FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA THESE 4 APRESENTADA A FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 111 de Outubro de 1908 para ser defendida por ]?edzo de (Saètzo Valente w\ Natural do Edado di Pará (Caneta) Fillio legitimo de Francisco José de Castro Valente e de D. Izabel Tavares Valente Afim de obter o gráo DE Doutor em Medicina DISSERTAÇÃO f\ clira da Neurastenia (Cadeira de Clinica Psycbiatrica e de Moléstias Nervosas) PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de Sciencias Medico-cirurgicas B A H I A IMPRENSA ECONOMICA 16 —Rua Nova das Princezas — 16 1 í> O 8 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Director— Dr. Augusto C. Viannci VICE-D1RECTOR.— Dr. Manoel José de Araújo Secretario.-- Dr. Menandro dos Reis Meirelles Sun-secreta ri o.-- Dr. Matheus Vas de Oliveira LENTES CATHEDItÁTICOS 1. SECÇÃO Os Illms. Srs. Dis. Matérias que leccionarn J. Carneiro de Campos Anatomia descriptiva Carlos Freitas Anatomia medico-cirurgica 2, * SECÇÃO Àntonio Pacifico Pereira Histologia Augusto C. Viunna . Bacteriologia Guilnerme Pereira Rebello A natomia e Phisiolog. pathologicas 3. SECÇÃO Manoel José de Araújo. Physiologia José E. Freire de Carvalho Filho. Therapeutica 4. SECÇÃO Luiz Anselmo da Fonseca Hygiene Josino Correia Cotias Medicina legal e tosieulegia 5.» SECÇÃO Braz HerqnenegiHo do Aman 1.... Pathologia cirúrgica Fortunato Augusto da Silva Júnior Operações e apparelhos Antonio Paciu-co Mendes Clinica cirúrgica 1* cadeira Ignacio M. de Almeila Gouveia. » » 2* » secção Aurélio TL Vi«nni ".. . Pathologia medica Alfredo Britto Clinica propedêutica Anisio Circundes de Carvalho. . . . Clinica medica l.“ cadeira Francisco Braulio Pereira »> » 2.* » 7. SECÇÃO José Rohigueg da Costa Dorea.. . Historia natural medica A. Victorio de Araújo Falcão.... Matéria medica, Pharmacologiu e Arte de formular José Olympio de Azevedo Chimica medica 8. SECÇÃO Deocleeiano Ramos Obstetrícia Climerio Cardoso de Oliveira. . . Clinica obstétrica e gynecologica 9. SECÇÃO Frederico de Castro Rebello Clinica pediátrica 10. SECÇÃO Francisco dos Santos Pereira. Clinica ophtahnologica 11. ' Alexandre E. de Castro Cerqueira Cl. dermatológica e syphiligraphica i2.» SECÇÃO L. Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas João E. de Castro Cerqueira ( ,. , Sebastião Cardoso ( em «»P^‘l»»lidade. Lentes substitutos. —Os Snrs. Drs. 1. a secção. J. A de Carvalho 2. a Jj Gonçalo M. S. de Aragão « » Julio Sérgio Palma 3. a í> Pedro Luiz Celestino 4. a » Oscar Freire de Carvalho 5A » A. B. dos Anjos 6.° p João A Garcez Froes 7,a secção Pedro da L. Carrascosa e José J. de Calasans 8 a » José Adeodaío de S< uza 9.a » Alfredo F. de Magalhães 10.a » Clodoaldo de Andrade 11 .a » Albino A. da S'lva Leitão 12.* » Mario de C. da Silva Leal A Faculdade nâo appiova ueiu reprova a* opiniões exaradasnas tbeses pelos seos anctores. PREFACIO A monographia que se vae lêr tracta exclusivamente da cura da moléstia de Beard. Quando escolhemos este assumpto para motivo de nossa tliese foi suppondo que os principaes elementos de diagnostico já são conhecidos do medico do neurasthenico, e que essas paginas que nos esforçamos em expor com brevidade e tão claramente quão possível, são apenas indicações therapeuticas muito pallidas de esgottamento do systema nervoso, da fadiga organica, de accordo com a forma da moléstia. Insistimosvcom alguma particularidade sobre a prophylaxia, hygiene e tratamento da neurasthenia mostrando o papel im- portantissimo que desempenha a educação na moléstia. A prophylaxia suppõe o conhecimento de todas as causas que púdem sob um titulo qualquer intervir na genese da affecção: foi indispensável que nós íizessemos aqui um estudo summario, ou pelo menos uma enumeração detalhada. A hygiene, que é capaz de prevenir a neurasthenia, si for rigorosamente applicada e, é necessário bem compreliender, si fôr sempre applicavel, acaba muitas vezes cuiando quando a neurasthenia é susceptivel de cura. Sem querer prescrever a therapeutica medicamentosa, principalmente a que constitue o objecto da quarta pagina dos jornaes, como: os grânulos de lecethina Clin e os de kola Astier, os ovos leeithicos de Billon e a Dynamosina de Orlando Rangel, etc., nós diremos em ultima analyse, que tem-se feito candidatos neurasthenicos ou prolongado mais seu mal d’elles com as II «drogas» do que obtido resultados práticos. Portanto, limitamo- nos na prescripção de substancias medicamentosas; uma boa hygiene moral e physica, um regimen alimentar bem concebido, conselhos e incitamentos suggestivos, fazem muito melhor efteito para um neurasthenico do que uma polypharmacia, muitas vezes, inútil e nociva. Em uma palavra, sou praticante em medicina, escrevi praticando, e para os praticantes: quero evitar assim aos novéis médicos bosquejos mais difliceis. Demais, lembremo-nos das palavras de Montaigne: «J’ay seulement faict icy un amas de fleurs estrangières, n’y ayant fourni du mien qne le filet á les lier » . O Auctoz. PROPHYLAXiA CAPITULO I uand0 se faz o estudo das causas da neurasthenia, a *T\'*"gTimportaucia da hereditariedade mórbida no desenvolvi- meut0 desta affecção, é de grande alcance. Na neurasthenia, a hereditariedade neuro-arthritica é capaz de por si só produzir, a mais das vezes, á maneira duma cauza predisponente nos individuos submettidos á sua influencia, esta debilidade nativa do systema nervoso que não tem energia para defender-se das múltiplas causas provocadoras desta nevróse. O primeiro passo, por .auto, a dar no tractamenro preventivo desta enfermidade, consiste em beneficiar o futuro das creanças provindas de paes nevropathas ou arthriticos, reprimindo suas tendências hereditárias, e tonificando tanto auanto é possivel, a energia e a resistência de seus centros nervosos. Para attender este fim é necessário uada menos que a medida em pratica methodiea e paciente de todos os meios que a hygiene dispõe, e isto durante todo o periodo do desenvolvimento dos individuos desde a infancia até a idade adulta. Isto constitue todo um prograinma de educação moral e physica que convém As crianças carregadas de taras hereditárias ou natamente pre- dispostas ao exgottamento nervoso. A este ponto de vista se impõe uma questão capital. 2 E’ possível que a educação seja capaz de reprimir as tendên- cias mórbidas congénitas, de modificar profundaraente n’uma alma envelhecida, a constituição nervosa que herdou dos seus ascen- dentes? Os sábios e os philosophos têm emittido sobre este ponto, opiniões, as mais dessemelhantes ou controversas. Dizia-se no século passado, que o poder modificador e plástico attribuido á educação era tão grande que Helvetius achava que o talento como a virtude eram qualidades que dependiam apenas de ensino, e as differenças que existem entre os homens não provêm senão unicamente das differenças de meio e de educação recebida. Em nossos dias, depois das observações relativas aos feitos da hereditariedade, chegou-se a adoptar uma crença opposta. Muitos pensam com H. Bpencer que a educação é inútil, ou quasi impotente, quando a evolução humana é sempre e fatalmente regida pela hereditariedade; o destino moral do homem está contido no feto, quer se nasça louco ou desequilibrado como se nasça poeta. Donde se pode concluir que a tara nervosa uma vez implantada numa família se transmittirá á descendencia com esta ou aquella affecção nervosa, dando em resultado a miséria physiologica cada vez mais accentuada, até a extincção da raça: esta concepção moderna que empresta á hereditariedade um poder não menos egual ao que os poetas antigos attribuiam á Fatalidade, é extraordinariamente excessiva. A antiuomia que existe entre o poder attribuido por certos pensadores á educação e por outros á hereditariedade não está nos feitos; entre opiniões extremas ha logar pai*a uma opinião media mais conforme com a realidade das coisas: In medio stat vtrtus, dizia Ouvidius. Portanto, a educação póie intervir efficazmente, chega a crear instinctos artificiaes capazes de fazer equilíbrio aos instin- ctos hereditários, de os apagar mesmo, de substituir, emfim, ao habito ancestral, nato, o liabito individual, adquirido. A educação das creanças hereditariamente predispostas ao nervosismo deve preencher um tríplice fim : l.° desenvolver har- moniosamente todas as capacidades do indivíduo e mais particu- larmente as capacidades especiaes a cada indivíduo á medida de suas forças, afim de não prejudicar o equilíbrio geral do organismo; reprimir as tendências hereditárias susceptiveis de perturbar o 3 equilíbrio pbysico e moral; 3.° fortificar a energia, a resistência physiologica do systema nervoso. Para obter este tríplice resultado é necessário uma bôa educação physica ao mesmo tempo que uma bôa educação moral. Educação physica.—«Nos tempos primitivos, diz II. Spencer, quando a guerra, a lucta á mão desarmada, era a primeira das actividades sociaes, o vigor do corpo occupava logar essencial na educação. Pouco cuidava-se da cultura do espirito, ou tractava-se mesmo com menospreso. Hoje, que o successo na vida depende quasi inteiramente da força de intelligencia, a educação tornou-se quasi exclusivamente intellectual e esquece-se o corpo » Depois destas palavras é bem possível que uma reacção se produza no curso destes últimos aunos; a critica de Spencer é em grande parte perfeitamente fundada, auctorisando-nos a dizer perante os educadores da infancia, paes ou mestres, «que muito pouca gente parece compreliender que existe uma causa no mundo digna de menção: a moralidade physica! x. A educação physica das creanças predispostas ao nervo- sismo implica na observância d’uma multidão de preceitos bygie nicos tendo em vista o meio, a alimentação e os exercícios physicos. I Meio.—As grandes cidades constituem um meio pouco favo- rável ao desenvolvimento physico das creanças, sobretudo no periodo de crescimento que se extende do segundo ao terceiro anno de idade. Nas cidades, respirando um ar impuro, estas creanças são condemnadas a uma sedentariedade relativa, o espaço é iusufficiente ás grandes corrente de ar; o ruido, o contacto das multidões, as reuniões mundanas, ás quaes ellas são muitas vezes attrahidas, as mil e uma causas de excitação da própria vida das cidades são múltiplas condições favoráveis ao esgottamento nervoso. Pelo contrario, a habitação das quintas é para as creanças nesta idade a estação ideal: a vida calma dos campos, sem theatro nem concerto, sem reuniões mundanas nem bulício, um ar puro, uma alimentação simples, a communicação incessante com as cousas e os sêres da natureza que tantas attenções lhes causa, eis o meio docemente educador que lhes convêem.— «O campo é o paraiso das creanças», na phrase deMoebius; mas 4 o recreio é infelizmente interdicto a muitas dentie ellas. E’ por isso que devemos appliear á creança educada na cidade, um systema de educação que realisa na medida do possivel, condi- ções hygienicas taes que offerece naturalmente a vida rústica. 0 internato com sua clausura depaupera, sua sedentarie- dade, seus regulamentos estreitos e rigidos, seus vícios e torpezas irremediáveis, têm uma acção deprimente manifesta sobre as creanças predisjrostas ao nervosismo hereditário. Todos estes inconvenientes são grávès e pouco têm sido attenuados nas reformas de ensino, mormente em o nosso Pai/., onde infelizmente só se tracta de poli ti ca. A duração das aulas sendo excessiva, as creanças respiram nas salas de trabalho um ar viciado. A alimentação é quiçá sufficiente, mas o tempo das refeições é curto, a mastigação ó rapida, o silencio é profundo na maior parte dos estabelecimentos de ensino. As horas de somno são contadas e a móle dos programmas, as livras de estudo muito numerosas e os intervallos de repouso insufficie.ntes ou mal repartidos. # E’ evidente que todos estes defeitos, todos estes peceados de hygiene inherentes por a< sim dizer á vida dos collegios, têm influencia capital na mudança mútua dos caracteres. A pensão nos lyceus e collegios, o internato em uma palavra, devem, portanto, ser vedados ás creanças de hereditariedade nervosa e o externato é que é recommendavel. Poder-se-ha ainda recorrer, para a instrucção das creanças predispostas ao nervosismo hereditário, ao systema familiar ha muito tempo em pratica nalgumas escolas da Inglaterra e em muitas cidades da Allemanha. As creanças são confiadas a alguma família honrada que, mediante uma retribuição muito modesta, lhes proporciona passadio e casa para morar ao mesmo tempo que creado para o gymnasio onde recebem instrucção, nas horas das aulas. Este systema existiu cutFora na França, e existe na Ingla- terra e na Allemanha, paizes tão adiantados no que toca ás questões de educação. Tciine ao fazer um estudo critico comparativo das educações franceza e ingleza, disse: «Na Inglaterra as creanças parecem as arvores dos jardins* 5 As escolas se achara em pequenas cidades com innumeras saliidas para o campo. Em Eton, as rosas, as heras e as madresilvas sobem era toda a extensão do edifício; além, se acham os ricos prados onde os olmos magestosos estendem os sens ramos seculares; ao lado, um regato verde e brilhante; sobre as aguas, cysnes; nas ilhas, bois que ruminam; a correnteza dá umas voltas e esconde-se no horizonte de verdura.» Em Harraw, um campo de cinco a seis hectares pertence ao collegio; é nestas dependencias que os meninos se entregam a jogos do toda a especie. Este ambiente, estes exercícios physicos, esta frequência constante dos campos e dos bos-ques têm um effeito salutar para todo o organismo. II Exercícios physicos . — Gymnastica.— Qual é a melhor gymnastica para as creanças e para os collegiaes? Os meniuos educados no campo, como já vimos, têm liberdade após os estudos, e acham-se num meio onde não lhes falta o espaço para o recreio e dahi os motivos attrahentes das corridas, e de jogos, os mais variados pos-iveis. Os longos passeias em terreno accidentado, as aporfias, os mil e um jogos emfim que elles inventam, tudo isto constituo uma gymnastica natural, perfeita, que de baixo de vista hygienico não deixa nada a desejar. Mas, quaes são os exercícios physicos que convêm prescrever aos collegiaes das cidades, cuja sobre-carga intellectual os con- demnou a uma sedentariedade excessiva e por vezes a um e:gottamento cerebral? A necessidade duma escolha racional se impõe, rnesmò porquê estes differentes exercícios são susceptiveis de produzir effeites physiologicos muito dessemelhantes, e será de bom aviso não prescrever indifferentemente tal ou qual genero de exercícios ás creanças debeis, para evitar sérios inconvenientes. Fernand Lagrange escreveu um livro intitulado Physiologle des exercices du corps, no qual elle descreve minuciosa mente os diversos efíeitos dos exercícios gymnasticos; a sua opinião acceita pela maioria dos autores é que nem todo o exercício é salutar ao indivíduo de origem neuro-arthritiea. Elle acha que os 6 exercícios, em que a attenção é solicitada, daudo em consequência a fadiga dos centros nervosos, são prejudieiaes. 0 jogo das armas, por exemplo, para F. Legrange, é o typo dos exercícios que fatiga mais os centros nervosos do que a musculatura dos membros. Durante o assalto o mestre de esgrima se mantém constan- temente á espreita. Ainda mesmo que pareça que elle está em repouso, seu cerebro e seus nervos estão debaixo duma tensão excessiva. O espirito sempre alerta, num esforço de attenção insólita, espera o momento de ataque ou de retirada. Todos os musculos estão mantidos num estado de excitação latente, que não é nem repouso nem tão pouco movimento. Conclue-se logicamente que este trabalho de coordenação preliminar exige uma despeza considerável de força nervosa, e, «esta despeza adquire ás vezes proporções maiores em certas phases do jogo, em que se deve executar não mais um movimento simples, tal como do braço em linha recta, mas uma serie dos actos musculares combinados taes como uma parada composta seguida duma pausa. Neste caso é mister que a um momento dado vários movimentos complicados se succedam rapidamente e se confundam em um só acto muscular tão preciso quanto repentino. A execução duma phase de esgrima toma o caracter immmedia. tamente duma operação intellectual.» A gymnastica de recreio, isto é, os exercícios que se praticam no trapézio, nas barras fixas, nos anneis, nas barras parallelas apresentam também sérios inconvenientes. Esta gymnastica é, em geral, pouco attrahente. Não mette em jogo senão a musculatura dos braços, podendo dar logar a deformações (desenvolvimento excessivo dos musculos da espadua e dos braços, desvios da columna vertebral, curvatura do dorso, etc.) Os movimentos que exige são sobretudo movimentos difficeis, de insolito esforço. Vamos, então, agora recommendar os jogos ás creanças e aos adolescentes attacados de nervosismo e de arthritismo, e que nos passaremos ligeiramente. Estes exercícios devem reunir diífe- rentes caracteres, como se vêm : Em primeiro, elles devem ser fáceis, ou por outras palavras, não se deve impôr ao indivíduo que os executa uma longa apren- dizagem e por conseguinte uma tensão cerebral insólita. 7 Devem preencher esta condição, sob pena, de augmentar seu erethismo nervoso, seu esgottamento. Ao depois, elles devem produzir um trabalho muscular bas- tante lento e moderado, favorecendo o desenvolvimento do thorax, oxygenação do sangue, e a regularidade da nutrição. Em terceiro logar, com graça attrahente, tanto quanto é possivel, e ao ar livre. Ora, os exercicios os mais fáceis, os mais instvuctivos, são as marchas, os passeios, o corso, os velhos jogos francezes, as barras, a bóla, a pelota, etc., exercicios estes de velocidade que convêm sobretudo aos jovens de quinze annos. Entre outros exercicios, distinguimos os chamados de sport, que já têm mais encanto para os adolescentes: Entre estes sports, o exercicio do remo e o cyclismo, nos parecem mais favo. raveis em o nosso Paiz. O foot-ball deve ser interdicto absolu- tamente pela velocidade excessiva e combustões desordenadas: é um crime o foot-ball em o nosso clima. III Hygiene da pelle.—Desde a mais tenra idade, as crean- ças provindas de paes nervosos devem ser acostumadas ás pra- ticas de hydrotherapia. As loções frias, as duchas, os banhos em piscina, os banhos de mar ou de rio, seguidos de fricções serão, a menos que não existam contra indicações, sempre de um effeito salutar. A ácção sedativa e tónica da hydrotherapia exercida sobre o systema nervoso é muito conhecida, por isso que chamamos a attenção para estas medidas hygienicas, que são de grande alcance. IV Alimentação.—E’ necessário repetir que os indíviduos hereditariamente provindos de paes nevropathas não devem sub- metter-se a um regimen alimentar especial: Devem comer de tudo, mas com moderação, afim de evitar as perturbações gastro-intestinaes. E’ necessário, no entanto, chamar a attenção ao uso extremamente moderado das bebidas alcoólicas. I)eve-se logo acostumar a creança a ter confiança em si própria Nada mais propicio para obstar a confiança em si, do que declarar a uma creança, brutalmente, que ella não passa de um imbecil, de um inferior, que não comprehende, não sabe, e nem 8 pode fazer tal ou qual coisa. . . «O homem, diz Pascal, á força de se lhe dizer que é um tolo, que elle acaba acreditando. . .». E’ necessário, por conseguinte, acostumal-a a persuadir-se sempre que poderá comprehender e que poderá fazer isto ou aquillo e lhe conhecer o gráo do menor esforço. Auimal-a sobre todos os pontos de vista, assignalando seus erros e seus defeitos; preservando-a assim do orgulho e da timi- dez, e também da inércia. Certos progenitores, em face de seus filhos, são de uma indulgência e fraqueza deploráveis, as mais das vezes por egoismo. Sustentam assim todos os seus caprichos para evitar choros e todas as demonstrações exteriores que podeúam perturbar sua quietação, principalmente si tem alguma visita* em casa. Ora, não é possivel acreditar que a creança desconheça o movei das acções do educador. Os paes se devem, por conseguinte, mostrar severos si quizerem conservar o equilibrio do systema nervoso dos seus filhos. Mas. é mister que este vigor seja opportuno e de nenhum modo excessivo. Figuremos o exemplo de uma mocinha de quatorze annos, preguiçosa e desmazelada. Sua mãe não se cucoimnoda em obter nenhum trabalho delia; deixa fazer tudo quanto quer.. Ora, pois bem, lá um bello dia em que ella não esteja de bom humor por da cá aquella palha responde aspera- mente e tenta bater mesmo em sua mãe. ParMlelos desiguaes, excessos de indulgência e excessos de severidade, não podem senão perverter a psyché da creança, accentuar tal ou qual porção de espirito ás custas dos educadores. E’ necessário, por conseguinte, uma severidade bem applicada, intelligente, egual e sem caprichos. E’ o melhor meio de assegurar a synthese dos elementos do eu na creança, de equilibrar seu espirito e de o preservar das nevróses, principalmente as nevroses deprimentes. Educação moral.— Esta parte da educação é seguramente a mais importante e, entretanto, a mais esquecida. E’ a ella que pertence desenvolver na creança toda um sum- mula de qualidades raoraes que fazem os caracteres energicos e bem equilibrados, isto é, capazes de resistir fortemente á acção 9 dissolvente das penas afilie ti vas e das paixões depressivas, origem real de tantos casos de neurasthenia. Ella pode só por si dar á creança uma vontade própria, um juizo recto, em uma palavra, todos os attributos da força e da saude moraes. Desgraçadamente está quasi sempre ao arbítrio do acaso. Os paes, no entretanto, não têm muitas vezes, umaidéa exacta do fim da educação, sobretudo quando as creanças são ainda iMiito jovens. «Qual é, diz gostosameate Guyau, o idéal moral proposto a maior parte das creanças na família? Não ser muito barulhenta, não metter os dedos no nariz nem na bocca, não servir-se á meza com as mãos, nem metter, quando chove, os pés na agua. etc. Ser racional! Na opinião dos paes a creança racional é um pequeno marionette que não move si não se mexe nos fios». A observação é justa e, não convém perder um tempo precioso cm consagrar tal educação nas primeiras idades da creança; não é assim que se educa uma creança. Comprehende-; e que nestas condições os máos insrinctos que as creanoas herdam dos seus pro- genitores têm livre carreira. A educação pode fazer da-nsar os ursos e eu admirto com Rousseau que se fazem os homens pela edu- cação assim como se formam as plantas pela cultura. A alma da creança ó como uma argila malleavel que, em muitos casos, um medico psycliologo um pouco habil, pode modelar a seu b> 1 prazer. «Deve-se tudo ou uada, segundo a educação que recebemos», diz o papa Clemente XIV. Nada imús verdadeiro. Mais do que ninguém, a creança, predisposta por heredita- riedade ao nervosismo, tem necessidade duma educação mora] muito especial que terá durante todo o curso da sua existência a maior importância. Nosso caracter com seus defeitos ou suas qualidades, não é, com eftVito, a origem primeira do successo feliz ou funesto de toda a nossa existência, e que importância uão tem para cada um de nós desenvolver estas, diminuir ou eliminar aquellas? 10 Terrores, surpresas, cóleras, inquietações, em uma palavra, pensamentos emotivos de toda a natureza, eis o que se acha de ordinário como ponto de partida das nevróses e particularmente da neurasthenia que se não cura sem a historia am|.liada da acção dos «movimentos d’alma» sobre o nosso organismo. As creanças nevropathas são quasi sempre doadas, em vir- tude de sua sensibilidade especial, ou melhor, de sua vibratibi- lidade, de urna exaggeraçâo em todas as coisas. A educação deverá tanto quinto pos-ivel nivelar primeira- mente todas estas exaggeracões e modelar a sensibilidade da creança, ao normal. Também, na primeira infancia, banir as histo- rias lancinantes ou sentimentaes; não devem sentir penas nem afflicções illusorias por feitos ou personagens que nunca exis- tiram. O ideal deve ser a mediocridade em sentimentos. Não ha a temer em supprimir, destruindo esta vibratibili- dade que não ó mais do que uma apparencia de sensibilidade sadia, um dos encantos da vida, sob pena de se tornar para o futuro uma fonte de desordens moraes. E’certo que,comeffeito. um serintelligente que não foi atacado por uma maldade especial ou particular, será sennpie accessivel á piedade e á bondade, ambas implantadas, bem entendido, no seu cerebro, pela reflexão e pelo pensamento. Um senão de menos uma qualidade de mais, tal será o resultado deste nivelamento moral duma sensibilidade excessiva. Certos sentimentos de insaciabilidade, como o mau humor, a tristeza, o pes-imDmo, o egoismo, se encontram frequentemente nos nevropathas e nos degenerados E’ necessário, portanto, repri- roil-os na creança. A creança que se amúa tem o pr; zer de desagradar quem a contraria, e a satisíacção de amor proprio de ter estorvado a vontade dos outros sem se conformar vencida por elles. Deixando se amúar depois de cada admoestação, a creança habitua-se a ficar em falta eommettida sem fazer nenhum esfoiço para reparal-a e por conseguinte sem remorsos. E’ necessário, portanto, acostumar as creanças a se reconci- liarem bem depressa com as pessoas que as reprehende. Habi- tuam-se assim a não mais poderem supportar a idéa de «seres zangados», ou coisa semelhante, a desejar a reparação de uma falta, e isto constitúe uma das formas do remorso activo, e 11 attender ardentemente a palavra que reconcilia e que dá a paz do coração. E’ necessário também reprimir a vaidade na creança. E’ ainda uma forma de egoismo. Ella contem o germen da preoccupação exclusiva do «eu» tão frequente nos hypocondriacos e nos neurasthenicos. A creança é muito inconsciente para ter uma intenção fortemeute perversa; impedir-lhe a vontade subjugada á reso- lução de fazer mal é obrar injustamen.te e muito deseuvolver em si um instincto mau com sentimento que ella póde depois preencher por uma má acção. E’ melhor em taes casos lhe declarar formalmente que enganou-se, afim de emeudar-se para outra voz em seus actos. São duas as faculdades, partieulamente, as mais necessá- rias a se educarem e a se desenvolverem na creança provinda de nevropathas: a atteução e a vontade. Com effeito, é um defeito capital nos neurasthenicos e na maior parte das nevroses. a falta de attenção, a incapacidade de fixar todas as suas faculdades sobre uma só ordem de idéas. Serão necessários, portanto, traba- lhos apropriados, estudos sabiamenté graduados, e-fforçando-se o educador para fixar a atteução da creança. O estudo das mathematicas, c< nvenientemente dosado é, sobre todos os pomos de vista, exc dlente. A litteratura, a histo- ria, a e:eographia, exigem uma artenção intermittente: as ma- thematicas exigem, ao contrario, uma attenção continua, sem interrupção. A educação da vontade é mais importante ainda. A abulia é, com effeito, um symptoma frequente de neurasthenia. E’ preciso, logo, acostumar a creança a querer, e também a perseverar no esforço, isto é, a poder. Uma vontade furte e segura preserva da inércia e do des- animo, salvaguarda antecipadamente os desvios de nosso ser physieo e moral e, permit e mesmo, tirar do nosso intimo leni- tivo ou cura; favorece o trabalho de deliberação interior ou de reflexão que precede á decisão, para evocar, comparar, precisar em plena consciência os diversos motivos de agir ou de se abster, para impedir tal sentimento poderoso de alcançar o acto por surpresa. 12 Pela disciplina de nossa vontade nós podemo-nos, nurna me- dida, tornar mestres de nosso organismo. Mas não ó o bastante. «A vontade, na phrase de P. E. Lévy, depositando em nós, por sou exercicio repetido, liabitos de querer favoráveis, poderá desarraigar babitos desbenestos que uma educação mal entendida, a imitação, etc., conseguio de envolver em nossas almas». Até babitos transmiítidos por hereditariedade que nót não p diamos aspira#, senão eliminando, podemos modi- ficar mais ou menos profundamente. Emfim, as cousas não despertam para nós prazer ou sofiVi- mento senão pelas impressões que recebemos do mundo exterior. Ora, donrnaadn á bei prazer nossa vontade, nós apprendemos a governar nossa maneira de reagir, por conseguinte, a afastar da con-ciência emoções ou sensações penosas, e ter, pelo contrario emoções ou sensações agradaveis; emfim, todas as coisas que nos despertam alegrias. «Nossa felicidade toda inteira depende da educação da vontade», diz ainda P. E. Lévy. E como deve se fazer esta educação da vontadeV Por uma sorte de gymnastica psychica que será, ora pela auto-suggestào, ora pela hetero-suggestâo. Assim, cs impressionáveis devem se liabhuar a gravar com calma seus desvios, a moderar para todo o sempre a vivacidade de seus movimentos; os timidos a endireitar o corpo, a falar em voz alta e distincta e fixar os olhos sobre seus interlocutores. O indeciso deve se impôr em agir com promptidào, ao despertar se occupar, durante algumas horas do dia, de coisas absolutameme materiaes. Quando a auto-suggestão não é sufíicíente, a educação póde recorrer á hetero-sugrgestào. E’ meio, o mais seguro e o mais racional de fortificar as reacções psychicas dos doentes, de lhes dar o possivel tanto quanto sua constituição comporte de attençâo. de julgamento e de vontade. Póde-se assim diminuir a desagre gação e a depressão mentaes, augmentar o poder de reserva acrescer a actividade psycho-sensorial e psycho-motorae, estabelecer o equilíbrio funceional dos orgams. A suggestâo, longe de diminuir e de comprometter, a perso- nalidade do indivíduo, peimitte ao contrario de a reconstituir mais vigorosa. Assim o neurasthenico fará ínconscientementa 13 exercícios de sua vontade para dar-lhe força que falta. Elle adora um nervoso, como a si, sómente p <ra contar seu mal ao mesmo tempo que fica suggerido, preso de todas as suas misérias pimprias. Elle colloca, em urna palavra, sua neurasthenia no meio de cultura o mais propicio para que elle possa curar. A suggestão, que se produz no estado de vigília, sub a fórma de persuasão, ou em est ido de ordens imperiosas e suggestionantes, deverá induzil-o, afastal-o do contagio dos homens que não podem senão lhe suggerir suas próprias fraquezas de espirito e de corpo, e o aproximar, ao contrario, mesmo ao preço de alguns sacrifícios, por um esforço por vezes penoso para si, daquelles cujo caracter, continuando o sentido proprio, poderá o rectificar e o completar; aproximal-o daquelles que são capazes de o sustentar e de o incitar pela suggestão do exemplo, de tonificar sua energia, ou melhormente, de lhe servir de moderadores. Nas creanças este modo de educaçao moral correctiva poderá dar os melhores resultados práticos. Alguns espíritos controversos têm invocado contra esta educação forçada o respeito dado á liberdade moral da creança. Ladame já respondeu a este argumento, dizendo : « Certa- mente, o problema da responsabilidade não está ahi. A sociedade é responsável por todas estas creanças que ella deixa se perder falha de as querer salvar. Responsáveis são os egoístas, os scepticos, os pessimistas e os estragados que deixam todo fazer, tod<> destruir, todo perigar, e que, não contentes de maquinarem n’este papel passivo, tão funesto para a vida social, tentam ainda paraly-ar os esforços de todos aquelles que trabalham e que agem, de todus aquelles que commungam com fé no progresso e no bem. Ora ahi está onde se acha a responsabilidade.» Lébault tem se esforçado em tornar trabalhadores e attentos collegiaes preguiçosos e dissipados: já poude, em outros, fazer desapparecer o sentimento <ia cólera e o do terror, dissipar o habito da mentira, eliminar certos appetites precoces e depravados, e mesmo excitar as faculdades intellectuaes anormaes. Na epoca da puberdade, os indivíduos predispostos por suas taras hereditárias ás impulsões mórbidas de todas as sortes, serão objecto de uma observância particuiarmeute cuidadosa, O alvorecer 14 do instincto e dos desejos sexuaes perturbam profundamente o equilíbrio do systema nervoso no» adolescentes. A maior parte delles se abandonam de corpo e alma ás praticas do onanismo de uma maneira abusiva, e é muitas veze3 estudando as cauzas da neurastbenia, que se descobre no onanismo um facror poderoso no esgottameuto nervoso. As creanças educadas no meio familiar podem ser preservadas deste desvio, si nos pró- dromos da puberdade se pode desviar todo o que possa chamar attenção para as suas funcções sexuaes ou de todo o que possa excitai o instincto genesico. Mas nos collegios, nos internatos estes meios preventivos são irrealisaveis e o melhor é attenuar na medida do possível um mal que se não póde impedir. Para isto é necessário uma observância rigorosa em todos os instantes, mettendo em pratica a acçao sempre sedativa dos exercícios physícos, praticas de hydrotherapia, etc. Emfim, é bom que os indivíduos predispostos hereditariamente, chegados á edade adulta, adquiram uma profissão. Toda a profis»ão acertada corresponde com effeito, sob o ponto de vista moral, á summula de suggestões constantes e coordenadas que nos permittem de agir de conformidade com uma idéa directriz e nos impõe a todo o instante, a despeito de nossas paixões individuaes ou de nossas inclinações hereditárias, uma regra de conducta segundo o nosso estado social. Vejamos o que diz E. Laurent na applieaçâo do methodo de suggestâo como medida pri phylactica na cura do esgottamento nervoso: « Surprehendi no meu gabinete uma mocinha de treze annos, magra, fronte um pouco estreita, uns largos olhos negros e olheiras aroxeadas. Provinda de paes nervosos, Gladie (assim se chama a menina) é uma creança insupportavel. Sabe apenas lêr e escrever, mesmo porque é preguiçosa, inapplicada e sobre tudo incapaz de fixar a attenção sobre o mesmo objecto durante um minuto. Não acaba nunca o que comeca e trabalha sem gosto nem prazer, e distrahida completamente. Não gosta de costurar, e seus brinquedos por si só, são brinquedos ridículos, brinquedos de um bêbê de dois annos. Palra constantemente como um passarinho, lança catadupas de palavras incoherentes, sem curso, absolutamente 15 desconexas e que ella mesma não sabe o que significam. Não é raro se mostrar frequentemente grosseira e insolente nas suas phrases. Já tentei ensinar timas licções a esta menina, mas eu percebi que não me escutava e que seu espirito divagava constan_ temente. Eu quiz então bypnotizal-a, mas não luctei pouco para vencer a diffi -uldad' de fixar sua attenção sem fazel-a se distrahir. Prohibi-a, duran e o somnn, de palrar sem razão, de ser desobediente para com sua mãe; lbe recommendei de escutar quando se falia e sobre tudo de nunca fallar sem comprehender o que está dizendo; chamei-lhe a attenção egualmente para lêr e procurar comprehender o que lê, de sêr maisactivae mais attenciosa no seu,trabalho, de melhorar sua toilette, tornar-se elegante, e obedecer sua mãe Eu hypnotisei Gladie somente sete vezes, e já acho-a metamorphoseada. Apezar de ainda fallar um pouco a e«iuo e distrahidamente, mas contudo o que ella diz significa alguma couza. Não é mais um moinho de palavras. Tjdas as suas plirases contem um pensamento ou pelo menos uma parcella de pensamento. Já é assidua ao trabalho, attenciosa ás recomrnendações que lhe fiz, e tornou-se dóce, gentil, amarei.» Assim a suggestâo, longe de anniquilar e paralysar a vontade do indivíduo o conforta. Augmenta o poder ideo-reflexo, isfo é, o poder de transfor- mação da idea em acto. O individuo suggesti- nado readquire pouco a pouco a personalidade de fazer de suas idéas actos, a suggestâo educa a vontade a querer. Para os candidatos á neurasthenia, é seguramente o melhor dos tratamentos prophylaticos. As medidas da hygiene preventiva applicaveis aos adultos se deduzem naturalmente do estudo de causas provocadoras ou determinantes do es íottamento nervoso. Como impedir a surmenage moral, origem de tantos casos de nervosismo, quando esta doença é de alguma sorte oriunda das condições super-activas da vida de nossa esposa ? O conh°cimento das razões superiores que se impõem ás gerações actuaes, o estudo dos meiosproprios aattenuar a impedir o esgottamento, escapam evidentemente do dominio 16 da hygiene propriamente dita: Estão mais particularmente no domínio da sociologia. Herbert Spencer, nos seus «Comtnentarios philosophicos sobre a vida social dos Americanos», parece ter se apercebido duma visão segura sobre ss cauzas profundas desta super-aetividade, desta existência de alta tensão onde se esgottam as classes laboriosas dos grandes centros industriaes e commerciaes, «Encontaam-se, diz elle, em todas as espheras, bomens que têm softrido de esgott.ainento nervoso em consequência de desastres financeiros, ou que tiveram amigos que se fizeram uns, mortos pela surmenage de trabalhos, ou ficaram reduzidos a uma incapacidade permanente, outros têm passados longos períodos de tempos a recobrar a saude. Esta vida de alta pressão faz um mal immenso. O pbysico geme pavorosamente. De outra parte este apego exclusivo ao trabalho tem como rezultado que, os divertimentos cessam de agradar e quando o descanço vêm já é tarde e, Ignez é morta. A satisfação de ganhar o oiro fascinante, sobrepujando quasi todas as outras satisfações, não permitte mais este descanço na bora presente que é readquirido para a felicidade completa; este abandono é impedido pelo sentimento sempre pre ente das respon- sabilidades numerosa*; de sorte que afora este inal pbysico causado pelo excesso de trab alho, existe outro mal que destróe o valor que era outróra o encanto da vida. » Depois de ter analyzado as cauzas e políticas desta excessiva actividade, desta fascinação pavorosa pela fortuna. Spencer acaba declarando que nós temos n cessidade de reivin- dicar o ideal da vida, tanto que, si lançarmos um olhar retrospoctivo para o passado, veremos que este ideal varia com as condições sociaes. Ninguém desconhece que ser um guerreiro victorioso era o id«al elevado nos povos antigos, como o é ainda em certos povos actuaes. Antigamente o verdadeiro dever do homem consistia em guerrear. Com o desenvolvimento da vida industrial o dever de trabalhar tomou logar ao dever de combater. «Em pratica, diz Spencer, os trabalhos foram substituídos á guerra. E este ideal moderno deverá ser seguido no futuro? Resta a duvida. E’ propicio aos séculos em qne a conquista da terra 17 e a submissão das forças da natureza para o uso do homem são de uma falta predominaute. «Mas, escreve aiuda Spencer, mais tarde, quando estes dois fins tiverem sido realizados, o ideal formado ha de differir provavelmente muito do ideal actual. Eu sustento gostosamente que a vida não é para o saber nem para o trabalho, mas que o saber e o trabalho são para a vida. Nos trabalhos humanos sempre ha muita necessidade de se transformarem os meios em fins. No avaro nós vemos, que isto é uma realidade: elle accumula o dinheiro somente por um capricho, esquecendo que o valor do oiro está somente em se adquirir. satisfações. Mas não nos esqueçamos também que assim como o oiro é accumnlado, a actividade também, seja mental, seja corporal, não são mais do que meios e, que é irracional procural-a como exclusivo da vida completa, pois ella não serve senão (como para o avaro) de accumular de oiro que não prestará para nada: uma perfeita saude vale mais do que milhões e milhões de libras esterlinas! Esperemos, por conseguinte que mais tarde, quando este século de progresso material tiver dado aos homens toda a sorte de beneficies que por nós possamos aspirar, e nessa occasião uma melhor distribuição do trabalho e da alegria havemos de gozar! Em summa, para que arruinarmos nossa vida, quando ella é tão curta. Abusa-se muito do evangelho do Trabalho, já ó tempo de passarmos ao evangelho do Deseanço! HYGIENE CAPITULO II \£ . _Y o capitulo precedente consagrado á propliylaxia liavemos dado medidas ou princípios que devem reger, segundo nosso fraco entendimento, a educação physica e moral dos indivíduos hereditariamente predispostos ao nervosismo. E', com efíeito, numa bôa educação que nos parece residir a rophylaxia, a mais segura do esgottamento nervoso. A edade adulta, que é a da luta pela existência, é fatal- mente exposta ás múltiplas e diversas influencias productoras dos estados neurasthenicos: o íuido, as paixões, os revezes, as moléstias, tudo isto, sih causas que o melhor codigo de hygiene prophylaetica não. se furta de supprimir: as regras prohibitivas que se poderam formular contra isto tudo não terão nenhum valor pratico porque estes elementos etiologicos fazem parte integrante da vida. Também o unico partido possível é de preparar homens por uma educação forte, afim de supportarem victoriosamente o choque. Nós vamos agora estudar os difíerentes meios de ordem hygienica que se podem manejar, quando se quer obter a cura dos estados neurasthenicos confirmados. A experiencia tem mos- trado que o melhor tractamento da neurasthenia é o que consiste em uma sabia regulamentação de hygiene no doente. 20 E’, com effeito, á pratica methodicamente combinada aos diversos agentes que a hygiene dispõe, que convém recorrer quasi que exclusivamente na maioria dos casos; a medicação pbarmaceutica não deve occupar aqui senão um logar secundário. Nós mos- traremos mais adeante, que o emprego de substancias medica- mentosas é muito mais nocivo que util, póde no minimo contrariar a aeção da tberapeutica hygienica, e nós indicaremos á medida de nossas forças, em que condições elle é susceptivel de auxiliar a influencia curativa desta ultima, que deve sempre constituir a parte essencial e fundamental do tractamento. As causas de neurasthenia e as modalidades clinicas que ella póde revestir são extremamente numerosas e é claro que a fórmula das preseripções liygienicas que convém em cada caso particular é variavel, por isso mesmo que pode differir sensivelmente de um indivíduo a outro. Eis porque não nos cansaremos de repetir, que é indispensável de precisar para cada doente, por uma anamenese aprofundada, as causas reaes de sua affecção, as perturbações fuuccionaes as quaes elle accusa e o gráu de importância de cada uma delias. Isto dicto, é evidente que seria fastidioso indicar aqui em detalhe todas as variantes de tractamento que a diversidade dos casos clinicos comporta. Também uós pretendemos expor: l.° a hygiene geral dos iieurasthenicos tendo mais particularmente em vista a neuras- thenia cerebro-espinal que representa em realidade o typo, o mais commum da nevrose, e 2.° as indicações therapeuticas especiaes á algumas de suas principaes fôrmas clinicas. Nos capítulos relativos á hygiene geral dos neurasthenicos, nós indicaremos successivamente, qual deve ser a alimentação dos doentes, quaes os climas que lhes são mais particularmente favoráveis, quaes as vantagens que elles podem tirar da hydrotherapia, da amassagem e dos exercícios gyranastieos; emfim, nós começaremos pela hygiene moral que c por assim dizer a dietetica mental desta categoria de indivíduo?. Ilygiene moral. — P. E. Lévy definio a hygiene moral como sendo a fixação em o nosso organismo de sãos hábitos phyico3 e psychicos: està sobretudo no dominio da auto-suggestão. « Ella, com effeito, ( diz o citado anctor) existio em todos 21 os tempos, em todos os logares, em nossa casa, como um confi- dente e sustentáculo; ella tem por si a grande vantagem de se nos revelar aos nossos proprios olhos, forçando a penetrar mais intimamente em nós, incutindo dia a dia, mais nitidamente, a consciência de nosso poder sobre nós mesmos. Em summa, na nevrose e no neurastlienico em particular a hygiene moral deve ser proposta para um duplo fim: primeiro, manter intacta, auginentar mesmo o poder de reacção do orga- nismo; em seguida, se esforçar por uma observância attenta, de eliminar, desde que appareça, toda a causa capaz de lhe trazer damno. Eis como, segundo a opinião abalísada de P. E. Levy póde se chegar a este duplo fim: E’ nescessario, em primo loco, acostumarmo-nos a bem examinar, a bem couhecer e a bem formar uma representação tão clara e leal como possivel de nossas forças, e de nossas fraquezas e de nossas imperfeições, physicas e moraes. Com effeito, procurar vêr claro suas paixões não é já fazer perder uma grande parte de sua violência ? Mas o homem e a nevrose em particular, não é sempre capaz de fazer esta analyse psychologiea de sua personalidade. E’ então que o medico intervirá, não o charlatão, armado de poções e clystéres, mas o medico psychologo iniciado em todas as finezas de sua arte. Elle se esforçará em pôr o neurastlienico de promptidão contra a influencia perniciosa de certas tendências do espirito. Obstará que a nevrose chegue ao fim, estabelecerá uma relação, muitissimo ignorada do doente, entre as perturbações do espirito, os temores, preoccupações, surmenage, e desordens physicas antigas. A medida que o neurasthenico fôr sc conhecendo mais intimamente, contemplando sua alma, e vendo o que ella é, desapegar-se-ha pouco e pouco da noção que poderá ser, se esforçando para aue elle deve ser. Demais, dezenhar-se-ba no seu espirito o typo moral e physico, que llie servirá de medeio. Elle sentirá se elevando progressivamente dentro em si, a concepção dum ideal, desembaraçado de imperfeições physicas e moraes, são, robusto, ornado de todas as qualidades do corpo, do coração e do espirito. 22 Etnfim, sempre com P. E. Levy, esta concepção geral que o neurasthenieo ha de realisar em si, em primeiro confusa e ao depois, mais precisa em seus detalhes e contornos, será como o ponto luminoso o qual orientará todo o seu ser e toda a sua vida, maxiiné quando os obstáculos que os homens, as doenças e as‘ paixões poderão apparecer em si, em torno de si. Sua existência toda inteira será assim dominada por uma sorte de suggestão constante, modelando sua personalidade moral, regrando a cada instante suas idéas, seus sentimentos, suas decisões, resoluções e actos. « A hygiene moral assim entendida, conclueP. E. Levy, toca ás raias, em summa, duma philosophia pratica da vida; será, então, a arte de disciplinar nosso espirito, nosso corpo, nossa existência para todo o sempre, sob as leis da intelligeucia e da razão.» O neurasthenieo que chegar, só ou com o auxilio do medico, a realisar este programma, procedendo dentro deste estado de perfeição moral, será como o navio que entra no porto, depois de uma longa viagem, será como um raio de luz numa matta escura. Estará sempre ao abrigo das tempestades da vida; não terá mais que luetar com as paixões, viverá feliz e robusto tendo o equilibrio mental, a paz do coração e do espirito. Hygiene physica.— O neurasthenieo deve ter uma existência calma e tranquilla. Deve evitar os excessos de todos os generos, excesso de trabalho, excesso de fadiga, excesso in Bacclio et Venere. Seus nervos estão fatigados, estragados: têm absoluta falta de repouso. E’ necessário, portanto, banir de sua pessoa todo o ruido e toda a agitação. As pessoas inexperientes veem no casamento uma sorte de ponto de refaigo onde veem se lavar tedos os inutilizados, todas as victímas duma existência gasta, esgottada. E’ o remedio que ofíerecem algumas vezes aos neurasthenicos: a calma do lar domestico, abranda, dizem eiles, as tempestades da vida. O papel e o dever do medico são de desaconselhar e impedir por todos os meios tão deploráveis uniões. O neurasthenieo que se casa commette uma má acçào, quasi um crime; á uma moça que lhe traz juventude e belleza elle não oíxerece sinão uma alma envelhecida num corpo esgottado. 23 Ea não falo das consequências mais funestas que poderão rezultar para a descendencia, quando o neurastlienico não seja absolutamente impotente. O tabaco e o álcool devem ser proscriptos rigorosamente. Um neurasthenieo não deve absorver mais de meio litro de vinbo fraco por dia, assim como uma chicara de café fraco após o almoço. Todas as bebidas alcoólicas devem ser supprimidas. Póde-se auctorisar o doente a copular no máximo um vez por semana. Um ponto importante no tratamento hygienico da neurasthenia é que o doente renuncie suas occupaçôes e prazeres liabituaos. Pois é disto muitas vezes que provem a surmenage que tem provocado a explosão da moléstia. O neurastlienico. deve, portanto, mudar seu genero de vida. Em logar do esgottamento physico e intellectual, passeios ao ar livre, partidas de pesca e de caça. mas sem se fatigar, em logar dos prazeres super agudos, as distracções que não causem de nenhum modo emoções violentas, a musica, a poesia, o desenho e, mesmo viagens pouco fatigantes, nos paizes de montanhas, longe do ruido e das agitações das cidades. E’ algumas vezes util isolar os doentes em estabelecimentos especiaes onde elles se acham submettidos a uma hygiene rigorosa, a uma sorte de disciplina que os deffende um dos outros, e os colloca ao abrigo das tentações e das faltas. A solidão, para alguns neurasthenicos, constitue uma vida excellente. Weir Mitchell, Playfair, Bunkart, aconselham o isolamento nos casos de neurasthenia grave com abulia e asthenia muscular. Neste caso é mister separar completamente de sua familia, o doente: não deve receber nem visitas, nem cartas, e não ter relações senão com o medico e enfermeiro. O isolamento age assim supprimindo a influencia nefasta do meio familiar e permittindo a influencia suggestiva do medico de se exercer sobre o doente, afim de restaurar a vontade e restabelecer a energia do predicto doente. Favorece, de outro lado, instituir uma hygiene rigorosa e de fazer tolerar ao doente a superalimentação tão nescessaria para combater o emagrecimento consecutivo na neurasthenia, principalmente, na feminina. 24 Para os nenrastlienicos a vida do campo, como ja dissemos em capitulo anterior, será muito mais preferivel á vida das cidades onde elles estão sempre privados de saúde e impellidos pelo bulício das multidões. Mas, no entanto, nem sempre isto é possivel. Longe dos seus que llie são caros, tornando-se nostálgicos, enlanguescem, ficam envolvidos por uma nuvem de ideas negras. Nestes casos Krafft-Ebing, aconselha de os deixar no meio onde se crearam, para evitar inconvenientes: dos males o menor diz o provérbio que não mente: E’ muito mais difficil se aclimatar um cidadão no campo do que um provinciano na cidade. O primeiro tem a nostalgia do ruido e da multidão, o segundo será como a pastora, que nos fala Eça de Queiroz, «meio sel- vagem dos Ardcnnes .que nunca* vira outro espectaculo mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Pariz, quando no Boulevard passava, com a tricolor ao vento, um regimento cm marcha. A pobre donzella fez-se branca como a cera, e só poude murmurar, numa beatidade suprema: Jesus ! tanto homem ». Para ventura sua o neurasthenico fará o mesmo. No entanto, o silencio e a solidão acalmam os mais irritados. A doçura das auroras, o esplendor do sol posto, o aspecto da verdura, os perfumes dos campos, tudo isto predispõe ao bem estar e embala o systema nervoso dos mais esgotados. Demais, lembremo-nos com saudade e inveja do velho verso de Euripides, que diz; — « Felizes os que se movem, com espirito sereno e livre, num ar luminoso e macio 1 » Ilygiene alimentar. —O regimen alimentar na neurasthe- nia deve visar uma tríplice indicação : 1." Restituir ao doente sua energia defíiciente; 2.° se adaptar ás exigências do estomago mais ou menos atono; 3.° se adaptar ás do intestino em estado de atonia, de espasmo ou de irritação. A multiplicidade destas indicações, que muito se contradizem uma da outra, cria difficuldades reaes para o esta- belecimento duma bôa dietetica. E’ por isso que frequentemente o estado geral mau recommenda uma bôa nutriçãe, abundante e rica, a dyspepsia gastrica obriga a restringir e escolher os 25 alimentos; demais o regímen que convém á atonia gastrica não ó sempre o que se adapta á atonia intestinal; dalii a obrigação para o inelico de bordejar de algama sorte, e instituir o regimen de conformidade com as indicações predominantes. Conclúe-se, com efíyito, do que precede, que nào ba um regimen alimentar, porém, regimens alimentares para os neu- rastlienieos. Aqui, como sempre, o empirismo e o espirito systematico têm livre carreira: ba médicos que têm seu regimen para a neurastbenia. Mas o que nós queremos deixar entrever são estas praticas anti-clinieas, exclusivas, mais dignas da quarta pagina dos jornaes do que dos livros de medicina. Desde Hippocrates os médicos dignos deste nome, isto é, os que procuram indicações particulares para cada caso de neurastbenia, têm procedido desta sorte, do mesmo modo que, defc.de Hippocrates tsmbem, os empiricos têm seu processo, seu remedío, seu systema. Nós não daremos aqui nosso processo, porém uma sum- mula de processos de differentes auctores, de accordo cora as exígencias dos casos de neurasthenia mais communs. I Regimen alimemtar como reconstituinte da energia nervosa. — Para que seja possivel instituir sob este ponto de vista um regimen perfeitamente racional, varias condições se fazem mister: l.° E’ necessário conhecer com precisão o que absorve e o que rejeita acellula nervosa, em estado de repouso ou de actividade, isto é, em outros termos, os pbenomeuos de sua nutrição em estado statico e em estado dynamico; 2.° Saber quaes são exactamente as mutações rezultantes dos diversos alimentos através do organismo, e poder determinar, tendo noções destas mutações a quantidade e a qualidade dos que devem sêr absorvidos para virem em apoio do trabalho nervoso. Ficamos, porém, muito longe de semelhante precisão: Ignoramos os meios da pesquiza, isto é, os elementos que poderiam praticamente resolver o problema. Por isso que a substancia nervosa do córtex encerra na sua constituição gorduras phosphoradas ( cerebrina e lecethiua), 26 se tem pensado que a administração pela bocca de substancias alimentares ou medicamentosas) contendo phospboro poderão restituir ao neurastbenico sua energia. A observação empírica, porém, não tem se apercebido desta concepção; está-se ainda a procurar uma substancia pbospborada qie seja seguramente assimilável á substancia nervosa e que se possa dizer com certeza que influencia a nutrição e o funccionamento desta substancia. Si somos conduzidos a instituir no neurasthenico um regimen alimentar tonico, é porque se suppõe, não sem alguma razão, que a astbenia nervosa liga-se á desnutrição geral, e que o restabelecimento da saude physica deve remediar a insufficiencia da energia nervosa. Os feitos bem observados por Weir-Mitchel e confirmados por todos os observadores vêm em apoio desta maneira de ver. E’ necessário não perder de vista que os neurastlienicos nem sempre são doentes anenrcos e emagrecidos: lia-os, cujas apparencias exteriores são perfeitamente satisfactorias. Isto prova que si a astbenia nervosa se associa muitas vezes a um certo gráu de decadência organica, seja porque delia resulte, seja porque ella provoque, póde, pelo contrario, sêr independente. Demais, é necessário bem reparar quando se instituir de ante-mão em todos os que apresentem signaes de neurastlienia, (cepbaléa, racbialgia, lassidão, vertigens, impotência cerebral etc.) o tractamento reconstituinte que não convém a alguns neuras- tbenicos. Com effeito, os symptomas neurastbeniformés podem estar sob a dependencia de perturbações, seja da nutrição, seja de certas funcções, e se commetterá um erro si se indicar o regimen alimentar dos verdaieiros neurastbenicos. Queremos nos referir, por exemplo, aos artbriticos, com ou sem hypertensão. Nestes doentes que são auto-intoxicados, a lvyperacidez dos bumores recommenda um regimen moderado em quantidade, onde a carne e os albuminoides em geral não devem ter senão pouca extracção. São evidentemente estes casos que debaixo das vistas dos médicos, ( Vigouroux, Gautrelet, M . de Fleury ) são mais clínicos — alimentar o neurastbenico com substancias hydro-carbonadas do que com alimentos quaternários. 27 Verdadeiramente esta pratica é legitima nos casos especi- aes ej.u que age. Extensiva a todos os neurastheuicos, os verdadeiros, é um verdadeiro desastre. O que prova ainda a imperiosa necessidade que, para fazer uma boa theurapeutica,é mister um bom diaguóstico preliminar. O que acabamos de dizer sobre os neurastheuicos por auto-intoxicação arthritica applica-se aos neurastheuicos he- páticos, (Glénarl, Lagrange); nestes, o re.gimen deve antes de tudo visar o figado. Segundo a physiologia nos ensina, os alimentos se divi- dem em tres categorias: alimentos azotados, graxos e bydro- carbonados ( alimentos feculentos, amylaceos, assucares ), aos quaes vêm-se junctar os saes e a agua. Os alimentos azotados ou albuminoides têm em parte por funcçào reconstituir o trama de nossos tecidos; as gorduras, os assucares e os albuminoides em parte servem para produzir calôr e energia. Um bom regimen é o que encerra, nas proporções determinadas, as tres categorias de alimentos, e o homem é instinctivamente conduduzido a fazer uzo deste regimen mixto. Segundo A. Gautier, um homem adulto médio para se manter em bom estado de saúde, não fornecendo senão uma quantidade minima de trabaiho, gasta: De albuminoides 110 grams. » gorduras 69 » » assucar ou amidon 422 » No homem que se entrega a trabalhos musculares penosos, estes algarismos augmentam: De albumina 152 grams. » gordura 85 » » hydrato de carbono 630 » Numa actividade média devem correspondei’ doses alimen- tares intermediárias. Estes algarismos variam segundo a edade, corpo, sexo e estação. As tres categorias de alimentos são indispensáveis á saúde. 28 Não se pode viver exclusivamente de albuminoides, por muito tempo, nem exclusivamente de gorduia ou hydro-carbonoí. Mas póde haver sem inconvenientes substituição, numa certa medida, duma categoria de alimentos por uma outra, dos hydrò-carbonos pelas gorduras por exemplo ou inversamente. Uma bôa parte dos alimentos azotados, das gorduras e hydro- carbonos desempenham na economia o papel de combustível. Ora um combustível pode ser substituído por um outro. Daqui se tem procurado uma cominum medid i que seja applicavel ás tres ordens de alimentos e permitia dozar a alimentação em que cada um concorre com sua parte respectiva: esta medida commum é a caloria. Sabemos que a caloria é a quantidade de calôr necessário para elevar a um gcáu a temperatura dum kilogramma de agua. Riibner estabeleceu: Que uma gramma d’albumma equiv 4,1 calorias. » » » de gordura equiv 9,3 calorias. y> y> y> hydrato de carbono equiv. 4,3 calori s. Donde conclue-se que, multiplicando por estes coeficientes, as cifras indicadas acima, um adulto do sexo masculino, mettido em repouso, deve absorver uma quantidade de alimentos susceptivel de fornecer cerca de 2.800 calorias, o homem que trabalha deve produzir cerca de 3.500 a 3.800, a mulher em repouso muito menos, 2.000 a 2.200. Resulta destes dados que um neurasthenico, que, por perda de appetite, preguiça de estomago, diffieuldade da digestão ou outra cousa qualquer, absorve uma quantidade de alimentos equivalente a menos de 2.800 calorias, ou a menos de 110 grams. de albuminoides, 69 grams. de gorduras, 422 grams. de hydro-carbonos, alimenta-se insufficieutemeate e o que vemos ó seu estado de asthenia persistir ou se aggravar em logar de melhorar. Alguns, na pratica, aconselham a dosar de uma maneira meticulosa os alimentos ingeridos pelos doentes. Imporra, entretanto, de não precisar exclusivamente as asserções disto relativamente á suficiência ou insuficiência de 29 nutrição; é necessário ter uma medida que possa servir de norma para se fazer uma idéia precisa do que ó absorvido. Deve-se recorrer : 1.° á pesada intermittente dos alimentos; 2.° á pesada do doente; 3.° á analyse das urinas. Far-se-á pesar de quando em vez e durante dois ou trez dias de continuo, afim de ter uma média, dos diversos alimentos ingeridos pelo doente; ha a junctar aqui a medida dos liquidos absorvidos principal mente liquidos alimentares, como leite, chocolate, etc. Tomemos de Gautier o seguinte quadro que representa, para cs albuminoides, o coefiieiente de utilização dos alimentos, os mais correntes. Natureza dos alimentos Peso °/0 de subs. proteica Ilesiduo Carne de boi 97,5 2.5 » » peixe 97,3 2,7 Leite (easeina) 91,7 8,3 Pão de trigo 78,9 21,5 « » milho 58,7 42,3 Lentilhas (legumina) 00,0 40,0 Ervilhas » 72.2 27,8 Feijão » 09,8 30,2 Arroz (glúten) 75,0 25,0 Batatas (legumina). . . 78,0 22,0 Couve » 00 18,5 Isto não é tudo. Não se deve esquecer que os albuminoides não são absorvidos em natureza ou antes, sem modificações chimicas anteriores. São submettidos em primeiro a um trabalho de dissociação para serem reduzidos em albuminas mais elemen- lares. Depois tem legar um segundo trabalho, de reconstrucção, que, modiíica áquellas que compõem o nosso organismo. Esta dupla serie de operações se faz tanto mais completa quanto o elemento albuminoide se approxima das substancias quaternarias constitutivas de nosso tecido. Parece, sem duvida, que ella é mais facil e mais completa com a albumina da carne do que com a dos legumes. 30 Também a constituição cliimica dos diversos alimentos não dá a medida exacta do seu valor nutritivo. Era indispensável lembrar estas noções afim de precaver-se contra o erro que consistiria em admittir aue é bastante conhecer o peso e a natureza das substancias introduzidas no tubo digestivo, para inferir da quantidade precisa das absorvidas e que servirão ora para a recoustrucção dos nossos tecidos, ora para a producçâo das calorias necessárias. Para complemento será util para os resultados a pezada dos doentes. Com eífeito, é util pezal-os de quando em vez, com intervallos fixos, para se auferir: si elles emagrecessem, si ficam estacionários ou se engordam, noções que é necessário ter em mente no tratamento da neurasthenia. Também é necessário não perder de vista que o engorda- mento não é tido como um criterium bastante de uma alimen- tação do systema nervoso. Com uma proporção de gordura e de hydro-carbono, augmenta-se de pezo; não está demonstrado que se acresce assim a energia nervosa. Também são considerados como defeituosos os regimens systematicos, em voga em certos estabelecimentos estrangeiros, que fazem engordar os doentes. A analyse das urinas, praticada de tempos em tempos, fornece também sobre a nutrição indicações de subido valor. Na variedade destas analyses nós pesquizaremos os saes, os albuminoides absorvidos, as gorduras e os hydro-carbonos que dão nascimento a productos de oxydaçâo que se eliminam, não pelos rins, porém, pelos pulmões. Muitas duvidas existem sobre a significação dos algarismos absolutos exprimindo a proporção na urina dos saes, e dos diversos productos de transformações dos albuminoides (uréa, acido urico). Tem-se dicto que menos importa conhecer a quantidade eliminada de phosphoro, de enxofre, ou de azoto do que a forma sob a qual a eliminação tem logar, e tem se pretendido substituir a dozagem simples destas diversas substancias pelo methodo chamado dos coefficientes. E’ assim por exemplo que em logar de dozar em bloco simplesmente o azoto total da urina, doza-ss de uma parte este azoto total e de outra parte o azoto da uréa. 31 A relação entre dois algarismos Azoto da uréa Az M. Azoto total Az T. que em estado normal será de 0,85 na média e qne representa o que se chama coeficiente azoturico, qne exprimirá, por suas variações, modificações da nutrição, cujos algarismos isoladamente reunidos, não darião nenhuma noção precisa. E’ necessário que seja sufficieutemente edificado sobre o valor deste coefficiente e de alguns outros que têm sido propostos' Sob o ponto de vista pelo qual nós nos collocamos aqui, elles têm pouco interesse. Depois das pesquizas de Mareei e Henri Labbé, as relações qualitativas e quantitativas que existem entre a composição do regimen e a das urinas permitte de affirmar que, pela maior parte pelo menos, os materiaes das urinas não provêm de nenhum modo da desassimilação dos tecidos, mas da combustão dos alimentos introduzidos no organismo. Depois destes auctore3 a excreção urinaria é antes de tudo a traducção do modo de alimentação. Em consequência vê-se que os algarismos absolutos forne- cidos pelas analyses de urina são susceptiveis de nos dar informações, melhor do que se pensava nos últimos tempos, sobre o modo de alimentação de nossos doentes e sobre a suffi- ciencia ou não desta alimentação, pelo menos no que diz respeito aos saes e alimentos quaternários. E’ mister lembrar sempre que a eliminação dos diversos i’esiduos comburidos da alimentação não se faz para tf dos com egual rapidez, por isso que não é bom se contentar com uma só analyse da urina, mas praticar seja uma quotidiana durante trez dias, seja pelo menos duas separadas uma da outra por um intervallo de um dia. Ver-se-ha que os algarismos indicados por estas analyses se approximam ou se afastam para cada substancia, dos que exprimem a média das vinte e quatro horas num homem normal, de regimen alimentar médio, cifras que são indicadas etn geral sobre as folhas da analyse. 32 Combinando os documentos fornecidos pela pesada dos alimentos solidos e a mensuração dos liquidos com os dados pela pesada dos doentes e pela analyse das urinas, chegar-se-ha a avaliar da sufficiencia ou insuíficieucia do regimen alimentar, pelo menos na medida em que, no estado de ignorância em que estamos sobre as condições da nutrição do systema nervoso, somos obrigados a considerar como regimen sufficiente para um neurasthenico áquelle que suppre as necessidades geraes do organismo. A insufficiência de certos regiraens recommendados aos doentes ou espontaneamente seguidos por elles apparece desde que se submette ao critério assignalado mais acima, senão vejamos o que pensamos a respeito do lácteo exclusivo: Um litro de leite de vacca crú encerra: Agua 861,3 Caseina 49,0 Gordura (manteiga) 40,0 Assucar de leite 55,0 Saes 4.0 O que dá em substancias alimentares, por trez litros, dóse quotidiana média: Albumina 40X3=147 G ordura 40X3=120 Hydro-carbonos 55X3=465 Si se comparam estes algarismos aos da ração normal média de subsistência que nós temos dado precedentemente, vê-se que trez litros de leite contêm: Mais albumina cio que é necessário. 147 em logar de 110 Mais gordura 120 » » » 00 Menos hydro-carbono 105 » » » 422 O regimen lácteo constituo por conseguinte um regimen 33 defeituoso pela insufficiencia de bydro-carbono e superabuudancia de gordura. Póde-se, em parte, remediar este defeito tirando a nata do leite e junctando uma certa quantidade de assucar ou de lactose. E’ necessário nào esquecer de que sobre o ponto de vista das calorias a gordura em excesso pôde se substituir si é sufíiden- temente digerida pelo estomago, aos bydro-carbonos insufiicientes. Admittindo-se que assim seja, 3 litros de leite encerram as calorias seguintes : Albumina 147x4,1=602 calorias Gordura 120x9,3=116 » líydro-carbono 165x4,3=709 » Total 2.428 calorias Isto seria sufficiente para ura doente em repouso, mesmo tendo-se emcontao desperdício produzido pelos dejectos intestinaes. Mas a isodynamia das trez ordens de alimentos é sobre certas vistas theoricas, e um regimen, para ser bom, deve, si é prolongado, respeitar as proporções relativas das trez categorias de alimentos que comporta um regimen normal de subsistência. Eis porque, á titulo de regimen durável, o regimen lácteo será defeituoso no neurasthenico occupado, em qne a ração devêra ser augmentada. Ahi devêra ter superabundância de albuminoides e de gordura. Como outro exemplo de regimen insufficiente e defeituoso é o que se observa corren temente em uzo, nos indivíduos perten- centes ás classes abastadas, que constitue um regimen muito rico em albuminoides e insufiicientes em bydro-carbonos. Elle se compõe por exemplo : alb. gord. hydro c. l.° almoç o: 250 gr. de leite representam 12 gr. 10 gr. 14 gr. Almoço solido dois ovos 13 » 14 » — » 100 gr. de carne 19 » 5 » 100 gi. de ervilhas. .. 20 » 1 » 61 » » 30 gr. de queijo 8 » 10 » Jantar: equivalente 60 » 30 » 61 » Junctando 300 gr. de pão 20 » 4 » 164 » Total 152 gr. 70 gr. 300 gr. 34 b) Falemos agora dos saes da alimentação. Nós eliminamos pelas urinas, suores e fezes, 26 grammas em média de matéria mineral, composta de uma parte por chloru reto de sodio, e de outra sobretudo por pbospbato e sulfato de sodio, de cal e de magnésio. A estes saes ó necessário junctar alguns milligrammas de ferro e de silicio e centésimos ou mille- simos de milligrammas de arsénico, cobre, manganez, iodo, bromo e boro. Estes últimos elementos são eliminados graças sobretudo a descamação epithelial ou pela queda dos cabellos ou pellos. Estes elementos mineraes, que fazem parte integrante dos nossos orgãos e plasmas, devem figurar na alimentação; os animaes que delles são excluidos se estiolam, fenecem e morrem, como estabeleceram as experiencias antigas de Chossat e Boussingault e as mais recentes de Forster e Kemmerich. As substancias phospboradas são fornecidas a nossa economia seja por alimentos vegetaes, seja por alimentos animaes, ora sob a fórma natufàl, ora sob a forma de medicamentos. Entre os alimentos de origem animal, o leite encerra uma notável proporção (50 centigrammas de acido pbosphorico por litro); os ovos contêm sob a forma de lecetbinas (13 centigrammas de acido phospborico por ovo.) As combinações phospboradas dos ovos e do leite são certamente muito assimiláveis. Quanto o regimen carnado, rico em azoto, é, ao contrario, como observon Joulie, insufiiciente em acido phosphorico. E’ opposto ao regimen vegetariano, menos rico em azoto, rico porém, em acido pbospborico. Também é deste ultimo que nós utilizamos o phosphoro, tanto no estado pbysiologico como no estado pat.holo- gico. Os cereaes constituem uma reserva preciosa de productos pbospborados; pode-se só empregar sob a forma de pão, de farinha, de decocções etc. Experiencias já antigas têm mostrado que si se administra phosphatos mineraes em natureza a uma vacca leiteira, a riqueza em phosphatos de seu leite não é modificada; para que ella se possa utilizar é necessário misturar estes saes ao sólo, de sorte que o animal absorva por intermédio das gramminéas do pasto. Como bem disse Baussingault, «os phosphatos, para serem assimilados pelo organismo, devem ser elaborados num crysol particular que é o vegetal.» 35 Estes feitos leva-nos a duvidar da efficacidade das prepa- rações pliospliatadas de origem mineral que têm, nestes últimos annos, multiplicado as formulas pliarmaceuticas. E’ para remediar sua insufficiencia que se tem procurado isolar dos cereaes sem acido phospliorico orgânico (phytina) de Giibert et Posternak que se tem pensado desempenhar as pro- priedades dos phosphatos naturaes dos vegetaes. Seja qual fôr o valôr destes diversos productos pharmaceu- ticos sobre os quaes a clinica não nos tem mostrado nada de decisivo, são os alimentos (cereaes, leguminosos) os preferidos, quando se possa, para o fornecimento de principios pbospborados necessários ao systema. nervoso dos neurasthenicos. Ha alguns annos, Joulie preconisou na asthenia nervosa o uzo do acido phospliorico em natureza. No capitulo consagrado propriamente ao tractamento nós falaremos da medicação phos- phorada acida, que segundo Cautru, Martinet e outros, não tem dado os felizes rezultados annunciados por Joulie. II. Regímen alimentar nas perturbações digestivas.— Bem que tudo me afaste de pensar na douctrina pathogenica que faz da neurasthenia uma moléstia primitiva do estomago de repercursão secundaria sobre os centros nervosos, eu creio portanto na extrema importância das desordens gastro-intestinaes, e na necessidade do regimen alimentar como parte integrante da cura. O abaixamento do tonus nervoso, em primeiro, implica na atonia das paredes e na pobreza da secreção das glandulas; mas ao depois a distenção e a dilatação, os productos de fermen- tações secundarias, a atonia do intestino, a putrefacção das matérias que se retardam produzindo a constipação, têm uma indiscutivel repercussão sobre o somno, sobre o estado da cir- culação, sobre o estado da nutrição e também sobre o estado íqental. Haja vista o álcool, que faz mal ao nevrotico, não sómente quando elle toma em altas dóses ou sob a fôrma de licor muito fraco ou quando elle se contenta de absorver sob as suas formas as mais diluidas, cerveja, cidra, ou agua com vinho, etc. Na neurasthenia com hypertensão, temos á nossa disposição toda uma serie de meios importantes, na primeira plaina dos quaes o regimen lácteo, que, quando os doentes a elle se submettem, 36 não será senão durante dois ou tres dias, para provocar nesta categoria de nevropathas um lenitivo immediato para ao depois ser fallivel, como já vimos. Na verdade, eu creio que se não deve uzal-o por muito tempo. E’ mister substituil-o, breve, pelo regimen lácteo-vegetariano, que poder-se-lia sem muito tempo dar um prato de carne assada ou guizada, muito cozida e secca, que se servirá no almoço da manhã. Não nosesqaeçamos de que, para evitaras perturbações gastro- intestinaes deve se prescrever refeições seccas, supprimir todas as beberagens ao curso da digestão estomacal, e de dar leite de hora em hora, nos momentos em que o estomago estiver vasio. E’ muito util uzar dum terço de agua bicarbonatada e juncta a cada copo uma colherada de café de agua de cal medicinal. Na neurasthenia com liypotensão, ainda aqui, o regimen alimentar é de primeira utilidade. Habitualmente hypopeptico, o verdadeiro nevrosthenico deprimido pela hypotensâo, não acha no álcool, nos vinhos de meza, nos elixires medicamentosos, nos licores, senão um excitante que o enerva e deprime, que o irrita e lhe cominunica somnolencias não poucas vezes invenciveis. Tanto mais que o neurasthenico com hypertensâo, o nevro- patha francamente asthenico não deve beber vinho. Outrosim, como seu sueco gástrico é pobre, é bom lhe recommendar de o não diluir nas grandes quantidades de liquido nas refeições. Ainda aqui, o melhor é aconselhar o regimen secco, fazendo-o beber agua, facil de digerir, ás 9, ás 10 e ás 11 horas da manhã, e ás 4. ás õ e ás 6 horas da tarde. (M. de Fleury). Mesmo porque sua capacidade vital estadiminuida sobre todos os pontos de vista, para a combustão dos alimentos como para todo o resto, é sabio e intelligente de não carregar muito seu estomago de substancias qne possam produzir acido urico em excesso. E’ necessário dar-lhe carne, o suííiciente na refeição da manhã, um pouco menos na refeição da tarde, e ovos, peixes de digestão facil, e legumes que não fermentam muito no estomago e no intestino, á saber: alcachofas com molho branco, os feijões verdes muito tenros, as batatas com manteiga fresca ou em pureés, pureés 37 fabiamente tamizados de pequenas ervilhas, de lentilhas e de ervilhas seccas, pureés de salada cozidas, cremes cozidos, fructas cozidas, etc. Habitualmente destituídos de appetite, estes doentes são susceptiveis de gradualmente se nutrirem com uma- abundancia crescente, si se não os mantêm restrictamente no regimen. Chega-se também por meio de injecções salinas ou de alguns aperitivos puramente mecânicos, a dar-lhe um appetite imtne- diatamente bulimico, que é necessário muitos vezes util de refreiar. Toda a refeição deve ser muito moderadamente copiosa, estes doentes tendo, como vimos, uma secreção gastrica, como fogo de palha, elles devem fazer todo dia quatro pequenas refeições, como vamos ver mais adiante. O regimen de Maurice de Fleur-y, diz elle, tem a vantagem de proporcionar á digestão todas os serviços que eram para o regimen secco difficeis, permitte a lavagem do sangue, graças aos seis copos de liquido, absorvidos nos momentos em que o estomago está vasio. Esta maneira de proceder supprime todo o perigo de lithiase renal, hepatica e intestinal; não é menos util sob o ponto de vista da colite muco-membranosa; de outra parte é uma lucta vigorosa contra a tendencia excessiva que têm nossos doentes de emagrecer, desde que se procure acce- lerar suas combustões. Mas este regimen não tem todas esta3 virtudes se o doente não renuncia completamente a therapeutica medicamentosa; é sobretudo nos neurasthenicos em que se observa frequentemente a dyspepsia por abuso de drogas. M. de Fleury desaconselha habitualmente as drogas eupé- pticas, eu não chego a tanto, porque tenho obtido resultados magnificos com a pepsina e a pancreativa sob a forma de pós: Pó de pepsina. .. . ' » » pancreatina.) 15 centígrammas » » nox-vomica. 1 centigramma Para um papel, n. 20. Um, no meio de cada refeição, num pouco d’agua ou syphão. Os laxativos me parecem dar rezultados magnificos, que 38 não nos neurasthenicos muito deprimidos que veem augmentar sua asthenia: o melhor de todos é a capsula de oleo de ricino tomado ao acordar, um pouco antes da primeira refeição da manhã; mas é cominodo também absorver, na refeição da tarde ou no momento de deitar-se, algumas pilulas d’aloes, alguns papeis de rhuibarbo ou de cascara, todas as coisas que agirem, em condição de mudar de laxitivos numa semana ou dez dias, pois o intestino não demora de se irritar com este ou aquelle excitante de suas contracções. M. Albert Robin prescreve muitas vezes pilulas laxativas compostas que não provocam inffalivel- mente cólicas, é a formula seguinte: Aloes 2 grammas Turbitbo vegetal Resina de jalapa » » scammonéa ââ 1 gramma Extr. de jusquiama Extr. de belladona ââ 15 grammas Sabão amygdalino q. s. Para cincoenta pilulas. Quanto ás lavavagens do intestino, tem sua utilidade por prestar serviços muito apreciáveis. E por isso é bom de quando em vez. dar clysteres salinos aos constipados. Por analogia com a injecção bypodermíca de sérum que eleva a pressão sanguiuea, proporcionando a arvore arterial a se contrahir, eu tinba aconselhado o uzo metbodico de injecções rectaes duma solução salina pouco concentrada, e fria de preferencia. Elias têm por effeito: l.° de desembaraçar o intestino, por lavagens, das ma- térias que abi se disseminam; 2.° de reavivar a contractilidade adormecida do intestino, e pouco e pouco fazel-o adquerir uma tonicidade mais perfeita; 3.° permittir a absorpção e a passagem para o sangue duma certa quantidade d’agua salgada, cujo eíteito tonico e diurético se não podem duvidar. M. Gilbert Ballet formula da maneira seguinte o regimen ali- mentar nos neurasthenicos affectados de fermentações intestinaes: l.° Nos casos em que o estado saburral da lingua é muito accusado, quando ha perda de appetite, distensão do ventre, 39 crises dolorosas vivas e frequentes, diarrhéas cora falsas mem- branas, frequentes e pútridas, regimen lácteo exclusivo; o leite deve ser tomado ao gráu do doente, seja por pequenas dóses muito repetidas, seja por dóses mais fortes e mais raras; ou melhor, regimen exclusivo do kephir, n. 2, em dóse de 4 á 6 copos por dia: E’ raro o doente tolerar. Si o leite ou o kephir são mal supportados, pode-se sub- stituir pelas sôpas de agua e farinhas escolhidas, addicionadas ou não dum pouco de leite, e que se dá duas ou quatro vezes por dia. Este regimen implica no repouso ao leito, ou pelo menos no quarto. 2. Quando as dores são menos vivas, as defecações menos penosas, o ventre menos distendido, que o doente tenha tomado ou não anteriormente o regimen precedente, prescreve-se o regimen lacteo-farinoso da maneira seguinte: a) 1.® Almoço ás 8 horas—Kephir ou leite, puro ou addi- cionado dum pouco de café ou chá; bolo secco ou biscoutos, ou uma côdea de pão torrado com um pouco de manteiga fresca. b) Ao meio dia—Almoço composto de dois pratos e duma sobremeza, escolhidos dentre os alimentos seguintes: mingaus de farinhas, sôpa de batatas, ervilhas- seccas, lentilhas, com manteiga fresca; batatas, arroz, macarrão, pudding, queijo fresco, compotas de fructas pouco assucaradas. Em rigor, duas gemmas dovos. Pão torrodo ou biscoutos. c) A’s quatro horas—Kephir, ou leite, com café ou chá. d) A’s 7 horas a mesma refeição do meio dia. Repetimos, não tomar liquido no curso da digestão estomacal e quando muito ás 10 horas e á noite em logar de agua pura, um copo de boa agua mineral. 3. Ná phase em que os phenomenos de fermentação intes- tinal são ainda mais attenuados, permitte-se, na refeição do meio dia primeira mente, depois na do meio-dia e da tarde, a addição dum pouco de carne (carneiro ou boi, gallinha ou vitella, quente ou frio), mas recommendando que o prato de carne seja acompanhado d’um prato copioso de sôpa de legumes, de arroz ou macarrão. 40 Estes regimens não constituem senão indicações modificáveis segundo as círcumstancias. Em semelhantes casos é necessário ter noções directrizes ás quaes se devem confirmar o mais possivel sem nunca perder de vista que o organismo vivo não é mais do que uma retorta e que, nos neurasthenicos sobretudo, ter-se-ha de contar com as questões de gosto, repugnância, apetite e reacções gastricas em frente dos alimentos, que obrigam a conformar suas prescripções ás parti- cularidades e indicações especiaes de cada caso. Saber fazel-o, eis o que distingue o bom medico. Na neurasthenia feminina ainda M. Gilbert Ballet acha que a super-alimentação tem uma grande importância, mas antes de de instituil-a é indispensável dar balanço no estado das funeções gastricas da doente. E’ docemente tolerada quando a doente é somente affectada de atonia gastro-intestinal, e melhor ainda quando a anorexia revela quasi exclusivamente o estado mental, e que não tem, em surnrna, como a anorexia das hystericas, senão o valor d’uma idéa fixa. Demais, convém applicar o methodo com mais prudência e moderação quando se tracte de uma doente ha muito tempo dyspeptica e que chegou na phase de dilatação permanente com estase e fermentação acidas. Nos casos em que a ectasia gastrica está ligada á catarrho estomacal, nos parece preferível procurar e obter, por um tracta- mento local em diversos sentidos, a melhoria das funeções do estomago, antes de applicar o regimen alimentar preconisado por Weir-Mitchell. Aqui registamos os preceitos formulados por este auctor no que toca a dietetica: na quasi totalidade dos casos principia-se pelo regimen lácteo. A doente absorve todos os dias 2 á 3 litros de leite, na dóse de 260 grammas, de duas em duas horas. Depois de sete ou oito dias de dietetica lactea, a paciente faz ao meio-dia um ligeiro almoço, composto de uma costelleta. Depois, no fim de trez ou quatro dias, eleva-se progressivamente a refeição, junctando-se a precedentemente indicada uma fatia de pão com manteiga, duas ou trez vezes por dia. . Quando decorrerem quinze dias a doente fará trez refeições completas, continuando a tomar, seja nas refeições, seja nos inter- 41 vallos, lira litro e meio a dois litros de leite por dia. Quando completarem vinte dias, começar-se-ha a dar, no momento das refeições, cerca de cem grammas de extracto de malta liquido destinado a favorecer a digestão. Póde-se ainda prescrever o caldo de cíirne (beeftea): é uma infusão de carne de boi, preparada ao banho-maria e addicionada de algumas gôttas de acida chlo- rhydrieo e filtrada. Weir-Mitchell gosta que a manteiga tenha gi-ande extracção nos alimentos dos neurastbenicos. No inverno elle chega a prescrever mesmo uma á duas onças de oleo de figado de bacalhau e, se o estomago tolera mal eTe corpo gorduroso, elle applica-o em clysteres associado á uma infusão de pâncreas preparada numa temperatura de 60 á 80 gráus. Emfim, permitte uma certa dose de álcool, sob a fórma de algumas gottas de whisky ou de dois copos de champagne. Todos os medicamentos, bromuretos, chloral, morpliina, etc. , os quaes estes doentes estão na maior parte habituados á uzar, quiçá, á abusar, devem ser supprimidos. Weir-Mitchell não se cansa de aconselhar, para combater a constipaçãp, 5 á 10 centigrammas de extracto aquoso de aloes que o doente toma pela tarde. Prescreve ainda o ferro contra a anemia. Tal é o methodo therapeutico preconisado pelo auctor americano nas formas graves de neurasthenia feminina. Vias principalmente dois grandes svmptomas deste estado neuras- thenico, á saber: a depressão da energia da moral e da vontade, assim como o emagrecimento e a anemia causadas pelo insufi- ciência da alimentação. Na Inglaterra, Playfair tem muito contribuído na applicação do methodo de Weir-Mitchell. Na França, Charcot, Bouveret, Dejerine e alguns outros clinicos, Gilbert Ballet, têm egualmente experimentado com successo. Si por vezes não produz senão uma melhora passageira, tem dado, num grande numero de casos, curas completas e definitivas. Devemos aifirmar, alto e bom som, que c de um grande valor real. Eu, na minha modesta clinica de estudante tenho applicado o e os resultados têm sido magníficos. 42 Na Allemunha, Leyden, Biswanger, Burltarfc têm modificado a dietetica de Weir-Mitchell, com resultados mais ou menos felizes. Leyden, por exemplo recommenda para o regimen de ema- grecimento o seguinte: De manhã—A’s 7 horas: 500 c. c. de leite para tomar em 30 minutos. A’s 8 horas, pequena chicari de café com leite; 80 grammas de carne fria; 3 fatias de pão com manteiga. Um pires de batatas frictas. A’s 10 horas: 500 c. c. de leite, 3 biscoutos. Ao meio dia: 600 c. c. de leite. De tarde—A’ 1 hora: Caldo de carne; 200 grammas de gallinha. Batatas, hortaliças e compota de fruetas. Pasteis. A’s 3 horas e meia: 500 c. c. de leite. A’s 5 horas e meia: 80 grammas de carne assada, 2 fatias de pão branco com manteiga. De noite—A’s 8 horas: 500 c. c. de leite. A’s 9 horas e meia: 500 c. c. de leite e biscoutos. Aos doentes que têm uma aversão considerável pelo leite> Biswanger aconselha o regimen: Durante a primeira e a segunda semanas da cura: A’s 7 horas: 125 grammas de cacau cozido com leite. A’s 9 horas: uma chícara de caldo, 30 grammas de pão de Graham e 10 grammas de manteiga. A’s 11 horas: um pequeno copo de vinho branco e uma gemina, de ovo. A’ 1 hora: 80 á 100 grammas de sopa, 500 grammas de carne assada, 10 grammas de batatas, 7 grammas de legumes, 20 grammas de arroz. A’s 4 horas: meio litro de leite. A’s 6 horas—20 grammas de carne assada, 20 grammas de pão, 5 grammas de manteiga. A’s 8 horas: um quarto de litro de sopa com gemma de ovo. A’s 9 e meia—um quarto de litro de leite. E durante a terceira, quarta, quinta e sexta semanas de cura, o seguinte: A’s 7 horas: 125 grammas de cacau com leite. 43 A’s 9 horas: uma chicara de caldo, 50 grammas de carne, 50 grammas de pão dc Gralxam, 15 grammas de manteiga. A’s 11 horas: um pequeno copo de vinho e uma gemma de ovo A’ 1 hora: 25 grammas de sopa, 80 grammas de batatas, 35 grammas de legumes, 70 grammas de assucarados, 50 grammas de compotas. A’s 4 horas: 200 grammas de cacau. A’s 0 horas: 100 grammas de carne assada, 50 grammas de pão, 15 grammas de manteiga. A’s 8 horas: 250 grammas de sopa (com 20 grammas de manteiga e uma gemma de ovo), compota de fructas. A’s 9 horas: meio litro de leite. Estes auctores têm procurado egualmente, mas sem atinar, acertar as indicações e contra-indicações do methodo. Burkart, Leyden querem que o isolamento fora da familia seja uma condição má para os doentes que apresentam pheno- menos de excitação, que o tratamento systematico de Weir- Mitchell não convêm aos cerebrasthenicos, nem aos individuos que soffrem de dores visceraes ou de dores nevrálgicas nos membros. Burkart faz observar com razão que, para poder beneficiar a cura de Weir-Mitchell, os doentes devem possuir uma certa intelligencia para um fim desejado. De resto, diremos que temos feito a applicação do methodo de tratamento de Weir-Mitchell, num bem crescido numero de doentes, e os resultados têm sido magnificos. TRATAMENTO CAPITULO III nfíp)\ sychotherauia. — A inftuencia moral que pode exercer ‘ j • o medico sobre o neurastheuico tem uma importância À capital. E" necessário, com efíeito, que o medico saiba ganhar a con- fiança do doente, ter sobre elle toda auctoridade, impor-se-lh’o em uma palavra. Para isto deverá sabiamente escutar com pa- ciência seu doente, attender sem se aborrecer toda a narração muitas vezes interminável dos seus soffrimentos e magoas. Ao medico não cabe nunca a pilhéria ou a ironia em presença das confidencias mesmo nos casos os mais surprehendentes. Deverá sempre conservar ou pelo menos em presença do doente uma seriedade de esphinge. Examinará attentamente todos os seus orgãos, após lhes explicará que todos estes symptomas são puramente nervosos e portanto curáveis. Não deverá nunca fallar de moléstia imaginaria; posto que isto produzirá sobre o espirito do neurastheuico o mais deplorável efíeito. Si o medico se acha em presença de um doente intelligente. instruido, poderá sem temor explicar-lhe as origens de sua moléstia, fazel-o-ha trans- portar á3 causas, mostrando-lhe o ponto de partida de suas ideias obsedantes, de seus temores, íazendo-o entrever a porta de sahida de um caso semelhante. Si se tracta, porém, de um doente des- 46 pirito pouco cultivado, de intuição tacanlia, o medico procurará arranjar uma explicação mais ou menos exacta, sobre o ponto de vista clinico, mas sempre engenhosa e sempre accessivel ao espi- rito do doente que elle agora começa a dirigir. O medico (já observei muitas vezes) produz uma impressão tão viva quão feliz sobre os neurasthenicos, que veem-no consultar, si os auxilia na deseripção de seus symptomas morbidos, em pre- cisando nos seus detalhes, chamando attenção sobre certos pontos em que elles não foram tocados, mostrando-lhes em uma palavra que conhece seus males tão bem senão melhor do que elles. Eu ‘considero, e comungo E. Laurent, como muito perigoso o fazer cotnprehender ao neurasthenico que já se esteve doente como elle, que já se esteve mergulhado ao fundo dessa especie de buraco negro e que já se veio á tona da luz como quer M. de Fleury. Isto assim é collocar-se num estado de inferioridade em face do doente. Si elle é bom, como vimos de dizel-o, capaz de compre- hender que conhecemos seu mal d’elle, que sobre isto temos feito um estudo minucioso e aprofundado, é mister também fazel-o sentir que se acha em presença dum sêr superior á elle, inaccessivel a suas mil misérias, capaz por conseguinte de o reconfortar, de o tomar debaixo de sua égide. E’ preciso mostrar uma vontade forte em presença de sua vontade defeituosa. Não nos esqueçamos que para os grandes males, grandes remedios. E’ por isso que o recommendam Proust et Ballet: o medico deve evitar de vêr muitas vezes seu cliente, pois assim fazendo, corre o risco de uzar sua auctoridade, de esmagar sua influencia. «E’ bom que a visita do medico seja um pouco desejada; deve ser de alguma soite para o neurasthenico, no decorrer da cura, um acontecimento sempre efficaz e que o im- pressione. O medico não deve fallar nunca frente a frente com o doente em tom muito familiar: sua attitude não deve ser affe- ctada somente de commiseração e de attenção: carece também de firmeza e por vezes mesmo um pouco de inflexibilidade. O paciente tem necessidade de sentir uma razão superior á sua, uma vontade forte que o dirija e que lhe seja um apoio solido na reforma moral a que elle é incapaz de se impôr.» Em uma palavra, é necessário, que o doente encontre no 47 medico uma auctoridade que dirija a sua vontade e a subjugue e não uma affubilidade delicada que discute e capitula. Ila neurasthenicos que não fazem esforço algum para saliir do seu estado. «O que ba de íuais verdadeiramente terrível, em semelhante caso, diz M. de FleUry, é quando o doente, ainda que procure um medico para pedir lenitivos, não quer litteralmente ficar bom. Está de tal forma habituado a esta maneira de viver, tem-se por bem satisfeito em fazer seu leito na miséria em que se acha, onde ellô quer estar, e que toda a palavra de consolo ou de esperança nfio fazem si não exasperal-o, mesmo porque contraria a corrente de suas idéas constantes. Tenho visto neurasthenicos gráves e melancholicos levarem em capricho o medico que, lhes faz o bem, que lhes eleva as forças, que lhes contraria a se nutrirem e lhes quer dar a sensacção de vida n’um eerebro que não quer pensar senão no suicidio.» A obsessão, a crença do doente que não pôde curar-se, tem uma parte etiologica considerável na neurasthenia. E’ mister então romper o habito morbido pela suggestão em estado de vigilia ou a suggestão hypnotica para ver si se opera como algumas vezes verdadeiros milagres. Si, desde a primeira audiência, se produz uma modificação favoravel, a confiança se estabelece, o doente se habitua a ideia da cura, se auto-suggestiona e sara. Importa saber de que si os neurasthenicos são impressionáveis e suggestionaveis, são dificilmente hypnotisaveis. Os estados de somno que se podem provocar nos neurasthenicos não os leva até a inconsciência que se esqueçam de acordar. Dormem por assim dizer acordados, assistem á sessão, e apezar de terem os olhos cerrados e o bem querer de dormir. Também as suggestões communicadas nestes estados de somno não se impõem com energia ao seu espirito. Emfim, é necessário não esquecer de que o tratamento psycho- therapico da neurasthenia não pode at tender o moral senão através do physico. Com effeito, si a hysteria apparece como uma moléstia corporal nascida da idéa, a neurasthenia é, ao contrario, uma malestia do espirito, nascida do funccionamento empobrecido do 48 nosso organismo physico. Por isso que a neurasthenia se não cura pela suggestão. «A hysteria, filha da ideia, deve se curar pela ideia; a neurasthenia, filha da fadiga, deve ser curada pela medicação tónica, metliodicamente applicada», palavras de M. Fleury que são uma verdade inconcussa. II Hydrotherapia . — A hydrotherapia tem uma grande importância no tratamento da neurasthenia. Deve-se dar preferencia aos banhos de curta duração que me parecem mais uteis que as duchas frias que appresentam muitas vezes inconvenientes sérios agindo de uma maneira perigosa sobre a liyperexcitibilidade do doente que ellas augmentam. Poder-se-ha dal-os e em seguida fricções com um liquido alcoolico. A alcoolatura de rosmaninho preenche bem a indicação nestes casos. Quando existem dôres musculares, deve-se dar preferencia á mistura seguinte: Balsamo de Fioravanti 60 gr. Chloroformio 10 « Ou então Balsamo de Fioravanti Oleo de belladona Chloroformio â â 30 gr. Laudanum 5 gr. lia diversas especies de applicações hydrotherapicas que se não indicam indifíerentemente no tractamento do esgottamento nervoso. Em primeiro, temos o lençol molhado com fricções — que pode ser uzado em todas os formas de neurasthenia. Este processo consiste em molhar um lençol n’agua cuja temperatura seja do 20° á 25° centígrados e torcel-o bem; applical-o sobre o doente, que deve estar de pé e despido, tendo-se o cuidado de effectuar o coutacto em todo o corpo, operação que deve durar alguns minutos, apenas. Cobre-se depois o doente com um lençol secco ligeiramente aquecido, fazendo-se-lhe uma fricção geral metliodicamente. O doente deve em seguida andar, fazer exercicio, para que 49 a reacção se estabeleça, ou então deitar-se em uma cama pro- viamente aquecida. Este processo é de effeito brando e tem a grande vantagem de não requerer uma installação especial, pode ser applicado em qualquer domicilio. Loções frias—A loção fria é de effeito um pouco mais activo do que aquelle produzido pelo lençol molhado e mais fraco que a ducha fria; ella é empregada como tractamento prelimiuar, quiça, para animar o doente ao uzo das duchas, ou melhor, para completar em casa um tractamento começado no estabelecimento hydrotherapico. Duchas frias,— A ducha fria. movei, em jacto quebrado,—é um bom metbodo hydrotherapico; deve ser de curta duração, no máximo 37 segundos, porque, em caso contrario, se torna pre- j udieial. «Uma ducha muito curta não apresenta nenhum inconve- niente; uma ducha muito demorada, porém, é sempre perigosa», diz M. de Fleury. Em seguida á ducha o doente deve ser friccionado e fazer um exercício moderado para facilitar a reacção. Alguns doentes não supportam a ducha, devendo elles nesse caso tomarem banhos de immersão frios, igualmente curtos. Os danlios temperados de 28° a 32° também produzem seus effeitos salutares. A duração destes banhos, porém, varia conforme o doente. A applicação dos banhos temperados é indicada aos neu- rasthenicos que soffrem de rheumatismo ou arthritismo. Será bom envolver, durante o banho, com uma compressa fria, a cabeça do paciente. Após o banho o doente será simplesmente envol- vido numa cobertura de lã. Ha ainda o banho tépido de 33 a 3G gráos cuja acção é sedativa; modera a excitabilidade reflexa do systema cerebro- espinal; acalma o erethismo carebral ou cardíaco, atenua a insomnia. Sua duração deve ser de 30 a 40 minutos. A ducha quente de 33 a 36 gráos também é uzada, e tem os mesmos effeitos do banho temperado. Ha ainda a ducha escosseza que é o melhor modo de 50 preparação de agua fria; deve ser preferida aos processos indicados. Consiste em dar em primeiro uma ducha quente na tempe- ratura de 36 ou 37 graus que se eleva progressivamente e com bastatne rapidez á 40 ou 45 gráos. A este maximum de therma- lidade, a duclia quente é continuada durante trinta segundos, um minuto, dois minutos ou mais, e, bruscamente, sem tranzição, abaixa-se a temperatura da agua á 8 ou 10 gráus; a duração da duclia fria não deve exceder de dez á quinze segundos. Emfim, todas estas applicações bydrotherapicas devem ser utilizadas com muita moderação e prudência: agem sobre a pelle, revivem suas funcções physiologicas, e exercem uma acção sobre os nervos peripliericos. III. Electrotherapia.—A electricidade estatica, o processo chamado da franklinisação, presta um relevantissimo serviço num bom numero de casos, onde ba enervamento, agitação, sensacções de impaciência nas pernas, placas dolorozas da nuca e sacrum, e insomnia. R. Vigouroux emprega os diíferentes processos seguintes: a) Banho electrico—O paciente é collocado sobre um tam- borete statico, em communicação com o polo negativo da macliina. Elle se aclia por conseguinte carregado de electricidade negativa em uma muita alta potência ao mesmo tempo que offerece caminho á um consumo constante de electricidade para todas as saliências de seu corpo e de suas vestes, desperdicio que é incessantemente reparado pela producção continua da machina* b) Vento electrico.—Obtem-se dirigindo-se para o doente, e á 10 ou 15 centimetros de distancia, a ponta de uma haste metallica não isolada. Produz-se assim uma sensação analoga, mas não idêntica, a produzida por uma corrente de ar. Vigouroux recoinmenda muito vivamente este meio para curar quasi instantaneamente as cephaléas tão dolorosas nos neurasthenicos. c) Scentelhas.— Obtêm-se approximando sufficientemente do corpo do paciente uma bola metallica não isolada. Este processo é muito util para provocar seja a contracção muscular agindo sobre os ramos ou troncos nervosos, seja a excitação cutanea. 51 d) Chuveiro luminoso.— Em approximando-se uma haste de madeira á alguns centímetros do corpo do doente, obtêm-se um jacto luminoso (áigrette) que é uma maneira intermediária de descarga, e cujo effeito é ora sedativo, ora excitante. e) Fricção electrica.— Effectua-se passando-se mais ou menos rapidamente uma baste metallica não isolada sobre as vestes do paciente. Produz-se assim uma multidão de pequenas scentelbas cuja extensão é medida pela espessura da roupa interposta. Uza-se de preferencia da flanella. Dá resultados magníficos na amyostbenia e impotência genital. /) Capacete vibrante.—Applica-se sobretudo para combater os symptomas cepbalicos, nas vertigens, nos accidentes dolorosos. A faradisação (correntes interrompidas) emprega-se nos casos de atonia genital, e espermatorrbéa. Electrisa-se successivamente todos os musculosr accessiveis do perinêo, ou bem ainda collo- cando-se um dos pólos no rectum e o outro sobre o perinêo, raiz da verga, bolsas testieulares. A galvanisação é egualmente indicada. Benedikt e Scbulz empregam uma corrente fraca; o pólo positivo sendo collocaclo sobre as vertebras lombares, fazendo-se passear o electrodo nega- tivo successivamente sobre o perinêo, cordões espermaticos e verga. A duração da secção varíd de trez a quatro minutos, repetindo-se todos os dias ou de dois em dois dias. IY. Massotiibrapia . — A amassagem pode ser muito util nos neurastbenícos. Mas, para fazer amassagem com utilidade é neces- sário sabel-o. Muita gente não sabe fazer amassagem e, que se dizem bons médicos, ou por outra, ba médicos que não sabem empregar a amassagem comometbodo tberapeuticona neurastbenia. Os empregados que amassam nos estabelecimentos de banbos exercem muitas vezes manipulações nocivas, e algumas vezes, perigosas; para ser-se um bom amassador, é necessário aprender-se a sel-o. Eis aqui, segundo Weber, como se deve aprender. O amassador deve ter a mão agil e leve; deve agir com uma energia progressiva e suíficiente, mas sem violência, pois neste ultimo caso, a dor momentânea que elle occasionasse, podia produzir eccbymoses, descamações sub-cutaneas. E’ necessário 52 antes peccar pelo excesso de doçura que pelo excesso de força. «Não se emprega muita força na a massagem diz; Reibmayr. Em geral, se não deve passar de dez minutos para cada amassa gem. As manipulações que exercem os amassadores são muito numerosas e muito variadas. São em primeiro fricções que consistem em attrictos mais ou menos rápidos e variados em affloramentos, «passes», roçar de leve a polpa dos dedos sobre a superfície da epiderme. As pressões consistem em manuzear e ésfregar mais ou menos, energicamente um musculo ou uma região que se quer excitar. Si as pressões são dôces, produz se um embotamento, cócegas, e titillações. Póae-se em alguns casos empregar a fricção energica, malacbações, beliscar mais ou menos profundamente os musculos, percutindo algumas vezes por pancadas seccas dadas, ora com a borda cubital, ora com a jDalina da mão. Empregam-se para amassar diversos instrumentos especiaes. Eu nunca me servi delles e aconselho aos meus collegas de que não façam uzo. Estes instrumentos são mais ou menos embaraçadores nas nossas operações e nem sempre estão á nossa disposição. O melhor instrumento, pois, é a nossa mão unctada de um corpo graxo: os antigos empregavam os oleos perfumados por escravos adestrados. E’ assim que melhormente se faz uma amassagem. Eu tenho ouvido de alguns médicos emittirem a opinião de que o facultativo que amassa deixa um pouco de ser medico para se approximar de creados de banho. Isto é uma heresia e sobre tudo um amor-proprio mal entendido. O medico é sempre medico desde que elle proporcione allivio ou cura, quer elle seja parteiro, amassador, electricista ou dentista. Os effeitos physiologicos da amassagem são vários: actúa sobre a pelle, musculos, circulação systema nervoso e nutrição. A massagem limpa os orifícios das glandulas sudoríparas e sebaceas, e produz um funccionamento mais regular da circulação, e da eliminação das toxinas. Ella augmenta a contracção dos musculos e exerce nova acção tónica sobre os nervos. Baratey attribuio-lhe um effeito magnético e que deu o 53 nome de neurisação; os «passes» magnéticos têm uma acção incontestavelmente eflicaz em certos casos de nevropathia. V. —KinéSitherapía.— Os exercícios musculares, convenien- têmente escolhidos, activam a circulação sanguínea, accrescem as trocas respiratórias ampliando e accelerando o jogo dos pulmões, excitam os orgãos secretorios e elevam a nutrição geral dos tecidos. De outra parte, provocando contraeções dos musculos das paredes abdominaes, produzem uma especie de amassagem dos orgãos contidos nesta cavidade, o que pode facilitar a circulação das matérias que elles contêm. Mas será necessário que a moral resinta-se do effeito hygienico e salutar desta medicação que deverá sempre ser recreativa, e que os exercícios variem com o gráu da asthenia muscular do neurasthenico, e que sejam sabia- mente dosádos para provocar uma reacção e não o esgottamento. VI. Climatotherapía . — Para onde se devem enviar os neurasthenicos que estão dispostos a deixar o meio em que contrahiram o mal? Sua sensibilidade ás influencias atmosphericas, aos frios rigorosos como aos calores excessivos, reclama clima temperados: eu estou convencido que são os meios os mais racionaes, os maÍ3 poderosos, e, em summa, os mais fieis para vencerem a moléstia de Beard. Durante o verão uma temporada no alto das montanhas é sempre indicado e salutar. Com effeito, a vida nos altos planaltos accelera a nutrição de uma maneira surprehendente. Os trabalhos de Viault, de Egger, têm demonstrado de que um homem que, na planície tem 5.500.000 de globulos, passa a ter 7.000.000, em alguns dias, quando esteja numa altitude de 1.800 metros. Não ha senão um inconveniente, é de ser possível somente para certas pessoas, em azadas condições de fortuna e de desoccu- pação (são os felizardos da vida!) que têm todos os momentos do anno, disponíveis! Si de uma parte sua acção estimulante e tónica sobre os centros nervos, sobre as grandes funcções da economia, a respi" ração, a circulação e a digestão, o clima da montanha de outra parte tem uma acção eminentemente sedativa e calmante. A extensão e o esplendor dos horizontes, a calma das auroras e 54 dos crepúsculos, o silencio das noites, tudo isto, amenisa o erethismo do systema nervoso. As noites passadas no alto das montanhas deixam uma lembrança deliciosa em nossas almas. Qual o neurastlienico que nos cimos do Corcovado, nos altos das Serras dos Órgãos, não poderá exclamar? «E eu amo as fiôres e o dôce ar mimoso Do amanhecer da serra O céo azul e o manto nebuloso Do céo de minha terra!» Eu por mim tenho contemplado a esses espectaculos mara- vilhosos da natureza, e talvez sejam as alegrias as mais serenas e gratas da minha vida. O mar também é uma berceuse que faz adormecer os mais irritados. O murmurio monotono de suas vagas é como um cançãos tão calmante algumas vezes, como a cantilena do vento nos pincaros das montanhas. Uma estação balnear dá muito bons resultados nos indivi- duos attacados de esgottamento nervoso em consequência de fadigas intellectuaes excessivas ou physieas, e, de uma maneira geral, em todos os casos em que os phenomenos de erethismo ou de excitação se patenteiam e onde predominam os symptomas de langor e fraqueza, taes como a asthenia muscular, inaptidão ao trabalho e preguiça das funcções digestivas. Aos neurasthenicos arthriticos hyperesthesicos, nos quaes o esgottamento nervoso se complica de manifestações hystericas, os quaes estão sujeitos á crises de anc.iedade, aquelles que estão debaixo de uma depressão moral intensa e que, habitualmente, apresentam uma grande tendencia á melancholia, é uma má indicação uma estação balnear. Os primeiros, porém, devem se installar numa praia tran- quilla, longe da moda, do theatro e dos cassinos. Para alguns auctores as grandes altitudes são contra-indi- cadas nos casos de moléstias do coração e dos grossos vasos, será por isso necessário examinar-se convenientemente o doente, e 55 conhecer-se bem o estado do seu apparelho circulatório antes de ser mandado para alguma região elevada. Estes indivíduos affectados do coração ou dos grossos vasos, quando se acham em logares altos são acommettidos dos sympto- mas de anoxihemia, sendo notáveis com insistência: a tacliycardia e a insomnici. Estes neurasthenicos, desde que se achem numa certa alti- tude, sentem uma grande oppressão ao menor exercício, palpi- tações que a maior parte das vezes, persistem mesmo em repouso. Nestes casos deve-se prescrever o repouso quasi absoluto nos quinze primeiros dias, durante os quaes a aclimação talvez se estabeleça; em caso contrario o doenté deverá ir para um loga.i menos elevado. Quando ha iusomnia, os exercícios forem demasiados, e si ella persistir apezar do repouso, é prova evidente de que a atti- tude deve ser ainda diminuída. Vários são os caracteres climatéricos das regiões elevadas. Io—A temperatura relativamente baixa. 2o—A pressão atmospherica diminuída*. 3o—A radiação solar mais viva. 4°—Estado relativamente mais sêcco do ar. 5o—Pureza do ar. Damos sempre preferencia aos logares elevados no trata- mento da neurasthenia. As planícies nada têm que as recommende para o tratamento dos esgottados, a não ser quando houver a visinhança de alguma floresta e um bom estado hygrometrico do ar. Desde que o doente não possa por qualquer circumstancia fazer o seu tractamento num clima montanhoso, procuraremos um, mgar plano, nas margens de algum lago, ou, como já o dissemos- na visinhança de uma floresta. As viagens continuas não trazem grandes effeitos; ellas can çam o doente tanto no physico como no moral. Ellas só devem ser indicadas no periodo de convalescença e, simplesmente, como complemento de cura. VII. Dermotiierapia.— Têm se uzado no tractamento da 56 neurasthenia as injeeçóes hypodermicas do liquido de Brown- Séquard. Eu empregava, na minlia modesta clinica de estudante, até o anno de 1905, o extracto testicular ou orcLitico de Chaix e estes productos opotlierapicos nunca satisfizeram bem as minhas experiências. Do anno de 190G, no entanto, para cá tenho me utilisado do sueco de substancia cinzenta do cerebro de carneiro, e os resultados têm sido magnificos. Este liquido preparado pela primeira vez, em 1892, por Constantin Paul, é uma solução ao decimo de substancia cinzela de cerebro de carneiro, esterilisado pelo acido carbonico no apparelho de Arsonoal. Esta solução é injectavel no tecido cellular sub-eutaneo dos flancos ou dos lombos, na dose de 3 á 5 centimetros cúbicos. E’ perfeitamente tolerada e não provoca nenhuma reacção, nem local, nem geral. Excepcionalmente é que se produz um pouco de engorgita- mento lymphatico, que desapparece em geral depois de tres ou quatro dias, sete no máximo. O primeiro effeito resentido pelos doentes é uma sensaeção de força e de bem-estar; aamyosthenia e a impotência muscular diminuem rapidamente. As dôres verte- braes e a hyperesthesia espinal desapparecem como que por um encanto após algumas injecções. A impotência cerebral desapparece por seu turno, a intelli- genjia torna-se mais viva e a memória, mais illuminada. Os doentes recobram o appetite, e, si eiles são anteriormente dyspepticos, sua nutricçâo melhora consideravelmente, haja vista o augmento rápido de seu pêso. Quanto á impotência sexual, ha uma melhoria considerável. Os Snrs. Chalard, Vigier, preparam actualmente capsulas ovaricas (dosadas a 0, 20 eéntigr.) e cápsulas arcliiticas (dosadas á 0,30 centigr.) que, tomadas na dose de 2 á 6 por dia, dão os melhores resultados. Esta medicação em certos casos, ó muito mais vantajosa que a dermica. Quando ha amyasthenia com hypotensão arterial, excesso de acido urico, asthenia genital, tristeza, depressão geral, em uma 57 palavra, as injecções hypodermicas. de soluções salinas concentra- das podem dar bons resultados: Iujecta-se todos os dias ou de dois em dois dias 50 a 100 graminas de solução a 7 por 1.000. Póde-se também iujectar de tempos em tempos um ou dois ceutimetros cúbicos da solução seguinte de M. de Fleury. Sulfato de sodio Clilorureto de sodio Pbosphato de sodio â â 1 gr. Acido pbenico nevoso 0,50 centigr. Agua distillada esterilisada 100 gram. YIII Tractamknto medicamentoso.—Nosso arsenal tbera- peutico que se toma emprestado á cbimica se limita a muito poucas cousas. O bi-carbonato de sodio e os laxativos e babitual- mente os frescos; mas raramente nós nos auxiliamos, para com- bater algum incidente episodico, da antipyrina, a quinina, valerianato de cafeina, e valerianato de ammoniaco. Os tonicos, pelo contrario, devem sempre Ser empregados e têm muitas vezes a mais feliz influencia : O acido pbospborico (em limonada pbospborica Horsford’s), os glycero-phosphatos, e em particular o glycero-pbosphato de cálcio, são excellentes reconstituintes que têm a vantagem de ser facilmente tolerados. Póde se, por exemplo, prescrever uma ou duas colheradas de café de glycero-phospbato granulado (Dalloz), a tomar pela manbã e á tarde, num pouco de leite. Têm-se feito também excellentes preparações em que se associa o glycero-pbospbato ao iodo e ao tannino. Acba-se também no commercio glycero-phospbatos efíêrves- centes de cálcio, sodio, ferro e litbina. Estes medicamentos são emiuentemente recommendaveis: são de um gosto agradavel, pois que elles só têm assucar, por isso que se os absorve facil- mente e sem repugnância; demais, elles favorecem a digestão. Existem, emfim, preparações associadas de glycero-pbospbato de cálcio e ferro effervescentes. Sua combinação organica com acido 58 carbonico nascente facilita sua «assimilação; a presença do citro- tartrato de sodio evita a constipação. Os cacodylatos de sodio e de ferro podem também ser en- saiados; mas eu prefiro o methylarsinato disodico, e em iujecções hypodermicas, pela conveniência de não eommunicar o saber alliaceo á bôcca, como sob a fórma de gottas ou perlas. O oleo de figado de bacalhau convém pouco aos neurasthe- nicos. Seu odôr nauseabundo e seu sabôr repugnante não o per- mittem tolerar; e, mesmo porque o estomago de um neurasthe- nico é raramente apto a digerir os corpos graxos. Preparam-se, no entretanto, vinhos e xaropes tendo por base extracto de figado de bacalhau que não (êm nem sabôr nem odôr desagradaveis. Estas preparações contêm todos os princípios activos do oleo dê figado de bacalhau: iodo, phosphoro, chloro. bromo, etc. Sob esta forma elles podem ser prescriptos aos neurasthenicos, geral- mente, em via de cura. O phosphureto de zinco, em razão de suas propriedades toní- estimulantes do systema-nervoso, é particularmente indicado contra a fadiga das cellulas cerebraes; facilita a producçào do trabalho intellectual e permitte augmento passageiro. Póde-se prescrever da maneira seguinte: Phosphureto de zinco em pó fino. . . . 0,80 cent. Pó de alcaçuz 1,90 » Xarope de gomma 0,30 » Mande para 100 pilluias, 1 a 5 por dia. 0 arseniato de strychinina por sua acçâo vaso-motora res- tabelece o equilíbrio da circulação; pelo augmento da quantidade do sueco gástrico e excitação dos movimentos do tubo gástrico, combate as perturbações dyspepticas; por suas propriedades tónicas e estimulantes, remedia a fadiga cerebral assim como a depressão causada pelo excesso de desnutrição; pela actividade dos phenomenos de eliminação, elle contribue a varrer da economia, completamente, os productos de desassimilação. Prescreve-se na dose de uma a cinco pilluias por dia, dosadas a um milligramma. Contra os phenomenos dolorosos da neurasthenia não convém 59 nenhum tractamento medicamentoso: nem a antipyrina, nem a pheuacetina, nem a acetanilide, nem exalgina, nem o pyramidon, nem, os mais poderosos calmantes da dôr convêm aqui. Os grandes remedios para estas dôres são: a massagem, ou mellior ainda, o banho estático com localização do eftiuvio sobre o ponto affectacio. Os reconstituintes da tonicidade nervosa.rareiam a frequên- cia dos momentos dolorosos, que voltam de preferencia com a approximação do frio, da tempestade ou da chuva. Aqui ainda os agentes physicos valem melhor do que as drogas. * Contra as perturbações do somno, eu sou da opinião do Sr. professor Pouchet e com elle muitos neuralogistas e os mais eminentes, em considerando que ha serias desvantagens na pro- vocação do somno dos neurasthenicos por meio do sulfonal ou de seus similares, do chloral, da chloralose, urethana ou extracto de canhamo indiano, por isso que abandono pouco e pouco estes agentes chimicos, quando o doente começa a melhorar. Demais, os nevropathas adquirem o habito de não mais dormir a não ser com drogas e depois, como Pouchet, ainda, affirmo não crer na innocuidade dos hypnoticos e dos anesthesicos; é verdade que não ha agentes chimicos que possam provocar o somno sufíicien- temente senão por intoxicação, e isto é o quantum satis para se os repudiar. Esta agrypnm cura-se pelos processos geraes já mencionados e que ora repetimos: a lavagem permanente do sangue pelo re- gimen lacteo-vegetariano e os diuréticos e os laxativos e os agentes sudorificos, tudo emfim o que faça eliminar, produz um somno sereno e regular, processo que ficaremos usando até que o doente não seja mais infiel ao seu regimen. Contra as perturbações dyspepticas tão frequentes quão variadas nos neurasthenicos (que já tivemos occasião de tractar anteriormente com alguma minudencia), principalmente si as digestões são lentas, penosas, por causa da insuffíciencia da secreção, prescrevêm-se a pepsina,. a pancreatina e tinctura de noz-vomica, com muito bons resultados. Contra as perturbações circulatórias, supprimir toda a causa da fadiga, segurar bem o funccionamento do estomago, não lhe 60 permittindo senão alimentos de fácil digestão, prescrevendo refeições sem bebidas, tornar liquido sómente nas horas em que o estomago estiver vasio, e com prudência; luctar sempre pela liber- dade do ventre e da diurese, manter aberta a circulação peripberica: Para isso empregaremos os processos geraes já mencionados e como auxiliares cliimicos, as preparações de valeriana, valeria- nato d’ammoniaco e valerianato d’amylo notadamente. A neurastbenia genital necessita de um tractamento todo par- ticular, tractamento psycbico destinado a melhorar o estado mental do neurastlienico sempre profundamente alterado, tractamento medicamentoso ou hygienico destinado a melhorar o estado pli$- siologico do apparelho genital. , E’ pelo tractamento psychico que é necessário começar, pois, muitas vezes, as perturbações physiologicas estão sob a depen- dencia do estado mental. Com efíeito, estes doentes, dizem Proust et Ballet, «são constantemente abatidos; seu espirito é dominado por um sentimento de inferioridade humilhante, e sua tristeza mistura-se de alguma vergonha. Masturbadores, elles se julgam incapazes de renunciar seus hediondos hábitos: cahiram na neur- asthenia por terem abusado em demasia dos prazeres sexuaes, são attacados de impotência relativa e se consideram ameaçados de perda irremediável da virilidade, ou bem ainda d’uma moléstia incurável da medulla espinhal; as perdas seminaes, os corrimentos do liquido prostalico aos quaes elles são frequentemente sujeitos, os affectam vivamente; uns imaginam que estas evacuações os deprimem; outros que ellas têm por origem grave lesão dos orgãos profundos e, quando estes syndroinas se desenvolvem nos jovens que estão mais ou menos prestes a se casar, a derrota moral que se estabelece é completa. O medico deve se esforçar para tonificar estes doentes, lhes explicar que as perturbações fun- ccionaes de que elles soffrem são perfeitamente curáveis, lhes fazer comprehender a parte que toma sua disposição de espirito, suas preoccupações mentaes no desenvolvimento e na manutenção destas perturbações. A impotência relativa que acompanha por vezes os plienomenos de excitação no periodo inicial é de ordem psychica; é necessário animar estes individuos lhes dizendo que são capazes, quando elles estiverem sós, de provocar a erecção, e 61 que a causa de sua impotência, no momento do coito, reside sobretudo no temor e na agitação nervosa com os quaes elles abordam o acto genital.» O terreno psycbico assim preparado, poderão manter com successo o tractamento das perturbações genitaes com suas pró- prias mãos. Contra os symptomas de excitação provocando as erecções e as polluções nocturnas, é mister supprimir todas as causas eróticas desta excitação. Si o doente se masturba, deverá usar de todos os meios para debellar este pernicioso habito. Vedar-se-ha a esta variedade de neurasthenicos: a equitação, os excessos intellectuaes, o álcool, o café, a dormida prolongada, etc. A ducha quente ó indicada nestes casos, assim como os semicupios em primeiro temperados, depois frescos, e posteriormente frios. Winternitz tem preconisado contra a espermatorrhéa e atonia dos orgãos genitaes, o uso do psycroforo. E’ uma especie de catheter metallico de dupla corrente permittindo submetter a região prostatica da urethra á acção do frio. Este catheter é fechado na extremidade urethral e bifurcado na outra extremidade. Faz-se circular através da sonda collocada no seu logar uma corrente d’agua de 18 gráus, cuja temperatura abaixa-se progressivamente até 12 ou 10 gráus. A duração da irrigação é de oito a doze minutos. As primeiras applicações são em geral mal supportadas, mao o habito não tarda a se estabelecer e obtêm-se por este processo excellentes resultados. PROPOSIÇÕES Cliimica medica I O Pliosphotal ou phosphito neutro de creosota é um mistura de etlieres pliospliorosos de pkeuóes da creosota, obtido pela acçao do tri-cklorureto de pkosphoro sobre a creosota cm solução alcalina. II E’ um liquido amarello, avermelhado, viscoso, cujo odôr lem- bra, muito atteuuado, o da creosota, e cujo sabôr é quente sem ser cáustico. . III O Pliosphotal contem 9, 5 °/u de phosphoro em estado de acido pkosplioroso, combinado a 90 "/„ de creosota. Historia natural medica I # O protoplasma é uma matéria albuminoide muito semelhante á clara do ovo, formado principalmente de carbono, de liydrogeneo, de oxygeneo e de azoto. II Elle é a sede de todos os phenomeuos vitaes e a origem de todas as substancias vivas. III A cellulas animaes e vegetaes encerram protoplasma. (í .a cadeita) I A narcolepsia ó uma necessidade mórbida exagerada de dormir. Clinica medica 64 II Neste caso, não lia 'somno reparador, como se dá normal- mente. III Muita vez este symptoma earacteriza o estado morbido que se denomina, moléstia do Somno. Arte de formular I A intensidade de acção de um medicamento depende da quantidade que em um momento dado, se encontra no sangue. II A actividadc circulatória facilita a absorpção dos medica- mentos. III As iujecções hypodermicas são indicadas quando queremos obter effeitos rápidos. Anatomia descriptiva I No cerebro a substancia parda se encontra na peripheria e no centro. II A substancia parda central é disposta de modo a constituir os núcleos ou ganglios encephalicos. lã Todo o enceplialo é irrigado por quatro grossos troncos arteriaes: as vertebraes e as carotidas primitivas. Therapeutica I As duchas são columnas de diâmetros determinados, de 65 liquido, gaz ou vapor, lançadas duma marcada altura, sobre uma ou mais partes do corpo. II Elias são geraes ou locaes, as primeiras exercem sua acçào sobre quasi todo o tegumento, excepto a cabeça; as segundas são dirigidas a uma determinada parte do corpo. III As ducbas frias de curta duração são as mais empregadas no tractamento da moléstia de Beard, Physiolcgia I Os capillares são vasos que ligam as artérias ás veias. Ií O curso do sangue nos capillares é continuo e uniforme. III A pressão sanguinea nos capillares é muito difficil de ser medida. Histologia. I Foram Magendie e Carlos Bell que descobriram as pro- priedades pliysiologicas das raizes rachidianas. II As raizes posteriores são conductores centripetos. III As raizes anteriores são conductores centrífugos. 66 Bacteriologia I A tuberculisação é o resultado da infecção de um ou mais tecidos pelo bacillo de Koch. II Este bacillo é immovel e tem a forma de um pequeno bastonete, de comprimento egual a um terço dum globulo san- guineo. III As lesões produzidas por este germen no pulmão de um neurasthenico, são de consequências irremediavelmente fataes. Anatomia medico-cirurgica I Não é raro verííicar-se um processo mo rbido do testiculo denominado varicocele. II Dorliat insiste sobre a influencia da varicocele como factor de neurastbenia. III A atropliia do testiculo, tão frequente na varicocele, é também, uma das complicações, a mais propicia para prolongar a neurastbenia no doente. Operações e Apparelhcs I A puncção lombar do Quincke, ou racbiceutese de Marfan é uma operação que tem por iim retirar liquido do espaço sub-aracliinoidiano. 67 II Serve-se para esta opera .ão de uma agulha de aço de oito a dez centímetros de comprimento e de um millimetro de diâmetro. m O ponto preferido para a operação é o espaço lombo-sacro. Pathologia medica I As vísceras do abdómen podem se deslocar devido a uma relaxação dos ligamentos suspensores. II O deslocamento de uma viscera chama-se ptese visceral, que é muito commum na neurasthenia. Iil F. Glenard foi quem primeiro fez este estudo. Pathologia cirúrgica I Em uma mulher gravida a acçào de um traumatismo acciden- tal varia conforme sua intensidade, sua sede ou se é acompanhado de complicações. II Quanto mais a região que soffre o traumatismo é afastada dos orgãos genitaes, menos a sua acção se faz sentir sobre a gravidez. III A gravidez não influe sobre a cicatrísação de uma ferida mas retarda muitas vezes a consolidação de uma fractura. 68 Clínica obstétrica e gynecologica. I As paralysías dos recem-nascidos são numerosas e de pro- gnostico variavel. II Elias podem ser de origem peripherica ou de origem central ou cerebral. III O tratamento das paralysias obstétricas comporta o empre- go da electricidade e dos meios ordinários. Clinica cirúrgica ( i.a cadeira ) I Os tumores intra-craneanos sâo de varias especies. *1 A importância do seu estudo está na localisação dos mesmos. III O tratamento póde ser medico ou cirúrgico. Clinica cirúrgica (2." cadeira) I A intervenção operatória nas afíecções visceraes do abdó- men, constitue uma das mais bellas conquistas da cirurgia moderna. II Em todos os orgãos. contidos no abdómen, póde se exercer a Ecção beneficiadora da cirurgia. 69 III E’ necessário que todo o medico se convença de que a laparotomia é uma das operações mais inócuas. Clinica propedêutica I A faseies do doente, tem, muita vez, em propedêutica, uma importância capital. II A tal ponto que, o medico pode, em alguns casos, somente inspirado por ella, formular um diagnostico verdadeiro. III Isto nào quer dizer, entretanto, que o medico só se deve contentar com o exame da faseies, porquanto ella muitas vezes engana e tanto mais quanto o medico tem obrigação de utili- zar-se de todos os meios propedêuticos no exame do doente. Hygíene I U ar exerce um papel importantíssimo em hygíene. II E’ com o auxilio de um ar puro, que o homem pode luctar mais efficazmente contra a maioria das moléstia de nutrição e muito especialmente contra este grande flagello do século, que é a neurasthenia. III . Vários são os caracteres climatéricos das regiões elevadas: Io A temperatura relativamente baixa. 2o — A pressão atmosphe- rica diminuída. — 3o Irradição solar mais viva. — 4o Estado relativamente mais sêcco do ar. — 5o Pureza do ar. 70 Medicina legal e Toxicologia I * 0 estudo das manchas tem valor 11a medicina legal. II As do sangue podem ser pesquizadas pelos seus caracteres physicos, chimicos e micro-chimicos. III A fluidez, do sangue é um dos signaes caracteristicos da morte por submersão. An&tomUx e Physiologia Patológicas I A ídéa fundamental de Virchow sobre a anatomia patholo- gica era a seguinte: todo o processo pathologico tem por base as modificações anatómicas das cellulas e de suas derivadas. II Conhecer a cellula é penetrar no segredo da vida normal e da vida pathologica. III Rudolf Virchow, em 1858, creou a patho’ogia cellular. Çlinica Ophtalmologica I Nos casos de iieurasthenia não se nota a desigualdade pupilar. II Notam-se alternativas de mydriase e myosís; III Obseiva-se uma sorte de astbenopia neurasthenica ou melhor uma especie de hyperesthesia da retina que lhe faz dar a denominação de olho irritável: são as phosphenas. 71 Clínica dermatológica e syphíligraphica I A. Fournier admitte a existeucia de uma sypliilis neuras- thenica e que elle descreve dois typos: li Um typo frusto, muito frequente, que é o da cephaléa neurasthenica; III Um typo mais completo, muito mais raro, que seguudo a predominância dos symptomas cerebraes ou medulla''es, constitue o que se chama a eerebrasthenia ou a myelasthenia. Obstetrícia I Os signaes da prenhez são fornecidos pelos organismos fetal e materno. II Os signaes dividem-se em prováveis e de certeza. III O signal de certeza é a pulsação do coração fetal. Clinica medica ( 2.a cadeita) I E’ muito commum, entre nós, a ankylostomiase. II Passa como sendo o seu inellior tratamento, o emprego do tliymól. III A dose ordinariamente empregada, é de fi grammas por dia. 72 Clinica Psychiaírica e de Moléstias Nervosas I A neurasthenia é uma nevróse. II Em certos casos ella evolúe com a hysteria. III Existem duas variedades de neurasthenia: a verdadeira e a constitucional. Clinica Pediátrica I A neurasthenia é rara na creança. II Uma educação, porém, mal dirigida póde ser causa occasio- nal do apparecimento da moléstia. III Neste caso, é quasi sempre hereditária. VISTO Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, em 31 de Outubro de 1908. \ 0 Secretario, Dr* Menanãro dos Beis Meirelles.