OBSERVAÇÕES ó FYSIOLOGICAS SOBRE A VIDA E A MORTE , ' OBTIDAS Pela indagação dos fenomenos da economia animal, OBRA D E Mr. XAVIER B 1 CHAT, Medico do Hospital de Pariz, Proffessor de Anato- mia , Fysiologia , e Medicina , Membro de mufías Sociedades sabias , &c., &c. TERCEIRA EDIÇÃO, QUE Do Idioma francez verteo em vulgar, com notas , conformes á theoria Browniana MANOEL J O S E' E S T R E L L A, Cavalleiro proffesso na Ordem de Christo , Lente de Fisiologia no Real Collegio Medico-Cirúrgico , e Delegado do Conselheiro CirurgiâoMór do Reino em toda a Capitania da Bahia. ( BAHIA: Na Typ. de Manoel Antonio da Silva Serva. Armo, de 1816. Com as licenças necessários. EPÍGRAFE. Quod munus reipuilica' adi erre majus , me- lius ve possumus , quam si docemus , atque ei u- dimus juventutem ? Cicerv de Divinitute 1 O melhor , e roais relevante serviço , que podemos prestar á republica, he o d'ensinar, e instruir a mocidade Cícero da Divindade. A O Illustrissimo , e Excellentissimo Senhor D. MARCOS DE NORONHA E BRITTO, Conde dos Arcos , do Conselho de S. M. F., Gram Cruz da Ordem de S. Bento d'Avís, Gentil Homem da Camera do Sereníssimo Príncipe do Brazil, Marechal de Campo dos Reaes Exércitos , Governador, e Capitão General da Capitania da Bahia, ^c. e Ex.mo Senhor. ÍIe assas inveterado o costume dos que pretendem dar á luz algum escri- pio , offereçello sempre , ou a Hum Gran- de , ou a Hum Sabio ; e a Quem melhor poderia eu dedicar este, que a F. Ex.a, em Quem ambas estas Qualidades se reú- nem ? Queira pois F. Ex.a acceitallo , co- mo hum testemunho eterno do Affectuoso Respeito , com que tenho a honra de ser De F. Ex.a Súbdito o mais respeitador c Manoel José Estrella. ADVERTÊNCIA DO EDITOR O Autor devia fazer algumas addiçÕes importantes na primeira parte desta nova edição. Certos artigos , apresentados com modificações , teriao parecido mais com- pletos , e enriquecidos de muitas idéas novas: nella se teria achado hum tratado sobre a belleza , considerada debaixo das relações fysiologicas. Em hum segundo vo- lume teria applicado á Medicina princí- pios fysiologicos ; e a mesma ordem , que tinha seguido, considerando as funções no estado sào , serviria para considerar estas mesmas no enfermo. Sua morte privou o publico destas vantagens , e obriga à fa- zer sahir segunda vez â luz esta obra tal , qual era em sua origem. Julgo com tudo dever â memória de Bichat o fazer conhecer as intenções , que elle teve , e que tinha já começado à executar. PRE- PREFACIO DO TRADUCTOR. HiNcarregado por ordem superior d'en- sinar Cirurgia especulativa , e pratica , e positivamente pelos Elementos de Mr. de La Faye , julguei do meu dever, nao só em razão do termo especulativa , como de exordiar o escriptor pela Fysiologia , co- meçar minhas prelecções por este ramo ; e para supprir ao seu conciso, servir-me da obra Fysiologica de Richerand , e das indagações de Bichat sobre a vida , e a mor- te , que ora apresento ao público , verti- das com notas conformes â doutrina de Brown. Minhas vistas, executando-o, não fo- rão, nem de figurar no Orbe litterario, nem de ser util â aquelles , que sendo assas senhores do idioma francez , se po- dião aproveitar dos originaes ; forno sim a escassez d'estes por motivo da guerra ; e o desejo de concorrer , quanto estava em mim mim para a instrucção d'aquelles dos meus alumnos , que não podiào, como eu , apoderar-se bem dos sentimentos do Autor. Se por tanto este meu trabalho não for util a muitos , náo deixará toda- via de o ser a alguns , e entáo restar- me-ha a consoladora satisfação, de que se me não poderá applicar o = nisi utile est quod facimus , slulla est gloria, = 1 OBSERVAÇÕES FISIOLÓGICAS. PRIMEIRA PARTE. ARTIGO I. Divisão geral da vida, se procurar em considerações ab- stractas a definição da palavra vida, pa- rece-me, que se achará neste apercebido geral: a vida he huma união de funções, que resistem á morte. (1 ) Tal ( 1 ) Se tudo , quanto rodêa os corpos vivos, tende oontinuadamente a destruillos, ebem depressa elies suc- cumbirião , a não terem em si hum principio perenne de reacção , designado com o nome de vital por Bar- thes , de excitabilidade por Brown , e de poder senso- río na linguagem de Darwin , parece , que he nesse prin- cipio , quando affectado pelos estimulos , desenvolven- do-se o excitamento , que a vida consiste , e não nas funções , como hum producto , e que consequentemen- te se deve definir a vida, hum estado perenne de reac- ção da economia animal, para resistir á morte , me- diante o concurso de muitas , e differentes funções , om hum producto da acçâo dos estimulos sobre a vitalidade. Not. do Trad. 2 Tal he com effeito o modo d'existir dos corpos vivos , que tudo , quanto os r©- dea, tende continuadamente à destruillos. Os corpos inorgânicos incessantemente , obrão sobre elles; elles mesmos exercem huns sobre os outros huma acção contínua; bem depressa elles succumbirião , se não tivessem em si hum principio permanen- te de reacção. Este principio he o da vi- da ; desconhecido em sua natureza, e só- mente apreciado por seus fenomenos: Ora o mais geral destes fenomenos he esta al- ternativa habitual d' acção da parte dos corpos exteriores * e de reacção da parte do corpo vivo ; alternativa , cujas propor- ções varião , segundo a idade. Ha superabundância de vida no me- nino , (1) porque a reaeção excede á ac- ção: (2) o adulto vê o equilíbrio estabe- le- ( 1 ) Deve-se entender por superabundância de vida a redundância de excitabilidade , ou de poder sensorio , ainda não diminuído pelos estímulos , em razão da cur- ta existência do menino : de outro modo a superabun- dância de vida constituiria nelle bum estado estenico , ou pathologico , e nunca físiologico , do qual se pro- poem tratar aqui o Author- ( 2 ) A reacção ha de ser sempre em proporção da acção , ou da operaçao estimulante * pois que a fibra animal tende sempre à contrahir-se com huma força igual á distendentc ; de outro modo , augmentan- do a reacção pela accrescida acção dos estímulos, ap- pareceria hum estado da competência da pathologia x e não da fisiologia. 3 lecer-se entre ellas, e por isso essa tur- gencia vital desapparecer. ( 1 ) A reacção do principio interno diminue no velho , (2) sendo a acção dos corpos exteriores sempre a mesma : então a vida langues- ce , e avança insensivelmente para o seu termo natural, que chega, quando toda a proporção cessa. A extensão da vida he pois em geral a diflerença, que existe entre o esforço das potências exteriores , e o da resistência interna. O excesso de humas annuncia jsua fraqueza ; a predo- minância da outra he o indicio de sua força. Divisão da vida em animal , e er» ganica. TA1 he a vida considerada em sua totalidade ; mais circumstanciadamente ex- aminada , ella nos offerece duas mo- dificações notáveis. Huma commum ao ve- (1)0 equilíbrio se estabelece, por terem os estí- mulos seiniconsumido a excitabilidade em razão da mais longa vida do adulto , e constituído o excitamento em justos limites. ( 2 ) Por se ter a excitabilidade consumido com a Icnga operação dos estímulos , cuja acção , continuando, deve produzir a debilidade indirecta , e ullimameute a morte , mais , ou menos promptamente , seguudo a intensidade , com quo obrão. Not, do Trad, 4 vegetal, e ao animal ; a outra he a par- ti Iha especial deste ultimo. Se se lançar com efleito os olhos sobre dons indivíduos dc cada hum destes reinos vivos, ver-se- ha , que hum só existe dentro de si, sem ter, com quem o rodca , senão relações de nutrição; nascer, crescer, morrer, fixa- do á terra , que recebeo seu germen ; o outro ligar à esta vida interna , de que goza no mais alto grão, huma vida, exte- rior, que estabelece numerosas relações en- tre elle, eosobjectos visinhos: associa sua existência á de todos os outros entes ; dcl- les se aparta , ou aproxima conforme seus temores , ou precisões ; e deste modo , pa- rece , apropriando-se tudo na natureza , referir tudo á sua existência isolada. Dizer-se-hia, que o vegatal he o es- boço, ou a primeira delineação do animal, e que para formar este ultimo , só foi pre- ciso revestir esse esboço de hum aparelho d'orgãos exteriores , proprios à estabele- cer relações. Daqui resulta, que as funções do ani- mal fórmão duas classes mui distinctas. Humas se compõem de huma suecessão habitual de assimilhação , e de excreção , por meio das quaes transforma incessante- mente em sua própria substancia as molé- culas dos corpos visinhos, e expelle depois, o ^que delias lhe vem à ser heterogeneo, ou 5 ou nocivo: por esta classe de funções o ani- mal vive em si mesmo; pela outra existe fora de si; he o habitante do WHindo, e não, como o vegetal , do lugar , que o vio nascer; sente, e percebe tudo, quanto o rodèa; refecte suas sensações; voluntaria- mente se move conforme sua influencia, e as mais das vezes pode communicar pela voz seus desejos , ou temores , seus pra- zeres , ou pezares. Chamar-se-ha vida organica o concur- so das funções da primeira classe; por- que todos os entes organisados4, vegetaes , ou animaes delia gozão em hum gráo mais, ou menos signalado, e em razão da tex- tura organica ser a unica condição neces- sária ao seu exercício. As funções reuni- das da segunda formão a vida animal, assim chamada, porque ella he o attribu- to exclusivo do reino animal. ( 1 ) A geração não entra na serie dos fe- ( 1 ) Parecia melhor dar á vida organica o epithe- to de interna , privada , física , individual ou assi- miUo-desassimilhadora , e á animal , o de publica , ex- terna , social , relativa, moral; porque a primeira não recebe menos a influencia animal , que a segunda ; por isso o nome ^animal também lhe poderia convir : e esta he executada não menos , que por hum orgão , qual o cerebro , e os nervos ; e então o titulo d' or- ganica igualmente lhe deveria pertencer. He hum axio- ma fisiologico , que tudo , quanto exerce alguma fun- ção particular he orgão. 0 Trad. 6 fenomenos destas duas vidas , relativas ao indivíduo , pois que ella unicamente per- tence á sua especie : por tanto ella só une por laços indirectos a maior parte das ou- tras funções. Ella não começa à effectuar- se , senão quando as outras estão por lon- go tempo em exercício , e se extingue muito antes, que ellas venhão à terminar. ( 1 ) Na maior parte dos animaes , seus períodos d' actividade são separados por longos intervallos de nullidade; no homem, em quem suas remittencias menos durão , ellas não tem relações mais numerosas com as funções. A subtracção dos orgãos, que lhe servem de agentes, he quasi sempre signalada por hum augmento geral de nu- trição, O eunuco goza de menos energia vi- ( 1 ) Porque se não dirá também, que a geração fórma no homem huma terceira vida, á qual se póde dar o nome de reprodadora , ou mixta ? Não he por meio delia, que o Pai trausmitte a sua no filho, e continua a existir fisicamente e ainda depois da morte ? Se a vida do homem he formada pela união das duas , denominadas animal, organica , porque ellas mesmas reunidas não constituirão hurna terceira ; a organica jcom a matéria, e a animal com a fórma ? Que im- porta , que ella se desenvolva depois de hum longo exercício das outras , quando ella já então existe nel- ias implícita , e que termine com antecipação , con- centrando-se outra vez depois de explicita ? Á vida ani- mal não se extingue também no apoplético, ficando ainda a organica em exercício por algum tempo , e par- cialmente na hemiplegia , e paraplegia perfeitas , na histeria, sincope, &c. Not. do Trad, 7 vital; mas os fenomenos da vida se desen- volvem nelle com mais plenitude. Faça- mos aqui pois abstracção das leis , que nos dão a existência, para só considerarmos, as que a entretem , e tornemos ás pii- meiras. §. n. Subdivisão de cada hum a das duas vidas animal, e organica , cm duas ordens de funções. C^Ada huma das duas vidas animal^ e organica se compõem de duas ordens de funções , que se succedem , e encadeão em bum sentido inverso. Na vida animal a primeira ordem se estabelece do exterior do corpo para o cerebro, e a segunda deste orgão para os da locomoção, e da vóz. A impressão dos objectos affecta successivamente os sentidos , os nervos , e o cerebro. Os pri- meiros recebem , os segundos transmittem , o ultimo percebe esta impressão , que as- sim recebida , transmittida , e percebida t constitue nossas sensações. Nesta primeira ordem de funções o animal he quasi passivo , mas elle se torna activo na segunda , que rezulta das acções successivas do cerebro, onde nas- ce a volição em rezulta das sensações , dos 8 dos nervos , que transmittem esta voli- ção , dos orgãos locomotores, e vocaes , agentes de sua execução. Os corpos exte- riores obrão sobre o animal pela primei- ra ordem de funções, este reobra sobre ellcs pela segunda. Huma proporção rigorosa existe em geral entre estas duas ordens , onde hu- ma he mui signalada , outra sc desen- volve com energia. Na serie dos animaes , aquelle, que mais sente também he , o que mais se move. A idade das sensações vivas he a da vivacidade dos movimen- tos ; no somno , em que a primeira or- dem está suspendida , a segunda cessa , ou não se exerce, se não por concussões irregulares. O cego , que só vive na ameta- de, relativamente & quanto o cerca, encadèa seus movimentos com hum lentor , que bem depressa perderia , se suas communioações exteriores augmentassem. Hum movimento duplo s'exerce tam- bém na vida organica ; hum compõe in- cessamtemente , outro decompõe o animal. Tal he com cffeito, como observarão os antigos , e muitos modernos depois delles, seu modo d'existir , que , o quo elle he- ra em huma época , deixa de ser em outra ; sua organização he sempre a mes- ma , mas seus elementos varião a cada instante. As moléculas nutritivas, alterna- da 9 àamente absorvidas , e expellidas, passao do animal á planta , desta ao corpo bru- to , voltão ao animal , e tornão à sahir depois. A vida organica he acommodada à esta circulação contínua da matéria. Hu- ma ordem de funções assimilha ao ani- mal as substancias , que o devem nutrir, outra as separa delle , logo que se tor- não heterogeneas à sua organização , de- pois de terem por algum tempo sido hu- ma parte delia. A primeira que he a ordem d'assi- milhação, resulta da digestão , da circula- ção , da respiração , e da nutrição. Toda a molécula , extranha ao corpo , recebe, antes de se tornar seu elemento , a influen- cia destas quatro funções. Quando ella tem depois concorrido por algum tempo à formar os nossos or- gãos , a absorvição a separa delles, e trans- mitte á torrente circuladora, d'onde he novamente acarretada , e ao depois expel- lida pela exhalação pulmonar, ou cuta- nea , e pelas diversas secreções , por meio das quaes os fluidos são expellidos para fora. A absorvição , a circulação , a exha- lação , e a secreção formão pois a segun- da ordem das funções da vida organica , ou a ordem da desassimilhação. Segue-se daqui, que o systema san- gui- 10 guineo he hum systema medio , centro da vida organica, como o cerebro o he da vida animal , onde circulão confundidas as moléculas, que devem ser assimiihadas* e as que , tendo já servido á assimilha- ção , são destinadas à serem expellidas , de sorte que o sangue he composto de duas partes , huma recrementicia , quo vem principalmente dos alimentos, e on- de a nutrição bebe seus materiaes , ou- tra excrementicia , que he como o des- pojo, e reziduo de todos os orgãos, e vem à servir ás secreções, e exhalações exte- riores. Estas ultimas funções servem toda- via também algumas vezes à transmhtir pa- ra fora os pruductos digestivos , sem que estes productos tenhão concorrido á nutri- ção das partes. He o que se vê na uri- na , e no suor , em consequência das be- bidas copiosas : então a pelle , e os rins são os orgãos excretorios , não da nutrição mas sim da digestão ; o que se observa também na producção do leite, fluido , que provém manifestamente da porção do san- gue , que ainda não foi assimilhado pelo trabalho nutritivo. Não ha entre as duas ordens dc fun- ções da vida organica a mesma relação , que entre as da vida animal; o afrouxa- mento da primeira nao produz a diminui- ção da segunda: daqui a magreza, o ma- ras- 11 rasmo , estados , nos quaes a assimilhação cessa em parte , continuando a desassimi- Ihação no mesmo grão. Estas grandes differenças , situadas entre as duas vidas do animal, estes li- mites , não menos signalados, que sepa- rão as duas ordens de fenomenos, de que cada huma he a união , me parecèm offereeer ao fisiologista a unica divisão real , que elle pode estabelecer entre as funções. Deixemos ás outras seiencias os me- thodos artificiaes ; sigamos o encadeamen- to dos fenomenos , para encadear as ideas , que delles formamos, e então veremos a maior parte das divisões fisiológicas não offerecer, senão bases incertas, ao que quizesse sobre ellas levantar o edifício da «ciência. Não farei menção aqui destas divi- sões ; o melhor meio de lhes mostrar o vacuo he , parece-me , o de provar a so- lides, da que eu adopto. Permeemos pois em detalhe as grandes differenças, que isolão o animal, que vive exteriormente, do animal , que existe em si mesmo , e se consome em huma alternativa d'Jas- similhação, e de excreção. AR- 12 ARTIGO II. Differenças geraes das duas vidas relativa- mente ás fôrmas exteriores de seus respectivos orgãos. Mais essencial differença , que dcs* tingue os orgãos da vida animal dos da organica , he a simetria de huns , e a ir- regularidade dos outros. Alguns animaes oíTerecem excepções à este caracter, prin- cipalmente à respeito da vida animal, taes são entre os peixes os linguados , os redovalhos &c. diversas especies d'entre os animaes não vertebrados &c.; mas ella he geralmente traçada no homem, igualmente que nos generos visinhos à elle em perfeição. He isto, que eu vou exa- minar ; e para o conseguir sómente basta- rá a inspecção. § r. Simetria das formas exteriores na vida animal. Ous globos perfeitamente semelhan- tes, recebem a impressão da luz ; os sons , e o cheiro tem também o seu dobrado orgão analogo. Huma unica membrana he 13 he affectada nos sabores; mas a linha me- dia nella he perfeitamente manifesta. Ca- da divisão indicada por ella he semelhan- te á do lado opposto. Apelle não nos pre- senta sempre traços desta linha , mas ella ahi he geralmente supposta. A natureza, esquecendo-se , por assim dizer , de a ti- rar , situou d'espaço em espaço pontos salientes, que indicão sua passagem. As entalhaduras da extremidade do nariz, da barba, do meio dos lábios, o embi- go, o rafe do perineo , a sahida das apo- fizes espinhosas , o encovamento medio da parte posterior do pescoço, fórmão prin- cipalmente estes pontos de indicação. Os nervos , que transmitteus a impres- são , recebida pelos sentidos , taes, como o optico, o acústico, o lingual, o olfati- vo , são evidentemente unidos por pares simétricos. O cerebro, orgão, em que a im- pressão he recebida , he rema reavei por sua forma regular ; suas partes pares se assemelhão de cada lado, taes , como a cama dos nervos opticos , os corpos cane- lados , os hipocampos, os corpos franja- dos , &c. As partes impares são todas si- metricamente divididas pela linha média, da qual muitas oflerecem signacs visíveis, como o corpo caloso, a abobada dos tres pilares, a protuberância annullar &c. Os 14 Os nervos , que transmittem aos or- gãos da locomoção, e da voz, as volições do cerebro ; os orgãos locomotores for- mados de huma grande parte do systema muscular, do osseo , e de suas dependên- cias, o laringe, e seus accessorios , do- brados agentes da execução destas voli- ções , tem huma regularidade , huma si- metria , á que não faltarão jamais. Tal he também a verdade do cará- cter , que indico , que os musculos , e os nervos deixão de fazer-se regulares , lo- go que elles não pertencem mais á vida animal. O coração , as fibras muscula- res dos intestinos, &c. são disto huma prova, quanto aos musculos; à respeito dos nervos , o grande simpático, geralmen- te destinado ã vida interna , presenta na maior parte de seus ramos huma destri- buição irregular. Os plexos solar , mezen- terico , hipogastrico , splenico , estomati- co &c. , são disso hum exemplo. Podemos pois , parece-me , conclu- ir conforme a mais evidente inspecção , que a simetria he o caracter essencial dos orgãos da vida animal no homem. Ir» 15 §. n. Irregularidade das fôrmas exteriores na vida organica, E passarmos agora ás vísceras da vi- da organica , veremos , que lhes he ap- plicavel hum caracter inteiramente oppos- to. No systema digestivo , o estomago , os intestinos, o baço, fígado, são todos irregulannente dispostos. No systema circulador , o coração , os grandes vasos , taes como a crossa da aorta, as veias cavas, o azigos, a por- ta , e a artéria innominada , não ofTere- cem signal algum de simetria. Nos va- sos dos membros se observão variedades contínuas , c o que ha de notável , he , que nestas variedades a disposição de hum lado nenhuma similhança tem com a do outro. O aparelho respirador parece ao pri- meiro golpe de vista cxactamente regu- lar ; com tudo, se se observa, que o bronchio direito diversifica do esquerdo cm extensão, direcção , e diâmetro; que tres lobulos compõe hum dos pulmões , que dons sómente formão o outro; que ha entre estes orgãos huma desigualdade ma-- 16 manifesta de volume; que as duas divi- sões da artéria pulmonar não se asseme- Ihão , nem por sua passagem , nem pe- lo seu diâmetro , que o mediastino , so- bre o qual cahe a linha média , se des- via sensivelmente para a esquerda, vere- mos 9 que a simetria não he aqui mais, que apparente , e que a lei geral não soflre excepção de modo algum. Os orgãos da exhalação, da absor- vição, as membranas sorozas , o canal thorachico, o grande vaso linfático direi- to , os absorventes segundarios de todas as partes tem huma distribuição geral- mente disigual , e irregular. No systema glanduloso vemos as cris- tãs , ou folliculos mucosos geralmente dis- seminados , sem ordem debaixo de suas membranas respectivas. O pancreas , o fí- gado , as mesmas glândulas salivares , bem que ao primeiro golpe de vista mais si- métricos , não se achão exactamente su- bmettidos a linha média. Os rins difle- rem hum do outro por sua pozição, nu- mero de seus lobulos no menino ; gros- sura , e extensão de sua artéria, e vêa , e por suas frequentes variedades mais que tudo. Estas numerosas considerações evi- dentemente nos conduzem a huma re- aulta inversa da precedente , e vem á 17 a «er, que o especial attributo dos ©rgao^ da vida interna he a irregularidade de suas formas exteriores. §. III. Consequências^ que resultão da differença das Jormas exteriores nos orgãos das duas vidas* D O apercebido , que se acaba de presentar, resulta, que a vida animal he, para assim dizer, dobrada ; que seus fe- nómenos, executados ao mesmo tempo dos dous lados , formão em cada hum delles hum systema independente do opposto: que ha , se me posso exprimir assim , hu- ma vida direita , e outra esquerda; que huma pode existir , cessando da outra à acção , e que sem dúvida ellas são des- tinadas à supprir-se mutuamente. He isto, o que se observa nestas af- fecçues morbosas, tão communs, em que a sensibilidade , e mobilidade animaes , afroxadas , ou ainda inteiramente aniqui- ladas em huma das metades simétricas do corpo, não se prestão à alguma relação, com o que nos cerca ; em que o homem não he de hum lado mais, que o vegetal, em quanto que do outro conserva todos se- 18 seus direitos a animalidade pelo movimen- to , e sentimento, que lhe restão. Certamente estas parlezias parciaes , nas quaes a linha media he o limite , em que termina, e a origem , em que co- meça a faculdade de sentir , e de ino- vcr-se, não deve observar-se com tanta re- gularidade nos animaes* que, como a os- tra , tem hum exterior irregular. A vida organica pelo contrario fór-. ma hum systema unico , em que tudo se liga, ecoordena, onde as fuuções de hum lado não se podem interromper, sem que por huma consequência necessária se ex- tingão as do outro. O fígado enfermo do lado esquerdo influe sobre o estado do es-- tomago no deireito se o colon de hum lado cessa de obrar , o opposto não pode continuar sua acção ; o mesmo motivo que embaraça a circulação nos grandes troncos venosos , e na porção direita da^ coração, a anniquila também na esquer-^ da, e nos; grandes troncos arteriaes, es- pecialmente situados deste lado &c. , don- de se segue , que suppondo , que todo» os orgãos da vida interna , arranjados de hum lado, cessem suas funções, dous do opposto ficão precísamente cm inaeção , e então succede a morte., Finalmente esta asserção he geral ; ella não respeita, senão a harmonia da vi-- 19 ▼ida organica, e não todos os seus feno- menos isolados ; alguns com effeito são du- plos , e podem supprir-se , como o rim , e o pulmão o mostrão. Não indagarei a causa desta notável diflerença, que no homem , e nos aniroaes visinhos delle, destingue os orgãos das duas vidas ; somente observarei , que ella en- tra essencialmcnte na ordem de seus fe- nomenos ; que a perfeição das funções ani- maes deve ser ligada â simetria , geral- mente observada em seus orgãos respecti- vos ; de modo que tudo , quanto pertur- bar esta simetria, altera mais, ou menos estas funções. He daqui sem dúvida, que nasce es- ta outra diflerença entre os orgãos das duas vidas, e vem à ser, que a natureza se en- trega muito mais raramente à desvios de conformação na vida animal, que na or- ganica. Grimaud se servio desta observa- ção sem indicar o principio, à que se li- ga o facto, que ella nos presenta. He esta huma nota, que não tem po- dido escapar a aquelle , cujas dissecções tem sido hum pouco multiplicadas, qual a das frequentes variações de forma, de grandeza , de posição , de direcção dos orgãos interiores, como o baço, o fígado, o estomago, os rins, os orgãos salivares &c. Taes são estas variedades no systema vas* cu.- 20 cular , que apenas dous sugeitos ofTerecem exactamente a mesma disposição ao escal- pelo do anatomista. Quem não sabe, que os orgãos da absorvição, as glandulas lin- fáticas cm particular, se achão raramente sugeitas em dous indivíduos as mesmas proporções de número , de volume, &c. As glandulas mucosas affectão já mais hu- ma posição fixa, e analoga ? Não , sómente cada systema isoladamen- te examinado, he assim sugeilo à frequen- tes aberrações-, mas ainda a união dos orgãos da vida interna se acha algumas vezes em huma ordem inversa da natural- Conduzio-se o anno passado ao meu am- phitheatro hum menino ,, que tinha vivi- do muitos annos com hum transtorno ge- ral das vísceras digestivas,, eirculadoras , respiratórias, e secretorias. A direita se achavão o estomago, o baço, o S do co- lon , a ponta do coração, a aorta , o pul- mão com dous lobulos &c.. A esquerda se via o fígado , o cego , a base do coração,, as veias cavas, a, azigos,, o pulmão com tres lobulos &c. Todos os orgãos situados debaixo da linha media , taes como o medíastino , inesenterio , o duodeno , o pancreas , a divisão dos bronchios affectavão também huma ordem de transtorno. Muitos autho- ues tem fallado destas dislocações de vis-, ©c-. 21 cera?, de que não conheço com tudo exem- plo tão completo. Lancemos agora os olhos sobre os or- gãos da vida animal, sobre os sentidos, os nervos , o ccrebro, os musculos volun- tários, o laringe; tudo nellcs he exacto , preciso , rigorosamente determinado , em forma , grandeza , e posição. Quasi nun- ca se vê nella mudanças de conformação ; e se se vê, as funções são anniquiladas, ou perturbadas , em CjUanto, que se con- servão sempre as mesmas na vida orgâni- ca no meio das diversas alterações das partes^ Esta dilTerença entre os orgãos das duas vidas evidentemente depende da si- metria de huns , que a menor mudança de conformação teria perturbado , e da ir- regularidade dos outros , com a qual es- tas diversas mudanças se ligão bem. O jogo. de cada orgão he immediata- mente ligado na vida animal em sua se- melhança com o do lado opposto, se he dobrado, ou à uniformidade de conforma- ção de suas duas metades simétricas , se he simples. Conforme isto se concebe a in- fluencia das mudanças organicas sobre as desordens das funções. Isto será mais sensível , quando eu tiver indicado as relações , que existem entre a simetria , ou irregularidade dos or- gàos * 22 gãos , e a harmonia , ou discordancía das funções. ARTIGO III. Differença geral das duas vidas rela* tivameale ao inodo d'' acção de seus orgãos respeclivos, Á. Harmonia he para as funções dos orgãos, o que a simetria he para a sua conformação; ella suppõe huma igualdade perfeita de força , e de acção, como a simetria indica huma cxacta analogia nas fôrmas exteriores , e estructura interna. Ella he huma consequência da simetria ; porque duas partes , essencialmente seme- lhantes em estructura, não podem ser dif- ferentes no modo de obrar. E«tc simples raciocínio nos conduziria pois à esta pro- va geral, e vem à ser , que a harmonia he o caracter das funções exteriores , a discordância pelo contrario oattributo das organicas ; mas he preciso sobre este pon- to entregar-se a mais amplas descripções. §L Da harmonia d'acção na vida animal, A vimos, que a vida externa resul- tava das aeções successivas dos sentidos, dos 23 dos nervos , do ccrebro, dos orgaos loco- motores, e vcCaes. Consideremos agora a harmonia d5 accão em cada huma destas grandes divisões. precisão de nossas sensações pare- ce ser tanto mais perfeita, quanto existe entre as duas impressões, de que cada hu- ma he a união, huma mais exacta serne- Dwnça. Nós vemos mal , quando hum dos ©lhos, mais bem constituído, mais forte, que o outro, he mais vivamente aífectado,. ® transmitte ao cerebro huma mais viva representação. He para evitar esta confu- são , que hum olho se feixa , quando a acção do outro he artificialmente augmen- tada por huma lente convexa : esta lente rompe a harmonia dos dous orgãos ; e nós só de hum usamos , para que elles nào sejão discordantes, O que huma luneta produz artificial* mente, nos offerece o estrabismo no esta- do natural. Nós olhamos de traves , diz Bufion, porque apartamos o olhó mais fra- co do objecto , sobre o qual o mais forte se fixa , para evitar a confusão , que nas- ceria na pcrcepção de duas imagens desi- guaes. Sei , que outras muitas causas con- correm à produzir esta aífecçao, mas a rea- lidade desta nào pode entrar em dúvida* Também sei , que cada olho pódc isola* da-' 24 lamente obrar em diversos animae* $ que duas imagens diversas são transmittidas ao mesmo tempo pelos dous olhos de certas especies ; mas isto não embaraça , que , quando estes dous orgãos reúnem sua ac- ção sobre o mesmo objecto, as duas im- pressões , que elles transmittem ao cere- bro, não devão ser analogas. Hum juizo unico he disto com effeito a resulta: ora, de que modo este juizo será feito comexac- ção , se o mesmo corpo se presenta ao mesmo tempo tanto com cores vivas , co- mo com hum fraco colorido , conforme el- le se pinta sobre huma, ou outra retina ? O que dizemos do olho , se applica exactamente á orelha. Se nas duas sensa- ções , que compõem o ouvido , huma he recebida por hum orgão muito forte , e mais bem desenvolvido, ella ahi deixará huma impressão mais clara, e mais des- tincta; o cerebro differen temente aflectado por cada huma , só será o assento de hu- ma percepção imperfeita. He isto, o que constitue a falça orelha. Porque razão hum homem he penosamente affectado de hu- ma dissonância, em quanto que outro não se appercebe delia? He porque em hum, confundindo-se as duas percepções do mes- mo som em huma só , esta he precisa , rigorosa , e destingue o menor deffeito do canto , em quanto que em outro as duas ore- 25 orelhas, offerecendo diversas sensações , a percepção he habitualmente confusa, e não pode apreciar o defíeito d' harmonia dos sons. He por isto mesmo, que vemos hum homem coordenar sempre o encadeamento de sua dança à successão das medidas, ou- tro pelo contrario unir constantemente aos accordes da orquestra a discordância de seus passos. BufiTon limitou ao olho, e ao ouvido suas considerações sobre a harmonia dic- ção ; continuemos seu exame na vida a- nimal. He preciso no cheiro , como nos ou- tros sentidos, distinguir duas impressões , huma primitiva , pertencente ao orgão, ou- tra consecutiva , que affecta o sensorio : esta póde variar, sendo a primeira sem- pre a mesma. Tal cheiro faz fugir huma pessoa do lugar , a que ella attrahe ou- tras ; não he isto , porque a aífecção da pituitária seja differente , sim porque a alma une sentimentos diversos à huma im- pressão idêntica , de sorte que aqui a va- riedade das resultas não a suppÕc de mo- do algum em seu principio. Algumas vezes porém a impressão , nascida sobre a pituitária, realmente dif- fere , do que ella deve ser para a perfei- ção da sensação. Dons cães seguem a mes- ma caça; hum não lhe perde jamais o ras- 26 rastro, faz os mesmos circuitos , e rodeios, o outro também a segue, mas para mui- tas vezes, perde o pé, como se diz, he- sita, e procura tornalla a achar, corre, e segunda vez pâra. O primeiro destes dous cães recebe huma viva impressão das emanações odoríferas ; em quanto que só affectão confusa mente o orgão do segun- do. Ora esta confusão não depende ella da desigualdade d'acção das duas ventas; da superioridade d5 organisaqão de huma, e da fraqueza da outra ? As observações seguintes parecem provallo. No corysa, que só affecta huma ven- ta, se ambas estão abertas, o cheiro vem à ser confuso; fechai a do lado enfermo, elle virá à ser distincto. Hum polypo, de- senvolvido de hum lado , afroxa a acção da pituitária correspondente, sendo a da outra sempre a mesma ; daqui , como no caso precedente, defeito d'harmonia en- tre os dous orgãos , e por isso mesmo con- fusão na percepção dos cheiros. A maior parte das affecções de huma venta isola- da tem resultas analogas, e que pódem ser momentaneamente corrigidas pelo modo , que acabo de indicar; e porque razão? Porque fazendo huma das pituitárias ina- ctiva se faz cessar sua discordância d' ac- ção com a outra. Concluamos daqui, que, pois que to- da 27 da a causa accidental, que rompe a har- monia das funções dos orgãos , faz con- fuza a percepção dos cheiros, he provável, que quando esta percepção he natural- mente inexacta , ha nas ventas huma de- sigualdade natural de conformação, e por isso mesmo de força. Digamos do gosto , o que dissemos do cheiro: muitas vezes hum dos lados da lingua he unicamente aífectado de parle- sia, d' espasmo. A linha media separa al- gumas vezes huma porção insensível da outra, que conserva ainda toda sua sensi- bilidade. Porque razão, o que succede de mais , não accontece de menos ? Porque hum dos lados , conservando a faculdade de perceber os sabores , não gozaria del- ia em hum menor grão, que a outra ? Ora neste caso he factivel de conceber , que o gosto serâ irregular, e confuso, porque huma percepção precisa não pode succe- der a duas sensações desiguaes, e que tem o mesmo objecto. Quem não sabe , que em certos corpos , onde alguns não achão senão obscuros sabores , outros encontrão mil causas subtis de sensações agradareis, qu peniveis ? A perfeição do tacto he , como a dos outros sentidos essencialmente ligada à uni- formidade d'acção das duas metades si- métricas do corpo , em particular das dua s mãos. 28 mãos. Supponhamos hum cego de nascen- ça com huma mão regularmente organi- sada, em quanto que a outra , privada dos movimentos d' opposição do polegar , e de flexão dos dedos, formaria huma super- fície rija , e immovel ; este cégo não ad- quiriria , senão difficultosamente noções de grandesa , de figura , de direcção , &c, porque huma mesma sensação não nas- cerá da applicação successiva das duas mãos sobre o mesmo corpo. Se ambas tocarem huma pequena esfera , por exemplo huma abraçando-a exactamente pela extremida- de de todos os seus diâmetros , fará nas- cer a idea da redondesa; a outra, que não estiver com ella em contacto , senão por alguns pontos, dará huma sensação toda diversa. Duvidoso entre estas duas ba- ses do seu juizo, o cégo só o poderá exe- cutar diíhcilmente ; elle poderá ainda fa- zer corresponder à esta dobrada sensação hum juizo duplo pela fórma exterior do mesmo corpo. Suas idéas serião mais pre- cisas, se elle condemnasse huma de uas mãos á inacção, como aquelle , que olha de través , aparta o olho mais fraco do objecto, para evitar a confusão, efleito inevitável da diversidade das duas sensa- ções. As mãos se supprem pois reciproca- mente; huma confirma as noções, que nos dá a outra : daqui a precisa uniformida- de de sua conformação. As 29 As mãos não são os agentes únicos do tacto, as flexuras do antebraço, do sova- co, da virilha, a cavidade da planta do pé &c. podem , abraçando os corpos, for- necer-nos também bases reaes , bem que menos perfeitas, de nossos juizos sobre as formas exteriores. Ora supponhamos hu- ma das duas metades do corpo toda dif- ferentemente disposta da outra , a mesma incerteza na pcrcepção vira a ser sua re- sulta. Concluamos do que se acaba de di- zer , que em todo o apparelho do syste- ma sensitivo exterior, a harmonia d'acção dos dous orgãos simétricos, ou das duas me- tades semelhantes do mesmo orgão, he hu- ma condição essencial á perfeição das sen- sações. Os sentidos externos são os excitan- tes naturaes do cerebro , cujas funções na vida animal succedem constante- mente aos seus, e que languecerião em huma innacção constante , se nelles não achasse o principio de sua actividade. Das sensações derivão immediatamente a pcr- cepção , a metnoria , a imaginação, e por isso mesmo o juizo : ora he facil pro- var , que estas diversas funções, com- mummente designadas debaixo do nome de sentidos internos , seguem em seu exer- cício a mesma lei , que os sentidos exter- nos , 30 nos , e que, cômo estes , são tanto mais visinhos da perfeição, quanto he maior a harmonia entre as duas porções simétricas do orgão, no qual elias tem o seu as- sento. Supponhamos com effeito hum dos hemispherios mais fortemente organizado, que o outro, em todos os seus pontos mais bem desenvolvido, suseeptivel por isso de ser mais vivamente affectado, di- go , que então a percepção será confuza, porque o cerebro he para a alma , o que os sentidos são para o cerebro; elle lhe transmitte o abalo vindo pelos sentidos , como estes lhe cnvião as impressões , que fazem sobre elles os corpos , que os rodeão. Ora se o defeito d'harmonia no systema sensitivo exterior perturba a percepção do cerebro, porque a alma não perceberia confuzamente , quando os dous hemisphe- rios , desiguaes em força , não confundem em huma só a dobrada impressão, que elles recebem ? Na memória, faculdade de reprodu- zir antigás sensações ; na imaginação , faculdade de. criar novas , cada hemisphe- rio parece só reproduzir , ou criar huma. Se ambas não são per feita mente semelhan- tes , a percepção d'alma , que deve rcunil- las , será inexacta, e irregular. Certa- mente haverá nas duas sensações desigual- da- 31 dade, havendo-a nos dons hemisphenos 9 em que ellas vem a ter o seu assento. A pcrcepção, a memória, e a ima- ginação são pois as bazes ordinárias do juízo. Quando humas são confuzas , como poderá o outro ser distincto. Nós suppozemos a desigualdade dic- ção dos hemispherios; provamos , que o defeito da precizão nas funeções intelle- ctuaes deve ser sua resulta ; mas , o que ainda não he , senão supposição, vem à ser em hum montão de cazos realidade. Que de mais commum , que ver coincidir com a compressão do hemispherio de hum lado pelo sangue, o pús derramado , hum osso depremido, hum exostoze desenvol- vido na face interna do craneo , &c, nu- merosas alterações na memória , perce- pção , imaginação, e juízo ? Quando mesmo todo signal de com- pressão actual desaparceu , se , pela influen- cia da que elle experimentou , hum dos lados do cerebro fica mais fraco 9 estas alterações não se prolongão ? Diversas alie- nações não são suas funestas consequên- cias ? Se os dous lados fossem igualmen- te aflectados , o juizo viria á ser , bem que fraco , mais exacto. Não he deste modo , que se devem explicar muitas observações, tantas vezes citadas , em que huma pancada sobre huma das regiões la- 32 lateraes da cabeça restabeleceo as func- ções intellectuaes perturbadas á muito tempo em resulta d'outra , recebida sobre a região opposta ? Parece-me ter estabelecido , que , suppondo a desigualdade d'aeçao dos he- mispherios, devem as funcções intelle- ctuaes ser perturbadas. Mostrei depois di- versos casos de moléstias, em que esta perturbação he a evidente resulta desta desigualdade. Vemos aqui o effeito , e a causa ; mas acolá , onde o primeiro sen- tido he apparente , não nos mostra a ana- logia a segunda ? Quando habitualmen- te o juizo hc inexacto, que não há em todas as idéas precisão , não somos obri- gados à crer que há defeito d'harmonia entre todos os lados do cerebro? Nós ve- mos de traves, se a naturesa não cons- tituio equilíbrio na força dos dous olhos. Se os hemispherios são naturalmente dis- cordantes , percebemos, ejulgamos igual- mente : o espirito mais exacto , o juizo mais são suppõe nelles a harmonia mais completa. Que differenças nas operações do entendimento ! Estas difierenças não correspondem a outras tantas variedades na relação de força das duas metades do cerebro ? Se podessemos servir-nos de tra- vés deste orgão , como dos olhos, ou re- ceber com hum só hemispherio as impres- sões 33 sões externas , empregar hum só lado do cerebro cm tomar determinações , c em julgar , então seriamos senhores da exac- ção das nossas operações intellectuaes; mas huma semelhante faculdade não existe. Continuemos o exame d' harmonia d'acção no systema da vida animal. As funções do cerebro succedcm á locomo- ção , e ã voz; a primeira parece ao pri- meiro golpe de vista fazer excepção á lei geral d' harmonia d'acção. Considerai com eficito as duas metades verti caes do cor- po, e vereis huma constantemente supe- rior á outra pela extensão, numero, e facilidade de movimentos, que executa. He como se o sabe , a porção direita , que excede ordinariamente a esquerda. Para comprchender a razão desta diflerença, distingamos em toda especie de movimento a força, e a agilidade. A força depende da perfeição d' organiza- ção , da energia de nutrição, da pleni- tude de vida de cada musculo : a agili- dade he a rezulta do habito , e do fre- quente exercício. Notemos agora , que a discordância dos orgãos locomotores deriva, não da força , ma- da agilidade dos movimentos. Tudo he igual em volume, numero de fibras, nervos de hum, e outro dos mem- bros superiores, ou inferiores; a diãcrem-a de 34 de seu systema vascular he quasi nulla. Scgue-se d' aqui , que quasi não há , ou não há absolutamente, esta discordância na natureza ; ella he a rezulta manifes- ta de nossos hábitos sociaes , que multi- plicando os movimentos de hum lado , lhes augmentão a destreza , sem augmcn- tar muito sua força. Taes são com effeito as precizões da sociedade, que he necessário hum certo número de movimentos geraes , que de- vem ser executados por todos na mesma direcção, à fim de poderem entender-se. Estâ-se convencido, que esta direcção he a da esquerda á direita. As letras , que compõe a escrita da maior parte dos po- vos , são dirigidas neste sentido. Esta cir- cunstancia arrasta a necessidade d' empre- gar , para formar estas letras , a mão di- reita , que he mais adaptada , que a es- querda, à este modo de escrita, assim como esta conviria muito mais ao modo opposto, como he facil de convencer pelo menor ensaio. A direcção das letras da esquerda á direita impõe a lei de as seguir com os olhos da mesma sorte. Do habito de ler assim nasce o d'examinar a maior par- te dos objectos conforme mente no mesmo sentido. A necessidade d'accorde nos combates tem 35 tem determinado geralmente o empregar a mão direita para pegar nas armas; a harmonia , que dirige a dança dos povos os mais selvagens , exige nas pernas hum accorde, que elles conservão, fazendo sem- pre inclinar sobre a direita seus movimen- tos principaes. Poder-se-hia ajuntar à es- tes diversos exemplos huma multidão de outros analogos. Estes movimentos geraes , concordes todos na ordem social , que romperia a harmonia de huma multidão d' actos, se todos os não executassem no mesmo sen- tido , estes movimentos , digo, nos con- duzirião inevitavelmente, pela influencia do habito , à empregar para nossos mo- vimentos particulares os membros , que el- les pãe em acção. Ora estes membros , sen- do os situados á direita , rezulta , que os deste lado estão sempre em activida- dc , ou para as precizões relativas aos mo- vimentos, que nos coordenamos com os dos outros indivíduos , ou para as nossas necessidades pessoaes. Como o habito d'obrar aperfeiçoa a acção , concebe-se a causa do excesso d'agi- lidade do membro direito a respeito do esquerdo. Este excesso quasi não he pri- mitivo, o uso o conduz de hum modo in- sensível. Esta rcmarcavel diflerença nas d uai me- 36 metades simétricas do corpo não he demo- do algum na natureza huma excepção da lei gerrj d'harmonia d'acção das fun- ções externas. Isto he tão verdade, que a união dos movimentos, executados com todos os nossos membros, he tanto mais cxacto , quanto he menor a diflerença na agilidade dos musculos esquerdos, e direitos. Por- que certos animaes permeão com tanta destreza roxedos , em que a menor de- viacção os conduziria ao abysmo , c correm com huma admirarei exactidão sobre pla- nos à penas iguaes em largura à extremi- dade dos seus membros ? Porque o an- dar dos mais pezados já mais he acom- panhado destes falsos passos tão communs na progressão do homem? He porque nel- les a differença sendo quasi nulla entre os orgãos locomotores de hum , e outro lado, estes orgãos se achão cm harmonia constante d'acção. O homem o mais destro em seus mo- vimentos de totalidade, seráaquelle, que o he menos nos movimentos isolados do membro direito ; porque , como em outro lugar o provarei , a perfeição de huma parte já mais se adquire , senão à ex- pensas da de todas as outras. O menino, que se exercitasse cm fazer hum igual em- prego de seus quatro membros, teria em seus mo- 37 movimentos geraes huma precisão, que difi- cultosamente adquiriria para os movimen- tos particulares da mão direita , como pa- ra os que exigem a escrita , o esgrima , &c. Creio bem, que algumas circunstancias naturaes tem influído sobre a escolha da direcção dos movimentos geraes , que exigem os hábitos sociaes, taes são o ligeiro excesso de diâmetro da subclavicular di- reita, o sentimento de laxidão, que acom- panha a digestão , c que , mais sensível á esquerda por causa do estomago , nos obri- ga a obrar neste tempo do lado opposto ; tal he o instincto natural, que nas affecções vivas, nos faz applicar a mão sobre o co- ração , onde a direita se dirige muito mais facilmente , que a esquerda : mas estas causas são quasi nullas, comparadas â disproporção dos movimentos das duas metades simétricas do corpo, e debaixo desta relação he sempre verdade o dizer , que sua discordância he hum efleito so- cial , e que a natureza as tem primitiva- mente destinado á harmonia d'acção. A voz he com a locomoção o ultimo acto da vida animal no encadeamento natural de suas funções. Ora a maior parte dos Fisiologistas , e em particular llaller , indicarão , como causa de seu defeito d'harmonia a discordância das duas metades simétricas do laringe, a desigual- dade 38 dade de força nos musculos, que inovem as arytenoides , d'acção nos nervos, que vão de cada lado à este orgão, de refle- xão dos sons cm huma , e outra venta , nos sinuos direitos , e esquerdos. Sem du- vida a falsa voz depende muitas vezes da orelha : quando nós ouvimos falso , can- tamos do mesmo modo; porém , quando a exactidão do ouvido coincide com o defei- to de precisão dos sons, a causa está cer- tamente no laringe. A vóz a mais harmoniosa he pois aquella , que as duas partes do laringe produzem em hum gráo igual , onde as vibrações de hum lado , exactamente .se- melhantes por seu numero, força, duração, as do lado opposto se confundem com ellas para produzir o mesmo som ; do mesmo modo, que o canto o mais perfeito seria aquellc , que produzisse duas vozes exa- ctamente idênticas por sua compreheníão, seu timbre , e suas inflexões. Das numerosas considerações , que acabo de presentar, dimana, creio, esta rezulta geral, e vem à ser, que hum dos princípios essenciaes da vida animal he a harmonia d'acção das duas partes analogas, ou dos dons lados da parte simples , que concorrem à hum mesmo fim. Ve-se facil- mente, sem que eu o indique, a relação, que existe entre esta harmonia d'acção, cara- 39 caracter das funções , e a simetria de fórina, attributo dos orgaus da vida ani- mal. Finalmente, terminando este para- grafo , eu me antecipo à dizer , que in- dicando as diversas desordens , que , do defeito d'harmonia dos orgaõs, resultão na vida animal, não pertendo assignar mais , que huina causa isolada destas des- ordens ; eu «ei por exemplo , que outras mil circunstancias , além da discordância dos dous hemispherios do cerebro , podem alterar o juizo , a memória &c. &c. §• II. Discordância (Tacção na vida organica. Par dos fenomenos da vida externa «ituemos agora os da vida organica , e ve- remos, que a harmonia não tem influencia alguma sobre elles. Embora hum rim mais forte , que o outro, separe mais urina ; hum pulmão mais desenvolvido admitta em hum tempo dado mais sangue venal, e envie mais do arterial , menos força orga- nica distinga asglandulas salivares esquer- das das direitas , a furção unica , à que concorre cada par d'orgaõs não he menos regularmente exercitada. Se hum ingor- gita- 40 gitamento ligeiro occupar hum cios Lados do fígado , do baço , do pancreas , a por- ção sãa suprirá, e a função não será perturbada. A circulação he sempre a mes- ma nomeio das variedades frequentes do systema vascular dos dous lados do corpo: ou estas variedades existão naturalmente ou ellas derivem de algumas obliterações artificiacs dos grandes vasos , como no aneurisma. Daqui estas numerosas irregularida- des d'estructura , estes vicios de confor- mação , que, como disse já , se observão na vida organica , sem que nella ha ja por isso discordância de furçÕes. Daqui esta successão quasi continua de modificações, que augmentando , e diminuindo alter- nadamente o circulo destas funções , não as deixa quasi nunca cm hum estado fixo. As forças vitaes , e os excitantes , que as põem em jogo, sem cessar varia- reis no estomago, rins, fígado, pulmões, coração, &c., ahi determinão huma ins- tabilidade constante nos fenomenos. Mil causas podem à cada instante dobrar, triplicar a actividade da circula-ão , e da respiração, augmentar, ou diminuir a quantidade da bile , da urina , da saliva secretadas , suspender , ou accelcrar a nu- trição de huma parte; a fome , os alimen- tos , o som no , o movimento , o repouso, as 41 as paixões dc., imprimem a eMas fun« < ões huma mobilidade tal , que ellas pas- são cada dia por cem diversos grãos de íoiça , ou de fraqueza. Tudo pelo contrario he constante, uniforme , e regular na vida animal. As forças vitaes dos sentidos não podem igualmente , que as interiores experimentar estas alternativas de modificações, ou ao menos em hum grão tão signalado. Com effíitQ huma relação habitual as une ás forças fisicas , que regem os corpos exte- riores : ora sendo estas as mesmas em suas variações , cada huma destas variações ani- quilaria a relação , e então cessarião as funções. Além disto , se esta mcbilidade , qu© caracteriza a vida organica, fosse também o attributo das sensações , ella seria por isso mesmo da percepção, da nieir.oria 5 da imaginação, do juizo, e conseguinte- mente da vontade. Que seria entiio o homem ? Arrastado por mil movimentos ©ppostos , jogo perpetuo de tudo quanto o rodeasse, veria sua existência alterna- damente visinha á dos cor । os Liutos, cu superior á de que elle goza com efleito ; unir ao que a intelligencia n ostra de maior, ao que a matéria presenta de mais vii. AR- * 42 ARTIGO IV. Differenças geraes das ditas vidas relali* vaniente d duração de sua acção, U acabo de mostrar hum dos grandes caracteres, que distinguem os fenomenos da vida animal dos da organica : o que agora passo à cximinar , não he de menos importância; elle condiste na intermitência periódica das funçães externas , e na continuidade não interrompida das internas» §. I. Continuidade d^acção na vida organica, Cau«a , que suspende a respiração 9 e a circulação, suspende, e ainda anni- quila a vida , por pouco que ella seja prolongada. Todas as secreçães se operão sem interrupção , e se alguns periodos de remittencia ahi se observão, como na bile fora do tempo da digestão, na saliva fóra do da mastigação Ac., estes periodos só a contecem à respeito da intensidade , e não no inteiro exercício da função. A exha- lação , e a absorvição se succedein inces* sau- 43 santemente ; jamais a nutrição se torna inactiva ; o duplo movimento d'assimilhação, e desassimilhação , de que ella resulta só tem por termo o da vida. Neste encadeamento continuado de fenomenos orgânicos , cada função está n'huma dependencia immediata d'aquellas, que a precedem. Centro de todas , a cir- culação he sempre immediatamente ligada ao seu exercício ; se ella he perturbada, £5 Outras languescem ; ellas cessão, quando o sangue fica immovel. Taes em seus movimentos successivos as numerosas rodas do relogio parão, quando a pendula , que a todas poem em jogo, suspende também seu giro. Não sómente a acção geral da vida organica he ligada á acção particular do coração , como também cada função isoladamente se encadea à todas as outras; sem secreção não ha digestão; sem ex- halação a absorvição he nulla ; sem digestão a nutrição falta. Podemos por tanto, pare- ce-me, indicar , como caracter geral das funções organicas, sua continuidade, e a mutua dependencia , em que estão humas das outras. In» 44 §. IL Intermitlencia d^acção na vida animai. Onsidere-se pelo contrario cada orgao da vida animal no exercício de suas fun- ções , ver-se-há nellas constantemente al- ternativas de actividade, e de repouso , completas intermittencias , e não remit- tencias, como as qne se observa em al- guns fenomenos orgânicos. Cada sentido, fatigado por longas sensações , se torna momentaneamente im- próprio para receber novas. A orelha não he excitada pelos sons ; o olho se feixa â lus ; os sabores não irritão mais a lingua ; os cheiros achão a membrana pituitária insensível ; o tacto se torna obtuso pela unica razão de se terem por algum tem- po exercido as respectivas funções destes diíferentes orgãos. Fatigado pelo exercício continuado da percepção , da imaginação, da memó- ria , ou da meditação , o cerebro tem ne- cessidade . de recuperar por huma ausên- cia d'acção , proporcionada á duração d'actividade, que precedeo , forças , sem as quaes elle não poderia tornar-se activo. Todo muscule , que se tem fortemen- te 45 te contrahido , não se presta à novas contracções , se não depois d'cstar hum certo tempo em relaxação. Daqui as in- termittencias necessárias da locomoção , e da voz. Tal he pois o caracter proprio à ca- da orgão da vida animal, que deixa de obrar por isso mesmo , que se tem exer- citado , pois que elle então se fatiga , e suas forças esgotadas tem precisão de re- novar-se. A intermittencia da vida animal he humas vezes parcial, outras geral ; parcial , quando hum orgão isolado tem estado longo tempo em exercício , ficando os ou- tros inactivos. Então este orgão se relaxa ; elle dorme em quanto que os outros se achão despertados. Eis-aqui sem dúvida , porque cada função animal não está em huma immediata dependencia das outras, como na vida organica observamos. Estando os sentidos fexados as sensações, a aeção do cerebro , ainda pode subsistir ; a me- mória , a imaginação , a reflexão nelle se achão muitas vezes. A locomoção, e a voz , podem então continuar também ; interrom- pidas estas , os sentidos recebem igualmen- te as impressões externas. O animal he senhor de fatigar isola- damente tal , ou tal parte , cada huma devia pois poder-se relaxar , e por isso mes- 46 mesmo reparar suas forças de hum modo isolado: he o somno parcial dos orgãos. §. III. ^Ipplicação da lei d^intermiílencia d^aeção á theoria do somno. O Somno geral he a união dos somnos particulares : elle deriva desta lei da vida animal, que encadea constantemente em suas funções tempos de intermittencia aos períodos de actividade , lei, que a distin- gue de hum modo especial , como vemos , da vida organica : o somno por tanto já mais tem sobre esta , senão huma influ- encia indirecta , em quanto que influe inteiramente sobre a primeira. Numerosas variedades se notao neste estado periodico, à que todos os animaes são submettidos. O somno o mais completo he aquelle, em que toda a vida externa , as sensações , a percepção , a imaginação , a memória , o juizo, a locomoção , e a voz estão suspendidos; o menos perfeito só aífecta hum orgão isolado; e he deste, que ao depois fatiaremos. Entre estes dous extremos numerosas intermediações se encontrão : humas vezes as sensações , a percepção , a locomoção , e a voz estão só suspendidas , ficando a me- 47 memória, o juizo, e a imaginação em exercício ; outras , ao exercício destas fa- culdades , que subsistem , se une também o da locomoção , e da voz. Este som no vem à ser o agitado pelos sonhos , osquae» nenhuma outra cousa são , que huma por- ção da vida animal , livre do entorpeci- mento , em que está a outra submergida. Algumas vezes também tres, ou qua- tro sentidos sómente tem interrompida sua communicação com os objcctos exteriores : tal he esta especie de somnambulismo , cm que a acção conservada do cerebro, dos musculos, e do laringe, se une mui- tas vezes â assás distincta do ouvido , e do tacto. De nenhum modo consideremos pois o somno, como hum estado constante, e invariavelem seus fenomenos. Apenas dor- mimos duas vezes consecutivas do mesmo modo; huma multidão de causas o mo- dificâo , applicando a huma porção maior, ou menor da vida animal a lei geral d'in- termittencia d'acção. Seus diversos gráos devem ser signalados pelas differentes fun- ções , que esta intermittencia mostra. O principio he geralmentc o mesmo desde o simples relaxamento , que em hum musculo voluntário succede á contracção , até a inteira suspenção da vida animal. O somno he geralmente ligado a esta lei univer- 48 ▼er^al d'intermittencia, caracter excluzivo desta vida; mas sua applicacâo âs diífe- rentes funções externas ^aria em infinito. Estas idéas sobre o somno estão sem dúvida mui longe de todos estes systemas re^trictos, em que sua causa, exclusivamente situada no cerebro , cor; çÚo, grandes vasos, estomago , &c. presenta hum fe- nómeno isolado , muitas vezes illuzorio , como base de huma das grandes modifica- ções da vida. Porque a luz, e as trevas são na ordem natural , regularmente coordenadas á actividade , e á intermittencia das fun- ções externas? He porque, durante o dia, mil meios d'excitamento rodeão o animal; mil causas esgotão as forças de seifl» orgàos sensitivos , e locomotores, detcrminào sua froxidào , e preparão hum relaxamento, que a noite favorece pela ausência de to- dos os generos de estimulantes. Por tanto em nossos costumes actuacs, em que esta ordem he em parte intervertida , juntamos em nosso contorno durante as trevas, di- versos excitantes , que prolongão a vigí- lia , e fazem coincidir com as primeiras ho as da luz a intermittencia da vida animal, que nós favorecemos aliás, remo- vendo do lugar do nosso rcpouQo todo meio proprio à fazer nascer sensações. IXós podemos, durante hum certo tem- P° 3 49 po, súbtrahir os orgaos da vida animal á lei d'intermittencia , multiplicando em tor- no delles as causas d'excitação, mas elles á sofrem finalmente , e nada pode n'huma certa época suspender-lhe a influencia. Enfraquecido por huma vigilia prolongada , o soldado dorme à par da peça de ca- nhão , o escravo debaixo das varinhas , que o açoutão, o criminoso no meio dos tormentos da questão &c. &c, Distingamos bem finalmente o som- no natural , rezulta da froxidão dos orgãos, do que he effeito d^huma affec- ção do cerebro , da apoplexia, ou da com moção , por exemplo. Aqui os senti- dos velao, elles recebem as impressões, e são affectados , como ao ordinário; porém estas impressões , não podendo ser percebidas pelo cerebro enfermo, não podemos ter delias consciência. Pelo con- trario no estado ordinário , he sobre os sentidos , tanto , e ainda mais , sobre o cerebro, que se exerce a intermittencia da acção. Do que temos dito neste artigo se segue , que por sua natureza a vida or- gânica dura muito mais, que a vida ani- mal. Com effeito a sõma dos periodos d'in- termittencia desta anda quasi pela de seus tempos d'actividade na proporção da me- tade ; de sorte que de baixo desta relação quasi 50 quasi vivemos dentro de nós o duplo, do que existimos extern a me ate. ARTIGO V. Differenqas geraes das duas vidas relata vamente ao habito. II E também hum dos grandes cara- cteres, que distinguem as duas vidas do animal, a independencia, em que huma está do habito, comparada á influencia , que a outra recebe delle. §. T. Do habito na vida animal. !_ Udo he modificado pelo habito na vida animal ; cada função exaltada , ou enfraquecida por elle, parece, segundo as diversas épocas , em que se exerce , to- mar caracteres bem differentes: parabém julgar de sua influencia he preciso dis- tinguir duas cousas no effeito das sensa- ções, o sentimento, e o juizo. Hum can- to affecta o nosso ouvido ; sua primeira impressão he , sem que saibamos porque , penivel, ou agradarei; ei* o sentimento. Se continua , nós procuramos apreciar os diversos sons, de que elle he a união ; distinguir seus acordes ; eis o juízo. Ora o 51 o habito obra de hum modo inverso sobre estas duas cousas. O sentimento he cons- tantemente embotado por elle, o juizo pelo contrario lhe deve sua perfeição. Quanto mais vemos hum objecto , menos sensíveis somos , ao que elle tem de agra- darei , ou penivel , e melhor julgamos de todos os seus attributos. §. II. O habito embola o sentimento, •J A' disse , que he proprio do habito enfraquecer o sentimento , e de conduzir sempre o prazer , ou a dor à indifferença , que he seu termo medio. Antes porém de provar esta notável asserção, he bom determinar-lhe o sentido. A dor, e o pra- zer são absolutos , ou relativos. O instrua mento, que lacera nossas partes , a infla- mação , que as affecta, causa huma dor absoluta ; o coito he hum prazer da mes- ma natureza. A vista de hum bello cam- po nos incauta ; he este hum gozo rela- tivo ao estado actual , em que se acha a alma ; porque para o habitante deste cam- po, sua vista he á muito tempo indifferen- te. Se huma sonda permea pela primeira vez a ureterá , ella vem a ser penivel ao enfermo; oito dias depois ella não lhe fica 52 fica sendo mais sensível; eis huma dor de comparrção. Tudo quanto obra sobre os nossos orgaos destruindo seu tecido, he sempre causa de huma sensação absoluta ; o simples contacto de hum corpo sobre o nosso, não as produz jamais, se não relativas. He evidente, segundo isto, que o dominio da dor, ou do prazer absolutos, he muito mais restricto, queda dor, e do prazer, relativos; que estas palavras, agradavel, e penivel suppoem quasi sempre huma comparação entre a isupressão , que recebem os sentidos , e o estado d'alma , que percebe esta impressão. Ora he ma- nifesto , que o prazer , e a dor relativos são sós os submettidos ao império do ha- bito; e he delles sós que nos occuparemos. São muitas as provas , que temos , para estabelecer, que toda especie de pra- zer , ou de dor relativos, he incessan- temente conduzida á indiíferença pela in- fluencia do habito. Todo corpo estranho em contacto pela primeira vez com huma membrana mu coza, determina àhi hu- ma sensação penivel, e doloroza mesmo , que cada dia diminue , e passa finahnente ã fazer-se insensivel. Os pessariosna vagina, os tampões no recto , o instrumento destina- do à ligar hum polipo na madre, ou narb, as sondas na uretera , no ezofago, on tra- 53 trachea-artéria, os estiletes , os sedenhos nas vias lacrimaes, constantemente presentão este fenomeno. As impressões, de que o orgão cutâneo he a«sento , são todas su- geitas á mesma lei. A passage súbita do frio ao calor , e deste ao frio , occasiona sempre hum sentimento incommodo, que se afroxa, e finalmente cessa, se a tem- peratura da athmosfera se mantém em hum gráo constante. Daqui as sensações variadas, que excitão em nós a mudan- ça das estações , dos climas , &c. Fenó- menos analogos são a resulta da perce- pção successiva das qualidades húmidas , ou seccas , moles, ou duras dos corpos em contacto com o nosso. Em geral toda sen- sação mui differente , da que a precede, faz nascer hum sentimento, que o habito bem depressa consome. Digamos do prazer , o que acabamos de dizer da dor. O perfumador , situado em huma athmosfera odorífera , o cozi- nheiro, cujo paladar he incessantemente afiectado por deliciosos sabores não a chão em suas profissões os vivos gozo*, que prepa- rão aos outros , porque nelles o habito de sentir tem embotado a sensação. O mesmo he das impressões agradaveis, cujo assento está nos outros sentidos. Tudo, quanto fixa deliciosamente a vista, ou aífecta agradavelmente o ouvido, só nos offerece pra- 54 prazeres, cuja vivacidade he bem depressa anniquilada. O espectaculo o mais bello, os sons os maisharmoniosos, são successivamente a origem do prazer , da indifferença , da so- ciedade , do desgosto, e mesmo da aver- são, por sua unica continuidade. Todo o mundo tem feito esta nota , que os poetas, e os filosophos se tem , cada hum à seu modo , apropriado. Donde nasce esta facilidade, que tem nossas sensações , de sofrer tão diversas, e muitas vezes oppostas modificações ? Para o conceber notemos primeiro , que o centro destas revoluções de prazer , de dor , de indiíferença , não está nos orgãos , que recebem , ou transmittem a sensação, mas na alma , que a percebe: a aífecção do olho , da lingoa , do ouvido , he sem- pre a mesma ; mas nós unimos à esta aífecção unica sentimentos variaveis. Notemos depois, que a acção d^al- ma em cada sentimento de dor , ou de prazer, nascido de huma sensação, eansiste em huma comparação entre es- ta sensa5ão , e aquellas , que a pre- cederão , comparação, que não he re- sulta da reflexão , mas effeito invo- luntário da primeira impressão dos obje- cíus. Quanto maior for a differença en- tre a impressão aetual, e as passadas , •mais vivo será o sentimento. A sensa- ' t Ção, 55 ção , que nos affecta inais , he aquella , que nunca nos affectou. Segue-se daqui, que á proporção que as sensações se repetem mais rezes, de- vem fazer em nós huma menor impres- são, porque a comparação se faz menos sensível entre o estado actual , e o pas- sado. Todas as vezes , que vemos hum objecto , que ouvimos hum som , que pro- vamos huma iguaria , &c. achamos me- nos diflerença entre o que experimenta- mos , e o que temos já experimentado. He pois da natureza do prazer, e da dôr, de se destruir por si mesmo : de deixar de ser, porque tem sido. A arte de prolongar a duração de nossos gozos con- siste em variar as causas. Quasi diria , se só tivesse respeito ãs leis da nossa organisação material, que a constância he hum diiirio feliz dos poetas , que a felicidade não existe, se não na inconstância , que eçte sexo en- cantador , que nos cativa, teria fracos di- reitos as nossas homenagens , se seus at- tractivos fossem muito uniformes , se a fi- gura de todas as mulheres tivesse o mes- mo molde , este molde seria o tumulo do amor &c. Porém acautelemos-nos de em- pregar os principios da física na destrui( ão , dos que pertencem á moral ; hun^ , e ou- tros são igualmente solidos, be.a que em op- 56 oppozição algumas vezes. Unicamente no- temos , que muitas vezes as primeiras nos derigem quasi sós; então o amor, que o habito procura encadear, foge com o pra- zer, e nos deixa o desgosto ; então alcm- brança poem hum termo sempre prom- pto â constância , fazendo uniforme o que experimentamos , e sentimos : porque tal parece ser a essencia da felicidade fizica, que, o que passou, embota o atractivo d'aquillo , que gozamos. Vede aquelle homem , que o desgosto devora hoje ao lado d9aquella, junto á qual as horas fu- gião em outro tempo , como orelampago; elle seria feliz , se o não tivesse sido , ou se se podesse esquecer, que o foi em ou- tro tempo. A lembrança, se diz, que ha o unico bem dos amantes desgraçados: seja, mas confessemos também, que elle he o unico mal, dos que são felizes. Reconheçamos pois , que o prazer físico he hum sentimento de comparação, que elle deixa d'existir, quando sobrevem á uniformidade entre as sensações actuaes, e as impressões passadas, e que hc por ella que o habito tende a levada sem ces- sar â indiflerença : eis todo o segredo do immenso influxo , que elle exerce sobre os nossos gozos. Tal he também seu modo d'acção sobre nossas dores. O tempo foge , diz-se, sof- 57 soffrendo a dôr , elle vem a ser o seu re- médio. Porque ? Porq,ue quantas mais sen- sações elle accumula sobre a que nos tem sido penivel, mais aífroxa o sentimento de comparação , estabelecido entre o que somos actualmente, c o que éramos então. Ha linalmente huma época, em que este sentimento , se extingue ; não ha por tanto dores eternas , todas cedem á irrezistivel ascendência do habito, §. Hl. O habilo aperfeiçoa o juízo. D Epois de provar , que tudo, quan- to depende do sentimento em nossas re- lações , com o que nos rodea , hc afroxado , embotado , e tornado nullo por efleito do habito , he facil agora mostrar , que elle aperfeiçoa, e augmenta tudo, quanto he relativo ao juizo, dirigido conformemente a estas relações. Quando pela primeira vez a vista se dilata sobre hum vasto campo , o ouvido he aífectado por huma harmonia , o gosto, ou o olfato por hum sabor, ou cheiro mui composto , idéas confuzas, e inexactas nas- cem destas sensações, nós nos reprezen- tamos o accorde ; as minúcias nos escapão ; mas se estas sensações são repetidas, se o 58 o habito as reproduz muitas vezes , então o nosso juizo se faz preciso, e rigoroso; elle abraça tudo; e o conhecimento do objecto , que nos tocou, se faz perfeito, de irregular, que era. Olhai para hum homem, chegado ã opera, cxtranho à toda especie de espe- ctaculo, só recebe de tudo noções vagas. A dança , a musica , os ornatos, a acçào dos re- presentantes , o susurro da assemblea, tudo se confunde para elle em huma especie de cahos, que o encanta. Se elle assiste successivamente à muitas representações , o que neste bello accorde pertence à ca- da arte começa a isolar-se em seu espi- rito ; bem depressa elle percebe as minú- cias : então pode julgar, e tanto mais se- guramente o faz , quanto o habito de ver lhe fornece mais frequentes occasiões. Este exemplo nos offerece em resu- mo o quadro do homem começando a gozar do espectaculo da natureza. O me- nino, que acaba de nascer, e para quem tudo he novo, não sabe ainda perceber, no que aífecta seus sentidos, senão im- pressões geraes. Embotando pouco a pouco estas impressões, qu<? fixão ao principio toda attenção do menino, o habito lhe per- mitte attingir os attributos particulares dos corpos; elle lhe ensina assim insensivel- mente à ver , ouvir , sentir , gostar , e apal- par , 59 par , fazendo-o successivamente descer cm cada sensação das noções unidanientc con- fuzas à idcas precizas com particularidade. Tal he com effeito hum dos grandes ca- racteres da vida animal, que tem neces- sidade , como o veremos , de huma verda- deira educação. O habito , embotando o sentimento , como temos visto, aperfeiçoa constante- mente o juizo, e ainda este segundo ef- feito he ligado inevitavelmente ao primeiro : hum exemplo fará isto evidente. Eu corro hum prado, todo esmaltado de flores; hum cheiro geral , união confuza de todos, os que fornecem isoladamente estas flores, vem immediatamente affectar-me : destrahida por elle , a alma, não pode perceber ou- tra cousa; porém o habito afroxa este primeiro sentimento: bem depressa elle se apaga ; então o cheiro particular de cada planta se destingue , e eu posso fazer hum juizo , que era primitivamente impossível. Estes dous modos oppóstos de influ- encia , que o habito exerce sobre o sen- timento, e o juizo, tendem pois, como se vê , à hum fim commum , o qual he a perfeição de cada acto da vida animal. §. IV. 60 §. IV. Do habito na vida organica, CZ' Ombinemos agora com estes os fenó- menos da vida organica, e ve-los-hemos constantemente subtrahidos ao império do habito. A circulação, a respiração, a ex- halação , a absorvição, a nutrição, as se- creções , não são jamais modificadas por elle. Mil causas ameaçariao nossa exis- tência cada dia , se estas funções essenciaea houvessem de receber sua influencia. Com tudo a excreção das urinas, das matérias íecaes , pode algumas vezes suspender-se, accelerar-se, tornar, segun- do as leis , que elle determinou ; a acção do estomago na fome, no contacto das di- versas especies de alimentos , lhe parece também subordinada; porém deve-se no- tar , qne estes diversos fenomenos depen- dem de ambas as vidas, e quasi partici- pão tanto da animal, como da organica. Todos com efleito se passão sobre as mem- branas mucosas , especie d'orgãos , que , sempre em relação com os corpos estranhos à nossa própria substancia , são o assento de hum tacto interno , analogo cm tudo ao tacto exterior da pelle , sobre os cor- pos , que nos rodeão. Este tacto devia pois ser sugeito ás mesmas modificações: deve- se 61 se por ventura admirar , segundo isto , da influencia , que o habito exerce sobre elle ? Deve-se notar igualmente , que a maior parte destes fenomenos , relativos á pri- meira , ou á ultima demora dos alimen- tos em nossas partes, que elles devem re- parar , fenomenos , que para assim dizer, começão, e terminão a vida organica , excitão depois diversos movimentos essen- cialmente voluntários , e por consequên- cia do dominio da vida animal. Não fallo aqui de huma multidão dou- tras modificações nas forças, gostos, de- sejos &c. , que tirão sua origem do ha- bito : Vejão-se as numerosas obras , que tem considerado sua influencia debaixo de pontos de vista, diflerentes d'aquelie, que acabo de prezentar. ARTIGO VI. Dijferenca geral das duas vidas , relati- va mente ao moral, D Eve-se considerar debaixo de dous respeitos os actos , que pouco ligados á or- ganização material dos animaes, derivão deste principio , tão pouco conheci- do em sua natureza , mas tão notável por seus cíTeitos , centro de todos os seus movi- 62 movimentos voluntários, e sobre o qual se teria menos disputado , se , sem querer remontar à sua essencia , se tivesse con- tentado d'analizar suas operações. Estes actos , que nós consideramos principal- mente no homem, no qual elles estão no seu mais alto grão de perfeição , são , ou puramente intellectnaes , e relativos sómen- te ao entendimento , ou bem o producto immediato das paixões. Examinados debai- xo do primeiro ponto de vista , elles são o atributo exclusivo da vida animal ; con- siderados debaixo do segundo , pertencem cssencialmentc á organica. §. I. Tudo, quanto he relativo ao entendimento z pertence á vida animal, ® J" Ulgo inútil demorar-me em provar , que a meditação, a reflexão, o juizo , tudo o que depende em huma palavra da associação das idéas, he do dominio da vida animal. Nós julgamos segundo as im- pressões , recebidas em outro tempo, con- forme as que actualmente recebemos, ou conforme àquellas , que nós mesmos cria- mos. A memória, a percepção, e a imagi- nação, são as b ises principaes, sobre que se apoiao todas as operações do entendi- men- 63 mento , e estas bases repousão sobre a acção dos sentidos. Supponhamos hum homem nascendo desprovido de todo este aparelho exterior , que estabelece nossas relações com todes os objectos , que nos cercão ; este homem inteiramente não será a estatua de Condil- lac ; porque , como o veremos , outras causas , diversas das sensações , podem de- terminar em nós o exercício dos movi- mentos da vida animal; porém ao menos , estranho à tudo , que o rodea , elle não poderá julgar de modo algum, porque os materiaes do juizo lhe faltão; toda especie de funeção intellectual será nulla nelle ; a vontade, que he a resulta destas funções, não poderá ter lugar ; consequentemente esta classe tão extensa de movimentos, que tem seu assento immediato no cerebro , e he huma consequência das impressões, que este tem recebido dos objectos exterio- res , não será sua partilha. He pois por meio da vida animal , que o homem he tão grande, e superior à todos os entes, que o cercão ; por ella elle pertence ás sciencias , ás artes , à tu- do , quanto o aparta dos attributos gros- seiros , debaixo dos quaes nós nos repre- sentamos a matéria, para o aproximar das imagens sublimes, que nós formamos da espiritualidade. A industria, o eommercio es- 64 estreito , em que estão os animaes, he o apanagio da vida exterior. A sociedade actual he hum desenvol- vimento mais regular , huma perfeição mais signalada no exercicio das diversas funções desta vida, as quacs estabelecem nossas relações com os entes circumvisi- nhos; porque , como minuciosamente o provarei, he hum de seus maiores caracte- res o poder-se extender, c aperfeiçoar, cm quanto , que na vida organica cada parte não abandona jamais os limites , que a natureza lhe marcou. Nós vivemos organicamente de hum modo tão perfeito , e regular na primeira idade , como na de adultos; porém comparai a vida ani- mal do recem-nascido á de hum homem de trinta annos , e conhecereis a diflerença. Do que se acaba de dizer, se póde considerar o cerebro , orgão central da vi- da animal, como centro de tudo , quanto he relativo á intelli^encia, e ao entendi- mento. Eu poderia fallar aqui da sua pro- porção de grandeza no homem, e nos animaes, onde a industria parece dimi- nuir á proporção , que o angulo facial se faz agudo, e que a cavidade cerebral se estreita ; alterações diversas , de que elle he o assento , e que são todas signaladas, por turbações notáveis no entendimento. Todas estas relações porém são assas co- nhc- 65 nhecidas , e basta o indicallas. Passemos a esta outra ordem de fenomenos , que , estranhos , como os precedentes , as ideas , que nós formamos dos fenomenos mate- riaes , tem com tudo hum assento essen- eialmente diverso, §. n. Tudo , quanto he relativo ás paixões per- tence á vida, organica. Ão he meu objecto aqui considerar as paixões debaixo de relações metaphysi- cas. Que sejão todas ellas modificações diversas de huma paixão unica , que ca- da huma depende de hum principio isola- do , importa pouco: notemos sómente , que muitos Médicos, tratando de sua in- fluencia sobre os fenomenos orgânicos , não as tem assas distinguido das sensa- ções. Estas lhes dão occasião, mas difíereni essencialmente. A cólera, a tristeza, a alegria, não agitarião na verdade nossa alma, se não achássemos em nossas relações com os obje- ctos exteriores as causas, que lhes dão ori- gem. Também he verdade, que os sen- tidos são os agentes destas relações, que elles communicão a causa das paixões, mas de nenhum modo elles tem parte no effei- 66 effeito ; simpleces conductores neste caso r nada tem de commum com as affecções, que elles produzem. Isto he tão verdade, que toda especie de sensações tem seu cen- tro no cerebro ; porque toda sensação sup- põem a impressão , e a percepção. São os sentidos, que recebem a impressão , e o cerebro, quem a percebe ; de sorte que onde a acção deste orgão he suspensa, cessa toda a sensação. Pelo contrario elle não he jamais affectado nas paixões ; os orgaos da vida interna são seu assento unico. ( 1 ) He sem dúvida espantoso, que as paixões , que entrão essencialmente em nos- sas relações com os entes situados em nos- so contorno , que inodificão à cada instante estas relações , sem o que a vida animal seria huma fria serie de fenomenos intel- lectuaes , que animão, engrandecem , exal- tão incessantemente todos os fenomenos desta vida, he espantoso , digo, que as pai- ( 1 ) As emoções do animo n^o são mais, que modi- ficações do nosso sentimento intimo , e tudo quanto he relativo ao sentimento he da partilha do cerebro , centro das sensações. Logo parece , que he neste , que as paixões devem ter seu assento , bem que appa- reção em resulta affectadas algumas vísceras simpatica- mente , como se deve colligir do mesmo, que o Au- thor ao diante affirma, Not, do Trud. 67 paixões nao tenhão jániais seu termo , nem sua origem em seus diversos orgãos, que ao contrario as partes, que servem âs fun- ções internas , sejão constantemente affe- ctadas por ellas , e mesmo as determinem , segundo o estado, em que se achao. Tal he todavia, o que a rigorosa observação nos prova. Digo pois , que o efleito de toda es- pecie de paixão , constantemente estranha á vida animal, he de fazer nascer huma mudança , huma alteração qualquer na vida organica. A cólera accelcra o movimento do sangue , multiplica em huma propor- ção muitas vezes incommensuravel o es- forço do coração ; he sobre a força , e rapidez da circulação do sangue que ella exerce sua influencia. Sem modificar tanto a circulação, a alegria a muda com tudo; ella desenvolve seus fenomenos com mais plenitude, a accelera ligeiramente, e a determina para o orgão cutâneo. O temor obra em sentido inverso ; elle he caracte- risado por huma fraqueza em todo o sys- tema vascular, fraqueza, que, embara- çando o sangue de chegar âs capillares , determina esta pallidez geral, que se nota então sobre todo o habito do corpo, em particular do semblante. O efleito da tris- teza , e da pena he quasi semelhante. Tal he também a influencia que exer- cem 68 cem as paixões sobre os orgãos circuladores , que chegão àsuspender , quando a aífec- ção he mui viva , o exercício destes or- gãos: daqui os sincopes, cujo assento pri- mitivo está sempre , como depois prova- rei , no coração, e não no cerebro, que não cessa então d'obrar , senão porque não recebe mais o excitante necessário á sua acção. Daqui também a morte, effeito algumas vezes súbito das emoções externas; ou estas emoções exaltem de tal modo as forças circuladoras , que, repentinamente esgotadas, se não possão restabelecer, como na morte produzida por hum accesso de cólera; ou , como na occasionada por huma violenta dor, as forças de repente atacadas de huma excessiva debilidade, não possão tornar ao seu estado ordinário. Se a cessação total, ou instantanea da circulação não he determinada por esta debilidade , muitas vezes as partes con- servão delia huma impressão durável , e se fazem consecutivamente o assento de muitas lezões organicas. Desault notou, que as moléstias do coração , os aneurismas da aorta, se tem multiplicado com a re- volução, á proporção dos males, que ella tem produzido. A respiração não he me- nos dependente das paixões: estas suíTo- cações, esta oppressão , effeito instantâneo de huma dôr profunda , não suppõem no pul- mão 69 mão huma mudança notável, huma alteração repentina ? Nesta longa serie de enfer- midades crónicas , ou d'aflecções agudas , triste attributo do systema pulmonar, não se he muitas vezes obrigado à remontar as paixões do enfermo, para achar o prin- cipio do seu mal? A impressão viva ressentida no py- loro , nas fortes emoções , o signal in- delevel, que delias conserva algumas vezes, e d'onde nascem os scirros, de que elle he o assento , o sentimento de aperto em toda região do estomago , e em particular do cardia ; em outras circunstancias , os vomitos espasmódicos, que succedem al- gumas vezes de repente na perda de hum objecto amado, à noticia d'hum acciden- te funesto ; em toda especie de pertur- bação , produzida pelas paixões , a inter- rupção súbita dos fenomenos digestivos por huma noticia agradavel , ou triste , as aífecções d'entranhas, as lezões organicas d'intestinos, do baço, observadas na me- lancolia , e hypocondria, enfermidades , que preparão, e acompanhão quasi sem- pre as aífecções tristes, tudo isto indica o estreito laço , que une ao estado das paixões o das vísceras da digestão. Os orgãos secretorios não tem com as aífecções d'alma huma menor conexão. Hum terror súbito suspende o curso da bi- le, 70 le, c occasiona a icterícia : hum acce«so de c lera hc a origem frequente de huma deposição, e mesmo de huma lebre bi- liosa; as lagrimas correm abundantemente na tristeza , na alegria, e algumas vezes na admiração ; o pancreas he frequente- mente enfermo na hypocondria, &c. A exhalação , a absorvição , a nutri- ção não parecem receber das paixões huma influencia tâo directa, como a circulação, a digestão, a respiração, e as secreções; mas isto depende sem dúvida das fun- ções não terem , como as outras, focos prin- cipaes , visceras essenciaes , das quaes pos- samo« comparar o estado com aquelle , em que se acha a alma. Seus fenomenos, geralmente disseminados em todos os or- gãos, não pertencendo à algum exclusiva- mente poderião tocar-nos tão vivamente , como aquelles, cujo efleito está concen- trado em hum espaço mais estreito. Com tudo as alterações , que expe- rimentão então, não são menos reaes, e ainda no fim de hum certo tempo ellas se fazem apparentes. Comparai o homem , cuja dor elle nota todas as horas , à aquelle , cujos dias se passão na paz do coração, e na tranquillidade do espirito , e vereis , que diflerença distingue a nutrição de hum da do outro. Combinai o tempo, em que todas as pai- 71 paixões sombrias , o temor, a tristeza , o desejo da vingança parecião sossobrar to- da a França com aquelle , em que a se- gurança , e a abundancia atrahião à ella as emoções alegres , tâo naturaes aos Francezes ; comparai o habito exterior de todos os corpos nestes dous tempos , e direis, se a nutrição não recebe a influen- cia das paixões. Estas expressões s sec- car de ciume , devorar-se em remorsos , ser consumido pela tristeza &c. &c. não annuncião ellas esta influencia, e não indicão, quanto as paixões modificão o trabalho nutritivo ? Porque a absorvição , e a exhalação , não serião também submetidas à seu im- pério, bem que o pareção menos ? As col- lecções aquosas , as hydropesias , as infil- trações do orgão cellular, vicios essenciaes destas duas funções, não podem depender muitas vezes de nossas affecções moraes ? No meio destes transtornos, destas re- voluções parciaes , ou geraes , produzidas pelas paixões nos fenomenos orgânicos, considerai os actos da vida animal ; elles ficão constantemente no mesmo grão, ou se experimentão algumas desordens, a origem primitiva está constantemente , como o mostrarei , nas funções internas. Concluamos pois destas diversas con- siderações , que he sempre sobre a vida or- gânica 72 ganica,e não sobre a animal, que as paixões exercem sua influencia: por tanto tudo, o que nos serve para as dar à conhecer, se refere á primeira e não â segunda. O gesto , expressão muda do sentimento , e do enten- dimento , he disto huma prova notável: se mostramos alguns fenomenos intellectuaes , relativos á memória, á imaginação, á per- cepção, ao juizo , &c. a mão se conduz involuntariamente á cabeça ; se queremos exprimir o amor, a alegria , a tristeza, o odio , he sobre a região do coração, do estomago , e dos intestinos, que ella se dirige. O actor, que fizesse hum equivoco à este respeito, e que fallando das cousas tristes , referisse os gestos á cabeça, ou os concentrasse sobre o coração , para annunciar hum esforço de genio , se cobri- ria de hum ridículo , que sentiríamos me- lhor , do que comprehendiriamos. A linguagem vulgar distinguia os attri- butos respectivos das duas vidas , no tem- po , em que os sábios referião ao cerebro, como assento d'alma , todas as nossas af- fecções. Tem-se sempre dito, huma cabeça forte , e bem organisada , para annunciar a perfeição do entendimento ; hum bom coração, hum coração sensível, para indicar a do sentimento. Estas expressões , o fu- ror circulando nas veias, exaltando a bile ; a 73 a alegria fazendo saltar as entranhas • o ciúme distillando seus venenos no coração &c. &c. não são metaforas , empregadas pelos poetas, mas o annunciado , do que he realmente na natureza, Por tanto todas estas expressões , tiradas das funções inter- nas , cntrão especialmente em nossos can- tos , que são a linguagem das paixões , da vida organica por consequência , como a falia ordinaria he a do entendimento, da vida animal. A declamação he media , elki anima a lingua fria do ccrebro, pela lingua expressiva dos orgãos internos, do coração , do figado, do estomago &c. A cólera, o amor inoculão , para as- sim dizer , nos humores , e na saliva em particular, hum vicio radical, que faz perigoza a mordedura dos animaes , agi- tados por estas paixões, as quaes distillão verdadeiramente nos fluidos hum funesto veneno, como o mostra a expressão com- mum. As paixões violentas de huma ama imprimem no leite hum caracter nocivo, «Ponde nascem muitas vezes diversas en- fermidades para o menino. He pelas mo- dificações, que o sangue da mãi recebe das emoções vivas, que experimenta, que se deve explicar , de que modo estas emo- ções influem sobre a nutrição , a confor- mação , e a mesma vida do feto, ao qual o sangue chega por intervenção da placenta. Não 74 Não sómente as paixões obrão ei* sencialmente sobre as funcções organicas , aífectando suas vísceras de hum modo es- pecial , mas o estado destas vísceras, suas lesões, as variações de suas forças concor- rem de hum modo signalado â producção das paixões. As relações , que as unem com os temperamentos , idades , Ac, , es- tabelecem incontestavelmente este facto. Quem não sabe , que o indivíduo , cujo aparelho pulmonar he mui pronun- ciado, cujo systema circulado? goza de muita energia , que he como se diz , mui sanguineo , tem nas affecções huma impe- tuosidade , que o dispõem principalmente â cólera, ao transporte , á coragem ; que onde predomina o systema bilioso , certas paixões sao mais desenvolvidas, bem como o ciume , o odio &c., que as constituições, em que as funcções dos linfáticos estão em hum mais alto grão imprimem nas affecções hum lentor opposto ao impeto do tem- peramento sanguineo. Em geral o que caracteriza tal, ou tal temperamento, he sempre tal, ou tal modificação, de huma parte, nas paixões, da outra, no, estado das vísceras da vida organica , e a predominância de tal , ou tal das suas funcções. A vida animal he quasi constantemente estranha aos attribu- tps dos temperamentos, PU 75 Digamos o mesmo das idades. No menino a fraqueza d'organização coincide com o temor , e o medo: no moço a co- ragem, a audacia se ostentão á proporção, que os systemas pulmonar , e vascular se fazem superiores aos outros; a idade viril, na qual o ligado , e o aparelho gástrico são inais pronunciados, he a idade da ambição , da inveja , da intriga. Considerando as paixões nos diversos climas , nas diversas estações , observar-se- hia a mesma relação entre ellas , e os or- gãos das funeções internas ; mas muitos médicos tem indicado estas analogias, e por isso sería supérfluo o lembrallas. Se do homem em saude lançamos nossas vistas sobre o enfermo , veremos as lesões do fígado, do estomago , do baço, dos intestinos , do coração, &c., determinar em nossas aífecções huma mul- tidão de variedades , d'alterações , que cessão d'accontccer no instante, em que •a causa , que as entretinha, também cessa. Os antigos conhecião melhor, que nos- sos mecânicos modernos , as leis da eco- nomia , pois que julgavão , que as affecções tristes se dissipavão pelos purgantes com os mãos humores. Desembaraçando as primeiras vias, elles fazião desapparecer a «ausa destas aífecções. Vede com eífeito, que 76 que sombria cor derrama Fobre nos o em- baraça dos orgãos gástricos ! Os erros dos primeiros médicos sobre a atrabile provavão a precisão de suas observações à respeito das relações, que ligão estes orgãos ao estado da alma. Tudo tende pois à provar, que a vi- da organica he o termo , em que finalizão , e o centro , de que as paixões se desenvol- vem. Talvez se pergunte de que modo os vegetaes , que vivem organicamente , não nos mostrem disto algum vestígio .5 He por- que , além de lhes faltar o excitante na- tural das paixões , qual o aparelho sen- sitivo exterior, são desprovidos dos orgãoi internos, que concorrem mais especial- mente a sua prcducção , bem como o apa- relho digestivo , o da circulação geral, d^ grandes secreções , que notamos nos ani- maes, elles respirão por tracheas, e não por hum foco concentrado. Eis-aqui porque as paixões são tão obscuras, e ainda quasi nullas no genero dos Zoofitas , nos vermes , &c. , porque â. proporção, que na serie dos animaes a vida organica se simplifica mais , perde todos os seus orgãos importantes , as pai- xões diminuem proporcionalmente. §. III., 77 §. III. De que modo as paixões modifica o os aclos da vida animal, bem que tenhão seu assento na organica. 13 Em que as paixões sejão o attributo especial da. vida organica tem com tudo sobre os movimentos da vida animal hu- ma influencia, que se deve examinar. Os musculos voluntários são frequentemente postos em jogo por cilas: humas vezes ellas exaltão seus movimentos ; outras parecem obrar sobre ellcs de hum modo sedativo. Vede aquelle homem , que a cólera, e o furor agitão ; suas forças musculares dobradas , treplicadas mesmo, se exercem com huma energia , que elle mesmo não pode moderar : onde se procurará a ori- gem deste crescimento ? Manifestamente mo coração. Este orgão he o excitante natural do cerebro pelo sangue, que lhe envia, co- mo eu o provarei assás no curso desta obra, do modo que, conforme a exci- tação he mais , ou menos viva , a ener- gia cerebral he mais, ou menos grande, e temos visto , que o eífeito da cólera he de imprimir á circulação huma extrema vivaci- dade ; de impellir por consequência para o cerebro huma grande quantidade de sangue em 78 em hum tempo dado. Resulta daqui hum efTeito analogo âquelle , que sobrevem todas as vezes , que a mesma causa se desenvolve, como nos accessos de febre ardente , no uso do vinho em hum certo grão, &e. Então foríemente excitado , o cerebro excita também com força os musculos sub- mettidos â sua influencia , seus movimentos se tornão , para assim dizer , involuntários: por tanto a vontade hc estranha à estes espasmos musculares, determinados por huma causa, que irrita o orgão medullar, como huma esquirola, o sangue, o pús nas feridas da cabeça, o cabo do escal- pelo, ou qualquer outro instrumento em nossas experiencias, A analogia he exacta , o sangue af- fluindo em maior quantidade , que de or- dinário, produz sobre o cerebro o efíeito destes diversos excitantes. Elle he, para assim dizer, passivo nestes diversos movi- mentos. He pois dclle, que dirivão ordi- nariamente as irradiações necessárias , mas estas irradiações nascem nelle à seu pezar, e não somos senhores de os suspender. Notai por tanto , que na colora existe huma relação constante entre as contrac- ções do coração , e as dos orgãos locomo- tores: quando humas augmentão , as outras crescem ; se o equilíbrio se restabelece de hum 79 hum lado, bem depressa o observamos de outro. Em qualquer outro caso pelo con- trario nenhuma apparencia desta relação se manifesta; a acção do coração hesem- pre a mesma no meio das numerosas va- riedades do systema muscular locomotor. Nas convulsões, ou nas parlesias, de que este systema hc o assento, a circulação não augmenta , nem diminue jamais. Vemos na cólera o modo de influen- cia , que exerce a vida organica sobre a animal. No temor , onde de huma parte as forças do coração diminuídas impellem para o cerebro menos sangue, e por isso mesmo ahi dirigem huma causa menor d'excitação , onde d'outra parte se nota huma diminuição* d'acção nos musculos exteriores, nós comprehendemos também o encadeamento da causa ao efleito. Esta paixão offerece no primeiro grão o fenó- meno , que presentão no ultimo as vivas emoções , que, suspendendo repentinamente o esforço do coração , determinão huma cessação súbita da vida animal , e por isso mesmo o sincope. Mas de que modo applicar as modi- ficações mil vezes variadas, que causão a cada instante as outras paixões nos movi- mento^ , que pertencem a esta vida ? De que modo dizer a causa destas varieda- des infinitas, que se succedem tantas vezes com 80 com huma íncomprehcnsivel rapidez no inovei quadro do rosto? Dc que modo explicar , porque , sem que a vontade nisso tenha parte, a testa se ruga, ou di- lata , as sombracelhas se encre^pão, ou se estendem , os olhos se inflamão, ou se amortecem, brilhão , ou se fazem obscuros, a boca se eleva , ou se abaixa &c. . . . ? Todos os musculos , agentes destes movimentos, recebem seus nervos do ce- rebro, e são ordinariamente voluntários. Porque nas paixões deixão ellesdcoser? Porque entrão elles na classe dos movi- mentos da vida organica , que todos se executão, sem que nós os dirijamos, ou ainda que tenhamos disso consciência? Eis- aqui, ao que creio, a explicação a mais provável deste fenomeno. Numerosas relações simpáticas unem todas as vísceras internas com o cerebro , ou com suas differentes partes. Cada passo feito na pratica nos offerece exemplos d'aíTecções neste orgão nascidas simpati- camente das do estomago, fígado , baço, intestinos, &c. Isto posto, como o eíleito de toda cspecie de paixão he de produzir huma aífecção , huma mudança de força em huma destas vísceras , cllc será tam- bém d5excitar simpaticamente, ou o ce- rebro em totalidade, ou sómente algumas de suas partes , cujareacção sobre os mus- culos , 81 culos, que delle recebem nerVos, àhi determinarão os movimentos, que se ob- serva então. Na producçào destes movi- Rienio* o orgão cerebral he, para assim dizer, passivo, em quanto queheactivo, quando a vontade prezide a «eus es- forços. O que accontece nas paixões , he semelhante, ao que observamos nas mo- léstias dos orgãos internos, que fazem nascer sympathicamente espasmos , huma fraqueza , ou também a paralezia dos mús- culos locomotores. Talvez os orgãos internos não obrem sobre os musculos voluntários por excita- ção intermediária do cerebro, mas por connnunicações nervosas directas ; e que importa o como? Não he de huma ques- tão agitada sobre o modo das communi- cações sympathicas, que se trata aqni. O que he essencial, he o mesmo facto: ora neste facto, eis-aqui o que he eviden- te: de huma parte, affecção de hum or- gão inferior pelas paixões; de outra, mo- vimento determinado na occasião de>ta affecção nos musculos, sobre os quaes não tem alguma influencia este orgão na serie ordinaria dos fenomenos das duas vidas. He isto segnramente huma sympathia , por que entre ella , e as que nos prezentao as 82 as convnlções , os espasmo? do rosto , oc* ^asionados pela lesão do centro diafragma* tico em huma ferida do estomago , &c. * a diflerença não e>tá na causa, que af- fecta o orgão interno. A irritação da campainha ,. do farin- ge , agita convulsivamente o diafragma ; a acção muito repetida dos licores fermen- tados sobre o estomago causa tremores * porque razão o que acontece em hum mo- do d'affecção das vísceras gastricas , não Succederia em outro? Que o estomago, o fígado, &c. sejão irritados por huma pai- xão , ou por huma causa material , que importa ? He da affecção , e não da cau- sa , que a produz , que nasce a sympa- thía. Eis-aqui pois em geral, como as pai- xões arrancão ao império da vontade mo- vimentos naturalmente voluntários , como se aproprião, se me posso exprimir assim* os fenomenos da vida animal , bem que tenhão seu assento esBencialmente na or- gânica. Quando ellas são mui fortes, a aflec- ção muito viva dòs orgãos internos produ® tão impetuosamente os movimentos sympa- thicos dos musculos * que a acção ordiná- ria do cerebro he absolutameate nulla so- bre elles ; mas , passada a primeira im- pres- 83 pressão , o modo ordinário de locomoção iorna. Tem hum homem por carta na pre- sença de huma assembléa noticia de hu- ma cousa , que lhe interessa occultar ; re- pentinamente sua testa se ruga, faz-se pá- lido , ou suas feições se animão , segundo a paixão, que o affecta : eis-aqui fenó- menos sympathicos, nascidos d'algumas vis- ceras abdominaes, subitamente aífectadas por esta paixão , e que por consequência pertencem á vida organica. Bem depressa este homem se constrange , sua testa se estende , seu rubor renasce, ou suas fei- ções se restringem, bem que o sentimen- to interno subsista : he o movimento vo- luntário, que sobre^ahio ao «ympathico ; he o cerebro , cuja acção superou a do esto- mago , do fígado, &c., he a vida animal, que recuperou seu império. Ha em quasi todas as paixões mixtu- ra 9 ou successão dos movimentos da vida animal aos da organica ; de modo que em quasi todas, a acção muscular he em par- te dirigida pelo cerebro , segundo a or- dem natural, e tem em parte seu assen- to nas vísceras organicas, como o coração, o fígado, o estomago , &c. Estes dous fo- cos alternadamente predominados hum pe- jo outro 9 ou estando em equilíbrio , cons- ti- 84 tituem por «eu modo d'influencia todas aí numerosas variedades , que presentão nos* tas affecções moraes. Não he somente sobre o cerebro, co* mo também sobre todas as outras partes, que as vísceras , affectadas pelas paixões, exercem sua influencia sympathica : o me* do affecta primitivamente o estomago, co- mo o prova o aperto, que se sente então nesta região. Assim affectado , o orgão re- obra sobre a pelle , com a qual tem tan- ta relação , e esta vem a ser então o as- sento de hum suor frio, e súbito, tão frequente nesta aflecção d'alma. Este suor he da natureza d^aquelle, que se move pela arção de fruma substancia, que, co- mo o chá , obra primeiro sobre o esto- mago , o qual obra depois sympathica- mente sobre o orgão cutâneo. Assim hum copo d'agua fria , hum ar muito fresco supprimem esta excresção pela relação , que ha entre este orgão, e as superfícies mucosas do estomago , ou dos bronchios* He bem preciso distinguir os suores sym- pathicos d'aquelles , cuja causa obra df- recta mente sobre a pelle , como o calor , o ár , &c. Bem que o cerebro não seja , con- forme o qve acabamos de dizer, o fim uni cu da rcacção das vísceras internas-, aí- 85 «flertadas pelas paixões, he com tudo o principal , e debaixo desta relação se jode sempre considerar coroo hum foco sempre em op posição com aquelle , que yepreaentào os orgãos internos IV. Eo centro epigaslrico , o qual não existe no sentido , que os Auihores lei» eniendido* O S Authores não tem variado já mais sobre o foco cerebral ; todos os movimen- tos voluntários tem sempre sido conside- rados por elles, como hum eíleito de suas irradiações; mas elles nâo concorda© igual- Hicnte sobre o foco epigastrico. Huns o situão no diafragma , outros no pyloro , alguns no plexo solar do grande neno sym- pathico (I). To- (I) Este entrelaçanento nervoso, emanado priucí. palmente do ganglio s n iluuar , peitrnce à quasi todo o systema vascular abdon inal , de oual segue as diver- sas ramificações, I lie he , no mo<'« «rdttiaiio de ver , hu- na das divisões do grande synq nfico; mas parece.u a tue as idías dos anatomistas s< 1 re este netto iu por- tvnt? sóo mui; pouco conformes, ao que ellr he nana- tureza. T» dos o considetõo ermo hum ioi J^o n ed«dàr t ontcudiuo detde *. ate a eacia , euuan* 86 Todos me parecem errar sobre este ponto; porque assimilhando o segundo ao primeiro foco, julgão que as paixões, as- sim como as sensações , se referem cons- tantemente à hum centro unico , e inva- riável. O que ©« conduzio a esta opinião he o sentimento d' oppressão , que se faz sen- lir do nesta passagem diversas ramificações ao collo , a» peito , e ao baixo ventre. , seguiodo em suas distribui- ções huma marcha analoga á dos nervos da espinha , • tirando sua origem destes nervos , segundo huns, e do cerebro conforme outros. Qualquer que seja o nome, com que se designe de sympathico , de intercostal , d® trisplanchnico , &c. , o modo de o considerar he sem- pre o mesmo. Julgo , que este modo he inteiramente falso ; real- jnente não existe nervo algum aualogo , ao que sedesi- ^na por estas palavras ; que o que se toma por hum nervo , não he mais , que huma consequência de com- wunicaçÕos entre diversos centras nervosos , situados em difierentes distancias huns dos outros. Estes centros nervosos são os ganglios. Dissemi- nados por difierentes regiões , elles tem todos huma ac- ção independente, e isolada. Cada hum he hum foco particular , que eu ia , em diversos sentidos , huma mul- tidão de ramificações, as quaes lerão à seus orgãos respectivos as irradiações deste foco, do qual ellas es- capão. Entre estas ramificações , algumas vão de hum ganglio à outro , e como estes ramos, que unem os ganglios, fórmão par sua união huma especie de cor- dão continuado , tem-se considerado este cordão com® hum nervo isolado; mas estes ramos são communica- ções , e simplices anastomoses, e aã® hum nervo ana- logo aos outros. 87 tir- na vísinhança da cardia na» afleeções peniveis. Notamos porém , que nos crgaos in- ternos, o sentimento naseido da affí cçâo de huma parte he sempre I t m indic o infel do assento T e da extensão desta aílcci aoj por exemplo, a fome exerce sna influiu* cia sobre a totalidade do estomago , e com tu- He tão verdadeiro isto , que muitas vexes estai communicações «Bo interrompidas. Ha sujeitos , por exemplo, em que se acha hum intetvallo n ui distio» cto entre ãs porções pectoral , e lombar , do que se chama grande sympathico, que parece coi tado neste lu« gar. Tenho visto também este pertendido nervo ces- sar , e renascer depois , tanto nos lombos , como nfc região sacra. Quem não Sabe , que humas vezes hum só ramo , outras , n uitos passâo de hum ganglio à ou- tro , principalmente entre o ultimo cervical , e o prwei* ro dorsal , que o volume destes ramos varia singular- mente ; que depois de ter fornecido huma multidão de' divisões o sympathico he mais grosso , do que ante» de ter distribuído alguma ? bastas diversas considerações provão evidentemen- te , que os ramos commnnicantes dos ganglios não sup- poem mais hum nervo continuado , do que os ramos r que passão de rada hum dos pares cervical , lombar, ou sacros , aos deus pares , que lhes são superioies , e inferiores. Com efeito , à pezar deitas communica- çêes , considera-se cada par de hum modo separado, & nem se faz hum só nervo da sua união r Hc preciso igual- mente considerar cada ganglio isoladamente, e descre- ver os ramos , que delle nascem. Conformemente a isto dividirei darui em dtanfé em minhas descripções , nas quaes tento seguido até a^ui a marcha oídinaria , os nervos em dous giandes 88 tudq. a cardia parece transmittir-nos só a sensação. Huma larga superfície inflama- da na pleura, ou no pulmão, não dá lu- gar as mais das vezes, senão a huma dór concentrada sobre hum ponto. Quantas ve- zes na cabeça , no abdómen , &c. huma dór fixa, e occupando hnm pequeno es- paço , coincide com huma affecção larga- men- Fystemus , hum ©manado do cerebro , o outro dos gan* glios ; o primeira tem hum centro único ; o scgund* muitos. Examinarei primeiro as divi^õe© do aystema cere- bral ; tratarei ao depois do system» dos ganglios, qu® ae pôde subdividir nos da cabeça, do pescoço , do thorax , do abdómen , e da bacia. Na cabeça se acha o lenticular , o de Mekel , • da jland-ula sublingual , #c. , &c. Bem que nenhuma communicaçâo ligue estes diversos centros , assim en- tre si, como com o pe< tendido grande sympathico : sua de»cripçw pert- nce com tudo á dos nervos , de oue este ko a uni ío , pois que as communiraçÕes não são mais , que disposições accessorias à este systema de nervos. No pescoço os tres ganglios cervicaes , algumas vezes outro ao lado da trachea-arteria , no peito os doze thojacicos, no abdómen o semilunar, os lom- bares , &c. na bacia os sacros ; eis-aqui diversos ceu- tros , de que he preciso isoladam^nte examinar as ra- milicaçÕes, como se considera a do centro cerebral. Por exemplo , descreverei primeiro o ganglio semilu- nar , como se faz à respeito do cerebro , examinarei depois seus ramos , entre os quaes se situa aquelle , pelo qual se communica com os ganglio* thoracicos , o.u o grande splanchnico ; porque he huma expressão muito imprópria , a que designa este nerv» , como dan- do nascimento ao gaji^lio, Do mesmo modo no pesço* 89 mente disseminada , e que tem mesmo hum assento todo differente daquelle, que presenciamos ! Nào se deve pois já ma is considerar o lugar, à que referimos o sen- timento, como hum seguro indicio do pre- ciso lugar , que occupa a aflecçáo , mas sómente como hum signal , que ella se acha ahi , ou na visinhança. Se- ço , e cabeça descrever-se-ha primeiro cada ganglio : tratarei depois de seus ramos , de -cujo número são os de communicação. Sendo a disposição quasi com- muni aos ganglios do peito , da cabeça , e dos lom- bos, &c., a descripção será quasi geral p..ra cada re- gião. Este modo de considerar os nervos , pondo huma demarcação sensível entre seus dous grandes systemas , presenta estes systemas taes , quaes são realmente na natureza. Que anatomista não se tem com efleito admirado das differenças entre os nervos de hum , e de outro ? Gs do cerebro são mais grossos , mais numerosos , mais brancos , mais densos no seu tecido , expostos a Variedades mui pouco frequentes. Ao contrario , tenui- dade extrema , número n ui considerável principalmen- te junto aos lexos , cór parda, melle'a de tecido re- marcavel , variedades extremamenre communs , eis-aqui ®s caracteres dôs nervos , que vem dos ganglios , exce- ptuados os que se cnmmunicâo com os nervos cere- braes , e alguns dnquelles , ■que unem entre si estes pe- quenos centros nervosos. Além disto esta divisão do systema geral des ner- vos em dous outros secundários concorda muito bem com a da vida. Sabe-se com effeito } que as funcções externas , as sen«açoes , a locomoção , a voz , estão debaixo da depeudeucja do systema nervoso cerebral, 90 Segue-se disto, que para julgar o or* gão , com que tal, ou tal paixão está em rekção , se deve recorrer, não ao senti- mento, mas ao efleito produzido nas func- ções do orgão pela influencia da paixão. Ora partindo deste principio , he facil o ver, que são humas vezes os orgãos di- gestivos , outras o systema circulador, al* gu- wne ao contrario a maior parte dos orgâos , que ser* vem ás funcções internas , tirão dos ganglios seus ner- vos , e com elles o principio de sua acção. Sabe-se , que a sensibilidade , a contractilidade animaes nascem dos primeiros ; e que , onde os segundos se achão sós , ha sensibilidade , e contractilidade organica. Disse além disto , que o termo desta especie de sensibilidade , e origem da contractilidade correspon- dente , estão no mesmo orgão , em que se as observa, mas talvez este termo , e esta origem estejâo mais lon- ge , e existão no ganglio , do qual o orgão recebe seus nervos , como termo da sensibilidade animal , e a ori- gem da contractilidade da mesma especie , se achão sempre no cerebro. Se isto he assim , como os gan- glios são mui multiplicados , concebe-se , porque as forças da vida organica não se referem , como as da vida animal, a ham centro commum. Segundo estas considerações , he manifesto , que não ha nervo grande sjmpathico ; que o que se desi- gna por esta palavra , he hum ajuntamento de peque- nos systemas nervosos de funcções isoladas , porém de ramos communicantes. Concebe-se pois , o que se deve pensar das dis- putas sobre a origem deste pertendido nervo , fixado no sexto , no quinto pares , &c. , os do poscoço , do dorso , Ój c. Muitos tysidlogistas tem tido sobre os ganglios idéí® 91 gumas vezes as vísceras pertencentes ás sc- crcç ies, qne experimentão hu na mudan- ça , hnma perturbação eni nossas aífecçôes inorae<. Não entrarei nas provas , que esta- beecem esta verdade; mas, firmando-me sobre ella, como demonstrada, direi, que não ha para as paixões centro fixo , e constante , como ha hum para as sensa- çães ; que o fígado, o pulmão , o baço, o estomago , o coração, &c. , alternada- mente aíFectados formão alternadamente também este loco epigastrico tão celebre em nossas obras modernas ; que se referimos em geral a esta região a impressão sen- sível de todas nossas alfecçães , he porque todas as vísceras importantes da vida or- gânica nella se achão concentradas , que se a natureza tivesse separado estas vísce- ras por dous grandes intervalios, situan- do, por exemplo, o fígado na bacia , o estomago no pescoço , ficando o coração , c enalogas ás oue acabo de presentar , considerando es- tes corpos , como pequenos cerebros ; mas hô essencial realisar estas vistas na descripção , que tal , qual se presenta , dá huma idét muito inexacta , tanto destes centros nervosos , como dos nervos , que delles sahem. A expressão de ramos nervosos , dando nascimen- to a tal , ou tal ganglio , &c. , se assemelha áquella , pela qual se designaria o cerebro , como nascendo do» •erros, dos quaes elle mesmo he a origem. 92 e o baço no seu lugar ordinário , então o foco epigastrico desapareceria , e o sen- timento local de nossas paixões variaria segundo o orgão, sobre o qual ellas exer- cem sua influencia. Camper , determinando o angulo fa- cial , deu lugar ás luminosas considerações sobre a intelligencia respectiva dos animaes. Parece , que não sómente as funcções do cerebro , mas em geral todas as da vida animal , que nella tem seu centro com- mum, quasi tem este angulo por medida de perfeição. Seria bem curioso indicar também hu- ma medida , que, tomada nas partes que servem á vida organica , podesse fixar a ordem de cada especie debaixo da rela- ção das paixões. Porque o sentimento he tão excessivo em os cães ? Porque o reco- nhecimento , a tristeza , a alegria, o odio, a amizade, &c. , o agitão com tanta fa- cilidade ? He por ser, a este respeito, su- perior aos outros animaes : tem elle na vida organica alguma cousa de mais per- feita ? O macaco nos espanta pela sua in- dustria , sua disposição á imitação , sua intelligencia : he pela superioridade da sua vida animal, que excede muito ás espe- cies mais bem organizadas ? Outros ani- maes , como o elefante , nos interessão por seu 93 seu amor , suas affecções, suas paixões , e nos encantão por sua sagacidade, e ex- tensão de sua percepção , e intelligencia. ^elles o centro cerebral , e as funções internas , ou organicas , são aperfeiçoadas no mesmo orgão ; a natureza parece ter igualmente recuado os limites de suas duas vidas. Hum rápido golpe de vista , lançado sobre a serie dos animaes , nos mostrará pois humas vezes os fenomenos relativos ás sensações , predominando sobre os que nascem das paixões , outras estes exceden- do aos primeiros , algumas estabelecendo o equilíbrio entre ellas , e segundo estas diversas circumstancias , a vida animal, e organica, superiores, inferiores, ou iguaes huma á outra, O que observamos na longa cadêa dos entes animados , notamos na especie humana considerada isoladamente. Em hum as paixões , que dominão , são o principio do maior número dos movimentos ; a in- fluencia da vida animal , a cada instan- te superada pela *a organica , deixa in- cessantemente nascer actos , aos quaes a vontade he quasi estranha, e que muitas vezes dão occasião à pezares amargos , que se fazem sentir , quando a vida animal recobia o seu império. Em outro, esta vi- da 94 da he superior á primeira: então todos os fenomenos relativos âssensações, á per- cepção , á inteiligencia , parecem engran- decer-se á expensas das paixões , que fi- cào em hum silencio , à que a organisa- çâo do indivi Lto as condemna. Eatio a vontade preside à tudo ; os másculos lo- comotores e-tão em huma continuada de- pendencià do cerebro , em quanto que no caso precedente sào principalmente os or- gaos gástricos , e peituraes , que as puem em jogo. O homem , cuja constituição he a mais feliz, e ao mesmo tempo a mais rara, he aquelle, < ue tem suas duas vidas em huma especie d'equilíbrio , cujos dous centros cerebral , e epigastrico exercem hum so- bre o outro huma igual acvào , em quem as paixões animão , aquentão , e exaltào os fenomenos inteilectuaes , sem invadir- lhes o dominio , e que «e acha em >eti juizo hum obstáculo , que elle he sempre penhor de oppôr á sua impetuosa influ- encia. He esta influencia das paixões sobre os actos da vida animal, que compoem , o que se chama caracter , o qual , como o temperamento , pertencem manifesta- mente á vida organica ; por tanto tem el- le seus diversos attributos ; tudo quanto del- 95 delle emana, he , para assim dizer, in- voluntário. h ossos actos exteriores fórmão hum quadro , cujo lundo , e desígnio es- tão na vida animal , mas sobre o qual a •rganica espalha a variedade, e o colori- do das paixões. Ora esta variedade , e o colorido he o caracter. Quasi todos os filosofos tem notado esta predominância alternativa das duas vidas; Pia Ião , Marco Aurélio^ Santo Agos» Unho , Bacon, São Paulo, Leibnilz , Pa» nhelnwnt , Buffon , &c. tem icconhecido em nós duas especies de princípios , por hum governamos todos nossos actos mo- ra es ; o outro parece produzidos involun- tariamente. Para que , como a maior par* te delles , querem procurar a natureza destes princípios ? Observemos os fenóme- nos , analizemos as relações , que as unem humas ás outras, sem remontar á suas cau* sas primeiras. AR- 96 ARTIGO VII. Dfferenças geraes das duas vidas , rela* livamenle ás forças vilães. Maior parte dos médicos, que escre- verão sobre as propriedades vitaes , come* çárão por lhes indagar o principio ; elles quizerào descer do estudo da sua nature- za , ao de seus fenomenos , em lugar de remontar , do que a observação indica , ao que a theoria «ugg;ere. A alma de Stkalo archéo de ATt- vhelmonl , o principio vital de Rarlhez , a força vital de alguns , &c., alternada- mente considerados , como centro unico de todos os actos , que tem o caracter de vi- talidade , tem sido alternadamente a base commum , na qual se tem firmado em ultima resulta todas as explicações fysiolo- gicas. Cada huma destas bases se tem suc- cessivamente arruinado , e no meio de seus despojos só tem ficado os factos, que fornece a rigorosa experiencia sobre a sen- sibilidade , e mobilidade. Taes são com efleito os estreitos li» mites do entendimento humano , que o conhecimento das causas primarias lhes he qua* 97 quasi sempre vedado. O espesso véo, que as cobre , envolve com suas innumeraveis rugas todo o que tenta rasgallo. No estudo da natureza, os princípios são, como observou hum filosofo , certas resultas geraes das causas primeiras, don- de nascem innumeraveis resultas secunda- rias : a arte de achar o encadeamento dos primeiros com o segundos he o de todo espirito judicioso. Procurar a connexão das causas primeiras com seus eífeitos geraes, he marchar cegamente em hum caminho, onde mil atalhos conduzem ao erro. Que nos importa, além disso, o co- nhecimento destas causas ? He necessário saber , o que são a luz , o oxigénio , o calorico , &c. , para lhes estudar os fenó- menos ? Igualmente não se pode, sem co- nhecer o principio vital, analizar as pro- priedades dos orgãos, que elle anima? Fa- çamos na sciencia dos animaes , como os metafysicos modernos na do entendimen- to ; supponhamos as causas , e não nos unamos senão âs suas grandes resultas. 1. 98 §. I. Differenças entre as forças vilães , e as leis fysicas, Cly Onsiderando debaixo desta relação m leis vitaes , o primeiro apercebido , que ellas oflerecem , he a rema reavei differen- ça , que as distingue das leis fysicas. Hu- mas incessantemente variaveis em sua in- tensidade, energia, desenvolvimento, pas- são muitas vezes com rapidez do ultimo grão de prostração ao mais alto ponto de exaltação , se accumulão , e se afrouxão al- ternadamente nos orgãos , e tomão debai- xo da influencia das menores causas , mil modificações diversas. O somno , a vigília , o exercício , o descanço , a digestão , a fome , as pai- xões , a acção dos corpos , que circundão o animal, &c. , tudo os expõem à cada momento à numerosas revoluções. As ou- tras ao contrario fixas , invariáveis , cons- tantemente as mesmas em todos os tem- pos , são a origem de huma serie de fe- nómenos sempre uniformes. Comparai a faculdade vital de sentir â faculdade fysi- ca de attrahir , e vereis a attracção ser sempre em razão da massa do corpo bru- to, 99 to ,* em que se observa, em quanto que a sensibilidade muda incessantemente de proporção na mesma parte organica , e na mesma massa da matéria. A invariabilidade das leis , que pre- sidem aos fenomenos fysicos , permitte o submetter ao calculo todas as sciencias , que são o seu objecto, em quanto que , applicadas aos actos' da vida , os mathe- maticos não podem já mais offerecer for- mulas geraes. Calcula-se o retorno de hum cometa , as resistências de hum fluido , que corre hum canal inerte , a presteza de hum projectil , &c. ; porém calcular com Borelli a força de hum musculo , com Keil a celeridade do sangue , com Jurine, Lavoisier &c. a quantidade d'ár, que entra no pulmão 9 he edificar sobre huma arêa movediça hum edifício sólido por si mesmo , mas que cahe bem de- pressa , por não ter base segura. Esta instabilidade de forças vitaes , esta facilidade , que ellas tem de variar à cada instante , mais , ou menos , impri- mem em todos os fenomenos vitaes hum caracter de irregularidade , que os distin- gue dos fenomenos fysicos rcmarcaveis por sua uniformidade : tomemos por exemplo os fluidos vivos, e os inertes. Estes sem- pre os mesmos , são conhecidos , quando tem 100 tem sido analyzados huma vez com exacti- dâo ; porém quem poderá dizer , que co- nhece os outros, segundo huma só analy- ze , ou ainda conforme muitas , feitas nas mesmas circunstancias? Analyze-se a ouri- na , a saliva , a bile , Óc. tomada indif- fcrentemente em tal , ou tal sugeito , e de seu exame resulte a chimica animal: seja assim , mas isto não he chimica fysio- logica , he , se o posso chamar assim , a anatomia cadavérica dos fluidoc. Sua fysio- logia se compoem do conhecimento das va- riações innumeraveis , que experimentão os fluidos, segundo o estado de seus orgãos respcctivos. A ourina não he depois da ccn ida , como depois do soro no ; ella contém no inverno princípios, que lhe são extranhos Do estio , no qual as excressões principaes se fazem pela pelle ; a simples passagem do frio ao calor pode , supprimindo o suor, afrouxando a exhalação pulmonar , lazer variar sua composição. He o mesmo dos outros fluidos: o es- tado das forças vitaes nos orgâos, que são delias origem , muda à cada instante. Es- tes orgàos devem por tanto experimentar mudanças continuadas no seu modo d'ac- çâo , e por consequência fazer variar as substancias 9 que elles separão do sangue» Quem 101 Quem ?e animará àsuppôr, que co- nhece a natureza de hum fluido da eco- nomia viva , se a nâo analyzou no meni- no , no adulto, e no velho , na mulher , e no homem , nas diversas estações , du- rante a serenidade do espirito, e no tu- multo das paixões , que , como temos vis- to, tão manifestamente influem sobre sua natureza na época das evacuações mens* truaes, &c. ? Que seria, se fosse preciso conhecer também as diversas alterações , de que estes fluidos são susceptiveis nas enfermidades ? A instabilidade das forças vitaes tem sido o escolho, em que se tem perdido todos os cálculos dos fysicos médicos do século passado. As variações habituaes dos fluidos vivos , que derivão desta instabili- dade, poderião bem ser hum obstáculo, não menos real, ás analyzes dos chimicos médicos do presente. He facil ver, conforme isto, que a sciencia dos corpos organizados deve ser tratada de hum modo inteiramente diver- so d'aquellas, que tem os corpos inorgâ- nicos por objecto. Seria preciso, para as- sim dizer , empregar nisso huma lingua- gem differente ; porque a maior parte das palavras , que transportamos das sciencias fyzicas á da economia animal, ou vegetal, nos 102 aos lembrão incessantemente idéas, que de nenhum modo se associão com os fenóme- nos desta sciencia. Se a fysiologia tivesse sido cultivada pelos homens antes da fysica, como esta foi antes delia, estou persuadido, que terião feito numerosas applicaçôes da primeira á segunda ; que terião visto os rios corren- do pela força tónica de suas margens; 01 cristaes se reunindo pela excitação , que exercem sobre sua sensibilidade reciproca; os planetas movendo-se por se irritarem mutuamente em grandes distancias , &c. Tudo isto pareceria bem remoto da razão â nos , que não vemos , senão o pezo nes- tes fenomenos; porque não seriamos tam- bém extravagantes , quando chegássemos com este mesmo pezo, com as affinidades , as compozições chimicas , e huma lingua- gem toda edificada sobre estas provas fun- damentaes , à huma sciencia, na qual el- las tem a mais obscura influencia ? A fysiologia teria feito muito maiores progres- sos , se se lhe não tivesse applicado idéas emprestadas pelas sciencias, chamadas acces- sorias , porém que delias saõ essencial- mente diversas. A fysica, a chymica , Ac. se asseme- Ihão , porque as mesmas leis presidem à seus fenomenos ; mas hum immenso in- ter- 103 tervallo as separa da sciencia dos corpos organisados, porque ha huma enorme dif- ferença entre estas íeis , e a da vida. Di- zer , que a fysiologia he a fysica dos ani- maes, he dar delia huma idéa extrema- mente inexaeta ; seria muito melhor dizer, que a astronomia he a fysiologia dos astros. Tenho-me demorado assás em huma simples digressão; vamos ás forças vitaes, consideradas debaixo da relação das duaí vidas do animal, §n. Differenças das propriedades vitaes à res* peito das do tecido, 17 J1.J Xaminando as propriedades de todo o orgão vivo , póde-se-as distinguir em duas especies : humas dependem immedia- tamente da vida , começão , e finalisão com ella , ou , para melhor dizer , formão o seu principio, e essencia; as outras só lhe são ligadas indirectamente , e parecem de- pender mais antes da organisação, e tex- tura das partes. A faculdade de sentir, a de se con* trahir espontaneamente , são as proprieda- des vitaes. A extensibilidade , a faculda- de de se encolher, quando a extensão cessa, 104 cessa, eis-aqui as propriedades do tecido ; estas na verdade recebem da vida hum montão d' energia, mas ficão ainda nos orgãos, depois que ella os abandona, e a decomposição destes orgãos, he o termo unico da sua existência. Eu vou primeiro examinar as propriedades yitaes. § Hf. Das duas especies de sensibilidade animal, e organica, H E facil ver , que as propriedades vitaes se reduzem ás de sentir , e mover- se : ora cada huma delias imprime nas duas vidas hum caracter diflerente. Na vida organica a sensibilidade he a facul- dade de receber huma impressão ; na animal, a de receber impressão , e de mais, de a referir à hum centro commum. O es- tômago he sensivel á prezença dos alimen- tos , o coração ao aborde do sangue , o conducto excretorio ao contacto do fluido , que lhe he proprio ; mas o termo desta sensibilidade he o mesmo orgão; ella não vai além de seus limites. A pelle , os olhos, os ouvidos , as membranas do nariz , da boca , todas as superfícies mucosas em sua origem , os nervos, &c. sentem a impres- são 105 são dos corpos , que os tocao , e a trans- mittem depois ao cerebro , que he o cen- tro geral da sensibilidade destes diversos orgâos. Ha pois huma sensibilidade orgâni- ca , e outra animal ; sobre huma rolão todos os fenomenos da digestão , da cir- culação , da secreção , da exhalação , da absorviçao , da nutrição, &c. , ella he commum á planta , e ao animal ; o zoo- fito delia goza , como o quadrupede , o mais perfeitamente organisado. Da outra dimanão as sensações, a percepção , igual- mente que a dor , e o prazer , que as modificão. A perfeição dos animaes he , se posso dizer assim, em razão da dose desta sensibilidade, que receberão em par- tilha. Esta especie não he o attributo do vegetal. A differença destas duas especies de forças sensitivas he sobre tudo mui assigna- lada pelo modo , com que ellas terminão nas mortes violentas , que atacão o ani- mal de hum golpe súbito. Então com ef- fcito a sensibilidade animal se annulla im- mediatamente. Nenhum signal ruais ha desta faculdade no instante , que succede à huma forte commoção , à huma gran- de hemorrhagia, à asphyxia ; mas a sensibir lidade organica se conserva por mais , ou O me- 106 menos tempo. Os lymphaticos absorvem ainda ; o musculo igualmente sente o agui- lhão , que o excita ; as unhas , e os ca- bellos podem também nutrir-se ainda , e serem consequentemente sensíveis aos flui- dos , que bebem da pelle , &c. He no fim de hum certo tempo, muitas vezes assas lon- go , que todos os signaes desta sensibili* dade se apagão , em quanto que a anni* quilação da outra tem sido súbita , e ins- tantanea. Bem que ao primeiro golpe de vista estas duas sensibilidades animal , e orga- hica presentem huma differença notável , todavia sua natureza parece ser essencial- mente a mesma ; huma não he provavel- mente , senão o maximum da outra. He sempre a mesma força, que mais , ou me- nos intensa se presenta com diversos ca- racteres ; as seguintes observações serão disso huma prova. Ha diversas partes na economia, em que estas duas faculdades se encadeio , e se succedem de hum modo insensível ; a origem de todas as membranas mucosas he hum exemplo. Temos a sensação da passagem dos alimentos na boca ante- rior , e posterior: esta sensação diminue no principio do iwphago , se faz quasi nul- la no seu meio, desaparece no seu fim , e 107 e no estomago , onde só resta sensibi- lidade organica ; o mesmo fenomeno se observa na uretra , nas partes genitaes , &c» Na visinhança da pelle ha sensibili- dade animal, que diminue pouco a pou- co, e se faz organica no interior das partes. Diversos excitantes applicados ao mes- mo orgão, podem alternadamente determi- nar ahi hum , e outro modo de sensibi- lidade. Irritados pelos ácidos , pelos alca- lis mui concentrados, ou pelo instrumen- to cortante, os ligamentos não transmit- tem ao cerebro a forte impressão , que recebem; mas sendo elles torcidos , dis- tendidos , huma viva «ensação de dor he a sua resulta. Eu tenho verificado este fa- cto por diversas experiencias , publicadas no meu tratado das membranas ; eis-aqui outro do mesmo genero , que observei de- pois. As paredes arteriaes sensiveis , co- mo se sabe, ao sangue, que as permeia, são o termo de seu sentimento , que não se propaga ao sensorio : injecte-se neste systema hum fluido extranho , o animal pelos seus gritos testemunha , que lhe sen- te a impressão. Vimos , que a propriedade do habi- to era de obrar , embotando a vivacida- de do sentimento , de transformar em sen- sações indifferentes todas as de prazer , e de 108 de pena ; por exemplo , os corpos extra- nhos fazem sobre as membranas mucosas huma impressão penivcl nos primeiros dias do seu contacto , e nellas desenvolvem a sensibilidade animal ; mas pouco a pouco ella se gasta , e a organica só subsiste. Por tanto a uretra rcsente a sonda , em quanto nella se demora, pois que esta de- mora he constantemente acompanhada de huma mais viva acção das glandulas mu- cosas , d'onde nasce huma especie de ca- tarro ; mas o indivíduo só tem nos pri- meiros momentos a consciência dolorosa do seu contacto. Todos os dias a inflammação , exaltan- do em huma parte a sensibilidade orga- nica, a transforma em sensibilidade ani- mal. As cartilagens por tanto , as mem- branas sorósas, &c. que no estado ordi- nário só tem o obscuro sentimento neces- sário á sua nutrição , se penetrão então de huma sensibilidade animal, muitas ve- zes mais viva , que a dos orgãos , aos quaes ella he natural. Porque ? Porque a propriedade da inflammação he de accu- muiar as forças em huma parte, e esta áccumulação basta para mudar o modo dc sensibilidade organica, que não difle- re da animal, senão por sua menor pro- porção. Sc- 109 Segundo todas estas considerações, he evidente, que a distincção a cima estabe- lecida na faculdade de sentir , se firma , não sobre sua natureza , que he geralmen- ? a mesma , mas sobre as diversas mo- dificações , de que ella he susceptivei. Es- ta faculdade he commum a todos os or- gãos ; todos são delia penetrados ; nenhum he insensível ; ella forma seu verdadeiro caracter vital ; porém mais , ou menos abundantemente repartida em cada hum, ella dá hum modo d'existência diíTeren- te : nenhum delia goza na mesma pro- porção ; ella tem mil grãos diversos. Nestas variedades ha huma medida, a cima da qual o cerebro he o seu ter- mo , e a baixo da qual o unico orgão ex- citado recebe , e percebe a sensação, sem a transmittir. Se para aclarar a minha idéa eu pu- desse servir-me de huma expressão vul- gar, diria, que distribuída em dosesà hum orgão, a sensibilidade he animal , e que em outra inferior , he organica ( i ) ; ora , o ( 1 ) Estas expressões dose , somma , quantidade de sensibilidade são iuexactas , porque presentão esta fa- culdade vital debaixo do mesmo ponto de vista , que as forças fysicas , a attracção , por exemplo , porque ellas nos amostrão , como susceptivel de ser calculada , $c, Mas por falta de palavras , creadas para iiunia 110 o que varia a dose da sensibilidade he humas vezes a ordem natural ; por tanto a pelle, os nervos são superiores, debai- xo desta relação , aos tendões, ás cartila- gens , &c,, outras, são às enfermidades ; por tanto dobrando a dose da sensibili- dade dos segundos, a inflammação os igua- la , os faz mesmos superiores aos primei- ros. Como mil causas podem à cada ins- tante exaltar , ou diminuir esta força em huma parte, ella pode à cada instante ser animal, ou organica. Eis-aqui porque os authores , que tem feito o objecto de suas experiencias , tem tido resultas tão diversas ; porque huns achão insensível a dura-mater , o periostio , &c. , onde ou- tros observão huma extrema sensibilidade, §. IV. ■ciência , he preciso , a fim de ser percebido , buscal- las em ontras. Estas expressões são , como as de sol- dar , cttlar , descollar , &c., empregadas na falta dou- tras para o systema esseo , e que presentarião real- mente idéas muito ineiactas, se o espirito lhes não corrigisse • sentido* 111 §• IV. Da relação , que existe enlre a sensibilidade de cadd orgão , e os corpos, que lhe são extranhos. Em que a sensibilidade seja sugeita em cada orgão à variedades continuas , todavia cada hum parece ter delia huma sõrna primitivamente determinada, à qual elle torna sempre em consequência destas alternativas d'augmento, e de diminuição, pouco mais, ou menos, como em suas os- cillações diversas a pendula do relogio tor- na constantemente ao lugar , a que seu pezo a conduz» He esta somma de sensibilidade de- terminada para cada orgão, que compõe especialmente sua vida própria ; he ella , que fixa a natureza de suas relações com os corpos , que lhe são extranhos , más que se achão em contacto com elle. As- sim a somma de sensibilidade da uretra a põe em relação com a ourina ; po- rém se esta somma augmenta , como na erecção levada a hum alto grão , a rela- ção cessa , o canal se revolta contra este fluido , e não se deixa atravessar , senão pela matéria seminal , que não está então em 112 em relação com a sensibilidade da uretra no estado de não erecção. Eis-aqui como a somma determinada da sensibilidade dos conductos de Stenon , de Varthon , cholidoco , pancreatico , em huma palavra de todos os excretorios , exa- ctamente analoga á natureza dos fluidos, que os vadêão , mas desproporcionada á dos outros, não permitte a estes , que os penetrem , e faz , que, passando além del- les , occasionem o espasmo , e a crespa- tura , quando algumas de suas muleculas se embaração nelles. Por tanto o laringe se revolta contra todo o corpo , que nel- le se introduz accidentalmente à reserva do ar. Por esta razão os excretorios , bem que em contacto sobre as superfícies mu* cosas com huma multidão de fluidos diver- sos , que passão, ou se demorão sobre el- las , não são jã mais penetrados por el- les. Eis-aqui como as bocas dos vasos lá- cteos abertas nos intestinos, só absorvem delles o chilo , e não os fluidos , que se achão misturados com elles , e com os quaes sua sensibilidade não tem relação alguma. Não he somente catre as diversas so- mas da sensibilidade dos orgãos , e os di- versos fluidos do corpo , que existem estas re- 113 relações; ellas podem também exercer-se entre os corpos exteriores , e nossas difle- rentes partes. A somma determinada da sensibilidade da bexiga , dos rins , das glandulas salivares, &c. , tem huma ana- logia especial com as cantaridas , e o mer- cúrio , &c. Podcr-se-hia crer , que em cada or- gão toma a sensibilidade huma modifica- ção , e natureza particulares , e que he esta diversidade da natureza , quem cons- titue a diflcrença das relações dos orgàos com os corpos extranhos , que os tocão. Porém huma multidão de considerações prova , que a diflerença se firma , não so- bre a natureza , mas sobre a somma , a dose , a quantidade de sensibilidade , se se pódc applicar estas palavras a huma propriedade vital ; eis as considerações. Os orificios absorventes das superfícies sorosas se banhão algumas vezes por me- zcs inteiros nos fluidos das hydropesias , sem que delle bcbão parte alguma. Se a acção dos tonicos , e o esforço da nature- za exaltão nelles a sensibilidade ; ella se poem , se me posso exprimir assim , em equilíbrio com o fluido , e então a absorvi- ção se faz. A resolução dos tumores pre- senta o mesmo fenomeno : em quanto as forças da parte são frouxas , os lympha- ti- 114 ticos refusão admittir as substancias ex- travazadas nestes tumores. Se a somma destas forças dobra , treplica por meio dos resolutivos , bem depressa o tumor desapa- rece pela acção dos lymphaticos. Sobre este principio repousa a expli- cação de todos os fenomenos das resorbi- ções de pús , de sangue , e outros fluidos, que os lymphaticos recebem humas vezes com huma especie d'avidez, e outras re- fusão receber , conforme a somma de sua sensibilidade está , ou não , em relação com elles. A arte do medico na applicaqão dos resolutivos he de achar o termo medio , e de a elle levar os vasos , ou augmen- tando-lhes a força , ou diminuindo-lha , conforme a somma de sensibilidade he in- ferior, ou superior ao grão, que os poem em relaçaõ com os fluidos à absorver. He assim , que os resolutivos podem ser igual- mente tomados , segundo as circunstan- cias , como rernedios fortificantes , ou co- mo debilitantes. Toda a thcoría das inflammações se liga também as idéas , que presentamos aqui. Sabe-se , que o systcma dos canaes, em que circula o sangue , dá nascimento à huma multidão d'outros pequenos, que «ó admitíem a porção sorósa deste fluido, co- 115 como prova sem replica a exhalaçno. Por- que os globulos rubros não passão por el- les , bem que lhes sejão continuado> ? Não he pela disproporção do diâmetro , como o julgou Boerhaave : ainda que a largura dos vasos brancos fosse dupla, triple , à respeito da dos vasos rubros , os globulos desta cor não passarião por elles , não ha- vendo relação entre a somma de sensibi- lidade de seus vasos, e estes globulos ver- melhos , pois que temos visto , que o chi- mo não passa ao cholidoco, bem que o diâmetro deste conducto exceda o das mo- léculas atenuadas dos alimentos. Ora no estado natural , a sensibilidade dos vasos brancos , sendo inferior á dos vermelhos , he evidente , que a relação necessária á admissão da parte colorada não pode exis- tir. Mas , se huma causa qualquer exalta as forças dos- primeiros vasos , então sua sensibilidade se nivela com a dos segun- dos ; a relação se estabelece , e a passa- gem dos fluidos , até então repellidos , se faz com facilidade. Eis-aqui como as superfícies as mais expostas aos agentes , que exaitão a sen- sibilidade , são também as mais sugeitas ás inflammações locaes , como se vê na conjunctiva, no pulmão, &c. Tal he en- tão as mais das vezes , como disse, o au- gmen- 116 gmento de sensibilidade, que d'organica, que era, se torna animal , e Iransmitte então ao cerebro a impressão dos corpos exteriores. A inflammação dura , cm quanto o excesso da sensibilidade subsiste ; pouco a pouco cila afrouxa, e torna ao seu grão natural ; então também os globulos ver- melhos cessão de passar aos vasos bran- cos , e a resolução se torna a fazer. Vê-se conforme à isto , que a theo- ria da inflam mação he huma consequên- cia natural das leis, que presidem á pas- sagem dos fluidos à seus diversos canaes; concebe-se também , quanto são frívolas as hypotheses tiradas da hydraulica , a qual quasi nunca oiTerece applicação real á economia animal , porque não ha ana- logia alguma entre huma cadêa de tubos inertes, e huma serie de conductos vivos, cada hum dos quaes tem huma somma de sensibilidade própria , que o põe em relação com tal, ou tal fluido , e repel- le os outros, que pode , augmentando, ou diminuindo pela menor causa, mudar de relação , admittir o fluido , que refu- gava , e regeitar aquelle, que admittião. Eu não terminaria , se quizesse mul- tiplicar as consequências destes princípios nos fenomenos do homem vivo , em saú- de , 117 de , ou enfermidade. Meus leitores o po- derão supprir facilmente , e engrandecer o campo destas consequências , cuja união fôrma quasi todas as grandes provas da fysiologia , c os pontos esscnciaes da theo- ria das enfermidades. Sem dúvida se me perguntará, por- que na distribuição das diversas sommas dç sensibilidade , a natureza não dotou desta propriedade , senão em grãos infe- riores , os orgãos internos , ou da vida in- terior , em quanto -que os externos são delia tão abundantemente providos ? Por- que consequentemente cada orgão diges- tivo , circulador , respirador , nutritivo , absorvente , não transmitte ao cerebro as impressões , que elíe recebe , quando todos os actos da vida animal suppoem esta trans- missão ? A razão he simples ; he porque todos os fenomenos , que nos põe cm re- lação com estes circumvisinhos devem es- tar , e estão com efleito debaixo da influen- cia da vontade ; em quanto que todos , os que só servem a assimilação , escapão, e devião com eífeito escapar à esta influen- cia. Ora, para que hum fenomeno depen- da da vontade , he preciso evidentemen- te , que tenhamos delle consciência ; para que seja subtrahido ao seu império , he necessário , que esta consciência seja nulla, §. V. 118 §. V. DaX duas especies de contractilidade animal, e organica. O Modo o mais ordinário de movimen- to nos orgàos animacs he a contracção. Algumas partes com tudo se movem diia- tando-se : como o iris, o corpo cavernoso, o mameiãô , &c. de sorte que as duas fa- culdades , d'onde deriva a mobilidade es- pontânea , são a contractilidade , e a ex- tensibilidade activa, que he bem preciso distinguir da extensibilidade passiva , da qual ao. depois fallaremos : huma depen- de da vida , outra do tecido dos orgãos sómente. Mas ha ainda muito poucas pro- vas sobre a natureza , e o modo de mo- vimento , que resulta da primeira; hum mui pequeno número d'orgãos nos la pre- senta, para que lhe tenhamos respeito nes- tas considerações geraes. A contractilidade sómente nos occupará ; eu remetto , quan- to á extensibilidade , ao que tem escri- pto os médicos de Montpellier. A mobilidade espontânea , faculdade inherente aos corpos vivos, nos presenta, como a sensibilidade, duas grandes mo- dificações mui diíferentes entre si , confor- me 119 me nós a examinamos nos fenomenos de huma, ou de outra vida. Ha huma con- tractilidade animal , e outra organica. Huma essencialmente submetida a in- fluencia da vontade , tem seu principio no cerebro , recebe delle as irradiações , que a pÕe em jogo , cessa d'existir , logo que os orgãos , em que se observa , não se com munição mais com elle pelos nervos , participa constantemente de todos os esta- dos , em que elle se acha , tem exclusi- vamente seu assento nos musculos , cha- mados voluntários , e preside á locomo- ção , â voz , aos movimentos geraes da ca- beça , thorax , abdómen , &c. a outra in- dependente de hum centro commum, acha seu principio no mesmo orgão , que se move , escapa à todos os actos voluntários, c dá lugar aos fenomenos digestivos, cir- culadores, secretorics, absorventes, nutri- tivos , &c. Ambas são , como as duas es- pecies de sensibilidade , essencialmente dis- tinetas nas mortes violentas , que anniqui- lão subitamente a contractilidade animal, e permittem ainda à organica de se exer- citar mais, ou menos tempo: ellas o são também nas asphyxias , imagens tão se- melhantes da morte , e onde a primeira he inteiramente suspensa , ficando a se- gunda em actividade ; ellas o são final- men- 120 mente nas paralysias , que se excita ar- teficialmente, ou que a enfermidade pro- duz em hum membro, e nos quaes to- do o movimento voluntário cessa , ficando os movimentos orgânicos intactos. Huma , e outra especie de contracti- lidade se ligão á especie correspondente , de sensibilidade , e são delia , para assim dizer , huma consequência. As sensações dos objectos exteriores põe em acção a contractilidade animal. Antes que a con- tractilidade organica do coração se exer- ça, sua sensibilidade tem sido preliminar- mente excitada pelo aborde do sangue. Com tudo o encadeamento não he o mes- mo nas duas especies de faculdades. A sensibilidade animal pode isolada- mente exercer-se, sem que a contractili- dade analoga entre por isso necessaria- mente em exercício; ha huma relação ge- ral entre a sensação , e a locomoção ; mas esta relação não hedirecta, e actual ; pe- lo contrario a contractilidade organica não se separa jâ mais da sensibilidade da mes- ma especie. A reacção dos conductos ex- cretorios he immediatamente ligada á ac- ção , que exercem sobre clles os fluidos secretados: a contracção do coração suc- ccde de hum modo necessário ao aborde do sangue. Por tanto todos os authores não tem 121 tem isolado estas duas cousas em suas con- siderações , e mesmo em sua linguagem. Irritabilidade designa ao mesmo tempo tan- to a sensação excitada sobre o orgão pe- lo contacto de hum corpo, como a con- tracção do orgão, que reobra sobre este corpo. A razão desta differença na relação das duas especies de sensibilidade, e con- tractilidade , he mui simples : não ha na vida organica algum intermediário no ex- ercício das duas faculdades ; o mesmo or- gão he o termo , em que termina a sen- sação , e o principio , donde parte a con- tracção. Na vida animal pelo contrario ha entre estes dous actos funções medias , as dos nervos , a do cerebro , funções , que podem interrompendo-se, interromper tam- bém a relação. He pela mesma causa , que se deve referir a observação seguin- te ; à saber, que existe sempre na vida organica huma proporção rigorosa entre a sensação, e a contracção , em quanto que na vida animal huma pode ser exaltada , cu diminuída, sem que a outra se resinta. §. VI. 122 VI. Subdivisão da contraclilidade organica em duas variedades* Contractilídade animal he sempre pouco mais , ou menos a mesma , qual* quer que seja a parte , em que ella se manifeste; mas existem na contractilida- de organica duas modificações essenciaes que pareceriào indicar nella huma diffe- rença de natureza , bem que não haja se* não diversidade na apparencia exterior t humas vezes com effeito ella se manifesta de hum modo apparente , outras , bem que mui real , não se pode absolutamen* te apreciar pela inspecção» A contractílidade organica sensível se ©bserva no coração, estomago , intestinos,, bexiga, &c.; ella se exerce sobre as mas* sa» consideráveis dos fluidos animaes. A contractílidade organica insensível; he aquella, em virtude da qual os con* duetos excretorios reobrão sobre seus flui* dos respectivos, os orgãos secretorios sobre o sangue , que os aborda , as partes, em que se opera a nutrição sobre seus sucos nu- tricios , os lymphaticos sobre as substan- cias , que excitão suas extremidades aber* tas 123 tas , &c. Por toda a parte, em que os fluidos são disseminados em pequenas mas- sas , onde elles são mui divididos, se de- senvolve esta segunda especie de contra- ctilidade. Póde-se dar de todas huma idéa as- sas precisa , comparando huma á attrac- ção , que se exerce sobre os grandes ag- gregados de matéria ; a outra á afiinida- de chimica, cujos fenomenos se passão nas moléculas de diversas substancias. Barthes, para fazer sentir a diflerença , que as se- para , faz a comparação de hum relogio, cujo ponteiro de segundos corre de hum modo mui apparente á circunferência, e cujo agulhão das horas se move também * sem que se possa distinguir sua marcha. A contractilidade organica sensível corresponde quasi ao que se chama irri* tabilidadc^ a contractilidade organica in- sensível , ao que se chama tonicidade. Es- tas duas palavras porém parecem suppor nas propriedades , que indicão huma di- versidade de natureza, em quanto que es- ta diversidade não existe, senão na appa- rencia exterior. Por tanto prefiro empre- gar para ambas hum termo commum de contractilidade organica , que designa seu caracter geral , o de pertencer á vida in- terna , de serem independentes da vonta- de y 124 de, e de unir à este termo commum hum adjectivo , que exprime o attributo par* ticular à cada huma, Ter-se-hia com effeito idéas bem in- exactas destes dous modos de movimen- tos , se os considerássemos como dependen- tes de princípios differentes: hum hc o ex- tremo do outro ; ambos se encadeão por graduações insensíveis. Entre a contractili- dade obscura, mas real , necessária á nu- trição das unhas , dos cabellos , &c. , e a que nos presentão os movimentos dos in- testinos do estomago , &c. , ha gradações- infinitas , que servem de transição : taes são os movimentos do dartos , das arté- rias , de certas partes do orgão cutâneo 9 &c. A circulação he mui própria à dar- nos huma idéa deste encadeamento gra* dual das duas especies de contractilidade organica: he elle com efleito, que he sen- sível , que preside no coração , e grandes vasos , à esta funeção ; pouco a pouco el- ]a se torna menos apparente , á propor- ção que o diâmetro do systema vascular diminue : finalmeate ella he insensível nos capiUares , onde a tonicidade só se observa. Considerar com a maior parte dos authores a irritabilidade, como huma pro- priedade exclusivamente inherente aos mus- eu- 125 culos , como sendo hum dos seus caracteres distinetos dos dos outros orgãos , exprimir esta propriedade por hum termo, que in- dica ^este assento exclusivo , he, creio , não a conceber tal , qual a natureza a distribuio á nossas partes. Os musculos occupão sem dúvida de- baixo desta relação o primeiro lugar na escada dos solidos animados ; elles tem o maximum de contractilidade organica: mas todo o orgão , que vive, reobra como el- les , bem que de hum modo menos ap- parente sobre o excitante , que artificial- mente se lhes applica , ou sobre o fluido, que os aborda no estado natural , para ahi levar a matéria das secreções , da nu- trição , da exhalação, ou da absorvição. Nada de mais incerto por consequên- cia , que a regra commummcnte adopta- da para pronunciar sobre a natureza mus- cular , ou não muscular de huma parte , regra, que consiste em examinar , se ella se contrahe debaixo da acção dos irritan- tes naturaes , ou artificiaes. Eis-aqui como se admitte huma tú- nica carnosa nas artérias , bem que tudo em sua organisação seja extranho a dos musculos; como se pronuncia , que a ma- dre he carnosa , bem que huma multidão de differenças a distingua destas sortes de sub- 126 substancias; como se tem admittido huma textura musculosa no dartos, no iris, &c. bem que nada de semelhante se observe nelles, A faculdade de se contrahir debaixo da acção dos irritantes he como a de sen- tir desigualmente repartida pelos orgãos ; elles gozão delia em grãos diíferentes : o considerada como exclusivamente própria à certos , não he concebella. Ella não tem seu assento unico na fibrina dos múscu- los , oomo alguns o pensarão. Viver he a unica condição necessária ás fibras para delia gozar. Seu tecido particular só in- flue sobre a somma , que delia recebem ; parece, que à tal textura organica he at- tribuida, se assim o posso dizer, tal dose de contractilidade ; á tal outra , outra tal dose , &c. de modo que para empregar as expressões, de que me servi, tratando da sensibilidade, expressões impróprias na verdade , mas as únicas capazes de me fazer perceber as differenças na contractilidade organica de nossas diversas partes, só são relativas á quantidade , e não á natureza desta propriedade: eis-aqui, em que con- sistem unicamente as numerosas differen- ças desta propriedade , conforme se a con- sidera nos másculos , ligamentos, nervos, ossos , &c. Se 127 Se hum modo especial de contrac- ção devesse ser exprimido nos musculos por hum vocábulo particular , não seria certamente a contractilidade organica , sim a dos musculos voluntários , pois que el- les sós , entre todas as nossas partes, se mo- vem debaixo da influencia do cerebro. Esta propriedade porém he extranha ao seu tecido , e só lhes vem deste orgão: porque onde deixão de communicar-se di* rectamente com elle pelos nervos , deixão também de exercer o movimento volun- tário. Isto nos conduz a examinar os limi- tes situados entre huma , c outra espe- cie de contractilidade. Vimos, que as que distinguem os dous modos de sensibilida- de , não parecem depender, senão da pro- porção maior , ou menor desta força ; que em tal dose esta propriedade lie , se me permittem dizello assim , animal ; em tal outra mais fraca , organica, e que mui- tas vezes pelo simples augmento , ou di- minuição d'intensidade recebem alterna- da, e reciprocamente seus caracteres res- pectivos. Vimos hum fenomeno quasi ana- logó nas duas subdivisões da contractili- dade organica. Não he assim à respeito das duas grandes divisões da contractilidade , con- si- 128 siderada em geral. A organica já mais pode transformar-se em animal , qualquer que seja sua exaltação , seu augmentou de energia , ella he constantemente da mes- ma natureza. O estomago , os intestinos tem muitas vezes huma susceptibilidade pa- ra a contracção tal , que o menor conta- cto os faz irritar , e determina nelles mo- vimentos violentos ; ora , estes movimen- tos conservão sempre seu typo, e seu ca- rácter primitivos ; já mais o cerebro regu- la suas agitações irregulares: como no ac- crescimo de sensibilidade organica , elle percebe as impressões, que antes não suc- cedião nelle. D'onde nasce esta differença nos fe- nómenos da sensibilidade , e da contracti- lidade ? Eu não posso resolver esta ques- tão de hum modo preciso, e rigoroso. §. VII. Extensibilidade, e contractilidade de tecido, f ) Epois de ter presentado algumas re- flexões geraes sobre as forças, que depen- dem da vida de hum modo immediato , vou examinar as propriedades, que depen- dem do tecido, do arranjamento orgânico das 129 das fibras de nossas partes , quaes a ex- tensibilidade , e contractilidade do tecido. Estas duas propriedades se succedem , se encadeáo reeiproeamente , e estào em huma mutua dependência , como nos fe- nómenos vitaes as sensibilidades , e con- tractilidades organicas , ou animaes. A extensibilidade do tecido , ou a fa- culdade de se alongar, de se extender além de seu estado ordinário por huma impul- são extranha ( o que a distingue da ex- tensibilidade do iris , dos corpos caverno- sos, &c. ) pertence de hum modo sensí- vel à hum grande número de orgãos. Os musculos extensores seflrem huma exten- são remarcavel nas fortes tensões dos mem- bros ; a pelle se presta para envolver os tumores, que a eleváo ; as aponevroses se distendem , quando hum fluido se accu- mula debaixo delias , como se vê na hy- dropysia ascites , na prenhez , &c. As membranas mucosas dos intestinos , da be- xiga urinaria , e félca , as membranas so- rosas da maior parte das cavidades , pre- sentáo hum fenomeno análogo na pleni- tude de suas cavidades respectivas: as mem- branas fibrosas , os mesmos ossos também sao delia susceptiveis : por tanto no hydro- cefalo a dura-mater , o pericraneo , e os ossos do craneo, na espinha ventosa , e na pc- 130 pethradrocacia , o periostio , as extremi- dades , ou o meio dos ossos longos , ex- perimentão huma semelhante dilatação. O rim , o cerebro , o fígado , nos abces- sos , que se desenvolvem no seu interior , o baço, e o pulmão , quando huma gran- de quantidade de sangue peneira o seu tecido ; os ligamentos nas hydropesias ar- ticulares , todos os orgãos , em huma pa- lavra , em mil circunstancias diversas, nos oflerecem provas innumeraveis desta pro- priedade , inherente ao seu tecido , e não precisamente â sua vida; porque em quan- to este tecido está intacto , subsiste a ex- tensibilidade , quando mesmo a vida os abandona depois de longo tempo. A de- composição , a putrefação, e tudo, o que altera o tecido orgânico, he o unico termo do exercício desta propriedade , na qual os orgãos estão sempre passivos, e submet- tidos à huma influencia mecanica da parte dos diflerentes corpos, que obrão sobre elles, Ha para os diversos orgãos huma es- cala de extensibilidade : no alto se collocão os que gozão de mais moleza no arranja- mento de suas fibras , como os musculos, a pelle , o tecido cellular , &c.; em baixo se achão os que huma grande densidade caracteriza, ©orno os ossos, as cartilagens, os tendões , as unhas , &c. Acau* 131 Acautelemos-nos com tudo de nos dei- xar enganar por certas apparencias sobre a extensibilidade de nossas partes. Por tan- to as membranas sorosas, sugeitas ao pri- meiro golpe de vista à enormes distensões, augmentão com tudo muito menos por si mesmos, que pelo desenvolvimento de suas nigas , como já o provei extensamente. Assim o deslocamento da pelle, que aban- dona as partes visinhas, para vir cobrir certos tumores , poderia fazer crer em hu- ma extensibilidade maior , que aquella , de que he susceptivel , &c. A' extensibilidade de tecido corres- ponde hum modo particular de contracti- lidade , da qual se pode designar o cará- cter pela mesma palavra, ou por esta ex- pressão , contractilidadc por defeito de ex- tensão. Com effeitb, para que ella entre em exercício em hum orgão , basta, que a extensibilidade cesse de estar nelle em accão. No estado ordinário a maior parte dos nossos orgãos são entretidos em hum certo grão de tenção por diíferentes cau- sas ; os musculos locomotores por seus an- tagonistas , os ossos pelas diversas substan- cias , que contém ; os vasos pelos liqui- des , que nelles circulão ; a pelle de hu- ma parte pelas das partes visinhas ; as pa- redes 132 redes alveolares pelos dentes, que contém , &c. Ora se estas causas cessão, a contrac- ção sobrevem ; corte-se hum museu Io lon- go , o antagonista se encolhe; evacue-se hum musculo oco , elle se contrahe, em- barace-se a artéria de receber o sangue, ella se torna ligamento ; incise-se a pcl- le , os bordos da incisão se separão , ex- citados peia retraeção das partes cutaneas visinhas ; extraia-se hum dente , o alvéo- lo se oblitera , &c. Nestes casos he a cessação da exten- são natural, que determina acontracção; em outros he a cessação de huma exten- são contra a natureza. Por tanto se vê con- trahir-sc o baixo ventre depois do parto, ou da punção ; o sinuo maxillar, depois da extirpação de hum fungo; o tecido cel- lular, depois da abertura de hum depo- sito ; a túnica vaginal , depois da opera- ção do hydrocele; a pélle do escroto , de- pois da amputação de hum testículo vo- lumoso , que a distendia; os sacos aneu- rismaes , depois da evacuação dos flui- dos, &c. Este modo de contractilidade he per- feitamente independente da vida ; elle não depende , como a extensibilidade , se não do tecido , do arranjamento orgânico das partes ; elle recebe bem das forças vitaes hum 133 huin augmento crenergia : por tanto a re- tracçáo de hum musculo cortado depois da morte , he muito menor , que a de hum dividido durante a vida : assim o apartamento da pelle varia também nes- tas duas circunstancias ; porém bem que menOs pronunciada, a contractilidade sub- siste; ella não tem termo, como a exten- sibilidade , senão na desorganisação das partes pela decomposição, putrefação, &c., e nao na anniquilação de suas forças vitaes. A maior parte dos Authores tem con- fundido o? fenomenos desta contractilida- de com os da contractilidade organica in- sensível , ou da tonicidade: taes são Hat- ler, Blumembacli, Barlhez, Sçc,, que tem referido ao mesmo principio o retorno so- bre si mesmos das partes abdominaes dis- tendidas , o apartamento da pelle , ou de hum musculo dividido, e a contracção do dartos pelo frio , a crespatura das partes por certos vesenos, pelos estiticos , &c. Os primeiros destes fenomenos são dividos á contractilidade por defeito d' extensão , que não suppõem jamais irritantes appli- cados sobre as partes ; os segundos á to- nicidade , que jamais se exerce , senão por sua influencia. Igualmente não tenho assas distingui- do estes dous modos de contracções na mi- nha 134 nha obra sobre as membranas ; deve-se porém estabelecer evidentemente entre ei- las limites diHerentes. Huma applicação fará isto muito mais sensível. Consideremos para isso hum or- gão , no qual se encontrem todas as es- pecies de contractilidade , de que até aqui íallei; hum musculo voluntário, por exem- plo , distinguindo nelle estas especies de precisão , poderemos dar delia huma idéa clara , c distincta. Este musculo entra em acção, 1.® por influencia dos nervos , que recebe do ce- rebro ; he a contractilidade animal; 2.° pela excitação de hum agente chimico , ou fysico , applicadosobre elle, excitação, que nelle determina artiíicialmente hum movimento de totalidade , análogo á aquel- le , que he natural ao coração , e aos ou- tros musculos involuntários : he a contrac- tilidade organica sensível, a irritabilidade; 3." pela afíluencia dos íluidos, que pene- trão todas as suas partes, para àellas le- var a matéria da nutrição , e que ahi desenvolvem hum movimento d' oscillação parcial em cada fibra , em cada molécu- la , movimento necessário à esta funeção, como nas glandulas , he indispensável á secreção , nos limphaticoi á absorvição , &c., he a contractilidade organica insensível , ou 135 ou a tonicidade; 4." pela secção transver- sal de seu corpo que determina a retrac- ção das extremidades divididas para seu ponto de inserção : he a contractilidade de tecido , ou por defeito de extenção. - Cada huma destas especies pode iso- ladamente cessar em hum musculo: cortem- se os pervos, que à elle vão, maior se- rá a contract ilida de animal; porém os dons modos de contractilidade organica, subsis- tirão. Im pregue-se depois o musculo d'o- pio , deixando-o penetrar-lhe os vasos, el- le deixará de se mover em totalidade de- baixo da impressão dos irritantes , e per- derá sua irritabilidade , mas os movimen- tos tonicos continuarão ainda , determina- dos pelo affluxo do sangue. Mate-se final- mente o animal , ou deixando-o vivo, li- guem-se todos os vasos, que vão ao mem- bro, o musculo perderá também suas for- ças tónicas, e então ficará sómente a con- tractilidade de tecido , que só cessará , quando a gangrena , resulta da interru- pção da acção vital, sobrevier ao membro. Este exemplo servirá de fazer apre- ciar facilmente as differentes especies de contractilidade nos orgãos , em que estas especies se achão juntas em menor núme- ro , que nos musculos voluntários, como no coração , intestinos, onde ha contracti- lida- 136 lidade organica sensível , organica insen- sível, e de tecido, sendo menor a ani- mal; nos- orgâos brancos, os tendões, as aponevroses , os ossos , &c., onde as con- tractilidades animal , e organica sensível faltão, ficando sós a organica insensível , e a de tecido. Estas duas ultimas em geral são inhe- rentes à toda especie d' orgâos , perten- cendo as duas primeiras sómente à alguns em particular. Deve-se logo escolher a to- nicidade , ou contractilidade organica in- sensível por caractcr geral de todas as par- tes , que vivem , e a contractilidade de te- cido por attributo commum à todas as par- tes vivas, ou mortas , que são organica- mente tecidas. Finalmente esta ultima contractilida- de tem , como a extensibilidade , &c. , â qual ella he sempre proporcionada , seus grãos diversos, sua escala de intensidade ! os musculos , a pclle , o tecido cellular , &c., de huma parte; os tendões, as apo- nevroses , os ossos da outra , formão de- baixo desta relação os extremos. Conforme tudo o que neste artigo se disse, he facil o ver, que na contracti- lidade de todo orgão ha duas cousas à con- siderar , e são, a contractilidade, ou a faculdade , e a causa , que puem esta ul- tima 137 tima em acçáo. A contractilidade he sem- pre a mesma , ella depende do or- gão, e lhe he inteiramente inherente ; mas a causa , que determina seu exer- cício , varia singularmente , e daqui as diversas especies de contracçÕes animaes , as organicas , e as por defeito d'exten- sáo ; de modo que estas palavras deveriáo com effeito ser unidas mais antes â de contracçáo , que exprime a acçáo , do que âs de contractilidade, que lhe indica o principio. VIII. 138 § VIU. » r i f Resumo das propriedades dos corpos vivos. Arece, que podemos offerecer o resumo deste artigo sobre as propriedades dos cor- pos vivos no quadro seguinte , o qual presentarâ debaixo do mesmo golpe de vista todas estas propriedades. Classes. Género. Espertes. Variethuks. r r r i.a Animal. 1a . Sensibiiida- i.a 1 de- Vitaes. < 2.a w UOrganica. 1a * •g< cx Q 2.a Contracti- Animal. 2.a r i-a ] Sensível. _ lidade. 1 k Organica. 2.a 1 l.a ^Insensível. Extensibili- 2.a De tecido. < dade. 2.a * Contracti- L lidade. Se náo fiz entrar neste quadro o mo- vimento do iris , dos corpos cavernosos , &c,, movimento , que precede o afíluxo 1 • * do 139 do sangue, e que nao he determinado por clle , a dilatação do coração , em hu- ma palavra esta especie de contractilida- de activa, e vital , de que certas partes parecem susceptiveis , he porque , eu o confesso, reconhecendo a realidade desta modificação do movimento vital , . ainda não tenho ideas claras , e precisas sobre as relações, que o unem âs outras espe- cics de mobilidade , nem sobre as difle- renças , que o distinguem. Das propriedades , que acabo de ex- por , dimanão todas as funções , todos os fenomenos , que nos offerece a economia animal ; não ha algum , que se não pos- sa em ultima analyse referir à ellas , co- mo em todos os fenomenos fysicos encon- tramos sempre os mesmos princípios , as mesmas çaUsãs, à saber , a attracçáo , a elasticidade, &c. Em qualquer parte , que as forças vitaes se ponháo em acção , ha hum desen- volvimento, e huma perda de calorico pró- prios ao animal , que lhe formão huma temperatura independente da do meio, em que elle vive. O termo caloricidade he improprio à exprimir este fenomeno , que he hum eífeito geral das duas gran- des faculdades vitaes em exercício , e que de nenhum modo deriva de huma facul- da- 140 dade especial , distincta daquella«. Não se diz digestibilidade, respirabilidade, se- crecionabilidade , exhalabilidade, &c. por- que a digestão , a respiração , secreção , e exhalação são resultas de funções, que derivão de leis communs : dizemos outro tanto da producção do calor. He também debaixo desta relação que a força digestiva de Grimaud presenta hu- ma idéa inexacta. A assimilação das sub- stancias heterogeneas à nossos orgãos , he hum dos grandes productos da sensibilida- de , e da mobilidade , e não de huma força própria. Taes são também as forças de formação de Bbimenbach , de situação fixa de Barlhez , e os princípios diver- sos admittidos por huma multidão de au- thores, que tem attribuido à funções . à âesultados, denominações, que indicãoleis, propriedades vitaes , &c. A vida própria de cada orgão se compoem de modificações diversas , as quaes soffrem em cada huma , tanto a sensibilidade, como a mobilidade vitaes, modificações , que a produzem inevitavel- mente na circulação , e temperatura do orgão. Cada hum meio da sensibilidade , da mobilidade , da temperatura , e da cir- culação geraes , tem hum modo particu- lar de sentir , de se mover , hum calor in- 141 independente do do corpo , huma circu- lação capilar, que subtrahida ao império do coração , só recebe a influencia da ac- ção tónica da parte. Deixemos porém hum ponto de fysiologia , tantas vezes discuti- do , e assas approfundado por outros au- thores. Não prevento finalmente o que aca- bo de dizer das forças vitaes , senão co- mo hum apercebido sobre as modifica- ções diversas , que ellas experimentáo nas duas vidas; e como algumas idéas sepa- radas , que formão depois a base de hum trabalho maior. Igualmente não indiquei as diversas divisões das forças da vida , adoptadas pe- los authores ; o leitor as achará em suas obras , e facilmente conhecerá a differen- ça , que as distingue, da que eu presen- to. Notarei sómente , que , se estas divi- sões tivesse n sido claras, e precisas , se as palavras sensibilidade , irritabilidade, tonicidade , , tivessem oíferecido à to- dos o mesmo ^entido , não acharíamos nos escritos de Hdller , de Lecat , de Wyth, de Haen , de todos os médicos de Mont- pelier , &c. , huma multidão de disputas estereis , para a sciencia, e fatigantes pa- ra os que a estadão» AR» 142 ARTIGO VIII. Da origem , e desenvolvimento da vida animal, kjj E ha huma circunstancia , que esta- beleça huma linha real de demarcação entre as duas vidas, he sem dúvida o mo- do , e a epoca de sua origem. Huma, a organica , esta em actividade desde os pri- meiros instantes da existência ; a outra , a animal , não entra cm exercicio , senão depois do nascimento, quando os objectos exteriores offerecem ao indivíduo, que ro- deão, meios de relação, de correspondên- cia : porque sem os excitantes externos es- ta vida he condemnada à huma inaeção necessária , como, sem os fluidos da eco- nomia , excitantes internos da vida orga- nica , esta se extinguiria: mas isto mere- ce huma discussão mais profunda. Veja- mos primeiro como a vida animal , pri- mitivamente nulla, nasce depois, e se de- senvolve. §. I. 143 §. I. A primeira ordem de funções da vida animal he nulla em o feto, O Instante, em que o feto começa a existir, he quasi o mesmo , em que elle foi concebido; mas esta existência, de que todos os dias engrandece a esfera , náo he a mesma que aquella, de que elle goza- ra , quando tiver visto a luz. Tem-se comparado à hum somno pro- fundo o estado , em que elle se acha ; esta/comparação he infiel ; no somno a vida animal só he cm parte suspendida; nelle ella está inteiramente anniquilada , ou para dizer melhor, ainda não está co- meçada. Vimos com eífeito, que ella con- siste no exercício simultâneo , ou distin- cto das funções do pulso , dos nervos , do cerebro, dos orgáos locomotores , e vo- ca^ t ora tudo he então inactivo nestas funções diversas. Toda a sensação suppoem , tanto a acção dos corpos exteriores sobre o nos- so , como a percepção desta acção , per- cepção, que se faz em virtude da sensi- bilidade, a qual he aqui de duas sortes, ou para melhor dizer , transmitte duas es- 144 especies de acção , humas geraes , outras particulares. A faculdade de perceber as impres- sões geraes , considerada em exercício , forma o tacto , que muito distincto do to- car tem por objecto advertir-nos da pre- sença dos corpos, de suas qualidades quen- tes , ou frias , seccas , ou húmidas , du- ras , ou molles , &c. , e outros attributos communs, Perceber as modificações par- ticulares dos corpos , he o apanagio dos sentidos , cada hum dos quaes se acha em relação com huma especie destas modifi- cações. Terá o feto sensações geraes ? Para odicidir, vejamos, que impressões podem nelle exercer o tacto. Elle he submetti- do à huma temperatura habitual; elle na- da em hum fluido; elle bate, nadando, contra as paredes do útero : eis-aqui tres origens de sensações geraes. Notemos com antecipação , que as duas primeiras são quasi nullas ; que el- le não pode ter consciência ; nem do meio , em que se nutre , nem do calor , que o penetra. Toda sensação suppoem com ef- feito huma comparação entre o estado a- ctual, e o passado. O frio não nos he seasivcl , senão por termos experimentado hum calor antecedente ; se a atmosfera es* ' ti- 145 tivesse em hum grao invariável de tem- peratura , não distinguiríamos este gráo: o Lapponio acha commodidade em hum clima, em que o negro acharia a dor, e a morte , se fosse a elle subitamente transportado. Não he no tempo dos sol- stícios , sim dos equinoxios , que as sen- sações do calor , e do frio são maís vi- vas , porque então suas variedades mais numerosas fazem nascer comparações mais frequentes , entre o que sentimos , e o que temos sentido precedentemente. Não acontece o mesmo com as aguas do amnios , que com o calor o feto não experimenta sua influencia , porque o con- tacto de hum outro meio lhe he desco- nhecido. Antes do banho, o ar não nos he sensível : sahindo d'agua , sua impres- são he penivel ; e porque? Porque então elle nos aífecta pela unica razão de ter havido huma interrupção em sua acção sobre o orgão cutâneo. O choque das paredes do utero se- rá huma causa de excitação mais real , que as4 aguas do amnios , ou o calor ? Parece que sim ao primeiro golpe de vista ; porque o feto , não sendo submet- tido à este excitante , senão por interval- los , a sensação que dahi nasce , deve ser mais viva. Notemos porém , que a de n- 146 densidade do utero , principalmcnte na prenhez , não sendo muito superior â das aguas , a impressão deve ser menor. Com eífeito 9 quanto mais os corpos se aproxi- mão pela sua consistência do meio , em que vivemos , menos sua acção he pode- ro a sobre nós. A agua reduzida à va- por no nevoeiro ordinário aíTecta ligeira- mente o tacto, mas á proporção, que ella se condensa na atmosfera , e que o nevoeiro, espessando-se, se aparta da den- sidade do ar , he a causa de huma af- fecção mais viva. O ar para o animal , que respira , he pois verdadeiramente o termo de com- paração geral , a que elle refere , sem dúvida , todas às sensações do tacto. In- troduza-se a mão no gaz acido carbonico, o tacto não o saberã distinguir do ar, por- que sua densidade he quasi a mesma. A vivacidade das sensações he em razão directa da diíferença da densidade do ar à respeito da dos corpos, objcctos de sensação. Semelhantemente a medida das sensações do feto he o excesso de den- sidade da madre sobre a das aguas ; e es- te excesso , não sendo mui considerável , as sensações devem ser obtuzas. He deste modo , que aqniilo , que nos parece d'hu- ma grande densidade 5 deve menos viva- men- 147 mente aflectar os peixes , em razão do meio , em que elles vivem. Esta asserção relativamcnte ao feto se fará mais geral, se lhe ajuntarmos es- ta , e vem à ser , que as membranas mu- cosas , assento do tacto interno , como a pelle o he -do externo , não tem ainda nelle começado suas funções. Depois do nascimento , continuadamente em contacto com os corpos extranhos ao nosso , cilas achão nestes corpos causas de irritação , que , incessantemente renovadas , se tor- nâo mais poderosas para os orgãos. No feto porém não ha successão alguma nes- tas causas ; he sempre a mesma ourina , o mesmo meconio , o mesmo muco , que exercem sua acção sobre a bexiga , os intestinos , a membrana pituitária , &e. De tudo isto concluamos , que as sen- sações geraes do feto são fracas, quasi nul- las , bem que esteja cercado da maior parte das causas, que ao depois lhas de- vem procurar. As sensações particulares não são nelle mais activas ; mas isso ver- dadeiramente depende da auzencia dos excitantes. O olho , que a membrana pupillar feixa ; a venta , cujo desenvolvimento he apenas esboçado , não serião susceptiveis de receber impressões , suppondo que a 148 a luz , ou os cheiros podessem obrar so- bre elles. A língua, applicada contra o paladar não está em contacto com corpo algum , que nella possa produzir hum sentimento de sabor; estivesse-o ella com as aguas do amnios , seu effeito seria nullo ; porque como o dissemos , náo ha alguma sensação , onde náo haja variedade d' impressão. Nossa saliva será saborosa pa- ra outro , mas ella he insipida para nós. O ouvido não he despertado por som al- gum , tudo está sereno , tudo pacifico no pequeno indivíduo. Eis-aqui pois já , se me posso expri- mir assim , quatro portas fexadas nelle ás sensações particulares, e que se não abri- rão , para lhas transmitir, senão quando elle tiver visto a luz ; mas observemos , que a nullidade de acção destes senti- dos arrasta quasi inevitavelmente a do tacto. Este sentido he com effeito especial- mente destinade à confirmar as noçõea adquiridas peles outros, e mesmo à re- tificallas; porque muitas vezes elles são agentes d'iHusáo, em quanto que o tacto já mais o he, senão da verdade. Attri- buindo-lhe por tanto este uso , a natureza o submette directamente á vontade , em quanto que a luz, os cheiros , os sons, vem 149 vem muitas vezes , à nosso pesar, aflcctar seus respectivos orgãos. O exercício dos outros sentidos prece- de à este , e mesmo o determina. Se nascesse hum homem privado da vista , do cheiro , e do gosto , de que modo te- ria nelle lugar o tacto ? O feto se assemelha à este homem : elle tem , com que exerça toques em suas mãos já desenvolvidas , e em que o exer- cerá ? Nas paredes do utero. ? Elle está todavia em huma nullidade constante d' ac- çào , porque não vendo , não sentindo , não gostando , nada ouvindo , por cousa alguma he conduzido ao toque. Seus mem- bros são para elle, o que são para a ar- vore seus ramos, e raminhos , que não lhe communicão de modo algum a impres- são dos corpos, que elles tocão, e com que se entrelação. Observarei de passagem , que a gran- de differença entre o tacto , e o toque em outro tempo confundidos pelos fysiologistas , he, que a vontade dirige sempre as im- pressões do segundo, em quanto que as do primeiro , que nos dá as sensações ge- raes do quente , do frio , do secco , do húmido , &c. , estão constantemente fora de sua influencia. Podemos pois estabelecer em geral , que 150 que a porção de vida animal , que cons- titue as sensações , he ainda quasi nulla no feto. Esta nuilidade na acçáo dos sen- tidos suppoem tainbem huma na dos ner- vos que ahi sc destribuem , e do cerebro, donde partem ; porque transmittir , he a funcçáo de huns , perceber a do outro. Ora sem objectos de transmissão , e de percepçáo , estes dous actos não podem ter lugar. Da percepção derivão immedia- tamente a memória , e a imaginação ; de huma destas tres faculdades ojuizo, deste a vontade. Toda esta serie dc faculdades, que se succedem , e se encadcão , não tem ain- da começado no feto , por isso mesmo que elle ainda não tem tido sensações. O ce- rebro esta na expectativa da acçáo ; elle tem tudo quanto lhe he preciso para obrar ; he a excitação , e não a excita- bilidade , que lhe falta. Resulta daqui , que toda a primeira divisão da vida animal , aquclla , que se refere â acçáo dos corpos exteriores sobre o nosso , he apenas esboçada no feto : vejamos, se acontece o mesmo na segunda, ou na que he relativa â reacçáo do nosso corpo sobre os outros. §. n. 151 §. II. A locomoção existe no feto ; mas ella per- tence nelle d vida organica, Endo nos animaes a estreita conne- xão , que ha entre estas duas divisões , entre as sensações, e todas as funções , que delias dependem de huma parte , da outra a locomoção, e a voz somos com- pellidos à crer, que humas estão constan- temente em relação directa das outras ; que o movimento voluntário cresce , ou diminue sempre â proporção que o sen- timento , do que rodea o animal cresce , eu diminue nelle, porque o sentimento, fornecendo os materiaes da vontade, onde, elle não existe , ella , e por consequência os movimentas , que delia dependem , não se podem encontrar. De inducções em in- ducções chegar-se-hia por tanto à provar, que os musculos voluntários devem ser inactivos no feto , e que consequentemente não pode existir nelle alguma especie de movimento no tronco , ou membros. Todavia elle se move ; muitas vezes fortes concussões mesmo são a resulta de seus movimentos. Se elle não produz sons , não he porque os musculos do laringe es- te- 152 tejão passivos , sim porque o meio neces- sário à esta função lhe falta. De que mo- do alliar a inércia da primeira parte da vida animal â actividade da segunda ? Ei-lo-aqui, Vimos , fallando das paixões , que os musculos locomotores , ou dos membros do tronco , em huma palavra , os differen- tes do coração , do estomago, &c., erão postos em acção do dous modo., 1.° pe- la vontade , 2.° pelas simpathias. Este ul- timo modo de acção tem lugar, quando , por motivo da aflecção de hum orgão in- terno , o cerebro se aífecta também , e de- termina movimentos, então involuntários nos musculos locomotores : huma paixão por tanto influencia sobre o figado ; oce- rebro , excitado simpathicamente , põe em acção os musculos voluntários; he no fi- gado então , que existe verdadeiramente o principio de seus movimentos , os quaes neste caso pertencem â classe dos da vida organica ; de sorte que estes musculos , bem que postos em jogo pelo cercbro , podem comtudo pertencer alternadamente em suas funções , tanto a huma , como a outra vida. Isto p®sto , he facil conceber a loco- moção do feto ; ella não he nelle , como ro adulto , huma porção da vida animal ; seu 153 yen exercício não suppue vontade preexis- tente , que a dirija , c lhe regule os actos , ella he hum ciTeito puramente sim- pathico, e que tem seu principio na vida organica. Todos os fenomenos desta vida se suc- cedem então , como o vamos ver , com huma extrema rapidez ; mil movimentos diversos se encadcão incessantemente nos orgáos circuladores , c nutritivos ; tudo ahi está em huma acçáo muito energica : ora esta actividade da vida organica suppõe frequentes influencias , exercitadas pelos orgáos internos sobre o cerebro , e por consequência numerosas reacções, exerci- tadas por este sobre os musculos , que se inovem então simpathicamente. O cerebro he tanto mais susceptivel de se aflcctar por estas sortes de influen- cias , quanto está então mais desenvolvido á proporção dos outros orgáos , e está pas- sivo à respeito de sensações. Agora se conceberá , o que são os movimentos do feto ; elles pertencem á mesma classe , que muitos dos do adulto, que ainda se não tem assás distinguido; elles são os mesmos , que os produzidos pelas paixões sobre os musculos voluntá- rios ; assemelha-se aos do homem , que dorme, e que, sem que algum sonho lhe 154 Jhc agite o cerebro, se move com huma força maior , ou menor. Por exemplo no sonho, que succcde à huma digestão pe- nivel , se observa commummente movimen- tos violentos : he o estomago , que estando em huma viva acçáo , obra sobre o ce- rebro , que mette em actividade os mus-» culos locomotores. Por occasiáo disto , devemos distinguir duas especies de locomoções no somno ; huma para assim dizer, voluntária, pro- duzida pelos sonhos , he huma dependen- cia da vida animal; a outra, efleito da influencia dos orgáos internos , tem seu principio na vida organica, â qual per- tence , e he precisamente a do feto. Poder-se-hia achar outros diversos exemplos de movimentos involuntários , e por consequência orgânicos , executados no adulto pelos musculos voluntários , e proprios por consequência à dar huma idca dos do feto ; mas bastáo estes. Note- mos sómente , que os movimentos orgâni- cos , iguahnente que a affecçáo simpathi- ca do cerebro , que he sua origem , dis- põem pouco a pouco este orgão , e os musculos, hum para a percepçào das sen- sações , outro para os movimentos da vi- da animal , que começao depois do nas- cimento. Vejáo-se finalnqente sobre este ob- 155 objecto as judiciosas memórias de Mr, Ca» banis. De tudo , quanto se tem dito neste artigo , parece, que podemos concluir com certeza , que no feto a vida animal he nulla ; que todos os actos , unidos à esta idade , estão na dcpendencia da orgâni- ca. O feto nada tem , para assim dizer , em seus fenomenos , do que caracteriza es- peciahnente o animal ; sua existência he a mesma, que a do vegetal, sua destrui- ção se exerce sobre hum ente vivo , e não sobre hum animado. Na cruel alternativa portanto de o sacrificar, ou de expor a mãi à huma morte quasi certa, a esco- lha não deve ser duvidosa. O crime de destruir seu semelhante he mais relativo â vida animal , que á organica. He o ente , que sente , refle- cte , que quer , e executa actos voluntá- rios , e não o que respira, se nutre , di- rige , e he o assento da circulação , das secreções , &c. , que lastimamos , e cuja morte violenta he cercada das horriveis imagens, com que o homicidio se pinta ao nosso espirito. A' proporção , que na serie dos animaes as funções intellectuaes diminuem, o sentimento penivel, que nos causa a vista da sua destruição, se ex- tingue , e se affrouxa pouco a pouco; el- le 156 le se torna nullo , quando chegámos aos vegetaes , em quem a vida organica so- mente existe. Se o golpe , que termina , por hum assassinato , a existência do homem , só destruisse nelle esta vida , e , deixando subsistir a outra , em nada alterasse todas as faculdades, que estabelecem nossas re- lações com os entes visinhos , este golpe seria visto com hum olho indiíferente ; el- le não excitaria, nem vi compaixão, para com o que he victima , nem o horror , ao que he instrumento delle. Porque huma grande ferida, d'onde se evacua muito sangue , inspira tanto hor- ror? Não he porque cesse a circulação , sim porque o deliquio , que logo se lhe segue, rompe subitamente todos os laços, que unem nossa existência a tudo , que nos rodea, e está fora de nós. §• in. Desenvolvimento da vida animal; e edu» caçào de seus orgàos. & 1 Um novo modo d' existência começa para o menino, logo que sahe do ventre de sua mái. Diversas funções se unem â vida organica, cuja união vem a ser mais com- 157 complicada , e cujas resultas se multipli- cão. A vida animal entra em exercício, estabelece entre o pequeno indivíduo, e os corpos visinhos , relações ate então des- conhecidas. Desde logo tudo recebe nelle hum modo de ser diverso ; mas nesta épo- ca rema reavei das duas vidas , em que huma augmenta quasi o duplo, e a ou- tra começa, ambas tomão hum caracter distincto , e o engrandecimento da pri- meira não segue as mesmas leis, que o desenvolvimento da segunda. Notaremos logo , que os orgáos da vida interna attingem repentinamente ã perfeição ; que desde o instante , em que obrão , elles o fazem com tanta precizão, como em todo o resto de sua actividade. Pelo contrario os orgãos da vida externa precisão de huma especic d'educação ; elles chegão pouco à pouco a este grão de perfeição , que seu jogo deve ao de- pois oíferecer-nos. Esta importante diffe- rença merece hum exame profundo: co- mecemos à apreciallo na vida animal. Investiguemos as diversas funções des- ta vida, que , ao nascimento , sahe toda do nada , em que estava mergulhada , e observaremos em seu desenvolvimento huma marcha lenta , e graduada ; vere- mos , que he insensivelmente , e por hu- ma 158 ma verdadeira educação, que os orgãos chc»ão à exercitar-se com exactidào. o As sensações , ao principio confusas , não tração ao menino , senão imagens ge- raes; o olho só tem sentimento da luz, o ouvido o do som , o gosto o do sabor, o nariz o do cheiro ; nada he ainda dis- tincto nestas aífecções geraes dos sentidos. O habito porém embola insensivelmente estas primeiras impressões; então nascem as sensações particulares : as grandes dif- ferenças das cores , dos sons , dos chei- ros , dos sabores, são percebidas; pouco à pouco as differenças secundarias o são também ; por ultimo no fim de hum certo tempo , o menino tem aprendido pelo exercício à ver , ouvir , gostar , sen- tir , e tocar. Tal o homem, que sahe de huma obscuridade profunda , em que esteve por muito tempo retido , primeiro he affectado sómente pela luz , e só chega por grada- ção à distinguir os objectos , que a refle- tem. Tal , como disse , aquelle , diante do qual se ostenta pela primeira vez o magico espectaculo de nossos bailes , não percebe ao primeiro golpe de vista , senão hum todo , que o encanta , e só consegue pouco à pouco o isolar os gozos , que lhe occasionão ao mesmo tempo a dança , a musica , os adornos, óçc. A 159 A educação do cerebro he bem , co- mo a dos sentidos ; todos os actos , depen- dentes de sua acção , só gradualmente adquirem o grão de precisão, à que são destinados : a percepção , a memória , a imaginação , faculdades , que as sensa- ções precedem , e determinão , sempre crescem , e se estendem á proporção, que novos excitantes vem a determinar-lhes o exercício. O juizo , de que ellas são a triple baze , não associa antes, senão com irregularidades, noções também irregulares ; maior clareza distingue depois seus actos; ellcs se tornão finalmente rigorosos , e precisos. A voz , e a locomoção prezentão o mesmo fenomeno ; os gritos dos animaes recentes prezentão primeiro hum som uni- forme , e sem expressão alguma ; pouco à pouco a idade os modifica, e he de- pois de exercícios frequentemente repeti- dos , que elles aífectão as consonâncias particulares à cada especie , e nas quaes os indivíduos da mesma especie não se enganão jamais , principalmente na esta- ção dos amores. Não trato da falia ; ella he mui evidentemente o fructo da edu- cação. Olhem para o animal recem-nascido em seus movimentos multiplicados ; seus mus- 160 músculos estão cm huma continuada acção. Como tudo he novo para elle , tudo o ex- cita , e o faz mover; elle quer tocar tu- do ; mas a progressão , a estação mesma , ainda não tem lugar nestas innumeraveis contracções musculares dos orgãos locomo- tores : he preciso , que o habito lhe en- sine a arte de coordenar tal, ou tal con- traeção com tal , ou tal outra , para pro- duzir tal , ou tal movimento , ou para tomar tal ou tal attitude : até então elle vacilla , cambalea , e cahe à cada mo- mento. Certamente que a inclinação da ba- cia no feto humano , a disposição de seus femures , o defeito de curvatura da sua cólumna vertebral , &c. , o fazem pouco proprio para a estação , logo depois do nascimento ; mas à esta causa se une evidentemente a falta d'exercicio. Quem não sabe , que , se se deixa por muito tempo hum membro immovel, elle perde o habito de se mover , e que quando se quer servir delle depois , he preciso , que huma nova educação ensine aos musculos a exactidão dos movimentos , que não executão antes , senão com irregularida- de ? O homem , que se tivesse conde- mnado ao silencio por hum longo espaço de tempo , experimentaria certamcnte o mes- mo 161 mo embaraço, quando quizesse rompel- lo , &c. Concluamos pois destas diversas con- siderações , que devemos aprender à vi- ver fora de nos ; que a vida exterior se aperfeiçoa lodos os dias , e que necessita de huma especie d''ensino , do qual a na- tureza se tem encarregado para a vida interna. §. IV. Influencia da sociedade sobre a educaçao dos orgãos da vida animal» Jãlk Sociedade exerce sobre esta espe- cie d' educação dos orgãos da vida ani- mal huma influencia remarcavel ; ella en- grandece a esfera d"' acção de huns , coar- cta a de outros ; modifica a de todos. Digo primeiro , que a sociedade dá quasi constantemente a certos orgãos ex- ternos huma perfeição , que não lhes he natural , e que os distingue especialmente dos outros. Tal he com efleito em nossos usos actuaes a natureza de nossas occupa- ções , qud aquella , à que nos entregamos habitualmente , exerce quasi sempre hum destes orgãos mais particularmente , que todos os outros, O ouvido no musico , o pa 162 paladar no cosinheiro, o cercbro no filo- sofo , os musculos no dançante , o laringe em o cantor, Ac., tem alem da educa- ção geral da vida externa , huma parti- cular , que o frequente exercício aperfei- çoa singularmente. Poder-se-bia também à este respeito dividiras occupações humanas em tres clas- ses. A primeira comprehenderia as que põe os sentidos especialmente em jogo ; como a pintura , a musica , a escultura , as artes do perfumador, do cosinheiro , e todos aquelles , em huma palavra , cujas resultas encantão a vista, o ouvido, Ac,, Ac. Na segunda se arranjariáo as occu- pações , em que o ccrebro he mais exer- citado ; como a poesia , que pertence á imaginação ; as sciencias de nomenclatura , que são do ressorte da memória ; as al- tas sciencias , que o juizo tem em parti- lha de hum modo mais especial. As oc- cupações , que como a dança , a equita- ção , todas as artes mecanicas , põe em jogo os musculos locomotores , formarião a terceira classe. Cada occupação do homem põe pois quasi sempre em actividade pCrmanente hum orgão particular : ora o habito de obrar aperfeiçoa a acção : o ouvido do musico entende em huma harmonia , a vis- 163 vista do pintor distingue em hum quadro, o que o vulto deixa escapar ; muitas ve- zes também este aperfeiçoamento d'acção hc acompanhado no orgão mais exerci- tado de hum excesso de nutrição, Ve-se-o nos musculos dos braços nos padeiros , nos dos membros inferiores em os dançan- tes , nos da face dos graciosos, &c. &c. Disse em segundo lugar , que a so- ciedade coarcta a esfera d?acçáo de mui- tos orgãos esteriores. Com eífeito , por isso mesmo , que em nossos hábitos sociaes hum orgão he sempre mais occupado , os outros estáo mais inactivos: ora , o habi- to d 'obrar os enrigece ; ellcs parecem perder em attitude , o que ganha aquel- le , que se exercita frequentemente. A observação da sociedade prova à cada mo- mento esta verdade. Veja-se aquelle sabio , que em suas meditações abstractas exercita incessante- mente seus sentidos internos , e que, pas- sando a vida no segredo do gabinete , condem na a inaeção os externos , e os orgãos locomotores; veja-se o que se dâ por acaso à hum exercício do corpo , e rir-se-hia da sua inaptidão , e do seu ar aTectado. Suas sublimes concepções espan- tarião , o peso de seu corpo serviria de divertimento. Exa- 164 Examine-se ao contrario aquclle dan- çador , que , por seus passos ligeiros , pa- rece traçar â nossos olhos tudo , quanto na fabula os risos, c as graças oflerecem de sedusente ã nossa imaginação ; julgar- se-ha , que profundas meditações d'es- pirito tem produzido esta feliz harmonia de movimentos : converse-se com elle , e achar-se-ha o homem o menos admiravcl debaixo destes exteriores , que tanto ad- mira o. O espirito observador , que analisa os homens na sociedade , faz â cada mo- mento semelhantes reflexões. Não se verá quasi já mais coincidir a perfeição d ' acção dos orgãos locomotores com a do cerebro , nem dos sentidos , c reciproca- mente he muito raro , que estes , sendo mui babeis em suas funções respectivas , os outros sejão muito aptos para as suas. §. V. Leis da educação dos orgãos da vida animal» Ue pois manifesto , que a sociedade interverte em parte a ordem natural da educação da vida animal ; que cila des- tri- 165 tribue irregularmente â seus diversos or- gãos huma perfeição , da qual gczariáo sem ella cm huma proporção mais uni- forme , bem que todavia sempre desigual. Huma soma determinada de força foi repartida em geral com esta vida : ora esta soma deve ser sempre a mesma , ou sua destribuição se faça com igualdade , ou venha á ser desigual, consequentemen- te a actividade d'hum orgão suppoem necessariamente a inaeçáo dos outros. Esta verdade nos conduz natural- mente á este principio fundamental da educação social, á saber , que se não de- ve jamais applicar o homen â muitos es- tudos simultaneamente , se se quer , que elle aproveite em cada hum. Os fdosofos já tem repetido muitas vezes esta maxi- ma ; mas duvido , que as rasões moraes , sobre as quaes clles a tem fundado , valhão esta bella observação fisiológica , que a de- monstra até a evidencia , á saber, que pa- ra augmentar as forças de hum orgão , he preciso diminuillas nos outros : julgo por isso â proposito demorar-me ainda nesta observação , e de a apoiar por hum grande numero de factos. O ouvido , e principalmente o tacto adquirem no cego huma perfeição, que supporiamos fabulosa , se a observação quo- 166 quotidiana nào lhe verificasse a realidade. O surdo , e mudo tem na vista huma exactidáo estranha â aquelles , cujos sen- tidos todos são mui desenvolvidos. O ha- bito de estabelecer poucas relações entre os corpos exteriores , e os sentidos afroxa estes em os extasiados , e dá ao cerebro huma força de contemplação tal, que parece , que nelles tudo dorme, exccptu- ada esta víscera , na vida animal. Mas para que procurar em factos extraordinários huma lei , de que o ani- mal em saude nos presenta â cada instan- te a applicação. Considere-se na serie dos animaes a perfeição relativa de cada orgão , e ver- se-ha , que quando hum excede, os ou- tros são menos perfeitos. A aguia com hu- ma vista perspicaz tem hum cheiro obs- curo ; o cão , que distingue a finura deste ultimo sentido , tem o primeiro menor , o ouvido excede na coruja , na lebre , dc. ; o morcego he remarcavcl pela exa- ctidão do seu tacto ; a acçào do cerebro predomina nos macacos , o vigor da loco- moção nos animaes carnívoros, &c., &c. Cada, especie tem pois huma divisão de sua vida animal , que excede as ou- tras , sendo estas à proporção menos de- senvolvidas : não se achara alguma , em que 167 que a perfeição de hum orgào não pare- ça ter sido adquirida à expcnsas da dos outros. O homem tem em geral, fazendo abstracçào de toda outra consideração , o ouvido mais signalado , que todos os ou- tros sentidos , e que não deve com eíTci- to tcllo na ordem natural , por que a falta , que exercitai incessatemente o ouvido , he para elle huma causa perma- nente d'actividade , e por isso de per- feição. Não he só na vida animal , que es- ta lei he remarcavel; a vida organica lhe he quasi constantemente submettida em todos seus fenomenos. Ao abatimento de huma das parotidas , no tratamento das fistulas salivares, succede na outra hu- ma energia d'acçáo , que faz , que ella encha só as funções de todas duas. Veja-se, o que acontece em resulta da digestão ; cada sistema he entáo succes- sivamente o assento de huma exaltação de forças vitaes, que abandonão os ou- tros na mesma proporção. Immediatamente depois da entrada dos alimentos no esto- mago , a acção de todas as vísceras gás- tricas augmenta , as forças concentradas sobre o epigastrico abandonáo os orgãos da vida externa. D5aqui, como o tem obser- v a- 168 vado diversos autores , a froxidão , a de- bilidade dos sentidos em receber as im- pressões externas, a tendencia ao somno, a facilidade dos tegumentos em se resfri- ar , &c. Acabada a digestão gastrica , a mus- cular lhe succede ; o chilo hc introduzido no sistema circulador , para nclle soífrcr a influencia deste sistema , c do da res- piração: ambos entáo vem â ser hum foco d'acção mais pronunciada , as forças se transportão à elles ; o pulso se eleva ; os movimentos do thorax se precipitão, de. Ue então o sistema glanduloso, e de- pois o nutritivo , que gosão de huma su- perioridade signalada no estado nlas forças vitaes. Finalmente , quando ellas se tem assim succcssivamente ostentado sobre to- dos , tornáo aos orgãos da vida animal ; os sentidos recuperáo sua actividade, as funções do cerebro sua energia , os mús- culos seu vigor. Todo , que reflectir no que experimenta cm consequência de hu- ma comida hum pouco copiosa , facilmen- se convencera da verdade desta nota. A união das funções representa en- tão huma especie de circulo , do qual metade pertence â vida organica , c a ou- tra â animal. As forças vitaes parecem correr successivamcnte estas duas meta- des : 169 des : quando ellas se achào cm huma , a outra esta pouco activa ; bem como tudo parece alternadamente languescer , e se reanimar nas duas porções do globo , con- forme o sol lhes concede , ou lhes refusa seus raios bcmfazejos. Querem-se outras provas desta desi- gualdade de repartição de forças ? Exa- mine-se a nutrição ; sempre em hum or- gão ella he mais activa , porque elle viva ma is , que os outros. No feto o cerebro, c os nervos , os membros inferiores depois do nascimento , as partes genitaes , e as tetas na puberdade , &c. parecem crescer á expensas das outras partes , em que a nutrição he menos pronunciada. Vejão-se todas as enfermidades , as inflam mações , os espasmos , as hemorrha- gias espontâneas : se n'huma parte se faz assento de huma accão mais energica , a vida , e as forças diminuem nas outras. Quem não sabe , que a pratica da Me- dicina he em parte fundada sobre este principio, que dirige o uso das ventosas, do moxa , dos vezicatorios, dos rubefaci- entes , &c. , &c. Conforme esta multidão de conside- rações podemos pois estabelecer , como huma lei fundamental da distribuição das forças , que quando ellas augmcntáo em h u- 170 huma parte , diminuem no resto da eco- nomia viva ; que sua soma não augmen- ta jámais ; que ellas somente se transpor- táo succcssivamente de hum para outro orgáo. Com esta prova geral he facil o dizer , porque o homem náo pode ao mesmo tempo aperfeiçoar todas as partes da vida animal , e exceder por conse- quência em todas as sciencias ao mesmo tempo. A universalidade de conhecimentos no mesmo indivíduo he huma chimera ; ella repugna as leis da organisaçáo , e se a historia nos ofierece alguns génios ex- traordinários , produzindo em muitas sci- encias hum esplendor igual , seráo ellas outras tantas excepções destas leis. Quem somos nós , para ousar seguir sobre mui- tos pontos a perfeição , que as mais das vezes nos escapa sobre hum só ? Se fosse permittido unir ao mesmo tempo muitas occupações , seriáo , sem duvida, as que tem mais analogia pelos orgàos , que ellas põe em jogo , como as que se refferem aos sentidos, as que exer- citáo o ccrehro , e as que fazem obrar os musculos , &c. Restringindo-nos assim em hum cir- culo mais estreito, poderíamos mais facil- mente exceder em muitas partes ; mas nis- 171 nisto taobem o segredo de ser superior em huma , he o de ser medíocre nas outras. Tomem-se por exemplo as sciencias , que põe em exercício as funções do cere- bro. V imos , que estas funções se reífe- rem especialmente â memória, que pre- side as nomenclaturas ; â imaginação , que tem de baixo do seu império a poesia ; á attenção , que entra especialmente cm jogo nos cálculos do juizo , cujo domínio abraça a sciencia do raciocínio : ora , ca- da huma destas diversas faculdades , ou destas diversas operações , não se desen- volvem , nem augmentáo , sc não â ex- pensas das outras. Por que o habito de recitar as bel- lezas de Corneille não engrandece a alma do actor, não lhe dá ella huma energia de concepção muito superior á do vulgo? Is- to nasce sem duvida das disposições na- turaes ; porem depende táobem , de que nclle a memória , c a faculdade de imi- tar se exercitáo com especialidade , e de se despojarem as outras faculdades do ce- rebro , para assim dizer, à fim de enri- quecer esta. Quando vejo hum homem querer ao mesmo tempo brilhar pela destreza das mãos nas operações da cirurgia ; pela profundidade do seu juizo na pratica da me- 172 Medicina, pela extensão da memória na Botanica , pela força de sua attenção nas contemplações metafysicas. &c. , parece- me ver hum medico , que , para curar huma enfermidade, para expcilir, segun- do a antiga expressão , o humor morbi- fico , quizesse ao mesmo tempo augmcn- tar todas as secreções pelo uso simultâ- neo dos sialalogos , diuréticos , excitantes da bílis , do sueco pancreatico , dos mu- cosos , &c. Náo bastaria o menor conhecimento das leis da economia , para dizer a este medico , que huma glandula verte maior quantidade de fluidos , porque as outras vertem huma muito menor ; que hum tal remedio vem annullar o outro ; que exigir muito da natureza , he hum motivo de nada poder obter ? Diga-se outro tanto âquelle homem , que quer , que seus mús- culos , seu cerebro , seus sentidos adqui- rào huma perfeição simultânea , que per- tende dobrar , e ainda treplicar sua vida de relaçao , quando a natureza só quiz , que podessemos separar de alguns de seus orgãos alguns grãos de força , para os unir aos outros , mas nunca augmentar a sõma total d'ellas. Se se quizer, que hum orgáo se tor- ne superior aos outros , abandonem-se es- tes 173 fes â inacção. Castrão-se os homens , para lhes mudar a voz ; a barbara idéa de lhes tirar a vista , para os fazer músi- cos , nasce tãobem de saber-se , que , não sendo os cegos distrahidos pelo exercício da vista , dão mais attenção ao de ouvir. O menino , que se destinasse â musica , e do qual se apartasse tudo , quanto podes- se aflectar sua vista , cheiro , tacto , pa- ra só ser excitado por sons armoniosos , faria sem duvida muito mais rápidos pro- gresso':. Com verdade se diz , que a nossa superioridade cm tal arte , ou sciencia , he quasi sempre proporcionada â nossa in- ferioridade nas outras , c que esta maxi- ma geral , consagrada pelo antigo provér- bio , que a maior parte dos primeiros filosofos tem estabelecido , mas que muitos modernos , quererião destruir , tem por fundamento huma das grandes leis da economia animal , e sempre serâ tão imu- tável , como a base , sobre que ella se firma. VI. 174 §. VI. Duragâo da educaçlío dos orgãos da vida animal» Educação dos orgãos da vida ani- mal se prolonga por hum certo tempo , sobre o qual muitas circunstancias influ- em , para o poder determinar ; mas o que ha de remarcavel nesta educação , he que cada idade parece ser consagrada â aperfeiçoar certos orgãos em particular. Na infancia os sentidos são especial- mente educados ; tudo parece referir-se ao desenvolvimento de suas funções. Ro- deado de corpos novos para elle , o pe- queno indivíduo procura conhecellos to- dos ; elle conserva , se o posso dizer as- sim , em huma creccão continua os or- gãos , que estabelecem relações entre el- le , e o que o avisinha : por tanto tudo , que he relativo á sensibilidade , se acha nelle mui pronunciado. O sistema nervoso, comparado ao muscular , he proporcional- mente mais considerável , que em todas as outras idades , em quanto que ao depois a maior parte dos outros sistemas predo- minão sobre este. Sabe-se , que para bem ver os nervos, se procurão sempre meninos. A 175 A' educação dos sentidos se liga ne- cessariamente o aperfeiçoamento das fun- ções do cerebro , relativas á percepção. A1 proporção que a somma das sensações augmenta , a imaginação , e a memória principião a entrar em actividade. A ida- de , que se segue ã infancia he a da edu- cação das partes do cerebro , que lhe são relativas : então ha nelle de hum lado bastantes sensações precedentes , para que huma se possa exercer em no-las traçar , cm quanto que a outra acha o typo das sensações illusorias , que ella nos presen- ta. D'outro lado a pouca actividade do ju- ízo ne>ta época ; favorece a energia dic- ção de.*tas duas faculdades: então também a revolução , que traz a puberdade , os novos gostos , que ella produz , os dese- jos , que ella cria , estendem a esfera da primeira. Quando a percepção , a memória , e a imaginação estão aperfeiçoadas , e que sua educação fmalisou , a do juízo come- ça , ou se faz mais activa ; por que logo que ha materiaes , se exercita o juízo. Nesta epoca as funções dos sentidos, hu- ma parte das do cerebro , nada tem á ad- quirir : todas as forças se concentráo pa- ra o aperfeiçoamento deste. Segundo estas considerações he mani- fes- 176 festo , que a primeira porção da vida ani- mal , ou aquella , pela qual os corpos ex- teriores obrão sobre nós , e refiectimos es- ta acção , tem em cada idade huma di- visão , que se forma , c engrandece ; que a primeira idade lie a da educação dos sentidos ; a segunda preside ao aperfei- çoamento da imaginação , e da memória ; c a terceira se refere ao desenvolvimento do juizo. Não façamos pois jamais coincidir com a idade , em que os sentidos estão em actividade , o estudo das sciencias , que exigem o exercício do juizo : sigamos em nossa educação artificial as mesmas leis , que presidem a educação natural dos orgãos exteriores. Appliquemos o me- nino ao desenho , â musica , <S>c. ; o ado- lescente ás sciencias da nomenclatura , ás bellas artes , que a imaginação tem de- baixo do seu império ; o adulto ás scien- cias exactas , aquellas , das quaes o ra- ciocínio encadêa os factos. O estudo da lógica , c das mathematicas terminava a an- tiga educação , o que era huma vanta- gem entre suas imperfeições. Quanto â segunda porção da vida animal , ou aquella , pela qual o animal reobra sobre os corpos , que o rodeão , a ipfancia he caracterisada pelo numero , fre- 177 frequência , e fraqueza dos movimentos , a idade adulta pelo seu vigor ; a adoles- cência por huma disposição mixta. A voz não segue estas proporções ; ella he sub- mettida à influencias , que nascem prin- cipalmente dos orgãos genitaes. Eu não me occuparei nas modifica- ções diversas , que nascem , quanto â vi- da animal, dos climas , das estações, do sexo , &c. , porque difficilmente pode- ria hir além , do que tantos authores tem dito. Fatiando das leis da educação nos or- gáos da vida externa eu os suppuz em es- tado de integridade completa , tendo o que he preciso para se aperfeiçoarem , gozan- do de toda a força de tecido necessária ; mas , se sua textura originaria he fraca , delicada , irregular , se alguns vicios de conformação nella se observa , então estas leis só poderâõ achar huma applicaçào imperfeita. He por isso , que o habito de julgar não rectifica o juizo , se o cerebro , mal constituído presenta em seus dous hemis- férios huma desigualdade de força , e de conformação ; he por isso , que o exercí- cio frequente do laringe , dos musculos loco-motores , &c. não pode jamais suprir á irregularidade d'acçào , que nelles pro- duz 178 duz huma irregularidade d'organisação , &c. , &c. ARTIGO IX. Da origem , e do desenvolvimento da vi* da organica. -oLcabamos de ver a vida animal , ina- ctiva no feto , só se desenvolver depois do nascimento , e seguir em seu desenvolvi- mento leis todas particulares ; pelo con- trario a organica está em acção quasi des- de o instante , em que o feto he conce- bido , e he ella , quem começa sua exis- ten ia. Logo que a organisação apparece , o coração impelle sobre todas as partes , o sangue , que a ellas leva os materiaes da nutrição , e do crescimento ; elle be o primeiro formado , o primeiro em acção ; e como todos os fenomenos orgânicos es- tão debaixo de sua dependencia , assim como o cerebro tem debaixo da sua , to- dos os da vida animal , concebe-se de que modo as funções internas são postas om jogo consecutivamente. §. I. 179 §■ I. Do modo da vida organica no feto, l_ Odavia a vida organica do feto nà« he a mesma , que aquella , de que ha de gozar o adulto. Indaguemos , em que con- siste a differença , considerada de hum modo geral. Dissemos , que esta vida re- sulta de duas grandes ordens de funções, humas das quaes , a digestão , a circula- ção , a respiração , a nutrição assimilão incessantemente ao animal as substancias, que o nutrem ; as outras , a exhalaçào , as secreções , a absorviçáo , separão delle , as que lhe vem à ser heterogeneas , de mo- do que esta vida he hum circulo habi- tual de creação , e de destruição : este cir- culo no feto se estreita singularmcnte. No principio as funções, que assimi- lão , são muito menos numerosas. As mo- léculas não são submettidas , antes de che- gar ao orgão , que ellas devem reparar , à hum tão grande numero d'acções ; el- las entrão no feto já elaboradas pela di- gestão , a circulação , e respiração da mãi. Em lugar de atravessar o aparelho diges- tivo , que parece quasi inteiramente ina- Gtivo nesta idade , ellas penetrão immedia- ta- 180 ta mente o systema circulador ; o caminho, que cilas ahi vadêáo , he menor. Não he preciso, que ellas vão successivamente pre- sentar-se â influencia da respiração ; e de- baixo desta relação , o feto dos mamífe- ros tem em sua organisação preliminar huma mui grande analogia com os re- ptis adultos, em os quaes huma mui pe- quena porção de sangue passa , sahindo do coraçãd, aos vasos pulmonares. ( 1 ) As moléculas nutritivas passão pois quasi directamente do systema circulador ao da nutrição. O trabalho geral da assimilação he por consequência muito mais simples, e muito menos complicado nesta idade , que na seguinte. Além disto as funções, que habitual- mente decompõe nossos orgãos , as que trans- (1) Estou persuadido, que atheoria ainda muito obscura do feto poderia ser illustrada pela dos animaes que tem huma organisaçáo hum pouco semelhante á sua. Na ráa por exemplo , em que pouco sangue atra- vessa o pulmão , o coração he hum orgão simples com huma só aurícula , e ventrículo : ha communicaçao , ou antes coutinuidade entre os dous systemas , arte- rial , e venozo , em quanto que nos mamíferos os va- sos , em que circula o sangue rubro , não se commu- nicão com os dos em que gira o sangue negro , se não he talvez pelos capilares. No feto o foramen de Botai , e o canal arterial, fazem também mui manifestamente con- tinuas as artérias , e as veias ; nelle o coração he igual- mente hum orgão simples, não formando , àpesar dos 181 transmittem para fora as substancias , que se tornarão extranhas , e mesmo nocivas à seu tecido, depois de ter delles formado parte, estão nesta idade em huma inacti- vidade, quasi completa, A exhalacão pul- monar , .o suor , a transpiração não tem ainda começado em seus respectivos orgáos. Todas as secreções , as da bilis , da uri- na , da saliva , só fornecem huma quan- tidade de fluido mui pequena em propor- ção , da que devem dar ao depois ; de mo- do que a porção de sangue , que ellas igualmente , que as exhalações , hão de consumir no adulto , quasi inteiramente refluem para o systema da nutrição. A vida organica do feto he pois re- marcavel de hum lado por huma extrema promptidào na assimilação , promptidão , que seus tabiques, senão huma mesma cavidade, em quan- to he duplo depois do nascimento. As duas especies de sangue se misturáo nesta idade , como em os reptis &c. Ora eu provarei adiante , que no men,ino , que res- pirou , esta mistura seria bem depressa mortal ; que o sangue negro , circulando nas artérias , asphixia mui de- pressa o animal. Donde nasce pois esta differença ? Não se pode estudalla no feto , seria talvez preciso indagal- la nas rãas , nas salamandras, e em outros reptis , que podem por sua organisaçào estar muito tempo privados do ár , sem morrer ; fenomeno , que os assemelha tam- bém aos mamiferos , existindo no ventre das mais. Es- tas indagações mui importantes deixaráõ incompleta t em quanto as não fizermos, a historia da respiração. 182 que depende de serem as funções , que concorrem à este trabalho geral em mui pequeno numero ; do outro , por hum ex- tremo lentor na desassimilaçáo ; lentor, que deriva da pequena acção das diversas fun- ções , que são agentes deste grande fe- nómeno. He facil conforme as considerações precedentes , conceber a notável rapidez, que caracteriza o crescimento do feto , ra- pidez , que he em desproporção manifesta com as das outras idades. Com effeito, em quanto que tudo activa a progressão da matéria nutritiva para as partes , que el- !a deve reparar , tudo parece ao mesmo tempo forçar esta matéria , que quasi não tem emunctorios, à demorar-se nas partes. Accrescentemos â grande simplicidade da assimilação no feto , a grande activi- dade dos orgáos , que nella concorrem , actividade , que depende da somma mais considerável de forças vitaes , que elles tem então em partilha. Todas as da eco- nomia parecem com eífeito concentrar-se sobre os dous systemas circulador , e nutri- tivo ; os da digestão , respiração , sdbre- ções, e exhalação , estando em hum exer- cício obscuro , só gozão delia em hum fra- co grão ; o que ha de meitos nestas , ha de mais nas primeiras. Sc- 183 Se observarmos agora , que os orgàos da vida animal , condemnados à huma inaccão necessária , só são o assento de huma porção de forças vitaes , cujo sobe- jo reflue então sobre a vida organica , se- rá facil conceber , que a quasi totalidade das forças , que ao depois se devem os- tentar geralmente sobre todos os systemas, se acha então concentrada sobre os que servem à nutrir, e com pôr as diversas par- tes do feto , e que por consequência , re* ferindo-se nelle. tudo á nutrição , e cres- cimento , estas funções devem ser signala- das nesta idade por huma energia extra- nha à todas as outras. §. n. Desenvolvimento da vida organica depois do nascimento ^^Ahido do seio da mãi , o feto expe- rimenta em sua vida organica hum cres- cimento notável: esta vida se complica ain- da mais ; sua extensão se torna quasi du- pla ; muitas funções , que não existião antes, se lhe ajuntão então ; as que não existião se engrandecem. Ora nesta notá- vel revolução' se observa huma lei toda op- pos- 184 posta áquella , que preside ao desenvol- vimento da vida animal. Os orgáos internos , que entrão entáo em exercieio, ou que augmentão muito sua acção , nao tem necessidade de edu- cação alguma ; elles attingem de repente huma perfeição , á qual os da vida animal só chegáo pelo habito de obrar muitas vezes. Hum golpe rápido de vista sobre o desenvolvimento desta vida bastará para nos convencer disto. No nascimento a digestão, a respira- ção , &c. , huma grande parte das exha- lações , e das absorvições começão de re- pente à exercer-se : ora , depois das pri- meiras inspirações , e expirações ; depois da elaboração no estomago do primeiro leite , chupado pelo menino , depois que os exhalantes do pulmão , e da pelle tem expellido algumas porções de seus respe- ctivos fluidos , os orgãos respiradores, di- gestivos , e exhalantes , jogâo com huma facilidade igual ãquella que hão de ter sempre. Então todas as glandulas , que dor- mião , para assim dizer , e que só vertião huma mui pequena quantidade de fluido , são dispertadas do seu letargo por meio da excitação , feita por diflerentes corpos na extremidade de seus conductos excre- to- 185 torios. A passagem do leite na extremi- dade dos canaes de Stenon, e de War- ton , do chimo , na do cholidoco , e do pancreatico , o contacto do ár cobre o ori- dicio da uretra , &c. despertáo as glându- las salivares , o fígado , o pancreas , o rim , &c. O âr sobre a superfície interna da trachea artéria , e das ventas 4 os ali- mentos sobre a das vias digestivas , &c. excitão nestas differentes partes as glân- dulas mucosas , que se metem em acção. Entáo também começão as excreções , que até ahi estaváo suspendidas pelo pou- co fluido separado pelas glandulas. Ora ob- serve-se estes diversos fenomenos, e ver- se-há executarem-sc immediatamente com precisão ; ver-se-ha os diversos orgáos , que àhi concorrem, náo ter necessidade dal- guma especie de educação. Para que he esta diíferença no desenvol- vimento das duas vidas ? Náo o indagarei: notarei sómente, que pela mesma razáo , que na época de seu desenvolvimento os orgáos da vida interna náo se aperfeiçoão pelo exercício , e o habito , que elles attin- gcm , entrando em actividade , o gráo de precisáo que teráo sempre , nenhum he ao depois susceptivel de adquirir sobre os outros , como o observamos na vida ani- mal. To- 186 Tcdavia nada mais ccmmum que a predominância de hum systema da vida organica sobre os outros systemas ; humas vezes he o aparelho vascular , outras o pulmonar , muitas a união dos orgãos gás- tricos , o ligado principalmente , são supe- riores aos outros por sua acção , e que imprimem mesmo por isso hum caracter particular ao temperamento do indivíduo. Mas isto depende de huma outra causa : da organisaçáo primitiva ; da extructura das partes de sua conformação he , que nasce a sua superioridade ; ella nao he o producto do exercício , como na vida ani- mal. O feto dentro do utero materno , o menino vendo a luz , presentão este fenó- meno em hum grão táo real , bem que menos apparente , como nas idades se- guintes. Igualmente o affrouxamento de hum sys- O J tema das funções internas depende sem- pre , ou da constituição originaria , ou de alguns vícios accidentalmente causados por huma aflecçào morbifica , que gasta os ressortes orgânicos deste systema , ficando os dos outros intactos. Tal he pois a grande diHercnça das duas vidas do animal , relativamente a desigualdade de perfeição dos diversos sys- temas de funções , de que cada huma re- sul- 187 sul ta ; à saber , que em huma a predomi- nância , ou inferioridade de hum systema , em razão dos outros , depende quasi sem- pre da actividade , ou inércia maior des- te systema , do habito de obrar , ou de não obrar ; que na outra pelo contrario , esta predominância , ou inferioridade são immediatamente ligadas á textura dos or- gàos , e já mais á sua educação. Eis-aqui porque o temperamento fysi- co , e o caracter moral não são suscepti- veis de mudar pela educação , que tão prodigiosamente modifica os actos da vida animal ; porque como já o vimos , am- bos pertencem â vida organica. O caracter he , se posso dizello assim , a fysionomia das paixões ; o temperamento, a das funções internas : ora humas , e ou- tras , sendo sempre as mesmas , tendo hu- ma direcção , que o habito , e o exercí- cio não desarranjão já mais , he manifes- to , que o temperamento , e o caracter de- vem cambem ser subtrahidos ao império da educação. Ella pode moderar a influen- cia do segundo , aperfeiçoar assás o juízo , e a reflexão , para fazer seu império su- perior ao delle , fortificar a vida animal, à fim de que ella resista ás impulções da orga- nica. Mas querer, por ella desnaturalisar o caracter , adoçar , ou exaltar as paixões, de 188 de que elle he a expressão habitual , en- grandecer , ou restringir sua esfera , he huma empreza analoga â de hum medico , que tentasse augmentar , ou diminuir , e por toda a vida , alguns grãos da força de contracção ordinaria do coração no estado de saúde , de accelerar , ou de retardar habitualmente o movimento natural das artérias , necessário á sua acção , &c. Fazer-se-hia ver à este medico , que a circulação , a respiração , &c. não são submetidas ao dominio da vontade ; que ellas não podem ser modificadas pelo ho- mem , sem passar ao estado enfermo , &c. A mesma nota se farã ãquelles que julgão , que se muda o caracter , e por isso mesmo as paixões , porque estas são hum producto da acção de todos os orgãos internos , ou porque nelles tem ao me- nos com especialidade seu assento. (1) A R- (1) Ainda assim o caracter he susceptirel de mu- dança , mediante huma bôa educaçáo ; e pode-se resis- tir ás paixões por huma seria reflexão , &c. , como nos ensina o dogma , e experiencias reiteradas tem mostra- do. Not. do Traduct. 189 ARTIGO X. Do fim natural das duas vidas, j^LCabamos de ver as duas vidas do ani- mal começando em épocas assas remotas huma da outra, desenvolvendo-se segundo leis , que são absolutamente inversas. Ago- ra as farei ver terminando também de hum modo diverso , cessando suas funções em tempos mui diíferentes , e presentando , quando terminao , caracteres tão distin- ctos , como em toda a duração de sua acti- vidade. Eu só considerarei aqui a morte natural ; todas as que dependem de cau- sas accidentaes , farão o objecto da segun- da parte desta obra. §. I. vida animal he a primeira , que cessa na morte natural. Morte natural he remarcavel, porque põe termo quasi inteiramente á vida ani- mal , muito tempo antes , que finalise a erganica. Veja-se o homem , que se extingue no fim de huma longa velhice : elle morre em detalhe ; suas funções exteriores ter- minão humas depois das outras ; todos os seus 190 seus sentidos se feixáo successivamente ; as causas ordinárias de sensações passão por elle sem o affectar, A vista se obscurece , se turba , e ces- sa finalmente de transmittir a imagem dos objcctos : eis a cegueira senil. Os sons le- rem ao principio confusamente o ouvido, bem depressa este se torna à elles intei- ramente insensível ; o tecido cutâneo con- trabido , endurecido , privado em parte dos vazos , que se tem obliterado , não he mais , que o assento de hum tacto obscu- ro , e pouco distincto. Além disto o ha- bito de sentir embotou nelles o sentimen- to, Todos os orgãos , dependentes da pel- le , se affrouxào , e morrem ; os cabellos , e a barba se tornáo brancos. Privados dos sucos que os nutrião, hum grande nu- mero de cabellos cahem. Os cheiros não fazem sobre o nariz mais , que huma fra- ca impressão. O gosto se conserva hum pouco , por- que, ligado ávida organica , tanto quantoá animal , este sentido he necessário ás fun- ções interiores: por tanto, quando todas as sensações agradaveis fogem ao velho , quan- do sua auzencia quebrou já em parte os laços , que a unem aos corpos que o cer- cão esta lhe resta ainda : ella he o ultimo fio , ao qual está suspensa a dita de existir. Iso- 191 Isolado no meio da natureza, priva- do jâ em parte das funções dos orgãos sensitivos , o velho vê bem depressa ex- tinguir-se também as do cerebro. Nelle quasi nào ha percepção , por isso mesmo que quasi nada da parte dos sentidos de- termina seu exercício ; a imaginação se embota ^e bem depressa se torna nulla. A memória das cousas presentes se destroe , o velho se esquece em hum ins- tante , do que se lhe acaba de dizer, porque seus sentidos externos , aífrouxados ejá, para assim dizer, mortos, nào lhe confirmão , o que seu espirito lhe ensina. As idéas fogem , quando imagens traça- das pelos sentidos nào conservão mais sua impressão. Pelo contrario a lembrança do passado resta ainda nesta ultima idade. O que o velho sabe de outro tempo, seus sentidos lhe tem ensinado , ou ao menos confirmado. A resulta destes dous estados he a mesma , porque o juizo he igualmente incerto , ou as sensações actuaes , ou as passadas lhe sirvào exclusivamente d'apoio ; sua exactidão depende essencialmente de sua comparação. Quem não sabe por exem- plo , que nos juizos fundados sobre a vi- são , a impressão actual nos enganaria mui- tas vezes , se a passada não rectificasse o er- 192 erro ? De outro lado, náo se observa , que bem depressa as sensações antecedentes se tornão confusas , se novas , e analogas náo tornão a gravar os traços do quadro , que deixarão em nós ? O presente , e o passado sáo pois igual- mente precisos em nossas sensações para a perfeição do juizo , que delias rezulta. Se hum , ou outro faltáo , náo ha mais comparação entre elles, não ha mais por consequência precisão no juizo. Eis-aqui como a primeira , e ultima idade sao igualmente remarcaveis por sua incerteza , como com muita verdade se exprime , quando se diz , que os velhos cahem em infancia ; estes dous períodos da vida se tocão pela irregularidade do juizo, e náo differem , senão pelo prin- cipio desta irregularidade. Assim como a interrupção das funções do cere^ro he no velho huma consequên- cia da anniquilação quasi total da do sys- tema sensitivo externo , do mesmo modo o aífrouxameKto da locomoção , e da voz succedem inevitavelmente â inacçáo do ce- rebro. Este orgáo reobra com e Hei to so- bre os musculos na mesma proporção , que os sentidos obráo sobre elie. Os movimentos do velho são lentos, e raros ; elle sahe com dificuldade da at- ti- 193 titude , em que se acha. Sentado junto ao fogo, que o aquenta , àhi passa os dias concentrado em si mesmo; extranho ao que o rodea , privado de dezejos , de paixões , de sensações , faltando pouco , por que nada o determina â romper o si- lencio ; feliz de sentir, que existe ainda , quando todos os outros sentimentos estáo quasi desvanecidos para elle. Acrescentarei â esta causa da inac- çáo dos velhos , a regidez de seus mús- culos , a diminuição de contiactilidade nestes orgãos , o que sem duvida influe nisso com especialidade ; mas não he essa a principal razão ; porque o coração , as fibras musculares dos intestinos contrahem também esta regidez , e são privados com tudo muito menos acceleradamente , que os musculos voluntários da faculdade de se mover. Não he a faculdade , que estes perdem , he a causa , que lhes de- termina o exercício , qual a acção ce- rebral. Se fosse possível compor hum homem de hum lado com os orgãos dos sentidos, e o cerebro de hum velho ; do outro com os museu los de hum moço , os movimen- tos voluntários nelle não terião maior energia, por que não basta, que hum musculo se possa contrahir , he preciso tam- 194 também , que sua potência seja posta em acção ; e que causa a determina ? Segundo o que se disse, he facil de ver, que as funções externas se extinguem pouco à pouco no velho ; que a vida ani- mal tem já quasi inteiramente cessado , quando a organica está ainda em activi- dade. Debaixo desta relação o estado do animal , que a morte natural vai anniqui- lar, se aproxima, do em que elle se acha no ventre de sua mãi , e mesmo do do vegetal, que só vive interiormente , e pa- ra quem toda natureza está sempre em silencio. Se se lembrar agora , que o somno diminue mais de hum terço de sua du- ração a vida animal ; se se ajuntar este intervallo d'açáo á sua ausência completa nos nove mezes primeiros , e a inactivida- de quasi inteira , á que ella se acha re- duzida nos últimos tempos da existência, será facil vêr, quão grande he a dispro- porção de sua duração com a da vida organica , que se exerce de hum modo continuado. Mas porque , quando temos deixa- do d'existir para os outros , ainda existi- mos para nós, pois que os sentidos, e a locomoção , &c. são destinados principal- mente à nos pôr em relação com os cor- pos 195 pos , que nos devem nutrir ? Porque es- tas funções se aflrouxão em humadispro- porçáo maior , que as internas ? Porque náo ha huma relação exacta em sua ces- sação ? Eu não posso inteiramente resolver esta questão. Notarei sómente, que a so- ciedade influe especialmente sobre esta diflerença. O homem no meio dos seus seme- lhantes se serve assas de sua vida animal, cujos ressortes habitualmente se fatigão mais, que os da vida organica. Tudo di- minue nesta vida debaixo da influencia social ; a vista pelas luzes artificiaes ; o ouvido por sons mui repetidos , princi- palmente pela falia , que falta aos ani- ma es , cujas communicações entre si por meio do ouvido , sâo muito menos nume- rosas ; o olfacto por cheiros depravados ; o gosto por sabores , que não ha na natu- reza ; o tacto pelos vestidos ; o cerebro pela reflexão, &c. ; todo o systema nervoso por mil aflecções , que a sociedade só dá , ou ao menos multiplica. Nós vivemos pois para os outros com excesso, se me posso servir deste termo, e abusamos da vida animal ; ella he cir- eunserita pela natureza em limites , que temos augmentado n uito por sua duração. Não 196 Náo he por tanto espantoso , que ella ter- mine promptamente. Vimos com efíeito as forças vitaes divididas em duas ordens , huma pertencendo à esta vida , e outra á organica. Pode-se comparar estas duas ordens à duas luzes , que ao mesmo tem- po ardem , c que só tem por alimento hu- ma determinada quantidade de materiaes. Se huma he mais excitada , que a outra , e mais vento a agita, precisamente se ex- tinguirá primeiro. Esta influencia social sobre as duas vidas he até hum certo ponto vantajosa ao homem , pois que ella pouco à pouco o liberta dos laços , que o unem à tudo , que o rodea , e lhe faz assim menos cruel o instante , que rompe estes laços. A idéa da nossa hora suprema só he penivel , porque termina nossa vida ani- mal , e porque faz cessar todas as fun- ções , que nos põe em relação com tudo, quanto nos cerca. He a privação destas funções, que semèa o espanto , e o terror sobre as bordas do nosso tumulo. Náo he a dôr , que tememos: quan- tos moribundos ha , para quem seria pre- cioso o dom da existência , bemque a com- prassem por huma serie náo interrompida de dores ? Olhe-se para o animal , que vive pouco externamente , e só tem rela- ções 197 ções para as suas precizões materiaes; elle certamente náo treme ao ver o instante , em que vai deixar de existir. Se fora possível suppor hum homem , cuja morte , limitando-se à todas as fun- ções internas , como a circulação , a diges- tão , as secreções , &c. , deixasse subsis- tir as da vida animal , este homem veria com indifferença o termo da sua vida or- gânica , por conhecer , que o bem da existência náo lhe está unido , e que ain- da fica em estado , depois deste genero de morte , de sentir , e experimentar quasi tudo , que fazia antes sua felicidade. Se a vida animal pois vem a cessar por gradação ; e se cada hum dos nós , que nos unem ao prazer de viver , se rompe pouco à pouco, este prazer nos es- rapará, sem que nós m percebamos, e quando a morte chegar, já o homem se terá esquecido do seu preço, He isto , o que notamos no velho , que pela perda successiva , e parcial de suas funções externas , chega á total de sua existência. Sua destruição se asseme- lha a do vegetal , que por falta de rela- ções , não tendo consciência de sua vida, não pode também ter a da sua morte. §. II. 198 §. II. A vida organica não fnaliza na morte na* lurai, como na accidental. Vida organica , que resta ao velho," depois da perda quasi total da animal , se termina nelle de hum modo todo di- verso daquelle , que nos offerece seu fim nas mortes violentas , e súbitas. Estas tem verdadeira mente dous períodos : a primei- ra assignalada pela cessação súbita da res- piração , e da circularão , dobrada func- ção , que finaliza quasi sempre então ao mesmo tempo , que a vida animal ; a se- gunda , mais lenta em seus fenomenos , nos mostra o termo das outras funções or- gânicas , seguido de hum modo lento, e graduado. Os suecos digestivos dissolvem ainda no estomago os alimentos , que ahi se achão , e sobre os quaes suas paredes por muito tempo irritáveis, podem ainda obrar. -As experiencias dos médicos Inglezes , e Italianos sobre a absorvição , as quaes tenho repetido todas prováo , que esta funeção ficava muitas vezes ern actividade depois da morte geral ; senão por tanto tempo, quanto alguns o affirmão, ao me- . nos 199 nos durante hum intervallo bem assignala- do. Quem náo sabe , que as excreções da urina, das matérias fecaes , effeito da irri- tabilidade conservada na bexiga , e no recto , se fazem muitas horas depois das mortes súbitas ? A nutrição he também manifesta nos cabellos , e unhas ; ella o seria sem du- vida em todas as outras partes , como as secreções , se podessemos observar os mo- vimentos insensíveis , de que estas duas funções resultáo. O coração das rãas ti- rado , ainda se pode observar nelle a cir- culação capillar , debaixo da influencia das forças tónicas sómente. O calor ani- mal se conserva na maior parte das mor- tes súbitas , com particularidade nas as- phixias , muito além do termo necessário à hum corpo náo vivente , para perder aquelle , que se desenvolve n'hum instan- te , em que a vida geral cessa. Eu poderia accrescentar à estas obser- vações muitos outros factos , que estabele- cerião , como ellas , que a vida organica termina nas mortes súbitas de hum modo lento , e graduado ; que estas mortes ata- cáo primeiro a harmonia das funções in- ternas interessando também de repente a circulação geral , e a respiração , e in- fluenciando successiva mente sobre as ou- tras : 200 tras : he primeiro a uniáo , depois as mi- núcias da vida organica , que termináo neste genero de mortes, Naquella que produz a velhice , ao contrario a uniáo das funções náo cessa, senáo , porque cada huma se tem succes- sivamente extinguido. As forças abando* náo pouco à pouco cada orgão ; a diges- tão languesce ; as secreções , e absorviçáo finalisáo ; a circulação capillar se emba- raça por falta das forças tónicas, que a presidem habitualmente ; ella cessa. Fi- nalmente a morte chega também á suspen- der nos vasos grossos a circulação geral. He o coraeáo , quem termina por ultimo suas contracções : he elle , como se diz , o ullimum moriens. A grande diíferença pois , que ha entre a morte da velhice , e a que he o effeito de hum golpe repentino , vem à ser , que em huma a vida começa à ex- tinguir-se em todas as partes , e cessa de- pois no coraçáo , exercendo a morte seu império da circumferencia para o centro : na outra se extingue primeiro no cora- çáo , e em todas as outras partes depois , e entáo a morte encadêa seus fenomenos do centro para a circumferencia. Fim da Primeira Parte, ÍNDICE. DAS MATÉRIAS. PRIMEIRA PARTE. Observações fysiologicas sobre a vida. ARTIGO I. D Ivisâo geral da vida, Pag. 1. §. 1. Divisão da vida em animal, e organica, ------- 3. §. 2. Subdivisão de cada huma das duas vidas animal , e organica , em duas ordens de funções, - - 7, ARTIGO II. Diferenças geraes das duas vi- das relativamente ds fôrmas ex- teriores de seus respeclivos orgãos 12. §. 1. Simetria das fôrmas exteriores na vida animal, ----- ibid. §. 2. Irregularidade das fôrmas ex- teriores na vida organica, - - 15. §. 3, Consequências, que resultão da differença das fôrmas exteriores nos orgãos das duas vidas, - - 17. ÀR- Índice ARTIGO HL Differença geral das duas vidas , relativamente ao modo d"'acção de seus respectivos or- gãos. --------- 22. §. 1. Da harmonia d"'acção na vida, animal. -------- ibid. §. 2, Discordância d'acção na vida organica. ------- 39. ARTIGO 1H. Differenças geraes das duas vidas relalivamenle d duração de sua acção. ------ 42. §. 1. Continuidade d'acção na vida organica. ------- ibid. §. 2. Intermittencia d? acção na vida animal. - -- -- -- - 44. §. 3. Applicação da lei dTintermit- lencia d acção d lheoria do somno. 46. ARTIGO r. Differenças geraes das duas vi- das relalivamenle ao habito. - 50. §. 1. Do habito na vida animal. - ibid. §. 2. O habito embola o sentimento. - 51. §. 3. O habito aperfeiçoa o juizo. 57. Das Matérias §. 4. Do habito na vida orgânica. - 60. ARTIGO VI. Dfferenças geraes das duas vidas relativamente d moral, - 61. §. 1. Tudo quanto he relativo ao entendimento , pertence d vida animal. -------- 62. §. 2. Tudo quanto he relativo ds paixões, pertence d vida orga- nica. --------- 65. §, 3. De que modo as paixões mo- dificáo os aclos da vida animal, bem que tenhao seu assento na organica. - - - - - - - 77. §. 4. Do centro epigastrico , o qual não existe no sentido , em que os Autores entenderão. - - - 85. ARTIGO ni. Differença geral das duas vidas, relalivamente ds forças vilães. 96. §. 1. Differença entre asforças vitaes, e as leis fysicas. ----- 98. §. 2. Differença entre as proprieda- des vitaes , e as de tecido. - - 103. §, 3. Das duas especies de sensibili- dade, animal, e organica. - - 104. Índice §. 4. Da relação que ha entre a sensibilidade de cada orgão , e os corpos , que lhe são exlra- nhos, - - - - - - - -111. §. 5. Das duas especies de contra- ctilidade animal, e organica, - 118. §. 6. Subdivisão da contractilidade or- gânica em duas variedades, - - 122. §. 7. Propriedades de tecido, exten- sibilidade , e contractilidade, - - 128. §. 8. Resumo das propriedades dos corpos vivos, ------ 138. artigo rin. Da origem , e desenvolvimento da vida animal, ----- 142. §. 1. A primeira ordem de funções na vida animal he nulla no feto, 143. §. 2. A locomoção existe no feto ; mas ella pertence nelle á vida orgâ- nica, - - - - - - - - -151. §. 3. Desenvolvimento na vida ani- mal ; e educação de seus orgãos, 156. §. 4. Influencia da sociedade sobre a educação dos orgãos da vida ani- mal, - - - - - - - - -161. §. 5. Leis da educação dos orgãos da vida animal. ------ 164. §. 6. Duração da educação dos or- gãos Das Matérias gdos da vida animal, - - -174, ARTIGO IX. Da origem , e desenvolvimento da vida organica. - - - - 178. §. 1. Do modo da vida organica no feto. 179. §. 2. Desenvolvimento da vida orgâ- nica , depois do nascimento. - 183. ARTIGO X. Do fim natural das duas vidas. 189. §. 1. A vida animal cessa primeiro na morte natural. ----- ibid. §, 2. A vida organica não termina na morte natural, como na acciden- tal. - -- -- -- -- 198. LISTA Dos Senhores Subscripiores para a im^ pressão da primeira parle desla Obra de Mr. Bichai. O S Excellentissimos Senhores Conde dos Arcos , e Arcebispo Primaz. O Senhor Dezembargador do Taro, e Chanceller, José Joaquim Nabuco. O Senhor Brigadeiro Manoel Joaquim de Mattos. O Senhor Dezembargador Luiz Manoel de Moura Cabral. O Senhor Dezembargador Cypriano Dio- nisio da Silva, e seu Filho. O Senhor Coronel Jacome de Mattos. O Senhor Dezembargador Joaquim An- selmo. O Senhor Dezembargador Luiz Antonio Barbosa. O Senhor Provisor José Fernandes da Sil- va Freire. O Senhor Capitáo-Mór Francisco Elesbáo Pires. O Senhor Capitào-Mór Ignacio de Mattos. O Senhor Capitão-Mór Jeronymo da Cos- ta e Almeida. O Senhor Vigário Lourenço da Silva Ma- galhaes. O Senhor Doutor Manoel José da Silva Ferreira. 0 Senhor Guarda-Mor Manoel Fern an- des Nabuco. O Senhor Reverendo Joáo da Cruz. O Senhor Reverendo Antonio Ferreira da Cunha. O Senhor João Manoel Vieira da Fonseca e seu Filho. O Senhor Paulo de Argolo e Teive. O Senhor Pedro Bettamio. O Senhor Cirurgião Mór Christováo Pes- soa. O Senhor Sargento-Mór Marcellino Vieira Machado. O Senhor Ignacio dos Santos Marques. O Senhor Salustiano Antonio Ferreira. O Senhor Prudencio José da Cunha. O Senhor José de Sirqueira Lima. Q jenhor Pedro de S. Malio. F I M. ERRATAS. Pag. Linh . Erros, Emendas, 2 4 incessantemente , incessantemente Idem 9 Este principio he o da vida ; des- conhecido. Este principio he o da vida , des- conhecido. Id. 15 vivo ; alternativa vivo, alternativa 6 not. 5 fisicamente e ainda Fysicamente ainda 8 11 sente também sente , também 12 5 destingue distingue 15 18 similhança semelhança 16 15 disigual desigual 19 7 destingue distingue Id. 14 altera alterará 20 10 T\ão , sómente Não sómente 24 20 destincta distincta Id. 30 destingue distingue 27 29 sentidos sentidos , 28 7 difficultosamente difficultosamente , Id. 12 por exemplo por exemplo , 31 16 depremido deprimido 33 7 As funções A's funções Id. 8 á locomoção, e á voz ; a locomoção , e a voz ; 38 17 as do lado opposto ás do lado opposto , 39 26 d'orgaõs d' orgaõs , 40 7 naturalmente naturalmente, 41 29 ao que o que 45 22 as sensações , ás sensações , Ib. 30 ou tal parte , ou tal parte ; 49 22 e ainda mais, sobre e ainda mais que sobre 57 8 sentimento , se ex- tingue sentimento se ex- tingue 65 3 as ideas ás ideas Ib. 13 unica, que unica ; que Ib. 26 relações , que relações; que Ib. 27 paixões , mas paixões 5 mas 67 2 orgàos , que orgão ; que 69 8 viva ressentida viva , ressentida 77 6 organica tem organica , tem Ib. 23 do modo que de modo que 87 e 88 1 da cardia do cardia 97 9 com o segundos com os segundos 112 12 muleculas moléculas 124 9 graduações insen- siveis. gradações insensi- veis. 1b. 13 dos intestinos do estomago , dos intestinos , do estomago, Ib. 20 he elle com effeito , que he sensível , he com effeito , a que he sensivel, 125 9 escada dos solidos escala dos solidos 133 23 dividos devidos 135 11 Impregue-se de- pois Impregue-se depois 115 11 com o calor o feto com o calor ; o feto 155 21 dirige , digere, 181 nota 2 em quanto he duplo em quanto que he duplo 185 28 sobre os outros , como o observa- mos sobre os outros hum gráo de superiori- dade , como o ob- servamos. 186 6 principal mente , »ão principalmente, que são Ib. 11 da organisaçao pl< - mitiva ; da ex- tructura das par- tes de sua coe formação, he , da organisação pri- mitiva , da extru- ctura das partes , e de sua confor- mação , he , 187 29 desnaturalisar o ca- rácter , desnaturar o cara- cter.