Faculdade de Medicina da Bahia APRESENTADA * Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 31 de Outubro de 1907 PARA SER DEFENDIDA POR Joaquim Gentil Fcrrcira da Rocha Natural da Parahyba do Norte (Serraria) AFIAI DE OBTER 0 GRÁO DE DOUTOR EM MEDICINA suiiitâiâa CADEIRA DE CLINICA PEDIÁTRICA Hygiene da Primeira Infancia PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas BAHIA TYPOGRAPHIA DO SALVADOR —CATHEDRAL 1907 Faculdade de Medicina da Bahia Director—Dr. ALFREBO BRÍTTO Vice-Director — Dr. MANOEL JOSE’ DE ARAÚJO Lentes cathedraticos OS DRS. MATÉRIAS QUE LECCIONAM 1 SECÇÃO A. Carneiro de Campos. . . Anatomia descriptiva. Carlos Freitas. . Anatomia medico-cirurgica 2. a Secção A ntonio Pacifico Pereira. . . . Histologia Augusto C. Vianna Bacteriologia Guilherme Pereira Rebello. . . . Anatomia e Physiologia patholog-icas 3. Secção ‘ Manuel José de Araújo Physiologia. José Ed uardo F.de Carvalho Filho. . Therapeutica 4. a Secção Josino Correia Cotias Medicina legal e Toxicologia. Luiz Anselmo da Fonseca Hygiene. 5. Secção Braz Hermeneni do do Amaral . . Pathologia cirúrgica. Fortunato Augu‘sto da Silva Júnior . Operaçõese apparelhos Antonio Pacheco Jtfendes . . . Clinica cirúrgica, 1.» cadeira Ignacio Monteiro de Almeida Gouveia . Clinica cirúrgica, 2.ã cadeira 6. Secção Aurélio R Vianna. Pathologia medica. Alfredo Britt.o Clinica propedêutica. Anísio Circundes de Carvalho. . . Clinica medica l-a cadeira Francisco Braulio Pereira Clinica medica 2.a cadeira 7. a Secção JoséRodrigues da Costa Dorea . . Historia natural medica A. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria medica, Phkrmacolo/ria e An* de formular. e c José Olympio de Azevedo .... Chímica medica. 8. a Secção Deocleciano Ramos Obstetrícia Climerio Cardoso de Oliveira . . Clinicaobstetrica e gynecologica. 9. a Secção Frederico de Castro Rebello .... Clinica pediátrica 10. Secção Francisco dos Santos Pereira. . . Clinica ophtalmologica 11. Secção Alexandre E. de Castro e syphiligrapbica Luiz Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de molestins „ , . nervosas. JoãoE. de Castro Lerqueira ... I Sebastião Cardoso q disponibilidade Substitutos OS DOUTORES José Affouso de Carvalho „ s Gonçalo Moniz Sodré de Aragão ." " i ’* secS®° Juiio Sergió Palma ‘ < 2 * > Pedro Luiz Celestino . 1 o Oscar Freire de Carvalho . "y *_ Antonino Baptista dos Au|os .. . . João Américo Garcez Frbes. J g'a Pedro da Luz Carrascosa e osé Juliõ ’ * deCalasaos. 7 J. Adeodato de Sousa . . , ' V>'a Alfredo Ferreira de Magalhães * ’ q* Clodoaldo de Andrade . . t * Albino A. daSilv a Leitão . . * „ ‘ 12.* 1 Secretario—DR. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES _„SuB:8EC?ET^EI0—DR' MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Facuidade não approra nem reprova as nninisa» . * pelos seus auctores. pimoeo exaradas nas theses DISSERTAÇÃO CADEIRA DE CLINICA PEDIÁTRICA Hygiene da Primeira Maneia CAPITULO I Após o nascimento. Ilygiene tio reccm-nascido sUl/OGO que a criança é expellida, devemos collocal-a sobre o leito, inclinada sobre um dos lados e com a cabeça opjjosta á vulva, para que os líquidos que escoam do utero não possam obstruir-lhe abocca ou as fossas nazaes. Alem disto, esta posição facilita o escoamento das mucosidades ou dos líquidos que ahi poderão estar con- tidos. Desenrolado e desprendido o cordão umbilical, proce- demos em seguida a ligadura e o corte delle á 3 centímetros mais ou menos de sua inserção abdominal. Anticipadamente temos o cuidado de esterilisar uma tesoura e preparar um fio de seda bastante resistente e também esterilisado. Antes de apertarmos o fio, é preciso ver se não ha hérnia umbilical estendendo-se na espessura do cordão, afim de não ligarmos uma dobra intestinal, o que traria a morte da criança. Se existe hérnia, é preciso reduzil-a com o dedo e mantel-a no logar durante o tempo necessário para apertar a ligadura. Uma vez a ligadura feita e o cordão cortado, J. r. i 2 o corpo da criança será desembaraçado das matérias gor- durosas, eeruminosas, do sangue e da agua que lhe cobrem a pelle, seja com a mão untada de manteiga, o oleo de oliva ou melhor ainda com a gemma de ovo que se mistura facilmente com a agua. Dà-se em seguida um banho tépido á 28 gráus centígrados que permitte limpar bem a pelle. Passa-se então ao penso do cordão, que consiste em cobril-o de gase e algodão hydrophilo e mantel-o apoiado sobre o ventre por uma atadura circular do corpo. Os olhos das crianças recem-nascidas se inflammam facilmente devido aos liquidos mais ou menos irritantes, com os quaes se põem em contacto na occasião do parto, inflammação que se manifesta pela vermelhidão das pál- pebras e por urna ligeira exsudação sero-mucosa muito grave dando logar á ophtalmias, que podem ser benignas ou graves, sinão tivermos o cuidado de lavar previamente os olhos d’est,as crianças com soluções anti-septicas. Para prevenir as opthalmias, empregam-se immediata- mente após o nascimento e em alguns dias,que se seguem, as soluções de acido borico á 4 por 100 ou ás soluções de nitrato de prata á 1 para 100 ou á 1 para 200. Devemos examinar com cuidado o estado das aberturas naturaes, porque muitas vezes ellas são a séde d’um 3 vicio de conformação, o qual é preciso ser remediado imrnediatamente. O beiço de lebre, a imperfuração do anus, da vulva e do meato urinário estão neste caso. As outras deformidades, taes como os pieds-bots e todas emfim que são compatíveis com a vida, não devem ser tratadas sinão um pouco mais tarde. Pouco depois do seu nascimento, a criança, deve rejei- tar os excrementos accumulados no intestino durante o curso da gestação e que se chama meconium, cuja reten- ção pode dar logar cã accidentes mais ou menos graves. No fim de vinte e quatro horas, as crianças se agitam, gritam em consequência de cólicas, vomitam e têm algu- mas vezes ataques deeclampsia. A retenção do meconio, segundo Bouchut, é devida ao espasmo do esphincter do anus ou à uma atonia das vias digestivas. O primeiro leite ou colostrum, que geralmente basta para facilitar a expulsão do meconio, não pode dar bons resultados n’estas circunstancias, sendo preciso auxiliar sua acção por outros meios. A principio podemos empre- gar os suppositorios de manteiga de cacáo, os clysteres, os banhos tépidos, as foinentações emolientes sobre o ventre; mas, se isto não fôr sufficiente para provocar a sahida do meconio, é preciso darmos-lhes xaropes fraca- mente purgativos, de ordinário empregado em taes circun- 4 stancias, como sejam: o xarope de chicorea composto na dósede 15 á 30 grammas, cm agua*, ás colheres; xarope de mel ou de flores de pecegueiro com duas grammas de oleo de ricino; o oleo de amêndoas doces de 15 á 30 grammas, sufficientes para obtermos o resultado desejado. Passemos agora ao primeiro vistuario do rocem-nascido, que se deve compor das peças seguintes: uma camisa de linho ou de cambraia, um collete de flanella, destinados a cobrir o thorax e os braços. Um cueiro de linho de 80 centímetros de comprimento com 80 de largura e um outro de lã medindo também 80 centímetros, são destinados a envolver a parte inferior do tronco e os membros pelvianos. Quando a camisa e o collete estão vestidos, deita-se a criança sobre o ventre, depois approxima-se e crusa-se os dois lados destes vistuarios um sobre o outro de maneira que o dorso fique completamente coberto. Os dois lados são alem disso fixados pelas vestimentas que vão cobrir aparte inferior do corpo, isto é, pelos dois cueiros, que postos por cima do collete envolvem primeiro os dois terços inferiores do tronco, depois as pernas, tendo-se o cuidado de separal-as uma da outra; ônalmente uma touca e uns sapatinhos de lã vêm completar o primeiro vistuario. Superiormente os dois cueiros devem chegar de dois á 5 tres centímetros abaixo da axilla, deixando os braços com- pletamente livres e não exercerem constricção na parte superior do thorax, porque poderá trazer embaraço dos movimentos respiratórios e determinar asphyxia. Quando vestimos uma criança recem-nascida devemos ter o cuidado dedeixal-a com os braços e as pernas livres, de maneira que possa movel-as; uma das condições mais importantes para o seu desenvolvimento. Quando o cueiro é muito apertado pode produzir exco- riação ao nivel dos malleolos internos, devido ao attrilo <i’estas regiões uma na outra. Convém mudar os cueiros todas as vezes que for neces sario, deforma que a urina e as fezes não fiquem muito tempo em contacto com a pelle das nadegas e das coxas, o que causaria erithemas e mesmo ulcerações d’estas partes. Alem do methodo francez, que é este que acabamos de descrever, o mais adoptado entre nós, existe ainda o methodo inglez, que julgamos desnecessário descrevel-o aqui, visto o primeiro ser melhor e muito mais conve- niente. CAPITULO II íiygiene no aleitamento aleitamento é o modo de alimentação própria do recem-nascido. Nos primeiros mezes de sua Yida, o leite é o único de todos os alimentos que convém melhor á criança, de todos os leites, o da mulher, e mais do que este, o de sua própria mãe. Para que este aleitamento seja de bom proveito é preciso porém que a mulher gose boa saúde e tenha grandes precauções no momento de amamentar, precauções estas,de lavar os mamillos para desobstruir os orifícios, retirando as pequenas quantidades de leite coagulado que ahi existirem, susceptiveis de serem nocivas á criança devido a sua acidez. Devemos recommendar a mulher que nutre, conservar- ão calma, com o sangue frio necessário á direcção d’um bom aleitamento, porque as qualidades de sou leite são facilmente alteradas pelas inquietações do espirito; a calma é de grande necessidade para uma boa nutriz. Ainda quando sua constituição for alterada por uma moléstia geral, por uma consanguinidade directa ou approximada, que pertença a uma diathese escrofulosa, tuberculosa, hysterica, rachitica, sijphilitica, etc., não se 8 deve consentir aleitar, salvo em casos excepcionaes quando é forte, bem constituída e que não apresenta apparenças de symptoinas dessas affecções hereditárias. Merece grande consideração o estado clc saúde do paer porque é possível que a alliança ou o crusamento com uma raça melhor possa imprimir ao producto da con- cepçcãouma vitalidade toda differente d‘aqueíla que resul- taria da alliança de duas famílias viciadas em sua origem ou em sua constituição. E’ preciso que saibamos apreciar a natureza do producto da concepção, segundo a saúde dos seus progenitores e determinar se a disposição prec-aria da mãe foi originada pela impregnação do pae e reciprocamente. Neste caso quando exista duvida em nosso espirito, o unico meio de resolver a questão, ó confiar a criança a uma nutriz extranha. Ha duas especies do nutrizes: as que permanecem na casa do recem-nascido e as que amamentam fóra dos cuidados da familia. Ambos os modos de aleitar consistem no chamado aleitamento mercenário, muito usado na Europa. No primeiro caso, se a nutriz é boa, o aleitamento mer- cenário póde igualar-se ao aleitamento materno e muitas vezes mesmo tornar-se preferível. Não se dá o mesmo, quando as crianças são levadas 9 pelas nutrizes que habitam fora, porque então, a vigilância falta completamente. A escolha (Tessas nutrizes merce- nárias é um dos mais importantes problemas da vida domestica e da familia, é uma questão importante de medicina, de hygiene publica e social. Uma mulher deve ter certas qualidades essenciaes para ser uma boa nutriz. Deve ter a idade de 20 á 30 annos, uma constituição robusta e não apresentar nenhum signal de moléstias adquiridas ou hereditárias, possuir um caracter brando, plácido, sendo entretanto activa e intelligente de modo a tratar com zelo e prudência a criança que lhe é confiada. E’ preferível dar ao recem-nascido um leite de dois à seis mezes, para certos auctores, um leite velho de 8 á 15 mezes pode dar bons resultados e ser perfei-tamente digerido pelas crianças. À nutriz deve ser examinada sob o ponto de vista geral e local,exames que constam do estado geral dos dentes, da conformação dos membros, do tronco, do estado geral do coração e dos pulmões e o exame local principalmente que comprehende a inspccção dos seios, que não devem ser muito desenvolvidos, porque nem sempre isto indica actividade da lactação; os seios das bôas nutrizes são geralmente pequenos, estriados de veias azuladas, indicio da actividade circulatória. Quanto aos mamillos, não devem ser nem muito grossos, nem muito pequenos e, quando praticada ligeira pressão sejam susceptiveis de faci! escoamento do leite. J. R. 2 10 A nutriz não devo usar bebidas alcoólicas. Do mesmo* m odo que a mulher no curso da prenhez, deve abster-se- de toda bebida alcoolica, porque assim ella irá impregnar de álcool o organismo que em si se desenvolve, da mesma fôrma a nutriz deve evitar, d uma maneira absoluta, o uso de bebidas espirituosas como, o vinho, a Gerveja, etc.,, porque o álcool que ella absorve passa para o leite e' este irá intoxicar a criança. A agua pura e o leite são as únicas bebidas que,, durante as refeições e em seus intervallos, convém a mulher gravida e a nutriz. As mulheres que aleitam, não devem usar fumo e para prova, basta citarmos um caso que lemos na these do illustre doutorando Antonio Fernandos de Carvalho Braga, observado na clinica civil do Dr. Frederico de Castro Kebello, provecto professor da cadeira de Clinica Pediátrica d’esta Faculdade. Diz o nosso collega: «Convidado este distincto clinico,, por uma íamilia de nossa sociedade, a ministrar os seus- cuidados médicos a uma creancinha, verificou, após detido e minnncioso exame, que se não tratava de uma d'essas perturbações communs á primeira infancia. Deante dos symptomas que enfeixados constituíam o quadro clinico, o citado medico diagnosticou intoxicação, provavelmente nicotinica, e inquiriu immedíatamente da familia se a nutriz fumava, o que lhe foi negado termi- nantemente. 11 '■interrogou a nutriz, cuja resposta foi igualmente nega- tiva. Decidiu-se então o illustrado medico a examinar a nutriz, e teve o prazer de ver confirmado o seu brilhante diagnostico — a ama não só fumava cachimbo, como ainda mascava fumo. Apezar dos recursos da therapeutica e da prompta mudança da nutriz, a creança não ponde ser salva, em virtude de achar-se bastante adeantada a intoxicação.» Dissemos que o aleitamento materno ou o mercenário deve ser sempre preferido, mas entretanto ha causas particulares, sobre as quaes já nos referimos, que as mães ou as nutrizes são impossibilitadas de emprehender este modo de nutrição, então se é forçado a nutrir a criança com o leite de vacca ou d’um outro animal: jumenta, cabra, etc. Dá-se a este modo de alimentação o nome de aleitamento artificial, que por sua vez se divide, em directo e indirecto, seja fazendo a criança mammar directamente no animal, seja administrando-lhe o leite por meio de vasos appro- priados. As desagradaveis consequências do aleitamento artificial, podem ser em parte desapparecidas pela bôa direcção d’este aleitamento. Em geral o leite preferido é o da vacca, da jumenta e da cabra, sendo este ultimo pouco empregado e o segundo 12 ainda menos, apezar de ser elle o que, por sua compo- sição mais se approxima do leite da mulher. E’ duma digestão muito íacil, mas só convém ás crianças durante os dois primeiros mezes, porque mais tarde elle torna-se muito fraco e não se deve dar grandes quan- tidades. O leite, da cabra, ao contrario, é muito forte, rico em caseina, em manteiga e em saes; porem um pouco menos assucarado que o leite da mulher. E’ o animal que se presta melhor para o aleitamento directo. A vantagem d’este methodo é a criança encontrar um leite aseptico, d’uma temperatura constante e isento dosgermens da tuberculose, pois que a cabra é refractaria a esta moléstia. Este. modo de aleitar as crianças é muito pouco usado, visto isso, é escusado nos determos sobre elle. No aleitamento indirecto, o leite geralmente empregado é o da vacca, porque é menos dispendioso e de mais íacil acquisição. No momento da ordenhação é necessário que as tetas da vacca sejam lavadas com agua quente e sabão, para evitar a infecção do leite pelos micro-organismos que ahi poderão existir; devendo-se tomar as mesmas pre- cauções para com as mãos das pessoas encarregadas d’este trabalho e para com os vasos que recebem este leite. D esta maneira obtem-se um leite macroscopicamente limito, não inteiramente aseptico, e portanto preciso da acção de um processo capaz de destruir os microbios c 13 de o impedir de se alterar e detransmittir as moléstias mfectuosas. Diversos processos são empregados para a conservação do leite, os quaes se dividem em processos mecânicos, chimicos e physicos. Os meios mecânicos, a centrifugação e a filtração, apezar de não alterarem a composição do leite, deixam sempre uma certa quantidade de microbios. ouanto aos meios chimicos, carbonato de soda, acido borico, borax. acido salicylico, etc., indicados para con- servar o leite, são pouco eíficazes e apresentam grandes inconvenientes, devendo-se regeital-os, como aconselha Marfan e mais alguns auctores. Os meios physicos, o frio e o calor: O primeiro exerce uma protecção temporada sobre o leite, como de facto, o frio não destroços microbios, elle impede somente sua multiplicação e quando o leite volta % á temperatura ordinaria, os microbios recuperam sua vitalidade provocando a fermentação. E’ a esterilisação portanto o unico meio physico capaz de destruir todos os germens existentes no leite, os quaes estão sempre aptos a produzir moléstias após sua ingestão e determinar as fermentações ou as modificações chimicas do mesmo, tornando-o improprio para a alimentação. A esterilisação obtem-se, pela ebulição, pela pasteuri- sação, pelo autoclavo e pelo banho-maria. A ebulição constitue um bom meio de esterilisação e é 14 o mais geralmente empregado entre nós. O leite sendo fervido, durante 3 ou 4 minutos, fica privado dos fermentos e dos microbios pathogenos. «As analyses feitas por Duclaux e Grolas, mostram que não ha entre a composição do leite cru e a do fervido, sinão differenças insignificantes.» Quando o leite é fervido após a ordenhação e q.ue é consumido no mesmo dia, pode-se considerar a ebulição como um excellente processo de purificação. À pasteurisação consiste em fazer passar o leite muito depressa da temperatura de 70° cá 10°, com auxilio de apparelhos especiaes, empregados industrialmente, depois encerrando o em vasos apropriados. E’ um bom processo, entretanto prefere-se o autoclavo, como meio mais seguro. Certos auctores sustentam que o leite esterilisado em alta temperatura soffre modificações chimicas, prejudicando seu valor alimentício e preferem o leite pasteurisado. O autoclavo é sob o ponto de vista dos fermentos e dos germens pathogenos, o processo mais seguro, por- que elle leva o liquido a temperatura de 110° á 120°, o necessário para destruir todos os germens ; porem tem a desvantagem de dar ao leite um gosto desagra- dável, que não ébem supportado pela criança. O banho-maria, cm todo caso, um pouco menos seguro quanto aos germens pathogenos do que o autoclavo, dá todavia uma segurança necessária. A esterilisação 15 que se obtem pelo banho-maria, só permitte conservar o leite, no máximo, de 5 á 6 dias, e é bastante, porque em geral íaz-se uso d’este, nas vinte e quatro horas que seguem a esterilisaçao. Quanto a digestibilidade do leite esterilisado, muito se tem discutido. Segundo Auvard, apresenta uma grande segurança debaixo do ponto de vista da alimentação das crianças, tendo a disvantagem em ser de mais diíficil digestão que o leite cru. Diz ainda elle, que o leite será tanto menos digestivo, quanto maior for elevada sua temperatura, porque o calor ao mesmo tempo que distroe os microbios peri- gosos, distroe também os fermentos uteis a digestão do leite. <c As experiencias feitas por Weber sobre os animaes e as analyses chimicas minunciosas feitas por Ch. Michel, provam o contrario, mostrando elles que o leite esteri- lisado é melhor digerido que o leite crú, sobretudo é mais assimilável que o leite fervido. » A vantagem do leite esterilisado é de se conservar por muito tempo sem se alterar. Com effeito, no Instituto Pasteur, existem frascos con- tendo leite esterilisado por aquelle grande sabio, ha mais de 24 annos, segundo dizem os livros. Mas quando temos a certeza de que o leite provem de vaccas sadias, isentas de moléstias contagiosas, e que 16 na occasíão de ordenhar'se haja rigorosamente antb sepsiado as tetas e que após a ordenhação este leite seja fervido, não ha rasão nenhuma para recearmos d’ellesT podendo-se dispensar perfeitam ente os outros meios de esterilisação. Tem-se verificado inconvenientes no aleitamento artifi- cial pela differença de composição do leite da vacca do da mulher, e para corrigir essas difíerenças muito se tem discutido. O problema consiste em modificar o leite de vacca, tornando-o tão assimilável quanto possível,- como é o leite da mulher, que contem menor quantidade de casoina que o leite da vacca e maior quantidade de manteiga e de assucar de leite. Para tornar o leite da vacca idêntico ao da mulher, certos auctores propuzeram misturar o leite de vacca com agua filtrada e fervida, antes d'este leite ser esterilisado, diminuindo por esta forma o excesso de caseína e em seguida addicionando-lhe uma certa quanti- dade de lactose ou de xarope simples. Quando as crianças fazem uso do leite puro, expoem- se á dyspepsia do leite de vacca puro, bem observado e descripto por Marfan, que as tornam obesas, constipadas e no fim de certo tempo, victimas de gastro-enterite. Conforme a idade das crianças, Marfan manda deluir o leite na seguinte proporção: 17 LEITE AGUA ASSUCARADÀ 1. a Semana—1 parte— 3 partes 2. a 1 » 2 » i.° e 2.° rnez 1 » 1 » 3.° e 4.° » 3 » 2 » 5. e C.° » 2 » 1 » 6. e 9.° » 4 » 1 » No aleitamento artificial indirecto, é a mamadeira o apparelho destinado a receber o leite para ser adminis- trado á criança. Não entraremos na descripção das diffe- rentes variedades de mamadeiras, que são muito nume- rosas; é sob o ponto de vista clinico um instrumento indispensável, se desconfiamos da transmissão d’uma moléstia contagiosa. A mamadeira consta essencialmente de duas peças : o vaso ou recipiente e o bico ou falso mamillo. O vaso é ordinariamente de vidro, de forma variavel, devendo ser sempre preferido de côr branca, porque permitte ver melhor o que se passa no seu interior que deve ser intei- ramente liso. O bico ou têta que fecha o vaso será de cautchuc, sem odor, largo e facil de retirar todas as vezes que fôr preciso aceiar. Após cada refeição todo apparelho deverá ser lavado com agua quente addicionada de carbonato de soda, afim de retirar a manteiga e de neutralisar o acido láctico de que as mamadeiras estão sempre impregnadas, a falta J. R. 3 18 de um asseio incessante e minucioso, que por omissão destes ella torna-se um receptaculo onde pollulam os orga- nismos inferiores, capazes de infeccionar as crianças. Na occasião das refeições, o leite será aquecido até a temperatura de 37 graus, isto é, igual à do leite quando sae do seio. Todas estas precauções são muito importantes, ainda não sufficientes para dirigir um bom aleitamento artificial. Não basta saber preparar o leite e administral-o a criaríça, não se deve esquecer a quantidade de leite que convém dar ao lactante. As amamentações deverão ser regularmente espas- sadas, de maneira a permittir ao tubo digestivo desempe- nhar normalmente suas íuncções physiologicas, porque se a mamentação,é muito prolongada e approximada a criança não digere bem, tem regorgitações, vomitos e diarrhéa: emfim ella deverá ser amamentada dez vezes nas 24 horas, seja 2 horas durante o dia e 3 horas durante a noite, e o tempo desta amamentação não deverá exceder de 20 minutos CAPÍTULO III Desmama JUPá-se o nome de desmama ao acto pelo qual se separa a criança do seio da nutriz, afim de dar-lhe uma existência independente, habituando-a aos alimentos de que devem fazer uso durante a vida. Este momento é muitas vezes critico para a criança, quando a transição não é conve- nientemente dirigida, sendo brusca ou prematura e não tendo sido effectuada em uma occasião opportuna. O aleitamento não deve ser interrompido antes da idade de um anno á um anno e meio, salvo em casos especiaes quando a mãe da criança ou a nutriz são attingidas de uma moléstia grave; se a criança porem, nutrida ao seio augmenta regularmente, se suas digestões se fazem bem, o leite de que ella se nutre é sufficientemente rico em materiaes nutritivos, a mulher que aleita não sente per- turbações digestivas, nervosas, e a lactação não a fatiga, pode continuar o aleitamento sem inconvenientes e retardar a desmama. Se o leite da mulher ao contrario, torna-se insuíílciente- mente nutritivo, já por sua quantidade, já por suaquali- 20 dade, deve-se substituir progressivamente pelo leite de vacca esterilisado, cada uma das amamentações que a criança toma ao seio e isso sem que ella se apperceba, com a condição todavia de haver tomado a precaução de habituar o lactante a este alimento, fazendo-lhe tomar 40 ã 50 grammas de leite por dia, á partir do 4.° ou do 5.° mez. Este methodo permitte substituir o leite da mnlher á medida que elíe diminue de quantidade e de materiaes nutritivos, podendo-se d’esta maneira, com o aleitamento mixto, retardar muito a epoca da desmama definitiva. Esta pratica poderá dar bons resultados, evitando assim uma serie de accidentes graves, que sobrevem, ás vezes, quando supprime-se bruscameute o lactante do leite da mulher. A desmama quando é brusca, tem a desvantagem da criança recusar os alimentos durante muitos dias, recusa que se acompanha de gritos, de insomnia, de agitações e ás vezes mesmo de convulsões. Estes accidentes são acompanhados d’uma diminuição rapida do peso e d’um enfraquecimento geral que faz perder, em alguns dias, os bons resultados obtidos pelo aleitamento ao seio. Poder-se-à completar a insuíficiencia do leite materno quando a criança tem chegado a idade de 7 á 8 mezes,por muitas maneiras. Com effeito, no período da primeira infancia, pode-se 21 completar a ração alimentar, seja por uma certa quantidade de leite esterilisado ou fervido, como já falíamos, seja por -uma sôpa de facil digestão, feita com um pó alimentício qualquer, cosido no leite, ou as papas feculentas, etc. Conforme a idade da criança e a abundancia do leite materno, dá-se-lhe uma, duas ou tres sopas por dia e cada uma d’estas sôpas se comporá de tres ou quatro colheres das de chá de um pó alimentício de arroz, trigo, etc., vdeluido e cosido em 150 ou 250 grammas de leite. Finalmente quando a criança está convenientemente -acostumada a estes alimentos, no fim de um mez pouco maisou menos, suspende-se a amamentação. A principio ella grita e chora como se estivesse doente, com paciência tolera-se essa nova phase que depois cederá. Algumas entretanto, ficam obstinadamente apegadas ao seio da nutriz, tornando se preciso para afastal-as, collocar em torno do mamillo uma solução amarga e inoffensiva de sulfato de quinina, de genciana, etc. Falla-se das moléstias da desmama como de moléstias d'uma natureza especial' com relação á mudança da ali- mentação das crianças. Estas affecções nada têm de particular e apresentam n’esta epoca os mesmos caracteres que nos outros períodos da primeira infancia e a maior 22 parte apparece como simples phenomenos de coinci- dência. Ha entretanto algumas que parecem estar mais especial- mente em relação com a desmama, é a diarrhéa por inflammação das vias digestivas e a enterite simples ou choleriforme, que resultam d’uma alimentação muito substancial ou indigesta. -r^A/2/b/7yZ/~iny^- CAPITULO IV Cuidados á dar as crianças durante o curso da primeira infimcia JIPasseios.— Ha quem pense que os primeiros passeios das crianças, devem se fazer desde os primeiros dias de sua vida, que é um meio de habitual-as ao ar, ao frio e a todas as vicissitudes da atmosphera. Effectivamente os passeios ao ar livre sâo muito úteis, tendo a especial vantagem de estimular-lhe o appetite d’uma maneira evidente. Isso porém, só poderá ter logar na estação quente, depois de 15 dias do nascimento pouco rnais ou menos; na estação temperada, primavera, outono, depois de 20 e inais dias; na estação fria, inverno, depois de um mez, isto mesmo devendo-se procurar os dias estiados e a occasião mais quente do dia, de meio dia á 2 horas. Excedendo a idade de um mez, são indispensáveis estes passeios dia- rios, porque não é somente do ar exterior que ellas neces- sitam para lhes fazer bem a acção do sol lhes é sobretudo muito conveniente, ao contrario do que se faz abrigando- as de seus raios. Quando a criança é de tenra idade, o melhor meio de conduzil-a, são os braços de uma aia e se é de idade mais 24 avançada, portanto susceptivel de ser mais pesada, o> melhor é fazer uso d’uma pequena carruagem. Berços.— Devido a delicadeza de- seus membros, as- crianças devem ser commodamente deitadas em. berços- bem forrados e cujos bordos sejam estufados para que ellas em seus movimentos não soffram nenhum damno. Os berços são geralmente de ferro, de madeira ou de- vim e; sendo que o de ferro é melhor porque permitte aceial-o mais seguramente, preservando-o dos insectGS- pernieiosos, como o persevejo, etc, O fundo e os fados do berço serão constituidos por filamentos de ferro, for- mando malhas muito resistentes para supportar o peso da criança; apesar d'esta resistenciaf as malhas deverão offerecer um certo grau de flexibilidade. Como não ha necessidade de embalar as crianças, por ser isso um habito muito deplorável, não se deve fazer uso de berços- oscilantes, porque esse movimentos frequentemente repe- tidos são nocivos ao systema nervoso das crianças, tão delicado n’esta idade. Preferir-se-á sempre os berços sustentados por quatro pés em systema de locomoção facil. No fundo do berço, colloca-se um ou dois colchões feitos com panno de linho e cheios com substancias bem seccas e macias. Geralmente costumam encher os colchões com pennas e com lã, são nocivas por causa do calor que desenvolvem e pela faci- lidade que têm de se impregnar de urina. Sobre os colchões colloca-se um panno de linho, um 25 encerado, tafetá, com o fim de reter a urina; sendo melhor o uso dos feltros absorventes, porque molhados pela urina nào humedecem os cueiros nem os colchões. Os colchões sendo molhados deve-se collocal-os no sol ou diante do fogo para enxugar e seu interior deve ser reno- vado todos os mezes. Será suspenso sobre o berço um cortinado ou um mosquiteiro pouco espesso, de forma que o ar se renove constantemente e não permitta a entrada de insectos. Uma vez a criança deitada, vestida em seu cueiro, cobre-se-a com uma cobertinha de linho, de lã ou de algodão, conforme a estação e o rigor da temperatura, devendo-se ter o cuidado de collocal-a de maneira que os olhos não fiquem expostos á uma luz obliqua muito forte. Os aposentos serão arejados de tempos em tempos. Diz um provérbio italiano,. que: « onde não entra o sol, muitas vezes entra o medico », e isto é verdade, por quanto os aposentos obscuros são aquelles onde o rachi- tismo, a escrófula e a tuberculose, etc., tomam ordina- riamente nascimento. Ha um abuso que infelizmente é muito commum, o de cobrir immoderadamente as crianças nos berços, com o pretexto de garantil-as das impressões do ar; esta maneira de proceder é muito nociva, porque muitas vezes ellas ficam ahi banhadas de suor e durante um certo tempo ficam com o corpo coberto de manchas vermelhas, de vesículas sudoraes que se toma por uma moléstia J. R. 4 26 seria quando é apenas o resultado de uma. pratica viciosa; estas erupções desapparecem desde que se abandona este mau habito. Somno. —As crianças despendem tanto o influxo nervoso e suas funcções se realisam tão depressa, que têm írequen- ternente necessidade de reparar suas forças e repousar seus orgãos; é por isso que a alimentação muitas vezes repetidas e o somno, lhes são tão necessários e pode-se considerar nos primeiros tempos de sua existência, o somno como estado normal. A noite não é bastante para o repouso das crianças, ellas dormem ainda algumas horas durante o dia e deve-se respeitar este somno durante os dois primeiros annos. Todavia é preciso regular a hora da sesta d'uma maneira conveniente e fixal-a entre meio dia e duas horas, de maneira á não impedir o passeio quotidiano. Mais tarde deve-se destruir este habito, que concorre muito para impedir os passeios das crianças; o somno do dia não é mais necessário, elle obsta que o da noite seja apro- veitável. Costumam adormecel-as embalando-as nos braços ou nos berços, porem justas criticas se fazem para que se abandone este meio. Entretanto crè-se geralmente na necessidade de adormecel-as, seja pelas caricias quando ellas estão em seus leitos, seja conservando-as sobre os joelhos até que o somno lhes appareça; acontece então que, se outras occupações vêm distrahir a nutriz d’este cuidado, ellas choram até que venham adormecel-as nova- 27 mente; quando dispertam a noite se é obrigado a voltar para lhes repetir as mesmas caricias. E’ muito mau deixál-as tomar este habito, porque não querem mais dormir sem essas caricias. O melhor meio será collocal-as acordadas em seus berços até tomarem o habito de ahi adormecerem, mau grado os protestos dos primeiros dias. Custa pouco seguir esta regra que deve ser iniciada desde os primeiros dias de sua existência e que é muito proveitosa para que as crianças se tornem dóceis e deixem a nutriz o tempo necessário para seu repouso. Quando o mau habito é estabelecido e torna-se incommodo para os parentes, pode-se destruil-o com um pouco de coragem e bóa vontade; basta resistir-lhe aos gritos, o que é possível quando se sabe que ellas não sofTrem e não têm necessi- dade de cousa alguma. Banhos.—Muito se tem discutido a respeito daírequencia e da temperatura dos banhos, preferindo uns os banhos frios diários como meio essencial alguns dias após o nasci- mento, prolongando-se até uma certa idade da criança; outros condemnam os banhos quotidianos e aconselham dois ou tres banhos por semana. Nenhuma vantagem vejo em ambos e aconselho de accordo com alguns auctores os banhos tépidos e diários, cuja temperatura seja agradavel e moderada, sendo de 25 graus mais ou menos no verão e de 30 graus no inverno. Todas as vezes que se lava uma criança, depois de a haver 28 enxugado, deve-se polvilhar seu corpo e particularmente as regiões onde existem dobras, com o pó de arroz, amido ou lycopodio, etc., porque sem estas precauções minun- ciosas, estas regiões tornam-se a séde de erythemas e mesmo ulcerações. Vaccinação. — Se a criança nasce em um meio epide- mico de variola e com períeita saúde, deve-se vaccinal-a o mais depressa possivel, dois dias depois do seu nascimento. Ao contrario, se ella nasce doente ou não ha receio de uma inffecção variolica, adia-se a vaccinação para um mez ou dois. CAPITULO V Accidentes da primeira dentição o tempo da amamentação, as crianças pre- param os orgãos que devem assegurar o exercício regular da vida independente. As vísceras adquirem cada dia uma actividade mais considerável e vê-se os maxillares arma- rem-se de dentes para facilitar a mastigação. Este trabalho natural não se faz sempre sem dôr, elle irrita estes pequenos seres, impedindo-os mais ou menos de mamar, occasionando-lhes ás vezes graves complicações. A den- tição é a mais seria crise da primeira iníancia e muitas crianças não resistem aos seus embates. Quando apparecem os primeiros dentes, sobrevem accidentes locaes inflammatorios e phenomenos geraes, gástricos, cutâneos, pulmonares, nervosos mais ou menos graves. Estas perturbações não são constantes, podem faltar em um grande numero de crianças. As perturbações locaes se observam na boccae constam d’uma inchação considerável das gengivas, dolorosas ao menor contacto, obrigando as crianças á ficarem com a bocca aberta para escorrer a saliva ahi accumulada. 30 Quando ha tensão das gengivas devemos fazer o desbrida- mento destas partes com um bisturi. Os accidentes locaes mais communs, são: aphtas, cstomatite simples e odinite cervical. As aphtas são pequenas ulcerações dolorosas, de fundo cinzento, pseudo-membranosas que se produzem nos ângulos formados pelas gengivas e os lábios, curam-se geralmente pelo mel rosado, pelo ch-lorato de potássio e pelas cauterisações. A estomatite simples, qne é a inílanjmação da cavidade buccal, causa um soffrimento muito penivel as crianci- nhas, impedindo-as de dormir e tornando-as inconsoláveis. A adenite cervical, isto é, a inflammação dos gangliosdo pescoço, que pode da.r logar a. abcessos sub-maxillares. Estas diííerentes perturbações locaes podem ser comba- tidas pelas fricções das gengivas com o mel laudanisado ou com a formula seguinte : Borax 1 gramma Xarope de codeina 5 grammas Xarope de althea 10 « Para freccionar as gengivas de 3 em 3 horas com o dedo molhado deste xarope. Quando a dentição occasiona só uma inflammação local das gengivas ou da bocca, não se deve receiar grandes perigos, mas em algumas circonstancias ella produz febre e perturbações mais serias; então vê-se 31 apparecer accidentes geraes sobre a pelle, mucosa diges- tiva, pulmonar e no systema nervoso. Na pelle, produzem-se, a urticaria, a roseola, o eczema e sobretudo o impetigo, que apparecem no rosto ou no corpo, as mais das vezes acompanhadas de accessos febris críticos e se tornando chronico no estado de affecção cutanea, muito difficil de curar epara a qual, osremedios aconselhados sáo as loções ou os banhos alcalinos de bicarbonato de sodio na proporção de 1 para 20; os banhos sulfurosos, etc. ou com o bichlornreto de mer- cúrio á 1 para 4000 ou ainda com o uso da pomada seguinte, aconselhada por Quillier : Euxofre precipitado 1 gramma Oxydo de zinco „ 4 » Lanolina ) .T .. . aã 15 » \ asei ma ) A lanjngite e a bronchite são as vezes a consequência do trabalho da dentição; mas n’este caso, a inflammação da mucosa do larynge e dos hronchios é sempre super- ficial e não traz nenhum accidente grave. As crianças tossem algumas vezes e sua indisposição reclama apenas o emprego de preparações calmantes. Os vomitos são frequentes na occasião da sahida dos dentes, porque as crianças sõflrendo e dormindo mal, tornam-se dyspepticas em razão das digestões mal feitas e são obrigadas a regeitar todo leite que têm inanimado. 32 À diarrhéa mais frequente que os vomitos, é o accideníe? mais commum; verifica-se um grande numero de eva- cuações no estado habitual, que se reproduz sempre todas as vezes que um dente se prepara para sahir, nada ha que receiar. As fezes são amarellas, viscosas, misturadas de mucos; algumas vezes verdes apresentando grumos- brancos de leite coagulado e não digerido» Nresses casos as criancinhas soffrem violentas cólicas, as vezes tão fortes que são difficeis de acalmar e esse estado pode prolongar-se até uma inflammação intestinal que pode fazel-as perecer. Deve-se então espaçar as amamentações, supprimir as sôpas feculentas, mudar de nutriz e mesmo substituir o leite da mulher pelo leite esterilisado, administrar 1 gotta de laudano ou 40 gottas de elixir paregorieo em agua,, dar uma colher das de sôpa da poção seguinte: Acido láctico 2 grammas Agua de ílõresde larangeira— 30 » Agua de ti lia 120 » Fricções sobre o ventre com oleo de camomílla cam- phorado, taes são outros meios á empregar nresses casos. Convulsões e syncopes—São accidentes muito graves da primeira dentição, que resultam d’uma modificação desco- nhecida do systema nervoso, que sem desordem material, aniquilla subtamente sua acção. A criança perde o conhecimento, fica immovel com fracos movimentos convulsivos nos olhos ou na bocca;em algumas 33 occasiões com perda da intelligencia, manifestando-se violentas convulsões na face e nos membros, com os olhos fixos, as palpebras tremem-lhes, a bocca se contorcendo e a vista oíTerecendo uma expressão horrível. Um estado convulsivo analogo, existe nos membros, que ficam rijos e se agitam violentamente; tudo isso desap- parece, á sabida de um novo dente. Em algumas crianças, essas desordens se reproduzem no estado de mau habito do systema nervoso, sob a forma de ataques convulsivos intermitentes, podendo degenerar em epilepsia, como muitas vezes começa esta nevrose. No estado convulsivo occasionado pela dentição, as crianças devem ser expostas ao ar fresco, soprar-lhes nas narinas, íazel-as respirar o vinagre, o ammoniaco, oether, embebidos em algodão; freccionar-lhes o corpo e adminis- trar-lhes a seguinte poção: Bromureto de potássio 1 gramma Almíscar 10 centigrammas Hydrolato de tilia ■ ) » de flôres de larangeira) 8rammas Xarope simples 20 » Para tomar uma colher das de chá de 3 em 3 horas. Para prevenir a repitição d’esses accidentes, deve-se dar os banhos de tilia ou de assafetida, continuando com a formula acima. CAPITULO VI Influencia das moléstias da progenitora e das nutrizes mercenárias sobre as crianças IP um grande numero de casos, as moléstias do recem- nascido provêm da progenitora, não dependendo de modo algum da lactação, e têm uma origem mais distante. Elias dependem da constituição e da saúde da mãe, e são transmissíveis pela geração e não adquiridas após o nascimento. Os factos que se referem à hereditariedade materna são em geral hem conhecidos e acceítos pela maior parte dos médicos, podendo-se classiíical-a da maneira seguinte: 1. Transmissão dos caracteres physicos e moraes; semelhança dos traços da •physionomia, das qualidades da intelligencia e do coração. 2. Transmissão dos vicios de organisação e das defor- midades, taes como a myopia, a colloração da pelle e dos pelios, a fôrma palmada de alguns dedos dos pés ou das mãos, o estrabismo, o pied-bot, etc, 3. A transmissão das moléstias da mulher gravida ao íéto, a variola por exemplo, tem sido muitas vezes observada. 36 4. A transmissão de certas moléstias diathesicas, cujo desenvolvimento tem logar após o nascimento : a syphilis, a tuberculose, a escrófula e a epilepsia em todas as suas fôrmas eem todas as suas manifestações. 5. Emfim, a transmissão das moléstias e das diatheses, que só apparecem mais tarde: agotta, a asthma, etc. Entre todas as affecções hereditárias do recem-nascido, a que, por sua gravidade, merece uma attenção especial, é a syphilis. Após o nascimento ou n’um intervallo de tempo que varia de quinze dias á dois mezes, as crianças offerecem, ás vezes, symptomas de syphilis, que se pensou muito tempo ser consecutiva ao nascimento, accidental e adquirida pelo contacto d’uma pessôa syphilitica. Sabe-se boje, graças aos progressos da sciencia. que não ha nada disso, porque não ha facto tão bem provado e mais commum que a transmissão da syphilis pela geração Poderá ella provir igualmente do pae e da mãe? Esta qnestão é ás vezes,. muito difhcil de se resolver relativamente ao pae. Com effeito, as mulheres ignoram quasi sempre a saúde dos maridos com relação a esta moléstia e não podem esclarecer ao medico que lhes interroga. Egual difficul- dade encontra-se no hospital, porque elle é desconhecido, não podendo-se examinal-o directamente; na clinica civil, porque hesita-se em procurar as questões indiscretas, que podem perturbar o socego do lar. 37 For conseguinte, tudo parece se oppor a que se possa 'descobrir a verdade. Se ahi chega-se, algumas vezes, por meio de precauções difficilmente tomadas, ha grandes probabilidades de se caliir em erro. E\ sem duvida, por causa d’cssas difficuldades de observação, que muitos médicos têm negado, sem razão, a transmissão da syphilis proveniente do pae. O facto é que grande numero de observações têm sido feitas a este respeito, attestando umas, que indivíduos rsyphiliticos, têm tido filhos isentos cfesta moléstia e outras, o contrario; sendo os primeiros casos observados por Cullerier, Ricord, Charrier, etc. Fournier cita casos em que não ha trasmissão heredi- tária da syphilis por herança paterna, e apresenta nume- rosas observações de paes syphiliticos casados com mulheres sãs, que tiveram filhos isentos de toda mani- festação syphiiitiea ; cita outros, em que paes syphiliticos transmittiram a syphilis a seus filhos, e entre estes o caso de um medico, que se casou um anno depois de ter contrahido esta moléstia, limitando-se apenas a tratal-a com 8 fricções mercuriaes. Sua mulher não foi inffecci- onada, mas 3 abortos manifestaram-se syphiliticos e duas crianças, á termo, egualmente syphiliticas. Factos idênticos foram observados por aquelles e por outros auctores, ora encontrando observações satisfatória, relativamente a transmissão desta moléstia por intermédio 38 dos paes aos filhos, ora faltando, como fizemos mostrar acima. Quanto á hereditariedade materna, é um lacto vulgar, que se observa todos os dias. Não é raro encontrarem-se exemplos positivos da transmissão da moléstia, só pela mãe, estando o pae em períeito estado de saúde. Os accidentessyphiliticos verdadeiramente transmissíveis pela hereditariedade são os secundários, sendo que os terciários podem também ser observados em menor írequencia. E’ pelo germen, em sua origem, ou pelo virus extrahido pelo féto do sangue materno, que esta communicação se faz? E’ muito difficil resolvel-o. Não se pode fazer sinão conjccturas a este respeito. Entretanto, quando se encontrar casos, nos quaes a mulher, nada tendo tido antes de sua prenhez, adquira durante a gestação cancros seguidos de infecção constitu- cional, que se transmitta a sua criança, deve-se admittir que é, pelo sangue virulento fornecido ao féto para sua nutrição, que a transmissão se faz. Assim vê-se mulheres abortarem ou darem a luz, á termo á uma criança infeccionada, durante o tempo que permanece o periodo dos accidentes secundários; mas, desde que os accidentes terciários se manifestam e as 39 mesmas doentes se tomam gravidas, dào a luz, á crianças perfeitamente sadias. A epoea, na qual os symptomas syphiliticos se mani- festam em uma criança que recebeu a infecção pela here- ditariedade, é geralmente do rimeiro ao segundo mez da vida extra-uterina; pois nada mais commum do que se ver mães syphiliticas darem a luz, á crianças, á principio bem constituídas em apparencia e depois de quinze dias, um mez ou seis semanas, começarem apresentar sympto- mas syphiliticos, que são constituídos por placas mucosas disseminadas por todo corpo, sobretudo na visinhança das dobras articulares, no anus, no peritoneo e no mento. Quanto aos phenomenos geraes, podem faltar; mas, de ordinário, a criança é fraca, pallida, eome pouco; os membros são infiltrados de serosidacles e morre de cachexia veneria, se os soccorros médicos não lhe são administrados cuidadosamente. As crianças attingidas de syphilis hereditária podem ser curadas, quando tratadas convenientemente, mesmo tendo chegado a um adeantado gráu de consumpção ; mas neste caso, a morte é ordinariamente a consequência da moléstia. O remedio especifico é o mercúrio, que consiste no emprego do licôr de Van Swieten, 11a dóze de 15 gottas, no leite, dado diariamente e nas fricções com emguento napolitano. O tratamento mais conveniente, consiste em submetter 40 as nutrizes ao uso do proto-iodureto de mercúrio em pilulas de 2 á 3 centigrarnmas, para tomar duas ou tres- por dia, Sob a influencia d’esse agente , as crianças se restabe- lecem e os accidentes syphiliticos desapparecem. Entre as affecções locaes ou geraes qae podem attmgir a nutriz, umas parecem não ter nenhuma influencia sobre a saude das crianças, outras, ao contrario, exercem sobre ellas, uma influencia a mais desagradavel... À acção das moléstias da nutriz sobre a saude das1 crianças, é immediata ou distante. Aquellas, cujo eífeito é immediato e nas qoaes se póde estabelecer a relação que existe entre si e os accidentes que' as determinam, são fáceis de se reconhecer. Não se dá o mesmo com as outras, cuja influencia se faz; resentír em uma epoca distante. Assim se pode rasoavelmente suppor que o leite dmma. nutriz, reconhecida tuberculosa durante o aleitamento, tenha consequências as mais funestas para o futuro; porém não se poderá affirmar dhima maneira positiva. Poder-se-á dizer o mesmo relativamente as affecções syphiliticas, escorbutica e da anemia que resulta da má alimentação. E’ provável que essas moléstias diathesicas da nutriz; 41 sejam mais ou monos prejudiciaes á criança, mas isto não foi ainda demonstrado pela observação. Influencia immediata das moléstias da nutriz sobre as crianças.—Estas moléstias muito numerosas, devem ser divididas em t,res classes: A primeira que se compõe d’aquelias que são acompanhadas de uma modificação da glandula mamaria, isto é, nas quaes o leite apresenta alterações apreciáveis aos nossos meios de investigação ; a segunda, as que não são acompanhadas por nenhuma alteração d’este genero; a terceira emftm, cuja transição se opera no contacto repetido da nutriz à criança. Primeira classe — Influencia das moléstias da nutriz com alteração do leite—1.° Ha mulheres que têm toda a apparencia de saúde, cuja constituição é forte e vigorosa e que, entretanto, não criam, sinão lactantes depauperados. O excesso na qualidade do leite é portanto um defeito; sua grande riqueza, isto é, o augmento absoluto de seus globulos em uma nutriz forte e vigorosa é sempre preju- dicial. À criança experimenta sob esta influencia, indi- gestões frequentes que não tardam a tornarem-se a causa de uma phlegmasia das vias digestivas. 2.° A maior parte das moléstias agudas ou chronicas, assim como uma indisposição,uma irritação intestinal, etc., tem ordinariamente sobre o lei|e uma influencia toda contraria á aquella que acabamos de fallar. Elias deter- minam o empobrecimento d’este liquido, já pela diminuição de sua quantidade,já pela má elaboração de seus elementos, J. R, 6 42 sobretudo dos globulos que são mui sensivelmente*1 diminuídos de numero ou de volume, tornando-se d’esí» maneira insufficientes para as necessidades da nutrição, e, n’esses casos, as partes solidas do leite estão ainda em excesso, mas tornam este liquido pesado, e indigesto, como no caso precedente. Portanto a má qualidade do leite depende tanto de sua- má elaboração, como da diminuição dos globulos e do augmento da quantidade de suas partes solidas, dando-se- uma especie de concentração, que a lebre parece ser a causa. As nutrízes, cuja constituição é delicada, sem ser alte- rada por moléstias; as que estão n’um estado de soffri- mento mal caracterisado, que a miséria e a má alimentação lhes preparam; as que são valetudinárias e soffrem de diarrhéa ou de affecção organica no começo da tuber- culose pulmonar, por exemplo; as que, emfiin, são attingidas por uma affecção aguda inílamroatoria, como a pneumonia séptica, a febre puerperal ou virulenta, a syphilis, apresentam muitas vezes esta alteração do leite. N’estes casos, encontra-se o leite claro, seroso, pouco abundante e contendo um pequeno numero de globulos de manteiga; elle é rclativamente mais carregado de partes solidas, de caseina e de assucar, que o tornam pesado e perigoso para as crianças, e ao que se chama um leite pobre e insu ff>ciente. 43 Às moléstias da nutriz que determinam este empobre- cimento do leite, esta diminuição dos globulos gordurosos •e esta má elaboração, são, como vimos, muito diíTerentes ■íí produzem ordinariamente nas crianças, a irritação das vias digestivas, a diarrhéa, as cólicas, os vomitos, õ emmagrecimento, etc. 3. Quando uma prenhez sobrevem durante o aleita- mento, vê-se, ás vezes, o leite diminuir de quantidade e de qualidade, a mulher apresentar signaes evidentes de fadiga e a criança cessar de prosperar. Ao contrario, tem-se visto mulheres gravidas conti- nuarem o aleitamento, apezar da alteração de seu leite, até a volta ao estado de colostro e seus lactantes não soffrerem. Todavia, na maioria dos casos, o leite secretado no curso da prenhez é de má qualidade e provoca nas crianças uma irritação, mais ou menos violenta, das vias digitivas, caracterisada pela diarrhéa. À galactophorite, os engorgitamentos e os phlegmões do seio, são, algumas vezes, a causa d’uma alteração do leite, que difíere da precedente e pôde ser prejudicial à criança; queremos fallar da mistura d’estc liquido com o pus. 4. Os abcessos do seio, formados no mesmo tecido da glandula mamaria, destroem, ás vezes, alguns lobulos glandulares e rompem os conductos galactophoros, que, ficando abertos nas partes profundas do foco, absorvem 44 incessantemente o pús contido em seu interior e o trazem parafóra pelos orificios do mamillo, onde se mistura com o leite vindo das outras partes da glandula; tal moléstia da nutriz, deve ter uma influencia perigosa. Os accidentes que resultam, parecem concentrados sobre a mucosa das vias digestivas, tanto que as digestões se perturbam, as crianças vomitam e têm diarrhéa.. Ainda outros phenomenos morbidos podem se produzir, e é n’estas mesmas circonstancias que se tem visto sobre- virem nas crianças, erysipelas e abcessos. Das considerações precedentes resulta, que as moléstias da nutriz acompanhadas d’uma alteração do leite, não têm, sobre a saude das crianças, uma acção immediata, particular a cada uma d’ellas. Todas essas affecções têm como resultado commum, para as crianças, a influencia da nutrição, a diminuição do peso e em seguida a irritação das vias digestivas, a dyspepsia.caracterisada pelas cólicas, os vomitos e a diarrhéa. Que ellas sejam acompanhadas da alteração do leite designada sob o nome de riqueza ou empobrecimento, de sua alteração pelos elementos do colostro ou, algumas vezes, pelo pús, seu eífeito é mais ou menos o mesmo. Sempre os accidentes que se desenvolvem têm por sede o tubo digestivo, e sua natureza é semelhante, porque ella procede d’uma dyspepsia que a principio produz a constipação e mais tarde a enterite com diarrhéa e dimi- nuição do peso. 45 Se as moléstias exercem uma influencia desagradável sobre a secreção do leite, deve-se crêr que ellas irrevogá- vel mente determinem as perturbações na saúde das crianças; muitas vezes, ainda, o lactante, alimentando-se do leite d’uma nutriz doente, não soffre nenhum da nano. Assim, ha exemplos de mulheres attingidas de rheu- matismo articular agudo, pneumonia, tuberculose, lebre pucrperal, lebre typhoide, etc., com ou sem alteração do leite, que não cessam de aleitar suas crianças, as quacs não sofTrera nenhuma perturbação. Em presença d’esses factos, devemos proceder com prudência, attendendo e observando o que se passa no lactante. Se ha aecidentes sérios do lado das vias digestivas, sendo o leite único responsável, deverá ser suspenso até uma nova ordem o confiada a criança a uma outra nutriz. Secunda classe — Influencia immediata das moléstias DA NUTRIZ, SEM ALTERAÇÃO DO LEITE — E’ OVidOllftí que SC uma nutriz, cujo leite não offercce nenhuma modificação apreciável, se acha em uma disposição capaz de produzir aecidentes nas crianças, é que seu leite está alterado d’uma maneira que não podemos comprehender bem. Com effeito, o leite é o intermediário obrigado d’esta influencia mórbida. E’ impossível negar a existência das alterações imper- ceptiveis d’este fluido, quando podemos demonstrar pela introducção de substancias medicamentosas 11a economia. 46 A dóze de 2 á 3 centigrammas de proto-iodureto de mercúrio, administrado diariamente a uma nutriz, basta para curar a syphilis de uma criança, entretanto nunca se encontrou, pelas analyses chinncas, traços d’esta substancia no leite. Por conseguinte, se chegamos a modificar as qualidades do leite, sem nos apercebermos de outra fórma, a não ser pelos resultados physiologicos e therapeuticos. devemos crer na existência das alterações desconhecidas e inapre- ciáveis d’este liquido, quando ellas nos são demonstradas por um phenomeno tão certo como a moléstia da criança, no momento d’uma perturbação, sobrevindo na saude de sua nutriz. Seja como íôr, estas alterações imperceptiveis do leite, que existem entre as nutrizes expostas às affecções moraes ou nervosas, entre as mulheres, cuja constituição ê dominada por uma diathese ou por uma cachexia qualquer, escrofulosa ou syphilitica, o que nos importa, é determinar quaes são, entre estas disposições, as que são immediatamente prejudiciaes ás crianças, Certas moléstias da pelle, entre a mãe ou a nutriz, se transmittem á criança pelo contacto directo, isso não ha a menor duvida, mas é difficil de saber se a transmissão póde se operar por meio do leite. Alguns médicos têm feito observações em muitas mu- lheres, que tiveram affecções cutaneas não especificadas ainda e que não transmittiram nenhuma moléstia á seus lactantes. 47 Chegamos, emfim, a um genero muito importante de moléstias das nutrizes, cuja influencia immediata sobre as crianças está longe de ser determinada. A influencia das constituições fracas elymphaticas, dasdiatheses dartrosas, escrofulosas ou syphiliticas e de certas cachexias nasquaes o leite mão apresenta nenhuma alteração apreciável. E’ raro observar-se em uma nutriz de constituição escrofulosa ou escorbutica e mesmo attingida de syphilis, accidentes evidentemente em relação com estes diversos estados morbidos. Póde-se mesmo negar a existência d’esses accidentes, como sendo o resultado das disposições da nutriz, e não se deve acceital-os sinão a titulo de coincidência. Com effeito, observando-se com cuidado as crianças de bôa descendencia, nutridas por mulheres de temperamento escrofuloso, mesmo muito pronunciado, não se encontra no seu estado geral de saiide phenomenos que possam attestar que ella é escrofulosa; e, se esta lactação tem alguma influencia, só se notará um pouco mais tarde. Quanto á syphilis, nenhum facto demonstrou ainda d’uma maneira positiva a sua transmissão pelo leite. a Constat hodie fere inter amues, vinis veneram neuti- quam per loc ad infantes transferri.» Póde-se crêr nessa transmissão, não pelo germen, mas por suas toxinas. Cullerier, Pellizzari e outros, observaram que muitas crianças aleitadas por nutrizes syphiliticas, já. com acci- 48 dentes secundários, inas sem lesões iniciaes nas mamasr não foram infeccionadas. Também offerecem-nos provas as experiencias de Pan- dová, que, por oito vezes innoculou o leite de nu-trizes syphiliticas em pessoas sãs, sem que obtivesse resultado- positivo. Primeiramente o leite das mulheres syphiliticas não apresenta caracteres differentes do-leite das mulheres sadias; se elle é alterado, deve sei pelas toxinas e estas mesmas ainda não foram encontradas ahi. Controvertendo nossa opinião e a de muitos auctores pela não transmissibilidade da syphilis, em razão de não ser encontrado no leite a presença de gerinen e de toxinas, não é razão para se crer; pois como vimos antecedente- mente, que o leite pode acarretar princípios- toxicos sem ser percebido por nôs> também pode dar-se o mesmo com a syphilis. Com effeito, na maioria dos casos, o modo de propagação * é muito differente; encontra-se quasi sempre na nutriz um cancro, cujo pús, transportado pelas mãos, pela roupa e pelos contados repetidos, termina por ser absorvido e produzir na boccae sobre o corpo um cancro semelhante, origem da inlecção venerea. Ha n’estcs casos uma verdadeira innoculação, cujo cancro é o phenomeno primitivo e ao mesmo tempo a causa dos accidentes secundários. E’ d’esta maneira que geralmente se opera a transmissão da syphilis ás crianças. 49 Em resumo, vê-se que certas disposições do coração, as affecções moraes, as paixões e algumas moléstias danutriz, que não são acompanhadas por uma modificação do leite, têm algumas vezes, uma influencia immediata, muito grave, sobre a saúde das crianças. Esta influencia é mesmo, em geral, mais desagradavel que a influencia das moléstias com alteração do leite. Todas não soffrem com a mesma facilidade, e ha algumas que são mesmo refractarias. O medo, a cólera, as inquie- tações continuas, a tristeza, os prazeres venereos, etc., são, algumas vezes, a causa de perturbações graves do lado das vias digestivas e sobretudo para o lado do sys- tema nervoso das crianças, occasionando-lhes convulsões; assim como a menstruação, dá logar, algumas vezes, as cólicas, vomitos e diarrhéa, mas esses phenomenos são raros. Terceira classe — Influencia immediata das moléstias da nutriz em contacto com a criança -Vamos determinar a acçao de certas moléstias da nutriz sobre a saúde da criança, seja uma alteração apreciável do leite, seja ao contrario, que este liquido não apresente nada de particular. Outras moléstias da nutriz podem se communicar cá criança pela infecção ou pelo contacto, porém aqui, não é mais por sua qualidade exclusiva da nutriz que esta mulher transmitte uma moléstia qualquer, é com o mesmo direito que toda pessoa extranha poderia fazel-o. E’ assim J. R. 7 50 que se transmittem a sarna, a ophtalmia, a diphlherla, a varíola, o cholera, a syphilis, eíc. Em todas estas circonstancias, deve-se interromper o aleitamento, e tomar uma outra nutriz. Influencia distantes das affecções moraes e physicas da nutriz sobre as crianças — Esta influencia é muito mais diíficil de se conhecer do que aquellas que falíamos até o presente. Antigamente attrihuia-se ao leite uma iufluenciadistante, muito evidente sobre a constituição e o caracter das crianças, se pensando que as crianças nutridas com o leite de vacca eram mais preguiçosas e menos alegres do que aquellas que haviam sido nutridas com o leite de cabra. Admittia-se egualmente que o caracter e as paixões da nutriz, podiam se transinittir á criança pelo leite. Diz Desormeaux, se é verdade que a natureza do leite, que depende da constituição physica e moral da nutriz, exerce uma influencia immediata sobre a saúde e a consti- tuição do lactante, de maneira a modificar seu desenvol- vimento intellectual e moral, não se deve duvidar que elle tenha uma influencia distante sobre o caracter do indivíduo. Quando esta transmissão tem logar, a criança recebeu-a muito,mais seguramente pela imitação das maneiras de sua nutriz e da educação que ella lhe deu. E’ preciso agora apreciarmos a influencia distante de certas moléstias das nutrizes sobre a saúde futura das 51 crianças e sabermos qual é a acção ulterior do leite da mulher tendo affecções nervosas, a epilepsia em particular ou umadiathese syphilitica, cancerosa, escorbutica e escro- fulosa. Não possuímos infelizmente nenhum facto que decida essas questões. Entretanto, se algumas d’essas affecções da nutriz, e não da mãe, não nos parecem ter sobre o futuro das crianças, uma inííuencia evidente, é preciso pelo menos* consideral-as como tendo uma influencia muito desagra- dável e mudar a nutriz desde que se perceba a existência d'essas affeccões. PROPOSIÇOES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sei eu cias medicas e cirúrgicas PROPOSIÇÕES Auatomia Doscriptiva I —0 estomago é uma dilatação do canal intestinal, intermediário ao esophago e ao intestino delgado. II — Intestino delgado comprehende a porção do tubo digestivo que se estende do estomago ao grosso intes- tino. III —Grosso intestino é o seguimento terminal do tubo digestivo, que faz seguimento em cima com o intestino delgado, do qual é separado pela valvula ileon-coecal, em baixo termina-se pelo orifício anal. Anatomia, Meílico-Çirurgica I—O estomago, o intestino delgado, o grosso intes- tino, menos o recto, fazem parte da porção abdominal do apparelho digestivo. II — 0 estomago occupa o hypocondro esquerdo e parte do epigastro. III — Só é accessivel à acção cirúrgica por sua face anterior. Histologia I —O estomago contem quatro túnicas: a serosa, a muscular, a sub-muscular e a mucosa. 56 II — 0 intestino delgado è formado por quatro túni- cas: uma serosa, uma muscular, uma cellulosa e uma mucosa. III — A camada muscular do estomago e do intestino nas crianças é pouco desenvolvida e as glandulas de Lie- berkiihn e as de Briinner não são ainda completamente formadas. Bacteriologia I— -O bacillo coli-communis foi descoberto por Esche- risch nas fezes das crianças que se nutriam de leite. II— Depois assignalado como uma especie commum do intestino do homem e dos animaes. III — E’ um curto bastonete movei que se cora facil- mente pela fuchsina phenicada e se discora rapidamente l pelo methodo de Gram. Anatomia e physiologia pathologica I — Na gastrite aguda a mucosa do estomago é conges- tinada, espessada, apresentando numerosas dobras em sua superfície. II — Os vasos da mucosa e da sub-mucosa apresen- tam-se bastante injectados. III — Entre as cellulas estornacaes encontra-se quan- tidade considerável de micro-organismos. Physiologia I — O canal intestinal, relativamente ao comprimento do corpo, é maior na criança que no adulto. 57 IÍ — A physiologia da digestão nas crianças, tem muitas particularidades, bem como a pequena quantidade dos differentes suecos orgânicos, que exige toda attenção medica. III — Nos primeiros dias da vida, as secreções salivar e pancreatica são escassas, explicando assim a íraqueza dos phenomenos digestivos nesta epoca. Therapoiitica I —O opio é o sueco extrahido das capsulas da Pa- paver somniferum álbum, familía das papaveraceas. II— E’ contra-indicado nos estados congestivos do sys- tema nervoso central, etc. III — As preparações opiaceas são empregadas nas diarrhéas biliosas, nas enterites e entero-colite das crianças. Hjgiene I — Na hygiene a parte que se refere a alimentação é uma das mais importantes, principalmente na infancia. II — A alimentação da criança sendo intervallar e fra- ccionada garante o organismo, satisfaz melhor o appetite e evita a tensão gastriea. III — A criança deve dormir muito e no inverno mais que no verão; dormir é uma necessidade variavel con- forme a disposição individual e a idade. 58 Medioinu o toxicolo^fít* I — Â. melhor prova da vida extra-uterina, isto é, se s criança respirou, é pezar os pulmões. II — Os pulmões que não respiraram são mais pesados- que a agua. III — Os que não respiraram conservam o ar que pe- netrou em seu interior e por conseguinte são mais leves que a agua. Pathología eirurgfica I — Chama-se varizes a dilatação pathologiea e perma- nente das veias. II— -As varizes esophagíanas reconhecem, como habi tuaes factores etiologicos, a cirrhose e a syphilis hepá- ticas, e o uso do espartilho muito apertado. III— ‘Elias se denunciam por hemorragias frequentes, sob a fôrma hematemezes ou de mcelena, o que pôde con- fundil-as com as produzidas pelas ulceras e tumores do estomago. Oiieroçõos e apparelho» I — As crianças são muito sugeitas ás fracturas, sobre- tudo da clavícula e do humerus, quando o medico é obrigado á exercer tracções energicas na occasião do parto. II —Elias se curam facilmente, quando se tem o cui- dado de consolidal-as em apparelhos bem íeito9. 59 III — Depois de retirado o apparelho, quando a fractuca «stá besn consolidada, as maçagens são indicadas. Clinioa cirurjflca ( l.“ Cadeira ) I— As vegetações adenoidianas, que apparecem em muitas crianças, podem produzir moléstias graves. II— O pharynge e as fossas nasaes, quando affectados de vegetações adenoidianas.defficultam a respiração. III — A cirurgia fornece meios para debelar na criança taes estados pathologicos. Cliuieu eirurgioa (S.a Cfideira) I—À operação das vegetações adenoide é branda e simples, em virtude do aperfeiçoamento das pinças e cu retas. II — Comeste instrumental cirúrgico pòde-se lazer a ablação completa dos adenomas no pharynge. III — A cirurgia facilitaem taes casos, depois da operação, ■o augnaento da capacidade respiratoraria do thorax. Pathologia medica, I — A gastrite catarrhal aguda, nas crianças, geralmente tem um começo bastante violento, tornando-se os doen- tinhos subtamente abatidos. II — A enterite extendida ao mesmo tempo ao grosso intestino, denomina-se enterocolite. III — A dentição é uma das valiosas causas d’estas moléstias. 60 Clinica propeileutica I — um indivíduo em períeito estado de saúde, o typo respiratório está em relação com o sexo e a idade. II _ A respiração é abdominal no homem, coslal superior na mulher. III— As differenças sexuaes só manifestam-se dos 7 aos 8 annos em diante. Clinicti medica ( l.a Cadeira ) I — o sapinhos (muguet) éfrequente em todas idades. II— Apparece nos organismos debilitados, cacheticos, acompanha algumas vezes moléstias agudas. III — Nas crianças é consequência de sua alimentação, acidez do leite, perturbações digestivas, más condições hygienicas, etc. Clinica medica (Q.a Cadeira) I —A asthma é uma nevrose, quasi sempre hereditária, que ataca todas as idades. II— Os accessos apparecem ora como simples nevrose, ora ligados a um estado inflammatorio dos bronchios. III — Apparece entre as crianças, especialmente na segunda infancia, revestindo as mais das vezes a marcha da bronchite capillar, da broncho-peneumonia, mani- festações estas que devem ser conhecidas afim de se evitar erros. 61 Matéria medica, pliarmacologia e arte de iormular I —■ A santonina é uma substancia toxica, cujo emprego exige muita prudência. II — Ha duas variedades de santonina: a incolor e a amarellecida pela exposição á luz, esta ultima é menos venenosa que a primeira. III — Seu emprego como vermífugo é usual nas crianças, com bons resultados. Historia ntitu.rsil medica í—-Os oxyuros vermiculares são pequenos vermes, redondos, brancos que se observam quasi exclusivamente nas crianças. II—Sene é um arbusto da íamilia das leguminosas, do genero cassia. III — E’ um dos purgantes mais seguros e frequente- mente empregados na clinica de crianças. Chlunica módica [ — Ghainam-se aguas mineraes as que em virtude de substancias naturalmente nellas dissolvidas, exercem acção therapeutica. II—-As aguas mineraes têm grande emprego nas aíTecções gastro intestinaes. Hl — Conforme a predominância qualitativa ou quan- titativa de certos principios, as aguas mineraes dividem-se 62 em: acidulas ou gazozas, alcalinas, salinas sulfurosas e ferreas. Obstetrícia I — Chama-se parto prematuro quando o feto nasce em condições de viver. ÍI—- Todas as causas que podem matar o feto no curso da prenhez, produzem o aborto ou o parto prematuro. III — A syphilis, a albuminúria, etc, que podem trazer a morte do feto, podem igualmente trazer a expulsão prema- tura do mesmo, vivendo em uma epoca variavel da prenhez. Clinica obstétrica e gynecoloffica I — À gestação imprime no organismo da mulher modificações muito importantes, que se podem dividir em locaes e geraes. II — As primeiras são as que se produzem no apparelho genital; as segundas nos demais apparelhos da economia. — Entre as modificações locaes, grande importância assumem no diagnostico da gravidez, as do cólo do utero, da vagina e da vulva. Clinica, pediátrica I —A coqueluche é quasi sempre uma moléstia das crianças, que se apresenta entre a primeira e segunda infancia. II — E’ o contagio o principal íactor determinante d’esta affecção. 63 III — Geralmente benigna,púde entretanto, assumir certa gravidade na primeira iníancia. Clinica oplitnlmologjica, I— Conjunctivite é a vascularisação anormal, com exsudatos inflammatorios diversos, que se depositam na superfície da conjunctiva. II— A conjunctivite purulenta dos recem-nascidos, começa frequentemente depois de um periodo de incu- bação, terceiro dia depois do nascimento. III — A infecção se dá durante a passagem da criança pela vagina, por inoculação do pus blennorrhagico ou leucorrheico e não havendo estes casos invocam a decom- posição do liquido amniotico retido no sacco conjunctival. Clínica dermatológica o syphiligraphiea I—A syphilis resulta sempre do contagio, da: inocu- lação, da penetração material de uma substancia virulenta especial no organismo. II — Uma criança syphilitica transmitte a syphilis a sua nutriz. III — Quando a criança é attingida de syphilis heredi- tária convém submettel-a logo a medicação apropriada. Clinica, psychiatrioa o moléstias nervosas I— Aparalysia spinal infantil é uma lesão primitiva da medulla espinhal, residindo nas partes que presidem a motilidade. 64 II — Esta moléstia se encontra sobretudo nas crianças' de um á dois annos, mas pôde ser observada mais tarde, III—A sua etiologia é obscura, invocando-se o írio, a dentição, etc, apresentando-se consecutivamente à certos- estados infecciosos. VlSÍO. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, em 31 deOutubro de 1907. 0 Secretario, Dr. Menandro dos Reis Meirelles, ERRATA Paginas linhas on:le se lê: leia-se; 2 3o oleo oleo 8 3 apparenças apparencia 10 21 minuncioso minucioso lo 16 minuncioso minucioso 16 3 cTelles d’elle 28 3 minuncioso minucioso 39 5 rimeiro primeiro 39 2o emguento umguento 47 23 loc lac 66 18 congestinada congestionada 68 14 hepaticas hepática 60 12 sua mà