Faculdade de Medicina da Bahia THESE . APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em 30 de Outubro de 1907 PARA SER DEFENDIDA POR iPtbefai de Natural do Estado da Rahia AFIM 1)E OBTER O GRAU DE DOUTOR em MEDIC1NH DISSERTAÇÃO CADEIRA IDE CLINICA HVTEIDIC./L TABAGISMO PROPOSIÇÕES: Tres sobre cada uma das cadeiras do c urso de sciencias medicas e cirúrgicas BAHIA Typographia e Encadernação do Lyceu de Artes Prudencio de Carvalho, director 1907 Faculdade de Medicina da Bahia Director—Dr. ALFREDO BRlTTo Vice-Director —Dr. MANOEL JOSE’DE ARAÚJO Lentes cathedraticos OS DRS. MATÉRIAS IlUE LECCIONAM l-.a SECÇÃO Carneiro de Campos : Anatomia descriptiva. Carlos Freitas Anatomia medico-cirurgica. 2.» Secção A ntonio Pacifico Pereira. . . . Histologia Augusto C. Vianna Bacteriologia. ... , , . Guilherme Pereira Rebello. . . . Anatomia e Physioiogia pathologicas 3a Secção Manuel José de Araújo Physioiogia. José Eduardo F.de Carvalho Filho. . Therapeutica 4a Secção Josino Correia Cotias. ..... Medicina 1«gal e Toxicologia. Luiz Anselmo da Fonseca Hygieue. 5a Secção Braz Hermencsildo do Amaral . . Pathologia cirúrgica. Fortunato Augusto da Silva Júnior . Operaçõese apparelhos Antonio Pacheco Mendes ... Clinica cirúrgica, 1.» cadeira Ignacio Morteiro de Almeida Gouveia . Clinica cirúrgica, 2.» cadeira 6. a Secção Aurélio R Vianna. Pathologia medica. Alfredo Britto Clinica propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho. . . Clinica medica l‘> cadeira. Francisco Braulio Pereira Clinica medica 2.a cadeira 7. a Secção J osé Rodrigues da Costa Dorea . . Historia natural medica. A. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria medica, Pliarmacologia e Arte de formular. José Olympio de Azevedo .... Chímica medica. 8. » Secção Deoeleciano Ramos. . . . \ . . Obstetrícia Climerio Cardoso de Oliveira . . Ciinieaobstetrica e g vnecologica. 9. a Secção Frederico de. Castro Rebello . . . . Clinica pediátrica 10. Secção Francisco dos Santos Pereira. . . Clinica opbtalmologiea. 11. Secção Alexandre E. de Castro Cerqueira . Clinica dermatológica e syphiligrapfnca 12. Secção Luiz Pinto de Carvalho Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. iXftiidc'AaJtor.C,oCe.r‘,U':,'a. •. •. : -l.poolbilld.de Substitutos OS DOUTORES José Alfonso do Carvalho l/ secção Gonçalo Moniz Sodré de Aragão . . . ) 9a Julio Sergió Palma . ...... ) Pedro I.uiz Celestino 3. > Oscar Freire de Carvalho ..... 4.a Antonino Baptista dos Anjos ... >• . . 5.a João Américo Garcez Fròes. ... (5.a » Pedro da Luz Car aseosa e José Julio deCalasans. 7.* J.Adeodato de Sousa 8.a Alfredo Ferreira de Magalhães ... 9.a » Clodoaldo deAndrade 10. » Albino A. daSilva Leitão 11. > 12. » Secretario—DR. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-secretario—DR. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade não aj)prova nem reprova as opiniões exaradas nas theses pelos seus auctores. IfíTtyODUGÇÃO Fartas razões, de sobra poderosas, me induziram a levar ao fim esta ardua empreza. { Adversidades, porém, de toda monta se me antepuzeram ao passo de novel luctador das pugnas do bem. Assumpto actual, inteiramente novo, senão nos eíTeitos ao menos no modo de comprehendel-o, este de que me faço estudioso. Tive deluctar com preconceitos de ba muito arrai- gados em hábitos, como arvores vetustas de rijo cerne entre rochas nascidas, para, desassombrado, proseguir na rota du- plamente desvantanjosa, encetada por iconoclastas benemeri- l_os, que palmilham, derrubando mithos, a trilha nova da rege- neração. Assumpto novo que a altenção attraede ba pouco aos operosos que emprehendem lentos passos no terreno inhospito e apaulado das iniciações, com a bravosidade de lieróes; per- conceitos quasi indestructiveis, que ao evolar dos dias se vão estratificando em compactos granitos resistentes aos camar- telos dos reformadores— ficaram, de certo, um e outros, bar- reiras que não transpuz, talvez, inteiramente, em todas as difficuldades. Além de empecilhos outros de valor incontestável, digo-o constrangido, rara foi a pagina que compulsei proveitosa e não eivada de contradicções, próprias dos meios que se resentem tardos de novas descobertas e estudos novos. Felizmente boje a represada aos vicios já se vae fazendo pro- fieuamente em favor das gerações futuras. Sociedades se organisaram em que os homens, conscios (e quanta vez por experiencia própria) da desorganisaçào IV profunda com qne o galopear desordenado e infrene do vicio estigmatisa a economia individual e social, dão o alarme do temor trágico do esphacelamento moral e physico e o rebate digno e louvável da reacção. E todos devemos, os que somos homens de sciencia e coração, concorrer unidos, auxiliando o alarme e louvando o rebate, para a obra gigantesca da Suprema Reforma. Trouxe meu humilde contingente de pobre altruísta ; é uma pedra que tem um fim : em cahíndo no íosso aberto para os alicerces, ecoar, fazendo côro com as outras vozes que de outras partes soerguem outras pedras mais pesadas, tencio- nando, por este múltiplo vibrar de écos, despertar os que se sentem dispostos a trabalhar o grande feito do bem commum. Minha cidade natal, onde outrora uma população vigorosa e forte era sadia e alegre, é hoje lastimável pelos seus min- guados, amarellentos e rachiticos habitantes, que se me lembram um povo de degenerados enfermiços que succedessem, em contraste vivo e acabrunhador, a fortes, como em Roma de- cadente os miseros requintados idiotas á raça gloriosa e prolifica dos ancestraes. E dessa visão pavorosa de queda, sem que me possam acoimar de excessivo e exclusivista, é causa principal o as- sumpto de que se fez motivo este trabalho. Creio, ainda bem a tempo, que muitas causas outras sejam dessa auxiliares na involuçâo dos meus conterrâneos; mas a grande culpa das ul- timas é o abandono e o desleixo criminosos em que se têm todos os assumptos que de perto não ferem o interesse pessoal de quem deve protestar. Seria repetir o que cem mil vezes se diz no mundo em tribunas, jornaes, pamphletos e comícios e livros de toda especie. Exploram criminosamente aos pobres os poderosos, curvando-lhes o corpo em reverencia ao tumulo, pelo excesso de trabalho; avelhentando-os porque Lhes depau- peram a saúde e levando-lhes o sello da desgraça á rara progenie, que à vida chega mirrada, sem a aza leve de uma alegria e tem de «e fazer forte para a lucta pela existência. Impoz-se-me o dever que a observação se me tinha imposto. V Deveria fugir a difficuldàdes? Deveria ermar-me no encerro da ipdifferença ? Não. Eram renhidas os estorvos e embora sem o incentivo da victoria não pensei em transigir, que transigir num caso destes é desertar um posto de honra. E desertar não poderá, que ante os olhos trago o tremendo quadro desesperador da miséria, tanta vez pintado funehremente, naquellas faces exangues numa visão de pavôr. Esse dever se me fez claro aos primeiros bruxoleios da razão illuminandp o abysmo impiedoso e coberto de llòres, tra- gando lentamente os infelizes manufaetureiros de charutos. E esse dever augmentou e se enraizou em decidido proposito. Quiz ser util aos meus conterrâneos; levar-lhes pelo menos o consolo de que não é absoluto o abandono em que jazem. Quiz mostrar-lhes o abysmo, para que outros, os que têm o dever de lhes velar pela saúde e o vigor embora o esqueçam, os livrem da voragem. Que posso eu fazer senão pedir misericórdia para os que se vão extinguir? Lamento os que já se foram, mortos no turbilhão dos ignorados; abro os olhos aos fracos anathematL sando o trabalho que lhes diminue a força ou o vicio que os do- mina; aponto perfunctoriamente a depredação das energias vitaes e a serie de affecçõos que esta causa morbigéna é capaz de gerar nos indivíduos expostos à acção deste factor. Dar-me-ei por bem pago dos meus sacrifícios se puder levar, senão a convicção, ao menos a duvida ao espirito de alguém que, incitado por esta grande pesquisadora da verdade, pro- cure se illustrar e combater também, convicto, á salvação commum. Aos meus conterrâneos mortos a procurar o pão da vida nos vórtices da morte, uma lagrima de piedoso amor! Aos meus conterrâneos, ainda com um leve raio de vida no olhar de victimas indefensas, um appello: Recuai, para subir! DISS1TACÍ0 Cadeira de Clínica Medica TABAGISMO HISTORICO Nunca, na historia da$ grandes descobertas, os factos surgem isolados. E’ a esta associação de phenomenos, que se succedem guiados, de certo, pelo determinismo fatal que a tudo preside, a esta continuação ininterrupta de revelações e de inventos, de incansáveis pesquisas e incalculáveis desco- brimentos, sempre mais aprimorados e valiosos, que se denomina de progresso. Com a marcha imperturbável da humanidade, desbra- vando os abruptos caminhos do obscurantismo, deslum- brada com as luminosidades da Sciencia—astro refulgen- tissimo qut pompeia sobre os porticos de oiro do futuro, (é dessa brilhante romagem que vem o ser humano se fazendo um deus) o homem troglodyta, fugindo das miserandas trevas das cavernas, das lugubres trevas das primevas grutas, ascencionando para a luz, arrastado ás fulgentes regiões do pensamento nas potentes librações dos remigios do ideal, tem adquirido o direito ao epitheto sublime de homo intelligens. Um antagonismo torna-o grandioso. Em sua marcha se ha vôos, ha quedas também. Se não fossem a virtude e o vicio, transformação do instincto em pensamento—altruísmo e egoisino—o homem seria idêntico ao irracional. A virtude — altruísmo, estratificação caprichosa do bem no sólo—alicerce da civilização; o vicio — egoismo, bizarra 1 2 marcha pregressa á noite da edade primeira: andam in- separáveis, irmanados ás vezes, como aos .deslumbra- mentos da luz as tenebrosidades da noite, talvez porque se façam facilmente caracterizar. Eternamente assim, ladeando a humanidade na marcha através dos séculos, seguem a virtude e o vicio. Mais luctas a vencerem-se, mais embaraços a supera- rem-se e os fracos e os venciveis nados, desfivelando os arnezes da vontade, de olhos que se não accommodam aos esplendores da gloria, de razão que se enfraquece, vacilla e rue nos embates da lucta pela vida, ahi vão arrastados nos vortilhões enervantes do vicio. Progride o forte nas victorias do aperfeiçoamento; de- banda o fraco, estrecendo-se, nas angustias da impotência. Mas, são sempre mais funestas as derrocadas do vicio, do que proveitosas as victorias da virtude. E’ a sciencia ainda que nos evidencia esta verdade. São mais viáveis os embryões do joio do que os cotyledones do trigo; para estes se preparam terrenos, aquelles medram no saibro. E’ a Historia que nos illumina o raciocínio. A humanidade, de suas descobertas, faz dupla applicação antagónica, A polvora pulveriza o basalto e o granito aspérrimo que tolhem o passo a aventureiras nãos e, concentrando-se, como se fosse a ira crystalizada, sob o poder humano, desmastreando, esmigalhando, faz em pó as mesmas nãos. 0 ferro, aguçamol-o em assassinas lanças aceradas e fazemol-o também enxadas productoras; enrijamol-o em espadas e em machados; aproveitamol-o para sulcar as terras e sulcar os mares; estrellejando o sólo de flores, constellando-o de fructos, idealizando-o de perfumes e de cores e contraído nas larynges dos canhões, para com as 3 blasphemias das balas invectivar os vencidos, fantasiamol-o em satanaz e deus. A electricidade é uma intelligencia infinita, invisível, aberta para o bem como um lirio real, aberta para o mal como um estramonio infernal. Flammeja no espaço e é o raio, e é a morte; corre pelos nervos despertando o cerebro e é a vida. 0 homem aprisiona-a, dirige-a para o beneficio ou para a desgraça. Anjo e carrasco; esperança e desillusão. Pareça embora um paradoxo este pensamento: E’ se iIlustrando para o bem que o homem se aperfeiçoa no mal; fugir deste, praticando o outro: eis a virtude. Jamais nos poderemos emancipar do vicio sem nos apro- fundarmos no seu conhecimento. 0 batalhador só com- prehende o prestigio da victoria no pantano calmoso da derrota. E’ uma lei irrevogável a que preside a evolução do pro- gresso. Quanto mais avança a civilização mais se requintam os vicios e chegariam a dominar por completo as virtudes, se não tora o conhecimeuto nitido das degenerações que elles occasionam com os seus cortejos de gosos requintados. Todo aperfeiçoamento traz um desejo de maior ascenção e o homem procura esquecer esse desejo enervando a in- satisfação de suas aspirações insaciáveis com a embriaguez do senso, em momentos de revolta contra o estacionamento do meio e a paralysia da conquista. Os diques da Sciencia tentam oppor poderosas barreiras a este fluxo maldito; debalde tentam. Avolumam-se as aguas, transpõem os diques, mas a sua evaporação, que lentamente se faz, vem mostrar o paúl em que se vai cha- furdar a geração desses írracionaes rebellados. Creio no determinismo como uma lição para o aper- feiçoamento. 4 Por isso é que procurei estudar um vicio para colher uma virtude. Quando as caravellás assombrosas de Colombo, de volta á Europa corroída pelos ácidos dos vicios, evarigelisavam ao Velho Mundo a descoberta do Mundo-Novo, traziam também á sociedade o exquisito prazer de um vicio estranho. Embora Liebault afíirmasse que o tabaco existia na Europa antes do descobrimento da America, firmando sua opinião em que ainda nas Ardennas se encontram muitas especies agrestes desta família, o que Magnenus explica dizendo que os' ventos podiam ter trazido as sementes para ahi, refutando o serem estas especies originarias; digam também Murray e Ullòa que antes de 1492 os venezianos em commercio com o Levante trouxessem-n’o para o con- tinente europeu, são asserções de difficil confirmação e de mera importância para o deleite de excavações históricas. Em muitas localidades da Irlanda, Inglaterra, França, Bélgica, Hollanda, Allemanha, Suissa, Italia, Rússia e em logares da alta Asia têm sido encontrados cachimbos em antigas jazidas. Como assevera Spire Blondel (1) também em antiquissimas esculpturas da China se acham objectos com a fôrma dos cachimbos actuaes, e a crêr-se na opinião dos primeiros missionários christãos enviados para a cate- cbese dos orientaes, os chinezes, desde aquella época íaziam uso do tabaco para todos os íins hoje utilizados. 0 uso da embriaguez pelo fumo de certas plantas é de data remotissima. Refere Plutarcho que os thracios quei- mavam uma planta que, pelos caracteres que assignala, parece ser o datara stramonium e aspiravam o fumo para embriagando-se dormirem. Os massageias, diz Herodoto, 5 aspiravam o fumo que se evolava da combustão dc certas sementes para se entregarem ao canto e á dansa. Os polynesios de ha muito que se embriagam com o kava. Ou o tabaco tenha sido importado pela Europa da America ou dc outra qualquer procedência, certo .é que é indígena no Novo-Mundo, onde além de alimentar um vicio, serviu de virtuoso medicamento. O nome de tabaco, por que é conhecido, não se origina, como erroneamente imaginaram, de Tabago —uma das Pe- quenas Antilhas, ou de Tabasco — província de Yucatan, mas, segundo a prova exuberante de Ferdinand Diniz (2) de tabacco, nome que os habitantes de S. Domingos davam a seu primitivo cachimbo que constava de uma torcida de folhas deste vegetal envolta em folhas de palmeira. Opi- niões outras, como a de Martin Fernandes Navarrete (3) c a dc Washington Irving (4) que vem exposta na pag. 113, tomo l.° de sua obra, vem confirmar que realmente o ta- baco é originário da America. William Pescott na pag. 123, vol. l.° confirma categoricamente ter encontrado o tabaco entre os mexicanos gosando dos mesmos empregos hoje em uso. (õ) Jean de Lery e André Thevet, que vieram com Willegaignon ao Brasil em 1555 para fundar a França Antartica, observaram nos índios de Guanabara o uso do tabaco por elles conhecido com a denominação de petum ou pelyma. Drake, almirante inglez, encontrou na Virgínia o uso do mesmo vegetal. Sir Walter Raleigh, subindo o Orenoco em procura da fabulosa cidade de Manoa, também ahi en- controu o mesmo costume. Barthelemy de Las Casas em 1527 descrevia os indígenas fazendo uso do tabaco de fumar, no que foram imitados pelos colonos. Desde as mais remotas regiões do extremo 6 norte até as do extremo sul da America, os mais conspícuos autores asseveram ter encontrado pela primeira vez o uso do tabaco. Os europeus que vinham para o continente americano em busca de fortuna eram, ordinariamente, homens pouco instruídos e aventureiros, fáceis de se deixarem dominar pelos vicios dos indígenas. E isto constitue uma lei his- tórica, porque os vencedores adoptam os usos e costumes dos vencidos. Uns, talvez, porque fossem levemente observadores, imitaram os naturaes para experimentar os eíTeitos do narcotico; outros utilisaram-no como medicamento, de que os selvagens narravam prodígios e assim o vicio, alastran- do-se entre ellcs, propagou-se pela Europa, achando largo campo em que se arraigar. Naquelle tempo os americanos cultivavam meticulosa- mente esta planta e lhe rendiam culto porque a julgavam valiosa dadiva de Tupan. Attribuiam-lhe mil virtudes curativas; era usada em cerimonias especiaes nas grandes festas das tribus; o seu fumo era aspirado religiosamente pelos Pagès quando tomavam resoluções nos momentos difficeis; symbolisava a hospitalidade no celebre cachimbo da paz; e, finalmente, em matéria de exorcismos era para os feiticeiros o que foi ainda, ha bem pouco tempo, a salsa- parrilha para os médicos. Edw. Teylor (G) diz que os osges antes de emprehen- derem qualquer feito, pronunciavam, fumando, a seguinte prece: «Grande Espirito, vinde fumar comungo como um amigo! Fogo e Terra, fumai connnigo e ajudai-me a vencer meus inimigos! » Na época de Ilonncpin os lioux no momento de come- çarem a fumar, voltavam-se para o sol e quando o ca- chimbo estava acceso apresentavam-no ao deus dizendo: « Fuma, oh sol! » 7 Cita o mesmo autor que os índios julgavam o cachimbo um dom especial do sol ou Grande Espirito, o tabaco uma planta sagrada, a fumaça um sacrifício agradavel que sobe ao ar para entrar na morada dos deuses e dos espíritos. Relata um notável escriptor que no México o imperador Montezuma quando praticava algum importante feito, era ungido com um balsamo em que entrava em grande quan- tidade o tabaco. Hoje na Europa o fumar estabeleceu-se e quasi como uma necessidade da moda ou da civilização, com a qual marcha progressivamente, como diz Levy: (7) «A’ la vérité, 1’introduction du tabac dans les habitudes des peuples est un faitbizarre: tandis que la civilisation avance si lentement, um herbe fetide a conquis le monde en moins de deux siècles.» 0 tabaco teve em seu começo os mais apaixonados pro- pagandistas; depois, só muito depois de crear profundas raizes no seio da sociedade, surgiram vozes autorisadas que incriminaram o novo vicio como productor de mo- léstias de ethiologia então desconhecida. Não falta na sua historia toda essa gradação de factos, cujo conjuncto define os feitos humanos. Desde o grotesco até o trágico, pois houve também martyres que, á seme- lhança dos martyres da virtude, preferiram morrer na tortura a ficarem com a vida e sem o vicio. Conta-se que foi F. Cortcz o primeiro europeu que en- viou a Carlos V amostras deste vegetal. Escriptores asseveram que Frei Robert Pane, compa- nheiro de Colombo em sua viagem a America, observando que os sacerdotes do deus Kiwasa aspirando o fumo das folhas do tabaco em combustão eram tomados de verda- deiro delírio de fanatismo, teve a idéa de enviar a Carlos V 8 sementes desta planta. Hernandez de Toledo em sua Historia das Plantas fez o elogio das virtudes do tabaco, dizendo ser o seu introductor na Hespanha. André Thevet e não João Nicot levou para a França se- mentes de tabaco do Rio de Janeiro. João Nicot, embaixador francez em Portugal, só mais tarde dahi levou para a França sementes da planta que em sua honra lhe recebeu o nome c por intermédio do Grão-Prior de Lorena con- seguiu curar Francisco II de uma cephalalgia pertinaz. Catharina de Medieis, mãe de Francisco II, enthusiasmada com os efleitos therapeuticos do vegetal, aífeiçoou-se-lhe de tal modo que em breve adquiriu o seu vicio, sendo a primeira mulher conhecida na Europa que tivesse fumado. Data desta época o apparecimento desse vicio em França e por isso disse com muito espirito um escriptor: «0 ta- baco depois de ter viajado por terra e por mar acabou por entrar em França par la voie des narines ». Na Italia foi introduzido pelos cardeaes Santa Groce e Tarnabon, razão por que foi conhecido durante muito tempo com os nomes de herva de Santa Croce e Tar- nabon. Por J. Hakings e F. Drake foi pela primeira vez conhecido em Inglaterra, mas só mais tarde, quando Ra- leigh, fundador da Virgínia, ensinou aos seus colonos o seu uso, foi que se tornou praticável o vicio de fumar pelos inglezes. Outros muitos homens, notáveis pela erudição e pelas posições elevadas no meio social, concorreram, incon- scientes do mal que praticavam, para generalisar-se este vicio, hoje culpado na degeneração da humanidade. Robert Pane, já citado, descreve com grandíssimos en- cómios as suas beneficas applícações, denominando-o de herbas inebriam. Gonzalo de Raltez em 1513 descreve 9 com todas as minuciosidades os seus empregos thera- peu ticos. Thomas Wills, levado por um excessivo enthusiasmo, dá-lhe as propriedades mais oppostas: aquecer e refrescar, illudir ou saciar a fome e provocar o appetite, etc. Ra- pliael Thonis, poeta inspirado, consagrou-lhe um extenso poema em latim, denominado Hymnm iabaci. Gomo diz Cabanis, (8) o tabaco não foi só cantado pelos poetas e louvado pelos dramaturgos: a própria Fa- culdade consagrou-o. Cita depois o mesmo autor dois interessantes tactos a respeito. Em 1699 Claude Berger sustentou na Escola de Medicina de Pariz uma these, affirmando que o uso fre- quente do tabaco abreviava a vida. Fagou, o primeiro medico do rei, que houvera escripto um trabalho intitulado: «Ergo ex tabaci usa vi ta brevior », posto que de accordo no fundo, não tinha as mesmas idéas em alguns pontos e no calor da discussão os dois adversários do tabaco iam incessantemente inspirar-se no fundo das suas caixas de rapé. Pouco depois Poison aiinun- ciou que iria sustentar opinião contraria e desafiou os seus adversários. Fagou foi substituido por um dos seus mais fervorosos adeptos de nome Babin. Em presença do erudito audictorio o defensor do tabaco falon com inexcedivel eloquência; Babin interpellou o seu antagonista e a lucta travou-se. Babin que de quando em quando sorvia algumas pita- das, em um movimento de cólera fechou com ruido a sua caixa de rapé. Foi o bastante para que Poison lhe respon- desse:— «Mestre Babin, argumentaes contra o tabaco, calumniaes esta planta divina, sem perceber que delia nsaes como um gentilhomme lorrain. » Nova época surge ao destino do tabaco, que foi no dizer 10 do padre Labat o pomo que plantou a discórdia entre os médicos e scientistas. Impostos, prohibições, até a absurda pena de morte, tudo foi lançado contra os vendedores e consumidores do tabaco. Izabel da Inglaterra, temendo que os seus súbditos vol- tassem ao estado selvagem, usando um vicio de selvagens americanos, prohibiu o seu uso nos estados sob o seu dominio. Richelieu, exceptuando apenas os boticários, impoz grandes multas aos seus vendedores. James Stuarts mandou matar Raleigh, introductor do tabaco na Inglaterra e publicou um opusculo satyrico, o «Misocarnpnos », em que dizia que a bocca do fumante assimilhava-se a uma chaminé do Inferno. 0 Grão-duque de Moscovia, Miguel Federovitich e Amu- rat IV, sultão dos Ottomanos, e o Schah da Pérsia manda- vam cortar o nariz aos fumantes e introduzir nesta cavidade o cachimbo quando par grace ils ne leurs coupaient pas la tête. Na Suissa os fumantes eram punidos com severidade, sendo em Rerne este crime equiparado ao do adultério. Por sua vêz o poder espiritual interveio, fulminando os íumantes com seus anathemas nas bulias, nos sermões etc. Urbano VII e Innocencio XII excommungaram os ta- bagistas com todas as véras de sua autoridade papal. Os médicos em suas fervorosas discussões firmaram-se até nos versiculos dos livros santos que interpretaram a seu modo encontrando argumento pró e contra suas opi- niões. Maís tolerante Benedicto XII levantou as excommunliões, talvez instigado pelos jesuitas, homens práticos, primeiros a descobrirem os eífeitos anaphrodisiacos do tabaco. Foram 11 os jesuítas da Polonia os autores do « Anti-Misocampuos», livro que refutara as satyras atiradas aos tabagistas. As mulheres da corte de Maria de Medieis, Luiz VIII e Luiz XIV imitando Catharina de Meclicis inveteraram-se no vieio de fumar, tendo de ceder, porém, ante as satyras, os epigrammas e descripções grotescas que delias faziam os escriptores da época que lhes tinham attingido o ponto frágil da vaidade. Mas é sabido que o homem é tanto mais apegado a um facto quanto mais razões tem para abandonal-o e por isso deante das perseguições c conselhos, uns absurdos e outros prudentes, veio se consolidar este vicio, hoje o mais espa- lhado no mundo. 0 uso therapeutico de que faziam emprego os indígenas americanos concorreu também para o conhecimento do tabaco na Europa, muito rapidamente. Para terminar esta rapida digressão é necessário fazer algumas referencias a suas applicações como medicamento, de que usavam an- tigos c notáveis therapeuticistas. Os selvagens da America, refere Bechia em sua « Historia do México », mascavam o tabaco para curar as e os rheumaticos mascavam-no para provocar a sialorrhéa que julgavam salutar nesta affecção. Para pensaras feridas dos animaes peçonhentos e as feridas recebidas em guerra mascavam-no e a saliva carregada dos seus princípios era applicada 11a parte lesada. João Nicot, sciente da sua acção curativa, utilisou-o, pela primeira vez, 110 Velho Mundo, como medicamento, conseguindo curar uma ulcera das fossas nasaes, dessas conhecidas com a denominação de nolli me tangere. A primeira menção oíficial do tabaco como re- medio póde-se attribuir a Jacques Gohory (9). NaHespanha Nicols Monandi fez na Universidade de Sevilha magnificas e memoráveis referencias em favor da introducção do ta" 12 baco em medicina. Boerhaave empregou-o nas nevralgias, Trousseau confessa ter visto empiricamente conseguirem-se successos empregando-o na gotta. Iyinger serviu-se delle para curar as paralvsias e Fischer especialmente contra as do colo da bexiga. Nas Antilhas, serviram-se do tabaco para curar o tétanos. Anderson conseguiu dois casos de cura da mesma moléstia usando cataplasmas de folhas deste vegetal. Referiu me um illustre cathedratico de nossa Faculdade que também em- pregou as infusões de tabaco para lavagens intestinaes e banhos topicos, conseguindo, por mais de uma vez, a cura de tetânicos confirmados. 0 mesmo professor disse que durante a campanha do Paraguay a sua applicação nos tetânicos, que os havia numa prodigiosa quantidade, curava quasi sempre, notando-se que os casos de insuccesso cons- tavam de doentes que tinham o tongo habito de fumar. Curting refere 19 casos de cura de tétanos pela prescripção de tabaco. Era utilisado para a cura de moléstias do apparelho respiratório e julgavam-no de grande efficacia, principal- mente na asthma e 11a coqueluche. Robcrt Page diz tel-o empregado com exito completo na pneumonia e Bauer na hemoptyses. Pia preconisava-o em lavagens contra as asphyxias por submersão. Portal, Orfila e Trousseau substituem esse emprego de lavagens, nos casos citados por Pia, pela insuflação do fumo do tabaco no anus e nas vias respiratórias, com 0 fim de despertar as contracções do diaphragma. Houve um grande therapeuta que 0 indicava nas cólicas saturninas, na constipação, no ileus, etc. Gíibler, cm seus a Commenlarios de Therapeutica », diz que 0 tabaco póde ser collocado ao lado dos purgativos propriamente ditos. Por ser de uso perigoso, não se 0 deve 13 applicar nas constipações simples, na rigidez do colo do utero, nos casos soporosos da asphyxia, nem nas vermi- noses, porque nestes casos o tabaco constituo arma de dois gumes, podendo então ser fatal ao doente. Fowler disse ter conseguido successo usando-o nas hydropisias. Melier informa que os manufactureiros de charutos con- seguem melhorar de dores rheumaticas, dormindo algumas horas sobre uma cama de folhas de tabaco. Existia outr’ora uma sem numero de formas pharma- ceuticas, em que o tabaco entrava como principio activo. Apenas algumas ofíicinaes mais conhecidas: o unguento de Faubert, o mundicativo d’Ache, o unguento esplenico de Beauderon, o xarope Quecetran, o balsamo de Opo- deldoc, o balsamo tranquillp, o xarope e o vinho de tabaco muito preconisado aos asthmaticos, o mel de tabaco, etc. Mercier, em sua tliese apresentada á Faculdade de Me- dicina de Paris, ainda cita as applicações das seguintes formulas: 1. Em substancia, com o fim de produzir vomitos, póde-se dar de 0,1 gr. a um gramma de pó de folhas. 2. infusão de folhas em lavagens: 4 grammas de folhas para 250 grs. d’agua. Fowler dava de 2 a 4 grammas da mesma infusão por via digestiva. Em assim composta a tintura narcótica de Towler: Tabaco 1 gr. Agua 16 grs. Álcool 8 grs. Era também usada contra os parasitas a seguinte de- cocção: 14 Folhas de tabaco ... 50 grs. Agua 1.000 grs. Emfim, no tétanos se empregava até 4 gottas de nico- tina por via gastrica. BOTÂNICA, CHIMICA E PHTSIOLOCIA Botanica — A synonimia do tabaco é das mais vastas no reino vegetal: petum, pety, pocyelt, tornabonna, herva catharinaria, herva para todos os males, herva vul- neraria, herva santa, herva do grão prior, herva do em- baixador, herva de Nicot, herva da rainha, herva piperina, herva medicéa, herbas inebrians, panacéa antartica, mei- mendro do Perú, cura tudo, antídoto da desgraça, etc. A’ tribu das Nicocianéas, familia das Solanaceas, per- tence a planta, de cujo estudo resumido me occupo. 0 illustre mestre Dr. Pedro da Luz Carrascosa, quando substituindo a cadeira de Historia Natural Medica, desta Faculdade, acertadamente dizia que, como se a natureza consciente fosse da virosidade de muitas especies desta vasta familia, as dotara de sombrio aspecto e lhes trajara de roxo as eorollas para despertar no homem o sentimento de repulsa que lhes ellas merecer deviam. A tribu das Nicocianéas é quasi constituída de vegetaes de pequeno porte, herbáceos, caule revestido de pellos abundantes que secretam uma substancia viscosa, meio pelo qual se defendem das aggressões dos insectos. Folhas grandes, inteiras, ovaes, sesseis e semiamplexicaules. Flores róseas, violetas ou roxas, reunidas em cimeiras ter- minaes. Cálice gamosepalo, tubuloso. Corolla gamopetala, afunilada ou em campanula. Estames em numero de 5, sendo 3 maiores e 2 menores, alongados e adhercntes á parte interna da corolla. Antheras medifixas, erectas, bilo- 16 badas, biloculares e de dehiscencia longitudinal. Gyneceu constituído por um estylete e um ovário bilocular e multi- ovular. Fructo dehiscente e da classe dos syncarpos, é uma capsula de dehiscencia septada bivalvular. Sementes abundantes e pequenas. As especies conhecidas são em grande numero, destacando-se dentre as mais importantes: a nicociana tabacum, a nicociana auriculata, a nicociana suoveolens, a nicociana pérsica, a nicociana rependa, a nicociana rústica, etc. A este succinto estudo botânico farei seguir o estudo, também resumido, da parte chimica, pois o plano deste trabalho dispensa a minúcia nestes pontos. Chimica — Pretendi emprehender eu mesmo a analyse chimica minuciosa e perfeita do tabaco, mas, logo ás primeiras tentativas, surgindo embaraços insuperáveis, producto de um meio ainda atrazado, tive de desistir do proposito, adoptando o que de melhor e mais moderno haviam mestres escripto. Estão actualmente accordes os chimicos em reconhecer que a composição do tabaco é variavel, conforme a época da colheita, o periodo de fermentação, os processos empre- gados para a fabricação de charutos e cigarros, beneficia- mento, etc. e também a variedade do tabaco empregado para a analyse. Este facto vem explicar as discordâncias havidas entre todos os analystas que tentaram estabelecer média das substancias contidas no tabaco. Confesso realmente que me falta a devida competência para julgar qual o melhor dos resultados da média pre- 17 cisa, o que me parece de relativa importância compara- tivamente a outros pontos controversos que procurei estudar e chegar a resultado satisfatório. Todas as analyses, desde as de Vauquelin, Schloesing, Giibler, Jolly, Warden, Robiquêt, Posselt e Reyman, Hermstaed,etc., embora divergindo na proporção, admittem que as folhas do tabaco contêm as substancias seguintes: potássio, sodio, magnésio, ferro, ammoniaco; ácidos mi- neraes: acido azotico, chlorhydrico, sulfurico; matérias azotadas: cellulose, amidon, oleos voláteis, matérias orgâ- nicas, resinas, etc. e um alcaloide liquido, volátil—a ni- cotina. Deixarei todas as outras substancias para me limitar somente ao estudo da nicotina, unica que me interessa. Este alcaloide, principalmente, é variavel em quantidade qias diversas analyses, variação dependente, a exemplo da digitalina nas folhas de digitalis, em percentagem, das condições de clima, sólo, cultura, da parte das folhas utilisadas, conforme a espessura do parenchima, como de- monstra Wurtz, época da colheita, etc. Das demonstrações de Schloesing conclue-se que, quanto mais demorada é a colheita, maior a proporção de nicotina, averiguação de importanciapnestimavel, pois éum dos meios que se pódem utilisar para diminuir a percentagem de nicotina abreviar a cultura do tabaco. Questão suscitada outr’ora e muito contraditada foi a de saber-se se no fumo do tabaco em combustão havia nicotina. Já se fez a luz sobre este ponto tão debatido que, como diz Hubel, se deve explicar a dissidência de opiniões pela existência de nicotina nas folhas da planta, não sob forma de alcaloide livre mais no estado de malatos e citratos. Drysdale demonstrou que o fumo do tabaco contém uma 18 enorme quantidade de nicotina que calcula ser de 30 grammas para 4.500 grammas de fumaça. - O facto que mais deve interessar, é relatado por quasi todos os autores que compulsei, o da diminuição da nico- tina nas folhas do tabaco depois de terem soífrido a fer- mentação nas camas e depois de beneficiadas por diversos processos até a confecção dos cigarros e charutos e estes ainda submettidos ao calor das estufas de vapor secco para perderem a humidade e facilitar o seu acondicionamento. A nicotina é um alcaloide descoberto por Vauquelin em 1809 e cuja composição só foi perfeitamente estabelecida após os estudos de Possat, Reiman e Barrai. A sua formula é C20 Htk Az.2 Liquido, incolor, adquirindo pela exposição á luz uma côr escura, cheiro acre e gosto acre e ardente, tal é este alcaloide. Com a conicina, a cafeína, a theobro- mina, a theina ella constitue a serie dos alcaloides vegetaes volatilisaveis. Seus vapores irritantes tèm o cheiro cara- cteristico do tabaco. A nicotina iuílamma-se produzindo uma chamma branca, fuliginosa, com deposito de carvão. Solúvel no álcool, na agua, no ether, que é o melhor dos seus dissolventes, e ainda nos oleos fixos e voláteis; com- bina-se com os ácidos e forma saes deliquescentes. A nico- tina só é deslocada de suas combinações salinas pela ammonea e oxydos de metaes alcalinos e terreos, excepto a alumina. Os saes de cobre são precipitados por ella em azul gela- tinoso, solúvel no excesso do reactivo; o sulfato de ma- gnésio é precipitado em branco; o chlorureto de ouro, em amarello avermelhado; o tannino, em branco. A reacção caracteristica considerada por Tardieu é a seguinte: mis- tura-se com ether uma solução diluida de iodo e nicotina e pouco tempo depois averigua-se a formação de bellos crystaes còr de rubi constituidos por iodo-nicotina. 19 A analyse do producto da combustão do tabaco é de grande valor, porque vem demonstrar que elle contém, além da nicotina, substancias como a nicocianina, assigna- lada por Johnston, a picolina por Eulemberg, a collidina por Le Bon, a pyridina, oxydo de carbono, acido prussico e outras substancias de um valor poderosamente toxico e éxaltadissimo. 0 fumante, se o é de charntos ou cigarros, sem piteira, vai absorver esses productos, dos quaes alguns se condensam na cavidade buccal ou no pipo do cachimbo. Um illustre experimentador, dissolvendo em ether o sarro de um cachimbo, chegou a matar um cão injectando pequena quantidade desta solução. Acção pbysiologica —Neste capitulo farei o estudo syutetico e geral da acção physiologica do tabaco, de grande importância, aliás, porque virá esclarecer muitos pontos obscuros ainda na clinica das moléstias pro- duzidas pelo tabagismo. Charcot, estabelecendo o methodo experimental, irmanou ainda mais intimamente a physiologia á pathologia, de fórma a í ornai-as mutnamente subsidiarias, dependendo do perfeito conhecimento de uma a importância perfeita da outra. E é por isso que farei preceder o estudo clinico do tabagismo pelo estudo da acção physiologica do tabaco. Aqui, por emquanto, limitar-me-ei a exarar o papel pbysiologico que os maiores mestres, insignes experimen- tadores attribuiram ao tabaco e principalmente ao seu alca- loide, a nicotina, procurando deduzir desta acção, em outro capitulo, a explicação de phenomenos morbidos, por mim notados no vasto campo da observação. 0 tabaco é dotado de cheiro especial, e como se está 20 acostumado a chamar — viroso. Seu gosto é amargo e pi- cante, deixa uma impressão de calor na garganta e no es- tômago quando se ingere, chegando a produzir nauseas e vomitos. A nicotina é um dos mais encrgicos venenos conhecidos. Duas a tres gottas têm sido bastantes a muitos experimen- tadores para produzir a morte de um cão de grande talhe. 0 seu poder toxico tem sido comparada ao do acido prussico, da aconitina, etc. Mais do que qualquer outro, este toxico tem o poder de affazer o organismo a dóses pro- gressivamente crescentes, que matariam infallivelmente se fossem usadas na primeira experiencia. Esta acção é de alto interesse, porque explica o facto de um individuo que ao fumar o seu primeiro cigarro apresen' tara-se em estado lypothimico, com nauseas, vomitos, suores frios, pulso pequeno e frequente e tantos outros symptomas de uma intoxicação aguda, poder depois, sem mais nenhum destes phenomenos, fumar 20, 30 e mais ci- garros. As experiencias de Traube comprovam plenamente: com 1/24 de gotta de nicotina obteve effeitos reaes em um animal, no dia seguinte uma gotta foi necessária para a obtensão dos mesmos phenomenos, e quatro dias depois somente com 4 a 5 gottas conseguiu a apparição dos phe- nomenos anteriores. Roliing julga que a nicotina é lacilmente absorvida pela pelle intacta. Esta asserção é de provável cônfirmação, porquanto não são raros os casos, exarados na sciencia, de intoxicação e morte motivados pela applicação de banhos, pomadas e fricções com substancias que tenham como base o tabaco. E, mesmo se assim não fòra, se a pratica não viesse com o seu valioso contingente asseverar esta ver- dade, a physiologia e a therapeutica ensinam que a pelle 21 absorve muitas substancias e principal mente as que se vo- latilisam ao seu contacto. Todas as mucosas absorvem esta substancia fácil e rapi- damente; esta rapidez é tal, dizem Nothnagel e Rossbach, que a morte pode succeder em vinte ou trinta segundos á ingestão deste veneno. A nicotina não se decompõe no organismo; em casos de intoxicação todos os orgãos attestam sua presença, assim é que se encontra no estomago, intestino, sangue, ligado, baço, rins, cerebro e em todos os productos de secreção: urina, saliva, etc., assim affirma Drugendorlf. Melsens attcsta que, mesmo nos cadaveres cm putre- facção dos animaes mortos sob a sua influencia, ella se conserva em natureza. Especificarei cada funcção em particular e as altera- ções que nella se produzem pela acção do tabaco, para melhor apontar depois a sua acção de conjuncto. Systema nervoso. — Aqui, como para quasi todas as substancias, é necessário distinguir os seus efeitos, con- forme a dóse empregada. E’ facto conhecido que em thcra- peutica muitos medicamentos tèm acção perfeitamente opposta quando usados em dóse pequeníssima ou em sua dóse maxima. Não citarei exemplo em prova, pois é do dominio universal a veracidade deste facto. Hucharcl, tem inteira razão, fazendo reviver a antiga expressão: em um só medicamento ha muitos medica- mentos, e experiencias ultimamente realisadas pelo grande therapeuta inglez Lauder Brunton, vêm demonstrar que o opio, o maior dos constipantes conhecidos, produz effeitos «utensamente purgativos quando injectado em dóse infini- tesimal na veia de um animal. Anarchia de opiniões existiu outr’ora quando se não 22 conheciam estes pbenomenos boje tão sediços. E’ assim que, cm relação ao tabaco, as idéas mais oppostas tiveram curso em- referencia á sua acção nervosa, e hoje todas essas apreciações antagónicas vêm prestar sua quota scien- lifica para a aííirmação de uma verdade. Para um grande numero de observadores o tabaco era convulsivante, para outros, dava logara paralysias mortaes. Itealmente estas opiniões se conciliam. Conforme a dóse empregada, estrs dois phenomenòs se manifestam. Collige-se de todas as experiências feitas que o animal em que se injectain algumas gottas de nicotina, segundos depois, é sacudido por uma serie de contracções fortíssimas, que se podem catalogar de primeiro periodo de intoxicação. vSc a dóse não foi suííiciente para matar immediatainente o animal, vò-se apôs esta phase de convulsões intensissi- mas surgir a tetanisação dos musculos que se paralysain atinai. Questão também bastante debatida, foi a de saberem-se quaes os centros nervosos em que se localisava de pre- ferencia a acção da nicotina. Vulpian em suas pesquisas, até boje ião nltia]assadas veio peremptoriamente demonstrar que a nicotina age pri- mordialmente sobre a protuberância, pois vira appare- cerem convulsões em um animal do qual seccionara trans- versalineote a medulla. Fez também cabaes demonstrações provando que essa substancia não se acantoa nem sobre os musculos, nem nas extremidades nervosas. Inferiu de suas experiecias que a acção se manifesta na protuberância, porque tendo feito a ablação deste centro viu cessarem as convulsões. G. Sèe localisa a acção da nicotina no bulbo. Hoje são estes dois centros os pontos de predileção á aggressão da nicotina. 0 professor #Huchard, oráculo, a cuja voz se curvam 23 reverentes os grandes clínicos da época, relatando dois casos de paralysia bulhar com pulso lento permanente e ataques epileptiformes, por elle observados e ligados á intoxicação nicotinica, confirma a affirmação de G. Sèe. Cl. Bernard (9) foi o primeiro a demonstrar que o ta> baco é um veneno para os vagos. Observou que pela applicaçâo da nicotina os pulmões e o coração denuncia- vam phenomenos não mais notados após a secção dos pneumogastricos. As experiencias de Cl. Bernard constaram do seguinte: em um cão adulto que tinha normalmente 115 pulsações e 38 movimentos respiratórios, injectaram-sc tres gottas de nicotina no tecido cellular sub-cutaneo; dois minutos depois contaram-se 332 pulsações e 42 respirações por minuto; vinte e cinco minutos decorridos desappareceram o» symptomas de intoxicação. 0 mesmo animal sete dias depois soffreu a secção dos pneumogastricos, apresentando então'um augmento das pulsações (pie se elevaram a 206, decrescendo a 9 o numero de respirações. Tres gottas de nicotina foram injectadas 10 minutos depois; as pulsações decresceram a 195 e os movimentos respiratórios a 7. Todos os autores que compulsei, referinclo-se ao facto, citam as experiencias de Cl. Bernard, concluindo do mesmo modo que elle sobre a acção da nicotina levada ao coração e aos pulmões por intermédio dos vagos. Falta-me a competência, e a tanto me não atreveria mesmo com cila, para criticar Cl. Bernard. Parece-me, entretanto, que, destas experiencias, nada se póde con- cluir em vista do verdadeiro paradoxo physiologico a que querem imputar a acção actual do pnèumogastrico exci- tado. Cointudo, em outra occasião, me reservarei para mais detida analyse. Physiologistas outros mostraram experi- mentalmentè que ó grande sympatbico também se resente da acção da nicotina e a contracção pupillár o comprova. 24 Gúbler, estudando comparativamente os eíTeitos da ni- cotina e da digitaJis, julga existir entre ellas uma acedo antagónica, porque, emquanto a digitalis diminue a fre- quencia das pulsações do coração augmentando a sua força de impulsão, a nicotina augmenta o numero das contracções cardíacas com detrimento da tensão da onda que se torna fraca e irregular. Schmiedelberg notou que, apezar de secção dos pneumo- gastricos, a accão da nicotina se fazia sentir sobre o coração e que este estaria isento por completo quando se inhibisse o apparelho moderador pela atropina. Parece ler querido concluir que o tabaco exerce accão especial sobre os ganglios automotores do coração. A ACÇÃO DA NICOTINA SOBRE O SYSTEM A MUSCULAR. — E’ indispensável estudar aqui a acção da nicotina nos dois grandes departamentos musculares, isto é, nos musculos j estriados ou de vida de relação, o nos musculos lisos ou de vida organica. > Vulpian, cujas memoráveis experiencias citei acima, não acredita na acção directa que a nicotina possa exercer sobre os musculos de relação. Não será certamente redundância repetir suas conclu- dentes experiencias sobre o facto. Depois de ter seccionado o nervo principal de um membro, elle submetteu o animal á acção da nicotina e viu que as convulsões se não mani- festaram no Irado enervado deste membro. Damourelte observou que as contracções persistiam nos musculos de um animal, sob o poder da nicotina, em sua segunda phase de colapso, se se excitavam esses musculos. Estas mesmas experiencias foram repetidas no Rio de Janeiro pelo Dr. Amedeu Masson, que accorda por com- pleto nos resultados obtidos. Gnbler, aproveitando a acção do relaxamento sobre os musculos estriados, que julga inberente á applicação da 25 nicotina, diz ter todo cabimento a prescripçâo deste alca- loide como medicamento em certas aífecções, em que o symptoma principal é o espasmo muscular simples ou te- tânico intermittente ou continuo. Apezar desta opinião provir de um acatado sabio, não posso calar a critica que me sobe aos lábios, pois ainda que haja quem hoje applique a nicotina firmado neste prin- cipio de tão illustre mestre, deve-se não esquecer, no en- tanto, que um animal submettido á sua acção, na ultima pbase de intoxicação, apresenta symptomas de verdadeiras contracturas tetanicas e, portanto, é augmentar a excita- bilidade medullar, já intensamente activada, nas affecções, cujos symptomas se assimilham aos que descreve o mesmo il lustre professor. A acção da nicotina sobre os musculos da vida organica é mais evidente, principalmente nos do systema arterial; tanto assim (pie Iíuchard a considera como a estrichnina do systema vascular. Deixarei, portanto, para explorar mais opportunamente este assumpto, quando occupar-me da acção da nicotina sobre a circulação. Respiração. — A apreciação superficial dos phenomenos induz, muita vez, os mais eruditos mestres, a asserções con- tradictorias. Anarciiisando factos, debatendo-se firmados em prin- cípios erroneos combatem, pouco lhes importando, ás vezes as armas, com o fim de verem triumphantes suas opiniões, muitos até para satisfação de um egoismo immoderado, peza dizel-o. E quasi sempre tem sido assim e por isso, as mais das vezes, a razão têm os ecléticos. Pugnavam experimentalistas pela acceleração das excur- sões thoraxicas provocadas pela acção da nicotina. Outros, 26 não menos iIlustres, affirmavam a diminuição do numero de respirações, em um certo espaço de tempo, diminuição seguida de paralysia, acarretando a morte do animal por asphyxia. Quaes teriam razão? Todos. As pesquisas de Vulpian, citadas em relação á sede de acção da nicotina nos centros nervosos, vêm demonstrar a veracidade da tlieoria dos primeiros. Kmquanto a dóse de nicotina é fraca para matar o animal, a excitação dos pneumogastricos é manifesta e manifesta também a acceleração dos movimentos respira- tórios, opinião primeiramente aventada por Cl. Bernard. Notlmagel c Bossbach (10) julgam dispensável a inter- venção dos vagos, porque, dizem elles, seccionando-se na região cervical estes nervos, continuaram a observar o phenomeno. À explicação que estes autores julgam conveniente é que seja este phenomeno devido a uma excitação dos centros respiratórios, excitação pré-paralytica explicativa da parada respiratória consecutiva. Quando a dóse de nicotina é sufficiente, observa-se a asphixia paralylica em contraposição á asphixia convulsiva citada. Aqui o phenomeno é complexo, é a paralysia do pneumogastrico, seguida da intervenção dos nervos que se vèmdistribuir nos rnuseulos da parede thoracica, musculos que se contraem tetanisados, como todos os outros do corpo em iguaes condições. De todas estas provas tiradas das observações minu- ciosas e criteriosas dos experimentalistas, deduzirei iIlações clinicas de grande valor, quando referir-me ao tabagismo cm suas diversas modalidades. Sangue. — As primeiras referencias são feitas por Glaude Bernard. Assevera o illustre mestre que: «a nicotina não 27 actua sobre o sangue, a despeito de proclamarem que ella lhe communica propriedades particulares; anatomica- mente ella lião lhe faz sofTrer alteração alguma, e este liquido, nos animaes nicotinisados, apresenta-se ao mi- croscopio com todos os caracteres do estado normal». Depois, proseguindo as suas observações, diz que o sangue arterial se mostra negro, altribuindo esta alteração a perturbações respiratórias. Ricardson, refere ter observado a dischromathemia e a poykilocitose com conservação do seu poder normal de agglut inação. lluchard, citando as conclusões de Ricardson, desperta a attenção para se não deverem confundir as alterações san- guíneas, manifestas nas asphixias c envenenamentos, e ligal-as ao tabagismo nos animaes envenenados pela nico- tina. Yas notou diminuição da alcalinidade do sangue, edimi- minuição dos erythrocitos. Nothnagel e Rossbach dizem que, na mistura da nicotina com o sangue, se observa a destruição dos globulos, o que se deve attribuir á forte alcalinidade da substancia toxica. Até então nada mais se conhecia, além das experiências çitadas relativamente á acção da nicotina sobre o sangue. R. Petit, no Congresso Internacional Antitabagico de 1900, eommunicou experiencias interessantes, em relação ao eífeito da nicotina sobre o sangue. Transcreverei aqui resumidamente as suas cominuni- cações. Diz elle que, sob a acção do envenenamento nico- tinico, a hemoglobina soffre uma serie de modificações chimicas, que alteram sua acção physiologica. Estas experiencias foram feitas em animaes premati mamente intoxicados, que eram cães e cobaias; diz tel-as ten- tado em rans, mas nunca ter podido obter crystaes de hemoglobina sufficientemente lixos para servirem de base a experiencias tão arduas. Examir.ou comparativa- 28 mente a hemoglobina e suas propriedades, antes e de- pois de ter soíírido a acção do tabaco. Nas condições physiolõgicas ordinárias, os crystaes de hemoglobina decompõem a agua oxygenada e ao mesmo tempo ozo- nisam o oxygenio. Uma gotta de solução de hemoglobina lançada sobre o papel reactivo embebido de tintura de guayaco dá uma mancha vermelha rodeada de uma aureola azulada. Se, segundo Beaunis, se mistura essencia de there- bentina recentemente dístillada e agitada ao ar com tin- tura de guayaco, esta conserva a sua tinta amarellada, se se ajunta a esta mistura um pouco de hemoglobina oxygenada, forma-se uma coloração indigo. Ora, com a hemoglobina nicotinisada, esta reacção não mais existirá. A quinina age da mesma maneira, donde a probabilidade, diz o mesmo autor — de distinguil-a da quinina por sua reacção verde com a agua chlorada ammonical. Além disso, os ácidos tartrico, prussico, decompõem a hemoglobina dando nascimento a matérias corantes que não contém mais ferro, tendo o ferro se separado e sendo precipitado em estado de oxydulo. Estudos novos e de grande valor scientiíico pela profi- ciência do citado autor, prestar-me-ão grande auxilio no amplo caminho das demonstrações, quando na segunda parte deste trabalho tentar explicar a causa de muitos phe- nomenos morbidos observados. \ Circulação. — Tenho, nesta parte, talvez a mais im- portante de quantas escrever haja, de estudar questões do mais aito valor para o fim que intento. E’ que estudarei a acção do tabaco sobre o coração, sobre os vasos e sobre a tensão sanguínea, especialisando cada um desses pontos. Este foi o meu intento, e as modificações pathologicas mais ou menos graves relatadas por todos os pathologistas e por mim muitas vezes observadas, fora-me o ponto de 29 mira principal iniciando este trabalho. Infelizmente nada pude adeantar sobre o assumpto. Todo aquclle que, como liz, procurar scientificar-se dos mais estreitos detalhes anatomo-physiologicos da inervação do coração, verá, com a mesma estranheza que me sor- prehendeu, que ainda hoje os mais eruditos physiologistas discordam, divergem ou vacillam, sobre o modo intimo do funccionamento dos dois nervos a que se attribue que animam o coração. Neste labyrintho de theorias não encontrei o fio con- ductor, bastante íirme, que me levasse com segurança a exito feliz. 0 vago é o nervo que retarda os movimentos do coração e o sympathico o seu accelerador, é a opinião mais geral e a mais antiga. Mas o vago contém em si também fibras accelcradoras das evoluções do coração, o vago é ainda, por intermédio do nervo de Cyon, que delle se origina, o nervo sensitivo desta importante viscera. Apezar da secção dos dois nervos pneumogastricos, se se fizer a respiração artificial, o animal operado continua a viver e só morrerá por alterações outras sobrevindas no apparelho respiratório, e uma excitação de certa intensi- dade da extremidade peripherica de um destes nervos produz a acceleração dos batimentos do coração. Não é minha presumpção fazer aqui uma retorma com- pleta do estudo da inervação do coração, o que quero provar c dizer é que nada está definitivamente assentado sobre o facto que esmiuçar pretendia. Não só no dominio da physiologia e da anatomia reina esta divergência de opiniões, como ainda alguns factos cli- nicos mencionados já em sciencia auxiliam essa dispari- dade de theorias. Pensando assim, não crimino nem criticarei Cl. Bernard, já anteriormente citado, quando conclue de suas experien- 30 cias, lambem já exaradas, que a acção primordial da nicotina é excilar o pneumogastrico, excitação esta que se collige de suas conclusões ser a acceleração do rythmo cardíaco, facto este em contradicção palpavel com a opinião mais em voga referente á excitação do vago. Inegável é que falho de autoridade me vejo para discutir assumpto de tão alia relevância, e de meus estudos, que procurei serem perfeitos, apenas colhi confusão insophis- mavel. Relatar factos não os analysando nem criticando, é o meu programma neste capitulo. Iluchard, em seu magistral trabalho intitulado—Ma- ladies da cnmr et de Vaorte, diz que o phenomeno inicial da acção do tabaco sobre a circulação é o retardamento do pulso. E mais adiante: «Deve-se admittir este retarda- mento da circulação, não somente como phenomeno inicial da acção do tabaco, mas a titulo de phenomeno perma- nente quando a dóse empregada não é toxica. Se, como tive occasião de observar, a tachycardia se manifesta deve-se sempre pòr a expensas não da acção da nicotina sobre o vago, mas da sua acção indirecta devida aos acci- dentes asphixicos consecutivos. Experiências outras de Schiedelberg e de Colas e Wer- theimer, o primeiro em opposição completa com as con- clusões de Cl. Bernard, parecem provar que a nicotina tem acção sobre o coração por interferencia dos seus ganglios automotores. Iluchard, citando estas opiniões, pergunta se as mani- festações do rythmo cardíaco,consecutivas á applicação da nicotina, não têm como origem as modificações de tensão arterial ou ainda a acção directa sobre as fibras do myo- cardio, como parecem demonstrar as experiencias de Ronget? As pesquisas de Cl. Bernard, provaram qu«, além do 31 tetanismo produzido pela acção da nicolina sobre os mús- culos da vida de relação, eram mais acceiduadas ainda as coutracções espasmódicas nos musculos lisos. As pequenas artérias, aquellas em que predominavam as fibras musculares, eram contraidas e rijas. Vulpian, que operava em animaes curaresados, contradiz esta opinião, notando, ao contrario, a dilatação destes vasos de par com a sua depleção. Ostrosumoff, admitlco mesmo facto. Sangly eDickinson notaram uma dilatação consecutiva a atresia dos capilares. Penso com Huchard, que, deante das observações cli- nicas, se não deve vacillar em affirmar que as artérias de pequeno calibre se constringem pela acção da nicotina que clle denominou — a estrychnina do systema vascular. TABAGISMO A’ primeira vista parece que se devia pensar que tabagismo fosse uma entidade mórbida bem definida, de symptomas patentes e caracteristicos, cujo coujuncto pu- desse ser catalogado de manifestação clinica especial e cuja unica denominação fizesse prever, como em toda moléstia, esta serie de phenomenos pathologicos que determinam e distinguem cada aííecção em particular. 0 tabagismo, porém, não é mais do que uma intoxicação causada pelo tabaco, tendo modalidades clinicas tão diversas que, por si só, poderiam constituir um tratado de patho- logia. E’ um factor etio-patbogenico, capaz dc gerar múltiplas entidades mórbidas, alterações estas tão pro- fundas ás vezes, que evidenciam e explicam a razão da grande importância em que o tenho. Aqui, como sempre, impera a questão do locus minorix resistencios. Apczar dc ser geral o ataque, a sua acção se exerce em pontos predilectos, que são de ordinário aquelles que menos resistência oppõem ao seu poder intoxicante. Proteiforme em suas manifestações, comtudo lia sym- ptomas tão exclusivamente seus que, ao olhar arguto do clinico de sciencia e consciência, que usa do methodo e emprega a perspicácia dos seus educados sentidos, grandes probabilidades se patenteiam para guiar com certa segurança no labyrintiio da pathologia. Procurarei seguir com alguma detença as suas múltiplas fôrmas de apparecimento. 34 A acção maléfica do tabaco pôde exercer-se ex-abruplo, com esta subtaneidade de symptomas que caracterisam as intoxicações agudas e quasi sempre fataes, ou insidiosa- mente, de marcha lenta e progressiva, quasi imperscru- tável, minando as organisações mais fortes até depau- perai-as e estiolal-as por completo. Nesta segunda modalidade de manifestar-se, o tabagismo é chronico e se acantoa mais particularmente em um orgam importante e indispensável da economia, gerando, pelo conjuncto de alterações funccionaes, verdadeiras affecções bem caracterisadas e muitas já classificadas em sciencia. Cingindo-me ao programma que me tracei, passarei em rápido bosquejo sobre a intoxicação viojenta, pelo tabaco, que, por ser de excepcional e raríssima frequência, de quasi nulla utilidade acredito o assumpto. 0 tabaco é incriminado pernicioso, seja por que forma usado, seja por que via absorvido. Expuz, ao falar na historia do seu uso e nas applicações, que o tabaco era utilisado pelos selvagens da America sob a forma de tor- cidas, envoltas em folhas de palmeira, ás quaes davam o nome de labago de onde se lhe originou o norne.' Imputando-lhe mil virtudes, os indígenas, que o usavam para debellar múltiplas affecções, foram imitados pelos europeus, e o tabaco impoz-se, a principio, como remédio que, pelo abuso, se constituiu cm vicio. E o tabaco do- minou os civilisados, num absolutismo cruel, estenden- do-lhes seu prestigio fatal na multiplicidade deformas por que é consumido: rapé, pó, cachimbo, masca, charutos» cigarros, etc. 35 Abundantes e preciosas observações são quotidiana- mente inseriptas nos jornaes de medicina, relatando casos de intoxicações mortaes, algumas originadas pelos un- guentos, pomadas, banhos, cataplasmas, fricções c outras lormas que tèm por base o tabaco. Mas, não são somente os viciosos e os incautos que se deixam guiar pelos ensinamentos empíricos, os únicos sujeitos aos accidentes do tabagismo; ainda mais, posso afíirmar com inteira convicção que, muito mais do que estes, estão expostos, irremissivelmcnte, os operários das diversas manufacturas onde se manipula o tabaco. Tenho deste facto preciosas observações, para lamentar, profun- damente angustiado, mais esta causa de destruição e de- generações a que está abandonado o povo misero, em cujos hombros chagados, pesa o madeiro esmagador desse trabalho maldito. Poderia citar grande*bumero de affirmações que têm surgido das pesquisas dos sábios: falarei em occasião opportuna, no decorrer destes estudos. Os accidentes do tabagismo podem patentear-se sob dois aspectos: agudo ou chronico. O tabagismo agudo ainda reveste duas formas: a benigna e a grave. 0 agudo de forma benigna é o mais commum, e não ha tabagista que, ao fumar o seu primeiro cigarro, não tenha razão de queixa contra esta voluntária iniciação penosissima. A principio, o iniciado no mysterio deste vicio, sente que tudo em volta delle gira macabramente; a face em- pallidece, a superfície do corpo se resfria e cobre-se de suor viscoso e gélido, a garganta se constringe, o rythmo do coração se exalta, uma anciedade terrível o domina, a respiração penosa dá-lhe a impressão de asphyxia irnmi" nente; cephaléa intensa e pulso miserável e intennittente: e todo este acervo de alterações passageiras é como um vibrante protesto da natureza previdente que nos avisa 36 contra futuras, graves e estáveis modificações que se vão estabelecer, se persistirmos no proposito de nos viciarmos. Como diz Le Roy (de Mericourt) nada melhor se assi- millia á approximação da morte, do que este primeiro grito da natureza revoltada. Consecutivamente sobrevêm nauseas, vomitos, cólicas intoleráveis, diarrhéa mais ou menos abundante. Depois as funcções alteradas voltam á sua normalidade. Esta variedade de tabagismo pode assumir proporções assustadoras cm certos indivíduos portadores de idyosin- crasias para o tabaco. Outra variedade de tabagismo agudo e raramente obser- vada é a forma grave. Ordinariamente é a prescripçâo do tabaco propinado como medicamento, quem occasiona esta segunda varie- dade de tabagismo agudo. Factos têm sido referidos em sciencia de indivíduos de espirites malfazejos que, con- scientes da virosidade do tabaco, o têm utilisado em suas praticas de homicídio. Roehing affirma que o alcaloide principal do tabaco — a nicotina, a que todos os autores rcsponsabilisam pelos accidentes occasionados pelo uso deste vegetal, é absorvido rapidamente pela pellc. A clinica sancciona esta opinião, e algumas ligeiras observações pessoaes, que vou relatar, confirmam meu inteiro aceordo neste ponto. 0 Dr. Rougen (Journal de Medecine de Bordeaux, 22 de Mars 1891) assignala casos de intoxicação consecutiva a loções feitas com maceração desta planta. O Dr. Auché refere o caso de um homem que apresen- tara symptomas de envenenamento tabagico, depois de ter feito fricções com a decocção de tabaco para destruir pediculi púbis. A historia desta planta cita múltiplos casos de indivíduos que, querendo subtrair-se aos impostos do fisco, apresen- 37 taram symptomas gravíssimos, vindo alguns até a suc- cumbir, por terem envolvido o corpo com as suas tolhas. Se a nicotina ou qualquer dos outros princípios toxicos do tabaco, póde atravessar a pelle intacta, com muito ma is forte razão o fará sem a sua barreira epithelial. Tive occasião de observar francos symptomas de in- toxicação aguda, em uma creança, a quem applicaram banhos de folhas de tabaco para curar sarnas abundantes em todo o corpo. Só depois de consecutivos banhos de agua pura, applicação de fortes dóses de iodêto de potássio, ingestão de repetidas chavenas de café e meios outros de que pude dispor na occasião, consegui levantal-a do estado soporoso em que a encontrei. Quando nascem as creanças, após a secção do cordão umbilical, é de praxe no povo, atupir-lhe a extremidade ainda .sangrenta de pó de folhas de tabaco ou rapé. Ila poucos dias, referiu-me um illustre e conceituado clinico desla capital já ter observado a morte de uma creança, occasionada por esta pratica esquisita e que, para jugulal-a, foram impotentes todos os recursos. Applicado por via digestiva, também tem originado la- mentáveis perturbações. Felizmente, é raro boje um indivíduo ingerir qualquer droga que contenha em sua confecção tabaco, não só por ser de conhecimento do vulgo sua acção venenosa, como pelo gosto intolerável que possue. Mais communs são os accidentes consecutivos á appli- cação de lavagens e clystéres contendo fortes dóses de nicotina. A «Revue Medicale» de 1839 cita a observação de um doente de Richard, que aconselhado por uma curan- deira, apezar das admoestações de um estudante, fizera uso de clystéres do decocto deste vegetal para curar-se 38 de constipação clironica e por isso fora acommettido de atrozes vomitos e cólicas terríveis. Orfila, em seu monumental trabalho de toxicologia, re- lata a morte de um rapaz de 14 annos, que fizera uso de um clystér contendo oito grammas de tabaco em infusão. Bleadsdale, no « Brit Med. Jurnal» transcripto pela «Yie Medicale» numero de Agosto de 1906, narra o caso de uma creança de dois annos a quem uma parteira adminis- trara uma lavagem de tabaco com a intenção de provocar a evacução de vermes intestinaes. Symptomas de envene- namento agudo grave se manifestaram e só depois dos recursos médicos voltou-lhe a pouco e pouco a saúde. O poeta Santeuil morreu em casa do príncipe de Condé depois de ter ingerido uma chavena de café, ao qual seus amigos, sem intenção criminosa, haviam misturado rapé. O fumo do tabaco por si só é capaz de produzir enve- nenamento, quasi todos os autores que se occupam do assumpto pensam assim. Julgam elles que indivíduos, mesmo que não fumem, permanecendo por uma ou mais horas em ambientes mal arejados e onde se fume em abundancia, se podem intoxicar com mais ou menos gra- vidade. Apezar de muitas opiniões accordes sobre o facto, Grehant diverge, pensando que se não deve criminar a nicotina neste caso e sim o oxydo de carbono que é emi- nentemente asphyxiante. O envenenamento criminoso provocado pela applicação de tabaco, teve a sua primeira representação tragica na morte de G. Fougnies, perpetrada pelo casal Visart — condes de Bocarmé, facultando occasião a iniciarem-se os celebres estudos do illustre chimico Stas, perito neste processo. Não raras vezes tenho observado accidcntes agudos de tabagismo, felizmente de fórma benigna, nos novos em- 39 pregados nas fabricas de charutos de Maragogipe onde es- tabeleci os meus arraiaes de pesquiza. Depois deste perfunctorio estudo dos accidentes agudos do tabagismo, em suas diversas manifestações, passarei a tratar do tabagismo chronico, estudo de mais utilidade sob o ponto de vista clinico, em razão de sua maior frequência, superior talvez ao que puder ia suppòr um observador superficial. Tabagismo chronico A’ reacção inicial dc toclo o organismo contra as pri- meiras dóses de tabaco, reacção que se caracterisa por essa sequência symptomatica, ora benigna, oi‘a dc gravidade assustadora, succede a sua tolerância, isto é, esta serie de reacçõcs também, porém surdas c ainda desconhecidas, que mantêm o equilíbrio entre o veneno e a economia que apparenta acostumar-se com elle. Parece que defini mal tolerância, mas, é conscio de sua má interpretação ou de imprópria denominação que dão a este phenomeno, que a acceitei assim. Lucta renhida e ingente em que a natureza prepondera a principio e vai, a pouco e pouco, perdendo a energia, até que depois o vencido de ha pouco planta o seu pavilhão de nefanda conquista e uma alfecção se estabelece clara às nossas vistas estupefactas deante da insidia desta lenta e pro- gressiva intoxicação. E’ a essa victoria de um combate de longos dias que sóe denominar-se — tabagismo chronico. Não é privilégio ex- clusivo dos fumantes o tabagismo chronico. 0 proletariado das manufacturas de charutos e cigarros pagam mais one- roso legado á sorte sempre adversa ao pobre. 40 Affirmam autores, e, em occasião opportuna referirei suas pesquizas, que a nicotina se evapora facilmente cias folhas do tabaco beneficiado pelos diversos meios em voga. Quer ainda princípios outros toxicos do tabaco tenham a faculdade de envenenar os operários, que trabalham 10 horas por dia em casas mal arejadas, em um conimu- nismo e promiscuidade revoltantes, a respirar uma atrnos- phera carregada de princípios morbigenos, isolados ou esquecidos dos mais rudimentares princípios de hygiene, o facto é que existem em extraordinária abundancia taba- gistas chronicos, como verifiquei, alli, em indivíduos dos dois sexos e de todas as idades! Por qualquer fórma que seja usado o tabaco, póde pro- duzir tabagismo cbronico. Não discutirei aqui a questão já muito debatida de saber se o cachimbo é menos pernicioso do que o cigarro e este mais ou menos do que o charuto, e o rapé menos do que os outros, por ser questão de pequena importância, que me deteria improficuamente. Na exposição que se vae seguir não se me deve olhar como muito bem se defende Huchard com estas palavras— «como estes jansenistas da hygiene que exageram por prazer a maldade do tabaco,» não; o que vou expôr é o resultado detido de acurado estudo e de alguma obser- vação num vasto campo de mais de dois mil operários e quasi iIlimitado numero de fumantes. Podem-se descreveras lesões provocadas pelo tabagismo, por amôr ao methodo, dividindo-as em duas grandes classes: locaes e geraes. As locaes são as produzidas pelo contacto do fumo do tabaco carregado dos seus princípios, ou do tabaco em natureza, com os orgãos da economia. 41 Effeitos locaes.— 0 labio inferior é commumente a séde predilecta de lesões explicáveis pela acção immediata do tabaco nas múltiplas condições citadas. As affecções occasionadas sob a sua influencia podem ser ligeiras ou benignas, ou de prognostico sempre grave. As idéas de YYircbow geraram nos anatomo-patholo- gistas de seu tempo a crença de que as irritações chronicas e os traumatismos eram o ponto de partida dos tumores. Refutada quasi esta theoria, parecia já extincta quando fervorosos adeptos e eminentes scientistas como Zahn, Zenker, Esmarch, Brost, Lubarsh, Ribberi, Iieidenlieim e Schimmelbush vieram demonstrar a sua viabilidade deante das experiencias feitas em animaes, mostrando a importância das irritações mechanicas na ethiologia dos tumores. 0 uso do tabaco, culpado lia longos annos como causa- dor do cancroide do labio, adquire, deante da possibilidade da acção irritante e traumatisante puder provocar tumores, foros de verdade postos em evidencia pelas experiencias dos autores supra-mencionados. Buisson,em seu trabalho denominado «Trib.á la cirurgie» di« que « é em consequência do calòr unido á acção irri- tante especial e talvez um pouco anestesiante da nicotina (que permitte longo contacto) que o uso inveterado do ca- chimbo ou o habito de mascar uma ponta de cigarro pode causar a apparição do cancroide do labio.» Os dentes não se podem esquivar a acção do tabaco. Além do aspecto nauseante que caracterisa os dentes dos lumantes, a despeito de grandes cuidados e asseio, o calòr elevado da fumaça dos cigarros, charutos e cachimbo di- lata o esmalte e fende-o em fissuras, concorrendo para o 42 estabelecimento de caries e perda consecutiva dos dentes difficultando a digestão e as demais funcções da economia que a ella estão ligadas. A lingua é também algumas vezes, como as gengivas e a face interna das bochechas, atacada, aggredida pelo ta- baco que produz até lesões incuráveis e de terminação fatal. O erythema, as gengivites, a glossite, as placas mu- cosas tabagicas ou leucoplasias buccaes, o cancro da lingua são as manifestações mais observadas pela irritação chronica exercida sobre estas partes pelo tabaco. Em 100 casos de leucoplasia bucal A. Fournier en- controu 97 fumantes. Duas condições favorecem a acção do tabaco, diz Forgue, a syphilis a principio e o dessaseio e o máu estado dos dentes depois. Àpezar de Gaucher, Serguit e Zambaco affirmarem que a leucoplasia bucco-lingual é sempre de na- tureza syphilitica, Fournier a considera uma lesão para- syphilitica em que o uso do tabaco, de concomitância com este íactor, é causa exclusiva. O cancro da lingua, como o do labio, é uma lesão quasi privativa do homem, e se lhe considera como factor predisponente a leucoplasia. «Toda placa de leucoplasia lingual é um cancro em espectativa», é a these demonstrada por Buisson. Deante da opinião infallivel de Fournier attribuindo as lesões leucoplasicas e as lesões cancerosas da lingua ao ta- baco, nos syphiliticos, é de regra proscrever-se o seu uso nos indivíduos em que estabelecer-se este diagnostico. Preciosas existências têm sido compromettidas e mesmo perdidas em consequência dessa terrível enfermidade para a qual, não poucas vezes, são falhos os recursos da in- trépida e aperfeiçoada cirurgia moderna. Malebranche, o metaphysico optimista, autor de «Re- 43 cherche de la verité», succumbiu de um cancro da lingua, o Visconde do Rio Branco, o iIluminado creadòr da mais bumanitaria das leis, Carlos Gomes, o maior genio musical do seu tempo, Deodoro da Fonseca, fundador do nosso re- gímen actual de governo, tiveram nas falsas delicias do charuto os tormentos indescriptivcis e a morte pelo cancro, como Malebranche. As amygdalites agudas ou chronicas, horrivelmente in- commodas sempre, encontram muita vez origem na irri- tação constante, determinada pela saliva carregada de princípios toxicos ou pelo fumo do tabaco. 0 pliarynge e o larynge também podem soíTrer em con- sequência do abuso do tabaco; deixarei, porém, para mais adiante a descripção destas affecções, quando tratar das moléstias bem definidas dos apparelhos digestivo e respiratório, de causa tabagica. Estudarei agora o tabagismo chronico c sua influencia sobre as diversas funcções. Digestão. — Quando falei da acção local que o tabaco exerce sobre a lingua c os dentes disse que, de um certo modo, estas alterações compromettem os primeiros actos da funcção digestiva. O tabaco é hypercrino e como tal activa a salivação que se torna tão abundante, de maneira a obrigar o fumante a um dos dois extremos que lhe são traçados: ou deglutir a saliva carregada de princípios toxicos, que, uma vez no estomago, irrita este orgam e depois absorvida, dissemina-se por toda a economia; 44 ou perdel-a, compromettendo ainda a digestão pelo des- apparecimento de seus princípios, que tanto concorrem para a absorpção dos feculentos. Acreditaram outrora que o tabaco era um eupeptico e Cl. Bernard approva as suas applicações para obter esta acção, explicando-a por meio das intimas ligações sympa- tbicas que prendem entre si as diversas secreções do apparelbo digestivo, cfe sorte que, activando a secreção salivar, todas as outras se activariam, apressando a di- gestão. A saliva carregada dos princípios do tabaco tem a pro- priedade de exercer uma anesthesia ligeira na mucosa gastrica, de modo a embotar o appetite. Este phenomeno era já conhecido dos nossos indios. M. Chambert e muitos outros viajantes, de ha muito pu- zeram em destaque esta propriedade do tabaco. 0 Doutor Wellis, acreditando neste conceito, aconselha o seu uso nos exercitos como podendo supprir a falta de viveres. Van Helmont pretende também que o tabaco apasigue a fome, não saciando-a, mas destruindo esta sensação e di- minuindo a. actividade das outras funcções. E’ incontes- tável que, usado em pequenas dóses, póde activar a funcção digestiva, quer chimicamente, augmentando as se- creções, quer mechanicamente accelerando o peristaltismo intestinal. Trousseau, sciente desta verdade, prescrevia o uso de um cigarro em jejum aos constipados chronicos. Mas a pouco e pouco, como constitue lei em physio- logia— o augmento de uma funcção termina pelo seu ani- quilamento, mais ou menos completo—as secreções se vão diminuindo, as digestões difficultando-se e afinal, do em- baraço gástrico á gastrite catanhal e desta ás dyspepsias mais rebeldes conhecidas, medeia pouca distancia. Ao peristaltismo accelerado pelo uso moderado do ta- 45 baco succedem verdadeiras contracturas, niais ou menos permanentes, das túnicas intestinaes, facultando a consti- pação, o abuso deste vegetal. Muitas vezes tive occasião de diagnosticar em operários de manufacturas de charutos dyspepsias, cuja origem se encontrava no tabagismo. Em alguns indivíduos a diarrhéa nos primeiros dias é seguida de constipação pertinaz que zomba dos meios therapeuticos efíieazes. Respiração. — 0 apparelho respiratório nos tabagistas é compromettido mais ou menos gravemente. (3 fumante inveterado aspira com o ar da inspiração grandes porções de fumo que se desprende do seu cigarro, cachimbo ou charuto, lacto a que denominam tragar. A laryngite catarrhal se manifesta, a principio, e a aliecção se vae estendendo na arvore respiratória e então tracheites, bronchites chronicas se estabelecem. Nas bron- chites dos tabagistas o catarrho que elles expellem têm uma côr anegrada devido ã eliminação de partículas de carbono, que penetraram com a fumaça, e parece provi- dencial esta aífecção. Todos os autores que discutem o assumpto confirmam este facto por mim também obser- vado — a dyspinéa transitória, muitíssimo incommoda, apparecendo de tarde ou de noite mais frequentemente. Alguns querem encontrar a explicação do phenomeno em uma sub-paralysia do pneumogastrico, em virtude da qual se resente a musculatura bronchica. A sua verdadeira explicação já foi dada ao tratar da parte physiologica con- cernente á respiração. Physiologistas outros creem em uma acção particular exercida pelo tabaco na mucosa pulmonar, dando a sen- sação especial que sõ esteriorisa por esta dyspnéa. Seja como fôr, o certo é que está hoje cabal mente 46 demonstrada a menor capacidade pulmonar dos taba- gistas e estudos magnificos, ultimamente realisados pelo Dr. Cláudio de Sousa, illustre clinico do d Dispensário Clemente Ferreira» no Rio de Janeiro, vêm confirmar esta verdade. Juntando todos estes factos ás retracções dos capiliares pulmonares e a diminuição da hematose que se rcalisa neste orgarn, parece que tudo isto é bastante para ex- plicar a frequência da tuberculose nos tabagistas e princi- palmente nos profissionaes, nos quaes medra com lanta abundancia o mais terrível dos flagellos da humanidade. Ha bem pouco tempo a cidade de Maragogipe servia, pelo seu ameno clima salutar, de refugio aos tuberculosos; de ha doze annos para cá, após a creação de fabricas de charutos, onde trabalham mais de 2.000 operários, é a moléstia que mais victima o proletariado dessa terra. Gomo explicar, se não se modificaram senão para melhor as condições hygienicas, a fartura de tuberculosos, a não ser pela intervenção preponderante do tabagismo ? Circulação. — O apparelho circulatório é, nos taba- gistas, o mais lezado. Pode-se dizer que raríssimo é o tabagista em que o coração é integro. Farei aqui, como quando tratei da acção physiologica do tabaco sobre o referido apparelho, o estudo em sepa- rado do coração e dos vasos nos intoxicados. A observação clinica da acção perniciosa do tabaco sobre o orgam central da circulação é, póde-se dizer com todo o acerto, do dominio da actualidade. Embora Ga~ lineau em 1862 refira, em sua observação sobre a epidemia de estenocardia á bordo de um navio, imputando-a aos excessos a que se entregavam os marinheiros, figurando em Jogar, saliente o do tabaco e Kreysig mencione o abuso 47 deste vicio como causa elficiente num caso único de angina do peito e também Graves firme a influencia nociva do tabaco sobre o funccionamento do coração, é comtudo a Beau que reverte a gloria de ter publicado em 1862 obser- vações concludentes relativas a este facto. Nos nossos dias é o velho Iluchard, o maior cardio- pathologista de todo o mundo, quem se ha occupado, com mais proficiência e mais autoridade deste execravel uso criminoso que, com agigantados passos, avassalla in- distinctamente nobres e plebeus, pequenos e grandes, cravando no coração dos viciados o signo funesto de mortal conquista. Digo, convencido como sou desta grande ver- dade, que o tabaco é um dos grandes factores das lesões cardiacas e arteriaes. Às alterações oriundas do tabagismo sobre o coração, são de duas ordens: funccionaes e organicas. As funccionaes são desde as palpitações ligeiras e tão assustadoras, para quem as supporta, ãs dysrythmias e á bradycardia firmemente. Observei grandíssimo numero de vezes essas palpitações especiaes dos tabagistas, as quaes Iluchard denomina, Como sempre, com inteiro critério--«coração irritável dos fumantes ». Stokes, attribuiudo ao tabaco palpitações tumultuosas e insuportáveis, exprime-se deste modo: «0 principal sym- ptoma é um batimento violento do coração de que o doente tem a consciência e o que atormenta muito. 0 exercício torna-se impossível ou penoso, sobretudo a pé; o decubitus sobre o lado esquerdo augmenta os acci- dentes. Os signaes physicos são os das palpitações ner- vosas ordinárias; as irregularidades do ryllimo do coração e os ruidos de sopro são raros. E’ certo que o tabaco age sobre os nervos do coração. No exercito certos indivíduos 48 mal intencionados ingerem sueco de tabaco com o fim de produzir palpitações violentas e irregulares ». Estas palpitações são geralmente o primeiro symptoma de intolerencia tabagica; e apezar do incommodo que causam são de pequena importância comparativamente a altp ações mais profundas que passo a relatar. As dysrythmias são bem manifestas nos tabagistas inve- terados. Lauder Brunton, o erudito professor do Hospital St. Bartholomew, em seu trabalho «Acção dos Medica- mentos», diz serem muitíssimo communs essas alterações de rythmo no funccionamento cardíaco dos indivíduos que fumam tabaco de má qualidade, einquanto os ricos, que abusam do de melhor especie são attingidos por syncopes súbitas e caem sem vida muita vez, como fulminados. E’ impossível, diz o iIlustrado professor, descrever-se por palavras o rythmo de um tal coração; mas se póde até certo ponto represental-o pelos signaes seguintes: 1111M,,1 E’ mais frequente nos tabagistas entre nós, uma dys- rythmia especial, até hoje ainda não descripta e que julgo typica, podendo apresentar ligeiras modificações. Resume-se no seguinte: A’s excursões lentas e vibrantes, em numero de 12 ou 16 na média, seguem-se pulsações mais apres- sadas, cada vez mais celeres e mais curtas, de maneira a se não poder distinguir os tons, dando a impressão de que se ouvem desdobramentos ou cousa qualquer que se assimilhe ao delirium cordis, e afinal o coração pára, depois recomeça o seu rythmo de 12 ou 16 lentas e pre- guiçosas excursões para então repetir-se a dysrythmia acima descripta. Póde-se muito bem chamal-a dysrythmia intermittente dos tabagistas. Tenho-a observado em muitas occasiões e alguns traçados esphygmographicos que possuo comprovam perfeitamente a existência dessa dysrythmia a que incriminam o tabaco como productor. 49 À bradyeardia tabagica tem sido bastante observada, por isso mesmo que possue denominações diversas, como sejam: syncope do coração, lipothymia cardíaca, pulso lento permanente de Charcot e subparalysia do coração do iIlustrado professor Martins Costa. E’ muito rara e nunca tive occasião de observal-a, podendo, conscienciosa e ex- clusivamente imputal-a ao tabagismo. As alterações organicas do coração nos tabagistas são múltiplas e infelizmente quasi sempre irremediáveis. No numero de Novembro de 1903 do «Correspondent Medicai» o Dr. H. Blanchon cita, no seu magnifico artigo sobre os «accidentes do tabagismo», a autorisada opinião de Maine. Este emerito scientista considera como um dos graves accidentes para o lado do coração a hypertrophia do ven- triculo esquerdo, caracterisando o que os pathologistas inglezes denominam tabaco heart. Deter, já conhecedor do atheroma dos vasos de origem nieotinica, afflrma a possibilidade de insufficiencia aortica nos tabagistas chronicos. De todas as lesões do coração de origem tabagica, as mais communs e melhormente estu- dadas, são as anginas do peito. Huchard, a quem me não fatigo de invocar, estudando, em sua obra acima já citada, as anginas do peito, depois de um bem acabado estudo sobre a acção physiologica e toxica do tabaco, conclue por avaliar que se póde bem comprehender, que essa variedade de estenocardia corres- ponde a tres modalidades diíferentes: 1 .®—Á angina do peito funccional, resultante do estado espasmódico das artérias coronárias, sem lesões do myo- cardio, que considera relativameute benigna, denominan- do angina espasmo-tabagica. 2.® — Angina do peito orgânico, de caracter grave, 50 resultante da esclerose das coronárias e denominada angina esclero-tabagica. 3.a — Angina funccional, resultante de perturbações di- gestivas e denominada angina gastro-labagica. As diversas modalidades de angor-pectoris acima citadas, e synthetisadas por Huchard em tres modalidades clinicas tèm a symptomatologia geral das estenocardias, podendo apparecerem signaes outros intercorrentes, que sirvam ao clinico bem avisado para pesquizar no tabagismo sua origem. Alguns accessos anginosos tomam a forma especial c quasi sempre benigna, cessando pela proscripção do tabaco: é a fórma frustra de Huchçird. Outras vezes a dôr retro- esternal, com irradiações para a espadua e os membros superiores, que constitue um dos principaes symptomas do angor pectoris verdadeiro ou orgânico, domina toda a scena e é despertada pelo esforço, caracter que por si só é bastante para firmar-se o diagnostico de angina organica por esclerose das coronárias e de prognostico tenebroso e gravíssimo. Muitos factos têm sido citados de morte em indivíduos, nos quaes se manifestaram accessos de angina do peito da variedade denominada por Huchard de angina espasmo- tabagica e que a autopsia demonstrou profunda esquemia do myocardio, incriminada como causa mortis. Já de sobra me demorei nesta parte e para terminar transcreverei as oito conclusões tiradas pelo sempre glorioso Huchard de sua vasta e profícua observação, verdadeiros aphorismos clínicos com que me envaideço de honrar o mais interessante capitulo deste meu trabalho. l.a A angina do peito tabagica toma muita vez a fórma vaso-motora (pallôr da face com vertigens, estreiteza do pulso, tendencia syncopal, anciedade precordial com ou sem dôr, resfriamento das extremidades, suores frios). 51 i’ 0 ataque anginoso é muita vez associado a outros accidentes de envenenamento nicotinico: vertigens, zum- bido dos ouvidos, dysphagia, cephaléa, suffocação e dys- pnéa (asthma nicotinica); sensação de fraqueza geral, hyperesthesia rachidiana, perturbações da vista. Mas estes accidentes podem ser dissociados e se observam também fora dos accessos. 3. ;i Os anginosos tabagicos apresentam quasi sempre, no curso ou fóra do seu accesso perturbações no funcciona- mento do coração: retardamento com enfraquecimento das pulsações cardíacas, tachycardia ou bradycardia, inter- mittencias, arythmias, palpitações, tendências lipothimicas ou syncopaes, accessos de palpitações. 4. a Os ataques anginosos são bastantes vezes muito pe- nosos e completos pela intensidade das dôres e suas irra- diações. Mas é na angina tabagica, sobretudo, que se observam as fôrmas esboçadas e frustras caracterisadas por uma ligeira angustia precordial, um pouco de embaraço sub-esternal com sensação de parada do coração e morte imminente. 5.8 A angina tabagica apresenta, as mais das vezes, accessos espontâneos que podem ser também provocados pela marcha ou o esforço. Oiterecem pois os caracteres da angina coronaria. 0.a Os accessos da angina funccional tabagica, devida ao estreitamento espasmódico das coronárias, desapparecem rapidamente depois da suppressão absoluta do tabaco, caracter clinico quasi commum a todos os accidentes do tabagismo sem lesão. 7.8 A angina organica tabagica, devida ao estreitamento orgânico das coronárias (por arterio-sclerose nicotinica) é mais tenaz, só desapparecendo lentamente, ou póde ser permanente. E’ justificável da medicação iodurada. 8.8 Uma outra fôrma da estenose cardíaca, a mais 52 commum de todas, é de origem, não de natureza nicoti- nica, pois que é devida ao estado dyspeptico produzido' pelo abuso do tabaco; cura pela suppressão deste e des- apparecimento do estado dyspeptico. Se a maioria dos nossos clinicos conhecesse esses apho- rismos Huchardianos, como muito bem os denomina o illustrado Mestre Dr. Anisio de Carvalho, as magistraes con- clusões do sabio professor seriam de observação commum e a sua prophylaxia estaria mais espalhada pelos conselhos que delles podessem provir. As lesões vasculares pela acção toxica do tabaco são hoje muitíssimo conhecidas c importantes trabalhos têm sido publicados ultimamente sobre ellas, dos quaes faço uma lista resumida: «Le tabac et 1’appareil vasculaire», lhese de Paris por Gaston Prieur; «Alherome experimental (1’origine tabagique», por M. P. Boveri; «Le tabac et Pap- pareil vasculaire», pelo Dr. Renon; estudos concludentes têm sido feitos emfim pelos Srs. J. Baylac (de Toulouse), Josué Adler; e differentes factos de observação são citados por Peter, Becaisne, Thelmier, Beau, Huchard, Ypres, etc. Já Cl. Bernard concluirá de suas experiencias que, em consequência da applicação de injecções de nicotina em animaes, se observa uma notável constricção dos vasos em que abundam as fibras musculares lisas, e um augmento extraordinário da tensão sanguínea. Foram depois confir- madas estas experiencias por quasi todos os pesquisadores que se occupam do assumpto, principalmente por Basch e Oser, Traubé, Jullien, Renon, Adler e actualmente por Huchard que as observou em todos os grandes fumantes. Não é necessário grande esforço para a explicação do atheroma da esclerose e dos aneurismas provocados pela acção do tabaco, desde quando as duas condições óptimas a constricção vascular e a hypertensão arterial se effec- tuam oriundas da acção toxica e permanente nos fumantes. 53 0 Dr. Alfredo Britto em seu trabalho sobre os ((Aneu- rismas da aorta na Bahia», no capitulo intitulado « Causas cosmopolitas productoras dos aneurismas» depois de ter falado nos symptomas do tabagismo agudo, os quaes tão bem estereotypam o phenomeno da vaso constricção e da hypertensão arterial, diz mais adeante: «Ora, se o taba- gismo traz, como se acaba de ver o augmento permanente da tensão arterial, é facillimo comprehendcr como possa elle determinar, não só a arterio-esclerose generalizada, e não simplesmente a arterite coronaria ou cardíaca, mas também a dilatação ou ruptura das túnicas aorticas pre- viamente alteradas, por elle proprio ou não, toda a vez que a intervenção de qualquer causa occasional se dè, como o esforço, um traumatismo etc.» Para firmar melhor a sua opinião sobre o assumpto recorre a citações diversas dos maiores mestres 11a matéria. Eichhorst explica a maior frequência da endoarterite no homem do que na mulher, por se achar aquelle « mais exposto ãs causas que determinam a arterio-esclerose)) e continua «entre estas ultimas causas conta-se notadamente 0 abuso cio tabaco, etc.» Hucliard, citado pelo mesmo autor, referindo-se ás causas toxicas da arterio-esclerose, responsabilisa affirma- tivamente 0 tabagismo como uma das causas productoras da affecção referida, tanto mais quanto em certos fumantes outra não se póde encontrar para explical-a. Na etiologia da aortite aguda elle considera 0 tabagismo como uma grande causa. Dentre algumas intoxicações, que se podem invocar para a producção da aortite chronica, 0 tabagismo figura, para 0 citado autor, como causa eíficicnte. 0 Dr. Britto encontra ainda uma affirmação peremptória ao seu modo de pensar, em Grasset quando diz que: 54 «LTalcool, le plomb, le labac sont les trois substances qui me paraissent donner le plus írequeinment naissence aux intoxieations de cet ordre de csclerose arterielle cousecu- tive», referindo-se á arterio-esclerose generalisada. Demonstrado como ficou pelo Dr. A. Britto o mecanismo da producção das arterites da esclerose arterial e dos aneurismas consecutivos a causas que determinem a hy- pertensão na rede arterial, não me posso esquivar de ac- ceital-o como o melhor acervo de razões demonstrativas para o fim que me propuz, tanto mais quanto o é geral- mente admittida pela quasi unanimidade dos tratadistas modernos. 0 que observam os médicos no campo da clinica é hoje positivamente demonstrado no campo da physiologia ex- perimental e da anatomia pathologica. M. Fischer (22.® Gongresso Allcmão de Medicina Interna, Abril) poude obter lesões vasculares de atheroma por in- jecções intravenosas de nicotina e de outras substancias toxicas. Adler fazendo coelhos ingerirem todos os dias, com os alimentos habituaes, infusos de tabaco, e matan- do-os em épocas diversas, notou que tres semanas depois eram patentes as alterações com lesões microscópicas do ligado: era uma infiltração de cellulas embryonarias em torno dos vasos lobulares e canaliculos biliares. Um mez e meio depois o fígado estava hypertrophiado e observa- va-se uma proliferação no tecido conjunctivo lobular. Quatro mezes depois as lesões vasculares eram ainda mais nítidas. Observavam-se artcriolas attingidas de endo- arterite e, ainda mais importante, existia intiltação em- bryonaria em torno das vasos do coração. Em nenhum caso o autor notara lesões das cellulas hepaticas nem de outros orgams. Concluiu de tudo isso que a arterio-sclerose manifesta era um facto do tabagismo. 55 Numerosas experiencias outras no mesmo sentido têm sido feitas e coroadas do melhor exito. Citarei a de Baylac (de Toulouse) e as de Gastou Prieur, exaradas na tliese apresentada á Academia de Medicina de Paris. Factos mais comprobatorios não é possivel desejar, pois, deaule desta longa citação de experiencias realisadas com o maior rigor scienlifico, não lia espirito, por mais pessi- mista que se apresente, que se não curve á veracidade destas asserções. A funcção nervosa nos occupará a attenção agora. E’ o systema nervoso, por ser o mais delicado da nossa orgunisação, c mais ainda por ser regirnentador de todo o funccionamento orgânico, aquelle que mais se resente da acção toxica do tabaco. Incontestavelmente ás primeiras aggressões deste veneno a reacção se não faz esperar, mais ou menos energica na razão directa da excitação e de circumstancias outras que para isto corroboram. Se me não fosse escasso o tempo bastaria este assumpto só, estudado como deve ser, para desempenhar-me com vantagens dessa pesada missão que a lei me impõe. Farei em perfunctoria synthese o estudo do tabagismo sobre as diversas funcções do departamento nervoso, seguindo o mesmo mctbodo que me tracei anteriormente. Apezar de criticada e debatida a obra de Lange sobre as «Emoções», em que considera tudo dependente da distri- buição sanguinea nos centros nervosos, é ainda bem novo o antigo axioma sanguis regulai nervus. Verdade ê que em lei de sequencia physiologica a distri- bução sanguinea é presidida normalmente pelos centros nervosos; mas agora, como em outros casos, estes centros reguladores são excitados mais ou menos permanentemente e dahi a quebra do referido funccionamento. 56 E* conhecido pela seiencia moderna, e principal mente dos especialistas na matéria, que o tabagismo póde lesar a funeção olfactiva. Os indivíduos que usam rapé ou expellem o fumo do tabaco pelo nariz, sentem a principio uma irritação into- lerável na mucosa desse orgam, que responde a essa exci- tação por continuados espirros e corisa pertinaz similhante á nifflette dos syphiliticos; depois o costume se estabelece, desapparecem estes symptomas de reacção providencial da economia e a anosmia, mais ou menos completa surge, podendo permanecer indefinidamente, emquando persiste a causa productora. A funeção visual também está sujeita á acção toxica do tabaco. Todos os ophtalmotogistas estão de aecordo em que o tabaco é nocivissimo á funeção visual e as estatísticas têm comprovado que augmentam as suas lesões á pro- porção que se gencralisa o vicio de fumar. Pela simples irritação, que a fumaça do tabaco póde occasionar na conjunctiva ocular, manifestam-se as con- junctivites incommodas e ({uasi sempre incuráveis, desde que se não abandone o uso do charuto. As ambliopias tabagicas não são raras; o escotoma e a amaurose mais ou menos completa são diagnosticados com alguma frequência. Varias theorias têm tido curso para a explicação dessas lesões, entretanto, a mais adoptada, é a da desnutrição do nervo optico, em consequência da atresia dos vasos que vêm irrigar a retina e o proprio nervo em seu tronco. A funeção auditiva é modificada desde a mais ligeira alteração, consistindo em perceber os sons mais delicados, até á completa cophose. 0 Dr. Delie d’Ypres observa que o tabagismo póde pro- duzir a esclerose do ouvido interno. 0 autor restringe-se 57 nessa communicação á accão directa do tabaco sobre o ouvido interno, afastando a possibilidade de que o uso mo- derado possa produzir no ouvido medio por modificações mórbidas 11a trompa de Eustaquio, creadas por pbaryngites buccaes ou nasaes e as rinit.es com a atrophia e a hyper- tfophia das correntes. Só raramente os tratadistas assignalam alterações na funcção gustativa attribuindo-as ao tabaco. Funcção genesica.— Os padres e os eruditos jesuítas foram os primeiros conhecedores das propriedades ana- phrodisiacas do tabaco e isto explica a razão: de Bene- dicto XII ter levantado as excommunhões lançadas aos tabagistas por Urbano VII e Jnnocencip XII. Como diz Garnier 0 tabaco occupa os momentos de octo sem suscitar pensamento algum acabando por adorme- cel-os 011 aniquilai-os. Dalii a ausência dos desejos e a impotência physica resultante. Parece ser esta a idéa do- minante para a explicação do facto que incontestavelmente existe. A data fatal de 1610, diz Michelet, que marca 0 appa- recimento de dois novos demonios — 0 álcool e 0 tabaco, abriu os caminhos em que 0 homem e a mulher vão divergentes. Inimigos do amor, estes dois demonios da solicitude, que supprimiram 0 beijo, são antipathicos ás approximações sociaes, funestas para a geração. E’ uma brutalidade procurar a illusão 11a embriaguez, e a distracção na fumigação. M.me Anais Sigalas, finíssima humorista franceza, de que este trecho é uma scentelha palpitante de espirito divina- mente ironico, diz a respeito do tabaco: «Que voulez-vous que je dise du labac et de toute la noire famille des ci- gares? Je suis dune origine creole, les creoles n’aiment 58 pas les nêgres, voilã pourquoi, peut-etre, je ifai jamais compris la passion des hommes pour celle petite negresse qui s’appelle la cigarefle. Après lo diner, elle les eloigne du solou pour les reunir dans le fumoir: la negresse les separe des blanches et de leur conversation. II est vrai