandeilon, diz ter administrado sem o menor perigo, tres vezes esta dóse por dia. Em parte, este resultado e as diíferenças ainda muito maiores de effeitos toxicos nos outros aninaes, explicam-se pela qualidade 724 VERATRINA da veratrina empregada, e pelas impurezas que se encontram geralmente na veratrina do commercio ; ella encerra propor- ções muito variaveis de sabadillina, e uma resina. As sementes de cevadilha são toxicas na dóse de 4 gram- raas; o pó de helleboro branco, na dóse de 30 a 40 centigr., Van-Helmont viu um caso fatal devido á ingestão de 1,3 gr. deste pó. Symptomas ; signaes clínicos A veratrina applicada á pelle e ás mucosas exerce uma acção particular e electiva sobre as terminações nervosas, e que explica a sensação de calor ou prurido urente, e como que formigamento doloroso, semelhante ao produzido pelo contacto do pincel electrico ; depois sobreveem entorpecimento e insen- sibilidade, com sensação antes de frio. Muitas vezes a cor da pelle não é modificada, e só apoz fricções energicas é que se manifesta rubor na parte, ás vezes acompanhado de phly- ctenas. E’ um esternutatorio de primeira força; a menor quan- tidade introduzida nas fossas nasaes ou mesmo na boca, provoca espirros violentos e repetidos, seguidos de hypersecreção nasal e salivar, como no periodo inicial de um coryza agudo; ás vezes observa-se epistaxis. Quando ingerida, ou absorvida de qualquer modo, a vera- trina produz nauseas, vomitos e dejecções alvinas, acompa- nhados de cólicas mais ou menos intensas. Sobreveem algumas vezes contracções musculares pouco duradouras e irregulares, seguidas logo de phenomenos de paralvsia ; por vezes reappa- recem as convulsões, mas os symptomas predominantes são os de hyposthenia geral e profunda, embora por um mecanismo diverso do que preside á acção dos venenos verdadeiramente hyposthenisantes ou choleriformes, segundo a expressão de Tardieu. Os batimentos cardiacos, a principio accelerados, tornam-se irregulares, fracos e intermittentes, e acabam por parar de todo em systole ou diástole, conforme a dóse do alca- VENENOS MYOTICOS 725 loide. Perturbações analogas se observam para o lado dos movimentos respiratórios, suores glaciaes banham o corpo do indivíduo, e neste estado elle succumbe dentro de algumas horas, mais raramente de muitos dias, tendo começado os effeitos toxicos quasi immediatamente, poucos minutos depois da ingestão do veneno, ao contrario do que succede com a colclii- cina. Mecanismo da acção toxica Segundo Nothnagel eRossbach, Dujardin Beaumetz, etc., os phenomenos mais curiosos e que apresentam maior inter- esse em relação á veratrina são os que teem sua séde nos musculos estriados e nos nervos motores. Cornevin a consi- dera um veneno bulbar e talvez muscular; entretanto, na opinião de Rabuteau só os musculos são affectados, e não os nervos, nem a sua placa motora terminal ou peripherica. Do systema muscular é particularmente o coração o mais com- promettido, pelo que Prevost e Kõlliker consideram a vera- trina um veneno do coração (Gubler). Esta acção se póde distinguir em tres pliases, conforme demonstram as experiencias de Prevost: Ia, de excitação ge- ral, passageira, caracterisada pela acceleração dos movimentos respiratórios e batimentos cardíacos; 2a, de contracção ou contractura muscular, differente no seu mecanismo da con- tracção strychnica. 1 Kõlliker mostrou que o mesmo acon- 1 E’ um-erro suppor que ha identidade no mecanismo destes dous phe- nomenos, porquanto si a contracção de um musculo vératrinisado repre- sentasse um tétano strychnico, esse musculo posto em relaçao com os nervos da coxa de uma rã (pata galvanoscopica), deveria produzir nesta côxa um tétano secundário (contracção induzida) ; ora, é justamente o que não se dá (Dujardin Beaumetz). Póde-se, porém, demonstrar es*e facto pela seguinte experiencia: si se destroe a medulla espinhal do uma rã veratrini- sada, ou si se seccionam todos os nervos motores de um membro, separando-o assim do systema central, todavia vê-se apparecer nesse membro espasmos ou contracturas, que não se manifestariam si o animal tivesse sido stry- chnisado. Ainda outra experiencia que serve de contraprova: Isola-se a circulação de um membro por meio de uma ligadura compre* hendèndo tudo, excepto os troncos nervosos que o animam, e intoxica-se o 726 VERATRINA tece nas rãs, cuja contractilidade dos nervos motores tem sido abolida pela administração prévia do curare; todos estes fa- ctos demonstram claramente a acção directa da veratrina sobre o elemento muscular. 3a phase de parali/sia ou resolução muscular que é o phe- nomeno constante e predominante, e faz da veratrina um dos typos de venenos musculares. — Esta paralysia por sua vez distingue-se da que é determinada pelo curare, porquanto nesta, a excitabilidade nervosa não existe mais, porém o musculo è suscentivel de contrahir-se ainda sob a influencia de diversos excitantes ; entretanto que si se injecta então veratrina, a ex- citabilidade muscular desperta ainda, mas desapparece depois completamente. Qual a acção intima que se passa no musculo veratrinisado ? Não se sabe ao certo. Segundo uns, a veratrinisação do mus- culo favorece o primeiro acto do processo chimico que deter- mina a contracção, pela formação em maior quantidade da sub- stancia encurtante, visto como a contracção do musculo vera- trinisado se acompanha de maior elevação thermica do que a de um musculo normal (Frik), ao lado do augmento notável que adquire a energia de contracção (Nothnagel e Rossbach). Segundo outros, é o processo de restituição, que occasiona o relaxamento muscular, que se tornaria mais difficil e retar- dado pela presença da veratrina no musculo. Estes últimos autores são de parecer que as duas theorias não se excluem, não se incompatibilisam, e nada impede de admittir que ambos os processos intervenham na explicação do phenomeno. animal por meio de injecção de veratrina, em um sacco lymphatico por exemplo, e nenhum effeito ou resultado se observa, ao passo que nas mes- mas circumstancias a strychnina determinaria coavulsões neste membro. Ao contraído, pois, do que se passa na contracção strychnica, as con- vulsões produzidas pela veratrina muito dificilmente podem ser provo- cadas por uma irritação peripherica, e não se manifestam sinão na parte directamente irritada. Quando a dóse do veneno é considerável, estas con- tracções musculares apparecem espontaneamente e se succedem com extrema rapidez. Sabe-se e esiá provado que ellas podem ser provocadas nas rãs decapitadas, e naquellas cuja medulla tem sido destruída, como ha pouco fiz ver. VENENOS MYOTICOS 727 Na opinião monos sustentável de Gubler, a theoria pharma- codynamica da veratrina pôde, no estado actual da sciencia, se resumir nos seguintes termos : l.° Acção irritante tópica; 2.° Acção estupefaciente ou narcótica, exercendo-se directamente sobre o systema nervoso (sensitivo e motor) e sobre os musculos; 3.° Acção espoliativa por meio das supersecreções intestinaes e glandulares ; 4.° Acção hyposthenisante, sedativa, e accidentalmente antiphlo- gistica, etc. Si dos effeitos toxicos complexos passarmos a inquirir o me- canismo especial da morte, veremos, com Urpar, que esta póde-se processar de tres maneiras differentes: 1 ,a Por parada do coração em systole, tratando-se de dóses massiças, immediatamente toxicas; 2.a Por asphyxia rapida, devida á contracção dos musculos inspiradores; 3.a Por asphyxia lenta, ligada ás perturbações profundas da hematose, produzidas a seu turno pela dyspnéa progressiva. Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos As lesões cadavéricas próprias da veratrina são ainda mal determinadas, e em todo caso analogas, porém menosaccentuadas do que as produzidas pela colchicina, com as quaes foram con- fundidas outr’ora, quando erradamente se acreditava que tam- bém este alcaloide co-existia nas especies do genero Veratrum. Consistem principalmente em uma hyperhemia mais ou menos intensa da mucosa gastro-intestinal, com especialidade da por- ção duodenal, algumas vezes com exsudatos pseudo-membra- nosos ; mais raramente observam-se ulcerações, extravasações sanguineas, que são mais frequentes com o outro alcaloide. Figado ordinariamente congestionado; rins inflammados, bexiga vazia. Tratamento Provocam-se incontinente os vomitos e as evacuações pelos meios mais promptos e recommendados na therapeutica geral 728 VERATRINA dos envenenamentos, si é que esses eífeitos já não se teem ma- nifestado pela acção do veneno (veratrina ou colchicina), na escala necessária para a sua eliminação. Vicat lembra para este fim a administração de grande quantidade de agua morna com oleo. Como antídotos não se conhecem, por ora, outros de maior confiança e efficacia do que os mesmos applicados contra os outros alcaloides: solução de tannino, de iodureto iodurado de potássio, e os purgativos alcalinos segundo o conselho do Dr. Souza Lopes, e particularmente, na opinião de Chandellon, os saes de potássio, o chlorureto de potássio por exemplo, que injectado no sangue de rãs veratrinisadas, supprime a influen- cia da veratrina sobre o coração. Por essa razão elle propõe o seu emprego na especie humana, regulando a quantidade de sal para injecção 2,5 a 2,88, para uma pessoa pesando 65 a 75 kilos. Os meios, porém, mais experimentados para combater os symptomas geraes devidos á absorpção do veneno, são as bebi- das alcoólicas, que Rabuteau aconselha adoçar de preferencia com xarope de glycose, pelo motivo futil de que a saccharose é difficilmente solúvel nesses liquidos. Gubler recommenda o emprego dos opiáceos, do ether e das inhalações de oxygeno, ajudados pelos processos mecânicos de respiração artificial. Pesquiza toxicologica ; signaes chimicos Quando o envenenamento tiver sido occasionado pela inges- tão do pó das sementes decevadilha, ou dos rhizomas das outras especies do genero Veratrum, é possivel encontral-o nas ma- térias rejeitadas pelos vomitos ou no conteúdo do estomago, e reconhecel-o pelos caracteres seguintes: o primeiro apresen- ta-se sob a fórma de um pó pardo-escuro, de cheiro picante, e quando examinado no microscopio, de cor amarellada e aspecto crystallino ; além disso toma a cor amarellada pelo iodo, e es- VENENOS MYOTICOS 729 cura pela potassa ; o segundo se apresenta sob a fôrma de um pó branco acinzentado, de cheiro igualmente picante, que cora pelo iodo em azul ferrete, por causa da grande proporção de amido que encerra. Nos casos, porém, de envenenamentos por preparados phar- maceuticos dessas plantas ou sobretudo pela veratrina directa- mente, deve-se pesquizar este alcaloide naquellas mesmas maté- rias e também no sangue, no fígado e em outros orgãos ricos de sangue, fínalmente na urina, e até nas dejecções. Os processos mais recommendados para esta pesquiza são os de Stass e de Dragendorff. Rabuteau aconselha de preferencia o de Stass, substituindo, porém, o ether pelo chloroformio, que dissolve melhor a veratrina. Ghandellon indica um processo que não differe essencialmente do de Stass, com esta modificação de Rabuteau, no qual também emprega como dissolvente o chlo- roformio ; mas não pára ahi, porquanto a solução chloroformica é evaporada e o residuo dissolvido em agua acidulada por acido sulphurico. Depois filtra-se o liquido, agita-se com essencia ou ether de petroleo ; neutraliza-se por um alcali, e agita-se de novo com essencia de petroleo, que pela evaporação deixa a veratrina sob a fôrma de um residuo branco ou levemente ama- rellado, de aspecto resinoide. Diz Rabuteau que Husemann pôde extrahir este alcaloide dos orgãos de um coelho, que tinha morrido duas horas depois de ter recebido 1/2 centigramma. Observado ao microscopio pôde-se reconhecel-o constituido pela mistura de um pó crystallino (veratrina) com outra sub- stancia amorpha, incrystallizavel (veratrina), além da resina e da sabadilina que ahi existem em proporções muito va- riáveis (Chandellon). A veratrina pôde ser obtida, ainda que difficilmente, em longos prismas rhomboedricos incolores, pela evaporação lenta de sua solução alcoolica ; os crystaes tornam-se efflorescentes e opacos, expostos ao ar. Ella é inodora, mas goza em alto gráo 730 VERATRINA da propriedade sternutatoria ; a menor partícula que penetra nas fossas nasaes produz repetidos espirros. E’ quasi insolúvel na agua (1:1.000)1 e nos líquidos alcalinos ; é pouco solúvel no ether e bastante solúvel no álcool ordinário, no álcool amylico, na benzina e sobretudo no chloroformio ( 58, 5 0/o ). Suas soluções azulescem o papel vermelho de turnesol; ella neutraliza bem os ácidos, e se combina com elles, formando saes incrystallizaveis quasi todos; muitos tomam o aspecto gommoso, quando sêccos. São todos solúveis e dotados de um sabor forte e ardente. Pelo calor a veratrina funde-se (44°), transformando-se em uma massa resinoide, que em temperatura mais elevada de- compõe-se em parte, e em parte sublima-se no estado crystal- lizado. As reacções chimicas da veratrina e seus saes são as seguintes : 1. a Os alcalis mnieraes formam nas soluções destes últimos um precipitado flocoso branco, a principio amorpho, mas que no fim de algum tempo torna-se crystallino, visto ao microscopio. Elle é insolúvel em excesso de potassa ou de soda, porém solúvel em excesso de ammonia a frio ; aque- cendo-se até ebullição a solução ammoniacal, deposita-se de novo o precipitado, mas sob a fórma de pequenas agulhas microscópicas reunidas. 2. a Os carbonatos alcalinos comportam-se do mesmo modo que os alcalis respectivos ; mas os bicarbonatos não precipitam a veratrina de suas soluções salinas acidas, a frio ; precipitam incompletamente aquecendo-se fortemente o liquido. Nas so- luções neutras forma-se um precipitado, que é insolúvel em excesso de reactivo. 3. a O acido azotico concentrado dissolve lentamente a veratrina, quasi sem a colorir; forma-se, segundo Pelle- 1 Dragendorff dá naturalmente por engano a proporção de um para 100. VENENOS MYOTICOS 731 tier e Oaventou, um producto nitrado amarello e explosivo (Chapuis). 4. a O sulpho-cyanureto de potássio dá um precipitado gelatinoso com as soluções concentradas dos saes de vera- trina. 5. a A agua de chloro as precipita em branco ; nas soluções diluidas, apenas dá-lhes uma côr amarella, que torna-se escura pela ammonia. Deixando de mencionar, por ociosa, a reacção de outros precipitantes geraes dos alcaloides, que se comportam como taes, actuando sobre os saes de veratrina (iodureto iodurado de potássio ; ioduretos de mercúrio e potássio, de bismutho e potássio; tannino, acido picrico, acido phospho-molybdico, chloruretos de ouro, de platina, de mercúrio; cyanureto de prata e potássio, etc), passo a mencionar as reacções cara- cteristicas, que são as seguintes : 6. a Com o acido sulphurico concentrado a veratrina forma grumos resinoides, que se dissolvem depois facilmente, dando um liquido de côr amarella, que pouco a pouco se torna mais intensa, passando ao alaranjado, e no fim de meia hora, pouco mais ou menos, ao vermelho de sangue; esta ultima côr, porém, póde-se obter rapidamente, em alguns instantes, por meio do calor ; mas conserva-se até duas ou tres horas. Esta reacção, segundo Morsing, é francamente sensivel ainda com 0,gr00034, e fracamente com 0,00017 de veratrina. Chapuis descreve minuciosamente este ensaio, chamando a attençâo para uma circumstancia não indicada pelos autores. Elle serve-se de um tubo de ensaio, no qual introduz-se a veratrina e o acido ; agitando com brandura o tubo, ella dissolve-se lentamente, communicando ao acido uma côr amarella ou verde, conforme a posição em que se o olha, isto é, dando um liquido de aspecto fluorescente ou dichroico, que só desapparece quando toma a côr vermelha final. O reactivo de Erdmann (acido sulphurico nitroso) e o de 732 cobre Frõlide (acido sulpho-molybdico), actuam do mesmo modo, porém ainda mais rapidamente. 7. a Si ao acido sulphurico concentrado, em presença da veratrina, se ajunta um pouco de saccliarose, produz-se uma cor a principio amarella, que passa ao verde, ao azul e por fim ao roxo-sujo (Weppen). Esta reacção, que aliás, segundo Dragendorff, é commum com a jervina, se executa bem em uma capsula, e com uma pequena quantidade de acido sulphurico, 1 ou 2 gottas apenas, porque um excesso impede-a de se manifestar. 8. a O acido chlorhydrico concentrado e a frio dissolve a veratrina sem a colorir ; aquecendo-se, porém, a mistura até ebullição, apparece lima cor rosea avermelhada, depois vermelha, persistente mesmo por alguns dias ou uma semana (Dragendorff). Esta reacção é muito sensivel, mesmo com a veratrina impura do commercio (Trapp). Entre os meios de caracterisar a veratrina Chandellon menciona a reacção physiologica, que se péde executar pondo em contribuição as suas propriedades locaes irritantes e sua acção geral sobre os musculos, particularmente sobre o coração. Assim, serve-se, por exemplo, de um cão para ensaiar a proprie- dade sternutatoria ; e de uma rã, por meio de injecção subcutâ- nea, para verificar a producção das caimbras tetanicas, seguidas de paralysia, ao mesmo tempo que uma demora con- siderável nas pulsações cardíacas. Bastam 2 milligrammas para determinar estes effeitos, que em todo caso devem ser conferidos com os que apresentarem lima segunda rã, na qual se tenha injectado aquella dóse de veratrina pura. Envenenamento pelo cobre Com este titulo ô claro que não se trata aqui do cobre me- tallico, elementar, com razão reputado inteiramente inoffen- VENENOS MYOTICOS 733 sivo1; é aos seus numerosos compostos que se refere este capitulo da historia dos venenos. Reflectindo, porém, sobre a natureza dos productos geral- mente considerados venenos cúpricos, e dos effeitos toxicos dados à sua conta, será facil reconhecer quantas vezes tem sido accusado injustamente o cobre de ser o causador de taes effeitos, conforme deixei provado a proposito da discussão da lei atómica ou thermica de Rabuteau. E’ naturalmente por defeito de observação ou por erro de interpretação que se lê na obra de Tardieu que o envenena- mento pelos preparados de cobre é um dos mais frequentes, porquanto, diz elle, além de que occupa o logar mais elevado na estatistica criminal dos veneficios, depois do arsénico e do phos- phoro, se verifica accidentalmente em grande escala pelo uso de vasos e outros utensílios do cobre, pela addição indus- trial de compostos cúpricos a diversas substancias alimentares, e finalmente pela influencia de profissões em que se trabalha com o cobre. Como bem diz Gautier, taes affirmações baseam-se sobre o que resta justamente a provar. Os factos numerosos que ellas invocam em seu favor são quasi todos mal conhecidos e mal estu- 1 Isso não impede que possa, em certas circumsfcancias, occasionar accidentes toxLcos, como succede com o arsénico, o chumbo, etc., pela demora do m -tal em contacto com o acido do estomago, que o ataca mais ou menos fa- cilmente, sobretudo achando-se elle dividido ou em pó. Portal, citado por Marco Sbriziolo, refere o caso de um individuo hydropico que experimentou plienomenos de envenenamento por ter tomado umas pilulas de miolo de pao com limalha de cobre, na dóse de 20 centigrammos por dia. E’ verdade que, neste caso, acredita o autor que, sendo as pilulas preparadas algum tempo antes de sua administração, o cobre era ingerido já alterado, em parte oxyda- do. Mas o mesmo Sbriziolo refere o facto de um rapaz, que engoliu uma moeda cie cobre e depois de alguns dias apresentou salivação abundante e outrcs symptomas de intoxicação cúprica, devido, segundo elle pensa, á reacção do sueco gástrico e producca.o de acetato (? !), lactato e clilorureto do metal. Naosei até que ponto deva acceitar este facto, quando me lembro de outro em contrario, observado pelo Barão de Lavradio na sua policlínica de crianças, no hospital da Misericorclia, e communicado á Academia de Medicina : era um menino que engoliu e vomitou depois de seis mezes uma moeda de cobre sem ter soffrido, nem ella nem elle, a menor alteração. Esta é a opinião cie Chandellon, de accordo com as experiencias de Drouart e de Lefortier : o primeiro deu até 30 grammas de cobre metallico a cães, sem o menor effeito; o segundo chegou no mesmo resultado empregando o cobre reduzido pelo hydrogeno. 734 COBRE dados; sua importância provém de condemnações anterior- mente proferidas, mas sem provas scientificas. Em vão se procurariam as observações pessoaes, as experiencias compro- batorias daquelles que assim tão seguramente asseveravam a multiplicidade dos envenenamentos pelo cobre. Tanto mais estranháveis são aquellas proposições do emerito professor, quanto elle reconhece e declara que, no estudo do envenenamento pelo cobre, não se occupa com os factos ligados á ingestão do verde de Scheele, do verde de Schweinfurt, do verdeMittis (arsenito, aceto-arsenito e arseniato de cobre), cuja historia refere-se naturalmente á do envenenamento arsenical. Pois bem, o maior numero de factos de intoxicação aguda, ge- ralmente attribuidos ao cobre, são devidos ao uso das tintas verdes do commercio, conhecidas sob a denominação de verdete ou de verde Pariz (vert de gris, vert de Montpellier, etc.) i, que ordinariamente encerram de mistura algum daquelles arsenitos e devem ser lançados à sua conta. Excluidos estes factos e limitados sómente aos que de di- reito pertencem ao emprego de compostos puros de cobre, o numero dos envenenamentos agudos por este metal é relativa- mente pequeno e insignificante. Si desta ordem de factos passarmos a considerar os envene- namentos de marcha e fôrma chronica, abrangendo os que correm por conta de accidentes e da pretendida influencia pro- fissional, então veremos que não deve ser muito maior o nu- mero delles, desde que sejam convenientemente interpretados á luz das investigações e experiencias modernas realizadas sobre este assumpto. 1 Dá-se vulgannente e indistinctamente os nomes de verdete e de verde Paris a estas còres verdes, de base de cobre, cuja composição entretanto não éa mesma; o vert de gris é o hydro-carbonato básico ou azinhavre, e o vert de Montpellier é o acetato básico do mesmo metal. Quanto á denominação de verde Paris, é impropriamente applicada a qual- quer destes productos, porquanto o verdadeiro verde Paris é uma matéria co- rante derivada da anilina, obtida pela acção dos agentes oxydantes sobre a benzyl e a dibenzyl-anilina e seus homologos. VENENOS MYOTICOS 735 Cora effeito, datam de uns 35 annos os estudos que vieram fazer justiça á parte legitima que compete ao cobre no grande numero de envenenamentos accidentaes attribuidos a esse metal. Foi Toussaint quem em 1855 primeiro chamou a attenção dos médicos e toxicologistas para as propriedades toxicas exagge- radas emprestadas ao cobre, e começou a demonstrar por expe- riências bem dirigidas a sua não venenosidade. Depois, em 1858, na Gazetta Medica Italiana Lombarda, appareceu um artigo, no qual se demonstra este mesmo facto, invocando, entre outras, a opinião de Rademacker, que sustentava que a venenosidade do cobre era uma fabula, por- quanto havia experimentado em si proprio, tomando repetidas dóses de oxydo deste metal, sem soffrer nenhum effeito toxico. Além disso, appellavam os autores para Paasch, que fez largo uso deste agente no tratamento do croup ( em crianças) e de outras moléstias, sem observar consequência alguma prejudicial. Lem- bravam mais, que Hoenerkopf administrou igualmente em dóses elevadas, em uma centena de casos, o sulphato de cobre, até mesmo a dóse de 2 grammas por dia, e por muitos dias, sem notar, quer nos individuos vivos, quer nos cadaveres daquelles que morriam, nenhum phenomeno caracteristico do envenena- mento pelo cobre. 1 Mais tarde Pecholier e St. Pierre, em 1864, continuaram os estudos de Toussaint e comfirmaram inteiramente as con- clusões deste observador a favor do cobre. Por esse tempo Rabuteau descobriu e estabeleceu a sua lei atómica applicada à toxicologia e ahi ficou assignalado para o 1 Marco Sbriziolo, de quem extrahi esta noticia, pondera até certo ponto, com razão, relativamente a estes últimos factos, que não se deve argumentar, para provar a venenosidade ou não de uma substancia, com o resultado do seu emprego em doentes, pois sabe-se quanta resistência certas moléstias lhes communicam para alguns venenos, como succede com o opio nos doentes de tétano e de ddirium tremens, a cicuta nos escrophulosos, o iodureto de potássio nos syphiliticos, etc. Assim, diz elle, nocroup, é muito provável e natural que o composto cúprico se combine com a albumina dos exsudatos pseudo-membranosos, e forme productos menos nocivos ou mesmo inofíénsivos ( albuminatos). Em outros casos isso pode ser o resultado da tolerância adquirida com o habito, com o uso das dóses gradualmente crescentes. 736 COBRE cobre um logar muito baixo 11a respectiva classificação, onde elle não figura entre os metaes propriamente toxicos, e sim no grupo daquelles que são sómente reputados muito activos, e o menos d’entre elles! Esta circumstancia, que parecia attentar contra a classifi- cação toxicologica official do cobre, contra o terror hygienico chamado por Fonssagrives de toxicophobia irrefieclida, ac- cumulado nas obras classicas a respeito deste metal, era ainda a confirmação dos trabalhos emprehendidos pelos citados ex- perimentadores . Não foi porém tudo. Novas observações, novos e perse- verantes estudos effectuados posteriormente por Burcq 1 em 1867, por Galippe em 1875 e por Gautier em 1883, vieram tra- zer toda a luz a esta questão, e dissipar a menor sombra de du- vida que pudesse ainda pairar sobre o verdadeiro papel do cobre nas intoxicações accidentaes que lhe eram debitadas. Expe- riências rigorosas e concludentes realizadas por estes últimos observadores, e sobretudo uma interpretação racional e exacta dos factos relativos ao emprego do cobre em variados misteres da vida domestica, particularmente attinentes á conservação e preparação de substancias alimentares, estabelecem de modo ir- refragavel a innocuidade relativa do cobre, e a minima parte que lhe cabe nos effeitos provenientes dessas intoxicações, em que tem figurado como fiador gratuito do chumbo. No precioso livro de Gautier sobre o cobre e o chumbo, publi- cado em 1883, encontram-se sobre esta questão dados os mais curiosos e interessantes em favor do cobre, não sómente colhidos na observação de factos relativos a applicações medici- naes deste metal, em varias enfermidades, e durante muito tem- po, sem o menor accidente toxico, como na de factos referentes a certos processos de conservação e coloração artificial de legu- mes, e outras substancias alimentares, consumidas por assim 1 0 instituidor, ou pelo menos o maior propagandista da metallotlierapia. VENENOS MYOTICOS dizer impunemente em todo o mundo ; como finalmente dedu- zidas de repetidas e criteriosas experiencias praticadas quer em outros animaes, quer mesmo no homem, com diversos prepa- rados de cobre, e cujos resultados foram sempre favoráveis á in- nocuidade relativa deste metal. Estes resultados Burcq e Ducom exprimiram pelas seguintes conclusões : 1 .a O cobre metallico e seus oxydos administrados aos cães, de mistura com matérias albuminoides, saccharinas ou gordu- rosas, não exercem sobre estes animaes nenhum effeito [funesto, e não determinam accidente grave, mesmo na dóse de 4 a 8 grammas por dia. Excepcionalmente produzem-se alguns vó- mitos e ligeira diarrhéa ; o mais das vezes elles engordam. 2. a O cobre, sob a fôrma de verdete (vert de gris), tal como se encontra em alimentos guardados em vasos de cobre, não produz nos cães accidente algum. 3. a Os saes solúveis de cobre, na dóse de 10 centigrammos a 1 gramma por dia, são facilmente tolerados e não acar- retam em geral nenhuma perturbação funccional. Estes resultados foram sanccionados por experiencias mais recentes de Ritter e Feltz (de Nancy), em animaes, assim como por observações clinicas de Rademacker (já referidas), de Muller, Pforzeim, Charcot e Bourneville, feitas em doentes ne- vropathas, sujeitos à medicação cúprica. A estas observações, citadas por Gautier, podem-se reunir as de Berduzzi e Levi, de que falia Sbriziolo ; elles administraram a alguns doentes do hospital de Pisa, que soffriam as mais rebeldes dermatoses, pre- parados de cobre, que não só foram bem tolerados, como mani- festaram virtudes reconstituintes. As experiencias, porém, de mais valor, e cujos resultados são mais eloquentes em favor da innocuidade relativa do cobre, são as realizadas por Toussaint e Galippe, em si proprios e em pessoas de sua familia. O primeiro submetteu-se, durante seis mezes, á acção de todo o genero de saes cúpricos, sem que sua TOXICOLOOU Í7 738 COBRE saúde fosse alterada. O segundo submetteu-se com sua família ao mesmo regímen, durante mais de um anno, usando de ali- mentos preparados em vasilhas de cobre (carnes, peixes, le- gumes, gorduras), mesmo condimentados com acido (vinagre ou limão), e até guardados nessas vasilhas, apresentando jà a côr azulada ou esverdeada própria dos compostos cúpricos. Ainda assim affirma elle que nunca produziram-lhe cólicas, nem diar- rhéa, nem mesmo nauseas ou perturbação de especie alguma. Quando mesmo taes factos pareçam extraordinários e devam ser postos á conta de resistências organicas excepcionaes, de naturezas refractarias \ não poderemos recusar a influencia nulla pelo menos, para não dizer como outros, benefica e sa- lutar, da introducção quotidiana de uma certa proporção de cobre na nossa economia, por intermédio dos alimentos que in- gerimos. Ha muito tempo jà Berzelius, Vauqueline Biicholz o tinham entrevisto. Meissner demonstrou a existência de cobre em grande numero de plantas ; mas é a Sarzeau que devemos as primeiras dosagens deste metal nos vegetaes, e que Boutigny acreditava provir do sólo. Em 1838, Devergie demonstrou a existência do cobre em quasi todos os orgãos do corpo humano e dos animaes ; Orfila, mais tarde, confirmou este resultado. Em 1847, Deschamps d’Avallon apresentou á Academia de Medi- cina um trabalho, concluindo também que o cobre existe nos vegetaes, na carne dos animaes e no organismo humano, que o vae buscar nas plantas e no sólo. Finalmente, corroborando estas observações, Millon an- nunciou no mesmo anno à Academia das Sciencias que o sangue 1 Chandellon parece explicar estes factos pela absorpção defeituosa dos com- postos cúpricos no estomago ; ella é embaraçada, bem ccmo o transporte do ve- neno aos tecidos, pelos vomitos. pela acçao dos alimentos e pela funcção eli- minadora do fígado. Diz elle que si se quer estudar a acção toxica do cobre, deve~s? escolher outra via de absorpção, de modo aes>ar seguro que o sangue carregará o veneno, em quantidade surticiente até á profundidade dos tecidos. Ora, sibe-se que a introducção directa, no sangue, de um sal de cobre, não coagulando a albumina, traz promptamente a morte. Campbell verificou que um cão morre rapidamente quando se lhe appliea sobre uma ferida sulphato de cobre. Emfim, Harnack demonstrou que a injecção subcutânea de alguns centigrammas de um sal cúprico mata a maior parte dos animaes. VENENOS MYOTICOS 739 do homem encerra constantemente cobre ; que este metal se fixa nos globulos vermelhos, e que parece mesmo representar ahi um papel physiologico util. Chevalier, Lassaigne, Gotterau e mais tarde Comaille, Bechamp, Cloez, Galippe de Luca e Gautier successivamente teem affirmado a existência constante do cobre na nossa economia. Este ultimo organizou e apresenta no seu precioso livro uma relação ou tabella dos diversos alimentos com a quantidade de cobre que as analyses de vários chimicos (Galippe, Sarzeau, Donny, Deschamps, Gautier, etc.) teem revelado. Para não citar sinão alguns exemplos, entre os mais usados diariamente, mencionarei: o trigo e portanto o pão com 4 a 8 milligr. por kilo ; o arroz e a lentilha com 6 milligr., idem ; a cevada 1 com 10 milligr., idem; o feijão com 11 milligr., idem ; o café com 6a 14 milligr., idem ; o chocolate com 5 a 125 milligr., idem ; as conservas com 11a 210 milligr., idem ; as uvas eos vinhos de pasto, em Paris, com 2,5 a 4,5 milligr., idem. Dahi originou-se a questão do cobre normal da economia, que tanto tem occupado e dividido os toxicologistas. Assim Devergie, Orfila pronunciaram-se pela affirmativa, outros, Christison, Chevreuil, Flandine Danger, Tardieu, etc., se teem declarado contra esta doutrina. Porém recentemente Lossen, repetindo cuidadosamente as analyses de Blasius, Ulex, Bibra, etc., que todos encontraram cobre no sangue e diversas vísceras do nosso organismo, chegou a resultados negativos, explicando essa divergência pela exclusão completa, nos seus trabalhos, de objectos de cobre (sustentáculos, bicos de gaz, etc.): a que attribue o apparecimento deste metal nos resultados das ou- tras analyses. Elle insistiu sobre esta circumstancia, que entretanto não póde ser considerada com Lossen uma causa de erro, visto como, sendo o cobre tão espalhado, e existindo em 1 A cerveja deve participar em grande escala de forte proporção de cobre contida neste cereal, com que ella é preparada, e que faz a base de sua composição. 740 COBRE quantidade dosavel em todos os alimentos que ingerimos dia- riamente, nada mais natural que a todo o momento os nossos tecidos e humores contenham este metal. Segundo o calculo de Gautier, avaliando elle pela quan- tidade habitual de alimentos que um homem ingere cada dia, a proporção de cobre que lhe corresponde, chegou ao seguinte resultado: que uma ração diaria deOOOgram. de pão, 260 gram. de carne e 200 de legumes frescos, introduz apenas, 0ra,95 de cobre, isto é, quasi um milligram. no minimo ; porém si os legumes frescos forem substituídos por conservas dos mesmos, que são reverdecidas artificialmente por meio de um banho de sulphato de cobre, então a proporção deste metal eleva-se a 7 milligrams. e póde subir até 40 milligrams. por dia, si fizermos uso também do chocolate, etc. Ora, sendo assim, a existência constante do cobre na nossa economia é um facto liquido e inconcusso. Mas, pergunta-se, será isso bastante para autorizar a consideral-o nestas condições como um elemento normal de nosso organismo ? A resposta implica a definição do que se deve entender por cobre normal. Si com esta expressão se pretende significar que o cobre por- ventura faz parte integrante da composição dos nossos tecidos, e de cuja falta ou diminuição sensível resultam para a saude perturbações que se não removem sinão administrando prepa- rados do referido metal, pòde-se dizer que a doutrina é errónea e insustentável, e a resposta é peremptória : não ha cobre nor- mal na economia. Si, porém, esta expressão é empregada para traduzir o facto da presença constante, embora accidental, do cobre na economia de maneira a distinguil-o de qualquer outro ahi introduzido, seja como medicamento, seja principalmente como veneno, então não ha duas opiniões, e a resposta é igualmente categórica : existe cobre normal. Por outra, comquanto o cobre não seja elemento integrante da composição normal de nossos tecidos, encontra-se normalmente sempre nelles esse metal. VENENOS MYOTICOS 741 Este facto tem grande alcance pratico, porquanto vê-se cla- ramente que não basta que a analyse toxicologica de vísceras revele a presença do cobre, para se inferir dahi ter havido um envenenamento : é preciso que a quantidade accusada do metal seja relativamente considerável ; donde a necessidade de em- pregar nesta pesquiza processos de dosagem, de que adeante darei conhecimento. De tudo que precede vê-se o que se deve pensar dos pretendidos envenenamentos pelos saes de cobre, introduzidos, criminosamente ou não, nos nossos alimentos. Assim como a Gautier, esses factos me parecem inverosímeis, e pelo menos a maior parte delles, no segundo caso, pertence ao chumbo, incomparavelmente mais toxico do que o cobre, e que, entre- tanto, é mais susceptivel de penetrar o nosso organismo, pela maior extensão de suas applicações domesticas, seja directa- mente no estado elementar, seja fazenuo parte de ligas com- muminente empregadas para diversos misteres (solda dos la- toeiros, etc.) seja impurificando outros metaes de uso igual- mente muito espalhado : por exemplo, o zinco e o estanho, que são em geral plumbiferos. Sendo assim, comprehende-se quanto deve estar adulterada e desvirtuada da verdade toda a historia clinica do envene- namento pelo cobre, e quanto esse capitulo da toxicologia ca- rece de reforma nas obras classicas. Entretanto, até que se chegue a discriminar com toda a clareza e exactidão o que con- cerne aos legítimos effeitos do cobre, passo a referir o que sobre este assumpto encontra-se nessas obras. O cobre (do latim cuprum), 1 consagrado pelos antigos á deusa da belleza, não conserva deste facto entre as denomina- ções de seus preparados sinão a que é dada aos erystaes de ace- tato de cobre, chamados erystaes de Venus. 2 1 Diz-se que os romanos, por terem achado este metal na ilha de Chypre, o chamaram aes cyprium; dahi a palavra cuprum. 2 Não se póde adjectivar esta expressão para significar os compostos de cobre, como se faz com as palavras Marte, Saturno e Mercúrio, para os saes 742 COBRE Além deste acetato, conhece-se o acetato básico ou verdete. Os outros compostos deste metal são os respectivos oxydos, o sub-oxydo ou oxydulo de cobre, o bioxydo, que é preto quando anhydro, e branco azulado quando hy dratado ; o hydro- carbonato básico ou azinhavre, e o sulphato de cobre (também chamado pedra lipes, caparrosa ou vitriolo azul). Sem que tenham sido e sejam tão frequentes os envenena- mentos pelos preparados de cobre, como presume Tardieu, é innegavel que elles teem-se verificado em muitos casos, sobretudo accidentalmente ; menos vezes como meio de suicidio, e ainda mais raramente praticados pela mão do crime. Entre os accidentes que teem occasionado a intoxicação cúprica, insistem os autores em apontar os resultantes da pre- paração e sobretudo da conservação de comidas em utensilios de cobre, principalmente quando nellas entram condimentos ácidos (limão, vinagre, etc.), sal em grande quantidade, e mesmo gorduras.1 Todos estes corpos, sobretudo ácidos e graxos, atacam mais ou menos facilmente o cobre, e formam portanto compostos que podem ser nocivos e toxicos, conforme a proporção ingerida, e as condições individuaes e outras que influem sobre a manifestação e marcha do envenenamento. 2 Este pode se desenvolver ás vezes rapidamente, como no caso referido por Sbriziolo, etranscripto de Christison, de duas pes- soas, mãee filha, que comeram um alimento preparado em um respectivos, por causa de outra significação muito diversa emais conhecida, do termo venereo. 1 E’ exaggerado o receio quanto á preparação dos alimentos, desde que haja o devido cuidado e asseio, como se observa nos grand°s hospitaese outros estabelecimentos desta ordem, onde não é outro o vasilhame empre- gado. O perigo está propriamente na conservação destes alimentos em taes utensílios. > 2 A mesma reflexão não se applica aos alimentos saccharinos, os doces em geral, que podem impunemente ser preparados e conservados eín vasilhas de cobre, porque não atacam este metal ; pelo contrario, o assucar reduz di- recta ou indirectaments os saes cúpricos, conforme a sua natureza, conforme ogiuip i orgânico a que pertence (glycoses ou sâccharose) e torna-se uma ga- rantia contra aquella alteração. Dahi o emprego usual do vasilhame de cobre nas confeitarias e rêttnações de assucar, sem o menor inconveniente, VENENOS MYOTICOS 743 vaso de cobre, e subitamente sentiram os effeitos toxicos, que terminaram péla morte no fim de 12 horas. Cita o mesmo autor o facto de dous meninos, um de oito, outro de seis annos de idade, que ingeriram uma certa quanti- dade de fermento (?), que havia sido lavado em solução de sul- phato de cobre, e experimentaram todos os symptomas de enve- nenamento, vindo a fallecer o mais moço, depois de tres mezes. Referè mais o caso de intoxicação em massa citado por Heller e Pleischl, no hospital geral de Vienna, onde de uma vez se apresentavam envenenadas 130 pessoas, das quaes falle- ceram nove, e observado por Gay Williams, em 36 pessoas de um navio (fragata Cyclops). Entre as circumstancias que mais teem sido accusadas como origem das intoxicações cúpricas accidentaes figura o uso de conservas de legumes, e outras submettidas previa- mente a um banho em solução de sulfato de cobre, afim de manter-se por todo o tempo a cor verde natural, que perderiam facilmente sem este ou qualquer outro artificio analogo. Esta pratica tem sido objecto de estudos aprofundados, e intermi- náveis discussões entre os hygienistas, sobretudo francezes, e por isso alternadamente condemnada, e permittida, ou sómente cerceada em seus abusos, por deliberações successivas do go- verno francez ; foi ultimamente ( em 1881 e 1882 ) expressa- mente prohibida. Esta condemnação, em these perfeitamente justificável, quando não seja sinão como o melhor, e talvez o unico meio de evitar abusos de consequências funestas, não parece ter sido reclamada por accidentes toxicos assignalados, devidamente attribuiveis ao uso de taes alimentos; delles se faz uso em toda a parte ha mais de 35 annos, em larga escala. Só a França, que fabrica a maior parte dessas conservas, exporta por anno um valor de 4 a 5 milhões, e 90 °/ó das latas con- sumidas são enverdecidas pelo cobre (Gautier). 744 COBRE No estudo desta questão, cumpre finalmente não esquecer os factos de envenenamentos, limitados a phenomenos de sim- ples indigestão, ou mesmo mais sérios, que se teem imputado à presença natural do cobre, em certos alimentos animaes, par- ticularmente as ostras, que vivem sobre certas pedras (que tenham estratificações cúpricas), ou sobre o costado de navios forrados de cobre. As ostras de Constantinopla, diz Marco Sbriziolo, são temidas com razão como causas de frequentes accidentes toxicos, em virtude desta ultima circumstancia ; pois ha sempre ahi muitos navios nessas condições. O mesmo se tem observado com as ostras vendidas no mercado de Ro- chefort, e procedentes do banco do rio de Falmouth, que é um terreno cúprico ; Cuzent, pharmaceutico da marinha, que as analysou em 1863, encontrou nellas até 216 milligr. de cobro em cada 25 ostras. Pensam muitas pessoas que por esse motivo se devem rejeitar como perigosas as ostras que apresentam manchas esverdeadas ou verde azuladas, como sendo o signal da presença do cobre ; quando, não sómente elle ahi póde existir sem que se denuncie immediatamente ao abrir da concha, por essa cor que só de- pois com o contacto do ar se vae desenvolvendo, con- forme a observação de Ferrand, como a cor verde póde ser devida a outra causa diversa inteiramente inoffensiva, que o mesmo Ferrand attribue a uma especie de limo constituido por cryptogamos e infusorios, que as ostras recebem em certas aguas, e delles fazem o seu alimento ; taes são as afamadas ostras de Ostende, de Marennes, etc., geralmente preferidas pelos apreciadores deste genero. Tanto assim é que, para assemelhar a estas, ostras infe- riores de outras procedências, tem se chegado a coral-as arti- ficialmente, mergulhando-as em um banho cúprico, por tempo sufficiente ; uma analyse feita por Jaillard, pharmaceutico em chefe do hospital militar de Bey, em Alger, revelou a enorme proporção de 247 milligr. (mais de quatro grãos) de sulphato VENENOS MYOTICOS 745 de cobre era cada duzia destas ostras ! Comprehende-se que em taes condições ellas tenham dado e possam dar logar a accidentes toxicos. Para discriminar a natureza da cor verde, e distinguir a que é devida ao cobre, podem-se empregar directamente os dous reactivos mais sensiveis dos compostos deste metal—a ammonia e o prussiato amarello. Symptomas; signaes clínicos Tardieu, Rabuteau e outros autores distinguem também no envenenamento cúprico duas formas : aguda e chronica ; mas, como adeante mostrarei, esta ultima fôrma, e especialmente a pretendida intoxicação profissional, é uma entidade ficticia, pelo menos hypothetica e problemática, ainda não demonstrada. Na fôrma aguda o apparecimento dos primeiros symptomas é geralmente muito rápido ; no fim de um quarto de hora, quando o veneno é ingerido só, ou mais tarde quando de mistu- ra com os alimentos, sobreveem vomitos esverdeados frequen- tes, precedidos de nauseas e salivação abundantes ; estes vomitos repetem-se ás vezes pela simples inspecção de um objecto de cobre. Logo depois seguem-se cólicas violentas, atrozes e de - jecções alvinas, liquidas, constituídas por mucosidades, algu- mas vezes sanguinolentas e escuras, e com tenesmos. Os doen- tes experimentam cephalalgiae gosto pronunciado de azinhavre; a lingua fica húmida, apezar da boca pastosa. Após a absorpção do veneno manifestam-se caimbras, e um enfraquecimento muscular considerável; o pulso torna-se pe- queno e lento, depois de ligeira acceleraçâo acompanhada de palpitações; a respiração também torna-se mais lenta, as urinas são mais raras ou mesmo inteiramente supprimidas, a prostra- ção ea paralysia dos movimentos cada vez mais accentuada. Apparecem suores frios, lipothymias e syncopes, raramente convulsões; sobrevem a morte no espaço de dez horas, mais 746 COBRE ou menos, por parada do coração, em estado de verdadeiro collapso. Si a terminação não ê tão rapida, começa no dia seguinte a manifestar-se ictericia, que outras vezes só se apresenta depois da morte. Algumas vezes, particularmente nas crianças, predominam os symptomas geraes, e entre elles as desordens de innervação (coma, convulsões, paralysia, etc.), emquantoos phenomenos locaessão insignificantes, como na fórma latente do arsenicismo agudo. Quando a intoxicação não é mortal, então a violência pri- mitiva dos symptomas vae decrescendo gradualmente, ficando durante alguns dias sede ardente, embaraço na deglutição, cólicas, tensão dolorosa do ventre, emfim todas as consequên- cias de uma irritação intestinal. O pulso desenvolve-se, tor- na-se frequente e duro, a cephalalgia persiste, reunida a uma grande fraqueza ; os suores e as urinas reapparecem, a icte- ricia dissipa-se e a convalescença se estabelece franca, pertur- bada ás vezes sómente em alguns casos por uma dyspepsia re- belde. A cura póde operar-se em 12, 15 ou 20 dias, porém ás vezes demora-se alguns mezes e mesmo annos. Lesões anatomo-pathologicas ; signaes necroscopicos Estas lesões não são constantes ; podem-se encontrar em todo o trajecto do tubo gastro-intestinal rubores, manchas echymoticas ennegrecidas, e ás vezes suffusões hemorrhagicas ; outras vezes, mais frequentemente, nota-se inflammação mais ou menos viva da mucosa, com amollecimento e ulcerações em alguns pontos, e até perfurações no recto. As matérias contidas no canal digestivo e a mesma superfície deste canal são tintas de verde ou azul esverdeado, que resiste á lava- gem ; esta cor pela addição da ammonia torna-se azul-ce- leste. No meio dessas matérias descobrem-se muitas vezes par- VENENOS MYOTICOS 747 cellas do veneno ingerido, que se devem recolher para o com- petente exame. O mesenterio e o epiploon participam também da inflam - mação intestinal. Os pulmões teem sido achados mais ou menos congestionados. O figado e os rins também hyperhe- miados. O coração contém sangue fluido. Em alguns casos, mais raros e inteiramente excepcionaes, o tubo digestivo não tem apresentado o minimo signal de in- flammação ou de irritação, mas contém sempre muito gaz. Nos casos de fórma menos aguda, a pelle offerece uma côr ictérica bem pronunciada. Diagnostico differencial O envenenamento pelos preparados de cobre é caracterisado, como já disse, por symptomas e lesões ao mesmo tempo inflam- matorias e hemorrhagicas. O gosto particular de cobre ou antes de azinhavre, o apparecimento rápido, bem como a abun- dancia dos vomitos e das evacuações, a cordas matérias contidas no tubo digestivo, os soffrimentos intestinaes succedendo ás des- ordens gastricas, podem servir para discriminar a intoxicação cúprica das produzidas por outros agentes hyposthenisantes. A ausência de corrosão das primeiras vias digestivas o distingue do envenenamento pelos irritantes e cáusticos. Tratamento Começa-se por favorecer os vomitos e as evacuações, quando ainda se chega a tempo de promover a eliminação do veneno pelos meios apropriados : bebidas tépidas, meios mecânicos, purgativos salinos, etc. Ao mesmo tempo lança-se mão dos antídotos. A albumina óreputada um dos mais seguros e pro- fícuos, devendo-se administrar neste caso em grande quanti- dade de cada vez, porque o albuminato' cúprico dissolve-se em 748 COBRE excesso de outros compostos solúveis de cobre ; uma pequena quantidade seria incapaz de formar um precipitado estável. 1 A caseina, e portanto o leite, se comporta pouco mais ou menos de igual modo. Entretanto releva observar que, si assim é tratando-se de um sal cúprico puro, pouca ou nenhuma confiança pôde mere- cer o emprego destes meios nas circumstancias ordinárias dos envenenamentos attribuidos a estes preparados, isto é, quando elles são representados por alguma das côres verdes do commer- cio, geralmente arsenicaes. Nestas condições, não ha que hesi- tar ; são muito mais proveitosos e devem-se preferir sempre a magnesia calcinada, os sulfuretos alcalinos e o sulfureto de ferro hydratado. Como estes meios servem igualmente para precipitar os dous venenos, arsénico e cobre, é aos que, na du- vida, se deve recorrer de preferencia ; a magnesia, sobretudo, que, além de precipitante dos saes cúpricos, dos quaes separa os respectivos oxydos insolúveis, tem a vantagem de, pela sua acção purgativa, varrer e evacuar o tubo intestinal. Debaixo deste ponto julgo improfícua e arriscada a admi- nistração das soluções alcalinas propriamente ditas (agua de cinzas ou de sabão ), visto como, podendo em excesso redissolver em parte o precipitado formado no sal de cobre, no caso do acido arsenioso facilitaria a sua dissolução salinificando-o. Quando se tratar de um envenenamento cúprico legitimo, então são ainda indicados certos pós metallicos que obram por substituição, precipitando o cobre metallico, que é inoffensivo ; neste caso estão a limalha de ferro, proposta por Dumas, Milne Edwards e Payen, a limalha de zinco ( Dumas. Sandras e Bou- chardat), de prata (Horsley ), etc. 2. 1 Não deve, pois, haver o receio gratuito que mostra o professor Sbriziolo em accumular albumina no estomago em taes casos. Segundo elle e Dujardiri Beaumetz, Ritter e Feltz verificaram que o albuminato de cobre, solúvel ?, nao é innocuo ; determina accidentes graves e produz a morte, quando a dóse absorvida excede de 15 milligrammas por kilo do peso do animal. 2 São curiosas as reflexões de Tardieu sobre o emprego destes meios, e que provam mais uma vez a idéa falsa e errónea que este professor faz da acção VENENOS MYOTIGOS 749 Póde igualmente nestas condições prestar grande serviço o ferro-cyanureto de potássio, que precipita os saes de cobre, e como já ficou dito, é inoffensivo desde que seja puro; só não convém empregar o prussiato do commercio, que, sendo impuro, torna-se muito perigoso. Resta-me fallar de uma substancia que tem sido aconse- lhada também como antidoto do cobre por Duval e outros, mas que, entretanto, nenhuma utilidade pratica offerece a meu ver: é o assucar. Funda-se este conselho na acção reductora que elle exerce sobre os saes daquelle metal ; mas, em primeiro logar, o assucar commum ou de canna não goza dessa propriedade sinão indirectamente, transformando-se em assucar invertido pertencente ao grupo das glycoses, e portanto debaixo deste ponto de vista seria mais racional empregar o mel, que è uma mistura de glycose e levulose. Em segundo logar, esta reducção mesmo com a glycose não se effectua tão prom- ptamente quanto è necessária em casos urgentes como estes; ella se faz rapidamente em temperatura muito mais elevada do que a de nosso interior, e portanto julgo em pura perda e de nenhum effeito a administração do assucar com tal fim. Depois destas applicações, segue-se naturalmente o trata- mento das consequências inflammatorias : regimen brando, lacticinios, clysteres emollientes, opiáceos, etc. Mecanismo da acção toxica Moreau, por experiencias praticadas em rãs, foi levado a considerar o cobre um veneno cardiaco, sem ligar maior attenção á paralysia dos membros inferiores. Entretanto estephenomeno cíoã antídotos. « EsteS raetaes, diz elle, não penetram nos capillares e nos pe- quenos vasos e não podem exercer sua acção sinão sobre as porções de composto cúprico com os quáes se acham directamente em contado ! » Gomo si alguém pretendesse jamais utilisar de corpos nestas condições para obter a precipi- tação dos venenos no seio da torrente circulatória, no intimo dos tecidos ! ! E como si, podendo-se conseguir esse desideratum, em alguma cousa aprovei- tasse á therapeutica dos envenenamentos ! ! Seria antes um meio de lixar os venenos na economia, do que de desembaraçal-a delles ! 750 COBRE foi constantemente observado e posto em evidencia nas expe- riências de Rabuteau, que, além disso, reconheceu que as pro- priedades dos nervos sensitivos e motores eram conservadas, ao passo que as dos musculos postos em contacto com o veneno eram as únicas abolidas. Dahi a classificação do cobre entre os venenos musculares e a causa da morte a paralysia do coração, que também é um musculo ; isso, pondo de parte as alterações de fundo inflammatorio e hemorrhagico, que teem sua séde na mucosa gastro-intestinal, e correm por conta da acção local irritante e corrosiva dos saes solúveis de cobre. Intoxicação lenta ou chronica (?). Pelo que deixei exposto anteriormente, compreliende-se logo a razão de ser do ponto de interrogação supra. Alguns autores, como Tardieu e Sbriziolo por exemplo, acreditam nesta fôrma de intoxicação pelo cobre, como o resultado mais ordinariamente da absorpção gradual do cobre, principalmente sob a fôrma de poeira, na qual o metal se acha no estado de carbonato ; Rabuteau entende que esta fôrma podia se chamar intoxicação profissional, porque em realidade não se observa sinão nos individuos que tra- balham com o cobre. Ainda a este respeito somos obrigados em boa razão a acceitar os resultados das experiencias e pacientes investigações já citadas, que parecem ter tirado perfeitamente a limpo esta questão, provando que a influencia das profissões, nos indivi- duos que trabalham com o cobre, ou que fabricam e manipulam seus preparados, é mais que duvidosa, é de todo o ponto con- testável por observações rigorosas e provas irrefragaveis em favor, pelo menos, de sua innocuidade, para não dizer mesmo das vantagens e immunidades que taes profissões parecem proporcionar e conferir. A symptomatologia que esses autores descrevem para esta fôrma de intoxicação cúprica é a seguinte: No fim de alguns mezes começam os individuos a se queixar de gastralgias, cólicas, digestões difficeis, depois sobrevem di- VENENOS MYOTICOS 751 arrhéa esverdeada, alternando com prisão de ventre; este torna-se sensível e mesmo doloroso á pressão, as forças vão-se perdendo; apparecem dores nas articulações, e mais tarde tosse, e suores nocturnos, sem que a escuta revele nenhuma lesão pulmonar. As gengivas se retrahem e ulceram, deixando os dentes descalçados, e apresentam no bordo livre a listra vermelha purpurina. A pelle e os cabellos offerecem uma côr esverdeada ; a physionomia reveste um aspecto cachetico, a fraqueza muscular e o emma- grecimento progridem até ao estado de marasmo, no qual suceumbem esses infelizes. Foi principalmente Corrigan quem melhor estudou e des- creveu a pretendida cólica de colore, que elle distinguiu da de chumbo, sobretudo por dous symptomas: a sensibilidade e dôr mais forte pela pressão abdominal, e a diarrhéa antes do que a constipação de ventre. Entretanto, estes phenomenos teem sido discutidos e interpretados differentemente por muitos autores de grande nomeada, que uns duvidam, e outros re- cusam formalmente essa entidade noso-toxicologica. Assim, por exemplo, Gubler pronuncia-se nos seus commen- tarios therapeuticos da maneira seguinte: « Em pequenas doses, mesmo continuadas durante muito tempo, o sulphato de cobre (typodossaes desta especie) não ma- nifesta sua acção por nenhum symptoma determinado ; a cólica de cobre, observada nos indivíduos que trabalham este metal, parece depender antes da qualidade especial do sal de cobre, do que da natureza da base. « Os autores acreditam reconhecer-lhe uma acção tónica geral, antispasmodica. Tal é a opinião de Levi e Barduzzi, que affirinam, baseados em suas experiencias de laboratorio eobser- vações clinicas, que o sulphato cúprico melhora a nutrição e torna-se assim indicado nas anemias.» Muito mais positivos do que o eminente professor da Facul- dade de Paris, exprimem-se categoricamente sobre o assum- 752 COBRE pto os dons therapeutistas Nothnagel e Rossbach, do modo seguinte: « O envenenamento chronico pelo cobre no homem, por exemplo naquelles que manuseam este metal, si é um facto cuja possibilidade não pôde ser contestada, também è certo que até aqui não se tem podido traçar um quadro bem preciso dos re- spectivos symptomas. Entre os que teem sido descriptos lia muitos, como por exemplo o catarrho das diversas mucosas, que devem ser antes attribuidos à poeira metallica inspirada pelos operários ; outros, taes como as nevralgias, os espasmos e tremores musculares, os accessos de cólicas, o emmagreci- mento, só teem sido observados naquelles que vivem submettidos á influencia do chumbo ao mesmo tempo que o cobre, e devem ser imputados antes ao primeiro do que ao segundo. A côr verde dos cabellos e os suores verdes, phenomenos muito communs nos caldeireiros e outros profissionaes desta classe, devem depender muito menos de uma causa interna do que do deposito das partículas de cobre sobre os cabellos e a pelle, e da reacção que sobre elle exercem os princípios graxos e ácidos destes orgãos. « A côr vermelha purpurina segundo Corrigan, ou verde segundo Clapton, das gengivas, poderia bem ter a mesma origem e explicação. Burcquoy (não será Burcq?) censura e reprova a denominação de listra ou orla cúprica, porque não se trata aqui, como 11a listra plumbica de Burton, de mudança de côr propriamente da gengiva, mas de uma côr verde azulada da base dos dentes, emquanto a gengiva torna-se en- rubecida pela inflammação chronica de causa puramente mecanica. « Só restam paracaracterisar esta intoxicação chronica sym- ptomas vagos, indefinidos : diminuição do appetite e do poder digestivo, evacuações diarrheicas frequentes, emmagrecimento* etc., que podem ser dados à conta da vida pobre e miserável desses operários, antes do que á acção lenta do cobre.» Termi- VENENOS MYOTICOS 753 liando, repetem ainda os dous professores, que até agora não existem observações positivas de cuprismo chronico. Neste caso eu considero as de Maisoneuve, que diz ter reco- nhecido a acção deleteria do cobre nos operários do arsenal de marinha franceza ; as de Bailly, medico de uma officina em que trabalham uns 500 operários em compostos de cobre e que apresentaram a còr azul esverdeada das gengivas ; as de Milone que não são mais positivas e concludentes, etc. etc. Poderia citar ainda Pietra Santa, que em artigos do Jor- nal de Hygiene tem sempre combatido o pretendido cuprismo profissional, negando a supposta cólica de Corrigan, que não passa de uma phantasia clinica. 1 Mas, pedirei ao importante livro de Gautier onde se encon- tram os dados e esclarecimentos mais convincentes contra esses effeitos gratuitamente attribuidos ao cobre. 1.° Bombeiros, limadores e fundidoresde cobreebronze.— Existe em Paris uma sociedade denominada du bon accord, exclusivamente composta de indivíduos que trabalham no cobre e no bronze, e vivem quasi continuamente em uma atmosphera de poeira cúprica. Pois bem, o registro medico desta sociedade consigna no espaço de 27 annos, de 1824 a 1851, apenas seis casos de cólicas, em um total de 300 operários; o que é uma proporção insignificante e muito commum, nas condições ordinárias da vida, independente dessa causa es- pecial. Pietra Santa confirma, por observação própria, estesresuP tados ; elle nunca viu a orla gengival purpurina, em nenhum dos operários desta industria, que visitou, tendo occasião de notar que todos gozavam boa saude e tinham bom appe- tite ; apenas alguns tiveram ligeiro embaraço gástrico. Con- 1 Poderia também prevalecer da minha observação própria, de 26 an- nos de clinica, em que nunca tive occasião de ver um só caso que S) pa- desse classificar de cólica de cobre, nem mesmo entre os numerosos indi- viduos que vivem diariamente em uma atmosphera impregnada do cobre, como são os caldeireiros. Não me consta igualmente que outros médicos aqui tenham observado exemplos desta intoxicação. TOXICOLOCTA tâ 754 COBRE cluiu destes factos que se pôde viver em uma atmosphera carregada de poeira cúprica, sem alteração apreciável da saude. 2. Caldeireiros.— Segundo Chevallier e Boys de Loury, as cólicas são um accidente nimiamente raro nestes indus- triaes, e ainda assim deve-se attribuir ás ligas e soldas plumbicas, com que trabalham ou estão quasi sempre em contacto. Quando não succumbem á phtisica pulmonar, que é a moléstia mais frequente nestes profissionaes, elles vivem muito tempo. Maisoneuve, de Rochefort, e sobretudo Houles concluiram ser inoífensiva a manipulação do cobre a frio. 3. Fabricantes de verdete.— Esta profissão fez o objecto de excellentes memórias : uma já antiga, de Chevallier (1847), outra mais recente de Pecholier St. Pierre (1864). Não ob- stante haverem verificado por experiencias em animaes que o verdete é toxico em alta dóse, estes últimos dizem nunca ter observado, quer nos homens, quer nas mulheres que se oc- cupam na fabricação desse producto, um só caso de cólica ; pelo contrario, reconheceram que sua acção, conveniente- mente graduada, exerce antes uma influencia favoravel sobre a saude desses operários de um e outro sexo. Assim, por exemplo, é absolutamente raro achar entre ellas uma moça chlorotica. Esta industria é tão pouco insalubre, dizem elles, que se encontram nessas offícinas empregadas octogenárias, que nesse mister passaram por assim dizer toda a sua vida; e apontam-se familias bem dispostas, nas quaes esta profissão é hereditária. A principio as mulheres experimentam alguns effeitos locaes, devidos ao contacto da poeira metallica com a pelle e as mucosas, mesmo alguns enjoos, raramente seguidos de vomitos, porém tudo isso dissipa-se facilmente em poucos dias, e as operarias vêm a gozar todas, de boa saude, e algumas melhoram mesmo depois que se entregam a esse VENENOS MYOTICOS 755 serviço; não poucas soífrendo de anemia, antes de entrarem para essas fabricas, restabeleceram-se em poucos mezes. Terminam os citados autores a serie de considerações rela- tivas a este assumpto com esta proposição : « Sob o ponto de vista da hygiene publica, a fabricação do verdete é absolu- tamente sem inconvenientes.» Não me occupo aqui coma pretendida acção preservativa do cobre contra certas moléstias, por ser matéria, estranha à toxicologia, e mais dodominio da hygiene. Pesquiza toxicologiea ; signaes chimicos Esta pesquiza seria uma das mais simples e fáceis si pudés- semos nos limitar sómente aos meios de separação e reconhe- cimento do cobre, visto como, sendo um metal fixo, todos os processos chimicos, e até o processo physico por meio do fogo nú, podem ser applicados indistinctamente para a destruição da matéria organica. Isolado o metal, põe-se-o em evidencia por meio de reacções extremamente sensiveis e caracteristicas. Porém, como já disse, não basta accusar a presença do cobre nos exames toxicologicos, attendendo á presença constante desse metal no nosso organismo ; é preciso dosal-o e isso ó já um trabalho mais delicado e diíficil. Em alguns casos de envenenamento brutal por preparados de cobre, a prova deste facto póde ser revelada por alguns en- saios preliminares de grande valor, que passo a descrever. Elles se executam nas matérias vomitadas, ou encontradas pela autopsia no estomago e intestinos, ou em substancias sus- peitas, taes como uma conserva, um fructo, um pedaço de pão, etc. Póde-se proceder a tres ensaios differentes: l.° Acidula-se a matéria com acido chlorhydrico e intro- duz-se uma lamina ou um fio bem limpo de ferro, e deixa-se em contacto por algumas horas ; o cobre deposita-se sobre o ferro 756 COBRE formando um inducto de cor vermelha. E’ o metliodo de substi- tuição de Reinsh. 2. Hadon aconselha um processo expedito, que tem sido applicado com vantagem sobretudo á pesquiza do cobre no pão.1 Cortam-se duas fatias: uma de pão suspeito, outra de pão reco- nhecido bom, collocam-se-as em dous pratos separados, e rega-se cada uma com a solução de ferro-cyanureto de potássio; dentro de alguns momentoso pão cuprifero não tarda a tomar a cor rosea ou avermelhada, conforme a proporção de cobre que encerra. 3. Emflrn Jeannel propõe o seguinte ensaio : Lança-se em um pequeno frasco estreito e longo uma certa porção do liquido a examinar, depois algumas grammas de azeite doce bem claro e limpido, agita-se vivamente e deixa-se repousar ; si houver cobre, o liquido toma em pouco tempo uma côr verde caracte- r is ti ca. Os ensaios mais rigorosos, porém, e sobretudo os que são applicaveis á pesquiza do veneno nas vísceras, exigem a des- truição da matéria organica. Esta póde-se realizar mediante qualquer dos processos conhecidos e indicados na parte geral, inclusive o processo de carbonização directa, a fogo nú. Este éo adoptado por Galippe e Lesetreite; porém, Dragendorff, Hetet e Chapuis preferem os que se baseara no emprego da mistura cblorogenica, seja o de Fresenius e Babo, seja o de Ferreira de Abreu. Tardieu recommenda antes o processo de Flandin e Danger, e indica mais dous especialmente destinados a esta pesquiza, que se executam do modo seguinte : a) No primeiro aquece-se em B. M< as matérias organicas 1 O cobre apparece no pão, proveniente da farinha de trigo, á qual alguns industriaes costumam mist irar uma pequena quantidade de vitriolo azul, com o fim, ou simplesmente de alvejal-a, preenchendo neste caso o papel do anil na roupa branca, ou de melhorai-a, porque pretende-se mesmo que este saltem a propriedade de conce-tar farinhas avariadas, dando-lhes apparencia das de boa qualidade. A mesma farinha superior pôde conter traços de cobre proveniente da caparosa azui com que se preservam as plantações de trigo, do cogumelo que as ataca e arruina*, o Ustilago caries. VENENOS MYOTICOS 757 suspeitas, de mistura com uma pequena quantidade de carbo- nato de sodio, puro e perfeitamente secco ; depois projecta-se a mistura por pequenas porções em um cadinho de porcellana, envermelhecido, de maneira a evitar o transbordamento, até que toda a massa fique completamente carbonizada. Pulverisa- se e esgota-se atravez de um filtro com agua distillada. O residuo insolúvel é tratado por acido azotico diluido, que forma um azotato, no qual se verifica a presença do cobre pelos ensaios adequados. Neste processo o autor confessa que o emprego do carbonato alcalino não é absolutamente indispensável, e que a carboni- zação póde-se fazer directamente, sem addição de qualquer outro agente. (b) O segundo processo proposto por Tardieu é uma modi- ficação do de Flandin e Danger, ou antes do de Boutmy. As matérias são incineradas pelo acido sulphurico, e o carvão que dahi resulta é tratado pelo acido nitrico, depois diluido n’agua e esgotado sobre um filtro. Osliquidos filtrados são reunidos e precipitados por grande excesso de potassa caustica. O deposito, perfeitamente lavado, faz-se ferver, durante meia ou uma hora, com uma solução concentrada de chlorureto de ammonio puro. O bioxydo de cobre vem a se dissolver completamente no sal ammoniaco. Dahi seguem-se os ensaios ordinários de substituiçãoe outros. A estes diversos processos de destruição devem ser submet- tidos, para a pesquiza do cobre, todos os líquidos da economia, e sobretudo porções de figado e outros orgãos parenchyma- tosos, sem distincção, além do conteúdo do estomago e intes- tinos. Obtido o liquido final, qualquer que seja o processo empre- gado, faz-se passar uma corrente de acido sulphydrico, que forma nelle um precipitado preto de sulphureto de cobre, inso- lúvel na ammonia, quando se opera ao abrigo do contacto do ar; pouco solúvel, ou mesmo quasi insolúvel no sulphureto 758 COBRE de ammonio, que só dissolve traços daquelle precipitado quando este é recente e húmido. E’ solúvel no cyanureto de potássio, e facilmente atacavel e decomponivel pelo acido nitrico, que forma com o cobre um nitrato solúvel, que se presta ás se- guintes reacções caracteristicas dos persaes deste metal. 1 .a Os alcalis fixos (potassaou soda) dão um precipitado branco azulado ou azul pallido, de hydrato de cobre, que fica preto quando se faz ferver, sobretudo em presença de um excesso de potassa. Si se ajuntar previamente ao sal cúprico acido tarta- rico ou glycose, o alcali não precipita mais o respectivo oxydo ; esta ultima substancia exerce una acção reductora, lenta a frio, e rapida a quente, era virtude da qual precipita-se o sub-oxydo ou oxydulo de cobre vermelho . Esta propriedade da solução cupro-alcalina é aproveitada, como se sabe, para o ensaio da glycose. 2. a A ammonea, em pequena quantidade e sobretudo em soluções concentradas, dá o mesmo precipitado, que os alcalis fixos ; porem, o menor excesso redissolve o precipitado, tomando o liquido uma bella côr azul celeste, devida á formação de um sal duplo, cupro-ammoniacal. Nos ensaios toxicologicos, como em geral as soluções obtidas são muito fracas, é raro formar-se o precipitado de hydrato cúprico, e por isso manifesta-se logo esta ultima reacção, aliás de extrema sensibilidade. Os carbonatos alcalinos comportam-se mais ou menos como os respectivotf alcalis. 3. a O ferío-cyanureto de potássio produz um precipitado côr de castanha ou de vinho branco, de ferro-cyanureto de cobre, solúvel na ammonia e nos alcalis em geral; segundo Tardieu, a ammonea o decompõe, mas não o dissolve; é insolúvel nos ácidos diluídos. Nas soluções extremamente fracas, mani- festa-se apenas uma nuvem rosea, côr de flor de pecegueiro, com esses caracteres ; é um reactivo ainda mais sensível do que a ammonea, para os saes de cobre. VENENOS MYOTICOS 759 4. a 0 acido sulphydrico e os sulphuretos alcalinos dão um precipitado preto de sulphureto de cobre, com os cara- cteres acima descriptos ; nas soluções muito acidas não preci- pita. 5. a O iodureto de potássio dá um precipitado branco, de proto- iodureto de cobre, mascarado pelo iodo, que em parte é posto em liberdade, e tinge o liquido de côr amarella avermelhada. Algumas gottas de uma dissolução de acido sulpliuroso removem este inconveniente, levando o iodo ao estado de acido iodhydrico, e deixando patente o precipitado branco. 6. a Uma mistura de acido cyanhydrico diluido e dé tintura de guayaco dá uma bella côr azul, que torna-se mais pronun- ciada addicionando-se algumas gottas de chloroformio e agitando-se o tubo em que se faz o ensaio ; o chloroformio dis- solve a matéria azul e a concentra toda na pequena camada que forma na parte inferior do liquido. E’ a mesma reacção de Schõnbein, já indicada a proposito das reacções do acido cyanhydrico ; não se conhece bem sua theoria, ou antes não se conhece a natureza desse producto azul, mas em todo caso deve-se executar a reacção lançando primeiramente a tintura de guayaco, afim de verificar a ausência de alguns corpos que dão com ella uma côr azul (ochloro, o bromo, o iodo, etc.) Quando nenhuma mudança de côr se manifesta com a tiutura, ajunta-se então o acido cyanhydrico, e si apparecer côr azulé caracteristica do cobre. 7. a Uma gotta de acido bromhydrico reunida com outra gotta do liquido suspeito, num vidro de relogio, evaporada a brando calor a mistura, toma uma côr rosea manifesta; esta côr, se- gundo Chapuis, é tres ou quatro vezes mais intensa do que a produzida com o ferro-cyanureto alcalino nas mesmas condi- ções. 8. a Um fio de ferro (bem limpo), ou uma simples agulha de aço, polida, introduzida na solução, reveste-se na parte immer- sa, de um inducto avermelhado de cobre ; si a côr não é bem COBRE franca e pôde deixar alguma duvida, procede-se a um dosdous ensaios seguintes: a) Raspa-se com a ponta de um canivete o deposito me- tallico, que se colloca em um vidro de relogio, trata-se por algumas gottas de ammonia e expõe-se ao ar; não tardará a appa- recer uma cor azul, devida aoammoniureto de cobre. b) Molha-se a extremidade induzida do fio em acido chlorhydrico, ou numa solução de chlorureto de ammonio, e introduz-se na chamma de uma lampada de álcool, que toma uma bella cor verde, devida ao chlorureto volátil de cobre. Alguns autores propoem substituir ao ferro o zinco, que preenche o mesmo fim, mas o ferro é preferível. 9. a Aquecidas com borax, sobre um fio de platina, curvo, essas combinações produzem na chamma externa (de oxydação) uma pérola que se apresenta verde emquanto está quente, mas torna-se azul pelo resfriamento. Na chamma de reducção a pé- rola de borax é de cor vermelha escura, opaca (tanto a frio como a quente). A’ chamma do maçarico e à analyse espectral todas as combinações cúpricas apresentam esta cor verde. 10. a Misturados com carbonato de sodio secco e expostos num carvão â chamma de reducção do maçarico, todos os compostos de cobre são reduzidos ao estado metallico, facil- mente reconhecível. 11. a Finalmente, em vez de um metal unico promovendo o phenomeno da substituição, podem-se empregar dous juntos, estabelecendo-se as condições da electrolyse. Neste sentido ha tres maneiras de operar: a) Hager manda tomar um fio de platina, sobre o qual se enrola outro de ferro, de maneira que se toquem por uma só de suas extremidades; introduzido o par na solução, o cobre deposita-se todo sobre a platina. Basta tratar esta pelo acido nítrico, para separar todo o cobre no estado de azotato solúvel, suseeptivel de evidenciar o metal por algum dos ensaios mais VENENOS MYOTICOS sensíveis, já citados. Segundo Mayençon e Bergeret, pode-se pro- ceder cora este fio cobreado, como no ensaio correspondente que se pratica com o mercúrio, expondo aos vapores do chloro e depois, em vez de applical-o a ura papel iodurado, servir-se de um papel embebido em ferro-cyanureto, no qual deixa traços da cor de vinho, rosea ou barrenta. b) Taylor aconselha collocar a solução suspeita numa capsula de platina, e com uma lamina de zinco tocar em di- versos pontos o fundo e as paredes da mesma, banhadas pelo liquido, demorando um pouco o contacto, de cada vez. De- posita-se na platina o cobre, sob a fôrma de um revestimento avermelhado, que se pôde tratar pela ammonia, ou dissolver e salinifícar pelo acido azotico, para obter uma solução na qual se possam ensaiar os reactivos proprios do cobre. Chandellon serve-se neste ensaio de um pequeno appare- lho em que a haste é posta em contacto permanente com o fundo da capsula, como na pesquiza doantimonio. c) DragendorfF lembra o processo seguinte: submette-se á electrotyse o liquido suspeito, collocado em uma capsula ou cadinho de platina, que põe-se em communicação com o pólo negativo de uma pilha de Bunsen (de 1 ou 2 elementos) ; mergulha-se no liquido um fio do mesmo metal, um pouco forte, que communica com o pólo positivo ; faz-se passar a corrente electrica durante tres horas ; o cobre deposita-se na platina, e ahi se procede como no ensaio anterior. Dosagem do cobre. Póde-se dosar o cobre no estado de oxydo, de protosul- phureto ou de metal. l.° No estado de oxydo.— Obtida a solução de azotato de cobre, tratando-se o sulfureto deste metal pelo acido azotico, põe-se numa capsula, faz-se ferver, junta-se lixivia de soda um pouco fraca, ferve-se ainda por alguns instantes e lança-se sobre um filtro. Lava-se o precipitado com agua quente, secca- se, leva-se á temperatura rubra em um cadinho de platina, dei- 762 MERCÚRIO xa-se resfriar e pesa-se ; 100 grammas de oxydo cúprico cor- respondem a 79,85 de cobre metallico. 2. No estado de proto-sulphureto.— Obtido este precipi- tado, lança-se juntamente com o filtro em um cadinho de tampa, e um pouco de enxofre pulverisado ; aquece-se ao rubro, tendo-se o cuidado de levantar a tampa, de vez em quando, por alguns segundos ; o residuo pesa-se. 3. Põe-se o liquido a analysar em uma capsula de platina e lança-se dentro um pedaço de zinco, ou de cádmio, que é preferivel porque se dissolve inteiramente nos ácidos. No fim de uma ou duas horas o cobre deposita-se na capsula. Terminada a reacção, lava-se varias vezes, decantando o deposito com agua fervendo. Quando o liquido não é mais acido, lava-se com um pouco de álcool, secca-se na estufa a 100°, deixa-se resfriar e pesa-se. O calculo é simples em qualquer destes dous últimos me- thodos. Envenenamento pelo mercúrio Assim chamado do nome da divindade mythologica a que foi consagrado o mercúrio ; liquido eterno ou veneno de todas as cousas, como o denominavam os romanos, segundo o teste- munho de Plinio, e ao qual attribuiam os alchimistas uma importância extraordinária, a ponto de o considerarem como o principio e a alma de todos os outros metaes, como o agente necessário para conseguirem multiplicar o ouro e a prata, e cujo conhecimento se deve aos trabalhos executados no intuito de transformar nestes dous metaes os metaes vis, o mercúrio, digo, tem sido causa de innumeros envenenamentos, incluin- do-se nesta rubrica todos os produzidos em diversas circum- stancias e com qualquer fim, seja pelo proprio metal em natu- reza, seja por algum de seus numerosos preparados, que VENENOS MYOTICOS 763 são todos mais ou menos toxicos 4. Póde-se dizer mesmo, sem medo de errar, que estes envenenamentos são dos mais fre- quentes, sobretudo, abrangendoos accidentaes ou involuntários,2 entre os quaes se comprehendem os effeitos determinados pelas variadas applicações therapeuticas dos mercuriaes. Neste caso, elles offerecem um quadro symptomatologico especial, que caracterisa uma das fôrmas admittidas no estudo do hydrar- gyrismo, é a fôrma sub-aguda, principalmente si os compostos administrados ou ingeridos pertencem ao grupo dos insoluveis, que é o mais numeroso. Neste grupo comprehendem-se : O proprio mercúrio metallico ; o bioxydo ou per-oxydo (pôs de Joannes), amarello ou vermelho, conforme seu modo de preparação ; o sub-deuto-azotato (turbith nitroso), que é amarello; o sub-deuto-sulphato (turbith mineral), igualmente amarello ; o bi-sulphureto, que é preto ou vermelho, segundo seu estado de hydratação ou seccura ; neste ultimo caso deno- minado cinabrio quando se apresenta em massas, e vermelhão quando em pó fino ; o proto-iodureto, que é verde amarellado, e mesmo o bi-iodureto, que é vermelho ou amarello, conforme as condições thermicas de sua formação (estado allotropico); o proto-bromureto, branco; o protochlorureto (mercúrio doce, calomelanos), igualmente branco. Os compostos solúveis de mercúrio são : Oproto-azotato, branco. O proto-sulpliato, igualmente branco.3 O cyanureto} idem 1 Chandellon considera o sulphureto de mercúrio completamente inoffen- sivo (?). 2 Não se póde bem applicar esta expressão involuntária aos casos em que o ptyalismo e outros effeitos mercuiúaes eram propositalmente provoca- dos c om certo e determinado fim therapeutico. Esta pratica, porém, que obe- decia antigamente ás doutrinas clinicas então em voga, tem sido quasi aban- donada ; evitam-se hoje o mais possivel aquelles effeitos, considerados em geral prejudiciaes. 3 Não cito aqui proposilalmente o deuto-azotato e o deuto-sulphato, por- que estes, apenas em contacto com a agua, decompoem-se, formando um sal solúvel que fica no liquido, e outro insolúvel que se precipita (o turbith ni- troso e o turbith miniral), MERCÚRIO (que só é veneno mercurial quando actua em dóses pequenas, fraccionadas. )1 O bichlorureto ou sublimado corrosivo, também branco. E’ o composto mais importante desta classe, aquelle que entre os mercuriaes tem occasionado maior numero de envene- namentos, comquanto relativamente raros, si se compara com os produzidos por alguns outros saes metallicos, pelo arsénico e pelo pliosphoro. Elle figura, todavia, na estatistica criminal, na proporção de cerca de 1 por 100, datando o seu emprego desde os tempos de Locusta, em cujas formulas diz-se que en- trava esse composto. Variam consideravelmente as condições nas quaes se tem observado o envenenamento pelo mercúrio ; assim, ora tem sido a consequência do emprego directo do sublimado corrosivo como meio de suicídio ou de homicídio, ora do uso immoderado de certos preparados desse metal, ora de um descuido pòr troca de preparações destinadas a uso externo (a agua phagedenica, por exemplo). O largo emprego que se faz nas artes e na industria, do sublimado corrosivo e das córes mercuriaes, fa- vorece os envenenamentos accidentaes. Outras vezes elles teem sido occasionados por applicações externas de soluções, pomadas e pastas tendo por base aquelle sal, ou o nitrato acido de mercúrio. Vidal refere um caso muito curioso de envenenamento mortal por esta ultima substancia, applicada imprudentemente em largas fricções sobre a pelle. Finalmente, a sciencia registra grande numero de factos de intoxicação mercurial, devidos á absorpção do proprio mercúrio metallico nos infelizes mineiros que se occupam com a ex- 1 Em dóses massiças prevalece a acção do cyanogeno e comporta-se então como um veneno cyanico. Acredita-se geralmente que este cyanu- reto forma-se quando se mistura a agua distillada de louro-cereja oa de amêndoas amargas com calomelanos, e por isso condemna-se de ordinário esta associação, como perigosa. Chandellon diz mesmo terem-se observado vários casos de morte, devidos ao emprego desta mistura ; o que parece in- verosimil attendendo a que, na quantidade precisa para produzir dóse to- xica do cyanureto, a referida agua deveria ser por si mesma capaz de occa- sionar o resultado fatal. VENENOS MYOTICOS 765 tracção deste metal do seio da terra ; e, ainda que em menor escala, nos profíssionaes que o manipulam diariamente (doura- dores, espelhadores, fabricantes de barómetros e thermome- tros, etc.) ; ônalmente observaram-se muitos factos de envene- namento por administração interna do mercúrio 11a epoca em que este metal era applicado como remedio contra 0 ileus ou volvo, sobretudo devido á invaginação intestinal, e ainda para outros fins. 1 Diz M. Sbriziolo que os habitantes de Londres e de Edim- burgo, no principio do século passado, tomavam todas as manhãs duas ou tres drachmas de mercúrio metallico em quatro ou cinco onças de oleo, para preservarem-se da gota e dos cálculos ! Elle cita 0 facto de um individuo que, atormentado por cólicas violentas, tomou 100 grammas de mercúrio, de uma vez, e no sétimo dia apresentou salivação abundante e outros phenomenos, que feliz mente cederam em pouco tempo. Outro ingeriu 200 grammas deste metal, que conservou nos intestinos durante 14 dias, quando se manifestou 0 ptyalismo, acompa- nhado de ulcerações 11a boca e seguido de paralysia das extre- midades. Uma moça, com 0 fim de se fazer abortar, tomou 120 grammas de mercúrio vivo, e não experimentou effeito algum sobre 0 utero; porém, alguns dias depois começou a sentir um tremor geral pelo corpo e abatimento considerável da força muscular, que prolongaram-se ainda por uns dous mezes sem que se manifestasse salivação, nem a cor azulada (?) das gengivas. E’ pois incontestável a acção toxica do mercúrio metallico, nestas condições, e todas as vezes que elle se demora por muito tempo nos intestinos em contacto com os suecos diges- 1 Não deixarei de assignalar uma nova causa de intoxicação mercurial, e que foi objecto de um relatorio apr sentado ha tras annos por L. Faucher ao conselho de hygiene publica e salubridade do Sena ; refere-se aos vapores que sa desprendem pela explosão das capsulas de fulminato de mercúrio, tão usadas ultimamente nos tiros ao alvo; Elle cita dous factos de stomatite e tremor mercixrial devidos aesta causa. (Y. Ann. de hyg. publ. e med.-leg., 1887.) 766 MERCÚRIO tivos; mas é impossível determinar a dóse precisa em que póde acarretar a morte, pois ao lado de factos de immunidade por dóses extraordinárias, quando promptamente eliminadas, conhecem-se outros terminados pela morte, devidos a quanti- dades relativamente pequenas do metal, como, por exemplo, o citado por Chandellon, de um individuo que succumbiu ao uso das pilulas azues, na dóse de 0g,',976 (pouco menos de uma gramma) de mercúrio, não fallando em accidentes graves e mesmo fataes produzidos por applicações externas do mer- cúrio i. Assim, Gubler observou um caso de glossite paren- chymatosa acompanhada de symptomas que puzeram em risco a vida do doente, só por uma fricção com unguento napoli- tano. Chandellon refere um caso de morte occasionada por fricções feitas com llgr,712 deste unguento. Bouchard cita outro caso fatal, apenas com 4 grammas do mesmo. Quanto aos saes de mercúrio, é também muito difficil precisar rigorosamente a dóse em que são toxicos. Com o sublimado corrosivo citam alguns factos de indivíduos que resistiram â dóse de 15 e mesmo de 20 grammas 2, ao passo que a morte tem sobrevindo á ingestão de 0,15 desse veneno, como no referido por Sbriziolo, de um menino a quem por en- gano, em vez de protochlorureto (calomelanos), se havia prescripto essa dóse de bichlorureto (sublimado). E’ a dóse 1 A absorpção se faz nestas circumstancias não só atravez da pelle, mas sobretudo pelas vias aereas, com a inspiração dos vapores deste metal, con- forme deixei dito no estudo da absorpção dos venenos êm geral. Um facto que prova á saciedade a parte mais activa que tem esta ultima superfície, na absorpção do mercúrio, é citado por Samelsohn, de um individuo casado, habitando um logar estreito, e que fez em si mesmo uma fricção mercurial; seis horas depois, sua mulher, que não tinha siquer tocado no mercúrio, apre- sentou a salivação caracteristica. 2 Não resa esta indicação que encontrei em Chandellon si se refere a casos em que foi talvez o veneno immediatamenbe rejeitado pelo vomito, ou prompta e energicamente neutralizado por antidotos, ou si aos factos de mercuriophagia assignalados por M. Sbriziolo em relação a certos povos do Oriente, que, juntamente com o opio, ingerem o sublimado corrosivo até á dóse de cerca de 3 grammas ! sem inconveniente. E’ realmente extraor- dinário e surprehendedor este facto, ainda menos verosimil do que os de arsenicophagia, que, como já disse, são muito contestáveis; — ahi o deixo consignado, sem commentario. VENENOS MYOTICOS 767 menor de que se tem noticia como causa de um envenenamento mortal por este corpo, e pôde ser considerada, segundo Hasselt, como capaz de produzir esse resultado, mesmo em adultos. Esta mesma quantidade de calomelanos, tomada de uma só vez ou em dóses íraccionadas, mas succedendo-se rapida- mente, tem em mais de uma occasião acarretado a morte. Emfim, conhece-se um caso de suicidio consummado com 3gt'-,906 de sulfato básico de mercúrio. Symptomas; signaes clínicos O envenenamento pelo mercúrio apresenta-se sob tres fôrmas perfeitamente caracterisadas i, e cujo estudo deve ser feito em separado, como fazem Tardieu e Rabuteau, tomando por typo o envenenamento produzido pelo sublimado. A — Fôrma aguda de Rabuteau ou super-aguda de Tar- dieu. Após alguns minutos de ingestão deste sal os doentes accusam um sabor metallico horrivelmente desagradavel, com sensação de constricção na garganta, e de queimadura ou calor urente, que da boca se propaga pelo esophago até ao esto- mago, onde occasiona dores atrozes ; seu hálito é nimiamente fétido. Sobreveem vomitos a principio mucosos, depois biliosos e por flm sanguinolentos, não fallando nas matérias alimen- tares com que o veneno póde ter sido misturado e ingerido. Ao mesmo tempo apparecem evacuações alvinas abundantes, também biliosas ou sanguinolentas e extremamente fétidas, 1 Uma circumstancia notável e que cumpre assignalar, é que, estas tres fôrmas do hydrargyrismo guardam até certo ponto relação com a natureza dos mercuriaes ingeridos. Assim é que a forma superaguda é própria, sinão peculiar aos compostos solúveis de mercúrio, particularmente ao sublimado corrosivo ; a fôrma sub-aguda que pôde ser também o resultado do uso therapeutico destes compostos, actuando, pois, em dóses pequenas e continuadas, é muito mais vezes a consequência do uso prolongado dos preparados insolúveis de mer- cúrio, especialmente do proto-iodureto e do calomelanos, administrados em dóses íraccionadas, segundo o methodo de Law. Finalmente a fôrma chro- nica é em geral o apanagio dos industriaes que se empregam na manipulação do mercúrio, e sobretudo daquelles que se occupam com a sua extracção expondo-se aos vapores do proprio metal. 768 MERCÚRIO acompanhadas do vivo ardor no anus, tenesmos e violentas dores abdominaes com tensão do ventre. A face é por mo- mentos rubra e vultuosa, logo depois pallida, descorada e crispada, exprimindo grande soffrimento. O corpo banhado de suor esem forças; as urinas são raras ou mesmo supprimem-se. Em seguida o pulso torna-se irregular, em geral apressado, porém sempre fraco, pequeno, filiforme, quasi imperceptivel; a calorificação diminue, a respiração é alta e anciosa. A lingua, os lábios, as paredes bucaes e as gengivas tornam-se rubras e tumefactas, estas ultimas sangram ao menor contacto ou mesmo espontaneamente ; a inchação in- vade a garganta e chega ao ponto de embaraçar ainda mais a respiração, collocando ás vezes os doentes em imminencia de asphyxia. Manifesta-se uma salivaçã > abundante, e os dentes podem-se apresentar abalados, comquanto este plieno- meno seja mais commum nas fôrmas menos agudas e na fôrma chronica do hydrargyrismo. As dores do estomago, as cólicas, os vomitos e as evacuações continuam ; a prostração é extrema, a voz extincta, os lábios pendentes, as palpebras cahidas. Ha perda de movimentos e depois da sensibilidade, sobretudo nos membros posteriores ; as extremidades re- sfriam-se, o pulso torna-se cada vez mais fraco, lento e raro ; sobreveem syncopes repetidas, que interrompem por momentos a integridade das faculdades intellectuaes, em geral conservada até aos momentos que precedem a morte. Esta, chega ordinaria- mente no fim de 24 a 36 horas, ou mesmo no fim de alguns dias. Mais raramente tem logar em prazo menor, como no caso citado por Christison (duas horas), e em outro observado por Welch (meia hora) ; nestas condições assemelha-se o hy- drargyrismo agudo a um insulto cholerico, Quando a terminação funesta é mais retardada, nota-se antes disso um simulacro de apparato febril, uma certa ten- dência á reacção ; a pelle se reaquece um pouco, a respiração torna-se mais regular, porém o que domina a scena é o estado VENENOS MYOTICOS 769 de prestação geral atè o colapso, de fraqueza e pequenez do pulso, ao mesmo tempo que persistem os vomitos o as eva- cuações. Manifesta-se ás vezes ligeira suífusão ictérica; eas urinas, quando não são supprimidas, apresentam-se albumi- nosas. B.—Fôrma sub-agucla. Mais rara actualmente do que outrora quando si abusava dos mercuriaes, e si prolongava o seu uso até o apparecimento da stomatite e da salivação, esta fórma caracterisa-se pelos mesmos symptomas da fôrma pre- cedente, succedendo-se na mesma ordem, porém com menor violência e intensidade, excepto no que respeita os pheno- menos locaes da boca. Elles não começam a manifestar-se antes das 24 lioras, e mais ordinariamente só depois de dous a tres dias. Todavia, nota-se que entre os phenomenos locaes, si assim se póde chamar, accentuam-se particularmente as manifestações para o lado da boca, em parte devidas á acção de contacto da substancia toxica, porém neste caso represen- tando em maior escala eífeitos secundários ou consecutivos á absorpção, attendendo à natureza e ao modo de administração dos preparados que são a sua causa. Os doentes começam sentindo o mesmo sabor metallico des- agradável; elles teem fastio, nauseas e diarrhéa, não raramente vomitos; algumas vezes soluços e palpitações de coração, Experimentam também constricção na garganta, que, depois de um ou dois dias, é substituída por uma sensação de dôr e picadas incommodas, que provocam accessos de tosse convul- siva, seguida de expectoração e mucosidade sanguinolenta. As urinas tornam-se muito raras e podem mesmo faltar alguns dias ; em geral albuminosas, são em muitos casos sanguinolentas e algumas vezes encerram assucar, como se verificou em uma observação de Bouchard, e nas experiencias de Saikousky, Kletzensky e Rosenbach. Os accidentes, porém, mais notáveis são a stomatite ea salivação mercttrial. As gengivas tornam-se rubras, quentes* TJXICOLOGIA 49 770 MERCÚRIO dolorosas, tumefactas, sangrando facilmente ou cobertas de um hiducto branco-amarellado, que manifesta-se primeiramente nas gengivas inferiores, depois nas superiores e passa depois ás paredes da boca. Em toda esta cavidade nota-se uma phlogose ntensa, que se estende ao pharynge, dificultando a mastigação e a deglutição. Assim os lábios, as bochechas, o véo do paladar e as amygdalas apresentam-seinflammados ; a lingua, sobretudo, augmenta consideravelmente de volume e cobre-se de saburra espessa ; o pharynge parece revestido de falsas membranas. Os ganglios lymphaticos da região, bem como as glandulas salivares, participam deste estado e incham igualmente. Os dentes são agacés, abalados e acabam ás vezes por cahir. O hálito é extremamente fétido, repugnante e caracteristico. A salivação torna-se pouco a pouco abundante, copiosa, uma verdadeira sialorrhéa, sobretudo quando favorecida por certas circuinsfcancias, taes como o desaceio da boca, a carie dentaria, a suppressão do suor, a prisão de ventre, o estado de prenhez e o frio. A saliva exhala o mesmo cheiro fétido do hálito, senão é por sua vez a causa deste ; ella differe da saliva normal, se- gundo Rostock, por sua maior fluidez, devida á diminuição do muco ; entretanto, sua densidade augmenta, e sobe de 1.038 até 1.059, pela presença da albumina. A quantidade de saliva ex- cretada nestes casos é considerável; eleva-se ás vezes até cinco, seis e mesmo oito kilogrammas nas 24 horas. As analyses feitas por diversos experimentadores teem revelado nellaa existência do mercúrio, comquanto algumas vezes os resultados tenham sido negativos. Estes accidentes manifestam-se, diz Rabuteau, mais facil- mente na mulher do que no homem, e observam-se mais vezes no inverno do que no verão ; por isso são mais frequentes nos paizes frios do que nos quentes 1 1 Cousa singular, ao contrario do que se dá com os outros venenos as crianças antes de terem dentes, offereeem uma resistência excepcional em relação aos phenomenos de stomatite mercurial, que rara e difflcilmente são observados nessa idade. VENENOS MYOTICOS 771 Em geral é o proprio mercúrio metallico em primeiro logar, e depois os preparados mercuriaes insolúveis que os determi- nam muito mais rapidamente do que os compostos solúveis deste metal; tem-se visto o ptyalismo apparecer tres horas após uma fumigação com cinabrio, e em menos de 24 horas após fricções com unguento napolitano ( pomada mercurial dupla ). Elle sobrevem em geral dous e tres dias depois da adminis- tração do calomelanos em doses fraccionadas, segundo o me- thodo de Law, e muito mais tarde quando este medicamento è tomado em dóse maior para eífeito purgativo. O protoiodureto de mercúrio applicado na dóse de 10 centigram. por dia (duas pilulas da formula de Ricord) póde produzir a salivação no fim de quatro a cinco dias ; mas, geral mente o faz em muito mais tempo. Emfim, o sublimado corrosivo, que è solúvel, determina este phenomeno menos vezes e menos facilmente do que os com- postos precedentes. O ptyalismo mercurial dura ordinariamente duas a tres semanas, quando é abandonado á sua evolução natural, depois de cessado o uso do mercúrio sob qualquer fórma. Em certos casos mais graves manifesta-se gangrena das partes molles da boca, necrose dos maxillares, e mesmo ankylose da mandibula, até que sobrevem a morte por pyohemia e con- sumpção. Um facto digno de nota, assignalado por Dietrich e veri- ficado por outros observadores, e que alguns, como Nothnagele Rossbach, não dão por cabalmente demonstrado, vem a ser que, ao lado da hypersecreção salivar, activa-se também a secreção pancreatica, que, como se sabe, fornece um sueco digestivo de propriedades physiologicas analogas ás da saliva, tanto quanto a estructura da respectiva glandula se assemelha á das glân- dulas salivares. Então, os envenenados sentem uma dôr surda e ardente na região do pancreas. Tem-se observado igualmente uma conjunctivite devida a esta intoxicação, e finalmente certas dermatoses que teem a 772 MERCÚRIO mesma origem. Elias differem das produzidas por outros venenos e são nimiamente raras após a administração interna do mercúrio; manifestam-se mais vezes em consequência da applicação externa de pomadas e unguentos mercuriaes, Apresentam-se particularmente debaixo da fórma de roseola, erythema, urticaria e sobretudo de eczema, que se con- fundem atè certo ponto com as erupções dependentes de syphilis ; segundo Nothnagel e Rossbacli nenhum caracter especial as distingue, sendo bem provável que a essa enfermidade, antes do que à acção dos mercuriaes empregados contra ella, se deva attribuir certos phenomenos, taes como a alopecia. Cousa digna de menção é que, nesta fórma da intoxicação mercurial, observa-se muitas vezes um certo movimento febril, que não se nota na fórma propriamente aguda. Xo fim do 5o ou 6o dia opera-se uma remissão, mais apparente do que real. Assim, as evacuações são menos frequentes, menos sangui- nolentas ; os accidentes inflammatorios são menos agudos, mas os doentes conservam-se enfraquecidos e pallidos. Em certos casos sobrevem uma erupção de manchas pe- techiaes ; ao mesmo tempo, vomitos de sangue, hematúria ou simplesmente albuminúria, e os doentes cahem em uma especie de cachexia aguda, caracterisada por palpitações, ruidos morbidos do coração e dos vasos, soluços, hypersthesia, pros- tração geral, a que sõ segue a morte sem convulsões, nem agonias, no fim de oito, 12 ou 15 dias. Lesõss anatomo-pathologicas; signaes necroscopicos Nos indivíduos mortos de hydrargyrismo agudo ou sub- agudo encontra-se a mucosa buccal inflammada, amollecida e ulcerada, coberta de um inducto pultaceo muito espesso, de uma saburra molle esbranquiçada ; aliuguaé tumefacta e apresenta papillas muito desenvolvidas. Só excepcionalmente, quando a morte tem sido muito rapida, e a preparação mercurial tem VENENOS MYOTICOS 773 sido administrada de mistura com alguma substancia inerte, ó que estes phenomenos podem faltar. As lesões inflammatorias estendem-se ao esopliago, ao esto- mago e intestinos, particularmente o coecum ; por isso a mucosa que reveste esta superfície é rubra e ecchymosada ou amolle- cida. No estomago, que geralmente é contrahido, nota-se rubor exagerado em fôrma de arborisações, ecchymoses mais ou menos extensas e mesmo ulcerações, algumas vezes der- rames sanguíneos, mais raramente placas gangrenosas, e em ura caso citado por Taylor, deu-se mesmo a perfuração do estomago. Cousa notável é que muitas destas alterações se manifestam, ainda que o veneno não tenha sido ingerido, e quando tenha penetrado na torrente circulatória por outras vias, conforme revelou a Yidal a autopsia de um indivíduo, morto em consequência de fricções com azotato acido de mer- cúrio . Na superfície dos intestinos, na espessura dos mesenterios e dos epiploons, ve-se disseminadas em maior ou menor numero pequenas suffusões sanguíneas ecchymoticas. Si o envenenamento tem logar pelo nitrato acido de mer- cúrio, succede que, em virtude da acção especial que este corpo exerce sobre os tecidos orgânicos, todos os pontos da mucosa bucco-pharyngiana, bem como do tubo gastro-intestinal por onde trajectou o veneno, apresenta-se mais ou menos fortemente colorido de vermelho escuro ou purpurino. Os pulmões parecem sãos em certos casos; em outros apre- sentam-se edematosos ; não é raro achar uma congestão notável deste orgãos, assim como os signaes de uma irritação viva do larynge e da trachéa. O coração é flaccido ; ve-se muitas vezes pontos ecchymo- ticos espalhados na base dos grossos vasos e por baixo do endo- cardio, do pericárdio, e muitas vezes também encontra-se grande quantidade de liquido no sacco formado por esta serosa. O sangue é negro e fluido. 774 MERCÚRIO Existem, porém, ainda outras alterações importantes, e que teem despertado a attenção dos clinicos e observadores ; são as que offerecem o fígado e os rins, quando a morte não sobrevem sinão no fim de alguns dias. Fóra deste caso, os rins, podem se apresentar simplesmente congestionados, os tubos mais ou menos descamados e suas paredes infiltradas de granulações gordurosas ; ha então viva injecção do parenchyma renal, ao nivel dos glomerulos de Malpighi. Naquelle caso, porém, observa-se a degeneração granulo-gordurosa, que foi perfei- tamente estudada por Henocque em relação ao envenena- mento pelo mercúrio, depois de assignalada por outros em relação ao arsénico e ao phosphoro. Então, as cellulas epithe- liaes são deformadas, granulosas e em parte destruídas, ob- struindo os canaliculos ; estes vão por sua vez desapparecendo com os progressos da steatose, que em pouco tempo converte parcialmente os rins em um detrito gorduroso. O fígado, cuja superfície exterior conserva-se lisa e bri- lhante, offerece á secção uma superfície de aspecto amarellado, descorado, e consistência pastosa. Ao microscopio vê-se nadar na preparação grande numero de gottas de gordura e cellulas hepaticas repletas de granulações da mesma natureza ; em todas o núcleo tem desapparecido. Diagnostico differencial Como bem dizTardieu, nenhuma moléstia natural póde-se confundir com o hydrargyrismo agudo, pela especificidade das lesões buccaes, e a marcha rapidamente funesta deste envene- namento ; por isso não se occupa com o seu diagnostico. Quanto a outros envenenamentos, os que mais se assemelham são os determinados pelo arsénico, pelo cobre e em parte pelos agentes irritantes e corrosivos. Distingue-se do arsenicismo agudo pelos seguintes cara- cteres ; sabor fortemente metallico e desagradavel dos mer- VENENOS MYOTICOS 775 curiaes, e antes adocicado e depois acre do acido arsenioso. O apparecimento dos primeiros phenomenos é muito mais rápido, quasi instantâneo para o sublimado corrosivo, ao passo que de- mora uma hora e mais para o arsénico. As lesões da boca, a salivação, a fetidez do hálito, a vacillação dos dentes, caracte- risticas do hydrargyrismo, faltam no envenenamento pelo ar- sénico ; neste, segundo Taylor, as evacuações são menos vezes sanguinolentas. O envenenamento pelo cobre differe pelo sabor particular dos compostos cúpricos, e ausência das alterações que acom- panham a stomatite mercurial, além de que os accidentes pro- duzidos pelo cobre são relativamente menos violentos e a termi- nação funesta menos rapida do que no hydrargyrismo agudo. Finalmente, quanto aos venenos irritantes e corrosivos, só existem algumas analogias nos effeitos iniciaes, devidos á acção de contacto ; mas a mesma natureza das lesões, bem como a marcha dos symptomas, são bastante differentes para que não se possa confundir os dous casos. Mecanismo da acção toxica Reina ainda grande confusão e dissidência sobre este ponto da historia toxicologica do mercúrio. Todos os compostos mercuriaes, sejam solúveis ou insolúveis, exercem sobre o organismo a mesma acção geral; porém, para que estes últimos possam produzir phenomenos de envenenamento, é preciso que sejam absorvidos, e por conseguinte, que se transformem primeiro no canal gastro-intestinal em productos solúveis. Ora, segundo as investigações recentes de Voit, e jà antes havia sido proclamado pela theoria chimica de Mialhe, todos os compostos mercuriaes se convertem por fim em bichlorureto de mercúrio;1 esta transformação se opera no estomago, nos 1 Ainda que racionalmente esta transformação seja perfeitamente cor- recta e aceitavel, e sem pretender negar em absoluto que ella se realize nes- tes casos, entendo não dever occultar as duvidas que nutro a tal respeito, 776 MERCÚRIO intestinos, e até mesmo no sangue, à custa do chlorureto de sodio e da albumina que ahi encontram. Debaixo deste ponto de vista Yoit estabelece tres grupos de mercuriaes, a saber: 1. O proprio mercúrio metallico, cuja acção é muito lenta, e fornece quantidades pequenissimas daquelle chlorureto. 2. O segundo grupo é representado pelo protochlorureto de mercúrio, a que se ajuntam o protoxydo, osproto-saes e entre elles o proto-bromureto, o proto-iodureto e o proto-sulfureto. 3. O terceiro grupo, finalmente, é constituído pelo bichlo- rureto, tendo a seu lado o bioxydo, os per-saes solúveis na agua, o bi-bromureto e o bi-iodureto. Os mercuriaes pertencentes aos dous primeiros grupos são menos activos de que os do ultimo, porque só em parte se transformam em bichlorureto. Este, por sua vez, achando-se em presença de matérias albuminosas, fôrma com a albumina um composto insolúvel, denominado impropriamente albumi- nato, que torna-se solúvel pela acção de um excesso de albumina, ou de chlorureto de sodio Segundo Nothnagel e Rossbach o bichlorureto de mercúrio éo producto final da transformação dos diversos compostos mer- curiaes; mas, seja ingerido neste estado ou formado no esto- baseanclo-me sobre experiencias repetidas a cpie procedi debaixo deste ponto de vista, e cujos resultados foram sempre negativos. Estabelecendo todas as condições mais approximadas de uma digestão artificial e pondo o calomelanos em presença de sal commum, no liquido separado por filtração nunca pudemos verificar as reacções próprias dos per-saes de mercúrio. Demais, os effeitos do calomelanos e do sublimado variam bastante, conforme as dóses, para que não possam ser absorvidos inteiramente no mesmo estado. 1 Desta noção derivam-se deducções praticas importantes na therapeulica deste envenenamento. Uma, já indicada no estudo da therapeutica geral dos envenenamentos, refere-se ao emprego da albumina como antídoto ; neste caso particular, a regra é não empregar de uma vez grande quantidade dessa sub- stancia, e sim por pequenas porções, fazendo-se evacuar o estomago após cada dóse, para evitar que o precipitado seja redissolvido em um excesso da mesma albumina, o que invalidaria a applicação deste meio. Outra, deducção diz respeito ao emprego do sal de cozinha, tão recommen- dado por Mohr como um dos purgativos mais uteis nos casos de envenena- mento, e cuja applicação deve ser proscripta no tratamento do hydrargy- rismo agudo, não só pela possibilidade de formação de sublimado corrosivo, quando fôr um proto-sal o agente da intoxicação, como pela propriedade dissolvente sobre o albuminato de mercúrio, quando, qualquer que seja o veneno mercurial, tenha sido ou seja administrada a albumina. Esta e o chlorureto alcalino são pois incompatíveis neste caso particular, VENENOS MYOTICOS mago, achando-se em contacto do chlorureto desodio do sueco gástrico, combina-se com elle e íorma um chlorureto duplo de sodio e mercúrio, solúvel, e neste estado é absorvido. Bellini, estudando em 1874 as modificações que soífrem os chloruretos, bromuretos e ioduretos de mercúrio no estomago, concluiu que elles se convertem em saes duplos de sodio e mer- cúrio em contacto com o sueco gástrico ; uma parte é absorvida e a outra transformada no intestino em sulfureto respectivo, que é eliminado com as fezes. Penetrando na corrente circulatória, o mercúrio combina- se com a albumina, e o composto albumino-mercurial fica dissolvido em presença do chlorureto alcalino, sem que o chloro faça parte integrante do producto, porquanto póde-se, por meio de lavagens, extrahil-o todo. Por isso Mulder, Rose, Elsner e Yoit acreditam que o mercúrio ahi se acha em combinação com o oxygeno, de modo que seria no estado de albuminato (?) de peroxydo de mercúrio, que definitivamente o sal mercurial existiria no sangue. Nos recentes trabalhos, porém, de Bucheim e de Ottingen, bem como nos de Otto e Graham, seus autores admittem a idôa de que o chlorureto mercurico se combinando com a albumina fôrma um albuminato de protoxydo de mercúrio, directamente assimilável. Oh. Blarez, em uma these que escreveu sobre este as- sumpto, em Bordeaux, em 1882, explica a absorpção do mer- cúrio atravez da mucosa das primeiras vias, admittindo que ahi se fôrma sempre: Io, mercúrio livre em estado de divisão ex- trema, podendo ser absorvido directamente e penetrar no san- gue ; 2o, partes não assimiláveis rejeitadas com as fezes ; 3o, compostos solúveis e assimiláveis, seja um sal simples ou duplo, seja um peptonato. No sangue o peptonato e o sal simples se combinam com a hemoglobina. A acção intima desenvolvida pelos mercuriaes no interior do organismo é muito complexa. 778 MERCÚRIO Segundo Kussmaul, o mercúrio é um veneno cerebral; diria melhor um veneno neurotico, porque é incontestável que a maior parte do systema nervoso recebe a sua influencia. Como bem dizGubler, não póde-se negar que o mercúrio affecta pro- fundamente o systema nervoso, o cerebro e a medulla princi- palmente. Para Nothnagel e Rossbach a maior parte dos phe- nomenos toxicos determinados por este veneno devem ser dados á conta da acção directa do mesmo sobre o cerebro, sobre a me- dulla espinhal e até sobre os nervos periphericos, comquanto nenhuma alteração material tenha sido assignalada nestes orgãos, a não ser uma cor mais escura da substancia cinzenta (Pleischl) ou da substancia branca (Koch). O proprio Rabuteau, que não classifica o mercúrio entre os venenos neuróticos, e o considera um veneno muscular, reco- nhece que o systema nervoso é por fim compromettido nesta intoxicação, muito especialmente na fôrma lenta e chronica, seja pelo contacto directo das particulas toxicas, seja ao mesmo tempo por este contacto e pelo estado anémico e cachectico, tão frequente nos envenenamentos metallicos. O sangue não escapa também á acção deleteria do mercúrio. A este respeito Rabuteau dá como conhecida e verificada essa influencia, ainda mysteriosa na opinião de outros. Assim, diz elle, sabe-se que este veneno diminue o numero dos globulos vermelhos e produz, por conseguinte, a anemia; ha talvez substituição do ferro pelo mercúrio no edifício da hemoglobina, que por isso se desmorona i. isto concorda mais ou menos com 1 Acho esta doutrina de Rabuteau subversiva de princípios elementares de chimica, relativamente ás condições em que se effcctuam estas trocas, ou á lei que preside taes substituições. O contrario é que poderia ter logar, isto é, o ferro é que se substitue ao mercúrio deslocando-o de suas combinações. Entre dous metaes, é o mais electro-positivo ou o menos electro-negativo, que se substitue ao outro; e como esta circumstancia prevalece em geral na ordem de classificação dos metaes, póde-se dizer que é sempre o metal de classe in- ferior que desloca o seu superior na serie, e não vice-versa. Ao inverso do que se passa nas relações da sociedade humana, os metaes chamados nobres, que são os da ultima classe (neste caso a mais elevada) cedem seu logar, para não dizer que são expellidos pelos de collocação inferior, cujas afifinidades sao mais energieas. VENENOS MYOTICOS 779 o resultado cias experiencias de Polotschenow, que, mistu- rando fóra do corpo, sangue com albuminato de mercúrio, verificou que as hematias se destroem pouco a pouco. Entretanto Grassi, no hospital do Meio-dia, contando as hematias de syphiliticos em tratamento mercurial, achou que ellas se reconstituíam. Segundo Galliard, que ultimamente,em 1885, fez novos estudos neste sentido, servindo-se do hemati- metro, o numero de globulos vermelhos augmenta realmente sob a influencia da medicação mercurial, comtanto que não seja muito prolongado o seu uso; em geral depois de 24 dias começa o processo da hypoglobulia. Explica-se talvez aquelle facto por uma acção indirecta: curando-se pelo especifico a moléstia que é a causa da anemia, esta deve ir desapparecendo. Outros, porém, acreditam que o sangue vivo, sob a influen- cia do mercúrio, torna-se mais pobre em agua e albumina e mais sobrecarregado de corpúsculos brancos, apresentando os caracteres de uma dyscrasia profunda, â qual pretendem que se deve filiar todos os accidentes mercuriaes. pensa também que o plasma sanguíneo modifica-se em sua crase, porém consecutivamente á perturbação da hema- tose, e portanto á desordem de nutrição. 1 São deste parecer Nothnagel e Rossbach, para os quaes nada prova que essa alteração resulte da influencia directa do mercúrio sobre o sangue, antes do que das perturbações nutritivas prolongadas, e devidas á stomatite e a outros phenomenos toxicos do hy- drargyrismo. Independente, porém, da acção exercida pelo mercúrio so- bre o systema nervoso e sobre o sangue, o que faria desse corpo um agente pelo menos neuro-hematico, nota-se outra acção considerada capital e predominante, segundo as theorias de Rabuteau, e que justifica a sua classificação de veneno muscular para o mercúrio : é que elle supprime a contractilidade 1 Segundo Gelis e Lemaire, e Owerbeck parece antes que os mercuriaes augmentam a plasticidade do sangue. (?!) 780 MERCÚRIO muscular, respeitando as propriedades dos nervos motores. Sob a influencia de dóses fortes o coração pára primeiro, em conse- quência da paralysia de suas fibras musculares, ao passo que os outros musculos, não recebendo ou recebendo diíficilmente o veneno, são pouco affectados. Com as dóses fracas, porém, o coração vem a parar tardiamente, e observa-se pouco a pouco a paralysia total dos musculos dos membros, emquanto os que teem sido preservados se contrahem vivamente sob a influencia de diversos excitantes. Nothnagel e Rossbach são de parecer que nada prova que a substancia muscular possa ser alterada pelo mercúrio , sua excitabilidade electrica tem sido reconhecida perfeitamente conservada. Kussmaul a encontrou cm estado normal num caso de paralysia mercurial antiga (datando jà de sete annos). Eis aqui como, aos olhos de Gubler, sô desenrolam os pheno- menos do hydrargyrismo constitucional: 1O mercúrio contrahe com as matérias proteicas do sangue e outras uma espocie de combinação denominada albuminato de mercúrio. 2. A presença do metal no plasma communica a este a pro- priedade de não coagular-se em virtude da transformação da fibrina elastica em fibrina deliquescente, e á alteração da parede das hematias, que perdem sua faculdade de adhesão reciproca. 3. Ao mesmo tempo o mercúrio favorece o desprendimento do gaz carbonico e a absorpção do oxygeno, isto é, a oxygena- ção dos globulos, mas não a oxydação ulterior que constitue a mesma essencia da hematose, porquanto a cor rutilante, arte- rial não dá logar á côr escura do sangue venoso. Assim, expli- ca-se a demora da hematose e a sedação circulatória. 4. A alteração ulterior das hematias, que tornam-se inertes e inúteis, e sua rapida destruição dão conta da anemia e do aba- timento gradual das forças, symptomas que augmentam ainda mais as perdas de albumina, effectuadas pelas secreções. VENENOS MYOTIGOS 781 5. Esta mesma desnutrição globular, reunida à falta de consistência da fibrina, e à predominância de albumina (superal- buminose sanguínea), explica a albuminúria dyscrasica. 6. O estado hypoglobulico e aplastico do sangue dá igual- mente a razão, não de uma parada absoluta do movimento tro- phico, mas bem da predominância da desassimilação nos orgãos normaes, e da cessação das formações adventícias, com regres- são e reabsorpção consecutivas dos elementos neoplasicos, em- bryonarios, que ainda não adquiriram direito de domicilio no organismo. 7. Estas alterações nutritivas dos líquidos e solidos con- stituem o fundo da ccichexia mercurial. Em resumo, combinando-se com a albumina do sangue, o mercúrio torna-se uma causa de hypercrinia e mesmo de phlogose, para um certo numero de emunctorios, cuja secreção apresenta-se accidentalmente albuminosa. Pelo mesmo meca- nismo elle despoja o sangue de uma parte de sua substancia plastica. Alem disso, por uma acção especial indeterminada, tor- na a fibrina deliquescente, oppõe-se á regeneração das liema- tias, e finalmente conduz o organismo ás perturbações as mais variadas a travez da dyscrasia sanguínea e da cachexia. De- mais, como já disse, elle affecta profundamente o systema ner- voso, conforme testemunham as desordens nervosas conside- ráveis do hydrargyrismo ; modifica a circulação, porque o pulso é pequeno e o coração sem forças. Taes accidentes exercem influencia manifesta sobre a nutrição, que torna-se insuíficiente e termina pela cachexia confirmada. Preenchido o seu papel na economia, o mercúrio, como todo o veneno, tende a eliminar-se, e o faz por todas as vias de se- creção normal e pathologica: pelas urinas, pela saliva, pelo suor, pelo leite, pela bile e até pela serosidade dos vesicatórios e das feridas. Em que tempo e em que estado, porém, não se sabe positivamente. 782 mercúrio Quanto ao tempo, segundo Byasson, Mayençon e Bergeret, os saes mercuriaes tomados de uma só vez e em pequena dóse, são eliminados prompta e completamente do organismo ; de um até quatro dias bastam, começando logo duas horas depois da ingestão. Tomados, porém, durante certo tempo, mesmo em pequenas doses, estes saes levam muitos dias a ser eliminados total mente ; e si Schneider em um caso não achou mais mercúrio no organismo depois de algumas semanas de seu uso, Gorup Besanez diz ter encontrado em outro, um anno de- pois da cessação do tratamento mercurial. Colson admitte mesmo que o mercúrio permanece indefini- damente no organismo e se fixa no cerebro, no coração, nos pulmões, no baço, no pancreas, nos rins, nostesticulos, no figado e nos musculos 1; segundo James Ross e outros, de preferencia nos tecidos brancos resistentes, nas extremidades articulares dos ossos, e até na medulla dos mesmos. Salmeron (de Manchester) affirma ter visto marejar pe- quenos globulos de mercúrio, perfeitamente reconheciveis a olhos nús, da região esternal de um homem que tinha cessado, ha dous mezes, o tratamento mercurial a que estava submet- tido; e Maldore observou no pus de um abcesso da glandula submaxillar, em um menino que havia tomado alguns centi- grammas de calomelanos, globulos de mercúrio, perfeitamente distinctos (Chandellon). Observadores antigos (Fallopio, Fernel, Bartholin, Boer- haave, Mead, Bonet, etc.) já haviam assignalado este facto e pretendiam ter verificado a presença de mercúrio metallico nos ossos do craneo eno cerebro de pessoas em uso de mercuriaes. Yan Swieten declara que encontrou também este metal, em quantidade considerável, nos ventriculos cerebraes de uma 1 Kussmaul diz ter achado mercúrio em abundancia no figado, nos rins e no cerebro de uma mulher, que desde quatro mezes não tomava mais mer- cúrio, e durante um mez havia tomado talvez umas 60 grammas de iodureto de potássio. VENENOS MYOTICOS 783 doente nestas condições, e Oppolzer diz tel-o achado igualmente no figado (Dujardin Beaumetz). Agora, quanto ao estado em que o mercúrio é eliminado da economia. Tem-se dito que elle se elimina no estado metallico, allegando, como prova, o facto verificado em relação aos anneis de ouro, que se amalgamam e embranquecem, quando trazidos por pessoas em uso de preparados mercuriaes ; porém, é sabido que todos estes e os mesmos albuminatos podem produzir idên- tico resultado. Também não é certo, como se tem pretendido, que o mercúrio se elimine em natureza pelas urinas. Pare- cendo demonstrado e fóra de duvida que este metal circula no sangue no estado de albuminato, tornado solúvel pelo chlorureto de sodio existente nesse liquido, é natural que nesse mesmo estado seja eliminado da economia. A’ eliminação do mercúrio pela saliva ligam-se os pheno- menos da stomatite e do ptyalismo, cuja genese tem sido objecto de discussão e controvérsia entre os autores. Giacomini pretendia que o ptyalismo mercurial varia con- forme ó produzido pelos oxydos de mercúrio, pelo mercúrio metallico, pelo calomelanos, pelo cyanureto de mercúrio, etc. No primeiro caso, a saliva seria mais abundante e a mucosa buccal se conservaria intacta ; no segundo, esta se cobriria de erozões e aphtas numerosas. Citando esta opinião, Fonssagrives declara que absoluta- mente não tem em vista subscrevel-a, mas invocar um facto que está inteiramente em desaccordo com a theoria pathogenica do ptysalismo mercurial, que o fãz depender da lesão primitivada mucosa. Trousseau e Pidoux, particularmente, sustentaram esta doutrina que conta hoje pequeno numero de adeptos, entre os quaes se acha Rabuteau. «Como é, dizem aquelles profes- sores, que se falia de umaacção especial do mercúrio sobre as glandulas salivares, acção que nada demonstra ? Ha, é ver- dade, nestes casos, hypersecreção das referidas glandulas ; entre este phenomeno, porém, e o emprego dos mercuriaes 784 MERCÚRIO existo a inflammação, queé evidentemente a causa unica da sa- livação. Notai ainda que esta é um phenomeno commum a todas as phlegmasias da mucosa buccal, a todas as irritações vivas de queé sède esta membrana. A inflammação variolosa da boca, o sapinho, a diphteria gengival, as glossites, o trabalho da dentição nas crianças, e emfim, os diversos mastigatorios augmentam a secreção salivar, pelo mesmo ti- tulo que o mercúrio, ou melhor, que a inflammação mercurial da boca. Si o metal tivesse uma acção especial sobre as glân- dulas salivares, veríamos a salivação sobrevir antes da inflam- mação da boca, o que nunca se observa ; veríamos sobrevir necessariamente quando se continua por muito tempo a acção do mercúrio. Ora, por muito que se insista no uso das pre- parações mercuriaes, nunca se determina a salivação, sinão quando as gengivas estão inchadas.1 » Eis aqui uma opinião categórica emittida por autores de toda a competência, e que não pôde ser aceita sem restricção, porque vai de encontro a factos bem averiguados de obser- vação, que naturalmente lhes escaparam. Ninguém mais hoje, póde-se dizer, compartilha semelhante modo de pensar. As lesões da boca, dizem Nothnagel e Rossbach, são devidas à acção directa do mercúrio, que se elimina continuadamente e em grande abundancia pela saliva. A salivação não é intei- ramente produzida por mecanism oreflexo, ligado à inflammação da boca, porquanto tem-se observado esta salivação na au- sência de todo o estado infíammatorio da mucosa bucal. A propriedade, que teem os mercuriaes, de obrarem sobre quasi todos os nervos, leva a admittir que elles irritam os nervos secretores das glandulas salivares, e que dahi resulta em grande parte esta enorme salivação. O mesmo se lê em Fonssagrives : « A stomatite, diz elle, não é sinão uma das causas numerosas da salivação. Onde está 1 Para Ricord, Fournier e Hallopeau a salivação ê consecutiva a uma periostite alveolar dentaria. VENENOS MYOTICOS 785 a stomatite que produz a salivação iodica, e com mais forte razão a salivação pilocarpica ? A stomatite mercurial é a con- sequência da salivação, è a passagem da hypercrinia por con- gestão à hypercrinia por inflammação. Porém, uma vez produzida, rdla póde entreter e augmentar esta ; ahi se limita o seu papel. « E’ impossível recusar ás preparações mercuriaes uma acção electiva sobre as glandulas salivares ; ella se denuncia pelo inchamento destes orgãos, como o signaldeuma turgencia vascular que precede a inflammação da mucosa, e si esta incha, assim como o tecido gengival, é que ella retem os productos da hypercrinia, antes que se percam, e além disso, que a mu- cosa se vascularise mais para fazer os gastos do ptyalismo, etc.; porquanto è preciso não esquecer que as pequeninas glandulas salivares são affectadas pelo mercúrio, como o são as parotidas, as sub-maxillares e as sub-linguaes. O que prova bem que as cousas se passam assim, é que a inflammação destas glandulas por superactividade funccional póde-se proccessar emquanto a mucosa não se apresenta inchada, nem edematosa. Diete- rich descreve no numero dos accidentes determinados pelo mercúrio, uma parotidite que elle chamou mercurial. « Demais, póde-se raciocinar por analogia. Quando o calo- melanos é administrado em dóse purgativa, a bile, o sueco pancreatico e os suecos intestinaes chovem, por assim dizer, dentro dos intestinos. Onde está a enterite, que os provoca? Si ella existisse, ainda mesmo passageira, a febre se manifes- taria ; é o que não se dá. « A impressionabilidade individual para o mercúrio, como agente sialagogo, é muito variave.1; assim vê-se pessoas toma* rem dóses consideráveis deste medicamento, sem que suas gengivas resintam-se de sua influencia, ao passo que outras vezes, uma só fricção de unguento napolitano, alguns centi- grammos de calomelanos, uma dóse minima de sublimado, uma cauterisação do collo uterino com azotato de mercúrio, de que TOXICOL09U 50 786 MERCÚRIO Breschet, Courty e outros citam exemplos, bastam para deter- minar a salivação. A theoria que pretende explicar esta varia- bilidade de effeitos pelas condições diversas de solubilidade das preparações de mercúrio nos líquidos orgânicos, não póde ser invocada quando se trata de compostos já solúveis. Especiosa para as preparações insolúveis, taes como o calomelanos, a theoria expendida por Mialhe, não è sustentável para o subli- mado, e torna-se preciso remontar, para esta explicação, a esse determinismo mais complicado, occulto nas profundezas do organismo, e que nós chamamos, á falta de melhor nome, rece- ptividade idiosyncrasica.» Tratamento Segundo a regra constante na therapeutica de todos os envenenamentos, cumpre desembaraçar o mais promptarnente possível o estomago do veneno, antes, ou ainda melhor, depois de o ter precipitado por alguns dos antídotos que inspirem mais confiança. Em geral, como diz Tardieu, toda a substancia mineral ou organica capaz de contrahir com o sublimado corrosivo uma combinação insolúvel, ou pouco atacavel pelos principaes elementos activos do sueco gástrico, póde ser utili- sada como contra-veneno. Neste caso, porém, os mais efficazes são a albumina, a magnesia calcinada, o acido sulphydrico e os sulphuretos alcalinos ou o mesmo sulphureto de ferro. A albumina, representada pelo conteúdo do ovocrú, rapida- mente batido ou agitado com agua, é o mais recommendavel e considerado por alguns como o verdadeiro antídoto dos saes de mercúrio; i elles são precipitados instantaneamente por este meio, que reune a esta propriedade a vantagem de nausear o doente. Conforme já fiz ver em uma nota anterior, e todos os autores chamam a attençâo para este facto, é preciso não 1 M. Sbriziolo prefere, não sei por que, a gemma á clara. VENENOS MYOTICOS 787 administrar de cada vez grande quantidade de albumina, que poderia não precipitar o sal mercurial ou redissolver o precipi- tado formado, continuando assim o envenenamento. Outra observação, não menos importante relativa ao em- prego deste meio, é a que resulta das interessantes investi- gações e experiencias de Rabuteau, e que elle consigna em uma nota do seu livro , e vem a ser que os metaes cujas soluções precipitam pela albumina deixam de precipitar ou só o fazem no fim de algum tempo, portanto lenta e difficil- mente, quando estes mesmos metaes existem no estado de sal duplo, unidos a um metal alcalino. Ora, neste numero se achao iodureto duplo de mercúrio e potássio, chamado também iodhydrargyrato de potássio, sal solúvel e nimiamente toxico, contra o qual seria improfícua a albumina. Como succedaneos deste antídoto, embora de utilidade muito inferior, aconse- lha-se também o leite e o glúten. 1 A magnesia calcinada, como nos outros casos analogos, preenche aqui duas indicações : a de precipitante chimico, dando logar á formação de qualquer dos oxydos de mercú- rio, conforme o grão de salinificação do metal e em todo o caso insolúvel, e a de purgativo, incumbido de varrer o tubo intestinal do composto mercurial ingerido ou ahi formado. Na primeira destas indicações, em que ella opera como alcali, pôde ser substituída pela agua de cinzas ou de sabão. O acido sulphydrico e os sulphuretos alcalinos prestam nes- tes casos reaes serviços pela producção do sulphureto de mer- cúrio, insolúvel, em que peze á opinião de Orfila, que põe em duvida a efficacia deste recurso. Para isso póde-se empre- 1 Tadei dá preferencia a este agente, sobre todos os outros, como antídoto do mercúrio ; elle aconselha preparal-o com antecedencia sob a fórma de um pó emulsivo, que na occasião da necessidade se dilue rapidamente n'agua e se administra em grande quantidade, sem receio de que possa redissolver o precipitado formado. Obtem-se este pó, misturando o glúten da farinha de trigo com o dobro de seu peso de uma solução de sabão commum ; quando a mistura tem-se tornado homogenea, estende-se em largos pratos, e secca-se á estufa , reduz-se a pó, e guarda-se em vidro esmerilhado, (M. Sbriziolo). 788 MERCÚRIO gar uma dissolução artificial de algum daquelles corpos, ou qualquer agua mineral sulphurosa, como as de Bonnes, de Enghien, etc. O sulphureto de ferro hydratado, recentemente prepa- rado, é também um meio de grande proveito. Reagindo sobre o sal mercurial, póde desenvolver a dupla acção correspon- dente aos dous agentes que entram em sua composição, e formar-se o sulphureto de mercúrio ao mesmo tempo que o ferro se encarrega de reduzir a outra parte do composto e precipitar o mercúrio metallico. Com effeito, o ferro em substancia, reduzido a pó ou mesmo em estado de fina limalha (Edwards e Dumas) tem sido aconselhado, por aquelle principio, como antídoto do mercúrio. Outros, em vez de tirarem partido do phenomeno da substi- tuição empregando um metal, propoem lançar mão da mis- tura de dous metaes, aproveitando neste caso a acção galvanica, que elles desenvolvem, por exemplo: a limalha de ferro e prata (Horsley), a limalha de ferro e ouro (antídoto galvanico de Buckler). Finalmente até o proprio mercúrio vivo tem sido lembrado como antidoto dos per-saes de mer- cúrio, o que parece um contrasenso e absurdo ; mas explica-se bem, attendendo a que ha toda a vantagem em transformar o sal mercurico em sal mercuroso, sobretudo quando se trata do sublimado corrosivo, cujo proto-sal correspondente é um producto insolúvel (calomelanos), e em alta dose um pur- gativo, em nada prejudicial nestes casos. Ora, de dous modos se póde converter o bichlorureto de mercúrio em proto- chlorureto respectivo: ou tirando chloro, ou addicionando mercúrio. Tal é o principio em que se basêa esta indicação, cujo resultado pratico, entretanto, não pode corresponder aos intuitos que á mesma presidem, pelo simples facto de que a reacção não ó bastante rapida ; é pelo contrario lenta e difficil nas condições da especie em questão, para não merecer confiança semelhante recurso * VENENOS M YOTICOS 789 Como absorventes teem sido propostas algumas substancias pulverulentas, inertes, taes como o carvão vegetal ( Bertrand), a farinha, etc. Para combater os phenomenos locaes inílammatorios, bem assim os geraes devidos à absorpção, recorre-se aos meios cli- nicos communs, adequados à natureza destes phenomenos, e cuja enumeração dispenso-me de fazer, por ociosa. Assim os emoliientes, os excitantes ou os sedativos, os tonicos e reconsti- tuintes, os nevrosthenicos, a hydrotherapia, a electricidade, etc. serão empregados conforme a indicação de momento. Intoxicação chronica (hydrargyrose). Longa e cheia de interesso é a historia do hydrargyrismo chronico, cuja descripção mais compete aos tratados de clinica. Ella se observa frequentemente nos infelizes que se occupam com a extracção do mercúrio, e em menor escala nos outros profissionaes que manipulam este metal ou seus compostos (espelhadores fabricantes de barómetros e thermometros etc.)1 À hydrargyrose profissional não differe essencialmente do hydrargyrismo chronico produzido pelo abuso das preparações 1 Reza a historia que em 1856, entre 516 trabalhadores das minas de Idria, 122 foram accommettidos de hydrargyrose; os animaes mesmo que pastavam nas vizinhanças dos fornos estabelecidos nesta localidade, e bem assim os peixes do rio de Iderza soffreram a influencia delateria dos vapores mercuriaes ahi desprendidos. Em um navio hespanhol que naufragou junto ás baterias da cidade de Cadix, com um carregamento de mercúrio metallico, (130 toneladas), refere Sbriziolo, que se haviam manifestado no espaço de tres semanas, em 200 pessoas de tripolação, phenomenos de hydrargyrose ( ptyalismo, com ulcerações na boca, paralysias parciaes, etc.). O metal era contido em bexigas que se estra- garam, e deixaram-o derramar, impregnando assim toda a atmosphera do navio. Os mesmos indivíduos que foram occupados na limpeza e lavagem do porão soffreram accidentes mercuriaes. Com efleito, o mercúrio dilfunde-se muito mais facilmente do que se pensa ou se póde imaginar, segundo resulta das observações e estudos de Merget; nlle demonstrou que o mercúrio se volatilisa, não só na temperatura ordinaria ou mesmo abaixo de zero, como até na temperatura de sua solidificação ( 39 a 40° ). Serviu-se para isso de um papel reactivo de extrema sensibilidade, tal como se obtem pela immersão na solução de um sal de iridio, que o mercú- rio reduz, produzindo um corpo de côr preta. Por este meio, qualquer pode verificar a presença de mercúrio nas partes expostas de seu corpo, demorando apenas algumas horas em oflicina onde se trabalha com o mercúrio. Foi mais longe aquelle physico, e baseando-se sobre formulas de Clausius, chegou a calcular que as moléculas de mercúrio desprendiam-se da superficie livre do metal com uma velocidade inicial de 180 metros por segundo, epodiam assim ser projectadas em um espaço livre, até á distancia de 1.700 metros ! 790 mercúrio mercuriaes, que também póde levar ao mesmo resultado. Nestes casos os primeiros symptomas que se apresentam são os que caracterisam a stomatite mercurial, pouco mais ou menos como na fôrma sub-aguda, com o seu cortejo de secreção salivar. Sobrevem inappetencia e diarrhéa acompanhada de cólicas e tenesmos; as matérias dejectadas teem a cor verde pronunciada. A pelle é quente, o pulso accelerado, mas molle e deprimido. Além destes phenomenos, nota-se uma especie de pallidez livida, com inchação branca (bouffissure) da face, e todos os signaes de um estado anémico, bruscamente processado. Em certos casos observa-se alguma das dermatoses pró- prias desta intoxicação. E’ raro, segundo Tardieu, nesta fôrma de hydrargyrose, que não é ainda a que acommette os indus- triaes e mineiros que se expõem aos vapores de mercúrio, apparecer seja o tremor, sejam outras perturbações nervosas tão communs nesta ultima affecção. Com effeito, na hydrargyrose profissional o symptoma pre- dominante, mais notável e significativo, é justamente esse tremor chamado mercurial, pelos caracteres de sua origem e evolução. Este phenomeno, que foi perfeitamente descripto por Merat, não sobrevem em geral senão em consequência de uma intoxicação antiga, mas póde manifestar-se rapidamente em certos casos, como succedeu, segundo Kriinitz, em 1803, por occasião de um incêndio que arrebentou em uma das minas da Idria : perto de 900 pessoas foram a um tempo atacadas deste tremor. E’, segundo Merat, « um tremor quasi convulsivo, que invade particularmente os braços e os torna vacillantes, si sobretudo é preciso fazer alguns esforços musculares ; pôde-se generalisar e ser tão violento, que se é obrigado a dar os alimentos a essas pessoas, porque seus movimentos desor- denados sãò tão bruscos que ellas magoam o rosto, querendo levar á boca a comida. Entretanto, si por um lado este VENENOS MYOTICOS 791 tremor não é perigoso, por outro tem o grande inconveniente de impedir o artista de trabalhar, e reduz aquelles que não teem outros recursos sinão os seus braços a uma miséria extrema ». São, pois, os membros superiores os primeiros compro- mettidos ; seguem-se os membros inferiores. Depois, a cabeça, os lábios, a lingua são muitas vezes tomados do mesmo tremor ; a palavra é embaraçada; ha dyslalia (gagueira). O tremor ò mais accentuado quando os doentes procuram executar movi- mentos ; ao passo que ha simples tremulação, quando elles são apoiados ou em descanso. Durante o somno cessam em geral de todo. Este estado se acompanha de grande abatimento e por vezes de uma paralysia muscular quasi completa; ella pode cessar em começo pelo simples afastamento da causa que a determinou ; mas, si os individuos persistem no meio deleterio, vê-se os empallidecer; seu rosto incha e toma uma cor livida, todas as funcções enlanguecem. Sobreveem frequentemente hemor- rhagias pelas narinas ou pelas gengivas ; de tempos a tempos reapparece diarrhéa. A intelligencia se enfraquece, e a physio- nomia denota certo ar de apatetamento. E’ neste periodo que mais se pronuncia o tremor descripto por Merat, e que, depois de atacar os braços, invade as pernas, tornando a marcha cada vez mais difficil. Em alguns casos, extremamente raros, os individuos soffrem dores osteocopas, que se exacerbam durante a noite. O estado cachectico progride, e manifesta-se edema nas extremidades in- feriores. As perturbações intellectuaes augmentam, e ao torpor succede em geral uma excitação maniaca com allucinações. Sobreveem ás vezes convulsões epileptiformes, seguidas de paralysias parciaes ; e, no meio de affrontações, palpitações desordenadas do coração e syncopes, succumbem os infelizes, victimas desta intoxicação. As lesões anatomo-pathologicas são pouco mais ou menos as mesmas já descriptas ; é nesta fôrma principalmente que se 792 MERCÚRIO observa a lesão renal, que se traduz por uma inflam mação granulosa, e degeneração analoga á que caracterisa a moléstia de Bright. Esta alteração explica a albuminúria que se apre- senta no curso do envenenamento. Para nada omittir, Tardieu consigna a observação de M. Swan, que diz ter verificado no envenenamento mercurial a congestão e o espessamento dos ganglios e dos ramos do grande sympathico ; facto cuja constância não está ainda estabelecida, e que nada tem por ora de caracteristico. Quanto ao dignostico differencial da hydrargyrose, basta procurar discriminal-a da syphilis constitucional, que é a unica moléstia que se pôde confundir com ella, tanto mais quanto a medicação classica geralmente empregada contra essa enfermidade è a mercurial ; e, uma vez que ambas produzem alterações e desordens semelhantes, é difficil estabelecer onde acabam os estragos occasionados por aquella, e onde começam as desta. Para isso cumpre examinar com attençãoo encadeamento e a marcha dos symptomas. As affecções communs aos dous estados são as ulcerações da boca e da garganta, a necrose dos ossos, as erupções cutaneas, as dores osteocopas eacachexia. Mas não é difficil reconhecer a verdadeira natureza e origem destas affecções. Assim, a séde das ulcerações e da necrose mercuriaes, que occupam especialmente as gengivas, a parte interna das bo- chechas, e também os ossos maxillares, começando pelos al- véolos; além disso, a fetidez do hálito, a forma aguda e fugaz das erupções hydrargyricas, comparadas coma tenacidade e rein- cidência das dermatoses syphiliticas ; asdôres osteocopas muito mais raras, menos fixas, e sem a concomitância de exostoses, na hydrargyrose; em fim a cachexia de marcha e fórma di- versas, não sobrevindo nesta como na syphilis, em consequência de lesões múltiplas e profundas, dando logar á inchação branca do rosto, antes do que ao seu emmagrecimento ; taes são os signaes diagnósticos proprios para distinguir-se as affecções VENENOS MYOTICOS 793 symptomaticas do envenenamento mercurial chronico daquellas que dependem da infecção syphilitica. O tratamento da hydrargyrose, como das intoxicações pro- fissionaes em geral, á parte o que respeita a liygiene, a cessação immediata do uso dos mercuriaes, e o abandono da profissão que sujeita os individuos à sua influencia deleteria, consiste em promover a eliminação do veneno accumulado na economia. Os agentes eliminadores mais proveitosos são os ioduretosebromuretos alcalinos associadamente, acompanhados de tempos a tempos de purgativos, que se encarregam de en- caminhar o veneno para os intestinos, atra vez da bile principal- mente, e dahi é arrastado e expellido pela hypersecreção intes- tinal . Os dous saes haloides em quantidade conveniente, em excesso relativo, formam com o mercúrio compostos duplos sem acção sobre a albumina, solúveis e facilmente elimináveis ; são o iodureto e o bromureto duplo de mercúrio e metal alcalino l. O chlorato de potássio representa papel importante na thera- peutica da fôrma sub-aguda e chronica do hydrargyrismo. Os banhos sulphurosos são igualmente uteis. Ha, finalmente, um methodo de tratamento, que não tem sido ainda explorado, e pôde vir a sêl-o com vantagem, porque assenta sobre um principio perfeitamente racional e pratico: é o methodo electrolytico de Poey, que consiste em collocar o doente em uma banheira metallica, de zinco por exemplo, tendo elle em uma das mãos o electrodio positivo de uma pilha, em- quanto a banheira ê posta em communicação com o pólo nega- tivo da mesma. Segundo o citado autor, o mercúrio deixaria o corpo e iria se precipitar sobre o metal da banheira. Este methodo é digno de ser ensaiado ; é muito mais racional e 1 G.ibler não admitte esta explicação ; para clle os dous saes haloides favorecem a desnutrição, e é esta que por tornar-se mais rapida e activa. põe cm liberdade o mercúrio immobilisado no corpo, donde resulta muitas vezes a repetição dos accidentes hydr irgyricos já desapparecidos, e que Dújardin Beaumetz cliama mercnrialismo cie retorno. 794 MERCÚRIO aceitavel do que a administração do ouro, proposta por Fallopio, ou do oxydo deste metal, proposta por Lallemant, baseados na pretendida propriedade, que se lhe attribue, de attrahir o mercúrio vivo. Pesquiza toxicologica; signaes chimicos Para a pesquiza deste veneno deve-se submetterá analyse as matérias vomitadas, ás vezes a saliva e a urina, si se trata de indivíduos ainda vivos ; nos casos de morte, porém, além destas matérias, convirá recolher também a bile, porções do fígado, do pancreas, dos pulmões, dos rins, e um pouco de sangue. O mercúrio póde ser encontrado mesmo muito tempo depois da inhumação dos corpos, já em franca decomposição ; não se deve receiar que este metal se perca facilmente, nem que ahi appareça introduzido ou emprestado de origem estranha, como para o arsénico póde acontecer relativamente á terra dos cemitérios. Póde-se proceder de dous modos na pesquiza do mercúrio : um é representado por ensaios preliminares directos, que se praticam, independentes de destruição das matérias organicas ; o outro é baseado em ensaios definitivos, realisados em líquidos resultantes da destruição dessas matérias pelos methodos mais adequados e seguros. A.— Os ensaios preliminares são os seguintes: l.° Tem-se proposto agitar com ether as matérias que en- cerram o veneno, especialmente si se trata do sublimado corro- sivo; elle dissolve-se nesse liquido, que fórma uma camada so- brenadando a solução aquosa. Basta decantar o liquido ethereo, por meio de um funil com chave, e evaporai-o para obter um residuo branco, crystallino, constituído pelo sal de mercúrio, sobre o qual se póde ensaiar os reactivos proprios deste metal. Este processo, porém, é infiel e mau, visto como, em pri- meiro logar o ether não consegue roubar á solução aquosa a VENENOS MYOTICOS 795 totalidade do chlorureto mercurico que ella contém. Em se- gundo logar, si a operação é executada sobre matérias orgâ- nicas, taes como líquidos existentes no estomago, ou já rejeita- dos pelos vomitos, porções de intestinos, etc., o ether se sobre- carregará de princípios graxos, que ficarão, após a evaporação constituindo um residuo gorduroso e colorido, que prejudicará o ensaio do veneno nelle contido. Além destas objecções, Chapuis lembra mais uma eircum- stancia, que não me parece muito ponderosa, e vem a ser que, tratando-se de provar que foi o bichlorureto de mercúrio o ve- neno ingerido, não se chega por este meio, visto como todo o sal de mercúrio em presença do chlorureto alcalino do sueco gástrico formará o bichlorureto. Mas, além de que esta reacção não está cabalmente demonstrada, ella não se poderia estabe- lecer em qualquer quantidade do composto mercurial ingerido. Demais, o problema da pesquiza toxicologica não vae até espe- cificar sempre o genero do sal toxico de que se trata, bastando carecterisar a respectiva especie metallica. 2. Aqui teria todo o cabimento mencionar os differentes processos que se baseam na substituição e na electrolyse, mas reservo-me para fazel-o na segunda parte da pesquiza, em lí- quidos privados de matérias organicas, onde seus resultados são muito mais seguros e de uma precisão admiravel. 3. Merget.para descobrir a presença de vaporesde mercúrio na atmosphera de uma officina, de um compartimento qualquer, recommendao emprego de papeis sensibilisados por meio de so- luções metallicas facilmente atacaveis e reductiveis por aquelle metal. Neste caso se acham: Io, o papel de nitrato de prata ammoniacal, que Leidié 1 acredita ser o mais impressionavel; porém, seu emprego é muito limitado, e não póde servir senão para experiencias de curta duração, porquanto espontanea- mente, pela influencia da luz, este papel vem a ennegrecer ; 1 Etude toxicologique sur le mercure, 1889. MERCÚRIO 2o, o papel de chlorureto de platina ou de palladio, que ó preferivel ao primeiro, sob todos os pontos de vista; 3o, finalmente, o papel de chlorureto de iridio, que parece ainda mais sensível, e capaz de accusar a presença de vapores mercuriaes nas temperaturas mais baixas, até a da solidi- ficação do metal 1. B. — Entre os methodos de destruição da matéria organica conhecidos, quasi todos os autores preferem para a pesquiza do mercúrio o que se basea no emprego da euchlorina nas- cente ; por consequência deve-se lançar mão do processo de Fresenius e Babo ou melhor do de Ferreira de Abreu, nos quaes aquelle producto é o resultado da reacção do acido chlorhydrico sobre o chloratode potássio 2, e o mercúrio é obtido no estado de chloro-sal, mais solúvel e menos volátil do que os ublimado. Póde-se porém, servir de outros meios de destruição das matérias organicas, comtanto que elles não obriguem a calci- nações e deflagrações, que poderiam occasionar a perda do mercúrio pela sua volatilidade. Neste sentido Tardieu prefere o processo de Flandin e Danger, modificado ad-hoc, e outro que elle imaginou especialmente para esta pesquiza. O primeiro, que, na opinião deste autor, conduz mais facil- mente ao mesmo resultado, consiste em seccar previamente as matérias suspeitas, tratal-as em uma retorta communicando com um recipiente por acido sulphurico puro e concentrado, até completa carbonisação. Depois do resfriamento extrahe-se o 1 BeiHhelot notou que nas salas de laboratorio, onde lia cubas de mer- cúrio, expostas, os frascos que contém iodo, vem a apresentar na juncção do gargalo com a rolha, uma tenue camada vermelha de bi-iodureto de mer- cúrio ; esta circumstancia poderia ser aproveitada para base de um processo de pesquiza. 2 Segundo Chapuis todos os compostos mercuriaes toxicos são atacados e transformados por este meio em bichlorureto, excepto os cinabrios arti- liciaes, que não são venenosos. Dragendorff pensa do mesmo modo, mas acha que a resistência oíTere- cida por estes corpos (cinabrio e vermelhão) não é completa e absoluta ; verificou por experiencias próprias que elles são parcialmente atacados, poi*~ quanto no liquido final proveniente do tratamento por aquelle agente de destruição, o acido sulphydrico forma um ligeiro precipitado preto de .sul- phureto de mercúrio. VENENOS MYOTICOS 797 carvão da retorta, pulverisa-se, ajunta-se-lhe um excesso de agua régia, mistura-se com o liquido recolhido no recipiente e leva-se á ebulição até residuo secco ; este é tratado pela agua distillada, filtra-se e obtem-se um liquido, que ô submettido aos competentes ensaios. O processo especial de Tardieu executa-se do modo se- guinte : As matérias suspeitas são lançadas em uma capsula de porcellana, com 1/3 de seu peso de carbonato de sodio, puro; evapora-se em B. M. até a maior concentração possivel, intro- duz-se o residuo liquido em uma retorta collocada em um banho de areia, communicando com um recipiente resfriado. DistiJla-se até carbonisação completa da massa, aquecendo- se a retorta até temperatura rubra por alguns instantes. Deixa-se resfriar e corta-se o collo da retorta, ao nivel do ponto em que ella se alarga, e cuja superfície interna é re- vestida de uma matéria como que bituminosa ; ahi se pòde observar, á distancia de dous centimetros da abobada da retorta, pequenos globulos brilhantes, que se reconhecerá facilmente, esmagando-os com o dedo e submettendo aos ensaios que serão indicados adiante. O liquido distillado, é posto a evaporar em B. M. até secar ; o residuo é tratado por agua régia, e após uma ebullição durante 10 minutos ou 1/4 de hora, evapora-se de novo, trata-se o residuo por agua distillada e filtra-se. O liquido final é entregue aosreactivos proprios. No folheto já citado, de Leidié, acha-se a indicação do mais dous processos que tem sido propostos, como dos mais conve- nientes para a destruição da matéria organica nesta pesquiza. O primeiro é o de Verryken, já mencionado no estudo das generalidades sobre o assumpto e baseado na acção de uma corrente de oxygeno puro e secco, em alta temperatura. E’ de execução delicada e tem a vantagem de isolar logo o mer- cúrio, sem recorrer á serie de operações especiaes destinadas a este fim. Verryken pretende ter encontrado por este processo V,«ooo de mercúrio (!) 798 MERCÚRIO O segundo, devido a Merget, funda-se no emprego do acido nítrico, de módia concentração, com 0 qual se faz ferveras matérias suspeitas, atè que sejam inteiramente liquefeitas ; depois vae-se neutralizando o liquido por carbonato de ammonio, até que uma lamina de cobre nelle mergulhada não dê logar a desprendimento de bolhas na superfície do metal. Deixa-se então ahi a mesma lamina por 36 horas, pouco mais ou menos, depois retira-se, lava-se com agua pura, sèca-se com cuidado, e comprime-se entre duas folhas de papel sensibilisado pelo nitrato de prata ammoniacal; manifestar-se-hão manchas ennegrecidas nos pontos de contacto. Póde-se assim reconhecer até 0,00001 de mercúrio em 100 grammas d’agua. Seja qual for destes processos o preferido e empregado nesta pesquiza, o mercúrio é levado ao estado de chlorureto duplo de mercúrio e um metal alcalino. O liquido final, que repre- senta a dissolução deste corpo, é submettido á acção de uma corrente de hydrogeno sulphuretado. Si ha mercúrio, forma-se um precipitado, a principio branco, que depois passa ao ama- rello (chloro-sulphureto de mercúrio), e por fim torna-se preto pela formação do sulphurato de mercúrio. Si é impuro o pre- cipitado, repete-se o tratamento pelo acido chlorhydrico com o chlorato de potássio. Obtido o precipitado puro l, convenien- temente lavado e desembaraçado dos chloruretos contidos nas aguas mães, trata-se pela agua régia, evapora-se a secco, dissolve-se o residuo n’agua, addicionando-se algumas gottas de acido chlorhydrico, e ahi está o liquido, no qual se tem de promover as reacções caracteristicas do mercúrio, e outros ensaios appropriados ao mesmo fim2. 1 Este precipitado deve ser insolúvel 11a ammoniae 110 carbonato de am- monio (separação do arsénico); quasi insolúvel no sulphureto de ammonio, sobretudo poly-sulphtirado (separação do ouro, do estanho e do antimonio); insolúvel, quando puro, no acido azotico puro (separação da prata, do chumbo, do cobre, do bismutho e do cádmio), solúvel n’agua régia. 2 Pode-se também operar de outro modo, segundo o conselho de Chandellon, seccando o sulphureto mercurico e aquecendo-o com carbonato de sodio sêcco, VENENOS MYOTICOS 799 As reacções dos saes de mercúrio são de tres ordens: Umas pertencem exclusivamente aos proto-saes, outras aos per-saes e outras são communs aos dous graus de oxydaçãol. As dos dous últimos grupos são mais importantes de co- nhecer e estudar, porque ê sempre no estado correspondente ao grau máximo de oxydação que esse metal è obtido nos pro- cessos de destruição de matéria organica, para ser entregue aos competentes ensaios. a) Os saes de protoxydo de mercúrio dão: Pelos alcalis (potassa, soda ou ammonea), um precitado preto, insolúvel em excesso de reactivo 2. Pelo acido chlorydrico e os chloruretos solúveis, um preci- tado branco (calomelanos) , insolúvel nos ácidos diluidos e na ammonea, que o torna preto, Pelo acido sulphydrico e pelo sulphureto de ammonio, um precitado preto, que se fôrma immediatamente com essa cor. Pelo ferricyanureto de potássio, um precitado vermelho escuro. Pelo iodureto de potássio, um precipitado verde amarellado. b) Os saes de peroxydo de mercúrio, especialmente o bi- chlorureto dão: Pelos alcalis fixos, um precipitado amarello 3, insolúvel ou difficilmente solúvel em excesso de reactivo. ou com uma mistura deste carbonato e cyanureto de potássio, n’um tubo de vidro fechado em uma de suas extremidades e adelgaçado na outra; o mer- cúrio reduzido se votilisa e se condensa na parte estreitada, que se separa do resto do tubo com um traço de lima e se guarda como peça de convicção. 1 Deve-sa em todo caso excluir deste numero, ou incluir com restricções o cyanureto de mercúrio, que participa apenas de algumas das reacções com- muns aos per-saes de mercúrio, em cujo numero se acha chimicamente, con- forme já foi indicado no estudo dos venenos cyanicos, a que pertence com mais direito, como veneno, quando empregado em dóses massiças. 2 Pelos alcalis fixos, assim como pelos alcalis terrosos o precipitado é de protoxydo de mercúrio, que se desdobra logo em mercúrio e bi-oxydo de mercúrio; pela ammonea éo chamado mercúrio solúvel de Hahnemann, que se deposita, 3 Rabuteau diz que este precipitado é primeiramente vermelho, e depois torna-se amarello. Chandellon diz que é pardo, com pequena quantidade de reactivo; uma quantidade sufficiente precipita logo em amarello. 800 MERCÚRIO Pelos carbonatos respectivos, um precipitado vermelho es- curo, insolúvel em excesso. Pela ammonea ou seu carbonato, tratando-se do chlorureto mercurico, um precipitado branco, insolúvel em excesso de reactivo, mas solúvel nos ácidos l. Pelo acido chlorhydrico ou pelos cliloruretos, nenhum precipitado 2. Pelo acido sulphydrico ou pelo sulfureto de ammonio (em pequena quantidade), um precipitado a principio branco, que passa ao amarello e por fim torna-se preto, à medida que se ajunta reactivo ; de modo que, empregando-se logo muita quantidade deste, o precipitado se apresenta sem aquella tran- sição, que é não só de côr, mas de composição ; separa-se pri- meiro enxofre, fórma-se depois o chloro-sulfureto de mer- cúrio, e por fím o sulfureto deste metal. (Está bem visto que só tem logar esta reacção, quando se trata do chlorureto mercurico). Pelo ferricyanureto de potássio, um precipitado amarello, menos com o bichlorureto. Pelo iodureto de potássio, um precipitado vermelho rapida- mente solúvel em excesso de reactivo, pela formação do iodu- reto duplo de mercúrio e potássio. c) As reacções e ensaios communs aos saes de mercúrio em qualquer gráo de oxydação são os seguintes: IA Misturados com a soda, e depois de completamente secca a mistura introduzida em um tubo fechado numa extremidade, 1 Este precipitado forma-se com extrema facilidade, mesmo nas soluções mui diluidas dos per-saes de mercúrio, pelo que é uma das suas reacções mais sensíveis; tem sido considerado como constituído por um chlorureto duplo de mercúrio e ammonio, antigamente conhecido pelo nome de pó de Alembroth, e hoje mais correctamente interpretado como um derivado de Outro ordem (o chloramidureto de mercúrio), tí’ porém, celebre que M. Sbri- ziolo considere difíerentes estes dous productos: o chlorureto de ammonio e mercúrio ou sal dc Alembroth, dotado na sua opinião de grande solubili- dade (!), e o chloro-amiduréto de mercúrio ou precipitado branco (!), que todos os auctores reputam o mesmo (!!), e sempre insolúvel. 2 Dá-se a reacção, mas o que se fôrma é chlorureto mercurico, que, pòr ser solúvel, não apparece. VENENOS MYOTICOS 801 ou em um pequeno matraz, aquecida até a temperatura pró- xima de 400°, desprendem-se vapores de mercúrio, que se condensam sob a fôrma de gotteletas finas e brilhantes, fáceis de se reunirem com as barbas de uma penna, e de se reconhecer por meio de uma lente. 2.° A solução mercurial tratada pelo protochlorureto de estanho fôrma um precipitado, cuja côr varia segundo a quan- tidade do reactivo, (branca, cinzenta ou preta) ; com as primeiras porções do reactivo, o precipitado é branco e constituído por chlorureto mercuroso ; na presença de um excesso do reactivo, dá-se a reducção e separa-se o mer- cúrio metallico com a côr cinzenta (einquanto encontra ainda um pouco do calomelanos, com que se mistura), e depois preto, quando este tem se decomposto e desapparecido. Para reconhecer que o deposito è formado pelo proprio mercúrio, faz-se ferver durante alguns instantes com acido chlorhydrico concentrado, que não ataca o mercúrio e dissolve certas impurezas e substancias extranhas que se oppõem à agglo- meração dos globulos mercuriaes e á sua evidenciação. Este ensaio ò sensível até Vvoooo segundo uns, e até l/30000 segundo outros. d). Processo de ensaio por substituição. Uma lamina de cobre, bem limpa, introduzida na so- lução levemente acida, reveste-se em pouco tempo de um indu- cto esbranquiçado ou cinzento, que toma um brilho argentino, pelo attrito ; é o mercúrio que se deposita, e que, quando se aquece esta parte da lamina, se volatilisa, não deixando signaes de sua presença. Em vez de lamina, pôde-se e é melhor servir para este ensaio de aparas ou fios de cobre ; então, quando a côr do metal tem desapparecido pelo inducto mercurial, secca-se, introduz-se-o dentro de um tubo fechado numa das extremi- dades, e aquece-se. O mercúrio se desprende e vai se depositar a alguma distancia do ponto aquecido, na parte mais fria ou menos quente do tubo, sob a fôrma de gotteletas isoladas, ou IOXIOOLOUIA 51 802 MERCÚRIO de anneis metallicos de côr branca acinzentada. Quando elles se deixam perceber com toda a clareza a olhos nús ou armados de uma lente, a prova é completa, porque nenhum outro corpo offerece os mesmos caracteres physicos; quando, porém, estes são confusos enão podem ser bem apreciados, então prosegue-se o ensaio, promovendo a transformação do mercúrio em bi-iodu- reto do mesmo, que é de côr vermelha viva. Para isso separa-se com dous traços de lima aparte do tubo onde se acha o deposito metallico, introduz-se ahi um pequeno fragmento de iodo e aquece-se brandamente; Tardieu e Cha- puis aconselham collocar o iodo proximo a uma das extremida- des do tubo, separado como acima, tapando-se com cêra ambas as extremidades, mantendo-se tudo em uma athmosphera de 30 a 40°, pouco mais ou menos No fim de 12 horas no máximo, neste caso, e muito antes operando-se como no primeiro caso, manifesta-se a côr vermelha devida á formação do bi-iodureto de mercúrio. 1 Si ha algum excesso de iodo, cujos vapores roxos mascarem a reacção, sopra-se o interior do tubo e elles são expellidos. Si se continúa a aquecer a parte do tubo em que existe o bi-iodureto, este toma a côr amarella, que pelo resfria- mento ou pelo contacto de algum corpo estranho duro passa de novo á côr vermelha — questão de allotropia. Uma ou duas gottas de solução concentrada de iodureto de potássio dissolvem o descoram immediatamente o bi-iodureto, conver- tendo-o em iodureto duplo de mercúrio e potássio. Estas reacções podem ser executadas em todos os ensaios em que se obtem isolado o mercúrio metallico, quando os ca- racteres physicos deste não se apresentem de modo claro e de- cisivo. Em todo o caso, convém reservar com cuidado algum tubo contendo tal deposito, como peça de convicção, que a todo o tempo póde-se prestar a este ensaio. 1 Leidié recommenda fazer este ensaio sem o emprego do calor; mesmo na temperatura ordinaria, diz eLe que dá-se a reacção. VENENOS MYOTICOS 803 Ludwig empregou igualmente o zinco para precipitar o mercúrio. Depois de meio minuto de immersão no soluto mercurial, na temperatura de 50 a 60°, o zinco é lavado com agua, seccado a 00°, e introduzido em um tubo de vidro difficil- mente fusivel, de 8 a 10 milim. de diâmetro. Colloca-se por cima um pequeno tampão de amiantho, depois uma camada de oxydo de cobre em pó grosseiro, outra de zinco em pó fino, e por ultimo outro tampão de amiantho. O tubo é terminado em ponta afilada, com um pequeno engrossamento em fórma de burrelete destinado a fixar um tubo de borracha. Assim pre- parado o tubo, aquece-se primeiro a porção em que se acham o oxydo de cobre e o zinco puro, e depois aquella em que se acha o zinco hydrargyrado; no fim de 10 a 15 minutos o mercú- rio se tem separado e accumulado na parte capillar do tubo. Corta-se á pequena distancia delia, introduz-se ahi um pouco de iodo, e aspira-se pelo tubo de borracha, até que se forme o deposito de iodureto de mercúrio. Mais complicado este ensaio, em nada parece superior e preferível ao precedente, que é bastante sensivel e rigoroso, e de uma technica muito facil. Fiirbinger propõe substituir, no processo de Ludwig, o zinco pelo latão. e). Processos electrolyticos. Conhecem-se tres, dos quaes dous se executam com peque- nos pares voltaicos mergulhados no liquido suspeito, funccio- nandocomo pilhas seccas, e o terceiro, em que a decomposição é, realizada pela corrente electrica desenvolvida fóra, por pilhas de líquidos ( de Bunsen, por exemplo). A primeira pilha conhecida para este ensaio é devida a Ja- mes Sinithson. Consta de uma delgada e estreita lamina, ou melhor de um fio de ouro, enrolado em espiral sobre uma haste de estanho, de maneira que as voltas não se toquem e deixem a descoberto porções desta haste ; é todo o apparelho. Introduz-se-o no liquido a examinar, e no fim de meia hora, no máximo de 804 MERCÚRIO uma hora, o mercúrio se tem depositado sobre o ouro, tornan- do-o branco. Depois procede-se com este fio ou lamina, afim de caracteri- sar o mercúrio, como no ensaio anteriormente descripto ; e é indispensável fazel-o, porquanto não basta o embranquecimento do ouro, e nem mesmo o restabelecimento da côr amarella peio calor applicado a essa parte, para attestar a natureza inercurial do inducto volátil. Este phenomeno póde-se dar também na ausência deste metal, quando o liquido é muito acido e sobre- tudo quando encerra uma pequena quantidade de chlorureto de sodio. E’ então o proprio estanho que tem sido atacado e se tem dissolvido em parte no liquido, dando aquelle deposito branco, também volátil pelo calor, embora muito menos. Póde-se evitar esta causa de erro, e discriminar os dous casos, por um ensaio muito simples, que consiste em mergulhar a parte manchada do fio no acido chlorhydrico quente: si o deposito fôr de estanho, este é atacado e dissolvido, deixando o ouro com sua côr própria, ao passo que o mercúrio resiste a este tratamento. Mas é indispensável, em todo caso proceder ao ensaio a que alludi acima, no intuito de isolar e caracte- risar o mercúrio. Entretanto, para obviar este inconveniente, pela primeira vez assignalado por Orfila, tem se proposto modificar a pilha de Smithson substituindo a haste central de estanho por outra de cobre ou de ferro. Mesmo assim, esta pilha não è conside- rada um apparelho de extrema sensibilidade, porque offerece pequena superfície para a deposição do mercúrio; ella cessa logo que uma primeira porção se tem acamado, e por isso, segundo Tardieu e Chapuis, não extrahe do liquido sinão uma parte do veneno; raramente poderá extrahir todo. Além de que outra parte, pretendem alguns que se deposita sobre o proprio estanho. Por isso, Van der Broeck e Landeref aconselham recorrer de preferencia, como muito mais sensível a um par galvanico formado de platina e zinco, até mesmo VENENOS MYOT1COS 805 porque na sua opinião se deve desconfiar do estanho empre- gado na primitiva pilha de Smithson, porquanto tem-se achado mercúrio em certas amostras de estanho do commercio. A segunda pilha deste genero pertence a Mayençon e Ber- geret; compõe-se de uma haste de ferro, um prego ou melhor uma ponta de Pariz, sobre a qual se enrola um fio de platina. Introduzido o apparelho no liquido suspeito, si houver mer- cúrio, deposita-se sobre a platina, que neste caso não muda de cor, porque já a tem de sua natureza igual á delle. Para caracterisar o mercúrio retira-se o fio, lava-se em agua distillada, secca-se pela agitação ao ar ou mesmo a brando calor, mas não enxugando-o; depois expõe-se a vapores de chloro, para converter o mercúrio em bichlorureto. Feito isso, applica-se este fio levemente sobre um pedaço de papel de filtro, préviamente embebido em uma solução de iodureto de po- tássio, e ainda um pouco húmido ; em cada ponto de contacto do fio com o papel desenha-se um traço vermelho, devido á for- mação do bi-iodureto de mercúrio. Este ensaio, nimiamente delicado e sensível, e pelo qual pretende-se poder reconhecer ate 4/10#ooo e mesmo Visoooo mercúrio (!), exige, para completo exito, certos requisitos, cuja inobservância será causa de insuccesso e portanto de erro. Assim, si por um lado é preciso que a exposição do fio mercu- rialisado, aos vapores de chloro, seja bastante demorada para dar logar á formação do bichlorureto, por outro é necessário que elle não leve até o papel o menor traço de chloro livre, que, decompondo o iodureto de potássio e pondo o iodo em liberdade, daria uma mancha estranha, que mascararia a do bi-iodureto, quando não impedisse mesmo a sua formação, como geralmente acontece, obrigando a recomeçar o ensaio. Em todo o caso, deve-se estar prevenido deste aecidente para não tomar qualquer mancha suspeita, nestas condições, como devida ao bi-iodureto. O iodo, posto em liberdade, deixa no papel uma mancha 806 MERCÚRIO avermelhada escura, tirando levemente sobre o roxo azulado, pela presença de traços de amido no papel; demais, esta mancha não se modifica por um excesso de iodureto de po- tássio, que faria desapparecer immediatamente a produzida pelo bi-iodureto de mercúrio, aliás de cor escarlate viva. Além disto, cumpre observar outra regra e vem a ser: depois da immersâo do apparelho, retirar o fio da haste de ferro para submettel-o, aos ensaios subsequentes fóra deste metal, que, sendo atacado pelos vapores de chloro, ao mesmo tempo que o mercúrio, iria determinar sobre o papel manchas aver- melhadas de chlorureto ferrico. O terceiro processo electrolytico, e este já de outro genero, é devido a Flandin e Danger. Consiste em fazer passar uma cor- rente electrica, desenvolvida por um elemento de Bunsen ou de Daniel, atravez do liquido a examinar, no qual devem mergu- lhar os dous electrodios, constituidos por fios ou estreitas la- minas de ouro, e das quaes a que representar o polo negativo FI«. 14 recolherá o mercúrio ahi existente, (fíg. 14) Para maior sen- sibilidade e rigor do processo, Flandin e Danger imaginaram um apparelho que permitte fazer correr lentamente o liquido, gotta à gotta, por assim dizer, por sobre o electrodio negativo, VENENOS MYOTICOS 807 de modo a não deixar perder o metal toxico, que desta sorte se precipitará todo sobre a lamina. O apparelho consta de um balão voltado para baixo, no qual se deve ter collocado o liquido suspeito, e cujo collo deve penetrar em outro vaso, tendo a fórma de um cylindro conico e afunilado para a parte inferior, onde termina em um bico curvo em angulo recto. Neste bico, cujo oriflcio é quasi capillar, é profundamente insinuado o cathodio de ouro. Pela parte larga deste vaso introduz-se o fio que representa o pólo positivo. Montado o apparelho, parte do liquido do balão cahe na peça sobre a qual é voltado, até que alcance a abertura do mesmo. Não penetrando então ar no balão, cessa, por falta depressão, a quedado liquido, emquanto o do vaso inferior vai lenta- mente se escapando pelo oriflcio aberto, até que descobre-se de novo a abertura do balão, permittindo a entrada de ar, que expelle nova porção do liquido para baixo, e assim por deante, até esgotar-se. Reputado de uma sensibilidade a toda a prova, este processo tem a vantagem de poder ser empregado directa- mente sobre o liquido proveniente do tratamento das matérias organicas pela euchlorina, sem a precipitação e depuração prévia pelo hydrogeno sulfuretado, porquanto, segundo Hittorf, o chlorureto de potássio, que pôde conter aquelle liquido, longe de ser prejudicial, antes é util, visto como a observação tem mostrado que a electrolyse é mais facil e mais rapida nos saes dupl s de mercúrio, do que no sal simples. Completa-se o pr cesso, submettendo o fio ou lamina de ouro amalgamado aos mesmos ensaios que com o da pilha de Smi- thson. Para maior garantia da fixação de todo o mercúrio sobre o ouro, Wolff se serve, como cathodio, não de um fio, porém de um pincel de fios de ouro, de prata dourada, sobre o qual faz passar muitas vezes, durante quatro a cinco horas, a so- lução mercurial. 808 MERCÚRIO Schneider tem se servido, como fonte de producção da electricidade, de uma pilha de Smée, de seis elementos, cujo polo positivo é representado por uma lamina de platina, de um centímetro de largura e quatro de comprimento, e o negativo por um fio de ouro, de um millimetro de espessura na parte superior, engrossando até dous millimetros na inferior. Além disso demora esta operação por muitas horas, repetindo-a successivamente varias vezes. Não obstante estes importantes aperfeiçoamentos, o appa- relho de Flandin e Danger é sujeito a causas de erros, moti- vadas pela presença de impurezas e metaes ou metalloides estranhos que podem existir no liquido, o arsénico por exemplo. Com effeito, o acido arsénico ou arsenioso é facilmente redu- zido nestas circumstancias, e o arsénico livre deposita-se sobre o ouro, formando um inducto igualmente volátil pelo calor, e dando com o iodo uma reacção, á primeira vista, um pouco comparável com a do mercúrio. Procedendo-se, porém, a estes ensaios com toda a cautela e correcção, póde-se evitar esta confusão deplorável, da qual, entretanto, é preciso estar prevenido. Não menciono aqui o processo especial devido a Mayer, para a pesquiza do mercúrio, nas urinas, porque pouco differe do processo de Tardieu, já descripto, substituindo o carbonato de sodio pela cal, e nenhum delles offerece vantagens sobre os outros, que são igualmente rigorosos e de mais facil appli- cação. ADDENDA Julgo que commetteria uma falta censurável, sinão consa- grasse uma noticia, um artigo especial â historia toxicologica das ptomainas ; assim se chamam os alcaloides cadavéricos, entre os quaes, se conhecem alguns dotados de propriedades eminentemente deleterias. Não se trata aqui de estudar a acção destes venenos, sob o mesmo ponto de vista em que o fizemos com relação aos outros agentes toxicos, isto é, não se trata aqui de estudar os sympto- mas, as lesões anatomo-pathologicas e os methodos de pes- quiza desses curiosos venenos, com o intuito de reconhecer os casos de suicídios ou homicídios commettidos com o seu emprego, nem mesmo os accidentes que porventura tenham occasionado. A sciencia não registra caso algum em que elles tenham sido applicados para qualquer daquelles dous fins, e os factos que se podem considerar accidentaes devidos á acção destes agentes são representados pelas diversas fôrmas clinicas da septicemia ; esse estudo, porém, não tem aqui por certo o seu logar. A grande importância, a necessidade mesmo imprescindível do conhecimento exacto desses principios toxicos procede da influencia altamente compromettedora que elles podem exercer sobre as pesquizas toxicologicas, disvirtuando e falseando os seus 810 PTOMAINAS resultados, constituindo uma causa de erros desastrosos e la- mentáveis na apreciação desses resultados e na sentença final dos juizes. Até o anno de 1870 podía-se acreditar que todo o prin- cipio alcalino toxico, extrahido pelos processos clássicos se- guidos nas pesquizas toxicologicas, havia sido introduzido no organismo vivo, e occasionado a sua morte ; e quantas victi- mas não teria feito esta falsa doutrina ? ! Ella esbarra-se hoje de encontro ao facto inconteste da formação de numerosas bases organicas no cadaver, sob a influencia das fermentações pútridas, e no individuo vivo, são ou doente, sob a influencia de fermentações physio-pathologicas, isto é de phenomenos correlativos do mesmo funccionamento normal ou mor- bido dos orgãos. Estas ultimas, chamadas leucomainas, só se encontram em mui fraca proporção no vivo, ou mesmo algumas horas depois da morte, e são em geral mui pouco toxicas ; ao passo que as primeiras, denominadas ptomainas ou alcaloides cadavéricos, formam-se durante o processo da putrefacção, acompanham tenazmente todos os principios orgânicos extra- hidos das vísceras, mascaram ou em‘baração as suas reac- ções, e offerecem propriedades physicas, e sobretudo caracteres chimicos dos venenos alcalinos de procedência vegetal; é, por- tanto, muito mais interessante o seu estudo debaixo deste ponto de vista medico-legal. Vê-se por ahi quanto a toxicologia perdeu temporaria- mente de sua autoridade e supremacia em relação ás pesquizas dos venenos orgânicos, com a descoberta das ptomainas ; quantas complicações deve trazer em uma analyse toxicolo- gica a presença destes corpos. Como bem diz Chapuis, as con- sequências de semelhante estado de cousas podem ser enormes, e os envenenamentos, que tendem a diminuir cada anno, podem incrementar de repente em proporções assustadoras, em- quanto não descobrirmos reacções caracteristicas das chamadas ptomainas, meios seguros e eíflcazes de sua evidenciação nas ADDENDA 811 pesquizas chimico-legaes, que resolvam de um modo claro e pre- ciso o diagnostico differencial entre esses prineipios e os alca- loides vegetaes com que mais facilmente se confundem. Para conhecer-se do que se tem feito em vista deste desi- deratum, qual o estado actual desta questão e quaes os funda- mentos em que se póde basear a esperança de uma solucção completa esatisfactoria, extractarei, entre outros, do excellente artigo da obra de Chapuis, uma noticia histórica sobre as ptomainas. Datam do começo deste século as primeiras indicações authenticas de factos, que se referem á acção mysteriosa desses venenos, comquanto se devam contar nesse numero os que a sciencia registra desde mais tempo, como produzidos, pelas pi- cadas ou feridas nas autopsias e dissecções anatómicas. De todos os tempos se conhece os perigos destas soluções de continuida- des eos effeitos funestos que ellas teem acarretado, sem que se tivesse penetrado a sua verdadeira causa. Foi Justino Kerner quem, em 1817, publicou uma memória, na qual expunha seus estudos sobre certos alimentos que adquirem propriedades toxicas em consequência da de- composição pútrida, concluindo por attribuil-as á presença de um acido graxo, que reputava venenoso, analogo ao acido seba- cico de Thenard. Mais tarde, porém, modificou a sua opinião, e passou a acreditar que o principio toxico era o producto da combinação de acido graxo com uma base volátil, que todavia não determinou. Em 1822 Gaspard e Stick observaram que os extractos cada- véricos, injectados hypodermicamente nos animaes, eram extre- mamente venenosos. Cinco annos depois, Humefeld, procedendo á analyse de certos queijos, admittiu, como Kerner, a existência nelles de acido caseico e sebacico, a que se attribuiram esses effeitos toxi- cos. Do mesmo modo pensaram muitos outros (Serturner, Wes- tnent, etc.) Cumpre notar, porém, que até essa época os primeiros 812 PTOMAINAS extractos vegetaes obtidos por Seguin, Derosne e Sertiirner passavam por productos formados pelos proprios reactivos, à custa das matérias vegetaes, que se acreditava só podiam ser neutras ou acidas. Schlossberger, em 1852, destruiu completamente a dou- trina da pretendida acção toxica dos ácidos graxos, cuja imnocuidade elle provou. Foi talvez Panum quem, em 1856, primeiro entreviu as ptomainas, demonstrando a existência nas matérias pútri- das, de um veneno tão activo, que bastava a dóse de cinco a seis centigrammas para matar um pequeno cão. Elle desconhe- ceu, porém, inteiramente as suas propriedades physicas e chimicas, porque disse que não era volátil, nem decomponi- vel pelo calor até 100° ; que era solúvel n’agua e no ál- cool i, e provavelmente composto de muitos princípios toxi- cos, comparável por sua energia e seus effeitos á peçonha das cobras e ao curare. As observações de Panum, entretanto, despertaram a attençâo das corporações sábias, e varias universidades alle- mãs (de Marburg o Munick) puzeram a prémio o estudo das causas da infecção pútrida ; nos 12 annos que medearam entre 1856 e 1868 appareceram diversas memórias interes- santes, 2 que vieram até certo ponto dar ganho de causa aos trabalhos daquelle observador. A theoria de Liebig, sobre as fermentações, estava então na ordem do dia na Aliemanha, e para a maior parte dos autores o veneno pútrido era um producto de natureza albu- minoide, decomponivel, e podendo transmittiro seu movimento de destruição aos tecidos vivos. Em 1860, Calvert deixou apodrecer uma certa quantidade de peixes, em toneis, atravez dos quaes fazia circular uma 1 Chandellon diz que é insolúvel no álcool absoluto. 2 Hemmer, Sclweninger, Muller, de Raison, Weidenbaum, Schmitz, Schmidt, Petersen, de Brehm, AVeber, Bibrorb e Fischer. ADDENDA 813 corrente de ar, recolhendo os gazes que se desprendiam em uma solução de chlorureto de platina, acidulada com acido chlo- rhydrico ; obteve um precipitado, que pela analyse reconheceu ser constituido por combinações de alcaloides voláteis, contendo carbono, hydrogeno, azoto e (cousa notável) 11 °/0 de enxofre e 68 °/0 de phosphoro, isto é, provavelmente, todo o enxofre e phosphoro das matérias aniinaes, pois não se desprendeu nesta putrefacção hydrogeno sulphuretado nem phosphuretado. Ainda que contestada esta ultima observação de Calvert, por Gautier, que demonstrou a producção destes dous gazes em taes circumstancias, nem por isso perdeu aqueJla experi- encia o seu valor na historia das ptomainas. Em 1866, Dupré e Bence Jones extrahiram de orgãos pu- trefactos, principalmente de fígados do homem e outros ani- maes, uma substancia amorpha, precipitando pelos reactivos geraes dos alcaloides e caracterisando-se pela fluorescência de sua dissolução sulphurica, pelo que a denominaram aquelles autores ehinoidina animal, lembrando essa proprie- dade commum com a quinina. J. Oser, em 1868, observou que na fermentação do assucar puro, com levedo de cerveja purificado, formava-se um al- caloide não preexistente nesta substancia, correspondendo á formula C 13 H 20 Az \ e que foi o primeiro exemplo de um alcaloide definido, derivado da vida de um fermento. Pouco mais ou menos na mesma época, Bergmann e Schmiedeberg extrahiram do levedo de cerveja putrefacto um corpo azotado, crystallino, a que deram o nome de sepsina. Em 1869, Zúltzer e Sonescheim, empregando o processo de Stass-Otto, conseguiram retirar de macerações cadavéricas* obtidas do Instituto Anatomico de Berlim, e de liquidos resul- tantes da putrefacção de um musculo dentro d’agua, uma pe- quena quantidade de um corpo crystallino, offerecendo as reacções geraes dos alcaloides e a propriedade mydriatica da atropina. 814 PTOMAINAS Dous annos depois, por occasião de uma pesquiza medico- legal, feita também segundo o processo de Stass-Otto, Rõrsh e Fassbender extrahiram do fígado, do baço e dos rins uma subs- tancia insipida, amorplia, assemelhando-se pelas suas reacções ; digitalina. No mesmo anno (1871), Schwanert, executando ainda o refe- rido processo sobre porções de intestinos, um fígado e um baço em plena putrefacção, achou um principio liquido e volátil, de cheiro particular ; repetindo mais tarde suas investigações, elle obteve uma substancia como que oleosa, insolidificavel, leve- mentev olatil, de sabor e cheiro analogo ao da propylamina, etc. Até aqui vê-se que as observações eram deficientes, os re- sultados incompletos e contradictorios ; estava reservado a Gautier ea Selmi a gloria de pôr em evidencia de um modo irrecusável a formação dos alcaloides cadavéricos. Na serie de suas investigações sobre as matérias albuminoides, particularmente sobre a albumina do ovo, em 1870, o sabio professor de Pariz notava que ellas tornavam-se pela putre- facção fortemente ammonicaes. Ao mesmo tempo verificava com um de seus discípulos, o Dr. Washburu, que, quando se distílla a urina normal, geralmente acida, obtein-se um li- quido dotado de reacção alcalina, contendo a trimethylamina. Em 1872, elle descobriu que a fibrina do sangue, abandonada durante o verão, dentro d’agua, dava liquefazendo-se, além de numerosos productos jà conhecidos, uma pequena quantidade de alcaloides complexos, alteráveis, fixos ou voláteis, que conseguiu isolar ; annunciou este facto importante no seu curso da Faculdade de Medicina de Pariz, e o consignou em seu Tratado de chimica physiologica. Pela mesma época, Francisco Selmi chegava aos mesmos resultados, embora partindo de um ponto de vista muito diffe- rente. Elle apresentou á Academia das Sciencias, de Bolonha, onde era professor de medicina legal, uma memória, na qual demonstrava : Io, que o estomago das pessoas, tendo succumbido ADDENDA 815 ainda mesmo a uma morte natural, encerra substancias que se comportam em presença dos reactivos como certos alcaloides vegetaes 1; 2o, que estes productos não são nem a creatina, nem a creatinina, nem a thyrosina ; 3o, que se encontram pro- ductos analogos no álcool que tem servido para a maceração de peças anatómicas. Estas conclusões suscitaram naturalmente uma série de objecções, entre as quaes, oppunham os contradictores as se- guintes : Os alcaloides extrahidos dos cadaveres, por Selmi, não pro- viriam antes de substancias vegetaes que tivessem ficado no tubo digestivo ? Não teriam sido ahi introduzidos sob a fórma de medicamentos durante a vida ? Não seriam antes princípios mal definidos do genero das matérias extractivas, que se accu- mulam no sangue, sobretudo nos últimos momentos da vida? Estaria bem provado que estes alcaloides se desenvolvem na decomposição pútrida? Achava-se a questão neste pé, não obstante ter Selmi, em 1874, affirmado definitivamente a formação de verdadeiros alca- lis orgânicos toxicos na putrefacção cadavérica, quando em outra memória apresentada á mesma Academia, em dezembro de 1877, o citado professor resolveu aquellas objecções, an- nunciando ter obtido e isolado dous alcaloides: um fixo e outro volátil, abandonando á putrefacção albumina pura, fóra do contacto do ar. Depois de Gautier e Selmi, que disputam a prioridade da descoberta dos alcaloides cadavéricos, geralmente conferida antes a este ultimo, excepto pelos autores francezes, que re- clamam essa gloria em favor de Gautier, 2 outros muitos expe- rimentadores notáveis, taes como Nencki, Brouardel eBoutmy, 1 Sem serem, entretanto, toxicas, accrescenta o Dr. Thierry (Alcaloides microbianos e physiologicos). 2 O Dr. Thíerry que ambem assim pensa, argumenta com as próprias palavras insuspeitas de Selmi. que, diz elle, confessou esse facto em uma mo- moria lida perante a Academia de Bolonha, em dezembro de 1878, e em uma 816 PTOMAINAS Graebner, Pouchet, Marino Zucc, Briegert etc., teem-se oc- cupado com o assumpto e continuado com proveito a obra me- morável daquelles dous sábios. Elles teem não só reconhecido e confirmado a veracidade da formação das ptomainas, que, se originando em phases successivas da putrefacçâo dos cadáve- res, da matéria organisada em geral, como já teem alcançado isolar maior numero desses principios e estudar sua composição chimica, suas propriedades e reacções, os processos de sua extracção e sobretudo os meios de evitar a sua perniciosa in- fluencia na pesquiza toxicologica dos alcaloides vegetaes. E’ por este ultimo ponto de vista especialmente que nos in- teressa o estudo das ptomainas; e passamos a fazel-o sem desenvolvimentos inúteis ou dispensáveis. Deu-se primitivamente o nome de ptomainas aos alcaloides cadavéricos (do grego ptoma (?), cadaver, e ina, desinência commum a todo o principio activo). Mais tarde Chapins, (?) tendo em attenção a analogia de composição chimica desses al- caloides, com os alcalis orgânicos artificiaes, que são ammonias compostas ou aminas, propoz a denominação de ptomainas ; porém não é bastante correcta, porque nem todas são alca- loides, e não caberia rigorosamente a outras que representam antes verdadeiras amides compostas : para estas, seria preciso adoptar a designaçõo de ptoamides. Mas ainda assim persistiria o radidal significativo da origem primitiva, que não é a unica, de producção desses venenos. 1 Com effeito, não é sómente no cadaver, e sim em geral em toda a matéria organisada em putrefacçâo que elles se geram. Na impossibilidade, em que se tem achado os autores, de esta- belecerem a verdadeira funcção chimica desses corpos, de firma- carta publicada no jornal de hygiene, onde se lê o seguinte: a primeira veri- ficação de alcaloides, formando-se durante a putrefacçâo da albumina, foi feita por M. Gautier, que entretanto nessa occasião não pareceu ligar-lha grande importância. » Contra esta allegação. que parece aítenuar o direito ou pelo menos o merecimento daquella prioridade, protesta oDr.Tliierry. 1 Outros aceitam esta etymologia, mas entendem que se deve escrever ptomatina, do genitivo ptomatos. ADDENDA 817 rem a sua classificação seriaria, preferem conservar o nome de ptomoinas, applicando-o a todo o composto azotado, da natureza das amides ou dos alcaloides, provenientes da putre- facção das matérias organisadas. Elias pertencem, umas à serie pyridica, outras á serie hydro-pyridica e outras á serie da betaina e da nevrina. Umas são oxigenadas, outras não. A. — As ptomainas não oxygenadas exhalaiu um cheiro activo e persistente, que lembra o do almíscar. Entre ellas, as mais conhecidas são as seguintes: 1. a A parvolina (C9 H13 Az), descoberta em 1881 por Gautier e Etard nos productos da putrefacção da carne de cavallo ; é uma base oleaginosa, de cor de ambar, cheiro de tlôr de espinheiro alvar (?) (aubêpine), fracamente solúvel muito solúvel no álcool, no ether e no chloroformio. Escurece e se resinifica ao contacto do ar ; ferve um pouco abaixo de 200''. Pôde ser obtida por synthese, aquecendo atè esta temperatura, em tubo fechado, o producto da reacção da ammonia sobre a aldehyde propylica (Waage). 2. a A hydrocollidina (CtíH 13 Az ou C8 H13 Az)?, descoberta pelos mesmos autores ao lado da precedente, na carne de cavallo e também do boi, em putrefacção. E’ um liquido quasi incolor, levemente oleoginoso, de cheiro penetrante e tenaz. Ferve a 210° sem se alterar, mas exposto ao ar oxyda-se com facilidade, adquirindo uma côr escura, e tornando-se viscoso. QSchsner, de Coninck, obteve syntheticamente, fazendo actuar o phosphoro e o acido iodhydrico sobre a collidina derivada da cinchonina, uma base que offerece a maior analogia com a hydrocollidina de Gautier e Etard. 1 3.a A collidina ( C3 H11 Az ou C8 li11 Az )?, extrahida em 1876 por Nencki, dos productos de putrefacção da gelatina com 1 Ella é extremamente toxica; bastam sete milligr. para matar um passaro, com phenomenos convulsivos e contracções tetanicas. Brieger põe em duvida a existência desta base. rosicoLoaiA 52 818 PTOMAINAS pancreas de boi ou de porco. Foi obtida syntheticamente por Bayer e Ador, aquecendo o aldehydato de ammonio em presença da uréa, a 120c. E’ um liquido amarellado, muito movei (Thierry), oleaginoso ( Chandellon), de cheiro especial, viroso mas que não é desagradavel, de reacção fortemente alcalina, mui pouco solúvel n’agua, mais leve do que ella, solúvel no álcool e noether. Esta base é isomera da collidina do alcatrão, da qual differe por suas propriedades. Nencki a considera como sendo a isophenyl-ethylamina, emquanto que esta admitte-se que é a trimethyl-pyridina. 4,a A neuridina (CsHlvAz2), foi descoberta em 1884, por Brieger, nos productos da decomposição da carne de mam- miferos e de peixe, na gelatina e no queijo pôdre, etc. Existe também em diversos orgãos frescos do corpo humano, no cerebro por exemplo ; é um dos productos mais constantes da putrefacção das substancias albuminoides. Apresenta-se sob a fôrma de uma massa gelatinosa,muito alteravel,incrystallisavel, de cheiro um pouco espermatico; facilmente solúvel n’agua, insolúvel no álcool e no ether. Foi a primeira diamina isolada dos tecidos animaes: quando chimicamente pura, é inoffensiva, adquirindo propriedades toxicas analogas ás da peptotoxina, quando misturada a impurezas de origem pútrida. 5a e 6.a A cadaverina (Cs H16 Az2), e seu isomero a sa- prina, descobertas e isoladas por Brieger, pouco mais ou menos na mesma pliase da putrefacção de eadaveres humanos, entre cujos productos apparece do 3° ou 4o dia em diante; sua pro- porção augmenta á medida que a decomposição se avança, e a Cholina desapparece. Becldiscli extrahiu a cadaverina também da salmoura de arenques, e (Eschner de Couinck de polypos marinhos putrefactos; foi descripta impura por alguns autores com o nome de conicina cadavérica. Ella se apresenta, quando pura, sob a fôrma de um liquido um pouco espesso, incolor, transparente e com cheiro desagra- davel, que lembra o da conicina; ferveentre 115 a 120°. Exposta ADDENDA 819 ao ar, absorve rapidamente o gaz carbonico e converte-se em uma massa crystallina. Não é toxica. A saprina muito semelhante á cadaverina, é um liquido de reacção alcalina, com fraco cheiro de pyridina, e que distilla, sem decomposição, em presença do hydrato de potássio. Também não é toxica. 7. a A putrescina (C‘ H12 Az2) existe ao lado das prece- dentes nas vísceras putrefactas, donde foi extrahida pela pri- moira vez por Brieger, e na salmoura de arenques, donde foi isolada por Roecklinch. Ella começa a apparecer no quarto dia da decomposição dos cadaveres ; sua quantidade augmenta progressivamente no fim de duas a tres semanas, sobretudo do 20° ao 25° dia, em que é mais abundante. Sua composição repre- senta a de uma butylena-diamina, ou de uma ethyleno-dimethyl* diamina ; é um liquido incolor, limpido, muito movei, de cheiro espermatico, lembrando um pouco o das bases pyridicas. Ferve a 135 0 mais ou menos, e quando exposta ao ar também absorve com avidez o gaz carbonico, trasformando-se em uma massa crystallina. Esta base ainda não è reputada toxica. Na opinião de Brieger as ptomainas verdadeiramente to- xicas dos cadaveres são duas, das quaes uma, que ainda não foi baptisada, e cuja formula não foi ainda determinada, se encontra sómente nos 15 dias depois da morte. A outra é : 8. a A mydaleina, que começa a manifestar-se desde o pri- meiro septenario, e torna-se mais abundante em uma época mais adeantada da putrefacção, juntamente com a precedente. E’ também uma diamina muito venenosa ; applicada em injecção hypodermica num cão augmenta a secreção das mucosas e das glandulas salivares elacrimaes; produz dila- tação das pupillas, injecção dos vasos da orelha, elevação da temperatura de 1 a 2C; a principio acceleração, depois demora dos batimentos cardíacos l. 1 Não será a mesma cadavériíla '(■ 820 PTOMAINAS Chapuis menciona ainda como pertencentes ao grupo das ptomainas azotadas, duas, correspondendo ás formulas C10 II13 Az e C17 II28 Az ; esta, descoberta nas aguas mãis do chloroplatinato de hydro-collidina; a primeira, assignalada em 1883, por Guaresdechi e Mosso na fibrina putrefacta. Mais recentemente, em 1886, (Echner de Coninck a extrahiu dos productos da putrefacção dos polypos marinhos. Encontra-se nos autores noticia das seguintes mais : 9. a Apeptoxinci, tirada da peptona ; é difficilmente crystal- lisavel, solúvel na agua eno álcool, insolúvel no ether, na ben- zina e no chloroformio, E’ toxica em alta dóse ; injectada em rãs e coelhos determina somnolencia, côma, paraplegia e morte. 10. a Ptomainas extrahidas do peixe podre, e que se apresen- tam no estado de líquidos como que oleoginosos, sem cor, facil- mente resinificaveis, e que parecem filiar-se á serie pyridica. E' a esta causa que se tem attribuido a famosa epidemia que dizimou as populações do Volga, cujo alimento habitual é con- stituído por peixe. O proprio bacalháo tem muitas vezes occa- sionado accidentes toxicos, tenho mais de uma observa- çã o própria, e os quaes não teem provavelmente outra origem1. 11 .a Ptomainas do queijo alterado, e das quaes Brieger diz ter extrahido a neuridina e a trimethylamina. 12.a Ptomainas da gelatina putrefacta, entre as quaes uma isolada por Nencki (C8 H12 Az2), isomerica com a aldehyde- collidina, isophenyl-ethylamina. B. — Ptomainas oxygenadas. Se encontram igualmente na decompsição pútrida dos tecidos auimaes; excepto a gadinina, quasi todas são derivadas da trimethylamina. As que se conhecem são as seguintes: 1 .a A nevrina (C5 Az OH): é constituída pela trimethy- lamina e álcool ethylico, e pode ser considerada um hydrato de 1 Não será a gaãinina retirada por Brieger do bacalháo podre (psqueno bacalháo ou bacalháo de Doreh, g&dus callaria), comquanbo elle diz qae não parece ter propriedade toxica ? e demais, esta é oxygenada. ADDENDA 821 trimethyl-vinyl-ammonio, que resulta do desdobramento da lecithina. E’ um liquido espesso xaroposo, solúvel na agua em todas as proporções, offerecendo forte reacção alcalina. E’ ve- nenosa, porém sua acção não se exerce com a mesma energia sobre todas as especies animaes ; ella parece synergica do cu- rare e da muscarina. A atropina é seu legitimo antagonista, comquanto, facto curioso, a nevrina não modifique os effeitos desse alcaloide (Brieger). 2. a A cholina (Cs H1’ AzO2), constituida pela trimethyla- mina eoglycol, representa um hydrato de trimethyi-hydroxe- thyleno-ammonio. Esta base participa das propriedades das ptomainas e das leucomainas ; ella forma-se durante a vida, como durante a decomposição pútrida dos tecidos. Faz parte da substancia cerebral e existe também na bile, donde foi isolada por Streker ; desdobra-se pelo calor em glycol e trimethy- lamina. E’ um liquido xaroposo, solúvel n’agua em todas as proporções, de reacção muito alcalina, e dando com os ácidos saes bem crystallisados. Sua acção physiologica é idêntica á da nevrina, porém dez vezes menos venenosa do que ella (Brieger). 3. a A muscarina (C3Hl5Az O3), se encontra com a cholina no agaricus muscarius, e pôde ser obtida syntheticamente pela oxydação desta base por meio do acido nitrico ou chromico (Schmiedeberg e Harnack), o que demonstra que a mu >carina representa a oxynevrina, mas é considerada antes como um alcaloide aldehydico, resultante da combinação da trimethy- lamina com o hydroxyacetaldehydrol. Apresenta-se sob a fôrma de crystaes irregulares, muito deliquescentes, que absorvem o gaz carbonico eformam um sal de reacção alcalina. Esta base é solúvel em todas as proporções n’agua e no álcool, insolúvel no ether, mui pouco solúvel no chloroformio ; mani- festa reacção alcalina forte. E’ um veneno violento ; faz parar o coração de uma rã, na dóse de V30 a 7i0 de milligramma. Sua acção toxica se approxima notavelmente da da nevrina, porém é muito mais energica do que ella. 822 PTOMAINAS 4.a A gadintna (C7H17Az02), que Brieger obteve no estado do combinação salina, do bacalháo podre ; diz Cliapuis que a base não foi ainda isolada, e que seus saes não são toxicos. (?) Além destes alcaloides, Pouchet demonstrou a existeiicia de outros dous nas aguas provenientes do tratamento dos restos de ossos e residuos de toda a especie, pelo acido sulphurico, para a separação de matérias graxas; mas ainda não lhes deu nome, nem determinou a respectiva formula. Lé-se, porém, na obra de Chandellon, que elle denomina estas bases de oxy-betainas e lhes assignala as formulas C' Hi2 Az2 O7 e C’* II18 Az2 0% ambas muito venenosas. Passando agora a indicar as propriedades e reacções destes venenos sépticos de origem animal, e sobretudo as que os distin- guem dos alcaloides vegetaes, veremos que ellas não são sempre exactamente as mesmas, qualquer que seja o processo de sua extracção ; variam um pouco, conforme nelle se emprega o ether, o chloroformio e o álcool amylico. E’ necessário, pois, neste estudo considerar separadamente as ptomainas conforme essa circumstancia particular, e ainda abrir espaço a um grupo especial de ptomainas extrahidas de visceras antigas, cujos caracteres as approximam notavelmente dos das outras. A.— As ptomainas obtidas por meio do ether dão : 1. Com o aciclo iodhydrico iodurado, um precipitado abundante, côr de kermes, que, por evaporação espontânea do liquido, apresenta-se com o aspecto de massas volumosas, for- madas por uma agglomeração de crystaes prismáticos, côr do rubim, pequeníssimos, só visíveis com o auxilio do microscopio; outros crystaes mais finos se reúnem em grupos estrellados ou radiados, desapparecendo no fim de alguns dias esta bella crystallisação. 2. Com o acido picrico, um precipitado caseiforme, cor de rapé ; como o precedente, produz igualmente, pela eva- poração espontânea do liquido, crystaes amarellos, ramificados. 3. Com o tannino, um precipitado branco, abundante. ADDENDA 823 4.0 Com o chlorureto cie platina,um precipitado abundante, cor de canella ; pela evaporação espontânea formam-se pelotões de finissimos crjstaesamarellos, muito lindos. 5. Com o chlorureto cie ouro, um precipitado semelhante ao precedente ; mais tarde o reactivo é reduzido. 6. Com o bichlorureto de mercúrio, um precipitado branco. 7. Com o iodhydrarg yrato de potássio (react. de Mayer), um precipitado branco. 8. Com o acido phosphomolybdico (react. de Vry), idem. 9. Com o acido sulpho-molybdico (react. de Frõhde), aquecendo-se brandamente a mistura, uma cor vermelha violacea distincta. 10. Com o acido chlorhydrico e depois aciclo sulphurico, a frio, nada ; porém, aquecendo-se, apparece uma cor vermelha violacea, assaz persistente. Cumpre notar que estas duas ultimas reacções devem-se operar sobre oresiduo da evapo- ração do liquido suspeito, e não sobre a sua solução. Empre- gando-se o acido sulphurico só, obtem-se também a mesma coloração, porém sómente nos bordos do residuo em questão, e não em todo elle. Si depois de tratar pelo acido sulphurico, se neutralisar o liquido pelo bicarbonato de sodio, desenvolve-se um cheiro fugaz de almíscar, segundo uns; para Selmi, este cheiro assemelha- se antes ao da flôr de laranjeira ou do espinheiro alvar (?). 11. Com o acido nitrico (actuando igualmente sobre o residuo), uma cor amarella, que augmenta pelo caLr e que no fim de algum tempo, no dia seguinte, emitte um cheiro fraco porém agradavel e persistente. 12-° Com o reactivo de Pellagri, (?) uma cor rosea. B. — Ptomainas obtidas por meio do chloroformio. Seus saes depositam-se com fôrmas crystallinas différentes, quando suas soluções são evaporadas no vacuo da machina pneumática ; o acetato é um dos que fornecem os mais bellos 824 PTOMAINAS crystaes. Elles se apresentam sob a fórma de fusos achatados, sulcados em toda a sua extensão por especies de costuras, com ligeiro pontilhado. Comportam-se com os reactivos acima enumerados do mesmo modo que como as ptomainas ethereas ; mas distinguem-se porque dão também precipitados com o bichromato de potássio e o cyanureto duplo de prata e potássio. Além disso, as fôrmas crystallinas dos precipitados obtidos, quer com o acido picrico, quer com o acido iodhydrico iodurado, differem das dos que as ptomainas ethereas produzem nas mesmas circumstancias, não fallando já no cheiro que estas bases ou seus saes emittem,e que variam conforme a impressão década um. Para as ptomainas deste ultimo grupo, o cheiro é cadavérico segundo Selmi, e analogo ao espermatico para o olfato de outros ; ao passo que as ptomainas chloroformicas ou seus saes cheiram a amêndoas amargas, pelo que, tem pouco valor pratico este caracter. C. — As ptomainas obtidas por meio do álcool amylico são mais complicadas ; deixarei de referir as diversas particulari- dades relativas aos productos comprehendidos neste grupo, para não difíicultar inutilmente o seu estudo, contentando-me em consignar aqui a differença assignalada pelos autores, entre estas ptomainas e as outras duas especies (ethereas e chloro- formicas) . As ptomainas amylicas reduzem o acido iodico em presença do bicarbonato de sodio, dando ao liquido a cor vermelha do iodo livre, que aliás se pôde caracterisar por outros ensaios muito conhecidos. Nenhum dado differencial se póde colher da apreciação do cheiro, nem da observação dos effeitos phy- siologicos, que muito se assemelham aos das outras ptomainas. D. — Ptomainas extrahidas das vísceras antigas, isto é, depois de alguns annos de inhumação, ou então conservadas em um bocal, como nas observações de Gianetti, a quem se deve primeiro o conhecimento desta especie de ptomainas. Segundo Moriggia, os alcaloides cadavéricos se encontram ADDENDA 825 ainda dous mezes depois, pouco mais ou menos da inhu- mação dos corpos. Schweninger e Hammer affirmam que, depois de sete mezes e meio, a matéria putrefacta não tem mais acção nociva sobre os animaes, significando que não encerra mais ptomaina alguma, nesta época de putrefacção. Entretanto, Gianetti conseguiu retirar das visceras que analysou uma substancia tendo os caracteres dos alcaloides cadavéricos ; com cheiro particular, desagradavel, reacção alcalina, verificada nos mesmos vapores que desprende, que se tornam mais abundantes pelo aquecimento, porém que não dão fumaças brancas pela approximação de um bastão molhado em acido chlorhydrico. Submettida á acção dos reactivos especiaes dos alcaloides, comporta-se em geral como as outras ptomainas, e os mesmos effeitos physiologicos e toxicos que determinam no organismo assemelham-se extraordinariamente aos do envenenamento por essas substancias. Deixando de lado as pequenas differenças assignaladas entre as diversas ptomainas, o que não interessa tanto o toxicologista como discriminal-as dos alcaloides vegetaes, e tal é o meu in- tuito principal, occupando-me aqui com este assumpto, passo immediatamente ao estudo desta parte. Deve-se a Brouardel e Boutmy os primeiros ensaios debaixo deste ponto de vista. Partindo do principio, que as ptomainas formam-se mais ordinariamente ao abrigo do contacto do ar, estes dous observadores notáveis previram que ellas deviam go- zar de propriedade reductora, e neste sentido experimentaram sua acção sobre diversos corpos oxygenados, facilmente re- ductiveis (acido nitrico, permanganato de potássio, mistura de acido sulphurico com bichromato de potássio, com peroxydo de manganez ou de baryo, ou finalmente com iodatos), porém sem resultados que confirmassem aquella previsão, até que experimentando-as sobre o prussiato vermelho (ferri-cya- nureto), viram que este sal converte-se rapidamente em prussiato amarello ( ferro-cyanureto ), o que é positi- 826 PTOMAINAS vamente um effeito de reducção. 0 meio pratico de pôr em evi- dencia esta propriedade consiste em addicionar uma ou duas gottas de perchlorureto de ferro, à mistura do cyano-ferrido e da base suspeita ; o sal ferrico não exerce acção alguma sobre este composto cyanico, porém, uma vez reduzido ao estado de ferro-cyanureto fôrma com elle immediatamente o azul da Prussia. Si portanto, procedendo dessa maneira se obtem este resultado, é que a base suspeita é umaptomaina, porquanto, â excepção da atropina e sobretudo da morphina, nenhum outro alcaloide conhecido goza desta propriedade reductora ; e não seria difficil excluir a presença destas duas pelas suas reacções caracteristicas, de que não participam as ptomainas. Tal é a conclusão a que chegaram Brouardel e Boutmy, e que verificaram sempre, em repetidas experiencias, va- riando as condições, de modo a responder ás primeiras duvidas e objecções que lhes foram oppostas ; ensaiando, não sómente no laboratorio com alcaloides puros, mas com productos isola- dos pelo methodo de Stass, deanimaes previamente intoxicados com esses venenos. Apezar dos agentes de alteração que encerra o organismo e das impurezas de que não se póde desembaraçar completamente as bases isoladas, os alcalis vêgetaes não reduzem aquelle reactivo. Além disso, nem os agentes de solução empregados para separar essas bases (álcool, ether, chloroformio, etc.), e nem a pequena quantidade de gelatina e de albumina, que elles dissolvem e acarretam, por não serem absolutamente anhydros, exercem acção alguma sobre o mesmo reactivo. Parecia, pois, descoberta uma reacçâo differencial fidedigna entre as ptomainas e os alcaloides vegetaes, quando surgem novas objecções levantadas por Gautier, Pouchet eBrieger. O pri- meiro demonstrou que essa reacção não ó peculiar e caracte- ristica dos alcaloides da putrefacção, e os dous últimos prova- ram que nem todas as ptomainas possuem aquella propriedade reductora. ADDENDA 827 Em um excellente artigo publicado nos Annaes de Medicina Legal e Hygiene Publica (1881), Arm. Gautier, depois de con- firmar em parte as observações de Brouardel e Boutmy, confessando que a reacção por elles proposta oíFerece um inte- resse pratico muito real, eaugmentando mesmo a listados alca- loides vegetaes, que se comportam differentemente das pto- mainas sob a influencia daquelle reactivo, expende do modo seguinte os resultados de suas experiencias : « Os alcalis vegetaes, para os quaes a reacção indicada parece tornar-se duvidosa são : a hyoscyamina, que enver- dece pela addição successiva dos reactivos e dá uma pequena quantidade de azul da Prussia. A emetina que, depois de algum tempo, dá também um precipitado azul. A igazurina, que dá lentamente um pouco de azul da Prussia. A veratrina, que dá um vestigiodeste producto. A colchicina, que escurece forte- mente pelo ferri-cyanureto e fornece depois com o chlorureto ferrico um precipitado verde. A nicotina, que em solução salina um pouco concentrada enverdece e depois azulecelentamente. A apormorpJiina, que dá também, como a morphina, um abun- dante precipitado de azul da Prussia. « Convém notar, que a maior parte dos alcaloides naturaes reduzem muito lentamente o ferri-cyanureto e dão azul da Prussia. Sómente esta reacção lenta, o que exige muitas horas ou muitos dias, não se poderia, facilmente confundir com a das ptomainas, que é immediata. « E’fóra de duvida que vários outros alcaloides naturaes: umapelletierina, a ergotinina de Tanret, e os tres alcaloides citados por Hesse como reduzindo o reactivo cupro-potassico, etc., devem juntar-se á morphina e ás outras bases de reacção duvidosa, na lista dos alcaloides naturaes, que dão immediata ou lentamente a reacção indicada. « Finalmente, grande numero, sinão a maior parte dos alca- loides artificiaes muito venenosos comportam-se sob a influencia do reactivo em questão, á maneira das ptomainas. 828 PTOMAINAS « Na serie das bases phenylicas : a anilina e a paratolui- ãina, que dão lentamente azul, da Prussia ; a methylanilina, que fornece um precipitado azul, immediato; a diphenylamina, que dá também o mesmo precipitado. « A naphtylamina, que dá igualmente o precipitado azul. « Na serie das bases pyridicas eseus derivados: « A pyridina, que azulece lentamente pela acção daquelle reactivo. « A collidina e a isodipyridina que produzem lentamente a mesma reacção. « A hydro-collidina que dá promptamente o precipitado azul. « Emfim, em duas series differentes das precedentes: « A diallyleno-diamina e a acetonamina, que rapida ou lentamente formam o azul da Prussia. « Vê-se, pois, accrescentam os citados autores, quanto a allu- dida reacção é geral; ella não serve para caracterisar a origem cadavérica de um alcaloide, porque é commum a muitas bases phenylicas, pyridicas, hydropyridicas, allylicas, acetonicas e certamente aldehydicas. A maior parte destes alcaloides são, como as ptomainas, muito venenosos, e alguns teem ás vezes produzido graves accidentes, e mesmo acarretado á morte 1 ». A’ vista destas objecções não descansaram aquelles experi- mentadores, e continuando os seus estudos descobriram mais um reactivo para as ptomainas: o bromureto de prata, queé igualmentente reduzido por ellas e não pelos alcalis ve- getaes. Pratica-se o ensaio do modo seguinte: Sobre um papel impregnado de bromureto de prata, prepa- rado como se emprega em photographia, traça-se com uma penna de ave, molhada na solução salina da base extrahida do 1 Weffers Bettinck e Van Dissel propuzeram modificar este reactivo misturando acido chlorhydrico, chlorureto ferrico, anhydride chromica e ferro cyanureto de potássio. Segundo esses autores, assim preparado, esse reactivo daria azul da Prussia com todas as ptomainas, e não com qualquer dos alcalis vegetaes, excepto unicamente a morphina. ADDENDA 829 cadaver, uma ou mais palavras, por exemplo a palavra pto- maina, e o nome do alcaloide com que ella mais se assemelha, e guarda-se o papel no escuro da luz. No fim de meia hora, pouco mais ou menos, lava-se-o com uma solução de hyposul- phito de sodio, depois com agua. Si as palavras se desenham sobre o papel branco, como si ellas fossem escriptas com tinta, isso indica a existência, no liquido, de uma ptomaina que re- duziu o bromureto, nos pontos de contacto, á prata metallica. Si nenhum traço apparece, ou é tão apagado que nem se pôde ler, é signal da presença de um alcali vegetal, ou mais correcta- mente, da ausência de ptomaina. Como, porém, pôde succeder que coexistam em uma pesquiza toxicologica bases das duas especies, os autores do processo propoem modifical-o da maneira seguinte: Por meio de uma so- lução de iodhydrargyrato de potássio dósa-se a quantidade de base existente no liquido a analysar, sem distincção de origem. Depois, servindo-se de uma solução pura e titulada do alcali vegetal, escreve-se o seu nome sobre o papel bromuretado, ao lado do mesmo nome escripto com a mistura das duas bases; após o tratamento acima referido, reconhece-se que a base pura, to- mada como termo de comparação, não deixou traço algum sobre o papel, ao passo que a mistura dos dous alcalis produz um traço tanto mais patente e visivel, quanto mais cresce a pro- porção de ptomaina. Quanto ás leucomainas, limitar-me-hei a algumas breves palavras, porquanto seu estudo escapa ao domínio da toxico- logia. Lembrarei apenas com Chapuis que desde muito tempo se sabe que nos líquidos physiologicos e sob a influencia de fer- mentações normaes ou anormaes dos tecidos, formam-se bases organicas. Em 1849 Liebig, primeiro, e depois Pettenkoffer, descobriram a creatinina na urina do homem e do cão. Depois 830 PTOMAINAS Gautier extrahiu alcaloides da saliva; Pouchet também os re- tirou da urina, e Bouchard os entreviu nas matérias fecaes, como o resultado das fermentações intestinaes. A presença de alcaloides da fermentação foi verificada por Yillers, que declara nunca ter encontrado leucomainas na urina dos indivíduos sãos ; ao contrario, nas urinas pathologicas, assim como nas dejecções dos cholericos, elle reconheceu a pre- sença de um alcaloide, cujo chlorhydrato, crystallisado, de sabor acre, cheiro de espinheiro, apresentava todas as reacções das ptomainas. Pouchet confirmou estas observações, verifi- cando mais, que essas reacções se encontravam igualmente nos caldos de cultura pura do microbio de Koch. Póde-se dizer que, em geral, todos os tecidos animaes pos- suem esta funcção importante—a fabricação incessante de alca- loides produzidos á custa dos princípios proteicos, ao mesmo tempo que se fôrma uròa e gaz carbonico. Todos esses alcaloi- des são dotados de umaacção mais ou menos poderosa sobre os centros nervosos, mas, em todo caso, menos energicos de que as ptomainas. Em quanto se imprimia esta obra, o com o progresso quo- tidiano dos estudos toxicologicos, novos conhecimentos fui encontrando nos livros ejornaes que se teem publicado depois, e que serão aproveitados em outra edição. Não posso, porem, furtar-me ao desejo de assignalar desde já dous factos, que julgo dignos de menção, pela sua im- portância. Um refere-se ao bello e recente trabalho de Regnier sobre a intoxicação chronica pela morphina e suas diversas formas, no qual elle ajunta novos e interessantes desenvolvimentos ADDENDA 831 sobre este assumpto, colhidos na historia clinica de 67 observa- ções, consignadas nessa monographia, que já veio tarde para delia nos utilisarmos na parte consagrada ao estudo desta into- xicação . Outro facto é relativo a um processo novo de destruição de matéria organica, descoberto pelo Dr. Souza Lopes, adjunto da minha cadeira, e que deve fazer o objecto de um artigo por elleescripto para o proximo numero da Revista cios cursos práticos c lheoricos da Faculdade. Em virtude da demora que tem havido na publicação desse numero da Revista, e com o intuito de adiantar a noticia da sua descoberta, elle extrahiu uma nota, que fez publicar na Gazeta de Noticias, e outra, cuja inserção faço gostosamente neste meu tratado, ainda que fóra do artigo em que devia ser intercalado. Este processo, que destróe completamente a matéria orga- nica em um prazo relativamente curto, pois bastam tresa quatro horas, e applica-se à pesquiza de todos os venenos metallicos, basêa-se no emprego do nitrato de magnésio, que tem sobre os outros nitratos a vantagem de queimar a matéria organica silenciosamente, sem deflagração e em temperatura relativa- mente baixa. Não tendo aqui espaço para transcrever por inteiro a nota que recebi do distincto collega, assignalarei apenas os pontos capitaes do seu processo. Elle manda tratar primeiro as matérias orgânicas (100 grs.) por 200 de acido azotico tendo em dissolução 20 grs. de bi- phosphato de sodio; juntar depois por pequenas porções 5 grs. de chlorato de potássio, e por fim, depois de terminada a reacção provocada por este agente, addicionar 50 grs. de carbonato de magnésio, que fôrma com a porção não decomposta do acido azotico o azotato de magnésio. E’ este corpo que, aquecido fortemente, mesmo dentro da retorta, onde elle se fôrma, completa a incineração da matéria organica, reduzin- do-a a um pô ínteiramente branco. 832 PTOMAINAS 0 chlorato de potássio, pelo seu chloro, destroe uma matéria corante que, escapando à acção deste agente, appareceria nas cinzas sob a fôrma de pontos carbonisados. O bi-phosphato de sodio impede a formação da espuma, bem como a deflagração das matérias. Nas cinzas deve-se encontrar qualquer dos venenos metalli- cos, excepto o mercúrio, que separa-se com o liquido distillado, ou condensa-se nas paredes do apparelho. zztjzzcz: Paos. INTRODUCÇÃO III PRIMEIRA PARTE : GENERALIDADES Definição de veneno 5 Esboço historico 11 Modo de acção dos venenos 22 Eliminação dos venenos 31 Lei atómica ou thermica 37 Symptomatologia, anatomia palhologica e therapeutica geral 44 Classificação dos venenos 63 Chimica toxicologica 75 Processos geraes da destruição da matéria organica 82 Dialyse de Graham 101 Processos chimicos de separação dos venenos 106 Marcha geral da analyse toxicologica 114 Experimentação physiologica 124 SEGUNDA PARTE : ESTUDO ESPECIAL DE CADA VENENO Venenos irritantes, acres e corrosivos 133 Envenenamento pelo acido sulfurico 136 — pelos ácidos nitrico e chlorhydrico 153 — pelos alcalis cáusticos 170 Pags. Venenos hematicos 189 Envenenamento pelo phosphoro 192 — pelo arsénico 223 — pelo acido oxalico e sal de azedas 281 Venenos neuro-hematicos 298 Envenenamento pelo acido phenico 298 — pelo álcool 311 — pelo oxydo de carbono 351 — pelo acido sulphydrico 371 Venenos neuro ticos 407 Envenenamento pelo aconito 408 — pela cicuta 423 — pelo curare 431 — pela strychnina 457 — pelo chloroformio 492 — pelo opio e morphina 515 Venenos neuro-myoticos 558 Envenenamento pela belladona 558 — pelo fumo 589 — pelo chumbo 624 — pelo antimonio 663 — pela digitalis 683 Venenos myoticos 715 Envenenamento pelas colchicaceas 715 — pelo cobre 732 — pelo mercúrio 762 ADDENDA Ptomainas 809 ERRATA Relendo pela ultima vez o meu tratado de toxicologia já depois de prompto e encadernado, encontrei grande numero de faltas que passaram despercebidas, algumas das quaes carecem de corrigenda; é isso que me proponho fazer nesta folha separada, que offereço aos que já possuirem o referido tratado, e acompanhará cada um dos exemplares que ainda se acham á venda. Pag. 62 — No quadro de indicação therapeutica, colloque-se a essencia de terebenthina entre os neutralizantes e não entre os precipitantes. » 253 — Ultima linha—Em vez de azotato, leia-se azotito. » 309 — Linha 13 — Em vez de carbolico, leia-se carboazotico. » 347 — » 25—Em vez de alcali, leia-se acetato alcalino. » 381 — » 26 — Em vez de inspiração, leia-se expiração. » 468 — » 25 — Em vez de hyperhemia, leia-se hyperthermia. » 482 — » 11 — Em vez de mussivo, Jeia-se mosaico. » 554 — » 33 — Em vez de dous, leia-se tres. » 622 — » 6 — Em vez de. azotato, leia-se oxalato. » 654 — » 3 — Em vez de derivados, leia-se preparados. » 658 — » 33—Em vez de alcalino, leia-se plumbico. » 729 — » 28—Em vez de veratrina, leia-se veratridina. » 760 — » 29 e 30 — Em vez de—sobre o qual se enrola outro, leia-se que se enrola sobre outro.