RUY BARBOSA A obra scientifica do glorioso creador da medicina experimental no Brasil, apreciada pelo Conselheiro Ruy Barbosa, na sessão civica de 28 de Maio de 1917, no Theatro Municipal. BARBOSA OSWALDO CRUZ A obra scientifica do glorioso creador da medicina experimental no Brasil, apreciada pelo Conselheiro Ruy Barbosa, na sessão civica de 28 de Maio de 1917, no Theatro Municipal. Rio de Janeiro-Manguinhos 1917 Minhas Senhoras; Meus S&nhores: Embora, nas homenagens desta natureza, tudo imponha ao orador a norma de se apagar e sumir-se a si mesmo, deixando a scena inteira ao vulto illust^e, para quem se volve a curiosidade e es- pectação de todos, destes estylos me leva a discrepar, hoje, uma dessas circunstancias, que abrem excepção ás mais apertadas regras da mo- déstia e do bom gosto. Nem é destes que me arredo, ao exordiar, occupando-me com- migo; porque o bom gosto e a discreção é que me não consentiriam revestir aqui uma dignidade, que não me assiste, assoalhar galas, que não são minhas, entretendo, calado, o equivoco de que eu vos venha fallar hoje "em nome da nação0, como annunciaram os nossos jornaes, ao darem, com o seu programma, a noticia desta solemnidade. Por menos que valha um homem, senhores, ainda menos fica- rá valendo, quando tente ou lhe queiram engrandecer o tamanho com o empréstimo de qualidades estranhas. Toda a absorpção do alheio nos abala no goso tranquillo do nosso. Não pode estar seguro na sua propriedade quem a dos outros usurpa; e, se não mentem grande mentira os annexins, que mentir não costumam, uma figura que se atavia com o espolio do guarda-roupa dos outros, na praça despirá o que a furto vestiu. Não serei eu, pois, quem me dê por emissário da nação, no que ora me ides ouvir os que me honraes com a compla- cência do vosso concurso. Nenhuma delegação ou autoridade tenho, para fallar de tão alto. Pela nação não podem fallar, senão os que reconhecidamente a repre- sentam, ou os que, em nome delia, delia dispõem: os que lhe resolvem os actos, os que lhe decretam as leis, os que lhe traçam os destinos. Do numero desses eleitos ninguém estará mais longe do que o indiví- duo, que cra vos dirige a palavra. O diploma de senador me dá um logar numa das casas do Con- gresso e o direito de lhe occupar a tribuna. Mas a tribuna parlamentar é, hoje em dia, uma cra te Pa extincta, e as camaras legislativas mera Rectificação preliminar. 4 sombra de representação nacional. Por essas cadeiras, em uma das quaes, naquella augusta camara, ha um quaito de século, tenho a honra de me sentar, resvalam camadas e camadas successivas de varões emi- nentes, descambando ao nada, sem deixar o mais leve rasto da sua passagem; e não será, de certo, ao que, menor de todos, não tem al- cançado senão baixar constantemente, até se inscrever, hoje, entre os seus pares, no derradeiro grau da escala, não será, por certo, a esse que ha-de caber a distincção, não lograda jamais pelos outros, de ser o instrumento, em cujas cordas vibre o espirito de sua terra. Os que representam a nação. Não basta, senhores, para encarnarmos uma nação, havermos conseguido, algumas vezes, reflectir-lhe, por momentos, no animo as nossas ídéas, os nossos sentimentos, os nossos desejos. Essas coinci- dências passageiras, que têm occorrido na minha vida, entre as crenças, as aspirações, as esperanças do povo e as de um individuo, são, as mais das vezes, episodios accidentaes, que não traduzem verdadeiras relações de representação espiritual entre a nação e o homem, de quem ella transitoriamente se approxima. Só os que possuem o condão extraordinário, a bem poucos re- servado pela natureza, de mover as massas humanas, de lhes commu- nicar a energia, a vontade, a perseverança, de as incendir na paixão das suas resoluções, só esses dynamos vivos, cujo poder de influencia electriza nacionalidades inteiras, receberam do Creador o privilegio di- vino da personificação real da sua raça, e trazem nos lábios inspirados a voz da sua patria. Não assim os que, como eu, se matam, quasi sempre debalde, em pregar de idéas, que a multidão acclama, que as urnas abraçam, que uma impressão de geral assentimento recommenda, mas que, ao passarem do circulo do apostolado ao da acção pratica, ainda quando aureoladas pela victoria legal, naufragam de encontro ás conspirações dos interesses, sem achar, nas maiorias que as elevaram, a resistência popular, onde se encostem para a reivindicação do triumpho burlado. Das nações que se desnervam, desmedulam e descerebram, que renunciam ao proprio juizo, á própria força e á própria actividade, os genuínos representantes devem ser os que a ellas se substituem no goso e exercício desses attributos. Da personalidade collectiva, que absorveram, são elles os senhores, como o tutor o é dos menores, que rege, ou o zagal do gado, que apascenta. Os demais, como eu, como eu são apenas átomos da poeirada raciocinante, que remoinha num raio de luz, tomando as côres do iris, mas desapparece ao sopro dos que manejam o sol ou a chuva, a bonança ou a tormenta, as decisões irre- mediáveis e as medidas soberanas. Só aos que nellas, pois, têm parte, só a elles seria dado fallar- vos em nome da nação, dessa nação ausente e absenteista, que se apartou dos seus bens sem animo de volta, outorgando, por abando- no, aos que delles se meteram de posse, carta branca e procuração 5 em causa própria, com clausula, sem reserva, de substabelecer, dispor e alienar. Vox in deserto. Da nossa arraia miuda apenas me distinguiria eu em não haver sido aquinhoado, como ella, com o dom da resignação, e, dissidente por expe- riencia, convicção e vêso, me terem parado as coisas na condição in- glória, ociosa e triste de vox clamantis in deserto. Clamando assim, quasi sempre no êrmo, desde que a nação não conclama com migo, não me posso considerar com o direito de abrir a bôca em seu nome. Apenas me seria licito, como ao commum dos que não padecem de surdez ou cegueira, testemunhar, com inteireza, dos sentimentos, que se ouvem rumorejar, comprimidos, nas consciên- cias, como a lava nas profundezas da terra. Creatura de tal feitio, com esta vocação de importunidade, que a parou no fadario de atravessar uma vida inteira em quasi perenne combate com o seu meio, não poderia, claro está, ser a melhor escolhi- da, para o representar no que quer que seja. Verdade é que, na camara de que sou membro solitário e inútil, a lei me permittiria orar em nome da nação. Mas a mesma anomalia da minha solidão naquella egregia assembléa deve ser, se não falha a lógica, o signal mais certo de que eu, alli, corpo estranho, hospede im- pertinente, não represento em coisa alguma o Brasil, e já me tenho demorado sobremaneira em despejar esta censurável situação de repre- sentante, que não representa o representado. Para que, legitimamente, vos pudesse eu, endereçar a palavra em nome da nação, era mister que as minhas disposições, preocupações ou convicções fossem as suas. Mas, se existisse identidade tal entre umas e outras, a nossa constituição não se acharia tão longe do regí- men, que proclama; a democracia, a justiça, a legalidade já estariam começando a estampar o seu sello em toda a nossa vida, e a minha não teria sido, nestes vinte e cinco annos de republica promettida e adiada, a maldição de um ingrato duello com o irrealizável. ''Chefe de idéas", como, por irrisão, me chamaram, convencido estou, já hoje, de que acabarei, sem que as minhas tenham o seu dia, porque a minha patria ainda as não quiz, nem lhes quer. Acto de Fé. Mas, embora acabe eu, a minha fé não acabará; porque é a fé na verdade, que se libra acima dos interesses caducos, a fé invencível naquelle que nos disse: "Habete fidem Dei", a fé miraculosa do bem, que vinga oceanos e transpõe montanhas: dico vobis, quia qui- cumque dixerit huic monti'. Tollere et mittere in mare, et non hesitaverit in corde suo, sed crediderit, quia quodcumque dixerit, fiat, fiet ei." Em verdade vos digo que quem disser a este monte: Levanta-te, e lança- te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se faça o que 6 elle diz, assim lhe será feito.» Tanto vale a fé, no coração do homem sósinho. Quanto não poderá no coração das nações ? Testemunha, e não representante. Por mais, porém, senhores, que de tudo me di<?pa, ou me dispam de tudo, sempre me ha-de restar o que nem eu a mim mesmo, nem todos os poderios humanos, juntos e conjurados, me lograriam tirar: uma alma de homem, um coração de patriota, uma tempera de veterano do trabalho. E, se tanto bastasse, para honrar o varão illus- tre, que hoje celebramos, para testificar a grandeza da sua obra, para o evocar aqui revivo numa visão bemdita, não terieis errado tão de todo na escolha da testemunha, que nomeastes. Incompetência. Nem por isso, entretanto, deixou de me parecer temeridade o comettimento. Como descrever os trabalhes de Oswaldo Cruz, caracte- rizar-lhes a expressão, medir-lhes o alcance, tomar-lhes o relevo, esti- mar-lhes os resultados, sem entrar pela região dessas sciencias, em cujo serviço viveu e ganhou os loiros da sua vida? Médico era meu pae, ainda que também político e homem de letras; e as minhas leituras de creança e moço, já então affervoradas pela sêde insaciável desta curiosidade, a que ainda estou por descobrir sedativo, não distinguiam, na variada e abundante bibliotheca de casa, entre os volumes de literatura, os livros de política e os tratados de medicina, em todos os quaes, ora uns, ora outros, consoante me af- fectava o appetite, bebia eu a pasto, sem ordem nem regra, o que o ensejo me deparava, e o entendimento, ainda verde, ingeria, de ordi- nário sem digerir. Dahi, porém, só me terá restado, como era natural, quanto ao conhecimento das sciencias do organismo humano, um gros- seiro começo de cultura, um amalgama sedimentario de noções vagas, incorrectas ou mal assimiladas. Não era com estes recursos toscos e rudes que eu me havia de atrever ás delicadezas de um estudo sobre o introductor da pathologia experimental no Brasil. A tarefa é das que só aos iniciados se podem reservar. Submetter-me a ella era pôr-me, evídentemente, dado que o mal me viesse de mãos amigas, em risco de provável desastre. Devia reluctar. Reluctei, mostrando-lhes a dccepção, a que se aventuravam. Atalharam-me á bôcca as objecções com elogios e finezas. Insisti, allc- gando o excesso dos meus encargos, crescentes na razão directa dos meus annos e na inversa das minhas forças. Persistiram, encarecendo a minha capacidade singular de trabalho. Não faltou senão dize- rem-me, como o outro, que isso de ter descanso é bom para moços: "C'est bon pour les jeunes gens, lo repos." Mas, se o não disseram, é o que sentiam. Com a medicina não se briga. Calei, obedeci, e aqui estou. Não sou eu, pois, o que hei-de ser julgado e condemnado pelas audacias desta submissão a uma contingência de força maior. Sã > 7 os amaveis algozes da minha incompetência, que a trazem, vencida c rendida, a esta exhibição do seu arrojo e fraqueza. Liquidae com elles a culpa, e relevae-me da pena. A epoca do nascimento. Mereceu Oswaldo Cruz á Providencia a graça de nascer numa época, em que a medicina, passando pela maior das suas revoluções, tomara uma direcção, a que o ajustavam de modo extraordinário as suas qualidades nativas, terreno admiravel para a germinação e de- senvolvimento ulterior das qualjdades adquiridas, que com aquellas se haviam de entretecer em tão fecunda harmonia. A' obra de Cláudio Bernard, com quem a medicina se tornou physiologica, e experimental a physiologia, começava a sueceder a obra pastoreana. A Introducção á Medicina Experimental, evangelho da re- novação desses estudos, abrira o pórtico immenso, por onde se viu entrar o genio da experimentação, que encarnou em Pasteur, e deu o nome deste á nova era. Pasteur. Pasteur encontra o mundo scientifico dominado pela theoria de Liebig, reinante desde 1839. Segundo ella, as fermentações não seriam mais do que phenomenos meramente chimicos, relações lentas entre certas matérias organicas e o oxygenio do ar. Mas Pasteur estabelece cxperimentalmente uma concepção opposta, introduzindo nesse domí- nio a noção da vida. Aos olhos da nova interpretação, estribada na evidencia experi- mental, revela-se o fermento uma entidade viva, de natureza vegetal ou animal, susceptivel de se desenvolver num meio propicio, sobre o qual chimicamente actua, mas como ser vivente, segundo as acções chimicas de que, por sua vez, é objecto, operando, assim, o phenomeno, a um tempo chimico e biologico, da fermentação. Começa, dest'arte, a rasgar-se o véu, que até ahi occultara o papel incalculável, attribuido, na obra da creação, a esses germens mi- croscópicos, disseminados, em variedades innumeraveis, por toda a na- tureza, e, juntamente, a sentir-se a extensão das consequências praticas ligadas a esse descobrimento. Conhecida a verdade acerca das fermen- tações, determina Pasteur immediatamente a maneira de as regular, de as accelerar, de as fixar em um dado ponto do seu curso, atalhan- do-se a corrupção ulterior. A industria, na maturação dos vinhos e na producção das cervejas, estava renovada, e, deste modo, augmentada em proporções consideráveis a riqueza das nações productoras. A doutrina pastoreana. Mas a doutrina pastoreana tem outros lances de vista. Já se está percebendo que não se circunscreve aos meios chimicos a acção dos organismos microscopicos. Doenças ha, em cujos symptomas se não pode negar a mais clara analogia com as fermentações; e esta 8 similhança guia o irresistível renovador á invenção da vida microbiana em todos os domínios da pathologia animal. Ahi é que se tem de realizar a creação de Pasteur, verdadeira creação; porque, senhores, bem o disse, em expressões lapidares, um dos mais eminentes escriptores francezes, e não haverá blasphemia em o repetirmos, "Pasteur operou á similhança do Creador, suscitando por um acto inicial as leis, donde havia de sair o desenvolvimento progressi- vo do Universo". A differença está em que o Creador as extraiu do chãos para o regimento do mundo, e a creatura as desentranha da igno- rância para beneficio do homem. O Creador é o agente da sua mesma omnipotência e o sabio o instrumento do Creador. Em 1847, quando o grando successor de Magendie e Cláudio Bernard começava a entremostrar as suas temerárias aspirações, houve quem dissesse, com os sobresaltos de uma sincera sympathia: "Pasteur não conhece os limites da sciencia, e affecta os problemas insolúveis." Mas o tempo veio a desmentir os receios de Verdet, provando que não havia esphinge capaz de resistir a esse CEdipo. Diríeis que a na- tureza o elegera para confidente dos seus mais intimos arcanos. "A gloria o procura, sem que elle a vá buscar." Já era para contentar os mais ambiciosos a que Pasteur coihera, com os seus primeiros trabalhos, na chimica, arrancando-lhe um dos seus mysterios mais secretos, quando lhe descobriu a dissymetria mo- lecular, ponto de inserção, na chimica organica, de um ramo inteira- mente novo, a estereochimica, destinado para logo aos mais preciosos resultados. Mas onde o aguardavam triumphos inauditos, era nessa estranha sciencia do invisível, em que o microscopio, conduzido pelo senso experimental de um observador de genio, ia descortinar, aos nossos olhos, incríveis surpresas e portentos assombrosos. O Novo Reino. Não é que "esse novo reino da natureza", de que Pasteur foi o descobridor, não fosse, antes dclle, presentido e entrevisto por outros. Já no século IX houvera quem assimilasse a variola a uma fermentação e, no século XVI, quem attribuisse á transmissão de corpúsculos a contaminação de certas doenças. Já Van Helmont, Sy- denham e Bressy haviam tido lampejos da concepção microbiana. Já Rayer e Davaine, em 1851, tinham dado com a bacteridia carbunculo- sa. Mas todas essas intuições, que preludiaram ás conquistas de- finitivas de Pasteur, estão, para com a theoria donde nasceu a medici- na moderna e as suas experiencias demonstrativas, como os vagos presentimentos e os mallogrados tentames dos precursores da inven- ção do nosso continente para com a inspiração de Colombo e a appa- rição da America á proa das suas naves. Disso a que, vae por uns quarenta annos, se deu o nome de microbios, havia, primeiro que Pasteur os estudasse, antevisões e prenoções. Mas mal se suspeitara o papel incommensuravel, que elles desenpenham na creação. "Ha quarenta annos", dizia, em 1877, 9 Gaston Paris, na Academia Franceza; "ha quarenta annos não se consi- derava senão como objecto de curiosidade o mundo desses entes mi- croscópicos, dotados de uma vida puramente elementar. Hoje elle se nos representa como o substrato e a condição de todo o mundo ani- mado, como o oceano sem fundo, donde sae e aonde volve toda a vida. Aos microbios se devem as fermentações e putrefações, que transformam a matéria organica. São elles os que fertilizam o solo, e permittem aos vegetaes cobrir-lhe a superfície, elles os que, invadindo os tecidos, geram as doenças contagiosas. Povoam o ar, enchem as aguas, saturam o chão, habitam os animaes e plantas, envolvem-nos a nós, e nos servem, e de toda a parte nos ameaçam. Que digo? Nós mesmos não somos senão elles." Um Novo Mundo. Todo esse mundo, até então ignoto, emerge, como por encanto, numa série triumphal de hypotheses immediatamente verificadas, ao contacto da vara desse magico da experimentação: o mundo infiniti- tamente minimo, dos microbios e parasytas, das toxinas e antitoxinas, das vaccinas e sôros, dos fermentos e anticorpos, que, ha cincoenta e tantos annos, não cessa de crescer, rasgando á humanidade inespe- rados horisontes. Nos seus passos iniciaes, o conhecimento das maravilhas que a microbiologia entrou a revelar-lhe, começa por eliminar para sempre o erro da geração espontânea. Embora apparentemente primitivos, esses orgamsmos rudimentares não existem senão por descendencia de outros organismos, seus germens, seus ascendentes. Tão em todo ex- tremo são mínimos elles, que só aos milhares encheriam o logar de uma ponta de agulha, tão prolíficos que, em horas, pullu- lam aos milhões e milhares de milhões. Pasteur começou, mostrando como se podem semear nas cultu- ras de laboratorio, á similhança dos grãos de fermento nos sulcos do arado, esses gerrnens invisíveis, em cada um dos quaes se encerra, como a espiga e a seara na semente, um poder incalculável de re- producção, desorganização e morte. Depois, em 1863, a experimenta- ção pastoreana, lhes demonstra a omnipresença em todo o campo da observação humana: no ar, nos corpos animados ou inanimados, no fundo e á tona de tudo. E, dahi avante, os gloriosos achados se succe- dem numa carreira vertiginosa. Em 1865 é o micrococco da cólera das galinhas, aeróbio de vi- rulência tal, que, para matar o animal inoculado, basta um centesimo de millesimo de uma gota do caldo, onde se encerra, uma picada de agulha embebida no liquido fertilizado. Em 1867 é o microorganismo, de cuja pullulação resulta a doença do bicho de seda, epide- mia animal de consequências arruinadoras, que se aprendeu então a extinguir, discernindo-se-lhe a origem. De 1877 a 1881 é a demons- tração, estrictamente scientifica, do papel pathogenico dos microbios, coroada pelas experiencias sobre o bacillo do antraz. 10 A Pathologia Geral. A gotta de sangue carbunculoso, com que o immortal experi- mentador as realiza, veio salvar a nossa especie de males tremendos, pondo a pathologia animal ao serviço da pathologia humana, e cre- ando essa pathologia geral, que, do seu estado até então inconsisten- te e nebuloso, passou á situação de scieucia solidamente estabelecida em bases experimentaes. Nessa maravilhosa serie de revelações as experiencias funda- mentaes são as que, encerrando-se no terreno de uma doença das gallináceas e de uma doença do gado, alcançaram verdades e instituíram princípios, onde hoje se depara ao genero humano um dos seus ma- iores thesoiros. Estudando o parasyto da cólera das gallinhas, desco- bre Pasteur que esse microbio vae diminuindo em virulência, com o atravessar de culturas successivas, que se attenua, envelhecendo, e que o virus attenuado adquire a propriedade maravilhosa de tornar refrac- tario o animal innoculado. E ahi estão as noções essenciaes, renova- doras, a attenuação da virulência, a vaccinação e a immunidade, que senhoreiam, actualmente, a pathologia geral, e donde vão resultar, dia a dia, novos assombros. A nova sciencia corre a passos agigantados, generalizando, por meio de revelações successivas, a evidencia de que, na medicina ou na cirurgia, "a doença é o parasytismo". Pasteur encarna em si a gloria supre- ma nesta renovação. Delle emana, como disse Richet, toda a sciencia medica de hoje, do mesmo modo como a physiologia e a chimica emanaram de Lavoisier. A escola de Pasteur. Mas a epopea postoreana já não é somente Pasteur: é a sua doutrina em evolução, é a sua escola em actridade, são os seus dicipulos, que o genio do mestre, as suas lições, a sua disciplina fe- cundam, animam, eníhusiasmam. E' elle, ainda, quem, depois da vaccina contra a raiva, encontra o microbio da septicemia. Já a terrível diphte- ria patenteou o seu mysterio sinistro. Já se não ignora a pathogenia da peste e da febre amarella, da cólera e do impaludismo. Mas tudo são transformações, adaptações ou desenvolvimentos da idéa do grande originador, suas leis, sua influencia, seu ensino, seus processos te- chnicos, generalizados hoje na medicina, cirurgia e hygiene. Dahi procederam as ccnquisias capitaes da sciencia medica no século dp Pasteur. Delle deriva a revolução, com que Lister, desde 1867, transforma a cirurgia. Delle a serotherapia, cuja lei de pathologia geral e therapeutica experimental, devida a Carlos Richet, se tem rei- teradamente consolidado na lucta victoriosa contra a diphteria, contra o tétano, contra a peste. Delle o methodo precioso das vaccinações, preventivas ou curativas, assignalado pela sua acção, ora immunizante, ora medicatriz, contra o typho e a cólera morbus. 11 A Idéa conduz o mundo. Não era medico, e creou a nova medicina. Também cirurgião não era, e revolucionou a cirurgia. Tampouco se occupou jamais com a obstetrícia, e milhares de famílias lhe devem a salvação de milhares de mães. Veterinário não foi, igualmente; e delle recebeu a veteriná- ria as suas melhores conquistas. Nunca exerceu nem estudou a lavoi- ra; e as idéas, que semeou, abriram os mais fecundos sulcos na agri- cultura moderna. Toda essa obra colossal lhe saiu do laboratorio, onde a sua so- lidão estudiosa, a golpes de experiencias repetidas, triumphava da ignorância e incredulidade. O seu microscopio, as suas laminas e os seus tubos, "fúteis aos olhos de inculcados homens práticos", "en- cerravam em si a solução de questões de um interesse muito maior do que todos esses problemas ephêmeros, nos quaes se absorve a attenção dos que suppõem dirigir o mundo". Nunca se demonstrou de um modo mais luminoso que é a idéa quem conduz tudo: a intelli- gencia e a matéria, o bem e o mal, o homem e o destino humano. Valores economicos. Segundo um calculo de Huxley ha cerca de quarenta annos, "os descobrimentos de Pasteur, por si nós, chegariam, para cobrir os cinco bilhões do resgate de guerra, embolsados á Allemanha pela França". E, todavia, até então, se estava ainda no periodo, que se encerrou, de 1880 a 1881, com os triumphos iniciaes contra a cólera das gallinhas e a bacteridia carbunculosa, primeiras applicações da lei nova, segundo a qual o virus attenuado, em vez de transmittir a morte, assegura a immunidade. Vede aonde iriamos ter, sómente no campo dessas applicações á sericultura, á avicultura e á industria pe- cuária, se, calculando apenas as vantagens económicas dessas primei- ras conquistas pastoreanas, addicionassemos áquelle periodo o do dobro do tempo decorrido até hoje e aos beneficos logrados pela França os obtidos no resto do mundo. Novas conquistas experimentaes. Mas as leis da pathologia geral e da therapeutica experimental não só se desdobraram noutras leis, senão que, com rapidez, se dilataram, ainda, a um campo de acção immensamente maior, estendendo-se ás mais graves doenças humanas. Não só se veio a liquidar que a qua- lidade pathogenica dos micróbios está nos venenos por elles segrega- dos ; que as suas propriedades lethaes residem nas toxinas ; que as mortes de origem microbiana são mortes por intoxicação; não só se chegou a conhecer que certos virus fataes, depois de inoculados nos corpos vivos, se neutralizam com a inoculação dos mesmos virus, mi- tigados em condições especiaes ; que essa attenuação, só alcançada, no começo, por meio do ar ou do calor, se obtem, noutras doenças, me- diante a injecção dos líquidos contaminados no tecido nervoso de certos animaes; que, dest'arte, em taes casos, a evolução da moléstia attenua- 12 da, mais prestes que a da moléstia mortal, a previne, e annulla: não só se accrescentaram aos novos thesoiros do saber medico essas veri- ficações capitaes, inexgotaveis em resultados ulteriores, mas ainda se accrescentou ao rol dos males vencidos pela nova medicina uma série de conquistas portentosas. A medicação, preventiva ou therapeutica, de origem pastoreana, subjugou a raiva, o tétano, a meningite cerebro-espinal, e, entrando, com energia heroica, ao domínio das contagiões assoladoras, deu á sciencia o poder ultrahumano de varrer grandes regiões terrestres das endemias, que as desgraçavam, e abortar á nascença as mais ter- ríveis epidemias. Epidemias e guerras. Os estragos dessas invasões exterminadouras transcendiam, a perder de vista, os estragos da guerra. "Que são vinte batalhas", per- gunta Littré, "que vêm a montar vinte annos da mais encarniçada guerra, comparados ás desolações, que se causam desses flagellos im- mensos ? A cólera morbus deu morte a tantos homens quanto todas as guerras da revolução. Narra-se que a peste negra, no século deci- mo quarto, roubou vinte e cinco milhões de indivíduos só á Eu- ropa." Simão de Corvino, testemunha do que descreve, assegura que dessa calamidade apenas escaparam um terço dos habitantes, nos lo- gares por ella visitados. O numero dos sepultados excede o dos so- breviventes. Logares ha, em França, nos quaes, de vinte, mal se salvam duas pessoas. No Hotel Dieu expiram quinhentos doentes por dia. O papa, em Avinhão, benze as aguas do Rhódano, para servirem de sepulcrario aos corpos, que nos cemitérios já não cabem. Paris re- gista cincoenta, Londres cem mil óbitos. A Italia perde metade da sua população, e dos cento e cinco milhões de almas, que viviam na Europa, vinte e cinco milhões, pelo menos, desapparecem. E' ainda a mesma furia espantosa, que, séculos antes, sob o reinado de Justiniano, se diz haver arrebatado ao genero humano cem milhões de vidas. Pandemias. O nosso século já não conhece a antiga violência dessas pande- mias monstruosas. Mas a sua revivescência não seria impossível, se, presentemente, a sciencia não dispuzesse, para as conter, debellar ou prevenir totalmente, dos recursos maravilhosos, que ao mundo contem- porâneo deu a revolução iniciada pelo genio de Pasteur na etiologia e therapeutica das doenças de contagio e infecção. As nossas epidemias. Ainda existem, porém, contágios de acção pavorosa e moléstias despovoadoras, entre as quaes sobresaem as que, antes de Oswaldo Cruz, nos dizimavam, empobreciam, e infamavam, sem esperança de remedio capaz. 13 Doenças da guerra. Mas os benefícios, da orientação dada á medicina e á cirur- gia pelos princípios, que Pasteur estabeleceu, e pela escola, que fundou, não se limitaram a desarmar os grandes flagellos naturaes : desarma- ram, também, o grande flagello da maldade humana, o flagello dos fia- gellos, desarmaram a guerra de metade, talvez, dos seus inenarráveis horrores. Pelas moléstias de que é mãe ou nutriz, a guerra foiçava mais vidas humanas do que as que juncam os campos de batalha, e a pu- rulencia dos ferimentos militares condemnava á morte, as mais vezes, os que a não recebiam logo das armas inimigas. No cêrco de Sebas- topol, durante os derradeiros mezes de 1855, notabilizados pelas acções mais decisivas do assédio, o exercito francês teve 21.957 feridos, ao passo qre o numero dos acomettidos de febre ascendeu a 101.128. Durante a guerra sul-africana perdeu o exercito inglês, em victimas de doenças acautelaveis, entre as quaes, sobre todas, a febre typhoide, o dobro do numero, em que o desfalcaram as baixas occorridas nos combates. Na guerra dos Estados Unidos com a Hespanha essa mo- léstia abateu vinte mil homens; o que montava um sexto das forças americanas. Dahi a noção, ja ha muito comesinha entre os médicos, de que as doenças matavam muito mais gente, nas expedições militares, do que o fogo e o ferro do inimigo. Dahi o velho ditado inglês de que a doença, e não a guerra, é o coveiro dos soldados: "Disease, not battle, digs the soldier's grave." Guerra e medicina. Mas, depois que a medicina preventiva e a hygiene transformada sanearam os acampamentos e immunizaram com as inoculações preser- vativas o organismo dos combatentes, a guerra já não tem, nas infec- ções que d'antes com ella se multiplicavam, as formidáveis collabora- doras, cuja contribuição duplicava a colheita da morte. As medidas sanitarias adoptadas pela administração japonesa, de 1886 a 1893, chegaram a varrer inteiramente dos seus navios de guerra o beri-beri, que, antes disso, reduzia a cincoenta por cento a capacidade activa dos seus marinheiros; de sorte que, na hicta do Japão com a Rússia, não se deu nem um caso dessa temivel infecção, entre os vinte e cinco mil homens que lhe tripulavam as esquadras, e, naquella extraordinária campanha, as mortes provenientes de enfer- midades baixaram a um quarto das resultantes dos instrumentos de guerra. Na campanha actual, a mais medonha de toda a historia, a mortandade por doenças, nos exercitos da Grã Bretanha, da França e da Allemanha, desceu a proporções menores, sem comparação, do que na mais benigna das guerras anteriores; e o methodo preventivo das inoculações contra o typho baniu quasi de todo essa moléstia devas- tadora dentre as forças belligerantes, onde o soldado se sujeita com rigor á disciplina da hygiene. 14 A nova sciencia e a cirurgia. Ao mesmo tempo, a cirurgia se revoluciona sob a influencia das demonstrações de Pasteur, cujo tino infallivel oppõe as suas pes- quizas acerca do vibrião sceptico ás idéas vulgares sobre a pathcgenia da infecção purulenta. Mas, já antes, Lister, inspirando-se nas doutrinas do mestre dos mestres, ia buscar a origem dos estados inflammatorios, putrescentes e febris, devidos aos casos traumáticos da guerra, na presença de germens infecciosos, cuja existência se destróe mediante os processos da mais rigorosa desinfecção. Desde os seus primórdios este systema opera maravilhas. Os primeiros annos de experiencia habilitam o seu autor a consignar, de 1867 a 1869, a salvação de oitenta e cinco per cento na sua clinica de amputados. O asseio absoluto, a sequestração do contacto com o ar, o emprego de germicidas cada vez mais seguros introduzem na cirur- gia a antisepcia, e da antisepcia a levam á perfeição na asepcia. Graças a ella, vão-se multiplicando sem damno as mais arrojadas tentativas operatórias; os instrumentos cirúrgicos devassam, sem re- ceio, as mais recônditas vísceras do corpo humano, os seus mais deli- cados orgams vitaes; a purulencia, com a inflammação e a febre, des- apparecem dos hospitaes de sangue, e, ao terminar o século dezeno- ve, ha quem, sem exaggero, possa dizer que o listerismo, adaptação do pastoreanismo á cirurgia, salvou, em vidas humanas, nos cinco ou seis lustros anteriores, numero maior do que o das arrebatadas pela guerra em toda aquella centena de annos. Mas não é só no conflicto das armas e ao fragor dos canhões que o genero humano se utiliza dessas bênçãos. Cada mãe que transpõe illesa os riscos do puerperio. depois de render as graças a Deus, lhe dirigi- ria uma oração por esses bemfeitores ignorados, se soubesse quanto lhes deve. Elles emaciparam da morte a maternidade. As casas a esta con- sagradas eram, outr'ora, devastadas pelas infecções puerperaes. Pasteur descobriu a procedência dessas contaminações funestas, identificando o microbio, que as determina, e, mercê desse invento, um systema de cautelas protectoras, moldadas nas leis da medicina preventiva, acabou para sempre com esses desposorios sinistros do nascimento com a morte. Oswaldo e a era de Pasteur. Nascendo em 1872, abriu os olhos Oswaldo Cruz, por feliz coinci- dência, ao alvorecer da era de Pasteur, quando, no oriente do pensamento humano, sobre as alturas Inminosas da França, assomava esse astro de immensuravel grandeza, cujo signo ainda não cessou, nem cessará de presidir aos destinos da medicina; porque foi pela sua iniciativa, ou debaixo da sua influencia, que se acharam as leis da observação experimental adaptadas á sciencia das lesões da vida organica, seu caracter, sua origem, seus remedios, e esta alliança cabal da observa- ção com a experiencia é o estado normal e definitivo no conhecimen- to das verdades naturaes. 15 Primeiros passos de Oswaldo Cruz. Votado á medicina, que já era a profissão de seu pae, e em que se laureou doutor, ultimando, precisamente aos vinte annos de edade, o curso medico na Faculdade do Rio de Janeiro, a sua these inaugural sobre ''A vehiculação microbiana pelas aguas", trabalho notado com distinção pelos competentes, começa a dar a ver a propensão das sympathias intellectuaes do jovem medico para a microbiologia. Já então o papel pathogenico dos microbios está scientificamente averiguado pelas experiencias de Pasteur, que desde 1877 o deixaram absolutamente demonstrado; e de anno em anno se alarga o âmbito desses estudos com progressos cada vez mais deslumbrantes. Natural era que para ahi se sentisse attrahido o nosso futuro "refor- mador da medicina nacional", cujo pendor neste sentido entrara a re- velar-se desde os bancos da academia, onde, servindo como ajudante de interno de preparador no Instituto de Hygiene, deu á estampa o seu primeiro tentamen scientifico, estudando, no "Brasil Medico", "Um microbio das aguas putrefactas encontrado nas aguas de abasteci- mento da nossa cidade". Extincto, um anno após a sua graduação medica, o Instituto de Hygiene, a vocação, nascente, mas já notável, do joven bactereologis- ta o leva a estabelecer á sua custa um esboço de laboratorio, onde se entregue ás lucubrações, que o absorvem, e principiam a lhe caracte- rizar a individualidade scientifica aos olhos dos seus collegas. O meio, porém, não bastava á cultura das suas grandes facul- dades, em um ramo de estudos até então entre nós escassamente ex- plorados. O seu grande centro de attracção estava em Paris, entre a pleiade dos brilhantes investigadores suscitados pelas lições de Pasteur e por obra do seu espirito creador reunidos na instituição que pri- meiro delle recebeu o nome. Alli vae o novo alumno, ainda mal iniciado nos arcanos da grande sciencia, desalterar a sêde na matriz, que o mestre animara com o seu contacto, e deixara immortalizada pela herança da sua tradição. Du- rante mais de tres annos, de 1896 a 1899, a sua vida mergulha no Insti- tuto Pasteur, onde esse demorado tirocínio na companhia dos succes- sores immediatos do excelso iniciador da nova medicina lhe retempe- ra as qualidades nativas na austera disciplina daquelle núcleo de altas investigações experimentaes; e dalli regressa, documentando a proficiência adquirida com a sua memória sobre as alterações histoló- gicas num genero de envenenamento ainda não estudado a esse aspecto; producção essa já de valor considerável, que lhe abriu as portas da nossa Academia Nacional de Medicina. Oswaldo e a peste. No mesmo anno da sua volta ao Brasil começa o paiz a utili- zar os trabalhos do consummado bactereologista, em quem a madureza do saber tanto precede á dos annos. Já o seu nome entra a chamar a attenção do governo brasileiro, que o incumbe de ir estudar, ern 16 Santos, a peste, alli declarada, a traçar o plano de combate á formi- dável epidemia, cujos terrores principiam então a nos ameaçar. Oswaldo Cruz reconhece para logo o microbio de Yersin, certifica a presença da epidemia, e, num relatorio cabal, com o desembaraço, a presteza, a segurança de quem pisa em terreno conhecido, formula o systema de providencias, a que deve obedecer a debellação da temero- sa enfermidade. Mas a sua capacidade vae ser posta á prova em theatro maior. A peste, que em 1899 nos entrara o território por Santos, já em 1900 lavra nesta cidade. Vae-se crear, no Rio de Janeiro, o Instituto Sôro- íherapico, e a Directoria de Hygiene, comettida, nesse tempo, ao barão de Pedro Affonso, necessita de um profissional, a quem se entregue missão tão árdua quanto a de nacionalizar entre nós os meth('dos e processos da medicina pastoreana, encetando a producção, no Brasil, do sôro contra a peste. Oswaldo e o Instituto Pasteur. Não se acredita então que se possa encontrar o homem abalizado para inaugurar aqui essa melindrosa especialidade, senão no proprio instituto Pasteur. Quem o dirige, é Emilio Roux, o auxiliar de Pasteur nos estudos sobre a etiologia e a vaccina do carbúnculo, sobre a atte- nuação dos virus, sobre a prophilaxia da raiva, o descobridor, com Bhering, do sôro anti-diphterico, o collaborador inexgotavel de Metchnikov, de Vaillard, de Borrei e tantos outros em trabalhos ma- gistraes sobre a toxina do bacillo virgula e o sôro contra a cólera, sobre a serotherapia tetanica, sobre as injecções intra-cerebraes contra o tétano. Que especialista nos indicará essa autoridade tantas vezes consagrada? Escutae-lhe a resposta: "Entre o pessoal technico que tenho a honra de dirigir", diz Emilio Roux, "ninguém possue maior competência do que o dr. Oswaldo Cruz, cuja capacidade e idoneida- de scientificas pessoalmente conheci, durante o tempo em que lidou no nosso instituto." O Instituto Bactereologico. Está Oswaldo Cruz, pois, nomeado para fundar e reger o nosso instituto bacteriológico, nomeado aos vinte o oito annos de edade, e nomeado pelo Instituto Pasteur, por Emilio Roux, em quem delegara- mos a incumbência de o designar. O encargo não podia ser mais grave: erigir uma construcção exótica em chão de areia núa e raza. Nem cooperadores a que recorrer, nem elementos de que se utilizar. Cultores da bactereologia, ou das sciencias a ella annexas, quasi não os tinhamos. Curiosos ou dilettantes haveria no assumpto; mas quem de veras o conhecesse, não. Força era, desfarte, que de si mesmo ex- traísse tudo: a installação material, a direcção technica, a educação do pessoal. Esta, sobre todas, a mais embaraçosa parte da sua tarefa, a creação de todos os seus auxiliares, o inicial-os, adestral-os, consummal-os nos variados misteres de uma instituição como aquella, bem se avaliará quanto lhe vae custar. 17 Todo esse cargo, entretanto, esse peso todo, elle o tem, e não verga. Os collaboradores, de que necessitava, do seio lhe vão saindo cabaes no officio delicado. Respiraram a sua sciencia, a sua devoção, o seu enthusiasmo. Abrazaram-se no contagio da sua energia, do seu desinteresse, da sua tenacidade. Já com elle se parecem. Já o reflectem. Já o completam. Poder maravilhoso do mérito, quando os homens o não esbulham do logar, a que a Providencia o destinava. Louvado sejaes vós, Senhor, por terdes logrado, em caso tão grave, que tão es- tranho phenomeno se visse no Brasil! Desde a sua estreia o novo estabelecimento se assignala como um orgam de accentuado progresso. Não se limita a manipular satis- factoriamente os productos conhecidos. O seu sôro pestifugo desen- volve o mais energico poder curativo, rivalizando com os melhores do mundo. Combate contra a peste. Aqui e em várias outras cidades brasileiras a intensidade epide- mica era então assustadora. A proporção dos mortos para com os do- entes se elevara até a setenta per cento. O hospital da Jurujuba, onde se internavam os acomettidos, recebia, quotidiamente, trinta a quarenta enfermos em gravíssimo estado, e, desses, rarissimos se sal- vavam. Entra em acção o sôro, dobrando-lhe a força o processo clinico da sua applicação, modificado por Oswaldo, com as energicas inocula- ções endovenosas desse producto, por elle introduzidas na pratica hospita- lar. Logo após, a mortandade cae de sessenta per cento a dez e doze. Desce, assim, a um sexto da sua crueza anterior; resto este que, re- presentando os doentes, a quem se acudia tarde, teria de todo o ponto desapparecido, se a medicação os soccorresse a tempo. Nunca se viu improvisação de exito mais decisivo. O serviço que se monta quasi de um repente, desenvolve eíficacia inesperada. As modificações introduzidas pela technica allemã na vacina de Haffki- ne recebem agora, victoriosamente, a sua primeira applicação. O sôro de Yersin, redobrando em vigor mediante o recurso ás doses macissas por via intravenosa, arrebata á morte os casos mais desesperados- Tudo obra do arrojo de uma consciência segura do seu saber e inaba- lavel no seu querer. A desratização. A prophylaxia contra os germens fataes estende systematicamen- te as suas operações rigorosas. O piso terreo dos prédios se impermea- biliza. Os apparelhos saneadores desinçam da pragaria das cevandijas. os esgotos, os canos d'agua, os vãos inaccessiveis das casas. Em terra e no mar, dos porões e das galerias pluviaes se rechassa e exteimina a rataria, perseguida a cosso em toda a parte. Não ha nada mais nobre do que a sciencia, nada mais vil do que o rato. Mas ha vilezas capazes de acarretar horrores. Essa é das que mais nos repugnam. Mas, com ser uma rasteira e objectafamilia, cobre todo o globo, e, em mais de oitenta generos e no- 18 vecentas especies, enxameia pelo mundo. Viveu este a desprezal-a sempre. Eis senão quando nos vem as provas scientificas de que não adeviamoster em desdem e nojo, mas em medo e inimizade irreconciliá- vel. Dessa pestis inguinaria, que, emergindo, no meio da civilização chal- daica, entre o Tigre e o Euphrates, tem atravessado, até agora, debaixo de tantos nomes, todas as épocas, percorrendo todos os climas e todos os continentes, estampando a sua medonha passagem nas letras de todos os tempos, desde Thucydides até Bocacio, desde Bocacio até Manzoni, tragando vidas humanas ás dezenas de milhões,-das excursões dessa eterna e tenebrosa matadora chegou o homem, final- mente, a saber que os mensageiros e vehiculos são esses vilíssimos roedores, objecto ordinário da nossa indifferença, ou do nosso asco. Estava reservado ao nosso tempo reconhecer-lhes esta dignidade infernal, e contra elles pregar a cruzada scientifica da hygiene. A desratização passou a ser um programma. Com a necessidade vtio o neologismo, creação de Oswaldo Cruz, e, ao mesmo tempo, a reacção, que esse nome designava. Então se viu que a sciencia está sobranceira em poder a todos os demais poderes, inclusive o dessa especie roaz, ralé innumeravel, com que ainda se não encontrara adversário capaz de se medir. Bom era que o exemplo valesse, e o mundo se começasse um dia, de véras, a derratizar, noutras paragens, onde a raça insaciável dos murídeos, em generos e especies ainda por classificar, não medra menos vasta nem menos valentemente. Seria preciso extinguir, não só a peste, que se acaba, derratizando-se os esgotos, mas também a que se eliminará, quando se derratizarem as sociedades, as republicas e as nações contaminadas. O mesmo Hercules, porém, talvez se não atre- vesse a tanto, e Oswaldo Cruz, atrevendo-se ao a que se atreveu, não se abalançou a pouco. A epidemia tragica. Lembrae-vos do horror, que entre nós se generalizou com a apparição da peste indiana. Da minha memória não se desluzirá jamais o quadro trágico da morte de Francisco de Castro e o terror, que envolveu esta cidade, á noticia de que o oráculo da nossa medicina caíra fulminado pela tenebrosa doença. Dirieis que o horrendo mal, para retransir a todos com a impressão do seu poder irresistível, dei- xara cair o raio funesto sobre o mais sagrado cimo da sciencia brasi- leira. Temia-se, não sem razão, que a hospeda truculenta nunca mais se desquitasse do solo brasileiro. A tendência, nella habitual, de assen- tar vivenda, onde uma vez acampou, autorizava o receio de vermos perpetuada a sua odiosa visita e seriamente aggravado o mau nome do Brasil com a nacionalização de mais uma doença, das peiores que o homem conhece. 19 O vencedor da peste. Graças a Oswaldo Cruz, removêmos esse perigo, vencemos o mais sinistro dos contágios pestilentos, e o Brasil não se inscreveu no rol dos paizes pesteados. Para encher uma vida, não se ambicionaria maior colheita de bênçãos e gloria. Mas essa existência singular co- meçava, transbordando já em honra e benefícios inolvidáveis. A febre amarella. Outros, ainda maiores, lhe estava reservado por Deus espalhar entre os seus semelhantes, e prodigalizar á sua terra. Na campanha contra a peste era de rebater um assalto que se tratava. Outro co- mettimento ia seguir-se a esse, em que tinhamos, não de nos oppor ao esboço de uma invasão, mas de reagir contra uma conquista con- summada: o domínio do Brasil pela febre amarella. Endemia com surtos epidemicos quasi periodicamente renova- dos, ou epidemia periódica tendente a estabilizar-se com a perennida- de regular das endemias, como quer que se considere (e os autores divergem), reinava esse flagello sobre nós, extorquindo-nos todos os annos um tributo considerável de vidas, exacerbando-se de quando em quando em vastas erupções, e representando ao longe as maravi- lhas da nossa natureza como traiçoeiros encantamentos, armados por uma pérfida Circe ao incauto estrangeiro. Das praias africanas veio ao mundo a escravidão negra. Não se sabe se dalli também procedeu a febre amarella. No século XV era ella quem, nas costas de S. Domingos, fazia as honras da primei- ra hospedagem a Chiistovam Colombo, quando, alli desembarcando em 1493, perdeu a maior parte dos seus mareantes, levados pela que hoje se considera "a mais terrível das doenças epidemicas do nosso tempo". Já então senhoreava ella o Golfo do México e as grandes Antilhas, que, ainda hoje, compartem, com o Golfo de Guiné, a Serra Leôa, o Senegal, a triste distincção de entre si disputarem o titulo de berço de flagello, e constituírem os focos permanentes da sua irradia- ção perniciosa. Os nossos médicos contestavam que elle tivesse entre nós a con- tinuidade caracteristica das verdadeiras endemias, e por este sentir estão não poucas autoridades estrangeiras. Outra opinião, porém, adoptada por competências não somenos, pretende que a febre amarella reina- va com endemicidade nas costas do Brasil, donde a miude se propa- gava epidemicameute ás nações convisinhas. Paiz de febre amarella. Como quer que seja, embora o Brasil não estivesse na região xanthogenica, circumscripta, ao que parece, no litoral das aguas an- tillianas, entre as costas meridionaes da America do Norte e as costas septentrionaes da America do Sul, o facto é que, irrompendo entre nós desde 1849, o vómito negro nunca mais deixou de manchar com a sua nódoa atroz esta parte do continente americano. Nos mappas 20 organizados em 1877 pelo dr. Gama Lobo a estatística assignala, anno por anno, durante os vinte e oito anteriores, a presença incessante da invasão, que, num espaço de cincoenta e sete, até 1908, só nesta ci- dade matou 59.069 pessoas, roubando-nos, annualmente, aqui só, mais de mil vidas. Calculem-se, agora, as centenas de milhares, devoradas no resto do paiz. E' um mal, de que só a raça negra logra immunidade, raro desmentida apenas no curso das mais violentas epidemias, e em cujq obituário, nos centros onde avultava a immigração européa, a contri- buição das colonias estrangeiras subia a noventa e dois por cento sobre o total dos mortos. Conservadora do elemento africano, exter- minadora do elemento europeu, a praga amarella, negreira e xenó- phoba, atacava a existência da nação na sua medulla, na seiva regene- ratriz do bom sangue aryano, com que a corrente immigratoria nos vem depurar as veias da mestiçagem primitiva, e nos dava, aos olhos do mundo civilizado, os ares de um matadoiro da raça branca. Mas não é só aos nossos hospedes que ella ameaça; não são elles sós os que dizima. Por várias vezes, em 1857 e 1858, em 1860, em 1864, em 1869, o Brasil a transmite a Portugal; e, na America, de- claram os hygienistas que elle pode vir a converter-se em fóco de contaminação para o Rio da Prata, para o littoral do Pacifico, até para as Antilhas, além de a projectar, atravez do Atlântico, ora á costa Occidental africana, ora aos portos da Europa. Dorme ás vezes, tem pe- ríodos, mais ou menos largos, de calma, renascendo, porém, após essas remissões, intensa e brava. E quem sabe de que violência não seria susceptivel, nalguma das suas erupções inesperadas, se na Europa mesma, em climas não tão propícios ao seu desenvolvimento, epidemias suas houve assoladoras, como a do começo do século dezenove, que só na Espanha matou mais de cento e quarenta mil pessoas? Já não ha como escondermos o estygma desastroso, a sua per- petuidade, a sua irresgatabilidade. O convénio sanitario, negociado, sob a presidência Campos Salles, entre nós e a Republica Argen- tina, estipula as medidas, que, com o nosso consentimento, a devem assegurar, na estação quente, contra a infestação do contagio brasilei- ro. A nossa Academia de Medicina protesta; os nossos médicos se in- surgem. Mas a patriótica indignação não occulta a verdade. O mundcf vê no Brasil um paiz de febre amarella. O governo brasileiro o con- fessa. A medicina brasileira não o pode negar. "Se decia que ir a Rio de Janero era suicidar-se" é o nosso cônsul no Uruguay quem, agora mesmo, o attesta. Da etiopathogenia do mal ainda nada se sabe. A prophilaxia official debate-se quasi toda na rotina das quarentenas e desinfecções. Tudo, ou quasi tudo são palliativos, recursos illusorios do antigo empirismo. Ninguém acredita na extirpação, pela qual todos anceiam desesperados. Quem é este Oswaldo? Mas ahi vem, com a presidência Rodrigues Alves, inaugurada em novembro de 1902, uma administração, que, entre os objectos ca- 21 pitaes do seu programma, encarece o saneamento do Rio de Janeiro. O ministro do interior, o dr. Joaquim Seabra, á cata de um director para a saúde publica, offerece o cargo ao dr. Salles Guerra, que o não acceita, e tem a inspiração de indicar Oswaldo Cruz. O ministro o não conhecia. - "Quem é este Oswaldo Cruz?" Não era difficil mostrar-lho. As informações, de tão autorizada origem, convencem o ministro, que, por sua vez, submette a proposta ao chefe do Estado. Nova pergunta Eile também o desconhece.-"Mas quem vem a ser este Oswaldo Cruz?" O seu secretario lho diz, e o presidente acolhe, convencido, o nome proposto. Não vos admireis de que os nossos homens de sciencia nem sempre sejam conhecidos aos nossos homens de Estado. "Quem é Cuvier?" contam haver perguntado Luiz Felippe, quando lhe deram no- ticia da morte do celebre naturalista, cujo genio creara a anatomia com- parada e a paleontologia. "Monsieur Cuvier?", respondeu o cortezão de Sua Magestade. "Creio que é um desses senhores empregados no Jardim das Plantas." Napoleão III dizem que também perguntou quem era Claude Bernard, quando um professor allemão lhe sollicitava a honra de ser apresentado ao grande medico francês. "Claude, Bernard? Quem é Claude Bernard?" - "É", responderam-lhe, "é o sabio mais eminente nos domínios de vossa Magestade." Oswaldo Cruz não era Cuvier, nem Claude Bernard. Mas já merecera a menção honrosa de Emilio Roux, e carregava os trophéus da lucta vitoriosa contra a peste indiana. Foi, provavelmente, com estes documentos que o seu collega persuadiu o ministro, e o minis- tro o presidente de que esse era o homern da opportunidade. Esse homem tinha o senso da sua vocação, e esta lhe não con- sentiu hesitar. Acceitou a commissão, e se comprometteu, se lhe fa- cultassem as medidas necessárias, a extinguir a febre amarella, no Rio de Janeiro, em tres annos. O de 1903, em que se estipulou esse pacto, deve inscrever-se em caracteres immortaes na historia do Brasil como um dos mais áureos fastos desta nacionalidade. Predestinação. Decididamente uma éspecie de predestinação acompanha esta existência privilegiada. Pela segunda vez, na carreira de Oswaldo Cruz, se desmentem os nossos hábitos administrativos e governativos, provendo-se num cargo relevante do Estado, não a mediocridade apadri- nhada, mas o merecimento notável. Em terra onde, nos governos, o cumprimento dos deveres elementares assume grandezas de verdadeiro heroísmo, não ha medir louvores ao ministro e ao presidente, que, de modo tão extraordinário, souberam acertar em occasião de tão rara gravidade. Quando mesmo no resto da sua administração não houvera senão erros, o preço deste serviço e suas consequências os desconta- ria todos, ainda com margem. 22 O compromisso. Inspirava-se o arrojo de Oswaldo Cruz, precisando termo tão breve á conclusão da sua tarefa, no exemplo da victoria, que logrou, contra o mesmo flagello, na ilha de Cuba, a hygiene americana, duran- te a primeira intervenção dos Estados Unidos. EUe mesmo o declara, quando, no anno inicial do seu exercício, dando conta dos seus primeiros actos ao ministério do interior, lhe diz que resolvera imprimir amplo desen- volvimento á prophilaxia especifica da febre amarella, acommodando este serviço á orientação adoptada em Cuba pelos médicos america- nos. A extincção da febre amarella, dizia elle, nesse papel memorá- vel, é questão "resolvida." O problema está "posto em equação por experiencias decisivas". "A solução já foi obtida pelos americanos em Cuba". Nada mais resta, senão seguir-lhes as pisadas "áquelles, que, em cerca de dois annos, extirparam dalli uma epidemia, cujo açoite, ha muitos séculos, dizimava aquella população." "Não se trata de um ensaio; não é uma experiencia"; trata-se "de um factoconsum- mado", da "execução de um plano", que, seguido outra vez, "dará, fatalmente, o mesmo resultado". E' "uma idéa victoriosa", que já passou "de hypothese" a "facto positivo". "O que os americanos con- seguiram, não ha razão para que não consigamos." Dêem-nos, pois, os recursos materiaes: "dinheiro e leis, que garantam a execução das medidas", e, necessariamente, iremos ter "ao mesmo fim". Numa pa- lavra : "A febre amarella cessará no Rio de Janeiro, desde que o Con- gresso forneça os meios, que delle dependem. Disponha o governo do dinheiro e das leis que julga necessárias, e a febre amarella, no R>o, será, em breve, um mytho." Tal a fé inabalavel e a segurança absoluta, com que Oswaldo advoga o seu programma de administração, vasado em moldes exemplares, desde o momento do seu accesso ao temeroso posto, em março de 1903. E' que não se tracta de velleidades ou imposturas, ageitadas, sem base, a uma improvisação apparatosa, mas de convicções robustas, maduras e definitivas. Quando o chamaram, não lhe passava pela mente possibilidade tal. Mas o seu amor da sciencia e da patria não havia mister'de outros incentivos, para que esses estudos o attraíssem e dominassem. Entre os seus collegas não era menos inesperada a nomeação; mas isso porque não são actos dessa natureza, actos inspirados unicamen- te no bem publico, os que, em geral, entre nós, se esperam dos go- vernos. A classe medica já o conhece, já o admira, já o designa como o especialista distincto, entre todos os nossos, no assumpto. No seio delia uma corrente de sympathia lhe saúda a escolha. Não lhe é des- conhecido o cultor apaixonado e indefesso de um ramo da medicina tão exigente e severo nos seus requisitos, o austero trabalhador, que, desde a sua volta da Europa, abriu, com as portas do seu laboratorio, rigorosamente montado, as da sua sciencia solidamente apparelhada a quantos o buscam. Estes não são poucos; são todos os que aqui tem créditos de autoridade nessa bacteriologia, cuja sciencia mal hauri- 23 da então pelos outros nos livros, só elle bebeu e traz viva das grandes matrizes européas. Muito antes de assumir a direcção da saúde publica, já exercia Oswaldo uma propaganda ardente das idéas da prophylaxia america- na, e lhe grangeava proselytos entre os moços de então, hoje abalizados clínicos, ou mestres consummados, em cujas reminiscenciss vibra e reluz ainda o sulco da impressão daquellas convicções acendradas no fóco interior de uma consciência acêsa no lume da verdade e abrigada do erro pela solidez de uma disciplina severa. Não é que entre os médicos brasileiros não se conhecessem as theses essenciaes da experimentação havanêsa: a proveniência micro- biana da febre amarella; a incommunicabilidade immediaia do seu germen entre homem e homem; a sua evolução em um organismo in- termédio; a sua transmissão exclusiva por esse incubador e a resi- dência especifica desta funcção num insecto, o stegomya fasciata, o mosquito rajado. Theoricamente, já não eram, talvez, de todo novidade essas noções. Praticamente, parece que ellas haviam, até certo ponto, actuado, nos últimos annos, em algumas providencias da prophylaxia adminis- trativa, manietada, paralyzada e esterilizada então, nas suas melhores intenções e nas suas resoluções melhores, pela dualidade, que a scindia em hygiene federal e hygiene municipal, condemnando aquelle serviço, pelas divergências, pelos conflictos, pelos antagonismos dahi resultantes, a uma verdadeira anarchia, de que deu cabo Oswaldo Cruz, consummando assim um dos mais inestimáveis melhoramentos da sua administração incomparável. Mas ninguém aprofundara esses conhecimentos, que, theoricos, livrêscos, indecisos como se achavam, não podiam inspirar resolu- ções, nem determmar actos, e, não tendo recebido a devida tempera na technica escrupulosa, na sábia disciplina, na cultura experimental da nova escola, eram incapazes de modelar um plano de acção, orga- nizar um systema e conduzir uma campanha. Esta precisava de assu- mir vida, precisava de encarnar, no mais estricto rigor da palavra, em um homem, todo elle feito dessa convicção e rigorosamente impul- sado a realizal-a pela chamma interior, pela indestructivel energia das vocações apostolares. Oswaldo Cruz era o eleito, que Deus saturara dessa energia, e que se sentia arder nessa chamma, quando, senhor do problema em todos os seus elementos, em todas as suas soluções, annunciou com a mais caihegorica certeza a immediata abolição da febre amarella, pelo systema com que a hygiene americana a banira de Cuba. A experiencia de Cuba. Essa orientação, alli estabelecida e seguida, em 1901, sob a administração bemfazeja do governador Wood, estribava em tres normas cardeaes: extinguir os agentes vehiculadores do vírus; preve- nir contaminações ulteriores, insulando os doentes; preservar os sãos da infecção, propagada pelos seus transmissores. A execução dessas 24 regras, encetada, em março de 1901, com as providencias essenciaes á sua observância rigorosa, deu em resultado não se assignalar mais, naquella ilha, desde esse anno, um só óbito da epidemia, que até ao começo delle a devastava. As experiencias do medico norte-americano Finlay e da expedi- ção francesa comettida a Marchoux e Simond haviam determinado, por modo exactc, o mecanismo de transmissão da febre amarella. Antes disso Sanarelli, em Montevideo e no Rio de Janeiro, havia insulado um bacillo caracteristico, que reproduzia, no conceito do sabio italiano, quando inoculado experimentalmente em animaes, os sympto- mas habituaes e as lesões anatómicas da febre amarella. Verificações posteriores, porém, negaram áquelle bacillo o papel especifico, que lhe attribuira o seu descobridor. Mas o que, sobre tudo, inundou em luz a etiologia do typho americano, foi descobrir-se o papel representado no desenvolvimento do germen e suas qualidades malignas pelo seu transmissor. E' o que já se entrevira desde 1848, mas só acabou de se averiguar cerca de quarenta ou cincoenta annos mais tarde, após successivos estudos, nas Antilhas, em Vera Cruz, em São Paulo, no Rio de Janeiro, coroados, aqui, pelos de Marchoux, Salimbeni e Simond; chegando-se, então, á evidencia de que um insecto hemóphago, o culex fasciatus, incubando no seu proprio organismo o germen amarillico, o communica do indivíduo doente ao indivíduo são, na plenitude e madureza da sua perniciosa actividade. Essa theoria do mosquito, reputada hoje "uma das maiores con- quistas da hygiene prática nos tempos modernos", é a que, no pri- meiro anno do século actual, guia a campanha das autoridades do sarviço sanitario militar dos Estados Unidos, em Cuba, contra o stegomya. E de tal maneira esse rumo corresponde á verdade na ordem real na natureza, que, inaugurada a exterminação do perigoso insecto em fevereiro, logo em março, abril, maio a estatística regista apenas dois, tres, quatro casos, expirando a febre, então, por uma vez, até hoje. Os obstáculos. Oswaldo Cruz confiava tranquillo na eloquência dessa experi- mentação capital, corroborada pela do Panamá. Mas aqui, numa im- mensa metrópole de cerca de um milhão de habitantes, onde a tenaz endemia enraizara a sua infecção havia sessenta annos, o empreendi- mento ia arrostar-se com embaraços incomparavelmente maiores; tanto mais quanto, em Havana e na America Central, estava, real ou virtualmente, em acção a lei marcial, ao passo que, entre nós, as con- dições normaes da legalidade e da justiça apenas deixavam ás autori- dades sanitarias um arbítrio limitado pelas garantias individuaes. Basta considerar na topographia desta cidade, com a sua agglo- meração ae montanhas e valles numa extensão de mais de mil e cem kilometros, com os seus suburbios enormes, com a sua viciosa cons- trucção, com a sua natureza tropical, e nos costumes da gente que a 25 povôa, em certas camadas sociaes, para medir o atrevimento da em- preitada a prazo curto e certo, em que se empenha o ousado hygienis- ta. A tormenta. Foram mares verdes, como diziam os nossos antigos navegado- res, e ceus de tormenta assanhada os a que se aventurou o bravo domador da morte, o vencedor brilhante de uma peste, agora a cami- nho da victoria sobre outra. A reacção dos interesses, ignorâncias e preconceitos não conhece limites. No paiz clássico da resignação e docilidade, no paraizo da servilidade e indifferença, ronca, desfeita, a procella em bravos estampidos, revolvendo o povo, sacudindo o par- lamento, abalando o elemento militar. A lei a que está ligada a sorte do projecto de saneamento, combatida com indignação, desabrimento e fanatismo, cae no odio das camadas menos cultas, indigitada aos rancores populares como o Codigo de Torturas. Era um desses temporaes da energia civica, do amor ás liberdades individuaes, do zelo pela dignidade huma- na, que nas crises nacionaes aqui sempre se invocam de balde, mas que, neste momento, por singular ironia das coisas, desencadeia os seus sopros regeneradores contra o saneamento scientifico da cidade. O caso era de esmorecer os espíritos mais convencidas, e assustar as temperas mais rijas. A imprensa e a tribuna parecem conspiradas contra as audacias da empresa. No proprio seio do governo, a ella sinceramente associado, mas abalado pela violência desses contrastes, se estimaria que o jovem reformador attenue os seus methodos, e modere o seu zelo. Até entre os médicos e no seio dos seus alumnos já se não encobrem apprehensões de que as circunstancias do meio venham a burlar, na pratica, o systema das medidas combinadas, não obstante a excellencia dos princípios, onde estriba, e o valor dos pre- cedentes, que allega. Nem quebrar, nem torcer. Alma, porém, de "antes quebrar que torcer", ou, antes, de não quebrar, nem torcer, Oswaldo Cruz não torce, nem quebra. A doçura do seu semblante, dos seus sentimentos e do seu tracto envolve um coração intrépido, uma vontade aceirada como a lamina do montanle de um capitão de cruzadas. Ceder, não cede. Transigir, não transige. Recuar, não recua. Temer, não teme. Confia, persiste, assegura e quer. Um triennio lhe basta; e, se dentro nesse breve espaço não estiver desempenhada com honra a palavra da sciencia, a todos os castigos se offerece: "Arrastem-no pelas ruas, entregando-o aos insultos da multidão como o mais vil dos imposto- res, e o enforquem numa praça." Estas palavras exaltadas não lhe exaggeram a situação, antes pintam com exactas côres a atmosphera da época, os perigos reaes do commetimento e as qualidades heroicas da indole, que o esposa com serena galhardia. Uma convicção talhada, assim, na rocha, não ha 26 marêtas, que não desfaça, nem opposições, que não vença. Esta con- fiança, esta placidez, esta bravura desarma as objecções, as dúvidas e os medos. O governo, convencido, já lhe não tolhe a bemfazeja dicta- dura. Extincção da febre amarella. A experiencia de Havana reproduz-se, com toda a sua severida- de, no Rio de Janeiro, melhorada no trabalho de adaptação dos pro- cessos prophilaticos ás novas condições ambientes, aos elementos da epidemia peculiares á nossa terra, e com o mesmo desenlace: a praga declina, e se esvae para sempre. Em 1902, não se tendo aberto ainda a campanha sanitaria, o obituário da febre amarella subia a 984 casos. Encetada sanificação em 1903, já nesse anno descendem os obitos a 584; em 1904 baixam a 589; reduzem-se, em 1906 a 39; em 1908 não passam de 4; e dahi avante não ha mais rastro da terrível doença. A descensão de 984 em 1902 a 39 em 1906 importa, virtualmen- te, no cumprimento á risca do formidável compromisso. No contraste destes 39 com aquelles 938 e na celeridade prodigiosa do curso des- cendente entre o anno de 1903 e o de 1906 está claramente desenhada a extincção total, que apenas em dois annos mais de baixa quasi a zero acaba de se consummar. Antes e depois. O que era a capital brasileira antes da obra de Oswaldo Cruz, o que é depois desta, dois factos inolvidáveis o mostram numa anti- these da mais eloquente solemnidade. Em outubro de 1895 aporta ao Rio de Janeiro o caça-torpedeiras Lombardia, da marinha real italiana, elegendo surgidoiro nas nossas aguas, a cerca de oitocentos metros do litoral. Dois mezes mais tarde, em janeiro do anno subsequente, adoece de febre amarella um dos seus tripulantes, dahi a dias outro, no seguinte mais"tres, posterior- mente quinze. Aos 11 de fevereiro enferma em Petropolis o comman- dante, expirando cinco dias depois, e o navio contaminado, levantando ferro deste ancoradoiro, faz-se na volta da Ilha Grande, onde poja em terra toda a gente de bordo, que se recolhe ao lazareto. Mas o toque da infecção, que está com elles, não os poupa. Os golpes vão-se amiudando, cada vez mais numerosos, de modo que, aos 16 de março, os doentes são já duzentos e quarenta, e, destes, cento e trinta e quatro mortos. Na deserta nave apenas estão de guarda vinte homens, no começo incólumes, revezando-se a custo no serviço. Mas já em 24 de fevereiro só ha onze indemnes, dos quaes cinco, in- clusive o medico, vêm perder a vida. Tremenda hecatombe, em que, de uma guarnição de trezentos e quarenta pessoas, mal se salvam cento e seis, e, destas, apenas sete evitam o contagio homicida. Correm annos, não muitos, quando o nosso porto recebe a grande esquadra norte-americana, que perlongando as nossas costas, de rumo ao Japão, aqui surge, e dá fundo. Dezoito mil homens abriga a so- 27 berba frota no bojo dos seus navios. Reina em cheio o verão, e, com eile, o calor tropical de janeiro, lembrando a época, ainda tão visinha, em que esta era a quadra certa da visita fatal. Mas os marinheiros americancs demandam sem sobresalto a nossa bahia, dormem tran- quillos no nosso fundeadoiro, desembarcam na grande cidade, curiosos das suas maravilhas, seguros na hospedagem com que ella os acolhe. Oswaldo Cruz asseverara, em Washington, ao presidente Roo- sevelt que a metrópole brasileira estava saneada, e que as forças navaes americanas, aqui, não correriam o menor risco. Não correram. A grande armada entrou e saiu illesa, atravez das intensas calmas do estio. Nem um caso de febre amarella nesses dezoito mil homens, entre os quaes bem se pode avaliar o horror do morticínio, em que se não exerceria, annos antes, a tremenda malfeitora, que, dos duzentos e quarenta navegantes do Lombardia, sepultara cento e trinta e quatro. Oswaldo e Cayrú. Já houve quem o notasse. Mas convém que hoje o rememore- mos. A obra de Oswaldo Cruz completa, se não restaura, a do Vis- conde de Cayrú. O veto da febre amarella derogava o acto do minis- tro da coroa que descerrara ao mundo as portas marítimas do Brasil. Não basta estabelecer por decreto imperatorio a abertura dos portos de uma nação. Se nas suas entradas marítimas uma calamidade exterminadora aguarda o forasteiro, para o sobresaltear, e carneal-o, não são portos o que alli se lhe depara, mas emboscadas e matadeiros. Desde 1849 o accesso naval ás nossas capitaes não estava senão entreaberto. A especie de dragão, muito mais formidável do que os monstros mythicos, que dahi em deante as guarda, mal lhes deixa semiaberto o ingresso, debaixo da comminação de morte. Só no come- ço do século vinte é que a salubrificação do Rio de Janeiro, obra do nosso grande hygienista, pantenteia realmente este paiz ao commercio dos outros. Uma parcella do débito a Oswaldo. Quando os Estados Unidos, em uma epidemia de typho ameri- cano que por elles grassou no derradeiro quartel do século dezenove, perderam, levados por ella, vinte mil homens, dentre cento e vinte mil acomnietidos, o congresso nacional, estimando em valores pecuniários a somma do damno infligido á republica, o orçou em duzentos milhões de dollars, ou cerca de oitocentos a novecentos mil contos em nossa moeda. Ora, adoptada para o cálculo a mesma base de preço, tendo-nos morrido, só aqui no Rio, desse mal, em cincoenta e sete annos, perto de sessenta mil doentes, havemos de concluir, segundo a estimativa americana, que o Brasil, no curso desse periodo, só nesta cidade, perdeu, em vidas humanas, sorvidas na voragem da febre amarella, não menos de dois milhões de contos de réis. Este o contingente apenas desta capital. Addicionae-lhe, agora, as parcellas relativas a todas as outras no immenso litoral do Norte 28 brasileiro, desde o Amazonas até ao Espirito Santo, pelo interior desses Estados, e, no sul, através dos mais populosos, como S. Paulo, na metrópole estadual, em Santos, em Campinas; addicionae-lhe, essas parcellas e apurae onde não irá parar o total dos milhões de contos de réis, que a devoradora calamidade nos terá tragado, só em existên- cias humanas immoladas nas suas matanças. Isto posto, lançae os olhos á vossa conta corrente com este bemfeitor da patria, metei a mão na consciência, escutae em quanto vos ella está supputando o nosso débito a esta memória abençoada, considerae se o poderemos jamais resgatar; e, na insolvência a que deante delia estamos condemnados, vede se, ao menos, do nosso re- conhecimento lhe saberemos erigir um padrão, não banal, não mudo, não regelado, não morto, como os mármores, os bronzes, as inscripções lapidares, mas traduzido em benevolencia, em ternura, em carinho para com os restos srpérstites da sua vida, os pedaços sobreviventes de sua alma, os caros destroços do seu coração, mutilados e esparsos em torno da sua sepultura. Ainda a febre amarella. Nem é, porém, sómente no Rio de Janeiro que elle se mede e arca victoriosamente com a febre amarella. O milagre da capital dentro em breve se renova no Pará, onde o nosso triumphador incruento, convidado pelo governo estadual a traçar o plano de extincção da ma- ligna enfermidade, se obriga a extirpal-a em um anno, e em um anno a deixa extirpada. Ainda em 1900 o Pará era urna das regiões, onde os experi- mentadores estrangeiros iam estudar esse flagello. Nesse anno a Esco- la de Medicina Tropical de Liverpool (Liverpool School of Tropical Medicine) mandava áquelle Estado, para examinar a doença no seu meio natural, o dr. Durham e o dr. Walter Myers, ambos os quaes a contraíram, faliecendo o ultimo dos dois em janeiro do outro anno. Dahi a dez esse lanço do território brasileito já não era theatro das proezas dessa desgraça, e, se sábios do outro continente alli viessem a ter, seria para voltarem, attestando a efficacia eliminadora do sa- neamento pelos methodos irresistíveis da medicina moderna. O caso do Panamá. A ella se deve a construcção do canal de Panamá, a que já se dera de mão como irrealizável. Irrealizável, não porque as areias mo- vediças de um deserto, ou as serras de uma cordilheira embargassem o passo á engenharia, nem ainda porque os habitantes lhe creassem embaraços, ou exercitos inimigos occupassem o terreno, mas porque, havia quatro séculos, "o isthmo de Panamá se reputava o tumulo dos brancos". A terrível coveira, complacente amiga dos negros e mestiços, Já estava de atalaia, com o vómito preto e o impaludismo. Espanhóes, franceses, inglezes, attraídos pela [gigantesca empreza de Lesseps, morriam como moscas. Calcula-se que, já antes de a largar 29 elle por mão, "cada metro cubico de terra acolá excavado representava o sacrifício de uma vida humana". A dizima cobrada pela morte era de vinte existências, no minimo, sobre cada cem trabalhadores. Ainda se não sabia que os agentes de todas essas devastações eram dois microbios e dois insectos. O monstro e o microbio Os antigos encarnavam em sanhudos ou descompassados monstros o terror da origem mysteriosa de certas endemias, ligadas ás condições geographicas ou meteóricas da natureza. Em um pantano, de cujas exhalações a pestilência envenena as praias do golfo de Argos, habita a Hydra de Lerna, filha de Typhão e Echidna. No côvo das fundas valladas onde as aguas da primavera, mal escoadas, se enchar- cam e apodrentam em largos alagadiços, vivem aninhadas as aves monstruosas de Stymphalo, genero de harpias que se pascem e repas- tam de carne humana. Mas não eram nem os sanguinários abutres de Stymphalo, nem as truculentas cabeças da Hydra de Lerna as que Héracles encontraria hoje nos aguaçaes e encharcadiços do Panamá, das índias Occidentaes ou do Amazonas. Hércules teria de trocar a clava e as setas pelo microscopio e pelos insecticidas. Em vez de frechar harpias e esmagar serpentes, a sua tarefa seria destruir larvas, e exterminar insectos. Madeira e Mamoré. O terror do disforme substituiu-se pelo terror do invisível. O infusorio tomou o logar do monstro, o mosquito o do dragão. Não são os seus exercitos os que o governo dos Estados Unidos manda contra a infecção xanthogenica e a infecção malarica do Panamá : são as suas commissões de hygienistas. Não são os nossos generaes os que o governo brasileiro envia a libertar do inimigo, que as tornava inhabitaveis, as margens do Madeira e Mamoré: é Oswaldo Cruz. Os operários occupados na construcção da via férrea Madeira- Mamoré pereciam como os empregados no Panamá ou nas Antilhas, espanholas e inglesas, antes de saneadas. A' violência da mortandade, ao clamor dos governos estrangeiros, á ruina da empresa, paialysada na execução das suas obras, acordaram os estímulos do interesse, se não os da humanidade. A malaria. A condição pantanosa daquellas regiões denunciava o impaludismo. A sciencia já não ignorava a natureza paiasitaria das febres palustres. Já se lhe desvendara a etiologia e o mecanismo do seu processo, analogo ao da febre amarella: um hematosoario, o parasyta de Laveran, achado no sangue dos febricitantes, e um intermediário es- pecial, hospedeiro e vehiculo seu, um culicídeo, um anophelineo, nada mais que um diminutivo da mosca, um mosquito maligno, incumbido, gela natureza, da sucção, da incubação, da transmissão do germen 30 infeccioso, que extrae do individuo contaminado, paiaolevar ao incon- taminado. A divulgação desta genesis, cuidadosamente escondida, entre os mais minúsculos, mas não menos prodigiosos arcanos do universo, á nossa visão desarmada, veio a ser um dos dois elementos, graças aos quaes a sciencia vingou dar a certas regiões do mundo a condição de habitabilidade, que lhes parecia negada por um contraste inexpiicavel com as amenidades, as delicias e as bellezas, de que as dotara o Creador. Ismaília. Ao excavar o canal de Suez, elegeu Lesseps, a meia jornada entre Suez e Porto Said, na orilha do lago Timsah, um sitio pri- vilegiado, onde sonhava erigir a capital daquella zona. De um lado a bacia deliciosa dessas aguas, onde as do Mediterrâneo se vão fundir com as do mar Vermelho; do outro, a solidão absoluta do deserto. O deserto immaculado e o mar incorruptível. Garantias de salubridade mais seguras não se creria que pudesse haver. A cidade, porém, que surgira entre esperanças, começa abruptamente a decair. Sangrara-se o Nilo, para lhe dar, em abundancia, a agua de beber. As sobras desentranham a areia em vegetação, es- maltam de jardins a paisagem. Ismaília sorri na sua frescura e ferti- lidade como um oásis. Mas do liquido que a rega, das humidades que lhe abeberam o solo, se elabora e desprende a subtil invasão, que a exhaure. E' uma cidade veletudinaria a cidade verdejante. Valetudinaria e morta, lentamente morta de paludismo. Não lhe valem as honras de porto central, que a sua situação e o seu destino traçado lhe attribuem. O commercio a evita, os habitantes a evadem. O medico da Companhia, no anno de 1900, encontra, entre os seus empregados, 2.250 casos de envenenamento palustre e 2.519 numa população total de sete a oito mil habitantes. "Ils n'en mouraient pas toas, mais teus étaient frappés." Entram os hygienistas com empenho á lida. Tudo era dar com os insectos suspeitos. Ao cair-lhes nas mãos o primeiro anophelio, já têm a campanha por vencida. Quando as tamareiras carregam, a doçura dos seus fructos as cobre de enxames desses dípteros, tão gulosos de assucar quanto de sangue humano. Por isso a sasão das tamaras é a quadra da recrudecencia da endemia. Não ha que hesitar. A prophilaxia defensiva com a prophilaxia ofensiva assentam as suas baterias, e logo no anno de 1901, no mesmo em que rompem as hostilidades, c inimigo bate em súbita re- tirada, a malária se reduz a 1.550 casos, para baixar depois, successiva e acceleradamente, de sorte que, tres annos mais tarde, apenas dois casos restam, esses de reincidentes; e de reincidências são todos os que, d'ahi em deante, com a mais extrema raridade se produzem. A desapparição do impaludismo já é facto consurnmado. Em alguns mezes Ismaília se emancipa da endemia, que a matava. Em dois a tres annos o impaludismo primário se extingue de todo em todo, o im- paludismo chronico se reduz a um mínimo, quasi nullo, e tende a cessar. 31 Não pode haver lição mais concludente: "um árido recanto do deserto, que se abastece de agua doce em demasia; violenta explosão de uma epidemia malarica; campanha methodica de prophylaxia; extincção total do impaludismo." Triumpho e sacrifício. A intervenção de Oswaldo Cruz nas regiões amazonicas do Madeira e do Mamoré não corre menos triumphalmente. Já então lhe minam a saude as lesões implacáveis, que tão cedo o arrebataram depois á sciencia e a humanidade. O coração e os rins, abalados peto excesso dos trabalhos, pela pressão das responsabilidades, pela amargura dos dissabores na sua tempestuosa campanha contra a febre amarella, já não bastam ás exigências do seu papel na economia da vida. As Columnas de Hércules do organismo já lhe não asseguram defesa cabal. Mas o intrépido heroe do saneamento do Brasil não se poupa, não leva em conta dias nem annos da sua existência. Sabe que delia não lhe resta muito; mas não a quer para seu goso: dá-a toda ao bem dos seus similhantes. Debalde o tentam deter: nem os conselhos dos amigos, nem os sobresaltos, caricias e rogos da esposa e dos filhos o rendem. E' um desses bravos, já sangrados na batalha, a quem o aspecto das próprias feridas e o sentimento da morte imminente dobram ainda o ardor para o combate. Porta-estandarte de uma era de regeneração, havia de fincar a sua bandeira no mais elevado tôpo, a que pudesse chegar, dos destroços do mal, bem alta, bem erecta, bem visível ao longe por toda a extensão do futuro. Não lhe bastava lutar contra a malaria aqui, onde a energia do invencível hygienista, de mil e duzentos obitos por febre palustre em 1902, a reduz, progressivamente, a cento e setenta e seis em 1911. Se o chamam a paragens longínquas, inhospitas e fataes, onde quer que seja, não lhe importam os riscos, irá levar o soccorro, estabelecer o remedio, e deixar o exemplo. O problema do impaludismo. A lição deste sacrifício grande e desta victoria ainda maior era necessária; e ninguém a podia dar com tanta vantagem, não a podendo ninguém dar com tanta autoridade. Porquanto um dos sérios pro- blemas do nosso futuro ha-de ser, ainda, a malaria, que, grave no Brasil, se diffunde á larga pelos nossos valles e costas, revestindo formas estranhas em certas zonas, como, bem perto de nós, a dessa baixada fecundíssima do Rio de Janeiro, a do Madeira, as do Ama- zonas, especialmente a do Acre, onde as suas variedades vão até ao beri-beri fulminante, e os seus parasytos, capazes de resistência ao an- tídoto, até agora inconcusso, da quinina, parecem ter o privilegio de se immunizarem á acção delle por uma verdadeira mithridatização. Mas, ahi, a estrada está, não só traçada, senão aberta pelas tradições e triumphos de Oswaldo Cruz, seus discípulos, sua escola. A chave da questão não se acha na therapeutica, mas na hygiene pre- ventiva. A medicação pode falhar; mas a prophilaxia não falha. 32 Os discípulos. Do genio que deu o seu nome a esta era da medicina, já se disse que "a gloria de Pasteur não consiste só no proprio Pasteur, senão ainda em toda essa brilhante escola de sábios e experimentadores, que proseguem na sua obra, e lh'a amplificam". De Oswaldo Cruz o mesmo se dirá. O instituto, que hoje se lhe honra com o nome, não é só um laboratorio de estudos: é um berço de intelligencias originaes, criado, no começo, pela iniciativa, depois fecundado pela presença e agora aviventado pela influencia sobrevivente do mestre. Admirável homem de acção, fascinador irresistível de intel- lígencias, creador incansável de almas, suscita as vocações, repassa em coragem as capacidades irresolutas, devassa, na obscuridade e modéstia do merecimento inexplorado, os talentos despresentidos, como o vedor de agua atravez do solo as fontes ou nascentes encobertas, reunindo cerca de si essa constellação de moços laureados, outros tantos mestres, em cada um dos quaes se espelha a imagem gloriosa do modelo: um Carneiro de Mendonça, um Rocha Lima, um Gaspar Vianna, um Eduardo Rabello, um Ezequiel Dias, um Cardoso Fontes, um Figueiredo de Vasconcellos, um Alcides Godoy, um Henrique Aragão, um Arthur Neiva, sollicitado pela Republica Argentina, para alli organizar ser- viços de bactereologia e hygiene, um Carlos Chagas, cujos primeiros passos na sua carreira benditosa rutilam com "o maior milagre da medicina moderna", a solução do problema de uma grande infecção brasileira, a sciencia da sua etiologia, da sua pathogenia, da sua cli- nica, da sua therapeutica, da sua prophilaxia, da sua debellaçâo radical, e a quem o prémio Schaudin confere, por uma sentença germanica, as honras do mais notável dos protozoologistas do mundo. Deus vestiu das armas naturaes essas intelligencias de escol. Mas só a disciplina de um educador inimitável de sábios, como Oswaldo Cruz, as podia amestrar, de um modo tão solido e consnmmado, na sciencia e arte da investigação original, da experimentação exacta, da verificação rigorosa. O mestre dos mestres. Pesquisador extraordinário na actividade, irrivalizavel na technica, privilegiado no tino de interpretação, acompanhava com a mesma pro- fisciencia os trabalhos de todos os seus alumnos, em cada um dos ramos do saber cultivados naquella instituição, como especialista, que era, desde os seus vinte e sete annos, quando a inaugurou, em todas essas especialidades. Dotado, assim, de uma personalidade robusta e exuberante, assentou as bases da sua escola na consubstanciação do seu espirito com o das suas creaturas intellectuaes; e, constituindo adi, com a sua intensidade maravilhosa de acção, no estreito circulo de almas de que se cercou, um verdadeiro apostolado na religião da ver- dade experimental, as conduziu de trabalhos em trabalhos, de resultados em resultados, de perspectivas em perspectivas novas, descortinando- lhes os horisontes e habilitando-os a explorar com segurança o terreno 33 dos domínios sem termo abertos pela medicina investigativa aos co- nhecimentos humanos. Foi dest'arte que, nos laboratorios daquella casa, nos seus ga- binetes de estudo, nas peregrinações estudiosas dos seus agentes pelas terras mais remotas, mais agrestes e mais insalubres do paiz, ao mesmo passo que collaboravam todos na missão de por todo elle diffundirem as idéas, os methodos e as leis da nova medicina, para ella contribuíam com a obra original, pessoal, nacional dessa escola, cujas lições e triumphos compõem, certamente, o capitulo melhor da nossa historia medica, desde que a começamos a ter. Nacionalização da medicina experimental. Não foi somente o debellar a peste, a febre amarella e o im- paludismo. Qualquer destas tres conquistas sobejaria, para eternizar a memória de um sabio illustre, de um bemfeitor do genero humano. Mas a elle não lhe bastou. Fundara uma escola. Quiz dar-lhe o maior campo de actividade, que, creando a medicina experimental no Brazil. lhe podia assegurar, e empregou-a em estudar as doenças brasileiras, ainda mal conhecidas na sua pathogenia, grangeando, á sciencia na- cional, nesse terreno, uma reputação, que chega a emparelhal-a com a dos mais adeantados centros de cultura hodierna. Deste modo, no curso desses fecundos trabalhos, determina com exactidão Oswaldo Cruz as modalidades etiologicas e pathogenicas de muitas especies mórbidas, reinantes em nossa terra, ou a ella peculiares, bebendo nessas conclusões verificadas copiosos elementos da sciencia mais segura na prevenção e medicação de taes males. "Na historia da sciencia brasileira", diz o dr. Oscar Freire, da Faculdade da Bahia, "o nome de Oswaldo Cruz marca uma phase decisiva. O desejo de resolver os problemas nacionaes com elementos proprios, fazendo no Brasil a sciencia para o Brasil, todo se perdia em esforços isolado e esparsos. Preciso era fundar um núcleo, onde se reunissem os elementos de trabalho capazes, e donde se irradiasse para o Brasil inteiro a claridade de uma nova orientação e de novos horisontes. E tal funcção Oswaldo Cruz exerceu admiravelmente; de sorte que delle, como o seu maior titulo de gloria, se pode dizer: Oswaldo Cruz na- cionalizou verdadeiramente a sciencia médica, estabelecendo o prin- cipio de que é no Brasil que se devem fazer a medicina e a hygiene para o Brasil." O mal de Chagas. E' assim que, por elle guiados, os seus alumnos enriquecem o quadrt scientifico da nossa pathogenia com a verificação de mais uma enfermidade humana, a trypanosomíase americana, o complexo me- canismo da sua pathogenia e o conhecimento do seu agente pro- pagador, um hemíptero superlativamente maligno, mero barbeiro na linguagem da familiaridade popular com o terrível commensal, mas, na sciencia, individuado, com um dos seus mais sonoros nomes, como o triatoma megistus de Burmeister. 34 No tubo digestivo deste insecto, parasyto hematóphago vulgar ás margens da Estrada de Ferro Central, onde ia combater a malaria, encontra Carlos Chagas, sob as suas formas evolutivas, o tripanosoma Cruzi, descoberto no sangue do homem ou dos animaes mordidos pelo damninho sugador; e á luz das investigações que dirige com a pericia magistral de verdadeiro discípulo de Oswaldo se desdobra in- teira a nova entidade mórbida no seu ciclo completo, desde as vísceras do pernicioso hemíptero até ao nosso organismo, de que se apodera, e que reduz á miséria, com as suas terríveis localizações nos tecidos, na fibra muscular, no endothelio dos vasos, nos rins, no co- ração, na glandula tyroide, e as desordens nervosas, as perturbações vaso-motoras, as paralysias, o bócio, o idiotismo, o cretinismo, cujos syndromas lhe assignalam o curso nos indivíduos inutilizados e nas populações dezeneradas pela sua contaminação arruinadora. A ulcera de Baurú. E' ainda sob o influxo dessa orientação inspirada que um dos melhores discípulos de Oswaldo Cruz estabelece a therapeutica da leshmaniose. Eram notorios, entre certas populações brasileiras, os estragos da ulcera do Bauru, abominável enfermidade, que victima e invalida o homem, quando o não mata, cobrindo-lhe a pelle e as mucosas de largas e repugnantes chagas. Já se lhe conhecia a natureza, estudada por Lindemberg. Mas é o mallogrado Gaspar Vianna quem lhe descobre e deixa assentado o tratamento especifico mediante as injecções endovenosas de tartaro emetíco, já sanccionado hoje pelos resultados admiráveis da sua applicação, restituindo-se, desfarte, com a medicação determinada no Instituto Oswaldo Cruz, á vida e actividade productiva milhares de brasileiros, que esse mal inutilizava, e estendendo-se os benefícios da sciencia brasileira a outros paízes americanos, onde também grassa a odiosa doença. A veterinária. Illustrando-se, assim, nos domínios da nossa pathologia e da therapeutica humana, não se descuidou a escola de Manguinhos da veterinária, que tanto deve aos trabalhos, ás idéas e aos discípulos de Pasteur. Differentes vaccinas e sôros curativos, alli descobertos e es- tudados, vieram beneficiar em larga escala os interesses da pecuaria na- cional, dotando-a de recursos contra algumas doenças animaes, que a affligiam, e prejudicavam. Instituto Oswaldo Cruz. O nome de Instituto Oswaldo Cruz, dado, em 1908, ao grande palacio da sciencia brasileira, da nossa sciencia viva e productiva, attesta o consenso geral da nossa opinião e da do mundo quanto ao papel dominante, creador, soberano daquella personalidade extraordinária na origem, na existência e na gloria dessa instituição, docente entre todas, verdadeira Faculdade, a Faculdade Brasileira de Medicina 35 Experimental, mãe de sábios illustres, mãe dos nossos mais benemeritos investigadores. Num paiz ma! conceituado pelo seu desamor ao tra- balho, são "trabalhadores de mais de quatorze horas diarias", como o seu director se ensoberbecia em dizer ao nosso governo. Os suffragios das maiores autoridades estrangeiras a collocam lado a lado com os mais celebres institutos analogos da Europa: o de Pasteur em Paris, o de Lister em Londres, o de Koch em Berlim. Já o proclamaram "a maior gloria scientifica do Brasil". A exquisita perfeição dos seus trabalhos inexcediveis lhe vale, em 1907, na exposição annexa ao Congresso Internacional de Hygiene e Demographia de Berlim, onde entravam á competência comnosco cento e vinte e oito cidades principaes do mundo, o primeiro prémio, que, até então, nunca se concedera alli a nenhum concorrente es- trangeiro, e a medalha de oiro, dádiva da imperatriz d'Allemanha. As suas Memórias, estampadas em dois idiomas e ricas de producções originaes, constituem um dos mais autorizados archivos do movimento scientifico do mundo. Como escola de medicina tropical é a matriz, onde vem beber toda a America latina. Como laboratorio de pesquisas de medicina experimental, de bactereologia, de microscopia, de sero- therapia, de substancias vacinaes preventivas ou medicatrizes, que dis- tribue com liberalidade por todo o território brasileiro, nos assegura absoluta independência de todo o resto do globo em relação aos pro- blemas de pathologia geral e hygiene, a que está ligada a conservação das nações, seu credito, riqueza e prosperidade. Esta creação magnifica, estupenda, miraculosa, que mana da influencia pessoal de Oswaldo Cruz como um rio caudaloso do co- ração de uma fonte crystallina, não teria sido exequível, se a sua si- tuação na directoria da saúde publica lhe não grangeasse o poder, as occasiões e os meios de elevar esse estabelecimento a tão desusada altura. A instituição de Manguinhos e a extincção da febre amarella são as duas filhas gemeas dessa administração predestinada. Aquelle homem devia ter nascido com esta missão, para que ella se lograsse executar com tanta celeridade, harmonia e primor. Quando o dr. Salles Guerra indicou para aquelle cargo o nome de Oswaldo Cruz, não podia ser senão porque esse era já o eleito da sua classe e o nome consagrado. Naquelle acto havia o duplo me- recimento do seu desinteresse e da sua justiça; e é o que reserva a esse nosso distincto clinico uma justa menção de honra na historia do varão illustre, a que elle deu, desfarte, a opportunidade providencial de brilhar. Na sua volta do Instituto Pasteur, os nossos bactereologos daquelle tempo, como Chapot e Fajardo, logo reconheceram em Oswaldo o guia e o mestre. No consultorio da travessa de S. Fran- cisco, onde assentara a sua tenda com Luiz Barbosa e Cândido de Andrade, lá iam ouvir, e lhe buscar o conselho, nos exames ou questões de bactereoscopia ou microscopia, a que o diagnostico então começava a dar a importância, que tanto depois cresceu rapidamente. Tá então ninguém lhe negava ahi a primazia. 36 Uma phrase programma. Trazia Oswaldo comsigo todo o saber da escola de Pasteur. Todavia, as suas idéas sobre a vehiculação da febre amarella pelo mosquito e sua extincção mediante os ptocessos de prophylaxia ha- vaneza ainda não estavam assentadas. Mas as publicações médicas americanas, que recebia e devorava todas, não tardaram em o imbuir na evidencia dos soberbos resultados obtidos nas Antilhas com a guerra de extermínio aos insectos, aos quaes a experiencia mostrava caber, durante as explosões desse contagio fatal, o trágico officio de portadores da morte; e, nos encontros quotidianos com os seus dois companheiros, o objecto da pratica eram essas notícias, essas leituras, essas victorias da medicina experimental, que acabaram pelo convencer e enthusiasmar. Muitas vezes, então, naquelles colloquios dos tres amigos, como se estivesse advinhando, sem saber, o seu futuro, discutia a applicabi- lidade eventual, no Rio de Janeiro e no Brasil, das theorias, expe- riências e methodos ingleses e americanos, a que se ligavam os nomes de Manson, Ross, Finlay, Reed e outros benemeritos dessa medicina salvadora. Era a epoca heroica dessas experimentações, quando o dr. Lazear, da com nissão americana mandada a investigar sobre o assumpto na ilha de Cuba, convencido adepto da transmissão da febre amarella pelo mosquito, para mover á convicção os incrédulos, se deixou picar de um insecto contaminado, morrendo em poucos dias da doença contraída. O ardente bactereologo brasileiro já não duvidava. Encarava os emb traços com optimismo, respondia com segurança ás objecções, e um dia, por fim, exprimiu a sua confiança, dizendo: "O que precisa- mos, é um homem sem amigos e um governo de convicções." Primeira acção de influencia. Dahi veio a resultar que, quando o prefeito Passos, em prin- cípios de 1903, aqui reuniu, numa especie de conselho, em sessões publicas, os médicos e engenheiros municipaes, com o intuito de examinar os melhores meios de sanear da febre ama^ella esta cidade, entre os demais votos, saturados em geral da rotina reinante, divergiu o do dr. Luiz Barbosa, inspirado nas idéas novas, de que se impregnara na communhão habitual com o seu illustre amigo; e foram estas as que esposou o administrador municipal. Por incumbência sua, o dr. Luiz Barbosa as vasou num projecto, que, adoptado por aquella autorid ide, se converteu no decreto de 9 de março de 1903, onde a hygiene da municipalidade, modelada na doutrina americana, rompendo com o systema da preservação pelas desinfecções, estabelecia o de remover o mal, atacando-o nos focos de hibernação e evolução, exterminando-lhe os vehiculos, no mosquito, na larva, nas aguas, nos encharcadiços, nas humidades, nas impurezas, e esboçava, nos acanhados limites da alçada local, um mecanismo gratuito para a execução desse pensamento. 37 A phase provisória. Já isso era, antecipadamente, como se vê, obra de Oswaldo Cruz, acção da sua influencia creadora: e, quando lhe entregaram, mais tarde, no mesmo anno, os serviços sanitários da União, nessa organização embryonaria, composta de médicos e estudantes contractados, é que se lhe deparam os elementos iniciaes da outra. Mercê desse concurso, a que relucta, no começo, a Prefeitura, cedendo, por fim, á intercessão do governo geral, angaria os meios de vencer os pri- meiros embaraços, recorrendo, já ao pessoal, já ao material da muni- cipalidade. que a administração desta lhe franqueou, autorizando, em abril de 1903, com o decr. no 415, uma acção combinada, nesse terreno, entre as autoridades municipaes e as federaes. E' um periodo vivamente agitado o dessa phase provisória, em que Oswaldo Cruz centuplica a sua actividade, em que necessita de se aventurar a iniciativas dobradamente energicas, para dominar a rotina dos technicos atrazados, com os quaes tem de lidar, e, jogando com elementos, cuja desharmonia o estorva, desenvencilhar-se de tropeços renascentes a cada passo na execução de medidas essenciaes, ainda não juridicamente legitimadas. A organização. Só ao entrar do anno subsequente, lhe veio a ser dado pisar terra firme, quando o congresso nacional votou, em 1904, a lei de 5 de janeiro, que, com o regulamento de 8 de março, deu mutua congruência aos dois ramos da hygiene, a de aggressão e a defensiva, reorga- nizados e coadunados sob a mesma autoridade, recebendo, assim o jovem administrador a mais singular demonstração da confiança illi- mitada, de que já o cercava a excellencia, o tino e a grandesa dos seus primeiros actos. A lucta e o luctador. Essa lei, pela qual se creou a justiça sanitaria e a engenharia sanitaria. constitue a mais adeantada applicação que nunca se viu dos princípios de intervenção do Estado em matéria de hygiene. Embora, porém, encontrasse no governo da republica o mais absoluto apoio, a sua obtenção e a sua execução foram duas lutas, dessas em que só heroes não naufragam. Exigências tinha a nova ordem de coisas, como a declaração dos casos de doenças infecciosas e, sobretudo, a verificação dos diagnósticos, contra as quaes até boa parte da classe medica reagia. No congresso nacional, nos quartéis, nas ruas, nos lares, era uma es- pecie de levantamento em massa. Contava-se da esposa de um official, que se armara de carabina, para defender os seus penates contra a invasão dos mata-mosquitos. A tudo, porém, oppoz o director da saúde puolica essa mesma inalterabilidade soberana do seu animo bom e justo, com que, na revolta contra a vaccina obrigatória, se recusara a deixar a sua casa, apedrejada pela multidão. 38 Trepidasse elle ante esses obstáculos, não servissem estes, pelo contrario, para dar ainda mais rigidez á firmeza adamantina, que o caracterizava, e o Brasil estaria, hoje, onde estava ha vinte annos, mal- visto, atrophiado e esterilecido pelas endemias e epidemias, que o vexavam e arruinavam. O administrador. Quando se lhe entregou a missão de livrar e desinfectar esta e outras cidades ou regiões brasileiras da insalubridade, que as affligia; quando, especialmente, o governo lhe cometteu a direcção da saúde publica neste districto, a inveja, zânaga e maninha, a que nãoninguam nunca objecções, para excluir o verdadeiro merecimento, o averbara de não possuir attributos de administrador. Desses predicados só o da experiencia não teria, então, o homem de actividade, energia e methodo, que, ao empossar-se naquelle cargo, adoptou por lemma dos seus actos a divisa de "trabalho e justiça", as duas condições magicas, de que depende, acima de tudo, a sorte das administrações. Mas a experiencia, que lhe escasseava, suppriu-lha, como que tresdobrada, o genio, o bom senso, a vontade intelligente do bem, a fé, o enthusiasmo, que transporta as almas, que as inspira de clarões inesperados na luta com as difficuldades; e das imprudências, dos re- pentes, das invenções desse inexperiente, a cuja acção directa nada escapava, cujo tino creador acudia a tudo, sob cuja pressão tudo se electrizava, tudo se harmonizava, tudo vibrava, resultou a mais com- pleta, a mais extraordinária, a mais creadora, a mais exemplar das administrações, a que o Brasil tem assistido. A glorificação. O homem que a exerceu, terminou-a coroado pelo consenso geral dos sábios cómo "um dos grandes bemfeitores da humanidade". E' a personalidade, que "representa o Brasil moderno saneado". Delle se disse que, "honrando a sua patria com a extincção da febre amarella, honrou o continente americano". Delle se escreveu que, "com só tentar imital-o, se nos dignifica e enche a vida". Por tel-o produzido, ainda ha pouco, num paiz estrangeiro, se proclamava o Brasil uma "nação feliz". O mundo scientifico não o conhecia: foi Oswaldo Cruz quem o revelou a esse mundo; e entre o Brasil pesteado, queelle encontrou, e o Brasil desinfectado, que nos veio a legar, entre esses dois Brasis, tão diversos um do outro, essa administração mal agoirada pela eterna tacanharia dos práticos se levanta, abençoada hoje por todos, sem mancha, sem declínio, sem medo a rivaes, como uma excepção venturosa, uma antecipação do futuro, um oásis solitário no seu meio. Que seria de nós... ? Que seria de nós hoje, se a Providencia não nol-a houvesse per- mittido? Que seria de nós, se...? Supponhamos que Deus não hou- 39 vesse creado o sol... A terra seria deserta, nua, tenebrosa, e os mais planetas, que, com ella, estendem as suas orbitas derredor daqueile disco abrazado, reverberando-lhe os raios luminosos, vagariam, sombras errantes, pelo espaço, á tenue claridade das estrellas. Para o nosso mundo toda a fecundidade, toda a bellesa, toda a alegria vem do sol. Grande creadoí, porém, o sol é, ao mesmo tempo, "o grande putre- factor". Ao calor, emanação dos seus raios, nascem as plantas, nascem os animaes, nasce o homem, surge, respira e se alimenta a vida. Mas, também, ao mesmo calor que delle deriva, se desenvolvem todos os processos da morte: as fermentações, as decomposições as putres- cencias. Ao sol riem os jardins, e abrem as flores. Ao sol esfergulham as vermineiras, e se decompõem os monturos. Aquece-nos o sangue; mas, ao mesmo passo, aviventa os germens, que nol-o destroem. Entre rssas duas funcções a ignorância não sabe discernir, e aproveitar. A sciencia as discrimina e utiliza. Com a ignorância o sol torra, derranca, e mata, Com a sciencia o sol fecunda, preserva e cria. Se Deus nos não suscitasse a missão de Oswaldo Ciuz, o Brasil teria o mesmo sol, com a mesma exuberância de maravilhas, mas o sol com a peste, com o impaludismo, com a febre amarella, com a doença do barbeiro, com a ulcera do Baurú, com todas essas desgraças, até então irremediáveis, que esse homem, superior ao seu tempo e ao seu paiz, deixou extinctas ou em via de se extinguirem. Dar o sol, e não dar a sciencia, é deixar apenas meio sol, ou um sol mallogrado: o sol com a doença, a esterilidade e o luto. Deus nos havia dadivado os benefícios do sol tropical. Com Oswaldo Cruz nos accrescentou os da sciencia, que o corrige. Podemo-nos congratular, agora, de termos o sol estreme dos seus descontos, o sol sem as suas malignidades, o bem logrado sol dos paizes saneados. The right man. Tudo isso, porém, o devemos a uma circunstancia, a um mo- mento: a adequada escolha do homem para o logar. E' o que não se faz quasi nunca no Brasil. E' o que, fazendo-se no Brasil uma vez, fez, sob certos, aspectos capitaes, de um Brasil decadente, retrógrado, paralysado, um Brasil em rehabilitação e progresso. Se o dr. Salles Guerra não houvesse recusado o convite, indi- cando, em seu logar, o especialista capaz, ou se o governo Rodrigues Alves lhe não aceitasse o nome suggerido, o paiz continuaria, não se sabe até quando, ferido mortalmente no seu credito, na sua producção, no seu commercio, na sua colonização, na sua riqueza, na sua vida pelo justo renome de insalubridade, que nos enxovalhava. Por ahi se poderá medir, ante a mais solemne das lições, quanto releva a uma nação guardar o respeito ao merecimento. A regra inglesa é a da capacidade: the right man in the right piace. Áiegra brasileira, a da incapacidade: the wrong man in the wrong place. Não buscamos os homens para os logares: buscamos os logares para os homens. Os preparados são os despreparados; os despre- parados, os preparados. Os competentes são os incompetentes; os in- competentes, os competentes. 40 O latrocínio das posições. A este desconcerto chamamos nós administração. Latrocínio lhe chamava o padre Vieira. "Querem saber os reis", dizia elle, "se os que provêem nos oíficios, são ladrões, ou não? Observem a regra de Christo: Qui non intrat per ostiam, fur est, et latro. A porta por onde legitimamente se entra no officio, é só o merecimento; e todo o que não entra pela porta, não só diz o Christo que é ladrão, senão ladrão e ladrão; Fur est, et latro. E porque é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o officio, e outra vez pelo que ha-de furtar com elle. O que entra pela porta, poderá vir a ser ladrão; mas os que não entram por ella, já o são. Uns entram pelo parenteso, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo snborno, todos pela negociação. E quem negoceia, não ha mister outra prova; já se sabe que não va° a perder. Agora será ladrão occulto, mas depois ladrão descoberto, que essa é. como diz S. Jeronymo, a differença de fur a latro." Palavras do celebre orador na predica do Bom Ladrão, ouvida, em 1655 (ha muito mais de dois séculos e meio) na igreja da Misericór- dia de Lisboa, reinando El-Rei nosso senhor. As portas de entrada aos cargos públicos eram, pois, absolutamente as mesmas, que elle hoje teria de enumerar, se estivesse orando, em 1917, nalgum púlpito do Rio de Janeiro: o parentesco, a amizade, o suborno, a valia, nome, com que se indicava, não o valor, mas o valimento, a protecção, as cartas, o empenho, como hoje dizemos. "As mercês não significam valor, senão, valia", deplorava o excelso pregador, como nós hoje o de- ploramos. E' o que os ministros do altar, nos templos, em pleno des- potismo, diziam aos ministros do soberano absoluto. Quer-me parecer que, se a realidade é a mesma, ao homem publico, hoje, não se ha-de negar direito de o dizer, em plena democracia, aos intitulados órgãos do povo soberano. Naquelle tempo, naturalmente, se acreditava que as valias, vali- mentos e valedores constituíam vícios peculiares ao arbítrio das au- tocracias. Depois se viu que as constituições mudam os nomes, mas não a substancia ás coisas, e que, nas republicas mais amodernadas, as privanças, os nepotismos, os compadrios podem ter o mesmo sabor de actualidade que nas mais bolorentas monarchias. O que sob o caruncho das velhas realezas gozava de mais foros do que sob a chibança das republicas mais frescas, é a liberdade moral da palavra humana. Quem, com effeito, me não increparia de exceder as legitimas raias da tribuna, se eu hoje, em pleno século vinte, puzesse, como Vieira em pleno século dezesete, o labeu de ladrões e ladrões aos que entram aos cargos públicos, não pelas portas deanteiras da lei e do mérito, mas pelas trazeiras da mediocridade e do padronado ? Todavia, o baldão encerraria muito mais estricta verdade agora, quando os governos fazem de ministros dos povos, do que naquelle tempo, em que o Estado e seu património se absorviam no throno e sua vontade. 41 Odio ao merecimento. Quando o tribunal revolucionário, em 1794, condemnou Lavoisier ao cadafalso, o presidente dessa justiça de guilhotinadores, recebendo pedidos de sobreestar na execução da sentença, despachou que a re- publica não precisava de homens de sciencia. "La république n'a pas besoin de savants"; e o iniciador da chimica moderna, carregado de serviços á patria, recebeu a morte reservada por ella aos seus inimigos, não merecendo, sequer, a rasa inscripção do proprio nome na muda loisa, que lançaram sobre o corpo do justiçado. Dahi a dois annos a França ia penitenciar-se naquella sepultura, qualificando-se, então, a morte de Lavoisier como attentado maior do que a de Luiz XVI. Mas nem por isso deixa de haver, até hoje, republicas, onde, não se podendo matar os homens de sciencia no cadafalso, matam-se, ou seinutilizam (o que o mesmo vale) com o silencio, o despreso, o esque- cimento, a preterição, o abandono, a malignidade, a detracção, o odio, a injustiça, sob as mil formas que a desnudam, rebaixam e enve- nenam. Se deste modo só se estrangulasse a justiça nos indivíduos, cabe- ça por cabeça, tirando-se a cada qual o logardo seu direito, tanto bastaria, pararevohar a conscienca humana. Mas essa habitualidade na injustiça empeçonha o ambiente moral, corrompe as nações, deshonesta os go- vernos, e arruina os Estados. A desvalorização da capacidade tem por consequência a desestimação do trabalho. A mocidade se abastarda, se enxovalha, desertando o estudo, e desamando as causas gene- rosas, para se alistar na turba dos postulantes, e esfervilhar entre os cortezãos. Com a justiça postergada se vae o estimulo, com o estimulo a vergonha, com a vergonha a moralidade, com a moralidade a compostura, com a compostura a ordem, com a ordem a segurança; e, rapidamente, como em todo o organismo vivo, debaixo da acção dos grandes toxicos, a sociedade se desorganiza, decompõe, e dis- solve. Cada competência que se rejeita, cada merecimento que se desdenha, cada genio, cada talento, cada saber, que se recusa, que se desgosta, que se persegue, negando-se-lhe honras, prémios e cargos, para se distribuírem, como librés, a validos e ociosos, a ignorantes e nullos, a commensaes e parasytas, é um valor de cultura, um valor de producção, um valor de riqueza, que se subtrae á fortuna do paiz, e de que se priva o thesoiro geral da humanidade. São actos de esperdicio, dilapidação e loucura, com cada um dos quaes ninguém sabe quanto vae perder a nação e o genero humano. Se as commissões incumbidas a Oswaldo Cruz se entregassem a outrem, quando não existia, no Brasil, ninguém como elle talhado exactamente para ellas, a nossa patria e a especie humana teriam per- dido, estariam perdendo, e haviam de perder ainda, em benefícios, toda essa immensidade, que lucraram, estão lucrando, e hão de lucrar com a extincção da peste, da febre amarella e do impaludismo. 42 A lição da grande excepção. Neste caso vimos acatada a justiça, e, com í observância da jus- tiça, é incalculável a riqueza, que se ganhou, se ganha, se ganhará indefinidamente em vidas humanas, em actividade, em forças productoras. A hygiene brasileira transformou-se, converteu-se em verdadeiro poder, e, nos seus domínios, elevou o paiz a uma altura desconhecida. Ninguém nos excede nos productos, nos serviços, nos melhoramentos, nas condições de civilização, que a nossa sciencia saneadora, encarnada no Instituto Oswaldo Cruz, hoje representa. Imaginae agora que não seria, a outros respeitos, o Brasil todo, se nos demais ramos da administração e nas demais espheras do go- verno, se repetisse aquelle caso, se o paiz fosse entregue ao mere- cimento, se as posições coubessem ao trabalho, á capacidade, á honia, se os velhos dessem aos moços os exemplos da temperança, da cons- ciência e do desinteresse, se nos deliberássemos, em summa, a esta- belecer a hygiene moral da republica, obedecendo á mesma lei de selecção dos capazes, a que se deve o nosso glorioso triumpho na lucta sanitaria contra as tres pestes. Mas, senhores, não ncs transviemos por intermundios da Utopia. Onde me não parece que valha a pena de imitar a S. Antonio, é nisto de sermonar a peixes. Creaturas que nasceram para ser de- voradas, não aprendem a não deixar-se devorar. Não. Sanear um território já será obra para gigantes. Sanear uma epoca, um regimen, uma nacionalidade não é comettimento accessivel nem aos Briareus de cem braços, nem aos Prometheus armados com o fogo do céu. Doenças ha, de que nos curam os médicos, outras de que só se curam os doentes a si mesmos. Neste genero estão as mazellas e gafeiras moraes dos povos. São males, a que não ha medicamento na botica, e de que só se livra o pacedente a si mesmo, quando tem re- sistência no organismo e energia na vontade, para desconfiar dos mé- dicos, não se entregar aos curandeiros, e buscar em sí proprio a sua cura. As nações doentes, que não dispõem desse vigor d'alma, têm apenas o seu território por menagem, e não são livres senão á ma- neira dos lazarentos, que não cabem na gafaria, e transbordam para as colonias de leprosos. Esses grandes enfermos não sei se serão curáveis. Mas, quando o sejam, não ha-de ser com remedios formulados nos codigos officinaes, nem pelos Galenos costumados a viver das chagas do cliente. Na Utopia. Terra a terra. Porém, já que sobre os problemas desta hygiene superior, da hygiene d'alma nacional, ainda não vemos assomar o dêdo de Deus, ao menos quanto aos da hygiene do território brasileiro, quanto aos da hygiene da vida physica, no domínio da qual se nos deu obtermos re- sultados tão portentosos, conservemos e desenvolvamos as vantagens alcançadas. Ahi a questão está resolvida; mas a solução não se acha 43 concluída. Manguinhos esboça essa conclusão; mas ainda a não exgota. Quando os discípulos de Oswaldo, segundo um delles nos narra, mostravam ao mestre inquebrantável o quebrantamento das forças dos seus assistentes, a resposta do grande saneador era um rasgão de sol nas névoas do horisonte: "Para executar os meus planos antigos, já não conto muito com a velha guarda. Ella cumpriu o seu dever. Eu pensava na gente nova, que lá está, a qual levantaria Manguinhos até mais alto." O coração da nossa hygiene. E' que Manguinhos constitue, naturalmente, o centro inexpugnável das operações da grande offensiva e defensiva contra a insalubridade em todo o Brasil. Alli está o coração scientifico do poderoso organismo, cujas leis Oswaldo Cruz deixou traçadas. Esse organismo abrange na sua influencia, no seu exemplo, na sua escola, na sua acção múltipla, nas suas missões de execução toda a nossa terra; e onde quer que se re- vele uma necessidade, um risco, uma invasão do inimigo, o choque ha-de reflectir-se no musculo central e no cerebro pensante, para dalli retornar, com a idéa, a medida e a solução invocada. Desappareceu d'entre nós Oswaldo Cruz. Mas a sua creação está viva. O seu genio não a deixou. Deus chamou a si o seu emis- sário. Ascendit Elias per turbinem in coehim. Mas o espirito de Elias descansou em Eliseu. Requievit spiritus Eliae super Eliseum. A successão estava designada pela necessidade inevitável das coisas. O manto da investidura official não veio senão reconhecer a sagração já consum- mada. Carlos Chagas ascende á cadeira do mestre com todo o pres- tigio da grande herança. Da instituição em que succede ao fundador, se domina todo o campo da hygiene brasileira. Se Pasteur não errava em chamar "templos do futuro" aos Jaboratorios da sciencia experi- mental, naquelle está o santuario, cujos oráculos os nossos governos devem ir sollicitar para a conservação e integração da obra immensa, alli centralizada. A obra futura. Os domínios da malária entre nós ainda são tão vastos quanto o curso dos nossos rios e as depressões dos nossos valles. Em vários dos nossos Estados ainda agora é notoria a presença da febre ama- relia. Nas terras de Minas e Goyaz, em vastas regiões de Matto Grosso, do Maranhão, do Piauhy, da Bahia, "domina infrene o mais temeroso dos flagellos epidemicos dos sertões, a moléstia de Chagas." Populações inteiras de inoividuos bociados, hebetados, cretinizados, entrevados por ella habitam as sinistras zonas do barbeiro, contra cujas devastações não me consta que já se encetasse, ao menos como ensaio, a campanha preservativa tracejada pelo grande alumno de Oswaldo Cruz. Situações notavelmente saudaveis, climas de excellencia conhe- cida apresentam, largamenle derramado nas populações urbanas e ruraes, o estygma do ankylostomíase, mal não custoso de vencer, mas abandonado á sua acção inanidora sobre a vida e o trabalho humano. 44 Escriptores e médicos nos descrevem apavorados um "inferno verde" nas regiões amazonicas, um "inferno sêcco" no nosso nordeste, um "inferno central" nos sertões de Minas e Goyaz, em paragens que a natureza ornou de todas as bellezas, e as infecções reinantes mergu- lham em todos os horrores. Tantos infernos no mais maravilhoso dos paraizos. E' todo um mundo, nessa vastidão incalculável de necessidades, estudos e providencias, o que estes factos nos descortinam, um mundo bastante para justificar, a nosso respeito, o sentimento de espanto, com que, ha sessenta annos, Littré, num dos seus escriptos médicos, se admirava de que nos Estados civilizados não houvesse um ministério especial da saúde publica. Eu, que, ha trinta e cinco annos, propugnava a creação, no Brasil, do ministério da instrucção publica, não hesitaria hoje, quando a hygiene assume entre nós essa importância avas- saladora, em votar com Littré pela consagração de um ramo central do governo a este serviço, se, neste paiz, as secretarias de Estado se creassem, para se occupar com os assumptos, que lhes dão os nomes. Mas esses males, de assoberbadora grandesa, dominantes ainda no campojdas reformas que Oswaldo Cruz inaugurou com trabalhos de Hercules, devem persuadir-nos a que não durmamos sobre os nossos loiros. O que está por acabar; é ainda muito mais do que o que elle deixou acabado. A immensidade, porém, do que elle acabou em tão breve espaço, tendo que improvisar tudo, nos deixa ver quanto iremos acabando, se o continuarmos com a mesma inspiração, a mesma va- lentia e a mesma perseverança. Este é o verdadeiro monumento, que com a sua memória condiz, a verdadeira gratidão, que lhe devemos. "Sempre avisados, mas nunca prevenidos". O Brasil é um paiz de esquecimento e negligencia. Pouca me- mória, menos attenção e nenhum cuidado. Parece que o achaque nos vem de nassença, e já vagia comnosco no berço; pois, ha mais de du- zentos e cincoenta annos, pregando no Collegio da Bahia, dava rebate o padre Vieira desta mazella como velha e incorrigivél na terra, com- parando os nossos desastres, pelo costume de não fazermos conta dos avisos, aos de Troya e Sodoma. Volvo ao pregador, porque é palavra sagrada. Saiu de um templo: não tem laivo de paixões terrenas. "Eis aqui", bradava a grande voz da igreja, "eis aqui", nem mais nem menos, o fado ou desenfado do nosso Brasil: sempre avisa- dos, mas nunca prevenidos. Lançae os olhos por todas as praças, que temos perdido desde o anno de 624 até o presente, e nenhuma achareis, a que não precedessem avisos, e muitos avisos. Antes de se tomar a Bahia, duas barças de pescar, com cartas d'el-rei, que, pela no- vidade da embarcação, fizeram o caso mais mysterioso e o aviso mais notorio; um mez antes a mesma capitania da armada hollandesa sobre o morro, que nos mandou avisar pelos prisioneiros de Angola; e nós com a praça aberta, sem fortificação, nem trincheira, como se nos prepararamos, para entregarmos a cidade, e não para a defender; e assim foi, Pernambuco da mesma maneira. Tantas cartas d'el-rei an- tecedentes, tantas noticias de Hollanda, que haviam de vir, e nomeada- 45 mente que haviam de entiar por tal parte. Depois de partida a armada, avisos de Portugal, avisos de Cabo Verde que já vinham, que já che- gavam; e nós a cortar canas, a moer engenhos, como se tôra nova de alguma grande frota, que vinha a carregar de assucares; e, assim, o mesmo foi desembarcar que serem senhores da terra. Desta maneira se perdeu Pernambuco, desta maneira se perdeu a Bahia, e todas as outras praças menores, por este caminho as perdemos: nunca accom- mettidos de súbito, nunca tomados de repente. Perdeu-se o Brasil, ccmo se ha-de perder e acabar o mundo." O mundo acabará de surpresa, ainda que muito avisado (con- tinúa o missionário), por não escutar nunca os repetidos signaes do céu. "Tal aconteceu sempre no Brasil", diz elle. "Nenhuma nova tão certa, que não tivéssemos uma esperança, para que appellar; nenhum aviso houve nunca tão qualificado, que não tivéssemos um discurso, com que o desfazer. Que está acabada a campanha de Hollanda; que França não os póde hoje assistir; que Dinamarca tem guerras apre- goadas; que baixa com grande exercito o imperador; que os tem mui apertado o cardeal infante; que se desbaratou a armada, que manda- ram a Índias; que não ha um hollandês em Amsterdam, que queira vir ao Brasil; finalmente, que estão perdidos, que estão acabados, que estão consumidos. E, quando nos não precatamos, ouvimos soar as trombetas hollandesas por esses oiteiros; acham-nos descuidados e despercebidos, tomam-nos as nossas terras, e deixam-nos os nossos discursos." Tal, concluía o padre, "o natural descuido nosso" e "o clima ou os peccados do Brasil". Dois séculos e meio vão passados, senho- res; mas "o natuial descuido nosso" não passou, não passaram "os peccados do Brasil", não se lhe mudou "o clima". Eternamente des- cuidados. Eternamente surdos a todos os avisos. Eternamente des- gostosos dos avisadores. Desleixo, imprevidência, volubilidade. Não aprendemos do passado, não nos incommodamos com o presente, não cogitamos no futuro. Assim vamos vivendo e medrando, como vive e medra a nossa natureza, despreoccupada na inconsciência das coisas. Do imprevisto nos gozamos, embalando-nos nas suas surpresas. Temos nos nossos orçamentos liberalmente consagrado o melhor do nosso sangue á montagem da machina da guerra. Mas, se esta nos bate ás portas, vamos dar com a machina de todo o ponto desmonta- da. Não ouviríamos hoje "soar por esses oiteiros as trombetas hol- landesas", como nos dias de Vieira. Mas, se por terras nossas reso- asse o clangor do bronze inimigo, não nos encontraria mais apercebi- dos hoje do que ao tempo, em que os nossos maiores recolhiam a safra dos cannaviaes, e moíam engenhos de cannas, emquanto as frotas de Hollanda nos ameaçavam as costas. "Sempre avisados, mas nunca prevenidos." Taes em 1917 quaes em 1641. Taes no século vinte, quaes no século dezesete. "O milagre". Demos graças ao Senhor, por haver permittido um dia que, ao menos, contra uma especie de inimigos e perigos nos precatássemos, e 46 por nos ter dado o gigante para a organização dessa defesa, movendo os homens, que nos governam, a não o rejeitarem, nem lhe regatearem os meios de uma acção creadora. E' o a que o celebre pregador cha- mava "o fino do milagre de Deus". Este homem, "feito de affoiteza e prudência, de imaginação e ponderação, de intuição e critica", como Pasteur, era, como Pasteur, "uma vontade obstinada, um vigor seguro de si mesmo, uma fé capaz de levantar montanhas". A esses attributos do seu caracter, não menos do que ás qualidades superiores da sua sciencia, se deve a gloriosa consummação da sua obra. A independência no espirito ne- cessita de ser servida pela independência na acção. Antes de entrar ao cargo, iá se revelara elle o homem dessas qualidades, entrenós raras, quando, annunciada a nomeação para s:, de um secretario, sobre cuja escolha não fora ouvido, posto recaísse em nome digno, salvou desde logo a sua autoridade, impondo o eleito da sua confiança. Depois esses predicados se accentuaram, cada vez mais, na sequencia dos seus actos, com tal irradiação de superioridade, com tamanha exhalação de calor, com uma intensidade tal de convicção, de segurança, de poder galvanico, que, ao cabo de um anno, todo aquelle pessoal, toda aquella administração, todo aquelle serviço se movia como um só homem, como um instrumento inteiriço e vivo, como os seus proprios nervos e musculos, debaixo da acção da sua vontade, realizando, nas mãos do mais novo, mas do mais notável dos administradores, a mais creadora das administrações. O patriota. Nesse coração, apparentemente absorvido e consumido no amor da sciencia e no amor da humanidade, não era menos vibratil a fibra do civismo. Sua visão não se estreitava no circulo visual do mi- croscopio. Sentia a relação necessária entre os interesses da sciencia, na sua autoridade, na sua sinceridade, na sua utilidade, e a obser- vância dos princípios da ordem social. Amando a patria, amando a liberdade, não perdia de vista os negocios do paiz: antes os seguia com o discernimento, o zelo e as emoções de uma consciência desin- teressada. "Quando a aventura boulangista ameaçou subverter a nação com o quadriennio fatídico que nos assolou", diz um dos seus discípulos em eloquente homenagem á memória do mestre, "o eco da campanha civilista chegou ao remanso de Manguinhos, arrancando-nos da indif- ferença, com que encaravamos as manifestações da política nacional. O proprio Mestre agitou-se, e esteve na imminencia de se alistar eleitor. Quando o cataclismo desabou sobre o paiz, e o pessimismo se asse- nhoreava de todos, elle não dasanimou um só momento, e, cheio de fé, repetia: "Os gloriosos destinos do Brasil são infinitamente mais poderosos que quatro annos de desgoverno." Se alguém houvesse auscultado o sussurro desse coração nos transes do passamento, não me engano, creio eu, em suppor que lhe perceberia a mesma tristeza de Pasteur, quando, aos quarenta e seis annos de edade, ferido de uma hemiplegia, a que cuidou succumbir 47 lhe aflorava aos lábios esta queixa: "Tenho pena de morrer: quereria prestar ainda mais serviços a minha terra." E ainda os prestou; porque só vinte e sete annos mais tarde, aos setenta e tres da sua vida, aca- bava a carreira mais gloriosa da sciencia no século passado. Oswaldo pouco mais de metade do lapso dessa existência viveu; e, quando fechou os olhos, aos quarenta e dois de nascido, a carreira, que tão cedo encerrava, já era a mais bemfazeja da sciencia brasileira em toda a historia da nossa nacionalidade. Mas, os serviços de taes homens não se medem pela extensão da sua passagem terrestre, nem pela somma de benefícios que dos seus actos, durante ella, colheu o genero humano. A grande obra dos bemfeitores predestinados está na illimitada sobrevivência delia aos seus autores, que do seu proprio trespasse revivem todos os dias nos frutos do bem, que plantaram, na corrente de bênçãos, que deixaram aberta e borbotante. São fontes de bondade, em que se desentranha a vida ephemera dos mortaes immortalizados, para a continuarem, atravez de séculos e séculos, em caudaes de benevolencia e caridade. Aos salvadores de homens, suscitados pelo céu, o inferno con- trapõe os extenninadores de homens. Mas, embora estes passem, car- reando na torrente de sangue dezenas de milhões de victimas, maior, muito maior, sem comparação maior será sempre, na série incessante dos tempos, a seara de vidas, que o genio dos semeadores da scien- cia arrebata á voiagem da nossa mortalidade, e a mésse de almas consoladas que e'les salvam das agonias do soffrimento. Coube a Oswaldo Cruz a ventura extraordinária de ser um desses raros eleitos, um desses levitas do sacerdócio consagrado á di- minuição dos padecimentos humanos. Essas creaturas amadas e bem- ditas, como elle, devem os milagres da sua obra á acção desse deus interior, o En Theon do enthusiasmo, bella palavra "uma das mais bellas dos nossos idiomas", mas infinitamente menos bella do que o sentimento, que tradnz, a paixão das grandes inspirações, das grandes aspirações, das grandes abnegações, o heroísmo do trabalho, da jus- tiça e da verdade. Ninguém o teve maior do que esse Pasteur, o Mestre de Oswaldo. que, commemorando, na Academia Francesa, a obra e a san- tidade humana de Littré, dizia, em palavras de uma transparência im- maculada: "A grandesa das acções humanas mede-se pela inspiração, que lhes deu o ser. Feliz de quem traz em si um Deus, um ideal de belleza, e lhe obedece: ideal de arte, ideal de sciencia, ideal da patria, ideal das virtudes do Evangelho. São esses os mananciaes vivos dos grandes pensamentos e das grandes acções. Todas ellas, todos elles sc alumiam dos reflexos do infinito." Autor: ; 0 Obra: Jarbosa/ Oswaldo Cruz/ A oiru jciexitiíica cio glorioso/ creudor _a accíi- cinu j_.jri-iOiK- ,1 no/ . rasií, .pisoei ;da ovo ooiioelxioiro / .. Vioosa, n., cívica de 2a de / xuaio de 1917, no laea- tro ^uniçi jílI./ nio qõ Janeiro- ... .íi-ui- 1 vo.. ia 42 47p. Edição: ■ i-' • ai - Ato.. i O J. . O I 1C c tCL . j .. 1c , ;O C Oi a O c il1 0 O TI O í x c to O L x 'j LI ro vermelho, cc\h , capa da brochura. B i bl iogra fia: Lu./biela lereira- ..u/ana: p. 216. . } E.- ... . : l o.oo.i., ,o; -jic. uí iv. J.it. ; -a 4 2'J.