PRIMEIRO JKRESSO BRAZILEIRO ... DE MEDICINA E CIRURGIA DO RIO IDJES JAKTEIR.O RIO DE JANEIRO IMPRENSA NACIONAL 18S9 144-89 AOS CONGRESSISTAS A demora havida na publicação dos trabalhos do primeiro Congresso Brazi- leiro de Medicina e Cirurgia dependeu de circumstancias especiaes, inevitáveis e superiores á boa vontade e aos esforços da Commissão executiva do segundo Congresso, á qual, pelas disposições regulamentares vigentes, incumbe este trabalho. Na vespera da sessão inicial do Congresso, dirigiu-se o presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia, promotora do Congresso, ao Exm. Sr. Conselheiro João Alfredo, mui digno Presidente do Conselho do Ministério de io de Março, e, ponderando a S. Ex. que eram modicos os recursos do Congresso, cujas contribuições regulamentares escassamente dariam para a publicação dos debates e demais trabalhos do Congresso, e que seria de grande vantagem e interesse scientifico que fossem tachygraphadas as discussões» inquiriu de S. Ex. se o Governo Imperial poderia mandar publicar os trabalhos do Primeiro Congresso na Imprensa Nacional á custa do Estado, caso em que a directoria ficaria habilitada a occorrer ás despezas da stenographia com o recurso das contribuições sociaes. Por essa occasião lembrou ainda o presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia que a verba votada para a publicação da Revista dos Cursos Práticos e Theoricos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro estava intacta até então (8 de Setembro de 1888). O illustre Sr. Conselheiro João Alfredo dignou-se de responder logo, por inter- médio do Exm. Sr. Marquez de Paranaguá, que o Governo não punha duvida em mandar imprimir os trabalhos e debates do Congresso por conta do Estado, attendendo á exposição feita pelo presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia, comtanto que os debates stenographados fossem reduzidos a extracto (còmfite- rendu), como se praticava na Europa. Com tal resposta, a directoria do Congresso resolveu contractar o serviço de tachygraphia com o Sr. Henrique Chaves. Como tinha-se previsto, a despeza da stenographia e outras indispensáveis, não só absorveram as contribuições dos congressistas, como teve a Sociedade de Medicina e Cirurgia de vir em seu auxilio. Apenas encerrados os trabalhos do Congresso, deu-se pressa em fazer os extractos e pôr em ordem os trabalhos, de sorte que no mez de Outubro pu- deram ser entregues ao Sr. Administrador da Imprensa Nacional. IV Demorando-se a ordem ministerial para a impressão, o presidente da com- missão executiva dirigiu-se ao Exm. Sr. Conselheiro João Alfredo, recordando a S. Ex. a promessa que havia feito, pedindo que se dignasse de dar ordem nesse sentido á Imprensa Nacional, á qual tinham sido entregues as memórias e extractos do primeiro Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia. Por essa occasião lembrou ainda uma vez a S. Ex. que a verba destinada á publicação da Revista dos cursos práticos e theoricos da Faculdadea Medica da Côrte continuava intacta. S. Ex. o Sr. Conselheiro João Alfredo não se fez esperar ; deu ordem para que fossem publicadas por conta doJEstado as memórias e extractos dos debates do primeiro Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia. Em principio de Novembro, quando já haviam começado os trabalhos de composição, foram mandados da Secretaria da Faculdade de Medicina alguns manuscriptos destinados ao primeiro fascículo da Revista dos cursos práticos c theoricos da Faculdade de Medicina, do anno de 1888. O Sr. Administrador da Imprensa Nacional, sabedor do que se havia pas- sado entre o Sr. Presidente do Conselho e 0 presidente da commissão executiva do Congresso, julgou do seu dever communicar áquelle o occorrido, recebendo incontinenti ordem para sustar a publicação dos trabalhos do Congresso até resolução ulterior. Em conferencia com o presidente da commissão executiva, o Sr. Presidente do Conselho deu de novo esperanças de ordens em contrario á Imprensa Na- cional; como se demorassem ellas, de novo dirigiu-se a S. Ex. o presi- dente da commissão executiva, pór carta, pedindo a S. Ex. solução prompta, qualquer que pudesse ser. Poucos dias depois escreveu S. Ex. ao presidente da commissão executiva que o Governo Imperial só poderia concorrer com a quantia de um conto de réis para a impressão dos trabalhos do Congresso, avaliados pela administração da Imprensa Nacional em dous contos e tresentos mil réis. A’ vista desta resolução do Governo Imperial, em sessão da commissão ex- ecutiva resolveu-se expor a Sua Magestade o Imperador a situação das cousas, antes de tomar qualquer resolução, tanto mais quanto se tinha tornado publico que a impressão dos trabalhos do primeiro Congresso estava sendo feita pelo Estado. Expoz o presidente da commissão executiva o que se tinha passado a Sua Magestade 0 Imperador, que resolveu todos os embaraços com a sua habitual Magnanimidade, dizendo: « Desde que foi por falta de-verba que 0 Governo mandou sustar a publicação dos trabalhos do primeiro Congresso Brazileiro de Medicina, não posso Eu, Primeiro Guarda das leis, concorrer de forma alguma para fazer-se despeza não decretada por conta do Estado; porém, amigo da sciencia e dos progressos do paiz, terei muito gosto em tomar a mim essa despeza.» No dia seguinte recebia o Sr. Administrador da Imprensa Nacional ordem poi csciipto da Mordomia da Casa Imperial para que, á custa desta, imprimisse os trabalhos do primeiro Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia. V Relatando, com a maior fidelidade, as causas que contribuiram para demorar a actual publicação, tem em vista a commissão executiva não só justificar-se perante seus collegas, como patentear ao Sabio Principe que o Brazil tem a fortuna de ver á frente da governação do Estado, sua gratidão pela maneira gentil por que Dignou-se de associar Seu Augusto Nome ao auspicioso aconteci- mento com que a classe medica brazileira marcou o anno mais fecundo da nossa nacionalidade. PRIMEIRO CONGRESSO BRAZILEIRO DE MEDICINA E CIRURGIA Na sessão da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro de 19 de Agosto de 1887 foi apresentadp um projecto de reforma dos Estatutos sociaes, assignado pelos Srs. Drs. Azevedo Sodré, Hilário de Gouvêa, Oscar Bulhões, Julio de Moura, Teixeira Brandão e Guedes de Mello, propondo, entre outras medidas, a convocação annual de um Congresso medico, a começar de 1888, e a nomeação de uma commissão para confeccionar o projecto de regulamento para o referido Congresso. Approvado essa proposta na assembléa geral de 16 de Setembro, foram encarregados pela presidência de confeccionar o projecto de Regulamento do Congresso, os Srs. Drs. Oscar Bulhões e Azevedo Sodré, que o apresentaram na sessão de 18 de Novembro. Na sessão de 25 de Novembro foi discutido e approvado 0 seguinte : Regulamento do Oougresso Brazileiro cie Medicina e Cirurgia Art. i.° O Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia tem por fim contri- buir para a união da Classe Medica, estreitando os laços sociaes e scientifico, entre os práticos nacionaes e estrangeiros, bem como promover o progresso e adiantamento das sciencias medico-cirurgicas. Art. 2.0 Serão membros effectivos do Congresso todos os doutores em me- dicina que se inscreverem e pagarem a contribuição estabelecida. § i.° Os médicos das províncias deverão inscrever-se até fins de Julho, e os da Corte até Agosto. § 2.° Poderão também assistir e tomar parte nas sessões do Congresso os médicos estrangeiros, que estiverem no Brazil, embora não residam na Côrte, desde que forem convidados para isso. VIII Art. 3.° Serão membros fundadores só os membros cffectivos, que compa- recerem ao i° Congresso. Art. 4.° O Congresso realizará suas sessões no Rio de Janeiro, durante o mez de Setembro, e durará de seis a oito dias. O local das sessões e os dias em que tiverem logar serão antecipadamente annunciados em todos os jornaes da Côrte. § i.° O Congresso poderá mais tarde ter logar na Bahia. Art. 5.0 A contribuição annual dos membros effectivos do Congresso é de 2o$ooo, pagos na occasião em que justificarem que acceitam o convite. Ella dá direito ao volume, que se publicará, contendo todos os trabalhos das sessões. Art. 6.° A Sociedade de Medicina e Cirurgia elegerá, desde já, um orador official, que lerá um discurso apropriado na sessão inicial do Congresso. Art. 7.0 A Sociedade de Medicina e Cirurgia elegerá desde já uma com- missão permanente composta de seis membros, contandc-se entre elles 0 thesou- reiro da Sociedade. $ i.° Essa commissão se encarregará de todos os negocios que interessem ao Congresso, como sejam : fazer aequisição de membros, gerir as finanças, dirigir as publicações dos trabalhos, marcar os dias das sessões, até a installação da meza do Congresso. Art. 8.° As sessões serão publicas, e os debates publicados por extenso ou resumidamente. Art. 9.0 Na Ia sessão do Congresso os membros effectivos elegerão: um pre- sidente, tres vice-presidentes, um secretario geral, que será o da commissão permanente, tres secretários adjuntos. Esses membros formarão a mesa que tem de presidir o Congresso. Art. 10. Terminado o Congresso, haverá uma reunião para despedida dos membros effectivos que ao mesmo houverem concorrido • Art. 11. A commissão permanente fica autorisada a tomar qualquer delibe- ração não prevista, desde que seja de interesse para boa marcha do Congresso. REGULAMENTO INTERNO Art. i.° Os membros da com missão permanente elegerão entre si : um presidente, um vice-presidente e um secretario, que será o secretario geral do Congresso. Art. 2.° Os médicos, que desejarem tomar parte no Congresso, deverão par- ticipar ao secretario da commissão permanente até ás datas indicadas, enviando arespectiva contribuição ao thesoureiro, que lhe entregará como recibo o titulo de membro do proximo Congresso. Art. 3.° O Presidente da Commissão Permanente fará publicar com antece- dência as theses sobre questões medicas da actualidade, que deverão ser dis- cutidas no Congresso, bem como o transumpto ou resumo das communicações por escripto que forem enviadas, IX ô i.° As theses para 0 primeiro Congresso serão propostas e approvadas pela Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. $ 2.0 Na ultima sessão do Congresso poderão ser propostas theses pelos membros presentes, para serem discutidas no Congresso immediato, podendo também ser ellas apresentadas no intervallo das sessões, desde que venham assignadas por 20 membros, e que em tempo sejam remettidas á commissão permanente. Art. 4.0 As communicações por escripto deverão ser enviadas, com antece- dência de tres mezes, pelos seus autores ao secretario da commissão permanente, resumidas e com as respectivas conclusões. Estes resumos serão impressos por extenso ou em partes, e distribuidos pelos membros do Congresso. Art. 5.0 As sessões terão logar de dia ou de noite, segundo fôr annunciado pelo presidente do Congresso, que indicará a ordem do dia da sessão seguinte. Art. 6.° Os oradores, que quizerem discutir as theses annunciadas ou as com- municações por escripto, deverão inscrever-se com antecedencia, participando ao secretario da commissão permanente. Art. 7.0 As communicações verbaes serão feitas durante as sessões, não po- dendo o orador fallar mais de 3o minutos; poderá, porém, o presidente conceder mais 10 minutos a pedido do orador. § i.° O mesmo tempo é concedido para a discussão das theses. § 2.0 Os membros, que tomarem parte nas discussões, só poderão fallar por 15 minutos, ou mais cinco, se para isso tiverem concessão do presidente. § 3.° 0 mesmo tempo é concedido para a discussão das communicações por escripto. § 4.0 Na discussão de cada matéria nenhum membro do Congresso poderá fallar mais de uma vez. Art. 8.° O presidente do Congresso manterá a ordem durante as sessões, to- mando as deliberações que se tornarem convenientes. Art. 8.° A primeira sessão será preparatória, e nella se procederá á eleição da mesa, que, empossada, marcará o dia da sessão inaugural do 'Congresso. Art. 10. A commissão permanente fica autorisada a convidar para a sessão inaugural solemne do Congresso as pessoas que julgar conveniente. Art. 11. O orador official será eleito pela Sociedade de Medicina e Cirurgia, dez mezes antes da reunião de cada Congresso. Na sessão de 16 de Dezembro, da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, de accordocom as disposições regulamentares foram eleitos membros da commissão executiva os Drs. Oscar Bulhões, Azevedo Sodré, Crissiuma, Silva Araújo, Carlos Teixeira e Augusto Brandão; na mesma sessão foi eleito orador do Congresso o Sr. Dr. Julio de Moura. Nas sessões de 4 de Março e 12 de Junho de 1888, foram propostas e approvadas as seguintes theses para objecto das memórias e discussões nas sessões do primeiro Congresso: j.° Ovariotomias no Brazil, X 2.0 Frequência dos cálculos vesicaes no Brazil; resultados operatorios. 3.° Maturação artificial das cataratas. 4.0 Frequência da tuberculose nas diversas localidades do Brazil. 5.0 Hospícios para as crianças rachiticas e escrophulosas. 6.° Elephantiase dos arabes, sua frequência no Brazil desde as épocas coloniaes. 7.0 A chyluria e hydrocele no Brazil. 8.° Febre amarella e seu tratamento. 9.0 Frequência e distribuição geographica do bocio no Brazil; sua etiologia e tratamento. 10. Tratamento prophylatico da ophthalmia dos recem-nascidos. 11. O campo visual nas diversas raças do Brazil. 12. Qual o melhor processo para a extracção das cataractas ? 13. Quaes os motivos da pouca frequência da paralysia geral no Brazil. 14. Influencia das raças sobre a alienação mental. 15. Das causas que determinam frequentemente as fôrmas de loucura dege- nerativa . 16. Processos de protecção do perineu nos partos. 17. Marcha e fôrmas da syphilis no Rio de Janeiro. 18. Natureza e tratamento das boubas; causas que têm influído para a sua diminuição no Brazil. 19. Causas da disseminação da tuberculose no Rio de Janeiro. 20. Intervenção cirúrgica nas localisações externas da tuberculose. 21. Influencia do clima do Brazil sobre as modalidades clinicas da hysteria. 22. Do papel das aguas potáveis do Rio de Janeiro na propagação das epidemias. 23. Quaes os meios mais efbcazes para combater 0 desenvolvimento pro- gressivo do tabagismo no Brazil. 24. Da coxalgia sob o ponto de vista da pathogenia, seu melhor tratamento; indicações operatórias e orthopedicas. 25. Moléstias agudas do systema lympjiatico-ganglionar; lymphangites e lympho-adenites pulmonares. 26. Qual o melhor tratamento da bronchite aguda das crianças. 27. Qual o melhor tratamento da dyphteria. 28. Fôrmas clinicas das degenerações do myocardio. Destas theses forão assumpto de dissertações escriptas e oraes a Ia, 2a, 3a, 5a, 7a, 8a, ioa, 12a, i3a, 19 e 26a. Na publicação das memórias e debates, seguio a commissão executiva a ordem natural, publicando as memórias integralmente, e em seguida os debates em extractos, conforme fôra combinado com o Governo Imperial. As memórias, que, por escassez de tempo, não poderam entrar em ordem do dia, foram publi- cados, sob o titulo de memórias avulsas, por ultimo. Lista dos socios fundadores cio Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia (1) 1 Di’. Domingos de A. C. Duque-Estrada. 2 * Dr. Felicio Fortes de Bustamante Sá. 3 Dr. Goulart de Souza. 4 Dr. Antonio Pacifico Pereira. 5 * Dr. Yictorino Baptista. 6 * Dr. Joviano de Moraes Jardim. 7 Dr-. Tiberio Lopes de Vasconcellos. 8 Dr. Tiburcio C. Tupinambá Vampré. 9 * Dr. Alberto Leite Ribeiro. 10 * Dr. Augusto Brandão. 11 * Dr. Oscar Bulhões. 12 * Dr. Carlos Teixeira. 13 * Dr. Azevedo Sodré. 14 * Dr. Crissiuma. 15 * Dr. Julio de Moura. 16 •* Dr. Luiz Paulino Soares de Souza. 17 * Dr. Guedes de Mello. 18 * Dr. Hilário de Gouvêa. 19 * Dr. Felicio dos Santos. 20 * Dr. Luiz Antonio da Silva Santos. 21 * Dr. João José de Sant’Anna. 22 * Dr. Carlos Costa. 23 * Dr. Feijó Júnior. 24 * Dr. Pereira da Costa. 25 * Dr. Carlos Botelho. 26 * Dr. Francisco Valladares. 27 * Dr. Antunes de Campos. 28 * Dr. Lima Duarte. 29 * Dr. Silva Araújo. 30 * Dr. Marcos Cavalcanti. 31 * Dr. Conselheiro Nuno de Andrade. 32 * Dr. Conselheiro Catta-Preta. (1) O signal* indica os membros que frequentaram as sessões do Congresso. XII 33 * Di\ Cândido Barata. 34 * Dr. Pedro Paulo de Carvalho. 35 * Dr. Furquim Werneck. 36 * Dr. Azevedo Macedo. 37 * Dr. Martins Costa. 38 * Dr. Neves da Rocha. 39 * Dr. Malaquias Antonio Gonçalves. 40 * Dr. Joaquim Quintanilha Netto Machado. 41 * Dr. Álvaro Alberto da Silva. 42. * Dr. Antonio Fernandes Figueira. 43 * Dr. José Benicio de Abreu. 44 * Dr. Paula Fonseca. 45 * Dr. Paulo P. Barboza da Cunha. 46 * Dr. Soter de Araújo. 47 Dr. Giovani Eboli. 48 * Dr. Carlos Gross. 49 * Dr. Chateaubriand Bandeira. 50 * Dr. Torquato Villares. 51 * Dr. Ignacio Goulart. 52 * Dr. Arthur de Sá Earp. 53 * Dr. Silverio Fontes. 54 * Dr. Oliveira Aguiar. 55 * Dr. Henrique de Sá. 56 * Dr. Alfredo Piragibe. 57 * Dr. Alfredo Bastos. 58 * Dr. B. A. da Rocha Faria. 59 Dr. Felippe Alves. 60 * Dr. João Tosta da Silva Nunes. 61 Dr. JosôThomaz da Porciuncula. 62 Dr. João Pizarro Gabiso. 63 Dr. Luiz da Costa Chaves Faria. 64 * Dr. Henrique Monat. 65 Dr. Jorge Pinto. 66 * Dr. Teixeira Brandão. 67 * Dr. Domingos de Góes. 68 * Dr. Barão de S. Salvador de Campos. 69 * Dr. Samuel Pertence. 70 v Dr. Moura Brazil. 71 * Dr. Domingos Freire. 72 * Dr. Azevedo Lima. 73 * Dr. Mario de Souza Ferreira. 74 * Dr. Lima Castro. 75 * Dr. Alfredo Luz. 76 * Dr. Rodrigues Lima. XIII 77 * Di\ Carlos Eiras. 78 * Dr. Martins Ribeiro. 79 * Dr. Luiz Carneiro da Rocha. 80 * Dr. João de Castro. 81 * Dr. A. J. Pereira das Neves. 82 * Dr. Pedro Augusto Pereira da Cunha. 8S * Dr. José Pereira Guimarães. 84 * Dr. Antonio Pimentel. 85 * Dr. Joaquim Xavier Pereira da Cunha. 86 * Dr. Rodrigues dos Santos. 87 * Dr. Belisario de Souza. 88 * Dr. Castello Bíanco. 89 * Dr. Arthur de M. Pacheco. 90 * Dr. Carneiro da Cunha. 91 * Dr. L. Schreiner. 92 * Dr. Júlio Calvet. 93 * Dr. Brissay. 94 Dr. Cypriano de Freitas. 95 * Dr. Rozendo Muniz Barreto. 96 * Dr. Corrêa Leal Júnior. 97 * Dr. Celso Eugênio dos Reis. 98 * Dr. Alves Montes. 99 * Dr. A. Marcolino Fragozo. 100 * Dr. Pereira das Neves. 101 * Dr. Alfredo de Castro. 102 * Dr. Victor do Amaral. 103 * Dr. Carlos Botto. 104 * Dr. Camacho Crespo. 105 * Dr. João Ferreirinha. 106 * Dr. Erico Coelho. 107 * Dr. Octavio Esteves Ottoni. 108 * Dr. Pedro Severiano de Magalhães. 109 * Dr. Augusto Ferreira dos Santos. 110 * Dr. Tliomaz de Carvalho Borges. 111 Dr. Cesario N. A. Motta Magalhães Júnior. 112 * Dr. Luiz de Oliveira Bueno. 113 Dr. Domingos de Scá. 114 * Dr. Bernardo Alves Pereira, 115 * Dr. Figueiredo Magalhães. 116 Dr. Henrique Samico. 117 * Dr. Alfredo Barcellos. 118 Dr. Victor de Brito. 119 * Dr. Teixeira de Souza. 120 * Dr. Celso Caídas. XIV 121 Dr. J. Calixtrato de Vascoucollos 122 Dr. Tiberio de Almeida. 123 Dr. Nemesio Quadros. 124 * Dr. Souza Lima. 125 * Dr. Eduardo Santos. 126 Dr. Antoniç Teixeira de Souza Alves. 127 Dr. Silvio Maia. 128 Dr. Mello e Oliveira. 129 * Pliarmaceutico Silva Araújo. 130 * Dr. Redondo. 131 Dr. João Pedro de Miranda. 132 * Pliarmaceutico Vicente Werneck. 133 * Dr. Amaro das Neves Armond. 134 * Dr. Jorge Franco. 135 * Dr. Thomaz Coelho. 136 * Dr. Monteiro de Azevedo. 137 * Dr. João de Deus. 138 * Dr. Paula Lima. 139 * Dr. Visconde de Silva. 140 * Dr. Conde de Motta Maia. 141 * Tiberio de Moura CONGRESSO BRAZILEIRO DE MEDICINA E CIRURGIA PRIMEIRO CONGRESSO BRAZILEIRO DE MEDICINA E CIRURGIA Sessão preparatória a 9 de Setembro de 1888 Presidência do Sr. Dr. Oscar Bulhões Presentes 82 membros eílectivos, toma a presidência o Sr. Dr. Oscar Bulhões, presidente da commissão ad hoc eleita pela sociedade de medicina e cirurgia do Rio de Janeiro, e a seus lados os demais membros da commissão, Srs. Drs. Azevedo Sodré, secretario geral, Carlo3 Teixeira, Silva .Araújo, CrissiumaeC. Costa. Procede-se á leitura dos nomes dos médicos inseriptos para tomar parte nas discussões do Congresso. O Sr. secretario lê a seguinte relação das memórias apresentadas previamente : I. — Acçãophysiohgica ola lobelina, pelo Dr. Azeveclo Sodré. II. — O iodo na malar ia, pelo Dr. Alfredo Piragibe. III. — Contribuição ao estudo da enucleação na panophthalmia, pelo Dr. Victor de Brito. IV. — A lobelina na therapeutica da asthma, pelo Dr. Silva Nunes. V. — Qual o melhor tratamento das bronohites agudas nas crianças, pelo Dr. Ti- berio de Almeida. VI. — Sobre a maturação artificial das cataractas, pelo Dr. Hilário de Gou- veia. VII. — Frequência dos cálculos vesicaes no Brazil; resultados operatorios, peio Dr. Oscar Bulhões. VIII. — Hospícios marítimos para crianças escrophulosas e rachiticxs, pelo Dr. Carlos Costa. IX. Influencia do impaludismo como causa de aborto eparto prematuro, pelo Dr. Rodrigues dos Santos. Em seguida, lê o Sr. secretario a relação dos assumptos approvados pela Sociedade de Medicina e Cirurgia, que devem occupar a attenção do presente Congresso. Passa-se depois à eleição, por escrutínio secreto, da mesa, que assim ficou composta: Presidente, conselheiro Catta Preta; Io vice-presidente, Dr. Hilário de Gouveia; 2o vice-presidente, Dr. Furquim Werneck; 3" vice-presidente, Dr. Oscar Bulhões; secretario geral, Dr. Azevedo Sodré; secretários ad- juntos, Drs. Malaquias Gonçalves, Teixeira de Souza e Guedes de Mello. Ia Sessão ordinaria Presidência do Sr. Conselheiro Dr. Catta Preta Presentes S. A. o Sr. Conde d’Eu, o Sr. ministro argentino, grande numero do med!cos, estudantes e espectadores, o Sr. conselheiro Catta Preta, presidente, declara installado o primeiro Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia, e concede a palavra ao Sr. Dr. Julio de Moura, orador prévia- mente eleito para a solemnidade pela Sociedade de Medicina e Cirurgia. 0 SR. DR. JULIO DE MOURA Alteza, Sr. conselheiro presidente, meus collegas, meus senhores. Animada não sei por que inesperado impulso de vitalidade, a classe medica brazileira aqui representada resolveu levar por diante a idéa de um congresso de medicina e cirurgia, á imitação daquillo que fazem, em outros paizes e de longa data, as grandes illustrações do estrangeiro. Este movimento, que semelha o despertar de um somno prolongado de muitos annos, está me parecendo uma crise favoravel, a remissão flnal da inércia e da indifferença, que nos minavam o organismo, enfraquecendo-nos a energia, á maneira de uma infecção antiga e desanimadora. Aos espi- ritos mais duvidosos e mais avessos ao pensamento de união, de mora- lidade e da urgência que temos de apparecer peíanto o mundo, como homens da sciencia, talvez se affigure essa nossa primeira tentativa um reflexo apparente de vida, esforço inútil que ha de ter como consequência inevitável a recrudescência de nossos males e o entorpecimento lamentável de nossos talentos. Não seria asada a occasião para misturar ás galas do templo da medicina, e às vozes alegres de seus sacerdotes, a planta agreste dos que não acreditam, a risada sinistra dos prophetas de mau agouro: meu cora- ção de brazileiro, além do sentimento que deveis experimentar, como eu, da confiança e do nobre interesse que nos merecem os destinos da nossa profissão, protesta contra essa retraeção ã verdade que se impõe a todos nós, contra essa lentidão secular que nos traz distanciados e desconhecidos dos grandes centros, que ambicionamos, da sabedoria humana. A semente aqui a vemos atirada ao sólo, que não lhe será certamente ingrato. Da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro partiu a iniciativa, e mais por benevolencia dos meus collegas, do que porque a muitos dentre elles não coubessem melhor as honras invejáveis desta tribuna, conferiu-me essa illustre corporação o encargo de iniciar os traba- lhos desta imponente congregação de collegas brazileiros, e o melhor caminho que encontro para corresponder á sua confiança é fallar dos nobres intuitos que inspiraram os promotores deste Congresso, a primeira olympiada scien- tifiea, na expressão feliz de Bouillaud, que até hoje se verifica na America do Sul. 4 Senhores, devo dizel-o, não por orgulho, mas por um sentimento de satisfação intima, que estou assistindo neste momento á realização tardia, porém fecunda de uma idéa, que preoccupou meu espirito em um periodo sem duvida mais esperançoso da minha vida de medico. Significa isto, si me permittem a ousadia, que também eu reclamo um modesto quinhão nesta festa gloriosa da medicina no Brazil. Em 1868, ha 20 annos completos (como a velhice nos chega I), eu escrevia nas paginas da Gazeta Medica da Bahia, arcliivo de conhecimentos tnedicos que faz honra aos nossos estudos, e ao esforço vacillante ainda do nosso jornalismo scientifico, algumas palavras, menos ardentes que sinceras, que, si por um lado reflectiam o amor da patria, eram ao mesmo tempo um rebate feito ao merecimento reconhecido das melhores intelligencias da classe. Tinha havido então o primeiro Congresso Internacional de Medicina e Cirurgia, por occasião da grande Exposição de Paris em 1867, e a ltalia convidava por seu turno os sábios de todo o mundo civilisado a congrega- rem-se para um certamen idêntico no seu torrão, que nós sabemos abençoado pelas artes e pelas mais grandiosas conquistas da sciencia. Então, senhores, eu era um medico moço ainda, e confiava, com certa vaidade, nas provas de aptidão e na experiencia clinica, que para mim eram a glorificação do talento de alguns dos meus professores, e de grande numero de collegas daquella época. Sentia que na communhão solemne das grandes illustrações do Velho Mundo também nós podíamos, trabalhadores mo- destos, levar o fructo de nossas observações e a pingue colheita dos nossos estudos. Parecia-me que não éramos merecedores, como missionários também da grande arte e com o nosso pequeno património de conhecimentos adquiridos, desse como que isolamento sanitario, semelhante ao que somos condemnados por occasião das epidemias, que são o nosso ílagello e que concorrem para o nosso descrédito. Realisavel ou não, meu intento era que nos reunissemos, como hoje, afim de que, entre os associados que sobresahissem pelos esforços e pela importância de suas communicações, um ou outro fosse commissionado pelo governo brazileiro para representar a sciencia da nossa patria nos con- gressos internacionaes do estrangeiro. Subia-me o rubor ás faces quando considerava que, sob o perigo de sermos taxados de ignorantes ou de retro- grados, negássemos o nosso comparecimento ao convite honroso que nos era dirigido pelas nações adiantadas no progresso e na civilisação. Aquelle meu ensaio de propaganda, senhores, mereceu adhesão apenas dos redactores da Gazeta Medica da Bahia. Foi uma decepção que supportei com a fleugma que muitos dentre vós reconhecem em mim. Minhas palavras morreram, como si foram vagidos de criançis, nomeio da morna quietação da natureza tropical, entre os bocejos e pandiculações de nossa proverbial in- dolência. No emtanto, nesse decorrer imperturbável de um quarto de século, os congressos foram-se multiplicando uns após outros, com a extrema vitalidade 5 dos organismos sadios que se formam. Elles effectuaram-se e effectuam-se ainda hoje successivamente na França, na Italia, na Allemanha, na Ingla- terra e em outros paizes do velho continente, assim como ultimamente na colossal Republica Americana. E como sabeis, senhores, a nação brazileira, muda e na espectativa sim- plória do camponio tradicional, deixava que passasse a torrente do rio, mngestosa e rapida, para resolver-se a galgar a outra margem. Seria ocioso, si não fosse uma duvida oftensiva à vossa illustração, enu- merar aqui a somma de conhecimentos adquiridos nesses congressos em cada um dos ramos das sciencias medicas : os boletins das sessões dessas illustres assembléas, as discussões havidas, os factos consignados constituíram um the- souro inexhaurivel, que nem o tempo, nem a sêde de instrucção conseguem diminuir, antes vai rendendo um juro fabuloso, que multiplica, como o mi- lagre do Evangelho, o esplendido capital dasciencia. Deixando de lado, meus collegas, muitos e importantes problemas de pa- thologia, de hygiene, de physiologia, de clinica e therapeutica, que foram escla- recidos, e alguns tiveram completa solução, seja-me licito, a proposito, recordar que, no primeiro congresso de Paris, tratou-se de um assumpto valioso, que, hoje mais do que nunca, nos interessa, qual o do acclimamento dos Europeus nos paizes quentes. Refiro-me a esta questão, unicamente para prestar ho- menagem nesta occasião á memória do nosso collega Dr. Aquino da Fonseca, unico profissional que espontaneamente tomou a palavra e leu, perante nquella autorizada congregação de sábios, um trabalho interessante a res- peito, que infelizmente poucos terão lido entre nós. Que me conste, nos demais congressos poucos patrícios nossos reflectiram, longe da patria, a luz de nossas minguadas conquistas, a pulsação lenta, mas vigorosa, do talento nacional (*). Não é que nos faltassem elementos e não houvesse opportunidade de lançarmos mão delles.... Ao contrario, os congressos têm isso de fra- ternal, estendem os braços a todos que trabalham. Depois, com a multipli- cidade de estudos, com a onda enorme de descobertas, a subdivisão da sciencia em especialidades foi tornando-se uma consequência nécessaria e util. Si é possível á força receptora da intelligencia humana a acquisição de conheci- mentos geraes, svnthese daquillo que observamos ( cousa que nem é licito dis- pensar, qualquer que seja o rumo de nossas investigações ) ; por outro lado seria um surmémge perigoso abarrotar o cerebro de um homem com a baga- gem extraordinária de noções conquistadas diariamente nos departamentos diversos da medicina. A esta exigencia indeclinável dos tempos modernos, que correspondeu á creação dos especialistas, não escapou igualmente a iniciativa civilisadora dos (*) Representaram o Brazil em differentes congressos os seguintes médicos : conselheiro Caminlioá, em Vienna. 1876: Barão de Theresopolis, em Genebra, 1882; Hilário de Gouveia, em Londres, 1881 : Freire, em Washington, 1888, e ultima- mente, em Paris, o Barão de Saboia, 6 congressos. Ha hoje, como sabeis, congressos de naturalistas, de hygienistas, de oplithalmologistas, assim como se realizam reuniões de saldos para estudo da therapeutica, da cirurgia em geral, da gynecologii e obstetricia, e ató ultimamente para pesquizas de maior importância sobre a tuberculose em geral. Pois bem, senhores, todo esse luxo de associações de homens illustres, toda essa multiplicação de esforços, cujas vantagens ninguém poderia con- testar de boa mente, não suscitaram entre nòs o menor estimulo, nem ven- ceram a atonia da nossa singular organisação moral. Só agora acordamos, só agora, mui somnolentos, damos os bons dias aos cultivadores que já lavraram e já conseguiram semear os campos. Está re- unido o primeiro Congresso Brazileiro de Medicina e de Cirurgia, que é também o primeiro frémito de vida que agita a classe medica entre nós, e que felizmente nem é o impulso do egoismo, nem representa o grito de interesses inconfessáveis. A’ tenacidade do meu amigo Dr. Oscar Bulhões, e ao merecido conceito de que elle goza pelo seu caracter e pela sua illustração, bem como ao esforço da commissão permanente, se deve este acontecimento inesperado, que abre uma excepção honrosa, modificadora dos nossos hábitos, assim como das tra- dições não muito louváveis da profissão medica no Brazil. Ainda assim, meus collegas, eu ouço de todos os lados multiplicarem-se as questões acrimoniosas, vejo a curiosidade dos incrédulos, mais malévola que proveitosa, abrir um campo esteril a arguições suspeitas, que, em todo caso, significam a duvida e o desacoroçoamento á nossa patriótica tentativa. Que queremos por fim de contas ? Que idéas são as nossas, qual a norma de conducta que pretendemos seguir ? Que rumo temos em vista nesta viagem temeraria por um oceano ainda não devassado neste paiz ? Senhores, é nosso intuito cultivarmos a sciencia inesgotável, com a troca mutua da experiencia e do estudo de cada um e com a unificação da pratica e das doutrinas que ella tiver consagrado no tirocinio de todos nós. Ao mesmo tempo procuraremos resolver o problema difficil da união, da con- fraternidade e da regeneração moral da nossa classe. Que melhor missão, mais feliz e mais fecunda nos poderia estar reservada ! O Congresso Brazileiro de Medicina e de Cirurgia visa o adiantamento re- gular e proveitoso da sciencia. Pela lista das questões apresentadas para serem discutidas, além de muitas outras que no decorrer das sessões serão sujeitasâ nossa apreciação, podeis verificar que, na maior parte, ellas interes- sam á medicina brazileira. Nem deveríamos ter outras aspirações. Seria um resultado esplendido si pudéssemos firmar, nesta união collectiva dos facultativos nacionaes, um protesto solemne contra a tutela em que temos vivido até hoje. Não temos originalidade, e o pouco que rende o nosso tra- balho, mesmo em relação às nossas próprias moléstias, não passa de um acanhado esforço diante da actividade dos médicos inglezes das índias e dos cirurgiões da marinha franceza nas colonias. Quasi que vegetamos sob a inspiração alheia, e a curiosidade natural, que todos nós sentimos em conhecer o que nos pertence, vacilla diante do apparato commodo de uma instrucção nem sempre assimilada, e cujos resultados práticos não vão além de um certo circulo, e, por desgraça nossa, não conseguem perpetuar nos annaesda medi- cina o nome de muitos clinicosde nota. E’ de nossa obrigação, meus collegas, accentuarmos entre os povos ins- truídos e que trabalham por si a nossa feição scientifica, que tem sido até hoje pouco mais do que a reproducção exótica daquillo que a civilisação nos exporta. Bastante estudamos, não precisa que o diga, mas só demoradamente, e muitas vezes fóra de tempo, conseguimos fazer applicações uteis e originaes. Cega-nos o brilho das alvoradas de além-mar. Si ha alguma cousa que nos pareça ser ganho de causa nas conquistas immorredouras da nossa arte, ó esse orgulho que todos nós temos de citar a cadi passo autores de nota, desenvolver theorias que não têm o cunho da concepção individual, jogar finalmente com a gymnastica perigosa e seductora do talento, antes do que aproveitarmo-nos da riqueza da própria experiencia, antes do que vencermos o dominio da alheia observação. Ha muito que somos um prolongamento da sciencia européa, cultivando-a com a aptidão que, em consciência, não nos falta, mas é incapaz, por ausência de autonomia e assimilação apropriada, de satisfazer os brios de nação independente e adiantada, como já nos desvane- cemos de ser. ; Aquelle que occupa neste momento indevidamente a vossa benevola attenção, teve sempre como assumpto predilecto de seus estudos o ramo, ainda não explorado de todo, da pathologia intertropical. Foi uma attracção natural do seu espirito, que, si acaso pôde ter alguma cousa de censurável, desculpa-se pelo sentimento patriótico em que ella se originou. Também não vejo melhor orientação, nem ramo em que melhor possamos applicar os elementos instructivos de que dispomos, e onde ser-nos-hia facil descobrir, com- parar, estabelecer a base de doutrinas que destacassem a notabilidade de nossos investigadores, daquella dos homens illustres de outros paizes, que se afadigam por seu lado em descobrimentos de outra natureza. Quando as nossas faculdades medicas passaram pela actual e notável re- organisação, que se deve á energica propaganda de alguns de nossos profes- sores, tive velleidades de publicar alguns artigos, apenas no interesse do ensino, e com a esperança de que fosse possível crear-se, como succedeu a muitas outras, a cadeira de hygiene e de moléstias dos climas quentes, que acredito ainda hoje matéria de indiscutível necessidade para os médicos que exercem o tirocínio em uma zona especial como a nossa. Nessa occasião tive escrúpulos, e não me arrependo de haver guardado silencio, para que não suppuzessem que eu advogava pretenções próprias, e para que não atirassem aos meus louváveis intentos a fabula sediça das uvas verdes. Hoje tudo posso dizer, sem que me peze á consciência qualquer interesse secreto, nem me acabrunhe o receio da picada venenosa da critica. No jor- nalismo extra-scientiflco ja foi discutido o assumpto, e eu considero um erro 8 imperdoável, que o tempo lia de remediar sem duvida, a exclusão daquella dis- ciplina em favor de outras de menor importância, e que não polem dar o cunho de originalidade de que são dignos os nossos estudos médicos. Menos necessitados, porém mais previdentes do que nós, os Francezes inauguraram nas suas escolas navaes de medicina o ensino, interessante e proveitoso para o corpo de saude da marinha, das moléstias exóticas. Uma iniciativa como esta devia ter partido de nossa patria, e quando isso fosse im- possível, não era deshonroso imitarmos a França neste particular, quando em muitos outros casos e com menos sobra de razão o fazemos. Como não cres- ceria a justa reputação dos professores brazileiros, si elles tomassem a si o importante programma de Mahé, onde se discriminam as questões mais du - vidosas de nossa pathologia, e onde se estabelecem as bases para um curso re- gular e methodico deste ramo da sciencia ! Como quer que seja, senhores, aproveitemos a opportunidade que nos pro- porciona esta associação de proíissionaes brazileiros, para darmos uma demons- tração eloquente de quanto nos interessam esses assumptos originaes. Ha, no meio de vós, trabalhadores intelligentes, que se encaminham gloriosamente para essas investigações do maior alcance para o futuro do paiz, assim como sobra, entre as theses apresentadas â discussão, muito terreno inexplorado onde se encontrem condições adequadas a formularmos as nossas duvidas e a interpretarmos as nossas observações. Certamente serão innumeras as communicações, mais ou menos luminosos os debates. Aproveitando o tirocinio de nossos hospitaes e com a garantia dos conselhos dos grandes mestres da sciencia, poderemos respigar elementos abun- dantes e seguros para a nossa instrucção, quer enveredemos pelo território da clinica medica e da clinica cirúrgica, quer nos circumserevamos ao estudo da liygiene e da therapeutica, não excluindo mesmo aquella mendicante de todos os tempos que se chama a matéria medica nacional. Em todo caso, abramos uma secção privilegiada para o conhecimento do que é nosso ; discutamos a natureza e o tratamento das intoxicações beri- bericas, que ainda estão pedindo o soccorro de vossas luzes; investiguemos a pathogenia e o contagio da lepra, essa sphinge pathologica que esconde, sob a sua mascara hedionda, um euigma perenne à cogitação dos sábios ; eluci- demos certos problemas de climatologia, especialmente com relação ás nossas estações sanitarias mais aconselhadas para o curativo da tuberculose ; apro- veitemos a competência, que nos póde ser negada por muitos dentre vós, para percorrermos a lista das nossas mais cruéis endemias, como a febre amarella, como a febre biliosa, como o impaludismo proteiforme, como as lympbatites e lymphangites graves dos climas quentes, como as dysenterias e as suppu- rações perigosissimas do flgado, que quasi sempre lhe são consecutivas. Com estes e outros recursos, que seria cansativo enumerar, teremos espaço bastante para reconstruir os alicerces da nosologii brazileira. Po- deremos desfarte fundir os elos da cadeia que representara o complemento e a reorganisação completa do livro não esquecido, mas também quasi 9 inutilisado pelo tempo, o único que subsiste entre nós, que temos para apre- sentai' ao mundo scientifico e que se chama — O Clima e Doenças do Brazil, pelo fallecido Dr. Sigaud. Senhores, eu vos disse que este congresso tinha a aspiração generosa de realisar a união, a confraternidade e a regeneração moral da nossa classe. Missão difficil, mas não impossivel. Nestas reuniões pacificas da sciencia, po- demos adoçar a tendencia hostil, que é o alimento repulsivo de que vivemos. O objecto exclusivo da profissão medica, escrevia Dechambre, de saudosa me- mória, é fazer o bem ; nenhuma outra profissão goza como ella desse gran- dioso privilegio. Pergunto eu Por que não havemos de applicar ãs nossas mutuas relações, como companheiros da mesma causa, a influencia dessa maxima quasi evangélica, que serve de gloria e que constitue a sublimidade do nosso ministério ? No Brazil são tristes os exemplos das lutas incessantes, que dilaceram os melhores sentimentos de classe. Crescem olles ã medida que nos adiantamos eminstrucção e experiencia, como si, allucinados pelo brilho dos thesouros scientificos, votássemos ao esquecimento as leis moraes mais sagradas, que cir- cumscrevem grande parte dos nossos deveres á urbanidade, ã delicadeza e á consideração que nos devemos uns aos outros. Aqui não se discute, fulmina-se : não se dá a mão aos que trabalham, olha-se de esguelha e com olhar estra- bico para as mais louváveis aspirações do talento. Os debates scientificos, não precisa que vos lembre, têm a fermentação virulenta do rancor e a esterilidade egoista das lutas pessoaes. Senhores, já li um provérbio, quasi tão velho como a medicina, que diz que o peior dos odios é o odio dos médicos. Não sei si poderiamos acceitar a crueldade inexorável deste conceito. Em todos os tempos, nas tradições de nossa arte houve divergências amargas, o embate de animosidades sem trégua. Entretanto, eram batalhas, que, si tinham alguma cousa de ridiculo, agitavam os espíritos mais por amor de doutrinas em evolução, do que por pequeninas paixões de momento. Está isso no conhecimento de todos : eram as contendas dos cirurgiões e dos médicos, o zelo entre os solidistas e humo- ristas, o choque violento entre os discípulos de Boerhave contra os continua- dores das glorias de Stihl : época dos cataclysmos agitados da sciencia, propriosdas organisações que se formam, e que dão origem á onda dos ambi- ciosos, dos revolucionários, dos propagandistas de toda especie. Tudo cessou, senhores, com o adiantamento e com a consolidação da nossa arte. A luta das escolas esfriou até certo ponto, como as grandes tempestades diante da luz inesperada das acquisições scienti ficas. Os génios de Bichat, de Pinei, de Brouss tis trouxeram, com a reforma das idéas, a calma dos espíritos e a ordem na anarchia secular, em que se viam espalhados os alicerces da medicina. Aquelle grupo de cellulas gigantes, dispersas até então, começou, pelo movimento fecundante da fermentação nutritiva, a constituir-se em tecido homogeneo, organisado, apto ao proprio funccio- namento. Vós todos sabeis, meus collegas, o que é hoje a sciencia medica : con- stitue por assim dizer a vastidão de um paiz immenso, onde todos os dias exploramos, e onde surgem a cada momento novos missionários capazes de descobrir maravilhas incalculáveis nos territórios accidentados em que vivem. Seria impossivel resumir-se, em uma vista de olhos synthetica, tudo quanto temos adquirido nestes últimos séculos : curvar- nos-hiamos, como o Atlas mythologico, sob o peso de um mundo de descobrimentos, fructo da expe- riencia, da concepção, da analyse e da intelligencia privilegiada de grande numero de sábios, que são o orgulho da arte e os apostolos benemeritos da humanidade. Para mim, bastam para glorificar a nossa época a doutrina evolutiva de Darwin, que dominou por assim dizer o campo das sciencias biologicis, e a doutrina dos fermentos vivos, obra colossal de Pasteur, que encerra, como em circulo luminoso, quasi toda a região obscura da patho- genia e todas as hypotheses vacillantes das causas mórbidas. Entretanto, com a perfectibilidade relativa (porque muito temos de aprender ainda) a que chegaram as sciencias medicas no velho mundo, os ânimos serenaram, e a classe a que pertencemos subsiste agora sob o regimen de um certo numero de leis moraes que lhe dão um caracter nobilíssimo de 1 restigio e de seriedade, e que a elevam no meio social de que participa. Deveres dos facultativos entre si, deveres relativos ao exercício da arte, deveres dos clínicos na sua missão gloriosa à cabeceira dos doentes, tudo isso constitue um codigo valioso de preceitos, que deve ser, antes de tudo, uma biblia, sempre consultada, nas contingências espinhosas da vida clinica. Não basta que tenhamos a reputação de instruídos, senhores, precisamos igualmente de ser educados. Não se pollue facilmente, dizia Schutzenberger, uma arte e uma sciencia que se respeita. E neste sentido a corporação me- dica de nosso paiz tem peccados imperdoáveis, que a expõem, cumpre dizel-o com franqueza, á critica inexorável e tantas vezes justificada dos profanos que a observam. Tenho esperança que este congresso, por seu espirito de collectividade, de união e de aprendizagem reciproca, ha de modificar de alguma fôrma ten- dências tão lastimáveis. Precisamos honrar a dignidade de nosso apostolado, com a lealdade, com a estima, com a consideração que nos merecemos mu- tuamente. Nesse dia seremos médicos no rigor da expressão, e a ninguém pôde ser desconhecido o futuro brilhante que nos espera, si, com a conquista do immenso cabedal que nos vem de fóra, e daquelle que possamos adquirir aqui mesmo, guardarmos também, como um penhor de paz e concordia, as severas obrigações que constituem em resumo a ethica profissional. Vou terminar, meus collegas. Procurei fazer uma apreciação rapida, mas verdadeira, das idéas que originaram a realisação deste primeiro congresso de médicos e cirurgiões em nossa terra. Foi ao mesmo tempo o espirito de con- fraternisação, unido ao desejo de instruirmo-nos e adiantarmos a sciencia brazileira, que neste momento nos congregou. Sentimos todos que atravessa a iria atmosphera em que vivíamos, a temperatura benefici que dá tom á seiva enfraquecida e regenera os organismos doentios. Parece que neste anno fecunda o sólo brazileiro o germen de aspirações desconhecidas, a onda ma- gestosa do progresso e da felicidade humana. Com relação á familia medica, tudo que vemos é extraordinário: ella se reune em associações, alimenta a iniciativa civilisadora do jornalismo scien- tiflco, estende as azas da assistência mutua sobre os membros desamparados da classe, e final mente confraternisa-se nesta importante congregação de homens illustrados. Caminhemos, portanto;a reminiscência do passado será para nós o suor abençoado e fertilisador da terra promettida que pisamos. Este enlace de intelligencia, entre mestres e discípulos, apaga da historia modesta de nossos estudos e de nossos triumphos o labéo tão repetido da nossa inércia e da nossa inactividade. Caminhemos; que lá nos espera, para a glorificação de nossos esforços, o julgamento imparcial dos que nos succederem, e a tranquilidade da consciência que é a suave compensação dos que fizeram o bem. Alteza, sou o interprete dos sentimentos dos meus collegas, agrade- cendo a Vossa Alteza a honrosa visita que vos dignastes fazer á reunião do primeiro Congresso Medico Brazileiro. Por tão subida distincção, protesto a Vossa Alteza, em nome dos meus illustres camaradas, empenhados nesta gloriosa campanha da sciencia, o nosso profundo reconhecimento. 0 Sr. Presidente annuncia que a segunda sessão se realisará no dia se- guinte ás 7 horas da noute, no mesmo local, coma seguinte ordem do dia: Ia parte—Leitura e discussão dathese do Sr. Dr. Azevedo Sodré: Acção physiologica da lobelina; 2a parte—Communicações oraese por escripto. 2a Sessão ordinaria Presidência do Sr. Dr. Hilário de Gouvèa SUMMARIO.— Dá acção physiologica da lobelina.— Frequência da paralysia geral dos alienados no Brazil.— Dermatose gallinacea transmittida á especie humana.— Do clilorato de potássio no tratamento do epithelioma.— Do tratamento da tuberculose pelo sulfureto de carbono e pelas inhalações de acido fluorhydrico. O SR. DR. AZEVEDO SODRÉ lè a seguinte memória : Acção physiologica da lobelina Constituem assumpto de todo novo e original os estudos que sobre a acção physiologica da lobelina encetei no laboratorio de therapeutica experimental da faculdade de medicina do Rio de Janeiro. Esta substancia foi-me fornecida pelo illustre collega Dr. Silva Nunes, que já a tinha empregado com pleno succes:>o em sua clinica privada. Não conhecendo trabalho algum public 'do sobre a acção physiologica da lobelina, e considerando-a ainda não estudada sob o ponto de vista experimental, encetei uma serie de experimentos, que resumo na presente memória, e que por escassez de tempo e deíiciencia de recursos não poderam ficar completos. Conhecem-se as insuperáveis difficuldades do methodo experimental, quando do dominio da demonstração didactica se passa ao das investigações especula- tivas para a boa orientação de um problema novo de therapeutica physiologica. Além das qualidades do experimentador, na realisação do determinismo experimental, torna-se necessária longa serie de experiencias rigorosas, em especies animaes variadas, servindo umas de contraste e verificação ás outras, expurgadas todas dos erros e imperfeições tão communs a este genero de pesqnizas. Só assim se poderá affirmar que um medicamento actua desta ou daquella maneira, só assim se conseguirá estabelecer com as devidas garantias o determinismo experimental. Não tenho a pretenção de vir dizer a ultima palavra sobre a acção physiologica da lobelina : os meus estudos são ainda incompletos e quando muito poderão servir de introducção a ensaios posteriores feitos por mim ou por quem de mais competência disponha. Dissecando a complexidade do problema aventado, explorei apenas algumas das suas faces, e, firmado nos resultados obtidos, procurei formular a theoria pharmacodynamica da lobelina. E' ella talvez prematura ; em todo o caso, porém, se coaduna perfeitamente com os dados da experimentação e interpreta satisfactoriamente a meu ver toda a phenomenologia motivada por essa substancia. Terminada a primeira serie das minhas experiencias, quando dispunha-me a confeccionar a presente memória, desejei inteirar-me acerca de tudo quanto se tem escripto sobre a lobelia in/lata e seu principio activo, e com surpreza encontrei uns estudos do professor Ott, feitos sobre essa ultima substancia. Desconhecendo-os completamente até então, e divergindo suas conclusões diametralmente das que sou forçado a formular, continuo a considerar os meus ensaios como novos, e o trabalho do Dr. Ott servir-me-lia de incentivo para com mais cuidado e solicitude completal-os. Estudo phar macographico.— Tratando-se de substancia, senão completa- mente nova, ao menos não domiciliada em tlierapeutica, julgo conveniente inserir aqui um estudo descriptivo, o que faço resumidamente A lobelina foi descoberta em 1838 por Procter, que a extraliíu da lobelia inflata, vegetal pertencente á tribu dos lobeliaceas, da familia dos Campanuladas. E’ uma substancia volátil, da consistência do mel, transparente, de côr amarello- clara, de cheiro fraco, de sabor picante e similhante ao do fumo. Sua reacção é fortemente alcalina, e neutralisa os ácidos, formando com elles saes crystal- lisaveis, solúveis na agua e no álcool. A lobelina é solúvel na agua, no álcool no chloroformio, no ether, 11a benzina, etc. Exposta ao ar, resiniflca-se ligei- ramente. Sob a influencia da temperatura de 70°, decompõe-se. Os alcalis cáusticos também decompoem-na. Em solução aquosa é pre- cipitada em vermelho pela solução de iodo e iodureto de potássio, em branco pelo tannino, em vermelho claro pelo chlorureto de ouro ; este ultimo pre- cipitado é insolúvel no acido chlorhydrico. Pela addição de acido phosphomo- lybdico forma-se precipitado branco amarellado, que, tratado pela ammonea, torna-se azul, dissolve-se, adquire coloração mais pallida e íinalmente torna- se incolor. Segundo W. Lewis, a lobelina submettida á ebullição, em presença de um acido diluido ou de um alcali, fornece certa quantidade de glucose. Além da lobelina, Pereira e Basticlc encontraram o acido lobelico, que se apresenta em pequenos crystaes amarellos, não voláteis, solúveis em agua e no ether. Parece existir na planta a lobelina no estado de lobeliato de lobelina. Fluckiger e Hambury (Histoire naturelle des drogues) descrevem 0 processo de preparação de um outro principio activo encontrado na lobelia inflata e denominado por Enders lobelacrina. Para Lewis, esta ultima substancia não é mais do que um lobeliato de lobelina com excesso de acido lobelico. Pereira annunciou também a presença de um oleo volátil, acre, solido que denominou lobelianina. A lobeleina de Reinsk parece ser um composto indefluido, encerrando traços de lobelina, acido lobelico e certo numero de matérias indeterminadas. Além destas substancias, a lobelia inflata encerra ainda gomma, rezina, principios extractivos, chlorophilla, etc. Estudo pharmacodynamico.— Na ultima edição dos Commentarios ao Co- dex, 0 professor Gluber, resumindo os conhecimentos de então sobre a lobelia inflata, assim se exprime: « a lobelina, substancia muito analoga á nicotina, na dose de 1 centigramma determina vomitos no gato, e em dose 5 ou 6 vezes maior, causa prostração iminediata, resolução muscular e dilatação das pu- pillas.»— Baralliera ( Bulletin gen. de therap. 1864) diz que a lobelina tem acção analoga e idêntica á da nicotina. Delioux de Savignac (Dict. encycl. desse, med., art. lobelie ) diz que a lobelia inflata e seu principio activo apresentam semelhança de acção com outras plantas é vomitiva, como a ipecacuanha, contra-estimulante como a digital e o colcliico ; somnifera como o meimendro ; respiratória, como a datura estramonio ; mydriatica, como a belladona ; convulsiva, como as strycknaceas; finalmente, pelo conjuncto dos seus effeitos approxima-se muito do tabaco. Ott (The journal of nerf and mental diseases, 1887, pag. 68J assevera que a lobelina determina nauseas, vomitos, mydriase e tendencia ao somno, augmenta, a principio, o numero das respirações e a temperatura, reduz os batimentos cardiacos. Estes resultados são mais tarde confirmados pelo mesmo autor (London Med Rec. pag. 306), que accrescenta os dados fornecidos pela experimentação em coelhos, notando, com doses pequenas, elevação da pressão sanguinea. Finalmente no Phyladelphia Medicai Times refere por inteiro as conclusões de todos os seus estudos feitos em rãs e coelhos. São as seguintes : I. A lobelia, como a nicotina e conicina, paralysa os nervos motores» deixando intactas as propriedades dos nervos sensitivos e dos musculos estriados ; II. Deprime a excitabilidade da medulla ; III. Abole o movimento voluntário e o poder coordenador dos movi- mentos ; IV. Retarda a principio o pulso, elevando-o depois acima da normal ; eleva a tensão vascular, tendo-a feito temporariamente baixar ; V. Acceleraos movimentos respiratórios ; YI. Eleva a principio e depois abaixa a temperatura. Taes são as conclusões finaes formulados pelo Dr. Ott: como se verá pelo seguimento desta exposição, ellas estão em completo desaccordo com os resultados dos meus ensaios. Não sei como explicar essa absoluta discordância em matéria de observação pura ; trata-se de factos de facil accessibilidade e que não poderiam passar despercebidos a um experimentador. Talvez in- fluísse a especie animal utilisada. Nas suas experiencias, serviu-se o Dr. Ott de coelhos e rãs ; eu utilisei-me de cães e rãs. Como se verá mais adiante, os phenomenos provocados pela lobelina nas rãs são apparentemente muito diversos dos que essa substancia motiva nos cães. Pelo exame superficial desses phenomenos, chegar-se-hia a resultados muito proximos dos relatados pelo Dr. Ott, mas, procurando-se com cuidado interpretal-os, vê-se que são analogos aos observados nos cães e reconhecem o mesmo determinismo. As minhas experiencias foram em numero superior a 25, em algumas fui auxiliado pelo Dr. Silva Nunes, em outras pelo ajudante do preparador de Therapeutica o Sr. Antonio F. do Amaral ; outras, finalmente, foram reali- zadas sob minhas vistas e direcção por estudantes da 4a serie medica. Deixo á margem as que, por circuinstancias fortuitas e accidentaes, deixaram de cercar-se das condições de rigor imprescindiveis em experimentação ; omitto também algumas que, tendo fornecido resultados completamente idênticos aos das que passo a referir, escusado seria repetil-as. Ia experiencia. Rã de tamanho medio. Fixada convenientemente, descubro, por uma incisão, o coração, que contrahe-se 39 vezes por minuto. Injecto na coxa direita hypodermicamente 20 c. c. de uma solução, contendo 2 centigrammas de lobelina. Logo depois da injecção, o animal moveu-se e desprendeu uma das patas ; as contracções cardíacas se faziam 45 vezes por minuto e pouco depois 50 vezes. Dez minutos após a injecção havia 34 movimentos cardíacos ; 15 minutos, 28 contracções, e 20 minutos depois, 16. Os movimentos respiratórios hyoidianos são supprimidos. A coxa em que se fez a injecção apresentava-se vermelha. A corrente 20 do apparelho induzido de Dubois-Reymond, provocava contracções musculares quando appli- cada à coxa esquerda ; nenhuma modificação trazia collocada sobre a coxa direita; a corrente 10, que applicada á coxa esquerda motivava alguns movi- mentos reflexos, não influia da mesma sorte sobre o segmento direito. Sómente as correntes 5 e 0 produziam no logar em que fôra praticada a injecção ligeiras contracções fibrillares. Quarenta minutos depois da injecção o coração parava em diástole. 2a experiencia —Rã commum, vigorosa. Depois de fixada á placa de cortiça, descubro o coração. Bate 66 vezes por minuto. Com as correntes 40 e 45 de bobina de Dubois-Reymond, provoco movimentos reflexos parciaes e generalisados. Injecto na coxa esquerda um centigramma de lobelina, dissol- vido em uma gramma de agua. Cinco minutos depois o coração contrahia-se 80 vezes por minuto ; quinze minutos depois, 60 vezes; vinte minutos depois, 55 vezes. No mesmo logar injecto mais um centigramma ; cinco mi- nutos após a segunda injecção, o coração batia 40 vezes por minuto ; dez minutos depois, 32 vezes. Injectei no mesmo logar mais um centigramma de substancia activa : dez minutos eram findos depois da terceira injecção e o coração se contrahia 24 vezes ; vinte minutos depois, contavam-se 14 pulsações apenas. A coxa impressionada directamente pelo medicamento, como na experiencia precedente, apresentava-se vermelha. Houve logo suppressão dos movimentos respiratórios. Na coxa direita, a corrente 20 applicada nada pro- vocou; acorrente 15 determinou contracções fibrillares; a corrente 10 con- tracção dapata e a corrente 5 movimento reflexo geral. Na coxa esquerda (logar da injecção) a corrente a 0 apenas determinava ligeiras contracções tibrillares ; napata correspondente a corrente a 5 provocava pequenos movi- mentos, e acorrente a 0 — reflexo de todo o membro. Trinta minutos depois da terceira injecção e uma hora após a primeira, o coração parava em diástole. 3a experiencia — Rã pequena. Fixada ã placa de cortiça descubro o coração, que pulsa 46 vezes por minuto. Sob a pelle da coxa esquerda injecto com pequenos intervallos tres grammas de uma solução de lobelina de 2 %. As contracções cardíacas, como nas experiencias precedentes, co- meçaram a diminuir em numero e intensidade ; as systoles mostravam-se incompletas e as diástoles mais prolongadas. Quando os batimentos do coração limitavam-se a 10 por minuto, injectei fraccionadamente na coxa direita um centigramma de sulfato de atropina dissolvido em uma gramma de agua, e instillei sobre a myocardio descoberta algumas gottas dessa solução. O rythmo do coração não se modificou. Cada vez mais enfraquecido o orgão continuava a contralhr-se lenta e incompletamente, vindo mais tarde a parar em diástole. Nesta rã observei os mesmos phenomenos locaes, musculares, nervosos e respiratórios, que me foi dado apreciar nas precedentes, bem como em todas as outras em que mais tarde experimentei. 4a experiencia—Rã commum, forte e desenvolvida. Fixada con- venientemente, isolei, por iiRermedio de uma ligadura acompanhada da secção conveniente dos tecidos, a coxa direita, deixando-a presa ao tronco pelo nervo sciatico poupado. Rompi desta arte todas as connexões vasculares entre este membro e o resto do corpo. Descobri o sciatico do lado esquerdo. As correntes mais fracas da bobina de inducção de Dubois-Reymond, applicadas sobre qualquer ponto do tegumento cutâneo, provocam contracções musculares e movimentos reflexos. Levo ao hypoderma da coxa esquerda, com o auxilio da seringa de Pravaz, tres centigrammas de lobelina, dissolvidos em 30 c. c. de agua. — Findos vinte minutos, a corrente 0, applicada sobre a coxa no logar da injecção, motivava apenas contracções flbrillares ; applicada logo abaixo na perna, provocava contracções de todo o membro ; e collo- cada sobre a pata, produzia reflexos geraes, provocando a contracção da coxa isolada. A corrente 10, applicada sobre o sciatico direito (correspon- dente á coxa seccionada), determinava apenas contracções nesta coxa ; applicada sobre o sciatico esquerdo, provocava movimentos reflexos generali- saaos. Acorrente 5, sobre o sciatico, determinava movimentos do membro correspondente e contracções na perna e pata esquerdas ; applicada sobre o sciatico esquerdo — movimentos reflexos generalisados. A corrente 0, sobre o sciatico direito, provocava movimentos reflexos geraes. Na coxa seccionada e isolada, as correntes de fraca intensidade davam logar a contracções e movimentos; esses, porém, só se estenderam á outra pata quando a cor- nete attingiu a 0. 5a experiencia. — Cão forte, vigoroso, pesando 16 kilos. Temperatura rectal 39,2. Batimento do coração 86 por minuto. Movimento respiratório 28 por minuto. Administro por via gastrica uma solução aquosa encerrando 6 centigrammas de lobelina. Meia hora depois, nenhuma alteração notável havia. No fim de uma hora: temperatura 39°, pulso 94, resp. 24. O cão não apresentou nauseas, nem vomitos. Hora e meia depois de ingestão do medica- mento apreciava-se : temperatura 39°, pulso 96, respiração 24. 6a experiencia. — Cão forte, pesando 12 kilos. Temperatura rectal 39° Batimentos do coração, 96 por minuto. Movimentos respiratórios 34. A corrente 10 eo apparelho de Dubois-Reymond applicada na pata entre os dedos provocava uma contracção do membro ; a corrente 12 mostrava-se inactiva. Descubro o sciatico, que secciono depois de ligar sua extremidade peripherica. A corrente 35, applicada sobre esta extremidade, não determina phenomeno algum apreciável; a corrente a 30 provoca ligeiro reflexo. Descubro eca- nulo a saphena esquerda, por onde injecto 3 centigrammas de lobelina dissol- vidos em 3 grammas de agua. Dez minutos depois da injecção: tempera- tura 39,3, bat. card. 78, mov. respir. 24. Quinze minutos depois temperatura 39°,2, pulso 118, respiração 22. Observa-se, de quatro em quatro movimentos respiratórios, uma larga, profunda e demorada inspiração. A corrente 10 applicada na pata não determina contracçâo ; a corrente 8 pro- voca ligeira contracçâo. a corrente 30 sobre o sciatico provoca, como antes da administração do medicamento, reflexos. Meia hora depois da injecção : temperatura 39°, pulso 126, mov. respir. 22. Quarenta minutos depois da injec- ção : Temperatura 39°, pulso 134, mov. respir. 20. a corrente 8 deter- mina na pata contracçâo. A corrente 30 applicada sobre a extremidade peripherica do sciatico não provoca mais reflexos ; a corrente a 25 determi- na-os ligeiramente. Hora e meia depois da injecção : mesmo resultado. Não pude continuar a observar o animal; mas no dia seguinte encontrei-o bom ; sómente com as consequências do traumatismo experimental. 7a experiencia.— Cão pesando 14 kilos. Temperatura rectal 40.° Pulso 80. Movimentos respiratórios 60. Pressão sanguínea tomada no hemo- dynamometro 13. Injecto na crural esquerda 1 centigramma de lobelina. Dez minutos depois : pulso 110, pressão sanguínea 10, movimentos respira- tórios irregulares, ora demorados, de largas inspirações, ora apressados. In- jecto mais 2 centigrammas e observo dez minutos depois : pulso 156, tem- peratura rectal 39°,3, movimento respiratório 12, tensão vascular oscillando entre 8 e 9. Quarenta minutos depois de 2a injecção : pulso 160, tempera- tura 39°,4, respiração 12, pressão sanguínea 7. Secciono o pneumogastrico esquerdo e excito sua extremidade peripherica. Com a mais forte corrente in- duzida a 0, lia diminuição no numero das contracções cardíacas, mas não pa- rada do coração, como acontece no estado normal. No dia seguinte, o animal apresentava apenas as consequências do traumatismo. 8a experiencia.— Cadella pintada, pesando 6 kilos. Pulso 82, respi- ração 70, tensão vasculnr 14. Descubro e secciono cuidadosamente o pneu- mogastrico esquerdo. Injecto na saphena 3 centigrammas de lobelina. Dez minutos depois observo : movimento respiratório 42, pressão sanguínea 3, pulso incontável. Meia hora depois noto : respiração 36, pressão sanguínea 4, pulso 130. Antes de injecção a excitação da extremidade peripherica do vago, com a corrente 10, diminue o numero de contracções cardíacas, e com a corrente 0, parada do coração, Depois da injecção, esta ultima corrente não determinava mais a parada, nem mesmo diminuição do numero dos ba- timentos. Uma hora depois da injecção : mesmos plienomenos para o lado do pneu- mogastrico, pulso 140, respiração 34, pressão vascular 3. 9a experiencia.—Cadella vermelha, pesando 8 kilos. Pulso 84, respi- ração 13, pressão sanguínea 16. a’s 11 horas e 30 minutos injecto na saphena 1 centigramma de lobelina. Cinco minutos depois : pulso Í40, res- piração 32, pressão vascular 10. A’s 11 horas e 40 minutos injecto mais 1 centigramma ; cinco minutos depois observo : pulso incontável, respiração 16, pressão sanguínea 4. A’s 11 horas e 50 minutos injecto 1 centigramma e observo 5 minutos depois : pulso incontável, respiração 12, pressão sanguínea 2. A’s 12 horas injecto mais 1 centigramma e noto os mesmos phenomenos. A’s 12 horas e 15 minutos injecto mais 1 centigramma e registro : pulso 120, respiração 12, pressão vascular 2. Dez minutos depois observo : pulso 100, respiração 14, pressão sanguínea 2. A’ 1 hora da tarde o animal apresenta: pulso 80, respiração 12, pressão sanguínea 2. Não pude mais acompanhal-o. No dia seguinte o animal nada de importante apre- sentava, e cinco dias depois serviu-me para uma outra experiencia em que o sacrifiquei. 10a experiencia.— Cão forte pesando 14 kilos. Curariso-o, procedendo á respiração artificial. Descubro a carotida e ligo-a ao tubo do hemodyna- mometro. A tensão intra-vascular oscillava entre 12 e 13. Injecto hypoder- micamente 4 milligrammas de sulfato de strychnina dissolvido em agua dis- tillada. Pouco tempo depois a columna mercurial começa a oscillar e sobe ató 20. Injecto na crural 4 centigrammas de lobelina em solução. O coração accelera*se nos seus movimentos e a tensão, que marcava 20, começa a descer pouco a pouco. Dez minutos depois a columna mercurial oscillava entre 3 e 2 e manteve-se neste ultimo numero durante algum tempo. O animal foi depois abandonado e morreu. Coordenando e systematisando os dados fornecidos pelas experiencias precedentes vou procurar colligir a acção physiologica do principio activo da lobelia inflata. Acção local.— A lobelina não parece ter acção local notável; os animaes, aos quaes administrámos esta substancia em injecção hypodermica, ficavam tranquillos, não se agitavam, como acontece com outras substancias de pro- priedades locaes e irritantes, taes como a nicotina, a veratrina e a aconitina. Injectada hypodermicamente em uma rã, determina na zona vizinha ao ponto da injecção climinuição notável da excitabilidade nervosa sensitiva e motora, bem como diminuição da irritabilidade muscular ; algum tempo depois deter- mina mesmo suppressão da excitabilidade nervosa e muscular. Em torno do logar da injecção, o membro mostra-se vermelho e congestionado. Local- mente é, pois, a lobelina um deprimente nevro-muscular e provavelmente paraiysa os filetes vaso-constrictores. Coração e vasos.—Na rã a lobelina determina, a principio, ligeira excitação com augmento do numero de contracções c irdiacas ; logo depois as contracções se enfraquecem e vão diminuindo em numero até á parada do orgão em diás- tole. Nos cães ha, desde logo, augmento do numero dos batimentos, augmento considerável, que se acompanha de enfraquecimento da energia contr.ictil. Em uma das experiencias (n. 9), o coração, depois de attingir em seus movimentos a cifra prodigiosa, incontável, começou tnais tarde a con- trahir-se mais vagarosamente ; foi isso provavelmente devido á acção especial que a substancia parece exercer sobre a fibra muscular. A tensão intra-vascular é sempre abaixada desde o começo da acção da lobelina, e quando a dóse é forte póde mesmo chegar a zero. Respiração.— Na rã os movimentos respiratórios e hyoidianos são suppri- midos. No cão são sempre retardados, notando-se muitas vezes, no começo da acção do medicamento, ligeira exaltação. As inspirações são mais demoradas, mais completas. Temperatura.—Nada de positivo se póde deduzir a respeito das modificações experimentadas pela temperatura ; ora eleva-se, ora abaixa-se sem regula- ridade e precisão. Em um animal (exp. 7a), houve quóda de 0,7. Todavia pareceu-me que ella se elevava no principio da acção do medicamento, para depois decrescer. Systema nervoso.— Na rã ha diminuição palpavel da conductibilidade ner- vosa peripherica, bem como diminuição dos actos reflexos. O medicamento, agindo primitivamente sobre os nervos periphericos, estende sua acção á me- dula. No cão os mesmos phenomenosse apresentam, porém em menor escala ; talvez questão de dóse. Systema muscular.— Como se deprehende das experiencias sobre rãs, a lobelina diminue a irritabilidade e enfraquece a contractibilidade muscular. No cão nada de positivo observei a respeito. Pupilla — Não observei plienomenos oculo-pupillares constantes e dignos de nota. Com estes dados ainda incompletos difidciImante se poderá com segurança formular a theoria pharmacodynamica da lobelina. Em todo o caso, posso desde já avançar que, pela sua posição natural, bem como pela sua acção physiologica, ella se distancia muito da nicotina, com a qual pretendem-na confundir todos os autores que anteriormente a estu- daram. Dos meus ensaios se infere evidentemente que a lobelina actua sobre o pneumogastrico. Pelas experiencias 7a e 8a, cujos resultados foram aliás confirmados em experiencias posteriores, se vè que após a administração da lobelina, as correntes de media e forte intensidade, applicadas sobre a extre- midade peripherica do pneumogastrico, não promovem a parada do coração, nem mesmo diminuição no numero de suas contracções, corno normalmente sóe acontecer. O principio activo da lobelia é, pois, um veneno cardiaco pode- roso ; paralysa as extremidades periphericas do nervo pneumogastrico e, desfarte, supprimindo o poder inhibitorio que elie exerce sobre o coração, precipita tumultuariamente as revoluções cardiacas. Estas augmentam em numero, perdendo em energia e intensidade. Ainda paralysando as extremi- dades terminaes do vago nos pulmões, a lobelina diminue os movimentos respiratórios. O augmento do numero de contracções cardiacas em um tempo dado, motivando ipso facto um augmento de velocidade na corrente sanguinea, de- veria acarretar conseguintemente elevação de pressão intra-vascular. Isto, porém, não se realisa e em todas as experiencias a tensão sanguinea mostrou-se deprimida, podendo mesmo com dóses toxicas descer a 0. Como explicar-se este facto á primeira vista paradoxal ? A 10a experiencia toma-o por sua conta e cabalmente o interpreta ; nella se prova á evidencia que o centro das acções vaso-motoras é paralysado, bavendo a principio estupefacção ou pare- sia — permitta-se-me a expressão. Nestas condições, comprehende-se que, faltando aos vasos periphericos, o tonus que lhe vem do centro, estando ina- ctivos os filetes vaso-motores, suas paredes dilatam-se diante da impulsão cardiaca, e a onda sanguinea, encontrando em sua paisagem tubos de ca- libre maior, por uma lei hydraulica bem conhecida, perde em velocidade, de- primindo-se forçosamente sua tensão. Na rã, porém, os movimentos cardiacos são sempre diminuidos até pararem, notando-se muita vez ligeira exaltação a principio. Como explicar o facto tão divergente e contrario do que se observa no cão ? Actuarà de modo diverso sobre os filetes periphericos do pneumogastrico, excitando-os, ao envez de paralysal-os, como o fazem a pilocarpina, a muscarina, etc. A ratione se poderia logo concluir que isto não se desse; porém a 3a ex- periencia prova perfeitamente que a acção da lobelina sobre o pneumogastrico é sempre a mesma no cão ou na rã. Na verdade, estando as contracções cardiacas reduzidas a 10 por minuto, a injecção hypodermica de atropina não modificou o rythmo do coração ; ora, sabe-se perfeitamente a energica acção paralysa- dora que esta substancia exerce sobre os filetes terminaes do vago ; é claro pois que, se o retardamento das contracções cardiacas corresse por conta de uma excitação do nervo moderador, com a injecção de atropina, esta exaltação seria compensada e excedida mesmo e o coração precipitaria no momento dado suas revoluções. Poupará a lobelina o pneumogastrico? Também não, por- quanto, se assim fosse, dava logar a que a atropina manifestasse seus effeitos energicos. Acredito, pois, que na rã a lobelina exerce acção de todo idêntica à provocada no cão, e que, se nella as contracções cardiacas são diminuidas em numero e enfraquecidas até pararem, é isso devido às modificações que a sub- stancia determina na fibra muscular do coração. Como se deprehende ainda das experiencias precitadas, a lobelina é um medicamento hypocinetico. Ella diminue a contractibilidade muscular, e pro- vavelmente sua acção estende-se aos musculos dos tubos bronchicos, o que, addicionado á paralysia das extremidades periphericas do vago, de alguma sorte explica sua acção benefica sobre a asthma. A excitabilidade e conductibilidade dos nervos sensitivos e motores é igual- mente affectada pelo principio activo da lobelia. Como se infere das expe- riencias Ia, 2a, 3a, 4a, as excitações periphericas são com maior morosidade leva- das aos centros perceptores, e as reações reflexas também diminuidas. Vê-se por ellas que são a principio impressionadas as terminações periphericas dos nervos, depois seus troncos e finalmente o centro medullar resente-se tam- bém da acção depressora da lobelina. Neste particular a experiencia 4a é bem instructiva. Dilatando os vasos periphericos, retardando a velocidade da corrente san- guinea, a lobelina augmenta as perdas do calorico. Quanto ádose toxica, que para a rã é de 3 a 4 centigs., não me foi dado precisar no cão. Todavia 20 8centigs. injectados hypodermicamente e 6 centigs. injectados nas veias não matam o animal. Antes de Analisar eu contraporei as minhas conclusões ás do Dr. Ott. Conclusões do Dr. Ott. Minhas conclusões 1. a A lobelina, como a nicotina e conicina, paralysa os nervos motores, deixando intactas as propriedades dos nervos sensitivos e musculos estriados. 2. a Retarda a principio o pulso, ele- vando-o depois pouco acima da nor- mal. 3. a Eleva a pressão vascular tendo-a feito temporariamente baixar. 4. a Accelera os movimentos respi- ratórios. 1 .a A lobelina diminue a excitabili- dade e conductibilidade dos nervos sensitivos e motores ; diminue também a contractibilidade e irritabilidade mus- cular. 2. a Enfraquece eaccelera sempre os batimentos do coração, que vão muito além da normal. 3. a Deprime sempre a tensão vascu- lar, podendo leval-a até 0. 4. a Retarda sempre os movimentos respiratórios. Como se vê, as conclusões a que fui forçado chegar divergem diametral- mente das formuladas pelo Dr. Ott. Das minhas experiencias se deprehende que a lobelina afasta-se muito da nicotina no tocante ásua acção physiologica, e que neste terreno approxima- se muito da saponina, principio activo da polygala. Em todo o caso, novos estudos tornam-se necessários, e só elles poderão em definitiva elucidar este problema therapeutico. O Sr. Dr. Carlos Costa diz que, sendo as conclusões do Sr. Dr. Sodrè inteiramente contrarias ás do Sr. Dr. Ott, deseja saber de que especie é a lobelia de onde extrahiu a lobelina, que serviu em suas experiencias ; se da lobelia inflata, se da nossa lobelia, pois neste ultimo caso não seria para admirar a differença encontrada na acção physiologica. O Sr. Dr. Sodré, diz que servira-se da lobelina, que lhe foi fornecida pela pharmacia Silva Araújo, que a importou. Causas que concorrem para a pouca frequência da paralysia geral no Brazil 0 SR. DR. TEIXEIRA BRANDÃO, quando em Pariz teve occasião de refe- rir-se ao estado da medicina mental no Brazil, foi interpellado por um dos vultos mais notáveis da psychiatria franceza, a respéito da frequência da para- íysia geral entre nós. Nessa occasião não era muito larga a sua experiencia ; todavia respondeu acreditar ser essa affecção rara no Brazil. De então para cá tomou a peito verificar a questão, e os dados clínicos colhidos vieram robustecer sua convicção. Verdade é que suas experiencias limi- taram-se a um campo muito restricto, pois foram feitas em hospitaes, onde de ordinário são apenas recolhidos os indigentes, e isso basta para indicar que a paralysia geral dos alienados deve de ser muito rara em taes estabele- cimentos; ' - Senclo neste particular sua estatistica muito pequena, não ascendendo mesmo a 1 1/2 por cento, appella para os seus collegas e pede-lhes que re- latem o resultado de suas observações. Como todos sabem, paralysia geral dos alienados é moléstia cuja deter- minação pathogenica não está perfeitamente estabelecida. Ella acha-se comprehendida no grupo ainda confuso das encephalites diffusas ; e ninguém contesta as insuperáveis diíFiculdades de seu diagnostico. Acredita que, tomando-se em consideração apenas os casos em que o diagnostico da para- lysia geral é positivo, organisar-se-hia uma estatistica comprobatoria do seu modo de pensar. De Setembro de 1883 a Agosto de 1888, passaram pelo hospício Pedro II e hospital de S. João Baptista de Nictheroy 670 alienados, entre os ques havia sómente 11 casos de paralysia geral. Essa affecção é, pois, muito rara no Brazil, e isso provém talvez de ser pouco renhida entre nós a luta pela existência. Nota-se muita vez no terreno da com- petência a violência, mas não a tenacidade ; de maneira que as energias cerebraes não se gastam. Demais, a nossa população é, em sua maioria, agrícola, e entre os homens do campo a paralysia geral é excessivamente rara. 0 Sr. Dr. Carlos Eiras lê : Quadro estatístico dos doentes de naralysía geral, entrados para a CASA de SAtJDE do Dr. Eiras, em Botafogo, de 18E0 a 1887 ENTRADAS ISSO TOTAL 1881 a < H O H 1882 -u F- O h 1883 TOTAL 1884 TOTAL 1885 -Jj H O H 188G -< O 1887 TOTAL OBSERVAÇÕES s © s c K cr 1/8. A 9 de Fevereiro ó prati- cada iridectomia superior e massagem do crystallino. A 20 desse mesmo mez, V = contagem de dedos a 4ra,5 ; dedos em 23 de Março a 2m,0, pelo que faz-se paracenthese e nova massigem, que determinou desapparição de qualquer percepção quantitativa de luz seis dias depois. A 24 do seguinte mez é ieita extracção, sendo o resultado : 0. E.+ 10 D. V= 1/4. Observação 5a Antonio Pinto Júnior, com 49 annos, portuguez, foguista, entrou para o Hospital Portuguez a 9 de Fevereiro de 1888, com cataracta nuclear im- matura de ambos os olhos, datando de um anno, tendo sua visão baixado em A. 0. á contagem de dedos a 5m. A 12 desse mez soffreu iridectomia superior e massagem á esquerda. A 23 de Março conta dedos a 2m, pelo que faz-se paracenthese e nova massagem. A 1 de Abril apenas percebe movimentos de mão a pequena distancia, sendo a 24 praticada a extracção. Ficou alguma massa cortical, quo determinou hyperhemia da iris do 6o a 7° dia, a qual cedeu facilmente, obtendo V = 1/4, depois da discisão da cataracta secundaria praticada a 1 de Junho. Observação 0a Alberto da Silva, de 58 annos, portuguez, trabalhador, residente no largo do Rio Comprido n. 3, entrou para o serviço ophthalmologico no Hospital de Beneflcencia Portugueza a 19 de Setembro de 1887, accusando diminuição de visão ha cerca de um anno. A. O. V=l/8. Ao exame verifica-se turvor incipiente no núcleo dos crystallinos. A 19 de Novembro é operado de iridectomia superior e massagem do crystallino do O. E., sendo a 10 de Dezembro V — movimentos da mão a pequena distancia ; campo visual livre, projecção lôa. A 13 de Janeiro de 1888 é extrahida a cataracta, ficando um pouco da massa corticd na parte externa do campo pupillar. A 19 suspende-se deflnitivamente o apparellio, estando perfeitamente negra a metade interna da pupilla, permanecendo ainda restos corticaes na externa, pelo que prescrevo atropina e injecções de pilocarpina. Alta a 4 de Fevereiro, sendo V — 1/3 Voltou ao Hospital a 1 de Agosto do corrente anno, tendo a visão no O. D. baixado a contagem de dedos a lra,5, notando-se turvor no núcleo do crystallino, estando transparente a porção equatorial, de modo a deixar ver o fundo do olho depois de mydriase atropinica. E’ operado da iridectomia supe- rior com massagem do crystallino a 12 desse mez ; no dia immediato suspende- se o apparelho ; tres clias depois V = movimentos de mão a 0m,30, estando o crystallino geralmente opacificado. A 2 de Setembro, extracção com pupilla inteiramente negra. Das nove observações acima referidas vê-se que cataractas incipientes em diversos períodos de sua evolução, desde Y = 1 /3 até á contagem de dedos a 1 metro ae distancia; desde as de marcha extremamente lenta como, entre outras, as da Ia observação, em que a opacilicação do núcleo de ambos os crystallinos, datando de muitos annos, havia muitos mezes privava o paciente até mesmo de orientar-se, e promettia prolongar ainda muito essa sua posição afflictiva, se tivesse de esperar que suas cataractas chegassem naturalmente á maturidade ; até ás de marcha menos lenta, como as das observações 2a, 4a, 5a e 8a : chegaram todas, depois da iridectomia e massagem, ao periodo desejado, no prazo de um a tres mezes, sem que houvesse jamais o menor accidente inflammatorio, glaucomatoso, ou outro qualquer, determinado pelas manobras operatórias ou pela evolução rapida das cataractas. Das mesmas observações se vê que as melhores condições para a extracção oíferecem os prazos de dons a tres mezes apoz a operação preliminar, pela extrema facilidade com que se extrahem totalmente as massas corticaes, sendo que quanto mais energica e demorada, mais eflicaz a massagem. Assim, só observei irites provocadas por massas corticaes, que não poderatn ser totalmente extrahidas, nas observações Ia, 4a e 8a, em que liz a extracção no flm de 1 a 1/2 mez, irites que cederam, aliás facilmente, com a absorpção dos remanescentes do crystallino. Por mais de uma vez tive de repetir a massagem (obs. 7a e 8a), por ter sido insulílciente a primeira intervenção, e sómente observei isto, quando limitei-me a praticar a massagem com o dedo atra vez da palpebra superior, e nunca quando agi direetamente sobre a cornea com o dorso da cureta de borracha. Fõrster já havia dito ser precisa certa energia na pressão a exercer-se sobre a face anterior do crystallino, para obter-se resultado satisfactorio ; mas, por outro lado, sendo possível uma luxação do crystallino sob a pressão exagerada, nestes casos limitei-me a attritar repetidamente a cornea com o dedo, atravez da palpebra superior, e dalii a necessidade de repetir a massa- gem, depois de esvasiar a camara anterior pela paracenthese. Actualmente e nas condições ordinárias, procedo do seguinte modo : Cocainisado o paciente, pratico sclerototomia superior com faca lanceolar e pequena iridectomia; depois attrito durante meio minuto, com certa energia, a cornea, com o dorso da cureta de borracha, em movimentos circulares, procedendo assim á massagem crystalliniana. Feita a operação com as devidas cautelas antisepticas, no dia immediato a cicatrisação é sempre perfeita, e póde-se levantar definitivamente o appa- relho. O motivo que levou-me a preferir a chamada cureta anesthesica ao gancho de que se servia Fõrster, foi a consideração de que operava em olhos cocainisados, sendo de observação que o epithelio da cornea perde muito de sua cohesão sob a influencia da cocainisação, a ponto de ter eu uma vez observado descollamento de toda a camada epithelial da cornea, pelo simples attrito produzido pela cureta, em um caso de extracção de cataracta, como consta de communicação, que sobre o caso flz á Sociedade de Cirurgia e Medicina do Rio de Janeiro (1887—Boletins pg. Para diminuir a influencia do attrito da cureta sobre o epithelio, e para facilitar seu escorregamento, eu costumo mergulhal-a amiudadas vezes, para essa manobra, na solução antiseptici de que me sirvo nas minhas operações, (solução de sublimado a 1:5000); estou certo, porém, que tomadas idênticas cautelas, não haverá grande inconveniente em empregar o gancho, como aconselha o professor de Breslau. Como actúa a massagem ? Confesso que não me satisfez completamente a explicação de Fõrster. Custava-me acreditar que as manobras de seu pro- cesso, de elíicacia incontestável para a maturação rapida das cataractas incipientes, não pudessem influir absolutamente na nutrição e transparência dos crystallinos normaes; e, fosse por essa reserva mental, que aliás cederia diante da probidade acima de toda a excepção do Fõrster, fosse pelo mesmo motivo que levou Arlt a objectar-lhe, isto é, pela possibilidade de luxação do crystallino: eu não ousei nunca tentar a corelysis por este processo, em casos de perfeita transparência do crystallino, apezar de que estando a proceder no laboratorio de physiologia experimental da Faculdade de Medecina a uma serie de experiencias em cães, com o fim de estudaras modificações, porventura determinadas pela massagem sobre capsula anterior, seu epithelio e cortical, já praticando simples puncção e esvasiamento da carnara anterior, já com- binando-a com iridectomia, e fazendo a massagem do crystallino pelo processo referidc, exagerando e demorando propositalmente suas manobras: uma só vez ainda não consegui ainda, por esse processo, promover a opaciíicação dos crystallinos transparentes. Estas minhas experiencias, sobre as quaes farei em tempo relatorio cir- cumstanciado, estão até aqui, como as de Oettinger (1), em opposição ás de Hess (2), que, attritando durante tres a quatro minutos com o extremo de um estylete rombo a face anterior de crystallinos de coelhos, por intermédio da cornea e iris, diz ter constantemente obtido o pacificação lenticular, mais ou menos intensa, e analoga à produzida pela naphthalina no processo de Panas; também ás recentissimas de Otto Schirmor (3), que em 52 experiencias, feitas igualmente em olhos de coelhos pelo processo de Fõrster, obteve 46 cataractas, das quaes 36 parciaes e 10 totaes ; e sómente em seis, obteve resultado nega- tivo, sendo que destas — quatro foram das primeiras experiencias em que agiu com menos energia. Em suas experiencias observou Schirmer que a opaciíicação começa in- variavelmente pelo pó lo anterior 1/2 a 2 horas depois da massagem, esten- dendo-se depois para o equador, augmentando gradualmente de intensidade até certo ponto, p?>ra depois diminuir, na maioria dos casos, ao ponto de per- mittir exame ophthalmoscopico do fundo do olho no fim de tres mezes. Em experiencias anteriores já havia Schirmer demonstrado (4) que, por uma com- pressão circumscripta do centro do crystallino, se podia provocar uma opa- cificação limitada, a qual coincidia com a morte dos elementos epitheliaes da capsula, alcançados pela compressão. Pelo exame microscopio, que fez nos diversos períodos da opaciíicação lenticular, promovida pelo processo de Fõrster em coelhos, consignou Schirmer alterações mais ou menos consideráveis do epithelio capsular, caraterisadas por destruição cellular, fusão de pequenos corpúsculos de chromatina, de sorte a tornarem-se maiores, formação de vacuolos á roda dos núcleos, e final de- generescencia destes, seguida muitas vezes de liypergenese cellular, de sorte que o epithelio da capsula anterior fica representado por diversas camadas; outrosim, registra notáveis alterações da cortical, caraterisadas pela desag- gregaçâo fibrillar, formação de espaços interfibrillares mais ou menos consi- deráveis, vacuolos perinucleares, para os quaes passam os corpúsculos de chromatina, e dahi para o corpo das fibras, que afinal se dilatam e estouram. Quaesquer que sejam os resultados a que eu possa chegar nas experiencias que ora faço no Laboratorio de Physiologia sobre este objecto, é de crêr que a efficacia da massagem pelo processo de Fõrster para a maturação artificial das cataractas, dependa não só em grande parte da acção deleteria que o attrito produz sobre o epithelio da capsula anterior, que, como presume Leber (5), de experiencias a meu ver não iuflrmadas pelas de Deutschmann (6), re- (1) Ueber kiinstliche Reifung desStay.rs. Inaugural Dissert. Breslau. 1885. (2) Bcriclit ueber die 19.t0 Vcrsammlung der Ophthalmolgischen Gesellschoft. Heidelberg. 1887. (3) Exjperimentelle Studie úber die Fôrsters’ehe Maturation der Catarat. Arch. fítr Ophfch. Band XXIY. Abth. I. 1888. (4) Experimentelle Studie úler Linsencontusion. Inaugural Dissertation. Greifswald. 1887. (5) Arch. furOpht. B. XIX. Abth. 2. (6) Arch. fur Ophht. B. XXIII. Abth 2. presenta o papel principal como regulador dos phenomenos da diffusão entre o humor aquoso e o crystallino ; como também de idêntica acção sobre as Abras superflciaes da eortical, as quaes, tendo já vida precaria na cataracta inci- piente, facil e rapidamente degeneram sob a influencia do attrito de encontro a um corpo resistente ; e, tanto mais eíflcazmente, quanto mais energico e demorado fôr o attrito. Em todo caso, porém, a marcha desses phenomenos ó infinitamente mais lenta e menos perigosa, do que quando promovidos pela discisão, que póde tornal-os tumultuarios. E’ fóra de duvida que a maturação artificial tanto se póde promover pelo processo de Fõrster,excisando próviamente a iris,como não o fazendo; porém não é menos certo que exagerando-se,como se exageram por esse processo, os pheno- menos de diffusão, que promovem a rapida maturação, seria arriscado recor- rer a essa operação sem abrir uma valvula de segurança contra certo aug- mento de tensão que se deve esperar, e que frequentemente manifesta-se mesmo nos últimos períodos da evolução natural das cataractas nucleares, exactamente quando a alteração, attingindo aos últimos elementos, compre- hende as fibras corticaes superflciaes e o epithelio ; em taes condições os phenomenos de diffusão se accentuam além da norma em olhos cuja capsula tem perdido muito do seu elasterio. Se tal facto póde dar-se na simples massagem sem iridectomia, e dá-se por vezes na evolução natural das cataractas, facil é ajuizar dos perigos do proces- so preconisado pelo Sr. Dr. Ottoni, abrindo amplamente a capsula _anterior do crystallino, sem precaver-se contra o infallivel augmento da pressão intra- ocular, em inclividuos idosos. Este processo deveria faíalmente produzir os acci- dentes que são ha muito conhecidos e o fizeram abandonar em circumstancias muito menos perigosas, a não serem : a) As condições excepeionaes das duas observações publicadas pelo Sr. Dr. Ottoni; b) A pratica da extracção dentro das 36 primeiras horas. As observações publicadas pelo Sr. Dr. Ottoni são evidentemente de ca- taractas immaturas, porém tão adiantadas, que nellas havia perfeita indicação para a extracção linear modificada, sem outra preliminar. Na primeira, em que o paciente tinha 47 annos, as cataractas eram de marcha relativamente rapida, a força visual estava reduzida à contagem de dedos a 0m,75 num olho e a 0m,25 no outro, a operação parece ter sido feita em um só dos olhos, pro- vavelmente no direito ; porém em um e outro, apezar da falta de dados obje- ctivos sobre as cataractas, a indicação para extracção immediata pelo processo linear modificado era perfeita. Na segunda, em que não vem indicada a idade do paciente, nem os dados relativos á força visual nem os relativos aos crystal- linos, torna-se evidente, já pelo resultado que diz ter obtido, já pela expressão de não maduras ainda, com que qualifica as cataractas, que igualmente se tratava de cataractas quasi maduras, operáveis pela extracção linear combi- nada. Se não fóra essa circumstancia, e se o Sr. Dr. Ottori não se désse pressa em extrahir as cataractas no prazo de 36 horas, evidentemente insufficiente para que a eortical pudesse modificar-se, a ponto de facilitar a extracção to- tal, por mais largamente que tivesse sido aberta a capsula anterior do crystallino, caso as cataractas não estivessem no período em que a extracção linear modi- ficada póde fazer-se impunemente, osaccidentes inflammatorios não se deixa- riam esperar, complicando a extracção; e se o Sr. Dr. Ottoni tivesse que esperar mais tempo, para que toda a massa eortical, accessivel ao humor aquoso, se embebesse, os phenomenos glaucomatosos, que se manifestariam em taes condições, mesmo com a valvula de segurança préviamente estabe- lecida, por meio da iridectomia peripherica (processo de v. Graefe), com muito maior razão se apresentariam com todo o seu terrível cortejo no caso vertente. Nos dous pacientes do Sr. Dr. Ottoni, operados por discisão simples, mesmo em falta de accidentes glaucomatosos, a grande hyperhemia e inflam- maçâo da iris poderiam diffleultar a excisão dessa membrana por occasião da extracção e determinar occlusão pupillar, sendo, como é, geralmente sabido, quanto ó arriscado operar-se, já não digo a extraoção de uma cataracta, mas até a simples excisão da iris em taes condições. O unico processo, pois, que póie e deve ser aconselhado .para maturação de cataractas nucleares, no estado actual de nossos conhecimentos, ó o de Fõrster, que, á eííicacia decisiva, reúne singular innocuidade ; e só ha, a meu vêr, contraindicação para o emprego desse excellente processo de maturação artificial nas cataractas, mesmo nucleares, complicadas de luxação do crystal- lino; porquanto em taes casos, este escapa aos effeitos da pressão, e ha o perigo de perda do humor vitreo, que, como provei experimentalmente em 1869 em trabalho publicado nos Arch. f. Ophthalm. do mesmo anuo (*) con- firmado por todos os experimentadores que se me seguiram, póde promover graves desordens intraoculares, entre as quaes figuram em primeira linha o descollamento e atropina do corpo vitreo e o descollamento consecutivo da retina. O Sr. Dr. Moura. Brazil pensa como Graefe que o maior numero de cataractas immaturas não necessitam absolutamente de processo algum de ma- turação para serem extrahidas. Wecker diz que por larga incisão esem iride- ctomia podem ser perfeitamente bem extrahidas as cataractas immaturas, sem receio de que possam determinar accidentes. Considera o processo de Fõrster bom recurso, que pôde dar resultados favoráveis, porém provoca também por vezes accidentes graves. Neste processo vô um grave inconveniente : a iridectomia. A maturação das cataractas póde ser produzida simplesmente, póde ser feita simplesmente pela massagem do crystallino, sem necessidade de recorrer á iridectomia. Costuma promovera mituração pelo seguinte modo: puncciona o crys- tallino para dar sahida ás massas corticaes, e em poucos dias, seis ou oito, tem-se a opaciflcação dessas massas. Por este processo tem provocado a ma- turação de muitas cataractas sem o menor inconveniente, sem a menor irri- tação quer da iris, quer mesmo sem ter observado o menor augmento da tensão iutra-ocular. Ha cerca de quatro annos, em um advogado da província do Ceará, prati- cou esta operação ; fez uma pequena puncção da capsula anterior, e em dez dias estava totalmente opacilicado o crystallino ; procedeu então á extracção da cataracta sem o menor accidente, sem a minima irritação e sem ter necessi- dade de excisar a iris. Considera hoje um crime fazer-se iridectomia nas ope- rações de cataractas, desde que não sejam complicadas. Substitue esta pratica injustificável pela simples puncção do crystallino. O Sr. Dr. Hilário de Gouvèa confessa commetter quasi diariamente esse crime, do qual espera ser absolvido pelo bem que faz aos seus doentes, Raras vezes pratica a extracção de cataractas sem iridectomia, e o mesmo crime commettem os maiores vultos da ophthalmologia moderna, inclusive mesmo o Sr. de Wecker, taes como Jacooson, Fõrster, Sattler, Hirschberg, Leber, Otto Becker, EI. Meyer, etc.; os próceres emíim da ophthalmologia. Acceita ainda, e na mesma ordem, como mandamentos da cirurgia os tres advérbios de Celso, dos quaes dous dizem respeito ao bem-estar do doente e o terceiro â esthetica ; são estes: tuto citó e joeunde. Como clinico, em primeiro logar attende ao tuto; citô perdeu sua importância com a anesthesia ; quando tudo não se puder conciliar, a esthetica deve ser a sacrificada. Quando se intenta fazer systemathicamente a extracção das cataractas sem a iridectomia, muitas vezes se observam prolapsos da iris, que se vêm a excisar posterior- mente, a menos que não se ligue importância á adherencia da iris com a cornea, o que, como todos sabem, constitue sério perigo, que fez abandonar o melhor processo de coremorphose sob o ponto de vista optico: a iridodesis. A proposito do processo de Fõrster, não vè onde estão os graves incon- (*) Resultat ciniger Versuohe veber fílaskórperáblôsung in Folge von Glas- hórpcrvcrlust. Arch. furOphth. 1863, B. XV, Abth. 1. venientes de que falia o Sr. Dr. Moura Brazil, sem especificai-os. De Wecker, que revela má vontade contra o processo de Fõrster, não cita um só caso do accidente grave, e até lioje ninguém os archivou. Passa depois a analysar o processo dq puncção restricta ou limitada, de que se serve o seu illustre collega Sr. Dr. Moura Brazil, e mostra que, á parte a impropriedade do termo puncção, esse processo é o da discisão simples, ope- ração ha muito condemnada por todos ; appella para os dados fornecidos pela anatomia e physiologia pathologicas, e, lembrando os trabalhos do professor Lebor, de Goettingen, mostra a maneira por que uma pequena abertura capsu- lar pôde obliterar-se à custa de hypergenese epithelial, e impedir o accesso de humor aquoso a toda a cortical. Esse processo nem mesmo tem, em relação á elFicacia, o valor do preconisado pelo Sr. Dr. David Ottoni, que combateu por perigoso. O Sr. Dr. Neves da Rocha teve já occasião de empregarem Campinas o processo de Fõrster em dous casos de extrema lentidão de opacilicação do crystallino, obtendo optimo resultado ; em nenhum destes casos observou acci- dentes. Pensa que a iridectomia ó uispensavel para a maturação ; experiencias feitas por Gunning deAmsterdam, Renaldo de Buenos-Ayres, provam que só a paracenthese dá os mesmos resultados que a iridectomia. E’ de opinião que a maturação artificial das cataratas é sempre indicada, desde que o doente desejal-a. O Sr. Dr. Moura Brazil diz que terá de apresentar ao Congresso uma nota sobre processo de extracção de cataractas ; por occasião de sua leitura discutirá o valor da iridectomia. Limita-se agora a referir os factos que lhe acodem á memória, alguns referentes a homens geralmente conhecidos, nos quaes empregou para a maturação artificial a puncção do crystallino, sem accidente algum, sem motivar adherencia da iris. Appella para o seu amigo e collega Dr. Guedes de Mello, que o viu por estafórma operar mais de uma vez. O Sr. Dr. Guedes de Mello vem confirmar as asserções do Sr. Dr. Moura Brazil referentes á maturação artificial das cataractas pelo processo da puncção do crystallino ; praticou algumas vezes este processo e viu outras muitas realizado pelo Sr. Dr. Moura Brazil, sempre sem accidentes. Todavia acredita que não seja innocuo em todos os casos ; desde que a puncção fôr um pouco extensa poderá motivar inconvenientes. O Sr. Dr. Pereira da Cunha, começa definindo o que é puncção ; que todo o ferimento da capsula crystallineana é uma discisão, sendo para isso indiffe- rente a extensão desse ferimento. Desprezando, porém, a questão de palavra, pronuncia-se contra a pretendida puncção, porque, ou ó insignificante e superficial e póde cicatrizar logo, como provou Leber, ou, sendo mais extensa a discisão e extremamente retráctil a capsula, não se póde dosal-a exacta- mente, arriscando-se à imbibição tumultuaria das fibras crystallineanas e a accidentes glaucomatosos, que exigiriam iridectomia e extracção incontinente, quando ainda nem todas as fibras se acham opacificadas e não haja critério para julgar-se da limpeza do campo pupillar. O processo de Fõrster só póde trazer luxação do crystallino, quando feito muito brutalmente. Reserva-se para em occisião opportuna discutir o melhor processo de extracção das cataractas. O Sr. Dr. J. SANT’ANNA lê : Da ophthalmia dos recem-nascidos no Brazil e do seu tratamento prophylactico Como parteiro e portanto sendo o immediatamente responsável pela Saúde dos recem-haseidos propuz esta these, para ser discutida de um modo correlativo no nosso primeiro Congresso de cirurgia e medicina muito certo de que melhor occasião não se me poderia deparar, porquanto cada um dos membros do Congresso poderá contribuir com o contingente de suas obser- vações no tocante á freqUencia e á gravidade da moléstia entre nós, á influen- cia de nossos hábitos e flnal mente aos meios prophylaticos que têm sido empregados. Para encarecer esta questão, basta dizer que na Europa mais de um terço das causas da cegueira é attribuida á ophthalmia purulenta dos recem-nascidos, cujas victimas se computam em 100.000 ; por isso, de algum tempo a esta parte, tem sido a prophylaxia desta moléstia uma das constantes preoccupações dos ophthalmologistas e principalmente dos tocologos. Para melhor orientação dos debates, peço vénia para apresentar um resumo do estado actual da questão no estrangeiro. Dous methodos prophylacticos porfiam pela preferencia ; um, a que cha- marei directo, consiste em instillar collvrios antisepticos nos olhos do recem- nascido ; outro, que denominarei indirecto, cifra-se em fazer lavagens an- tisepticas da vagina durante o parto e dias antes do trabalho. Afim de evitar prolixidades inúteis, tão sómente me referirei aos pro- cessos principaes. O processo de Credé é o mais notável, reduz-se a deitar uma gotta de uma solução aquosa de nitrato de prata a 2 % em cada um dos olhos do recem-nascido, logo que este sahir do primeiro banho. Credó, a principio, assim procedia sómente para com os filhos de mulheres atacadas ou suspei- tadas de blenorrhagia ; mais tarde, porém, generalisou o seu tratamento prophylactico a todos os recem-nascidos, visto a diíiiculdade de se fazer um diagnostico seguro na pratica ordinaria. Este processo foi rapidamente divulgado por toda a Allemanha e, gra- ças ao seu emprego, a frequência da ophthalmia, que na média era de 12 °/0, desceu a 1 %, e em algumas maternidades a moléstia desappareceu com- pletamente. Outro processo, a solução aquosa de sublimado corrosivo a 1.1000%, para loções dos olhos do recem-nascido, esteve muito em voga na clinica obstétrica de Berlim durante o anno de 1883. Dentre 956 recem-nascidos, assim tra- tados, sómente seis tiveram a ophthalmia. Em outras clinicas o sublimado deu resultados bastante notáveis para o collocar em competência com o nitrato de prata ; todavia quasi todos os parteiros optam hoje pelo processo de Credé, fundados em razões que passo a expender: A solução do sublimado tem-se assignalado por indubitáveis successos, não obstante, as provas de sua efficacia não são tão numerosas como as da so- lução do azotato de prata, e accresce aiuda que sua manipulação ó um tanto perigosa. As experiencias de Kreis demonstraram, é certo, que uma Solução de nitrato de prata a 1 % e outra de sublimado a 1:10.000 impedem a vegetação dos gonoccoci; isto posto, pareceria indiíYerente que o li- quido0 para as instíllações fosse composto de qualquer destes agentes ; as referidas experiencias, porém, discriminaram a propriedade que tem o ni- trato de fazer contrahir as collulas invadidas pelos gonococci, de sorte que estes, fugindo do núcleo delias, são logo atacados pelo sal de prata ; demais, em virtude da causticidade deste, fórma-se na superfície da conjunctiva uma eschara capaz de se oppôr a que os gonococci escapos penetrem de novo no interior dos tecidos para alii repulliilarem. Estas qualidades pri- vilegiadas não as possue o sublimado. Quanto aos processos indirectos, alguns parteiros e oculistas consi- deram-os como perfeitamente sufficientes : Charpantier aconselha duas lavagens vaginaes por dia, feitas com uma solução aquosa de sulpliato de cobre a 1 %, não só algum tempo antes, como durante o parto. Galezoicski recommenda as injecções e pulverisações phenicadas das partes genitaes durante os últimos momentos do trabalho. No Congresso dos Médicos Allemães, havido em Berlim no mez de Setembro de 1886, Cohn, depois de ter estabelecido um confronto entre os resultados alcançados pela anti- sepcia rigorosa durante o trabalho e as instíllações preventivas, decidiu capitulando estas ultimas de supérfluas. Também no congresso dos gynecologistas allemães, que teve logar em Munich no mesmo anno, Kaltenbacli referiu que em 200 partos apenas se limitou a fazer lavagens vaginaes com uma solução de sublimado 1: 1000 e a lavar os olhos dos recem-nascidos com agua distillada, que nesta serie não teve a lamentar um unico caso de ophthalmia. Na discussão que seguiu-se a esta communicação, muitos dos membros do Congresso impugnaram este processo como insufficiente, allegando que as lavagens, embora meticulosamente feitas, nunca poderiam arrastar com- pletamente todos os gonoccoci refugiados nas numerosas pregas da vagina, o que por muitas vezes foi verificado por Iirõner. Este autor sempre encontrou grande cópia de gonoccoci na vagina de mulheres, que por largo tempo estiveram sujeitas a este tratamento. Tenho para mim que, para assegurar os eífeitos das lavagens, muito conviria reiteral-as, o que arrastaria as mucosidades, que lubrificam o canal genital ; por consequência, a expulsão do feto havia de tornar-se mais prolongada, estabelecendo, portanto, uma das causas predisponentes da ophthalmia. Não ha negar que as lavagens anti-septicas têm produzido alguns be- nefícios ; porém, segundo se deprehende de uma estatistica de Bayer, a proporção da ophthalmia tão sómente desceu de 22 a 14 e a 120i°. E’ indubitável que o processo de Credé é o que tem reunido maior numero de suffragios ; não obstante, a generalisação, que lhe deu o seu autor, repugna ainda a alguns parteiros. Os proprios defensores deste tratamento prophylactico confessam que a solução do nitrato de prata provoca ás vezes certo grão de irritação das conjunctivas e um pequeno corrimento muco- purulento ; explicam, porém, que estes phenomenos coincidem sempre com o exagero das instillações. Barnes, na ultima edição do seu notável tratado de partos, muito apre- ciado pelos especialistas, qualifica de barbaro o methodo de Credé, refere que assistiu ao parto de uma senhora, completamente isenta de corrimento suspeito, não obstante, o filho contrahiu a ophthalmia, apezar ainda cie ter vindo ao mundo envolto no sacco amniotico absolutamente intacto ; também conta que se tem observado a ophthalmia em crianças que foram extrahidas pela operação cesariana. Este illustrado parteiro, sem negar que em alguns casos a causa da moléstia seja o corrimento gonorrheico, opina, entretanto, que na maioria cumpre procurar o germen do mal nas esponjas e roupas do uso da criança, ou mesmo nas mãos do parteiro ; aconselha, por isso, a desinfecção das esponjas e meticuloso asseio em tudo quanto deva ser utilisado pelo recem-naseido (pag. 454). Um dos meus primeiros cuidados, quando cheguei da Europa em meiado de 1884, foi indagar de alguns collegas parteiros, que aqui clinicaram havia mais tempo, o que pensavam a respeito da prophylaxia da ophthalmia pu- rulenta dos recem-nascidos ; das minhas inquirições vim a saber que a ophthalmia dos recem-nascidos não era aqui muito frequente, que só excepcio- nalmente apresentava gravidade, não se fazendo mister por isso uma prophylaxia energica. Ultimamente, em conversa com o Sr. Dr. Feijó, tive noticia de que no seu serviço obstétrico na Santa Casa da Mesericordia têm havido diversos casos de ophthalmia, porém cedendo todos ao tratamento instituido, tendo ficado cega apenas uma criança, deplorável occurrencia devida a motivos especiaes. O Sr. Dr. Érico franqueou-me o livro das observações obstétricas do seu serviço na mesma Santa Casa ; d’alii colhi uma serie de 108 partos, contando sómente com os recem-nascidos que vingaram ; deram-se 12 casos de oph- thalmia purulenta; as crianças todas sahiram curadas do hospital, depois de terem sido submettidas ao tratamento clássico. Declararam-me estes dous distinctos parteiros que nunca usaram de tra- tamento prophylactico ; sómente o Sr. Dr. Erico informou-me que, em casos de mulheres suspeitadas de blenorrhagia, instituia lavagens antisepticas da vagina nos dias proximos ao parto. No tocante às minhas observações na clinica civil, excluindo os casos em que extrahi fetos já sem vida, e os em que perdi de vista as crianças, sómente tenho á aprensentar uma pequena série de 48 partos ; nesta serie, seis crianças tiveram uma inflammação conjunctival tão benigna que em poucos dias cedeu a um simples collyrio de agua distillada e acido borieo na proporção de 2%; por ííso, não capitulei a affecção de oplithalmia purulenta; é verdade que não fiz o exame pelo microscopio das secrecções patholcgicas, mas é preciso convir que este genero de pesquizas nem sempre quadra á clinica civil. Sómente em um caso pratiquei o processo de Credé, foi em uma criança, cujo pai me confessara que pouco tempo antes do seu casamento contrahira uma agudissima blenorrhagia. Não se deu a oplithalmia. Embora esteja muito convencido da efficacia do processo de Crede, todavia o reservo sómente para os casos confessos ou suspeitados de blenorrhagia, e quando ao mesmo tempo houver demora do parto ; fóra destas condições, limito-me a fazer loções nos olhos do recem-nascido com um pouco de agua morna, tão rapidamente quanto me é possivcl, logo após a sua expulsão. Utiliso-me para esta pequena intervenção do algodão phenicado ; aconselho, emlim, a separação completa de todos os objectos do serviço da criançae dos que petencem á puerpera. Procurarei justificar com algumas considerações o meu modo de proceder. As estatisticas são concordes em que a ophthalmia purulenta dos recem- nascidos é muito mais frequente nos hospitaes do que na clinica civil; ora, se a causa da moléstia é o cjonocoocus, como todos conhecem, não encontro motivo para que elle seja màis nocivo n'uma maternidade do que nos domi- cilios privados ; por quanto, o coccus blenorrhagico ataca com a mesma viru- lência tanto a urethra do rico como a do pobre. Isto posto, acredito que a difflculdade de se manter um rigoroso asseio nas enfermirias e nos uten- silios usados pelos recem-nascidos, entra como grande factor na produção da moléstia. Em outras palavras, sómente pelo contagio ou infecção ulterior se poderá explicar a grande proporção da ophthalmia puru- lenta na clinica nosocomial; se fôr assim, o que avantaja a prophylaxia sys‘ematica ? Acode-me outra reflexão : a blenorrhagia no homem é tão commum, pelo menos no Rio de Janeiro, que, se poderá applicar ao casoaquelle celebre dito de Ricord, que é bastante conhecido para que me dispense de repetil-o; junta-se á frequência da moléstia a sua curabilidade, hoje controvertida por alguns especialistas abalisados, haja vista a desanimadora opinião de Noeggrath : para este autor, a blenorrhagia nunca se cura e quando possa curar-se é porque tornou-se 1 ittente; por isso, adduz ainda, nos Estados-Unidos, as moças temem o estado conjugal, por saberem que todas as suas conhecidas flciram doentes desde a época do casamento. Para Noeggrath, a causa destes incommodos é a infecção gonorrheica determinada pelos maridos. Se me affigura exagerado este modo de ver ; creio que, com os processos modernos de tratamento, o mal é debellado na maior parte das vezes; entretanto, é preciso convir que entre nós os indivíduos aíTectados desta moléstia procuram de preferencia as medicações improíicuas e banaes ; ha por este motivo um grande numero de blenorrhagicos, que se casam sup- pondo-se curados ; todavia, a porcentagem da ophthalmia virulenta é pequena em comparação com a frequência da blenorrhagia; como explicar este desencontro? Não terá, até certo ponto, razão de ser a velha idéa de Yelpeau e Yidal, os quaes, baseando-se na circumstancia do feto nascer com os olhos fechados, não admttiam o contagio realizado na passagem pela vagina ? Formularei ainda outra duvida, que muito desejaria arredar do meu espirito: será a ophthalmia purulenta dos recem-nascidos tão rapidamente grave ,que o medico não possa jugulal-a logo que ella se accentue ? E’ muito provável que labore em erro, mas, das minhas leituras, das commu- nicações verbaes de alguns collegas e das minhas observações, embora min- guadas, sou levado a concluir que a cura da moléstia constitue a regra geral. Pelo que respeita ás causas da cegueira no Brazil, disponho apenas de uma pequena estatística : devo-a á gentileza do IUm. Sr. Dr. Benjamin Constant, direotor do Imperial Instituto dos Cegos. Matricularam-se neste estabelecimento, até a data de 24 de Agosto ultimo, 128 cegos, 30 destes (cerca de 29 %) tiveram a ophthalmia dos recem-nascidos. 49 O Sr. Dr. Correia Bittencourt, em artigos publicados no Brazil Medico de 1886, referindo as suas viagens pelo Norte do Brazil, conta que 48% dos cegos por elle examinados deviam sua desgraça á ophthalmia dos recem-nascidos. Destes dous documentos resulta pequeno ensinamento, porquanto no Instituto dos Cegos existem muitos filhos de proletários. Ora, nós sabemos que as classes populares têm 0 máo veso de sómente procurar os recursos da seien- cia, depois de desilludidos das suas praticas absurdas, a que denominam remédios caseiros ; não é por conseguinte sophismar que as funestas conse- quências da ophthalmia poderiam ser evitadas por meio de tratamento opportuno e conveniente. O proprio Sr. Dr. Bittencourt declarou que no Norte 0 povo tem por habito empregar a urina em fermentação para 0 tratamento da ophthalmia ; é des- necessário insistir que semelhante selvageria será capaz até de determinar a moléstia em um individuo são. Em resumo, a julgar pelos últimos Congressos havidos, e pelas recentes monographias sobre 0 assumpto, 0 processo de Credé tem de continuo conquis- tado as mais francas adhesões ; e de tal sorte acha-se hoje firmada na convicção da maioria dos práticos a proficuidade deste processo, que os governos de certos paizes, como da Austria-Hungria eda Allemanha, bem avisados pelos fa- cultivos, tomaram a si a tarefa de propagar e até de tornar obrigatorio 0 trata- mento prophylatico pelo processo de Credé. CONCLUSÃO Será no Brazil a oplitlmlmia virulenta dos racem-nascidos tão frequente e tão rapidamente funesta que torne-se necessária a generalisação do processo de Credé? O Sr. Dr. Hilário de Gouveia diz que, quando cogitou de apresentar um trabalho a este Congresso Geral de Medicina e Cirurgia, o seu primeiro pen- samento foi escrever sobre a these que ora se discute, a qual, pela sua importância, merece preferencia sobre qualquer outro ponto da especia- lidade, sendo que pensa que nenhum poderá promover benefícios immediatos superiores. Julga conveniente esclarecer todos os pontos referentes á questão, de modo que cada um dos membros do Congresso saia com perfeito conhe- cimento de matéria e armado de um meio quasi infallivel e facil de prevenir a causa mais frequente da cegueira. Antes de entrar em outras minudencias, diz exigir também o methodo de Credé a anti-sepcia mais rigorosa antes do parto, como também depois, por lavagens anti-septicas da vagina, da face e das palpebras da criança, applicação de compressas anti-septicas durante 24 horas sobre as palpebras das crianças, tendo estas ultimas applicações por fím prevenir infecções post partum, ao passo que a instillação da solução de 2 °/o do nitrato de prata 11a conjunctiva só tem por objecto a desinfecção conjunctival. Não está de accordo com 0 Sr. Dr. SanCAnna em relação á etiologia da moléstia. Desde 0 principio deste século que 0 celebre Frederico Jáger provou que os simples corrimentos brancos podiam produzir conjunctivites purulentas, 0 que tem sido confirmado por todos, e é hoje corrente ; ainda mais, 0 pro- fessor Sattler, notável bactereologista, examinando os lochios de mulheres 50 que nunca tinham soflTido de corrimento algum, encontrou nelles o mesmo gono- coccus da blenorrhagia, e verificou por experimentação a virulência desses lochios, o que parece indicar que esse coccus, existindo normalmente na vagina, multiplica-se e ganha condições de virulência em circumstancias especiaes, e por isso aconselha a generalisação do processo de Credé, e como comple- mento propõe a separação das crianças das maternidades. O Sr. Dr. Neves da Rocha diz que dos dous agentes que disputam a pri- mazia no tratamento prophylactico da conjunctivite purulenta, o acido phenico e nitrato de prata, dá preferencia a este ultimo, que apresenta estatistica mais favoravel. Termina propondo que se torne obrigatorio o methodo de Credé. O Sr. Dr. Rodrigues Lima julga não estar ainda resolvida a questão da prophylaxia da ophthalmia dos recem-nascidos. Acredita que o methodo de Credé é antes curativo do que prophylactico, e suppõe que ao tratamento anti-septico cabe a preferencia, e attribue os successos desse methodo á anti- sepcia vaginal pelo sublimado e outras substancias. Para o orador o methodo de Credé, longe do ser vantajoso, é perigoso, porque pôde promover uma irritação e inílammação grave dos olhos, mais grave mesmo do que o mal que pretende evitar. O Sr. Dr. Guedes de Mello applaude a iniciativa do seu illustre collega o Sr. Dr. SanfAnna, e deseja que o Congresso formule preceitos completos para serem vulgarisados, po;s essa moléstia é a mais frequente das causas de cegueira ; lembra que a infecção póde ser devida, não só âs causas jà ex- postas, como também e secuudariamente ás esponjas, ás mãos impuras da parteira, da parturiente, etc. Julga indispensável a generalisação do methodo, porque, baseando-se em uma estatistica de Mackenzie, acredita que tanto as vaginites blenorrhagicas, como as vaginites chronicas, purulentas ou catar- rhaes podem vir a ser causa da conjunctivite purulenta dos recemnascidos. Estando esgotado o tempo destinado ã primeira parte da ordem do dia, e havendo ainda oradores inscriptos, é o assumpto adiado para a segunda parte da ordem do dia da sessão seguinte. O Sr. Dr. ALVARO ALBERTO lê: Tratamento da febre amarella Das numerosas theses que o Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia propoz-se discutir, nenhuma interessa, especial mente ao clinico brazileiro, mais do que esta: o tratamento da febre amarella. Aqui, como alhures, deve ter o seu programma a therapeútica. Qual deve ser esse programma ? Pois que se trata de infecção microbiana, a primeira idéa que ao thera- peuta acode é naturalmente livrar do infectante o infeccionado, matar o microbio ou, pelo menos, impedir-lhe a pullulação. Será exequível esse plano ? Convenho em que matar o microbio sem matar o doente ha de ser difficil; mas será isso indispensável ? Não, a therapeutica anti-septica deve contentar-se com obstar á multiplicação dos microbios ("Bouchard) (1) ou fazel-os mudar de funcção. E’ neste caso, ao terreno, ao (1) Bouchard, Auto*intoxioations, pag. 213# meio constituído pelo organismo infectado que nos devemos dirigir. A esse meio tem o microbio de manter-se constantemente adaptado, para delle poder viver. Ora, tal adaptação não é possível sem que o pequeno ser acompanhe as modificações do organismo, modificando-se também. A toda alteração ma- terial deve por força corresponder alteração funccional: logo, para livrar o homem da acção maléfica da bactéria, bastará forçar esfultima a mudar de vida, mudando a constituição do primeiro. Depende do meio de vida o modo de viver. Dous methodos se offerecem para a anti-sepcia : a pharmacotherapia e a bactereotherapia. Qual delles preferir ? Sem duvida nenhuma, o que mais promette é o primeiro ; mas cumpre reconhecer que as tentativas bactereo- therapicas de até esta hora, se não têm sortido o effeito desejado, comtudo permittem suppôr que, na febre amarella, como nas outras infecções, o novo methodo, aperfeiçoado, póde bem ser corôado de bom exito. Pouco significam contra a bactereotherapia os insuccessos dos seus pri- meiros ensaios; porque a principal das condições de feliz exito, a condição de terreno, tem sido até aqui mal preenchida. De facto, outros e mais va- liosos hão de ser os resultados therapeuticos, se, ao lançar no organismo a bactéria encarregada de luctar pela cellula organica contra o microbio pa- thogeno, conservar-se o terreno da luta nas melhores condições para a bactéria e nas peiores, se possível, para o microbio. Neste caso, realizadas as duas ordens de condições (as favoráveis ao bom e as contrarias ao máo microbio), o processo curativo será mixto: attingirá o mesmo fim por mais de um meio, e então serão augmentadas as probabilidades de victoria. Para exemplificar, supponhamos que a quinina, quando em dissolução nos liquidos orgânicos, diminue a vitalidade do microbio da febre amarella, mas continua a ser optimo alimento para certa especie, que floresce nos seus so- lutos concentrados: é claro que, se se escolhesse esse microbio da quinina para defender do da febre amarella a cellula organica, nada será mais util, para não dizer indispensável, do que manter o organismo infeccionado con- stantemente saturado de quinina. Muito, pois, se deve esperar -da pharmacotherapia anti-septica ; também da bactereotherapia. Mis sómente muito, e não tudo : se nada esperar do novo methodo curativo e desprezal-o é censurável, não menos o é que se exagerem, como se vão exagerando, a*s tendências, aliás plausíveis, da therapeutica moderna, constituindo a anti-sepcia, a perseguição do microbio, em verdadeira idéa fixa de therapeutica delirante. O microbio é alguma cousa, sem duvida ; mas está longe de ser tudo. Nem mesmo é o principal. O principal é a substancia toxica que o parasita introduz no organismo. Com effeito, o microbio, que é ser parasitario, deve actuar como todos os parasitas, como a filaria no sangue, a trichina no musculo ou o anchylostomo no intestino, propinando toxicos á victima, além de lhe roubar nutrimentos. Não é a bactéria que é a moléstia, e sim a intoxicação de que aquella ô causa, — intoxicação que póde sobrexistir á bactéria, e até passar a ser cau- s ida pelo cada ver do parasita. E’ a uma intoxicação que, em ultima analyse, se reduz a infecção micro- biana ; ella é passivel, portanto, de tratamento pelos anti ou contra, isto é, pelos antidotos ou contravenenos. O ideal do clinico é o remedio nosocratico ; pois bem, não deixará de ser nosocratico o tratamento, se, em vez de anti-septico fôr antidotico. Agora, será possível algum dia determinar o antídoto de cada infecção ? Assim o promette a chimica biologica, de que tudo é de esperar. Por emquanto, infelizmente, dos nosocraticos da febre amarella, nem o empírico, ao menos, isto é, o especifico se conhece. Pelos methodos etiologico, pathogenico e especifico, nada se consegue, pois. Não sabe-se como cortar o mal pela raiz. Que fazer, á vista disto ? Seguir o methodo especifico quand mème ? Dirigir-se pelo espectante, limi- tando-se á espectação ? Tanto um como outro alvitre são extremos perigosos; mas, como breve se verá, o primeiro, que é o requinte do empirismo, expõe a muito rnais do que o segundo. E’ este um conceito sempre verdadeiro, qualquer que seja o nome da moléstia. Todavia é justamente o especifico, o methodo therapeutico mais geralmente seguido. E’ o methodo dos formulários. As moléstias ahi se chamam especies nosologicas, e, como constituem entidades mórbidas independentes do doente, todas as da mesma especie são passiveis de tratamento invariável. A receita com que um curou-se deve por força curar todos : eis o absurdo enorme a que conduz o velho ontologismo, cuja tolerância muito deve admirar hoje, que não é mais tempo de superstições. As moléstias, disse Bordeu, ha muito tempo ; as moléstias não são seres, porém sim modos de ser. Como asaude, que éa vida do bem organisado, a moléstia é simplesmente um modo de vida, — a vida do mal organisado. A vida é uma vasta série de transformações inter-dependentes, harmo- nicamente realizadas em um meio especial, — o organismo. Traduz-se a inter-dependencia dessas transformações na influencia que pelos seus pro- ductos materiaes e effeitos dynamicos ellas exercem umas sobre as outras ; e, quanto ao meio especial, que se diz organizado, as suas condições, tão physicas o chimicas como quaesquer outras, não se especialisam senão pela harmonia e solidariedade sympathica que permittem entre as reacções que ellas próprias determinam. E’ o encadeamento dessas transformações o que essen- cialmente constitua a saude ; e é para garantil-o nas superfícies de grande extensão e actividade que nos seres superiores funcciouam dous appa- rellios: o circulatório, distribuindo os materiaes, e o nervoso as forças organicas. Por intermédio desses dous apparelhos mantem-se o meio orgânico constantemente em relação com o exterior ; de sorte que pela circulação e a innervação podem os reagentes chimicos e agentes physícos deste meio actuar a todo instante, como actuam, sobre a chimica e a physica do primeiro. Nadaé mais variavel do que tal acção. Pôde ser normal ou anormal, e, neste caso, perturbar mais ou menos profundamente a economia. Se ó branda, embora rapida, ou é lenta, embora um tanto profunda, pouco ou nada succede, na apparencia : o organismo modifica-se, mas continua a viver sadiameute, posto que de outro modo, — melhor ou peior, com mais ou menos saúde do que dantes. Se, porém, é brusca e por demais heterogenea, se afastando notavel- mente daquella para que estava preparado o organismo, a consequência ó que as condições materiaes e dynamicas do meio orgânico transtornam-se a ponto de, em extensão considera\Tel, dar logar a reacções discordantes, não susceptiveis do geral encadeamento caracteristico do estado de saude. Mani- festa-se então ruidosamente a modificação do organismo; desarranja-se a mecanica das funcções, e assim fazem-se ver os eífeitos da intoxicação, — os symptomas da moléstia. Supponliamos que nenhuma outra acção exterior vem contrariar antidoti- camente a causadora da moléstia; mas que o toxico ( oriundo do proprio organismo, se é pliysico o agente etiologico) não reage em proporção excessiva sobre o principio para o qual tem affinidade; e que as reacções deutheropathicas ou sobrevindas por acção material ou dynamica da inicial também se dão em pequena escala:—o organismo, fazendo por adaptar-se ãs condições que se lhe impõem, pôde então sahir-se victorioso de tal luta, livrando-se dos materiaes incompativeis, cujo conflicto anormalisa-lhe a vida, embora sujeitando-se a ficar sem o que tinha e com o que não tinha (em vida latente ou não ) embora sujeitando-se a adoptar novo modo de existir e consequentemente nova ma- neira de viver. O ser organisado pôde soffrer modificações profundas em sua composição, sem comtudo deixar de ser vivo, desde que taes modificações não lhe attinjam a organisação:—como a molécula isolada pôde mudar de composição sem mudar de funcção, desde que não se lhes altere a organisação, quer dizer — a constituição chimica. E’, pois, realidade a força medicatriz da natureza. A natureza do ser vivo, porém, natura naturata, nada mais é do que um conjunetode condições physicas e chimicas como quaesquer outras deste mundo, constituindo um meio particular, que ellas próprias se encarregam de conservar indepen- dente, até certo ponto, do meio exterior. Quer isso dizer que, além da medicatriz, ha nos seres vivos a força conservadora, faculdade interessantíssima, em cujo conhecimento se tem a chave da explicação de phenomenos como o enxertamento, a hereditariedade a esterilisação vaccinica e a fertilisação do organismo para certas moléstias, para os respectivos microbios. De facto, uma vez effectuada a modificação adaptadora, consecutiva á moléstia, o organismo tende a conserval-a, segundo as affinidades da sua nova composição ; e esse íim é attingido, se a tal não se oppõe o meio am- biente deixando de satisfazer aquellas affinidades como no momento da ada- ptação, ou exercendo sobre o systema uma acção que, talvez anteriormente inoffensiva, venha a ser na actualidade pathogenica. Não ó a força conservadora senão a resultante das repulsões e electivi- dades com que as condições do meio orgânico fazem-o reagir sobre as do exterior. E’ de conformidade com a sua constituição physico-chimica. actual que cada organismo actua sobre o meio ambiente, aceitando sem conflicto o que não lhe é heterogeneo ou improprio para a sua organisação particular — como um núcleo crystallino reune em torno de si os isomorphos. Duas forças defendem, pois, os seres vivos da desorganisação: a medi- catriz e a conservadora. Mas a força medicatriz não é senão a faculdade de adaptação: por conseguinte, em vista do exposto, pôde-se affirmar que a moléstia é uma verdadeira luta de adaptação, em que o favorecido é sempre o organismo, pela elasticidade da saude. Ora, se assim é, comprehende-se agora quão perigoso não ha de ser o cego empyrismo dos formulários, que, fazendo ingerir medicamentos a torto e a direito, nunca simplesmente inúteis, mas sòmente ou uteis ou prejudi- ciaes, — pôde muitas vezes não servir senão para augmentar a afflicção ao afflicto, isto é, para difficultar a adaptação do organismo. Pelo mesmo motivo também 'se comprehende que não menos perigoso deve ser o methodo symptomatologico, se imprudentemente exagerado, como o ó tantas vezes no tratamento do typho icteroide. Com effeito, não é raro ver no tratamento symptomatologico dessa moléstia a morphina em dóse de favorecer a anuria ; o acido salicylico em dóse de favorecer a albumi- núria; a pilocarpina em dóse de provocar a adynamia cardíaca... Moderadamente applicado, o methodo symptomatologico é um dos mais uteis, sem duvida, e até indispensável; mas, na febre amarei la, de todos os methodos therapeuticos, o que offerece resultados mais seguros, isto é, não conjecturaes, mas determinados pela experiencia, é o methodo naturista. Facilitar a adaptação do organismo secundando a natureza, isto é, favore- cendo ou provocando os movimentos orgânicos salutares que fôr possivel provocar, eis o fim desse methodo curativo. Se a moléstia é uma luta de adaptação, não pôde elle deixar de ser proveitoso ; pois que facilitar a adap- tação do organismo deve ser tanto como facilitar-lhe a cura da moléstia. Na febre amarella, um dos passos mais apreciáveis do organismo para a adaptação é o abaixamento da temperatura ao terceiro dia, no segundo pe- ríodo da moléstia ; tem aqui applicação, portanto, o methodo naturista, pois que, além de racional, é, felizmente, possivel promover tão benefica remissão da febre, embora por processo cuja identidade com o natural se ache por provar. O meio para isso é a quinina. E’ realmente notável a acção desse alcaloide na febre amarella, quando administrado, não no segundo período, impropriamente denominado periodo de quinina, mas logo no começo da moléstia, desde que ella faz-se suspeitar: a temperatura desce ao entrar o segundo periodo, mas tão sensivelmente influenciada pelo medicamento, que desce bruscamente, parando quasi sempre abaixo da normal, a 36°,5 e até a 36°,0. A consequência dessa grande remissão artificial ó a mesma que a da remissão natural de intensidade maxima: convalescença immediata, ou ter- ceiro periodo de extrema benignidade. Fundamentam esta asserção não poucas dezenas de factos observados sobretudo em 1886, por occasião da epidemia de febre amarella, que deu-se nessa época no curato de Santa Cruz. Nessa epidemia, todos os meus doentes foram tratados pelo mesmo me- thodo therapeutico, methodo mixto, consistindo em anti-sepcia do tubo diges- tivo, eliminação do toxico amaril pela diaphorese e diurese, e intensão da remissão natural da febre. Para a anti-sepcia, era escolhido o calomelanos; para a diaphorese e diurese, calor e agua, auxiliados pela pilocarpina (aos milligrammas) e aconitina ; e finalmente, para o effeito anti-thermico, o salicylato de quinina, em dóses superiores a 1,0 em 24 horas. Pois bem, o resultado desse tratamento foi o seguinte: todos os doentes que a elle sujei- taram-se escaparam sem terceiro poriodo da moléstia ou com terceiro periodo extremamente benigno, constituido, quando muito, por febre, albuminúria, irritação gastrica, metrorrhagias,— tudo muito attenuado. Póde-se affirmar também que quasi todos os doentes que salvaram-se, na alludida epidemia, foram tratados segundo o methodo por que me guiei; e que quasi todos os que não foram tratados por esse modo (ou por não terem tido enfermeiro, ou por terem se entregado a curandeiros) soflfreram a mo- léstia em terceiro periodo, e à gravidade delle succumbiram. Como se vê, são bem satisfactorios os resultados práticos a que conduz o methodo naturista na febre amarella, auxiliado pelos methodos etiologico e pathogenico. Nã® são theoricos e problemáticos, como os que promettem estes últimos, que no entretanto, não obstante, convém não deixar de lado, sempre que não pareçam prejudiciaes. A pratica sancciona, pois, aqui a theoria, que, fazendo da moléstia uma luta de adaptação, conclue que a melhor medicina ó ainda hoje a prégada por Hyppocrates, a medicina physiatrica ou naturista, que tem por divisa: Quo natura vergit, eo conducendum. O Sr. Dr. Henrique de Sá diz que, tendo conhecimento das experiencias do Sr. Dr. Felicio dos Santos sobre a acção desinfectante e detersiva do glyco- borato de sodio e de sua innocuidade, mesmo em dóses elevadas, lembrou-se deempregal-o na febre amarella, cuja etiologia parasitaria acceita, de accôrdo com os trabalhos do Sr. Dr. Freire. Obteve tres successos em casos bem caracterisados e, animado por estes, empregou o mesmo tratamento em mais 22, todos seguidos de cura. Apresenta em seguida uma serie de obser- vações, nas quaes consigna 25 casos de cura, tendo, entretanto, tido alguns insuccessos (não diz quantos). As dóses, em que empregou o glyco-borato de sodio, foram de 12, 15 e 20 grammas diariamente, pela via gastrica, conforme a intensidade da moléstia, ou em injecções hypodermicas de soluções concen- tradas, não observando accidente algum inflammatorio. I. José Borges de Menezes, portuguez, de 24 annos de idad'e, vaqueiro, morador à rua do Visconde de Sapucahy n. 58, recem-chegado de Portugal. Teve accessos de febre intermittente regulares durante dous dias. No ter- ceiro dia apresentava face animada, olhos injectados, cephalalgia intensa, còr alaranjada das eonjunctivas palpebraes, olhar languido, rachialgia lombar, dôres nas pernas, temperatura axillar a 40*,2, lingua saburrosa, sêde ardente, anorexia, alguma anciedade epigastrica, mas ausência de nauseas e vomitos, dyspnéa, fígado e baço normaes, urinas sem albumina. Prescreveu o clássico diaphoretico e um purgativo oleoso, e depois dos competentes effeitos, o glyco-borato de soda sómente. A moléstia durou tres Eis os casos : dias apenas. Os phenomenos foram gradualmente dissipando-se, até o com- pleto restabelecimento. II. Joaquim Lourenço da Costa, portuguez, de 26 annos de idade, solteiro, vaqueiro, morador á rua do Senador Euzebio n. 212, chegado ao Brazil havia tres mezes. Curado com o glyco-borato de soda. Além dos phenomenos do precedente, teve albumina nas urinas, nauseas e epistaxis. Oito dias de moléstia. III. José Bento Solha Júnior, hespanhol, de 16 annos de idade, solteiro, caixeiro, morador á rua de S. Pedro n. 319, recem-chegado. Apre- sentou só phenomenos de embaraço gástrico febril, mas com albumina nas urinas e vomitos biliosos e rachialgia lombar. Temperatura 40 ♦. Curou-se em quatro dias. IY. Augusto Pinheiro Cerqueira, portuguez, de 13 annos de idade, sol- teiro, caixeiro, morador á rua de S. Joaquim n. 1, quinze dias de moléstia. Teve delirio, dysuria, vomitos côr de borra de café, do quarto dia em diante. Ao lado do glyco-borato de soda, dei medicação symptomatica. V. Antonio Soares Júnior, portuguez, de 21 annos de idade, solteiro, padeiro, morador á rua do Alcantara n. 32, chegado havia nove mezes. Dezesseis dias de moléstia. Teve icterícia generalisada e franca, delirio, albu- mina em grande quantidade nas urinas, epistaxis, linguasecca, vomito preto, intolerância gastrica. Ao lado da medicação symptomatica fiz injecções hypodermicas do glyco-borato de soda, ás quaes attribuo a attenuação gradual dos phenomenos e o seu desapparecimento. VI. Antonio Luiz Martins, portuguez, de 37 annos de idade,, casado, carpinteiro, morador á rua do Senador Euzebio n. 156, chegado havia um ann© ao Brazil. Cinco dias de moléstia. VII. Antonio Coelho Branco, portuguez, de 20 annos de idade, solteiro, caixeiro, morador á rua de S. Francisco da Prainha n. 31, Recem-chegado. Dez dias de moléstia. VIII. Manoel José de Assumpção, portuguz, de 24 annos de idade, solteiro, tanoeiro, morador no becco de Bragança n. 12, casa dos Srs. Pe- reira Dias & C.a Recem-chegado. Dezenove dias de moléstia, queattravessou os tres períodos, com todo o cortejo de symptomas, e na qual o orador teve de recorrerás injecções hypodermicas do medicamento, em consequência da intolerância gastrica. IX. Manoel Alves, portuguez, de 19 annos de idade, solteiro, tanoeiro, morador no becco de Bragança n. 12. Récein-chegado. Oito dias de moléstia. X. Antonio Corrêa da Silva, portuguez, de 36 annos de idade, casado, tanoeiro, morador no becco de Bragança n. 12. Chegado ao Brazil havia quatro mezes. Treze dias de moléstia. Teve grande albuminúria e urinas muito biliosas, lingua sêcca, retrahida e tremula, vomitos pretos, mas tolerava o medicamento pela via gastrica. XI. Manoel Pereira Ribeiro, portuguez, de 15 annos de idade, solteiro, caixeiro, morador á rua do Alcantara n. 32. Tinha dous annos de Brazil. Oito dias de moléstia. XII. Manoel Alves Martino, hespanhol, de 16 annos de idade, solteiro, caixeiro, morador á rua dos Andradas n. 67. Dezoito mezes de Brazil. Nove dias de moléstia. XIII. Antonio Maia, portuguez, de 22 annos de idade, solteiro, tanoeiro, morador no becco de Bragança n. 12, recem-chegado. Dez dias de mo- léstia. XIV. João Antonio da Silva, portuguez, de 27 annos-de idade, solteiro, caixeiro, morador à rua do Barão de Capanema (antiga de S. Leopoldo) n. 114. Estada no Brazil, 14 mezes. Sete dias de moléstia. XV. Antonia Alves Carneiro, portugueza, de 26 annos de idade, solteira, moradora á ladeira do Castello n. 10, chalet 12 X, recem-chegada. Injecções hypodermicas. Vinte e cinco dias de moléstia. XVI. Menino Alfredo, filho de Manoel José Machado, de 12 annos de idade, brazileiro, morador á rua do Jogo da Bola n. 4 (Morro da Conceição). Onze dias de moléstia. Teve dous vomitos pretos. XVII. Maria Luiza dos Santos, portugueza, de 32 annos de idade, sol- teira, moradora árua do Senador Pompeu n. 37, recem-chegada. Nove dias de moléstia. XVIII. Bartlet Dudley, norte-americano, de 35 annos de idade, casado, morador á rua da Imperatriz n. 49. Chegado havia dous annos ao Brazil. Seis dias de moléstia. XIX. Alfredo dos Santos Pereira, portuguez, de 25 annos de idade, solteiro, moranor à rua da Saude n. 82, recem-chegado. Quatro dias de moléstia. XX. José Maria de Carvalho, portuguez, de 28 annos de idade, solteiro, morador á rua da Guarda Velha n. 1 E, recem-chegado. Sete dias de moléstia. XXI. João Baptista de Mello, portuguez, de 24 annos de idade, solteiro, morador á rua de Gonçalves Dias n. 34 S, chegado ao Brazil havia tres annos. Onze dias de moléstia. XXII. Antonio Alves Ferreira, portuguez, de 38 annos de idade, solteiro, morador á rua da Saude n. 82, recem-chegado. Quatro dias de moléstia. XXIII. Joaquim Mendes do Valle, portuguez, de 20 annos de idade, sol- teiro, morador no largo do Rosário n. 2, recem-chegado. Seis dias de moléstia. XXIV. José de Oliveira Marques, portuguez, de 30 annos de idade, casado, morador no largo do Rosário n. 2, recem-chegado. Oito dias de moléstia. XXV. João Muniz, portuguez, de 32 annos de idade, solteiro, morador á rua da Imperatriz n. 95, recem-chegado. Sete dias de moléstia. 0 Sr. Dr. Ara.ujo Góes discorda da estatística apresentada; já tem recorrido por vezes ao glyco-borato de sodio nos diflerentes periodo de febre amarella, mesmo antes dos estudos do Sr. Dr. F. do Santos, sem vantagem alguma. O unico tratamento, que lhe tem dado bom resultado no vomito negro, tem sido o perchlorureto de ferro associado ao iodo. Acredita que a febre amarella seja uma moléstia parasitaria, porém está convencido que o seu microbio ainda não foi isolado, apezar da opinião em contrario do Sr. Dr. Domingos Freire, cujos trabalhos acabão de soffrer uma contestação muito seria por parte do professor Sternberg, commissionado pelo governo americano para estudar este assumpto no Rio de Janeiro. Em nenhuma das culturas feitas pelo Sr. Dr. Sternberg com sangue de doentes de febre amarella, viu elle o microbio de que se trata, e idêntico resultado obteve aquelle professor no México e na Havana. O Sr. Dr. Domingos Freire foi dos primeiros a ter noticia do emprego do glyco-borato de sodio na febre amarella ; porém, occupado como se achava com o estudo dessa questão sob outros pontos de vista, não teve tempo de o empregar. A exposição que acaba de fazer o Sr. Dr. Henrique de Sá lhe parece bastante clara e evidente. A denominação de glyco-borato de sodio lhe parece imprópria ; pois trata-se simplesmente de uma solução de bi-borato de sodio em glycerina; por conseguinte,trata-se da acção do bi-borato de sodio, que, como é geralmente sabido, representa papel importante como anti-zymotico. Ha sete ou oito annos que presume ter descoberto o parasita da febre amarella, apezar das injustiças com que suas observações têm sido acolhidas por alguns collegas, e ainda agora acabam de ser contestadas pelo Sr. Dr. Góes, appel- lando para a opinião do Sr. Dr. Sternberg. Diz que este professor veiu ao Rio de Janeiro na ausência do orador ; que aqui chegando, surprehendeu-se ao saber que o seu laboratorio e armarios reservados tinham sido violados pelos Srs. Drs. Góes e Sternberg, que retiraram balões de culturas, das quaes quizeram tirar conclusões contrarias às suas. As cultura puras tinham sido levadas para a Europa, para serem apresentadas, como foram, a Yulpian e a outras summidades scientiflcas. Os trabalhos do Sr. Dr. Sternberg são insufficientes, pois durante sua estada entre aós não houve epidemia de febre amarella, e suas observações forão feitas em casos suspeitos, e sabe que só examinou dous doentes. 0 Sr. Presidente encerrou a sessão depois de marcar para a Ia parte da ordem dia — Frequência dos cálculos vesicaes no Brazil; resultados opera- ções, — Ovoriotomias no Brazil. 4a Sessão ordinaria Presidência do Sr. conselheiro Dr. Catta Preta Summario.— Frequência dos cálculos vesicaes no Brazil; resultados operatorios.— Da ovariotomia no Brazil. O SR. PROF. OSCAR BULHÕES lê : Frequência dos calc ilos vesicaes no Brazil; resultados operatorios Um estudo detido sobre a frequência dos cálculos vesicaes no Brazil teria pelo menos a importância de servir de contribuição para os investigadores que se occupam com a distribuição geographica dessa affecção. Na falta de estatisticas geraes completas e de trabalhos relativos ao assumpto, lançamos mão do unico recurso que nos restava, que era solicitar a coadjuvação dos clínicos antigos e modernos, que exercem a cirurgia na Côrte e nas províncias aflm de chegarmos a uma conclusão acceitavel. Para isso dirigimos circulares directamente e por intermédio do Brazil Medico a vários pontos do Império, não só indagando da frequência da mo- léstia nas diversas províncias e dos resultados operatorios, como pedindo a indicação do sexo, idade, raça e nacionalidade dos operados, factores esses que se prendem naturalmente á primeira parte da nossa these. Infelizmente, nem todos os collegas nos honraram ainda com as suas re- spostas, alguns por preferirem talvez concorrer em pessoa com o seu contin- tingente por occasião da discussão da these, o qce muito nos lisongeará; outros, por motivos, necessariamente justos, mas que ignoramos por em- quanto. Os nossos sinceros agradecimentos áquelles que já tiveram a gentileza do acudir ao nosso appello. A difficuldade de tal emprehendimento é notoria, e basta compulsar os melhores trabalhos que se occupam da distribuição geographica geral dos cálculos para de prompto avaliarmos o vago das suas conclusões e a fraqueza das bases sobre que repousam, quando se referem, principalmente apaizes remotos. E’ o defeito do todas as estatisticas geraes. No Brazil, tendo em attenção a vastidão do seu território, e o pouco desenvolvimento da imprensa medica, maiores se tornam as difficuldades para se fundamentar, de um modo cathegorico, um juizo sobre a frequência em absoluto dos cálculos no Brazil, e relativas ás diversas províncias. Nestas condições procuramos reunir os documentos e estatisticas que pudemos encontrar para emittir a nossa opinião em relação á frequência no Rio de Janeiro e em algumas províncias das quaes já obtivemos alguns esclarecimentos. Em 1832, o Dr. Civiale, querendo contemplar o Brazil no seu tratado sobre a « affecção calculosa » (1) na parte relativa à frequência da lithiase (1) Civiale, Traitè de Vaffection calculeuse. Paris 1838. 60 urinaria, escreveu uma carta á Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, pedindo uma estatística dos calculosos no Brazil, mas ella íicou sem re- sposta, e por isso nem uma palavra foi proferida em relação ao nosso paiz. Depois da obra de Civiale, um trabalho importante appareceu com o titulo de Influencia dos climas e das raças sobre a frequência da lithiase urinaria, publicado pelo Sr. Dr. H. Rey, nos Annaes de Hygiene publica, em 1883 (1), o qual contém os documentos estatísticos de regiões variadas, e onde se lê em relação ao Brazil que a pedra da bexiga ó uma aífecção pouco vulgar entre nós. Essa conclusão é baseada em um trecho de um bem elaborado relatorio do Sr. Dr. Bourel Roncière, publicado nos Archivos de Medicina Naval, em 1872 (2) em que esse iliustrado medico da marinha franceza declara que em um periodo de cinco annos (1861 - 1866), entre 1.481 operações prati- cadas no Hospital da Misericórdia, apenas contavam-se tres talhas e uma lithotricia. Foi esta a estatística, deficiente sem duvida, que serviu para que o nome do Brazil figurasse nessa monographia, na parte relativa á influencia dos climas sobre a affecção calculosa. Entretanto, já tinham sido publicados no Rio de Janeiro alguns tra- balhos que podiam fornecer um contingente mais valioso para uma con- clusão . Em 1835 o Sr. Dr. J. F. Sigaud escreveu no Diário de Saude (3) alguns artigos relativos a esse assumpto, nos quaes, sem documentos positivos e apenas dispondo de informações vagas sobre o numero de operações prati- cadas no Rio de Janeiro, em S. Paulo, na Bahia e no Rio Grande do Sul, conclue ser pouco frequente a aífecção calculosa no Brazil, admittindo como causas as condições de clima, latitude e maior condensação da popu- lação, próxima ao nosso immenso littoral. Nesse trabalho vemos assignaladas apenas doze talhas praticadas no Rio de Janeiro, desde o reinado de D. João VI; uma em S. Paulo, duas no Rio Grande do Sul, duas em S. João d’El-Rei e quatro na Bahia. Até então foi a talha a unica operação praticada, pois, como veremos mais adiante, a lithotricia só em 1838 foi executada pela primeira vez. Uma these apresentada e sustentada em 1849 perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro pelo Sr. Dr. Pedro Affonso Denys (4) nos fornece algumas noções sobre o numero de operações contra os cálculos vesicaes nesta cidade desde a Independencia até aquella data. Ahi encontramos, além de alguns casos já referidos nos artigos do Dr. Si- gaud, duas communicações de lithotricia do Sr. Dr. Persiani, e mais as estatís- ticas dos operados do Sr. Dr. Antonio José Peixoto, de 1837 a 1849, e do Dr. An- tonio da Costa, de 1839 a 1849. Entre as operações do Dr. Peixoto acham-se consignadas 26 lithotricias e cinco talhas ; do Sr. Dr. Antonio da Costa 28 casos de lithotrica e cinco talhas. Uma outra these (5) defendida pelo Dr. Francisco José Teixeira da Costa perante a Faculdade de Medicina do Rio Janeiro, contém uma esta- tística das operações contra os cálculos vesicaes, praticadas no Rio de Janeiro, de 1817 a 1858, isto é, durante 41 annos. (1) Annales ã'Hygiène Publique. 1883. 3a série. (2) La Station Navale du Brésil et de la Plata, par Bourel Roncière. (1868- 18701 Arch. de Méd. Navale. 1872. f. XVII. (3) Diário de Saude. ns. 30, 31. Vol. Io 1835. (4) Breve noticia sobre a cirurgia no Rio de Janeiro. These — 1849 — pelo Dr. P. A. Denys. (5) Quaes são os melhores meios para reconhecer a pedra na bexiga, c reco- nhecida cila qual o melhor e nxais seguro methodo de praticar a respectiva operaeuol — These, 1858 — pelo Dr. F. J. Teixeira da Costa. Nella vemos referidas 102 operações, sendo 40 talhas perineaes e G2 lithotricias, achando-se incluidos naquelle numero os casos apontados pelos Srs. Drs. Sigaud e Denys. Além desse trabalho, não nos consta existirem outros, em que pu- déssemos encontrar mais elementos para a solução da questão, e nessas condições procuramos reunir quasi a totalidade dos casos operados no Rio de Janeiro depois de 1858, confeccionando uma estatistica que tem por base principal as estatísticas pessoaes fornecidas pelos diversos clínicos antigos e modernos, havendo entre os primeiros alguns que exercem a profissão ha mais de 30 annos nesta capital. Até agora temos reunidos 132 operações, sendo 87 talhas perineaes, 7 hypogastrieas, 37 lithotricias e uma lithotricia perineal, n’um periodo de 30 annos. E’ possivel que esta estatistica não contenha todos os casos observados entre nõs, mas comprehende entretanto os casos de quasi todos os cirurgiões que mais têm operado no Rio de Janeiro. Com estes documentos verifica-se que na estatisca de 1817 a 1858, do Sr. Dr. Teixeira da Costa, temos pouco mais de dous cálculos por anno, e na estatistica por nós confeccionada daquella data até hoje temos pouco mais de quatro cálculos por anno. Eis, meus senhores, os dados, vagos e deficientes, é verdade, mas os únicos que conseguimos obter para calcular a frequência desta moléstia no Rio de Janeiro. Si appellarmos para o testemunho dos clínicos antigos, temos entre outros o do distincto cirurgião Sr. Dr. A. M- Fragoso, que na resposta ao que- sito da nossa circular, referente á frequência dos cálculos, nos communica que durante 33 annos, que exerce a cirurgia nesta Corte, e com especialidade a das vias urinarias, só teve seis casos de cálculos vesicaes na clinica civil, e que não observou um só caso no Hospital da Sociedade Portugueza de Bene- ãcencia, onde, como Io cirurgião, tratou, durante vinte annos, de um avulta- dissimo numero de doentes. Devemos ponderar ainda que, até pouco tempo, grande numero de indivíduos affectados de cálculos e residentes nas províncias próximas ao Rio vinham a esta Côrte para serem operados, e tanto estes, como muitos estrangeiros, alguns recem-chegados, figuram nas estatiscas do Rio de Ja- neiro. Nestas condições, tendo em attenção os cálculos em que se basêam os autores que se têm occupado com estes estudos, e á vista dos resultados a que chegamos, podemos concluir que os cálculos vesicaes não constituem uma moléstia frequente no Rio de Janeiro. Admittido, conforme acreditamos, que a affecção calculosa seja pouco frequente não só no Rio de Janeiro, como em todo o Brazil, uma outra questão interessante a investigar seria a frequência relativa nas diversas províncias, estudo esse já feito em muitos paizes da Europa, e que póde offerecer algum interesse entre nós, tendo em consideração os climas variados que possuímos, as condições hydrologicas diversas, as populações próximas e distantes do littoral, factores estes a que se tem ligado certa importância na etiologia desta affecção. Na França, na Inglaterra, Rússia, Italia e Baviera, paizes em que a lithiase urinaria consigna uma. cifra considerável, tem-se observado uma distribuição desigual nesses diversos territórios. Na Rússia, por exemplo, as províncias orientaes e do centro fornecem um contingente notaxel de calculosos e o Sr. Dr. Klein (1) refere que « um quinto das moléstias em tratamento nos hospitaes. de Moscow é constituído por aífecções calculosas » ; entretanto estas são consideradas raras nas provin- (1) Klein. Ueber und ihre BehandluugArchiv. f. Klinische Chirurgie. — B. YI, S. 78. cias meridionaes e do mesmo modo nas do littoral do Báltico e em S. Pe- tersburgo. Em relação ás nossas províncias, apenas dispomos, por hora, de infor- mações ministradas por alguns clínicos das províncias da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas. Na Bahia a moléstia é considerada também pouco frequente e em uma interessante estatística, que possuímos e que nos foi enviada pelo distincto collega da capital daquella província o Sr. Dr. Pires Caídas, vemos 42 casos de cálculos em um periodo de 25 annos (1863 a 1888). Esta estatística, quasi toda pertencente ao Sr. Dr. Caídas, pois apenas en- cerra tres operações praticadas pelo Sr. Dr. Paterson e pelo Sr. Dr. Aureliano Caídas, póde representar quasi a estatística geral daquella capital durante 25 annos, segundo as informações que recebemos de illustrados eollegas que ahi residem. A provincia de Pernambuco é talvez, relativamente, a que paga um tributo mais pesado á lithiase urinaria a julgar pelas informações que colhemos. Uma importante estatística pessoal de 31 operações do Sr. Dr. Luciano do Moraes Sarmento, que nos foi enviada por esse habil cirurgião, e já tem parte publicada na these do Sr. Dr. Ambrosio Leitão da Cunha (1877), contém 26 operações praticadas em naturaes de Pernambuco durante 12 annos. O nosso collega refere que sabe de um grande numero de lithotomias praticadas pelo Sr. Dr. Pinto, que o precedeu no cargo de cirurgião do Hospital de Pedro II, de que infelizmente não existem apontamentos, sabendo apenas que praticava ordinariamente a talha lateralisada. Acha-se entre nós um intelligente collega, que na capital daquella pro- vincia exerce a clinica em larga escala, e que nos poderá também esclarecer sobre a frequência relativa naquella provincia. Na provincia do Rio Grande do Sul a moléstia parece raríssima, á vista da noticia, que devemos ao Sr. Dr. J. Chaves Campello, antigo clinico da cidade de Pelotas, onde exerce a profissão ha 25 annos, abrangendo a sua clientela a maior parte do Sul da provincia. Durante esse tempo o Sr. Dr. Campello sô teve cinco casos de cálculos, sendo quatro urethraes e um formado em torno de um corpo estranho ; e só conhece dous casos operados naquella cidade antes de 1862, anno em que alli se estabeleceu. O Sr. Dr. Sarmento, que também clinicou durante seis annos na capital dessa provincia, só praticou ahi duas operações, e não tem noticia de outras, em que está de accôrdo o Sr. Dr. Joaquim Pedro Soares, cirurgião estabe- lecido ha muito tempo nessa cidade. A raridade da aíTecção nessa provincia não é para admirar, pois, segundo Saurel (1), o mesmo facto se observa de um modo notável no Estado Orien- tal, o que faz suppor que ella partilha das mesmas influencias. Na provincia de Minas, informou-nos o illustrado clinico desta Côrte o Sr. Dr. Felicio dos Santos, os cálculos são também muito raros, o que nos foi confirmado pelo nosso collega e amigo o Sr.Dr. Joviano Jardim, de Barbacena, que se acha presente. O estudo da frequência relativa dos cálculos nas diversas províncias poderia despertar investigações importantes sobre as causas ma is ou menos prováveis dessas predilecções, pondo em contribuição a influencia das causas predisponentes geraes e individuaes, appelladas para explicar a producção da moléstia; questões essas, que, apezar de exploradas por alguns autores com mais ou menos vantagem, continuam vacillantes e podem ainda for- necer grandes ensinamentos. (1) Saureí, Climatologia Mcdicale ãe Montevideo.— These de Monfcpelier, 1851, pag. 154. A discriminação da raça, nacionalidade, sexo e idade dos operados, que, entre outras, figuram como causas inclividuaes de certo valor, si não trouxer nova luz para a elucidação do problema, servirá para corroborar as conclusões a que têm chegado os autores, tanto mais quanto em relação a algumas delias ainda pairam duvida e desaccordo. Relativamente á raça, é facto de observação no Rio de Janeiro que os negros e mulatos gozam de grande immunidade. Na estatística por nós confeccionada, em numero de 132 operados sò en- contramos dous pretos e tres mulatos. E’ esta uma causa individual, sobre cuja importância existe alguma di- vergência. Rey considera nulla a inflencia das raças, entretanto que Mahé (1) pensa de modo inteiramente contrario, e relativamente á i'aça negra, Martin, citado por A. Pousson (2), em um total de 3.039 talhas praticadas na America, assig- nalal02 negros e 31 mulatos,proporção essa confirmada em outras estatísticas. A’ condição de raça se poderia prender entre nós o papel que repre- senta na etiologia da urolitniase a alimentação, embora considerada esta em cathegoria secundaria; pois ó facto que a alimentação dos antigos escravos nas fazendas era deficiente, e o estudo da influencia do regimen alimentar serviria á vista das opiniões correntes dos observadores, sobre a qualidade e quantidade dos alimentos, para se juntar como mais uma causa da raridade da affecção entre os negros, ou tornar saliente a preponderância da influencia da raça sobre a alimentação. Nas estatísticas dos Srs. Drs. Pires Caídas e Sarmento já encontrámos uma proporção maior de individuos de raça africana, assim em 42 casos do primeiro cirurgião contam-se 5 pretos e 11 mulatos, e em 31 casos do Sr. Dr. Sarmento, 13 são de raça africana, A declaração da nacionalidade tem sua importância nos paizes novos para onde affluem immigrantes de outras regiões. A crescente immigração italiana para o nosso paiz, nestes últimos tempos, deve trazer-nos um contingente regular de cálculos, attenta a fre- quência dessa affecção na Italia, e entre os últimos operados no Rio de Janeiro já se contam alguns italianos. Os resultados estatísticos referentes ao sexo e idade justificam de um modo cabal as conclusões dos investigadores quanto ao primeiro factor ; em relação á idade, porém, o mesmo não acontece. A maioria dos operados nos casos que reunimos no Rio de Janeiro, conta de 20 a 50 annos, sendo o numero de cálculos observados nas pri- meiras idades e na adolescência em quantidade muito inferior, ou por pas- sarem desapercebidos, ou por serem aqui mais raros nesse periodo da vida. A proporção nos individuos velhos é quasi a mesma que nas estatísticas geraes, e dentre esses operados faremos sobresahir uma mulher de mais de 100 annos que soffreu a lithotricia com pleno resultado, e que faz parte da estatística ao nosso mestre, o Sr. Dr. Antonio Ferreira França. A estatística do Sr. Dr. Sarmento já se approxima mais das estatísticas geraes estrangeiras, no que se refere á proporção dos casos observados em individuos nas primeiras idades, assim na 19 individuos até 20 annos, 11 entre 30 e 20 e 1 de 60. RESULTADOS OPERATORIOS Antes de apresentar os resultados das operações praticadas no Brazil no tratamento dos calculosos, faremos algumas considerações sobre os pro- cessos mais empregados no Rio de Janeiro, consignando ao mesmo tempo algumas datas históricas. (1) Mahé, Gèographie Médicale.—Dict, Encycl. Yol. 8, 4a sarie, pag. 290. (2) Alfrecl Pousson, Des calculs urinaires, eto., Encyolopèdie Internationale de chirurgie.—Vol. v. Talha.—Gomo era natural, foi a talha o primeiro processo operatorio ex- ecutado no Brazil, e segundo pretendem Sigaud e o Sr. Dr. Teixeira da Costa, coube ao Sr. Dr. João Alves Carneiro a honra de ser o primeiro cirurgião bra- zileiro a praticar essa operação em 1817, em um caso de calculo vesical enkis- tado, obtendo um resultado completo. Dessa data até 1838 poucos foram os casos publicados e conhecidos, sendo a talha lateral a preferida, segundo o processo inglez. Os cirurgiões não empregavam o lithotomo occulto e sim o gorgereto cortante. De 1838 em diante a talha lateral teve que ceder o passo á talha bilate- ral de Dupuytren, a qual foi adoptada até pouco tempo pela totalidade dos cirurgiões como processo ordinário. Á razão dessa preferencia acha sua explicação na chegada ao Rio de cirurgiões brazileiros que haviam feito os seus estudes em Paris, e que trou- xeram as idéase praticas francezas, que bem depressa se generalisaram. A modificação impressa á talha bilateral por Nelaton, e que constituiu então um novo processo denominado «talha prerectal» mereceu plena accei- tação entre nós, e foi desde logo seguida, embora alguns cirurgiões queiram ver no novo processo, um simples detalhe operatorio sem importância, pre- ferindo assignalar sempre os casos operados com a rubrica de talha bilateral de Dupuytren. Em uma publicação de um nosso intelligente collega, e que se refere a este assumpto (1), vemos que elle partilha essa opinião e exclue da relação das talhas perineaes a talha perectal de Nelaton, chegando mesmo a ap- plaudir o modo de pensar de um cirurgião francez que diz «que as difte- renças entre a talha de Nelaton e Dupuytren são tão pequenas que bem se pôde aflSrmar que a primeira apenas differe da segunda pela circumstancia de ter o operador, durante um de seus tempos, o dedo indicador da mão es- querda introduzido no recto do doente». Sentimos não concordar nesse ponto com o nosso joven collega. Em primeiro logar, a talha bilateral, como ó sabido, não póde ser con- siderada um processo original de Dupuytren, e a idéa não era nova quando elle praticou-a em 1824. O grande cirurgião do Hotel-Dieu aperfeiçoou o processo, melhorou o instrumental, e com o prestigio de seu nome fel-o adoptar em todos os paizes em que a pratica franceza era imitada, dando-lhe desse modo forte impulso. Em segundo logar o processo de Nelaton, além de execução differente da de Dupuytren, tem a vantagem de com elle nos affastarmos do bulbo, condição essa importante e sobre a qual este ultimo cirurgião não diz uma palavra quando descreve sua operação, e demais concede um espaço maior para a facil sabida do calculo. Estes predicados são suílicientes para valerem a esse modo de operar uma denominação nova, e a critica do cirurgião francez é tanto mais para admirar quanto em França os processos pullulam, muitos de menor importância, sendo raro cirurgião que não entende ser de rigor ter o seu processo especial para cada operação. Assim a modificação de Nelaton em nada sacrifica a originalidade do processo de Dupuytren, e constitue um processo tão legitimo como todos os outros. A talha perineal, seguida de lithotricia, pelo processo de Dolbeau, que nos conste, foi executada uma só vez pelo Sr. conselheiro Dr. Catta Preta. Além destes processos, registram as estatísticas duas talhas recto-ve- sicaes, praticadas pelo Sr. Dr. Peixoto e pelo autor destas linhas, e depois da talha bilateral, em casos de grandes cálculos em que a extracção, com o emprego de todos os recursos, tornou-se impossível pela via perineal. (1) Apontamentos de clinica cirvrgica, pelo Sr.Dr. Domine-os de Góes e Vas- concellos, 1885, Nestes últimos annos a talha lateralisada têm sido de novò empregada poi* alguns cirurgiões brazileiros que tein ido à Allemanha aperfeiçoar seus estudos, e ahi como é notorio, as idéas e praticas inglezas são seguidas de preferencia. Esta operação, abandonada pelos francezes e também por nós, como vimos, desde que Dupuytren erigiu a talha bilateral em processo ordinário, tem sobre esta a vantagem de conceder uma saliida muito mais ampla a um calculo volumoso, e si é licito levar em conta ás talhas lateraes algum caso de impotentia generandi, o que não é admittido por Thompson e por quasi todos os cirurgiões allemães, seria nesse ponto superior ás de Dupuytren e do Nelaton, porquanto ella só sacrificaria um dos canaes ejaculadores. A hemorrhagia, que é o accidente mais serio que lhe attribuem não deve ser tão frequente e tão perigosa, do contrario os cirurgiões inglezes e allemães a teriam certamente abandonado. Na Bahia e Pernambuco a talha lateralisada tem sempre feito concur- rencia á talha prerectal, principal men te na Bahia, onde em 16 talhas pe- rineaes ha 13 lateraes e 3 prerectaes, muito provavelmente por influencia de praticas inglezas. A talha mediana, modernamente a preferida pelos cirurgiões allemães, depois do enthusiamo com que a recommendou o professor Yolkmann, de Halle, e que supplautou na Allemanha quasi inteiramente a talha latera- lisada,não encontrou ainda aceitação entre os práticos brazileiros ; apenas uma vez foi ella por nós praticada para a remoção de um corpo estranho da bexiga. A talha hypogastrica, antes da memória de Petersen, foi executada no Rio de Janeiro pelo Sr. conselheiro I)r. Catta Preta, em um caso de calculo vo- lumoso, mas como ultimo recurso, na impossibilidade de extrahil-o pela talha bilateral e depois de tentativas de fragmentação. Nestes dous últimos annos, seis operações de talha hypogastrica foram praticadas no Rio de Janeiro, comkos recursos modernos, pelos Drs. Brissay, O. Bulhões, P. S. de Magalhães, José Pereira Guimarães e Monat, obtendo o segundo destes cirurgiões, em 1886, o primeiro successo no Rio de Janeiro, em um doente no Hospital de Misericórdia, onde pela primeira vez foi exe- cutada essa operação. Lithotricia.— No dia 14 de Novembro de 1838 foi a lithotricia executada pela primeira vez no Brazil, e talvez mesmo na America do Sul, pelo Sr. Dr. Antonio José Peixoto, na presença dos Srs. Guimarães Peixoto, di- rector da Faculdade de Medicina, Drs. Bompani, Cuissart, Sigaud e Frédéric. A operação foi coroada de pleno successo, tendo sido empregado o instrumento de Heurteloup (1). Antes do Sr.Dr. Peixoto já uma tentativa tinha sido feita no Rio de Janeiro em 1829 pelo Sr. Dr. José Pedro de Oliveira, distincto pratico de Moníevidéo, e que então se achava nesta Côrte ; tendo reclamado esse cirurgião a priori- dade dessa operação no Brazil (2). O doente era um vigário de S. Gonçalo, que tinha cinco cálculos na be- xiga, ma? que logo depois da Ia sessão de lithotricia recusou-se a proseguir nesse tratamento, soffrendo no mesmo anno a operação da talha Literal, pra- ticada pelo habil cirurgião Sr. Dr. Christovão José dos Santos, que então quasi monopolisava toda a cirurgia no Rio de Janeiro ; o doente veio a fallecer mais tarde por causa alheia â operação. Antes da operação do Sr. Dr. Peixoto, em 1832, o Sr. Dr. Torres Homem, de volta da França trouxera um instrumento lithotritor, que offereceu ao Sr. Dr. Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, mas até 1839 nunca foi elle em- pregado por este cirurgião (3). (1) Observations de chirurgie par M. Antonio José Peixoto, Mèmoires dc VAcadêmie Impcriale de Medicine — Tome dix-neuvieme — pag. 30. (2) Revista Medica Fluminense n. II. 1840. Anno V. (3) Lithotricia.— TliesedoDr. Domingos Marinho de Azevedo Americano — 1839 — Rio de Janeiro. Os Srs. Drs. Peixoto e Antonio da Costa, o primeiro formado em Paris e o segundo em Montpellier, e que exerceram a clinica no Rio de Janeiro na mesma época, são de todos os cirurgiões brazileiros os que mais vezes prati- caram a lithotricia, pertencendo-lhes mais da metade dos casos dessa operação. Depois de 1858 a lithotricia tem encontrado alguns adeptos, e pelos dados, que possuimos, mencionaremos os nomes dos Srs. Drs. Antonio Ferreira França Visconde de Souza Fo ites, conselheiro Catta Preta, Barão de Saboia, A. M. Fragoso, Pedro Affonso, Pereira Guimarães, Figueiredo de Magalhães, Monat e Crissiuma, que têm empregado esse methodo de tratamento em poucos casos. A estatística, como é natural, registra alguns casos de lithotricia pelo processo de Bigelow, o qual foi executado pela primeira vez no Rio de Ja- neiro, segundo nos informam, pelo Sr. Dr. Pedro Affonso Franco, no hospital de Misericórdia. Passemos á apreciação dos resultados operatorios obtidos na intervenção cirúrgica dos cálculos vesicaes. As conclusões a que chegamos sobre a mortalidade n*estas operações, embora se approximem muito da verdade, podem não satisfazer inteira mente a um espirito exigente, visto como algumas estatísticas pessoaes não são tiradas de protocollos regulares das enfermarias onde foram os casos obser- vados, nem têm sido em tempo publicadas nos jornaes médicos; e sendo os clmicos forçados, para organizal-as, a appellar para as suas reminiscências, muito facilmente um ou outro engano para mais ou para menos pôde prejudicar o resultado. Si para o calculo da frequência, essas pequenas differenças não trazem grandes inconvenientes, o mesmo não se dà em relação ao calculo da mortalidade. Vejamos em primeiro logar os resultados operatorios no Rio de Janeiro e consideremos em separado as duas estatística de que já nos servimos para o calculo da frequência. Até 1838 a talha perineal era considerada extremamente grave, e segundo o Sr. Dr. Antonio da Costa, (1) era crença no Rio de Jaueiro que todo o indivíduo que devesse soffrer essa operação succumbiria necessariamente. E’ possível que essa terminação se désse com frequência entre os pri- meiros operados, e com certeza foi essa a causa da grande acceitação que teve a lithotricia logo que foi introduzida no Brazil. A estatística do Sr. Dr. Teixeira da Costa, de 1817a 1858, e que compre- hende a serie infeliz das primeiras operações de talha no Rio de Janeiro, registra em 40 talhas perineaes, 28 curas e 12 mortes, isto é, uma morta- lidade de 30 ‘/o* A lithotricia, durante esse mesmo periodo, consigna resultados muito mais favoráveis; assim, em 62 casos conta 55 curas e 7 mortes, d’onde uma mortalidade de 11,2 %• De proposito separamos esta estatística da que organizamos, e que compre- hende as operações praticidas a partir de 1858 até hoje, porquanto é con- siderável a, differença para menos em relação á mortalidide, pois em 87 talhas perineaes, temos 79 curas e 8 mortes, isto é, uma mortalidade de 9,1 °/0. Si bem que seja nossa convicção, pelo que temos lido e observado, que os resultados destas operações têm sido muito favoráveis no Rio de Janeiro, todavia seria natural a sorpresa, que experimentamos diante de tão pequena mortalidide, quando a comparamos com a que assignalam as estatísticas geraes estrangeiras, si não possuissemo < uma outra estatística pessoal de 30 casos, com 29 curas e 1 sò morte, mortalidade 3,3 %• A lithotricia consigna também uma porcentagem diminuta de mortes, pois em 37 casos houve 33 curas, 2 mortes e 2 resultados desconhecidos : mortalidade 5.4 %. (1), Seize annêes de clinique chirurgicale au Brèzil. Mêmoire lu à VAeadémie de Medecine de Paris par Antonio da Costa.— Paris —1855. Infelizmente a talha hypogastrica não tem sido seguida de resultados tão brilhantes no Rio, pois, em sete casos conhecidos, cinco terminaram pela morte, o que dá uma mortalidade de 71,4 %. Na Bahia quasi se tem observado a mesma benignidade nas operações san- grentas. Na estatística do Sr.Dr. Pires Caídas notam-so 16 talhas perineaes com duas mortes ; mortalidade 12,5 % ; o 16 lithotricias com tres mortes, mortalidade 18,7 % sendo em um destes casos praticada antes a talha peri- neal, (lithotricia perineal). Além destas operações, praticou também o Sr. Dr. Pires Caídas uma talha hypogastrica seguida de morte. Da província de Pernambuco possuímos por emquanto apenas a estatística do Dr. Luciano de Moraes Sarmento, que contem a serie feliz de 30 operações de talha perineal com uma só morte, e a que nos referimos acima, comprehen- dendo 26 casos em indivíduos naturaes de Pernambuco, um da Parahyba do Norte, dous do Ceará e dousdo Rio Grande do Sul. E’ essa uma estatística minuciosa, completa e interessante debaixo de todos os pontos de vista. A lithotricia foi executada apenas uma vez com resultado por esse cirurgião. Segundo informação verbal do Sr.Dr. Malaquias A. Gonçalves atalha hy- pogastrica tem sido praticada com alguma frequência nessa província, e entre outras existe uma serie de seis epicystotomias pertencente ao Sr. Dr. Pontual e seguidas de completo resultado. Si é certo que a pedra da bexiga é relativamente mais frequente em Per- nambuco do que nas outras províncias do Império, sirva ao menos de compen- sação a benignidade das operações contra ella praticadas, muito devendo ter contribuído para isso a pericia de seus cirurgiões. Finalmente, da provincia do Rio Grande do Sul só temos conhecimento, além das duas operações do Sr. Dr. Sarmento, das quaes uma foi a terminada pela morte, de uma talha lateralisada praticada pelo Sr. Dr. Campello, e re- clamada por um calculo phosphatico, que tinha por núcleo uma sonda condu- ctora do urethrotomo de Maisonneuve, e que foi seguida de cura. Sommando todas as operações, que constam das estatísticas das diversas procedências, que possuímos, temos o seguinte resultado : Talhas perineaes 174 operações, com 151 curas e 23 mortes. Mort. 13,2%. Talhas hypogastricas 8 operações, 2 curas e 6 mortes (1). Mortalidade 75,0 °/0. Lithotricias 115 operações, 101 curas, 12 mortes e 2 resultados desconhecidos. Mortalidade 10,4 %• A conclusão a tirar á vista de taes dados é que, excepção feita da talha hypogastrica, que ainda fornece uma mortalidade considerável, as talhas pe- rineaes têm dado resultados excellentes e superiores aos das estatísticas européas. (i) Não incluímos os operados de Pernambuco por não termos ainda docu- mentos positivos. A lithotricia, embora tenha feito progressos entre nós nestes últimos annos, consigna uma mortalidade maior do que a das estatísticas dos grandes especialistas. O curativo empregado, em geral, pelos cirurgiões, nas talhas perineaes, tem consistido simplesmente em loções antisepticas e applicação de uma esponja perfeitamente desinfectada sobre a região perineal, aíim receber a urina e os líquidos da ferida, resultantes da operação. O Sr. Dr. Sarmento nunca empregou antiseptico algum: servia-se sempre de agua pura para as loções da ferida, deixando-a inteiramente em contacto com o ar e mantendo o mais escrupuloso asseio em terno dos operados. Na execução do processo operatorio da talha hypogastrica, que prati- camos, seguimos os preceitos aconselhades pelo professor Dittel, de Vienna (2), aproveitando o grande recurso posto em pratica pela primeira vez pelo Sr. Dr. Petersen, de Kiel, isto é, a propulçâo da bexiga, previamente distendida por uma certa quantidade de liquido, com o auxilio de um balão rectal de caoutchouc e cujas vantagens jã antes haviam sido assignaladas por Braune e principalmente por Garson. Não nos servimos do balão original de Petersen, por não possuil-o e sim de um pessario a ar de Gariel, que o substitue perfeitamente. Não praticamos a sutura da bexiga por não nos inspirar bastante con- fiança, visto como não preenche sempre o seu fim, e põde nessas condições, ser causa de serias complicações. A drenagem da bexiga foi feita por meio de uma sonda de Nelaton a demora na urethra e por um syphão de caoutchouc vesico-abdominal cali- broso e construído segundo as instrucções de Dittel. A sonda a demora, instailada na urethra desde o dia da operação tem o inconveniente de determinar no flm de pouco tempo uma urethrite dolorosa, de modo que, em muitos casos, pôde tornar-se intolerável e mesmo pre- judicial, devendo talvez ser preferível reservar o seu emprego para quando o drenage abdominal for retirado ou expeilido. Para o futuro talvez sigamos a pratica de M. Perier, que emprega uni- camente um syphão vesico-abdominal duplo, embora estejamos inclinados a acreditar que o eífeito dos drenages é por demais problemático, opinião esta que já vimos externada por alguns práticos. No que se refere á sutura abdominal, diremos que, além dos pontos de sutura no angulo inferior da ferida para fixar o syphão, apenas demos mais dous no angulo superior, comprehendendo só a pelle, o que equivale a dizer que não fizemos a sutura da parede abdominal, contrario isso á pratica da maioria dos cirurgiões. As razões que nos levaram a este modo de proceder foram as se- guintes : A infiltração da urina, com as suas consequências, ainda hoje é a com- plicação mais seria desta operação, e por isso devemos facilitar por todos os meios a sahida desse liquido, mórmente quando se acha profundamente alterado. Quer se faça ou não a sutura da parede abdominal, uma porção de urina estagna sempre entre essa parede e a bexiga. Feita a sutura, comprehendendo toda a espessura da parede abdominal, desde que a obstrucção dos drenages tenha logar, o que não raras vezes se dá, a urina, não tendo facil sahida pela ferida abdominal, em consequência da juxt iposição de seus lábios, póde por pressão infiltrar-se no tecido frouxo peri-vesical e produzir estragos, contra os quaes o cirurgião luta muitas vezes sem esperança de successo. Este modo de proceder já tem recebido a saneção da pratica, pois algumas observações existem registradas, de cura completa em operações de talha hypogastrica, sem sutura de especie alguma da parede abdominal e sem drenagem. (2) L. Dittel, Wiener Medizmischs Wochznscrift, Márz 1884, n. 10. S. 82. E* possível que a cicatrização seja mais lenta, o que resta averiguar, mas, ainda assim, não ó isso motivo para que essa pratica não seja se- guida . Poderão nos objectar que essa estagnação de urina póde ser evitada, si collocarmos o operado em decúbito abdominal, á imitação de Trendelenburg, e Schmitz na clinica de crianças ; mas é essa uma posição que, além de exigir uma drenagem especial, difficilmente será tolerada com resignação pela maioria dos doentes. O decúbito lateral, aconselhado por Thompson e outros, muito mais supportavel e preferível, será também raras vezes mantido com constância nos primeiros dias que se seguem á operação. A parte do tratamento consecutivo que mais attrahiu a nossa attenção foi tornar a urina inoffensiva, tanto quanto possível, diluindo-a por meio de irrigações repetidas e loções com líquidos anti-septicos. A solução aquecida de acido borico em proporção de 4 % deu-nos excel- lente resultado, sendo o numero de injecções diarias de accordo com o estado da urina. Depois das precauções relativas á franca sahida da urina, conside- ramos esta a cautela mais importante para nos pôr a coberto cie complica- ções graves, que mais commummente se originam dentro do que fóra da bexiga. Sobre a ferida abdominal foi collocado um curativo iodoformado. Os Drs. Pedro S. de Magalhães e José Pereira Guimarães, aos quaes tivemos o prazer de auxiliar nas su is operações, seguiram o mesmo processo operatorio, fazendo, porém, a sutura da parede abdominal, e empregaram o mesmo curativo consecutivo. O operado do Dr. Pedro S. cfe Magalhães achava-se em via de cura, quando contrahiu, 23 dias após a operação, uma pneumonia lobar unilateral, cie que veio a fallecer. O Dr. Monat não fez também a sutura da bexiga, e fechou a ferida abdo- minal com uma sutura dupla, uma da pelle, e outra dos tecidos profundos, depois de installar um drenage de Demons (um tubo passando pela ferida abdominal e urethra.) Para praticar a lithotricia rapida os poucos cirurgiões que executaram este methodo operatorio têm empregado a anestesia geral por meio do chloro- formio, ou a anesthesia local com uma solução de cocaina a 4 °/0. Concluiremos referindo a nossa opinião, de um modo geral, sobre a esco- lha dos processos operatorios contra os cálculos vesicaes, baseando-nos na observção própria e na de autores e cirurgiões que nos merecem fé, tendo em vista os progressos realizados nestes últimos tempos. E’ facto admittido que, todas as vezes que uma moléstia qualquer exige uma operação, como ultimo recurso, e o cirurgião tem à sua disposição mais de um processo no caso de debellal-a, deve ser sempre preferido aquelle que fòr acompanhado de menor perigo para o doente. Para libertarmos a bexiga de um calculo, temos a escolha ; a talha pe- rioeal, a talha hypogastrica ea lithotricia. Talha perineal.— Entre os processos nnis seguidos ultiinamente temos a talha mediana na Allemanha e Inglaterra e a talha bilateral (prerectal de Nelaton) em França. A talha lateralisada, embora ainda seja praticada na Inglaterra, tem sido já um pouco abandonada por Thompson, e apenas na Rússia, principal- mente na clinica de crianças, tem ella aceitação. A talha mediana, originada da velha talha de Mariano e modificada por Allarton, foi a principio, como é sabido, apenas praticadas pelo ci- rurgiões inglezes para a extracção de cálculos ou para fim diagnostico (Thompson). A aceitação que teve ultimamente esse processo na Allemanha ô devida a Volkmann e Konig ; e no 14° e 15° congresso grande numero de obser- vações foram communicadas e suas vantagens desde logo reconhecidas, 70 havendo o primeiro destes cirurgiões apresentado cálculos de pequeno e médio volume, extrahidos sem ter sido necessário fragmentai-os. O perigo aa operação é insignificante e a cicatrização da ferida faz-se com rapidez notável. Para a dilatação da porção prostatica da urethra e do eollo da bexiga Yolkmann serve-se do proprio dedo indicador ou de um dilatador com a fôrma de um abridor de luvas. O dilatador de Demarquay, Guyon ou os dilatadores do collo do utero de Hegar têm sido também empregados com pleno successo. Embora não existam ainda grandes estatisticas que indiquem em absoluto os resultados da talha mediana, entretanto já se pôde asseverar que a mor- talidade ô menor do que a das talhas lateraes. Uma estatística moderna de Heusinger, de 222 operados conta 15 mortos = 6,7 % e em 20 casos commu- nicados da Leicester Infermary vê-se apenas 1 morte = 5%. Com estes dados se pôde concluir que a talha mediana deve ser sempre preferida aos outros processos sangrentos em casos de calculo pequenos e duros. Quanto aos cálculos médios, nem sempre a simples dilatação, mesmo com o auxilio dos instrumentos proprios, permitte um espaço suíflciente para a sua extracção. Nessas condições temos o recurso da fragmentação (lithotricia perineal), quando possivel, ou, o que é melhor, segundo Thompson, uma incisão n es- querda (uma verdadeira talha médio-lateralisada). As talhas bilateral (prerectal) e lateralisada podem ser apreciadas con- junctamente quanto ás suas indicações geraes e mortalidade. Embora os resultados com as talhas mediana e hypogastrica tenham limitado consideravelmente o emprego das talhas perineaes lateraes, entre- tanto não cremos que ellas desappareçam completamente. As estatisticas inglezas da talha lateralisada dão uma mortalidade média de 22 °/„ mas devemos notar que ellas encerram os casos colhidos antes da éra anti-septica. Uma estatística de Werewkin, de 147 talhas lateralisadas praticadas em crianças no Hospital Wladimir, de Uoscow dá uma mortalidade de 6,2 %, sendo que, graças aos rigorosos cuidados anti-septicos, as ultimas 47 operações desta série não registram um só caso fatal. Embora as condições operatórias da talha lateralisada sejam melhores nas crianças do que nos adultos, é provável que os curativos anti-septicos tenham também nestes últimos uma influencia beneflca. Em todo o caso, as talhas bilateraes e lateralisadas são processos que ainda podem prestar serviços para a extracção de cálculos de volume médio, diagnosticados de antemão, e as nossas estatisticas, consignando resultados tão satisfactorios, como vimos, não nos autorisam a abandonal-as. A respeito das vantagens de uma sobre a outra, já externámos o nosso modo de pensar. Talha hypogastrica.— E’ sabido que esta operação, depois das vicissi- tudes por que passou, tomou tal impulso com a memória de Petersen, que ameaçou aniquilar não só todos os outros processos sangrentos, como até a lithotricia. Entretanto o estudo detido das cautelas ultimamente tomadas para evitar os perigos que se ligam a essa operação, como sejam : a ruptura da bexiga, ferimento do peritoneo, e infiltração de urina pútrida com as suas conse- quências, tem mostrado que, por vezes, são ellas improfícuas para prevenir taes accidentes. A costura da bexiga tem sido posta inteiramente de lado, e por emquanto não inspira confiança, por não preencher sempre o seu fim. O balão rectal, além de outros accidentes ligados ao seu emprego, não tem bastado muitas vezes para impedir que o peritoneo seja lesado. Demais, exigindo o balão a distensão da bexiga por uma injecção de liquido ou de ar, alguns casos de ruptura desse reservatório têm sido verificados, apezar de uma quantidade de liquido (200 grammas) insufficiente para leval-a acima da symphise pubiana. Experiências feitas nesse sentido pelo professor Dittel o impressionaram po" tal fôrma, que, apezar de considerar a talha hypogastrica a operação ideal ea mais radical contri os cálculos vesicaes, elle chamou a attenção dos cirur- giões para o perigo da distensão da bexiga, e se mostra resolvido a voltar ao antigo processo. Relativamente a drenagem da bexiga, urethral e abdominal, e á costura da parede abdominal, não ha um accorao perfeito, uma norma estabelecida, o que indica falta de confiança nos seus effeitos. Finalrnente o curativo de Lister, que tantos triumphos registra na cirurgia abdominal em geral, poucas garantias offerece em rigor, no trata- mento consecutivo da talha hypogastrica, desde que não é feita a sutura da bexiga. E’ essa a opinião de Trendelenburg, que considera-o até irracional e diz « nada vale fechar hermeticamente as janellas na frente, quando se deixa aberta uma porta por detrás. » Si appellarmos para as estatisticas pessoaes, vemos que é difficil formar uma idéa exacta do valor em absoluto aa operação, porquanto encontramos cirurgiões que a praticam em todos os casos de cálculos, outros sómente nos casos diffic is. As estatisticas geraes mais modernas, na éra anti-septica, dão uma. morta- lidade média de 22 a 30 %, isto é, igual ou maior do que a da talha late- ralisada, mas, não sendo ellas confeceionadas em condições iguaes, não pode- mos fazer um parallelo perfeito no que respeita á mortalidade. A conclusão a tirar destes factos é que a talha hypogastrica moderna constitue um progresso de valor na cirurgia dos cálculos vesicaes; com o seu aperfeiçoamento nós a executamos com mais confiança, mas terá, talvez para o futuro as mesmas indicações de outr’ora, isto é, será praticada nos casos difflceis, de grandes cálculos, pedras enkistadas ou situadas em divir- ticulos, ankylose coxofemural, etc., etc. Uma circumstancia poderá, entretanto, tornal-a ainda o methodo san- grento por excellencia, e é o aperfeiçoamento da sutura da bexiga. Litholapaxia. — A lithotricia rapida de Bigelow representa, por certo, uma das mais beilas paginas da cirurgia moderna, e tão firmés são os ali- cerces sobre que repousa, que, desde logo, ganhou a confiança dos especia- listas eminentes de todos os paizes. As volumosas estatisticas de Thompson, Keith, Guyon e Dittel assigna- lam uma mortalidade de 6 %, que em absoluto não tem sido registrada por nenhum outro processo operatorio; esi tomarmos mais em consideração o re- stabelecimento prompto dos operados, a preferencia dada sempre a um processo não sangrento, desde que uma contra indicação manifesta não a repilla, devemos acreditar que a litholapaxia difflcilmente será pela sua antiga rival. Entretanto, apezar de taes predicados, é provável que ella continue a ser sempre o monopolio de alguns operadores, que, por um temperamento especial, ou circumstancias diversas, se habituem a executal-a em boa con- sciência . « Lithotrity neglected had better not be done at all», são palavras do velho mestre Sir Henry Thompson, que resôam sempre aos ouvidos do es- treante, quando maneja um litnotritor caliuroso na bexiga tolerante e sem protesto de um indivíduo anesthesiado. Assim como ha cirurgiões que não se fazem bons operadores, do mesmo modo ha operadores que, não sendo dotados pela natureza de certos dotes espeCiaes, jámais se habilitarão em certas operações, que, como diz Konig, constituem uma verdadeira arte. A lithotricia não ficará « sepultada debaixo das flores atiradas sobre os cirurgiões que a praticam com successo », para servirmo-nos das palavras de Guyon ; mas, approximando-nos do modo de pensar de Konig, diremos que 72 el la será sempre a aristocrata, que fez a sua entrada no mundo scientiflco em pleno século IX ; que para conquistal-a é necessário uma mão delicada e sensível e uma educação aprimorada. A talha, ao contrario, é de todos os tempos : é mais faeil e mais acces- sivel, basta um pouco de geito e de ousadia para vercermos as suas diíficul- dades. Seguem-se os quadros : OPERADORES o O o u Ci trica a excepção para a extracção dos cálculos vesicaes — se hão de inverter completamente. Comquanto saiba que a talha hypogastrica muito tem perdido de sua gravidade e que a sua execução muito se tem simplificado, graças á antisepcia rigorosa, absoluta, dos curativos empregados moderna mente, e ao aperfei- çoamento, á precisão do seu manual, operatorio, continúa a ser eclectico relativamente aos methodos e procesSos destinados á extracção dos cálculos vesicaes. Julgo que hoje, como sempre, a lithotricia, a talha perineal e a talha hypogastrica têm as suas indicações especiaes, algumas vezes diíflcilmente formuladas com precisão, e tiradas do volume, do numero, da natureza, da consistência, da liberdade ou da adherencia do calculo, do estado das vias genito-urinarias, e finalmente do sexo, idade e constituição dos individuos calculosos. Atim de não prolongar muito esta exposição, eu vos direi em resumo : a talha hypogastrica, segundo minha opinião, continúa a ter as mesmas indicações de outr’ora, isto é, deve ser reservada sobretudo para os grandes cálculos extremamente resistentes ou para os casos em que, não podendo ser executada a lithotricia, o trajecto perineal nos fôr vedado por circumstancias especiaes, que seria impossível precisar neste momento, com a unica differença que hoje podemos executal-a cominais segurança, pelas razões já indicadas. » pg. 25. Discorda, porém, completamente da conclusão XII bis; não sabe por que motivo a lithotricia constituirá o monopolio de alguns operadores, visto não ser ella de execução tãodifficil, que justifique esta proposição. Acredita, entretanto, que entre nós prefere-se a talha á lithotricia por ser aquella muito menos grave, e não por ser esta de execução complicada. Nos dous únicos doentes calculosos que tem tido, o orador não praticou a lithotricia, por ser um delles uma criança, idade em que a talha é de uma benignidade admiravel, e apresentar o outro doente a pedra solidamente engastada na mucosa vesieal. O Sr. Dr. Malaquias—não se propõe a discutir preferencias de processos operatorios; vem expôr o que tem feito e o que se tem feito em sua província, onde abundam os cálculos vesicaes, para removel-os. Póie agora dizer que, de todos os cirurgiões brazileiros mencionados na estatística do Sr. Dr. Bulhões, é aquelle que conta maior numero de obser- vações de cálculos vesicaes ; pois praticou 120 operações de cálculos vesicaes em 18 annos. Sua primeira operação de alta cirurgia foi uma talha bilateral de Du- puytren, vindo o paciente a fallecer. Pouco tempo depois, estava á frente do serviço de cirurgia do Hospital de D. Pedro II, onde os cálculos são excessivamente frequentes ; e d’ahi por diante os resultados foram admiráveis em series seguidas. Não pôde apresentar estatística minuciosa ; apenas poderá referir-se a uma parcial do Hospital, feita por um collega, a seu pedido, deixando inteira- mente de lado sua estatística particular, que é mais favoravel. Em 1879 seis cálculos, todos curados pela talha perineal pre-rectal de Nelaton; em 1880, sete cálculos, todos curados pela talha perineal pre-rectal de Nelaton; em 1881, quatro cálculos, todos curados pelo mesmo processo; em 1882 tres cálculos, todos curados ainda pelo mesmo processo ; em 1883 cinco cálculos, quatro curados, e um insuccesso. Neste tratava-se de um calculo excessivamente volumoso, que não foi possível extrahir senão depois de fragmental-o, para o que foi necessário um instrumento extremamente forte e manobras demoradas, havendo con- tusões, que determinaram violenta cystite, de que veio a fallecer o paciente. Seria o caso de indicação para talha hypogastrica; mas ainda nessa época seu espirito era inteiramente contrario a esse processo. Em 1884 operou tres cálculos; dois pela talha hypogastrica e um pela perineal. Os dois primeiros doentes falleceram e o ultimo salvou-se. As condições eram differentes. O que foi operado pela talha perineal tinha um calculo pequeno, ao passo que os outros dois tinham-nos excessivamente volumosos. Parece que a primeira operação de talha hypogastrica praticada pelo pro- cesso de Paterson,—dilatação do recto e distensãj da bexiga,—feita no Brazil, foi a que o orador praticou-lhe em 1884 em um indivíduo, que fôra remettido do Cabo pelo seu particular amigo, o Sr. Barão de Campo Alegre. Esse indi- víduo falleceu de variola. Até então o Hospital de Pedro II estava su- jeito a receber variolosos, de sorte que os operados ficavam expostos ao contagio. Attribue o fallecimento do outro operado a não ter sido conveniente- mente executado o processo operatorio. Parece que o doente não ficou bem chloroformisado, e que as incisões não foram regulares para o pubis. Formou-se um abcesso neste ponto, e o doente falleceu. Em 1885 praticou quatro talhas pelo processo pre-rectal de Nelaton. Houve tres curados e uma morte. Em 1886 operou seis cálculos pelo mesmo processo, com quatro curados e duas mortes. Esta serie é mais infeliz. Nesse anno praticou a primeira litholapaxia de Bigelow em um doente em boas condições. O doente estava nas melhores condições possíveis, seu calculo era pe- queno; entretanto teve um insuccesso. Fez a autopsia, e verificou que a causa da morte fora lesões da mucosa vesical, apezar dos cuidados e precauções que tomou para evital-as. Isto prova bem a difflculdade desta operação, e que ella só póde ser feita por quem tenha grande habilidade manual e muita pratica. Em 1887, seis talhas perineaes de Nelaton; todas curadas. Em 1888, seis casos de cálculos operados pela talha de Nelaton ; todos curados. Apresenta aqui somente uma estatística parcial dos seus operados de 1876 — 1888, comprehendendo 51 operações. Das 51 operações registrou, pois, 44 casos curados ô 7 mortes. Além das estatísticas dos Srs. Drs. Sarmento e Pinto, apresentadas pelo Sr. Dr. Bulhões, conhece outros casos operados por cirurgiões de Pernambuco, e a estatística do Dr. Pontual, de 1883 a 1888. Elle tem, entre talhas hypo- gastricas e perineaes, 13 casos, com seis mortes. Note-se o seguinte; o Sr. Dr. Pontual praticou a talha hypogastrica em seis casos, obtendo os mais felizes resultados, sendo que elle praticou suas operações depois das do orador, com tas mesmas cautelas, etc. Alguns dos seus operados estavam em condições desfavoráveis: o primeiro in ha enorme pedra, cuja extracção pela ferida abdominal foi muito trabalhosa ; e, 1•„ m disso, tinha a bexiga muito compromettida pela inflammação: apezar de tudo salvou-se. Posteriormente elle fez outra operação, em que encontrou na bexiga tres immensos cálculos. A extracção do primeiro foi excessivamente difficil; entretanto, o doente salvou-se. O seu ultimo doente, depois de curado e fechada a ferida, estando em grande abatimento, foi mandado para o sertão, e lá falleceu algum tempo depois. Conhece mais uma pequena estatística do Sr. Dr. Moscoso, que, não sendo cirurgião, comtudo tem um serviço mixto no Corpo de Policia da província. Este collega praticou tres operações de talha, com dous insuccessos. São estas as estatísticas do Hospital de Pedro II. Todos os operados são homens ; no serviço de mulheres não appareceu um sò caso de pedra. Deste serviço está encarregado o Sr. Dr. Estevão Cavalcante. Vêm, pois, os collegas, a frequência dos cálculos na província de Pernam- buco, em relação ás outras. Quanto á frequeucia da moléstia, deve dizer que existem certas e deter- minadas localidades da província de Pernambuco, onde ella é maior do que em outras. Assim figuram notavelmente, entre as que mais concorrem para a estatística dos cálculos, as comarcas do Bonito, Goyana, Nazareth e Bom Jardim. Quantoao processo operatorio, o que diz a estatística e o orador pensa ó que a talha pre-rectal de Nelaton é aquella que merece preferencia na pratica ; mas acredita que a lithotricia de Bigelow, feita como ella deve ser, por mão pratica e habil, como é a do Sr. Thompson, e como é a do Sr. Guyon, é preferível a qualquer outro processo, dadas certas condições, isto é, quando o calculo é muito grande e muito duro. Este é o seu modo de pensar. Comtudo deve dizer que, para aquelles cirurgiões que não podem ter a pratica dessa operação, que têm aquelles notáveis especialistas, sobretudo em um paiz onde o calculo é raro, e onde, por conseguinte, não se pôde adquirir essa habilidade manual, tratando-se de uma operação perigosa, pelo risco que ha de contundir-se a bexiga, a lithotricia não deve ser o processo empre- gado de preferencia. Na clinica civil tem o orador um caso de lithotricia, praticado em um notável negociante do Recife, portuguez, de perto de 80 annos de idade, mas homem vigoroso, forte, robusto, cuja urethra era muito ampla; era uma urethra em que passava Beniquet n. 60 com a maior facilidade. N’este doente praticou a lithotricia com grande vantagem. 80 Quanto á talha hypogastrica acha que o seu iliustre collega, o Sr. Dr. Bulhões, e, mais do que elle, o seu collega Sr. Dr. Góes não tem razão. Acredita que a talha hypogastrica é a talha eminentemente cirúrgica, é a talha que deve predominar. Ella tem sobre as outras as seguintes vantagens : é de mais facil execução, o campo é mais extenso, o caminho muito mais curto, o calculo atravessa tecidos muito menos importantes, o que facilita muito mais o campo operatorio ; e o cirugião que se encontrasse com um caso semelhante ao que referiu o illustre Sr. conselheiro Catta Preta, de cálculos múltiplos, na talha hypogastrica não encontraria as mesmas difflculdades ; elle não teria esquecido, não teria deixado, por falta de diagnostico, os cál- culos dentro de bexiga, como succedeu, mesmo depois das investigações feitas pelos distinctos cirurgiões presentes. As estatísticas comparadas dos mestres mostram que essa talha dá grande numero de resultados na mão d’elles : na sua estatistica os resultados da talha hypogastrica foram desastrosos, comparados com os das talhas peiineaes; en- tretanto não acondemna, porque a seu lado estão os factos do Sr. Dr. Pontual, que em seis casos teve seis resultados felizes, elle que tinha sido muito mais infeliz nas talhas perineaes. O orador, em conclusão, entende que a talha hypogastrica é a talha do futuro, que ella e a lithotricia ficarão sendo as verdadeiras operações da pedra da bexiga. Os cirurgiões, que não forem especialistas, recorram á talha perineal, que é de facilima execução, que pódeser executada por um cirurgião sem grandes conhecimentos anatómicos, e cujòs riscos são pequenos ; assim o ensinam os mestres, e assim o ensina a pratica, quer d elles, quer do orador. O Sr. Dr. Crissiuma Mostra-se de pleno accordo com as conclusões do autor da memória; outro tanto não succede com alguns conceitos dos Srs. Conselheiro Catta Preta e Dr. Malaquias. Tem tido diversas vezes occasião de tratar de doentes de pedra, já na clinica privada, jã na clinica da Faculdade. Conta apenas tres casos de pedra em sua clinica particular. N’uin delles praticou a talha bilateral de Dupuytren, auxiliado pelo Sr. Dr. Bu- lhões. No 2o caso, em que se tratava de um calculo insignificante, praticou a talha pelo processo corrente. O anno passado, em um doente que lhe veio de Angra dos Reis, tentou a lithotricia de Bigelow, porém o paciente atterrou-se tanto com as dores que teve, apezar da anesthesia local promovida pela cocaina, que abandonou o tratamento, e passou-se para o Sr. Dr. João Pedro de Miranda, que o operou pela talha perineal. Para o orador a lithotricia de Bigelow é uma operação péssima para quem não está familiarisado com ella. A primeira vez que a vio posta em pratica pelos Srs. Prof. Barão de Saboia e Pedro Affonso foi muito desfavora- velmente impressionado. Os poderosos lithotritores de Bigelow não conseguiram mais do que morder a circumferencia do calculo e tirar delles pequenos fragmentos, e aquelles cirurgiões foram obrigados a recuar, fazendo depois a operação da talha. Foi esse o unico caso de operação da talha, que viu seguido de insuc- cesso. Pergunta: foi a operação da talha ou a operação da lithotricia a causa da morte ? Tratava-se de um italiano, perfeitamente robusto, empregado na em- preza Gary. Esse doente entrou para o serviço, soffrendo desde algum tempo de uma cystite symptomatica de calculo vesical. Examinado o doente, foi resolvida a operação pelo processo de Bigelow. Um ou dous dias depois, tentou-se esta operação infructiferamente. Horas depois, o doente teve ca- lafrios e ficou em estado gravissimo por alguns dias, até que se resolveu fazer a operação da talha. Fez a autopsia desse individuo. Os rins eram duas bolsas de pus. Pergunta: em um homem que, quatro dias antes, empregando-se em ser- viço tão pesado, como é o da empreza Gary, entrando para o hospital em boas condições geraes, sujeita-se a uma operação, como a lithotricia de Bigelow, e dois dias depois soffre a operação da talha e morre em seguida de nephrite purulenta, pôde ser attribuida a nephrite á operação da talha ? Para o orador a causa da nephrite e da morte foi a lithotricia de Bigelow. Na questão do tratamento do calculo, como de muitas outras moléstias, não se pôde fazer escolha prévia de processo operatorio ; é preciso ter em attenção as condições do doente, o seu estado geral. E’ isto o que não se faz hoje. Se ouvissemos a historia década doente, se procurássemos saber os seus antecedentes, talvez chegássemos a reconhecer a causa do insuccesso de muitas dessas operações. Em relação á lithotricia de Bigelow, é esta a sua opinião : é uma operação excellente na Europa, nas mãos de um professor como Thom- pson ; poderá vir a ser uma operação excellente nas mãos do Sr. Dr. Malaquias, porque elle tem occasião de operar frequentemente em Per- nambuco. O Sr. Prof. Pereira Guimarães resumirá muito o que tem a dizer, por estar a hora adiantada. Os cirurgiões do Rio de Janeiro não podem de maneira alguma decidir de uma maneira definitiva da superioridade entre as talhas e a lithotricia. Os cirurgiões de Pernambuco poderão fazel-o. Pela enumeração dos casos do Sr. Dr. Malaquias, vê-se que aquella provincia é um theatro bastante vasto para praticar a lithotricia. Depois de considerar a talha hypogastrica como a talha do futuro, como o orador também pensa, depois de nos ter referido um numero considerável de talhas perineaes, com uma mortalidade excessivamente pequena, o Sr. Di\ Malaquias chegou a uma conclusão, que lhe parece em contradicção com as observações deste collega. Devia ou continuar na pratica da talha perineal, ou então procurar, n’um theatro vasto de cálculos, como é a clinica de Pernambuco, mudar de regimen, passando para a lithotricia. No Rio de Janeiro, onde clinica ha tantos annos, apenas tem tido occasião de praticar cinco talhas e duas lithotricias pelo processo antigo, e nem sempre com bom resultado. N’um desses casos foi acompanhado pelo Sr. Dr. Rodrigues Peixoto. Praticou cinco talhas, quatro perineaes com dous insuccessos, e uma liy pogastrica. O primeiro insuccesso foi em uma operação, em que foi ajudado pelo Sr. Conselheiro Dr. Catta Preta. O doente foi operado quasi in extremis; os cálculos estavam encastoados no collo da bexiga ; havia uma cystite purulenta agudissima. Outro insuccesso foi n’um sacerdote. Este doente, que faz lembrar outro sacerdote operado pelo Sr. Conselheiro Catta Preta, era bastante velho e tinha um cabulo muito volumoso e duro pesando cerca de 30 grammas, que foi extrahido com felicidade. O doente ia bem, mas alguns dias depois da operação teve uma pequena hemorrhagia, à qual sobreveio grande prostração, seguida de septicemia e morte. A ultima operação foi de talha hypogastrica. O doente foi operado nas peiores condições possiveis. Tinha um calculo encastoado no collo da bexiga, que foi preciso encher de certa quantidade do liquido. Empregou injecções de cocaina. Deixou um syphão e ao mesmo tempo uma sonda na bexiga. No flmde 15 dias pôde retirar o syphão ; ao cabo de dous mezes a cura era completa, tendo fechado inteiramente a communicação entre a abertura hypogastrica e a bexiga. Este doente passou por varias peripécias. Era um individuo aífectado de estomatite, e a ferida resentiu-se disto. Tendo sabido do hospital perfeitamente curado, voltou no fim de 20 dias. Não sabe por que motivo a cicatriz rompeu-se, e começou de novo a urina a correr pela ferida. Graças ao tratamento pelo nitrato de prata, fechou a fistula. Sem poder tirar qualquer conclusão das suas observações, pensa que a talha hypogastrica será a operação de futuro. Não operará por outro processo, sempre que puder. A talha hypogastrica, como disse o Sr. Dr. Malaquias, é a operação verdadeiramente cirúrgica, e quanto aos riscos da lesão peritoneal, pôde-se dizer que são nullos. E’ a talha que melhor nos patenteia o theatro operatório, e na qual po- demos ter a ferida sempre sob as vistas, desde que se não praticar a sutura da bexiga, que não é necessária. Desfárte não haverá receio de infecção. Os resultados colhidos no Rio de Janeiro não autorisam a tirar conclusão contra a talha hypogastrica. 0 Sr. Prof. Oscar de Bulhões:— Parece-lhe que não foram bem inter- pretadas as suas palavras. O Sr. Dr. Domingos tlc Góes contrariou a sua ultima conclusão em relação ã lithotricia ; mas acha que seu illustre col- lega antes justificou a sua proposição, chegando até a dizer que a pratica da lithotricia não tem dado bons resultados, o que não é perfeitamente ex veto, á vista dos resultados que apresentou sobre a mortalidade nessas operações. Por consequência acha que não ha desaccordo, pelo menos á vista do modo pelo qual expoz S. S. sua opinião. Quanto ao Sr. Dr. Malaquiis, acha que S. S. também não ouviu bem o modo por que se externou relativamente ã talha hypogastrica. Foi sempre verdadeiro enthusiasta desta operação, e praticou-a pela primeira vez justa- mente quando acabava de ler os exageros das opiniões de alguns cirurgiões, por occasião da reunião dos médicos e naturalistas em Magdeburgo, que de- clararam que depois da éra antiseptica a lithotricia não tinha mais razão de ser, e devia passar para a historia da medicina. Entretanto, apezar de todo o seu enthusiasmo, e de haver conseguido um resultado completo no seu primeiro operado ; se por um lado considera a operação facil, por outro, acompanhando attentamente o tratamento consecutivo, e à vista das obser- vações de certos autores, não póde deixar de considerar serio o accidente possível da infiltração da urina séptica e suas consequências. A lesão do peritoneo não o preoccupa muito, graças aos recursos mo- dernos, e mesmo antes do emprego destes, esse accidente não se dava com frequência ; o mesmo não succede com a septicemia, occasionada pela infil- tração de urina alterada, contra a qual não temos meios seguros a oppor, desde que ella se manifeste. E’ um facto afiirmado não só pelo orador, como também por professores de toda a competência, que têm praticado grande numero dessas ope- rações. Por conseguinte, não condemna por fórma alguma a talha hypogastrica; pelo contrario, tem-na por operação exeellente, sobretudo depois dos últimos progressos, mas só indicada nos casos que apontou no seu trabalho. Aproveita ainda estar com a palavra para defender o seu collega, Sr. Dr, Malaquias. Os collegas que se referiram âs considerações, que elle fez sobre a these em questão, não o ouviram bem. Elle não tem praticado muitas vezes a lithotricia ; só em dous casos lançou mão desse processo, e os resultados não foram bons. Como o collega não tem mais occasião de fallar, toma a liberdade de fazer esse reparo. Não tem necessidade de estender-se mais sobre o assumpto, e termina agradecendo aos collegas que tomaram parte 11a discussão da these por elle apresentada, especialmente ao Sr. Dr. Malaquias pela importante buição que trouxe âs suas pesquizas, no ponto que se refere ã frequeneia re* lativa dos cálculos na provinda de Pernambuco s Repete o que disse no seu trabalho : que sendo maior o tributo que paga â moléstia essa província em relação âs outras, sirva-lhe de compensação possuir cirurgiões tão distinctos, ao numero dos quaes pertence o seu illus- trado amigo. O SR. PROF. FEIJO’:— Com a communicação que vae fazer sobre ova- riotomia tem em vista dous fins: primeiro, consignar, diante deste primeiro congresso nacional de medicina, que cabe á actual geração medica a honra de ter introduzido no Brazil a ovariotomia; em segundo logar, tem em vista appellar para o concurso de collegas muito distinctos, que ultimamente têm praticado esta operação, afim de esclarecer certas questões que aellase ligam. A ovariotomia, póde-se dizer, só começou a ser praticada scientiíicamente em 1763 por Mac-Donnell nos Estados-Unidos. Houve um periodo de 50 annos em que, depois da morte deste operador, esta operação não foi de novo praticada, até reviver em 1842. A França foi o ultimo paiz em que ella se vulgarisou. Em 1861 Keberlé contava um grande numero de operações. Entre nós a primeira tentativa não foi um caso de ovariotomia ; não se tratava da extirpação de um kysto do ovário, mas de um tumor collado á parede do utero. Foi praticada pelo Sr. Dr. Matheusde Andrade, sem resul- tado, na Santa Casa da Misericórdia. Posteriormente, em 1869, o Sr. Barão de Saboia praticou a primeira ovariotomia. Em 1870 o orador praticou a sua primeira ovariotomia na Santa Casa ; ao orador seguiu-se o Sr. Dr. Werneck. De então para cá essa operação tem-se tornado vulgar, de modo que moderna mente quasi todos os nossos gi- necologistas contam certo numero de casos de resultados felizes. E’ ainda um facto, sobre o qual chama a attenção do congresso, que esta operação até então era rara, porque as mulheres que se prestavam a ella, eram as que já tinham antes recorrido a todos os meios, e não tendo outra es- perança senão a sepultura, como ultimo recurso entregavam-se â cirurgia. Attribue a frequência actual destas operações aos resultados felizes que tem-se obtido, facto que, lhe parece, será confirmado pelos collegas. Realmente, hoje não se comprehende o receio por uma operação destas, sobretudo depois dos aperfeiçoamentos modernos, que tanto têm feito pro- gredir a cirurgia. D’antes só recorriam á operação mulheres que se considera- vam irremediavelmente perdidas. Esta operação, como outras, pelo seu aperfeiçoamento, fez com que a moléstia, que era do dominio exclusivo da medicina, passasse ao dominio da cirurgia, obtendo-se quasi sempre curas completas. Não se comprehende como homens tão illustrados, como evidentemente eram os cirurgiões que nos precederam: Antonio da Costa, Peixoto, Visconde de Itaúna, e outros recuassem diante desta operação. E’ tanto mais estranho o facto, quanto muitos desses homens estiveram em contacto com os mais cele- bres clínicos, e provavelmente tiveram opportunidade de assistir a opera- ções de ovariotomia e conhecer seus resultados. Seria o receio da peritonite ? Não sabe ; mas o que é fhcto inquestionável é que a ovariotomia é uma conquista da actualidade entre nós, e que os mo- dernos cirurgiões brazileiros foram os primeiros introductores e vulgarisa- dores desta operação no Brazil. Sua estatistica comprehende somente casos de kistos do ovário operados de 1870 até hoje ; excluiu os casos de hysterectomia e outros. Tem 26 casos, que dividiu em duas series: a primeira de 15 casos de 1870 a 1884, a segunda de 11 casos de 1884 a 1888. Todas as suas doentes foram operadas no Hospital da Misericórdia , ou na casa de saude de N. S. da Ajuda ou na clinica civil. Insiste nesta circumstancia para tirar certas conclusões em relação aos resultados obtidos. Na primeira serie os resultados foram effectivamente mãos: dos 15 casos operados, apenas conta seis curas. Das nove pacientes que falleceram e que todas foram autopsiadas: uma, que soffria de constipação habitual, falleceu oito dias depois da operação em conse- quência deocclusão intestinal, pois encontrou o intestino obstruido na extensão de 8-10 centímetros. Outro caso de morte foi de uma mulher, que, 30 dias depois de operada tendo tido alta, pediu licença para ficar mais alguns dias na enfermaria, até que fossem buscal-a. Dias depois foi atacada de dysenteria, da qual falleceu. Em outros casos a autopsia revelou a existência no peritoneo de uma collecção sero-purulenta. Muito de proposito insiste nesta circumstancia, porque devido a esta ex- periencia é que ultimamente emprega systematicamente a drenagem da cavidade abdominal. Sua segunda serie é, como disse, de 11 casos, dos quaes apenas perdeu uma doente, a ultima operada ha dous mezes. Essa mulher apresentava um tumor abdominal datando de 17 annos. Pelo exame, a que procedeu no Hos- pital da Misericórdia, verificou que se tratava de um kysto suppurado. O seu illustrado collega, o Sr. Dr. Oscar Bulhões, que também examinou a doente e ajudou a operação, concordou no diagnostico, que infelizmente para a doente foi confirmado pelos factos. Quando praticou a operação, extrahiu uma grande bacia de pús. Essa doente veio a morrer com todos os symptomas de chock. Não pôde attribuir a morte a outra cousa. Comparando os resultados obtidos na segunda serie com os obtidos na primeira, é fóra de duvida que a segunda é mais vantajosa. Ella apresenta 10 casos de cura em 11 operados ; e, o que é muito mais importante, em muitas doentes não houve nem reacçâo febril: n’uma senhora que operou na clinica civil teve a felicidade de, no 7o dia, levantar os pontos, pois que a incisão tinha unido por primeira intensão. Procurando explicar a mortalidade da Ia serie, não póde deixar de appellar para um facto importante, que representa um papel muito notável na ovariotomia em todos os paizes onde a operação começa a ser praticada, a saber: que as primeiras pacientes que se apresentam são exactamente aquellas que já têm esgotado todos os recursos therapeuticos, e recorrem á operação em desespero de causa. Além disto, muitas dessas doentes foram operadas na Santa Casa da Mi- sericórdia n’uma enfermaria commum. N’aquella época ainda a parte pos- terior do edifício não estava terminada; de modo que as doentes de gineco- logia estavam em promiscuidade com doentes de medicina n’uma enfermaria contigua a outra de cirurgia. Alguns collegas ouviram ao orador dizer muitas vezes:—nestas condições é atè uma crueldade operar. Desde, porém, que teve a vantagem de ter uma sala, como tem actualmente, 11a parte do hos- pital, afastada das de cirurgia, onde pôde estabelecer tratamento antiseptico rigoroso, tem conseguido melhores resultados, tanto que das ultimas doentes operadas ahi, da sua segunda serie, apenas conta um insuccesso nas condições já referidas. Ainda em relação â estatística favoravel desta 2a serie, acredita que pôde attribuir esse resultado aos cuidados antisepticos e ao tratamento especial da cavidade peritoneal. De longa data se abstém completamente do emprego da solução de acido plienico, não só porque muitos práticos acreditam na possibilidade de enve- nenamento, como porque acredita que contra esse agente ha idysioncrasias especiaes que não podemos conhecer préviamente. Todos nós sabemos que ha indivíduos que, sob influencia do acido plienico manifestam perturbações do apparelho renal. Na opinião de alguns ovariotomistas, muitos casos de morte são devidos ã intoxicação pelo acido plienico. Por isso, de longa data, baniu absolutamente de sua pratica 0 acido plienico. Ha dous annos que tem empregado, com muita vantagem, a la- vagem da cavidade peritoneal com agua simplesmente esterilizada pelo calor. E’ um meio que dá sempre os melhores resultados; além disso para 0 tratamento consecutivo, applica um tubo de drenagem 11a cavidade peritoneal em todos os casos. 1 ; Alguns ovariotomistas aconselham a drenagem da cavidade peritoneal, sómente quando a moléstia do ovário é complicada de adherencias, quando ha extravasação do conteúdo dos kistos na cavidade ou quando é de receiar qualquer extravasação de sangue, etc. Mas, quem tem operado na cavidade peritoneal, sabe que as manobras operatórias frequentemente promovem certa irritação, que póde determinar uma secreção, a principio serosa e depois sero-purulenta desse orgão, secreção que às vezes enche toda a cavidade. E’ por eífeito da presença dessa grande quantidade de liquido, que tende a alterar-se, que apparecem os gravíssimos phenomenos da infecção grave. Acredita, portanto, que é de vantagem deixar 110 angulo inferior da ferida um tubo de drenagem de gomma elastica ou de vidro, além de que se 0 peritoneo excitado pelo traumatismo ou pela presença do tubo exagerar suas funcções physiologicas, transformando-se estas em pathologicas, não ha inconveniente nenhum em retiral-o, no fim de 24 horas. Ainda lia um ponto sobre o qual desoja chamar a attenção dos collegas: ó sobre o tratamento do pediculo, tratamento que representa um papel muito importante nessa operação. Quando começou a operar, predominavam as idéas de Spencer Wells; mas hoje, acompanhando a pratica dos maiores ovariotomistas, só applicará o tratamento extra-peritoneal do pediculo, quando este fòr excessivamente volumoso. Em um caso, em que o pediculo era volumoso e expesso, o dividiu em dous; e pela autopsia veriíicou que a liemostasia era perfeita. Desde que o pediculo possa ser bem ligado, não ha inconveniente em abandonal-o na cavidade abdominal. Acredita que era do seu dever, aproveitando a opportunidade da reunião do congresso medico, apresentar estes resultados da sua pratica, e provocar a discussão de assumpto tão importante, para o flm de conhe- cer o actual estado da ovariotomia no nosso paiz, e consignar que á actual geração cirúrgica cabe a gloria de ter introduzido e generalisado noBrazil este grande recurso therapeutico. O Sn. Dr. Werneck Vem em breves palavras expôr os resultados de sua pratica, que offerece analogia flagrante com a pratica do distincto pro- fessor que acaba de fallar. Fez a primeira ovariotomia em 1874. Era um caso simples e magnifico para estréa. Uma mulher forte e robusta, de 30 annos de idade, casada recentemente, de maneira que o crescimento do ventre tinha sido conside- rado ao principio como gravidez incipiente. Esta doente, soffrendo extraordi- nariamente, consultou a vários médicos ; e chegou ássaas mãos, depois de ter soffrido um tratamento prolongado por meio de drásticos e banhos de vapor, porque houve quem fizesse diagnostico de hydropisia; de maneira que ella es- tava bastante depauperada. Depois de examinal-a, expoz-lhe com toda a fran- queza qual seu estado, qual o diagnostico e prognostico ; é á franqueza que um grande numero de vezes afugenta os doentes. Crê, porém, que isto é uma boa pratica, e não se tem dado mal com ella. Depois de oito dias, a doente sujeitou-se cá operação, que correu com toda a felicidade. Acabava de frequentar a clinica de Spencer Wells em Londres, onde tinha tido a felicidade de assistir a ovariotomias, que completavam a 5a serie de 100 daquelle illustre professor ; de maneira que estava enthusiasmado com os resultados bri- lhantes que tinha visto, porque, tinha tido occasião de acompanhar uma serie felicíssima naquella occasião ; de maneira que praticou a operação pelo processo então empregado por aquelle professor. Essa doente foi operada na sua casa de saude, com o mais brilhante resultado. Empregou tra- tamento antiseptico, mas não rigoroso como se emprega hoje ; cuidados extremos com os instrumentos ; desinfecção das esponjas, cuidados extraor- narios emfim, pois era o seu primeiro caso, e o unico accidente desagradavel que se deu,foi a formação de um pequeno abcesso, devido à longa permanência do hlamp, que só se destacou no fim de 25 dias. A doente restabeloceu-se completamente ; liojo é mfti do numerosa fa- mília. Depois deste caso teve uma serie infelicíssima, quatro casos seguidos de morte. Realmente quasi todos eram de doentes que tinham chegado ao ultimo grande depauperamento ;porque não só não tinha sido feito em tempo o diagnostico, como porque, depois de feito, ainda as doentes diílicilmente se resolveram a deixar-se operar, sendo que ató collegas distinctos eram contra- rios á operação. A sexta doente era uma senhora de 54 annos de idade, que operou pelo processo de Spencer Wells. A operação correu perfeitamente. Era um kisto enorme, porém sem adherencias. A doente foi perfeitamente nos oito primeiros dias, de maneira que o collega que a tinha enviado, veio dar-lhe os parabéns pelo bom exito da operação. Infelizmente este exito não foi completo. A doente commetteu uma imprudência, em resultado da qual lhe sobreveio uma peritonite, de que morreu em 24 horas. Acredita que, se esta doente tivesse sido tratada pelo methodo intra-peritoneal, talvez o resultado não fosse fatal. A doente que se seguiu era uma senhora de 56 annos de idade,que além dos kistos dos ovários, soffria de um epithelioma do collo do utero, que a tinha depauperado em consequência de repetidas hemorrhagias. Não queria operal-a, porque achava inteiramente inútil a operação, e sò cedeu a reite- radas instancias da doente, e depois de ouvir a opinião do nosso illustrado presidente, o Sr. Dr. Catta Preta. Era sua intenção fazer, não só a ovariotomia dupla, porque se tratava de dous kystos, como também a extirpação total do utero. Mas não imaginava que a operação podesse ter tanta difficuldade. Fez a ovariotomia dupla, extirpando os dous kistos, que eram enormes, porém desistiu completamente da idéa de fazer a extirpação total do utero, porque a doente era excessi- vamente gorda, a parede do ventre apresentava grossas camadas de tecido adiposo, e os intestinos, distendidos por gazes, tendiam a sahir. Nestas condições viu que não podia acabar convenientemente a operação. A doente nada perdeu com isto, porque nas 24 horas seguintes morreu de uma septicemia aguda. A doente, que se seguiu, era uma senhora de 48 annos, extremamente depauperada, que tinha sido também victima de um tratamento medico depauperante tendo por base os drásticos. Esta senhora foi operada na casa de saude do orador; era também um caso de ovariotomia dupla. Succumbiu em consequência de esgotamento nervoso e collapso. Outra doente era uma senhora extremamente enfraquecida, e, além disso, pouco razoavel; e apezar do diagnostico, não se quiz deixar operar senão na ultima extremidade, quando o kisto tinha adquirido um desenvolvi- mento enorme, as falsas costellas estavam já voltadas para fóra, não podia já respirar, e tinha uma vida insupportavel. O estado da doente era tão grave, que não ousou lazer a operação sem ouvir outros collegas. 89 Foram cliamados os Srs. Drs. Catta Preta, Souza Fontes o Alfredo Guima- rães, que acharam que as probabilidades de successo eram poucas, mas que se devia operar. Fez a ovariotomia ; era um lcisto enorme, e a compressão tinha produzido taes effeitos, que quando o kisto foi retirado, a cavidade abdominal parecia vasia, parecia que nella não havia mais nada. Os intestinos estavam tão atropliiados que o Sr. Dr. Catta Preta comparou-os a tripas de gallinha. A doente passou perfeitamente as primeiras 24 horas; mas a temperatura começou a elevar-se, e a doente suecumbiu em consequência de septicemia aguda. Apezar desta serie infeliz, nunca desanimou, nunca deixou de operar, com medo de estragar a estatistica. Diz isto porque, como se sabe, 11a Europa ha indivíduos que gozam desta fama, que fazem estatísticas brilhantes operando kistos insignificantes, incipientes, recusando os casos graves, que mandam a outros cirurgiões. Tem operado todas as doentes, que se lhe têm apresentado. Mas como disse, não desanima, porque mais ou menos pôde sempre descobrir qual a causa da morte nas outras doentes; tinha 0 exemplo de Baker Brown e de outros e teve sempre verdadeira crença no successo destas operações. Com effeito, Baker Brown começou a sua serie do modo o mais infeliz possível,porque nas primeiras nove operações teve sete mortes, mas acabou chegando a resultados quasi tão brilhantes como aquelles que se obtêm hoje com os progressos da antisepsia; porque nos últimos 48 casos perdeu apenas quatro ou cinco, e foi o inaugurador do systema que deu resultados brilhantíssimos, 0 emprego do tratamento intraperitoneal do pediculo. Depois desta serie, teve nove casos de cura ; e se 0 Congresso se tivesse realizado pouco mais cedo, não teria o desprazer de dar-lhe a noticia do ultimo caso de insuccesso. Realmente, depois desta serie felicissima, em que as doentes se curaram perfeitamente, sem 0 menor incidente, conservando-se sempre perfeitamente apyreticas, teve 0 desgosto de perder 0 seu ultimo caso. A doente conservou-se também completamente apyretica até o nono dia, e tinha já todas as probabilidades de cura, quando, infelizmente, adquiriu um tétano agudíssimo, de que falleceu em 24 horas. Com effeito foi uma verdadeira infelicidade, não só para a doente, como para o orador a superveniencia de tal accidente. O tétano figura entre as causas de morte na ovariotomia em uma pro- porção insignificante. Lawson Tait na sua estatistica extensissima cita um ou dous casos; Spencer Wells cita tres ou quatro, e chegou a ter setecentos e tantos casos seguidos, sem um sòcaso de tétano. E’ verdade que a primeira doente operada por Nélaton, que elle disse ter morrido curada, morreu também de tétano. Como disse, no segundo caso empregou 0 methodo intra-peritoneal. Pouco a pouco foi adoptando as praticas antisepticas. Em dous casos empre- gou o methodo antiseptico com todo o rigor, e, cousa notável, nesses casos justamente morreram-lhe de septicemia as doentes. 90 Nos últimos tempos, influenciado pela leitura e pelos successos extra- ordinários obtidos por Lawson Tait, não exagera as praticas antisepticas; emprega o maior asseio, tendo tolo o cuidado possivel na limpeza das mãos, dos instrumentos e do local, mas, como o illustre collega, o Sr. Dr. Feijò, em vez de usar de acido phenico, faz as lavagens com agua esteri- lisada. Em dous casos empregou o methodo de drenagem intra-peritoneal, pelo qual não temo mesmo enthusiasmo que o seu collega; e justamente um desses casos terminou pela morte. No outro caso tratava-se de uma senhora, em quem praticou a ovariotomia dupla. A parede do kysto estava de tal modo adelgaçada, que, na occasião de operar, romperam-se algumas lojas do kysto, parte do liquido caliiu na cavidade peritoneal, e então foi necessário o emprego da dre- nagem. Quanto ao anesthesico, influenciado pelas idéas de Spencer Wells, trouxe de Londres o apparelho de Junker e uma certa quantidade de bi-clilorureto de methylena, que empregou em alguns casos, mesmo em operações diflferentes da ovariotomia, na esperança de evitar um dos maiores inconvenientes do chlo- roformio, que é o vomito. Mas, por uma fatalidade, justamente nos casos em que empregou o bichlorureto de methylena, as doentes tiveram vomitos. Desde então abandonou o uso desse agente anesthesico, e emprega exclusiva- mente o cliloroformio, o mais puro que pôde, e em grande numero de vezes associado á morphina, com excellentes resultados. Antes de descer da tribuna, deve communicar ao Congresso que o Sr. Dr. Pedro Paulo, não podendo comparecer hoje, o encarregou de dizer al- guma cousa a respeito dos seus casos de ovariotomia, dos quaes tem sido tes- temunha, á excepção apenas de um. Elle tem praticado quatro ovariotomias, todas seguidas de successo ; tres aqui no Rio de Janeiro, e uma em Poços de Caídas. Elle segue mais ou menos os princípios correntes, seguidos pelo orador e pelo Sr. Dr. Feijó. Nos seus casos ha um de cura incompleta. N’uma das suas doentes o Sr. Dr. Pedro Paulo empregou a drenagem, que neste caso foi uma valvula de segurança. As outras particularidades dos casos do Sr. Dr. Pedro Paulo serão com- municadas por escripto ao Congresso. O Sr. Dr. Augusto Brandão concorda com o illustre Sr. professor Feijó em tudo quanto expendeu sobre a ovariotomia, fazendo reserva tão só- mente no tocante á drenagem dosacco peritoneal, porquanto acredita que os tubos de drenagem podem servir de via à infecção. Lembra-se perfeitamente de um caso em que o Sr. Dr. Werneck, operando um enorme kysto, que teve de incisar antes da extirpação, apezar de enormes cuidados para evitar o derramamento do conteúdo do kysto na cavidade peritoneal, não o conseguiu, e para evitar as consequências desse contacto limitou-se a fazer uma cuidadosa lavagem da cavidade abdominal com agua esteri- lisada, praticando em seguida a sutura da ferida. Essa doente restabele- ceu-se rapida e completamente, não se dando a mais leve elevação de temperatura depois da operação. Outra pratica que julga acertada é a sutura separada do peritoneo. Estando a hora adiantada, o Sr. presidente dá para primeira parte da ordem do dia da 5a sessão a memória cio Sr. Dr. Silva Nunes, sobre a acção therapeutica da lobelina, e continuação da discussão sobre a prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recem-nascidos, e levanta a sessão. 5a Sessão em 15 de Setembro de 1888 Presidência do Sr. Conselheiro Dr. Catta Preta SUMMARIO :— Acção therapeutica da lobelina. — Continuação da discussão sobre a prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recem-nascidos.— Obser- vação de aneurisma parcial do myocardio, simulando insufficiencia tricuspide. — Observação da hemi-spasmo glosso-labial. — Epidemia de dengue em Valen- ça.—• Aneurismas da poplitéa e seu tratamento.— Febre amarella. O SR. DR. SILVA NUNES lê : Da lobelina e sua acção therapeutica na asthma Antes de encetarmos o nosso estudo sobre a lobelina, devemos expôr a razão por que abandonamos a tinctura de lobelia, em dóses elevadas, na therapeutica da asthma, como no Bulletin de Therapeutique de 28 de Feve- reiro de 1886 tínhamos preconisado. Tendo continuado as nossas observações sobre esta tinctura, não pode- riamos passar em silencio, d’entre as pesquizas que fizemos, um artigo do proíessor Parrot no diccionario de Dechambre sob a epigraphe : Asthma. Neste artigo o professor Parrot refere-se ao uso da lobelia, que, conti- nuada na dóse por elle prescripta, não havendo vomitos, tornar-se-ha em menor espaço de tempo tão alta como a que nós tinhamos o habito de em- pregar (30 gr.). Transcrevemos aqui as palavras textuaes deste professor : « Signalons encore la lobelie, medicament tout à la fois stupefiant et eméto-drastique dont 1’usage nous est venu de TAmerique. A’ la varieté syphilitique on a substitué la lobelie enflóe. C’est la teinture qui est habituelement prescript à la dose de 1 ou 3 gr. On la prépare en traitant par 1’alcool (500 gr. a 85°) 100 gr. de feuilles et sommités dela lobelie. Cette dose est repetée toutes les demi-heures et Von arrete dès qiCil survient des vomissements, ce qui arrive d'ordinaire aprés trois ou quatre prises. Wun effet toujours incertain, souvent dangereux, la teinture de lobelie ria qiiune action momentanèe durant les paroxysmes.» Fazia ingerir desta fôrma 15 gr. em 2 1/2 horas ou 30 gr. em 5 horas, quando não sobrevinham vomitos, o que muitas vezes deveria acontecer, se- gundo a tolerância individual, pois que, elle mesmo o diz, é esta substancia de um effeito sempre incerto. Fallivel certamente o seria, pois que procurava o resultado emetico, que se poderia não realizar. A acção, porém, da lobelia, que já entrevíamos quando publicámos o nosso artigo sobre os seus bons resultados na asthma, e que foi demon- strada neste trabalho pelos estudos de therapeutica experimental realizados sobre o seu principio activo, comprovam não ser, como se suppunha, vomi- tiva porém de uma acção, em discordância com a maior parte dos autores, notavelmente electiva sobre os systemas nervoso e muscular. Estamos convencidos que não ó ao emprego em altas dòses, porém á con- stância das mesmas ininterrompidamente que foram devidos os nossos satis- factorios resultados, que persistem até hoje, tres annos depois. Assim, tendo de empregar a tinctura de lobelia na dóse de 30 gr., para que, estabelecida a tolerância estomacal, a acção medicamentosa se poaesse manifestar sobre o systema nervoso, a prescrevíamos em vehiculo de 200 gr., que o doente deveria tomar ás colheres de sopa de 2 em 2 horas, ingerindo em 24 horas mais de 20 gr. de tinctura ou em 30 horas toda a poção. Tendo obtido sempre satisfactorios resultados, continuámos a prescrever a tinctura de lobelia, diminuindo a quantidade do vehiculo, de modo a fazer ingerir a alguns doentes 30 gr. em menos de 24 horas, continuando assim quotidianamente a mesma dóse, até completo resultado. Certos doentes, porém, pelo mão gosto que encontravam na poção, tinham vomitos que appareciam logo depois da ingestão de um certo numero de colhéres. Para sanar esta difficuldade, aconselhei sempre a diluição de cada dóse ingerida em maior quantidade d’agua, o que trazia o resultado que procurávamos obter, isto é — o desapparecimento da acção emetica. Este inconveniente, porém, e o mão gosto, que persistia, comquanto não houvesse effeito emetico, coagiram-nos a procurar no principio activo, na lobelina, a acção benefica da planta. Tornava-se, porém, difficil a prescripção desta substancia, pois que, ainda não introduzida na therapeutica, os seus estudos experimentaes não tinham ainda sido feitos convenientemeute, a sua dosagem era para nós desconhecida. Os poucos therapeutas que a ella se referiam, davam-na como uma substan- cia eminentemente toxica. Paulier e Gubler dedicam-lhe poucas palavras : relatando a sua desco- berta por Procter em 1838, citam sómente o facto da entoxicação de um gato pela dóse de 1 centigr. Romberg, que a empregou no homem, não colheu resultados favoráveis e viu sobrevirem phenomenos toxicos com a diminuta dóse de 11 milli- gramims. Eram estes os únicos dados com que contávamos, quando começámos a prescrever a lobelina na therapeutica da asthma; não tendo-se ainda encar- regado do estudo da therapeutica experimental o Dr. Azevedo Sodré, que o fez posteriormente. Tomámos para inicio da nossa posologia a dóse de um centigramma, que começámos a dar com intervallos largos, prevenindo que suspendessem a medicação, desde que qualquer phenomeno insolito sobreviesse. Desta maneira prescrevemos até a dóse de 40 centigrammas, sem que nos fosse dado observar nos asthmaticos os phenomenos que Romberg observou com a dóse minima de 11 milligrammas. Seja dito, porém, de passagem, que tivemos occasião de notar em um doente de bronchite simples, no qual empregámos a lobelina com o fim de observar os seus effeitos em outra moléstia que não a asthma, os phenomenos da acção physiologica, taes como os que foram observados em cães pelo Dr. Azevedo Sodré, sobrevirem na dóse de 5 centigrammas. Este facto, porém, não está em contradicção com a alta dosagem a que chegámos, no emprego da lobelina, prova elle sómente que a moléstia em que o systema nervoso acha-se perturbado, quer por ser elle o principal aífectado, quer porque soffra as conse- quências de um outro morbus que o excite desmedidamente, torna o organismo apto para absorver sem perigo fortes dósesde determinado medicamento. Todos os autores estão de aceordo em semelharem a lobelia in/lata à nicotiana tabacum, emquanto que as experiencias do Dr. Azevedo Sodré vêm completamente provar a discordância entre os phenomenos produzidos pela acção da nicotina e os da lobelina. Uma substancia existe na therapeutica que se pôde comparar á segunda — é a saponina glicosida da raiz da polygala senega, que com a lobelina offerece pontos de inteiro contacto. Segundo Nothnagel e Rosbach, a acção da saponina accentua-se principal- mente nela paralysia dos nervos sensíveis e motores, no ponto em que foi ella injectada, e mais tarde pela paralysia da medulla, depressão da respiração, baixa da pressão sanguínea ; phenomenos estes que pelas experiencias que mais adiante detalhadamente viram relatados, em cães e rãs se apresentam também como o principio activo da lobelia inflata, que como a polygala foi sempre considerada como offerecendo resultados mais ou menos salientes nas affecções dos orgãos respiratórios. _Comquanto quasi todos os autores estejam de accordo em admittir que a acção benefica da lobelia sobre a asthma seja incontestável, nem todos comtudo ligam esto resultado ao seu principio activo — a lobelina. E’ assim que em um dos numeros do Bulletin de 1887, o Dr. Poulet, querendo preconisar o tratamento da asthma pelo acido oxalico, diz acreditar serem os bons effeitos da lobelia, nesta nevrose, devidos a este acido que quasi todas as plantas mais ou menos contêm. Este nosso trabalho, em que os bons serviços da lobelina na asthma se evidenciam, vem ao mesmo tempo comprovar ser a este principio activo, e não ao acido oxalico, como pretendia o Dr. Poulet, devida a acção da lobelia inflata sobre o apparelho pulmonar. Emquanto que na tinctura de lobelia a acção emetica tem sido muitas vezes observada, na lobelina nem acção nauseante nem emetica temos encontrado, mesmo naquelles em que empre- gámos dóses relativamente altas deste principio activo. E’ assim que no individuo de bronchite simples, em que experimentámos o emprego da lobelina, a acção physiologica demonstrou-se pelo enfraquecimento do orgão central da circulação, abatimento das forças, ebriedade e somnolencia, porém não se manifestaram nem vomitosnem mesmo nauseas. E’ fundando-nos nesta observação physiologica no homem, que acreditamos ser antes devido á fôrma pharmaceutica, á tinctura, do que á acção physiologica da mesma planta, este eífeito emetico, que por quasi todos tem sido obser- vado, e que foi também uma das razões que a fizeram comparar á nicotiana tabacum, da qual se afasta ella tanto,quanto a lobelina se distancia da nicotina. Rapida e fugaz é a acção da lobelina, como o é a da tintura de lobelia, facto este que nos coage a usar, na primeira como na segunda, de dòses continuadas, para que sua acção se mantenha sempre eas primeiras dóses não se tornem improfícuas por sua facil eliminação, facto este de simples obser- vação que se pôde verificar por experiencias em cães, que promptamente voltam a si da somnolencia de que são acommettidos, desde que suspende-se a administração desta substancia. Como asaponina, a que acima nos referimos, a lobelina tem sobre os centros nervosos acção pronunciada. A anesthesia dos nervos sensiveis e motores demonstra-se aqui exube- rantemente pelo estudo da therapeutica experimental. Ao estado de indiffe- rença completa em que colloca o pneumo-gastrico para com as excitações electricas de maior força e intensidade ; á sua acção deprimente sobre o systema muscular, que se patentêa pelo desapparecimento de sua contractili- dade, quando solicitada pelos agentes physicos; á sua acção anesthedca sobre o cerebro e medulla, parecem ser devidos os effeitos calmantes da lobelina na asthma. E’ natural que, por deducção lógica, este medicamento, que tem sido em- pregado exclusivamente por nós n’uma nevrose que tem a sua manifestação no apparelho pulmonar, possa vir, mais tarde, a produzir beneíicos resultados em outras entidades mórbidas do systema nervoso. Não pretendemos affirmar, porém lembrar uma idéa que poderá ser, cremos, com proveito utilisada. Pela sua acção sobre o systema muscular e sobre o systema nervoso, parece-nos razoavel que, entre as moléstias em que o symptoma convulsivo predomina, diminuindo a contractilidade muscular, abolindo o rellexo nervoso, deverá trazer a calma ao funccionalismo perturbado. E’ assim que no tétano, por exemplo, é bem possível que experiencias clínicas posteriores venham demonstrar poder sor a lobelina preconisada como um medicamento, pela sua acção hypotonismte, que, melhor que os actual- mente prescriptos, nesta affecção, produza resultado. Emquanto a tinctura de lobelia só póde ser administrada por via gastrica, póde a lobelina ser utilisada em injecções hypodermicas, pois não produzindo acção irritante sobre o ponto injectado, poderá substituir as injecções de morphina, até agora prescriptas, quando urgia não esperar por um medicamento, que só poderia produzir o seu effeito, absorvido por ingestão. Apezar de não termos até hoje empregado as injecções hypodermicas de lobelina, como meio therapeutico, não trepidaríamos em fazel-o, conhecendo, como hoje conhecemos, sua acção physiologica e posologia . Certamente que nesses casos procuraremos de muitissimo menores subir a dóses progressivamente maiores, não tendo a temer plienomenos de accu- mulação, pois, já o dissemos, sua eliminação é excessivamente rapida. Do mesmo modo que a eliminação, a absorpção é também bastante rapida ; facto este que podemos verificar pelas melhoras sensíveis que accusavam os doentes algumas horas depois da ingestão das primeiras dóses medica- mentosas. Esboçadas estas considerações sobre a lobelina, cedemos espaço aos estudos colligidos e feitos pelo Sr. Dr. Azevedo Sodré, sobre matéria medica, physiologia e therapoutica experimental, que, em desaccordo completo com o que já haviam anteriormente feito outros experimentadores, poderão ser considerados como estudos completamente novos. Em seguimento apresentaremos as nossas observações clinicas e as deducções, que de cada uma delias decorrerem. Clinica, tiierapoutica cia lolaelina Tendo sido nossa intenção primitiva substituir a tinctura de lobelia pela lobelina, utilisàmos esta ultima sóment.e em algumas affecções em que era prescripta a primeira. Para dar uma fôrma pharmaceutica mais agradavel ao doente, prescre- vemol-a aos adultos em pílulas, e ás crianças tendo por veliiculo o xarope de groseilles. Quanto á posologia, não poderemos dizer qual seja a dóse maxima exacta, pois varia entre 5 e 40 centigrammos. Doente houve, segundo se verificará das nossas observações, a quem bastou a dóse de 5 centigr mimos para o completo resultado, emquanto que em outros fomos obrigados a elevar até 40 centigrammos. Nas crianças, nas duas observações que possuímos, foi em ambas a dóse maxima de 5 centigrammos. Nestas porém, como nos adultos, não poderemos estabelecer as dóses mais altas empregadas como sendo aquellas além das quaes não será licito ultrapassar, pois que, se considerarmos que a asthrna essencial é, como define Parrot « uma neorose secretoria do pulmão, constituída por ataques intermitlentes, da qual a dyspnèa è o symptoma predominante », devemos recordar que, como grande numero de affecções do systema nervoso, torna o organismo apto para absorver sem perigo fortes dóses medicamentosas. Não trepidaremos, certamente, com as cautelas que usamos, elevar a dóse maxima actualmente empregada, desde que esta se torne improfícua, que o doente não apresente phenomenos de intoxicação. Para maior methodo na exposição das observações, começaremos por uma, em que gradativamente se vê a marcha que seguimos na elevação da dosagem, para attingir quantidades progressivamente maiores. Tendo nossas observações versado sobre asthrna essencial e cardíaca, miei aremos nossa apresentação por um caso desta. Ia- observação Romana Maria, de 45 annos de idade, vem á consulta em 14 de Se- tembro de 1886. Diz soffrer lia 16 annos de accessos periódicos quinzenaes de astlinm, e ter sido tratada por diversos meios medicamentosos. Na occa- sião da consulta acha-se sob a influencia do accesso. A escuta revela grande quantidade de estertores sibilantes e mucosos, sendo os primeiros tão in- tensos, que são ouvidos a alguns passos de distancia. Não é possivel neste dia a escuta do coração. O ligado acha-se congesto. Prescri pção: Infusão de ipecacuanha 200 grani mas. Ipecacuanha em pó 1 » Tome 1 calix de 15 em 15 minutos, até vomitar. 16 de Setembro.— O flgado acha-se reduzido. Continha a queixar-se de dyspnéa que a ineommoda. Os estertores sibilantes, comquanto ainda em grande quantidade, deixam proceder ao exame do coração, que pela escuta mostra-se estar perfeitamente normal. Diagnostico: Asthma essencial. Prescripção: Lobelina 1 centigr. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 5 pilulas, tome uma de 3 em 3 horas. 18 de Setembro.— A medicação não deu grande resultado. Prescripção: Lobelina 5centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 21 de Setembro.— Já pôde dormir mais socegada, a escuta revela pequena modificação para o apparelho respiratório. Prescripção: Lobelina Gcentigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 12 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 1 de Abril de 1887.— Depois de uma ausência de mais de seis mezes volta à consulta por occasião de um dos accessos. Diz que durante o tempo que mediou entre a ultima prescripção e este dia, tem tido mais de seis accessos. Achando-se em um delles actualmente, vem procurar allivio ao seu soffrimento. A escuta revela grande quantidade de estertores sibilantes e mu- cosos em ambos os pulmões. Prescripção: Lobelina 10 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 4 de Abril.— Diz a doente que pode passar bem as noites, tendo a dyspnéa se tornado menos intensa. A escuta revela menos mtensidade dos estertores sibilantes. Prescripção: Lobelina 15 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 6 de Abril.—Os estertores mucosos em menor quantidade, os sibilantes persistem. Tem pouca dyspnéa. Prescripção: Lobelina 20 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas* Tome uma de 2 em 2 horas. C. M. 7 15 de Abril.— A doente tem passado regularmente os dias e as noites, que medeiam entre a ultima e a presente consulta. Persistem os estertores sibilantes. Prescripção: A mesma do dia 6 de Abril. 19 de Abril.—Tem pouca dyspnéa, os estertores são em menor quanti- dade. Prescripção: Continúa a mesma do dia 6 de Abril. 25 de Abril.—Não tem melhoras sensiveis, continúa nas condições do dia 19. Prescripção: A mesma do dia 6 de Abril. 28 de Abril.— Continuando o mesmo estado, não havendo modificação nem para peior nem para melhor. Prescrevemos: Lobelina 25 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 15 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 2 de Maio.— A dyspnéa é quasi nulla. Ainda existem estertores sibilantes disseminados em ambos os pulmões. Prescripção: Fazemos repetir a fórmula prescripta no dia 28do Abril. 4 de Maio.— Não houve modificação quanto aos estertores sibilantes. Prescripção: Lobelina 30 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 12 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 9 de Maio.— Não tem mais dvspnéa ; existe pequena quantidade de ester- tores sibilantes. Prescripção: Lobelina 30 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 23 de Maio.— Adoente diz nada soffrer. A escuta revela, porém, ainda um outro estertor disseminado no pulmão. Prescripção: Continúa a medicação do dia 9 de Maio. A doente não voltou á consulta. Quatorze mezes depois encontràmol a, e, apezar de não a termos examinado, asseverou-nos continuar em perfeitas condições de saude. Comquanto a doente se mostrasse pouco cuidadosa de si própria, como se pôde ver pela observação, deixando passar dias e ás vezes mezes entre uma e outra prescripção, os effeitos da medicação são innegaveis, pois que assim mesmo decorreram, até á data em que a vimos, 14 mezes, sem que o seu accesso normal e ás vezes quinzenal reapparecesse. Esta observação mostra ainda, como no inicio do nosso estudo sobre a lo- belina, tínhamos o habito de dosal-a timorato, e algumas vezes rirmavamo- nos em uma dóse, que nos parecia um pouco mais alta e só a elevávamos depois de bem verificar tornar-se improfícua a quantidade prescripta do medica- mento. 2a observação Catharina Seiler, 26 annos, moradora á rua do Bomjardim n. 167. Vem ã consulta em 2 de Dezembro de 1886. Diz soffrer ha oito annos de asthma, cujos accessos foram antes mensaes, depois quinzenaes, e eram agora, ha seis mezes, hebdomadarios. A’ escuta percebe-se grande cópia de estertores mucosos e sibilantes em ambos os pulmões. Dyspnéa intensa. O centro circulatório nada offerece de anormal. Diagnostico: asthma essencial. Começámos a prescrever-lhe a tintura de lobelia em alta dóse:20gr. para 200 gr. de vehiculo, subindo depois a 30 gr. para 200 gr. de vehiculo. O sabor, porém, era de tal modo nauseante, que a doente pediu-nos que suspendêssemos a medicação. Oito dias depois voltou com novo accesso, em 13 de Dezembro de 1886. Nestas condições prescrevêmos: Lobelina 10 centigrs. Extracto de genciana.'. q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 3 em 3 horas. 15 de Dezembro.— Sente-se melhor. Menor quantidade de estertores sibi- lantes e grande quantidade de mucosos. Prescripção: Lobelina 15 centigrs. Benzoato de ammonio 3 grs. Extracto de genciana q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 3 em 3 horas. 17 de Dezembro. — Menor quantidade de estertores mucosos ; persistem ainda diminuídos os sibilantes. Prescripção: Lobelina 20 centigrs. Benzoato de ammonio 2 grs. Extracto de genciana q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 21 de Dezembro.— Diz a doente nada mais soffrer. A escuta demonstra pe- queníssima quantidade de estertores sibilantes. Repete-se a mesma prescripção do dia 17. 27 de Dezembro.—A escuta nada revela de anormal para o apparelho respiratório. Tem alta. Um anno depois, voltando a doente á con- sulta, para tratar-se de uma outra moléstia, garantiu-nos que durante este tempo a asthma não reapparecera A escuta revela normal o murmurio vesicular, nem um estertor sibilante ou mucoso deixava perceber o mais mi- nucioso exame. Sete mezes depois, em Julho do corrente anno, voltou á consulta apresentando plienomenos de gravidez adiantada. Interrogada, diz que desde o inicio da gravidez até aquella data, oitavo mez, não se apresen- taram phenomenos dyspneicos, nem a menor perturbação ainda soffTeu para o orgão respiratório. Examinada pelo Dr. Martins Ribeiro, confirma esto comnosco o estado physiologico do apparelho pulmonar. Por esta observação vè-se que começámos o tratamento pela lobelina, com a dóse superior â minima, 5 centigrs., fixada por nós para o adulto. Se assim praticámos, foi porque conhecíamos que, supportando a doente sem vo- mitos a poção de tintura de lobelia, posto incommodasse-lhe o sabor, comtudo não tendo eííeito emetico, facilmente toleraria dóse mais forte do que a mi- nima com que costumamos iniciar o nosso tratamento. 100 Um facto notável deveremos também pôr em relevo nesta observação: esta doente, que tinha soffrido um anno antes de uma nevrose, como é a asthma, achando-se sob a acção de um phenorneno physiologico, a gravidez, que muitas vezes traz comsigo perturbações notáveis, desordens do systema nervoso, do mecanismo pulmonar, etc.; não teve a menor alteração na sua saude. Achando-se em condições fortuitas para fazer-se apparecer a asthma, atravessou incólume oito mezes de gestação ! Em taes condições, parece-nos que poderemos consideral-a como curada, não só pelo tempo decorrido, visto que seus accessos eram anteriormente quinzenaes e mesmo hebdomadarios, como também pelas provas por que passou sem que a antiga moléstia se manifestasse em tão longo e trabalhoso decurso de tempo. 31 observação Antonio Manoel Fernandes, 37 annos de idade, morador à rua de As- sumpção n. 20 D. Chamou-nos para vel-o em 19 de Março de 1887. Encon- trámol-o dyspneico. A escuta revela grande quantidade de estertores mucosos e sibilantes em ambos os pulmões, predominando os estertores mucosos; o apparelho circulatório não apresenta lesão organica. Soffre lia seis annos de asthma, tendo sido quinzenaes, durante este espaço de tempo, os accessos que o acommettem. Diagnostico: asthma (bronchite). Prescripção: i Infusão de ipecacuanha 200 grs. Ipecacuanha em pó 1 » Tome um calix de 10 em 10 minutos, ató vomitar. 2 Lobelina 5 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 5 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 21 de Março.— A dyspnéa persiste oom menor quantidade de estertores mucosos. Prescripção: Lobelina 10 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 24 de Março.— Continua nas condições anteriores. Prescripção: Lobelina 20 centigr. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 26 de Março. — Existe grande quantidade de estertores mucosos e poucos sibilantes. Prescrevêmos um vomitivo de ipecacuanha. Mandámos repetir a prescripção ordenada no dia 24. 28 de Março.— Menor quantidade de estertores mucosos e alguns sibi- lantes. ContinilaVa a dyspnéa, que não o tinha abandonado desde o dia iy de Março. Prescripção: Lobelina 25 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 14 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 1 de Abril.— Pouca dyspnéa, que se acha hoje muito diminuida, o que permitte-lhe conciliar osomno durante muitas horas, não o fazendo outr’ora, pois era frequentemente interrompido. A’ escuta encontrámos pequeníssima quantidade de estertores sibilantes e alguns mucosos disseminados em ambos os pulmões. Prescri pção: Lobelina 25 centigrs. Benzoato de ammonio 2 grs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 3 de Abril.-- O doente diz nada mais sofTrer. A escuta não deixa per- ceber estertores sibilantes nem mucosos. Considerámol-o, por esta razão, curado. Tivemos occasião de vel-o posteriormente, por diversas vezes. Um anno e alguns mezes já se têm passado, e comquanto a sua profissão o exponha constantemente a resfriamentos, pois é trabalhador em pedreiras, tem tido bronchites agudas repetidas vezes, mas não voltou nem uma só vez o accesso de asthma. Nesta observação, como em todas aquellas em que addicionámos o ben- zoato de ammonio à lobelina, tem aquelle por fim coadjuvar a segunda como expectorante, quando se apresenta grande quantidade de estertores mucosos O vomitivo, que ás vezes empregamos no começo do tratamentos, tem por fim diminuir a quantidade de mucosidades accumuladas nos tubos bronchéos, acção esta puramente mecanica. 4a" observação Juliana Vaz Pinto, 40 annos, moradora á rua da Quitanda n. 20. Yeio á consulta em 10 de Julho de 1887.— Diz soffrer ha tres annos de bronchite asthmatica, continuadamente. Apresenta antecedentes rheumaticos. O exame do apparelho circulatório nada apresenta de anormal. No apparelho respira- tório : grande quantidade de estertores mucosos e sibilantes em ambos os pulmões, dyspnéa. Diagnostico : bronchite asthmatica. Prescripção: Infusão de ipecacuanha 200 grs. Ipecacuanha em pó 1 gr. Tomo um calix de 10 em 10 minutos, até vomitar. 11 de Junho.— A doente continua nas condições anteriores ; diminuida, porém, a quantidade de estertores mucosos, predominam os estertores sibi- lantes. App ireceu diarrhéa. Prescripção : Lobelina 5 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 12 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 17 de Junho.— A doente sente-se já muito melhor, respira muito mais livremente. Persiste a diarrhéa. Prescripção: Lobelina 5 centigrs. Extrato de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 23 de Junho.— Diz a doente que nada mais soffre desde o dia 18. A diar- rhéa desappareceu. O apparelho respiratório acha-se também em estado normal, o que foi também verificado pelo Dr. Luiz de Araújo. E’ notável esta observação, por ser nella a dóse minima empregada a dóse curativa. Como se vê, na prescripção que fizemos de lobelina, havendo diarrhéa que fôra consequência da acção da ipecacuanha, não nos animámos a prescrevel-a como costumamos, pois que, não tendo ainda estudos de therapeutica experimental em nosso apoio, e sendo corrente em therapeutica ser a lobelia innata um emeto-cathartico, devíamos usar de toda a prudência e cautela, comquanto não acreditássemos, pelas observações anteriores, no effeito emeto-cathartico da lobelina. Esta doente, ainda pelos antecedentes rheumaticos, deveria ser um dos casos nos quaes só o iodureto de potássio devesse produzir effeito, e foi este entretanto o unico indivíduo adulto, das nossas observações, em quem a lobelina produziu seu effeito curativo na menor dóse (5 centigrms.) Antonlo dos Santos, marítimo, 34 annos, morador á rua do Felippe Meyer n. 7. Vem á consulta em 21 de Fevereiro de 1887. Dizsoffrerha seis annos de astlima, tendo accessos quinzenaes periódicos. Pela escuta percebe-se grande quantidade de estertores sibilantes e mucosos em ambos os pulmões, lingua saburrosa, figido congesto, dyspnéaintensa. O apparelho circulatório apresenta-se sem lesão organica, havendo alguma hyperknese cardiaca, devida ao accesso asthmatico. Diagnostico : astluna essencial. Prescripção : Infusão de ipecacuanha 200 grams. Ipecacuanha em pó 1 » Tome um calix de 10 em 10 minutos, até vomitar. 23 de Fevereiro.— Menor quantidade de estertores mucosos e grande quantidade de estertores sibilantes. O doente apresenta extraordinária dyspnéa. Prescripção : Lobelina 5 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 6 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 25 de Fevereiro.— O doente contimia nas condições anteriores. Prescripção i Lobelina 10 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 27 de Fevereiro.— Não houve alteração no estado morbido. O doente continúa a não dormir. Prescripção: Lobelina 15 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 5a observação 5 de Março.— O doente teve ligeiras melhoras nos dias anteriores, hoje porém acha-se com intensa dyspnéa. Prescripção : Lobelina 20 centigrs. Extractode alcaçuz q. s. F. lOpilulas. Tome umi de 2 em 2 horas. 7 de Março.— Diz o doente que passou melhor a noite antecedente. A escuta demonstra grande quantidade de estertores sibilantes. Prescripção: Lobelina 25 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 9 de Março.— Não houve modificação do estado anterior. Prescripção: Lobelina 30 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 14 de Março.— O doente apresenta grandes melhoras, já pôde dormir socegadamente. A dyspnéa diminuiu. Notam-se, porém, ainda os estertores sibilantes em ambos os pulmões. Prescripção: Lobelina 30 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. lOpilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 21 de Março.— Yolta dizendo ter tido um accessò intenso de dyspnéa tres dias depois de deixar o uso das pilulas de lobelina. Prescripção : Lobelina 35 centigrs. Extracto de alcaçuz q. S; F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 24 de Mirço.— Passou bem as noites, os estertores sibilantes são em menor quantidade. O doente, porém, pede, á vista do preço exagerado do medicamento, que lhe dê medic unento mais barato ; tendo em consideração des- animado com não ter visto a cura realizar-se com a dóse de 35 centigrs., receioso de elevar esta, tendo empregado sempre com bons resultados a tinctura de lobelia, prescrevêmos: Agua 100 grams. Tinctura de lobelia 30 » Tome uma colher de sopa de hora em hora. 31 de Março.— Não teve a poção prescripta effeito emetico ou cathar- tico. A dyspnéa tem-se torn ido, porém, tão intensa, que o doente pede que voltemos *á antiga medicação. Sendo este um dos casos mais rebeldes que temos encontrado á acção da lobelina, augmentámos a dóse á quantidade a que até então não tinhamos elevado. Prescrevêmos : Lobelina 40 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 16 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 4 de Abril.— A dyspnéa é menos intensa, existe menor quantidade de estertores sibilantes. Não teve o doente phenomono algum que fizesse temer a acção da lobelina. Prescripção : Lobelina 40 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 12 de Abril.— Comquanto tivesse já a alguns dias acabado o medicamento prescripto, não voltou mais cedo á consulta, por achar-se em 1'sonjeiras con- dições. A’noite antecedente, porém, teve alguma dyspnéa. Prescripção : Lobelina 40 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 6 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 17 de Abril.— Volta á consulta, dizendo ter apanhado grande chuva, tendo por isso peiorado consideravelmente. Tosse e expectoração abindantes. A escuta demonstra grande quantidade de estertores mucosos e pouca de sibilantes. Prescripção: Infusão de ipecacuanha 200 gramms. Ipecacuanha em pó I » Tome um calix de 15 em 15 minutos, até vomitar. 20de Abril.— Não tem mais dyspnéa e a escuta revela muito pequena quantidade de estertores sibilantes. Prescripção : Lobelina 40 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 6 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 30 de Abril.— Volta à consulta para apresentar-se e dizer que acha-se completamente bom. Pela escuta nada encontrámos de anormal para o appa- relho respiratório. Considerámol-o curado. Seis mezes depois tornámos a encontral-o; as condições de saude continuam inalteráveis; a escuta não revela o menor estertor sibilante ou mucoso. Disse-nos o doente não ter tido até áquella época, accesso algum astlnnatico. Quatro mezes mais tarde o distincto 6o annista de medicina, o Sr. Sebastião Leão, que viu o coiueço do tratamento, encontrou o doente, que affirmou-lhe achar-se até áquella data perfeitamente livre da astlnna. Diversos e innumeros factores concorrem para tornar notável esta obser- vação. Em primeiro logar a dóse máxima que temos empregado, e que foi administrada a este doente em tempo inferior a 24 horas, sem que phenomeno insolito se manifestasse. Em segundo logar a prova real e frisante da acção da medicação sobre a asthma, o que se demonstra na dyspnéa que sobrevinha desde que, não estando o doente restabelecido, cessava, por qualquer razão, de continuar com a lobelina. Phenomeno este, que por diversas vezes se apresentou e logx) tendia a desapparecer, desde que o collocavamos sob a influencia do me licainento. Um terceiro facto também desta observação se evidencia, que vem provara superioridade da lobelina sobre a tinctura de lobelia, pois aquella em volume menor, sem os inconvenientes do sabor, produz resultados me- lhores que esta ; neste ciso, se tivéssemos empregido a tinctura de lobelia, teríamos necessidade de elevar a dóse superior a de 30 grammas di irias, que pelas provas que se podem deduzir desta observação não correspondem certamente a 40 centigrammas de lobelina . E desse modo, elevando a dóse da tinctura a 40 ou 50 grammas, seria impossível dal-a em vehiculo conveniente, tornando-se, portanto, excessiva- mente incommoda a fórmula pharmaceutica que prescrevesse mos. Emquanto que, com a lobelina, se a dóse prescripta, que produziu os resultados alme- jados, não nos tivesse feito conseguir o nosso desideratum, certamente que a elevaríamos sempre, tendo em vista as cautelas, que se devem ter com qual- quer medicamento. Não pretendemos, de m meira algum v, fazer acreditar na infallibilidade da substancia que estudamos, mas devemos recordar que neste, como em muitos outros medicamentos, poderemos ultrapassar a dóse maxima, desde que a resistência mórbida a isto nos convide. E’ bem applicavel aqui a seguinte comparação, que encontrámos algures, sobre a posologia dos medicamentos : «assim como é a ultima gotta que enche o copo, é a ultima dóse que vem a produzir o effeito desejado ». E é por isso que vemos nas observações variarem as dóses curativas conforme os doentes. Sendo, pois, sem razão que muitas vezes ó deixado de lado um medicamento, só porque na dóse maxima, prescripta pelos autores, não produziu os resultados procurados. Por esse motivo proseguiriamos, se necessário fosse, até que a intole- rância organica nos viesse ordenar o abandono do medicamento. 6a observação Cláudio José Tavares, 60 annos presumi veis, moradora rua do Bomjardim n. 25. Yem á consulta em 28 de Março de 1887. Queixa-se de grande dys- pnéa e dòr hepatica. Tem accessos periódicos de asthma ha 14 annos. A es- cuta demonstra grande cópia de estertores sibilantes em ambos os pulmões. Não existe lesão do apparelho circulatório. Congestão hepática. Prescripção: 1 Calomelanos 60 centigrs. Rhuibarbo 20 » Lactose 50 » Em 1 papel. Tome de uma vez. 2 Lobelina. 20 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. S. A. 16 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 3 de Abril.— Volta dizendo ter tido grandes melhoras e poder mais fa- cilmente dormir. A dyspnéa diminuiu. A escuta ainda revela uma certa quantidade de estertores sibilantes. Prescripção : Lobelina 20 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 7 de Abril.— Volta à consulta dizendo que a dyspné i só apparece uma ou outra vez. A escuta revela pequena quantidade de estertores sibilantes. Prescripção : Lobelina 30 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 10 de Abril.— Vem á consulta dizendo nada mais soffrer. a escuta nada revela de anormal para o apparelho respiratório. Verificámos em Agosto do corrente anno que acura ainda se mantinha ; o que ha a salientar nesta obser- vação é a antiguidade da affecção e o rápido resultado conseguido em tão breve espaço de tempo. Tendo começado o tratamento por 20 centigrammas, em dóses espaçadas, tínhamos prevenido ao doente que suspendesse a medi- cação desde que qualquer phenomeno anormal sobreviesse. Sendo este medi- camento de custo bastante elevado entre nós, e teado já dous doentes abandonado a medicação pelas grandes despezas quotidianas, que eram obri- gados a fazer, começámos logo, neste doente, pela dóse de 20 centigrammas para attingir mais rapidamente, se necessário fosse, a dóse mais alta que até então tinhamos empregado, 40 centigrammas. Não foi isto, porém, preciso, pois foi a dóse curativa apenas de 30 centigrammas. Por esta observação vê-se que, guardadas determinadas cautelas, a dóse de 20 centigr para inicio não é exagerada, desde que não fôr dada como não prescrevemos, em 24 horas; pois, é preciso reconhecer se ha alguma idysioucrasia ou susceptibilidade do individuo para com o medicamento. Introduzindo a lobelina na therapeutica, tendo-a prescripto aos adultos, não poderíamos deixar de utilisal-a na infancia, pois que nãoé a asthma apa- nagio de maioridade. Assim, segundo a estatística de Salter, om 47casos de asthma, 19 foram encontrados durante os 10 primeiros annos, distribuindo-se da maneira seguinte: Durante o primeiro anno 9 De um a dez annos 10 Total, 19 casos Como muito bem faz observar Parrot, que cita esta estatística, é bem possível que muitos casos de asthma na infancia passem despercebidos, principalmente durante o primeiro anno. E’ esta uma das razões, por que as observações que são registradas per- tencem quasi sempre a crianças maiores de 3 ou 4 annos, ou porque, ainda, por deleixo fiquem as crianças virgens de todo o medicamento durante annos, como succedeu na observação seguinte de asthma na infancia. 7a observação Dionysio, de 4 annos de idade, morador á rua de Olinda n. 11. Vem â consulta em 16 de Março de 1887.— Segundo as informações da mãi, desde a idade de 1 anno soffre accessos periódicos mensaes de dyspnéa. A escuta revela grande quantidade de estertores sibilantes. O coração não apresenta lesão. Diagnostico: asthma essencial. Prescripção: Xarope de groseille 100 grams. Lobelina 2 centigrs. Tome uma colher de sopa de hora em hora. 18 de Março.— Acha-se melhor, continha, porém, a ter dyspnéa. Pela es- cuta encontra-se ainda grande quantidade de estertores sibilantes em ambos os pulmões. Prescripção: Xarope de groseilles 60 grams. Lobelina 2 centigrs. Tome uma colher de chá de hora em hora. 19 de Março.— Continua nas condições do dia anterior. Prescripção: Xarope de groseilles 60 grams. Lobelina 3 centigrs. Tome uma colher de chá de hora em hora. 21 de Março.— Adyspnéa desappareceu. Emamtram-se ainda estertores sibilantes. Prescripção: Xarope de groseilles 60 grams. Lobelina 4 centigrs. Tome uma colher de chá de 2 em 2 horas. 24 de Março.— Pequena quantidade de estertores sibilantes. Diz a mãi, ter a criança passado perfeitamente as noites. Prescripção: Xarope de groseilles 60 grams. Lobelina 5 centigrs. Tome uma colher de chá de 2 em 2 horas. A doentinha não voltou mais á consulta. Em Março de 1888 encontrámos a mãi da criança, que disse-nos não terem mais reapparecido os accessos asthmaticos, eter a criança passado até aquella data perfeitamente bem. Em lOde Junho de 1888 tivemos occasião de tornar a ver a criança e proceder, então, a minucioso exame. Nada encontrámos de anormal para o apparelho respiratório. Nestas condições, pois, julgámol-a curada. Por esta observação vê-se que na mais tenra idade pôde a asthma appa- recer, pois nesta criança começou ella a ser notada na idade de 1 anno, não se podendo com certeza garantir se mesmo antes desta época não fôra ella preza da affecção de que durante tresannos sóffreu, sem que lhe fosse admi- nistrado o minimo medicamento. Tivemos noticia, ha pouco, de um facto curioso, passado na clinica de um collega, cujo nome não declinamos, por ter ficado ainda na duvida se tra- tava-se real mente de um caso de asthma. Uma criança de 4 mezes é levada à consulta por outra affecção, apresenta alguns estertores sibilantes em ambos os pulmões. Segundo refere a mãi, quinze dias depois de nascida e durante tres mezes e meio tem a criança soflfrido pequenos accessos quinzenaes de dyspnéi. Comquanto descon- fiasse da asthma, não pôde com segurança firmar o diagnostico, pois não a viu o collega em um desses accessos. Sendo, na observação anterior, a primeira vez que dosámos a lobelina na infancia, começámos cauteloso por dóses minimas, até alcançarmos o cura- tivo, indo gradativamente das dóses menores ás maiores, fraccionando a dóse, sendo o medicamento empregado, seguindo assim a regra de Jules Sirnon quando trata da posologia dos medicimentos na infancia: « Na infancia è pre- ciso sempre fraccionar e dividir as dóses d,as substancias medicamentosas.» Assim o fizemos, convictos que na maior, como na menor idade os mesmos me- dicamentos podem ser prescriptos, desde que se tiver em vista a regra por elle formulada e que acima deixamos exarada. Continuando na nossa exposição sobre a asthma essencial, menciona- remos a 8a observação Yirginia, de 7 annos, moradora á rua Formosa n. 16. Tem asthma com accessos quinzenaes, desde os 2 annos de idade. Vem á consulta em 27 de Março de 1888. Pela escuta encontra-se grande quantidade de estertores mucosos e sibilantes. Dyspnéa. Lingua saburrosa. O coração nada apimsenta de anormal. Esta criança foi examinada, no nosso consultorio, pelo Dr. Martins Ribeiro, que confirma o diagnostico de — asthma essencial. Prescripção : Infusão de ipecacuanha 200 grams. Tome meio calix de 15 em 15 minutos. 30 de Março.—Diz a mâi que, comquanto vomitasse abundantemente, continúa a criança a ter dyspnéa. Encontra-se ainda, além de estertores mucosos, grande quantidade do estertores sibilantes em ambos os pulmões. Prescripção : Xarope de groseilles 40 grams. Lobelina 5 centigrs. Tome uma colher de chá de 2 em 2 horas. 2 de Abril.— Diz a mãi que a criança tem passado perfeitamente bem as noites e não tem ma is dyspnéa. A escuta revela muito pequena quantidade de estertoims sibilantes em ambos os pulmões. Prescripção : Xarope de groseilles 50 grams. Lobelina. 5 centigrs. Tome uma colher de 2 em 2 horas. 4 de Abril.— A criança tem dormido bem e passado os dias e as noites sem a menor dyspnéa. Pela escuta não se percebem mais estertores sibilantes ou mucosos, a respiração é normal, resultado este constatado pelo Dr. Mar- tins Ribeiro. Em Julho procurámol-a expressamente, e pelo mais minucioso exame nada pudemos encontrar de anormal para o apparelho pulmonar. Os acjessos, até esta época, não tinham reapparecido. Conhecendo melhor a substancia empregada por anterior observação, sabendo por experiencia não ser a dóse do 5 centigrammas toxica na infancia, foi por ella que come- çámos o tratamento da nossa doentinha. Desta posologia também não nos afastámos, comquanto diminuíssemos a quantidade do vehiculo, promptos certamente a elevar a dosagem, se esta não nos fizesse alcançar o resultado almejado. Esta criança, disse-nos a mãi, já tinha sido tratada por diversos meios medicamentosos, sem que o menor resultado tivesse obtido, continuando a ter invariavelmente accessos quinzonaes. O desipparecimento total, pelo menos até o mez de Julho, dos accessos asthmaticos, dá-nos direito, suppomos, de acreditar no completo exito da me- dicação empregada. Não foi somente na asthma essencial que empregámos a lobelina, com bons resultados, também na asthma cardíaca produziu effeitos que se patenteam na 9a observação Emiliano Maria de Souza, de 38 nnnos de idade. Vem consultar, para. tratar-se de soffrimentos cardíacos, no dia 24 de Setembro de 1887. Pela escuta do coração diagnosticámos — insufficiencia aortica e mitral. Auscultando os pulmões, encontrámos estertores sibilantes em quantidade, dyspnéa de tal modo incommoda, que o não deixa dormir. Com o fim de exa- minar somente o efteito da lobelina, fizemos-lhe a seguinte prescripção : Lobelina 5 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 26 de Setembro.— Diz o doente que tendo melhora lo um pouco, a dyspuéa, comtudo, não o abandonou. Pela escuta verificámos ainda estertores sibi- lantes em ambos os pulmões. Prescripção : Lobelina 10 centigrs. Extracto de alcaçuz q. s. F. 10 pilulas. Tome uma de 2 em 2 horas. 20 de Setembro.— Volta dizendo não ter mais dyspnéa, persistem os outros symptomas devidos á lesão do apparelho circulatório. Pela escuta, verificámos desapparecimento completo dos estertores sibilantes, que ante- riormente tinhamos encontrado. O doente continua, durante muitos mezes,o tratamento da affecção cardíaca, sem comtudo ter jamais apresentado manifes- tações mórbidas para o apparelho pulmonar. Deixa de vir á consulta desde o mez de Janeiro até o mez de Junho, em que volta em condições desesperadas : a insufflciencia mitral tendo progredido extraordinariamente, apresenta o doente o quadro da asystolia. Poucos dias depois succumbe aos progressos da lesão mitral. A acção da lobelina sobre o bulbo bem se patentèa nesta observação, diminuindo a irritação desta parte do systema nervoso, estado este devido à irregularidade da irrigação sanguinea, e produzindo pela sua acção calmante o desapparecimento total dos phenomenos dyspneicos que atormentavam o nosso doente. Não pretendemos apresentar a lobelina como um especifico contra a lesão aortica ou mitral; queremos sómente comprovar, com este caso cli- nico que, mais que o bromureto de potássio, pois que, devemos dizer, tinha este doente delle feito uso anteriormente, acicutina, etc., tem a lobelina, pela sua acção sobre o systema nervoso, notável eíleito sobre a asthma cardiaca. São estas nove as observações mais notáveis, que possuimos no nosso archivo clinico sobre a acção da lobelina na asthma. Não nos foi dado empregal-a em outros casos, pois que sô depois de colleccionad is estas observações foram feitos os estudos de therapeutica expe- rimental, que vieram dar margem para novas pesquizas clinicas sobre a acção desta substancia em grande numero de affecções, em que, por deducção da sua acção physiologica, deverá produzir beneficos resultados. Estes estudos experimentaes, como já o dissemos anteriormente, vêm provar a eliminação rapida do medicamento, as dóses primordiaes em que poderá ser empregado em injecções hypodermicas, sua acção não irritante sobre o tecido cellular, a sua electividade para o systema nervoso, etc. Não nos tendo sido possível retirar a lobelina da lobelia inflata, empre- gámos sempre a extrahida pelos Srs. Thibumery e Dubosc, de Pariz, e, acre- ditando nas habilitações dos que a prepararam, cremos ter empregado substan- cia pura. Não está completo o estudo clinico da lobelina; iniciada, porém, sua posologia-, outros, mais hábeis, verifiquem seus effeitos e preconisem sua utilidade. E’ tudo quanto desejamos. O Sr. Dr. Victorino Baptista diz que, clinicando em Campos, onde é commum a asthma, tem tido occasião de empregar a lobelia, e não concorda com o autor da memória sobre os inconvenientes da tinctura de lobelia, nem acredita que a lobelina a possa substituir. Em geral não emprega altas dóses de tinctura da lobelia ; merece-lhe preferencia a tintura etherea. Sendo ainda contradictorios os resultados de experimentação da lobelina, não participa do enthusiasmo do seu collega, que empregou o alcaloide associado ao benzoato de ammonia, o que lhe faz acreditar que não se tratava de asthma, mas sim de corysa de repetição, ou simples bronchites com emphysema agudo, frequentes nas localidades húmidas. Não está provado que a lobelina não seja toxica nas dóses elevadas aconselhadas pelo collega, e quanto á forma pilular, julga-a desvantajosa, pois que deseja um effeito prompto nosaccessos. Apezar de al- 110 guns autores attribuirem á lobelina acção deprimente sobre o poder reíiexoda medulla, não lhe parece isso provado. Quanto ao enprego da lobelina no tétano, segundo a indicação do collega, nella não confia, porquanto ainda està obscura a patliogenia dessa moléstia, pa- recendo que trata-se de uma moléstia parasitaria. Não acredita tampouco nas curas definitivas da asthma essencial, que é um membro da grande familia nevropathica, magistralmente descripta pelo Sr. Ch. Feré nos Archivos de nevrologia de 1884, e como tal representa na clinica um dos ramos da grande arvore que a escola moderna denomina neurasthenia comquanto no estado actual de nossos conhecimentos, nada possamos afflrmar positiva- mete, parece ser a asthma um exanthema bronchico analogo á urticaria. Admitte uma asthma arthritica, herpetica, por isso que o herpetismo ó uma variedade do arthritismo. O autor da memória não faz distincção entre a asthma classica e a pseudo asthma, que acompanha as adenopathias traclieo-bronchicas, a arterio-scle- rose, o tabes, a gastralgia, as nevrosesdo plexo solar, etc.; bastava que S.S. reflectisse na fôrma asthmatica da pneumonia para não acreditar nas curas pela lobelina. Nos accessos, a revulsão sobre o thorax, as inhalações de pyridina, as injecções hypodermicas de morphina, a tinctua etherea de lobelia associada aos bromuretos alcalinos são recursos mais preciosos do que a lobelina empregada do modo por que o faz o Sr. Dr. Silva Nunes; fóra do accesso só se pó.le curar a asthma com os ioduretos de potássio e soiio, e é util a sua associação ao quebracho, a tinctura de grelos de espinheiro, à euphorbia pilulifera, etc., assim como a climato e hydrotherapia, tendo-se também ultimamente aconselhado a yrindelia robusta e as injecções subcutâ- neas da pilocarpina e de salycilato de cocaina, de que ainda não fez uso. O Sr. Dr. Carlos Costa ainda uma vez manifesta suas duvidas a respeito da procedência do alcaloide que serviu ásexperiencias do Sr. Dr. Silva Nunes, pois não pôde acreditar em divergência tão radic.il entre experimentadores europeus e S. S., e seria mais interessante que tanto S. S. como o Sr. Dr. Sodré tivessem feito experiencias sobre a lobelia nacional; cita diversas observações de abalisados clínicos italianos em completa opposição ás conclusões do Dr. Silva Nunes, e termina dizendo que este agente já tem sido empregado por outros, antes de S. S.; e que não está convencido nem da acção physiologica attribuida pelo Sr. Dr. Sodré á lobelina, nem, tampouco da acção therapeutica que lhe é conferida pelo Sr. Dr. Silva Nunes. O Sr. Dr. Silva Nunes — Disse um dos collegas que não sabe em que casos de asthma empregou a lobelina. Empregou-a em casos de asthma essen- cial, de asthma cardíaca, nos casos de asthma dos indivíduos rheumaticos, sendo o resultado sempre o mesmo. O medicamento cura actuando sobre poder excito-motor da medulla. E’ esta a acção da lobelina. Quanto ás objecções do Sr. Dr. Carlos Cesta, dirá que S. S. refere-se ao emprego da lobelina em dóses minimas, em milligrammos, e o orador empre- gou-a aos centigrammos. A acção da lobelina depende da dosagem. Referindo-se o orador á acção da lobelina no tétano, na choréa, disse que isto se explicava pela acção sobre o poder excito-motor da medulla ; lem- brando apenas que não sendo novidade o emprego da lobelia nestas affecções, pois que todos os autores mencionam o emprego desse agente ; é justo que o principio activo, a lobelina, produza também o mesmo resultado benefico. O Sr. Dr. Augusto Brandão diz que sua posição na tribuna acha-se justificada pelo appello que foi feito aos parteiros na sessão em que se discutiu a prophylaxia da conjunctivite dos recem-nascidos ; como faz parte de um serviço de obstetrícia, deve dar sua opinião, principalmente occupando-se com as opiniões absolutas e francas emittidas pelo Sr. Dr. Rodrigues Lima, que, não só não acredita no tratamento prophylactico de Credé, e apenas acre- dita nelle como méthodo curativo, mas prefere a esse methodo a lavagem vaginal anti-septica. Ha muito tempo que alguns parteiros acreditavam na lavagem vaginal anti-septica, como tendo a propriedade de evitar o desenvolvimento da ophthalmia purulenta dos recem-nascidos. Diz Charpentier que o sulphato de cobre tem esse poder; mas na discussão celebre que se effectuou em 1859 no Congresso de Berlim, esta questão ficou completamente resolvida pelos príncipes da obstetrícia allemã. (Lê ) « Cette métliode des lavages vaginaux est cependant considérée comme sufflsante par quelques auteurs. M. Galezowski recommande simplement les injections et pulvérisations phéniquóes des parties génitales pendant les derniers moments de 1’accou- chement. Au 59° congrés des médecins allemands (Berlin, septembre 1886) M. Colin, après avoir compare les résultats obtenues par les instillations préventives avec ceux que donne 1’observation d’une antisepsie rigoureuse pendant 1’accouchement et la propreté parfaite des pièces de pansement, conclut de ce parallèle qu’une prophylaxie obligatoire lui parait superflue. Kaltenbach encore (congrès de Munich, 1886), prétend qu’il suffit de faire prendre à la femme des injections au sublimé pour éviter toute contamination. Mais dans la discussion qui suivit sa communication, discussion à laquelle prirent part Zweifel, Olshausen, Winckel, Schátz, Leopold, Múller, Oro- kownitz, Hoffmeier, Bumm, Frieriech et Crédé, 1’accord fut unanime pour reconnaitre qu’employées seules, les injections vaginales sont incapables de préserver absolument une Maternité de rophthalmie purulente. » Quanto à objecção de ser o methodo de Credé um methodo curativo e não um methodo prophylactico, observa que a acção do nitrato de prata, base desse methodo, é também altamente anti-septica, como demonstrou o Sr. que affirma ser elle superior ao sublimado corrosivo, não só como meio pro- phylactico, mas também como meio curativo da ophthalmia purulenta dos recem-nascidos, e além disso, estão ahi os factos o demonstrando. Diz o Sr. Dr. Rodrigues Lima que por esse meio prophylactico não tinha baixado o numero dos casos de ophthalmia purulenta. Lê uma esta- tistica em. que se demonstra que elle baixou até zero. Bayer diz que em Stuttgard baixou a zero. Leopold affirma qme em Dresde baixou a zero. Garrigues attesta que em New-York baixou a zero. Era justamente esta a proposição mais séria que queria combater, para que, aquellas pessoas que esperam tirar algum proveito desta discussão, não fiquem em duvida quanto á conveniência do emprego do methodo de Credé. Termina dizendo que na sua pratica tende a generalizar o emprego desse methodo. O professor da cadeira que dirige o serviço obstétrico da Faculdade declarou ao illustre autor da memória, que sómente em casos de infecção blenorrhagica, verificados ou suspeitos, fazia a lavagem preven- tiva. O orador, não só no serviço da Misericórdia, como no serviço particular, adoptaria as conclusões a que chegou Riviére ; e todas as parturientes, que fossem atacadas quer de blenorrhagias; quer de leucorrhéas, que produzem a ophthalmia purulenta, as trataria a tempo, para diminuir com certeza a quan- tidade desse principio parasitario, porque não desapparece totalmente ; mas não deixaria nunca de fazer o tratamento preventivo de Credé, generalizando 112 a todos os casos, porque ó o unico meio de fazer baixar a zero a proporção da ophthalmia purulenta dos recem-nascidos. O Sr. Dr. Carlos Costa diz que parece-lhe de seu dever nesta occasião dizer aquillo, embora pouco, que possa adiantar. Pergunta se haverá reilmente entre nós tão grande numero de casos de ophthalmia purulenta dos recem-nascuRs que dê logar a pensar-se seria- mente em sua prophylaxia ? Esta pergunta parece que deverá levantar grandes clamores ; mas julga que em questões des'a ordem, nós devemos estar baseados em dados esta- tísticos ; e aquelles que os conhecem, podem contestar as proposições aqu avançadas e responder negativamente á sua pergunta: dirá, por exemplo, que, de 22.726 criançis que se apresentaram á consulta na Santa Casa da 1882 a 1886, apenas figuram 37 casos de ophthalmia puru- lenta, talvez porque acudam aos consultorios dos opthalmologistas grande numero de casos. Pergunta mais: têm certeza os collegas da causa dessas ophthalmias ? As informações que lhes são ministradas pelas pessoas que conduzem essas crianças serão bastantes? Será essa moléstia, sempre ou na maior parte dos casos, devida a infecção e contagio no leito da puerpera, para que principal, mente ahi intervenha o hygienista ? Será ella exclusivamente produzida pela acção de líquidos sépticos, blenorrhagicos ou leucorrheicos ? Quando em 1881 se levantou na Sociedade de Medicina Publica de Pariz a discussão sobre a ophthalmia purulenta dos recem-nascidos, discussão que foi suscitada pelo Sr. Galezowsky, entre elle e o notável oplithalmologista director do Hospital des Quinze-Yingt, houve a maior divergência de opiniões sobre se as ophthalmias purulentas podiam ser sempre devidas á infecção no leito da puerpera. Como se poderá attribuir á infecção puerperal essa moléstia, quando muitas vezes ella se manifesta quinze dias depois do nascimento ? Deve haver ahi um quid, que ainda não é conhecido. Entende que do congresso deve partir alguma cousa pratica; e pede e propõe que o Congresso nomeie uma commissão composta de um ophthal- mologista, um parteiro, um hygienista e um especialista de moléstias de crianças, para apresentar uai relatorio sobre esta questão, relatorio em que fiquem consignadas as opiniões do Congresso, para que sejam tomadas em con- sideração pelo governo e pelo publico, fazendo-se uma larga distribuição dessas conclusões. O Sr. Dr. Pereira da Cunha diz que se julga dispensado de provar por que o methodo de Credé é prophylactico e não curativo. Realmente a um antiseptico competia a prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recem-nascidos, eo nitrato de prata o é em alta escala, e foi preferido aos outros pelo seu poder escharotico, de modo que, destruindo a camada epithelial superficial da conjunctiva, na qual pôde estar o germen morbifico, vai atacal-o em seu reducto, aniquilando-o. 113 As tentativas de preservação por lavagens vaginaes anti-septicas, são jã bem antigas ; datam do começo do presente século, mas nunca apresentaram estatística tão favoravel, como pelo methodo de Credé, porque a desinfecção perfeita da vagina é dillicil pelas numerosas rugas e dobras dessa mucosa. Termina aizendo que não vê perigo no emprego da solução do nitrato de prata a 2 °/0, e nem na vulgarisação do methodo de Credé, porquanto, se desastradamente feito, em vez de uma gotta cahirem muitas, para ellas não terá capacidade o sacco conjunclival, e será logo expellido o excesso. Insiste na parte complementar do methodo, isto é, nas lavagens da região periorbitaria e na applicação de compressas imbebidas em solução anti-sepetica, principal- mente nas maternidades. Foi realmente baseado em que devia ser um anti-septico o que devia preve- nir as ophthalmiasdos recem-nascidos que Credé empregou o nitrato de prata. O Sr. Dr. Sant’Anna não pôde responder ás interrogações que o Sr. Dr. Carlos Costa fez relativamente à frequência das ophthalmias, porque justamente esse foi um dos quesitos que apresentou ao Congresso. Quanto á causa da ophthalmia, julga que a questão está pendente. Pelo que tem lido e pelas noticias das ultimas observações feitas, está convencido de que a causa é o gonococcus blenorrhagico. O Sr. Dr. Hilário de Gouvêa, cuja autoridade é de grande competência nesta matéria, disse que Satller affirmou que os lochios podem também ser causa das oplitlialmias purulentas. Não é desta opinião. Ha experiencias de inoculação de lochios de dilTerentes dias, não produzindo ophthalmia nos recem-nascidos. As experiencia de Leopold, e de muitos outros que seria fastidioso enumerar, confirmam este resultado. (*) Quanto ao facto de apparecer a ophthalmia quinze dias depois do nasci- mento, isto ainda pôde ser por conta do gonococcus, porque o contagio pôde dar-se posteriormente pelas mãos da parteira ou de outrem. Emfhn, sua tliese foi simplesmente interrogativa ; nem podia deixar de o ser, porquanto questões desta ordem sò podem ser cabalmente resolvidas por collectividade intelligente e competente. Tinha indecisões, e crê que infelizmente terá de conservar algumas. Na Europa, maxime no Norte, as conjunctivites purulentas podem, com facilidade relativa, se tornar dyphtliericas; no Brazil isto ó raríssimo, o que talvez explique a pouca importância que os nossos collegas dão ao methodo de Credé, que é o mais applicado na Europa. Pronunciou-se pelo methodo de Credó com certas restricções. Está prompto a empregal-o, generalisando-o. em todos os casos ; mas ainda espera que se lhe prove primeiramente que ha ophthalmias que não são produzidas pelo gonococcus, mas por simples leucorrhéa. Não ó obstinação nem teimosia. Está prompto a ceder de sua opinião, desde que lhe mostrem um caso de ophthalmia purulenta de recem-nascido, que (*) V. Memória de Rivière. C. M. 8 não seja produzida pelo gonococcus; em segundo logar, se também lhe mostrarem que filhos de indivíduos acima de toda a suspeita, não obstante tiveram ophthalmia grave, que, apezar de ser tratada a tempo, deixou estragos sérios no orgão da visão. SEGUNDA PARTE DA ORDEM DO DIA O Sr. professor conselheiro NUNO DE ANDRADE lê as seguintes observações: O sôpro diastolico com o máximo de intensidade na ponta do coração traduz tanto a diminuição de elasticidade, permanente ou transitória, da mitral, como a existência de um aneurysma parcial da região alludida. Esta noção sthe- toscopica parece absorver todas as opportunidades do diagnostico clinico, em relação aos aneurysmas parciaes do myocardio. Na 8a enfermaria de medicina do hospital da Misericórdia tive ensejo de observar um doente, no qual a percussão revelava augmento da madidez parasternal direita, e a escuta proporcionava a percepção distincta de sôpro rude, systolico, com máximo de intensidade na região xyphoidiana. Havia pulso venoso verdadeiro d ts jugulares e pulso hepático ; sendo de notar que a turgencia das veias do pescoço attingia a consideráveis dimensões e determinava o aspecto moniliforme do vaso. Também veriíiquei que, achando-se o doente em decúbito dorsal, a replexão jugular se effectuava, e, quando tomava elle a attitude erecta, subsistia o pulso, mas a turgencia desapparecia. As lesões pulmonares eram as próprias das cardiopathias venosas; e a valvula mitral estava intacta. Apezar deste ultimo facto, diagnostiquei — insufflciencia tricuspide — e attribui o phenomeno do pescoço a vicio accidental e indeterminado da posição das cavidades direitas do coração. A autopsia demonstrou que meu diagnostico era erroneo; não havia a insufflciencia citada, mas sim aneurysma parcial do myocardio; e exames ulteriores provaram que esse aneurysma tivera como ponto de partida uma pericardite adhesiva e como condição instrumental uma sclerose dystrophica do musculo. A cavidade aneurysmatica achava-se situada na região antero-supero- direita do ventrículo esquerdo e era limitada internamente pelo septo inter- ventricular; o sacco excedia, para cima e para a direita, a base da aurícula do mesmo lado e o aneurysma todo tinha o volume de um ovo de gallinha. A posição do tumor explicava o sôpro systolico com o máximo xyphoi- deano; a procedência do sacco sobre a aurícula direita no decúbito explicava as pulsações venosas e a turgencia das jugulares, bem como a deplecção destas na attitude erecta. Desta observação e subsequentes exames concluo : 1. A pliase da revolução cardíaca, em que pôde produzir-se o sôpro de um aneurysma parcial do myocardio, depende da séde do tumor ; 2. Quando, em casi de insufficienci > tricuspide presumível, e sobretudo primitiva, realizar-se o phenomeno da replecção das j ugulares no decúbito dorsal e da deplecção das mesmas na posição erecta, é autorisada a hypothese de um aneurysma parcial do myocardio, situado no segmento superior dos ventrículos e exercendo compressão na aurícula direita . A ausência, talvez absoluta, de observações de paralysia hysterica do facial inferior serviu a Charcot para a melhor accentuação do typo serneolo- gico das hemiplegias nevroticas; e como, não raras vezes, a contracção da face do lado opposto ao da paralysia das extremidades permitte a confu ão entre a hemiplegia hysterica e a que se desenha por occasião de lesões corticaes ou capsulares, o eminente neuro-pathologista francez traçou, em linhas magis- traes, os caracteres do hemispasmo glosso-labial e ensinou o meio de proceder às necessárias differenciações clinicas. Não só a multiplicidade das rugas no território musculo-tegumentario do facial inferior, como ainda e principal- mente a direcção, fôrma e movimentos da lingua, autorisam a distincção do hemispasmo referido e da alteração physionomica, que vulgarmente traduz a lesão uni-lateral do cerebro, quer nos casos de hemiplegia systematica, quer nos de paralysia externa. Firmou, pois, Charcot o preceito de que o desvio da ponta da lingua para o lado contraindo, com encurvação virguliforme do sulco mediano, e maior expessamento com diminuição autero-posterior do bordo concavo do orgão, retrata o espasmo glosso-labial e extrema o da contracção por desequilíbrio que assignala a origem intra-craneana da hemiplegia facial inferior. Ainda divulga o professor da Salpetrière que o hemispasmo é desconhe- cido nas paralysias organicas, sendo secundado neste particular pelas affir- mações de Tidd, Hasse, Weir-Mitchell e outros. A pathologia nervosa coníirma quotidianamente o asserto de que a dou- trina scientitica tem como ponto de partida o á posteriori; e por isso sempre me abstive de invocar o ensinamento da influencia dynamogenica e recorrer á conjunctura de irritação á dist meia, mais ou menos persistente, para manter reservas sobre a plausibilidade da interpretação exclusivista de Charcot, referente ao hemispasmo glosso-labial. Lembro-me de ter observado outr’ora o hemispasmo accentuado em um paralytico geral; e o facto, que naquella época se me afigurou inexplicável, não me sorprenderia boje, que sei da possível incidência da ftbrose paneurica nos organismos trabalhados pelas manifestações habituaes do hysterismo viril. Esperava, portanto, dilatar a minha experiencia de lesões cerebraes em fóco, para certificar-me da verosimilhança da interpretação de Charcot. Para a 8a enfermaria de medicina, a meu cargo, no hospital da Miseri- córdia, entrou, em dias de Agosto ultimo, removido da enfermaria do Sr. pro- fessor Pereira Guimarães, um doente de thrombose cerebral, com hemiplegia direita systematica. Por occasião do exame verificou-se que o enfermo não podia projectar a lingua para fóra das arcidas dentarias; e como este phenomeno é uma anomalia symptomatica nas hemiplegias organicas, retirou-se a lingua para fóra da cavidade buccal, e notou-se que a impossibilidade de projecção volun- tária derivava da forte encurvação da ponta do orgão para baixo. O diâmetro longitudinal da metade esquerda era menor do que o do lado opposto; a ponta da lingua dirigia-se para o lado contrahido da face e todos os caracteres do hemispasmo glosso-labial realizaram-se por completo. Estes phenomenos se foram attenuando pouco e pouco, mas subsistem ainda hoje em est ido de resquício; a marcha da moléstia tem justificado o diagnostico de thrombose, e a falta absoluta de lesões sensitivo-sensoriaes exclue inteiramente a hypothese do hysterismo viril. Deste facto clinico, para o qual tenho convidado a attenção dos meus discípulos, deduzo as seguintes proposições de caracter provisorio : 1. E’ possível em hemiplegias de causa organica o hemispasmo glosso- labial ; 2. Esse hemispasmo não constitue, portanto, syndroma-hysterico posi- tivo, nem tem valor absoluto para a differenciação clinica entre as hemi- plegias corticaes e capsulares e as hemiplegias nevroticas; 3. E como corollario : nem mesmo nos casos de hemispasmo facial do lado da hemiplegia brachi-crural se poderá affirmar a natureza hysterica do syndroma, quer porque as lesões da protuberância são capazes de eventual- mente autoris ir essa feição symptomatica, quer porque as difllculdades avul- tarão quando tratar-se de fócos corticaes múltiplos. O SR. RIBEIRO Dá LUZ lê a seguinte communicação sobre uma moléstia epidemica que appareceu em Valença em 1886 : Sr. Presidente, Srs. Membros do Congresso, Eu não me animaria a occupar a vossa attenção, se não tivesse que vos communicar um facto, que me parece muito interessante, principalmente para os que se dedicam ao estudo da pathologia intertropical. Esse facto é o do apparecimento, ha pouco mais de dous annos, na cidade de Valença, província do Rio de Janeiro, de uma moléstia febril, que acommetteu a quasi toda a população, e que apresentou caracteres differentes das pyrexias que soem observar os clínicos de nosso paiz. Quando comecei a estudar esta moléstia, meu espirito hesitante inquiria se ella seria uma pouco conhecida ou talvez nova entidade mórbida, que deveria ser inscripta ao lado de outras curiosas enfermidades de nosso clima, ou se poder-se-ia considerai-a como uma fôrma attenuada dessa terrível endemia que tanto mal nos tem causado, já pelo numero de victimas que todos os annos faz na população desta cidade, já pelo descrédito que nos paizes estrangeiros tem lançado contra a salubridade de nosso clima, desse Minotauro que se chama — a febre amarella. Não pude por muito tempo responder de uma maneira decisiva a esta interrogação. E isto so deu porque, um pouco deslumbrado pelo brilho das recentes descobertas sobre os microbios e as moléstias infecciosas e viru- lentas, deixei-me demasiado seduzir pela hypothese de ser a moléstia de que estou tratando uma fôrma attenuada do typho americano. Hoje, porém, minhas hesitações já não existem, e posso dizer que achei o lio conductor do labyrintho em que me achava; posso declarar que, se- gundo toda a probabilidade, a febre que grassou em Valença em 1880 e que chamarei «a febre valenciana», para facilitar a exposição do que vou dizer, é idêntica ou pelo menos muito semelhante á moléstia chamada dengue. Comprehendeis agora qual o interesse que oíferece esta commuriicação. E’ incontestável que as moléstias que menos conhecemos e que, no emtanto, podem se apresentar á nossa observação, são aquellas cujo estudo mais interesse tem para nós. Ora a dengue é uma moléstia pouco conhecida e pouco estudada neste paiz. Ella aqui appareceu, segundo parece, apenas de 1846 a 1848, e talvez também em 1853 (P. Rego, Esboço historico das epidemias, etc.). Creio que bem poucos são os clinicos deste paiz, cuja attenção tem-se fixado sobre esta moléstia, porque durante os seis annos em que estudei medicina não me recordo de ter ouvido sequer citar o seu nome por nenhum dos meus mestres. Nem também confrade algum, a não ser o meu distincto amigo o Sr. professor Cypriano de Freitas, jàmais me fallou sobre ella. A historia, pois, de uma epidemia de dengue neste paiz é digna de occupar a vossa attenção. Além disso o apparecimento de uma epidemia dessa natureza em Va- lença vem fornecer mais um elemento para que formeis o vosso juizo a res- peito de um clima bem singular como é o dessa cidade, que, apezar de estar n’uma altitude não muito fraca, é um pouco flagellada pela phthisica pulmonar e ás vezes também pelas febres paludosas; dessa cidade cuja tem- peratura média é pouco elevada e na qual, no emtanto, já unia vez a febre amarella acommetteu a alguns indivíduos, que desde muito tempo não haviam estado em outros logares ; dessa cidade em que a astlnna e o rheumatismo são frequentes, em que a Anguillula stercoralis foi por mim encontrada em um caso, e em que parece não existir esse outro nematoide, aliás com- mum nos paizes quentes, o Anhylostomum duodenale. Ditas estas palavras como preambulo, passo a referir o que sei a respeito da febre que desejo vos tornar conhecida. No mez de Fevereiro de 1886, se não me engano, no dia 10 ou 12, fui chamado para ver na rua de S. José, no centro da cidade de Valença, o Sr. J. F. de M., moço de cerca de 30 annos, de constituição fraca e filho da província do Rio de Janeiro, que havia chegado no mesmo dia em que o comecei a tratar, ou na vespera, de uma viagem que fizera a esta côrte. Como neste caso nada me chamasse a attenção, não tomei sobre elle apontamentos, e por isso não posso dizer exactamente quaes os symptomas observados. Parece-me, no emtanto, que o doente apresentou, mais ou menos, os seguintes symptomas : febre um pouco elevada, cephalalgia, inappetencia e estado saburral da lingua. Creio também cjue a febre durou quatro ou cinco dias, tendo-se manifestado com o typo remittente. O meu diagnostico, neste caso, foi febre remittente palustre, e o trata- mento que puz em pratica foi este : prescrevi a principio um vomitivo, depois o sulphato de quinina, e, se não me engano, também um purgativo no 39 ou 4° dia da moléstia. O doente ficou bom em pouco tempo, e, como julgasse sua moléstia sem importância, não o observei durante a convalescença. Mais tarde disse-me elle que tinha tido, por occasião da mesma moléstia, uma erupção de pelle, não sabendo, porém, dizer exactamente em que época ella se manifestara. E’ provável que tivesse apparecido no fim da moléstia. Alguns dias (dez ou quinze) depois de ter tratado deste doente, oftere- ceram-se à minha observação e á dos meus collegas de Yalença alguns ontros casos de uma febre semelhante á do mesmo doente. Como esses casos eram todos benignos, não lhes prestei grande attenção, o que hoje lamento, porque mais tarde, quando quiz estudar melhor a moléstia, sendo pouco o tempo para ver todos os meus doentes da cidade e de fóra, não pude fazer certas investigações necessárias e nomeadamente quanto ás matérias eliminadas pelo filtro renal. Entretanto novos casos cie febre foram apparecendo, e pouco a pouco a moléstia foi tomando maior extensão, de modo que, até fins de Março, havia acommettido cerca de 200 pessoas. Continuou ainda durante todo o mez de Abril, e creio que se extinguiu completamente em fins de Maio ou em Junho. Não se pôde averiguar com exactidão qual o numero de pessoas acom- mettidas desde o principio até o fim da epidemia. Mas como em Valença então existiam, contando commigo, seis médicos, e cada um de nós tratou de cerca de 100 doentes, e como calculo que a metade dos individuos não poupados pela epidemia se trataram sem medico (e isto se deu não só porque a moléstia sarava quasi sempre em poucos dias, senão também porque nessa occasião nós em geral não podíamos attender a todos os cha- mados), supponho que foram prostradas no leito pela epidemia muito mais de mil pessoas (talvez duas mil), sendo que a população de Valença não excede a tres ou quatro mil habitantes. E tanto mais certo estou de que foi grande o numero dos individuos offendidos pela moléstia, quanto é verdade ter se visto, em algumas casas, serem todas as pessoas acommet- tidas e em outras deixarem de o ser apenas uma ou duas. Assim, no collegio Magalhães onde havia mais de 30 ou 40 pessoas, todos soffreram os insultos da moléstia, á excepção sómente, se me não falha a memória, dos dous directores. Em uma casa da praça de D. Pedro II, onde havia 10 ou 11 pessoas, todos tiveram de soífrer os incomnodos da febre de que estou tra- tando. Em uma outra da mesma praça, de 10 ou 12 pessoas, só uma destas conservou-se sempre sã. Em minha casa, d’entre oito pessoas, tres apenas foram poupadas. Assim, esta epidemia é uma das que maior numero de individuos tem acommettido, ralativamente á população a ella exposta. A marcha da epidemia atravez da cidade foi lenta : ella começou na parte central e dirigindo-se centrifugamente, foi visitando, quasi exacta- mente uma por uma todas as casas das differentes ruas, até chegar aos arrabaldes, onde se extinguiu. Esta marcha foi um pouco lenta, porque para vir do centro da cidade, onde começou a epidemia, até minha casa, que fica a 300 metros de distancia, mais ou menos, ella gastou cerca de dous mezes. A epidemia mostrou certas particularidades dignas de nota. Assim, ella pareceu não respeitar sexos, nem idades, nem constituições, nem temperamentos. Comtudo, segundo o que observei, os individuos de raça branca foram mais poupados do que os de raça de côr. Em varias casas onde sómente uma ou duas pessoas foram poupadas, essas eram quasi sempre de côr branca. Em minha casa havia tres pessoas brancas, duas de côr parda e tres de raça negra pura; pois houve duas pessoas poupadas entre as tres brancas, uma das duas de côr parda, e nenhuma entre as tres de côr preta. Outra cousa notável: a moléstia em geral respeitou os médicos; creio que, d’entre os seis clinicos da cidade, sô foi acommettido o meu distincto amigo Dr. João Barbosa dos Santos, de mui saudosa memória, o qual então exercia o cargo de delegado da Inspectoria de Hygiene. A respeito da maneira por que a moléstia se disseminou, devo dizer que ella não pareceu propagar-se por contagio, ou pelo menos não teve um modo de propagação semelhante ao das outras febres eruptivas. Assim, depois do doente Sr. J. F. M.,de que acima fallei, e que foi provavelmente quem trouxe a moléstia para Valença, os primeiros iudividuos acommettidos não foram os que o visitaram durante a sua enfermidade, mas antes os que moravam nas proximidades de sua casa. Quanto á mortalidade, apezar do numero avultado de pessoas acom- mettidas, foi completamente nulla. Assim, á febre valenciana dever-se-ia dar uma mortalidade inferior a um sobre mil. Referirei agora os symptomas observados, e para isto vou transcrever parte de uma carta que, sobre a moléstia valenciana, escrevi à illustrada Redacção d’0 Paiz, e que foi publicada no numero desta folha de 1 de Abril de 1886: « Os symptomas pelos quaes a febre em questão se denuncia são : dôres nos membros e na região lombar, cephalalgia frontal, injecção das conjunctivas e da face, inappetencia, falta de forças, ás vezes calafrios brandos, ás vezes nauseas ou mais raramente vomitos biliosos; em dous casos houve uma pequena hematemese em seguida a um vomitorio, em outros houve epistaxis. Na maior parte dos doentes que observei, a febre no principio era elevada (40 grãos mais ou menos), a lingua apresentava na base uma camada de saburra amarellada e o hálito tinha um clieiro especial, proprio das moléstias acompanhadas de symptomas gastro-biliosos. O typo da febre tem sido remittente em quasi todos os casos. A diíferença entre a temperatura da manhã e a da tarde tem sido de um grão ou pouco menos. No maior numero dos casos a febre no segundo dia começou a declinar e o abaixamento da temperatura, sem fugir muito do typo remittente, con- tinuou até que no quarto dia chegou á normal. Houve casos em que a febre durou um septenario. Em outros a temperatura desceu â normal no segundo ou terceiro dia, para depois subir a 38° ou 39°, após uma apyrexia de um ou dous dias. Emflm foram observados casos em que a febre teve uma duração total de um ou dous dias e uma intensidade medíocre. Quando a temperatura estava muito elevada, alguns doentes tiveram delirio, porém em nenhum caso observei o coma nem outros phenomenos nervosos communs nas febres deno- minadas typhicas. Em geral o fígado e o baço não se apresentavam engorgitados, excepto nos casos em que havia impaludismo chronico. Não observei anuria em caso algum.» A esta descripção, que foi escriptaem 29 de Março de 1886, isto é, quando a epidemia estava longe de extinguir-se e não me era ainda bastante conhe- cida, devo accrescentar que em alguns casos observei na convalescença • grande prostração de forças, excessiva irritabilidade de caracter, inappetencia invencível, persistência do estado saburral da lingua. Em um caso em que este estado saburral era pronunciado, o doente salivava constantemente e no seu quarto notava-se um cheiro desagradavel, que julguei provir do mão estado das vias digestivas do mesmo doente. Cumpre-me também dizer, para que melhor se possa determinar a natureza da febre valenciana, que no principio da moléstia, em quasi todos os casos notei uma vermelhidão diffusa e uniforme dos tegumentos, especial- mente na face, no pescoço e no thorax e que, além dessa vermelhidão, vi em um pequeno numero de casos (oito ou dez, ou um decimo dos que observei), uma outra erupção, que não tinha os mesmos caracteres em todos os doentes, e que ora assemelhava-se á urticaria, ora a diversas outras dermatoses. Não sei ao certo em que periodo da moléstia appareceu esta erupção, mas parece- me que foi antes no fim, do que no principio. Do que bem me lembro é de haver notado que em geral os doentes que tiveram manifestações cutaneas, soffreram de um prurido incommodo, principalmente na época da des- camação. Accrescentarei ainda que examinando a urina de um dos meus doentes, pelo acido azotico obtive um ligeiro precipitado, que me pareceu albuminoso. Esta urina não foi tratada pelo calor, e por isso é que digo cautelosamente que o precipitado pareceu-me albuminoso. Passo a transcrever um outro trecho da minha carta ã Redacção d’0 Paiz, para mostrar qual o tratamento empregado contra a moléstia valenciana: « O tratamento que tenho seguido tem sido este : a principio um vomi- torio, depois sulphato de quinina, e no segundo ou terceiro dia um purgante salino ; havendo grande irritabilidade gastrica, alcalinos e amargos ; nos mais casos, limonada sulphurica ou qualquer outra bebida temperante. Asseguraram-me que alguns doentes sararam com uma medicação quasi puramente expectante ; porém entre os que observei, a moléstia se prolongou tanto mais quanto maior foi a demora em procurar os soccorros da sciencia.» Para completar o estudo da moléstia, cabe-me dizer em que condições ella se desenvolveu. A cidade de Valença, onde grassou a epidemia em questão, está situada a 22° 13’ de latitude Sul e a 24 léguas, mais ou menos, de distancia do Rio de Janeiro, ficando a noroeste desta cidade. Sua altitude, segundo as observações e cálculos dos engenheiros que construiram a estrada de ferro da companhia União Valenciana, é de 560 metros. A cidade está situada nas fraldas de uma pequena cordilheira ou serra, a que dão o nome de Serra Velha ou Serra do Mascate. Parte Has casas estão sobre collinas de argilla vermelha, parte em ter- renos baixos formados de argilla branca ou barro de telha e de alluviões. Estes últimos terrenos são um pouco húmidos na estação chuvosa. Nas rochas que se encontram na cidade e nas circumvizinhanças, notam- se os caracteres das que pertencem ao periodo laurenciano. As casas da cidade não são muito agglomeradas, nem a população que as habita é muito compacta. Ha certo asseio nas ruas e no interior das habita- ções, comtudo a hygiene em Valença deixa muita cousa a desejar. O afasta- mento das immundicies é muito imperfeitamente praticado. O lixo é deitado em carroças, que o vão levar para fora da cidade, mas as matérias fecaes são lançadas em buracos feitos nos quintaes das casas ou em corregos que atra- vessam a cidade e cujas aguas não se escoam com muita facilidade. Poucos mezes antes do apparecimento da epidemia, isto é, desde a segun- da metade de 1885, até princípios de Fevereiro, houve em Valença uma sêcca terrível. Nos mezes de Julho, Agosto, Setembro e Outubro choveu apenas tres ou quatro dias em cada um delles. No mez de Novembro cahiu um aguaceiro de intensidade média, no dia 10 um outro, no dia 12 de manhã, e uma forte trovoada na noite de 12 para 13. Depois houve chuvas leves até o dia 16 ou 17, e o resto do mez foi sêcco. Em Dezembro choveu pouco nos primeiros dias ; houve no dia 10 uma trovoada, outra no dia 16 e depois sêcca até o dia 28. Nesse dia e nos dias 30 e 31 choveu regularmente. Em Janeiro de 1886 choveu quasi continuadamente, porém pouco inten- samente, desde o dia 1 até 7 ou 8. Depois houve alguns dias de sol. No dia 12 choveu de novo e d’ahi até o fim do mez a sêcca e a elevação da temperatura foram horríveis. Nos últimos dias de Janeiro ou nos primeiros de Fevereiro, o thermome- tro centígrado na sombra marcou mais de 30°, temperatura rara em Valença. Segundo algumas pessoas, que se entregam a este genero de observa- ções, houve então uma ascensão aa columna mercurial até 34° ou 35°. O que posso afi inçar ó que no peitoril de uma janella, quando já dous ou tres palmos abaixo o sol dardejava seus raios na parede, observei 31°. Foi no dia 3 de Fevereiro que começou a chover e de então por diante as nuvens deitaram agua sobre a terra quasi todos os dias e com alguma abun- dancia até fins de Março. 120 Assim, a febre valenciana appareceu quando depois do fortes sêceas e de grande elevação de temperatura começaram a molhar a terra chuvas algo abundantes. Nosmezes de Abril e Maio as chuvas foram um pouco moderadas. No dia 9 de Maio deu-se um phenomeno, a que alguns podem dar alguma importância para o estudo da moléstia: foi um tremor de terra. Comquanto fosse muito ligeiro e não tivesse causado nenhum desastre, este tremor foi sentido em muitas outras cidades vizinhas. Cito este facto, porque já foi notada certa coincidência entre os abalos da crosta terrestre e o desenvolvimento de epidemias de dengue. Agora eis o que me occorre dizer acerca da natureza da moléstia. Eu disse na minha carta acima alludida que era sustentável a opinião de ser a febre valenciana uma fôrma attenuada da febre amarella. Iloje já não penso assim ; mas, para que não se diga que procedi levianamente apresen- tando como sustentável aquella opinião, enumerarei os argumentos que em favor delia se podem offerecer. 1. symptomas iniciaes (cephalalgia frontal, rachialgia, dôres nos membros, turgencia da face, do pescoço e do peito, grande elevação da temperatura) a febre valenciana e o typho americano muito se parecem. 2. Em ambas as moléstias a marcha érapida, a temperatura chegando ordinariamente á normal em poucos dias. 3. A febre valenciana em alguns casos teve, como sóe acontecer na febre amarella, um segundo periodo de apyrexia. 4. Apezar de ter a febre valenciana acommettido grande numero de indivíduos, não tenho sabido com certeza que haja algum desses indivíduos por ella incommodados tido a febre amarella nestes dous annos últimos, isto é, depois da epidemia valenciana. Sei, no emtanto, que um individuò que teve a febre valenciana havia sido acommettido alguns annos antes de febre amarella. 5. O facto de apparecer em Valença a febre que faz objecto deste tra- balho, na mesma orcasião em que na Corte, na Barra Mansa e em outras localidades da província do Rio de Janeiro grassava a febre amarella, tem também certo valor para tornar acceitavel a identidade das duas affecções. Todavia é certo que as epidemias de dengue costumam preceder ou coincidir com as de febre amarella. 6. Outro argumento em favor da hypothese que se discute, está no facto de apparecer a febre valenciana quando, depois de grande secca, começou a chover abundantemente, o que também me parece" ter-se dado algumas vezes com a febre amarella. 7. A epidemia valenciana seguiu uma marcha semellnnte á das epide- mias de typho americano. Ella foi passando successivamente de casa em casa, do centro da cidade para a peripheria, o que também se verificou, segundo o illustrado Sr. Pr. Miguel SanfAnna, com a febre amarella em Barra Man- si, e, segundo o Dr. Visca, com a mesma moléstia em Montevideo. 8. A hypothese da identidade das duas moléstias encontra mais um argumento no facto de ter a febre amarella já apparecido em 1880 em Vas- souras, em Valença e talvez em outras localidades vizinhas. Em Valença em 1880 appareceram apenas quatro casos. Pelo menos em um delles afianço que a moléstia apresentou-se com os seus symptomas mais caracteristicos. Affirmo também que nesse caso ella não foi adquirida fora de Valença. 9.° Hoje que se sabe que o Sr. Pasteur e seus discípulos e imitadores, por processos diversos, têm conseguido attenuar um certo numero de moléstias, deve-se admittir a possibilidade da attenuação de todos os virus, quer pelos processos de laboratorio, quer por meios de que só a natureza tem o segredo. Além disso os epidemiologiMas affirmam que as moléstias que acom- mettem grande numero de indivíduos, muitas vezes apresentam-se com uma benignidade notável. Diz o Sr. Leon Colin que « quanto á febre typhoide, não ha anno em que se não assignalem epidemias muito benignas, oceasio- nando apenas quatro a cinco obitos sobre cem doentes, ao lado de outras epidemias em que a proporção mortuaria attinge e excede trinta e qua- renta sobre cem >n. O mesmo acontece, segundo o referido epidemiologista com as febres eruptivas, cujo prognostico é singularmente variavel con- forme as condições do meio acommettido. Não seria, pois, desarrazoado admittir que a febre de Valença fosse uma febre amarella attenuada por processos empregados pela natureza e cujo segredo não estamos ainda no caso de desvendar. Para corroborar o que deixo dito, vou citar um facto, que parece provar a possibilidade da existência do typho americano debaixo de uma fôrma attenuada. Em Março de 1870, quando grassava uma epidemia de febre amarella nesta còrte, eue um meu primo e companheiro de casa tivemos, no mesmo dia, um accesso de febre, não acompanhado de vomitos, nem de sym- ptomas graves, e que durou apenas um dia ou pouco mais. O Dr. Costa Lima, que nos tratou dessa ligeira moléstia, capitulou-a de febre amarella. Ora, se é possível que esse distincto clinico se tenha enganado, é certo, todavia, que o typho icteroide, a não ser nessa occasião, jamais nos incommodou, sendo ambos nós, no emtanto, íilhos da província de Minas, o que ó uma condição favoravel para adquirir-se a moléstia, e tendo residido na còrte durante muitos annos. E’ certo ainda que ouvi o finado professor Dias da Cruz, de saudosa memória, dizer em uma de suas lições (e outros mestres respeitáveis têm dito também) que, em occasiões de epidemias, certos indivíduos apresentam, por influencia da moléstia reinante, apenas symptomas muito benignos, muito fugazes, ou mesmo um ligeiro incommodo, que nada se parece com a referida moléstia nos seus casos typos. Observei além disso, em 1874, um certo numero de casos, que, parece, eram de febre amarella attenuada. Foi na enfermaria de clinica do pro- fessor Torres Homem e quando declinava uma pequena epidemia de typho americano, que então houve nesta còrte. Nos alludidos casos os symptomas iniciaes eram tão semelhantes aos da febre amarella, que os estudantes do sexto anno não hesitaram em consideral-os como pertencendo áquella mo- léstia. Porém a marcha benigna que tiveram, levou o sabio professor do clinica a dizer que eram casos de uma febre intermediária entre o typho americano e as febres paludosas. Em vista do exposto, vê-se que a attenuação espontânea de febre amarella é perfeitamente admissível, e vê-se também que em favor da identidade da febre valenciana com a febre amarella podem se apresentar muitos argumentos. Porém, por mais seductora que possa parecer, vista atravez de certo prisma, a hypothese de que acabo de tratar, ella nunca me pôde satisfazer completamente. Estava eu ancioso por achar uma outra solução para a questão que me preoccupava, quando, conversando com o meu distincto amigo o Sr. professor Cypriano de Freitas, sobre a moléstia de Yaleuça, elle me disse que, em vista de sua benignidade, eu examinasse bem senão podia essa mo- léstia ser a febre miliar, a grippe ou a dengue. Respondi-lhe logo que eu conhecia bem a febre miliar e a grippe, e que estava bem certo de que a febre valenciana não era nenhuma dessas duas moléstias. Quanto á hypothese de ser a referida febre idêntica á dengue, a principio julguei-a inacceitavel, porque a dengue apparecia ao meu espirito como uma enfermidade que cos- tuma revelar-se por formidáveis dôres articulares e musculares e por erupções de pelle de diversa natureza. Pouco a pouco, porém, fui-me con- vencendo de que a referida hypothese era sustentável, e afinal cheguei a pensar que as razões que se podem allegar em seu favor são com certeza de muito maior ponderação do que as que tendem a demonstrar a validade da hypothese de que ha pouco fallei. Vejamos quaes são essas razões. Ha entre a dengue e a febre valenciana grande semelhança nos sympto- mas. Para ter-se bem certeza disto, basta comparar os symptomas da febre valenciana, segundo a descripção por mim feita em 1886, quando estava longe de pensar na dengue, com os que são dados a esta moléstia pelos clínicos que a têm estudado. A dengue em aiguns casos começa por máo estar, prostração, anorexia e ligeiro estado gástrico ou gastro-bilioso, isto é, exactamente como a febre va- lenciana. Na maioria dos casos, é certo, o começo da dengue é brusco, sendo o doente acommettido de dores articulares ou musculares. Mas na febre de Valença também as dores não faltaram, e muitas vezes deveriam ter sido o symptoma inicial. Na descripção da febre valenciana, que flz em 1886, fallei em calafrios brandos. Ora, na dengue também ha muitas vezes uma sensação de frio glacial ao longo do rachis, ou verdadeiros calafrios. Ainda na dengue ha isto de commum com a moléstia de que trato: cepha- lalgia intensa, em alguns casos delirio, rosto vultuoso (ou injectado), olhos brilhantes ou lacrimejantes, em alguns casos epistaxis ou hematemese, em outros grande prostração depois da quéda da febre. Também entre os sympto- mas communs ás duas moléstias deve-se mencionar um cheiro particular exa- lado pelos doentes. Os autores que descrevem a dengue, dizem que este cheiro apparece com os suores abundantes que succedem ao desapparecimento da primeira erupção ou initial rash dos Inglezes, e que Vorderman compara ao da arruda (ruta graveolens). Na dengue a febre apparece com as dôres ou logo depois e a temperatura eleva-se muito (39, 40, 42°;. No fim de um, dous ou dous dias e meio ha uma remissão, que coincide com o desapparecimento da primeira erupção. Descre- vendo a febre valenciana, eu disse que na mór parte dos doentes a tempera- tura era elevada (40 mais ou menos), que no maior numero dos casos afebre no segundo dia começou a declinar e o abaixamento da temperatura, sem fugir muito do typo remittente, continuou, até que no quarto dia chegou á normal. Na dengue no fim do terceiro ou quarto dia, ás vezes no quinto, ha nova assenção da temperatura. Esta reapparição da febre seria excepcional segundo Karssen e grande numero de outros observadores. Na descripção da febre de Yalença eu disse que houve casos em que a temperatura desceu à normal no segundo ou no terceiro dia, para depois subir a 38° ou 39° apòs uma apyrexia de um ou dous dias. Ha ainda outras semelhanças entre a dengue e a febre de Yalença. Na dengue notam-se ordinariamente duas erupções de pelle de caracteres múltiplos e de séde variavel, uma no começo da moléstia, isto é, no fim do primeiro, do secundo ou no começo do terceiro dia: é a erupção inicial; outra no fim da moléstia, isto é, no fim do terceiro, do quarto ou ás vezes no quinto dia, é a erupção terminal (terminal rash dos autores inglezes). Estas erupções são acompanhadas de prurido incommodo, principalmente na época da desca- mação. Na febre valenciana notei no principio uma vermelhidão diffusa e uniforme, que não falhou quasi em nenhum caso, e uma outra erupção, de as- pecto differente nos vários casos em que foi observada e que supponho ter appare- cido antes no fim do que no principio da moléstia. Pareceu-me que esta erupção só se manifestou em um decimo dos casos, mas é bem provável que ella muitas vezes me tivesse passado despercebida. Seja como fôr, porém, em geral os doen- tes da febre valenciana que tiveram erupção de pelle, soffreram, como na dengue, prurido incommodo principalmente no periodo da descamação. . A albuminúria não tem sido notada frequentemente na dengue, mas ella já foi observada nesta moléstia por Veranni, Ballot, Morice e Goodeve. Na febre valenciana também creio ter encontrado ligeira albuminúria em um caso. Devo aqui dizer que, tratando da hypothese da identidade da febre valenciana com a febre amarella, não fallei em albuminurià, porque este phenomeno se observa também na dengue. A duração média na dengue e na febre valenciana é mais ou menos a mesma. Na primeira destas moléstias ella ó de cinco a oito dias, o periodo de invasão tendo um a tres dias, o de remissão doze, vinte e quatro ou quarenta ho- ras, ás vezes trinta e seis; a segunda erupção ordinariamente sendo muito ephe- mera. Porém o periodo de descamação cnamado de convalescença é muitos ve- zes longo, podendo-se prolongar por muitas semanas, mesmo muitos mezes (o Dr. Morice diz ter visto doentes « que por mais de um anno lhe pagaram tri- buto»). Segundo o que observei na epidemia de Yalença, a febre no maior nu- mero dos casos durou quatro dias, em outros um septenario, e finalmente em outros um ou dous dias. Como acontece na dengue, também tive doentes da febre de Valença em que a convalescença durou muito tempo. Alguns vi ainda em que se manifestou, neste periodo da moléstia, uma anorexia persistente, o que parece já se ter igual mente observado na dengue. Dão-se muitas vezes na dengue recidivas e recahidas. Na febre valenciana também me parece que houve casos de recahidas e talvez de recidivas. A fraca mortalidade da febre valenciana é mais um argumento em favor de sua identidade com a dengue, pois que nesta moléstia a proporção mortuaria ó inferior muitas vezes a um sobre mil. Ainda outro argumento se en >ontra no facto de não ter a moléstia de Valença feito distincção entre os dous sexos e as differentes idades, consti- tuições e temperamentos, mais ou menos o mesmo o que se dá na dengue, se bem que se haja notado que ella ás vezes apresenta certas predilecções exquisitas quanto aos sexos e ás idades ( Morgan ). Além disto, a febre valenciana appareceu em uma cidade situada dentro da zona intertropical, que é a região onde domina habitualmente a dengue, que, no emtanto, já foi observada em Cadix, em Creta por Varouchas e em Syra por Papalixopoulos. Devo dizer ainaa que tem se notado certa coincidência entre as epidemias da dengue e os tremores de terra (van Lier), e que por occasião da epidemia valenciana observou-se a mesma coincidência, visto que houve um tremor de terra em 9 de Maio de 1886, na cidade de Valença, e em outras localidades vizinhas. E’ mais uma prova em favor da hypothese que estou discutindo o facto de apparecer a febre valenciana na mesma occasião em que a côrte, Barra Mansa e outros logares eram assolados pela febre amarella, pois que as epidemias de dengue muitas vezes acompanham ou precedem as de febre amarella, como se deu aqui no Rio de Janeiro. Como se sabe a dengue appa- receu aqui em 1846, 1847 e 1848, tendo-se-lhe então dado o nome de polha, ea febre amarella em fins de 1849. Tendo mostrado as semelhanças que existem entre a dengue e a febre de Valença, devo fallar também das pequenas differenças que entre ellas notei. Assim, as dôres articulares e musculares não me pareceram tão fortes na moléstia de Valença como dizem os autores que ella se apresenta na dengue. Os Drs. Scheriff e Wilde notaram que os indígenas têm menos susee- ptibilidade para contrahirem a dengue do que os estrangeiros (provavel- mente de raça branca). Ora eu não observei cousa semelhante na febre valenciana ; ao contrario, notei que os indivíduos de côr branca eram menos aptos para contrahir a moléstia do que os negros ou mulatos. E’ verdade que outros observadores não referem ter notado a predilecção que para os estrangeiros apresentaria a dengue, segundo os Drs. Scheriff e Wilde. Em algumas epidemias de dengue notou-se que a moléstia acommettia de preferencia os médicos. No emtanto em Valença vi a moléstia de que estou tratando poupar mais os médicos do que outros indivíduos em idênticas condições. Não fallo do pequeno numero de casos em que observei a segunda erupção na febre valenciana, porque em primeiro logar na dengue a segunda erupção põde falhar em um terço ou mesmo na metade dos casos, e em segundo logar porque a erupção podia passar-me despercebida por vários motivos, como a circumstancia de não prestar eu grande attenção ao estado da pelle e o facto de serem muitos doentes de côr preta ou parda ( porque em Valença a raça negra tem muitos representantes e além disso abundam os mestiços desta raça com a branca). Como se vê, são de pouco valor as differenças a notar entre a dengue e a febre que faz objecto desta communicação, ao passo que existem entre ellas innumeros pontos de semelhança. Agora que mostrei a validade da hypothese de ser a febre valenciana idêntica á dengue, devo dizer que não fui contradictorio mostrando a possi- bilidade de sustentar-se a hypothese de ser a referida febre uma fôrma atte- nuada do typho americano, porque, segando o Dr. Corre, alguns médicos consideram a própria dengue como uma febre amarei la benigna. Assim, no facto de parecer a moléstia de Valença um typho americano attenuado, en- contra-se mais um argumento em favor da identidade da referida febre com a dengue. Èm conclusão, julgo que a hypothese desta identidade deve ser acceita, e, para que em meu cerebro não possa mais penetrar nenhuma duvida a este respeito, espero que vós, a quem peço desculpa pelo tempo que tomei, vos decidais a acolher a opinião que á vossa apreciação acabo de apresentar. Terminando, peço a vossa indulgência para o grande numero de faltas e imperfeições de toda a especie, que de certo haveis de ter notado nesta com mu meação. O SR. PEREIRA GUIMARÃES diz que a discussão da tliese do Sr. Dr. Oscar Bulhões a respeito da frequência dos cálculos no Brazil levou-o a vir também communicar ao Congresso alguma cousa em relação aos casos de aneurisma da poplitéa, que tem tido occasião de encontrar. Tem tratado de 1G casos desses aneurismas. Este numero provavelmente teria sido maior, se não fosse o tempo que passou sem estar á frente de um serviço de hospital. O facto de ter sido em 1872 encarregado da regencia interina da unica cadeira,que então havia, de clinica cirúrgica, fez com que pudesse ter maior numero de casos de aneurismas; tratou 16 casos de aneurismas popliteus. Em 13 praticou a ligadura da femural no triângulo de Scarpa e em tres prati- cou a compressão mecanica. Os tres casos de compressão foram seguidos de resultado completo. Nos 13 casos, em que lançou mão da ligadura, teve iO curas e tres mortes. Passa a fazer a enumeração destes differentes casos, conforme foram observados na casa de saude de Nossa Senhora da Ajuda, na Santa Casa da Misericórdia, e na sua clinica particular. Casa de saude : seis casos, sendo dous de compressão. Em um destes casos obteve a cura fazendo a compressão durante cinco dias, e mais tarde man- tendo essa compressão ainda por alguns dias ; em outro caso obteve a cura em 14 horas de compressão, praticada durante tres dias. O Io era um indivíduo branco, de raça allemã ; o 2o era um preto africano. Em quatro casos de ligadura de artéria houve dous casos de cura e duas mortes. A ligadura cahiu no fim de 14 dias no Io, e de 16 no 2o ; usou sempre fio de seda grosso e bem encerado. Empregou a compressão em dous destes doentes sem resultado, mais com o fim de estabelecer a circulação collateral. Dos casos de insuccesso, o 1° foi em um indiviluo de côr preta; um tinha enorme sacco aneurismal, em que já não havia paredes próprias. Os batimentos cessaram no tumor, a ligadura cahiu no fim de 12 dias, e a ferida cicatrizou, porém o tumor nunca diminuiu; pelo contrario, foi au- gmentando progressivamente de volume ; o membro edemaciou-se, houve reacção geral e local, mortificação da pelle, e finalmente a morte por gan - grena da região. O exame deste indivíduo revelou que o sacco não tinha paredes è era constituído pelas partes molles do concavo popliteu. O 2o era também um indivíduo atheromattoso. Neste caso os batimentos do tumor reappareceram no fim de tres dias. Todos estes indivíduos eram alcoolicos. N’um delles o tu- mor aneurismal tinha já provocado inflammação da parte, um verdadeiro phlegmão. Não havia tempo a perder: operou-o no mesmo dia da entrada para o hospital e o resultado foi completo. Clinica da Misericórdia : sete casos, seis homens e uma mulher; seis curas e uma morte. Tres desses indivíduos eram de còr preta e um pardo. Todos alcoolicos. Quatro tinham de 20 a 30 annos, dous 40 annos, mais ou menos, e um era maior de 50 annos. Os casos de curas devem ser divididos em dous grupos : um de cinco e outro de um só. Os do primeiro curaram-se sem accidente serio ; o do segundo grupo, que é constituído por um homem velho, de còr preta, apresentou uma particularidade interessante : por occasião da ligadura, em vez de encontrar um unico tronco arterial, encontrou dous. Foi feita a ligadura com o catgut. O resultado ao principio pareceu o melhor possível. Com effeito, o doente ia em condições que promettiam a cura, quando, no fim de tres dias, os ba- timentos reappareceram. Nessa época predominava entre os collegas do hospital a crença de que as ligaduras de catgut não podiam ser acceitas para as grossas artérias, em consequência da absorpção, a que o fio era sujeito, a qual podia ser feita n’um prazo tão rápido que não désse tempo de formar-se um coagulo, que isolasse completamente a artéria do sacco. Esperou alguns dias. O tumor começou a augmentar de volume e appa- receram dores de fundo nevrálgico, que em geral costumam apresentar-se nos aneurismas cirúrgicos e são tão communs em todos os aneurismas. Começou a fazer injecções de morphina e de ergotina, porque já vira um caso brilhante de cura obtida com estas ultimas injecções. Mas não obtendo nenhum resultado, e apezar do estado do indivíduo ser o peior possível, decidiu-se a praticar segunda ligadura. Então ligou a artéria femural logo abaixo do ligamento de Poupart, isto é, na base do triângulo, de Scarpa. Felizmente o doente restabeleceu-se no flm de algum tempo. A communicação, que acaba de fazer, significa que, nos casos de aneurisma popliteu, teve de praticar um numero relativamente grande de ligaduras, e que os resultados obtidos pela compressão foram compara- tivamente pouco numerosos. A compressão não tem sido muito acceita pelos cirurgiões brazileiros, embora hoje seja praticada em maior escala do que o era antigamente. Este processo foi empregado mais seguidamente na Bahia, tanto que os casos de cura são em geral" devidos a cirurgiões bahianos, entre os quaes cumpre citar o Sr. Barão de Itapoan. A compressão tem por fim, é uma cousa banal, preparar a circulação, collateral. Embora não consigamos a cura dos doentes tratados pela compressão, no emtanto os collocamos em condições de não se exporem á gangrena. Tem como regra, e crè que este é o procedimento geralmente seguido, submetter os doentes a um tratamento preparatório. Em geral, os indivíduos, que apresentam os aneurismas cirúrgicos, soffrem de atheromasia generalisada, de atheromasia da aorta, e quasi todos são alcoolicos ; eram-no quasi todos os seus doentes, e por isso emprega sempre nesses doentes o iodureto de potássio, além da compressão. Em um doente, medico, em que obteve o resultado mais completo pos- sível, teria talvez chegado a resultado inteiramente funesto, se não houvesse submettido esse collegaa um tratamento preparatório. O SR. DR. 60ES deseja occupar a attenção do Congresso com um trabalho especial de sua clinica, applicado á mortalidade pela febre amarella no Rio de Janeiro, trabalho que é analogo a muitos outros que têm sido lidos nos Congressos europeus. Naquelles paizes práticos é noção corrente que a vida do homem tem um valor moral e um valor monetário ; mas, como estas noções não são muito conhecidas do commum, e é preciso que todos saibam que não ha nada mais caro do que a doença e a morte, vem apresentar um trabalho com o fim de mostrar em suas conclusões que toda a despeza que se realizar em melhora- mentos hygienicos é uma despeza altamente 1‘ructuosa. Antes, porém, de o fazer pede licença ao Congresso para defender-se de accusações injustas de que foi alvo. O Sr. Dr. Domingos Freire dirigiu-lhe accusações de todo o ponto injustas,mas de que o orador promette não tomar represálias. Apenas exporá os factos, mas como elles realmente se passaram. O Sr. Dr. Freire disse que o orador havia varejado o seu laboratorio. Não é exacto. Nos primeiros dias do mez de Junho do anno passado, por S. Ex. o Sr. Barão de Cotegipe lhe fòra apresentado o Sr. Dr. George Sternberg, que havia sido nomeado pelo governo dos Estados-Unidos para estudar os processos da vaccinação da febre amarella adoptados pelo Sr. Dr. Freire, assim como o germen, a que S. S. attribue a moléstia. O Sr. Dr. Sternberg havia sido apresentado offlcialmente pelo ministro dos Estados-Unidos ao ministro de estrangeiros, Sr. Barão de Cotegipe. Poz-se ás ordens do Sr. Dr. Sternberg, mas fez-lhe ver que eram precisos um officio do ministro de estraDgeiros ao do império e outro deste ultimo ao director da; Faculdade de Medicina, afim de que lhe fosse facultada a entrada no laboratorio do Sr. Dr. Freire, que estava ausente na Europa. Entretanto, o orador o apresentou ao Sr. Barão de Saboia, referindo-lhe que o Sr. Dr. Sternberg lhe havia sido apresentado pelo Sr. ministro de estrangeiros. Accrescentou que lhe parecia ser preciso um offlcio do ministro do império, autorisando sua entrada no laboratorio do Sr. Dr. Freire. O Sr. Barão de Saboia convidou o Sr. Dr. Sternberg a percorrer a Escola de Medicina, e em seguida chegaram ao laboratorio do Sr. Dr. Freire, que estava fechado. Foi chamado o Sr. Dr. Campos da Paz, a quem fòra o mesmo labora- torio deixado em guarda, e este os introduziu nelle. Portanto, não foi o laboratorio varejado. O Sr. Barão de Saboia apresentou o Sr. Dr. Sternberg aos Srs. Drs. Campos da Paz e Caminhoá Filho; disse-lhes qual era a missão do medico americano, e ordenou que se pozesse tudo á sua disposição, assim como que se lhe mostrasse tudo o que fosse possivel dos trabalhos do Sr. Dr. Freire. Haverá, depois desta exposição, algum collega que acredite que o orador tivesse penetrado n’um laboratorio, em edifício publico, regido por lei e di- rigido por um homem que sabe cumprir os seus deveres, como o Sr. Barão de Saboia. ? A segunda accusação, que lhe dirigiu o Sr. Dr. Freire, foi que havia o orador fornecido ao Sr. Dr. Sternberg culturas viciadas, culturas impuras, com o fim malévolo de prejudicar seus trabalhos. E’ tão inexacto este facto como o anterior. Entrando no laboratorio do Sr. Dr. Freire, viu um armario com al- guns balões Pasteur e outros balões simples, cheios de liquido alterado, em verdadeira decomposição. O Sr. Dr. Sternberg dirigiu-se ao Sr. Dr. Ca- minhoá Filho, perguntou-lhe se não havia culturas, se não havia nada a examinar. O Sr. Dr. Caminhoá Filho respondeu-lhe que aquellas culturas estavam alteradas, mas dous ou tres dias depois levou uma ao Sr. Dr. Sternberg, dizendo-lhe que a mesma tinha servido para vaccinação. O Dr. Sternberg disse que a cultura continha quatro microbios,em vez de um, mas que não encontrou o microbio da febre amarella. Esta é a verdade: já se vé que não foi quem franqueou as culturas ao Sr. Dr. Sternberg, nem o podia fazer, porque ellas estavam em armarios fechados, sob a guarda de funccionarios públicos da maior respeitabilidade. O Sr. Dr. Sternberg concluiu o seu relatorio por modo mui desfavorável aos trabalhos do Sr. Dr. Freire. Seria uma grande injustiça feita ao Dr. Sternberg e á grande nação americana, acreditar que esse estrangeiro notável, enviado pelo governo de uma nação poderosa, afim de proceder a um inquérito serio e rigoroso sobre um trabalho scientifico, se deixasse influenciar por um estranho, que encontrou accidentalmente em seu ca- minho . Entende que, depois do que disse, e depois de haver desafiado a quem quer que seja a contestar a verdade de suas palavras, deve dar por terminado o incidente, pedindo muito respeitosamente desculpa ao Congresso de se haver occupado com uma questão pessoal. Est ando a hora adiantada, deixa de ler o trabalho sobre a mortalidade dos doentes da febre amarella, reservan- do-se para outra sessão, caso lhe seja dada a palavra. O Sr. Presidente dá para a primeira parte da ordem do dia da sessão seguinte : Io, Da influencia do impaludismo nas mulheres gravidas ; 2o, Chyluria e hydrocele no Brazil. 6l Sessão ordinaria Presidência do Sr. Conselheiro Dr. Catta Preta SUMMARIO:—Da influenciado impaludismo nas mulheres gravidas. Chyluria, hydrocele e elepháncia no Brazil.— O fluor na tuberculose.— Tratamento da lepra. — Febre amarella.— Pustula maligna. O Sr. RODRIGUES DOS SANTOS lê : Da influencia do impaludismo nas mulheres gravidas, especialmente como causa de aborto Entre nós, no Rio de Janeiro, o impaludismo, a intoxicação palustre con- stitue o elemento, que mais contribue para o nosso quadro nosologico. Servindo elle de base, de fundo á uma serie importante de enfermidades, e, em outros casos enxertando-se a outras enfermidades para lhes emprestar a fôrma das aftecções francamente paludosas, o impaludismo entre nós de tal sorte domina o quadro nosologico, que não lia, póde-se assim dizer, molés- tias em que os nossos clínicos não usem larga mano do sulfato de quinina. Os clínicos, que não estivessem habituados ás moléstias da nossa zona sujeitar-se-iam a grandes decepções. Muitas vezes observamos osphenomenos mais anomalos, que parecem completamente diíferentes dos que se têm descripto nos trabalhos sobre o impaludismo, serem não obstante dependentes desta causa. As broncho-pneumonias, as hemoptises, as aftecções cerebraes, as nevral- gias, as diarrhéas chloleriformes, etc. quantas e quantas vezes não são ellas dependentes do impaludismo £ Isto denota o poder envenenador desse miasma, elemento que actua francamente, produzindo phenomenos communs ao impaludismo, isto é, às pyrexias próprias desse estado, com mais ou menos perniciosidade, ora atacan- do orgãos importantes, como o parenchyma pulmonar, cerebral, etc. ora se manifestando debaixo de uma fôrma larvada, fôrma esta que para mim consti- tue uma das mais sérias, pelo processo traiçoeiro que tem a infecção palustre de se manifestar. O que é facto de observação entre nós é que, se na maioria dos casos, a intoxicação paludosa se manifesta por congestão do baço e ligado e liyper- thermia intermittente, ou remittonte; em outros casos, a intoxicação se revela pelos mesmos phenomenos marcando o fundo da moléstia, mas sob fôrma completamente difterente, mascarando completamente o fundo especifico, para mostrar o valor de minhas palavras. Na febre perniciosa pneumonica, por exemplo, os phenomenos do pro- cesso morbido do parenchyma pulmonar são idênticos na fôrma aos da pleuro- pneumonia á frigore, e no emtanto o fundo é de um grão altamente in- feccioso. Eis uma observação tirada da obra A malaria e suas diversas modalidades clinicas pelo sabio professor Br. Martins Costa. «A C...., brazileiro, 19 annos, constituição regular, solteiro, e cai- xeiro de estabelecimento commercial á rua Visconde de Inhaúma. Em a noite de 11 de Fevereiro de 1877, examinando pela primeira vez o doente, fomos informados de que algumas horas antes, estando na loja, fôra elle subitamente accommettido de violento calefrio, seguido logo de pontada no 130 lado direito do thorax, difflculdade de respiração, tosse e expectoração com estrias sanguinolentas. Encontràmol-o no leito recostado sobre o travesseiro, com a face afogueada, conjunctivas hyperhemiadas, pulso amplo e frequente, pelle secca e aspera, intensa cephalalgia. Tbermometro 40, 2o. A escuta do apparelho respiratório revela-nos no ponto doloroso a existência de attricto pleuritico, bem como no terço inferior do pnlmão direito diminuição do murmú- rio vesicular e sopro bronchico. Diagnosticámos—pleuro-pneumonia, e pre- screvemos — Poção de Laennec — e 10 ventosas escarificadas s.bre o lado direito do thorax e sinapismos aos jumellos. No dia seguinte pela manhã, renovando o exame do nosso doente, ficámos sorprezas achando-o complemento apyretico (37) satisfeito, tranquillo, sem dôr no lado, nem cephalalgia. Escutando o thorax, não encontrámos mais nem attricto pleuritico nem sopro bronchico, mas unicamente alguns estertores húmidos disseminados no pulmão direito. Verificámos nessa visita que o figado estava augmentado de volume e doloroso á pressão, parecendo-nos normal o baço. Impressionado pela apyrexia, e cessação dos phenomenos, variámos de indagações, e então soubemos que o doente havia tempo sentia-se indisposto quasi todos os dias depois de jantar, attribuindo essa indisposição a embaraço gástrico, pelo que dispunha-se a tomar um laxativo. Não havendo possibilidade de desapparecer em 12 horas uma pleuro- pneumonia franca, não trepidamos em declarar o nosso engano, e reconhecer a existência de uma febre perniciosa de fórma pneumonica, instituindo nesse sentido nova medicação, que foi a seguinte: Agua 120 grms. Bi-sulfato quinina 2 grms. Tinctura cafferana 4 grms. Xarope dediacodio 30 grms. Tomar 1 colher de sopa de 1 em 1 hora. Voltando a vel-o ao anoitecer, acliámol-o animado, mas com ligeira cephalalgia, surdez quinica, e corpo languido: a temperatura axillar era de 38, 0 e o pulso 86. Mandámos continuar a poção, e mais 60 centigrammas de sulfato de quinina de uma só vez. Na manhã de 13 a temperatura era de 36, surdez quinica mais pronun- ciada, e extrema prostração de forças —receitámos cozimento anti-febril de Lewis — meio calix de 2 em 2 horas. O doente passou bem o dia, alimentou-se e dormiu muito regular- mente. No dia 14 pela manhã, temperatura 36,4° ; restavam-lhe apenas fra- queza, e zoadas nos ouvidos. Não reapparecendo a febre nos dias 15 e 16, foi o doente removido para Santa Thereza afim de completar a convalescença. Como este facto observámos entre nós outros se accentuando por des- ordens differentes : como hemoptyses, dysenterias choleriformes, etc., etc.; e se eu quizesse enumerar as formas sob as quaes o impaludismo se revela entre nós, bastaria transcrever o quadro que cita o sabio mestre da Fa- culdade de Medicina Sr. Dr, Martins Costa, uma das cabeças medicas mais distinctas do meu paiz, e que tão bem descreveu em seu interessante e instructivo livro A malaria e suas diversas modalidades clinicas. « l.° Febres intermittentes. 2. Febres remittentes. 3. Febres continuas. 4. Febres typho-malaricas. 5. Manifestações larvadas. Febres perniciosas, com as seguintes subdivisões : Febre perniciosa deli— .rante ou meningo-en- cephalica A. Febre perniciosa acom- panhada 'Febre perniciosa co-' matosa ] imfiammatoria ou apo- plética B. Febre perniciosa paralytica. C. Febre perniciosa convulsiva. D. Febre perniciosa de fôrma hydrophobica. E. Febre perniciosa tetanica. F. Febre perniciosa lypothimico. G. Febre perniciosa rheumatica. II. Febre perniciosa cardialgica. I. Febre perniciosa pleurodynica. J. Febre perniciosa hepatalgica. K. Febre perniciosa enteralgica. L. Febre perniciosa de fôrma diaphoretica ou sudoral. M. Febre perniciosa de fôrma algida. N. Perniciosa de fôrma dysenterica ou cholerica. O. Perniciosa de fôrma ardente. P. Perniciosa de fôrma asthmatica. Q. Pernici.sa de fôrma pleuro-pneumonica. R. Perniciosa de fôrma hemorrliagica. S. Perniciosa de fôrma lymphatica. T. Nevralgias periphericas perniciosas. II Febres nerniciosas solitariasfFebre sub-contiuua perniciosa. L. renres perniciosas sont r as>pernici0sa de forma indefinida. » Por esta lista se póde bem avaliar como o impaludismo entre nós reveste-se das fôrmas mais anómalas ; como as manifestações as mais sérias e mús graves se subordinam á acção altamente envenenadora do miasma palustre. Eu nestas poucas linhas acho-me deslocado de meu assumpto, e não me occupando de clinica medica, o leitor encontrará muitas faltas neste campo, que preparo para entrar em indagações referentes ao assumpto a que me proponho. Sinto diíficuldades, porque nada ha escripto a esse respeito, e o meu pequeno ensaio — Da influencia do impaludismo como causa do aborto — não representa mais do que um esforço, pois elle é o resultado de minha modesta clinica, cujos factos interpreto no silencio do meu gabinete. II No orgão gestador da mulher gravida observa-se uma serie de pheno- menos de ordem tal, que parece que a natureza ahi concentra toda a força vital, não só em referencia ao proprio orgão como mesmo em referencia áquolles que com elle têm relações próximas ou remotas ; a natureza como que se occupa especialmente em preparar o organismo da mulher para o sublime acto a que ella tem de sujeitar-se. Observados os phenomenos que se executam no campo uterino, que vemos nós ? a congestão que o estado de prenhez desperta no utero ó Serfeitamente equilibrada ; os núcleos das flbro-cellulas se transformam em bras musculares ; os centros cardiacos' adquirem maior vigor contractil pelo facto da hypertrophia do ventrículo esquerdo ; as glandulas mammarias se desenvolvem, etc., phenomenos estes que despertam no organismo da mulher um estado tal, que, se bem que seja physiologico, o colloca em verdadeiras condições de eminencia mórbida. E nos factos acima apontados, aquelle que nos vai servir de bússola no estudo a que vamos proceder, é a turgencia, a congestão uterina pela existência do producto da concepção dentro da sua cavidade. Nas condições normaes da prenhez, as relações de funcções e de structura, que existem entre o feto e o utero são de tal ordem harmoni- sadas, que o sangue existente em maior quantidade, do que no estado de va- cuidade uterina, do que pois no estado normal, acha no proprio desol- vimento do embryão, o consumo necessário ; ha pois equilíbrio entre a receita e a despeza, e por esse meio a extravasação torna-se impossível : é o nisus- formatims quem crea a hyperhemia proporcional ás suas necessidades. Se, porém, por qualquer circumstancia houver superabundância de san- gue, superabundância superior, por conseguinte, ao consumo necessário ao desenvolvimento do embryão. as condiçõbs do equilíbrio desapparece- rão, e as hemmorrhagias por extravasamento virão como consequência. Explicado este facto physiologico, como actua a intoxicação palustre no organismo da mulher gravida ? III A intoxicação paludosa se manifesta no organismo, ordinariamente, por meio de congestão para o lado do baço e ligado, e por uma hyperther- mia proporcional, cuja intensidade varia com o grão da intoxicação. A mulher, pelo facto da gestação, apresenta um orgão sujeito a rece- ber toda e qualquer impressão mórbida, e isso com muito mais facilidade do que qualquer outro : escusado é dizer que esse orgão é o utero. Pelos phenomenos íntimos que alii se executam, pelo excesso de vida que apresenta no periodo de gestação o utero, que no estado de gestação torna-se, por assim dizer, o orgão de vida mais exuberante no organismo da mulher ; exuberância de vida que nãe só se refere aos pheno- menos intimos que nelle se dão, como mesmo, pela maior facilidade que adquire em ser influenciado pelos agentes morbidos, creando no tecido uterino um certo grão de avidez para todas as intoxicações, que o organismo da mu- lher possa receber: as influencias mórbidas pois acham campo preparado em uma mulher gravida para nella se desenvolverem, senão de um modo geral, ao menos se localisando em um orgão para isso preparado. Se uma intoxicação paludosa se der em mulher gravida, o que observare- mos nós De par com a congestão do baço e do ligado, também congestão do utero ; e, se, a dos dous primeiros orgãos verifica-se pelos meios directos de exploração — a palpação e a percussão — a do utero observaremos em seus effei- tos, dos quaes o mais commum é o aborto: porquanto, a congestão mórbida, produzida pelo miasma paludoso, que vem augmentar a hyperhemia occasio- nada pelo — nisus formativus — do orgão uterino, congestão esta que, po- dendo ir além da normal, rompe as relações de harmonia entre a quantidade de sangue uterino e as necessidades do feto ; e, se augmenta um factor, o sangue, sem que haja o consumo necessário, o que acontecerá ? ou os factores se harmonisam, por não ser a superabundância incompatível com as con- dições do orgão, ou o equilíbrio rompe-se e a extravasação do sangue dá-se, e consecutivamente o aborto ou parto prematuro. Que essa congestão mórbida se dá, não póde haver a menor duvida ; basta observar uma mulher gravida debaixo da intoxicação, e especialmente exa- minar o producto expeliido, para se ter a esse respeito provas convincentes ; em casos que tenho observado, ao lado da grande tendencia hemorrhagica que as mulheres apresentam,' basta examinar o tecido placentar para disso termos uma prova. Km que consiste essa modificação da placenta ? E’ no seu excessivo volume e no seu intenso grão de congestão ; ha abortos de quatro mezes, por exemplo, em que a placenta tem quasi o volume do de uma pla- centa a termo. Isto não constitue a regra, apenas denota localisação do miasma nesse orgão, produzindo esses phenomenos congestivos, aos quaes, muito natural- mente, se ligarão os phenomenos de turgencia, de augmento de volume da placenta e do orgão gestador. E aproveitando-me desse assumpto, relatarei ainda um facto de observação, sobre o qual o meu distincto collega o Sr. Dr. Fe- licio dos Santos deu a mais interessante e justa interpretação. E’ facto muitas vezes observado na intoxicação paludosa das mulhe- res gravidas que os accessos febris, a despeito da mais racional e bem appli- cada medicação, não cedem ; o aborto, porém, se dá, e, facto curioso, com a expulsão do conteúdo uterino, os accessos subitamente desapparecem. O Sr. Dr. Felicio dos Santos interpreta esse phenomeno de um mojo bem racional ; elle acredita que os accessos são entretidos pela placenta, elle acre- dita que esse orgão assume o papel do baço, e que ahi se localisa o miasma paludoso, porque expellida a placenta, os accessos se terminam sem medicação alguma, o que prova a verdade do modo de pensar do meu sabio collega. O miasma paludoso crea na mulher gravida condições muito favoráveis ao aborto, aqui porém temos uma consideração a fazer: e é a época em que se faz a intoxicação paludosa. Eu distingo os effeitos da intoxicação paludosa conforme a época da prenhez, em que ella se der ; isso quanto aos seus effeitos, assim: 1. infecção se faz nos tres primeiros mezes ; 2. Ou se faz nos tres últimos mezes. No primeiro caso, os phenomenos da intoxicação paludosa podem actuar sobre o utero sem trazer a expulsão do producto cia concepção. Porque no começo da prenhez, a caduca verdadeira e a reflectida não se acham ainda soldadas, unidas, e no espaço virtual que existe, póde o sangue extravasar-se, sem trazer como resultado a expulsão cio producto da concepção, e mesmo esta perda pôde equilibrar o gráo de pressão nos vasos uterinos, e tudo lmrmonisar-se. Se é verdade que este facto pócle dar-se, nós todavia não podemos contar muito com elle, pois é mais commum o sangue extravasado estender-se ás part s que tocam ao chorion e á placenta e descol- lar este ultimo ; e as fibras musculares uterinas excitadas contrahirem-se espasmodicamente para expellir o seu conteúdo ; e a contracção, que a prin- cipio era o effeito dos phenomenos únicos do impaludismo, tornam-se agora ousa de maior hyperhemia, e de perclas sanguineas, que por sua vez augmen- tam as próprias contracções, as quaes só terminam com a expulsão do pro- ducto da concepção. Nos tres últimos mezes, a intoxicação palustre traz como consequência quasi inevitável o aborto. Aqui as condições mudaram, a caduca está solidamente unida, e qual- quer extravasato sanguíneo actuará como uma causa meeanica de seu descol- lamento, facto este bastante para excitar as contracções uterinas, cuja inten- sidade augmentarà não só pelo maior deslocamento consecutivo, como mesmo pelo augmento da perda sanguínea, e nestas condições o aborto é, póde-se dizer, inevitável. Esta causa do impaludismo não constitue uma causa determinante, na accepção rigorosa da palavra ; o effeito abortivo desse envenenamento é pro- porcional á intensidade da absorpção miasmaticae á resistência do organis- mo. Ha envenenamentos paludosos, feitos em pequenos gràos, em que os phenomenos congestivos se dão sem produzir a extravasação sanguínea, que é o elemento necessário para provocar o aborto, e por conseguinte este ultimo facto não se dá ; nos envenenamentos, porém, de gráo elevado, em que as congestões são fortes e bruscas, raramente a prenhez póde seguir seu curso. Isto que acabo de enunciar não tem o rigor de regra, pois ha úteros que reagem immediatamente a qualquer impressão que venha a soffrer; essa irritabilidade, qualidade inherente ao tecido uterino gravido, póde despertar-se, sem que a intoxicação seja profunda. O affluxo de sangue para o tecido uterino nos casos de intoxicação palu- dosa é para mim um facto verdadeiro. Nelle acho elemento bastante para explicar a razão de ser dos enve- nenamentos paludosos profundos, graves, sem que com elles coincidam as grandes congestões do fígado e baço, que observamos diariamente nas infecções paludosas: parece que o envenenamento se concentrou em um outro orgão, e a confirmação desse meu modo de pensar encontro no excessivo volume da placenta nos casos de aborto por impaludismo, o que não pôde ser explicado senão por este facto, o qual ainda justifica a admiravel inter- pretação jâ citada do meu sabio collega e amigo, Sr. Dr. Felicio dos Santos em attribuir ao placenta, como orgão vascular, as mesmas propriedades que o baço apresenta nas intoxicações paludosas. Considerado o impaludismo ainda debaixo das suas anomalias e no modo de se manifestar, tenho observado o seguinte: Ha mulheres nas quaes o estado de prenhez constitue uma predisposição especial para o impaludismo, vivem no mesmo fóco por muito tempo, não apresentam phenomeno algum de intoxicação paludosa, ou se essa intoxicação se dá, a supporta sem consequências; concebe a mulher, as condições mudam com este estado, o impaludismo, que antes pouca ou nenhuma influencia tinha sobre o seu orga- nismo, reveste-se de grande gravidade, apresentando essas mulheres mais um elemento digno de nota; é que, além de ser esse grão de envenenamento especial ao estado de prenhez, ellas cream em si uma especie de habito, que, dado o facto a primeira vez, elle se repete, se não se tem o cuidado de re- movel-as do fóco de infecção: as observações seguintes provam este facto: F., senhora de L. P. F., moradora á rua dos Voluntários da Patria ( Botafogo), de 27 annos de idade, foi acommettida em Novembro de 1887, depois de um passeio, de um grave accesso pernicioso de fôrma algida. Gravida de seis mezes, o marido foi immediatamente chamar o medico de sua familia, o Sr. Dr. Felicio dos Santos, que, chegando á casa da doente encontrou-a em decúbito dorsal, completamente algida, e a physionomia com- pletamente alterada ; mandou-me chamar em conferencia. Ficámos ao principio em duvida :obre o caso ; depois, porém, dos com- memorativos fornecidos pelo marido, chegámos á conclusão de que se tratava de uma intoxicação paludosa grave em uma mulher gravida. Applicámos sulfato de quinina e poção excitante ; 36 horas depois ella abortou com hemorrhagia, éxpellindo uma placenta enorme. Esta senhora restabeleceu-se, nutriu-se, e apresentou depois a appa- rencia de uma vigorosa saude. No dia 2 de Setembro deste anno veio o marido chamar-me á toda a pressa, dizendo que a senhora estava gravida, e apresentava os mesmos phenomenos da primeira vez. Fui vel-a, encontrei-a deitada, face alterada, como da primeira vez, prenhez de quatro mezes, thermometro 40,6°, vomitos; tendo sido tudo isso precedido de fortes calefrios. Dôres uterinas com contracções parciaes ; baço e fígado congestos. Prescrevi-lhe: INTERNAMENTE Bisulfato de quinina 75 centigrs. Para uma capsula, e mais quatro iguaes. EXTERNAMENTE Agua 50,0 Laudano de Sydenham 1,25 M. M. Para dois chlysteres. Recommendei repouso. Ficou junto da doente a liabil parteira Mme. Berenger. No dia seguinte pela manhã fui vel-a; as dores tinham diminuído, thermometro 38,0 ; continuavam os vomitos; mandei usar gelo em far- gmentos. 135 A’s 4 horas da tarde veio o marido de novo me procurar (ás mesmas horas do dia anterior,), as dores tinham reapparecido, contracções ainda parciaes, thermometro 40,2 ; os vomitos se tinham repetido ; corrimento sanguíneo. Mandei usar de irrigações vaginaes com o irrigador de Esmarck, sendo as irrigações feitas porém com agua quente ; continuar com o sulfato de quinina, e mais — clilysteres de chlorodynia. A’s 10 horas da noite fui de novo vel-a. As dores tinham diminuido um pouco, o sangue sahia também em menor quantidade : mesma medicação, addicionando, para uso externo, fricções com linimento de Selle. A’s 4 horas da madrugada veio de novo o marido chamar-me, porque a paciente gritava com dôres fortes, e estava muito agitada ; examinei-a, e a encontrei em pleno trabalho de aborto, que se fez em duas horas, expellindo um feto do sexo feminino e uma placenta volumosa: não houve hemorrhagia; por cautela, fiz uma injecção hypodermica de ergotina de Yvon, e mantive, por meio da compressão uterina, o globo uterino retrahido. Depois da expulsão do aborto, esta senhora, que dous dias antes tinha hyperthermia intermittente marcando o thermometro 40,6°, e 40,2°, restabele- ceu-se subitamente, não tendo tido mais um unico accesso intermittente. O meu collega, Sr. Dr. Felicio dos Santos, me relatou ainda casos em apoio do que digo. Referiu-me elle que em uma senhora da nossa melhor sociedade este habito se manifestou ; em duas prenhezes dous abortos pela mesma causa, impaludismo, e para conseguir levar o terceiro a termo, foi necessário removel-a do fóco da infecção. Parece que nesses casos o tratamento causal é todo improfícuo, por parecer que a intoxicação se localisou, permitta-se-me a expressão, na pla- centa, pois que com a expulsão deste orgão os phenomenos do impaludismo desappareceram também.' As mulheres gravidas, pois, mais predispostas que as outras, recebem com mais avidez a influencia do miasma paludoso, cujos effeitos se podem dar de dous modos differentes. 1. Na fôrma aguda, cujos resultados eu jádescrevi. 2. Sob a fôrma chronica, isto é, nos casos de caehexia paludosa. Vou me occupar desta segunda fôrma. Na fôrma lenta do impaludismo, na caehexia paludosa, em virtude das alterações próprias da crase sanguinoa, que se observa neste estado, e ainda mais pela influencia lenta o demorada desse envenenamento, as con- dições mudam um pouco, os abortos são menos frequentes, mas em com- pensação as hemorrhagias são mais graves por serem mais abundantes. A que attribuir isto ? O facto dos abortos serem menos frequentes provém de que na fôrma chronica do impaludismo o feto como que habitua-se aos meios em que vive ; o feto nutre-se mal e o utero com sua circulação languida, lenta, progride em seu desenvolvimento, e eis por que ellas podem levar a prenhez a termo. Porém em relação ao feto o que observamos nõs? E' ordinariamente um producto que se resente do meio em que se gerou; é um feto rachitico, exangne, trazendo estampado em sua physionomia as condições más que teve para seu desenvolvimento, e às vezes mesmo trazendo phenomenos manifestos do impaludismo: o figado e baço enormes; crianças sem direito á vida, que ordinariamente morrem. Se, porém, a prenhez pôde ir a termo, é preciso termos todo o cuidado com as hemorrhagias durante e depois do aborto; a dyserasia sanguinea, que a caehexia produz ao lado da atonia, pela mesma causa, são de tal sorte graves, que devem trazer o parteiro de sobreaviso. Se nestas mulheres os receios de aborto são menores que naquellas que soffrem do impaludismo agudo, é todavia necessário afastal-as do fóco da infecção, porque em uma cachetica no decurso de uma prenhez, se ella apre- sentar symptomas agudos de impaludismo, as condições mudam completa- mente de figura ; ahi temos os effeitos rápidos das congestões agudas em um organismo preparado para grandes hemorrhagias, sem ter a resistência ne- cessária. 136 Conto alguns casos de impaludismo lento em mulheres gravidas. C..., senhora de um medico residente na Raiz da Serra de Petropolis, logar eminentemente paludoso, onde as manifestações paludosas se revelam debaixo de todo o esplendor clinico. Ahi soffreu ella a acção lenta e gradual do impaludismo; concebeu pela primeira vez ; durante a prenhez manifestaram-se pequenas perdas sangui- neas : o marido a trouxe para a cidade, e entregou-a aos meus cuidados. Examinando-a, encontrei-a com o cortejo dos phenomenos proprios do impaludismo chronico: faces descoradas, cansaço, dôres na região hepatica e esplenica, e hypertrophia desses dous orgãos. As perdas sanguineas só se davam ordinariamente á tarde. Como ella tinha sido removida do fóco, eu procurei corrigir os pheno- menos do impaludismo, e prescrevi: USO INTERNO Elixir de Hampton 1 vidro, e mais : Sulfato de quinina em pequenas dóses. Boa alimentação, repouso, e durante as refeições: Agua de orezza com vinho. Preveni o marido que se tratava de um caso de impaludismo, compli- cando a prenhez, e que o feto seria pouco desenvolvido, caso chegasse a termo, porém que o mais provável seria o aborto. Com a medicação, ella melhorou rapidamente, e voltou de novo ao foco da infecção. Um mez depois veio ella de novo á cidade com os mesmos phenomenos ; tentei impedir com os meios apropriados que a marcha da prenhez fosse perturbada em seu curso ; não obstante, as perdas sanguineas mantinham-se, e uma noite veio o marido chamar-me, pois ella achava-se sob a impressão de fortes dôres, e perdendo sangue ; fui vel-a, e encontrei-a em trabalho de aborto, isto é, o feto já tinha sido eliminado, e só restava a placenta, que foi momentos depois expellida. Receiando, visto o estado da senhora, perdas mais abundantes, tiz imme- diatamente forte expressão uterina, a qual mantive por certo tempo, e em- preguei após uma injecção hypodermica da ergotina de Yvon. Esta senhora restabeleceu-se, e em pouco tempo ficou em excellentes condições, prohibindo-lhe eu formalmente de voltar para o mesmo logar. M.moradora em Belém, na Estrada de Ferro D. Pedro II, outro logar em que o impaludismo abre scena a quasi todas as enfermidades, casada, multipara, soffreu muito de febres intermittentes, traz em sua physionomia estampado o gráo de envenenamento do miasma paludoso : faces descoradas, cansaço enorme, inappetencia, ás vezes diarrhéa, congestão enorme de baço e figado, orgãos que estão altamente dolorosos à pressão. E’a terceira gravidez, mas não tem um só filho vivo; o primeiro foi expellido por aborto; o segundo veio a termo, porém morreu horas depois de nasci lo, e como, com esta terceira prenhez, coincidisse augmento do cansaço e de outros phenomenos, que nas prenhezes anteriores se tinham dado, e como além disso havia grande desejo de ser mãi, resolveu-se ella a vir para a ci- dade tratar-se. Fui vel-a em Botafogo, â rua da Real Grandeza, encontrei-a com os phenomenos acima indicados, dizendc-me ella, nessa occasião, que dous dias antes tinha sentido pequenos calefrios. Como ella tinha sahido do fóco da infecção, e como muitas vezes no im- paludismo observa-se este facto curioso, que é o de, contrahindo-se a infecção paludosa em um foco, os effeitos agudos não se manifestarem ahi, mas sim em um outro logar, eu acreditei nesse facto, calculei todavia que os accessos passariam sem maiores accidentes ; temendo muito pela vida do feto, prescre- vi-lhe luKdetrl “Scentigr. Extracto molle de quina 10 centigr. M. p. 1 pilula e raais 36 iguaes; tomar 1 de 3 em 3 horas e mais: Vinho generiso 500,0. Extracto de noz vomica 10 centigr. Lacto-phosphato de cal 10 grs. Tintura de baunilha 20 grs. Para tomar 1 calix antes de cada refeição. Para uso externo embrocações na região hepatica e splenica com tintura de iodo. Os accessos febris continuaram, muito menos intensos, mas appare- ciam todos os dias : mandei continuar com a medicação. Dias depois veio-me o marido dizer que a febre tinha cessado comple- tamente, mas que ella perdia muito sangue, e que se queixava de violentas dôres; fui vel-a, encontrei-a deitada, com fortes contracções uterinas, e perdendo regularmente sangue : o aborto se fazia. Esperei que elle se terminasse, e com a sahida do bòlo fetal veio uma onda de sangue, naturalmente occasionada pela inércia uterina e pela dyscrasia própria aos phenomenos do impaludismo: fiz immediatamente a expressão uterina, mantive o utero tão retrahido quanto possível, e ao mesmo tempo duas injecções hypodermicas com a ergotina de Yvon : o sangue diminuio de quantidade, o corrimento perdeu pois a forma hemorrhagica, e a senhora len- tamente foi se restabelecendo. Escusado é dizer que em ambos os casos a placenta era enorme. O impaludismo actua, pois, sobre a mulher gravida de um modo agudo ou chronico ; no primeiro caso os phenomenos bruscos e rápidos das congestões precipitam os factos e o aborto é, póde-se dizer, a regra ; no segundo caso, a acção é lenta e demorada, o aborto deve-se receiar a todo momento, e o es- tado da dyscrasia predispõe as mulheres a graves hemorrhagias, além de im- pressionar muito a nutrição fetal, produzindo productos rachiticos e com poucos direitos á vida; e tendo em vista estas condições que o impaludismo crea, nós devemos sempre lançar mão de meios tendentes a modiíical-o qualquer que seja a forma por que se manifeste ; a therapeutica será pro- porcional ao modo pelo qual elle se manifestar. IMPALUDISMO AGUDO Saes de quinina Tendo em attenção o mecanismo pelo qual se faz o aborto nos casos de impaludismo, isto é, attendendo ás congestões que esse envenenamento traz para o lado do utero, nós temos um poderoso recurso no especifico por excel- lencia, isto é, no sulfato de quinina. Eis-me chegado á magna questão do sulfato de quinina. Attribuem a esse agente therapeutico a singular propriedade de ser uma substancia abortiva : primeiro que tudo, que é uma substancia abortiva? E’ toda aquella que tem a propriedade de produzir contracções uterinas, quando ellas não existam ; ora, em matéria medica e therapeutica qual é a substancia que goza dessa propriedade ? Eu não conheço uma só, e em obstetrícia os úni- cos meios abortivos são os meios mecânicos. Em que base se fundaram para dar ao sal de quinina essa propriedade ? No facto de se dar um aborto depois do uso deste agente ? Seria uma interpre- tação errónea, pois seria o— Post hoc ergo propter hoc — ,• com que elementos attribuir ao sulfato de quinina os effeitos congestivos que se observam no tecido uterino, quando temos a própria entoxicação paludosa, que se caracterisa por esses phenomenos ? Para que pois procurar um effeito hypothetico do sal de quinina, quando temos na própria infecção explicação bastante ! ? E para mim estas questões que se ergueram sobre a acção abortiva do sulfato de quinina tinham por base um erro de interpretação ; e, longe de acreditar que os phenomenos congestivos, que precediam as perdás sanguí- neas, as quaes traziam como consequência o aborto, eram devidas ao impalu- dismo, acreditavam todos serem estes effeitos resultado da acção abortiva do sulfato de quinina. E o facto de ser maior o numero dos que acreditavam nessa acção é um argumento a meu favor, denotando a má interpretação : os abortos não eram mais frequentes, porque se empregava o sal de quinina, mas sim porque se applicava esta substancia em doentes infeccionadas de impaludismo : toma- vam a causa pelo effeito. E a pratica tanto sincciona isso, que ha casos de impaludismo, em que o sal de quinina é perfeitamente improfícuo ; os accessos, porém, cessam desde que o aborto se dê : ha casos nas quaes a manifestação paludosa, produzindo o aborto, os accessos febris cessam sem que a doente tenha tomado um só grão de sulfato de quinina ; isto prova que não é por influencia deste sal que se dá o aborto, mas sim por uma acção especial do impaludismo ; e o meu distincto collega Sr. Dr. Felicio dos Santos a mim me disse, que, em pratica, elle prefere esperar o aborto a dar o sulfato de quinina, porque este sal raramente tem importância na marcha dos accessos, e que elle conta mais com o aborto como meio curativo do que com esse agente therapeutico : isto denota quanto o meu collega acredita na localisnção do miasma no tecido uterino. A’ vista da interpretação desses factos, em que parece que o sulfato de quinina não tem a menor acção, não seria uma illação justa a tirar-se aconse- lhar a provocação do aborto ou parto prematuro como meio curativo nas intoxicações profundas e graves ? Se não fosse o receio dos accidentes do aborto provocado, especi ilmente no caso presente, isto é, das hemorrhagías que po- dem sobrevir, não teria esta minha indicação perfeita applicação, maxime tratando-se de envenenamentos paludosos graves ? Para justificar esta idéa, me baseio nestas considerações : é que diante de um accesso pernicioso grave, todo e qualquer meio tendente a salvar a doente, deve ser posto em pratica ; e se ainda avento essa iiléa, é porque estou convencido de que, na mulher gravida, a placenta se torna o orgão de eleição para o aecumulo dos miasmas paludosos : apresento essa indicação, sem assumir a responsabilidade, íicando ao critério do pratico apreciar o seu valor (comprehende-se que nessa indicação só me reflro aos accessos perniciosos, complicando a prenhez, e não á intoxi- cação paludosa sem perniciosidade). Emprego sem receio o sulfato de quinina, cujas dóses variam de 35 a 75 centigrammas por dóse ; não o dou crente de que impeço o aborto de se fa- zer, mas sim como meio de attenuar os accessos subsequentes, porque, para mim, o impaludismo, actuando em uma mulher gravida, a expulsão do pro- ductoda concepção é a regra. Não posso avaliar de antemão o gráo da congestão, do aflluxo de sangue, que se possa fazer para, o utero ; não posso evitar o primeiro accesso febril, por conseguinte não tenho elementos para destruir a causa, senão depois dos effeitos, e, produzidos estes, isto é, a congestão uterina de fôrma paludosa, que meios tenho eu para attenuar este phenomeno, ou impedir que elle se repita, se não lançando mão do anti-palustre por excellencia, isto é, do sul- fato de quinina? Se o impiludismo ti vesse ou apresentasse uma serie de phenomenos taes que me denunciasse a próxima invasão desse mal, eu poderia evitar estes phenomenos congestivos evitando a intoxicação ; mas, nas invasões pa- ludosas, que ordinariamente são bruscas, em que a causa se dando, seus effeitos são immediatos, como evital-os ? Se o sulfato de quinina não tem a propriedade de impedir o aborto, attenuando a intoxicação primitiva, tem a ae attenuar com certeza o segundo accesso, modificando intensidade da acção do envenenamento paludoso nos phenomenos que se possam seguir ao primeiro accesso ; e, em algumas mulheres mesmo, o sulfato de quinina modificará o gráo da congestão uterina, que é o primeiro phenomeno, que preside a extravasação sanguínea, e consecutivamente a expulsão do pro- ducto da concepção. Eu emprego pois o sulfato de quinina, e hoje o maior numero dos mé- dicos também o fazem. E’ que elles estão convencidos de que este sal não tem a menor propriedade abortiva, e que essa propriedade, que se lhe at- tribuia, deve ser antes levada por conta do impaludismo, infecção que pro- duzindo hemorrhagias em outros orgãos, como nas vias respiratórias, por exemplo, etc. , nada haveria de admiravel que ella se accentuasse no utero, orgão preparado pela prenhez. Eu tanto mais creio na influencia paludosa sobre o systema vascular ute- rino, quanto, em clinica gynecologica, nós vemos hemorrhagias uterinas de typo intermittente cederem ao emprego do sulfato de quinina, depois do em- prego improfícuo dos melhores hemostaticos ; e no— Traitè des accouche- ments—do professor Barão de Saboia, este facto é relatado. Eu, como disse e repito, emprego os sàes de auinina no impaludismo agudo complicando a prenhez ; só me tenho a louvar desse meio, senão para impedir o aborto, ao menos para evitar maiores males: sigo, poisa unica indicação racional e causal. IMPALUDISMO DE FORMA CHRONICA Na fórma chronica do impaludismo, como ahi os abortos são menos fre- quentes, eu viso dous fins differentes com a minha medicação : 1. Remover a doente do fóco da infecção, com receio de que nova in- toxicação se faça. 2. Procuro modificar a dyscrasia própria á cachexia, e eis o que uso SULFATO DE QUININA EM PEQUENAS DOSES, SOB ESTA FORMULA Sulfato de quininai Sulfato de ferrol aã 5 centigrammas Para 1 pilula e mais 36 iguaes ; para tomar 1 de 3 em 3 horas : e tonicos, dos quaes os de maior uso são : Elixir de Hompton, Licor de Laprade ; vinhos generosos, associados à cal, ao ferro, extracto de jurubeba, strychinina ou extracto de noz vomica; exercícios ao ar livre, boa alimentação ; e externamente embrocações com tintura de iodoá região hepatica e splenica. O Sr. Dr. Felicio dos Santos vem apenas rectiflcar uma asserção do dis— tincto e laborioso collega que acaba de fallar. Nunca disse que não empregava o sulfato de quinina nestes casos, por- que pensasse que o aborto seria mais elíicaz para fazer desapparecer o im- paludismo. Não disse isso ; porque, quando mesmo não considerasse, como considera em alguns casos, o aborto como mais capaz de fazer cessar os accessos pa- lustres do que o sulfato de quinina, ainda assim empregaria esse sal, que reputa oxytoxico, mesmo correndo o risco de provocar o aborto ; e se tivesse uma substancia, abortiva embora, em que pudesse confiar mais do que no sul- fato de quinina, lançaria mão delia, porque em certos casos de accessos palustres, sobretudo na fórma perniciosa, a mulher corre um risco de vida tão imminente que deve ser considerado licito ao medico provocar o aborto. Nestas condições, disse ao collega que fallou ha pouco, ainda que em- pregasse o sulfato de quinina, contava mais com o aborto para fazer cessar a febre, do que com o proprio sal da quina; e, quando o aborto Extracto molle de quina 10 centigrammas 140 tinha logar e os accessos desappareciam, attribuia mais ao aborto do que ao sulfato de quinina a cessação dos accessos. Os factos quo o nosso collega citou na sua memória, um dos quaes eile observou com o orador, entre outros, demonstram a inteira improficuidade do medicamento. Os accessos continuam ; satura-se a doente de quinina; mas, emquanto não tem logar o aborto e a expulsão da placenta, os accessos não cedem. Isto não é regra geral. Os seus distinctos collegas sabem como o miasma palustre se apresenta entre nós produzindo toda a sorte de modificações imagináveis nas suas diversas manifestações. Por via de regra, administra-se o sulfato de quinina a uma mulher gravida, e os accessos cedem ; mas ó certo que isso muitas vezes não se consegue Observou ha pouco uma doente, que no quarto mez de gravidez teve um accesso pernicioso ; empregou o sulfato de quinina sem resulado. A doente teve segundo accesso pernicioso e abortou. Não deu mais sulfato de qui- nina, a e febre cessou depois da expulsão de uma placenta enorme, excessiva- mente congesta. Teve outro caso, que observou com o Sr. Dr. Pedro Paulo. Uma senhora foi atacada de um accesso palustre no flm do oitavo ou começo do nono mez. A gravidez estava quasi a termo. Empregaram toda a medicação apropriada e aconselhada; foram bastante ousados na administração do sulfato de quinina: nada conseguiram. Removeram a doente para as Paineins, con- tando com a influencia da altitude, influencia importantíssima, que o orador tem verificado muitas e muitas vezes, ea que se devia recorrer mais do que se faz, influencia tão conhecida dos médicos da índia e de outros paizes intertropicaes. Como dizia, enviaram a doente para as Paineiras, os accessos continua- ram. Finalmente, teve logar o parto alguns diis antes do termo da gravidez. Os accessos espaçaram ; ainda houve alguns, mas em breve desappareceram. O orador tinha suspendido o uso do sulfato de quinina, de sorte que não se póde attribuir á acçâo deste medicamento o desapparecimento dos ac- cessos. Agora dirá duas palavras sobre a influencia da altitude nestes casos. A influencia da altitude resulta principalmente da diminuição de pressão atmospherica, isto é, não se deve consideral-a simplesmente como cor- rigindo a latitude. E’ preciso attender muito á influencia da altitude sobre o organismo, principalmente todas as vezes que sa podem elevar os doentes rapidamente, como acontece na estação de Paineiras, onde em meia hora o viajante se acha a 470 metros acima do nivel do mar. Neste ciso, qual é a influencia que dahi resulta sobre o organismo ? Diminuição da pressão atmospherica, aífluxo de sangue para os tegumentos. Isto tem observado em diversos doentes que tem mandado para as Paineiras. Ora, aceita a hypothese que figurou, e que o illustre collega aceita tam- bém, de que a placenta neste caso representa o papel de baço, a circu- lação placentaria não se fazendo como nos outros orgãos parenchimatosos, é claro que, collocada a doente ao nivel do mar ou 500 metros acima, a pressão não a modifica favoravelmente. Por isso não só neste caso, mas também em um outro semelhante vio os accessos continuarem, mesmo elevando-so a doente até a estação das Paineiras, o que muito raramente tem acontecido em doentes mandadas para lá, e que não estão em estado de gravidez. (*) Também lembrará um facto curioso e que justifica o modo de ver do autor da memória. Uma mulher, que examinou, apresentava phenomenos de gravidez do 3o para o 4o mez, e dias depois appareceu-lhe com accessos intermittentes. Procurou contel-os com quinina, mas com cautela, porque, como disse, crê na acção oxytoxica do sulfato de quinina. Não o con- seguiu, porém. Essa doente retirou-se da Cõrte e os accessos continuaram. (*) Como se sabe a circulação placentaria não depende só da acção cardiaca da mãe: ha inda a impulsão cardiaca fetal, a pressão intrauterina, e talvez outras forças e resistências sobre a quaes a pressão atmospherica menos influa. Voltando á còrte empregou de novo o sulfato de quinina, os accessos ces- saram, e a menstruação restabeleceu-se 110 mez seguinte. Continuou a ser menstruada quatro ou cinco mezes. Um collega, que a examinou, declarou- lhe positivamente que não havia signaes de gravidez, mas um anno depois essa mulher expelliu um feto, que o orador apresentou ao autor da memória. A morte do feto teve logar provavelmente pela acção dos accessos intermit- tentes. Portanto, nem sempre se dá a expulsão do feto. Entra em discussão a tliese sobre a hydrocele e chyluria 110 Brazil. 0 SR. DR. FELICIO DOS SANTOS diz que propondo a tliese : A chyluria o liydrocele, os abcessos lymphaticos e a elephantiase dos arabes, moléstias apparentemente tão diversas, teve em vista apurar, pela contribuição dos nossos observadores, se, como pensam respeitabilíssimos observadores de outros paizes, estas moléstias estão sempre sob a depenclencia da filarose. Sua opinião é pela aíFirmativa, porém sabe que outros não pensam assim. Refere a historia da filaria desde a descoberta de Lewis até hoje. Pouco tempo depois da descoberta de AVucherer da filaria na chyluria, Bancroft na Australia exprimia a suspoita de que os abcessos lymphaticos, certos liydroceles e a elephancia fossem devidos ã filaria. Lendo o trabalho de Bancroft, o orador começou a procurar os traços da filaria na elephancia, e de facto descobriu o embryão desse nematode, como consta da nota que apresentou à Sociedade de Medicina de então. Pouco tempo depois foi a filaria achada na elephancia por Lewis, que connnunicou essa descoberta á Sociedade de Medicina de Bengala. Spencer Cobbold, que de Londres dirigia as pesquizas sobre a influencia da filaria em certas moléstias dos paizes intertropicaes, observou com razão que o verme adulto, até então não encontrado, devia ser procurado no corpo do homem o dos animaes domésticos. Logo após Bancroft teve a fe- licidade de encontral-a em um abcesso lymphatico. Algum tempo depois o orador e o Dr. Julio de Moura extrahiram uma filaria adulta de um abcesso lymphatico do braço de um paciente. Foi ainda Cobbold quem chamou a attenção do mundo medico sobre a provável metamorphose da filaria nos animaes domésticos. Procurou-se de- balde nos cães, nos patos, etc., e só mais tarde veiu o Dr. Manson a desco- brir o estado intermediário da filaria no pernilongo, que suga os seus ovos com o sangue do homem, deita-os na agua em fórmà de larvas. Com a agua são ingeridos pelo homem os embryões da filaria. Essas observações foram con- firmadas por Lewis, Bancroft e Cobbold ; e admira como até agora nada se tenha verificado neste particular no Brazil, aonde as manifestações da filaria são tão frequentes. Tanto mais é de admirar que isto não tenha succedido, quanto as ob- servações de Manson têm sido contestadas por alguns autores tanto ingle-1 zes como francezes, que as qualificaram de romance da filaria. Se é um romance essa evolução da filaria, é o historico da natureza, na qual vemos todos os cíias as metamorphoses mais admiráveis. Outro ponto que devemos liquidar é a questão da distribuição geogra- pliica da íilariose no nosso paiz ; porque em um paiz tão extenso ó bem possivel que possamos reunir dados que nos autorisem a ajuizar se o mosquito é ou não o unico intermediário da Alaria. O orador acredita que o pernilongo é o principal, senão unico intermediário,porque em certos pontos de sua província (Minas), em que não existe o pernilongo, as íilarioses são desco- nhecidas. O orador julga provável que a filaria tenha sido por nós importada da África, como foram as boubas, cujo estudo ainda tem também muito que ser feito, e que tende a desapparecer do Brazil, como jã desappareceram inteiramente os casos de filaria medinensis ou bicho da Costa, outr’ora muito nosso conhecido. E’ preciso estabelecer-s9 se a filaria ó transportável de uma localidade para outra, como é incontestável hoje que acontece com o beri-beri, que tem acompanhado os êxodos da população. Os pernilongos jà vão apparecendo pelo interior do paiz, levados pelos caminhos de ferro, de sorte que esses hospedes importunos jà apparecem no campo de Minas, onde não eram até bem pouco tempo conhecidos. Na impossibilidade de supprimir o intermediário da filaria, o trata- mento a empregar é o parasiticida. O orador recorreu para este fim ao sul- fureto de carbono, que lhe tem dado bons resultados na chyluria, que aliás frequentemente desapparece para reapparecer depois, independente de qual- quer agente therapeutico ; mas sobretudo conta resultados muito favoráveis do sulfureto de carbono na elephantiase dos arabes, empregado interna e ex- ternamente. Externamente emprega-o em fricções comoleo de amêndoas. A cura é ás vezes rapida. O Sr. Proffessor Martins Costa diz que a questão levantada pelo Sr. Dr. Felicio dos Santos tem a seu vêr duas partes muito importantes : uma parte clinica e uma parte exclusivamente de historia natural. O Sr. Dr. Fe- licio dos Santos occupou-se por assim dizer exclusivamente da parte que diz respeito á historia natural da chyluria, deixando completamente de lado a parte clinica. Permitta-se-lhe que antes de entrar propriamente em matéria, le- vante uma injusta accusação feita á classe dos médicos brazileiros. Ha muitos annos que os médicos brazileiros se têm occupado com todas moléstias chamadas indígenas, e têm-se occupado da chyluria de modo muitíssimo serio de sorte a merecer do mundo scientifico especial menção na historia experimental e clinica dessa moléstia. Assim é que na historia desta moléstia ha um periodo chamado brazileiro. Os nossos antigos médicos, os professores da Faculdade, os membros da antiga Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, hoje Imperial Academia de Medicina, occuparam-se clinhamente da chyluria, de sorte a fazel-a co- nhecida nos centros scientificos da Europa, onde até então era completamente desconhecida ; e o proprio doente que servio de estudo ao Sr. Dr. Spencer Cobbold foi enviado do Brazil, onde a moléstia era bem conhecida, sua symptomatologia perfeitamente descripta e o tratamento empregado pouco mais ou menos aquelle de que ainda hoje se servem os médicos aqui e em toda a parte. Mas não foi sómente pelo lado clinico que os médicos brazileiros se occuparam deste assumpto ; também pelo lado da historia natural. Para comproval-o, basta appellar para o historico feito pelo Sr. Dr. Felicio dos Santos. Não só o fallecido Dr. Wucherer, brazileiro de coração, posto que estrangeiro de nascimento, domiciliado em nosso paiz, onde fez seus estudos e adquiriu sua reputação medica, como o Sr, Dr. Silva Lima e outros práticos, entre os quaes o proprio Sr. Dr. Felicio dos Santos, occuparam-se da historia natural da tilaria. Deve especialmente chamar a attenção da classe medica para um trabalho dos mais importantes, que sobre este assumpto se têm publicado entre nós, e que pôde rivalisar com os melhores que tem apparecido no estrangeiro, devido ao nosso collega, o Sr. Dr. Pedro Severiano de Magalhães. Este trabalho importantíssimo merece o applauso de todos os modicos, principalmente dos brazileiros. Portanto, quer debaixo do ponto de vista clinico, quer debaixo do ponto do vista da historia natural, o Brazil tem cumprido o seu dever; os médicos brasileiros têm feito o que era possível fazer. No estudo destas questões, não é bastante affirmar que tal moléstia é pa- rasitaria ; é necessário também saber como actua o parasyta, por que modo, qual o mecanismo por que elle occasiona os diversos symptomas da moléstia. Ora, a respeito deste ponto todos nós, póde-se dizer, es- tamos ainda nas trevas, não sabemos o modo porque a filaria de Wuche- rer produz a chyluria e a hemato-chyluria; não sabemos a razão por que um animalculo, que vive ora no sangue, ora 11a lympha, ora conjunctamente no sangue e na lympha, produz manifestações mórbidas tão variadas, determina no mesmo indivíduo, dadas as mesma condições, accidentes os mais extravagantes. Sabemos todos que a moléstia ora se manifesta por simples hema- túria. E’ a hematúria inter-tropical, que rompe muitas vezes a scena mór- bida, e Wucherer aliança ser sempre esse o principio da moléstia. Por outro lado, médicos não menos notáveis, e entre outros póde recordar um dis- tincto clinico, que infelizmente foi muito cedo roubado â medicina brazileira, 0 Dr. João Silva, afflrmam ter muitas vezes observado 0 inicio da chy- luria por ourinas francamente leitosas, sem nunca terem sido precedidas de hematúria. Em outros casos nós vemos que doente se apresenta a prin- cipio com hematúria, em seguida chylurico e mais tarde novamente hematurico. Pois bem, como actua e de que modo póde produzir a filaria estas mani- festações differentes na composição,no aspecto, na qualidade da ourina ? Hoje, estudos completamente feitos, ainda por médicos brazileiros, a respeito da coloração da ourina na chluria, demonstram perfeitamente as diversas mani- festações de colorido, que são perfeitamente explicadas não só pela gordura, como também, em certos casos, pelo sangue, que se acha ahi derramado; mas sobretudo pela gordura. Mas, pergunta, como actua a filaria? Qual é o seu mecanismo intimo? Ella existe conjunctamente no sangue e na lympha ? Na chyluria observa-se, por exemplo, que a ourina ora é sanguinea, mas no mesmo dia desapparece completamente a ourina sanguinea, e apparece ourina perfeitamente clara como a ourina normal ; ora apparece sangue na ourina, e em seguida manifesta-se hemato-chyluria. Não se pôde comprehender como a filaria possa produzir estes resultados, rompendo os vasos lympliaticos, e rompendo os vasos sanguineos, como se pretende. E’ preciso que o processo seja melhor esclarecido. Todos nós sabe- mos, pelo estudo da pathologia, que em indivíduos que succumbem soífendo de hemato-chyluria, não se tem descoberto alterações de qualquer ordem nos vasos lymphaticos e sanguineos que possam explicar perfeitamente os resultados, i. é. a modificação na coloração da ourina. Escreveu a proposito disto uma memória, que apresentou á Imperial Academia de Medicina; ne.:se tempo não acreditava na origem parasitaria da chyluria. Hoje acredita nella, mas não pôde ainda explicar o modus operandi da filaria para produzir estas manifestações. Depois da verificação da pathogenia da moléstia, temos ainda uma parte muito importante, que é o seu tratamento. Não basta destruir um para- sita qualquer, é preciso também destruir ou corrigir as alterações organicas produzidas pelo parasita. O que produz a chyluria? Será a filaria per se, ou a sua secreção? Eis aqui um ponto que convém estudar, e a que a medicina bra- zileira devia dedicar-se. E’ preciso ainda que digamos com franqueza que a chyluria é uma moléstia, que apparece entre nós, como apparece em muitos paizes do mundo. A chyluria não é como pretendem, uma moléstia frequente no Brazil. Não é dos médicos que têm mais pratica; mas tem alguma clinica civil, e em 13 annos de pratica medica no Rio de Janeiro não observou mais de 15 casos. E nos trabalhos publicados quer aqui, quer na Bahia, o numero de observações é restricto, além de que sabemos que muitas vezes os individuos que servem á estatistica de um medico, servem também á estatística de dous ou tres, porque trata-se de moléstias essencialmente chronicas e rebeldes. A chyluria, pois, não é frequente no Brazil ; é ponto que deseja registrar. Desejava também chamar a attenção do Congresso para a distribuição geographica da chyluria no Brazil. Este estudo mostra que a moléstia se encontra mais ou menos em todas as províncias do nosso paiz, sendo, porém, mais frequente nas provindas centraes e nas do extremo norte. Pelo menos foi o que encontrou nos trabalhos que pôde consultar, quando escreveu a memória que sobre este assumpto apresentou á Academia Imperial de Medicina, Assim, por exemplo, leu uma tliese do Sr. Dr. Cassiano, que cli- nicava em S. João d’El-Rei, na qual declarava ter alli observado alguns casos de chyluria. Nas theses apresentadas á Faculdade de Medicina da Baliia viu referidos casos desta moléstia naquella província, na de Sergipe e na de Per- nambuco, assim como nas do Maranhão e Pará; mas não teve occasião de verificar que fossem observados casos desta moléstia nas províncias do Rio Grande, Santa Catharina e Paraná. Encontrou uma allusão vaga da exis- tência da chyluria no Rio da Prata; mas nada pôde verificar a este respeito. Portanto, crê que a moléstia existe mais frequentemente nas províncias do Norte do que nas do Sul; mas isto não é razão para pensar que ella não existe nos climas frios. Nós sabemos hoje, pelos trabalhos dos médicos ingle- zes, que esta moléstia foi observada primeiramente na Irlanda, onde se ob- servaram dous casos. A chyluria tem igualmente sido observado na Italia, 11a África e 11a Australia. E’, portanto, uma moléstia de toda a parte do mundo, da mesma sorte que 0 beri-beri, da mesma sorte que a hypohemia inter-tropical; não é património exclusivo nosso,«tem sido observada e estudada em muitos paizes, mas são os médicos brazileiros que maior contingente têm trazido ás pesquizas sobre esta moléstia. O Sr. Dr. Pedro Severiano de Magalhães começa agradecendo as referencias que lhe foram feitas. Não poderá, pela estreiteza de tempo, tocar em todos os pontos do assumpto. Acredita que a filaria não foi importada ; que ella, existindo do mesmo modo, é auíhoctona no nosso paiz, nas zonas climatéricas similiares. Nada pôde affirmar de observação própria sobre 0 pernilongo como inter- mediário da propagação da filaria ; também nada pôde dizer sobre a acção do sulfureto de carbono nas manifestações da filariose ; julga que, d’entre os parasiticidas, a glycerina é talvez 0 preferível. Applica-a em dôses elevadas, conforme a tolerância dos doentes, tendo por limite os efíeitos laxativos da substancia, a exemplo do que se fez contra a trichinose. Acredita que tanto a chyluria como a elephantiase, podem apparecer excepcionalmente sob a influencia de outras causas que não a filaria, e neste caso estão para 0 orador as observações feitas na Europa, de que fallou 0 Sr. Dr. Martins Costa. A hematochyluria, 0 chylocele ou lymphocele, a elephancia, asvarices lymphaticas, 0 lymph-scrotum, 0 rrcno-craic, porém, são moléstias endemicas dos paizes quentes e devidas á filaria de Wucherer. Para 0 orador não existe chyluria pura ; encontrou sempre elementos de sangue nas ourinas que examinou, em maior ou menor quantidade. Julga que se pódem explicar as frequentes alternativas de aspecto da hematochyluria pela formação de trombos obturadores que diminuem e fazem parar as perdas. Ao contrario da opinião do Sr. Dr. Martins Costa, julga frequente a hemato-chyluria entre nós, e se não apparece nos hospitaes grande numero de casos, é porque a moléstia em geral não tem gravidade ; sendo que um distincto collega de seu conhecimento, que soffre ha muitos annos de hemato- chyluria, chega ató a ver nella uma vaivula do segurança erroneamemte dando-lhe natareza herpetica ?!. Pelo enunciado da these, em discussão, parece que o Sr. Dr. Feiicio dos Santos pretendeu, como Lewis, filiar os hydroceles communs, á lilariose, e a ser assim, discorda de sua opinião : são produzidos pela tilaria sómente os chyloceles, nos quaeso orador observou um caracter importante, sobre o qual chama a attenção dos collegas, a saber: diminuição de volume no e decúbito durante o repouso e augmento na estação e após a marcha. A localisação vesical da chyluria, aliás demonstrada apparentemente n’um caso pelo Sr. Dr. Havelburg (de Santos), pelo menos não é constante, pois que o Sr. Dr. Murata, medico japonez encontrou n’uma autopia de hemato-chylurico lesões remes muito notáveis, que dão razão de ser ao conceito geral sobre a localisação renal das pordas lymphatico-sanguineas. O orador attribue a diminuição da elephantiase no Rio de Janeiro ã agua potável, que é agora melhor e a outros melhoramentos hygienicos nas habitações etc. Quanto ao methodo de tratamento da elephantiase dos membros, con- tinha o orador na persuasão de que o melhor é a massagem methodica da parte, seguida de compressão elastica gradual, do que tiveram a prova os col- legas deste Congresso, que visitaram a enfermaria de segunda clinica cirúr- gica, onde viram um paciente, que com esse tratamento conseguio resultado surprehendente. Em recente publicação, o Dr. Helfreich, de Greifswald, pro- põe excisar o excesso de pelle que acontece ficar algumas vezes depois de obter-se a cura pela compressão. Quanto ao tratamento pela electrieidade só poderia tirar a prova de sua eíllcacia, se fosse applicado com exclusão da com- pressão, o que até agora não se tem feito. O orador muito desejaria que se chegasse a um accordo sobre a maneira de medir o volume dos membros elephanciacos. O Sr. Dr. Silva Araújo usa do seu elephancimetro, isto é, de uma regoa vertical, fixa a uma taboa, sobre esta repousa o pé do paciente, e a cir- eumferencia da perna ó medida com uma fita em diversas alturas. O orador não serve-se de instrumento especial; cinge-se ao methodo anatomico, medindo a circumferencia do membro ao nivel de pontos de reparo anatómicos; assim o limite inferior da rotula, os maleolos, o tarso e o meta- tarso ; na perna tem ainda os limites dos tres terços anatómicos, etc., notando também a existência de algum sulco mais pronunciado que se tenha for- mado. Termina reclamando para si,e para o Sr. Dr. Silva Araújo a prioridade da creação da palavra filariose para designar os mutiplos estados morbidos deter- minados pela filaria Wuchereri. Recente noticia de novos exemplares da Filaria adulta estudados pelo Prof. Bourne, de Madrasta faz o orador esperar novas acquisições scientiticas a respeito do parasita de Wucherer. O SR. DR. ALVAR.0 ALBERTO lê: De nós, como de todo o mundo medico, poucos problemas exigem estudo tão urgentemente, e merecem-n’o tão assiduo, diligente, porfloso, como—a cura da tuberculose. E’ de interesse universal a resolução deste problema. E’ que de facto, como disse o Sr. G. Sée, a tuberculose é a mais grave e a mais frequente das moléstias que dizimam a especie liumana. Cumpro um dever, portanto, chamando para este assumpto a attenção do Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia, reproduzindo e completando a modesta nota que a respeito enviei á Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, em 24 de Julho do corrente anno. Não me sorprehendem as «milagrosas resurreições» que, assim dizem, está operando o fluur, no estrangeiro. Ainda não me eram conhecidos os interessantes trabalhos de Seiler, Herard e Garcin, excitadores do actual enthusiasmo pelo fluor, e já eu declarava 11a imprensa scientiflca: « desde íins de 1884 nutro esta convicção: que os compostos fluorados e sibeiados não merecem do medico 0 esquecimento em que jazem ; que a indagação das propriedades pharmacologicas, das applicações therapeuticas desses agentes poderosos é trabalho repleto de interesse, que promette conduzir a noções uteis, numerosas. » (1) E’ verdade que nunca pensei em experimentar o acido fluorhydrico pela via respiratória, na tuberculose, por considerar, de um lado, que nada é mais prejudicial ao tuberculoso do que a irritação, mesmo ligeira, da mucosa pul- monar, e d’outro lado, que nada é mais irritante para esta mucosa, do que 0 acido fluorhydrico livre. Todavia tenho experimentado desde algum tempo esse acido em combinação neutra com o cálcio, aconselhado pela notável coincidência de dar-se perda exagerada de phosphato calcico, na tuberculose, e de se achar esse phosphato, que, além do mais, é cretifícador do tubérculo, unido ao fluorureto da mesma base, ao menos em parte, no organismo. Ora, sendo simplesmente physico-chimicas, como quaesquer outras, as condições dynamo-materiaes que, nos seres vivos, regem a eliminação, como a íixação e a electividade, dos corpos ingeridos no organismo, sejam elles alimentos, morbos ou medicamentos; e sendo licito suppôr que uma das condições da fixação do phosphato tricalcico no organismo seja ou resulte da presença do fluorureto da mesma especie, torna-se razoavel tentar obstar á perda de um desses saes pela ingestão do outro, como tenho feito. Prescrevi 0 fluorureto de cálcio a doentes diversos, mas em poucos pude seguir o tratamento ; e, além disso, não posso garantir que a todos tenha sido administrado realmente 0 prescripto, ou ao menos outro fluorureto. Garanto, ao contrario, que pelo menos um desses doentes foi enganado pelo pharmacopolista : foi um preto doente de variola, contrahida pouco depois de dengue e terminada pela cura no hospital dos variolosos. Erh tres dos primeiros casos de tuberculose em que associei 0 fluorureto de cálcio aos medicamentos usuaes, e em que pude informar-me do resultado, este não foi, infelizmente, o desejado. Em todos os tres doentes a moléstia era ehronica, mas achava-se adian- tadíssima e mais ou menos generalisada. Um delles, João Leite, residente em casa apenas soffrivel, á rua do Mattoso n. 8, podia alimentar-se berne usou do fluorureto por bastante tempo (do principio a meiados de 1886); outra, Maria Carolina, chylurica, moradora em casa terrea, na cliacara do Hotel Daury, também podia alimentar-se bem, mrs não fez uso do fluorureto senão durante dias, fallecendo pouco depois de o ter começado ; o terceiro, finalmente, o francez Charles, era um pobre sem tratamento hygienico nenhum e que, segundo consta, terminou seus dias no hospital de tubercu- losos de Cascadura, pouco tempo depois de ter tomado, por algumas semanas, fluorureto de cálcio. Não obstante estes primeiros insuccessos, tenho continuado a administrar (1) Álvaro Alberto.— Confcrib. para a pharm. do fluor e do silicio, in Brazil med. n. 27, de 21 de Julho de 1887. o fluorureto de cálcio na tuberculose, na dóse diaria de um a dois grammas, fraccionada em dóses de 0,15 a 0,25 centigrammas, associando-o hoje com- mumrnente ao phosphato monocalcico, transformando -o, ou não, em fluorureto acido. Ahi vão dous casos em que o exito dessa pratica não foi tão infeliz como nos precedentes: A. V., de cerca de 18 annos, professora, sente-se doente ha poucos mezes, desde que perdeu o pai, cuja morte fundamente impressionou-a. Perturbações menstruaes e digestivas, posto que ligeiras estas ultimas; lingua um tanto saburrosa, alguma anorexia. Emmagrecimento. Conjun- ctivas não muito descoradas. Nem febre, nem dyspnéa, nem hernoptyses. Toda a moléstia consiste, no dizer da doente, em incommoda tosse com espu- tação frequente, manifestando-se de preferencia à noite, durante tres a quatro horas seguidas, desde que a doente se deita até meia noite ou uma hora da noite. A esputação é branca e arejada, mucosa. Pela percussão, nada: som normal ou apenas mais claro. Inspiração fraca em uns pontos, mas rude em outros, e alguns estertores mucosos de grandes e pequenas bolhas, não muito abundantes, nos dous pnlmões, que foram examinados até meia altura sómente. Prescripção adiada, aguardando a decisão do exame bactereoscopico. Como os escarros eram muito fluidos e escumosos, use:, para tornar mais seguro o resultado, de um processo, que dever recommendar aqui, para os casos analogos: concentrei os escarros, deitando-os sobre um lenço dobrado em oito, cujo tecido, absorvendo a parte aquosa, deixou como residuo uma massa amarellada e viscos>, muco-purulenta. Foi do centro desta massa que extrahi a porção delia necessária para o exame micro- scópico . Autorisou esse exame o diagnostico de tuberculose pulmonar. Prescripção, a 22 de Agosto: uma gramma de broirmreto de potássio todos os dias de anoitecer, dissolvido em agua glycerinada, aromatisada com louro- cerejo; além do seguinte : Fluorureto de cálcio purificado 5,0 Acido chlorhydrico q. s. para dissolver o íluorureto Phosphato mono-calcico 3,0 Tintura de casca de limão 1,0 Agua 250,0 Glycerina 50,0 Duas colheradas grandes por dia, ás refeições. Vida ao ar livre. Alimentação commum, â vontade. Foram excellentes, segundo parece, os eAfeitos deste tratamento: a doente acha-se actualmente bem, e tanto que julga não precisar mais dos medica- mentos que usou. Não é tão favoravel como este o segundo caso que tenho a referir; mas sempre serve para mostrar a acção therapeutica do íluor, quando utili- sada em combinação com o cálcio. M. P., de 30 annos, caixeiro de casa de bilhares em Santa Cruz. Má hygiene: alcova insuílicientemente illuminada e arejada; vigilias fre- quentes- Consulta a 23 de julho: Doente a mais de um anno. Tosse, pequenas hemoptyses, expectoração de muco-pus, alguma dyspnéa por ligeiro esforço, anorexia. Febre, suores, emmagrecunento, anemia notável. Inspiração in- tercadente e expiração prolongada, no ápice direito. Fusão tuberculosa em grande extensão, no ápice esquerdo. Prescripção: um gram. de fluorureto de cálcio por dia, âs refeições, em cinco dóses — Pliosphato monocalcico (0,20) e creosoto vegetal (1,0) em agua com vinho de Malaga e glycerina (10,0 por dia). Além disso, durante apenas dez dias, noz vomica com bicarbonato de sodio, duas vezes por dia. Passeios ao ar livre. Alimentação abundante ; cinco refeições por dia. Foram repetidas as duas primeiras formulas a 30 de Julho e 13 de Agosto. A parte hygienica da prescripção não foi tão cuidadosamente seguida como a pliarmaceutica ; mas, não obstante, o doente melhorou sensivelmente: em principio de Agosto não havia mais febre ; tinha o doente algum appetite, e sentia-se mais animado, mais forte. Entretanto essas melhoras não progrediram ; antes tendiam a desappare- cer, em meados daquelle mez, pelo que resolveu-se empregar, do dia 13 em diante, o fluorureto de boro, em inhalações, juntamente com os medicamentos que pouco haviam beneficiado até então. Se, em vista do insuccesso das primeiras applicações, não desanimei, com- tudo, decidi-me desde logo a não administrar mais o fluorureto de cálcio senão com algum outro fluorado que se prestasse a inhalações, isto é, para o trata- mento topico do mal. Estudei, para isso, os compostos do fluor com o silicio e o boro, reconhe- cendo-os desde cedo como energicos fermenticidas, por experiencias in vitro, que serviram de base à seguinte conclusão, annunciada em Julho do anno pas- sado, no Braz.il Medico: . « A acção antiseptica desses compostos ( fluo-silicicos e fluo-boricos ) era bem facil de prever ; era uma hypothese a que dava muita verosimilhança o facto de jà estar demonstrada a mesma acção nos ácidos borico e fluorhydrico e nos silicatos alcalinos : pois bem, é a previsão de uma realidade essa hypo- these, perante os resultados fornecidos pelas experiencias que tenho a relatar.» Folgo em accrescentar que essa conclusão jà foi confirmada, em parte, por melhor experimentador, o Dr. William Thompson (1), a 12 de Setembro de 1887, no que diz respeito ao íluo-silicato sodico e o acido hydro-lluosilicico. Os resultados experimentaes a que referi-me podem ser resumidos assim: 1. Bastão algumas gottas de acido hydro-fluosilico do commercio (5a 10 gottas) ou alguns centímetros cúbicos de um soluto de fluosilicato de sodio a 1/100. (5 a 10*cc. ), para retardar durante muitos dias ou impedir indefi- nidamente a putrefacção em 10 cc. de urina, de leite, ou de soluto aquoso de assucar a 2/10. 2. Actua de modo semelhante o acido hydro-fluoborico, de que bastam duas gottas em 10 cc. de agua, para conservar inalterado por tempo indefi- nido um fragmento de carne ; e que, como o hydro-fluosilicico, é capaz de suspender segura e promptamente, incontinente e para sempre, a putrefacção da carne, em dóse insignificante, de apenas algumas gottas (5 a 10 do boro- fluorhydrico e 20—30 do silico-fluorhydrico commercial, para 10 cc. de liquido podre). Não limitei-me a experiencias in vitro, que julgo de pequeno valor . Fiz com o fluosilicato de sodio alguns ensaios pharmaeo-dynamicos em cães, administrando esse sal, no primeiro dia, em injecções hypodermicas do soluto saturado a frio, juntamente com agua de carne podre ( no decimo dia da putrefacção ), e nos dias seguintes, pela boca, de mistura com alimentos. Um dos cães teve dous abcessos gangrenosos, sem febre ( 39,3 no recto, no dia da experiencia, e 39.0 nos seguintes ) consecutivos às picadas das duas injecções hypodermicas que lhe fiz, cada uma de meia seringa de soluto satu- rado do fluosilicato e outrotanto de agua de carne podre, também saturada do mesmo sal. Nada soffreram dous cães em que se injectara o soluto salino o agua de carne separadamente, na proporção de 3 cc. da primeira para 1 cc. da segunda, o a que, como ao outro, se ministrara pela boca 0,20 de íluosili- cato em 3 —5 dóses, todos os dias ( durante duas semains ao cão dos abcessos), desde o primeiro dia da experimentação. ... . Os mesmos e outros cães serviram depois para a determinação do grao de toxicidade do fluosilicato, sobre o que basta dizer que em um cão de fila, do (i) Citado poi’ Ilerard, Cornil e Hanot, in « La plitlil3ie pulmonaire » 18bS pag. 171. 150 grande talhe, attingiu-se por duas vezes, impunemente a dóse de um gram- ma, em um sõ trago, administrada por occasião de uma refeição, para não produzir vomitos. Provocou algumas vezes este accidente o íluosilicato sodico, em jejum, em dóse menor. Quinto aos compostos íluoboricos, o seu estudo pharmacodynamico, mais completo, foi feito em uma ave, dous cães e, por ultimo, na especie humana. As primeiras experiencias consistiram em submetter por varias vezes um frango e dons cães pequenos á inhalação dos vapores formados pelo íluor- ureto de boro com ar atmospherico. O frango foi exposto á atmosphera fíuoborica em uma grande manga de vidro, e os cães, ora soltos na sala em que se desprendia ogaz, e ora encerra- dos em uma gaiola de taquara, de fendas raras e estreitas ( semelhante a um jacá ), suspensa pouco acima do apparelho productor do gaz, de modo a rece- ber este em profusão, mui pouco diluido pelo ar, durante 5'4 horas. O tempo de experimentação foi de pouco mais de uma hora, para a ave, e de uma, duas, tres, e cinco e meia horas para os cães. Em todas as experiencias o resultado foi sempre o mesmo : nada de anor- mal ; perfeita tranquillidade dos animaes, que no meio de uma atmosphera carregada,— escura,— de íluorureto de boro, portaram-se como se nada esti- vessem soífrendo, como se ahi estivessem muito a seu gosto. Na experiencia realizada com o frango observou-se um facto que merece especial menção : ao effectuar-se a experiencia, estava essa ave affectada de conjunctivite epidemica, e no entretanto apenas um dia depois da expe- riencia mo'trava-se sã, inteiramente livre «dessa moléstia, que, no mesmo gallinheiro, já havia atacado outras da sua especie. Conclusão : o equivalente therapeutico do íluorureto de boro é muito elevado ; conseguintemente, esse gaz póde ser administrado sem receio, em dóses até mais que sulíicientes para effeito curativo. Outra cousa não era de esperar, pois que assim succede já com o acido fluorhydrico e já com o acido borico, que nestes últimos dous annos tenho tantas vezes empregado em uso interno sem o menor accidente, aos deci- grammas, quer no estado de bi borato sodico ou borax, como antidyspeptico alcalino-antiseptico, quer no de sal calcico, nas diarrhéas infantis, como an- ti-septico-anexosmotico, que o é poderosíssimo. Ora, é bem verosímil que o íluorureto de boro actue menos como tal, do que como mistura de ácidos borico e íluorhvdrico,—attenuado este ultimo pelo íluorureto indecomposto, na molécula hydro-íluo-borica : 8 BFl3+6 H20 = 2 BF13, HF1+2 H3B03 E’ evidente que o fiuorureto de boro só actua depois de decomposto pela agua atmospherica em acido borico e acido hydro-fluo-borico, e que dessa decomposição parcial resulta attenuação reciproca do íluorureto de boro e do acido fluorhydrico, pois que este ó nimiamente irritante, como não o é nas mais altas doses o íluorureto liydratado ; e o íluorureto de boro anhydro, por seu turno, é tão energico destruidor da matéria organica, que já me lembrou aproveital-o como tal, dissolvido no acido sulpliurico, em pesquizas toxicologicas. Se o íluorureto de boro póde ser administrado pela via respiratória em dóses capazes de grande effeito therapeutico, e no emtanto innoxias, facil- mente supportaveis, o mesmo não se póde dizer do íluorureto de silicio, a cuja inhalação tentei debalde sujeitar um cão por mais de tres e meia ho- ras : ao cabo desse tempo, o animal, que até hora e meia antes gritara des- esperadamente, achava-se inteiramente aphonico, com tosse frequente e fortíssima anciedade respiratória. A historia da descoberta da acção antyphymatica do acido íluorhvdrico fez que a principio se me afigurasse mais precioso o íluorureto de silicio, do que o íluorureto de boro ; certas considerações theoricas,porém,não tardaram que me induzissem, não a abandonar de uma vez para sempre o íluorureto de silicio, mas a começar pelo composto borico do mesmo genero os meus estudos sobre o íluor. Essas considerações hypotheticas eram que, tendo o fluorureto de silicio de decompôr-se, ao contacto da agua atmospherica, em acido hydrofluosilicio e si liça gelatinosa, esta ultima, mais do que aquelle acido irritante, não deixaria de prejudicar o organismo, cedo ou tarde,—ou accumulando-se nos bronchios e obstruindo-os, ou fazendo-se absorver como silicato, para depois incrustar de siliça os rins (Rabuteau). Ora, estas supposições, veiu coníirmal-as em parte a ultima experiencia referida. Certo da innocuidade do fluorureto de boro em altas dóses, da qual em mim mesmo tive prova, demorando-me mais de uma vez, sempre incólume, na sala de inhalação desse gaz, comecei resolutamente a administral-o a doentes da clinica particular. Apenas pude ensaial-o, por emquanto,em casos de coqueluche, asthma e tuberculose pulmonar, que, embora poucos, já valem para começar. O resultado foi excellente. Em quatro doentinhas de coqueluche, de quatro mezes, um anno, tres e quatro annos, a moléstia desappareceu (em tres, parecendo ter abortado em uma, (1)) ou diminuiu consideravelmente, no curto espaço de quatro dias, com 3 a 5 inhalações de 1 a 2 horas por dia. Um doente de asthma bronchial submetteu-se durante duas horas á inhalação de fluorureto de boro: o ataque diminuiu sensivelmente, permit- tindo «.o paciente fallar com muito menor difliculdade. De todos os casos a referir, porém, o mais interessante é o de tuber- culose. Trata-se de uma tuberculosa de 20 annos, parda, em quem a mo- léstia começou de externar-se a 9 de Agosto de 1887, per febre e pequenas hemoptyses, parecendo ter sido adquirida, poucos mezes antes, de uma com- panheira de quarto, já fallecida. Uma prima e um irmão maternos mortos de tuberculose ; mãi viva, de boa saude ; pai syphilitico. Até 25 de Outubro, essa doente esteve em tratamento com o professor Torres Homem, peiorando, não obstante, cada vez mais : febre, expectoração por vezes sanguinolenta, emmagrecimento (45 kilos). Nesse dia, estertores subcrepitantes húmidos, ex — e inspiratorios, em fóco, abaixo da clavicula esquerda. De 25 de Outubro a fins de Junho de 1888, fluorureto de cálcio, por algumas semanas ; creosoto, benjoim, iodoformio, etc. Superalimentação í vida ao ar livre. Produziu esse tratamento melhoras muito notáveis no estado geral, elevando-se a 63 kilos o peso da doente a 24 de Junho. O mal progredia, porém : escarros tintos de sangue a cada época menstrual ; tosse um tanto frequente, largas estrias de muco-pus nos escarros. Accentuaram-se estes phenomenos no principio de Julho, quando o pó de carne e a peptona tinham sido abandonados desde mais de quinze dias. Tosse cada vez mais frequente, impedindo osomno nos primeiros dias de Julho. Dia 6 de Julho. — Bolhas grossas, cavernulosas, no pulmão esquerdo. Começa o uso das inhalações fluoboricas. Prescripção: inhalações de fluorureto de boro, duas vezes por dia, durante duas horas. Alimentação commum, â vontade. Nada mais. Resultado: melhoras rapidas e grandes, sorprendentes. Diminuição crescente da tosse e da expectoração ; menstruação normal a 9, isto é, tres dias depois de começadas as inhalações, — sem escarros sanguíneos, pela pri- meira vez. Suspendeu-se então o uso do medicamento durante os dias 9 a 13, recomeçando-o a 14. Nenhuma influencia do fluorureto sobre o corrimento. Dia 24 de Julho.— O estado da doente é muito lisongeiro : expectoração quasi puramente mucosa, arejada e rara, quasi nulla, sendo preciso esperar pela noite para mais facilmente provocar a tosse e assim obter algum ca- tarrho para exame microscopico. Mostrou este exame a presença dos bacillos caracteristicos em um escarro colhido e preparado no dia 22. Faltam, os es- tertores cavernulosos. Estertores seccos, sonoros ; raros de bolhas médias, em muito menor extensão do que antes das inhalações. (1) Recahidã, ires ou quatro dias depois de cessadas as inhalações. Dia 9 de Agosto.—Cessou ouso das inhalações, por ter apparecido a menstruação. Esta fez-se sem raptus hemorrhagico para o pulmão. Durou até 26 do mesmo mez a suspensão do tratamento que com tantas melhoras havia coincidido. Assim, mào grado meu e inesperadamente, pude então avaliar a influencia que para taes melhoras exercera o fluorureto de boro. Foi enorme essa influencia: privada das inhalações, a doente entrou a peiorar rapidamente, a ponto de entre os dias 15 e 20 já se apresentar com tosse frequente, anorexia e febre de 38,5 á noite. Por occasião das festas oíFiciaes do dia 22 nesta cidade, a doente com- metteu a imprudência de sahir de madrugada a passeio, em lancha a vapor, no mar. A consequência desse excesso não se fez esperar, e foi que recru- desceu extraordinariamente o catarrho bronchial. Foi preciso, foi urgente Amltar -ás inhalações de fluorureto de boro. Recomeçou-se-as a 26 de Agosto. Até essa data, a doente, posto que sem febre, tossia esfalfadamente, sobretudo á noite; deperecia a olhos vistos, e tinha fastio e expectoração abundante. Pois bem : o fluorureto de boro fez desapparecerem, pela segunda vez, esses phenomenos, com maravilhosa promptidão ; de sorte que a 28, logo após as primeiras sessões de inhalação, as melhoras eram evidentes, e o eram bastantemente para que sem con- strangimento não se pudesse deixar de ligai-as ao uso do fluorureto de boro como um effeito á respectiva causa. Em todo caso, seja ou não heroico na tuberculose pulmonar o fluorureto boro, flca desde já permittido salflrmar, ao menos, que as inhalações fre- quentes desse gaz por muito tempo, «se não fazem bem aos tuberculosos, tam- bém não fazem mal tão grande que os impeça de melhorar espontaneamente. O SR. DR. CARVALHO BORGES offerece ao Congresso em nome do S". David Ottoni um opusculo, que o mesmo acaba de publicar sobre a conjun- ctivite dos recem-nascidos, e pede que no Congresso futuro seja tomado em consideração o estudo da lepra, que entre nós é um flagello que victima grande numero de pessoas. 0 SR. DR.. SILVA ARAÚJO applaiule a proposta do Dr. Carvalho Borges; acredita que a lepra é contagiosa. Tem conseguido melhorar doentes de morphéa com o emprego do acido tannico, nadóse de 5 a 6 grammas por dia. Recommenda aos collegas que ensaiem este meio, comparando seus resul- tados com os obtidos pelo ichthyol e pelos ácidos gynocardico e phenico. O orador, em contrario do Sr. Dr. Urbino de Freitas, do Porto, que acredita ser a lepra uma tropho-nevrose, está convencido da natureza parasitaria delia. O Sr. Dr. Urbino de Freitas obteve resultados sorprendentes, como se vê das photographias, que mostra, tratando a morphéa pela electricidade. O SR. DR. DOMINGOS FREIRE acoimou de suspeição ao Sr. Dr. Araújo Góes,quando este condemnou os trabalhos do orador sobre a febre amarella, e mostrou que não andou bem esse collega alliando-se ao Sr. Dr. Sternberg para prevenir o juizo desse collega contra suas pesquizas, e que mal andaram ambos penetrando no seu laboratorio quanto estava ausente. Diz o orador que se algum medico fosse a Pariz estudar as pesquizas do Sr. Pasteur, ninguém se lembraria de dar-lhe para ciceroni no laboratorio daquelle sabio ao professor Peter, seu antagonista, e nem este se prestaria a esse papel. As conclusões do Sr. Dr. Sternberg resentem-se desta falta inicial. Esse collega apenas viu, segundo lhe consta, alguns casos sporadicos de fe- bre amarella, extrahiu uma gotta de sangue dos dedos d’um paciente, e com ella fez cultura de meia duzia de tubos de agar-agar. Para dar um especimen do modo de argumentar do Sr. Dr. Sternberg, cita o topico do seu relatorio em que do exame microscopico do sangue extrahido de uma picada da pelle de um doente, quer concluir para todo o systema capillar. O orador observou que os microbios da febre amarella encontram-se em grande cópia nos capillares profundos, e como o Sr. Dr. Sternberg os não encontrasse n’uma gotta do sangue extrahida da pelle, concluio que estava o orador em erro. O procedimento incorrecto do Sr. Dr. Sternberg, já foi profligado mesmo nos Estados Unidos pelo Sr. Dr. Gaston no jornal Atlantic. Nunca fugio á discussão dos factos de sua observação, e ao contrario tem procurado demonstrar por todos os meios o seu achado. Em Pariz, para onde levou suas preparações, foi recebido e animado em suas investigações por vultos scientificos da maior estatura, como Vulpian, Cornil o outros, sendo-lhe dispensada a maior consideração pela Academia de Sciencias, pela Sociedade de Bacterologia, etc. Proseguirà nos seus estudos e pesquizas, tendo por divisa : Patria, Sciencia e Humanidade. 0 Sr. Dr. ÁLVARO ALBERTO diz que vários meios têm sido propostos para a cura do carbúnculo humano externo, isto é, do forunculo, da pustula o do edema malignos. Todos aconselham cauterisações locaes, mas a diver- gência é muito grande quando a questão é do agente cauterisador. Uns escolhem o ferro em braza; outros preferem os cautérios chimicos, como a potassa caustica, os ácidos phenico, sulpliurico e azotico; o chlorureto de zinco, o chlorureto mercurico, etc., etc. E’ muito extensa a lista, como se vê. Tanto basta para motivar duvidas sobre a efficacia desses remedios ; duvidas que aos proprios que os propu- zeram a probidade scientifica tem obrigado a partilhar. E’ quasi certo que os processos curativos dos Srs. Verneuil e Trelat dão resultados excellentes, e até que, applicados bem no começo da moléstia, sejam porassim dizer infalliveis; mas acaso não será possivel obter o mesmo com menos custo, e será indispensável a associação dos meios que constituem os dous pro- cessos? Será indispensável associar a numerosas injecções intersticiaes cáus- ticas a cauterisação profunda — profundíssima, — de que deve resultar neces- sariamente grande dôr e extensa destruição de tecidos ? Parece ao orador que não. São ambos racionaes e energicos, os processos a que allude ; mas tam- bém são ambos inutilmente complicados. Conhece um meio menos trabalhoso e que dispensa de tanta tortura: é a cauterisação pelo soluto officinal de azotato mercurico. Bastam tres ou quatro applicações desse soluto para obter a cura em pouco mais de uma semana. A’ primeira applicação o tumor torna-se umbilicado no centro; á segunda, poucos dias depois, crêa crosta espessa e dura, que em breve cahe, deixando, em vez da terrível pustula, uma pequena ulcera simples. Esse meio, tão facil, cujo conhecimento o orador deve ao seu pai, o Sr. pharmaceutico João Álvaro, tem sido empregado desde seis para sete annos, em perto de duas centenas de casos, com o mais brilhante resultado. Ainda não o viu falhar nem uma só vez, e no entretanto, desde 1882, época da fun- dação do matadouro publico em Santa Cruz, poucas semanas se passam sem que elle orador, que frequenta com alguma assiduidade aquelle logar, tenha de applicar o azotato mercurico contra o carbúnculo humano, ora no começo do mal, e ora no período febril das lesões graves, como a lymphatite e os edemas extensos. Ainda não viu uma só vez, repete, a cauterisação pelo azotato acido de mercúrio ser seguida de insuccesso. Será esse sal um especifico do carbúnculo externo ? Ou terá o orador por acaso tratado exclusivamente de doentes pouco graves ? Dizem que o carbúnculo é susceptivel de cura espontânea. Não o nega. Reconhece que mais de um carbunculoso teria inevitavelmente succumbido á sua vista, nas mãos de alguns curandeiros, se realmente o carbúnculo humano não fosse espontaneamente curável. Dizem ainda, que ha logares em que de ordinário o carbúnculo humano se manifesta mais benigno do que em outros. Também isso não póde pôr em duvida. Póde garantir, porém, que assim não é no Rio de Janeiro. Tanto aqui, no centro da capital, como no suburbio em que se acha o matadouro pu- blico, muitas victimas já têm feito as affecções carbunculosas; e naquelle suburbio, emquanto o orador cura todos os seus doentes carbunculosos, sem excepçãó de um só, pelo soluto de azotato mercurico, certo curandeiro perde quasi todos os seus, com excepçãó de um ou outro, com applicações tópicas de ceroto simples e azeite quente. Ora, o carbúnculo benigno cura-se até com folhas de nogueira, casca de carvalho ou caldo de limão ; cura-se até com azeite frio ou sem azeite, — pela simples expectação (Trélat, I. Straus). Entre nós o carbúnculo humano não é benigno. Parece antes haver aqui bastante predisposição para essa terrível moléstia ; e tanto que mais de uma excepçãó tem-se visto á regra que diz gozar o homem de immunidade ana- loga á do cão e do porco, para o carbúnculo interno. Em relação aos dous últimos animaes, a afflrmação é veraz. Com effeito, existe em Santa Cruz um estabelecimento a que se recolhe o gado morto nos campos circumvizinhos e em que ha grande quantidade de cães e porcos que impunemente ingerem, quasi todos os dias, carnes carbunculosas. Emquanto ao homem, é certo que não goza de tão notável immunidade. Ha quem diga o contrario, negando a possibilidade da penetração do virus pelas vias digestivas ; mas, para o orador, é esta uma questão vencida4 que admira ainda hoje discutir-se. Yarios factos tem observado em favor desta opinião, sobretudo relativos á infecção palustre Em Santa Cruz, antes da canalisação do rio da Prata para o matadouro publico, o que se observava era o seguinte : raros eram os habitantes não doentes; raríssimos os doentes não curáveis pela quinina, e também raríssimo aquelle cuja febre de Santa Cruz não se podia attribuir ao uso interno de agua pantanosa. Hoje, que nesse suburbio se bebe excellente agua de rio, em vez d i dos charcos ou) da de Seltz, que o orador usava); hoje, felizmente, é bem diverso o que se vê : dos doentes que em grande numero o procuram, quando lá vai, rarissimos são os que curam-se com quinina prescripta pelo orador. São muito menos communs ou conhecidos, entre nós, os exemplos de infecção carbunculosa pelo tubo digestivo; mas ha factos que * demonstram cabalmente a possibilidade do caso. Ha pouco tempo, em Campo Grande, cerca de vinte pessoas comeram de um boi que haviam encontrado a morrer na estrada de Santa Cruz : cinco tiveram erupção carbunculosa, que em duas foi mortal. Eram todas as cinco de raça preta, e haviam comido a carne sob a fôrma de churrasco. As duas que succumbiram foram tratadas diíferente- mente das tres que se salvaram. Mais de um caso como este tem o orador ouvido de negociantes de gado ; e sabe Deus quantos outros, por incúria ou por ignorância, não se dão nesta capital de vez em quando ! 0 Sr. Presidente dá para a primeira parto da ordem do dia da sessão se- guinte: continuação da discussão sobre chylura e hydrocele e elepliancia no Brazil, e encerra a sessão. 7a Sessão ordinaria Presidência do Sr. conselheiro Catta Preta SUMMARIO— Da chyluria e liydrocele no Brazil — Xeranemia e Xerophthalmia — Causas da frequência da tuberculose no Rio de Janeiro — Do iodo na inalaria — Instituto Pasteur do Rio de Janeiro — Aneurisma axillar curado por injec» ções hypodermicas de ergotina — A extenuação por demasia de estudo — Hospicio maritimo para crianças escrophulosas. 0 SR. DR. RIBEIRO UA LUZ vem trazer sua contribuição sobre acliyluria: a sua primeira observação foi de uma mulher de 50 annos, muito gorda, de còr parda, de constituição forte, que, tratada pelos diversos meios usuaes, não obteve resultado algum, vindo a restabelecer-se espontanea- mente. A segunda observação é de uma senhora, egualmente de 50 annos, de constituição fraca, e hysterica, que só teve um accesso de chyluria, que desappareceu, não sabe como, e veio a fallecer dous annos depois de um cancro. Estes dous casos nãs tiveram na familia antecedente algum de chyluria ou de elephantiase. O 3o caso foi de uma moça de 20 annos, de familia de tuberculosos, na qual a moléstia, depois de algum tempo, cedeu para não reapparecer. Esta doente, algum tempo após o desapparecimento da chyluria, começou a sentir os primeiros symptomas de uma tuberculose pulmonar, que a levou a emprehender uma viagem á Europa, onde melhorou da tuber- culose, que se aggravou aqui mais tarde, vindo a doente a fallecer. O 4o caso foi de um homem de 50 annos, de constituição forte, que tinha accessos de hemato-chyluria desde a idade de 15 annos. O 5o caso foi de um portuguez, no qual appareceu a hemato-chyluria durante alguns dias, desapparecendo com o uso do tannino. Examinando a urina d’umchylurico, que lhe fóra enviada por um collega, não encontrou signaes da filaria. Tem feito exames amiudados das urinas e sangue de indivíduos chy- luricos, e ainda não teve occasião de encontrar traços da filaria de Wucherer; e bem assim nas aguas potáveis e estagnadas, tendo nestas ultimas encontrado apenas um verme em estado embryonario, que lhe parece o ankylostomo. Mostra-se, porém, adepto da theoria verminosa da chyluria, sendo de opinião que a presença da filaria determina uma certa fragilidade mórbida do systema lymphatico. Explica a ausência do parasita em certo numero de elephantiacos pela eliminação do animal depois da manifestação mórbida, ou pelo desenvolvimento da elephantiase, em virtude da fragilidade mórbida creada pela presença anterior da filaria no systema lymphatico ; explica a chyluria e hematúria pelaruptura dos vasos lymphaticos ou sanguineos. Faz notar que a distribuição geographica da chyluria é a mesma da elephantiase. 158 0 Sr. Dr. Silva Araújo diz que de lia muito se occupa com o estudo do que elle chamou fllariose, que comprehende a hemato- chyluria, o craw-craio, e a elephantiase e o lympho-scrotum ; a sua pri- meira observação de chyluria foi também de lymplio-scrotum e de cravo- cravo, de maneira a ter a prova de que todos eram modalidades mórbidas da mesma causa, istoé, da filaria de Wucherer. Rste caso, cuja observação foi logo publicada na Gazeta Medica, da Bahia, chamou a attenção dos investigadores europeus, confirmando as observações dos médicos inglezes das índias. Até muito pouco tempo todas as observações entre nós da filaria limitavam-se a embryões e ovulos desse parasita, até que ha pouco tempo coube ao Sr. Dr. Pedro Severiano de Magalhães a felicidade de descobrir o adulto macho da filaria de Wucherer, cuja femea tinha sido descoberta por Bancroft, nas índias, devendo nós ao Sr. Dr. P. S. de Magalhães a noticia histórica mais com- pleta e exacta de tudo quanto diz respeito à fllariose, ponto em que reina ainda grande confusão entre escriptores inglezes e francezes principalmente. A pro- posito do tratamento da elephantiase pela electricidade, pensam alguns colle- gas, entre os quaes cita os Srs. Drs. Pedro S. de Magalhães e Oscar Bulhões, que os successos obtidos são antes devidos á compressão, à massagem e à outros meios concomittantés, como tonicos, diuréticos e purgativos, do que á electricidade. A compressão é um meio poderoso, não ha duvida, a massagem egualmente; porém estes meios isolados não produzem os benefícios que o orador tem colhido combinaudo-os com o tratamento electrico, pois nestes casos as curas são duradouras, e as obtidas pela compressão são ephemeras. O simples repouso, como é geralmente sabido, faz diminuir notavelmente o volume do membro elephanciaco; pela diminuição da infiltração lymphatica, a compressão actua, naturalmente, com muito maior eíBcacia e reduz muito notavelmente as dimensões de um membro elephanciaco. Apresenta uma estatística de 541 casos de elephancia observados em 11 annos, figurando entre elles um certo numero de crianças, o que vem modificar a opinião corrente a respeito da immunidade das crianças para a elephancia. Não acredita que todos os casos de elephancia sejam produzidos pela filaria; pensa que quaesquer causas, que possam determinar trombose lympa- tliica, podem produzir elephancia. Diz que também já empregou na elephancia o sulfureto de carbono, a conselho do Sr. Dr. Felicio dos Santos, e que só obser- vou influencia favoravel desse agente para prevenir os accessos inflammatorios, porém não póde garantir que essa substancia, bem como o ichtyol, cujos bené- ficos resultados observou, tenham tido acção parasiticida. 0 Sr. Dr. Felicio dos Santos começa reconhecendo a grande contribui- ção que para o estudo da íilariose têm trazido os trabalhos do Sr. Dr. Pedro Se- veriano de Magalhães. Discorda do Sr. Dr. Martins Costa, quando este suppõe que a chyluria é frequente em quasi todas as provindas do Brazil. Citando um topico da these do Sr. Dr. Noronha, suppõe S. S. que a moléstia é commum em Minas; não ó exacto. Quando muito, poderia haver em S. João d’El-Rei um ou outro caso de chyluriaf procedente do Rio de Janeiro. Outro ponto do discurso do Sr. Dr. Martins Costa, que merece contradicta, é aquelle em que suppõe que o orador foi injusto para com os operários brazileiros no estudo da filaria. O orador referiu-se á parte anatomo-pathologica, e principalmente á etiologica, que não conta ainda hoje grande numero de adeptos da doutrina parasitaria, que o orador abraça com toda a convicção. A’quelles que suppoem que a filaria é consequência e não causa da moléstia, repetirá as seguintes palavras de Spencer Cobbold : « Os individuos que ainda assim pensam parecem-se com o supersticioso, que não quer abandonar suas antigas crenças, mesmo diante da evidencia.» Estes animaes têm o nosso corpo como seu habitat • é o terreno em que elles se desenvolvem. Na luta pela vida, umx vez introduzidos no nosso organismo, elles reproduzem-se, seja ou não vigoroso o organismo. E’ certo que os mais fortes vencem, e ás vezes sua saude não se altera, mas o organismo vivo lá está a fazer sua evolução, exactamente como todos os animaes que evoluem e desenvolvem-se fóra do organismo humano. Não havendo mais orador inscripto, é encerrada a discussão da matéria. O SR. DR. CASTELLO BRANCO vai occupar-se de uma questão de grande interesse para a medicina brazileira, e julgar-se-á bem feliz se puder induzir seus collegas ao estudo de uma moléstia, apenas em parte descripta pelo Sr. Dr. Hilário de Gouvêa, que folga de ver presente. Durante 15 annos de clinica activa teve occasião de observar uma serie de doentes da primeira infancia, que apresentavam physionomia especial. Antes de tudo fez-lhe impressão o habito externo dos pequenos pacientes : physionomia abatida, côr terrosa dos tegumentos, palpebras um pouco cahidas, denotando que os olhos procuravam evitar a luz ; ao lado disto, inflammação maleolar. E’ um typo pathologico que se reconhece á distancia. Para os olhos dos doentes observam-se phenomenos importantíssimos, para os quaes chama attenção (foi por amor delles que invocou o nome do Sr. Dr. Hilário de Gouvêa, que nos bellos tempos da sua mocidade clinica escreveu a este respeito um trabalho, que julga ter sido publicado na Allemanha), a saber : as conjunctivas extremamente seccas, corneas ligeira- mente opacas. Com o auxilio de uma lente vê-se. que seu epithelio tem-se desprendido em pontos dispersos. Muitas vezes nota-se na superfície da conjunctiva uma cousa que se assemelha a bolha emphysimatosa, o que levou o Sr. Dr. H. Naegeli a consideral-a como tal, opinião que o orador não par- tilha, visto como pôde retiral-a com um pincel, e pareceu-lhe constituída pela substancia sebacea das glandulas do Meibomio. A parte central das corneas, com os progressos da moléstia, opacifica-se, ulcera-se e perfora-se, e os olhos vasam, como já certificou em dous casos. Esta moléstia é conhecida com o nome de ophthalmia brazileira ou xero- phthalmia ; será essencial, estará localisada ? Não o crê. Ao lado da moléstia ocular existem: seccura pronunciada da pelle, principalmente das partes ex- postas e placas erythematosas ; a epiderme exfolia-se, ficando nesses pontos 160 mancha amarella arroxada, que tende ás vezes a desapparecer, sendo substi- tuída por urm erupção ezematosa, seguida de ulceração, que não segrega. E’ um verdadeiro xeroderma agudo. Todas as mucosas se tornam seccas; não sò a conjunctiva, como a mucosa das fossas nasaes, da bocca, etc. Não ha formação absoluta de sueco gástrico, razão por que o indivíduo tem uma dyspesia pútrida- O que mais custa a desapparecer é a secreção biliar, mas mesmo esta não tem as propriedades normaes. Ao lado deste estado, o indivíduo apresenta um pulso miserável, movimentos c.irdiacos quasi imperceptiveis, congestão de flgado e dos pulmões; tem anorexia e apenas aceita agua, morrendo muitas vezes no meio dos maiores suppli- cios. Diz ter tido grande numero de casos analogos em sua clinica, e até agora ignorar do que se trata, visto nunca ter conseguido fazer uma autopsia. Sua primeira impressão foi que as manchas amarello-arroxadas eram produzidas por insolação, por isso que de ordinário os doentinlios eram du- rante muito tempo expostos ao sol nas roças ; mais tarde certificou-so não ser justificada esta hypothese. Vio na obra de Hebra, de 1870, menção de factos analogos, erroneamente attribuidos a outra causa. Hoje suppõe que a moléstia é resultante de uma infecção, e neste sentido instituio o trata- mento seguinte : compressas aromaticas para os olhos, e internamente o uso da quina e tonicos. Classifica a moléstia de Xe‘'anemia, ou anemia com seccura da pelle e das mucosas. Ao terminar, chama com insistência a attenção do Congresso para esse assumpto, que lhe parece de maior importância, por ser relativo á nossa pathologia. O Sr. Hilário de Gouvea começa declarando que esta moléstia foi pri- meiramente descripta entre nós pelo Sr. Dr. Gama Lobo, em 1865, nos Annaes Brasilienses de Medicina XXIII. Esse collega chamou a attenção não só para manifestações oculares, a que deu o nome de ophthahnia brazileira, por suppol-a exclusiva da nossa pathologia, como também para as manifestações geraes, e sobretudo para as manifestações intestinaes e pulmonares, o que o levou a classiftcal-a como uma moléstia geral, sempre fatal, que, levando os indivíduos a um estado de cachexia, promovia, posteriormente, a lesão ocular. Em 1882 publicou o orador aqui o seu primeiro trabalho extenso sobre este assumpto na Gazeta Medica Brazileira, redigida pelo Sr. Dr. Álvaro Alberto, e só em 1883 foi que escreveu o trabalho publicado no Graefe’s Arch. f. Ophtalm. Band XXIX, Abtli. 1 pag. 167. Nesse seu trabalho, fructo de 14 annos de observação da moléstia, descreveu com a maxima minuciosidade todas as manifestações geraes e locaes, chamando a attenção para a constância da hemeralopia, e foi o primeiro a provar que esta moléstia não era própria do nosso paiz, mas tinha sido observada em França, na Inglaterra, na Allemanha, na Rússia, e até na Costa d’Africa : em todos os paizes, onde ha miséria. Observou-a não sómente em crianças, em adolescentes, e até em adultos. O orador attribuio a moléstia, cuja descripção julga inopportuno repetir, a um profundo vicio de nutrição, produzido por alimentação insuffi- ciente que determinava com o tempo a miséria organica. Logo após o appare- cimento de seu trabalho o professor Leber de Gòttingen publicou no B. XIX Abth. III. do referido Arch., um extenso artigo em que, concordando inteiramente com o ponto de vista do orador em relação á identidade da xerophtalmia aqui observada com as anteriormente descriptas por diversos observadores na Europa, dá noticia circuinstanciada da descoberta feita pouco antes (1882) pelos Srs. Kuschbet e Neisser, de Breslau, de um bacillo especial, encontrado não só nas conjunctivas, como em outras mucosas dos indivíduos affectados da xerophtlialmia. Leber fez com este bacillo culturas, cujas propriedades minuciosmiente descreve, e com as quaes fez experimentações positivas sobre sua deleteria influencia sobre a cornea, que em contacto com elles, sem ter a menor erosão prévia, veio a soífrer alterações do seu epithelio, e destruição analoga á obser- vada na xerophthalmia. Neisser já havia antes tentado a vaccinação do bacillo em cornea leucomatosa, com idêntico resultado, e chegou mesmo a promover alguma seccura da conjunctiva bulbar em uma criança, sem que, entretanto, esta tivesse hemeralopia. De então para cá tem o orador constan- temente verificado no deposito das conjunctivas xeroticos o achado de Neisser. Para o orador é a moléstia, originariamente, grave perturbação de nu- trição, determinada em geral por insuificiencia e impropriedade de alimen- tação, a qual, enfraquecidas notavelmente as resistências organicas, per- mitte e favorece o desenvolvimento dos bacillos de Neisser, que, encontrando terreno apropriado, determinam as graves perturbações inflammatorias da cornea e das mucosas, razão por que é principalmente na infancia e'na adoles- cência que a moléstia tém mais gravidade, sendo, como são neste periodo da vida, as exigências da nutrição maiores do que no adulto, no qual, aliás, tem observado frequentemente a manifestação ocular caracteristica, se bem que muito menos grave. O SR. DR. JOVIANO JARDIM lê: Venho contribuir com um pequeno contingente de observações de minha clinica para esclarecer quaes as causas da disseminação da tuberculose no Rio de Janeiro e ao mesmo tempo aproveitar o ensejo para dizer-vos qual era e qual é actualmente a frequência desta moléstia no logar em que tenho clini- cado, na província de Minas-Geraes, dissertando por este modo sobre dous pontos importantes, que nos forão apresentados para a discussão nas actuaes sessões do Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia, pelos distinctos colle- gas Srs. Drs. Felicio dos Santos e Azevedo Sodré. Esforçar-me-ei por ser o mais breve e mais laconico possível, não só para obedecer aos nossos estatutos, que prcvidencialmentc nos concedem pouco tempo para fallar, senão também para não cansar a vossa attenção, que deve ser occupada em assumptos de tanta importância por collegas illustrados e com- petentes. Cumpre-me, senhores, dizer-vos que quando alisei os bancos da escola de medicina, era tida como paradoxal e anachronica a opinião dos que acredi- tavam no contagio da tuberculose. Logo que comecei a exercer a profissão de medico, sendo chamado por um collega, de saudosa memória, para ver, em conferencia, um tuberculoso nos seus últimos momentos, depois de ter manifestado á senhora desse doente os meus juizos diagnostico e prognostico, perguntou-me ella se era contagiosa a moléstia do marido, e no caso affirmativo que providencias deveria tomar para evitar o contagio. Imbuido das idéas que havia bebido na academia, respondi-lhe que, comquanto não fosse contagiosa a moléstia do marido, toda- via era preciso tomar certas precauções hygienicas, taes como rebocar e caiar as paredes da casa, olear as portas, janellas, etc., lavar o assoalho e desinfec- tal-o, não para evitar o contagio, que não teria logar, mas sim para obstar o desenvolvimento de outras moléstias, pois se achava a habitação em más con- dições hygienicas. Infelizmente, em consequência da resposta negativa que eu havia dado ao primeiro quesito, os meus conselhos forão desprezados por esta senhora, que um anno depois falleceu conjuntamente com um rapaz que, com dedicação e fidelidade, a auxiliara no tratamento do marido, tendo sido ambos victimas da moléstia deste ultimo. Por mais arraigadas que estivessem no meu espirito as idéas contrarias ao contagio da tuberculose, não podia deixar de ser abalada a minha convic- ção com a observação dos dous factos que acabei de vos referir. Mais tarde, clinicando em um logar para onde affluem das províncias de Minas, S. Paulo, Espirito-Santo e Rio de Janeiro, todos os annos, no verão, grande numero de tisicos, afim de gozar os ares puros das montanhas e do campo, tive occasião de observar, em larga escala, o contagio da tuberculose, como passo a mostrar-vos. 1.0 Ha cerca de sete annos foi confiado aos meus cuidados o tratamente de um moço, de vinte e tantos annos de idade, natural do Maranhão, que fòra educado em Portugal, filho de um nosso collega que serviu de reitor do inter- nato do Imperial Collegio de Pedro II. Este moço, que seguira a carreira litte- raria e era redactor de um dosjornaes desta Côrte, soffria tuberculose laryn- gea e pulmonar, estando os ápices dos dous pulmões crivados de tubérculos, estando um em periodo de caseificação e fusão. Apezar disto apresentou melhoras taes no estado geral, que julgou-se curado da moléstia e voltou, sem o meu consentimento, para aqui, onde se entregou aos árduos trabalhos de sua profissão. Um ou dous mezes depois foi obrigado a seguir para Barbacena em condi- ções taes que achei prudente escrever a seu pai, fazendo-lhe ver que era fatal o meu juizo prognostico em relação à moléstia de seu filho. Em conse- quência disto foi chamado o meu doente á Côrte, onde falleceu dentro de pouco tempo. Acompanhava este moço, como criado e enfermeiro, um portuguez de vinte e tantos annos de idade, não tendo até então soffrido outra moléstia, a não ser manifestações primitivas e secundarias de syphilis. Mezes depois da morte do patrão, fôra este criado ao meu consultorio, affectado de tuberculose laryngea e pulmonar de fôrma torpida, de que falleceu ha tres semanas no hospital de Misericórdia, de Barbacena. Este criado, de nome Yictor, depois de ter contrahido a moléstia, adquiriu algumas melhoras no seu estado geral e casou-se com uma pardinha pertencente a uma numerosa familia de Barba- cena, em cujos membros nunca se observou um só caso dessa moléstia. Mezes depois de casada, esta rapariga foi affectada de tuberculose de fôrma aguda, que a fez preceder na sepultura a seu marido. 2.° Ha seis annos tive occasião de ver uma senhora e um filho, que, affec- tados ambos de tuberculose pulmonar de fôrma aguda, morreram em Barbacena poucos dias depois de lá terem chegado. Informando-me do marido desta se- nhora qual a causa de tão grande desgraça que o acabrunhava, e se tinha antecedentes tuberculosos na familia, respondeu-me que, tanto de seu lado como do de sua fallecida mulher, nunca tinha observado um só caso dessa moléstia ; que havia algum tempo mandára um filho empregar-se de caixeiro em uma casa commercial da Côrte, cujo proprietário era tuberculoso. Passados mezes, seu filho fôra acommettido de accessos intermittentes rebeldes, que o obrigaram a vir para sua casa em uma das estações da estrada de ferro D. Pe- dro II, onde falleceu victima de tuberculose pulmonar e mesenterica, diagnos- ticada pelo collega que o tratou. Durante o tempo que permaneceu em casa o doente, de que estou fallando, esteve sempre em companhia de sua mãi e do irmão, cuja moléstia e terminação referimos ha pouco ; tendo escapado desta família o chefe, que era negociante ambulante e nunca parava em casa, um filho, que então era caixeiro em Barbacena e hoje negociante em Porto-Novo, e uma filha, que estava interna em um collegio. 3. Ha cerca de oito annos foi se tratar em Barbacena de tuberculose de forma torpiia, um moço portuguez, de trinta e tantos annos de idade, typo- grapho e redactor de um jornal. Apresentando melnoras no seu estado geral e local, julgou-se curado e casou-se com uma moça pertencente a uma nume- rosa família daquella cidade, em que nunca se dera um só facto de tisica. Tres annos depois de casada teve esta senhora abundantes hemoptyses symptomaticas de tuberculose pulmonar, que foi seguida de tuberculose mesenterica e laryngea, que a levaram ao tumulo. 4. Ha uns dez annos, uma senhora residente em Barbacena e em cuja companhia residia uma sua filha de vinte annos de idade, recebia em sua casa uma sua amiga, viuva de um illustre engenheiro, professor de mathe- maticas e de inglez, que havia fallecido nesta Corte, victima da terrível moléstia de que me occupo. A viuva, que jã se achava affectada da moléstia que victimou seu marido, e da qual veiu a fallecer mais tarde, ignorando o perigo a que expunha a filha de sua amiga, foi dormir no mesmo quarto desta. Quatro annos depois esta moça era affectada de tu- berculose polmunar de marcha torpida, da qual veiu a fallecer o anno pas- sado. 5. No anno passado foram sepultados no cemiterio geral de Barbacena dous pretos, escravos do proprietário do Hotel das Quatro Nações, daquella cidade, que falleceram um na idade de vinte annos e o outro na de 45 a 50, victimas de tuberculosa pulmonar contrahida por contagio no serviço em que se occupavam, de creados encarregados de fazer a limpeza dos quartos do hotel, em que dormiam tuberculosos. 6. No Hotel Martinelli, que todos os annos recebe muitos tisicos, foram affectados de tuberculose pulmonar dous empregados encarregados da lim- peza dos quartos dos homens, e uma rapariga encarregada de tratar dos quartos das senhoras ; notando-se que esta, pertencente a uma familia -de libertos de Barbacena, em que nunca tinha havido um só caso desta moléstia, era de constituição forte, de caixa thoraxica bem conformada e tinha-se em- pregado na hotel afim de ganhar dinheiro para a sua liberdade, de que não chegou a gozar, por ter fallecido antes de obtel-a. 7. Ha 13 annos foi affectado de tuberculose pulmonar um dos meus primos, pouco tempo depois de se ter casado no Rio Grande do Sul com uma forte e interessante moça de S. Gabriel, descendente de paes fortes, em cujas famílias, segundo sou informado, nunca tinha havido um só caso de tuber- culose pulmonar. Meu primo falleceu nesta Côrte e a viuva, dous annos depois, casou-se com outro meu primo. Dous annos depois de casada Mleceu em nossa casa, em Barbacena, victima da moléstia de seu primeiro marido, dias depois de ter dado á luz um menino, que falleceu no fim de 7 horas, asphyxiado, deitando muco-pus pela bocca e com os symptomas de tuber- culose pulmonar e mesenterica. Nos últimos dias de vida, minha prima, que tinha as amygdalas, o pharynge e larynge crivados de tubérculos, soffria djsphagia e tinha uma inappetencia absoluta, de modo que por maiores que fossem os esforços que eu empregasse para fazel-a alimentar-se conveniente- mente, ella apenas chupava as partes liquidas dos bifes, cujos bagaços sua criada atirava em um pateo, onde eram devorados por um gato ; algum tempo depois notei que o gato emmagrecia muito, perdia a vivacidade de que era dotado, tossia e tinha vomitos que foram seguidos de uma diarrhéa intensa que o matou ; e eu, por curiosidade, autopsiando-o, encontrei o mensenterio crivado de granulações, os intestinos ulcerados e os pulmões com tubérculos em período de caseificação e apresentando algumas caverniculas. 8. Ha tres annos tratei de um moço portuguez, alfaiate, de 23 annos de idade, affectado de tuberculose pulmonar, que me disse tel-a contrahido de um companheiro com quem morava nesta Côrte e que havia fallecido tisico. Este moço, tendo melhorado sensivelmente de sua moléstia em Bar- bacena, seguio para Portugal, onde mora sua familia, cujos membros são todos sadios. _ 9.° Ha uns 10 annos examinei uma escrava de um fazendeiro do mu- nicípio de Barbacena, a qual tinha sido comprada havia alguns dias pelo fazendeiro para mucama de seus filhos: encontrando-a com os symptomas de uma tuberculose pulmonar incipiente, aconselhei ao senhor desta ra- pariga tiral-a do serviço de seus iilhos. Meu conselho, porém, foi despre- zado ; tornou-se patente a tuberculose e a rapariga morreu cavernosa. Al- gum tempo depois uma das filhas dc fazendeiro morria de tuberculose pul- monar, e bem assim alguns escravos da casa, que conviveram intimamente com a doente ; fallecendo finalmente, ha pouco mais de um mez, a segunda e ultima filha do mesmo fazendeiro, victima da moléstia de sua irmã ; en- tretanto, nesta familia até então nunca tinha havido um só caso de tisica. 10. O anno passado tratei de uma senhora, do Mar de Hespanha, do tisica pulmonar, que fôra contrahida quando tratava de uma filha tubercu- losa. 11. Foi, ha annos, para a casa de um distincto cidadão de Juiz de Fóra, cuja familia e ascendentes nunca tinham soffrido tuberculose, um moço sof- frendo de tisica pulmonar, o qual transmittira a moléstia a diversas pessoas da casa com quem convivera, restando hoje desta familia, -que era nu- merosa, apenas o chefe. 12. Para a casa de um fazendeiro na província de Minas foi um moço tuberculoso tomar ares. Dahi a algum tempo, uma das filhas do fazendeiro falleceu victima dessa moléstia. E esta, no espaço de 16 annos, foi acom- panhada por seis irmãos e uma irmã, victimas da terrível moléstia contrahida por contagio do moço que para alli fôra afim de recuperar a saude. Da familia deste fazendeiro, que era numerosa, apenas restam dous filhos, no- tando-se que muitos dos seus empregados foram também affectados de tisica. Ainda outros muitos factos, senhores, poderia referir do contagio da tuberculose, taes como: o de duas raparigas que lavaram e emgommaram roupas de tuberculosos dos hotéis de Barbacena; o de um menino filho de um collega nosso, que a contrahio da ama; o de um rapaz do nosso fallecido collega Dr. Penna, que contrahira a moléstia morando em uma casa que havia muito tempo estava fechad i e cujo dono tinha morrido tuberculoso; o de um engenheiro que contrahio a moléstia tratando de um amigo tuberculoso ; o de um fazendeiro que a contrahio indo morar em uma fazenda que fôra de um tuberculoso ; o de um moço que está actualmente doente e submettido a tratamento, o qual a contrahio morando em uma casa de onde sahira seu irmão tuberculoso, etc., etc. ; mas, sendo bastante frisante a serie de factos que em resumo vos relatei, para mostrar o contagio da tisica, passarei a tratar da frequência desta moléstia em Bar- bacena que, como vereis, confirma tambom a opinião dos partidários do contagio. Em Barbacena, até 1850, segundo fui informado por nosso distincto collega o fallecido Dr. Penna, era desconhecida a tisica pulmonar. Desta época em diante, em consequência dos cuidados e precauções que tomaram os habitantes do logar (pois tinham horror à tisica e acreditavam no seu contagio ), para evital-a, raros casos desta moléstia, limitados a poucas famí- lias foram observados, até que com a facilidade do transporte, que para alli levou muitos tisicos, e a crença que adquiriu o povo de que a tisica não era contagiosa, começou esta moléstia a tomar incremento nos habitantes do logar, a ponto de no anno passado ser a terça parte dos obitos da cidade devida á destruidora moléstia, que não poupa a condição social alguma. Vejamos, senhores, se os resultados das observações clinicas, que acabei de relatar-vos, estão de accordo coma medicina experimental. Senhores, ha perto de 70 annos Laennec, victima da tuberculose pul- monar contrahida nas indagações que fez em beneficio da nossa nobre pro- fissão, estudando a auscultação e levando-a a um grâo de aperfeiçoamento tal que depois de sua morte pouco tiveram os nossos collegas que accrescentar a este respeito, estabeleceu a unidade da tisica nas suas fôrmas variadas, e demonstrou a sua especificidade no meio das múltiplas affecções que a pre- cedem, acompanham e seguem muitas vezes. Depois de Laennec, cs médicos que se dedicaram ao estudo da tisica dividiram-se em unionistas, que acreditavam na unidade desta affecção, e dualistas, tendo estes se dividido em duas classes: Ia, os que consideravam a moléstia debaixo dos pontos de vista clinico e anatomo-pathologico ; 2o, os que a consideravam sómente debaixo do ponto de vista clinico, pertencendo a esta ultima classe o nosso venerando e sabio mestre conselheiro Barão de Torres Homem, a quem devo os poucos conhecimentos que tenho de medi- cina, e de quem com saudades me recordo a todo o instante, ecuja memória veneranda ticará gravada em meu coração agradecido até os meus últimos momentos. Villemin, em 1865, mostrou por variadas e repetidas experiencias em animaes, que a tuberculose ó inoculavel e, demonstrou a sua virulência. Sa- beis a upposição renhida que soffreram os resultados das experiencias de Villemin, por diversos sábios, que disseram ter produzido lesões anatomo- pathologicas e histológicas semelhantes ãs tuberculoses, inoculando em ani- maes productos orgânicos de moléstias diversas. O campo moderno da medicina experimental descoberto em 1852 por Davaine, que primeiro tornou patente a existência dos parasitas morbigenos, brdhantemente roteado pelo sabio e immortal Pasteur, que havia feito a ma- ravilhosa descoberta dos fermentos vivos e mostrara que grande parte das moléstias virulentas são de natureza parasitaria, foi em mil oitocentos e setenta e tantos explorado por Klebs em relação á tuberculose, julgando este ser sua causa produetora bactérias que descobrira nos productos tuberculosos, e mais tarde por Aufreclit e Rindfleisch, que descobriram micrococci e zooglêas no centro dos tubérculos. Coube porém, a Iíoch, em 1882, a gloria de por meio de uma technica especial, conhecida de todos vós, pôr em evidencia o bacillo agente unico productor da tuberculose, das lesões anatomo-pathologicas e histológicas que a constituem, e das perturbações funccionaes que a acom- panham ; agente este encontrado em todos os orgãos tuberculosos e em diver- sos productos das secrecções dos tuberculosos. O bacillo tuberculoso descoberto e cultivado por Koeh, podendo exercer suas funcções sómente em uma tem- peratura de 30 a 90 grãos, sendo inoculado em animaes, em estado de cultura tem sempre produzido a tuberculose, isto é, as lesões anatomo-pathologicas e histológicas diversas, denominadas granulação miliar, e tuberculosa ama- rei la e cinzenta. Succedem tá granulação miliar : massas infiltradas amarella e cinzenta, que resultam da fusão dos tubérculos, o estado caseiforme e o amollecimento ; finalmente a caverna, resultante da elimi- nação destes productos, contendo sempre e invariavelmente os bacillos tuberculosos. Koch veio justificar o resultado das experiencias de Villemin, mos- trando que os productos da inoculação de substancias organicas de natureza diversa da tuberculose eram realmente semelhantes, histológica e anato- micamente, aos productos da inoculação das de natureza tuberculosa ; do mesmo modo que estes são semelhantes aos syphilomas, aos productos do mormo, etc., etc.; distinguindo-se, porém, os tuberculosos por conterem invariavelmente o bacillo de Koch. Muitas moléstias, Senhores, taes como a escrophula, tumores brancos e diversas affecções ósseas de natureza escrophulosa, tumores classificados por modos diversos, o lupus, etc., qae eram tidos na etiologia antiga como causas predisponentes da tuberculose, são hoje reconhecidas como manifes- tações locaes diversas desta enfermidade, por se encontrar sempre nellas o bacillo de Koch. A descoberta de Koch veio revolucionar a pathologia da tuberculose, contribuindo em muitos casos de diagnostico duvidoso para nos esclarecer ; mostrando que devemos lançar mãò de meios especiaes para prevenir a penetração e desenvolvimento do hospede importuno e destruidor, deno- minado bacillo tuberculoso, no nosso organismo, e para destruil-o ; e quando seja isto impossivel, para attenuar pelo menos a sua acção maléfica. Quizera, senhores, estender-me descrevendo a biologia parasitaria em geral e em particular a do bacillo tuberculoso, consideral-o debaixo do ponto de vista estudar sua evolução, os estragos que produz em nosso organismo, o meio proprio e as condições necessárias ao seu desenvol- vimento, etc., etc., etc. ; mas tenho por demais abusado de vossa attenção e estou plenamente convencido que, muito melhor do que eu, conheceis as theorias dos parasitas pathogenicos, especialmente a do bacillo tuberculoso ; por isso passarei a applicar os resultados ou as conclusões das observações que tive a honra de referir-vos, e os da medicina experimental ao desen- volvimento ou disseminação da tuberculose no Rio de Janeiro. Li algures que no Rio de Janeiro era, nos tempos coloniaes, desco- nhecida a tisica e que seus ares eram aconselhados pelos médicos portuguezes desse tempo para cura dessa affecção. O finado Sr. conselheiro Barão de Torres Homem nos dizia sempre em aula que á proporção que iam sendo aterrados e disseccados os pantanos desta cidade, os casos de morte pelo impaludismo iam sendo substituidos pelos de tisica. Acreditava o nosso sabio mestre haver incompatibilidade entre estas duas enfermidades. Sem pretender refutar tão abalisada opinião, a qual adopto em parte, não creio ter a diminuição de casos de impaludismo con- tribuido para o augmento dos de tuberculose. Tenho visto alguns doentes de cachexia paludosa franca, affectados de tuberculose pulmonar, ser victimas destas duas moléstias, não impedindo o parasita de Laveran que o parasita de Koch produza seus estragos no organismo. Senhores, estou plenamente convencido que a causa unica da tuber- culose é o micro-organismo de Koch, é o bacillo tuberculoso ; que este parasita, que se reproduz por formação endógena, por meio de sporos excessivamente refringentes, os quaes resistem às temperaturas de 60° abaixo de zero até á de 110° acima de 0, só póde viver, felizmente para nós, e exercer suas funcções destruidoras em condições especiaes, para cuja elucidação eu direi em resumo algumas palavras, dividindo as casua- lidades da tuberculose em experimentaes, clinicas, vitaes e patliologicas, como faz Germain Sée. Casualidades experimentaes Experimentalmente podemos produzir a tuberculose de tres maneiras: 1. Pela introducção nas serosas, na camara anterior dos olhos, etc., ete., dos animaes e por conseguinte do homem, de productos tuberculosos ou do proprio bacillo proveniente de cultura ; 2. Pela alimentação forçada por meio de tecidos tuberculosos; 3. Pela respiração do ar que tenha passado sobre productos tubercu- losos, especialmente sobre os productos da expectoração, com a condição essencial de, em qualquer dos tres casos, existirem bacillos nos tecidos tuber- culosos, ede ser susceptivel de intisicar-se o animal que servirá experiencia. E’ condição essencial para o desenvolvimento destes bacillos, além da temperatura de 30 a 90° grãos durante semanas inteiras, de que já vos fallei, sua penetração em corpos de animaes vivos ou a permanência em certos liquidos de cultura esterilisados e conservados em temperatura con- veniente, sendo de preferencia escolhidos pelos parasitas os animaes herbivoros. O bacillo tuberculoso é estricto e não facultativo ; isto é, só póde viver nos corpos animaes, mas seus sporos, que resistem a altas e baixas tempera- turas, podem permanecer por longo tempo na atmosphera, conservando-se em condições de se desenvolverem logo que encontrem terreno proprio para isso. Não ha factos positivos de tuberculose por inoculação na especie hu- mana, apezar de Laennec acreditar ter contraindo a tuberculose, de que falleceu, por inoculação que se operou no momento em que dissecava um cadaver tuberculoso. E’ pela respiração prolongada do ar contendo bacillos ou pela alimentação prolongada de substancias tuberculosas que em geral se contrahe a tisica. Casualidades vitaes e clinicas O contagio da tisica, afflrmado por uns e negado por outros médicos de todos os paizes, foi entre nós negado a principio, mais tarde admittido como possivel, e hoje, creio, é aceito por muitos dos meus illustres collegas. As ohser /ações que tive a honra de relatar-vos são bastante frisantes para attestal-o. O contagio póde-se dar do marido para a mulher, dos pais para os filhos, dos irmãos para as irmãs e vice-versa, e até mesmo entre pessoas estranhas. Se attendermos ao numero dos médicos, enfermeiros e enfermeiras victi- mados por esta terrível moléstia, veremos que não são tão insignificantes como se diz geralmente, os factos de contagio nestas classes. O escrophuloso póde transmittir tisica aos filhos, do mesmo modo que o tisico póde transmittir a tisica ou a escrophula, sendo estas duas moléstias apenas manifestações variadas da mesma entidade mórbida. Pela observação, que vos referi, de minha prima, vê-se que a tisica póde ser transmittida directamente aos filhos por via materna. Casualidades pathologicas O diabético, como sabeis, termina quasi sempre tisico. Será por que o bacillo encontra no sangue glycogenico condição própria para sua evolução; ou será em consequência da miséria organica resultante do diabetes que elle encontra o meio favoravel ao seu desenvolvimento ? Haverá alguma relação causal entre estas duas entidades mórbidas ? Tenho tratado de muitos individuos diabéticos, alguns datando de annos e apenas vi unicamente um terminar pela tuberculose ; neste mesmo a moléstia só se desenvolveu após dystrophia organica. No sarampão, na coqueluche, nas pleurisias com derrames, nas adheren- cias pulmonares, nas inflammações das mucosas aereas, etc., o desenvolvi- mento da tuberculose parece-me ser devido á facilidade, que encontram os bacillos, de se fixar na mucosa bronchica ou nos alvéolos pulmonares. O syptiilitico fica tuberculoso quando apresenta syphiloma pulmonar, ou então quando chega ao estado de miséria organica. Todas as moléstias que produzem a dystrophia organica podem favorecer o desenvolvimento do bacillo tuberculoso. Algumas moléstias parecem ser,até certo ponto,antagónicas da tuberculose. Entre estas contam-se aasthma, a dilatação bronchica e a malaria, de que já vos fallei; mas o antagonismo não é absoluto, porque tenho visto na minha clinica doentes de impaludismo agudo e chronico, asthmaticos desde a infancia, tendo alguns bronchectasia considerável, ser atacados pelo bacillo de Koch. Casualidades physiologicas Em todos os organismos penetra o bacillo tuberculoso, mas só em poucos elle se fixa, evolue e produz as lesões anatomo-pathologicas da tisica e as perturbações funccionaes concomitantes. E’ em geral nos organismos fracos, em estado de miséria physiologica, nos de dystropliia, em consequência de excessos de trabalhos physicos e intel- lectuaes, de miséria organica em consequência de certas moléstias debilitantes, das que trazem inércia da respiração, que se desenvolve facilmente o bacillo tuberculoso. Este bacillo é uma planta de terreno ruim, que póde, porém, como muitas especies do reino vegetal superior, iguaes a elle no habitat, fixar-se e desen- volver-se em terreno, bom, rico em humus. A tuberculose não respeita idade alguma. Nos quatro primeiros annos da vida, sendo rara, quasi sempre se localisa nas meningeas cerebraes; de quatro a oito annos torna-se muito frequente, atacando o mesenterio, os pul- mões, as meningeas, etc., de oito a 15 annos manifesta-se quasi sempre sob a fôrma de escrófulas; de 15 a 45 attinge ao apogeu da frequência, e ataca os pulmões, os bronchios, o larynge, o flgado, o utero, os testiculos, as amyg- dalas, etc., etc. Uos 45 annos em diante diminue de frequência, e quando apparece nas idades avançadas, toma a fôrma torpida, seguindo sempre marcha chronica, não se manifestando por symptomas subjectivos patentes, por falta de reacção do organismo. Coincide a frequência da tuberculose com a época da vida em que o homem mais trabalha e com mais frequência se expõe ao seu contagio. E’ pouco mais frequente no homem do que na mulher. Durante a gravidez o estado geral das tuberculosas melhora sensivel- mente, fazendo crer no estacionamento da moléstia, mas o estado local aggra- va-se cada vez mais, de modo a virem fallecer as mulheres tisicas poucos dias depois do parto. O homem, expondo-se mais do que a mulher, é mais vezes do que ella aíTectado pelo contagio. A amamentação prolongada, produzindo um enfraquecimento geral, facilita a fixação e a evolução do bacillo tuberculoso. No Rio de Janeiro encontram-se todas as casualidades que favorecem o desenvolvimento do bacillo. Se ajuntarmos a estas causalidades, a falta absoluta de cuidados por parte de seus habitantes em evitar o terrível contagio, o mão habito que têm de mudarem frequentemente de casa, indo morar e dormir muitas vezes em quartos donde sahiram tuberculosos, e onde estes, por falta de asseio, es- carrão no chão; a falta de emprego dos anti-septicos apropriados á exterminação do agente productor da tisica e dos seus spóros, teremos a explicação da dis- seminação de tão devastadora moléstia nesta cidade. Senhores.— De todos os micro-organismos pathogenicos, o que mais pre- judicial e malévolo tem sido á humanidade, é sem duvida alguma o bacillo tuberculoso • Ao passo que o bacillo virgula, causa do cholera-morbus, que habita as margens do Ganges, relativamente raras vezes snhe em excursões de- struidoras ;ao passo que o micro-organismo productor da febre amarella, de- scoberto e cultivado pelo sabio brazileiro, o nosso dístincto collega — o Sr. Dr. Freire, assenta seus arraiaes em poucas partes do globo, ondo de mezes em mezes, ou de anno em anno somente, offerece batalha á humanidade; ao passo que estes parasitas na luta contra o nosso organismo, luta que sempre é de pouca duração, ou aniquilla-o logo, ou quando sahe vencido, foge aterro- risado e só raramente volta a atacal-o de novo; o bacillo tuberculoso não respeita localidade alguma, e, uma vez lixado em nosso organismo, ou ani- quilla-o logo, ou então fal-o soífrer durante longos annos indescriptiveis tormentos, produz no doente um abatimento moral e physico prolongado, antes de vencel-o. Quando, o que acontece raras vezes, o organismo triumpha na luta, essa victoria não o garante contra novo ataque por parte do terrível inimigo, que só recua depois da victoria. Quantas lagrimas não tenho eu visto serem derramadas por causa de tão terrivel adversário !! Aqui, é um pai que depois de ter dado esmerada edu- cação a um filho, depois de vel-o formado em medicina, onde julga sorrir para elle um futuro brilhante, e espera muitas vezes que sirva de am- paro pira sua familia, o vê succumbir na luta contra o bacillo tuber- culoso ; alli, é um esposo que vê a eleita de seu coração descer á sepul- tura deixando orphãozinhos privados p ira sempre dos carinhos maternaes ; acolá, são innocentes crianças, que ficam reduzidas á miséria, por ter sido lançado por terra o autor de seus dias ; além é uma virgem que no momento de ver convertida em realidade a ventura de seus sonhos de don- zella, vê desapparecer na escura noite dos tumulos aquelle a quem ia ligar os seus dias ! ! Senhores, admira-me que nossos governos, que tantos milhares de contos têm gasto para desterrar do Rio de Janeiro o micro-orga- nismo de Laveran, productor da malaria; que tem gasto não pequena quantia a ver se extingue o micro-organismo da febre amarella ; que o anno passado empregou proflcuamente não diminuta quantia para trancar as portas desta cidade e as do Império ao bacillo virgula; que todos os annos emprega sommas insignificantes relativamente ás necessidades da hygiene publica, mas avultadas em relação ás nossas condições finan- ceiras, para debellar diversas enfermidades ; admira-me como elle até hoje não tenha tomado nenhuma providencia com o fim de impedir a invasão do bacillo tuberculoso, que mais do que nenhum outro mierobio pathogenico, assola a população desta cidade e tende a invadir as cidades e as po- voações do interior do Império. Peço ao illustrado collega a quem for dado exercer o honroso cargo de inspector geral de hygiene publica que empregue todos os esforços possíveis para oppòr barreira á invasão crescente de tão nocivo hospede, já creando hospitaes especiaes com todas as condições hygienicas para os tuberculosos, onde sejam desinfectadas todos os dias as salas, as escarradeiras, e tudo que servir para os tuberculosos; já prohibindo o tratamento destes em hospitaes no centro da cidade ; já aconselhando regras de hygiene privada para as fa- mílias que tiverem pessoas affectadas de tuberculose. Sei, Senhores, a resistência, que ha de encontrar o inspector de hygiene publica da parte daquelles a quem quizer beneficiar ; sei a luta que terá de supportar ; mas, como sabeis, sem resistência não ha luta possível e sem esta não póde haver victoria. Quanto maior fôr a resistência que encontrar, maior será o esforço que terá de empregar, e por isso mesmo, mais estrondosa a victoria e mais me- recida a gloria delia resultante. Oxalá, caiba a um membro da classe medica brazileira a gloria de des- cobrir o meio de destruir no nosso organismo o bacillo tuberculoso, sem que desta destruição resulte nenhum prejuízo para organismo. Oxalá, caiba a elle a gloria de por meio dos preceitos da hygiene pu- blica e | rivada extinguir o bacillo tuberculoso em nosso paiz e nos estran- geiros ; e, quando isto não obtenha, ao menos consiga pôr barreira â invasão crescente fie tão destruidor mierobio morbigeno. Cumpre-me, para terminar, agradecer aos illustrados collegas a benevola attenção que me prestaram, o pedir-vos desculpa por ter tom ido o vosso precioso tempo, que por algum de vós melhor poderia ser aproveitado, disser- tando sobre assumpto de tanta importância. O SR. DR. ALFREDO PIRAGIBE lè : O iodo na malaria I Segue a applicação therapeutica, que indica o titulo deste trabalho, a marcha cyclica de todas as bem ou mal denominadas descobertas. Em nota á obra de Gubler (1), prognosticou F. Leblanc ao bromhy- drato de quinina eíleitos therapeuticos superiores aos do sulphato da mesma base. Segundo Dorvault (2), tem sido grande o resultado obtido no trata- mento das febres intermittentes rebeldes com o iodureto de iodhydrato de quinina, o qual goza das propriedades da quinina e do iodo. O Dr. Braumik. (3), propondo-se a contestar ao iodo, congenere do bromo, a qualidade de (1) Léçons de thérapetitique, 1877, pag. 327 (2) UQfficine, 18S3, pag. 600. (3) Buli. thér, t. C, pag. 141. 170 succedaneo da quinina, attestou-a dizendo que a associação destes dous agentes parecia augmentar a acção desse alcaloide ; porquanto dóses rela- tivamente fracas do sal produziam o mesmo eífeito que dóses mais fortes de qualquer dos seus componentes. Será porque o bromhydrato e o iodhydrato de quinina tenham maior proporção de alcaloide do que os outros saes da mesma base ? Vejamos na tabella que segue : Compostos de quinina Porcentagem de alca oide (4) Hydrato 85,72 ‘ Azotato básico 85,60 Acetato 84,37 Chlorhydrato básico 81,71 Lactato básico 78,26 Bromhydrato básico 76,60 Valerianato básico 76,06 Azotato neutro 75,00 Sulphato básico 74,31 Sulphovinato neutro 71,20 Arseniato 69,38 Salicylato básico 78,79 Citrato 67,08 Lactato neutro 60,00 Bromhydrato neutro 60,00 Sulphato neutro (bisulphato) 59,12 Ferro-cyanhydrato básico 56,25 lodliydrato acido 55,95 Salicylato neutro 54,00 Tannato : 22,60 A simples inspecção da presente tabella exclue a hypothese que reclamou a sua transcripção. Adiante. Wadsworth (5) observou no México, no meio das peiores condições hygie- nicas, 260 casos de febres intermittentes reinando com o caracter epidemico e muitos datando de semanas e até de mezes. O tratamento nos casos graves consistiu na administração de 50 a 75 centigrammas de quinina, em duas dòses, durante a apyrexia, e logo depois X a XV gottas de tintura d© iodo composta, tres vezes por dia ; a formula para os casos gravís- simos era : Licor de arseniato de potássio 5 grammas Tintara de iodo composta 8 grammas Tintara de serpentaria )ãã Xarope simples j 15 grammas Agua 60 grammas M. S. A. Uma colher, das de sopa, 3 vezes por dia, depois da comida. As melhoras manifestaram-se dentro de 24 horas e a cura dentro de quatro dias; havendo apenas uma recahida passados sete dias, seis depois de 14 dias, e uma ao fim de tres semanas. (4) Boymond, Equiva7ents thèrapeutiques des seis de quinine (Buli. tliér. t. CXII, pag. 311). Dujardin-Beaumeu et Yvon, Formulaire. 1887, pag. 299. (5) Iode dans Ic traitement des fièvres intermittentes (Ann. tliér. 1881, pag. 267). A estatística de Grinnell (1) é muito menos numerosa, porém muito mais eloquente. 135 doentes (74 homens e 61 mulheres, comprehendidas as crianças) de febre intermittente, 8 de nevralgia e 4 de diarrhéa palustres, foram tratados com a tintura de iodo, X a XII gottas em meio copo d’agua assucarada, de 8 em 8 horas ; apenas nos casos de nevralgia e de diarrhéa associou-lhe os opiáceos e adstringentes. A cura muitas vezes não esperou a repetição do medicamento ; com a circumstancia de que a congestão do baço desapparecia mais promptamente do que com a quinina. Barbaste (2) empregou no tratamento das febres intermittentes, mesmo rebeldes, a tintura de iodo ioduretada, na dóse de XXXV a XL gottas para 250 grammas de um vinho como o de S. Jorge ; a dóse diaria era de tres colheres, das de sopa, sendo uma em jejum e cada uma das outras uma hora antes ou duas horas depois da comida. Raras vezes elle teve de repetir a formula; e os doentes toleraram este medicamento melhor do que a qui- nina. Bouchardat (3), referindo-se aos trabalhos de Grinnell e de Barbaste, dá razão á sua applicação therapeutica, por serem os iodicos dos mais efficazes parasiticidas do impaludismo. Schablionskq (4) tratou a febre intermittente com a tintura de iodo, na dóse de VIII a X gottas em agua, tres vezes por dia, no intervallo dos ac- cessos. Em 26 casos a cura seguio-se á medicação. Eendricks (5), em 50 casos de febre palustre, cujo tratamento durava, na maioria delles, a mais de seis mezes, empregou a tintura de iodo, na dóse de V gottas, duas vezes por dia ; os accessos desappareceram dentro de cinco dias no médio. Barilleau, Saguier, Boinet, Giuseppe Manfradonia, Cantani, Regnoli, Concetti, Willebrand, Nanodnitschanshi também attestaram a efflcacia dos iodicos na malaria. A’s observações dos autores que acabamos de citar, seja-nos agora licito juntar as observações resumidas de 15 casos de malaria por nós tratados na cidade do Rio de Janeiro, durante os mezes de Maio a Outubro de 1887, em pessoas, sem distincção de sexo nem idade, as quaes nella residem em casas e sobretudo em lojas mal ventiladas, ou occupam habitações situadas na raiz dos morros que, de espaço em espaço, erguem-se mesmo no centro da cidade, ou habitam na visinhança de grandes extensões de terrenos baixos e sem cal- çamento, como os que ladeam o Canal do Mangue, desde o ponto onde hoje se vê o Asylo da Mendicidade, até a parte que limita com omorro de S. Diogo e mais adiante vai constituir a Villa Guarany ; ou, finalmente, mesmo nos morros, habitam aquellas porções em que o declive é, em grande extensão, apenas sensível e ainda o terreno carece de calçimento ou também é relati- vamente baixo, como acontece com a baixada que communica os dous morros de Paula Mattos e Santa Thereza, pelas ruas do Progresso, do Oriente, etc., a partir do largo de Nossa Senhora das Neves. Observação I.— José F..., 45 annos de idade, residente em loja á rua do Evaristo da Veiga, muito proximo ao morro de Santo Antonio. Accessos de febre de 2 em 2 dias, pela manhã, temperatura 38°,9 ; congestão do fígado e do baço. Purgativo mercurial e depois tintura de iodo, X gottas em vinho generoso, de 8 em 8 horas. Cura. Observação II.— Jeronymo P..., 15 annos de idade, residente á rua do Silva Manoel, entre a do Riachuelo e o morro de Santa Thereza, e onde, pouco tempo antes, pessoa de sua familia fallecera de um accesso pernicioso. Accessos de febre, de 2 em 2 dias, pela manhã, temperatura 40°,2; congestão (1) Iode comme sticcédané du quinquinaT (Ann. thér. 1882, pag. 242). (2) Viniodè contre fièvres intermittentes (Ann. thér. 1883, pag. 247). (3) Ann. thér. 1884, pag. 308. (4) Teinture ã’iode dons la fièvre intermittente. (Ann. de Bourneville, 1885, pag. 366.) (5) Art. Fièvres intermittentes—Iode do Dicc. de Garnier, 1886, pag. 163. do íigado e do baço. Emético e depois tintara de iodo, 8 gottas em vinho ge- neroso, de 8 em 8 horas ; insuccesso. Bromhydrato de quinina ; insuccesso. Mudança para o morro de Santa Thereza. Cura. Observação III.— Guilhermina F..., 10 mezes deidade, residente em loja no bairro de Catumby, muito proximo ao morro de Paula Mattos. Acces- sos de febre to los os dias pela manhã, temperatura 39°,6 ; congestão do íigado e d) baço ; bronchite. Ipecacuanha e depois tintura de iodo, 1 gotta em 100 k adoçado, em 3 dóses, com 8 horas de intervallo. Observação IV.— Hortencia F..., 2 1/2 annos, mas na residência da precedente. Mesmos symptomis: temperatura 39°,3. Mesmo tratamento: 1 gotta de tintura de iodo, em 1001c adoçado, de 8 em 8 horas. Cura. Observação V.— Liberata..., 38 annos de idade, residente á rua do Silva Manoel, entre a do Riachuelo e o morro de Santa Thereza. Accessos de febre todos os dias, á tarde, temperatura, 39°,2 ; congestão do íigado e do baço; hemoptyse. Depois de prolongado tratamento quinico sem resultado, iodo puro, 0,gr.l0, em álcool e xarope de ratanhia, em 4 dóses, com 6 horas de intervallo; ipecacuanha; centeio. Cura. Observação VI.— Rosina C...,2 annos de idade, residente na Cidade Nova, muito proximo ao morro de S. Diogo. Accessos de febre, de 2 em 2 dias, pela manhã, temperatura 38°,8 ; congestão do íigado e do baço. Iodo puro, 0,gr.01, em álcool e xarope de cascas do laranjas, em 4 dóses, com 6 horas de intervallo. Cura immediata. Observação VII.— Hortencia C..., 4 annos de idade, mesma residência da precedente. Mesmos symptomas: temperatura 38°,6. Mesmo tratamento: iodo puro, 0,gr.02, pela mesma fórma. Cura immediata. Observação VIII.— Maria B..., 18 annos de idade, mesma residência das precedentes; reside, ha annos, em bairros influenciados pela malaria. Mesmos symptomas dos precedentes : temperatura 39°,6. Tintura de iodo 8 gottas, em álcool e xarope de cascas de laranjas, de 8 em 8 horas. Cura demorada. Observação IX.— Antonio F..., 15 annos de idade, residente na Cidade Nova, nas immediações do Asylo de Mendicidade. Accessos de febre, todos os dias, á tarde, temperatura 39°,6 ; congestão do íigado e do baço ; embaraço gástrico. Purgativo alcalino e depois iodo puro, 0,sr.06, em hydrolato de ca- momilla e xarope de cascas de laranjas, em 4 dóses, com 6 horas de intervallo. Cura immediata. Observação X. — Eugenia B..., 35 annos de idade, residente á rua de S. Christovão, em frente á Yilla Guarany. Accessos de febre, todos os dias á tarde, temperatura 39 ',8 ; congestão do íigado e do baço; embaraço gás- trico. Cascara sagrada e depois tintura de iodo, 10 gottas, em hydrolato de camomilla e xarope de cascas de laranjas, de 8 em 8 horas. Cura. Observação XI.— Euphrosina P..., 11 mezes de idade, residente ao largo de Nossa Senhora das Neves, morro de Paula Mattos. Accessos de febre, todos os dias, á tarde, temperatura 39°,8 ; congestão do tigado e do baço; catarrho bronchico. Ipecacuanha e depois iodo puro, 0,"1'.006, em 100k adoçado, em 4 dóses, com 6 horas de intervallo. Cura immediata. Observação XII.— Carlota B..., 46 aunos de idade, residente à rua do Progresso, morro do Paula Mattos. Accessos de febre, todos os dias, pela manhã, temperatura 39°; congestão do ligado e do baço ; catarrho bronchico. Tintura de iodo, 10 gottas, em álcool e xarope do saponaria, de 8 em 8 horas ; terpinol. Cura immediata. Observação XIII.— Miguel P..., 58 annos de idade, residente à rua do Oriente, morro de Santa Thereza. Accessos de febre, todos os dias, pela manhã; temperatura 39°,8 ; congestão do ligado e do baço; erysipela com propagação da inflammação aos lymphaticos. Purgativo alcalino e depois tintura de io lo, 10 gottas, em vinho generoso, de 8 em 8 horas; benzoato de sodio. Cura immediata. Observação XIV.— Etelvina M..., 22 mezes de idade, residente á rua da Concordia, descida da rua do Oriente para o bairro de Catumby. Accessos de febre, de 2 em 2 dias, à tarde, temperatura 39°,4 ; congestão do íigado e do baço ; embaraço gástrico. Ipecacuanha e depois tintura de iodo, 1 gotta, em liydrolato de camomilla o xarope de cascas de laranjas, de 8 em 8 horas. Cura immediata. Observação XE. — Theodora A..., 4 annos de idade, residente à rua do Paraiso, descida do largo do Nossa Senhora das Neves para a Cidade Nova. Accessos de vomito, todos os dias, pela manhã; congestão do ligado e do baço; embaraço gástrico; temperatura 37°. Ipecacuanha: continuando os vomitos, tintura de iodo, 2 gottas, em hydroJato de camomilla e xarope de cascas de laranjas, de 8 em 8 horas. Cura immediata. Estatística : CURAS INSUCCESSO immediata, cmp 'azo regular, demorada Casos de malaria 15 8 5 1 1 * Seguido de insuccesso do bro mhydrato de quinina. ** precedida de insuccesso de prolongado tratamen to quinico. Com febre simples 5 2 11 1 complicada 9 5 4 ** Larvada 1 1 Formulas diarias para a generalidade dos casos. No máximo para o adulto. Uso interno. Iodo puro 0,10 gr. Álcool a 90° 19 cc. Tintura de cascas de laranjas amargas 1 cc. Xarope 24 gr. Agua 16 gr. Em 4 dóses, com 6 horas de intervallo. Cada dóse representa 0,gr.025 de iodo puro. Tintura de iodo 1 gr., 20 (72 gottasapproxi- madamente) Álcool a 90\.. 16 cc. Xarope de cascas de laranjas amargas 24 gr. Agua 16 gr. Em 4 dóses, com 6 horas de intervallo. Cada dóse representa 0,sr.30 (18 gottas approximadameute) de tintura de iodo ou 0,gr.025 de iodo puro. II a). O iodo é um estimulante lymphatico. Elle tem acção electiva contra a pretendida inflammação do systema lymphatico, segundo Ilasori e Giaccornini (l). A. Como actua o iodo na malaria ? (1) Fonssagrives, Thérapeutique appliquée, 1878, Io voL pag. 371. Seguudo o eminente professor brazileiro Dr. J. J. da Silva (1), a febre intermittente depende de uma inflammação dos vasos lymphaticos. Baseava elle a sua theoria na physiologia pathologica e na pathologia geral dos lymphaticos. Inflammadas as radiculas lymphaticas, torna-se irritante a lympha que ellas elaboram e irritados os vasos lymphaticos por onde ella trajecta, o que produz o calefrio (Hewron, Cruikshank,Alard). Recebendo a lympha irritante, o systema venoso resente-se, e, pelos íiletes nervosos distribuidos pelas suas paredes, abala o systema nervoso e todo o organismo; levando-a ao co- ração, este, irritado, augmenta de actividade, contra hindo-se com mais força e frequência. Segue-se a eliminação da lympha pelo suor. A intensidade e a duração desses phenomenos morbidos têm logar 11a razão directa do numero dos vasos lesados, da irritação e da quantidade da lympha; porque a eliminação rapida não estando em relação com a elabo- ração lenta, uma interrupção tem logar nos mesmos phenomenos, que reap- parecerão tanto mais depressa quanto mais proximos os vasos lesados estive- rem do systema venoso. E’ por isso que ha febre intermittente nas aífecções do systema lymplia- tico ; como a angioleucite, que também é acompanhada de augmento de volume do ligado ; como 0 endurecimento do tecido cellular, 0 qual tem a etiologia e a concomitância da angioleucite ; como a elephantiase e a syphilis. E’ por isso que, na ophthalmia intermittente, ha, ao lado da febre, injecção dos lympha- ticos da conjunctiva. Entre aquillo que 0 estado actual da sciencia acceita, na theoria do nosso illustrado compatriota, está incontestavelmente a doutrina dx localisação de uma moléstia infecciosa geral (1); a mesma que mostrou a Vulpian (2), no trabalho de Hallopeau sobre 0 tratamento da febre typhoide pelos calome- lanos, salicylato de sodio esulphatode quinina, 0 fim de dirigir, sobre a mucosa intestinal, a acção electiva dos saes hydrargyricos (3). Se assim é, não actuará o iodo na malaria do mesmo modo que os com- postos mercuriaes no typho abdominal'( b) O iodo é um antisepticenico (4). O parasita da septicemia tem origem em uma transformação especial das liematias, como o parasita do impaludismo. Apresentando-se ambos sob fôrmas ephemerasde vibriões íiliíbrmes de comprimento desmedido, animados ambos de movimentos activos, attestam assim a communidade da sua origem. E’a theoria de Bouchardat (5) citando Addison para quem um liquido quinico exer- ce sobre as liematias uma modificação especial analoga á que exerce o miasma palustre (6). Se assim é, não actuará o iodo 11a malaria do mesmo modo que na septi- cemia ? B. Ao passo que os saes de quinina actuam, como biocraticos, deprimindo a calorificação e, como etiocraticos, combatendo a, infecção de um modo geral, como antisepticos da 4a ordem, e, de um modo especial, neutralisando 0 miasma palustre ; ao passo que o iodo actua, como biocratico, estimulando o systema lymphatico e, como etiocratico, combatendo a infecção de um modo geral, como antiseptico da 2a ou, segundo alguns, da Ia ordem, e, de um modo especial, neutralisando 0 miasma palustre ; como actuam, na malaria, os outros agentes indicados para o seu tratamento ? Alguns, como biocraticos, deprimem a calorificação e, como etiocraticos, combatem a infecção de um modo geral, como antisepticos da 3a ou 4a ordem. Outros actuam apenas por um desses dous modos. Um de modo inexplicável até hoje. Como especifico, de um modo completo, nenhum. Eil-os : (1) I)r. Moraes e Valle, Duas palavras sobre febres intermittentes, theoria do Sr. Dr. J. J. da Silva (Arch. Me l. Uraz. 1845, Set. pag. 2). (lVC. Liebermeister, Maladics mfectieiises 1887, pags 23 e 164. (2) Ac. de Med. de Paris, sessões de 21 e 28 de Junho de 1881. (3) Haberkorn, Traitemcnt de Vérysipèle (Buli thér. t. CXI, pag. 480). (4) G. Hayem, Les grandes médications, 1887, pag. 68. (5) Ann. thèr. 1884, pag, 288. (6) Ann. thèr. 1884, pag. 308. Ann. Bouchut, 1886. p. 40. Buli. thér. C, p. 382 Dicc. Garnier, 1883, p. 164. Magljeri Buli. thér. CY, p. 76 .. DlEULAFOY .. O. Kahler \ Lichtheim Bassi.. .. Surdez temporária. Zunido nos ouvidos ... Acção passageira. 1’omado no começo\ attenua osaccessos acção que não tem a qq. lnjecção in-, trarectal m a i si prompta, mais cer-\ ta e menos dolo-/ rosa do que a hy-l podermica de qq.' Preço menos ele- vado do que o da qq. I A sua rapida absor- pção permitte ad-| ministral-a mesmo meia hora antes dol accesso. Actua, não só quan- do a qq. actua, mas também q u a n d o esta falha. Actua,/ também nas aífec-j ções palustres chro-J nicas. Póde ser ad-l ministrada mesmol com estado sabur-’ ral das vias diges- . tivas. Não tem os/ (Series de accessos intermittentes, as quaescada vezmais se amiudavam e si findavam depois de 22 a 33 gr. de sul- a\ phato de qq, ; isso I a alguns annos. f Cura em 15 dias. I Tres mezes depois \ ainda não havia re- \ cahida. gCFebre intermittente. ,í Diminuição da con- f gestão do baço. Febre intermittente.l Onde ella falhou também falhou a' qq. e o arsénico. Resultados iguaes' * e mesmo 1 aos da qq. Doentes 20 Curados.... 17! Doente Curado .... Doentes........ Curados.... lnjecções subcuta-/ neas de lcc, 25 cada i uma, a 1 %: 2 nai tarde do accesso ; 4i I ou 6 nos diasdeapy-l rexia, metade de ma- v nhã e metade á tardei |3 a 4 gr. 4 a 9 gr. Acido pheni- co. Besorcina... Decocoao de limão. 176 Buli. ihêr. CV, p. 76 Bnll. Ihèr. CVI, p. 133. Ann. Boucbut, 1886, p. 193. Traiu' des fièvres in - termittenles, 1842. Traitc des fittvres pa- lustres. Maglieri. Albsrn Kirchbaur (de Bor- ghausen) Boudin Laveran Deve ser regeitado, em todas as fôrmasj agudas, sobretudo) quando se receiar ok accesso pernicioso ] inconvenientes d a \ qq. (acção irritan-J te sobre as muco-! sas, zunidos n o s/ ouvidos). Preço) modico. Precioso nas formas rebeldes e cachexia. Febres periódicas .Resultados iguaes' ' e mesmo superiores.; 1 aos da qq. i Febres palustres dej ’ typos diversos. j Febre intermittente , quotidiana: 3 mezes, I de duração ; rebel- I | de a altas doses dej qq. e arsénico.' Cura em 7 dias. 'Doentes 25] | Curados.... 18/ (2 rebeldes áqq.)l I Não curados 71 1(6 curados pela qq.)\ [Doente 1 Curado l' 'Doentes 260 Curados: 'sem tratamento anterior 188 rebeldes á quina 57 Não curados: i curados pela < | quina 13 Irebeldes á quina 8 ,1 gr. com summo de, ’ limão, pouco antes! 1 do accesso. ' | Depois do emetico,' proporcionar a dose do acido arsenioso á tolerância ; fraccio- nar o medicamento, Ie continual-o semj interrupção durante tempo proporcional! á duração e rebeldia! Ída febre; adminis- tral-o, segundo o caso, pela bocca, re- cto ou pelle. JDecocçâo de limão. Salicylato de' sodio. j Acido arse- nioso. < 177 Buli. thêr. CVIII, p. 328. ,... Clemente Ferkeira Buli. thêr. CX, p. 319 iAnn. Bouchut, 18S5, l p. 45. \Bull. thêr. CXIV, j p. 376. ........ Yaeochbwski.. A.’s vezes nauseas e diarrhéa. 'Febre intermittente- que resistiu ao sul- ( phato de qq.e á mu-j dança de localidade ( durante perto de 3( mezes. Cura em 2 dias. , Cura depois de in-J successo da qq. e! 1 do arsénico. ) Febre intermittente.. Cura, pela terebin-! thina só, em 7 dias.' I Febre intermittente.' Nenhuma influencia , reconhecida sobre, I a marcha e a dura-| j ção da moléstia,, ' tanto nos paroxys-l mos febris como no \ volume do baço. I Doente 1 i Curado.... 1 .Doentes 276' | Curados: / só com terebin- I thina 150, l também com sul- ‘ J phato de qq.. 126 .Doentes 24 ’ (9 já tinham to- * mado qq.) 3 gr., no lo dia ; 2 gr., j i no 2°. j (2 gr., em 4 doses, com\ meia hora de inter- l vallo, começando 4, \ horas antes do ac-( \ cesso,em capsulas ou' j (para as crianças)( r xarope de cascas de 1 laranjas,precedendo ' purgativo mercuriah V a VI gottas, comi partes iguaes ou 2 vezes o seu peso de| espirito de vinho, tua o suspenso eml agua ou infusão de v chá. i 6 centigr,, 5 vezes por dia. Antipyrina. ■ Chlorhydralo] depereirina, Essência de terebinthi- na. Ergotina... 178 jAnn. Bouchut, 1886, | p. 4. j Lancet, 1886, 2° v. I p. 31. \Bull. thêr. CIX, I p. 229. Buli. thâ.■. CV, p. 31 Mac-Kay ., Sochinski., F. Uhle. ,Oliver. 10 seu effeito não é* tão promptocomoi o da qq. ; por issof \ não deve ser em-/ f pregada nas febres * i graves. lExalta a actividade ! dos grossos intes- ) tinos, sobretudo do recto. Diminue quasi sem-i t pre o calefrio. (Não tem máo gosto nem effeitos des- agradáveis. Preço I modico. Tem melhor gosto I do que a qq. As re- i cabidas são menos, frequentes. .Febre Actua como a quina! ‘ Raras vezes falha.’ Febre intermittente. Febre intermittente. l Dos que só se cura- ) ram com qq. 2 ti-l j nham complicaçõesi ' intestinaes serias e< , 1 hectica. [Pode curar as febres| ' palustres dos typosi * quotidiano e terção' 'Doentes........ 22\ } Curados.... 17 jmas com 4 a 5 ' , gr. de qq 5j '30 grãos Doentes 93, 'X gottas. Para tor-' nar a poção mais I tolerável,juntecam- phora ou hortelã pi-! Í menta, Para com- bater a cephalalgia, bromureto de po- \ tassio. 14 gr., em 180 gr. de, j emulsão: 1 colher, f 3 vezes por dia. ' 2 a 6 gr \Em pilulas Tintw a de gelsemium, ' Oleo phos- phorado... Alúmen cal- cinado. Teia de ara-' nha. III Vimos, na primeira parte deste trabalho, que a posologia do iodo oscilla entre os seguintes algarismos : 0?r,0066 a 0gr,0250 por dose (media: 0sr,0158) 0or,0133 a 0ffr,1000 por dia (media: 0gr,0566) A oscillação maxima da posologia dos saes de quinina é : 0gr,0050 a 4sr,0000 por dia (media: 2gr,O025) Portanto a dosagem do iodo é cerca de 3 % da dos saes de quinina. Jã seria uma grande vantagem em igualdade de preço. Vejamos se esta existe. Media dos preços da onça ingleza ( 28gr,34 ), durante os últimos 12 mezes, em diffe- rentes estabelecimentos eu- ropeus. Shillings Pence — 11 Saes de quinina 2 1 Sulphato básico 2 5 Ferro cyanhydrato 2 1 Bissulpliato (s. neutro) 9 Citrato 3 10 Bromhydrato 4 1 Salicylato 3 3 A eetat.o 4 4 Chlorhydrato • 4 4 11 :::::::::::::: 5 _ flblorato 6 — Iodhydrato • 6 5 Hypophosphito... • 5 1 ,a r.t.atn , 9 Sulphophenato 9 2 E’ a inferioridade de preço que existe: o iodo custa 56 % menos do que o sal de quinina mais barato. Logo o iodo tem grandíssima vantagem economica sobre os saes de quinina. CONCLUSÕES 1. a 0 iodo, como os saes de quinina e outros agentes, é indicado na therapeutica da malaria. 2. a O iodo e os saes de quinina são preferiveis aos outros agentes, porque á acção biocratica e à anti-septica reúnem a acção especifica. 3. a O iodo é preferivel aos saes de quinina, porque, além de anti-septico de ordem superior, é de um preço consideravelmente mais modico. 0 PROF. FERREIRA DOS SANTOS diz que Vulpian, ao annunciar na Academia das Sciencias de Paris,a descoberta do tratamento preventivo da raiva, proposto porPasteur, disseque era esta uma das mais bellas descobertas, tanto sob o ponto de vista scientiíico como humanitário, o que vae sendo confirmado* 180 pois já se não ouvem as vozes pessimistas,que na Academia de medicina de Pariz accusavam-no de inefficaz, e mesmo perigoso. Entre outros, o Prof. Peter, com todo o peso da sua autoridade de clinico, qualificou-o até de tentativa de ho- micídio involuntário. Hoje está perfeitamente demonstrado por estatísticas organizadas em todos os paizes, que, sendo o methodo applicado com os princípios severos e rigorosos aconselhados por Pasteur, não ha o menor risco para os in- oculados. Se, além das estatísticas, fosse preciso ainda algum argumento para mos- trar a absoluta inocuidade das inoculações feitas segundo as regras, bastaria citar a observação de um personagem illustre que, durante seis mezes, su- jeitou-se á mais exagerada experimentação preventiva no instituto de Pas- teur, recebendo 209 inoculações, sendo 71 de medullas de quatro a um dias, sem que tivesse tido o menor accidente. O pequeno numero de insuccessos, hoje conhecidos, não invalida a impor- tância e eíFicacia do methodo; Pasteur acaba de dizer, em carta escripta ao British Medicai, a proposito do insuccesso occorrido na pessoa de lord Doneraile, que nunca pretendeu que seu methodo fosse infallivel, por não ser divino. Dos 5.374 inoculados até 30 de Junho deste anno em Pariz, succumbi- ram 65, isto é 1,20 °/0, o que falia muito altamente a favor das inoculações preventivas, porque a mais favoravel estatHtica de indivíduos mordidos por animaes hydrophobos, que é a de Leblanc, dá 16 % de mortes por hydro- phobia. Apresenta em seguida a estatística do Instituto Pasteur do Rio de Ja- neiro, que comprehende o periodo de 9 de Fevereiro do corrente anno, em que começou a funccionar o Instituto, até hoje. A serie de medullas, de que dispõe o iusti„uto do Rio de Janeiro, provém da passagem 153 de Pasteur, a qual o orador trouxe de Pariz, e serviu para as primeiras inoculações, que, continuadas até hoje, têm servido para ter uma collecção completa. Estatística cio Instituto Pasteur do Rio dc Janeiro APRESENTADA AO CONGRESSO DE MEDICINA E CIRURGIA EM SESSÃO DE 18 DE SETEMBRO DE 1888 A primeira applicação do tratamento preventivo da raioa no Brazil teve logar na manhã de 9 de Fevereiro do corrente anuo. D >sde esta data até o momento da presente communicação (18 de Setembro), tem sido o Instituto procuralo por 134 pessoas mordidas. 76 não foram submettidas a tratamento pelos seguintes motivos: a) — 61 não tinham a temer accidente algum; porque, em 10 não tinha sido possivel que houvesse inoculação virulenta, e em 51 as mordeduras foram produzidas por animaes, que não apresentavam indicio de alteração de saude. b) — 12 deixaram de comparecer para prestar as informações reque- ridas sobre o estado do animal, provavelmente por terem estas informa- ções sido favoráveis. c) —3 deixaram de comparecer, tendo-lhes sido, em caso de duvida a respeito do estado do animal, aconselhado o tratamento preventivo. D’entre as 58 a Imittidas em tratamento, cumpre eliminar duas, que abandonaram o tratamento, tendo uma delias apenas recebido a primeira injecção; uma que succuml iu durante o tratamento e apresent iva mordeduras múltiplas e extensas na cabeça. Em 23 dias deixou de comparecer dez vezes; a incubação da raiva neste c iso foi apenas de 23 dias. Tres crianças mor- didas pelo mesmo animal foram salvas. Completaram o tratamento 48 Continuam em tratamento 7 As mordeduras tinham por séde: Em 4 a cabeça » 22 as mãos » 32 òs membros e o tronco A cauterisação foi: Efficaz em 4 casos Inefflcaz ou nulla . » 54 » A epoca do accidente remonta: A menos de 30 dias em 8 de 1 a 2 mezes » 13 » 2 a 3 » » 9 » 3 a 4 » » 4 » 4 a 5 » » 12 « 5 a 6 » » 3 » 6 a 7 » . » 4 » 7 a 8 » » 5 O estado do animal foi reconhecido: Em 2 — pelo resultado positivo da inoculação do bulbo do cão a um coelho, o qual contrahio a raiva no flm de 20 dias; Em 3 — pela declaração da raiva em uma pessoa mordida pelo mesmo cão; Em 5 — pelo desenvolvimento da raiva em animaes mordidos ao mesmo tempo; Em 25 — pelos symptomas apresentados pelo animal. Em 22 — o estado do animal era suspeito. Quanto á idade: sexo masculino 15 >> feminino 7 Mulheres 7 Homens 29 Quanto á nacionalidado: Brazileiros 45 Portuguezes 9 Italianos 2 Sueco 1 Africano 1 Quanto ã procedência: da Côrte 22 de fóra •.... 36 Crianças 22 j 182 Quadro estatístico do Institnto Pastenr do Rio de JaiMro, de 9 de Fevereiro a 18 de Setembro de 1888 a n B O TOTAL ( simples Mordeduras na cabeça ? ? múltiplas i 3 4 Cauterisação efficaz. 2 2 i 1 2 t simples 3) 2? 2I Mordeduras nas mãos ? r [8 (8 >22 f múltiplas 3S eS 15) 2 t 3 1 5 7 13 3 3 6 t simples li Mordeduras no tronco e nos membros..? >4 >17 >11 >32 ( múltiplas 3; 13) 9) 25) 1 1 » inefficaz 2 9 9 20 Ausência de cauterisação 2 8 1 11 O SR. DR. PEREIRA DA COSTA lê: Cura de uxn aneurisma,da artéria axillar por injecções hypodermicas de ergotina Em meiado de Jullio de 1881, entrou para o hospital do Carmo o portu- guez João Bernardes de Miranda,de 55 annos deidade, cobrador. Perturbações produzidas por dous aneurismas, um da artéria axillar, outro da poplitóa do lado direito, forçaram-no a buscar o recurso da arte. Accusava abatimento, torpor nos respectivos membros, dòr no joelho, difficuldade de andar, dor- mência do membro superior com considerável hypothermia da mão e com- pleta ausência do pulso radial correspondente. Além destes, o phenomeno mais positivo, revelado ao exame, foi sensivel dilatação aortica. Abuso dos alcoolicos, unico factor anamnestico significativo. Temperamento sanguineo-bi- lioso. A simples verificação diagnostica impunha a gravidade do caso. Procurando modificar as complexas condições do problema clinico, o Sr. Dr. Alfredo Guimarães empregou os habituaes meios internos, cujos resultados foram nullos. Tão esteril se mostrou a compressão permanente. Não con- fiando na acupunctura, na electropunctura, nas injecções coagulantes, etc., só restava ao distincto operador a intervenção cirúrgica, que lhe pareceu temerá- ria e de incertos resultados. O estado do enfermo se aggravava, o tumor da po- plitéaoccupava toda a respectiva cavidade, o da axilla o volume de uma (*) A. — indica pessoas mordidas por animaes cujo estado rábido foi experimental- mente demonstrado; B —pessoas mordidas por animaes cujo estado rábido foi comprovado pela observação clinica ; C pessoas mordidas por animaes suspeitos. bola de bilhar, com tão intenso ruido de serra, que a elle attribuia o enfermo a impossibilidade de conciliar o somno. O estudo que faziamos da medicação sub-eutanea, levou-nos, a exemplo de Langenbeck, ao ensaio das injecções hypodermícas de ergotina no tecido cellular sub-cutaneo que cobria os tumo- res. A 22 de Agosto teve logar a Ia applicação de um centímetro cubico do seguinte soluto: agua distillada, glycerina neutra, anã 15,0—ergotina (solução Yvon) 3,0. Cada tumor recebe uma injecção diaria. Experimentando allivio, consegue o paciente dormir apoz a Ia injecção, dizendo não ser tão intenso o ruido de serra, que constantemente lhe torturava o ouvido. No 4° dia (4a injec- ção) o pulso radial começa a desenhar-se ; os musculos da parte posterior da coxa não offerecem tão violentas oscillações, por ser muito menos forte a impulsão do respectivo tumor; os ruidos proprios se mostram modificados. Nesse estado de animadoras melhoras se achava o doente, quando referimos o facto em nossa dissertação inaugural. Sempre como exclusivo tratamento, as injecções passaram a ser praticidas com intervallo de 48 horas. As melhoras progrediram, sendo muito sensivel a reducção dos tumores. Os phenomenos svbjectivos acompanhavam as modificações locaes. Apoz a 8a injecção, o pulso era quasi igual nas duas radiaes, bem assim a temperatura da mão direita elevara-se á normal. Anteriormente não podia o enfermo dar um passo impunemente ; agora: passeios até ao jardim do hospital. Taes eram as melhoras, que autorisavam acreditar na cura. Tendo recebido a 15a injecção, achou-se o enfermo em condições de deixar o hospital, teve alta, compromettendo-se a continuar o tratamento, que recomeçou em fins de De- zembro desse anno, vindo elle da rua de S. João Baptista ao nosso escriptorio, duas a tres vezes por semana. Muito mais que o da poplitéa, se modificava o tumor da axillar, que a 18 de Março recebeu a ultima injecção, por não haver mais em seu seio o menor ruido, denunciante da affecção. Ao todo 38 injecções foram sufficientes para esse extraordinário resultado. Destas, 15 no hospital e 23 no nosso escriptorio, sendo : uma em Dezembro, 10 em Janeiro, sete em Fevereiro e cinco em Março de 1882. Continuamos a observar o tumor, cuja reducção era o unico phenomeno que offerecia. Em todo esse tempo, nenhum medicamento interno ou outro recebeu o doente. O completo restabelecimento do pulso e a igualdade da impulsão arterial nos dous membros superiores attestavam a completo restabelecimento da axil- lar, como observou diversas vezes o Sr. Dr. Alfredo Guimarães ; o mesmo veri- ficaram os professores Pereira Guimarães, Domingos Freire, Fort e outros profissionaes. Convém accrescentar que não augmentou a dilatação aortica, sendo o estado geral do individuo relativamente bom. Tão brilhante não foi a historia do tumor popliteo: entregando-se a occupações que o obrigavam a an- dar, e talvez por alguns desvios alcoolicos, o paciente era algumas vezes obri- gado a recorrer ao emprego das injecções ; melhorava um pouco e continuava nas suas perigrinações. O desenvolvimento do mal impunha intervenção prom- pta, para o que aconselhamos a entrada para o hospital, com o que não con- cordou elle ; o medico que o tratava em Botafogo teve de convidar o Sr, Dr. conselheiro Catta Preta para intervir. Teve o distincto cirurgião ensejo de verificar a ausência completa do tumor da axilla. Ainda assim havia dous annos do inicio da moléstia, e 15 mezes que a cura de um dos tumores se realisara. Diversas vezes observamos esse individuo, e comnosco, ha um anno mais ou menos, o Sr. Dr. Marcos Cavalcante exami- nou-o. A divergência dos resultados neste doente mais uma confirmação deu de que o repouso é indispensável ao exito completo, pois que este individuo trouxe o braço ao peito até que fosse terminado o tratamento do tumor da axilla, ao passo que andou sobre a perna quanto pôde. Outros casos confirmaram essa noção, pois que os enfermos melhoravam sempre que guardavam repouso. De onde se infere que nos hospitaes o trata- mento será de maior eíficacia e mais completos resultados. Esta curta historia legitima umcorollario clinico de alto valor: nos aneu- rismas médicos como nos cirúrgicos inoperáveis, este tratamento deve ser empregado — porque, quando não ostente toda a eíficacia, será sempre util. Eis, Senhores, o que tinha a vos referir. Asthma cardíaca, como disse o obituário, faz succumbir o paciente seis annos depois da cura do aneurisma axillar, impedindo que a inspecção objectiva supprisse a incorretacommuni- cação. Como explicar a acção benefica da ergotina em taes casos ? Todos sabem que as injecções de ergotina actuam diversamente das injec- ções de effeito coagulante. Quer a ergotina exerça sua acção sobre as fibras lisas dos vasos ou sobre os nervos vaso-constrictores, devemos inquirir qual o mechanismo por queactuaella pela via hypodermica para produzir o effeito therapmtico em questão e se ha vantagem em applical-a, como geralmente aconselham, no tecido cellular subcutâneo que cobre ou avizinha" o tumor, como prati- camos neste paciente ? A experiencia me tem mostrado haver desvantagem. Não podemos conferir á ergotina essa particular propriedade de ser ab- sorvida, e de preferencia produzir seu effeito benefico no ponto em que se deu a absorpção, contrariando as leis physiologicas. No intuito de verificar esse facto, appliquei, em um enfermo que apresen tava sensivel dilatação parei d da artéria sub-clavea, injecções nos braços e tronco; os benefícios foram notáveis, o mal paralizou desde o começo de Junho de 1883; resultados mais ou menos completos tenho observado em alguns casos de dilatação aortica, applic-ndo as injecções nos braços Podemos, pois, concluir ser indiffente para os resultados therapeuticos applicar as injec- ções sobre o tumor ou distante delle. Essa consideração é de valor pratico, porque muitas vezes a pelle que cobre os aneurismas mostra-se hyperhemiadaou irritável,de modo a não tolerar a picada da agulha e a deposição do liquido, circumstancia que pôde embara- çar o tratamento, como nos havia acontecido. O Sr. Dr. Valladares começa referindo dous casos de cura de aneu- risma pela compressão, sendo um da dorsal do pé e outro da poplitéa : a deste ultimo foi feita com o torniquete, e no fim de 15 dias a cura era completa. Em outros casos, em que igualmente foi tentada a compressão com iusuc- cesso, a seu ver devido a não se persistir por mais tempo, a compressão influiu muito favoravelmente para o resultado da ligadura. O objecto, porém, principal da sua communicação é um aneurisma da sub clavea, que, não podendo ser operado pela ligadura, á vista de sua extensão e desenvolvi- mento, foi submettido á acção das correntes continuas, obtendo desde os primeiros dias melhoras notáveis, e cura completa ao cabo de 55 dias. Este paciente foi apresentado á Sociedade de Cirurgia depois de curado, e alguns collegas presentes, que visitaram a primeira clinica cirurgia da faculdade, tiveram occasião de verificar este resultado, contrario á espectativa de alguns collegas, entre os quaes os Srs. Drs. Oscar Bulhões, Domingos de Góes e A. Brandão. O orador lê uma observação referente ao caso. (1) (1) Não tendo sido entregue a tempo, não pôde ser publicada. ( N. da R.) O SR. DR. ROSENDO MONIZ lê: A extenuação por demasia de estudo Senhores.— Não venho trazer-vos subsidio precioso, quanto á eíTicacia e novidade nos domínios da pathologia e da ther tpeutica, para incremento da obra meritória que se vae levantando neste congresso, o primeiro effe- cíuado na America do Sul. Falta-me competência para descobrir ou inventar, nos vastos labora- tórios da natureza ou entre os thesouros accumul idos pela sciencia mo- derna, um desses recursos prodigiosos, inestimáveis, com osquaesse glorifique, em prol da humanidade e sem a padrinhagem de celebridades prolissionaes européas, a paciência ou a inspiração da medicina indígena. Caiba essa fortuna aos talentos e labores dos clinicos, omnímodos ou especialistas, aqui reunidos para elevar-se a classe medica, em honra da patria, no alargamento do campo therapeutico e na applicação dos mais seguros processos cirúrgicos. Como, porém, esta assembléa não foi convocmli sómente para combater os eífeitos dos nntigos flagellos, mas para supprimir ou evitar novas causas de mafôs, physicos e moraes, accrescidos com as exigencios da civilisação, ousei sahir da minha silenciosa obscuridade, no intuito de pedir a conver- gência de vossas luzes para assumpto de palpitinte interesse physio-psy- chologico e attinente á hygiene, o qual tem occupado a attenção de sum- midades pe lagogicas e medicas dos povos mais cultos. Facultativo e professor de philosophia, buscando no exercicio do magis- tério formar juizo com os elementos que me facil.ta essa dualidade, cheguei á seguinte e tristíssima conclusão : Os meios de ensino secundário, actuolmente empregados no Brazil, ou conduzirão a fins negativos sob o aspecto da cultura intellectual, porque a maioria dos estudantes não os tome a serio, ou, no caso contrario, tendem a damnificar a sociedade brazileira, não só pdo flagrante desequilíbrio das funcções corporeas com as anímicas, mas pelos dispêndios e perturbações mentaes do indivíduo prematuramente sobrecarregado de trabalho cerebral durante longas horas de viver sedentário. Eu seria, pois, inepto ou impassível observador, se não aproveitasse a opportunidade para soltar um grito de rebate, invocmdo a poderosa in- tervenção deste congresso contra o inimigo que, fortemente combatido por estadistas, médicos e pedagogistas da Europa, encontra neste paiz facilimos auxiliires nos rigores de um clima deprimente, na inobservância do regimen alimentício mais fortificante, na caprichosa avidez de empolgar perga- minhos, e no desazo dos governos indiíferentes aos preceitos da hygiene, al- liada á pedagogia. Preparemo-nos contra os perniciosos influxos desse factor pathogenico, insidiosamente acarretado com os progressos litterarios e scientificos do sé- culo. Evitemos, quanto fôr possível, os estados morbidos, attribuiveis a essa enFdade que os francezes denominam surmenage intellectuel, os inglezes overpressure e os alie nães U eberbuerdung. In felizmente a lingua partugueza não dispõe de bastante concisão para exprimir com uma só palavra o desfecho da constante preponderância func- cional do cerebro, ao serviço da alma, sobre todas as funcções do organismo humano. Isto posto, denominarei extenuação por demasia de estudo, o que os mate- rialistas consideram fadiga do cerebro, na opinião delles o exclusivo pro- ductor do intellecto. Por mais que avultem e se imponham no terreno experimental as con- vicções monisticas da phvsiologia contemporânea, persistirei na theoria dualis- tioa, de accordo com a proficiência de Miguel Levy e de Henrique Schule, os quaes percebem no homem, esse todo natural segundo Bossuet, não só a fôrma organica ligada ao mundo exterior por leis de antagonismo e de mutualidade, mas a alma ou o principio das manifestações intellectuaes e moraes. Se o mundo é o educador da alma pelos sentidos, não a creou, nem lhe pôde crear cousa alguma; apenas excita os germens que ella contém. lteduza-se, porém, o pensamento a um producto da nevrilidade cerebral, ou não passe o cerebro de intermediário do espirito para o mundo exterior; admitta-se uma relação de causalidade, ou uma relação de harmonia entre a liberdade moral e a saúde perfeita : são intuitivas as consequências des- astrosas da extenuação intellectual. A experiencia quotidiana está mostrando as desvantagens de qualquer profissão litteraria na constituição de quem a exerce, não só porque a excita- ção habitual do cerebro acaba por estender-se a todo o systema encephalo- rachidiano, tornando-o agitavel sob a impressão do mais fraco estimulante, mas também porque, em consequência de múltiplas sympathias nervosas, nem sempre a irritação se manifesta onde está a causa, accrescendo que a harmonia das relações organicas ó destruída pela desigual repartição das forças vitaes e sensitivas. Durante a meditação, converge para o cerebro uma porção de força nervosa pertencente á digestão, á circulação e á nutrição. Desta arte ha para um dos orgãos o supérfluo, emquanto falta aos outros o necessário. Dahi os graves perigos a que vive exposto o pensador, e aos quaes succumbiram Copernico, Malpighi, Petrarca, Spallanzani, Corvizart, Linneo, Marmontel, Walter Scott e tantos outros. Longe iria o exame descriptivo dos damnos supervenientes â tensão do espirito na vida sedentária de certos operários da intelligencia, accurva- dos ao peso da tarefa, presos á banca do estudo e faltos de ar puro no interior de escassos gabinetes. B ista mencionar as congestões, as apoplexias, os amollecimentos e as nevroses cerebraes juntamente com as dyspepsias, as hypocondrias, os cál- culos, as tuberculoses, as diversas formas ae loucura ; enfim o intempestivo anniquilamento physico ou moral, a que de bom grado se condemnam essas victimas do sentimento esthetico ou das especulações scientiflcas. Se, porem, decorrem tantos inconvenientes da fadiga intellectual na edade viril, quando os orgãos estão deflnitivamente constituídos, que di- zer dos malefícios resultantes de uma educação violenta, informe e pedan- tesca, imposta á meninice e á adolescência, pela vaidade dos paes ou pelas exigências de uma sociedade cheia de ambições e preconceitos ? Impaciente e prematura, a instrucção da puerícia nem dá tempo a que os orgãos se fortaleçam, a que as funcções se equilibrem, a que a saude se accentue, porquanto irrita-se ou embota-se o cerebro pelo exercicio inoppor- tuno e forçado do pensamento. Na sofreguidão de tudo ensinar a quem não pôde comprehender tudo, quantos preceptores ignoram ou esquecem que as elaborações mentaes ex- igem a madureza da substancia cerebral e a consolidação das relações do systema nervoso com o muscular e os outros orgãos ! Esses, porém, dóceis aos caprichos da família do educando ou baldos de conhecimentos experimentaes, são muito menos exprobráveis que o Estado, alheio a suas mais nobres attribuições, porque não só consente, mas auto- riza e promove, a titulo de interesse nacional, os maiores attentados contra o desenvolvimento physio-psychico da população escolar e, portanto, contra a prosperidade demographica da patria. Não é de hoje que se clama contra os absurdos, incompatibilidades e tropelias, admittidos no ensino publico ou particular. Viciar de Laprade membro da academia franceza e auctor do excellente livro — A educação homicida, lia mais de vinte annos, disse que a mocidade dos lyceos estava sobrecarregada de excessivos deveres com detrimento do corpo e do espirito ; que a cultura das forças physicas era nulla ou in- sufficiente em todas as casas de educação ; que a exaggeração dos program- mas de exame era tão funesta aos bons estudos como á boa hygiene da ado- lescência. Em 1874 Julio Simon formulava para a França a seguinte censura, perfeitamente applicavel ao nosso paiz : « Não ha quem procure informar-se do numero de crianças que sahem do collegio exhaustas e doentes, porém, sim do numero de candidatos approvados para o bacharelado e nas diversas escolas. » Ha oito annos a lei Ferry, reformando os estabelecimentos de ensino secundário, parecia ter melhorado as condições pedagógicas da França, com applauso de quantos preconisam a harmonia do elemento humanista com o realista. Por essa reforma, ficou o curso do lyceo abrangido em nove annos, subdividindo-se em tres cyclos de exame, não excedendo de 22 horas por semana, nem de 4 horas por dia o trabalho década classe, consistindo o estudo daslinguas estrangeiras no inglez ou no allemão, para abrir maior espaço aos conhecimentos theoricos e práticos das disciplinas scientiflcas. Não tardou que recrudescessem os clamores contra o surmenage intellectuel, a ponto de echoarem na Academia de Medicina de Pariz, por parte da qual foi nomeada uma commissão composta dos Drs. Lagneau, Bergeron, Larrey, Dujardin-Beaumetz e Proust, para examinar os males attribuidos á defei- tuosa educação e suggerir as medidas hygienicas de incontestável proveito. Do relatório apresentado, vê-se que o rigoroso exame em milhares de alumnos registrou numerosos casos de myopia, deformações ósseas, obli- quidade da bacia, incurvações rachidianas, saliências desiguaes das claviculas e das espaduas, dyspepsias, perturbações digestivas, tisicas, hyperesthe- sias, neurosthenias e alterações profundas das faculdades intellectuaes. Segundo o parecer académico, todas essas lesões são imputáveis á im- mobilidáde e á posição forçada, durante longas horas de classe e de estudo, em salas insufficientemente arejadas. Eis os meios hygienicos, indicados pela commissão, e que muito aprovei- tariam ás circumstancias act-uaes do paiz : Substituir, quando seja possivel, o internato pelo externato; nãoconsagrar menos de oito horas ao somno dos alumnos, para compensação das fadigas intellectuaes; interrompel-as mediante recreios, jogos e cantos; fixar a dura- ção quotidiana do trabalho mental em não mais de tres horas para as crianças e oito horas para os adolescentes, comprehendidas nessas oito horas todas as obrigações da classe e estudos em casa; diminuir estes, que por mais longo tempo do que aquellas exigem á immobilidade; restringir os programmas de ensino proporcionalmente ao trabalho intellectual; encurtar os programmas de exame; substituir os exames geraes encyclopedicos por exame parciaes, frequentes, de modo que permittam á intelligencia o tempo de assimilar os conhecimentosmutipios, successivamente estudados. Tem-se agitado a mesma questão na Inglaterra e na Allemanha, De 42 profissionaes inglezes congregados para a discussão acerca da influencia real da overpressure, a maioria respondeu afflrmativamente, attes- tando as consequências resultantes do excessivo labor intellectual. Chricton Brown asseverou que de 100 alumnos das escolas primarias dos bairros pobres, em Londres, quasi a metade soffria do heatache, seguindo-se enfermidades mortaes, cuja filiação, todavia, não lhe era possivel confirmar de modo positivo. O Dr. Madden, medico ha 20 annos em um hospital de Dublin, observou ultimamente um accrescimo considerável de affecções cerebraes e cerebro- nervosas, imputáveis á fadiga mental, imposta desde a mais tenra idade. Na etiologia da choréa não é diminuta para os clinicos inglezes a impor- tância da overpressure. De 23 choreicos, observados no hospital pelo Dr. Sturges em 1866, reconheceu-se que, em mais de um terço, o desenvolvi- mento das convulsões era o offeito da extenuação mental. Na Allemanha, onde o assumpto, de summa importância para a imprensa em geral, tem sido levado até ao parlamento, constituinclo-se objecto de brilhantes discussões nas revistas pedagógicas, orgãos dos interesses das Realschulen, verificaram-se numerosos casos de moléstias cerebraes, produzi- das pela Ueberbuerdung. Uma obra succulenta, escripta pelo Dr. Cohn, suscitou vivíssimas im- pressões em quantos se interessam pela causa do ensino e pela conservação da saude publica. Recentes estatisticas provam que a myopia toma proporções de um íla- gello nas escolas allemãs. Accrescentemos a tudo isto as seguintes conclusões do parecer, dado por Meynert, o grande psyachiatra, no collegio medico de Vienna (1): 1. a Certas moléstias mentaes são, ainda que raramente, causadas pela Ueberbuerdung nas escolas secundarias. 2. a Grande numero de casos pathologicos não apparece nas salas dos alienados, mas sim entre os neurosthenicos, aos quaes S3 dedica a clinica dornicili iria. 3. a as excitações sexuaes, determinadas pelas congestões resultantes do viver sedentário, favorecem o apparecimento da neurast/ienia e perturbações psyclncas. 4. a As influencias nocivas da Ueberbuerdung não se fazem sentir unica- mente na adolescência, mas também na idade viril, por uma disposição especial para as moléstias mentaes. 5. a As affecções mentaes, próprias da puberdade, htbephremias, são mui perniciosas, porque tendem a combinar-se( ?) com a idiotia. 6. a As causas de esgotamento fazem com que a demencia aguda, na pu- berdade, se conbine com o estupor. 7. a A herança das moléstias nervosas torna responsável a extenuação inte 1 lectal pela inaptidão progressiva das gerações porvindouras. 8. a Os suicídios, cada vez mais frequentes, são symptoma terrivel de uma neurasthenia progressiva l Com tantos subsídios da observação européa, e ante os mutiplos deveres impostos, sobretudo aos alumnos do collegio de Pedro II, modelo oflicial do estabelecimentos de instrucção secundaria no Brazil, chamo a vossa attenção para este confronto: Se tantos males trouxe o surmenage nos Ivceos francezes, onde o curso é de nove annos, e onde a permanência nadasse não vae além de 4 horas por dia, nem de 22 horas por semana, incluindo as lições do ensino meramente pratico e recreativo, nenhuma vantagem poderemos esperar da fadiga mental imposta aos nossos jovens conterrâneos pela demasiada longura de certos programmas de ensino, só compatíveis com os estudos superiores, pela exces- siva quantid ide e antimethodi -a distribuição das disciplinas, todas obrigató- rias, do curso, e pelo accumulo de matérias dilficeis, mòrmente para os alumnos dos 6° e 7°annos. Basta dizer que o collegio lhes toma 6 horas por dia; que uns estudam simultaneamente o grego, o allemão, a historia geral, a historia litteraria, a philosophia, a rhetorica, a poética e a litteratura nacional; ao passo que os outros, adstri tos ao mesmo numero de lições quotidianas, preparam-se não só para os exames flnaes daquelles dous idiomas e da philosophia, mas têm ainda que estudar o italiano, o portuguez gluttologico, a historia litteraria, a historia e chorographia do Brazil. Que oneroso estudo sob aacção de um clima debilitante e malarico ! Deduzidas oito horas para o somno, oito horas para a refeição, passeios e entretenimentos domésticos, só restam oito horas, das quaes o collegio absorve seis na immobilidade da classe, com intervallos de um quarto de hora. Será possivel que em duas horas o alumno estude sufflcientemente as lições de cinco ou seis matérias diversas ? Ou o estudo atropelado será improfícuo, ou será forçoso roubar ao somno, ás refeições e aos recreios, o tempo indispensável para dar boas contas de applicação. Se por ora não avultam nem são frequentes os damnos a registrar de se- melhante amontoamento de idiomas e sciencias, só favoravel a indigestões mentaes, será talvez porque os estudantes, armados pelo instincto de con- servação, dão o devido desconto, quando não se retrahem de todo, às bar- baras exigências ; ou porque faltam os elementos estatísticos para evidenciar (1) Este parecer é citado por E. Vallin na Revista de Eygicnc c de Policia Sanitaria. os prejuízos de saude em quantos procuraram cumprir á risca os encargos collegiaes. lnfelizmente somos um povo ainda constrangido pela vastidão do ter- ritório, e pouco affeito ás pesquizas e computos íirmados no critério mathe- matico. Ainda não empregamos devidamente a estatistica, esse grande utensílio de progresso, que funcciona com a exactidão eloquente dos algarismos para apreciações definitivas, inabalaveis á luz dos factos. Não sei quando disporemos de tal base, porquanto a unica repartição destina la ao trabalho estatístico foi extincta, a pretexto de restauração financeira ! Não guardemos, porém, o remedio para quando os desastres patente- mente se multipliquem e nos assoberbem. Tratemos de impedir os effeitos com a suppressão de causas notorias. Demais, se a mór parte da juventude vae baldando com as faltas de applicação as demasias da tarefa extenuante, não devemos ficar impassíveis ao sacrifício daquelles que se entregam pacientemente a todas as obrigações. Entre vós haverá mais de um que, por deveres paternaes ou por vín- culos de parentesco e de amizade, esfeja no caso de prestar irrecusável testemunho dos embaraços, attribulações e temores, inseparáveis do estu- dante atarefado em vesperasde exame. Em taes occasiões bem se confirmam as queixas da extremosa mãe que dizia a V. de Laprade :—0 trabalho e as preocupações causadas pelo exame fizeram meu filho soffrer como se o tivesse ataca lo grave mol stia. Que seria da mor parte dos condemnados prematuramente á lucta pelo pergaminho, que seria dessas pobres ctbeças, se muitos dos adolescentes não arrepiassem carreira, e outros tantos não tomassem a difíiculdade pela metade, expondo-se a inevitável reprovação, contentando-se com approvações inferiores, embalando-se na esperança das indulgências e dos empenhos, ou interpondo mais um anuo para affrontarem o perigo ? E’assim que de centenas de matriculados só meia dúzia, atra vez de sete annos (se é que mais de um não chega invalido), consegue vencer as bar- reiras oppostas á obtenção do bacharelado. Estudar para morrer de cansaço, ou matar o tempo com o santo ocio, para não ser inutilizado pelo estudo, eis o dilemma em que ou serão attendidos os interesses do Estado á custa da vida do educando, ou este deixará de cor- responder aos interesses daquelle, só pari conservar a própria vida. Se, porém, o presente não é atterrador pelas consequências funestas dos vexatórios processos de ensino, ha muito que receitr do futuro, porqinnto vae crescendo a mania de fabricar doutores e bacharéis, com detrimento e menospreço das artes e oílicios indispensáveis á florescência material e economica do paiz. Não satisfeito com os obstáculos em vigor, ou suppondo melhorar as condições do ensino por um requinte de accumulação, que redunda no absurdo e no impossível, tentou recentemente o Estado organizar uma reforma do Imperial Collegio, a qual é o suprasummo da indifferença admi- nistrativa e pedagógica ás leis da hygiene. Em vez dos exames de cinco ou seis matérias, annualmente exigidos até agora, e para os quaes são bem visíveis os apuros e deficiências dos examinandos, surgiu a idéa (queira Deus que não vingue) de obrigar os alumnos ao exame consecutivo de todas as disciplinas do curso, desde o 2o ao 7o anno, leccionadas em 16 cathedras ! Para obedecer ao problemático desideratum desse novo plano, que excede todos os outros conhecidos e denunciados por imprestáveis pelo zelo dos preceptores ou pelas queixas dos paes, terá de immobilizar-se o alumno, durante cinco horas de classe quotidianamente, sen lo o estudo de matérias diversissimas tão cumulativo que no 6o anno ver-se-ão amalgamadas as seguintes disciplinas: grego, latim, francez, inglez, allemão, italiano, portugueze historia litteraria, physica, historia natural e hygiene, rhetorica poética e litteratura nacional, mathematicas, chorographia e historia patrias, historia geral e pliilosophia ! 190 Não será isto o contrasenso de tudo que a pedagogia e a medicina devem aconselhar, para não consumir-se inutilmente com o tempo a saude do es- tudante ? ! Antes que se realize a tentativa, e appellando para a força moral de vossas tendências patrióticas e philanthropicas, apresento o seguinte alvitre : O Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, no empenho de evitar as consequências mórbidas do excesso de trabalho mental e do viver seden- tário, pede a attenção dos poderes públicos para a conveniência não só de melhorar o regimen collegial quanto á distribuição mais hygenica do tempo empregavel na classe, no exercicio gymnastico e no recreio, mas também de modificar o plano de estudos, diminuindo as disciplinas obriga- tórias, e encurtando os programmas de ensino e de exame, actualmente aclop-, tados no paiz. O SR. DR. CARLOS COSTA lê : Memória sobre hospitaes marítimos para crianças escrofulosas e rachiticas A questão que ouso submetter á apreciação do douto Congresso encerra duas partes importantes : uma de hygiene e outra de therapeutica. Não tenho necessidade de salientar a importância da questão de hygiene, que se liga a um dos grandes problemas, não só da cogitação do medico, como também do sociologista e do economista, isto é, a questão da mortalidade das crianças. Si se attender sómente ás ultimas estatísticas, ver-se-ha que no anno de 1886, sendo o obituário geral do Rio de Janeiro de 12.300 pessoas, destas falle- ceram 4.053, até a idade de 15 annos. Em 1887 o numero de mortos foi de 14.875 e o de crianças 6.584 ! As moléstias que indicam yicios de nutrição entram na estatística do seguinte modo : Em 1886 : Anemia e chloro-anemia 11 Athrepsia 178 Cholera infantil 12 Escrofulose 14 Rachitismo 6 Tuberculose 259 Moléstias constitucionaes não especificadas.. 7 Nascidos mortos 580 Somma 1.067 Em 1887: Anemia e chloro-anemia 18 Atlirepsia 831 Cholera infantil 30 Escrofulose 17 Rachitismo 8 Tuberculose 294 Nascidos mortos 763 Somma 1.961 Comprehendeis bem que, em relação à escrofulose e ao rachitismo espe- cialmente, não póde ser elevada a cifra dos mortos; porquanto não entram em geral nas estatisticas essas entidades mórbidas, visto como, em geral, é pela tuberculose que termina o seu processo pathologico ou por complicações outras no decurso da moléstia e que bem podem estar incluídas nas classes das moléstias do apparelho digestivo ou respiratório, ou mesmo cerebro-espinhal. Mas, graças aos trabalhos dos Drs. Barão de Lavradio e José Maria Teixeira, podemos saber, em relação á estatística da morbidade infantil no Rio de Janeiro, nos annos de 1882 a 1886, que as crianças que foram á consulta no Hospital da Misericórdia, d’entre 22.726, figuram, em primeiro logar : as bron- chites com 6.425 doentes; em segundo : as febres palustres com 1.432; em terceiro : a coqueluche com 941 doentes; depois a diarrhèa com 857, as anemias com 602, o escrofulismo com 568, a tuberculose com 107 e o rachitismo com 102. Dos doentes recolhidos ás enfermarias do grande hospital, a estatística não está feita; mas pudemos colher informações, que nos asseguram ter sido considerável o numero das crianças escrofulosas, que ahi foram submetter-se a tratamento, que bem avaliaes quanto improfícuo devera ser pelas próprias condições nosocomiaes. Um dos clínicos respeitáveis desse hospital, o Dr. Menezes Brum, expri- miu-se do seguinte modo no. relatorio de 1878 : « A maior parte das doenças principalmente chrouicas da infuncin, nesta cidade, é causada ou entretida pelo vicio escrofuloso ; e, pois, são os meios proprios a combater esse vicio que ma is frequentemente devem ser empregados. D’entre esses meios o uso dos banhos de mar è geralmente reconhecido como muito efficaz ; entretanto os doentinhos do Hospital Geral da Misericórdia vivem como Tantalo, á beira da agm, de que precisam, sem a poderem utilisar.» (Vide relatorio apresen- tado pelo Dr. Pedro Affonso — 1878, pag. 29.) Eu proprio verifiquei nessa enfermaria a quantidade de doentinhos que sahiam peiores do que entravam. Mas, quando as estatisticas nosocomiaes, ou as domiciliarias, não nos affirmassem positivamente, como o verificais, que é considerável a cifra dos indivíduos escrofulosos e rachiticos; quando não nos fossem bastantes, para as nossas deducções praticas, os factos bem determinados de grande numero de doentes, que revelam o escrofulismo em suas múltiplas manifes- tações cutaneas, glandulares, ganglionarias, visceraes, etc., e o rachitismo nas varias lesões ósseas, como hygienistas, devemos estar por demais convictos que innumeras são as causas que cercam a criança desde o berço, para retar- dar-lhes a nutrição e embaraçar-lhes o crescimento. Os erros e defeitos da amamentação, depois os mesmos vicios da alimen- tação na segunda infancia ; a habitação, onde o ar e a luz são insufficientes, etc. etc., emfim, todas essas causas desassimiladoras, deverão sem duvida tornar o organismo nesse estado « de perturbação pernianente das mutações nutritivas que prepara, provoca e entretem moléstias differentes como fôrmas symptomaticas, como séde anatómica, como processo pathogenico », sabias palavras de Bouchard, que assim define a diathese. Está, portanto, o organismo da criança preparado para a explosão das moléstias, que intimamente se ligam, escrófulas e rachitismo, que são depen- dentes de anomalias de nutrição, e assim é do rigoroso encargo do medico : Io, cuidar da prophylaxia, procurando regularisar a nutrição ; 2o, quando já seja tarde, combater as devastações do mal. Eis por que vos disse que a questão encerra duas partes importantes: uma de hygiene e outra de therapeutica. Tendo enunciado o meu modo de pensar em relação á maneira por que evoluem esses processos morbidos — escrofulismo e rachitismo —ligando-os para os eflfeitos práticos, que, acredito, se obterão com a medicação que vou propor ; e para essa ligação dos dous processos morbidos, amparando-me em Portal, que desde 1797 dizia «que o vicio escrofuloso seannunciava antes do vicio rachitico» ; em Hufeland (1821) que também se exprimia assim : « que o rachitismo é uma das fôrmas mais frequentes e mais terríveis da escrofulose » e dahi por diante, até os nossos dias, observando que está a maior parte dos pathologistas de accôrdo em que estas moléstias occasionam uma verdadeira miséria organica, não tenho necessidade, e nem me seria licito fazer neste logar ; não tenho necessidade, digo, de entrar em outras considerações acerca da pathogenia, quer da escrofulose, quer do rachitismo ; nem em pronun- ciar-me acerca da indentidade escrofulose e da tuberculose, acerca da natureza parasitaria da primeira, etc. Estas questões, obrigarão que eu diga com Suchard (Revue memuelle des maladies de 1'enfance. Paris, 1880, pag. 167) que « a dou- trina da unicidade da escrofulose e da tuberculose tem sido certamente nociva aos progressos da therapeutica da escrófula ; com effeito, dizem, para que serve tratar com tanto cuidado um doente escrofuloso, si a tisica não tardará a apoderar-se delle ? » E’ isto que temos observado em nosso paiz. Os escrofulosos e os rachiticos são tratados quando nos últimos periodos do processo destruidor, que não é prevenido, e então temos de nos encontrar em face do tuberculoso. Aproveitemos, pois, estaoccasião solemne, e procuremos realizar a grande idéa humanit iria, que tornou benemeritos os nomes de Russell na Inglaterra, Barrelai na Italia, Perrochaud em França etc., isto é, procuremos estabelecer as bases para o Hospicio Marítimo Brazileiro, para crianças escrofulosas e rachiticas. Haverá, porém, alguma hesitação em vosso espirito acerca da excellencia da therapeutica marítima para acura dessas moléstias ? Não creio, e é raro o medico brazileiro que não aconselhe os banhos de mar aos indivíduos lymphaticos, escrofulosos, rachiticos e mesmo tubercu- losos ; que não aconselhe a utilisação do precioso salso elemento, que com mãos pródigas a natureza dotou o nosso paiz, em o vasto littoral que se estende do Pará ao Rio Grande do Sul. Mas, entretanto convém confessar, que não tem sido sempre dirigido por necessário critério o uso dos banhos de mar, sendo indistinctamente escolhidas a localidade, a hora dos banhos ; não sendo muitas vezes perscrutadas as contra-indicações. Outrosima mineira porque se utiiisi a medicação marítima é antes como rápido meio liydrutherapico, cuja acção é pouco demorada; por isso que as pessoas que fazem uso dos banhos de mar são obrigadas a incommodos de toda a sorte, a accordar ao alvorecer, a vir de logares distantes das praias, de logares e habitações muitas vezes insalubres, para onde voltam e onde pernoitam. As senhoras do mundo elegante, sujeitas a todas as exigências sociaes, apems dormem duas ou tres horas durante a noite, sendo obrigadas a acordar cedo, depois de uma festa, de um baile ou concerto, etc.; e, embora as crianças durmam mais tempo, deixam de ir ao banho, por não terem quem as acompanhe. Mas sobretudo, o que importa ter em consideração, é que, para as moléstias de que nos occupamos, não são suíficientes os banhos de mar, da maneira porque são usados entre nós. Devo insistir na necessi- dade da estação marítima prolongada, da therapeutica metho licamente feita, dirigida scientiticamente, não constando somente dos banhos de immersão em uma praia insalubre, como são na maior parte as da nossa baliia. Para o tratamento preventivo e curativo do escrofulismo e do rachitismo ha necessidade da constante atmosphera marítima, mas incontestavelmente pura, longe dos centros populosos, e portanto de todas as causas de infecção dos logares habitados, e onde, como entre nós, as regras hygienicas pouco escrupulosamente são observadas. Ha além disso necessidade de um regimen rigorosamente seguido, que não se verifica, quer nas classes abastadas, quer nas proletárias ; umas porque são satisfeitos todos os c prichos das crianças, sobretudo quando doentes; e outras, porque lhes falta tudo, alimentação, ar e luz nas habitações ; emflm, porque em uns e outros, por modos differentes, continuam a agir as causas productoras desses vicios de nutrição, que dão em resultado as mo- léstias de que tratamos. Muito bem diz Van-Merris em relação a escrófula, e que eu também applico ao rachitismo — « não se conhece a natureza da escrófula, ainda não se entendem todos quanto á maior ou menõr parte que se deve conceder a todas as causas que se invoca para a sua explicação ; ainda se procura a verdadeira significação de seus symptomas; porém todos reconhecem que existe um abatimento do organismo, por vicio ou virus, diathese ou dystrophia, pouco importa, e que este organismo deve ser levantado. Convém, pois, appellar para todos os recursos da hygiene, hygiene do regimen, da habita- ção, vida ao ar livre e ao sol; isto é, em uma palavra, alimentação plastica ao principio, direi quasi, superalimentação, e depois outra alimentação aérea ou respiratória, mais necessária ainda do que a primeira e que é o pabulum vitce, de Hippocrates...» E’para obtenção desses resultados, que se evidencia a necessidade de estabelecimentos especiaes, tenham elles o nome de hospícios ou o de casas de saude, ou como querem os norte-americanos, aos quaes repugna o titulo de hospícios, o de Sea childrerUs houses. As virtudes do tratamento marítimo consistem I. Na atmosphera ; II. Na agua ; III. Noregimen. I. Atmosphera maritima A atmoãphera marítima actua por sua composição, temperatura e den- sidade . Encontrar-se-hão no Rio de Janeiro na atmosphera as condições desejadas pela hygiene ? Ao sabio Director do Observatório Astronomico-do Rio de Janeiro, o Sr. Dr. Luiz Cruls, a quem neste momento protesto os mais vivos sentimentos de reconhecimento por sua gentileza, tomei a liberdade de apresentar alguns quesitos, que me elucidassem a tal respeito, e d’entre elles os seguintes:- A. Tem o Observatório do Rio de Janeiro feito analyses do ar, ad instar do que se faz em Montsouris ? Poderei saber da justa pureza do ar atmospherico da localidade da Co- pacabana? (Para adiante explicarei este limite.) A sua amavel resposta foi a seguinte : « Até agora o Observatório não tem podido occupar-se com o estudo do ar atmospherico. Devo entretanto dizer que chegou-nos ha tres dias um appa- relho encommendado (tara tal fim, mas especialmente para elucidar a questão dos nevoeiros seccos.»(') Em breve pois teremos noticias exactas a tal respeito ; mas desde já pó- de-se assegurar que o ar do mar da nossa bahia, sendo mais puro do que o da terra, não é tão puro como o da praia da Copacabana ; é carregado de humidade e soffre a influencia dos ventos, como fallaremos adiante. Em relação â temperatura fizemos, o seguinte quesito : Será certa a média apresentada por Bento Sanchez Dorta — 22°,80 cen- tigrados, ou por Freire 21 2/3 Réaumur em Dezembro, e 18 1/2 em Julho; ou por Liais 23°, 1 centígrado ? B. O Sr. Dr. Cruls nos responde : « 35 annos de observações dão os seguin- tes valores para a temperatura centígrada da média no Rio de Janeiro : Média annnal 23°,5 Mez de Julho 20,8 » de Dezembro 25,0 Yé-se pois que os valores de Freire, que reduzidos a centígrados dão re- spectivamente 23°,0 e 27°,0 (em logar de 20°,8 e 25°,0), são sensivelmente altos (*) Na occasião em que se realisou o Congresso, com effeito não funccionava ainda esse apparelho ; actualmente, porém, o Dr. Antonio Pimentel já tem feito in- teressantes pesquizas, que se acliam consignadas na Revista do Observatório de 1888 e 1889. de mais. Os valores de Dorta e Liais differem apenas de 0o,4 e 0o,7, ambos para menos.» C. Nosso quesito: A temperatura á borda do mar será a que observou o almirante Roussin de 19° e 20° Réaumur de Março a Setembro, e de 20° a 24° de Setembro a Março ao meio-dia ? Resposta « Na minha opinião, observações feitas em horas pouco conve- nientes, em numero insufliciente, e além disso em condições pouco satisfa- ctorias, como aquellas que se podem fazer em viagem de circumnavegação, por officiaes de marinha, de pouco valor são para nellas assentarem uma opinião segura em matéria de climatologia. Creio que sem grande erro poder-se-ha considerar as temperaturas mencionadas no quesito 3o (o nosso) como as que convém também para a Co- pacabana. Darei entretanto aqui os valores médios para os mezes do inverno e do verão para o Rio de Janeiro : Inverno 22°, 0 Verão 25° ,0 Média 23°, 5 A pressão atmospherica dá a média annual de 757,mm. 82 (763,7 ao nivel do mar); na Europa 760 millimetros» Quanto á acção pliysiologica e therapeutica do ar do mar, reproduzirei as palavras do Dr. G. Thermes, apresentadas ao Congresso Internacional de Hydrologia e Climatologia, no anuo de 1886 (vide pag. 337) : «... l.°A atmosphera marítima determina em geral phenomenos de excitação que se traduzem : (a) por augmento do numero das respirações ; (b) acceleração e plenitude do pulso ; (c) elevação da temperatura do corpo ; (d) superactividade das secreções cutaneas, nasal, pliaryngeana e buccal; (e) exaltação das funcções digestivas; (f) excitabilidade do systenia nervoso. Estes eífeitos pliysiologicos e muitas vezes primitivos do ar do mar, ten- dem habitualmente a se accentuar, e d’ahi provém a crise aerotherapica ma- rítima, isto pôde não ter logar, si se dá a morada á borda do mar. A estes phenomenos de acceleração succede uma defervescencia. 2.° Da composição do ar marítimo, de seus eífeitos excitantes, hemato- poeicos, resulta uma influencia liygienica e uma acção therapeutica. A in- fluencia hygienica é prophylactica e modificadora do lymphatismo. A acção therapeutica é medicatriz, e até curativa da escrófula, de certas fôrmas de chlo- rose e algumas anemias, e condicionalmente de certas affeçções torpidas e chronicasdas vias respiratórias.» II. Agua do mar A composição chimica da agua da nossa bahia, feita na Casa da Moeda Jelo chimico Sr. Máximo Furtado de Mendonça, em 1880 e que extrahimos a these inaugural do Dr. Antonio Pimentel, ó a seguinte: Densidade 1,026 Residuo em um litro 37,7 Chloro 19,540 Acido sulfurieo 2,773 Cálcio 9,507 Ferro traços. Magnesium 1,414 Sodium 11,147 Potassium 0,600 Acido carbonico 0,195 Acido phosphorico traços. Siliça 0,002 Bromo pequena quantidade. Da analyse de Guignet e Telles, publicada no Journal de Pharmacie et de Chimie ( Tomo25— 1877 pag. 187),'a agua da bahia do Rio de Janeiro encerra constantemente siliça e alumina em quantidades relativamente consideráveis. Encontraram esses autores 9,sr- 5 de siliça e 7,sr-5 de alumina por metro cubico. Esta agua possue uma reacção positivamente alcalina, que lhe parece devida á presença da soda e da potassa em estado de si Uca to. Que a siliça e alumina provêm da decomposição das rochas de gneiss e de granito constantemente batidas pelas aguas da bahia sob a influencia de uma temperatura quasi sempre comprehendida entre 20° a 30° e que a bahia, não se communicando com o oceano sinão por uma embocadura de um kilometro de abertura sobre 50m de profundidade, comprehende-se pois que os silicatos e os aluminatos alcalinos possam se accumular em quantidade relativamente considerável nesta especie de mediterrâneo. Comparando estas analyses com as differentes e conhecidas feitas no Oceano Atlântico, Pacifico e no Mediterrâneo, principalmente depois da consulta do monumental trabalho do notável chimico W. Dittmar, publicado no Io volume do Report on the Scientific results of the voi/age of H. M. Scip . Challenger; vemos que a agua da nossa bahia, desta parte do Oceano Atlântico Meridional, é mais ou menos idêntica á do Oceano Atlântico Septentrional e r ssim os seus componentes chimicos devem actuar do mesmo modo sobre a economia animil. A temperatura da agua não é muito variavel : segundo E. Liais ( Climats, géologie, faune etc. du Brêsil, 1872 pags. 572-596 ) « pouco muda do dia para a noite » e nas costas do Brazil, a partir de Pernambuco para o sul escapa completamente á influencia da corrente refrigerante que percorre ao longo da costa Norte do Império, também escapa em alto grau á influencia das aguas quentes das regiões vizinhas do Equador, na parte meridional desta corrente e que se dirigem para o Sul; porquanto essas aguas tendem a tomar ao mesmo tempo um movimento apparente para Este. Esta circumstancia attenua consideravelmente o effeito modificador sobre a temperatura, porque então as correntes costeiras, dirigindo-se do Norte para o Sul, e observadas nas costas do Brazil, acham-se entretidas ao mesmo tempo por aguas superíiciaes vindas do Sul, e isto torna quasi nulla a sua acção sobre o calor da costa, como prova o accôrdo de sua temperatura com a minha formula, a qual, estabelecida sobre o conjuncto de todas as observa- ções feitas sobre o globo nos dois hemispherios, representa o estado médio ou normal para cada latitude ». O distincto Director do Observatório do Rio de Janeiro, ao quesito que apresentámos nesse sentido, depois de outras considerações assim conclue: « Parece todavia certo que a influencia da corrente que se dirige parallela- mente á costa da America do Sul, deve ter sobre as temperaturas desta costa menos influencia do que a corrente da Guyana sobre as costas do Norte.» Com esses documentos, isto é, com os estudos feitos sobre o ar, sua tem- peratura, pressão, pureza, etc. ; com o que sabemos da composição da agua, temperatura, os ventos das costas, etc. etc., poderemos sem hesitação con- cluir que no Rio de Janeiro existem elementos para se fazer a therapeutica marítima ? Podemos responder em geral pela aííirmativa; mas convém atten- der-se a certas condições, estas são as que dizem respeito á escolha da praia. As praias geralmente aproveitadas para banhos, empiricamente aconselha- das, taes como a do Cajú, Boqueirão do Passeio, Santa Luzia, Gloria, Russel, Flamengo, da Saudade, Paquetá, Iearahy etc., não estão completamente em condições desejáveis para um estabelecimente da ordem dos que nos occupa- mos. Elias poderão servir apenas para banhos de immersão, antes de recreio, como vamos dizer. A bahia do Rio de Janeiro, a admiração de todos os navegantes, tem merecido bellissimos trabalhos, descripções poéticas. A seu respeito o Dr. José Maria Velho da Silva escreveu no seu poema Dirceu, a? seguintes estrophes que reproduzo: « Guanabara gentil, formosa e bella, Remanso côr de anil, de alvas espumas, Lago de fadas, leito perfumado, Onde o meu pátrio Rio se espreguiça ; As Fadas lhe abençoa: abre a entrada A’ sciencia, ao commercio, â industria, ás artes, Seja o meu Rio o emporio do Universo. » 0 Dr. Fausto de Souza disse: « Ha um ponto no Universo, onde a mão do Creador parece haver-se esmerado em reunir o maior numero de bellezas, accumulando nelle tudo o que póde encantar os olhos e arrebatar o espirito. E’ a bahia do Rio de Janeiro... » E assim outros tantos. Mas as suas bellezas e vantagens são por sua situação geographica, pelo seu exeellente ancoradouro, pelo magestoso d i natureza em summa ; entre- tanto deverão divergir as opiniões quanto ás suas qualidades, que, creio, não poderão ser as que desejarão os hygienistas para os estabelecimentos marí- timos de que nos occupamos. Eis as razões em que nos baseamos: I. A composição chimica da agua embora quasi igual, como já dissemos, â dos outros portos do Oceano Atlântico, é a de agua retirada no meio da bahia e não a das praias, onde se encontra grande quantidade de substancias organicas, nocivas e que são lançadas pelas marés ás prai is. II. Estas matérias são as que vem da cidade e as que são lançadas dos navios surtos no porto, que não são convenientemente removidas. III. O fundo de nossa bahia (Borja Castro, Pimentel, etc.) é coberto de uma grande camada de vasa ou lodo, cuja espessura varia em diferentes lo- gares. IV. Na bahia desaguam diversos rios que provêm de logares insalubres, pantanosos, etc. e mais os líquidos e detritos dos esgotos. Si em algumas praiis como as do Flamengo, Russell, as marés são mais agitadas e as matérias de que falíamos não se conservam por muito tempo, devemos recordar, que ahi nessas praias recebe-se a influencia maléfica das casas das machinas dos esgotos da City Improvements, que é o mesmo que se observa nas praias de Botafogo e da Saudade. V. Também se deve attender á influencia dos ventos. Assim, por exem- plo, a praia do Cajú, que é muito procurada para banhos, não só é logar de accumulação das algas, cmio também directamente recebe a influencia dos pantanos, cujos microbios podem ser trazidos pelos ventos de Noroeste. Como se sabe é na parte Norte da bahia, em reliçãoá cidade, que acham-se os terrenos pantanosos da província do Rio de Janeiro, que nada têm melhorado, achando-se nas mesmas condições do tempo em que foram observadas essas causas de morbidade por Sigaud, Borel de Ronciére e outros, médicos brazileiroie estrangeiros, que fizeram estudos nesta cidade. Ora, diante destas razões e ainda mais, pelos inconvenientes do grande numero de habitações próximas ás praias, onde se dão agglomerações de :ndi- viduos, etc. etc., nessas differentes praias que citei, dentro da bahia, não encontram-se as condições favoráveis para a fundação de um Hospício marí- timo, onde se tem de fazer não só o tratamento curativo, como também o tratamento prophylactico da escrófula e do rachitismo. Entretanto possuímos uma localidade magnifica para esse fim, que não tem sido convenientemente apreciada e a que, na phrase do Dr. Antonio Pi- mentel: «está provavelmente destinado um grandioso futuro, que depende sómente do esforço, boa vontade, de modo a ser devidamente aproveitada a salubridade que tem, ao lado da esplendida vista que se goza daquella praia »... Refiro-me a Copacabana, chamada pelos indios Sacopenopan. Repito, não tem sido devidamente apreciada esta localidade, quando entretanto algumas pessoas se têm aproveitado dos banhos da exeellente praia, fazendo uma verdadeira cura marítima; porquanto, em razão da dis- tancia e da falta de conducções, são obrigados a ahi fazer uma estação, passando algum tempo e não soffrendo assim os inconvenientes que já apon- támos dos banhos de mar em outras praias. A Copacabma ó um logar perfeitamente adequado aos hospícios mari- tei. Não muito distante dos logares habitados, está todavia isenta das causas de infecção. A sua situ ição geographica é a seguinte: está collocada na parte Sul da cidade, a entrada do porto; limitada ao Norte pelos morros do Leme, Baby- lonia, S. João, Saudade, e áo Sul pelo de Cantagallo, que a isola da Lagoa de Rodr igo de Freitas ; está fóra da barra, portanto fóra da bahia e recebe dire- ctamente o ar do Oceano, que a torna muito salubre ; não tem cs inconve- nientes da bahia, que écircumdada por montanhas altas que tornam a entrada do porto estreita, sendo dedous kilometros apenas de S. João a Santa Cruz, por onde entram os ventos. Como disse, recebe directamente os ventos do mar, que são sempre mais frescos e não recebe os de terra, que são mais quentes, em consequência de sua situação, isto é, por causa das montanhas que a separam dos bairros de Botifogo e Jardim Botânico. O terreno é ainda quasi primitivo, perfeitamente arenoso, mas em alguns pontos se observa a sua fertilidade, havendo plantação de legumes, que constitue um commercio para alguns pequenos cultivadores. Segundo informações bondosamente prestadas pelo professor de botanica da Faculdade, o Sr. Dr. J. Pizarro, a sua flora nada. tem de especial ; abundam alli as myrtacease algumas melastomaceas e não vio genero algum proprio dos pantauos, que ahi não existem. Nota-se apenas na parte Norte dessa localidade, perto do Morro do Leme, um terreno baixo, não aterrado, nem nivelaJo, que com as chuvas e aguas vindas das montanhas, ás vezes encharca e forma como que um pantano accidental, que facilmente póde ser saneado. Ha actualmente poucas habitações na Copacabana, e a quasi totalidade dos terrenos não editicados pertence a dous únicos proprietários, os Srs. Du- vivier e Barão de Ipanema, e portanto mais facil a sua acquisição. A parte que julgo mais adequada ao estabelecimento do Hospício é a do lado Sul, na falda do morro Cantagallo, em frente ao promontorio onde está collocada a chamada Igrejinha. Neste ponto da Copacabana o morro Cantagallo separa-a da Lagôa Ro- drigo de Freitas, de onde porventura poderiam vir effluvius palustres, e ao mesmo tempo flcaria o edificio projectado protegido da maior intensidade dos ventos de Sudoeste, e dessas caudas dos pampeirc.s, que sopram ás margens do Prata e que vem acabar a algumas milhas adiante das grandes montanhas das costas do Rio de Janeiro (Mouchez, E. Liais, Bourel, Roncière). O Dr. L. Cruls é do mesmo modo de pensar. Em conclusão, a Copacabana é o logar mais apropriado para os hos- pícios de que trato. Vejamos agora como devem ser feitos estes hospícios. Não tenho necessidade de entrar em minudencias acerca da historia desses estabelecimentos, que encontrareis perfeitamente desmpta por Van- Merris, e Cazin em suas obras premiadas. (Cazin — De Vinfluence des bains de mer sur la scrofule des enfants, Paris, Asselin et Houzeau. 1885 — 1 vol. in-8°. Van-Merris — La scrofule et les bains demer... Paris, Libr. J. B. Bailliere et fi/s— 1886 — 1 vol. in-8°) e ainda recentemente na memória do Dr. Armaingaud (de Bordeaux) publicada na Bevue d'Hygióne — 1887, pag. 104v)etc., e em vários artigos dispersos em Congressos de Hygiene, Revistas, Jornaes, etc. Destes trabalhos ficamos conhecendo, primeiro: que na Europa cuida-se seriamente da elev ida questão de saude das crianças e que alli a philan- thropia é sinceramente exercida. Com effeito, na Italia especialmente, até o anno passado, existiam estabelecidos 22 hospícios. Em França, além do notável estabelecimento de Berck-sur-mer, foram fundados outros em Nice, Cannes, Arcachon, Ban- guls-sur-mer e na península de Peu-Brom. A Inglaterra, que foi onde se estabeleceu o primeiro hospicio maritimo, em Margate, ainda tem mais dous. A Áustria possue um em Grado, a Hollanda em Zandurort, Schevemigen Wykan-zee; a Dinamarca, em Reinacs ; a Allemanha, em Kolberg, Nor- derneg, Wyk, Grass-Munitz, Zapport ; a Bélgica em Wenduque, Middel- kelke ; a Rússia em Dranien-Cauns ; a America do Norte, o Childrens-sea- shore House; em Montevidéo também foi aberto um, mas durou só cinco annos, sendo applicado o ediricio para outro fim. Grande numero desses hospícios foi fundado à custa da caridade}parti- cular, sendo com muito pouco auxiliados pelos governos. K’ enorme a cifra das crianças curadas, melhoradas e das que a moléstia estacionou nesses asylos. E por que não conseguiremos o mesmo entre nós ? Por que não produzirá este Congresso ao menos esta obra meritória? Barellai. o fundador dos ospizii marini, conseguiu do Congresso Inter- nacional de Florença a seguinte ordem do dia, proposta por Fernando Colleti. « O Congresso medico internacional de Florença, convencido da efflcaeia dos hospicios marítimos, faz votos pela prosperidade e desenvolvimento pro- gressivo desta preciosa e philantropicx instituiçãoz» (Vide—Congrès me- dicai de \toutes les nations— 2 ême séssion de 1869 à Florence Boulogne. imprim. de J. Mouti 1870 — 1 vol. in-8° — pag. 343.) Dous annos depois, no Congresso de Roma (vide op. cit.) foi approvado o seguinte voto : felicitar e encorajar o illustre fundador dos Hospicios marítimos. Em 1873 no Congresso de Vienna, Barellai, recebeu as homenagens de todos os sábios da Europa alli reunidos. E por que não teremos também um outro Barellai ? Nestas obras que indicamos de Cazin e Van-Merris vereis os desenhos dos differentes hospicios, as plantas, etc., mappas, estatisticas. etc. que não ha necessidade de reproduzir aqui. Apenas vos peço permissão de apresentar uma planta, que devo á gentileza do benemerito cidadão e notável archi- tecto Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, a quem rendo neste momento as mais sinceras homenagens, tributo profundo reconhecimento e julgo inter- pretar completamente os sentimentos da Sociedade de Medicina e de Ci- rurgu tornando também seus os meus sentimentos. (*) Do Regimen III.— Já tendo faliado do ar ede agua entretenhamo-nos agora com o regímen, de aecôrdo com a ordem que adoptámos. O regímen só poderá ser observado rigorosamente, como é necessário, para o tratamento marítimo dos escrofulosos e rachiticos, em um estabele- cimento apropriado, em um hospicio. O tratamento em domicilio das crianças pobres é inútil; mesmo os filhos de pessoas ricas, que não residirem em uma praia, como a que julguei a mais adequada aos hospicios, não poderão seguir um tratamento methodico. O tratamento é hygienico e therapeutico. E’ hygienico quando se procura premunir as manifestações da escrofulose ou rachitismo, reveladas na pri- meira pelo estado claramente lympliatico da criança, manifestando-se ade- nopathias, angioleucites, conjunctivites chronicas, otorrhéas, etc.; nos se- gundos por dentição e andar tardios etc. Ora esses estados real- mente se modificam beneficamente, com os banhos salgados, mesmo irregularmente usados como se pratica entre nós, mas ainda assim essas vantagens auferirão sómente crianças de famílias menos necessitadas, para as (*) Essa planta não podendo ser aqui reproduzida encontra-se na secretaria da Sociedade de Medicina. Cirurgia. quaes a vida não é cheia de privação como a dos pobres, para as quaes es- pecialmente julgo deverem ser destinados esses hospícios. Para estes comprehendeis a importância de um estabelecimento onde se obtenha o ar puro e ozonado do mar, a sua agua, com todas as suas vir- tudes tónicas e reconstituintes, os cliloruretos, os phosphatos, o acido carbonico, etc., o seu uso em horas convenientes, e não nas que são de commodidade dos pais e nas praias insalubres de que falíamos. A alimentação nos hospicios é a mais apropriada e feita sob um regimen sempre igual, o que não podem ter as crianças pobres em suas casas. Além disso outros meios são associados ao tratamento hydrotherapico, a gynnastica, a massagem em alguns casos de rachitismo, a electricidade e mesmo a medicação interna. A este respeito vem a proposito tratar dos systemas chamados francez e italiano. Consta o systema francez da permanência dos doentinhos no hospicio, até. a obtenção da melhora ou cura, e o systema italiano, do estado tempo- rário de 45 dias. Na Europa comprehendo que se tenha em consideração o periodo estacionário, porque as temperaturas do verão e inverno são ex- tremas, mas em nosso paiz o mesmo não se observa. Em França, por exemplo, a temperatura média no verão, no mar, é de de 17°, 6 cent. e no inverno 3o, 2 cent; no Rio de Janeiro a temperatura média no inverno é de 22°; assim pois, julgo que aqui o systema a seguir deve ser o francez. A therapeutica marítima encontra algumas contra-indicações que se deve ter em muita consideração; Julio Simon (vide—Conferences thèrapeutiques et cliniques sur la maladie des enfanfs. Tomo II Paris 1887 pag. 342) apre- senta as seguintes «idade abaixo de tres annos, nervosismo, irritabilidade cerebral, cerebro espinhal, nevropathia, hysteria, epilepsia, choréa no pe- riodo agudo ; rheumatismo articular, muscular, synovial; moléstia do co- ração, do pericárdio, aífecções cutaneas, dermatoses, mesmo as escrofulides, moléstias dos olhos, dos ouvidos, susceptibilidado da mucosa, das vias respi- ratórias, bronchite asthmatica (ha muito raras excepções no que toca ás mo- léstias das vias respiratórias) ; albuminúria aguda, chronica, moléstia de Bright, nephrite calculosa ; aífecções organicas de todo o genero, câncer, tubérculos etc., e geralmente todas as moléstias agudas e febris.» Creio que constituam contra-indicações para os banhos frios todas as moléstias em as quaes o systema nervoso é super-excitavel e já externei esse modo de pensar, quando expuz a opinião de G. Thermes, que partilho, sobre a acção physiologica e therapeutica marítima, etc., mas não me parece que no Rio de Janeiro, ao menos, a acção sómente aerotherapica possa acar- retar inconvenientes para a criança, a não ser nas aífecções cardíacas onde a diíferença de pressão atmospherica influe sobre a circulação. Do que deixei dito, posso apresentar as seguintes conclusões: 1. — E’ grande a mortalidade das crianças no Rio de Janeiro e muito concorrem para o crescido numero de moléstias dyscrasicas e a graviJade do prognostico — a escrofulose e o rachitismo. 2. — A escrofulose e o rachitismo são moléstias devidas a um vicio de nutrição, que tornam o organismo das crianças em verdadeiro estado de miséria e para levantal-o é a therapeutica marítima (atmosphera e agua do mar) a mais conveniente. 3. — A therapeutica marítima não póde ser convenientemente feita só com os banhos de mar, segundo se usa entre nós, sem methodo, sem regimen, sem escolha da praia, e portanto torna-se necessário o estabelecimento de hospicios idênticos aos que existem em França e na Italia. 4. — A medicação marítima não é só curativa de mal existente, é também preventiva, verdadeiramente prophylactica, desde que seja feita em os referidos hospicios; sendo conveniente entre nós o methodo francez, isto é, com a demora das crianças nos estabelecimentos e não 45 dias sómente como se pratica na Italia. 5. — Pelos estudos comparativos da atmosphera marítima e da agua do mar nesta cidade, o tratamento póde ser feito como na Europa e ainda melhor, porque não temos no Rio de Janeiro as temperaturas extremas de 200 verão e inverno da Europa, sendo que a temperatura extrema do nosso inverno ó muito superior á média do verão na Europa. 6. Em relação á escolha da praia, julgo a Copacabana, actualmente, a melhor localidade para os hospicios. 7. — As contra-indicações do uso da therapeutica marítima são as moléstias do systema nervoso, que não supportam a excitabilidade provocada pelo ar e agua do mar; bem como as do apparelho circulatório ( lesões valvu- lares, etc.). 8. — O Congresso deverá iniciar a propaganda em favor da creação dos hospicios marítimos, por meio de conferencias populares, escriptos em jornaes médicos e outros. 8a Sessão ordinaria Presidência do Sr. Conselheiro Catta Preta SUMMARIO. — Qual o melhor [processo da extraçção da cataracta — O phenato de sodio na febr9 amarella — Vaccinações prophylaticas da febre amarella — O salycilato de sodio na febre amarella— A curetagem nas moléstias do utero —A liysterectomia vaginal no Brazil — Sarcoma de cellulas redondas do antro de Hygmor — Cirurgia abdominal no Recife — O permanganato de potássio e o veneno ophidico — Diabetes— Encerramento do Congresso O SR. DR. MOURA BRAZIL lè : Qual o melhor processo da extracção da cataracta (1) O estudo de todos os processos da extraçção da cataracta não pôde caber nos exíguos limites deste trabalho. Portanto entrarei logo na analyse_ dos dous que se debatem na arena da sciencia — o de Graefe, chamado allemão, e o de Daviel, chamado francez. Já tive a honra de manifestar ao Congresso a minha opinião com relação a iridectomia na extraçção da cataracta, e de dizer que, com os recursos de que dispõe um especialista não lhe assiste mais o direito de praticar a iridectomia. Venho hoje dar os motivos que me levam a pensar deste modo. Quando em Abril 1875 o sabio professor de Wecker poz em pratica o seu processo da « extraçção a retalho sem iridectomia», disse que um dos motivos que o levavam a abandonar a iridectomia era que, exercendo a clinica em um meio em que tanto se ama o bello, como Paris, tornava-se preciso que o cirurgião deixasse o orgão operado no melhor estado de perfeição possível. Com a elevação de espirito que o carecterisa, o grande mestre foi também grande propheta. A esthetica devia ter o seu logar. Motivos porém mais poderosos, si ó possível, devem pesar ainda, no espirito do pratico para abandonar a iridectomia. A conservação do iris intacto ó uma garantia para o bom resultado da operação. Na extraçção da cataracta sem o involucro ficam em regra restos de massas corticaes no campo pupillar, e a mais importante razão que os adeptos do processo de Graefe pódem articular contra a extraçção sem iridectomia é a ditficuldade que o iris intacto oppõe á sahida dos detrictosda cataracta. E’ exacto. Mas um pouco de paciência e habilidade.da parte do operador e podem conjurar perfeitamente essa pequena difflculdade. No processo da extraçção com iridectomia, em muitos e muitos casos ficam também restos de massas corticaes, que com os fragmentos da capsula poem-se em contacto com a ferida corneo-esclerotical ou corneai (se o retalho é feito simplesmente na cornea ), descoberta pela secção do iris actuam onde necessariamente como corpos extranhos ; e todos comprehendem bem qual deve ser a consequência —irritação, inflamação dos lábios da ferida e propa- gação desta ao iris, ao corpo ciliar — irido-cyclite e perda do olho, ou, quando se tenha a felicidade de combatel-a, a visão ficará muito compromettida. Não sendo, porém, feita a iridectomia, depois de limpo completamente o campo pupillar dos restos das massas corticaes (o que ó perfeitamente possi- (1) Este trabalho foi corrigido pessoalmente pelo autor. (N. de R.) vel, como provo com os doentes que tenho a honra de apresentar ao Congresso, alguns dos quaes tendo sido operados ha poucos dias podem bem attestar o que acabo de dizer ), o iris recolhe-se muitas vezes à sua posiçãç normal na camara anterior ; basta para isso uma pequena e facil manobra do operador e quando isso não se dá espontaneamente, por meio da espatula de Wecker é esse movimento provocado, de sorte que nenhuma parte do diaphragma iriano fique preso entre os lábios da incisão. Deste modo a ferida, bem abrigada do contacto das massas corticaes e da capsula, cicatrisa mais rapida e regularmente. Devo dizer já aos senhores que é á confiança illimitada na acção bené- fica dessa protecção offerecida pelo iris à ferida, que eu facilito immensa- mente o tratamento dos meus operados, de quem exijo apenas tres horas de quietação absoluta no leito, retirando-lhes o apparelho no dia seguinte, em muitos casos. Só esse facto é de grande valor, e distancia de muito a extrac- ção sem iridectomia, da que se proceda com a mutilação desnecessária do iris. E’ accusado o processo de extracção sem iridectomia de ser mais difficil de execução do que o processo allemão. E’ exacto, senhores, o iris offerece à sahida da cataracta uma pequena difficuldade, note-se bem, em alguns casos. Mas essa razão não tem valor porque nem sempre o iris crea embaraços á passagem da cataracta, pois se acha em regra em prolapso, deixando uma larga porta aberta, como si houvesse sido feita uma vasta iridectomia. Em virtude deste facto, si a incisão cornea esclerotical têm as dimensões necessárias, si a difficuldade não fôr offericida pela insufficiencia do retalho, o cristallino sahe com a mesma facilidade e rapidez que no processo de Graefe, por melhor que seja este executado. A pequena difficuldade proveniente da technica do processo deve ser vencida pelo operador, desde que mereça com justiça esse qualificativo; e neste caso não poderá, com applausos, preferir um processo que lhe seja mais facil, havendo outro que seja mais util ao paciente. Si não fosse assim, si lhe fosse permittido opinar pelo mais facil, deveria praticar sempre a extracção com iridectomia pela parte inferior da cornea, processo apenas recommendado pelos mestres aos noviços para sua estréa. Sei bem que este processo condemnado esteve muito em voga no Rio de Janeiro, atê bem pouco tempo, e ahi estão as infelizes victimas para attes- tarem esta verdade. Os que têm visto executar a extracção sem iridectomia, assim como os que a executam, e estes são já numerosissimos, sabem perfeitamente que não é preciso grande somma de habilidade para fazer passar uma cataracta sobre o iris, tapetando o labio superior da incisão, sem contundir esta mem- brana. E’ ainda accusado o processo que defendo e que tenho a felicidade de adoptar desde 1875, de predispor aos encravamentos do iris. Os illustrados collegas que fazem parte deste Congresso ouviram o Sr. Dr. Hilário dizer que é impossivel evitar a adherencia do iris á ferida, não sendo feita a iridectomia. Felizmente, senhores, não me é difficil contestar cabalmente essa asserção insustentável, e levar ao vosso espirito a mais profunda convicção de quanto ella encerra de real. Basta para isso apresentar-vos doentes operados por mim e por distinctos collegas desta Corte. Destes doentes alguns foram operados ha muito tempo, outros foram ha dias apenas (quatro e nove). Sobretudo nos dous últimos os illustres collegas podem verificar que o iris não tornou-se um obstáculo á limpeza do campo pupillar dos restos de massas corticaes, a sahida foi completa, pois si alguma parte delias tivesse ficado estariaJioje bem patente. Lamento não ter tido tempo de reunir maior numero de operados, nos quaes pudessem os senhores, pela inspecção própria, convencer-se de que faz-se a extracção da cataracta sem iridectomia não ficando a mais pequena parte do iris adherente à cicatriz. A minha observação é já de muitos casos. 0 Sr. Dr Hilário esqueceu-se de que a cocaina veiu resolver uma das ma is justificadas aspirações da cirurgia ocular — a conservação do iris intacto na extracção da cutaracta, conciliando assim a esthetica com as melhores van- tagens para a-visão. A natureza, sempre sabia e previdente, quando fez a pupilla redonda, foi porque viu nisso utilidade para o indivíduo, e é dever do cirurgião conservar um orgão, qualquer que elle seja, sempre que lhe fór possível. Pôde dar-se neste processo o encravamento do iris ; eu o tenho obser- vado muitas vezes na minha pratica; porém não é mais frequente do que no processo com iridectomia, como provam as estatísticas dos'professores Schwei- ger, Wecker, Knapp, Panas, Galezowski e outros ; e ainda quando uma pequena adherencia se dê, não tem a minima importância, como hei visto muitos casos, e os senhores podem verificar no distincto offlcial de marinha que se acha presente. No processo de Graefe o encravamento do iris nos ângulos da ferida é bem frequente, quasi sempre inevitável quando ha perda do corpo vitreo. Mas, si não é exaggerado, não determina a menor irritação, não deixando de ser por isso um inconveniente, que o operador deve sempre procurar evitar. Esse inconveniente não é de grande valor com relação ao encravamento da capsula, que se póde dar no processo de Graefe, como bem estudou e magistral- mente demonstrou Horner, e que é sempre evitado no processo sem iride— ctr mia. A extracção da capsula anterior proposta por Wecker em 1871, por Arlt e Colsman em 1874, por Fõrster ha seis annos, poderia evitar esse grave accidente, si fosse extrahida toda a cristalloide anterior ; mas é justamente a parte superior desta tenue membrana que, mesmo nas manobras melhor executadas e por sua completa transparência, fica muitas vezes entre os lábios da incisão. O professor Abadie em um trabalho sobre os encrava- mentos irianos e capsulares consecutivos à extracção da cataracta com iridectomia publicado nos Annaes do Oculistica de 1886, pag. 128, diz: « Póde acontecer que os bordos da secção iriana sejam recalcados pouco a pouco pelo humor aquoso e venham se collocar entre os lábios da ferida. «O que se deve então se fazer ? « Algumas vezes naia ; vemos muitas vezes um, mesmo os dous ângulos dosphincter iriano presos entre os lábios da ferida, o que dá á pupilla uma forma semilunar, sem que resulte disso o menor inconveniente. Um pro- lapso attingindo o tamanho de uma pequena cabeça de alfinete e dando logar mais tarde a uma cicatriz cystoide, póde mesmo se produzir sem que sobrevenha a menor reacção ; mas não é sempre assim. Depois de quatro, cinco e seis, algumas vezes oito dias passados sem a menor inflammação postoperatoria, quando a cura parecia completamente certa, o olho operado, que pouco a pouco tomava o seu aspecto normal, começa a tornar-se de novo vermelho. » Na pagina 131 daquelles annaes, diz o mesmo oculista : « Existe muitas vezes uma desproporção notável entre a intensidade dessas dores, que nada póde calmar, nem sulfato de quinina, nem preparações opiadas, e os phenomenos inflammatorios que são muito pouco notados. « E’ mesmo isso que constitue um signal quasi pathognomonico dos en- cravamentos capsulares. « Depois pouco a pouco a irritação ocular augmenta. A cornea, o humor aquoso e os meios mais profundos perdem a sua transparência, a visão di- minuo proporcionalmente à desorganisação das membranas profundas, o olho fica durante muito tempo extremamente doloroso e termina por se perder. Emfim, em alguns casos, raros a meu ver, a que não se tem referido certos autores, pódem sobrevir verdadeiros accidentes sympathicos, que im- põem a enucleação do olho. « Terminando este trabalho preparado ha algum tempo, diz ainda o mesmo autor, seja-me permittido fazer algumas reflexões. As complicações de que acabo de me occupar são inherentes á extracção da cataracta com iride- ctomia ; ora minha convicção absoluta é que esso processo operatorio será 204 d’aqui em diante cada vez menos empregado, e reservado sómente ás cataraetas complicadas. » Senhores, nenhuma opinião è mais autorisadado que a do sabio professor Abadie, e devojã dizer-vos que. grande numero de celebres mestres, dos maiores vultos da ophtalomlogia na Europa e nos Estados Unidos, pensa do mesmo modo: —Os Srs. de Wecker, Schweiger, Panas, Galezowski, Masselon, Knapp, Burnett Buli e quasi todos os outros especialistas na França, jade lia muito colloearam as tesouras e pinças de iridectomia no museu historico de ophtalmologia, tratando-se da extracção de cataraetas simples. Ouçam o que diz o professor Schweiger, de Berlim : Lie Ràckkehr zum Lappenschn.it — A volta ao methodo a retalho (Archiv fur Augenheilhunde, t. XVIII, fase. 2°, dezembro de 1887). O sabio professor fez um estudo comparativo do methodo de Graefe e do processo aratalho, e mostrando-se partidário convicto deste ultimo, condemna do processo de Graefe ató os instrumentos. Ao menos eu, senhores, ainda me sirvo da faca do sabio allemão. Com relação aos resultados opticos, diz o professor Galezowski (1): « Com a conservação da forma redonda e regular da pupilla damos mais clareza á agudeza visual. O astigmatismo que eu vi em nove casos sobre dez operados na extracção da cataracta com iridectomia, não vejo agora no processo sem iridectomia sinão uma vez em oitenta casos. A differença ó bem notável. A entrada triumphal da cocaina na cirurgia ocular traçou o caminho relativamente rápido do occaso da extracção combinada, e o Sr. Dr. Warlo- mont, em um importante artigo intitulado Extracção da cataracta e vinte cinco annos de sua historia, publicado nos Annaes de oculistica, pag. 12, 1886— diz— : Na maior parte das estatísticas felizes me tenho servido do processo do Dr. Graefe mas o modifiquei. E é assim que se tem verificado esse horoscopo, dirigido pelo Sr. Dr. Wecker, em um dos seus dias de pre- siencia : em pouco só restaria do processo l-near modificado... a faca. O processso do Dr. Graefe foi quasi uni versai mente seguido, portanto é natural que tenha ainda muitos adeptos, sebretudo na Allemanhi, até mesmo por patriotismo, pois é intitulado processo allemão e talvez seja essa a razão mais poderosa para que tenha ainda tantos e tão notáveis sectários, como Becker, Sattler, Graefe, Leber, emfim todos os seus com- patriotas. O Sr. Dr. Hilário disse que o venerando mestre, professor de Wecker, um dos mais proeminentes vultos da opthalmologia, é ainda hoje sectário da iridectomia na extracção da cataracta : ha nisso alguma malicia ou engano, pois o contrario provam todas as suas estatísticas e numerosos trabalhos sobre extracção. De Wecker, que executando muitas e muitas vezes o seu processo sem iridectomia, com a habilidade de que tão magistralmente é dotado, obser- vando que a eserina era impotente para em todos os casos evitar o prolapso do iris e frequente adheroncia parcial, começou a praticar uma estreita iridectomia. Logo que tornou-se conhecido o emprego da cocaina, foi elle um dos primeiros a abandonar a mutilação desnecessária do irise poz-se á frente do importante movimento que se effectuou, cobrindo de glorias a memória de Daviel. O professor Galezowski, já em 1882, em uma communicação feita á So- ciedade de Cirurgia de Paris, tornou saliente a necessidade de abandonar o processo, chamado allemão, cie extracção de cataracta e voltar ao principio do processo francez de Daviel. Em uma memória sobre a escolha do methodo operatorio da cata- racta e meio de evitar as complicações, o notável professor diz : «Quanto a mim, depois de minhas tentativas de extracção, de cataracta simples a re- talho, reservei a excisão do iris a um numero de casos relativamente re- stricto. (i) Bullefn et memoiredela Societé Française d’ ophth, pag, 170.—1885. 205 « Hoje com os aperfeiçoamentos trazidos ao processo operatorio, assim como ao modo de curativo, cheguei a resultados de tal sorte satisfactorios, que creio poder atfirmar que este methodo pôde e deve ser Applicado, salvo muito raras exeepções, a quasi todas as variedades de cataracta. De Graefe collocava a sua incisão no limbo esclero-corneano, porque viu que as feridas da cornea de grande retalho eram seguidas de suppuração em 7 a 10 %. Mas o seu methodo, tão brilhante nos primeiros tempos e pondo ao abrigo de accidentes suppurativos os olhos operados de cataracta, predispunha, como sabeis, a complicações não menos graves de irido-cyclite, de prolapso do corpo vitreo, e mesmo a ophtalmias sympathicas. » A perda do corpo vitreo ó bem rara na extracção sem iridectomia. Muito poucas vezes temos em nossos oper idos accidentes de>ta ordem, e isso podem attestar os distinctos collegasque têm tido occasião de me auxiliar : os Srs. Drs. Guedes de Mello, Neves, Rodrigues e Barata . Agora, senhores, ouçam a eloquência das cifras, das estatísticas dos mestres da Europa e dos Estados-Unidos : O professor de Wecker, em 2.200 extracções com iridectomia, de 1875 a 1885, teve 0,77 0/o de perdas. Arlt, em uma serie de 1.075 extracções de ca- taractas, perdeu 5,67 % ( Graefe, — Sàmisch, Handbuch, vol. III, pag. 318, e Wecker Landolt). Rothmund, em 1.420 operações de cataracta, teve 4,8 % de insuccessos de 7,9 o/,, (Archiv, ofophtalm., vol. XIII, pag. 325— 1884). Knapp, em 1000 casos de extracção pelo methodo de Graefe, diversamente modificado, teve 6,3 % de perda total. O mesmo, em 100 extracções sem iridectomia, teve apenas um de perda, (Archiv. of ophtalmology, Março de 1888 ). O Sr. Charles Stedman Buli, de Nova-York, em 36 extracções sem iride- ctomia, não teve uma só suppuração e nem um caso de hérnia do iris. ( Societ. opht. Amer., New London, 1887). O professor Panas, em 460 extracções sem iridectomia, observou 5 % de encravamento do iris e apenas 0,4 % de perda de vista. De Wecker, em 484 extracções sem iridectomia, teve 0,82 °/0de perda. Galezowski, em 486 extracções sem iridectomia, teve : Successo completo 437 Irites, seguido de obstrucção pupillar 36 Hérnia do iris 25 Suppuração >* 5 que diz ter podido fazer parar pelo spray phenicaio. O professor Badal, de Bordeaux, em 360 extracções com iridectomia, teve 13 casos de insuccessos completos: 4%- A minha opinião não é sómente baseada no que dizem os mestres da Allemanha, França, Estados-Unidos, etc.: repousa também na observação própria de mais de mil operações de cataracta que tenho praticado. Para que, porém, possam os senhores fazer idéa exacta das vantageus da extracção sem iridectomia, limitar-me-hei a mencionar sómente as operações de ca- taracta feitas da época em que este processo pôde ser adoptado em gene- ralidade. Posso estabelecer bem a comparação, pois que, antes do emprego da cocaina na cirurgia ocular, pratiquei muitas e muitas vezes a extracção da cataracta pelo processo de Grmfe. Total das operações de cataractas feitas em doentes da clinica particular eda Policlinica Geral do Rio de Janeiro, do flm de Agosto de 1885 a Setembro de 1888— 332. (1) Bulletin ét mémoire de ie Sociétá Français e opht. láS7, pag. IOSj Extracção sem iridectomia 207 V = 1 93 V = V, 54 v - 7, 38 v - V. 8 v - ;a V = 7, 1 V = 7s 2 V = 7,0 1 V ainda não tomada 7 Extracção com capsula 2 Hérnia do iris 9 = 4,03 Pequena adherencia 14 = 6,70 Irites simples 11 = 5,03 Idem com atresia pupillar 5 = 2,08 Suppuração 0 Extracção com iridectomia 27 Suppuração 2 Discisão em cataractas congénitas e opacidades da capsula 99 Em vista, senhores, do que acabo de dizer e sobretudo das estatísticas mencionadas em que a melhor do processo de Grsefe é de 4 % de perda ou para a peior de processo sem mutilação do iris é de 0,88 °/0, póde-se hesitar em estabelecer a differença ? Um processo em que ha apenas 5 % de encravamento do iris (Panas) e 6,70 % ( na minha estatística ) pôde ser taxado de impraticável? Dos dous casos de suppuração, um foi de um indivíduo que soffria de amollecimento cerebral, de que morreu poucos dias depois da operação. O outro foi de um distincto magistrado que soffria de cataracta com- plicada, que, após diversas tentativas infructiferas, foi affectado o globo de panophthalmia. Não sou o unico, senhores, a praticar esse processo no Rio de Janeiro : de meu lado tenho eollegas muito distinctos e em maior numero — os Drs. Guedes de Mello, Paula Fonseca, Pires Ferreira, Neves da Rocha, etc. No numero dos meus operados sem iridectomia tenho alguns de mais de 82 annos e um de 90 ! Em todos o resultado foi brilhante, e a alguns a Providencia concede ainda o gozo do bem que lhes fiz. Total das extracções na clinica particular, do flm de Agosto de 1885 até hoje 197 Sem iridectomia 143 V = 1 em 71 v - >/. 34 v - 7, 25 v = 7 a 5 Com capsula 2 Não escolhidos os vidros 4 V ~ % 1 V = V,...r 143 Hérnia 3 Pequena adherencia 6 Irites simples. .* 8 Dita com atresia 2 Capsulatomias 34 Discisão 41 Com iridectomias 13 Suppuração 2 Irites •• 1 Total dos operados da cataracta na Policlinica Geral do Rio de Janeiro de flm de Agosto de 1885 a Setembro de 1888 135 Extracção sem iridectomia 64 V — 1 em 22 V = V, 20 V = V. 13 V =» V, 3 V —' % 1 v = v. ! v = 7io i V =» ainda não tomada 3 Houve hérnia do iris em 6 Pequena adherencia de iris com a cicatriz em 8 Irites simples.. 3 Dita com atresia pupillar • 3 Nenhum caso de suppuração. De alguns dos últimos operados a visão não foi tomada ainda. Operados por outros processos de extracção ( cataratas complicadas) e discisão (cataractas congénitas e opacidades da capsula). Em dous dos operados que tenho a honra de apresentar aos illustrados collegas, a extracção da cataracta foi feita na capsula, só pelo pressão sobre o globo, sem auxilio da colherinha ; pela regularidade da pupilla e ausência completa de adherencia do iris a cicatriz pode-se adquirir a certeza de qne não houve a mais pequena perda de humor vitreo. Nestes dous casos todo o desideratum da cirurgia ocular relativamente á extracção foi completo — pupilla bem regular e campo pupillar de todo limpo. E’ este o ideal supremo da cirurgia ocular. O Sr. Pagenstecher tem empregado o maior esforço em generalisar o seu processo de extracção com a capsula, e ainda agora, em um excellente 'artigo publicado nos Archiv. far opthalmologie ( 1888, 2o fase. pag. 145), tornou bem patentes as vantagens dessa pratica. A conjunctiva é um viveiro de micro-organismos como bem demons- traram o professores Sattler e Gayet; faz-se portanto necessário que alguns dias antes da operação o paciente use- de collyrios anti-septicos, e que no momento mesmo de ser operado seja bem lavado o fundo do sacco con- junctival. Com a anti-sepeia rigorosa e um pouco de paciência da parte do ope- rador, para bem limpar a camara anterior, o processo da extracção sem iride- ctomia é, quanto a mim, o mais vantajoso e deve dar sempre bom re- sultado. Terminando, senhores, seja-me permittiçlo usar ainda das palavras do illustre Dr. Warlomont, no seu artigo spbre a Extracção da cataracta e 25 annos de sua historia : « Chegou o dia em que o successo de uma extracção de cataracta será simplesmente devido a dous factores : a anti- sepeia e a habilidade manual. Que termine o eclipse infligido aos manes de Daviel, cuja gloria, assim rejuvenecida, apparecerá mais radiosa. A de Grsefe não podia ser offendida : ella recebe raios de tantos outros focos ! E demais, si o methodo de Daviel toma, o que não me parece duvidoso, seu logar a titulo de methodo geral, não haverá ninguém para contestar ao illustre sabio allemão o mérito de ter illimitado as applicações, vindo collocar a seu lado novas columnas de sustentáculo. Graças a essa co- operação, a obra de Daviel tornou-se mais completa, mais lata e mais segura. » 0 Sr. Prof. Hilário de Gouvèa começa estranhando a nacionalisaçãodos processos de extracção da cataracta em processo francez e processo allemão, que não tem fundamento, e só servirá para perturbar a serenidade do juizo scientiflco com questões políticas de Maímswo, inteiramente descabidas ; outro sim estranha que se chame processo de Davielao processo de pequeno retalho sem iridectomia, que só tem de commum com o processo de Daviel não ser combinado com excisão da iris. A gloria immarcescivel de Daviel, que ninguém ainda contestou-lhe, vem do methodo operatorio, e nenhum cirurgião honrou mais a memória de Daviel do que A. v. Grcefe, que sómente em 1867 abandonou o processo de grande íetalho inferior, já bastante modificado, depois que encontrou outro melhor no seu processo chamado linear combinado, que então encontrou um unico adversário em nome da esthetica, não em França, onde, como em teda a parte, foi recebido o novo processo de braços abertos, e proclamado sem par em numerosas estatistisca ; mas no Prof. Hasner de Praga, em polemica histórica. (1) Só mais tarde, depois dos acontecimentos políticos que determinaram a guerra franco-allemão, reviveu em França a opposição de Hasner com os mesmos fundamentos, e mais o nativismo. Já disse, ha dias, perante este auditorio que o unico motivo de preferencia das extracções simples sobre as combinadas, allegado pelos cirurgiões mais competentes era a esthetica, o que prova que em regra a força visual não é melhor nas extracções simples, o que aliás se comprehende facilmente, visto que o coloboma resultante de excisão superior da iris ’é coberto pela pál- pebra correspondente. Não comprehende como pòcle a extracção simples garantir os resultados operatorios, como pretende o Sr. Dr. Moura, qumdo todos os cirurgiões estão de accordo que a iridectomia facilita muito as extracções e a limpeza do campo pupillar. O Sr. Dr. Moura basea sua preferencia pela extracção simples na opinião de alguns notáveis cirurgiões, e nos resultados que pretende ter obtido. O orador vae recorrer aos mesmos cirurgiões para mostrar ao congresso que elles estão muito longe de optimismo absoluto do Sr. Dr. Moura. No primeiro plano cita o Sr. de Wecker, mestre do Sr. Dr. Moura e ardente propagandista da extracção simples. O Sr. de Wecker, como já teve occasião de dizer, commette também algumas vezes o crime de combinar a extracção com excisão da iris, como se verá do seguinte to pico extra hido do seu Traité complet d' ophthalmo- logie, escripto em collaboração com o Sn Landolt (pag. 1015, vol. II., 1886): « Actualmente a anestesia local, a combinação da acção da ezerina d da (1) Vide: Anntiles d’Ooulistiquec Monatsblatt fner Àugenhéilkunde 18671 cocaina, o curativo pelo iodo for mio, fizeram de novo prevalecer na nossa cli- nica a extracção simples, porém adquiriu-se a convicção de que não se tratava aqui de uma questão de principio, e sim puramente pratica, e que devia-se reserkar cerca de 25 a 30 por cento das cataraCtas para a extracção com- binada, a saber: 1. Os indóceis e incapazes, por motivo de saude, de submetterem-se a repouso completo no leito, ao menos durante 48 horas. 2. Os operandos de cataractas ainda não de todo maduras, nos quaes se devem preverdifliculdades na limpeza pupillar.» O Prof. Schweigger (1), outro enthusiasta do processo de extracção simples, que de A. v. Graefe abandonou até a faca, que o Sr. Dr. Moura tem a generosidade de ainda empregar, confessa que a iris tem grande tendencia a lierniar e prescreve, como regra indispensável para reduzir o numero deste grave accidente — conservar o paciente no mais absoluto repouso durante tres dias, sem procurar examinar o olho operado (2). O Prof. Knapp (3) consigna na sua conscienciosa estatística dos seus cem primeiros casos de extracção simples, além de um por cento de perda total e immediata, 23 por cento de prolapsos e adherencias mais ou menos extensas da iris á cicatriz da cor.iea e deformação pupillar, 54 por cento de cataractas secundarias, que teve de operar antes de dar alta aos doentes, 20 por cento de irites ; e, a proposito da frequência das operações secundarias, gryphao seguinte : Apezar da ausência notável de productos inflammatorios, o espaço pupillar não estava claro como eu esperava, ainda que eu tivesse aberto amplamenle a capsula anterior. Este illustre cirurgião exprime-se sobre a extracção simples do modo seguinte em suas conclusões (Loc. cit. pag. 38): 1) Sua execução è mais difficil; 2) Os prolapsos da iris, como as synechias posteriores, são mais frequentes ; 3) A extracção simples exige maior repouso e docilidade dos doentes do que a extracção combinada ; 4) A extracção simples não pôde ser executada em todos os doentes, ao passo que a extracção combinada pôde ser generalisada. (Loc. cit. pag. 95). O Prof. Sattler (2), depois de uma experiencia de 26 extracções simples, exprimiu, na mesma sessão da sociedade ophthalmologica de Heidelberg, em Setembro do anno passado, em que fallou Schweigger, o seguinte conceito sobre a extracção simples : a) Favorece singularmente os prolapsos primitivos e secundários da iris ; (1) Bericht uebâr die 19 ts Versammlung der opth. Geselleschaft. September. Í887. (2) Die wichtigsfce Regei endlich fuer die Naçhbahandlung ist, dass man das’Auge ganz und gar nioht umsieht Sidd auf diese \Veise die- ersten drei Tage glucklich iiberstanãen, sokõnneo, etc. (Loc. cit. pag.) (3) Archiv f. Augeuheilkunde. B. XIX. I. 1888, pag. 30 210 b) Determina astigmatismo em maior grão de que a extracção combinada. Sattler diz ter sido muitas vezes obrigado a chloroformisàr os operados para excisar-lhes os prolapsos secundários da iris, visto não ser a cocaina sufficiente para, em taes condições, amortecer a dôr. O Sr. Eduardo Meyer, que, por influencia do meio, também experimentou o processo dos resultados tardios dos prolapsos da iris, obser- vados por elle em Paris, disse o seguinte na mesma celebre sessão da sociedade de Heidelberg (1) : «A experiencia mostra que taes pacientes, depois de mezes e muitas vezes de annos, voltam com inflammações deleterias consecutivas a esse accidente operatorio (prolapso da iris). Cumpre-me accentuar esse perigo, porque tenho tido occasião de observar que estas terríveis consequências têm singularmente augmentado nestes últimos annos, depois que na minha vizinhança (Paris) praticam quasi exclusivamente a extracção simples. Não só, coeteris paríbus, os operados pela extracção simples ou combinada têm a mesma força visual, como confessam que preferem o olho operado pela extracção combinada áquelle em que a pupilla conserva-se redonda. » ( Loc. cit, pag. 100). Como é, pois, que num congresso medico se vem dizer que hoje é um crime a iridectomia auxiliar da operação da cataracta; se apresenta uma estatística de 207 extracções simples com cento por cento de resultados com- pletos, quando se confessa uma perda de 10 % (!) na operação combinada ; como é que se diz que a extracção simples só exige tres horas de repouso absoluto e 48 horas de apparelho ? O orador já disse em outra sessão, e agora repete-o : A missão do cirurgião é obter a maior somma de resultados definitivos para o maior numero de operados, e ainda que se provasse, o que está longe de acontecer, que a extracção simples offerecia um certo numero de melhores resultados visuaes, desde que a extracção combinada, garantisse, como ga- rante, maior numero de resultados definitivos com a quota visual sufficiente para os trabalhos profissionaes dos operados, não pôde haver duvida na es- colha do cirurgião. Agora colloque-se cada collega presente por um momento nas condições do misero operando, que em geral não tem a minima idéa da esthetica pari- siense, e diga, com o conhecimento que tem dos dous processos operaterios, por qual delles quereria ser operado, se por um, que, produziado uma defor- mação pupillar invisivel nas condições naturaes, visto como fica o coloboma encoberto pela palpebra superior, dá, segundo o testemunho das maiores autoridades, resultado quasi certo ; se por outro— que, obedecendo aos pre- ceitos de esthetica, nem sempre póde conservar a pupilla redonda, reclama muitas vezes operações secundarias, algumas das quaes muito dolorosas ; e, o que é muito importante, frequentemente crea um damnum permanente, que póde anniquilar o resultado obtido, no fim de um ou mais annos? (i) Loc. cit. De tudo quanto ouvio durante a leitura do trabalho do Sr. Dr. Moura nada o impressionou tanto como a comparação das estatisticas dos dous pro- cessos operatorios. S. S. quer comparar os resultados estatísticos da operação combinada de um operador com os da extracção simples de outro, e, o que é mais, quer comparar estatisticas de épocas cirúrgicas inteiramente- di versas. Assim ó que quer comparar a edatistica de Arlt de 1869 a 1873 (publicada em 1874 no Handbuch der gesammten Augenheilkunde, pag. 318), e portanto muito anterior ao emprego da antisepcia nas operações oculares e á desco- berta da cocaina, com as mais modernas da extracção simples ; faz o mesmo com as dé Rothmund (1) de 1868 a 1882, comprehendendo 11 annos ante- riores á antisepsia, quando igualmente não se conhecia a anesthesia local; o mesmo com as de Knapp, de Wecker, etc. Este ultimo, autor do processo da extracção simples com pequeno reta- lho superior, baptisado com o nome de processo de Daviel pelo Sr. Dr. Moura, apresenta no seu já citado Traité d'ophthalmologie t. 2o, pag. 1083, os seguintes e eloquentes dados estatísticos : em 2200 (duas mil e duzentas) ex- tracções combinadas com iridectomia (praticadas de 1875 a 1885) 0,77 por cento de perdas completas e 3,32 por cento de insuccessos com esperança de readquirir a visão por uma operação secundaria ; ao passo que em 484 (qua- trocentos e oitenta e quatro) extracções simples, feitas no mesmo decennio : obteve 0,82 por cento de perdas completas e 5,94 por cento de insucces- sos, com esperança de vista por operação secundaria ! Não precisa fallar na sua estatística, cujos resultados na clinica da Facul- dade de Medicina são conhecidos pela publicação que delia fez na Revista dos Cursos Práticos e Theoricos da Faculdade desta Corte, nem tão pouco na de todos aquelles que com o orador praticam a operação combinada, pois é geral- mente sabido que a antisepcia, a cocaina e "a eserina reduziram as perdas a uma porcentagem minima, inferior a 1 %. Antes de terminar, o orador sente necessidade de declarar que não sabe a quem quer referir-se o Sr. Dr. Moura quando diz que o processo di extracção combinada com iridectomia in- ferior esteve muito em voga no Rio de Janeiro até bem pouco tempo. Ao orador com certeza não é, pois desde que aqui chegou, em 1869, opera pelo processo de v. Graefe, que em geral é feito por keratotomia superior, como é publico e notorio. A’ vista de tudo quanto tem observado e lido sobre a extracção simples, julga-se obrigado, já como professor, já como cirurgião, a continuar na pratica da extracção combinada, emquanto não apparecer processo melhor e mais seguro; e sem ser propheta, dirá que quem tiver mandado seus instrumentos de iridectomia para algum museu de antigualhas terá o trabalho de os ir buscar quando consultar melhor as estatisticas comparativas. (2) Arch. fur Augenheilk. XIII.B.IV. H. pag. 396. 212 O Sr. Dr. Moura. Brazil diz que não se serviu, para estudos compa- rativos, de estatísticas anteriores ao periodo anti-septico da cirurgia ocular. Algumas das do professor de Wecker, que não são muito recentes, refe- rem-se a operações, que gozarão do grande beneficio dos antisepticos, pois aquelle mestre já em 1873 não praticava uma operação sem primeiro lavar os instrumentos em agua quente e álcool. Àffirma que de Wecker pratica, como regra, a extracção da catarata sem iridectomia, e que sómente para os casos complicados, excepcionaes, acon- selha a mutilação do iris. Tendo fallado no processo de extracção inferior com iridectomia, o qual esteve muito em voga no Rio de Janeiro... não foi a sua intenção declinar o nome desse ou daquelle operador ; o Sr. Dr. Hilário, achando que a carapuça lhe convinha, collocou-o, pela sua declaração, na contingência de revelar que foi justamente S. S. um dos que praticara aquelle processo e cita Sr. senador Fausto de Aguiar, que ainda ha poucos dias foi visto pelo Sr. Dr. Guedes de Mello, que verificou ter S. Ex. o olho operado, por aquelle processo, quasi perdido, ao passo que do outro, operado sem iride- ctomia pelo orador, vê actualmente melhor do que nunca vira, segundo suas palavras (1). Terminando, pede licença ao Congresso para apresentar alguns operados, em que poderão comparar os resultados obtidos. O SR. DR. CARLOS GROSS lè : Do tratamento da febre amarella Apresentando a these — Lo tratamento da febre amarella — para ser dis- cutida neste Congresso, só tive em vista tornar conhecido de todos os nossos collegas — a titulo de contribuição para o estudo dessa pyrexia — as vanta- gens de um meio de tratamento que, se não constitue novidade, não deixa entretanto de ser pouco applicado. Direi desde já que refiro-me aos clysteres antisepticos. Não considero esse tratamento como especiíico, nunca tive coragem de tratar um enfermo dessa pyrexia, servindo-me unicamente de clysteres anti- septicos. Sempre achei que muito pouco se fazia submettendo-se o paciente a medicações puramente symptomaticas, sobretudo depois que os estudos dos nosso honrado compatriota, o Sr. Dr. Freire,vierão provar que a febre ama- rella é uma enfermidade de origem parasitaria. Evidentemente, no tratamento do typlio icteroide devemos procurar antes de tudo combater a infecção, impedindo o desenvolvimento e prolifera- ção do microbio. Se nas affecções ditas parasitarias, como otypho, a escarla- tina, a variola, a diphteria, a phtisica, etc., apezar de em algumas delias não se conhecer o microbio gerador, não se duvida de incluir-se no tratamento como parte principal e algumas vezes unica, o tratamento anti-septico, per- (i) Vide Boletins da Sociedade de medicina e cirurgia do Rio de Janeiro — Set. e Out. 1888. (N. da R.) gunto : Por que deixaremos de seguir o mesmo systema tratando-se da febre amarella, moléstia em cuja etiologia, hoje perfeitamente estudada, figura sem mais duvida o agente parasita, como tantas vezes tem provado o mesmo Sr. Dr. Freire e outros ? Na escala dos antisepticos procurei encontrar um agente, que, possuindo poder bastante de destruir ou paralysar a vida dos infinitamente pequenos, fosse também de facil applicação e de soberania perfeita. Um agente que, poupando os fermentos chimicos do organismo, impedisse o desenvolvimento dos fermentos organisados estaria neste caso. Foi de um derivado do acido phenico que tirei o medicamento, de que me louvo de ter aconselhado em mais de 60 casos nestes tres últimos annos. Disse que procurei um derivado do acido phenico, não me servindo antes dessa mesma substancia, pela razão de que, a par das grandes vantagens que dahi poderiam resultar, inconvenientes sérios poderiam também apparecer. Primeiramente, a dóse maxima desse corpo tolerada pelo organismo me pare- ceu pequena, e o continuado uso por alguns dias não seria supportado pelo doente ; receiava ainda ver apparecer com os effeitos de intoxicação, a escas- sez das ourinas, a albuminúria, espasmos paralyticos, abaixamento de tem- peratura, etc., symptomas esses que encerram em seu numero alguns proprios do typho icteroide e que tanto procuramos prevenir. Sabendo que o phenato de sodio conserva a mesma propriedade do acido phenico como anti-fermentiscivel, anti-putrido e microbicida, embora em grão menor, e que sua eliminação pelos rins se faz com grande rapidez, não havendo por conseguinte receio da acção accumulativa, e que poderia portanto desempenhar o que tinha eu em vista, resolvi empregal-o. Foi, pois, ao phenato de sodio que dei preferencia no tratamento da febre amarella. O phenato de sodio não é toxico senão em dóses superiores a 5 grammas, e isto mesmo appliçados de uma só vez. Das vias de absorpção achei que devia ser preferida a via rectal. Não procurei usar da via gastrica : em l°logar, afim de evitar as transformações que dahi poderião resultar, e para que o medicamento fosse absorvido em sub- stancia; em 2° lugar pela razão de ter sempre, no tratamento da febre amarella, o cuidado de poupar e proteger o estomago quanto é possivel. Para ver que esta 2a razão não é insignificante, basta lembrar que os vomitos, que nessa pyrexia começam muitas vezes desde o 1° periodo, que existem commummente no 2°, e nunca faltam no 3°, são ainda augmentados pelo accumulo, no esto- mago, dos líquidos das poções ingeridas. Administrando o phenato de sodio por meio de clysteres, prescrevi-os sempre na fórma seguinte: Um de 2 em 2 horas, na dóse de 6 gottas de phe- nol, fórmula Bobeuf, em 10 grammas d’agua commum. Esses clysteres devem ser conservados pelo doente, o que não ó dilficil, graças à pequena porção do liquido. Não vario o tratamento durante a enfermidade ; sómente no começo da convalescença é que vae augmentando o espaço entre dous clysteres. Já observei, e agora repito : não considero especifico o tratamento de que me occupo ; uso sempre, ao mesmo tempo, do tratamento symptomatico. Não se me póde censurar por isso, nem dahi se póde concluir falta de con- fiança na medicação, que motiva esta communicação ; pois que, mesmo na- quellas moléstias, cujo tratamento especifico está mais que reconhecido, a associação do tratamento symptomatico tem sempre logar. Desde 1886 emprego os clysteres de phenato de sodio, e o resultado tem me encorajado a continual-os ; a mortalidade dos meus doentes tem sido na proporção de 6a 8 %» o que julgo ser um resultado satisfactorio. Accresce ainda dizer que nos"casos fataes, alguns ha que não foram tra- tados convenientemente, ou por terem os doentes reclamado a presença do medico já em pliase adiantada da moléstia, já nos últimos momentos de vida, ou por não terem cumprido as prescripções com exactidão. O tratamento pelos clysteres anti-septicos póde ser feito nos tres períodos da febre amarella sem o menor inconveniente. A principio empreguei-os só- mente no periodo congestivo, mas continuei a administral-os nos outros, sem que a observação attenta disso fizesse arrepender-me. Os clysteres anti-septicos podem, quando applicados desde que o doente é accommettido pela moléstia, fazer cessar de todo a febre e abortar aquella. Em geral os doentes restabelecem-se sem passar pelo 3o periodo, sobretudo, como acima referi, se fôr a medicação applicada desde o começo do Io periodo. Lembrarei ainda que este methodotem a vantagem de desinfectar topi- camente o intestino, resultado esse, que não deve ser desprezado, tanto mais se novas experiencias vierem provar que é no intestino que se assesta de preferencia o microbio pathogenico. Não conheço, até agora, senão duas substancias ditas anti-septicas, que tenham sido aconselhadas no tratamento da febre amarella: são ellas o flycoborato de sodio e o salicylato de sodio. Empreguei por algum tempo estes ous medicamentos e o resultado esteve sempre muito longe do que era pre- conisado pelos illustres collegas, que os aconselhavam. Devido a esses insuccessos é que procurei administrar o phenato de sodio, e direi que felizmente, por ter encontrado nessa pratica um novo auxiliar, de que tenho tirado immensas vantagens. O Sr.Dr. Domingos Freire diz que teve grande satisfação com o que acabou de ouvir do Sr. Dr. Carlos Gross, principal mente pela confirmação de suas doutrinas e experimentação sobre a natureza perasitaria da febre amarella. Deplora que o Sr. Dr. Gross não tenha apoiado suas asserções sobre as van- tagens do phenato de sodio em estatisticas comparativas, unico critério de apreciar o valor real de certas concepções therapeuticas. O orador desde 1880 que emprega o salycilato de sodio hypodermicamente e pela via gastrica com resultado, quando applicado no primeiro periodo da moléstia; no segundo e no terceiro, o salycilato de sodio é até' contraindicado por ser um grande de- pressor das forças, convindo então os estimulantes. Outros e distinctos prá- ticos têm entre nós igualmente colhido bons resultados com o emprego desta medicação, e entre elles o Sr. Dr. José Maria Teixeira, cuja estatística na Jurujuba não apresenta um só caso fatal. A discordância de outros práticos depende, a seu ver, de ter sido o medicamento empregado nos dous últimos periodos, em que maisfrequentemente procuram os doentes soccorros médicos e hospitalares. Acredita o orador, que tanto o phenato, como o salycilato, como o glyco-borato de sodio, em geral todos os anti-septicos, bem tolerados pelos doentes, podem debellar a febre amarella no seu primeiro pe- riodo. Aproveita a opportunidade para dizer algumas palavras sobre o trata- mento preventivo da febre amarella com as culturas attenuadas de seu processo, apresentando os dados estatísticos já publicados tanto na Eupora como nos Estado Unidos, e que comprehendem indivíduos na maior parte em condições de grande receptividade, como: estrangeiros recem-chegados, ma- rinheiros, habitantes das peiores estalagens, nos quaes conseguio resultados eminentemente vantajosos. Nessas estalagens, 7, 8, 10 e 12 indivíduos se achavam installados em cubículos estreitos e insalubres, nos quaes ainda hoje permanecem famílias inteiras vaccinadas pelo orador ha dous ou tres annos. A escripturação tem sido feita com o maior cuidado, por pessoal idoneo. Ainda este anno o Sr. Dr. Yirgilio Ottoni conferiu nome por nome, como sempre fiz antes, os obituários, não encontrando entre 03 fallecidos de febre amarella senão aquelles cujos nomes menciona 0 orador, entre os insuccesoss de vac- cinação. No anno de 1884 praticou 3418 vaccinações; em 1885, 3106 ; este anno sómente cento e tantos, porque, quando voltou da sua excursão scientitica, já não havia epidemia. Em 1884 apenas falleceram sete vaccinados, e attribue esta proporção ao methodo endermico, que então seguia, o qual, a seu ver, é menos efflcaz do que a vaccinação hypodermica que ora segue. Em 1885 apenas falleceu um vaccinado. O total dos fallecidos em 6524 pessoas vaccinadas foi de oito, o que dá uma proporção de 0, 1 %. Depois da exposição que fez no Congresso de Washington o anno passado, e das demon- strações microscópicas que alli exhibio, aquelle Congresso tomou a resolução de recommendar a todas as nações a vulgarisação do seu processo de inocula- ção preventiva, para o fim de averiguar sua efficacia ; espera que este voto do Congresso de Washington encontre um echo benevolente no primeiro congresso de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, para facilitar-lhe a tarefa de aperfei- çoar seus estudos a esse respeito, convencendo a população da innocuidade edas vantagens das vaccinações. O Sr. Dr. Pereira da Costa diz preferir no tratamento da febre amarella o salicylato de sodio ao phenato, cuja acção anti-septica lhe parece inferior, e também porque este não tem a acção anti-thermica daquelle. O SR. DR. BRISSAY lé : A curetagem nas moléstias do utero A communicação que tenho a hônra de fazer tem por fim tornar conhe- cidos os resultados que hei obtido durante estes dous últimos annos pela pra- tica da curetageip intra-uterina. As operações que formam a base deste trabalho são em numero de sessenta. Têm sido ellas praticadas sob as vistas e com a assistência de meus collegas Srs. Drs. Carlos Gross, G. Naegelí, Jobim, Netto Machado, Berthaud, Azeve- do, Paranaguá, Alfredo Bastos, Meyer, G. Elis, Ascendino Reis e Affonso Nery. E’ desnecessário dizer que não tratarei detalhadamente de cada uma destas observações: seria isto demasiadamente longo e inútil. Contentar-me-hei insistindo sobre aquellas que podem ser consideradas como typicas, e desta exposição procurarei tirar algumas conclusões praticas sob o ponto de vista das indicações e contra-indicações da curetagem intra-uterina. Antes de fazer, porém, esta exposição ó bom dar em ligeiros traços a historia deste processo. Sua origem é essencialmente franceza. Récamier foi o primeiro que o poz em pratica no começo do anuo de 1846. Observando que na maior parte dos casos o catarrho uterino é entretido pela presença de granulações ou de fungosidades sobre a mucosa uterina, Récamier acreditou que a melhor maneira de fazer desapparecer este catar- rho era suprimir-lhe a causa. Imaginou tirar as granulações e impedir sua reproducção por meio de uma raspagem methodica da mucosa compro- méttida. Não insistirei, certamente, sobre o que possa haver de discutível nesta maneira de considerar as fungosidades uterinas como causa da endometrite. Seja eomo fór, o methodo de Récamier foi aceito por diversos cirurgiões. Na Allemanha, por Simon, que praticou a curetagem como meio de destruição do cancro, e em França, por Lisfranc, que modificou a cureta afiada de Réca- mier, tirando o córte que ella contém. Durante alguns annos este processo foi seguido por muitos práticos e com resultados diversos. Mas a reacção contra este processo não se fez esperar. Em 1850 era vivamente atacado por autoridades como Velpeau, Dubois e Daran. E’ que effectivamente esta operação, praticada nas salas cheias de mais, dos hospitaes de Paris, em uma epoca em que o methodo anti-septico não estava ainda estabelecido, havia produzido accidentes numerosos e de muita seriedade. Assim, durante um periodo de cerca de trinta annos, a curetagem intra- uterina foi ou abandonada ou empregada sómente por alguns práticos. De todos os ramos da cirurgia, póde-se dizer, sem medo de errar, que é a gynecologia operatória que tem tirado mais benefícios do methodo anti-septico, e em uma das ultimas reuniões.deste Congresso, dous dos meus mais distinctos collegas mostraram por meio de suas estatísticas quão differentes são os resul- tados que têm obtido na operação da ovariotomia, segundo tem sido esta operação praticada sem ou com o emprego do methodo anti-septico. A curetagem intra-uterina tirou também não pequeno partido da desco- berta de Pasteur e da pratica de Lister. t A applicação rigorosa do methodo anti-septico livrou este processo opera- torio dos perigos que faziam com que o mesmo inspirasse receios, e que deram logar a que fosse abandonado. Assim, depois de 1880, uma reacção fez-se de novo em favor da curetagem intra-uterina. Martin, na Allemanha, e Doléris, em França, serviram-se delia como tratamento habitual de certas metrites hemorrhagicas e da metrite catarrhal rebelde. Hoje todos os gynecologistas empregam a curetagem exploradora como o primeiro elemento do diagnostico no exame dos neoplasmas uterinos. Sei que o Brazil não deixa de acompanhar esse movimento, e que vários gynecologistas brazileiros empregam também a curetagem como meio de dia- gnostico e curativo, por isso esta nota é antes dirigida aos clínicos não especialistas, que acreditam_ ainda nos perigos da interyenção intra-uterina. Por occasião da ultima viagem que fízé Europa,vi praticar frequentemente a curetagem uterina não só na França, como na Allemanha e também na Áustria. Fiquei verdadeiramente impressionado pelas vantagens que offerecia este processo e com o qu°si nenhum perigo que havia no seu emprego. Assim pois, desde que regressei ao Brazil, ha dous annos, não hesitei em generalisar esta pratica na minha clinica, sempre que encontrava as indica- ções e possibilidade de o fazer, rodeando-me, está claro, de todas as precauções que tivessem por fim garantir-me sua innocuidade. Os casos em que tive occasião de empregar a curetagem intra-uterina podem ser divididos em tres grandes series : I. Curetagem como meio de diagnostico ; II. Como meio palliativo ; III. Como meio curativo. Costumo empregar a curetagem intra-uterina todas as vezes que tenho necessidade de conhecer, de uma maneira certa, a natureza de um neoplasma intra-uterino. Nos casos, bastante raros, em que as perturbações funccionaes e o exame ordinário não bastam para que se possa fazer um diagnostico, com o auxilio da cureta, retiro da cavidade uterina um fragmento dos tecidos alterados, e o exame microscopico, que depois faço, permitte-me geralmente ter um dia- gnostico seguro. Não ha utilidade em insistir sobre o valor de um igual elemento de dia- gnostico. Muitas vezes é o unico meio que permitte decidir da opportunidade de uma operação radical, de que depende a vida da doente. Oã casos em que sou levado a fazer a curetagem exploradora são bastante raros e offerecem pouco interesse. O methodo empregado para fazel-a não diífere do que é empregado na curetagem curativa. A curetagem empregada como meio palliativo não tem razão de ser, é claro, senão nos casos em que não ó possível intervir de uma maneira mais radical. Tenho-a empregado dezoito vezes em epitheliomas do collo do utero. Desses 'casos citarei sómente dous; bastarão para demonstrar que a intervenção cirúrgica nunca é bastante precoce quando se trata de neoplas- inas malignos, e que desde que se é chamado, embora tarde, para tentar uma operação radical, é preciso comtudo, se ainda fôr possível, intervir pela curetagem. A curetagem, com effeito, diminue a dôr, impede o corrimento fétido e as hemorrhagias e subtrahe em parte a doente à auto-infecção, que é produzida pelo neoplasma em via de destruição natural. No primeiro caso, a doente era uma moça de 28 annos de idade, tendo todas as apparencias de gozar perfeita saude. Tinlia vindo ao Brazil em viagem de recreio visitar sua irmã. Algumas irregularidades nas regras e a apparição de um corrimento de odor desagradavel decidiram-na a consultar-me. Desde o primeiro exame, que teve logar em Setembro de 1886, pude verificar a existência de um epithelioma do collo, que tinha já destruido todo o labio inferior e compromettido os cul-de-sac. O utero, duro, volumoso, tinha contrahido adherencias com todos os tecidos vizinhos. Fazia-se um corrimento de um odor caraeteristico, e já havia um mez que o sangue apparecia todas as semanas, mas com uma abundancia assustadora. Nestas condições eu não podia pensar nem em uma amputação supra ou subvaginal do collo e ainda menos na extirpação total do orgão. Aconselhei a curetagem profunda seguida de cauterisações pelo ferro em braza. Meu eminente collega o Sr. Dr. Werneck, a quem chamei em conferencia, foi também de opinião que era a unica intervenção que naquelle caso tinha logar. No intervallo de quinze dias e em duas sessões raspei por meio da cureta cortante tudo quanto sem perigo me foi possivel retirar, e mergulhei por differentes vezes o ferro em braza na espessura dos tecidos. Na primeira vez administrei o chloroformio, na segunda não houve narcose e a doente supportou perfeitamente a operação. Não sobreveiu nenhuma reacção febril, o corrimento fétido e as hemorrhagias desapparece- ram e a doente pôde voltará Europa. Pelas ultimas noticias que dessa doente eu tive, são talvez decorridos já quatro mezes, ella vivia ainda. Esta observação apresenta um exemplo interessante da parada, que se póde fazer ao desenvolvimento de uma aflfecção de marcha rapida e fatal pela intervenção precoce do cirurgião, mesmo quando uma operação mais radical, tal como a extirpação completa, não seja mais possivel. Em um caso mais recente fui chamado a S. Paulo para operar uma doente, e achei que não devia fazer senão a curetagem seguida de cauterisações. Reíiro-me a uma doente que vi em meiados do mez de Março, na vespera de meu regresso ao Rio de Janeiro. A existência de um enorme epithelioma do collo, de forma vegetante, havia sido reconhecida por mim, e nessa occasião verifiquei que o estado da região era tal, que me pareceu que a doente poderia, com vantagem nesse momento, sofírer a amputação supravaginal ou, melhor ainda, a extirpação total do utero. Indiquei, como não podia deixar de o fazer, a necessidade de uma inter- venção cirúrgica immediata, e no dia seguinte liz minha viagem para a Corte. Só passado um mez foi que a doente resolveu-se a isso, e pelos fins de Abril fui chamado a S. Paulo para praticara operação. Quando, porém, ahi cheguei estava tudo mudado : o neoplasma tinha feito rápidos progressos, as paredes vaginaes se achavam invadidas ; o collo corroído sangrava abundante- mente e por jactos a cada esforço ou movimento brusco da doente ; o corpo do utero estava duro, volumoso, adherente de todos os lados aos tecidos yizinhos; emfim os ligamentos largos apresentavam-se completamente compromettidos. As condições do estado geral tornaram-se mais precarias em virtude das hemorrhagias e de uma febre de fôrma infecciosa, que não mais cessava. Nestas condições não me fôra mais possivel pensar em uma intervenção radical. Comtudo, a vida da doente correndo um perigo imminente por causa das hemorrhagias abundantes que se reproduziam varias vezes por dia, achei que era do meu dever intervir, apezar de que essa intervenção se tornasse mais difficil ainda em virtude da recusa absoluta, por parte da doente, de tomar o chloroformio. No dia 24 de Abril pratiquei a curetagem a mais completa possivel com a grossa cureta cortante, e enchi a cavidade que se produziu com pequenas bolas de algodão embebidas em uma solução de chlorureto de zinco e es- primidas. A doente supportou bem a operação sem o chloroformio, a reacção febril não se manifestou senão alguns dias depois, e esta mesmo foi prova- velmente produzida pelo trabalho de eliminação das escaras. As hemorrha- gias, que constituíam um perigo imminente, desappareceram desde logo. Passado algum tempo, perdi de vista a doente, mas soube que ella pôde fazer, sem a menor novidade, uma longa viagem de 12 horas pela estrada de ferro, o que prova que seu estado melhorou de modo notável. São já decorridos cinco mezes que esta operação teve logar, e posso aífirmar que nesse caso a curetagem seguida de cauterisação deu à doente um prolongamento da vida, com o qual ella nãc tinha o direito de contar sem a minha intervenção. E’ como meio de cura radical de certas affecções do utero que eu tenho empregado mais frequentemente araspagem intra-uterina. Referirei desde já um caso, em que achei que devia pratical-a mesmo quando a doente estava no periodo agudo da septicemia puerperal. A doente era uma senhora de 30 annos e exercia o professorado. Havia tido ella alguns dias antes um aborto ; já havia deixado o leito e tinha podido se entregar a suas occupações, que consistiam em dar lições particulares. Oito dias depois do aborto, foi acommettida de calafrios, seguidos de uma temperatura muito elevada, e foi obrigada a guardar o leito. Quatro dias depois do calafrio inicial fui chamado para vel-a. Por essa occasião, a mo- léstia já estava em um periodo bem adiantado ; a infecção se havia genera- lisado, a febre se mantinha entre 39’4e4l° centígrados; o ventre estava duro, doloroso, tympanico ; todo o peritoneo tomado. O corrimento fétido, que se fazia pelo utero, me tendo feito crer que ahi houvesse restos pútridos da placenta, pratiquei a curetagem seguida do escovamento ; ao mesmo tempo flz as prescripções de remedios tonicos e anti-pyreticos, que ordinaria- mente se costuma prescrever nestes casos ; depois da primeira limpeza ute- rina os symptomas geraes declinaram ; por duas vezes flz a mesma limpeza ; mas, a despeito de todos os meus esforços, a doente succumbiu na casa de saude de S. Sebastião. A intervenção por meio da curetagem nos estados agudos do periodo puerperal não está ainda aceita por todos os especialistas ; apezar de seu desfecho fatal, o ciso que acabo de referir não basta para condemnal-a. As ultimas revistas de gynecologia referem casos mais ou menos seme- lhantes ao que acabo de expôr, nos quaes as doentes têm sido salvas, graças à curetagem e ao escovamento praticados no ultimo periodo da moléstia, quando toda a esperança de cura parecia perdida. Em uma das ultimas sessões da Sociedade de Gynecologia de Paris, o professor Charpentier citou um caso interessante, no qual a curetagem se- guida do escovamento, tinha sido coroada de successo completo. A doente em questão tinha sido acommettida de uma parametrite séptica puerperal em estado agudo, sua vida estava em perigo immediato e comtudo todos os accidentes desappareceram rapidamente depois da limpeza radical do utero. E’ certo, com effeito, que se tirando pela curetagem uma parte dos tecidos jà carregados de elementos sépticos subtrahe-se a doente á acção infec- ciosa destes elementos e diminue-se igualmente o perigo de morte. Sou de opinião que a curetagem é contra-indicada nos casos em que a moléstia uterina que a reclama é acompanhada de inflammação dos tecidos vizinhos. Mas ó preciso fazer excepção a esta regra quando se trata do estado puerperal. Ahi com effeito o perigo é imminente e não só ó preciso limpar, mas ainda é bom intervir o mais cedo possivel, desde que ha indicação rigorosa. Nem a elevação da temperatura, nem a peritonite declarada, são motivos para que a intervenção do cirurgião não se faça. Supprim indo-se o mais depressa possivel o ponto de partida da infecção, o foco séptico uterinc, ter-se-ha muita probabilidade de fazer parar a marcha da infecção, de a limitar aos pontos em que ella se manifestou, e poder-se-ha então ver terminarem-se por meio da resolução as inflammações, em começo, das serosas peri-uterinas e dos annexos. O insuccesso que acabo de assignalar não é pois uma contra-indicação da curetagem no estado puerperal. Isto indica sómente que ella deve ser feita de uma maneira precoce nos estados infecciosos agudos do periodo puer- peral. ' A experiencia tem demonstrado que nos abortos as retenções parciaes da placenta são muito mais frequentes que nos partos a termo. Nestes casos é indispensável fazer a limpeza logo que esta retenção tenha sido provada, o mais cedo possivel, antes que a putrefacção se haja estabe- lecido, desde que se possa bem apanhar e tirar tudo o que poderia tornar-se um foco infeccioso. Nestas condições eu dou preferencia ao escovamento, de Dolóris. No periodo puerperal o tecido uterino é bastante molle para se deixar penetrar pelas crinas de uma escova um pouco dura. Esta limpeza assim feita é menos perigosa que a curetagem, e mesmo mais completa que esta ultima, porque interessa mais seguramente toda a superfície da mucosa. Tenho empregado frequentemente a curetagem intra-uterina nas he- morrhagias rebeldes, devidas á presença de fungosidades intra-uterinas. Referem-se estes casos, na sua maior parte, a senhoras que tiveram, havia alguns mezes e mesmo alguns annos antes, um aborto, depois do qual tiveram logar hemorrhagias mais ou menos abundantes, que se repetiam varias vezes cada mez e em algumas mesmo cada dia. Mais de vinte curetagens têm sido por mim praticadas para remediar a estas hemorrhagias, e nunca tive occasião de observar febre nem accidentes de especie alguma. < Algumas vezes têm-se dado recahidas depois de uma cura apparente de muitos mezes. Nestes casos a curetagem havia sido incompleta, e basta in- sistir neste processo para assegurar-se a cura. Citarei sómente algumas observações typicas destes casos. Em primeiro logar transcrevo a observação seguinte, tal qual foi ella redigida um mez depois da operação: « D. S., de Cataguazes, idade 18 annos, casada ha 16 mezes, teve ha um anno uma forte hemorrhagia uterina acompanhada de dôres expulsivas que determinaram a sahida de grossas postas de sangue. Os clinicos assistentes diagnosticaram um aborto de dous mezes. A hemorrhagia continuou, e, apezar do tratamento apropriado, perma- neceu ainda dez mezes sem parar um só dia. No fim de Setembro passado, a doente, muito abatida pelas perdas sanguineas continuas, apresentou-se na minha clinica. O exame pela apalpação dupla mostra o utero em posição e de volume normal ; mas a sonda encontra, em um ponto do corpo do utero, um tecido molle e fungo so, que sangra com abundancia ao menor contacto. O exame microscopico de um pequeno fragmento permitte fazer o dia- gnostico — fungosidade placentaria. Tratamento indicado: Raspagem da mucosa uterina. _ A doente, não querendo submetter-se a esta pequena operação, durante mais de um mez recorri ás applicações sobre as fungosidades com diversos 220 topicos : acido chromico, perchlorureto de ferro puro, etc., mas sem resultado apreciável. De mais a mais enfraquecida pela hemorrhagia, que resistia a todos os tratamentos, a doente resolveu emflm submetter-se á operação indicada. Nos primeiros dias de Novembro pratiquei a dilatação do utero pelo methodo de Vulliet, e a anti-sepcia preventiva ; no dia 12, assistido pelo meu distincto collega, o Dr. Jobim, da Faculdade de Pariz, pratiquei a operação. Tornadas as partes bem asepticas, appliquei sobre o collo um tampão de cocaina, que permittiu segurar o utero com uma pinça, sem dôr alguma. Nesta posição, com uma cureta de Récamier introduzida no utero, raspei completamente todas as fungosidades da mucosa, até encontrar o tecido são. Um pouco de iodoformio na cavidade do utero e um tampão anti-septico na vagina constituiu todo o curativo. A operação terminou em quatro minutos, sem hemorrhagia nem dor, apezar de não ter eu usado do chloroformio ! A’ tarde, quando fui visitar a operada, encontrei-a de pé, sem febre e acabando de jantar com appetite. Dous dias depois ella deixava o Hotel das Quatro Nações, onde foi feita a operação. Depois da operação não reappareceu a hemorrhagia, que não tinha parado um só momento durante um anno. As funeções do utero tornaram-se normaes, o estado geral da operada melhorou logoe hoje é perfeito. » Com o meu collega Dr. Alfredo Bastos tive occasião de praticar a cure- tagem em uma doente em plena hemorrhagia. Esta doente tivera um aborto tres mezes antes. Desde essa época começou ella a ter hemorrhagias constantes, uma febre continua de fórma ligeiramente infecciosa. Tanto as hemorrhagias como as febres haviam resistido a todos os meios ordinários. Pelo exame que fiz, observei um utero molle, volumoso, deixando gottejar sangue de odòr bastante pronunciado. A exploração intra-uterina denun- ciou elevações irregulares sobre uma mucosa molle. Primeiramente dilatei, depois pratiquei a curetagem com a cureta sem córte, por causa do estado de amollecimento da mucosa. Como a hemorrhagia não houvesse cessado immediatamente sob a influen- cia da curetagem, fiz um tamponamento intra-uterino com pequenas bolas de algodão asepticas e ligeiramente embebidas em uma solução de perchloru- reto de ferro. Meu collega, que observou a doente, pôde ver que, apezar de todo este traumatismo, a febre não apparecou ; no dia seguinte pude tirar os tampões intra-uterinos sem nenhum accidente. A hemorrhagia tinha cessado. Quero citar ainda um caso, que prova bem a innocuidade relativa da cure- tagem, mesmo quando o estado geral da doente muito deixa a desejar. São passados quatro mezes que eu fiz a curetagem em um utero, com a assistência do Dr. Netto Machado, em uma senhora que, no momento em que eu chegava para fazer a operação, tinha um pouco de parameírite e uma temperatura de 38 e meio. Hesitei por um instante em praticar a operação nesse estado ; mas o facto de haver um corrimento uterino de odòr duvidoso me decidiu a fazel-a immediatamente. Pratiquei, pois, a curetagem, empregando todo o cuidado para pro- duzir o menor traumatismo possivel, e rodeando-me de todas as precauções anti-septicas. Na visita que fiz á tarde, tinha a febre desapparecido, para não mais voltar. Estes casos me parecem resumir mais ou menos todos aquelles nos quaes a indicação da curetagem pôde parecer duvidosa, e entretanto vê-se que eha foi praticada sem o menor accidente. Quanto ás curetagens para o tratamento das endometrites catarrhaes, pouca cousa tenho a accrescentar. E’ inquestionavelmente contra o catarrho chronico de fórma rebelde que eu tenho praticado mais frequentes vezes a curetagem intra-»uterina. Comtudo, apezar de sua innocuidade, eu costumo reserva 1-a para os casos em que as applicações causticas têm sido insulficientes. Essa reserva, em taes casos, me é imposta quasi sempre pela má vontade das doentes, que não aceitam facilmente uma intervenção cirúrgica, por mais benigna que ella seja. As doentes resolvem-se a aceitar a curetagem com tanto mais difficuldade quanto são por mim avisadas de que provavelmente será necessário repetir uma ou duas vezes essa operação para assegurar a cura. Entretanto, na pratica se encontram muitas vezes mucosas com vege- tações irregulares, sangrentas, que secretam em abundancia um muco puru- lento ; estes casos, quasi sempre rebeldes á applicação repetida dos cáusticos, cedem á curetagem e principalmente á curetagem repetida e seguida de uma cauterisação, quer com o nitrato de prata, quer com um acido. Antes de tirar conclusões deste trabalho, era meu desejo descrever em todos os seus detalhes a operação da curetagem e sobretudo do escovamento de Dolóris, que foi o primeiro a descrevel-o; mas o tempo do Congresso é pre- cioso ; eu me contentarei, pois, de aconselhar aos clinicos a leitura dos diffe- rentes autores technicos: Schraeder, Emmet e Hegar para a curetagem; e para a descripção do escovamento de Doléris a pagina 108 do meu livro (1) de Gynêcologie opératoire contemporaine, no qual eu descrevo o processo de Doleris: escovamento seguido da lavagem intra-uterina. As conclusões que eu creio poder tirar destas notas são as seguintes : 1. Com a pratica rigorosa do methodo anti-septico, a raspagem intra- uterina pôde ser empregada sem perigo e de um modo corrente, todas as vezes que sua applicação fôr nitidamente indicada. 2. Ha indicação de praticar a curetagem na endometrite catarrhal chro- nica e na endometrite hemorrhagica de fórma rebelde, principalmente quando as hemorrhagias são occasionadas pela presença de vegetações ou de polypos placentarios. A curetagem devera ser seguida de cauterisações e repetida varias vezes, se necessário fôr. 3. A curetagem é quasi sempre formalmente contra-indicada nas me- trites e parametrites francamente inflammatorias, em estado agudo, e acom- panhadas de inflammação de tecidos peri-uterinos. 4. Esta contra-indicação não existe na metrite aguda puerperal. Neste ultimo caso ao contrario a curetagem, ou melhor o escovamento seguido da lavagem intra-uterina deverá ser empregado o mais cedo posssivel. 5. A curetagem pôde prestar grandes serviços no cancro uterino. Com- tudo não deve ser considerada senão como palliativo dos accidentes: dôr, hemorrhagia e auto-infecção. Dever-se-á recorrer a esse meio, sómente quando o estado da doente fôr tal que uma operação mais radical não possa mais ser posta em pratica. 6.° A curetagem uterina exploradora, seguida do exame histologico dos fragmentos, deve ser a base de todo o diagnostico das aífecções uterinas de fôrmas duvidosas. O SR. DR. PEDRO PAULO lê: Da hysterectomia vaginal no Brazil Meus senhores, antes de entrar no assumpto da minha presente_ com- municação, cumpre-me declarar a este illustre Congresso, que, não me tendo sido possível, por occupações clinicas inadiáveis, comparecer á sessão em que foi discutida a questão da — « ovariotomia no Brazil » encarreguei meu illustre collega Sr. Dr. Werneck de communicar a esta associação os meus quatro únicos casos de ovariotomia seguidos todos de successo, ainda que incompleto em um delles. Hoje cumpre-me confirmar essa com- municação e pedir á illustre mesa que se digne reservar-me espaço no (1) Fragments de chirurgie ct de gynêcologie opératoirc contemporaines, par le Dl’. Brissay, completes par ães notes rêcuellies au cours d’une mission du gouverne- ment franqais en Autnche et en Allemagne.— Paris, 1887 . 0. Doin, editem*. A’ Rio cie Janeiro, ehez Pautem, rua da Alfandega, 70. Boletim em que serão publicados os trabalhos do actual Congresso afim de tornar conhecidas resumidamente as minhas observações. Um assumpto de maxima importância e de grande interesse actual é por certo o da extirpação total do utero em caso de carcinoma, e por isso seria uma sensivel lacuna o deixar de nos occuparmos, no presente Congresso, dos resultados immediatos e mediatos dessa operação entre nós. Apezar de datar de muitos annos a pratica desta operação na Europa e na America, só em 1884 foi ella pela primeira vez praticada entre nós, attingindo apenas a sete, ao que me consta, o numero de taes operações praticadas até a data de hoje no Brazil, e cujo historico eu procurarei resumidamente fazer. Io Observação (pessoal). —Euzebia Nascimento, mestiça, 34 annos de idade, casada, brazileira, moradora à rua Evaristo da Veiga n. 98, occupando-se em serviço domestico, era uma rapariga de estatura regular, temperamento lymphatico, apresentava certo grau de emmagrecimento e pallidez que não caracterisavam absolutamente o fácies da cachexia cancerosa. A primeira menstruação teve lugar aos 15 annos de idade, estabelecendo-se com toda a regularidade, continuando a apparecer-lhe a funcção catamenial em períodos certos, durando sempre seis dias. Concebeu por duas vezes, tendo tido partos e puerperios uormaes. Gozou sempre de saude regular até alguns mezes a esta parte, em que começou a apparecer-lhe um corrimento branco-amarellado, que mais tarde se tornou sanguinolento; a menstruação tornou-se irregular quanto á epoca e á quantidade, e, além disso, apparecendo perdas sanguíneas sempre que cohabitava com o marido. Recorrendo aos conselhos de diversos médicos, entrou em uso de preparados ferruginosos e banhos de mar ; mas, vendo que seus incommodos se incrementavam mais, apresentando-se então hemorrhagias abundantes e corrimento de cheiro fétido, resolveu, a conselho do Dr. Utinguassú, procurar-me para me incumbir do seu tratamento. Examinando-a, reconheci tratar-se de um enorme epithelioma (couve-flôr) do collo do utero, compromettendo todo o focinho de tenca, invadindo um pouco o cul-de-sac lateral direito ; o corpo achava-se pouco augmentado de volume e bastante movei nos sentidos antero-posterior e lateraes; os parametrios não me pareceram infiltrados, nem consegui sentir ganglios da bacia engorgitados; não havia tampouco engorgitamento dos ganglios da virilha. Em vista das condições geraes e locaes da doente, entendia ser o caso de Sraticar-se a extirpação total do utero e dessa opinião também foram os meus istinctos collegas Srs. Drs. Beauclair e Furquim Werneck. Recolhida à Casa de Saude Catta-Preta, Marinho & Werneck, em 16 de Agosto de 1884, foi a doente convenientemente preparada para a operação, fazendo-se tomar um purgativo, banhos geraes tépidos e injecções anti-septicas. Dous dias após a sua entrada, achando-se presentes os Srs. Drs. Beauclair, Furquim Werneck, Erico Coelho, Lima Duarte, Dermeval da Fonseca e os internos da casa de saude, foi a doente collocada na mesa de operação e deu-se começo á narcose. Obtida esta, procedemos eu e dous dos meus collegas, à exploração mais completa e foi confirmada a indicação da operação. Collocada na posição da talha e sustentadas as coxas afastadas, e em fle- xão exag gerada por meio do apparelho apropriado (Beinhalter), procedia desinfecção rigorosa da vagina,.feito o que, puz a descoberto o campo opera- torio com as valvulas de Fritsch e afastadores metallicos, e executei a opera- ção pelo processo de Schroeder. Ao abrir o cul-de-sac vesico-uterino, foi ferida a bexiga, em razão de não ter sido esse orgão completamente isolado do utero, e para corrigir esse accidente, suturei com cat-gut o ferimento da bexiga. Tendo de proceder á bascula do utero, encontrei taes difficuldades que encar- reguei o meu ajudante Sr. Dr. Beauclair de executar esse tempo da operação, o que elle só conseguiu com muito esforço, em consequência da existência de bridas peritoneaes que difficultavam essa manobra, e em parte também pelo grande volume do neoplasma, que não havia sido excisado primitivamente. Feito isto, procedeu-se á ligadura dos ligamentos largos, por meio de pontos de sutura separados, em numero de quatro de cada lado. Feita a exe- rese do utero, fez-se a lavagem com solução de acido borico, applicação de dois tubos de drenagem aos ângulos da ferida e tamponamento com gaze de iodoformio. Despertada a doente e collocada em seu leito em decubitus dorsal, foi recammendada aos internos toda a vigilância e o catheterismo da bexiga de seis em seis horas. A temperatura da doente conservou-se até o dia seguinte a 36°,8 e durante a noite teve vomitos e queixou-se de dores intensas no baixo-ventre, as quaes foram combatidas com uma injecção hypodermica de morphina. O estado da doente conservou-se muito satisfactorio até o dia 22, em que houve elevação de temperatura a 38°,3 e foi notado que o tampão se achava embebido de um liquido de cheiro fortemente ammoniacal. Retirado o curativo, foi feita uma lavagem anti-septica, e, retirados os tubos de dre- nagem que haviam sido expellidos para a vagina, veriticou-se pelo tocar a existência de uma fistula vesico-^vaginal. D’ahi em diante o curativo consistiu em lavagens vaginaes anti-septicas, quatro vezes ao dia e a doente continuou a passar regularmente, sem o menor accidente que viesse perturbar a marcha do tratamento. No decimo oitavo dia após a operação cahiramos pontos de ligadura, e dez dias depois era completa a cicatrização dos cul-de-sac. A’ vista do estado de abatimento em que se achava a doente, não julguei prudente operar desde logo a fistula vesico-vaginal, pelo que dei alta em 24 de Setembro de 1884, aconselhando que se retirasse para o campo, afim de convalescer e refazer suas forças, e mais tarde voltasse para ser operada da fistula. Effectivamente a 12 de Janeiro de 1885 recolheu-se ella de novo á Casa *de Saude para soíTrer essa operação, retirando-se a 4 de Fevereiro incom- pletamente curada, pois restava-lhe ainda uma pequena fistula que dava sa- bida a pequena quantidade de urina quando a doente andava. Em 3 de Abril, tendo eu sido procurado por essa doente, que se queixava de dores fortes no baixo-ventre e embaraço na micção e na defecção, verifi- quei que se tratava da reproducção da moléstia, conservando-se a cicatriz perfeita, mas havendo invasão dos ganglios e do tecido cellular da bacia. A moléstia marchou rapidamente e a doente veio a fallecer em fins de Maio de 1885. A peça pathologica confiada ao museu da Faculdade de Medicina foi examinada pelo Sr. Dr. Poncy, mui digno preparador da cadeira de histo- logia, que verificou tratar-se de um epithelioma, achando-se o utero até o corpo invadido pela neoplasia. 2.a Observação.— O Sr. Dr. SanfAnna, na 11a sessão da Sociedade de Medicina e Cirurgia que teve logar a 28 de Maio de 1886, leu a observação da hysterectomia vaginal por elle praticada em 29 de Agosto de 1885 e cuja observação vem por extenso nos Boletins da mesma sociedade. Tratava-se de um sarcoma encephaloide do collo. A operação foi feita pelo processo de Billroth, com pequenas modificações, e durou quasi tres horas, a contar do principio da narcose. O Sr. Dr. Sant’Anna,após a incisão do cul-de-sac vaginal anterior, separou completamente a bexiga do utero, abriu o cul-de-sac de Douglas por uma larga incisão e procedeu desde logo á laqueação em massa das artérias uteri- nas, cortou á tesoora a parte comprehendida entre o utero e essas ligaduras, libertando assim o orgão, inferiormente, de um terço de suas inserções la- teraes. Esta pratica facilitou, na opinião do Dr. SanfAnna, consideravelmente o movimento de bascula do utero. A doente nos tres primeiros dias passou bem, sendo apenas incommodada por vomitos devidos ao chloroformio. No quarto dia teve uma elevação de temperatura a 39°, e queixou-se de dores fortes para o baixo-ventre. Foi retirado o curativo, notando-se que os tampões de gaze iodoformisada se achavam embebidos de um liquido de boa apparencia e sem cheiro. Não fez lavagem pelo tubo de drenagem, limitando-se a limpar a vagina com algodão e reapplicar o curativo. No oitavo dia teve a doente dejecções diarrheiformes, que foram attribui- das ao iodoformio, pelo que foi retirado o curativo e nessa occasião o tubo de drenagem que se achava cahido na vagina ; a maior parte dos fios de liga- dura caliiu no dia 22, ficando apenas tres, entretendo uma ligeira suppura- ção, dando-se após algum tempo a cicatrização completa. No fim de tres mezes o Sr. Dr. SanfAnna verificou reproducção do mal para o lado da vagina, perto da cicatriz, e mais tarde foi invadido o tecido cellular da bacia por nodulos neoplasicos. O recto foi perfurado por uma ulceração de modo a fazer-se uma communicação para a vagina, e, no fim de oito mezes e seis dias após a operação, succumbiu a doente a uma forte he- morrliagia. A 5a Observação pertence ao Sr. Dr. Erico Coelho que a communicou á Sociedade de Medicina e Cirurgia (*) nos seguintes termos: Communica que dias antes praticara uma ablação total do utero pela va- gina, no serviço da Santa Casa da Misericórdia, onde professa. A operada, maior de 50 annos, em plena menopausa, estava em excellentes con- dições geraes. Tinha a porção infra-vaginal do collo compromettida por um carcinoma, segundo o diagnostico clinico; as paredes do sacco vaginal immu- mes; o corpo do utero augmentado de volume, em retroílexão, mas movei em todos os sentidos. A operação fez-se em dois tempos : a amputação supra-vaginal, seguida da ablação do corpo, tudo cingindo-se ao processo do professor Schroeder. Ao todo gastaram-se tres horas, duas para o primeiro tempo e uma para o segundo. O acto mais trabalhoso da operação foi a ligadura em massa do terço inferior do ligamento largo, tanto de um como de outro lado, por causa de hemostase definitiva das artérias uterinas. A separação do utero e da bexiga foi facilmente executada a dedo. O fundo do sacco peritoneal vesico-uterino foi incisado a bisturi abotoado, sem a menor demora e diíEculdade. A cambalhota do utero foi também praticada promptamente, e sem o menor embaraço, achando-se o orgão diminuido de volume e os ligamentos largos reduzidos ás suas inserções no corpo desse orgão ; notando-se que o orador ensaiou a cambalhota pela abertura anterior e pela posterior, achando mais facil executal-a neste sentido, o que a retroílexão aliás explica per- feitamente . Terminada a exerese do utero, suturou a vagina no sentido an- tero-posterior de suas faces, deixando entretanto abertas as commissuras la- teraes, por onde fez passar, cada qual por seu lado, duas cordas, constituí- das pelos longos fios dos ligamentos largos, tendo em vista proporcionar a adhesão dos troços dos parametrios entre si e a extremidade superior da va- gina, de sorte a sustental-a, impedindo que de futuro viesse a fazer prolapso ou inverter-se. Contava também o operador facilitar assim a drenagem, me- diante os longos fios atra vez das casas lateraes, compromettendo-se a, em tudo que seja preciso, sustar alguma eífusão de sangue, ou drenar a proposito quaesquer collecções do sacco de Douglas, destruir a sutura vaginal e ir à cata do vaso que désse sangue ou estabelecer franca drenagem ou irriga- ções desinfectantes rigorosas. Terminou por applicar um rigoroso apparelho anti-septico, tamponando a vagina com algodão pulverisado de iodoformio, e mantendo a vulva resguardada por compressas de gaze iodoformisadas, mantidas por uma atadura em 8. Applicou ainda, segundo os conselhos de Bardenheur, uma atadura circular da base do thorax ao baixo-ventre, com o fim de impedir os largos movimentos do diaphragma e a aspiração dos lí- quidos da vagina e do sacco de Douglas para os mais altos seios perito- neaes e, conforme suas palavras, confiou a Deus a operada, esperando da sua misericórdia que ella, á semelhança do propheta Daniel, possa ainda sahir com vida dessa cova de leões, para não dizer de microbios, que se chama a maternidade da Faculdade de Medicina da Côrte. (*) Sessão cie 9 de Julho de 1886. Esta cloente teve septicemia e a reproducção teve logar, morrendo a doonte um anno após a operação, segundo me informou o Sr. Dr. Crissiuma. 4a-. Observação.— No Boletim da Academia de Medicina de Paris veio publicada uma observação do Sr. Barão de Saboia, lida em sessão de 29 de Maio de 1888, tendo por assumpto a extirpação total do utero e de seus annexos- A operação foi praticada em 29 de Janeiro de 1880, com a assistência dos Srs. Drs. Feijó, Crissiuma, Valladares, Arlindo e Eduardo Saboia. O processo seguido foi o de Schroeder. Não houve accidente durante a operação. A hemostasia foi feita por meio de ligaduras. Foi praticada a drenagem com um tubo de grossura de dedo e o tamponamento da vagina com gaze iodoformisada e um curativo de occlusão completo, fixado por uma atadura de cautchu, cujas extremidades vinham-se prender em uma atadura do corpo. A não serem alguns vomites que atormentaram a doente nos primeiros dias, tudo correu em mar de rosas a temperatura couservou-se sempre normal. Foi substituído o curativo no 5° dia após a operação. De 4 a 12 de Fevereiro, diz o autor que os fios de ligadura foram cahindo successivamente, tendo-se destacado o ultimo no 11° dia. A 15 de Fevereiro a ferida estava completamente cicatrizada, a cicatriz apresentando um contorno desigual e pelo tocar sentia-se uma superfície lisa, sem nenhum endurecimento. A respeito do resultado mediato da operação, nada diz o Sr. Barão de Saboia, apezar de sua communicação ser de Maio de 1888. 5.a Observação.— O Sr. Dr. Carlos Teixeira publicou no Brazil Medico, n. 2, anno 2°, a observação de um caso em que praticara esta operação. (*) Data da operação, 28 de Setembro de 1887. Seguiu o processo de Billroth. A operação correu sem accidente, havendo apenas sahida de algumas alças intestinaes, que foram logo reduzidas. Com um ponto de sutura collocado na parte central da incisão, apro- ximou as folhas do peritoneo e fez a drenagem. Além dos vomitos biliosos que a doente teve no 1° dia, nada houve de notável apôs a operação. A temperatura elevou-se do 4° para o 5o dia a 38°6, pelo que foi mudado o curativo. No 6° dia foi retirado o tubo de drenagem e no 8° todo o curativo, que foi substituído por -lavagens vaginaes com acido phenico a 2 °/0. A 15 de Ou- tubro cahiram os primeiros pontos de sutura. A doente restabeleceu-se completamente e até hoje dura a cura. 0a- observação (pessoal).— Isabel Rodrigues de Oliveira, branca, viuva, de apparencia sympathica, não apresenta grande emmagrecimento, nem anemia. Foi menstruada aos 14 annos, teve tres filhos, sendo o ultimo ha 18 annos. Partos e puerperios normaes, menopausa ha um anno, sem nunca ter soffrido incommodos uterinos. Em Maio do corrente anno começou a notar um corrimento vaginal, esbranquiçado a principio, depois branco-amarellado e íinalmente sanguinolento, de cheiro fétido. Nunca teve hemorrhagias, nem dores. Sente-se bastante forte e alimenta-se regularmente, e sua unica occupa- ção consiste em trabalhos domésticos. A conselho do Dr. Leal, veio consultar-me em princípios de Julho do corrente anno (1888). Procedendo a exame, verifiquei a existência de um tumor, em fôrma de couve-llor, pouco saliente e occupando todo o labio anterior do collo do utero, que se achava revirado para cima, em consequência de uma laceração existente ao lado direito. O labio posterior achava-se completamente livre, assim como o cul-de- sac vaginal. O corpo do utero estava augmentado de volume, era perfeita- mente movei em todos os sentidos e os largos perfeitamente normaes. Nada pude notar para o tecido cellular da bacia, nem os liga- mentos sacro-uterinos, nem para os redondos. Em vista deste exame esta- (*) Esta observação foi communicada á Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. beleci o diagnostico de neoplasia maligna (epithelioma ?) do collo do utero, diagnostico que já havia sido feito pelo Dr. Leal e foi confirmado pelos Drs. Furquim Werneck e Brissay, e aconselhei adoente a operaçio da ex- tirpação total do utero. Para isso recolheu-se ellaá Casa de Saúde dos Drs. Catta Preta, Marinho e Werneck e foi fixada a operação para o dia 12 de Julho. A doente foi preparada, como de costume, tomando banhos tépidos geraes, injecções vaginaes anti-septicas e fez uso de um purgativo na vespera da operação. Tencionando dispensar a drenagem, cuja vantagem desconheço, e querendo garantir-me com gaze perfeitamente aseptica, mandei de antemão preparar a gaze iodoformisada pelo processo de Breisky, mandando fervel-a em uma solução de 1 % de sublimado, seccal-a depois na estufa e mergulhal-a em seguida em uma solução a 10°/o de iodoformio em ether. No dia 12 de Julho executei a operação com a coadjuvação dos meus distinctos collegas Furquim Werneck, Brissay, Caetano Werneck e os dis- tinctos internos da Casa de Saude, Oliveira Vianna e Cotia. Procedeu-se á narcose com chloroformio puro, fabricado no Laboratorio dos Srs. Werneck, Leoni &C.a e obtida esta, fez-se a perfeita desinfecção da vagina com solução de acido phenico a 2 %e, depois de descoberto o campo operatorio, foi perfeitamente raspado o collo do utero, e cauterisada com acido phenico a superfície de implantação do tumor. Em seguida procedi á operação pelo processo de Schroéder, cuja ex- ecução foi facílima e sem o menor accidente. A hemostasia dos ligamentos largos foi feita por meio de ligaduras parciaes, mas, notando eu que, após a exerese do utero, havia perda de sangue, quer de um quer de outro Jiga- mento, perdendo por isso a confiança nas ligaduras, preferi, para encurtar o tempo da operação, recorrer á foreipressura pelas pinças de Richelot. Apezar da hemostasia perfeita dos ligamentos largos, notei corrimento sanguíneo um pouco abundante, que reconheci provir da superfície de incisão da parede posterior da vagina, não me inquietando portanto com elle, certo de que o tamponamento seria sufficiente para dominal-o. Tratei, pois, de pro- ceder immediatamente á lavagem da cavidade peritoneal com agua esterili- sada pelo calor e pratiquei o tamponamento com a gaze de ante-mão preparada. Appliquei depois um apparelho contentivo de algodão phenicado, que fixei por meio de uma atadura em Y. A operação durou apenas uma hora. A doente foi despertada e deitada em seu leito em decubitus dorsal, com as coxas conservadas em meia flexão e afastadas de maneira a evitar o choque nas pinças. Foi recommendada aos internos toda a vigilância e o cathete- rismo de seis em seis horas. A temperatura, após a operação, foi de 36° e o pulso 80, respiração regular. No dia 13, de manhã, a temperatura era 37,8, o pulso 102 e a doente se queixava de muito calor e dores nas partes genitaes externas. O grande labio direito achava-se augmentado de volume ecom aspecto erysipelatoso. A doente não teve vomitos, nem nauseas, mas queixava-se de dores no baixo ventre e na região sacro-illiaca direita, pelo que lhe foi feita uma injecção liypodermica de morphina. Na noite de 13, temperatura 38°,6, a doente não teve descanso, accusan- do grande mal-estar e insomnia. No dia 14, de manhã, a temperatura era 37°,4, o pulso 102 e a doente tinha a lingua coberta de saburra esbranquiçada. As urinas foram extrahidas regularmente de seis em seis horas. Notámos que o algodão do curativo se achava embebido de um liquido escuro e sem cheiro, pelo que foi mudado o curativo após uma lavagem da vagina com solução de acido borico a 4 %. A vagina ató o estreito era séde de uma inflammação intensa, com formação de pequenas placas acinzentadas. Surprehendido por tão insolito phenomeno, procurei a causa delle e, verificando que não era devida nem à qualidade do iodoformio que me certifiquei ser pura, nem ao facto da asso- 227 ciação do iodoformio com o sublimado, como ficou demonstrado em uma discussão dá Sociedade de Medicina e Cirurgia, vim a descobrir que essa irritação era devida á acção do sublimado, por isso que, por um engano las- timável, a gaze havia sido fervida em uma solução a 10 % de bichlorureto, quando daveria ter sido a uma solução a 10°%o. A’s 6 horas da tarde desse dia a temperatura era 37°,4 e a doente achava-se impertinente, ftcies um pouco decomposto e continuava a accusar dores no baixo-ventre e na região sacro-illiaca direita e vontade frequente de urinar. O estado dos orgãos genitaes externos tinha melhorado e o tampão que se retirou achava-se embebido de secreções sem cheiro fétido. No dia 15 ás 7 horas da manhã a temperatura era 36°,4 ; a doente não passou bem a noite e teve suores abundantes. A’s 8 1/2 da manhã a tem- peratura era 36°,8 e o pulso 100. Colloeada na mesa de operações, foi retirado o tampão e a; ós uma injecção vaginal de acido borico foram retiradas as pinças hemostaticas, accusando a doente dòr intensi no acto de retirar a primeira. Reconduzida para o leito, foi-lhe permittido o decubitus lateral. Desse dia em diante a temperatura conservou-se sempre normal, cessou-se o catheterismo, ea micção continuou sempre dolorosa e acompanhada de tenesmos fortes. Em consequência desse estado for.un-lhe prescriptas pilulas de bromureto de camphora e eaunabis indica, e applicação de cataplasmas de linhaça quente sobre o baixo-ventre. Como a lingui continuou caiada, foi aconselhado o uso de agua de Seltz. No dia 18, persistindo com grande intensidade os incommodos da bexiga, foi prescripto, a conselho do Dr. Carlos Teixeira, o seguinte : Lupulina 1 gram. Chlorhydrato de morphina 5 centigr. Assucar de leite 3 gram. Para 8 capsulas. Tome 3 por dia. Tem-se continuado a fazer quatro injecções vaginaes por dia com so- lução de acido borico a 4 °/0. Foi continuando a mesma medicação até o dia 22, em que, a conselho do Dr. Werneek, foi substituida a solução de acido borico por uma solução de 20 gr. de sub-acetato de chumbo liquid v em um litro de agua morna, afim de activar a cicatrização das feridas vaginaes resultantes da eliminação das escaras. Os phenomenos de cystite foram gradualmente diminuindo e a cicatrização das placas vaginaes foi-se effectuando lentamente até que no dia 13 de Agosto a doente se achava perfeitamente bem, as dores da bexiga tinham desappareeido completamente e a cicatrização era quasi completa. No dia 27 de Julho caliiu grande numero dos fios de ligadura, re- stando apenas dous e desde a vespera tinha sido permittido á doente levan- tar-se. A cicatrização da ferida operatória não pôde ser completa pela per- sistência dos dous lios de ligadura que permaneceram até o dia 11 de Se- tembro, em que deliberei retiral-os ; mas é de esperar que em breve lapso de tempo ella seja completa, visto como as superfícies a unir apresentam ma- gnifico aspecto, isentas de qualquer suspeita. Do dia 24 de Agosto até 1° de Setembro adoente tevediarrhéa, que foi combatida com preparação de bismutho, achando-se ella em perfeitas con- dições no dia 14 de Setembro em que aconselhei que se retirasse para sua casa, perto do Engenho-Novo, com a condição de comparecer ao meu con- sultorio, afim de seguir a marcha da cicatrização da ferida operatória. Como se acaba de ver d i exposição deste caso, é de crer que a ope- ração seria seguida de brilhante resultado immediato se não tivessem sobrevin- do a cystite e vaginite provocadas pelo lamentável engano que narrámos, e se a permanência excessivamente longa dos fios de ligadura não tivesse obsta- do a cicatrização da ferida operatória. 7a Observação (pessoal) D. Idalina de Padua, casada, 48 annos de idade, branca, moradora à rua da Floresta n. 21. 228 Foi menstruada pela primeira vez aos 14 annos e sua funcção catamenial exerceu-se sempre com toda a regularidade. Teve oito Alhos, com partos e puerperios normaes. Ha um anno entrou no periodo da menopausa, sem nunca ter soffrido incommodos uterinos notáveis. Ha cinco mezes apenas appareceu-lhe um corrimento vaginal, ora branco, ora ligeiramente roseo, que dentro em pouco tempo adquiriu um cheiro fétido, que muito a incommo- dava e a impressionava. Não accusava dores, nem hemorrhagias, a não ser por occasião de ser examinada por algum medico. Essa senhora é gorda, de estatura alta, tez um pouco descorada e seu estado geral só apresenta indícios de ligeira anemia. Procurando-me em meu consultorio a conselho de seus médicos, Drs. Vil- laça e Vicente de Souza, procedi ao exame dos orgãos genitaes e encontrei: Vulva normal, vagina ampla, lisa e banhada por um liquido de cheiro nauseabundo, collo do utero augmentado de volume, ligeiramente endure- cido na parte posterior em uma pequena circumferencia; mucosa do focinho de tenca lisa, sem saiiencias ou ulcerações ; penetrando com o dedo no canal cervical, achei-o dilatado e a mucosa desigual e para a parede posterior desse canal encontrei uma cavidade de borda circular, cheia de uma sub- stancia molle, friável e sangrando abundantemente ao tocar. A cavidade do utero um pouco augmentada de capacidade, nove centim. ao hysterometro. O corpo era grande, movei perfeitamente em todos os sen- tidos ; os ligamentos largos, os sacro-uterinos e os redondos, perfeitamente elásticos e sem espessamento ou nodulos endurecidos; os ganglios das vi- rilhas normaes. Ao speculum nada se podia apreciar à primeira vista e sõ entreabrindo os lábios notava-se a desigualdade da mucosa cervical e o buraco assestado na parede posterior do collo, cheio ater os symptomas que se apresentam com aspecto tão grave. Ora, não é isto o que se vê diariamente ; porquanto, depois que apparecem estes symptomas, elles persistem e muitas vezes incrementam-se, apezar do emprego do perman- ganato _de potassa, e outras vezes por mera coincidência desapparecem. A conclusão, pois, a tirar é a seguinte: o permanganato de potassa, sendo o antidoto do veneno ophidico, precisa encontral-o, para destruil-o ou tornal-o inoffensivo, antes que este, absorvido, tenha produzido seus perniciosos effeitos ; por outra, elle não combate o envenenamento, combate o veneno. Assim, pois, não percamos o tempo precioso empregando eáte meio depois que se apresentam os symptomas geraes do envenenamento, depois que jà tiver havido absorpção do veneno. E’ absurdo, por exemplo, dizer-se que um indivíduo mordido de cobra, tendo já apresentado hemorrhagias múltiplas, amaurose, syncopes, etc. sendo submettido depois disso ás injecções liypo- dermicas de permanganato, graças a ellas tenha se restabelecido. Os innu- merosos casos em que, longe de melhorarem, os symptomas se incrementaram, vêm demonstrar que tal effeito não se póde, naquelle como neste caso, attribuir ao remedio empregado, mas sim a evolução natural da moléstia. 239 Quem clinicou no interior sabe com effeito que, apezar de toda a tempes- tade de symptomas horrorosos que apresenta o envenenamento ophidico, os doentes em geral curam-se, e muitas vezes com medicação bem simples. Para comprovar mais que nestes casos não se deve attribuir o effeito da cura ás injecções liypodermicas do permanganato, basta lembrarmo-nos das experiencias de Vulpian, o qual demonstrou que o permanganato em con- tacto eom os nossos tecidos decompõe-se, e deposita-se sob a fôrma de bioxido de manganez, não sendo por conseguinte nem sequer levado á tor- rente circulatória. Justamente, pois, para não amesquinliarmos nem deixarmos cahir no olvido a descoberta do nosso compatriota, não exijamos do permanganato de potassa mais do que elle pôde dar. Este é o antidoto do veneno, mas não o especifico contra o envenenena- mento. Limitada a isto, jàpor si a descoberta do Sr. Dr. Lacerda é muito bella. Se entretanto continuar a divulgar-se idéa differente, ella sõ servirá para desacreditar este medicamento. Em Cantagallo, onde cliniquei, quasi ninguém mais lança mão deste meio, e o motivo é simples : registrando os jornaes da Côrte casos pomposos de cura, em que os doentes, depois do apparecimento de symptomas graves submetteram-se ás injecções de permanganato com muitas horas e dias depois de mordidos, e a elle attribuindo a sua cura, e não apparecendo controvérsia alguma nem mesmo do autor da descoberta, dizendo que não se poderá, em boa fó, attribuir taes curas ao permanganato, capacitou-se o povo e mesmo alguns médicos que tal medicamento era o especifico contra o envenena- mento ophidico ; o resultado fói que os primeiros insuccessos trouxeram a decepção e o descrédito do meio preconisado. No municipio de Cantagallo conheço vários insuccessos, quatro da minha clinica em dez annos. Em um dos doentes fizeram-se, meia hora depois de picado, quatro injec- ções hypodermicas e outras tantas mais em 24 horas. 26 horas depois de mordido, falleceu este individuo, o qual foi por mim autopsiado. A autopsia revelou-me um facto curioso, eé o seguinte: não são só os symptomas geraes do envenenamento que se assemelham aos da febre amarella, as lesões anatomo-pathologicas também são muito semelhantes. O veneno ophidico produz rapidamente uma discrasia profunda e uma polysteatose visceral muito pronunciada, sobresahindo entre os orgãos, que soffreram a degenerescencia gordurosa em tão poucas horas, o flgado, o que explica a còr de cèra amarella que apresentam os mordidos graves de cobra, facto que todos os clinicos têm observado. Terminando estas ligeiras considerações, vou dizer quaes os meios que melhor resultado me deram, e quaes os de que lançaria mão em um caso de mordedura de cobra: 1. Injecções de permanganato de potassa nas cisuras feitas pelo reptil, se ainda não appareceram os symptomas do envenenamento. Em falta do permanganato, sucção das cisuras, tendo a precaução de ver primeiro que as prezas do reptil não tenham ficado seguras aos tecidos do doente, e que o individuo que faz a sucção não tenha algum ferimento na bocca. O objecto conhecido com o nome de — pedra dos indios — cujo preparo não é hoje segredo, dá muito bons resultados, applicado sobre as cisuras: produz uma poderosa absorpção do veneno e do sangue inoculado no ferimento. As cauterisações locaes são menos proveitosas, podendo ser aliás feitas, como meio adjuvante, depois do emprego de algum dos dous precedentes. 2. Apparecidos os symptomas do envenenamento, e mesmo antes disso, dêm-se poções cordiaes, em que entre o álcool, tonicos, excitantes-diffusivos; em seguida bebidas aromaticas quentes, ás quaes ajunte-se o alcali volátil e aguardente ou algum vinho generoso, de meia em meia hora, espaçando mais, afim de promover e entreter abundante e prolongada diaphorese. No dia se- guinte um purgativo salino ou de oleo, continuando com a poção tónica, e variando então a medicação, conforme os symptomas predominantes. Tal 240 é ordinariamente o tratamento seguido .no interior da província do Rio de Janeiro. Como se, vê a base da medicação é : sustentar as forças do doente, combater os symptomas graves mais assustadores, e empregar concomitante- mente uma medicação eliminadora, isto é, excitar e augmentar as secreções e excreções na presupposta e racional idéa de, por esta fórma, eliminar mais rapidamente o veneno ophidico. Levado por esta idéa, empreguei com.optimo resultado n’um caso as injecções hypodermicas de pilocarpina, a que associei bebidas alcoólicas internamente. O doente, que havia sido mordido por enorme jararacussu, apenas apresentou junto às duas cisuras ligeiro edema. Este resultado, tão completo quão satisfactorio, me parece dever ser attribuido ao meio eliminador empregado, porquanto só com o emprego dos alcoolicos internamente apparecem sempre symptomas geraes e locaes. Bem sei que de um facto clinico isolado não se póde tirar conclusões ; entretanto acho tão racional o emprego da pilocarpina associada aos alcoolicos, que não duvidaria aconselhal-a, sobretudo com o arrimo do caso precedente. Terminando, chamo a attenção dos collegas para o seguinte íacto de minha observação: tenho sempre notado que as stomatorrlngias abundantes são um bom signal prognostico. Em quatro casos fataes que vi, e em um outro de que tive noticia, os doentes não apresentaram stomatorrhagia, apenas um a teve ligeira ; porém a anciedado epigastrica, os vomitos con- tínuos, o pulso frequente e filiforme e as syncopes formavam um cortejo fú- nebre dos symptomas, que indicavam graves perturbações dos centros ner- vosos; e autopsiando tres destes cadaveres, encontrei vastos derrames internos, hemorrhagias gastro-intestinaes, etc. Taes são as ligeiras considerações que tinha a f.izer : ao distincto corpo medico, que clinica no interior das provindas, pertence a verificação dos factos em maior numero de observações. . O SR. VICTORINO BAPTISTA, diz que é assumpto do dia nas principaes sociedades medicas da Europa o estudo clinico e therapeutico do diabetes edas suas relações com os grandes processos morbidos que affligem a especie humana. A exemplo do professor Jaccoud, o orador admitte seis especies de diabetes, a saber : 1. O Diabetes Hydrurico ; 2. O Diabetes Albuminurico; 3. O Diabetes Glycosurico; 4. O Diabetes Phosphaturico; 5. O Diabetes Peptonurico ; 6. O Diabetes Azoturico Etiologia— O orador estuda a influencia da alimentação, e diz que os feculentos não parecem ser causa do diabetes, apezar das antigas observações de Bouchardat e Lancher, porquanto o Dr. Griemyer, em um relatorio importante apresentado ã Academia de Sciencias em 1875, em oitenta e quatro casos de diabetes, provou exuberantemente que poucos indivíduos, antes de contrahirem a moléstia, haviam-se nutrido durante certo tempo exclusivamente de alimentos reputados feculentos. Em apoio desta opinião, o professor Jaccoud appella para a frequência do diabetes nas classes abastadas, que abusam da alimentação animal, ao contrario das classes pobres, que, como se sabe, fazem maior uso dos vegetaes e feculentos. Refere-se em seguida ao estudo dos Drs. Stceter e Tourdes, que, dis- cutindo a frequência do diabetes em Strasburgo, attribuem a moléstia ao uso da cidra, da cerveja e dos líquidos alcoolicos. Falia depois da influencia do arthritismo e de outros estados mór- bidos constitucionaes, e diz que ninguém-hoje pôde contestar a influencia reciprocado arthritismo e do diabetes. Analysa a opinião.de Leudet Garrit, Charcot e outros patliologistas, e conclue contestando a influencia do arthritismo o dyspeptismo sobre o diabetes, influencia sustentada pela escola allemã. Falia da descoberta da funeção glycogenica por Cl. Bernard ; diz que, nos primeiros mezes da vida intra-uterina ou embryonaria, entre as funeções da placenta, deve existir a glycogenia placentaria, que parece supprir a glycogenia hepatica, e conclue dizendo que, desde que se tem completado o desenvolvimento histologico da viscera hepatica, por volta do 4o mez, a matéria glycogenica localisa-se no orgão hepático, desvian- do-se de todos os outros pontos. E’ o flgado, pois, exclama o orador, citando Esbach, o reservatório onde vem accumular-se o excesso de matéria glycogenica ou assucarada, formada pela nutrição. Não succede o mesmo quando se supprime estaacção do flgado ; então a glycose, não sendo mais retida, circula em excesso no sangue, e dá origem à glycosuria anormal e por conseguinte á glycosuria diabética. Cita, a proposito, os casos clínicos dos Drs. Colrat (de Lyon) e Lépine, que reproduziram as experiencias de Cl. Bernard sobre o diabetes alimentar. Discute o papel da uréa, do acido urico, do phosphoro, do enxofre, do chloro, como productos de desassimilação organica, e conclue, com as pala- vras de Cl. Bernard, que o diabetes é uma moléstia constitucional, caracte- risada essencialmente por um vicio de nutrição, e resultante de causas desconhecidas. Ella depende exclusivamente de uma falta de consumo do assucarnos tecidos, poreífeito de uma diminuição na actividade nutritiva. Ninguém desconhece a influencia do systema nervoso nas funeções da nutrição ; ninguém ignora a influencia do traumatismo directo ou in- directo do craneo sobre o desenvolvimento das diversas especies de diabetes estudadas ultimamente, e portanto ninguém mais contestará que estes agentes, systema nervoso e traumatismo, influem sobre a moléstia em geral. A proposito, refere o caso de um diabético que viu seus soffrimentos aggravarem-se depois de uma quéda. Nega que seja frequente a influencia do impaludismo sobre o diabetes glycosurico, e, de accordo com os estudos de Leroy de Méricourt e Sorel, julga que são muito raros os casos de diabetes glycosurico no Brazil produ- zidos pelas febres palustres larvadas. Diz ter conversado com os médicos mais notáveis do Rio de Janeiro, com os médicos do campo, etc., sobre esta influencia, e conclue attribuindo ao impaludismo o diabetes hydrurieo, albu- minurico e ás vezes o phosphaturico. Refere o caso de um doente de diabetes hydrurieo, consecutivo ao impa- ludismo larvado e á insolação, notável pela exageração da polydipsia, da polyuria, e acompanhado de insomnias, que modificou-se consideravelmente fazendo o individuo uso da solução de citrato de morphina, dos bromuretos al- calinos, e finalmente do acido arsenioso e da hydrotherapia. Este doente uma noite teve tanta sêde que sorveu um jarro, uma moringa e uma bacia cheias d’agua ! Diz que geralmente os doentes que têm febres intermittentes antes de soífrer de diabetes são sujeitos á lithiase biliar ou renal, e que os clinicos, pelo facto da febre de typo intermittente, sem examinarem as urinas, prescrevem os anti-periodicos e as aguas mineraes. Nega a existência de diathese dartrosa, e, ligando as manifestações her- peticas, o psoriasis, o eczema e outras dermatoses, ao arthritismo, diz conhecer em Campos uma verdadeira família nevropathica, cujo chefe, depois de soffrer ha annos de uma dermatose, foi accommettido de dyspepsia, cólicas visceraes e por ultimo de diabetes glycosurico ; e, cousa notável, os phenomenos diabéticos appareceram, quando o respeitável velho havia melhorado dos soffrimentos da pelle e do estomago. Procurando explicar este facto, o orador acredita que certos que eram eliminados pela pelle, repercutiram sobre o apparelho uropoietico e foram eliminados pelos rins. « Vê-se por esta observação », diz orador, « que no estado normal, assim como no estado pathologico, o organismo é um rece- ptaculo e laboratorio de venenos. »(C. Bouchard, Lições sobre auto-into- xicações.) Entrando na pathogenia do diabetes, o orador sente não poder analysar todas as theorias existentes para explicar a moléstia, e englobando .todas na theoria do vicio de nutrição, formulada pelo eminente Bouchardat, acredita que o diabetes é uma moléstia que resulta dos seguintes factores: Io, Da falta de oxydações ; 2o, De um excesso de assucar na torrente circulatória, ora dependente de uma absorpção gastro-intestinal muito activa; ora finalmente de umadesassi- milação dos tecidos, que encerram matéria glycogenica (tecidos de gramilina do Sr. Rouget). A falta de oxydação, facto provado desde Moleschott e Bouchardat, dá-se porque, no estado normal, o assucar proveniente da digestão dos feculentos e da acção glycogenica do ligado, se transforma e desapparece á medida que é derramado no sangue. « Quando, » diz Béclard, « em consequência de uma perturbação desconhe- cida, de um vicio diathesico (tem aqui applicação o arthritismo, herpetismo, etc), as oxydações se reduzem, o assucar escapa às metamorphoses da nutrição, accumula-se no sangue, e o diabetes se declara com todo o cortejo clinico.» E’ evidente, pois, que as oxydações soffrem reducção, e basta considerar que o diabético não destróe o assucar, não o queima completamente, como 243 fazem os outros indivíduos em pleno estado de saude, para acreditarmos na queda da temperatura, como succede em muitos casos. Faliam por nós Bouchardat, Lomnitz, Roseustein, Boucharde outros vultos, que observaram a temperatura cahir de 37° á 36°,6 ó 36°, 8, e viram-n’a subir a 37°5, quando a quantidade de assucar diminuía excessi- vamente, sob a influenciada therapeutica. (Bouchard, pag. 114.) O orador viu, quando interno do pranteado Barão de Torres Homem, na clinica medica da Faculdade do Rio de Janeiro, um caso de pneumonia em diabético e notou a quantidade de assucar diminuirá proporção que a tem- peratura elevava-se, e a proposito citará as palavras do seu saudoso mestre: « Quando uma moléstia aguda febril apparece intercurrentemente durante a evolução do diabetes, a quantidade de assucar eliminada pelas urinas di- minuo sensivelmente, podendo mesmo desapparecer. » O diabético perde o poder de destruir o assucar, porque é no figado, segundo Esbach, que os assucires adquirem a propriedade de queimar rapi- damente; desde, porém, que o orgão soífre um insulto de diathese urica, de impaludismo, uma desordem em seu apparelho nervoso, como nos casos de traumatismo, etc., elle perde esta propriedade electiva para a glycose, e em virtude da deficiência das oxydações, esta accumula-se no sangue e é eliminada pelas urinas. Nem sempre isso acontece, e então a theoria do Sr. Schultzer explicará a moléstia. Sabe-se actualmente, por experiencias, que os musculos e os nervos não são excitáveis senão quando encerram oxygeneo livre, e por conseguinte, acreditamos que as oxydações de nutrição correlativas das acções nervosas ou musculares se operam na intimidade dos tecidos. A proposito, o orador cita as experiencias de Regnault e Reiset, que fi- zeram viver animaes em athmosphera rica em gaz carbonico, e chama a atten- ção do Congresso para os trabalhos de Brown-Séquard, Chabanne, Wiens, etc. sobre as applicações das inhalações de acido carbonico no tratamento das diversas formas de dyspnéas. Era occasião de estudar-se a origem do calor animal, e discutir a dou- trina dos vaso-motores de Claude Dernard, a doutrina da capillaridade de Robert de Latour, e discutir a importante questão do que se chama em phy- siologia ponto de eleição das combustões. Não o póde fazer por falta de tempo. O orador falia do diabetes albuminurico, descreve a cataracta diabética de Lecorché, explica a polydipsia, a polyuria e as manifestações nervosas, o coma diabético, e conclue analysando os diversos tratamentos aconse- lhados contra a moléstia, como a antipyrina, o citrato de morphina, a strychnina, os bromuretos, o arsénico, o balsamo peruviano, os alcalinos e as aguas mineraes, e conclue dizendo que a cura do diabetes è um problema cuja solução está confiada ao futuro da sciencia, e que por isso pede ao presidente para que inclua o diabetes no numero das questões do Congresso de 1889. 0 SR. DR. NEVES ARMOMOND diz que em sua these inaugural de 1874 apontou todos os inconvenientes de extenuação intellectual da infanciae ado- lescência, a que na ultima sessão se referiu o Sr. Dr. Rozendo Muniz, e pede que o Congresso influa com o seu prestigio para que essas idéas sejam postas em execução. Pede igualmente que outras questões de hygiene, como a prophylaxia da syphilis, a obrigatoriedade das vaccinações e revaccinações, e medidas a tomar contra a miséria e sua influencia nas epidemias em nosso paiz, se- jam questões de que se occupe o futuro Congresso, tomando a respeite resoluções positivas. 0 SR. DR. HILÁRIO DE GOUVÉA (da presidência) congratula-se com a classe medica do Brazil pelo exito inesperado deste Congresso, cuja ousada iniciativa se deve á Sociedade de Medicina e Cirurgia do R io de Janeiro, a qual sente-se bastante compensada do seu esforço, pela realização deste acontecimento, que, além do grande numero de trabalhos e observações im- portantes quearchivou, teve o mérito de patentear a educação e perfeita ori- entação scientiflca do corpo medico brazileiro. Por este primeiro ensaio, já se pôde augurar o brilhante contingente scientifico dos futuros Congressos, aos quaes, conta, comparecerão aquelles, e são muitos, que duvidaram da rea- lização deste. MEMÓRIAS AVULSAS . CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ASEPSIÀ CIRÚRGICA PELO DR. H. MONAT CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ASEPSIA CIRÚRGICA Quando em Setembro do anno passado fui encarregado de dirigir um ser- viço de cirurgia, no hospital S. João do Deus, da Sociedade Portugueza de Beneflcencia, nesta cidade, reinavam nas duas enfermarias de cirurgia desse hospital a erysipela e a lymphatite. Estas salas eram mal reputadas neste sentido, segundo fui informado por collegas e pelo pessoal do hospital. Raramente os traumatismos cirúrgicos ou accidentaes deixaram de pagar o terrível tributo ; entretanto as duas enfermarias estão situadas em um edi- ficio largo, alto, amplo, muito bem arejado por todos os lados, nas melhores condições hygienicas possível. Não me é possível dar o numero exacto dos casos de infecção que encontrei, porque não achei um registro clinico, e nas papeletas apenas eram indicadas as moléstias que davam logar ás entradas, ou era mencionada a infecção, quando esta, pela sua gravidade ou por sua importância em relação ã corrente de entrada, dominava o syndroma protopathico. Interrogando os doentes e o pessoal auxiliar do serviço, verifiquei que raros eram os casos que não tinham sido victimas do contagio. Um doente tivera entrada por um bubão : feita a incisão, no dia seguinte apresentara elle a erysipela do escroto ; outro entrara por causa de uma ulcera da perna, á tarde: à visita, no dia seguinte pela manhã, a erysipela era franca. Não eram raras as terminações da erysipela e da lymphatite por suppu- ração ou por gangrena: a morte não deixava também de ser uma das. termi- nações em alguns casos. No dia em que tomei conta do serviço, havia, em 27 doentes, 6 casos de lymphatite e 3 de erysipela, total 9 — isto ó, 33 % sem contar, como disse, aquelles em que a infecção já tinha-se processado — e outros em que se pro- cessou depois. Inaugurei logo o methodo anti-septico, que até então tinha sido empregado por meus predecessores como curativo excepcional — nas grandes operações : empreguei-o como methodo geral. Yi pro.cessar-se a infecção, e tive de registrar um caso de morto por lym- phatite suppurada. Um doente entrou com uma ulcera syphilitica em uma das pernas no dia 26 de Setembro ; apezar de toda a anti-sepsia empregada, dez dias depois a lymphatite era franca. Como este, eu poderia citar outros casos, que demonstram que não bastava formar o pequeno meio anti-septico ao redor das feridas; que era preciso corrigir o grande meio. Graças á solicitude da benemerita directoria da sociedade, esvasiei uma das enfermarias e procedi a rigorosa desinfecção, passando os doentes para uma sala vizinha, o que pareceria á primeira vista invalidar os meus es- forços . As paredes da sala foram lavadas, caiadas e irrigadas com solução forte de bichlorureto de mercúrio; as camas tambam foram desinfectadas, como as commodas e todo o material aproveitávelos colchões e as roupas de cama foram mudados. Depois de quinze dias de desinfecção fui dando entrada na sala a novos doentes, até que esvaziando-se a segunda enfermaria, procedi também á sua desinfecção. 250 Um dos meus cuidados foi remover do serviço certos doentes chronicos, focos de infecção: assim, existia n’uma das salas um que entrara para o hospital havia sete annos. Era um velho com elephantiase de ambas as pernas, que de quando em vez era victima de insultos de lymphatite. • Este doente habitava a sala desde sua installação. Este velho, como outros doentes do serviço, occupava-se durante o dia, para se distrahir, em rolar ataduras, preparar fios, etc. Seria elle a causa primordial da infecção da sala, ou soffria elle a influencia do meio em que vivia ? Não procurarei discutir questões espinhosas, não preciso tão pouco recordar a correlação entre a elephantiase e as dermatoses lymphatite e erysipela. Justiça devo fazer aos Srs. directores : quando lhes communiquei a po- sição em que eu me achava, mostraram-se sorprendidos e muito me auxi- liaram. Os resultados que colhi foram os mais lisongeiros que se pôde imaginar. Durante o anno entraram para o meu serviço grande numero de doentes. Pratiquei um numero considerável de operações de pequena e muitas de alta cirurgia. Tive casos de resecção da anca, extirpação de tumores na face, na nuca e em diversas regiões em que a erysipela é accidente frequente ; abri abcessos da fossa iliaca interna; flz kelotomias; abri oito vezes a vaginal por hemato- cele ou por hydrocele ; tive casos de fractura, de phlegmões suppurados da axilla e da mão; feridas incisas e contusas externas ; ulceras de todas as variedades ; queimaduras ; pratiquei autoplastias em casos de labio leporino, de fenda da abobada palatina ; flz uretlirotomias e divulsões da urethra ; re- cebi casos de periostite, de necrose ; tive emfim de registrar uma estatística muito variada, sem uma só infecção ; obtive grande numero de cicatrizações por primeira intenção,e a não ser raramente uma ligeira reacção após um traumatismo, não registrei um caso de febre consecutiva a operações ou a ferimentos accidentaes. Devo consignar, e isto é de grande importância, que recebi no serviço doentes que tinham entrado por erysipelas, algumas suppuradas, e casos de gangrena. A principio eu isolava estes doentes ; depois tive bastante confiança no meio geral que eu estabelecera e conservava, assim como nos curativos que fazia, e não tive um só caso de transmissão. Desde o começo deste mez tenho eu em uma das salas dons doentes de erysipela no escroto (uma suppurada) e na cama íronteira um doente com um grande artelho esmagado, sob o tratamento da irrigação continua. Estão ainda na sala vizinha, um doente a quem eu fizera a kelotomia, outro com um abcesso da fossa iliaca intèrna, operado; um com ferida, por arrancamento da perna ; um com um ferimento, por arma de fogo, no pescoço ; uma fractura do antebraço, casos de ulceras, etc. E’ evidente, portanto, a necessidade de eorrigir-se o grande meio antes de pensar no pequeno. A mesma transformação, que se deu no meu serviço, deu-se no do meu illustrado amigo e collega Moraes Sarmento. Foi feita a desinfecção das suas salas e pôde o illustrado clinico operar ectomias escrotaes em elephantiases, fendas congénitas do labio, aneurismas, hérnias, etc., sem accidente. Devo dizer que o Sr. Dr. Sarmento, assim como os Srs. Drs. Schreiner e Poncy durante minha ausência insistiram sempre, mais do que eu, no uso do iodoformio, do salol e do salycilato de sodio topicamente. Tive occasião de deixar de empregar anti-septicos, de me servir de agua simples, não esterilisada, colhendo os mesmos resultados. _ Eu não me arriscaria a assim proceder, se tivesse nas salas casos suspeitos, não pela confiança que me inspirem esses medicamentos e outros congeneres ; mas porque não vejo o meu modo de pensar corroborado por muitos cirurgiões, e receiava a critica maldosa, visto estas drogas serem patrocinadas por homens notáveis e acceitas pela generalidade. 251 A verificação que se faz, porém, todos os dias, do pouco ou nenhum valor de cada um dos chamados anti-septicos já conhecidos, á medida que se desco- brem novos, e a reflexão que faço sobre os resultados, que são attribuidos a cada um delles emquanto em voga: tudo isso me faz crer que á asepsia pura está reservada a explicação dos successos da cirurgia moderna. Pareço estar em contradicção ; n’uma nota, porém, destinada apenas a des- pertar trabalhos mais completos, não posso ser mais extenso; tanto mais quanto discutirei o assumpto em trabalho de conjuncto, que farei ulteriormente. Frequência dos cálculos no Brazil; resultados operatorios Se, pelo trabalho do Sr. Dr. Bulhões, eu não tivesse veriíicado que não sou dos cirurgiões do Rio de Janeiro mais pobres em casos de cálculos vesicaes, eu não aventuraria as seguintes objecções ás asserções sustentadas nesta tri- buna . Entre outras accusações, que fez o meu amigo e collega, Sr. Dr. Crissiuma, contra a lithotricia, accentuam-se : perigos em relação á mucosa, inftdelidade de methodo em relação ã terminação da operação e necessidade de instru- mentos volumosos para a fragmentação e aspiração dos fragmentos, traumas exaggerados : insistiu o meu collega na difficuldade da execução, e pelo que ouvi do meu collega, Sr. Dr. Domingos de Góes, estão de accôrdo os dous distinctos professores neste particular. No caso citado pelo Sr. Dr. Crissiuma, o Sr. Barão de Saboianão conse- guiu fragmentar o calculo, e o Sr. Dr. Pedro Affonso também foi infeliz; a talha foi reclamada, e a autopsia, 48 horas, depois demonstrou um rim redu- zido a uma bolsa de pús ; o que meu collega attribuiu ás manobras da litho- tricia. O calculo, volumoso e duro, apenas fôra arranhado pelos lithoclastas poderosos. Eis ahi um caso que nada demonstra. O Sr. Barão de Saboia não o citaria para combater a lithotricia, porque o volume e a consistência do calculo contraindicavam a applicação do methodo: a lithotricia tem indicações, e ars tota in indicationibus é principio ele- mentar. Se o collega quer provar por este caso que a lithotricia não póde ser um methodo geral, não faz mais do que corroborar principios estabelecidos desde Civiale e Leroy d’Etiolles, que repartiam as indicações, nos casos de in- tervenção, entre a talha abdominal e a lithotricia. Não é, portanto, argumento contra o methodo : não prova, portanto, sua inftdelidade. Ainda mais — quando o Sr. Dr. Crissiuma referia o caso sorprendeu-me que aquella pyelo-nephrite suppurada se processasse tão rapidamente, visto como, disse o collega, o individuo era tão forte, robusto e quasi o descreve um homem são. E com prazer vi que um iIlustrado professor da Faculdade, meu mestre, a cujo lado eu me achava, manifestara a mesma sorpreza. A alteração do rim com certeza processou-se antes da operação: esta talvez a tivesse podido fazer explodir em manifestações ruidosas, até ahi latentes ; mas o que não permitte duvida, é que o illustrado professor de clinica, meu mestre, se tivesse examinado o estado dos rins, como o fazemos hoje todos nós, que nos occupamos das moléstias das vias ourinarias antes de qualquer inter- venção, com certeza teria escolhido logo atalha, que iria preencher duas in- dicações. Não preciso adduzir argumentos clínicos : a physiologia basta para indicar os perigos de uma excitação da urethra e docollo. Os perigos, que corre a mucosa vesical na lithotricia, são idênticos aos que corre o plexus de Santorini na talha perineal, ou o peritoneo na abdominal, para não citar outros exemplos. A bexiga convenientemente distendida não apresenta dobras fluctuantes que se venham interpor aos dentes dos llthotridores, e é de regra, todos _nós o fazemos, verificir se o calculo, e só elle, está preso ao instrumento, e não a mucosa, da mesma fôrma que, antes de exercer tracções depois de presa a cabeça do feto entre as colhéres de um fórceps, o parteiro verifica se não agarrou o utero ou uma dobra da vagina. Conheço casos até em que se tem feito a lithotricia sem distensão da be- xiga, sem entretanto a mucosa nada soffrer ; entre outros casos, posso citar um do Sr. Dr. Fragoso, conhecido especialista. Nem se diga que a anesthesia subtrahe esta garantia ao cirurgião. Posso-o alíirmar por experiencia : quando a bexiga não está anesthesiada, suas contracções podem expòr ao accidente ou pelo menos o instrumento, sendo manejado por mãos delicadas, tornar longas e morosas as sessões. Em relação á anesthesia, aproveito a opportunidade para repetir aquillo que publiquei ha tempos no Brazil Medico : a cocaina não impede as con- tracturas da bexiga, nem permitte distender-se este reservatório sem despertar reflexos como os anesthesicos geraes, de modo a permittir a execução até final da operação. Tres casos de lithotricia conto eu, todos em uma só sessão : em nenhum empreguei os instrumentos fortes de Bigelow, nem tive de dilatar a urethra até ao calibre 60, que apresentava a urethra do doente observado pelo Sr. Dr. Malaquias, meu amigo e collega, distincto cirurgião pernambucano. Nos tres empreguei os instrumentos ordinários, e sei que outros assim têm feito. As sessões demoradas, a distensão exaggerada da urethra nos limites indi- cados por Otis, bem entendido, a aspiração, não são de absoluta necessidade e a prova é que cada cirurgião tem modificado a operação de Bigelow, tornando-a mais branda. Em França e na Inglaterra os discípulos de Guyon e de Thompson se afastam muito de certos detalhes indicados por Bigelow. Eu não me arriscaria a uma sessão de duas, tres horas; tanto mais que tive occasião de ver a bexiga supportar, administrando-se o opio, fragmentos de calculo sem e ainda citarei em apoio desta opinião o nome do Sr. Dr. Fragoso, muito com- petente no assumpto. E’ verdade que na minha terceira lithotricia eu suppunha ter extrahido todos os fragmentos, quando na terceira noite, depois da operação, indo visitar o meu doente, o proprietário do hotel da rua do Areal n. 8, onde elle se achava, recebeu-me dizendo que o doente tivera no começo da noite dores fortes para ourinar e que ífium banho expellira um fragmento, que o doente me mostrou depois: era do volume de um grão de milho. O incommodo causado pelo fragmento não durou 15 minutos. E póde-se comparar estes accidentes á talha perineal mais benigna ? Permitta-me o Sr. Conselheiro Catta Preta que eu aproveite o seu caso citado de um enorme calculo, a que a talha abdominal deu sahida, por não ter sido isto possível por meio da perineal. O Sr. Dr. Crissiuma, pondo-o ao lado do caso do professor Saboia, consi- deral-o-à talvez um argumento contra a lithotricia. Entretanto a indi- cação seria aqui um erro, como o foi em relação á talha perineal, e mesmo até á recto-vesical. Se os diâmetros da pedra tivessem sido conhecidos, com certeza não teria havido duvida na indicação. Sou de opinião que em casos de duvida quanto ao volume do calculo, a talha abdominal ó indicada : foi, entre outras, por esta razão que escolhi este methodo no meu ultimo caso. Neste doente um collega muito distincto, seu assistente, o Dr. Sr. Oscar de Abreu, do Rio Bonito, diagnosticara um tumor maligno e uma pyelo- nephrite. Pelo toque rectal encontrei uma massa enorme, cujos limites meu dedo não alcançara, molle, depressivel, ànalogaâ de uma cellulite periprostatica suppurada. Pela apalpação abdominal, combinada como toque, senti um volume seme- lhante a um utero do volume triplo do normal e em posição analoga. Introduzindo uma sonda de gomma até a bexiga, encontrei, é curioso e para o facto chamo a attenção aoscollegas, a sensação de um calculo, depois uma substancia que se deixara vencer, e novamente sensação de calculo. Introduzi um explorador metallico : assistia ao exame um collega retirado da clinica, o Sr. Dr. G. Smith. Logo ao penetrar na bexiga, distendida por uma solução de cocaina, senti um calculo que medi deprimindo a substancia molle que se oppunha á progressão do instrumento : medi 20 millimetros, mais ou menos : fazendo gyrar o bico do instrumento de cada lado da bexiga, senti dous cálculos das mesmas dimensões approximadamente ; ou melhor, senti duas superíicies de cálculos, e, sempre me limitando os movimentos, a massa molle ; não havia duvida, era a parede flacida da bexiga ; entretanto, eu não podia injectar mais liquido, sempre pelo explorador, porque a bexiga repellia o embolo da seringa, limite bem indicado pelo Sr. Dr. Malaquias. Repeti o exame duas vezes, o resultado foi o mesmo, apezar de ter eu modiflcado o plano do baixo fundo da bexiga por meio de travesseiros. Diagnosticámos tres cálculos. Fui operar o doente fóra da Corte ; em presença do Dr. Abreu medi de n*ovo os cálculos ; só encontrei dous : era facil achar a explicação do não en- contro do terceiro ! Nem puz em duvida o numero. Nesta occasião, como na Côrte, tentei medil-os com um lithotridor ; foi-me sempre impossivel introduzir o instrumento. Esta razão não me bastaria para contraindicar a lithotricia : os meios de corrigir são fáceis. Mas o doente tinha uma pyelo-nephrite e eu não sabia o volume dos cálculos : não hesitei, indiquei a talha abdominal, como o teria feito no caso do Sr. Conselheiro Catta Preta. Aberta a bexiga do meu doente, que, devo dizer, em todos os exames deu-me sangue, mesmo quando empreguei a sonda de gomma, encontrei um so calculo, enorme, de 155 grammas,— de 75 millimetros no maior diâ- metro. Este calculo, eis ahi a causa do meu erro de diagnostico quanto ao nu- mero, estava no meio de prolongamentos polipiformes de um tumor grande, que se implantava no fundo da bexiga, e que tive de extirpar. Comprehendeis facilmente que aquelles prolongamentos mascaravam parte da superflcio do calculo, e eu, por outro lado, não ousava depritnil-os muito, por suppôr que fosse aquella resistência offerecida pela parede da bexiga : era inevitável o erro do diagnostico. > Nem dei nunca importância ao diagnostico do meu collega, nem elle con- tinuou a dar-lhe, depois de termos achado tres cálculos e uma pyelo-nephrite, que nos explicaram o estado de depauperamento do doente, que não se alimen- tava, não dormia bem havia seis annos, soffria dores atrozes, que o fizeram abandonar seus aífazeres, etc. Se eu neste caso tivesse tentado a lithotricia ou atalha perineal, ter-me-ia succedido o que succedeu aos Srs. Conselheiro Catta Preta e Barão de Saboia, Ainda em relação á lithotricia, devo oppôr aos collegas, que exaggerão a sua difflculdade, o que succedeu-me na pratica. Quando pela primeira vez a pratiquei, encontrei a maior facilidade. Fora eu chamado pelo Sr. Dr. Marcellino Moura, tabellião da Côrte, para operar um moço vindo de S. Paulo, que soffria de um estreitamento da urethra. O doente tinha conservado uma sonda fina 24 horas; muito nervoso, pe- diu-me para ser chloroformisado; introduzindo o catheter de Maisonneuve* pareceu-me sentir um calculo : desbridei o estreitamento e passando uma sonda coudée metallica, verifiquei sua existência. Mandei um ajudante ao meu consultorio buscar lithotridores, emquanto mantinha o doente sob a acção do chloroformio: operava eu o doente no Royal Hotel, no Caes Pharoux. Introduzindo o primeiro lithotridor, agarrei logo o calculo e o esmaguei: fiz a extracção por aspiração simples com a seringa ordinaria e urna algalia metallica de grosso calibre, mas não exaggerado. No segundo caso, confesso, anesthesiando o doente, procurei o calculo, que 11a ante-vespera eu pudera medir, e não me foi possivei encontral-o, apezar de ter variado o.grào de distensão da bexiga e a posição do doente : podem calcular os collegas 0 effeito de tal decepção, quando se tem ao redor de si amigos do doente, curiosos de ver extrahir-se uma pedra : ou por impa- ciência ou por falta de pratica ou por não ter 0 meu lithotridor o bico bas- tante largo para vencer a saliência da próstata, procurei em vão 0 calculo quasi meia hora, impacientei-me e adiei a operação. * Dias depois senti de novo 0 calculo, que eu já chegara a suppôr não existir, apezar de o ter medido: tal foi a impressão que soffri. Fixei novamente dia para a operação : anesthesiado 0 doente, só no flm de um quarto de hora encontrei 0 calculo, que esmaguei e, cousa curiosa, com toda facilidade fragmentei os estilhaços. Encontrei, porém, 0 calculo deitando o doente de um lado e mantendo 0 bico do instrumento inclinado nesse sentido e para o baixo-fundo: esta manobra eu fizera na primeira chloroformisação, mas sem insistir nella, e por isso sem successo. Depois desse caso tive occasião de commetter 0 erro que citei quanto ao numero ; no terceiro não senti outras diííiculdades. Se 0 calculo póde ser facilmente medido, como achar difficil a litho- tricia ? O grào de anesthesia e a dilatabilidade da urethra são os princípios da litholapaxia : esta ultima condição perderá de importância quando se tiver resolvido o problema sob outro ponto do vista. Disto me occupo eu ha tempos, e receiaria annuncial-o já, de medo de ser tomado por utopista : eu não tenho a felicidade de procurar resolver a questão de prompto, mas os resultados que tenho colhido em experiencias, me permittem crer que se poderá um dia tornar os cálculos friáveis ou decompoí-os mesmo. Mergulhando 0 calculo, um phosphato, em uma solução de chlorureto de sodio ou em agua acidulada, e fazendo passar uma corrente electrica fornecida por um accumu- lador como os de Julien, que tenho empregado, ou uma pilha Leclanehé, tenho conseguido não só tornar o calculo friável, como desprender um pre- cipitado, que com o chlorureto de sodio é relativamente abundante. Por emquanto sò tenho obtido este resultado com muita lentidão : para obter precipitar um terço de um fragmento de calculo, empregando quatro accumu- ladores Julien, foi preciso que a corrente actuasse 24 horas. Com a agua acidulada o amollecimento é mais rápido. Por meio da electrolyse, verdadeira- mente eu obtive um deposito tão pequeno sobre o fio de platina que não creio que se deva procurar por este lado a solução do problema. Estas expe- riencias a principio tentei com pilhas ordinárias ; vi mais accentuado o re- sultado experimentando com os accumuladores Julien no laboratorio do Sr. Conselheiro Pitanga, professor da Escola Polytechnica, que benevola- mente os poz á minha disposição. Ha tres annos, mais ou menos, fiz tentativas neste sentindo, consultando desde esta época 0 Sr. Dr. Berthaud : aconselhara-me elle obter por meio de duplas decomposições o resultado : bem pouco tenho obtido, apezar de ter variado muito as experiencias. Ultimamente, 0 Sr. Dr. Berthaud aconselhou-me 0 emprego do acido car- bónico sob pressão com o fim de deslocar o acido phosphorico dos phosphatos e tornal-os friáveis, senão facilitar sua precipitação : tenho feito alguns ensaios e devo dizer que é de esperar algum resultado neste sentido, porque eis o que observo :— emprego o siphão ordinário, que se encontra no com- mercio; injecto a agua em um frasco em que se acha 0 calculo sem projectar sobre elle afim de excluir a hypothese da acção mecanica do jacto; fecho 0 frasco hermeticamente e verifico, tendo 0 calculo suspenso por uma linha, que se desprendem partículas ; deixo o calculo macerar 24 horas e elle amollece, não tanto como na solução acida a que me referi, mas de modo a se poder fragmentar facilmente. Eu não me illudo sobre as diíficuIdades do problemi nem sobre a minha incompetência em questões de chimica: achada a substancia ou o meio de dis- solver ou de tornar friável o calculo, será preciso verificar a tolerância da bexiga em relação aos ácidos que se formam na decomposição, aos injectados, etc. Sei que um calculo nas mãos de um experimentador não é revestido de mucoj catarrho, pus, etc, que o isolarão das.substancias que sobre elle devem açtuar; coagulando-se, por exemplo, não será facil perfurar o calculo, frag- mental-o grosseiramente, etc., afim deexpòr essa substancia á acção do agente dissolvente. Parece uma utopia em 1888 voltar à questão dos lithotripticos, entretanto quanta velharia condemnada é hoje doutrina corrente e aceita por todos. O que era a trepanação antes de Broca ? Dupuytren, depois da critica de Desault, diagnosticando e operando um abcesso do cerebro, foi considerado um temerário, protegido pelo acaso. Relevem-me, portanto, os meus collegas voltar a uma questão, que já foi abandonada. Duas palavras ainda sobre a talha hypogastrica: nos meus dous cálculos fiz a drenagem de Demon, modificando-a : introduzi uma sonda de Nelaton pela ur.ethra", e íixando-a ao tubo hypogastrico de modoa facilmente desprendel-os ; e faço a sutura dupla, comoreferio o Sr. Dr. Bulhões. Apezar da drenagem, a ferida é sempre banhada por ourina, porque a bexiga é-uma cavidade ventral; sobe o liquido por capillaridade até a ferida, desde que se acha a bexiga aberta: o dren, porém, urethral acarreta retalhos de coágulos sanguineos, farrapos de catarrho, pús, etc., com alguma ourina, e presta serviços; o abdo- minal da mesma fôrma; creio, porém, que, o dren urethral presta mais ser- viços, pelo que verifiquei nos meus dous doentes ; em outra talha, que tenha de praticar, eu o farei exclusivamente afim de facilitar a cicatrização da bexiga. A’cerca de asepsia na talha, sou de opinião que ella é impossivel, o meio que pareceria mais eííicaz é a administração interna do acido borico, o borato e o benzoato desodio; creio, porém, que seueffeito é nullo, porque em casos de cystite suppurada, de catarrho da bexiga, nenhum resultado colhi ainda; entre- tanto que, injectando no reservatório ourinario directamente pela urethra, o resultado é rápido e efficaz. A explicação está em não se poder administrar internamente a dóse necessária para corrigir a ourina. Guyon, que, acon- selho de Pasteur, injectara soluções de 4 %, hoje recommenda a solução saturada, e a pratica dá-lhe razão. Uma ultima consideração em favor da talha hypogastrica: pôr em pa- rallelo as estatisticasda talha hypogastrica, da perineal, e da lithotricia é es- quecer que a primeira, até ha poucos annos, só foi empregada como methodo de excepção, que seu quociente de mortalidade deve, pois, ser grande. Significa ’sto que não pôde ainda ser julgada; mas, pelas razões adduzi- das pelo Sr. Dr. Pereira Guimarães, meu mestre, e pelo Sr. Dr. Malaquias, creio realmente que ella deve ser levantada, e que ella tende a sobrepujar a perineal. CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ENUCLEàÇÃO NA PANOPHTHALMIA PELO DR. VICTOR DE BRITO Da enucleação na panophthalmia Senhores.— A enucleação na panophthalmia tem sido desde muito tempo summariamente accusada pela maior parte dosophthalmologistas, como exces- sivamente grave e causa de accidentes mortaes pelo lado do cerebro e das meninges cerebraes. No ultimo congresso fruncez do ophthalmologia foi a enucleação na pan- ophtalmia assumpto de uma importante discussão, iniciada pelo uota.vel professor Panas, na qual tomaram parte os mais notáveis oplithalmologistas, entre os quaes Abadie, Gayet, Coppez, Meyer, Galezowsky. A enucleação teve seus accusadores severos, como teve defensores sinceros. Em uma observação apresentada pelo professor Panas, a enucleação, prati- cada em plena suppuração, foi seguida de morte por meningite purulenta e pleurisia séptica, moléstias quo coincidiam com a panophthalmia antes da enu- cleação. • A infecção, segundo Panas, parte do olho panoplithalmico e estende-so ao resto do organismo; a enucleação é o meio mais efficaz de oppôr-se á sua propagação. De outro lado, Abadie, um dos muitos inimigos da enucleação na panoph- thalmia, declara que se espanta quando ouve propor aquella operação durante o periodo agudo do phlegmão do-olho. O sabio ophthalmologista francez refere em seu apoio dous casos de morte na clinica de A. Graefe (de Halle). Segundo Coppez, na panophthalmia intensa ha lesão dos tecidos vizinhos, oas desordens, provocadas pela enucleação, facilitam a propagação dainflam- mação ás meninges. Como A. Graefe, Coppez prefere em tal caso a exen- teração. A longa discussão, em que se empenharam ophthalmologistas tão eminentes, não deu á que tão uma solução definitiva. A enucleação na panophthalmia continha a ser ainda objecto de sérios es- tudos. Cada um trará o seu contingente, pequeno ou grande, e só assim poderá ser conseguido o veredictum scientilico sobre e assumpto em questão. Essa convicção anima-me a apresentar ao Congresso dous casos de enuclea- ção em plena panophtalmia, seguidos de exeellente resultado. Antes, porém, de fazel-o, seja-me permitlido entrar em ligeiras conside- rações theoricas, com o fim de estabelecer, tanto quanto possivel, as bases para as indicações da enucleação nos casos de phlegmão do globo ocular. A panophthalmia é actualmente considerada como o resultado de uma infec- ção, ora de causa externa, ora de causa interna. No primeiro caso estão : 1.° O phlegmão por ferimento simples do globo ocular ; 2.° O phlegmão por * corpo estranho intra-ocular; 3.° O phlegmão provocado pelos leucomas adherentes, ou pelas synechias anteriores e pelos staphylomas. Ao secundo ])ertence a panophthalmia com ausência completa de ferimento ou outra lesão ocular capaz de explicar a sua manifestação. 260 A panoplitalmia com ausência absoluta de lesão ocular fez o assumpto de um interessante trabalho do Dr. liolland, publicado no R&cueil d’ophtalmogie (Abril, 1888). A do olho, que se pó le manifestar mesmo no individuo gozando de saude perfeita, tem como causa efficiente a presença de germens infecciosos no olho, tendo penetrado do exterior através das vias respiratórias intactas. Quanto á panophthalmia consecutiva ao leucoma adherente, da qual não fazem menção especial os autores clássicos, deve-se ao illustrado ophtalmolo- gista Dr. Despagnet uma descripção exacta, em seu interessante trabalho— De 1’irido-choroidite suppurative dans le leucome adhérent de la cornèe—pu- blicado no Recueil d'ophtalmogie, 1887. Para explicar o processo pathogenico do phiegmão ocular no leucoma adherente, Despagnet rejeita a theoria da cicatriz filtrante ou não filtrante de Leber, S ittler e outros, para liliar-se á theoria de Verneuil. Segundo esta theoria, os germens contidos no olho em estado ue inactividade despertam em um momento dado, para provocar a infecção, que se traduz pela panophtalmia. A infecção latente torna-se infecção manifesta. Para dar o por que do despertar dos germens de infecção, Despagnet appella para os movimentos continuos da iris, produzindo tracções, quer sobre a parte encravada, quer sobre a diametralmente opposta. Dahi uma irritação constante da zona ciliar, que acaba por inflammar-se. Nos leucomas adherentes periphericos, os mais perigosos, a irritação ciliar por tracçâoé seguida da apposição da iris ás vias lymphaticas do angulo irido corneano, que são comprimidas, obstruídas e alteradas em suas funçções. Essas modificações essenciae; da zona ciliar produzem a congestão ocular, e então não ó difflcil admittir que os microbios, encontrando terreno preparado para seu desenvolvimento, provoquem asuppuração (Despagnet.) Para bater a theoria de Leber e Sattler, Despagnet funda-se nos seguintes argumentos : l.o Nos casos de cicatriz não filtrante, em que o leucoma, perfeitamente cicatrizado, não apresenta a menor alteração de superfície, em que, emrtm, nenhuma troca se faz do interior ao exterior, ou reciprocainente, é impos- sível explicar a penetração dos germens no olho. Despagnet invoca como a melhor das provas em seu auxilio as dimensões sempre iguaes da camara anterior. 2.° Ao passo que na primeira hypothese, Despagnet basêa-se na ausência dos plienomenos endo-exosmoticos, para negar a penetração dos microbios e, portanto, a infecção ocular ; na segunda, no caso de cicatriz filtrante, era que as trocas de liquido se dão, e a invasão do globo ocular, pelos microbios, se póde facilmente produzir, Despagnet procura e pensa encontrar em sua Obs. VI11, e só nesta, a negação da theoria de Leber e de Sattler, isto é, a producção de uma nova infecção, por penetração dos micro-organismos através da cicatriz irido-corneana. A observação refere-se a um eminente mestre em ophthalmologia. No olho atacado de leucoma adherente em 1868 manifestaram-se dous ataques de irites com hypnpion em 1871 e 1873. Era o preludio (aíiirma Despagnet) da irido- choroidite suppurativa. Duas paracenteses foram praticadas com excellente resultado e desde então, ha quatorze annos, o doente não tem tido o menor accidente, porque acabou por obter uma cicatriz filtrante, etc. Adepto da theoria de Leber e de Sattler, não devo, antes de ir mais longe, deixar de salientar a pouca solidez dos argumentos de Despagnet. No primeiro, nega a possibilidade da i>anophthalmi t, pela impossibilidade da penetração dos germens no olho ; no segundo, a penetração è possível depois da formação da cicatriz filtrante, e Despagnet attribue á mesma cicatriz a cura dos accidentes. Ora, achando-se o olho jã infectado, pois liavia iritis d hypopion, prè- lude de Virido-choroidite suppurative, segundo affirma o autor, só ha um meio para explicar a cura — a expulsão dos germens contidos no humor aquoso, através da abertura produzida pela paracentése; mudança de meio e de condições favoráveis a seu desenvolvimento. Por uma razão inversa, os germens, penetrando através de uma aber- tura ou cicatriz filtrante e encontrando terreno preparado para seu desenvol- vimento,, podem provocar o phlegmão ocular. A penetração dos micro-organismos pelas cicatrizes não filtrantes pare- ce-me menos impossivel e mais plausível do que o profundo somno dos mes- mos micro-organismos durante longos annos, para despertarem em um momento dado, etc. De facto, as tracções no leucoma adherente produzem-se em dous sentidos : sobre a região ciliar, ou sobre a parte encravada na cornea. Aqui as mesmas perturbações que se dão do lado da zona ciliar podem se manifestar ; tracções das extremidades nervosas, irritação do tecido cor- neano, perturbações trophicas, emfim, que poderão tornar a superfície cor- neana correspondente ao encravamento da iris em condições de receptivi- dade especial para os germens exteriores. Uma razão, que, a meu ver, ó bastante forte, prova em favor da infecção através da cicatriz corneano, isto é, do tecido corneano. Nas synechias posteriores dão-se frequentemente, por um mecanismo igual, perturbações graves e profundas desordens da nutrição do olho. As iritis á rechute, as choroidites com peida completa da visão, são suas conse- quências constantes ; entretanto a panophthalmia não foi ainda citada como consecutiva ás synechias posteriores. Parece que a superfície corneana soífre alterações nutritivas que a tornam apta à recepção dos germens e á sua passagem para o interior. Haverá al- teração do epithelio, cuja ausência é exigida pela maioria dos autores para explicar a entrada do microbio ? Negada em muitos casos, a descamação do epithelio existe em outros, confio na minha Obs. 11. Acredito mesmo que as alterações do epithelio são mais frequentes do que se pensa ; entretanto a sua integridade não prova em desfavor da theoria. Charrin em 1.887 dizia, na Sociedade de Biologia de França:— La barrière épithéliale contre le micro-organisme n’est enaucune manière justitíée.” Antes de occupar-me das indicações da enucleação na panophthalmia, parece natural que procure em primeira linha destruir as razões oppostas por seus adversários para contraindical-a, como eminentemente perigosa. Na panophthalmia, dizem elles, o processo morbido é intraocular e, se o globo do olho fòr enucleado, as matérias sépticas serão derramadas no tecido cellular da orbita, e o cirurgião se exporá a uma suppuração diffusa e a me- ningites purulentas mortaes. Quem não vê, entretanto, que tal argumento fornece armas poderosas em favor da enucleação ? Vejamos: l.° Os proprios adversários da panophthalmia sabem que sua complicação primeira é a invasão dos tecidos da orbita, produzindo o phlegmão orbitario com todas as suas consequências. E’, pois, logico que a enucleação, fazendo desapparecer o fóco inflammatorio, destruirá ipso facto as probabilidades de tão grave complicação. 2. Se a enucleação fòr praticada cedo, antes que o processo suppurativo tenha destruido as membranas oculares, poderá realizar-se sem o derrama- mento das matérias sépticas no tecido cellular da orbita. 3. Nenhum cirurgião consciencioso pensaria em praticar a ablação do globo ocular, em caso de panophthalmia, sem o emprego rigoroso dos recursos da antisepsia. Ora, postos estes em pratica durante e apôs a operação, dado mesmo o caso de derramamento de pús e outras matérias sépticas na orbita, ficam sem fundamento os motivos do receio de transmissão ao cerebro e ás meninges. Notai, senhores, que eu me refiro aos casos de phlegmão ocular sem copar- ticipaçãodos tecidos orbitarios. Neste caso a enucleação não preenche mois as mesmas indicações e, sendo seguida de desastre, será este posto á sua conta, ao passo que a compli- cação orbitaria só pôde ser por elle responsável. Destruído o principal argumento dos inimigos da enucleação, passo a tra- tar das suas indicações na panophthalmia. A meu ver, é a causa etiologica do phlegmão ocular que deve guiar o pra- tico, antes de tudo, nas indicações e contraindicações da enucleação, as quaes podem ser formuladas da maneira seguinte: 1. A enucleação deve ser praticada sem parda de tempo nas panophthal- mias po”r ferimento do globo ocular, com ou sem corpo estranho. Aqui, alóm de fazer cessar o perigo da ophtlialmia sympathica, que se pôde manifestar, é rapidamente destruída a fonte séptica, capaz de propagar-se aos tecidos vi- zinhos e ao cerebro. As dores violentas desapparecem e a cura realiza-se no flm de poucos dias. 2. A indicação ó também urgente na panophthalmia ligada à existência de synechias anteriores ou de leucoma adherente e de staphyloma. A enucleação neste caso previne ainda a ophtlialmia sympathica e destróe o foco suppurativo. 3. Em relação ao phlegmão de causa interna, não me parece que a enu- cleação deva ser indicada como o unico recurso. Apezar da opinião autorizada de llolland, supponho que os princípios que justificam a extirpação do olho nos primeiros casos, não se poem em contri- buição para justilicar o seu emprego no caso vertente. Se alli a enucleação vem satisfazer as exigências eminenteme;ite racionaes da cirurgia moderna, que manda que seja destruído todo o fóco séptico local capaz de produzir a infecção do organismo, aqui seria de diííicil compre- liensão a necessidade da extirpação completa de um orgão que se tornou um fóco séptico pela infecção primitiva do organismo. Não seria preferível praticar o desbri lamento por meio de uma incisão crucial bastante larga no segmento inferior do globo ocular, com rigoroso emprego dos meios anti-septicos consistindo em injecções de sublimado a 1/1000 repetidas de modo a esvasiar e limpar completamente o fóco e seguidas de injecções de ether iodoformisado e apparelho occlusivo? 4. Deve a enucleação ser contraindicada toda vez que o processo inflam- matorio, transpondo os limites do globo ocular, tem-se transmittido ao cerebro ou ás meninges, toda a vez que perturbações que se passarem pelo lado da- quelles orgâos, ou outros concomitantemente com a panophthalmia, indiquem que a infecção se transmittiu ao resto do organismo Sem duvida a enucleação aqui não vem preencher os seus verdadeiros fins, desempenhar o seu legitimo papel. O desbridamento, que parece indicado em lugar da enucleação, è accusado pelo professor Panas de não dar facil sabida ao pús ; e o sabio mestre ainda nestes casos suppõeindicada a enucleação do globo ocular. Parece-me, entretanto, que a questão carece ainda de sérios estuios. Está longe de ser resolvida. O tratamento medico me parece ineífbaz na panophthalmia declarada. As sanguesugas. as applicaçõas frias os mercuriaes, os purgativos, etc., são incapazes de deter a marcha invasora do processo suppurativo. Seu emprego é, entretanto, racional no tratamento preventivo da pan- ophthalmia. Obs. l.a— Olisa M. de Mesquita, 4 annos, entra para o serviço de olhos do Hospital N. S. das Dòres a 20 de Março do corrente anno. Seu pai refere que a criança recebera, brincando, um estilhaço de vidro no olho esquerdo. Durante dous a tres dias o olho era apenas rubro o a criança pouco se queixava. Quatro dias depois notou uma mancha branca na cornea e a doentinha accusava dòres, que augmentavam com a vermelhidão do globo ocular. As palpebras tornaram-se edemaciadas, o olho um pouco saliente ; a criança tinha inappetencia, insomnia e febre. O exame revela a existência de uma intensa panophthalmia, uma ulcera da cornea indica a sede do ferimento e na parte externa do globo ocular ha uma bóssa molle indicando a existência de grande fóco purulento. A enucleação é indicada como recurso urgente, e não foi praticada no mesmo dia por opposição do Sr. Mesquita. No dia seguinte a situação é mais melindrosa e o pai aceita a minha in- dicação . Durante a operação rompeu-se a sclerotica na parte correspondente á bóssa e o pús jorrou em grande abundancia. Meu distincto collega Dr. Wallau evacuava constantemente o pús praticando injecções de sublimado a 1/1000, emquanto eu continuava a enucleação com o auxilio de outro collega, o Dr. Birnfeld. Terminada a operação sem sutura conjunctival, foi a cavidade lavada lar- gamente com a solução de sublimado a 1/1000, polvilhada de iodoformio e ob- turada com algodão iodoformisado. A doentinha passou perfeitamente bem o resto do dia e da noite, não accusando o thermometro mais de 37, 4. Tres dias depois é levantado o apparelho ; não ha uma gotta de pús. Por cautela, attendendo à idade*da operada, foi o apparelho conservado mais oito dias, sendo mudado de dous em dous dias. • Obs. 2.a — D. Joanna J. da Rocha, 17 annos, viuva, apresenta-se no meu gabinete no dia 9 de Julho ultimo. O olho esquerdo tem um vasto staphyloma corneano : é mui vermelho e doloroso. Costuma inflammar-se de vez em quando e a inflammação cede a ligeiras applicações. Desta vez, porém, a inflammação não tem cedido, as dòres augmentam e resolveu ouvir meu conselho. O olho é doloroso a pressão e a parte central do staphyloma mais saliente está despida da camada epithelial. Aconselho o uso de compressas frias anti-septicas ( sublimado a 1/5000 ) inuncções de unguento napolitano na dóse de seis grammas e um purgativo. No dia 18 o estado da doente é muito peior; as dòres são mais intensas, ha forte chemosis. Faço applicar cinco sanguesugas em roda da orbita e declaro á doente que a enucleação do globo ocular é necessária. Resolvida, entra a doente para o hospital de N. S. das Dòres a 18 ã tarde. No dia 19 pela manhã o estado da enferma é de penalisar. A noite havia sido cruel, soííria dòres atrozes, o chemosis era enorme, as palpebras mui ede- maciadas e o globo saliente. Tinha vomitos, forte anorexia, lingua saburrosa e 38,5 de temperatura. Auxiliado pelos Drs. Wallau e Birnfeld pratico a enucleação, não sem sérias difflculdades, que me foi custoso vencer, para pratical-a regularmente. No dia seguinte, pela manhã, a operada declara-ine que passou a noite como se nada tivesse soffrido. A temperatura é igual a 37,2 O apparelho ó levantado 48 horas depois; o tampão iodoformico é retirado apenas sujo de sangue e substituido por outro. Applicação de novo apparelho. Seis dias depois todo o apparelho é levantado: a doente retira-se perfeita- mente curada. CEMITERIO E CREMAÇÃO ESTUDO CRITICO-HYGIENICO SOBRE OS CEMITÉRIOS DO RIO DE JANEIRO PELO (hbl. jUadlns. de ÇPunenlel CHIMICO DA INSPECTORIA GERAL DE HYGIENE 1610 DE JANEIRO 1888 CEMITERIO E CREMAÇÃO Bstnío crifa-liyiierá sota os cemitérios 4o Rio Se Janeiro I CEMITÉRIOS OatLora eram geraes os enterramentos no recinto das igrejas. Cessaram de todo entre nõs, em virtude do aviso do ministério do Império de 16 de Março de 1850, expedido depois da grande epidemia de febre amarella. Na igreja de S. Sebastião, no morro do Castello, existem os ossos do fundador desta cidade, Estacio de Sá, para alli transferidos da Capella da Villa Velha, onde foi sepultado, por seu primo Salvador Corrêa de Sá, em 1569, os quaes foram exhurnados em Novembro de 1862, e, depois de encerra- dos em uma urna de páo-brazil fechada em um cofre de chumbo, foram de novo collocados, no dia 20 de Janeiro de 1863, em um carneiro de alvenaria, com a seguinte inscripção em letras douradas. Restos mortaes de Estado de Sá exhurnados d,esta sepultura em 16 de Novembro de 1862, a ella restituídos em 20 de Janeiro de 1863. A irmandade de Santa Luzia sepultava 03 cadaveres dos seus irmãos no interior do templo e no diminuto terreno adjacente à direita, onde está edifi- cado um correr de pequenas casas (Barão de Lavradio). A Ordem Terceira da Conceição e Boa-Morte tinha o seu cemiterio no fundo da casa da arrecadação ; os primeiros jazigos foram inaugurados em Io de Novembro de 1813. Mas, em virtude da prohibição dos enterramentos nas igrejas, e feitas as obras de melhoramento de que precisava o templo, o antigo cemiterio se transformou em jardim com tanque de mármore, e a casa de arrecadação em um sobrado com quatro janellas para a rua do Hospicio. A ordem do Bom Jesus do Cal vario e Via Sacra, para dar começo á con- strucção de seu hospital em 17 de Janeiro de 1847, teve de demolir « as cata- cumbas dos irmãos, que havia por trás da sacristia, e as dos lieis ao lado esquerdo da igreja » ( Dr. Moreira de Azevedo ). Defronte do velho arcaz existente na sacristia da igreja de Santa Rita ficam tres portas, das quaes uma vai ter ao recinto das catacumbas da irman- dade, construídas em 1818. Em frente á igreja, na praça do mesmo nome, houve até 1825 um cruzei- ro de mármore, derradeiro signal da existência do antigo cemiterio dos negros vindos da África. Tendo sido transferido para o Vallongo, no governo do Mar- quez de Lavradio, o deposito desses negros, também o foi o cemiterio, que se erigiu com o nome de Cemiterio dos Negros Novos, defronte do becco do Pro- posito, no espaço comprehendido pelo largo do Proposito, rua do Cemiterio ( rua da Harmonia ) e outras mais vizinhas ( Barão de Lavradio). A irmandade de S. Domingos, uma das mais antigas desta cidade, e que levantou a sua igreja no primeiro quartel do século passado, no terreno que a camara lhe deu por esmola no rocio da cidade, desde a rua dos Escrivães ( rua do General Camara ) até a de Antonio Yaz Viçoso (rua de S. Pedro ), obteve por aforamento, para a construcção do cemiterio, toda a área compre- hendida entre as ruas do General Camara, S. Pedro, a frente da igreja e o novo Asylo de Caridade da Ordem Terceira de N. S. da Conceição Mas, em 1820, D. João VI prohibiu que sê continuasse a enterrar nes>e lugar, e cedeu á irmandade um terreno, que ella não aceitou, ao pé do morro de S. Diogo, no lugar denominado Campo dos Urubús. (1) No convento de S. Bento, o claustro de fôrma quadrangular com arcaria de pedras mostra pelo chão estendidas as lousas das sepulturas. Estão nellas encerrados jazigos de alguns homens notáveis, como o do Dr. João Alves Car- neiro, de Frei Gaspar da Madre de Deus, que escreveu a Memória para a his- toria da Capitania de S. Vicente, de Antonio Carlos de Andrada Machado e Silva, etc. Abaixo do primeiro pavimento « ha um corredor subterrâneo, abobadado, escuro e h amido com algumas cellas, o qual é conhecido pelo nome triste, mas apropriado, de catacumbas». Estabelecido o Convento de Santo Antonio, os frades começaram a enter- rar os escravos nas fraldas do morro, no lugar onde hoje é o largo da Carioca e está assentado o hospital dos Terceiros de S. Francisco da Penitencia. Não sendo, porém, suííiciente para isso o lugar, obtiveram os religiosos « doação de dezoito braças de chão ao pé do outeiro, principiando da ladeira, pela face da rua, com o fundo que achassem até o alicerce e umbral da capella dos Ter- ceiros. »(Dr. Mello Moraes.) Transferido para o Campo Santo, começou a funccionar o cemiterio da V. O. Terceira de S. Francisco da Penitencia, vulgarmente conhecido pelo nome de cemiterio de Santo Antonio, no dia Io de Março de 1858. Está coliocado entre o de S. Francisco Xavier, ao norte, o do Carmo, áo sul, a Praia de S. Christovão, a léste, e o mangai do primeiro cemiterio, a oeste ; tem de frente cem metros de extensão, e trezentos de fundo. Primitivamente acompanhava o encurvamento do morro, a terminar no poente, no referido Mangai ; mas, dando-se começo a um novo cemiterio, houve necessidade de se arrasar o morro e formar um plano rectangular, seis metros acima do mar, aproveitando-se a terra para o aterro da parte baixa e pantanosa. O novo cemiterio, que não está ainda concluido, foi, não obstante, inau- gurado a 5 de Março de 1876. Consta de uma secção baixa na frente, e outra elevada, constituindo verdadeiramente o cemiterio. Aquella é fechada por um muro de pedra e cal, com um portão de ferro no centro, etem um pe- queno jardim e a casa da administração. Uma rua calçada de pedras toscas vai até o cemiterio propriamente dito, o qual se compõe de uma rua central de quinze metros e meio de largura em todo o seu comprimento, e outra perpendicular, da mesma largura. No ponto de intersecção vê-se o cruzeiro de pedra, que sustenta uma imagem de Jesus Christo, fundida em ferro. Além desta rua, ha mais duas de onze metros nos extremos lateraes, em toda a extensão léste-oeste do cemiterio, e muitas outras de diversas lar- guras, entre os quadros, as sepulturas, os ossarios, etc. (1) Fazendo os trabalhadores da companhia de esgotos excavações no largo de S. Domingos, descobriram em pequena profundidade algumas caveiras e ossadas humanas. (Nota doDr. Moreira de Azevedo.) Tem este cemiterio 500 sepulturas rasas, 300 carneiros para adultos e 14 para crianças. A parte construida equivale mais ou menos a dous terços de toda a área marcada do cemiterio, e desta parte sómente metad-e ó occupada pelas diversas sepulturas ; o restante pertence ás ruas e a um grande espaço de terreno recentemente aterrado, e onde já se começou a fazer enterramentos. Resta ainda um pequeno aterro a concluir junto ao cemiterio de S. Fran- cisco Xavier. Não attrahe a vista o cemiterio novo, nem pela riqueza, nem pela ele- gância ou arte dos seus monumentos, que são muiio poucos ; no velho sobresahe apenas a capella, bastante antiga e talvez arruinada, e quasi nenhum monumento funerário existe. « Construida a nova igreja dos Terceiros do Carmo, os fallecidos que ali iam a sepultar eram recolhidos nas cavas subterrâneas que o templo contém em galerias, desde o tapa-vento até ao arco cruzeiro, sendo espe- cialmente reservada para os priores da ordem uma extensa carneira que occupa a Capeila-mór, e para a qual dava descida uma escada existente por trás do altar principal.» A exhalação miasmatica dos cadaveres inlmmados naquelles jazigos húmidos, iníiltrando-se pelas juntas do ladrilho e soalho, tornava o recinto repugnante, e difficilmente supportavel o tempo necessário para os exercicios divinos. Era necessário obviar aquellemal, e em 2 de Setembro de 1782 deliberou a Mesa Conjuncta, sendo por aquella occasião prior Francisco de Araújo Pereira, se íizessem no logar da capella velha (1), ja muito arruinada, jazigos com catacumbas com galerias sobre o solo ; e achando-se concluídos, foram benzidos pelo padre commissario em 15 de Agosto de 1785, onde tiveram sepulturas os fallecidos até 16 de Março de 1850.» (2) Desde esse dia até 20 do mesmo mez e anno foram os cadaveres dados á sepultura nas catacumbas da igreja do Engenho Velho; depois de 20,-de Março principiaram as inhumaçõos no cemiterio provisorio, no Campo Santo, até 27 ou 28 de Junho de 1859, em que, após a bênção, houve a inauguração do cemiterio da Ordem. Acha-se esie na praia de S. Christovão, entre o de Santo Antonio, ao norte, a rua de José Clemente, ao sul, o mar, a léste, e a travessa das Flores, a oeste. Tem de frente 110 metros, de fundo 330, e comprehende duas partes distinctas, uma estabelecida em terra firme e outra em logar ater- rado ; esta por emquanto, ao menos, não está utilisada, e incorre no incon- veniente de, pelo seu nivel muito baixo, tornar as sepulturas em pouco tempo invadidas pelas aguas infiltradas do mangai contiguo. Do portão de ferro, situado no meio do gradil da frente, parte uma rua larga de 11 metros, calçada de pedras irregulares e cercada de altas mangueiras de ambos os lados até a capella e deposito de cadaveres, conti- nuando depois até a parte baixa recentemente aterrada. Da capella parte outra rua da mesma largura, perpendicular á primeira, e que separa das sepulturas rasas os mausoléos, carneiras e ossarios. Resta ainda uma porção de morro a arrasar, o que ainda se não levou a effeito, pela sufiiciencia do actual espaço destinado ás sepulturas. Tem o cemiterio do Carmo 200 jazigos perpetuos ; 472 carneiros de adultos, e destes 160 perpetuos 18 actualmente estão desoccupados, e os mais alugados pelo espaço de cinco annos ; 40 carneiros para crianças dos quaes dous perpetuos, 21 desoccupados e os restantes alugados pelo prazo da lei. As sepulturas rasas, tanto de adultos como de crianças, não têm numero fixo. Também ha crescido numero de sumptuosos monumentos, notáveis pela riqueza, dimensão e valor esthetico e de sepulcliros que encerram os restos (1) A primitiva Capella Imperial. (2) Archivo historico da Y. 0. T. de N. S. do Monte do Carmo. 270 mortaes de homens distinctos nas lottras e sciencias: dentre os primeiros sobresahem o da familia do Barão de S. Gonçalo, com maisde 100 metros quadrados, e da familia de Manoel José. Coelho da Rocha, com 100 metros quadrados, e outros..; do segundo são dignos de nota o do benemerito conse- lheiro Dr. Adolpho Manoel Victorio da Costa, o grande educador da geração actual, e o do Dr. Manoel Felieiano Pereira de Carvalho, cirurgião notável e professor da Faculdade do Medicina desta Côrte. Em Outubro de 1885, quando se construía o calibroso tubo de tijolos para esgoto das aguas pluviaes, no trecho da rua Sete de Setembro entre a Praça de D. Pedro'11o a rua do Carmo, appareceram ossadas humanas em grande quantidade. O mesmo se deunaquella praça, não só em 1885, como anteriormente, por occasião da construcção do jardim publico nella existente, e de outros trabalhos em que houve necessidade de revolver a terra. Na Praça de D. Pedro II não me foi possível observar se os ossos estavam encerrados em logares circumscriptos e especiaes, ou se appareciam esparsa e confusamente. Na rua Sete de Setembro veriliquei que as catacumbas, de 90 centímetros de largura, de cerca de dous metros de comprimento e outro tanto de profundidade eram separadas por uma delgada parede de tijolos sobrepostos, e se constituíam em series de quatro catacumbas cada uma, ficando entre uma e outra serie uma divisão forte e resistente de pedra e cal, de cerca de 40 centímetros de espessura, como se vê na figura junta. Acredito poder affirmar que os cadáveres eram all: inhumados com a cabeça voltada para o antigo convento e os pés para a igreja dos frades (Capella Imperial), pois que pude observarem maisde um carneiro certos ossos (fémur, tibia, humero) em posição que indica isso, além de que os craneos estavam, era geral, do lado do convento. Era este o cemiterio do primitivo hospital do Carmo, na travessa Detrás do Carmo, hoje rua do Carmo. As antigas sepulturas da igreja de S. Francisco de Paula occupavam o chão da igreja ê um subterrâneo que ia da capella-mór ao salão onde estão hoje òs retratos dos bemfeitores. Em 1805 ou 1806 deu-se começo á construcção das catacumbas concluídas em 1810. No dia 30 de Março de 1849 a Ordem obteve licença do governo para estabelecer um cemiterio particular em Catumby ; approvado o regulamento e aceita a planta em Outubro do mesmo anuo, começaram os trabalhos a 19 de Março do anno seguinte, e, depois da bênção, principiou a funccionar o cemiterio. DizoDr. Moreira de Azevedo : « Desprezando preconceitos, velhos há- bitos, prejuízos infundados, não attendeudo a interesses particulares e só á conveniência publica, foi a Ordem de S. Francisco de Paula a primeira que cuidou em fundar um cemiterio extra-muros, sendo inaugurado a 19 de Março de 1850 ». Jazo cemiterio de S. Francisco de Paula na face oriental do morro de Santos Rodrigues, no angulo que formam as ruas de Catumby e Itapirú. Compõe-se de duas partes desiguaes : a primeira, menor, plana, no mesmo nivel que a rua, com numero" illimitado ae sepulturas rasas, aos lados da rua central e por entre ruas lateraes, perpendiculares e parallelas, do- tadas de insuíliciente plantação ; a segunda, no morro, communica com aquella por meio de escadas e ladeiras calçadas de pedras. Entre as duas secções existe uma fila de vistosos mausoléos, em alguns dos quaes ha muita arte e belleza, ao lado do alto valor pecuniário. Destacam- se o da familia do Visconde de Guaratiba, o da familia Agra, que, posto não tenha valor algum esthetico, absorveu grande sonima de dinheiro, etc. Nesta segunda secção existem, ao sul, os carneiros cm grande numero do um e outro lado da escadaria central. Não ha plantação nenhuma, excepto roseirase outras plantas pequenas. Esta secção se eleva muito e o seu limite superior se confunde com as matas do restante dominio do ce- miterio . Neste cemiterio estão guardados os restos mortaes do venerando militar Duque de Caxias ; do conselheiro Francisco Praxedes de Andrade Pertence, Rua do Carmo. MM il I I 1 * 1 II III IV V VI VII Dr. Pimentel pjct.tui nat. 18M5. I ActareL caleantentade paratlctipipedos X\ Camada de terra preta, II Leito de alnenaria .... V Camada, de terra, .parda, are tenta, corna a do n/° III. III Camada (te. terra, parda nreioatri. VI Camada de terra preta muito arei rata. com, aUpcma agua inferior mente,. -VII Ama h ronca - cunareltadt ■, minando avulta tvgug,. A Grandes alicerces (daprimitloa capeila?) existentes por baixe do areo dopatada. B Principio do reforço de pedra o càl do antigo encanamento daguadaR.f de Setembro. -|lCpiÍMiailIIM| Mflâ-flfl Kllfflllll-áfrif li ClEGilâliliill- Figura demonstrativa rio primitivo cemiterio da YO.T.N.S.M.do Carmo. Praça, de D. Pedro 11. , 'amaesj^eaexsstM OT 22 Espess: .... . \ om.j.y : Of 44 ora , 271 lente da Faculdade de Medicina desta cidade, e o iniciador da reforma actual das Faculdades de Medicina do Império, e os do grande actor brazileiro João Caetano dos Santos, que « não encontrou rival emquanto viveu ». Tem a frente, com portão e grade de ferro, para o largo de Catumby, e no lado.da do Itapirú ha um muro de pedra e cal, com portão também de ferro, por onde de ordinário entrão os enterros. Com a quantidade de terra de que pôde dispor este cemiterio, toda a pri- meira secção devia ser levantada de muitos palmos e, assim melhorado, não guardaria empeçada a agua das chuvas. ASanla Casa da Misericórdia teve o seu primitivo cemiterio, fechado com um muro, que corria ao longo do caminho superior ã praia de Santa Luzia, entre o antigo hospital e o Recolhimento das Orphãs. Na sessão da Mesa Con.juncta de 30 de Julho de 1838 propoz o provedor José Clemente Pereira que se fizesse novo hospital, em vista da exiguidade e falta de hygiene do que existia, e se transferisse u cemiterio para à Ponta doCajh. Estabelecido sob o nome de Campo Santo, começou a funccionar em 7 de Dezembro de 1840 (1), e conservou aquella denominação até 5 de De- zembro de 1851, em que passou a chamar-se de S- Francisco Xavier. Ha nelle um quadro destinado ao enterramento dos protestantes, e um outro que constitue o cemiterio particular da Venerável Irmandade de S.Pedro, inaugurado em 9 de Maio de 1872. « Tem este cemiterio em sua maior largura 882 metros, e em seu maior comprimento 870, com a área de 305,666 mi. Na frente o terreno é quasi todo formado de barro e nos fundos ha um grande mangai. » « A bahia do Rio de Janeiro limita-o na frente e na parte contigua ao mangue. Quer durante a manhã, quando sopra, o noroeste, quer á tarde, quando reina o sueste, ventos que durante o anno dominam nesta cidade, as emanações deverão ser lançadas em direcções oppostas á cidade do Rio de Janeiro ; os moradores desta localidade são concordes em aífirmar a salu- bridade do lugar, e nenhum delles, ha mais de 40 annos, se lembra de ter visto ahi desenvolver-se a febre amarei la, ou outras epidemias. » « Actualmente pôde o cemiterio ser dividido em quatro partes. A do centro,que foi desaterrada e onde se acham os carneiros, està collocada a 4 1/2 metros acima da superfície do mar, e feita uma exeavação de 16 palmos não encontrámos agua. Oito valias ou drenagens empedradas recebem as aguas pluviaes e as infiltrações do terreno. Cada uma dessas valias tem 22 metros de comprimento, um a dous de profundidade, e 70 centimetros de largura. Cinco ruas espaçosas dividem as quadras occupadas pelos carneiros. Na planície existem : Sepulturas rasas para adultos 3.479 » » » anjos 2.464 » Carneiros» adultos ' 1.881 » » » anjos 688 8.512 « No morro que está ao lado direito do cemiterio, sobre cuja superfície existem 13.989 sepulturas, encontram-se largas ruas, mais ou menos arbori- sadas, com vallàs para o escoamento das aguas. A altura deste terreno varia insensivelmente de 4 a 12 metros acima da superfície do mar. E’ sobre o morro que se acha á esquerda do cemiterio que existem as sepulturas communs ; o numero destas varia, e póde-se calcular em 365 por anno». « A quarta parte do cemiterio é ainda occupada por um mangue, qúe está sendo aterrado. Existem por conseguinte neste cemiterio 22.501 sepul- turas, não incluindo as sepulturas communs, que podem ser calculadas em 20.000, attendendo ás exhumações que se estão fazendo, abrindo as valias ou (1) 0 Di’. Moreira de Azevedo dá a data de 2 de Julho de 1839 ; a que apresento vem consignada na « Legislaçcão sobre a Empreza Funeraria e os cemitérios da ci- dade do Rio de Janeiro », de 1878. 272 sepulturas communs de 17 annos"de duração. Calculando em metros quadra- dos, teremos que o terreno occupado pelos carneiros e ruas da planície é igual a 20.764m; que o terreno occupado pelas sepulturas rasas de adultos, no morro, ao lado direito do cemiterio, é de 57.500ra; que o terreno occu- pado pelas sepulturas communs é de 65.000lu;e que o terreno occupado pela igreja, edilicios e seus annexos é de 7.000m. Sommadas estas parcellas, teremos unia area de 150,264m. Ora, tendo o cemiterio tolo 305.666m, sobram ainda 255.402.» Isto dizia o íinado Dr. Gama Lobo, em relatorio que apresentou à Prove- doria da Santa Casa em 28 de Maio de 1878. No seu relatorio apresentado no mesmo anuo diz o illustrado Dr. José Lourenço de Magalhães: «Compõe-se este cemiterio o.e duas partes : uma, a anterior, aterrada, alta ; e outra, a posterior, baixa, alagadiça. » « A primeira é a destinada para as inhumações A segunda, não podendo ser utilisada no estado em que se acha, está sendo aterrada pouco a pouco, á pro- porção das necessidades. O aterro mede 2m,30 e mais, conforme o declive do terreno. Em cada uma rua encontram-se duas valletas, empedradas, para o escoamento das aguas pluviaes, perpendicularmente dirigidas, communicando com outras mais largas, e parallelas áfrente do cemiterio, sendo por estas que sahem as aguas pluviaes em direcção ao mar. Todas ellas têm suíficiente profundidade, maior ou menor, conforme .as inclinações do terreno, para o fim a que se destinam» « A consumpção cadavérica opera-se perfeitamente no terreno desse cemiterio. Não sei em quanto tempo ficará ella completa; o que, porém, asseguro, é que depois de cinco annos os corpos inhumados apresentana-se inteiramente reduzidos a seus tecidos osseos». « A terra provém da decomposiçãde de rochas de gneiss. Tomada da su- perfície de uma sepultura e analysada convenientemente, mostra não conter carbonatos, nem cal. Sendo tratada pelo molybdato de ammonea, não dá reacção sensível, o que indica ausência ou pequena quantidade de acido phos- phorico. Encontra-se nella insignificante quantidade de matérias gordurosas. Colhida do fundo da sepultura e igualmente submettida à analyse, quasi não apresenta differença da tomada na superfície. O molybdato de ammonea re- vela minima. quantidade de acido phosphorico ». « A proporção de matérias gordurosas é ainda pouco considerável ou mes- mo insignificante.» « A terra da barreira, empregada no aterro, mostra provir da decompo- sição de gneiss ; apresenta os mesmos caracteres physicos, e não contém car- bonatos, "nem cal, nem phosphoro, nem matérias gordurosas.» (1) As analyses feitas em 1886 pelo Sr. J. M. Padua e Castro, distincto chefe do laboratorio chimico da Casa da Moeda, são mais completas, e pouco differem das precedentes, como se vê dos seguintes quadros : A. — Terra virgem. Argila de côr vermelha, não tendo cheiro nem matéria gordurosa. Perdeu ao ar 10,53 % d’agua. Analysada, compunha-se de: Quartzo com diminutas quantidades de feldspatlio e mica 22,04 Argilla ferruginosa (8.56 % de Fe 203) com pequenas quantidades de carbonato de cal, potassa e soda 666,647 Matéria organica i 18,500 Agua 94,000 (i) Analyse citada. (Nota do autor do relatorio.) Parta solúvel ivagua — 0,0453 % Acido silicico 0,0080 Chloro 0,0060 Cal 0,C067 |Mngnesia vestígios Potassa idem |Soda 0,0094 Ammonea 0,0053 Acido azotico . 0,0009 Matéria organica 0,0090 100,0000 Exame microscopico. Contém, como as terras das analyses que se seguem, os mesmos.organismos, em quantidade, porém, muito menor. Gazes, em 100 grammas de torra : 12 c. c. de oxygenio, ou — 33,3 p/0; 24 » » azoto, ou —66,7%: com a pressão barométrica — 770,mm, 7 ; e temperatura centígrada — 22,° 0. 13 — Terra de sepultura rasa. Argilla amarella, mais escura que a da sepultura commum, sem cheiro e apresentando vestígios de matéria gordurosa. Perdeu ao ar 10,03 °/0 (Tagua. Secca deste modo, mostrou ter : Quartzo, com pequenas quantidades de feldspatho o mica 44,0000 Argilla, corada pelo oxydo ferrico (1876 % Fe *0'2) e tendo mui pequenas quantidade de potassa, soda, cal, magnesia, ácido phosphorico (vestígios) e acido carbonico 49,4630 Matéria organica 3,5440 Agua 7 2,9130 /Acido sulphurico 0,0190 Acido silicico 0,0050 Chloro 0,0020 Cal 0,0080 Magnesia vestígios. 'Potassa 0,0010 iSoda 0,0050 | Ammonea 0,0030 Acido azotico 0,0013 Acido phosphorico vestígios * Acido carbonico idem Matéria organica 0,0357 Parte solúvel n’agua 0,080 % 100,0000 Exame microscopico. O mesmos organismos que na terra I> , em nu- mero maior. Gazes. Em 100 grammas de terra : 7 c. c. de oxygeno, ou —33,4%; 14 » » azoto, ou — 66,6 °/°; com a pressão barométrica — 763 mm, 4; e temperatura — 26,°0 O — Terra de carneiro. Argilla de côr vermelha, sem cheiro e tendo apenas traços de matéria gordurosa. C, M. is Perdeu ao ar 14,05 % d’agua. Assim secca era composta de : Quartzo com pequenas quantidades de feldspatho e mica 43,4000 Argilla ferruginosa ( 4.28 % de Fe 203 ), tendo pequenas quan- tidades de carbonato e phosphato de cal, potassa, soda e oxydo de cobre (0.012 % de cobre metallico) 46,5250 Matéria organica 2,4790 Agua. 7,5QpO Acido sulphurico 0,0048 1 Acido si lic ico 0,0090 Chloro 0,0030 íCal 0,0280 Magnesia vestígios .Potassa 0,0030 Soda * 0,0183 'Ammonea..' 0,0019 Acido azotico 0,0015 Acido carbonico 0,0110 Matéria organica 0,0155 Parte solúvel n’agua — 0,096 % 100,0000 Exame microscopico. Os mesmos organismos que nas terras B e D. Gazes : em 37 c. c. de mistura gazosa, havia : 5 c/c. de gaz carbonico — 13,5 °/0; 11 » » oxygeneo — 29,7 %; 21 » » azoto — 56,8 °/0; com a pressão barométrica — 763mm,4 ; e temperatura centigrada — 26,° 0 I> — Terra de sepultura commum (valia). Argilla de um amarello escuro, sem cheiro e tendo apenas vestígios de matéria gordurosa. Secca ao ar, perdeu 7.10% d’agua. Neste estado apresentou a seguinte composição : Quartzo com pequenas quantidades de feldspatho e mica 55,5000 Argilla corada pelo oxydo ferrico (2.176% Fé‘O3), e tendo mui diminutas quantidades de cal, magnesia, potassa, e acido phosphorico (vestígios) 37,0770 Matéria organica 1,2720 Agua 5,7000 Parte solúvel n’agua -0,451 o/0 .Acido sulphurico 0,0085 Acido silicico 0,0050 Cliloro : 0,1890 ■ Cal 0,0130 Magnesia 0,0070 'Potassa 0,0010 Soda 0,1640 Ammonea 0,0063 Acido azotico 0,0003 Acido carbonico 0,0004 Matéria organica 0,0545 Exame microscopico. Os micro-organismos que pudemos observar foram os que de ordinário se acliam nas terras. Gazes : Em 100 grammas de terra : 9 c. c. de oxygeno — 33,1 °/° 17 » » azoto — 66,9% com a pressão barométrica — 7Q7mm,2 e temperatura centigrada — 22,° 0 100,0000 Na aetualidade o cemiterio de S. Francisco Xavier está um pouco differentq do que era no tempo ém que escreveram os citados collegas •Drs. J. L. Magalhães e Gama Lobo. As sepulturas se repartem do modo seguinte: Sepulturas rasas para adultos 15.000 » » » anjos . 8.000 Carneiros para adultos 2.490 » » anjos 928 Jazigos perpetuos 995 27.413 Além destas, ainda ha as sepulturas communs, impropriamente deno- minadas valias communs, cujo numero attinge, no minimo, a 365 por anno ; em certos dias, porém, são abertas duas ou mais destas sepulturas, mesmo nas condições normaes da mortalidade do Rio de Janeiro. O numero destas sepulturas, elevando-se a 20.000, póde-se calcular que 47.778 representam o total das sepulturas deste cemiterio. Demais, a parte do mangai que tem sido aterrada tem dado ao cemiterio uma área bastante vasta, que comportará avultado numero de sepulturas, e bem assim o terreno que está ficando a descoberto, em virtude do arrasamento do morro dito das valias, cuja terra vai para o mangue. Dos monumentos existentes neste cemiterio sobresahe o de José Clemente Pereira, um dos mais illustres varões desta terra, o qual sustenta a estatua da Caridade ; e dos sepulchros que guardam as cinzas de notáveis cidadãos, se destacam o de José ae Alencar, o primeiro romancista brazileiro ; o de José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, o autor da lei de 28 de Setembro de 1871 ; e o do conselheiro Pedro Autran da Matta Albuquerque, economista eminente, lente de direito e vice-director da Academia do Recife. Duas cousas attrahiram principalmente a minha attenção no cemiterio de S. Francisco Xavier. Em primeiro logar, os carneiros: pelo modo porque são construídos, nem sempre, dentro do tempo legal do seu encerramento, poderão preencher, debaixo do ponto de vista hygienico, o fim a que são destinados. A decom- posição de qualquer cadaver, e em particular dos cadaveres de indivíduos gordos, demanda ahi maior lapso de tempo, por causa da difficuldade opposta aos múltiplos phenomenos de putrefacção cadavérica, não só pela impossi- bilidade quasi absoluta da extravasação dos líquidos formados durante esse acto, e da diffusão dos gazes, como também pelo retardamento do accesso do ar á zona da infiltração liquida e diffusão gozosa. Em segundo logar, as sepulturas communs, impropriamente denominadas valias communs : são ellas verdadeiras sepulturas rasas, augmentadas em quasi todos os diâmetros ; têm dous metros e 28 centímetros de largura, dous metros e 64 centímetros de profundidade, e um metro e 76 cen- tímetros de comprimento. Ahi são inhumados conjunctamente cadaveres de homens, mulheres, crianças de ambos os sexos e fetos, com affronta de certos sentimentos de respeito e caridade, que se deve ter até para com os mortos, e com prejuizo da hygiene edos interesses da justiça criminal, quando, decorrido algum tempo depois do enterramento promiscuo, ha necessidade de recorrer-se à exhumação de algum dos cadaveres ! Na mesma época em que se construiu o cemiterio de S. Francisco Xavier, ao norte da cidade, ordenou o ministro do Império, Visconde de Monte Alegre, a construcção de outro ao sul, para maior facilidade dos enterramentos, e commodidade dos habitantes. O cemiterio de S. João Baptista da Lagôa, successivamente denominado do Campo Santo e do Hospício de D. Pedro II, situado primeiramente á vista do Hospicio, servindo como publico desde 5 cie Dezembro de 1851 até 3 de Dezembro do anno seguinte, foi ao depois mudado para a rua do General Polydoro, antiga do Berquò, onde tomou aquelle nome e começou a funccionar em 4 de Dezembro de 1852. « Acha-se situado nas fraldas do morro de S. João, estendendo-se sobre um terreno pantanoso, cuja maior parte tem-se aterrado com o barro e as pedras tiradas do morro do mesmo cemiterio. Nas fraldas da morro o terreno varia de 24 palmos de profundidade, sendo formado de humus e barro; o centro é de granito, continuação da Serra do Mar. O terreno pantanoso compõe-se de capim, vulgarmente chamado tiririca, de barro eagua. » « Ha dops processos empregados no aterro do cemiterio : cerca-se um parallelogrammo por meio de uma forte muralha de 10 ou mais palmos de altura e 3 de largura, énchendo-se de barro o espaço comprehendido pelas muralhas. Para o uso das covas, chamadas carneiros, construe-se em cima do aterro um baldrame de dous a tres palmos de altura, sobre o qual se levantam muralhas de 8 palmos. O terreno é então dividido por series de carneiros collocados parallelamente uns ao lado dos outros, e separados por um espaço de 2 1/2 palmos. Um longo boeiro, collocado em toda a extensão do parallelogrammo, separa os carneiros entre a segunda e terceira serie, entre a quarta e a quinta e assim por diante. » « Estes boeiros, que não existem nos antigos quadros, nem no terreno destinado ás sepulturas rasas, servem não só para o escoamento das aguas, mas ainda para a ventilação. Cada sepultura, carneiro ou sepultura rasa, tem 7 palmos de comprimento, 7 de profundidade e 3 de largura. » « O cemiterio, segundo uma nota que nos foi fornecida pelo Sr. Leocadio José Figueiredo, tem 478 metros de frente e 31 í de fundo. Ha nelle 11.907 sepulturas das quaes 2. 993 se acham vazias. Segundo estes e outros dados que colhêmos, tem o cemiterio 150.570 metros quadrados, dos quaes 55.560 são occupados pelas sepulturas, 28.658 formam o terreno pantanoso, e 26.365 são occupados pelo morro que tem de servir de aterro aos pantanos; restam 40.000 metros quadrados, que são occupados pelas igrejas, ruas, etc. Si unirmos o terreno ainda não aterrado com o que deve resultar da remoção do morro que serve de aterro aos pantanos, teremos uma superfície de 55.023 m, quasi igual à que actualmente é occupada pelas sepulturas do cemiterio. » « As sepulturas communs não têm sido desoccupadas depois de sete annos, como manda o respectivo regulamento, por ser diminuto o numero de cadaveres remettidos, por haver terreno sullieiente para os enterramen- tos. » « O cemiterio tem uma grande drenagem de meio metro de largura, 150 de comprimento e tres de profundidade, servindo para receber as aguas que descem dos morros e as infil trações do terreno; além disso tem ainda o rio Berquó, que é uma larga drenagem com 2 1 /2 metros de largura e dous de profundidade, occupando toda a frente do cemiterio. » « Tomei para analysar a agua do rio Berquó, antes e depois de saliir do terreno do cemiterio, deixando-a em repouso quatro dias. A côr da agua antes de entrar no cemiterio é clara, apresentando deposito terroso no fundo da garrafa ; a outra (depois de atravessar o cemiterio) tem a côr barrenta. Postas as garrafas á luz diífusa do um quarto, a segunda tem a côr de um amarello desmaiado, em quanto que a primeira é transparente e sem côr; collocadas, porém, no peitoril de uma janella, á luz intensa do sol, vê-se melhor a differença, que é de um ligeiro amarellado e o deposito côr de ouro. Nenhuma delias tem cheiro. « A primeira não tem gosto, porém a segunda é de um sabor desagra- dável. Examinadas pelo microscopio, tanto uma como outra apresentam, na matéria depositada no fundo da garrafa, detritos de vegetaes, infusorios e uma substancia amarellada. » « Os infusorios são de quatro especies : a Ia semelhante a uma san- guesuga, compõe-se de uma longa vesicula na qual se observa um conteúdo de côr pardacenta ; aparte anterior não apresenta abertura excrementicia. Este animal tem 60 centésimos de millimetro de comprimento e 4 cen- tésimos demillimetro de largura. A segunda especie tem a forma de uma se- mente de melão, apresentando na parte anterior (a cabeça) um tentáculo fili- ’ forme, do comprimento do animal e com movimentos ondulatorios. Tem de comprimento 50 centésimos de millimetro e de largura, 4 centésimos de millimetro. A terceira especie tem a fôrma de uma vesícula alongada, cuja parte anterior é mais larga que a posterior, terminando esta por uma saliência em fórma de cauda de peixe ; o comprimento é de oito centésimos de millimetro e a largura dous. Finalmente, a quarta especie tem a forma de umasemente ou pevide de melancia : este animalculo é dotado de movimentos tão rápidos que tornam de uma difflculdade extrema a sua mensuração. Tem de com- primento oito centésimos de millimetro e de largura quatro » (1) O illustrado Dr. José Lourenço de Magalhães, no seu excellente relatorio de 1878, diz o seguinte : « A terra tomada da superfície de uma das sepulturas é arenosa ; contém mica e matérias organicas. Sendo tratada pelo acido chlorhydrico não apre- senta eífervescencia, o que indica ausência de carbonatos ; pelo acido chlor- liydrico e oxalato de ammonea não dá precipitado, mostrando não conter cal ; e pelo molybdato de ammoneo apresenta reacção de phospho-molybdato de ammoneo, formando-se deposito pelo aquecimento. Além.disso, encontra-so porção de matéria organica.» « Tomada do fundo da mesma sepultura, não só foram encontrados os mesmos caracteres physicos, como também maior quantidade de phosphoro e considerável porção de matérias gordurosas.» (2; « Para julgar do estado de consumpção dos cadaveres neste cemiterio fiz abrir em minha presença algumas sepulturas, pertencentes a uma quadra onde a inhumação tivera logar cinco annos e mezes ; e declaro a V. Ex. que observei os restos mortaes reduzidos a esqueleto, encontrando apenas em um e outro feretro fragmentos saponificados. Ao mesmo resultado cheguei assis- tindo á exhumação em caimeiros de adultos e anjos.» « O fundo das sepulturas rasas, comprehendendo a porção inferior das paredes, mostrava-se bastante húmido, mas sem agua.» « Em mais de oitenta sepulturas examinadas em diversos dias durante o verão, sempre notei a mesma humidade e ausência d'agua, que encontrei a 44 centimetros abaixo da base da sepultura, fazendo-a cavar. Sómente em uma sepultura junto á montanha é que havia agua.» « Repetindo agora, na estação invernosa, esse exame das sepulturas, em 28 da mesma quadra de adultos, encontrei maior ou menor porção d’agua e o fundo completamente inundado pelas aguas do sub-solo em 14 sepul- turas de anjo, collocadas em uma mesma quadra em frente á capella.» « Destes exames se infere que, se durante um verão forte, como o ultimo, o nivel do sub-solo desce um tanto, com a entrada de um inverno, aliás pouco chuvoso, como o actual, elle invade as sepulturas, e isso depois de bastante aterrado o cemiterio.» « Para obviar a tão grave inconveniente, a Santa Casa elevou ainda o terreno a mais de um metro. Com effeito, ao lado esquerdo do portico en- contra-se um muro em quadra medindo l,n,65 de altura, destinado a receber o futuro aterro.» Mais adiante, continua o Dr. José Lourenço : *.< Entretanto, para que as sepulturas communs não deixassem de existir e de funccionar, passo a expòr a V. Ex. o que alli se faz : logo que chega umcadaver, é collocado na valia e coberto com certa porção de terra ; se no dia immediato chega outro cadaver, revolvem e removem parte da terra, collocam o cadaver ao lado do primeiro e novamente cobrem. Se acontece passar algum dia sem entrada de cadaver, essa operação de revolvimento da terra é mais espaçada ; terá logar quando houver nova inhumação.» Ainda assim a sepultura fica á espera de outros cadaveres por mais dias. Na manhã em que fui de proposito examinar as valias, depois de notar a difflculdade com que eram ellas cavadas e a má qualidade da terra, pedi que me mostrassem a ultima valia que havia funccionado ; um coveiro, levan- (1) Dr, Gama Lobo, Relatorio já citado. (2) Analyse feita no laboratorio de technologia da Escola Polytechnica pelo Dr. Augusto Carlos da Silva Telles, (Nota do relatorio do Dr. Lourenço de Magalhães.) tando uma cobertura de madeira, indicou-me uma sepultura não de todo cheia de terra, onde estavam depositados seis cadaveres. Confesso a V, Ex. que ao approximar-me da sepultura senti cheiro bastante desagradavel.» As modificações que tem tido o cemiterio de S. João Baptista, nestes últimos tempos, são de ordem a dar-lhe prestabilidade para muitos annos ainda. Está o cemiterio situado na base do morro de S. João, em um valle de garganta estreita para sudoeste e abertura ampla para nordeste. Os dous ventos dominantes do Rio de Janeiro, ae noroeste e sueste, não passeiam livremente o cemiterio por causa dos altos morros que o rodeiam ; mas o de nordeste entra francamente pelo seu valle caminhando para logares inhabitados, e também o açoita o tempestuoso sudoeste, que, em suas raras e violentas invasões, não escolhendo pontos, penetra furioso por toda parte. Tem de frente 479 metros e de fundo 324, não incluindo as vertentes dos morros, que são cobertos de vegetação densa em toda a sua extensão; divide-se em duas secções, uma na planície e outra no morro. Nesta occupam grande parte as sepulturas rasas de adultos e crianças indigentes, ha o ossario geral perto da rua de D. Marciana e o local das antigas Valias communs, que ha muito deixaram de funccionar ; naquella estão os quadros (ou quadras), os carneiros, etc. A grade de ferro que acompanha toda a frente do cemiterio tem tres portões de ferro, sendo o do centro o principal, em cujos lados estão os edifícios da administração, e de onde parte a rua central, de 18 metros de largura e de inclinação insensível até o limiar da futura capella ; além desta rua ha mais quatro que lhe são parallelas e tres perpendiculares, com a mesma largura, comprehendendo entre si os quadros. As ruas não têm calçamento nem plantações, devido aos trabalhos de melhoramentos, que não estão ainda terminados. Actualmente o cemiterio de S. João Baptista tem 11 quadros, sendo oito para adultos com 9.828 sepulturas, e tres para anjos com 4.300. Destes 11 quadros, oito estão aterrados e tres em trabalhos de aterro. A superfície destes quadros está acima da superfície do primitivo cemi- terio 1, 2 e até 3 metros, segundo as ondulações da parte aterrada. Os carneiros, divididos em grupos, são para anjos em numero de 600 e para adultos 1.768, não contando os que estão em construcção, cujo numero vai além de 600. A construcção dos carneiros merece descripção especial, pois que si os do cemiterio de S. Francisco Xavier são condemnavéis, estes em absoluto não são. No solo se faz um verdadeiro leito de alvenaria, de pedras quebradas, com dimensões variaveis, sobre o qual se levantam as muralhas de pedra e cal de dous metros de altura, com reforço de pedra embutida superiormente. A base do carneiro ó constituída por um systema de combinação de tijolos communs, alternando com malhas de dimensões ás destes equivalentes em quantidade que toma toda a camada de pedras quebradas ; sobre este xadrez de tijolos se deposita o feretro. Estes carneiros, como se vê, não difficultam os phenomenos da putre- facção cadavérica, pela sahida franca que dão aos líquidos e gazes, que têm de passar por ulteriores modificações até final combustão. As valias deste cemiterio, pela sua profundidade, não sò asseguram o deseccamento do terreno, como também proporcionam o arejo franco das sepulturas. Nas valias e no riacho Berquò não senti o cheiro da putrefacção cada- vérica, no cemiterio de S. João Baptista ; e no de S. Francisco Xavier verifiquei a mesma cousa em um poço de onde se tira a agua para os tra- balhos de argamassa e reboco alli feitos ininterrompidamente. O primitivo cemiterio de S. João Baptista não podia em todos os pontos da sua área satisfazer as exigencios que requer um bom cemiterio, visto que em certos logares era tão baixo o seu nivel que a agua invadia em pequena profundidade as sepulturas, e, ajudada pela natureza argillosa do terreno, retardava a destruição do cada ver. 279 A natureza argillosa e argillo-arenosa dos dous cemitérios actuaes, de S. Francisco Xavier e de S. João Baptista, reformado, presta-se á decom- posição integral do cadaver no tenlpo da lei (cinco annos para adultos, tres para os menores de sete annos, e sete para as sepulturas communs). Esse tempo foi augmentado de mais dous annos pelo aviso do ministério do Império de 5 de Janeiro de 1887, expedido sob a proposta da Inspectoria Geral de Hygieno, em 1 de Dezembro de 1886. As analyses das terras deste cemiterio feitas na Casa da Moeda, pelo Sr. J. M. Padua e Castro, afastam-se um pouco das que apresentou o Sr. Dr. José Lourenço, como se vê: A. — Terra virgem. Terra quartzosa, sem cheiro. Tendo perdido ao ar 5,85 % d’agua, apresentou a seguinte composição: Quartzo 70,9500 Argilla ferruginosa, feldspatho e mica (3.23% Fe 2 0 3) 25,5130 Matéria organica (restos vegetaes ) pequena quantidade. Agua 3,5150 Parte solúvel n’agua — 0,022 % /Acido sulphurico. Diminutissima quantidade Chloro 0,0070 iCálcio. Diminutissima quantidade IMagnesio, vestigios lPotassio, idem (Sodio 0,0050 lAmmonea 0,0020 f Acido azotico, vestigios Acido silicico, idem i I Matéria organica 0,0060 Perda, etc.. 0,0020 100,0000 Exame microscopico. Grande numero de micro-organismos de mui diminutas dimensões. Gazes.— Em 100 grammas: 12 c/c. de gaz-carbonico — 23,07 %, 10 » » oxygeno — 19,23 %; 30 » » azoto — 57,69 %; Com a pressão barométrica — 762mm, 85; e temperatura centígrada — 25,°0. B — Terra de sepultura rasa, terra quartzosa, sem cheiro, desprendendo fraca quantidade de acido cabonico, quando atravessada por uma forte cor- rente de ar. Perdeu ao ar 7,06 % d’agua. Tem 0,011 % de matéria gordu- rosa e vestigios de cobre. Quartzo 84,4800 Argilla ferruginosa, feldspatho e mica ( 3.98 % de Fe 2 03 ) 13,7295 Matéria organica 0,0110 Agua 1,7600 Chloro 0,0044 Acido sulphurico 0,0022 Acido silicico 0,0015 Acido carbonico 0,0008 Aoido azotico, vestígios Cálcio . 0,0006 Potássio, vestígios Magnésio, idem *. , Sodio 0,0042 280 Ammonea, vestigios Matéria organica 0.0045 Perda, etc 0.0013 100.0000 Exame microscopico.— Grande numero de organismos de diminutas di- mensões, que pela cultura em gelatina reconheceu-se serem os microbios da putrefacção. Gazes.—Em 1.000 grammas: 10.5 c/c. de oxygeno — 23,3 % 30.5 » » azoto — 67,7 % 4.0 » » gaz carbonico — 8,8 % com a pressão barométrica — 769mm,0 e temperatura centigrada — 25,° 0 O — Terra de carneiro: Terra quartzosa, sem cheiro, desprendendo apenas vestigios de acido carbonico, quando atravessada por uma forte corrente de ar. Contém 0,034 % de matéria gordurosa. Perdeu ao ar 6,75 0/o d’agua, e neste es- tado se compunha de: Quartzo 84,7500 Argilla ferruginosa, feldspatho e mica (1.864 % de Fe 2 03) 13,6550 Matéria organica 0,0400 Agua 1,6400 Farte solúvel n’agua — 0,115 o/o /Chloro 0,0560 Acido azotico, vestigios Acido silicico 0,0015 lAcido sulphurico 0,0013 iMagnesio 0,0001 Cálcio 0,0008 JPotassio, vestigios [•Sodio. 0,0348 Ammonea, vestigios Matéria organica 0,0200 \Perda, etc 0,0005 Exame microscopico.—Grande numero de micro-organismos de mui di- minutas dimensões. Pela cultura em gelatina observámos sómente grande quantidade de microbios da putrefacção (bacterium termo) e alguns infuso- rios ( kol podes ). Gazes.— Em 1.000 grammas: 100,0000 7.5 c/c. de oxygeno — 24,19 °/0 22.5 » » azoto — 72,58% 1.0 » » gaz carbonico — 3,23% com a pressão barométrica — 771mm,5 e temperatura centigrada — 24,° 5. Acham-se sepultados neste cemiterio dous dos mais distinctos clinicos e professores da Faculdade de Medicina da Côrte : o Dr. João José da Silva e o conselheiro Barão de Torres-Homem ; e o notável jurisconsulto e estadista Na- buco de Araújo. O cemiterio dos Inglezes foi levantado no terreno para esse flm cedido, na praia da Gamboa em 1815, e jaz sobre o declive do morro deste nome, com a frente voltada para o septentrião. Tem, nesta direcção, na rua da Gambóa, a esíação do norte do Corpo de Bombeiros, ao sul a pedreira da Gamboa, a leste uma chacara pertencénte à viuva Agra, e a oeste outra de Serpa Pinto. Antigamente era o cemiterio fechado por uma cerca de madeira, que posteriormente foi substituida por um muro de pedra e cal com portão de ferro na frente ; no centro ha uma accommodação que serve de capella, onde se deposita o defunto e se celebra a encommendação religiosa, mas não re- veste o edifício signal algum que symbolise a crença a que pertence As sepulturas constam de cerca de trinta carneiros e de grande numero de covas rasas, sem ordem nem systema ; os poucos monumentos existentes (se merecem tal nome) não avultam por sua insignificante apparencia, e não se recommendam pela arte, belleza ou, siquer, pela conservação. Rodeado de habitações numerosas e recebendo mui poucos cadaveres, e sò de inglezes ricos ou de posição social, deve este cemiterio ser extincto, reser- vando-se para os protestantes de qualquer seita e categoria social, as sepul- turas da competente secção do cemiterio de S. Francisco Xavier. II CREMAÇÃO Ha annos levantou-se aqui a questão da encineração dos cadaveres como meio de prompta destruição dos corpos humanos sem desvantagem para a salubridade publica. Eu não sou infenso a esse processo. Para mim a destruição rapida dos cadaveres, como a obtem a cremação, ó realmente uma cousa momentosa ; mas, os inconvenientes do completo desapparecimento dos mortos pelo fogo são de ordem tão elevada na sociedade, que até agora cão se abalançaram os poderes públicos a aceitar semelhante processo. Os anti-crematistas oppoem que a cremação seria uma calamidade, por- quanto faria desapparecer pelo fogo o ultimo traço, e ás vezes o mais valioso, de um crime, e viria no estado actual causar profunda modificação nos cos- tumes da sociedade e da familia, ferindo, de súbito, sentimentos religiosos e hábitos arraigados. Em vão os crematistas increpam os cemitérios de « focos de emanações de- letereas », de origem de infiltrações de líquidos cadavéricos nos terrenos das habitações vizinhas, e da mistura dos mesmos liquidos com a agua das fontes e poços, de viveiros de microbios de moléstias contagiosas, etc. Não apresentam, porém, além de estudos geralmente hypotheticos, ana- lyses que especifiquem a natureza dessas emanações e infiltrações, ou em que, porventura, se possam basear para garantir tão tremendas accusações ; e, nem siquer, advertem que, ao menos no Rio de Janeiro, nunca houve epide- mia alguma que partisse dos cemitérios actuaes, ou que, nas adjacências destes não ha moléstias especiaes a que se possa dar como elemento patho- genico a viciação do ar ou da terra. Assim, pois, construídos os cemitérios em terreno secco, calcareo e ferru- ginoso ( Lossier). argillo-arenoso (Pappenheim), permeável ao ar e á agua; afastados das cidades por causa da grande área que a estas alheiam ; feitas as covas com bastante profundidade, e as inhumações com todo o cuidado, terão desapparecrdo todos os receios da supposta perniciosidade dos cemité- rios . MEMÓRIA APRESENTADA AO PRIMEIRO CONGRESSO BRAZILEIRO DE MEDICINA E CIRURGIA PEIO (Dr. Tiberio Lopes de Almeida 1888 (PIRACICABA, PROVÍNCIA BE S. PAULO) Qual o melhor tratamento das bronchites agudas das crianças Considerações çjeraes. — /V frequência das bronchites nas crianças tem sua razão natural na'incrementação do trabalho respiratório após o nascimento, em virtude das modificações physi o lógicas, que alteram as condições daquella funeção. A bronchite, quer como moléstia essencial e idiopathica, quer como ele- mento symptomatico de uma affecção complexa, superveniente no decurso das febres eruptivas, da coqueluche, etc., ó sempre uma moléstia séria, pelas suas consequências e intensidade. A infancia é a época do desenvolvimento, em que os orgãos, que mais concorrem para a nutrição, despendem maior actividade funccional, sendo por isso mesmo mais predispostos aos processos pathologicos. Deixando de parte o apparelho gastro-intestinal, é preciso considerar que nas crianças a respiração sendo mais activa do que nos adultos, visto ser de 30 inspirações por minuto, a secreção dos liquidos bronchicos, encarregados de proteger a mucosa do contacto do ar inspirado, é mais energica. Sendo os cryptos muciparos, situados na mucosa, encarregados do traba- lho secretorio desses liquidos lubriíicadores, qualquer supersecreção, constan- temente reiterada, constitue uma predisposição ao estado catarrhal. A supersecreção dos cryptos, seguida de maior actividade da funeção orgâ- nica, modifica a circulação capilíar, determinando hyperhemia e estado catarrhal consecu tivo. Barrier (1) também pensa que a modificação capilíar depende da predomi- nação do apparelho vascular de sangue vermelho, existente nos capillares dos tegumentos internos. O estudo physiologico das supersecreções dos cryptos muciparos, e o da modificação da circulação capilíar, fornecem á pathologia dados que justifi- cam a existência de dous elementos nas phlegmasias bronchicas, a saber : o elemento catarrhal e o elemento hyperhemico, que, podendo coexistir um sob a predominação do outro, dão ás bronchites da infancia um caracter complexo. A predominação dos elementos constitutivos das bronchites infantis soífre certas modificações, segundo a intensidade do processo inflammatorio e as alterações ligadas a estados pathologicos accidentaes ou diathesicos. Niemeyer (2) considera que a hyperhemia apreciável é seguida de pertur- bações nutritivas e funccionaes, que caracterisam o catarrho; pelo que hyper- hemia e catarrho podem ser, sob este ponto de vista, synonymos. Ha para alguns clinicos certa controvérsia na opção das denominações — bronchite e catarrho bronchico. Entretanto, como pensa Barrier (3), na primeira predominando a idéa do elemento phlegmasico, e na segunda a do elemento catarrhal, acontece que nos diversos períodos da moléstia, havendo predominação de um sobre outro elemento, conforme certas circumstancias, (í) Traitè pratique des maladies de Vcnfance. Vol. I. (2) Traitè de pathologie interne, yol. I. (3) Traitè pratique des maladies des nouveaux-nès. 286 também acontece que um delles pôde falhar. Portanto, esta questão é ociosa sob o ponto de vista clinico. A irritabilidade do systema nervoso nainfancia, agindo como um elemento de receptívidade, dá à mucosa bronchica bastante susceptibilidade para ser imfluenciada pelas hyperhemias. Pathogenia.— O estudo das causas predisponentes deve de começar pelo do estado de polle. Ha connexões, pelas funcções secretorias, entre a pelle e as mucosas, tanto no estado hygido eomo no pathologico. A sensibilidade cutanea na infancia é mais accentuada do que nas' outras épocas da vida, principalmente á acção do ar frio e húmido, talvez a primor- dial causa occasional das affecções catarrhaes ; porque a cessação brusca das secreções da pelle acarreta uma actividade maior de trabalho congenere para as mucosas, tacto de alguma fôrma compensador do desequilíbrio, que tra& uma incrementação do affluxo sanguíneo. A dentição exerce uma influencia tal sobre os catarrhos das mucosas que, segundo Niemeyer, costumam dizer que « as crianças têm catarrhos dentá- rios». Essa susceptibilidade, observada em tal época para o catarrho da mu** cosa gastro-intestinal, é extensiva também à mucosa bronchica. O estado valetudinário têm dous factores: uma perversão da nutrição e uma irritabilidade bronchica, por affecções chronicas do parenchyma pulmonar. As crianças, então enfraquecidas por uma depressão das forças nutritivas, são passíveis de uma vulnerabilidade bronchica, em virtude de uma dimi- nuição da resistência organica e da frouxidão das paredes dos capillares, transmittida aos tecidos por elles vivificados. A athrepsia, imprimindo profundas modificações no organismo, como de- monstra o bello trabalho do professor Parrot (1), pôde predispor ás bron- chitGS • Por estas razões, os rachiticos e os escrophulosos têm uma predisposição particular ao estado catarrhal das mucosas. A’s vezes, a irritabilidade bronchica por moléstias chronicas do paren- chyma pulmonar determina um affluxo seguido de dilatação dos vasos affe- rentesà zona affectada, que bastantemente predispõe ao catarrho bronchico. Passando ao estudo das causas determinantes, cumpre observar que ellas têm um caracter mais individual do que as predisponentes, sendo também mais numerosas. A herança imprime ao organismo uma disposição catarrhal, que, segundo as leis da physiologia pathologica, pôde ter um periodo de incubação mais ou menos longo para se manifestar. Ha casos em-que ella irrompe desde os pri- meiros dias da vida infantil. A diathese catarrhal, se assim me é permittido denominal-a, não tem uma physionomia de facil caracterisação. Comtudo, o descoramento da pelle, a flacidez e a falta de tonicidade dos tecidos, são traços que em geral podem guiar o clinico para conhecel-a. Ha causas telluricas e climatologicas, que, provavelmente agindo ex vi de princípios zymoticos, concorrem para* o desenvolvimento das affecções ci- tarrhaes, complicadas de certos elementos, como o palustre. Nos logares frios e húmidos os catarrhos constituem uma verdadeira endemia. As vicissitudes sazonaes, principalmente durante o inverno, têm certa in- fluencia, porque as mudanças bruscas de temperatura alteram as funcções da pelle. As moléstias zymoticas, como o sarampão a variola, as febres typhoi- deas, etc., apresentam as bronchites secundarias como moléstia ou elemento de complicação. Os agentes irritantes, agindo, pela inspiração, sobre as mucosas, também determinam o catarrho bronchico, etc. Nos logares centraes onde as ruas não (1) VAthrepsie. são calçadas e vive-se sob uma atmosphera densa de pó impalpável, du- rante o tempo secco, hei observado sempre grande numero de casos de bron- cliites, ophthalmias, etc. Fôrmas.— A bronchite aguda, segundo o substratum anatomico, póde ser parcial ou localisadaem alguns grossos bronchios, e generalisada ou levada até ás ultimas ramificações bronchicas, constituindo a bronchite capillar ou catarrho suffocante. Nessas circumstancias o processo inflammatorio muitas vezes invade o parenchyma pulmonar sob a fôrma de pneumonia lobular, e constitue a broncho-pneumònia. A bronchite, conforme sua evolução, póde ser primitiva e idiopatica, ou secundaria e symptomatica, quando é ou não a expressão de uma manifesta- ção inflammatoria da mucosa bronchica, independente ou consecutiva a alguma outra moléstia anterior. A bronchite, quando se manifesta ao mesmo tempo que outros elementos morbigenicos extranhos á sua pathogeuese, concomitantes com ella em sua evolução, chama-se — complicada, como nos casos em que o impaludismo irrompe com ella. Em relação á marcha e intensidade de phenomenisação, a bronchite tam- bém póde ser chronica. Symptomatologia — A phenomenisação syndromica das bronchites agudas idiopathicas, comprehende : symptomas premonitores, syinptomas geraes ou de reacção e symptomas protopathicos ou de irritação. Os symptomas premonitores, que assignalam o periodo de invasão, consis- tem em ligeiro movimento febril, tosse secca, respiração um pouco accele- rada, agitação, languidez, coloração branca da lingua, narinas cra seccas, ora húmidas, pelle arida e ourinas vermelhas o escassas. Os symptomas geraes comprehendem a febre e as perturbações diges- tivas reflexas. Os symptomas protopathicos comprehendem a tosse, a expe- ctoração, a dyspnéa, a dòr, o estado do fácies e os phenomenos estetho- scopicos. O estado thermico varia de intensidade, conforme a extensão e a capaci- dade das ramificações bronchicas, em que o processo phlegmasico tem sua lo- calisação. Assim ó que, quanto mais vasta fôr essa localisação emais intenso o erethismo inflammatorio, tanto mais elevado serà o grão de temperatura com as suas exacerbações matutinas e vespertinas. A frequência do pulso segue a elevação thermica, sem que haja re- lação de intensidade entre os dous phenomenos geraes, conforme pensa perfeitamente o professor Bouchut. Na pathologia infantil a questão thermogenerica relativa ao augmento das oxydações tem bastante importância, porque, havendo essa desnu- trição, a integração das forças, tão peculiar á infancia, soffre uma per- turbação profunda, que parece explicar esse quid caracteristico, que o ele- mento febre apresenta nas crianças. As perturbações digestivas reflexas constam de sêde, anorexia, vo- mitos consecutivos ás quintas de tosse, sem inflammação gastrica, e diar- rhéa, que Beau considerava — uma perturbação resultante da passagem do catarrho através das vias digestivas, como sobre-carga saburral. A intensidade da tosse, se é maior quando o processo phlegmasico invade maior numero dos grossos bronchios, é menos pertinaz e quintosa na bronchite capillar; de modo que, nem sempre por esse symptoma é possível com segurança aquilatar da tensão inflammatoria. Nas bronchites agudas, a tosse por seu timbre percorre todos os gráos da escala espasmódica, de modo que póde ser bastante frequente, in- tensa e quintosa, para impedir o somno, trazer agitação e dores. Seus accessos tomam maior incrementação á noite e durante as horas do dia em que ha abaixamento de temperatura. A’s vezes o decúbito dorsal ou lateral provoca-a. Não obstante a expectoração ser imperceptivel na infancia, todavia a existência das mucosidades é reconhecida pela auscultação, e dão á tosse certo gráo de humidade, mais facilmente do que nas outras idades. 288 Expectoração.— A secreção catarrhal apparece logo nos primeiros dias da bronchite, modilicando a seccura da tosse. Nas crianças da primeira infancia a expectoração é incompletamente feita, porque todo o esputo é deglutido. O catarrho das crianças não differe do dos adultos. A dys- pnéa tem um grande valor semiologico, porque não só denuncia a exis- tência de uma broncbite generalisada, mas também fornece certos ele- mentos de prognose pelo embaraço da respiração. Suas exacerbações e remissões diurnas e nocturnas servem de base para a diagnose differen- cial entre a bronchite, a pneumonia e outras moléstias das vias res- piratórias. Na bronchite capillar, a intensidade da dyspnéa é bastante caracteristica ; e quando com ella são concomitantes a acceleração e as perturbações dos mo- vimentos respiratórios, a asphyxia com a cyanose e anesthesia auguram mal do exito da moléstia. A dôr é um symptoma subiectivo, que só póde ser accusado pelas crianças, que tem certo grão de desenvolvimento intellectual. Ordina- riamente é substernal e obtusa. O estado do fácies é modificado pela intensidade da bronchite e pelo caracter da tosse. Na bronchite capillar ha uma modificação permanente e profunda, que traduz os embaraços respiratórios mais ou menos pró- ximos da asphyxia, como a pallidez ou cyanose ligeira, a lividez dos lábios, o encovamento dos olhos e a intumescência das palpebras. Phenomenos estethoscopicos. —Nas bronchites simples e pouco intensas, os movimentos respiratórios têm maior acceleração, sem perversão de rhythmo e sem agitação convulsiva das narinas, segundo disse o pro- fessor Bouchut. Pela percussão do thorax a resonancia nenhuma alteração soffre. Pela auscultação se nota a existência de estertores sibilantes e muscosas, disseminados nos dous lados do thorax; e mais tarde, quando o processo phlemasico augmenta, esses estertores são entremeiados por outros, seccos ou húmidos. Na bronchite capillar ha agitação convulsiva das narinas, esforços consideráveis dos musculos inter-costaes e dos musculos abdominaes, que compensam a fadiga daquelles, vencendo o embaraço respiratório. A percussão é também quasi normal. O rhythmo respiratório soffre uma perversão accentuada, pela acceleração offegante, que, exigindo do dia- phragma contracções compensadoras ou supplementares, produzem o encolhi- mento da base do thorax. Cada dilatação da narina corresponde a um esforço inspiratorio, que póde attingir de 30 a 40 movimentos por minuto. A auscultação deixa observar uma precipitação tumultuosa do ruido respiratório, além de uma complexi- dade a custa das bulhas anormaes ao mesmo tempo percebidas nos grossos e nos finos bronchios. Como naturalmente acontece, os ruidos mais rudes abafam os menos intensos, a concomitância dos estertores mucosos e sub-crepitantes faz estes serem occultados por aquelles, maxime sendo ouvidos nas regiões lateraes do thorax, onde muitas vezes ha differença na intensidade de um para outro lado. Os estertores mucosos são mais perceptiveis durante a inspiração, apre- sentando certas modalidades typicas de crepitação. Comquanto a instabilidade dos ruidos ouvidos nas crianças da primeira infancia seja um facto de real observação, assignalado pelo professor Bouchut, a existência dos estertores mucosos é manifesta durante toda a evolução da bronchite capillar, salvo certas modificações fortuitas, causadas pela tosse. Os estertores sub-crepitantes, como os mucosos, também apresentam moda- lidades em relação ao volume, etc., das bolhas, tendo por séde de predilecção ordinaria a base e a face posterior dos pulmões. A sua existência denuncia a invasão dos últimos tubos da ramificação, e a transição da bronchite capillar em broncho-pneumonia. Contrariamente aos estertores mucosos, os sub-crepitantes são mais per- cebidos e mais numerosos durante a expiração. Quando, porém, ha inversão nos tempos da respiração, os estertores sub-crepitantes mais seccos são ou- vidos durante a inspiração. Tratamento clássico.— A pathologia, investigando os elementos morbidos, distingue-os em elementos de origem nosographica e elementos de origem etiologica. O elemento morbido éoapmagio da entidade pathologica. Como entretanto a evolução da moléstia ó impossivel sem o determinismo da causa morbifica sobre o organismo, as modificações resultantes constarão de pro- cessos com elementos communs e elementos especiflcos, em relação á patho- genese. A medicação, portanto, « corresponde ao conhecimento morbido nosologico commum, sem que a noção da causa mórbida lhe fique completamente extranha ». « Quando um elemento morbido é bem determinado, o therapeuta deve fazer o estudo da sua physiologia pathologica, e procurar as condições em que elle nasce. A medicação deve de abranger as indicações fornecidas por esse estudo, e nada mais util do que satisfazer ãs que decorrem do conheci- mento das causas. » « Infelizmente essas nos escapam muitas vezes, ou quando as desco- brimos, estamos reduzidos a seguil-as por seus effeitos. » (1) Quando Borden disse : « Les maladies ne sont pas des êtres mais des manières d'ètre », teve um pensamento homologo ao de Gubler — « não ha doenças, ha doentes. » Por conseguinte, a dynamica patliologicas em suas leis physiologicas não pôde ter concepções abstractas, porque em cada indivíduo ha condições es- peciaes, inherentes á estructura e ás funcções dos orgãos, tanto existentes no estado hygido quanto no pathologico ; justamente essas condições especiaes differenciam as feições das mesmas moléstias entre os diversos indivíduos, assim como modificam os effeitos pharmacodynamicos dos agentes tliera- peuticos. Neste asserto se fundamenta a relatividade da resposta á these apresen- tada pelo illustrado professor Sr. Dr. Barata Ribeiro, e que procuro desen- volver neste insignificante trabalho. Diagnosticada a bronchite, o tratamento racional exige completa orien- tação da anamnese,das condições determinantes, do estado geral, das condições mesologicas, da tolerância do estomago, do estado das vias digestivas, dos phenomenos de reacção e da existência ou não existência de complica- ções. Na infancia o elemento catarrhal é tanto mais capaz de acarretar com- plicações, quanto mais nova a criança; porque a secreção bronchica, durando algum tempo, pôde se extender ás ramificações capilíares, ameaçando-a de uma broncho-pneumonia. No tratamento das bronchites os cuidados hygienicos attinentes á conser- vação dos doentes em uma athmosphera secca e tépida, ao uso de roupas que abriguem as crianças da acção do frio, á attitude em que convém conserval-as sem fazer pressão sobre o thorax, e à alimentação, não podem deixar de merecer a maior solicitude do clinico, principalmente nos logares em que as trevas da rotina abrigam ainda os desbragamentos da mais crassa igno- rância. Seja dito de passagem que no interior a causa da grande mortalidade infantil ó devida á crença — de qualquer tratamento ser nocivo por forte, atacando as lombrigas assustadas. Parece incrível, mas é real. Na sua sabe- doria, o povo considera uma criança — um acervo de lombrigas. Nas bronchites passageiras, o tratamento consiste no uso dos julepos gom- mosos, xaropes becnicos, da ipecacuanha em dóse vomitiva, do aconito, dos purgativos oleosos, dos clysteres mucilaginosos, dos revulsivos ao thorax e dos pediluvios sinapisados, sendo mais usual o seguinte : agua saturada de chlorureto de sodio com cinza vegetal e sementes de mostarda contusas „. (i) Georges Hayem, Leqons de therapeutique. 290 0 tratamento das bronchites generalisadas reclama uma intervenção mais energica, e, até certo ponto, preventiva de invasão de uma pneumonia lo- bular. Contra a violência da tosse empregam : o xarope de flores de laranjeira, sò ou associado ao hydrolato de louro-cereja, o xarope de lactucario, o de Briant, que me merece plena confiança, o de erysimo composto, e outros. Quando com a intensidade e humidade da tosse coexiste a febre com ex- acerbações quotidianas, a ipecacuanha e os anti-thermicos são aconselhados. A dyspnóa e os plienomenos estethoscopicos, • denunciando a invasão da broncho-pneumonia, ha indicação para os revulsivos, como os vesicatórios volantes, a pomada de Gondret, o oleo de croton tiglium, o esparadrapo de thapsia, etc. Não partilho da opinião dos que temem puerilmente o cantharidismo reno- vesical, não obstante os rins e os conductos ourinarios serem o emunctorio de eliminação da cantharidina : a tolerância relativa do systema vascular é manifesta, quando a acção neutralisadora da albumina não tornasse innocuas muitas substancias toxicas, como entendia Gubler. (1) Os vesicatórios, portanto, não são perigosos na infancia. Sou adverso á medicação espoliativa, por meio das emissões sanguineas, visto determinar a depressão do systema nervoso central. Quando as bronchites caminham para a resolução, os cuidados hygienicos evitam a recrudescência. Em tal periodo os balsâmicos, a polygala, etc., são de incontestável utilidade. Se a moléstia fica estacionaria, os estimulantes diffusivos, como os alcoolicos, a serpentaria de Yirginia, a arnica, segundo alguns, etc., são indicados. Internamento, aconselham o emplastro de Borgonha, e outros revulsivos. Nas bronchites complicadas o tratamento clássico é modificado segundo a natureza da moléstia intercurrente. Reflexões therapeuticas — Os anti-thermicos, antes do conhecimento da autipyrina, magistral e proflcientemente estudada pelo douto professor Mon- corvo, (2) eram numerosos ; mas o insuccesso delles era devido á intolerância, á repugnância causadas pela administração ou á sua acção toxica, mais peri- gosa na infancia, como diz o citado professor brazileiro. Para não alongar demasiado este trabalho, apenas tratarei dos anti- thermicos mais empregados nas bronchites infantis, mesmo hoje, pelos des- crentes ou infamadores da antipyrina. A acção anti-thermica dos antimoniaes não me parece racionalmente- deduzida do seu estudo pharmaco-therapico ; porque elles agem manifesta- mente sobre o elemento-congestivo, tendo por sóde as ultimas ramificações bronchicas e o parenchyma pulmonar. Elles determinam o enfraquecimento cardíaco, diminuindo a tensão arterial, e corrigindo a irrigação sanguínea do pulmão. Nessas circumstancias são— contra-estimulantes; e se nas pneumonias, v. g., a hypothermia é produzida pelos antimoniaes, esse facto é simplesmente de defervescencia. O tartaro emetico, com especialidade, mesmo empregado como vomitivo, é justamente considerado, pelo professor Moncorvo e outros, um agente pe- rigoso na infancia. De uma tolerância duvidosa, facilmente determinando o collapso e a adynamia, sobretudo nas crianças enfraquecidas por «causas distrophicas anteriores ». Mesmo nas bronchites capillares e broncho-pneumonias, aquelle professor, coherente com a pratica de J. Simon, proscreve o tartaro emetico. Havendo, porém, indicações especiaes para os antimoniaes, ó preferível escolher os insolúveis. A despeito de tudo isto, ha quem lance mão do tartaro emetico na tliera- peutica infantil, sem medo e sem escrupulo. A digitalis, não obstante certas reservas, em dóse therapeutica, age excitando as combustões respiratórias, diminuindo a temperatura por uma (1) Commentaires thêrapcutiques du Codcx Medicamcntarius. (2) Dc Vantipyrine dans la thêrapcutiques infantile. perturbação na distribuição do calorico. Comtudo sua acção anti-thermica ó reconhecida. O que ó real é que sua acção pliarmaco-tlierapica depende da administração do medicamento e da natureza da moléstia e da tolerância individual. Na therapeutica infantil, alóm do perigo que advem da accumulação, accresce que sua acção anti-thermica é bastante lenta. E’ ainda um agente ate certo ponto perigoso. ■Sudoríficos.— A sciencia, com os dados mais recentes, admitte no estado febril — uma dyscrasia sanguínea, em virtude da existência de m&terias pyretogenicas. Os hypercrinicos, por conseguinte, preenchem uma indicação bastante racional no tratamento incipiente das bonchites. Comquauto o aconito haja sido em muitos casos deslocado pelo jaborandy e seu alcaloide, segundo as observações do professor Moncorvo, elle deve de continuar na therapeutica infantil, visto a pilocarpina ser de um efleito sinistro. O sulfato de quinina, antes da acquisição da antipyrina, era geralmente empregado no tratamento das bronchites agudas, e essa pratica tivera a sancção de muitos clínicos. Hoje, porém, que ha realmente substancias anti- thermicas, o u-o extensivo do sulfato de quinina só póde continuar a ser a cimitarra dos emperrados. O sulfato de quinina não é um anti-thermico ; e sua acção febrifuga como etiocratico, embora inconcussa, deve de ser utilisada em condições especiaes, em que houver indicação. As crianças realmente têm para elle mais tolerância do que os adultos; mas a repugnância e certas susceptibilidades organicas, tornando-o às vezes inapplicavel, quando a intoxicação malarica concomitar ou predominar durante a marcha das bronchites agudas, o elemento palustre poderá então ser profligado pelo chlorhydrato de pereirina, ou outros alcaloides synergicos e auxiliares. Depois do predomínio do sulfato de quinina, a kairina, a thallina, etc., foram successivamente ensaiadas, mas logo abandonadas. O benzoato de sodio e o acido benzoico, muito empregados no tratamento das bronchites agudas das crianças, ao mesmo tempo que são anti-pyreticos, são também anti-zymoticos. Quando em 1884 Know descobriu a anti-pyrina, talvez ninguém calcu- lasse o papel importante que lhe estava reservado na therapeutica, por muitas propriedades especiaes, cada dia descobertas. Como anti-thermico, ô o agente mais seguro e o unico que faz baixar a temperatura sem phenomenos ac- cessorios. A sua solubilidade, o seu sabor pouco pronunciado e a sua facil appli- cação, tanto pela via gastricá como pela rectal ou hypodermica, são outras tantas garantias do seu emprego em larga escala. Na therapeutica infantil basta o merecimento intrínseco do laureado tra- balho do professor Moncorvo para recommendal-a. Eu sou apologista en- cendrado da anti-pyrina, porque, como diz o professor supracitado nas « suas conclusões », a anti-pyrina « administrada no curso das affecções inflamma- torias, especificas ou não, do apparelho respiratório (bronchite, broncho-pneu- monia, tuberculose pulmonar), a defervescencia é — quasi sem excepção — mui rapida, mais ou menos durável, e traz ao mesmo tempo uma melhora do estado local. A tolerância infantil para a antipyrina é notável, e por sua propriedade analgesiante, é ainda um medicamento proprioda therapeutica infantil. O Dr. Clemente Ferreira (1), no seu excellente trabalho, estuda a acção dos alcoolicos applicados às moléstias infantis, após o conhecimento de seus eAfeitos-nas pneumonias, broncho-pneumonias, etc., em indivíduos cache- ticos, com manifestação de phenomenos adynamicos. Aos pediatras inglezes cabe a gloria da applicação dos alcoolicos á thera- peutica infantil. (1) Das alcooliquss dans la thérapeutique infantila. União Medica vol. VII. 0 Dr. Clemente Ferreira observou em taes condições não só a tolerância, mas também a proficuidade dos alcoolicos nas moléstias do apparelho respi- ratório, pyrexias, etc. E’ assim que diz elle: « Nas bronclntes agudas dos grossos ou médios bronchios eu emprego o álcool como um adjuvante efficaz ao tratamento, sobretudo quando as crianças são fracas, lympliaticas, nas quaes a mais ligeira moléstia é geralmente seguida de depressão das forças organicas.» A ipecacuanha, agente heroico nas bronchites agudas das crianças, ó de grande importância, por sua acção complexa. Além da acção vomitiva, é substancia nauseativa, hypercrinica, expecto- rante, anti-phlogistica, sudorifica, anti-spasmodica e contra-estimulante. Nas bronchites infantis agudas ha justamente ensejo da ipecacuanha satis- fazer, por essas propriedades, as diversas indicações, sobretudo quando pelos vomitos a supersecreção da mucosa respiratória traz a diminuição do ere- thismo phlegmasico, e a sudação diminue a caloriflcação cutanea exagge- rada. Nas moléstias das vias respiratórias foi Pécholier quem primeiro empre- gou a ipecacuanha em fraca dóse. A polygala de Yirginia é um contra-estimulante analogo até ao tartaro emetico ; e por seus effeitos emeto-catharticos, tem applicação no tratamento das bronchites infantis agudas. Observação 1 (1)— Bronchite capillar. M., de 16 mezes, branco, brazi- ■leiro, de constituição forte, sem antecedentes hereditários. O pai abusa do álcool. Devido a resfriamento, após um banho geral, começara a tossir, ter febre, rouquice, agitação e dyspnéa. Passados tres dias, fui chamado para. tratal-o, encontrando: T. A. a 40°,3, pulso a 150, agitação convulsiva das narinas, lingua saburrosa, tosse seguida de vomitos, dyspnéa* acceleração dos movi- mentos respiratórios, alteração do fácies, estertores’ sibilantes, sonoros e húmidos, disseminados nos dois lados dos pulmões, mais claros durante a expiração. Tratamento — Xarope de ipecacuanha com ipecacuanha em pó, às colheres de chã cada 15 minutos até vomitar. Externamente, pomada de Gondret sobre a parte antero-superior do tliorax ; pediluvios sinapisados com cinza vegetal, feitos com agua saturada de clilorureto de sodio. 2o dia —Melhora a dyspnéa, a lingua está mais limpa, melhora o estado do fácies. Prescrevo xarope de polygala de Yirginia com benzoato de am- monio, ipecacuanha em fraca dóse e hydrolato de louro-cereja. Não sendo ainda conhecida a antipyrina (1876), emprego o sulfato de quinina, tendo por vehiculo o xarope tartrico. Esparadrapo de thapsia sobre a parte posterior do thorax. 3o dia — Os estertores são mais brandos, a febre desce a 39°,2, menos agi- tação. Prescrevo oleo de ricino com a mannita; continuando no uso dos mesmos medicamentos. Caminhando o periodo do declínio gradual, lanço successivamente mão do vinho do Porto com xarope de tolú e ipecacuanha, até cessar a tosse, desapparecerem os últimos vestígios do catarrho e emba- raços respiratórios. A criança convalesce 25 dias após a invasão da mo- léstia. Observação II— Bronchite capillar. E., de 20 mezes, mestiço, de consti- tuição fraca, sem antecedentes hereditários. Soffrera de bronchite simples aos oito mezes. Bruscamente à tarde começara a entristecer, ficando com a pelle quente e arida, as narinas seccas, alguma tosse, rouquice, bastante dyspnéa e escassez de ourinas. Na manhã seguinte, sendo chamado, encontrei: T: A. 41°,2, pulso a 150, agitação, sêde insaciável, lingua arida e saburosa, tosse, dyspnéa, acceleração dos movimentos respiratórios, face túrgida, es- tertores estridentes, húmidos e mucosos, mais claros na base e na face pos- terior do thorax. Prescrevo xarope de ipecacuanha com ipecacuanha em pó e tintura de aconito, ás colheres de chá, até vomitar. Yesicatorios vo- (1) As observações serão resumidas paraeconomisar espaço. lantes, de pequenas dimensões, na parte antero-superior do thorax ; papeis de Rigollot aos jemeos. 2o dia — Estado geral inalterável. Prescrevo infusão de avença com xarope de polygala e ipecacuanha em fraca dóse. Sulfato de quinina (1878). 3o dia — A febre declina, a respiração mais facil, menos agitação. Prescrevo oleo de ricino com a mannita, emulsão de amêndoas doces com ipecacuanha, extracto de polygala e vinho do Porto. Reitero os vesicatórios e os papeis de Rigollot. 4o dia — Continua a moléstia a declinar. A mesma medicação interna, excepto a purgativa. 5o dia— Devido a desvio da alimentação lactea, sobrevem uma perturbação da digestão, consistindo em vomitos, diarrhéa e recrudescência da febre. Prescrevo decocto de althéa adoçado com xarope de gomma, sub-nitrato de bismutho e essencia de hortelã-pimenta. Sulfato de quinina. 6o dia — Cessa a complicação gastro-intestinal. Prescrevo xarope de Briant, benzoato de ammonio e ipecacuanha. Vinho do Porto ás colhéres de sopa. Ordeno a applicação do esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 7o dia — A moléstia marcha para o periodo de declinio. Prescrevo o xa- rope de tolú, o extracto de quina, e depois de alguns dias, o xarope de lacto- phosphato de cal. A criança convalesce 28 dias após a invasão da moléstia. Observação III — Bronchite capillar. A., de nove mezes, mestiço, consti- tuição fraca, sem antecedentes hereditários. Devido a resfriamento após um banho tépido geral, fóra acommettido de esternutações, rouquice, tosse, dys- pnéa e agitação, ficando a pelle quente e arida. No dia seguinte fui chamado para medical-o; ao exame encontrei : T. A. 39°,6, pulso a 120, lingua secca e esbranquiçada, respiração curta e accelerada, tosse húmida, seguida de vo- mitos mucosos, estertores sibilantes, disseminados nos dous pulmões, alteração do fácies, agitação, diarrhéa, agitação convulsiva das narinas e encolhimento da base do thorax. Prescrevo xarope de ipecacuanha com ipecacuanha em pó, ás colhéres de chá ; antipyrina tres grammas, divididas em tres papeis ; papeis de Rigollot aos jemeos e aos lados do thorax. 2o dia — A febre desce a 38°,5, mas o estado phlegmasico dos bronchios não soffre alteração. Prescrevo decocto de althéa, extracto de polygala, xarope de avença e ipecacuanha em fraca dóse. Antipyrina duas grammas. Vesica- tórios sobre a parte antero-superior do thorax. 3o dia — Os estertores são mais brandos, a respiração mais livre, mas a febre ascende a 38°,9. Continúa a mesma medicação. Augmento mais 1 gram- ma de antipyrina com 15 centigrs. de calomelanos. 4o dia — Diminuem os phenomenos estethoscopicos ; a febre e a diarrhéa cessam. Prescrevo xarope de tolú, vinho do Porto, benzoato de ammonio e ipecacuanha. Novos vesicatórios sobre a parte antero-superior do thorax. 5o dias — Não ha alteração. 6o dia — Os estertores são mais sibilantes. Prescrevo mais esparadrapo de thapsia sobre a parte posterior do thorax. 7o dia — Os estertores são mais brandos. 8o dia — O periodo de declinio começa a se manifestar. Continúo o uso do xarope de tolú com vinho do Porto, e depois o xarope de Briant. A criança convalesce 18 dias após a invasão da moléstia. Observação IV — Laryngo-bronchite capillar. A., de 32mezes, brazileiro, bbanco, de constituição forte, sem antecedentes hereditários. Ha alguns mezes fóra affectado de sarnas, que ainda não desappareceram, e ha pouco de sa- rampo, após o qual sobreviera uma bronchite secundaria. Aos seis mezes de idade tivera bronchite. Sem causa conhecida, á noite sobreviera uma forte rouquice, dyspnéa, aphonia, tosse sem expectoração, febre, sêde, agitação, conservando as extremidades frias. Transportado para a cidade, onde chegára ás duas horas da tarde, fui chamado, encontrando ao exame: T. A. 41°,6, pulso concentrado, lingua secca e luzidia, respiração offegante e entrecor- tada, face coberta de suor, extremidades frias, palpebras edemaciadas, lábios lividos, dôr esternal, encolhimento da base do thorax, ourinas raras, convul- sões das narinas, aphonia da tosse e da voz, orthopnéa, anorexia, estertores mucosos durante a expiração e constipação. Prescrevo xarope de ipeca- 294 cuanha, ipecacuanha em pôe extracto de aconito ; quatro grammas de smti- pyrinae80centigrs.de calomelanos, divididas em quatro papeis, vesicató- rios volantes, de pequenas dimensões, sobre a parte antero-superior do thorax; papeis de Rigollot aos jemeos e aos lados do thorax. A’ noite prescrevo poção gommosa eoxydo branco de antimonio e cognac. A temperatura des- cera a 39°,4. 2o dia — A lingua é mais húmida, o pulso mais amplo, as extremidades quentes e os lábios menos lividos. A T. A. ascende a 39°,6. Prescrevo a mesma poção e antipyrina na dóse de quatro grammas. 3o dia — A febre desce a 38°,5, mas os outros symptomas persistem. Pre- screvo infusão de polygala, xarope de avença, ipecacuanha fraca dóse e vinho do Porto ; antipyrina tres grammas ; novos vesicatórios. 4o dia — Nenhuma modificação. A’ poção da vespera mando addicionar 60 centigrs. de chloral hydratado. 5o dia—A febre desce a 37°,8, a respiração é mais facil, decresce a aphonia. A criança não havendo evacuado, prescrevo 10 grammas de oleo de ricino. Continha a mesma poção. 6o dia — A temperatura ascende a 38°,8, a tosse é mais quintosa, as narinas seccas. Prescrevo look branco, extracto de aconito, benzoato de ammonio, ipecacuanha e chloral hydratado. Antipyrina 3 grammas. Em- plastro de Burgonha na parte posterior do thorax. 7o dia— Melhora o estado geral. 8o dia—Continha sem alteração o estado geral. Prescrevo : xarope de Briant, balsamo de enxofre, ipecacuanha e vinho do Porto. 9o dia — Não ha reacção febril, o somno é calmo, os phenomenos este- thoscopicos decrescem consideravelmente. Prescrevo licor arsenical de Fowler, ás gottas; dias depois, xarope de tolh e vinho reconstituinte de Silva Araújo. A moléstia mui vagarosamente attinge o periodo de declínio franco. A criança convalesce 34 dias após a invasão. Observação V —Bronchite aguda. F., de 16 mezes, branco, brazileiro, de constituição forte, sem antecedentes hereditários. Ha cinco dias começara a tossir, ter febre, sêde, anorexia, prostração, etc., fazendo então uso de remedios empíricos. Como não melhorasse, fui chamado, encontrando-o no estado seguinte: T. A. 40°,3, pulso a 140, lingua esbranquiçada, sêde, narinas seccas, pelle arida, olhos congestos e lacrimosos, tosse húmida e quintosa, seguida de vomitos, acceleração dos movimentos respiratórios, estertores sibilantes, disseminados em ambos os pulmões, insomnia ligada á tosse, que á noite tem mais intensidade, dyspnéa e ourinas escassas. Prescrevo xarope de ipecacuanha, ipecacuanha em pó e extracto de aconito; antipyrina 3 grammas, divididas em 4 papeis; pediluvio sinapisado, com cinza vegetal, etc. 2o dia — A pelle é mais húmida, a temperatura baixa a 39°,2, o pulso a 120, a lingua é mais limpa. Prescrevo : ipfusão de avença, xarope de polygala, ipecacuanha, fraca dóse; anti-pyriua 2 grammas; papeis de Rigollot aos jemeos e aos lados do thorax. 3o dia — A febre desce a 38°,7, o estado geral não apresenta alteração. Prescrevo a mesma medicação e mais esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 4° dia—Cessam os symptomas reaccionarios, mas os phenomenos este#- thoscopicos não apresentam modificação. Prescrevo decocto de althéa, xarope de avença, benzoato de ammonio, ipecacuanha e hydrolato de louro- cereja ; vinho do Porto ás colhéres de chá. 5o dia — Ha alguma modificação dos phenomenos este tlioscopicos.A mesma medicação. 6o dia — A dyspnéa é quasi nulla, os estertores mais fracos. Prescrevo xarope de tolh, vinho do Porto, ipecacuanha e extracto de lactucario. 7o dia — Continuando gradualmente a moléstia a declinar, insisto na medicação pelos balsâmicos e lactucario. Ao termo de 15 dias o doente começa a convalescer. Observação VI— Bronchite aguda. J., de 8 mezes, branco, brazileiro, sem antecedentes hereditários. Examino-o dons dias após o inicio da moléstia, 295 encontrando: T. A. 40',8, pulso a 120, pelle arida, lingua bastante sabur- rosa, movimentos respiratórios accelprados, tosse húmida e quintosa, com exacerbações diurnas e nocturnas, estertores sibilantes, ásperos nos dous pulmões, dyspnóa e agitação. Prescrevo xarope de ipecacuanha, ipeca- cuanha em pó e tinctura de aconito; antipyrina 2 grammas, pediluvio de mostarda, etc. A ipecacuanha não produz vomitos, mas nauseas e dejec- ções alvinas abundantes. 2o dia — A lingua está mais limpa, a temperatura desce a 39°,3, o pulso a 115, a pelle mais húmida. Prescrevo : xarope de gomma, ipecacuanha, fraca dóse, hydrolato de louro-cereja, antipyrina 2 grammas. 3° dia — a temperatura é qunsi normal, os movimentos respiratórios menos accelerados, a dyspnéa mais fraca, menos agitação. Prescrevo xa- rope de polygala, vinho do Porto, ipecacuanha e extracto de lactucario. Esparadrapo" de thapsia sobre o thorax. 4o dia—Os phenomenos estethoscopicos não parecem incrementar. A medicação continúa a mesma. 5o dia — Melhora o estado do doente. Não altero a medicação. 6o dia — A moléstia, declinando gradualmente, passo a prescrever os bal- sâmicos. Após 16 dias o doente começa a convalescer. Observação VII— Bronchite aguda. Impaludismo. M., branco, brazileiro, tres annos, de constituição fraca. Pelo lado materno ha casos de tuberculose pulmonar. Essa criança ha soffrido de perturbações gastro-intestinaes com certa intensidade, naturalmente devidas ao abuso, aqui quasi geral, de nutrirem os meninos, desde os primeiros mezes, com substancias incom- pativeis com as forças digestivas. Estado actual. Doente, ha mais de oito dias, apresenta : T. A. 39°,2, pulso a 120, ligado augmentado de volume e dorido á pressão, diarrhéa, lingua esbranquiçada, tosse quintosa, respiração accelerada, sêde, ourinas verme- lhas, estertores sibilantes disseminados nos dous pulmões. A febre de caracter francamente intermittente, termina sempre por uma sudação copiosa, sem ser precedida de frios. Prescrevo xarope de ipecacuanha com ipecacuanha em pó; calomelanos 30 centigrs.; ventosas sarjadas so.bre o ligado. 2o dia — Decocto de althéa, xarope de avença, extracto molle de quina, ipecacuanha fracta dóse ; injecções subcutâneas de bromhydrato neutro de quinina durante a apyrexia ; unguento de sumas em fricções sobre .a região hepatica ; esparadrapo de thapsia sobre a parte posterior do thorax. 3o dia — O figado está menos volumoso, a lingua mais limpa, a respiração mais calma, ha menos evacuações. Prescrevo a mesma medicação. 4o dia — Desapparece a diarrhéa, a temperatura ascende a 41°,3 durante o fastígio do accesso. Prescrevo look branco, extracto de polygola, extracto de lactucario, ipecacuanha; antipyrina 2 grammas, bisulfato de quinino 60 centigrs., divididas em tres papeis, durante a apyrexia. 5o dia— Melhora o estado respiratório, ha ainda accesso febril, continúa a mesma medicação. 6o dia —A tosse augmenta de intensidade, a temperatura attinge durante o fastígio do accesso a 39°,3. Prescrevo xarope de Briant, chloral hydra- tado, extracto de mulungú, ipecacuanha ; agua de la Bourboule tres colheres de sopa ao dia ; bisulfato de quinina. 7o dia— Continua a bronchite a nlelhorar, não ha accesso febril. Pre- screvo : xarope de tolú, chloral hydratado, extracto de polygala, lacto-phos- phato de cal; chlorhydrato de pereirina ; agua de la Bourboule. O periodo de declínio tem uma marcha lenta em virtude da debilidade organica da criança. Aconselho mudança de clima, o uso de preparados de cal, quina, arsénico, etc. Mezes depois encontro-a mais forte e em melhores condições. Observação VIII — Bronchite aguda. C., de seis mezes, mestiço,constituição forte, sem antecedentes hereditários. Devido á resfriamento começara a ter esternutações, tosse, pelle quente e arida, rouquice e agitação. No dia se- guinte pela manhã, sendo chamado para medical-o, observo: T. A. 40°,2, pulso a 125, lingua branca, acceleração dos movimentos respiratórios, nari- nas seccas, tosse frequente e estertores sibilantes e disseminados em ambos os pulmões. Prescrevo xarope de ipecacuanha com ipecacuanha em pó e tin- ctura de aconito; antipyrina 2 grammas; pediluvio de mostarda, cinza ve- getal, etc. 2o dia— A ipecacuanha só produz nauseas e dejecções alvinas ; a tempe- ratura desce a 39°,4 ; a lingua é mais limpa e os movimentos respiratórios mais coordenados. Prescrevo xarope de avença e ipecacuanha, fracta dose; antipyrina 2 grammas ; papeis de Rigollot aos lados do thorax. 3o dia — Á temperatura desce a 38°,2, ha menos agitação, os estertores são menos sibilantes. Prescrevo xarope de althéa, extracto de polygola, ipecacuanha, fracta extracto de lactucario ; antipyrina 1 gramma ; esparadrapo de thapsia sobre a parte anterior do thorax. 4° dia — A moléstia entra francamente no periodo de declínio. Prescrevo xarope de tolú e xarope de flores de laranjeira, ipecacuanha, fraca dóse. Ao fim de 16 dias a criança convalesce. Observação IX—Bronchite aguda. Heredo-syphylis. T., mestiço, de 18 mezes, constituição fraca. O pai softrera de manifestações secundarias de syphilis. A criança tivera symptomas de perturbações gastro-intestinaes e syphilides. Ha alguns dias começou a tossir, ter febre e rouquice. Chamado para tratal-a, ao exame encontrei: T. A. 39°,5, pulso a 110, lingua bastante saburrosa, rhinite, alteração cupiliforme dos incisivos superiores e inferiores; adenite cervico-inguinal, maculas cúpricas sobre o tronco e membros inferio- res, tosse quintosa, rouquice, diarrhéa e estertores sibilantes e disseminados em ambos os pulmões. Prescrevo xarope de ipecacuanha e ipecacuanha em pó; decocto de althéa adoçado com xarope de flôres de laranjeira e sub- nitrato de bismutho. 2o dia — Melhora a diarrhéa, a lingua é mais limpa. Prescrevo decocto de musgo islandico, xarope de polygala, vinho do Porto e ipecacunha, fracta dôse ; papeis de Rigollot aos jemeos e aos lados do thorax. 3o dia — A tosse é menos quintosa, a respiração mais franca, a temperatura desce a 38°,6. Continúo a mesma medicação. 4o dia — O estado geral tende a melhorar..Insisto na medicação. 5o dia — A tosse recrudesce. Prescrevo: xarope de Briant, extracto de la- ctucario, ipecacuanha, fracta dóse ; esparadrapo de thapsia sobre o thorax ; licor de van Swieten. 5o dia.— Continúa a melhorar o estado geral. Passo a prescrever o xarope de tolú com extracto de lactucario e extracto de mulungú ; vinho reconsti- tuinte de Silva Araújo; licor de van Swieten. A doente sara da bronchite aguda ao fim de 10 dias, continuando methodicamente o tratamento especifico da heredo-syphilis. Observação X — Bronchite aguda.— O., branco, brazileiro, de oito annos, constituição forte, sem antecedentes hereditários. E’ sujeito a defluxos por qualquer resfriamento. Soffrera, ha mezes, de coqueluche, e saram pão. Ha cerca de cinco dias, havendo durante o dia brincado em um logar húmido, á tarde começara a tossir, tendo tido á noite febre, calafrios, esternutações e cephalalgia. Como não melhorasse esse estado com medicamentos empíricos, fui então chamado para tratal-o, encontrando ao exame o estado seguinte: T. A. 40°,6, pulso a 140, pelle secca e arida, narinas seccas, lacrimejamento, tosse quintosa e húmida, lingua saburrosa, constipação, acceleração dos mo- vimentos respiratórios, estertores sibilantes em ambos os pulmões e ourinas raras. Prescrevo xarope de ipecacunha, ipecacuanha em pó, tinctura de aconito, calomelanos com antipyrina; papeis ue Rigollot aos jemeos. 2o dia — Houve evacuações, diaphorese e vomitos. A cephalalgia é menos intensa, as narinas mais húmidas, a lingua mais limpa e a temperatura mais baixa. Prescrevo looclc branco, extracto de polygala e ipecacuanha fracta dôse ; antipyrina ; papeis de Rigollot aos jemeos e lados do thorax. 3o dia — A temperatura desce a 38°,3 ; os movimentos respiratórios são mais moderados; a micção mais fácil e abundante. Prescrevo infusão de avença, xarope de polygala, vinho do Porto e ipecacuanha. Esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 4o dia — 0 estado geral é satisfactorio. Continúo a mesma medicação. 5° dia — Os symptomas bronchicos são quasi nullos. Prescrevo xarope de tolú, extracto de mulungú, chloral hydratado. O doente convalesce dentro de tres dias. Observação XI — Bronchite aguda.— M., brazileira, branca, de 5 annos, constituição forte, sem antecedentes hereditários. Soffrera de sarampão e co- queluche. Ha dous dias, em consequência de resfriamento, começara a tossir, espirrar e ter febre. Chamado para medical-a, encontrei: T. A. 4Io,6, pulso a 160, pelle ar- dente, delirio, língua branca, agitação, rouquice, tosse quintosa, olhos aver- melhados e estertores sibilantes. Prescrevo emulsão simples, oleo de ricino 10 grammas e ipecacuanha. Antipyrina 4 grammas, divididas em quatro papeis ; pediluvio de mostarda,‘etc. 2° dia — Houve evacuações, vomitos e diaphorese. Prescrevo antipyrina na mesma dóse ; loock branco, extracto de lactucario e ipecacuanha, fracta dóse ; papeis de Rigollot aos jemeos e lados do thorax. 3o dia—Desapparece o delirio, a temperatura desce a 38°,7, a tosse é menos quintosa. Prescrevo antipyrina 3 grammas; o mesmo loock; esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 4o, 5o e 6o dias— Continúa o estado geral sem alteração. 7o dia—Recrudescem os phenomenos estethoscopicos. Prescrevo xarope de polygala, benzoato de ammonio, vinho do Porto e ipecacuanha. Esparadrapo de thapsia sobre a parte posterior do thorax. 8o dia — Persiste o mesmo estado. 9® dia — De novo os phenomenos estethoscopicos melhoram. Insisto na mesma medicação. 10° dia —Não ha mais estertores, a tosse é ainda quintosa. Prescrevo xarope de Briant, chloral hydratado, benzoato de ammonio e ipecacuanha; vinho do Porto. 11° dia — A tosse, sendo menos quitosa, passo aos balsâmicos. A doente ao fim de 20 dias, a contar do inicio do meu tratamento, entra em franca con- valescença. Observação XII — V., preta, de 5 annos, de constituição fraca, sem ante- cedentes hereditários. Soffrera de atrepsia, moléstia frequentemente obser- vada nos ingénuos, conservando ainda algumas vezes lienteria, a qualquer desvio de regimen. Expondo-se pela manhã ao ar frio, horas depois começara a ficar triste, espirrando, tossindo e com febre. Usara sem resultado de infusão de sabugueiro. Encarregado do tratamento, ao exame encontrei : T. A. 39°,6, pulso a 125, lingua esbranquiçada, narinas seccas, acceleração dos movimentos respiratórios, tosse secca, rouquice, dôr esternal, sêde, ester- tores sibilantes, disseminados em ambos os pulmões e micção difflcil. Pre- screvo infusão de grelos de laranjeira, accetato de ammonio, xarope de ipecacuanha e ipecacuanha em pó. Pediluvio de mostarda, etc. 2° dia — Houve diaphorese abundante e vomitos. As narinas são mais hú- midas, a lingua mais limpa, a tosse húmida e mais quintosa, a temperatura ascende a 39°,8. Prescrevo antipyrina 2 grammas; decocto de althéa, xarope de flores de laranjeira, extracto de polygala e ipecacuanha, fracta dóse. Papeis de Rigollot aos lados do thorax. Dieta lactea. 3o dia — Diaphorese e apyrexia após a antipyrina ; as quintas da tosse mais exacerbadas á noite ; micção facil. Prescrevo antipyrina 1 gramma. Repetição do decocto. 4° dia — Constipação, alguma dyspnéa e agitação. Prescrevo antipyrina 1 gramma e calomelanos 30 centigrs.; xarope de avença, extracto de polygala, benzoato de ammonio e ipecacuanha. Esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 5° dia—Houve exoneração intestinal, cessa a agitação, a dyspnéa diminue. Prescrevo decocto de musgo islandico, xarope de lactucario e ipecacuanha. Vinho do Porto ás colhéres de sopa. 6® dia — Continúa o estado geral sem alteração. 7o dia — O período de declínio começa a se manifestar. Não altero a me- dicação. 8o dia — Prescrevo o xarope de tola ; o vinho reconstituinte de Silva Araújo. A doente, dentro de mais tres dias, entra em franca convales- cença. Observação XIII — Bronchite aguda. L., italiana, de 30 mezes, consti- tuição forte, sem antecedentes hereditários. Soffrera sarampão. Ha dous dias apôs um banho tépido, fôra exposta ao ar frio, começando horas depois a espirrar e a tossir. No dia seguinte, chamado para medical-a, encontrei o estado seguinte : T. A. 39°,2, pulso a 120, pelle secca e quente, lingua bas- tante saburrosa, diarrhéa, acceleração dos movimentos respiratórios, tosse secca e estertores sibilanr.es em ambos os pulmões. Prescrevo xarope de ipecacuanha, ipecacuanha em pó e tinctura de aconito. Pediluvio de mos- tarda, etc. 2o dia— A lingua está mais limpa, a diarrhéa melhora. Prescrevo : decocte de altliéa, xarope de avença, extracto de lactucario e ipecacuanha, fracta dôse. Antipyrina 1 gram. 3o dia— A temperatura baixa a ,38°3,a pelle está mais húmida e a tosse mais quintosa á noite, mais húmida. Prescrevo infusão de avença, xarope de flores de laranjeira, extracto de polygalae ipecacuanha. Antipyrina 1 gram. Papeis de Rigollot aos jemeos. 4® dia — Persiste o mesmo estado. 5° dia — A tosse é menos quintosa e a temperatura normal. Prescrevo con- tinuação do uso da infusão de avença, etc. Esparadrapo de thapsia sobre o tliorax. 6° dia—Os phenomenos estethoscopicos tendem a decrescer. Prescrevo xarope de Briant, vinho do Porto, extracto de lactucario e ipecacuanha. 7° dia — Melhora o estado geral. A mesma medicação. 8° dia — A moléstia continúa a declinar. Prescrevo xarope de tolú, elatina vinho do Porto e extracto de lactucario. 9* dia — Continuando o estado geral a ser lisonjeiro,insisto na mesma me- dicação durante mais cinco dias, lindos os quaes a criança entra em conva- lescença . Observação XIV —Bronchite aguda.— Gastrite chronica.— Dilatação do estomaqo.— M., branco, brazileiro, de 2annos, constituição fraca, sem ante- cedentes hereditários. Fôra amamentado promiscuamente por muitas mu- lheres, ao mesmo tempo que administravam-lhe leite de vacca e de cabra. Como consequência de uma alimentação tão irracionalmente dirigida, sobreviera uma grande pertubação das funcções gastro-intestinaes. Alternativamente soffre de diarrhéa, constipação e lienteria. Após as refeições, experimenta oppressão epigastrica, seguida de vomiturações, expellindo grande parte dos alimentos não digeridos, ao mesmo tempo que o epigastrio proemina consideravelmente, inferiormente até quasi á cicatriz umbilical, e superiormente até ao nivel da 7a costella esquerda. Ha quasi dous dias, expondo-se ao ar frio e húmido, começara a tossir e espirrar, tendo febre e sêde. Chamado então para medi- cal-o, encontrei ao exame: T. A. 39°,5, pulso a 120, pelle secca, lingua sabur- rosa, acceleração dos movimentos respiratórios, tosse, rouquice e estertores sibilantes disseminados em ambos os pulmões. Prescrevo xarope de ipeca- cuanha, extracto de aconito e ipecacuanha em pó. Papeis de Rigollot aos jemeos. 2° dia —Houve vomitos e sudação. Prescrevo antipyrina 2 grammas ; decocto de althóa, xarope de flores de laranjeiras e ipecacuanha, fracta dôse. Tinctura de iodo sobre o epigastro. 3° dia— A temperatura desce a 38°,6, o pulso a 100, a lingua é mais limpa e os movimentos respiratórios menos accelerados. Prescrevo a mesma medicação interna, e externamente papeis de Rigollot aos jemeos e aos lados do tliorax. 4° dia — A temperatura desce a 37°,6, o pulso normal, ha menos sêde. Ha •constipação. Prescrevo calomelanos 60 centigrs. ; xarope de Briant, ex- tracto de lactucario e ipecacuanha; esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 5° dia — Houve evacuações abundantes. Os phenomenos estethoscopicos diminuem. Prescrevo o mesmo xarope, e mais phosphato de cal e bicarbo- nato de sodio antes das refeições. 5o dia — Não ha alteração. 7o dia — Entrando a bronchite em franca resolução, aconselho os balsa- micos, a continuação do phosphato de cal e bicarbonato de sodio, a tinctura amarga de Baumós e regímen composto de leite, ossos e sopas de carne pouco adubadas e gordurosas. Observação XV — Bronchite aguda. F., preto, de tres annos, constituição forte, sem antecedentes hereditários. Devido á resfriamento começara a tossir, ter febre e sêde. Chamado no dia seguinte para medical-o, ao exame encontro : T. A. 40°,6, pulso o 150, lingua secca e saburrosa, agitação, ac- celeração dos movimentos respiratórios, tosse secca e quintosa com exacer- bações nocturnas, dôr esternal, sêde e estertores sibilantes disseminados em ambos os pulmões. Prescrevo infusão de ipecacuanha, acetato de ammonio e ipecacuanha. Pediluvio de mostarda, etc. 2o dia — Houve sudação e vomitos. Prescrevo antipyrina 4 grammas; xarope de polygala, extracto de lactucario e ipecacuanha, fracta dòse ; papeis de Rigollot aos lados do thorax e aos jemeos. 3o dia — A febre desce a 39°,3, o pulso a 120, ha constipação. Prescrevo calomelanos 50 centigrs., antipyrina 2 grammas ; o mesmo xarope. 4o dia — Houve evacuações copiosas ; a febre desce a 37°,9 ; os phenomenos estethoscopicos diminuem de intensidade. Prescrevo infusão de avença, ex- tracto de mulungú, vinho do Porto e ipecacuanha ; esparadrapo de thapsia sobre o thorax. 5o dia — Continúa a moléstia a declinar. 6o dia — Os phenomenos estethoscopicos são quasi nullos. Prescrevo xarope de tolú, benzoato de ammonio, vinho do Porto e ipecacuanha. 7o dia — A bronchite cedendo ao tratamento, recommendo o uso do xarope de tolú e de Briant e vinho do Porto ás refeições. O doente convalesce ao 15° dia de tratamento. Poderia adduzir ainda muitos casos, se abrisse a cornucopia de observa- ções que sobre o assumpto possuo; mas como os dados apresentados são sufflcientes para minhas deducções, não mais prolixo procurarei fazer-me. Deducções clinico-therapeuticas. — A hygiene, quer fornecendo os ensina- mentos preventivos ou prophylaticos, quer os coadjuvantes da therapeutica, occupa um logar de honra no tratamento das bronchites. As indicações therapeuticas pedem ser reduzidas a tres classes: indicação causal, indicação da moléstia e indicação symptomatica, conforme o plano tra- çado por mim, e seguido pelo eminente professor Niemeyer. (1) A ipecacuanha, devido às suas propriedades, tanto póde ser collocada na medicação anti-phlogistica como na diaphoretica. A medicação derivativa local ou diaphoretica local consiste na applicação dos vesicatórios, sinapismos, tinctura de iodo, esparadrapo de thapsia, em- plastro de Burgonha, etc. Georges de Hayem, (2) estudando a theoria physiologica da revulsão, con- sidera-a ligada á acção funccional do apparelho vaso-motor ; sendo entretanto as deducções experimentaes mais affeitas aos phenomenos cardio-vasculares, em relação ás modificações da respiração, das secreções, da temperatura e das permutas nutritivas. Nessas condições, a phenomenisação depende da extensão, da duração e do gráo da excitação cutanea, conforme ella é fraca, média ou intensa. Quando a irritação é fraca, ha um effeito estimulante concretisado pela excitação reflexa das artérias cutaneas, augmento da pressão sanguínea, da frequência e da força das contracções cardíacas e da acceleração da corrente sanguínea. Esses phenomenos de duração ephemera são relacionados por uma pequena depressão, quando a excitação cutanea não é prolongada. Na excitação média os effeitos variam, sendo, entretanto, o methodo graphico aquelle que mais seguramente traduz a intensidade da estimulação. (1) Obra citada, Yol. I. (2) Obra citada. 300 Na excitação intensa ha também uma estimulação do apparelho cardio- vascular, de uma duração tanto mais curta quanto mais intensa a irritação. Além desse periodo de estimulação, ha um segundo mais durável, de de- pressão cardio-vascular, dilatação peripherica com anemia das partes pro- fundas e relaxação das artérias cutaneas, enfraquecimento dos batimentos cardiacos e diminuição das pulsações. Em relação á respiração e à circulação, na excitação fraca o pulso e a respiração são inversamente influenciados. Quando mais forte e prolongada a excitação, os movimentos inspiratorios profundos podem attingir a as- phyxia. A revulsão é pois um dos meios da medicação anti-phlogistica, e corforme o exposto ella age sobre o erethismo nervoso e a dôr, e sobre o erethismo vascular, descongestionando o systema vascular. Não julgo, portanto, procedente o receio do professor Cadet de Gassi- court (1) quando diz: « Eu não emprego nem o oleo de croton,nem o emplastro de tbapsia nos meninos menores do 7 a 8 annos ; a erupção violenta que esses topicos produzem não é tolerada por elles » ; porque jamais observei accidentes taes em consequência da applicação do esparadrapo de tbapsia. Quanto ao oleo de croton, estou de perfeito accordo com elle. c) Indicação symptomatica.— As bronchites agudas das crianças, consi« deradas na sua accepção mais lata, podem ser decompostas em dous elementos — o phlegmasico e o catharral. Como consequência de certa predominaçâo de um sobre o outro elemento, a phenomenisação em todos os casos não pôde ter uma manifestação determinada e invariável. O tratamento dos symptomas premonitores é sempre vantajosamente iniciado pela ipecacuanha em dóse vomitiva, porque ella — combate os Ím- petos congestivos, segundo a expressão feliz de Cadet de Gassicourt. Quando uma suppressão brusca de transpiração houver sido o ponto de partida do processo phlegmasico, summariando o desdobramento provável da sua marcha, então á ipecacuanha convém addicionar o aconito ou o acetato de ammonio. Seguindo a ordem chronologica estabelecida na symptomatologia, ha a considerar entre os symptomas de reacção. l.° A febre deve ser combatida pela antipyrina, e em certos casos pelos alcoolicos. a) Indicação causal.— Ella implica o conhecimento das causas predispo- nentes e o das causas determinantes. Entretanto, como muitas vezes entre ellas ha muitas de uma apreciação vaga e mal determinada, sómente a indi- cação causal póde tornar-se effectiva áquellas que forem mais accessiveis ás pesquizas clinicas. Assim é que as crianças rachiticas, escrofulosas, affectadas de moléstias distrophicas, em periodo de evolução dentaria, na época do desmamamen- to, etc., devem de ser submettidas a um regimen restaurador, composto de substancias alibiles, conforme as idades e a tolerância, como : o leite, os alcoo- licos, a phosphatina Falières, a carne crua,’ a peptona, os preparados de cal, os arsenicaes, os banhos de mar, a gymnastica, a hydrotherapia, a mudança de clima, etc. Ha nas provincias meridionaes do Brazil, sobretudo nas de S. Paulo e Pa- raná, que conheço, uma certa superstição, bastante fatal às crianças, e contra a qual toda energia é pouca. Certas idéas absurdas e hereditárias, em relação á hygiene e pathologia infantis, fazem o povo involuntariamente concorrer com o máximo contin- gente para a morbilidade e mortinalidade das crianças, mào grado os con- selhos médicos. Os meios preventivos dos resfriamentos, attingindo a um excesso ou aberração, acabam por fatigar as crianças em vista das grossas e pesadas camadas de lã, flanella ou baêta que servem de envolucro infanti- cida, em vez de protector. Assim éque qualquer descuido redunda em pre- juizo das pobres victimasda ignorância. (1) Obra citada. Cadet de Gassicourt, (1) em relação ás precauções hygienicas no tratamento das bronchites, diz: .« todas se resumem em um só preceito : evitar os res- friamentos, sem cahir no excesso contrario, e sem fatigar os pequenos doentes por uma temperatura muito elevada». b) Indicação da moléstia.— Esta póde ser reduzida a tres classes : medica- ção anti-phlogistica, medicação diaphoretica e medicação derivativa. Todo processo inflammatorio considerado em seu substratum anatomico local, apresenta uma complexidade phenomenal subordinada a perturbações vasculares e nutritivas. E esse rocesso tem por caracteristico uma reacção, quer os tecidos procurem desembaraçar-se de micro-organismos, quer de qualquer germen pathogenico de morphologia indeterminada ou desconhecida. O campo de aeção da medicação anti-phlogistica ó, até certo*ponto, demarcado quando se trata das inflammações especificas ; mas nos outros casos, é necessário agir sobre o proprio processo inflammatorio. Entre os phenomenos phlegmasicos, a fluxão sanguinea é a pedra de toque dos meios curativos. Como ella, entretanto, varia de intensidade e duração, conforme a época da evolução em que a intervenção medica é avocada ; os agentes medicamentosos variam também com as modalidades da marcha. A medicação anti-phlogistica é sempre indicada nas inflammações agudas, primitivas e de localisação interna. Nas bronchites agudas ella é composta dos calomelanos e dos antimoniaes. Os calomelanos têm sua indicação especial no periodo da dentição, agindo ao mesmo tempo sobre o catarrho intestinal frequente ou concomitante em tal época. Os antimoniaes se reduzem aos insolúveis — o oxydo branco de antimonio ó muito menos energico do que o kermes, e por isso mesmo é reservado para os casos de intensidade mediocre. A medicação diaphoretica é composta de aconito e do acetato de ammonio, tendo sua indicação principal nos casos em que os resfriamentos são a causa das bronchites agudas. O professor Dujardin-Beaumetz (2) considera o aconito « um dos mais pode- rosos analgésicos depois da morphina », ao mesmo tempo que a efíicacia da sua aeção depende da natureza da preparação, porque as raizes, por serem mais ricas em principios activos, dão preparados de aeção mais firme. 2.° As perturbações digestivas reflexas, quando não desapparecem com a applicação da ipecacuanha em dóse vomitiva, no tratamento inicial, serão combatidas pelos mucilaginosos com o sub-nitrato ou o salicylato de bismuthão ou pelos calomelanos. Havendo constipação, e se a ipecacuanha não houver produzido efifeito cathartico, o oleo de ricino só ou associado ao oleo de amêndoas doces, ou á mannita e á conserva de cannafistula, é de uso pro- veitoso. O conjuncto dos symptomas caracteristicos do periodo de irritação con- stitue a parte mais interessante do tratamento das bronchites agudas das crianças, porque é durante elle que, predominando o elemento catarrhal, as alternativas da evolução plilegmasica impõem, modificações ã escolha e ás combinações dos meios therapeuticos preconisados pela pratica. Na serie de medicamentos indicados no periodo de irritação, ó ainda a ipecacuanha que deve de figurar em primo loco, como o agente de proprie- dades mais complexas e de mais actualidade portanto. Depois delia seguem : a polygala, o kermes mineral ou o oxydo branco de antimonio, em certos casos; o loock branco, a avença e os mucilaginosos. Para sedar as quintas da tosse, prefiro o lactucario, chloral, a louro-cereja e as flôres de laranjeira ás preparações opiaceas. Comquanto na sessão da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, de 2 de Março do fluente anno, (3) uma eommunicaçao minha fosse (1) Traité clinique des maladies de l’enfance, vol. I. (2) Les nouvelles mêdications. (3) Boletim da Sociedade de Medicina e Cirurgia, anno 3o, Janeiro a Abril. inquisitorial e precipitadamente menosprezada sem estudos, sem experiencias e sem observações, continuo a pensar que o chlorhydrato de cocaina é um precioso agente para sedar as quintas da tosse e os vomitos consecutivos. Quando a moléstia segue uma marcha lenta e insidiosa, os estimulantes diffusivos são os agentes therapeuticos que melhores resultados dão. No periodo de declínio, os balsâmicos, a quina e o arsénico são de grandes vantagens. Topicamente, convém lembrar que nas bronchites capillares os vesica- tórios volantes e de pequenas dimensões, os pediluvios e sinapismos aos jemeos, repetidoá conforme as exigências dos casos, são de uma indicação quasi intuitiva. Nas outras cicumstancias, os sinapismos a principio, e mais tarde o em- plastro de Borgonha, o esparadrapo de thapsia, etc., são os principaes revul- sivos. Em resposta à these proposta, concluo que o — melhor tratamento das bronchites agudas das crianças é o que apresento nas deducções clinieo- therapeuticas. índice geral das sessões Aos congressistas III - V Preliminares do primeiro congresso VI - X Socios fundadores do Congresso Brazileiro de Medicina e Ci- rurgia XI - XIV Sessão preparatória 1 Pags . Ia Sessão ordinorio Discurso inaugural 3- 11 Va Sessão ordinorio Da acção physiologica da lobelina.— Frequência da paralysia geral dos alienados no Brazil.— Dermatose gallinacea transmittida á especie humana.— Do chlorato de potássio no tratamento do epithelioma.— Do tratamento da tu- berculose pelo sulfureto de carbono e pelas inhalações de acido fluorhydrico i3 - 34 3a Sessão ordinário Da maturação artificial das cataractas.— Da ophthalmia purulenta dos recemnascidos e seu tratamento prophylatico.-— Tratamento da febre amarella pelo glyco-borato de sodio. 35- 57 4a Sessão ordinário Frequência dos cálculos vesicaes no Brazil; resultados operatorios. — Da ovariotomia no Brazil 59 - 91 Sa Sessão em 1£> de Setembro de 1888 Acção therapeutica da lobelina. — Continuação da discussão sobre a prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recem- nascidos.— Observação de aneurisma parcial do myo- cardio, simulando insufficiencia tricuspide.— Observação do hemi-spasmo glosso-labial.— Epidemia de dengue em Valença.— Aneurismas da poplitéa e seu tratamento.— Febre amarella 92 - 127 6a Sessão ordinaria Da influencia do impaludismo nas mulheres gravidas.— Chyluria, hydrocele e elephancia no Brazil.— O fluor na tuber- culose.— Tratamento da lepra.— Febre amarella.—Pus- tula maligna 129 - 155 >a Sessão ordinaria Da chyluria e hydrocele no Brazil.— Xeranemia e Xerophthalmia. — Causas da frequência da tuberculose no Rio de Ja- neiro.— Do iodo na malaria.— Instituto Pasteur do Rio de Janeiro.— Aneurisma axilar curado por injecções hypodermicas de ergotina.— A extenuação por demasia de estudo.— Hospicio marítimo para crianças escrophu- losas 157 - 200 8a Sessão ordinaria Qual o melhor processo da extracção da cataracta.— O phenato de sodio na febre amarella.— Vaccinações prophylaticas da febre amarella.— O salycilato de sodio na febre amarella.— A curetagem nas moléstias do utero.— A hysterectomia vaginal no Brazil. — Sarcoma de cel- lulas redondas do antro de Hygmor.— Cirurgia abdo- minal no Recife.— O permanganato de potássio e o ve- neno ophidico.—Diabetes.—Encerramento do Congresso. 201 - 244 Memórias avulsas 245 - 3o2 Contribuição ao estudo da asepcia cirúrgica 249 - 251 Frequência dos cálculos no Brazil ; resultados operatorios 251 -255 Enucleação na panophthalmia 259 - 263 Cemiterio e cremação 267 - 281 Qual o melhor tratamento das bronchites agudas das crianças.. 285 - 3o2 ÍNDICE ALPHAEETICO DA IATERIA E DOS AUTORES A Pags. Acção therapeutica da lobelina 93-110 ALFREDO BASTOS —Tratamento da tuberculose pulmonar pelo sulphureto de carbono e pelas inhalações fluhydricas ... 27 ALFREDO PIRAGIBE — O iodo na malaria 169 - 179 ALFREDO BARCELLOS — O permanganato de potássio nas mordeduras das cobras 238 - 240 ALVARO ALBERTO —Tratamento da febre amarella 50 - 54 — — — Tratamento da tuberculose pulmonar pelo fluorureto de boro 147 - 152 — — — Tratamento da pustula maligna pela so- lução officinal do azotato acido de mer- cúrio 153 - 155 Aneurisma axilar tratado por injecções hypodermicas de ergotina. 182 - 184 da poplitéa ; seu tratamento 124 - 125 Aneurisma parcial do myocardio 114 ARAÚJO GÓES — Dermatose gallinacea transmissivel ao homem. 34 — — — Tratamento da tuberculose pulmonar pelo sul- fureto de carbono e pelas inhalações fluor- hydricas. ...,, 27 — — — Natureza e tratamento da febre amarella ; parecer do Dr. Sternberg sobre a vaccina Freire 5 6 — — —Natureza e tratamento da febre amarella; Sternberg e Domingos Freire 126 - 127 Asepcia cirúrgica 249 ~ 2Sl AUGUSTO BRANDÃO — Ovariotomia no Brazil 90- 91 — — — Prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recemnascidos no - 112 AZEVEDO SODRÉ — Acção physiologica da lobelina i3 - 20 — — — Tratamento da tuberculose pulmonar pelo sulfureto de carbono e acido fluorhy- drico : climatotherapia 28 B BRISSAY — A curetagem nas moléstias uterinas 215 - 222 Bronchite aguda das crianças (tratamento da ) 285 - 3o2 c Cálculos vesicaes no Brazil ( frequência e resultados operatorios dos ) 59 ~ CARLOS COSTA — Acção physiologica da lobelina..; 20 — — — Acção therapeutica da lobelina 115 — — — Hospitaes maritimos para crianças escrofu- losas e rachiticas 19° - 200 CARLOS GROSS — Tratamento da febre amarella CARLOS TEIXEIRA — Hysterectomia vaginal no Brazil 2 33 - 23$ — — — Sarcoma do antro de Hygmoí 235 - 237 CARVALHO BORGES— Conveniência do estudo da lepra 152 CASTELLO BRANCO — Xerophthalmia e xeranemia 159 — 160 CATTA PRETA — Frequência e resultados operatorios dos cálculos vesicaes no Brazil 73 - 76 Çemiterio e cremação 267 - 281 Chyluria e elephantiase, abcessos lyinphaticos, hydrocele e craw- craw no Brazil 141 - 146 Chyluria e elephantiase.. 157 CRISSIUMA — Frequência e resultados operatorios dos cálculos vesicaes 80 - 81 Curetagem ( A ) nas moléstias uterinarias 215 - 221 Dermatose gallinacea transmissivel á especie humana 28 - 34 Diabetes 240 - 243 Discurso inaugural 3 - 11 DOMINGOS FREIRE — Tratamento e prophylaxia da febre ama- rella 56 - 57, 152 - 153 e 214 - 215 DOMINGOS DE GÓES — Frequência e resultado operatorio dos cálculos vesicaes no Brazil 76 - 77 E EIRAS (Carlos) — Causas da pouca frequência da paralysia geral no Brazil 21 - 23 Eleição de Directoria 1 Encerramento do Congresso 244 Enucleação na panoplithalmia 259 - 263 Epidemia de dengue em Valença 115 - I24 Epithelioma tratado pelo chlorato de potássio 34 Extenuação por demasia de estudo 185 - 190 F FELICIO DOS SANTOS — Causas da pouca frequência da para- lysia geral no Brazil 23 — — Tratamento da tuberculose pulmonar pelo sulfureto de carbono • 26 — — — Influencia do impaludismo nas mu- lheres gravidas i3ç - 141 — — — Chyluria, hydrocele, elephantiase e abcessos lymphaticos.. 141 - 142, 158 - 159 FEIJÓ JÚNIOR — Ovariotomias no Brazil 84 - 87 FERREI RA DOS SANTOS — Tratamento preventivo da raiva no Instituto Pasteur do Rio de Janeiro 179 “ 182 Filarioses do Brazil 141 - 146 e 157 - 159 Gr GUEDES DE MELLO — Maturação artificial das cataractas 45 — — Prophylaxia da ophthalmia purulenta dos recem-nascidos 5o H HENRIQUE DE SÁ — Tratamento da febre amarella 54 - 56 HILÁRIO DE GOUVÊA — Maturação artificial das cataractas.. 35 - 45 — — — Prophylaxia da conjunctivite puru- lenta dos recem-nascidos 49 - 50 — — — Xerophthalmia 160 - 161 — — — O melhor processo para a extracção das cataractas 208 - 211 — — . — Encerramento do Congresso 244 Hemispasmo glosso-labial 114 - 115 Hospitaes marítimos para crianças escrophulosas e rachiticas 190 - 200 Hysterectomia vaginal no Brazil 221 - 227 I Influencia do paludismo nas mulheres gravidas 129 - 141 Inhalações de fluorureto de boro na tuberculose pulmonar 147 - 152 Inhalações fluorhydricas na tuberculose pulmonar 23 - 28 Injecções sulfo-carbonicas na tuberculose pulmonar 23 - 28. Iodo (O) na malaria 169 - 179 J JOVIANO JARDIM — Causas da disseminação da tuberculose.... 161 - 169 JULIO DE MOURA — Discurso inaugural 3- 11 L Laparotomia (A) no Recife 237 M MALAQUIAS GONÇALVES — Frequência e resultados opera- torios dos cálculos vesicaes na província de Pernambuco.... 70- 80 — — — Cirurgia abdominal no Recife.... 237 MARTINS COSTA — Nota sobre 0 valor therapeutica das injec- ções sulfo-carbonicas, e das inhalações do acido fluorhydrico no tratamento da tuberculose pulmonar 23 - 26 Maturação artificial das cataractas 35 - 45 Memórias avulsas 248 - 302 Mordeduras das cobras 238 - 240 MONAT —Contribuição ao estudo da asepcia cirúrgica 249 - 251 — — Frequência e resultados operatorios dos cálculos ve- sicaes, no Brazil 251 - 25Ç Motivo da demora na publicação dos trabalhos do i° Congresso... IV - V MOURA BRAZIL—Maturação artificial das cataractas 44 - 45 — — — Qual o melhor processo de extracção das ca- taractas 201 - 207, 212 N NEVES ARMOND —Extenuação intellectual da infancia, prophy- laxia da syphilis e obrigatoriedade das vaccinações e revac- cinações 244 NEVES DA ROCHA — Maturação artificial das cataractas 45 — — — Prophylaxia da ophthalmia purulenta dos recem-nascidos 50 NUNO DE ANDRADE — Aneurisma parcial da myocardio.... 114 — — —Hemispasmo glosso-labial 114 - 115 o Ophthalmia purulenta dos recemnacidos no Brazil e seu trata- mento prophylatico. 45 - 50 OSCAR BULHÕES —Frequência dos cálculos vesicaes no Brazil, resultados operatorios 59 — 72, 83 - 84 Ovariotomias no Brazil 84 - 91 p Paralysia geral no Brazil 20- 23 PEDRO PAULO — A hysterectomia vaginal no Brazil 221 - 233 — — — Ovariotomias no Brazil 91 310 PEDRO SEVERIANO—Chyluria, hydrocele, lymphocele e ele- phancia 145 - 146 — — — Tratamento da elephancia 146 PEREIRA DA COSTA — Tratamento dos aneurismas pelas injec- ções hypodermicas de ergotina.... 182 - 184 — — — Tratamento da febre amarella 210-215 PEREIRA DA CUNHA —Maturação artificial das cataractas... 45 — — — Prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recemnascidos 112 - n3 PEREIRA GUIMARÃES — Frequência e resultados operatorios dos cálculos vesicaes no Brazil.... 81 - 82 — — — Tratamento dos aneurismas da po- plitéa 124 - 125 PIMENTEL(A. M. DE A.) — Cemiterio e cremação 267 - 281 Preliminares Congresso Brazileiro de Medicina e Ci- rurgia, VII - X Prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recem-nascidos 45-50, 110 - 114 Prophylaxia da febre amarella 125 - 127, 152, 204 - 205 Pustula, furunculo e edema malignos ( tratamento da ) 151 - 152 Q Qual ò melhor processo do extracção das cataractas? 201 - 212 R Raiva (tratamento preventivo da) no Instituto Pasteur do Rio de Janeiro *79 - 2 RODRIGUES LIMA — Prophylaxia da conjunctivite purulenta dos recem-nascidos S° RIBEIRO DA LUZ — Epidemia do dengue em Valença 115 - 124 Chyluria e elephantiase 157 ~ 158 RODRIGUES DOS SANTOS — Influencia do impaludismo nas mulheres gravidas i3o - i3ç ROZENDO MONIZ — A extenuação por demasia do estudo 185 - 190 S SANT’ANNA — Ophthalmia dos recem-nascidos no Brazil e seu tratamento prophylatico 45 - 49> IJ3 - 14 Sarcomas de cellulas redondas do antro d’Hygmor 235 - 237 Sessão preparatória 1 SILVA ARAÚJO — Dermatose do couro cabelludo, transmittida por uma gallinha 28 - 34 — — —Epithelioma tratado pelo chlorato de potássio. 34 — — —Tratamento da lepra I52 — — —Chyluria, hydrocele e outras filarioses 154 SILVA NUNES — Acção therapeutica da lobelina 93 - I06 SILVERIO FONTES — Tratamento da tuberculose pulmonar pelas injecções sulfo-carbonicas, pelo sulfureto de car- bono e pelas injecções hypodermicas de eucalyptus 27 - 2^ Sulfureto (O) de carbono no tratamento da tuberculose pulmonar. 26 - 27 Socios fundadores do Congresso Brazileiro de Medicina e Cirurgia. • XI - XIV T TEIXEIRA BRANDÃO — Causas que concorrem para a pouca fre- quência da paralysia geral no Brazil 20 - 21 TEIXEIRA DE SOUZA — Causas da pouca frequência da para- lysia geral no Brazil 23 TIBERIO D’ALMEIDA — Qual 0 melhor tratamento das bron- chites agudas das crianças ? 285 - 3o2 Tratamento dos aneurismas pelas injecções hypodermicas de ergc- tina 182 - 184 Tratamento dos aneurismas pela electricidade 184 » » » )> ligadura 232 » das bronchites agudas das crianças 285 - 3o2 Tratamento da elephancia pela compressão 141 - 145 » . » » » electricidade 158 » » febre amarella 5o ~ 57> 212 ~ 2I5 » das mordeduras das cobras 233 - 235 » da lepra . 238 - 240 » » pustula maligna.... * 153 - *55 » » tuberculose pulmonar 23 - 28, 147 - 152 » preventivo da raiva no Instituto Pasteur do Rio de Janein 179 - 218 312 V VALLADARES — Tratamento dos aneurismas pela electricidade. 158 VICTOR DE BRITO — Contribuição ao estudo da enucleação na panophthalmia 259 - 203 VICTORINO BAPTISTA — Acção therapeutica da lobelina 109 - 110 — — — Estudo clinico do diabetes 40-43 w WERNECK ( Furquim ) — Ovariotomias no Brazil 57 - 9* X Xerophthalmia 159 ” J6i PRIMEIRO COERESSO BRAZILEIRO DE MEDICINA E CIRURGIA * DO RIO DE JANEIRO RIO DE JANEIRO IMPRENSA. NACIONAL 1889