MORTALIDADE das creanças EM SÃO PAULO (CONSELHOS ÁS MÀES DE FAMÍLIA) PELO DR JOÃO TEIXEIRA ALVARES DA FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO, MEMBRO DA SOCIEDADE OBSTÉTRICA DE FRANÇA ETC. S. PAULO TYPOGRAPHIA CARLOS GERKE & Cia. 1894 DR- JOÃO TEIXEIRA ALVARES MORTALIDADE DAS CREANÇAS EM SÂO PADLO MORTALIDADE DAS CREANÇAS EM SÃO PAULO (CONSELHOS ÁS MÃES DE FAMÍLIA) PELO DR JOÂO TEIXEIRA ALVARES DA FACULDADE DE MEDICINA DO RIO*Ófe JANEIRO, MEMBRO DA SOCIEDADE OBSTÉTRICA DE FRANÇA ETC. S. PAULO TYPOGRAPHIA CARLOS GERKE & Cia. 1894 INTR0DUCÇÃ0 Assoberba o meu espirito mágua pungentissima, ao iniciar os primeiros traçados deste humilde trabalho, frágil rebento fia minha grande vontade de prestar serviço, tenue que seja, á esta patria idolatrada. Meus olhos tristes se extendem por sobre esta immensa superfície de 8 milhões de kilometros quadrados, onde a Na- tureza dispoz, como em vasta exposição, arranjada para assom- brar o mundo, tudo quanto de precioso pode irromper de seu seio de maravilhas. Eu vejo, desde as cumiadas de Pacaraima até ás margens do Guarahim, os famosos pavilhões da perenne exposição de brazilicas grandezas. Eu os vejo, extasiado de dor e de orgulho, virgens e im- productivos, como nos tempos em que a Egeria das nossas sombrias florestas povoava com elles a imaginação do heroico sonhador de Génova e do sublime Patrício da Communa Floren- tina, acenando-lhes de longe com o Mundo transatlântico. Eu os vejo grandes como outrora, grandes ainda hoje. Na galeria do norte se destaca o feerico pavilhão das plantas preciosas, o «Sertum palmarum». Ahi, munia extensão de 66,300 léguas quadradas, as flores- tas se desenrollam, as veigas e as cordilheiras, umas apoz outras, se desdobram como mutações fantasticas. 6 E’ lá o Hesperides da America, é o horto das palmeiras. Si os poetas biblicos tivessem habitado as plagas de Yes- pucio e Colombo, o Eden terreal não teria sido descripto onde correm o Physon, o Geon, o Tigre e o Enphrates, tol-o-iam assignalado no benefico torrão onde serpeia o grande Amazonas. Ahi, as orchidéas se entrelaçam nas palmeiras e nos jequi- tibás. Só ellas occupariam a vida de abalisado botânico. As madeiras de construcção, as arvores de productos pre- ciosos, abasteceriam todos os mercados do mundo, si fossem aproveitadas. De longe, olhares ávidos penetram neste ninho de opulenta verdura e consideram com inveja este aureo filão, onde, si levas de homens civilisados penetrassem com a vida e o tra- balho, despertariam riquezas enormes secularmente adormecidas. Na fachada Occidental ostenta-se a ora dos tempos prehis- toricos: Matto Grosso; neste vasto lençol de 50,175 léguas qua- dradas ha regiões onde jamais pisou o pó humano, enormissimas extensões ha entregues aos selvicolas; paiz virgem, de impene- tráveis bosques, em que o homem moderno -podo apreciar a Natureza nas mãos do Creador. Suas opimas pastagens estão cobertas de gado bravio, que vagueia atoa n’uma amplidão intérmina de verdura. A messe fecunda do plantas medicinaes, que ahi se podia colher, daria para carregar navios. O solo, vasta jazida metalúrgica, em que os mais pre- ciosos specimens brilham á superfície da terra, daria trabalho, durante dezenas de annos, ás usinas da Europa inteira. Inexgottaveis thesouros! Assombrosa fertilidade! Kegio donativo! No famoso e ignoto pavilhão central quantas riquezas! Que accervo de divinas prodigalidades! Goyaz, «a mais bella Mesopotamia do mundo» com 500 léguas de costas fluviaes e 26,000 léguas quadradas de super- fície, e o monumental Athleta, Genio do ouro, adormecido niim solo juncado de pérolas; seus cabellos fluctuam até o Amazonas, seu braço direito mergulha no Araguaya, o esquerdo no To- 7 cantins, os pés são afagados pelas brandas aguas do Paranahyba. A serra do Estrondo e a Cordilheira Grande são o dorso do enorme colosso. Goyaz é o coração da Patria, 6 o Brazil-Central; lá quiz o destino da creação accumular inauditos favores, mananciaes perennes de progresso, profusas minas argenteas. As margens do Araguaya encerram riquezas como actual- mente não existem em paiz algum do orbe. A Flora e a Fauna se disputam a primasia; nenhum jardim do mundo, nem as mais favorecidas paragens, podem rival isar com as bellezas das margens do Araguaya. Madeiras as mais preciosas, plantas medicinaes em pro- fusão, fructos raros, aves aquaticas das mais lindas plumagens, tudo existe alli como attestado vivo das magnificências destas paragens encantadas. Quando o sol engrinalda o pico das montanhas e seus raios quentes mordem o dorso das bestas naquellas paragens cal idas, ouve-se o rugir da panthera e do tigre, ao mesmo tempo que o suave murmurio do bosque, onde myriades de passares desconhecidos hypnotisam o viajor com as suas meló- dicas symphonias, ao som da inubia e á voz convulsa do pagc convidando as hordas aos festins canibaes. Tudo alli ó grandioso, o homem naquelle descommunal labyrintho de florestas sente-se pequeno, sente-se verme que rasteja. E’ nas margens poéticas do formoso caudal que o homem que reflecte vê no nosso torrão o património da Humanidade. Minas de amiantho c de kaolim, minas do crystal, jazidas de mangauez, jazidas de ferro e de mica, minas ubérrimas d’ouro, encontram-se nos 4 pontos cardeaes dessa esteira de preciosidades. E nem digam que exagero aquelles que não estudam, ([iie não viajam e desconhecem completamente o nosso paiz; provem minhas palavras Couto de Magalhaes, Leite Moraes, Saint-Hilaire e muitos outros. Além desses trez enormes domínios, que, reunidos, são tão grandes como quasi metade da Europa, lia ainda 1800 léguas 8 de costas, immenso ancoradoiro, que, do cabo de Orange ao Arroyo Cluiy, ofierece ao extrangeiro cem portas de entrada. Tudo 6 grande, 6 exacto, na bella exposição, deserta entre- tanto ! Nós não vemos no monumental Trocadero o assombroso concurso do mundo vivo, representado pelos filhos das nações civilisadas do Orbe. O silencio e o abandono nos invadem. A’ nossa festa de folhagens, fructos, ouro e pérolas, nin- guém concorre. O concerto do trabalho não ó aqui ouvido. Como visitantes dos nossos thesouros apenas vemos os seus guardas naturaes, que em torno dansam, enviando aos echos longínquos as cantilenas plangentes da Taba. Parece haver um fatídico nevoeiro, que envolvendo o nosso littoral, como em negro lençol, dá-nos o aspecto de tumulo. Parece que perenne simoun, torrido sirocco, abrazam as nossas plagas. Parece haver em torno de nós uma athmosphera de Ne- cropole, que a todos afugenta; dir-se-ia que a baliia do Guana- bara, a formosa, seja a entrada da lagoa Styge. Qual a causa de tão injustq indifferença? A causa reside na insalubridade das nossas grandes capi- tães, insalubridade exagerada, centuplicada pelos maldizentes de nossa terra, E’ a febre amarella, que apenas fere alguns pontos do littoral, e que na Europa se acredita dominar a Pathologia de todo o paiz, que afugenta do nosso seio os habitantes do antigo continente, que aqui deviam estar presentes ao convívio das nossas magnificências. Desmentir, pois, estas calumnias, que chegam ás margens do Sena como pestifero Estival americano, deve ser o acendrado afan de todos os brazileiros, principalmente da classe medica. «A terra foi dada ao homem, diz Cândido Mendes, para lhe proporcionar com o trabalho, os meios, de bem servir a Deus, de acudir e superar ás próprias necessidades e nunca 9 para fruil-a egoisticamente. E’ mister que dos dons que pos- suímos instruamos nossos semelhantes que vivem em outras regiões, para que também comnosco permutem os que lhe couberam em sorte e de que temos necessidade; ou venham ajudar-nos a colher a nossa herança, si houver que restolhar. Felizmente podemos acolher com os braços bem abertos todos os que nos demandarem: tão inexgottaveis são as riquezas do nosso solo! — Façamos si for possível cada vez mais conhe- cidas as nossas formosas plagas aos povos irmãos de todos os ângulos do nosso planeta, convidemol-os de um modo cortez e animador a virem auxiliar-nos no amanho deste grande e opu- lento património.»1) Nós, o mais humilde representante do corpo medico nesta Capital, no intuito de concorrer á patriótica Cruzada, que tem por bandeira promover a salubridade do nosso torrão, tomamos aos nossos hombros o estudo das causas da mor- talidade das creanças em 8. Paulo, tarefa superior ás nossas forças, estudo de grande interesse, que será apenas, nestas paginas, o grito de alarma das creancinhas que succumbem, que des- pertará os doutos e os competentes do indifferentismo para vir-lhes em socorro com as verdadeiras luzes dos seus espíritos. Ha muito que a enorme mortalidade das creanças em São Paulo tem chamado a attenção da população e dos clínicos. He 1892 para cá, anno em que o obituário infantil foi verdadeiramente pavoroso, estas apprehensões têm-se transformado em clamor da parte das Famílias e dos Médicos. A Illustrada e Benemerita Directoria de Hygiene Publica, a cargo successivamente de dous emeritos clínicos: Drs. Sérgio Meira e Silva Pinto, fez subir ao conhecimento do Governo a estatística de 92. Pedem-se providencias. O cargo de Ministro do Interior, em boa hora, confiado x) Cândido Mendes — Atlas do Brazil. 10 ao Snr. Dr. Cozario Motta, está em mãos de um medico instruído, animado das mais salutares e patrióticas intençoas. Sua Ex. nomeia uma commissão composta de notáveis Pro- tissionaes e contia-lhes o estudo do temeroso e difficil problema. A Commissão apresentou o seu parecer que lastimamos deveras não ter sido publicado nos jornaes diários ou dado á luz em folhetos, para primeiro guia das famílias, antes que serias providencias sejam tomadas pelo Governo e pela Hvgiene publica. Recem-chegado da Europa á esta Capital, onde fixei residência, assisti desde logo muitas creanças succumbirem a meu lado em minha clinica. Ouvindo a cada passo as graves confidencias do abalisados especialistas de Pediatria, o estudo das causas da mortalidade das creanças em S. Paulo seduziu-nos desde logo e immedia- tamente tomamos o encargo de escrever alguma cousa a res- peito desta momentosa questão de Pathologia que servisse do sobre-aviso aos interessados. Este folheto representa, pois, o fructo de muitos mezes de estu- do do assumpto, eu o offereço ás mãos do família do S. Paulo. Julgar-me-ei altamente feliz em poder fornecer-lhes os primeiros reductos com que possam cercar e defender os cân- didos berços dos seus innocentes filhinhos contra as settas da morte; mais tarde, poderosas fortalezas substituirão estas simples palissadas, levantal-as-ão intelligencias mais potentes. Nesse tempo, ainda ao meu humilde trabalho restará o mérito do incentivo. Procurei escrevel-o ao alcance de todos, clle é o resumo do que de mais importante disseram os Mestres, d’aquillo que de mais proveitoso aconselham a Therapeutica e a Obstétrica modernas. E’ um livro para as Famílias, escripto para o povo, sua linguagem ó chan, sou estylo se afasta completamente da technologia scientifica e compendiaria. Ao povo peço que o leia, aos collegas que o corrijam. Dr. João Teixeira. S. Paulo, Junho de 1894. CAPITULO I. Xoçõcs prclimin arcs. Smnmario: — Capital de 8. Paulo — posição geographica — S. Paulo moderno — habitações — ruas — costumes — immigração.— augmento rá- pido da população — encombrement — seus perigos — defeitos da hygiene - aguas — exgottos — estudo do solo e da athmosphera — Constituição medica de S. Paulo — Impaludismo — Febre amarella — medidas a tomar. 0 estado de S. Paulo, um dos mais prosperes da Repu- blica , com 10,300 léguas quadradas de superfície e 90 de littoral, tem a sua bella capital ao Norte, situada ás margens do Tamandatehy; banha os seus arrebaldes o magestoso Tietê. O Tamandatehy divide a cidade nTima parte plana con- stituída pelo arrebalde do Braz e suas cercanias e uma parte accidentada, que forma o centro do commercio e extende-se pelo bairro da Liberdade e suas adjacências. Em 1884, ha 10*annos atraz, a população da capital de S. Paulo era de 20,000 habitantes, hoje ella sobe a 150,000, preponderando o elemento extrangeiro, principalmente o italiano. O ardente patriotismo dos Paulistas, a actividade com que souberam conquistar a vanguarda do progresso brazileiro, abriram os braços do poderoso Estado para receber, n’um só amplexo, os habitantes das diversas nações do mundo; assim se 12 explica o augmento rápido e pasmoso da população, que tantos inconvenientes devia trazer á saúde publica. A superfice da cidade tem sido também consideravelmente alargada, do 1884 para cá pode-se afirmar que 6 do triplo o seu augmento. Numerosas construcções tem-se feito; mas, infelizmente para a salubridade geral, o augmento das habitações está muito longe de corresponder ao augmento da população. Observa-se na capital um verdadeiro encombrement, que tem elevado o aluguer das casas a preços verdadeiramente fabulosos. E’ também ao rápido crescimento do numero de habi- tantes que 6 devido o aspecto inacabado da cidade, que tão mal impressiona os recem-chegados. A falta de casas e a especulação commercial que d’ahi resultou fizerão com que as construcções se precipitassem de uma maneira vertiginosa; o Governo ou a Municipalidade não po- dendo acompanhar pari passa os proprietários, como era mister, d’isso proveio o vermos ruas inteiras, bordadas de palacios de um lado e de outro, sem calçamento; bairros extensos onde a falta d’agua 6 manifesta; numerosas ruas do centro da cidade desprovidas de systema de exgottos, etc. Graças, porem, a actividade empregada pelos poderes com- petentes é de esperar que todos estes inconvenientes desappa- reçam e que dentro de alguns annos S. Paulo venha a ser a primeira cidade da America do Sul. As bazes sobre que ella se assenta não são más, ás novas construcções têm presidido disposições regulamentares da Muni- cipalidade em ordem a harmonisar sua planta. Assim a maior parte das ruas é larga e bem alinhada;*o gosto das edificações, estylo italiano moderno, 6 o mais lindo e variado possível. Em breves tempos S. Paulo apresentará um aspecto agra- dabilíssimo, e principalmente moderno, pois aqui não se ob- servará o quadro triste das grandes cidades européas cujas ruas, compostas de grande edifícios uniformes e ennegrecidos pelos annos, apresentam lugubre feição. 13 0 asseio da cidade deixa, entretanto, muito a desejar. As Directorias de Hygiene publica, que têm se succedido •durante a transformação brusca da capital, mantiveram-se na altura da confiança que o publico nellas depositou; seus es- forços para melhorar o estado sanitario da cidade são grandes, entretanto lia muita cousa a fazer ainda: a limpeza da cidade está muito longe do desideratum da Hygiene escrupulosa e faltam-lhe condições de embellezamento indispensáveis. Ahi está todo o bairro do Braz, onde tem-se agglomerado a maior parte da colonia italiana, em que o transito é im- possível devido á lama e á falta de calçamento das ruas. Ahi está, sem drainage nem caes, a varzea do Gazometro atravessada pelo Tamandatehy e transformada em lavanderia, verdadeiro pantanal. Ahi estão os fundos das ruas do Carmo, do Hospício, La- deira do Carmo, convento do Carmo, pestilentas esterqueiras servindo em grande extensão para plantio de capim e deposito de lixo, verdadeiros paúes no centro da cidade, no coração do commercio!! A margem esquerda do Tamandatehy, na parte que corre- sponde ao Hospício de alienados e á ladeira do Tabatinguéra, é de uma immundicie revoltante. A esplanada da Mooca é um vasto brejal infestado pelo impaludismo, que torna este bairro dos mais insalubres. As numerosas vias ferreas que atravessam as nossas florestas abatidas pelas mãos do colonno e transformadas em pingues plantios; as enormes riquezas do Estado de S. Paulo, explo- radas e por se explorar, o ardor patriótico dos paulistas, que não cessam de fazer fructificar o nosso fertilíssimo solo, são penhor seguro de fontes de renda, que, em breve, fornecerão recursos sufficientes para todos estes indispensáveis saneamentos. Não é nossa intenção, de modo algum, descrever nem fazer estudos especiaes do clima de S. Paulo, seu solo, sua athmos- phera, etc. attento ao programma deste pequeno trabalho cujo unico fim ó frisar as causas da mortalidade das creanças nesta 14 capital. Apenas diremos o indispensável para a comprehensão do que vae seguir. Os mais notáveis engenheiros, que têm feito estudos es- peciaes sobre a questão, reconhecem que o solo sobre que se assenta a cidade de S. Paulo é impermeável na sua maior ex- tensão, turfoso em alguns pontos. Sua altitude barométrica media é de 705 metros acima do nivel do mar. «Como cidade de planalto (Dr. Theodoro de Sampaio) tem o clima das regiões altas nas visinhanças dos tropicos: os- cillando a temperatura entre os seguintes extremos: 34,8° e 4,4°; sendo a media amiual da temperatura de 19,2°. Humi- dade relativa 85,02. Os ventos dominantes são os de S. E. com 16,4% de frequência e os de N. O. com 9,27%. As chuvas regulam por uma media annual de 1318,2m não sendo raras as chuvas torreneiaes como a de 10 de Fevereiro de 1891 fornecendo 110 millimetros em 24 horas. Goza-se, pois, em S. Paulo de um clima temperado, e que seria dos mais saudá- veis, si não fosse a grande dose de humidade do ar e os graves defeitos provenientes do rápido desenvolvimento da cidade.» Está na consciência dos habitantes da capital a humidade do ar de S. Paulo. A’ observação popular seguiram-se interes- santes estudos, e hoje é convicção geral que a humidade ath- mospherica domina a constituição medica da cidade. Ainda a 19 de Dezembro proximo passado, o Dr. Torquato Tapajós, um dos bellos talentos da engenharia brazileira, con- vocou a classe medica para uma reunião no Club Germania, onde leu, em presença de selecta sociedade, um capitulo da interessante obra de Hygiene, que vae publicar, referente a S. Paulo. O illustre engenheiro, occupando-se da mortalidade enorme das creanças em S. Paulo, a attribue á humidade athmospherica. Parodiando uma phrase inspirada disse elle: «Para que pro- curar sob os nossos pés aquilllo que está acima das nossas cabeças. E’ o ar e não o solo de S. Paulo que ó preciso drenar». 15 A humidade athmospherica 6 accarretada, na sua opinião, que nos parece sensata, pelas correntes aereas sobretudo os ventos alizios. Observa-se em S. Paulo, como em quasi todo o Brazil, duas estações perfeitamente limitadas: o Inverno ou estação fria, que começa em Abril e termina em fim de Setembro e o Verão ou tempo de calor, que se extende de Outubro a fim de Março do anuo seguinte. De sorte que, como a humi- dade athmospherica persiste sempre, temos 6 mezes de frio húmido e G mezes de calor húmido. O Inverno, além disso, não ó uniforme, a temperatura de São Paulo é extremamente variavel. ISfão é raro observar-se á tarde ou á noite 25° centígrados e na manhan seguinte o thermometro marcar 15°. Mesmo durante o dia são muito frequentes as oscillaçõos thermicas. E’ essa humidade constante, essa variação thermometrica que caracterisa a constituição medica de S. Paulo, a nosso ver, e constitue seu fundo pathologico. S. Paulo é um dos pontos mais frios do Brazil; no In- verno o thermometro algumas vezes chega baixar a 0 o. O estado hygrometrico do ar dá logar nesta estação a formação de nevoeiros, denominados Garôa, que cabem em forma de chuva finíssima e gelada humedecendo o solo. O estado hygrometrico do ar, isoladamente, tomado á parte, pouca influencia teria sobre a saude, como confessam os hygie- nistas, é ás suas associações que se deve ligar a maior impor- tância; a humidade athmospherica está ligada á humidade do solo, ás aguas superficiaes e ás toalhas d’agua subterrâneas. Segundo a opinião dos mais notáveis hygienistas ha um grande exagero em attribuir-se as graves phlegmasias do ap- parelho respiratório, as manifestações rheumatismaes, á associação da humidade ao frio; estas affecçoes tanto se observam no frio húmido como no frio secco. O mal está na falta de uniformidade e no desequilíbrio constante da temperatura. 16 A associação da humidade ao calor é que torna-se a mais perigosa fonte de moléstias em S. Paulo. Devemos mesmo attribuir em grande parte ao frio a cir- cumstancia de ter sido São Paulo poupada até hoje pela febre amarella, (pie aqui ainda não conseguiu lançar suas fatídicas raizes. Não si pode deixar de admittir que neste facto influa esta circumstaucia climatérica, porque condições para o desenvol- vimento do mal encontram-se em S. Paulo nos quatro pontos cardeaes: a população compõe-se na sua maior parte de extran- geiros, para os quaes a receptividade é considerável, além disso, aqui, mais ainda do que no Rio de Janeiro, se notam agglomerações de muitas famílias em espaço mui limitado, cre- ando o encombrement, que tudo vicia. Os immigrados de certas nacionalidades vivem em habi- tações tão immundas que causam horror. Além disso, S. Paulo está em constante commercio com Santos, a mais perigosa retorta do Typlio de Sião no território pátrio. O frio, impedindo as fermentações activas durante mezes, torna os diversos meios: solo, ar, etc. impróprios á vida do germen especifico da moléstia; quando disponta o Verão, que as fermentações se desenvolvem, os microbios estão extinctos ou enfraquecidos, e aquelles que são novamente importados não chegam a constituir focos, devido ao pouco tempo favoravel ao seu desenvolvimento de que dispõem, pois a epidemia rei- nando em Santos e Rio de Janeiro 4 mezes, a começar de Fevereiro, logo ó abafada aqui pelo abaixamento da temperatura, que em Maio já ô bem notável. E tanto é real este facto que no Rio de Janeiro, onde não se observa frio egual ao de S. Paulo, logo que se inicia o mez de Junho, benefico portador de um leve abaixamento de temperatura, a epidemia cessa. O frio pois tem uma extraordinária influencia sobre os meios de cultura do micrococcus-freiri. Entretanto, não devemos muito confiar nesta isenção para 17 cruzarmos os braços em face da immundicie, porque, elevada ao seu auge, ella pode, mesmo no curto espaço de tempo em que estamos aptos para hospedar o microbio, desenvolvel-o com tamanha virulência que elle a tudo resista e a epidemia se constitua. Campinas, até certo ponto, bazeando-se nas mesmas condi- ções do grande abaixamento de temperatura, devia gozar da mesma immunidade que São Paulo; entretanto a epidemia lá penetrou e fixou-se, devido ao nenhum asseio da cidade, á falta d’agua e de exgottos e ao aecumulo de matérias fecaes em fossos cavados ao pé das cisternas d’agua de serventia. Já, em Março do anno passado, foram observados nesta capital alguns casos de febre amarella, em que a moléstia foi adiquirida aqui, por meio de contagio; reputo isto de péssimo agouro. E’ minha intenção, dando á luz estes factos, contribuir com o meu grito de alarma para que todos os esforços se con- greguem afim de afastar desta bella cidade, refugio benefico da immigração, o terrivel flagello. Dissemos que a humidade athmospherica, unida a humi- dade do solo e ao calor, dominavam a constituição medica de S. Paulo. Mas sob que forma ou, antes, de que forma revestem-se a humidade e o calor para imprimir um fácies determinado á maioria das moléstias em S. Paulo? Os tres fagellos que maior numero de victimas têm rou- bado á humanidade tiveram o seu berço nas margens de grandes rios: a Peste no Mio, o Cholera no Ganges e a Febre amarella no Missisipe. Força é confessar que um quarto flagello, dizimador de tantas victimas quanto os precedentes, a Malaria, tem, sinão a sua origem, pelo menos a sua principal retorta de venenos no leito do Amazonas, o maior Rio do mundo de que se ufana a nossa hydrographia. A enorme centopéa, «moderna hydra dos paúes» extende 18 as suas garras pelo mundo inteiro e nenhum paiz ha que es- cape á acção deleterea de seu hálito morbigeno. O simoun de seu bafejo se faz sentir nos valles e nas collinas, nos polos e no equador, nas regiões frigidíssimas e nos paizes cálidos. A Sibéria e a índia, a Inglaterra e o Senegal, Paris e Calcutá todos pagam tributo ao mau Genio das maremnas. ]STa Amercia do Norte e na America do Sul quantos mi- lhares de victimas! Que hecatombe! No immenso valle do Amazonas quantas vidas ceifadas! São de data recente as preciosas existências aniquiladas nos alagadiços de Madeira e Mammoré por occasião de levantar-se a planta da projectada via ferrea cujos estudos se suspen- deram por impossibilidade. Eu observei dous individuos que tiveram a inaudita felici- dade de voltar com vida da ultima commissão enviada áquellas insalubres paragens: um medico, o Snr. Dr. Nabuco, e um escrevente, de nome Godinho, natural de Go}raz. Ambos eram de um moreno rosado ao partirem; de volta, a tez era cor de cera da terra, ou de cadaver de indivíduo fallecido de febre amarella; o ventre crescido o asymetrico, devido a considerável saliência que o figado fazia do lado direito do abdómen; as mãos magras e ossudas, as unhas cor de óca; os olhos baços, sem brilho; a lingua verde-negra, a esclerotica tinta de amarello enfumaçado, a pelle secca e barrenta; dir-se-ia que nas veias corria-lhes a lama dos paúes. O escrevente suc- cunibiu, do Snr. Dr. Nabucco não tive mais noticias. Pois bem! infelizmente não ó só o valle do Amazonas o infeccionado; as duas mais importantes cidades do Brazil: uma quente, Eio de Janeiro, e outra fria, S. Paulo, possuem em seu solo não pequena parcella de germen malarico. O calor e a humidade, os dous grandes factores das fer- mentações e decomposições organicas, existem em S. Paulo durante 6 mezes; n’este tempo, o solo da cidade transforma-se em colossal alambique, distillador de venenos palustres, e as formas as mais graves do impaludismo são entre nós observadas. 19 No dia 29 de Dezembro, proximo passado, vi morrer na minha casa de saude, em menos de 48 horas, um italiano, victima de febre perniciosa diaphoretica, forma das mais perigosas e raras. A primeira vista, julguei que se tratava de um fortíssimo accesso de asthma, o doente apresentava o aspecto lugubre e desolador do que está succimibindo á violenta asphixia: suores profusos e frios banhavam-lhe a fronte e todo o corpo, os ca- bellos lmmidos apegados ás têmporas, orthopnóa; os lábios e as unhas azues, cyanose, pulso filiforme, estertores bronchicos. O illustrado collega, Snr. Dr. Athur de Azevedo, que viu o emfermo commigo, ao mesmo tempo que o distincto Snr. Dr. Mello Barreto, suspeitou um accesso pernicioso e seu diagnostico foi confir- mado no dia seguinte pelo apparecimento de um novo accesso que levou o doente em menos de 2 horas. Este individuo habitava, entretanto, o pittoresco bairro da Liberdade, salubre entre os mais salubres da capital paulista. Durante os seis mezes de frio cessa a fabricação toxica, porque apagam-se as caldeiras e vem o Inverno; mas os casos de morte não cessam, o veneno fabricado no solo nelle fica armazenado; basta a mais leve excavação nas ruas, nos jar- dins, nos quintaes, para que se destapem os frascos de aqua tofana subterrânea. E mesmo que este facto não se desse; no seio das habi- tações, no interior dos aposentos de mais de um terço da popu- lação de S. Paulo, pantanos accidentaes se formam, quer durante o Yerão quer no Inverno, pantanos, ás vezes, mais terríveis nos seus effeitos do que verdadeiros brejaes. As habitações da colonia italiana e outras, com muito poucas excepções, representam lagoas pontinas em miniatura; o accumulo de vinte, trinta pessoas em uma só casa, o aloja- mento de cinco, seis pessoas em um só quarto, dormindo juntas na mais revoltante promiscuidade, desprezando as mais rudimentares noções de limpeza, basta á formação de um pan- tano accidental que dê sabida ás formas letliaes do paludismo. E não e só isto, muitas vezes nestas pequenas casas não ha latrinas e todos fazem suas necessidades n’um canto deter- 20 minado de modo a se formar em pouco tempo um monte de fezes dentro das habitações. E nem se diga que semelhante horror é uma ficção, um exagero, não; porque eu já o observei em companhia do meu distincto amigo, Snr. Dr. Yirgilo de Re- zende, então Delegado de Hygiene, n’uma casa habitada por italianos. *'* O italiano, que assisti morrer de febre perniciosa diapho- retica, era um tuberculoso, morava n’uns baixos, que se com- punham de 3 compartimentos; a pequena sala da frente tinha sido transformada em açougue; a alcova, medindo no máximo 4 metros em quadro, continha 3 camas e ainda dormia al- guém pelo chão e nos corredores, o tecto muito baixo, baixo a ponto de affligir; a janellinha do aposento dava para uma pequena area, onde a presença da latrina se denunciava pelo cheiro infecto; o pequeno espaço de um metro que medeava entre o aposento e a latrina servia para lavagem de roupa (!!) e tinha um ralo para aguas servidas. A noite, fechava-se o açougue, alguns magarefes dormiam na loja da frente: quando estes infelizes entregavam-se ao somno para descanso dos pesados labores do dia, o sangue das carnes se decompondo punha em liberdade gazes dele- tereos, de mistura com germens morbificos acarretados pelas moscas em profusão; os detrictos de carne, espalhados pelo assoalho, desprendiam cheiro infecto viciando de modo con- siderável a atlnnosphera. Sabe-se perfeitamente que o perigo resultante de dormirem juntas muitas pessoas n’um pequeno espaço fechado não con- siste na falta de ar somente, mas sim na inspiração de toxinas eminentemente mórbidas, producto da expiração; de sorte que estes infelizes, alem de respirarem uma atlnnosphera viciada, respiravam também toxinas por elles mesmos fabricadas. A mais robusta e privilegiada organisação não poderia resistir a este systema de vida. Jourdan, no seu excellente livro — Etudes d’Hygiene Pu- blique — diz com muito eloquência: «Não ha questão alguma que seja mais digna da solicitude da auctoridade do que a que 21 se refere a salubridade das habitações. Tem-se dito muitas vezes e nunca será demais repetir: a insalubridade dos domi- cílios exerce a influencia a mais desastrosa sobre o moral e o physico das pessoas que os occupam. Tem-se pressa de sahir de uma casa onde ha falta de espaço, de ar e de luz e na qual não se respira sinão exhalações mephiticas. A deserção do lar acarreta quasi fatalmente a corrupção dos costumes e o afrouxamento dos laços de familia. — Alem disto, a sande não tarda a se alterar neste meio deletereo, os meninos quando não morrem no berço tornam-se fracos, rachiticos, escrofulosos; os adultos, mesmo os mais bem constituídos, são atacados de moléstias de toda natureza, que se transmittem de geração em geração e são uma causa de enfraquecimento do paiz. «Sabeis, ex- «clamava Wolowski perante a Assemblea Nacional Legislativa, o «que são estes alojamentos hediondos cujo quadro não quero «traçar deante de vós?— São o laboratorio da moléstia, da «miséria e muitas vezes do vicio e do crime. Não sabeis que c por «causa destes alojamentos insalubres, de sua influencia deleterea «que o orçamento augmenta na parte relativa aos Hospícios e «ás Prisões? Sim, Senhores, o orçamento dos Hospícios e das «prisões crescerá sempre se deixardes subsistir a causa que ó .«preciso atacar de frente, a principal causa dos flagellos que «ferem a classe pobre, isto é, os alojamentos insalubres.» *) Como prova de que a falta de asseio em uma habitação dá logar a formação de pantanos accidentaes perigosissimos, ainda que esta habitação rodeie saníssima athmosphera, o Pro- fessor Martins Costa, de saudosa memória, na sua excellente obra — A Malaria — cita um interessante facto contado pelo Dr. Gustavo Capanema, occorrido sob suas vistas: «Nas fraldas septentrionaes da serra da Onça, cerca de uma legua distante da cidade de Pitanguy, em uma altitude não inferior a 900 metros acima do nivel do mar, nessa para- gem onde os arroios correm em leito de pedra lisa e a vege- tação alfombra um solo de natureza calcarea e docemente ineli- l) Gustave Jourdan — Etudes d’Hygiene publique — pag. 149 e 150. 22 nado; lá onde os pantanos não encontram guarida nem as febres paludosas agasalho; uma vez estas atearam-se no seio de uma familia ferindo seus membros uns após outros. Ad- mirados por essa anomalia procuravam todos o ponto d’onde provinha hospede tão inesperado quão importuno; mas debalde procuraram porque em parte alguma do terreno se havia formado um pantano accidental que desse conta daquelles effeitos insó- litos. — As cousas estavam assim, as febres reproduziam os seus estragos quando um dedo amigo apontou para um cocho de madeira como causa provável de tantos males. Este cocho encerrava agua estagnada, saturada de matéria organica vegetal proveniente de restos de milho que alli havia sido posto de molho para o fabrico da farinha; e era exposto em grande parte do dia ás ardências do calor solar, se havia tornado por- tanto um verdadeiro pantano accidental. Pois bem! aquella agua foi deitada fora e o terrivel hospede desappareceu.»1) Factos como este são communissimos: na cidade de Araxá, estado de Minas, uma das localidades mais salubres do Brazil, 1000 metros acima do nivel do mar; eu tive occasião de assistir ao desenvolvimento de tres casos de febres perniciosas, no seio de uma familia, dentro de uma semana, devido á presença de um pequeno chiqueiro de porcos, que se mantinha no quintal. O impaludismo representa, pois, em S. Paulo um factor importantíssimo na mortalidade geral. E' tomando a forma desta entidade mórbida que a humi- dade domina a constituição medica da nossa capital. A creanças muito especialmente são victimas, a organisação delicada dos tenros doentinhos mais se resento dos effeitos da entoxicação malarica e a cachexia nelles se estabelece rapida- mente, quasi de uma maneira aguda, permittam-me a expressão. Em Goyaz, cidade immunda, collocada dentro de uma garganta de serras formando funil, atravessada pelo rio Vermelho, cujas praias servem de deposito de lixo, cercada de enormes ester- queiras, cujas casas tém todas o fosso de matérias fecaes ao ') Martins Costa — A Malaria — pag. 73. 23 lado da cisterna, onde o calor 6 abrasador no verão; o impalu- dismo devasta como maldição. Lá eu tive occasião de observar factos, que levam-me a fallar dessa cachexia palustre de forma rapida nas creanças: Eu era chamado para prestar cuidados a um menino de 4 a 5 annos, por exemplo; encontrava os hypochondrios cres- cidos e uma febre intermittente, que facilmente cedia ás pri- meiras doses dos saes de- quinina. Eu julgava o doentinho em convalescença, quando sobrevinha um novo insulto febril, que tomava, ás vezes, o typo remittente quotidiano, tornando-se irregular sob a acção de novas doses de quinina e, afinal, cedendo completamente. A creança continuava definhando, en- tretanto. o augmento de volume dos hypochondrios se mantinha, os tegumentos se tornavam cor de palha, apparocia um levo edema dos pés, e a creança sucumbia infallivelmente, anémica, apyretica, desde que esta edemacia se manifestava; no fim de 30 dias no máximo. O apparecimento dessa anemia, dessa hypoglobulia mortal, depois de alguns dias de accessos febris brandos em uma creança antoriormente robusta, eu o considero uma verda- deira cachexia 'perniciosa. As febres palustres em S. Paulo, alem da gravidade que assumem em certos casos, revestem n’outros formas tão bizarras que levaram o illustrado clinico Snr. Dr. Alfredo Eliis a denominal- as febres paulistas, eu direi que são perigosas febres paulistas. As manifestações paludosas complicam-se também mui fro- quentemente entre nós do elemento typliico, que torna-lhes o prognostico muito mais sombrio. Essa é a verdade, tornando-a palpavel, não faço mais do que repetir o que antes de mim têm dito os notáveis mé- dicos qne illustram a clinica desta Capital. O hygienista é como o historiador, deve dizer a verdade sem olhar a quem vae ella prejudicar. Não é minha intenção ferir pessoas nem nacionalidade, meu intuito é castigar cos- tumes, pôr o dedo sobre a ferida e deixar a cura aos poderes competentes. 24 Ao Governo assiste o patriótico dever de lançar suas vistas para a entrada dos immigrantes nesta capital e seu alojamento. Si as cousas continuarem, como actual mente estão, esta bella cidade, em pouco tempo, será um ninho novo da áspide amarella. E’ indispensável que se tomem medidas para obstar a aglomeração de famílias de immigrantes em pequenas casas, constituindo por toda parte focos de impaludismo, cul- turas de microbios. Seria mil vezes preferível sustar a immigração do que con- stituir ella entre nós uma Necropole. Mais adiante proporemos algumas medidas que nos parecem urgentes e acertadas. Poderão estas medidas sanear S. Paulo, e fazer desapparecer completamente o impaludismo dentre as causas salientes da mortalidade da população? Sim. — E os factos o demonstram de uma maneira per- emptória. Occupar-me-ei delles em tempo opportuno. Ao lado do Impaludismo são as moléstias das vias res- piratorias as affecções climatéricas que maior numero de victimas causam entre nós. Não julgamos entretanto exagerado o numero de obitos a ellas devidos, creio mesmo que guardam as proporções inevitáveis, pois não se distanceiam das estatísticas de outras cidades de clima frio. Peitas estas ligeiras considerações acerca de S. Paulo, seu clima e constituição medica, estudemos a mortalidade geral e vejamos as consequências que podemos tirar deste estudo. Abaixo reproduzimos as estatísticas da mortalidade desta capital, sabiamente levantadas pelo Snr. l)r. Jayme Serva, a quem, em boa hora, a Directoria de Hygiene Publica confiou a parte demographica daquella repartição, e que este i Ilustrado e respeitável collega teve a amabilidade de me fornecer, favor que muito lhe agradeço e que constitue pagina muito interes- sante deste pequeno trabalho. 25 Directoria do serviço sanitario Resumo synthetico da mortalidade do anno de 1892 na Capital de S. Paulo I)e 0 a 12 mezes 1.488 De 1 a 7 annos 955 De 8 a 15 annos 170 De 16 a 20 annos 212 De 21 a 50 annos 1.263 Edade ignorada 8 Nascidos mortos 280 4.841 Mortalidade por edades Masculino (sem nati-mortos) . . 2.539 Masculino (nati-mortos).... 168 Feminino (sem nati-mortos) . . 2.022 Feminino (nati-mortos) .... 112 4.841 Por sexos Por estado civil Solteiros 3.710 Casaclos 860 Yíuyos 239 Estado civil ignorado .... 32 4.841 26 Por nacionalidades Brazileiros 3.143 Italianos 1.040 Portuguezes 338 Allomães 80 Extrangeiros em geral . . . . 231 Nacionalidade ignorada ... 9 4.841 Por Freguezias Sé 904 Braz 1.380 Santa Ephigenia 979 Consolação 929 Penha de França 51 S. Miguel 54 Conceição dos Guarulhos ... 25 Santo Amaro 127 S. Bernardo 170 Itapecerica 91 Nossa Senhora do O .... 15 Parnahyba 44 Cotia 33 M. Boy 7 Juquery 32 4.841 Mortalidade por moléstias que produziram mais de 8 obitos. Enterite, entero-colite e diarrhea infantil .... 807 Variola 859 Febres intermittentes e remittentes 813 Bronchites 275 Transporte . . 1.754 27 Transporte . . 1.754 Moléstias organicas do coração 239 Debilidade congénita, ictericia, esclerema e outras mo- léstias da infancia 218 Tuberculose pulmonar 184 Atbrepsia 168 Febre typhoido 129 Parasitas intestinaes 113 Febre amarella 106 Febre perniciosa 106 Pneumonia 99 Congestão e hemorrhagia cerebral 88 Convulsões 78 Tuberculose de diversos orgãos 77 Dysenteria 61 Mortes violentas por diversas causas 57 Tétano dos recem-nascidos 52 Affecções do íigado 51 Meningite 49 Sarampão 48 Marasmo senil 46 Moléstias do larynge 43 Accidentes do parto 36 Diph teria 36 Nephrite 31 Congestão e apoplexia pulmonar 25 Anemia, Chlorosis 25 Coqueluche 24 Cachexia palustre 23 Encephalite 21 Hydropesia 17 Alcoolismo 12 Exgottamento e cachexia 12 Escarlatina 11 Tétanos 11 Transporte . 4.050 28 Transporte . 4.050 Sypliilis 10 Moléstias das artérias 10 Moléstias produzindo menos de 8 obitos. . . . .491 Nati-mortos 280 Total . . 4.841 Resumo synthetico da mortalidade do anno de 1893. Mortalidade por edades De 0 a 12 mezes 1.801 De 1 a 7 annos 1.377 De 8 a 15 annos 116 De 16 a 20 annos 171 De 21 a 50 annos 1.228 Maiores de 50 annos .... 578 Edade ignorada 32 Nascidos mortos 374 5.702 Por sexos Masculino (sem nati-mortos) . . 3.006 Masculino (nati-mortos).... 202 Feminino (sem nati-mortos) . . 2.310 Feminino (nati-mortos) .... 179 5.702 Por estado civil Solteiros 4.546 Casados 847 Yiuvos 265 Ignorado 44 5.702 29 Por nacionalidades Brazileiros 3.284 Italianos 1.458 Portuguezes ....... 430 Extrangeiros em geral .... 432 Ignorada 24 5.702 Por Freguezias Braz 1.734 Consolação 1.065 Santa Ephigenia 964 Sé . . . ‘ 952 São Bernardo ....... 165 Santo Amaro 153 Itapecerica 140 Cotia 121 Parnahyba . 114 Juquery 104 Conceição dos Guamlhos ... 71 Penha de França . . . . . 42 São Miguel 33 Nossa Senhora do O .... 27 M. Boy 19 5.702 Por moléstias produzindo mais de 8 obitos. Enterites, entero-colites e diarrhea infantil . . 907 Bronchites 379 Febre intermittente, remittente o cache xia palustre 342 Moléstias mal determinadas e sem declaração . 610 Moléstias organicas do coração 240 Transporte . . 2.538 Transporte . . 2.538 Tuberculose pulmonar 262 Broncho-pneumonia e pneumonia 226 Debilidade congénita 191 Athrepsia 180 Parasitas intestinaes 172 Sarampão 129 Febre amarei la 125 Febre typhoide 124 Dysen teria 111 Convulsões 109 Febre perniciosa 89 Meningite simples, encephalite e mielite ... 86 Congestão e hemorrhagia cerebral 73 Hydropesia 63 Yariola 65 Cholera-morbus 53 Accidentes do parto e eclampsia 48 Moléstias do larynge (sem especificação) ... 43 Anemia, Chlorosis 40 Marasmo senil 42 Tétanos dos recem-nascidos 39 Tuberculose mesenterica 35 Cirrhose hepatica e affecçoes do figado . . . 50 Mortes violentas, assassinatos, asphyxia por sus- pensão 35 Tuberculose de outras orgãos 30 Congestão e apoplexia pulmonar 28 Marasmo, exgottamento e cachexia 24 Moléstias do systema nervoso (sem especificação) 20 Nephrite e moléstias dos rins 21 Rachitismo 21 Moléstias da infaneia (sem especificação) ... 20 Diphteria 19 Syphilis 18 Transporte . .5.139 30 31 Transporte . . 5.139 Peritonite e peritonite-puerperal 17 Coqueluche . . 15 Paralysia geral \ . . 11 Queimaduras 10 Tétanos 9 Gangrena 9 Scepticemia 9 Cancro do utero 8 Erysipela e lymphatite 8 Nati-mortos .. .... 374 Moléstias produzindo menos de 8 obitos ... 103 Total . . . .5.702 Estudando estas estatísticas, grupando n’um só quadro as moléstias da mesma natureza ou de um mesmo apparelho, disse- minadas sob denominação diversas, vemos que as enfermidades que preponderaram e salientaram-se notavelmente durante o anno de 1892 foram as seguintes: Moléstias do apparelho gastro-intestinal Enterites, entero-colites, diarrhéa infantil . 807 Dy sente ri a 61 Athrepsia 168 Total . . . .1.086 Moléstias do apparelho respiratório Broncliites 275 Tuberculose pulmonar 184 Pneumonias 99 Moléstias do larynge 43 Diph teria 36 Congestão e apoplexia pulmonar . . 25 Coqueluche 24 Total ... 686 32 Affecções palustres Febres intermittentes e remittentes . 313 Eebres perniciosas 106 Cachexia palustre 23 Total . . . 442 Destes quadros se evidencia que são as moléstias do appa- rellio respiratório e o impaludismo que dominam a pathologia medica da Capital de S. Paulo. E’ verdade que acima dos algarismos referentes á estas moléstias figuram as affecções do apparellio gastro-intestinal com 1.036 casos, cifra muito superior; mas como nestes 1.0)16 casos figuram 90 °/0 de crianças, como adiante provarei, e que para ellas existe uma causa determinante especial, independente da climatologia, eu as deixo de lado nas minhas apreciações. Vejamos si a estatistica de 1893 fornece-nos dados para a confirmação deste modo de pensar. Nella encontramos: Moléstias do apparellio gastro intestinal Enterites, entero-colites e diarrhéa infantil 967 D}rsen teria . . 111 Athrepsia 180 Total . . . 1.258 Moléstias do apparellio respiratório Bronchites 379 Tuberculose pulmonar 262 Pneumonias 226 Laryngites 43 Diphteria 19 Coqueluche 15 Total . . . 944 33 Affecções palustres Febres intermittentes, remittentes e cachexia palustre 342 Febres perniciosas 89 Total ... 431 A estatística de 1893 demonstra a mesma preponderância do impaludismo e das moléstias das vias respiratórias na mor- talidade da população de S. Paulo; deixando ainda de lado, pelas razões já expendidas, os 1.258 casos de moléstias do apparelho gastro-intestinal em que as creanças figuram também na enorme proporção de 90 °/0. Addicionando o numero total de obitos, que em 1892 foi de 4841, e o de 1893 que subiu a 5.702, verifica-se que nos dous annos succumbiram 10.543 pessoas, sendo: Apparelho gastro-intestinal . . . 2.295 Apparelho respiratório 1.630 Affecções palustres 873 Outras enfermidades 5.746 10.543 As moléstias do apparelho respiratório figuram no obituário na proporção de 15°/0; o impaludismo na de 8°/0. Estas estatísticas confirmão, pois, de um modo completo, as apreciações que precedentemente fizemos ácerca do clima de S. Paulo, sua constituição medica, etc. Outras considerações ainda nos suggere o importante tra- balho do Snr. Dr. Jayme Serva: tomando á parte os 873 casos de impaludismo, vemos que entre elles figuram 195 casos de febres perniciosas. Estes algarismos demonstram que no obituário dos paludicos as febres perniciosas entram na pro- porção de 24 °/0 o que é verdadeiramente grave. Alem disto, no obituário dos dous annos, figuram 253 casos de febre typhoide e 231 de febre amarella. Sendo a febre typhoide verdadeira, o typho exanthematico, entidade mórbida até certo ponto rara entre nós, a presença 34 de 253 casos no obituário dos dous annos já constitue notável algarismo, que deve chamar, de modo serio, a attenção dos hygienistas; sobrutudo si considerarmos que a Dothinenteria grave é moléstia parasitaria, devida ao bacillo de Nicolayer, o qual reconhece como principal foco de origem e meio de cultura os depósitos de matérias fecaes, e como meio propicio de diffusão os maus systemas de exgottos, as cloacas incomple- tamente fechadas, etc. Basta em uma habitação conservar-se aberta a valvula de uma latrina, para que seus habitantes estejam sujeitos a ser aconnnettidos de febre typhoide. Quanto á febre amarella, vemos que, em 1892, ella victimou nesta capital 106 pessoas e, em 1893, 125; houve um augmento de 19 mortos de um anno para o outro. Estas cifras indicam que entre nós ainda não houve epi- demia do terrível flagello, mas ellas são mais que sufficientes para despertar mui serias apprehenções, e levar o governo a medidas energicas, tendentes a evitar a entrada em S. Paulo de doentes vindos de Santos e do Rio de Janeiro, em epochas de epidemia nessas cidades; medidas capazes do sanear as habitações immundas, que ornamentam as melhores ruas da capital; medidas que, si forem despresadas, auctorisam a affirmar- se que S. Paulo será, em breve, um fóco de febre amarella tão perigoso como os mais perigosos. Assim, esboçada a climatologia medica de S. Paulo, vamos entrar no assumpto principal deste pequeno trabalho: a mor- talidade das creanças e suas causas. CAPITULO II. Summario: Mortalidade das creanças em S. Paulo — Mortalidade das creanças em outros paizes — Confronto das nossas estatísticas com as de ou- tras cidades extrangeiras — Quadro do obituário das creanças em S. Paulo em 1892 e 1893 — Moléstias preponderantes no obituário infantil — São as moléstias do tubo gastro-intestinal que dominam a pathologia da infancia — Causas deste predomínio — Ignorância das mães de familia — Alimen- tação mal dirigida — Physiologia da digestão — Parecer de médicos sobre o assumpto — Opinião do Dr. Torquato Tapajós. «A população decresce, a França recúa. A mortalidade dos reccm-nascidos 6 assombrosa, corresponde á uma batalha per- dida todos os annos. Triumphem, afinal, o grito de patriotismo, os lances generosos da caridade, os esforços da sciencia, da estranha apathia na qual jazemos entorpecidos, lia tanto tempo . . . Eu applaudo de todo o coração a propaganda da Hygiene, eu vejo nella a salvação da humanidade e, em particular, a salva- ção da França.» São estas as palavras com que Jules Simon, o celebre professor de moléstias de creanças da Faculdade de Medicina de Paris, terminou o artigo com que prefaciou o livro de Boissard e Barbésieux — Mères et nourrissons. Parodiando as phrases do emerito especialista, direi que uma guerra mais terrível do que a do Paraguay fere-se annualmente e l) BoitsarJ et Barbésieux — Mères et nourrissons — pag. 11. 36 sem tréguas em nossos lares, dizimando vidas destinadas ao engrandecimento da nossa cara Patria. Nesta campanha sin- gular, na qual succumbem exercitos de ereancinhas, e que bem se pode chamar a matança dos innocentes; dia a dia vão se desabando solidos alicerces do nosso engrandecimento moral e material: o augmento e a felicidade da população. E’ mister que a Caridade, como a cruz, conserve os braços sempre abertos aos pobres entesinhos, que se agitam nos berços nús, sem agasalho nem alimento. E’ mister que se procure, por todos os meios ao alcance da Hygiene e da Therapeutica, tapar esta voragem onde se precipitam tantas vidas apenas des- abrochadas; e que a classe medica agite uma propaganda des- tinada a impedir que desçam ao tumulo aquelles que deviam subir ás escolas. E’ verdadeiramente assombrosa a mortalidade das creanças em S. Paulo. Consultando as estatísticas de 1892 e 1893, precedente- mente publicadas nas paginas 25 a 31, vemos que no primeiro anno succumbiram 4841 pessoas nesta capital, sendo 2443 creanças de 0 a 7 annos, excluindo os nati-mortos; incluindo estes, o numero de creanças fallecidas sobe a 2723, mais da metade do algarismo total. No anno passado a mortalidade geral foi de 5702 pessoas, sendo 3178 creanças, sem nati-mortos, e 3512, incluindo estes; quasi dous terços. Semelhantes algarismos são na verdade para entristecer e apavorar. Addicionando a mortalidade geral nos dous annos, o nu- mero total de obitos é de 10.543, como já vimos; o das creau- ças sendo 6235, temos para ellas uma mortalidade de quasi 60°/o (! 0; cifra simplementc descommunal. Qual a origem desta hecatombe infantil? Onde reside a causa ou causas múltiplas desta sinistra vindima da morte nos tenros annos? Onde estarão os agentes destes barbaros infanticídios ? Tal- vez seja preferivel assim interrogarmos. 37 Na Europa, a questão da mortalidade das creanças, nas primeiras epochas da vida, tem chamado a attenção dos hygi- enistas e das Sociedades scientificas de todos os paizes, prin- cipalmente em França, onde as solicitações de medidas sanita- rias, em ordem a fazer desapparecer este estado de cousas, tomaram as proporções de verdadeiro clamor publico. A este respeito, ainda em 1892. o mesmo Julio Simon chegou a escrever o seguinte: «Julgamos e acreditamos por muito tempo que nós era- mos a grande nação. Nenhuma segurança resta-me agora de que isto não seja um grande erro. Nós somos, é certo, de todas as nações a mais civilisada; a ninguém cedemos o passo quanto á instrucção, á luz do espirito, á elegancia e urbanidade dos costumes; mas nós não poderíamos, a fallar a verdade, recla- mar a mesma superioridade quanto á Hygiene.» *) Si na França, a grande Mestra da Hygiene, se diz isto, o que diremos nós? Yejamos qual tem sido a mortalidade das creanças neste Paiz e em outros, e comparemol-a com a de S. Paulo. O Professor Rouvier no seu excedente livro — Hygiene cie la première enfance — publicado o anno passado, apresenta a seguinte estatística de Broca da mortalidade das creanças em França desde o anno de 1806 até 1883, e que nós reproduzi- mos a começar de 1830. 2) Estatística dc Broca (mortalidade por 100) De 1830—1834 20.915 » 1835—1839 20.263 » 1840—1844 19.325 » 1845—1849 18.223 » 1850—1854 18.288 » 1855—1859 19.569 » 1860—1864 17.638 ‘) Boissard et Barbézieux — Loco citato. 2) J. Bouvier — Hygiene de la première enfance — pag. 379. 38 I)e 1863-1867 17.53 » 1868—1872 18.44 » 1873—1877 16,62 » 1878—1882 16,76 » 1883 16 50 Por este quadro se vê que, no longo espaço de 53 annos, o obituário das creanças em toda a França nunca excedeu a 20 °/0, esta cifra vem, ao contrario, gradativamente decrescendo de 1830 para cá, de sorte que, em 1867, a porcentagem 6 de 17 %• De 1868 a 1872 ella se eleva de novo a 18 °/0, o que se explica pela guerra franco-prussiana, que profundamente perturbou o paiz; de 1872 em deante a porcentagem desce de novo a 16 e assim se tem mantido, para menos, até hoje. Nas grandes cidades da França a mortalidade não excede a 20 °/0, segundo Sanguin. E’ de observação que nos campos, nas villas e aldeias a mortalidade das creanças sendo de 23 a 27 % é maior do que nos centros populosos, os trabalhos de lavoura levam as mães a se descuidarem dos filhos que estão mais expostos aos resfriamentos e submettidos á alimentação mais grosseira. Na Inglaterra, na Irlanda e outros paizes o mesmo facto se observa. Entre nós da-se absolutamente o contrario: Nas villas e aldeias e nas pequenas cidades do interior, a mortalidade das creanças está reduzida ás suas proporções fa- taes ao passo que nas grandes cidades ella é enorme. Eu explico o facto pelo seguinte: no interior do paiz o aleita- mento materno é a regra, o aleitamento mercenário quasi nunca se pratica; nas grandes cidades o aleitamento materno está quasi abolido, predominando o aleitamento mercenário e o ar- tificial. Reproduzimos em seguida a estatística da mortalidade das creanças em diversas cidades da Europa e das duas Américas em epochas differentes: 39 Cidades Annos ou períodos Observadores Nascimentos excluidos os nati-mortos obito de um dia a um anno o 2 * a 23 a & « O => 'S.grH O " o s. w Amiens. . . . » » » » 16 Bar-le-Duc. . » Baillot. » » 17.0 Berlim .... 1883 » 42.284 13.482 31.88 1885 R. Boekh. 46.975 11.582 24.5 Berne .... » Ploss. » » 14.5 Bruxellas . . 1883 » 13.673 2.637 19.2 Buenos- A yres 1875-1884 E. Coni. » » 16.32 — —. 1891 Docum. ofíic. 24.617 3.866 15.74 Chrisíiania . . 1883 » 3.632 555 15.2 Colmar .... » » » » 20 Copenhague . 1883 » 9.737 2.096 21.5 Dinan .... 1880-89 P. Aubry. » » 13.2 Edimbourgo . 1883 ' » 6.920 869 1.25 Elbeuf .... 1881 Aubert. 619 125 19.53 Glasgow . . . 1883 » 20.363 3.172 15.5 Guebwiller. . » » » » 21.60 Guingamp . . 1880-89 P. Aubry. » » 13.2 Lannion . . . 1880-89 P. Aubry. » » 14.4 Lausanne . . 1889 Combes. » » 17.9 Liègc 1891 Docum.ofíic. 3.903 631 16.1 Lille 1859-75 (sauf 62) Chrestien. 76.024 16.137 21.23 1854-1877 Wintrebert. 118.073 27.084 24.63 Lisieux.... 1831-40 Notta. 2.471 249 10.08 — .... 1856-65 Notta. 3.134 649 20.71 Londres . . . » » 133.360 19.487 14.4 . . . » Letheby. » » 17.24 40 Cidades Annos ou períodos Observadores Nascimentos excluídos os nati-mortos obito de um dia a um anno Proporção por 100 da mortalidade do l.° anno Loudòac . . . 1880-89 P. Aubry. » » 15.6 Luncl 1874 Yedel. » » 17 Lyon » Delore. » » 12 Magobourg. . » » 3.776 1.058 28 Manchester. . » » » » 25 Marseille . . . 1866-1885 J. Rouvier. 196.833 40.134 20.38 Mui h ouse . . 1863 » » » 33 Munich. . . . » Uffelmann. » » 40 New-York . . » — » » 31 Paris 1882 á 1890 J. Rouvier. 550.466 83.111 13.1 — 1891 — 61.238 8.027 15.28 Reims .... 1883 Langlet. 2.700 780 28 Roubaix . . . » » » » 21.74 Saint-Brieuc. 1880-89 P. Aubry. » » 13.2 Saint-Etienne » » » » 14.13 S.Petersbourgo » Janhson. » » 25.4 — 1887 DeTroslavine. » » 26.23 Stockholmo . » » » » 30 Suecia(cidades) 1878-1879 Statist. offic. » » 26.78 Tournay . . . 1869-1888 Schrevens. 18.168 2.113 11.63 Verdun. . . . 1875-1880 Aubert. » » 21.74 Yienna .... » » » » 40 .... » Uffelmann. » » 31 41 Infelizmente não podemos estabelecer um paralello exacto e preciso entre os algarismos do quadro precedente, e os que representam a mortalidade das creanças entre nós, porque a porcentagem da mortalidade nestas estatísticas extrangeiras 6 calculada em relação á natalidade, e nos foi impossível saber o numero de nascimentos da nossa população, porque, peja-nos e peza-nos dizer, não existe elle calculado em nenhuma re- partição publica desta Capital, segundo informou-me o Snr. Dr. Jayme Serva. Felizmente esta lacuna acaba de ser preenchida, desde o inicio deste anno, por este laborioso collega, com a publica- ção do Boletim mensal de Estatística demographo-sanitaria. Em Paris, de 1881 a 1885, a relação existente entre a mortalidade geral e a natalidade foi a seguinte: Annos 1881 1882 1883 1884 1885 População .... Mortalidade geral . Natalidade . . . 2.239.928 57.066 60.856 58.702 62.581 56.707 64.526 56.970 63.840 ' 54.616 61.400 Por este quadro se vê que na grande Capital a natalidade pouco excedeu á mortalidade geral, no espaço de 5 annos; bazeando- nos neste confronto, e suppondo mesmo que a natalidade de S. Paulo foi maior de 10 % do que a mortalidade, ainda assim o obituário das creanças guardaria uma proporção de 54°/o cm relação á natalidade; quando esta proporção em Berlim e em Nova York, onde a mortalidade infantil é enorme, não excede de 31%! Isto prova que a nossa situação é verdadeiramente dolo- rosa e anormal. Yejamos os factos, estudemos as moléstias que figuram com mais frequência no obituário infantil. Consultando as estatísticas demographicas dos dous últimos annos, relativamente aos meninos, e que também nos foram fornecidas pelo estima- 42 vel collega Snr. Dr. Jayme Serva, que primeiro chamou a atten- ção para a mortandade das creanças entre nós, encontramos os seguintes dados: Directoria do serviço sanitario Mortalidade das creanças de O a 7 annos durante o anuo de 1892. Enterites 652 Bronchites 238 Debilidade congénita, icterícia, sclerema 215 Athrepsia 168 Febre remittente e intermittente . . . 151 Parasitas intestinaes 107 Yarioia ... 72 Sarampão. . . 41 Escarlatina . . 9 Febres eruptivas (122) Convulsões 76 Tuberculose de diversos orgãos ... 58 Diarrhea infantil 52 Tétano dos recem-nascidos ‘ 51 Pneumonia . . 49 Meningite simples 40 Dysenteria 32 Diphteria 26 Coqueluche 24 Febre t}rphoide 23 Febre perniciosa 28 Outras moléstias da infancia .... 24 Tuberculose pulmonar 18 Natimortos 280 Outras moléstias não mencionadas . . 289 2.723 43 Mortalidade das creanças de 0 a 7 amios durante o anno de 1893.r) Enterites, entero-colites, gastro-enterites 800 Bronchites 346 Febres remittentes e intermittentes . . 190 Athrepsia 180 Debilidade congénita, icterícia, sclerema 178 Parasitas intestinaes 160 Pneumonia 136 Febres eruptivas (144) Sarampão. . . 129 Varíola ... 14 Escarlatina . . 1 Dysenteria 66 Tuberculose de diversos orgãos ... 61 Meningite simples 58 Convulsões 85 Diarrhea infantil 50 Febre perniciosa 38 Tétano dos recem-nascidos 32 Febre typhoide 26 Tuberculose pulmonar 23 Dyph teria 18 Coqueluche 17 Natimortos 374 Outras moléstias não mencionadas . . 535 3.512 Estudando a estatística de cada anno e grupando as en- fermidades de um mesmo apparelho ou da mesma natureza, organisamos os quadros seguintes que deixam patentes, á pri- meira vista, as moléstias mais communs na infancia e que maior numero de victimas causaram. 1) Estas estatísticas mencionam apenas as moléstias que causaram maior numero de obitos, as outras moléstias menos frequentes estão englobadas sob o titulo — Moléstias não mencionadas — 289—Õ35. 44 Parasitas intestinaes Febres eruptivas Affccçôes palustres Aftecções do apparelho respiratório Affecções do tubo gastro intestinal Quadro nosologico de 1892 Yariola 72 Sarampão 41 Escarlatina 9 Total . .’ . 122 107 Febres intermittentes . . . . 151 Febres perniciosas 28 Total . 179 Bronchites 238 Pneumonias 49 Coqueluche 24 Tuberculose pulmonar. ... 18 Diph teria 26 Total . . . 355 Enterites 652 Athrepsia 168 Diarrhea infantil 52 Dysenteria 32 Total . . . 904 45 Enterites . 800 Athrepsia 180 Dysenteria 66 Diarrhea infantil 50 Total . . .1096 Bronchites 346 Pneumonias 136 Tuberculose pulmonar ... 23 Diphteria 18 Coqueluche JF7 Total . . . 540 Febres intermittentes . . . . 190 Febres perniciosas 33 Total . . . 223 Sarampão 129 Variola 14 Escarlatina 1 Total . . . 144 160 Quadro nosologico de 1893 Affecções do apparelho irastro intestinal . Affecções do apparelho respiratório Affecções palustres Parasitas intestinaes Febres eruptivas 46 Apreciando os algarismos dos quadros nosologicos dos dons annos, vemos que são as moléstias do apparelho gastro- intestinal, que figuram em primeiro logar, e de um modo sa- liente, como causa de morte das creanças em S. Paulo; seguin- do-lhes, em proporção muito menor, as affecçòes palustres e das vias respiratórias. Destacando e addicionando os algarismos que representam estes tres grupos preponderantes nos dous quadros teremos: Affecçòes do apparelho gastro-intestinal . . 2000 Affecçòes do apparelho respiratório . . . 895 Affecçòes palustres 402 As affecçòes do apparelho gastro-intestinal dizimaram, pois, mais creanças do que as affecçòes palustres e das vias respira- tórias reunidas. A mortalidade total das creanças nos dous annos tendo sido egual a 5621 obitos (sem nati-mortos), os fallecimentos por enterites, gastro-enterites, etc. tendo subido a 2000, repre- sentam uma proporção de 35%; ao passo que as moléstias das vias respiratórias guardam a proporção de 15%, e as affecçòes palustres de 8%. Comparemos agora a mortalidade das creanças com a mortalidade dos adultos: Nas paginas 133 vimos que no periodo dos dous annos, de 1892 e 1893, as moléstias que preponderaram no obituário geral também foram as affecçòes do apparelho gastro-intestinal, as das vias respiratórias e as devidas ao impaludismo, produ- zindo os seguintes obitos: Affecçòes do apparelho gastro-intestinal . . 2295 Affecçòes do apparelho respiratório. . . . 1630 Affecçòes palustres 873 Subtrahindo destas cifras as cifras acima, que representam a mortalidade das creanças pelas mesmas affecçòes, veremos que falleceram de: 47 Affecções do apparelho gastro-intestinal . Adultos 295 — Creanças 2000 Affecções do apparelho respiratório . . Adidtos 735 — Creanças 895 Aflecções palustres Adultos 471 — Creanças 402 Isto mostra que as moléstias climatéricas propriamente ditas atacaram as creanças e os adultos com egual intensidade, pois a difterença é quasi nulla; para as vias respiratórias, ella é de 160 contra as creanças, e para o impaludismo, de 69 contra os adultos. Os casos de morte por aflecções do tubo digestivo correm por conta exclusiva das creanças; 2000 delias tendo sido vic- timas e apenas 295 adultos, a proporção 6 de 90%, isto 6, por cada adulto que sucumbe de affecções do tubo digestivo, su- cumbem 9 creanças. A mortalidade das creanças por moléstias do tubo digestivo é quasi igual a dous terços dos obitos produzidos por todas as outras moléstias reunidas. De tudo quanto temos dito nas precedentes paginas, tira- mos as seguintes conclusões: Ia As moléstias que dominam a pathologia infantil, na Capital de S. Paulo, são as do apparelho gastro-intestinal. 2a As moléstias do apparelho gastro-intestinal represen- tam a chave principal da questão da mortalidade das creanças, nesta capital, para ellcts é que devemos convergir toda a nossa attenção. Estudar, pois, as affecções do tubo digestivo e suas causas constituirá o nosso principal empenho nq seguinte capitulo. Estudo das causas das affecções do tubo digestivo: Dyspepsias, gastrites, enterites, gastro- enterites, entero-co- lites, cliarrhea infantil, athrcpsia, etc. — (Desculpem-me os entendidos a linguagem em que vae cscripto o presente ca- pitulo, as omissões que faço. Este humilde ensaio não sendo tratrado de pathologia infantil e destinando-se ás mães de fa- mília, deve estar ao alcance das suas intelligencias e de qual- quer pessoa do povo, é esse o meu intuito. Deixando com- pletamente de parte os alardes pedagógicos, as polemicas scien- 48 tificas, as classificações, com que a mãe de familia nada tem que ver, e sim somente o medico, procurarei synthetisar, pro- curarei frisar apenas o amago das questões, abandonando as dependencias; procurarei proverbiar, fallar por sentenças, afim de calar no animo das minhas leitoras, entre todos, aquillo que desejo; não distrahindo nem desviando seu espirito com diva- gações e descripções scientificas inúteis, que só servem para tornar, aos não especialistas, incomprehensivel o assumpto, difficil e fastidiosa a leitura dos trabalhos de Hygiene e pro- phylaxia medica.) A mortalidade das creanças pelas aftecções do tubo diges- tivo não ó um mal unicamente observado entre nós, elle ó commum em todos os paizes do mundo; em Paris e outras cidades da Europa, onde a miséria é grande, e os proletários privados de recursos não podem alimentar seus filhos de ac- cordo com os sãos preceitos da Hygiene, este mal é um ver- dadeiro flagello. Lá, é a miséria o movei principal, aqui, é a ignorância da mãe de familia. Pode-se affirmar sem medo de errar, que, entre nós, abrem-se tantas cóvas, sem cruz nem lapide, para as creancinhas, quantos custosos mausoleos se levantam. A frequência das enterites, gastro-enterites, etc. em S. Paulo é uma verdadeira campanha na qual representam o papel de generaes vencedores: as mães de familia; de generaes vencidos: os médicos; de soldados, dizimados aos milhares: as creanci- nhas; de dynamitte, polvora sem fumaça: a farinha lactea, a banana e o caldo de feijão. Triste victoria em que aos vencedores tocam em despojos os cadaveros dos proprios filhos. A mulher brazileira a quem se manda ensinar o desenho, o piano, a Geographia, as Mathematicas, a Litteratura, etc. recebe ordinariamente a mais incompleta educação para os misteres da familia; se lhes ensina a serem esposas, mas ellas ignoram como devem ser mães. Ellas desconhecem os mais comesinhos principios de Ana- 49 tomia e de Physiologia. O «Nosce te ipsmn» é para ellas livro em branco; como respiram, para que respiram; como se devem alimentar, que destino e modificações sotírem os ali- mentos que ingerimos; a maior parte ignora. O deffeito não é delias, nem dos paes de familia, o deffeito está nas escholas, na absoluta deficiência do ensino. Nós que imitamos, digo: que procuramos imitar a culta Europa, mesmo em costumes e instituições incompatíveis com o nosso clima e com a nossa indole, temos deixado, entretanto, de fazel-o no que ella tem de sublime: a organisação da In- strucção Publica. Si quizessemos imitar as nações cultas da Europa e a America do Norte, sobretudo, nossas escholas já teriam cursos em que os primeiros elementos de Physiologia, Anatomia e Hygiene domestica fossem ensinados. O veneno, pois, que submerge no tumulo tantas creanças, em S. Paulo e no Brazil inteiro, foi elaborado nas escholas, a planta que devia fornecer tão perigoso alcaloide veio de lá. Deem-se ás meninas uma educação solida e bem enten- dida, abandone-se o polyglotismo e os estros poéticos por um pouco de Physiologia e Hygiene domestica, e a mortalidade das creanças, no futuro, será reduzida ás suas proporções fataes. Actualmente encontramos no seio das nossas famílias gentis senhoras, que conhecem a musica dos sons e a musica das rimas, as novidades do mundo político e do mundo sideral; mas não encontramos quem saiba pegar n’uma mamadeira e dal-a á uma creança segundo os preceitos da Hygiene. Essa é a verdade, occultal-a seria mentir a nós mesmos, e, por mais que me peze, irei dizendo-a sem rebuços, porque vejo o meu perdão nos meus intuitos. O algarismo enorme a que subiu a mortalidade dos inno- eentinhos não nos permitte mais contemporisar, é preciso que se descubram as faltas e os erros, e que se os flagelle em to- dos os terrenos. Ninguém, é verdade, pode negar á mãe de familia brazi- leira um coração, que é um verdadeiro thesouro de carinhos e ternura para o fructo das suas entranhas; ninguém pode im- 50 putar-lhe a falta tão commum na mulher europóa, que, domi- nada por criminoso sentimento de coquetterie, estanca no seio o manancial da vida, que deve fluir, como favo de mel, nos lábios roseos do filhinho, e entrega-o á amas mercenárias que roubam-lhe as caricias do cândido bebé, ao mesmo tempo que inoculam-lhe nas veias, muitas vezes, o germen da morte que deve arrebatal-o de todo. A mãe brazileira, as mais vezes, pecca por ignorância dos salutares principios de líygiene, e algumas por fecharem os ouvidos, de uma maneira tenaz, imperterrita, invencível, como o cego que não quer ver, aos conselhos médicos. Adoece, por exemplo, uma creança, profusa diarrhea mina- lhe as forças; chamado o medico, a primeira cousa que re~ commenda 6 que não se dê ao menino senão leite, que a mais severa dieta seja observada. Sahe o medico deixando uma receita e um conselho, melhor do que a receita; manda-se vir o re- medio da botica com toda a urgência e despreza-se o conselho. São horas do almoço, assentam-se todos á meza, a creança sente o cheiro das comidas com que costumam entupir-lhe o estomago, chora, quer arroz com linguiça, a mãe manda afastal-a da salla de jantar, o menino berra como um possesso, e tem razão, por- que está mal acostumado; trava-se então o seguinte dialogo: — Que crueldade! Deixar-se o menino chorar desta maneira! — Elle não pode comer arroz, replica a dona da casa, o medico disse que só desse leite. — Mas elle está chorando tanto. A mãe revestida de alguma coragem exclama: — Deixe chorar, dê-m’o aqui. A ama entrega o filho á mãe, que está á meza, ella tenta consolal-o, elle repelle suas caricias, porque quer arroz com linguiça, e continúa a chorar. Todos gritam n’um só coro: — Mas dê-lhe um pouquinho de arroz, um pouquinho só não faz mal. A mãe fica hesitante, alguém corta o nó gordio com a seguinte plirase: 51 — Elle ainda não começou a tomar o remedio, pode co- mer uma colher de arroz, um pouquito só. Eureka! Toma-se um prato, serve-se ao menino duas co- lheres de arroz com linguiça, elle calla-se, todos ficam con- tentes e almoçam socegados, sem cliôro. D’ahi a uma hora, a creança, que já estava atacada de uma gastro-enterite, com o estomago e intestinos congestionados e inflammados, não pode suportar o arroz com linguiças, põe- se a chorar, está mais quente, tem febre, está agitada. A mãe toma-a ao collo, todos se aproximam; o menino, no auge da afflicção, vomita o que comeu, a mãe assusta-se, chora, põe as mãos na cabeça, culpa o arroz; nisto chega o remedio da botica. — Não é nada, não é nada, o remedio já veio, exclama cãguem, tirando já o involucro da rolha. Destapa-se o vidro, trazem uma colher, e pespegam no infeliz estomago, que está a braços com uma plenitude extrema, e terrível indigestão, 15 grammas de uma poção de bismutho que o medico receitara para diarrhea. O estomago não acceita o remedio, a creança o expelle, continuam a clal-o, apezar disso. A agitação não cessa. — E’ fraqueza, diz logo alguém, o doutor disse que desse leite, vamos dar um pouquinho de leite na mamadeira. Pede-se o leite, com pressa, porque o doentinho está muito mal, não se tem tempo de lavar a mamadeira, que já foi la- vada de manhan, affirma alguém, enche-se-a e dá-se ao menino, que ingere sofregamente 100 a 150 grs. de leite carregado de microbios. De facto, a creança dorme, a plenitude enorme do esto- mago congestiona de tal modo o cerebro que o somno vem. No fim de uma hora de dormir agitado, a creança acorda em gritos, vomitando arroz coni linguiça, bismutho, leite e microbios. Chama-se o medico, á toda pressa, a familia diz que o remedio fez mal, que a creança não teve mais socego desde que tomou a primeira colher (no arroz não se falia), o medico, 52 desorientado, receita outra cousa; no dia seguinte sobrevém convidsoes e o menino morre. O pranto e o desespero dos paes alarmam a visinhança, congregam-se os amigos e parentes, discute-se o caso. — Não foi enterite. Dizem uns. — Foi enterite. Dizem outros. - Qual enterites, não era só isso que a creança tinha, replica o pae, (que sómente agora intervem no acontecimento) o medico desconheceu a moléstia, a rapidez com que meu filho morreu bem indica uma perniciosa; si lhe tivessem dado um pouco de sulfato de quinina estaria salvo. O Dr. F . . . . tem mesmo este defeito, não presta attenção aos doentes, nem examina. — Mas elle comeu arroz com linguiça. Atreve-se a dizer uma visitante, que sabe do facto. —• E o que tem isto? Replica o pae agastado, toda creança come arroz; o arroz é uma comida innocente, o arroz não podia de modo algum mattal-o em 24 horas. Tableaux! Todos se calam. O pobresinho descanca já no caixãosinho, vestido de cheru- bim, as faces lividas pintadas de vermelhão, muito coberto de seda e galões, evacuando ainda na mortalha fluxo diarrheico, agua verde carregada de grãos de arroz não digeridos. Chega á porta o carro fúnebre, o ataúde coberto de capellas se des- prende de sobre a meza, é atado ás argollas do coche e parte para sempre. O anginho vae occupar seu nicho de mármore na Consolação, tudo corre muito naturalmente e ninguém suspeita siquer que um verdadeiro infanticídio acaba de ser perpetrado no seio desta familia. Mais tarde acontece o mesmo a um outro filho, os factos se repetem e se perpetuam, a ponto do casal jamais poder criar um filho, durante a vida inteira, e quando algum escapa a esta hecatombe, escapa um ser degenerado, vellio aos 18 annos, hysterico, dyspeptico, imprestável cretin. Tudo isto porque? Porque não ha possibilidade de con- vencer as nossas mães de familia de que o leite é o unico ali 53 mento que convém ás creanças nas primeiras epochas da vida, maxime no estado de moléstia. Dean to desta fatal pertinácia, em face desta rotina á qual se apegaram as mães de familia, eu vejo-me obrigado a estu- dar com ellas o organismo das creancinhas, afim de convencel- as do erro em que laboram. O maior numero delias pensa que a creança, dispondo dos mesmos orgãos que o indivíduo adulto, pode como elle ingerir os mesmos alimentos; a creança tem bocca, a creança tem es- tômago, fígado e intestinos como o adulto, logo pode se nutrir como elle. A unica differença que pensam existir, e da qual estão convencidas, 6 a differença do tamanho e do vigor: o estomago da creança ó muito menor, tem menos capacidade do que o do adulto, tem menos força; logo, si o adulto come um kilogr. de carne, a creança bem pode comer um pedaço de bife; si o adulto come um prato de feijão com arroz, a creança pode perfeitamente comer algumas colheres, e assim por deante. Este modo de pensar, inteiramente disparatado, 6 devido á ignorância completa das primeiras noções de Physiologia, A differença que existe entre os orgãos digestivos da cre- ança e os do adulto não consiste somente no vigor e nas dimensões destes orgãos, consiste essencialmente no seu modo de funccionar; a bocca, o estomago, o intestino, o fígado do menino, não funccionam como íunccionam os mesmos orgãos no adulto, enormes differenças ha. O adulto pode comer um prato de feijão, e a creança não pode comer uma só colher, porque o seu estomago, que con- tem perfeitamente esta porção de alimento, não pode, entretanto, digirihui; o pequeno estomago é revestido de uma mucosa muito delicada para suportar o contacto de tão grosseira sub- stancia, os suecos digestivos de que o tenro ser dispõe para o trabalho da digestão não são apropriados ao preparo dessa natureza de alimentos. Alem disto, a digestão não se faz so- mente no estomago, ella começa na bocca, ella continua nos 54 intestinos; a saliva, a bilis, o sueco pancreatico e enterico, são indispensáveis á digestão. Têm estes líquidos a mesma com- posição, possuem os mesmos princípios chimicos na creança e no adulto? Vejamos: «O apparelho digestivo dos meninos, diz Baginsky, apre- senta particularidades anatómicas e physiologicas numerosas; elles exigem uma alimentação absolutamente especial. — O que desde logo chama a attenção é a seccura relativa da mucosa buccal nas primeiras semanas da vida. A secreção salivar nesta epocha é excessivamente fraca, e não começa a augmentar senão no fim do segundo mez, as propriedades diastasicas da saliva são egualmente apenas assignaladas e não se manifestam senão quando a secreção salivar torna-se mais abundante. O mesmo se dá com o sueco pancreatico que é ainda incapaz de emulcionar as gorduras.» 4) «O estomago do recem-nascido, diz Rouvier, não se asse- melha ao do adulto nem pela forma, nem pela capacidade, nem pela direcção. A grande curvatura, o grande fundo de sacco e as paredes lateraes, são pouco desenvolvidas. A capacidade varia de 20 a 40 centímetros cúbicos, no momento do nasci- mento, e só no nono mez attinge a 375 centímetros cúbicos. Seu grande eixo, em vez de ser horisontal ou levemente obliquo da esquerda para a direita; ó quasi vertical; por esse motivo os alimentos estacionam muito pouco tempo na cavi- dade estomacal.»2) Em virtude desta disposição especial (Tarnier) os alimentos passam rapidamente do cardia3) para o pyloro4) por assim dizer em virtude do proprio pezo, sobretudo quando o menino oc- cupa a posição vertical. Os movimentos peristalticos não são aqui necessários e, além disto, elles não poderiam mesmo ter *) Baginsky — Maladies des enfants. 2) Rouvier - — Hygiene de la première enfance. 3) Cardia — é a abertura superior do estomago. 4) Pyloro — abertura inferior communicando com os intestinos. 55 logar. porque os másculos das paredes do estomago estão muito pouco desenvolvidos. — O sueco gástrico1) da creança não possue inteiramente as mesmas propriedades do sueco gástrico do adulto, seu poder digestivo é muito menos assignalado, a proporção de acido é sobretudo muito menor. As glandulas de Lieberkuhn e de Breinner ainda não se acham completa- mente formadas. O fígado do recem-nascido (Baginski) é relativamente vo- lumoso e contem muito sangue, elle é maior que os dous pul- mões reunidos e segrega muita bilis. Mas esta bilis contem poucos saes orgânicos, pouca choles- terina, lecithina, gorduras e, sobretudo, poucos saes biliares; o acido glyco-cholico falta quasi totalmente. Por este motivo as gorduras são assimiladas incompletamente pelos intestinos, pois são os ácidos biliares que as emulcionam e transformam em ácidos gordurosos e glycerina. Todas estas condições fazem com que a assimilação dos feculentos também seja quasi im- possivel, e a reabsorpção dos corpos graxos difficil. A digestão é um acto complicado, é uma serie de desdo- bramentos chimicos interessantíssimos: o bolo alimentar, uma vez collocado na bocca, ahi precisa ser mastigado e perfeita- mente dividido; as glandulas da bocca produzem a saliva, ver- dadeiro fermento digestivo, que prepara a boa digestão dos feculentos, transformando-os em dextrina e glucose, e envolve o bolo, lubrifica-o e torna facil o seu escorregamento pelo esophago até caliir na cavidade estomacal. O esophago 6 dotado de uma camada muscular potente, que, em contacto do bolo alimentar, se excita e se contrahe, gradativamente impellindo a massa alimentar de cima para baixo até precipital-a no estomago. Chegado ao estomago, o orgão sente immediatamente a pre- sença do bolo alimentar, se excita, se congestiona e segrega o sueco gástrico, que, actuando sobre as substancias, alimentícias, L) Liquido segregado pelo estomago e indispensável á digestão. 56 as desagrega, as desdobra chimicamente em outras substancias chamadas peptonos, até formar um caldo (chamado chylo) capaz de ser absorvido. Este acto não se passa, nem pode passar, em pleno repouso do orgão; o estomago, em virtude de potente camada muscular que possue, se contrahe, se agita, se move, amassando o bolo alimentar que não só fica reduzido á pasta, como não pode escapar por nenhum lado á acção digestiva do sueco gástrico. Realisado este trabalho do estomago, o caldo vae passando para o intestino delgado, pela abertura inferior do orgão, que o communica com aquelle. A digestão não está ainda terminada, algumas substancias, como as gorduras, por exemplo, acham-se intactas, os líquidos estomacaes nenhuma acção exerceram so- bre ellas, ó nos intestinos que ellas vão soffrer a acção da bilis]) e do sueco pancreatico2) que as emulcionam afim de que possam ser assimiladas. Os intestinos mesmos fornecem também sua secreção própria, o sueco enterico, que contribue também para a elaboração das substancias amilaceas e gordurosas. A face interna dos intestinos ó revestida de uma túnica, semelhante ao estofo de uma toalha felpuda, recamada de franjas, chamadas villosidades; estas villosidades fluctuam no caldo, pro- ducto da digestão, e, como se fossem boccas de sanguesugas, absorvem toda a parte liquida, que passa para o sangue, deixando no intestino o bagaço, o residuo dos alimentos, composto de matérias que não foram digeridas, as quaes constituem as fezes, passam para o grosso intestino e esperam o momento de ser expel lidas. Por esta simples exposição as mães de familia podem com- prehender perfeitamente, que os orgãos digestivos não funccio- nam como alambique, não são orgãos inertes, elles são dotados de movimentos, movimentos indispensáveis á digestão; estes *) Liquido produzido pelo figado e que passa para os intestinos por meio do canal choledoco. 2) O sueco pancreatico é um liquido segregado pelo pancreas, glandula collocada abaixo do estomago, em communicação com a cavidade intestinal pelo canal de Wirsung. 57 orgãos produzem líquidos, e são estes líquidos que reduzem os alimentos a um caldo completamente transformado, capaz de passar para o sangue e circular no organismo todo. As creanças não podem, pois, se alimentar como os adultos, por motivos de ordem diversa: 1. Porque não têm dentes para mastigar. 2. Porque seus orgãos digestivos não podem carregar nem mover pesadas substancias; 3. Porque não possuem, como os adultos, líquidos cuja composição chimica seja inteiramente própria para o trabalho completo da digestão. Até uma certa edade só o leite, e leite materno, deve ser- lhes administrado, porque, além de ser de facillima digestão, con- tem todos os elementos de que a creança precisa para a sua nutrição e crescimento. Infelizmente esta norma salutaríssima não ó a seguida entre nós. O que se presenceia no seio das famílias ó verdadeira- mente horroroso: antes que os primeiros dentes comecem a dispontar, o pão, o biscoito, as broas de toda especie, a carne, o feijão, o arroz e até as fructas, são dados ás pobres creanci- nlias, sem dó nem piedade, de uma maneira pertinaz, em vir- tude de uma rotina impertinentissima, que nada pode vencer nem convencer. Esta pratica abominável se observa em todas as camadas sociaes, desde o pobre proletário até a familia do rnais abastado capitalista. As excepções a esta regra são raríssimas, talvez menos de 1 °/0. Neste modo de proceder é que reside essencialmente a causa da mortalidade das creanças em S. Paulo; as mães são assassinas dos proprios filhos. E nem se diga que todas são assassinas inconscientes, por- que mães ha ás quaes o medico faz ver os perigos que o filho corre, sujeito a este brutal costume; mas ellas, dominadas pela rotina, desprezam os conselhos profissionaes. 58 Nas classes desfavorecidas da fortuna, principalmente nas famílias indigentes de immigrados, é que se ostentam quadros verdadeiramente desoladores ácerca do modo de se alimen- tarem as creanças. — Estando uma occasião em casa de uma dessas famílias, chamado para assistir uma senhora em tra- balho de parto; um menino, que jazia no chão, enlameado na própria urina e excrementos, poz-se a chorar; a mãe, atarefada com a parenta, que estava prestes a dar á luz, não levantou a creança, apanhou uma cousa no chão, molhou na panella de feijão e deu-lhe a chupar. Tive curiosidade de verificar que amuleto era aquelle de consolar creanças: era uma tórada de carne secca, suja de terra e de excremento, que neste estado foi dado a chupar ao pobresinho! Uma outra vez vi uma mulher dando polenta com macarrão a um menino de um anno, e, como elle regeitasse tão impró- pria alimentação, ella empurrava com o dedo o que dava, e apertava os beiços do menino para fazel-o engulir á força. Levadas pela ganancia de ganhar a vida e fazer fortuna, estas mães desnaturadas abandonam as creancinhas, durante o dia todo, entregues aos cuidados de alguma parenta velha, que tem como tarefa não deixar os meninos chorar, e o meio ó a comida: ora é o pão duro, azêdo, desmanchado n’agua, ora o caldo de feijão com farinha de mandioca, restos de macarrão com queijo, pão molhado em vinho zurrapa, etc. etc. Algumas mais conscienciosas compram uma garrafa de leite aguado e administram aos meninos n’uma mamadeira, fin de siècle, que rola constantemente polo chão e que nunca se lava, nem mes- mo que passasse um rio pela porta. E’ incrível! Eu não faço romance, todos estes factos foram por mim observados, ha muito que estudo nas classes baixas o modo de se alimentarem as creanças, e si eu fosse descrever tudo quanto observei de impropio e de antihygienico teria que escrever um outro volume. E querem que a mortalidade das creanças em S. Paulo não seja medonha si nós possuímos em nosso seio centenas de famílias de certos immigrados que procedem da mesma forma. 59 Só vejo um meio de pôr termo a este morticínio, é a in- tervenção decidida do governo criando creches; é a Caridade abrindo as brancas azas, para sob ellas aninhar estes infelizes, salvando-os das garras de seus proprios paes. Emfim, não querendo continuar na exposição destes bár- baros costumes, trato de resumil-os nas seguintes phrazes: No seio cias nossas famílias, salvo raríssimas excepções, dá-se ás creanças uma alimentação imprópria, descle os pri- meiros dias da vida. Não se pratica entre nós nem o alei- tamento natural nem o aleitamente artificial exclusivos, faz- se um pouco de tudo: a creança, ao mesmo tempo que recebe o leite da própria mãe, bebe também leite de vacca na mama- deira e come tudo quanto julgam conveniente dar-lhe. Estudemos agora e salientemos bem os inconvenientes deste methodo sui generis de criar meninos. Felicíssimos nos julgaremos si conseguirmos calar no animo das leitoras quão nociva ó essa pratica. Quando se administra á uma creança de tenra edade o feijão, a carne e outras substancias impróprias á sua alimen- tação, estas substancias chegam ao estomago incompletamente mastigadas, alii estacionam muito tempo a espera de serem digiridas, e como não encontram elementos para isto, pelos motivos já precedentemente estudados, passam intactas ou mal digeridas para os intestinos, deixando a mucosa do estomago lesada, inflammada portanto. Uma vez nos intestinos, estas substancias não digeridas actuam como corpo estranho, conge- stionam estas vísceras, ha afluxo de sangue, um derrame de serosidade se processa e a diarrhea se estabelece immediata- mente. A creança prostra-se, tem febre e, muitas vezes, sobrevêm convulsões e ate a morte. Outras vezes, porém, a familia chama o medico, receita-se um medicamento apropriado, alguma dieta; a diarrhea des- apparece e tudo entra na normalidade primitiva. 60 0 menino goza do alguma saude durante lõ dias, um mez, no máximo; quando tornam a fornecer-lhe nova provisão de carne e feijão, a creança torna a adoecer, torna-se a medicar, melhora, dão-lhe de novo alimentação imprópria, e assim con- tinua até que, no fim de certo tempo, estabelece-se uma espe- cie de apparente tolerância do apparelho digestivo: a creança passa a comer de tudo quanto lhe dão, não tem febre, não se prosta mais no leito; mas uma diarrhea chronica se mantém, essa diarrhea não cessa, o estomago e os intestinos do menino transformaram-se n’um verdadeiro canudo, segundo a feliz ex- pressão do notável collega Snr. D]1. Guilherme Ellis, por onde os alimentos entram e sabem, sem soffrerem alteração alguma e sem aproveitarem em nada ao organismo do tenro ser. O menino empallidece, toma umas cores de defuntinho, o ventre cresce, devido ao meteorismo abdominal perenne, as pernas se afinam, os bracinhos se atrophiam. os olhos cavão-se, dos lábios se apaga o carmim e o riso da saude; olheiras lívi- das orlam as palpebras, o caracter se modifica, agasta-o qual- quer cousa, o pobresinho está prestes a descer ao tumulo. A família se alarma, o medico 6 de novo chamado para trazer á vida este organismo depauperado. E’ então que se assiste alguma cousa de revoltante: o medico diz aos paes: — O menino não deve comer, não pode comer, a mais severa dieta precisa ser observada, apenas algum leite durante o dia e o medicamento. — Sabe o medico; logo que o veem longe, todos se oppõem ás suas prescripções o ouvem-se as seguintes reflexões: — Ora vejam bem, pôr se a creança em dieta, dar-lhe apenas algumas colheres de leite, quando o menino está a cahir de magreza; o que elle precisa é comer, o que o Dr. devia ter-lhe dado era um re- médio para o estomago, de modo que elle digerisse o que come. Chamemos outro medico. — Vem um outro medico que receita farinha lactea, phos- phatina ou cousa que o valha; o resultado ó a morte infalível. Outras vezes a creança cahe no estado de athrepsia, antes do consummatum est; confrange o coração ver-se o pobresinho 61 neste estado visinho da morte, mudo, quedo no berço, redu- zido á inqualificável magreza, semelhante a retirantes do Ceará, sem forças para gemer, os olhos baços, a pelle furfuracea e ru- gosa, as orbitas encovadas, os cabellos seccos, o ventre pegado á espinha, as mãos formando garras. E dizer-se que são os paes (pie conduzem os filhos a este descalabro. E’ incrível! Estes filhicidios, permittam-me o neologismo, dão-se quasi diariamente nas famílias de S. Paulo. São estas as consequências de administrarem ás creanças alimentos grosseiros, impróprios á sua edade. O rápido esboço que fizemos deste quadro triste de misé- ria organica em que cabem os meninos mal alimentados (bem alimentados segundo a expressão dos seus algozes) oxalá con- vença as mães inexperientes e corrija a sua teimosia. Fica, pois, bem expendida a minha opinião ácerca da questão que constitue o assumpto deste livro: O principal factor da mortalidade das creanças em S. Paulo, como provam as estatísticas, são as moléstias do tubo digestivo, que reconhecem como causa primor- dial a alimentação imprópria de todo genero, que se for- nece ás creanças nos dous primeiros annos da vida. Resolvam-se as mães de familia a alimentar seus filhos de accordo com os princípios da Hygiene, que o algarismo do obituário das creanças ficará reduzido ás suas proporções ine- vitáveis. Expendida a nossa opinião, vejamos agora qual e o modo de pensar dos próceres da sciencia medica de S. Paulo sobre o mesmo assumpto. A minha humilde opinião somenos valor e importância teria, si eu não a corroborasse com o parecer de collegas dou- tos, capazes de, melhor do que eu, elucidar questão tão seria e momentosa. Nesta convicção dirigi a alguns clinicos notáveis desta capital, conhecidos pela sua longa experiencia e illustra- ção, a carta, abaixo reproduzida, á qual todos fizeram a fineza 62 de responder e cujos pareceres desvaneço-me em publicar. Agradeço a esses illustres companheiros a preciosa collabora- ção, que constitue as paginas de maior valor deste simples ensaio. Carta dirigida aos Snrs. Drs. Arthur Azevedo, Tlieo- doro Reiehert, Virgílio de Rezende, Henrique Thompson, Guilherme Eliis, Mello Barreto, Amancio de Carvalho e Jayrne Serva. Prezado collega! Estando empenhado na publicação de um pequeno tra- balho ácerca da mortalidade das creanças nesta capital, per- mitta-me recorrer ao seu tirocínio clinico nesta cidade, afim de elucidar alguns pontos desta momentosa e importante questão. Rogo-lhe a fineza de, rememorando a preciosa collecção de observações que possue, responder-me: 1. Quaes as moléstias, que, segundo a sua observação, preponderam na Pathologia infantil desta capital e que, com mais frequência, figuram como causa de morte? 2. Qual a impressão que tem recebido no seio das fa- milias braxileiras, em geral, ácerca do modo de se alimentarem as creanças nos dous primeiros annos apoz o nascimento? 3. Pratica-se entre nós o aleitamento natural como elle deve ser comprchendido? Com a sua resposta muito me obrigará, etc. etc. Do collega e am.o ob.o João Teixeira. S. Paulo, Janeiro de 1894. Resposta do Snr, Dr, Amancio de Carvalho1* 1° Quaes as moléstias, que, segundo minha observação, pre- ponderam na pathologia infantil desta Capital e, que, com mais frequência figuram como causa de morte. 2.° Qual a impressão que tenho recebido no seio das famílias brazileiras, em gerai, acerca do modo de se alimentarem as creanças nos dous primeiros annos após o nascimento. 3.° Pratica-se entre nós o aleitamento natural como ello deve ser comprehendido: Eis as tres questões que forão-me apresentadas pelo iIlustre Snr. Dr. João Teixeira, cada qual mais importante e que prestam- se a largo desenvolvimento, o qual não posso faze-lo em res- posta tão despretenciosa. Ao appello, que agradeço, feito por tão competente profissional, acudo, finne na certeza de que minha boa vontade suprirá as deficiências da resposta. l.a Se não fosse o receio de disvirtuar a pergunta, eu a di- vidiria em duas partes: (A) uma relativa á pathologia infantil x) As respostas são publicadas na ordem da data em que foram recebidas. 64 (lesta capital: e, outra (B) comprehendendo as moléstias que com mais frequência figuram como causa de morte. Attendendo, porém, áquella razão e, mais á necessidade de ser breve, re- spondo consoante á pergunta o meu fraco modo de pensar. De todo o quadro nosologico infantil, as moléstias que em S. Paulo tenho visto attacar mais as creanças, são as do appa- relho respiratório e digestivo. As d’aquelle tem sua explicação nas vicissitudes' de temperatura, tão frequentes entre nós: as deste, no modo de alimentação das creanças, tão incorrecto e deficiente, quanto nocivo e, que são as que contribuem com maior cifra e frequência na mortalidade d'aquellas. 2“ Constitue parte de meu programma clinico, ensinar, expli- car e exemplificar, todas as vezes que sou procurado, qual o regimen a seguir-se, quanto á alimentação das creanças. Isto que faço, todos os médicos também o fazem. Entristece, ver- mos deprezados, em geral, conselhos tão salutares, que, si fos- sem observados, muito contribuiriam para a diminuição da mor- talidade infantil. Economicamente, no geral, a alimentação das creanças é toda artificial. 0 leite de vaeca, de cabra, o leite condensado, a farinha lactea e até o macarrão (!), eis o alimento da creança, que fadada a futuro tão risonho, torna-se assim um ser inca- paz de lisongeira evolução organica. Si, ao menos, o leite administrado nas mamadeiras, fosse esterilisado, como lamento não ser entre nós, os perigos ficariam reduzidos á cifra insigni- ficante. E’ a contaminação do leite, a causa quasi unica das graves perturbações da nutrição das creanças. E, tanto isto é verdade, que a garantia da creança que mama, está em ingerir o leite, ao abrigo do ar. Isto ó: o leite passa da glandula ma- maria para a bocca da creança, sem pôr-se em contacto com o ar. 0 que dá-se com a creança que mama no peito da mu- lher, dá-se com as que o fazem nas tetas das cabras e das 65 vaccas. Esterilize-se, pois, o leite, e, a mortalidade, estou certo, diminuirá. Isto pelo lado economico. Agora, por outro lado. A mulher, cuja ternura das lagrimas é tão eloquente quanto a seducção de seu riso, possue o dom da belleza, que ella procura cultivar com todo esmero. Tudo põe em contri- buição para não perdel-a. Si, abastada, torna-se mãe, acredi- tando que com a amamentação a flor perde o perfume, entrega o filho á ama mercenária, cujo leite não tem o aroma suave do seu. E d’ahi o que decorre? Ou a ama tem o organismo viciado por mal adquirido ou congénito, e, o leite, envez de ser o vehiculo da vida e o da morte, ou então, possue uma organisação, mesmo privilegiada. Mas, tal qualidade não suppre os defeitos da ignorância e inexperiencia. Sou incansável em sustentar que, salvo alguns casos excepcionaes, toda mulher que dá á luz, pode e deve amamentar seu filho. Tudo está no saber fazer. Ha entre nós o erro de acreditar-se, que todas as vezes que a creança chora, 6 porque tem dor de barriga: e, logo, o remedio ó o peito, até fartar-se. Momentos depois, a creança vomita parte do leite ingerido, e isto tantas vezes repete-se, que fica sendo um ser predisposto ás moléstias do tubo gastro-intestinal. Acceito e aconselho a pratica do eminente Prof. Budin. Ensina elle que a mulher dê leite ao filho do 2 em 2 horas, durante 10 a 12 minutos; isto, do dia. De noute, 2 a 3 vezes no máximo. Assim tanto a mãe como o filho só tem que lucrar. Folgo em declarar que aqui já tenho visto serem praticados esses con- selhos, e até por uma senhora á qual muito prezo, e que por fraca não podia crear os filhos. Affirmo que hoje está ella creando uma menina, cuja belleza (tão gorda ella está) está na razão directa da gordura da mãe. Alisto-me, pois, nas fileiras dos que, salvo excepções, combatem a alimentação artificial. O uso e abuso de alimentos outros, que não o leite, reputo-os facto criminoso, que devia ser punido. A despopulação é um mal que deve ser seriamente encarado pelo poder competente. Si consultarmos as estatísticas, a mortalidade infantil é des- animadora. Si o governo de S. Paulo, que conta em seu seio 66 um profissional medico, cuja aptidão e serviços já tenho ap- plaudido, unir-se a quem saiba e queira trabalhar, a mortalidade das creanças, será pagina muito pouco escripta nos livros do obituário. 3.a Julgo ter respondido com as já feitas. Eis minha opinião, Snr. Dr. Teixeira. Não tem outro va- lor senão o de querer ser agradavel á S. S.a, que melhor po- derá elucidar assumpto tão importante. Escrevi-a, ao correr da penna. E’ o que basta para pedir desculpas das incorrec- ções e omissões. S. Paulo, 27 de Janeiro de 1894. Dr. Amando dc Carvalho. Resposta do Snr, Dr, Mello Barreto. Prezado collega Snr. Dr. João Teixeira! Satisfazendo ao seu questionário relati vara ente á importan- tíssima questão da Mortalidade de Creanças n’esta Capital tenho a responder-lhe: 1. As moléstias que de modo assustador dizimam as cre- anças, residentes na Capital de S. Paulo, são as do tubo gastro- intestinal, a enterite, a entero-colite e a gastro-enterites. Em segundo plano de frequência figuram as moléstias do apparelho respiratório, nomeadamente a bronchite e a broncho-pneumonia. Cumpre notar-lhe que o paludisimo e algumas vezes a causa das moléstias que acabo de referir. 2. O regimem alimentar geralmente adoptado durante os dous primeiros annos após o nascimento das creanças é in- felizmente defficiente e muitos vezes prejudicial. 3. O aleitamento natural exclusivo durante o lapso de tempo necessário, é uma excepção de regra, sendo de pratica quasi geral dar-se concomitantemente o leite de vacca ou o de cabra, quasi sempre addicionado d’agua. Sou de opinião que 6 principalmente na alimentação imper- feita que encontra-se a causa primordial da grande mortalidade das creanças. Do collega e amigo Dr. Mello Barreto. S. Paulo, em 28 de Janeiro de 1894. Resposta do Snr, Dr. Henrique Thompson, Prezado collega Pr. João Teixeira! Aproveitando algumas horas de lazer passo a responder aos quesitos formulados com maestria pelo collega na missiva, que teve a gentileza de pessoalmente entregar-me, sobre a im- portante e momentosa questão da mortalidade das creanças nesta cidade. Não pretendo com a minha resposta, que será breve e des- pida de atavios, elucidar uma questão que, adlmc sub judice est, porque faltam-me forças para tão grande commettimento; e, mesmo porque, dedicando-me a outras especialidades, que não a de moléstias de creanças, a minha attenção só foi chamada para ella, quando o illustrado Dr. Cesario Motta, Ministro do Interior, com a sollicitude e zelo, que sóe desenvolver, quando se trata de esclarecer um ponto obscuro da nossa nosologia, nomeou uma connnissão composta de tres distinctos médicos desta capital, afim de estudal-a e sobre ella emittir parecer. Feitas estas ligeiras considerações passo a responder en- globadamente os quesitos, porque acham-se por tal forma prezos um ao outro, que não podem ser separados para serem res- pondidos isoladamente; e, respondo com tanto mais cuidado e interesse quanto entrevejo que, da acareação das opiniões que surgirem, brotará a luz que esclarecerá esse ponto obscuro da pathologia infantil. Quanto ao primeiro quesito respondo: As moléstias que, segundo minha observação, preponderam na pathologia infantil, e mais victimas fazem, são as do tubo 69 gastrointestinal e as das vias respiratórias, ou em outros ter- mos, a enterite, a entero-colite e a broncho-pnoumonia. Ha mesmo médicos, aliás de nomeada, que sustentam com estirados argumentos que nestas duas moléstias se resume toda a pathologia infantil. A enterite aguda primitiva ó sobretudo frequente de seis mezes a dous annos — isto é — durante o periodo da primeira dentição; por isso tem-se admittido uma correlação entre a diarrhea e a erupção dos dentes; alguns médicos têm mesmo considerado o catarrho intestinal durante a dentição como um derivativo physiologico providencial des- tinado a attenuar a irritação sympathica do cerebro. Trousseau combatendo esta theoria estabeleceu d’uma ma- neira evidente que a dentição expõe ao catarrho gastro-intes- tinal: ha meninos que a cada irritação dentaria são atacados de diarrhea. Alguns explicam esta susceptibilidade toda particular da mucosa gastro-intestinal admittindo que o desenvolvimento dos dentes coincide com a evolução das glandulas e dos folliculos da mucosa intestinal. Como quer que seja, a dentição, a meu ver, não é senão uma causa predisponente; a verdadeira, a determinante, deve ser procurada algures, fora do organismo. Todas as causas de dyspepsia na primeira infancia podem determinar uma inflammação catarrhal do tubo digestivo. A creança é accommettida de enterite quando é submettida a /ou regímen que não é apropriado á sua capacidade digestiva. Entre nós ha o costume de dar-se ás creanças de 4 a 5 mezes de edade, mal despontam os incisivos, caldo de gallinha ou de feijão, engrossados com farinha de mandioca ou de milho. Ora não estando o tubo intestinal dessas tenras creanças preparado para receber esses alimentos, que, para serem dige- ridos e afinal absorvidos, precisam de orgãos mais aperfeiçoados, entram os alimentos, no fim de algumas horas, em fermentação, dando logar a phenomenos locáes graves, caracterisados por vomitos e diarrhea (gastro-enterite) e a phenomenos geraes assustadores, caracterisados por febre intensa e ás vezes con- 70 vulsões. E’ o que tenho observado aqui, 11a capital — e ao Norte deste Estado — em Parahybuna e Jaearehy. E’ preciso que nós outros médicos nos unamos e procu- remos, por todos os meios ao nosso alcance, extirpar do seio das familias brazileiras 0 enraigado costume de dar ás creanças alimentos não apropriados á sua capacidade digestiva. E111 resumo, os desvios de regimem na alimentção das creanças são, a meu ver, a causa que contribue em grande escala para a mortandade que figura diariamente no obituário. Antes de quatro mezes a creança deve alimentar-se exclu- sivamente de leite sugado na própria mãi, que será melhor, ou em uma boa ama, Duas ou tres horas, depois do parto, logo que a mãi possa assentar-se, ó preciso pôr immediatamente a creança ao seio, embora 0 leite não lhe tenha ainda acudido. Esta pratica tem a vantagem, d’um lado, de ageitar 0 mamelão pela sucção, d’outro lado, de desempedir os conductos galactipheros do colostrum nelles concretado; e, em terceiro lugar, de desembaraçar os gossos intestinos das creanças do meconio ou ferrado alli accumulado durante os últimos mezes de vida intra-uterina. Desde 0 se- gundo dia, depois do parto, a creança encontra um alimento, que a satisfaz bem. Nos primeiros tempos dar-se-á a mamar frequentemente — todas as vezes que a creança accordar — dez ou doze dias depois, quando a creança mamar bem todas as vezos que se lhe dá 0 seio, é preciso regrar a amamentação tanto 110 inte- resse delia como no da mãe. Diz-se que a creança mama abundantemente quando in- gere de 60 a 80 grs. de leite. Si a creança é forte e vigorosa e não suga esta quanti- dade, ó porque 0 leite não ó de boa qualidade ou a ama não é boa. Como conhecer si uma mulher é boa ama? Seguindo os conselhos de Natalis Guillot. «— Antes de pôr a creança ao seio pese-a numa balança, nua ou envolvida em suas vestes; quando tiver mamado, pese-a 71 de novo, do mesmo modo, o excedente do peso dá a medida exacta da quantidade do leite que a creança mamou. A cre- ança deve, repito, mamar de 60 a 80 grs. de leite, nos primeiros dias de sua vida extra-uterina. Mais tarde — na edade de 5 a 6 mezes — a creança deve mamar 250 grs. de leite. E’ conveniente qne a creança mame cinco a seis vezes por dia, das 6 horas da manhã ás 9 da noute; porém é con- veniente também que, tanto quanto possivel, a creança não mame durante a noute, afim de que a mãi possa ter de 8 a 9 horas de somno tranquillo, necessário á sua saude. De seis mezes em diante pode-se dar á creança algumas sopas leves, compostas de alimentos feculentos — como araruta, — tapioca — farinha de mandioca, de trigo et ccetera. Estes alimentos devem ser preparados com leite, agua e assucar. Os alimentos gordurosos podem ser dados ás creanças, não devem porém constituir a parte principal de sua alimentação. A amamentação artificial, a qne consiste em alimentar se a creança com leite de vacca, por meio da mamadeira, é em geral um modo de alimentação deplorável. Este modo é a causa a mais poderosa da mortalidade das creanças aqui, nesta cidade; pode se dizer sem mêdo de contestação que — sobre quatro creanças assim amamentadas morre uma — quanto as que resistem, é muitas vezes á custa de sua saude e de sua constituição. Quando, porém, circums- tancias independentes da vontade das mães obrigam-nas a re- correr á amamentação artificial, ha regras, conforme ensina o íinado Dr. José Pereira Rego, de saudosa memória, que devem ser observadas, afim de attenuar-lhe os maus effeitos. O leite de vacca é sem duvida o melhor — é preciso empregar um — leite 7nedio — isto é — o que resulta da mistura de muitos leites do mesmo estábulo. Neste leite, nos primeiros mezes da vida da creança. deve ser misturado algum liquido fecu- lento — agua panada, decocção de cevada ■— infusão de sementes de linho, na proporção d’um terço d’agna para dous • de leite. Esta mistura será moderadamente assucarada e aque- cida na temperatura do corpo. Com o crescimento da creança 72 em edade ir-se-á diminuindo paulatim et gradatim a proporção d’agua até a creança tomar leite puro. O leite quer misturado, quer puro, deve ser submettido á esterilisação discontinua ou melhor continua, antes de ser dado á creança. Observa-se entre nós as regras que venho de indicar? Não — A’s creanças recem-nascidas dão as comadres e mesmo as parteiras diplomadas, como tenho visto no interior, com o fim de expellir o meconio, mel de abelhas, substancia indigesta — e que, alem disso, embriaga a creança pelo des- dobramento do assucar em álcool. Como alimento ministram ás creanças durante as primeiras vinte e quatro ou trinta e seis horas, ató o apparecimerito do leite, agua assucarada ou antes adoçada com assucar, que, além de não nutrir a creança, obra como substancia indigesta, por- que as creanças supportam difficilmente o assucar. — Tenho visto creanças affectadas de vomitos, logo após o nascimento, por se lhes ter encharcado o estomago d’agua assucarada. Dá-se também ás creanças, logo após o nascimento — leite velho — como se diz vulgarmente — leite que não sendo apropriado á capacidade digestiva da creança, dá lugar a uma serie de symptomas, que podem ser o ponto de partida de graves moléstias do tubo gastro-intestinal. Quando a creança attinge á edade da 4 a 5 mezes dão- lhe também, como tenho visto, alimentos muito gordurosos, que não sendo digeridos, produzem intensa irritação gastrica. Tenho visto no interior deste Estado dar-se ás creanças banana do S. Thomé assada, reduzida á massa e adoçada com assucar. Ao uso da mamadeira entre as famílias brazileiras, sem as cautellas necessárias — de lavagem e desinfecção — atribuo também, em grande parte, a causa da mortalidade das creanças. Entre nós observa-se o aleitamento natural como deve ser comprchendido ? Infelizmente não — insuffiencia mental das mães — pois, além de não regrarem a amamentação, dão ás creanças ali- 73 mentos de difficil digestão, impróprios a seus intestinos, os quaes produzem quasi sempre graves desordens gastricas. Quanto á broncho-pneumonia que assignalei no principio deste despretoncioso trabalho, como causa de mortalidade das creanças nesta capital, é ella devida, segundo me tem ensinado a observação diaria — ás variações bruscas de temperatura á exposição da creança ás correntezas de ar e, finalmente, á immersão da creança em banho quente e á sua demora nelle até esfriar de todo. Convém trazer a creança sempre agasalhada para preserval-a das variações bruscas de temperatura; — não despil-a ao ar livre — nem expol-a ás fortes correntezas do ar. Trazer a cabeça sempre descoberta ou então coberta d’uma leve touca. O banho deverá ser de curta duração e de tem- peratura egual a do corpo das creanças nos primeiros tempos; mais tarde, ir-se-á diminuindo pouco a pouco a tempera- tura do banho até ficar completamente frio. O banho assim tomado não só impede as creanças de con- trahirem — bronchites — que são muitas vezes o ponto de partida de broncho-pneumonias graves, como empresta vigor o força ás creanças. Terminando este trabalho, que vai alem dos limites que lhe tinha traçado, peço-lhe desculpa si não se presta ao fim que tem em mira. Aguardando suas novas ordens subscrevo-me com toda a estima do collega am.° ob.° Henrique Thompson. S. Paulo, 29 de Janeiro de 1894. Resposta do Snr, Dr, Jayme Serva, 1 Ilustre collega Snr. Dr. João Teixeira! Em resposta á presadissima carta, que vos dignastes diri- gir-me em data de 22 do corrente, em relação á pretenção que tendes de confeccionar um trabalho a respeito da grande mor- talidade das creanças entre nós, facto por mim, em tempo, denunciado por meio dos dados estatísticos exhibidos por oc- casião da realisação do serviço de demographia desta capital, de que me acho encarregado, tenho o maior prazer de, como já o fiz verbalmente, communicar-vos que me acho ás vossas ordens para tudo que me ordenardes, já como funccionario, que sou desta repartição, já como collega e clinico residente n’esta cidade, ha longos annos. Junto envio-vos o resumo synthetico da mortalidade geral occorrida nesta capital em 1892 e em 1893, por onde, expli- cadas como se acham as suas diversas classes e agrupamentos, facil vos será deduzir o que diz respeito ao assumpto, que vos prende a attenção, e que é a magna questão da actualidade. Sinto, por estar muito doente e sempre muito preoccupado, não poder melhor vos auxiliar n’este importante tentamen; mas, considerando a minha incompetência e a falta de habili- tações de minha parte, nada tereis a perder. Crede, entretanto, que não me falta boa vontade, e que não me poupando a esforços, sempre que meo estado de saude o permitia, concorrerei com o meo fraco contingente para a consecução dos fins que tendes em vista, só tendo a louvar- vos pelas boas diposições em que vos achais a bem de uma 75 causa tão importante, e ao paiz pelo muito que vos terá a dever com a publicação dJaquillo a que vos propondes. Começo por prevenir-vos que, como vereis pelos resumos apresentados, considero como capital as quinze freguezias, de que se compoe, de accordo com a divisão judiciaria, que tomei por base de meos trabalhos officiaes de demographia, o muni- cípio; sendo 4 da cidade propriamente dita e onze das paro- chias sub-urbanas; á saber: Sé, Santa Ephigenia, Consolação, Braz, Penha, N. S.a do O’, Juquery, S. Miguel, S. Bernardo, Conceição dos Guarulhos, M. Boy, Itapecerica, Cotia, Parnahyba e Santo Amaro. Na pathologia infantil desta capital as moléstias, que pre- ponderam, e que com mais frequência figuram como causa de morte, são, incontestavelmente, as do apparolho gastro-intestinal. A impressão que tenho recebido no seio das famílias bra- zileiras, em geral, acerca do modo de se alimentarem as cre- anças durante os dous primeiros annos apoz o nascimento 6 differente conforme a classe, a que ellas pertencem, sendo, porem, forçoso reconhecer que, em geral, ainda não são obser- vados á risca os preceitos da boa Hvgiene em relação á ali- mentação das creanças ainda mesmo no seio das melhores famílias. Digo em geral, porque ha, e nem pode deixar de haver, muitas e honrosas excepções. Em these, pode se dizer que rara ó a íamilia brazileira, em a qual se veja pòr-se em execução, á risca e em rigor, tudo quanto hoje aconselha e prescreve a Hygiene moderna com as suas bem entendidas exigências. Desde o dia em que nasce até completar-se o 2.° e o 3.° anuo de sua existência, rara ó a creança, entre nós, que faz uso de uma alimentação apropriada a seu apparelho gastro- intestinal, e de conformidade com o que manda a sciencia e as necessidades de sua economia, e de sua nova organisação, que tudo ainda tem por formar-se e fazer-se. De facto: poucas e bem poucas são as que alimentam-se com o leite de suas próprias mães, o que devera de ser a primeira condição a realisar-se a bem de sua saude presente 76 e futura, e de seu desenvolvimento. Sabemos que nem sempre consegue-se este grande desideratum: na difficuldade em que se vêm, em geral, nem todas as famílias, porem, procuram uma ama de leite para amamentar seos tenros filhinhos; c quando o fazem, as mais das vezes, não preside á escolha das amas o cuidado, o exame, a circumspecção e o rigor na escolha de uma em condições de perfeitamente, e completamente, sub- stituir a própria mãe. Não ha ainda, como já devera haver, no meio em que vivemos, uma regulamentação para o serviço das amas de leite, o que fora de grandes e dos mais beneficos resultados em favor das creanças, e portanto em prol da futura população do paiz. Evitar-se-iam, por esta forma, muitas e muitas moléstias, que não só podem se manifestar n’essa edade, como também deixam muitas vezes para fazer explosão em outra epocha da vida, dando em resultado homens e mulheres pouco robustos, sem saúde, incapazes para qualquer cammettimento, com todas as consequências, que disso provem, e constituindo-se também por sua vez, depois, com os casamentos que contrahem, causas da procreação de outros entes, que já desde o seo berço trazem todos os germens de decadência physica com todos os resul- tados, que disso são provenientes. Males ainda maiores, são todos os dias na pratica obser- vados pelo uso e abuso das mamadeiras, que, para muitos hygienistas, são consideradas as maiores assassinas das creanças. A alimentação artificial, que só por excepção, e como medida ultima e desesperada deve ser utilisada, dá sempre os peiores resultados, pois ainda mesmo que seja feita nas melhores con- dições. e lançando-se mão, como recurso de occasião, do leite de vacca, ainda assim é prejudicialissima e das mais graves consequências. Em these, nada ha que possa substituir o leite materno, ou, em segundo logar, o leite de outra mulher; mas quando por necessidade seja preciso recorrer-se á alimentação artificial, e devendo neste caso ser preferido o leite de vacca, por ser elle mais facil de conseguir-se, ainda não deixa de ser, senão 77 por excepção, de más consequências tal maneira de nutrir os pequenos entes, pois, como é sabido, nem sempre esse leite é tolerado por elles; não se pode contar com esse leite sempre da mesma vacca, condição que não deve ser esquecida, todos os dias, nas melhores condições de pureza, acrescendo que não sendo possível verdadeira limpeza nas mamadeiras, a sua esteri- lisação, inevitáveis serão as suas consequências desastrosas sobre a organisação por formar-se dessas pobres creaturinhas. Se passarmos da amamentação, e do aleitamento artificial, para os outros systemas de alimentação, de que fazem uso, em geral, as nossas creancinhas, peza-nos dizer que, com raras ex- cepções, e ainda mesmo entre as nossas melhores famílias, poucas e bem poucas são as que se alimentam de conformi- dade com os mais severos preceitos da hygiene. E, se isto se observa entre pessoas de educação, e em famílias abastadas, em as quaes abundam os recursos de toda ordem, fácil é cal- cular o que se dá entre as de classe inferior e entre as quaes escasseiam os meios de subsistência, Não 6 raro vermos meninos com uma grande banana a ingerirem, e com ella um veneno, cujas consequências só mais tarde somos chamados a remediar: em geral o feijão e o arroz, pode se dizer, constituem a base de toda alimentação das pobres creancinhas nesta cidade. E, se isto dá-se entre as famílias brazileiras, é facil de calcular-se o que se deve passar entre as extrangeiras, em cujo numero predominam as de italianos, em sua maioria compostas de indivíduos de educação completamente differente, e cujo estado de adeantamento é sem duvida inferior ainda ao nosso. Tanto basta, e mais nada preciso accrescentar, para fazer- se um juizo exacto do que vai por aqui em relação ao as- sumpto em questão. Em resposta ao vosso terceiro quesito, pois creio aos dons primeiros já ter respondido, sou de opinião que não se pratica o aleitamento natural entre nós como elle deve ser compre- hendido, e os argumentos em que me fundo para assim pensar já ficaram expendidos nas considerações já feitas a tal respeito. 78 Depois das moléstias do apparellio gastro-intestinal, que são as que mais pezam na mortalidade geral das creanças, e especialmente no verão, vêm as do apparellio respiratório, as quaes preponderam no inverno, devido isto, como é sabido, e como é facil de reconhecer-se, ao abaixamento de temperatura e ao estado hygrometrico do ar nessa estação do anuo. E’ o frio húmido nesta estação do anuo que é disso causa. Alem das causas apontadas, e a que me tenho referido, uma que muito concorre para o facto, de que nos occupamos, é, sem duvida, em minha humildo opinião, a mudança brusca de temperatura, que muitas vezes se opera entre nós, maxime no inverno, oscillando o thermometro muitas vezes de maneira notável, e de fornia a produzir effêitos os mais perniciosos a todos, e mais ainda ás creanças: egualmente variam os ventos muito frequentemente, e de um momento para outro: isto, que é conhecido por todos, si no inverno com as outras causas já mencionadas dá logar a tantas manifestações mórbidas para o lado do apparellio respiratório, não ha duvida que tanto nessa estação do anno, como no verão, também muito pode influir para o accrescimo das enfermidades do apparellio digestivo, e para a grande mortalidade por ellas produzida. Como factores importantes para taes resultados outras cir- cumstancias não menos importantes contribuem também por seo lado. Com effeito, não ha quem ignore que é esta uma cidade que tem nestes últimos annos attingido a um gráo de desenvolvimento, que não era de esperar; a população tem augmentado de maneira notável, especialmente a extrangeira: entretanto não estavamos para isto preparados, dando este facto em resultado ficar a população agglomerada em prédios não só em pequeno numero, e não dispondo das accommodações ne- cessárias, como sem a lotação proporcional aos moradores. Não é difficil, pois, calcular-se as consequências a advir, deste estado de cousas, especial mente para as creanças, que não só mais tempo residem nas habitções, e nellas se demoram, como tam- bém mais se resentem das influencias deleterias por essas causas originadas, attendendo - se á sua maior impressionabili- 79 clade, e aos seos orgãos ainda não em estado completo e per- feito de desenvolvimento. Reuna-se a isto a naturza da alimentação, de cpie fazem uso os extrangeiros, recem-chegados ou não, que, por economia e por todas as outras razões, é a peior possivel, e teremos em substancia as causas a que desejamos chegar para dar expli- cação ao facto principal, de que nos occupamos, e que tem merecido a attenção geral. Junto tenho a honra de remetter-vos alem do resumo synthetico da mortalidade nesta capital de 1892 e 1893, tra- balhos confeccionados pela secção de demographia a meo cargo, que podem talvez vos servir de alguma forma para o que pretendeis realisar. Do Collega e am.° ob.° Jayme Serva. S. Paulo, 30 de Janeiro de 1894. Resposta do Snr, Dr, Theodoro Reichert. Prezado collega Snr. Pr. João Teixeira! Recebi sua estimada carta de 21 do corrente, na qual o collega faz-me varias perguntas sobre as moléstias das creanças, as quaes, com toda a satisfacção respondo. As moléstias que, segundo a minha observação, prepon- deram na pathologia infantil d 'esta capital, victimando as cre- anças, são: as gastro-intestinaes e as do apparelho respiratório. Devem ser collocadas em primeiro logar, as differentes diarrheas, taes como a diarrhea verde, a mucosa, a biliosa, a chylosa e a li ente ri Estas diarrheas tornam-se bem graves nas famílias desprovidas de recursos, aonde falta a boa amamentação da creança, o asseio, o cuidado, a liygiene, a dieta e a alimen- tação artificial apropriada. E apparecendo a diarrhea n’estas creanças, quasi sempre é ella desprezada e sómente são appli- cados os meios therapeuthicos para combatel-a, quando a mesma já tomou proporções graves e perigosissimas. Infelizmente em S. Paulo faltam os estabelecimentos de caridade, para prevenirem a grande mortalidade d’estas creanças. Das moléstias do apparelho respiratório, predominam a bronchite, a pneumonia e a bronchite capillar, provocadas pela suppressão da transpiração, pela impressão repentina de ar frio, pelas bebidas frias e geladas, achando-se o corpo em trans- piração, e pelas bruscas mudanças athmosphericas, tão frequentes em S. Paulo. Também 11’estas moléstias, as creanças, filhas de 81 paes desprovidos de recursos, são as mais victimadas, por serem expostas ás intemperies e á falta de um tratamento apropriado, no principio da moléstia. Não poucas creanças são victimas da syphilis hereditária, pois as creanças nascidas de paes syphiliticos morrem na pro- porção de 40% ao nascerem, e quasi todo o restante, nos primeiros seis mezes, sendo raríssimos os paes que se sujeitam a um tratamento antisyphilitico antes do casamento, como de- veriam fazel-o, em beneficio da prole. A mortalidade das creanças, occasionada pela diphteria, escarlatina, sarampo, bexigas, coqueluche e convulsões, não é frequente em S. Paulo, tendo estas moléstias, em geral, um caracter benigno e só se tornam perigosas nas famílias des- providas de recursos, faltando-lhes todos os meios therapeuticos e hygienicos. Sobre as outras perguntas da estimada carta de meu Illu- strado Collega, respondo: A Mãe brazileira é de um cuidado, ternura e dedicação extremos e de um amor materno levado até ao sacrifício, em beneficio de seus filhos, divergindo, assim, da aristocratica ing- leza e franceza, as quaes entregam os seus filhos aos creados e amas, causando, assim, uma mortalidade enorme nas creanças das aristocracias d’essas Nações, como em paiz nenhum do mundo. Todavia, pelo excesso de zelo, a Mãe brazileira julga-se fraca e com pouco leite, ignorando, talvez, que cada Mãe tem o leite sufficiente para sustentar seu filho. Resulta d’este facto que, entregando-se a creança á uma ama, em geral, extrangeira, que não tem o zêlo, o cuidado e a dedicação necessários, causa-se, por isso, a morte de muitas creanças. Sobre a alimentação artificial das creanças em S. Paulo, acho-a péssima, por constar, em geral, de farinha lactea, leite condensado, phosphatina, osteina, leite não esterilisado, alimen- tos estes que se acham saturados de microbios e que por isso produzem enfermidades microbianas gravíssimas. G 82 Eis, meu respeitável Collega, a resposta a mais resumida- mente possível que posso dar, ás perguntas feitas em sua esti- mada carta, e sou com todo respeito e considerações De Y. S.“ Collega e amigo ob.° Dr. Theodoro Reichert. S. Paulo, Io de Fevereiro de 1894. Resposta do Snr, Dr, Guilherme Ellis, Respondendo aos quesitos apresentados pelo meu illustrado collega Dr. João Teixeira direi quanto ao l.° — Quaes as mo- léstias que na patliologia infantil d’esta Capital, figuram com mais frequência, como causa de morte? — AífecçÕes gastro- intestinaes. — Quanto ao 2.° — Qual a impressão ácerca do modo de ali- mentação nas familias brazileiras durante os dous primeiros annos após o nascimento? Respondo — a mais desagradavel. —- Quanto ao 3.° — Pratica-se entre nós o aleitamento natural como deve ser compreliendido ? Respondo — não, salvo raras excepções. — A mim mesmo tenho perguntado, mas em ordem contraria aos quesitos do illustre collega: 1. Pratica-se entre nós o aleitamento natural como deve ser compreliendido? 2. Qual a impressão ácerca do modo de alimentação nas familias brazileiras, durante os dous primeiros annos após o nascimento ? 3. Quaes as moléstias que na patliologia infantil d’esta Capital figuram com mais frequência como causa de morte? Explicando as minhas respostas, dou como causa dos dous primeiros quesitos — ignorancici materna, e do terceiro, con- sequências d’essa mesma ignorância. Não existindo entre nós o ensino da Physiologia nos col- legios de meninas, estas crescem e tornam-se mães perfeitamente ignorantes das funcções naturaes do corpo, quando essas func- ções se desenvolvem, ou que papel representam no desenvolvi- 84 mento do organismo humano, e a prova disto está em que muitas meninas adquirem incommodos que desequilibram-lhe o corpo durante longos annos, por occasião da transição da me- nina para moça. Si ellas tivessem conhecimento, de que certas funcções sómente apparecem depois de certa edade, muitos casos de dysmenorrhéa deixariam de existir. Porque existem ? Porque ignoram que certas funcçoes só têm logar quando os orgãos que as produzem têm chegado ao seu completo desen- volvimento; ou então porque as mães, por uma falsa modéstia, não preparam o espirito da menina, ensinando que uma mudança terá logar no seu organismo para ella tornar-se moça e esta, ignorante e medrosa, bom como modesta, commette imprudências procurando fazer desapparecer os vestígios de uma funcção perfeitamente natural e que, si ella soubesse, seria a primeira a acautelar-se, evitando futuros males. Si este facto dá-se na própria mulher, por ignorância, não se ha-de dar, n’um outro ser dependente d’esta,, mas ma- terialmente independente ? Quero fallar da creança. Esta nasce com os seus orgãos digestivos sãos e perfeitos, preparados para digerir leite humano, seja da própria mãe, seja de uma ama, e com elle desenvolver-se. Seus orgãos foram pela natureza feitos para assimilar leite humano, como os do bezerro foram, para assimilar leite de vacca, como os do cabrito, leite do cabra, e assim por deante; mas acontece assim? Quanto aos outros animaes, sim, quanto aos da raça hu- mana, não. E porque? Por ignorância, pois ignoram o mal que fazem procurando alterar a ordem da natureza. O bezerro nasce com dentes, mas como os seus orgãos digestivos não podem assimilar capim, ou grama, elle acom- panha a vacca, mas abstem-se de tocar n’um broto, por mais tenro que seja, satisfazendo-se em mammar, e somente após longos mezes começa elle a alimentar-se como a vacca. Com a creança acontece que as mães ignorando a anatomia 85 do corpo humano, julgam que sendo alimento liquido podem dar impunemente e chegam mesmo a dizer que a creança quer comer, por que assim que avistam comida, atiram-se para aquelle lado ou se vêm um copo de leite querem por forçu beber. Geralmente a creança com poucos mezes de edade entre nós torna-se canudo, si não o é poucas semanas depois de nascer. Já vi uma creança, que tendo oito dias de edade, uma tia ma- terna produziu-lhe uma cólica, por ter expremido dous gomos de laranja na bocca. Seria malvadez? Quero crer que não, e sim ignorância. E’ muito commum procurarem ajudar, como dizem, a criação das creanças com mingau de diversas farinhas, debaixo de diversos nomes, e feitas em differentes paizes. O que acon- tece então? Pode uma creança com poucos mezes de edade produzir uma reacção cbimica, e tirar alimento de toda e qual- quer farinha? Pode ella tirar alimento do leite de vacca? Respondo não. O estomago e intestinos da creança estão re- presentando um papel de canudo, soffrem com a passagem por elles, e a pobre creança fica mais pobre e mais fraca, pois que tem necessidade do gastar mais, do que o beneficio que podia tirar d’essa alimentação. Em pouco tempo o debito é grande e o haver pouco, ou nenhum. Compare duas creanças: uma tem sido alimentada somente com leite humano, outra seguindo os processos mais modernos da moda, tem tido uma alimentação variada, e fortificante, desde o mingau do alho, até a carne com muchiba, acom- panhada com leite de quanto animal se sujeita a ser ordenhado. O que vemos? Aquella risonha e contente, de formas arredon- dadas pela gordura da saude, as pernas e braços rijos e duros, o olhar limpido e sereno, as faces rosadas, e a sorrir-se conti- nuamente; esta com a apparencia de velha triste e carrancuda, as formas magras e pontudas, as mãos, que iPaquella têm co- vinhas, iPesta parecem garras de passaro carnivoro, as carnes molles e enrugadas, os olhos brilhantes e inquietos como são 86 os olhos do esfomeado, não obstante o abdómen d’esta é tres vezes maior e mais avolumado do que o d’aquella. Porque semelhante difterenca? Aquella tem uma alimen- tação própria, uma alimentação natural, esta por ignorância tem uma o que chamam? Penitencia na terra, que muitas vezes finda-se antes da conclusão da primeira dentição, ou então vae arrastando uma existência pesada, cheia de dores, de defeitos, perturbando a paz domestica com as continuadas complicações em moléstias triviaes, até que, graças á uma miseri- cordiosa bronchites ou pneumonia, corre o reposteiro e fecha mais um pequeno caixão, quando uma enterite ou gastro- enterite não se encarrega de fazel-o. Algumas vezes o processo torna-se mais summario. En- contrei um caso que não tendo a mãe leite, para amammentar o filho, alugou uma, duas, tres, e muitas amas, e nenhuma servia, e, perdendo as esperanças de obter uma que conviesse a ella, e ao mesmo tempo ao filho, determinou dar leite de vacca, e acabar com a massada de amas. O pequeno que tinha naturalmente fome, acceitou a mammadeira, e dentro de poucas semanas quatro garrafas de leite erão passadas pelos intestinos da creança. O cuidado que tinhão no principio, com a limpeza da mammadeira, com a continuação, cessou, e elle continuava a viver consumindo todo aquelle leite, mas não se alimentando com elle, até que, uma noute, começou a ter evacuações liquidas que pararam quarenta e seis horas ao depois, mas pararam porque a creança tinha parado de viver. Tarde comprehendeu a mãe que a ama era só para a creança, e não para occupar-se com arranjos da casa, razão pela qual nenhuma das muitas tinhão podido agradar. Hoje, essa mesma mãe tom quatro robustas creanças que mammaram até terem os dentes. A primeira vista parece que a experiencia de um caso, devia ensinar no futuro, mas quantas vezes não temos visto a mesma scena reproduzir-se na mesma casa, na mesma familia, tendo sempre o megmo desfecho? Muitas. Em quasi todas as casas brazileiras ha sempre, uma comadre velha, uma sol- teirona, ou uma contraparente, que faz-se conselheira da casa, 87 em casos de moléstias, e sabe mais remedios do que aquelles que se encontram 11a Pharmacopéa. Ella encarrega-se de ridi- cularisar as recommendações que o medico faz, dizendo: eu tive 8 ou 10, ou 12 filhos e criei tudo com banana assada, leite de uma vacca só, e mingáu de alho. Outras vezes: todos os meus filhos forão criados com farinha lactea, phosphatina, ou Melliris ford, e não se lembram que a creança, que nasceu perfeita, começa a ficar defeituosa, e doente recebendo no esto- mago material improprio á sua alimentação. Quando a natureza da creança dá os primeiros signaes de rebate da inflammação que começa a desenvolver-se nos intestinos, responde ella: isso são os dentes, e a creança apenas conta, tres ou quatro mezes de edade. Muitas vezes tenho tido mães que trazem nos braços pe- queninos seres, cuja existência tem sido um penar continuo, e cujos rostos assemelham-se a alguns quadros do Christo cruci- ficado, e, perguntando quantos dentes tem a creança, respondem: dons ou quatro, e o que come? Tudo que cu como, é a resposta. Ella com trinta e dous dentes, na boca, e o pobresinho com dous ou quatro, tem de collar-se na mesma pista e correrem pela existência. Quem será o vencedor? Não ha necessidade de tribofe, ella ganha forças, elle perde a vida, Casos como este apparecem diariamente na clinica, e o resultado si não é fatal antes de dous annos, atravessam, após muito trabalho, esse periodo e vão encontrar na tosse-comprida, sarampo, ou escarlatina, o marco fatal, como resultado de uma defeituosa alimentação. Antigamente, quando desconheci a-se a existência d’essas farinhas e mammadeiras, as mães que não podiam alimentar os filhos mandavam procurar amas em S. Amaro, S. Miguel, Con- ceição, Itapecerica e vinha uma mulher do campo, sem educação, sim, mas sadia e forte e nos grandes seios trasia a vida, lan- çando os alicerces de uma existência como deve ser entendida. Hoje, na edade do progresso, quer-se mudar a natureza 88 humana, e em alguns casos por ignorância e em outros por um capricho, preferem dar uma mammadeira cujo aspecto 6 re- pugnante, e cujo cheiro é nauseabundo a deixarem que uma negra sadia amammente o filho, porque dizem algumas, a creança quererá mais bem a negra, de que a ellas que são as mães. Querem dançar, e não querem pagar a musica. Querem ter filhos, como para fazer inveja áquellas que não têm, mas não querem ter o trabalho que é inherente á amammentação da creança. Outras, não podendo ficar em casa porque representa-se um bom drama, ou canta-se uma nova opera, apromptam uma mammadeira com leite de vacca, e entregam á criada com a re- commendação, que, si Nhônhô acordar e chorar, lhe dê a mammadeira, que a maior parte das vezes contem leite azêdo; Nhônhô acordou e chorou, e a criada (cousa rara) seguindo as ordens da ama, deu a mammadeira. O leite que já estava azêdo calie no estomago da creança, e, em pouco tempo, forma um queijo, e a creança não podendo mastigal-o com o estomago torna-se inquieta, não dorme mais e começa a sentir dores, e quando a mamãe vem contente do theatro, ouve ao entrar em casa, os gritos do Nhônhô que não podendo digerir esse enorme coalho, e fazel-o passar pelo canudo do intestino sente-se cada minuto peor, até que esse corpo estranho produz-lhe convulsões. Indaga da criada, o que foi que ella deu ao Nhônhô, si elle cahiu da cama, si alguém entrou no quarto, em quanto elle dormia, emfim, faz mil perguntas, mostrando em todas ellas desconfiança, e ao mesmo tempo ignorando que ella mesma havia preparado com as próprias mãos, aquella nova opera tendo como unico interprete o pobre do Nhônhô. Repetição da mesma opera alguns dias, completa em todos os actos e scenas, n’outros apenas uma a ri a ou bailada, e quando o medico é chamado encontra um caso de gastro- enterite chronica, porque durante o estado agudo estavam dando chá de Cayapiá, ensinados pela mesma medica conselheira da casa. Esta ou a mãe, ou o pae, vendo que a creança não melhora, quer que o medico veja a creança e este tem muitas vezes de ver 89 os seu esforços inutilisados, porque não existe na mucosa da bôcca au recto da creança, um palmo, que não esteja irritado, inflammado e ulcerado. Nhônhô morre, e foi o medico que não soube curar, e a conselheira vem então toda chorosa vestir o anjinho, dizendo sempre: — Eu bem digo que medico não serve para creança, pois da primeira colher do remedio, a creança começou a peorar até morrer. Supponhamos que o medico não matou e que a creança salvou-se, e chega mesmo a atravessar os dous annos de edade. Que apparencia tem essa creança ? Que alicerces tem essa casa? Que saúde tem esse ser? Algumas mães em S. Paulo que aprenderam sobre os caixõesinhes dos íillios mortos, (conheço uma que perdeu cinco ou seis antes de poder criar um) já hoje fazem, o que deve fazer toda a mãe, ou alugam uma ama que é examinada pelo medico da casa, e só começam a alimentar quando a dentição dos filhos está completa. Algumas perguntam quando pode-se ou deve-se alimentar uma creança com outra alimentação a não ser leite humano? Respondo: quando tiver dentes, nunca antes, porque então certas glandulas, bem como o estomago, fígado, pancreas e intestinos, estão promptas e aptas para íunccionar. Algumas creanças salvam-se não obstante a incúria de sua alimentação, como alguns naufragos salvam-se num mar tem- pestuoso. A creança nascendo perfeita, tem o direito de ser propriamente tratada segundo a natureza exige, e a sciencia ensina, e creio que em alguns casos devemos culpar não só as mães, mas collegas que deveriam fazer bem claro, o perigo presente, e as consequências futuras de uma imprópria alimen- tação. A creança que tem uma amamentação própria, passa in- cólume pelo periodo da dentição, soffre os horrores da tosse- comprida, carrega por muitos annos as marcas que a variola deixa, perde a cútis na escarlatina, e com coragem tem a alta temperatura do sarampo e caminha impavida na carreira da 90 vida, e, quando chega á puberdade, mostra hombros largos, mem- bros direitos, thorax espaçoso, olhar sereno, abdómen retraindo, dentes sãos, physionomia satisfeita e serve de specimen da raça. A creança que não teve a mesma amammentação, encontra já grandes softi'imontos quando principia a dentição e si es- capa de uma ou duas d’essas moléstias da primeira infancia, carrega para muito tempo com uma otorrhea ou vem a suc- cumbir de uma diarrhea chronica, Si o menino escapa e chega á puberdade, encontramo-lo como um ser degenerado da raça, pernas tortas, peito retraindo, abdómen protuberante, dentes cariados, pallido, dyspeptico, e sem a coragem e confiança tão necessária na vida, e reconhecendo a sua fraqueza, nunca torna-se saliente em qualquer ramo da actividade humana, tendo como collegial occupado sempre um dos últimos logares, nas aulas que cursou. Esta é a consequência cuja causa foi a ignorância materna 11a occasião em que devia preparal-o para a lucta da vida. Respondendo englobadamente aos quesitos, congratular-me -ei com o distincto collega, si com os seus sábios conselhos, possa roubar á morte alguns d’esses, que, até agora, succumbem pela ignorância das mães. I)r. bí. Eli is. S. Paulo, Fevereiro de 1894. Resposta do Snr. Dr, Virgílio de Rezende Prezado collega Snr. Dr. João Teixeira! Recebi a carta em que o collega, por meio de tres quesi- tos, solicita a minha opinião acerca da importante questão da mortalidade das creanças n’esta capital. A esses quesitos, com satisfação, respondo: Ao l.° que são as affecções do apparelho digestivo: ente- rites, entero-colites, dyspepsias, etc., que dominam a pathologia infantil d’esta capital, salientando-se como causa de morte. Ao 2.° que a impressão que tenho recebido no seio das famílias braziloiras, em geral, acerca do modo de se alimentarem as creanças nos dous primeiros annos após o nascimento, é a mais desagradavel possivel. Ao 3.° que o aleitamento natural não é praticado nem comprehendido entre nós. No seio das nossas famílias nem o aleitamento materno, nem o aleitamento mercenário, nem o aleitamento artificial, são postos em pratica de uma maneira exclusiva e segundo os preceitos da Hygione moderna. Por toda parte é a alimentação precoce que se encontra em pleno vigor no seio das familias com todo o seu cortejo de funestas consequências. As perturbações do apparelho digestivo devem merecer n’esta capital a maior attenção dos clínicos especialistas de pediatria; ellas dão logar muitas vezes a graves e insólitas perturbações do systema nervoso simulando moléstias cujo dia- 92 gnostico, si não for precisamente estabelecido, acarretará a morte de militas creanças. Não 6 raro ser-se chamado para prestar cuidados a uma creança que apresenta uma febre intermittente. A primeira vista o medico e mesmo a familia serão logo levados a pensar que se trata de uma pyrexia de origem palustre, não ha tal, a pyrexia 6 de origem dyspeptica: como muito bem diz Le Gendre, a febre intermittente de causa dyspeptica 6 frequente nas creanças, a periodicidade desta febre se explica pelo numero de refeições, é uma febre de digestão. Si se trata de uma creança submettida a uma alimentação defeituosa será muitas vezes por dia que a pelle se tornará secca e quente, a palma das mãos húmida, a face vermelha, o pulso rápido, a respiração accelerada; tomando-se a tempe- ratura, demonstra-se a elevação thermica de alguns décimos, de um ou dous gráos mesmo. O epigastro é abahulado, ha cólicas, dejecções semi-liquidas ou de um cheiro pútrido. A multiplicidade dos accessos febris, a coincidência da dyspepsia, não admitte erro; e, antes de dar-se a quinina para cortar esta febre como os paes não deixarão de pedir, informe- se primeiro dos erros hygienicos praticados para com a cre- ança, como sejam: os concernentes á quantidade do leite ad- ministrado, sua qualidade, as horas das refeições, etc. Empregue-se de preferencia um vomitivo ou um purga- tivo, alguns clysteres antisepticos e os accessos febris des- apparecerão. A febre de digestão existe também na segunda infancia, os accessos são naturalmente mais espaçados, não se observam senão duas vezes por dia, á tarde ou á noute; as refeições sendo menos frequentes os symptomas são menos claros que os de outras febres intermittentes, não ha o calefrio inicial: é o calor e a humidade da palma das mãos o da face, a cephaléa, o olhar amortecido, o desgosto pelos brinquedos, que constituem os elementos do quadro clinico. Examinem-se as funcções digestivas, olhe-se a língua, sinta- se o hálito, apalpe-se e percuta-se o estomago e o fígado, e 93 encontrar-se-á a origem cPestes accessos febris justificáveis, não da quinina, mas da dieta e da antisepsia gastro-intestinal. Supprimam-se as gulodices auetorisadas pelos paes, as em- padinhas de camarões e palmito, as batatas fritas, o caldo de feijão com farinha de mandioca, o arroz com repolho; administre- se a ipeca, o calomelanos e os antisepticos intestinaes e a febre desapparecerá. Muitas vezes observam-se creanças affectadas em diversas partes do corpo de erythema ou eczemas que muito assustam e desgostam aos paes. Antes de empregar-se o arsénico, os sabões sulfurosos, re- flicta-se bem que estas manifestações cutaneas podem ser de origem dyspeptica. Os erythemas das creanças dyspepticas, como diz Le Gendre, são comparáveis aos erythemas toxicos e medicamentosos; elles são devidos á uma ptomaina fabricada no tubo digestivo, é a acção exercida por este agente toxico sobre a cellula dos cen- tros nervosos vaso-motores que provoca, por via reflexa, zonas mais ou menos extensas e mais ou menos numerosas de hype- remia cutanea. O impetigo, não raras vezes, vem enegrecer ainda mais o já sombrio quadro das creanças mal alimentadas; o eczema que tem como causa a dyspepsia e a má alimentação, serve de substratum á inoculação staphylococcica e a pyodermia se constituo. Cure-se a dyspepsia e com ella desapparecerá a moléstia cutanea. Quantas vezes também os accidentes epileptiformes, carac- teristicos do mal comicial, não passam de uma auto-entoxicação pelo tubo digestivo devida exclusivamente a perturbações gastro- intestinaes provocadas pela alimentação defeituosa?! M. Luzet demonstrou a existência nos recem-nascidos de uma anemia especial visinha da leucocythemia a qual denominou anemia infantil pseudo leucemica: n’este estado morbido ob- serva-se a associação da anemia á uma tumefacção do baço, uma leucocythose moderada o a presença no sangue de um 94 grande numero de cellulas vermelhas. Esta moléstia na qual se observa um retorno ao estado fetal da funcção dos orgãos liematopoieticos é devida as gastro-enterites e outras pertur- bações digestivas dos recem-nascidos. Pelo exposto se pode ajuizar de quanto o barbaro cos- tume, que existe entre nós, de administrar-se precocemente ás creanças substancias impróprias á sua alimentação é fatal á vida dos tenros seres. As perturbações do tubo gastro-intestinal eis o inimigo. São estas, prezado collega Snr. Dr. João Teixeira, as con- siderações que me suggerem os seus bem elaborados quesitos. Terminando, permitta-me saudal-o pela idéa patriótica e humanitaria que teve de escrever um livro sobre a mortalidade das creanças mesta capital; confiado na intelligencia e illns- tração que o exornam, desde já dou parabéns ás familias paulistas j)elo apparecimento de um guia seguro que vão ter ao lado dos berços dos seus gentis filhinhos. Pela leitura que deu-me o prazer de ouvir do authograpko de seu livro muitas e importantes medidas hygienicas são acon- selhadas aos poderes públicos d’esta capital. Eelizmente, á frente do governo, existe um illustradisimo medico, o Snr. Dr. Cesario Motta, a quem o Estado já é devedor de eminentes serviços. O emerito profissional saberá tornar profícuos os seus doutos conselhos. Nós, os membros principal mente da classe medica, devemos nos esforçar pela propagação da Hygiene na terra Paulista, ella é o pharol primeiro do nosso progresso, ella é o poderoso holophote que a ínnnigração enxergará de longe. Trabalhando pela Hygiene trabalharemos pelo seu engran- decimento que é o meu mais caro desejo. Yirgilio cie Rezende. S. Paulo, 19 de Junho de 1894. Resposta do Snr. Dr. Arthur Azevedo Illm. Snr. Dr. João Teixeira Alvares! A’ vossa amabildade respondo do meu obscuro retiro, onde me conserva esquecido minha despretenção. Em a carta que me dirigistes, a 8 do corrente, solicitaes da minha observação clinica uma resposta ao seguinte: «l.° Quaes as moléstias que preponderam na Pathologia infantil d’esta Capital e que, com mais frequência, figuram como causa de morte na primeira iufancia?» «2.° Qual a impressão que se recebe no seio das famílias brazileiras, em geral, acerca do modo de se alimentarem as creanças nos dous primeiros annos após o nascimento?» «3.° Pratica-se entre nós o aleitamento natural como elle deve ser comprehendido?» Direi succintamente o que penso ácerca de semelhantes questões, que aliás comportam desenvolvimento lato e múltiplas considerações de subido valor. Deixo estas e aquelle aos mais competentes. I. Quaes as moléstias que preponderam na Pathologia infantil d’esta capital e que, com mais frequência, figuram como causa de morte na primeira infancia? Quem tiver na Capital de São Paulo exercido a clinica, já não direi por dilatados annos, porém mesmo por pouco tempo e em pequena escala, não deixará de ficar surprehendido 96 da frequência excessiva com que se deparam os casos de affecções do tubo gastro-intestinal, as quaes occupam indubi- tavelmente o lugar proeminente entre as moléstias da primeira infancia entre nós. O açodamento pressuroso com que se pre- tende alimentar as creancinhas com tudo quanto lhes não convém ao suseeptivel apparelho digestivo é o seu único factor etiologico. Em segunda linha figuram as moléstias do apparelho res- piratório em geral, e especialmente as bronchites, que reco- nhecem por causa não só a variabilidade das condições de temperatura e de humidade atlnnosphericas, como também a negligencia das regras hygienicas referentes ao agasalho das creanças e ao modo de vestil-as e resguardal-as das intemperies. Em terceiro logar observa-se a febre paludosa, que, em suas varias modalidades, contribue com poderoso contingente para a mortalidade das creanças e que reconhece por causa as condições telluricas geraes. Em quarto logar notam-se as febres eruptivas, que, por si e por suas complicações e consequências, dizimam grande numero de creanças. Passo em silencio todas as outras moléstias que, com fre- quência inferior, figuram como causa de morte na primeira infancia entre nós. II. Qual a impressão recebida no seio das familias brazileiras, em geral, acerca do modo de se alimentarem as creanças nos dons primeiros annos após o nascimento? A creança, que sahiu vencedora da luta que travou con- tra a sciencia obstétrica das comadres e das aparadeiras e que ainda está exposta aos perigos da conjunctivite purulenta, con- tra a qual não a premuniram certamente os cuidados antisep- ticos do parto, abre a luta da vida pelo encontro com o xarope de chicorea composto, que a velha usança lhe obriga a deglutir pressurosa e inutilmente. 97 Depois, como os seios matemos ainda não são sufficientes, ou a creança se encontra com a celebre bonecci embebida d’agua com assucar e vinho, ou com o seio de qualquer senhora que tenha leite do qualquer edade. Não tardam o leite de vacca, o de cabra, o condensado, os mingaus de todas as farinhas apregoadas pelos jornaes como alimentícias e fortificantes. Logo após vem o caldo de feijão, o caldo de gallinha e o de carne, o caldo de cangica, a canja, o bife para sugar, e, aos oito mezes, ha creanças que se alimentam do que se ali- menta sua íamilia. Em honra ás famílias brazileiras ha nume- rosas excepçòes a esta regra, que, infelizmente, ó muito e muito geral. As affecções múltiplas do tubo digestivo fazem justiça a esta falta de hygiene alimentar o corroboram minha proposição de serem ellas as que mais frequentemente acarretam ao tumulo as tenras creancinhas. III. Pratica-se entre nós o aleitamento natural como elle deve ser comprehendido ? A senhora brazileira ou porque 6 doente, ou porque 6 fraca, ou porque quer fortalecer mais seu filho, ordinariamente não o amammenta, dá-o a uma ama, que lhe parece mais robusta, para que se encarregue d’esse santo mister. E, si a senhora o amammenta, faz-se auxiliar por uma ama que sempre lhe parece mais robusta. Raríssimas são as senhoras que unica- mente por si se encarregam da amammentação completa de seu filho. Na escolha da ama não ha, de ordinário, o preciso o indispensável escrúpulo: não são examinadas por medico, não se lhes procura antecedentes morbidos atavicos, não se cogita de moléstias transmissíveis, nem hereditárias, e, muita vez, o aleitamento mercenário torna-se um perigo sempre ameaçador para a existência da dilecta creancinha. Seria muito preferível e mesmo muito para desejar que, a não haver na escolha da 98 ama o mais escrupuloso cuidado e aturado zelo. se fizesse a alimentação da creauça pelo leite esterilisado, ao qual a culta Europa parece conceder os foros de ultima palavra na questão, sempre que razões poderosas impeçam a amammentação da cre- ança pelo seio da sua própria mãe. Eis o que posso dizer-vos. Si estas despretenciosas linhas puderem constituir o escuro da tela d’onde se destaquem luminosas as enargeias dos vossos argumentos, estará completo o desejo do vosso collega Artliur J. de S. Azevedo. São Paulo, 10 de Janeiro de 1894. A leitura dos preciosos documentos que precedem, e que eu considero o que de melhor se possa dizer ácerca da questão dtt mortalidade infantil nesta capital, confirma de um modo irrefutável o que affirmei sobre o assumpto. Aos doutos collegas assiste a maior competência; a alguns por estudos que têm feito da questão, e a outros pela precio- sissima collecção de observações que possuem, colhida em longos annos de experiencia clinica: o venerando Snr. Dr. Theodoro Reichert ha meio século que clinica em S. Paulo, o illustre Snr. Dr. Guilherme Ellis, ha 20 annos; o emerito collega Snr. Dr. Arthur Azevedo ha 12 annos; o illustrado Snr. Dr. Jayme Serva também ha longos annos, o testemunho dolles 6, portanto, de grande valor pratico. Antes de terminar este capitulo pedimos venia ao illus- trado Engenheiro Snr. Dr. Torquato Tapajós para apreciar o seu modo de pensar ácerca da causa principal da mortalidade das creanças em S. Paulo, publicado no seu excellente trabalho Saneamento de S. Paulo.1) O auctor, depois de citar a proporção formidável em que as creanças figuram no obituário desta capital, interroga:2) «Como explicar isto? Porque estes males precoces quando as melhores condições parecem reunidas para os conjurar? E’ certo que o calor muitas vezes aniquila os recem-nascidos, mas *) No primeiro capitulo referimo-nos a este trabalho pela simples leitura do autographo que ouvimos no Club Germania, só mais tarde tivemos a honra de receber um exemplar impresso. 2) Dr. Torquato Tapajós — Saneamento de S. Paulo — Pag. 14 e lõ. 100 na primeira epocha da vida em que a resistência organica é tão precaria; sendo que aliás aqui o temos agradavel, maxime no interior dos domicílios, onde, em geral, as cautelas e os cuidados maternaes suprem relativamente as desigualdades re- sultantes das largas amplitudes da temperatura quando estas por si só pudessem influir. O aleitamento maternal é o eom- mum em todas as classes, desde as n/ais humildes ds nu/is altas:1) porque pois esta triste verdade?» Depois destas interrogações o auctor entra na apreciação dos estudos de Gavaret, Fernet, Paul Bert e outros, sobre o valor das pressões athmosphericas e da acção physiologica que ellas exercem sobre o organismo e termina com as seguintes conclusões: «E assim que pela anoxymia se explica, nos parece, a elevada mortandade das creanças nesta cidade. Não é que a tenhamos como causa immediata da morte, que si o fosse haveria uniformidade mais acentuada nas manifestações mór- bidas; mas porque vemos nella a preparadora de umas certas condições de receptividade, que o organismo adquire e em virtude das quaes os elementos directos das moléstias, que produzem a morte, encontram terreno preparado para melhor operar-se por elles a destruição organica. — Enfraquecidos os elementos de resistência, já de sua natureza precaria nas cre- anças, a invasão se faz rapida e violenta e a morte domina.» Servindo-nos de uma expressão do distincto Engenheiro diremos, para melhor comprehensão dos leitores, que anoxymia ó -11111 déficit no oxigeno do ar, déficit causado pelas pressões athmosphericas. Não negamos, de modo algum, a influencia maléfica que a anoxymia comprovada possa ter sobre o organismo humano; mas a nossa opinião ó que ella, si e factor morbigeno no nosso meio externo, não pode entretanto ser considerada como a causa principal da mortalidade das creanças em S. Paulo; é essa uma affirmação bem liypothctica da parte do auctor. *) Os griffos são nossos. 101 Ha elementos muito mais preponderantes, e que não podem ser postos de parte, para se ir em busca de meras supposições. A medicina é a sciencia experimental por excellencia, suas grandes verdades são descobertas, não nos laboratórios, no terreno da theoria, mas sim sómente ao pé do leito dos en- fermos; as descobertas dos laboratórios nenhum valor podem ter antes que a clinica as sanccione. Discutir com a theoria em Medicina, sem antes procurar os dados da experiencia, ad- quiridos ao lado dos doentes, é um grande perigo de» errar. O auctor, para chegar ás suas conclusões, parte de afti r- 1 nações completamente falsas, affirmações apenas desculpáveis por virem d’uma pessoa que escreve sobre assumpto de que não é especialista. O auctor começa dizendo: 1. «No interior dos domicílios, em geral, as cautelas e os cuidados maternaes suprem relativamente as desigualdades re- sultantes das largas amplitudes da temperatura si estas por si só pudessem influir.» 2. «O |aleitamento maternal é commum em todas as classes clesde as mais humildes até as mais altas.» Quanto ao Io, ponderamos que mais da metade da popu- lação de S. Paulo nenhum cuidado, absolutamente nenhum, tem com as creanças, que se podem dizer os pariás do lar, a esse respeito; mais da metade dessa população compondo-se de famílias pobres e ignorantíssimas, sobretudo de immigrados italianos, que desconhecem o que ha de mais rudimentar em Hvgieno prophylaotica, e que julgam crear filhos robustos ex- pondo-os a todas as intemperies do tempo. Nas classes favore- cidas da fortuna algumas mães têm com seus filhos, neste sen- tido, perfeitos cuidados, algumas até os agasalham demais, trazendo-os sempre n’uma fortaleza de flanellas como uma múmia do Egypto. A maior parte, porem, sacrifica seus filhos ás imposições do luxo. Uma das cousas que mais impressionam os extran- geiros, entre nós, é não sabermos nos vestir do accordo com as exigências do nosso clima e estações; os brazileiros, sob um 102 sol dardejante e tropical, n’um ambiente de 35° centígrados, trajam pesada casimira e as mães vestem seus filhos de mari- nheiro cm pleno mez de Junho. Quanto ao 2o, isto ó, a ser o aleitamento materno com muni em todas as classes, desde as mais humildes até as mais altas; não posso comprehender que motivos levaram o auctor a affir- mar semelhante contrasenso. A verdade é inteiramente o opposto: o aleitamento materno em todas as classes, desde as mais humildes até as mais altas, não ó posto em pratica, nem ó comprehondido. E’ verdade que nas classes pobres, o maior numero de mães dão o seio a seus filhos, mas ao mesmo tempo dão tam- bém o leite de vacca, os mingaus, a farinha lactea, o caldo de feijão e de carne, o arroz, a banana, etc. E’ isto aleitamento materno? Nunca. «Aleitamento materno ou natural (Tarnier) é o regimen no qual o leite da mulher, tomado directamente pelo menino no seio de sua mãe ou de uma ama, constitue seu alimento exclusivo, até que elle seja desmammado ou polo monos até a edade de 6 mezes, isto ó, até a epocha em que se pode começar a dar-lhe outros alimentos que não o leite.» Eóra disto não ha aleitamento materno, ha simplesmente uma confusão sybaritica e nada mais. A applicação da theoria da anoxymia de Jourdanet á ethio- logia da mortalidade das creanças em S. Paulo daria logar a amplos desenvolvimentos, incompatíveis com os limites traçados a este trabalho; o que fica dito não passa do simples reparo. *) Tarnier, Chautreuil et Budin — Alaitement et Hygiene des Nou- veaux nés. CAPITULO III. Summario: Alimentação bem dirigida — O leite é o melhor alimento das creanças — Estudo do leite — Aleitamento materno — Necessidade do aleitamento materno — Direcção — Hygiene da mulher que amammenta — Contraindicações do aleitamento materno — Aleitamento mercenário — Serviço de amas em S. Paulo — Conselhos ás mães de familia — Quali- dades de uma bôa ama e exame — Regimen alimentar das amas — Aleita- mento artificial — Aleitamento pela femea de um animal — Aleitamento pela mammadeira — Leite de má qualidade em S. Paulo — Medidas a tomar — Estudo do leite esterilisado — Aleitamento mixto — Desmammamento —- Dentição — Amuleto para as creanças. No capitulo precedente coube-me representar a difficil e espinhosa missão de accusador, accusador sincero que deseja que a luz e a justiça se façam inteiramente; o que se segue ó o capitulo da pacificação. — Reconciliai -vos commigo, gentis leitoras, respeitáveis mães de familia, excusae-me, si tantas faltas vos imputei, faltas que tanto mais vos amarguram quanto ellas se referem ao que prezaes com mais ardor: os vossos filhinhos. Eu passo a en- sinar-vos o que não sabeis, eu quero convencer-vos do que não quereis admittir; para obter o perdão das accusações que vos fiz dar-vos-ei feerico amuleto, precioso talisman, com que conseguireis conservar sempre viçosas as flores que na velhice devem coroar os vossos cabellos brancos: esses cândidos bebés hoje em botão. 104 Uma vez estudada a causa, a nosso ver, principal da mor- tandade das creanças nesta Capital: a alimentação mal diri- gida, 6 natural que estudemos agora a alimentarão bem diri- gida, isto 6, o verdadeiro regimen alimentar das creanças. Alimentação l)cm dirigida. Que alimentação deve-se dar ás creanças, alimentação com- pleta e perfeita, do accordo com a Physioíogia e Anatomia dos seus orgãos digestivos? Quereis saber jovens mães? Estudae a natureza, estudae aquillo que se passa em vós mesmas e tereis a resposta á esta interrogação. Vejamos. Quando se iniciam em vosso organismo os divinos sobre- saltos, indicadores de que tendes no ventre o producto da con- cepção, e que os symptomas da gravidez dispontam incertos, a medo, vos aterrando e vos transformando o ser e o caracter; as mais das vezes, os primeiros signaes experimentados, as primeiras alvoradas da maternidade, são as modificações dos seios, são ellos os primeiros a segredarem-vos aos ouvidos que ides ser mãe. Elles tornam-se mais desenvolvidos, tensos e sensiveis, o mamelão se ergue como se offerecesse já aos beijos do infante, ha pruridos e não raro sentimento de dor vaga; veias nume- rosas e apparentes sulcam a pelle da glandula, indicando affluxo de sangue que vem regar a parra que enfloresce. Os mamelões tornam-se grossos, rugosos, a aureola se carrega na cor, alarga- se, tornando-se escura e, as vezes, negra. Os tubérculos da aureola, em numero de 15 a 20, se hypertrophiam, transudam serosidade; mais tarde, uma segunda aureola mais apagada som- brea o apice do seio. Estas transformações vão se acentuando diariamente, gra- dualmente, ató que, quando a prenhez attinge o nono mez, o cacho da vide está maduro e o mosto rebenta aos vossos olhos, vos indicando que vosso filho pode nascer, que já estaes pre- parada para fornecer-lho a nutrição. 105 0 leite é, pois, jovens mães, o mais precioso alimento do menino, o unico alimento mesmo que lhe convém. A natureza vol-o diz na sua linguagem muda e sublime. Entretanto, levadas pelo pouco conhecimento que tendes das cousas, nenhuma confiança depositaes no precioso liquido, e estaes sempre desconfiadas de que elle não bastará para a nutrição do vosso filho, e d’ahi vem o erro fatal de fornecerdes alimentação imprópria que tanto os prejudica. Yosso engano ó enorme, estudemos a composição do leite e vos convencereis. Estudo do leite. «0 leite 6 um liquido opaco, branco, de um peso especifico maior que a agua, de um sabor doce, segregado pelas glân- dulas mammareas; elle contem em proporções variaveis: 1. Alimentos plásticos —- Caseína, lacto-proteina e algu- mas vezes albumina. 2. Alimentos eomburentes — Manteiga, lactina ou assucar de leite. B.° Princípios salinos Phosphatos, carbonatos e saes de ácidos orgânicos. Em resumo, o leite 6 uma dissolução, levemente alcalina, de matérias albuminosas, assucar de leite e saes, tendo em sus- pensão globulos de gordura. A brancura do leite 6 unicamente devida ao estado de divisão extrema da gordura que elle contem. A própria ca- seína se encontra no leite sob a fornia de globulos de uma finura extrema. 0 leite ao sahir da mamma tem um cheiro fraco que se dissipa pelo calor. Aquecido elle torna-se mais branco pela interposição de particulas de serina coagulada, e adquire o cheiro animalisado que se manifesta sempre no momento da coagulação da albumina. Quer puro, quer unido ao assucar e aos feculentos, o leite tem sido, em todos os tempos, a baze de numerosas preparações culinárias. 106 Os Touaregs fazem um grande consumo de leite de camêla, cosido com tamaras. Os povos abyssinios, que habitam as margens do lago Nyanza, nutrem-se quasi que exclusivamente de lacticinios, e obrigam as mulheres a absorver grandes quantidades de leite, para determinar nellas uma exagerada obesidade, o que con- stitue para essas tribus o caracter da suprema bolleza. Os habitantes do Nilo branco nunca matam as vaccas, para beberem-lhe o leite. Os Cafres fazem um consumo immenso de leite puro e coalhado. Os laponios não bebem senão leite de renna, tirado de 15 em 15 dias. Os Tartaros, desde o século 13°, que não bebem durante o verão senão o koumis, feito com o leito das éguas dos Steppes. Em Londres colhem-se mais de 100 milhões de litros de leite por anuo, mais de 30 litros por habitante.1) Em Paris a quantidade de leite consumido 6 avaliada em 185 milhões de litros.»2) Analyse e composição do leite. — A densidade media ó de 1032,2 (Quevenne). 100 partes de leite devem conter: Residuo secco . . 12,30 Caseína 2,20 Manteiga 4,50 Assucar de leite ... 5,50 Saes 0,20 ') Estes algarismos pertencem a uma estalistica levantada em 1878. 2) Husson — Le lait, la creme et le beurre. 107 A media da composição do leite segundo as especies ani- maes é a seguinte, de accordo com numerosas analyses: Espécies ani- niaes Densi- dade Kesiduo seceo Case- ína Man- teiga Assucar Saes Mulher. . . 1,0315 12,3 1,9 4,5 5,3 0,18 Yacca . , . 1,0318 13,5 3,6 4,05 5,5 0,40 Cabra . . . 1,0228 12,4 3,7 4,2 4,0 0,56 Carneira . . 1,0038 18,0 8,1 5,33 4,2 0,70 Egua.... 1,0031 11,0 2,7 2,50 5,5 0,50 Jumenta . . 1,0033 9,3 1,7 1,55 5,8 0,50 Cadella. . . 1,0036 26,3 11,7 e albu- mina 9,72 o oo 3,01 Porca . . . 1,0046 23,0 12,39{AlbnT' 6,60 0,5 4,01 1000 partes de leite de mulher contêm: Soda 0,30 Chlornreto de potássio 0,70 Phosphato de sodio 0,40 » cálcio ....... 2,50 » » magnesia 0,50 » ferro 0,01 4,41 1000 partes cie leite de vacca contêm: Soda 0,115 Chlornreto de potássio 1,850 Phosphato de sodio 0,225 » cálcio 1,805 » » magnesia 0,170 » ferro 0,032 3,697 108 A comparação destas duas analyses mostra que o leite de mulher é mais rico em materiaes solidos e em phosphato de cálcio, e mais pobre em chlorureto de potasio que o leite de vacca. O leite encerra também gazes em fraca proporção, como o acido carbonico. Estes quadros mostram ainda a influencia da especie animal sobre a composição do leite. O leite da porca e da cadella tem uma composição toda especial; mais rico em elementos mineraes encerra egualmonto uma quantidade mais conside- rável de matérias proteicas, elle contem alem disso albumina que não se encontra senão no colostrum de outros animaes. Em relação á caseína 6 o leite de jumenta que se aproxima mais do da mulher, depois o leite de egua, mas elles são me- nos ricos em manteiga. O leite de cabra, tão empregado entre nós para a alimen- tação do menino, é muito mais nutritivo e mais tonico e, ape- zar disto, é de digestão facil. Seu cheiro muito pronunciado ó devido ao acido hircico. O leite de carneira 6 também dotado de um cheiro espe- cial, delle 6 que se preparam os melhores queijos de Roquefort. A composição do leite mostra, pois, que elle ó o typo do alimento completo, plástico e respiratório, ó um alimento leve, do digestão ordinariamente facil, transmitindo á corrente circu- latória um chylo que não necessita senão de um trabalho pouco act.ivo de hematose, não elevando senão fracamente a tempe- ratura do corpo, não acelerando sensivelmente a circulação. Bem digerido elle produz o engordamento. Estudemos agora como se deve administrar o leite ás creanças: Aleitamento A creança pode ser alimentada exclusivamente com o leite materno, temos o aleitamento natural; Pode ser alimentada exclusivamente com o leite de certos animaes, dá-se o aleitamento artificial; 109 Pocle-se também administrar o leite materno e o leite de animaes conjunctamente, a este methodo denomina-se aleita- mento mixto. Aleitamento natural. — Aleitamento natural (Tarnier) 6 o rogimen no qual o leite de mulher, tomado directamente pelo menino no seio de sua mãe ou de uma ama, constituo seu alimento exlusivo até ser desmammado, ou pelo menos até a epocha em que o desenvolvimento de seus orgãos digestivos permitta administrar-lhe outro genero de alimentos. Para o recem-nascido nada pode substituir o leite da pró- pria mãe. O aleitamento materno (Tarnier) deve ser altamente acon- selhado, não somente sob o ponto de vista da moral como sob o ponto de vista da Hygiene. Infelizmente, porém, com magna o dizemos, já se vae in- troduzindo na nossa sociedade, sobretudo na alta sociedade, o cruel costume das mães recusarem amam montar seus filhos en- tregando-os a amas mercenárias. Este barbaro proceder, em que se assiste ao quadro mais repugnante e desnaturado que se possa imaginar: uma mãe estancando no seio o manná que a natureza confiou-lhe para fazer fluir nos lábios do innocentinho, dando-lhe em troca substan- cias nocivas á sua saude, deve ser combatido, profligado, de um modo efficaz e incessante. Pena é que as sociedades modernas não permittam em cada paiz um Ganges, em cujas aguas, como os Indús, pudes- sem essas mães impunemente ir occultar a sua incapacidade para o sacratíssimo mister da maternidade; poupar-se-ia assim ás pobres creancinhas os tormentos oriundos desse disvirtua- mento do coração humano. Não podemos furtar-nos ao desejo de transcrever aS elo- quentes palavras que, a esse respeito, escreveram Boissard e Barbésieux no seu excellente livro — Méres et Nourrissons: «Não entra no quadro deste pequeno livro tratar das refor- mas necessárias para tornar possível o aleitamento a todas as 110 mulheres. Seria para isto preciso dirigir attaques não sómente a interesses egoístas, a preconceitos, mais á instituições que o tempo tem consagrado e que estão intimamente ligadas á nossa concepção da organisação difinitiva de nossas sociedades mo- dernas. E’ bem certo, com effeito, que a mulher em nossa sociedade tão complexa e portanto tão afastada do estado de natureza, perdeu a intuição do seu verdadairo destino physio- logico. Ella, não ha duvida alguma, é a mãe, si a materni- dade consiste em trazer no ventre o producto da concepção, gerar e lançar no mundo o ser vivo que vae perpetuar a raça, mas ella é também, e continua sempre a sel-o, a esposa, e, o que é peior, a esposa companheira do homem civilisado, associada ás suas necessidades, a seus soffrimentos, ás suas luctas .... A maternidade 6 um episodio em sua vida, um accidente, em vez de ser o fim principal, o motivo da sua existência. E’ por isso, sem duvida, que as nossas sociedades desapparecerão, é o que já previa o nosso grande e demasia- damente esquecido Augusto Confie quando dizia: «As mulheres não constituem propriamente uma classe, pois que ellas não devem nunca ser encaradas collectivamente O valor mental e sobretudo moral da mulher exige sua concentração na vida privada, em quanto que o homem não se desenvolve dignamente senão aspirando á vida publica. Assim a supre- macia sociocratica da mulher nunca poderá ser por demais abusiva; porque, salvo felizes anomalias, ella perde necessaria- mente seus titulos logo (pie sahe do sanctuario domestico.» Mas ah! em um tempo em que a mulher, sob pretexto de emancipação e de egualdade, deserta cada vez mais do lar domestico para atirar-se ás luctas da vida, estas sabias palavras do grande philosopho arriscam-se muito a não ser ouvidas. O amor dos filhos ó para a mulher o fogo sagrado da Testai que alimenta em seu coração a força do dever e do devotamento, e a magica fonte de suas virtudes. O amor dos filhos 6 a corrente que a mantém eterna prisioneira do lar, esse altar dos seus sublimes sacrifícios. Ella deve, pois, viver para elles, a elles se dedicar, elles são o seu amuleto, não lhes pode 111 recusar os seios, porque, com essa recusa, rompe-se a magica cadeia que a prende ao recem-nascido. «O aleitamento materno, diz Rouvier, é de instituição divina, é um dever sagrado ao qual mulher alguma pode furtur- se. A Litteratura e a Historia unem-se á Anatomia e á Physio- logia para damonstrarem a superioridade deste modo de alei- tamento. Na Mythologia egypcia vê-se íris amammentar Horus, esta idéa de — Deusa-mãe — 6, a cada passo, encontrada nas repre- sentações figuradas das religiões antigas, especialmente entre os Phenicios. Para os Hebreus o aleitamento materno era um dever religioso. Nas Escripturas Sagradas não se falia senão de tres amas: a de Rebecca, a de Mepliiboseth e de Joas. As leis de Lycurgo impunham ás Lacedemonias a obri- gação de amammentar seus filhos. Em Athenas uma mulher era acusada de infamia por amammentar o filho de uma outra, a não ser que miséria extrema a isso a forçasse. Tácito conta que nos povos germanos a mãe aleitava sempre seu filho, nunca confiando-o a uma serva ou ama. Na Republica Romana as matronas dividiam o tempo entre os trabalhos caseiros e a criação dos filhos. A moda do alei- tamento mercenário introduziu-se depois com a corrupção e decadência do Império. Este deplorável costume causou tamanha indignação, que provocou a verve satyrica dos poetas daquelle tempo, como Juvenal; e a eloquência de oradores christãos, como Santo Ambrosio, São Chrysostomo e S. Clemente de Alexandria. Dizem que a rainha Branca de Castella quiz ser ella mesma a ama de seu filho São Luiz. Um dia que a rainha teve um accesso de febre, uma dama de honor para agradar- lhe ou para imital-a, tocada de compaixão pelo pequeno Luiz que chorava e tinha fome, deu-lhe o seio. A rainha sabendo-o, mais tarde, encolerisou-se de tal sorte, que obrigou o menino a vomitar o leite, mettendo-lhe o dedo 11a bocca; não queria, 112 disse ella, que uma outra mulher tivesse o direito de disputar- lhe sua qualidade de mãe. Ate o século passado as mulheres da mais alta stirpe, nobres e princezas, tinham por habito amammentar seus filhos, em França, na Allemanha e na Inglaterra. 0 Duque de Or- leans foi amammentado por sua própria mãe, Carlota Elisabeth de Baviera. Actualmente o aleitamento materno 6 ainda quasi que ex- clusivamente praticado na Suécia, na Noruega, na região do Caucaso, na Colombia e muitos outros paizes.» *) Nas cidades centraes do Brazil, honra seja feita aos seus habitantes, o aleitamento mercenário é quasi desconhecido, todas as mães aleitam seus filhos. Nas nossas grandes cidades ó que o apuro da civilisação e da coquetterie trazem semelhante flagello. Por este motivo se explica a descommunal desproporção existente entre a mortandade das creanças nas capitaes e nas cidades do interior. Segundo Kouvier só ha exemplo de um povo proscrevendo o aleitamento materno em certas classes; são os africanos. As mulheres dos reis negros d’Africa não têm o direito de amam- mentar sens filhos, este cuidado 6 considerado uma verdadeira derrogação. O recem-nascido é aleitado pela avó; graças á acção produzida por plantas que se applicam sobre os seios e os orgãos genitaes, ellas chegam a ter leite para nutrir. -) O aleitamento materno é, pois, um dever imprescindível. Elle é o complemento da maternidade e mais ainda da gestação. As mulheres que amanmientam ó de observação que se restabelecem mais rapidamente depois do parto do que aquellas que não o fazem. A secreção lactea constituo uma fonte regular de deriva- ção que favorece o retorno gradual do útero ao seu estado ') Rouvier — Loco citato. 2; Rouvier — Loco citato. 113 primitivo, e é, até certo ponto, um preservativo contra os ab- cessos do seio e as manifestações inflammatorias de diversos orgãos, como seja o peritoneo. Notáveis Gyn ecologistas e Parteiros, entre os quaes figu- ram : Segy, Michel Levv, Churchil, Nonat, Gassner, Courty, Fon- sagrives, Barnes e outros, pensam que os desvios uterinos e a subi evolução, a metrite chronica e suas consequências, são muito mais frequentemente observadas nas mulheres que não amammentam seus filhos do que naquellas que cumprem este dever. A observação clinica demonstra que o aleitamento fa- vorece a involução: esse é também o nosso modo de pensar. Além disto, as mulheres que amammentam seus filhos, cui- dam delles, se occupam quasi que exlusivamente delles, máximo nos dias que se seguem ao parto, e esta doce occupação faz com que ellas se abstenham de entregar-se precocemente ás lides caseiras, que tanto prejudicam-lhes a saude, e muitas vezes são causa de uma vida inteira de miséria organica. E nem se diga que o aleitamento prejudica a belleza, ha nisso grande exagero; como muito bem diz Rouvier, as damas romanas e athenienses, para quem a belleza era objecto de verdadeiro culto, amammentavam, entretanto, seus filhos. «Mulheres ha, diz Tarnier, que eram sujeitas a nevralgias uterinas ou ovarianas e curaram-se depois de terem amammen- tado; muitas chloroticas, nevropathas, que não tinham apetitte e degiriam mal, cuja saude definhava, gozam durante o aleita- mento de excellente saude que se mantém depois de desmam- marem os filhos.» r) Demonstrada a necessidade do aleitamento materno cumpre- nos agora dar as regras que devem presidir o exercicio desta sublime missão. Direcção (lo aleitamento natural. O aleitamento na- tural pode ser posto em pratica pela própria mãe da creança, ou por meio de uma ama; no primeiro caso temos o aleita- p Tarnier, Chantreuil et Budin — Alaitement et hygiene cies nou- veau-nés. 114 mento materno propriamente dito, no segundo caso o aleita- mento mercenário. Como se pratica o aleitamento materno. — Quando o feto se desprende do ventre materno, nas primeiras horas da vida os seus intestinos contêm, em proporção mais ou menos no- tável, uma massa negra, especie de graxa de sapatos, semi- líquida, viscosa, adlierente, constituida pela bilis e restos de desquamação epithelial, chamada meconium. Esta substancia o recem-nascido tem necessidade de ex- pelil-a, o mais cedo possivel, de sorte que a indicação de um purgativo é muito racional; pois bem, a natureza tudo previu, tudo providenciou: o leite da mulher, nos primeiros dias após o parto, é um liquido differente do verdadeiro leite, 6 viscoso, amarello, e tem o nome de colostrum; este colostrum, segundo a opinião de alguns auctores, é dotado de propriedades pur- gativas, de modo que a natureza mesmo indica que a mulher deve dar o seio ao filho nas primeiras horas após o trabalho, pois ella fornece com sabedoria nos primeiros jorros de leite a primeira medicação de que elle tem necessidade. O colostrum humano, como já dissemos, é amarello, con- sistente e muito alcalino; a partir do terceiro dia elle torna-se mais branco. Sua composição c a seguinte:*) Densidade 1,032 Residuo secco 17,2 Albumina e caseína 4,0 Manteiga 5,0 Assucar 7,0 Esta composição vae pouco e pouco se modificando, e, em alguns dias, o colostrum desapparece para dar logar ao leite puro. Assim, a mulher que acaba de dar á luz deve gozar do necessário e indispensável repouso que exigem as fadigas do parto; este repouso será de 5 a 6 horas, no fim deste lapso de tempo ella deve dar o seio ao recem-nascido. Durante este ') Husson — Loco citato. 115 intervallo pode-se administrar á creança agua levemente assu- carada em pequena dose, e nada mais. As primeiras vezes que o menino pega o seio ordinaria- mente este acto desperta cólicas uterinas, as vezes insuportáveis; nas maternidades da Europa nós vimos applicar-se neste caso a antipy rima, na dose de 1 gramma e meia por dia, em cap- sulas contendo meia gramma cada uma. As cólicas des- appareciam sempre, cessando o utero, sob a influencia do pode- roso medicamento, de responder ás excitações reflexas do seio. O Professor Trousseau, com sua respeitável auctoridade, diz o seguinte: «E’ muito conveniente que a mãe apresente o seio ao filho nas primeiras horas depois do parto, porque, quando ha affluxo de leite, o seio torna-se doloroso e desten- dido e o mamelão se achata de tal maneira que o menino não pode chupar, a sucção e fatigante. Ao contrario, quando se dá o seio ao menino logo depois do parto, a erecção do ma- melão faz-se com facilidade, os lábios pegam-no bem e o orgão se habitua logo ás suas funcções.» Cuidados indispensáveis antes de collocar-se o menino ao seio. — Mulheres ha, principalmente algumas amas que não primam pelo asseio, que suam muito, ou que tendo muito leite, os peitos estão sempre a escorrer, molhando as vestes; o ma- melão neste caso fica húmido de leite azêdo, decomposto, cheio de microbios e de enduto sebaceo, e não pode ser dado assim ao menino, sob pena de provocar cólicas e até diarrhea; é pre- ciso, todas as vezes que o menino tem de mammar, lavar o peito com um pedaço de panno muito limpo ou de algodão hydro- philo molhado n’uma solucção tépida de acido borico a 4°/o- Nada disto se pratica entre nós, todos estes pequenos cui- dados são regeitados in limine, como exigências inúteis dos mé- dicos, ó por isso que a mortandade das creanças é tão con- siderável. O aleitamento materno é mister difficil; criar um menino segundo os preceitos da hygiene é trabalho massante, penoso, exige pasciencia de mãe, e aquellas que recusarem-se a isto 116 lião de ver seus filhos cahirem victimas, uns após outros, da própria incúria. Quantas vezes a creança deve uiainmar por dia. — Eis ahi outra particularidade, muitíssimo importante, que se deve ter em vista no aleitamento e que passa completamente des- apercebida nas nossas famílias. Entre nós, todas as vezes que a creança chora, metiga-se- lhe o pranto com leite, o menino mamma vinte, trinta vezes por dia, sem regra nem preceito; sempre que a creança chora a mãe entende que ella quer mammar, que tem fome, e mette-lhe o peito na bocca. Eis ahi porque o aleitamento 6 considerado, entre nós, cousa tão difficil, e nenhuma jovem mãe quer pratical-o, para não ficar reduzida ao estado das suas amigas, as quaes, após tres ou quatro mezes de amammentação, emmagrecem, perdem as forças e as cores e adquirem o aspecto de phtisicas em 3 o periodo. O motivo ó esse, é não saberem aleitar; nem as mães são inexgottaveis, nem as creanças são canudo. 1. A glandula mammarea precisa de repouso para a for- mação do leite e condensação dos princípios chimicos que o compoem; o leite se forma á medida que vae sendo gasto, á custa do sangue que afílue ao seio; si a glandula não tem re- pouso, o leite que se forma é de má qualidade, fraco, e como a quantidade gasta ó dupla e ás vezes tripla, a mãe fica cada vez mais abatida e chega a perder completamente as forças, tornando-se imperiosa a suspensão do aleitamento. 2. Quanto á creança, o leite, como já dissemos, não passa pelo seu organismo como por um canudo, elle deve estacionar no estomago e soffrer a acção chimica da digestão, para esta ser completa e efficaz é preciso que a creança que acaba de mammar não torne a fazel-o senão duas horas depois, para dar tempo ao estomago de repousar antes de começar novo tra- balho. Si a creança mamma sem regra e a cada instante, o esto- mago revolta-se contra esta má direcção, não aguenta o tra- 117 balho, cahe em relaxamento e o leite passa para os intestinos sem ser digerido, provocando diarrhea e não sendo aproveitado para a nutrição do bébé. E’ indispensável que se regularise as horas de refeição do menino, clesde os primeiros dias, essa é a opinião de todos os médicos e de todos os parteiros. O menino só deve mamrnar de 2 em 2 horas, este inter- vallo não pode ser diminuído sob pretextos fúteis; á noite as inanimadas devem ser ainda mais espaçadas, de 3 em 3 horas, de 4 em 4 horas, de sorte que a mãe goze de algum repouso. Basta no começo um pouco de methodo e pasciencia que logo a creança se habitua e tudo vae docemente depois. Em seguida damos um quadro que se pode chamar o horário da ama, que regula as mammadas do menino e o repouso da mãe. As 8 horas da manhan lava-se pela primeira vez o me- nino, muda completa de roupa e mainina pela primeira vez. 8 horas da manhan . . Ia mammada 10 » » » . . 2a » 12 » 3a » ' 2 » da tarde ... 4a » 4 » » » ... 5a » 6 » » » ... 6a » 8 » » noite ... 7a » As 8 horas da noite a croança é posta difinitivamente no berço para passar a noite, e a mãe não deve dar-lhe o seio outra vez senão á meia noite, isto mesmo si a creança chorar e despertar. No fim de algum tempo ella pode mesmo supprimir a mam- mada da meia noite e só dar o seio ao menino pela madru- gada; conseguirá assim repousar durante toda a noite, o que lhe é absolutamente indispensável para poder bem supportar o alei- tamento e produzir bom leite. Aquellas que não quizerem seguir á risca estes preceitos re- nunciem ao aleitamento materno, renunciem, pois, a maternidade. 118 Para este systema ser proveitoso é mister que a mãe, no momento de amammentar seu filho, não se inquiete com outra cousa, dirija-se a seu quarto ou a outro logar onde haja silencio e a creança não seja distrahida; a mãe assenta-se, lava os seios e apresenta-os ao menino, um após outro, deixando-o mammar vagarosamente e a seu gosto, ató que um plácido dor- mitar annuncie que a creança fartou-se. 15 a 20 minutos, no máximo, são sufficientes para que o menino tenha inanimado bem. Si por acaso o menino mammou demais, immediatamente o estomago repelle, por meio de vomito facil e physiologico, o excesso de leite ingerido. Deixar as creanças com o seio á bocca indifinidamente, como fazem “algumas mulheres, provoca inflammações e abcessos mammares. Alguns parteiros aconselham que as mães se deitem para amammentar os filhos. Hygiene da mulher que amammenta. — A mulher que amammenta deve regular-se pelos preceitos da mais rigorosa Hygiene. Deve fazer uso de uma alimentação muito substancial, tendo por baze a carne de vacca, o leite e os ovos, evitando os condimentos fortes e apimentados. Substancias ha, como o alho e a cebola, que sendo inge- ridas em abundancia, communicam ao leite um cheiro nausea- bundo, aliaceo, que repugna aos meninos; haja vista neste sentido as amas extrangeiras que têm habito de comer cebola com pão de uma maneira immoderada. A alimentação da mulher que amammenta deve ser rica de princípios nutritivos, mas simples e de facil digestão. E’-lhe permettido o uso dos vinhos de mesa em pequena quantidade, meio copo em cada refeição, ao passo que devem se abster completamente dos vinhos generosos, vinho do Porto, Cognac, Rhum, Aguardente de Canna, etc., que prejudicam enormemente a saude do menino. A cerveja não só pode ser usada como deve mesmo ser aconselhada pelo medico, porque é excellente lactifero. A cer- veja, porem, deve ser de boa qualidade e não das que por ahi pollulam, falsificadas com acido salicylico. Na minha opinião 119 deve-se preferir para este fim a cerveja nacional, Bavaria on Antarctica, ás cervejas extrangeiras muito alcoolisadas. Uma ama não deve beber mais de uma garrafa de cerveja por dia, meia garrafa em cada refeição. As creanças amammen- tadas por amas cpie têm por costume se alcoolisarem estão sujeitas a convulsões e outros males. As mães de familia, principalmente em S. Paulo, devem ter o maior cuidado e examinar o hálito das amas diversas vezes por dia, sem que ellas se apercebam desta vigilância; o que é facil: basta fazerem afago ao menino quando as amas o têm no braço e obrigal-as a fallar nesta occasião; si ellas tem o vicio de beber, percebe-se logo o cheiro de aldehido que caracterisa o hálito dos alcoolistas. A mulher que aleita precisa não confinar-se em casa, ella tem necessidade de respirar todos os dias ar novo e puro, fa- zendo passeios moderados. Quanto ás relações sexuaes, diz Tarnier, devem ser raras, porque, mesmo que ellas não sejam seguidas de prenhez, a ex- citação nervosa frequentemente repetida pode dar logar a vicio da secreção leitosa.1) E’ sabido que as bruscas e vivas emoções moraes, produ- zindo abalo profundo do systema nervoso, podem, de um mo- mento para outro, suspender o leite ou alterar-lhe de tal modo a composicção que elle se transforme n'um verdadeiro toxico. Cazeaux cita o facto de uma senhora que durante violento accesso de ira deu de mammar a seu filho, a creança no fim de alguns minutos foi atacada de fortes convulsões e succum- biu. Tarnier refere também um menino que mammou em sua mãe quando esta acabava de passar por terrivel mêdo, imme- diatamento foi atacado de agitação extrema seguida de morte. Meslier conta que observou algumas creanças serem victimas de accessos opileptiformes em consequência de angustias sof- fridas pelas mães. 1) Tarnier, Chantreuil et Budin — Loco citato. 120 Agora, que já conhecemos as regras do aleitamento, uma interrogação surge como consequência natural do que temos aconselhado: Todas as mães podem amammentar? Esta interrogação comprehende as contraindicaçoes do alei- tamento materno. Contraindicaçftes do aleitamento materno. — Ha mui- tas mães que não devem amammentar seus filhos, ainda que o desejem: Em primeiro logar estão as mulheres affectadas de Tuber- culose pulmonar incipiente ou avançada. A mãe tuberculosa não pode amammentar no seu interesse proprio e no interesse de seu filho; o aleitamento leval-as-ia a um gráo de enfraque- cimento que provocaria a explosão dos phenomenos graves da Phtisica confirmada e a creança nutrida com este leite mau, proveniente de um terreno orgânico depauperado, viciado, será também victima inevitável, não só por não ser o leite sufficiente alimento como por trazer em si o germen especifico da Tuber- culose, os bacillos de Koch.1) Mesmo as mulheres que têm a diathese tuberculosa na familia, sem comtudo apresentarem os signaes da moléstia, não devem aleitar seus filhos, esta 6 a opinião da maioria dos clínicos. A minha opinião nesta ultima hypothese differe um pouco da da maioria: si uma mulher, que tem a diathese tuberculosa na familia, goza, entretanto, de perfeita saude, se alimenta bem, 6 robusta, e seus pulmões nenhum signal sthethoscopico apre- sentam da moléstia diathesica, ella pode amammentar seu filho, pelo menos o primeiro. Assim pensamos, Io porque já vimos diversas senhoras que apresentavam diathese tuberculosa na familia criarem mais de um filho robusto, sem que a sua saude em nada fosse alterada. 2o porque entendo que o aleitamento durante uns 6 ou 8 mezes não pode prejudicar mais o organismo do recem-nascido do *) Koch foi o descobridor do microbio da tuberculose. 121 que 9 mezes de vida intra uterina em plena intimidade or- gânica. Convém, entretanto, muita prudência, o aleitamento neste caso deve ser presidido e acompanhado pelo medico da familia, quando digo medico da familia quero com isto significar que deve ser um mesmo medico, pois sómente quem presidiu o começo do aleitamento estará habilitado, d’ahi a um mez ou dous, a julgar si a mãe pode ou não continual-o. O desmam- mamento deve ser precoce e muito util será aconselhar-se á mãe o aleitamento mixto, que concorrerá muito a poupar-lhe as forças. Nas prenhezes consecutivas julgo prudente que a mãe diathesica não amammente. O escrophulismo que guarda intimas relações com a tuber- culose também ó uma contraindicação para o aleitamento materno. As nevroses, como sejam a grande hysteria, a epilepsia, etc., devem proscrever de uma maneira absoluta o aleitamento materno. A mulher que durante o trabalho de parto foi atacada de hemorrhagia grave, trazendo como consequência anemia pro- funda, não se acha também em condições de amammentar. Si estas moléstias contraindicam o aleitamento materno ha outras que o tornam obrigatorio; a syphilis, por exemplo, quer da mãe quer do menino. A creança syphil itica só pode sor amammentada por sua própria mãe, porque se a confiarem á uma ama sadia esta será infalI ivelmente contaminada. O anno passado eu observei nesta capital um facto bom interessante: uma hespanhola sadia foi tomada para ama do uma creança cujo rostinho apresentava algumas syphilides; no fim de 2 mezes de amammentação a ama apresentou-se no meu consultório com o corpo litteralmente coberto de roseolas e uma enorme ulcera syphilitica no mamelão. Quando a mãe já está amammentando seu filho, e no curso do aleitamento é affectada de certas moléstias agudas, como sejam: a variola, o sarampão, a febre typhoide, febres palustres, febre amarella, etc., deve immediatamente suspender o aleitamento. 122 O apparecimento de uma nova gravidez força egualmente a mulher a tirar o seio ao filho, pela razão muito simples de que o seu organismo não pode supprir ás dospezas da nutrição de dous filhos ao mesmo tempo. Outras vezes são certos vicios de conformação do seio, que pode, por exemplo, ser desprovido de bico, certas moléstias da glandula, que impedem o aleitamento materno. A creança também pode apresentar obstáculos ao aleita- mento: aquellas que nascem fora de tempo, que não têm força para mammar, algumas que passam todo o tempo immorsas em profundo sonmo que recusam o seio de um modo tenaz e que precisam ser alimentadas á força; certas moléstias congénitas, como o labio leporino, etc. Fóra destes casos, felizmente raros, o aleitamento materno deve imperar de uma maneira absoluta. Aleitamento mercenário. 0 aleitamento mercenário 6 a repugnante historia das amas; é a descripção da tragédia negra daquellas que assassinam o til lio no nascedouro para venderem o leite aos outros. E’ o quadro repellente das mães que sutentam o filho de abobora e angii e levam ao menino rico o leite puro e fresco que estava destinado aquelle. Na minha opinião a instituição das amas 6 uma instituição immoral e anti-hygienica. A mulher, cujo filho não morreu e toma outro a criar, devia ser processada e entregue á justiça publica por tentativa de infanticidio. Muitos me acoimarão de exagero; seja, é a minha opinião. Só a miséria absoluta jus- tifica esse proceder. Mas como este livrinho não é uma tribuna tratemos do assumpto como elle está acceito e estabelecido por toda parte. O serviço de amas em S. Paulo é uma cousa verdadeira- mente deplorável; não havendo disposição alguma da Junta Sanitaria a esse respeito, tudo se acha desorganisado, tudo se faz a trouxe e mouxe, sem luz, sem hygiene, sem consciência. 123 A mãe de familia que não pode amaramentar seu filho e vê-se na contingência de tomar uma ama, é uma infeliz, digna de lastima: todas as decepções estão-lhe reservadas, desde o roubo do dinheiro que dispende ate o assassinato do filho. E’ inaudito o que entre nós se presenceia ! Não ha aqui, como nos paizes da Europa, a Instituição de amas que bem dirigida, rigorosamente vigiada, pode tornal- as supportaveis, ha pura e simplesmente o commerdo do leite humano, o aluguer do seio a quem viais der, sem affeição, sem moralidade, sem orientação scientifica, tendo unicamente por mira o interesse monetário. O serviço de amas, entre nós, é um verdadeiro estimulo para o augmento dos infanticídios e da mortalidade das creanças. Ha pouco tempo conversando com uma Senhora, perten- cente a uma das familias mais importantes desta capital, ella referiu-me o seguinte facto: — Uma sua parenta tendo dado á luz e precisando de uma ama, annunciou pelo jornal; logo ap- pareceu-lhe uma extrangeira, ainda moça, trazendo um filhinho nos braços, a qual se offereceu para exercer as funcções de ama. Como a Senhora a recusasse, por trazer ella o filho ainda de tão tenra edade, a mãe declarou-lhe, com a maior sem ce- remonia do mundo, que isto não era impecilio; pois, si ella agradava-lhe, iria immediatamente por o filho na roda para entrar a seu serviço!!! Este facto não tem comentários; como essa são quasi todas as amas de S. Paulo, as honrosas excepções que 'se salvam são pouco numerosas. E’ para admirar que as Directorias de Hygiene que têm se succedido uesta capital e que com tanto lustre e patriotismo têm sabido propagar, entre nós, as disposições salutares da Hy- giene, não tenham ainda posto termo a estes crimes. Seria um serviço enorme prestado ás mães de familia, que muito soffrem com esta desorganisação. Toma-se uma ama, o medico a examina e julga apta, ella é recebida e faz contracto de amammentar uma creança durante o tempo necessário, e toma conta do seu filho adoptivo. Nos 124 primeiros dias ella se desvela, como a mais carinhosa das mães, passada a primeira semana, os carinhos cessam, as imposições começam; si a mãe não cuida do menino elle passará o dia todo em coeiros lmmidos de urina e excrementos. Todas as vezes que pode, em cada canto em que se acha á sós com a creança, a ama da-llie biscoutos, doces, todas as gulodices que cahem-lhe nas mãos; para poupar seu leite; a creança enfra- quece e diversas moléstias sobrevêm. São as amas italianas que abundam entre nós, algumas ha boas e dedicadas, mas são raras. As extrangeiras, quasi que em geral, são más amas, porque ó a ganancia do dinheiro que preside-lhes os aetos, ellas não tomam affecto pela creança que amammentam, as mais das vezes odeiam-na até e a consi- deram como pezado fardo que a miséria lhes impoz para ga- nharem a vida. — Mães de familia, a funcção do aleitamento ó delicado mister no qual entra por muito o moral de quem o exerce; o leite precisa de um condimento que o torna mais agradavel ao infante, são as caricias, é o doce e contemplativo olhar de quem o dá, a agradavel posição, o meneio delicado. — Uma ama jamais fará destes milagres. — Tomar uma ama simplesmente polo annuncio de um jor- nal, sem outras informações, e entregar-lhe um filho, é perigo- sissimo, é uma imprudência; não adimitti jamais uma ama sem saber dos seus precedentes e ter delles inteira certeza. Ima- ginai que esta ama matou seu filho para vir vender-vos o leite; imaginae que ella deixa seu filho em casa morrendo á fome para vir saciar o vosso; esta ama poderá ser boa? Si esta fera não teve dó nem affecto ao seu proprio filho, terá ao vosso? — E’ certo que não. Poderá este leite maldicto ser sadio? — jSTão, por certo. — O leite para ser bom é preciso que elle seja dado de boa vontade; a ama para ser boa é preciso que ella não veja ao pé do seu filho adoptivo a sombra de um esquife. A própria mãe si não amammenta seu filho de boa vontade não pode ser 125 boa ama. E nem penseis que exagero, ouvi as palavras que a respeito desta delicadíssima questão diz o Professor Rouvier: «O aleitamento é sem duvida um consolo para a mãe, mas é preciso que ella não se illuda, o aleitamento exige muito sacrifício, muito devotamento. — Para ser uma boa ama em toda a acepção da palavra, não basta preencher certas condi- ções physicas, outras condições moraes são altamente indis- pensáveis. Nisto 6 que consiste o segredo dos bellos succes- sos obtidos por mães fracas na apparencia, quando mães muito mais robustas nada conseguem. E' preciso querer amammentar e tomar livremente, de boa vontade, esta decisão. — Uma obrigação imposta é sempre mais penosa de preliencher, e tal é a fraqueza da natureza humana que chega-se mesmo a exa- gerar as difficuldades neste caso, e esta lucta moral faz com que o resultado seja deplorável. Ao em vez de cercar o re- cem-nascido de cuidados minuciosos, de velar sobre elle com a solicitude a mais terna, a mãe, a quem o aleitamento é im- posto, que o faz de má vontade, não tarda a abandonar este entesinho importuno que absorve todo o seu tempo, e a negli- gencia destes cuidados indispensáveis, os de asseio sobretudo, a inobservação dos preceitos de Hygiene, o decubitus dorsal prolongado, etc. não tardam a trazer funestas consequências. A saude do bebé se resente, as moléstias se manifestam.» ') São bem eloquentes estas palavras do illustre Professor; e, si ellas se referem á verdadeira mãe, o que diremos da mãe mercenária? Deve-se redobrar de cuidados, o escrupulo deve ser miticuloso. E’ mister que o nosso governo sem perda de tempo organise um serviço de amas nesta capital que faça cessar o trafico leiteiro, immoral, anticivilisador e criminoso, ora existente, e surja um elemento de soccorro ás famílias e de pro- tecção aos recem-nascidos pobres. Eu considero o serviço de amas, como actualmente é feito em S. Paulo, uma causa saliente, e que não deve ser despre- zada, da mortandade das creanças nesta capital. 1) Rouvier — loco citato. 126 Em Paris, e n’outras cidades da Europa, ha na Prefeitura de Policia um serviço de recepção e de inspecção de amas, mantido com todo o rigor scientifico. A mesma Prefeitura envia aos arrebaldes médicos que inspeccionam as amas, que levam de Paris creanças para amammental-as na campanha. E a lei Russel, sobre a protecção da infancia, 6 severamente posta em pratica.1) Urge que o nosso Governo também decrete entre nós o seguinte: Art. l.° — Fica creado na Directoria de Hygiene publica um Serviço de amas. Art. 2.° — Aos directores deste Serviço compete examinar gratuitamente as pretendentes ao logar de amas mercenárias com todo o rigor scientifico, e dar, ás que forem julgadas aptas, carta de licença por tempo determinado. Art. 3.° ■— Nenhuma mulher poderá exercer a profissão de ama, annun- ciar-se pela imprensa, ou offerecer-se ás mães de familia, sem primeiro fazer- se examinar no Serviço da Directoria de Hygiene. Art. 4.° — A ama examinada é obrigada a fazer visar sua carta, mensal- mente, apresentando-se no Serviço para verificação do seu estado de saude. Si neste lapso de tempo ella adquire alguma moléstia que a torne incapaz de exercer a profissão, ser-lhe-á cassada a licença e imposta a prohibição de continuar a amammentar, até o completo restabelecimento. Art. 5.° — Si a moléstia da ama foi adquirida do menino, por meio de contagio, como seja a syphilis, os paes serão obrigados, a titulo de trata- mento, a uma indemnisação correspondente á importância de 2 mezes de or- denados da ama. Art. (i.° — A mulher que apresentar-se ao exame no Serviço, como pre- tendente ao exercido do mister de ama mercenária, deverá apresentar seu filho. Si elle estiver doente ou em estado de franqueza congénita, etc. a mãe não terá permissão para o aleitamento mercenário. Si o filho falleceu se fará a respeito deste obito a mais severa investigação; devendo ser inter- rogada a parteira que prestou cuidados á pretendente, quer se trate de morti- natalidade ou de morte post partum. Devendo a parteira ser responsabili- sada, si por imperícia, ignorância ou descuido deu-se o obito da creança. Art. 7.° — Toda aquella que exercer ou procurar exercer a profissão de ama mercenária, sem a competente licença, multa de 50$000, em caso de rein- cidência pena de prisão. 1 Artigo primeiro da lei Russel: — Todo o menino de edade de menos de 2 annos, que é entregue, mediante salario, a uma ama, para alei- tal-o, desmammal-o ou tomar delle conta, fóra do domicilio de seus paes, torna- se por este facto objecto da vigilância da auctoridade publica tendo por fim protegar sua vida e sua saude. 127 (Esta proposta, que faço, da organisação de um serviço para o aleitamento mercenário, teria a dupla vantagem de permettir aos Poderes públicos fisca- lisar as amas e também exercer alguma vigilância sobre as parteiras que eu considero como sendo factores muito importantes de uma parte da mortali- dade das creanças, entre nós. Ha nesta capital um sem numero de parteiras diplomadas e não diplo- madas, extrangeiras na sua maioria, cuja ignorância não tem limites, e que, entretanto, exercem entre nós a profissão, fóra da orbita que as leis lhes traçam, intervindo a torto e a direito, receitando e prejudicando a vida das mães e dos filhos de uma maneira criminosa. Uma delias chegou mesmo a annunciar-se pela imprensa, especialista de moléstia de Senhoras, sem que nenhuma providencia fosse tomada para obstar essa derrogação. Eu passaria em silencio este facto, si desde o inicio da minha clinica nesta cidade, eu não tivesse presenceado actos que me horrorisaram e me impressionaram tanto mais quanto as nossas familias, quasi que em geral, têm o habito de se entregarem ás parteiras de uma maneira cega, desde o começo até o fim da gestação, só consultando o medico em caso de accidente grave. Quem conhece um pouco de Obstetrícia, as difficuldades, as minudencias miticulosas desta parte da medicina, os perigos que o mais insignificante des- cuido do lado do parteiro acarreta, poderá avaliar quão nocivo é esse systema, que só a ignorância explica. Para legitimar estas reflexões e apagar o odioso que ellas poderiam trazer basta-me citar os tres factos seguintes: l.° — Prestava o Snr. Dr. Arthur de Azevedo cuidados á uma distincta senhora, pertencente a uma das mais importantes familias desta capital; a doente estava gravida, a termo, quando foi atacada de impaludismo, acom- panhado de uma nevralgia escapular rebelde, que a prostrou extraordinaria- mente. Ainda não estava o mal completamente debellado, quando a doente entrou em trabalho de parto. — Foi chamada uma parteira extrangeira, de maior clientela nesta cidade e considerada uma das mais competentes. — O Snr. Dr. Arthur de Azevedo também foi avisado. Com o critério clinico que todos lhe reconhecem, entendeu logo que o parto d’aquella enferma, ex- gottada de forças pela moléstia de que ainda conservava traços, devia ser cer- cado dos mais minuciosos cuidados; propoz á familia uma conferencia com um medico parteiro, e lembrou-se da minha humilde individualidade para esse mister. Em companhia do illustre asistente entrei no aposento da enferma, onde se achava a parteira. Dirigi-me a esta e perguntei-lhe em que phase estava o trabalho; respondeu-me que muito longe do seu termo. Dis- pondo-me a examinar a parturiente nada encontrei para esse fim: nenhum liquido antiseptico, nada de irrigadores, oleo ou vasilina phenicada, tudo faltava; entretanto a parteira já tinha praticado o toque por diversos vezes. Fiquei pasmo de tamanha ignorância e fiz ver ao Snr. Dr. Arthur como se assassinava impunemente uma mãe de familia. — Mandamos vir uma solução de sublimado, algodão hydrophilo, irrigadores, vasilina phenicada, e, depois 128 do palpar, toquei a enferma. Tratava-se de uma apresentação de craneo, bem insinuada e o collo estava completamente dilatado. Disse então á parteira que ella se enganara quanto ao avançamento do trabalho, que o collo estava dilatado e a cabeça bem insinuada. A parteira em vista disto, tocou de novo a parturiente, e, tomando ares de grande mestra, declarou que o engano era meu, que o collo não estava dilatado. Virei as costas a tamanha ignorância e pedi ao collega Snr. Dr. Arthur que tocasse a doente. O Dr. Arthur verificou, como eu, a completa dilatação do collo. Eram 11 horas da manhan, aconselhei a expectação e que se procedesse a lavagens vaginaes antisepticas. Fallando-se nas injecções a familia reluctou; mais tarde viemos a saber que a parteira aconselhou aos parentes que não consentissem na injecção vaginal, que faria muito mal á parturiente, e até poderia mudar a apresentação (!!!) Risum teneatis. Ernfim, poude-se fazer a lavagem vaginal uma vez, quando eu desejava que se a fizesse de meia em meia hora. As 2 horas da tarde, o trabalho não tendo avançado, attendendo ao estado de abatimento da enferma, e á insinuação completa da parte fetal, á fraqueza das contrações uterinas, fiz ver ao Snr. Dr. Arthur que a applica- ção do fórceps era urgente. Elle preparou commigo o instrumento e com- migo esforçou-se para convencer a parturiente da inocuidade da intervenção. Nem a parturiente nem a familia consentiram, porque a parteira declarou que o fórceps mataria a mãe. Em vista disto retiramos-nos ambos, o parto deu-se ás 7 da noite, ex- pontâneo. No dia seguinte fomos eu e o Snr. Dr. Arthur chamados para tratar de novo a enferma, atacada de uma infecção puerperal, causada pelos dedos sujos da ignorantessima parteira. Conseguimos felizmente salvar a distincta Senhora da infecção, graças aos minuciosos cuidados antisepticos e a irrigações intra-uteriuas. 2. — Uma Senhora, professora, apresentou-se no meu consultorio pe- dindo-me uma receita para uma nevralgia facial, que lhe apparecia sempre das 2 horas da tarde em deante e que muito a affligia. Tratava-se sem du- vida nenhuma de uma affecção larvada. Eu receitei-lhe meia gr. de sulfato de quinina e 50 centigrs. de analgesina em capsula, para tomar todos as manhans uma egual. Esta senhora estava gravida, e, antes de tomar o remedio receitado, esteve com a sua parteira, esta aconselhou - lhe que não fizesse uso delle porque ella abortaria immediatamente. A professora não fez uso do' remedio e mais tarde queixou-se a uma Senhora da minha amisade que eu lhe tinha receitado um medicamento abortivo !!! 3. — Fui chamado uma occasião para prestar cuidados a uma senhora recem-parida. Examinando a enferma notei um cheiro pronunciadissimo de putrefacção de locchios, calor vulvar ardente e temperatura axillar de 39,5 °. Perguntei á moça si ella, durante e depois do parto, fizera a toilette dos orgãos genitaes, e se tinham sido praticadas injecções antisepticas etc. 129 — Nada disso, respondeu-me ella, quando eu tive o meu primeiro filho o medico aconselhou-me lavagens repetidas com agua morna phenicada, feitas com um lenço limpo, sem que eu me levantasse da cama, e dei-me bem. Desta vez, porém, assistiu-me uma parteira italiana e disse-me que nós bra- zileiras éramos fraquinhas todas, porque ficavamos 6, 8 dias na cama depois do parto, que eu fizesse como ellas que se levantavam no 3o dia e só se lavavam em agua fria depois de passado o resguardo, e que, por isso, eram todas fortes. A ingenuidade desta confissão despertou-me o riso .... Não foi sem trabalho que consegui salval-a de uma septicemia puerperal. Estes tres factos bastam para comprovar a ignorância destas mulheres e mostrar quão perniciosa e nosciva é a influencia que, entre nós, ellas exer- cem no animo das famílias, influencia tal que nem o medico, o profissional abalisado, pode dissipar. Compete, pois, ao governo fiscalisal-as e fazel-as entrar nos domínios que lhes estão traçados, e á classe medica ensinar as famílias a se precaverem. Sei que entre estas parteiras ha excepções honrosas, as ha prudentes e sabias, mas são raras.) Lançadas estas ligeiras considerações que nos pareceram indispensáveis, estudemos agora o aleitamento mercenário pro- priamente dito e o methodo a seguir-se na escolha das amas. Desde que a própria mãe não pode amammentar seu filho, só uma outra mulher pode substituil-a neste mister, sómente uma boa ama pode desempenhar condignamente esta missão. 0 aleitamento mercenário, quando feito por uma boa ama na extensão da palavra, dá excellentes resultados e 6 superior em tudo ao aleitamento artificial. A difficuldade consiste unicamente em encontrar-se a boa ama, á esta escolha 6 que deve presidir muito escrúpulo. Es- crúpulo que não existe entre nós neste assumpto. Nas cidades da Europa ha duas especies de amas: amas de domicilio e amas de fora; as primeiras criam os meninos na casa dos paes, moram com a familia do bebó; as segundas levam as creanças para fora da cidade e criam-nas na cam- panha, em suas próprias casas. Eelizmente, entre nós, o escrúpulo e o amor maternos ainda não baixaram tanto, e esto barbaro costume ainda não está sendo posto em pratica. Jamais uma mãe deve confiar seu filho a uma ama para crial-o longe de suas vistas. 130 Os livros dos escriptores francezes, que se occupam deste assumpto, estão repletos de crimes os mais hediondos praticados por estas mulheres, que elles chamão faiseuses dfanges. ’) A pobre creança, longe de sua mãe, está, as mais das vezes, votada á morte certa e aos mais cruéis tormentos. O anno passado eu vi nesta capital um menino que sua mãe, aqui residente, tinha, entretanto, confiado á uma ama hes- panhola que o amammentava em sua própria casa; a creança tinha bellos cabellos louros, mas na nuca elles tinham comple- tamente desapparecido, toda a região occipital estava descoberta, Consultado pela mãe do menino que julgava seu filho atacado de alopeda ou pellada, declarei-lhe que aquillo era devido á creança passar horas e horas em decubitus dorsal. A ama administrava certamente ao menino algum narcotico, de modo que elle dormisse, dormisse sempre, e lhe deixasse o tempo livre para os seus affazeres. E' escusado dizer que o pobre menino estava magro como uma mumia e que a ama recebia 100$000 Rs. mensaes. Emquanto, pois, a Policia sanitaria não toma providencias promptas e energicas para regularisar o serviço de amas em S. Paulo, cumpre que os paes de familia sejam muito vigilantes e saibam escolhel-as. Qualidades que deve possuir uma hda ama. — Uma boa ama deve ser robusta e sadia, dotada de uma constituição forte. A saude é a primeira prova do bom leite. Ella não deve apresentar signal algum de diatheses como a Syphilis a Tuberculose, etc. Tanto quando possivel deve-se escolher uma mulher de caracter brando, genio plácido e intelligente, afim de que ella comprehenda e saiba cumprir os deveres inherentes ao seu cargo; é mister, alem disso, que ella seja deligente, afim de que a sua preguiça não traga como consequência o aban- dono dós cuidados que devem cercar o menino que lhe é confiado. 1) Factoras de anjos. 131 0 leite muito novo ou o muito velho devem ser repellidos, assim não se deve tomar uma ama cujo leite tenha menos de 2 mezes nem mais de tí. Salvo um caso especial. A edade da ama deve oscillar entre 20 e 30 annos, não podem ser perfeitas amas nem as mulheres de edade madura nem as que apenas tem attingido a puberdade. Será muito conveniente que a ama já tenha feito o seu no- viciado, isto é, que já tenha amammentado um primeiro filho, pois neste caso já não é caloira no arranjo de um menino nem estranhará as exigências da mãe de familia neste sentido. As multiparas são melhores amas que as primiparas. Exame da ama. — O exame da ama deve ser confiado ao medico, elle é o unico competente para pronunciar o vere- dictum neste assumpto. Admittir uma ama sem primeiro fazei-a examinar por um medico, e medico competente, é uma imprudência sem qualificativo; o exame medico minucioso 6 imprescindivel, é condição sine qua non. Eis como o Professor Charles de Liege descreve este exame, que aqui reproduzimos simplesmente para dar uma idea ás mães de familia da sua importância e minudencias. «O exame da ama deve ser geral e local. — O exame geral comprehendo o aspecto da pessoa, seu talhe, fortaleza e constituição, a coloração da face e dos cabellos; preferem-se as mulheres de cabellos pretos ás louras e principalmente ás de cabello vermelho. — Os dentes cariados indicam um vicio de nutrição e fazem reeeiar que a mastigação e digestão não se façam bem, elles são causa muitas vezes de um lialito fétido e dão logar a frequentes dores de dentes. — E' preciso inves- tigar-se cuidadosamente se não existe alguma diathese, moléstias organicas ou outras. Na escrophula observam-se engorgita- mentos ganglionares, principalmente no pescoço, onde se de- param muitas vezes com cicatrizes antigas deixadas pelas glân- dulas abcedadas; os olhos denunciam também este fundo con- stitucional pela presença de conjunctivites, blepliarites, etc. — E’ preciso examinar com attenção o coração, os pulmões, si 132 ha alguns signaes que façam temer a tuberculose, a asthma, a bronchite, as affecções cardiacas, aorticas, etc. 0 bocio, as osteítes antigas ou recentes, os tumores pathologicos, as molés- tias de pelle, forçam a- regeitar-se uma ama. — A consistência das carnes é importante a notar, os musculos dos membros devem ser bem desenvolvidos e firmes. — A syphilis é digna do todas as apprehenções e deve ser investigada com a mais miticulosa attenção em todas as partes em que ella pode se manifestar: a pelle, os lábios, a lingua, a garganta, o nariz, os ouvidos, os ganglios da nuca, da virilha, o anus, as nadegas, a vulva, a vagina e o collo do utero. — Todos os tegumentos externos devem ser examinados neste sentido e não se deve nunca esquecer as cavidades accessiveis taes corno a bocca posterior, os orgãos genitaes: o speculum deve sempre ser ap- plicado.1) — 0 exame do seio, que 6 o mais facil, não deve ser desprezado: convém examinar-se ambos e o leite de cada um delles. Aprecia-se o volume real da glandula e do tecido cellular que a cerca, ordinariamente quanto mais volumosa 6 a glandula mais abundante 6 o leite. Não entrando em linha de conta nesta apreciação o tecido gorduroso. Quando a pelle que cobre o seio é sulcada de numerosas veias bem apparentes é que a circulação é muito activa e ha grandes probabilidades para que o leite seja abundante. O mamelão deve ser bem conformado, saliente, sufficientemente longo, não muito grosso, de modo que o menino possa facilmente pegal-o. Jamais se deve acceitar uma ama tendo a menor lesão no bico do peito, excoriações, fundas, etc. — Pela pressão o leite deve sahir do mamelão em jactos alongados e á distancia. Nós não recebe- mos ama cujo leite saia do peito escorrendo.» 2) *) Um distincto collega desta capital mandou ao meu consultorio uma ama pedindo que a examinasse; a ama recusou-se á applicação do spcculum, eu julguei-a por isso mesmo suspeita e insisti pelo exame dos orgãos geni- taes. O collega, entretanto, dispensou-o e recebeu a ama. Cito este facto para mostrar o nenhum escrúpulo que existe entre nós. Esta ama, sadia na apparencia, podia trazer na vulva as mais graves provas da syphilis. 2) N. Charles — Cours d’ accnncliements. 133 Exame do leite da ama. — A simples fnspecção (Tar- nier) basta na pratica para ajuizar-se da qualidade do leite de uma ama; comprime-se o mamelão entre o index e o polegar e immediatamente o leite se escoa; por esta simples manobra se avalia logo a quantidade do leite; recebe-se o liquido de- pois n’um copo e colloca-se uma gotta sobre a unha, pela sua transparência, (Tarnier) pelo modo porque elle escorre pelas paredes do copo, chega-se a apreciar si elle 6 ralo ou espesso, si 6 rico ou pobre de elementos nutritivos. Este exame do leite deve ser feito antes e depois do me- nino ter mammado, porque a qualidade do leite de uma ama que ha duas horas não amammenta 6 difterente da do leite que apparece depois que a creança mammou. Exame do íillio da ama. — Si a ama tem filho será conveniente examinal-o também, pela robustez do mesmo, polo grau da sua saude se pode avaliar o leite da mãe. — E! pre- ciso entretanto ser se precavido neste pormenor, porque amas ha que quando se lhes pede a ver o filho que é uma verda- deira múmia de magreza, ellas pedem o filho de uma amiga, de uma visinha, que seja sadio, e apresentam em logar do proprio. Begimcn alimentar das amas. — O regimen alimentar das amas ó o mesmo que já descrevemos para a mãi que nutre o proprio filho: boa alimentação, alimentação sadia e fortificante, isempta de certas substancias que se eliminam pelo leite e podem prejudicar a saude do menino ou tornar o leite nauseoso. Entre nós as amas tem o costume do se portarem como verdadeiras tyrannas no seio das familias, em que são admit- tidas, fazendo exigências dignas de riso; querem passar á mar- melada, vinhos finos, exigem gostosos bonbons, que apenas co- nhecem de nome, enifim, o proprio Lucullo não seria tão exigente. Convençam-se as mães de familia de uma vez para sempre que as amas não tem absolutamente necessidade de um rogi- men especial, a baze da sua alimentação, já dissemos, deve ser a boa carne, o leite e os ovos, a cerveja em dose mode- rada, etc. Nada de gulodices, nada de satisfazer a caprichos 134 de rainhas de comedia, quanto mais simples a alimentação mais apropriada. Aquillo, porem, em que as amas têm rasão, e no que nem sempre são attendidas ó quanto ao serviço domestico: algumas senhoras ha que querem que a ama sirva ao mesmo tempo de criada; não. este proceder 6 por demais incorrecto, a ama 6 ama e nada mais; ella não deve ter outra occupação senão tratar do menino, velar seu somno e repousar nos intervallos. Mudança de amas. — Algumas pessoas julgam que a mudança de amas 6 inconvenienta para as creanças, não ha tal; pode-se perfeitamenté mudar de ama com tanto que a sub- stituta seja tão boa como aquella que lhe precedeu. »Si a creança recusa o seio da recem-chegada, certos artifícios, como seja dar de mammar no escuro e outros, resolvem a diffículdade. Julgamos ter dito o suffíciento nesta questão de amas, passamos agora a estudar o aleitamento artificial. Aleitamento artificial. 0 aleitamento artificial pode ser feito por meio de uma femea de animal ou administrando-se o leite n’uma mammadeira. Entre nós este ultimo processo é o geralmente empregado. Aleitamento por meio de uma femea de animal. Fazer uma creança mammar directamente no peito de um ani- mal manso é um methodo excellente que na Europa tem dado optimos resultados. I)ous homens notáveis, Lamartine e Alphonse Karr foram criados mammando numa cabra (Rouvier). Desde a mais remota antiguidade que se tem a idéa de adaptar os animaes ao aleitamento dos recem-nascidos; a antiga Roma offerece-nos o exemplo de Romulo e Remo criados por uma loba. A cabra ó o animal geralmente preferido para este mister. Entre nós pratica-se um verdadeiro contrasenso, ao em vez de fazerem a creança mammar na própria cabra, tiram o leite do animal e administram na mammadeira; de sorte que o menino fica reduzido aos mesmos perigos da ingestão do leite de vacca. Para nós a maior vantagem que o leite de cabra offerece sobre o da vacca ó poder ser sugado directamente pelo menino. Nestas circumstancias o leite é sempre tomado em estado na- tural, n’um a temperatura egual e ao abrigo da acção do ar, ficando isempto de toda a impureza e alteração. E’ preciso que entre nós as mães de familia que não po- dem amammentar seus filhos uem alugar uma boa ama, os acostumem ao aleitamento artificial por meio de uma cabra. 136 mas segundo o systema europeu, mammando o menino no pro- prio animal. Abaixo reproduzimos uma estampa do livro de Rouvier que representa uma camponeza ageitando uma cabra ao aleitamento do filho. A creança que repousa n’um bercinho portátil é collo- cada entre as pernas do animal, em seguida eleva-se-a até que os peitos da cabra fiquem-lhe ao alcance dos lábios. Na Europa emprega-se a jumenta tanto como a cabra. De todos os mammiferos o leite de jumenta é o que mais se apro- xima do da mulher. Bem tratada n’uma estrebaria ella pode 137 dar leite um anno inteiro; uma só jumenta pode nutrir 3 me- ninos ao mesmo tempo. A cabra, além do seu leite ser muito nutritivo e de facil digestão, é um animal muito sadio e refraetario á Tuberculose pulmonar, esta circumstancia 6 inestimável; ella só apresenta o inconveniente de faltar-lhe o leite durante 4 mezes no anno. A cabra deve ser sustentada com forragem secca e não com capim verde, que produz um mau leite e indigesto; pode- se dar também fubá de milho, restos de pão, batatas etc. Aleitamento pela mammadeira Em todo o mundo civilisado, onde a Hygiene 6 bem com- prehendida, o aleitamento artificial pela mammadeira tem provo- cado a geral reprovação. Em Paris, segundo as mais moder- nas estatísticas, a mortalidade dos meninos criados exclusiva- mento ao seio materno é de 5%, a0 passo que sobe a 70% para as creanças nutridas na mammadeira. Na minha opinião a mammadeira ê em S. Paulo a guilho- tina dos recem-nascidos. O seu emprego sem os indispensáveis cuidados de asepcia deve figurar como uma causa poderosa da mortandade das creanças. A mammadeira ó uma especie de pistola, que toda a mãe de familia tem a um canto da casa, que se carrega com pol- vora surda e sem fumaça, de modo que mata sem bulha. E’ tão nocivo o modo por que se faz o aleitamento artifi- cial, entre nós, que a Junta de Hygiene Publica tem o restricto dever de propor leis ao governo neste sentido, leis promptas e muito energicas. O grande mal está principalmente na qualidade do leite que se vende em S. Paulo; a Municipalidade permitte entre nós aquillo que está abolido em quasi todas as grandes cida- des européas, a stabulação intra-muros. O extrangeiro que percorre as ruas de S. Paulo, das 6 ás 10 horas da manhan, fica admirado de vel-as transformadas 138 n’uma verdadeira vacaria. Este costume é antihygienico, pouco asseiado, pouco decente. A stabulação intra-muros apresenta graves inconvenientes: em primeiro logar os estábulos são focos de miasma, pantanos accidentaes, em que germina o impaludismo, e athmospheras viciadas propicias ao desenvolvimento da tuberculose pulmonar. Em segundo logar o leite das vaccas alimentadas nestes estábulos 6 péssimo, é um verdadeiro e perpetuo soro, paupér- rimo em princípios nutritivos. O leite das vaccas que percorrem as ruas de S. Paulo 6 um germen de morte que circula na cidade, não 6 leito, ó um simulacro de leite e isto por muitos motivos: — l.° As vaccas são mal alimentadas; 2.° Elias são de má raça; 3.° Elias são doentes. — São mal alimentadas porque está provado que para as vaccas mantidas nos estábulos a forragem secca deve ser a preferida. Lecrerc para fazer experiencia substituiu a ração de feno secco, que dava ás vaccas, por folhas verdes de beter- raba, alimento este muito carregado d’agua, no fim de 4 dias el 13 viu a proporção dos materiaes solidos do leito descer de 151,2 a 118,2 para 1000. Em Minas e outros Estados criadores é por todos sabido que o leite das vaccas na secca, quando o capim esta maduro, 6 muito mais gordo, muito melhor e mais saboroso do que no tempo das aguas. — Os queijos feitos de Novembro a Janeiro não podem ser comparados aos queijos feitos de Abril a Maio que são muito superiores. Nesta Capital os vaqueiros alimentam as vaccas quasi que exclusivamente de capim verde, devido á careza da alfafa e dão-lhes, alem disto, uma quantidade enorme do salmoura e outras beberagens para augmentar o leite. Deixando de parte a péssima alimentação destes animaes, a circumstancia mesmo delles serem mantidos em estábulos 6 ') Lecrerc — Bulletim de la Societé des agriculteurs de France. 139 sufficiente para tirar ao leite as suas boas qualidades. Veja- mos o que dizem os entendidos: Diz Husson: — «Sob todos os pontos de vista os campos, pastagens naturaes ferteis, cujas plantas herbaceas são tinas e variadas, onde as vaccas pastam tranquillas, em liberdade, offe- recem muito melhores condições para se obter um leite rico, de aroma agradavel e cujos productos: creme, manteiga e queijo participam também destas excellentes qualidades alimentares. — Uma vacca boa leiteira tomando como alimento o equivalente de 10 kilogrs. de feno pode fornecer 10 litros de leite que representam 1 kilo 400 gr. de substancias sêccas; em quanto que com a mesma alimentação o boi não aúgmenta mais de 1 kilogr. que representa no máximo 500 a 700 grs. de matérias nutritivas. — A vacca leiteira retira, pois, em proveito do homem, da mesma pastagem, uma quantidade de substancias alimen- tares dupla da que podia extrahir o boi.» l) Vernois e Becquerel demonstraram que o leite das vaccas que habitam o campo contem uma proporção muito mais con- siderável de todos os principios solidos.2) As vaccas que percorrem a nossa cidade são quasi todas to urinas; esta raça é a preferida pelos commerci antes de leito porque cada vacca dá 16 garrafas por dia e ás vezes mais. E’ porem sabido, é cousa provada, que quanto mais abundante é o leite da vacca menos rico de principios nutritivos; o leite, pois, que fornecem essas vaccas ambulantes não presta, contem mais agua do que principios alimentares, é uma mistificação da boa fé publica. A nossa Policia Sanitaria, patriótica como tem sido, não pode continuar a consentir semelhante eommer- cio, porque elle 6 prejudicial á saude do povo. Uma pobre mãe de familia compra dons copos de leite para seu filhinho, paga a fabulosa somma de 400 Rs., pensa que vae dar um pouco de alimento ao pobresinho, e engana- se; dá-lhe apenas agua pura, a creança definha, a athrepsia ') Husson — Loco citato. Vcrnois et Becquerel — Du lait chcx la femme. 140 vem e a morte. Quem ó o responsável? São os poderes com- petentes: si a Municipalidade trancasse o commercio a estes especuladores, que passam quotidiamente pela sua porta, ella se daria ao trabalho de caminhar um pouco, mas acharia leite melhor. E tanto são especuladores que cada um destes vaqueiros ambulantes acompanha a vacca trazendo as costas uma lata cheia de leite; si o freguez quer leite de vacca, tirado á sua vista, custa 200 Tis. o copo, si quer leite da lata, custa mais barato. Porque esta difterença de preço quando o leite 6 da mesma qualidade? Está claro que o leite da lata é um leite falsificado, baptisado com agua ou cousa que o valha. — Destas vaccas algumas devem ser doentes, a tubercu- lose pulmonar 6 muito frequente no gado vaccum e está hoje provado que a moléstia se desenvolve mais commummente nos estábulos «A Phtisica, diz Tarnier, é frequente nas vaccas que vivem nas mangedouras das grande cidades, onde cilas estão privadas de ar e muitas vexes sobmettidas a um regí- men forçado para faxer-lhes produxir mais leite.-»1) Quantas vezes não bebemos leite de vaccas tuberculosas, cavernosas ? Quantas vezes as pobres criancinhas, principalmente nas familias indigentes, não têm ingerido leite carregado de micró- bios da Tuberculose? Entretanto estas vaccas portadoras da mais terrível mo- léstia caminham pelas ruas da cidade sem haver um mão amiga do povo que lhes embargue o passo, em nome da lei e da Hygiene publica!! Si se pretende continuar a permittir semelhante commercio ao menos que se nomeie uma commissão de médicos ou vete- rinários, incumbidos de examinar estas vaccas nos estábulos e impedir que saiam á rua a fornecer leite lethal aquellas que forem reconhecidas doentes. Daremberg que escreveu um dos livros mais interessantes *) Tarnier, Chantreuil et Budin — Loco citato. 141 e raais modernos sobre o tratamento da Phtisica pulmonar, diz á pagina 56 do 2 o volume do seu excellente trabalho: «Yaccas tendo toda a apparencia de saude podem ser tuber- culosas, como recentes autopsias demontraram a Nocard e a Lydtin. Este veterinário alie mão experimentou com a tuber- culina 19 vaccas soberbas de uma leitaria de Carlsruhe fre- quentada por doentes e creanças da cidade. Ora 12 vaccas sobre as 19 foram reconhecidas tuberculosas!» 0 leite da vacca tuberculosa, segundo as sabias experiên- cias de Yillemin, confirmados por muitos outros bacteriologistas, contem os bacillos da Tuberculose e pode engendrar a moléstia em quem o ingere. Em Paris bebemos excellente leite e baratissimo, mas elle vem todo da campanha, da Ferme de Isigny principalmente, e as vaccas são inspeccionadas por veterinários commissionados pelas Mairies; ultimamente estava-se mesmo empregando em toda a França a tuberculina de Koch como meio de diagnostico da Tuber- culose nos bovideos. Em Paris e outras cidades da Europa não se permitte que vagueiem vaccas pelas ruas, nunca o vimos. Terminando estas considerações lembramos ao governo, como medida preventiva da mortandade das creanças em S. Paulo, as seguintes deliberações: 1. a Prohibição da estabulação intra-muros. 2. a Criacção nos dous mercados de dons Postos hygienicos para o exame do leite. A estes postos todos os negociantes de leite deverão enviar pela manhan o producto das suas vaccas para ser examinado. Verificada a procedência do leite e sua bôa qualidade, se inscreverá sobre o vaso que o contem o seu gráo, segundo o lactoscopio de Donné, e poderá elle ser im- mediatamente vendido ao publico, sem sahir dos mesmos postos. Verificada a má qualidade do leite será elle inutilisado. 3. a Não será permittida a venda do leite pelas ruas. 4. a O commercio do leite feito nos Postos Hygienicos será livre de impostos, que só pagarão as casas especiaes de lacticinios. Õ.a As casas que negociem exclusivamente em lactinios poderão receber o leite directamente para o seu commercio, sem passar pelos Postos hygieni- cos; mas não poderão vendel-o antes de examinado pelo syndico da Munici- palidade. Este exame será feito diariamente. 0.a No fim de cada anno, os dous criadores cujas vaccas melhor leite tiverem fornecido, de accordo com as tabellas registradas nos Postos hygie- nicos, receberão um prémio da Municipalidade. 142 7. a Os mesmos Postos hvgieenicos constituirão um Instituto de Broma- tologia servindo para o exame de todos os generos alimentícios postos á venda nos mercados. 8. a Todo aquelle que vender leite ou fornecel-o a algum estabelecimento, não sendo casas espeeiaes, sem primeiro fazel-o examinar nos Postos hygie- nicos, pena de prisão por 8 dias e multa de 50$000 Rs. ao comprador. Continuemos depois desta digressão o estudo do aleita- mento artificial pela mammadeira. Como já dissemos, entre nós, a mammadeira é geralmente empregada quer nas famílias pobres quer nas abastadas e o leite de vacca, como em toda a parte, 6 o preferido para o aleitamento artificial pela facilidade com que se o encontra á venda. Os resultados que se tem colhido com a mammadeira são verdadeiramente desastrados. Bouchaud, em França, disse «Tolerar a mammadeira é absolver o infanticídio.» Mas estes desastrosos resultados são devidos á imperfeição do methodo, ás suas naturaes inconveniências, ou ao modo por- que se o executa? Nós opinamos pela segunda hvpothese, si o aleitamento fosse rigorosamente praticado, segundo todas as regras pres- criptas pela Hygiene moderna, a mortalidade a elle devida de- minuiria de 50%. A sua pavorosa estatística principalmente em S. Paulo 6 devida em primeiro logar á má qualidade do leite o em se- gundo logar á falta de asseio das mammadeiras. Para o aleitamento artificial dar bom resultado o leite deve ser de boa procedência, de uma vacca sadia1) que paste nos campos e não nos estábulos, leite bom, rico de caserna. Deve elle ser ordenhado com todo o asseio e conservado em vasilhas muito limpas, lavadas com agua fervendo. Si o leite é muito gordo convém ajuntar-lhe um pouco d’agua, uma parte d’agua e 2 de leite, e adoç.al-o levemente ‘) As vaccas de melhor leite são as nossas vaccas brazileiras, mistiças de gado china com o crioulo. 143 antes de dal-o á creança. Si o leite não é muito gordo o melhor é administral-o puro, é essa a opinião do Professor Budin que eu partilho completamente. O leite deve ser fer- vido, é essa a nossa opinião, a ebullição sendo uma prevenção indispensável contra os leites carregados de microbios da tuber- culose, que, uma vez submettidos á temperatura de 100°, deixam de ser nocivos. A juncção da agua deve ser feita ao leite ainda crú afim de que ella ferva também com este. A mammadeira, a meu ver, deve ser fervida todas as ma- nhans; para isto basta collocal-a durante uma meia hora n’um vaso qualquer cheio d’agua que se faz ferver, e cuidadosa- mente lavada com agua fervida fria todas as vezes que tiver de servir. Si o menino mammar 10 vezes ao dia, 10 vezes a mammadeira deve ser lavada escrupulosamente; este por- menor é tão importante que a mãe de familia deve ella mesma incumbir-se delle, nunca contial-o a uma criada. Quanto á melhor mammadeira, direi que a melhor é a mais simples, deve-se desprezar sempre aquellas que têm um longo tubo de caoutchouc; estas mammadeiras são de difficil limpeza, as paredes internas do tubo se cobrem de parcellas acidas de leite contendo uma infinidade de microbios. e apresentam mau cheiro, o menino recebe um leite infectado, os vomitos, a diarrhea, o depauparamento e a morte não se fazem esperar. Na minha opinião a melhor mammadeira é um vidro qual- quer, adaptavel ao caso, em cujo gargalo se colloca uma tetina de borracha bem limpa. Que quantidade de leite deve-se dar ao menino durante 0 dia? — Nos dous primeiros dias, após o nascimento, a quan- tidade de leite não deve exceder de 60 grs. nas 24 horas. Do 3o dia em deante eleva-se a dose diaria a 100 grs. e vae- se gradualmente subindo até que, do 15° dia ao 30°, a dose, diaria seja de 400 grs. Do 2o mez em deante continua-se ainda augmentando, de sorte que no 6o mez a creança deve tomar 1 litro de leite por dia. Estas quantidades de leite devem ser administradas por 144 parcellas do mesmo modo que no aleitamento materno; deve- se dar ao menino toda a quantidade de leite que elle tem de tomar durante o dia, em 8 ou 10 porções eguaes, e de duas em duas horas, nunca em intervallos menores. Si o menino já está tomando um litro de leite por dia dá-se-lhe: Ás 8 horas da manlmn . . 125 grs. » 10 » » » . 125 » » 12 » » » . 125 » » 2 » » tarde . . 125 » » 4 •» » » ...125» » G » » » 125 » » 8 » » noite . . . 125 » » 12 » » » 125 » 1000 grs. O leite não deve ser administrado frio, é preciso eleval-o á temperatura natural, que 6 a temperatura do corpo, 37° cen- tígrados. Para isto; depois de por na mammadeira a quanti- dade de leite que o menino tem de ingerir de cada vez, colloca- se-a n’agua quente ou ao banho maria ate que o conteúdo fique morno. Apezar de todos estes cuidados o aleitamento artificial não contava muitos adeptos, mas agora a questão mudou de face: a sciencia medica acaba de reaÚsar uma grande conquista que trouxe, a nosso ver, a unica solução possivel ao problema do aleitamento artificial, refiro-me á descoberta do leite esterilisado. Leite esterilisado. O leite esterilisado 6 um leite preparado de modo a ficar puro de germens e microbios e expurgado de ar. Foi Soxhlet, Professor da universidade de Munich, que imitando o processo da preparação das conservas de Appert, inventou um pequeno apparelho para a esterilisação do leite de vacca, prestando deste modo relevante serviço á alimentação 145 •los recem-nascidos, com o preparo de um producto de inteira confiança. O leite esterilisado para dar bons resultados precisa ser preparado com completa asepcia e cuidados muito escrupulosos, a sua administração presidem regras minuciosas. Intelizmente, entre nós, ainda não existe um estabeleci- mento serio em que o leite esterilisado se prepare com todas as regras da Arte. Qualquer preparação que sob este rotuto se tenha annun- ciado, não passa de impudente reclame commercial. Acautelem- se as famílias. A propagação do leite esterilisado nesta Capital é de uma importância extraordinária, será um poderosissimo auxilio ás mães de familia que, assim, ficarão isemptas do entregar seus íilhos a amas mercenárias, insuportáveis entre nós. A minha opinião é que o aleitamento artificial pelo leite esterilisado 6, sem duvida nenhuma, superior ao aleitamento pelas amas que aqui pollulam. Logo que em S. Paulo se possa dispor de leito esterilisado de inteira confiança, eu o aconselharei ás mães do familia, de preporencia ás amas, para aleitamento das creanças. Ainda o anno passado a Semaine médicale de 13 de De- zembro publicou uma serie de estatisticas colhidas em Berlim, nas quaes se demonstra a grande eíficacia do leite esterilisado na nutrição das creanças, não só como alimento de primeira ordem como tratamento prophylactico da tuberculose infantil. O Professor Rouvier fallando do leite esterilisado ás pa- ginas 396 e 397 do seu livro, já citado, diz: «— O aleitamento artificial bem comprehendido e intelligentemente praticado, com leite exclusivamente, parece constituir, diz Querin, em muitos casos em que o aleitamento materno ó impossivel ou defeituoso, um recurso dos mais preciosos. Em muitos casos elle 6 bem superior ao aleitamento materno. — Nas conclusões de seu relatorio annual de 1880 á Academia de Medicina, Devilliers manifesta as mesmas idóas. O aleitamento artificial praticado em boas condições, em meninos robustos, oriundos de paes 146 sadios, dá, em domicilio e sobretudo no campo, resultados ex- cellentes e certamente superiores ao aleitamento ao seio por amas de fura que vivem com seus maridos e mal retribuidas. Velando-se a administração do leite esterilisado a um menino, conformando-se estrictamente com as regras de Hygiene, obtem- se, mesmo nas agglomerações mais consideráveis, resultados equivalentes aos produzidos pelo aleitamento materno.» Les Nouvelles Archives d’ Obstetrique et de Gynecologie, no seu numero de 25 de Agosto do anno passado, trazem uma importantíssima communicação do Professor Budin, da Facul- dade de Medicina de Paris, ácerca dos resultados explendidos obtidos em o emprego do leite esterilisado, não só para o alei- tamento mixto como para o aleitamento artificial. r) Aleitamento mixto. Quando uma mulher que deseja amammentar seu filho é de constituição debil, ou tem pouco leite, o menino pode bene- ficiar do aleitamento materno, sem grande sacrifício da parte da mãe, nutrindo-se ao mesmo tempo com o leite de vacca, administrado com a colhor ou na mammadeira, segundo os rigorosos preceitos de limpeza já descriptos. Dissemos ás paginas 117 que o menino deve mammar de 2 em 2 horas; pois bem, a mãe dar-lhe-á o seio ás 8 horas da manhan, ás 10 horas a mammadeira, ao meio dia o seio e assim alternadamente até ás 8 lioras da noite, durante a qual dará o seio uma ou duas vezes. Também pode alimentar o menino exclusivamente ao seio. durante o dia, e, á noite, entregal-o-á a uma ama secca que lhe dará o leite na mammadeira umas duas ou tres vezes, e a mãe poderá, assim, gozar durante toda a noite de completo repouso. r) Para tratar com maior desenvolvimento a questão do leite esterili- sado, pretendo escrever um opúsculo especial que em breve publicarei. 147 O aleitamento mixto bem feito e quando o leite constitue o alimento exclusivo ministrado ao menino presta reaes ser- viços, é um excellente methodo. Já temos passado em revista os differentes methodos de aleitamento, como se deve praticai-os, etc. agora as minhas leitoras indubitavelmente estão com as seguintes interrogações suspensas dos lábios: Até quando devemos dar sómente leite aos nossos filhos? Em que epocha podemos dar-lhes outros alimentos? Quaes devem ser estes alimentos? Em fim, quando poderemos dar de tudo aos nossos filhos, isto é, quando devemos desmammal-os? A todas estas naturalissimas perguntas responderei no se- guinte capitulo estudando o desmammamento. Desmammamento. Não ha uma epocha fixa e determinada para desmammarem- so as creanças, este acto deponde da dentição; a sua evolução mais ou menos facil indica um desmammamento precoce ou tardio. Ha duas dentições: a primeira e a segunda. Chama-se primeira dentição o nascimento dos 20 pri- meiros dentes, que se faz por grupos e que cahem a partir de 6 a 7 annos. A segunda dentição começa dos 6 aos 7 annos, comprehende o nascimento de 32 dentes, inclusive os do sizo, que só appa- recem dos 20 aos 30 annos. Os 20 dentes da primeira dentição são chamados dentes de leite ou caducos, elles nascem por cinco grupos: 1. Grupo. — Os dous incisivos medianos inferiores, que nascem do 6.° para o 7.° mez, com poucos dias do intervallo; 2. Grupo. — Os quatro incisivos superiores, que nascem no 10.° mez; 148 3. Grupo. — Os dous incisivos lateraes inferiores e os quatro primeiros molares, que nascem do 12.° ao 15.° mez; 4. Grupo. — Os quatro caninos, que rompem do 18.° ao 22.° mez; 5. Grupo. — Compoe-se dos quatro segundos molares, que evoluem de 2 annos e meio a 3 annos. Antes da creança completar 6 mezes, isto é, antes da cre- ANÇA TER O PRIMEIRO GRUPO DE DENTES, O LEITE MATERNO DEVE SER O SEU ALIMENTO EXCLUSIVO E UNICO. Nem uma colher de sopa, nem uma colher de café ou chá, nem o mais leve mingáu ou caldo, nada absolumente, deve ser dado á creança antes de completos os 0 mezes, antes que ella tenha dous dentes na bocca; só o leite e somente o leite, deve constituir a sua nutrição, esta regra é absoluta e não admitte excepção em caso algum. Depois de nascido o primeiro grupo de dentes então poder- se-á começar a dar á creança alguns outros alimentos, como sejam: mingaus ralos e bem cosidos de farinha de trigo, feitos com leite de vacca, mingãus de maixena, tapioca, etc., pau- nadas e nada mais, até que o menino complete o 2.° grupo de dentes, o que deve ter logar no 10.° mez. Logo que este grupo evoluiu completamente, que o menino já tem portanto 6 dentes na bocca, alem dos alimentos que acabamos do referir, pode-se lhe dar mais: — o leite de vacca esterilisado, si elle estiver ao alcance das posses da familia, ou o leite de vacca simplesmente fervido e adoçado, adminis- trado na chicara ou com a colher e não com a mammadeira, será preferível; pode se dar também a sopa de estrellinha, semoule, o caldo da sopa de macarrão e de gallinha, quando estes não são muito engordurados nem levam pimentas e outros condimentos que os tornam impróprios para a alimentação dos meninos; o buillon, feito á moda franceza; o caldo de carne, um ovo quente, dado com a colher ; os biscoitos de trigo, diluidos n’agua doce, ou em café muito ralo; o pão com leite, a batata 149 inglexa ou a batata doce, reduzidas á polpa molle; pirão de batatas, etc. Quando a evolução do terceiro grupo estiver completa, que o menino já tiver portanto 12 dentes, ó chegada a epocha de desmammal-o. Não se deve esperar mais tempo nem fazel-o antes. Assim, pois, a epocha apropriada ao desmammamento de um menino é logo em seguida á evolução do 3 o grupo de dentes. Ordinariamente, como já dissemos, esta 6 completa do 12° ao 15° mez. Nunca se deve desmammar um menino no meio da evo- lução de um grupo de dentes. Si elle está na evolução do 20 grupo, por exemplo, e ha necessidade de desmammal-o, deve- se deixar que os dentes pertencentes a esto grupo nasçam todos para depois fazel-o logo em seguida ao romper do ultimo dente do grupo. Si a creança é desmammada no tempo proprio, isto ó, de- pois do 3 o grupo evoluido, como aconselhamos, a mãe, uma vez, a creança privada do peito, deve continuar a dar-lhe somente os alimentos precedendemente indicados, constituindo sua nu- trição principal o leite esteri li sacio ou o leite de vacca fervido, dado com a colher. Ainda não se lhe pocle dar alimentos solidos. Quando o 5o e o 6o grupos de dentes tem rompido, só então pode a creança fazer uso de alimentos solidos, como se- jam o bife, os guizados de carne de vacca, carne de porco fresca, o feijão bem machucado, e outros legumes etc. etc. Emfim, só depois que o menino tem 20 dentes na bocca, o que só tem logar depois de dous annos e meio, pode elle comer de tudo; porque o seu apparelho digestivo tem chegado ao completo desenvolvimento. Comer de tudo, mas ainda de baixodos indispensáveis pre- ceitos do Hygiene; os fructos, mesmo nesta epocha, devem ser escolhidos e dados com prudência. Mães ha que amam mon- tam seus filhos até a edade de 2 annos, este proceder além de sor inconvenientíssimo para ellas, o é ainda mais para o 150 menino, que não pode desenvolver-se bem nem ter bom cres- cimento devido á falta dos saes de cálcio, indispensáveis aos ossos, e que lhes são fornecidos pelas farinhas de cereaes, pelos legumes e outros alimentos. As minhas leitoras devem estar até certo ponto intriga- das por não ter eu citado entre os alimentos brandos que se po- dem dar ás creanças, a farinha lactea, a phosphatina, o ra- caont dos Árabes, o leile condensado e outras quejandas pre- parações que se acham muito em moda entre nós e têm grande consumo nesta Capital. Muito de proposito as exclui para tratar delias especial- mente e salientar a inconveniência da sua applicação. Estas substancias são muito nocivas á saude das creanças e devem ser absolutamente banidas da sua alimentação. A farinha lactea de Nestle e suas congeneres são preparadas fora do nosso paiz, ordinariamente chegam entre nós alteradas, mo- fadas, cheias de microbios e imprestáveis para a nutrição. Estas substancias só poderiam ser aconselhadas si nós as pos- suíssemos frescamente preparadas, o que é impossível, pois não temos fabricas destes generos, e mesmo assim não seria com enormes vantagens. E nem se julgue que este modo de pensar seja prevenção ou pessimismo da nossa parte, elle é filho da nossa experien- cia clinica de 9 annos, e notáveis especialistas pensam com migo; ouçamos algumas opiniões: O Snr. Dr. Theodoro Èoichert e outros collegas, no parecer que tiveram a bondade de dar ácerca deste interessante as- sumpto condemnam positivamente estes preparados. Ouçamos a opinião dos médicos francezes, que dispõem da farinha lactea fresca, não sujeita á falsificações e preparada no seu paiz: Boissard et Barbezieux, parteiros dos Hospitaes do Paris, dizem ás paginas 174 do seu livro — Méres et Nouris- sons —: «Leites condensados, farinhas lacteas, leite de Liebig, leites artificiaes de toda especie, e de qualquer natureza, são outras tantas drogas venenosas, que um reclame impudente tem vulgarisado, e cuja applicação tem custado a vida .a milhares 151 de recem-nascidos. — O aleitamento artificial causa já, por si só, grandes estragos, si se substitue ao leite estes alimentos in- sadios, mal compostos, mal definidos, torna-se desta vez o as- sassinato verdadeiro.» Não se pode dizer mais; nós partilhamos inteiramente este modo de pensar, e aconselhamos, ás mães de familia que não dêm a seus filhos estas drogas nocivas. Lembramos mesmo á Directoria de Hygione Publica que obtenha do Governo imposto vexatorio sobre estas massas sujas, que os extrangeiros nos mandam, confiados 11a nossa ignorância e 11a nossa incúria. Pelo que fica dito se deprehende que a dentição influe poderosamente sobre 0 regímen do menino e que a mãe cui- dadosa deve acompanhal-a pari-passu, pois, si ella desconhecer a sua evolução, não saberá também alimental-o. O menu das creanças está escripto na bocca. Não e pela edade do menino que se regula a sua alimen- tação é pelo numero de dentes que elle possue. Grave-se isto bem em memória. A dentição nem sempre segue a marcha regular que in- dicamos, ha creanças que só tom os primeiros dentes aos dez mezes e tem-se visto algumas já nascerem com dentes, Luiz XIV e Mirabeau foram deste numero.1) Esta precocidade ou este retardo são muito raros. Todas as vezes que niirna creança, aos 7 mezes, 0 Io grupo de dentes não tiver rompido, deve-se consultar ao medico; isto depende as mais das vezes do mau leite da ama, de uma fraqueza con- génita ou de certas diatheses como a escrophulose, a tuber- culose etc. A creanças alimentadas desde cedo com substancias im- próprias quasi sempre têm má 'dentição. A dentição é um periodo delicado da vida do recem-nas- cido, deve ser cercada de muitos cuidados e vigiada com muita M P. Charles — Loc. eit. 152 intelligencia. Ella costuma ser acompanhada de accidentes, ás vezes, graves; estes accidentes são Jocaes e geraes. Os accidentes Jocaes constam da inflammação mais ou me- nos intensa das gengivas, provocando abundante salivação e algumas vezes aphtas, pequenas ulcerações da bocca. Os accidentes geraes são a febre que raras vezes excede a 38°, agitação, insomnia e, ás vezes, convulsões. A inappetencia, a djspepsia e uma enterite acompanhada de diarrhéa, são constantes. Entre nós as mães de familia têm o habito de considerar estes symptomas como cortejo muito natural da dentição; este- jam ellas prevenidas de que estes symptomas podem se aggra- var em algumas horas e comprometter a vida do menino. Sempre que as creanças em pcriodo de dentição experi- mentarem estes prodomos deve-se immediatamente chamar o medico o consultal-o, só o clinico pode avaliar a importância delles, mingúem senão elle tem para isto competência. E’ de toda prudência que neste particular a mãe se ab- stenha da sua experiencia o do proprio julgamento. Uma febresinha acompanhada de abatimento e leves crispações, que não assusta a familia, é muitas vezes o primeiro acto da me- ningite, que deve arrebatar o menino em algumas horas. No principio deste capitulo proraetti ás mães de faniilia um amuleto em substituição aos collares elcctricos, dentes de lobo, chifre de bezouro, rosa do Jerichó e outras bugigangas que ellas suspendem ao pescoço dos filhos para tornar-lhes feliz a passagem pela primeira phase da vida. Cumpro a minha promessa, o amuleto 6 a pagina seguinte. — Copiai-a e pregae á cabeceira do berço dos vossos filhos, executando fielmente os seus preceitos, e vereis (pie este amuleto conserval-os-á fortes e sadios e preservai-os-á de muitas en- fermidades. 153 Amuleto para as eremiras. A mãe é ;i melhor ama de seu filho. O leite materno deve ser o alimento exclusivo da creança até a edade de 6 mezes, no minimo. O menino só deve mammar de 2 em 2 horas. Do 7 o ao 10° mez pode-se, alem do leite, dar alimentos líquidos constando de leves mingaus. Do 10° mez até o 15° pode-se dar alimentação mais sub- stancial. Logo que o menino tem 12 dentes deve ser desmammado. Os alimentos solidos só podem ser administrados depois que a creança tem 20 dentes, isto é, depois do segundo anno da vida. Cuidado extremo e muita prudência no periodo de dentição. CAPITULO IV. Summario: Moléstias mais communs nas creanças depois das affecções intestinaes — Moléstias do apparelho respiratório — Bronchites — Pneu- monias — Coqueluche — Diphteria — Tuberculose pulmonar — Contagio, des- infecção e prophylaxia destas moléstias — Impaludismo — Medidas a tomar — Saneamento de S. Paulo — Obras monumentaes de saneamento na Hol- landa e em Paris — Febres eruptivas — Varíola — Importância da vacci- nação — Vaccinação obrigatória — Prophylaxia publica e privada — IIos- pitaes de isolamento — Desinfecção rigorosa — Sarampão — Escarlatina — Parasitas intestinaes — Ascarides lombricoides — Oxiuros vermiculares — Tcenias — Tratamento e prophylaxia. Uma vez estudadas as moléstias do tubo digestivo, que nós consideramos a causa principal da mortalidade das croan- ças em S. Paulo, estudemos agora as outras affecções que tam- bém figuram no quadro nosologieo infantil com grande numero de obitos, e demos, a respeito delias, alguns conselhos ás mães de familia, ensinando-lhes a prophylaxia dessas entidades mór- bidas e o meio de evitar o seu contagio e propagação. Consultando os dons quadros de 1892 e 1893, ás paginas 44 e 45, vemos que, depois das affecções gastro-intestinaes, as moléstias preponderantes no obituário dos párvulos são: 1. Affecções do aparelho respiratório: Bronchites, Pneu- monias, Coqueluche, Dyphteria e Tuberculose pulmonar; 2. Affecções palustres: Febres intermittentes, remittentes. e perniciosas; 3. Febres eruptivas: Varíola, Sarampão, Escarlatina; 4. Parasitas intestinaes. 155 Affecções do apparelho respiratório. Bronchitcs — Pneumonias — As bronehites e pneu- monias desenvolvem-se quasi sempre em consequência de um resfriamento. Nas primeiras epochas da vida, principalmente, a mãe de familia deve cercar as creanças de constantes cui- dados, afim de snbtrahil-as á influencia maléfica das variações thermicas da athmosphera. Quando a creança nasce deve-se começar a laval-a em agua morna, 37° no máximo; depois, á medida que o recem- nascido se desenvolve, vae-se gradualmente baixando a tem- peratura do banho até acostumarem-se os meninos a se banhar em agua fria. Este methodo é excellente, robustece os meninos o os habitua de tal modo ao frio que elles resistem maravilhosa- mente aos abaixamentos de temperatura e raramente se resfriam. Entre nós é muito frequente lavarem-se as creanças em agua quente, exclusivamente, durante os primeiros 7 annos. Este costume torna-as aptas a contrahir, com a maxima facili- dade, bronehites e pneumonia, sob a influencia do mais leve abaixamento thermico. Quando se tem acostumado os meninos a banhar em agua fria, o banho não deve durar mais de um a 2 minutos, logo após deve-se enchugal-os bem e rapidamente, friccionando-lhes todo o corpo com uma tlanella ou toalha felpuda. No inverno, a agua estando exageradamente fria, pode-se então juntar-llie uma pequena quantidade d’agua quente para dar-lhe a temperatura que lhe é própria no verão. Alem disto, as mães, na estação fria, devem se esmerar muito em trazer os meninos agasalhados, mas não confinados; o menino vestir-se-á de roupas de lan, trará o pescoço e o peito bem cobertos e guarnecidos, mas poderá sahir á rua, brin- car nos jardins etc. Mães ha que entendem que as creanças em tempo de frio não devem sahir do quarto e prendem-nas n’uma verdadeira estufa, de sorte que, quando ellas poem a ponta do nariz na fresta de uma janella é isto bastante para se endefluxarem. * 156 Quanto aos recem-nascidos as mães devem providenciar em ordem a que elles não estacionem nunca em cueiros lm- midos e atar-lhes sempre ao pescoço um babador impermeável, de modo que elles não tragam o peito molhado, o que 6 causa de uma bronchite chronica e perenne. Si apezar destes cuidados o menino apanha uma bron- chite é preciso immediatamente chamar o medico e não esta- rem a administrar remedios caseiros; porque uma leve bron- chite hoje, amanhan tem se tornado bronchite capillar, acarre- tando a morte as mais das vezes. Coqueluche — A coqueluche é uma moléstia parasitaria e contagiosa, atacando de preferencia as creanças, entre as quaes produz grande numero de victimas. Em 1889 só em Paris morreram 520 meninos affectados de coqueluche.x) As mães, logo que uma creança é affectada, devem separal-a das outras completamente, affim de evitar a propagação do mal ás sans. O medico deve ser logo chamado e cercará o doentinho dos mais minuciosos cuidados e desvelado tratamento, prescre- vendo, sobretudo, as insufflações de resorcina, aconselhadas pelo emerito especialista brazileiro, Dr. Moncorvo. A coqueluche, quando abandonada, complica-se quasi sem- pre de broncho-pneumonia gravíssima e pode trazer como con- sequência futura a adenopathia tracheo-bronchica e a tuber- culose miliar aguda. Dipliteria — A diphteria ó uma moléstia eminentemente contagiosa e de uma assustadora gravidade, cuja causa deter- minante e um microbio, o badllo de Loffler. E’ tão grande a virulência do germen especifico desta moléstia, tão perigoso o seu contagio, que o medico que presta cuidados a um diphterico não deve, de modo algum, aproximar- se de outros doentes sem primeiro mudar completamente de roupa e desinfectar-se escrupulosamente. Sevestre cita um caso de contaminação diphterica, por meio de roupas, depois de decorridos dous annos.2) 1) Arnould — La desinfection publipue. 2) Progrés medicai, 1889. 157 Nocard e Granchor referem os dous seguintes factos: v Um menino morre de diphteria em uma casa de campo; seu bercinho, depois da morte, e atirado a um canto do celleiro. Xo fim de alguns mezes colloca-se o filho de uma ama neste mesmo berço e elle morre de diphteria. O outro facto refere- se também a uma creança que falleceu n’um quarto de diphte- ria, a mãe, por um sentimento de piedade materna, não quiz que se tocasse no aposento, deixou-o fechado tal qual como no momento da morte do filhinho. Dous annos depois um seu irmão vai occupar o quarto e morre de diphteria.» Assim, si no seio de uma familia adoece uma creança de angina diphterica ou Group, 6 preciso isolar-se o doente no aposento mais afastado da habitação, apenas o medico e a en- fermeira ou enfermeiro devem entrar neste aposento. A casa toda, pelo menos os lugares de transito, deve ser, duas vezes por dia, desinfectada por meio de pulverisadores contendo uma solução de acido phenico a 5°/0 ou de subli- mado a 1 por 1000. Si existem mais creanças na casa devem ser logo afasta- dos para outro domicilio. A enfermeira do doentinho deve evitar o menor contacto com as pessoas da casa, e, sempre que ella saliir do quarto, deve vestir uma blusa passada em vapores phenicados. Os lenços, guardanapos, toalhas, que vão servindo para limpar os escarros e a bocca do doente, devem ser lançados n’um balde contendo uma solução de sublimado a 2 por 1000. A louça e mais utensílios, não podem servir a mais nin- guém é devem ser passados em agua fervendo de cada vez que são occupados. Si por accaso é um parente proximo que adoece e que si ó forçado a vizital-o, saiba-se que esta visita é imprudente, muitos médicos têm sido victimas e succumbido por prestarem cuidados a diphtericos. Entretanto, si apezar de tudo, qualquer pessoa de uma fa- -) Arnould — Loco citato. 158 milia visita um doente destes é preciso cpie, ao regrossar, antes de se assentar, autes mesmo de ir ao proprio aposento, dirija- se ao Water Closet ou ao banheiro, tire toda a roupa que traz, e tome um banho de sublimado. (Para preparar-se o banho de sublimado, encha-se uma banheira ordinaria pelo meio d’agua morna e ajunte a solução seguinte: Sublimado corrosivo .... 20 grs. Álcool a 90° 50 » Agua distillada 200 » ) No banho deve molhar a cabeça, e vestir depois nova roupa completamente limpa. A roupa tirada do corpo deve ser collocada n’uma solução phenicada a 5°/0, durante muitas horas, antes de ir para a lavadeira. O calçado, que no quarto do doente pode ter pisado os seus escarros, deve também ser desinfectado. A roupa de cama, a roupa do corpo, as toalhas, fronhas, lenços; emfim, tudo quanto serviu e esteve em contacto com um doente de diphteria deve ser fervido durante uma hora n’uma solução de acido phenico a 5 °/0. O colchão e os travesseiro devem ser queimados; os copos, colheres, chicaras, etc., 6 prudente que se quebrem e atirem na carroça do lixo. O quarto e moveis devem ser desinfectados. Estes conselhos, estas minudencias, espantarão certamente as mães de familia que me lerem. — Não os julgueis exagera- dos, eu vos peço, antes insufficientes. Fazei mais, nunca menos do que fica dito! Tuberculose. — Quanto á tuberculose pulmonar muito se tem feito nestes últimos annos e o tratamento prophyláctico desta moléstia foi enriquecido de mui salutares preceitos, oriundos dos estudos bacteriológicos ultimamente realisados. Já dissemos ás paginas 120 que a mãe affectada de tuber- culose pulmonar, ainda que incipiente, ou mesmo cuja familia 159 esteja sob a influencia da diathese tuberculosa, não deve ainain- mentar seu filho, que, uma vez nascido, deve ter uma educa- ção especial: A creança nascida sob tão tristes auspicios deve ser en- tregue á uma ama sadia e robusta, que possua todos os reque- sitos já estudados que constituem uma boa ama na extenção da palavra. 0 aleitamento pelo seio deve ser exclusivo até a edade de 6 mezes, no minimo; as regras de hygiene alimentar que aconselhamos, devem, a respeito das creanças tuberculosas, ser ainda mais escrupulosamente observadas. Quando a creança estiver desmammada e comendo de tudo sua alimentação será sempre muito sadia, muito velada. Si o menino apresenta os signaes do escrophulismo não se deve esquecer de associar á alimentação substancial o oleo de figado de bacalhau, os preparados iodados, o tannino, o iodu- reto de ferro, o lacto-phosphato de cálcio etc. O que disse a respeito da temperatura dos banhos, no co- meço deste capitulo, tem inteira applicação aos meninos amea- çados de tuberculose; desde o 2o mez o seu banho deve ser frio e assim continuar até o completo desenvolvimento. A creança deve viver de preferencia no campo ou em pequenas cidades do Interior cujo clima seja temperado e secco. O ar livre e o sol são os seus melhores amigos, prefiram-se os climas das altitudes. Na segunda infancia a gymnastica constituirá todas as ma- nhans o principal exercicio quer do menino quer da menina. A kinesitherapia contribue de um modo notável para o desen- volvimento physico, pena é que seja tão despresada entre nós. Os internatos devem ser proscriptos aos meninos tubercu- losos, a alimentação especial de que elles necessitam não pode ser fornecida por estes estabelecimentos. O casamento para os individuos que têm a diathese tuber- culosa na familia só deve ser permettido quando o desenvol- vimento é completo. Feitas estas ligeiras considerações ácerca do seu trata- mento prophyláctico convém dizer que a tuberculose pulmonar, 160 segundo os modernos estudos de notáveis especialistas, ó rara- mente hereditária, o maior numero de phtisicos adquirem a moléstia pelo contagio, e, nas nossas famílias, não ha absoluta- mente cuidado algum para evital-o, devido á ignorância em que estão da maneira pela qual este contagio tem logar. Em seguida reproduzimos o que a este respeito escreveu Daremberg, que melhor do que mingúem, a meu ver, tem se occupado desta questão: «Importa aos médicos, aos enfermeiros, aos parentes dos phtisicos, a todos os auxiliares do tratamento, conhecer quaes são os modos ordinários do cantagio. Elles devem principal- mente saber que, si elles não tocam os escarros, não respiram a, poeira destes escarros seccos, não têm probabilidade alguma de ser affectados da moléstia, porque o hálito, o ar expirado pelos doentes não é virulento O perigo da cohabitação reside nos escarros; no propilo doente, nos seus lábios, na sua barba, na sua roupa, si elle não é asseiado; em torno delle são os objectos que elle introduziu na bocca e que se mancharam nos seus escarros, que se deve temer. — O escarro secco é tão perigoso quanto o escarro húmido1) Yignal, Eischer e Schill deixaram seccar escarros níima bacia e notaram depois a sua virulência. Schottelius provou que os bacillos da tuberculose sobrevivem dons annos na terra. Gaertner disse também, perante o Congresso de Berlim, que viu bacillos de Kocli conservarem-se vivos no solo durante um inverno iuteiro. — Já em 18G9 Villemin demonstrava que as matérias expectoradas e projectadas pelos phtisicos no asso- alho transformam-se n’uma poeira capaz de se elevar na ath- mosphera pela agitação do ar. Em 1881 Tappeiner affirmava que os escarros espalhados no solo, ou em qualquer parte, seccos e divididos ao infinito, communicavam á athmosphera (pie os levanta propriedades morbificas. Em 1884 Kocli de- monstra então positivamente que o contagio se faz principal- l) O escarro secco está provado ser muito mais virulento do que o húmido. 161 mente pelos escarros que se seccam no solo e nas roupas, donde passam para o ar. Em 1889 Cornet de Berlim encontrou bacillos tuberculosos 11a poeira levantada em torno dos leitos dos phtisicos que tinham por habito escarrar no chão. Elle inoculou culturas desta poeira em grande numero de animaes, e dous terços dentre elles morreram tuberculosos. De 62 ex- periências com a poeira de aposentos da cidade, em que resi- diam tuberculosos, 21 determinaram a moléstia; estas poeiras eram sempre recolhidas ao pé do leito dos enfermos. No quarto de uma atriz tuberculosa, tratada muni hotel de Berlim, Cornet encontrou poeiras carregadas de bacillos tuberculosos, na madeira da cama, do lado da cabeceira da doente, e em dous retratos collocados 110 mesmo sitio. Spilmann e Haus- lialter demonstraram que moscas, que tinham pousado na es- carradeira de um phtisico, expelliam excrementos repletos de bacillos, e elles pensam que estas moscas podem contaminar as substancias alimentares sobre que ellas se assentam. As poei- ras de escarros seccos podem também contaminar os alimentos; si 0 phtisico escarra n’um apartamento destinado ás refeições as taes poeiras abatem-se sobre a meza, sobre os quizados, be- bidas, e impregnam até os dedos com que se pega 0 pão, os fructos, etc. Taes são os agentes domésticos de propagação da tu- berculose. — A virulência dos escarros seccos é tão grande que Grancher e Ledoux-Lebard acabam de provar, que, sub- mettendo-os a um calor de 100°, durante 3 horas, elles podem ainda matar os animaes, em que são inoculados, dentro de 95 dias.» *) A transmissão da Tuberculose se faz também pela alimen- tação ; um individuo pode tornar-se tuberculoso ingerindo or- gãos do animaes tuberculosos e bebendo leite dos mesmos. A carne não é tão perigosa como as visceras. Conhecidos os principaes meios de contagio da tubercu- lose estudemos agora a maneira de evital-o, isto ó, os cuidados *) Dr. G. Daremberg — Traitement de la plitisie pulmonaire. 11 162 que devem ter as famílias para não se contaminarem cohabi- tando com um tuberculoso: Evitar-se-á a transmissão da Tuberculose por via alimentar picando em pedaços miúdos e fervendo (o calor da agua em ebulição é sufficiente para matar o bacillo contido níim meio húmido) os orgãos capazes de ser invadidos pelos bacillos de Kocli, como sejam o que vulgarmente chamam-se fressuras, isto é: figado, coração, pulmões ou bofes, rim, baço etc. A carne que não for composta exclusivamente de musculo ver- melho e comprehender ganglios e restos de orgãos (Daremberg) deverá egualmente ser fervida. O leite deverá ser fervido, ou esterilisado segundo o pro- cesso de Soxhlet, já descripto na pagina 144. Grancher e Ledoux-Lebard demonstraram recentemente (pie a virulência dos tubérculos em estado húmido 6 destruída em um minuto por um calor de 70 gráos. Para ficar-se ao abrigo dos escarros seccos deve-se prohi- bir rigorosamente aos phtisicos escarrar no chão, quer fora quer dentro de casa. Em casa elles devem escarrar níini vaso cheio d’agua e coberto, afim de que as moscas não possam se intro- duzir nelle; fora, elles podem escarrar n’um vidro do bocca larga, como aconselha Daremberg. O habito de escarrar no lenço, alem de pouco asseiado, é perigoso, porque o escarro seccando no lenço espalha-se na athmosphera tão bem como se fosse deposto no solo. As escarradeiras deverão ser esvasiadas na latrina e de- pois lavadas em agua fervendo. Nunca se deve servir dos mesmos copos, cliicaras, talheres e objectos de toilette do tuberculoso, sem que elles tenham sido fervidos durante um quarto d’hora. Os doentes devem lavar a bocca. os lábios, a barba, com especialidade os bigodes, muitas vezes por dia, com agua bori- cada saturada ou uma solução na qual entrarão algumas gottas de elixir phenicado. (Daremberg.) Estes cuidados da bocca são importantíssimos, porque esta cavidade está sempre maculada pelos escarros. Musgrave-Clay conta que uma parteira phtisica 163 insuflou 5 meninos que morreram todos de meningite tuber- culosa. As janellas do apartamento de um phtisico devem ser con- servadas abertas, durante todo o dia, si for possivel. Quando se tem de occupar um quarto em que já habitou um phtisico, aconselham-se as seguintes precauções: os tapetes, cortinas e mais alfaias que não se lavam, devem ser passados n’uma estufa; em falta de estufa, deve-se resignar a perdel-os, encinerando-os. As roupas de cama, cortinados, toalhas, etc. devem ser fervidos, durante meia hora, em agua phenicada a 2 °/0. O assoalho, o criado mudo, o toilette, Jas paredes e os moveis, devem ser lavados, primeiro, com agua e sabão, depois, com a solução seguinte: Sublimado corrosivo . . . . 30 grs. Aciclo tartarico 45 grs. Agua 10 litros. e deixar-se seccar ao sol (Daremberg). E’ preciso saber-se que caiar o quarto, simplesmente, nada vale, os microbios, sob a camada de cal, continuam a gozar da mesma virulência e contaminar a athmosphera se desprenden- do; ó prudente rebocar de novo o quarto ou mudar o papel. Daremberg aconselha que não se leia os livros que passa- rem muitas vezes por mãos de phtisicos; é perigoso, porque elles podem ter os dedos sujos de catarrho de que se impreg- nam as paginas. Si todas estas prescripções forem rigorosamente seguidas, o numero de tuberculosos tenderá a deminuir de um modo sor- prehcndente. Affecções palustres. A baze da prophylaxia do impaludismo reside na mais severa hygiene publica e privada. Ao patriótico governo de S. Paulo compete levar a efieito 164 o saneamento da nossa bella capital, em ordem a banir delia, para todo o sempre, a terrível Malaria. Que a agua jorre em abundancia, por toda parte, lavando e vivificando casas e habitantes; que um perfeito systema de exgottos estenda-se por toda a cidade, drenando as habitações deglutindo os detritos morbifieos para ir vomital-os longe da população; abram-se avenidas largas e espaçosas para vehiculo do ar puro e insolado; desecquem-se os terrenos alagadiços, ver- dadeiras praças marneis; enchugue-se o sub-solo; alamedas de eucalyptus e outros vegetaes desfilem pela cidade e almargeaes que nos cercam; ergam-se caes nos rios; desvie-se o curso das aguas, exgottem-se as estagnadas, drenem-se os terrenos alagadiços, cremem-se as esterqueiras, remova-se o lixo das habitações, á horas próprias e por system as convenientes; isole- se o solo noscivo do contacto do ar, pelo aterro e o calçamento; abatam-se os comoros de matérias organicas vegetaes em de- composição; desenvolva-se a cultura da terra circuitando os paludes; cimente-se, asphalte-se, macadamise-se; edifique-se para as classes pobres, e o paludismo desapparecerá como por encanto. Londres e diversas outras cidades da Gran-Bretanha eram dizimadas de um modo extraordinário pelas febres intermitten- tes e perniciosas; hoje, as affecçSes palustres desappareceram, quasi que completamente, destes grandes centros populosos, graças aos trabalhos de saneamento. A Hollanda seria o paiz mais pestilento do mundo si não fosse a mais grandiosa conquista dos homens sobre o mar. Attinge ao maravilhoso o que a engenharia dos Paizes- Baixos tem realisado em Haya e Amsterdam, fazendo de dous tremedaes duas das mais bellas, das mais limpas, das mais saudaveis cidades da Europa. «O mar de Harlem tinha 11 léguas de circumferencia e a sua profundidade média era de 4 metros. A quantidade total de agua foi calculada em 724 milhões de metros cu- bicos, alem do accrescimo proveniente das chuvas e das infil- trações subterrâneas, avaliado em 36 milhões de metros cúbi- cos por anno. Construíram-se por meio de dous enormes 165 diques paralellos um alto canal de escoadouro no mar; tres bombas a vapor, sugando em cada golo o enorme peso de 66,000 kilogrammas de agua, foram postas em movimento con- tinuo vasando no canal as aguas do lago, até que, ao cabo de 3 annos e 3 mezes, o mar de Harlem estava enxuto o defen- dido, por um dique, de novas invasões do Occeano. •— Dez- oito mil hectares de terra fertilíssima foram por meio desta operação conferidos á agricultura hollandeza. — Na região donde, ha 40 annos apenas, desappareceu o tempestuoso e peri- gosissimo mar de Harlem viceja hoje uma longa campina verde e ubérrima, coalhada de rebanhos, entrecortada de casaes, de quintas, de aldeias, serpenteada de estradas de forro e de tijolo, acima das quaes reluzem ao sol, entre massiços de arvores, as flechas dos campanarios.» ') Que bello exemplo para S. Paulo! Que precioso ensina- mento para o Brazil! Paris possue hoje uma rede de exgottos cuja extenção é calculada em mais de 140 léguas! Só os grandes canos collectores, em numero de tres, con- tam 31,226 metros de comprimento; os collectores secundários, em numero de 7, tem 40,000 metros; os exgottos ordinários 815,000 metros. As boccas d Agua destinadas á lavagem das ruas sobem a 7000, derramando nos exgottos mais de 80,000 metros cúbicos por dia. O calçamento de pedra na grande capital cobre já uma superfície do 6,200,000 metros quadrados, e custa mais de 5 milhões de francos, por anno, simplesmente a sua manutenção. A superfície asphaltada eleva-se a 320,000 metros, cus- tando annualmente 893,000 francos. O calçamento em madeira occupa uma area de 500,000 metros, custando cada anno 1,622,600 francos. A extensão dos passeios (trotoirs) cobertos de betume é ‘j Ramalho Ortigão — A Hollanda. 166 de 1,059,000 metros, 170 léguas; dispendendo aimualmente para a conservação 1,500,000 francos. A arca dos jardins de Paris 6 calculada em 121,000 hec- tares; só os Campos Elyseos medem 104,000 metros quadrados. A municipalidade gasta annualmente com estes jardins mais de 2,400,000 francos! Só o preparo e embellezamento do bosque de Yincennes, terminado em 1866, custou 19 milhões. A destribuição diaria d’agua potável ó egual a 510,000 metros cúbicos, 225 litros por cada habitante. Os trabalhos de derivação das fontes de Yanne, começados em 1867 e ter- minados em 1874, custaram quasi 50 milhões. A canalisação d’agua attinge hoje a 2000 kilometros, trezentas e tantas léguas!’1) A Assistência publica despende 45 milhões, annualmente, com mais de 40 hospitaes e maternidades de primeira ordem. Só a legendária Salpetriere contem um numero de doentes superior a população de muitas das nossas cidades. O grande asylo aloja sempre 5000 enfermos! Tomemos por norma estes monumentaes trabalhos e em breves annos nossa terra poderá dar ao mundo civilisado o exemplo da felicidade dos povos que vivem em plena salubri- dade, plenos de riquezas! A hygiene privada acompanha a hygieno publica na sua evolução, ás mães de familia e proprietários compete manter em suas casas a mais escrupulosa limpeza, não consentindo que se formem nos jardins e parques lamaçaes nem stagnação d’agua servida; velar pelo severo asseio das latrinas e prohibir as creanças de brincar ao pé dos ralos e ventiladores dos exgottos, onde poderão respirar gazes mephiticos e os miasmas especificos da Malaria e da Febre typhoide. ') Gustave Jourdan — Etudcs d’hygiene publique. 167 Febres eruptivas. Yariola. — O numero do mortes pela varíola nesta Capital, no anno de 1892, sorprehendeu-me sobremodo, foi verdadeira- mente despropositado; succumbiram em S. Paulo durante esse anno 359 pessoas! Mais de sete por cento sobre a mortali- dade geral. No anno passado, porem, a mesma enfermidade victimou apenas 65 pessoas, menos de um quinto do anno antecedente. Porque? Qual o motivo desta desproporção? O motivo 6 simples e claro; segundo fomos informados, de 2 annos a esta parte, a Illustrada Directoria de Hygicne Publica tem aperfeiçoado muito o serviço de vaccinação, que ó feito com mais regularidade, numerosos postos vaccinicos tem sido creados, facilitando á população colher os beneficos resultados prophy lácticos desta medicação. E’ exclusivamente á vaccinação que se deve essa grande deminuição co obituário pela variola, verdadeiro triumpho com (pie foram coroados os esforços do Governo e da Directoria de Hygiene Publica desta Capital. Não lia ninguém mais que ponha em duvida a immuni- dade que a vaccina de Jenner confere contra a variola. Os antigos preconceitos de que a vaccina definha as creanças — a vaccina pode ciar as verdadeiras bexigas — em tempo de epi- demia não se deve vaccinar, só perduram no espirito dos imbecis. As mães e paes de familia não devem trepidar um só momento; tão logo a creança nasça, convém vaccinal-a, e, de cinco em cinco annos, a revaccinação torna-se indispensável, ó preciso repetir-se a operação. Nos paizes em que a vaccinação é obrigatória a variola tem desapparecido quasi que completamente; na Allemanha, onde outrora o numero de victimas era considerável, hoje esta mo- léstia é quasi desconhecida. A mais convincente prova que se possa dar da impor- tância prognostica da vaccinação são os algarismos seguintes 168 fornecidos por M. "Wernick: *) durante os annos de 1886. 1887. 1888, 1889, a varíola, sobre 100,000 obitos, victimou: na Alle- raanha 0,46; na Inglaterra 2,72; em França 36,77; na Áustria 41,93; ora a vaccinação ó obrigatória nos dous primeiros paizes, ao passo que não ó 6 nos dous últimos; o resultado disto 6 que a mortalidade da França e da Áustria pela varíola é muito maior. A estatística de M. Bertillon2) demonstra o mesmo facto: durante o anno de 1886 a mortalidade pela varíola foi, para 100,000 habitantes: de 1 em Londres, 2 em Edimbourgo, 5 Liverpool, 0 em Berlim. Nestas cidades a vaccinação ó obri- gatória. No mesmo anno a mortalidade foi, sobre 100,000 habi- tantes: de 10 em Paris, 128 em Roma, 16 em São Petersbourgo, 16 em Lausana, 27 em Yienna, 59 em Praga; cidades estas todas em que a vaccinação não é obrigatória. Alem da vaccinação, ha outras indispensáveis medidas a tomar para a extincção desta terrível moléstia, umas de ordem publica, outras de hygiene privada. A principal medida de ordem publica são os hospitaes de isolamento, com um serviço completo de desinfecção: estufas de Geneste e Herscher, apparelhos de encineração, apparelhos de esterilisação por meio da agua fervendo, do ar quente, do ar quente e vapor quente, simplesmente de vapor superaquecido; apparelhos para seccarem-se os objectos, carruagens especiaes para transporte dos contagionados, susceptiveis de completa desinfecção; pessoal teclmico de médicos, enfermeiros e des- infectadores. Ataúdes especiaes para inhumação e transporte dos cadaveres, etc. Quanto ás medidas de hvgione privada: si n’uma casa de familia manifestar-se um caso de varíola, a mais rigorosa des- infecção deve ser praticada em toda a habitação e cuidados minuciosos devem ser postos em pratica: ' ) Jahresbericht iiber dic Leistungen und Forschungen der gesam. Medicin. 2) Révue d’hygiene et, de poliee sanitaire 1889. 169 1. — Todo o pessoal da casa, adultos e creanças, devem immediatamente se vaccinar e os já vaccinado se revaccinar; 2. — Ninguém, a não ser a pessoa escolhida para prestar cuidados ao enfermo, pode penetrar no quarto do varioloso; 3. -— Essa pessoa deve ter o menor contacto possível com as pessoas da casa, e deve trazer sempre sobre as vestes ordinárias uma blusa longa ou peignoir, passada, muitas vezes ao dia, em vapores phenicados; 4. — O aposento do doente será vasculhado, quatro vezes por dia, com uma vassoura coberta com um panno molhado n’uma solução de sublimado a 1 por mil; 5. — O assoalho e os moveis devem ser lavados com a mesma solução; b.° — Nunca espanar os moveis com espanadores de poma ou toalhas seccas, mas sim esfregal-os com um panno humedecido na solução sublimada; 7. — O colchão em que esteve o doente e travesseiros devem ser queimados; toda a roupa de cama e mais roupas brancas de uso devem ser fervidas durante meia hora níima so- lução do acido phenico a õ°/0; 8. — As chicaras, pratos, colheres, cada vez que servirem ao doente, precisam ser passadas em agua fervendo, no proprio aposento, antes de voltarem á cosinha; 9. — Si o doente íallece envolver-se-á logo o cadaver n’um lençol embebido de uma solução de sublimado ou acido phenico a 5 °/0; 10. — Depois do enterro a casa toda será desinfectada. Pondo-se em pratica estes salutares princípios veremos em breve a varíola desapparecer desta bella capital, enxotada pela antisepeia, e pela vaccina, como foi na culta Allemanha. Observação importante. —- Ordinariamente pensa-se que o varioloso é mais perigoso, o contagio mais facil, quando o doente está coberto das pústulas variolicas, em pleno periodo agudo; enganam-se muito os que assim julgam; o doente neste periodo é menos a temer, o auge do perigo é na pbase da sécca, quando o enfermo já está entrando em convalescença. «O vario- 170 loso, diz o Professor Arnould, não é muito perigoso para as pessoas que o cercam, (salvo contacto directo) emquanto o conteúdo das pustulas 6 liquido. Quando as pustulas seccam e o corpo do doente cobre-se de largas crostas, dispostas á pulverulencia, repellidas pela pelle, que sob ellas se cicatriza, ó qne o perigo torna-se extremo e que a inplantação da variola está prestes a se realisar, permanecendo o convalescente muito tempo neste estado de inspirar sérios receios.» *) Sarampão. — O sarampão é moléstia muito commum nas creanças causando annualmente muitas victimas. E’, relativamente á Yariola e á Escarlatina, uma moléstia mui benigna, os casos de morte são ordinariamente determinados por complicações graves que podem se observar no curso do exhanthema, devidas quasi sempre á incúria das mães de familia, que, muitas vezes, deixam de chamar o medico e poem-se ellas mesmas a medicar os doentinhos com chá de flores de ■sabu- gueiro, etc., ignorando o que pode acontecer no seguimento da moléstia. A complicação a mais temivel do sarampão 6 para o lado das vias respiratórias; e a -broneliite capillar, a broncko- pneumonia que acarreta quasi sempre a morte. E’ para evitar estas complicações e combatel-as a tempo, quando não é possivel previnil-as, que o medico deve ser cha- mado a prestar cuidados aos doentes de sarampão logo após os primeiros symptomas. O sarampão, logo que o doente experimenta os mais leves signaes, já é muito contagioso, o perigo continua durante a phase em que se faz a erupção; mas, desde que esta ó com- pleta, o perigo deminue; e, ao contrario do que acontece na variola, desapparece quando se inicia o periodo de sècca e a desquamação principia. Em vista disto, assim que uma creança ou qualquer pessoa *) Dr. J. Araould, Prof. d’Hygiene de la Faculte de Lille — La Des- infection publique. 171 da familia apresenta os primeiros indicios do sarampão deve immediatamente ser isolada. O sarampão não exige nenhum dos cuidados de desinfec- ção que aconselhamos a proposito da diphteria o da variola. No sarampão, terminada a moléstia, está extincto o virus. Por um excesso de prudência será bom ferver-se as roupas que serviram ao morbiloso. O sarampão também costuma ser origem da adenopathia tracheo-bronchica e favorecer o desenvolvimento da tuberculose miliar aguda nos meninos predispostos. As mães de familia devem ter o maior cuidado com as creanças na convalescença, mesmo alguns mezes depois, e chamar o medico aos primeiros alarmas do organismo. Eu já observei na minha clinica tres casos de tuberculose aguda após o sarampão, sendo dous seguidos de morte.1) Escarlatina. — A escarlatina 6, felizmente, rara entre nós, no obituário de 1892 figuram 11 casos e no do anno pas- sado apenas 1 caso. E’ moléstia gravissima, e exige os mes- mos processos de desinfecção que a variola. A convalescença •da Escarlatina é tão grave quanto a moléstia mesma, devido ás complicações temíveis que ella engendra. Parasitas intestinaes. Causou-me também admiração o numero considerável de creanças que morrem em São Paulo do vermes intestinaes. Em 1892 foram victimas 107 meninos e o anno passado 160! Estes algarismos causam tanto mais reparo quanto ó tão fácil debellar-se a helminthiase. Tres especies de vermes intestinaes são mais co mm um- mente observadas: os ascarides lombricoides ou lombrigas, os oxiuros vermiculares e a Temia ou lombriga solitaria. v) Vide 0 Torres-Homem, Revista de medicina e cirurgia, 1893. 172 Ascarides. — Pertencem ao grupo dos nematodes, são vermes arredondados, filiformes, corpo roliço, tubular, não seg- mentado, com 20 a 30 centímetros de comprimento, no máximo. Agglomerados em grande numero nos intestinos elles po- dem dar logar a dyspepsias, diarrhea, pallidez e enfraqueci- mento. Nas creanças nervosas a irritação que a presença dos mesmos provoca no intestino pode, por via reflexa, determinar cenvulsões e phenomenos de meningite. Estes parasitas podem também emigrar e penetrar no larynge, causando um accesso de suffocação; no figado, na ve- sícula biliar e até no peritoneo. No museu Dupuytren, em Paris, eu vi o figado de um adulto, conservado em álcool, repleto de ascarides. Tratamento. — O melhor remedio para lombrigas é o Semen-contra ou a Santonina, principio activo desta planta; eu costumo receitar sempre com proveito a seguinte formula: Uso int. Calomelanos inglezes 20 centigrs. Santonina .... 10 » Assucar de leite . . 1 gram. Para um papel. Administra-se em jejum, diluindo o me- dicamento numa colher de leite, e, uma hora depois, 25 a 30 grs. de oleo de ricino em caldo de laranja ou no café. A dosagem desta formula é para um menino de 1 a 2 annos. Oxiuros-yermicularcs. — São curtos, com a extremidade ponteaguda, medem 4 a 10 millimetros de comprimento. Elles acumulam-se ordinariamente na extremidade inferior do grosso intestino, determinando grande coceira no anus; nas meninas elles podem passar para a vulva e ahi se alojarem, provacando um corrimento semelhante a flores brancas. Tratamento. — A maioria dos auctores aconselham clys- teres com uma decocção de alho, ou com oleo de figado de bacalhau, clysteres de glycerina (50 grs. de glycerina para 100 grs. d'agua), clysteres d'agua salgada ou vinagrada. Estes clysteres devem ser administrados á noite, depois da creança 173 ter-se deitado, porque nesta occasião os parasitas se aproximam do anus. — O calomelanos e a Santonina são inúteis neste caso. A prophylaxia dos vermes intestinaes consiste principal- mente em fazer-se sempre uso da agua filtrada. TíVilia. — Não é muito commum nas creanças, é mais frequente no adulto. O signal de certeza da existência deste parasita no organismo nos 6 fornecido pela expulsão de um fragmento do verme. Neste caso a presença do medico torna- se immediatamente necessária. O uso das carnes crúas muito contribue para o appareci- mento da tamia. Supplemento Progressos da Hygiene em São Paulo Ja estava no prelo este humilde trabalho quando tive a felicidade de encontrar-me com o Ex.mo Snr. l)r. Cezario Motta, Ministro do Interior. S. Ex.cia fez-me a deíferencia de longa- mente conversar commigo acerca da questão sanitaria em São Paulo, terminando por offerecer-me um exemplar do seu rela- tório, no qual vem mencionadas as notáveis transformações hygienicas por que tem passado a nossa bella capital, graças á iniciativa do seu governo e que eu julguei do meu dever trans- crever aqui. O relatorio do Dr. Cezario Motta é uma verdadeira coroa de louros para elle e para a Benemerita Directoria de Hygiene Publica, que tão valoroso auxilio tem sabido prestar-lhe; digo mais, sem medo de errar, este importante trabalho e um titulo de respeito para a classe medica brazileira pelas conquistas que elle celebra; o relatorio do Dr. Cezario Motta, no meu parecer, marca uma evolução na sciencia medica do paiz. Hão pensei que si tivesse feito tanto em tão pouco tempo. Quem ler as primeiras paginas deste meu ensaio, a minha longa introducção, verá que ella teve unicamente em mira salientar, de um modo frisante, a necessidade que temos de sanear as nossas capitaes, e ficará então compreliendendo o meu 175 enthusiasmo pelo relatorio do illustre Ministro e não verá na minha apreciação senão a homenagem justa rendida ao verda- deiro mérito scientifico. São grandes os melhoramentos que o benemerito estadista tem realisado em prol da Hygiene publica de S. Paulo. O grande Estado ignora mesmo quanto deve a este inolvidável cidadão que impediu que o lucto e o desespero invadissem o lar de milhares de familias paulistas, salvando-nos dos horrores do Cholera-morbus, que nos teria arrebatado centenas de victimas, si não fosse a intelligencia, a presteza, a actividade, com que elle soube sitiar o inimigo, de modo a não permittir que elle transpuzesse o circulo limitado do seu berço. O Estado ignora, digo bem, porque ignorava-o eu mesmo, antes de ler o seu relatorio, e ignora-o muita gente; poucas pessoas até hoje acreditam na presença do cholera em S. Paulo, a maior parte da população considera isto uma blague. Assim tenho ouvido muitos médicos se exprimirem. Entretanto, não ha a menor duvida de que a moléstia ob- servada na Immigração fosse o verdadeiro cholera asiatico. A preparação microscópica feita no Instituto Bacteriológico, cuja estampa, apensa ao relatorio, reproduz os microbios encontra- dos nas dejecções riziformes dos contagiados da Immigração, representa fiel e exactamente o komma-bacillo, o bcicillo-vir- gula de Kocli. Elles são absolutamente idênticos não só aos de uma preparação que vi, no mez de Agosto de 1891, em Paris, na clinica do Professor Peter, preparação feita do liquido diarrheico de um cholerico fallecido no sen serviço do Hospi- tal Necker, como aos de preparações feitas por mim mesmo no laboratorio do Professor Strauss, na Faculdade de Medicina de Paris, sob as vistas de Wurtz, com quem tomei um curso de Bacteriologia. A prophylaxia do Cholera-morbus em S. Paulo foi uma verdadeira lucta scientifica, um inesperado combate, no qual a Directoria de Hygiene Publica mostrou quão bem assestadas estão as suas baterias e quão vigilantes os seus palinuros. No dia 12 de Agosto Testino e Saragossa succumbem no 176 palacio da Immigração de uma affecção gastro intestinal, jul- gada suspeita pelo medico do estabelecimento. Xeste mesmo dia é ouvida a Directoria de Hygiene Publica a respeito do caso, autopsiam-se os dous cadaveres, provoca-se uma conferen- cia com outros clínicos e os productos diarrheicos são envia- dos ao Instituto Bacteriológico. No dia 13 o Instituto Bacteriológico desempenha-se galhar- damente da commissão que lhe é confiada, fazem-se perfeitas preparações das dejecções, nas quaes se veem claramente os komma-badllos; provocam-se reacções chimicas caracteristicas, semeiam-se culturas. As duvidas desapparecem, é o Cholera, o terrível Ashaverus do Ganges, que nos visita; succumbem outros doentes, a moléstia tende a propagar-se, a conflagração vae ser geral, amotinam-se os ânimos, ha o rumor surdo que precede ás grandes catastrophes; mas o Snr. Dr. Cezario Motta poe-se á frente do movimento sanitario e começam as provi- dencias : Trancam-se as portas da Immigração, removem-se os con- tagionados para o Hospital de Isolamento, prohibem-se as entra- das e sahidas no foco da peste. A mais rigorosa desinfecção é praticada em todo o edifí- cio, séde do morbos cholerigeno; uma athmosphera de acido sulphuroso invade todos os aposentos e salas do enorme aloja- mento, as estufas de Genneste e Herscher esterilisam roupas e bagagens. Os immigrantes submettem-se a banhos antisepticos de sublimado e trocam as roupas que trajam por vestidos limpos e passados nas estufas. Melhora-se-lhes a racção, filtros Pasteur são adaptados ás torneiras d’agua potável. Intersepta-se a communicação da rede d’agua, que abastece o edifício infectado, com a rede geral; afim de que esta não fosse se tornar o vehiculo do mal pela cidade inteira. Augmenta-se o numero de Delegados e Inspectores sani- tários, prohibe-se a venda de fructas, derrama-se a flux os mais poderosos antisepticos conhecidos pelas canos de exgotto. 177 Destribuem-se gratuitamente pelas famílias substancias este- rilisadoras. Desinfectam-se os cadaveres dos cholericos, preside á inhu- mação scientitica direcção. Fazem-se obstrucções de poços, previnem-se os directores dos Hospitaes. E, antes cpie terminasse o mez de Agosto, fatídico porta- dor de tão terrível hospede, o cholera estava completamente cambatido, aniquilado, destruído e soffbcado seu germen, e a população paulista salva de enorme hecatombe. Não podia ser mais correcta a Directoria de Hvgiene Pu- blica nem mais correcto o Snr. Ministro do Interior. Honra, pois, lhes seja feita! Quando os serviços prestados pelo illustre cidadão se limi- tassem á prophylaxia do cholera nesta capital, bastaria só isso para seu galardão de benemerencia. Não é este, entretanto, o unico beneficio que o notável Ministro tem feito á Hvgiene de S. Paulo, cumpre admirar ainda uteis instituições, unias por elle creadas, outras por elle aperfeiçoadas e animadas: A Legislação Sanitaria modelada pela dos mais adeantados paizes da Europa; O Instituto vaccinico-genico, onde scientitica e escrupulo- samente se prepara a vaccina de Jenner para abastecimento de todo o Estado; O Instituto Bacteriológico, montado como os melhores e mais completos da França e da Allemanha que se pode cha- mar o Areopago da Medicina, porque a Bacteriologia domina hoje toda a Pathologia e toda a Therapeutica; O Laboratorio de analyses chimieas e bromatologicas e o bello palacio do Desinfectorio Central, á cuja construcção e organisação presidiram os mais modernos princípios da Hygiene e da Architectura. A creação de uma Maternidade, abençoado asylo, onde as creanças pobres e as parturientes desvalidas encontram pro- 178 tecção e agasalho: uma das necessidades mais palpitantes de S. Paulo. Honra, pois, repito, ao patriótico Ministro que soubo tor- nar a pasta do Interior difficilimo encargo para seus succes- sores. Que estes conservem, como é de esperar, o mesmo afan patriótico, e tragam os mesmos indispensáveis conheci- mentos scientificos e nós podemos nos tranquilisar acerca do futuro da capital paulista, destinada a ser a primeira cidade da America do Sul. ÍNDICE Introducção Pag. 5 Capitulo I. Summario: — Capital de S. Paulo — Posição geographica — S. Paulo moderno — habitações — ruas — costumes — immigração — aug- mento rápido da população — encombrement — seus perigos — defeitos da hygiene — aguas — exgottos — estudo do solo e da athinos- phera — Constituição medica de S. Paulo — Impaludismo — Febre amarella — medidas a tomar Pag. 11 Capitulo II. Summario: Mortalidade das creanças em S. Paulo — Mortalidade das creanças em outros paizes — Confronto das nossas estatisticas com as de outras cidades extrangeiras — Quadro do obituário das creanças em S. Paulo em 1892 e 1893 — Moléstias preponderantes no obi- tuário infantil — São as moléstias do tubo gastro-intestinal que do- minam a pathologia da infancia — Causas deste predomínio — Ignorância das mães de familia — Alimentação mal dirigida — Physiologia da digestão — Parecer de médicos sobre o assumpto — Opinião do Dr. Torquato Tapajós Pag. 35 Capitulo III. Summario: Alimentação bem dirigida — O leite é o melhor alimento das creanças — Estudo do leite — Aleitamento materno — Necessi- dade do aleitamento materno — Direcção — Hygiene da mulher que amammenta — Contraindicações do aleitamento materno — 180 Aleitamento mercenário — Serviço de amas em S. Paulo — Con- selhos ás mães de família, — Qualidades de uma bôa ama e exame — Regimen alimentar das amas — Aleitamento artificial — Aleita- mento pela femea de um animal — Aleitamento pela mammadeira — Leite de má qualidade em S. Paulo — Medidas a tomar — Estudo do leite esterilisado — Aleitamento mixto — Desmamma- mento — Dentição — Amuleto para as creanças .... Pag. 103 Capitulo IV. Summario: Moléstias mais communs nas creanças depois das aflfecções intestinaes — Moléstias do apparelho respiratório — Bronchites — Pneumonias — Coqueluche — Diphtería — Tuberculose pulmonar — Contagio, desinfecção e prophylaxia destas moléstias — Impaludismo — Medidas a tomar —- Saneamento de S. Paulo — Obras monu- mentaes de saneamento na Hollanda e em Paris — Febres eruptivas — Varíola — Importância da vaccinação — Vaccinação obrigatória — Prophylaxia publica e privada — Hospitaes de isolamento — Desinfecção rigorosa — Sarampâo — Escarlatina — Parasitas intes- tinaes — Ascarides lombricoides —- Oxiuros vermiculares — Toenias — Tratamento e prophylaxia Pag. 154 Supplemento » 174 ERRATAS A despeito da consummada pericia dos compositores das Officinas dos Snrs. Carlos Gerke & Comp. e dos esforços por estes empregados para a publicação, sem erros, deste trabalho, o que muito lhes agradeço, ainda es- caparam alguns erros. Mencionarei apenas aquelles que adulteram a natureza e o sentido da phrase, abandonando os enganos typographicos que o leitor desculpará. Xa pagina 11 — Onde se lê: — tem a sua bella capital ao Norte; leia-se: — tem a sua bella capital a Leste. Na pagina 16 Onde se lê: — Tvpho de Sião; leia-se: — Mal de Sião. Na pagina 25 — Onde se lê: — De 16 a 20 annos 212 leia-se: — De 16 a 20 annos 219 Na pagina 28 Onde se lê: — Feminino (nati-mortos) . . . '. . 179 leia-se: — Feminino (nati-mortos) 172 E acrescente-se na linha seguinte: — Ignorado 12 Na pagina 29 Onde se lê: — Extrangeiros em geral 432 leia-se: — Extrangeiros em geral 435 E acrescente-se na linha seguinte: — Allemães 71 Na mesma pagina — Onde se lê: — M. Boy 19 leia-se: — M. Boy 17 Na pagina 33 — Onde se lê: 1—- Outras enfermidades ...... 5746 leia-se: — Outras enfermidades 5745 Na mesma pagina — Onde se lê: — typho exanthematico; leia-se: — typho abdominal. Na pagina 34 — Onde se lê: — bacillo de Nicolayer; leia-se: — bacillo de Eberth.