THESE DE tilinto Cf pio do Jãascimento 'fflanderleíj Faculdade de Medicina da Baliia THESE APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 10 de Março de 1906 PARA SER DEFENDIDA POR tilinto Gíijsio do J2ascimenío ®anderley Interno de clinica psychiatrica e de moléstias nervosas Natural de Pernambuco AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR E5 TN MEDICINK DISSERTAÇÃO DELÍRIO da duvida Cadeira de Clinica Psychiatrica e de Moléstias Nervosas BAHIA Typ. e Encadernação doLyceu-de Artese OfScios Dirigida por Prtjdencto de Carvalho i 906 Faculdade de Medicina da Bahia Director-Dt. ALFREDO BKITTO Vice-Director —Dr. MANOEL JOSÉ DE ARAÚJO Lentes cathedraticos OS r>RS. matérias que i.eccionam l.a SECÇÃO ,T. Carneiro de Campos Anatomia descriptiva. Carlos Freitas Anatomia medico-cirurgica. 2. Secção Artoriio Pacifico Pereira. . . . Histologia Ajgusto C. Vianna Bacteriologia Guilherme Pereira ítebello. . . . Anatomia e Physiologia pathologicas 3. a Secção Manuiel José de Araújo Physiologia. José Edaardo F. de Carvalho Filho. . Therapeutica. 4. a Secção Raymundo Nina Rodrigues. . . . Medicina legal e Toxicologia. Luiz Anselmo da Fonseca Hygiene. 5. a Secção Braz Hermeneirildo do Amaral . . Pathologia cirúrgica. Fortunato Augusto da Silva Júnior . Operaçõese apparelhos Antonio Pacheco liíendes . Clinica cirúrgica, 1.» cadeira luuacio Monteiro de Almeida Gouveia . Clinica cirurgiea, 2.» cadeira O.» Secção Aurélio 11. Vianna Pathologia medica. Alfredo Rritto Clinica propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho. . . Clinica medica P* cadeira. Francisco Braulio Pereira.'. . . . Glinioa medica 2.a cadeira 7. a Secção José Rodrigues da Costa Dorea . . Historianatural medica. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria meRca, PnarmaGologia e Arte de formular. José Olympio de Azevedo .... Chímica medica. 8. a Secção Deocleciauo Ramos Obstetrícia dimerio Cardoso de Oliveira . . Clinicaobstetrica e gvnecologica. 9. a Secção Frederico de Castro Rebello .... Clinica pediátrica 10. Secção Francisco dos Santos Pereira. . . Clinica ophtalmologica. M. Secção Alexandre E. de Castro Cerqueira . Clinica dermatológica e syphiligi-apli ca 12. Secção J. Tíllemont Fontes . . . . . Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. JoãoE. de Castro Cerqueira ... ( Sebastião Cardoso < Em disponibilidade Lentes Substitutos OS DOUTORES José Allbriso de Garvallio (interino) . . 1.' secção Gonçalo Moniz Sodré de Aragào . . . 2a > Pedro Luiz Celestino ...... 3. Josino Correia Cotias A.a » Antonino Baptista dos Anjos (interino') . 5.a João Américo Garcez Froes G.a » Pedro da Luz Carrascosa e José Julio de Calasans 7.a » .1. Adeodato de Sousa S.a Alfredo Ferreira de Magalhães . . . 9.a » Clodoaldo de Andrade. ..... 10. » Carlos Ferreira Santos ...... li. > Luiz Pinto de Carvalho (interino) ... 12. » Secretario—DR. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-secretario—DR. MATHEDS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade não approva nem reprova as opiniõeo exaradas nas theses pelos seus auctores. DISSERTAÇÃO Cadeira de Clinica Psychiatrica e de moléstia Nervosas Belirio da Davida IfiTRODUCÇÃO ( i ) o eminente professor de psychiatria, dis- sertando êm sua clinica sobre um doente de loucura (2 ) da duvida que lhe servira de objecto para uma de suas magistraes licçÕes, emittiu o seguinte con- ceito sobre este estado morbido : « O facto dominante no estado psychologico deste homem é a perda absoluta do sentimento de reali- dade. Compara-se a um sacco vasio. Nada existe dentro de si; resta-lhe somente o involucro que conserva uma forma de apparencia exterior, mas que no fundo está absolutamente vasio. Chama a si uma cousa, os outros homens sáo cousas feitas como elle ; não crê, porem, em sua existência real. Não crê no que vê e quando estende a mão para tocar um objecto, está convencido de que, não encontra senão um phantasma que se evapora ». (1) Leçons sur les maladies mentales, pag. 605-621. (2) Conservaremos na nossa dissertação as denominações que davam os auctores, quando discutiam a matéria que faz o assumpto de nossa these. p. w, 1 2 Assim, segundo o brilhante psychiatra francez, as perturbações que íazem o quadro clinico da loucura da duvida, são o effeito directo da perda do senti- mento da realidade. A solução proposta por Bali encerra sem duvida grande parcella de verdade, mas não deixava de ter, perante a psychologia, um caracter pouco definido, pois o valor scientifico do sentimento da realidade não estava sufficientemente firmado, de modo a con- sentir que d’ahi se tirassem as consequências pos- siveis no terreno da pathologia mental. Esta questão, porem, nos parece se achar resol- vida de uma maneira plausível, graças aos trabalhos de Pierre Janet que, com inexcedivel brilho dirige a cadeira de psychologia no Collegio de França. O grande psychologo, analysando os estados psy- chastenicos, entre os quaes occupa lugar saliente o delirio da duvida, foi levado a uma feliz concepção pela qual os phenomenos psychologicos se nos appa- recem discutidos, de modo a poderem elucidar magnos problemas de pathologia mental. Escapa ao nosso intento fazer no nosso modesto trabalho a analyse detida dos interessantes estudos do notável professor de Paris ; mas forçoso nos é, para desembaraçar o nosse thema das fortes difficuldades que nelle sobejam, que façamos uma rapida expo- sição do assumpto de que vamos tratar. 3 Os phenomenos psychologicos, segundo Pierre Janet, se superpõem em uma hierarchia, cujas gra- dações elle traçou. Os diversos gráos dessa hierar- chia psychologica, procedem da maior ou menor diffi- culdade que apresentam os phenomenos em questão; ou em outros termos, as operações mentaes se dis- põem em uma hierarchia, na qual occupam os gráos superiores aquellas cuja complicação é maior, e os gráos inferiores aquellas de mechanismo menos com- plexo. Admitte Janet que, os gráos de difficuldade dos phenomenos psychologicos se medem conforme a frequência e a ordem sob as quaes elles desapparecem. A principio estabeleceu Jmet a distincção mais flagrante que existe entre os phenomenos da synthese e os automáticos ; mas reconhecendo a insufficiencia desses dous gráos, porque em cada grupo se tor- navam. necessárias novas distincçÕes, passou a clas- sificar as operações na ordem em que vamos esboçar. Em primeiro lugar está afuncção do real—ope- ração mais difficil, aquella que primeiro e as mais vezes desapparece. Seguem-se-lhe em gráo de facilidade crescente as operações desinteressadas, as funcçÕes das imagens, as reacções emocionaes, visceraes etc. 4 A funcção do real é constituída por um conjuncto de operações que, ao serem modificadas, reproduzem esta serie de perturbações bizarras, interpretadas erroneamente pela maioria dos auctores, cuja con- cepção, suppomos, variavel quando emparelhá- vamos duas opiniões, dependia mais de vaidade de inventores de novidade, que em esclarecer o as- sumpto. Este é o nosso modo de pensar, e a confusão rei- nante entre aquelles que procuravam estudar o as- sumpto é o escopo que temos para confirmar o nosso juizo, que não é irreflectido. Sendo esta funcção a mais difficil e a primeira que soffre nas perturbações com tendencia a hypo- tensão, necessário se torna que a esbocemos em suas principaes linhas, segundo a concepção de Janet. No estudo succinto que pretendemos fazer, interca- laremos as opiniões pró e contra ao modo de pensar do eminente professor, resumindo também as con- clusões que delias tiram, referentes ao assumpto, os que delle se occupam. A acção voluntária que nos conduz a agir sobre os objectos exteriores, constitue a primeira forma em que se esteriorisa a funcção do real e tanto mais nova a resolução posta em acção, quanto mais difficil de execução. 5 Um doente de Janet dizia: «Nada me torna mais infeliz como a necessidade de tomar uma decisão nova ». Em um gráo inferior ao da acção voluntária, acha-se a attenção que nos permitte perceber as causas reaes, tendo como gráo mais elevado a ope- ração que determina a certeza e a crença. Crença e idéa são em psychologia, no conceito de Spencer, inseparáveis, e esta irmanisação constituía a base principal para explicação da duvida que, para elle era unicamente o resultado de representações igualmente claras. Esta concepção do grande philosopho inglez, attribuida a Hume, já cimentada pela opinião auto- risada de Taine, encontrou em Brochard forte ba- luarte contra sua acceitação. Em excellente these sobre o erro e luminosos artigos sobre crença e vontade, assim se expressa Brochard: « Uma cousa é a necessidade de pensar ou ligar idéas, outra cousa, a necessidade de crer, isto é, pôr como verdades absolutas as syntheses que o espirito não pode romper; com rigor podemos comprehender uma verdade geométrica e não crer nella. » Na Crença de Gayte, encontra-se, do sceptico, a seguinte descripção : « E’ uma intelligencia sempre em movimento que pede ao proprio pensamento 6 uma decisão que elie não pode dar. Não se liga a nenhuma theoria, porque não sabe querer, delibera sempre porque é incapaz de deter seu pensamento por um acto, não o domina, deixa-se dominar por elle ». Emquanto manifesta opposição surge ás idéas de Spencer e Taine, procuram os psychologos ligar a vontade á crença como modalidades das variações de tensão. Camille Bos considera a crença um acto concreto (uma assimilação psychologica) e para elle a não rea- lisação desta funcção origina um estado morbido por excesso ou diminuição, dependentes sempre de um enfraquecimento da crença, tendo por termo ultimo a negação de toda a crença, a duvida absoluta. A allucinação e a megalomania não traduzem uma superactividade funccional, porem insufficiencia do poder de reducção e detenção. E’ ainda por causa da fraqueza da actividade mental que os obsedados não podem impedir o desenvolvimento tyrannico de uma idéa. A mesma impotência é que constitue o delirio da duvida, em condições aqui porem inversas: nos dúbios a intelligencia é intacta, a critica do es- pirito incessante, a impulsão porem falha. Crença e vontade parecem assim se succeder por equivalência. A crença, adhesao ao real, exprime a individuali- 7 dade, resultando que « o crer pode variar individual- mente, e que a pathologia da crença começa indi- vidualmente em momentos diíferentes ». Na hierarchia estabelecida pelo professor Janet a crença occupa logar saliente ao lado das operações voluntárias. A disposição das percepçÕes que relacionam-se com o nosso corpo e com os movimentos p©ssiveis, constitue a orientação, operação próxima á crença e á acção que se approxima das funcçÕes do real. A fixação da lembrança dos successos presentes, a invocação das lembranças recentes infimamente li- gadas á realidade presente, a invocação, emfim, de lembranças passadas de forma que possam agir na percepção actual, são operações superiores da me- mória, únicas incluídas na funcção do real. Faz parte também desta funcção a consciência de nossos estados interiores e a percepção de nossa pessoa. Ligam-se a esta operação certos phenomenos que prendem-se á emoção, operações fáceis no conceito de Janet, mas que diíficultam quando precisam na adaptação de um facto real. Mais importância ás perturbarções da emoção liga W. James, para quem a falta de realidade depende da ausência de emoção. O ultimo termo da funcção do real que resume, 8 segundo Janet, todos os precedentes, é a constituição do tempo — a formação no espirito do momento pre- sente. Uma outra faculdade que consiste em tornar pre- sente um estado do espirito, é a presentificação que em ultima analyse é a attenção, a acçao, a per- cepção da situação dada com o sentimento da rea- lidade, e facil nos é conceber que esta operação é um aspecto de funcção do real, apresentando as mesmas difficuldades e perturbações. A insufficiencia nervosa, seja qual for a hypothese que se lhe attribúa como causal, se manifesta por perturbações psychologicas, sentimentos de indiffe- rença de apathia e abulia, representando o inicio da diminuição da funcção do real. Em principio estes phenomenos nada têm de cara- cteristicos, apresentando confusão com o inicio de grande numero de nevroses e psychoses ; com a sua continuação, porem, nota-se que este enfraqueci- mento mental tende a tomar na sua evolução ou em sua localisação formas particulares que systematisam nas diversas moléstias. Neste periodo o syndroma é ainda indistincto ; é uma forma embryonaria que mais tarde se especia- 9 lisa na formação de outros estados mais accentuados, constituindo um grupo de moléstias que representa um typo com os symptomas confusos da neuras- thenia. Passemos a estudar os symptomas de deficiência e sua especialisação na constituição de um estado psychastenico. Para Janet ha tres ordens de phenomenos que representam importante papel na formação dos sen- timentos de deficiência, são elles : a diminuição de synthese mental, e como consequência a diminuição da systematisação e da unidade dos elementos reu- nidos no campo da consciência ; reducção da com- plexidade mental, do numero dos elementos sensa- ções, imagens, movimentos, emoções que preenchem a consciência e nos dão o sentimento da realidade e do presente; a lembrança, finalmente, do modo pelo qual funccionava outr’ora o nosso pensamento, sua unidade, sua riqueza, as comparações entre este estado passado e o presente e as interpretações ine- vitáveis que se-confundem com estas comparações.» Os sentimentos de deficiência, em sua maioria, estão em relação immediata com o enfraquecimento da synthese mental. Os sentimentos vagos, mysteriosos que dão origem a tendências mysticas ou orientam o delirio n’um sentido particular, dependem desta diíficuldade que 10 sente o indivíduo em unificar seus pensamentos, ainda que sejam etn numero reduzido. A duvida, o desdobramento e a despersonalisaçáo originam-se desta fraqueza de systematisação. Nos indivíduos normaes, o sentimento de liberdade é um sentimento de unidade, a acção resultante das tendências do nosso ser, dos motivos a elle impostos e das inspi- rações do nosso caracter, resumem n’um só systema todos os phenomenos psychologicos. O inverso nos psychastenicos: os actos que as ne- cessidades da vida exigem são realisados; ha no seu espirito falta de unidade, na sua consciência, entre- tanto, existem tendências, hábitos, em opposição com o acto realisado, evidenciando-se pelo senti- mento de automatismo, de acção não voluntária, formas communs de todo o estado ps}n:hastenico. O segundo phenomeno., a falta de complexidade e de riqueza mental é para nós o que a acção mais directa tem na sua formação e systematisação das insufficiencias. Dugas fazia depender o exagero do automatismo da diminuição da actividade auto- matica, este mesmo automatismo posto em liber- dade originava a despersonalisação. Para Janet a despersonalisação é provocada por uma perturbação da percepção inteira da funcção do real. No ultimo capitulo quando estudarmos as altc- 11 raçÕes cenesthesicas veremos estas concepções diante da theoria de Grasset. O terceiro facto é a lembrança do estado do espi- rito anterior á moléstia, involuntariamente vivem os doentes a comparar seu estado presente e o pas- sado, dizem sentirem-se mudados, transformados, tendo as mesmas sensações do desdobramento e des- personalisação. A interpretação dos phenomenos de deficiência, parece-nos ainda não esclarecidos, quando de um duvidoso ou phobico, que são formas adiantadas da moléstia, pretendemos explicar a formação de seu ultimo periodo. Em outra parte, quando fallavamos das pertur- bações causadas pela insufficiencia nervosa, dissemos que ellas a principio vagas e diffusas tendiam a uma forma determinada. A theoria que expomos não ex- plica a formação destes estados, uma hypothese, porem, hoje já aproveitada para explicação de muitos phenomenos de pathologia mental,—a da derivação, — nos offerece caminho mais seguro na interpre- tação de todas estas insufficiencias. Esta hypothese é baseada no seguinte principie: Todas as vezes que uma força primitivamente des- tinada a ser gasta para a producção de um pheno- meno fica inutilisada, porque este phenomeno tor- 12 nou-se impossível, produz derivação, isto é, esta força se gasta produzindo phenomenos outros não previstos e inúteis. Spencer por esta forma explicava as transforma- ções da physionomia que se produzem no curso de certas emoções. O riso, era para elle o resultado da derivação da força nervosa para os musculos menos resistentes que se movem com mais facilidade. A irascibilidade, diz ainda Spencer, se produz em consequência d’uma inactividade relativa dos ele- mentos superiores; a descarga se faz duma maneira súbita para os plexos inferiores que formam as im- pressões angustiantes. Mantegazza descrevendo os indivíduos enraivecidos que trucidam-se horrorosamente, suppÕe que elles impõem a si voluntariamente estes soffrimentos, para substituir á dor moral uma dor artificial que serve de derivativo. Tentativas diversas tém sido feitas para applicar esta theoria á pathologia mental. Jackson fez observar a importância que se dá em psychiatria aos phenomenos negativos, que repre- sentam as operações suppressas pelos doentes, des- presando-se as positivas as quaes podem ser exage- radas pela suppressão das primeiras. Wright estudando o elemento physiologico da emoção exagerada, opina ser este reflexo visceral e 13 secundário representando uma simples derivação das forças cerebraes mal empregadas. Freud usava constantemente desta hypothese para explicar os phenomenos da angustia. Para elle a an- gustia tem por origem phenomenos de excitação genital, excitação que se gasta normalmente na exe- cução da copula. Si por abstinência, si após um coito imperfeito ou por causas outras esta excitação não chega ao seu termo, escoar-se-ia, seguindo outras tendências, dando origem a reacçÕes visceraes pathologicas que iriam determinar a angustia. A derivação não determina simplesmente pheno- menos visceraes e angustiosos. As múltiplas formas em que ella pode se apresentar dependem das cir- cumstancias e presdisposiçoes individuaes: a forma muscular determina agitações ou movimentos mais ou menos systematisados, a visceral, as excitações dos apparelhos digestivo, respiratório e circulatório, a cerebral, os phenomenos intellectuaes diversos, imagens, idéas abstractas, phenomenos automáticos associados etc. A derivação tem origens diversas: a excitação ge- nital insaciada e a impossibilidade que se apresenta na realisação de um phenomeno de alta tensão, são as concepções mais acertadas que explicam sua for- mação. Esta ultima principalmente é a que nos ape- 14 gamos na interpretação de todos os symptomas estu- dados por nós. O exame destes phenomenos nos tem mostrado que esta interpretação resume de uma ma- neira simples um certo numero de caracteres destas crises. Na systematisaçao ha dois aspectos e duas formas differentes a considerar. O que se precisa a principio é o phenomeno pri- mário, ponto de partida da crise. Não são mais todos os actos, porem um determinado que insufficiente provoca a derivação; é a attenção, a crença, um sen- timento particular que se detem antes que os outros. Este facto é conhecido em psjrchologia sob o nome de especialisação das insufficiências psychologicas. Quando a derivação em seguida toma a forma deter- minada, dá-se a systematisação da derivação. O homem não tem necessidade de empregar sempre seu maior esforço, ou attingir os termos mais ele- vados da hierarchia mental, ainda mesmo que seja capaz de fazel-o para a realização de um acto. O mesmo dá-se na percepção do real; não convém julgar que este trabalho considerável para sua per- cepção, tal como descrevemos se effectua a todo o mo- mento, realisa de tempos em tempos e nos deixa uma lembrança sufficiente para que a impressão de 15 realidade subsista apezar da percepção ter sido redu- zida a seus traços essenciaes. Um signal, uma imagem é bastante para reconhecermos uma pessoa e sa- bemos que com um pouco de attenção esta percepção chegaria a um gráo completo de certeza e de real. Esta idéa faz logo attribuir em toda a percepção o caracter de realidade e a consequência resultante, é que um indivíduo pode ser psychastenico sem que disto sus- peite; não eleva osphenomenos ao seu ultimo termo, não requerendo suas acções esta necessidade, ne- nhuma curiosidade tem em saber si este poder ja desappareceu. Quando, porem, as circumstancias collocam-n’o em presença de um phenomeno que exige esta alta tensão, o sentimento de deficiência sobrevém a proposito de certos actos determinados. O acto do casamento, por exemplo, sua gravidade, preoccupaçÕes no futuro etc., trazem em constantes attribulaçoes os que delle se preoccupam e innumeras observações vimos, onde o delirio da duvida faz sua explosão antes ou após a realização deste acto. A funcção genital exige forte tensão para se rea- lisar ; e esta é a razão pela qual notamos nos abú- licos perturbações nas funcçÕes genesicas. A impo- tência ao acto genital normal, a castidade excessiva em idade madura nos indivíduos que parecem ser normaes, é algumas vezes um signal de psychastenia. 16 Também grande influencia tém nas especialisações psychologicas as attençÕes e a diversidade de sensa- ções. A difficuldade existente na sua realisação é um tanto artificial, dependendo esta circumstancia da ma- neira pela qual se realisa: ou sob uma forma ele- mentar como acçáo desinteressada e por conseguinte com pouca tensão ou esforçando-se para eleval-os á perfeição dafuncção do real, empregando um grande esforço. Assim comprehende-se que a especialisação da in- sufficiencia poderá se fazer de um modo artificial, si um individuo fraco é impellido a praticar um acto que se fazia facilmente, de uma maneira elementar, pelo máximo de perfeição psychologica. Succede isto quando o individuo está convencido da importância excepcional deste acto. Esta insufficiencia especialisada traz como deriva- ções perturbações emocionaes. Ainda sob a insufficiencia das especialisações muito concorrem circumstancias que attrahem a attenção sobre certas partes ou funcçÕes do corpo ou ainda sobre algumas operações mentaes. Em um psychas- tenico com diminuição geral de todas as funcções, uma dòr desperta a attenção sobre um orgão ou uma funcção; immediatamente esta funcção torna-se difficil 17 e impossibilitada de se realisar, e assim se precisa esta angustia. Uma pyrosis será o ponto de partida das algias do estomago, — as hemorrhoides representam papel capital nas algias do anus; de uma pharyngite chro- nica resultará a phobia da linguagem. Não esqueçamos, entretanto, que estes doentes, pelo facto de sua insufficiencia, teem um estado mental especial e apresentam idéas fixas que são a systematisação das agitações do espirito. Estas considerações mostram que a abulia, a falta de crença, a fadiga da attenção somente em theoria são geraes; na pratica manifestam-se por operações que natural ou artificialmente são as mais difficeis, concluindo-se que as insufficiencias psychologicas se especialisam nestes phenomenos e trazem em con- sequências destas acções determinadas os accidentes que são considerados como derivações. O principio da derivação nos explica de uma ma- neira geral, como as diversas agitações de espirito e do corpo, as excitações visceraes que formam as an- gustias, não são senão gastos, derivações de uma força não empregada por causa de suppressão dos phenomenos superiores. Isto não basta, como acima dissemos, para esclarecer as formas particulares que 18 tomam em cada caso determinado estas derivações. Na systematisaçao da derivação achamos a razão desta determinação. A systematisação se faz pela simples evolução da moléstia e depende de tres princípios para a maioria dos auctores, que determinam a natureza dos phe- nomenos psychastenicos. O primeiro principio basea-se na predisposição individual; cada indivíduo reage contra a moléstia de uma maneira particular, conforme sua natureza e educação. O segundo é o habito. Bali dizia: «A loucura da duvida é essencialmente caracterisada por uma sorte dê prurido cerebral que nada pode satisfazer, a re- petição dos mesmos hábitos, das mesmas questões e pensamentos prendem-se a um phenomeno orgânico que os conduz incessantemente ás mesmas impres- sões. » Esta reflexão do illustre psychiatra é justa; o es- tado determinado pela insufficiencia psychologica é sempre o mesmo e cada vez que apparece obriga o infeliz a recomeçar exactainente os mesmos pensa- mentos. 0 psychastenico neste estado é sempre um indivíduo sem vontade, incapaz de modificar seu es- tado mental e íugir á tyrannia das impressões que arrastam as mesmas ideias. Cede sempre ao habito e quando estabelece uma crise, ha probabilidade de 19 todos as outras apresentarem-se com os mesmos caracteres. O terceiro principio é o da melhor adaptação pos- sivel. O ponto de partida da crise, sendo um acto insuffi- ciente, esta adaptação incompleta se acompanha de sentimentos de insufficiencia extremamente dolorosa. Ha um estado de inquietação que impelle o indi- viduo a procurar por todos os meios sair-se delle. Este estado não nos parece ser sufficiente paia determinar por si só toda a derivação ; mas existindo uma agitação mental e physica, este estado repre- senta papel considerável para a orientar em qualquer sentido. Idéas confusas cruzam-se no cerebro desses infe- lizes, idéas que vão ser orientadas tendo em vista a gravidade do mal e os meios adequados para sair-se delle. As agitações representam um esforço para che- gar-se á adaptação completa. Não chegam a este resultado, mas approximam- se desta adaptação. Nos casos, porem, de grande con- fusão, as derivações tem uma certa relação com o phenomeno primário que não pode ser terminado. Sendo o ponto de partida um acto insufficieníe, haverá derivação dos esforços intellecíuaes e phy- sicos em relação com o habito. Si tratarmos de uma 20 idéa sobre a qual a certeza for impossível, haverá um trabalho que deve estar em relação com as in- vestigações da certeza. E’ o que dá origem aos tiques e ás phobias parti- culares. OBSERVAÇÃO TRANSCRIPTA DE BALL Trata-se de um homem de 28 annos de idade, de uma figura agradavel e intelligente e de um bello desenvolvimento physico. E’ o quinto filho do casal que ainda vivee não apresenta outra enfermidade a não ser um ligeiro tremor. Não existe nenhum vicio hereditário na familia, porem o doente teve convulsões na sua infancia. A ultima appareceu na edade de 8 annos. Desde essa epocha não teve outra moléstia. A prova d’isto, é que elle é normalmente desenvolvido e é quem sustenta a fa- milia. E’ empregado em um banco onde seus serviços são muito appreciados. Ganha 300 francos por mez. Este homem é intelligente, porem, recebeu uma educação ru- dimentar ; esteve na escola publica da qual saliiu para entrar no commercio. Nunca leu Descart nem os outros pliilosoplios e si elle trata das questões as mais elevadas, pode-se dizer que elle se occupa de metaphysica sem que d’isso se aperceba. Este homem, como já o dissemos, era empregado em um banco, tra- balhava muito bem e regularmente, quando por uma manhã do mez de Junho de 1874 pelas 10 estando em sua carteira viu se produzir uma mudança súbita, estranha, na apparencia dos objectos que não lhe pareciam mais os mesmqs. Não lhes achava mais relevo, isto é, ponto de realidade. Escrevia o doente: No mez de Junho de 1874 eu soffri quasi 22 subitamente, sem nenhuma dòr nem atordoamento, uma mu- dança na maneira de ver. Tudo me pareceu singular, estranho, ainda que guardando as mesmas formas e as mesmas côres. Pensando erradamente que esta sensação desagradavel desappareceria, facilmente como veio, não me inquietei muito, quando me sobreveio um polypo na narina esquerda, fui procurar um medico, e sem lhe falar do estado no qual me achava, mostrei-lbe o polypo que elle ex- trahiu. Suppoz que era este polypo a causa desta bizarra maneira de ver e julguei que este extrahido, voltaria eu ao meu estado normal; nada disso porem se deu. Em dezembro de 1880, mais de cinco annos depois, eu me senti diminuir, desapparecer. Não restava mais de mim mesmo, senão o corpo vazio. Desde então minha personalidade desappareceu de urna ma- neira completa e apezar de tudo o que faço para retomar este meu eu desapparecido, nada consigo. Tudo torna-se de mais a mais estranho em torno de mim, e no momento actual, não somente não sei o que sou como também não posso com- prehender o que se chama a existência, a realidade. Que cousas essas acontecerão? Porventura existirá real- mente tudo quanto está em torno de mim? Quem sou eu? Que são todas essas coisas feitas como eu? Porque eu? Quem, eu? Eu existo, mas fóra da vida real; nada entretanto occasionou a minha morte. Porque existem todas estas cousas em torno de mim, que fazem tudo da mesma maneira. Essas cousas devem gozar da vida e se acham bem como são feitas. Que são estas cousas? Ainda que n’este estado atroz é 23 precizo que eu viva como dantes e sem saber porque. Alguma cousa que não parece residir no corpo me obriga a continuar como d’antes, enào posso reconhecer que isto seja verdade, que esteja agindo realmente. Tudo em mim é meclianico e feito inconscientemente. Deante de uma sensação physica, eis o que eu soffro: o corpo que não tem significação para mim se acha vazio, constricção nas fontes, oppressãoentre os olhos, em cima do nariz, crispação do nariz até o alto da fonte. Os ouvidos ouvem bem, porem parecem tapados. A narina esquerda, ás vezes, obstruída, livre e novamente obstruída. Ao lado desta bizarra sensação devo fazer notar que, quando falam commigo, eu respondo immediatamente e dizem que respondo certo. Faço meu trabalho bem e sem nenhum erro e entretanto digo a mim mesmo eontinuamente : « estou no trabalho faço isto, faco aquillo)) e não posso saber se isto é verdade. Creio poder me resumir dizendo: personalidade completa- mente desapparecida; parece que estou morto ha dois annos e que a cousa que existe em nada se assemelha ao meu antigo eu. A maneira pela qual vejo as cousas não me deixa sciente do que ellas são ou de que ellas existam; dahi a duvida, etc. Em consequência deste estado mental atroz eu cheguei a me interrogar si não ficaria louco, ou si não seria melhor desem- baraçar-me eu mesmo de uma moléstia que dura desde muito tempo e que, até hoje, não poude ser modificada. Sem poder absolutamente gozar a vida, uma vez que eu a não compre- liendo, sou obrigado a soífrer tudo o que os outros podem soífrer, ao passo que se conservam em seu estado normal. Estado eliDieo do syndroma e Falret foram os primeiros que se occuparam desta forma particular, apresentando aquelle uma observação sob o nome de monomania raciocinada e este a descripção clinica da moléstia. O genio de Esquirol que havia esboçado a con- cepção de unificação do syndroma, não encontrou nos posteros quem o desenvolvesse e os trabalhos publicados estudavam as formas disparatadas como que constituindo no quadro nosologico entidades mórbidas distinctas. E’ o periodo da multiplicidade e cada autor como diz Janet, descobre sua mania ou phobia. Entrecortado por tentativas diversas perdurou algum tempo este espirito de separação e no Con- gresso de Psychiatria reunido em Berlim em 1891, sustentava Ladame a completa independencia, da loucura da duvida, do delirio do toque, compro- vada por duas observações, admittindo, entretanto, associações algumas ve^es. Legrand du Saulle cujos trabalhos sobre o as- sumpto são considerados clássicos e a quem se diz 26 o iniciador da epocha contemporânea, apresentou duas monographias sobre loucura da duvida e agra- phobia, reconhecendo depois relações estreitas entre as duas affecçÕes, não trepidou em affirmar ser o de- lírio do toque uma segunda phase da loucura da du- vida, succedendo uma terceira representada pela inércia e pelo isolamento. Muitos outros trabalhos eram então apresentados sobre tentativas de unificação. Um certo numero estabeleceu o grupo das mono- manias. Parchappe em 1851 ensaiou reunir algumas das phobias ao grupo das hypochondrias. Morei en- feixava em um só grupo todos os emotivos, e Falret, Griesingere Berger procuraram constituir um grupo, reunindo a loucura da duvida com o delirio do toque e fazendo delia uma alienação parcial com temor dos objectos exteriores. A esta maneira de conceber juntaram-se Wendel, Wille e Kraíft- Ebing. A juncção dos symptomas emocionaes aos intelle- ctuaes foi desde então estabelecida. Os estudos de Magnan sobre os estygmas heredi- tários dos degenerados constituem um forte auxilio para o estabelecimento da unificação, « e embora apre- sente pontos contestáveis, tem entretanto o grande mérito de dar unidade a factos tão diversos e neste ponto foi acceito por quasi todos » (Krafft-Ebing ). 27 Nas suas magistraes licçoes sobre as moléstias mentaes, o professor B. Bali, falando das diversas denominações que tém sido propostas oriundas de interpretações diíferentes, diz : « Na realidade trata- se de uma condição mórbida variavel em suas ma- nifestações e que merece, segundo o caso, todas as denominações que lhe foram successivamente im- postas. Ha porem um traço caracteristico que reune todos estes estados em apparencia tão diversos : é a in- quietação intellectual que pode-se comparar á lype- mania anciosa, a qual representa uma inquietação affectiva ». Semelhantes controvérsias tem se suscitado quando procura-se designar seu logar no quadro nosologico, o que levou Ladame a dizer humoristicamente : « La doute n’est pas seulement chez les maladies, il a passé dans la Science, et 1’afíection dont nous parlons presente ce caractère singulier qu’elle pourrait aussi bien être appelés Folie du doute en raison de l’in- certude dans la quelle se sont trouvés le cadre des maladies mentales que pour les symptômes étranges qui la caractérisent. » Incluida antigamente no vasto grupo das mono- 28 manias de Esquirol, foi depois estudada por Falret e Bali como pertencendo aos delirios parciaes. Na Allemanha e Italia são todas as obsessões in- cluídas no quadro das paranoias, sob uma forma especial de paranoia abortiva ou rudimentar. Krafift-Ebing fez observar, entretanto, a dififerença na facilidade de assimilação constante nos delirios primordiaes do paranoico, ao passo que, as idéas obsedantes se acham em face da consciência como intrus cuja sensação mórbida é reconhecida pela falta de assimilação. Os autores francezes em sua maioria fazem das obsesssoes um delirio systematisado, equivalente na França a paranoia allemã. A dififerença que apresenta Krafift-Ebing de que falamos acima e mais as perturbações do julgamento caracteristico destes delirios em completo antago- nismo com as observadas no delirio da duvida con- stituem argumentos para sua não acceitação. Bali estudando o assumpto, recapitulava as idéas que havia emittido, apresentando dois factos sempre verificados nos casos que havia observado : ser um delirio com consciência, e ter completa ausehcia de allucinações. A conservação da consciência e do julgamento é, diz Rogues de Fursac, (i) a regra na obsessão, per- (l) Manuel de psvchiatrie, pag. 279-1903. 29 mittindo o doente reconhecer a natureza patholo- gica do phenomeno. Acceitando sem contestação a concepção de Ja- net que a nevrose—cerebro cardíaca de Krisbaher, nevrose de angustia de Freud, delírio cenesthesico de Raymond e despersonalisaçao, são effeitos de uma baixa tensão psychologica, cremos que este syndroma pode ser concebido como uma pertur- bação particular da cenesthesia (sendo esta palavra tomada no sentido que precisamos) e tomar lugar no vasto grupo das hypochondrias. A antiga idéa de Parchappe resurge actualmente com solidas bases para sua consolidação. Foerster em estudos sobre a perda da consciência do corpo, notou perturbações no sentido privativo da sensibilidade organica que acompanha os movi- mentos dos orgãos sensoriaes, sendo logico que neste dominio existam também perturbações para- funccionaes *, é o caso dos doentes que se dizem estar desarticulados, cortados em segmentos, sem orgãos ( obs. II), perturbações estas que no dizer de Buck (i) se passam no dominio do systema nervoso da vida de relação, peripherica ou central. Ora, ao lado da hypo e da parafunçcão somato- (1) Buck. — Origine peripherique des psychoses, in Buli de la Soc. de Med. Ment, de Belgique. 30 psyche própria á vida de relação, deve-se admittir perturbações afunccionaes da somatopsyche própria á vida vegetativa, e perturbações parafunccionaes da mesma somatopsyche, e como estas ultimas pertur- bações constituem o dominio da lyypochondria, for- çosa mente devemos admittir sua inclusão no grupo das hypochondrias. Não havia escapado aCotard estas relações quando considerava os doentes attingidos destas perturba- ções como hypochondricos melancólicos e a Deny que considera este syndroma como uma variedade especial sob o nome de hypochondria aberrante, digna de figurar ao lado dos delírios das negações de Cotard, do delirio metabólico de Mendel, na grande família hypochondriaca. Assentado como ficou sobre a maneira que deve ser comprehendido este syndroma e o lugar por elle occupado no quadro nosologico, passemos a es- tudal-o em sua marcha normal. Legrand du Saulle em uma monographia escripta sobre o assumpto, descreveu tres períodos na evo- lução deste estado morbido: o primeiro constituído pela duvida, o segundo pelo temor do contacto e o terceiro pela inércia e pelo isolamento. Assim ensinava o illustre psychiatra na distincção dos dois primeiros 31 períodos: « O que eu noto é que o signal dilíeren- cial que separa o segundo período do primeiro con- siste em revelações absolutamente inesperadas do doente, exposições prolixas de soffrimentos não suppostos, inauguração de um systema de questões sem fim na solicitação reiterada de palavras tran- quillisadoras e na extrema facilidade com a qual uma pessoa de amizade dissipa momentaneamente as per- plexidades em apparencia as mais aterrorisadoras ». , Na descripção de Legrand du Saulle, apresentada em epocha em que a psychiatria iniciava sua phase de organisação, muita cousa ainda subsiste que a intuição do genio cimentou. Analysemol-a. A primeira phase é constituída pela duvida; nisto não cabe„discussão, nem immiscuissÕes e a constância deste symptoma inicial fez com que delia se originasse o nome que rubrica o syndroma. Claudicou, porem, o scientista francez confundindo este syndroma com as phobias quando fazia consti- tuir o segundo periodo pelo temor do contacto. Foi um erro da epocha e nisto vai sua revelação. A phobia, a duvida, os tiques e as agitações teem um fundo commum. Os trabalhos de Janet sobre os phenomenos psychastenicos elucidaram estas ques- tões. Para elle as ruminações e phobias «dependem do estado do espirito do indivíduo, de sua educação e das circumstancias provocadoras e não se succedem 32 segundo uma lei regular». Nas insufficiencias e nas systematisações, como vimos, é que se constitue a affecção. Nos dúbios é commum a intercorrencia da phobia do contacto isto, porem, em vista do principio esta- belecido, não autorisa para que seja descripta como uma phase de moléstia, porque como se tem obser- vado, podem apesentar os doentes, neste mesmo dclirio, tiques, agitações etc. Ainda mais. No trecho que transcrevemos de Legrand du Saulle, como reconhecendo o caracter distinctivo na phase de expansibilidade não é accei- tavel; esta necessidade de direcçao existe desde o co- meço e é commum a todos os svmptomas de insuffi- ciencia psychologica, ha, porem, como claramente de- monstrou Janet, nos obsedados um interesse em oc- cultar suas angustias, apresentam um sentimento de nao serem semelhantes ás outras pessoas, outros mostram-se de uma timidez excessiva, exprimem-se mal, e chegam a um estado em que seus soffrimentos os impellem a falar, procurando uma direcção mais precisa. Janet nesta phase admitte os dois periodos creados por Legrand du Saulle, sendo que em um momento o doente revela seus padecimentos a pes- soas intimas, estendendo depois suas revelações a todas as mais pessoas. O terceiro periodo, recapitu- lava Legrand du Saulle, é o da inércia e o do isola- 33 mento. Assim o descrevia: « Vive o doente na solidão, os movimentos são lentos, a vida se prolonga e se extingue em uma sorte de immobilidade, sahe poucas vezes, suas idéas permanecem acanhadas, o caracter torna-se egoista, e o tempo é perdido em pe- quenas minúcias de toilletes e refeições. » Acceitamos. Foi verdadeiramente clinica a descripção traçada pelo eminente professor. As investigações modernas no que dizem respeito a estas alterações, justificam a exactidão da descri- pção. A despersonalisação que apresentamos na phase ultima, é a consequência das perturbações ob- servadas e descriptas por Legrand du Saulle. O in- divíduo que perder seu eu tem forçosamente os sen- timentos de isolamento e inércia; estas alterações são para nós a exteriorisaçao das perturbações no trama intimo dos centros jnervosos. São as razões que nos levaram a dizer atraz, o que repetimos, foi verdadeiramente clinico o quadro tra- çado pelo emerito professor. Das phases terminaes é esta a mais commum e é nella em que estes infelizes buscam pôr termo a seus soffrimentos pelo suicidio. (Obs. TI) Si marcha cyclica tem aaffecção que estudamos,esta é constituída pela duvida, pelo desdobramento e pela despersonalisação. Não ha, geralmente, esta ordem na successão dos períodos, podendo o segundo ou 34 o terceiro ser o inicio da afecçao, assim como um delles constituir toda a moléstia sem o apparecimento de um outro. NasobservaçÕes apresentadas pelos au- tores não se nota regularidade na marcha. Yan Eeden apresentou innumeras observações nas quaes não era verificada a marcha normal. Doentes havia que em começo apresentavam phobias variadas, inclusive as do toque e que com o desapparecimento destas, logo após apresentou-se o delirio da duvida com todo o seu cortejo. Um doente assistido por Janet, depois de 18 mezes de despersonalisação, ficou um pouco mais tranquillo sobre a sua pessoa; esqueceu em parte o soffrimento que tinha, apresentando porem crises de interroga- ções e lembranças, verdadeiras ruminações do delirio da duvida. Suscitou-se ultitnameute entre os autores de mais conceito a velha discussão si as obsessões ter- minam pela alienação. Era preceito assentado, valorisado pela celebri- dade que tinha aquelle que o emittiu, Legrand du Saulle, que a moléstia nunca chegava á alienação. O professor Bali considerava questão resolvida a não terminação pela loucura, escudado em uma das con- clusões da communicação de M. J. Falret ao Con- gresso de Paris reunido em i889%Preceituava o im- 35 mortal psychiatra francez, quando discutia as pro- babilidades da cura : « Esta é rara, a moléstia, jamais termina pela demencia ». Era este o pensar de Magnan e Legrain que á descripção feita das obsessões addicionatn o seguinte: «Ha porém um facto notável — é que nunca se observa a menor modificação do syndroma, o qual fica sempre semelhante a si mesmo. Não evolúe nem se transforma ; nunca vem a ser a origem de um de- lírio propriamente dito, como diziam outr’ora, con- fundindo a idéa obsedante com a obsessão pura; de modo nenhum as obsessões terminam pela de- mencia. » Estas opiniões teem contradictores que sustentam haver certas relações entre a obsessão e a loucura, podendo aquella terminar por algumas psychoses, principalmente a melancolia e a paranoia. Neste nu- mero estão Kraepelin, Wernicke, Morselli, Janet, Seglas e Pitres. Este ultimo em consciencioso estudo sobre quatro- centas observações, chegou ao seguinte resultado em relação aos doentes nos quaes pôde apreciar a evolução do mal : Àpresentaram-se nove casos de psychoses consti- tuídas ; onze classificou Pitres de transição, em que a psychose não tinha se estabelecido, estando, porem, em via de organisação. 36 Dos nove casos de psychoses constituídas, exce- ptuando um epiléptico, os oito restantes foram attin- gidos de psychose por accentuação progressiva e aguda no seu estado obsedante, sendo que em sete a psychose revestia a mesma forma de melancolia anciosa com idéas delirantes e alluci- naçÕes, apresentando um doente idéas angustiosas de negação e de ausência de orgãos, semelhante ao syndroma de Cotard. Um somente, depois de ter cahido em estupor allucinatorio e impulsivo, ter- minou por uma mania chronica que prolongou-se por muito tempo. Dos oito, quatro curaram-se, um suicidou-se e tres ficaram internados. Acompanhando ainda estes casos, Pitres verificou que um havia se tornado mania chronica, outro se transformou em uma lypemania anciosa franca, com tendencia a cura, o terceiro se conservou no mesmo estado de melancolia anciosa. Quanto aos onze restantes que estavam, como diz Pitres, no periodo de transição, oito se approxi- mavam da melancolia, — sempre de forma anciosa, lúcida; tres restantes que eram do sexo feminino se achavam no ponto em que a idéa fixa tende a se tornar delirante systematisada. Duas chegaram á paranoia rudimentar, a terceira se achava em começo da interpretação delirante. Razão têm, pois, diante deste resultado os autores 37 que admittem a possibilidade da alienação na ultima phase das obsessões. O que temos a observar é a constância na terminação limitada a dois typos: Paranoia rudimentar (Allemão), ou delirio syste- matisado ( Francez) e melancolia anciosa. Notou Pitres que nos casos de loucura manifesta, podemos reconhecer qual a obsessão que a precedeu. O delirio systematisado é o termino da obsessão ideativa, da mesma forma que á melancolia anciosa chegam os estados obsedantes em que predominam os symptomas emocionaes encontrados no vasto grupo das phobias. A estas formas admittidas por Pitres e Regis (i), KrafFt-Ebing (2) e outros, Pierre Janet addicciona mais tres constantes nos escrupu- losos: os estados extáticos com um delirio mystico mais ou menos systematisado, a confusão mental com estupor e a confusão mental com manifestações delirantes. O delirio da duvida apresenta uma infinidade de formas clinicas. O professor Bali (3) descreveu as principaes acceitas pela maioria dos autores. A obser- (1) Pitres et Regis— Obsessões, pag. 242, í 2) Traité de psychiatrie, pag. 546. (3) Janet, op, cit. v. I, pag. 660. 38 vação I representa o typo clinico dos metaphysicos, A preoccupação principal desta forma é a investi- gação incessante dos grandes problemas philosophicos. Constantemente vivem a pensar quem foi o Creador; procuram a origem da linguggem, se in- quietam com o fim das cousas, com a immortalidade da alma, etc. Com as idéas desviadas em opposição ao typo apresentado por nós, os realistas se occupam de questões frívolas, não representando nenhuma ele- vação de pensamento. Griesinger, citado por Bali, relata a observação de um príncipe moscovita que andava a perguntar constantemente, porque os ho- mens não eram tão grandes como as casas. A forma clinica dos escrupulosos é numerosa. As estatísticas de Janet apresentam uma cifra elevadís- sima de casos. Os timidos formam uma quarta classe. Estes indi- víduos, quando tentam realizar qualquer acto, sentem difficuldade pelo temor que teem de se opmpro- metter e tomam continuadamente precauções exage- radas em todas as occupações ordinárias. A quinta e ultima forma é a dos contadores. Le- grand du Saulle cita a observação de um doente que dizia: «Perdoae-me, não é por vontade, mas é preciso contar >. 39 São estas as principaes formas clinicas, no emtanto não podemos limitar a um numero determinado, por- quanto podem variar indefinidamente. Os tres princípios estabelecidos por Janet, dos quaes já falámos em outra parte, nos explica a razão desta multiplicidade. Diagnostico — E’ facil em se tratando de casos ty- picosebem desenvolvidos. Quando porem a obsessão não é manifesta, serias difficuldades existem em se estabelecer um diagnostico seguro. No capitulo precedente vimos os periodos que atra- vessam as obsessões até sua constituição; vejamos o diagnostico em cada uma destas phases. No primeiro grupo em que estão incluídos os abú- licos e todos os casos que apresentam perturbações da emotividade far-se-á o diagnostico com a neurasthenia, com a confusão mental aguda ou chronica, com os estados melancólicos e com a paralysia geral em co- meço. Difficuldades existem no diagnostico diffe- rencial com a neurasthenia porque, sendo este estado vagamente determinado, apresenta perturbações que são o inicio de outras nevroses e psychoses. Se um doente com symptomas de neurasthenia moral se queixa de não reconhecer a si mesmo, de *e sentir desdobrado, delle proprio reconhecer o ca 40 racter automático de seus aetos, não haverá difíicul- dade em se formular com precisão o diagnostico. Ha interesse para sua formulação, sobretudo com as formas chronicas e lentas de confusão mental que se desenvolvem na juventude e são as mais das vezes consideradas como fôrmas hebephrenicas. Os symptomas de insufficiencia psychologica são mais accusados nas confusões de origem toxica e in- fectuosa; as perturbações se revelam por alteração do raciocínio, da percepçaoeda associação. O doente não se limita a duvidar do que vê ou ouve. Apre- senta-se como não podendo perceber ou compre- hender, e os de confusão mental têm menos con- sciência do seu estado morbido que os psychaste- nicos; apresentam poucas sensações de insufficiencia e quando apparecem idéas fixas não reconhecem seu caracter absurdo. O diagnostico nos estados melancólicos é facilitado pelo gráo de perturbações affectivas que lhe são cara- cteristicas. Pitres e Regis têm observado a juncção do symptoma das obsessões com os melancólicos for- mando estados mixtos. A paralysia geral em começo apresenta symptomas communs com os dos estados psychastenicos, tornando difficil o diagnostico. Os signaes physicos da paralysia geral, o desenvolvi- mento mais accentuado da demencia nesta, per- mittem resolver as dificuldades existentes. Depois 41 de constituída a obsessão, o diagnostico será feito com os delírios systematisados em seu começo com as paranoias rudimentares, que vão constituir o delirio hypochondrico, com a loucura mystica e com o de- lirio de perseguição. Os antigos autores confundiam os delírios syste- matisados com o delirio da duvida, apresentando Delasiauve como exemplo de « pseudo-monomania » um caso typico de delirio de perseguição, e Marcé formando um só grupo do delirio das perseguições com as « idéas forçadas » dos obsedados. O diagnostico neste caso não é difficil, consistindo simplesmente em verificar a existência dos signaes adoptados por todos os autores para estabelecer a dis tincção entre a idéa fixa e a obsessão. Diz Roubinovitch que a idéa fixa é uma concepção delirante, inconsciente, dominando toda a personali- dade psychica; a obsessão é uma idéa inútil ou no- civa, reconhecida falsa, que occupa o espirito do do- ente contra a sua vontade. A idéa fixa é permanente, a obsessão procede por paroxismos; na primeira moléstia é o julgamento, a falta de associação de idéas que são lesadas, na se- gunda é lesada a esphera emotiva, isto é, a vontade. Um perseguido nos limites do seu delirio, manifesta uma convicção absoluta com idéas de perseguição e 42 grandeza, realisando actos em relação com estas idéas; ouve vozes allucinativas e não se assemelha a um obsedado que vive a se interrogar sobre o seu escrú- pulo, apresentando pseudo-allucinaçÕes. E’ difficil, entretanto, se considerarmos as mo- léstias em começo. Nos perseguidos se tem verificado caractéres communs aos psychastenicos : a mesma influencia de causas debilitantes; moléstias infectuosas, emoções, oscillaçÕes do nível mental, perturbações de insuffi- ciencia psychologica, abulia e sobretudo sentimento de automatismo. Igualmente encontram-se nos perseguidos systema- ticos sentimentos de desdobramento, de extranheza do mundo objectivo; inversamente, no obsedado ty- pico, conteúde de idéas é o mesmo que no delirio s}fstematico. As idéas obsedantes mysticas e as idéas de perseguições apparecem conjunctamente em di- versas obsessões. Ha doentes que em começo ora se apresentam com symptomas de delirio da duvida, ora com os symp- tomas dos delírios de perseguição. O problema é difficil e a resolução possível no mo- mento actual, consiste em differençar os estados psychastenicos que tendem em evoluir para os de- lírios systematicos daquelles que se limitam ás ob- sessões. A tendencia anterior do caracter, a auto- 43 philia e o orgulho revelam uma disposição em objec- tivar todas as insufficiencias psychologicas. Estes caractéres fazem temer que o estado psy- chastenico não evolua para a variedade perigosa que é o delirio systematico de perseguição. As tendências inversas, a doçura, a humildade, a tendencia á analyse subjectiva prevêm a obsessão da duvida. A analyse psychologica nos diversos symptomas permitte dar alguma precisão ao diagnostico. Prognostico—E’ grave, não obstante as remissões prolongadas de cinco annos como na primeira obser- vação. Pitres e Regis consideram de extrema gravi- dade as obsessões intellectuaes em o numero das quaes está o delirio da duvida. Tratamento. — Aconselham-se tonicos, reconsti- tuintes e o uso de sedativos. O tratamento porém mais acertado é o moral, que consiste nos seus traços principaes na simplificação da vida, na suggestão e na reeducação da attenção* TRANSCRIPTÁ DE PITRES E REGIS OBSERVAÇÃO II ObsessÃo da duvida do pensamento e da existência. Disso- ciação E DESDOBRAMENTO DA PERSONALIDADE. Em Maio de 1897, M. D..50 annos, empregado do com- mercio, celibatário, nos consultava porque desde algum tempo, tinha « complicações de idéas». Seu paeera impetuoso, irascivel. Morreu de diabetes na edade de 66 annos. Sua mãe fallecida com 81 annos, de calarrho bronchico, não apresentava nenhum plienomeno nervoso. Teve um irmão dypsomano, com perturbações allucinatorias, morto com 62 annos, de cirrhose atrophica. Sua irmã que o acompanha passa regularmente. Entretanto suspeita de mi- graine e, como nos affirmou mais tarde, desde a idade de 15 ou 16 annos, tinha uma serie de manias ou antes de « supersti- ções ». Para andar devia sempre partir com o pé direito; fazia oração no mesmo lugar da sua camara; si tocava um objecto pen- sando que lhe poderia acontecer alguma desgraça, era obrigada a tocar outro. Isto lhe durou 4 ou 5 annos. Teve ella egualmente crises nervosas. Na sua adolescência nosso doente não teve as idéas fixas que ooccupam hoje. Teve, com sua irmã, algumas pequenas «ma- nias» como elle as chama. Gostava de caminhar sobre os in lersticios das calçadas de modo a fazer uma cruz. Era levado a bater os muros cimentados, etc. D. fez excessos de bebidas (pequenos copos de absintlio). Ha um anno sobrevieram perturbações gastricas com estado verti- 45 ginoso, seguidas de pulsações e finalmente a sensação se reno- vando todas as manhãs, da inexistência de seu corpo e sentindo impossibilidade de levantar-se do leito. Era como que um «pe- sadelo dissipado» enchendo-o de angustias. Foi nestas condições que nasceram « suas complicações de idéas». Tem procurado verificar, ha dois mezes se realmente pensa e como pode reco- nhecer si porventura pensa. Si uma idéa apparece em seu ce- rebro sem que elle disto tenha consciência, elle recorda o pas- sado para saber qual era esta idéa que pôde lhe escapar. Preoccupa-se elle, finalmente, com a continuidade de seu pen- samento. O que é para elle penoso, o que o põe em estado de angustia excessiva é ter podido ficar um certo tempo sem pensamento, é que tivesse havido, como disse elle, «um tempo de parada nas suas idéas». Estas indagações augustiosas se reproduzem todos os dias. Uma noite desperta elle de repente, e pergunta : «Eu penso?» Não sentindo-se pensar, diz: «Pois que nada prova que eu penso, não posso saber se existo». Destruía assim o famoso aphorísmo de Descartes : «Penso; logo existo». Estas torturantes preoccupações não o abandonam e lhe tor- nam a vida insuportável. «Elle prefere a morte a ficar assim». Estas duvidas sobre a existência de seu pensamento e sobre sua existência real constituem uma obsessão das mais penosas para o nosso doente. Só á força de muito raciocínio chega elle a uma vaga conce- pção de sua existência, sobrevindo logo após um outro raciocínio que destróe a prova encontrada. Tem por deducção uma idéa vaga de que existe. Elle si ffsubstitue»diz elle, ao estado daquelle que não pensa e então vê «que pensa». 46 Observa o funccionamento de suas vísceras para saber se vive. Para vir se consultar, «foi obrigado a não seguir todos os seus raciocínios e obedecer a machina humana». O exame do doente revela o seguinte : Um homem de esta- tura acima da normal que foi certamente vigoroso, tendo porem os traços fatigados e o ar preoccupado. O olhar brilhante e in- telligente. Diz ter emmagrecido naturalmente desde que co- meçou a soíTrer certas perturbações obsedantes. Soífre da cabeça, particularmente da região occipital. Nota-se um tremor intenso na lingua e nos dedos. Os reflexos são normaes; a sensibilidade geral um pouco diminuída. O appetite é mediocre, o doente é obrigado a rociocinar para comer. Tem constipação. Durante o somno não é perseguido por suas idéas; porem, antes de dor- mir tem visões de pessoas desconhecidas que desfilam deante d’elle, lhe apparecendo sob um aspecto muito vago. Algumas vezes, diz elle, vê conversarem entre si e ouve mesmo certas phrases. Conhece bem que estes phenomenos não existem senão em seu espirito. A.o despertar tem sensação de que acaba de nascer, que se levanta de uma syncope. Sua memória é bòa, seus gostos mudaram. A musica que era uma das mais agra- daveis de suas distracções, se tornou insupportavel. Nada mais o interessa e vive na inacção, na mais completa ociosidade, dominado unicamente por seus pensamentos. Sua obsessão augmenta de mais a mais: « Falo, marcho, logo vivo. Si vivo, fallo, ando, logo penso». Tem acontecido varias vezes ir elle accordar a irmã á noite e lhe propor a seguinte questão : «Eu te falo, logo eu vivo ». Elle sente-se obrigado a pensar para provar que existe. Poderia se distrahir, porem, sofíre com esta distracção, porque lhe 47 parece que não faz «a quantidade sufficiente de raciocínio para a vida.» Busca os pensamentos abstractos que sào para elle uma prova muito mais evidente de seu pensamento, por isso que não são fundados sobre sensações. Cada um de seus syllogismos é acompanhado de uma crise de angustia com baforadas de calor, suores, palpitações do coração, sensação de constricção epigastrica. Em seguida a suas visitas ao medico, torna-se um pouco mais calmo. Mas o effeilo não dura muito tempo. Entretanto, mesmo atravez da calma, sente que teve sempre abundancia de «idéas». Não sente mais satisfação quando se lhe afílrma que elle vive. Sente mesmo uma repulsão para todas as acções que provam a vida. Em uma das occasioes em que esteve comnosco tocaram um realejo na rua ; elle ouviu. «Eu ouço, logo eu penso, logo eu existo; mas estarei eu certo de que penso?» Demais elle não teve consciência si seu « eu actual éo mesmo que o seu eu de outr’ora» Comtu.do quando não pensa mais em todas estas idéas, lhe parece que está desdobrado e que volta a sua «vida antiga». Em seguida, apezar de todos os seus esfor- ços para esquecer-se desta obsessão, o seu estado conserva-se sem melhora. A demonstração de sua existência requer certos raciocinios, mas o espirito do doente não fica satisfeito porque a terrível duvida renasce contra sua vontade; e, quanto mais o espirito se applica sobre este ponto, tanto mais a agonia augmen- ta. Um raciocínio acarreta um outro em sentido contrario e este uma infinidade delles, até que, emfiim, a angustia, chegando ao ultimo gráo, o doente sente um vacúo em seu craneo, como elle diz: « suas idéas se volatilisam » e é nestes momentos que 48 elle acredita estar louco. Existe nelle alguns momentos em que a tranquilidade de espirito tende a voltar; mas, são de bem curta duração. Um dia quiz se destraliir ao pianode que gostava muito, antes de sua moléstia; uma vez mesmo, segundo nos disse sua irmã compoz uma valsa. Mas ordinariamente longe dedistrahir suas idéas, a musica não fazia senão provocar novas angustias- Com effeito, em quanto elle tocava piano, em que se tornava seu pensamento? Elle não pensava, seus raciocínios não lhe provavam que elle pensava, etc. Seus meios de defesa são numerosos raciocinios que faz para se convencer de que existe realmente e de que suas duvidas são absurdas; mas nada affirma. Eis a prova: é que elle sente, ouve, anda, e seu pensamento acom- panha bem todos os seus actos, porem não constantemente lhe faz muitas vezes commetter actos automaticamente; por conse- quência « seus pensamentossoftrem interrupções».Elle não tom sempre no espirito idéacontinua de que existe e então suas du- vidas recomeçam. Quanto mais cálculos faz, mais a obsessão augmenta. Para se convencer de que existe toma o pulso; se sente pulsações, é porque elle existe realmente. E o acto pelo qual elle levou a mão direita sobre a esquerda afim do tomar o pulso, não é um acto cujo funccionamento esteve todo presente ao seu espirito? Todos estes processos que elle em- prega para se certificar de que pensa e existe não fazem senão augmentar e duplicar seu estado ancioso. E’, pois, em vão qne elle procure se convencer que vive examinando attentamente seu pulso, marchando, verificando as sensações de sua vista e de seu ouvido. Não se convence de que tude isto é verdade. 49 Para dar uma idéa mais exacta do estado do doente e de seus syllogismos angustiosos, transcreveremos aqui uma nota que nos remetteu sua irmã: «Procuro o mecanismo do pensamento. Falo para me certificar de que posso fallar. Si eu ando, vivo. Parece-me que não vivo não me ouço falar, não me sinto. Si não penso é porque não vivo, si não vivo, então, não devo comer. Preferia ser louco a não ter certeza de que penso e vivo». Hontem pela manhã elle me disse: «Para me levantar, é preciso que eu pense e que viva. Para verificar que eu vivo é preciso que eu pense, e como verificar que penso? E, todavia, é isso! » Quer que eu escute seus racíoeinios para se convencer de que vive e de que pensa e isto todos os cinco minutos, desde a manhã até a noite. Isto me faz enlouquecer. Que marcha seguir?devo con • cordar com elle ou contradizel-o? Elle quer que se provê que vive e que pensa e disto se originam os seus raciocínios, e como não chega a provai* o que deseja, soffre como um infeliz». D... tem um mão estado geral; soffre horrivelmente do es- tômago: parece-lhe que seu estomago entra n’eíle proprio. Elle se sente fraco, abatido; está pallido e magro. Quasi todos os meios de therapeutica foram empregados: tonicos, calmantes, hydro-therapia, galvanisação cerebral, pilulasde cerebrina, or- chitina. Fizemos durante um mez quasi diariamente injecções de 8 a 10 c. c. de serum artificial. O seu estado não melhorou. Praticamos então uma serie de ensaios de hypnose. Empre- gamos todos os processos possíveis para provocar o sornno: fi- xação do olhar, de um ohjecto brilhante, fricções oculares, passes, suggestões verbaes etc. Recorremos duas vezes á clilo- roformisação. O doente mostrou-se sempre muito refractario. Quando muito, em alguns instantes parecia mergulhado em 50 uma ligeira somnolencia, mas despertava espontaneamente sem ter anesthesia, contractura, sem a menor amnésia. No fim depois de dez sessões D... procurava todos os meios para conseguir o somno; nós lhe aconselhamos entreter, arras- lar-se, fixar em um objecto brilhante: n’uma vela, n’um es- pelho, em cada dia até que dormisse. Depois de 15 dias recomeçamos nossas tentativas de hypnose mas sem resultados. D... está desesperado e declara que apezar de seu desejo, lhe é impossível conseguir concentrar sua attençâo sobre um ponto qualquer e adormecer. Para tentar fazer uma diversão salutar mandámos D.. . passar algumas semanas em sua terra natal. O seu estado não se mo- dificou. Na segunda ou terceira noite, raciocinando como de cos- tume sobre o objecto de suas duvidas, lhe veio a idéa de que vivia talvez, mas debaixo da terra. Esta idéa desde então se fixou em seu espirito como «.obsessão-deducção» e hoje é ella que o domina. Não pode se convencer de que não está sob a terra. Hontem (25 de março de 1898) passando na rua Victor Hugo acreditou se achar debaixo da terra e, assim ser elle mesmo a rua Victor Hugo. A personalidade fictícia creada por sua obsessão, apparecia pois em sua consciência como real, e a personalidade real como fictícia. Aqui a consciência estava realmente attingida, mas momen- tânea e imcompletamente. O doente mergulhado cada vez mais nos seus cálculos psychicos, chegou a cahir rapidamente em uma crise de nervrse de angustia aguda, sempre lúcido e obse- dado, mas manifestando friamente a intenção de recorrer ao suicídio, si por ventura não se curasse. Por isso foi colloeado em uma casa de saúde de nervosos onde, executando o que ha- via annunciado, suicidou-se depois de alguns dias. Etio-path ogenia 5a.usas múltiplas favorecem o apparecimento deste delirio: herança, idade, sexo, auto-intoxicações, mo- léstias infectuosas, entram como essenciaes na sua etiologia. A influencia da herança representada como factor essencial nas diversas psychopathias soffreu cons- cienciosa critica de dois brazileiros pela importância exagerada que se lhe têm attribuido. Antes, vejamos a opinião de autoridades estran- geiras. Legrand du Saulle havia assentado como verdade incontestável que « a loucura da duvida fazia suas vi- ctimas entre os descendentes de nevropathas, estes supranumerários infalliveis de alienação». Esta opinião é a mesma de Arnaud, que diz ser condição essencial para sua manifestação ou de estados aná- logos a hereditariedade nevro ou psychopathica. Assim pensam os autores em sua maioria. Os Srs. Juliano Moreira e Afranio Peixoto ( i ), por pouco annullam a influencia da herança conce- bida como se tem em biologia. A dilatação dada (1) Archivos brasileiros de psychiatria e neurologia -anuo I, ti. 1, pag. 8—1905. 52 pelos mesmos a esta palavra como causa geratriz nos parece mais adequada, sobremodo no assumpto que tratamos. Transcreveremos ipsis vcrbis as palavras do sabio dircctor do Hospício Nacional de alienados e de seu joven auxiliar : «Esquecemo-nos por completo do meio em que vivemos uma vida interior de combates e reacçoes incessantes, para tudo attribuir a umas tantas meta- physicas da biologia ainda sem provas. A náo ser comprehendendo na expressão herança aquelle sen- tido latíssimo que um de nós já lhe emprestou, fa- lando da herança sociologica que mais prepondera na genese do adultério que a biologia, a não ser talvez extendendo mais ainda ao conjuncto de con- dições physicas e sociaes ambientes em uma palavra originarias ou consequentes em que nos influenciam em nossa derivação mesmo, somos forçados a fazer aqui umas tantas restricçÕes ao sentido estreito do conceito, sobre o assumpto que nos occupa ». E’ de importância capital o sexo ; á inferioridade de nivel mental da mulher, é a que se attribue esta predisposição. A idade é para Bali, Legrand du Saulle e Baillar- ger, perigosa na epocha da puberdade. Este ultimo affirmava « que quasi sempre a moléstia da duvida tinha inicio na epocha da puberdade». As moléstias 53 infectuosas, as auto-intoxicações etc., tudo emfim que diminue a resistência organica favorece a eclosão do mal. Acoberta a medicina espesso véo na causa intima dos diversos estados morbidos. Na sua historia verá, quem se dér ao trabalho de a compulsar, a cadeia de theorias engenhosas e scientificas que em tempos vicejaram, novas ou modificadas, acompanhadas com o nome dos autores que as formularam. Tratando da pathogenia quando escrevia sua ex- cellente these ( i) disse talentoso collega, deste ponto de medicina : « A pathogenia é thema em que as hypotheses bastam para alimentar discussões, » e no que toca á assumptos que resvalam para a psy- chologia, « terreno em que as soluções ainda se de- senham sob uma meia luz que emprestam indecisão e inconstância ás figuras», comprehende-se o gráo de discórdia reinante. Na ordem chronologica se nos depara a theoria in- tellectual que foi creação de Delasiauve e Peine. Sustentada por Griesinger e Westphal como simples perturbações intellectuaes, ainda tem perdurado nos tempos modernos com Krafft-Ebing para quem a (1) Dr. José Carneiro — Demencia precoce, these inaugural, pag. 25—1905, 54 emoção do obsedado é secundaria, simples reacção da representação obsedante sobre a vida emotiva do doente. A ausência na obsessão de angustia e de perturbações emocionaes prévias, são os argumentos apresentados pelos partidários das theorias intelle- ctuaes. Partindo do verdadeiro conceito que se deve fazer de idéa e pensamento que é, segundo Janet, um phe- nomeno psychologico, complexo, com antecedentes que se relacionam com seus caracteres, ataca este insigne professor a theoria intellectual, por ser ina- dmissível como semelhantes idéas apresentem os caracteres das obsessões sem que nenhuma pertur- bação anterior houvesse. Morei em 1866 descreveu sem deli rio emotivo. Esta theoria sustentada na Inglaterra por Lange e James, em França encontrou Pitres e Regis que ardorosa- mente defendem sua veracidade. A prioridade da vida affectiva sobre a intellectual, sustentada pelo professor Ribot, fez com que Pitres e Regis, após ligeiro momento de hesitação, accei- tassem como verídica a theoria de Lange é James que synthetisavam em definir a emoção « a consciência das variações mesmo vasculares ». Para provar ainda a prioridade e preponderância da emoção, dizem os citados autores: «Tomai uma 55 obsessão qualquer, — duvida ou homicídio, — sup- primi pelo pensamento a angustia, a anciedade que nella se encontra e não presenciareis obsessão,—sub- trahi entretanto a idéa lixa, e encontrareis a obsessão na sua essencia—não ha obsessão, sem emoção, sem phenomenos vaso-motores (Pitres e Regis). O facto em que se apoiaram Pitres e Regis, de precederem as tendências ás idéas, não implica que uma vez a vida affectiva e a vida intellectual consti- tuídas, não possa a primeira, pelas mesmas causas, ser influenciada simultaneamente que a segunda « tanto mais quanto sua separação é um tanto arti- ficial ». Binet e Vaschide em experiencias feitas observaram factos em contrario com a theoria emocional:—a reacção emocional precederas modificações vaso-mo- toras. Lange e Sergi admittem a existência de um centro vaso-motor, «centro emotivo principal e primário », sendo a actividade deste centro provocada por esti- mulações centraes (idéas, percepçÕes) ou por excitação peripherica (sensações). Sua presença não íoi porem, verificada. Para Mickle a obsessão apresenta uma forma mais complexa, que se particularisando determina formas múltiplas, ora se exteriorisando por perturbações in- tellectuaes, ora com desordens dos sentimentos e fi- 56 nalmente por lesões da vontade. « E’ por esta razão, diz Mickle, que tenho o habito de agrupar as prin- cipaes variedades de obsessões sob a denominação de trez D: doubt (duvida), dead (temor), desd (acto) » Em meio desta discórdia sobre a causa intima das obsessões, o professor Janet, despresando como pri- mitiva e essencial aidéa obsedante do primeiro grupo, ao tomar como ponto de partida a angustia emo- cional, notou nestes iníelizes a constância de sym- ptomas de enfraquecimento, estygmas psychaste- nicos, como os denominou e erigiu, baseando-se neste enfraquecimento especial do espirito, a theoria psychastenica das obsessões, Com tamanha impulsão, em tão difficil problema, não se acercou do eminente professor a estulta vai- dade de ter pronunciado a ultima palavra — solemnia verba — como se deprehende da transcripção infra (i): «Na ignorância em que nos achamos das fun- cçÕes essenciaes do systema nervoso e das causas que determinam o augmento ou a diminuição das funcções cerebraes,ns theoriaspathogenicas das perturbações do espirito não podem ser sinão classificações tão naturaes quanto possiveis dos symptomas observados.» Lis est. (1) Janet opp. cit T. I. pag. 447. — As palavras sublinhadas são nossas. Das perturbações cenesthesicas como base para explicação das alterações da personalidade. O conceito referente á cenesthesia de que os sen- tidos externos interveem de uma maneira accessoria e secundaria na concepção de nossa personalidade nao pode, como demonstraram Wernich e Storch, ser acceitavel. (i ) Provaram estes neurologistas que em toda a per- cepção sensorial (táctil, visual, auditiva, etc.) existem dois elementos: — um especifico ou sensorial, outro orgânico ou myopsychico, constituído este pela sen- sação da actividade muscular e a do movimento exe- cutado pelo organisnlo para adaptar o apparelho sen- sorial ao excitante peripherico, realisando assim as melhores condições de percepçao. As percepçoes sensoriaes teem pois por concomi- tante indispensável, sensações organicas que repre- sentam importante papel no conhecimento do mundo exterior e dos phenomenos do nosso proprio orga- nismo. Graças ás vias de associações transcorticaes, estas sensações organicas de origem externa e suas imagens 58 acham-se intimamente unidas ás imagens das sen- sações organicas de origem interna, sobretudo vis- ceraes, cujo conjuncto constitue o que se denomina cenesthesia, — o sentido de nossa existência corporal ou de nossa personalidade physica. Destas connexÕes associativas resultam que cada uma de nossas perce- pçoes sensoriaes tem o poder de fazer surgir na con- sciência o complexo de imagens commemorativas das diversas regiões do corpo pelas quaes temos a consci- ência do nosso organismo. Não devemos, pois, conceber a cenesthesia na acce- pção restricta exarada por Séglas, com independencia do concurso dos sentidos, apresentando assim nossas sensações de uma fórma vaga; devemos admittir, o que está conforme á accepção etymologica da palavra, que é ella o sentimento que temos da nossa existên- cia, graça á sensibilidade organica, francamente cons- ciente no estado normal, derivando-se de todos os orgaos comprehendendo os dos sentidos. A ampliação dada por Wernick, é a que nos parece de mais acerto, por isso que, firmada em dados positivos, além de conservar na sua concepção as sensações organicas de origem interna, como sustenta Séglas, addiciona as de origem externa, sem as quaes as percepções senso- riaes ficariam incompletas. Estes dados psycho-physiologicos nos servirão de base para interpretação do syndroma da duvida, con 59 siderado como uma perturbação da cenesthesia, no sentido que Wernick concebeu. Façamos a synthese do que observamos nas duas observações. Notamos em ambos os doentes a au- sência completa de toda a especie de concepções de- lirantes, assim a integridade de suas faculdades in- tellectuaes e criticas; se queixam de não sentirem como ouir’ora e serem levados a duvidar de tudo, tanto de suas existências corporaes, como do mundo exterior. Objectivamente os doentes de que transcrevemos as observações, veem, ouvem e sentem como uma pessoa normal, teem uma idéa exacta sobre todos os objectos e seus usos, lhes parecendo, entretanto, que o que veem, o que tocam, mesmo seus proprios corpos, não teem existência real, que não são elles que percebem, que falam e andam, resultando disto, este estado angustioso, obsedante e irresistível, que os impelle a beliscarem-se, exporem-se ao frio, ao qual Janet chama manias de verificação, tudo isto na esperança sempre enganadora de supprirem a in- sufficiencia de suas percepçÕes, por sensações com- plementares da vista, do toque, da themosthesia, etc. Trata-se, como vimos, duma perturbação pura- mente subjectiva da actividade sensitivo-psychica, perturbação esta que tem sido nestes últimos annos o objecto de acurados estudos feitos por Pierre Janet, 60 nas suas pesquisas sobre as obsessões e a psychas- tenia. Nas obras do eminente professor ha observações comparáveis ás que transcrevemos para o nosso trabalho, de doentes que dizem não serem elles que andam, que comem e que dormem, duvidam de sua própria existência e suppoem-se mortos. ( i ) «Estes doentes, diz Janet, continuam a ter a sensação e a percepção do mundo exterior, perderam, porem, o sentimento de realidade que ordinariamente é in- separável destas percepções ». (2) E como para Janet este sentimento de realidade é funcção dum nivel mental elevado, que desapparece desde que a tensão psychologicadiminúe, conclúe elle, que estes doentes que teem sensações incompletas ou que perderam o sentimento da realidade, teem um abaixamento do nivel mental, uma quéda ou um simples enfraque- cimento da tensão psychologica. Storch e Foerst não admittem a explicação de Ja- net e combatem a theoria deste. Para Storch, a duvida que apresenta um certo nu- mero de psychopatas, cuja acuidade visual, auditiva, táctil etc. é normal, está dependente unicamente da (1) Janet, T. I, pag. 489 (2) Ha poucos dias passados vimos no escriptorio do Dr- Tillemont um doente que não tinha consciência se defecava. Não nos foi possivel fazer uma observação do caso, porque nosso trabalho estava prestes a terminar sua impressão. 61 dissociação do conteúdo da percepçao e do desappa- recimento das sensações organicas, myopsychicas, as quaes devemos a apreciação do espaço, do tempo, do volume etc., repousando o sentimento de reali- dade sobre os factores myopsychicos que fazem parte de nossas sensações. Semelhante a Storch, Foerster (\) baseou-se, na explicação destes estados, sobre a dualidade physio- logica dos dois factores da percepçao — o orgânico e o especifico, principalmente na preponderância deste ultimo na constituição de nossa personalidade. O elemento orgânico para Foerster também contribue para nos pôr em relação com o mundo exterior, donde infere-se que saa não utilisação seja causa de perturbações na apreciação do nosso corpo e na do mundo exterior. Admittindo a concepção de Wernick que a con- sciência de nossa existência corporal, é subordinada a integridade das sensações organicas transmittidas a cada instante de todos os pontos do corpo ao córtex, torna-se evidente que a suppressão duma categoria qualquer destas sensações, basta para de- terminar em nossa cenesthesia uma perturbação mais ou menos profunda que poderá se estender, da simples duvida á negação completa de nossa persona- lidade. (I) Manuel de psychiatrie et neurologie trad. do aliem. 1904 62 Comprehende-se ainda mais que a ausência das sensações organicas ou myopsychicas, normalmente associadas ás nossas percepçÕes sensoriaes, provoca as mesmas duvidas, as mesmas perplexidades, com o que nos relacionamos com o mundo exterior. Deny, reconhecendo o valor da theoria psycho- physiologica de Storch e Foerster, delia serve-se para explicar as perturbações cenesthesicas, no sen- tido em que precisou Wernick: «A conservação do componente especifico nos faz comprehender, diz Den}r, como estes doentes continuam a ver e reco- nhecer os objectos, assim como sua pessoa; mas como o componente orgânico de suas representações sensoriaes deixa de existir, não podem certos doentes os ligar a sua personalidade». Como vimos, por este mechanlsmo temos a explicação dos sentimentos de estranheza, de deficiência e de despersonalisação es- tudados por Janet. A perda das representações memoriaes Deny as explica pelo mesmo mechanismo. «E a inemotividade sensorial é, ajunta Deny, também a consequência da ausência de sensações or- ganicas, cenesthesicas, as quaes condicionam a tona- lidade emocional de todas as nossas percepçÕes. » Hypothetica como as mais theorias scientificas, a de Grasset com a determinação anatómica dos * 63 centros da ideação e automáticos ( i ), fundada igualmente como as precedentes na dualidade de componentes, nos parece adequada para explicação do mechanismo da aífecção que estudamos. As sen- sações, idéas, recordações, raciocinios que consti- tuem o conjuncto do nosso entendimento, nosso Eu, teem um centro coromum : é o centro intelle- ctual superior, a consciência. Ao lado deste conjuncto cohesivo existe outro formado dum grande numero de idéas, das quaes perdemos nós a lembrança consciente de uma ma- neira incompleta, — de sensações não reconhecidas, — de impressões fugitivas não classificadas pela con- sciência e que representam as primeiras manifes- tações da consciênciaintellectual, o esboço das idéas que vão formar nosso entendimento. E’ o dominio do subconsciente que Myers ( 2 ) clas- sificou de consciência subliminal. Claparède(3) chama de percepção no segundo gráo ou percepção complicada, a consciência intel- lectual superior ; e de percepção no primeiro gráo ou percepção simples, a « identificação primaria que produz o reconhecimento sensorial ». Para Clapa- (!) Grasset. Les centres nerveux. — Physiopathologie cli- nica, pag. 42 -1905. ( 2 ) La personalité humain. (3) Cit. in Grasset — Hypnotisme et snggestion. 64 rède estes dois grãos da percepção estão em uma dependencia reciproca e impossível de delimitar, admittindo, entretanto, sua distincção com o Hm de facilitar o estudo dos casos pathologicos. Esta divisão é acceita com restricçÕes pelo professor Grasset que assegura ser ella artificial em physiologia normal, porem, que em pathologia e em clinica, na vida mórbida nada existe de mais real. O professor Grasset designa sob o nome de centro O (correspondendo a \ona anterior dos centros de associação, prerolandica e prefrontal, onde Flech- sig localisa a consciência e a personalidade (i) ), o centro intellectual superior e de polygono, o con- juncto dos centros subconscientes, considerando-o como formado dos differentes centros da visão, da audição, dos movimentos geraes, da graphia, da pa- lavra e da sensibilidade geral, centros estes que estão em relação entre si e com os centros superiores, por fibras ou zonas prejectoras. No estado normal estes dois centros, consciência superior e subconsciencia, O e Polygono estão intimamente unidos um ao outro por associações constantes, funccionam con- junctamente e presidem toda as as funccçoes da vida. Quando, porem, por motivo de ordem physiolo- gica como o somno, experimental como o hypno- (1) Grasset. Les centres nervenx, op. cit. pag. 43. 65 tismo e a suggestao, ou pathologica como em certos estados hystericos e psychastenicos, estes dois centros se dissociam, torna-se possível o estudo de suas manifestações respectivas. Separado do seu centro O, o polygono nao fica inactivo. Os productos da actividade polygonal, os actos au- tomáticos possuem um certo numero de caracteres que lhes são proprios e que foram bem definidos por Grasset. Separados de seu centro psychico, são incon- scientes, só tornando-se conscientes quando a acti- vidade automatica se acha communicada ao centro da consciência pessoal. São alem disto impregnados dum certo psychismo que se manifesta pela memória e pela intellectualidade « persistência de impressões, invocação de lembranças. .. tudo isto pertence as duas grandes memórias psychicas, a inferior e a su- perior, a do polygono e a de O (i) ». Os actos polygonaes não são conscientes, são auto- máticos (isto é, não são voluntários e livres, porem teem a apparencia de espontaneidade) e psychicos (ha na actividade polygonal memória e intellectuali- dade) ». (2) Esta é a theoria de Grasset, eviden- ciando-se do exposto que na sua essencia apresenta (1) Grasset. Le spiritisme devant la Science, (2) im. 66 semelhança com as de Storch e Foerster, sem as ex- plicações ainda hypotheticas em que se firmam estas. Assim estabelecida, concluimos nós que seja qual for a causa pathogenica, intellectual, emocional ou psy- chastenica, que actue indirectaou directamente sobre as linhas ou zonas de projecçao enfraquecendo ou mesmo fazendo desapparecer a integridade entre os dois centros, resultará o desdobramento e a desper- sonalisaçao. A theoria de Grasset é ainda argumento contra os que negam a unificação do syndroma, tão magistral- mente concebida e sustentada por Pierre Janet, fa- zendo comprehender que a monomania de Esquirol, a alienação parcial de Falret etc., incide em uma alteração limitada a uma linha ou zona projectora, trazendo em consequência a perda da consciência, da funcção ou acto que era conduzido por esta zona ou fibra. PROPOSICOES ANATOMIA DESC R.IPTIVA a—Os pulmões enchem as duas cavidades pleuraes. b—O direito apresenta tres lóbos. c—O esquerdo tem apenas dois. ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA a—O craneo é uma caixa ossea de paredes mais ou menos espessas, destinada a alojar e proteger o encephado e não sim* plesmente o cerebro, como queria Kerliring. b—E’ essencial mente formado por meio de suturas, cu jo papel, nos traumatismos, é amortecer os choques e diminuir as vibrações que elles produzem. c—A frequência das fracturas do craneo está na razão díre- cta da synostose, por isso o craneo do velho, reduzido pela sol- dadura a uma só peça, fractura-se mais facilmente do que o craneo da criança. HISTOLOGIA a — O estudo mieroscopico do sangue dos impaludados, deixa perceber nos globulos sanguíneos alterações de fôrma e de quan- tidade. b — Os globulos vermelhos diminuem sob a influencia do accesso palustre e deformam-se. c— Os globulos brancos augmentam de numero sob a mesma i n fluência. BACTERIOLOGIA a— Uma das maiores conquistas da sciencia medica ó o des- 2 cobrimento do papel dos micro-organismos na etiologia de certas moléstias. b—A influencia dos sères unicellulares depende dos seus pro- ductos de desassimilação e de secreção. c — Esses productos tomaram o nome de toxinas. PHYSJ OLOGIA a— Os neuronas são mais entidades anatómicas do que pliv- siologicas, neste sentido de que as menores reacções nervosas têm como substractum muitas cellulas. b — À physiologia pode prescindir do amiboismo nervoso na determinação dos phenomenos que ella estuda. c — A independencia reciproca dos neuronas não pode de ma- neira alguma se oppôr a que a modificação que se produz em um delles dependa iminediatamente daquella que se produziu no neurona precedente (Bechterew) ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGIGAS a—A irritação é a causa mais importante que preside a ge- nese dos tumores. b- Os orgãos que por suas funcções estão sujeitos a uma ac- tivid ade incessante são os mais attingidos. c—Por isso a grandula mammaria, o estomago, a parte in- ferior do intestino e o utero são muito favoráveis a eclosão dos tumores. CHIMIGA MEDICA a—A quinina é um alcaloide extraindo da quina. b—Tem sabor amargo e reacção alcalina. 3 e—£’ considerada como medicamento especifico da infecção palustre. HISTORIA NATURAL MEDICA «—Os mosquitos são insectos dipteros. b—São promovidos na parte anterior da cabeça de uma pro- boscida pela qual sugam os alimentos. c—E’ pelas picadas dos mosquitos anopheles que secontrahe o impaludismo. THERAPEUTICA a—O gaiacol é o principal elemento da creosota. b—Separa-se por distillação fraccionada. c—E’ solúvel n’agua na proporção de 1/60. PATHOLOGIA CIRÚRGICA a—As feridas do recto apresentam causas numerosas, mere- cendo importância porém, as produzidas pelos instrumentos cortantes, picantes, contundentes e pelas armas de fogo. b—Elias carecem de certas circumstancias para a sua pro ducção, circumstancias estas ligadas por sua vez a múltiplos factores. c—O prognostico destas feridas está ligado á sede em que tiveram logar, á natureza dos corpos vulnerantes, aos germens sépticos e corpos estranhos introduzidos por ellcs. OPERÇÕES E APPARELHOS a—Chama-se rectotomia a incisão do recto praticada de tora para dentro ou de dentro para fóra. 4 b—A incisão feita de dentro para fóra, denomina-se rectoto- mia interna. c—A de modo contrario chama-se rectotomia externa CLINICA CIRÚRGICA (i.» cadeira) a—O canal anal de um lado e o recto do outro, nos casos de imperfuração, podem ser hem formados, mas se a communi- cação entre os dois não Se houver estabelecido b—Esta barreira pode ter limites variaveis desde uma sim- ples divisão membranosa, deixando ver por trasparencia o me- conio accumulado acima, até um centímetro e mais de es- pessura. c—Nestes casos o pratico deve intervir, fazendo a commu- nicação das duas partes com o auxilio do canivete. CLINICA CIRÚRGICA (2/ cadeira) a—Nos casos de ruptura do recto, quando o accídente data de algumas horas, devemos tentar após uma lavagem, e quando as ansas intestinaes são perfeitas, a laparotomia que permit- tirá desbridar o orifício, reduzir o intestino e obturar a ras- gadura. b — Naquelles em que o intestino tem perdido o seu vigor, achando-se gangrenado e perfurado é necessário, segundo a pratica aconselhada por Quénu, retirar immediatamente pelo recto a parte gangrenada da ansa, colloeando uma ligadura de cada lado. c — A reducção dos dois cotos no abdómen é seguida ou de uma enterorraphia ou de uma simples anastomose das duas extremidades á pelle, segundo o estado do índividuo que muita vez é incapaz de supportar uma longa intervenção. 5 CLINICA PROPEDÊUTICA a— A auscultação pode ser mediata ou immediata. b—A primeira se faz com o estethoscopio. c — A segunda despensa qualquer apparelho. PATHOLOGIA MEDICa a—A variola é uma moléstia contagiosa e epidemica. b — A infecção se dá principalmente pelas vias respiratórias, c — Sua incubação é de dôze dias. CLINICA MEDICA (i.8 cadeira) a—Os accessos palustres podem revestir as mais diversas formas. b — O diagnostico do impaludismo é por isto muitas vezes bastante difficil. c — O exame liematologico é em certos casos a base mais so- lida para afTirmar um diagnostico seguro de impaludismo. CLINICA MEDICA (2.® cadeira) a—Um accesso palustre regular compõe-se de tres estados: estado de frio, de calor e de suor. b — Nem sempre o accesso palustre tem esta evolução classica. c — Muitos doentes não apresentam em seus accessos o estado de frio; outros não transpiram. MATÉRIA MEDICA, PHARMALOG1A E ARTE DE FORMULAR a — Medicamento é toda substancia empregada com o fim de curar. 6 b -- Penetra na economia pela pelle, mucosas e veias. c — Na pelle temos os methodos super-dermico, dermico e hypo-dermico ; nas mucosas os methodos intraleptico, gastro- intestinal e o respiratório; nas veias o methodo intra-venoso. HYGIENE a—As redes de esgoto são indispensáveis ao saneamento das cidades. b — A depuração do Sewage completa uma boa installação c — O tratamento biologico dá os melhores resultados. CLINICA OPHTALMOLOGICA a — A irite é uma inflammação da iris. b — Suas causas são geraes ou locaes. c --Entre as primeiras temos a sypliilis. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPH1CA a — A hematidrose é uma hemorrhagia das glandulassu do- riparas. b—Localisa-se ordinariamente nos dedos, fronte e axilla. c—Parrot demonstrou a sua origem nervosa. MEDICINA LEGAL E TOXICOLOGIA «— A concausa é uma causa addicional á produzida pelo oííensor. b— Si vem depois do crime, é superveniente. c— Quando o antecede, é preexistente. a 0 primeiro dente sae geral mente no sexto ou septimo mez. CLINICA PEDIÁTRICA 7 b — A dentição deve cbamar a attençao do medico, c — Por ella pode-se avaliar o vigor da criança, OBSTETRÍCIA a—A secreção lactea é observada geral mente em seguida a casos de abortamento, principalmente nas multiparas, estando a gravidez adiantada. b — Tem sido também verificada em abortamentos que se produzem no começo da gravidez. c — Esta secreção representa um subsidio de valor para o dia- gnostico destes accidentes. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECuLOGICA a — A involução uterina em geral tem logar mais rapidamente no abortamento do que no parto a termo. b— Não se tendo executado o abortamento por completo, ou não sendo guardado o repouso conveniente é ella mais demorado, c —Nos abortamentos de duração prolongada, e permanecendo na cavidade do utero partes do ovo, a involução uterina é lenta, CLINICA. PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS a —Sob o termo geral de demencia entende-se o enfraqueci- mento em todos os seus gráos e o aniquilamento definitivo da actividade psychica. b — tista destruição da mentalidade não deve ser confundida com os diíferentes estados demenciaes que a podem simular. c— Os estados de demencia são essencial mente estados se- cundários. Visto. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia. 10 de Março de 1006. O Secretario Dr Menandro dos Reis Mtirelles