Justino Dias Pinto THESE DE DOUTORAMENTO B AIII A 1909 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA APRESENTADA A’ Faculdade de Medicina da Bahia EM 31 DE OUTUBRO DE 1909 PARA SER DEFENDIDA POR Juêtino Dia| Jlinto PHARMACEUTICO PELA MESMA FACULDADE Natural do Estado da Bahia AFIM DE OBTER 0 GSÁO DE Doutor em Medicina DISSERTAÇÃO d ( CADEIRA DE HYGIENE ) DOS EXERCÍCIOS PHYSICQS PROPOSIÇÕES Trcs sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medico-cirurgicaa BAHIA Litho-Typ. e Encad. Rkis & C. Rua Dr. Manoel Victorino, a3 e 22 1909 FACULDADE l)E 1IEDICIM DA BAHIA Director—Dr. Augusto Cezar Vianna Vice-Director—Dr. Manoel José dk Araújo LENTES Os Drs.: Matérias que leeeionam.. 1. Secção José Carneiro de Campos Anatomia descriptiva. Carlos Freitas Anatomia medioo-cirurgica. 2. a Secção Aritonio Pacifico Pereira Histologia. Aueusto Cezar Vianna Bacteriologia. Guilherme Pereira Rebeilo Anatomia e Physiologia pathologicas. 3. a Secção Manoel José de Araújo Physiologia. José E. Freire de Carvalho Filho Therapeutica. 4. a Secção Josino Correia Cotias, Medicina legal e toxicologica. Luiz Anselmo da Fonseca Hvgiene. 5. a Secção Brnz Hermenegildo do Amaral Clinica cirúrgica, 2.11 cadeira. Fortunato Augusto da Silva Júnior... Operações e Apparelhos. Antonio Pacheco Mendes Clinica cirúrgica, 1.» cadeira. Autonino B. dos Anjos Pathologia cirúrgica. 6. a Secção Aurélio Rodrigues Vianna Pathologia medica. Anisio Circundes de Carvalho Clinica medica, l.a cadeira. Francisco Braulio Pereira Clinica medica, 2.n cadeira. 7. a Secção José Rodrigues da Costa Dorea Historia natural medica. Antonio Victorio de Araújo Falcão Matéria medica, Pharmacologia e arte de formular. José Olympio de Azevedo Chimica medica. 8. a Secção Ueocleciano Ramos Obstetrícia. Climerio Cardoso de Oliveira Clinica obstétrica e gynerologica. 9. a Secção Frederico de Castro Rebeilo Clinica pediátrica. 10. Secção Francisco dos Santos Pereira Clinica ophtalmologica. ll.a Secção Alexandre E. de Castro Cerqueira... Clinica dermatológica e syphiligraphica |2.a Secção Luiz Tinto do Carvalho Clinica nsvchiatrica e de mol. nervosas João E. de Castro Cerqueira ) v AisnnnihiUdade Sebastião Cardoso.... Em disponibi í lade. SUBSTITUTOS Os Drs.: Pedro da Luz Carrascosa.) ç * José Julio de Calasans... ) - ' osé Adeodato de Souza 8- » Alfredo F. de Magalhães. 9‘ » Clodoaldo de Andrade... 10' » Albino Leitão 11' « Mario C. da Silva Leal.. 12. » Os Drs.: José À. de Carvalho 1- Secção. Gonçalo M. S. de Aragão j * julio Sérgio Palma I 4 Pedro Luiz Celestino.... 3- > Oscar Freire de Carvalho P > Caio Moura 5- » João A. tíarcéz Fróes.... ti1 » Secretario — Dr. Menandro dos Reis Meirelles. Sub-Sccretario — Dr. Matheus Vaz de Oliveira. A Faculdade não approva uem reprova as opiniões eraittidas nas thesca <(ue ln« são apresentadas. DISSERTAÇÃO A funeção clinica é a que se ef- fcctua á cabeceira dos doentes, no retiro dos lares afíiictos, sem outro juiz nem outra testemunha mais que Deus, sempre presente e vigilante na consciência dos que se approximam d olle pela fé, invocam a sua mise- ricórdia nos desfallecimentos da razão, sabem adoral-o, como manda o Evan- gelho, em espirito o verdade. Francisco de Castro. SUMMULA CAPITULO I.—O exercido physiao atravez da Historia. CAPITULO II.— O rnachinismo ani- mal, seu funccionamento e tra- balho do systcma muscular. CAPITULO III.—A saúde pelo exercício. CAPITULO IV.— O exercício physico nos estabelecimentos de ensino o seus differentes modos. CAPITULO V.— O exercício physico e suas vantagens therapeuticas. A guiza de proemio |||Sí alho, incompleto, baldo de valor pratico, confessamos £3»jjpJ é o trabalho que por obediência ás leis regulamen- tares do ensino damos a publicidade sob o titulo de lhese. N’um campo de observação tão estreito e limitado como o nosso em que a par da penúria de elementos e dados preciosos para a confecção de um trabalho meramente practico, luctamos com a escacez do tempo, é-nos inteira- mente impossível apresentar uma obra de folego edificada sobre os alicerces da pratica, da observação e experiencia. Justamente por esses motivos a que vimos de alludir, foi desviado o nosso espirito para os pontos em que queríamos convergir, porquanto era o nosso intento unico escrever uma these de valor pratico e de cuja divulgação poucas mostras se houvesse dado. Entretanto, apenas esboçáramos os primeiros traços e fomos coagidos a não mais continuarmos a tarefa em- prehendida. Em que pése a múltiplas e differentes opiniões jul- gamos não se enfeixar n’um trabalho de tão pouco tempo e sem o cunho de tudo que é pratico e por isso mesmo de valor, todo o conhecimento dos diversos ramos da sciencia medica adquirido na travessia tão penosa e difficil de seis annos de estudo. Procuramos, comtudo, cumprir o dever que nos assiste. A’ cata de um assumpto que podesse despertar inte- resse não só no meio medico, mas nos diversos departa- mentos da intellectualidade, encontramos na cadeira de hygiene a parte relativa aos exercidos physicos,— íactor de alta relevância no desenvolvimento do homem, estimu- lando-lhe as funcções organicas, educando-lhe o caracter, e tornando-o apto a enfrentar desse modo as barreiras e difficuldades que surgem a cada passo na lucta constante pela existência. E‘ um assumpto muito estudado mas de inconteste valor desde os mais remotos tempos até a hora actual em que a gymnastica medica vae ganhando palmo a palmo o terreno da therapeutica. Vae rumo da critica com as idéas francas que n'elle expendemos o nosso modesto e despretencioso trabalho e quando ao seu encalço venha o pezo da mesma, que possamos dizer com a fronte erguida : Fccit quod polui, faciant meliora potentes. s>■ ‘' j . ~'l d tc • 2 *. / ■ / O exercício physico através da Historia f’ {ai grande classe dos seres organisados, ‘ destaca-se como o verdadeiro typo da creação o homem pela harmonia e per- fectibilidade da sua forma e pela sua força physica. Não ha a negar que embora em sua forma mais simples e rudimentar a cultura physica nas- ceu com o apparecimento do homem primitivo sobre a superfície da terra e, se levarmos mais adiante os nossos olhares investigadores, veremos que Lycurgo, o grande legislador grego na aus- teridade de suas leis exigia que até as mulheres se exercitassem physicamente na persuasão de que os seus filhos nasceriam fortes e bem constituídos. Os Chinezes, Indús, Egypcios e Persas pra- ticavam os exercícios physicos com o melhor methodo possível, accrescendo que entre os Chi- nezes constituíam os melhores exercidos, a dança, a esgrima e a maneira de conduzir um carro com destreza. Entre elles eram feitos os exercícios muscu- lares associados a inspirações profundas, para fortificar os musculos, fazer desapparecer as câ- imbras, as dôres rheumatismaes, os desvios da columna vertebral, etc. Mesmo antes da era christã a gymnastica medica chegou a se -estabelecer entre os Chinezes 10 sob o nome de Kong-fu, tratando-se os doentes e conservando-se a saúde pelo movimento. Na índia os exercicios physicos eram prati- cados pelos Aryas, consistindo a cultura physica dos Indús, nos banhos de areia, a pratica de alguns movimentos, a arte de reter a respiração, as fricções, a percussão, etc. Na Pérsia, conta-nos Herodoto, até a idade de 20 annos, o moço era exercitado — a montar a cavallo, atirar ao arco e dizer a verdade. Foi pelos jogos olympicos, realisados em Olympia, Corintho, Delphos e Neméa, de 4 em 4 annos, durante cinco a seis dias, que nasceram entre os Hellenos o gosto e o amor pelos exerci- cios physicos. Sparta, onde a cultura physica attingio a sua maior perfectibilidade, embora consistisse em preparar os seus filhos nos exercicios para os combates e as luctas, tinha a sua legislação espe- cial, posto que um tanto rude e austera. O spartano, logo ao nascer era levado a pre- sença de um conselho que se julgava fraco e inapto ás intemperies da vida, recolhiam-n’o ao campo, por ser invalido ao serviço da patria. No caso contrario, porem, ainda mais o for- taleciam até attingir a idade de 7 annos, epoca em que eram iniciados os seus exercicios no manejo das armas, na carreira e no salto, até a idade de 17 a 20 annos, quando então se constituíam verdadeiros soldados impeterritos, bravos, fortes e destemidos. E foi assim que Sparta, a cidade heroica da Grécia, tornou-se notável pelo seu systema de educação quasi exclusivamente physica e, porque não dizel-o, patriota, uma vez que por esse facto constituiram-se os seus filhos os mais valorosos e infatigáveis soldados. Fm cada cidade da Grécia, distinguia-se a 11 cultura physica do seu povo, pelo seu respectlvo gymnasio—uma especie de quadrado cercado de porticos ou de átrios na visinhança de uma fonte e com banheiros e salas para exercidos. Ahi o joven grego exercitava-se nos saltos, corridas, jogos de disco, lança e dardo, alem do exercido todo corporal. Já se não dava o mesmo com relação a bella e florescente cidade de Athenas, onde com o fito de manter-se um certo gráo de equilibrio entre o corpo e o espirito — um, templo de outro — na phrase de Voltaire, congraçavam-se na mais inteira harmonia e perfectibilidade a educação physica, a educação moral e a educação intel- ectual. Era que se fazia pratico, comprovado na longa experiencia de muitos séculos, o grande aphorismo do philosopho grego: «Mens sana in corpore sano». Demais, o systema de educação physica pre- conisado entre os gregos não visava unicamente fortalecer o organismo estimulando-o, activan- do-o para a funcção do metabolismo vital, tinha o fito também de educar o caracter, dar-lhes uma certa independencia moral tornando-os, portanto, não só fortes no corpo mas também na alma. Esculápio já aconselhava séculos antes da era christã, os exercicios physicos como bené- ficos a saúde e a conservação de uma plena e sadia vitalidade. Do exposto, já vamos notando a grande dif- fusão que tomou a cultura physica desde os mais remotos tempos, destacando-se entre os que mais concorreram para a sua larga applicação, Hypocrates, Medéa, a magica notável, Hero- dicus, Diocles, Praxagoras, Erasistratus e muitos outros que seria fastidioso enumerar. 12 Roma, celebre por todos os títulos, appro- ximou-se um pouco da Grécia no seu systema de educação physica, sendo o seu gymnasio (porque não o possuía) o campo de manobras onde eram feitos os exercícios de saltos, car- reiras, marchas, jogo de espadas, etc. Não se manteve por muito tempo, n’aquella cidade onde a luxuria e a sensualidade attingiram a meta da loucura, a cultura physica dos seus filhos, vindo muito mais tarde despertar desse lamentável torpôr, com a Renascença Italiana, quando tomou então o maior incremento, che- gando um grande escriptor italiano, n’um tra- balho publicado em 1491 sobre a importância dos exercícios physicos, a externar-se do seguinte modo: « Os mancebos necessitam da gymnastica para combater a preguiça natural do corpo. Os jogos são até um excellente meio de educação com a condição de que não sejam nem muito violentos, nem muito brandos e principalmente não sejam indignos, jamais, de um homem de bem». Entre os exercícios, que pouco a pouco foram augmentados e modificados, espalhando-se até nos estabelecimentos de ensino, destacava-se, n’aquella epocha, o jogo da pela, em que to- mavão parte quasi todos, pobres, ricos, homens, mulheres, moços e velhos, e que, na hora actual, tem se tornado o objectivo das diversões da mocidade brasileira. Na França, onde a cultura intellectual vae pari-passu se propagando entre feixes intensos de luz, o systema de educação physica adquirio a maior importância entre os philosophos e crí- ticos d’aquelle tempo. Montaigne, com a competência dos seus conhecimentos vastos e solidos, espirito arguto 13 e sensato, dizia n’um doce e ligeiro arroubo de poesia: « Não é bastante enrijar-lhes a alma; é também necessário enrijar-lhes os musculos; aquella é muito atarefada se não é secundada e tem muito que fazer para sosinha dar conta dos dos officios. Não é uma alma, não é um corpo que se dirige isolados; é um homem; não é preciso fazel-o em dois; e, como disse Platão, não se deve dirigil-os, um sem o outro ; mas conduzil-os igualmente como uma parelha de cavallos atre- lados na lanca do mesmo coche, etc.» Mas tarde repercutia por toda a França um grito de patriotismo e de philantropia levantado pelo grande escriptor J. J. Rousseau, cujas theo- rias tiveram echo por toda a Allemanha, onde desde então a cultura physica, intellectual e moral chegaram ao mais elevado gráo de per- feição. j N’uma das suas mais brilhantes concepções de talento e n’um arroubo encantador de genio, exprime-se o grande escriptor francez: « Nascemos fracos, temos necessidade de for- ças ; nascemos desprovidos de tudo, temos neces- sidade de assistência ; nascemos estúpidos, temos necessidade de juizo'; o que não possuímos ao nascer e é preciso mais tarde, nos é dado pela educação. Esta ou nos vem da natureza, ou dos homens, ou das cousas ; o desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos orgãos é a edu- cação da natureza ; o uso que se nos é dado fazer deste desenvolvimento é a educação dos homens e o conhecimento da nossa própria experiencia sobre os objectos que nos affectam é a educação das cousas. 14 Ora destas tres educações differentes, — a da natureza não depende de nós, a das cousas não depende senão sob certos pontos de vista, a dos homens é a unica de que somos verdadeiros senhores, pelo menos por supposição». Mais adiante, levando a importância da cul- tura physica e moral ao mais alto gráo de nitida comprehensão, assim expande-se o eminente auctor: « Para se exercer uma arte é mister que se procurem os instrumentos necessários e para se poder empregal-os utilmente, é preciso fazel-os solidos para resistir ao uso. Para aprendermos a pensar é preciso que exercitemos nossos mem- bros, nossos sentidos, nossos orgãos, que são os instrumentos da nossa intelligencia e para tirar- mos todo partido destes instrumentos é neces- sário que o corpo que os fornece seja robusto e são. Assim longe de que a verdadeira razão do homem se forme independentemente do corpo, é a bôa constituição do corpo, que torna as operações do espirito fáceis e seguras». Na Inglaterra, Sydenham, Audry, Fenelon, o abbade Claude Fleury, Tr. Fuller e Tissot, comprehendendo a grande necessidade dos exer- cidos physicos para a conservação da saúde e a cura de certas affecções orgamcas, publicam, uns, tratados sobre gymnastica medica e cirúr- gica, outros, fazendo a sua propaganda, con- correm para o alevantamento do systema de educação physica. A idade media não conhecia a gymnastica. Somente, os aristocratas guerreiros continuaram a se exercitar no jogo da lança sob suas arma- duras de ferro. O proprio Christianismo, que sempre foi 15 hostil á nudez e ao asseio, 'nada fez para le- vantar ou restabelecer os jogos do corpo. Na Allemanha e na Suissa os exercidos phy- sicos eram aconselhados pelos reformadores Luthero e Zwinglio, para combater o deboche, a embriaguez, a gula, etc. A educação, na sua triplice alliança, physica, moral e intellectual, era, como se vê, desde as eras mais remotas, o mais precioso elemento para o estimulo não só do corpo, mas do espi- rito, tornando fortes os individuos desde os seus primeiros passos, creando-os com a segurança do juizo e independencia de caracter. A Noruega, a Áustria, a Suécia, os Estados- Unidos e o Japão, muito cooperaram no levan- tamento da cultura physica. Sabemos que na Suécia foi creado em 1814 um novo systema de gymnastica, conhecido por gymnastica sueca, cabendo as suas glorias e triumphos alcançados ao grande académico Pedro Ling, que estabeleceu o seu systema da seguinte forma: « Gymnastica pedagógica, que ensina a sub- metter o corpo á vontade; gymnastica militar, que ensina a submetter-se a vontade de outro; gymnastica medica, que combate as deformidades e a gymnastica estetica, que ensina a traduzir os sentimentos e as ideias por meio de posições e attitudes ». Poderiamos ainda fazer resaltar o methodo de gymnastica de Zander, largamente apregoado, os processos de Kinesiterapia, hoje usados á larga manu, mas basta-nos dizer que a gym- nastica, especialmente a therapeutica veio do norte da França onde foi engendrada pela neces- sidade ; nesses paizes é necessário acostumar o corpo ás fadigas, para dar-lhe os elementos de resistência necessária ás intemperies. 16 Passou da Suécia, a gymnastica medica para a Inglaterra, onde dois discipulos de Ling, Branting e Indebeten, fizeram-na conhecida; para a Allemanha, onde Rothstein e Neumann, ficaram encarregados da direcção de dois insti- tutos de gymnastica; e para a França, onde se fizeram campeões Triat, Paz e Dally. E pouco e pouco se fez a diffusão de tal modo da arte gymnica, que hoje ella faz parte da nossa educação nacional. Para arrojar-se na lucta pela existência é necessário, que o individuo tenha não só forte o corpo mas também o espirito dando-lhe a precisa e indispensável aptidão para o trabalho e o maior valor moral e intellectual. E1 assim que jamais desmentida se torna a superioridade do povo anglo-saxão sobre o povo latino e sobre outros povos. A educação physica deve ser imposta como uma necessidade absoluta para o desenvolvi- mento das raças e, irmanada a educação moral e intellectual, ter-se-ha também unidas a saúde, a graça, a harmonia e a perfectibilidade do corpo e do espirito. Para que se possa comprehender o effeito salutar dos exercidos physicos, necessário se torna que digamos algo sobre a machina animal. O machinismo animal, seu func- cionamento e trabalho do sys- tema muscular , randes são as modificações que o exer- cicio bem regrado imprime ao orga- > nismo influenciando favoravelmente o seu funccionamento. Toda energia que se desprende pela combustão dos alimentos é transformada, como se sabe, em calor e trabalho mecânico, manten- do-se desse modo um equilibrio mais ou menos perfeito entre os actos vitaes da economia. Para que haja trabalho na machina organica é necessário que haja a producção de calor, que haja a transformação de uma força. O organismo é a séde de reacções e combi- nações chimicas, de combustões e trocas, liber- tando uma maior ou menor quantidade de calo- rico nelle encerrado em estado latente ou nos alimentos que concorrem para a sua manu- tenção. O oxygenio e o hydrogemo são os agentes prin- cipaes das combustões organicas. As combinações chimicas formadas na eco- nomia pelo contacto das substancias azotadas dos alimentos com o oxygenio, fornecido pela res- piração, tomam o nome de oxydações, as quaes podem ser completas e incompletas. Entre as primeiras estão o acido carbonico, o vapor d’agua e a uréa como termo ultimo das oxydações das substancias azotadas. 18 Xo numero das segundas, isto é, como pro- ductos de combustão incompleta, está o acido urico que pode se transformar em uréa por per- oxydação. Depois do trabalho, formam-se no organismo productos de desassimilação e que devem ser eli- minados por serem nocivos aos actos vitaes da economia. Os orgãos encarregados da sua expulsão são: o pulmão, que elimina pelo ar viciado da expi- ração, o acido carbonico e o vapor d’agua; o rim, que elimina pela urina, a uréa, o acido urico, uratos, etc.; a pelle que elimina pelas glandulas sudoríparas, o suor com os seus ácidos láctico, sudorico, saes, chloruretos, as vezes uréa, acido carbonico, etc., os intestinos encarregados de expeílir o excremento — accumulo de residuos alimentares, com secreções do figado, do pancreas, etc.; as glandulas salivares, etc. O exercido physico augmenta as combustões organicas. O agente excitador natural do musculo é a vontade, o agente transmissor do movimento é a fibra nervosa e o agente immediato e execu- tador do movimento é o musculo. A vontade, factor de ordem puramente psy- chica, ordena e o musculo obedece, mas para dar-se este facto torna-se necessária a intervenção do systema nervoso. A vontade produz um abalo molecular das cellulas da substancia cinzenta que se propagando dos filetes nervosos motores vae até a libra muscular produzindo um verdadeiro movimento ondulatorio que em nenhum outro orgão da economia é dado se verificar, sendo apenas provado no systema muscular pelo pro- fessor Marey, por meio de apparelhos enregis- tradores especiaes. Quanto mais intensas, successivas e rapidas as 19 incitações musculares, tanto mais numerosas são as ondas musculares que se agrupando e se fun- dindo determinam um endurecimento unico do musculo que traduz a contracção muscular. A vontade, muito embora não possua uma acção directa sobre a fibra muscular, a medulla e os nervos, age contudo sobre a substancia cin- zenta das circumvoluçÕes cerebraes, e a prova disso é que sendo extrahido o cerebro, desap- parece toda a motilidade voluntária. Sem o auxilio do cerebro, da medulla espinhal e dos nervos, todo o poder da vontade desaparece ; é necessário, portanto, que se mantenha integra e perfeita essa ligação entre as fibras musculares e a rêde nervosa. Entretanto os musculos, graças ao seu poder de contractilidade, podem se mover e funccionar por qualquer excitação de ordem mecanica, phy- sica ou chimica. O trabalho do musculo no decurso de um exercicio violento, resume-se numa congestão activa e por isso mesmo num maior funcciona- mento de todos os orgãos da economia, por isso que não são somente os musculos que trabalham, todos os orgãos internos funccionam com mais actividade e energia sob o effeito da sua con- tracção. A vantagem do exercicio physico está, portanto, na superactividade de todos os orgãos, no au- gmento das suas forças de nutrição, no equilibrio das combustões vitaes. A circulação após o exercicio torna-se mais activa, ha maior affluxo de sangue para a parte que trabalha e faz-se uma acceleração sanguínea por toda a arvore circulatória, explicando-se peia aspiração do sangue aos musculos que se con- trahem, a acceleração do pulso durante o acto do exercicio. 20 E’ o exercício physico que incontestavelmente contribue para o desenvolvimento funccional do musculo. E’ elle que concorre para a coordenação dos movimentos, fazendo-se para isso precisa a intervenção n'um mesmo membro de musculos, uns de acção diametralmente opposta a outros. A sua acção é quasi sempre alternativa, por isso que não ha movimentos isolados ; um membro ajuda a outro e para que na execução desses mo- vimentos haja um equilíbrio mais ou menos perfeito, é necessário que um musculo aja en- trando em contracção o seu musculo antagonista, sendo moderado e rectificado o movimento pela acção destes musculos cuja educação se faz pelo sentido muscular. Diz Dujardin-Baumetz : «As modificações que se passam na nutrição dos musculos sob a in- fluencia do exercício, são conhecidas de todos. Que nos baste lembrar o braço do ferreiro e os grastrocnemicos do dansador. Porem a gym- nastica faz mais; dá mais laxidão e mais força ás articulações. » Já fizemos ver que a temperatura do musculo se eleva sob a influencia da contraccão, o aífluxo do sangue augmenta, sendo este negro e rico em acido carbonico; forma-se o acido sarcolatico e assucar, augmentando as matérias extractivas. Eis ahi a fonte do augmento do calor animal, a fonte da força, consequência da combustão das matérias hydrocarbonadas nesta machina de mo- vimento que se chama o musculo. Tem-se proclamado sempre e em toda parte a superioridade do exercício sobre a ociosidade. E’ assim que o povo dos campos se sobrepuja em vigor sobre as populações das cidades e sobre o homem intellectual. Analysemos a influencia do exercido sobre os phenomenos mecânicos e chimicos da digestão. 21 Em consequência dos movimentos impressos ao diaphragma e aos musculos das paredes abdo- minaes, é activada a progressão do bolo ali- mentar e, como veremos mais adiante, o exer- cido regularisa as funcções da defecação, sendo um dos principaes meios de combater a consti- pação habitual. Os movimentos do diaphragma acceleram a circulação porta e, desse modo favo- recida a absorpção intestinal, ficam preenchidos os vasios que o exercicio determina. O coração augmenta as suas contracçÕes, as artérias se dilatam e o sangue aflue aos musculos em contracção. O sangue venoso, em consequência de múltiplas contracçÕes musculares, se accelera nas veias ficando menor porção estagnada no pulmão porque este augmenta os seus movimentos e toma maior amplitude. Longet, em apoio desse facto, como faz bem observar Dujardin-Beaumetz, explica a rasão porque os typographos e as lavadeiras, são mais atacados, na immensa maioria dos casos, de va- rizes nas pernas, do que os individuos cuja pro- fissão exige uma marcha batida e muitas vezes de mais longa duração do que a estação que soffrem os primeiros. Os movimentos methodicos constituem o melhor meio de repartir o sangue uniformemente sobre o corpo. A congestão do cerebro nos homens de ga- binete, a congestão dos orgãos abdominaes nas pessoas que vivem sempre sentadas, a nenhum tratamento cedem tão rapidamente quanto aos exercicios musculares. São estes exercicios que previnem o atheroma arterial e a hypertrophia cardíaca consecutiva; sabem todos que o exercicio systematico dos mus- culos da parede abdominal é o tratamento por 22 excellencia das estases sanguíneas do systema porta, consequência da obesidade. O exercício methodicamente feito, augmenta a frequência e a amplitude dos movimentos res- piratórios; d’ahi o desenvolvimento do thorax pela maior quantidade de ar que entra a cada inspiração tornando portanto mais oxygenado o sangue. Marey e Hillairet com o auxilio do pneumo- grapho, verificaram na escola de gymnastica de Joinville que em quatro ou cinco mezes um ho- mem adquire por este meio uma capacidade res- piratória que póde ir do duplo ao quaduplo. Póde parecer, a prima facie, admiravel que, simples movimentos do corpo, executados du- rante alguns minutos diariamente, tenham uma tão grande e tão feliz influencia sobre todas as funcções do organismo. Mas, basta conhecer os mais rudimentares princípios de historia natural e de physiologia para que no espirito fique a convicção dos efleitos desse ou d'aquelle exercício sobre essa ou aquella funccão da economia. Eis porque, já dissemos linhas atrazadas, fa- zendo trabalhar com methodo, entre outros, os musculos inspiradores, a gymnastica racional desenvolve a caixa thoraxica tornando-a movei, de sorte a terem a liberdade necessária os movi- mentos da respiração, por isso que respirando-se bem elimina-se melhor o acido carbonico e outros productos voláteis que se formam no sangue du- rante a combustão e que não podem ficar por serem toxicos. Quando por qualquer causa a respiração não se faz bem, certas partes dos pulmões não func- cionam, sobretudo numa vida sedentária; elles se atrophiam, tornam-se doentios e fracos consti- 23 tuindo então um maravilhoso terreno para a vida dos microbios. Deduz-se, pelo que fica exposto, a grande uti- lidade dos exercicios physicos na conservação da saúde e no prolongamento da existência, man- tendo-se energicas e fortes as raças e os povos. Diz o Prof. Kumlien que « foi devido aos exer- cicios physicos que a raça sueca que deperecia, que se estiolava, fornece agora, apezar da rudeza do clima, homens robustos, fortes e de caracter firme.» E’ o mesmo autor, que n'um brado de patrio- tismo e sciencia, exclama: « E’ urgente reagir: quantas pessoas doentias, que usam e abusam dos medicamentos e sobretudo, quantas pessoas debilitadas tendo o que se pode chamar uma meia saúde, uma meia forca, não sendo precisamente doentes, porem parecendo sempre em vesperas de sel-os, em equilíbrio instável ? » E conclue terminantemente: « Isto não é viver, é arrastar a vida! » Mais adiante diz : « Resignar-se a um tal genero de existência — algumas vezes tão penivel que dá muito ner- vosismo e mesmo ideias de suicidio, — é aban- donar uma grande parte da felicidade que se pode esperar neste mundo, é comprometter o successo do que se emprehender, porque se não terá a energia, a força sufficiente. Emfim, é arriscar de todos os modos, fazendo a desgraça dos seus, se se torna chefe de familia, porque se lhes legará taras physicas e uma situação inferior áquella que se poderia lhes deixar. » A saúde pelo exercicio J'Á vida traduz força e movimento, ener- f*(v? e tra acção e reacção. X Fonte inexhaurivel de saúde, o exer- 1 cicio physico age beneficamente sobre todos os orgãos da economia animal, estimu- lando-lhes nas suas funcções e concorrendo para a eliminação dos materiaes de reserva que se formam no seu mecanismo intimo. A vida sedentária é a causa, como se sabe, de muitas affecçÕes produzidas pelo accumulo desses materiaes e pela não combustão dos productos azotados. E’ o exercício physico, portanto, bem dirigido e methodico que previne todos esses estados mór- bidos, não só promovendo o desenvolvimento funccional dos musculos, mas também activando os phenomenos da circulação, determinando o augmento do appetite, auxiliando as funcções da nutrição, expellindo emfim, esses materiaes de reserva que vão sendo uíeis a proporção que se vão formando. Demais, á sedentariedade, são devidas muitas outras moléstias que, se não fôra o grande depau- peramento da economia pela inacção que é corol- lario d’aquella, não attingiriam tão desmesuradas proporções. A anemia, a degeneração gordurosa, o lympha- tismo, a inappetencia, a atrophia, o diabetes, o 26 cancro, a tuberculose, a albuminúria, os cálculos hepáticos e renaes, são affecções quasi sempre determinadas pelos hábitos de uma vida seden- tária. A mulher, de ordinário, nesse periodo de grandes transformações no seu organismo, na epoca da puberdade, quando de crysalida transfor- ma-se em borboleta, soffre os mais rudes em- bates da natureza, cahindo n’um enlanguecimento de morbidez e de hypocondria, ás superexcitações e vibratilidades do seu systema nervoso. E então surge com todo o seu cortejo sympto- matico a anemia, o lymphatismo, a chlorose, todos os phenomenos ernfim de dyscrasia sanguínea, uma vez que toda a arvore circulatória resente-se da falta de um estimulo para o seu revigoramento; e só o exercício physico será bastante para tornar o seu organismo se não forte, pelo menos sadio para desse modo poder preencher os fins a que é destinada, no desempenho sublime e grandioso de perpetuar a especie. A familia, como disse oufirora um escriptor eminente: «aviario sublime onde as gerações se emplumam, colmeia grandiosa de onde os seres se desatam, fonte crystallina onde a humanidade se reflecte, se resume, e se concentra», a familia, para sua perfeita e completa felicidade, para man- ter-se com a independencia e autonomia que lhes são indispensáveis, necessita que a sua frente se colloque uma mulher de uma aprimorada edu- cação physica e moral, para o seu inteiro susten- táculo. E1 na phase da nubilidade, quando toda eco- nomia caminha para as transformações, que se torna imprescindível, de absoluta necessidade, não só para a mulher, mas também para o homem a educação physica, por meio dos exercícios brandos e fáceis, fazendo assim desapparecer essa 27 irritabilidade nervosa, causa efíiciente desses estados neurasthenicos e hypocondriacos. Ha exercicios especiaes para as jovens, caben- do-nos a verdade confessar que resentem-se desta falta os nossos estabelecimentos de ensino onde se devia instituir a pratica desses exercicios, de accordo sempre, comoé natural, com a força mus- cular de cada uma. Sem querermos ainda entrar no estudo dos differentes modos do exercido, vejamos como se deve pol-o em pratica. A hora, a estação, o meio são condições essen- ciaes para que se possa levar a effeito qualquer exercício physico. O clima, sob o qual vive o indivíduo, influe poderosamente, sendo que ha mais disposição individual para o trabalho no clima frio, ao con- trario do que acontece no clima quente. Traslademos para estas linhas a opinião, nesse sentido, do Dr. Álvaro Borges dos Reis, na sua these inaugural: « Se no clima quente o indivíduo se recusa ao trabalho, aos exercicios contínuos do corpo, elle deve comprehender a sua necessidade immediata, porquanto elles fazem apressar ou pelo menos alimentar mais fortemente as combustões orgâ- nicas necessárias as funcções vitaes ; do enfraque- cimento, irregularidade e lentidão destes resultam o enervamento, a preguiça e o alquebramento, etc., caracteristicos dos habitantes dos climas quentes ou tropicaes. Apressando ou alimentando regularmente as combustões organicas, o homem dos climas quentes pelo trabalho muscular, corrige e modera a intensidade do calor que recebe do meio circum- stante, pelo calor que perde ou irradia no. suor, pela transpiração. Sabe-se que a transpiração rouba calor ao 28 corpo e como ella pode ser provocada pelo exer- cício physico, este praticado, sem ir á fadiga mus- cular, no clima quente, pode equilibrar ou mo- derar o augmento da temperatura exterior que o corpo recebe, pela perda de calor que neste se produz. No clima frio se o indivíduo geralmente atira-se ao trabalho é porque sendo nenhum ou diminuto o calor que recebe do meio que o cerca, o seu orga- nismo para bem equilibrar e activar as combustões vitaes pede emprestado o calor necessário ao exer- cido muscular. No clima quente, em geral, deve-se guardar um repouso entre as 12 e ás 2 horas do dia por serem estas mais quentes.» Quanto ás horas em que convém de prefe- rencia, executar os exercícios, ouçamos o que diz o Prof. L. G. Kumlien, no seu livro aGymnastica para todos.» «E’ de preferencia depois de ter comido um pouco (depois de ter feito um ligeiro almoço), que convém fazer sua serie de exercícios, com as janellas abertas. Que se levante dez minutos mais cedo, será tempo bem empregado, que fará ganhar horas inteiras no dia, graças as boas disposições assim adquiridas. Quanto a sensação de bem estar e aos felizes effeitos sobre a saúde que produzirá este exercício matinal nós não temos necessidade de lembral-as. No dia, notadamente após um trabalho cere- bral fatigante, será muito util fazer ainda alguns exercidos, mais brevemente do que na serie da manhã. Por exemplo, as creanças poderão repetir os dez primeiros movimentos de sua serie. Se se não janta muito tarde, ou se não se deita muito cedo depois de ter jantado e que se soffre de insomnia, será util fazer movimentos 29 para descongestionar o cerebro (movimento das pernas.) Para os exercícios não é necessário ter um costume especial. Uma calça |um tanto usada, uma camisa de flanella e pantufos formarão um fato perfeito.» Mais adiante, fallando sobre a hydrotherapia, como complemento aos exercidos physicos, con- tinua o mesmo auctor: «Eis aqui algumas indicações sobre os cui- dados de hydrotherapia que completam maravi- lhosamente o effeito da serie de exercícios. Tem-se uma banheira a sua disposição; enche-se-a de agua fria, (abre-se a torneira no momento em que se começa os exercícios) e mergulha-se. Não se faz senão entrar ou sahir; depois, fricciona-se todo o corpo, as extremidades, o peito, o dorso, etc., fricciona-se vivamente para facilitara reacção (com uma toalha felpuda). Lembremos que se começa, durante a esta- ção quente, a tomar este banho para se habituar a agua fria. Uma vez habituado, continua-se mesmo no inverno. Ou ainda começa-se com agua morna, acostumando-se progressivamente a agua fria. Se se não tem banheira ou installação de ducha a sua disposição, se empregará uma esponja molhada e um tubo. Na falta de tubo e de esponja servir-se-ha de uma toalha mo- lhada. Toma-se depois uma toalha secca, com a qual faz-se uma energica fricção». Analysemos os efffeitos physiologicos do exer- cício e da gymnastica: Já estudamos o effeito dos exercícios sobre os phenomenos mechanicos e chimicos da di- gestão, sobre a respiração e a circulação, vejamos agora a sua acção sobre o systema nervoso. Diz o Prof. Dujardin-Beaumetz : A gymnastica 30 exerce uma poderosa sedação sobre o systema nervoso; a medida que a força muscular torna-se mais viva, a sensibilidade perde a sua impressio- nabilidade; ora, o musculo não age sem incitação nervosa. Os exercicios violentos, a lucta, são máos meios para a elaboração cerebral. Esta não póde se fazer senão em consequência de uma justa ponderação entre o trabalho corporal e o tra- balho do espirito. O trabalho cerebral se manifesta por um aquecimento da machina animal, corollario do augmento das oxydações; os dejectos que pro- veem dos attrictos se accumulam no cerebro; a lentidão das concepções seguiria, portanto, o azeitamento desta rodagem organica se a elimi- nação ahi não estivesse para restabelecer o equi- líbrio. E’ o que vem fazer o exercício physico entre dois trabalhos do espirito. Sob sua influ- encia, a respiração e a circulação se acceleram, o suor vem cahir em grossas gottas na super- fície da pelle; o calor se reparte por todo o corpo com o sangue, os dejectos que resultam do gasto da substancia cerebral, se eliminam. O tra- balho cerebral torna-se então possível. Eis ahi porque a ponderação entre os trabalhos do corpo e do espirito é tão importante. Não convém sacrificar um ao outro. Formando unicamente athletas, corre-se o risco de não se constituir senão pobres de espi- rito; não cultivando senão as faculdades intel- lectuaes não se dá nascimento senão a productos mal vindos, incapazes de se reproduzir ou enche-se a humanidade de impotentes e de cacochymos. Se se quer fazer contrapeso ás formidáveis invasões do systema nervoso, diz Paz, é preciso 31 que se favoreça a vingança do systema mus- cular.» Ahi está a salvação. J. Muller faz observar que o aperfeiçoamento nos exercicios consiste tanto em supprimiros mo- vimentos simultâneos inúteis, como adquirir a agilidade dos movimentos uteis. Ora, o mecanismo dos movimentos combi- nados tem sua séde no systema nervoso central; donde em summa o exercicio do systema ner- voso. Pela educação muscular nós educamos por- tanto o nosso systema nervoso, de onde parte a impulsão e a ordem regulada do movimento.» A gymnastica levanta a resistência physica, sendo um dos seus mais sanitários effeitos, e a força muscular augmenta prodigiosamente forne- cendo portanto maior resistência ás moléstias. Arnould, no seu tratado de Hygiene, diz que o augmento da vitalidade geral que determinam os exercicios methodicos, assim como o augmento da capacidade respiratória, póde ter uma feliz influencia sobre os pulmões predispostos á ecclo- são dos tubérculos, porém não está provado que a falta ou antes a fraqueza dos exercicios phy- sicos tenha jamais sido uma causa de tisica. O exercicio physico/avorece o endurecimento, ás fadigas e a resistência physica. Diz-nos a historia que o exercito de Napoleão que ganhou a batalha de Austerlitz, composto de homens arrebatados e acostumados as fadigas, fez quatrocentas léguas em quarenta dias sem deixar doentes no caminho. Quanto aos effeitos da gymnastica sobre a har- monia das formas, ouçamos ainda o que diz o prof. Dujardin Beaumetz. «Uma maneira uniforme de se ter, quer ins- tinctiva, quer forçada, acaba por arrastar certos vicios das formas. 32 O mobiliário de escola favorece algumas des- tas attitudes viciosas. Estas acabam por se trans- formar, por habito, em attitudes favoritas e ordi- nárias. O processo nutritivo, por causa de certos movimentos constantemente os mesmos, é des- viado ; é assim que se produzem certas atrophias musculares, certas hypertrophias, desvios do es- queleto, etc. Lançados á agricultura ou a industria, os jovens são forçados a repetir sempre o mesmo trabalho, de onde sempre os mesmos movimentos. Certos membros se desenvolvem assim em de- trimento de outros, certas partes do corpo, se hypertrophiam quando outras regridem. Esta alteração das formas humanas é muito commum em nossas sociedades civilisadas. Por- tanto o exercício methodico bem equilibrado e compensador quando ha logar, é uma necessidade na sociedade moderna. Os resultados obtidos pela kinesitherapia pro- vam além disso o poder do exercício e os bene- fícios que delle se pode tirar e esperar». E termina o emerito professor: « Em summa a gymnastica augmenta as for- ças musculares e a saúde nos indivíduos de bôa constituição; os fracos perdem ao contrario o seu peso. A gymnastica emfim, engendra a ale- gria, regularisa o somno e as dejecções, reanima o appetite, levanta o pulso, a temperatura e a respiração e diminue a irritabilidade nervosa». «Sobre o funccionamento da pelle o exercício tem uma evidente influencia, sobretudo quando se manifesta por uma transpiração mais ou menos abundante. Porém, mesmo sem este effeito particular- mente visível, o exercício acciona a pelle de um modo efficaz e tanto mais util que ella fórma um verdadeiro orgão, e que contribue, como os pul- 33 mões e os rins para a eliminação de productos prejudiciaes para o organismo. O exercicio methodico tem a melhor influencia sobre o funccionamento da pelle, sobretudo se elle é completado, como deve sel-o, pelos cui- dados de hydrotherapia, de lavagem, de fric- ção, etc.». E’ inteiramente desnecessário proclamar mais alto ainda a superioridade do exercicio physico como fonte de vigor, saúde e energia e mais ainda como factor preponderante no desenvol- vimento do espirito, estimulando o instincto da coragem e educando a vontade, porquanto, aqui- latam pelo menos do seu inconteste valor como tal, aquelles que se entregam a pratica constante dos rudes exercicios corporaes. O Prof. L. G. Kumlien, da Suécia, convicto dos grandes benefícios prestados pelos exercicios physicos, abre o seu livro «Gymnastica para todos» com a seguinte introducção: a Pour vivre vieux et en bonne santé, faire chaque jour quelques minutes d’éxercice sans appareil, d’aprés la methode suédoise». E num afan de verdadeiro educador, reco- nhecendo o valor physico, hygienico e moral desses exercicios, invoca aos moços, profes- sores, paes de familia, amadores de sport, aos homens de gabinete, aos operários das cidades, instituidores, etc., fazendo resaltar a utilidade da educação physica sobre o seu futuro, o futuro da patria e o futuro da raça inteira. Portanto, grande, transcendente e incontestável é o valor dos exercicios physicos sobre os actos vitaes da economia. « Ha cincoenta annos pas- sados, diz Jules Rochard, em seu tratado clás- sico de hygiene, a força physica e a destreza eram completamente abandonadas. A harmonia das formas a pallidez do semblante, a finura dos 34 traços juntas a myopia e a um ar doentio, pare- ciam o suprasummo da distincção; hoje esta debilidade e esta fraqueza não são mais da moda. A destreza, o vigor e a saúde readquiriram os seus direitos na admiração da mocidade e por isso nós nos felicitamos. E’ preferivel ser forte do seu biceps, de sua agilidade e de sua perspi- cácia. do que alimentar sua gastralgia e lisonjear sua meia cegueira». Para terminar o presente capitulo resumamos os preceitos hygienicos dos exercicios, conforme Le Blond e Couvreur citados pelo Dr. Álvaro Reis em sua these inaugural. i.° Os exercicios violentos ou excessivos são nocivos a saúde. Ensina a experiencia que a maior parte daquelles que abusam das suas forças morrem na flor da edade ou, pelo menos, não chegam a uma edade avançada. 2.0 Os exercicios musculares convêm a todas as edades, os mais brandos ás creanças e aos velhos, os mais energicos aos adolescentes e aos homens feitos. 3.° Os exercicios moderados são favoráveis ao desenvolvimento dos orgãos na mulher. 4.0 O temperamento nervoso e o tempera- mento sanguíneo são de todos os temperamentos, os que exigem mais o emprego dos exercicios musculares activos, emquanto que os exercicios mixtos e passivos são os que convêm ao tempe- ramento bilioso. 5. Os exercicios devem estar em relação com a força e os hábitos anteriores do individuo. 6. As diversas posições sociaes reclamam em differentes grãos o emprego dos exercicios do corpo. E1 evidente, com effeito, que aquelles que, por sua profissão são adstrictos a um rude labor, fazem por isto mesmo exercicio. 7.0 Os exercicios devem ser menos energicos 35 nas estações quentes e sob os climas quentes que durante ás estações frias e sob os climas frios. 8.° Os exercícios muito activos não devem ser praticados senão antes da refeição ou pelo menos depois, quando a digestão estiver termi- nada ; e, devem ser abandonados cerca de meia hora antes de se tomar a alimentação. 9.0 É preciso, durante o periodo dos exer- cícios activos fazer-se o uso das vestes des- afogadas que permitiam ao corpo mover-se livre- mente. As vestes devem ser boas conductoras de calor, salvo a que está collocada immediatamente sobre a pelle, devendo-se tiral-a quando húmidas de suor. 10. Não se deve, jamais, passar bruscamente do estado de repouso absoluto ao de actividade, nem do estado activo ao estado de repouso. É necessário serem poupadas as transições e proceder de conformidade com os princípios da natureza. 11. Tanto quanto fôr possível os exercícios do corpo devem ser praticados em pleno ar e n’um solo constituído de terra calcada ou batida.» O exercício physico nos estabele- cimentos de ensino, seus diffe- rentes modos oyi p yy) IPndiscutivel é a necessidade da cultura physica nos estabelecimentos de ensino. A Inglaterra, a Allemanha, a Suissa, ™ os Estados-Unidos, a Bélgica, a Hollanda, a Suécia, todos os paizes emfim do velho mundo, adoptam o systema de educação physica como parte constituinte dos programmas de seus esta- belecimentos de ensino. O ensino da gymnastica tornou-se obrigatorio em todos os estabelecimentos da Europa, pela lei de 27 de Janeiro de 1880, que tem prestado, como bem disse Mangenot, um relevante serviço á mocidade das escolas, não tardando a se fazer sentir a sua feliz influencia sobre o estado geral sanitario dos jovens escolares. Não se pode comprehender a educação intel- lectual sem a physica. As duas, na autorisada opinião de um emerito scientista, devem sempre caminhar juntas. A rodagem cerebral não deve funccionar mais do que a rodagem motora; toda a sciencia da educação está em saber repartil-as. A educação intellectual não deve ser a unica e exclusiva; combinada a educação moral e phy- sica, constitue o apanagio das raças fortes e 0 38 ideal para o futuro desenvolvimento das gerações futuras. Todas devem andar de par a poder desse modo se estabelecer o equilíbrio orgânico. « Mens sana in corpore sano.» No Brasil cuida-se mais da cultura intellectual do que da physica; sobrecarrega-se o cerebro da tenra creancinha «sem olhar-se para o corpo que declina e se enfraquece, de sorte que, quando soar a hora da colheita dos fructos de um labor e sacrifícios de tantos annos da nossa mocidade, debalde ella vibrará, porque não pode ser ouvida e se o fôr, será difficilmente porque o corpo não tem força ou a tem muito insufficiente para obe- decer a intelligencia.» Na França, dia a dia, vão-se creando novas ligas de Educação physica e os congressos da Fa- culdade de Medicina de Paris sobre hygiene es- colar luctam a cada passo pelo alevantamento da cultura physica da mocidade. A escola é o complemento do lar, o templo onde se aprende a pensar por si mesmo, cri- ando energias para o endurecimento na lucta pela existência. Mas a educação physica nas nossas escolas é uma utopia, é uma phantasia que não se realisa e apenas se encerra nos programmas de ensino, quando entretanto assim não deveria ser. Que se tome o exemplo do povo inglez de quem falia o grande francez Edmond Desmoljns referindo-se ao que lhe escrevera o Dr. Reddie sobre o regimen de suas escolas. «Nosso fim é chegar a um desenvolvimento harmonico de todas as faculdades humanas; a creança deve tornar-se num homem completo afim de que se encontre em estado de preencher todos os fins da vida. Para isto a escola não deve ser um meio artificial em que não se está em 39 contacto com a vida senão pelos livros; ella deve ser um pequeno mundo real, pratico, que col- loque a creança tão perto quanto possivel da natureza e da realidade das cousas. Não se deve conhecer somente a theoria dos phenomenos, mas também a sua pratica, e estes dois elementos devem estar unidos intimamente á escola como estão em derredor de nós, a fim de que entrando na vida o mancebo não entre em um mundo novo para o qual não foi prepa- rado e onde estará como desorientado. O homem não é uma pura intelligencia, mas uma intelligencia unida a um corpo, devendo-se, portanto, formar a energia, a vontade, a força physica, a habilidade manual, a agilidade, etc.» Muitissimo bem. Diz um escriptor: « E’ necessário que a mo- cidade tenha perfeição physica, moral e intelle- ctual; o desenvolvimento de uma, de modo algum pode excluir a outra, tal as intimas relações que mantêm, de onde a necessidade dos programmas de ensino obedecerem restrictamente as regras de hygiene, fóra de cujo circulo nada se poderá fazer com resultado feliz.» J. A. Doleris numa linguagem de eloquên- cia e de convicção, referindo-se as cousas do colosso norte americano, no congresso de Hygiene Escolar de Paris, em 1903 disse que na grande republica, muitos dos «seus grandes homens for- maram-se na escola pratica da vida,— estadistas proeminentes, grandes financeiros, banqueiros e jornalistas,—sem que nunca em sua vida redu- zissem a sua actividade a passarem longas horas agarradas ás paginas dos livros, na esterilidade de estudos puramente theoricos.» A educação da creança não deve exclusiva- mente restringir-se a educação intellectual, por isso que do mesmo modo que a educação phy- 40 sica aquella produz a surmenagem, a ergas- thenia. Os productos orgânicos do funccionamento cerebral— acido urico, acido láctico, cholesterina, ptomainas e leucomainas—não sendo eliminados se transformam em venenos que intoxicam os neuronas, tornando desbarte o cerebro incapaz de toda e qualquer assimilação. Charrin, Fleury e Roger em referencia a fadiga cerebral, dizem que ella determina o accu- mulo dos ácidos diminuindo desse modo a alca- linidade dos humores e o seu poder bactericida. Alliem-se a educação physica, moral e intel- lectual porque dessa triplice alliança é que depende muitas vezes ou sempre o futuro do homem, o futuro das raças e o futuro da patria. Em diversos paizes do velho mundo o ensino da gymnastica, em proporção com a idade e o gráo de desenvolvimento physico da creança, tem se alargado extraordinariamente incitando o espirito de todos os pedagogos á campanha em prol da educação physica. « A creança que pratica exercidos physicos tem um somno calmo, evita-se que ella contraia vicios, que têem por causa a indolência, a fraqueza,a pre- guiça, como a masturbação. Condemnada a gym- nastica antiga, reconhecida a importância dos exercicios physicos empregados methodicamente, não tardaram a apparecer vários methodos substi- tuindo a gymnastica violenta pela moderada» Não deve o exercicio physico recahir sobre um numero limitado de musculos; o seu effeito benefico deve se repartir sobre toda a massa muscular do corpo, de modo a não se produzir tão facilmente a fadiga muscular. Servindo-nos ainda neste modesto trabalho, das valiosos opiniões do Dr. Álvaro Reis, em 41 sua these inaugural, com elle classifiquemos os exercicios physicos. «Sob o ponto de vista physiologico classi- ficam-se os exercicios em : fáceis e difficeis, segundo a parte que tem o cerebro no trabalho muscular. Segundo o seu modo de realisação e duração dividem-se em ires categorias: Exercicios de força, (a suspensão de um pezo mais ou menos considerável); Exercido de agilidade, violenta ou suave (a carreira ou corrida a pé, a execução ao piano); Exercicios de fundo, (a marcha longa num terreno plano). Sob o ponto de vista pratico, dividem-se os exercicios em: Activos, nos quaes os movimentos são expon- tâneos, e o corpo se move livremente sob a influencia da vontade (a marcha, a corrida, etc.); passivos, em que os movimentos do corpo são produzidos por uma causa extranha ( a massagem, a fricção, etc.), e mixtos, nos quaes o corpo é movido por sua vez pela vontade e por uma causa extranha (a equitação, etc.) D’esta ultima classificação é que synthetica- mente trataremos. Os exercicios activos são divididos em : exercicios de movimentos livres, isto é, que se effectuam livremente sem a intervenção de apparelhos, taes como — a corrida, a marcha, o salto, a dança, a lucta, a natação, o canto, etc. ; exercicios de movimentos ligados, que se exe- cutam por meio de apparelhos fixos, taes como •—os da barra de suspensão, de escadas fixas, de barras parallelas, etc.; exercicios de movi- mentos semi-ligados que se executam por meio de apparelhos moveis, portáteis e não portáteis: portáteis—as mils, halteres, barras de espheras, 42 os exercícios de projecção com a funda e pelota, palma, os saltos com instrumentos, a esgrima, a caça, o bilhar, a patinação, etc.; não portáteis—os de escada de cordas, cordas lisas, trapézios, etc., etc. Os exercícios passivos são aquelles em que, como já dissemos, os movimentos são commu- nicados ao corpo e se executam independen- temente da vontade, taes como a vectação ou transporte em carruagem, navegação ou trans- porte em embarcações,, a massagem, e a fara- disação ou galvanisação. Os exercícios mixtos são aquelles em que também, como já dissemos, o corpo se põe em movimento pela própria vontade e por causas exteriores: — um conjuncto de movimentos volun- tários e involuntários—sãoelles: a equitação, a canoagem, a velocipedia, e emfim a gymnastica sueca. Alliados aos exercícios estão os jogos em que a diversão se associa ao trabalho muscular e cuja serie quasi interminável apresenta uma cathe- goria de exercícios moderados e violentos, ora desenvolvendo os membros, braços e pernas, ora alguns sentidos, visão, audição, phonação, produ- zindo emfim effeitos os mais variados e de um modo mais ou menos intenso. Uma das suas numerosas vantagens é a de serem expontâneos, de não serem impostos e por conseguinte, de trazerem diversões ao espirito ao mesmo tempo que fortaleza e robustez ao corpo.» Examinemos os diíferentes modos do exercício physico. Estação. A estação de pé põe em jogo toda a actividade muscular, não obstante ser um genero de exercício dos mais fatigantes. O homem, de pé, não se apoia commodamentc sinão sobre uma perna (station hanchée). 43 A carreira reclama prescripções mais deta- lhadas do que a marcha. Emquanto nesta o corpo não deixa jamais completamente o solo, naquella o corpo num momento dado é suspenso no ar e levado por uma impulsão poderosa para cima e para adiante da perna que se estende e se destaca do sólo. Por isso, diz Marey, as oscillações verticaes do corpo são mais consideráveis na carreira do que na marcha. A carreira é um exercicio que deve ser bem moderado, porquanto, se tem van- tagens, tem também seus perigos e, no homem, é um exercicio que põe em actividade mais do que qualquer outro o apparelho muscular e os appa- relhos circulatório e respiratório. O salto é um exercicio especial que põe em jogo todos os musculos, collocando-se na classe dos exercidos corporaes, que devem ser metho- dicos e bem dirigidos, porque dão logar muitas vezes, ás entorses, ás contusões, ás fracturas e ás hérnias. A caça é dos mais attrahentes exercicios; além do ar puro do campo que livremente se respira, encontra-se atravéz dos terrenos por onde é feita a carreira, o prazer e o repouso do espirito. A esgrima é também um excellente meio de desenvolvimento das potências musculares. Os musculos dos braços e das pernas sob a sua influ- encia se desenvolvem bastante tomando o peito maior amplitude. A marcha convém á todas as idades e á todas as constituições. Não comporta, por assim dizer, contra indicações, a menos que os individuos não marchem sobrecarregados ou que não se tratem de verdadeiros doentes: cardíacos, emphysema- tosos, obesos, etc. Estes poderão fazer o exercicio de natação, que é uma conquista do homem. Desenvolve o corpo independentemente da acção tónica do banho frio. E’ o exercicio mais salutar 44 e que exige poderosos movimentos de todos os membros com largas e profundas inspirações. É o mais hygienico e o mais util dos exercicios. O Remo e a canoagem, são exercícios muito em voga hoje, em certos centros. Mesmo na Ingla- terra a canoagem é o primeiro dos sports. O exer- cício do remo põe em movimento todo o systema muscular, os musculos cervicaes, dorso lombares, peitoraes, abdominaes, musculos dos braços e das pernas. E, portanto, como se vê, um exercício hygienico de primeira ordem, sendo, que não se o deve levar até o esgotamento, nem ser feito por um indivíduo de má constituição e tarado. A dança é um excellente exercício que, graças á liberdade dos movimentos, reune o util ao agra- davel, activando a respiração e desenvolvendo os musculos da perna. A equitação offerece aos jovens vantagens physicas incontestáveis. Auxilia as funcções diges- tivas por acção mechanica e tem o conveniente de ser attrahente e fazer absorver o ar. O exercício da bycicleta possue partidários convictos até para a marcha dos soberanos. Vê-se hoje, como diz Julles Rochard, financeiros, depu- tados, sábios, homens de lettras, e membros de institutos, que se dedicam ao exercício do pedal. Entretanto o abuso da bycicleta é susceptivel de engendrar muitos males. Determina uma tachy- cardia algumas vezes extrema, oppressão e, mesmo, em certos casos, os phenomenos proprios ao cora- ção forçado. Pelo que, deve se proscrever o exer- cício da bycicleta aos cardíacos e particularmente aos aorticos ou aos portadores de uma lesão mitral pouco compensada. Quanto aos jogos deve-se recommendar as barras, o lawn-tenis, o cricket, o salto, a corda, etc. A's moças se aconselhará o velante (peça de cortiça empennadaque se joga ao ar), as rodas,etc., 45 interdizendo-se-lhes a carreira propriamente dita, e o salto que determina muitas vezes palpitações. Quanto ao jogo de foot-ball, deixemos que falle o professor Rochard: «O foot-ball é um jogo brutal e que não é sem perigo. Causa mais accidentes do que outros generos de exercicios, quinze vezes mais do que a equitação e vinte vezes mais do que a gymnastica». O professor Charles Audry, escrevendo sobre os accidentes d t foot-ball, diz: « Emquanto o foot-ball toma na França o mais vivo e mais feliz incremento publicam-se artigos que o fariam de bom grado passar por um jogo de mortandade. O foot-ball, tal como é praticado na America, é de facto muito perigoso » ; e não fosse fastidiosa a enumeração dos accidentes que se produzem dia a dia pelo jogo do foot-ball, nós os enunciariamos á começar pelas lesões do sys- tema osteo-articular. Como acabamos de ver, todos estes exercicios são úteis a saúde, sendo que devem sempre ser feitos com methodo principalmente pelas creanças. Quando no adulto houver desconfianças do máo funccionamento do coração e dos pulmões ou de uma circulação defeituosa, os jogos ou não devem ser permittidos ou quando o sejam, deverão ser fiscalisados pelo medico. Portanto, nenhuma duvida de que somente o exercício physico, independente de qualquer medi- camento, poderá favorecer o entrainement (dos francezes), fazendo de uma creança debil e phy- siologicamente miserável, um homem robusto e resistente. O exercício physico e suas vanta- gens therapeuticas. Contra in- dicações <fHl' Mm Ão se pode negar a influencia feliz que tem em medicina a pratica dos exer- eAo cicios physicos, methodicos e apropria- dos no tratamento de certos estados pathologicos diante dos memoráveis trabalhos de Benoiston de Chateauneuf, Lombard, Bouvier, Bonnet, Bouchardat, etc. E é graças a actividade que imprimem aos orgãos da locomoção e da circulação, actividade que se não pode executar sem augmento das oxy- dações intra-organicas, que os exercicios cor- poraes tem a sua indicação exercendo uma acção excitante sobre toda a economia animal. O exercido sem precisar ser levado a uma fadiga extrema, ao lado de uma alimentação bem reparadora, é indicado em todos os casos de de- bilidade constitucional, congénita ou adquirida, como sejam a anemia, a chlorose, etc. E1 ainda indicado o exercício physico nas aífec- ções do peito, maxime quando não se acom- panham de febre nem de hemoptyses. Ensina-nos a physiologia que o thorax é mo- vimentado por um certo numero de grupos mus- culares e se os fazendo trabalhar ter-se-ha o des- envolvimento do peito, visto que todo o musculo 48 que funcciona se desenvolve e comsigo a mecanica ossea, E1 imprimindo uma nova actividade aos mús- culos respiratórios nos casos de affecção pulmonar e elevando por conseguinte a capacidade respi- ratória, que uma gymnastica bem moderada pode exercer um effeito salutarissimo sobre pulmões cuja atonia seja capaz de favorecer o appareci- mento de tubérculos. Conforme as varias opiniões de alguns auctores, o exercido, favorecendo o movimento de assi- milação, pode ser capaz de contribuir para a cura da tuberculose. Já ha muitos séculos passados, Piorry acon- selhava dilatar largamente o peito por meio do ar puro do campo de modo a fazer funccionar o ver- tice dos pulmões, frequentes vezes atacados de tuberculisação, firmado no principio estabelecido por Peter que «á um minimum de funcciona- mento corresponde um maximum de tubercu- lisação ». O proprio Peter de collaboração com Barth colloca em primeiro plano na etiologia da tisica, a insufficiencia habitual da respiração. Lagneau, citado por Dujardin-Beaumetz, ex- pôz a influencia da gymnastica sobre a tuber- culose pulmonar nas seguintes palavras: « Depois de ter exposto o triste estado physio- logico de nossa população parisiense e em geral das populações urbanas e industriaes; depois de ter mostrado que a tisica que se manifesta sob todos os climas, quentes ou frios, poupa entretanto certas populações que habitam principalmente, porém, não exclusivamente, os paizes septentrio- naes e os paizes de ar frio e vivo; depois de ter mostrado que a miséria e a insufficiencia da ali- mentação, favorecendo em todos os lados o desenvolvimento da tisica, estão longe de ser as 49 suas principaes causas; depois de ter reconhecido que a proporção das moléstias de peito em geral, como nas montanhas, parece estar em relação com o desenvolvimento das industrias ou das occupações sedentárias que oppõem mais ou menos obstáculo ao livre funccionamento dos or- gãos respiratórios, se é levado a pensar que, para prevenir o desenvolvimento da tuberculose pul- monar no homem, é preciso não só um renova- mento constante do ar ambiente, quente ou frio, secco ou húmido n’uma pressão barométrica, baixa ou alta, porém, é preciso também que, pela conti- nuação de occupações activas, este ar largamente inspirado, penetre profundamente nas vesículas pulmonares ». Disse o grande Jaccoud, uma verdade que se não cança de repetir. «Não se nasce tuberculoso, porém, tuberculisavel». E um dos melhores meios de evitar-se esta affecção é aconselhar aos predispostos, aos tuber- culisaveis uma gymnastica respiratória racional e moderada, convindo notar que nesse exercicio não é o numero das respirações que é preciso observar, é a sua profundeza e Jourdanet mos- trou que a rarefaeção do ar não podia ser supprida pela frequência das inspirações. Provou que o acido carbonico expirado estava em relação, não com a frequência, porém., com a profundeza e a duração das inspirações. A respeito do tratamento das affecções do peito pela gymnastica, não podemos deixar de citar as conclusões de uma communicação do Dr. Descamps, citado pelo prof. Dujardin Beaumetz: « i.° Ha, no tratamento das affecções do peito em geral e dos derramens pleuriticos em parti- cular, um factor importante, a que nenhuma importância até aqui se tem ligado, apezar da 50 facilidade de pôl-o em jogo quando e como se quizer: este factor, éo acto respiratório; 2.0 A respiração profunda, completa, regular pode se oppor ao embaraço circulatório, á con- gestão do pulmão, em muitos casos em que influ- encias externas ou internas tendam a produzil-a. Pode prevenir ou impedir a invasão mórbida; 3.° Ella exerce, quando o ar inspirado é puro e são, um effeito muito favoravel nas affecções pulmonares declaradas, regularisando as trocas gazosas e nutritivas, mantendo a permeabilidade dos bronchios, favorecendo a circulação e descon- gestionando o tecido pulmonar, sem fallar dos effeitos geraes que produz a hematose mais com- pleta do liquido sanguíneo; 4.0 Nos casos de pleurisia com derramem e compressão do pulmão, o acto respiratório bem regrado pode agir de um modo muito favoravel sobre a reabsorpção do exsudato e sobre o desdo- bramento e a volta progressiva ao seu volume normal do pulmão oppondo-se desse modo a sua atrophia.» Segundo o proprio Descamps, nos casos de thoracenthése e de empyema, o melhor meio de evitar os accidentes respiratórios consecutivos é praticar previamente o exercício respiratório pro- fundo e methodico. Vê-se, portanto, pelas conclusões claras e seguras deduzidas pelo grande pathologista fran- cez, o valor incontestável que exerce a gymnastica bem moderada na resolução das congestões ou inflammações incipientes do parenchyma pulmo- nar, ou da pleura. Em Stockolmo usa-se de uma gymnastica es- pecial no tratamento dos laryngites e bronchites chronicas, que consiste em fricções mais ou menos demoradas sobre o pescoço. A marcha é de uma efficacia extraordinária 51 nas congestões que se fazem para o lado da cabeça no decurso das digestões. São ainda aconselhados os exercidos gymnas- ticos nas crianças predispostas á granulia menin- géa, procurando assim manter-se um equilibrio entre o trabalho muscular e as funcçÕes do eixo cerebro-espinhal. Reconhecendo a utilidade dos exercícios phy- sicos como meio adjuvante no tratamento da chlorose, neurasthenia, hysteria, hypocondria, etc. diz J. Schreiber citado por Dujardin — Beaumetz: «Os musculos são o fóco principal dos pro- cessos chimicos do organismo. Excitar e augmentar a actividade muscu- lar, é provocar a oxydação do sangue, consumir mais oxygenio, excretar mais acido carbonico, augmentar a nutrição, levantar o appetite, digerir melhor os alimentos, fabricar mais sangue, mais globulos vermelhos, nutrir melhor os nervos, augmentar e fortificar as fibras musculares, dar ao corpo força e elasticidade, dissipar a tristeza e o desgosto da vida.» Admiráveis são os benefícios da gymnastica nos casos de paralysia e atrophia muscular, sem ser preciso leval-a ao exagero, porem ser feita dis- ciplinadamente, de modo que não seja sómente o apparelho locomotor o unico aproveitado, tra- zendo a correcção de alguns de seus vicios, mas que se faça um equilibrio entre todos os appa- relhos da economia. Foi curando-se duma paralysia muscular do braço que Ling fundou o seu methodo de gym- nastica. As affecçoes inflamm ator ias chronicas das articulações, as rijezas articulares consecutivas as entorses, as luxações e as fracturas têm sido se- guidas dos mais felizes resultados com o trata- 52 mento pelos exercidos physicos methodicose bem regrados. Bouvier notou a grande influencia dagymnas- tica moderada no tratamento de certas deforma- ções da columna vertebral, nos casos de fraqueza constitucional e crescimento desproporcionado. «Não se passam muitas semanas, diz o Sr. L. G. Kumlien, eu poderia dizer dias, em que o medico não seja chamado para verificar nas familias ou nas escolas deformações que o tempo e a ignorância tornaram irremediáveis e ás quaes poder-se-hia oppôr-se com successo se fossem vistas mais cedo. E’ sobretudo em matéria de desvios verte- braes que estas constatações são frequentes e que estas tristes consequências se fazem pesarosamente sentir, principalmente nas creanças. Os dorsos em abobada, os rins arqueados, as espaduas destacadas—scapuloe alatoe dos latinos, não são as únicas deformidades que se encontra; os desvios das scolioses são também graves e múltiplos, não se reflectem unicamente sobre a columna vertebral, repercutem muito fortemente sobre a caixa thoracica e sobre a bacia. O peito comprimido, deformado, move-se difficilmente, os movimentos respiratórios per- dem a sua amplitude, os pulmões respiram mal, apertadamente, e o proprio coração se sente emba- raçado no seu funccionamento. Prevenir estes desvios, a elles se oppôr por uma gymnastica methodicamente racional, é oppôr ao mal o unico verdadeiro remedio. » vis affecções rheumatismaes e a gotta, encon- tram nos exercicios corporaes os mais beneficos meios de tratamento. O exercício excita a secreção sudoral, elimina os dejectos orgânicos, amollece os musculos e os ligamentos articulares, não sendo de admirar, por 53 conseguinte, que seja util na cura do rheuma- tismo. Dizia Sydenham que a gotta era rara no pobre e no trabalhador. Realmente, com o exercício dá-se uma verdadeira lavagem do organismo por- quanto é elle o unico motor verdadeiro da assi- milação organica e a sobriedade, o trabalho cor- poral, são os únicos meios de prevenir a gotta. A gymnastica é ainda util nos engurgitamentos do fígado e do baço, pelas pressões methodicas e percussões sobre estes orgãos exercidas. A obesidade teve sempre a gymnastica como um dos meios de tratamento desde os velhos tempos de Hypocrates, instituindo Celius Au- relianus o tratamento hygienico do seguinte modo: <\0 obeso, se exercitará no jogo do corpo com perseverança; dirigirá os animaes, se exercitará na carreira, montará a cavallo, navegará, decla- mará ; far-se-ha friccionar, luctará, se exporá ao ardor do sol e tomará banhos quentes.» Ha na obesidade, como se sabe, uma sobre- carga gordurosa incommoda e é preciso desem- baraçar a economia dessa sobrecarga, ora pela marcha, pela carreira, ora por meio de massa- gens e fricções energicas. As nevroses, epilepsia, choréa, etc., encontram na gymnastica, ao lado do tratamento medica- mentoso, um poderoso auxiliar. Convém notar, entretanto, que nem em todas as choréas, o tratamento pela gymnastica é justi- ficável, sendo que sómente a massagem é o meio mecânico capaz de prestar benefícios nos casos em que é excessiva a incoordenação dos movi- mentos. O diabetes é uma moléstia que ataca princi- palmente os individuos gordos e preguiçosos e sendo o assucar um producto dos musculos e 54 entrando em grandes proporções no liquido san- guíneo, concebe-se a utilidade da gymnastica no tratamento desta affecção, fazendo trabalhar o musculo e queimar o assucar. E’ de grande e incontestável vantagem o exer- cido physico na caimbra dos escritores, por meio da gymnastica localisada. Tro.usseau refere-se neste sentido ao emprego de um apparelho que consiste numa bola elás- tica de caout-chonc; colloca-se na cavidade da mão e pela elasticidade que offerece esta bola, oppôe-se uma resistência sufficiente a contracção muscular e se mantêm assim a mão em equilibrio. Sem precisarmos levar mais adiante a incon- teste vantagem dos exercícios physicos em certos e determinados estados morbidos, basta-nos repe- tir: que o movimento é a grande modalidade da vida. As simples pressões feitas com a mão são bastante para determinar a evacuação de gazes nos casos de cólica ventosa, as pressões methodicas sobre o thorax bastam para acalmar a dyspnéa dos asthmaticos, exercicios estes que nada mais são do que uma variedade de massagem cujo estudo vamos ligeiramente esboçar: - A massagem é uma gymnastica especial, cuja pratica comprehende innumeras variedades, desde a simples applicação da mão, as fricções, as pres- sões, as percussões, malaxações, vibrações, até os movimentos articulares. A massagem por pressão consiste em malaxar os musculos com os dedos, em fazer gyrar em todos os sentidos as superfícies articulares, de modo a afastar e reapproximar mecanicamente os pontos de inserção dos musculos e dos liga- mentos, em bater docemente com o bordo cubital da mão as partes mais musculosas dos membros, em exercer sobre a pelle fricções manuaes. 55 Por ser um meio hygienico, a massagem é ainda hoje empregada em todo o norte da Europa e quasi por todos os povos do Oriente. A elasticidade dos musculos desperta por uma pressão methodica e bem feita, as forças se resta- belecem e ha uma actividade em todas as funcções da economia, desapparecendo até pelo benefico effeito que produz a massagem, a fadiga que resulta do abuso da marcha, da vigilia ou dos excessos sexsuaes. Não fossem os estreitos moldes do nosso tra- balho e provaríamos a admiravel influencia que exerce a pratica da massagem n’um grande e con- siderável numero de estado pathologicos. Nos rheumatismos agudos apyreticos, nos rheu- matismos chronicos, nas paralysias cm caminho de cura, na impotência, é sempre seguida a mas- sagem dos mais felizes resultados. E não pairam ahi os effeitos dessa medicação excitante do systema muscular. As phlegmasias internas, maximé, as do esto- mago, intestinos e as dos bronchios que na immensa maioria dos casos estão ligadas a um estado de atonia da pelle, são vantajosamente modificadas pelos benefícios que a massagem lhes imprime. As affecções musculares (toriicolis spasmodico, atrophia muscular, etc.) as moléstias das articu- lações (artrhite rheumatismal, coxalgia dos rheu- maticos, rijes-as articulares, etc.), as affecções do systema nervoso, do systema circulatório, etc., beneficiam-se sempre com vantagens pelo uso da massagem nas suas múltiplas variedades. De mais, para provar cabalmente a feliz influ- encia da massagem em medicina, basta-nos dizer, que a sua pratica não é de data recente. O velho medico de Cós, o grande Hypocfates já aconselhava a massagem para curar as affecções 56 da espadua e os tumores abdominaes e Ccelius Aurelianus a utilisava no tratamento da obstrucção intestinal pelas matérias fecaes. Feitas estas ligeiras considerações sobre a mas- sagem, resta-nos, para enfeixar o nosso despre- tencioso trabalho, fallar sobre as contra-indicações dos exercicios physicos. Devem ser feitos os exercicios sem apparelhos nos dois extremos da vida, levando-se em grande linha de conta a fraqueza dos apparelhos locomo- tores, osseo e muscular. O adulto, que tenha uma nutrição bastante reparadora, pode executar os differentes modos de gymnastica com a condição, porém, de não leval-os até a fadiga extrema. Aos cardíacos, portadores de lesão mitral, mal compensada, tuberculosos nas phases de pyrexia e de hemoptysis, aos asthmaticos e emphyse- matosos, aos individuos accommettidos de lesões para o lado do cerebro, devem ser systemati- camente contra-indicados os exercicios physicos se os permittindo brandos e muito moderados em certos e determinados casos. Terminando a nossa tão ardua, quão difficil tarefa, nós que nos sentimos orgulhosos de ter nossa patria como o berço dos homens de genio e de sentimentos altruisticos, não podemos deixar de fazer um appello a todos os estados que consti- tuem o torrão brasileiro, incitando-os á creação de institutos especiaes de gymnastica onde possa a mocidade adquirir a saúde do corpo edo espirito por meio dos exercicios corporaes. Que seja este o systema de educação physica instituído ás creanças, como o meio mais facil de fazer-se homens fortes e mulheres «que tenham mais musculos do que nervos, mais vontade do que flatos hystericos» e assim ter-se-ha firme e seguro o futuro da patria brasileira. BIBLIOGRAPHIA Arnould — Tzatado de Hygiene. Álvaro Reis—A Educação phyóica. Chancerel—Hiátozique de la gymnaátique medicale depuió áon ozigine juóqua noá jouzó. Charles Audry — Leá accidenló du foot-ball. Dujardin — Beaumetz — Dictionnaize de Thezapeu- tique, de matiéze medicale, de phazmacologie, de toxicologie et de eaux minezaleó. Jules Rochard—Tzatado de Higiene. J. J. Rousseau—Emile ou Veducation. L. G. Kumlien— Gymnaátique pouz touó. Le Blond — Manuel de gymnaátique. Laisné—Applicantion de la gymnaôtique a lá gue~ ziáon de quelqueá maladieá. Mathias Duval — Phyáiologie. Maffeo Vegio—A educação doá jovenó. Wagner—Du maááage et de óon impoztance pouz le medicine pzaticien. Victor Siblerer — Dela valeuz et de Vimpoztance de la gymnaôtique. Joznaeá e zeviátaó medicaô. PROPOSIÇÕES PROPOSICOES ANATOMIA DESCRIPTIVA I Os nervos do coração partem do plexo cardiaco formado pelos nervos cardiacos do grande sym- pathico e do pneumogastrico. II Elles chegam ao tecido do coração acompa- nhados pelas artérias coronárias e tomam os nomes de plexos coronários direito e esquerdo. III Sobre o seu trajecto encontra-se grande numero de ganglios microscopicos. ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA I A região occipito-frontal é formada de planos superpostos a começar de fóra para dentro. 60 II Estes planos apresentam disposições taes que dão ás lesões da região um caracter especial. III As aífecções extra-craneanas communicam-se de ordinário com as intra-craneanas. ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHO LÓGICAS I Os lipomas são tumores constituidos por tecido gorduroso. II A sua séde habitual é no derma e no tecido ccllular sub-cutaneo. III Os lipomas podem ser myxomatosos, fibrosos e crecteis. PHYSIOLOGIA I E’ por meio da placenta que se fazem as trocas nutritivas entre o organismo materno e o fetal. 61 II Estas trocas se effectuam por phenomenos de osmose e endosmose. III Emquanto nfio ha grande desenvolvimento do fígado, a placenta fabrica matéria glycogenica, servindo depois de reservatório. HISTOLOGIA I Toda cellula origina-se de outra cellula. II O núcleo exerce uma funcção importante na proliferação da cellula. III Um dos modos de reproducção cellular é a Karyokinese. BACTERIOLOGIA I O bacillus colis communis foi descoberto por Escherisch em 1885. II O habitat commum no homem e nos animaes é o intestino. 62 III A sua virulência sc modifica no meio orgânico segundo as modificações pathologicas do canal intestinal. THERAPEUTICA I O acetato de ammoniaeo é o mais empregado dos saes ammoniacaes. II E‘ estimulante diífusivo e diaphoretico. III Sob sua influencia as secreções bronchicas se fluidificam e a tosse se torna menos intensa. MEDICINA EEGAL E TOXICOLOGICA I A docimasia pulmonar é o meio mais seguro de verificar se o feto respirou ou não. II Ha outros processos, entre os quaes a hydros- tatica, porém de pouco ou nenhum valor. III O primeiro dá sempre os mais eflficazes re- sultados. 63 HYGIENE í Os estabelecimentos de ensino devem obedecer aos preceitos da hygiene moderna. II Devem ser bem illuminados, ventilados e do- tados de mobiliário apropriado. III Em todo o estabelecimento de ensino deve haver médicos inspectores para fiscalisar a hy- giene. PATHOLOGIA CIRÚRGICA I Os desvios do rachis consistem em inflexões anormaes da columna vertebral. UI Elles comprehendem: a scoliose, cyphose e lordose. III A scoliose é o desvio mais commum. 64 OPERAÇÕES E APPARELHOS I As resecções são operações que se praticam nos ossos. II A operação de Estlander é a resecção da costella. III Graças as resecções, são hoje abandonados os processos mutilantes. CLINICA CIRÚRGICA (i.a cadeira) I Os estreitamentos da urethra são sempre con- sequência de urethrites chronicas determinadas pela blennorhagia. II E’ constituido o estreitamento pela formação na urethra de um tecido fibroso. III O melhor meio de tratamento é a urethro- tomia. 65 CLINICA CIRÚRGICA ( 2.a CADEIRA) I A anesthesia é o processo empregado em cli- nica cirúrgica para evitar a dôr nas operações. II Entre os anesthesicos mais empregados actu- almente, estão o chloroformio e a stovaina. III A cocaína é um anesthesico local. PATHOLOGIA MEDICA I A ankylostomiase é uma moléstia caracte- risada por lesões intestinaes produzidas pela anky- lostomo. II Pela auscultação percebe-se no ankylosto- miasico sopros extracardiacos. III Ha uma medicação especifica para curar ; ankilostomiase. 66 CLINICA PROPEDÊUTICA I A percussão é um dos processos propedêu- ticos mais empregados na interpretação do dia- gnostico. II A percussão pode ser directa ou indirecta. III No primeiro caso se faz com as mãos ou com os dedos e no segundo com o auxilio do plessi- metro. CLINICA MEDICA (i.a cadeira) I O tratamento mais efficaz do paludismo con- siste na remoção do doente do fóco onde con~ trahiu a moléstia. II A medicação especifica é o quinino. III Aproveita-se sempre o periodo de remissão febril para o emprego da medicação. 67 CLINICA MEDICA ( 2.n CADEIRA) I A tuberculose é uma moléstia infecto-conta- giosa produzida pelo bacillo de Koch. II O pulmão é de ordinário o tecido de predi- lecção para a tuberculose. III Começa sempre pelo vertice. HISTORIA NATURAL MEDICA I O opio é extrahido do papaver somniferum da familia das solanaceas. II Os alcaloides do opio empregados em medi- cina são a morphina, codeina, narceina, narcotina e papaverina. III O mais usado é a morphina, 68 MATERTA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I O mercúrio é o especifico no tratamento da syphilis. II E aconselhado sob a forma de injecções intra- musculares. III Os preparados podem ser solúveis ou inso- lúveis CHIMICA MEDICA I O bromhydrato de scopolamina é obtido pela acção do acido bromhydrico sobre a scopolamina. II E solúvel na agua. III E um anesthesico que tem larga applicação em medicina. OBSTETRÍCIA I Ha duas variedades de hydrocephalias. 69 II A interna e a mixta. III De suas causas mais conhecidas, é collocada em primeiro plano, a syphilis hereditária. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECOLOGICA I O aborto é uma das consequências da infecção syphilitica. II Quando assim acontece o feto nasce em estado de maceracão. III O meio de evitar-se o aborto, nestes casos, é aconselhar aos genitores contaminados a medi- cação especifica. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPHICA I A alopecia é a queda do cabello. II Pode ser total e parcial. 70 III E commum a alopecia após a syphilis e outras moléstias infectuosas. CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I A neurasthenia resulta do esgotamento do neurona. II A herança desempenha um grande papel na sua etiologia. III São múltiplas as formas pelos quaes ella se manifesta. CLINICA PEDIÁTRICA I O rachitismo é a moléstia mais commum nas creancas. i II Consiste na falta de calcificação dos ossos. III O tratamento deve visar a tres indicacÕes: . a * attenuar as lesões e perturbações gastro intestinaes, favorecer a digestão, fornecer phosphatos aos ossos. 71 CLINICA OPHTAMOLOGICA I O strabismo pode ser interno ou externo. II O tratamento pode ser preventivo e curativo. III O meio de cura radical é a operação da stra- botomia. VISTO Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, cm 30 de Outubro de 1909. 0 Secretario, (F'ftenanc/io c/o 6 o/Z/etó Qsfá&iíe/éeà.