FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA ' THESE APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 31 de Outubro de 1906 PAÍU SER PERANTE A MESMA PUBLICAMENTE DEFENDIDA POR 's/e rS//s.YY.e/y 'jkítae/e HÂTURAL B9 ESTADO DE ALAGOAS AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR E 7VY MEDICINK DISSERTAÇÃO Cadeira de Clinica Dermatológica CONSIDERAÇÕES SOBRE AS CANICIES PROPOSIÇÕES Tres sobre cada unia das cadeiras do curso de sciencias me d iro -ch 'Ui ‘g i cas BAHIA Typ. e Encadernação do Lyceu de Artes e Officios Dirigida por Prudencio de Carvalho iqo6 Faculdade de Medicina da Bahia Director—Dr. ALFREDO BRITTO Vice-Director—Dr. MANOEL JOSÉ DE ARAÚJO Lentes OS DRS.' MATÉRIAS QUE LECCIONAM I. SECÇÃO A. Carneiro de Campos Anatomia descriptiva. Carlos Freitas. Anatomia medico-cirurgica. 2. a Secção Antonio Pacifico Pereira. . . • Histologia augusto C. Vianna Bacteriologia. Guilherme Pereira Rebello. . . . Anatomia e Physiologia pathologjea* 3. a Secção Manuel José de Araújo Physiologia. José Eduardo F. de Carvalho Filho. . Therapeutica. 4. Secção Josino Correia Cotias Medicina legai e Toxicoiogia, Luiz Anselmo da Fonseca Hygiene. 5. a Secção Braz Ilermenegi.do do Amaral . . Pathologia cirúrgica. Fortunato Augu sto da Silva Júnior . Operaçfjese apparelhos Antonio Pacheco .Mendes . * • Clinica cirúrgica, 1.» cadeira Ignacio Monteiro de Almeida Gouveia . Clinica cirúrgica, 2.» cadeira 6. a Secção Aurélio B Vianna. Pathologia medica. Alfredo Britto Clinica propedêutica. Anisio Cireundes de Carvalho. . . Clinica medica 1*» cadeira. Francisco Braulio Pereira Clinica medica 2.a cadeira 7. SECÇÃ O JoséRodrigues da Costa Dorea . . Historianatural medica. A. Victorio de Araújo Falcão . . . Materiq medica, Pharmacologia e Arte de formular. José Olympio de Azevedo .... Chímica medica. 8. Secção Deocleciano Ramos Obstetrícia Climerio Cardoso de Oliveira . . Ciinicaobstetrica e g ynecologica. 9. Secção Frederico de Castro Rebello . . . . Clinica pediátrica 10. Secção Francisco dos Santos Pereira. . . Clinica ophtalmologica. II. Secção Alexandre E. de Castro Cerqueira . Clinica dermatológica e syphiligrapbica 12. Secção J. Tíllemont Fontes Clinica psyçhiatrica e de moléstias nervosas. JoãoE. de Castro Cerqueira . Sebastião Cardoso Em disponibilidade Substitutos OS DOUTORES José Affonso de Carvalho (interino) . . l.a secção Gonçalo Moniz Sodré de Aragào . . . 2.a > Pedro Luiz Celestino 3. > Alfredo oe Andrade (int.) 4.a Antouino Baptista dos Anjos (interino'* . 5.a João Américo Garcez Frdes 6.a » Pedro da Luz Carrascosa e José Julio de Calasans . . . 7.a » J. Ãdeodato de Sousa 8.a Alfredo Ferreira de Magalhães ... 9.a » Clodoaldo de Andrade. ..... 10. » Albino A. da Silva Leitão (interino). . 11. > Luiz Pinto de Carvalho 12. » Secretario—DR. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-secretario—DR, MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade não approva nem reprova as opiniõei exaradas na* tliesas pelos seus auctores. DISSERTAÇÃO Cadeira de Clinica Dermatológica Considerações sobre as Canicies I/NTRÒITO pelle, essa immensa terminação nervosa, na phrase de Lucien Jacquet, reveste a superfície do corpo e se propaga aos orifícios naturaes pelas mu- cosas. Muito differente de estructura e aspecto nas di- versas regiões, é ella como em poucas partes espessa no craneo, onde, depois de ser glabra na fronte, cobrem-n’a inteiramente as phatieras de Blainville — os pellos — obliquamente implantados á face profunda da derma e na camada cellulo-gordurosa subjacente, e recebe por isso o nome de couro cabelludo. Estes, verdadeiros prolongamentos epidérmicos, nao tomam nascimento a toda a sua extensão, a menos que se trate de um caso de nem tão pouco todos os que são naturalmente loca- lisados, nascem com a criança; mas a sua apparição retardada desses é simultânea com a puberdade, epocha estranha e desejada da infancia, em que a Natureza, como a deliciosa serpente do peccado, desperta os seres para o amor e para a vida. 2 Queremos nos referir aos pellos das axillas, do pubis para o homem e a mulher e mais ainda aos pellos no labio superior daquelle. Pela sua localisação precisa e exacta em cada re- presentante do genero humano, são denominados supercilios — os que formam as arcadas transversaes por cima de cada orbita; cilios — os que guarnecem as bordas livres das palpebras; barba — os que se distribuem ás partes inferiores da face, por baixo do mento e á porção anterior do pescoço, e cabellos, fi- nalmente, aquelles que cobrem mesmo na vida intra- uterina as partes superiores e posteriores da cabeça. Outras localisaçÕes existem, e que nós conhecemos, nas quaes elles ficaram innominados pelo menos scientificamente, mas que não devem ser esquecidas pelo inconveniente que ás vezes nos inspiram e pela protecção que geralmente nos proporcionam. E’ no couro cabelludo — porção a mais vitalisada da pelle — que os pellos merecem o nome de cabellos — do latim capillus — e que, por isso, somente com ouvirmol-o pronunciar, temos logo a certeza da sua posição e espessura, do seu comprimento e das suas varias cores, que os distinguem dos outros pellos, quer nomeados, quer não. 3 Os germes que lhes dão origem, começam a apparecer no fim do terceiro para o quarto mez da vida intra-uterina, e resultam de um abrolhamento na camada profunda da mucosa epidérmica. Esses germes ou rebentos affectam a fôrma de garrafa — o folliculo do pello — com uma parte su- perior estreita e outra profunda intumescida em contacto com os elementos mesodermicos subja- centes que se condensam, formando assim uma saliência que recalca o bulbo — a papilla. No ponto de separação das duas partes, existe uma glandula sebacea; é na que fica por baixo que se faz, entre as cellulas de Malpighi que formam o corpo folliculoso, essa difierenciação, que tem como resul- tado o primeiro esboço capillar. Tres ou quatro semanas depois os cabellos se acham desenvolvidos; desde logo cobertos pela ca- mada cornea da epiderme, se voltam em espiral sobre si mesmos e só então com o adelgaçamento desta dá-se a sua erupção para o exterior. Distinguem-se em cada um duas porções: uma livre, mais ou menos alongada e volumosa, se termi- nando em ponta—haste; outra, intra-cutanea, que 4 penetra em a extensão de um a cinco millimetros a cavidade do folliculo, onde adquire por sua intumes- cência a denominação de bulbo. Pelo exame microscopico, em córte transversal daquella, nota-se do centro para a peripheria a suc- cessão de tres camadas concêntricas — medulla, substancia cortical e epidermicula. A medulla se compõe de grossas cellulas arredon- dadas ou polyedricas que correspondem ás cellulas malpighianas contendo um núcleo, em redor do qual se depositam granulações de centro brilhante, gordurosas, acompanhadas de granulações pigmen- tares e bolhas de ar. A substancia cortical—substan- cia fundamental de Pouchet — envolve a medulla e é constituída por cellulgs epitheliaes corneas, chatas, estriadas longitudinalmente e se juxtapondo umas ás outras com intimidade; encerram um núcleo rudi- mentar e se mostram impregnadas de uma certa matéria oleosa de combinação com a melanina; me- lanina que não se desenvolvendo dá logar ao albi- nismo dos cabellos e desapparécendo, quando exista, chega a produzir o seu embranquecimento. Na formação da epidermicula, a camada mais su- perficial, entram as cellulas laminosas e corneas, como as precedentes, dispostas em imbricação. 5 O folliculo apresenta as mesmas camadas que o ca- bello, um poucochinho modificadas. Possuindo duas túnicas, dermica e epidérmica, encerra na primeira denominada também camada fibrosa externa, vasos e nervos. Esta, que se compoe de fibras do tecido conjun- ctivo e de cellulas fusiformes, dá inserção a fibras musculares lisas e notadamente a um feixe -muscular proprio, de cuja contracçao resultam os phenomenos de chair de poule e horrripilação. Logo depois delia encontraremos uma outra de natureza hyalina ou membrana vitrea — camada limi- tante, produzindo de alguma sorte a parede própria do folliculo piloso e que representa a basement-mem- brane derivada de um espessamento da matéria amorpha. Duas são as camadas que de dentro para fóra com- pletam a túnica epidérmica. A primeira — bainha externa da rai\, bainha epi- thelial—formada de cellulas polyedricas semelhantes ás de Malpighi; a segunda — bainha interna, appli- cada directamente á epidermicula, de cellulas trans- parentes, keratinisadas, contendo um núcleo mais ou menos atrophiado e subdividindo-se em tres: uma externa, composta de cellulas arredondadas ou polye- dricas juxtapostas umas ás outras—camada de Henle; 6 outra média, formada ao contrario, de cellulas alon- gadas— camada de Huxley — e a terceira ou interna de cellulas lamelliformes e imbricadas que estão em contacto com a epidermicula — camada cuticular. A continuidade do folliculo com o cabello se esta- belece da glaudula para baixo; para cima, entre os dois, ha um espaço cheio de substancia sebacea que mantém o cabello em estado de lubrificação. Os vasos sanguíneos que lhe são habituaes, ao fol- liculo, provêm dos rendados intra-dermicos e subcu- tâneos; os pequenos troncos nervosos, assignalados em 1872 por Jobert, se desdobram em fibrillas trans- versaes e em fibrillas profundas longitudinaes que vão ter á superfície da pelle. E’ ao nivel da papilla que as cellulas do bulbo piloso affectam os caracteres dos elementos mal- pighianos e da» sua proliferação activa depende o maior ou menor crescimento dos cabellos. O diâmetro destes varia nas proporções compre- hendidas entre—0mm,05 e Omm,ll de espessura; quanto mais finos se mostram, mais macios, mais flexuosos. Do comprimento não fallaremos, mesmo porque variando nos dois sexos, differe nas raças e com a constituição ou temperamento de cada pessoa. 7 Contraria ao que diz Sappey, attinente á inserção perpendicular dos cabellos, é a opinião geralmente acceita dos dermatologistas que admittem a sua obli- quidade em relação a superfície do couro cabelludo; obliquidade tanto mais variavel Quanto apreciada nos differentes pontos da cabeça. Um caracter de valor resalta da sua direcção geral e do aspecto todo particular que essa direcção lhes imprime. E assim é que a cabelleira se denomina lisa, quando elles se superpõem á feição de fila- mentos rectilineos. Essa fórma predomina entre os americanos, os povos da Alta Asia, do Japão, da China e Europa. Os cabellos annelados se curvam em annel na extre- midade somente e constituem o apanagio das raças aryana e semitica. O estado frisado, consequência do enrolamento de cada cabello em todo o seu comprimento, obser- va-se no Egypto e na Abyssinia. Por fim, a ca- belleira crespa, que não é outro estado mais do que o combinado das duas fôrmas annelada e frisada, diremos, espalha-se commummente na África, onde prepara um dos attributos salientes da raça negra 8 Para que não calemos neste assumpto a nossa observação em o nosso Paiz, nos aventuramos a de- clarar ser a cabelleira brazilica, na maioria, crespa e frisada; porquanto, é do conhecimento geral, a pre- dominância entre nós demora-se ao lado das raças negra e mestiça com detrimento da raça branca a quem pertence a cabelleira annelada. Pelos caracteres acima expostos, quizeram ver os auctores no cabello levado ao microscopio uma diffe- rença de fórma no seu corte transversal: quando liso, regularmente circular; annellado, ovalar e crespo, eliptico. E foi por essa maneira que o Dr. Pruner-Bey chegou á conclusão de que, com o exame microscó- pico de um cabello dado se terá, talvez sem demora, conhecimento da raça de qualquer indivíduo. A gamma das côres apresentadas pelos cabellos corresponde no quadro chromatico de Broca a cin- coenta e quatro nuanças differentes. Os anthropolo- gistas inglezes a reduziram a dez e Topinard a cinco. A Dechambre pareceu mais rasoavel o conferil-a a tres typos primordiaes, o negro mais espalhado no globo; o louro distribuído na Europa, especialmente nos ramos germânico, slavo e celtico de origem aryana; e o vermelho de fogo, emfim, avultando menos em todas as raças e em todos os paizes. 9 Como coloração intermediária aos typos precita- dos se colocam o pardo ou castanho claro, o sérbuno, o louro com os seus tons diversos, o amarello de linho, o amarello dourado, etc. A còr varia num mesmo indivíduo daquella das outras partes do systerna piloso; varia no couro cabelludo e num mesmo cabello e essa mutação é mais palpavel quando encarada conforme a idade. Na cabelleira, raramente para a criança o que deve ser para o adulto, essas nuanças desapparecem dando logar, no velho, a um termo commum — a Canicie. A canicie — do latim canus — é um dos symptomas de velhice; mas esta ultima que resume a phase tristemente pacifica e cubicada da vida, que se es- boça por essa degeneração ou atrophia caracteri- sando uma assimilação deficiente e evoluindo com embaraço e entibiamento das funcçoes organicas, nem sempre se faz sentir com a presença da primeira. Ha factos, exemplos existem contados pelos auctores de canicies emocionaes e momentâneas, hereditárias, sobrevindo no curso de certas moléstias geraes ou 10 locaes e surgindo raramente com a criança, que se perfilham em apoio da nossa asserção acima. Assim sendo, poderemos distinguir tres variedades principaes de embranquecimento dos cabellos—a in- titulada natural ou dos velhos, a precoce ou dos moços e a congénita. Em qualquer uma destas, esse phenomeno im- perceptivel e intimo tem, apesar da divergência de suppor, a mesma explicação e a mesma causa. Considerada como o resultado dos annos «o episó- dio exclusivamente peculiar a esse arrefecimento natural das energias vitaes, » toma o nome de leuco- trichia senil e é reputada physiologica. Manda a noção vulgar que acreditemos que, a partir de uma certa idade em diante, o individuo sente e vê os seus cabellos mudarem de coloração; e, com ser extremamente variavel essa idade, segundo os casos e os proprios indivíduos, por essa mesma razão, torna-se difficil o precisai-a. Frequentemente a leucotrichia senil se manifesta entre trinta e quarenta annos, diz Brocq, mas entre nós não faltará á idade de vinte e cinco a trinta; entretanto, conta-nos Hardy, podem-se ver velhos de mais de 70 annos conservarem os cabellos negros ou louros sem o menor vestígio de calvície e lembra os índios do Perú em aífirmação cabal. 11 No periodo inicial são poucos os que mudam de cor, que se mostram cinzentos; depois, outros tantos são atacados, até que por fim todos sejam descorados. Esse descoramento que commummente principia pelas têmporas, pelo vertice do craneo, ferindo também de perto, na maior parte dos casos, o couro cabelludo não se completa immediatamente e o matiz branco caracteristico não é notado sinão no fim de um dado tempo. A theoriade Demange, que exaggeradamente attri- bue á « ferrugem das artérias » todas as alterações organicas e funccionaes da senilidade, parece expli- cal-o; mas não tem razão de ser, porquanto não é difficil provar a existência de arterio-scleroticos de cabellos pigmentados e velhos sem arterio-sclerose mas inteiramente encanecidos. Os motivos justos que levaram os anatomo-patho- logistas a considerar a canicie senil physiologica, não soffrem contestação; mesmo porque seria isso esta- belecer a morbideza da velhice e não nos arrogamos aqui o direito de taes argumentos. A segunda variedade principal-—a precoce ou dos 12 moços — tem maior importância, já por suas causas, já pela maneira porque se nos apresenta. Conhecida desde a mais alta antiguidade , por homens iilustres, e não dedicados a esses estudos, ("como o grande poeta inglez Byron que a demonstrou: meus cabellos embranquecem, não por causa dos annos) não espanta que digamos não ser mais estranha nem mesmo ao povo quando diz, por significar os em- baraços e delicadezas de uma questão qualquer: esta faq crear cabellos brancos. Já naquellas éras foi ella preoccupação dos scien- tistas e ainda hoje o é pelos recentes escriptos do professor Charcot e Dr. Rousseau. As causas são múltiplas e essa maneira pode ser lenta ou rápida. Não obstante Haller, Kaposi, Hebra se recu- sarem a admittir a possibilidade da ultima hypo-< these, por effeitos de abalos moraes profundos e inopinados, comtudo não deixa de ser acceitae scien- tificamente provada. Em meio aos que tal confirmam -- Wilson, Laudois, Durhin, Vidal e Leloir—Brown Sequard se destaca por ter annunciado que, a contar de uma certa idade, o pigmento capillar póde desapparecer rapidamente em dois dias ou mesmo um e o em- branquecimento súbito nada tem de surprehendente. 13 Em todos os casos que vão citados abaixo, o susto violento, os desgostos intimos e súbitos, que se en- contram de um modo constante, são os factores etio- logicos verdadeiros. O valor das emoções pathologicas, nesta parte do assumpto de que nos occupamos, maior ainda se nos afigura com a supposição reconhecidamente acceitavel de A. Hardy, competente collaborador do diccionario de Jaccoud, que incondicionalmente entrega o patro- cínio da achromia súbita á uma emoção viva e parti- cularmente a um medo. Cabanès tratando de Thomaz Morus — chanceller da Inglaterra, declara que elle, no espaço de uma noite encaneceu com a noticia de que fòra condem- nado a morte ; de Ludovico Sforza, em igual praso, ao se sentir prisioneiro de Luiz XII seu mortal ini- migo; de um joven soldado austríaco, em Solferino, terrificado pelo combate em que tomou párte; de Maria Antonietta em breves horas na vespera de sua execução. Allude ainda o mesmo auctor a um outro caso, observado por Esquirol, de uma rapariguinha de boa compleição que ao receber a nova de morte do seu protector, o Duque d’Enghien,se apoderara de uma lypemania profunda e os seus cabellos se tornaram cinzentos quasi subitamente. 14 Charles Féré narra, entre muitos, o de um hes- panhol sentenciado cá guilhotina; o que foi notado para um litterato de Verona, Guarini, em seguida ao desgosto violento que lhe occasionou a perda de uns manuscriptos gregos preciosos, confiados á sua guarda; o do operário de New-York que se tendo desprendido do tecto de um edifício em que traba- lhava, fôra a tempo soccorrido; o do cardeal Donet por saber que seria enterrado vivo. As revistas nos contam o suberbo caso do caçador dos Alpes que, tendo subido por uma corda a retirar um ninho de aguia e sendo perseguido no começo de » sua descida pela aguia mãe que tentava rehaver o producto de seus affectos, encaniceu rapidamente ao ver que ferira a corda com o facão, por meio da qual se defendia, ficando preso por um pequeno fio. Bichat também observou o apparecimento da leu- cotrichia em uma noite por effeito de grandes dissa- bores e cita quatro ou cinco desenvolvidos no pe- ríodo de quatro a dois dias ; Bayer o que notou para u’a mulher desorientada pela idéa de depor num importante processo na camara de Paris; e Richard Ellis o do viajante, em um dia. após um accidente de caminho de ferro. Si a noite tem influencia evidente sobre os pheno- menos physiologicos, por isso mesmo, sobre os phe_ 15 nomenos morbidos essa influencia será determi- nante. E não é de agora que tal se sabe. Já Homero a appellidara — a denominadora dos homens, Hesiodo a accusava de originar todos os seres nocivos das trevas, fazendo delia a deusa da desgraça; porém, o que entre tudo se tornou patente, é a acção que pa- rece exercer em favor da leucotrichia emocional. A grande fonte dos desgostos — nutrix maxima cu- rarum de Ovidio — se amplia as vibrações nervosas com maior razão ainda exaggera as suas consequên- cias. (D. Sampaio — Pequeno Jornal Medico—1905.) Na opinião de alguns a influencia da noite não pode ser negada, mas é completamente indirecta no facto do embraquecimento, o que nãp se pode dizer do valor exemplificado da pressão manual que se assemelha mais directo e prompto. Lorrey, mesmo em 1777, no seu tratado das mo- léstias de pelle lembra, entre outros, o exemplo par- ticularmente curioso de uma achromia parcial so- brevinda em partes submettidas a uma pressão. Guerrazi allude a um analogo no senhor Dandelot que, sabendo do supplicio de seu pae condemnado pelo Duque d’Alba, viu se esbranquiçarem a barba e uma parte dos supercilios que se haviam apoiado sobre sua mão direita; e, pelo que nos conta Cabanès, 16 Henrique IV em consequência do morticínio de S. Bartholomeu teve a mesma sorte no espaço de 24 horas. Uma observação semelhante a trez annos passados forneceu-nos um moço que, guardando o leito durante quinze dias e sem outra distracção que o attritar entre os dedos uma pequena mecha de cabellos, foi surprehendido no fim desse tempo com o esclareci- mento do ponto attritado Acreditava-se antigamente que não podia haver canicie sem a queda antecipada do cabello ou alo- pecia; porém, hoje está provado, uma sobrevem sem o concurso da outra, e esses raros exemplos conhe- cidos não são accessiveis ao homem. O melro de Young, que foi assaltado na sua gaiola por um gato, logo depois de soccorrido mostrava o dorso molhado de suor; e as pennas dessa parte, que cahiram, foram substituídas por outras tantas brancas. Igual destino teve a femea de um Pintar- roxo, de que nos falia Féré, ás mãos de um bebedo. O quadro das que se manifestam precoce mas len- tamente vai começar pela canicie prematura, dita 17 physiologica, comparável a senil e apparecendo numa idade differente daquella em que observamos esta ultima. Da sua etiologia pouco ou nada se sabe que justi- fique essa precocidade, a não ser que a herança pareça ahi influir poderosamente, como querem os auctores se baseando no conhecimento de certas famílias, em cujos representantes, elles affirmam, a leucotrichia tão cedo manifestada não passa de hereditária. E têm sobeja razão quando provam a sua fre- quência para os filhos de parentes já velhos e quiçá portadores de cabellos brancos. Todavia não somente a herança tem predomínios de causa, as dôres de cabeça ou nevralgias da face, do couro cabelludo, noites de vigilia, excessos, etc., devem ser levados em linha de conta com a devida lembrança das continuas preoccupaçoes moraes ao lado da sobrecarga intellectual. A influencia destas ultimas é mais peremptória quando se as observa sob o ponto de vista dos cos- tumes, da educação e raça. O despreoccupado, isto é, aquelle que não tem outro serviço mais que o da musculatura que fortifica e dá vida e o negro, homem-boi, desde molecóte «acos- tumado ao vento, acostumado ao frio,» já mui pouco accessivel aos efíeitos de taes cousas pelos mistéres 18 de sua profissão e quasi inteiramente refractario por conduzir uma cabelleira crespa, popularmente al- cunhada de pixaim, que lhe decide a origem, não podem cahir em parallelo ás pessoas que se sujeitaram aos rigorismos de uma criação vaidosa e acanhada, que muito cedo lhes impuzeram os paes ricaços co- meçando ás vezes nessa parca idade por internal-as em collegios de civis ou padres, onde não ha estimulo e o oxygenio puro é patranha, mas onde a contrarie- dade existe e o mephitismo é uma verdade. Quem hoje desappróvará o valor reconhecida- mente edificante e salutar outorgado pela Etygiene á educação physica, moral e intellectual das crianças? Ella que é a bôa alimentação, a vestimenta limpa, o asseio, a paz, a liberdade, por esse motivo mesmo— hygiene quer dizer saúde. E estes preceitos não são cumpridos á risca, como leis que deviam ser, nas muitas e variadas casas de ensino que, torturando e asphyxiando a cachimonia de seus confiados dest’arte os predispõem a contento á essa branca oblata exquisita de uma canicie precoce. Assim predispostos, espesinhados pelo cançaço do espirito —• que é a velhice dos nervos, na idade que medeia entre i5 e 20 annos, os que hontem eram crianças agora trazem a cabelleira salpicada de neve. E essa sujeição, esse martyrio não prevalece sempre 19 para todos, alguns ha que tiveram o amplo conforto de uma educação intelligente; mas um instincto lou- vável de afogadilho em aprender, de tudo saber, alliado a um temperamento vibratil retemperado pelo nosso clima, que excita e abate. Nesse ponto a observação é longa e nos incita a classificar de canicie intellectual toda a manifestação desse genero. Por que não abusemos com .as citações, tão mo- lestas a alguns, cabe-nos só declarar que, mesmo entre nós, na Faculdade de Medicina, são múltiplos os casos e actualmente na representação Federal da Bahia um outro existe sobremodo popularizado. Cerras moléstias geraes ou locaes dão origem a leu- cotrichia symptomatica. A influencia das primeiras é corroborada pelos exemplos que a litteratura medica nos fornece subse- quentes á febre typhoide, variola e mormente por um caso grave de escarlatina observado por Wallenberg, em o qual os cabellos pigmentados foram substi- tuidos por tantos outros canescentes. Alibert falia de uma senhora loura que perdeu o 20 color de suas tranças depois de um parto seguido de accidentes puerperaes; Hardy de uma raparigoila atacada de chloro-anemia, para quem os cabellos castanhos se tornaram grisalhos, voltando á nuança primeira após a cura da anemia. No curso de moléstias do systema nervoso temol-a apreciada por Hack Tuke num doente de mania re- currente que durante os ataques perdia a coloraçáo da cabelleira para logo recobral-a nos intervallos. Bergel e Leloir tem-n’a visto se desenvolver no periodo da epilepsia e alienação mental ; Duncan, Bulkley, Barthelemy e Debove na ataxia, e Bour- neville e Poirer num tumor cerebral. Um caso importante de achromia symptomatica dos cilios foi descripto por Hutchinson e Jacobson n’uma ophtalmia sympathica consequente á ablação do olho do lado opposto. Quanto ás segundas, devem ser lembradas em ordem crescente de importância a erysipela da cabeça, o vitiligo e a pelade, cuja etiologia muito controvertida é finalmente sustentada por duas theorias, — a ner- vosa de Hebra e a parasitaria de Bazin, a mais acceitavel. A pelade se denuncia por uma placa minuscula constituída pela queda de um grupo de cabellos e augmentando rapidamente no fim de algumas semanas 21 ou de alguns dias, tempo necessário á formação da placa typica que é branca, lisa e deprimida pela atro- phia dos folliculos. Completamente peculiar ao sexo masculino e fe- rindo de preferencia ameninez, esta affecçao produz o descoramento capillar que não vae além de tem- porário. «Em 1862, descreve Hardy, uma criança de 12 annos de idade que habitava o Havre foi alvo de uma pelade generalisada no couro cabelludo : um trata- mento racional trouxe 0 restabelecimento no termino de seis mezes com a apparição de novos pellos finos inteiramente esbranquiçados. Açpnselhei a epilação que deu em consequência o nascimento de outros normaes ». A ringed hair dos inglezes ou cunicie annelada é grandemente rara. EI la tira o seu nome da disposição sui generis que tornam os cabellos, apresentando alternativamente seguimentos exalviçados e coloridos, mas sem per- derem, todavia, a sua fórma própria. Actualmente os únicos casos divulgados se resumem nos descriptos por Harsck, Simon, Landois e na ob- servação de Richelot que assistiu, no curso de uma chlorose para u’a mocinha, o embranquecimento total da cabelleira serbuna, de tal sorte que, uma 22 vez restabelecida e esta tendo readquerido a cor na- tural, havia uma zona branca em meio a duas zonas castanho-escuras. Embora ligeiramente, não deixaremos de lembrar a leucotrichia resultante da acção de varias loções de barbearia e ainda, por fechar o quadro das sympto- maticas, aquella que é effeito do contacto conti- nuado de alguns corpos chimicos, como sóe acon- tecer para os operários das minas e fabricas de es- pelhos— a achromia profissional. O albinismo também chamado kakerlakismo, leu- cethiopia, leucopathia, leucose, é denominação de origem portugueza que significa ausência innata mais ou mens completa da matéria pigmentar. Esta anomalia muito se accentúa para o lado da choroide, da pelle que toma a côr do leite e dos ca- bellos que se mostram nevosos e flaccidos, caracte- risando desse modo a terceira variedade principal ou canicie congénita. Por muito tempo acreditou-se que só os negros eram accessiveis aos seus effeitos, o que concorreu para a designação de negros brancos dada aos bedas ou dandos que constituíam uma raça a parte; porém, hoje, sabe-se que o albinismo é o resultado de uma modificação puramente individual e accidental, da 23 qual ha exemplos na totalidade das raças humanas e em quasi todos os climas. Elle se manifesta também em outros animaes de classes differentes, como passaros, peixes, etc. po- dendo mesmo ser encontrado no reino vegetal. Uma particularidade digna de nota, nos albinos, consiste na diflficuldade que elles sentem expostos aos raios solares, phenomeno que lhes valeu a al- cunha de heliophobos; e do qual tivemos uma regular observação este anno no departamento syphiligra- phico do Hospital Santa Isabel. Os ensinamentos anatomo-pathologicos são dimi- nutissimos e nos vieram dos escriptores clássicos. Ehermann mostrou que na caniciesenil ou precoce a papilla pilifera pode ficar provida de cellulas pig- mentadas. Nos cabellos dos velhos sustenta Carnaz, sob a mordacidade critica de Raynard, que o embranque- cimento vai ter exclusivamente á substancia cortical e a substancia medullar apresenta u’a massa negra granulosa, não homogenea; ao passo que, nos albinos, se encontra apenas no centro do pello uma pequena linha clara oííerecendo muita vez entumescimentos, 24 mas não possuindo sinão poucos ou nenhuns grânu- los colorados. Só ultimamente presenciou Leloir, na leucotrichia desenvolvida no vitiligo, a nevrite parenchymatosa dos nervos cutâneos ao nivel das placas de descolo- ração. A pathogenia da canicie está ligada muito de perto á questão dos pigmentos. Estudemol-os em ligeiros traços. Sob a apparencia de pequenos grânulos coloridos, grânulos pigmentares, elles surgem nos organismos animaes em todas as phases do seu desenvolvi- mento, desde a epocha da maturação do ovo no seio dos tecidos maternaes, até aquella da senilidade. Considerados outr’ora como simples precipitados chimicos em meio ao protoplasma ou á membrana cellular, gozam hoje, pela feliz audacia de alguns, a reconhecida propriedade de phenomenos vitaes : « um granulo pigmentar é uma pequena massa de matéria viva capaz de produzir mediante condições a sub- stancia colorante ou pigmento ». Bataillon, que muito bem estudou o mecanismo da 25 pigmentação do ovo, mostrou a necessidade de emis- sões chromaticas na producção dos pigmentos e das reservas. Examinando as cellulas reproductoras e as glân- dulas sexuaes dos amphibios elle viu, num certo estado de desenvolvimento destes, se escaparem do núcleo corpos filamentosos mais ou menos ondu- lados que crescem e dão duas especies de rebentos : i.° rebentos terminaes que, continuando a se colorar como a nucleina e a guardar as suas principaes ma- nifestações, se transformam finalmente em grânulos pigmentares; 2.0 rebentos lateraes que, perdendo a propriedade de se colorir, se tornam a séde de phe- nomenos nutritivos e se transformam em corpos vi- tellinos. Essa theoria convém a Bohn que suppÕe o núcleo centro de toda a pigmentação e infirma a de Loos que considera os grânulos de pigmento verdadeira differenciação protoplasmica. Uma vez formados, as cellulas emigrantes apo- deram-se delles e os transportam a differeutes pontos do corpo. Os estudos feitos sobre as ascidias são curiosos. No Botryllus smaragdus o liquido sanguíneo en- cerra globulos incolores e cploridos, os chromocytos, em meio dos quaes se movem granulações de cores 26 variadas que, além disso, podem ser encontradas li- vremente no sangue. Os chromocytos facilmente se deslocam e pelo seu accumulamento se formam segundo Pizon, citado por Bohn, as manchas que se vêm no corpo das ascidias. Alguns annos antes deste auctor, 1896, factos analogos suggeriram a H. M. Bernard a theoria da visão para os vermes e vertebrados. Contrariando sobre maneira aquelles que pensam que o pigmento ou. a melanina tira a sua origem da hemoglobina, Bataillon attesta que elle provem da chromatina, isto é, de emissões chromaticas sob a influencia de intoxicações internas ou externas nas cellulas epitheliaes em via de histolyse. Ora, não são estas as únicas cellulas capazes, outras, como as nervosas também o são; e, no tubo digestivo e fígado, phenomenos semelhantes se pro- duzem. As cellulas verdadeiramente pigmentares são as de origem mesodermica, mesenchymatosa, os chro- moblastos que asseguram a còr da pelle e dos seus derivados. De seu maior ou menor numero nesse ou naquelle ponto, bem como da maior ou menor quantidade de 27 granulações que encerram, nasce a differença colo- rida. D’ahi é que parte a explicação para a variegação dos olhos (Duval) e porque não para a dos cabellos ? Dotados de movimentos ameboides activos, elles são providos de prolongamentos estrellados, que se contrahindo dão-lhes a forma de um pequeno corpo espherico. Dessas varias disposições resultam as mudanças momentâneas de côr tao conhecidas para a rã quanto para o cameleão. A presença da luz modifica-lhes o estado. Mas, a se dar credito ás experiencias de Puchet, Vulpian e Paul Bert, esses movimentos se acham debaixo da acção do systema nervoso, isto é, de nervos que, seguindo o mesmo trajecto que os vaso- motores, presidem ao estiramento e retracção dos prolongamentos. Depois de Leyd, em 1870, que intentou reco- nhecer si os chromoblastos recebiam terminações nervosas, provaram alguns auctores a existência de fibrilas em continuidade de substancia com o proto- plasma destas cellulas. Applicando o processo de Golgi, Eberth e Bunge mostraram que essas fibrillas nervosas vêm se acabar a sua superfície, delles, por uma especie de buisson terminal. 28 Pelas pesquizas de Briicke, de Ballowitz e outros, esses movimentos não consistem sempre no retra- himento total do protoplasma, dos prolongamentos, mas numa alteração intra-protoplasmica, na deslo- cação dos grânulos pigmentares. Não são acordes os auctores no ponto de saber-se por onde tem começo a leucotrichia: uns dizem que na raiz, outros na ponta, emfim, admittem outros também a queda do cabello colorado dando nasci- mento ao cabello branco. Na primeira hypothese se apegam a maioria delles, mas. confessemos, a sua séde não implica uma nova feição no acto do embranquccimento; o que nos im- porta saber é como elle se passa e em que consiste. Landois suppÕe como causa a penetração de bolhas de ar na medulla capillar; as granulações desappa- recem por oxydação. Essa maneira de suppor também é fornecida por Dubreuilh e Chatelain relativamente a leuconychose ou achromia das unhas, e não tem hoje mais valia com a certeza que se tem de existirem lacunas cheias de ar na parte central do cabello, como bem demons- 29 traram Kolliker e Bazin que, por sua vez, confiaram a chegada constante dessas bolhas ahi á falta de re- laçáo que se faz entre os principios que affluem e aquelles que se escapam por evaporação. Malaissez e Kolliker entregam a responsabilidade \ de tal acontecimento á uma atrophia por falta de nu- trição, dizendo o primeiro que ella se encantoa na papilla e o segundo, no residuo vascular piloso. Ultimamente, publicada, nos Annaes do Instituto Pasteur, veio á luz uma nova theoria de peso pela muita representação que influe o nome do padrinho. E’ Metchnikoff, o pae da phagocjuose, quem assim se esforça com o fim louvável de, por meio d'ella, nos fazer conhecer o mecanismo da canicie: Os cabellos normalmente estão repletos de grãos de pigmento disseminados nas duas camadas que os constituem. Em um momento dado as cellulas da medulla ca- pillar sahem do seu torpor, entram em agitação e começam a devorar todo o pigmento que lhes está ao alcance. Logo depois de abarrotadas de grãos corados esses elementos cellulares que representam uma variedade de macrophagos, também designados sob o nome de pigmentophagos ou melhor ainda chromophagos—di- rigem-se óra á pelle, óra íóra do organismo. 30 Desse modo, os chromophagos transportam entre si o pigmento dos cabellos que necessariamente si tornam incolores, embranquecem. Exposta a theoria do notável philosopho de «La Nature Humaine» abramos espaço á refutação do Dr. Mario Valverde, consoante a mesma. «Não ,é acceitavel uma semelhante interpretação do eminente Zoologista e sem que esta nossa diver- gência pese num desrespeito a tamanha auctoridade scientifica aqui escrevemos asobjecçÕes do nosso ra- ciocínio ; entre a theoria de Landois attribuindo a canicie á ausência de pigmento e a outra dos íeuco- cytos que o roubaram opina-se pela primeira diante destas manchas dos cabellos brancos que desde o nas- cimento enfeitam uma cabeça negra ou loura. Porque teriam ao leucocytos aggredido um limi- tado feixe de fios e assim mantiveram perenne a aggressão, não permittindo o deposito de novos pi- gmentos durante a vida do indivíduo ! Menos ainda é-nos merecedora de credito a suppo- sição de uma leucocytose para a producção da canicie, quando occorrem-nos ao espirito estas achromias rapidas e instantaneas que invadiram as cabeças de Maria Antonietta diante do templo, do caçador dos Alpes suspenso por um fft) ás bordas do abysmo, do alcoolista de Landois após um ataque convulsivo e 31 delirante; seria absurdo si náo fòra impossível suppol-as consequência de uma aggressão brutal dos globulos brancos. Para tal batalha era mister que todos os leucocy- tos do corpo humano se puzesssm em actividade.» Bem lançada até certo ponto, esta critica deixaria ao seu auctor a satisfação consciente do observador incançavel, si na freimados reparos que dirige não fòra tão descurada; dessa maneira negando-lhe todo o direito na producção das achromias rapida e con- génita esquece de vez a influencia que a theoria pho- gocytaria poderia ter sobre as outras variedades estu- dadas. Quanto a nós, porque julgamos permittido nos exprimir, a theoria de Metchnikoff se esmorece á responsabilidade grande que acarreta. Conversemos. Como elle proprio demonstrou, a defesa do nosso organismo está garantida por uma somma de cel- lulas baptisadas de macrophagas e microphagas das quaes umas, verdadeiros agentes de segurança, pas- seiam pelo corpo, isto é, circulam com os globulos vermelhos na corrente sanguínea; ao passo que outras ficam num dado posto agarradas nos nossos tecidos e entram em serviço ao mais leve toque de alarma. 32 Elias estão encarregadas da policia interior e re- presentam conjunctamente os papeis de empregados de hygiene. Quaes são as causas que chamam esses elementos poderosos de reserva ao campo das luctas? Provavelmente as causas toxi-infectuosas, mecâ- nicas etc.: a presença ousada do microbio trai- çoeiro, os destroços ou residuos cellulares que se ac- cumulam nos tendões e embaraçam a circulação. E por que nas canicies as macrophagas apparecem e se insurgem ? O organismo periga? Aqui as causas são as mesmas ? Na possibilidade de resposta affirmativa, a que responsabilizar pelas dealbações rapidas dos cabellos resultantes de abalos moraes, de emoções bruscas? Em taes casos as macrophagas são despertadas pelo choque nervoso, nos dirão com Metchnikoff. Mas qual o motivo dos seus rancores se precisarem para o lado da cabelleira, des que todos sabemos que o organismo é semeado desses elementos de defesa? Como explicar a temporalidade da leucotrichia symptomatica e a desapparição do albinismo decla- rada por Herzing e Ascherson? Resta ainda conhecer a razão porque elles dor- 33 mitam durante a mór parte da existência e o seu acordar coincide com a ancianidade. Respondam-nos satisfatoriamente e seremos fer- voroso adepto dessa theoria suggestiva como appel- lidou-a Besnier. A theoria de Malaissez e Kolliker, accusando uma atrophia por falta de nutrição; a de Ehrmann acre- ditando que o descoramento capillar é devido ao facto de que as cellulas pigmentares, sob a influencia de uma causa desconhecida, não preenchem sua funcção e não transmittem o pigmento aos cabellos, e a do Dr. Valverde considerando a canicie senil o resultado de uma acção trophica, são as que mais satisfazem ao espirito. Pena é que os primeiros não assignalassem os fac- tores etiologicos ; o ultimo, como supplemento ao raciocinio que defende, declara que as «grandes e pe- quenas commoçÕes de que se compõe a vida humana se propagam por intermédio dos filetes nervosos ao bulbo piloso, perturbam-lhe a pigmentação como uma corrente electrica atravessando um liquido dá-lhe novas côres.» A comparação agrada muito; porém, seja-nos licito dizer, em qualquer das leucotrichias a acção trophica existe, não ha negar, mas a pigmentação não é per- turbada nem tem logar no bulbo. 34 O pigmento chega aos cabellos por intervenção das cellulas emigrantes atravéz aos pequenos vasos san- guineos que, por seu turno, lhes garantem a nu- trição. Uma vez obliterado o caminho rapida ou lenta, perenne ou temporariamente, (mas quasi sempre por efteito nervoso) e esta por isso mesmo interrompida, elles decididamente tendem a se seccar — embran- quecem. Resumindo, em o nosso modo de comprehender, a canicie é uma trophopathia no fundo nevrotica. Susceptibilidades capillares.— Demasiado cor- rente é a ideia que vingou com a suspeita de influen- cia das côres, que expõem os cabellos no desenvolvi- mento da leucotrichia. E não fica somente ahi essa suspei-ta, prende-se também a sua forma e vai rnais além, liga-se franca- mente ao temperamento, sexo e raça dos seus pos- suidores. A ordem decrescente das susceptibilidades inicia-se pelas cabelleiras negra, serbuna e castanho-clara que denotam um temperamento bilioso; a vermelha de 35 fogo um temperamento sanguíneo; a loura, denotando um temperamento lymphatico, é relegada ao plano derradeiro (Jaccoud). O homem, dando-se o direito do trabalho e da força que lhe garantem o estupendo titulo de musculo e sabendo, no curto espaço de sua passagem sobre a terra, distribuir as energias de modo a engrandecer moralmente a sociedade que representa e a cultivar o espirito que, agora, illumina para deslumbrar de- pois, como incentivo as gerações porvindoiras, haverá ipso facto mui cedo ainda a certeza de sua actividade desenvolvida nesse primeiro punhado de cabellos brancos que tanto nobilitam. Menos expostas aos accidentes da vida, já pelo grandioso papel que lhes foi, desde as primeiras éras, reservado na communhão social que não consentiu que ellas fossem o que não deviam ser, as mulheres envelhecem mais depressa e, entretanto, nellas a ca- nicie é mais retardada. A demora que esta denuncia em chegar ás louras ou negras tranças daquellas, foi mesmo observada no albinismo a que os homens estão mais sujeitos, pelo menos na raça negra. Os cabellGS têm uma historia longa que nasceu com os povos. As legendas que se fizeram delles — centro de força 36 e vida — e se espalharam na Judéa, com Samsão, na Grécia com Alceste de Euripides e em Roma com Virgilio referindo-se as aureas madeixas de Dido, es- posa de Scheo, chegaram té nossos dias repercutidas no uso de se conservar os negalhos de cabellos de um personagem celebre ou ente amado (Cabanès). De Pausanias era a opinião que a vida de Nisus se prendia aos seus cabellos de purpura e a de Pté- réleas, segundo Apollodoro, a um unico cabello de oiro. Suppunha-se em tempos immemoraveis, que os cabellos traduziam infelicidades e esse sistro ainda vigora em astronomia: «o cometa augurio de terríveis acontecimentos traz uma cauda, uma cabelleira». Concernentes a taes superstições legou-nos a Biblia as aventuras fataes de Absalão ficando agarrado aos ramos das arvores quando fugia ás perseguições de Joab; de Hodopherne, general de Nabuchodonosor, morto pela heroica Judith ás portas da Bethulia. Reza a mythologia que os gregos, que tinham uma tão perfeita ideia do bello, não cornprehendiam os seus deuses sem o ornamento luxuriante de uma ca- belleira basta. Em muitos paizes, como antigamente entre os Francos, uns longos cabellos eram signal de auctori- 37 dade conferida aos nobres e representantes do Exer- cito. As’ outras classes não tocava essa prerogativa. Para se ter uma noção approximada do alto valor por elles outr’ora emprestado, lembraremos o caso de um imperador chinez que, decretando o corte dos cabellos dos seus vassallos, o mais que conseguiu foi que estes lhe cedessem a cabeça. Ao contacto dos lustros decorridos, posto que li- mitadas, pouco e pouco se foram esfriando as honra- rias de possessão tamanha. Hoje não sabemos de logar nenhum, onde preva- leça a applicação de taes costumes entre os homens; só ás mulheres compete trazer os cabellos compridos. Entre ellas esse habito, si não recorda uma posse honorifica, tem no emtanto o superior valimento dos deslumbrantes enfeites naturaes que. lhes decidem uma acceitação sem susto nos mysterios sagrados de Betên. Afóra tudo isso os cabellos possuem ainda a pro- priedade physiologica de manter o calor necessário á cabeça, preservando-a das variações de tempera- tura; de suavisar os contactos e amortecer os abalos exteriores de maneira a prevenir toda a repercussão violenta sobre os orgãos encephalicos. Embora mesmo assim, sem a estima grande das epochas que ha muito ficaram atraz, elles preoccupam 38 a humanidade inteira, quando tendem a embran- quecer. Para uns, mais corajosos, essa visita da velhice é simples aviso de que — si já viveram tanto a vida não conhecem; mas, para outros — pavor, contrariedade estúpida a lhes espicaçar a mente fraca em annunciar com a sombria ameaça do descambar para a cova um proximo despreso fúnebre dos olhares provocadores do sexo contrario. Ora, dóe francamente nktlma da gente a presença de qualquer pessoa que, por um futil proposito dos annos, é condemnada a «viver dentro da morte»! Talvez dessa compaixão partiu a revolta na pri- meira tentativa de remediar o mal. E porque as ledas convicções dos povos de me- lioribus annis, que acreditavam no magestoso poder de médicos sagrados revivendo corpos inanimados e a existência prolongando, não vingassem mais com a pratica da Gerokomia, por meio da qual David, rei de Israel, recuperara a mocidade graças ao calor da formosa Abgail, e o velho burgomestre hollandez, de quem falia Boerhaave, remoçara ao contacto de duas virgens; com a mistura de Bacon, feita de oiro, pérolas e pedras preciosas que novas dentições e novos cabellos dava aos individuos chegados a 70 e 80 annos de idade*, porque não vingassem mais essas 39 ledas mas abstrusas crenças, os encanecidos tortu- rados foram encontrar allivio no seio tenebroso da Chimica. O tratamento da leucotrichia não é uma verdade ainda; o arremedo de cura que se conhece não passa do mascarado effeito das substancias melainocomas. Passemos á exposição dos medicamentos em po- madas e tinturas mais divulgados com que se ambi- ciona afugental-a. O emprego da carne de vibora, theriaga, dos my- rabolans e gengibres, com ser frequente, não foi além da inefficacia ás mãos dos experimentadores. FORMULAS DE HEBRA E KA DO SI (para se obter uma coloração negra ) Nitrato de prata 1 gramma Carbonato de ammoniaeo 1,50 » Unguento emolliente 50 » ( í(. alleman ) Nitrato de prata 8 grammas Creme de tartaro 8 )> Ammoniaeo fraco 15 » Axonge 15 » 40 TINTÚRAS ( para uma coloração castanho escura) Acetato de chumbo - 1 gramma Agua de rosa 100 » » » colonia 1 » Ou melhor o Liquido n. j Nitrato de prata crystallino 5 grammas Agua distillada 50 a Liquido n. 2 Acido pyrogallico 3 grammas Agua distillada : 40 * » Espirito de vinho rectificado 10 » Todas as tinturas de 2 líquidos agem pela reacçao chimica das duas preparações, uma sobre a outra. As pessoas que vivem de tingir os cabellos se servem de uma solução de nitrato de prata e outra do sulfureto de potássio; variando o titulo da pri- meira alcançam á vontade, o matiz louro-pronun- ciado, castanho-escuro e negro. Os cabelleireiros usam frequentemente o processo de desembaraçar os cabellos, por uma lavagem ao 41 sabão, das substancias gordurosas e os embeber de- pois, com uma escova no liquido seguinte: Hydrosulfureto de ammoniaco. . . 30 grammas Solução de potassa .... 12 )) Agua distillada 30 » (a solução de potassa é ao vigésimo) Feito isso, submettem-os por meio de uma outra escova á esta solução: Nitrato de prata _ 4 grammas Agua distillada 60 » A tintura americana se compõe de acido gallico e nitrato de prata ammoniacal de mistura á uma sub- stancia viscosa. PREPARAÇÕES CONDEMNADAS O Kobol que é uma solução de tinta da China n’agua de rosa; a Agua Florida que, no dizer dos prospectos só contem suecos de plantas exóticas, en- cerra o acetato neutro de chumbo e flor de enxofre ; e a selenita, carbonato de chumbo de combinação com o carbonato e nitrato de sodio. Finalmente todas as tinturas em que entram os saes de chumbo ou cyanureto de potássio devem ser 42 proscriptas e o emprego daquellas tendo por base o nitrato de prata carece o máximo cuidado, Ainda hoje goza a fama de inoíFensiva a loção de Laforest, cuja applicação é commummente tole- rada : Vinho tinto 360 grammas Sal de cozinha . 4 » Sulfureto de ferro 7 » Bota-se-a a ferver durante alguns minutos e ajun- ta-se-lhe Oxydo de cobre 4 grammas Depois deixa-se-a por dois minutos no fogo e col- loca-se-lhe Pó de noz de galha 4 grammas A coloração alourada é obtida com a agua oxyge- nada que tem o inconveniente de tornar os cabellos friáveis, com a tintura de curcuma, com o acido chrysophanico e o rhuibarbo. De todos esses melainocomas o que encerra o axongee negro de fumo não inspira perigo e pode ser utilizado com frequência, pois que ha só o passageiro incommodo de trazer a attenção sempre prompta a repellir os contactos; sob pena de, uma vez em dis- 43 tracçao, nutrir-se os dissabores de uma transformação a olhos vistos. De negra ou loura que seja a cabelleira passará a malhada e ainda, por cima, com a infelicidade de em- porcalhar as mãos e inutilizar os de valor. MetchnikoíF, tendo em mira a sua theoria, instituiu um tratamento para a leucotrichia firmado na acção do fogo sobre os chromophagos. Um calor de 6o a 70 gráos bastaria, elle garante, para matal-os ou paralysar pelo menos o seu ataque aos pigmentos capillares. E, como exemplo, falia na difficuldade do embran- quecimento para as mulheres que têm o habito de frisar a ferro os cabellos. Foi essa observação que permittiu ao professor Bouchard explicar a acção dos raios Roentgen sobre a recobração do matiz capillar. «Com certeza a nova propriedade que lhes é attri- buida pelo professor Bouchard causará menos te- mores entre os médicos radiographos e até será aco- lhida com prazer pelos que já tiverem passado uma certa idade. Assim como quantidade de outras descobertas, esta dependeu também em grande parte do accaso. Ella é devida a dois radiologos de Montpellier, os Dis. Joubert e Marquez. 44 Um delles cujos cabellos começaram a branquear percebeu um bello dia que rejuvenescia e que a barba e os cabellos voltavam a sua antiga côr preta. Um novo facto náo tardou a vir confirmar esta ideia. que tinha um lupus numa das faces era tratado pelo raio X. Este indivíduo tinha os cabellos e bigodes grisalhos. Só ao cabo de algum tempo a metade da cabelieira e da barba exposta aos raios tomava a sua côr natural, em quanto que a outra metade guardava os seus fios brancos. A radiographia actuará como o calor paralysando ou matando as cellulas comedoras de pigmentos. E’ possível. Mas com os raios X sempre é bom des- confiar. Estes raios são dotados das propriedades mais contradictorias. Nuns, elles fazem crescer os cabellos,ao passo que n’outros produzem a queda. Quando curam o cancro em certas pessoas desen- volvem-nôa em outras. Si em certos casos paralysam os chromaphogos em outros elles são muito capazes de excital-os. E imagine-se um cavalheiro grisalho que para voltar a ter os seus bellos cabellos pretos expõe-nos aos raios regeneradores, e, ao terminar a experiencia, acha-se com cabellos e barba côr de neve»... E' possível, diremos nós também. 45 E, no caso de volta doscabellos ao estado normal, será absurdo suppor-se que a acção do raio rcetgenanò não se faz esperada sobre os pigmentophagos de Me- tchnikoff, sim para o lado dos filetes nervosos que se distribuem aos ramúsculos arteriaes incumbidos da nutrição do systema piloso? Não sabemos e a hypothese fica aventada. Tendo em memória que um dos methodos empre- gados para se estudar as emigrações pigmentares se apoia nos enxertos e injecçoes, nos apressaremos, talvez extemporaneamente, em proclamar que o futuro pre- para pela sciencia dos mestres o tratamento de efficacia para as dealbaçÕes dos cabellos. Carnot e M.clle Deflandre nas experiencias a que procederam em cobayas notaram a extensão em su- perfície bastante rapida do enxerto e a infiltração do pigmento em profundidade. « Au bebut, la pigmentation était uniquement épi- dermique et localisée à la couche generatrice; des greffes plus âgées ont montré une infiltration du côté des cellules epidermiques superficielles et des poils, puis 1’apparition dans le derme de cellules pi- gmentées.»— citado por Bohn. As injeções foram feitas em animaes vertebrados e invertebrados. Carnot inoculava no tecido subcutâneo, no peri- 46 toneo e nas veias de cães e coelhos, o pigmento extrahido de outros animaes. A tanto esforço e trabalho ingente não correspon- deram os resultados que ficaram aquem de mediocres. Logo, porém, que seja estabelecida, como para o microbio, a transplantação do pigmento não parece difficil, é de julgar-se, que por injecção deste na raiz do cabello se possa corrigir a leucotrichia. Esperemos. Quiz um dia a «fashion» ingleza em arroubos de coquettismo doentio transpor os limites das exterio- ridades — delirou... E se concretisou a sua audacia nessa arthopedia mundanal com o fabricante de cilios e superciliôs naturaes. A operação que se segue para tão grotesco fim — o de supprimir as falhas de forma para os enteados da Natureza — é grosseira e dolorosa: alinhava-se a orla livre das palpebras ou a parte carnosa da arcada superciliar com cabellos em fundo de agulhas. No emtanto as esplendidas criaturas, por um simples capricho de arte, muita vez, sedentas de novas sensações, quasi sempre, não recuam ante o sup- plicio que, si lhes tortura a carne deliciosa, pro- mette-lhes a satisfação ephemera, embora, de umas 47 sobrancelhas á hespanhola, de uns cilios negros em plumagem macia. Os olhares que se escapam atravez a essas pestanas postiças emprestam ás suas donas a expressão dese- jada com a tonalidade mórbida de uma poesia ex- quisita. De referencia a tal industria teve graça um delicado poeta quando disse que, de agora para a frente, na Inglaterra, o sexo forte sabendo que Deus havia con- cedido ás mulheres a bocca para fallar e os olhos para responder, não podia acreditar na sinceridade de suas respostas. Por intentarmos a exposição desse fabrico original, não se ajuize que o nosso fito parou gostosamente na contemplação das elegantes que se torturam para agradar; não, foi mais adiante com a lembrança de que, no correr de alguns annos mais, a leucotrichia para gáudio de muitos, encontrará inimiga acérrima na parodia exacta do fabrico citado; com a differença, porém, que a operação aqui será mais dolorosa por exigir a depilação. Registrados os meios conhecidos, e hypotheticos de suppressáo da achromia pilosa, cahiriamos em 48 falta irreparável si fosse nosso o esquecimento de confessar que entre todos o melhor consiste em náo a supprimir. Si a tanto nos atrevemos, não com a pirraça de aperrear os senhores encanecidos, porque não sa- bemos em que ella envergonha; antes, pelo contrario, eleva e considera. Jogando de lado as outras modalidades que são melhormente toleradas, traremos á tona de umas ligeiras apreciações, sem visos de censura, a que mais contraria — a senil. Não dizemos bem, nem sempre contraria. Ha quem receba a sua pontual visitação sem o menor sabor de vexame e com a serenidade invejável de um bravo. A esses os nossos elogios. Intentamos nos referir aos Verdes Cans ('assim nomeados pelo padre Antonio Vieira todos os an- nosos de ardores e imprudências de mancebo). A febre de tingir os cabellos, surge, porventura, com o temor de se parecer aos outros desprezível — ser velho. Quanta fraqueza! E a psychologia de Max Nordau e Longet não sof- frerá excepção. Ser velho é exigir respeito, traçar no coração dos 49 novos a imagem querida dos seus ascendentes — é estar mais proximo de Deus, como disse o poeta. E as mulheres também mascaram a macieza de suas madeixas canescentes! Desculpemol-as. Nellas, esse sentimento de vaidade que as faz descer com Cleópatra e Messalina aos grabatos do prostibulo e subir com Santa Thereza de Jesus e Moema á admiração e estima dos posteros não varia, differe na intensidade de sua manifestação—lembra horrores e deixa encantos. Nos homens é que não podemos enxergar esse descalabro moral sem a repulsa forte de uma ogeriza e repugnância. Esquecem o seu papel, o que merecem e valem sobre a terra. Tingir os cabellos é ser hypocrita a si mesmo; aos outros essa falsidade não illude. O representante de umas cans honradas, si hoje não mais possue a veneração merecida dos espar- tanos, deve no entretanto trazer comsigo essa feliz certeza de infundir n’alma dos moços educados a lem- brança respeitosa de ser a canicie a pagina prateada do livro da existência que confere, aos que se can- didatam, uma recepção capaz á ordem dos victoriosos sublimes —os-Velhos. PROPOSIÇÕES TRES SOBRE CADA UMA DAS CADEIRAS DO CURSO DE SCIENCIAS MEDICAS E CIRURGIC\S ANATOMIA DESGRIPTIVA I As artérias aorta e pulmonar possuem valvulas, ditas sigmoidéas, representadas por trez dobras membranosas, á sua origem. II Cada valvula mostra em seu meio uma pequena massa fibrosa ou nodulo, d' Arantius para a aorta, de Morgagni para a artéria pulmonar. III O fim desses nodulos é tornar a occlusão do vaso mais perfeita. ANATOMIA MEDICO - CIRÚRGICA 1 A região temporal se limita para diante com a apo- physe orbitaria do frontal e o osso malar; para atraz, com o conducto auditivo externo e a base daapophyse mastoide; o bordo superior da arcada zygomatica para baixo e a linha curva temporal para cima. II Ella é revestida de cabellos para atraz e superior- mente. 54 III São os cabellos dessa região os primeiros a perder o pigmento. HISTOLOGIA I O cabello possue trez camadas. II A interna ou medullar é formada de cellulas arre- dondadas ou polyedricas. III No estado normal esses elementos cellulares são impregnados de granulações de pigmento ou me- lanina. BACTERIOLOGIA I Os microorganismos encontram no tubo digestivo dos animaes terreno apto á sua proliferação. II No homem elles prefazem a somma de 128.000, ooo, 000,000 (Strassburger.) III Pelos seus productos de dessassimilação e secreção são apontados como factores etioiogicos da arterio- sclerose. 55 ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGICAS I A hyperhemia nem sempre é um processo mor- bido. II Diversas são as suas causas. II I A emoção explica a « roseola pudica» das raparigas . PHYSIOLOGIA 1 O somno é o estado reparador do organismo. II Tem como causa próxima a fadiga e o esgotamento do systema nervoso. III Estas causas levadas ao excesso produzem a in- somnia. THERAPEUTICA I Os opiáceos têm grande emprego em therapeutica. II A morphina é de todos o mais analgésico. III Da applicação desregrada desta resulta o morphi- nism 56 MEDICINA LEGAL E TOXICOLOGIA I O aborto é a expulsão extemporânea do producto la concepção. II Pode ser espontâneo ou provocado. III Neste ultimo caso é sempre um crime. HYGIENE I O progresso de um povo está na sua hygiene. II As raças pouco ou mesmo nada influem. III Tudo consegue o patriota que é o hygienista do civismo. PATHOLOGIA CIRÚRGICA i O furunculo é de origem staphylococcica. II Elle tem por séde o apparelho pilo-sebaceo. III O tratamento medico é substituído muita vez com proveito pelo termo-cauterio. 57 OPERAÇÕES E APPARELHOS I Das cheiloplastias a mais frequente é a do beiço de lebre. II Este pode ser uni ou bilateral, completo ou incom- pleto. * III A operação varia com o caso apresentado. CLINICA CIRÚRGICA (iu. cadeira) I O sarcoma pode desenvolver-se na glandula paro- tida. II No câncer da parotida o neoplasma e a grandula formam um só corpo, onde o nervo facial e a caro- tida externa ficam englobados. III A operação só será aconselhada quando fôr permit- tida a delimitação do tumor e a sua extirpação total. CLINICA CIRÚRGICA (2.u cadeira) 1 O abscesso frio nem sempre é de origem tubercu- losa. 58 II O diagnostico diíferencial entre este e os outros abscessos está na membrana tuberculogena e no con- teúdo. III A intervenção cirúrgica é de grande valor. PATHOLOGIA MEDICA * 1 A filariose é produzida pela picada do Culex ciliaris. II E’ moléstia endemica nos paizes intertropicaes; no BraziL a Bahia e as Alagoas tomam a dianteira III A cura pode sobrevir espontaneamente. CLINICA PROPEDÊUTICA I O interrogatório é a hygiene do diagnostico. II A applicação da anamnese é asvezès meio caminho andado para o reconhecimento da tuberculose. III O exame objectivo occupará o segundo logar. CLINICA MEDICA (U.8 cadeira) I A sclerose cardio-renal é u’a moléstia própria aos indivíduos de 40 e 5o annos de idade. 59 II A sua evolução, na maioria dos casos, torna-se sub- aguda. III O tratamento ideial seriam as satigrias continuas, abaixando a tensão arterial, extrahindo do organismo as toxinas accumuladas no sangue. CLINICA MEDICA (2*. cadeira) I A sensação do dedo morto é um symptoma do mal de Bright. II A cryesthesia e as caimbras são phenomenos communs nos brighticos. III Pelo reconhecimento destes elementos reunidos pode-se muitas vezes estabelecer o diagnostico pre- coce. HISTORIA NATURAL MEDICA 1 A actividade da respiração está em relação directa com a intensidade da nutrição. II Os animaes superiores, cujos orgãos respiratórios são bem desenvolvidos e onde a nutrição é intensa, produzem uma somma considerável de calor. 60 III Graças as dimensões do corpo, do revestimento de pellos ou pennas elles podem, a despeito das va- riações do meio em que vivem, conservar uma tem- peratura constante. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I O nitrato de prata pode ser administrado em varias formas pharmaceuticas. II Commummente elle faz parte das pomadas de que se servem para tingir os cabellos. III O uso prolongado dessas pomadas muitas vezes dá logar ao argyrismo. GUI MIGA MEDICA í A morphina é extrahida do Papaver somniferum album, familia das papaveracèas. II Esse alcaloide é quasi insolúvel no ether, chloro- formio e oleos essenciaes. III De combinação com os ácidos dá saes geralmente solúveis. 61 OBSTETRÍCIA I A perineomqhia consiste em reparar as rupturas do perineo. IJ As rupturas são completas ou incompletas. III Diversas são as suas causas. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECOLOGICA I À funcção catamenial caracterisa um dos signaes da puberdade. II O seu apparecimento varia com o clima. III A suspensão physiologica dessa funcção toma o nome de menopausa. CLINICA PEDIÁTRICA I As crianças são frequentemente sujeitas á pelade. II O seu tratamento é a hygiene; a depilação tem dado resultado. 62 III A pelade origina a leucotrichia. CLINICA OPHTALMOLOGICA I A inflammaçao da iris recebe o nome de irite. II Dentre os suas causas a mais commum está na sy- philis. III Manifestada a irite, o primeiro cuidado consiste em evitar as synechias. CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I As emoções pathologicas provocam perturbações, passageiras embora, para o lado das faculdades in- tellectuaes. II Uma das suas consequências é a contracção espas- módica dos vasos. III A canicie súbita encontra nellas a sua etiologia. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPHICA I O cancro simples é produzido pelo bacillo de Du- ciey. . 63 II E’ de facil combatimento. III A’ falta de cuidado, traz consequências gravíssimas. Visto. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, 34 de Outubro de 4906. 0 Secretario Dr. Menandro dos Reis Meirelles