Faculdade de Medicina da Bahia TIÍESE APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 31 de Outubro de 1S>10 PARA SER DEFENDIDA POR /t# da S/ttâa a o» 2° Tenente Pharmaceutico do exercito NATURAL DO ESTADO DA BAHIA Filho legitimo de Geraldo Pereira da Silva e I). Anna Maria da Silva (fallecida) AFIM DE OBTER 0 GKÁO DE DOUTOR EM MEDICINA DISSERTAÇÃO CADEIRA DE HYGIENE Alimentação ílo soldado PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas Typ, do Salvudor—Catliedral 1910 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Director—Dr. AUGUSTO" C. VIANNA Vice-Director—Dr. MANOEL JOSE’ DE ARAÚJO LENTES CATIIEDRATICOS OS DRS. MATÉRIAS QUE LECCIONAM l.a SECÇÃO Carneiro de Campos Anatomia descriptiva. Carlos Freitas ' • . Anatomia medico-cirurgica. 2.a Antonio Pacifico Pereira Histologia normal. Augusto C. Vianna Bacteriologia. Guflherme Pereira Rebello .... Anatomia e Physiologia pathologicas. 3. a Manoel José de Araújo Physiologia. José Eduardo F. de Carvalho Filho . Therapeutica. 4. a Luiz Anselmo da Fonseca .... Hygiene. Josino Correia Cotias Medicina legal e Toxicologia. 5. a Antonino Baptista dos Anjos . . . Pathologia cirúrgica Fortunato Augusto da Silva Júnior . Operações e apparelhos. Antonio Pacheco Mendes Clinica cirúrgica 1.» cadeira. Braz Hermenegildo do Amaral . . . Clinica cirúrgica 2.a cadeira. 6. Aurélio R. Vianna Pathologia medica. João Américo Garcez Froes . . . Clinica Propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho . . . Clinica Medica 1.» cadeira Francisco Braulio Pereira .... Clinica Medica 2.» cadeira 7. A. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria medica, Pharmacologia e arte de Formular José Rodrigues da Costa Dorea . . Historia natural medica. José Olympio de Azevedo .... Chimica Medica. 8. a Deocleciano Ramos Obstetrícia. Climerio Cardoso de Oliveira . . . Clinica obstétrica e gynecologica. 9. a Frederico de Castro Rebello . . . Clinica pediátrica. 10. a Francisco dos Santos Pereira . . . Clinica ophtalmologica. 11. a Alexandre E. de Castro Cerqueira . . Clinica dermatológica esyphiligraphica. 12. a Luiz Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de moléstias ner- vosas ÍSTcSS.1?*; : : : *»**-««»**. LENTES SUBSTITUTOS OS DOUTORES José Affonso de Carvalho . . l.a Gonçalo Moniz Sodré de Aragão . ( 2.a Julio Sérgio Palma ( « Pedro Luiz Celestiuo .... 3.a Oscar Freire de Carvalho . . 4.a Caio O. F. de Moura . . . . 5.a Clementino da Rocha Fraga . . 6.a Petlro da Lu/, Carrascosa e . . J. J. de Calasans . • . . 7.* J. Adeodato do Sou/.a . . . .8.» Alfredo Ferreira de Magalhães . 9.* Clodoaldo do Andrade . . .10. Albino Leitão 11. Mario Leal 12. Secretario—Dr. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-Secretario Dr. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade não approva nem reprova as opiniões exaradas nas thescs pelos seus auctorei ANTES DE COMEÇAR fjkARGO c o campo e pequeno o obreiro, mas com a tenacidade que me caracterisa e o desejo de bem servir a classe a que pertenço, irei pouco e pouco procurando desbravar a estrada por onde hei de guiar meus passos embora entre cardos e espinhos. Filho do trabalho, só ao trabalho devo a felicidade da satisfação deste sonho. Estudo por amor a sciencia e a caridade, e por menos que as possua em servil-as está toda a minha ventura. Não me surprehendem as alegrias deste instante, pois grandes foram os dissabores e tornados maiores ainda, para quem não torce a consciência e não se deixa subjugar por insinuações de quem quer que seja. « / Foi o desejo de contribuir com exiguos conhecimentos, colhidos durante seis annos de tirocinio académico e dez de vida militar, a custa de meu modesto esforço aos estudos da hygiene militar no nosso paiz, que me suggerio dissertar sobre a alimentação do soldado, assumpto ainda não estudado no nosso meio e, evidententemente de summa importância. II Sei perfeitamente que no nosso glorioso exercito existe médicos de valor intellectual e hábeis pelo seu saber, illustração e verdadeira abnegação pela causa santa do dever, mas nem por isso poderá ser levada a mal a ousadia deste tosco trabalho, cujo unico intento é, repito, contribuir ainda que com pequeno subsidio, para o bem estar do soldado brazileiro, e não só do soldado, mas de todos quanto commungão o mesmo fim que é a inte- gridade da Patria Brazileira. Em virtude das suas condições e organisação, o exercito como é natural que tem sua pathologia, variavel até em tempo de paz e em tempo de guerra, deve ter também sua hygiene própria. E nem é preciso exaltar o valor que nas regras dessa hygiene especial devem ter as referentes a alimenta- ção. Da má alimentação do soldado provirá quando nada, o enfraquecimento das suas qualidades de resistên- cia que devem ser essencialmente cultivadas e melhoradas em meios militares, si ao alimento insufficiente ou mal escolhido se não vier juntar a contaminação microbiana III causadora de numerosas perturbações, mais ou menos duradouras dos orgãos digestivos ou outros da economia humana. Sabem todos os graves distúrbios produzidos no apparelho digestivo e, por contra golpe, no organismo em geral pela impropriedade e má escolha dos alimen- tos, pela inobservância ou esquecimento de boas regras da hygiene alimentar. O ponto é por si tão evidente que dispensa commen- tarios. Comprehendendo a importância do problema, e tendo praticamente a prova da necessidade de se cuidar delle, abalancei-me a dissertar sobre elle, fazendo o objecto de minha these. Mas em tempo, é bom que insista nas linhas que se seguem não existem pretenções, e que não me illude falsa noção de minhas fraquezas. Esta these proveio da necessidade de cumprir um dever imposto pela lei, e também contribuir nos limites das minhas energias para melhorar as condições do sol- dado brasileiro, segundo as orientações daquelles que IV professam com verdadeira abnegação a classe militar, e que nelle reconhecem attributos de grande valor nos destinos do nosso amado Brazil. Peço aos mestres toda benevolencia, porque nesta tareia, que considero superior as minhas forças, quasi que me achei só. Dito isto, devo assignalar que por amor ao methodo dividi o assumpto em 4 capitulos assim descriminados: considerações geraes, Capitulo I; alimentação em tempo de paz e na guarnição, Capitulo II; alimentação em tempo de manobras e em campanha, Capitulo III; estudo comparativo dos regimens alimentares dos principaes exercitos extrangeiros com o nosso , Capitulo IY. DISSERTAÇÃO CADEIRA DE HYGIENE Alimentação do soldado CAPITULO I Considerações geraes 9 nação contrahecomo indivíduo chamado ao serviço militar obrigações, entre as quaes não é de somenos im- portância a de alimental-o* mas não tão somente ali- mental-o, bem alimental-o. Não é preciso demonstrar que a bôa alimentação do soldado, só traz vantagens para o exercito. Em primeiro lugar, a bôa e racional nutrição, mantendo Íntegros os meios naturaes de resistência e defesa do organismo, em ultima analyse redundará em diminuir o numero de mo- léstias ao meio militar. Mas não é tudo. A influencia do estado physico sobre o psychico do homem nos está a avisar de quanto influirá uma bôa e bem orientada alimentação sobre a disciplina militar e sobre as vantagens que com ella tem a instrucção do exercito. Em verdade satisfeitas as necessidades organicas, bem nutrido, o soldado será mais alegre, melhor disciplinado e muito mais aproveitará a instrucção que lhe fôr minis- 2 trada, confirmando a sabedoria do velho adagio que diz: ventre faminto não tem ouvidos. Grandes e notáveis generaes, guiados pela observação constante e rigorosa destes factos e pela pratica da guerra confirmam em termos precisos e sensatos as vantagens de uma bôa alimentação do soldado. Frederico, o grande, em suas instrucções aos generaes, dizia com muito acerto: « Quando se quer ter exercito é preciso começar por se occupar de seu estomago. » O Marechal Moltke dizia também : «Em campanha nenhum regimen alimentar é.muito custoso, â excepção do que é máu. » Yauban affirmava: « A arte da guerra não seria nada sem a de subsistir. » O soldado mal alimentado não poderá ter o vigor e a energia necessários para satisfazer ás exigências do serviço, além do que o moral se ressente dessa insufficiencia ou impropriedade da alimentação fornecida i • E’ necessário equilibrar as energias que se gastam for- necendo uma alimentação sadia e sufficiente. Além de cumprir um dever imposto pela obrigação contrahida, é de todo vantajoso que a nação se preoccupe muito com a alimentação do soldado. Considere-se que as nossas perdas e gastos de energia não forem devidamenie compensados, o gradual enfra- quecimento orgânico e até a plena miséria physiologica 3 virão, com o cortejo de moléstias que os acompanham, incapacitar do serviço numerosos indivíduos uteis á defesa nacional. Por isso merece do governo e de todos os militares, dos oííiciaes mais graduados até aos menos graduados, o problema da alimentação do soldado, a maxima attenção possível Sobreleva que em virtude das condições especiaes do meio militar, que cerceia em muito a liberdade do indi- víduo, não pode sempre o soldado, que vive em commum, sujeito às exigências de disciplina e do serviço, agir conforme os seus recursos; não podendo escolher sua alimentação, augmental-a, alteral-a ao seu paladar, con- forme o império de sua vontade. E assim das regras adoptadas para alimentação no exercito em que serve e a que não pode fugir está dependente a sua saude e até a sua vida. E’ preciso organisar sobre bons principios essas regras, dar-lhes a orientação que melhor convenha ao interesse da hygiene, facilitar ao soldado no referente a alimenta- ção como no mais, todo o conforto, todas as vantagens que tem na vida civil. Impõe-se, pois, a necessidade de estudar em todas as suas circuinstancias e condições o magno problema. Não é questão de boje, é questão estudada desde o momento em que se percebeo que era interesse principal 4 de um paiz moderno ter exercitos fortes e promptos para qualquer emergencia. Além disto o governo deve se preoccupar com o soldado, porque elle representa a meu ver, a peça prin- cipal na engrenagem da grande machina que é o exercito. E o valor, o rendimento, a durabilidade de uma ma- china dependem principalmente da natureza, da qualidade das pequenas peças que a constituem. Mas essas peças para que suas qualidades reaes se manifestem e melhorem, para qne produzam no conjuncto o máximo de trabalho util possivel, precisam da sua plena e absoluta integridade, precisam que os seus estra- gos ou as energias gastas pelo trabalho sejam de logo reparados. Ora, si nos perrníttem persistir no simile grosseiro embora, a peça da grande machina, o soldado, precisa para produzir o máximo de trabalho util, o máximo de resultado, de sua absoluta integridade physica e psy- chica, precisa que as despezas e os estragos causados pelo trabalho que delle se exige, sejam perfeitamente compensados. Gomo fazel-o, senão com uma alimentação sufflciente e bôa? De longa data os physiologistas vêm comparando por sua vez o organismo humano a uma machina, mais aperfeiçoada, de que quantas machinas individuaes exis- tem. A comparação embora unilateral e pouco appro- 5 ximada deixa em evidencia um ponto que convém con- signar. A qualidade do producto, o rendimento da machina, a eíficacia de seu íunccionamento estão inteiramente subor- dinados a qualidade e a suíficiencia do elemento desti- nado a íornecer-lhe a necessária energia. O mesmo se dá com as machinas organicas sendo que nellas o alimento não apresenta só o combustivel que lhes fornece a energia indispensável, mas também o elemento plástico que vae substituir em sna estructura intima as forças uzadas pela própria actividade. E’ por conseguinte questão vital para o exercito a da alimentação do soldado. Alcance maior, porém, ainda tem o problema, como os demais que concernem á hygiene do soldado, porque advirão do descuido a respeito delles consequências más para toda ordem social. Depois de terminado o serviço militar, o cidadão volta á sua antiga condição social e, si entre outras más con- dições bygienicas, na vida militar não encontrou sufficiente e sadia alimentação e assim o seu organismo resentiu-se, e se suas condições de reesistencia peioram, forçosamente continuará a soffrer os effeitos nocivos proximos ou remotos, o que poderá chegar a inutilizar-lhe o futuro, invalidal-e na lucta pela existência podendo tornal-o incapaz e até prejudicial ao meio em que vive. Para provar que não é isto exaggero de nossa imagina- 6 çao, basta considerar que findo o serviço, voltando ás suas antigas condições, profundo deverá ser o abalo soffrido pelo indivíduo, moral, intellectual, physicamente pela mudança de meio, tendo muitas vezes de reencetar a vida, de refazel-a por completo, precisando portanto de uma grande reserva de energia, de uma robusta resistência para vencer. Que será desse homem si esgotado pelo serviço militar tiver ainda de trazer, por sobre-carga à vida civil o corpo depauperado pela falta de alimentação conveniente, jus- tamente quando mais delle precisava? Mas si esse homem, solteiro durante o serviço militar obrigatorio, como se dá em geral na Europa por exigencia legal, pensar nobremente em constituir familia que será a sua prole, marcada para sempre pela inferioridade de condições physicas e psychicas dos seus geradores? São tão evidentes os prejuízos que dispensam que aprofundo-me em outras considerações a respeito. Mas é bom considerar que essa influencia da alimentação é tanto mais forte, mais decisiva quanto os indivíduos que fazem o serviço militar são em sua maioria indivíduos em via de crescimento, cujo organismo precisa de elementos bons qara realisar esse máximo de receita nutritivo que exige o desenvolvimento orgânico. Como prova de quanto a alimentação pode influir c 7 influe nestas condições, devo citar um facto que tenho observado entre nós. Rapazes, sujeitos a péssimas condições hygienicas e a influencia de uma alimentação má e inadequada pela sua extrema pobreza que antes de sua entrada para o exercito eram fracos, tornaram-se fortes e bem dispostos. São evidentemente indivíduos cujo crescimento se fez mal pelas suas condições de vida, pela falta de exercícios e pela escacez ou má qualidade de alimentação conve- niente. A questão tem entre nós ainda um relevo maior. A alimentação, é coisa sabida, deve variar grandemente com as condições individuaes, como varia com as con- dições de meio em que vive o indivíduo. Nos paizes em que o serviço é obrigatorio, os recrutas são em maioria da mesma edade, o que é de grandes vantagens, porque os organismos mais ou menos devem funccionar normal ou physiologicamente com a mesma regularidade, e pouco variarão as exigências de uma bôa conducta hygienica a aconselhar. Aqui se apresentam para o serviço homens de todas as edades, de costumes differentes e de raças diversas, elementos desfavoráveis em tudo, até na eivilisação que adoptam. Mudados subitamente para o meio militar, mal prepa- 8 rados para elles, mal aífeitos ás suas exigências, fundo será o abalo que hão de sentir. E como lhes poderá acudir a hygiene, attendendo á sua heterogeniedade absoluta «senão fragmentando-se em regras de um individualismo despresivo, nada pratico no nosso meio e nada disciplinador »? A alimentação que a um convenha, será mal adaptada a outro e assim sempre. Advogo francamente a necessidade do serviço obriga- torio, que melhorará muito o estado actual do nosso exercito attenuando uma parte dos males internos. Mas quando fôr uma realidade o serviço obrigatorio, a não ser dos indivíduos inválidos e daquelles que estão isentos pelo proprio regulamento, então as questões da hygiene do soldado, e entre ellas a da alimentação to- marão uma importância toda especial, porque abrangerá em seu seio, a saúde, o futuro de todas classes e de todo o paiz. «A hygiene para ser bem praticada, necessita ser bem conhecida. Nenhuma melhor campanha sanitaria do que aquella que attende aos interesses do indivíduo e a colle- ctividade, falando-lhes a intelligencia, dominando-os pela razão». E’ preciso que se faça a instrucção hygienica do soldado, para que as exigências em seu proveito, sendo conhecidas, sejam melhor observadas. Ella fará comprehender a rasão e a necessidade de certas medidas, que poderão apparentar arbítrio. 9 Além das vantagens que provem para o exercito suffi- cientemente instruído em hygiene, conhecedor de suas bôas normas, e observador delias na pratica, é provável que não sobrecarrega a sociedade de incapazes e invá- lidos. Ninguém melhor do que o medico militar, pode mi- nistrar regras e preceitos hygienicos ao soldado e até mesmo aos generaes. E’ de suas attribuições esse mister. Para que a hygienetriumphe em todos os seus departa- mentos, é necessário que seja comprido fiel e meticulo- samente os seu preceitos. Devo dizer que em questão de hygiene todos devem obedecer com a maior vontade, desde o official mais elevado em patente até a simples praça de pret, porque da obediência e fiel comprimento delia, virá o proveito collectivo, que é o bem estar de todos. Alimentar um homem não é tão facil como a primeira vista nos parece. E’ preciso attender as suas condições e os seus princípios, quanto mais a um exercito. O que devemos comprehender por bôa alimentação, nada mais é do que reunir todos os materiaes necessários para a conservação da vida. Todos estes elementos reunidos formam o alimento propriamente dicto. Mas não é só isto, é necessário que estes elementos satisfaçam as exigências do organismo. 10 A alimentação é bôa quando refaz no organismo as perdas constantes do trabalho e da própria vida. A alimentação do soldado depende de tres factores, que reunidos cooperam para a conservação da saude. Estes factores são : da quantidade e qualidade do alimento; do pessoal encarregado da escolha, de seu preparo e distribuição, e dos utencilios empregados para a confecção das rações. A ração.—Todos quanto se têm preoccupado com a alimentação do soldado, aífirmam categoricamente o criteriosamente, que é imprescindível e de necessidade varial-a e augmental-a, de conformidade com o esforço, a estação, o clima e o talhe do homem. E’ facil de se comprehender que um homem de estatura elevada, corpulento, deve naturalmente ingerir mais quantidade de alimentos, isto é, no estado de saude perfeita. O soldado que estiver no Estado do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catharina, aonde a temperatura no inverno è baixa, e já tendo chegado o thermometro alguns gràos abaixo de zero, deve se alimentar com maior quan- tidade de substancias azotadas, para prover as necessidades do organismo. E’ natural que nesses estados a que acima me refiro, deve a quantidade da ração de carne ser conser- vada como na tabella actual, em virtude de perder-se nos climas frios maiscalor irradiante. Na zona que abrange estes Estados e na estação fria, a transpiração pulmonar é maior 11 o que não se dá nas zonas do norte do paiz, nos Estados proximos ao Equador, aonde a transpiração cutanea é mais activada. À medida que o meio se resfria, o organismo queima mais carbono retirado dos materiaes ternários absor- vidos. Em compensação nos paizes quentes, se perde tamhem o calorico latente, pela transpiração abundantis- sima da pelle. No Pará e em Manaus, a transpiração da pelle é quasi constante, talvez pela pequena variabilidade thermica de inverno ao verão, obrigando desfarte absorver-se grande quantidade de líquidos, com o fim de instictivamente substi- tuir no organismo desfalcado do meio liquido necessário para o seu funccionamento normal. A principio o organismo se recente, porem normalisa-se com aclimatação, e todas as funcções voltam ao seu estado normal. Referindo-me a estas alterações de temperatura tenho em mira mostrar que a funcção de nutrição soílre, jus- tamente para o soldado que está sujeito a remoções cons- tantes e em nosso paiz, cujo território é immensamente vasto. Portanto a alimentação deve ser adequada a todas estas ocilações de climas. No outro extremo do Paiz, no Rio Grande do Sul, dá-se com o frio o seguinte: logo ao chegar-se lá, em tempo de inverno, pouco frio sente-se, só muito tempo depois, 12 nota-se que a sensibilidade para o frio vai augmentando. Naturalmente é o calor latente armazenado no corpo que, só muito tempo depois vai se irradiando. Para obviar a exsudação constante do norte, deve-se tomar bebidas assucaradas, aciduladas, porque o assucar além de ser um alimento hydrocarbonado por excellencia, è facilmente absorvido; é hoje muito empregado pelas suas propriedades respiratórias, nutritivas e altamento reparadoras. Nos climas quentes devem ser abolidas por completo o uso de bebidas que têm por vehiculo o álcool, o mesmo não devo dizer com os climas frios; poder-se-ha ahi dar-se em pequena dose. No nosso paiz a ração é immutavel, quer o soldado tra- balhe mais ou trabalhe menos, isto é, me refiro na guar- nição e em tempo de paz; quer seja elle de talhe elevado ou de estatura baixa, novo ou velho, gordo ou magro branco, preto ou mestiço. A ração é a mesma para todos, o que não deveria ser, porque em outros paizes ha diffe- renças quando se trata da especie do soldado; por exemplo: o artilheiro deve ter ração superior ao infante, o de cavallaria menor do que o daquelle. Accresce uma circunstancia: é ser a boia mais que sufficiente, de modo que o nosso soldado tendo appetite, se lhe dá discricio— nariamente mais um pouco da ração, porque em com- 13 pensação, outros ha que comem menos, como é natural e assim é compensado um pelo outro. O que acabo de expor, dá-se com os arranchados; os desarranchados luctam com diíficuldades, para no limite de que dispõem da etapa, se alimentar com sua familia. No caso de serem estes sobrecarregados de íamilia nume- rosa, como poderão viver? Neste ponto de vista, de dois modos se pode resolver esta questão: ou augmentando-se a etapa para os soldados casados, ou excluindo-os do exercito. Com a nova organisação do exercito não se admitte soldado casado, portanto em breve melhorar-se-ha com essa medida íelizmente lembrada. O recruta effectivamente accrescenta ao trabalho phy- sico, muitas vezes superior ás suas forças, além disso não habituado, um trabalho intellectual mais apurado e destinado a dirigir o primeiro. Desde quando os exercicios vão augmentando diariamente, a fadiga manifestar-se-ha, se incontinente as refeições não são augmentadas propor- cionalmente, para superar as perdas constantes do esforço, superior a mais das vezes, a resistência individual. Baseada nisso foi que M.me August Woll-Weiss, achou que deveria existir uma ração de estrea, e da qual depende, uma larga medida do futuro do joven sol- dado. 14 Os alimentos não devem ser acceitos sem primeiramente soffrerem um exame prévio. Este exame deve ser íeito por entendidos e scientificamente, e não mera inspecção, como se íaz entre nós. Em nosso paiz e no exercito, é o medico encarregado desse exame, que se limita a simples inspecção dos ge- neros, quando deveria ser feito com todas as regras neces- sárias para que os generos consumidos fossem na realidade de primeira qualidade. Em questão de alimentação militar ainda estamos atrazados; ha, não tem duvida nenhuma, alimentação, porem do seu valor physiologico pouco ou nada se preoc- cupavam áquelles a quem de direito lhes competia fazel-o. O brazileiro em geral se occupa mais das modas do que da alimentação. Muitas vezes os que se acham encarregados deste exame não o praticam por lhes faltar a compe- tência, e às vezes ha necessidade que os generos sejam de qualidade inferior por interesse delles, e ás vezes mancommunados com os fornecedores, para usufruirem gordos proventos, com prejuizo do soldado e do paiz. Em França, principalmente, a falsificação é em grande escalla. Desde a farinha de trigo, molhada, para pezar mais; o pão menos cozido torna-se indigesto e mais pesado. O café, logo após a torrefaeção, é humedecido, para QUALIDADE DA RAÇÃO 15 substituir pela agua o peso que lhe íoi snbtrahido antes de torrefeito. D1FFERENTES RAÇÕES A ração íoi depois de estudos praticados por physiolo- gistas e hygienistas em indivíduos de perfeita saude, e por meios de methodos experimentaes, devidida em tres especies: ração de conservação ou de repouso relativo, ração de trabalho moderado e ração de trabalho pesado. A ração de conservação ou de repouso relativo é a do homem sem occupação alguma, é a do preso sem trabalho. A ração de trabalho' moderado é a do soldado em tempo de paz e nu quartel. A ração de trabalho pesado, fatigante, é aquella do tempo de manobras e de guerra. Depois desta classificação devemos com os conheci- mentos colhidos delia, adoptar os meios mais fáceis de determinar quanto poderemos empregar das diversas especies de alimentos, proporcionalmente ás necessidades do serviço militar. E’ mister que os alimentos azotados, hydrocarbonados e gordurosos, sejam bem associados entre si, não só para produzir resultados salisfactorios, como também para que elles não venham trazer perturbações de ordem tal, que modifiquem o funccionamento do organismo. O valor thermico da alimentação para um adulto em 16 repouso, deve ser de 2800 calorias e como ração de con- servação exclusiva. Valor qualitativo da ração. —As diversas causas que são capazes de modificar os factores susceptiveis de alte- ração, relativamente ás necessidades do organismo, são : edade,pezo, trabalho e estado physiologico do homem. A edade entre nós varia ás vezes; são indivíduos que ainda não attingiram ao desenvolvimento perfeito, outras vezes são indivíduos adultos, que, tendo terminado o seu crescimento, não offerecern a resistência precisa para o fim a que se destinam, O peso também é variavel, não se podendo ao certo determinar com precisão, porém julgo que deve ser na media de 60 kilogrammas. O soldado francez tem na media 61,5 kilgs., segundo a opinião de Quetélet confirmada por Frilley. Physiologicamente as necessidades do organismo estão em proporção com o peso, embora varie de indivíduo a outro, quanto ao tamanho, á gordura ou á magreza. O kilogramma de peso vivo nem sempre é constante, porque nem todos tem estatura e peso eguaes. Depende também da alimentação, do esforço que se emprega dia- riamente. 17 Ricoux e outros resumiram no quadro seguinte : AUTORES Albumina Goeduras Hydratos de carbono Total das oalorias Yoit o Pettenkofer Commissão militar da Ba- 418 grs. fc 56 grs. 485 gre. 2995 grs. viéra 120 « 56 » 500 » 3163 » Schindler 140 » 55 » 500 » 3135 » Bucholtz 100 » 50 » 500 » 2925 » Munk e Ewald 100 » 56 » 500 » 2981 » Roth e Lex 150 » 60 » 577 » 3538 » Studenmund 115 » 54 » 551 » 3224 » Médias 120 grs, 55 grs. 516 grs. 3137 grs. A tarifa da ração do guarnição do soldado francez pode ser comparada ás determinadas precedentemente e até passa da média precitada pelos auctores. O soldado francez dispende por dia 55 calorias (3426 calorias : 61,5 kilgs.x55). Algarismo superior a qualquer traba- lhador e ao soldado allemão, embora seja o peso deste mais elevado. De conformidade com o quadro acima, julgo que devemos adoptar uma proporção de cada especie de alimento. Por exemplo: albuminoides 145 grs., gorduras 55 grs. e hydratos de carbono 500 grs. Quantas são as calorias necessárias para o bom íunc- cionamento do organismo? Os alimentos levados ao organismo, necessariamente 18 yão contribuir para o augmento do calor e este em tra- balho mechanico. São portanto o trabalho mechanico e o calor productos de forças que se egualam ou são equivalentes entre si. Quer dizer que o calor se transforma em trabalho mechanico ou o trabalho mechanico em calor. Os physiologistas têm calculado por meio de calorias, a quantidade de calor que se produz e que é necessária á conservação da vida, sendo a caloria geralmente adoptada como unidade e medida do calor, que será a quantidade de calor precisa para elevar de 0 â Io 1 kilo- gramma d’agua. A caloria que pode elevar de 0 a Io um kilogramma d’agua, também pode produzir 425 kilogrammas, isto é, elevar o peso de 1 kilogramma á 425 metros de altura. O numero 425 representa portanto o equivalente necessá- rio de calor. CAPITULO II Alimentação em tempo de paz, na guarnição 9 alimentação na guarnição deve ser de 2300 a 3300 calorias, segundo Dr. A. Monéry. O homem normal, de peso medio, deve retirar dos diversos alimentos, albuminoides, hydratos de carbono e gorduras, energias chimicas que, avaliadas em unidades de calor pelo calorimetro, varie de 2.300 a 3.300 calorias. O notável professor Armand Gautier, diz que a ração de conservação do homem em repouso absoluto deve ser no minimo de: Albuminoides 107,3, gorduras 64,5, hydrato de car- bono 407, 5, total 2639,7. Rodet calcula esses elementos em 80, para os albumi- noides, 60; para as gorduras e 300, para os hydratos de carbonos. O professor Maurel de Toulouse, admitte para os climas temperados: 90 para os albuminoides; 60 para as gor- duras e 300 para os hydratos de carbono. 20 O NUMERO DE CALORIAS CORRESPONDENTE AOS DIVERSOS ALIMENTOS DA RAÇÃO Se por exemplo tomarmos como numero medio 4 calorias por cada gramma de albuminoides, quer animal ou vegetal; 9 calorias para cada gramma de gordura e 4 calorias para a mesma quantidade hydratos de carbono, devemos ter para um trabalho inais ou menos moderado : Albuminoides 170x4= 680 calorias Gorduras 34x9= 306 » Hydrato de carbono. 521x4=2096 » Total 3082 calorias Este resultado foi obtido pelo professor Jan Plante, para a ração ordinaria e de conservação. O Dr. A. Monery, Major ajudante de 1.» classe da escola especial de Saint-Cyr, avalia que as calorias variam do seguinte modo: Em repouso 2.585. Trabalho medio 3.098. Trabalho bastante energico 3.328. Correspondendo a: Albuminoides Hydrato de Carbono Gorduras 100 grs. 400 grs. 50 grs. 110 grs. 500 grs. 56 grs. 150 grs. 560 grs. 60 grs. A ração do soldado tem sido iia muito tempo calculada sobre bases physiologicas e de accordo com as perdas de 21 energias diarias produzidas pelo soldado e do valor ener- getico dos alimentos que lhe são fornecidos. E’ um pro- blema bastante difíicil e complexo, porque une a parte scientifica a economica. Antes de tratar da ração de outros paizes, mostrarei como é feita no nosso a distri- buição de generos alimentícios. Eis a tabella de generos alimentícios que foi approvada por aviso n. 389 de 9 de Março deste anno, referente a quantidade e qualidade dos generos alimentícios que constituirão as refeições das praças, organisada de accordo com o que dispõe o art. 10 do Regulamento que baixou com o Decreto n. 2.213 de 9 de Janeiro de 1896: 22 Tabclia de géneros alimentícios Peixe salg calhào.. Queijo nat Sal Sobremesa tempero Toucinho Vinagre.. Vinho. .. Farinha . Goiabada lada.... Manteiga.. Massa par Pão Assucar br cavinho Arroz .... Azeite doc Batata... Café era g Carne fres > secc » fresc Foiião cr: ts a . . í° •* • >=•• . 05 . . . < • 2 . P- • • • b • g . o 05 . . O . "> • : c : © : : s . X? 05 c2 -s - CD ' p o. w e . : : S cp <p o H ta O . . . p- . T~ . o . . . e • . . e la • l & l < 2 o S . . • 05 • . . — C/3 W m I * ’05 • • • CD • • • i : : : b : • . • <■£> • o b O P S • • • • • & . * O ÍjC O Q O Q O o * b ãs 2: es “SB"3 s * ® ET V3 ; ~ 3 S ' " 1 1 £ 3 ts 3 5» * B a » g “ Ç» ST ÇO Unidade tc W 00 Oi o •O h** O tO O Ci IO w <1 ►*■*"*" to o O GO O CO Quantidade para -5 to cn o o o Cl O O Cl OCiOiOOONSOO uma praça Constará de pão, manteiga, café e assucar, em todos os dias, e bem assim de carne verde ou secca, alternadamente, e dos necessários condimentos para o seu preparo, sem que dahi resulte prejuízo para as refeições do jantar. ALMOÇO Nas sextas-feiras se dará bacalháo em vez de carne (200 grammas). Ia Especie— Arroz, carne fresca de vacca, farinha, massa, toucinho, batatas, sal, verduras, temperos, vinagre e sobremesa. 2a Especie—Os generos de l- es- C— pecie, substituindo-se a sopa de massa por feijão e a carne fresca por secca. 3a Es- > pecie—Arroz, azeite doce, peixe ou bacalháo, batatas, farinha, feijão, sal, touci- nho, verduras, temperos, vinagre e sobremesa. 4a Especie—Os generos de z > qualquer das outras especies. e mais carne de porco, vinho e queijo, devendo a sobremesa de fructas ser substituída por doce. Pão, manteiga, café e assucar. CEIA 23 OBSERVAÇÕES «1.» A lenha será distribuída á razão de meia acha por praça, sendo a acha de 3 kilogrammas. Quando a lenha a distribuir-se, de accordo com a tabella fôr insuífi ciente, em vista do pequeno numero de praças arranchadas, correrá por conta das economias do conselho o excesso. 2. a Os conselhos econoinicos poderão alterar as especies do almoço ou jantar, fazendo subdivisões e transposições de umas para outras, contanto que a quantidade marcada para cada dia não seja alterada. 3. a Só em caso de imprescindível necessidade, devida- mente justificada e com autorisação prévia dos inspecto- res permanentes, poderá diminuir-se a quantidade dos seguintes generos, abrangendo todos os corpos da mesma inspecção; até 5 grammas no arroz, 5 centilitros na farinha, IO grammas nas batatas, 1/2 centilitro no azeite doce, 1/2 centilitro no vinagre e 1 gramma na massa para sopa. Nenhuma redução se fará com o proposito de haver economia para o cofre do conselho. 4. a Os conselhos economicos poderão substituir uma parte da carne e do café por outra equivalente ao peixe ou herva matte, nos logares onde houver abundancia destes generos e escassez daquelles, contanto que a subs- tituição da carne não se faça todos os dias; igualmente 24 poderão substituir, quando não houver no mercado, o café em grão e o toucinho por quantidade equivalente do café moido e da banha de porco, em parte ou no todo. 5. A 4,a especie do jantar constituirá as refeições nos dias de festa uacional. 6. a Os conselhos economicos ficam autorizados a elevar a quantidade de assucar a 130 grammas e a de café a 100 grammas, afim de ser feita também a distribuição dos generos antes da revista da manhã e após o jantar, sem- pre que as economias do mesmo conselho comportem esse augmento de despeza. 7. a A acquisição do sabão, tijolo de arear, vassouras e mais artigos necessários á limpeza dos objectos do ran- cho, refeitório, cozinha e mais dependencias, se fará por conta das economias do conselho economico. 8. a Nenhuma alteração se fará na tabella que não seja de accordo com as clausulas acima estabelecidas, e, uma vez feito deverá ser levado immediatamente ao conheci- mento do Departimento da Administração da Secretaria de Estado da Guerra. 9. a Por aviso do Ministério da Guerra n. 61, de 20 de outubro de 1909, foi determinado ao inspector perma- nente da II região que faça suspender a reducção das verduras, temperos e sobremesa, cobrindo-se o excesso de despezas com as economias licitas do respectivo corpo, em solução á reclamação do mesmo inspector pedindo a 25 elevação da etapa a 1 $688 em vez de 1$484, valor fixado para a guarnição de Belém no 2.° semestre de 1909, attenta a impossibilidade de fazer-se o fornecimento de taes generos com o quantitativo de 180 réis. 10.a Em cumprimento ao despacho do Sr. General Ministro da Guerra, de 14 de dezembro findo, exarado no parecer da Contabilidade da Guerra n. 1.806, de 9, também de dezembro, e do aviso n. 61, de 20 de outu- bro ultimo, fica elevado a 380 réis o valor da ração da sobremesa, verduras e temperos para a guarnição do Amazonas, Pará, Acre e Matto Grosso.» VALOR PHYSIOLOGICO DAS RAÇÕES 0 regimen alimentar deve ser mixto, porque não se pode desprezar os tres elementos constituintes que fazem parte componente da alimentação. Os seus elementos constituintes são: albumina, gor- duras e hydratos de carbono, os quaes se associam proporcionalmente na razão de 1 de albumina, 0,5 de gordura e 4 de hydrato de carbono. Podem as substancias hydrocarbonadas ser substituídas, somente a albumina deve fixar-se no minimo em 1 gramma por kilo de peso vivo segundo Lapicque; Voit e Pettenkofer avaliam em 1,69 gr. argarismos muito rnais acceitos actualmente. De conformidade com o trabalho e com os dados phy- siologicos, podemos fazer atfui o estudo especial, e assim 26 melhor podemos avaliar se o nosso soldado é bem ali- mentado ou se alimentação corresponde a todas as con- dições da physiologia e da hygiene. Antes de realisar este estudo devo dar como exemplo a tabella abaixo, que indica a composição chimica dos diversos generos que entram na ração do soldado írancez. s RAÇÃO DO SOLDADO FRANCEZ EM TEMPO DE PAZ NA GUARNIÇÃO NATUREZA DOS AUMENTOS PARA ÍOO Albumina Gorduras Hydratos de carbono Arroz 7,00 0.90 77,40 100,00 17.30 Assucar Batatas o o 1 1 {*» 0,15 9.00 100,00 0,70 Carne Manteiga Pão 6,80 52,30 Total 36,00 110,75 247,00 RAÇÃO DO SOLDADO BRAZILEIRO EM TEMPO DE PAZ, NA GUARNIÇÃO, EXCEPTUANDO-SE CAFÉ, FARINHA, MASSA PARA SOPA, SOBREMEZA, TOUCINHO E VINAGRE NATUREZA DOS ALIMENTOS Quantidades Albumina Gorduras Hydrato de carbono Arroz 100 grs. 7,00 0,90 77,0 Assucar 130 » — — 130,0 Batatas 80 » 0,96 0,12 13,74 Carne 700 » 147,00 63,0 — Manteiga 20 » ■ — 20,0 — Pão 320 » 21,76 22,40 167,36 Total 135 » 176,72 106,42 388,10 27 Do conformidade com a tabella acima temos : Albumina ... 706,88 calorias Gorduras.... 957,78 » llydrato de carbono 1552,40 » 3217,06 Pelo calculo feito das seis especies de alimentos obtive 3.217,09 calorias, sem levar em conta a farinha de mandioca que é 0,55 centilitros, o feijão que é 0,2 litros, massa para sopa, toucinho, etc. Destas seis especies de alimentos achei 176,72 de albu- mina, 106,42 de gorduras e388,10 de hydrato de carbono. Comparados com a ração do exercito francez em tempo de paz: TABELLA DO SOLDADO FBANCEZ EM TEMPO DE PAZ Pão Carne Arroz Batatas Gor- duras Assucar Total Quantidades Grs. 1000 329=64=259 Gr. 30 Gr. . 100 Gr. 30 Gr. 10 Albumina 68 53.76 2,7 1,2 125,06 Gorduras 1 7 23,64 0.27 0,1o 30 — 60,46 Hydr. carbono 523 — 23,22 17,3 — 10 573,52 (Albuminoides 125,06X4= 500,24 Ração da guarnição • — 60,46x9= 544,14 (Hydrato de carbono 573,52x4=2.294,08 Calorias 3.338,46 Temos 3.338,46 que comparados com a nossa 3.217,06 calorias —121,40 calorias temos menos 121,40 porque não íorarn incluidas aqui a íarinha que substituo o pão e que é um dos alimentos prediletos do soldado brazileiro e do paiz pode-se dizer. 28 Pois que reunidas ás 320 grammas de pão, com os 0,55 centilitros de farinha de mandioca, e com o feijão, massa para sôpa, etc., completariamos a ração e até exce- deram da ração do soldado francez, com as dos outros paizes. E como já me referi no principio deste capitulo, e segundo a opinião do Dr. Mourel de Toulouse que dá para os paizes de climas temperados 90 para albuminoides, 60 para gorduras e 300 para os hydratos de carbono, devo dizer que jáé por demais nutrictiva a nossa alimeniação, porque encontrei 176,72 de albumina, 106,42 de gorduras e 388,10 de hydratos de carbono, além do café, condi- mentos, sobremeza etc., que não entraram no calculo. CAPITULO III Alimentação em tempo de manobras e em campanha IP alimentação em tempo de manobras e em tempo de guerra, têm necessariamente de soffrer alterações, quer na qualidade, quer na quantidade e no modo de preparal-a. Em tempo de paz e na guarnição, tudo é facil. Ahi a ração está mais ou menos avaliada quanto as perdas organicas, de conformidade com o serviço da guarnição. Este serviço consta de exercícios moderados, guardas, diligencias, patrulhas, etc. As despezas organicas são compensadas com uma ali- mentação regular, sufficiente mesmo, e pode-se atè con- firmar, de abundante, por exemplo, entre nós, no 50 batalhão de caçadores e mesmo no 6.° batalhão de arti- lharia, a alimentação é abundante e de qualidade re- gular. Em tempo de manobras e ainda melhor em guerra, tudo difficulta-se, por condições diversas e imprevistas. As vantagens da ração em tempo de paz são enormes 30 para todos, e especialmente para os que se encarregam delia, porque têm todo o material disponível para a sua confecção e os generos necessários as alterações constantes. Em manobras estamos em meio termo, se poderá obter a alimentação tão bôa como na guarnição; o que é necessário e imprescindível é o transporte íacil, e melhor será, si se puder preparar o rancho no quartel e conduzil-o para o campo, no caso que haja transporte rápido, evitando assim a certos inconvenientes. Não havendo transporte rápido, não se tem ontro remedio se não íazel-o no lugar aonde estiver acampada a tropa, sendo os alimentos preparados em caroças-cosinhas, adoptadas hoje nos exercitos modernos. Estas cosinhas ambulantes prestaram grandes serviços aos russos e aos japonezes, durante a guerra do Oriente, ellas tinham já sido lembradas pelo marechal Saxe, que admittiu uma para cada companhia. Já Napoleão I em 1808, tinha experimentado uma mar- mita rodante, a qual se acha actualmente no museu de artilharia em Paris. No 2.° numero da revista Medicina Militar, publicada sob a direcção do illustre Coronel Dr. Ismael da Rocha, em artigo «da alimentação das tropas nas expedições terrestres no tírazil,» quando se refere ao pão, acha que devemos dispensal-o da alimentação do soldado, e assim 31 se exprime: «nas rações de gtierra além de abolir a grande quantidade de material para o seu preparo, traz a vantagem da desnecessidade dos carros-padarias, á mór parte das vezes «verdadeiros trambolhos», de diíficil transporte, principalmente, em um paiz de terreno acci- dentado, montanhoso como é oBrazil.» « Verdade se diga, porém que estes carros-padarias não são de todo improfícuos. Entre nós, em tempo de paz, o pão é normalmente distribuído ás tropas, e, assim taes vehiculos têm sido empregados com proveito em peque- nas expedições aos campos de manobras. » «O nosso Deposito de Material Sanitario possue vários modellos, desses carros e em diíferentes ensaios tem sido comprovada a sua eíficacia.» Isto é, modellos estrangeiros. E’ necessário criarmos o nosso modelio de accordo com as nossas necessidades ou pelo menos modifical-o de conformidade com o nosso paiz de terreno accidentado. x\bolir-se o pão da alimentação do nosso soldado, somente devido a grande quantidade de material para o seu preparo, não é razão bastante, deveríamos era subs- tituir a farinha pelo pão, embora que a sua confecção.seja mais trabalhosa. Ninguém ignora as perturbações produ- zidas pelo uso da farinha de guerra, no organismo do nosso soldado. E tanto mais quanto, se pode substituir o pão fresco pelo pão de guerra. 32 Se o soldado japonez qu,e vfve do milho, cevada e do arroz, jà é alimentado coín pão, quanto mais o soldado brazileiro que se alimenta pela manhã de café e pão. De que se alimentará o soldado pela manhã faltando-lhe o pão? Temos realmente batatas doces, inhames, aipins, íructa pão, porem não temos em quantidade sufíiciente para que se admittam como alimentação quotidiana, os quaes poderão ser empregados desde que façam parte da tabella official. Estes alimentos acima referidos, são muito apreciados pelo nosso soldado, que se vê privado delles por não existirem na tabella dos generos alimenticios. Se em tempo de paz e na guarnição, a onde o soldado faz o serviço diário sem cansaço, é necessária uma alimen- tação bôa, quanto mais em campanha. Em tempo de guerra a alimentação deve ser mais abundante, porque o trabalho effectivamente duplica, triplica; as viagens, as noites perdidas, a luctaconstante, as escabrosidades dos terrenos, o peso do equipamento, o calor ou frio, conforme se trata do norte ou do sul do paiz e da estação do anno, tudo concorre para enfra- quecer as tropas. Os diversos meios de transporte, quer sejam por mar ás vezes, quer em rios ou a cavallo, e as mais das vezes a pé, tudo isto extenua e* mata, se não são bem reparadas 33 as forças organicas, com alimentação sadia e substancial e om pouco tempo a tropa sentir-se-ha fraca e impotente, para vencer os obstáculos, e então será derrotada antes, do primeiro ataque. A meu ver, o que é ruais racional, e o que se deve realizar na pratica, é a selecção dos generos alimentícios ; é a escolha dos alimentos de facil digestão e que melhor resultado se possa obter e que maior valor thermogeno produza no organismo do soldado sem cansar-lhe o estomago. Na guerra russo-japoneza, os nippões, que de ordina- riamente se nutrem de arroz, e como este era de difficil o governo de antemão, modiíicou-o por um pro- cesso especial, em que submettia o arroz, com o fim exclu- sivo de tornal-o mais facil á cocção no campo de batalha. O processo era pol-o em estufas e deste modo prepa- rado o arroz, era dividido em pequenos saccos, para facilmente serem transportados, e assim feito, em 10 mi- nutos, elles obtinham a sua refeição prompta. O soldado em campanha não se deve preoccupar com a sua alimentação ; não é pouco a preoccupação do com- bate, missão nobre, que affecta o interesse geral da nação. E’ ao governo que compete cuidar da bôa alimentação, e proporcionar todos os meios para o seu transporte, distribuição, escolha e provisão, para não acontecer como 34 na revolta de Canudos, aqui tão perto de nós, que, debaixo de um sol ardente e abrazador, o nosso glorioso exercito, foi dizimado pela negra fome, não obstante muito ter custado á nação. Tudo faltou naquelle momento, especialmente no campo de operação propriamente dito. Levas e levas de homens esquálidos, não pela lucta, em pouco tempo se restabeleceram nos hospitaes de sangue d’aqui da Capital, quasi e exclusivamente com bôa ali- mentação. Oíficiaes e praças succumbiram de fome e sede, somente por impericia daquelles que, não sabendo medir as responsabilidades deixam morrer centenas de irmãos, numa lucta inglória. Soldados houve, que acossados pela negra fome, expunham suas preciosas vida para obte- rem um pouco dagua e uma raiz de umbá. Todos os meios deve o governo lançar para que a tropa não tenha de que se queixar. Por maior patriotismo que seja, não sobrepuja a fraqueza e o desanimo de quem tem o estomago vasio. Tudo quanto venha entravar a acção do soldado deve ser abolido. Um corpo não deve soffrer duas penas, luctar com a fome e ao mesmo tempo com o inimigo. O soldado só deve em tempo de guerra carregar a carabina, munição capote e o imprescindível; nada de marmita, deve uma facção do exercito se occupar com a preparação da ração. 35 Não acho justo que depois de uma lucta encarniçada, o soldado vá preparar a sua alimentação já extanuado, cansado, embora mesmo que saia victorioso. Em cada regimento deve existir um corpo de cosinhei- ros para se encarregar da ração do soldado exclusiva- mente, e assim o soldado se despreocccupará de mais este trabalho, mesmo porque, nem todos os soldados saberão bem se ajeitar com o preparo delia, e pode muitas vozes lhes faltar essa vocação, ou predisposição. Estes cosinheiros serão escolhidos em tempo de paz na guarnição, entre os soldados do mesmo regimento ou batalhão; de tres em tres mezes, podendo se reve- zarem entre si, de modo que em pouco tempo ter-se-ha grande numero delles. Depois do combate, o soldado achando sua refeição prompta e quente, embora cansado, ha de forçosamente servir-se delia com bom proveito. E’ naturalmente crivei que a comida quente seja de mais facil digestão. Sendo fria exige muito mais esforço e é de difficil diges- tão : a mastigação é lenta, necessitando de mais secres- são salivar, e até maior quantidade de sueco gástrico para digeril-a. A refeição quente é mais appetitosa, não se aborrecerá delia tão commumente. Além disto, logo após ter se ser- vido delia, o soldado aproveitará algum tempo para 36 descansar, tempo este que elle levaria em preparar a sua refeição. Accresse mais um inconveniente, o soldado em tempo de guerra carregar cantil, marmita de folha. E’ um empecilho, um óbice á accrescentar, além do peso já bastante regular do equipamento. No caso de subidas ele- vadas e descidas ingrimes, grandes marchas, carreiras, emfim toda sorte de evoluções, a nataçào muitas vezes, é fatigante e causa estorvo dos movimentos naturaes. A infantaria especialmente muito soffre com o excesso de pezo, o que hoje tem-se semplificado o mais possivel, de conformidade com as exigências da evolução moderna, e do conhecimento das regras emanadas da hygione racional. A grande causa das fadigas para o soldado de infantaria é o peso do sacco, nas grandes manobras. Eis o motivo pelo o qual o Dr. Saint Paul, apresentou um apparelho de sua invenção e que denominou-o de Roule sac, e foi creado justamente para aliviar o soldado francez do peso excessivo que lhe tolhe os passos. A alimentação em campanha é um problema dos mais difficeis ou o mais difficil da hygiene militar. O Dr. Matignon diz, no seu trabalho sobre a guerra russo- japoneza, que foi « um triumpho da hygiene militar e» que muito contribuio pelo bom exito das armas japonezas. Muitas são as difficuldades a encarar. Alimentar por exemplo: 100 mil homens diariamente, e muitas vezes mais, com generos de 1* qualidade, em ponto distante dos 37 centros commerciaes, em lugares aonde o transporte é difficilimo, sujeitos a toda sorte de peripécias; é bem penoso para quem tem de cumprir a risca esta missão, cujas responsabilidades ultrapassão os limites do dever imposto pela lei. Ao commando peza bastante a responsabilidade, pelas múltiplas providencias efíicazes que deve tomar, para que nada seja omittido. As provisões devem ser feitas, avaliadas para certo e determinado tempo, e muitas vezes condições imprevis- tas perturbam-lhes a marcha ; outras occasiões a chegada dos viveres soffre qualquer demora. Pode também a lucta tornar-se tão renhida, que o tempo, a fadiga, a mortandade, a hora mesmo de terminar a lucta, as epidemias e muitas vezes as retiradas bruscas, impedem que o serviço da alimentação se faça com regularidade, vindo em consequência destas desordens, a desorganisa- ção, o desanimo, a debilidade que pode chegar ao extremo, e até a miséria physiologica. E’ nesta occasião que se faz mister toda vigilância possivel, e neste caso não se pode evitar que cada qual tenha sua alimentação de reserva, para se prover nestes momentos de grande agitação e de lucta. Nesta epoca em que as evoluções e a rapidez das mobilisações dos effectivos modernos, e a extenção do campo de manobras, tudo torna-se diíficultoso para o 38 bom exito da hygiene militar. Conduzir com essa enorme quantidade de generos para supprir a um effectivo tão numeroso, não é tarefa tão facil como a primeira vista se julga, quando tudo deve ser feito com as mais comc- sinhas regras de hygiene. Urge evitar que agentes physicos, e micro-bianos venhão decompor e arruinar os generos de primeira necessidade. Estes agentes são: a chuva, o sol ardente, e todas as especies de microorganismos que agem di- rectamente sobre os generos, determinado fermentações, decomposições que se tornam nocivas a s audedas tropas. Nos paizes em que alimentação principal é o pão, especialmente na Europa, muitas vezes em tempo de guerra, não se pode preparal-o, lança se mão do pão de guerra, daquelle feito em tempo de paz. Em França cada corpo de exercito tem sua padaria de campanha para fabricar pão. A carne fresca a tropa recebe quando è pos- sivel; os animaes são escolhidos nos lugares por onde passa o exercito, e a falta de animaes para carneacão é supprida por carne de conserva. Entre nós, é o xarque empregado junctamente com a farinha de mandioca; é quasi a base da alimentação e assim mesmo poderá faltar como já se deu em Canudos. Nas grandes viagens, é de norma conservar-se os viveres, fazendo-se acquisição dos que se possa encontrar durante a passagem, afim de que não venha a faltar no campo da acção, isto é, em tempo de guerra. 39 Eis aqui a tabella que servio para a distribuição dos generos alimentícios nas manobras de Santa Cruz. GENEROS UNIDADE DOMINGOS TERÇAS E QUINTAS—QUANTIDADE POR PRAÇA Total SEGUNDAS, QUARTAS, SEXTAS E SABBADOS QUANT. POR PRAÇA Total OBSERVAÇÕES PELA MANHÃ O » O 2 < JANTAR CEIA PELA MANHÃ O o* o 2 •J < JANTAR CEIA Assucar refinado de 3a Grams.. 20 50 20 40 130 20 50 20 40 130 As 40 grani- Arroz nacional )) 40 60 — — 100 — 40 60 — 100 tuas de assu- Aguardente.. Centils. 5 — — — 005 5 — — — 005 car, as 4 grs. Batatas Grams.. — — 80 — 080 — — 80 — 080 de café e os 5 Café moido > 12 25 12 25 074 12 25 12 25 079 centilitros de Carne verde > 500 _ 500 200 200 aguar de ute > secca » — 125 — 125 — 250 — 250 serão pagos Farinha Centils. — 25 30 — 055 — 25 30 — 055 pelas econo- Feijão preto Decils.. — — — — — — — 2 — 002 mias do cofre. Lenha matta virgem,. Grams.. — 500 500 500 1.500 — 500 500 500 1.500 As rações de Manteiga mineira » — 12 — 8 020 — 12 — 8 020 sobremesa Massa brancas » — — 15 — 015 — — — — — constarão de Pão fresco » — 200 — 120 320 — 200 — 120 320 duas bananas Sal commnm Centils. — 1 1 — 002 — 1 1 — 002 ou de duas la- Sobremesa Ração.. — — 1 — — — — — — 001 ranjas. Toucinho de Minas... Grams.. — 10 25 — 035 — 10 25 — 035 Temperos e verduras. » — 26 74 — 100 — 26 74 — 100 Vinagre nacional Centils. — Vi — 001 — V* Va — 001 Tabclla de distribuição de generos por occasião das manobras e exercícios militares em Santa Cruz—Rio de Janeiro, pelas praças do 4’ Districto Militar—1907 40 ALTERAÇÕES As novas modificações introduzidas na tabella acima são: (30 grs. ao almoço. Arroz 1 (40 grs. ao jantar. Carne verde 400 grs. ao almoço, supprimindo-se a carne secca nas refeições e bem assim a massa branca ao jantar. A’s segundas, quartas, sextas e sabbados : ( 30 grs. ao almoço. Arroz l ( 40 grs. ao jantar. Carne verde 400 grs. ao almoço. O pão será distribuido tres vezes por dia, sendo um de 400 grs. pela manhã, um de 420 grs. ao almoço, um de 400 grs. á ceia.» INSTRUCÇÕES PARA O SERVIÇO DE SUBSISTÊNCIA DURANTE AS MANOBRAS DE 4907 «Modo de assegurar a subsistência das tropas nas manobras: Art. 4.° A alimentação será feita pelo rancho em commum ou pela distribuição dos generos cozinhando-se em marmitas. Art. 2.° Os officiass e as praças em serviço fóra da fileira serão arranchados pelos elementos onde servirem. § 4.° As praças com direito a desarranchamento por 41 effeito de lei, receberão uma ração em genero nas ma- nobras. § 2.° Os oíficiaes e praças addidos, serão arranchados nas unidades ou elementos onde servirem, figurando em taes designações nos respectivos pedidos dessas unidades ou elementos.» Gomo poder-se-ha no nosso paiz determinar a alimen- tação do soldado durante as expedições quanto ao clima ? Varias são as considerações a se íazer, devido princi- palmente a variabilidade do clima. Supponho que não se deve ignorar que no norte do paiz, o clima seja quente e bastante húmido, porque mais se aproxima do Equador, justamente muito diverso do sul, cujo clima é_frio e as vezes bastante frio e húmido, e temperada a parte que fica entre os dois extremos. Qual deverá ser a alimentação a mais conveniente para estas regiões tão oppostas, attendendo a variabilidade climatérica de suas zonas ? De conformidade com a sua variabilidade e pela grande extenção territorial do nosso paiz, o qual se acha situado na parte mais oriental da America meridional, entre 5°10’ de latitude Norte e 33°45’ de latitude Sul, entre 37°10’ e 76°23’ de longitnde, divido a ração em tres typos: ração do norte, sul edo meio. Em virtude de se achar o nosso paiz em trinta e poucos 42 gráos, dou para a ração do norte 10°; de 10° a 20°, ração do meio, e de 20° a 30° ração do sul, (indo além de 30° o Rio Grande do Sul). A ração até 10°, comprehendendo os Estados do Amazo- nas, Pará, Maranhão, Piauhy, Ceará, Rio Grande do Norte, Parahyba, Pernambuco, Alagoas, o norte de Goyaz e do Matto Grosso. A ração até 20°, comprehenderá os Estados da Bahia, MinaesGeraes, Goyaz, Matto Grosso, Sergipe, uma pequena parte da Parahyba, e o norte doEspirito Santo. A ração até 30° comprehenderá os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catharina, Rio Grande do Sul, o sul de Minas Geraes, do Espirito Santo e do Matto Grosso. No que acabo de expor com relação as divisões dos Estados e dos climas não se pode determinar com a pre- cisão mathematica, tudo é mais ou menos aproxima- damente. Dividida assim, poderemos determinar as rações do modo seguinte: RAÇÃO DO NORTE (NORMAL ESTACIONADA) Oeneros Quantidades Assucar Arroz Bolacha CLIMA QUENTE 43 Gaíé torrado. 100 grs. Carne fresca 250 Feijão *. ... 100 » Farinha de mandioca 100 Pão 200 w Peixe 200 » 0 peixe será distribuído duas vezes por semana. RAÇÃO AO NORTE ( ANORMAL) CLIMA QUENTE Em marcha, em manobras ou tempo de guerra: Generos Qaantidades Assucar 200 » Arroz 120 » Bolacha 120 » Café torrado líiO Carne fresca 300 grs. Feijão (secco) 150 Farinha de mandioca 120 » Pão fresco 250 Peixe 250 RAÇÃO DO SUL (NORMAL ESTACIONADA) CLIMA FRIO Generos Quantidades Assucar Arroz 44 Bolacha ,.,.. 100 grs. Café torrado 100 » Carne fresca* 500 » Feijão 150 » Farinha de mandioca 100 » Pão » Peixe. » RAÇÃO DO SUL Em marcha ou tempo de guerra: CLIMA FRIO Generos Quantidades Assucar 150 grs. Arroz 150 ♦ » Bolacha » Café torrado 150 » Carne íresca 600 » Feijão » Farinha de mandioca ...... 150 » Pão » Peixe « RAÇÃO CENTRAL OU DE CLIMA TEMPERADO NORMAL ANORMAL Generos Quantidades Quantidades Assucar 150 grs. Arroz 120 » 45 Bolacha ... 100 » 129 grs Café torrado •. •.. 100 » 150 » Carne fresca ,... 500 » 600 » Feijão • ... 100 » 120 » Farinha de mandioca .... 100 » 120 Pão ,... 300 » 320 Peixe fresco , ... 300 » 350 » Deixei d.e mencionar o xarque, por achar nocivo a ali- mentação do soldado, deve ser excluído da tabella dos generos alimentícios. C4PITUL0 IV Estudo comparativo do regimen alimentar dos principaes exercitos estrangei- ros com nosso fp alimentação do soldado deve ser baseada nos prin- cípios physiologicos e hygienicos, quer seja no Brazil, na França ou no Japão, O fim é sempre o mesmo e o resultado será bom, se íoi feito de conformidade com as regras e preceitos emanados da physiologia da hygiene. Foi da Baviéra que partio o primeiro passo para o estudo da alimentação do soldado em paz e em guerra. Em 1876 reunio-se alli uma commissão para estudar este assumpto, que considero de maxima importância, e que entre nós tem passado despercebido, só agora é que se vai agitando o gosto por estes estudos por ini- ciativa do Exin. Sr. Dr. Ismael da Rocha, Director geral de Saude do Exercito e rnais alguns médicos militares. ALLEMANHA No seu exercito,o regimen alimentarse compõe de quatro rações: duas em tempo de paz, pequena ração e grande ração, duas de guerra, pequena e grande. 48 Segando Roth e Lex, Handbuch der militar Gesundheits* pflege, tomo II pagina 580, o rendimento da ração grande de paz, (Grosse Frieden-partion) abonada por occasião das grandes manobras, varia de 109 á 176 grs. de albuminoides e na media 155 grs. de hydro carbonados 430 à 774, sendo na media 538 grammas e de gorduras 36 á 42, tudo correspondendo á 3202 calorias. Na pequena ração de guerra é representada por 123 á 183 grs. de albumina, sendo na media de 141 grs.; 353 á 665 para os hydratos de carbono, na media 488 e 51 grs. de gorduras; no total correspondende a 2929 calorias. Na ração forte a media era de 181 grs. de hydratos de carbono e 94 grs. de gorduras; sejão 3625 calorias. Krichnu, Lhrbuch, der Militar—Hygiene, 1869, na sua obra diz que o soldado prussiano, pelo regulamento de 13 de Maio de 1858 tinha como ração: 1.0 EM TEMPO DE PAZ Ração pequena Pão 698 grams. Carne 141 » Arroz „ 98 » ou cevada perlada 112 » ou legumes seccos 244 » 49 ou batatas 1/2 medida (?) Sal 22 grams. Ração grande Pão 098 grams. Carne 250 » Arroz 112 » ou cevada perlada 244 » ou legumes seccos. 296 » ou batatas 2/3 medida Café torrado 12 grams. Sal 24 » 2.a em pé de guerra—Regulamento de 4 de Julho de 1867 Ração pequena Pão 750 grams. ou biscouto 500 » Carne 375 » ou carne salgada 375 » Arroz 120 » ou legumes seccos 250 » ou cevada perlada 120 » Batatas. 1.500 » Café torrado 24 » Ração grande Pão . 750 grams. Biscouto 500 » 50 Carne 500 grams. Arroz 160 » ou legumes seccos 320 » ou cevada perlada 160 » Batatas 2.000 » Café torrado 24 » Naquella epoca o soldado recebia a pequena ração de guerra, e se não podiam abandonar a carne, o pão era elevado a duas mil grammas. A ração era fornecida de conformidade com as condições de occasião. As vezes era administrativamente e outras vezes eram os habitantes que forneciam, ou mesmo o soldado com prova mediante dinheiro abonado. Haviam além destas, quando em território inimigo, eiserne portion, rações conquistadas á ferro, as ques formavam as rações supplementares. Elias se compunham de grande ração de guerra, acompanhada de vinho, tabaco, cerveja, assucar e café. A tabella que segue é a moderna. 51 Tarifa dos abonos do exercito allemão NATUREZA DOS GENEROS RAÇÍ* p Pequena ÍO DE AZ Grande RAÇ.Ã GUE Pequena tO DE RRA Grande GRAM. GRAM. GRAM. GRAM. | Arroz 750 750 750 750 íou biscoito — — 500 500 / Farinha — — 250 — i ou arroz, cevada 90 120 125 170 ] legumes seccos 230 300 250 320 ! ou batatas 1500 2000 1500 2000 ou repolho fermentado.. — — 340 — Carne fresca 150 250 375 500 ou salgada — — 375 — ou de conserva — — 250 — ou defumada, — — 250 — Toucinho — 150 170 — Sal.. — 25 25 25 Assucar — — 17 — Café verde — — 30 — Chá, matte — — 3 6 lit. Aguardente —• — — 0,10 Comparando esta tabella com a de 1858, se vê que o pão era naquella epoca de 698 grams., e só em tempo de guerra era augmentada para 750 grams.; actualmente e em tempo de paz dá-se 750 grams. A carne era de 141 grams., se elevando á 500 grams. em tempo de guerra; actualmente em tempo de paz è 52 de 25 0grams.; em tempo de guerra é de 500 granis, nada variando portanto. Quanto ao café também acho a quantidade muito pe- quena. Na Allemanha, o soldado tem em geral 3 rações diarias. Pela manhã o almoço se compõe de café puro ou com leite; ao meio dia o jantar que é a alimentação principal/ è bastante abundante; a tarde a alimentação não passa de uma merenda, o soldado pode, se quizer, receber de fóra do quartel qualquer alimentação a essa hora, e para isso a taxa postal é insignificante. O pão é fornecido em natureza. Ha também na Allemanha alimentação variada, muito antes da França; este melhoramento já existia desde 1878. EXERCITO INGLEZ Em tempo de paz o soldado recebe a ração em natu- reza: uma libra de pão correspondente a 453 grammas e 3/4 de carne, que são 339 grammas e mais uma certa quantia em dinheiro, que lhe permitte comprar os generos que íaltam para completar a sua alimentação. Esta alimentação varia de conformidade com os corpos e as guarnições. A Inglaterra não tem exercito obrigatorio ; o exercito inglez é composto de engajados voluntários que ganham 1 franco e 55 cêntimos diariamente. 53 Em tempo de guerra, todos os generos são distribuídos em natureza, assim dizem todos os auctores consultados. Tudo é variavel no exercito inglez, mesmo de uma cam- panha a outra. A ração consta do seguinte: Pão 68o grammas ou biscoitos 453, carne fresca ou salgada 340 grammas, batatas 453 grammas, legumes seccos 226 grammas, assucar 37,77 grammas, café 9,7 grammas, chá 4,9 grammas, sal 7 grammas, leite con- densado 92 grammas. O resultado desta alimentação é: albuminoides 130 grammas,hydratos decarbono 481 grammas e40 grammas de gorduras, o que perfaz 2,932 calorias, valor muito inferior a alimentação do nosso soldado EXERCITO RUSSO Em tempo de paz o soldado russo recebe a farinha e elle proprio prepara o seu pão ad libitum, nos fornos do quartel. A sua ração consta de 820 grammas de farinha de centeio ou de 1,320 grammas de pão; ou aveia 136 grammas;carne fresca 410 grammas, carne secca 205 grammas, sal escuro 21 grammas ou fino 25 grammas. Os legumes são fornecidos em quantidade variavel. Acho que comparativamente ao nosso, estamos mais avantajados, não temos que luctar com os rigores do frio e com a pressão do governo que é absoluto. 54 EXERCITO AUSTRO HUNCARO Em 1868 a sua alimentação era, segundo J. Douillot, hygiene militar, estudo comparativo do regímen alimentar nos exercitos da Europa. TEMPO DE PAZ Pão 960 grs. Carne 280 » Farinha 225 » Vinho — Café....*... — TEMPO DE GUERRA Pão 960 grs. Carne 560 » Farinha... 225 » Vinho.... 37 centilitros Café. ... 37 » Na epoca actual: TEMPO DE PAZ Pão 875 grs. Carne 190 » Legumes seccos ou bata- tas, em grande quantidade. TEMPO DE GUERRA Conservas, (carne, legu- mes) 200 grs. Pão compri- mido 400 grs. Café, assucar e sal, 25 grammas de cada. EXERCITO ITALIANO Ração estacionada Pào 750 grammas, carne 220 grammas, pasta de arroz ouarroz240 grammas,toucinho e sal 20 grammas de cada. Ração de marcha Pào 750 ou biscoitos 560 grammas, carne 400 grammas, toucinho e sal 10 grammas do cada. 55 EXERCITO PORTUGUEZ Em tempo de paz Pão de trigo 700 grammas, ou pão de centeio 700 grammas, pão de milho 1350 grammas. EM TEMPO DE GUERRA Além do pão o soldado recebe uma ração de 250 grs. de carne e 40 centilitros de vinho; a carne de boi pode ser substituída em tempo de guerra por 250 grs. de bacalháo ou 350 de carneiro ou 200 grs. de arroz e 100 de toucinho. Esta era em 1866. Presentemente pouco varia. EXERCITO JAPONFZ Esse exercito elevou-se perante o mundo civilisado pelo esforço proprio, e auxiliado pelo sabio governo do sou paiz, que não poupa esforços para collocal-o sobre qualquer ponto de vista egual ou superior á muitos do universo. Gomo se elevou o exercito japonez? Diz o Dr. Matignon em sua obra, Enseigments Medicanx de la Guerre Russo Japonaise, o exercito nippão é mais bravo, mais disciplinado, mais democrático, mais patrió- tico dos exercitos modernos. Ninguém melhor do que esse medico pode affirmar porque elle foi testemunha occular das maravilhas praticadas pelo valoroso exercito japonez nos camqos da Mandchuria—E’ muito louvável 56 que o Dr. Matignon dissesse com a convicção inabalavel, que a guerra russo-japoneza foi um triumpho para a hygiene militar. E o facto é por si tão verdadeiro, que o major Mo- reira Guimarães, que teve a satisfação de conhecel-o pessoalmente là no campo da lucta, no Extremo Oriente, assim se exprime: em artigo publicado na re- xista «Medicina Militar». Assim embora não se possa dizer que a guerra nippo- russa significa o triumpho da hygiene militar—porque essa hygiene é inais uma providencia em prol da saude das tropas do que da victoria dessas mesmas tropas, não padece contestação que o serviço sanitario do glorioso exercito, japonez auxiliou eflicazmente ao alto commando desse exercito removendo todos os obstáculos, já nas linhas de fogo já na retaguarda dessas linhas. Quem ler o final deste artigo, só pode concluir, que a hygiene militar concorreu para a victoria da guerra, por- que removeu todos os obstáculos com o fim de que a vi- ctoria fosse real e certa. Deante destes dois testemunhos, sou inclinado a dizer, e estou mesmo convicto de que o soldado japonez é bem alimentado e bem nutrido. 0 soldado japonez não se con- tenta com tudo que se lhe dá, como é o soldado francez, allemão, russo e particularmente o nosso, que come farinha, xarque,(carne secca salgada)rapadurae um pouco 57 de tabaco se contenta. A alimentação dos soldados do Império do Sol, é leve e não irritativa das vias digestivas. Em hygiene os japonezes pensam como Napoleão I: « As tropas se batem com o seu ventre ». Não é veridico o que dizem: que o japonez só se alimenta de arroz ; elles se nutrem de carne verde, ovos e legumes. A base principal de sua alimentação é o arroz, não resta duvida nenhuma. O soldado nippão em campanha tem tres refeições diarias, e em todas o arroz faz parte principal da sua alimentação. Além do arroz, elles têm o miso, o touofo, o shoyou, que para elles são condimentos de primeira necessidade e muito apreciados. O seu arroz é uma especialidade e custa muito caro; em geral o povo não o compra por ser o preço elevado, e por isso se nutrem habitualmente de milho e cevada. Em campanha o arroz é de duas qualidades : o secco e ordinário, e o estufado. A ração conta de 6 gos de arroz, 1.200 centímetros cúbicos de arroz ordinário, ou de 5 gos, correspondendo a 1000 centímetros cúbicos de arroz estufado. Como b arroz era de difíicil cocção, o governo japonez procurou por meio de estufas, modiíical-o, tomando o arroz de l.a qualidade fel-o passar em estufa, e depois seccou-o ao sol ou mesmo em estufas, quebrando-o e 58 passando-o em tamis, o que lhe torna o aspecto de assucar cristallisado, porém sem aquelle brilho. Pela tamisagem se obtem tres qualidades de arroz estufado: o grosso, o pequeno e o medio. O primeiro é o melhor, e os dois últimos são destinados ás tropas. Esse arroz assim preparado, se conserva por muito tempo sem alteração alguma, e até dizem que a sua duração é de 8 annos, ficando apenas amarellecido. O arroz assim preparado é transportado em caixas de madeira forradas de zinco. O arroz estufado se denomina Hotchi—I. O Hotchi—I, em 10 minutos é preparado. Passemos a carne: O consumo da carne no Japão ó pouco e data de 50 annos mais ou menos, assim afirma o Dr. Matignon. A população geralmente pouco uso faz d’ella, apreciando muito mais o peixe fresco ou secco. A ração de carne fresca é de 142 grs. sem osso e 178 com osso. 59 RAÇÃO NORMAL DE CAMPANHA (Tabella ofílCÍal) Alimentos regulares Alimentos de substituição Observações Arroz 1200 eme Arroz estufado lOOOcmc )) » Pão (excepção) 600 gr. » » Biscoitos 640 gr. (um dos tres somente). Supplementos cjuotidianos Carne de conserva 296 gr. 6 Boi sem osso.. 100 gr 4 Si se pode dar Legumes seccos. 80 gr. 8 » com osso.. 138 gr. 170 grs. de carne fresea sem osso Condimentos: Carne salgada, ou 205 grs. com Ameixas salgadas 26 gr. 6 » secca ou de- osso, si íaz. Rabanetes, pepi- fumada 80 gr.8 nos e ervilhas Ovos 106 gr. sucarnãosãoda- salgados 26 gr. 6 Legumes crus. 32o gr. dos sinão quan- Ext. de schoyou. 13 gr. 3 Arroz salgado. 40 gr. iia necessidade. Miso em pó 13 gr. 3 Schoyou.., 80 cc.. Sal 7 o-r Q Miso 53 gr.. Assucar ' b1, 7 7 gr. 9 Bebida: Cha 5 gr. 2 Viveres de reservei (parao combate) Arroz estufado.. 1000 cmc. Biscoitos 50 gr. Carne de conserva 213 gr. » » Sal 7,9 gr. » » Artigos d’extra Saké. (vinho japo- 60 cl. nez )) » Cognac 8 cl. » » Bolos 70 gr. )) O medico japonez representa um papel importante na alimentação do soldado, elle se encarrega de examinar os generos e toma muito a serio este mister. Entre nós, é penoso confessar, tudo existe mais nada se cumpre. São poucos os inedicos que cumprem com o seu dever neste caso, e muitos ao chegar au quartel, já acham a boia 60 preparada, e ás vezes as praças já se serviram d’ella. Não são somente os médicos os nnicos culpados, mais também os encarregados deste serviço, que não dão a devida importância a ração do soldado. No japão ha em cada divisão ha um medico ou pharma- ceutico encarregado especialmente da analyse chimica do alimento das tropas. A analyse é praticada para se conhecer ou determinar o numero de calorias contidos na ração diaria do soldado. O Dr. Mori, medico chefe do 2.° exercito japonez, pelas pesquizas e observações realizadas, deduziu que as calorias eram no minimo de 2.580. O exame ou a analyse dos viveres é praticado uma vez por semana, e se por acaso esse exame não é satisfactorio, ou por outras palavras, não dá calorias necessárias que correspondam as exigidas por lei, conforme está acima in- dicado no minimo, ordena-se para que seja augmentada immediatamente a quantidade da ração. De tudo que acabo de expôr com relação aos exercitos acima referidos, posso colligir e asseverar, que o nosso exercito é o que recebe maior ração de carne, e pelo estudo comparativo desses diversos exercitos, e das suas respe- ctivas rações, julgo na minha fraca opinião, que o nosso exercito é um dos mais bem alimentados. Basta cotejar a nossa tabelia com as congeneres dos paizes que achei por bem trazer a luz, para se conhecer e julgar da verdade. 61 Aqui finaliso o IV capitulo, abrindo porém em consi- derações que dizem respeito ao excesso da carne, na ali- mentação do soldado, as quaes me suggeriram depois do que acima ficou dito. Sendo a carne o alimento que possue quantidade nutritiva capaz de fornecer ao organismo energias compensadoras, é ella muitas vezes empregada em quantidade exagerada, produzindo desordens graves no organismo. Se sabe pre- sentemente que o seu abuso traz perturbações para o apparelho circulatório,produzindo a arterio-sclerose, dando em resultado ainda de maior gravidade, as lesões car- díacas tão bem estudadas pelo notável cardio-pathologista Dr. Huchard, professor da Academia de Medicina de Paris. Elle demonstrou que a carne muitas vezes conduz para o organismo leucomainas e ptomainas; essas toxinas embaraçam os rins, paralisando as suas funcções e tornando o seu parenchima impermeável; difficultando a passagem dessas toxinas, que trazem dispneas, em virtude da acção vaso-constrictora das artérias. Está demonstrado que a hypertensão arterial não é originaria de nenhuma lesão do coração e simplesmente do systema arterial. O Dr. Huchard provou com experiencias, que se fica cardíaco pelas artérias, porque ellas perdendo a sua elas- 62 ticidade própria e a sua flexibilidade, deixam de funccio- nar com regularidade e levar a onda sanguínea a todos os pontos do organismo. Além do Dr. Huchard, ha outros que combatem a alimentação por meio da carne. Eu não posso condemnar in limine, a alimentação da carne, porém combato somente o excesso delia e especialmente entre nós, que, nem sempre é de bôa qualidade. Como sabem, na Europa, o cuidado que ha para se abater o gado destinado para o serviço militar exclusivo. Aqui a carne é fornecida por particulares, e a sua conducção não é escrupulosamente feita como deveria ser com as regras de hygiene. A carne para chegar aos quartéis, tem de atravessar uma grande extensão em carroças impróprias, tendo de passar por estradas e ruas mal calçadas, aonde a poeira tudo invade. Não me sobrando mais tempo para tratar deste assumpto de tão grande valor e de summa importância, mesmo porque seria levar muito longe esta questão, que ainda ha de preoccupar a muitas gerações, pois ella é de interesse geral. Nada tendo mais a consignar neste humilde trabalho, peço aos que me derem a honra de lel-o, não julgar que tive a pretenção de abordar este assumpto com mão de mestre e sim, com a incerteza dos que extream. PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de scicncias medicas e cirúrgicas PROPOSIÇÕES HISTORIA NATURAL MEDICA i Os vegetaes nascem, vivem, crescem, mas não sentem. II Elles absorvem o acido carbonico e exhalam oxygeno. m Os animaes, nascem, crescem, vivem e sentem. CHIMICA MEDICA I O íerro se encontra sob a forma metallo-organica na maior parte dos alimentos, unido ao protoplasma, seme- lhante a hemoglobina do sangue e ao hematogeno. II Este metal é levado ao organismo por meio dos ali- mentos, accelerando as oxydações inter-organicas. m Elle faz parte integrante da hemoglobina, que é a ma- téria corante do sangue. 66 ANATOMIA DESCRIPTIVA I A parotida é a maior das glandulas salivares. II E’ umaglandulaem cacho ; delia parte um canal excre- tor que se chama canal de Stenon e que se abre na bocca por uma fenda estreita, situada ao nivel do segundo grosso molar. Hl As suas artérias partem da corotida externa. HISTOLOGIA I As paredes do estomago se compõe de tres túnicas: túnica musculosa, cellulosa e mucosa. II A túnica musculosa varia de espessura: 0,mm5 no fundo, 4 milimetro a 4,mm5 na grande curvatura, sendo que na yisinhança do pyloro ella torna-se espessa e attinge até 4 milímetros. III A túnica cellulosa é espessa, adherente a mucosa, é ao contrario pouco adherente aos musculos. 67 PHYSIOLOGIA i Não se pode viver exclusivamente com um alimento simples, é necessário que o alimento se componha de elementos dos tres reinos, vegetal, animal e mineral. li Ha alimentos que podemos classificar de completos, porque nelles ha em proporção substancias capazes de satisfazer as perdas organicas e porque nelles encontra- mos os alimentos simples. iii De todos estes alimentos, o leite é o mais completo, porque nelle encontramos: agua, albuminoides, gorduras, hydratos de carbono e saes. bacteriologia I A morphologia dos microbiosé de maxima importância para se fazer as suas differenciações e a competente classi- ficação delles. li O exame microscopio é imprescindível para a sua de- terminação. iii Os diversos processos de colloração, facilitam o seu conhecimento, fazendo esclarecer ao fundo da preparação. 68 CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPIIICA I A syphilis só apresenta claramente as suas manifes- tações depois do periodo de incumbação. II Em sua evolução observamos tres periodos que se divi- dem : primário, secudario e terciário. ill O remedio especifico da syphilis é o mercúrio em suas diversas formas, sendo a melhor asinjecções intra-mus- culares. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I O bicarbonato de sodio é nm medicamento ante-acido. li Graças a seu poder alcoolico, pode ser empregado nas dyspepsias. m Pode ser ministrado em substancia, em capsulas ou dissolvido n’agua. PATHOLOGIA MEDICA I A gastrite é uma inflammação mais ou menos profunda das túnicas que compõe as paredes do estomago- 69 II A gastrite pode ser aguda ou chronica. iii A gastrite aguda é a inílammação aguda da mucosa es- tomacal, acompanhada de erosões ou ulcerações mais ou menos profundas. A chronica é consequência de pertur- bações dyspepticas de forma latente e progressiva. PATHOLOGIA CIRÚRGICA I As íracturas do craneo nos indivíduos velhos são de prognostico grave. II A causa da sua gravidade consiste principalmente pelo retardamento da ossiíicação. m A compressão pela íractura, da taboa interna dos ossos craneanos, é remediável pela trepanação. CLINICA OPHTALMOLOGICA I A blepharite ciliar é a inílammação dos bordos das palpebras. 70 II Dessa inflammação pode as mais das yezes resultar um vicio na inserção dos cilios. ' m O seu tratamento consiste no emprego de pomadas com turbitho mineral on tintura de iodo. ANATOMIA E PIIYSIOLOG1A PATHOLOGICAS I Ha dilatação do estomago quando esse orgão está vazio e não se contrahe. II As dilatações são organicas ou funccionaes. III São organicas qnando a causa que a produziu foi o estreitamento pylorico ou a existência de qualquer emba- raço mechanico, pela diminuição do sueco gástrico. CLINICA CIRÚRGICA (2.» cadeira) I A gastro-enterotomia ou gastro-entero-anostomose con- siste na formação de um orifício que communica o esto- mago e o intestino, com o fim de dar passagem aos alimentos de um para outro dessas viceras. II O meio mais íacil de se obter esta anostomose é de escolher uma dobra do jei uno bastante elevada, e incisar 71 sobre uma extensão pequena reunindo as bordas desta secção aos de uma abertura creada na parede anterior do estomago. m Deve-se este methodo pelo qual se pratica a gastro- jejunostomia anterior simples, precolica de Wõlfler. ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA I A região parotidiana derivou-se do nome da glandula que se chama parotida. II Esta região limita-se inferiormente por uma faixa fibrosa que se estende em sentido horizontal do angulo da mandíbula ao bordo anterior do musculo externo mas- toideo. m Esta faixa fibroza impede a propagação de lesões a região superhyoidea. CLINICA PROPEDÊUTICA I 0 augmento do volume do estomago, seja agudo ou chronico, se reconhece pelo abaulamento da região epi- gastrica, quer se trate de gazes de líquidos ou ali- mentos. 72 II Na dilatação do estomago este abaulamento pode muitas vezes ir abaixo do umbigo, terminando por uma linha curva de convexidade inferior. m O melhor processo para exploração deste orgão é o methodo do Dr. Frerichs. OPERAÇÕES E APPARELHOS I A pyloroplostia (operação de Heinecke — Mikuliez) consiste em dar ao pyloro, estreitado por uma lesão be- nigna, dimensões suííicientes para a passagem livre dos alimentos. IJ Operação: l.° tempo, incisão da parede abdominal, mediana, super umbelical, começando um pouco abaixo o appendiee xiphoide e medindo 8 a 9 centímetros. m O 2.° tempo exploração e exteriorisação do pyloro : 3.° tempo incisão do estreitamento; 4.° tempo sutura; 5.° tempo íeixamento da parede abdominal. THERAPEUTICA I A pepsina é um substancia de côr amarellada, seme- lhante a gomma e é extrahida dos estomagos dos car- 73 neiros, cabritos, vitellos e porcos; encontra-se no sueco gástrico do homem. li Juntamente com o sueco gástrico, a pepeina opera a funeção da digestão estomacal. m Emprega-se nas dyspepsias, gastralgias, convalescenças das moléstias agudas, nos vomitos e dores estomacaes. CLINICA CIRÚRGICA (l.a cadeira) I A gastrotomia (creação de uma bocca estomacal), é praticável quando se quer introduzir directamentealimentos no estomago, em virtude do estreitamento do esophago. li Diversos são os processos para se obter um resultado satisfatório. III O mais antigo é actualmente o mais usado, é o que consiste formar a fistula fixando directamente os lábios da abertura feita no estomago aos bordos do ferida abdominal. CLINICA MEDICA (2.a cadeira) II Está provado que a gastralgia existe e está ligada ao estado nevropatico do indivíduo. 74 II A gastralgia é a hyperestesia desprendida de toda complicação secretoria e motriz ; não é mais do que o do- lorido simples das paredes estomacaes. ui O bicarbonato de sodio, na dose de 5 a 6 grammas é sufficiente para saturar o sueco gástrico excretado e calmar a dor. CLINICA PEDIÁTRICA I * O sarampão é das febres eruptivas a que mais ataca as crianças. li O seu prognostico é muitas vezes grave em conse- quência das complicações que se dão durante a evolução da moléstia. III O seu tratamento é prophylatico e therapeutico. HYGIENE I 0 abuso diário dos alimentos e bebidas, sobrecarregão o estomago, especialmente o excesso de carne diaria- mente, assim como,os feculentos, gorduras, demoram as digestões, dando lugar a fermentações acidas e toxicas. 75 II O uso immoderado de condimentos, o habito de be- bidas denominadas aperetivas, do tabaco, café, licores, gello, aguas gazozas, precipitação das refeições, trazem perturbações geraes, como sejam dyspepsias. m Para a boa alimentação do soldado depende a es- colha dos alimentos e observância das regras de hygiene militar. MEDICINA LEGAL E TOXICOLOGIA I 0 segredo medico não deve ser violado, porque nos comprometemos no acto de collação do grau de doutor em medicina. II Quando porém se tratar de moléstias facilmente trans- missiveis como as infectuosas, devemos quebrar o jura- mento, porque é de interesse geral. III Quando se tratar de corpo de delicto, e que o rosultado seja de interesse geral e em favor da justiça, acho que não deve haver reserva do segredo. 76 obstetrícia I Pode-se por meio da auscultação reconhecer o sexo do íeto, pela contagem dos batimentos do coração fetal. II Estes batimentos são geralmente de 145 para os fetos masculinos e 136 para os femininos. m O parteiro deverá na pratica observar com todo o cui- dado e fazer a contagem mais de unia vez para que não haja engano. CLINICA MEDICA (l.a cadeira) I Ha differentes especies de myxoedemas, myxoedemas espontâneos, operatorio e o infantil, ligado a umainfec- ção ou insufficiencia da secreção thyroidiana. II O myxoedema do adulto se reconhece pela atrophia da glandula thyroide, pela infiltração dos tegumentos, e pela apathia dos indivíduos. iii O myxoedema infantil, além de outros phenomenos acima e que se nota geralmente, é a parada do cresci- mento. À ingestão de glandulas frescas em natureza é o inelhor tratamento. 77 clinica obstétrica e gynecologica I Denomina-se versão, a operação que se pratica quer no curso da gravidez ou no começo do parto, com o fim de mudar a situação do feto no utero, transformando a apresentação por outra mais provável ao trabalho do parto. II Esta operação pode ser praticada por manobras externas, internas e mixtas. iii A versão chamada cephalica é aquella que se faz por meio de manobras externas, tendo por fim conduzir a cabeça ao estreito superior. CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I A tabes dorsalis ou ataxia locamotriz progressiva, tem como causa determinante: excessos sexuaes,arthristismo, írio, traumatismo. II As causas efficientes são as syphilis adqnirida, e que não foi tratada em tempo e só de 10 a 15 annos depois do seu inicio. m As causas predisponentes : a herança nevro-pathica di- recta ou indirecta. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia em 31 de Outubro de 1910. O Secretario, l)r. Menandro dos Beis Meirelles