fftoe V Faculdade de Medicina da Bahia THESE APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Km 580 íle Ontut>r<> <le 1OOS PARA SER DEFENDIDA POR NATURAL DO ESTADO DA BAHIA (Interno de Clinica Propedêutica) AFIM DE OBTER 0 GRÁO DE DOUTOR EM MEDICINA . immMai CADEIRA DE CLINICA PROPEDÊUTICA Etiologia e Diagnostico da Septicemia de lime PROPOSIÇÕES Três sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas BAJTIjA Typ. do Salvador - Cutlierlrul 1908 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Director-Dr. AUGUSTO C. VIANNA Vice-Director-Dr. MANOEL JOSE' DE ARAÚJO LENTES CATHEDRATICOS OS DBS. MATÉRIAS QUE LECC1ONAM l.a SECÇÃO Carneiro de Campos Anatomia dcscriptiva. Carlos Freitas ' Anatomia medico-cirurgiea. 2.a Antonio Pacifico Pereira ..... Histologia' Augusto C. Vianna Bactereològia. Guilherme Pereira Rebello .... Anatomia e Physiologia pabhologicas. 3.a Manoel .José de Araújo Physiologia. José Eduardo F. de Carvalho Filho . Therapeutica. 4.a Luiz Anselmo da Fonseca .... Hygiene. Josino Correia Cotias Medicina legal e Toxicologia. 5a Braz Hermenegildo do Amaral . . . Pathologia cirúrgica Fortunato Augusto da Silva Júnior Operações e apparelhos. Antonio Pacheco Mendes ..... Clinica cirúrgica 1.» cadeira. Ignacio Monteiro de Almeida Gouveia Clinica cirúrgica 2.» cadeira. 6.a Aurélio R Vianna Pathologia medica. Alfredo Britto Clinica Propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho . . . Clinica Medica 1." cadeira Francisco Braulio Pereira .... Clinica Medica 2.» cadeira 7.a A. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria medica, Pharmacologia Arte de Formular José Rodrigues da Costa Dorea . . Historia natural medica. José Olympio de Azevedo .... Chimica Medica. 8a Deoclcciano Ramos Obstetrícia. Climerio Cardoso de Oliveira . . . Clinica obstétrica e gynecologica. 9.a Frederico, de Castro Rebello . . Clinica pediátrica. 10.a Francisco dosSantos Pereira . Clinica ophtalmologica. 11.a Alexandre E. de Castro Cerqueira . . Clinica dermatológica e svphiligraphica. 12.a Luiz Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de moléstias ner- vosas. João E. de Castro Cerqueira . . . „ ,. .. ... . . Sebastião Cardoso Em disponibilidade. LENTES SUBSTITUTOS OS DOUTORES José Affonso de Carvalho . . 1.» Pedro da Luz Carrascosa e . . Gonçalo Moniz Sodré de Aragào . (2.» J. J. de Calasans . . 7.' Julio Sérgio Palma ( J. Adeodato de Souza .... 8." Pedro Luiz Celestino .... 3." Alfredo Ferreira de Magalhães . 9." Oscar Freire de Carvalho . 4." Clodoaldo de Andrade . . . .10. AntoninoB. dos Anjos .... 5-" Albino Leitão 11. João Américo Gareez Froes'. . 6." Mario .Leal 12. Secretarb-Dr. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-Secretario Dr. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade lie approva nem reprova as opiniões exaradas nas theses pelos seus awtores Prefacio Algumas palavras antes do assumpto, não para os queixumes da praxe, nem para o clássico protesto contra a lei que á these nos obriga, e sim para darmos uma justificativa á escolha do nosso ponto e apresentarmos o programma da pobre dissertação que se vae lèr. Ao preferirmos para assumpto do nosso modesto trabalho inau- gura] o estudo da Febre de Malta, dessa entidade mórbida que em tantos outros pontos do globo terráqueo, tem por longa data sabido occultar-se mascarando-se com as feições da malaria e da typhoide, era nosso intento occuparmo-nos exclusivamente com o problema da sua existência entre nós, practicando as nescessa- rias pesquizas em todos os casos de febres cryptogeneticas que podessemos observar, de modo a podermos formular uma resposta segura á questão Apesar, porém, do muito que nos esforçamos, conseguio a má sorte, ou talvez mais acertadamente o disséssemos, o atraso do. meio em que vivemos, derruir nos os planos. Foi assim que, uma vèz reorganizada a pequena secção de bacteriologia que, annexa ao serviço de Clinica Propedêutica, funcciona sob a competente direcção do illustrado Dr. Gonçalo Moniz e onde somente nos seria possível a realização dos nossos trabalhos experimentaes, verificamos estarem mortas as culturas do micrococcus melitensis. recebidas do Rio. E por uma serie de pérfidas circumstancias, só a lo de Agosto nos chegaram as culturas pedidas para a Europa, não nas tendo conseguido obter no Rio nem em S. Paulo, onde não existiam. Deficiente tornava-se o praso para as pesquizas, que só por meio da sòro-reacção poderíamos fazer, por sèr a hemocultura uma prova delicada e difficil. mesmo para consumados bacteriolo- gistas. E por isso ficamos limitado ao numero pequeníssimo de obser- vações que ahi vão publicadas, numero por demais deficiente para alicerce de qualquer conclusão, e que nos força a não fazer ponto capital da these a questão de existir ou não, entre nós. a febre melitense. Sendo esta de conhecimento tão parco em nosso meio que, excepção feita do artigo do Dr. Gonçalo Moniz na Gazeta Medica da Bahia de Junho de 1902. nada, parece-nos, se ha no Brazil escripto sobre ella, alvitramos o difTundir seo conhecimento entre nós, esmerilhando-a nos seos dons pontos primordiaes: a etiologia e o diagnostico. Dentre a vasta synonimia da moléstia, que poucas a têm tão rica e v ariada, escolhemos para titulo da nossa lhese a de septicemia de IIruce, prestando assim uma homenagem justíssima ao insigue medico militar inglês, que desvendando a causa eficiente do morbus rasgou largos e novos horisontes a fecundos estudos e experimentações; entretanto, indistinctamente recorreremos às outras designações no desenrolar dó nosso desataviado trabalho. Vae este dividido em quatro capítulos. Em o primeiro faremos, o mais resumidamente possível, o his- tórico da moléstia. Constará o segundo da etiologia e em três parles o dividimos nós: na primeira estudaremos a bacteriologia, na segunda revis- taremos as causas auxiliares da infecção e na terceira trataremos da transmissibilidade. O terceiro capitulo versará sobre o diagnostico, que scindimos em clinico e bacteriológico, fazendo preceder o seo estudo pelo das feições clinicas do morbus, por isso que sem conhecer symptomas impossível é diagnosticar. Finalmente em o quarto capitulo discutiremos a possibilidade da existência da moléstia ,na Bahia, relatando o pouco que podemos observar, expendendo a nossa fraca opinião e concitando a um observar mais demorado os estudiosos, para os quaes, desejáramos, pudesse o nosso trabalho ler algo de util, evitando-lhes o fasti- dioso rebuscar de opiniões esparsas em monographias e revistas. & @uclor. 131S S E R T AÇÃ O Cadeira de Clinica Propedêutica jpologia c diagnostico da do Resenha histórica dous períodos, uni clinico, de 1863 a 1887 e outro etiologico, de 188'7 a 1907, foi pelo Professor Umberto Gabbi, scindido o historico da febre melitense, cujo conhecimento muito anterior a 1863, a aquella scisão tira os foros de racional, fazendo-lhe preferida a que em trez períodos devide o historico da moléstia: 1. Periodo de confusão, que remonta á mais alta antiguidade e durante o qual descripções foram feitas de estados morbidos muito semelhantes á febre de Malta. Foi assim, como fez notar Hughes, que Hipo- crates descreveo casos de certa febre observados nas costas da Grécia, que por sua longa duração e frequentes recahidas, muito se assimilham aos hoje descriptos como de febre mediterraneal. De Marco (1722-1787) e Howard (1786) fize« 2 ram também referencias, em seos trabalhes, á febre de Malta. Emfim Cleghorn em 1751 dcscreveo uma febre epidemica em Minorca e clinicamente indistinguível da febre melitense. II, Período de emancipação. Inappropriada desi- gnação essa, proposta, pelo Dr. Gardon, ao segundo período, que corresponde ao período clinico de Gabbi, e que se inicia em 1863, com a publicação de Marston sobre a moléstia por elle chamada Medi- ranean Remittent or Gastric Remittent Fever, que outra não era, senão a que ora nos vae occupando. Inappropriada dissemos, porque nos primórdios desse período, era ainda a moléstia confundida com a malaria (febre fecomalaria de Donaldson) e a febre typhoide {intermittente typhoide de Borelli, aieno typhoide de Cantani, typhoide sudoral de Jaccoud, typhoide atipica de Capozzi, etc.). Só mais tarde, os bellos trabalhos de Chartres em 1867, Boileau em 1869, Giulia em 1871, Atken em 1872, Tommasi em 1874, Donaldson em 1876, Dominicis e Borelli em 1877, Cantani em 1878, Fasio e Veale em 1879, Rummo em 1881, Man Clean, Craig., De Benzi e Capozzi em 1885, ToMMAselli em 1886 e outros muitos, foram-lhe 3 traçando a delineatura clinica e o typo morbido surgio em completo destaque. 111. Período etiologico. Mas, o que veio firmar á moléstia a caracteristica de entidade mórbida defi- nida, das de inór importância no quadro nosologico tropical, foi a descoberta feita em 1886 pelo Coronel Da^Íd Bruce, que isolou da pulpa esplénica de um indivíduo victimado pela febre de Malta, um coccus, a que denominou micrococcus melitensis, assim inaugurando o terceiro periodo histórico, por esta razão de etiologico chamado, e fértil em traba- lhos e experiencias de valor. O achado de Bruce recebeo logo a confirmação devida, de grande numero de auctores outros e dentre a alluvião de trabalhos nesse terceiro periodo editados, merecem destaque os de De Blazi ( 1888 ), Giuffrê Í 1888), Wright ( 1889 e 1897 ) Moffet ( 1889 ), Gipps( 1889), Carage- orgiades (1895), Mac Leod ( 1897 ) Zammit ( 1898), Birt e Lamb ( 1899 ) e a excellente monographia de Hughes, publicada em 1897, sob o titulo de Mediterranean or Undulant lever e na qual, elle chama a attenção para o caracter ondula- torio de que, por vezes, se reveste a hyperthermia na moléstia, de que nos occupamos. 4 Certamente não menos rica em valor practico, que a descoberta de Bruce, foi a de Wright em 1897 ( The Lancet 6 de Março de 1897 e Britsh Medicai Journal, de 5 de Maio do mesmo anno), assignalando o poder agglutinante do sangue dos infectados, facto precioso para a semeiotica, por isso que permitte de facilmente firmar sobre um argumento solido, o diagnostico, que anteriormente só em conjecturas se esteiava, uma vez que nem a todos sobejava o animo para a pradica da puncção esplenica, por aquella epocha, recurso unico para o diagnostico bacteriológico in vivo. No inicio da sua historia, foi a septicemia de Bruce de preferencia esmerilhada pelos médicos militares inglezes, aos quaes mais interessava a moléstia, jul- gada, que era, apanagio de Malta e suas adjacên- cias. A sero-reacção de Wright, porem, tornando fácil a pesquisação da infccção, permittio verificar a existência desta em vários outros pontos do globo, notadamente na Italia, assim attrahindo a attenção dos auctores italianos, que vieram então trazer seo contigente, farto de valor, ao estudo da febre de Multa. Justo é que dentre elles destaquemos o Prof. Gabbi, da Universidade de Messina, cujo trabalho, já 5 por nós citado, é um completo estudo do assumpto. Alem delle manda a justiça apoatar Giuffrê, Ste~ fagnolio, Fiorentini e Trambusti, cuja monogra- phia é também apreciável. Trabalhos (rancezes, têm alguns também appare- cido sobre a febre de Malta, e entre elles os de Hayat, Nicolle, Cardaliaguet, Schoul e Gardon. Mas, o que até agora tem sabido á luz, de maior valia sobre o assumpto, é o resultado dos trabalhos da Commissão Ingleza para investigação da febre de Malta. Impressionados pelo serio embaraço, que a cha- mada febre mediterraneal trazia á guarnição de Malta, o Almirantado Inglez, a Sociedade Real e o Governo Civil de Malta, resolveram nomear uma commissão, que fartamente esquadrinhasse o mor- bus, notoriamente sob os pontos de \dsta de sua transmissibdidade e prophylaxia. Esta commissão, composta dos distinctos médicos Gilmour, Shaw, Horrocks, Kennedy, Basset- Smith, Zammit, Ross e Johston, aos quaes mais tarde se juntaram Mc Culloch, Weir, Mc Naught e Eyre, iniciou em 1905, os seos trabalhos, dos quaes foram apresentados relatórios, que patenteiam 6 o .brilhante desempenho da incumbência, a tão dis- tinetos investigadores confiada. Em remate a esta noticia histórica, que fiel ao nosso programma, o mais possível resumimos, e tanto, que só podemos mencionar uma pequena parcella da brilhante phalange de scientistas, que se têm dedicado a este estudo, em remate dizíamos, deixaremos estampado, o ter também a septicemia deBRUCE despertado a attenção de diminuto numero de médicos brasileiros, entre os quaes lembraremos os illusíres professores da nossa Faculdade, Drs. Gonçalo Moniz e João A. Garcez Froes, que pos- suidos da ideia, com que adeante nos teremos de avir, da possível existência da moléstia entre nós, fizeram neste sentido, algumas pesquisas, em 1902. Etiologia '^ausa efficiente.-Bacteriologia. De etiologia por largo tempo ignorada, foi a febre de Malta alvo de hypotheses, qual mais disparatada, suppondo uns ella fosse uma simples modalidade do palu~ dismo (Borelli e Wood), julgando-a alguns hy- brido producto da associação do paludismo á dothi- enenteria (Manclean, Milnes etc.), alfim attribu- indo-lhe outros como causa, a acção de gazes mepbiticos, donde os nomes de febre de l.iydrotio- nemia e septicemia phytogenetica (Moffet). Em 1886, como já dissemos, realisou Bruce a descoberta do micrococcus melitensis, que» conseguio is dar de mais doze casos, dentre treze que verificou, sendo de notar, que o insuccesso do decimo terceiro ciso, se explicava bem, pela reacção excessivamente alcalina do meio, que servio para a cultura. Bruce publicou no Practitioner, em 1887, o resub 8 fado de suas pesquizas, e para logo as confirmações oriundas dos trabalhos de Hughes, Gipps, Durhám, Wright, Carbone, Manussos, Giuffré, etc., fize- ram plena mente acceito, como agente productor da febre melitense, o micro germem de Bruce, sobre cuja morphologia um pouco têm os investigadores divergido. Geralmente considerado um cocco, regularmente arredondado ou antes oval, foi por Durham classifi- cado como um cocco-bacillo e por Trambusti des- cri pto como um «pequenino bacillo, cujo cumpri- mento, duas ou trez vezes, excede a largura». Incli- namos-nos ao sentir de Eyre, que julga typica a forma arredondada, considerando as outras como consequências do pòlymorphismo, sobre o qual muito insistia o propno Trambusti. Nas preparações, que fisemos, apresentou-se sempre com a forma mais ou menos arredondada, isolado ou aos pares, e por vezes em cadeias de trez elementos, no máximo. Entretanto, affirma Gabbi, que a cultura em caldo, dá logar, no fim de alguns dias, á cadeias de 10 a 15 elementos, facto que não observamos. A mór parte dos que se hão occupado com o micrococcus de Bruce, descrevem-no como aciliado 9 e de movimentos proprios completamente despro- vido. Affastam-se desse pensar Shaw, Gilmour, Keller e principal.nente Gordon, que era artigo publicado na Lancet de 11 de Março de 1899, diz que corando o micrococcus pelo methodo de Van IIermenghen, por elle râodificado, observou cilios em numero de um, dous e mesmo quatro, por cada elemento, considerando-os orgãos locomotores. Querendo isto dilucidar, recorremos ao methodo designado, excepção feita da modificação de Gordon, e nada encontramos, que a cilios se assimilhasse. Seria por não termos empregado a fallada modi- ficação, cuja technica desconhecíamos 1 (1) Não somos propenso a crel-o, pensando que si o methodo de Van Hermenghem tem bastado para corar os cílios dos outros germens, que os possuem, razão não haveria para que fisessem excepção os do micrococcus melitense, se os tivesse. Trambusti, que aliás também se inclina a crer na mobilidade do microccocus, confessa jamais ter conseguido a coloração dos cilios, apesar dos melhores methodos a que, visando tal fim, recorreo. (I) Temos conhecimento do artigo de Gordon, mas não o podemos ler, por impossibilidade absoluta de obter a collecção da L incei de 1899, que não ha na bíbliotheca da Faculdade. 10 Demais, nas preparações por nós feitas, nunca podemos observar movimentos proprios: movimentos brownianos, esses sim, havia-os e activos. Cora-se bem pelos reactivos communs, sendo que, nas nossas preparações, davamos preferencia á violeta de genciana e ao chrystal videta. Gabbi aconselha de preferencia o Ziehl. Descora-se pelo Gram e pelo methodode Claudius. Caracteres culturaes.--0 micrococcus, cuja temperatura óptima é a de 37°, tem como principal caracteristica biologica, o facto de desenvolver-se com uma lentidão extrema e em muito pouca abun- dancia, nos meios culturaes communs, só tendo um desenvolvimento promptoe rico, em meios especiaes, de que trataremos, depois de apontar os aspectos das culturas nos meios com nuns. Caldo, - No fim de 2 a 3 dias, a turvação do caldo faz-se uniforme, sem o apparecimeuto de pelli- cuia na superfície do meio cultural. Conforme vem assignalado por Hayat, no fim de alguns dias forina:n-se flocos, depositados na parte inferior do tubo. Tambusti affirma que, no fim de um mez ou mais, a cultura se sedimenta, ficando o caldo com- pletameute limpidu na parte superior. 11 Gelose simples. - A semeiadura do micrococcus por estria, na gelose commum, dá lugar, no fim de alguns dias, á formação de pequenas colonias arredondadas e salientes que, observadas por transpa- rência, se mostram com a peripheria branca ou azulada fllAYATj e o centro amarellado. Depois de mais algum tempo, estas colonias reunem-se for- mando uma tenue camada, de aspecto finamente granuloso, quando observada a um fraco augmento, e que facilmente se destaca da superfície do agar. Na inoculação por picada, o desenvolvimento máximo apresenta-se na superfície, onde apparecem pequenas colonias circulares, que logo se fundem affectando o conjuncto a forma de uma roseta, que tem como centro o ponto da picada, ao longo da qual se desenvolvem colonias menores, que formam um traço branco ou amarellado. Gelatina. - Neste meio de cultura, aliás inapro- priado ao nosso clima, o desenvolvimento do germe qi é quasi insignificante, nullo mesmo, porquanto muitos auctores o negaram. Os que, porem, conseguiram culturas em gelatina, afíirmam, que o aspecto, só pela pouca abundancia, differe do observado na gelose, e que não se produz 12 a liquefacção do meio, a não ser no fim de um mez (Gabbi). Batata. - Os primeiros observadores, Bruce, Eybe, Hayat, etc., negavam se desenvolvesse o micrococcus na batata, opinião que não partilham Gabbi, Carbone, Trambusti e outros, que têm conseguido o desenvolvimeto, embora muito lento. Soro liquido. - O desenvolvimento, também de- morado, é no emtanto mais abundante do que no caldo, dando lugar á formação de frocos, que se depositam no fundo do vaso. Soro coagulado. - Apresenta os mesmos caracteres observados na gelose simples. Ovo.- A cultura no ovo coagulado é pouc» abundante, e consiste em pequeninas colonias. Mas assignalamos este meio, porque Donsello (citado por Trambusti) affirma, que ahi toma o germem uma forma nitidamente bacillar. O micrococcus melitensis não coagula o leite, não produz acido nas culturas, nem dá lugar á formação de endol. Tem-se também cultivado o micrococcus na gelosegl-ycerinada, na agua de peptona, no caldo addi- cionado de bilis (Gabbi), na solução de Prosfanver etc. sem que o desenvolvimento se torne abundante. 13 Alguns auctores têm obtido uma proliferação mais prompta e mais abundante, com o nucleinato de sodio ( Tràmbustí, ) mas os melhores nleios para o desenvolvimento do microgermem de Bruce, são o' litmus-nutrose-agar de Horbocks, a gelose nutro- 9 sada e glycosada de Donzello e a gelose de Fioben- hni. Deixando á margem os dous primeiros, vamos nos occupar com o ultimo, que tivemos occasião de preparar. A tec.hnica para o preparo da gelose de Fioben- tini, tal como^lle a descreve no Policlínico de Feve- reiro de 1906. é longa e trabalhosa, razão pela qual, seguindo as indicações do Dr. Gonçàlo Moniz, a modificamos, tornando mais rápido o seo preparo, sem que por isso perdesse ella algo de suas excel- lentes qualidades. Eis a technica a que recorremos: l.° Toma-se 500 grs. de carne de vacca, picada, e põe-se em um litro d'agua, fervendo-se durante 30 minutos. 2? Elimina-se a carne, ajunta-se 0, 5°[0 de peptona e 0,5 °[o de chloreto de sodio e leva-se á autoclave (aberta) a 100°, durante 20 minutos. 3.° Filtra-se em papel de filtro commum. 14 4.° A este caldo acido ajunta-se agar ( finamente pulverisado), na proporção de 2,5 a 3 °[o. 5.° Leva^e de novo á autoclave ( aberta ), a 100° durante 20 minutos. 6.° Deixa-se resfriar a 55° e ajunta-se 0,5 °[o de nutrosio e uma clara de ovo batida em 100° grs. de agua. 7.° Leva-se á autoclave a 120°, por 20 minutos. 8.° Alcalinisa-se bastante, porem não em demasia. 9.° Filtra-se a quente. 10.° Distribue-se em tubos e esteriliza-se na auto- clave a 120°, durante 20 minutos. Segundo Fiorentini, a rapidez do desenvolvimento na gelose assim preparada, deve ser attribuida á for- mação de uma certa porção de assucar, em conse- quência da alcalinização tardia do meio, tanto assim que elle experimentou alcalinizal-o nos primeiros tempos da preparação, sem conseguir que conservasse a propriedade de dar um prompto desenvolvimento ao germem. Como quer que seja, a proliferação do micrococcus na gelose de Fiorentini, é já abundante no fim de 36 horas, sob uma temperatura de 37°. Por estria formam-se colonias muito confluentes, de modo a constituírem uma camada branca amarellada, 15 muito mais espessa que a da gelose simples, de aspecto brilhante, e. facilmente destacável. Vitalidade.-0 micrococcus melitensis, germem aerobio facultativo, morre logo sob a acção do calor húmido á temperatura de 60° ( Eyre ), mas resiste por dez minutos ao calor secco, na temperatura de 90 a 95° ( Dalton, Eyre ). Os primeiros observadores, que se occuparam com o germem de Bruce, attribuiram-lhe uma vitalidade muito fraca e um período vital muito curto, nos meios communs, mas as investigações modernas têm des- truído esta crença. Basset-Smith e Shaw observaram que o micro- coccus vive no caldo com outros microbios 17 dias, no caldo peptonado 173 dias e na gelose 276 dias. Kennedy e Horrocks estudaram a duração maxi- ma do micrococcus nos diversos lugares em que pode ser encontrado, notando que resiste em um terreno secco por 24 dias, em um húmido por 72 dias, na agua do mar por 25 dias, na unna por 6 dias e no leite durante 20 dias. Estes resultados têm sido confirmados na Italia por Donzello, Signer, Fiorentini, etc. sendo que este ultimo estudou também a acção dos antisepticos sobre o micrococcus melitensis, notando aliás uma 16 resistência muito fraca, como se verá dos seguinte» resultados por elle publicados: Solução de permanganato de potássio a 1:5000 mata o MM em 10 minutos Solução de permanganato de potássio a 1:1000 » » » » 20 » Solução de acido salicy- lico a 1:1000 » » » » 10 » Solução de acido salicy' lico a 1:2500... - . _ » » » » 20 » Solução de acido phenico a 1:5000 » » » » 10 » Solução de acido phenico a 1:0000. » » » » 20 » Sol. de thymol a 1:1000 » > » » 20 » » » » » 1:5000 » » » » 30 » B » subbm. a 1:10000 » » » » poucos » » » » » 1:20000 » * » » 15 » Solução de acido chlory- drico a 1:1000 » » » » 20 » Sol. de acido chlorydrico a 1:2000.. » » » » 30 » Solução de acido sulfu- rico a 1:5000... „... > » « » 10 » Álcool a 45° » » » » 10 » » » 20® ........ » » » » 30 » » » maisde70°.. » » » » poucos » Pontos do organismo doente onde pode sek ENCONTRADO O MICROCOCCUS E VIAS DE ELIMINAÇÃO do germem.- Era crença primitiva de que somente 17 no baço se poderia encontrar o agente causal da febre de Malta, mas em 1902, aífirmou Gilmour, a sua existência, pouco numerosa embora, no sangue peripherico, o que para logo foi confirmado pelo Dr. Zammit e hoje está plenamente demonstrado. Além disto as autopsias têm revelado a pre- sença do germem no sangue do coração, no fígado, nas vias biliares, nos rins, nos ganglios lympha- ticos e nos derramens pleuraes. A eliminação do microbio faz-se pelo leite, fezes e urina, tendo também Fiorentini, na Italia, con- seguido isolal-o da expectoração de um doente attingido da forma respiratória da febre melitense. Da eliminação pelo leite trataremos mais minu- dentemente, no capitulo destinado á transmissibi- lidade, devendo aqui insistir um pouco sobre a eliminação pela urina, que representa papel impor- tante na disseminação do morbus. Esta eliminação, por vezes considerável, de modo a constituir verdadeira crise bacteriurica ( Tram- busti ), é muito constante e tanto, que Hokrocks obteve em pesquizas repetidas, 90 resultados posi- tivos sobre 33 doentes. E' mais frequente na con- valescença, diminuindo ou mesmo cessando quando sobrevem uma elevação thermica. 18 Para facilitar o isolamento do micrococcus da urina, aconselha Donzello (citado por Trambusti ) ajuntar á urina uma pequena porção (1|2 cc. ) de soro de coelho, fortemente agglutinante, e do sedi- mento obtido pela centrifugação, isolar o micróbio, o que se consegue por este modo, mesmo quando a bacteriuria é pouco accentuada. Inoculações - Aos primeiros experimentos reali- zados com o micrococcus melitensis affirmaram Bruce e Hughes, ser o macaco o unico animal não refra- ctario áinfecção experimental, que sempre fracassava em todos os outros. Aquelles auctores fizeram series de inoculações em macacos, preferidamente de raça bonnet, notan- do que sempre se dava a infecção com os cara- cteres symptomaticos e anatomo-pathologicos aná- logos aos observados no homem, facto depois amplamente confirmado por quantos o têm querido verificar. Mais tarde, em 1898, Durham conseguiu infectar coelhos por meio de injecções íntra-cerebraes do micrococcus melitensis, que assim ganhava uma exaltação de virulência bastante para permittir-lhe de infeccionar coelhos e cobaios por inoculações intra-peritoneaes. Estas experiencias foram confir- 19 «nadas por Eyre, Carbone e os esforçados investi- gadores da Commissão Ingleza. Trambusti diz ter sempre empregado, para as inoculações, coelhos, e algumas vezes cobaios, sem que, vez alguma, se mostrassem estes animaes refra- ctarios, quando se tinha a precaução de escolhel-os novos. Em 1905, Zammit querendo intentara inoculação em cabras, verificou surpreso que estes animaes con- trahiam expontaneamente a infecção, facto que nos reservamos para mais amplamente explorar, ao estu- darmos os modos de propagação da moléstia. Guiados por esta descoberta, os membros da Com- missão Ingleza pesquizaram a infecção expontânea, em animaes outros, encontrando-a em vaccas, mulas, cães e ratos. Em Messina (Lavori dei'Instituto di clinica medica generale di Messina. Fase. II) de- monstrou-se ser a infecção, também expontânea em gallinhas, das quaes se pode mesmo isolar o micro- coccus melitensis. Todos estes animaes, expontaneamente infectáveis, devem naturalmente ser, e as experiencias plena- mente o confirmam, excellentes animaes reactivos para o micrococcus melitensis. Desejávamos fazer uma serie de inoculações em 20 animaes diversos, que para isso adquirimos, mas a de- mora em obtermos as culturas do micrococcus meli- tensis, demoveo-nos desse intento. CAUSAS AUXILIARES Idade.-De pouca monta é a influencia etiolo- gica da idade, na moléstia em torno da qual vimos discorrendo. Doutrinava Marston, ser o maior numero de casos occorrente nos indivíduos adultos, até aos 35 annos, vindo em seguida, por ordem de frequência, a infân- cia e por ultimo a velhice. Rummo considerava-a muito rara na infancia. Segundo Tommaselli, a moléstia é mais encon- tradiça dos 6 aos 30 annos, um pouco menos dos 2 aos 6 e dos 30 aos 50 e muito rara acima dos 50 annos. Vê-se, pois, que a idade é de pouco influir e nenhuma põe o indivíduo ao abrigo do mal. Sexos.-Nulla, ou pouco menos, é também a influencia dos sexos, e sendo as probabilidades da infecção iguaes para os dons, o facto apregoado do maior predomínio do morbus nos homens, em Malta (Rummo), encontra a sua razão de ser na frequência 21 da moléstia entre astropasda guarnição, o que forço- samente eleva o numero dos doentes do sexo mascu- lino; e a prova do asserto dessa nossa interpretação, é que ein Palermo e na Tunísia, por exemplo, se tem assignalado maior frequência do mal entre as mu- lheres. Raças e condições sociaes. - Tem-se attribuido á moléstia, um mais frequente occorrer entre as raças Maltesa e Israelita, pelo menos na Tunisia, onde estas pesquízas têm sido melhor feitas f Cattan, Morpurgo e Uzan ). Entretanto, por não encontrarmos para o facto dessa predilecção uma explicação qualquer (1) prefe- rimos partilhar a opinião do Dr. G. Funaro (citado pelo Dr. Carualiaguet), não acreditafido « que a raça exerça influencia sobre a predisposição á febre mediterraneal». De pouco peso na etiologia do morbus, são as condições sociaes, no dizer dos auctores, e já Bruce observava ser a moléstia tão frequente nos officiaes, vivendo em casas grandes e bem ventiladas, como nos soldados amontoados em barracas. Mais longe (I) Hayat attribue a maior frequência da. moléstia entre os israelistas de Tunis, ás nessimas condições hygienicas, em que vivem taes indiviauos naquella localidade. 22 ainda vão outros, dizendo ser a moléstia mais encon- travel nos indivíduos de elevada posição social, o que porém se afasta da boa lógica, que mostra as más condições hygienicas em que, certamente, viverão os desprotegidos da fortuna, as quaes sobre tornarem mais facil o contagio, deprimem as forças defensivas do organismo, tornando-o apto a contrair o morbus. Em Malta a moléstia ataca índiflerentemente indí- genas e estrangeiros (Bruce). Influencia climatérica. - Não sendo, embóra, possível considerar a febre mediterraneal como uma moléstia exclusivamente tropical, todavia impossível também seria negar a influencia climatérica sobre o seo apparecer. Ella existe,é verdade, nos climas frios (Inglaterra), mas isto de modo accidental, em casos importados. Até em um mesmo paiz se faz notada a influencia do clima. Assim na Italia mostra-se a moléstia mais frequente nas regiões do norte e na costa Occidental, facto que aliás não tem sua unica explicativa na influencia climatérica, sinão que também na vizi- nhança da ilha de Malta, fóco de onde, parece, a moléstia irradiou-se para todas as partes em que é hoje encontrada. Outra prova da influencia do clima sobre a moléstia, 23 encontramol-a no beneficio therapeutico, pequeno mesmo, produzido pela mudança de ar. Em Alalta occorre a moléstia durante todo o anno, sendo innegavelmente mais frequente durante o verão, quando assume, por vezes, caracter epidemico. Bruce publicou um quadro que mostra ser a frequência maxima nos meses de Maio, Junho e Julho, dahi por diante decrescendo rapidamente o numero dos casos. Immunidade por um primeiro ataque. -Ensina Bruce, que um primeiro ataque immuniza contra um segundo e isto é racional, á vista do que se passa em tantas outras moléstias infecciosas e da possivel con- fusão de uma reascenção thermica com um outro ataque distincto. Esse não é, entretanto, o pensar de numerosos auctores outros, que até acreditam em uma predisposição creada por um primeiro ataque. GiULiAcita mesmo o caso de uma moça, que soffreu a moléstia por três vezes. 0 Dr. Eyre sofíreo-a também duas vezes. Shaw (Reports P. V.) conclue das suas experiencias, que um prévio ataque confere alguma protecção contra uma nova infecção. TRANSMISSIBILIDADE Como se propaga a febre melitense ? Pontoem extremo controvertido e dos mais importantes na 24 historia do morbus, é esse que encerra a precedente pergunta. E em resposta a ella, revistaremos os vários modos de infecção. Transmissão por contacto. - Contagio - Os auctores, que se hão occupado com a febre mediter- rânea],'negam, em a sua maioria, a transmissão delia pelo contagio directo, de um a outro indivíduo. Não comprehendemos o asserto de tal negação, uma vez que factos de observação e experiencias demonstram, a mais não, a possibilidade da trans- missão pelo simples contacto, a qual cabalmente explica o contagio de um indivíduo a outro. A Commissão Inglesa, cujo testemunho sempre, por valioso,invocaremos, fez experimentos, vizando a verificação da infecção por contacto, com resultados não raro, positivos. Sergent, nas suas experiencias em macacos, con- seguio, também, a inoculação por contacto directo. Este mesmo auctor trabalhando de collaboração com o Dr. Bories, em Kebler, observou dons casos de febre mediterrânea, indubitavelmente contraídos pelo contacto directo com animaes doentes ( mulas ). Demais,sinos lembrarmos de que o micrococcus se elimina pela urina, fezes, escarros ( Fiorenhni ), etc., razão não teremos para regeitar a hypothese do con- 25 tairio, e tanto menos, quanto são de nossa sciencia os constantes resultados positivos das inoculações directas, prop« sitaes ou accidentaes. Da-' ulbmas cita n-se exemplos, taes como o do Dr. Eyre,que se inoculou aspirando, com utna pipeta, uma cultura de micrococcus ; o de CarboNE victima de sua dedicação á scieneia, e o citado por MaNsON (edição de 1908 ) de um indivíduo, que se conta- minou, levando á bocca o thermometro que servira a um doente de febre de Maba. E exemplos, mesmo, da traiKmis>ão directa de um a outro indivíduo, nã > escasseiam quando bem esmiuçados; ScHoiTL cita, em sua obra, ocaso de uma mulher que cont raio a moléstia, tratando o ma- rido, doente, havia dous mêzes, de febre melitense, Zammit refere-se a uma epidemia sobrevinda em um orphanato, dias após ter uma das orphãs contrahido a iníecção. Um outro curioso e possível modo de transmissão por contacto parece ser o (pie resulta das relações sexuaes. Notanio que a maior parte dos doentes de febre melitense, nos hospitaes militares e navaes de Malta, eram para ali levados por aflFecçõeS venereas, Kennedy iniciou un a serie de pesqmzas ne>te sentido, e de 134 prostitutas por elle examinadas, em 26 Malta, 93 ( 69, 47 °|o) deram uma aggluti nação com- pletamente positiva e o micrococcus foi isolado da urina em 5 delias e do mucus vaginal em 2. Experiências, feitas em macacos, mostraram a pos sibilidade da inoculação por via sexual; entretanto, taes experiencias não nos parecem comprohatorias, porque as fricções muito energicas, como foram feitas, sobre a glande tio animal, com o material viru- lento, podiam dar lugar a excoriações e consequente inoculação por via sub-cutanea, ou antes sub-mu- cosa si o quizerem. Vehículação pelo ar. Admittia Bruce a possibili- dade de qu 5 o germem fluctuasse no ar, na vizinhança dos lugares insalubres, e por tal modo invadisse o organismo. Hughes partilhava da mesma opinião. Manson, considerando a eliminação do microco- ccus pelos excreta do homem eammaes doentes, e levando em linha de conta a qualidade pulverulenta do solo de Malta, pensava na vehículação do germem pelos ventos, que o depunham nos saccos conjun- ctivae' e partes excoriadas do corpo, podendo dahi resultar a infecção. Os membros da Commissão Inglesa, buscando provas á vehiculaçâo aerea do mor bus, procederam a duas experiencias. 27 Na primeira encerraram macacos em uma caixa, em cujo interior agitaram poeiras contaminadas. Na segunda, idênticas poeiras foram, á força, introdu- zidas nas narinas dos macacos, durante seis dias consecutivos. Foram negativos os resultad >s da primeira experi- cncia e positivos os da segunda. Quaesquer elles fossem, porém, careceriam de fé, por isso que áquelles experimentos faltou o rigor ^cientifico, de que, em tantos outros tiabalhos, se souberam cercar os distinctos commíssionados in- gleses. De facto, á primeira daquellas experiencias faltou, como judiciosamente fez notar Lewick, a elemen- tar precaução da lavagem rigorosa dos macacos após a sua retirada da caixa, precaução indispensável por causa da deposição da poeira sobre o pello dos maca- cos e do habito que, como se sabe, têm estes animaes de coçarem-se a miúde, podendo dahi provira inocu- lação. Na segunda experiencia não seria impossível que a inoculação se desse por qualquer excoriação da mucosa, produzida pelas manobras da intromissão torçada do material nas narinas. E quando assim não fosse, a poeira deveria forçosamente irritar a mucosa 28 nazal e produzir um corrimento mucoso, com o qual poderiam os germens ser deglutidos, sobrevindo a infecção por via gastrica. Parece-nos, pois, ainda mal elucidada essa nypo- these, aliás não de todo regeitavel, da vebiculação aerea da moléstia. Agua e alimentos. - Outro ponto ainda pouco aclarado, pesar das pesquizas sobre elle feitas, é o da agua como vehiculo da febre mediterraneal. E o facto nos não parece impossível, sendo, como são, cousas assentes a possibilidade de vida do microbio na agua e a penetração da infecção por via gastrica, muito embora os trabalhos de Fiorentini demonstrem a pouca resistência do micrococcus aos solutos chio rydricos e conseguintemente ao sueco gástrico. A vehículação pelos alimentos é também possível, visto como a Commissão Inglesa conseguio facil- mente inocular macact s, al:mentando-os com batatas contaminadas pela urina de indivíduos doentes ou por culturas puras. Mas nesse campo, da transmissão da micrococcia de Bruce por via gastrica, ainda ba muito a segar. Realmente o Dr. Themi-tocles Zammit, um dos mais ardorosos trabalhadores da Commissão Inglesa, examinando, no dia 14- de Junho de lJOo, por n e o 29 do sôro-diagnostico de Wright, algumas cabras que pretendia inocular, notou surpreso, que cinco delias apresentavam a sôro-reacção positiva e, cousa mais notável ainda, o leite de algumas gozava, também, de poder aggl afinador e em uma continha o micrococcus n elitensis. Esta descoberta, verdadeiramente casual, assumia uma importância maxima, por isso que o leite, con- sumido em Malta, era quase exclusivamente fornecido por cabras, sendo o leite de vacca usado, apenas, por diminuta parcella inglesa da população. Para logo as verificações extenderam-se a grande numero de cabras leiteiras, precedentes de vários pontos de Malta, chegando-se á conclusão de que quase metade das cabras, fornecendo leite á popu- lação maltesa, soffria de febre mediterrânea], e o decimo delias eliminava o micrococcus pelo leite. Este leite, administrado a cabras e a macacos, pro- duzio nestes animaes a moléstia, com todos os seus caracteres symptomaticos e reaccionaes. Estes resultados levaram as auctoridades, civis e militares de Malta, á prohibição do uso leite de cabra não fervido, nos hospitaes e guarnições, onde o decréscimo no numero dos casos de perto seguio-se á tal medida. 30 E não se limitaram a Malta as confirmações a este papel de vehiculo, pelo leite de cabra desempenhado em face do micrococcus de Bruce. 0 hiate jVicWsontrouxe, eml905, de Malta para a America, 65 cabras, entre as quaes algumas infectadas, cuj*) leite determinou nos tripulantes, que o beberam, a micrococcia, reconhecível aos signaes clínicos e á sero-agglutinação. Em Gibraltar, segundo a observação de Horrocks, a diminuição de frequência da Rock Fever, nome que dão por lá á moléstia, coincidio cmn a menor impor*' fação de cabras maltesas. De 251 cabras ali exami- nadas, por aquelle investigador, 14-°|o tinham um sôro que agglutinava o micrococcus. Forster relata na Lancet de 17 de Fevereiro de 1905, o resultado das suas pesquizas em Ferezepom ( índia), onde de 38 cabras 4 tinham sôro-reacção positiva e destas uma apresentava o micrococcus no leite. Sergent, Gillot e Lemaire (Anncdes de V Inst. Past- 25 Março 1908) encontraram em Argel cabras infectadas, em porcentagem menor que em Malta (4,2 °[0) e cujo leite agglutinava o microbio de BrucE. O mesmo Sergent, em outro artigo de collaboração 31 com Bories, relata o resultado das suas pesquizas em Kebler, onde vio cabras doentes, na porcentagem de 3,3 °[0, sendo que lá sómente cabras espanholas existem, não nas havendo de raça maltesa. Dessas numerosas observações resulta ser o leite de cabra um dos principaes, quiçá o inais impor- tante, dos meios propagadores da febre melitense. Os exageia dos, desses que nunca faltam para todos os assumptos das sciencias medicas, querem-no, mesmo, o unico agente propagador do morbus. Esta these é, porém, insustentável, que sobejamente a combatem argumentos vários, entre os quaes nos seja bastante lembrar o facto de existir a septicemia de Bruce em pontos, como Roma (Archangeli), onde é eiw abso- luto desuso o leite de-cabra. Antes de mudar de assumpto, devemos dizer que o leite de vacca pode, também, servir de vehiculo para o mal, por isso que se tem ddle isolado o micro- coccus, em casos abás não muito frequentes. Finalmente no ultimo relatorio da Commissão In- glesa (tomo VII) Mc Culloch chama a attenção pira a agglutinação com o leite de mulher, que obteve á diluição de 1:150. Não conseguio isolar o micro- cuccus deste leite, mas Mc Naught observou um 32 caso de transmissão da mobstia da mãe ao filho, por intermédio do leite. Mosquitos. - AttemUndo se ao importante papel, desempenhado pelos mosquitos na vehiculação de numerosas outras moléstias infecciosas, era natural pensasse neste meio de propagação para a microco- c°ia de Bhuce. Rosu, membro da Commissâo da Sociedade Real, fez-se patrono desta ideia. Entretanto as primeiras experiencias, por elle e seos doub s companheiros de commissâo, empreheudidas, nenhu oa resulta positiva deram. Mais taide Horrocks e Kennedy iniposeram-se a ardua tarefa da dissecção de 896 mosquitos captu- rados nas enfermarias de doentes de febre melitense, em rpiatro dos quaes (2 rulex pipiens e 2 stegomia fasciata ), encontraram o micrococcus. l)e 198 outros mosquitos, colhidos em pontos onde não' existiam doentes de íebie med tenaneal, nenhum se mostrou portador do microbio. Os germens isolados dos insectos infectados mos- traram-se virulentos para n acacos. Um dos culex infectados fora colhido no momento em que picava um rapaz, Carlos Mifsud, que auxi- liava ás experiencias, e cujo sangue, nesse mesmo dia, 33 se mostrára desprovido de poder agglutinante. Cerca de 18 dias depois, manifestaram se, nesse rapaz, febre e outros signaes da infecção, que segu:o sua marcha ordinaria, emprestando então ao sangue elevado poder agglutinador. Estes factos vinham corroborar as suspeitas de Ross. Mas, ahi não pararam as investigações da Com- mis^ão. Novas experiencias foram feitas, nutrindo se mos- quitos com o sangue de cobaios nos quaes se deter- minára uma infecção septicemica, pela injecção de culturas de virulência exaltada. O microbio foi en- contrario no est nnago de alguns desses mosquitos qmq entretanto, não haviam conseguido transmittir a moléstia a macacos. 0 principal vector, na opinião de Ross, seria o acartomya zammittii, mosquito muito frequente nos portos assolados pela febre melitense, e cuja vida lar- var ia, bem estudada pelo seo accusador, só se passa em a agua do mar, que tenha de concentração 48 a 87 grammas de sal por litro. Além desse mosquito, soffre a mesma accusação uma mosca, o stomoxys calcitrans, era cujo estomago se tem visto durar, por dias, o micrococcus. 34 C< mquanto as expeiiencias se mostrem a\êssas á sua theoria, nem por isso Ross menos a defende, e em artigo no Jour. of trop. Med. and Hyg. de Janeiro de 1906, chama a attenção para casos sobrevindos em circumstancias que affastavam a vehiculação pelo leite, querendo explical-os pela acção dos mosquitos. Lewik bate-se, também, por essa ideia, que para el'e não sofíre dubiezas e que de outros observadores recebe ainda o appoio. Quanto a nós, que para dizer algo sobre o assumpto, base outra não temos além do raciocínio, não nega- remos que a micrococcia de Bruce, ad instar de outras tantas infecções, possa ser vehiculada pelos mosquitos, mas em casos de não muita frequência, que contra esta pleiteam certas razões: a) A febre melitense reina em pontos, como Kebler, onde o acartomya zàmittii, o principal vector, na opinião dos próceres desta theoih, inexiste por completo ( Bories ). b) O micrococcus appareee no sangue periphe- rico dos doentes, apenas durante a hyperthermia, nos poucos dias do inicio do mál, e ainda assim em quantidade tão diminuta que torna em extremo problemática a absorpção de alguns germens, poucos que sejam, pelos mosquitos. Diagnostico diagnostico da febre de Malta pode ser fe to ou pela pesquização dos seos mais caracteristicos sym- ptomas- diagnostico clinico-ou com o concurso da bacteriologia -diagnostico bacteriológico. Diagnostico clinico. - Sendo este diagnostico esteiado no conhecimento exacto dos elementos cons- tituintes do quadro symptomatico da moléstia, jul- gamos indispensável dizer algo desses elementos. * * * As varias descripçõ^s, que da symptomatologia da infecção melitense, fazem os auctores que delia se hão occupado, mostram quão fértil é em symptomas os mais variados, e tão irregulares e inc mstantes, que justificam o dizer de Giuffhê referindo-se á moléstia : «la sua regola é de non avere regola.» Entretanto, parece-nos sempre possível scindir o curso da moléstia em quatro phases ou períodos, 36 que de descriminação por vezes dubia, todavia não pouca vantagem offerecem á methodização da des- cri pção. 1 Período incubacional- Prodromos.- A quase absoluta impossibilidade de conhecer o momento preciso da inoculação, torna árdua tareia o estabele- cimento da exacta duraçã) desse peno lo, em o qual se conserva a moléstia em estado por assim dizer latente. Entretanto, alguns factos de observação mostram em extremo variavel o periodo incubacional, que segundo Ross, varia de 15 dias a 3 semanas, praso que jamais excede. Bruce fixa para a incubação um periodo de 6 a 17 «lias. E'assim, diz elle, que se tem visto a moléstia atacar soldados logo seis dias depois de chegados á Malta, ao passo que outros, de volta para a Inglaterra, são ahi atacados quinze ou deseseis dias após o aban- dono da zona infectada. As experiencias procedidas, em Malta, pelos dele- gados da Sociedade Real, mostraram oscilar entre a 72 dias o periodo de incubação, nos animaes O natural ou artificialmente contaminados pelas vias respiratórias ou gastrica, sendo, ao contrario, de 5 a 6 dias quando á inoculação directa se recorria. 37 Bem raro é que em completo silencio se escoe este periodo. 0 inais das vezes, signaes ligeiros, pro- dromos de pouco valor, traduzem alucta, que no orga- nismo se passa, entre os seos elementos de defeza e os hospedes perigosos que o pretendem invadir. Cephaléa ligeira, inappetencia, anorexia, prostra- cçã>, ergas!henia moral e phisica não pouco accen- tuada, são perturbações farta vez presentes ao periodo prodromico da micrococcia de Blíuce. Estes symptomas, porém, que, regra geral, passam de<percebidos ou são attribuídos á vida aílanosa que se leva nos tropicos, nada têm de caracteristicos e são communs ao periodo incubacional de vários outros estados morbidos. II Periodo de inicio. - Neste periodo, cujo começo é marcado pelo da ascenção thermica, os ligeiros prodromos precedent emente assignalados, intensifi- cam-se, <ie modo a constituir elementos de relevância no quadro clinico. A cephalalgia, o rnais das vezes localizada á reg:ão frontal, ou esten lendo-se do occiput áquella região, accentua-se, por vezes consideravelmente, e nestes casos é, não raro, acompanhada de congestão da face. Frequentemente sobrevêm nauseas e por vezes 38 vomitos, que, nos casos graves, podem ser estriados de sangue. E' de regra uma constipação obstinada, que, entre- tanto, não é um symptmna obrigado, pois pode haver diarrhéa, por vezes mesmo, sanguinolenta. Em 65 casos de febre de Malta, nos quaes, Bruce cuidosamente observou o estado funccional do intes- tino, 17 evoluíram com diarrhéa, dando assim uma porcentagem de 25,4 n[0. Segundo Hi ghes, ha constipação ern\81 °[o dos casos, diarrhéa em 4 °[0, uma e outra perturbação em 3 °[o e íunccionamento normal do intestino em cerca de 12 Diz, entretanto, que nos casos fataes, a diarrhéa attingio a porcentagem de 40 °[0. E' frequente o apparecer de dores lombares neste período, em que se faz' constante uma dor epigas- trica, ora consestindo em sensação de queimadura, ora muito aguda, e quase sempre rebelde á toda medicação interna, aliviando, somente, com injecções de morphina. (Spagnolio. Riforma Medica, 3?/ de Novembro de 1907.) Com o surdir destes symptomas, mais ou menos apparatosos, sobrevem a elevação thermica, muitas vezes precedida de calafrio, o qual em certos casos durou cerca de duas horas; ordinariamente, porém, 39 d pouco intenso e pode, também, reapparecer no decurso da moléstia, precedendo e annunciando as exacerbações febris. A pouco e pouco intensifica-se a febre, acompa- nhando-se de ligeiro delírio e de insomnia, frequente neste período. Durante alguns dias vae-se elevando a curva ther- mica, attingindo 38, 39 e mesmo 40 , assumindo uma marcha, cuja principal caracteristica é a extrema irregularidade. Na grande maioria dos casos, a curva thermica torna-se ondulante, constituindo o typo ondulatorio, creado por Hughes, que chamava á febre de Malta febris unedulans. Eis como elle a descreveo ( Artigo traduzido para a Revista Medica de S. Paulo, 1900 ): «A elevação thermica tendo attingido 103 a 105° F., *á tarde, acompanhada de algum catharro bronchico e mes- mo, ás vezes, de hypostase pneumonica, relativa á intensidade do caso, depois de um período variavel, desce gradualmente á normal de manhã, e posto que suba um pouco á tarde, o doente sente-se melhor e deseja levantar-se. Pode-se dizer que a primeira onda é passada. Um dia ou dous depois, a temperatura começa a 40 subir e ahi temos um novo accesfo, em tudo seme- lhante ao primeiro, porém actualmente menos pro- longado e menos intenso. Passa este sendo seguido p»r outros accessos representando as curvas da tem- peratura um perfeito traçado ondulatorio, tão cara- cb-ristico desta forma de infecção melitense.» Pb tas vagas febris podem ser consideradas outras tantas recahidas, e os intervalios, que as separam, m m sempre são de completa ap^rexia: o mais das vezes, ao contrario, durante meses mantem-se a tem- peratma alguns décimos acima da normal. Os accessos, ordinariamente cinco ou seis, podem ser muito mais numerosos, sendo o primeiro sempre mais forte que os outros. Cada onda febril, insula lamente analysada, mos- tra-se formada por uma serie de accessos subintran- trs ou ondas secundarias, de febre continua, remit- tente ou intermiltente. ( Le Dantec. ) Urge dizer, que além do precedente ty po, outros muitos sóe revestir a febre melitense, como ade- ante, mais de espaço veremos. No decurso do perodo que vamos descrevendo, é constante o apparecer de abundante sndorése, que valeo á febre mediterraneal o nome de febris sudo- raliSy que lhe deu Tommàselli, para quem este suor 41 apresenta um cheiro especial, come de o de paglia putrefata, «Em grossas bagas, rola o suor pelas faces do paci- ente, traspassando o travesseiro, molhando a roupa da cama e até mesmo o colchão. Esta profusa trans- piração, que geralmente sobrevém ás 2 horas da madrugada ou pouco antes, dura uma hora ou mais, sendo necessário trocar a roupa duas ou tres vezes» ( Hughes ). Entretanto, pode não ser tão abundante a sudo- rése e Spagnolio relata casos, em que consistio apenas em ligeira humectação da fronte, pescoço e thorax. Neste periodo, são constantes as manifestações para o lado do apparelho respiratório, taes como tosse, expectoração pouco abundante e, nos casos graves, dyspnéa. Um phenomeno que nos parece de frequente occor- rencia, neste periodo, é a epistaxis. Talvez mesmo, o micrococcus ou as suas toxinas, tenham a pro- priedade de produzir um estado hemophilico, pois são frequentes as manifestações hemorrágicas no decurso da moléstia. De 14 casos, por Spagnolio publicad( s na Rijorma Medica de 30 de Novembro do anno p. passado, 7 42 contaram em seos quadros clínicos hemorragias, prin- cipalmente epistaxis, das quaes uma tão séria que requereo a tamponagem nasal. Em rápidos traços delineados os mais notáveis symptomas subjectivos, que no periodo de inicio se podem apresentar, vejamos quaes os signaes obje- ctivos, que, durante elle, nos fornece a exploração clinica. No periodo doloroso do começo, a face corada, as conjuntivas injectadas e os olhos brilhantes tradu- zem o estado reaccionario do organismo. Estes phenomenos, porém, a pouco e pouco cedem e se torna a face pallida, anemiada, ás vezes ictérica, ás vezes cyanosada nos casos graves. A inspecção do corpo, não raro, mostra manifes- tações cutaneas, taes como sudamina, miliaria, furun- culos etc. Contestam, porém, a maior parte dos auctores, a existência de manchas róseas, que ás da febre ty- phica semelhem. Entretanto, dentre as observações publicadas por Spagnolio, a que já alludimos, fazem se algumas notáveis pela presença destas man- chas, diffundidas pelo pescoço, thorax e parte supe- rior do abdomem. Também Gkocco, citado por Stefanelli e por 43 Teambusti, chama a attenção para manifestações cutaneas variadas, das quaes algumàs podem seme- lhar a roseola typhica. Não vemos, pois, razão para a afíirmação absoluta da inexistência de manchas róseas no decurso da febre mediterraneal. A lingua é larga, flacida, apresentando lateralmente a impressão dos dentes. Nos casos benignos apre- senta-se coberta de ligeira saburra branca amarellada; nos casos graves pode tomar um aspecto mais assus- tador, coberta de fissuras, que sangram facilmente; as vezesé «vermelha, reluzente, cor de carne crua, com placas de descamação epithelial.» (Hughes) O figado é doloroso e um pouco augmentado de volume, não tanto, porém, como o baço, cuja sen- sibilidade e hypertrophia se tornam notáveis desde o inicio da infecção, em que pese a GiuffeÊ, que negava a frequência da esplenomegalia na infecção •de que tratamos. E' muito frequente a escuta dos pulmões, nesta phase da moléstia, revelar rudeza respiratória e estertores seccos nas bases, traindo assim um certo gráu de congestão do systema broncho-pul- monar. Nem sempre se faz completa a correlação entre 44 a hyperthermia e o pulso, que pode bater 79 e 80 vezes por minuto, apesar de elevada temperatura. Neste periodo, regra geral, nada se encontra para o lado do orgão centro da circulação. A albuminúria, cuja existência tem sido aliás muito contestada, pode existir embora ligeira, e Schoull julgava-a, mesmo,um phenomeno frequente, assignalando casos em que a anuria veio sombrear o prognostico. - • Frederici falla-nos, também, em phosphaturia. III Periodo de declínio. - Os symptomas agudos, no precedente periodo descfiptos, aos poucos cedem, com exclusão da temperatura, que mais tempo leva a declinar. De facto, a não ser nos casos em que cedo sobrevem a morte, a curva thermica é sempre longa e mesmo nos casos mais benignos o cyclo da hyperthermia abrange no minimo duas semanas; farta vez, prolon- ga-se por 2, 3 e mais meses, sendo até esse um dos caracteres da moléstia. Como dissemos, ao primeiro accesso outros mais fracos succedem-se de modo a ser a terminação da moléstia precedida por essa serie de oscillações ther- micas, a que com tanta propriedade, o illustrado Gabbi chamou la coda febrile. 45 Si, como deixamos dito, os assustadores sym- ptomas,que formam o scenario do precedente periodo, decrescem neste de intensidade, têm, porém, aqui por substitutos outros de não menor valia. O depauperamento orgânico accentuando-se com o evoluir da moléstia, que é por excellencia hemo- lisante, acarreta notável diminuição do peso e perda da força muscular. A fácies torna-se de uma pallidez extrema e Gardon, que a julgava caracteristica, impropriamente chamou-a mascara mediterraneal. Os globulos vermelhos do sangue decrescem nota- velmente de numero, vindo a dous e três milhões por milli metro cubico, de cinco milhões que normal- mente são. Ao lado desta hypoglobulia, nota-se a diminuição da taxa hemoglobica, que pode íicar reduzida á metade. Spagnolio, Signer, Gardon, Cathoire e recen- temente Toma elli têm procurado o estabeleci- mento da formula hemoleucocytaria, encontrando u na mononucleose constante. Cardaliâguet vae mesmo mais longe, querendo considerar caracteristica a formula leucocytaria, cujo estabelecimento aponta como um dos bons meios diagnósticos para a febre 46 melilense, opinião que estamos longe de partilhar, por sabermos ser também a mononucleose a formula do paludismo, da febre typhoide e de outras muitas moléstias infectuosas. A hepato e a esplenomegalia, esta principalmente, accentuam-se muito. Sopros anorganicos fazem se audíveis na região precordial e nas fossas jugulares. Sobrevem edema dos membros inferiores e por vezes do rosto. A asthenia cardiaca é traduzida pela, frequência do pulso, que, muito ao contrario do segundo período, attinge 100, 120 e até mesmo 132 pulsações por minuto, como em ura caso já se observou; por vezes é intermittente. Neste período são frequentíssimas e por isso mesmo de não pequeno valor semeiotico, as mani- festações articulares. Consistem ellas em dor e tume- facção das articulações, podendo nos casos sérios, haver verdadeiros derramens intra-articulares, q-ue cedem, porém, dentro de algum tempo, nunca che- gando á suppuração. As juntas mais predispostas a este estado rheumatoide são as articulações do joelho e escapulo-humeral, mas todas as outras podem ser 47 atacadas, e pode, mesmo, dar-se o caso de serem-no todas ao mesmo tempo. São, também, encontrad'ças, neste período,as dores nevrálgicas e mesmo myalgicas: dentre as primeiras soem ser mais frequentes a sciatica e as intercostaes; das segundas cabe a primasia á da região lombar. IV Período de convalescença. - Embora uma vez chegada a temperatura á normal, nem por isso se pode dahi concluir o estabelecimento da convales- cença, porquanto uma recaída é sempre a temer e tanto mais quanto isto é mesmo uma das caracte- ristícas da infecção pelo micrococcus de Bruce. Em todo caso, quando tal recaída não se faz presente, e complicações quaesquer não vêm som- brear o quadro, o estado geral do paciente conside- ravelmente melhora; voltam-lhe as forças, augmenta- Ihe o peso, e seo rosto, onde até então estampavam-se o terror e a inquietação, adquire um aspecto mais animador e alegre. A língua limpa-se e adquire os caracteres normaes. A crase sanguínea melhora-se. E no fim de algum tempo, principalmente si observou um regimem dietetico apropriado, pode o paciente considerar-se curado e voltar ás suas habi- tuaes occupações. 48 Convém, poiém, que digamos ser esse o mais deli- cado período da moléstia e o que maiores cautelas impõe ao paciente, e mais disvelos ao medico exige, por isso que durante a convalescença, ordinariamente longa, está o organismo em estado de opportunidade mórbida, eminentemente predisposto a uma recaída e ao menor descuido prophylatico ou dietetico a moléstia reinstalla-se e agora, talvez mais que dantes, rebelde á therapeutica. Até aqui vimos discorrendo em derredor desse typo, dito ondulante por Hughes. Mas, fôrmas varias pode aflectar ainfecção produzida pelo micrococcus melitensis, fôrmas caracterizadas, já pelo aspecto da curva thermica, já pela intercurrencia de elementos symptomaticos especiaes. Diversamente têm sido classificados estes typos clinicos. Hughes descrevia tres typos: maligno, intermittente e ondulatorio. Tommaselli considerava as formas gastrica, nervosa, paralytica e indetermi- nada. Gardon as formas gastro-intestinal, pulmonar e nervosa. Neuser destinguia os typos agudo, sub- agudo e cronico. Gabbi descreve os typos continuo, remittente, intermittente, maligno, indeterminado ou lento e ambulatório. O estudo minudente que fizemos da symptomato- 49 logia e modalidades clinicas da micrecoceia de Bruce leva-nos a dizer que, dentre todas estas classificações, e outras muitas que silenciamos, como fossem as de Traversa, Remliger, Birt e Lamb, etc., nenhuma satisfaz cabalmente, sendo mais completa a de Gabbi, que adoptamos, após ligeiras modificações. Assim, substitui mos pelo typo ondulatorio o typo continuo- vemittente, a que Giuerê chama pseudo tgphoide, epie não nos parece digno de especialização, uma vez que deve ser considerado um typo ondulatorio em que apenas houve uma onda febril, e accrescentamos as fôrmas respiratória e endocarditica, dignas, que nos pareceram, de destaque, a primeira por sua extrema frequência e a segunda por seo sombrio prognostico. Revistemos agora os caracteres dessas formas da febre de Malta : Forma maligna. - Esta fôrma da infecção meli- tense objectiva-se pelo caracter hyperpyretico da temperatura e pela presença de symptomas alar- mantes, mais commumente de ordem nervosa ( forma nervosa de Gardon e Tomaselli ). O periodo prodromico não existe e o doente é atormentado por cephaléa íntensissima e dôres geraes violentas,associadas a phenomenos gastro-íntestinaes : lingua saburrosa, vomitos, fetidez do hálito e diar- 50 rhéa, cuja frequência, nestas fôrmas graves, já deixa- mos apontada. A temperatura rapidamente eleva-se, attingindo logo 39 a 40°, concorrendo para engravescero doente e acompanhada de delírio, agitação e insomnia. Farta vez, nestes casos, cae o doente em estado comatoso. Sobrevêm ordinariamente complicações pulmo- nares ou cardíacas, que arrastam á morte, terminação esta a mais frequente nestes casos graves da septi- cemia de Bruce. Fórma intermittente.-Tem a sua caracteristica na marcha intermittente da temperatura, cujas inter- missões são diarias. O máximo diário é, regra geral, pouco elevado, de sorte que o traçado thermico antes semelha o da febre hectica, que o de uma intermi- ttente palustre, A symptomatologia presente é quase idêntica á do typo ondulante, mais attenuada, porém, porquanto os casos que revestem o typo intermittente são em geral benignos. Fórma indeterminada e lenta. - Assim chamou Tomaselli a uma fórma da infecção melitense, em que a pyrexia prima pela irregularidade e incons- tância e cujos symptomas, em geral attenuados, 51 também em extremo variam, consistindo já em perturbações geraes semelhantes ás descriptas no periodo prodromico, já em ligeiro catharro gastro- intestinal, já, finalmente, em benigna phlogose dos orgãos respiratórios, tudo isso acompanhado de tume- facção esplenica, satellite inseparável da infecção micrococcia, em qualquer de suas fôrmas. Fôrma ambulatória. - Shaw, um dos mais esfor- çados trabalhadores da Com missão em Malta, com a coadjuvação de seus illustres collegas, Drs. Horrojks e Kennedy, deu se ao trabalho de pesquizar a sero- agglutinação de Wright em 525 trabalhadores do arsenal de Malta, homens apparentemente sadios, e encontrou-a positiva em 79, dos quaes 22 a tinham em elevado grám F/ mistér resaltar, que estes indivíduos negavam ter soffrido anteriormente de febre de Malta, e em alguns delles foi o micrococcus insulado do sangue e da urina. Como unico symptoma morbido, por occasião do exame, apresentavam uma temperatura poucos dé- cimos acima da normal. Gabbi, em Messina, também conseguiu isolar o micrococcus do sangue de indivíduos sãos em appa- rencia. 52 N. Vaccaro (Anual es de lInstitut Pasteur, 15 de Março 1908), procedeo, na Italia, em 180 pessoas (estudantes, infermeiros, e operários) as sero-rea- cções com o micrococcus melitensis, com os paraty- phicos A, B e C, com o typhus-diagnosticum, com o bacillo coli e com o bacillo de Gcertner. O micro- coccus foi agglutinado 14 vezes, em diluições vari- ando de l{30 a l{300, e em um dos indivíduos foi insulado da urina. Taes pessoas de nada se queixavam e as suas temperaturas oscillavam entre 30°,2 a 37°,4. Existem, pois, casos de febre de Malta ambula- tórios, de symptomatologia frusta, irreconhecíveis, portanto, a um simples exame clinico, e por isso mesmo perigosissimos sob o ponto de vista da propa- gação do morbus. Fórma respiratória.-Dissemos já que no inicio da infecção era frequente o apparecer de manifestações pulmonares traduzindo-se por tosse, expectoração, rudeza respiratória, estertores, etc. Taes manifesta- ções podem accentuar-se, em extremo, dando-nos assim uma forma pulmonar da febre melitense, fórma relativamente frequente e cuja existência foi plena- mente patenteada pelos trabalhos experimentaes de Caracciolio e por Basset Smith e Fiorentini, que 53 insularam o micrococcus da expectoração de doentes affectados deste typo clinico. Fórma endocarditica.-Na sua monographia, Hu- ghes nos falia de uma fórma endocarditica da febre mediterrânea, fórma que é muito frequente, no dizer de Castellino, quando no Congresso da Socie- dade Italiana de Medicina Interna, em 1906, procu- rava, em discussão com o professor Gabbi, estabe- lecer uma difíerenciação entre a febre de Malta e a lebre napolitana, moléstias que, no dizer daquelle ultimo clinico, eram idênticas, o que hoje desmerece já de provas. Gabbi, porém, nega a frequência da fórma endo- carditica, da qual nem um só caso poude observar, e as experiencias neste sentido e por determinação sua, praticadas por Spagnolio, seu assistente, deram todas resultados negativos, - Ao lado dos symptomas, cujo conhecimento nos era indispensável para o estudo do diagnostico, força nos é, também, mencionar as complicações mais encontráveis no decurso da moléstia, visto que ellas constituem a seo turno, elementos semeioticos, farta vez dignos de ponderação. Destas complicações as mais importantes, taes 54 como as articulares, nevrálgicas, pulmonares, car- díacas, etc., ficaram já assignala las, restando-nos dizer daquellas, a que poderíamos chamar de glan- dulares e entre as quaes cabe a primasia á orchite, cuja extrema frequência na febre de Malta, vem desde Bruce assignalada. Alguns auctores faliam- nos, também, em casos de mastite, que aliás nos parecem raros. E já que de complicações estamos tratando, não terminemos sem chamar a attenção para a associação com a febre mediterrânea de outros estados mór- bidos, que não pouco vêm diíficultar o diagnostico, como sóe acontecer com a associação da febre typhoide á infecção melitense, da qual Kennedy publicou um caso no Journal of lhe Royal Medicai Corps de Março de 1905, e o Dr. Phillips outros na Lancei de 10 de Fevereiro de 1906. Descrevendo a symptomatologia da micrococcia de Bruce, miravamos pôr em destaque elementos bas- tantes para a edificação do diagnostico. Lá nas regiões em que reina endemicamente a moléstia, é natural que taes elementos bastem; aqui, porém, (onde, como veremos, ainda fortes duvidas 55 padece a existência da febre melitense) em face de uma symptomatologia,mesmo a mais caracteristica, o clinico só pensará na hypothese dessa moléstia, si chegar a pensal-o, uma vez postas á margem todas as outras hypotheses cabíveis ao caso. Assim,procederá a um exame minudente de lodos os orgãos, buscando em algum delles descobrir qualquer lesão a que possa imputar a febre. A marcha lenta da moléstia, a sua longa duração, a cachexia, os suores nocturnos e a tosse com fre- quência observada, devem, ao espirito do clinico, levar a hypothese de uma tuberculose pulmonar, que será afastada pela minuciosa escuta dos pulmões. E tal hypothese é tão justificada, tão frisante é a simili- tude apparente entre as duas entidades mórbidas, que os antigos clínicos nos fallavam de uma tísica medi- terraneal, perfeiramente curável e cuja identidade com a micrococcia de Bruce já de provas não carece. Alfim, é bom não esquecer que as duas moléstias podem vir associadas e á tuberculose, reconhecida á exploração physica, serem imputados os symptomas da infecção melitense, que passaria despercebida si a sero-reacção não viesse aclarar o espirito do clinico. 56 O fígado deve, também, merecer o cui lado do practico, que o examinará attentamente, lembran- do-se da não pequena frequência das suppurações hepáticas nos cfimas quentes. E afastando esta hypotbese, deve fazel-o com muita circumspecção. De facto, nem sempre o abcesso do fígado se impõe por uma symptomatologia appa- ratosa e caracteristica; ao contrario disso, na grande maioria dos casos, evolue insidiosa e enganadora • mente, sendo mistér do clinico suspeital-o por pequeninos signaes, apparentemente insignificantes: são, entre outros, antecedentes dysentericos, dor na região hepatica propagando-se para a espadua direita, apagamento das depressões intercostaes na parte inferior do hemi-thorax. direito, contracção defensiva do recto direito, dor á pressão e á percussão nos espaços intercostaes, augmento do tamanho do fígado, % e volume normal (Jo baço, este ultimo signal de grande peso no diagnostico diflerencial com a infe- cção melitense. Afastada toda ideia de suppuração a entreter a febre, só então, o pratico discutirá o diagnostico difíe- rencial entre a septicemia de Bruce e outras entida- des mórbidas, que se lhe assemelham, e de cuja renque vamos destacar as mais notáveis. 57 Paludismo- As fôrmas intermittentes da infecção melitense podém semelhar uma febre palustre e a mesma similitude se nota entre a fórma ma- ligna de Hughes e certas febres palustres perni- ciosas. Para o primeiro caso, a presença dos symptomas dolorosos do periodo de inicio, o pouco comprome- ttimento do fígado, a presença das complicações articulares e a inefficacia da quinina, são elementos que, aldm da ausência do hematozoario de Laveran, pleteíam em favor da septicemia de Bruce, pedindo a confirmação pelos recursos de laboratorio. No segundo caso torna-se o diagnostico ainda mais difficil e si a ausência do hematozoario no sangue arredar a hypothese do paludismo, só a poncção esplenica, ou a hemocultura, nos poderia esclarecer, por ser nestes casos a sero-reacção de Wright, como veremos, fraca e tardia. As injecções intra-niusculares de tortes dóses de quinina seriam também, no caso, um bom recurso diagnostico. Rheúmatismo poly-articular agudo - A ideia desta moléstia não pode ser evocada em face das manifes- tações articulares, visto como estas existem desde o inicio e como symptoma o mais predominante, no rheúmatismo, ao passo que, na febre de Malta, vêm 58 mais frequeatemente no terceiro período e a titulo de accidentes de segunda ordem. Demais, no rheúmatismo articular agudo, moléstia rara nos climas quentes, as arthropathias são muito mais sérias e muito se beneficiam do salicylato de sodio. Febre typhoide.- Não fossem os recursos de gabi- nete, e seria essa uma das moléstias que mais emba-* raçariam o clinico, quando discutisse o diagnostico differencial de um caso suspeito de febre de Malta. Existem, entretanto, algumas differenças clinicas, aliás de valor medíocre; consistem na duração do morbus, na marcha da febre, na ausência ou presença . das manchas róseas, no estado funccional do intes- tino, no gargarejo da fossa illiaca, no aspecto da língua, etc. Estudando a symptomatologia, vimos o quanto eram falliveis estes signaes e muito mais o são em nosso clima, pois, como ensina Brault, a febre typhoide muda muito de aspecto nos paises quentes, evoluindo com constipação, suóres abundantes e manchas róseas discretas. Por esta razão deixaremos de insistir sobre taes differenças symptomaticas, tanto mais quanto as sero-reacções de Widal e de Wright farão luz completa nestes casos. O mesmo 59 poderemos dizer em relação ao diagnostico com as affecções collibacilares e paratyphicas. Febre recurrente felapsing fever, dos ingleses.)- Esta moléstia, de existência rara, distingue-se clini- camente da febre de Malta pelo syndroma bilioso que a acompanha e que é raro na ultima, pela sua mais curta duração, pelo menor numero dos accéssos e pela ausência das complicações articulares. Além disto o exame do sangue deixaria ver o spirillo de Obermeier, caracteristico do typhus re- currente. Dengue.-Si em presença de um caso de febre de Malta, as dores articulares e outros symptomas fizessem pensar na febre vermelha, tal hypothese nenhuma cabida teria, por ter esta ultima moléstia uma marcha cyclica bem typica e ser acompanhada de uma erupção ( rash) caracteristica. Kala-azar.- Esta moléstia, que aliás Bentley suppoz idêntica á febre mediterrânea, delia distin- gue-se por seo aspecto muito mais grave, pela hypertrophia muito mais considerável do figado e baço e pela pigmentação da pelle. Aliás a pun- ctura esplenica daria os corpúsculos de Leischman- Donovan. Moléstia do somno. - A trypanosomiase é facil- mente distinguível da febre de Malta e Manson discutindo o diagnostico das febres tropicaes, nas suas Lectures on Tropical Diseases, enumera certos symptomas, dos quaes segundo elle, nos pontos em que existe a trypanosomiase, bastam dous ou três reúnidos para fazer suspeitai a: Erytbema; hyper- trophia dos ganglios lymphaticos, especialmente dos cervicaes; edemas localizados ; fraqueza mus- cular ; tendencia á tachicardia ; cephalalgia; e prurido nos indivíduos de cor preta. Não sabemos a razão por que o dístincto tropica- logista inglês omittio o symptoma mais caracte- ristico, no dizer de todos os auctores: o somno. Com muitas outras moléstias deveria ser dis- cutido o diagnostico differencial da septicemia de Bruce, mas achamos mais util passar ao es- tudo do: Diagnostico bacteriológico. - Attendendo á diversidade de fôrmas que vimos revestir a mo- léstia, á variabilidade extrema do seo quadro clinico, claro é que só o diagnostico bacteriológico merece íé e a sua technica é actualmente tão simples, de tão facil execução, que em outros pontos do mundo entrou, já ha muito, na pratica corrente. Por três methodos pode ser obtido o diagnostico 60 61 bacteriológico na febre melitense: punctura esplenica, hemocultura o sero-reacção. (1) Muito pouco diremos sobre os dous primeiros methodos, para mais nos estendermos sobre a sero- reacção, que é de mais corrente emprego. Punctura esplenica. - Até ha algum tempo se suppoz que o micrococcus melitensis só poderia ser encontrado nos orgãos centraes. Dahi a lembrança de praticar a poncção do baço - orgão em que o micrococcus assesta seo quartél general - com o fito de obter um diagnostico prompto e seguro. Essa poncção, que Bruce realizou pela vez pri- meira em 1891, poderia ser feita por meio do trocar emporte-piéce de Duchenne, que permitte de obter um fragmento do orgão, mas é preíeriyel, para maior inocuidade, recorrer a uma seringa munida de uma longa agulha. O processo a empregar é simples e consta, mais ou menos, do seguinte: Verificada pela percussão a séde exacta do baço, asepsia-se a pelle e no f 1 ) Eyre aponta ainda, como meios de diagnostico, a pesquiza do micrococcus nas fezes e na urina dos doentes, recursos que nos parecem de pouco proveito por ser a presença do micrococcus nas fezes muito incons- tante e na urina só ter sido notada nos últimos dias da moléstia e durante a convalescença. Eis porque não fizemos especialização destes recursos semeioticos. 62 centro da matidez esplenica, se enterra perpendí- cularmente uma agulhar de 4 a 5 centímetros de comprimento, unida a uma seringa de Luer, ou outra analoga, e se pructica a aspiração; retira-se em seguida a agulha e applica-se um pouco de collodio sobre a picada. Com o sangue assim obtido far-se-á frottis ou culturas. Mas, este methodo propedêutico não ganhou gene- ralizição, por não ser isento de perigo, tanto assim que os practicos inglêses, que a elle frequentemente recorriam na pesquização diagnostica da kala-azarr preferem hoje nestes casos a poncção hepatica, de resultados também certos e perigo muito menor. Porque, também, não fazer a poncção do fígado para a confirmação da febre de Malta, uma vez que o micrococcus é constante nesta viscera? Seria muito mais inocuo que a poncção esplenica e muito mais facil que a hemocultura. Hemocultura ,-Tendo Gilmour, SnÁw e Zammit, em 1902, demonstrado a existência do micrococçus no sangue peripherico, era natural que se o procurasse obter dahi para a confirmação do diagnostico. Infelizmente, sendo minimo o numero de micro- coccus existentes na circulação peripherica (1 a 2 63 elementos por centímetro cubico,.segundo Gilmour) não bastavam simplesdo sangue para a veri- ficação diagnostica, a qual exige que se procure obter a proliferação daquelles poucos germens existentes no sangue, fim este attingido pela hemocultura. Consiste esta na semeiadura de grandes quan- tidades de sangue em grandes quantidades de caldo. Vamos descrever o processo, tal como temos tido occasião de practical-o. O sangue pode ser recolhido de uma das veias da face dorsal da mão ou do antibraço, quando não forem encontradas veias salientes no dorso da mão; em um caso fomos obrigàdo a ponccionar a veia cephalica. Faz-se a antisepsia rigorosa da região e lava-se em seguida com um pouco d'agua destillada e esterilizada, para retirar o antiseptico. Ligado o membro, como para a phlebotomia, introduz-se no vaso escolhido e parallelamente á sua direcção, a agulha de uma se- ringa de Luer e aspira-se cinco centímetros cúbicos de sangue, que com todas as precauções asepticas são repartidos por dous balões, contendo cada um 300 cc. de caldo commum, imprimindo-se ao vaso um certo movimento de rotação afim de facilitar a diluição do sangue. Os balões são em seguida collo- cados na estufa á temperatura de 38'. E' util collocar previamente na seringa algumas gottas de uma solução, a 10 °[o, de citrato de sodio, para impedir a alteração do sangue (Eyre). Quando o sangue contém o micrococcus melitensis, este desenvolve-se turvando o caldo no fim de dous ou três dias. Esta turvação pode, porém, ser devida a qualquer outro microbio que o sangue contenha e por isso a hemocultura é, também, um meio de diagnostico da febre typhica, das paratyphicas e das infecções septi- cemicas em geral. Observada, portanto, a turvação do caldo, resta ao bacteriologista determinar por meio do estudo da morphologia, coloração, culturas, etc., a especie mi- crobiana responsável por tal turvação. Uma condição é, entretanto, indispensável ao feliz exito da hemocultura, e sobre ella se não contradizem os que do assumpto se mostram conhecedores. E' que seja o sangue colhido durante a hyper- thermia e tanto quanto possivel, no mais agudo periodo da moléstia. Segundo Zammit, não pode o microbio ser isolado 64 65 do sangue peripberico si a temperatura fôr inferior a 38.° Das nossas observações, em algumas, por impossi- bilidade absoluta de empregar outro recurso diagnos- tico, practicamos a cultura do sangue, apesar da tem- peratura quase normal dos doentes, circumstancia que nos deixou fortes duvidas sobre o diagnostico. Sôro-reacção.- A exemplo do que Durham e GbubER assignalaram, em 1896, com referencia ao bacillode Eberth, o Professor WRTGHT,deNelley, em artigos publicados na Lancet de 6 de Março de 1897 e no Britsh Medicai Journal de 5 de Maio do mesmo anno, estabeleceo que o micrococcus melitensis tem a propriedade de determinar a formação de aggluti- ninas no sangue dos doentes, circumstancia esta que permittia o diagnostico por meio da sôro-agglutinação. A's asserções de Wright não se fizeram esperar as confirmações de vários experimentadores, que consideraram a soro reacção como um bom meio semeiologico para a febre de Malta. Entretanto, não lhe têm, também, escasseado os adversários, entre os quaes é dos mais notáveis, em- bóra não dos mais encarniçados, o grande tropicalo- gista inglês Patrick Manson, que em justificativa ás suas reservas, narra nas Lectures on Tropical Medicine, 66 pag. 172, o seguinte facto : Chamado para ver um homem, vindo do Mediterrâneo, eom uma febre de marcha chronica, cujo diagnostico não poudéra firmar pelos signaes clínicos, lembrou-se de recorrer á sôro- reacção e para isto enviou um pouco de sangue a dous laboratorios, dignos de confiança, pedindo-lhes o diagnostico differencial entre a febre melitense e a typhica. No dia immediato responde^lhe um dos laboratorios: Malta fever reaction, no typhoid, res- posta que o levou a favoravel prognostico. Outro dia depois, responde-lhe o outro laboraiorio: « Typhoid fever reaction, no Malta fever*! Procurando deslindar esta meiada, envia terceira amostra de sangue aopro prio Wright, que passados dias, lhe responde. No Malta fever ; no typhoid fever! Também se salienta como adversário da sôro-re- acção Konrick, que a encontrou positiva até á dilui- ção de 1 por 500, em indivíduos sãos. Apesar desses raros factos, que parecem depor contra a sôro-reacção de Wright, continuamos a reconhecer-lhe elevado valor diagnostico e isto, porque achamos sempre explicação para estes resul- tados, em apparencia, contradictorios. São as vezes defeitos de technica, como no caso de Manson, em que o sangue enviado aos laborato- 67 rios (pelo menos o enviado ao Professor Wright era secco, quando todos os auctores recommendam o emprego de sangue fresco, por serem carentes de fé as provas feitas em condições oppostas. Outras vezes é o emprego de culturas impuras ou muito velhas, que vêm falsear os resultados. Entre outros, Stefannelli f Revista dl clinica medica, de 3 de Agosto de 1907) insistindo sobre a nescessidade de empregar culturas recentes e prefe- ridamente de virulência exaltada, assim se exprime: «le culture troppo vecchie sono spesso auto augluti- nabile e possono indurre a deplorevoli errori.» Finalmente é mistér não esquecer a possível vari- ação do poder agglutinante do sangue, apresentando verdadeiras intermittencias durante o periodo de estado, comoadeante mais minudentemente veremos. Por outro lado, a especificidade da sôro-reacção não mais sofíre dubiezas, que a confirmam abun- dantes experimentos. Birt e Lamb procuraram a agglutinação de Wri- giiet em 50 indivíduos sãos e em 100 soffrendo de moléstias outras que a febre de Malta e jamais a obti- veram completa na diluição de 1:10 e nem traços na de 1:20, vindo-lhes dahi a conclusão de que uma agglutinação completa a 1:10 auctorizava o diagnos- 68 tico de febre melitense, presente ou anterior. De novo em 1906, Birt referindo-se a sôro-reacção de Wright-disse : «It is therefore obvious that the serum reaction, if effectually controlled, is a valuable method for the diagnosis of Malta fever, and is only surpassed by the isolation of the micrococcus meli- tensis from the blood of the patient.» Lamb e Kesara Pai fizeram experiencias com o sangue de 51 individuos sadios e com 150 amostras de sangue enviadas ao Instituto Pasteur da índia, para o diagnostico da febre typhica, ao todo 201 casos, sem uma só reacção positiva! Gardon experimentando em 125 doentes de moléstias diversas, apenas nove agglutinações posi- tivas conseguio obter, sendo 5 em pneumonicos e 4 em paludicos, convindo notar que elle trabalhava em Tunis, onde a iníecção melitense é frequente sob as suas múltiplas fôrmas. Nicolle,também, defende a sôro-reacção que expe- rimentou em 33 individuos soffredores de moléstias diversas da febre de Malta e sempre com resultados negativos. CRiTiENtendo experimentado a reacção de Wright na diagnose differencial entre a septicemia de Bruce e a tuberculose pulmonar, affirma que uma reacção 69 definida a 1:10, em 30 minutos, sob o microscopio, confirma a febre de Malta presente ou passada e suas conclusões podém ser assim resumidas: L° A tuberculose não produz no sangue substan- cias que agglutinem o micrococcus melitensis, em diluições de 1:10 e 1:20. 2.° Nos indivíduos tuberculosos a agglutinação a 1:10 ou em mais alta diluição, implicará a existência, anterior ou actual, de uma infecção pelo micrococcus de Bruce. 3? A. sôro-reacção positiva não quer dizer ausência da tuberculose, donde a necessidade de procurar sempre, por minudente exame clinico, si existe uma phymatose. Os investigadores italianos, Stefanelli, Gabbi, Giuffrê, Trambusti, etc., dão, também, todo valor á sôro-reacção. Trambusti, na sua monographia, cita experiencias feitas com o intento de verificar a especificidade da sôro-reacção e demonstra, que o soro dos animaes infectados com o micrococcus meli- tensis não agglutina o estaphylococcus nem o estre- ptococcus e vice-versa, o soro infectado com qual- quer destes germens não agglutina o melitensis. Ainda, Basset-Smith deo-se á pratica da sôro- reacção em 150 doentes do Hospital de Haslar, 70 empregando diluições de 1:30, obtendo resultados positivos em quatro doentes, dos quaes apenas um (abcesso do pulmão) não tinha estado em Malta ou no Mediterrâneo; os outros lá estiveram e soffreram de febre melitense. Todos estes resultados accordes provam, que si a sôro-reacção não é infallivel, é pelo menos um recurso digno de toda a confiança para o diagnostico. E nem sómente para o reconhecimento da septi- cemia de Bruce serve a reacção de Wright; mais vasta é a esphera da sua utilidade, pois pode servir de guia, ao clinico, no prognostico. Birt e Lamb, estudando-a sob este ponto de vista, chegaram ás conclusões que aqui resumimos: l.° O prognostico é desfavorável si a sôro-reacção é constante e lenta. 2.° E' também de mau augúrio a queda da reacção de um grau elevado á vizinhança de zero. 3? A prognose é favoravel si a reacção vae augmen- tando e se mantém elevada. 4.° Reacção a principio elevada e decrescendo consideravelmente indica que a moléstia será longa. Gardon julga também possível tirar conclusões prognosticas da sôro-reacção, mas ajunta que, do mesmo modo que uma só temperatura isoladamente 71 tomada nenhum valor prognostico tem, também uma sòro-agglutinação isolada pouco pode additar quanto á prognose, que só pode ser ajuizada pelo estudo da curvado poder agglutinante. Entretanto, concorda que a reacção é tanto mais elevada quanto mais benigno for o caso. Sendo as agglutininas o meio natural de cura (Gabbi), como é o pensar de muitos, não ha diffi- culdade em comprehender que seja o poder agglu- tinante tanto menor quanto mais grave for o caso, justificando-se assim o valor prognostico da sôro- reacção. Defendidos os direitos da reacção agglutinante de Wright, vejamos quando e como a devemos pra- ticar: Diversos têm sido os processos aconselhados para a practica da sôro-agglutinação de Wright, desde este seo descobridor até a epocha actual, merecendo menção, entre elles, os de Wright, Curry, Birt e Lamb, Craig, Nicolle e o da dupla reacção do Dr. Gillot. Evitando inúteis prolixidades, daremos uma des- cripção geral do modo por que deve ser feita a sôro- reacção, sem assignalar as pequenas variantes de 72 technica que fazem a caracteristica differencial dos diversos processos entre se. Para a pratica da sôro-reacção precisamos em primeiro lugar de uma cultura do micrococcus, que poderá ser feita em caldo, mas só no ultimo caso, por isso que os resultados são pouco dignos de fé com essas culturas (Gardon, Stefanelli). Todos os auctores, desde Wright até aos mais modernos, dão preferencia ás culturas sobre gelose, com as quaes fazem uma emulsão em solução de chio reto de sodio ou mesmo em caldo. Para o conseguimento desta emulsão semeia-se o micrococcus sobre gelose, consérvando-se na estufa, a 37°, por 3 a 4 dias; em seguida derrama-se no tubo de cultura um pouco de sôro artificial esterilizado ou de caldo, imprimindo-se ligeiros movimentos até que se produza uma emulsão, tão turva quanto uma cul- tura em caldo de bacillo typhico, de 16 a 20 horas (Nicolle). Ha quem aconselhe centrifugar a emulsão durante dez minutos, afim de evitar a presença de grumos, mas esta cautela é completamente dispensável quando se teve o cuidado de não arranhar a superíicie da gelose. Obtida a emulsão temos de recolher o sangue, 73 para o que aconselhava Wright, picar o dedo do doente e recolher o sangue, que se escoa da picada. Sem condemnarmos de todo esse processo, a que farta vez se é forçado a recorrer, apontar-lhe-emos os seguintes inconvenientes : a) Difficilmente se obtém a quantidade precisa de sangue. b) O soro sae, muitas vezes, laçado em conse- quência dos movimentos que se não pode evitar soffra o tubo no qual é recolhido o sangue. c) Apezar da asepsia da região e da esterilização do instrumental, o sangue assim, recolhido é fatal- mente séptico, conforme já estabelecera Dimoux Dime em sua these em 1-896, o que não deve ser muito íavorayeJ,comquanto Widal e Sicard aífirtnem ser a contaminação do sangue de influencia nulla sobre os resultados da sôro-reacção. Preferimos aspirar, com uma seringa, um pouco de sangue de uma das veias da face dorsal da mão ou do antibraço. O sangue recolhido é deixado em repouso por algumas horas para a separação do sôro, que si se apresentar turvo deverá ser centrifugado durante alguns minutos, O Para a practica da sôro-reacção empregam-se pe- 74 quenos provetes, taes como os contidos na caixa do typhusdiagnosticam de Fickek, em os quaes se fazem as diluições do soro do doente com a emulsão micro- coccica. Taes diluições devem ser feitas nas proporções de 1:10,1:20,1:50 e 1:100, sendo os tubos que as contêm conservados ao abrigo da luz, ao lado de um outro tubo testemunha, que contém um pouco da emulsão micrococcica pura. No fim de 16 ou 24 horas observa-se o resultado, que se dirá positivo si o liquido contido em algum dos tubos das diluições se apresentar límpido, con- tendo grumos na parte inferior, a contrastar com a turvação uniforme do tubo testemunha. O resultado pode ser, também,apreciado ao micros- copio e já no tim de 30 segundos, sendo conside- rado completamente positivo, quando todos os coccus são vistos amontoados em grandes grupos e nenhum está livre no liquido; incompleto, quando os grupos são pequenos e existem coccus livres no campo; negativo quando não existem grupos de germens ou existem pequeníssimos (Rei. da Com. Ingl. P. VI). Conseguido um resultado positivo até á diluição de 1:100, poder-se-á fazer diluições mais altas, a 75 1:500, 1:1000, 1:1500 etc., afim de julgar do poder agglutinante do soro. Qual a diluição maxima em que se pode obter a agglutinação $ Alguns auctores consideram como maxima a dilui- ção de 1:1500, mas Gardon, que tem esmiuçada- mente estudado o assumpto, diz ter obtido aggluti- nações positivas com as diluições de 1:3200, 1:4000 e mesmo 1:9200, e Eyre no seu ultimo trabalho nos falia em agglutinação na diluição de 1:500000! O apparecimento das agglutininas,no sangue,é mais precoce na febre mediterrânea do que na febre ty- phica, de modo a ser possível obter a sôro-aggluti- nação de Wright desde o começo da moléstia. Convém, entretanto, notar que nos primeiros dias a agglutinação é muito fraca e pode mesmo faltar. Soulié e Gardon affirmam que a mais precoce reacção é observável ao sexto dia da moléstia e desse pensar se não afastam outros observadores respei- táveis. Uma vez declarada, a reacção agglutinante man- tém-se, com as variações que veremos durante o pe- ríodo de estado, elevando-se um pouco durante a convalescença, após a qual, muito tempo ainda, ella persiste. 76 Soulié e Gardon encontraram na até seis meses depois da convalescença, nos casos em que desappa- recia precocemente, sendo que de ordinário persistia até 13 meses após. Birt e Lamb verificaram a agglutinação positiva ainda 7 annos após a moléstia. Scheube diz-nos que, de nove pessoas examinadas e que tinham solfrido da moléstia, 5 annos antes, apenas uma mostrou reacção negativa ! Tivemos occasião de dizer que o poder agglutinante era susceptivel de variar no decurso da moléstia, e a este facto hoje já se não antepõem contraditas, bem demonstrado que foi pelos trabalhos de Soulié e Gardon. Estes investigadores observaram as curvas do poder agglutinante, durante 7 meses, em 13 casos de micrococcia de Bruce, notando que em dous delles a reacção falhou durante 3 dias consecutivos, em 5 durante 2 dias, e finalmente em um caso faltou por 5 vezes em dias separados. Stefanelli, nas suas pes- quizas experimentaes e clinicas sobre a sôro-reacção, teve occasião de notar o mesmo phenomeno, ainda observado por Trambusti. Grande alcance practico têm estes factos, qne patenteiam a insufficiencia de um exame unico, quando negativo, e a necessidade de fazer exames seguidos 77 antes de afastar a hypotliese da micrococcia de Bruce. Gardon falia nos de um modo de ser anomalo da sôro-agglutinação, ao qual deo o nome de reacção paradoxal. Na soro-reacção com mu m a aggluti nação é tanto mais immediata e tanto mais completa, quanto menor for o gráu da diluição: na reacção paradoxal esta lei é invertida. Entre numerosos factos deste genero, poderemos citar os relatados por Eyre, em um dos quaes a agglutinaçâo foi negativa nas diluições de 1:10 e 1:20, incompleta na de 1:30 e sempre positiva nas de 1:50 em diante; no outro a reacção foi negativa em diluição de 1:10 até 1:100, sendo immediata e completamente positiva na diluição de 1:200. Nem somente o soro do sangue tem o poder de agglutinar o micrococcus melitensis: outros líquidos do organismo, lagrimas, urina, leite, etc., gozam da mesma faculdade. O poder agglutinante das lagrimas uma só vez vimos mencionado e por auctor, cujo nome, agora, foge-nos á memória. Quanto á agglutinaçâo pela urina, em certos casos 78 notável, é de ordinário muito íallivel, o que lhe tira todo o valor diagnostico (Gardon). Mais constante é o poder agglutinante do leite e a lacto-reacção, ou reacção de Zammit ( Zammit test, dos ingleses), assim chamada em homenagem a quem para ella reclamou a attenção, é de emprego com- mum para o diagnostico da febre mediterraneal nas cabras. Eis, em succinto resumo, a sua technica: Em um vidro de relogio emulsiona-se uma pequena quantidade de uma cultura, em agar, do micrococcus, com um pouco de solução salina normal (até obter uma turvação egual á de uma cultura em caldo de 20 horas),, e a essa emulsão ajunta-se uma gotta de uma solução de íormalina a 1:1000. Em seguida, uma gotta desta emulsão é misturada, em outro vidro de relogio, com uma gotta do leite a examinar e a mistura, introduzida em um tubo capillar, é deixada em repouso por 12 horas. No fim deste tempo ou muito antes, si o resul- tado é positivo distingue-se no liquido três camadas, sendo a superior formada por gordura, a média pelo leite limpido ea inferior pelas bactérias precipitadas. Existirá entre nós a septi- cemia <le Bruce? w as vastas regiões requeimadas pelos causticantes raios do sol dos tropicos, onde a vida exhuberante se expande em todas as suas modalidades, parece que a natureza, amiga sempre dos contrastes, se apraz em tornar mais numerosos e variados os recursos da Morte! Dahi a vastidão e complexidade extremas da pathologia tropical, campo até ha pouco quase de todo desconhecido e inculto e hoje já muito desbravado, graças ao paciente investigar de pesquizadores incansáveis, apostolos fervurosos da Sciencia, á qual tudo abnegadamente sacrificam. E todas as novas e extranhas entidades mórbidas, que esse affanoso labor vae tornando conhecidas, vão, a medida que surgem, sendo esmiuçadamente procuradas em todos os paizes civilizados, ém que o clima ou circumstancias outras, auctorizam a busca 5 em todos, menos no nosso ! 80 No numero delias está a septicemia de Bruce, quase entre nós desconhecida, embóra Trambusti, Manson (edição de 1908), Eyre e muitos outros dêm como demonstrada a sua existência no Brazil, sem que saibamos quem a demonstrou ou mesjno se deu ao trabalho de pesquizal-a ! (1) E haverá motivos, que justifiquem esta pesquiza? Ceriamente que sim ! Em primeiro lugar, sabe-se hoje derrocada a crença de ser a septicemia de Bruce localizada a zonas circumscriptas, como Malta e outros pontos do Medi- terrâneo, crença qué motivou as denominações de febre de Malta, febre mediterraneal, etc., pelas quaes, ainda hoje, mais conhecida é essa entidade mórbida. Pesquizas recentes têm lhe assignalado uma des- tribuição geographica bastante yasta, como se vê na seguinte relação, organizada por Eyre, dos pontos onde tem sido demonstrada a existência do mor- bus: (2) Europa. Áustria.-Trieste. Archipélago grego-Athenas, Nauplia, Platcea, Cepha- lonia (Argostolia), Corfú, Creta. Italia.-Ancona, Benevento, Campobasso, Casserta, (1) Já mencionamos as tentativas infructiferas feitas neste sentido, pelos Dus. G. Moniz e J. Fróes. (2) Omittimos, desta lista, o nome do Brazil, por não ter sido ainda demonstrada a existência da moléstia aqui. 81 Cittanova, Fermo, Liorue, Nápoles, Padua, Piza, Roma, Ter» nio. Mar Mediterrâneo.-Ilhas Baleares (Mahon), Candia, Córsega (Ajaccio), Chypre, Guz<», Malta, Sardenha, Sicili a (Catania, Messina, Palermo, Syracusa). Espanha..-G b r a 11 a r. Turquia.-Constantinopla, Salonika. Asia. Arabia.-Aden. Asia Menor.-B» yrout, Jerusalém, Smyrna. Assam.-Tezpur. China.-Hang-Kong, Shangai. índia.-Agra, Allahabad, Bombay, Calcuttá, Delhi, Ferezepore, Jalandhar, Jhelun, Meenmer, Multan, Now- shera, Bawapindi, Secunderabad, Simia, Subathu, Swat- Valley. África. Argélia.-Argel. Tunísia.- Cabo Bom, Golletta, Beaufort West, Clan- william, Grlquatown, Hanover, Hopetown, Kenhardt, Kimberley, Murraysburg, Pearston, Petrusville, Preska, Richmond, Somerset-Easr, Upington. Provindas Naturaes»-Hay, Maclear, Monuet Fletcher, Ugie. Colonia Orange River.-Bethulia, Boshof, Fairamith, Fiksburgj Koffyfontein, Limkhoff, Phdipolis, Redersburg, Senégal, Springfontem, Wrede, Wepner. Transvaal-B^berton, Boksburg, Dordrecht, Johannes- burg. America. America do Norte.-Valle do Mississipe. America do Sul.-Venezuela, Montevidéo. índias Orientaes.-Cuba, Porto Rico. Oceano Pacifico -Ilhas Fiji, Philipinas (Manilha). Oceano A tlantieo.-Canarias. Vê-se, pois, que a distribuição geographica não impede, antes, ao contrario, auctoriza a que se pense na existência do morbus entre nós. Mas, este pensar se consolida ainda em outras razões. Sabe-se hoje o quanto é vasta a pyretologia dos tropicos e 82 apesar disso, talvez não fosse exagero dizer, tal o abuso que delias se faz, que somente duas pyrexias protopathicas temos para o diagnostico de quantos casos febris nos sejam dados observar; a inalaria e a dothienteria. A primeira delias, principalmente, tem sido victima de injustas accusações, e não somente entre nós como em todos os pontos dos tropicos. Manson chama a attenção dos que se destinam á tropicalogia, contra o abuso do paladismo, cujo diagnostico, feito ás vezes pelo proprio doente, se funda no seguinte racciocinio: « chego dos tropicos; a inalaria é a moléstia, por excellencia, dos tropicos; tive febre; logo tive malaria». Entre nós, vemos a todo instante estabelecer-se o diagnostico de paladismo, sem que se faça a neces- sária pesquiza dos hematozoarios e o que é ainda mais grave, persistir-se neste diagnostico, apesar do fracasso da medicação quininica secundum artem administrada. Em relação á febre typhica o abuso, sinão tão excessivo, não é todavia pequeno, e como bem fez notar o Dr. Gonçalo Moniz, a maior parte dos casos, entre nós, capitulados de febre typhoide, differem em absoluto do quadro symptomatico assi- 83 gnado áquella entidade mórbida nos tratados de pathologia. Sabemos, e seria imperdoável que o ignorássemos, as differenças frisantes que a influencia climatérica estabelece entre a dothienenteria dos paises frios e a tropical, mas isto, a nosso ver, de modo algum justi- fica o estabelecimento do diagnostico sem a confir- mação pela soro-reacção deWiDAL, de pratica aliás muito facil. Demais, os que têm, entre nós, observado um certo numero de doentes febris, facilmente se convencem de que o paludismo e a febre typhoide não bastam aos gastos da diagnose: alguns casos surgem a que, nem mesmo clinicamente, cabe qualquer daquellas designações. São desse numero os que constituem as nossas observações, nos quaes os primitivos diagnósticos de paludismo ou de dothienenteria tiveram de ser reti- rados pela ausência do hématozoario de Laveran e a negatividade da sôro-reacção de Widal Serão casos de febre de MaltaT Nada podemos dizer, com segurança, a respeito. De facto, em uma das observações foi completa- mente impossível fazer qualquer pesquiza bacterio- lógica. Na observação III houve contaminação acci- 84 dental da hemocultura e o mesmo parece ter-se dado com a do caso IV, da qual insulamos um germem com todos o caracteres do estaphylococcus albus. Nas observações V e VI o sangue foi recolhido em con- dições impropicias ao bom êxito, pois as tempe- raturas no momento da colheita eram respectiva- mente de 36°,7 e 37?,2. Resta a única observação em que foi praticada a sôro-reacção de Wright, que foi negativa, mas, já ficou dito o pouco valor que tem para o diagnostico uma unica reacção, quando negativa. Do exposto resalta que si as pesquizas bacterio- lógicas não confirmam o diagnostico de febre de Malta nos casos por nós apresentados, também não no combatem por completo. E quanto aos caracteres symptomaticos, impossível seria negar, pelo menos para algumas das observações a semelhança clinica com a febre de Malta. E' tal esta similitude, que si nos contentássemos com o dia- gnostico clinico, classificaríamos esses casos, como de febre melitense, a exemplo do que em muitas outras partes se tem feito, estabelecendo-se o diagnostico clinico de febre de Malta, muito tempo antes de ter sido confirmada bacteriologicamente a sua existên- cia na localidade: assim se fez em Gibraltar, na índia, 85 na Argélia, etc., mas assim não o faremos nós, em- bóra estejamos convicto de que bem laborado o campo vasto das nossas febres cryptogeneticas, a existência da febre de Malta e a de muitas outras pyrexias, serão patenteadas. E julgando satisfeita a exigencia da lei, chegamosao termino do nosso trabalho, conscio de que, já pela mesquinhez dos nossos recursos intellectuaes eoutros, já pelo perverso influir de adversas circumstancias, outro valor elle não poderá ter além do de chamar a attenção dos nossos doutos para a entidade mórbida que lhe serviu de assumpto, afim de que seja ella alvo de uma pesquização minudente e laboriosa que, alicerçando a affirmativa de sua existência ou inexis- tência entre nós, assim esclareça esse ponto, como tantos outros obscuro, da nossa nosologia. OBSERVAÇÃO I (Dr. João A. G. Fróes. ) R. B., branca, solteira, com 15 annos, natural da Bahia, infer- mou na Escada, onde fôra passar com a familia 2 mêses de ferias. Começou a moléstia por indisposição geral, calefrios violentos, e febre de typo intermittente quotidiano du- rante os 3 primeiros dias, não se elevando a temperatura, até então, além de 39°s 1(2. Do 4.° dia em diante o typo febril tornou-se remittente durante todo o curso do mal, 86 voltando á intermittencia nos últimos dias, sem que hou- vesse jamais cephalalgia. O estado geral da doente foi sempre lisongeiro, nada havendo de anormal além de engurgitamento ligeiro do fígado e baço, albuminúria ligeira durante o periodo febril e urubilinuria franca. O apparelho digestivo manteve-se sempre em ordem, sendo apenas apreciável o estado saburral da lingua, sempre húmida. Logo de inicio foi feito e repetido o exame microscopico do sangue sob o ponto de vista da pesquiza do hemato- zoario de Laveran, o qual foi inteiramente negativo, bem como o typhus diagnosticam de Ficker, negativo nos três exames effectuados. Eis ahi o resultado do exame bematologico feito aos dez dias de moléstia : Hemacias 3:849.000 Leucocytos 9.300 Reiaçao globular Ik414 Hemoglobina 55 °{o Valor globular 0,71 Formula leucocytat ia: Polynucleares neutrophylos 63,05 Lymph. pequenos 21,10 « grandes 12,91 Mononucleares 2,06 Eosinophilos .. 0,88 100,00 87 Com 23 dias de moléstia, repetiu-se o exame do sangue (formula leucocytaria) com o seguinte resultado: Polynuchares neutrophilos.. . 232 - 39,32 Lymphocytos pequenos... . 323 - 53,2 I » grandes 36 - 6,00 Mononucleares 5 - 0,82 Eosinophvlos. 4 - 0,65 600- 100 00 A doente que foi vista em conferencia pelo Dr. Alfredo Britto, restabeleceu-se completamente, depois de urna convalescença um pouco demorada, em que lhe caíram completamente os cabellos, sendo de notar que nos últimos dez dias do periodo febril tinha suores profu- sissimos á noite, de maneira a ser necessário mudar de roupa 2 a 3 vezes em 24 horas e dores rhumatoides nas articulações do joelho. A therapeutica empregada constou de purgativo inicial de calomelanos, saes de quinina (em doses de 1 gramma a principio e depois, durante 3 dias, 1 gr. 80, sendo depois suppressos, attenta sua inefficacia), pyramidon em doses de 15 a 10 centigrammas quando a temperatura tendia á hyperpyrexia, banhos mornos resfriados a Bouchard, lavagens intestinaes, clysteres com uma solução de ichtyol e também ichtyol internamente na dóse de 45 centigram- mas diários (De Renzi), além da desinfecção intestinal constante, com o carvão naphtolado Fraudin. Após 5 mezes de completo restabelecimento, tentou o Dr. Gonçalo 88 Moniz a sôro-reacção com culturas do micrococcus meli- tensis, com resultado negativo. OBSERVAÇÃO II.-J. O., 18 annos, branco, natural da Bahia, entrou para a infermaria de S. Vicente ern 18 de Maio deste anno. A moléstia começou ha dous mêses por ceph dalgia, calafrios e febre, tendo tido vomitos nessa occasião. Tomou por varias vezes quinina, tendo desapparecido o calafrio, mas persistindo a febre acompanhada de suores nocturnos e constipação obstinada. Estado actual. Fácies pallida, extremamente anemiada, Lingua esbranquiçada, suja. Figado doloroso e una pouco augmentado. Baço doloroso e sensivelmente crescido. Sôpro doce na região precordial. Nada para o appa- relho respiratório. As pesquizas do hematozoario de Laveran, feitas nos dias 19 e 21, foram infructiferas. O typhus-diagnosticam de Ficker, feito nos dias 21 e 28, foi negativo. Hemocultura. No dia 21 ás 8 e lp2 da manhã retiramos da veia cephalica esquerda, com todas as precauções asepticas, 5 c. c. de sangue que repartimos por dous balões contendo cada um 300 c. c. de caldo; os balões foram postos na estufa a 37° e ahi conservados durante 8 dias, sem a mais ligeira turvação do caldo, o que indi- cava um resultado completamente negativo. A tempe- ratura do doente, no momento da colheita, era a de 36®,7. A febre persistio, a despeito da quinina administrada como meio explorador, até o dia 6 de Junho, quando o 89 doente retirou-se do Hospital, apesar da nossa insistência para que esperasse o desappareci mento total da febre. O traçado thermico, que sentimos não poder estampar aqui, mostra-nos uma febre remittente, com exarcebações vesperaes, durante toda a permanência no Hospital. O exame da urina, feito no dia 13 de Maio, nada de anormal apresentava. A formula leucocytaria, no dia 21, era a seguinte: Polynucleares -50.80 Mononucleares 29,2-5 Lymphocytos 19,04 Eosinophylos 00,91 100,00 OBSERVAÇÃO Hl.-M. C., 21 annos, parda, solteira, lavadeira, entrou para o Hospital em 4 de Junho de 1908. A moléstia datava já de 15 dias e começára por mal estar, abatimento, cephalalgia e febre. Ao entrar para o Hospital tmha cedido a cephalalgia, continuando, porém, a febre e mais accentuado o abatimento. Examinando-a encontramos: Para o lado do apparelho digestivo, língua secca e fuliginosa, dôr á pressão no figado que estava muito augmentado. Baço doloroso e bastante augmentado. Nada para os apparelhos circula- tório e respiratório. A pesquiza do hematoz^ario, por vezes repetida, foi sempre negativa. O typhus diagnosticum, nas duas vezes em que o intentamos, foi negativo. 90 No dia 8, estando o doente com a temperatura de 38,2, colhemos 0 sangue para a hemocultura, mas houve con- taminação accidental do caldo. Por duas vezes tivemos occasião de fazer na doente injecções de quinina (0,50 centigrammas de cada vez}, mas apesar disso a febre persistio até o dia 25, tendo ainda no dia 29 a temperatura attingido, por poucas horas, 37°,8. No dia 31 de Julho a doente, ainda muito fraca, retirou-se a pedido instante seu. A formula leucocytaria, no dia 9 de Julho, era a segui nte: Polynucleares 57,00 Lymphocytos grandes 19,04 Lymphocytos pequenos 8,12 Eosinophylos 1,00 Mononucleares 14,84 100,00 O exame da urina deu o seguinte resultado: Quantidade . 800 c. c. Densidade 1022 Reacção acida Albumina traços M. sobdos / 41 grs. Assucar não tem OBSERVAÇÃO IV.-D. P. C., pardo, solteiro, 18 annos, entrou para a infermaria de S. Vicente em 8 de Junho deste anno, sendo recolhido ao leito n. 7. 91 Antecedentes de família. Nullos. Antecedentes pessoaes. Sarampam em pequeno. Nenhum precedente syphilitico, venereo, nem ethylico. Commemorativos. A moléstia começou ha 5 dias por ligeiro calafrio seguido logo de febre, vertigens e abati- mento profundo. Estado actual. Inappetencia, constipação, dyspnáa, tosse ligeira, expectoraçao quase nulla e suores abundantíssimos á noite. Pelo exame encontrava-se para o lado do apparelho digestivo, lingua saburrosa, figalo doloroso á pressão e não augmentado. O baço era doloroso e muito pouco crescido. Para o lado do apparelho respiratório, ligeiros ester- tores mucosos nas bases. Nada de anormal no coração. A pesquiza do hematozoario, feita nos dias 9 e 10, foi negativa. O typhus-diagnosticum, praticado no dia 10, foi também negativo. A hemocultura foi practicada no dia 10, ás 4 horas da tarde, estando o doente com 40° de febre. O caldo apresentou-se turvo no fim de dous dias e delle isolamos um germem que apresentava todos os caracteres morphologicos e culturaes do estaphijlococcus albus e que attribmmos á contaminação do meio cultural. A temperatura foi decrescendo gradualmente, chegando a 37° no dia 15 pela manhã e conservando-se mais ou menos normal ate o dia 20, quando bruscamente elevou-se a 38,2, para de novo em descenção gradativa chegar á normal no dia 24, mantendo-se, mais ou menos, ahi até 92 o dia 30, quando attingio 38°, revindo á normal no dia 2 de Julho e ahi se conservando, até á sahida do doente no dia 5 desse mês. O traçado thermico deste caso é bastante suggestivo, mostrando-nos durante o tempo em que permaneceo o doente no hospital, 3 ondas febris bem distinctas, sepa- radas por intervallos de 4 a 5 dias de apyrexia. Cumpre relevar que o doente tomou por varias vezes fortes doses de quinina, sem que isto influisse sobre a febre. Quando o doente retirou-se, a hypertrophia do baço era muito mais accentuada. OBSERVAÇÃO V.-A. D. 20 annos, branco, solteiro, lavrador. Antecedentes hereditários. Nada de notável. Antecedentes pessoaes. Varíola. Blennorragia. Moléstia actual. Começou no dia 8 de Dezembro do anno p. passado, por ligeiro calafrio, cephalalgia, dôres nos membros inferiores e febre que se tornou logo muito intensa. Tomou nesse dia um purgante de oleo de rícino, que produzio duas dejecções. No dia 9, pela manhã, a febre declinou um pouco, elevando-se porém, de novo á tarde, acompanhada de delirio, que durou parte da noite. Durante mais 6 dias persistio a febre, que se mostrava sempre mais forte á tarde e não cedia ao sulfato de quinina que fôra acon- selhado por um pharmaceutico, e do qual tomou em 3 dias 5 grammas. No dia 174 quando já havia dous dias 93 que suspendera a quinina, amanheceu sem febre e assim continuou por alguns dias, a ponto de julgar-se bom, embora sentisse muita fraqueza; mas no dia 25 voltou a febre, precedida do calafrio e conservou-se até o dia 28, quando nos pediram para vêr o doente. Encontramoi-o com temperatura de 38°,4 e 85 pulsações por minuto. Língua saburrosa, fígado doloroso á pressão, mas sem augmento apreciável, baço doloroso e ligeiramente augmentado. Havia dous dias não obrava. Nada para os apparelhos respiratório e circulatório. Aconselhamos um purgativo e umas capsulas com 0,50 centigrammas de chlorydrato de quinina, crendo na natureza palustre da infecção. No dia 20 somos avisado de que as capsulas nenhum effeito tinham produzido e que o doente ia ser levado para a casa de uns eeos parentes, distante do lugar em que estavamos, razão pela qual durante algum tempo não no vimos; continuamos, porém.', a ter constantes noticias do doente, cuja febre persistio até 12 de Janeiro, quando a temperatura veio á normal, ahi se conservando até o dia 17, voltando de novo nesse dia a febre, muito menos intensa, porem, que das primeiras vezes. A 19 vimos de novo o doente, que encontramos muito emmagrecido e anemiado; o fígado excedia uns 3 centímetros o rebordo costal e o baço estava notavelmente crescido. Resolvemos então fazer umas injecções de quinina e nos dias 19, 20 e 21 injectarnos diariamente 0,50 centi- 94 grammas, sem conseguir obter a mais ligeira modificação da temperatura, que attingia toda a tarde 38O,38°,2 e ás vezes 38,6. Do dia 26 em diante, as exacerbições vesperaes se foram tornando cada vez mais fracas, até que, a 2 de Fevereiro, veio definitivamente a temperatura á normal, não tendo até a ultima vez em que vimos o doente, em Março, havido nova recaída. OBSERVAÇÃO VI.- L. N., pardo, casado, entrou para o hospital em 15 de Junho de 1908. Antecedentes pessoaes. Foi sempre sadio, tendo tido, apenas, sarampam aos 7 annos. Nem paludismo, nem ethylismo, nem syphilis. Moléstia actual. Ha quinze dias appareceram-lhe cepha- lalgia, febre e enfraquecimento accentuado, phenomenos que, aliás, o não impediam de trabalhar, pois só 8 dias depois vio-se obrigado a ir para o leito, onde o reteve a febre, que zombou das fortes doses, de quinina que to nara. Neste estado procurou o hospital onde o exa minamos no dia 16 pela manhã. A temperatura era nesse momento de 37,6 e o pulso batia 80 vezes por minuto. Fácies pallida e ligeiramente ictérica. Lingua húmida e amarellada. Abdómen meteo- rizado. Baço e figado dolorosos á pressão, o ultimo principalmente, mas sem augmento perceptivel. O appa- relho respiratório minudentemente examinado, estava normal e o coração funccionaya regularmente. O exame da urina accusava ligeira albuminúria. O sangue colhido 95 neste dia não continha o hematozoario de Laveran. Foi este o resultado do exame hematologico: Hemacias 4.380.000. Leucocytos 4.290. Hemoglóbima 75 °/o. Formula leucocytaria : Polynucleares 45 Lymphocytos grandes 18,06 Lymphocytos pequenos 20 Mononucleares 16,90 Eosinophylos 0,04 100,00 Resolvemos practicar a liemocultura quando a tempe- ratura estivesse, pelo menos, a 38°, mas, como nem nesse nem nos dias subsequentes ella fosse além 37,6 ou 37,8, resolvemos colher assim mesmo o sangue, o que fizemos no dia 18 á tarde, estando o doente com 37°,8 de febre. Retiramos o sangue que semeiamos em dois balões, os quaes, mantidos na estufa por 8 dias, conservaram o caldo perfeitamente limpido. As pesquizas do hematozoario e do typhus-diagnosticum, feitas neste dia, foram negativas. A ligeira febre persistio, cum uma marcha intermi- ttente, assim se conservando até o dia 10 de Julho, quando se retirou o doente, ainda não de todo restabelecido. Durante a sua permanência no hospital tomou por varias vezes fortes dóses de quinina, a titulo de tratamento explorador, sem a mais ligeira modificação do typo febril. 96 BIBLI0GRAPH1A CONSULTADA Affonso Montefusco.-Contributo clinico ed epide- miologico alio studio delia febbre di Malta Gior. Int. délle scie. med 15 Fevereiro 1908. A. Tomaselli. - La formula hematológica nella febbre di Malta. II Policlínico, Fase. 6, 1908. Axisa. - De la leucopenie dans la fiévre de Malte La Pr esse Medicale, 1905. Basset-Smith . -An Analysis of the Reporta of the Royal Society Commission etc. Janus, Março 1908. Besson. - Technique microbiologique. Barazzoni.- Sulla « Febbre di Malta» Gaz. Med. Ital. 1907. 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Os ácidos e os saes biliares, penetrando na torrente circulatória,retardam os batimentos cardía- cos e dahi a lentidão do pulso na icterícia. CHIMICA MEDICA I. 0 sueco gástrico normal contém, além do acido chlorydrico, outros ácidos taes como o láctico,acético e butyrico. II. O melhor reactivo para o reconhecimento do acido chlorydrico no sueco gástrico é o de Gonzburg (phloroglucína vanilina) que aquecido com o sueco gástrico dará, durante a evaporação, uma côr ver- melha, si existir acido chlorydrico livre. III. A resorcina sublimada ou reactivo de Boas, 104 póde também servir, mas a sua technica é mais trabalhosa. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I. O methodo hyppdermico é hoje um dos mais vantajosos para a admimstração dos medicamentos. II. As vantagens deste methodo estão na prom- ptidão da absorpção e na possibilidade da dosagem rigorosa. III. 0 emprego das injecções hypodermicas requer umas certas cautellas, para evitar accidentes. BACTERIOLOGIA I. 0 pneumococcus de Talamon-Fr^nkel é o agente causal do pneumonia fibrinosa. II. Este germem vive habitualmente na cavidade buccal do homem, em estado de vida saprophytaria. III. Além da pneumonia fibrinosa póde o pneu- mococcus causar varias outras inflammações. HISTORIA NATURAL MEDICA 1. 0 plasmodium mataria, descoberto por Laveran em 1880 e pertencente ao ramo dos protozoários, classe dos esporozoarios e ordem dos hemosporideos, é o agente responsável pelo impaludismo. 105 II. Laveran sustentou sempre a unidade dos seos hematozoarios, mas hoje te n mais cotação a theoria pluralista, muito mais racional e que dis- tingue três parasitas distinctos: plasmodium vivax, plasmodium precox e plasmodium malarioe. III. 0 cyclo vital do hematozoario de Laveran passa-se em duas phases, uma asexuada ou schiso- gonica, realizada no organismo humano e outra sexuada ou esporogonica, que se passa no organismo do mosquito, agente vector do parasita. ANATOMIA DESCRIPTIVA 1. A veia porta nasce da reunião das veias esplenica mesenterica inferior e mesenterica superior, ao nível da cabeça do pancréas. II. Os afHuentes principaes do tronco da veia porta são as veias gastro-epiploica direita, pylorica, coronaria estomachica e por vezes a cgstica. III. A veia porta, que se ramifica no fígado a maneira de uma artéria, collecta o sangue venoso de todas as vísceras abdommaes, excepta do rim e da víscera em que se distribue. CLINICA MEDICA (1? cadeira) I. Os grandes derramentos pleuriticos são mais graves na cavidade pleural direita do que na esquerda. 106 II. A causa dessa maior gravidade está no desvio mais considerável soffrido pelo coração. III. O desvio cardiaco considerável é, pois, um dos factores que indicam a urgência da thoracentése. CLINICA MEDICA (2? cadeira) I. Nos indivíduos adultos e de bôa constituição a pneumonia é uma moléstia cyclica, que tende natu- ralmente para a cura. II. Nas creanças e indivíduos meiopragicos, o prognostico torna-se muito mais sombrio. III. Nas pneumonias francas a defervescencia é, regra geral, tanto mais precoce quanto mais alta fôr a temperatura do doente. THERAPEUTICA I. Até hoje se não conhece medicação especifica contra a febre de Malta. II. Os antithermicos são, pelo menos, inefficases e, a menos que as complicações não estabeleçam o contrario, a therapeutica deve reduzir-se, na phrase suggestiva de Gabbi a: leito e leite. III. As tentativas de sôrotherapia, até agora feitas, têm fracassado. 107 ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA I. Os orgãos mais importantes da região sub- hyoidea são o conducto laryngo-tracheal, a glandula thyroide e o esophago. II. Na pathologia desta região representam im- portante papel os tumores do corpo thyroide ou 1)OCÀOS. III. Das operações que se practicam nesta região, uma das mais importantes é a tracheotomia CLINICA PEDIÁTRICA I. A coqueluche é uma moléstia especifica, clini- camente caracterizada por violentos accessos de tosse. II. Esta moléstia é eminentemente contagiosa e isto em todos os períodos de sua evolução. III. E' uma moléstia rebelde, contra a qual ainda se não conhece medicação verdadeiramente eíficaz CLINICA PROPEDÊUTICA I. A auscultação da vóz é um bom recurso no diagnostico de certas affecções do appa^elho respi- ratório. II. As mais importantes modificações auscultatorias da vóz são: a bronclwplwnia, a egophonia e a pectori- loguiaphona. 108 III. A vóz bitonal, indicativa da paralysia de uma das cordas vocaes, consequente á compressão de um dos recurrentes por um aneurysma ou outro tumor mediastinico, não póde, em rigor, ser considerada uma modificação auscultatoria da vóz. ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATH0L0G1CAS I. As lesões anatomo-pathologicas da febre de Malta são mais accusadas no baço e no intestino, mas também são encontradas em outras vísceras. II. O baço mostra-se congesto, tumefeito e quase diffluente no começo da moléstia, apresentando um verdadeiro processo de hypertrophia, quando a mo- léstia se prolonga por muito tempo. III. No intestino a ausência de ulcerações das placas de Peyer, foi, por muito tempo, considerado importante signal necroscopico ditferencial entre a febre de Malta e a typhoide, mas hoje é sabido que a primeira destas moléstias póde, também, determinar taes ulcerações. PATHOLOGIA MEDICA I. A endocardite, affecção muito frequente nos indivíduos que têm rheumatismo poly-articular agudo, póde ser uma complicação da febre de Malta. 109 II. A endocardite é uma affecção muito seria, porque quase sempre determina a insufhciencia da valvula mitral. III. A pouca frequência do rheumatismo poly-ar- ticular agudo, no nosso clima, explica a raridade da insufficiencia mitral verdadeira, entre nós. PATHOLOGIA CIRÚRGICA I. A inflam mação do testículo ou orchite póde ser aguda ou chronica. II. A orchite aguda é uma affecção de relativa frequência no periodo de declínio da septicemia de Bruce. III. O prognostico dessa orchite micrococcica é em geral benigno. OPERAÇÕES E APPARELHOS I. Para facilitara tenorraphia, quando as extremi- dades do tendão seccionado estão muito afastadas, recorte-se ao alongamento de uma das extremidades do tendão. II. Este alongamento póde ser feito pelo processo de Bayer (alongamento por desdobramento) ou pelo de Poncet (incisões em zig-zag). III. Quando o alongamento da extremidade fôr 110 insufficiente para permittir a sutura a contacto, recorre-se á tenoplastia. CLINICA CIRÚRGICA ( 1? cadeira ) I. Chama-se aneurysma circumscripto ao que é limitado por um sacco, formado pelas túnicas arte- riaes alteradas ou por tecido conjunctivo de néofor- mação. II. Para estes aneurysmas o methodo de Purmann ou extirpação, quando praticável, é ornais radical. III. A ligadura do vaso pode, também, dar bom resultado e o methodo preferivel, sempre que fôr possivel, é o de Anel. CLINICA CIRÚRGICA ( 2? cadeira ) I, O pé-torto equinus pode ser exclusivamente devido á retracção do tendão de Aciiilles. II Nestes casos o tratamento reduz-se á anchil- lotomia e conservação do pé, por algum tempo, na posição normal, por meio de um apparelho de gessa. III. Quando existem deformações ósseas, não basta a tenotomia para corrigir o vicio de direcção. HYGIENE 1. A Commissão Inglêsa estabeleceu medidas pro- phylacticas rigorosas contra a septicemia de Bruce. 111 IT. As principaes, dessas medidas prophylaticas, consistiam na prohibição do uso do leite não fervido e na sequestração das cabras doentes. III. A adopção destas medidas pelas auctoridades mibtares, em Malta, fez diminuir a frequência da moléstia nas tropas da guarnição e da armada. CLINICA OPHTALMOLOGICA I. As ophtalmias dos recem nascidos são na sua maioria devidas ao gonococcus de Neisser. II. O prognostico destas ophtalmias é serio, mas não muito grave, principalmente si foi instituido um tratamento bem dirigido. III. O tratamento de Crédé, muito empregado nestes casos, consiste na instillação nos olhos, de duas gottas, de uma solução de nitrato de prata a 1:150, neutralizando-se o excesso do cáustico por uma solução de chloreto de sodio. OSBTETRICIA I. Entre as numerosas causas da dystocia fetal, está a ascite. II. O meio de destruir este obstáculo é punccionar o abdómen, introduzindo um instrumento ou o dedo pelo anel umbelical. 112 III. Esta manobra é muito difficil nas apresenta- ções do vertice. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNE- COLOGICA I. No delivramento normal só se deve intervir depois do descollamento completo da placenta. II. A hemorragia é uma das complicações que impõem a necessidade de uma intervenção mais precoce. III. O delivramento artificial pode ser feito por tracção, por expressão ou pelas duas manobras com- binadas. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHI- LIGRAPHICA I. Existe, ás vezes, no periodo secundário da sy- philis, uma febre que pode ser confundida com a septicemia de Bruce. II Os antecedentes syphiliticos, a ausência de perturbações gastro-intestinaes e pulmonaresea pre- sença de outros accidentes secundários da syphilis são elementos para o diagnostico. III. Persistindo a duvida pode recorrer-se para afastal-a ao tratamento explorador pelo mercúrio. 113 MEDICINA LEGAL I. A questão do segredo profissional é uma das rnais importantes na Medicina Legal. II. Não ha ainda completo accordo sobre si deva ser absoluto ou relativo o segredo medico. III. Pensamos que em toda e qualquer emergencia o medico deve guardar o segredo absoluto. CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I. A astasia abasia é um symptoma quase sempre de natureza histérica. II. Quando predomina a abasia, o que é a regra, esta pode aftectar a forma paretica, choreiforme, ou trepidante. III. Esta perturbação da estação e da marcha, bem estudada entre nós pelo Dr. Alfredo Britto, cede quase sempre á suggestão. HISTOLOGIA I. As fibras musculares são de duas ordens - lisas e estriadas. II. As fibras lisas contraem-se independente- mente da vontade e formam os musculos da vida de relação. III. O coração é um musculo de fibras estriadas que se contrae inlependente da influencia volitiva. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, em 26 de Outubro de 1908. O Secretario, Br, Menandro dos Beis Meirelles.