Faculdade de Medicina da Bahia rP‘U"TT1QTp 1 JtIJIjOJIj APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIÀ Em 31 de Outubro de 1907 PARA SER DEFENDIDA POR W V Natural do Estado da Bahia Interno do Hospital Santa Isabel e Auxiliar da Clinica Cirúrgica do Dr. Lydio de Mesquita AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR D 7vy MEDIC1 NH DISSERTAÇÃO Cadeira de Therapeutica Da anesthesia chloroformica e seus accidentes (ligeiro estudo) PROPOSIÇÕES: Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas BAHIA Typographia e Encadernação do Lyceu de Artes Prudencio de Carvalho, director 1907 Faculdade de Medicina da Balda Director—Dr. ALFREDO BRlTTo Vice-D irector—Dr. MANOEL JOSE’DE AlIAUJO Lentes catliedraticos OS DRS. MATERIASOUE LECCIONAM l-.a SECÇÃO Carneiro de Campos : Anatomia descriptiva. Carlos Freitas Anatomia medico-cirurgica. 2.» Secção Aatonio Pacifico Pereira. . . . Histologia Augusto C. Vianna Bacteriologia. Guilherme Pereira Rebello. . . . Anatomia e Physiologia pathologícns 3a Secção Manuel José de Araújo Physiologia. JoséEduardo F.de Carvalho Filho. . Therapeutica 4a Secção Josino Correia Cotias. ..... Medicina legal e Toxioològia. Luiz Anselmo da Fonseca Hygiene. 5. a Secção Braz Hermeneítildo do Amaral . . Pathologia cirúrgica. Fortunato Augusto da Silva Júnior . Operaçèese apparelhos Antonio Pacheco Mendes . Clinica cirúrgica, 1.» cadeira Ignacio Monteiro de Almeida Gouveia . Clinica cirúrgica, 2.» cadeira 6. ;i Secção Aurélio R Vianna Pathologia medica. Alfredo Britto Clinica propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho. . . Clinica medica l'a cadeira. Francisco Braulio Pereira Clinica medica2.acadeira 7. Secção Jos Rodrigues da Costa Dorea . . Historia natural medica. A.. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria rpedica, Pharmacologia e Arte de formular. José Olympio de Azevedo .... Chímica medica. 8. » Secção Deocleciano Ramos. ... . . . Obstetrícia Climerio Cardoso de Oliveira . . Ciinicaobstetrica e gynecologica. 9. a Secção Frederico de Castro Rebello .... Clinica pediátrica , . , 10. Secção 1'rancisco dos Santos Pereira. . . Clinica ophtalmologica. 11. Secção Alexandre E. de Castro Cerqueira . Clinica dermatológica e syphiligraphica . rv 12. Secção Luiz Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de moléstias . _ , _ nervosas. Joao E. de Castro Cerqueira ... ,, .. Sebastião Cardoso . . Em disponibilidade Substitutos OS DOUTORES José Alionso de Carvaliio . •< seccão Gonçalo Moniz Sodré de Aragão . . . I Julio Sergió Palma. ...... > ’ Pedro Luiz Celestino 3 , Oscar Freire de Carvalho 4 a • Antonino Baptista dos Anjos 5‘a João Américo Garcez Fròes. ... 6.a » Pedro da Luz Carrascosa e José Julio deCalasans. 7 a J.Adeodato de Sousa ....... g‘a Alfredo Ferreira de Magalhães .’ . ! o!a » Clodoaldo de Andrade 10 » Albino A. daSilva Leitão . n) .' 12*. » Secretario DR. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES bUB-SECRETARio—DR. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA pefoffeuldaudct.orDeí approva nem reProva as opiniões exaradas nas theres iiimtmo ò CADEIRA IDE THERAPEUTICA Ua auesthesia chloroformica e seus aeci- dentes (ligeiro estudo) Ligeiras considerações sobre o chloroformio e sua aoção physiologica. Narcose chloroformica e signaes que in- dicam a sua realisaçao. 0 chloroformio ( C II Cl3 ), formenà trichlorada, é um ether simples, descoberto em 1831, quasi, simul- taneamente, por tres cliimicos notáveis : Soubeyran, na França; Liebig, na Allemanba; e Guthrie, nos Estados-Unidos. E’ um corpo que se apresenta em estado liquido, volátil, sem oôr, de sabor adocicado e cheiro ethereo sui generis. Em 1847, o grande Fiourens communicando á Academia das Scieocias de Paris o resultado de suas experienc.ias procedidas era animaes com o agente maravilhoso e terrível que tira a dor e algumas vezes a vida, no seu dizer, tornara patente ao mundo scienti- fico a sua propriedade de íazer desapparecer o poder excito-motor da medulla. Nesse mesmo anno, Simpson, de Edimburgo, empregando-o no homem, assegurava o seu poder anesthesico, hoje tão largamente utilisado na cirurgia. O chloroformio anesthesico deve ser perfeitamente isento das impurezas que podem provir da preparação, ou das resultantes da acção dos agentes exteriores, isto é, luz e calor. Das suas impurezas, algumas lhe 1 2 - emprestara propriedades altamente toxicas, e como ether chloroxycarbonico, cuja presença na economia ó revelada por um symptoma aterrador—o soluço— ; além desta impureza, têm-se encontrado chloro, ácidos chlorados, oleos empyreumaticos e, finalmente, álcool ordinário, que, longe de determinar accidentes toxicos, como se suppunha antigamente, está hoje sendo em- pregado para a sua conservação, depois dos trabalhos do Dr. Regnault. Para ser empregado na anesthesia cirúrgica, o chlo- roformio deve satisfazer ás condic-ões seguintes: ter cheiro suave; ser neutro ao papel de turnesól; vas- colejado com acido sulíurico uíficiual, lhe não deve communicar coloração alguma; não precipitar a frio, nem reduzir a quente, uma solução de nitrato de prata; não turvar-se quando misturado com agua e vascolejado, e muitas outras experiencias que seria fastidioso enumerar. Ditas estas palavras, cumpre tratar agora de sua acção physiologica. O chloroformio, assim como os demais anesthesicos, age sobre todos os elementos vivos, embaraçando ou pa- ralysando a actividade physiologica; assim é que elle impede os movimentos protoplasmicos da amiba e do leucocyto, as contracções do coração dos batrachios logo após sua extracçao do organismo, os movimentos das folhas da sensitiva (mimosa pudica), as fermen- tações, etc. Os anesthesicos, como poder-se-ia suppôr, não têm uma acção especifica sobre o systema nervoso, mas 3 uma acção primitiva. Os centros nervosos não são por elles attingidos simultaneamente, mas,' successi- vamente, em uma ordem constante e por dóses cres- centes. Graças a esta acção progressiva e gradativa sobre os centros nervosos, é que os anesthesicos têm em- prego em cirurgia. Na hierarchia nervosa é esta a ordem seguida por elles em sua invasão: l.° os hemispherios cerebraes — orgams prepostos ás funcções psychicas e à sensibi- lidade consciente e motricidade voluntária—; 2.° a medulla - conductora das impressões sensitivas, das impulsões motoras e ainda centro da tonicidade mus- cular—, e, em 3.° e ultimo logar, o bolbo racbidiano — orgão central que preside ás funcções de respiração e, em parte, de circulação. Acompanhando-se com attenção a invasão anesthe- sica, observa-se na l.a phase: a suppressão das funcções hemisphericas e, com ella, somno; depois, a suppressão da conductibilidade medullar e consecu- tiva anesthesia com abolição dos reflexos; depois ainda, o desapparecimento do tonus dos —resolução muscular—, e, finalmente, em 4.a e ultima phase, abolição das funcções bôlbares e consecuti- vamente syncope— apnéa toxica—. São estes os phenomenos que devem ser observados normalmente no correr da anesthesia, e por ahi se vê, que para se dar a parada da respiração e da circulação, cujos centros ordenadores se acham no bôlbo, é ne- cessário uma dóse de anesthesico muito maior do que 4 a sufficiente para paralysar o córtex cerebral; a menos que se trate de uma syncope inicial como sóe acon- tecer quando se emprega o processo de anesthesia por sideração, hoje banido, por preencher exactamente as condições óptimas de realisação do accidente supra referido. Os vapores anesthesicos que vão com o ar inspirado aos alvéolos pulmonares, penetram no sangue e es- palham-se por toda a economia, impregnando-a. Con- soante o grande principio de Physiologia, da exci- tação pre- paralytica, o chloroformío começa a agir activando a fu noção dos orgams que mais tarde tem de paralysar. O cerebro é o primeiro a sentir os seus effeitos, que se traduzem por delirio, sonhos, allucinações sensoriaes, hyperidéação, idéas desordenadas que se exteriorisam pela expressão apaixonada da physiono- mia, pelos gestos, pela volubilidade e indiscreção da linguagem, que obriga muitas vezes o anesthesista a desviar com o dêdo a commissura labial do operando para impedil-o de falar, evitando desta sorte a di- vulgação de algum segredo, etc. Além destes phenomenos, o paciente diz sentir zumbidos nos ouvidos, bimbalhar de sinos, sons lon- ginquos, rodar de carros, sobrevindo depois uma es- pecie de embriaguez, a que succede um somno profundo, somno sem percepções, sem sonhos e cujo despertar será sem lembranças. Depois do cerebro, é a medulla espinhal, por ordem de successão, atacada; a sensibilidade á dôr, 5 a principio exagerada, é a primeira a desapparecer; depois a sensibilidade taotil vae se embotando gra- dualmente, a começar pelos membros e, dahi passando ao tronco, à face, á mucosa oculo-palpebraL Antes , da invasão sensitiva terminar-se, a invasão motora tem inicio, e então observa-se o periodo clás- sico de excitação, caracterisado por uma agitação convulsiva de todo o systema muscular, principalmente dos musculos dos membros, dos motores do olho, dos mastigadores, etc. Depois segue-se uma parada dessas contracções musculares e tem-se a — resolução muscular — que, raríssimas vezes, é verdade, pôde deixar de haver. A resolução muscular prova-se praticamente sus- pendendo-se um membro e deixando-o cahir pelo proprio peso Neste momento todos os reflexos são abolidos (1); porém, longe de desapparecerem simultaneamente, vão se ausentando a pouco e pouco, até perder-se o oculo-palpebral, signal que marca a realisacão da anesthesia cirúrgica. O habil anesthesista Dr. Biousse diz que se não deve esperar o desapparecimento desse reflexo para espaçar as dóses de anesthesico e sim a sua dimi- nuição, porque a abolição completa está muito pró- xima do apparecimento de um symptoma aterrador— a dilatação brusca da pupilla — phenomeno quasi sempre (\) A’ excepç&o do ano-rectal, que pode persistir durante toda narcose, * <$> 6 precursor da syncope cardiaca, quando seguido de au- sência do reflexo corneano. Chegado o periodo de abolição dos reflexos, o anes- thesista deverá entreter a narcose com as dóses cha- madas de manutenção, isto é, gottejando o chlorofor- mio (1) toda vez que o reflexo vae reapparecendo. E’ iraprescindivel não levar a anesthesia além desse ponto, isto é: abolidos os reflexos, não se deve dar a respirar dóses grandes de anesthesico, sob pena do bôlbo ser atacado e por conseguiote compromettida a vida do paciente. Pela excitação desse centro nervoso, que contem em si o nó vital de Flourens — centro da respiração— e que preside ao íunccionamento do apparelho mo- derador cardiaco, representado pelo nervo vago (em- bora haja quem pense que a accão phrenadora deste nervo seja devida ás fibras annexas do espinhal) produzir-se-á um augmento dos movimentos respira- tórios e retardamento do rythmo do coração, cujo resultado será a syncope cardiaca — o grande perigo da anesthesia —, Acompanhando-se esta invasão successiva dos centros nervosos, tem-se um bom thermometro para seguir a marcha da anesthesia; mas, infelizmente, nem sempre os phenomenos se succedem do modo que descrevi; esta ordem não é infallivel: assim é que alguns indivíduos não têm periodo de excitação, (4) No caso de utillsar-se a mascara commum; com os appa- relhosf a technica variará precisamente. 7 isto é, a phase da excitação da porção motora da medulla, passa inteiramente despercebida ou é sim- plesmente esboçada ; outros, Dão tem abolição do re- flexo corneano, quer de ura, quer dos dois lados; em outros ainda, não se faz a resolução muscular, como em um caso por mim observado, (1) em que todos os musculos se contrahiram, permanecendo deste modo durante toda narcose, e o penis ficára em erecção, apezar de haver abolição completa dos re' flexos. SlGNAES QUE INDICAM A REAL1SAÇÃO DA ANESTHESIA 0 reflexo palpebral ou oculo-palpebral foi bem es- tudado por Paul Berger e outros, ficando assentado, que sua abolição marca a feitura da anesthesia ci- rúrgica. Quando a anesthesia é completa, consegue-se tocar com a pôlpa do dêdo na conjunctiva ou, antes, na cornea, sem que se dó o fechamento do olho que é produzido pela contracção do musculo orbicular das palpebras. Essa asserção é verídica em a quasi totalidade dos casos, entretanto, eu tenho observado anesthesia com- pleta com persistência do reflexo corneano, quer de um lado só, quer de ambos, especialmente nos alcoo- listas e nos hystericos. (I) Doente da enfermaria de S. José, no Hospital Santa Izabe’ operado pelo Dr. João Martins, em Dezembro de 1906. 8 Segundo Duret, as oscillações lateraes dos globos oculares, nystagmus chloroformico, pertencem aos primeiros periodos da anesthesia. Os olhos, a principio voltam-se para cirna um pouco divergentes e se occultam sob a palpebra su- perior. Se, levantar-se a palpebra, por influencia de uma impressão luminosa, elles executarão movimentos de rotação para a direita e para a esquerda sobre um eixo antero-posterior, como no nystogmus de origem central. A volta dos olhos (que estavam a principio diri- gidos para cima) á posição normal, assim como a perda dos movimentos associados, interessante phe- nomeno estudado por Mercier e Warner, constituem siguaes de narcose profunda. Além destes signaes, poderei citar o reflexo de Chassaignac também chamado cremasteriauo, que se produz pela excitação cutanea do triângulo de Scarpa. Esse reflexo consiste na contracção da bôlsa es- crôtal (suspendendo comsigo o testículo) quando se excita a pelle da região supra mencionada. A area, cuja excitação determina o dito reflexo, nem sempre se restringe aos limites do triângulo de Scarpa e, con- forme os autores, póde se estender ao joelho c até mesmo ao malleolo interno, na creança. Os signaes que marcam a realisação da anesthesia * nem sempre se manifestam; pódem falhar, verdade é que raras vezes, mesmo porque, nem todos os indivíduos soffrem com igual facilidade a acção do chloroformio. In de pendentemente das aptidões mais ou menos di- 9 versas, circumstancias existem, que modificam pode- rosamente seus effeitos; os alcoolatas, por exemplo, são menos accessiveis á acção delle. O Dr. Poulletier cita o caso de um artista-drama- tico distincto de susceptibilidade nervosa exaggerada, que inspirou uma quantidade prodigiosa de chlorofor- mio, sem que se conseguisse tornai-o insensivel. E, como este, vários outros factos existem na literatura medica, que afífirmam perfeitamente o que ficou dito, linhas acima. Accidentes immediatos e meios de remedial-os. CONSIDERAÇÕES 0 anesthesista deve ter sempre em mente,, que os accidentes e desastres são de incontestável fre'queneia (felizmente não entre nós) e que podem ser a conse- quência precisa da administração de anesthesieo impuro (1) (o que é raro); da irapericia ou mesmo brutalidade do anesthesista, ou ainda, do exaggero da excitabilidade reflexa e susceptibilidade toxica do operando. Esses insuccessos, podem ser o resultado de uma syncope laryngo-reflexa inicial, de uma syn- cope cardiaca, de uma apoplexia pulmonar ou se podem produzir pela influencia de uma moléstia propathica pulmonar ou cardiaca. (1) Citam-se tres casos de morte pelo chloroformio impuro dois em Berlim e um no exercito inglez, na Criméa. 10 Muitas destas causas de desastres podem ser afas- tadas; umas, empregando chloroíormio puro (1); outras, procurando nos doentes lesões visceraes an~ teri res, principalmente pulmonares e cardíacas, sem talar nos estados dyscrasicos que constituem um real perigo; outras ainda, empregando na administração do anesthesico todo o cuidado por ella exigido, convindo evitar-se sempre o excesso de inhalações, porquanto, dada esta hypothese, o ehloroformio agiria como um toxico. Mas, a despeito de todos esses cuidados, tem se presenceado, com o maior pasmo, sobrevir a morte com a sua estupidez habitual por uma syncope brusca cardio-pulmonar sem causa apreciável. A’ vista do exposto, o anesthesista consciente, não podendo prever um desastre, para o que seria preciso uma visda de Cassandra, ficará immerso no mart.yrio da duvida com a amargura de um espirito todo incerteza no desespero da impotência nkiante de um insuccesso a que se não pode furtar, e, todo esse acervo de sentimentos de- primentes, leva muita vez o profissional inteirado de seu papel, aos paroxysmos da raiva. Antes de attingirem os alvéolos pulmonares, os vapores anesthesicos podem, actuando sobre a mucosa (1) O ehloroformio de Edimburgo é tido como o mais puro, mas, na ausência delle, poder-se-á utilisar sem receio o de Dumeuthiers assim como o de Adrian. 11 das primeiras vias aereas, determinar reflexos compro- mettedores da respiração e da circulação. Estes phenomenos podem ser produzidos, quer pelas impurezas do anesthesico, quer pela irritação produ- zida pela inhalação brusca dos vapores que, por assim dizer, vão surprehender a mucosa; o mesmo poderá acontecer quando houver exaggero de sensibilidade do operando. A. irritação das mucosas nasal e laryngéa determina um retardamento raais ou menos considerável do coração, retardamento que pode terminar por uma syncope cardio-pulmonar, neste caso, chamada laryn- go-reflexa ou primitiva. (1) Os pontos de partida deste reflexo que têm como vias centrípetas, os ramos nasaes do nervo trigemeo e os nervos laryngêos, são as mucosas das fossas nasaes e do larynge. A syncope cardiaca resulta de uma reflexão de influxo centripeto pelas fibras do pneumogastrico, e a syncope respiratória é a conse- quência de uma inbibição do centro respeetivo; e, a razão da maior facilidade de producção destes pheno- menos no começo da anesthesia, está no facto do chloroformio nessa phase intensificar o poder excito- motor dos centros nervosos, como já fiz transparecer no capitulo anterior, quando me referi ao grande principio de Physiologia, da excitação pré-paralytica. (1) Por intoxicação do myoeardio, para Ríchet, 12 Não se poderia prever, em um caso dado, a influen- cia que pode ter o cliloroformio sobre o myocardio. Muitas pesquizas antigas e recentes têm demons- trado que muita vez, em a chloroformisação, pro- duz-se, depois do periodo de excitação, um abaixa- mento notável da pressão sanguinea; outras vezes a acção do coração cessa por via reflexa desde o começo da anesthesia ; em outros casos, o coração pára no correr da narcose, ou precedido de modificações per- cebidas pelo pulso (retardamento e arhythmia), ou sem signal algum prodromico ameaçador. Em muitos desses casos tem se encontrado pela necropsia, dege- nerescencia gordurosa do myocardio (st.eatose); porém têm sido observadas também, syncopes cliloroformicas mortaes, em individuos portadores de coração em per- feita integridade physiologica, como num caso a mim relatado pelo meu illustre amigo Dr. João Cândido da Silva Lopes,'habil chloroformisador e assistente da l.a cadeira de Clinica cirúrgica. Antigamente era crença geral que os doentes attin- gidos de uma affecção cardiaca supportavam menos bem o somno chloroformico do que os individuos que têm o coração em estado hygido ; na horaactual da sciencia porém, a experiencia faz modificar um pouco esse modo de ver, convindo dizer antes, que é o myocardio doente que constitue o perigo mais serio, porquanto 13 as lesões valvulares compensadas não parecem ag- gravar os offeitos da narcose, só havendo realmente contra-indicação formal ao emprego do chloroformio, na sabia opinião do grande Huchard—o creador da pathologia cárdio-vascular—, nos estados de hyposys- tolia. Tem se observado também a morte por parada do coração, durante ou immediatamente após a nar- cose, nos individuos que têm persistência do tbymus (status lymphalicus ou slatus ihymicus de Paltauf). Nesses casos, os phenomeuos que se manifestam re- vestem o aspecto da syncope cardiaca: a respiração se retarda e o pulso torna-se imperceptivel; depois, o coração para, e esta parada é precedida pela dilatação brusca da pupilla, emquanto o paciente respira ainda, porém muito superficialmente. A’s vezes as paradas da respiração e da circulação, são simultâneas, porém nunca se observam symptomas de asphyxia primitiva. Submettendo-se o paciente a respiração artificial, ainda se realisam algumas respirações espontâneas; a face recobra por momentos a coloração, seguindo-se, logo após isto, o desapparecimento de toda manifestação vital. A morte nos casos de hypertrophia do thymus pode ser por ccmpressão da trachéa, espasmo da glotte ou parada cardiaca. Varias theorias têm sido emittidas para explicar a morte nesses casos e, duas dentre ellas, merecem ser citadas. A da compressão exercida pelo thymus sobre a trachéa ou sobre os grossos vasos e nervos da base do pescoço, foi a primeira que veio ao es- 14 pirito dos observadores. Não é sem razão esta theo- ria, porque se têm encontrado em necropsias feitas em creanças moi tas, bruscamente, em plena saúde, o achatamento da trachéa. Além dessa theoria, poderei citar também a da hyperlhymisação que prima pela originalidade. Esta se assimilha muito á theoria já muito conhe- cida da hyperthyroidisação creada por Meebius e applicada aos accidentes basedowianos e em particular ás mortes post-operatorias. Escherich, o auctor que a concebeu, admitte que o thymus hypertrophiado der- rame na torrente circulatória uma substancia toxica capaz de crear uma excitabilidade pathologica dos centros nervosos cardiacos, que reagem por acção reílexa a causas occasionaes, sem effeito nos indivíduos normaes. ' Segundo pesquizas recentes de Wiesel, é provável que represente um papel primordial nestes casos, a falta de uma substancia chamada chromaffina, cuja relação com a regularisação da pressão sanguinea, é manifesta. Incontestavelmente, o slalus thymicus é, segundo os auctores, um dos maiores perigos á administração do chloroformio, mas infelizmente ainda hoje, o diag- nostico desse estado não é dos mais fáceis; apezar disso, será de bom aviso, procurar-se matidez no nivel do manubrium sterni, ligeiro bocio, hypertrophia do orgão splenico, e finalmente hypertrophia dos folli- culus da base da lingua e da parede posterior da pha- rynge, signaes de algum yalor clinico. 15 Os accidentes observados durante a chloroformi- sação podem ser devidos ao anesthesico, ao anesthe- sista, ou ao anesthesiando. Os primeiros estão hoje quasi inteiraraente afas- tados, graças aos conselhos de Rcgnault, Lucas Championnière, Prunier e Marty, para a purificação do chloroformio; os segundos, isto é, os que dizem respeito ao anesthesista, merecem o máximo cuidado, porque o chloroformisador contribue, incontestavel- mente, para a producção dos accidentes, quer por ignorância, quer por distracção, o que é mais frequente. 0 seu papel exclusivo é velar pela vida do operando, e para fazel-o, é raistér desviar inteiram ente a vista do campo operatorio, assim como evitar toda sorte de conversa com quem quer que seja. Em alguns serviços, costumam interceptar a vista do ajudante encarregado da anesthesia, por meio de um anteparo opaco, mor- mente quando o anesthesista é caloiro. A principal preoccupação desse ajudante é observar a respiração, que por si só, é bastante para advertil-o na maior parte dos accidentes. A observação do pulso póde ser dispensada porque, a não ser nos casos muito obscuros de syncope cardiaca primitiva, a parada da respiração precede sempre á da circulação. Não obstante isto, póde-se entretanto vigiar esta ultima. 0 pulso, depois das irregularidades do começo da chloroformisação, poderá dar o alarma, do seguinte 16 modo: pulso muito frequente (pha.se prodromica da parada); pulso muito retardado, e pulso arhythmico ffalso passo do coração). A coloração da face também deve ser observada e, com ella, os phenomenos pupillares e o reflexo corueano que, pesquizado de quando em quando, in- dicará o momento em que se deve augmentar a quantidade de anesthesico a inhalar. Resta-me agora tratar dos accidentes para os quaes contribue o proprio doente. Estes, são a consequên- cia de uma idiosyncrasia individual e suseeptibilidade toxica, de reacções nervosas exaggeradas e superex- citação reflexa, condições todas intrínsecas ao doente. O mecanismo physiologico das mortes que são muitas vezes imputadas ao chloroformio, varia muito. Elias se podem dar por choque moral, traumático e muito raras vezes, chloroformico, como exempli- ficarei em seguida. Desault viu succumbir, sem anes- thesia, um seu doente no momento em que elle marcava com o dêdo, no perinêo, o ponto em que devia incisar; Verneuil, ao incisar um abcesso na região lateral esquerda do pescoço, viu o doente cahir fulminado na occasião em que elle afastava os tecidos com odêdo; Casenave, deBordeaux, approximou das narinas de um doente, em quem elle tinha de praticar uma amputação, um lenço onde não havia siquer uma gotta de chloroformio, e depois de quatro inspi- rações, sobreveio a morte por syncope, com geral espanto de quantos assistiam a intervenção; Millers, assistente de Simpson, incisa a pelle de um indivíduo 17 qne empallidece e cae fulminadoum doente de Dowson, que devia ser operado de um estreitamento urethral intransponivel, ao deitar-se na mesa de ope- rações, foi acommettido por forte superexcitação e tremor fibrillar generalisados, que facilmente desappa- receram. Começada a anesthesia, sobreveio grande excitação acompanhada de convulsões tónicas e cdo- nicas violentas, cyanose e morte rapida consecutiva por asphyxia. E como estes, muitos outros casos que fôra tediento enumerar, nos quaes, não pode ser imputada ao chloroformio, criminalidade alguma. Consultando a Pliysiologia no que diz respeito a origem e hermeneutica dos reflexos (aliás muito 'communs nas operações que se praticam no perinêo, bem como nas laparotomias, no acto da extirpação de tumores de grandes adherencias) vê-se não ser tão facil o assumpto como poder-se-á, a primeira vista suppor. Para explicarem-se muitos delles, principalmente 03 que se relacionam com as vias conductoras periphe- ricas e centraes na elaboração dos reflexos cardíacos e pulmonares, durante a anesthesia chloroformica, têm-se que decidir questões bastante obscuras, ver- dadeiros enygmas de Physiologia. As impressões recebidas pelas fibras terminaes do sympathico determinam perturbações vasculares, isto é, reflexos puramente vaso-motores que têm como 18 elemento de conducção, ora a via medullar, ora o trajecto do grande sympathico. Esses reflexos podem se manifestar na região ou nas regiões adjacentes ao ponto de partida, ou mesmo nas mais afastadas. Até o proprio coração não se exime a sua acção reflexa como ver-se-á pelo ligeiro estudo que vou pro- ceder da seriação dos reflexos por intermediação sym- pathica. O grande sympathico, constitue um apparelho sen- sitivo-motriz, que contém em si vaiios planos de neu- ronas, como se observa em vários outros apparelhos mixtos. Esses neuronas, constituem dois grandes grupos dos quaes, o primeiro, é formado pelos ganglios verte- bracs do sympathico, collocados aos lados da columna vertebral, desde a primeira vertebra cervical-o ’ atlas— até a ultima sacro-coccygiana, e ainda pelos quatro ganglios do nervo do b.° para : o ganglio oph- talmico ou ciliar (nervo ophtalmico); o ganglio de Arnold (nervo maxillar inferior); o ganglio de Meckel ou spheno-palatino (nervo maxillar superior) e o ganglio infra maxillar (nervo lingual, do ma- xillar inferior). Graças ao seu duplo systema de prolongamentos cellulipetos e celluiifugos, esses diversos ganglios es- tabelecem communicações em tres direcções diffe- rentes: entre si, com a peripherica, e com a me- dulla, pelos seus ramos communicantes. O segundo grupo de neuronas, acha-se na medulla 19 e no bôlbo e, quanto a sua séde, nada puderei adiantar, porquanto ainda paira no espirito dos physio- logistas uma grande duvida, á despeito das grandes luzes trazidas pelo mcthodo anatomo-clinico, que todavia já vae rasgando novos horisontes á tão difli- cultoso assumpto. Além desses dois grupos de neuronas, encontra-se ainda um terceiro na base do cerebro e mais pre- cisamente nos corpos estriados, como se vê dos tra- balhes práticos de Arnold, White e outros experi- mentalistas notáveis. As fuucções attribuidas ao grande sympathico, embora elle apenas transmitta sensações inconscientes e movimentos involuntários, não estão de todo res- guardadas da influição do córtex cerebral; para provar esta asserção, basta trazer a baila os factos vulga- ríssimos dos batimentos do coração, da coloração da face, etc. sob a acção das emoções e do pensamento. Dada esta pallida idéa das vias de conductibilidade do sympathico, é facil se eoraprehender o mecanismo de producção da multiplicidade dos reflexos consecu- tivos â irritação de suas fibras. Esses reflexos são em sua maioria, morosos na manifestação, excepção feita para a influencia do sympathico sobre o centro circulatório, onde os reflexos são rápidos, e as alte- rações soflridas pelo myocardio, solicitam a attenção do anesthesista. Para bem se eoraprehender a acção reflexa do- sympathico sobre o coração, é imprescindível volver as vistas à topographia desse apparelho accelerador, 20 e então conceber-se-á, raais facilmente, o cyclo com- pleto dos reflexos cardíacos. E’ facto corrente e firmado em muitas pesquizas, que os nervos acceleradores do coração, emanando da medulía cervico-dorsal com os ramos communicantes, convergem para as massas ganglionares cervical in- ferior e l.a tlioracica, afim de se reunirem em se' guida a alguns ramos cardíacos. O systema accelerador deve ser dividido em me- dullar e bôlbo-medullar. Tendo em vista a grande area de emergencia dos nervos acceleradores medul- lares, repartil-os-ei em tres grupos ou series: a pri- meira ou descendente, tem sua origem na porção mais inferior da medulla cervical, dirigindo-se dahi ao 1,° ganglio thoracico, conduzido pelo nervo vertebral; a segunda ou transversa é constituída pelos ramos en- viados pelo l.° e 2.* pares dorsaes ao l.° ganglio thoracico; e a terceira ou ascendente é constituída pelos filetes que, alcançando as anastomoses do cordão thoracico com os 3.°, 4.° e b.° pares, vão até o 1.' ganglio thoracico ou ganglio thoracico superior, ponto de convergência dos acceleradores cervico-dorsaes. A róta seguida por elles para alcançarem o plexo cardiaco, é variadíssima; no entanto está assentado que a maior parte dos acceleradores que não attra- vessam o l.° ganglio thoracico para constituir o 1 0 nervo cardiaco, seguem o aunei de Vieussens e al- cançam o primeiro grupo cervical inferior por meio do qual elles se relacionam com alguns filêtes car- díacos dos segmentos superiores da medulla. 21 0 ganglio cervical inferior é ura centro de reunião de alguns nervos que convergem primeiramente para o 1.» thoracico e depois abandonando a cadeia do sympathico, quer ao nivel do l.° thoracico, quer no trajecto do annel, quer no ponto de união do l.° cer- vical inferior, vão constituir vários feixes acceleradores que unem o sympathico cervico-dorsal ao plexo cardiaco. Taes são, em rápidos traços, é verdade, as vias motoras que estabelecem a communicação do sym- pathico cervico-medullar com o plexo cardiaco, fi- cando mais ou menos elucidada, com a presente re- capitulação anatómica, a noção do reflexo cervico- medullar. Até agora me havia occupado, exclusivamente, do systema isto é : da porção cervico-dorsal da medulla na origem dos nervos acceleradores car- díacos; estudarei em seguimento, o papel da zona bôlbo-medullar na proveniência dos referidos accele- radores. De ha muito os experimentadores attribuiam áquella zona, uma funcçao motora, como se pôde de- duzir dos trabalhos de Longet, Burdach e outros, que assentavam no cordão sympathico cervical, a existência de fibras acceleradoras. Mais tarde, esse modo de pensar foi secundado por Giannuzzi, von Bezold, e, finalmente, em nossos dias pelo grande physiologista François Franck que, lançando mão de recursos até então immersos na treva do incog- noscivel, achou com peregrina destreza, a solução do 22 difficillimo problema, derrocando por completo ob- jecções tidas por inexpugnáveis e proclamando — dou- trina victoriosa — a presença de fibras acceleradoras no sympathico cervical. Não poderei determinar, como fiz como sympathico thoracico, as differentes anastomoses constituidas durante o seu tcajecto até o ganglio cervical superior, ponto de onde emana a impulsão acceleradora, que vae ao coração pelo sympathico cervical. O assumpto ainda não está bem estudado; existe ainda grande divergência de idéas. Synthetisando o ligeiro escôrço que fiz, direi: todos os nervos cardio-acceleradores originam-se da porção cervico dorsal da medulla e do bôlbo rachidiano; os primeiros, que constituem a serie cervico-dorsal, passam ao sympathico thoracico pelos ramos communicantes emanados dos últimos pares cervicaes (4.° a 7.*) e dos primeiros dorsaes (l.° a 5.°); os segundos, serie bôlbo-medullar, por intermédio do sympathico cer- vical superior ao ganglio cervical inferior. Os ganglios cervical inferior e l.° thoracico são os centros de convergência de todos os nervos acce* leradores livres, que vão ao plexo cnrdiaco. Conhe- cidos, como estão, os elementos do arco diastaltico, facilmente poder-se-á comprehender o mecanismo dos reflexos do sympathico bôlbo-medullar. Accidentes immediatos Denominam-se assim, os que têm logar durante ou immediatamente após a chloroformisação. O seu 23 numero está hoje felizmente muito restricto, graças á purificação do anesthesico e ao aperfeiçoamento da technica da anesthesia. E’ muito raro observar-se actualmente, depois do banimento do methodo de anesthesia por dóses mas- siças ou de sideração, empregado ainda, infelizmente e para vergonha dos scientistas, por alguns cirur- giões ineptos, a syncope laryngo-reflexa inicial ou de Duret. Apezar disso, alguns operadores, entre os quaes de Saint-Germain, aconselham-no para a anesthesia das creanças, garantindo inteira inocuidade. Os accidentes da chloroformisação mais frequente- mente observados, são ; Syncope respiratória—Accidentesem gravidade. Causas: espasmo dos musculos respiradores, es- pasmo da glotte, embaraço mechanico á respiração pelas vestes ou por obstrucção das vias aereas e ainda, paresia dos bronchios ou ataque ao bôlbo rachidiano. Esse accidente póde sobrevir em qual- quer dos períodos da anesthesia, precedendo sempre a syncope cardíaca. Para combatel-a basta as mais das vezes, suspender-se fortemente o mento do pa- ciente ; e, quando isto não baste, poder-se-á re- correr ás tracções da lingua, como aconselha Laborde, ás pressões manuaes rythmadas no thorax, ou á res- piração artificial, caso seja necessário. Ptyalismo — Accidente trivial. Causas: acção do chloroformio sobre as glandulas 24 salivares e sobre as mucosas, determinando reflexos secreto rios. De ujn modo geral, o ptyalismo não deve ser con- siderado accidente da chlorofermisação por não se produzir somente peia acçào do chloroformío, entre- tanto, é muito frequente na anesthesia por este agente. Essa hypersecreçã:» salivar poderá determinar phe- nomenos de asphyxia por obstrucção das vias aereas. Portanto, toda vez que o anesthesista ouvir a res- piração gargarejante, deverá montar em uma pinça commum um pouco de gaze aseptica ou mesmo, al- godão bumidecido, com o fim de retirar as muco- si dades do fundo da garganta. Vomitos—Accidente sem importância. Causas: plenitude do estomago, esforços de tosse, irritação dos ramos gástricos do nervo vago e gosto do anesthesico (nauseoso para algumas pessoas). Ordinariamente este accidente não é observado no começo da anesthesia, como também é mais fre- quente nas creanças do que nos adultos; em todos, porém, manifesta-se fatalmente quando o estomago está em plenitude. Este phenomeno é denunciado ao anesthesista (que não deve deixar de velar a respiração) pelas con- tracções gastrieas visiveis atravéz da parede abdo- minal, e também pela dilatação brusca da pupilla com reapparecimcnto do reflexo corneano(l). Embora seja um accidente vulgar, o vomito, po- (1) Este signal diz também que o paciente vae despertar. 25 derá, entretanto, interromper por momentos o curso de uma laparotomia, determinando a eventração das vísceras. Manifestando-se o vomito, o anesthesista deve pôr o operando em o decúbito lateral direito e sus~ pender-lhe a cabeça, afim de evitar a obst.rucção das vias aereas pelas matérias vomitadas. Muitos auctores se tôm esforçado para evitar esse accidente. Uns, preparando o estomago do operando, com a administração de amargos, purgativos etc., nos dias anteriores á operação; outros, dando de beber aos doentes, agua cocainada com o fim de in- sensibilisar a mucosa gastrica; outros, ainda, fazendo beber agua antes da anestliesia, etc. A experiencia não sancciona nenhum destes pro- cessos, a não ser os que dizem respeito ao preparo das vias gastricas por meio dos purgativos salinos re- petidos, nos dias anteriores á anestliesia. Para evitar o vomito, quando está imminentc, cos- tumam alguns anesthesistas fazer maçagens no epi- gastro ; o melhor, porém, ao meu ver, é facilitar-se a expulsão do contexto estomacal e depois, adminis- trar-se uma dóse forté de chloroformio. Tôm aconselhado também, a applicação de com- pressas frias no pescoço e varias outras indicações sem importância. Tosse — Accidente também sem gravidade. Causas: irritação do vestibulo da glotte, do larynge ou da trachéa pelos vapores anesthesicos, pelas ma- 26 terias vomitadas e ainda pelas matérias que se accu- mulam no fundo da bocca: mucosidades e saliva. Só deve ser considerada accidente da chlorofor- misacão, se pertinaz e rebelde. Quando o pheno- meno sobrevém no começo da anesthesia, é de bôa pratica suspendel-a, até que passe o accesso; se, porém, a chloroformisaçao ja foi iniciada ha algum tempo, com uma dóse forte de anesthesico se consegue dominar o accidente. Aspiiyxia.— xAccidente de alguma gravidade. Causas: syncope respiratória, obstrucção das vias aereas por mucosidades, saliva, matérias regorgi- tadas, sangue (quando se praticam operações na porção superior das vias digestivas e respiratórias), por espasmo da glotte, quéda—retro-prolapso da lingua — e finalmente por corpos extranhos; sem falar na aspiiyxia secundaria por intoxicação bôlbar - as- phyxia branca — assim chamada pelos auctores, que distinguem uma outra variedade a — azul — ordina- riamente de causa mechanica. A asphyxia é caracterisada ordinariamente pela cyanose, e pode manifestar-se em qualquer dos pe- ríodos da anesthesia; entretanto, é mais commum nos últimos, quando o etherismo, depois de haver pa- ralysado a vida animal, vae attíngir a vida organica. E1 preciso velar sobretudo, a quantidade de ar res- pirável que deve existir nos pulmões invadidos pelos vapores anesthesicos, o torpor dos pneumogastricos, a suppressão da innervação em geral, que acarreta a parada dosorgãos activos da respiração, além de outras 27 circumstancias como o espasmo da glotte de que acima falei. Toda a attenção é necessária; não se deve deixar de velar a respiração porque é muito mais facil evitar a asphyxia, do que combater a syncope cardiaca. Ja- mais me cansarei de recommendar a vigilância da res- piração, porque nem sempre é facil se reconhecer a asphyxia, haja a vista a pigmentação do individuo; e, nesse caso, só a irregularidade da respiração ou sua parada, poderão chamar a attenção do anes- thesista. Se o accidente tiver logar no começo da anesthesia, ver-se-á cyanose da face e esforço respiratório por parte do doente; se porém, a narcose já estiver feita, a asphyxia poder-se-á manifestar bruscamente, e então se hão de observar desigualdade do pulso, ruidos surdos e incompletos do coração, que anti- gamente eram explicados por uma estagnação do sangue em suas cavidades, etc. A asphyxia é quasi sempre precedida de dispnéa polypneica; após esta, seguem-se convulsões, a menos que a parada da respiração se faça tão lentamente que os centros convulsivantes fiquem anesthesiados pelo anhydrido carbonico accumulado no sangue. No campo operatorio, o cirurgião pratico terá sci- encia do perigo pela mudança de coloração do sangue arterial que, de rutilante, se torna escuro. Uma vez em presença de tal accidente, cumpre dissipal-o e, para isto, procurar-se-á ver, se a res- piração é estertorosa ou gargarejante. 28 No l.°caso, observar-se-á retro-prolapso dalingua, isto é, queda da lingua tapando o fundo da bocca; neste caso, projecta-se o mento para cima, abre-se a bocca do paciente com um afastador de maxillas ou mesmo com as mãos, e, pegando-se a lingua com uma pinça de Laborde ou de Doyen, fazem-se tracções rythmicas com a respiração, de sorte que a projecção do orgam para fóra corresponda á expiração. Alguns cirurgiões empregam com o mesmo fim a pinça de Bevger que, munida de garras, transfixa o orgam. E’ uma pratica selvagem essa de rasgar-se a lingua inutilmente, quando se dispõe de outros recursos mais brandos e egualmente efficazes; além disso quem o fizer deverá procurar as partes lateraes, porquanto na linha media, arriscar-se-á a lesar a artéria ranina ramo terminal da lingual, ao mesmo tempo que abrirá uma porta á infecção. No 2.° caso, isto é, quando a respiração é garga- rejante (o que é produzido por accumulo de saliva na entrada do larynge) deve-se recorrer a uma com- pressa de gaze aseptica ou algodão e, com o auxilio de uma pinça commum, limpar-se a garganta. Em todos os casos porém, o primeiro passo a dar-se é sus- pender a chloroformisação e logo depois, proceder á respircção artificial. Syncope cardíaca—Accidente muito grave, — o terror do anesthesista —. Causas: reflexo, intoxicação do myocardio ou in- toxicação bôlbar, A syncope cardiacapóde ser precoce, inicial e, como 29 tal, imprevista ou tardia, e, neste caso quasi sempre com signaes precursores, como sejam: pallidez mar- mórea ou lividez (conforme a côr do indivíduo); re- tardamento e parada da respiração e finalmente fra- queza e parada do pulso. A syncope inicial, primitiva, laryngo-reflexa ou de Duret, foi considerada pelo notável Richet, (que negou em absoluto a origem reflexa do phenomeno) como, causada exclusivamente por intoxicação do rayocardio. Não obstante achar-se esta theoria abroquelada por auctoridade de tão grande envergadura, não vacillarei em me postar ao lado de François Franck, Dastre, Morat e outros, na atti íbuiçao do accidente a um reflexo. A não ser assim, como admittir-se a intoxicação do myocardio, quando o chloroformio não penetrou na torrente circulatória, não foi ainda absorvido ? Apezar destas refutações, aliás justas, ao absolu- tismo de Richet, embora seja eu avesso a creações e, com o unico fim de conciliar as idéas dos grandes mestres a quem todos devemos venerar, dividirei a syncope primitiva ou inicial, tendo em vista a preco- cidade de sua producção, era: reflexa ou de Duret (1 ) e toxica ou de Richet, conforme o phenomeno se der logo após a primeira inhalação, ou nos pri- meiros periodos da anesthesia. (1) Shock chloroformico para Lauder Brunton, 30 Não 6 de todo destituído de razão o pensar de Richet, porque os tecidos do coração (nervoso e mus- cular) estão muito expostos a acção dos gazes inha- lados. Estes, chegados aos alvéolos pulmonares, pe- netram no sangue da pequena circulação e, chegados ao coração esquerdo pela veia pulmonar, são im- pedidos para as varias artérias, inclusive as coroná- rias que nutrem o coração; dahi o facto de Richet considerar a syncope primitiva, por intoxicação do myocardio e não, reflexa. A syncope tardia é precedida ainda (além dos signaes deseriptos acima) pela dilatação brusca da pupilla na ausência do reflexo corneano; pelos suores frios e pro- fusos e finalmente pela abertura espontânea das pál- pebras (como para olhar pela vez derradeira o mundo) com abolição do supradito reflexo. Em presença de tal accidente, o anesthesista deve conservar o maior sangue frio; é excusado gritar ou desmaiar. Suspensa a chlorofoimisação, deve-sfe arejar a sala, proceder a respiração artificial combinada cem as tracções ry th micas da lingua, provocar os reflexos orificiaes, fazer maçagem no precordio e revulsões na mesma região, com o martello de Mayor, injectar via sub cutanea, cafeína ou ether sulfurico, que é mais efficaz, etc. Se tudo isto não fôr sufficiente, póde-se tracheotomisar o paciente e insuflar nos pul- mões ar ou oxigénio; as iujecções intra-venosas de sôro physiologico também tem sido aconselhadas, assim como a electrisação do nervo phrenico e do precordio e, fiualmente, se tudo for baldado, em desespero de 31 causa e como ultimo esforço salvador, pcder-se-á, imitando a audacia do viennense Steiner, praticar a electro punctura do coração. Os experimentadores são unanimes em reconhecer o poder salutar da electricidade nos indivíduos acom- mettidos' de accidentes graves no curso de uma anes- thesia; porém, ainda hoje, não estão de accordo 11a escolha da forma de empregar esse meio verdadei- ramente heroico. Duchenne, quer que se provoquem as acções reflexas da medulla, a custa da excitação cutanea da região precordial, pelas correntes da machina de inducção, isto 6, pela faradisação ; ao passo que Logros e Onimus, receiando as correntes induzidas que elles accusam de se poderem tornar funestas, trazendo a parada do coração, aconselham exclusivamente a pilha deRemak cujo exito não poderá ser completo se não se agir sem interrupção. Liégeois reconhece os perigos das correntes indu- zidas fortes e admitte a utilidade das correntes con- tinuas; entretanto são preferidas por elle, as cor- rentes de inducção fracas não só porque seus effeitos são satisfactorios, como também por estarem ao al- cance de todos os cirurgiões. As correntes induzidas são excitantes da contracti- iidade muscular ou mesmo directaraente da acção dos centros nervosos. Os apparelhos utilisados pelos cirurgiões e que se recommendam pela sua facil portatilidade são: a ma- china magneto-faradica de Gaiffe e a volto-faradica dé Chardin. 32 De dois modos se pode empregar a faradisação quando surge a syncope chloroformica: ou agindo sobre o nervo phrenico no seu ponto electío-motor, situado no espaço comprehendido entre as inserções inferiores do sterno-cleido-mastoidêo, o que irá de- terminar a contracção do diaphragma — o musculo res- piratório por excellencia —; ou actuando sobre o segmento cervico-dorsal da medulla, como recom- menda Dastre, e por esse meio, solicitando a acção dos acceleradores cardiacos. Alem dos accidentes de que tratei, embora muito perfunctoriamente, diversos outros podem manifes- tar-se durante a anesthesia. As crises bystericas, o tremor generalisado post- narcotico, e vários phenomenos mais, se veem surgir em uma chloroformisação. Vários factores contribuem para o bom exito desta operação; uns dependentes do anesthesista e outros do operando. Os que dizem respeito a este ultiuu, são os es- tados constitucianaes, as susceptibilidades toxicas etc.; os primeiros porem, merecem neste momento uma noticia mais longa. A. therapeutica moral com os seus agentes, deve ser posta na primeira linha, taes os relevantissimos serviços por ella prestados. 33 A tranquilidade de espirito do paciente, assim como sua confiança no anesthesista, constituem meio ca- minho feito, para o bom resultado da anesthesia; para isto, o anesthesista deve conversar com brandura com o doente, incutir-lhe no espirito, a inteira inocui- dade da chloroformisação; avisar-lhe mais ou menos o que se vae passar, tudo em linguagem accessivel, isto é: levando em conta a instrucção e a edade de cada um. E’ bôa pratica (como se íaz nos serviços asepticos), anestbesiar os doentes fóra da sala de operações, fur- tando-lhes á vista, o instrumental cirúrgico, os pre- parativos e emfim tudo que lhes possa atemorisar. Alguns cirurgiões entre os quaes Terrier, tinham o habito de occultar aos seus doentes, o dia da, ope- ração ; assim é que surprehendiam-nos logo pela manhã em jejum e começavam mesmo no leito a anesthesial-os a pretexto de fazer um exame mais minucioso. Depois, quando a anesthesia ia em meio, o cirurgião fazia-se substituir pelo ajudante que a completava ; e deste modo poupavam ao doente a an- gustia de pensar no dia da operação. Sob o ponto de vista moral, este processo é ex- cellente, e alem de tudo, permitte ao operando ficar com inteiro socego de espirito e dormir convenien- temente na vespera da intervenção. Antes de começai a anesthesia, o ajudante encar- regado de fazel-a, deverá procurar nos doentes as dentaduras postiças, que podem durante a operação 34 cahir no pharynge ou nas vias aereas e determinar sérios embaraços. Deverá também exigir, das pessoas presentes na operação, silencio, que no pensar de Boncour, pa- rece indispensável. Effectivamente conversar com o anesthesiando, mandar-lhe contar,etc., é prender-lhe a attenção e, por conseguinte, retardar a narcose. Este preceito, que eu tenho posto em pratica com os me- lhores resultados, é inteiramente contrario ao que fa- ziam antigamente os cirurgiões que conversavam lon- gamente com os chloroformisandos, não só para fa- zei-os respirar, mas também, para se certificarem do grào de auesthesia, conforme a precisão das respostas obtidas. E’ indispensável, também, habituar o doente á im- pressão do chloroformio, isto é: cumpre estabelecer a tolerância respiratória (si é que assim posso chamar). Para a obtenção desta, derramam-se algumas gottas de chloroformio (4 a b) dentro da mascara de Nicaise ou outra qualquer, tendo-se o cuidado de approximal-a e afastal-a até collocar de vez sobre as narinas e a bocca do operando; o ar inspirado levará de mistura comsigo, alguns vapores do anesthesico; retira-se a mascara e novas gottas são derramadas e assim se- guidamente até completa anesthesia. Feitas as primeiras inhalações não mais é neces- sário retirar-se a mascara do rosto do paciente (salvo em casos especiaes) e então sobre ella serão derra- madas ás gottas do anesthesico. A’s vezes, quando logo no começo da anesthesia, 35 o nariz e a bocca do paciente acham-se era uma atcnosphera muito concentrada de vapores de chlo- roformio, clle poderá sentir suffocação e pretender re- tirar a mascara; si não o conseguir, susterá a respiração durante certo tempo (conforme o folego) findo o qual será obrigado a respirar, e fazendo-o, inspirará brus- camente grande quantidade de chloroformio que poderá, irritando a mucosa das vias aereas superiores, de- terminar accidentes reflexos. Por essa razão quando o doente, no começo da anesthesia, prende a respiração, deve-se retirar a mas- cara e esperar que elle continue a respirar sem o que não dever-se-á administrar nova dóse de anesthe- sico. Quando a respiração torna-se oífegante, diffi- cultosa e precipitada, a face túrgida, é de bom aviso afastar-se a mascara até que a respiração se regu- larise e se restabeleça a calma. Ordinariarneute a anesthesia se faz pelo simples facto da continuidade das inhala.ções sem que seja necessário forçar as dóses; quando porém ella se faz esperar, augmentam-se as doses de chloroformio tanto mais abundantemente quanto mais pronunciada fôr a excitação, até completa narcose. E1 um bom habito, manter-se a maxilla superior suspensa durante toda a anesthesia com o fira de fa- cilitar a penetração do ar na porção superior das vias aereas que ficam, com essa manobra, menos tortuosas. A maxilla é suspensa pela mão esquerda do anes- thesista que com o polex sustem a mascara e com 36 os outros dedos ao longo do seu ramo esquerdo po- derá (ao mesmo tempo que o levanta, tomar o pulso facial (1) si não quizer fazel-o na artéria tem- poral superficial. A mão direita livre manejará o vidro de chloro- formio. Posição — A posição a dar-se ao anesthesiando deve ser também levada em conta. Ordinariamente é o decúbito dorsal a posição de escolha, entretanto, os decúbitos lateraes podem ser utilisados. Geralmente se começa a chloroformisação pondo-se o doente na posição horizontal com a cabeça sobre urn pequeno travesseiro, que é rotirado uma vez começada a anesthesia. Algumas vezes, isto é: quando se praticam ope- rações na bocca, pharynge, fossas nasaes, larynge, trachéa, etc, assim como nos casos de espasmo da glotte, a cabeça é posta fóra da mesa e inclinada para traz (em extensão) constituindo isto, o que se chama a posição de Rose. Os doentes não devem ser chloroformisados sen- tados, porque esta posição, além de outros inconve- nientes, predispõe á syncope, ao ver de Stanski. Vacuidade do estomago — E’ o estado mais favo- rável á realisação da anesthesia chloroformica, por- (1) Aconselho a pesquiza do pulso facial, de preferencia a outro por estar mais á mão do anesthesista, que deve ter sempre suspenso o mènto do anesthesiado. 37 quanto o anesthesico paralysando a digestão, deter- mina quasi sempre vomitos, e, do embaraço resul- tante, poderão surgir complicações outras, como sejam congestões visceraes. Alem disso, asseguram alguns auctores, agir o clilo- roformio com menos rapidez quando os doentes se ali- mentaram. Momento da intervenção—Deve ser levado em conta o momento em que o cirurgião tem de fazer a primeira incisão. Emquanto a narcose não fôr com- pleta, se não deverá intervir, sob pena de expôr o pa- ciente a uma syncope mortal; e, quando isto não acon- teça, difficilmente se conseguirá manter anesthesiado, durante toda a operação, um individuo despertado por um reflexo, quando a anesthesia íôr ainda incompleta. Vem ao caso dizer aqui, que algumas vezes o chloro- formisador novo, poder-se-á ver em apuros para dizer ao cirurgião, com firmeza, quando a narcose é com- pleta ; e isto acontece principalmente quando se trata de indivíduos nos quaes a abolição dos reflexos se faz muito tardiamente ou falta em absoluto. Se é verdadeiro o preceito de que se não deve in- tervir emquanto a narcose não é completa, a anesthesia obstétrica é uma infracção a elle. Para que se dê a abolição da sensibilidade á dôr (analgesia) é necessário que o chloroformio actiíe sobre a porção sensitiva da medulla, mas para chegar até ahi já o cerebro foi atacado e suas funcções pa- ralysadas. Como conseguirão portanto os parteiros obter esta 38 insensibilidade era pleno conhecimento da parturiente, quando é sabido que o chloroformio ataca primeiro o cerebro e, só depois deste, é a medulla atacada? Por outro lado, porque se não fazer a narcose completa? Que inconvenientes haveria nisso? Será por ventura receio de paralysia (inércia) uterina? Não ha razão para tal, porque o chloroformio em dóse physiologica paralysa unicamente os musculos da vida de relação, e, não fôra assim, haveria relaxa- mento dos esphincteres, parada do coração etc, o que se não dá absolutamente. Além dessas cautelas cujo fim é rarear os accidentes da chloroformisação, meios outros existem ainda, em- pregados com o mesmo fito; quero me referir ás in- jecções de soro pre-narcoticas e ás anesthesias mixtas propriamente ditas. O Dr. Burkhardt de Wurtzbourg (1) depois de longas pesquizas procedidas em animaes com a iu- jecção de sôro physiologico, concluio que este, ele- vando a pressão sanguínea, augmentava também a tolerância para o chloroformio. Suas experiencias de- monstraram que os animaes injectados, supportavam sem perigo uma «concentração mortal» de vapores de chloroformio. * Em vista dos bons resultados obtidos, o referido professor resolveu empregar o processo em sua cli- nica cirúrgica, e em cada doente que tinha de soffrer (1) L. Burkehardt — Arch. fur. klin. chi. 1907 39 uma intervenção grave eu de longa duração, elle pra- ticava lo ou 30 minutos antes da operação, uma in- jeccão intra venosa de 1300 a 2000 centímetros cu- bicos de soro physiologico, sempre com os melhores resultados. O pulso conservava-se sempre bom e os accidentes post-narcoticos: cephalalgia, nauseas e vomitos se manifestavam muito attenuados ou faziam inteira falta. Esse processo é passível de censura, empregado indifferentemente em qualquer indivíduo; que elle seja utilisado em um indivíduo anemiado, estou de pleno accordo; mas, em um indivíduo plethorico, não; a demais a penetração rapida no sangue desses indi- víduos. de uma quantidade tão grande de liquido (1300 a 2000 c. c.), poderia dar logar a complicações se- rias como fossem: congestões, hemorrhagias etc. Em toda anesthesia, os vapores de chlorofonnio entram nas vias aereas com o ar inspirado, peio que, de um modo geral, não ha razão em se classificar no grupo das anesthesias mixtas, aquellas nas quaes se empregam simplesmente ar e chloroformio. Mas, com o aperfeiçoamento da technica, foram fabricados apparelhos complexos com o fim de admi- nistrar em um volume certo de ar uma determinada quantidade de chloroformio. 40 Foi Paul Bert quem primeiro teve a idéa de admi- nistrar quantidades dosadas de ar e chloroformio; de- pois delle, vários auctores construiram apparelhos, qual mais complicado, para o mesmo fim e final- mente o Dr. Ricard, inspirado no apparelho de Vernon- Harcourt, mandou construir um muito engenhoso, que até agora, parece ser o melhor no genero, porquanto é o mais facilmente portátil e manejavel e o mais ri- gorosamente dosado. Esse apparelho, por meio de um systema delicadissimo de valvulas que registam a ins- piração e a expiração, permitte ao cirurgião educado acompanhar com o ouvido, o funccionamento da res- piração (1). Aqui na Bahia só existe um specimen do dito ap- parelho de Ricard pertencente ao Snr. Dr. Lydio de Mesquita, cuidadoso cirurgião da Santa Casa de Misericórdia, que o tem empregado pelas mãos do seu habilissimo anesthesista o Snr. Dr. Rayraundo de Mesquita illustrado assistente da 2.a cadeira de clinica i cirúrgica, em anesthesias de duas e mais horas de duração sem o mais leve incidente a lamentar. François Franck, preconisava a anesthesia pela cocaina da mucosa das vias aereas antes- da chloro- formisação com o fim de evitar a syncope inicial. Em nossos dias o Dr. Doyen tem aconselhado, com o mesmo fim, que se utilise nas primeiras inhalações o chlorureto de ethyla puro. (1). Foi a Bahia o primeiro iogar da America do Sul, onde se empregou o apparelho de Ricard. 41 Este conselho, que indubitavelmente é magnifico, póde entretanto ser perfeitaroente dispensável, habi- tuando-se o paciente a respirar o chloroformio. Baseado nas propriedades soporificas da mor- phina, Glaude Bernard, teve a idéa de associal-a ao chloroformio com o fim de prolongar a anesthesia e obtel-a mais rapidamente com uma dóse pequena do anesthesico. Suas experiencias se limitaram aos animaes; mais tarde, este methodo foi empregado no homem, por Niissbaum, Rigault et Sarazin, Guibert de St. Briene, Labbé, Goujon etc. Permittindo reduzir a quantidade de chloroformio a inhalar, esse methodo mixto dimi- nue em grande parte os perigos da anesthesia chlo- roformica. A morphina age, no mesmo sentido e por um processo inverso sobre o cerebro, determinando neífee orgão uma hyperhemia e difficultando por conse- guinte, a producção das syncopes, muitas vezes mortaes e evidentemente favorecidas pela ischemia cerebral, causada pela acção vaso-constrictiva do chloroformio. Gom este meihodo mixto, tem-se observado não só a ausência da excitação, como também a rari- dade das mortes por saturação chloroformica. Por outro lado, têm-no incriminado, de produzir parada da respiração; é possivel, mas incerto, e se o fizesse, a syncope respiratória não seria ura accidente de gravidade extrema e, com uma bem feita respi- ração artificial, poder-se-ia dominal-a, 42 Pretenderam também que esse methodo mixto fosçe o causador de um resfriamento considerável do paciente; não é isso peculiar a elle, mas, a toda anesthesía e em consequência da resolução muscular e do certo gráo de nudez, em que se costuma pôr o operando. Dastre e Morat, baseados na propriedade thera- peutica da atropina de suppnmir o apparelho mode- rador cardíaco, utilisaram-na em injecção, antes da narcose chloroforraica. Infelizmente a atropina é mal tolerada pelo homem e então, para obviar esse inconveniente, juntaram-lhe a morphina que attenúa consideravelmente os seus effeitos. Esse methodo, alóm das vantagens do methodo morphina-ehloroformio, difficulta grandemente a pro- ducção da syncope cardiaca, porque paralysado o apparelho moderador (nervo vago), fica o coração sob a dependencia do accelerador (nervo grande sym- pathico). Essa anesthesia mixta tem sido empregada aqui, no serviço de laparotomias do Dr. Lydio de Mesquita, pelo Dr. Raymundo de Mesquita, com os melhores resultados. O modo de fazer é o seguinte: injecta-se antes da operação (30 minutos) 1 centi- metro cubico da solução seguinte de Aubert e Tri- pier: Ghlorhydrato de morphina — 10 centigrammos. Sulfato de atropina — h milligrammos e Agua esteri- lisada —10 grammos. Langlois e Maurange, empregaram, ao envez da atropina, a esparteina e instituiram o seu methodo mixto — esparteina, morphina, chloroformio — que tem 43 dado bons resultados. Consiste esse methodo na inje- cção, antes da chloroformisação, de 1 centigrarnmo de morphina (chlorhydrato) eb centigraramos de sultato neutro de esparteina. Psaltoíf de Smyrna, tem empregado, com resul- tado, o methodo scopolamina-morphioa-cliloroformio. A tcchnica seguida por elle 6 a seguinte : inje- cta-se uma hora antes da chloroformisação, 1/2 milligrammo de scopolamina e 1 centigrarnmo de mor- phina. Georges Soleil (1) diz que com este methoio sé conseguem evitar os desastres, quasi fataes, nos casos de persistência do thymus. Entretanto Delbet, notificando 2 casos de morte no seu serviço, e um outro no serviço de Quénu, proscreve-o formalmente. Inspirados na circumstancia dos maiores perigos da chloroformisação residirem no abaixamento da tensão sanguínea, sob a influencia da paralysia do centro vaso-motor, Evenkhov e Kouznetzky (2) no- táveis professores russos experimentaram e verifi- caram que o chlproformio era melhor tolerado após uma injecção de estryclmina. Suas experiencias foram feitas nos auimaes e depois no homem, com resultados satisfacturios. A technica seguida pelo primeiro, era a seguinte: injecção de 6 decimilligrammos a um milligrammo do alcaloide, Ib minutos antes da anesthesia, e a (1) La clinique, 1907. (2) La Semaine Médicale, 1900. 44 narcose era obtida sem vomitos e sem excitação (assim diz o auctor). O segundo procedia de modo diverso, injectava nos dias que precediam a intervenção, 1/2 centímetro cubico da solução de 6 centigrammos de estrychnina em 15 granimos de agua. O auctor não empregava o seu processo indiffe- rentemente em todos os indivíduos, mas, especial- mente nos alcocdistas, nos attingidos de myocardite, de arterio-esclerose, lesões valvulares, etc., variando o numero de injecções, com a actividade cardiaca e os antecedentes do doente, podendo elevar-se mesmo a vinte no máximo. Tudo é dado admittir, menos a ausência de ex- citação com esse methodo mixto, o que viria até certo ponto, negar a propriedade therapeutica da estrychnina de medicamento excitante medullar por excellencia. Forné e Perrin empregaram a anesthesia mixta chloral-chloroformio. Trélat, o methodo chloral-morphina-chloroformio. Billruth, Moorhof, Harley, Linhart e alguns cirur- giões viennenses utilisaram uma mistura de chloro- formio, álcool e ether sulfurico. Kocher—chloroformio e' ether sulfurico e com elle Spencer-Wells e Snow que usavam particularmente a chamada mistura de Vienna (6 partes de ether sul- furico e 2 de chloroformio). Sansom servia-se de uma mistura de álcool e chlo- roformio. Semelhante procedimento têm alguns cirur- 45 giões ingleses entre os quaes o Dr. Alban Doran do Samaritan Hospital de Londres, para com os al- coolistas que internados nos hospitaos e affastados por isso do contacto diário do alcoo! têra de ser operados. Esse cirurgião costuma dar aos operandos, um pouco de brandy ou outro licor alcoolico qnalquer, antes da chloroformisação. Richelot — bromureto de ethyla e chloroformio. Laborde—chloroformio e narceína. Pouchet — nitrito de amylo e chloroformio e vários outros methodos que têm sido empregados dos quaes, assim como de alguns dos citados, não poderei fazer apreciações por não tel-os experimentado. Como jugular ura accidente grave? Parapliraseando o grande obstetricista Pajot, no seu memorável discurso de despedida aos seus discí- pulos, direi: o anesthesista deve ter calma, calma e mais . . . calma. Nesses casos o perigo 6 quasi sempre imminente e os momentos são preciosos. E’ indispensável que o anesthesista conheça bem o valor dos vários agentes therapeuticos, afim de escolher aqueile cuja efficacia for maior. Sob este ponto de vista os agentes therapeuticos podem ser divididos em quatro cathegorias: 1.* os que agem excitando a pelle e as mucosas; 2.a os que se dirigem ao apparelho circulatório ; 3 a os processos 46 que têm por fina restabelecer a respiração e final- mente os que tendem a despertar os systemas ner- voso e muscular. Os excitantes da pelle e das mucosas, são, as as- perçôes de agua fria, as fricções irritantes, a flage- lação, uteis nas lypothymias e vertigens communs e improfícuos, quasi sempre, na syncope chloroformica porque nesta, ha anesthesia dcs tegumentos. Os meios que agem sobre o apparelho circulatório, são, a posição horisontal dando-se á cabeça o máximo de declividade ou melhor a inversão dos inglêses ou a posição cirúrgica de Trendelenburg. Mercier aconselhava a compressão das artérias axil- lares e femuraes com o fim de reter o sangue no tronco. Ainda nas syncopes chloroformicas, alguns auctores entre os quaes Gross, Starling, Gohen e Sencert, têm aconselha.lo a maçagem rythmica do coração sub diaphragraatica precedida de laparotomia (1). Este con- selho é por demais irrisorio; porque nem todo do- ente está em condições de ser laparotomisado. Dado o caso do accidente ter logar durante uma laparo- tomia, é até recommendavel a pratica do processo; (2) porem, noutra hypothese, absolutamente. Além disso, a parte o exaggero de muitos cirur- giões, a laparotomia não é uma operação tão banal como elles julgam-na e finalmcnte.quando a tivessem (1) Le monde medicai 190b, (2) La sémaino médicale 1005. 47 realisado, já a morte apparente ter-se-ia transfor- mado em real. Os meios que tèm por fim restabelecer a funcção respiratória (as tracções rythmadas da lingua e a res- piração artificial que podo ser feita pelo processo de Sylvester) merecem mais detidamente a attenção do pratico. Quer se trate de sideração do systema ner- voso, de asphyxia ou de syncope, um facto é evi- dente; é que os vapores de chloroformio que se foram pela arvore aerea, occasionaram estas desordens e per- sistem em entretel-as. Cumpre portanto, expellil-os com a maior presteza. Por outro lado as tres grandes funcções cujo con- fundo forma a tripode vital estando embaraçadas,ugre restabelecel-as, quer agindo sobre todas ao mesmo tempo, si fôr possivel, quer agindo sobre aquella que está mais ao alcance, porque restabelecida uma, estão restabelecidas as outras indeí ectamente.Ora,dessas tres funcções, a que mais efficaz e facilmente pode ser solicitada é a respiração e esta uma vez restabele- cida, dá-se com o ar expirado, a expulsão dos va- pores de chloroformio que estavam produzindo o acci- dente. Resta agora despertar os systernas nervoso e mus- cular; como fazel-o? Provocando reflexos. Assim é que muita vez se é forçado a introduzir ura, dois dêdos ou mesmo a mão atravéz do esphincter anal com o fim de provocar o reflexo ano-rectal... E desse modo se tèm conse- guido fazer verdadeiras resurreições. 48 Das consequências tardias A anesthesia deve ser íeita com a quantidade mi- nima de chloroformio, porque as dóses grandes inha- ladas, mesmo em pouco tempo, poderão determinar serias complicações. E’ necessário muita prudência no emprego do clilo- roformio, nas creanças (1) e nos indivíduos myopra- gicos hepáticos e renaes. Segundo os trabalhos de A. Paris, Loevy, Tuífier, Manté, Auburtin e outros, o chloroformio está longe de ser sempre inocuo. Por vezes se têm observado, depois de uma longa anesthesia, doentes apresentarem symptomas que foram por muito tempo reputados de collapso, na impossibilidade da verdadeira interpretação clinica. Quasi sempre, nesses casos, a ictericia se apresenta, dando ao quadro clinico, um cunho hepático. Ao ver de Hutchiason, a origem desses accidentes é uma alteração hepatica; é o filtro que paralysado, deixa passar os productos toxicos que ahi deviam ficar retidos (2). Esta intoxicação chloroformica localisando-se prin- cipalmente sobre o figado não é commum somente ao adulto; Tilford e Falconer (3), citam tres obser- vações em creanças. Os accidentes, nas alludidas ob- servações, consistiram em: vomitos abundantes bi- liosos e escuros (côr de café) delirio intensissimo logo (1) Dr. Auburtin (These de Paris) 1905. (2) The Practitioner 190G. (3) The Lancet 1906, 49 depois seguido de torpôr, acetonuria e morte em 36 horas. A necropsia revelou degenerescencia gordu- rosa do fígado, degenerescencia que foi encontrada também, menos acentuada entretanto, no coração, nos rins e na mucosa gastrica. Já em 1850, Gasper como primeiro, chamava a attoficão para os accidentes tardios da chloroformi- sação. Elle affirmava poder o chloroformio exercer uma acção toxica sobre o organismo, varias horas, dias ou mesmo semanas após sua inhalação. Nessa mesma epocha, Langenbeck relatava 17 casos de morte, depois de operação, devidos a acção consecutiva do chloroformio. Entre outros, esse auctor, citou o caso de um homem em quem praticou-se a a desarticulação scapulo-humeral e que esteve 45 minutos sob a acção de chloroformio. Esse doente, logo a tarde, foi accommettido de vomitos incoerciveis e succumbio na manhã imme- diata. Foi neciopsiado e encontrou-se degenerescencia gordurosa do fígado. Em 1866, Nothnagel emprehendeu uma serie de experiencias em coêlhos, verificando em todas, le- sões degenerativas no fígado, rins e coração, conse- cutivas ao chloroformio. Em 1883 Ungar e Junkers verificaram as mesmas lesões em cães submettidos a narcoses demoradas. Volkmann e Koenig pensam que os accidentes mor- taes post-operatorios, rotulados de shock, podem ser devidos ao chloroformio. Thiem e Fisher em 1890, Bastienelli em 1891 e finalmente Frcenkel em 1892, 50 encontraram lesões degenerativas em individuos mortos pelo chloroformio. Este ultimo principalmcnte, deu des- cripções detalhadas das lesões histológicas resultantes da intoxicação chloroformica. Berker encontrou em grande numero de casos, aee- tonuria; Nachod, nucleo-albumina, serum-albumina, cylindros urinários, acetonuria, diaceturia e urobilina. Babais e Bebi encontraram em 18% dos casos, al- buminúria; VonGrãefe, observou asthenopia muscular por insufficiencia dos rectos internos. Dumreicher, espasmo da glotte com aphasia e aphonia. Gubler diz: «os principaes accidentes, a parte as perturbações nervosas: cephalalgia, nauseas, vomito e delirio, se passam no apparelho respiratório. De observações publicadas, podemos concluir que as le—/ sões thoracicas são, ora, a consequência da irritação, tópica que se eleva até a phlogose intensa, ora o resultado da paralysia local das ex- tremidades periphericas do pneumogastrico, antes que de sua origem bulbar.» O professòr italiano Giannasso (1) de Turim, diz que se observa o mais das vezes, depois de narcoses demoradas, urobilinuria. Para verificai-a, o rçferido professor utilisa-se de uma serie de reacções pelas quaes a urobilina se manifesta no tubo de ensaio, em uma fluorescência verde. Procedi a estas pesquizas e, a despeito do rigor de technica por mim utilisado, jamais constatei a pre- sença de urobilina na urina dos meus observados. (1) Riforma medic. 190G. 51 Têm também incriminado o chloroformio da pro- duçção de bronchites, de pneumonias, de paralysia dos nervos crural e obturador, (c'est trop fort) (1) de nephrite epithelial aguda, hepatite seguida de de- generescencia hyaiina e granulosa com polynucleose nos espaços intercellulares; mas em 487 cliloro- formisações a que assisti e 59 que pratiquei, nenhum accidente post-narcotico importante foi observado. Somente em dois casos, presenceei ligeiras bron- me pareceram ser a recrudescência de outras, antigas. A não serem os vomitos, que poucas vezes per- duram por mais de 24 horas, o delirio, a hyperidéacão, e a exaltação da affectividade com vontade irresistivel de chorar, nada mais tenho observado que mereça ser attribuído ao chloroformio. (1) La semaine médicale. 1905, PROPOSIÇÕES THES SOBRE CADA UMA DAS CADEIRAS DO CURSO DE SGIENCIAS MEDICO-CIRURGICAS ANATOMIA DESCRIPTÍVA I cerebro—o mais nobre da economia — acha-se contido na caixa craneana. II E’ envolvido por membranas denominadas meninges. III E’ o primeiro centro nervoso sobre que actúa o chloroformio. ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA I O liquido cephalo-rachidiano circula entre o folhêto visceral da arachnqide e a pia mater. II Foi descoberto por Gotugno, no século passado. III Dos meios liquidos do organismo é um dos que fnaior quantidade de chloroformio retém. HISTOLOGIA I O sangue é um tecido de substancia fundamental liquida. ‘ II E" constituido por uma parte liquida, (plasma) tendo em suspensão elementos figurados, leucocytos, hema- tias e hematoblastos. III Sob a influencia do chloroformio ín vitro os gló- bulos vermelhos se entumeseem e se dissolvem, 56 BACTERIOLOGIA I O bacillus virgula é o responsável pelo cholera, se bem que nas Phílippinas se obtivesse com a inocu- lação desse £erme, a peste* de forma bubonica. II Nos meios ácidos o microbid do cholera não medra. • III Segundo Kirchner, culturas de vibrião cholerico ficam isentas de germes em 1 minuto, com a addição de chloroformio a 1 por cento. ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATIIOLOGICAS I A hypertrophia do thymus, conforme Schnitzler e ontros é um serio perigo para a chloroformisação. II Rudolfvon Kundrat reuniu, em uma memória* nove casos de morte nesses estados. III i Além da hyperplasia dos ganglios e do tecido ade- noide, a experiencia mostra também angustia vas- cular e flacidez das paredes cardiacas. PHYSIOLOGIA I A medulla physiologica— o orgamdos reflexos — é bastante sensível á acção de certas substancias. II A estrychnina, por exemplo, augmenta considera- velmente seu poder reflexo. III O chloroformio, ao contrario, o faz desapparecer. 57 TTIERAPEUTICA I O chloroformio só produz a anesthesia geral, ad- ministrado cm iuhalação; doutra sorte, seriam neces- sárias doses muito grandes para seu accumulo poder dar-se, porquanto a eliminação pulmonar ó muito activa. II A dóse sufficiente para a obtenção da anesthesia, varia muito. III Com os apparelhos e alguns methodos mixtos con- segue-se diminuir a quantidade do anesthesico. HYGIENE í O ar das salas, onde se fazem chloroformisações, deve ser renovado. II E’ perigoso chloroformisar-se em um ambiente viciado. III O arejamento, entretanto, deve ser moderado porque a corrente de ar (quando se emprega a mascara) fa- cilitando a evaporação do chloroformio, retarda a pro- ducção da narcose. MEDICINA LEGAL I Os anestliesicos foram utilisados, séculos atraz, para a perpetração de crimes. II / Na epocha. actual, porém, não existem exemplos de taes praticas. 58 ' III O chloroformio não poderá ser empregado com essi fim porque sua acção não é rapida„ PATHOLOGIA CIRÚRGICA I O shock traumático, psychonevrose traumatica verdadeira, é quasi sempre o resultado de um trauma- tismo violento. II Nos individuosde excitabilidade nervosa exaggerada, porém, um traumatismo ligeiro podecá produzil-o. III Nesses estados a anesthesia chlorotormica é contra indicada. OPERAÇÕESE APPARELHOS I Vários são os apparelhos ufcilisados para a chloro- formisacão. II Além da mascara ou cartucho,' o chloroformisador deve munir-se de uma pinça de Laborde ou outra que a substitua. III Dos apparelhos complexos o mais recommendavel é o de Ricard. 1 Luxação é a perda de relação de superfícies arti- culares entre si. * II Os musculos oppõem grande resistência á reducção das luxações. CLINICA CIRÚRGICA (l.a cadeVía) 59 III Por essa razão, a anesthesia chloroformica tem in- teira indicação nessas operações. CLINICA CIRÚRGICA (1* cadeira) I O tratamente das luxações varia com a antiguidade das mesmas. <n Nas luxações da espadua, recentes, os processos de Kocher (manobras inferiores) ou da rosa (manobras superiores) prcconisado por Pacheco Mendes, são bem aconselhados. III Nas antigas porém, ornais das vezes, só a reducção sangrenta dá resultados satisfactorios. PATHOLOGIA MEDICA I A coqueluche é,uma moléstia especifica que ataca principalmente a infancia. II E’ caracterisada principalmente por uma tosse con- vulsiva, dahi a denominação vulgar de losse convulsa. III Tem se conseguido cural-a modernamente pela anesthesia chloroformica. CLINICA PROPEDÊUTICA I A auscultação é um meio de exploração clinica de grande valor. 60 II Pela escuta do coração pode-se ajuizar mais ou menos do resultado da anesthesia chloroformica. III E’ bôa pratica escutar os doentes antes da anes- < thesia porque a longinquidade dos tons, as arhyth- mias, os sopros, se bem que não a contraindiquem, ao menos, reclamam o máximo cuidado. CII1 MICA MEDICA II O chloroformio éumether simples conhecido também pelos nomes de chlroformyla tripla, chloroetherido, ether methylchlorhydrico bichlorado, chlorureto de methyla bichlorado, formeno trichlorado, ether bichlo- rico de Soubeyran e trichlorido de formyla. 11 Este corpo é obtido pelos seguintes processos: pelo álcool reagindo sobre o chlorureto de cal em presença da cal, pelo chloral Recomposto por ama base, pelo chlorureto de sodio sobre a acetona, pelo chlorureto de cal sobre a acetona e finalmente pela reducção de tetrachlorureto de caroono pelo hydrogenio nascente. III Quando puro pode ser considerado o anesthesico ideal, se manejado com proficiência. I 0 cafeeiro (Coffea arabica) é uma planta da fa- mília das Rubiaceas. II Embora originário da Arabia, cultiva-se muito bem no Brasil. IIISTORIA NATURAL MEDICA 61 III • Delle se extrahe um alcaloide — a cafeina — que poderá ser administrada em injecção nos cardioas- thenicos, com o fim de evitar o collapso. MATÉRIA MEDICA, PITARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I O linimento de Eulenburg é uma excelleute pre- paração para combatter as nevralgias. II Em sua composição entram a pomada mercurial dupla, o ichthyol, o chloroformio e a tintura de cam- phora saturada. III Delle me tenho utilisado com algum proveito. OBSTETRÍCIA 1 A eclampsia puerperal é uma das complicações da albuminúria gravidica. II Em regra geral a sua gravidade está na razão di- recta da frequência dos accessos. III Nos casos de eclampsia, a anesthesia chloroformica tem sido empregada com resultado satisfactorio. CLÍNICA OBSTÉTRICA E GYNEC0L0G1CA I Versão ê a operação que consiste na transformação de uma apresentação fetal, em outra. 62 II Ella pode ser feita por manobras externas, internas, ou combinadas. III A anesthesia chloroformica deve ser empregada tendo de se praticar a versão. I A moléstia azul, é caracterisada pela coloração cyanotica da pelle e das mucosas, dispnóa paroxys- fica, accessos de suffocação, torpor, inércia etendencia ao resfriamento. II Esta symptomatologia toda, corre por conta de le- sões cardíacas e vasculares que determinam a mistura do sangue venoso com o arterial. m , A chloroformisação nesses casos parece demandar maiores cautelas. CLINICA PEDIÁTRICA CLINICA OPHTALMOLOGICA I As conjunctivites podem ser especificas ou nãò. II Das especificas é sem duvida a granulosa, (tra- choma) a mais rebelde ao tratamento. III O chloroformio poderá determinar conjunctivites. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPIIILIGRAPHICA \ I 0 erythema é uma dermatose, ou antes, uma angio- nevrose caracterisada por uma hyperhemia, podendo ir até a inflammação ou hemorrhagia. 63 II Dois factores principalmente contribuem para sua produccão: as intoxicações e as irritações exteriores. III O ctiloroformio poderá, actuando sobre a pelle ou as mucosas, determinar erythemas, dahi o preceito de untarem-se como uma substancia gordurosa as narinas e a bocca dos chloroformisandos. CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERYOSaS I A epilepsia é uma morbideza de etiologia por vezes mysteriosa. II Tem se utilisado no seu tratamento, com algum exito, o methodo de Gilles de La Tourette. III Nos epilépticos nã<? é raro ver-se (depois da anes- thesia chloroformica) excitação seguida de convulsões. I i ,tO. Secretaria da Faculdade de Medicina da lla/iia em 57 de Outubro de i907, 0 Secretario Dr. Menandro dos Reis Meirelles.