THESE DE fHESE Faculdade de Medicina da Bahia THESE APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 31 de Outubro de 1905 PARA SER DEFENDIDA POR Jj^íboxro NATURAL DO ESTADO DE ALAGOAS AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR EOT MEDtCtNS DISSERTAÇÃO Cadeira de Clinica Cirúrgica Do tratamento das phlebectasias Proposições Tres sobre cada uma das cadeiras do curso desciencias medicas e cirúrgicas Bahia mmn mu de psodexcio dê cârvalho Rua S, Francisco n, 29 1905 Faculdade de Medicina da Bahia Director—Dr. ALFREDO BRITTO Vice-Director—Di\ MANOEL JOSÉ DE AEAUJO Lentes cathedraticos OS DRS. MATÉRIAS QUE LECCÍONAM SECÇÃO ••.Carneiro de Campos Anatomia descriptiva. Carlos Freitas Anatomia medico-cirurgica. 2. a Secção A átomo Pacifico Pereira. . . . Histologia A.jgusto C. Vianna . Bacteriologia Guilherme Pereira Rebello. . . . Anatomia e Physiòlogia pathologica» 3. Secção Manuel José de Araújo Physiologia. José Eduardo F. de Carvalho Filho. . Thêrapeutica. 4. Secção Raymundo Nina Rodrigues. . . . Medicina legai e Toxicologia, Luiz Anselmo da Fonseca Ilygiene. 5. Secção Braz Hermenegildo do Amaral ]. . Pathologia cirúrgica. Fortunato Augusto da Silva Júnior . Operaçoese apparelhos Antonio Pacheco .Mendes . . • . Clinica cirúrgica, 1." cadeira lgnacio Monteiro de Almeida Gouveia . Clinica cirúrgica, 2.a cadeira 6. Secção Aurélio R. Vianna Pathologia medica. Alfredo Brítto Clinica propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho. . . Clinica medica Pa cadeira. Francisco Braulio Pereira Clinica medica 2.a cadeira 7. a Secção JoséRodrigues da CostaDorea . . Historianatural medica. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria medica, Pharmacologia e Arte de formular. José Olympio de Azevedo .... Chímica medica. 8. a Secção Deocleciano Ramos Obstetrícia Climerio Cardoso de Oliveira . . Ciinicaobstetrica egvneccdcgica. 9. a Secção Frederico de Castro Rebello . . . . Clinica pediátrica 10. Secção Francisco dos Santos Pereira. . . Clinica oplitalmologica. 11. Secção Alexandre E. de Castro Cerqueira . Clinica dermatológica e syphiligraphica 12. Secção J. Tílíemont Fontes ’ Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. loãoE. de Castro Cerqueira ... ( Sebastião Cardoso j Em disponibilidade Lentes Substitutos OS DOUTORES José AíVonso de Carvalho (interino) . . í.11 seccilo Gonçalo Moniz Sodré de Aragão . . . 2.“ » Pedro Luiz Celestino 3. Josino Correia Cotias . 4.a » Antonino Baptista dos Anjos . 5.a João Américo Garcez Fróes. . . . 6.a » Pedro da Luz Carrascosa e José Julio de Calasans. . ....... . 7.a # J. Adeodato de Sousa '8.a Alfredo Ferreira de Magalhães ... 9.a » Clodoaldo de Andrade. ..... 10. » Carlos Ferreira Santos 11. » Luiz Pinto Ce Carvalho (interino) ... 12. » Secretario—DE. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-secretario—DR. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade não approva nem rgprpva as opiniões exaradas nas ttieses jjelos gtius andores DISSERTAÇÃO Cadeira de Clinica Cirúrgica Do tratamento das phlebeetasias Exposto Geral ©J AS eras antigas, quando o reposteiro da igno- rância cerrava as portas dos conhecimentos ver- dadeiramente scientificos da Medicina; na epocha em que jamais se sonhava a existência de um systema vascular onde o sangue circulando, fosse levar á trama intima dos tecidos a condição de sua vitalidade, Ambroise Paré dava como causa das phlebectasias ou varices e da mór parte dos processos morbidos, uma alteração humoral que elle exprimia nesta elegante phrase— sangue melancholico. Mais tards, os pathologistas attribuiram grande importância pathogenica ás condições locaes da circulação e á alteração primitiva das paredes vasculares, e dest’arte duas theorias surgiram: a mechanica e a anatomo-pathologica. Na explicação da primeira destas theorias, os seus propagadores dão como factor capital as acções mechanicas exercidas pela pressão san- guínea, influenciadas pela gravidade e aliiadas á insufhciencia valvular e á abstenção muscular. 2 Será a estação vertical que reunirá todas essas causas. Com effeito, nessa altitude, a corrente venosa se esforça por chegar a cavidade cardíaca e para seguir o seu curso normal é preciso que ella vença a pressão atmospherica e o obstáculo re- presentado pelo seu proprio peso. A reunião destes dous elementos, para ser ven- cida, necessita de um supercrescimento de tra- balho das paredes venosas que no momento em que sua força elastica capitula, se enfraquecem, se dilatam e a varice se constitue. Mas, si essa theoria encontra a sua applicação em indivíduos de certas profissões, como sentinellas, caixeiros, porteiros de certos estabelecimentos etc., ella não se applicará, entretanto, a um certo numero de casos que contradizem-na totalmente, por exemplo: os cyclistus de profissão apresentam muitas vezes dilatações varicosas e a sua posição não é vertical; os indivíduos que se dão á equi- tação se queixam de varices; os torneiros, que fazem mover alternativamente as suas pernas, e os velhos cocheiros de Paris, são atacados frequente- mente dessa affecção. Por esses factos nos parece que uma linha com- mum liga a pathogenia de todos esses casos. René Gourlejac explica-os pela persistência e egualdade dos movimentos ou posições, e, assim, 3 diz que os cyclistas terão varices porque põem as pernas no mesmo sentido, os torneiros, porque fazem seus membros inferiores descreverem sempre o mesmo circuito e, finalmente, os cocheiros por conservarem uma posição sempre idêntica. Essa igualdade agirá mechanicamente sobre as paredes venosas e sobre as valvulas. Uma compressão limitada, um augmento de tensão em pontos fixos, acarretarão necessaria- mente uma diminuição de nutrição e ao mesmo tempo um excesso de trabalho nesses pontosj portanto uma fraqueza da veia. se traduzindo pela dilatação e inflammação. Por outro lado, apez ir das contracções muscu- lares que existem sempre, mesmo na immobilidade, o sangue não chega ein sua totalidade ao coração: parte é rejeitada para os capillares. O primeiro não será nocivo ás paredes venosas, o segundo porem é sustido em seu recúo pelos processos valvulares. Nesse movimento successivo, são sempre as mesmas valvulas que têm de supportar os mesmos choques e reterás mesmas massas sanguíneas; e, por esse excesso de trabalho, ellas não desem- penham o seu verdadeiro papel, se enfraquecem, sua acção desapparece, a pressão intra-venosa augmenta e a parede da veia, tendo o seu limite de elasticidade excedido em certos pontos onde 4 se exerce sobretudo esse augmento de traduz a sua fraqueza por uma dilatação, vindo a lesão valvular facilitar o desenvolvimento da va- rice. Alem da gravidade, se têm feito entrar em linha de conta as compressões e obstruções dos grossos troncos venosos por tumores, cintos, phlegmacia albcc doiens etc., que determinam grandes emba- raços á circulação collateral. A theoria anatomo-pathologica cuja paterni- dade é-nos forçoso conferir ao illustre professor Briquet, vê na lesão inicial da parede venosa a causa pathogenica primordial das phlebectasias, deixando para as causas mechanicas um valor todo auxiliar e adjuvante. Muitas outras causas têm sido incriminadas. Assim auctcres diversos, entre os quaes cita- remos Paul Dubois, Barnes e Lanceraux, attentos ao apparecimento precoce das varices em mulheres gestantes, em periodo inicial, onde o utero jamais poderá pelo seu volume determinar perturbações na mechanica circulatória das veias iliacas; fun- dados ainda na coexistência das ectasias venosas e manifestações nervosas, qnerem dar importância grande ,ao systema nervoso na determinação do processo morbido. Modernamente, muitíssimos anatomo-patholo- gistas enfileiram ao lado da arterio sclerose as 5 perturbações varicosas dizendo que ambas são re- sultantes de um desequilíbrio da nutrição geral presente nas dyscrasias, estados diathesicos, como o arthritismo, herpetismo, alcoolismo, saturnismo, etc., não sendo as phlebectasias mais do que a lo- calisação de uma moléstia geral que se poderá chamar— vasculo-sclerose. Todas as theorias e causas explicativas da pa- thogenia das varices são passíveis de objecções e têm suscitado interessantes criticas, sobre as quaes não nos é dado aqui dissertar, attento ao cunho resumido que desejamos imprimir a este capitulo. Segundo o pensar de Quenu, nos não nos contentamos com a acceitação de uma só das causas pathogenicas para explicara producção das varices, pelo que repetimos aqui a sua formula: — a Toutes les conditions susceptibles de deter- miner une modification de structure dans la paroi veineuse, soit directement, soit indirectement, sont des causes possibles de varices ». Apontam-se como causas auxiliares ou predis- ponentes de elevado valor na evolução das phlebe- ctasias, as profissões que obrigam os indivíduos a 6 permanecerem de pé grande tempo e que os ex- põem á humidade e ao calor. A idade exerce também o seu auxilio; c dc trinta a quarenta annos que as ectasias venosas se tornam mais frequentes, poupando de certo modo a infancia e a velhice, comquanto Vidal de Cassis diga que, segundo as estatísticas de Delarpe e Sis- tach, o numero de varicosos cresce admiravelmente a partir de quarenta annos. Pelas conclusões tiradas dos trabalhos de Les- guillons, Gasin e Boudin, as mulheres gravidas são bem predispostas ás affecções phlebectasicas, e este ultimo auctor as encontrou na proporção de 100 : 300, notadamente nas multiparas. Sobre os sexos, nos affirma Briquet que o homem é quem paga maior tributo ás ectasias venosas, e a unica razão que achamos para explicar essa pre- dilecção é entregar-se o homem, mais do que as mulheres, ás profissões e trabalhos penosos. Invoca-se a influencia adjuvante que exercem, na producção das varices, as disposições anatomo- physiologicas, representadas por certo numero de anneis aponevroticos e musculares, que pela com- pressão que exercem sobre certas veias concor- rerão para difficultar um pouco a circulação. Verneuil tinha chamad) a attenção em seus estudos para as varices das veias profundas, que franquêam anneis contractis musculares e Duret 7 estuda bem particularmente a acção das bouton- nières musculares do sphincter externo, nas va- rices hemorrhoidaes. O modo em angulo recto porque se terminam certas veias, o qual está longe de facilitar a pro- gressão do sangue, constitue uma disposição favo- rável. A hereditariedade é tomada em grande conta; a atonia e a fraqueza do systema venoso explicam a invasão, em certos indivíduos, de muitos terri- tórios a um só tempo. Com Briquet, admitte-se na evolução das varices tres gráos —dilatação simples, dilatação uniforme com espessamento e dilatação com espessamento e adelgaçamento. Cornil e Ranvier riscam do quadro nosologico o primeiro gráo de Briquet, dizendo que essas di- latações passivas e sem inflammação não poderão ser consideradas como varices, e então acham que a primeira phase é caracterisada por uma dilatação venosa simples, cylindroide, seguida de pequena inflammação das túnicas, sobretudo da túnica media, que se espessa e suas fibras se hyper- trophiam, chegando até a desapparecerem, ce- dendo logar a tecidos de rieo-formação. 8 Nesse gráo as alterações histológicas se fazem sentir mais nas valvulas que se mostram já in- sufficientes. Esse resultado se realiza por dous processos: insufficiencia mechanica porque as valvulas não podem mais ficar em contacto com o vaso* alar- gado, e insufficiencia de ordem pathologica por serem as valvulas atacadas de lesões phlebiticas* Muitas vezes ellas são transformadas em irre- gulares saliências cobertas de cellulas proliferadas e de camadas de fibrina que constituem verda- deiros phlebolitos. Todas as túnicas por seu turno se resentem do processo hyperplasico, sendo a túnica externa a mais tardiamente invadida. No segundo gráo, a veia tem attingido a um notável espessamento, tornando-se longa, serpen- tina e tortuosa. O endothelium cae e o substitue uma camada de fibrina e de saes calcareos. Devido ao desapparecimento, em certos pontos, da túnica elastica e muscular, produzem-se entu- mecimentos fusiformes e empolares. O tonus da veia se enfraquece e por isto ella torna-se aberta ao corte. As lesões augmentam, emfim, á terceira phase: a túnica media tem perdido todos os seus cara- 9 cteres, e a parede venosa, de conjunctiva que era, torna-se um canal rigido e calcificado. As dilatações empolares ou fusiformes que já se fizeram sentir no segundo gráo, formam verda- deiros aneurysmas, cheios de sangue fluido ou obli- terados por coágulos, capazes de perderem toda a communicação com o vaso e de se destacarem formando especie de kystos sero-sanguineos. A inflammação e a dilatação se estendem até as pequenas veias cutaneas, formando finas arbori- sações azuleas ou violaceas. Verneuil affirma que, com essas lesões existem sempre varices profundas musculares, affirmação que é reputada inverdadeira por Tillaux, Remi e Valette que demonstraram praticamente a inde- pendência das varices superficiaes. Tem-se procurado ver em qual das túnicas vas- culares-venosas começa o processo anatomo-pa- thologico consequente as phlebectasias. Sobre este ponto não são accordes as opi- niões. Cornil, Saboroff e Thierfelder cujos estudos histologicos têm sido muito precisos, nos mostram que o espessamento das veias varicosas tem a sua sede inicial na porção mais interna da túnica media; examinando os cortes praticados em veias doentes, elles dizem ter notado uma hypertrophia 10 das fibras lisas e a separação destas por tecido conjunctivo de neo-fonnação. Do mesmo modo não pensa Epstein que não hesita em considerar a endophlebite como a lesão typica da alteração varicosa e se esforça por provar que essa lamina mais interna a que Cornil se re- fere não é absolutamente normal e sim de neo- formação, evoluindo as custas da endoveia. Janni no seu optimo estudo de 1900 confirma a maneira de pensar de Epstein dizendo: «a endo1 phlebite é a alteração primitiva; mas, secundaria- mente se formam neo-formações nas camadas in- ternas da túnica media ». Eb porem, hoje admittido geralmente que a lesão caracteristica consistirá numa phlebo-scle- rose, começando na parte mais interna da túnica media, como diz Cornil. Com essas lesões se observa ainda que os vasa-vasorum dilatados e cavados em meio o tecido pathologico se estendem e se approximam da túnica interna, se adelgaçando as vezes a tal ponto que se rompem, deixando o sangue se infiltrar, formando pequenos derramens de globulos vermelhos e matéria corante. Ainda os vasa-vasorum tornam-se tortuosos e dilatados e se anastomosam em um plexo cavernoso que se cominunica com a cavidade varicosa: d’ahi esses tumores areolares que encontramos no tra- 11 jecto das varices, sobretudo na região anal, onde elles constituem as hemorrhoidas. Em um membro atacado de phlebo-sclerose não ha tecido algum que escape á degeneração mais ou menos profunda, como faz notar A. Broca e cuja histologia pathologica Quenu descreve admi- ravelmente. São frequentes as modificações para o lado da pelle e do tecido cellular subcutâneo e pode-se dizer que o edema é o companheiro das varices; a sua repetição é assignalada no membro varicoso pelo espessamento dos espaços conjunctivos. E’ ao longo das veias varicosas que a inflam- mação chronica se observa principalmente, envol- vendo estas em uma atmosphera de táfrdo indu- rado, tornando-se difficilmente isoláveis, gerando dest’arte uma especie de periphlebite chronica, consecutiva a uma inflammação parietal. Sob a influencia dessa hypertrophia que se estende á * toda circuinferencia do membro e espessura das camadas subcutâneas, a pelle e o tecido cellular formam uma especie de ganga, onde estão escul- pidas as veias, e que adhere ás aponevroses. A alteração do tecido acarretará fatalmente também a alteração dos orgãos que elle encerra; assim vemos que as arteriolas são sclerosadas e trombosadas e que os nervos são atacados de nevrite intersticial. 12 Ouenu examinando os nervos saphenos de uma perna elephantisiada notou a ausência da bainha lamellosa, verificando que o feixe dos axonas mer- gulhava num tecido fibroso fasciculado e denso. Sob o ponto de vista clinico a pelle apresenta, segundo Quenu, erupções e modificações das quaes as principaes são os eczemas varicosos, as dermites que precedem ou acompanham a pro- ducção das ulceras varicosas. Anatomicamente, essas lesões são caracterisadas pela presença de todos os signaes irritativos, no chorion da derma, que asphixiam os elementos glandulares, sudorí- paros e os folliculos pilo-sebaceos que, por atro- phia, desapparecem. Ouenu notou a presença de cellulas embryo- narias ora intumecidas e infiltradas e ora se reu- nindo em pequenos grupos entre os feixes do tecido fibroso. As papillas são as vezes sclerosadas, hypertro- phiadas ou atrophiadas, o que explica bem a razão de ser da divisão das dermites feita por Cleas e Broca, em atrophicas e hypertrophicas, ao passo que a camada cornea é geralmente espessada; é em torno das ulceras varicosas que essas manifes- tações elephantiasicas da pelle mais se accentuam. Os lymphaticos podem mesmo ser atacados de lymphangite chronica. Em consequência da perturbação da nutrição 13 os musculos resentenvse logo do processo varicoso e as lesões se fazem de preferencia no tecido conjunctivo inter-fascicular que se inflamma e se carrega de gordura, podendo o tecido muscular mesmo, se submetter á degeneração grariulo-gor. durosa, principalmente na visinhança das ulceras. Quanto as aponevroses de envolucro e inter- musculares, ellas se espessam, ainda que rara- mente, em placas ósseas calcareas, formando ca- naes rigidos que aprisionam os vasos e os nervos. E’ fora de duvida que ao lado das lesões vari- cosas ulcerantes se encontram alterações mais ou menos notáveis do systema arterial do membro atacado, consistindo em uma sclerose arterial, como confirmam os trabalhos de Quenu, Rienzi, Schreider, Gilson, Arnosan e Bousier. A observação constante desses factos em quasi todos os casos de ulceras varicosas, têm levado muitos auctores a estabelecerem uma perfeita iden- tidade na genese da arterio-sclerose e da phlebo- sclerose, considerando-as como uma só moléstia que poderá ser denominada vasculo-sclerose, como já precedentemente deixámos assignalado. Os nervos da mesma maneira que os outros te- cidos, participam do processo phlegmasico ; elles apresentam nevrites, o que bem se explica pela visinhança do fóco de inflammação; entretanto, 14 Ouenu sustenta que existem alterações do systema nervoso peripherico não consecutivas á ulcera, e nos demonstra isso anatomicamente, estudando os nervos da coxa, na região glútea, longe, por- tanto, do foco da dermite, onde os troncos ner- vosos são cercados por uma atmosphera de tecido frouxo, verificando a existência de lesões, va- riando da simples dilatação dos vasos com hyper- trophia pouco considerável do tecido conjunctivo, até o asphyxiamento do tecido nervoso pela scle- rose, ás vezes peri e intrafascicular, como em seis casos observou. Nos nervos, entre os feixes primitivos, ainda se observa a presença de venulas dilatadas em torno das quaes, o tecido conjunctivo é mais duro e abundante. Os feixes primitivos, num gráo mais avantajado, se distanciam uns dos outros e esse espaço deixado entre si é preenchido por tecido fibroso ou fibro-adiposo farto de veias varicosas; ha uma verdadeira nevrite intersticial circumscripta do tecido perifascicular, muito frequente. O processo scleroso pode também atacar o feixe primitivo: a bainha lamellosa submette-se á transformação fibrosa e logo é penetrada por elementos conjunctivos sob a forma de feixes que as dissociam; a nevrite perifascicular é ajuntada á nevrite intrafascicular. Ao ver de Quenu, a lesão inicial é uma phle- * . ' * i 15 bite chronica, começando o processo scleroso sempre nas veias varicosas. As lesões anatomo-pathologicas produzidas pelas varices se estendem até os ossos e já antigamente J. L. Petit dizia: «Ouand les ulcères voisins pas- sent un an, les os se carient». Reclus no seu — Traité de Chirurgie, no artigo Ulcères — dá uma excellente descripção das alte- rações do systema osseo nas lesões varicosas que aqui muito resumidamente faremos assignalar. Nos casos de velhas ulceras varicosas da perna verificaram-se hyperostoses do tibia, submetten- do-se o osso a uma verdadeira hypertrophia seme- lhante á elephantiase da pelle e do tecido cellular subcutâneo (Cruveilher e Sappey), o que tem sido bem firmado por auctores diversos. Reclus observou que a osteite destructiva é ra- ramente encontrada, sendo muito comtnum, entre- tanto, a osteite productiva e, mais ainda, a rarefa- ciente. Segundo occupam as veias subcutâneas ou sub- aponevroticas, as phlebectasias têm sido divididas em superficiaes e profundas. Folin, tomando por base a forma que ellas affectam, as divide em cylindroides ou não circum- scriptas, que podem ser rectilineas ou serpentinas, constituindo tumores algumas vezes estrellados, antigamente chamados cabeça de medusa, e em em- 16 polares ou circumscriptas. Estas quando occupam todo o calibre do vaso ou se formam ás custas de uma parte desse calibre, podem ser chamadas cir- cumferenciaes. Geralmente se encontram essas formas vari- cosas associadas em um mesmo vaso atacado de ectasia venosa. O quadro clinico varia segundo as phlebectasias são superficiaes ou profundas. Nós consideraremos as varices em o seu desen- volvimento mais habitual, isto é, começando pelas veias subaponevroticas. No inicio da evolução das ectasias venosas profundas, os symptomas se traduzem apenas por uma sensação de peso do membro inferior, um en- torpecimento das panturrilhas. A estação vertical cança depressa o doente, elle experimenta a sensação vaga de um soffrimento incommodo, uma impaciência que define mal, cuja causa está na sensação de plenitude vascular, que cessa durante o repouso. Um indivíduo da clinica do illustre professor Verneuil comparava o que sentia á sensação pro- 17 duzida pela constricção circular de um dedo de- terminada por um fio. A’ tarde quando os doentes voltam da sua la- buta diaria, após violentos exercícios de marcha e a permanência na estação vertical, proceden- do-se um exame detido, nota-se um empastamento doloroso das panturrilhas e a existência de vari- cosidades pequenas, sobretudo notáveis ao nível das anastomoses profundas (Verneuil). O membro mostrar-se-á edemaciado principal- mente em torno dos malleolos. Um palpar cuidadoso poderá nos revelar a exis- tência de um cordão espesso na profundeza dos musculos. ' * Perturbações nervosas, como caimbras, formiga- mentos, perversão da sensibilidade, differenças de temperatura, são notificadas em grande numero de varicosos. Para o lado da pelle alguns symptomas nos são fornecidos; assim, notamos a existência de manchas pigmentares ao lado de pequenos forunculos, ecchytimas, eczemas e extensas descamações, tendo Verneuil observado em alguns casos um augmento considerável da sudcrese. O aspecto clinico das varices superficiaes dif- ferem segundo o gráo a que a affecção tem che- gado. ( . 18 Geralmente o desenvolvimento das veias sub* cutaneas é lento e retardado, fazendo-se sentir primeiramente no território da saphena interna; a saphena externa é muitas vezes atacada e a sua alteração implica sempre a da saphena interna, não sendo porem verdadeira a reciproca. As phlebectasias das veias superficiaes se ca- racterisam, ora pelo intumecimento ou ílexuosidade das veias, ora por saliências de cor azul escuro no trajecto da veia, elevando a pelle, e cujo desen- volvimento pode attingir o tamanho de um ovo, frequentemente encontrado na embocadura da saphena interna, e que pela fluctuação, reducti- bilidade, refluxo, ondulação e maior tensão por effeito dos esforços, se faz distinguir de outros in- tumecimentos anormaes. Em um certo gráo, essas lesões se accentuam dando ao membro um aspecto particular: seu vo- lume duplica-se, e as dilatações venosas se reúnem formando diversas massas que tomam a forma de verdadeiras sanguesugas ou serpentes, entre- meiadas no tecido sub-cutaneo, visíveis sob a pelle adelgaçada. Sua consistência é pastosa e dá uma sensação de novellos moljes, depressiveis e quentes ao toque; sente-se as vezes uma resis- tência devida ao espessamento da parede venosa, ás infiltrações calcareas, phlebolites, kistos intra- 19 vasculares ou edema lardaceo dos tecidos vi- sinhos. Em alguns casos, entretanto, as ectasias venosas apenas são reconhecidas pela presença de manchas pigmentares ou pelo apparecimento nos tegu- mentos de pequenas veias azuladas, violetas ou roxas desenhando na parte inferior do membro uma especie de meia, signaes bem importantes para Verneuil, quando alliados a outros symptomas subjectivos, revelados pelo doente, no diagnostico das varices profundas. Os intumecimentos empolares varicosos se ac- centuam sobremodo durante a estação vertical, após as marchas forçadas ou sob a acção do calor. Pelo repouso no decubitus horisontal, as veias ectasiadas tornam-se muitó diminuídas, e, ao levan- tar-se pela manhã, o doente tem o seu membro livre de qualquer edema, beneficio que pouco e pouco vae desapparecendo com o progresso do mal, dando ao membro um aspecto elephantiasico. E’ raro que não se encontrem em varicosos an- tigos modificações notáveis dos tecidos que cercam as veias, o que não deixa de ter a sua importância symptomatologica. A motilidade e maciez da pelle são substituídas por certo espessamento, devido a um processo de sclerose progressiva, que termina pela atrophia. 20 A cor dos tegumentos se modifica em conse- quência das alterações dos tecidos. Outras perturbações trophicas se fazem notar: hypertrophia do systema piloso, deformidade das unhas e, finalmente, apparecimento de dermatoses, das quaes a principal e mais frequentemente ob- servada é a inflammação eczematosa. Emfim, o membro varicoso é optimo terreno para o desenvolvimento das ulceras syphiliticas terciá- rias, tomando estas um caracter hybrido, cuja dis- tincção serádifficil. Segundo J. L. Fort, citado por Quenu, parece existirem duas formas de varices, si se tomam por base as lesões: varices das grossas veias e varices capillares. Nas primeiras, sendo somente atacadas as veias de grande calibre, não se observam alterações da pelle ; nas segundas, em que podem ser simulta- neamente affectadas todas as veias sub-cutaneas, se notam serias modificações, desde o espessa mento da pelle até as ulcerações varicosas. O membro inferior, victima de ectasias venosas, está sujeito a manifestações dolorosas e alem das sensações desagradaveis, symptomaticas das va- rices profundas, o doente pode soffrer uma verda- deira sciatica. Essas manifestações dolorosas podem variar com o modo de apparecimento, com a sua intensidade, com a sua natureza, e quasi sempre 21 só se manifestam na estação vertical; em alguns, ellas apparecem no fim do dia após o trabalho, em outros, se fazem sentir logo que marcham, A dor, ora se traduz sob a forma de sensações de batimentos, queimaduras, eaimbras localisadas ou diffundidas em vários segmentos do membro, ora affecta um caracter nevrálgico. A- evolução clinica das phlebectasias é essen- cialmente chronica e se faz com grande lentidão, variando segundo os indivíduos, a sua cathegoría social e os cuidados hygienicos e cirúrgicos. O estado varicoide de Malgaigne pode durar muito tempo, podendo estacionar ou mesmo re- trograr, si se faz observar um tratamento racional. Nos indivíduos attingidos por arterio-sclerose e phlebo-sclerose, é evidente que a evolução vari- cosa e mais rapida e Quénu faz notar um certo parallelismo entre a acuidade das alterações da parede venosa e a rapidez da marcha da ectasia venosa. Boudin e Girod, citados por Schwartz, dizem haver notado uma relação intima entre a mens- truação e a phlebectasia, e citam dous casos: um, em que houve menstruação supplementar por uma ulcera varicosa e outro em que as varices augmentãvam notavelmente em cada periodo mens- trual. v. R. 22 Da symptômatologia exposta decorre o dia- gnostico, que muitas vezes se impõe, á simples inspecção, nas varices superficiaes adiantadas, mas que em outros casos torna-se sobremodo difficií como nas varices profundas, levando os cirurgiões e médicos de incontestável mérito a erros de ex- trema gravidade, sendo preciso para a sua verifi- cação o mais attencioso cuidado. As classicas experiencias do illustre professor Trendelenburg, expendidas mais alem a propo- sito do tratamento cirúrgico, são de summa im- portância na determinação das ectasias venosas. Mesmo chegadas ao terceiro gráo, as varices podem se tornar indemnes de qualquer compli- cação, desde que se estabeleça um tratamento conveniente; descuidadas, porem, chegarão aos accidentes graves dentre os quaes se avantaja a occupar o primeiro logar a ulcera. De parceria com a ulceração varicoide podemos enfileirar as hemorrhagias externas e intersticiaes produzidas pela ruptura das paredes venosas (o conp de fouet de Verneuil), a phlebite varicosa e, muitas vezes, a infecção purulenta, accidente que pode provocar tromboses e embolias. Os tecidos ambientes são susceptiveis de se 23 inflammarem, dando logar ao phlegmão circums- cripto ou diffuso. Essas complicações são geralmente observadas na classe pobre onde qualquer tratamento é sempre difficil e impraticável. Eis finalmente, em largos traços, reproduzida aqui a synthese do que lemos sobre o nosso ponto, em geral; abordemos agora o assumpto que con- stitue o objecto da nossa dissertação — o trata- mento das phlebectasias. Do tratamento das phíebeetasias Scmmauio — Antiguidade das ligaduras e das resecções. — Es- tudos de Trendelenburg. —Insúfíiciencia das ligaduras e resecções em um só ponto da saphena.— Resecções múl- tiplas e successivas. -— Resecção total. — Processo de Mo- resclii e suas prineipaes modificações.—Schwartz e as in- jecções venosas. — Tratamento medico, hygienico e ortlio- pedico. A idéa das ligaduras e resecções varicosas foi posta em pratica desde os velhos tempos da ci- rurgia, como bem demonstra a ligadura da saphena interna praticada em 1799 por E. Home, e a celebre operação feita em Caius Marius por um cirurgião, cujo nome a historia não conhece. Também em epoclía remotaj. L. Petit, Celse, Jean Luis e, mais tarde, Richeran e Boyer, aconselha- ram a extirpação das varices dolorosas ou não, seguida accessoriamente da ligadura da saphena interna. Nesse tempo os acciclentes infectuosos e as phlebites kypersepticas atemorisavam os cirur- giões e os consequentes resultados fataes que se observaram, fizeram que operadores do quilate de Lisfranc, Dupuytren, Vidaljde Cassis, Micfion, Ne- laton e Guerin, abandonassem a pratica das inter- venções sangrentas contra as varices, 26 Só depois do apparecimento dos meios anti- septicos, foi que essas operações entraram na pra- tica corrente, tendo sido quasi ao mesmo tempo feitas tentativas diversas em quasi todos os paizes da Europa. Stell (de Bristol) Darves, Collet, Marshall e An- nadale publicaram, na Inglaterra, observações de extirpações de vários tumores varicosos, attestando a simplicidade deste processo, sendo mais tarde seguidos por Howse Dunn, Franck, Kendal que preconisaram as ligaduras múltiplas. As mesmas intervenções foram também feitas na Allemanha, Italia e Bélgica, por Stard Riesel, Max Sched, Putti, (Rev. cl. di Bologne) Medine, Libran e van Hoeter, desde 1877 até 1885. Montaz(de Grenoble) publicou em 1890 um caso de cicatrisação rapida de uma ulcera varicosa pela iigadura subcutânea da veia saphena interna com crina de Florença, processo que foi seguido por Gagnebé, Velpeau e Ricord. Davat propoz a ligadura immediata sobre um corpo extranho; Chaumette e Lombard incluíram nessa ligadura também a pelle. Vem de molde lembrar que todas essas inter- venções, precedentemente citadas, eram praticadas e aconselhadas sem que qualquer dos seus auctores se fundasse em nenhum dado scientifico patho- genico. 27 Escudado na physiologia pathologica da circu- lação do sangue na saphena varicosa, depois de ter demonstrado por uma serie de experiencias facilmente realisaveis, o papel da insufficiencia valvular, graças áqual o refluxo cardíaco se effeitúa, Trendelenburg reedita a antiga operação de E. Home, apresentando-a ao mundo scientifico como a intervenção mais efficaz no tratamento das phle- bectasias. Os antigos trabalhos de House, Aulnoit, Braun, Sappey, Le Dentu, os modernos estudos de Koltz, demonstrando que o numero de valvulas venosas tendia a desapparecer a partir de vinte e cinco annos, nos indivíduos normaes, muito inspiraram o emerito cirurgião allemão. A ectasia venosa, com maior razão, podia pro- duzir essa insufficiencia; Trendelenburg, então estuda as condições novas da circulação, resul- tantes da insufficiencia valvular varicosa na sa- phena interna, e mostra que as valvulas, uma vez suppressas sob o ponto de vista funccional, o refluxo do sangue pode dár-se e o conteúdo sapheniano apenas obedece á influencia unica da guavidade, tendo as veias de origem da saphena interna, de supportar um augmento de pressão, igual á sornrna da pressão do sangue que vem das partes situadas immediatamente abaixo, e a de toda a columna sanguínea da saphena interna. 28 Para a elucidação desses factos Trendelenburg institue uma serie de experiencias, tão simples quanto convincentes, que aqui recapitularemos. CoJlocando-se o doente no decúbito horisontal se vê que as varices diminuem de volume. Elias desapparecem tanto mais, quanto se eleva o mem- bro inferior ou abaixa-se o tronco do paciente; ao contrario reapparecem si se deixa cahir o membro, ou si se eleva o tronco do doente, em consequência do retorno brusco do sangue á peripheria. bazendo-se assentar o doente com a perna levantada, de modo que o coração e a veia cava fiquem em plano superior, a saphena se encherá novamente. Si, finalmente, depois de deitarmos o doente e após o esvasiamento das suas varices, o fizermos levantar-se, tendo-se o cuidado de comprimir, na dobra da virilha, a origem da saphena interna, observaremos que as veias varicosas se encherão de baixo para cima difficil e lentamente; entre- tanto fazendo desapparecer a compressão, notare- mos a repleção brusca e insólita das varices, o que attesta cabalmente, o refluxo cardíaco e a insufficiencia valvular. Inspirado no methodo plessimographiro, Tren- delenburg, por meio de um dispositivo especial, pôz*ainda em evidencia, de uma maneira particu- larmente satisfactoria, esse refluxo, chegando até 29 a estimar em 200 a 250 grammas, a quantidade de liquido que, do coração, podia refluir na veia saphena. O grande canal que vae do pé ao coração, con- stituído pelas veias sàphenas, femoral, illiacas e cava inferior representará, em consequência da ausência das valvulas, um canal venoso continuo, um systema de vasos largamente franqueados e communicantes. Os menores esforços, como a tosse ligeira, farão augmentar o refluxo, e a saphena interna constituirá um verdadeiro manometro, que traduzirá as míni- mas oscillações. E’ racional admittir que a acção do peso da corrente cardio-sapheniana, agindo sobre as radi- diculas nervosas, vá aggravar de mais a mais as dilatações varicosas até leval-as ás perturbações trophicas e, para obstar essas consequências, Tren- delenburg se propôz a extinguir o braço morto da circulação do membro inferior, no dizer de Viannay, representado pela saphena varicosa, fazendo entre duas ligaduras a secção desta veia, operação que foi com enthusiasmo e desvanecimento acolhida pela mór parte dos cirurgiões do mundo. A technica desse processo não tem sido seguida inteiramente; elle se tem submettido a numerosas variantes e é mesmo singular que durante quinze 30 annos os cirurgiões não tenham podido estabelecer uma pratica definitiva. Si alguns seguem rigorosamente a primeira maneira de operar de Trendelenburg, outros, porem, como o seu proprio auctor, modificam-na. Trendelenburg actualmente, segundo nos diz Perthes, faz a ligadura em tres pontos: — abaixo do condyto interno, no meio da coxa e acima do condylo interno; em quanto que primitivamente, elle a praticava apenas na reunião inferior com os dous terços superiores da coxa. Schwartz um dos enthusiastas da operação de Trendelenburg, fazia antigamente a ligadura da saphena interna acima do condylo interno do femur (th. de Charrade); hoje, porem, aconselha prati- cal-a em differentes pontos: — immediatanente abaixo do embocamento na veia femoral, no meio da coxa, acima do condylo interno do femur e abaixo do condylo interno de tibia, combinando a ligadura, ás vezes, com a resecção dos tumores varicosos e de retalhos cutâneos mais ou menos considerá- veis. A ligadura tres dedos acima do condylo interno do femur, respeitando a anastomose poplitéa, que liga a saphefia interna á externa, é preconisada por Chalot na these d’Esteny. Na these de Courdec, Lapointe recommenda as 31 resecções da saphena, também ao nivel do condylo interno. Muito alem ainda foi Ricard,—(Société de Ci- rurgie — 1903) que pratica a resecção completa da saphena interna atacada de phlebectasia. Emfim, a technica parece variar com o tempo e com os cirurgiões. Successivamente se tem recorrido á ligadura simples, á resecção entre duas ligaduras, á resecção unica, múltipla, ou mesmo total, da saphena interna. Todos esses processos, excepto a resecção múl- tipla e total, apenas visam um mesmo fim: esta- belecer uma barreira unica á circulação da saphena va ri cosa. Como procuraremos provar, essa obliteração em um unico ponto do trajecto sapheniano feita se- gun do esses processos, não põe o doente ao abrigo da reconstituição do canal varicoso nem lhe dá a certeza de cura. As observações clinicas e os estudos anatómicos têm demonstrado perfeitamente esse inconve- niente. Em cinco casos, em os quaes se haviam prati- cado essas operações, Pearce Gould (The Lancet— 1899), observou o restabelecimento da corrente sanguínea pelo desenvolvimento, em torno da ci- catriz, de veias neoformadas que faziam commu- v. R. c 32 nicar as duas extremidades seccionadas da veia, o que tornou inefficaz a operação. Outros dous casos curiosos foram assignalados por Leclderhose (de Strasburg) em que tendo sido feita a ligadura dupla com resecção da saphena in- terna, alguns annos depois a regeneração era com- pleta, graças á permeabilidade das duas extremi- dades ligadas da veia que se puseram em contacto, pela formação de um lacis venoso varicoso. Viannay, no serviço do professor Rochet, teve occa=sião de observar também um interessantíssimo caso em o qual a resecção parcial do tronco da saphena interna não obstou a sua reconstituição. Tratava-se de um indivíduo de sessenta e cinco annos, varicoso, que entrou para o serviço do pro- fessor Augagnem, afim de curar-se de uma ulcera da perna direita; foi feita a resecção entre duas ligaduras na parte media da coxa, tendo o doente sahido curado. Pouco tempo depois a ulcera lhe reapparece c elle volta para a clinica do professor Rochet, nessa occasião substituído pelo Dr. Viannay. Examinado, o doente apresentava na cicatriz da intervenção, a pelle elevada por um grande tumor varicoso que parecia ser atravessado pela saphena interna, a qual se achava bastante dilatada em toda a extensão do membro inferior. A insufficiencia 33 valvular foi attestada pelas experiencias de Tren- delenburg. A ulcera mostrava-se rebelde á cicatrisação ape- sar dos pensos appí içados, o que levou o Dr. Vi- annay a praticar a resecção da saphena interna e dos tumores varicosos. O doente sahio completamente curado. Também poder-se-á additar a esses factos de observação clinica as concludentes e exímias expe- riências de Minkienviez (Arch. de Virchow.) rea- lisadas em animaes. Nada se sabe ao certo sobre o verdadeiro me- chanismo do restabelecimento da co nmunicação entre as extremidades ligadas e reseccadasdas veias varicosas; alguns invocam o abrolhamento dos cotos venosos; outros attribuein á preexistencia de radiculas venosas dilatadas secundariamente, o que é mais acceitavel, Tem-se objectado sobre o facto do restabele- cimento circulatório que na maioria dos casos a secção da saphena interna será sufficiente para estabelecer um obstáculo permanente á circulação venosa e que esses exemplos constituem apenas raras excepcões. Mesmo assim, acceitando em parte a objecção, as investigações cadavéricas nos mostram que a circu- lação superficial do membro inferior não se modi- 34 fica em todos os casos desde que se determine a obliteração da veia saphena em um ponto qualquer do seu trajecto. A impossibilidade circulatória de- pende da séde da ligadura. E para isso, Viannay praticou em trinta cadaveres injecções na saphena interna após a ligadura previa em differentes pontos: no triângulo de Scarpa, immediatamente abaixo da sua crossa; acima do condylo interno; acima do condylo femoral e immediatamente abaixo do seu embocamento no triângulo de Scarpa. Por esses trabalhos de justo critério fdle concluio que a unica ligadura que não deixava passar o liquido para o segmento superior da veia era a alta ligadura, no triângulo de Scarpa, salvo nos casos de existência de uma saphena dupla, se effectuando em todas as outras, a circulação por um canal collateral que nasce quasi sempre no terço superior da perna e vae se juntar na coxa, á veia saphena interna, em uma altura variavel se- gundo os indivíduos e cuja origem é as vezes uma bifurcação da saphena, ou um prolongamento da rede venosa que se encontra na face interna do joelho. Deixando de parte os processos que lembram a pratica primitiva de Trendelenburg (ligadura simples, secção entre duas ligaduras resecção unica) hoje inteiramente riscados da pratica cirur- 35 gica, nós apenas trataremos das resecções múltiplas e successivas (Schwartz) e da resecção total( Ricard). Resecções múltiplas e successivas (Schwartz). —■Schwartz harmonisa a alta resecção ea resecção na região do condylo interno, fazendo ainda inter- romper a circulação venosa em quatro ou cinco pontos sendo tres 11a coxa e um ou dous na perna. O tempo mais importante deste processo con- siste na resecção do segmento venoso ao nivel do triângulo de Scarpa immediatamente subjacente á crossa da saphena. E’ essa resecção que assegura a efficacia da operação, pois como vimos de provar com as in- jecções cadavéricas (Viannay) ella interrompe de um modo permanente e seguro a orientação da veia saphena. Em brilhantíssimo artigo inserto no — Traité de Chirurgie de Le Dentu et Delbet, — Schwartz des- creve muito bem o seu processo, o qual damos aqui na integra: «Após as prescripções antisepticas de uso, um dreno é applicado circularmente na raiz da coxa. Si queremos tirar grossos tumores vari- cosos, necessitando uma dissecçãodonga e dolo- rosa, chloroformisamos o doente; si porem a ope- ração consistir só na ligadura successiva, anes- V.R. 5 36 thesiamos localmente com a solução de chlorhy- drato de cocaína a 1 por 100, « Tratando-se de tumores varicosos simples da perna ou da face interna do joelho, sem dilatação da veia saphena na coxa, procedemos a extirpação das varices, tirando largamente os tumores ve- nosos, ligando-a com cat-gut acima e abaixo, assim como todas as veias collateraes. « Si se trata de tumores varicosos com dilatação da saphena interna da coxa, estes são ainda ti- rados, ajuntando-se porem a ligadura successiva que nós fazemos exclusivamente nos casos de tumo- res varicosos incommodativos ou dolorosos. « Nós collocamos geralmente quatro ligaduras, algumas vezes cinco, das quaes trez na coxa e uma ou duas na perna; a veia é descoberta sobre uma extensão de quatro a cinco centímetros; ella é cuidadosamente isolada; as codateraes que lhe chegam são ligadas ou pinçadas, um fio de cat-gut n? 2 amarra o vaso em cima e em baixo, e entre estas ligaduras se resecca trez a cinco centímetros do tronco sapheniano. (( Escondendo sob a pelle os fios antes de os amarrar, se fazem por assim dizer ligaduras sub- cutâneas que ficam alem da incisão, logo que a ex- cisão da veiaé praticada e que os fios são cortados. Nenhuma drenagem; suturas com crina de Flo- rença, 37 Compressão com algodão, por cima, um pouco *aseptico ou antiseptico. » Parece-nos que realmc-nte este processo realisa o ideal das intervenções cirúrgicas no que toca ao tratamento das varices. Pela sua technica expendida precedentemente, vemos que o canal venoso fica fragmentado e que a recomposição por via collateral ou por qualquer outro mechanismo é irrealisavel, o que determi- nará a suppressão total da circulação superficial do membro inferior, a menos que não se trate de um caso anomalo, da existência de umasaphena dupla, por exemplo, o que poder-se-á verificar logo na occasião da operação pela pesquisa minu- ciosa no triângulo de Scarpa. Resecção total ( Ricard) — A extirpação total da veia saphena interna parece apriori, se impor com caracteres mais radicaes que outro qualquer processo, pois ella summariamente faz desappa- recerem as communicações venosas. De analogia grande com o processo prece- dente, elle apenas necessita uma incisão, longa em toda a extensão do membro inferior. Seccionada e ligada a saphena interna no triângulo de Scarpa, continua-se a disseccar de cima para baixo, ligando-se todos os affiuentes e collateraes que se forem encontrando no percurso. 38 Novamente ligada a veia na parte inferior e feita cuidadosa hemostasia, nada mais restará fazer que suturar pacientemente a longa incisão. Para estas longas suturas, Ricard, que moder- namente tem praticado a resecção total, acon- selha o processo da simples sobrecostura cutanea com cat-gut. Com a observância rigorosa dos cuidados an- tisepticos dizem alguns que se deve praticar im- punemente, sem risco de accidentes sépticos; isto, porem, não obstará de dizermos que uma ope- ração mais simples e menos longa acautelará mais o doente dos perigos das complicações. Si as observações clinicas tivessem demonstrado a superioridade dessa intervenção no tratamento das phlebectasias, não se deveria hesitar em prati- cal-a; mas essa affirmação ainda não nos foi for- necida e pequeno numero de casos em que a resecção total tem sido praticada não nos dá o direito de lhe attribuir uma preferencia sobre as demais variantes da operação de Trendelenburg, notadamente o processo de Schwartz cuja su- perioridade a pratica nos tem perfeitamente de- monstrado. Em o succinto exposto que vimos de fazer sobre a operação de Trendelenburg em as suas mais importantes modificações, achamos ter bem firmado 39 a inconveniência grande das intervenções que assentam na interrupção da circulação sapheniana, em um só ponto, com excepção unica da alta liga- dura. Orientados, assim só nos será permittido accei- tar, para o tratamento palliativo das phlebectasias, o processo de Schwartz, cujo valor e simplicidade technica lhe conferem justa preferencia. Bem que não possamos juntar aqui observações próprias ou mesmo nacionaes que justifiquem a nossa maneira de pensar, porquanto no Brazil o tratamento cirúrgico das varices nunca passou das fronteiras da theoria, escudamo-nos, entre- tanto, nas estatisticas de Pearce Gould, Schwartz e Remy que brilhantemente attestam as vantagens das resecções múltiplas e successivas. Tendo em mira essa trilogia de princípios: 1? interromper e dividir a columna sanguínea venosa, que por seu peso distende as paredes das veias e as altera; 2? impedir o sangue de voltar pelas collateraes á rede d’onde tenha sido impei- lido, 3? obter uma obliteração permanente da veia, princípios que serviram de alicerce á feitura do processo do insigne mestre Trendelenburg, em 1894Moreschi (Ch. Durand-th.-1902) fez conhecer o seu processo de incisões circumferenciaes juxtapo- v. R. 6 40 neuróticas, propondo-ó para o tratamento radical das varices e ulceras varicosas. Esse cirurgião dividiu assim o acto operatorio: a) Após a chioroformisação do doente e posta a íaixa elastica, se faz mais ou menos a quatro centímetros acima dos limites superiores da ulcera, uma incisão circular. A pelle sendo separada, se procuram a,s veias, que se incisam entrç duas liga- duras ou pinças. Depois se incisam os tecidos até a aponevrose, que deve ser posta a descoberto, sobre uma extensão grande, pela raspagem dos tecidos. Esta desnudação da aponevrose é um tempo assás im- portante, porquanto elle rompe as suas communi- cantes interrompendo assim, a esse nivel, a passa- gem do sangue entre 03 dous systemas de saphe- nas e de veias profundas. A incisão de todos os tecidos até a aponevrose, interessa forçosamente todos as veias superficiaes, desde as mais grossas até os capillares e corta a columna sanguínea em dous segmentos separa- dos completamente um do outro. Os lábios da ferida são reunidos por alguns pontos de sutura. O auctor prefere a reunião por segunda in- tenção, que dá uma cicatriz mais larga e torna ainda mais difficil o restabelecimento circulatório. b) Em seguida se pratica, cerca de um centi- 41 Metro acima dos malleolos, uma segunda incisão até a aponevrose, a qual deverá ser também desnu- dada em uma certa extensão. A columna sanguínea superficial se encontra então, de novo, dividida em duas metades indepen- dentes. A desnudação da aponevrose permitte ver, por transparência, nos indivíduos que não são muito gordos, as veias profundas, que podem ser pinçadas ou mesmo reseccadas, atravez de pequenas inci- sões. c) Em um terceiro tempo, pode-se curetar a superfície da ulcera e mesmo se fazer enxertos dermo-epidermicos. Alem dos effeitos produzidos por essas duas incisões sobre a circulação super- ficial do membro inferior, é preciso ter em conta «a diminuição do calibre e a obliteração dos troncos venosos comprehendidos entre as duas incisões, pela phlebite, que não deixa de trazer a trombose. Como sóe acontecer em todas as cousas, o pro- cesso de Moreschi não deixou de ser escalpelado pela critica e a elle foram oppostas objecçõese mo- dificações varias, nas quaes passaremos ligeira revista: Criminou-se Moreschi de, no seu processo, só atacar as veias superficiaes deixando em inteira liberdade as veias profundas. 42 Essa objecçâo cae por completo, porquanto pode-se perfeitamente ligar ou reseccar atravez da aponevrose, as veias tibiaes anteriores, posteriores ou peroneas, por effeito de uma incisão que se pratica a um centímetro da base dos malleolos. Com esse processo nada soffre a sensibilidade que nem mesmo é diminuída, pois sabemos que o pé é innervado pela ramificação dos dous tibiaes que não são de nenhum modo comprehendidos na incisão, e que a pelle da perna recebe numerosos filetes nervosos perfurantes vindos da profundesa. Com o intuito louvável de evitar uma cicatriz em liga e os effeitos de uma retracção cicatriciab Paul Delbet houve por bem modificar o processo de que nos occupamos traçando uma incisão quasi semi-circular para adeante e uma segunda para traz, reunindo as suas extremidades por uma linha quebrada emV. De alguns casos de observação do professor Delbet, destacamos o seguinte para menção es- pecial. - O caso em questão era uma ulcera coberta de um tecido cicatricial delgadíssimo, mas que cau- sava ao doente dores intoleráveis de par com os soffrimentos incommodos das varices. Feita a operação de Moreschi, na manhã se- guinte cessaram por completo as dores, que certa- 43 mente eram consequência de um processo nevrí- tico, o que constituiu óptima indicação. O doente curou-se completamente. Em uma brilhantíssima lecção no hospital de Necker, a 20 de Agosto de 1901 o emerito pro- fessor Maucíair, expondo as differentes interven- ções cirúrgicas a indicar no tratamento das variees e ulceras varicosas se refere lisongeirarnente ao processo de Moreschi que elle qualifica de —pro- cesso combinante — por ser um harmonioso con- juncto de outros processos. Prevendo os phenomenos de compressão qua causaria talvez a cicatrisação de uma incisão fran- camente circular, Monclair, quasi a maneira de Delbet, faz uma modificação no processo de Mo- reschi, que consiste em dar ás incisões circuin»' ferenciaes uma direcção sinuosa ou em grinalda, seguidas de tres ligaduras superpostas dasaphena, e a isso chama —processo ultra combinante. Mariani em sua clinica dava sempre preferencia ao processo de Moreschi quando se lhe offerecia ensejo de intervir em u.m caso de varice ou ulcera varicoide. Poude elle notar que a cura não se fazia esperar e que também alguns inconvenientes post-opera- torios se manifestavam. Assim observou que a cicatrisação era retardada na incisão inferior pelo v. R. . 44 edema do pé que existia muitos mezes após a operação, dores ao nivel da cicatriz supermal- leolar, e em dons casos vio um esphacello seguido da formação de um tecido inodular que bridava os tendões extensores impedindo o funccionamento. Ao lado desses inconvenientes achava-se um não menos importante qual o representado pela difficuldade da applicação do processo quando a ulcera excedia os malleolcs- Querendo supprimir esses defeitos Mariani prescinde da incisão super-malleolar, praticando uma incisão unica acima do limite superior da ulcera em pleno malleolo não carecendo para isso mais que a technica empregada por Moreschi, ti- rando os melhores resultados em vários casos que tem assim operado. No serviço do professor Reclus tem-se aperfei- çoado essa modificação de Mariani, no que toca á incisão acima dos limites da ulcera, a qual é tra- çada na parte mais elevada das pantorrilhas, ao nivel das ligas, pelo que se ha denominado incisão em liga ou circwnferencial a distancia. Cinco casos foram operados dessa maneira, dentre os quaes dois pelos illustres mestres Drs. M. Duval e Kendridjy cujos resultados satisfactorios se tornaram patentes. Pelas estatísticas de Moreschi firma-se a con- 45 vicçâo da maravilhosa superioridade do seu pro- cesso, pois justapõem-se perfeitamente o numero de curas obtidas e o das intervenções praticadas. Citernesi, porem, diz que, para se julgar das vantagens desse processo, é preciso que se enca- rem apenas os casos em que elle foi empregado isoladameute e desse modo faz notar que em vinte dous casos de observação, de Moreschi, em nove houve recahida o que vem em desabono das suas qualidades radicaes. Achamos sobremodo exagerado o enthusiasmo dos cirurgiões italianos quando se referem ao processo de Moreschi e sem rasão de ser o valor que lhe enaltece seu auctor, pois, ficou clara- mente provado precedentemente quando trouxe- mos a baila o processo de Trendelenburg, que não é digna de aceitação toda a operação que tenha por fim oppor um obstáculo unico a circulação ve- nosa sapheniana. Isto não quer dizer que devemos rejeitar in totum o processo de Moreschi. Si ajuntarmos á modificação de Mariani a ligadura da saphena in- terna ao nivel do triângulo de Scarpa, con- struindo-se uma porta de ferro á circulação saphe- niana, fazendo desapparecer assim o circulus viciosus da parte superior da coxa e garantindo-se o doente da reconstituição circulatória, essa operação poderá gosar das altas vantagens do processo de Schwartz, 46 Os auctores não são assentes nas indicações relativas ás differentes intervenções cirúrgicas nas phlebectasias; entretanto, lê-se em todos os livros: deve-se operar todas as vezes que se verificarem a insufficiencia valvular nítida, varices dolorosas e ulceras varicosas. Em opposição aos processos sangrentos se pro- curou agir directamente sobre o systema venoso, e adstricto a essa idéa surgiu o methodo das injecções intra e perivenosas muito preconisado pela escola lyonense. Esse methodo foi posto em abandono logo em o seu inicio, mas Delore em uma communicação ao Congresso de Lyon, procurou soerguel-o do descrédito em que jazia. Deixando de parte as injecções perivenosas, cujo fim é produzir nos tecidos visinhos uma in- flam mação sub-aguda com retracção que se es- tende á veia varicosa, apenas faremos notar as in- jecções de álcool dilluido, aconselhadas por Broca, Marc Sée, English, e as de ergotina tentadas por Martin, Vogt e Ruge, as quaes pela sua inefficacia foram banidas da therapeutica das varices. Dos estudos de Pravaz se originaram as inje- cções intravenosas adoptadas por Barrier, Valette, Pelrequin e Desgranges que se utilisaram das 47 soluções de perchlorureto de ferro, abandonadas logo, máo grado os phantasticos resultados de Weinlechner, em consequência dos accidentes gangrenosos e embolicos que se fizeram observar. Socquet e Guillermond em 1854 imaginaram um liquido menos nocivo e então prepararam o licor iodo-tannico, introduzido na pratica no mesmo anno por Desgranges que não tardou em publicar os seus estudos sobre o novo agente, que mais tarde foi empregado por auasi todos os cirurgiões de Lyon, Em a sua recente communicação ao Congresso de Cirurgia, Delore enaltece as qualidades cura- tivas das injecções iodotannicas, expõe o seu me- thodo e conclue dizendo com enthusiasmo que essas injecções produzem a retracção das varices, o desapparecimento das suas nodosidades e ori- ginam uma phlebite terminando pela resolução com a chegada de novos elementos reparadores do tecido venoso, indo até a acreditar na reor- ganisação das valvulas. Schwartz (Traité de Ch.) criticando esse me- thodo faz salientar alguns inconvenientes que da- remos em rapida summula. <( 1? —É difficil de obter e conservar o liquido, muito instável, destinado ás injecções; 2? a tech- nica operatória comquanto não seja difficil para V. R. fi 48 mãos exercitadas é todavia minuciosa e delicada; 3? o cirurgião não é senhor da acção do licor injectado, pois, elle faz a injecção ás cegas, sem saber se ha communicações mais ou menGS largas com a profundesa; 4? pensamos que um methodo que traz forçosamente a coagulação do sangue em um território venoso relativamente extenso expõe a embolias. » Esse tratamento tinha a sua indicação rasoavel antes da era antiseptica e anesthesica, quando as complicações infectuosas e os accidentes dolo- rosos restringiam grandemente o campo de acção das intervenções cirúrgicas; hoje, porem, que esses elementos atemorisantes foram banidos, não mais figura no quadro therapeutico das phlebectasias semelhante meio de cura, cujos limites e intensi- dade não se podem dosar nem fixar. O grupo de substancias medicamentosas que se tem proposto para o tratamento das ectasias ve- nosas, é muito escasso e de duvidosa efficacia. Como para a arterio-sclerose, se tem tentado o uso do zodureto de potássio na dose de alguns centi- grammos quotidianamente. Egualmente se aconselha também a tintura do viburnum prunifolium, muito empregada nos Es- tados Unidos. 49 No correr dos últimos tempos se tem procurado exaltar as propriedades de um medicamento cuja acção se faz directamente sobre o systema venoso dando como resultado a retrocessão das varices; nós queremos falar das preparações do Hamamelis virginica. Os resultados clínicos e a demonstração pratica da efíicacia desse grupo de medicamentos não têm sido bastantes positivos para podermos affirmar o seu valor curativo, pelo que é mister ser-se reser- vado em o seu emprego. Certas regras hygienícas de interesse devem sei* cuidadosamente aconselhadas ao doente: estes devem evitar toda a fadiga exagerada, as grandes marchas e a estação de pé prolongada; devem se abster de todas as vestimentas que lhes pro- duzam qualquer compressão, seja sobre os membros inferiores, seja sobre o tronco. As profissões que concorrem para o desenvolvimento das lesões do mesmo modo devem ser abandonadas. O doente deverá manter o maior asseio, prati- cando lavagens com líquidos antisepticos e adstri- gentes, quentes ou frios. Finalmente os varicosos deverão evitar as cons- tipações e toda a causa de congestão pelviana que 50 possa trazer qualquer embaraço ao curso do sangue negro. Como os hemorrhoidarios, os varicosos devem recorrer a uni regímen alimentar rigoroso. Uma alimentação mais vegetal do que animal, o uso de aguas alcalinas, alguns laxativos, constituem o re- gímen a recommendar. Deve-se proscrever de modo absoluto, o uso do álcool e das bebidas que o contêm. A orthopedia varicosa funda-se na organisaçâo de um apparelho que compense o tonus relaxado das veias ectasiadas, por uma compressão regular e methodica. Esse apparelho foi outrora rudimentarmente representado por uma faixa que se fazia enrolar no membro varicoso. Attendendo-se, porem, a certos inconvenientes dessas faixas, confeccionou-se um apparelho espe- cial conhecido por meia elastica trabalhado em cautchut, linho ou seda que applicado sobre a pe- ripheria do membro exerce sobre este uma com- pressão regular se oppondo a distensão venosa, impedindo a estase do sangue venoso e favore- cendo a sua circulação. Essas meias acompanham a extensão das lesões, podendo ir do pé á coxa. Elias são inteiriças ou divididas em peças que se 51 podem unir nas articulações, o que facilitará mais os movimentos da perna sobre a coxa e desta sobre a bacia. Existem outras meias de varices feitas de te- cidos não elásticos ou de pelle de cão, muito pouco empregadas hoje e de resultados inferiores aos da meia elastica. Tem-se alliado com vantagem ao emprego da meia a pratica da massagem (Hugon) que con- sistirá principalmente em fricções feitas com len- tidão e doçura, seguindo-se exactamente a di- recção da corrente venosa. Deve-se aconselhar ao doente applicar a sua meia pela manhã ao levantar-se e tiral-a á noite ao deitar-se. O uso deste apparelho não traz prejuiso algum, entretanto auctores diversos têm notado alguns inconvenientes. Assim, Chaussier observou um caso de uma senhora que tinha crises de suffo- cação em cada vez que collocava a sua meia elas- tica sobre as varices; Paul Dubois, Delpaul, Gi- rode Briquet citados por Boudin, dizem ter notado hemorrhagias uterinas, pulmonares e abortamentos com o uso de faixas compressivas durante a gra- videz. Albert Robin diz, porem, que esses factos constituem raras excepções, verdadeiras curiosi- dades clinicas e nada mais, 52 As verdadeiras contra-indicações, nos diz ainda esse grande mestre, são a presença das inflamma- ções phlebiticas e das afFecções cutaneas dolo- rosas, sobretudo as ulcerosas. Esse modo de tratamento tem a sua utilidade pratica apenas nos casos de ligeiras ectasias ve- nosas superficiaes, pequenas dilatações ou varices profundas inoperáveis. Anatomia Descriptivà I A veia saphena interna nasce da veia dorsal interna e vae até o meio do triângulo de Scarpa. II Ella passa adiante do malleolo interno, sobe verticalmente na face interna da perna, do joelho e da coxa. III Ao nivel do triângulo de Scarpa, a tres centímetros abaixo da arcada de Fallope, ella perfura a aponevrose (ligamento falei- forme de Allan Burns ) formando uma ança sob o qual passa a artéria pudenda externa inferior. Anatomia Medico-Cirurgica I A bainha dos vasos femoraes é uma dependencia direeta da aponevrose femoral, II Em a sua porção superior ella forma o canal crural. III Em a sua porção inferior ella constitue o cancã de Hunter. Histologia I 'A structura do systema venoso é tão variavel que em uma mesma veia encontramos notáveis differenças segundo os pontos que se consideram. II Os auctores não estão accordes quanto ao numero de túnicas venosas, porem a maioria descreve duas: interna e externa. 54 III 0 modo por que se distribuem os vasos na túnica externa, nos explica a frequência das inflam inações das veias. Bacteriologia I O baeillus septicus foi descoberto por Goze e Feltz e isolado por Pasteur. II E’ um anaeróbio verdadeiro. III Gora-se facilmente pelos processos habituaes. Anatomia e Physiologia Pathõlogic\s i Os tumores primitivos das veias são raros fora das lesões angiomatosas. II Os tumores secundários, ao contrario, são muito frequentes III Entre estes, são os sarcomas que invadem mais rapidamente as paredes venosas e vegetam em seu interior de maneira a darem nascimento a embolias neoplasicas. Physiologia I A grande capacidade e a extrema dilatabilidade das veias em relação ás artérias fazem do systema venoso um diverticulum ou reservatório que se presta a alojar grandes quantidades de sangue sem que a sua força elastica cresça muito. - II Após terem sido distendidas, as veias voltam sobre si mesmo em virtude da sua elasticidade. 55 III íJara que el las percam essa propriedade é preciso que tenham sido por muito tempo e fortemente distendidas ou haja uma alteração nas suas paredes o neste caso teremos verdadeiras varices, Ti-ierapeutica I O hamamelis vriginica é um arbusto originário dos Es- tados Unidos pertencente á família das barberideas. II Suas folhas e cascas são de um sabor amargo e adstringente e de um odor particular. III Esse medicamento nàoé toxico’; entre nós elle é empregado em alta dose no tratamento das varices. Medicina Legal I Indentidade é a determinação da individualidade de uma pessoa. II As provas da individualidade são fornecidas por siguaes physiologicos, pathologicos ou accidentaes. m Nem sempre é facil ao medico perito o reconhecimento da identidade. IÍYGIENE 1 A depuração das aguas tem por fim expurgar os germens e as matérias organicas que favorecem a sua proliferação. V.R. » 56 II A filtração central ou municipal équasi sempre impreseiu* divel, III A filtração domiciliar entre nós é impossível. Patiiologia Cirúrgica I Chamam-se varices ou phlebectasias a inflam mação chronica das veias, caracterisada pela dilatação permanente das suas pa- redes. II As veias mais expostas ás varices são as do membro inferior, principalmente a saphena. III Encontram-se também essas dilatações frequentemente nas veias do anus e do cordão spermatico, onde se denominam hemorrhoides e varicoceles. Operações e Appareliios i Resecçào é a operação que tem por fim tirar uma parte ou a totalidade de um ou muitos ossos, respeitando as partes molles. i [ Essa operação é um dos grandes recursos da cirurgia conser- vadora. 1 i i E’ graças a sua vulgarisaçào que se tem podido reduzir actual- mente o numero de operações mutilantes. 57 Clinica Cirúrgica (1 .a Cadeira) í Toda a communicaçao persistente entre uma artéria e uma veia é um aneurysma arterio-venoso. i i Dous sào os modos porque se fazem essas communicações: espontaneamente ou por traumatismo. i i i Os aneurysmas arterio-venosos traumáticos são muito mais frequentes. Clinica Cirúrgica (2.a Cadeira) i Chamam-se fracturas soluções de continuidade produzidas nos ossos, ordinariamente por violência exterior. I i As fracturas podem ser completas*ou incompletas. t i i Nas fracturas incompletas, mais raras que as completas, não ha crepitação. Patuologia Medica i Ha duas especies de variola hemorrhagica: uma precoce e outra tardia, i I A primeira é mais terrível que a segunda. i i 1 Ella é quasi sempre mortal, 58 Clinica Medica (l.a cadeira) I Cumpre diagnosticar em tempo a hyperchlorhydria para que ella não traga como consequência a gastro-succorrhéa. II O fa<*to de encontrar-se acido chlorhydrico no conteúdo esto- macal de um indivíduo em completo jejum é sufficiente para se diagnosticar essa moléstia. III Em taes casos a melhor medicação é dar ao doente alcalinos que vão neutralisar a excessiva acidez do sueco gástrico. Clinica Medica (*2.a cadeira) I Clinicamente se deve ter como dilatado todo o estomago cujas dimensões são taes que elle aflecta relações anormalmente extensas cora a parede abdominal e os orgãos visinhos. II E’ preciso para tal diagnostico que o augmento das relações seja independente da ptose. III Os ruidos hydro-aereos constituem o signal maís impor* tante da dilatação; todavia não são patliognomonicos, pois podem se produzir em estomagos atonos de pequeno volume. Clinica Propedêutica I Quando se applica a palma da mão sobre o thorax de um in- divíduo que se faz falar em voz alta, se sente a cada palavra uma vibração particularmente rapida, que nasce com a emissão do vocábulo para cessar quasi ab mesmo tempo que ellç, 59 II A mào experimenta uma sensação idêntica áquella que teria se fosse applicada sobre uma caixa de resonancia em a qual se fizesse vibrar uma corda for te mente distendida ou um diapasão. III Esse phenomeno é clinicamente conhecido sob o nome de frémito vocal ou peitoral. Matéria Medica, Piiarmacologia e Arte de Formular I Pela sua acção irritante sobre a mucosa digestiva,"o bromu- reto de potássio necessita de um veliiculo bem escolhido, II Costuma-se prescrevel-o nos xaropes, no hydrolato de alface, etc. III O leite é o melhor vehiculo. Historia Natural Medica I Os sarcopies hominis pertencem a familia dos acarianos e á classe dos arachinoides. II Elles se apresentam a olho desarmado sob a forma de um nodulo inrregularmente redondo, cinsento, legeiramente trans- parente, que comprimido entre as unhas se quebra produzindo um ligeiro ruido. IÍI Este parasita é o productor da sarnaa 60 Chimica Medica I 0 bromureto de potássio é um sal de sabor salgado e pi- cante, muito saiu vel n’agua, crystalisando-se em cubos inco- lores. II Obtem-se tratando uma solução aquosa de potassa pelo bromo. III Convém purificar o sal assim obtido. Obstetrícia I A versão é uma operação que consiste em transformar uma posição existente em outra que facilite o parto II fia duas especies de versão, segundo se leva a cabeça ou o pélvis ao nivel do estreito ; versão cephalica e versão podalica0 III Essa operação pode ser praticada por manobras externas ou internas. Clinica Obstétrica e Gynecologica I A gravidez imprime ao organismo inteiro profundas modb ficações. II Estas podem ser geraes e locaese 61 III As primeiras se fazem à distancia nos differentes apparelhos da economia, as segundas se realísam ao nivel dos orgãos ge- nitaes ou melhorem toda a região genital, Clinica Pediátrica T A diarrhea verde é uma moléstia muito frequente na infân- cia. II Ella é de origem bacillar. III A pasteurisação do leite constitue o seu trrtamento prophy- lactico, Clinica Ophtalmologica I A myopia è uma anomalia de refracção em a qual a retina é collocada alem do fóco principal dos meios refringentes do olho. II E’ geralmente uma aííecção hereditária ou congénita. III A causa mais commum da myopia adquirida é o esforço de convergência e de acommodação para a visão de perto. Clinica Dermatológica e Syphiligraphica I A tuberculide pustulo-ulcerosa é uma forma de tubercu- lose cutanea. 62 II Caracterisa-se no começo por meio de pustulas analogas ás do empetigo vulgar, porem mais profundas. III Estas pustulas são seguidas de crostas amarellas que cobrem ulcerações arredondadas. Clinica Psychiatrica e de Moléstias Nervosas I Nem todo o delirio systematizado é symptoma de paranoia, II A paranoia é originaria. III A paranoia é incurável, I7isto. Secretaria da Faculdade de Mediana da Falua, 71 de Outubro de 1905. O Secretario Ur. Memiidro dos deis Meirelles.