FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA THESE APRESENTADA Á Faculdade de Medicina da Bahia Em 30 de Outubro de 1909 PARA SER DEFENDIDA POR Ipancisco b’0l íoeira NATURAL DO ESTADO DA BAHIA Filho de Joaquim Rodrigues de Oliveira e Maria Ramos de Oliveira AFIM DE OBTER 0 GRAU DE Doutor en? Medicina DISSERTAÇÃO CADEIRA DE MEDICINA LEGAL Napeomania e <3r»ime PROPOSIÇÕES Tres solire cada ama das cadeiras do curso de Sciencias Medicas e Cirúrgicas BAHIA OFFJCINAS DO «DIÁRIO DA BAIIIA» 101—Praça Castro Alves—101 1909 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA DIRECTOR—Dr. Augusto Cesar Vianna VICE-DIRECTOR — Dr. Manoel José de Araújo LENTES CATHEPRATICOS or> oo MATF.R1AS QtJE [.F.CC.IOXA M Pr. J. Carneiro de Campos 1.* Anatomia descri ptiva Pr. Carlos Freitas )) Anatoin i a ined ico-ci rurgi ca l)r. Antonio Pacilico Pereira Histologia Pr. Augusto C. Vianna )) Bacteriologia Pr. Guilherme Pereira Rebello. . . . » Anatomia e Physiologia patho- logicas Pr. Manoel José de Araújo Ph vsiologia Pr. José Eduardo F. de Carvalho Filho . St Therapeutica Medicina legal e Toxicologia Pr. .losino Comua Cotias 4.* Pr. Luiz. Anselmo da Fonseca . . . . )) II vai ene Pr. Antonino Baptista dos Anjos . . . 5.* Patbologia cirui gica Pr. Fortunato Augusto da Silva Júnior . )) Operações e apparelhos Clinica cirúrgica, 1." cadeira Pr. Antonio Pacheco Mendes )J Pr. tíraz Hermenégildo do Amaral. . . » Clinica cirúrgica. 2." cadeira Pr. Aurélio B. Vianna Ti.- Patbologia medica Jl> Clinica Propedêutica Pr. Anisio Circundes de Carvalho . . . » Clinica medica, 1.* cadeira Pr. Francisco Braulio Pereira .... »’4 Clinica medica, 2." cadeira Pr. José Rodrigues da Costa Dorea. . . 7.- Historia natural medica Pr. A. Victorio de Araújo Falcão . . . » . Matéria medica, Pharmacologia e Arte de formular Pr. José Olvmpio de Azevedo. . . . . Chi mica medica Pr. Peocleciano Ramos. . . '. . . . 8." Obstetrícia Pr. ClimerkrCardoso de Oliveira . . . Clinica obstétrica e gvnecologica Pr. Frederico de Castro Rebello. . . . 9.* Clinica pediátrica Pr. Francisco dos Santos Pereira . . . 10." (llinica ophtalmologica Pr. Alexandre E. de Castro Cerqueira . 11.* Clinica dermathologica e svphi- ligraphica Pr. Luiz Pinto de Carvalho Dr. João E. de Castro Cerqueira. . . . Pr. Sebastião Cardoso ....... 12.* Clinica psychiatrica e de molés- tias nervosas Em disponibilidade LENTES SUBSTITUTOS Ur. José AITonso de Carvalho. . . . L* secção Drs. Conçalo Moniz Sodré de Aragão e Júlio Sérgio Palma 2.* » Dr. Pedro Luiz Celestino 3.* Dr. Oscar Freire de Carvalho 4.* » Dr. Caio Ortavio Ferreira de .Moura - 5.* » Dr. João Américo Garcez Fróes 0." » Drs. Pedro da Luz Carrascosa e J. J. de Calasans. 7." » Dr. José Adeodato de Souza 8.' » Dr. Alfredo Ferreira de Magalhães 9.* » Dr. Clodoaldo de Andrade 10.* » Dr. Albino Arthur da Silva Leitão 11.* » Dr. Mario C. da Silva 12.* » SECRETARIO — Dr. Menandro dos Reis Meirelles SUB - SECRETARIO—Dr. Matheus Vaz de Oliveira A Faculdade-não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas. UMA ACLARAÇÃO Accudiu-mc deixar, desde logo, aqui consignados, num excesso justificaãor d critica pela transcendência do assumpto inopinadamente esboçado em trabalho elementar, os motivos que me decidiram a abraçar de preferencia a outros que então me occoreram,o estudo das narco-psgchoses, c suas relações com a crimina- lidade, restringindo-o, apesar de sua amplidão e com- plexidade, aos moldes estreitos de uma these de douto- ramento.—Apenas iniciado no cultivo da pathologia social pelas insuficientes e lacunosas leituras de Lauder Bruton, Normann Kerr,Lgdstou, Dravet, Brouardel e outros eminentes progronos da paíhoiogia mental, suggeriu-mc graves reflexões a progressiva diffusão do uso intemperado dos narcóticos, e numa generosa ampliação do momento, nasceu o subtanco desejo de, ao pernicioso alastramento do abuso daquellas sub- stancias, defrontar a aclaração singela e funda- mentada dos seus prejuízos. II Era trabalho seguramente adiado peta minha resignada sovinice de conhecimentos, cuja affirmarão nitidamente se esbate por além cleste folheto despre- tencioso e singelo. Concorreu, porém a attenuar esta obrigado pro- crastinação a superviniencia da convencional oppor- tunidade de, d eggregia Faculdade, apresentar o doutorando um escripto feito em torno das lettras medicas; e foi então que com timidez, mas sem vacillações, ao quente estimulo desta obrigação, corri á satisfação âaquelle desejo. DISSERTAÇÃO CADEIRA DE MEDICINA LEGAL Jj . V' Narcomania e Crime I % ra? .onnexoes existeín, hoje pela observação quo • tidiana irrefutavelmente estabelecidas, entre as intoxicações e o crime. Estas relações mais infimamente se estreitam e mais accentuadaniente se afíirmam com referencia aos toxicos narcoti- santçs a que o génio superior de Lydston deno- minou venenos sociaes, e cuja historia constitue, na |>hrase do notável publicista britannico, a parte chimica da pathologia social. Sem distincçào das liypotheses para a explicação racional e scientiíica dos phenomenos mentaes assignaladas, ou se atteste «a lei da matéria» ou 'a cósmica universal que, segundo conceitua o professor Clave Shw, inclue em sua essencia intima a permutabidade da matéria e a conservação da energia e em que o espirito é relegado ao plano secundário de epipbenomeno destinado a desappa- recer com a morte do corpo, ou se adopte a escola dualista, que considera a vida independente da matéria e da energia mas apta a reagir sobre o mundo material; quer enfim se considere o cerebro —-orgarn visceral aclivo,—edificador do pensa- mento, elaborador da idéa, ou—passbo-mero in- strumento á aetividade do espirito preposto, 4 accordam-se os sábios em affirmar que da inte- gridade d r gani ca desta viscera depende o seu regular funecionamento — facto, que numa per- suasiva conjugação de applauso, plenamente com- provam a experimentação physiologica e os pheno- menos de natureza pathológica. Formulado, portanto, o principio da correlacti- vidade funccional do orgam do pensamento e a sua integridade organica, consentaneamente se deprehende que aos vicios, desvios, aberrações que de modo frequente quebram a linha de con- ducta gizada pela normal psyché humana, corres- pondem material mente lesões structuraes do en- cephalo, cuja demonstração objectiva nos escapa cm virtude da parcimónia dos nossos conheci- mentos sobre as' localisacões cerebraes, e da deficiência dos processos de cognitividacle de que dispõe a sciencia moderna no campo das investi- gações m icrobiol ogi cas. Esta concepção iuminosissima dos accidentes por que no campo social se objectiva a anormal actividade psychnica proscreve do limbo vasto e fulgurante da sciencia que pesa, mede e coala, as theorias hypotheticassuggeridas em torno do crime pelos preceitos metaphysicos da velha escolástica, e abre ao conceito sensato e criteriosamente justo dos delinquentes, a verdadeira interpretação das condições sociaes em que se desenvolvem* os delictos e a dos elementos que lhes determinam a ecclosão. • Já é tempo de ser objec.tivado nos nossos pro- cessos de justiça com obediência illimitada á verdade jurídica applicavel ás acções individuaes, a velha proposição latina prescientemente emittida 5 numa época em que sobre a natureza do tiomem tripudiava dominadoramente a influencia das enti- dade liyperterrenas e metaphysicas creadas pelo génio romântico das religiões: Melius est judiei corpus ei animam hominis qmm Carpas Júris. O indivíduo é escravo da sua constituição orgâ- nica; é um composto de orgams funccionaes reu- nidos em systemas; os seus actos são a conseqiiencia das reaccões funccionaes dos centros nervosos e cerebraes impressionados pelas circumstancias exteriores; acciona-o a fatalidade immutavei das leis biológicas. As manifestações sociaes §e desdobram elemen- tarmente da sua complexidade em torno das tres grandes funeções da vida individual: a funcoào nutritiva, a genital e a intellectual. As volições individuaes soffrem a pêa moderadora do consenso do maior numero: é o império do convencionalismo social governando a natureza; conserva-a quando ella o respeita e aniquilla-a quando aberra em desacatos a sua soberania. E’ o direito da força cego e brutal, esse mesmo direito iniquo que a civilisaçào repelle em nome da equidade e da justiça, e que o obscurantismo das civilisacões veiu applaudindo em defesa do desenvolvimento pacifico e orgânico da sociedada. E’ um contraste e um contrasenso: nos centros da concordia e da paz individual, as prisões, as penitencias onde á parcimónia das condições indispensaves á vida allia-se a carência absoluta das necessárias e imprescindíveis á restauração da saúde moral. O indivíduo deseanca no proteger e assegurar a sua conservação sobre a tutella social. Esta exerce esse direito, que é um dever, abafando a 6 expansão das propriedades biológicas no infractor das suas formulas; castiga, vingando-se; é barbaro. Como se o homem criminoso não fosse da mesma especie daqueiles que formam e mantêm a socie- dade de que se afasta por vicio constitucional. A cerebração typica ou normal tem a potência dc sociabidade; não tel-a é syndroma de morbidez. Odiar Troppmam e applaudir Worse é egoismo execravel e estúpido. Se o ultimo encontrou na moléstia a'sublimação das suas faculdades superio- res, naquelle estas foram pela mesma circum- stancias degradadas. Neste ponto de vista não ha differenca entre o mathematico dominado por uma ridícula utopia que o tyranisa e o assassino que rumina e fria- mente concerta o plano de uma vingança feroz; élles rellectem suas actividades organicas: é o do- mínio da autonomia cellular. Comprehendendo em toda sua amplitude e cla- reza a genese do crime, surprehendendo-a em per- turbações dvnamicas dá actividade cerebral, Tar- nowysky notável publicista polaca apresentou ao* Congresso de Bruxellas uma memória em que salientava a falta de critério scientifico das legis- lações, que, no ponto de vista do criminoso, es- queciam os ensinamentos da medicina moderna e. MettichnikoíT, o sábio que a humanidade admira por suas descobertas inauditas no dominio das seiencias biológicas, deixou na critica das legis- lações e o crime o traço caracteristico da sua personalidade forte e suggestiva. M. Le Prins atempa para um futuro não remoto a descentrali sacão da justiça: os juizes locaes terão dos seus jurisdicionãdos conhecimentos 7 completos que- o habilitem a apreciar as questões de meio e os elementos biologicos que devem dominar todo «juizo sensato e critefriosamente jutfto» dos delinquentes; a, justiça será então um conselho de tutella para os que merecem a pro- teccào social em vez da repressão e do castigo. Rebuscando,no meio os elementos que podem modificar as condições biológicas no sentido favo- rável á desintegração das faculdades que exornain afronte dos seus • membros; velando pela perfeti- bilidade constitucional destes; educando-os apro- priadamente, quando por sua constituição viciosa eíles forem refractarios ou insensíveis á educação commum se exercerá para futura essa funcçâo da segurança individual exercida pela corporação social. A primeira parte deste paragrapho merece dos responsáveis pelo futuro da humanidade o melhor das suas energias e dos homens de saber demo- rada attençâo. Tem a vantagem da repressão do crime sobre a do criminoso. A penetrante argúcia scientifica tem verificado aã nauseam na mór parte das modificações que desvirtuam a eerebraçào humana a influencia das intoxicações. Actuando sobre o indivíduo, ellas tem a proprie- dade de, em virtude da incontestável transmissão dos caracteres adquiridos, em que pese a Hosseao, perpetuar, atravéz das gerações, o conjunto dos 8 caracteres pathologicos que vèm imprimido ás organi sacões. Dos systemas orgânicos, o nervoso é o mais impressionavel á incidência toxica. O de mais delicada textura e de mais complexas funcções tem na corrupção do meio biologico desnaturado pela concurrencia accumulativa dos indivíduos, cooperada pelas intoxicações múltiplas que a expan- são civilisadora tem alastrado e dilTundido, os ele- mentos da sua desintegração íunccional. Dahi o crime, a loucura, as perversões, as moléstias do espirito. 'Conhecidas estas relações dos toxicos com o systema nervoso ao bygienista moderno cabe a repressão sem tregoas e sem complacências do uso dos toxicos, maximé daquelles cujo habito orgânico se estabelece. A esses se refere a dissertação deste trabalho que obrigadamente submetto ao juizo da faculdade. 9 JgiAS substancias embriagantes, ao aí coo J cabe, de facto, a hegemonia etiologica das doenças sociaes. Pela corrente sanguínea ao território superior das faculdades intellectuaes vehiculado, em virtude de alterações na massa rmcleo-plasmatica da cel- 1 ula nervosa produzidas, elle engendra na actividade intellectual phenomenos da mais exquisita e bizarra modalidade e na esphera emocional aberrações que frequentemente constituem attentados á esta- belecida ethiça social e á lei. Aattitude mental que elle no periodo agudo da intoxicação determina, caracteristicamente, marcam a insubsistência da so- berania cerebral pela annullacão dos phenomenos conscientes e a preponderância da vida médullar consecutiva ao exaggèramento e considerável exci- tação dos actos impulsivos e reflexos. O trabalho de percepçào, retenção e elaboração das impressões exteriores consideravelmente diffi- cultadò, a contrastar com a extrema facilidade das impulsões volicionaes e motoras atempa para a gestação das idéas precipitada e tumultuariamente formuladas a mais absoluta carência de cohesão ò 10 de ássociabilidatle que expre'ssivamente singulárisa o estado mental do ébrio. Legrain de Saule catalogou em tres períodos ou phases distinelas os phenemenos cerebraes obser- vados durante a intoxicação aguda ou accidental do álcool: embriaguez alegre ou pbase da exci- tação, embriaguez furiosa ou phase da pertlibação e embriaguez lethargica ou phase da stupefaceão. Em geral, durante a primeira phase, nota-se dilatada a expansão da personalidade psychica: o indivíduo é cònnnunicativo, generosov aífavel e como se nada perturbasse o seu espirito, as palavras aos lábios lhe affluem e a timidez se muda em ousadia. Sobre este periodo diz Macnish: «as consequên- cias da embriaguez são temíveis mas os prazeres são certamente extáticos. Quando se estabelece a iIlusão a felicidade é completa; o cuidado e a me- lancolia são atirados ao vento, e o Elysium com suas glorias desce sobre a imaginação deslumbrada do embriagado. Alguns autores tem faltado do prazer de estar completamente ebrio; esta todavia não é a phase mais deleitavel. Aoccasião é quando a pessoa não está nem sóbria nem perturbada mas entre ambas, como diz o bispo Andrew. 0 mo- mento é (piando os vapores etliereos começam a lluctuar ao redor do eerebro, quando a alma expande a suas azas e eleva-se da terra, quando a língua sente-se solta na bocca e quebra a tacitur- nidade previa se havia». Crescida a dose toxica, ou se a predisposição da victima é um coníirmador testemunho da asserção de que o álcool serve de craveira para se aquilatar da resistência psychica individual, as idéas alegres. 11 a sensação cie bem estar dão logar á irritação è succeptibilidade excessivas, e então o menor gra- cejo a mais inoffensiva referencia basta a constituir para nina defesa brutal arrazoados motivos. E sob a influencia desequilibraclora do toxico uma anor- mal opportunidade se offereee de, justificando o antigo adagio—m vi no vcritals—serevellar a natureza intima da pessoa. A mais ligeira imperfeição mental se exliibe e a feição que domina na forma do caracter se exaggera; os desejos, as tendências, as volições instinctivas libertadas do dominio regulador das faculdades conscientes impõem-se desenfreadas. 0 indivíduo, baldo de senso moral, ou clelle parcimoniosamente fornecido, torna-se durante a embriaguez detestável e por palavras e obras obscenamente licencioso; o homem franco, alegre, exalta-se e no gabo do seu valor guinda-se á mais alcantilada superioridade; o taciturno lamen- ta-se, o fraco de espirito torna-se bôbo, e o homem intelligente adquire mais seintillação para suas faculdades. Durante este período em que predo- minam excitação e rapicla elaboração mentaes »frequentes vezes irrompem crises maníacas que levam o indivíduo a desmandos delictuosos; e transmutam o inoíVensivo em uma ameaça pgra os outros. «As duas principaes altitudes do ébrio», con- sidera M. Legrain «a tristeza e a alegria dão logar no predisposto a duas formas de embriaguez liem definidas:—melancholia e embriaguez maniaca» «a predisposição revela-se no bebeclo» accrescenta o sábio professor francez «em suas acções melhor cio que em sua altitude; se nos recordarmos que o degenerado é em muitos casos synoonimo de 12 —impulsivo ou instinctivo comprehendemos muito facilmente como a embriaguez pode favorecer ao surto desencandeado de todos os impulsos; o roubo, o incêndio, o homicídio os actos ruais extravagantes podem ser commettidos». A acçào do álcool, nesta phase incide principal- mente sobre o departamento vascular, determi- nando com a paralysia dos vaso-motores o relaxa- mento das paredes das artérias em virtude da qual sobrevem excesso de irrigação sanguínea na peripheria do enceplialo; o coração sem o esforço da resistência arterial accelera-se e no seu funccio- namento vago e desordenado a assemelhar-se a lielice de um vapor que trabalha fora dagua (Nor- mann Kerr). No segundo período da intoxicação accidental o indivíduo conserva o uso dos sentidos «mas» accrescenta Hoffbauer: «o que o torna perigoso e propenso á pratica de acções lesivas e criminosas é a anhilação do seu espirito, a falta de memória e reflexão, elle só existe para as impressões ataba- lhoadas e incompletas que lhe fornecem os sen- tidos; o mas leve incidente basta para despertar nelle as maiores paixões, os crimes rnais violentos; pode ser chamado o momento perigoso da em- briaguez)). Nesta phase ao lado dos accidentes levantados na vascularisação, o álcool, attinge directamente a rei lula nervosa. Elle age então como um veneno subtil e poderoso do centro cerebral «cuja textura é a mais delicada da economia» e cujas funcções são as mais suceptiveis de variabilidade. Embo- lando a percepção, difficultando a retenção das impressões, elle estabelece a amblyopia intelle- 13 cttial tanto mais temível quanto ella é acompa. nbada da excitarão dos centros reflexos e impul- sivos. E é em tal estado que o indivíduo na inconsciência da força que despende, em cornmetti- rnentos innocuos pratica actos violentos e exces- sivos. 0 clr. II ume! cita o caso de um condemnado de Oxford que durante a embriaguez asphyxiou uma creança de um anuo Iliba de seu melhor amigo. Normann Kerr narra o de um individuo que se embriagando tinha o mas vivo desejo de atirar em alguém. 0 de outro que em idênticas condições tinha para experimentar seu reavoIver favorito a mesma excentricidade. 0 terceiro periodo é caracterisado pelo marasmo impassivel e frio em que se mergulha o cerebro e que o torna incapaz de reagir ás causas impres- sionantes. 0 indivíduo é entregue ao descuidado abandono das cousa mortas; ao envez de constituir uma ameaça para os outros corre o perigo da superveniencia de aecidentçs diversos que podem ser a causa da sua morte., E’ a p lia se do pallor vital. A frequente e estimulante incidência do álcool sobre a cellula nervosa consideravelmente pertur- bando ometabolismo orgânico, imprime ás conce- pções affèctivas e intellectivas um cunho de iusta- bilidadee excitabilidade mórbidas que á conducta do ebrio empresta, feição especial magistral mente delineada nestas linhas de Brantwate;—Refractorios, desordeiros, violentos, exigem vigilância ininter- rupta e rigososa necessária á prevenção de possiveis occorrencias oífensivas aos outros e a si. Mutáveis de caracter, em alto grau sujeitos á pronunciada ex- citação, á mais insignificante referencia respondem 14 coto alteroso ataque cabível aos insultos lesivos á sua dignidade e amor proprio. Um olhar, uma palavra, uma acção aleada de oifensa é interpre- tada como vitupério e desprezo, ou meditada pro- vocação. Os conselhos, as opiniões estranhas refe- rentes á sua conducta incorrem sempre em visível desagrado. Conforme o seu parecer convicto e inabalável os legisladores são uns tyranos e os agentes da lei meros instrumentos da perseguição organisada. E’ inútil e inconveniente apontar de- .feitos em seus raciocinios e agumentos; baldos de senso moral, são incapazes de comprehender as conveniências sociaes, o respeito ás instituições e a tudo logo manifestam altitude hostil e refractaria. E’ isto no momento mais quieto; o quadro mais se assombrea quando irrompem cóleras indomáveis. Não é agradavel presenciar-se o ataque insano: desenfreado abandono ás paixões, desmedida vio- 'lencia contra os que se approximam maximé ua intenção de contel-os; íallencia de qualquer noção de moralidade e deCencia; linguagem a mas vil e barregã são em largos traças os caracteres mas em evidencia. Um grande numero de individuos sob a vigilância da orientada liscalisação de especia- listas o sujeitos a estes ataques' passionaes somente precisam de uma arma para oífender e até matar qualquer pessoa contra quem se accende a sua cólera; e de facto muitos delles supportaram ânuos de prisão por assaltos violentos ou tentativa do assassinatos, etc. A única possibilidade de uma vida ordenada e util está na completa abolição do uso do álcool nas suas refeições pois da conti- nuação do abuso mais graves phenomenos re- sultam.» 15 Anamnesicos, incapazes de associar idéas, incom- pletos na formulação dos seus raciocínios os alcoo- listas, attingindo á chronocidade, não raro tendem pelo excesso do abuso para as fronteiras da loucura. Já Aristoteles denominava a embriaguez loucura voluntaria. «O álcool» afíirma o dr. Aly Savage, «affectando a nutrição do cerebro pode ser cha- mado nervo-toxina; elte dá origem a symptoínas que vão do delirio á inania e pode dar logar a um allucinado estado chronico. O excesso do abuso traz mais ou menos rapidamente e a certas pessoas fraqueza mental com caracteres typicos. Estes caracteres são associados a desordens sensoriaes, tornando-se confusas e desconhecidas as idéas de tempo e Jogar: Em muitos pontos os excessos alcoolicos assemelham-se em suas consequências á decadência mental senil». O álcool conduz á insania desillusional, á insania recorrente, á insania delirante, e por fim á demên- cia de um typo especial/ Examinando-se rapidamente as estatísticas dos vários asylos das diversas nações, sem maior fadiga aos olhos do observador logo resalta a predominância do álcool na etiologia da alienação mental. Magnan o insubstituível clinico do Asylo de SanfAnna verificou notável áugmento de loucos alcoolicos. Le-se em sua importante e esclarecida estatística: — No anuo de 1887 a proporção de alie- nados alcoólatras era de 121,84 por cento para ho- mens e 3,92 para mulheres; em 1890 a proporção era de 27,49 para homens e 7,91 para mulheres; em 1894 a porcentagem atiingia a 30,11 para homens e 9,05 para mulheres. Siemering affirma que existiam no Asylo de Misericórdia de Berlim nos annos de 16 4888 a 1890 sobre 1784 asylados 2.200 alcoolistas. Na Memória do dr. Claude sobre a alienação mental e suas relações com o alcoolismo no pe- ríodo de 1861 a 1886, segundo o professor Jaquet o trabalho incontestavelmente ruais esclarecido e instructivo nogenero, se registram proporções mais assustadoras e concl udentes:—sobre 80593 alienados do sexo masculino internados no prazo de 25 annos nos asylos públicos, 16932 eram alcoolistas ou sejam na proporção de 21 poi cento; e sobre 66772 mulheres a intemperança existia em 5 por cento, isto é, em3356 casos. O dr. Juliano Moreira, esclarecido director do Hospicio Nacional do Rio de Janeiro, conforme lemos no seu relatorio de 1904 ao Ministro do Interior apresentado, constatou durante aquelle armo em 1806 loucos do Hospicio e das colonias, 431 que soffriam de pychoses toxicas. A cifra da porcentagem 128,8 impressi- onou de tal modo o eminente psychiatra bahiano que sobre o alcoolismo elle se dirige ao governo nestes termos: «Não me posso furtar ao desejo de chamara áttençao de v. ex. para a rubrica—alcoo- lismo—ílagello social que cresce e cada vez mais aqui, nos hospitaes geraes, nas prisões vae dei- xando os resultados de sua acção nefasta.», No Hospicio de Carenton (estatística do dr. Tor- ne uf 1889) existiam sobre 350 lunáticos 102 casos em que a insania era originaria do alcoolismo, sendo 34 por cento dementes paraiyticos, 15 pôr cento apresentando deliriurn tremens, 7 por cento rnaniacps (mania a pot.a, inania ebritirumj 4 por cento que tinham loucura circular e 2 por cento que eram dementes; o-s restantes apresentavam uma symptomatologia irregular e anómala. 17 Os dementes paraiyticos, em geral, accusando atrophia cerebral, apresentam tendências á aggres- são e ao suicídio. Estas tendências se avultam nas formas avançadas da demencia onde Bevan Lewis constatou a proporção de 66,6 por cento de sui- cidas e 88,3 de perigosos aggre&sores. 0 delirium tremem a psychose aguda convul- sionai (Tanzi) é um episodio frequente no curso do alcoolismo clironico (Dieulafoy). Depois de um período prodomico de inquietação, insomnia, de pressão, mau humor se enscenam os mas pavo- rantes e angustiosos quadros: allucinaçõese desilu- sões em que o doente percebe figuras de animaes ferozes que o perseguem, soldados que ò desejam prender, ratos, vermes nojentos que lhe correm pelo corpo e isto torna-o irriquieto, medroso, ater- rorisado: prende-o á excessiva angustia e leva-o, para^fugir a estes tormentos, á pratica de acções tragicas e desastrosas. A forma maníaca da insania alcoolica não é isenta de perigos. No seu curso registram-se, maximé nos estados delirantes, irrupções de arro- jadas inclinações para o crime e o suicídio. São doentes arriscados e temíveis pela intensa excitação que delles se apodera e em virtude da afflictiva e tormentosa natureza das suas allucinações. Além desta symptomatologia, cujo polymor- pliismo é evidente, o álcool pode, no curso de sua intoxicação, dar logarao ãpparecimento deaccessos epileptiformes em que, ao lado das manifestações motoras semelhantes ás da epilepsia, observa-se a analogia typica no ponto de vista mental. Neste particular, porém, a sua perniciosidade é inferior 18 a do absyntho cujo uso vae-se tornando cada vez ma is extensivo. A existência da epilepsia aicoolica tem soffrido da parte dalguns mentalistas franca hostilidade cujo arrazoamento não resiste ao nú e insophis-, mavel depoimento das numerosas estatísticas que illustram a historia de alcoolismo, entre as quaes salienta-se a de Dravet que registra 54 epilépticos em 524 alcoolistas. Para o mesmo acerto corrobora a interessante observação do meu distinto amigo dr. Fabio David (These inaugural pag. 16) de um doente da clinica psychiatrica, inveterado bebedor da aguardante que ha 2 annos accusava ataques: epilépticos com as suas tres phases caracter isticas phase das convulsões tónicas, phase das convul- sões clonicas, e phase da resolução muscular. Gesare Lombroso,a quem devemos o subsidio de extraordinária messe de factos desta natureza, affirma existirem relações estreitas entre o alcoo- lismo e a epilepsia «Ordinariamente» diz o conhe- cedissimo autor da Anthropologia criminal, «a epi- lepsia se enscena quondo os signaes do alcoolismo desapparecem. Em geral isto acontece quando aos 40 ou 60 annos, o eixo cerebro-espinhal oppõe certa resistência aos ataques do alcooiismo». E’ um estado constitucional gerado pelo toxico alcoo* lico e cujo surto coincide, segundo a criteriosa opinião de Lombroso, com o desapparecimento de todos os signaes do alcoolismo. Convêm notar para o completo exgotamento do assumpto que entre aquelles que 4 epilepsia negam ettiologia toxica, alguns autores existem que a consideram modalidade neural porque re- surste nos ascendentes anuelle estado nervrona- 19 thico que Blanchet com muita propriedade deno- minou nervosismo, e cuja genese guarda, com os tóxicos, relações de causa e effeito. Antecedendo, ou em concommittancia com o qua- dro symptomatico no departamento da neurilidade debuxado, lesões geral mente degenerativas al tes- tam, em orgams outros da economia, as deleterias consequências do abuso álcoolicp; e, se estas não são como as do systema nervoso, de molde a constituir graves desvios do modelo nervino, podem em circumstancias dependentes da organisação individual, produzir sérios defeitos anatómicos, vicios de constituição que incapacitam o orgam em que são engendrados para o exercitamento funcci- onal porque se completa a sua existência. Ingerido, o álcool atravessa a pharynge, attinge o estomago, cuja mucosa soffre os efíeitos de uma phlegmasia de forma catharral,que é em causa no vomito matutino dos ébrios, em que é notável a abundante rejeição de mucosidades; absorvido pelos clivliferos, põe-se em contacto com a glandula hepatica, cuja sensibilidade defronte deste toxico é nos climas quentes extraordinária, abi determi- nando reaccões congestivas, a que frequentemente succedem cyrrhoses do typo hypertrophico. Per- corre o interior dos vasos, cujas paredes altera, ternando-as, pela sclerificação, endurescidas e edifica pela generalidade arterial das lesões, a entidade mórbida, pathogenicamente denominada 20 arterio-sclerose. Elimina-se, em grande parte, pela. superfície cutanea, pelos rins e pelos pulmões, e nestas zonas da economia, na extraordinária proli- feração do tecido conjunctivo, averigua-se a sua passagem devastadora. Em consequência das alterações da natureza dos tecidos, sobrevem perturbação do metabolismo normal e um estado de meiopragiva geral que, particularisado aos orgams excrectores, deter- mina a intoxicação do organismo, intoxicação de caracter endogeno, que não é, no sabio conceito de Bevan Lewis, extranha á pathogenia da em- briaguez. Posto que seja nosso escopo deixar evidente a intemperança alcoólica como fonte productora do crime, vamos em rapida citação summular,cedendo á transcendência do assumpto, para aqui trans- portar os accidentes que mais frequentemente se registram, além dos neuro-cerebraes, no traçado pàthologico do álcool. aparelho digestivo—A’ ingestão de doses mais ou menos fortes de álcool, soffre «o laboratório da machina humana» o peso de intensa irritação local a que physiologicamente correspondem acceu- tuadas perturbações do trabalho elaborador dos alimentos. No inicio, as perturbações se restringem a um simples embaraço gástrico que desapparece apenas supprimida a sua causa determinante. Com a repetição de novas doses, porém, maximé se ella é feita quando vasio o estomago, o embaraço gás- trico torna-se effectivo, e agora como coefficiente de causas complexas, entre as quaes, segundo notou o dr. Painel de Marmon, avultam a ausência de movimentos peristaltiticos e alterações de 21 ordem qualitativa nas varias secrecções indispen- sáveis e accessorias ao acto da digestão. Continuando a agir sobre a mucosa estomacal, presa daquelles accidentes que caracterisam phy- sio-patliologicamente as reacções inflammatorias, o álcool opera a destruição das formações repa- radoras garantidas pela ininterrupta reproducção epithelial, e então sem o anteparo do vernis que protege a mucosa contra o contracto corrosivo do acido chlorhydrico, a ulceração é um facto comple- mentar esperado, quando a obliteração dos capil- lares que nutrem a região precede á formação de tecidos novos marcada pela desenfreiada prolife- ração dos seus elementos cellulares e cuja etiologia, ainda boje, eonstitue, apesar das minuciosas devassas procedidas pelos sábios dos últimos tempos, ponto sombrio e mysterioso da me- dicina. As funestas consequências que redundam destas lesões para a nutrição geral do organismo facil- mente se deprehende da abolição do coucurso do estomago, tornado paralytico e fonte de soffri- mentos, sobre as substancias alimentares, que, em vez de attingirem ás condições essenciaes á sua penetração na intimidade dos tecidos, soffrem, em grande parte, a acção putrefaciente dos micro-orga- nismos, hospedes habituaes de um estomago inerte e dilatado, fornecendo principios que agem pode- rosamente como venenos sclerificántes sobre os vaos e sobre a cellula nervosa como excitantes clirectos. Não menos funestos são os resultados da inci- dência alcoolica sobre os intestinos, determinando, pela alternancía de phases diarrlieicas e períodos 22 de constipa,cão, a anto-intoxicáção e o depátipêra- mento orgânico. fígado.—A sclerose do fígado como extendida propagação da primitiva sclerose dos vasos da porta, originando obstáculos mecânicos á circula- ção geral e diminuindo a importante funcção deste orgam no balanço das resistências naturaes oppostas aos toxicos, é um facto assellado pela observação quotidiana e sobre o qual seria ocioso insistirmos. nephrite.—A possibilidade da existência de ne- phrites alcoólicas é attestada pelas estatísticas de Frerich, na Allemanha, de Requerd, de Ghristisan, na Escócia e pelos estudos de Ragé que revellaram a hypertrophia do stroma renal, afogando e eli- minando o epithelium que forma a superfície fil- trante do rin. systema vascular.—A accumulação na massa sanguinea das matérias extractivas, produeto da desassimilação organica e das substancias toxicas na superfície gastro-intertinal hauridas, levantando a tensão sanguinea no interior das artérias, cria para estes vasos uma causa de irritaçao assidua e permanente que começa pela túnica mais interna e se alastra ãs de mais membranas, tornando-as rígidas, inflexíveis, incapacitando-as para o exer- cício do seu papel physiologico de manter con- tinua e ininterrupta a onda sanguinea propeli ida pelo myocardio. Este accumulo se averigua entre os inveterados abusadores de álcool, em que, ao lado da insufíi- ciencia organo-funccional dos apparelhos excrec- tores, se encontra prodigiosamente crescida, a flora 23 microbiana dos intestinos e estomago, responsável pela fabricação das toxinas. E\ portanto, o álcool ainda um factor etiologico indirecto da arterio-sclerose. tuberculose.—0 álcool favorece, debilitando o organismo, armuliando os processos reaccionarios que os agentes patbogenos provocam, a ecclosão da tuberculose. As observações feitas em torno deste ponto na Allemanha, Inglaterra, P rança e 1 tal ia por Letulle, Tathar, Jacquet e pelos profes- sores Brouardel Landonvi não deixam ensanchas a duvidas ou contestações de valor. A nocividade do álcool e das bebidas alcoólicas, aíferida pela producção da criminalidade e outras funcções viciosas e aberrantes do organismo, depende de causas múltiplas, em extremo variaveis, no concernente ás suas propriedades modiíica- doras da forma, da marcha, e da intensidade da i ntoxicação alcoolica. A desigualdade funccional entre os indivíduos da especie humana, estabelecida pela existência cie reacções morbosas latentes, constituindo os tempe- ramentos, as idiosvncrasias, etc., adquiridas no curso activo de uma moléstia anterior ou que originariamente se reterem ao legado pathologico de uma ascendência de mórbidas taras inquinada, é um factor dos mais poderosos da pluralidade rnorphologica do alcoolismo e que a jornaleira observação tem apurado como determinante da differença do gráo de ebridade a que attingem clous 24 indivíduos á mesma dose e quantidade de álcool' submettidos. O toxico tem a propriedade de selec- cionar, para o exercitamento dos seus perniciosos attributos,o orgam trabalhado pelos processos mór- bidos, a que se filiam os svmptomas que dominam no quadro das manifestações mórbidas originarias da intoxicação. E’ o que se observa entre nós, onde o fígado, cuja trama o processo palustre assediou e que assiduamente soíTre a incidência caustica e irritante das toxinas abundantemente fornecidas por uma alimentação defeituosa, é o orgam preferido pelo veneno e as suas lesões con- stituem a única consequência da passagem deste pela economia. E’ o que se tem verificado entre os novro-patbas, em que o álcool provoca, em vez da hepatite, symptomas filiados ao syStema nervoso: o delirium tremens, a epilepsia a demencia, a loucura, etc. Sem o concurso debilitante do esforço da defesa natural das reacções morbosas que podem inci- pientemente inquinar o organismo, gosando este de uma saúde geral,desdobrada no perfeito funccio- namento de todos osorgams,apparelhos esystemas, a resistência contra a acção do toxico seria mais eflicaz e a vitoriosa tenacidade que é apagio de algumas organisações seria a regra geral nas resistências individuaes contra as caus morbi- gerantes. Deixando de lado esta eircumstancia extrin- secca, de natureza organica, convencionadamente denominada suceptibilidade, somente imprescin- dível á mensuraçào da nocividade relativa das bebidas alcoólicas, os elementos que a formam e de cujas qualidades perniciosas ella representa o 25 coefficiente final, são o titulo alcoolico do liquido e a sua continência em substancias addicionadas industrialmente ou que se originaram de pheno- menos chimicos. As experiencias de Maurice Pèrrin, Vallemaque, Duroy, Hope Seyler, Ghauveau, Cunge e Richet gerararam e diífqndiram entre os homens de sciencia., o principio da absoluta toxidez do álcool, a despeito da incontestável autoridade .de Libiege que, paradoxalmente, affirmava as qualidades ali- mentares deste corpo, apenas baseado na falta de sensação de fome entre os bebedores (temperados) acompanhada de conservação da energia. Estas experiencias, sobretudo, as de Chauveau, cujos resultados foram brilhantemente communi- cados ao congresso de agricultura de Vienna, crea- ram em torno do álcool uma atmosphera de exaggerada prevenção, que chegou ao ponto de, por temor a sua insidiosa agencia toxica, ser banido por alguns das prescripeões therapeutica. As modernas experiencias de Antwater e Bènedict, entretanto, forneceram resultados de cabal e satis- fatório priterio scientitico, que diluíram por com- pleto este falso conceito firmado pelos factos experirnentaes anteriores e restauraram «até uma certa medida» a velha proposição do acatado sabio gelnano, deixando patentes as propriedades alimen- tícias do álcool assim como a possibilidade, sem prejuízo orgânico, da sua substituição ás matérias atnylaceas e aos assucares no regímen alimentar. Abstemo-nos de transportar para aqui, as cita- das experiencias de Antwater e Benediet para não tornar demasiado longa a nossa discretação. Basta á elucidação do problema assás batido do 26 álcool como elemento nocivo, qne passemos re- vista ligeira aos resultados obtidos pelos eminentes ex per im e ntad ores. Pelo exposto destes resultados, conclue-se que a dóse alimentar de álcool vinico, no prazo de 24 horas, proporcionada a um organismo são e pre- viamente habituado a esta substancia, é approxi- madamente de 1 a 3 grammos por kilogrammo, ou seja de íj0;>t\75 para um indivíduo de 65 kilos. Em dose de 7,75 grammos o álcool começa a ser nocivo ao homem. Eis o quadro das relações de toxidez dos di- versos alcoes para um kilogrammo de animal. DOSE TOXICA Álcool ethylico 7,75 » methyiico 7 grammos » propylico 3,8 » isopropylico .... 3,7 » butvlico * 2 grammos » amylico 1,6 » oenahtylico .... 8 grammos Ao lado da' quantidade de álcool, as expe- riências de Antwate revellam que a natureza deste corpo influe sobre o valor toxico das bebidas. Além dos alcoes, base toxica fundamental, al- gumas bebidas alcoólicas entregues .ao consumo contém substancias, que, pelo seu alto grau de toxidez, avultam em consequências nocivas. São, em geral, elementos que a industria dos fabri- cantes fornece para stimulação ao appetite em- botado dos consummidores. Neste grupo se col- locarn as variadas essencias que formam a base principal dos vinhos aromáticos e dos liquores: o 27 aniz, a badiana, a coloquynta e outros principies essençiaes, cuja acoào principal incide de prefe- rencia sobre os centros nervosos e alguns dos quaes emprestam feição caracteristica ao quadro morbido, podendo-se distinguir perfeitamente como entidades nosologicas ao lado do alcoolismo (Lan- ceraux). Das substancias mais commumente encontradas nas bebidas alcoólicas e originarias de transfor- mações no seio do proprio liquido Audigé orga- nisou a seguinte labei la demonstrativa do seu poder toxico: DOSE TOXICA Glycerina 8,75 granimos Aldehydo acético . . . i,i d Ether acético . . . . 4,0 d Acetona 5,0 » * * * Os numerosos factores etiologicos da embriaguez foram por Normann Kerr filiados a dous grupos distinctoS: o grupo dos factores predisponentes e o dos factores excitantes. No primeiro o conhecido professor e publi- cista inglez colloca: o sexo, a edade, o tem- peramento, a raça,'a herança, a educação, a religião, a dieta, más condições hvgienicas, estado civil, circumstancias pecuniarias, hábitos associados, intercurrencia mórbida e o clima. Entre as causas excitantes registram-se circumstancias de ordem social, como o choque nervoso, oriundo de pertur- bações domesticas, commerciaes e financeiras; a 28 puberdade, a excitação pathologica ou physio- logioa determinada peio estado de gravidez; o esgotamento nervoso e as prescripções medicas contendo álcool. sexo.—0 sexo masculino fornece, sem duvida, á cohorte dos álcoolistas o mais grosso do seu contigente: é o que se induz das estatísticas do ínebriates Home Fort Hamilton dos annos de 1879 a 1881 que registram entre 600 alcoolistas apenas 93 mulheres. Uutimamente Normann Kerr aqsig- ual a que, na Inglaterra, a embriaguez feminina é elevada e apresenta evidentes tendências a aug- mentar. Facto semelhante observa Lydston entre as americanas, que não se dedignarn de esvasiar consecutivas taças do cock-tail, a bebida consa- grada dos clubs por ellas frequentados. edane—Incontestavelmente, tem-se apurado das estatística de Raubinowtch, Fere e Dujardin Beau- metz que a edade de 80 a 40 annos, quando varias circumstancias actuam sobre o espirito, primindo o moral, é a mais sujeita á embriaguez. Mas, á puberdade cabe a primasia quanto a intensidade e frequência das moléstias mentaes originadas da intemperança. E’ «na adolescência» diz lie vau Lewis, « nessa época de desenvolvimento moral e emocional do homem que os excessos álcoolicos produzem acção mais directa sobre a vida mental». tenfaramento—Todos os temperamento estão dispostos a contrahir a embriaguez. Todavia, Nor- mann Kerr acha que e11a é mais rara entre os lleugmaticos. Depois de uma observação interes- santíssima, elle eonclue que entre 100 alcoolistas, 87 pertenciam ao temperamento nervoso, e 13 ao 29 íleugmatico; «o que é para notar» accreseenta Nor- mann Kerr, «é a fôrma differente qae a embriguez assume entres estes indivíduos: elles são pouco impressionáveis e podem, sem apresentarem symp- tornas de excitacão e de perturbação, ingerir grandes quantidades de álcool; e quanto mais bebem tanto mais inalteráveis e indiíferentes (icam ao ([ue os rodeia. raça—Provavelmente, em virtude do grande esforço intellectual em uma incansável actividade dispendido e o consequente exgotamento nervoso que reclama um excitante artilicial, aos anglo- saxões parece caber a hegemonia da intemperança alcoolica. «Foram os anglo-saxões» escreve Nor- maun Kerr, «que nos transmittiram sua inclinação para a embriaguez e a aguda sensibilidade neurótica. Foram poderosos no copo e a historia relembra as suas proezas». Em relação á succeptibilidade para o vicio do álcool, achamos em Normann Kerr, disposta na ordem decrescente a seguinte classificação original dos vários paizes da Europa: Inglaterra, Allertianha, Rnssia, França, Suécia, Noruega, Suissa, Italia e Ilespanha. Na America do Norte a intemperança é larga- mente espalhada, contribuindo para isto como factor coadjuvante da raça a extraordinária acti- vidade da vida dos seus habitantes. Entre os negros facilmente excitáveis, a embriaguez é mais ruidosa e demonstrativa do que profunda eo elTeito anes- thesico de menor duração. As raças vermelha e indiana denotam grande pendor para a embriaguez; bebem sempre que é possível até á morte rapida e violenta. O contrario se observa entre os judeus que são sob rios, o que 30 f nelles é antes um efleito da raça do que da reli- gião a que attribuem alguns. herança—A predisposição hereditária contribue de modo profuso para o alastramento do vicio do álcool. E’ em virtude de uma tara degenerativa á sua prole transrnittida pelo alcoolista e contra a qual não vale o esforço emaneipador de uma vontade enferma o impulso que sujeita o individuo á attração irresistível das bebidas alcoolisadas, como se ellas constituíssem objecto de inadiavel necess i dade orgai 1 i ca. Já Platão reconhecia os perniciosos effeitos da intemperança sabe a descendência e prohibia o uso do álcool aos recem-nascidos. Plutarcho dizia «que bebedos geram bebedos» e Aristoteles ensinava que as mulheres ébrias gera- vam filhos semelhantes a si. Contam que Diogenes increpava um ébrio dizendo que fôra gerado pelo pae em estado de embriaguez. Conforme assignalou Tanzi, a ebriedade prematura .em baixa edade é um signal dessa herança, «Admitte-se», diz o professor Tanzi, «uma herança similar do alcoolismo; «in- terpretado ao pé da lettra e como puro factor orgânico, convém acceital-a cum Zftcz c/cz fl/Ò-cz/iccz, Jzt? c/e'' c/y 7j?Z?ç. "O jSeCRETARLO, / Q)/\ <~yjle/iand/'0' do-ó- £fiei& í^/jíeireâíô-.