^ A W*f} /i INDAGAÇÕES PHYSIOLOGICAS. 4- «^ ~t* <:\ INDAGAÇÕES PHYSIOLOGICAS SOBRE ÁVIDA, E A MOETE,t POR XAVIER BI CHAT, Medico do Hospital geral de Paris , Professor de t Anatomia s de Physiologia , e de Medicina , Mem- bro de muitas Sociedades sabias* PRIMEIRA PARTE. TRADUZIDAS POR JOAQUIM DA ROCHA MAZAREM. Cavalleiro da Ordem de Christo , Lente de Medicina Opcratoria , Primeiro Cirurgião do Numero da Armada Real , e Cirurgião em Chefe do Hospital Real do Exercito ' e Armada. ^_>£ RIO DE JANEIRO. NA IMPRESSÃO REGIA. 18 12. Cem Licença de S. A* R. í A O ILLUSTRISSIMO SENHOR JOSÉ' CORRÊA PICANÇO, • Do Conselhe do PRÍNCIPE REGENTE NOSSO SENHOR , Fidalgo da Sua Real Casa , Commendador da Ordem de Christo , Cavalleiro da da Torre e Espa- da , Medico da Sua Real Câmara , e Primeiro Cirur- gião delia , Cirurgião Mor do Reino * Estados , e Do- mínios Ultra-marinos , Lente Jubilado pela Univer- sidade de Coimbra , e Sócio da Academia das Sci- ências de Lisboa * OFFERECE ESTA TRADUCÇXO Como devida homenagem á Sabedoria, Joaquim da -Rocha Matarem. .1.1 ■ *". V' PREFACIO DO AUTOR, f\ Vida, e a morte , consideradas de hum- modo geral-, me parecerão hum assmnpto susceptível de suggerir algumas vistas, e muitas experiências úteis. He o que me de- terminou a emprehender a obra , qne hoje publico. Nella se encontrarão , penso , consi- derações , e factos pouco conhecidos. Toda* via os que tem lido Aristóteles, BurTon, Morgagni, Haller , Bordeu , e todos os me-. dicos, cujos escritos se conformao com es- te ultimo, verão que estes autores me"tem fornecido alguns dados; porém saberão ao mesmo tempo distinguir os que me perten- cem ; e ouso esperar qne aqui acharão bas- tantes cousas por onde vejão que tudo, o ( qne me não he próprio, só se encontra ac- cessoriamente posto nestas indagações: ex- ceptuo com tudo. a divisão da vida. Os livros se assemelhão, ou pelos fa- ctos que contém, ou pelo espirito com que. estão escritos. A comparação dos factos. he fácil; provará talvez que muitos , dos, que Vi que exponho, faltavão á siencia. Em quan- to ao espirito que reina nesta obra, igual- mente tenho evitado de me pôr, entre os que accumulão as experiências sem as coor- denar pelo raciocínio, e entre os que en- volvem os raciocinios sem os fundar sobre as ' experiências. No estado actual da physiologia, a ar- te de ligar o methodo experimental de Hal- ler , e de Spallanzani com as vistas grandes, e filosóficas de Bordeu, me parece dever ser o de todo o espirito judicioso; se não tem sido o meu , he que para alcançar o fim, n3o basta entreve-lo. Tenho reproduzido com muita exten- são , algumas divisões já annunciadas no meu Tratado das membranas, e as tenho repro- duzido como minhas, posto que. tenhão si- do attribuidas á Bufíon, á Bordeu, e á Gri- maud. Estes autores são tão conhecidos, que tenho julgado inútil mostrar a inexacti- d<ío das críticas citações. He por isto que não tenho tentado o dissipar algumas dúvi- das , que se me pôzerão depois sobre al- guns /actos anatômicos, que eu publiquei. Envio á inspecção cadaverica aquelles , a quem se fez conceber estas dúvidas. Em quan- VTf quanto aos que as tem feito nascer , esta ins- pecção lhehe inútil; não podem estar esque- cidos que tenho dísseccado' com elles, e que lhes tenho mostrado o que me reprehendem de cuidar haver achado, e de o não esta- belecer senão sobre conjecturas. Ultimamente , eu tenho tido cuidado, tanto nesta obra como na precedente, de não me referir a mim só , persuadido que mil cousas podem escapar á hum , e apre- sentar-se á outro. Minhas experiências tem sido feitas muitas vezes em companhia de muitos sujeitos , e sempre com hum grande número de estudantes, que seguem meus cur- sos. O cid. Hallé tem querido sacrificar algu- mas horas á verificar as principaes; o cid. Duméril tem tido a mesma complacência. Se podessem excitar o interesse de alguns outros sábios, farigar-me-hia de as repetir com elles. V VIII I AVISO DO EDITOR. V_^ Autor devia fazer á primeira parte desta nova edição alguns augmentos importan- tes. Alguns artigos apresentados com modifica- ções , terião apparecido mais completos, e en- riquecido^ de muitas vistas novas, e entre ou- tras hum Tratado sobre a formosura, conside- rada debaixo £las relações physiologic.s. Era üum,segundo volume os princípios physiologi- cos terião sido applicados á ir.edicina ; e a mes- ma ordem, que se tinha seguido , considerando as funções no estado são , teria servido á con- siderar estas mesmas funções no estado de en- fermidade. A morte do autor privou o publi- co destas Vantagens ', e nos obriga a fazer ap- parecer de novo a obra tal , qual tinha appare- cido na sua origem. Julgamos com tudo dever â memória do Cid. Bihcat o fazer conhecer £&,intenções, que tinha tido , e que tinha co- meçado á executar. PRI- fx IN DICE Do que se contém no Primeiro Tomo. PARTE PRIMEIRA. A.RTlGO PRIMEIRO Divisão geral da vida, \*' §. /. Divisão da Vida em animal e orgânica. 2 §. //. Subdivisão de cada huma das vidas animal, e orgânica em duas ordens de funções* 5 ARTIGO SEGUNDO. Diferenças geraes das- duas vidas pelo que res- peita ás fôrmas exteriores de seus órgãos respectivos. §. 1. Symmetria das fôrmas exteriores da vida animal. 10 5» //. Irregularidade das firmas exteriores na vida orgânica* ia §. ///. Conseqüências^, que resultâo da dijfte- *- rença das fôrmas exteriores nos órgãos das duas vidas, 13 AR- X índice ARTIGO TERCEIRO. Diferença geral das duas vidas pelo que res- peita ao modo de acção de seus ór- gãos respectivos* §. /. De harmonia de acção na vida ani- mal. 19 J. //. Discordância da acção na vida orga- nida. 33 - '"^ ARTIGO QUARTO- Diferenças geraes das duas vidas pelo que res- peita á duração de sua acção* §. /. Contiriuidadde daacçào na.vida orgâ- nica ibid. §f. //. Intermittencia da acção na vida ani- mal. ^» 37 §. ///. Applicação da lei da intermittencia da acção â theoria do somno. 39 aritgo quinto. Diferenças geraes das duas vidas pelo que res- peita ao habito* # ' §. /. Do habito na vida animal- ibid* §. II. O habito embota o sentimento. 44 §. ///. O habito aperfeiçoa ojuiço. 149 §. IV. Do habito na vida orgânica* 15a AR- ÍNDICE XI ARTIGO sexto.' Difetenças geraes das duas vidas pelo que res- peita ao moral* §» /. Tudo o que he relativo ao entendimen- to pertence á vida animal. 54 §, //. Tudo o que he relativo ás paixões pertence a vida orgânica. 57 §. ///. Co/720 as paixões modifição os actos da vida animal, posto que tenhão seu as- sento nd vida orgânica. 67 J. IV* Do centro epigastrico ; não existe no sentido que os authores o tem enten- dido. 74 Ar't ig o'sétimo. Diferenças geraes das duas vidas peto que res- peita ás forças vitaes* §. /. Diferença entre as forças vitaes* e as leis physicas. 86" §. //. Diferenças entre as propriedades vi- taes , e as de tecido. 90 $. 111. Das duas espécies de sensibilidade animal, e orgânica. 91 §. IV. Da relação , qne existe entre a sen- sibilidade dè cada órgão, e os corpos, que lhe são estranhos. 97 Das XII índice §. V. Das duas espécies de contractilidade, animal, e orgânica. 103 §. VI. Subdivisão da contractilidade orgâni- ca em duas variedades. 106 §. Vil. Extensibilidade , e contractilidade do tecido. 112* J. VIII* Resumo das propriedades dos cor- pos vivos. 120 ARTIGO OITAVO. Da origem , e do desenvolvimento da 'vida ani- mal» §. /. A primeira ordem de funções da vida animal he nulla no feto. 124 §. //. A locomoção existe no feto , porém pertence nelle á vida orgânica. 131 , §. ///. Desenvolvimento da vida animal; educação de seus órgãos. ■ * . 136 Ç. IV. Influxo da sociedade na educação dos órgãos da vida animal. 140 J. V- Leis da educação dos órgãos da vida animal. ;x 143 §. VI. Duração da educação dos órgãos da vida animal. 151 AR' ÍNDICE XIII ARTIGO NONO. Da origem , e do desenvolvimento da vida or- gânica. §. /. Do modo da vida orgânica no feto. 155 $.-//. Desenvolvimento da vida orgânica de- pois do nascimento. 159 artiGo décimo. Do fim natural das duas vidas. 5« /. A vida animal he a primeira, que cessa na morte natural. 164 $• II* A vida orgânica não termina na mor- te natural, como na accidental. 171 ERRATAS. L'mh. Erros. 1 Emendas» 25 interno interior li estalelecer estabelecer 15" classe classes 26 mediastimo mediastino 16 precissóes precisões 16 encadai soladamente encadêa isoladamente 1 a cessa e cessa 2 athomosfer- athomosfera 26 estas estes 2J dirija dirijamos 21 intermediária intermedia 24 exeretorio exeretorio 24 phycas physicas 29 Varthon Warthon 19 para empregar empregando 29 extenso extensão I de unimento inserimento 50 órgãos nos órgãos 22 curculação circulação 18 sensibilidade densidade 9 á rectifica-las e á rectifica-las Ji diato disto 10 dos a de 16 nos nossos usos nos usos 20 cousa causa 26 que inda ainda que — como do que 5 os fuccos dos fuccos 9 unido unida 16 no escapará nos escapará ult. da perda depois da perda PRIMEIRA PARTE A R.T I G O P RIMEIR O. Divisão geral da Vida. 7' JL ROCURE-SE nas considerações abstractas a definição da viâa ; achar-se-na, segundo eu penso, neste dado geral: a vida he a união das funções , que resistem á morte. "•"' Tal he com effeito o modo da existência dos corpos vivos, que tudo, o que os cerca tende a destrui-los. O* corpos inorgânicos óbrão continuamente sobre elles, e elles mes- mos exercem huns sobre os outros numa ac-^ ção continuada;' de sorte qne bem depressa sue-1 cumbirião , se não tivessem' Gm si mesmos hum principio permanente de reacção, Este princi* pio he o da vida í desconhecido na sua natu- reza , não pôde ser apreciado , senão por seus phenomenos: ora o mais geral destes pheno* menos he esta alternativa habitual da acção da parte dos corpos exteriores, e da reacção da parte do corpo vivo, alrernativa , cujas pro- porções varião segundo a idade. A Ha 1 Ha superabundancia de vida nx> infante , porque a reaceão excede á acção- No adulto se equilibrão entre si, e por isso mesmo es- ta turgencia vital desapparece. A reaccâ© do •principio interno diminue no velho, e ficando a acção dos corpos exteriores a mesma, então ávida enfraquece , e se avança insen$ivelmente . para "seu termo natural , que se verifica , quando toda a proporção cessa. A medida da vicia lie pois emgeraí a dif- ferença, que existe entre o esforço dos po- deres exteriores, e o da resistência interior. Q excesso de J(iuus anniinciaj, sua fraqueza, a predominância ,4p outro hero indicio ae.sua força. av §^ I. Divisão da Vida em. animal, e orgâ- nica. . Tal he a vida considerada na sua totali- dade ; examinada mais mhidamente r n0s oífe-, rece duas modificações noíaveis. Hiima he cpmmum ao vegetai, e ao animal, a outra: he à herança especial deste ultimo. Lancemos com eJeito a vista sobre luim indivíduo de *ad$, hum destes reinos viventes; e" veremos hum não existir senão no interno de si mesmo, sp ter com o que o cerca relaçães de nutri- ção , nascer, crescer , e acabar fixado à terra, que lhe recebeo o germe: o outro ligar á es- ta vida interior, deque goza no mais alto 3 gráó, outra Vida exterior, ò;tie estabelece rela- ções numerosas entre elle, e os Objectos Vizi- nhos , une sua existência â de todos os ou- tros seres; afasta-se, ou se app-foximd deíJeè1 segundo seus temores, ou suai pretisões, è parece deste modo, apropriando1 á si tudo riá natureza, trazer tudo á sua existência iso- lada. Dir-se-hia que o vegetai he o bosÉruejó' do animal, e que , para formar este ultimo, não faltou, senão revestir-se este esboço de? hum apparelho de orgaõs exteriores, pfoprid á estalelecer relações. . Resulta disto que as funcçoes do artilhai formão duas classe bem distinctas. Humás- sé compõe de liuma successâo continuada d'è as- similhação , e de excreção ; por ellas transfor- ma sem cessar em sua própria sufcstanciá atf moléculas dos corpos visinliçs , e as expelle de- pois logo que se lhe tornão heterogenias. Não vive, se não em si mesmo , por esta claàse de* funções; em quanto á outra existe fora de si: he o habitante do mundo, e não, como ó ve- getal , do lugar, que o viò nascer. Sente, é percebe o que o cerca , reflecte suas sensaçáés, move-se voluntariamente -depois de seu influ- xo , e as mais das vezes pôde comunicar pela voz seus desejos eseus temores, seus prazeres^ ou suas penas. Chamo vida orgânica a união das func- çoes da primeira classe, porque todos os seres A ü QT> 4 organizados, vegetaes, ou animaes gozão del- ia em hum gráo mais, ou menos sensivel, e que a textura orgânica he a única- condição necessária á seu exercido. As funcções, reuni- das da segunda classe formão a vida animal, assim chamada, por ser o attributo exclusivo do reino animal. Â geração não entra na serie dos pheno- menos destas duas vidas , que tem relação com o indivíduo, por pertencer somente á espécie: também não se liga senão por laços indirectos á maior parte das outras funcções. Só começa á exercer-se, quando as outras es- tão desde muito tempo em exercício ; extin- gue-se muito antes que ellas acabem, Na maior parte dos animais, seus períodos de actividade .são separados por longos intervallos de nulli- dade; no homem, em que suas remittencias são menos duráveis, não tem relações mais numerosas com as funcções. A privação dos órgãos, que são os seus agentes, he mostrada quasi sempre por hum augmento gerai de nu- trição. O eunuco goza de menos energia vital; porém os phenomenos da vida se lhe desenvol- vem com mais plenitude. Façamos pois aqui abstração das leis, que nos dão a existência, para não considerar senão as que a encretem: nós tornaremos ás primeiras. §. II. 5 §. II. Subdivisão década huma das vidas* ani- mal , e orgânica em duas ordens de funcções* Cada huma das duas vidas , animal, e or- gânica , se compõe de duas ordens de func- ções , que se succedem , e encadeão em hum sentido inverso. Na vida animal , a primeira ordem se es- tabelece do exterior do corpo para o cérebro, e a segunda, deste órgão para os da locomo- ção , e da voz. A impressão dos objectos affec- ta successivaniente os sentidos, os nervos, e o cérebro. Os primeiros recebem, os segundos transmittem, o ultimo percebe esta impressão , que , sendo assim recebida, transmittida, e percebida , .comtkue nossas .sensações. O animal he quasi passivo nesta primei- ra ordem de funcções; torna-se activo na se- gunda, que resulta das acções successivas do cérebro, onde nasce a volição em conseqüên- cia das sensações, dos nervos, que transmit- tem esta volição, dos órgãos locomotores, e vocaes, agentes da sua execução. Os corpos exteriores obrão sobre o animai pela primeira ordem de funcções; o animal reobra sobre 'el- les pela segunda. . Huma proporção rigorosa existe em geral entre estas duas ordens: onde huma he mui* to manifesta, a outra se desenvolve com ener- gia. 6 gia. Na serie dos animaes, o que mais sente, também se move mais. A idade das vivas sen- sações he a da vi.vacidade dos movimentos; no somno ,\em que a primeira ordem he suspen- dida , a segunda cessa , ou não se exerce , se- não por agitações irregulares. O cego, que só vive ametade para aquillo, que o cerca, en- cadêa seus n.ovimentos com hu vagar, que bem depressa perderia , se suas communicações exteriors se engrandecessem. Kum dobrado movimento se exerce tam- hem na vida orgânica ; hum compõe o ani- mal o outro o decompõe sem interrupção. Tal he com effeito , como o observarão os anti- gos , e depois delles muitos modernos , seu modo de existir, que o que era em huma épo- ca , cessa de o ser em outra ; sua orga- nização fica sempre a mesma , porém seus ele- mentos varião a cada instante. As moléculas nutritivas, successivamente absorvidas, e ex- pellidas , passão do animal á planta, desta ao corpo bruto, retorna ao animal, e torna a sahir delle ao depois. A vida orgânica está accommodada á esta circulação continua da matéria. Huma ordem àe funcções assirnilha ao animal as substancias, que o devem nutrir ; autra lhe subtrahe estas substancias tornadas heterogenias à sua orga- nização , depois de haver feito algum tempo parte delia. A primeira, que he a- ordem da assimi- Jln* 7 lhação, resulta da digestlo, da circulação , da respiração, e da nutrição. Toda a molécu- la extranha ao corpo recebe, antes de vir a ser o seu elemento, 0 influxo destas quatro funcçõeí. Quando tem depois concorrido algum tempo á formar riossos órgãos, a absorvencia lha-stibtrahe, e a transmitte á torrente circu- latória , aonde he levada de novo , e donde saíie pela exhaiàção pulmonar, ou cutânea, e pelas diversas secreções; cujos fluidos são to- dos expellidòs para o exterior. A absorvencia , a circulação , a e*hãla- ção , a sécreção formão pois a segunda ordem das funcções da vida orgânica, ou a ordem da desassimilllaÇão: segue-se disto que o sys- Cema sangüíneo he hum systema médio, cen- tro da vida orgânica, como o cérebro he o da vida animal, onde circulão confundidas as moléculas, que devem ser assimtlhadas, e as que, tendo já servido á a$simiihaç:lo, estão flfesÉirtádas á ser éxpfellidas ; de sorte que 0 sangue he composto de duas partes , íiuma recrémenticía , c/tte provém sobre tudo dos alimentos, e dWfldé a nutrição toma setis ma- tèriaes; ontfã exerèmenticiá, qué he como os restos; e o resíduo de todos os órgãos, è ^ue fornece as secreções, e as exhafaçõés ex- teriores. Com tudo estas Ultimas-funcções ser- vem também algumas vezes dè transmittir pa- t& O exterior os productos digestivos , sem 8 que estes tenhão concorrido á nutrir as partes. He o que se vê na ourina, e suor, em conse- qüência de copiosas bebidas, A pelle , e os rins são então órgãos excretorios, não da nu- trição , porém sim da digestão. He ainda o que se observa na producção do leite , fluido , que provém manifestamente da porção do sangue , que não tem ainda sido assimilhada pelo tra- balho nutritivo. Não ha entre as duas ordens de funcções da vida orgânica a mesma relação , que entre as da vida animal; o enfraquecimento da pri- meira não conduz a diminuição da segunda: disto provém a magreza , o marasmo, estados; nos quaes a assimilhaçâo cessa em parte, exer- cendo-se a desassimilhação no mesmo gráo. Estas grandes differenças postas entre as duas vidas do animal, estes limites não me- nos mostrados , que separão as duas ordens de phenomenos, donde cada hum he a união , me parecem offerecer ao phisiologista a uniça divisão real, que possa estabelecer entre as funcções. Abandonemos ás outras sciencias os me. ^hodos artificiaes; sigamos o encadeamento dos !>henomenos , para encadear asidéas, que for- mamos delia , e então veremos que a maior parte das divisões phisiologicas só offerecem bases incertas áquelle, que quizesse ahi ele- var o edifício da sciencia. Não repetirei aqui estas, divisões; o me- lhor 9 lhor modo de lhe demonstrar a nullidade he, creio eu, o provar a-solidez da que adopto. ? Sigamos pois pelo miúdo as grandes differen- ças, que isolão o animal vivo no exterior, do animal existindo no interior, e que se vai con- sumindo em humá-alternativa de assimilhação, e de excreção. .;:.:.•- ;• .. -.n-r. •••■ ARTIGO SEGUNDO. Diferenças geraes das duas vidas pelo que res- peita ás formas exteriores de seus órgãos* respectivos. A Mais essencial das differenças, que des- tingue os órgãos da vida animal dos da vida orgânica he a symmetría de huns, e a irregu- laridade dos outros. Alguns animaes offerecem excepções á este caracter ? sobre tudo pelo que respeita á vida animal: taes são, entre os peixes, os linguados, os rodovalhos, &c. e diversas espécies, entre os animaes não ver- tebrados:, &c. ,&c. porém está exactamente traçada no homem , assim como nos getieros visinhos delle pela perfeição. He nelles que * vou examina-lo; para :o demonstrar só basta a inspecçãa., & n '■■.■■ •)-. ,y ■ ■ 5- *• Id §, L Symmetria das firmas exteriores na vida animal. Dou» globos perfeitamente similhantes re- cefiem a impressão da luz. O som , e os chei- ros tem cada hum também seu dobrado órgão análogo. Huma única membrana he affeciacla . pelos sabotes, porém a'linha mediana ahi he manifesta; cada segmento indicado por ella íie similhànte ao do lado opposto. A peite não nos apresenta sempre visíveis signaes des- ta linha , porém por toda a parte lhe he sup- posta. A natureza , esquecendo-se , par assim teer, de a traçar, pòz de eâpaço em espaço pontos sobresahintes , que -indução «eu ca mi- ,, rtho. Os regos da ponta do nariz , da barba , ',\ do meio dos lábios, o embigô, d rafe do pe-^ .«! ríneo , aprominencia dasapoptvysis espinhosas,, a depressão media da parte posteriot do* pes- coço , formão priricipalmenite estes pontos de indicação. . ■ '■> Os nervos, que transntittem a impressão tecebida pelo» sentidos, taes" COfflb^© óptico i 6 acústico, olingual, o olfatoríó , estSd evi* dente mente unidos por pares s^míneTricOs. O cérebro ,'órgão , onde a irflprôssfco he recebida, he notável por sua fôrma regular ; suas partes pares se assimiihão de cada lado , taes como.a cama dos nervos ópticos, os cor- pos canneladòs , os hipocampos , os corpos ' ■$ ^ fraa- II franjados, &c. As partes impares estão todas syinmetricamente divididas pela linha- mefhV na , donde muitas offerecem signaes visíveis, como o corpo caloso, a abobèda de três pila- res , a protuberancia annular , &c. &c. Os nervos, que transmirtem aos agentes da locomoção , e da voz as voliçõe* ào cere- p bro , os órgãos loco motores formados de huma grande parte do sy.stemafoiuscular, -do 9ystema ósseo , e de suas dependências, a laringe, e seus accessorios , dobrados agentes da"execu- ção destas vohções , tem huma regularidade, huma symmetria , que jamais falta. Tal he a verdade do caracter , que indi- co , que os músculos e os nervos cessão de ser regula res-, quando deixão de pertencer á vida animal. O coração , as fibras musculares do* intestinos, &c. são huma prova para os mús- culos ; para os nervos, o grande sympathico, por toda a parte destinado á vida interna , apresenta na maior parte de seus ramos hu- ma distribuição irregular. Os plexos-, solar rne- senterico, hypogastrico , spleníco, estomati- co, &c. são o seu exemplo. Podemos, julgo eu , concluir depois da mais evidente inspecção , xfue a symmetria he o caracter essencial dos órgãos da vida ani- mal do homem. $.11. 12 §. II. Irregularidade das fôrmas exteriores na vida orgânica*. Se passamos agora ás vísceras da vida or- gânica , veremos que.hum caracter exactamente opposto lhe he appiicaveh No systema diges- tivo, o estômago , os intestinos, o baço, o ligado &c. estão todos irregularmente dispostos. No systema circulatório, o coração, os grossos vasos, taes como a crossa da aorta , as vêas cavas, a/azigos, a vêa porta, a artéria inominada , nenhuns offerecem signaes de symmetria. Nos vasos dos membros ,-continua- das variedades se observão , e o que ha de no- tável, he que nestas variedades a disposição de hum lado não obriga a do lado opposto. O apparelho respiratório; parece ao pri- meiro, golpe de vista exactamente regular; com tudo se se adverte que o bronquio direi- to he: diferente do esquerdo pelo. seu compri- mento ;* seu diâmetro , e sua direcçao; que três lobos compõe hum dos pulmões, que dous somente form^o o outro; que ha entre estes órgãos, huma desigualdade manifesta de volu- me ; que as duas divisões da artéria pulmonar não se assimilhão , nem por sua direcçao, nem por seu diâmetro; que o mediastimo so- bre quem cahe a linha mediana se desvia del- ia sensivelmente á esquerda, veremos que a sym- 1$ symmetria não he* 'aqui' senão appareiite, e que a lei coinmum não soffre excepção. Os órgãos da exhalação , da absorvencia, as membranas serosas, "o canal thoracico, 0 grande vaso lymphatico direito , os absorven- tes secundários de todas as partes tem huma distribuição sempre desigual, e irregular. No systema glanduloso vemos as criptas, ou foiicülos mucosos por toda a parte disse- minados sem ordem debaixo de suas membra- nas respectivas. .O pancreas , d fígado:', as mes- mas glândulas salivares, posto que.ao:primeiro golpe de vista pareção mais symmetricas / não se achão exactamente submectidas á linha jnedia- na. Os rins differem hum do outro por sua po- sição, pelo' numero dos seus lobos , e no in- fante pela extenção , e grossura de suas arté- rias, e de suas vêas, e sobre tudo por suas freqüentes variedades. • ^ Estas numerosas considerações: noacon- duzem evidentemente á hum resultado inyer* so do precedente; a saber, que o attriburo especial dos órgãos da vida interior, he a ir- regularidade de suas fôrmas exteriores.; §. III. Conseqüências , que resultão da diferen- ça das fôrmas exteriores nos órgãos ' das duas vidas. Resulta cio que acaba de ser appresentado, que a vida animal he, por assina dizer, dobra- da , M da, que seus phenomenos , executados ao mesmo tempo dosdous latkxs, formão em cada hum hum systema independente do systema oppos- to; que ha, se me posso exprimir assim , hu- ma vida dáceíta , e aura a vida esquerda ; que h*ma pôde existir, cessando a outra sua ac- ção ; e que sem alguma duvida são destinadas á supprir-se reciprocamente. He o que acontece nestas affecções íiior- hosas tão communs, em que a sensibilidade , e a mobilidade animai, enfraquecidas, ou mes- mointeiramente anniquiiadas em huma das ametades syraroeirieas cio corpoynão se pres- tão. á -alguma relação com o que nos-eerca ; e em que o homem oaes. Como o habito de obrar aperfeiçoa a ac- ção , concebe-se a causa do excesso da agilida* de , que tem o membro direito sobre o esquer* do. Este excesso não he primitivo; o uso o conduz de hum modo insensível. Esta notável differença nas duas metades symmetricas do corpo não he pois na nature- za huma excepção da lei geral da harmonia da acção das funcções externas. Isto he tão verdade que a união dos movimentos execu- tados com todos os nossos membros he tante mais exacta, quanto menos differença ha em agi- 31 agilidade entre os músculos do lado esquerdo, e .direito. ^ Porque certos animaes saltão com tanta agilidade rochas, onde o menor desvio os precipitaria no abismo, e correm com hu- ma admirável exactidão por planos apenas iguaes em largura á extremidade de seus mcm- hros?j Porq - mem? He que nelles a differença sendo quasi nulla entre os órgãos locomutores de hum , e outro lados, estes órgãos estão em harmonia constante de acção O homem o mais ágil em seus movimen- tos de totalidade, he o qiie o he menos nos movimentos isolados do membro direito: por- que , como o provarei em outro lugar, a per- feição de huma parte só se adquire a,custa da de todas as outras. A criança que se educasse fazendo huma aplicação igual de seus quatro membros, teiia em seus movimentos geraes huma exactidão, que adquiriria dificilmente para os movimentos particulares da mão direi- ta , como para os que exigem a escripturação, a esgrima &c. Creio que algumas circunstancias naturaes tem influido sobre a escolha da direcçao dos movimentos geraes, que exigem os hábitos sociaes; taes são o ligeiro excesso de diâmetro da subclavia direita, o sentimento de laxidão , que acompanha a digestão , e que mais sensí- vel á esquerda por causa do estômago, nos d» ter- 3* termina a obrar durante este tempo do ladõ opposto; tal he-o instincto natural, que, nas vivas affecções, nos faz pôr a mão sobre o co- ração , para onde a direita se dirige mais facil- mente, do que a esquerda. Porém estas causas são quasi nullas, comparadas com a dispropor- çSo dos movimentos das duas metades symme- tricas- do corpo, e de baixo desta relação se pôde dizer sempre com verdade , que a sua discordância he hum effeito social, e que a na- tureza as tecn primitivamente destinado á har- monia da acção. A voz he, como a locomução, o ultimo aCto da vida animal no encadeamento natuarl de suas funções. Ora a maior parte dos phi- siologistas, e particularmente Haller , tem indi- cado como causa de seu defeito de harmonia» das duas metades symmetricas da laringe, a desigualdade da força nos músculos que mo- vem as arytenoides, da acção nos nervos, que vão de cada lado á este órgão, da reflexão dos sons em hum , e outro nariz , nos seios direitos, e esquerdos. Sem duvida a falsa voz depende muitas ve?es do ouvido: quando ou- vimos falso, cantamos do mesmo modo; porém quando a igualdade do ouvir coincide com a falta de exactidão dos sons, sua causa existe , certamente na laringe. A voz a mais harmoniosa he pois a que as duas partes da laringe produz com hum igual gráo, em que as vibrações de hum lado, exa- 3-3 exactamente sirnilhantes por, seu numero ,&ua força, sua duração ás do lado opposto, se confundem com ellas para .produzir 6 mesmo. som ; da mesma maneira que o canto, o mais perfeito-seria o que produzisse duas vozes exac* tamen-je idênticas por.sua extenção , seu tom , e suas inflexões. «.. Das numerosas considerações , que venho de apresentar, emana, creio eu, este resultar do geral, a saber, que hum dos princípios es- senciaes da vida animal, he a harmonia: da ac? ção das duas partes análogas, ou dos. dous, la- dos da parte simples, que concorrem ao mes- mo fim. Ve se facilmente , sem que eu o in- dique , a relação, que existe entre...esta har- monia de acção, caracter das funções, e a ' symmetria da fôrma, attributo dos órgãos da vida animal. # Advirto ultimamente , acabando este pa» ragrafo, que tendo indicado-os desarranjamen- tos diversos, que resultão na vida animal da falta de harmouia dos órgãos, não tenho per- rendido assignalar senão huma causa isolada destes desarranjamentos; sei por exemplo , que mil circunstancias , além da discordância dos dous hemisférios do cérebro , podem alterar o juízo, a memória, &c &c. $. II. Discordância da acção na vida orgânica. Ao lado dos phenomenos da vida externa, C col- 34 colloquemos agora os da vida orgânica, e vere- mos que a harmonia não tem sobre elles in- fluxo algum. Que hum rim maior que o outro iepare mais ourina; que hum pulmão melhor desenvolvido admitta, em hum determinado tempo, mais sangue venoso, e envie mais san- gue arterial, que menor força orgânica ais* tinea as glândulas salivares esquerdas das direi- tas ;. j que importa! a fnncsão única á que concorre cada par de órgãos, não he menos regularmente exercida. Ainda que hum.engor- gitamento ligeiro occupe hum dos lados do li- gado ,-do haço , do pancreas; a porção .sã _si:p- pre , e a funcção não he perturbada. A circu- lação permanece a mesma no meio das freqüen- tes variedades do systema vascular dos dous lados do corpo, seja que estas variedades exis- tão naturalmente, seja que dependão de algu- mas obliterações artificiaes de grossos vaso* ♦ como nas aneurismas. Daqui procedem estas numerosas irregula- ridades de estructura , estes vicios de confor- mação , que, como o tenho dito, se observao na vida orgânica, sem que por isso a conte- ção discordancias nas funções. Daqui procede tam- bém esta successão quasi continuada de modifica- ções , que , engrandecendo , e restringindo sue- cessivamente o circulo destas funções, não as deixa quasi jamais em hum estado fixo. As forças vitaes, eos excitantes, que as põem em movinieato sara cessar, variáveis no estômago, nos' 55 rios rins, no fígado, nos pulmões, no .coração, &c. lhe deterrninãa huma instabilidade cons* tante nos phenomenos. "Mil causas podem a cada instante duplicar, e triplicar a actividade da circulação , e da respiração , augmentar, ou diminuir a quantidade de secreção da hilis, da ourina, eda saliva; suspender, ou accelerar a nutrição de huma parte ; a fome , os aumen- tos, o somno , o movimento, o repouso, as paixões, &c. imprimem á estas funcções huiria mobilidade tal, que ellas passão cada dia por cem gráos diversos de força, ou de fraqueza. Pelo contrario, tudo lie constante, uni- forme , e regular na vida animal. As forças vitaes dos sentidos não podem sorTrer esta» al- ternativas de modificações , do mesmo modo que as forças internas, ou pelo menos em hum gráo tão sensivel. Com effeito , huma relação habitual as une ás forças physicas-, que regem o« corpos exteriores : ora , estas ficando as mesmas nas suas variações, cada huma destas anniquilaria a relação, e então as funções cessarião. Além disto, se, esta mobilidade , qtje ca- racterisa a vida orgânica , fosse também o at- tributo das sensações, o seria, pelo me phenomejaos orgânicos , não as tem assás distinguifiç), das sensações. Estas são quem as produzam.» porém differem-lhe essencial-? mente. n* A cólera, a tristeza, a alegria não agita-? ríão , he. verdade , a nossa alma , senão en- contrássemos nas nossas relações cojn os obje- ctos exteriores, as causas, que as fazem nas- cer. He verdade também que .os sentidos são os agentes destas relações, e que elles com- municão a causa das paixões, pqrém não par- ticipão de nenhuma sorte do effeito; simplices conductores neste caso, não tem nada de com- mum com as affecções, que produzem. Isto he tão verdade , que toda a espécie de sensação tem seu centro no cérebro , porque toda a sensação faz suppor a impressão , e a percep-: ção. São os sentidos, que recebem a impres- são, e o cérebro, quem a percebe; de sorte, que aonde a acção deste órgão he suspendi- da, toda a sensação acaba. Pelo contrario,.ja- mais 5* mais he affectado nas paixões; os órgãos da vida internarão o seu assento único. He sem duvida para admirar que as pai- xões , que entrão essencialmente nas nossas re- lações" com os seres postos á roda de nós , que modificão.a cada instante estas relações, sem o que a vida animal não seria mais que huma fria serie de phenomenos intellectuaes, e que animão , engrandecem, exaltão sem cessar to- dos os phenomenos desta vida; he, torno a dizer pára admirar que as paixões tenhãô ' ja- mais seu termo, nem sua origem ríosseus di- versos órgãos , e- que ao contrario^as partes servindo as funções internas , sejão constante** mente affectadas por ellas, e mesmo as deter- minem segundo o estado, em que se achão. Tal he tOda via o que a exacta observação nos prova. , Digo primeiro, que o effeito de toda a espécie de paixão, constantemente estranho á vida animal," hé^de fazer nascer hiima mu- dança , 'huma alteração , qualquer*! que seja , na vida orgânica. A cólera accelera os movi- mentos da circulação, multiplica èm huma proporção , muitas vezes incommensuravei, o esforço do coração: he sobre a força, e a ra- pidez do curso- do sangue , que ella influe. Sem modificar tanto a circulação, a alegria a muda com tudo-; desenvolve-lhe os phenome- nos com mais plenitude , accele*a a ligeira* mente e determrna*a para o órgão cutâneo." O 59* O temor obra em sentido inverso; he caracte- risado por huma fraqueza em todo. o systema vascular , a qual embaraçando ao sangue che- gar aos capillares determina esta palidez. ge- ral , que se observa então em todo o habito do corpo, e emparticular na face. O effeito da tris- teza, e da melancolia he quasi o mesmo. Tal he mesmo o influxo , que exercem as paixões sobre os órgãos circulatórios, que che- ga o , quando a affecção he mui viva , á sus- pender a acção destes órgãos : daqui proce- dem as syncopes, cujo assento primitivo he sempre, como logo o provarei, no coração, e não no cérebro, que não cessa então de obrar senão porque não recebe o excitante neces- sário á sua acção. Disto mesmo procede a mor- te, effeito algumas vezes súbito de emoções excessivas; seja que estas emoções exaltem to- talmente as forças circulatórias, que , .subita- mente esgotadas, não possão restabelecer-se, como na morte produzida por hum accesso de cólera ; seja que , como na que resulta por hu- ma violenta dor, em que asrfb-Tças, de repente tocadas de huma excessiva debilidade não po- dem recobrar seu estado ordinário. ,§e a cessação total, ou instantânea da cir- culação não he determinada por esta debilida- de, muitas vezes as. partes lhe conservão hu- ma impressão durável,! e se tornão consecu- tivamente o assento de diversas lesões orgâni- cas. Desault tinha observado que as enfermi- 6o dades do coração, e os aneurismas da aorta setinhão multiplicado na revolução, á propor- ção dos males, que ella havia produzido. A respiração não tem huma dependência menos immediata das paixões: estas suffoca- ções, esta oppressão , effeito repentino de hu- ma profunda dôr, j não indicão no pulmão huma notável mudança, huma repentina al- teração? Esta longa serie de enfermidades crô- nicas , ou de affecções agudas, triste attribu- to do systema pulmonar, j não nos obri- ga muitas vezes á indagar as remotas paixões do enfermo , para acharmos o principio de seu mal? A viva impressão resentida no piloro nas fortes emoções, a impressão indelével, que elle conserva algumas vezes, e de donde nascem os cirrosi, que nelle se encontrão , o sentimen- to do aperto, que se sente em roda a região gás- trica , é em particular na cardíaca ; e em ou- tras circunstancias, os vômitos espasmodicos, que succedem algnmas vezes de repente á perda de hum objecto amado, á nova de- hum acon- tecimento funesto , á toda a espécie de pertur- bação determinada pelas paixões ; a interrup- ção súbita dos phenomenos digestivos por hu- ma nova agradável, ou triste, as affecções das vísceras, as lesões orgânicas dos intestinos, e do baço, observadas na melancolia, e hipo- condria, enfermidades, qne preparão, e que acompanhão quasi sempre sombrias affecções, anão ÓI i não indição o laço estreito, que encadêa ao estado das paixões o das viceras da di- gestão ? Os órgãos secretorios não tem com as af- fecções da alma huma menor connexão. Hum súbito temor suspende o curso dabilis, e de- termina a ictericia; hum accesso de cólera he a origem freqüente de huma disposição , e mes- mo de hnma febre biliosa, as lagrimas correm com abundância na tristeza , na alegria , e al- gumas vezes na admiração ; o pancreas he fre- qüentemente molestado na hyponcodria, &c. A exhalação, a absorvencia, e a nutrição não parecem receber das paixões hum influxo tão directo , como a circulação, a digestão, a respiração e as secreções; porém isto lie devi- do sem duvida de que estas funções não tem, como as outras, focos principaes, nem vísce- ras essenciaes, de quem possamos comparar o estado com aquelle , em que a alma se acha. Seus phenomenos geralmente disseminados em todos os órgãos, não pertencendo á algum ex- clusivamente não poderião tocar-nos tão vi- vamente como aquelles, cujo effeito está con- centrado em hum estreito espaço. Todavia as alterações , que soffrem então, não são menos reaes^ e mesmo ao fim de hum certo tempo se tornão apparentes. Compare- mos o homem a quem a dor affecta continua- mente , com o que passa os dias na paz do co- ração , e tranquillidade da alma, e veremos que 62 que differença distingue a nutrição de hum com a do outro. Comparemos o tempo em que todas as paixões sombrias, o temor, a tristeza , o de- sejo da vingança, parecião espalhar-se sobre a França, com aquelle, em que.a segurança, a abundância despertavão as paixões alegres, tão naturaes aos Francezes ; recordemo-nos comparativamente do habito exterior de todos os corpos nestes dous tempos , e veremos se a nutrição não recebia o influxo d&s paixões. Estas expreüsões , emmagrecer de inveja , ser roi- do de remorsos , ser consumido pela triste- za , &c. &c.j não anuncião este influxo, não indicão quanto as paixões modiíicão o traba- lho nutritivo? ^Porque a absorvencia, ea exhalação não hão-de estar também submettidas á-seu império , posto que o pareção menos ? j as colleções aquo- sas, as hydroptMas do órgão cellular, vicios essenciaes destas duas funções, não podem mui- tas vezes depender de nossas affeções moraes ? No meio destes transtornos, destas revo- luções parciaes, ou geraes, produzidas pelas paixões nos phenomenos orgânicos, considere- mos os actos da vida animal; estas ficão constan- temente no mesmo gráo , ou apenas soffrem al- guns desaranjamentos, a origem primitiva es- tá constantemente, como o mostrarei, nas funções internas. Concluamos pois destas diversas conside- ra- «í rações que as paixões influem sempre sobre a vida orgânica, e não sobre a vida animal, por isso tudo , o que nos serve para pinta-las se, refere, á primeira, e não á segunda. O ges- to , expressão muda do sentimento , e do en- tendimento , he disto huma'notável prova: se indicamos alguns phenomenos intellectuaes re- lativos á memória, á imaginação, á perce- pção , ao juizo , &c. involuntariamente se le- va a mão sobre a cabeça: se queremos expri- mir o amor , a alegria , a tristeza , e o ódio, he para a região do coração, do estômago,' dos intestinos, que ella se derlge. O actor, que se equivocasse á este res- peito , e que fallando da tristeza , derigisse os gestos á cabeça, ou os concentrasse sobre o coração , para. mostrar hum esforço de gênio , cometteria hum erro, que melhor o percebe- ríamos do que o comprehenderiamos, A linguagem vulgar distinguia os attri- butos respectivos das duas vidas nos tempos, em que todos os sábios referião ao cérebro, como assento da alma, todas as nossas affeções. Tem-se sempre dito, huma grande cabeça , hu- ma cabeça bem organizada ,,para annunçiar a perfeição do entendimento ; hum bom coração , hum coração sensível, para indicar a do senti- mento. Estas expressões, o furor circulando nas vias, revolvendo a bilis ; a alegria fazendo so- bresaltar as entranhas; o ciúme distilando vene- nos no coração, Uc. Qc. não são methaporas cm- 64 empregadas pêlos poetas, porém o enunciado, do que acontece realmente na natureza. Por isso rodas estas expressões , tiradas das funções, internas, entrão especialmente nós nossos Cantas que são a linguaguem dás paixões , e por con- seqüência da vida orgânica , como a palavra ordinária he a do entendimento , e da viõa ani- mal. A declamação tem o meio; anima a fria linguagem do cérebro pela linguagem expres- siva dos órgãos interiores do coração , do fí- gado, do estomego , &c. A cólera, e o amor inoculão por assim dizer, nos humores, e na saliva em particular, hum vicio radical, que torna perigosa a mor- dedura dos animaes agitados por estas paixões,, as quaes distilão verdadeiramente nos fluidos hum funesto veneno , como o indica a expres- são commum. As paixões violentas das que amamentão imprimem á seu leite hum cara- cter nocivo, donde nascem muitas vezes di- versas moléstias á criança. Pelas modificações , que o sangue da mãi recebe' das vivas emo- ções , que soffre , he por donde se deve expli- car como estas emoções influem na nutrirão , na conformação, e mesmo na vida do feto, ao qual o sangue vai pelo intermédio da pla- centa. Nãò só as paixões influem essencialmente sobre as funções orgânicas, affectando suas vís- ceras de huma maneira especial, porém o es- tado destas visceraV, suas lesões, e as variações de «5 de suas forças concorrem, de hum modo sensí* vcl á producção das paixões. As relações, que as unem com os temoeramentos, as idades, &c. estabelecem incontestavelmente este facto. Quem ignora que o indivíduo , cujo ap- parelho pulmonar he. muito desenvolvido', de quem o systema circulatório he muito enérgi- co , e que he, como se diz , muito sanguineu , tem nas affecções huma impetuosidade , qne o dispõe sobre tudo á cólera, á fúria, ao valor &c. que no que predomina o systema bilioso, cer- tas paixões são mais desenvolvidas, taes como a cobiça, o ódio, &c. ; e que asconstituiçõe> , em que as funções dos lymphatícos estão em hum major gráo , imprimem ás affeçpes hum vagar opposto á impetuosidade do tempera- mento sangüíneo. Em geral o que caracterisa tal ou tal tem- peramento , he sempre certa modificação em parte das paixões, e em parte do estado das vísceras da vida orgânica, e a predominância de tal, ou tal de suas funções. A vida animal he quasi constantemente estranha aos attributos dos temperamentos. Digamos a mesma cousa das idades. Na infância a fraqueza da organização coincide com a timidez , e o medo; na mocidade o va- lor , e a, audácia se desenvolve á proporção, que o systema pulmonar, e vascular se tor- não superiores aos outros; a idade viril, em que o fígado, e o aparelho gástrico estão mais E de- 66 desenvolvidos, he a idade da ambição, da co- biça , as agitações, que suspendendo d« repente o esforço do coração, determinão huma cessa^ ção súbita da vida animal > e pela mesma ra- zão a syncope. j Porem como se hão fie applicar as mo- 4tficaçÕes nii\ vezes variadas, que produzem á cada instante as outras paixões- aos movimen- tos, que pertencem á esta vida ? j como se ha de dizer a causa destas mudanças infinitas, que se succedem muitas vezes com huma in- comprehensivel rapidez no movivel quadro da face?j como sç ha-de explicar porque, sem que a vontade o consinra , o rosto se ruga, ou se dilata, os. supercilios se franzem , ou se distendem ,. os qjhos s,e inflammão, ou. desfa- leççm, brilhão, ou se obscnrecem., a boca se ab*e, ou se ftcha Porque nas pa»xÕes cessão pois de o ser?j porque entrão na classe 40s■-movimentos da vida orgânica, que todos se exercem sem que nós os dirija OU mesmo tenhamos deites a consciência ? eis-aqui, penso eu , a explicação mais prová- vel deste phenomeuo. Numerosas relações sympathicas unem to- das asvi&çeras internas com o cérebro, ou com suas diffe rentes partes. A pratica nos, offerece a cada passo exemplos de affecções deste ór- gão, nascidas s^mpa^hica^nente das, doesto.ma- go- 71 go, do fígado dos intestinos, do baço, &c. Admirtido isto , como o effeito de toda a espe* cie de paixão he produzir huma affecção, e. huma mudança de forças em huma destas vís- ceras , será também de excitar sympathicamente ou o cérebro em totalidade, ou somente al- gumas de suas partes, cuja reacção sobre os músculos, que recebem seus nervos, lhe de- terminará os movimentos, qtte então se obser- vao» Na proxtucç&o destes movimentos t;. o- ór- gão cerebral' he pois * por assim dizer , passivo> em quanto cjwe, he activo, quando a vontade prezide á seus esforços. O qoe aeoracece nas paixões lie semelhan- te, ao que observamos nas moléstias dos ór- gãos internos, que fazem nascer sympathica- mente espasmos., huma fraqueza, ou mesmo a paralysia dos músculos locomotores. Talvez os argãos- internos não obrem so- bre os músculos voluntários pela excítação intermediária do cérebro , porém por commu* nicações nervosas directas ; £ que Importa sa- ber o como? não be da questão tãoagitada saber o modo das. commufticaçoes syrwpathicas, que aqui se trata. O qne be essensiil, he o mesmo facto; ora neste faotos eis-aqui o que he evidente: por huma parte , affecção de hum, órgão inter- no pelas; paixões; e par outra *■ movimento de- terminado na òccasião desta affeção nos mús- culos, em que este órgão não tem algum in- ^ 72 fluxo na serie ordinária dos phenomenos das duas vidas. He seguramente huma sympathia; porque entre ella, e as que nos ,apreseutão as convulsões, e os espasmos da face, occasio- nados pela lesão do centro pjirenico, por hu- ma ferida no estômago, &c. a differença não existe senão na causa, que affecta o órgão interno. . i A irritação da uvula, eda pharinge, agi- ta convulsivan^nte o diaphragma; a repetida acção dos liquores fermentados sobre o estô- mago produz os tremores: j porque o que acontece em hum modo de .affecção das vísce- ras gástricas , não acontecerá em outra ? j Que o estômago, o fígado, &c. sejão irrita- dos por huma paixão s ou por huma causa ma- terial, ;que importa? be da affecção, e não da causa que a produz, que nasce a sympathia. Eis-àqui pois em geral como as paixões arrancão ao império da vontade movimentos naturalmente voluntários e como se apro- prião , se eu me posso exprimir assim , os pheno- menos da vida animal, posto- que elles tenhão essencialmente seu assento na vida orgânica. Quando as paixões são muito fortes, a affeçãò muito viva dos órgãos internos produz tão impetuosamente os movimentos sympathi- cos dos músculos, que a acção ordinária do. cérebro he absolutamente nulla sobre elles. Po- rém sendo passada a primeira impressão, o modo ordinário da locomoção torna. Hum 73 Hum homem sabe por huma carta , e diante de huma assembléa , huma nova , que lhe interessa occultar; de repente seu rosto se ruga, desmaia, ou suas feições se animão se- gundo a paixão , que obra: eis-aqui os pheno- menos sympathicos nascidos de algumas vísceras abdominaes subitamente affectadas por esta pai- xão ,< e.que por conseqüência pertencem £ vi- da organaca. Bem depressa este homem se con- trafaz , seu rosto se dilata, seu rubor renasce, ou suas feições se concertão , posto que o sen- timento interno subsista : he o movimento vo- luntário, que prevaleceo sobre osympathico; he o cérebro, cuja acção venceo a do estôma- go , do fígado, &c. ; he a vida animal que tor- nou a tomar seu império. Ha em quasi todas as paixões mistura, ou successão dos movimentos da vida animal com os da vida orgânica; de sorte que, em quasi toda a acção muscular he em parte dirigida peio cérebro segundo a ordem natural, e tem em parte seu assento nas vísceras orgânicas , como no coração, estômago; fígado •, -&c. Es- tes dous focos, successivamente predominados -. hum pelo outro, ou permanecendo em equili- hrio, constituem , por seu modo de influencia , todas as numerosas variedades, que nos apre- sentão as nossas affeções moraes. Não he somente sobre o cérebro, porém ainda sobre todas as outras partes, que as vís- ceras affectadas pelas paixões , exercera seu in- 74 influxo fymp-jthico: o medo affectaprimltiva- mente o estômago, como o prova o aperto que-então se sente nesta região. Affectado des- te modo , o órgão obra sobre a pelle coni a qual tem tantas relações, e esta se torna en- tão o assento de hum suor frio e súbito, tão freqüente nesra affecção d' alma. Este suor he da natureza daquelles , que se determinão pe- la axçia de huma substancia, que, como o chá, obra primeiro sobre o estômago, o qnal obra depois sympathicamente sobre o órgão cu- tâneo. Por isso hum çópo d' água fria, hum ar muito frio supprimem esta excreção pela rela- ção , que ha «nrre este órgão e as superfícies mucosas do estômago, ou dos bronchioe. He preciso distingnir bera os suores sympathicos daquolles» cuja causa obra directamente so- bre a peile , como o calor, o ar, &c. Posto qne o cérebro não seja segundo- o que se tem dito > o termo único da reacçSo das vísceras internas affccíadas pelas paixões, he com tudo o piiivctpal, e debaixo desta re- lação , se pôde sempre considerar como hum foco, que está continuamente em opposiçãe, com o que representão os órgãos internos. §*, IV. Do centro: epigastrica ; nâa existe* no sentido que os autores o tem entendido. Os amores jamais tem variado sobre O) foeo cerebral; todos os hhíví mentes volunta* fo- 15 rios tem sempre sido olhados por elles como h,um effeito de suas irradiações. Porém não são igualmente concorde? sobre o foco épigás- trico ; huns opõem no diapluagma , outros no pylóro, e alguns no plexo solar do, grande sympathico CO To- ÇX) Este enlaçainento nervoso, qtíe dimana prin- cipalmente do gânglio semi-nular pertence a quasi to- do o systema vascular abdominal, de quem segue as diversas > a-miíkafees. He na maneira- ordinária de ver hi(:jiA ,das divisões do grande sympathico ; porém pa- rece-írie que as kléas dós anatomistas sobre este im- portante nervo são pouco conformes com a natureza. A todos se representa como hum cordão medullar, lançado desle a cabeça até á região sacra, enviando nes»tc çaatiinho diversas ramificações ao pescoço-, ao peno, e ao baixo ventre, seguindo nas suas distrihui- ções Iautua marcha análoga *%' dos nervos da espinhi,. e tirarulo $ua origem destes nervos;, segundo hunt, a dys do cérebro, segundo outros,. Qualquer. que sai» o nome, debaixo do qual se descreva, syinpa.fhicoi., intercosral, trisplanchnico, &c. a maneira de o olhai he Sempre a mesma.. Creio que esta maneira he inteiramente falsa , qoti nãa existe realmente algum nervo analpgo, ao que se descreve com estas palavras, e o que se tomai por hum nervo não he senão huma serie de communica- ções entre diversos centros nervosos, postos em (Me- rentes distancias huns dos outros. listes centros nervosos são qs, gangUo* Distsflmi- nados n^s difFerenres ççgiões, todos, tem huma acção independente, e isolada. Cada hum he hum fifco par- ticular, que erwia em diversos sentidos huma multidão. de EamificasÇÕss, as quaje« tevão. aos seus. órgãos res- pectivos, as irradiações deste toco, de quem sabem. En- tre e$tas algumas vão de hum gânglio á outro ; e co- mo estas ramiüca^òjft,. qu« qs unem, fqsmâo por seu 7* Todos me parecem errar neste ponto , porque assimilhando o segundo art primeiro foco , acreditão que as paixões, como as sen- sações , se referem constantemente á hum cen- tro utiico , e invariável. O que os tem conduzido á esta opinião , he o sentimento ae oppressão , que se faz sen- tir na visinhança da cardíaca nas- penosas affecções. Po- ajuntamento huma espécie de cordão continuado, se tem considerado este cordão como hum nervo isolado ; porém estes ramos não sao senão communicições de simplices anastomoses , e não hum nervo análogo aos outros. Isto he tão verdade, que muitas vezes esras com- municaçoes são tnrerrompidas. Ha sujeitos, por exem- plo, em que se acha hum intervallo mui distincto en- tre as porções peitoral, e lombar do que se chama grande syrnpathico, que parece cortado neste lugar. Tenho visto também este pertendido nervo desapparecer, e" renascer depois, seja nos lombos, seja na região sa- cra./ Quem ignora, que tão depressa hum só ramo, tão depressa muitos passão de hum gânglio a outro, sobre tudo entre o ultimo cervical, e o primeiro dor- sal, que o volume destes ramos varia singularmente, e que depois de haver fornecido huma multidão de divisões, o syrnpathico he mais grosso, que antes de ter distribuído algum.' Estas diversas considerações provão evidentemente , que os ramos communicanres dos gânglios nao fazem suppor hum continuado nervo, senão ramos, que passão de cada hum dos pares, cervical , lombar, ou sacro, aos dois pares que lhe esrSo superiores, e infe- riores. Com effeito, a pezar destas communicaçÕes , considerà-se cada par de huma maneira separada, e não se faz hum nervo de sua união. 77 Porém observemos que nos órgãos infer- nos, o seiiti.nento nascido da affecção de hu- ma parte, he sempre hum indicio infiel, do as- sento, eda extenção desta affecção: por exem- plo ', a fome produz seu influxo na totalidade do estômago , e com tudo a cardíaca parece só nos transmittir a sensação. Huma larga su- per- He preciso do mesmo modo olhar isoladamente cada gânglio, e descrever os ramos, que delles nas- cem. Segundo este principio dividirei para ao diante nas minhas descripções > em que tenho até aqui se- guido o caminho ordinário, os nervos em dois gran- des sysremas, hum emanado do cérebro , eo outro dos gânglios; o primeiro he de centro único ; o segundo tem hiim grande numero delles. Examinarei primeiro as divisões do systema cere- bral , e fararei ao depois do sysTema dos gânglios, que se pôde subdividir em gânglios da cabeça, do pescoço, do thorax, do abdômen ? e da bacia. Na cabeça se encontrão o lenticular , ode Mekel, O da glândula sublingual &c. &c. posto que nenhu- ma communicação ligue estes diversos centros, seja entre si, seja com o pertendido grande syrnpathico ; sua descripção pertence com tudo á dcs nervos , de quem este he o ajuntamento', pois que as communica- çÕes não são, senão disposições accessorias á este systema de nervos. No pescoço se achão os três gânglios cervicaes, algumas vezes outro sobre o lado da trachéVarteria, no peno os doze thoracicos, no "abdômen o semi-lu- nar, os lombares, &c. na bacia os sacros; eis-aqui os diversos centros, de que he preciso isoladamente exa- minar as ramificações, como se considera o.do cen- tro cerebral. 78 perficie ínrlammada na pleura, ou pulmão, não produz as mais das vezes stfnSo lnfrtia dor concentrada em hum ponto, j Quantas vezes na cabeça, no abdômen, &c. hiuna dor rixa, e occupando hum pequeno espaço coin- cide com huma affecção, que se estende nO* tavelmente 4 e teto mesmo hum assento mui di- Por exemplo, descreverei primeiro o gânglio se- mi-lunar, como se taz para o cérebro; depois exami- narei seus ramos, por meio dos quaeS se põe aqueüe , pelo qual se communica com os gânglios lhorncicos , isto he o grande esplanchnico, porque hè huma ex- pressão muito imprópria, a que descreve este i;ervb como dando nascinenro ao gânglio. Do mesmo modo no pescoço, e na cabeça cada gânglio será primeiro descripto í depois ttatarei de seus ramos, por meto cios quaes se acbiío os de comiriumcação. A disposi- ção sendo qtiasi commum para os gânglios do peito, da bacia, dos lombos, &c. a descripção virá a sei quasi geral para cada fégião. Esta maneira de considerar os nervos pondo nu» ma demarcação sensivel entre os dois grandes syste- mas, apresenta a estes systemas taes quaes estàO realmente na natureza. i { Qual he o anatomista, que não lem sidb loca- do das difterenças , que se achão entre os nervos de hum, e de outro? Os do cérebro sao mais grossos, jnenoS numerosos, mais brancos, mais densos no Seu tecido, e expostos á variedades assaz pouco freqüentes. Ao contrario, fenuidade extrema , numérO rriui consi- derável, Sobre rtído nos plexos , còr cinzenta, notável moileza de tecido, è variedades extremamente com». muns eis-aqui os caracteres dos nervos vindos dos gân- glio* , exeeptuando os de cdmmuniéaçãó com os nervôl cerebral, ealgunâ, dos corpos , que os tocão , e a rransmittem depois ao cérebro , que he o centro geral da sensibilidade destes diversos órgãos Ha pois huma sensibilidade orgânica, e huma sensibilidade animal: de huma dependem todos os phenomenos da digestão, da circula- ção , da secreção , da exhalação , da absorven- cia, da nutrição, &c. ; he comniiim á planta, e ao animal; o zoophyta go/a delia, como o quadrúpede o mais perfeitamente orgaimaclo. Da outra emanão as sensações, a precepção, as- sim como a dor e o prazer , que as modificão. A perfeição dos animaes está, se me he perniir- tido assim fallar, na razão da dose desta sen- sibilidade, que receberão em herança. Esta es- pécie não he o attributo do vegetal. A differença destas duas espécies de for- ças sensitivas está sobre tudo bem marcada pe- la maneira, com que ellas acabão nas violen- tas mortes, que assaltão o animal com hum golpe súbito. Então a sensibilidade animal se anniquila repentinamente. Não existe mais vestígio desta faculdade no instante, que suc- cede á huma forte comrocção, á huma gran- de emorrhagia, ou á asphixia; porém a sensi- bilidade orgânica lhe sobrevive por mais, ou menos tempo. Os lymphatícos absoivem ainda; o músculo sente igualmente o estimulo, que o excita ; as unhas, e os cabellos podem tam- bém nutrir-se ainda , ser sensíveis por conse- cjuen- 93 Çttencia aos fluidos, que recebem da nelle , &CÍ e he só no fim de hum tempo, muitas vezes assaz longo , que todos os vestigios desta sen- sibclidade se apagão , em quanto que o anni- quilamento da outra tem sido súbito , e ins- ta nten eo. Posto que ao primeiro golpe de vista es- tas duas sensibilidades , animal , e orgânica apresentem huma differença notável , com tudo sua natureza parece ser essencialmente a mesma; huma não he provavelmente senão o máximo da outra. He sempre a mesma força , que mais, ou menos intensa se apresenta de- baixo de diversos caracteres: as observações seguinte? o provão. Ha diversas partes na economia, em que estas duas faculdades se encadêão de hum mo- do insensível: a origem de todas as membra- nas mucosas he hum exemplo disto. Temos a sensação do transito dos alimentos na boea , e boca posterior; esta sensação se diminue no principio do esophago, torna-se quasi nulla no seu meto, desappaiece no seu fim, e no estô- mago, em que já não ha mais, que a sensibi- lidade orgânica; o mesmo phenomeno se obser- va na uretra, nas partes geniraes, &c. Na vi- sinhança da pelle ha sensibilidade animal', que diminue pouco a pouco, e se torna orgânica no interior das partes. Diversos excitantes applicados ao mesmo órgão , podem alternativamente determinar hum, 94 hum, e outro modo de sensibilidade. Irritados pelos ácidos, pelos alcalis mui concentrados, ou pelo instrumento cortante, osligamentos não transmittem aò cérebro a forte impressão, que recebem. Porém se são torcidos, distendidos, despedaçados, huma viva sensação de dôr lhe resulta. Tenho confirmado por diversas espe- riencias este íacto publicado no meu Tratado * das Membranas , eis-aqui outro do mesmo gê- nero , que tenho observado depois. As paredes arteriaes, sensíveis,'com o se sabe , ao sangue, que as enfia, são o termo de seu sentimento, que não se propaga ao senhorio: se se injecta neste systema hum fluido estranho, o anima! por seus gritos testemunha que sente a im- pressão. Temos visto, que a propriedade do habi- to era de obrar, embotando a vivacidade do sentimento, e de transformar em sensações in- differentes todas as do prazer , ou da pena; por exemplo, os corpos estranhos causão so- bre as membranas mucosas huma incomoda impressão nos primeiros dias do seu contacto, e llie desenvolvem a sensibilidade animal; po- rém pouco a pouco se gasta, e a orgenica só subsiste. Por isso a uretra resente a sonda em quanto está introduzida nella, porque esta in- troducção he constantemente acompanhada de huma acção mais viva das glândulas mucosas, donde nasce huma espécie de catarro; porém o indivíduo não tem senSo nos.primeiros mo- men- 95 mentos a consciência dolorosa do seu con- tacto. Cada dia a imflammação , exaltando em huma parte a sensibilidade orgânica, a trans- forma em sensibilidade animal. Por isso as car- tilagens, as membranas serosas , &c. que no estado ordinário não tem senão o obscuro sen- timento necessário á sua nutrição, se penetrão então de huma sensibilidade animal, muitas vezes mais viva que a dos órgãos, aos quês ella he natural, j E porque ? porque o próprio da inflammaçSo he accumular as forças em hu- ma parte, e esta accumulação basta para mu- dar o modo da sensibilidade orgânica , que não differe da animal, senão por sua menor pro- porção. Depois de todas estas considerações, he evidente, que a distincção a cima estabeleci» da na faculdade de sentir, está, não na sua natureza, que he por toda a parte a mesma, mas nas modificações diversas , de que he sus- ceptível. Esta faculdade he commum á todos os órgãos; todos estão penetrados delia, nem- hum he insensível; ella fôrma seu verdadeiro caracter viral; porém mais, ou menos abun- dantemente repartida em cada hum, produz hum modo de existência differente: nenhum goza delia na mesma proporção; ella tem mil gráos diversos. Mestas variedades ha huma medida, cujo gráo mais superior está no cérebro, e no infe- rior- 96 rior só o órgão excitado recebe, e percebe a sensação , sem a transmittir. Se, para mostrar a minha idéa, podesse servir-me de huma expressão vulgar, diria que destribuida em tal dose em hum órgão , a sen- sibilidade he animal, e em outra mais peque- na, he orgânica (i); ora o que varia a dose da sensibilidade, he humas vezes a ordem na- tural : por isso a pelle , e os nervos são superio- res debaixo desta relação aos tendoes, ás car- ruagens , &c.; e outras vezes são as enfermi- dades: por isso, dobrando a dose da sensibili- dade dos segundos, a ínfiammação os iguala, e os torna mesmo superiores aos primeiros. Co- mo mil causas podem á cada instante exaltar, ou diminuir esta força em huma parte, pôde á cada instante ser animal, ou orgânica. Eis- aqui porque os autores, que tem delia feito o objecto de suas experiências, tem tido diver- sos resultados; porque huns achão insensível a (i) Estas expressões dose, somma , quantidade de sensibilidade fcão inexactas, porque apresentão esta fa- culdade vital debaixo do mesmo ponto de vista, que a* forças phycas, como a attração, por exemplo, por- que no-la-mostrão como susceptível de ser calcula- da , &c. Porém por falta de palavras criadas para huma sciencia, he preciso, a fim de se fazer entender, hir buscalas ás outras. Acontece o mesmo nestas expres- sões, com as palavras soldar, collar, descollar &c. que se empregào, na falta de outras, para o systema ósseo, e que apresentarião realmente idéas muito ine- xactas, se o espirito lhe não corrigisse o sentido. 01 a dura<-mater, o periostiò, &c* onde outros observao huma extrema seusibilidade. §. IV. Da relação , que existe entre a seiisibilu dade de cada órgão , e os corpos, que lhe são estranhos. Posto que a sensibilidade esteja sujeita em cada órgão ávariedades continuas, todavia ca*- da hum parece ter huma somma privativamen- te determinada , á qual se torna sempre depois destas alternativas de augmento , ou de diminui-» ção, quasi como nas suas oscillaçòes diversas a pêndula torna constantemente á tomar o lu- gar aonde a conduz o seu peso» He esta somma de sensibilidade determi-» nada para cada órgão, que compõe especial* mente sua vida própria , he ella quem fixa a natureza de suas relações com os corpos, que lhe são estranhos, porém que se aohão em contacto com elle. Por isso a somma ordinária da sensibilidade da uretra apõe em relação com a ourina; porém se esta somma augmenra -, co- mo jna erecção levada a hum alto gráo, a re- lação cessa» o canal seoppoem á este fluido, e não se deixa penetrar, senão pelo sêmen , que pela sua parte, não está em relação com a sensibilidade da uretra no estado da falta dei erecção. Eis-aqui como a somma determinada da sensibilidade dosçonductos deStenon, de Var^s G thon i 9* fhon, colidoco, pancreatico, e de todos os ex- cretorios em huma .palavra, exactamente aná- loga á natureza dos fluidos, que osenfião, po- rém desproporcionada á dos outros, não permit- te a estes, que os penetrem * e faz que passanj do por diante delles, lhes-òcçasionem o espas- mo, e a contractilidade, quando algumas de suas moléculas se detém nelles. Por isso a laringe se oppoem á todos os corpos* que não sejão o ar, que se lhe introduzão accidentahnente. Por isso os excretorios , posto qtte em con- tacto nas superfícies mucosas com huma mul- tidão de fluidos díversOs, que passão, ou se demorão nestas superfícies , jamais se achão penetrados delles. Eis-aqui também como as bo* cas dos lácteos abertas nos intestinos, não chu- pão senão, o chylo, e não absorvem os fluidos, que se achão de mistura com elle, porque sua sensibilidade não está em relação com elles. Não he somente entre as sommas diversai da sensibilidade dos órgãos, e os diversos flui- dos dos. corpos, que existem estas relações; po- dem também existir entre os corpos exteriores, e nossas differentes partes. A somma determina- da da sensibilidade da bexiga, dos rins, daS glândulas salivares, &c. tem huma analogia.es- pecial com as cantharidas, o mercufio &c. Poder-se-hia acreditar que em cada órgão a sensibilidade toma huma modificação, huma natureza particular, e que he esta diversida- de de natureza, que constitue a differença das re- delações dos órgãos com os corpos estranho*', que os tocão. Porém huma multidão de consi- derações provão que a differença consiste nãd na natureza , porém na somma , na dose ■, ou na quantidade i se se podem applicar estas pala* vras á huma propriedade vital; eis-aqui estas considerações: Os orifícios absorventes das superfícies se- rosas algumas vezes banhão mezes inteiros no fluido das hydropesías, sem chuparem d'elle cousa alguma. Se a acção dos tônicos, e o es- forço da natureza exaltão a sensibilidade des- tes orifícios, ella se põe, sehe permitido assim' explicar-me , em equilíbrio com o fluido , e en- tão a absorvencia se faz. A resolução dos tu* mores apresenta o mesmo phenomeno : era quanto que as forças da parte estão enfraque- cidas, os lymphatícos se negão á admittir as su* bstancias extravasadas nestes tumores. Quando a somma destas forças se duplica, ou triplica por meio dos resolutivos, bem depressa o tumor desapparece pela acção dos lymphatícos. Sobre este principio repousa a explica- ção de todo; os phenomenos da reabsorven- cia do pus, do sangue, e outros fluidos, que qs lymphatícos recebem humas vezes cora huma espécie de avidez, e que outras ve- zes negão o receber, segundo que a somma de sua sensibilidade está, ou não em relação com elles. A arte do medico na applicaçêo dos reso* G ii lu- IOÓ lutivos consiste em achar o termo médio, <■ de conduzir a elle todos os vasos, seja accres* centando-lhe novas forças, seja diminuindo-lhe em parte as de que estão providos, segundo que sua somma de sensibilidade he inferior, ou superior ao gráo , que necessitão para estar em relação com os fluidos, que hão de absorver. He por isso que os resolutivos podem ser igual- i mente tomados, segundo as circunstancias, na classe dos remédios, que fortifícão, e na classe dos medicamentos, que enfraquecem. Toda a theoria das inflammações se liga < também com as idéas , que aqui apresentamos* Sabe-se que o systema dos canaes por onde o sangue circula , dá nascimento a huma multí- i dão de outro9 pequenos vasos, que não admit- tem senão a porção serosa deste fluido , como e prova incontestavelmente a exhalação. ^ Por- que não passão para elles os glóbulos rubros, inda que haja continuidade? Não he pela dis- proporção do diâmetro 4 como Boerhaave o ' tinha pensado, pois que ainda que a largura dos vasos brancos fosse dobrada, ou triplicada ! á dos vasos rubros, os glóbulos desta côr não passarião, se ahi não houvesse huma relação entre a somma da sensibilidade destes vasos, e os glóbulos rubros, como vimos que o chimo < não passa para o colidoco , posto que o diâme- tro deste conducto exceda ao das moléculas.. attenuadas dos alimentos. Ora , no estado na- tural , a sensibilidade dos vasos brancos sendo foi- 101 inferior á dos rubros, he evidetíte que a rela- ção necessária á admissão da parte córada não pôde existir. Porém se huma cansa, qualquer que seja, exalta as forças dos primeiros vasos, então sua sensibilidade sobe ao mesmo nivel, que a dos segundos; a relação se estabelece, e a passagem dos fluidos, até então repellida , se faz com facilidade. Eis-aqui como as superfícies as mais ex- postas aos agentes, que exahão a sensibilida- de , são também a*s mais sujeitas ás ínflamma- fõeslocaes, como se vê naconjunctiva , no pul- mão , &c Tal he então as mais das vezes, co- mo o renho dito, o augmento da sensibilida- de , que de orgânica, que era, se torna ani- mal, e transmitle então ao cérebro a impres- são dos corpos exteriores. - A inflammação dura tanto , quanto o ex- cesso da sensibilidade subsiste ; pouco a pouco se enfraquece, e torna á seu gráò natural, por isso então os glóbulos rubros cessão de pas- sar pelos vasos brancos, e a resolução se faz. Vê-se depois disto que a theoria da in- flammação não he senão huma conseqüência natural das leis, que presidem á passagem dos fluidos por seus diversos canaes; concebe-se também quanto são volúveis todas as hypothe- 6es recebidas da hydraulica, a qual quasi nun- ca offerece applicação exacta á economia ani- mal, porque não ha nenhuma analogia entre huma serie de tubos inertes, e huma serie de eo n« 102 conduçtos vivos , nos quaes cada hum tem huma somma de sensibilidade própria, que o põe em relação com tal ou tal fluido , e repeli le os outros, que pôde, augmentando , ou di- minuindo pela menor Causa, mudar de rela- ção , admittir o fluido, que rejeitavão, e re- jeitar aquelle , que admittião. Não acabaria esta obra se quisesse multi- plicar as conseqüências destes princípios nos phenomenos do homem vivo em estado de saú- de, ou de enfermidade. Meus leitores o sup- priráõ facilmente, e poderão engrandecer o campo destas conseqüências, cujo ajuntamento fôrma quasi todos os grandes adidos da physio- logia , e os pontos essenciaes da theoria das enfermidades. Perguntar-se-ha sem duvida j porque na distribuição das diversas sommas da sensibilida- de , a natureza não tem dotado desta proprie-? dade, senão em gráos inferiores, aos órgãos in- ternos , ou da vida interior, em quanto que os da exterior estão tão abundantemente pro- vidos delia? jporque por conseqüência cada órgão digestivo , circulatório , respiratório , nu- tritivo, absorvente não transmitte ao cérebro as impressões, que recebe, quando todos os ac- tos da vida animal suppõe esta transmissão? A razão disto he simples; he que todos os phenomenos, que nos põe em relação com os seres visinhos, devião estar, e estão com eífei- çq debaixo da influencia da vontade, em quan- to- ro3 to que todos os que não servem senão á assi- milação, escapão, e devião com eífeito esca- par á esta influencia. Ora, para que hum phe- Komeno dependa da vontade, he preciso evi- dentemente, que tenhamos a-çonsiencia delle, e para que seja subtrahido á seu império, lie necessário, que esta consciência seja nulla. §. V. Das duas espécies de contractilidade t animal* e orgânica* • O modo o mais ordinário do movimento nos órgãos animaes he a <;ontracção. Algumas partes com tudo se movera dilataudo-se: taes sto o iris, os corpos cavernosoa, o bico do peito &c. de sorte, que as duas faculdades ge- raes, de que deriva a mobilidade espontânea, são a contractilidade, e a extensibilidade acti- va, que he preciso distinguir da extensibilida- de passiva, de que logo fallaremos, huma per- tence ávida, a outia ao tecido dos órgãos. Porém mui poucos dados existem ainda sobre a natureza, e o modo do movimento, que re- sulta da primeira; hum mui pequeno numero de órgãos no-la apresenta, para que fixemos nella a attenção nestas considerações geraes. A contractilidade he a que unicamente vai ocu- par-nos , e remetto os meus leitores, pelo que respeita á extensibilidade, ao que tem escrito os médicos üj Mompillier. A mobilidade espontânea, faculdade inhe- en-f 104 entre aos corpos vivos, nos apresenta, com* a sensibilidade, duas grandes modificações mui differentes entre si, segundo que nós a exami- namos nos phenomenos de huma, ou de outra vida. Ha huma contractilidade animal, e hu- ma contractilidade orgânica. Huma, essencialmente submettida ao influ- xo da vontade, tem seu principio no cérebro , recebe delle as irradições, que a põe em ac» ção, cessa de existir desde que os órgãos, em que se observa . não communicão com elle pe- los nervos, participa constantemente de todos os estados, em que elle se acha, tem exclusi- vamente seu assento nos músculos, que se cha- mâo voluntários , e preside á locomoção, á voz , aos movimentos geraes da cabeça , do thorax, do abdômen , &c. A outra, independente de hum centro commum, acha seu principio no órgão mesmo, que se move, escapa á todos os actos volountarios, e dá lugar aos pheno- menos digestivos , circulatórios , secretorios , absorventes, nutritivos, &c Ambas são, como as duas espécies de sen- sibilidade , essencialmente distinctas nas mor- tes violentas , que anniquilão subitamente a contractilidade animai, e permittem ainda á orgânica de se exercer mais, ou menos tempo 5 ellas o são também nas asphixias, imagens tão similhantes da morte, e em que a primeira he .inteiiamente suspendia.» a segunda existe em actividade; ellas, o são, çm/fim nas paralysias, que io5 •pie se produzem artificialmente, ou occasiona- das em hum membro pela enfermidade, e nas quaes todo o movimento voluntário cessa, fi- cando os movimentos orgânicos intactos. Huma, e outra espécies de contractilida- de se ligão á espécie correspondente de sensibili- dade , e são, por assim dizer, huma conse- qüência d'ella. As sensações dos objectcs exte- riores põe em acção a contractilidade animal. Antes que ..» contractilidade orgânica do co- ração se exerça, sua sensibilidade tem sido preliminarmente excitada pela afiuxo do sangue. Todavia o encadeamento não he o mes- mo nas duas espécie de faculdades. A sensibi- lidade animal pôde isoladamente exercer-se , sem que a contractilidade análoga entre ne- cessariamente por isso em exercício;- ha huma relação geral entre a sensação e a locomoção; porém esta não he directa, e actual; pelo contrario a contractilidade orgânica jamais se separa da sensibilidade da mesma espécie. A reacção dos conductos excretorios está imme- diatamente ligada á acção, que exercem sobre elles os fluidos segregados : a contracção do coração succede necessariamente á afluência do sangue. Por isso todos os autores não tem iso- lado estas duas causas em suas considerações, e mesmo na sua linguagem. A irritabilidade designa ao mesmo tempo a sensação , excitada, sobre o órgão pelo contacto de hum corpo , e a io6 a contracção do órgão reobrando sobre este corpo. A razão desta differença na relação des- tas duas espécies de sensibilidade , e de contra- ctilidade he muito simples: não ha na vida or- gânica algum intermédio no exercício das duas faculdades; o mesmo órgão he o termo em que termina a sensação, e o princípio donde par- te a contracção, Na vida animal, ao contrario , ha entre estes dous actos, funçcvs médias ás dos nervos, e do cérebro, as quaes podem em se interrompendo interromper a relação. He á mesma causa, que se deve referir a observação seguinte; a saber que existe sem- pre na vida orgânica huma proporção rigorosa entre a sensação e a contracção, em quanta que na vida animal huma pôde ser exaltada, ou diminuída, sem que a outra disto se re- sinta. $. VI. Subdivisão da contractilidade organic* em duas variedades* A contractilidade animal he quasi sempjre a mesma, qualquer que seja aparte em que tlla se manifesta; porém existem na contractili- dade orgânica duas modificações essenciaes , que parecerião indicar-lhe huma differença de natureza, posto que não haja senão-diversida- de na apparencia exterior: humas vezes com effeito se manifesta de hum modo apparente s ou- ■i«7 outras vezes, ainda que exista muito real, he absolutamente impossível de a apreciar pela inspecção. A contractilidade orgânica sensível se ob- serva no coração , no estômago , nos intestinos, na bexiga, &c. e se exerce sobre as massas con- sideráveis de fluidos animaes. A contractilidade orgânica insensível he aquella, em virtude cfá qual os conductos ex- cretorios reobrão sobre os fluidos respectivos, os órgãos secretorios sobre o sangue, que lhe aflue' , as partes, em que se opera a nutrição sobre seus suecos nutritivos, os lymphatícos so- bre as substancias, que excitão seus orifícios &c Por toda a parte, em que os fluidos estão dis- seminados em pequenas massas , ou mui dividi- dos , se desenvolve esta segunda espécie de con- tractilidade. Póde-se dar de ambas huma idéa assaz exacta, comparando huma á attração, que se exerce nos grandes aggregados de matéria , e a outra á afiinidade chimica, cujos phenome- nos se exercem nas moléculas das diversas su- bstancias. Barthez , para fazer conhecer a dif- ferença, que as separa , toma a comparação de hum rologio, cujo ponteiro dos segundos corre de huma maneira muito apparente a circunfe- rência, e o das horas se move, também, ainda que senão distingue seu andar. A contractilidade orgânica sensível corres- ponde quasi, ao que se chama irritabilidade ; e io8 e a contractilidade orgânica insensível, ao que se chama tonicidade* Porém estas duas palavras parecem suppor, nas propriedades, que indi- cão , huma diversidade de natureza , em quan- to que esta diversidade não existe senão na apparencia exterior.vPor isso prefiro o empre- gar para ambas, hum termo commum, con- tractilidade orgânica , que designa seu caracter geral, o de pertencer á vida interior, de ser independente da vontade, e de ajtintar á es- te termo commum hum adjectivo que expri- me o attributo particular de cada huma. Com effeito ter-se hião idéasberíi mexactas destes dous modos de movimentos, se se consi- derassem como pertencendo á principio'» diffe - rentes. Hum não he senão o extremo do ou- tro ; e ambos se encadeão por gradaçóes incer- tas. Entre a contractilidade obscura, porém real, e necessária cara a nutrição das unhas, dos cabellos, &c. ea que nos-apresentão os mo- vimentos dos intestinos, do estômago, &c. ha mudanças infinitas, que servem de transmissão: taes são os movimentos do dartos, das artérias , de certas partes do órgão cutâneo , &c. A circulação he mnito própria á nos-dar huma idéa deste encadeamento gradual das duas espécies de contractilidade orgânica; e com effeito a sensível, que preside no coração , e mos grossos vasos á esta função , pouco a pouco se torna menos" apparcnte , á medida,,. que o diâmetro do systema vasciüar diminue ; e rot> e em fim he insensível nos capilares, em que a tonicidade só se observa. Considerar, como a maior parte dos auto- res , a irritabilidade como huma propriedade exclusivamente inherente aos músculos, e co- mo sendo hum de seus caracteres distinctívos dos dos outros órgãos, e exprimir esta proprie- dade com huma palavra, que indique este as- sento exclusivo, he, penso eu, não a conce- ber tal, qual a natureza a distribuio nas nos- sas partes. Os músculos occupão sem duvida , debai- xo desta relação , a primeira ordem na escala dos sólidos animados; são o máximo da con- tractilidade orgânica ; porém todo o órgão , que vive , reobra como elles , inda que de huma maneira menos apparente, sobre o excitante , que artificialmente se-lhe-applica, ou sobre o fluido que no estado natural açode á elle paia Jhe levar amateria das secreções , da nutrição , da exhalação , ou da absorvencia. Nada de mais incerto, por conseqüência , epue a regra commummente adoptada para pro- nunciar sobre a natureza muscular, ou não muscular de huma parte; regra , que consiste em examinar , se ella se contrahe debaixo da acção dos irritantes natnraes, ou artificiaes. Eis-aqui como se admitte huma túnica carnosa nas artérias, inda que tudo, em sua Organização, seja estranho á dos músculos; como se pronuncia que o utero he carnoso, in- 110 inda qne huma multidão de diferençar o dia- tinga destas espécies de substancias; como se tem admittido huma textura musçuiosa no dar- tos, no iris, &c., inda que nada de similhante ahi se observa. A faculdade de se contrahir á acção dos irritantes está , como a de sentir desigualmen- te , repartida nos órgãos, que gozão delia era gráos differentes: não he concebe-la, o consi- dera-la como exclusivamente própria á certos. Não tem o seu assento unico na fibrina dos músculos, como alguns o tem pensado. Viver he a única condição necessária ás fibras para gozar delia. Seu particular tecido não influe senão sobre a somma que delia recebem ; pa- rece que á tal textura orgânica he determi- nada , se eu posso assim fallar, tal dose de contractilidade, e á outra textura differente dose, &c.; de sorte que para empregar as expres- sões, que me tem servido tratando da sensibili* . dade , ( expressões impróprias , he verdade , porém só Capazes de expressarem minha idéa} as differenças na contractilidade orgânica de nossas diversas partes, não se referem senão sobre a quantidade, e não sobre a natureza desta propriedade: eis-aqui em que consistem unicamente as numerosas variedades desta pro- priedade , segundo que se considera nos mús- culos, nosligamentos, nos nervos, nos ossos&c* Se hum modo especial de contração devia * ser exprimido nos mulculos por huma palavra par- III particular, sem duvida esta não seria a con* tractilidade orgânica, porém sim a dos muscu- los voluntários, pois que elles sós, são entra todas as nossas partes, os que se movem pelo influxo do cérebro. Porém esta propriedade he estranha á seu tecido, e não lhe vem senão deste órgão* porque quando cessão de commu- nicar-se directamente com elle pelos nervos, eessão também de pertencer ao movimento vo- luntário. Isto nos conduz á examinar os limites pos- tos entre huma, e outra espécie de contractili» dade. Temos visto que aquelles, que distin- guem os dons modos de sensibilidade, não pa- recem depender senão da proporção maior ou menor desta força; que á tal dose esta pro- priedade he, se eu me posso assim exprimir, animal; á tal outra mais fraca, orgânica; e que muitas vezes, pelo simples augmento ou diminuição de intensidade, se prestão , succes- siva e reciprocamente seus respectivos caracte- res. Temos visto hum phenomeno quasi análo- go nas duas subdivisões da contractilidade or- gânica. Não succede o mesmo com as duas gran- des divisões da contractilidade considerada em geral. A orgânica jamais pode transformar-se em animal; qualquer que seja a sua exaltação, eu seu augmento de energia» fica constante- mente da mesma natureza. O estômago , e os intestinos adquirem muitas vezes huma susce* pti- fT2 ptibílidade para a contracção, tal, que o me- nor contacto osfaz elevar, e lhe determina vio- lentos movimentos; ora estes movimentos con- serva o sempre entãp seu typo, e seu caracter primitivo; jamais o cérebro lhes regula as vi- brações irregulares, como no augmento desen- sibilidade orgânica, percebe as impressões, que antes lhe não chegavão. jDe donde nasce esta differença nos phe- nomenos da sensibilidade , e da contractilidade ? Eu não posso resolver esta questão de huma maneira exacta e rigorosa. §. VII. Extensibilidade, e contractilidade de tecido* Depois de haver apresentado algumas re- flexões geraes sobre as forças, que pertencem á vida de huma maneira immediata, vou exa* 'minar as propriedades, que não dependem se* não do tecido, ou do arraujamento orgânico das fibras de nossas partes, estas são a extensi- bilidade , e a contractilidade do tecido. Estas duas propriedades se succedem, se encadeão reciprocamente, e estão em huma, mutua dependência, como nos phenomenos vi- taes a sensibilidade , e contractilidade orgânica, ou animal. A extensibilidade do tecido, ou a facul- dade de se alongar, ou de se estender alçra de seu estado ordinário, por huma impulsão ex- II j extranha (o que a distingue da extensibilidade do iris, dos corpos cavernosos , &c.), pertence de huma maneira sensível á hum grande nu- mero de órgãos. Os músculos extensores to mão hum comprimento notável nas grandes exten- sões dos membros; a pelle se presta para en- volver os tumores que a elevão; as aponèvro- ses se estendem quando hum fluido se accumu-. Ia por baixo dellas, como se vê nas hydrope- «ias ascites , na prenhez , &c. as membranas mucosas dós intestinos, da bexiga, da vesicu- la, &c. as membranas serosas da maior parte das cavidades , apresentão hum phenomeno análogo na plenitude de suas cavidades res- pectivas : as membranas fibrosas, e os mesmos ossos são também disto susceptíveis; por isso no hydrocéphalo adura-mater, opericraneo, e os ossos do craneo , na espinha-ventosa * e no pedarthrocace , operiosiio , as extremidades , ou o meio dos ossos compridos soffrem huma se- semelhante extensão. O rim, o cérebro , o fí- gado nos abscessos, que se desenvolvem no seu interior , o baço , e o pulmão , quando huma grande quantidade de sangue lhes penetra o tecido, os ligamentos nas hydropesias articula- res, todos os órgãos, em huma palavra em mil circunstancias diversas, ncs offerecem pro- vas sem numero de«ia propriedade, que he inherente á seu tecido, e não prexisamente á sua vida , porque em quanto que» este tecido, permanece intacto , a extensibilidade subsiste*, H quan- ii4 quando mesmo que depois de muito tempo a Vida os tem abandonado. A decompcsiçao , a putrefacção, e tudo que altera o tecido orgâ- nico, he o unico termo do exercício de ta pro- priedade, na qual os órgãos são seitlpre passi- vos, e submettidcs á hum influxo mecânico da parte dos differentes corpos que obrão so- bre elles. Ha para os diversos órgãos huma escala de extensibilidade: no alto se poe os que go- zão de mais moileza no arranjamento de suas fibras, como os músculos, a pelle, o tecido cellular, &c. no baixo se achão os que carac- terisão huma grande densidade , como os ossos , as cartilagens, os tendões, as unhas ,&c. Guardemo-nos com tudo de nos deixarmos impor por certas apparencias sobre a extensi- bilidade de nossas partes. Assim as membranas lerosas, sujeitas ao primeiro golpe de vista á enormes extensões , se engrandessem com tudo muito menos por si mesmas, que pelo de- senvolvimento de suas pregas, como o provei em outra parte mui extensamente. Ass/'m a mudança da pelle que abandona as partes vi-- sirihas para vir cobrir certos tumores, poderia fazer julgar huma extensibilidade maior, do que aquella de que he suscepiivel. A' extensibilidade de tecido correspende hum modo particular de contractilidade , cujo car8Cter se pôde designar com a mesma pala- vra , ou com a expressão de contractilidade por fal- falta de extensão; com effeito, para que elr Ia entre em exercicio em hum órgão, basta que a extensibilidade cesse de ahi estar em acção. No estado ordinário a maior parte de nosr sós órgãos estão entre tidos em hum certo gráo de tensão por differenres causas; os músculos locomotores por seus antagonistas; os concavos por substancias diversas,- que encerrão ; os va- sos por fluidos que ahi circulão; a pelle de huma parte pela das partes visinhas; as pare- des alveolares pelos dentes, que contém , &c. de sorte que se estas causas cessão, a contrao çáo sobrevem ; cortai hum músculo comprido, o seu antagonista se encurta; despejai hum músculo concavo, elle se aperta;-embaraçai a artéria de receber o sangue; ella se torna li- ga me nto , cortai a pelle, os lábios da incisão 6e separão, levados pelo encolhimento das parr tes cutâneas visinhas; arrancai hum dente, o alveolo se oblitera, &c. Nestes casos, he a cessação da extensão natural que determina a contracção; nos ou- tros , he a cessação de huma extensão pre<- ter-natural. Por isso vemos reduzir-se o baixo- ventre depois do parto , ou da puncçao ; o seio maxillar depois da extirpação.de hum po- iypo; o tecido cellular depois da abertura de hum abscesso ; a túnica vagiual depois da ope- ração do hydrocele; a pelle do escroto depois da amputação de hum testículo volumoso , H ii que n6 t[ue a estendia; os sacos aneurismaes depois da evacuação do fluido, &c Este modo de contractilidade he perfeita- mente independente da vida ; não depende, Como a extensibilidade, senão do tecido , ou do arranjamento orgânico das partes, se bem que recebe das forças vitaes hum augmento de energia: por isso o encolhimento de hum músculo cortado depois da morte he muito me- nor . que o de hum músculo dividido, duran- te a vida; e a separação de pelle varia tam- bém nestas duas circunstancias; porém , inda que menos pronunciada, a contractilidade sub- siste sempre; não tem termo , como a extensi- bilidade , senão na desorganização das partes pela decomposição, putrefacção, &c. e não no anniquüamento de suas forças vitaes. A maior parte dos autores tem confundi- do os phenomenos desta contractilidade com as da contractilidade orgânica insensível, ou da tonicidade; taes são Haller, Blumenbach, Bar- thez , &c., que tem referido ao mesmo principio a reducção das partes abdominaes estendidas, a separação da pelle , ou de hum músculo dividi- do , e a contractilidade do dartos pelo frio, a encrespadura das partes por certos venenos, pe- los estyticos , &c. Os primeiros destps pheno- menos são devidos á contractilidade por falta de extenso, que jamais suppõe irritantes apphca- dos ás partes ; os segundos á tonicidade , que jamais se exerce senão pelo seu influxo. n7 Não ': tenho distinguido assaz estes dous modos de coutracções na minha obra sobre as membranas; porém deve-se estabelecer eviden- temente entre elles limites sensíveis. Huma applicação tornará isto muito mais sensível. Tomemos para isto hum órgão , On- de se encontrem todas as espécies de contrac- tilidades, de que tenho fallado até aqui, por exemplo , hum músculo voluntário ; distin- guindo-se nelle estas espécies com exactidão , poderemos dar disto huma idéa clara, e dis- tiiícta. Este músculo entra em acção, i.° pelo influxo dos nervos, que recebe do cérebro: he a contractilidade animai; a.° pela excitaçâo de hum agente chimico, ou physico, applica- do á elle, a qual lhe determina artificialmente hum movimento de totalidade análogo ao que he natural ao coração, eaos outros múscu- los involuntários: he a contractilidade orgâni- ca sensível, ou a irritabilidade; 3.0 pela che- gada dos fluidos, que lhe penetrão todas as partes para lhe levar a matéria da nutrição, e lhe desenvolvem hum movimento de cscillaçao parcial em cada fibra, e em cada molécula, movimento necessário á esta função como nas glândulas he indespensavel para a secre- ção,enos lymphatícos para a absorvencia &c.: he á contractilidade orgânica insensível, ou a tonicidade; 4.0 pela secção transversa de sen corpo , que determina a retracção das extre- n8 midâdes dívidas para seu ponto deunimento: he a contractilidade de tecido, ou a contracti- lidade por falta de extensão. Òada. huma destas espécies pôde isolada- mente cessar em hum -músculo: se se cortão os nervos, que ahi se vão distribuir, desappa- rece a contractilidade animal; porém os dous modos de contractiíidades orgânicas subsistirão. Se se impregna depois o músculo de ópio , deixando-lhe penetrar os vasos, elle cessará de se mover em totalidade com a impressão dos irritantes; perderá sua irritabilídede; porém os movimentos tônicos permanecerão nelle ainda, determinados pela affiuencia do sangue. IVla- tese em fim o animal, ou antes, deixandõ-o viver, liguem-se-lhe todos os vasos que se vão destribuir ao membro , o músculo perderá tam- bém suas forçai tônicas, e então restará só a contractilidade de tecido , que não ces- sará senão quando a gangrena, conseqüência da interrupção da acção vital, sobrevier ao membro. Este exemplo servirá facilmente para fa- zer apreciar as differentes espécies de contrac- tilidade nos órgãos, onde estas espécies estão juntas em menor numero, que nos músculos voluntários, como no coração, e intestinos, onde ha contractilidade orgânica sensível, or- gânica insensível, e de tecido, sendo menos a animal; órgãos brancos, os tendoes, as apone- vroses, os ossos, &c., onde as contractiíidades anj- rio animal e orgânica sensível faltão, a orgânica insensível e a de tecido ficão sós. Em geral estas duas ultimas são inhérenr íes á toda a espécie de órgãos, as duas primei- ras não pertencem senão á alguns em particu- lar.' Por rauto se deve eleger a tonicidade, ou contractilidade orgânica insensível por caracter geral de todas as partes, que vivem , e a con- tractilidade de tecido por attributo com- mum de todas as partes vivas, ou mortas, que estão organicamente tecidas. Em fim esta ultima contractilidade tem, como a extensibilidade, &c. á qual he sem- pre proporcionada , seus gráos diversos , e sua escala de intensidade: os rrusculos, a pelle , o tecido cellular, &c. de huma par- te ; os tendões, as aponevroses, os ossoe, da outra formáo debaixo desta relação os ex- tremos. Depois de tudo o que tem sido dito neste artigo, ke fácil ver que na contraclidade de qualquer órgão ha duas cousas a considerar, a saber, a contractilidade, ou a faculdade, e 3 causa que a poe em acção. A contractilidade he sempre a mesma, he devida ao crgão, ella lhe he inhérente , porém a causa, que lhe de- termina o exercício., varia singularmente,,. e disto dependem as diversas espécies decontrac- Çóes animaes, orgânicas, e por falta de exten- são ; de sorte que estas palavras deverião ap- plicar-se antes á de contracção, que exprime a 120 a acção, do que á de contractilidade, que lhe indica o principio. $. VIII. Resumo das propriedades dos corpor VIVOS Podemos, penso eu, offerecer o resumo deste artigo sobre as propriedades dos corpos vivos no quadro seguinte, que apresentará de- baixo do mesmo golpe de vista todas estas propriedades. C/S Cd p ■< p íà tÁ eu O u* e- Class ES. { f Gêneros. 1. Espécies. Variedades 1. Vital. Sensibilidade. ^ f 1. Animal. II. lOrgaiíica. II. I Contractilidade r 1. Animal. ■1 { n. J Extensibilidade. De tecido. \ jj LContractilidad* 11. j Sensível. vOrganica. ^ I II. ^-Insensível. Não tenho feito entrar neste quadro o modo de movimento do iria, dos corpos caver- nosos, &c. movimento que precede á afluên- cia 121 cia do sangue, e que não he determinado por elle, a dilatação do coração , è em huma pala- vra , esta espécie de extensibilidade activa, e vital, de que certas partes parecem susceptíveis. Confesso que. examinando a realidade desta modificação de movimento vital, não tenho ainda idéas claras e exactas sobre as relações, que as unem ás outras espécies de mobilidade, nem sobre as differenças, que as distinguem dellas. Dás propriedades, que acabo de expor, dimanão todas as funções, todos os phenome- nos, que nos-offerece a economia animal: não ha hum só que se lhe não possa referir na ul- tima analyse , assim como em todos os phenome- nos phisicos encontramos sempre os mesmos princípios, as mesmas causas, a saber, aattrac- ção , a elasticidade , &c. Por toda aparte, onde as propriedades Vitaes estão em actividade , ha hum desenvolvi- mento , e huma perda do calorico próprios do animal, que lhe compõe huma temperatura independente daquella do meio, onde vive. A palavra caloricidade he imprópria para ex- primir este phenomeno , que he hum effeito geral .das duas grandes faculdades vitaes era exercicio, e que não deriva de nenhuma sorte de huma faculdade especial, distincta dellas. Não se diz digestibilidade, respirabilidade * se- crecionabilidade, exhalabilidade, &c. porque a digestão, a respiração, a secreção, e a exhala* 122 ção são o resultado das funções, que derivão de leis communs: digamos outro tanto da pro- duçção do cidpr. He também debaixo desta relação que a força digestiva de Grimaud apresenta huma idéa inexacta. A assimilhação das substancias heterogêneas á nossos órgãos , he hum dos grandes productos da sensibilidade , e da mobi- lidade , e não de huma força própria. Taes são também as forças de formação de Blumenbach, de situação fixa de Barthez , e os princípios diversos admittidos por huma multidão de au- tores , que tem attribuido á certas funções, e a resultados, denominações, que indicão leis, propriedades vitaes, &c. A vida própria de cada órgão se compõe das modificações diversas, que soffrem em ca- da hum asjnsibilidade , e a mobilidade vitaes, modificações, que a levão inevitavelmente á circulação , e á temperatura do órgão. Cada hum no meio da sensibilidade, da mobilidade, da temperatura,. e da curculação geral tem hum modo particular de sentir, e de se mo- ver, hum calor independente do do corpo, huma circulação capillar , que, subtrahida ao império do coração, não recebe senão o influ- xo da acção tônica da parte. Porém deixemos hum ponto de physiologia tantas vezes discu- tido , e assaz profundado por outros autores. Não apresento ultimamente, o que acabo de dizer das forças vitaes, ienão como hum ob- 123 observado sobre as modificações diversas, que ellas experimentão nas duas vidas, ou como algumas ídéas desligadas, que formaráõ bem depressa a base de hum trabalho mais eoctenso. Não tenho indicado as diversas divisões das forças da vida , adoptadas pelos autores; o leitor as encontrará nâs suas obras, e colhe- rá facilmente a differença, que as distingue da que eu apresento. Advirto somente que se estas divisões tivessem sido claras, e exac- tas, se as palavras sensibilidade, irritabilidade, tonicidade , ^s.c. tivessem offerecido a todos o mesmo sentido, não encontraríamos nos es- criptos de Haller, de Lecat, de Wyth, de Haen , de todos os médicos delVlontpellier, &c. huma multidão de disputas estéreis para a sciencia, e incommodas para os que a estudão. ARTIGO OITAVO. Da origem , e dò desenvolvimento da vida ani- mal. lJE ha huma circunstancia que estabeleça huma linha real de demarcação entre as duas vidas, he sem duvida o modo , e a época de sua origem. Huma, a orgânica, está em acti- vidade desde os primeiros instantes da existên- cia ; a outra , a animal, não entra em exer- cício senão depois do nascimento , quando os 124 objectos exteriores offerecem ao indivíduo , que cercão , meios de correspondência , e de relação: porque, sem excitantes^ externos , es- ta vida está condenada á huma inacção ne- cessária, como sem os fluidos da economia, que são os excitantes internos da vida orgâ- nica , esta se extinguiria. Porém isto merece huma discução mais profunda. Vejamos primeiro corno a vida animal, primitivamente nulla , nasce depois, e se de- senvolve. §. I. A primeira ordem de funções da vida animal he nulla no feto. O instante , em que o feto começa a existir, he quasi o mesmo que o da conce- pção porém esta existência , de que cada dia. engrandesse a esfera , não he a mesma que aquella de que gozará quando tiver visto a luz. Tem-se comparado á hum somno profun- do o estado, em que elle se acha; esta com- paração hè. infiel: no somno a vida a nimal não está suspendida senão em parte; no fero está inteiramente •anniquillada, ou antes ella não tem começado. Temos1 visto que ella con- siste no exercício simultâneo , ou distincto das funções do pulso, dos nervos, do cérebro, dos Órgãos locomotores, e vocaes : .ora tudo he então inactivo nestas diversas funções. To- 125 Toda a sensação suppõe a acção dos cor- pos exteriores sobre o nosso , e a percepção desta acçáo , que se "faz em virtude da sensibi* lidade, a qual he aqui de duas sortes, oa de outro modo transmitte duas espécies de acçoes, humas geraes, e outras particulares. A faculdade de perceber impressões ge- raes , considerada em exercício, fôrma o tac- to, que mui distineto do apalpar , tem por ob- jecto de nos advertir da presença dos corpos, de suas qualidades quentes., ou frias, seccas, ou humidas, duras, ou molles, &c. e outros attri- butos communs. Perceber as modificações par- ticulares dos corpos, he a herança dos senti- dos, dos quaes cada hum se acha em relação com huma espécie destas modificações, âTem o feto sensações geraes ?N para o decidir, vejamos que impressões podem nelle exercer o tacto. Está subraettido á huma tem- peratura habitual; nada em hum fluido; cho- ca , nadando, contra as paredes do utero: eis-r aqui três origens de sensações geraes. Observemos primeiro que as duas primei- ras são quasi nullas, que elle não pôde ter a consciência, nem do meio, porque se nutre, nem do calor, que o penetra. Toda ■ a sensa-- ção suppõe huma comparação entre o estado actual, e o estado-passado. O frio não nos he sensível, senão porque temos experimentado hum calor antecedente ; ese a athomosfera es- tivesse em hum gráo invariável de tempera* tu- , I2t5 tura, não distinguiriamos este gráo: o Lapo- nio acha commodidade debaixo de hum clima, onde o Negro acharia a dor, e a morte, se ahi fosse transportado subitamente. Não he -no tempo dos solsticios , porém no dos equinoc- cios, que as sensações do calor , e do frio são mais vivas , porque então suas variedades mais numerosas fazem nascer * comparações mais s freqüentes entre o que sentimos , e o que tínhamos sentido precedentemente. Succede nas águas do amnius, como no calor; o feto não experimenta seu influxo porque o contacto de hum outro- meio lhe não he conhecido. Antes do banho, o ar não nos he sensível, sahindo d' água , a sua impressão nos he incommoda ; j porque ? he que então elle nos-affecta pela única razão, de que houve huma intermittencia na sua acção so- bre o órgão cutâneo. jO choque das paredes do utero he huma causa de excitação mais real, que as águas do amnius , ou o calor ? Parece que sim ao pri- meiro golpe de vista, porque o feto não es- tando submettido senão por intervallo á este excitante, a sensação, que lhe resulta deve ser mais viva. Porém observemos que a den- sidade do utero, sobre tudo na prenhez, não sendo muito superior á das águas, a impres- são deve ser menor. Quanto mais os corpos se aproximão por sua consistência ao meio, onde vivemos, menos sua acção he poderosa so- 127 sobre nós. A agua reduzida á vapor no ne- voeiro ordinário não afecta senão ligeiramen- te o tacto; porém á medida que ella se con» derrsa na athomosfera , e que espessando-se o nevoeiro se affasta da densidade do ar, causa huma affecção mais viva. Ò ar , para o animal, que respira , he pois verdadeiramente o termo da comparação geral, ao qual refere , sem disto se duvidar, todas as sensações do tacto. Se mettemos a mão no gaz ácido carbônico, o tacto não nos instruirá a destinguilo do ar , porque sua den- sidade he quasi.a mesma. A vivacidade das sensações anda em pro* porção direita da differença da densidade do ar, corn a dos corpos, objectos da sensação. Do mesmo modo, a medida das sensações do feto he o excesso da sensibilidade do utero so- bre o das agnas; este excesso não sendo mui- to considerável, as sensações devem ser obtu- sas. He assim que o que nos parece que tem huma grande densidade, deve menos vivamen- te affectar os peixes , pela razão do meio, n em que vivem. 'Esta asserção relativa ao feto, virá a ser mais geral, se ■lhe aj tintarmos esta: a saber, que as membranas mucosas, assento do tacto interno , como a pelle o he do tacto exterior, não tem ainda nelle começado suas funções. Depois do nascimento , continuamente era contacto corn os corpos extranhos ao nosso, achão 128 achão nestes corpos causas de irritação , que , successivamente renovadas , se fazem mais po- derosas para os órgãos. Porém no feto não ha sue cessões nestas causas; he sempre a mesma ourina, e o mesmo meconio , o mesmo mucò, que exercem sua acção sobre a bexiga , os in* testinos, a membrana pituitaria , &c. Concluamos de tudo isto que as sensações geraes do feto são fracas, ou quasi nullas, ainda que elle esteja cercado da maior parte das causas, que para ao diante lhas devão pro- curar. As sensações particulares não são nelle mais activas, porem isto depende verdadeira- mente da falta dos excitantes. O olho que a membrana pupillar fecha, o nariz , cujo desenvolvimento está apenas bos- quejado, não serião susceptíveis de receber impressões, suppondo que a luz, ou os chei- ros possão obrar sobre elles. Appflcada ao pa- ladar a língua não está em contacto com al- gum corpo", que possa produzir-lhe hum *en- timento de sabor; se o estivesse com as águas tío amnius, o effeito lhe seria nullo , porque , como o temos dito, ha nullidade de sensação aonde não ha variedade de impressão. Nossa saliva he saborosa para outro; e insipida pa- ra nós; O ouvido não he acordado por algum som; tudo er>rá socegado , tudo repousa em paz para o pequeno indivíduo. Eis-aqui pois já, be eu pos^o assim expri* mir- 129 mir-me, quatro portas fechadas nelle as seií* saçpes particulares, e que não se abriráo para Ihas-transmittir, senão quando tiver visto o dia. Porém observemos que a nullidade da ac- ção destes sentidos conduz quasi inevitavel- mente a do tocar. Este sentido está com effeito especialmen- te destinado á confirmar as noções adquiridas pelos outros , á rectifica-las mesmo ; porque muitas vezes elles são os agentes da illusão, em quanto que elle o he sempre da verdade. Por isso , em lhe arrribuindo este uso , a natu- reza o submette directaraente á vontade, em quanto que a luz, os cheiros os sons, Vem muitas vezes a nosso pesar tocar seus órgãos respectivos. O exercício dos outros sentidos o precede, e mesmo o determina jPóde conceber-se como poderia verificar 9e o tacto em hum homem , que nascesse privado da vista y do cheiro , e do gosto? O feto assimilha-se á este homem: elle tem com que exerça o tacto, nas suas mãos já muito desenvolvidas; esobre qne exerce-lo, nas paredes do utero. E com tudo está em huma nullidade constante da acção, porque não vendo , nao chejrando , não gostando , não ouvindo , não he conduzido por alguma cou- sa à tocar. Seus membros são, para elle , o que são para a arvore seus ramos, e seus ra- minhos, qüe não lhe communicão a impressão I dos i-30 dos corpos, que toca o , e com os quaes se ei*- trelação. Observo , de passagem , que ha huma grande differença do tacto, ao tocar, em ou- tro tempo confundidos pelos physiologistaa,, e vem a ser que a vontade dirige sempre as impressões do segundo, em quanto que as do primeiro , que nos-dão* as sensações geraes do quente, do frio , do secco , do humido , &c. estão constantemente fora de sen influxo. Poderão» pois em geral estabelecer que a porção da vida animal, que constitue as sen- sações , he ainda quasi nulla no feto. Esta nullidade na acção dos sentidos, sup- |>5e outra na dos nervos, que se lhe distri- buem , e do cérebro , donde elles partem ; por- que transmittir he a função de huns, perce- ber, a de outros. Ora, sem objectos de trans- missão, e de percepção , estes dous actos não poderiâo ter lugar. Da percepção' derivão immediatamente a memória , e a imaginação; de huma destas três faculdades o juizo; e deste a vontade. Toda esta serie de faculdades, que se suc- cedem , ese encadeão, não tem ainda começa- da no feto, pela mesma razão, que elle não tem ainda tido sensações O cérebro está na espectação do acto; tem o qne he preciso para Obrar; e não he a excitabilidade, he a excita- do , que lhe falta. Resulta diato que toda a primeira divi- 131 sfió da vida animal, que tem relação com ac- ção dos corpos exteriores sobre o nosso , está apenas bosquejada no feto: vejamos se sticce- de o mesmo com a segunda divisão, ou a que he relativa á reacção do nosso corpo sobre os outros. §. II. A locomoção existe no feio , porém per- tence nelle á vida orgânica. Vendo nos animaes a estreita coilexão, que ha entre estas duas divisões, entre aS sensações e todas as funções, que dependem dellas , por huma parte a locomoção, e a voz por outra, somos obrigados á acreditar que hu- mas estão constantemente em relação direeta com as outras, que o movimento voluntário cresce, ou diminue sempre á medida quei o sentimento do que cerca o animal cresce, ou diminue. Porque o sentimento fornecendo os materiaes da vontade, onde elle não existe, ella, e por conseqüência os movimentos, que delia dependem, não se podem encontrar. De inducções em inducçóes chegaríamos ,á provar que os músculos voluntários devem estar inacti- vos no feto, e que por conseqüência toda a es- pécie de movimento no tronco , ou nos mem- bros não pôde existir nelle. Todavia elle move-se ; e muitas vezes mesmo fortes balanços são o resultado de seus movimentos. Se não produz sons , não he I ii que 132 que os músculos da laringe sejão passivos; he que o meio necessário á esta função lhe falta. jComo se nade ligar a inércia da primeira parte da vida animal com a actividade da se- gunda? Vamos á manifesta-lo. Vimos, fallando das paixões, que os mús- culos locomotores, isto he os dos membros, do tronco, e em huma palavra, os que se dif- ferenção do coração , do estômago, &c. erão postos em acção por duas maneiras: i.° pela vontade, 2.0 pelas sympathias. Este ultimo modo de acção se verifica , quando na occasião da affecção de hum órgão interior o cérebro se affecta tamhem , e determina movimentos então involuntários nos músculos locomotores: por isso huma paixão dirige seu influxo ao fí- gado ; e o cérebro excitado sympathicamente , excita os músculos voluntários; então lie no fi- gaa\que existe verdadeiramente o principio de seus movimentos, os quaes, nestes casos, são da classe dos da vida orgânica:"de sorte que estes músculos, inda que sempre postos em acção pelo cérebro /pódein com tudo pertencer successiva- mente em suas funções á huma , e á outra vida. He fácil', depois disto, o conceber a loco- moção do feto; que não he nelle, como será no adulto, huma porção da vida animal; e seu exercício não suppóe vontade preexistente. , que a dirija, e lhe regule os actos ; he hum effeito puramente syrnpathico , e que tem seu principio na vida orgânica. 133 Todos os phenomenos desta vida se suc- cedem então , como vamos ver, com huma extrema rapidez; mil movimentos diversos se encadêão continuamente nos órgãos circulató- rios , e nutritivos; tudo ahi está em huma acção muito enérgica: e esta actividade da vida orgânica suppõe freqüentes influxos exer- cidos pelos órgãos internos sobre o cérebro, e por conseqüência numerosas reacções exercidas por este sobre os músculos, que se movem en- tão symphaticamente. O cérebro he tanto mais susceptível do se affectar por estas espécies de influxos, quan- to he então maib desenvolvido á proporção dos outros órgãos, e porque he passivo respec- tivamente ás sensações. Concebe-se pois agora o que são os movi- mentos do feto. Pertencem á mesma classe , como muitos dos do adulto , que se não tem ainda assaz distinguido; são os mesmos como os produzidos pelas paixões nos músculos vo- luntários ; assemelhão-se aos de hum homem que dorme, e que, sem que algum sonho agi- te o cérebro, se move com mais ou, menos força. Por exemplo, nada de mais commum que sobrevirem violentos movimentos ao som- no, que succede a,huma difficil digestão: he o estômago que , estando em huma viva ac- ção , agita o cérebro, o qual põe em activi- dade os músculos locomotores. A este respeito, distingamos.duas espécies de \ 134 de locomoções no somno: hunia, por assim di- zer , voluntária , produzida pelos sonhos , que he huma dependência da vida animal, a outra, effeito do influxo dos órgãos internos, tem sen principio na vida orgânica, a qual perten- ce , e he precisamente a do feto. Poderia encontrar diversos outros exem- plos de movimentos involuntários, e por con- seqüência orgânicos, executados no adulto pe- los músculos voluntários, é.próprios por conse- qüência para dar huma idéa dos do fero; po- rém os referidos bastão. Observemos somente que os movimentos orgânicos, assim como a affecção sympathica do cérebro , que he a sua origem, dispõe pouco a pouco á este órgão , caos músculos, a hum á percepção das sensa- ções , e aos outros aos movimentos da vida ani- mal , que começaráõ depois do nascimento. Vede ultimamente, sobre este ponto as judt- ciozas memórias do cid. Cabanis. Depois do que se tem dito neste artigo, podemos, penso, concluir co n segurança, que no feto a vida animal he nulla, que todos os actos únicos a esta idade, estão na dependên- cia da orgânica. O feto não tem, por assim dizer, nada nos seus phenomenos do que ca* racterisa especialmente a animal; sua existên- cia he a mesma que a do vegetal; sua des- truição não influe senão sobre hum ser vivo, e n§o sobre hum ser animado. Por isso na cruel alternativa de o sacrificar, ou de expor a 135 a mãi a huma morte quasi certa, a escolha não deve ser duvidosa. O crime de destruir seu similhante he mais relativo á vida animal_, que á orgânica. He o ente que sente, que reflecte , que quer, e que executa actos voluntários, e não o ente que respira, se nutre, digere, e em quem re- sidem a circulação, as secreções, &c. que ias mentamos * e de quem a violenta morte lie cercada de imagens horrjv.eis debaixo das quaes o homicida se pinta a nosso espirito A' medi- da que na serie dos animaes as funções intel- lectuaes decrescem, o sentimento triste, que nos causa a vista de sua destruição, se extin- gue , e se enfraquece pouco a pouco ; torna-se nullo, quando chegamos aosvegetaes, á quem a vida orgânica resta só. Se o golpe, que termina por hum assassi- nato a existência do homem, não lhe destruís- se senão e«ta vida, e que, deixando subsistir a outra, não alterasse em nada todas as facul- dades que estabelecem nossas relações com os entes visinhos, este golpe seria olhado indif- ferentemente; e Hão excitaria nem a piedade, para aquelle, que he a sua victima, nem o horror para aquelle, que he o seu instrumento. j Porque huma larga ferida, donde corre muito sangue , inspira o temor ? não he por- que ella suspende a circulação , mas porque o desfalecimento, q'e bem depressa he a sua conseqüência, rompe subitameutc todos os la- ços. 136 ços, que unem nossa existência a tudo, o que nos cerca, e á tudo, o que está fora de nós. §. III. Desenvolvimento da vida animal i edu- cação de seus órgãos. Hum novo modo, de existência começa para o infante , assim que sane do seio mater- no. Diversas funções se unem á vida .orgânica, de quem o ajuntamento se torna mais compli- cado , e de quem os resultados se multipiicão. A vida animai entra em exercício, estabelece entre o pequeno indivíduo, e os corpos visi- nhos relações até então desconhecidas. Tudo toma então nelle huma maneira de existir dif- ferente ; porém nesta época notável das duas vidas, em que huma se engrandece quasi em dobro, e a outra começa, no exterior ambas tomão hum caracter distincto, e o engrande- cimento da primeira não segue as mesmas leis do desenvolvimento da segunda. Observaremos bem depressa que os ór- gãos da vida interna alcanção de repente a perfeição; que desde o instante, em que co- meção á obrar, o fazem com tanta exactidão, como durante todo o resto de sua actividade. Pelo contrario os órgãos da vida externa tem precisão de huma espécie de educação; não al- canção senão pouco a pouco este gráo de per- feição , que sua acção deve para ao diante of- ferecer-uos. Esta importante differença merece hum 137 hum profundo exame: comecemos por apre- ciada na vida animal. Se divagamos pelas diversas funções desta vida que á nascença sahe toda do nada, em que estava submergida; observaremos no sen desenvolvimento hum progresso lento, e gra- duado ; e veremos que insensivelmente, e por huma verdadeira educação.os órgãos chegão á exercer suas funções com exactidão. As sensações, primeiro confusas, não pin- tão ao infante senão imagens geraes; o olho não tem senão a sensação da luz, o ouvido a do som, o gosto a do sabor, o nariz a do cheiro ; nada ha distincto nestas affecções. geraes dos sentidos. Porém o habito aperfeiçoa insensivelmente estas primeiras impressões: en- tão nascem as sensações particulares ; as gran- des differenças das cores, dos sons, dos chei- ros, e dos sabores são percebidas; e pouco a pouco as differenças secundarias o são também ; finalmente , depois de hum certo tempo o in- fante tem aprendido pelo exercício á ver, ouvir, gostar, sentir, e tocar. Tal como hum homem que sahe de hu- ma obscuridadade profunda, onde esteve mui- to tempo retido, he primeiro tocado somente pela luz , e não chega senão por gradação á distinguir os objectos, que lha reflectem. Tal, como eu o tenho diro, aquelle diante do qual se desenvolve pela primeira vez o espetáculo da magia dos nossos pantomimos, não percebe ao 13» ao primeiro golpe de vista senão hum todo, que o encanta, e não chega senão pouco a pouco á isolar os gozos, que lhe procurao na mesmo tempo a dança, a musica , as decora- ções , &c. Acontece o mesmo na educação do cére- bro , como na dos sentidos; todos os actos de- pendentes de sua acção não adquirem senão gradualmente o gráo de exactidão, ao qual estão destinados: a percepção, a memória, a imaginação, faculdades, a que as sensações pre- cedem , e determinão sempre, crescem , e se extendem á medida , que os excitantes novos vem á determinar-lhe o exercício. O juizo , de quem ellas sâo a tríplice base, não associa pri- meiro senão irregularmente noções mesmo ir- regulares; bem depressa mais clareza distin- gue seus actos; e em fim se tornão rigoro- sos e distinctos. A voz. e a locomoção apresentão o mes- mo phenomeno ; os gritos dos pequenos ani- maes não offerecem ao principio, senão hum são inforn>e , sem algum caracter; a idade os modifica pouco a pouco, e" não he senão de- pois dos exercícios freqüentemente repetidos, que affectão as consonâncias particulares de cada espécie, e com as quaes os indivíduos da mesma jamais se enganão, sobre tudo na épo- ca dos seus amores. Não fallo da palavra; por- que he muito evidentemente o fructo da educação. Vê- 139 Vêja-se o animal recém nascido nos seus movimentos multiplcados; seus músculos estão em huma continua acção. Como'tudo he no-. vo para elle , tudo o excita, tudo o faz mo» ver ; elle quer tocar tudo ; porém a progres- são , a mesma estação não tem ainda lugar nes- tas innumeraveis contrâcções dos órgãos mus- culares locomotores: he preciso que o habito lhe tenha ensinado a arte de coordenar huma contracção com outra, para produzir tal ou tal movimento, ou para tomar huma altitude particular; até então vacilla , bambalea, e ca- he a cada instante. Sem duvida a inclinação da bacia no fe- to humano, a.disposição de seus femures, a falta de curvadura de sua columna vertebral, &c. o tornão pouco próprio a estação logo de- pois da nascença; porém á esta causa se junta certamente a falta de exercício, j Quem não sabe que se se deixa muito tempo hum mem- bro immovel, elle perde o habito de se mo- ver , e que logo que se quer depois servir-se delle, he preciso que huma espécie de edu- cação nova ensine aos músculos a igualdade dos movimentos, que não executão primeiro, senão com irregularidade? O homem que se tivesse conderanado ao silencio por hum longo espaço de tempo, sentiria certamente o mesmo embaraço, quando quizesse rompello, &c. Concluamos pois destas diversas considera- ções , que devemos aprender a viver fora de nós J/p nòs, que ávida exterior se aperfeiçoa cada dia, e que tem precisão de huma espécie de ensaio, de que a natureza está encarregada para a vida interior. §. IV. Influxo da sociedade na educação dos orgaos da vida animal. A sociedade exerce sobre esta espécie de educação dos órgãos da vida animal hum in- fluxo notável; engrandece a esfera da acção de huns, estreita a dos outros, e modifica a de todos. Digo primeiro que a sociedade dá quasi constantemente á certos órgãos externos huma perfeição, que não lhesxhe natural, e que os distingue especialmente dos outros. Tal he com effeito nos nossos usos actuaes de nossas occupações, que a quella, á que nos dedica- mos habitualmente , exercita quasi sempre hum destes órgãos mais particularmente, que todos os outros. O ouvido do musico, o paladar dò cozinheiro, o cérebro do filosofo, os músculos do dançador, a laringe do cantor, &c. tem, além da educação geral da vida exterior, hu- ma educação particular , que o freqüente exercício aperfeiçoa singularmente. Poder-sei-a mesmo debaixo desta relação, dividir em três classes as occupações humanas. A primeira comprehenderia as que põem os sen- tidos especialmente em acção , como são a pin- tu- I4I tura, a musica, a escultura, as artes de fazer perfumes , de cozinhar , e todas aquellas, em huma palavra, cujos resultados encantâo a vista, o ouvido, &e. òcc. Na segunda se arran- jarião as occupações, que exercitão mais o cérebro: taes são a poesia, que pertence á imaginação, as sciencias de nomenclatura, que pertencem á memória, e as sciencias subli- mes, que correspondem ao juízo com mias es- pecialidade. As occupações, que, como a dan- ça, a arte da cavallaria ,* e todas as artes mecâ- nicas, põe em movimento os músculos loco- motores , formarião a terceira classe. Cada occupação do homem põe pois qua- si sempre em actividade permanente hum ór- gão particular: o habito de obrar aperfeiçoa a acção: o ouvido do musico entende em hu- ma harmonia , e a vista do pintor distingue em hum painel, o que o vulgo deixa escapar; muitas vezes mesmo este aperfeiçoamento de acção se acompanha no órgão mais exercido de hum excesso de nutrição. Vê-se isto nos mús- culos dos braços nos padeiros, nos dos membros inferiores nos dançadores , nos da face nos farcistas , &c. &c. Disse, em segundo lugar que a sociedade limita a esfera da acção de muitos órgãos exte rnos. Pela mesma razão que nos nossos hábi- tos sociaes hum órgão he sempre mais occtipado, os outros estão mais inactivos: o habito de não obrar os enferruja, como se diz, e pare- ce I42 ce perder em aptidão, o que ganha aquelle, que se exerce >tmqiTcutemente. A observação da sociedade prova'a cada instante esta verdade. Vede o sábio, que nas suas abstractas me- ditações continuamente exercita seus sentidos internos, e que, passando sua vida no silen- cio do gabinete, condemna á inacção os ex- ternos , e os órgãos locomotores ; vêde-o , quan- do por acaso se entrega á hum exercicio do corpo, rireis de sua pouca agilidade, e do seu ar emprestado. Suas sublimes concepções vos- admirarão; o peso de seus movimentos vos en- treter á. Examinai ao contrario o dançador , que, por seus ligeiros jpassos, parece retraçar a nos- sos olhos tudo , o que na fábula , os risos e as graças offerecem de illudente á nossa imagina- ção ; acreditarieis que profundas meditações de escripto tem conduzido esta feliz harmo- nia de movimentos: se entrardes em conver- sação com elle, achareis o homem menos ad- mirável debaixo destas exterioridades', que vos tem tanto surprehendido. O espirito observador , que analysa os homens na sociedade, faz a todo o instante similhantes observações?. Não vereis coincidir a perfeição da acção dos órgãos locomotores com a do cérebro , nem dos sentidos, e reci- procamente he mui raro que estes, sendo mui- to hábeis nas suas funções respectivas , os ou- tros sejão muito aptos para as suas. §. V. «48 §. V. Lei da educação dos órgãos da vida animal, He pois manifesto que a sociedade muda em parte a ordem natural da educação da vi- da animal, e que distribue irregularmente a seus diversos órgãos hnma perfeição, de que go- zarião sem eíla em huma proporção mais uni- forme , inda que sempre desigual. Huma somma determinada de força tem sido repartida em gerai á esta vida: em sum- ma esta somma deve ficar sempre a mesma, seja que "sua distribuição tenha lugar igual- mente , seja que ella se faça com desigualda- de ; por conseqüência a actividade de hum ór- gão suppoe necessariamente a inacção dos outros. Esta verdade nos conduz naturalmente á este principio fundamental da educação social, a saber, que se não deve applicar o homem a muitos .estudos ao mesmo tempo, se se quer que elle se adiante em cada hum. Os filósofos tem já muitas vezes repetido esta máxima; porém eu duvido que as razões moraes, em que se tem fundado , valhão esta bella obser- vação píiysiologica, que a demostra até. á evi- dencia , a saber, que para augmentar as for- ças de hum órgão * he preciso diminuilas nos outros: peloque não julgo inútil o- demorar- me ainda nesta observação, e apoia-la com hum grande numero de factos. 144 O ouvir, e sobre tudo o tacto , adqui- < rem no cego huma perfeição, que julgaria- mos fabulosa, se a diária observação não nos contestasse a realidade. O surdo-mudo tem na vista huma exactidão extranha áquelles , de quem todos os sentidos estão muito desenvol- vidos. O habito de nao estabelecer, senão pou- cas relações entre os corpos exteriores, e os sentidos, enfraquece á estes nos extaticos, e dá ao cérebro huma força de contemplação tal, que parece que nelles tudo dorme, menos es- ta víscera, na vida animai. Porém i que precisão ha de procurar nos factos extraordinários huma lei, de que o ani- mal no estado de saúde nos apresenta a cada instante a applicàção ? Considerai na série dos animaes a perfei- ção relativa de cada órgãos e vereis que , quan- do hum excede , os outros são menos perfei- tos. A águia de olho perspicaz não tem se- não hum cheiro obscuro ; o cão que se distin- gue pela fineza deste ultimo sentido, possue o primeiro em hum menor gráo; o ouvir so- bresahe no mocho, na lebre, &c. o morcego hè notável pela exactidão de seu tacto; a ac- ção do cérebro predomina nos macacos, o vi- gor da locomoção nos carnívoros, &c. &c. Cada espécie tem pois huma divisão de sua vidaanimal, que excede asoutras, estando estas á proporção menos desenvolvidas ; e não encontrareis alguma, em que a perfeição de de hum órgão não pareça ser adquirida, se- não á custa da dos outros. O homem tem em geral, fazendo abstrac* ção de toda outra consideração, o ouvido mais sensível que os outros sentidos, e com effeito o deve ter na ordem natural, porque a pala- vra, que continuamente faz exercer o ouvido, he para*elle huma causa premanente de acti- vidade , e por .isso de perfeição. Não he somente na vida animal que esta lei he sensível;. a vida orgânica está quasi constantemente submettida á ella em todos os seus phenomenos. A affecção de hum rim do- bra a secreção do outro. Ao abatimento de huma das parotidas, no tratamento das fistolas salivares, succede na outra huma energia de acção, que faz que ella desempenhe só as fun- ções de ambas. Vêja-se o que acontece em conseqüência da digestão; cada systema he então successi- vamente o assento de huma exaltação das for- ças vitaes, que abandonão as outras na mes- ma proporção. Logo depois da entrada dos alimentos no estômago, a acção de todas as vísceras gástricas se augmenta; as forças con- centradas sobre o epigastro abandonão os ór- gãos da vida externa. Disto procedem, como o tem observado diversos autores, as laxidóes, a fraqueza dos- sentidos para receber as impres- sões externas, a tendência ao somno, a faci- lidade dos tegumentos a se esfriarem, &c. K A" 140) A digestão gástrica sendo acabada , a vascular lhe succede, o chylo he introduzido no sistema circulatório , para ahi receber o influxo deste systema , e do da respiração : ambos então se tornão hum foco de acção mais pronunciada ;* as forças para ahi se trans- portão; o pulso se eleva; os movimentos do thorax se precjpitão, &c. He depois o systema glanduloso , e depois o systema nutritivo, que gozão de huma su- perioridade sensível no estado das forças vi- taes. Em fim, Jogo que elles se tem assim suc- cessivamente desenvolvido sobre todos, retor- não aos órgãos da vida animal; os sentidos tornão á tomar sua actividade, as funções do cérebro sua energia , e os músculos seu vigor. Aquelle , que tem reflecrido sobre o que sen- te depois de hnma comida copiosa, se con- vencerá facilmente da verdade desta obser- vação. O ajuntamento das funções representa então huma espécie de circulo de que huma amétade pertence a vida orgânica , e a outra a vida animal. As forças vitaes parecem suc- cessivamente correr estas duas metades: quan- do se achão em huma, a outra fica pouco acti- va; quasi como tudo parece alternativamente enfraquecer , e reanimar-se nas duas porções do globo , segundo que o sói lhe presta , ou lhe-nega seus raios benéficos. j Quereis vós outras provas desta desigual- da- « M7 dade da repartição das forças ? examinai a nu* trição ; em hum órgão he sempre mais activa, porque elle vive mais que os outros. .No fero o cérebro, os nervos , e os membros inferiores depois do nascimento, as partes genitaes, e as mamas na puberdade, &.c. parecem crescer á custa das outras partes; em qne a nutrição he menos pronunciada. Vede todas as enfermidades, as inflamma- ções, os espasmos , as hemorhagias espontâ- neas : se huma parte se torna o assento de hu-» ma acção mais enérgica, a vida, e as força» diminuem nas outras, j Quem ignora que a pratica da medicina está em parte fundada sobre este principio, que he o que dirige o uso das vtntosas, da moxa , dos vesicatorios , dos rubificantes, &c. &c. ? Depois desta multidão de considerações, podemos pois estabelecer como huma lei fun- damentai da destribuição das forças, que quan- do se engrandecem em huma parte, dimi- nuem no resto da economia viva; que a somma total jamais se augmenta; e que somente se transporta successivamente de hum órgão a ou- tro. Com este dado geral, he fácil dizer por- que o homem não pôde no mesmo tempo aper- feiçoar todas as partes da vida animal, e avan- tajar por conseqüência em todas as sciencias ao mesmo tempo. A universalidade dos conhecimentos, no mesmo indivíduo, he huma quimera, que re-, K ü pu- 148 pugna ás leis da organização, e se a historia nos offerece alguns gênios extraordinários, lan- çando hum explendor igual em muitas scien- cias , estes são outras tantas excepçÕes á estas leis. jQuem somos nós, para atrever-nos á as- pirar á perfeição em muitos objectos, quando as mais das vezes ella nos escapa em hum só? Se fosse permittido o unir ao mesmo tem- po muitas occupações , serião sem duvida as que tem mais analogia com os órgãos que põe* em acção , como as que se referem aos senti- dos , as que exercem o cérebro , as que fazem obrar os músculos, &c. ^ Em nos-restringindo assim á hum circulo mais estreito poderíamos mais facilmente supe- rar em muitas partes ; porém aqui ainda o se- gredo de ser superior em huma, he o ser me- díocre nas outras. Tomemos por exemplo as sciencias , que põe em exercício as funções do cérebro. Temos visto que estas funções se referem especialmen- te á memória, que preside ás nomenclaturas; á imaginação, que tem a poesia de baixo de seu império ; á attenção, que tem especialmen- te lugar nos cálculos; ao juizo , cujo domínio abraça a sciencia do raciocínio: ora cada huma destas diversas faculdades, ou destas diversas operações, não se desenvolve , e não se es- tende , se não á custa das outras. i Porque o habito de recitar as bellezas de Corneille, não engrandece a alma do actor, e não i4ç não lhe dá huma energia de Concepção acima da do vulgo? Isto he devido sem duvida ás disposisões naturaes, porém depende também de que nelle a memória , e a faculdade de imi- tar se exercitão especialmente , e que as oií-* trás faculdades do cérebro se empobrecem , por assim dizer, a fim de enriquecer á estas. Quando vejo hum homem querer ao mes- mo tempo brilhar pela agilidade de suas mãos nas operações de cirurgia, pela profundidade de seu juizo na pratica da medicina, pela ex- tensão de sua memória.na botânica, pela for- ça de sua attenção nas contemplações meta- physicas, &c. parece-me ver hum medico , que para curar huma moléstia, ou para expulsar, segundo a antiga expressão , o humor morbosò quer ao rne^mo tempo augmentar todas as se- creções, com o uso simultâneo dos sialogogos, dos diureticos, dos sudorificos, dos emmena- gogos, dos excitantes da biles, do suco pan- creatico , dos sucos mucosc , &c. â O menor conhecimento das leis da ecor nomia não bastaria para advertir á este medi- co , que huma glândula não deita mais fluido senão porque as outras deitão, menos ,'que hum destes medicamentos prejudica ào outro ^ e que exigir muito da natureza, he o meio mais seguro muitas vezes de nada obter del- ia ? Dizei outro tanto do homem, que quer que «eus músculos, seu cérebro-, e seus senti- dos adquirão huma perfeição simultânea, e 150 que 'pertende duplicar, e mesmo triplicar sua vida de relação , quando a natureza tem que- rido que possamos somente destacar de alguns de seus órgãos alguns gráos de força, para os ajuntar aos outros, porém jamais accrescentar a somma total destas forças. Quereis vós que hum órgão se torne su- perior aos outros, condemnai estes á inacção. Havia o bárbaro costume de castrar os ho- mens para lhes mudar a voz; e sem duvida a horrível idéa de cegallos para dedicallos á mu- sica vem do mesmo principio ; pois sabemos que os cegos não sendo distrahidos pelo exer- cício da vista, põe mais attenção ao do ouvi- do. Hum menino, que se destinasse á musica , e de quem se afastasse tudo, o que podesse af- fectar-lhe a vista, o cheiro , o tacto para o não ferir, senão com sons harmoniosos, faria sem duvida em dadas proporções muito mais rápidos progressos. He pois verdade o dizer que nossa supe- rioridade, em tál arte ou tál sciencia se mede quasi sempre pela nossa inferioridade nas ou- tfas, e que esta máxima geral, consagrada por hum antigo provérbio , que a maior parte dos filósofos antigos tem estabelecido, porém que muitos filósofos modernos quererião des- truir , tem por fundamento huma das grandes leis da economia animal , e será sempre tão hrimutavel como a base, scíbre a qual ella se apoia. §. VI. i5i , §. VI. Duração da educação dos órgãos da vida animal. . A educação dos órgãos, da vida animal se prolonga durante hum tempo, ao qual mui- tas circunstancias influem para poder determi- na-la ; porém o que ha de notável nesta edu- cação, he que cada idade parece estar consa- grada a aperfeiçoar certos órgãos em particular. Na infância os sentidos são especialmente educados; e tudo parece referir-se ao desen- volvimento de suas funções. Cercado qe no- vos corpos para elle, o pequeno indivíduo procura conhecer a todo>; tem, se eu posso exprimir-me assim, em huma erecção conti- nuada os órgãos , que estabelecem relações entre elle , e o que o rodêa : por isso tudo o que he relativo á sensibilidade se acha nelle muito desenvolvido. O systema nervoso com- parado com o muscular he proporcionalmente mais considerável que em todas as idades se- guintes , em quanto que para ao diante a maior parte dos outros systefnas predomina so- bre este. Sabe-se que para ver bem os nervos, se escolhem sempre cadáveres de crianças. A' educação dos sentidos se liga necessa- riamente o aperfeiçoamento das funções do cé- rebro , que se referem á percepção. A medida que a somma das sensações se engradece , a memória, e a imaginação como- ção 15* ção á entrar em actividade: A idade que se- gue a infância he a da educação das partes do cérebro, que com ellas tem relação: então ha, de hum lado muitas .-ens^ções antecedente^, pa- ra que huma possa exercer-se em no-lasretra- çar , e que a outra ache o typo das sensações illusorias , que nos-apresenta. De outro lado a pouca actividade do juizo nesta época favore- ce a energia da acção destas duas faculdades: então por isso a revolução. que conduz á pu- berdade , os gostos novos, que ella produz, e os desejos, que ella criav estendem a esfera da segunda. Quando a percepção, a memória, e a imagi- nação estão aperfeiçoadas, e sua educação e^tá concluída, a do juízo começa, ou antes se tor- na maisactiva; porque desde que temos mate- riaes, o juizo se exerce- Nesta época as funções dos sentidos, e huma parte das do cérebro não tem mais nada a adquirir, e todas as forças se concèntrão para o aperfeiçoamento deste. Depois destas considerações, he manifes- to que a primeira porção da vida animal, ou aquella , pela qual os corpos exteriores obião Sjftbre nós, e pela qual reflectimos esta acção, tem em cada idade huma divisão , que se fôr- ma e se engrandece; que a primeira idade he a da educação dos sentidos; que a segunda preside ao aperfeiçoamento da imaginação , e da memória; e que a terceira tem relação com o desenvolvimento do juizo. Não 153 Não façamos pois coincidir com a idade» em que os sentidos estão em actividade, o es" tudo das sciencias, que exigem o exercício. do juizo: sigamos em nossa educação artifi- cial as mesmas leis, que dirigem a educação natural dos órgãos exteriores. Appliquemos o infante ao desenho, á musica, &c. o adoles- cente ás sciencias da nomenclatura, e ás bei-. Ias artes, que a imaginação tem debaixo de seu império; e o adulto ás sciencias exactas, á aquellas, em que o raciocínio encadêa os factos. O estudo da lógica e das mathematicas terminavão a antiga educação: era esta huma vantagem entre as.suas imperfeições. • Em quanto á segunda porção da vida ani- mal , ou aqueila, pela qual o animal torna a obrar sobre os corpos exteriores, a infância he caractirisada pelo numero, freqüência e fraqueza dos movimentos ; a idade adulta por seu vigor, aadolencia por huma disposição miXr ta. A voz não segue estas proporções; está submettida aos influxos, que nascem sobre tu- do dos órgãos geniraes. Não me demoro nas modificações diver- sas , que dependem pelo que respeita á vida animal, dos climas, das estações, do sexo , &c Tantos autores tem tratado destas questões, que com difficuIdade poderia já ajuntar, ao que elles tem dito , alguma causa. Fallando das leis da educação nos órgãos da vida externa , tenho supposto nestes ór- gãos '54 gãos o estado de ittregridade completa, tende o que he preciso para, se aperfeiçoarem, e go- zando de toda a força de tecido, que he ne- cessária ; porém se sua textura originaria he fraca, delicada, ou irregular; se alguns ví- cios de conformação ahi se observao; então estas leis não podem ahi encontrar senão hu- ma applicação imperfeita. Assim o habito de julgar não rectifica o juizo, se o cérebro mal constituído apresenta em seus dous emisferios huma desigualdade de força , e de conformação ; e pela mesma razão o freqüente exercício da laringe, dos múscu- los locomotores, &c. jamais pode supprir a irregularidade da^ acção, que produz nelles huma irregularidade de organização, &c. &c. ARTIGO NONO. Da origem e do desenvolvimento da vida orgâ- nica. xX Cabámos dever ávida animal inactiva no feto; não se desenvolver senão A nasceuça, e seguir em seu desenvolvimento leis todas particulares: e a orgânica, pelo contrario, posta era acção quasi no instante, em que o feto foi concebido; de sorte que he ella quem co- meça a existência, desde que a organização he apparente; o coração lança á todas as par- tes o sangue que lbe leva os materiaes da nu- tri- 155 trição e do crescimento; he o primeiro forma- do, o primeiro em acção, e como todos os phenomenos orgânicos estão debaixo de sua dependência, do mesmo modo que o cérebro tem debaixo da sua todos os da vida animal, concebe se como as funções internas são logo postas em acção. ■ Ç. I. Do modo da vida orgânica no feto. Com tudo a vida orgânica do feto não he a mesma que a que ha-de gozar em adul- to. Indaguemos em que consiste a differença, considerada de hum modo geral. Temos dito que esta vida resulta de duas grandes ordens de funções , donde humas, como a digestão , a circulação, a respiração, e a nutrição assi- milhão continuamente ao animal as substan- cias , que o nutrem ; e as outras, como a exha- lação , as secreções, a absorvencia a privão das substancias tornadas heterogenias , de sorte que esta vida he hum circulo habitual de cria- ção , e de destruição: no feto este circulo se restinge singularmente. Primeiro as funções, que assimílhão , são muito menos numerosas. As moléculas não se achão subrnettidas, antes de chegar ao órgão, que devem reparar, á hum tão grande nume- , ro de acções, penetrão no feto, já elaboradas pela digestão , circulação , e respiração da mãi. Em lugar de passar pelo apparelho dos or- 156 órgãos digestivos, que parecem quasi inteira- mente inactivos á esta idade, entrão logo no systema circulatório ; e o seu trajecto ahi he menor. Não he preciso que vão successiva- mente apresentar-se ao influxo da respiração; e debaixo desta relação, o feto dos mamosos tem na sua organização preliminar huma grande analogia com os reptis adultos, nos quaes hu- ma pequena porção de sangue passa , sahindo do coração , aos vasos do pulmão, f i) As fj) Estou persuadido de que a theoria/anula mui- to obscura do feto, poderia ser aclarada pela dos ani- maes , que tem hurru organização, que se aproxima hum pouco da sua. Por exemplo, na rãa, na qual pouco sangue passi pelo, pulmão o coração he num or.^ão simples de huma auricula , e' de hum ventriculo úni- cos : e ha communicação, ou antes continuidade entre os dous systemas , venoso , e arterial, em quanto que nos mamosos os vasos por onde circuUv 0 sangue ru- bro, não .communicão com os que levão sangue ne- gro, senão he talvez pelos capillares. No feto o buraco botai, e o canal arterioso tornão também muito manifestamente contínuas as artérias, e as vêas ; nelle o coração he igualmente hum órgão simples, não formando, a pesar de seus septos, se- não huma mesma cavidade, em quanto que he do- brado depois da nascença. As duas espécies de sangue $e misturão nesta idade, como nos reptis, &c. Ora provarei mais abaixo que no infante , que tem res- pirado, esta mistura seria bem depressa mortal; e que o sangue negro, circulando pelas artérias, o cas- sionaria as asphyxia mui promptamente ao animal. .'Don- de nasce' pois esta differença ? não se pôde ^estudar no feto; será preciso talvez pròcuralla nas rãa, nas salarnandras, e outros reptis > que podem por sua or- *57 As moléculas nutrientes passão pois qua* si directamente do systema circulatório ao da nutrição. O trabalho geral da assimilhação he por conseqüência muito mais simples, e muito menos complicado nesta idade, do que na se- guinte. Por outra parte as funções, que de com- põe habitualmente nossos órgãos, e as que transmittem ao exterior as substancias torna- das estranhas, nocivas mesmo á seu tecido', depois de os haver formado em paite, estão nesta idade em huma inacção quasi completa. A exhalação pulmonar, o suor, a transpira- ção não tem ainda começado nos seus órgãos respectivos. Todas as secreções da bile , da ourina, e da saliva , não fornecem senão hu- ma quantidade de fluidos muito pequena ern proporção da que devem dar para o diante; de sorte que a porção do sangue, que ellas, assim como as exhalaçÕes hãode consumir no adulto, refluem quasi inteiramente para o sys- tema da nutrição. A vida orgânica do feto he pois notável, por huma parte, pela extrema promptidão na assimilhação, a qual depende de que as funções concorrendo á este trabalho geral , são era mui- ganização estar muito tempo privados de ar, pheno- meno, que os aproxima ainda dos mamosos vivendo no seio.de sua mãi. A historia da respiração perma- necerá incomptera, em quanto não aclararmos estas importantes questões, 15» muito pequeno numero ; e por outra , pelo extremo vagar na desassimilhação, o qual de- riva da pouca acção das diversas funções, que são os agentes deste grande phénomeno. He fácil, depois das considerações prece- dentes, conceber a rapidez notável, que ca- racterisa o crescimento do feto , a qual he em disproporção manifesta com a das outras ida- des. Gom effeito , em quanto que tudo acede- ra a progressão da matéria nutritiva para as partes, que deve reparar , tudo'parece, ao mesmo tempo, forçar esta matéria, que não tem emunetorios á deter-se nas partes. Ajuntemos á grande simplicidade da assi- milhação no feto a grande actividade dos ór- gãos , que á ella concorrem, a qual depende da somma mais considerável das forças vitaes, que então possuem. Todas as da economia pa- recem com effeito concentrar-se nos dous syste- mas, circulatório, e nutritivo; as da digestão, da respiração , das secreções , e da exhalação , não estando senão em hum exercício obscuro, só gozão dellas em hum fraco gráo: o qne ha de menos nesta, lia de mais nas primeiras. Se observarmos agora que os órgãos da vida animal , condensados a huma inacção forçosa não são 0 assento senão de huma mui pequena porção de forças vitaes, cujo exces- so reflue então para a vida orgânica, será fá- cil conceber que quasi a totalidade das forças, que para o diante mc devem desenvolver ge- * ' ral* '59 ralmente em todos os systemas, se acha então concentrada sobre os que servem para nutrir, e compor as partes diversas do feto , e que por conseqüência, referindo-se tudo nelle á nu- trição, e ao crescimento, estas funções devera ser manifestadas nesta idade por huma energia estranha á todas as outras. §. II. Desenvolvimento da vida orgânica de- pois do nascimento. Sabido do seio materno o feto experimen- ta na sua vida orgânica hum crescimento no- tável: esta vida se complica mais; sua exten- são se torna quasi dobrada; muitas funções, que não existião antes , se lhe accrescentão , e as que existião se engrandecem. Ora, nesta re* volução notável, observa-se huma lei toda op- posta áquella, que dirige o desenvolvimento da vida animal. Os órgãos internos, que então entrão em exercício, ou que augmentão muito sua ac- ção , não tem precisão de educação alguma; alcanção de repente huma perfeição, a qual os da vida animal não conseguem , senão pelo habito de obrar muitas vezes. Hum rápido golpe de vista sobre o desenvolvimento desta vida, bastará para nos convencer disto. A' nascença a digestão, a respiração, #c. huma grande parte das exhalaçães , e das ah- sorvencias começão de repente á exercer-se : ora, í6o Ora, depois das primeiras inspirações, e expira- ções , depois da elaboração no estômago do piimeiro leite mamado pelo infante, depois que exhalantes do pulmão , e da pelle tem os arrojado algumas porções de seus fluidos respec- tivos , os órgãos respiratórios, digestivos, e exhalantes obrão com huma facilidade igual á aqiiella, que terão sempre. Então todas as glândulas, que dormião, por assim dizer, que não derramavão senão huma quantidade muito pequena de fluido, São despertadas do seu adormecímento por meio da excitação produzida por differenies corpos na extremidade de seus conductos ex- cretorios; A passagem do leite á extremidade dos canaes de Sténon, e de Warthon , do chirno ao do choledoco, e pancreatico , o contacto do ar no orifício da uretra, &c. despertão as glându- las salivares, o fígado , o pancreas, o rim , &c. O ar na superfice interna da traca-arteria , e dos narizes, os alimentos na das vias digestivas , &c. excitão nestas diíferentes partes as glân- dulas mucosas, que entrão em acção. *• Neste tempo também começão as excre- ções , que até então tinhão esta suspendidas pelo pouco fluido separado pelas glândulas. Ora , observemos estes diversos phenomenos» e veremos executarem-se desde logo com exa ctidão , sem que os diversos órgãos , que ahi concorrem , necessitem precisão de alguma es- pécie de educação. i6i ; Porque ha esta differença no desenvolvi- mento das duas vidas? Não o indagarei; so- mente observarei que pela mesma razão , que na época de seu desenvolvimento , os órgãos da vida interna não se aperfeiçoão pelo exercício, e habito; que elles alcanção , entrando em acti- vidade , o gráo de exa&idão , que terão sem- pre ; cada hum não he para ao diante susce- ptível de adquirir sobro os outros hum grão de superioridade , como o temos observado na vi- da animal. Todavia nada de mais commum , que a predominância de hum systema da vida qrga- nica sobre os outros; humas vezes he o appa- relho vascular, outras o pulmonar, muitas ve- zes o ajuntamento dos órgãos gástricos, o fíga- do sobre tudo , que são superiores aos outros por sua acção , e imprimem mesmo então hum caracter particular ao temperamento do indi- víduo. Porém isto depende de outra cousa: he da organização primitiva , da estructura das partes , e de sua conformação, que nasce esta superioridade ; não he o producto do exercí- cio , como na vida animal. O feto no seio ma- terno , e o infante ao nascer apresentão este phenomeno em hum gráo tão real vque inda menos apparente, como nas idades seguintes. Do mesmo modo o enfraquecimento de hum systema das funções internas depende sem- pre , ou da constituição originaria, ou de al- guns vicios causados accidentalmente por huma i6ft affecção morbosa, que gasta as forças elásti- cas organxas deste systema, ficando intactas as das outras. , ^ Tal he pois a grande differença das duas vidas do animal, pelo que respeita á desigual- dade de perfeição dos diversos systemas de fun- ções , de que cada huma resulta ; a saber, que em huma a predominância , ou a inferioridade de hum systema relativamente aos outros , de- pende quasi sempre da actividade , ou da inér- cia maior deste systema, do habito de obrar, ou de não obrar; e que na outra ao contra- rio, esta predominância, ou esta inferioridade está immediatamente ligada á textura dos ór- gãos , e já mais á sua educação. Eis-aqui por que o temperamento physico , e o caracter moral não são susceptíveis de mudar-se pela'educação, que modifica tão prodigiosamente os actos da vida animal; porque , como o temos visto, ambos pertencem á vida orgânica. O caracter he , se eu me posso exprimir as- sim , a physionomia das paixões; o tempera- mento he a das funções internas: ora humas, e outras sendo sempre as mesmas, tendo huma direcçao , que o habito e o exercício já mais, desarranjão , he manifesto que o temperamen- to , e o caracter devem ser também subtrahidos ao império da educação. Ella pode moderar o influxo do segundo , aperfeiçoar assás o juizo , e a redexão , para tornar-lhes o império superior ao seu, e fortificar a vida animal, a fim de que 163 que resista ás impulsóes da orgânica. Porém querer com ella desnaturalisar o caracter, aba- ter , ou exaltar as paixões, de quem he a ex- pressão habitual, engrandecer , ou restringir sua esfera, he huma empresa análoga á °de hum medico, que intentasse levantar, ou abai- xar alguns gráos, e por toda a vida , a força da contração ordinária, que tem o coração no ^estado de saúde , precipitar , ou moderar habi- tualmente o movimento natural das artérias,e que he necessário á sua acção, &c. Advertiríamos á este medico , que a circu- lação , a respiração , #c. não estão debaixo do domínio da vontade ; e que não podem ser mo- dificadas pelo homem, sem passar ao estado-en- fermo , &c. Façamos a mesma advertência á aquelles, que crem que se muda o caract er , e pela mesma razão as paixões, pois que estas são hum producto da acção de todos os órgãos internos, ou que ahi tem ao menos especial- mente seu assento. ARTIGO DÉCIMO. Do fim natural das duas vidas. .ZA.Çabámos de ver as duas vias do animal começando em épocas assás distantes huma da outra , e desenvolvendo-se seguindo leis, que são absolutamente inversas. Vou mostra-las agora L ii ter- 164 terminando-se também de huma maneira diffe- rente , cessando suas funções em tempos mui distinctos,e apresentando , logo que acabão, caracteres tão diversos, como em toda a duração >•• de sua actividade. Não me proponho fallar a- qui se não da morte natural; todas, as que dependem de causas accidentaes, serão o obje- cto da segunda parte desta obra. §. I. A vida animal cessa primeiro na morte natural. A morte natural he notável, por que ter- mina quasi inteiramente a vida animal, mui- to tempo antes que a orgânica acabe. Vejamos como o homem se extingue no fim de huma longa velhice , morre por partes, suas funções exteriores acabão humas depois de outras; todos os seus sentidos sefechão suc- cessivamente ; e as causas ordinárias das sensa- ções passão por elles sem os affectar. A vista se obscurece , turva-se , e cessa ern fim de transmittir a imagem dos objectos, o que constitue a cegueira senil. Os sons ferem primeiro confusamente o ouvido, bem depres- sa elle se torna inteiramente insensível á el- les; o envoltório cutâneo encorreado . endure- cido , privado em parte dos vasos, que se tem obliterado, só he o assento de hum tacto obs- curo , e pouco distincto. Além disto o habito de sentir lhe tem embotado o sentimento. To- dos i°"5 dos os órgãos dependentes da pelle se enfra- quecem , e morrem ; os cabellos, e a barba embranquecem ; privados os suecos, que os nutrião, hum grande numero delles cabe.. Os cheiros não fazem sobre o nariz se não huma fraca impressão. O gosto se sustem hum pouco , porque , ligado á vida orgânica tanto , como á animal, he necessário para as funções interiores: por isso quando todas as sensações agradáveis fogem ao velho, quando sua ausência tem já quebra- do em parte os laços, que o prendem aos cor- pos , que o rodeão, este lhe* resta ainda, e he o ultimo fio , pelo qual está suspendida a feli- cidade de existir. Assim isolado'no meio da natureza, pri- vado já em parte das funções dos órgãos sensi- tivos , o velho vê bem depressa extinguir-se lambem as do cérebro , e cessa nelle quasi de rodo a percepção , pela razão que quasi não ha cousa alguma da parte dos sentidos , que lhe determine o exercício ; a imaginação se embo- ta, e bem depressa se torna nulla. A memória das cousas presentes se des- troe, o velho se esquece n' hum instante do que acaba de se lhe dizer ,< porque seus senti- dos externos enfraquecidos, ejá por assim di- zer, mortos, não lheconíirmão o que seu espi- rito lhe ensina. As idéas fogem ,. quando as imagens traçadas, pelos sentidos lhe não retém o vestígio. Pelo contrario a lembrança do passa- do i66 do fica ainda nesta ultima idade. O que o velho sabe de outro tempo , são seus sentidos, que lho tem ensinado, ou ao menos que iho tem confirmado. Differe do infante , em que este não julga senão depois das sensações , que experimenta; e que aquelle, o não faz senão depois das que tem experimentado. / O resultado destes dois estados he o mes- mo , por que o juizo he igualmente incerto, seja que as sensações actuaes , seja que as sen- sações passadas lhe sirv,ão exclusivamente de apoio ; sua igualdade depende essensialmente de suas comparações, j Quem não sabe, por exemplo , que nos juizos fundados na visão , a impressão actual "nos enganaria muitas vezes, se a impressão passada não rectificasse o erro? Por outra parte não se observa, que bem de pressa as sensações antecedentes se tornão con- fusas , se sensações novas, e análogas não tor- não a gravar as feições do quadro , que tem deixado em nos. O presente, e o passado são pois igual- mente necessários nas nossas sensações para a perfeição do juizo, que resulta dellas. Se hum Ou outro* falta; cessa a comparação entre elles, e falta por conseqüência a exactidão no juizo. Eis-aqui como a primeira, ea ultima ida- de são igualmente notáveis por Mia incerteza, e como se exprime com muita verdade, quan- do se diz que os velhos cahem na infância; es- / 167 estes dous períodos da vida se tocão pela irre- gularidade do juizo; não differ.em senão pe- lo principio desta irregularidade. Do mesmo modo que a interrupção das funções do cérebro he no velho huma conse- qüência do anniquilamento quasi inteiro das do systema sensitivo externo , do mesmo mo- do o enfraquecimento da locomoção , e da voz succedem inevta velvente á inacção do cére- bro. Este órgão reobra sobre os músculos na mesma proporção , que os sentidos obrão sobre elle. Os movimentos do velho são lentos, e ra- ros; não sahe senão cem custo da atitude,em que se acha. Assentado perto do fogo , que o aquece , ahi passa os dias concentrado em si mesmo , estranho ao que o cerca , privado de desejos , de paixões, e de sensações, fallando pouco , po que nada o determina á romper o silencio , e feliz de sentir que ainda existe , quando todos os outros sentimentos se tem já quasi dissipado para eííe. A junte-se á esta causa de inacção dos ve- lhos a rigidez de seus músculos, e a diminui- ção de contractilidade nestes órgãos-,, sem du- vida isto ahi influe especialmente, porém esta não he a razão principal, pois £. .e o coração , as fibras musculares dos intestinos contrahem também esta rigidez, e são privados com tu- do , com menos presteza , que os mnsculos V9- luntanos, da faculdade de se mover. Não he a i68 a faculdade , que estes perdem , he a causa que determina nelles o exercício , quero dizer, a acção cerebral. Se fosse possível formar hum homem , em parte com os órgãos dos sentidos, e o cérebro de hum velho, e em parte com os músculos de hum adolescente; os movimentos voluntá- rios neste homem, não serião mais desenvolvi- dos , por que não basta que hum músculo pos- sa contrahir*se , he preciso que sua força seja posta em acção ; ora j que causa determinará aqui esta acção? He fácil ver, depois do que acabamos de dizer , que as fuuções externas se extiu- guem pouco a pouco no velho , e que a vida. animal tem já quasi inteiramente cessado , quan- do a orgânica está ainda em actividade. De- baixo desta relação o estado do animal, que a morte natural vai anniqullar., se aproxima daquelle , em que se achava no seio de sua mãi, e mesmo daquelle do vegetal, que não vive senão no interno , e para quem toda a natureza está em silencio Se agora se traz á memória que o somno corta mais de hum terço de sua duração á vida animal; se se ajunta este intervallo de acção á sua ausência completa nos primeiros nove mezes , e á inactividade quasi inteira , á qual se acha reduzida nos últimos tempos da exis- tência , será fácil ver quanto he grande a des- proporção de sua duração com a da vida or- i6o ganica , que se exerce de huma maneira con- tinuada. Porém j porque , quando temos cessado de existir exteriormente, existimos comtudo no interior , posto que os sentidos, a locomoção &c. estão destinados á por-nos em relação com os corpos, que nos devem nutrir?jPorque estas funções se enfraquecem em maior dispropor- ção, que as internas? j Porque não ha huma relação exacta entre sua cessação ? Não posso inteiramente resolver esta ques- tão , e só advirto que a sociedade influe espe- cialmente nesta differença. O homem no meio de seus similhantes se serve muito de sua vida animal, de quem .a. força elástica he habitualmente mais fatiga da do que a da vida orgânica. Tudo se gasta na" quella pelo influxo social; a vista pelasltizes artificiaes; o ouvido pelos sons mui repetidos, e sobre tudo pela palavra, que falta aos ani- maes , cujas communicações reciprocas, por meio do ouvido são muito menos numerosas ; o cheiro pelos cheiros depravados; o gosto por sabores, que não estão na natureza; o tocar, e o tacto pelos vestidos; o cérebro pela refle- xão , &c. e todo , o systema nervoso por mil affecções, "que só a sociedade dá , ou ao menos que ella multiplica. Vivemos pois no exterior com excesso , se eu posso servir-me deste termo ; e abusamos da vida animal; que está circunscripta pela na- 17° natureza nos limites, que temos muito engran- decido para sua duração ; e por isso não he de admirar que acabe promptamente. Com effei- to , temos visto as forças vitaes divididas em duas ordens , huma pertencente á e>ta vida , a outra á orgânica. Podem-se comparar estas duas ordens com duas luzes , que ardem ao mes- mo tempo , e que não tem para alimento se- não huma quantidade determinada de matéria. Se huma he mais excitada que a ourra , se- mais vento a agita, he preciso que ella se ex- tinga muito mais promptamente. Este influxo social sobre as duas vidas he , até hum certo ponto , vantajoso ao homem , desliga-o pouco a pouco dos laços, que o prendem a tudo que o cerca , para que se torne assim menos cruel o instante , que vém romper estes laços. A idéa da nossa ultima hora não nos he penivel , senão porque termina nossa vida animal, e porque destroe todas as funções , que nos põe ein relação com o que nos cerca: a privação destas funções he a que cobre de es- panto e terror as bordas da nossa sepultura. Não, he a dor , o que tememos: quantos moribundos olharião a existência , como hum precioso dom , ainda que a comprassem á custa de huma serie não interrompida de tormentos. Vede o animal , que tem pouca vida exterior , e nenhuma relação senão para suas necessida- des materiaes ; elle não estremece vendo o ins- tante, em que vai cessar de existir. Se 17I Se fosse possível suppor hum homem em quem a morte não destruisse senão as funções internas como a circulação , a diges* tão, as secreções , &c. deixando' subsistir o ajuntamento das funções da vida animal, este homem veria com indifferença aproxi- mar-se o termo de sua vida orgânica, porque conheceria que o bem da existência não lhe está unida, e que se achará no estado, de- pois deste gênero de morte , de sentir, e experimentar quasi tudo, o que antes consti- tuía sua felicidade, Se a vida animal pois vem a cessar por gradaçóes; se cada hum dos nós, que nos en- cadeão ao prazer de viver. se rompe pouco a pouco , este prazer no escapará sem que nos apercebamos d' elle , e já o homem terá esque- cido o seu preço, quando a morte vier a des- carregar o golpe. He o que observamos no velho , que che- ga ,pela perda sucessiva,e parcial de suas fun- ções externas, á perda total de sua existência. Sua destruição se assemelha á da do vegetal, que , sem relações algumas , não tendo a cons- ciência de sua vida , não pôde ter a de sua morte. J. II. A vida orgânica não acaba na morte natural, como na morte accidenlal. A vida orgânica , que conserva o ve- lho da perda quasi total da vida animal , ter- mi- 172 mina nelle de huma maneira toda differente» da que nos offerece seu fim nas mortes violen- tas , e súbitas, Estas tem verdadeiramente dous períodos: o primeiro se distingue pela cessação repentina da respiração , e da circulação , fun- ções , que acabão quasi sempre no mesmo tempo , que a vida animal; o segundo, mais lento em seusplenomenos, nos mostra o termo das outras funções orgânicas, que chega de huma maneira lenta,e graduada. Os suecos digestivos dissolvem ainda no estômago os alimentos , que ahi se achão , e sobre os quaes suas paredes , assaz muiro tem- po irritaveis , podem também obrar. As espe- riencias dos médicos Inglezes e Italianos sobre a absorvencia, as quaes eu tenho repetido to- das , tem provado que esta função permanece muitas vezes em actividade depois da rnorte geral, se não tanto tempo,como-alguns o tem assegurado , ao menos durante hum intervallo muito sensível, j Quem ignora que as excreções da ourina ,das matérias fecaes, effeito da irrita- bilidade conservada na bexiga , e no recto, se fazem muitas horas depois das mortes súbitas ? A nutrição he também manifesta nos ca- bellos, e unhas, se-lo-hia sem dúvida em todas as outras, assim como as secreções , sepodesse- mos observar os movimentos insensíveis, de que estas duas funções :esultão. Sendo o co- ração tirado nas rãas , póde-se observar ainda a circulação capillar pelo só influxo das forças to- 173 tônicas. O calor animal se conserva na maior parte das mortes súbitas, e nas asphixias era particular, muito além do termo necessário á hum corpo não vivente , para perder aquelle, que lie desenvolvido no instante, em que cesea a vida geral. Poderia ajuntar á estas observações huma multidão de outros factos, que provarião igual- mente que a vida orgânica acaba nas mortes súbitas de huma maneira lenta, e graduada; que estas morres desiroem primeiro a harmo- nia das funções internas, que atacão lambem de repente a circulação geral, e a respiração; porém que não tem sobre as outras senão hum influxo snccessivo : nestes gêneros de morte ter- mina primeiro o todo, e depois as partes da vi- da orgânica. Pelo contrario naquella-, que conduz a ve- lhice , a união das funções não cessa senão porque cada huma se tem successivamente extinguido. As forças abandonão pouco a pouco a cada ór- gão ; a digestão se torna languida ; as secre- ções , e as absorvencias acabão ; a circulação ca- pillar se embaraça : e desprovida das forças tô- nicas , que ahi presidem habitualmente , se suspende. Em fim a morte vem também suspen- der nos grossos vasos a circulação geral. He o coração quem acaba ultimo suas contracções: he como se diz , o ultimum moriens. Eis-aqui pois a grande differença , que dis- tingue a morte senil da que he o effeito de hum \ "74 linm golpe súbito: em huma a vida começa a extiríj»uir-se em todas as partes, e cessa depois no coração , exercendo o seu impulso da cir- „ cumferencia para o centro: na outra a vida se extingue no coração , e depois em todas as partes , e he do centro para a circumferencia -que a morte encadêa seus phenomenos. Fim da Primeira Parte. / ;v.V\ »■ jifed #/3k VJ2. £70 B 5Z5 t^f> ¥ Lv