FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA THESE APRESENTADA a’ FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA EM 31 DE OUTUBRO DE 1912 para ser defendida por NATURAL DO ESTADO DA BAHIA Filho legitimo de Joaquim José Ribeiro d’Oliveira e de Brasília America da Silva Oliveira AFIM DE OBTER O GRÁU DE i* mBUSUtA DISSERTAÇÃO Cadeira de Hygiene PROPHYLAXIA DA SYPHILIS PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medico-cirurgicas. BAHIA Typ. c Encadernação Imprensa Nova 58, Ruas da Montanha e Alfandega, 58 1912 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Director—Dr. Augusto Cezar Vianna Vice-Director— Secretario — Dr. Menandro dos Reis Meirelles Sub-Secretario — Dr. Matheus Vaz de Oliveira PROFESSORES ORDINÁRIOS MATÉRIAS QUE LECCIONAM Manoel Augusto Pirajá da Silva . . . Historia natural medica Pedro da Luz Carrascosa Physica medica. Chimica medica. Julio Sérgio Palma Anatomia microscópica. José Carneiro de Campos Anatomia descriptíva. Pedro Luiz Celestino. ....... Physiologia. Augusto Cezai Vianna Microbiologia. Antonio Victorio de Araújo Falcão . . Pharmacologia. Guilherme Pereira Rebello .... Anatomia e Histologia Pathologicas Fortunato Augusto da Silva Júnior . , Anatomia medico-cirurgica com Operações e Apparelhos Anisio Circundes dc Carvalho Clinica medica Francisco Braulio Pereira Clinica medica. João Américo Garcez Froes Clinica medica Antonio Pacheco Mendes Clinica cirúrgica Braz Hermenegildo do Amaral . . . . Clinica cirúrgica Carlos de Freitas Clinica cirúrgica. Clodoaldo de Andrade Clinica ophtalmologica. Eduardo Rodrigues de Moraes .... Clinica oto-rhino-laryngologica. Alexandre E. de Castro Cerqueira . , . Clinica dermatológica e syphiligra- phica. Conçalo Muniz Sodrè de Aragão . . . Pathologia geral, José Eduardo Freire de Carvalho Filho . Therapeutica. Frederico de Castro Rebello .... Clinica pediátrica medica e hygiene infantil. Alfredo Ferreira Magalhães Clinica pediátrica cirúrgica e ortho- pedia. Luiz Anselmo da Fonseca Hygiene. Josino Correia Cotias Medicina legal. Climerio Cardoso de Oliveira Clinica obstétrica José Adeodato de Souza Çlinica gynecologica. Luiz Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. Aurélio Rodrigues Vianna Pathologia medica Antonino Baptista dos Anjos .... Pathologia cirúrgica. PROFESSORES EXTRAORDINÁRIOS Egas Moniz Barretto de Àragão . . . Historia natural medica. João Martins da Silva. ...... Physica medica. . . . . Chimica medica Adriano dos Reis GordilHo Anatomia microscópica José Affonso de Carvalho Anatomia descriptíva. Joaquim Climorio Dantas Bião. . . . Physiologia Augusto Couto Maia Microbiologia Francisco da Luz Carrascosa .... Pharmacologia . . . . Anatomia e Histologia pathologicas Eduardo Diniz Gonçalves ...... Anatomia medico cirúrgica com operações e apparelhos Clementino da Rocha Fraga Júnior, . . Clinica medica Caio Octavio Ferreirra de Moura . . . Clinica cirúrgica . . . . Clinica ophtalmologica Albino Arthur da Silva Leitão .... Clinica dermathologica e syphili- graphica Antonio do> Prado Yalladares Pathologia geral Frederico de Castro Rebello Iiock . . . Therapeutica José Aguiar Costa Pinto Hygiene Oscar Freire de Cai-valho Medicina legal Menar.dro dos Reis Meirelles Filho . , Clinica obstétrica Mario Carvalho da Silva Leal . , . . . Clinica psychiatrica e de molés- tias nervosas Antonio Amaral Ferrão Moniz Chimica analytica E industrial Dr. João livangelista de Castra Cerqueira Dr. Deocieciano Ramos PROFESSORES EM DISPONIBILIDADE Ur. Sebastião Cardoso Dr. José Rodrigues da Costa Dorea A Faculdade não approva nem reprova as opiniões exaradas nas theses que lhes são apresentadas. Ao Iniciar mos Evitae a syphilis se quereis ser forte. Dr. Liebig Nno ha cerebro são em homem syphilitieo. Dr. Fournier, Um syphilitieo basta para inu- tilisar uma geração. Dr. Werneck Hygiene, o futuro vos pertence. E’ de máxima importância o assumpto que escolhemos para nossa these, como também é a nossa incompetência para dissertal-o. Si não fosse uma obrigação, um dever, não ousaríamos tanto e ousado seria quem, pretendendo dar os primeiros passos na arte de curar e de evitar moléstias, se julgasse com força bastantes para enfrentar assumptos como este, cuja importância e valor são incontestáveis. Nas paginas, que ides lêr, vereis os nossos fracos conhe- cimentos scientifico'-;, mas vereis, também, verdades puras e inelutáveis: -as nossas misérias sociaes, oriundas da falta de hygiene, e o abandono em que vivemos dos poderes públicos, que não ligando a minima importância ás cousas uteis, se limitam somente as imitações hypotheticas, projectos malsi- nados em quanto os seus interesses pessoaes e monetários são sempre coroados do melhor exito. II E’ a syphilis o verdadeiro flagello da humanidade. E’ ella que estraga, enfraquece e aniquilla a todos, é ella que, quasi sempre, mancha e enluta a sociedade. E’ ella também, que mais frequentemente nullifica e esteriliza os cerebros. E que se faz para evital-a? Quaes os meios prophylacticos empregados? Que fazem os médicos para debellarem-n’a ? Que fazem as nossas hygienes ? Nada. E’, pois, contra isto que clamamos e pedimos misericórdia em nome da humanidade infeliz e soífredora, que se deixa illudir pelos exploradores scientificos, salvo raras excepções, e políticos que se movem com o fim unico e exclusivo de encherem as suas algibeiras, sem que lhe deem o balsamo sanificador para os seus males nem a divida instrucção para que ella possa comprehender e evitar os males que lhe per- ceguem. E, no entanto, nào ha quem os faça recuar, para que não continuem a sacrificar a tudo e a todos. Se nào fosse também o desejo, que nutrimos, de ainda recebermos as sabias lições de mestres competentíssimos, no ultimo momento das nóssas despedidas, mais difficil e mais espinhosa seria a nossa posição, apresentando uma tliese acerca de tão importante assumpto. Portanto, mestres, acceitae este trabalho modesto, e julga-o com benevolencia, pois temos certeza de que elle pouco vos agradará não só pela má explanação, como pelo diminuto cabedal scientifico. Acceitae-o: é o resultado dos nossos esforços e dos nossos sacrifícios. AUCTOR. o Caleira de Meie Prophylaxia da syphilis CAPITULO I Prophylaxia ipdividual A syphilis é uma moléstia infecto-contagiosa, pro- duzida pelo treponema pallidum de Schaudinn. E’ tão antiga como a humanidade. Foi descripta 3.000 annos antes de Christo, na China na obra de Hvang-ty e nesse mesmo tempo já era indicado o tratamento pelo mercúrio. Não nos surprehende a sua idade sendo entretanto, digno de justa admiração que a humanidade ainda não esteja livre dessa terrivel companheira de todos os tempos. No Brazil, em pleno século actual, não se cogita de sua prophylaxia ... já estamos acostumados. A syphilis, peor do que a tuberculose, é o verda- deiro flagello da especie humana. Estraga e aniquilla o homem: primeiro, pelas lesões individuaes, que produz no doente; segundo, pelos prejuizos collectivos com que fere á familia; terceiro, por suas consequências hereditárias, tradu- zindo-se na mortalidade das creanças ; quarto, pela degeneração e ameaça de abastardamento da especie, conforme affinna o Dr. Fournier. 2 A syphilis, enfraquecendo o organismo, prepara o terreno para todas as outras moléstias infecciosas ou não, e não é raro ver-se um doente syphilitico como um complexo de pathologia. Não ha symptomatologia infallivel, na syphilis; comtudo, os auctores dividem-n’a em tres periodos. Vejamos. Periodo primário, ou do cancro, de duração variá- vel de algumas semanas. Periodo secundário, que succede, immediatamen- te, ao primeiro, durante 2 ou 3 annos constituido por accidentes superficiaes, benignos ou malignos, que podem desapparecer sem deixar vestigios. Periodo terciário, de duração indeterminavel, con- sistindo em accidentes profundos, destruidores, sem- pre grave q ás vezes mortaes. No primeiro periodo, pouco o doente se encommo- da, passando, desapercebido, é uma pequena chaga o cancro, tendo na visinhança alguns ganglios engor- gitados, indolente de cura rapida, outras vezes é apenas uma pequena escoriação; semanas depois, apparecem erupções na pelle, nas mucosas, cephalal- gias, arthralgias, ostealgias, myalgias, nevralgias, perturbações nervosas, as mais variadas, ophtahnias, alopecia, etc. Em geral este periodo não é mortal, esta condição varia com o estado de tolerância ou de idiosyncrasia. O Dr. Pacheco Mendes, grande e inegualavel cirurgião brasileiro, cita um caso de um medico que morrera após 30 dias de infecção syphilitica. 3 Alguns auctores chamam a esta syphilis, syphilis maligna precoce. Não sabemos se têm razão. Q periodo terciário, o ultimo, o de horror, é o de desorganisação, destruição, de infiltrações, engorgi- tamentos de orgãos, de sclerose etc. Neste periodo, a syphilis ataca todos os orgãos, principalmente o systema nervoso e cardio vascular. Eis um quadro do professor Fournier, mostrando o horror do terciarismo: Accidentes interessando a pelle . 1518 casos Tumores gommosos sub-cuta- neos 220 » Lesões terciárias dos orgãos ge- nitaes 285 » Lesões terciárias da lingua. . . 277 » » » da abobada pa- latina 218 » Lesões do pharynge e garganta. i 18 > » dos lábios 45 » » amygdálas ..... 12 » » da mucosa nasal ... 10 » » ósseas. ...... 556 » > do esqueleto nasal. . . 241 » » articulares 22 » » do systema muscular. 23 » » do tubo digestivo ... 22 '> » da larynge trachea . . 36 » » do pulmão 23 » > do coração 12 » * da aorta 14 » 4 » do fígado ii casos » dos rins 39 » » dos testículos .... 355 » » dos olhos ui > » do ouvido . , . . . 28 » » das artérias e veias . . 17» » do cerebro e medulla . 2009 » Localisações diversas .... 19 » Esta estatística foi feita em 4700 doentes. Não está somente nisto a gravidade da syphilis; não, ella se estende rnais além, ella nos lega grande numero de moléstias para-syphiliticas taes como: a tabes, a paralysia geral, a leucoplasia e muitas outras taes como, myocardites, endocardites hepa- tites, nephrites, dyspepsias, enterites, aneurismas, etc, e perturbações outras seguidas de cachexias pro- gressivas. A principal condição de prevenir ou attenuar qual- quer moléstia não é determinar exactamente a sua causa e sim descrever com precisão todas as cir- cumstancias que retardem 011 favoreçam, que facili- tem ou impeçam o seu contagio e a sua propagação, eis a verdadeira prophylaxia. Antes evitar do que curar. Evitar como,# se não temos meios para isto, prin- cipalmente uma moléstia como a syphilis cuja pro- phylaxia individual é difficilima se não impossivel ? Quem poderá evitar a syphilis, se a sua contami- nação é tão facil ? A contaminação da syphilis, segundo o Dr. Four- 5 seca, pode ser venerea, ou extra-venerea podendo ser esta directa ou indirecta. E’ erro julgar-se que a svphilis seja somente vene- rea, erro este que traz consequências terriveis e irre- mediáveis as vezes. O contagio venereo se obtem por um coito impuro, podendo a copula ser natural ou anormal e incom- pleta, como no onanismo, por exemplo, tanto assim que se observa a syphilis no anus, na bocca, etc. A demora da incubação da syphilis muito influe para a sua propagação e este grande periodo determina um numero extraordinário de victimas. Sabemos que este periodo varia de tres a quatro semanas. O Dr. Charles Mauriac cita um caso de um inglez que teve uma copula impura tres semanas antes de casar-se e que quatro dias depois do consorcio appa- receu com um cancro syphilitico, e a pobre esposa, também quatro semanas depois do apparecimento do cancro no marido, apresentava um, em suaS partes genitaes. Com o fim de demonstrarmos quanto sâò múltiplas e variadissimas, complexas e difficeis as medidas pro- phylacticas contra este terrivel mal, que chamamos syphylis, nada é superior á instrucção e á exposição dos factos. Com isso, todas as circumstancias tão difficeis como variadas, tão desconhecidas como obscuras, dão forçosamente resultados extraordiná- rios, tanto mais quanto sabemos a etiologia da molés- tia e assim podemos indicar os meios de preservarmo- nos delia. 6 Assim, teremos que luctar para evitarmos tantas desgraças e misérias. A contaminação dos orgãoS ge- nitaes é a rnais frequente e assim sendo, aconselhamos prudência nas copulas, devendo preferir-se a absti- nência de relações sexuaes, quando se não tiver cer- teza, senão absoluta, mas pelo menos relativa da pos- sibilidade de uma contaminação. Havendo qualquer solução de continuidade, absolutamente não deve haver copula. E’ o coito impuro, normal ou anormal, a causa mais commum da propagação da syphilis. Não ha processos na sua execução, que preservem em absoluto, a contaminação, principalmente quando o coito é repetido e prolongado. A moderação na co- pula é bom meio da prophylaxia. A camisa de Venus, não dá resultado na prophyla- xia da syphilis, porque ua protecção é limitada apenas ao penis, deixando as regiões peri-genitaes expostas ao contacto do cancro vulvar, hypogastrico, e das placas mucosas, que frequentemente, se acham em torno das partes genitaes da mulher. São sem valor, também, as substancias gordurosas empregadas; servem, até, de protecção aos germens. Impedem, de qualquer sorte, as escoriações, mas não é sufficiente este effeito. Pouco influe o uso de agentes antisepticos no con- tagio da syphilis, E’ difficilimo evitar-se a syphilis. Não ha uma localisação especial para o cancro duro: elle se assesta 7 em qualquer parte do corpo.' Provamos com as diver- sas estatisticas seguintes: O Dr. Nivet apresentou 581 casos de cancros extra-venereos distribuidos em differentes zonas. Can- cros cephalicos 71 °/0, do tronco 18,2 %, do pesco- ço 1,2 %, dos membros 9,3 °/0. A estatistica do Dr. Morei Lavalée dâ o seguinte resultado em 45 ca- sos: cancros cephalicos 62,5 %, do tronco 25 °/0, dos membros 8,33 % do pescoço 4,17 %• P°r estas obser- vações vemos que são frequentíssimos os cancros extra-genitaes. Na mulher, dizem os auctores, são mais frequentes os cancros extra-genitaes do que no homem, o que facilmente explica a boa lógica. Clerc e Carrier notaram em mulheres 100 cancros, dos quaes25 eram extra genitaes. A. Fournier verificou 100 cancros genitaes e 16 extra-genitaes. O professor Pospielow, de Moscow, verificou 198 casos de cancros extra-genitaes, sendo 146 em mulhe- res e 52 em homens, e, ainda mais, verificou que a maior parte dos cancros extra-venereos era na bocca. O mesmo professor attribue isso não a copulas anor- maes, mas ao contagio indirecto e assim diz elle: os alfaiates e modistas, devido á sua profissão, servem-se de objectos que podem ser facilmente contaminados pelos seus camaradas syphiliticos; entretanto não ten- tou explicar os 35 •/. de casos de cancros nos operá- rios, jornaleiros, litteratos. etc... que cita mesmo na sua estatistica. 8 Provemos o contagio extra-venereo, que já dividi- mos em directo e indirecto. Em primeiro logar, temos o beijo, o terrível beijo contra o qual devemos nos' re- voltar, em nome da hygiene, pelas suas graves con- sequências, O beijo pode transmittir a syphilis, a tuberculose e um grande numero de moléstias outras. Que horror, beijar-se uma creança! Tem razão o grande mestre Dr. Luiz Anselmo da Fonseca quando diz: «quem meu filho não beija, minha bocca adoça». Inverte o mestre, o criminoso e nocivo adagio, assaz- mente conhecido. Não podemos negar o contagio da syphilis pelo beijo; são innumeros os casos. Diz Renault: «Chez une jeune filie de 17 ans, chan- cre de la region latérale du cou, survénu un mois après un baiser sur ce point.» Diz Tenneson: «Jeune filie atteinte de un chancrc syphilitique de la joue droite survénu trois semaines aprés un baiser suspect.» O mamillo também contamina. Tratando-se de um heredo-syphilitico, a gravidade é muito maior, o con- tagio muito mais imminente. Neste caso, as hygienes devem ser rigorosissimas. E’ uma questão de maxima importância, mas infelizmente, em nosso meio, nem se pensa nisto, e nossas hygienes dormem tranquilla e serenamente. Para ellas nunca nasceu um heredo-syphilitico. A nossa terra é abençoada não, produz destas cousas, A natureia se incumbe de fazer a prophylaxía. 9 Como dizíamos tratando-se de um heredo syphi- litico, este só deve ser aleitado por sua própria mãe, por aleitamento artificial ou por uma ama syphilitica.Se por acaso, a ama não fôr syphilitica, o que felizmente hoje podemos saber pelas reacções conhecidas, o hy- gienista tem o dever de prohibir terminantemente que ella continúe a aleitar o heredo-syphilitico, sob pena de graves consequências para ella. Mas, se a ama já estiver contaminada, o hygienista aconselhará á famí- lia a indemnisar a ama pelo mal que adquiriu, con- servando-a porém com a condição restricta de só alei- tar ao heredo-syphilitico. O perigo do heredo-syphilitico não está somente na bocca, e a contaminação ás amas não se dá somen- te pelos seios, mas pelas relações intimas da ama com a creança, a communhão de leito, as trocas de rou- pas, etc. Quando o heredo-syphilitico for creado com mammadeiras, não devem cessar as medidas prophyla- cticas, principalmente para a ama incumbida desse ser- viço. Se ella não for syphilitica o hygienista aconse- lhará que ella se não sirva dos objectos da creança, e medidas outras. Um bom meio prophylactico, seriam os attestados médicos para as amas e para as creanças. Assim, evi- tava-se que amas sães aleitassem creanças syphiliticas e que estas sães, fossem aleitadas por amas syphiliticas. Mas, quem seria entre nós, capaz de dar um attestado desses, com firme e absoluta convicção? Ninguém. Quando muito, o hygienista faria um exame de 10 dez minutos e attestaria sempre negativamente, prin- cipalmente tratando-se decorrelegionarios, compadres, amigos afilhados etc. Entre nós, tudo de ittil é itnpos- sivel. Os governos não têm tempo- de pensar em hy- giene, mesmo porque não é cousa rendosa, mas uma fonte de despezãs. São perigosissimas as dentadas dos syphiliticos, que tenham placas mucosas e, assim, diz o Dr. Blo- sikkô: «un homme s’étant querellé au billard avec son compagnon de jeu, le mordit à la lévre superieure. Au bout de 2 ou 3 jours, la blessure se cicatrisa inais 6 semaines après, il se produisit sur ce point une grosse néoplasie primitive avec adenopathie sous ma- xillaire puis survint la roseole etc. São nocivos também os espirros, a projecção da saliva, etc... Os parteiros e parteiras podem infeccionar-se e contaminar a syphilis por meio dos toques vaginaes, quando não têm as necessárias cautellas. Esses profis- sionaes devem ter o máximo cuidado com seus dedos, principalmente, quando nelles tiver qualquer solução de continuidade. Diz Mauriac: «um parteiro que tinha uma erupção syphilitica secundaria n’um dedo, infeccionou a varias mulheres de sua clinica, pelos toques vaginaes.» Diz, também, este auctor, que foi o dedo d’um me- dico, o ponto de partida e a principal causa da epide- mia syphilitica conhecida sob o nome de mal de Saint Euphéne. E’ perigosissima a communhâo de leitos. Na Rus- 11 sia, onde o frio é intenso diversas pessoas se acon- chegam num mesmo leito e não é raro depois appa- recerem vários casos de syphilis. Diz Violet: «une petite filie 6 ans contracta la sy- philis en se blotissant auprès de son père pour se garantir du froid». Diz Musitanus: »pleusieures religieuses d’un con- vent, á Sorrente contractèrent la syphilis enabrassant un enfant qui était nourri par une femme gatée». Também é nocivo o uso de roupas, e neste sentido, diz Mauriac: «Fracantiano dit avoir vu une jeune filie de 7 ans qui avait gagnê la syphilis en portant une robe de peau donc c’était servie une femme verolée». Que risco corre um homem em deitar-se no leito de uma meretriz ! E o povo ignora tudo isso. A syphilis se transmitte indirectamente por vários meios. Comecemos pelo aperto de mãos, habito bar- baro, aliás e anti-hygienico, Um individuo que tem um cancro e quasi sempre leva as mãos â parte doente, não n’as lavando, escrupulosamente, em seguida com o cuidado conveniente, transmitte facilmente a syphi- lis a todas as pessoas que lhe apertarem as mãos e estas, mechanicamente, levando as mãos â bocca, ao nariz ou a qualquer solução de continuidade, adqui- rem a syphilis. Os médicos também podem transmittir indirecta- mente a syphilis. Uma meretriz, pode também transmittir, indirecta- 12 mente a syphilis, pela copula. Por exemplo: uma me- retriz tem relações com um indivíduo syphilitico, dei- xando de asseiar-se depois do acto sexual e decorrido momentos, recebe outro; o segundo será contaminado pelo virus do primeiro. São perigosissimas,também, as operações de peque- na cirurgia na transmissão da syphilis a começar pela vaccinaçâo, principalmente sendo ella de braço a braço ou com um mesmo instrumento para varias pessoas. Quantas pessoas são syphiliticas devido a vaccinaçâo? Não o sabemos. Os instrumentos de pequena cirurgia taes como: bisturis, abaixadores de lingua, pinças, etc. são opti- mos vehiculadores da syphilis, quando não esterili- sados. Os dentistas com suas mãos e instrumentos. Digamos de passagem que é um attentado á saúde publica, passoas praticarem a odontoiatria sem serem médicos. E’ um erro de graves effeitos. Que cuidados podem ter esses profissionaes se elles não teem noção de microbiologia. Pois bem, os dentistas transmittem a syphilis, a tuberculose e moléstias outras, sem que tenham con- ciencia disso. Os seus instrumentos nunca tiveram occasião de ver uma autoclava, vivem sempre presos em suas ma- las infeccionadas, que são verdadeiros viveiros de to- dos os microbios. Não são menos perigosos os barbeiros comas suas 13 tesouras e navalhas e diz o Dr. Harrison Cripps que observou num homem um cancro" na região mento- niana, produzido pela navalha de um barbeiro. O serviço de mesa também transmitte a syphilis, principalmente o copo, que é perigosissimo. os talhe- res, as chicaras, os guardanapos, etc. E’ nocivo o uso do cachimbo, quando varias pes- soas se servem no mesmo. O lapis pode transmittir a syphilis pelo habito que têm pessoas de humedecel-o á lingua quando es- crevem. Os instrumentos de musica são perigosissimos na transmissão da syphilis. Muitos outros meios de contaminação existem e não terminaríamos, se foSsemos mencional-os. Todas as manifestações syphiliticas são contagio- sas, principalmente o cancro, as placas mucosas e as syphilides. O sangue do syphilitico é contagioso no periodo secundário, porque a syphilis é uma sepsemia, e assim mais facil a sua transmissão; tem muita razão o mes- tre Dr. Fonseca, quando responsabilisa a pulga e o percevejo como vehiculadores desse morbus, Tem grande influencia a antiguidade da infecçâo syphilitica na sua transmissão, pincipalmente para o casamento, do que trataremos mais adiante. Quanto mais velha for a infecçâo syphilitica me- nos contagiosa. Uma infecçâo que tenha menos de seis annos é capaz de contagio. 14 A edade da syphilis também influe na herança. Ha dois preconceitos que devemos abolir por noci- vos e perigosos: I.• o moço que contrae syphilis, trata de esconder dos seus paes ou dos seus interes- sados, pensando ser uma vergonha ou um crime, o que influe para que elle não se trate conveniente- mente; 2.* julgam que a syphilis diminue transmittin- do-se aos outros, fazendo-se o que se chama vulgar- mente, um descarrego e que esta diminuição é tanto maior quanto mais moça é a victima. Outr’ora era commum syphiliticos escolherem es- cravas de pouca edade para fazerem o seu descarrego. Uma das misérias da escravidão. CAPITULO II Propljylaxia social Entremos na parte mais importante sob todos os pontos de vista. Somente aos poderes públicos compete a prophy- laxia social. E’ destruidora, physica e moralmente, a syphilis na sociedade, ora apresentanto deformidades, dege- nerações, ora affrontando-a com quasi todas as moda- lidades do crime. E’ a prostituição o verdadeiro manancial da syphi- lis. E’ ella um cancro que se implantou no seio da sociedade; tão antiga, quanto a humanidade, existiu sempre e cremos que nunca mais desapparecerá, ape- zar dos esforços de alguns paizes civilisados, como a Dinamarca, a Allemanha, etc. Se é impossível o desapparecimento da prostitui- ção, é possível a sua diminuição. Protejam-se as operarias, as desvalidas, as meno- res, as nevropathas e muito se terá feito para reduzir- se o hetairismo. 16 No nosso paiz, que de civilisado só tem o quali- ficativo dado por nós mesmos, não se impede a prosti- tuição, e rarissimos são os casos de defloramentos reparados. Se o criminoso é rico ou politico, anda livremente pelas nossas ruas, porque para esses a nossa pseudo- justiça não está de olhos vedados. Não é raro vermos meretrizes andarem acompa- das de meninas impúberes para os cinemas, festas de rua, etc. Essas menores vendo e ouvindo praticas im- moraes, serão as meretrizes de amanhã. Não são deficientes também, os defloramentos lei- tos pelos homens de batina, que não respeitam as nos- sas leis; ainda temos bem viva a lembrança de vários defloramentos feitos por celebre vigário do centro, que só teve castigo do Sr. Arcebispo, por ter contrahido o TAL casamento civil e não por ter feito tantas infelizes. Muitos são os casos dessa ordem. Além dos defloramentos, muito concorrem para o augmento da prostituição, a miséria, a má educação, certos estados pathologicos, epilepsias, degenerações, alcoolismo, herança, o analphabetismo e o meio. Lombroso e a Dra. Tarnowski, affirmam que quasi todas as meretrises são degeneradas. A regulamentação da prostituição é optimo meio prophylactico contra a syphilis. E’ assim que a Dina- marca está vendo a prostituição diminuir a passos lar- gos, com as suas leis de 1906, as quaes têm trazido os 17 melhores e maiores resultados. Os artigos que adeante transcrevemos, são de sabia lei Dinamarqueza: Art. I.’ A policia íica autorisada a perseguir, de accordo com as leis sobre vagabundagem, todo aquelle que iaz da prostituição um officio. Art, 3.' Será condemnado a prisão ou a trabalhos forçados aquelle que com fim de lucro, receber em seu domicilio pessoas de sexo differente para a pra- tica do scto aexual. Achamas exagerados estes artigos, porque julga- mos necessária a prostituição, mas o ultimo artigo, consideramos bom e capaz de, resultados extraor- dinários. Achamos boa medida prophylactica, serem todas as meretrises registradas e identificadas nas reparti- ções de hygiene, para que fossem vistoriadas duas vezes ao mez, pelos inspectores sanitários; assim, logo que adoecessem seriam medicadas convenientemente e internadas num hospital com tratamento gratuito e seguro. Seria o ideal a realisação desta medida prophyla- ctica. Diz Fournier: Uma mulher com placas mucosas, fora internada em S. Lazaro. Oue fará ella durante a noite? Dormirá inoffensiva. Que faria ella se estivesse na rua, livremente? Transmittiria a syphilis a vários homens. O povo nenhuma importância dá a syphilis devido a sua ignorância e assim, se lhe apparece., qualquer 18 cousa que julgue de syphilis recorre logo ao Antigal, Elixir de Nogueira ou Xarope de Gibert) etc. Se a manifestação é para o cerebro, pensa logo em feitiço e assim, vive o brazileiro insulado na ignorân- cia, sem que os governos lhe lancem, se quer, um olhar de compaixão, a não ser na epoca das eleições, quando precisam do voto deste povo desprezado, para recheiarem os seus bolsos e celebrisarem-se mais nas suas ladroeiras, Actualmente sabemos que só por meio de injecções chega-se á cura da syphilis, entretanto consente-se que exploradores, illudam o povo com os reclamos dos seus miraculosos medicamentos, que curam com- pletamente a syphilis com o uso de dois ou tres vidros, conforme affirmam quasi todos os attestados. Ainda mais horrorisados ficamos com os attestados médicos. Que leviandade um clinico attestar, sob fé de seu grão, que tem curado todas as manifestações syphi- liticas com um ou dois vidros de Elixir de Nogueira, Antiga/, Xarope de Gibert, ou Elixir de Mururé ! Só no Brazil! ... Não sabemos se esses clinicos attestam com con- sciência. Uns attestam por mera deferencia pessoal ou poli- tica, (se o fabricante é seu correligionário) esquecendo, assim, seu valor moral, não se lembrando do mal que fazem á humanidade; outros pela vaidade de verem seus nomes em letras redondas pelos jornaes, outros 19 ainda, mais levianos, sem o menor escrupulo attestam tudo a troco de cinco ou dez mil réis. Não commentamos o procedimento desses esculá- pios falsos. Porque as hygienes não prohibem estas exhibições. tão perigosas á saude publica ? Por que as formulas são registradas nas mesmas hygienes e pagam boas sommas, como também aos Municípios, aos Estados e ao Federal. E’ por isso; entrando dinheiro para os cofres pú- blicos, não faz mal que o povo soffra, nem se desgrace. Porque não se criam dispensários contra a syphi- lis para fornecerem gratuitamente o especifico anti- syphilitico ás clasaes pobres, já que o tratamento é tão prolongado e dispendioso? Porque não se funda uma sociedade de prophyla- xia contra a syphilis que tantos resultados beneficos havia de nos dar ? Por que não seria rendosa aos fundadores. Como' se fundam, rapidas e instantaneas as ligas pro-fuão, pro-beltrão, quando se trata de política? Porque não se fazem visitas sanitarias rigorosas ? Estamos pregando num deserto maior do que o Sahara. As hygienes não ligam importância ás pobres cre- anças que frequentam as escolas publicas. Quasi todas funccionam em prédios immundos, pequenos, sem que haja espaço sufficiente para uma boa aeraçâo. Em um dos cantos da sala, encontra-se um vaso con- tendo um liquido sujo, péssimo, debaixo do ponto de 20 vista microbiologico e hygienico, que nós chamamos agua. Todas as creenças ingerem esse liquido n’um mesmo caneco, que se acha amarrado ao vaso, por um cordão ou por uma corrente qualquer. Escolas ha, que nem possuem esse vaso, então as tenras creanças recebem o liquido, directamente do encanamento, por meio de uma torneira. Não precisamos dizer as graves consequências ad futuram. Quem em nosso paiz liga importância ao opera- riado ? Cremos que as hygienes não conhecem essa classe tão nobre; para ellas o operariado não merece nenhu- ma attenção. Quando nada, na Bahia, todas as fabricas são anti-hygienicas, sem aeração, situadas em pontos pés- simos, os operários mal remunerados, sujos, amarel- los, famintos, as vezes, doentes sempre, tuberculosos ou syphiliticos; nesses covis os que estão sãos, em poucos dias se contaminam e ficam logo miseráveis como os outros mais antigos. E’ raro ver-se um operário tendo mais de 40 annos, a mortandade varia dos 20 aos 40 annos de idade. Quem já procurou defender o operariado das moléstias infecciosas, principalmente da syphilis. Em geral, o operariado não tem educação, como não têm quasi todos os brasileiros; sem noção do que seja contagio, quando tiver o seu cancro duro, sua placa, sua roseola ha de infeccionar forçosamente a todos que ainda não tiveram syphilis no organismo A • i 21 e nada impede essa transmissão, não ha quem clame contra estas misérias que affrontam e ameaçam de aniquillamento a pobre sociedade, Merece também a attenção das nossas hygienes, um antro que existe nesta Capital sob nome de Casa de Correcção, melhor seria que fosse sob o de Casa da Miséria, Ali, na inais vergonhosa promiscuidade, amon- toados, vivem os abandonados da sorte, homens, mulheres e creanças, encerrados em immundos cu- bículos, sem ar, sem luz e sem esgotos, uns syphiliti- cos, outros tuberculosos, alcoólatras, doudos, a todo momento atordoados pelos gemidos dos famintos e moribundos, ou pelo estalar do chicote nos corpos semi-nús dos infelizes seus companheiros. Para os governos, a competência dos médicos está na razão directa do numero de eleitores e assim elles têm todas as collocações possíveis e impossíveis. A classe caixeiral também paga o seu tributo a sy- philis, mesmo porque não ha quem escape a tão terrí- vel infecção, mas não tanto como o operariado, não porque esteja sob as vistas das hygienes, mas por ser constituída por pessoas mais esclarecidas. Os estudantes também são victimas dos effeitos da syphilis, mais ainda do que os caixeiros, talvez, por confiarem na acção curativa dos anti-syphiliticos. E’ necessário tratarmos da syphilis no exercito e na armada. Devemos principiar com aphrase do Dr. Wirchow; 22 «A fortaleza ea disciplina do soldado allemão come- çaram com o combate á syphilis nas suas fileiras.» E’ vastissima a acção da syphilis. Não poupa a cor, a raça, a edade, o sexo nem a profissão. E’ certeira nos seus alvos, não exceptúa a ninguém. Não ha quem negue que a syphilis enfraquece as classes armadas. Os paizes civilisados ja combatem a syphilis nas classes armadas e assim é que na França já desceu a 50 °/o 0 numero de syphiliticos no exercito. Na Allemanha e na Dinamarca, quasi que não ha mais syphilis nos exercitos. Entre nós não se cogita disso, entretanto o nosso codigo militar, ordena que sejam rigorosamente examinados pelo menos uma vez por mez, afim de verificar-se se têm syphilis ou outras moléstias. Esta lei nunca foi cumprida, nem tão cêdo será, por que é de utilidade. Um medico militar aqui, na Bahia, moço ainda, querendo cumprir este artigo do regulamento, os mé- dicos mais antigos, riram-se criticaram -n’o e disseram que só havia nisso desejo de ver membros dos soldados. Este facto nos foi narrado pelo provecto Dr. Fonseca em uma das suas sabias lições. Asaude do soldado brasileiro vive descurada. Com os marinheiros a cousa é peior, porque elles vivem em estado de continência forçada durante as viagens, de maneira que, quando tocam nos portos, se entre- gam brutalmente á syphilis. 23 Como meio prophylactico, bastaria que os médicos militares cumprissem o seu dever. Mas, dizem elles que o soldado brasileiro está immune de todas as moléstias. E’ raríssimo encontrar-se um soldado que não seja syphilitico. Geralmente o soldado brasileiro é fraco e doente; nos exercícios são frequentes as syncopes. Quando ha qualquer prova de resistência, um read, por exemplo, elles cahem exhaustos pelos caminhos, chegando ao ponto determinado um ou outro, assim mesmo quasi mortos. No entanto, os governos não ligam a minima im- portância a esses factos, os médicos militares não co - gitam de examinar os pobres soldados. E’ duro, mas é verdade. Oh ! Brasil infeliz ! Continuando com os meios prophylacticos sociaes, tratemos do casamento. Este ponto é de grande transcendência. Consen- tir-se o casamento entre syphiliticos é concorrer-se para a desgraça da sociedade. A nossa lei de casamento civil, em um dos seus artigos, prohibeo casamento quando um dos cônjuges for syphilitico, mas isso nunca foi observado. Os che- fes de familia antes de darem suas filhas a casamento, deveriam exigir dos candidatos, attestados de sani- dade e estes, por sua vez exigiriam, também das suas noivas; mas entre nós os attestados médicos são quasi todos graciosos, os clinicos não ligam importância a essas cousas, amoldam-se a qualquer pedido e a cir- 24 cumstancias outras e attestariam sempre pela ne- gativa. Depois têm os examinados sempre receio dos seus médicos, porque estes não guardam segredo pro- fissional, são indiscretos, acabam de examinar um doente e no mesmo dia todos sabem o que tem o pa- ciente, seja qual fôr a lesão. O professor Landouzi diz que não ha casamento possivel para um syphilitico e o professor Fournier interrogado se dava sua filha em casamento a um indivíduo que apresentasse as quatro condições esta- belecidas por elle para a permissão do casamento de um syphilitico, respondeu que não dava. Um syphilitico que não estiver completamente curado não deve contrahir casamento. Fournier estabelece as seguintes regras para que um syphilitico possa casar-se: i.* E’ mister que o syphilitico não apresente accidente especifico. 2.0 Que a moléstia seja sufficientemente antiga e que tenha sido tratada ha quatro annos. 3.* Que nenhuma ma- nifestação especifica se tenha apresentado ha dois annos sem haver intervenção therapeutica. 4.* As re- gras precedentes se combinam com um tratamento especifico e apropriado para a syphilis de media inten- sidade; a syphilis maligna deve ser posta de parte. Actualmente podemos dizer com certeza se um syphilitico pode casar-se ou não. Fazemos a reacção de Warsermann ou os outros processos conhecidos como sejam: processo de Bauer, Latapie, Hercth, Negouchi e Dungern. 25 Seas reacções derem resultado negativo a primeira vez, faremos segunda e terceira e se todas forem ne- gativas podemos dar consentimento ao casamento; se o resultado for positivo aconselhamos não o casamen- to mas o tratamento, até que as reacções sejam ne- gativas. Mostremos os horrores dos casamentos de syphi- liticos; Fournier em 500 familias de syphiliticos viu a herança se manifestar em 277. Em 1127 casos de gra- videz houve Ó27 abortamentos. Para os tres casos de herança nos dá o illustre syphilographo a seguinte proporção: Herança paterna . , . 37 */. » materna ... 84 •/. » mixta92 •/. Fournier confirma a influencia do tratamento anti- syphilitico sobre a descendencia. Pinard pensa que um casal syphilitico pode procrear uma descendencia sã, submettendo-se o pae ao tratamento anti-syphilitico, seis rnezes antes da fecundação e a mãe, durante todo periodo da gravidez. Numerosíssimos são os casos de abortamento nos casaes syphiliticos. Já vimos, porém, duas senhoras que depois de alguns abortamentos, conseguiram ter partos a termo com o emprego de injecções mercuriaes durante a gravidez. Alèm de todas as desgraças produzidas pela syphi- lis, a herança pode se manifestar pela degeneração physica, deformações e pela degeneração mental- idiotia, loucura, etc. 26 E’ extraordinária a mortandade nos heredo-syphi- liticos. Transcrevemos algumas observações. Dr Hutinet . . 4 nascimentos 4 mortes Prof. Pinard. .5 » 5 .•> Prof. Trousseau 6 > 6 » Dr. Hudelo 7 » 7 » Dr. Christiano .8 » 8 » Prof. Bar. 10 > 10 » Prof. Porrak. .11 » 11 > Vemos que a syphilis por suas consequências he- reditárias, causa a degeneração da especie, dando nascimento a individuos inferiores, decadentes, etc. Diz Fournier que em 90 mulheres gravidas e con- taminadas de syphilis por seus maridos. 50 abortaram, 38 tiveram os partos a termo, mas que as creanças dias após o nascimento falleceram e que somente em duas, os partos foram a termo e as creanças escaparam. Outra ordem de desgraças para o heredo-syphili • tico é a dystrophia, Essa tara syphilitica consiste em formas as mais variadas de incorrecções organicas, formações viciosas, desvio do typo, etc. Dystrophias dentarias, (dente de Fournior e Hutchnsson ) muito communs nos heredo-syphiliticos, dystrophias maxil- lares, bec de lievre, e dystrophias craneanas asyme- tricas, microcephalia. hydrocephalia, dystrophias na- sal, ocular, articulares, scoliose, dystrophias dos mem- bros, hypotrophias asymetricas, alongamento parcial ou geral, polydactelia, luxação congénita da anca, pieds-bots, etc... dystrophias cerebraes e medullares, dystrophias cardiacas e vasculares (cyanose), dystro- 27 phias genito urinarias, ectopias dos testículos, cry- ptochidia, intantilismo testicular, malformações uteri- nas e ovarianas. Outra ordem de dystrophias as que se originam da constituição, temperamento e resistência vital se tra- duzindo sob formas variadas nas diversas idades. Na primeira idade a dystrophia nativa é bastante co- nhecida sob o nome de aborto syphilitico, pequeno ser acaçapado definhado, atrophiado, debil ao ponto de não poder rnammar nem gritar, tendo o fácies clássico da decrepitude ou senilidade infantil. Depois apresenta-se um typo mais raro, é o conhe- cido sob o nome de creança valetudinaria, doentia, delicada, fraca, definhada, de musculaturaatrophiada. não sahindo dum estado morbido, sem cahirem outro, predisposto a todos os contágios, principalmente ao da tuberculose. Em todas as idades soffrem esses heredo-syphili- ticos, a sua vitalidade é muito inferior á normal, Ver- dade é também que esses infelizes são frequentemente atacados de varias moléstias, cuja terminação não é fatal, mas que nelles, são de uma gravidade extraor- dinária e, as vezes morrem rapidamente sem se saber qual a causa mortis. Outro typo, que affecta frequentemente estas dys- trophias de ordem geral, é o infantilismo constituído principalmente, por uma parada do desenvolvimento physico, pela pequenhez do talhe, por insufficiencia' do corpo dos musculos, por uma especie de enco- lhimento do indivíduo. 28 As monstruosidades são effeitos das dystrophias heredo-syphiliticas. São raras, mas nem por isso me- nos curiosas, nem menos suggestivas, como exemplo da intensidade da decadência que a herança impõe ao embrião. Nesse assumpto de monstruosidades já muito dis- cutido, diz Fournier: «A syphilis produz monstros, é certo. Não dissemos tudo. O que será a descendencia desses individuos dystrophiados ? Fournier cita algumas observações, como seja a do Dr. Gibert: « quatro creanças nasceram de um pae são e de uma mãe heredo-syphilitica, todas quatro ra- chiticas, com curvatura dos ossos, deformações do craneo e uma idiota. Observação do Dr. Caubet: «um homem são com uma mulher heredo-syphilitica, tendo esta, quatro concepções terminadas do seguinte modo: a primeira por um abortamento, dois fetos mortos, a ultima gravidez deu um monstro, com bec de lievre duplo, ausência da uvula, orelhas desformes, pieds- bots, vicios de conformação dos dedos, imperfeição da urethra, etc. A observação do Dr. Etienne «quatorze casos de gravidez em uma mulher sã, mas que o marido era heredo-syphilitico dá o seguinte resultado: seis crean- ças mortas, sendo cinco por abortamento, cinco crean- ças affectadas de perturbações cerebraes, uma creança atrophiada eduas affectadas de dystrophias dentarias,» 29 Diz muito bem Greneau: «A sypbilis é um mon- turo onde germinam todas as podridões.» Não terminariamos se fossemos transcrever todas as observações sobre este assumpto. Em vista de tantas desgraças é preciso rigor por parte das hygienes, é mister que ellas cumpram os seus deveres, cuidem da saude publica, sejam rigoro- síssimas principalmente em tratando-se do casamento. Cumpram seus deveres hygienes, não se preoccu- * pem somente com a política. A melhor prophylaxia contra a syphilis é a instru* cçâo do povo. Dê-se luz a esses cerebros para que não andem ás cegas nos abysmos da ignorância. Dê-se-lhe instru- cção para que possa comprehender todas as misérias que o perseguem e evital-as. Compete aos poderes públicos fazerem essa carida- de já que não querem por obrigação. PROPOSIÇOES ANATOMIA DESCRIPTIVA I. —O corpo humano, sendo um composto de tecidos, é dotado de orgãos passivos e activos. II. —Entre os tecidos activos é o nervoso o mais importante III. —As lesões sypliiliticas se podem apresentar em todos os tecidos do corpo humano. ANATOMIA MEDICO CIRÚRGICA I. —A loja parotidiana é forrada no seu interior pela aponevrose que partindo, do bordo do externo cleido mas- toideu, se dirige de detraz para adiante, para o masseter. II. —Da face profunda da aponevrose parotidiana se des- tacam dois folhetos que forram os bordos da loja os quaes, dirigindo-se para o fundo, se unem e vão tomar inserção na apophyse estyloide. III. —Contida na loja, a glandula parotida emitte ainda4 prolongamentos para fora; no interior da glandula passam vasos e neivos importantes, adherentes a ella pelas rami- ficações fibrosas partidas da aponevrose. ANATOMIA MICROSCÓPICA I. —Todos os tecidos do organismo se compoem de ele- mentos miscroscopios, chamados cellulas. II. —Nem sempre esse elementos vivem e nem por isto deixam de entrar no equilibrio biologico. III. —O germem da syphilis inicia seu processo funesto para o organismo, na trama dos tecidos cuja resistência vital se acha diminuída. 32 M1CROBIOLOGIA I. —A syphilis é uma moléstia microbiana que pode coe- xistir em face de outras moléstias também microbianas. II. —O treponema responsável pela syphilis, não costuma reincidir em suas infecções. III. —O sangue de um sypliilitico é facilmente reconhecido pelos processos modernos da microbiologia. ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGICAS I. —Todas as moléstias microbianas determinam modi- ficações sempre sensíveis nos tecidos do organismo. II. —Estas modificações são conhecidas pelo nome generico de lezões. III. —As lezões syphilíticas, além de varias, attingem a todos os tecidos activos e passivos. PHYSIOLOGIA I. —O mais importante acto physiologico està na nutrição dos elementos conservadores do organismo. II. —Entre estes elementos se encontram dignos de maior destaque as cellulas plasmaticas incumbidas da phagocytose. III. —Estas cellulas podem adquirir propriedades capazes de impedir o desenvolvimento do germem da syphilis. THERAPEUTICA I. —A base da therapeutica medicamentosa está assentada nas acções pharmacodymnamicas dos medicamentos. II. —Desta verdade surge a therapeutica especifica no tratamento das moléstias. III. —O mercúrio é o especifico para o tratamento da syphilis. 33 HYGIENE 1.—A hygiene esíà para a medicina, como a medicina esta para a saude. JL—Sem hygiene não ha medicina proveitosa. III.—Nenhuma moléstia exige mais cuidados liygienicos do que a syphilis. MEDICINA LEGAL I. —O crime é um phenomeno social determinado na grande maioria dos casos por desvios funccionaes e de edu- cação moral. II. —Deve ser considerado o criminoso como uma victima da pathologia psichica ou da sociedade. III. —São verdadeiros criminosos os governos que per- mittem a prostituição, sem regulamentação hygienica, pois a syphilis é responsável por grande parte do quadro crimino- logico. PATHOLOGIA CIRÚRGICA I. Não ha moléstia tão variavel em affecções cirúrgicas do que a syphilis. II. —Todas as suas manifestações, desde seu inicio, affe- ctam mais ou menos, profundamente a constituição anato- mica dos tecidos. III. —Na syphilis venerea, são os tecidos de revestimento os primeiros atacados. OPERAÇÕES E APPARELHOS I.—As operações são meios indicados com o fim de modi- ficar, corrigindo os estados anormaes das diíFerentes peças do organismo. 34 II. —As operações podem ser divididas em distruidoras e reparadoras. III, —As operações nos indivíduos portadores de lezões syphiliticas, devem ser precedidas ou seguidas do tratamento especifico. CLINICA CIRÚRGICA (1.* cadeira) I. —Não se deve intervir em hypothese alguma, cirurgica- mente, sem rigorosa diagnose do mal apresentado pelo doente. II. —Geralmente os desvios de crescimento e lezões ósseas na primeira idade, são ligadas a males congénitos. III. —Estes males apparecem quando existem lesões tu- berculosas ou syphiliticas do apparelho gestante. CLINICA CIRÚRGICA (2.* cadeira) I. —O methodo a seguir-se em qualquer operação deve ser escolhido de accordo com as cireuinstancias de occasião. II. —Não se deve realisar uma operação importante sem o preparo do enfermo, quer em relação ao physico quer ao moral. III. —Nos casos de traumatismo dos membros, o cirurgião deve empregar todos os meios para evitar a amputação. PATHOLOGIA MEDICA I. —A syphilis pode attingir ao organismo, por vários processos de infecçào e dahi as duas principaes origens: hereditária e adquirida. II. —Sempre a syphilis de origem venerea tem inicio por um cancro. III. —Os cancros podem ser genitaes e estra-genitaes. 35 CLINICA PROPEDÊUTICA I. —A auscutaçào é um meio de exploração clinica de pouco valor nos casos de lezão das camadas profundas dosorgãos. II. —Ella presta relevantes serviços quando as lezões orgâ- nicas se assestam até a 4 centímetros da superfície cutanea. III. —Por esse meio se pode diagnosticar os aneurismas. CLINICA MEDICA (1.» cadeira) I. —Os phenomeuos de paralysia são sempre determinados por perturbações do íunccionamento dos nervos motores. II. —Estas pertubações podem ser provocadas sem lezào organica dos feixes nervosos ou de suas raizes. III. —Nos casos de syphilis hereditária podem haver para- lysias determinadas por falta de desenvolvimento dos centros nervosos da motricidade. CLINICA MEDICA (2.» cadeira) I.—Em geral as paraly-uas são determinadas por lezões mais ou menos accentuadas em determinados pontos do systema nervoso motor. ÍI.—Existem paralysias que só por si caracterisam a enfer- midade que as determinam. III*—As paralysias syphiliticas podem se apresentar em qualquer dos dois últimos períodos da syphilis. IIITOR1A NATURAL MEDICA I—0 estudo dos cryptogamicos tem mais interesse para a medicina do que o dos phanerogamicos. II. —Dentre os cryptogamicos são os parasitas os mais interessantes para o estudo medico. III. —A syphilis é uma moléstia parasitaria. 36 CHIMICA MEDICA I. —Do estudo da chimica medica, nada aproveitaria à medicina, se fosse ignorada a ucçào pharmaco dymnamica das substancias empregadas. II. —E’ supérfluo o estudo da chimica, perante o estudo da pharmaco dymnamica das substancias empregados em me- dicina. III.—A parte mais importante da chimica medica está na analyse. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I. Quanto mais simples for o methodo da applicação dos medicamentos, tanto mais são evitadas as imcompati- bilidades. II. —Das incompatibilidades medicamentosas nascem os perigos das associações dos medicamentos. III. —Não se deve applicar o tratamento especifico contra a syphilis, sem prévio exame das incompatibilidades de ordem pharmacologica, que possam surgir. OBSTETRÍCIA I. —Os accidentes communs a toda puerperalidade podem surgir durante a gravidez, o parto e postpartum, determi- nando a morte da mulher. II. —As causas principaes são as embolias, hemorrhagias, infecções, choques, as cardiophatias, as syncopes e as eclam- psias. III. —A syphilis pode ser responsável por essas causas. 37 CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECOLOG1CA I. —A intervenção operatória em obstetrícia é sempre contra indicada antes do emprego de todos os meios que possam conduzir um parto natural. II. —E’ ao contrario sempre indicada, nos casos em que por desenvolvimento anormal do feto ou que desvios sérios dos ossos da bacia da parturiente demonstrem impossibilidade da passagem. III. —A syphilis pode determinar uma e outra destas aberrações. CLINICA PED1ATR1CA 1.—As crianças são menos susceptiveis às infecções directas da syphilis. 11.—Nem sempre um filho de syphiliticos apresenta lezões ou tara syphilitica. 111.—Dum modo geral, uma creança syphilitica é filha de pae ou mãe syphilitico. CLINICA OPHTALMOLOG1CA I. —As irites são inflammações mais ou menos profundas do tecido da ires. II. —Muitas são as causas que podem determinaras irites, com especialidade os agentes mecânicos e os infecciosos. III. —A syphilis, de todas as infecções tem sempre mais predilecção em manifestações para o lado da iris determinando lezões caracteristicas. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPH1L1GRAPH1CA, 1.— A syphilis é uma moléstia infecto contagiosa, produzida pelo trepomema pallidum de Schaudinn. 38 II. —A syphilis é rica em manifestações para a pelle, mas a sua predilecção é pelo systemas nervoso e cardio vascular. III. — O diagnostico differencial da syphilis facilmente se estabelece com o auxilio do microscopio. CLINICA PSYCH1ATR1CA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I. —A loucura, em todas as suas manifestações não tem sido estudada como moléstia idiopathica. II. —Entre as moléstias que mais podem concorrer para 0 quadro das psychopathias é a syphilis a mais frequente. (11. —Um syphilitico deve sempre temer pelo seu cerebro e, especialmente, pelo de sua prole. Visto.—Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, 6 de Novembro de igi 2. O SEGRETARIO, fip. 2*{enandro dos ffieis