FACULDADE DE MEDICINA DA BAH!A TtlESE APRESENTADA Á Faculdade de Medicina da Bahia EM 31 DE OUTUBRO DE 1912 PARA SER DEFENDIDA POR Soão Qaminíia óe Sá JSoitão Ex-ioterno do Hospieio t João do Deus NATURAL DO DO Filho legitimo do Bcic.rel Antonio S. de Sá Leitão e D. Maria C. de Sá Leitão • AFIM BE OBTER O QlRÃU DE DOUTOR EM MEDICINA DISSERTAÇÃO OS REFLEXOS TENDINOSOS E CUTÂNEOS NOS ALIENADOS (Contribuição ao seu estudo clinico) Cadeira de Clinica psychiatrica e de Moléstias nervosas PROPOSIÇÕES Trez sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medico-cirurgicas BAHIA Escola Typographica Salesiana 1912 Faculdade de Medieina da Bahia DiRECTOR-DR. AUGUSTO CEZAR VIANNA Vice Director Secretario—Dr. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-Secretario—Dr. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA PROFESSORES ORDINÁRIOS OS SNRS. DRS. CADEIRAS Manoel Agusto Pirajá da Silva . Historia natuai medica Pedro da Luz Carrascosa. . . Physica medica . . . . . . , . Chimlca medica Julio Sérgio Palma .... Anatomia microscópica José Carneiro de Campos. . . Anatomia descriptiva Pedro Luiz Celestino . . . Physiologia Augusto Cesar Vianna . . . Miorobiologia. Antonio Victorio de Araújo Falcão. Pharmaeologia Guilherme Pereira Rebello . . Anatomia e Histologia patliologicás Fortunato Augusto da Silva Júnior Anatomia Medico-cirurgica com ope( rações e apparelhos Anisio Circumdss de Carvalho . Clinica medica Francisco Braulio Pereira . • « « João Américo Garcez Fróes . . « « Antonio Pacheco Mendes . . « Cirúrgica Braz Hermenegildo do Amaral . « ♦ Carlos de Freitas .... « « Clodoaldo de Andrade ... « Oplitalmologi a Eduardo Rodrigues de Moraes . « Oto-rhino lariogologica Alexandre E. de Castro Cerqueira < dermatológica e syphiligra- pbica Gonçalo Muniz Sodrè de Aragão . Patliologia Geral José Eduardo F. de Carvalho Filho Therapeutica Frederico de Castro Rebello. . Clinica pediátrica medica e hygiena infan til Alfredo Ferreira de Magalhães . Clinica pediátrica cirúrgica e ortho- penia Luiz Anselmo da Fonseca . . Hygiene Josino Correia Cotias . . Medicina' legal e toxicologia Climerio Cardoso de Oliveira.. (Ginica obstétrica José Adeodato de Souza. . . « gynecologica Luiz Pinto de Carvalho ... « psvchiatrioa e de moléstias nervosas Aurélio Rodrigues Vianna . . Patliologia medica Antonino Baptista dos Anjos. . « Cirúrgica PROFESSORES EXTRAORDINÁRIOS EFFECTIVOS Os Snrs. Drs. Cadeiras Egas M.uniz Barretto de Aragão . Historia natural medica João Martins da Silva . ' « . Physica medica . . . . . . . Chimioa « Adriano dos Reis Gordilho . . Anatomia microscópica José Affonso de Carvalho . . Anatomia descriptiva Joaquim Climerio Dantas Bião . Physiologia Augusto de Couto Maia . . . Miorobiologia Francisco da Luz Carrascosa . Pharmaeologia Anatomia e histologia pathologions Eduardo Diniz Gonçalves . . Anatomia Medico-cirurgica com ope- rações e app relhos Clementino da Rocha Fraga Júnior Clinica medica Caio Octavio Ferreira de Moura . « cirúrgica « ophtalmologica Albino Arthur da Silva Leiíão . < dermatológica e syphiligra- phiea Antonio do Prado Valiada res . Patholog>a geral Frederico de Castro Rebello Kocli. Therapeutica José de Aguiar Costa Pinto . . Hygieno Oscar Freire de Carvalho. . . Medicina legal e toxicologia Menandro dos Reis Meirelles Filho Cínica obstétrica Mario Carvalho da Silva Leal . « psichiatnca e de moléstias nervosas Antonio do Amaral Ferrão Muniz Cliimica analytica e industrial PROFESSORES EM DISPONIBILIDADE Drs. Sebastião Cardoso Doocleciano Ramos João Evangelista de Castro Cerqueira José Rodrigues da Costa Dorea A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidasnas theses que lhe são apresentadas Uma apresentação bem simples é esta que fazemos do nosso modesto trabalho; ainda assim, vae para não distoar da praxe e como u’a méra explicação. Interno do Hospicio de S. João de Deus, da Bahia, du- rante dois annos, julgamos de obrigação escolher para a nossa ultima prova académica um assumpto concer- nente á especialidade por nós abraçada. Queríamos facilitar assim a nossa tarefa, documen- tando-a ao mesmo tempo com o fructo de nossa obser- vação pessoal. A escolha do assumpto, porém, constituiu uma seria difficuldade a vencermos, attenta a nossa quasi absolu- ta falta de conhecimentos sobre a matéria. Manifestando ao distincto prof. Dr. Pinto de Car- valho o nosso embaraço, foi proposta sua que lhe apre- sentássemos alguns pontos, que nos parecessem mais accessiveis, e elle faria a escolha. Assim fizemos e a sua escolha recahiu sobre o palpitante estudo dos REFLEXOS TENDINOSOS E CUTÂNEOS NOS ALIENADOS. Entretanto, tínhamos errado em suppondo que este ponto nos era accessivel: as difficuldades que encon- tramos para desenvolvel-o foram immensas. Amparado, porém, pelo estimulo do nosso digno di- rector e amigo, o Dr. Eutychio Leal, puzemos mãos á obra e, á custa de ingentes esforços, conseguimos che- gar ao fim. O nosso trabalho é bem pobre e outro mérito não tem senão o de nunca ter sido feito entre nós e, tal- vez, o de poder prestar algum insignificante serviço, pela orientação pratica que lhe procuramos dar.—Eil-o apresentado. Os nossos agradecimentos sinceros ao prof. Pinto de Carvalho e ao Dr. Eutychio Leal, pelo gentil con- curso que nos prestaram de boa vontade. DISSERTAÇÃO Os reflexos tendinosos e cutâneos nos alienados (CONTRIBUIÇÃO AO SEU ESTUDO CLINICO) I PHYSIO-PÂTHOLOGIÀ BOS REFLEXOS Reflexo é a volta da excitação ao seu ponto de par- tida, passando por um centro. Data de muito tempo a descoberta desse phenomeno, em a sua apreciação mais ou menos exacta. Montaigne e Descartes occuparam-se do assumpto em 1640. Astruc, em 1743, tratou de estudar melhoro phenomeno, que recebeu por isto o seu nome, compa- rando a transformação d’uma impressão em movimento a um raio de luz que se reflecte sobre uma superfície. Hales estabeleceu o princípio básico da acção re- flexa, demonstrando que os reflexos cessavam pela destruição da medulla. (Gley). A Prochaska, porém, cabe a honra de ter experi- mentalmente estudado a questão, em 1784, dando-lhe bases solidas e scientificas e formulando uma primeira tbeoria dos reflexos. Depois delle grande numero de physiologistas estu- daram o phenomeno, no intuito de elucidar a questão. Legallois formulou uma theoria que considerava os reflexos como um apanagio da medulla. Calmeil insis- 2 tiu sobre a funcção de coordenação motora da medulla, independente da do encephalo. Muller estendeu esses dados á explicação de um grande numero de factos pathologicos. E por muito tempo ficou sendo considerada a me- dulla como um centro de reflexos unico. Para que o phenomeno se produzisse eram bastantes trez elemen- tos íntegros: um que conduzisse a impressão sensitiva (nervo centrípeto); um centro medullar que recebesse a sensação e a transformasse em movimento; um ter- ceiro elemento que conduzisse a ordem motora (nervo centrífugo). Era o arco reflexo primitivo. Entretanto, esse modo de ser do movimento reflexo, com o evoluir da experimentação, se foi mostrando fa- lho para a explicação de certos factos clínicos e mes- mo physiologicos. A necessidade de levar além o seu estudo era evidente, já porque a clinica mostrava le- sões dos centros superiores modificando os reflexos, já porque a ligação estreita descoberta entre as diffe- rentes partes do systema nervoso clamava contra essa independencia de acção medullar. Marshall-Hall foi o primeiro que se revoltou con- tra o arco reflexo simples, mostrando que os pheno- menos reflexos não eram exclusivos da medulla e que sobre uma cabeça separada do corpo o toque do globo ocular determinava a occlusão das palpebras, o que não acontecia após a destruição dos hemispherios ce- rebraes. A descoberta dos reflexos cutâneos e, mais tarde, (1875), a dos tendinõsos, vieram por completo aniqui- 3 lar o prestigio da theoria firmada por Legallois e de- fendida por physiologistas eminentes. Urgia buscar em outros pontos a explicação de múl- tiplos phenomenos que a clinica apresentava. Multiplicaram-se então os estudos e delles nasceu a serie enorme de theorias concernentes á localisação dos centros reflexos. Não nos é licito cital-as todas, na estreiteza deste trabalho, até porque assim excederíamos os limites que lhe traçamos. Deixal-as-hemos de parte, como fizemos com o me- chanismo do acto reflexo, que aliás se encontra em qualquer livro de physiologia. Queremos apenas assentar a nossa opinião sobre a theoria mais de accordo com o nosso modo de encarar a questão, tendo em vista a explicação dos factos que tomamos para observação. Desde as theorias de Pick e Egger e Legallois que classificam os reflexos como de origem puramente medullar, até a de Pandi que colloca os centros dos reflexos no córtex cerebral, ha muitas theorias inter- mediárias, fazendo algumas a distincção entre os cen- tros dos reflexos cutâneos e os dos tendinosos. Quer umas quer outras, porém, resentem-se de fa- lhas que as tornam inaceitáveis perante a clinica. Se a sagacidade dos seus defensores consegue satisfazer a physiologia, os dados fornecidos pela clinica oppôem obstáculo intransponível para a sua aceitação. Por exemplo, segundo a theoria de von Monakow, os reflexos teem centro nas massas cinzentas sub-cor- 4 ticaes. Ora, sendo isto verdade, não se comprehende como lesões corticaes possam modificar, ás vezes radi- calmente, os reflexos cutâneos. Para Jendrassik os reflexos cutâneos são cerebraes e os tendinosos medullares. Ora, isto não explica de modo algum como as secções transversaes da medulla cervical produzem a abolição dos reflexos tendinosos. E objecções desse genero pódem ser feitas ás demais theorias, menos á de van Gehuchten, a que parece mais de accordo com a observação e a clinica. Para van Gehuchten os reflexos cutâneos são cor- ticaes e os tendinosos são mesencephalicos. Esta theoria, estabelecida depois por Bastian e ad- miravelmente demostrada por Crocq, é a mais aceita hoje pelos physio-pathologistas, como verdadeira. . Van Gehuchten, firmado nos conhecimentos novos sobre a estructura interna dos centros nervosos, na descoberta da via dupla—cortico-espinhal e rubro- espinhal—que segue a reacção dos centros nervosos superiores sobre as cellulas motoras dos cornos ante- riores da medulla, poude chegar a essa conclusão. Nem é presiso trazermos aqui todas as provas com que o illustre professor documenta as suas conclusões; basta que citemos as que nos parecem por si sós bas- tante concludentes. Eil-as. «A tabes espasmódica é produzida por uma lesão das fibras cortico-espinhaes. Na paraplegia espasmódica, devida a uma compressão medullar, as fibras cortico- espinhaes são também as primeiras attingidas. Nesses 5 dois estados pathologicos ha então interrupção das fi- bras cortico-espinhaes e integridade, ao menos relativa, das fibras rubro-espinhaes. Ora, é precisamente nesses dois estados pathologicos que se observa o exagero dos reflexos tendinosos e a abolição dos reflexos cutâ- neos. Podemos concluir desses factos, ao menos a titulo de hypothese, que são as fibras cortico-espinhaes que presidem aos reflexos cutâneos. E’ presiso que essas fibras estejam intactas para que os reflexos se possam produzir. Segue-se inevi- tavelmente que os reflexos cutâneos são de origem cortical. Quanto aos reflexos tendinosos, elles parecem per- sistir emquanto funcciona a via rubro-espinhal. Se esta via funcciona só, elles são exagerados; se esta via func- ciona ao mesmo tempo que a via coríico-espinhal, elles são normaes; se a via rubro-espinhal é interrom- pida, os reflexos tendinosos são abolidos, ainda mes- mo que as fibras cortico-espinhaes estejam intactas e com ellas os reflexos cutâneos. E’ assim como se póde explicar a dissociação dos movimentos reflexos observada em um doente que apresentava abolição dos reflexos tendinosos com a conservação dos cutâneos, o qual tinha um tumôr no lobo esphenoidal, confir- mado pela autopsia, comprimindo o mesencephalo.»' Tem grande valor, como prova da theoria de van Gehuchten, a seguinte declaração de Dejerine, aliás não adepto dessa theoria Diz Dejerine:—«Nas pesquizas praticadas nestes ul- 6 timos annos com meu discípulo Egger, sobre o estudo dos reflexos na paraplegia espasmódica por lesão me- dullar localisada, temos encontrado um exagero dos reflexos tendinosos dos membros superiores—olecra- neanos, do triceps, biceps, supinadores, cubitaes e radiaes —em um grande numero de casos. E’ essa uma parti- cularidade que, a menos que eu não saiba, não foi ainda assignalada até o presente e cuja explicação não é fácil. Em todo caso, esse facto não póde ser expli- cado pela theoria que vê no exagero dos reflexos a suppressão da acção inhibitoria exercida pelo feixe pyramidal sobre as cellulas motoras. Aqui, com effeito, o exagero dos reflexos tem’séde bem acima da lesão». Diante destas provas, cuja authenticidade é incon- teste, repetimos, julgamo-nos authorisado a não trazer outras confirmações á theoria do sabio van Gehuchten. É ella que aceitamos como a verdadeira, maximé ten- do em vista as irrefutáveis experiencias do notável professor Crocq, que chegou algumas conclusões, cujas principaes são as seguintes: 1. aA secção completada medulla na região cervi- cal ou dorsal superior determina, no homem, a abo- lição completa e permanente de todos os reflexos ten- dinosos e cutâneos; 2. a As lesões destructivas do córtex cerebral motor produzem, em todos os animaes, exagero dos rflexos tendinosos e, em alguns delles, diminuição dos cutâ- neos; 3. As lesões destructivas extensas do cerebello de- terminam exagero dos reflexos tendinosos. 7 Com esse autor concluímos pois;—No homem os centros dos reflexos tendinosos estão no mesencephalo e soffrem a influencia inhibitoria do córtex cerebral e cerebelloso; os centros dos reflexos cutâneos acham-se no proprio córtex cerebral e, portanto, livre de inhi- bições. E nem é difficil mostrar o porque nos tornamos de- fensor da theoria de van Gehuchten. Basta lembrar que estudamos as modificações dos reflexos nas moléstias mentaes, moléstias cuja séde está nas cellulas corticaes do cerebro. A isto poderiam objectar-nos que, neste caso, a the- oria de Pandi satisfaria melhor. Responderíamos: não, porque a localisação puramente cortical dos reflexos não é precisa para provar a sua modificação nas moléstias mentaes, attenta a acção inhi- bitoria do córtex sobre o mesencephalo. Discutiremos isto mais adiante, quando nos occupar- mos do modo porque as psychoses modificam os re- flexos. Demais, não esquecemos que em neuro-patho- logia a theoria de Pandi falharia por completo, no que diz respeito aos reflexos tendinosos. Os reflexos habitualmente exploráveis na clinica são;— os tendinosos, os cutâneos, os mucosos, os periosticos e aponevroticos e so pupillares. Para o nosso estudo interessam apenas os dous 8 primeiros grupos e é sobre elles que faremos as consi- derações que se seguem. Denomina-se reflexo tendinoso a contracção mais ou menos intensa e brusca de úm musculo ou grupo de musculos, em consequência da excitação mechanica, por percussão, do seu tendão. Reflexo cutâneo é ainda a contracção brusca e mais ou menos intensa de certos musculos, em seguida á excitação da pelle da região correspondente ou visi- nha. Dentre os reflexos tendinosos contam-se, o rotuliano: o achilleano, o olecraneano, o radial, o cubital e o masse- terino, como mais explorados. Nem todos, porém, são correntemente pesquisados; nem mesmo é habito ir além dos dous primeiros. Aliás parece justificável isso, porquanto quasi todos soffrem ao mesmo tempo eguaes modificações. Entretanto, não é bem assim que a observação nos ensina e esse quasi tem o seu valor. Pelo menos para o que toca aos trez primeiros—rotuliano, achilleqno e olecraneano a nossa observação pessoal mostrou-nos nem sempre estarem elles egualmente modificados. Por esta razão fizemos a sua pesquisa systematica em todos os doejntes submettidos á nossa observação e é sobre elles que insistiremos de um modo particular. O reflexo rotuliano, ou patellar, provoca-se percu- tindo o tendão rotuliano: produz-se um movimento brusco de extensão da perna sobre a coxa, devido á contracção do triceps crural. A sua technica é bastante simples. Senta-se o doente sobre uma cadeira ou na borda 9 do leito, com as pernas cruzadas ou pendentes, ou ainda faz-se com que elle se deite em decúbito dorsal e fle- xiona-se a levantando a parte inferior da côxa. O essencial é que se obtenha o relaxamento absoluto de todos os musculos do membro. Depois, com o bordo cubital da mão ou com as extremidades dos dêdos reunidos, ou melhor, com um martello proprio (mar- tello de Dejerine) percute-se o tendão rotuliano a gol- pes seccos e firmes. O reflexo achilleano provoca-se percutindo o tendão de Achilles por um dos meios apontados acima. Para isto manda-se que o doente se ajoelhe sobre um movei qualquer, com os pés pendentes, ou melhor, manda-se que elle se deite em posição ventral e mantem-se suas pernas em flexão, afim de obter o relaxamento dos musculos. Fazendo-se a percussão obtem-se, no esta- do normal, um movimento brusco de extensão do pè, devido á contracção do triceps sural. O reflexo olecraneano é um movimento de extensão do antebraço sobre o braço, provocado pela percussão do tendão inferior do triceps brachial. Para obtel-o, manda-se que o doente cruze o braço sobre o peito e o abandone nessa posição, percutindo-se por um dos processos acima indicados. Dentre os reflexos cutâneos, os mais correntemente explorados são: o plantar, o cremasteriano e o abdo- minal ou de Rosembach. Os outros—o peitoral, o glúteo, o lombar, etc.—são de menos importância e podem ser deixados de parte, pelo menos para o nosso estudo. O reflexo plantar è a flexão dos artelhos, principal- o 10 mente do grosso artelho, em consequência da excita- ção da planta do pè. Quando a pelle dessa região è muito-espessa, torna-se preciso para provocar o refle- xo picar a planta do pè. Um outro reflexo importan- te, também provocado pela excitação da planta do pè, è o chamado signal de Babinski, de que trataremos mais adiante. O reflexo cremasteriano è a elevação brusca do tes- tículo, pela contracção do cremaster, excitando-se a pelle da região supero-interna da côxa. O reflexo abdominal obtem-se excitando a pelle da parede abdominal ahterior: dá-se a contracção dos musculos dessa região. Esse reflexo nem sempre é de facil obtenção e exige bastante cuidado para não con- fundil-ocom o movimento de recuo da parede abdominal, devido ás cócegas. Na exploração dos reflexos trez factos principaes de- vem chamar nossa attenção:-l°—se estão elles exagera- dos, normaes, diminuídos ou abolidos; 2o—se são egua- es nos dous lados; 3o—se ha modificação de forma, ou se existem reflexos que não se produzem no estado normal. Nestes últimos tempos os autores teem insis- tido sobre a relação existente entre a sensibilidade geral e os reflexos e sobre a dissociação dos reflexos tendinosos e cutâneos em certas moléstias do systema nervoso. No tocante ao primeiro ponto, não é sem razão que se insiste sobre o modo de apreciar as modificações dos reflexos. Atè uma certa medida è difficil distinguir a normalidade, das pequenas modificações para augmen- 11 to ou diminuição. Não ha um critério absolutamente seguro para se affirmar que um reflexo està normal; sómente a pratica desse exame guia o clinico ao re- conhecimento exacto das pequenas modificações. —Parkes Weber diz mesmo que erra quem toma sem- pre o exagero ou diminuição dos reflexos como um indice de lesão do systema nervoso, pois na pratica diaria se observam essas modificações, «até em ex- cessivo grão», em doentes não nervosos. Não acreditamos que possa existir excesso de exagero ou diminuição dos reflexos sem lesão nervosa; mas pensamos, e temos observado em pessoas sãs, que o estado normal dos reflexos vária muito de indivíduo a indivíduo, dentro de uma certa medida. Como quer que seja, deve-se sempre ter em vista a edade, a constituição e o temperamento do doente, bem como indagar de moléstias outras anteriores, cujos restos podem influenciar sobre o estado actual dos reflexos. Demais, e isto é importante, é preciso desviar muitas vezes a attenção do doente do exame que se está fa- zendo, porque a vontade póde impedir a producção dos reflexos, conservando-os em uma especie de latencia. O segundo ponto a observar-se, examinando os re- flexos, é a egualdade nos dous lados. Ainda aqui póde- se fazer a mesma observação: é preciso ter-se em vista uma ligeira desegualdade que normalmente existe entre os reflexos do lado direito e os do lado esquerdo. Aíóra isto, a desegualdade pronunciada dos refle- xos nos dous lados é um excellente signal de diagnos- 12 tico: ella nos ensina sobre a séde de- predilecção da lesão, quando nãõ indique o ponto preciso onde a lesão se tem assestado. O modo de producção do reflexo, ou a sua forma, é o terceiro ponto que se deve observar, maximé em se tratando dos reflexos tendinosos. No estado normal, pro- vocada a contracção reflexa, o membro, ou segmento do membro, volta á sua posição primitiva com um movi- mento simples. Casos ha, porem, em que elle executa uma serie de oscillações antes de voltar ao estado de repouso. Outras vezes demora na extensão, como que enrijado. Disto nos occuparemos mais adiante, contentando-nos por emquanto em mencionar o facto. Não menos importante é a apparição de reflexos que não existem no estado normal. Dentre elles dous se destacam como de real valor: o signal de Babinski e o reflexo contro-lateral. O primeiro é o movimento de extensão do grosso artelho pela excitação da planta do pé. Para Babinski este signal é um indice infallivel das lesões do feixe pyramidal, embora não seja esta a opinião, hoje, de alguns autores. Cháma-se reflexo contro-lateral a contracção reflexa que se produz no membro do lado opposto áquelle em que se percute o tendão rotuliano. Segundo faz notar Dejerine, phenomeno indentico é obtido percu- tindo-se outros tendões, taes como o tendão de Achilles. Para P. Marie o reflexo contro-lateral apparece em 57o/° dos hemiplegicos. 13 Como dissemos mais acima, os autores teem nestes últimos tempos insistido sobre a dissociação dos re- flexos em algumas moléstias nervosas e sobre o seu valor clinico. Esta dissociação se dá não só entre os reflexos tendinosos e cutâneos, mas também entre os reflexos de uma mesma categoria. A nosso ver, não somente este valor é real, como ainda é elle bem maior do que póde parecer. Em as nossas observações, cuidadosamente feitas sob esse ponto de vista, os resultados obtidos nos forneceram dados importantes, facto este a que nos referiremos em outro ponto. Foi van Gehuchten o primeiro a chamar a attenção para o facto, por elle muitas vezes observado natabes espas- módica e na paraplegia espasmódica por lesão medullar localisada, do antagonismo entre os reflexos tendinosos e cutâneos. Este antagonismo consiste em um exagero dos reflexos tendinosos com a abolição dos reflexos cu- tâneos. Para van Gehuchten a explicação do facto se encontra na diversidade de vias seguidas pelas duas or- dens de- reflexos, o que vem em apoio da s.ua theoria sobre a localisação dos centros reflexos. Na paraplegia e na tabes espasmódicas é justamente a via cortico-espi- nhal a attingida. Quasi todos os autores concordam com van Ge- huchten e dizem ter encontrado a dissociação reflexa nesses dois estados pathologicos. Alguns, porem, (Crocq, Chadzinski, Marinesco, etc.) acham que não existe sempre exagero dos reflexos tendinosos com abolição dos cutâneos. Sua opinião 14 é que basta um simples enfraquecimento destes, para existir um antagonismo, ou melhor, dissociação entre as duas ordens de reflexos. Babinski diz que, se nas affecções do systema pyrami- dai certos reflexos cutâneos são enfraquecidos ou aboli- dos, outros ao contrario são exagerados; e, se quizer- mos exprimir o caracter essencial das perturbações dos reflexos cutâneos, podemos dizer que o seu regimem habitual se transforma. Noica, tendo feito varias observações sobre paraplegi- as espasmódicas e tratando da questão, conclue: «O prin- cipio de antagonismo entre as duas ordens de reflexos não é tão absoluto como pretende o professor van Gehu- chten. As nossas observações autorisam-nos 'a dizer que, ao lado da constância de exagero dos reflexos ten- dinosos, podem-se observar os factos seguintes: Io. casos em que ha normalidade dos reflexos cutâneos; 2.° ca- sos em que alguns reflexos cutâneos são conservados, outros enfraquecidos, outros abolidos; 3.° casos em que ha abolição completa dos cutâneos. Medea, que sustentou longa discussão a esse respeito, pensa, como Noica, que não se pode falar d’um anta- gonismo absoluto entre os reflexos profundos e os cutâ- neos nas affecções do feixe pyramidal. Afóra essas opiniões contrarias á de van Gehuchten, quasi todos os autores concordam com osabio professor. Demais, no final de contas ninguém nega que exista o antagonismo entre os reflexos, embora não haja uni- dade no modo de interpretação. Grasset diz mesmo que se deve sempre ter em vista a acção opposta de uma 15 lesão pyramidal sobre as duas ordens de reflexos, cutâ- neos e tendinosos. Não é, porém, somente na paraplegia espinhal e na tabes esposmodicas que o antagonismo dos reflexos se manifesta; o facto tem sido observado em outros es- tados morbidos. Grasset faz notar que nas lesões do sys- tema posterior da medulla ha abolição dos reflexos ten- dinosos e conservação ou exagero dos cutâneos. Teissier chama à attenção sobre o antagonismo dos reflexos cutâneos e tendinosos na hysteria e o seu va- lor semiologico, nada concluindo, porem, sobre a gene- se do facto. Giuseppe Severino, em pesquisas feitas sobre 75 neurasthenicos, achou a dissociação dos reflexos ten- dinosos e cutâneos, principalmente do cremasteriano, na proporção de 66 a 92.,/°. Atíribue ao facto um re- al valor para o diagnostico da neurasthenia e diz que elle é devido, naturalmente, á diversidade de vias se- guidas pelas duas ordens de reflexos. Nas psychoses esse antagonismo reflexo tem sido observado. As nossas pesquizas confirmam plenamen- te essas observações e, se desde já não nos esten- demos sobre o facto, é porque teremos de fazel-o a proposito de cada moléstia em que foi elle normalmen- te encontrado. Quanto á dissociação entre os diversos reflexos ten- dinosos, como entre os differentes reflexos cutâneos, o facto ja foi também constatado. Ferranini diz ter encontrado a dissociação dos re- flexos tendinosos na tabes. Noica e Babinski notaram 16 a dissociação dos reflexos cutâneos nas lesões dos feixes pyramidaes. Crocq diz o mesmo quanto ás hemi- plegias antigas. Temos visto o facto assignalado nas psychoses. Na hysteria essas modificações reflexas são muito variaveis, segundo os estudos de G. Lessa. Nós encontrámos egual variabilidade no alcoolismo chronico e na de- mência precoce, principalmente no tocante aos refle- xos cutâneos. Notamos, porém, certas particularidades, preferen- cia para tal ou qual reflexo segundo o periodo de evolução da moléstia. Teremos de voltar depois sobre este assumpto, o que nos dispensa de maiores commentarios neste momento. Resta-nos, para concluir este primeiro capitulo do nosso modesto trabalho, dizer alguma cousa sobre a questão importante, ultimamente suscitada, de conhecer a relação existente entre a sensibilidade geral e os refle- xos. Não é nosso intuito fazer a exposição completa dos numerosos trabalhos intentados, em pouco tempo aliás, com o fim de elucidar a questão, trabalhos que foram coroados do mais brilhante exito. Nem tão pouco quere- mos discutir as opiniões mais plausíveis sobre o assum- pto e, por uma analyse meticulosa, embora breve, asse- gurar a que se nos afigura verdadeira. Não; a questão parece-nos resolvida de modo a nos dispensar de um trabalho fastidioso e sem utilidade pratica, nosso prin- cipal escopo. Daremos, pois, a opinião geralmente 17 aceita hoje, documentada pelas conclusões do seu autor. O Dr. M. Pinheiro, na sua bem elaborada thése dou- toral, discute magistralmente a questão e chega a es- tabelecer precisamente o que se deve pensar sobre o assumpto, modo de ver que nós compartilhamos e da- mos no resumo seguinte. Os autores que estudam a relação entre a sensibili- dade geral e os reflexos dividem-se em dois grupos: uni- cistas e dualistas. Os unicislas(Crocq, Pitres, Jendrassik, Dejerine, etc.) pensam que ha uma via unica de con- ducção para a sensibilidade geral e os reflexos, de mo- do que ambos soffrem juntamente idênticas modifica- ções; por outros termos, pensam elles haver relação estreita entre os dois phenomenos nervosos. Os dua- listas (Ferranini, Agostini, Leyden, Geigel, etc.) pensam ao contrario que ha vias bem distinctas para a sensi- bilidade e os reflexos, de modo, que estes podem estar modificados e aquella, perfeita. Ferranini, o autor por assim dizer da theoria dualista, documenta a sua opinião nas conclusões seguintes, ti- radas do resultado de suas numerosas pesquizas.— «Ia. Ha anesthesia total e absoluta com integridade dos re- flexos superficiaes na mesma extensão de pelle ou de mucosa;— 2a. dissociação da sensibilidade, ou hypoes- thesia total, com integridade ou exagero dos reflexos superficiaes em superfície cutanea exactamente a mes- ma;—3a. reapparecimento dos reflexos superficiaes em pontos onde a sensibilidade permanece abolida;—4a. ex- agero dos reflexos superficiaes e retardamento na trans- missão da sensibilidade geral, com ou sem hypoes- 18 tbesia;—5a. existem vias de conducção especiaes para os reflexos superficiaes e para cada forma de sensi- bilidade geral;—6a. é provável que sejam fibras que pe- netram em seguida na medulla para fazerem parte dos cordões de Goll e de Burdach, ou ficam na substan- cia cinzenta posterior, vias essas que servem á con- ducção da sensibilidade geral, emquanto as fibras que das raizes posteriores se dirigem para os pontos cin- zentos do mesmo lado, ou dos cordões antero-lateraes deste lado aos do lado opposto, representariam as vias afferentes dos reflexos superficiaes;—7a. maisdo que a sensibilidade sob todas as suas formas e do que os reflexos tendinosos, lentamente desapparecem os re- flexos superficiaes, que representam o ultimum mori- ens da excitabilidade norvosa sensitivo-motora, bem co- mo, physiologicamente, representaram as primeiras ma- nifestações da vida. * A theoria de Ferranini, assim documentada, foi aceita por mutios autores e tornou-se a classica dos dualis- tas, a mais em voga hoje. Ao lado do Dr. M. Pinheiro, fazemos coro com os dualistas e achamos que a theoria das unicistas, de- fendida embora por homens da estatura scientifica de Crocq e Déjerine, não tem razão de ser sinão para ca- sos excepcionaes. Até onde poude chegar a nossa observação, os dados colhidos accordaram perfeitamente com as conclusões de Ferranini. Explorámos a sensibilidade e os reflexos em um grande numero de alienados e notamos, quasi sempre, não haver relação estreita entre os dois pheno- 19 menos. Encontrámos, porém, dois casos de abolição do reflexo abdominal com anesthesia absoluta da mesma região cutanea e alguns casos de hypoesthesia com a diminuição ou abolição dos reflexos cutâneos. Isto de modo algum infirma a opinião que abraçamos, porquanto o facto, além de raro, póde ser capitulado como exce- pção muito natural á regra. Com a convicção, pois, de quem verifica experimen- talmente um facto, opinamos pela verdde do dualismo no tocante ao assumpto e concluímos que existem de facto vias de conducção diversas para os reflexos e para a sensibilidade geral. ii OS REFLEXOS NA CLÍNICA E’ de data relativamente antiga a idéa de estudar a semiologia dos reflexos cutâneos e tendinosos. Pode-se dizer mesmo que desde o seu descobrimento vêm elles prestando auxilio á clinica, principalmente para o que se refere aos reflexos tendinosos. E nem se compre- henderia de outra forma, quando sua descoberta foi fructo da própria observação clinica. Todos os autores são accordes em insistir sobre a importância da sua pesquisa nas aífecç.ões do systema nervoso, e Eichorst diz mesmo que todos os estados morbidos podem determinar modificações dos refle- xos, havendo interesse em interrogal-os sempre. O estado dos reflexos ensina-nos sobre a integridade das vias de conducção nervosa e sobre a capacidade dynamica dos centros nervosos. Ha uma fonte de ensinamentos muito interessantes tanto sob o ponto de vista diagnostico, como sobretudo sob o ponto de vista prognostico. Está claro que os resultados colhidos não têm sem- pre a mesma importância; em todo caso, por menos real que esta seja, nunca deve ser posta de parte. 22 Relativamente ás moléstias geraes, nas dyscrasias agudas ou chronicas, a constatação feita das modifi- cações dos reflexos tem para nós real valor. De facto, é por um mechanismo idêntico que vamos procurar fornecer uma explicação do modo pelo qual actuam as psychoses nessas modificações. Faremos, pois, uma exposição, rapida embora, do estado dos reflexos nas moléstias em geral, servindo- nos para isto dos pontos jà assentados em sciencia. Em seguida trataremos das modificações dos reflexos nas moléstias nervosas e, por fim, estudaremos mais de- talhadamente essas modificações nas moléstias mentaes. Nas affecções febris é regra o exagero dos reflexos, pelo menos no começo. E’ o que acontece na febre typhica, no rheumatismo articular agudo, na pneumo- nia, etc. Em geral todas as infecções teem egual influencia, ao menos no periodo agudo. A’ medida, porém, que ellas se vão tornando chronicas, os reflexos voltam ao estado normal, ou diminuem mesmo, podendo até ser abolidos no periodo ultimo das moléstias graves, adynamicas. De um modo particular actuam sobre os centros re- flexos certas affecções, como o tétano e a raiva, que pro- duzem notável exagero. Alguns agentes toxicos ou me- dicamentosos, como o acido phenico, a atropina, a stry- chinina, etc, excercem egual acção. Outros, ao contrario, como o chloroformio, o oxydo -de carbono, o ether, o bromureto de potássio, etc., podem diminuil-os ou abo- lil-os. 23 A quinina provoca segundo a dose um periodo de excitação trazendo um exagero dos reflexos e em segui- da um periodo de depressão trazendo a sua diminuição. Esta acção é proveniente de uma influencia inhibitoria directa da quinina sobre as cellulas nervosas. Convém notar que se deve ter sempre em vista, quando se exploram os reflexos, o uso de certos medi- camentos, afim de não confundir as modificações por elles produzidas com as originarias das differentes lesões do systema nervoso. Modificações muito variaveis soffrem os reflexos nas moléstias chronicas e cachetisantes, taes como— a tuberculose, o diabete e o câncer. Quasi sempre enfraquecidos, são elles porém, nos episodios agudos dessas moléstias, de ordinário exagerados. Entretanto, póde-se observar o inverso e assim teremos resulta- dos inteiramente oppostos. As intoxicações chronicas, como o alcoolismo, ex- altam quasi sempre a excitabilidade reflexa. Isso deu motivo a que o professor Déjerine affirmasse que, quando em um alcoólatra são encontrados os reflexos diminuídos ou abolidos, deve~se pensar em alterações nevriticas e prever a apparição das paralysias. E’ provável que haja certo exagero nessa affirmação, porquanto, como veremos mais adiante, temos encon- trado os reflexos diminuídos em alcoólatras que, muito tempo após o nosso exame, nenhum signal apresen- taram de paralysia. As auto-intoxicações provocam egualmente modifi- cações reflexas muito variaveis. 24 Emfim, como o diz Dejerine, pode-se conceber que o poder excito-motor do neuronio centrífugo seja mo- dificado por certas alterações humoraes (*); attenuado em umas (senilidade), é exaltado em outras (uremia). De um valor clinico immensamente maior que nas moléstias geraes é a pesquiza dos reflexos e suas alterações nas moléstias do systema nervoso. O estudo dos reflexos, diz Déjerine, é de uma gran- de importância em neuropathologia, porquanto o acto reflexo é a manifestação fundamental de todo o apparelho nervoso. As modificações dos reflexos dependem sobretudo da localisação das lesões. Comprehende-se bem que, es- tando os seus centros localisados no mesenphalo e no córtex cerebral e percorrendo as suas vias conductoras toda a extensão da medulla e dos nervos centrífugos, a area de desenvolvimento dessas lesões deva ser muito vasta e, por consequência, múltiplos os estados determinantes de modificações reflexas. Assim sendo, para facilidade do nosso resumo, fare- mos o estudo dos reflexos nas affecções da medulla e do bolbo, nas do encephalo e nas do systema nervoso peripherico. Daremos em seguida a synthese dessas modificações nos syndromos apresentados pelas lesões nas, differentes vias conductoras. —A tabes é uma das moléstias da medulla em que as modificações dos reflexos são a regra quasi absoluta. * Os reflexos tendinosos, patellares e achilleano de pre- (*)0 grypho é nosso. 25 ferencia, são quasi sempre abolidos muito precocemente. A abolição dos primeiros, constituindo o signal de Westphal, é de uma importância considerável para o diagnostico da tabes. E de facto, vindo ao lado de ou- tros symptomas, taes como—as perturbações vesicaes e occulares, signal de Argyll-Robertson e signal de Rom- berg, quando não a atrophia cinzenta da papilla do nervo optico—,o signal de Westphal traz uma certeza absoluta para o diagnostico da tabes, ainda em come- ço. E, se não vale como pathognomonico, em todo caso a sua importância diagnostica é immensa. A abolição dos reflexos achilleanos marcha de par com a dos patellares. Babinski chama a attenção para este facto, a que liga summa importância, mostrando que os reflexos achilleanos desapparecem em muitos casos antes dos patellares, excedendo-os assim em valor clinico. Quanto aos outros reflexos tendinosos, os dos mem- bros superiores, são todos egualmente abolidos, embora tardiamente. Para o que toca aos reflexos cutâneos, pode-se ver sua diminuição, sem que isto dependa das perturbações sensitivas que traz a tabes. Não é, porem, constante essa diminuição, sendo até commum a integridade dos reflexos cutâneos, ou sua exaltação. —Nas escleroses lateraes, maximé na esclerose late- ral amyotrophica, ha exagero dos reflexos tendinosos, trepidação epileptoide (clonus do pé), signal de Babins- ki. D’ahi tiram-se ensinamentos preciosos para o dia- gnostico differençial entre as primeiras e a heredo-ataxia 26 cerebellosa e entre a segunda e as poíynevrites, em que ha diminuição ou abolição dos reflexos. —Nas escleroses combinadas dos cordões posteriores e lateraes o estado dos reflexos tendinosos varia con- forme haja predominância nos feixes posteriores ou nos lateraes: neste caso ha exagero dos reflexos, clonus do pé, signal de Babinski; n’aquelle, ha diminuição, podendo ir até à abolição. Na moléstia de Friedreich, por exemplo, nota-se a conservação dos reflexos cutâneos, abolição dos refle- xos tendinosos e signal de Babinski. Esta apresenta- ção dos reflexos na moléstia de Friedreich offerece um bom critério para differencial-a da heredo-ataxia ce- rebellosa, em que são os reflexos muito exagerados. —Na paralysia espinhal infantil e na paralysia as- cendente aguda encontra-se normalmente a abolição dos reflexos cutâneos e tendinosos nos membros attin- gidos. Para a primeira dessas moléstias o estado dos refle- xos concorre para a facilidade do diagnostico differencial com a hemiplegia cerebral infantil e a paraplegia pottica, em que se nota o exagero dos reflexos. —Nas amyotrophias o estado dos reflexos varia con- forme a especie, ou séde da lesão. Assim, nas amyotrophias myelopathicas ha conser- vação de todos os reflexos, bom signal que serve para distinguil-as das poíynevrites (abolição), da pachyme- ningite cervical hypertrophica e da esclerose lateral amyotrophica (exagero). Nas amyotrophias progressivas myopathicas ha con- 27 servação dos reflexos, pelo menos emquanto todos os musculos não forem attingidos. Na myelopathia progressiva nota-se a conservação dos reflexos cutâneos, com a diminuição ou abolição dos tendinosos. O mesmo se observa na amyotrophia neuropathica de Hoffman e Werding. —Na esclerose em placas ha exagero dos reflexos tendinosos e abolição dos reflexos cutâneos. Alguns autores affirmam ter encontrado exagero também dos cutâneos. Como quer que seja, o exame dos reflexos serve para distinguir a verdadeira da falsa esclerose em pla- cas, nos casos de simulação (Fleury). —Na syringomyelia observa-se a normalidade dos reflexos tendinosos, que também podem estar diminu- idos ou abolidos, o que é mais frequente. Os reflexos cutâneos parecem abolidos na maioria dos casos, ou- tras vezes sendo exagerados. Ha quasi sempre, po- rém, modificações diversas nas duas ordens de reflexos. —Na syphilis medullar, bem como nas compressões varias da medulla, soffrem os reflexos modificações dependentes da séde e do gráo da lesão, podendo ir do exagero á abolição. O mesmo poder-se-hia dizer das hemorragias medul- lares, notando-se entretanto, o mais das vezes, diminu- ição ou abolição dos reflexos tendinosos. —Nas meningites espinhaes agudas e na pachyme- ningite cervical hypertrophica ha o exagero dos refle- xos, clonus do pé e signal de Babinski. —Na poliomyelite anterior sub-aguda e na moléstia 28 de Landry, observa-se a abolição dos reflexos tendino- sos e nunca o exagero dos cutâneos. Na myelite diffusa aguda os reflexos, primeiramen- te exagerados, se enfraquecem em seguida até á abolição. O contrario é de regra na meningo-myelite syphilitica, em que se nota a rapida mudança dos reflexos—de diminuidos, no começo, em exagerados. Nas myelites diffusas chronicas (transversa, hernilate- ral, annelar, etc.) ha exagero dos reflexos, pelo menos emquanto a substancia cinzenta não tem sido destruída. —Observa-se nas paraplegias flascas, dependentes da compressão ou destruição da cauda equina, a abolição dos reflexos achilleano e plantar. Quanto ao patellar, seu estado depende da lesão (Déjerine). Os reflexos cutâneos são pouco mojdificados. —Nas paraplegias de typo paretoespasmodico ha sempre exagero de todos os reflexos tendinosos e, o mais das vezes, dos cutâneos. Estas modificações dos reflexos variam entretanto conforme ao lesões se installam brusca ou lentamente No primeiro caso ha logo diminuição ou abolição; no segundo, ha primeiramente um ligeiro exagero, de- pois diminuição até a aboiição. Esta é a regra geral embora não absoluta. —Nas nevrites de qualquer natureza os reflexos tendi- nosos são quasi sempre diminuidos ou abolidos nas re- giões affectados. Este signal é muito precoce e antecede as paraly- sias. Ha casos, porém, em que são os reflexos exage- rados no começo da moléstia. 29 Os reflexos cutâneos soffrem eguaes modificações. Entretanto, é commum ver-se o reflexo plantar abolido, emquanto o abdominal é conservado, signal este muito importante. —Nas polynevrites generalisadas a motilidade refle- xa é attingida, havendo abolição dos reflexos, o que offerece um bom meio para o diagnostico differenciaí com os syndromos semelhantes de origem medullar (Déjerine). Nas polynevrites alcoólicas, porem, ha exagero dos reflexos, pelo menos em começo da affecção. Nas lesões que interessam o bolbo, o cerebello e a região superprotuberancial o estudo dos reflexos fornece indicações pouco importantes em comparação dos syndromos proprios a essas diversas localisações. De um modo geral pode-se dizer que as lesões bul- bares, que attingem as vias conductoras cortico e ru- bro espinhaes, modificam os reflexos da mesma forma que as lesões medullares. Deve-se ter em vista o entre- cruzamento das pyramides no caso de diagnostico de séde das lesões pelo exame dos reflexos. —Na paralysia labio-glosso-laryngéa os reflexos ce- phalicos são em geral exagerados. —E’ regra na paralysia bulbar a abolição do reflexo masseterino. Ao contrario, na paralysia pseudo-bulbar ha exa- gero do reflexo masseterino, exagero que se póde es- tender aos reflexos dos membros inferiores. Fleury pen- sa diversamente e diz que na paralysia pseudo-bulbar a integridade dos reflexos é a regra. 30 O exame dos reflexos nas affecções cerebraes tem real valor para o seu diagnostico. Segundo Fleury este exame repetidas vezes feito em hemiplegicos cerebraes em observação é de uma im- portância immensa, porque, quando se nota a trans- formação progressiva dos reflexos de fracos ou nullos em exagerados, póde-se quasi affimar que a paralysia de flasca se vae tornando espasmódica. «Pode-se ter a certeza de que este periodo está imminente quando se nota o exagero dos reflexos e a trepidação epile- ptoide, ao lado da hyperexcitabilidade níffscular á per- cussão e difficuldade crescente de imprimir aos mem- bros doentes movimentos fáceis e extensos. Nas hemiplegias cerebraes recentes, de qualqer ori- gem, os reflexos tendinosos são normaes ou fracos, os cutâneos, fracos ou nullos. Nas hemiplegias mais antigas, fóra da acção do cho- que inicial, os reflexos tendinosos são exagerados e os cutâneos diminuídos ou abolidos (Grasset). —Na hemorrhagia cerebral em começo nota-se o mais das vezes a abolição dos reflexos tendinosos e cutâneos. O exagero daqueiles e o clonus do pé se manifestam á medida que a lesão se vae tornando an- tiga e marcam o apparecimento das contracturas. O signal de Babinski mostra-se desde o começo e conti- nua até depois que surgem as contracturas. O estado dos reflexos cutâneos apresenta um inte- resse muito grande sobretudo para o diagnostico de uma hemorrhagia cerebral (encephalorrhagia) recente (Eichorst). De facto, muitas vezes sendo dif- 31 ficil descobrir a hemiplegia consecutiva á hemorrhagia cerebral, a ausência dos reflexos cutâneos do lado doente vem denuncial-a. Demais, a ausência completa dos reflexos no começo da hemorrhagia (periodo de coma) é um signal evidente de summa gravidade que ensombra o prognostico. O estado dos reflexos varia nas meningites diffusas agudas, cerebraes ou cerebro-espinhaes, conforme o periodo em que se os estuda. No começo ha exagero dos reflexos cutâneos e tendinosos; no periodo terminal vão elles diminuindo, ás vezes chegando á abolição. —Oamollecimento cerebral determina modificações re- flexas também em relação com a séde e a antiguidade da lesão, mas em sentido inverso ás das meningites: da abolição completa póde ir ao axagero. —Muito variaveis ainda mostram-se as modificações reflexas nas compressões encephalicas por tumores, hematomas, gommas syphiliticas, etc. Aqui, como em toda parte, tudo depende do grão, séde e modo de ap- parecimento das lesões.—Tendo-se em vista a loca- lisação dos centros reflexos, comprehende-se bem o alto valor da exploração dos mesmos reflexos para o diagnostico topographico das lesões, o qual póde ser precisado com minúcia. Logo após as crises motoras da epilepsia Bravais— Jacksonniana ha diminuição reflexa no lado attingido. No periodo intermediário ás crises nota-se o exagero dos reflexos tendinosos do mesmo lado. —As nevroses modificam os leflexos de uma maneira abstracta, affirmam os autores. Déjerine, estudando o 32 assumpto, não diz bem assim; acha que o estado dos reflexos pôde ser variavel nas nevroses e, para o que concerne aos reflexos tendinosos, póde-se dizer que elles nunca se apresentam abolidos. Concordamos inteiramente com a primeira parte dessa observação, mas não podemos aceitar a segunda. E’ possível que o sabio professor tenha razão em affirman- do que os reflexos tendinosos não desapparecem, nun- ca, na hysteria; nós, porem, temos também motivos para pensar de modo contrario, não admittindo esse exclusivismo. De facto, dentre as hystericas por nós observadas encontrámos uma cujos reflexos tendinosos estavam de todo ausentes. Essa doente foi por nós examinada mais de uma vez, com o máximo cuidado, não sendo possível encontrar nella symptoma algum que denunciasse a concumitancia ou os restos de alguma affecção orgâ- nica do systema nervoso. Por outro lado suas crises nervosas eram francas, typicas, de modo a não deixa- rem duvida sobre a sua natureza hysterica. Assim, concluímos pela possibilidade da abolição dos reflexos tendinosos na hysteria, De um modo geral, porem, os autores escrevem que na hysteria os reflexos podem ser indifferentemente nor- maes, diminuídos ou exagerados. Entretanto, para o que toca ao signal de Babinski, todos são unanimes em lhe assignalar um grande e real valor para o diagnostico entre as paralysias or- gânicas em que elle é constante e as hystericas em que a sua ausência é a regra. Ainda para este diagnostico 33 P. Marie apresenta o reflexo contro-lateral como muito importante. A neurasthenia produz normalmente o exagero de todos os reflexos. Traçadas assim ligeiramente as modificações dos reflexos nas differentes moléstias do systema nervoso, podemos agora dar em resumo essas modificações nos syndromos em geral, apresentados pelas lesões que attingem as vias reflexas sensitivo-motoras. No syndromo dos cordões posteriores ha diminuição ou abolição dos reflexos tendinosos com a conservação ou exaltação dos reflexos cutâneos. No syndromo dos cordões antero-lateraes ha, ao contrario, exaltação dos reflexos tendinosos, com a dimi- nuição da reflectividade cutanea e signal de Babinski. Para este autor o signal que tomou o seu nome é um indice infallivel das lesões do feixe pyramidal. Grasset chama a attenção para a dissociação ou antagonismo dos reflexos cutâneos e tendinosos nas lesões dos feixes pyramidaes e dos cordões posteriores. No syndromo associado dos cordões posteriores e lateraes o estado dos reflexos varia com a séde de predominância da lesão. Quando esta predomina nos feixes posteriores, ha a abolição dos reflexos tendino- sos e conservação ou exagero dos cutâneos; quando ha predominância nos cordões lateraes, dá-se o contrario. No syndromo de Friedreich, lesão dos cordões pos- teriores e feixe cerebelloso ascendente, ha abolição dos reflexos tendinosos, signal de Babinski e conser- vação dos reflexos cutâneos. 34 No syndromo dos cornos anteriores, com ou sem par- ticipação de nevrites, ha abolição de todos os reflexos. No syndromo da substancia cinzenta centro posterior, bem como no syndromo associado dos cornos anteri- ores e da substancia cinzenta centro posterior, o esta- do dos reflexos é variavel. Podem ser abolidos, nor- maes, ou exagerados. No syndromo de Brown—-Séquard ha exagero dos reflexos do lado doente, com a conservação ou exage- ro dos reflexos rotuliano e plantar do lado são. No syndromo polynevritico ha abolição dos reflexos tendinosos, com modificações variaveis dos reflexos cutâneos, as quaes as mais das vezes são idênticas ás dos reflexos tendinosos. Emfim, para o syndromo do apparelho encephalico sensitivo-motor daremos as conclusões de van Gehuch- ten: «Os reflexos cutâneos estão ligados á integridade da via cortico-espinhal e os reflexos tendinosos á in- tegridade da via rubro-espinhal. Quando a lesão attin- ge somente a via cortico-espinhal, ha abolição dos re- flexos cutâneos e exaltação ou normalidade dos tendi- nosos; quando a lesão attinge sómente a via rubro-es- pinhal, ha conservação ou exagero dos cutâneos e abolição dos tendinosos; quando, emfim, a lesão attin- ge as duas vias ao mesmo tempo, ha abolição de to- dos os reflexos.» O mesmo se dá quando os centros reflexos são attingidos. Do resumo que deixamos feito, estudando as modi- ficações dos reflexos nas differentes moléstias nervo- 35 sas, conclue-se facilmente do valor immenso de sua pesquiza em neuropatnologia. De facto, a clinica encontra nesse meio propedêuti- co um auxiliar precioso para o diagnostico das mo- léstias nervosas, até mesmo para o diagnostico topo- graphico das differentes lesões. Para certas moléstias, taes como—a tabes, as polyne- vrites, as hemiplegias cerebraes, etc., o estudo dos re- flexos apresenta especial importância. Não foi o nosso intuito estudar aqui a semiologia completa dos reflexos em neuropathologia: não fomos além de um resumo. E se fizemos esse estudo talvez um pouco mais lon- gamente do que exigia a ordem do nosst» modesto tra- balho, foi simplesmente para, escudado nelle, profligar- mos o abandono em que esse mesmo estudo tem sido deixado nas moléstias mentaes, onde a nosso ver elle tem egual valor, como procuraremos provar em seguida. íll OS REFLEXOS NOS ALIENADOS Nada mais esquecido na propedêutica das moléstias mentaes do que a semiótica dos phenomenos reflexos. D’entre as obras por nós consultadas nem uma só encontramos que se occupasse detalhadamente do as- sumpto: os auctores passam de leve sobre elle, consi- derando-o de somenos importância. O alto valor em que é tida a semiologia dos refle- xos em neuropathologia forma contraste absoluto com o abandono de que nos occupamos. Entretanto, não é possível que haja um antagonismo tão perfeito na in- terpretação de phenomenos tendo origem idêntica. Não comprehendemos mesmo como das lesões organicas do systema nervoso vá uma distancia tão grande para as lesões funccionaes, quando a sua séde é uma só. Se no primeiro caso ha modificação material do elemento nervoso, acarretando os desvios funccionaes do orgão, no segundo ha modificação directa da func- ção, o que equivale a dizer que os resultados são eguaes. Ora, os reflexos sendo umafuncção da cellula ner- vosa, pouco importa que as suas modificações sejam 38 produzidas directa ou indirectamente: hão de se ma- nifestar do mesmo modo. Esse pouco caso, que se vê bem claro nas referen- cias dos autores, chamou a nossa attenção e decidiu- nos a pesquizar a causa do esquecimento em que é deixado um facto para nós bem mais digno de con- sideração. Os autores, é verdade, não negam que as psychoses modificam os reflexos, nem o podiam fazer; dizem en- tretanto que essas modificações são muito variaveis e, a julgar pelo modo porque se expressam, vê-se que não ligam ao facto o minimo valor semiologico. Contentando-se em explorar os reflexos superficial- mente, não procuram levar adiante o seu estudo, com- parando os resultados obtidos no curso de uma mesma moléstia ou em moléstias diversas, para d’ahi tirarem uma illação qualquer. A idéa preconcebida de que não se colherá grande ensinamento é bastante para que nin- guém cuide de investigar o facto. Em nome da observação protestamos contra isso e havemos de provar que de facto a semiologia dos refle- xos nos alienadas merece mais attenção, baseado até na opinião dos autores que não ligam importância ao facto. E’ um absurdo palpavel abandonar-se uma cousa qualquer como imprestável, sem se procurar conhecel- a bem de perto: axfirmamos sem temor de contesta- ção que é isto o que se dá com os reflexos nos ali- enados. A prova está em que na paralysia geral e talvez na demencia precoce, onde o estudo das modificações 39 reflexas tem sido feito melhor, os dados clínicos por esse meio obtidos prestam relevantes serviços. O professor Régis nos diz que até aqui não se tem estudado seriamente os reflexos nas psychoses, sinão na paralysia geral. Se assim é, como aceitar sem discussão a affirmativa de que o estado dos reflexos não tem importância, nos alienados? E’ o que não podemos conceber. Além disso, como prova de que o facto tem valor, basta vêr que todos os compêndios de psychiatria, quer na propedêutica das moléstias mentaes, quer na parte especial, occupam-se do assumpto e mandam que os reflexos sejam explorados. Ainda mais, vejamos a opinião de alguns autores. Fuhrmann diz: «os reflexos devem naturalmente ser examinados com grande attenção nos alienados». Tanzi, especificando embora o caso, vae um pouco além e escreve: «o exame clinico concentra-se prin- cipalmente sobre os reflexos patellares». O Dr. H. Roxo, escrevendo sobre a piopedeutica das moléstias mentaes, assim se expressa a esse respeito: « devemos pesquizar os reflexos tendinosos, cutâneos e pupillares, quando examinarmos o systema nervoso». Ora, se houvesse certeza do nenhum valor desse processo, não seria cabivel que se o ordenasse ou ao menos aconselhasse. Assim pois, fica muito bem claramente provado que o estudo dos reflexos nos alienados não deve ser posto de parte. Entretanto, isso que havemos dito se refere aos refle- 40 xos em geral, inclusive os pupillares. Particularisando o facto aos cutâneos e tendinosos, aquelles que toma- mos para assumpto do nosso modesto trabalho, vê-se que o seu esquecimento é ainda mais completo. Mesmo aquelles autores que aconselham a sua pes- quiza contentam-se em dizer que as suas modificações são extremamente variaveis, não offerecendo critério seguro que os torne aproveitáveis como signal diag- nostico. O facto é, porem, que nenhum deixa de mencionar essas modificações. O proprio Agostini, aquelle que até hoje estudou melhor a questão, dedicando ao assumpto um trabalho consciencioso e completo, não dá conclusões plausíveis e parece em parte ter seguido o curso da opinião geral. Por nossa vez, se do resultado de nossas obser- vações não podemos tirar uma conclusão que deva servir de norma, em todo caso, o obtido é bastante para justificar-nos na causa que defendemos.. Infelizmente o nosso campo de observação foi muito resumido, de modo que não nos foi possível ir além na demostração dos factos que entrevimos. Temos, porem, afirme convicção de que, em seára mais vasta, a colheita será copiosa-em provas para documental-os, attento o muito obtido do pouco que podemos fazer. Isso nos permitte affirmar, com segurança, que o estudo dos reflexos tendinosos e cutarreostem um valor incontestável nos alienados. 41 Uma questão importante desde já se impõe á nossa analyse: saber como actuam as psychoses na modifi- cação dos reflexos. Não vimos em parte alguma a minima referencia ao assumpto e muito menos a explicação exacta ou pro- vável do facto nos foi fornecida. Será talvez que a razão se imponha, não sendo pre- ciso trazel-a á evidencia: neste caso o defeito é nosso em não podermos percebel-a assim, defeito de que não temos culpa. Por outro lado julgamos preciso um esclarecimento a respeito. Ora, diante de uma e outra cousa, não é extempo- râneo que procuremos interpretar o facto e dar-lhe uma explicação, peio menos para satisfazer ao nosso espirito. Em primeiro logar nós vamos encontrar uma fonte de ensinamentos na anatomia pathoiogica das loucuras. Nas psychopathias que constituem propriamente uma enfermidade e que provêm de alterações materiaes brutas do craneo e dos centros nervosos (vicios de conformação) a cousa é mais ou menos clara. Neste caso se encontram a idiotia e a imbecilidade, a demên- cia e o cretinismo. Aqui não é difficil explicar as modi- ficações reflexas que fazem parte do cortejo clinico destas moléstias. De facto, nellas são encontradas a diminuição de certas regiões cerebraes, o amollecimento de outras, o desapparecimento de algumas, a ausência de fibras 42 commissuraes, etc. Basta então lembrar a localisação superior dos centros reflexos para vêr que a modifi- cação destes deve ser a regra, como o é na realidade, nos estados acima mencionados, em virtude dessas lesões grosseiras attingirem as cellulas, de cujo funccio- namento normal depende a integridade dos differentes reflexos. Nas psychopathias organicas, isto é, naquellas em que a perturbação psychica provem de lesões organicas determinadas dos centros nervosos, ainda é facil encon- trar-se uma explicação plausível para o facto. Neste caso estão as psychopathias por encephalites circumscriptas ou diffusas, meningites, compressões ce- rebraes (tumores, gommas syphiliticas, etc), esclerose em placas, syringomyelia, hemorrhagias, amollecimen- tos, etc. Nesses casos ainda as modificações reflexas depen- dem naturalmente do centro ou vias conductoras attin- gidas pelo processo morbido. Como deixamos dito no capitulo anterior, essas mo- dificações estão sob a dependencia da séde, extensão e modo de apparecimento da lesão, mas são constan- tes e de facil interpretação. Muito menos interpretáveis são as modificações re- flexas nas psychopathias funccionaes, isto é, nas psy- choses propriamente ditas. Nas psychoses agudas, diz-se, as lesões anatomo- pathologicas são fugazes e pouco evidentes. Encon- tram-se, entretanto, hyperemias, ischemias, effusões serosas (ou sero-sanguineas), pequenas hemorrhagias 43 corticaes, ao lado de alterações esclerosicas ou dege- neratinas das cellulas nervosas e proliferação da ne- vroglia. Não ha, porem, lesões macroscópicas. Nas psvchoses chronicas, ao contrario, a autopsia mostra lesões inais claras, sem ser preciso ás vezes o auxilio do microscopio. São frequentes a atrophia de certas regiões, as lacunas ou perdas de substancia, alterações inflammatorias ou degenerativas dos vasos, pequenas hemorragias, hematomas ou echymoses e adherencia das meninges, degeneração dos cellulas e tubos nervosos, hyperplasia da nevroglia, alterações esclerosicas ou amollecimentos de cerfas regiões ner- vosas, ao lado de lesões varias em outros orgãos. Esses dados iornecidos pela anatomo-pathologia até um certo ponto justificam as modificações dos reflexos nas psychoses. Comprehende-se muito bem que as lesões macroscópicas, pelo motivo mesmo de serem de uma certa extensão, possam produzil-as, actuando á maneira das compressões e dos amollecimentos em geral. Basta para isso que ellas attinjam os centros refle- xos, ou suas vias conductoras. E como essas lesões não teem predilecção pelo córtex ou pelo mesence- phalo, uma vez que ellas são geraes, está claro que tanto os reflexos tendinosos como os cutâneos podem ser indifferentemente alterados. O mesmo não se dá, porém, nos casos em que as lesões são puramente microscópicas. Algumas vezes mesmo são raras e diminutas, não valendo para provar as modificações apresentadas. 44 Seria preciso, se assim não fosse, que os centros re- flexos se limitassem a um grupo pequenino de cellu- las e que fossem estas as attingidas. Isso seria possível, é claro; mas na realidade o facto é diverso e essas coincidências falham. Ora, está bem longe de ser raro, nos alienados, o fazerem-se autopsias que não revelem sinão raras le- sões microscópicas e nenhuma macroscópica. Para estes casos é que se torna preciso explicar as modi- ficações reflexas. Aqui vamos buscar ensinamentos na etiopathogenia das moléstias mentaes, considerada á luz dos moder- nos conhecimentos. Segundo as concepções actuaes, a alteração das glân- dulas endocrinicas seria um dos factores etiologicos das psychoses. As glandulas de secreção interna actu- ariam á maneira de reguladoras do metabolismo orgâ- nico, tendo como principal funcção a neutralisação das auto-toxinas que têm acção electiva sobre os centros nervosos e que ficariam livres com a alteração dessas glandulas. Algumas psychoses, ao menos, seriam então devidas a verdadeiras auto-intoxicações, como outras o seriam a exointoxicações. De qualquer modo estaríamos em face de intoxicações e nós temos visto, estudando os reflexos nas moléstias geraes, que estas os modifi- cam de uma maneira constante. São factos idênticos ás alterações humoraes de que falia o professor Déje- rine, factosMe que nos occupamos no capitulo anterior. Ou melhor, são modificações bio-chimicas das cellulas 45 nervosas, que naturalmente se alteram em seufuncciona- mento, como podem soffrer em sua nutrição e degenerar. As cellulas centro-motoras dos reflexos teem por funcção receber as impressões e transformal-as em or- dem motora. Sob a influencia do toxico, excitam-se pri- meiro e exageram o seu funccionamento; em seguida, continuando a acção do toxico, vão perdendo pouco e pouco a faculdade de elaborar a ordem motora; por fim, perdem até a excitabilidade ás impressões, tor- nando-se inteiramente mortas para a funcção, no pe- ríodo degenerativo. Assim se explicam o exagero, a diminuição e a a- bolição dos reflexos. E como a acção nociva do toxico se póde manifestar de preferencia sobre certos grupos cellulares, não é difficil por ella serem explicadas as modificações dos reflexos cutâneos, com integridade dos tendinosos e vice-versa. Isto egualmente serveria para demonstrar, á falta de outra explicação, a varia- bilidade das modificações dos reflexos pertencentes á mesma ordem, e ainda, as suas variações de uma psy- chose a outra. Além disso, póde ser que o facto seja devido á diversidade de toxicos, pelo motivo de fi- carem doentes glandulas differentes. Assim, pois, a modificação dos reflexos nas psychoses obedece a duas causas: lesões materiaes, microscópi- cas embora, das cellulas centro-reflexas ou das vias conductoras; alterações chimicas das mesmas cellulas, semelhantemente ao que se dá nas intoxicações e nas moléstias dyscrasicas em geral. 46 Diante de tudo o que havemos dito, continua de pé a theoria por nós acceita para localisação dos centros reflexos. Demais, podemos ver agora claramente que a origem puramente cortical dos reflexos não é pre- cisa para provar as suas modificações, attenía a ele- ctividade do processo morbido que se póde manifestar sobre o mesencephalo como sobre o córtex. Vamos entrar agora no estudo propriamente clinico dos reflexos tendinosos e cutâneos nas moléstias men- taes, tomando como norma os resultados colhidos em as nossas observações e comparando-os com os obtidos por outros investigadores. Não nos é possivel, entretanto, fazer um estudo tão completo como era o nosso desejo, em vista da de- ficiência de casos clínicos no campo de nossas obser- vações. De facto, no Hospício de S. João de Deus, on- de desenvolvemos a nossa actividade, ao lado da falta completa de especimens de algumas psyhoses, ha a raridade de outras, o que até um certo ponto signifi- ca o mesmo, porquanto o nosso estudo é todo pratico. Desejoso de levar mais adiante as nossas pesqui- zas, observámos alguns doentes no Hospício de Ali- enados do Recife, graças á gentileza do seu digno Director, Dr. Codeceira. Ainda que conseguissemos al- guma cousa por esse meio, não tivemos grande recom- pensa do nosso esforço, porquanto alli também se ob- serva a deficiência de casos clínicos. 47 Em compensação, para algumas psychoses, taes como a ciemencia precoce, o alcoolismo chronico, a epilepsia e a psychose maniaco-depressiva, não nos faltaram casos e assim podemos fazer um estudo completo (?) e de resultados bem compensadores. Assim, pois, se o nosso trabalho é de pouco valor sob um ponto de vista geral, acreditamos que não se dará o mesmo se o encararmos nesse particular. Com effeito, o facto de termos podido chegar a al- gumas conclusões fundamentadas já é o bastante pa- ra que tenha elle algum mérito. Considerando agora que as psychoses por nós es- tudadas são justamente as mais frequentes entre nós, está claro que esse mérito é bem maior. Se assim for, teremos conseguido plenamente o nosso fim. Já é tempo de darmos começo ao nosso estudo, seguin- do naturaimente a ordem proporcional á importância dos resultados obtidos. Antes, porem, uma ligeira nota. —Não observámos todos os reflexos tendinosos e cu- tâneos; escolhemos os trez principaes de cada grupo (patellar, achilleano, tricipital,-plantar, cremasteriano e abdominal) porque os outros, além de variaveis, conser- vam-se normaes quando não soffrem as mesmas modifi- cações que os primeiros. Demais seria inútil compli- carmos um estudo que deve ser essencialmente pratico. Demencia precoce. A demencia precoce, sob qualquer de suas modalidades clinicas, é uma das psychoses mais frequentes entre nós. O seu diagnostico, muitas 48 vezes difficil, é singularmente facilitado pelo estudo dos reflexos tendinosos e cutâneos. Dide assignala na demeneia precoce um syndtomo reflexo que consiste no exagero dos reflexos tendino- sos, diminuição ou abolição dos cutâneos e hypertonia muscular. Régis discorda da opinião de Dide e afirma ter observado resultados os mais vários, até a forma in- versa ao tal syndromo reflexo, além de que este não é especial á demeneia precoce. J. de Mattos diz que no começo da doença obser- va-se frequentemente o exagero dos reflexos tendinosos, phenomeno que póde desapparecer mais tarde. Maillard faz notar que o exagero do reflexo rotu- liano e a grande diminuição do plantar são communs aos dementes precoces e que este facto isolado não tem grande valôr quanto ao diagnostico da demeneia, porque pode ser encontrado em outros doentes. Ao contrario do que pensam os autores, póde-se dar uma formula exacta dessas modiffeações, ligadas menos ao syndromo apresentado do que á edade da moléstia em que se as observa, facto este que, a nosso ver, tem sido a causa das discordâncias existentes so- bre esse ponto. Esta conclusão se impoz do resultado de nossas observações, feitas sobre 22 dementes precoces, (10 homens e 12 mulheres) em períodos diversos da mo- léstia, conforme se vê no quadro abaixo. 49 QUADRO I Patellar AehiiL Oleerau. Plantar Cremast. Abdom. Estado dos reflexos. s «» Ti 's fef § sus fel g fel g fel i <ãs ©=s M fe> sei sS sã , tentados 9 1 9 0 3 0 2 6 2 0 3 7 , Jiorinaes 1 3 2 2 6 1 2 4 3 1 2 3 j Diminuídos 0 2 0 2 2 8 5 1 1 0 5 0 ! Abolidos 1 6 0 7 0 2 2 0 0 3 1 1 Dessas observações podemos, de um modo geral deduzir o seguinte:—Nos dementes precoces em começo da moléstia ha invariavelmente exagero dos reflexos, tendinosos e diminuição mais ou menos pronunciada dos reflexos cutâneos; nos dementes mais antigos os re- flexos tendinosos vão diminuindo, á medida que os cutâneos ficam normaes ou ligeiramente augmentados. E’ esta a formula por nós assentada. O principal, porém, é a dissociação observada en- tre os reflexos da mesma ordem. Neste particular nada vimos annotado e, entretanto,o facto é real e muito frequente. No que toca aos reflexos tendinosos, a dissociação é a regra entre os patellares e o olecraneano, em todos os períodos da moléstia, em proporção bastante elevada. Embora menos frequentemente, póde-se observar a 7 50 dissociação entre os reflexos achilleanos e os patella- res ou olecraneano, ou entre os trez ao mesmo tempo. A realidade destes factos foi por nós observada com o mais rigoroso cuidado, convindo notar como essencial a pouca ou rara frequência delles em outras psychoses. Quanto aos reflexos cutâneos, a sua dissociação é menos frequente e importa quasi sempre sobre o cre- masteriano por um lado, o plantar e o abdominal por outro. Estes marcham de par em suas modificações para mais ou para menos. Além disso Maillard dá grande importância ao facto de se encontrar na demencia precoce, na proporção de 75% dos casos, a abolição do reflexo plantar com o exagero do rotuliano, quando em outras psycho- ses a frequência é apenas de 15%—Encontramos egual modificação, porém em menor proporção, 62.5%, cifra ainda bastante elevada. Tão importante quanto a dissociação acima relaciona- da é o modo anormal de producção dos reflexos pa- tellares nos dementes precoces. Consiste no seguinte:—Quando o choque do martel- lo sobre o joelho provoca a extensão da perna, esta, em vez de voltar á posição de equilíbrio, fica em ex- tensão, na posição extrema determinada pelo reflexo. Segundo Maillard, que foi o primeiro observador do fa- cto, deve elle ser relacionado á suggestionabilidade, uma vez que se pense com Denys que «a suggestiona- bilidade é a tendencia a adoptar toda sollicitação, de qualquer natureza, vinda do exterior.» O modo de ver 51 de Maillard é justificado pelo facto de ter elle visto em um caso o negativismo manifestar-se na occasião do reflexo rotuliano e produzir de alguma sorte uma mo- dalidade inversa do signa! habitual: a perna era violen- tamente trazida para traz após a extensão produzida pelo reflexo. Dupré apoia esta interpretação e diz ter encontra- do nos debeis perturbações analogas. Séglas acha que a immobilisação da perna em extensão após o choque parece dever ser considerada como «um facto de plasti- cidade muscular, relacionavel á conservação das attitu- des.» Nós encontramos o signal de Maillard em 43% dos casos. O valor clinico dessa modificação reflexa nos de- mentes precoces é incontestável, em vista do que dei- xamos dito, isto é, como propriedade da moléstia. Para o diagnostico differencial entre a demencia pre- coce e a hysteria o facto cresce de mérito. Nada tnais difficil, ás vezes, do que distinguir o esturpor cata- tonico commum a essas duas modalidades clinicas. Por outros termos, não se póde dizer muitas vezes se o syndromo catatonico apresentado pelo doente per- tence á hysteria ou á demencia precoce. O professor Pinto de Carvalho diz que nesses casos é preciso dar-se a maior reserva ao diagnostico, espe- rando o evoluir da moléstia para poder firmal-o bem e cita casos em que a illusão tem feito errar a professores notáveis. 52 E’ exactameníe nesses casos que o exame dos refle- xos vem prestar precioso auxilio. De facto, além da dissociação dos reflexos tendinosos e cutâneos ser pou- co frequente na hysteria e muito commum nademencia precoce, o antagonismo entre os reflexos da mesma ordem, quasi de regra na demencia, póde-se dizer que falta na hysteria. Além disso, o signal de Maillard, (fixação da perna na extensão provocada pelo reflexo patellar) nunca foi encontrado senão na demencia precoce, sendo sua constatação um dado de primeira ordem. A sua pre sença deve fazer excluir a hypothese de hysteria. O exame dos reflexos presta ainda relevantes serviços para o diagnostico differencial entre a demencia precoce e certos casos de psychose tnaniaco—depressiva e de epilepsia ou de paralysia geral. Todas estas moléstias podem apresentar symptomas facilmente confundiveis com o syndromo catatonico dos dementes. Esta con- fusão desapparece se tivermos em vista as modificações reflexas próprias a cada uma dessas moléstias. Principalmente para o que toca á psychose maniaco —depressiva, em qualquer de suas phases, o estudo dos reflexos se impõe, como veremos adiante. Veremos também o seu valor para fazer-se a distinc- ção entre certos casos de demencia em que os doentes apresentam hábitos de alcoolismo como effeito da sua moléstia e aquelles casos em que o alcoolismo chroni- co é a causa dos syndromos apresentados pelos doen- tes. Por outros termos, o estudo dos reflexos serve para differenciar o verdadeiro do pseudo alcoolismo chronico. 53 O alcoolismo chronico occupa o primeiro iogar na percentagem dos manicomios. Seu diagnostico é mais ou menos facil, quando são conhecidos os hábitos anteriores do doente. Entretanto, como vimos acima, nem sempre o habi- to de beber, descoberto na vida pregressa do doente, dá a certeza de que éo álcool o factor etiologico da sua moléstia actual. Demais, não é muito facil, ás vezes, obter do doente a confissão do seu vicio. Para esses casos é que de preferencia aconselha- mos o exame dos reflexos como um bom auxiliar para o diagnostico. Dizem os autores que é de regra o exagero dos re- flexos no alcoolismo chronico, como acontece nas ou- tras intoxicações. Não é isto, porém, o que a nossa observação tem mostrado; muito ao contrario, o exagero dos reflexos no alcoolismo chronico, pela nossa estatística, não attinge a media de 50%. Evidentemente tem havido exagero dos autores em afíirmar tal, ou melhor, des- cuido seu na pesquisa desses phenomenos. Uma observação importante se impõe agora:—é de regra o exagero dos reflexos nos alcoolistas submetti- dos ao tratamento intensivo pela strychinina, facto que é de absoluta necessidade ter em vista na sua exploração. Sem afíirmal-o in totum, acreditamos entretanto que esse facto tenha dado motivo a enganos, porque não é possivel mais franca discordância com os resultados por nós obtidos: do exagero á mais absoluta abolição. 54 Não admittindo, pois, essa opinião dos autores, va- mos procurar estabelecer a nossa formula. Esta varia para os reflexos tendinosos e cutâneos, como para os reflexos da mesma ordem, da maneira seguinte:—os patellares e achilleanos são o mais fre- quentemente exagerados ou abolidos, em proporção quasi egual, raramente normaes ou diminuídos;—o ole- craneano é o mais das vezes normal;—o plantar e o abdominal são exagerados ou normaes em egual pro- porção;—o cremasteriano, o mais das vezes normal. Vê-se bem isto no quadro abaixo, tirado do exa- me feito sobre 19 homens e 5 mulheres, alcoolistas. QUADRO I! Estado dos i!eilexos PaíHlar. Acliill. Oleeani Pautar | i ; Cremaxí Aljdom. kpentado 11 ! 10 2 : 8 1 1. 9 | | | Umm 1 2 12 j 9 10 lo 1 Diminuídos 3 12 6 3 5 3 }! Abolidos L 9 10 4 4 1 ! 3 2 A’ primeira visía este quadro é pouco instructivo e parece até não fornecer ensinamento algum de impor- tância. Entretanto, se o observarmos mais attentamente, veremos que elie encerra alguns dados de valor. 55 Notamos em primeiro logar que os reflexos patel- lares e achilleanos, plantares e abdominaes, cremas- terianos e olecraneanos soffrem modificações idênticas, dois a dois. Depois, verificamos que a abolição dos tendinosos está longe de ser rara, o que vem em apo- io da nossa apreciação sobre o modo de ver de Dé- jerine. Convém sobretudo notar que o antagonismo entre os reflexos rotuliano e plantar, tido por Maillard em tanta consideração na demencia precoce, é aqui ex- tremamente vario, podendo servir de critério para o diagnostico differencial entre as duas psychoses.. Para isto, porém, ha um meio muito mais seguro,-o signal de Maillard, o qual nunca foi observado no al- coolismo chronico, sendo entretanto muito frequente 11a demencia precoce. Quanto ao diagnostico differencial entre o alcoolis- mo chronico e outras psychoses (paralisia progressiva, paranoia, etc), cujos syndromos podem offerecer con- fusão, 0 estado dos reflexos fornece indicações uteis, comparando-se entre si os quadros das modificações próprias a cada uma delias, como teremos de ver adi- ante. Emfim a dissociação entre os reflexos cutâneos e a sensibilidade geral é frequente no alcoolismo chro- nico e rara nessas outras psychoses. Demais, não ha aqui uma relação qualquer entre as modificações reflexas e a edade da moléstia, isto é, os reflexos não se attenuam ou se exageram á me- dida que a moléstia marcha para a chronicidade. Pa- 56 rece antes que tudo depende do gráo de intoxicação do organismo, ou melhor, da tolerância deste. Assim é que se póde encontrar o exagero dos reflexos no inveterado como no novel cultor do ethylismo. Na psychose maniaco-depressiva as modificações dos reflexos são interessantes. Os autores, em geral, fazem a sua distincção nas trez modalidades clinicas dessa psychose: phase de exci- tação (mania), phase de depressão (melancholia) e phase mixta. Para elles, na primeira phase ha exage- ro dos reflexos; na segunda, diminuição ou abolição; na terceira, uma óu outra cousa. Rianchidizque os reflexos, normaes na forma attenuada da mania, são muitas vezes exaltados na forma typica. Régis faz ver que na melancholia os reflexos são preguiçosos ou attenuados, emquanto que Agostini os dá como muito vivos. Este autor achou na mania os reflexos sempre normaes. Schermer notou que os reflexos rotulianos, conser- vados durante o periodo de estado da mania, desappa- recem no curso da convalescença para reapparecerem um, dous ou trez mezes mais tarde (G. Ballet). Como vemos, as opiniões dos autores por nós citados são inteiramente variaveis e não nos permittem tirar d’ahi uma conclusão que se relacione com o resultado de nossas observações. O quadro abaixo indica o que notamos nos 8 do- entes de psychose maniaco depressiva, por nós exa- minados, sem distincção de phases. 57 QUADRO III Estado dos rellexos Paíollar Aefiill. Oleeran. Plantar i Cremast- í 1 Abdom. Exagerados 6 6 4 2 s 1 2 fornues l 2 | 1 0 0 6 | Diminuídos I! 1 0 1 | 3 5 1 í 4 ! 0 ! li | Abolidos 0 0 0 1 2 o 1! Ao nosso ver ha aqui alguns ensinamentos uteis a serem tirados, embora reconheçamos a exiguidade dos nossos casos de observação, o que entretanto não constitúe um argumento solido contra a nossa opinião. No tocante aos reflexos tendinosos, notamos em primeiro lugar que elles são o mais das vezes exagerados. Depois, e isto é essencial, não encontramos os reflexos patellares e achilleanos abolidos uma só vez, notando-se que examinámos cinco doentes deprimidos e tres exci- tados, em períodos diversos da moléstia. Este facto nunca foi por nós observado em doentes de outra psychose, d’onde concluimos pelo seu real valor diagnostico. Dos reflexos cutâneos, o abdominal altera-se pouco; o plantar e o cremasteriano são o mais das vezes di- minuídos, nunca, porem, normaes, o que é egualmente de valor. 58 A comparação feita entre as modificações reflexas na psychose maniaco-depressiva e em outras psycho- ses fornece naturalmente ensinamentos para o seu diagnostico differencial, maximé com a hysteria e a demencia precoce. Não é preciso que mostremos os pontos de contacto ou de discordância dessas modificações: elles resaltam do confrontro entre os quadros por nós apresentados a proposito de cada moléstia. Na paralysia geral os reflexos teem sido muito bem estudados, podendo-se mesmo dizer que é esta a única psychose em que o estudo dos reflexos mereceu a attenção dos autores. Infelizmente só tivemos um caso para observação, de modo que somos obrigado a aceitar conclusões alheias, aliás sem grande constrangimento. Vejamos, pois, o que está assentado a respeito. Segundo Régis, a modificação dos reflexos na pa- ralysia geral seria a regra, podendo-se dar como for- mula, no periodo inicial da moléstia, o exagero dos reflexos tendinosos e a diminuição dos cutâneos. Os reflexos tendinosos são alterados em 80 a 90% dos casos, consistindo essa alteração quasi sempre (80% das vezes) no exagero, mais manifesto nos mem- bros superiores. Os reflexos cutâneos são egualmeníe alterados, mas esta alteração consistiria na formula inversa da dos tendinosos. O signal de Babinski parece raro, fóra dos casos com lesões pyramidaes. 59 Crocq explica as modificações dos reflexos tendino- sos e cutâneos no começo da paralysia geral, dizendo que as dos primeiros dependem da attenuação da inhi- bição cortical, as dos outros provêm de lesões dos seus centros (neuronios corticaes). Gilbert Ballet dá as mesmas conclusões de Régis e faz algumas outras observações, que nós reproduzi- remos em seguida. « O reflexo masseterino é muitas vezes exagerado; o pharingeo, diminuído ou abolido. Não seria raro observar-se uma certa concordância entre a abolição do reflexo patellar e o signal de Argyll-Robertson. Nota-se também, muitas vezes, a asymetria na altera- ção, á direita e á esquerda, dos reflexos rotulianos; e este signal de constatação simples é bastante pre- cioso para o diagnostico. Emfim, o estado dos reflexos profundos varia se- gundo a forma da moléstia: nota-se o seu exagero nas formas espansivas, espinhaes espasmódicas; sua dimi- nuição ou abolição nas depressivas, medullares tabeticas. Numerosas influencias accessorias podem também modificar, em um sentido ou n’outro, o estado dos re- flexos, taes como: as intoxicações alcoolica, saturnina, diabética, as nevrites concomitantes, lesões cerebraes em fóco superajuntadas, etc. Quanto ao estudo systematico dos reflexos tendi- nosos e cutã*neos, elle mereceria ser retomado, nas differentes variedades da paralysia geral, á luz das idéas emittidas por van Gehuchten (*) em seu O grypho é nosso 60 ultimo trabalho sobre a distinccão entre a natureza, as vias e a significação dos reflexos profundos, rubro- espinhaes, e dos reflexos superficiaes, cortico-espinhaes. Como Régis e Gilbert, pensam quasi todos os autores, o que nos dispensa de maiores demonstrações. Entre- tanto, não é demais que ouçamos alguns outros, para melhor exito de nossas conclusões. Tanzi diz que, além das irregularidades inais ou menos estáveis e, em todo caso, de origem lenta que são devidas á própria lesão progressiva, os para- lyticos estão sujeitos a uma irregularidade analoga, mas transitória, no estado (contegno) dos reflexos pa- tellares, muitas vezes asymetricamente, a qual depende de lesões circumscriptas, porém reparáveis, do córtex cerebral. Bianchi classifica do modo seguinte as modifica- ções dos reflexos tendinosos na paralysia progressiva: «—1.° casos em que o reflexo rotuliano conserva-se até o estado avançado da moléstia;—2.° casos em que é elle muito diminuído ou apagado desde o principio, muitas vezes antes de se declarar a moléstia por outros symptomas;—3.° casos em que é muito exagerado e assim fica durante todo o tempo da moléstia, quan- do não se attenue gradualmente até á extincção com o avançar da mesma;—4.° casos em que é normal ou exagerado de um lado, debil ou ausente do outro lado. A abolição dos reflexos patellares associada á impo- tência, sem outra desordem, é frequente.» Emfim, Agostini dá a seguinte formula:—« no primei- ro periodo ha diminuição dos reflexos cutâneos e au- 61 gmento dos tendinosos; no segundo, ha exagero do idio- muscular e ainda dos tendinosos; no terceiro periodo os reflexos cutâneos e mucosos tornam-se debilíssi- mos, os tendinosos faltam, o idio-muscular é muito vivo.” A formula de Agostini será talvez a mais perfeita, attento o facto de ter sido elle quem melhor estudou os reflexos, á luz dos modernos conhecimentos. Demais, os trabalhos de Crocq confirmam-na plena- mente. Quaes são as deducções clinicas a serem tiradas desses factos? Muito importantes e bem assentadas já estão ellas: vejamol-as. A abolição dos reflexos patellares, unida a uma psycho- se na media edade (35 a 45 annos), depõe quasi sem- pre em favor de uma paralysia progressiva, diz Fuhrmann. As irregularidades dos reflexos rotulianos, affirma Tanzi, representam por sua grande frequência e por sua precocidade habitual um precioso critério para o diagnostico da paralysia progressiva, signal não menos importante que os phenomenos pupillajres. Por seu lado Bianchi nos ensina que a depressão psychica, com um certo gráo de estupidez e abolição dos reflexos patellares de um ou dos dois lados, cons- titue um syndromo caracteristico da demencia paralytica. Seppilli e Beatley attestam esta asserção. Não será preciso irmos adiante na demonstração de que o estudo dos reflexos na paralysia geral é de um grande valor. Diremos sómente que este valor mais se accentua quando se tem de fazer o diagnostico difíe- 62 rencial entre os diversos estados paralyticos e estados semelhantes -da neurasthenia, de hysteria, da epilepsia, da pseudo-paralysia alcoolica, da psychose maniaco- depressiva (phase de depressão, sobretudo), da demên- cia precoce e, principalmente, da tabes em começo. Para este caso então o exame dos reflexos tendino- sos é de summo interesse, attento o facto de que é no começo de suas manifestações que se torna pre- ciso e difficil o diagnostico differencial entre a tabes e a paralysia progressiva. Esta produz o exagero dos re- flexos; aquella, a sua abolição. O estado dos reflexos é variavel na epilepsia, con- forme se os explora immediatamente antes ou depois dos accessos, ou no intervallo que os separa. Na loucura epiléptica, durante a mór parte do tem- po, os reflexos mucosos e cutâneos são fracos; os musculares e tendinosos, muito fortes. Após o accesso os reflexos cutâneos e mucosos são diminuídos; os tendinosos e musculares exagerados (G. Ballet). Agostini diz exactamente o mesmo, notando mais que póde haver abolição dos reflexos cutâneos e mucosos após os accessos. O prof. Julio de Mattos, falando dos phenomenos phy- sicos post-accessuaes na epilepsia, assim se expressa: «Do lado da motilidade ha a notar umas vezes exa- gero dos reflexos tendinosos com hypertonia muscular, outras, diminuição ou mesmo abolição. Estes pheno- menos oppostos entre si, mas os mesmos sempre para 63 cada doente, estariam na dependencia, não da intensi- dade do accesso, mas das regiões corticaes em que se realisa a descarga epiléptica e onde, portanto, mais se faria sentir o exhaurimento consecutivo; haveria exa- gero ou diminuição dos reflexos, segundo essas regiões seriam aquellas de que partem normalmente acções inbibitorias sobre o tonus muscular e sobre os refle- xos, ou aquellas de que partem acções excitantes (Lu- garo).» Examinamos 9 doentes epilépticos, sob esse ponto de vista, e os resultados por nós obtidos vão expressos no quadro abaixo. QUADRO IV Estado dos reflexos. Patellar AíWIl. dleeran. Plantar Cremast. Abdom. cr— "cis sa~- "1 ssí g 1 cs; 1 "«a C2-. 1 ~ 1 ~s ! 1 : Aopentados 6 4 5 4 3 1 1 1 1 2 5 2 ilormaes 0 2 2 1 4 5 2 2 0 0 2 1 fliiiiimiidos 2 1 1 3 1 3 5 4 3 5 1 4 Abolidos 1 1 1 1 0 1 °| 1 2 2 i 3 2 ! _l O nosso exame importou sobre 7 homens e duas mulheres. Alguns desses doentes (5) eram sujeitos a ataques frequentes; os outros tinham suas crises mais ou menos espaçadas, sendo que um não teve mais de 64 trez ataques durante dous annos que o observamos. Esta nota vem servir para o esclarecimento do quadro acima. Por el!e vamos chegar á conclusão seguinte:— os re- flexos patellares e achilleanos são o mais das vezes au- gmentados, tanto nas proximidades (antes e depois), como no intervallo dos accessos; o olecraneano é cora- mummente normal, o plantar e o cremasteriano, quasi sempre diminuídos, ás vezes abolidos; o abdominal augmentado nas proximidades dos accessos, diminuí- do nos intervallos. Como vemos, os nossos resultados concordam em quasi tudo com os de Agostini; apenas ha discordân- cia quanto aos reflexos abdominal e olecraneano. E’ possível que isto dependa, quanto ao reflexo olecraneano, do facto de não ter sido elle explorado nos casos de Agostini. Quanto ao reflexo abdominal, não sabemos inter- pretar a discordância, mas podemos garantir a veraci- dade das nossas observações. O valor clinico tirado do estudo dos reflexos na epi- lepsia é facil de se conhecer; basta comparar as mo- dificações reflexas aqui, com as observadas nas outras psychoses (alcoolismo chronico, paralysia geral, etc.). No tocante ao alcoolismo chronico, o facto avulta em importância, uma vez que é commum entre nós o syn- dromo epiléptico (ataques epileptiformes) nos alcoolistas. Ainda aqui temos de observar que a farmula reflexa da epilepsia modifica-se quando os doentes se acham em uso da medicação bromurada, havendo moderação 65 dos reflexos, o que constitue uma certeza sobre a acção do medicamento. O estado dos reflexos íendinosos e cutâneos na hys- teria tem dado logar a vivas discussões e o accordo ainda não se fez sobre o assumpto. Na hysteria, diz H. Roger, os reflexos cutâneos são muitas vezes fracos ou abolidos, mas o seu estado não póde servir para o diagnostico entre a lesão e a nevro- se. Os reflexos tendinosos não são sempre normaes na nevrose; sua abolição é muito rara, seu exagero, leve ou medio, é frequente e póde também ser accen- tuado. O exagero dos reflexos localisado sobre os mem- bros attingidos de perturbações motoras e realisando ás vezes um quadro espasmódico, não permitte excluir a nevrose. Babinski não admitte, de forma alguma, que os re- flexos possam ser modificados pela hysteria de um modo apreciável e diz que, quando o facto parece exis- tir, é que na realidade nos encontramos em face de manifestações hystero-òrganicas. Sua opinião se esten- de aos reflexos tendinosos, como aos cutâneos. Segundo G. Lessa, assiste a Babinski toda a razão. Diz ter examinado um crescido numero de pithiaticos, não havendo encontrado um caso só em que os re- flexos tendinosos fossem verdadeiramente exagerados ou abolidos. Para elle o prof. Crocq engana-se quando dá a ele- vada média de 84.12 por cento para o exagero dos reflexos tendinosos na hysteria. 66 0 engano proviria de que o Prof. Crocq não faz dif- ferença entre a fortidão e o exagero dos reflexos, for- tidão aliás observada em indivíduos normaes ou sim- plesmente nervosos. Quanto aos reflexos cutâneos, menos o de Babinski, não se deve emprestar grande importância á sua alte- ração. A presença do signal de Babinski obriga- nos a pensar n’uma alteração dos feixes pyrami- daes. De modo algum podemos subscrever o que diz o Dr. Lessa, a não ser na parte referente ao signal de Babinski. Achamos improcedente a sua allegaçâo contra o prof. Crocq, uma vez que não é tão facil a uma pessoa experimentada confundir uma simples fortidão com um exagero. O proprio Babinski não foi a tanto, dizendo apenas «estar convencido de que nos casos de exagero dos reflexos deve existir antes uma associação hystero- organica». A nossa opinião é que o Dr. Lessa, imbuído nas idéas de Babinski e preconcebendo o facto de não poder encontrar exagero dos reflexos na hysteria, en- contrava antes a fortidão.—E mesmo não sabemos que differença possa existir entre a fortidão pronunciada e o exagero. O certo é que em nossas observações, raras embora, achamos não só o exagero, mas a aboli- ção dos reflexos, o que se póde ver no ' quadro abaixo. 67 QUADRO V Esíado dos reflexos Paíellar Aetaill. Olemiii. Plantar Cremasí- AbdoDt. Exagerados 4 3 0 0 l j íormaes....... 1 1 4 3 3 | Diuiiiinidos 0 1 2 l 0 ! Abolidos || 1 1 . | o : i 2 — 2 : O interessante é que, ao contrario do Dr. Lessa, encontramos o exagero dos reflexos tendinosos como regra nas 6 doentes por nós observadas. Convém no- tar que tivemos o maior cuidado em não «confundir o exagero com a fortidão.» Em vista da exiguidade de nossas observações sobre assumpto tão controvertido, achamos melhor não dar uma formula para as modificações reflexas na hysteria, considerando-as variaveis. O facto é, porém, que ellas nos forneceram alguns ensinamentos, dentre os quaes figura em primeira li- nha a certeza de que póde haver abolição do reflexo rotuliano na hysteria. Como vimos em outro ponto, o prof. Déjerine acha que nunca este facto é possível. Ora, uma das nossas observadas, evidentemente por- 68 tadora de hysteria pura, tinha a abolição dos reflexos patellares. Esíavamos convicto de íer sido o primeiro a con- statar tal phenomeno, quando lemos uma nota de Wohl- will que veio confirmar a nossa opinião. Este autor apresenta uma observação de u’a menina de 12 annos, tendo crises de hysteria, na qual notou a abolição e depois o reapparecimento dos reflexos tendinosos dos membros inferiores. Não havia absolutamente syphilis nos antecedentes e a puncção lombar deu um liquido cephalo-rachidiano normal. Wohlwill conclue pela pos- sibilidade da abolição dos reflexos tendinosos no cur- so da hysteria. O valor clinico do estado dos reflexos na hysteria póde ser posto em evidencia pela comparação das suas modificações com as constantes das formulas reflexas de outras moléstias. O principal reflexo a explorar é o signal de Babinski, nos casos de paralysias suspeitas de hysteria. A sua presença, diz Babinski, obriga-nos a excluir o diagnos- tico de hysteria pura. Esta é a opinião geralmente aceita e é a que abra- çamos, em vista de termos constatado a sua veraci- dade. Para concluir lembraremos que Teissier chama a attenção sobre a dissociação dos reflexos tendinosos e cutâneos na hysteria e sobre a sua importância semi- ológica. Nada conclue, porém, quanto á genese do facto. Nós encontramos essa dissociação em quasi todas 69 as nossas observadas, pelo que concluímos egualmente pelo seu valor real. Na demencia senil a exploração dos reflexos vem servir para differencial-a dos estados demenciaes em que terminam as psychoses passadas á chronici- dade. Os resultados por nós obtidos no exame feito sobre 9 doentes (5 homens e 4 mulheres) foram os seguintes: QUADRO VI Esíado tios reílexos ' Palellar Aehill. Oloeran. Plantar loremast. 1 Abdoni. í Anpeatados 0 0 0 3 0 ! 3 1 loriaaes 3 4 5 4 5 3 Diminuídos 5 4 2 1 0 1 jl Abolidos > 1 2 1 0 2 -| Por este quadro vemos que os reflexos tendinosos são o mais das vezes diminuidos ou normaes; os cu- tâneos, normaes e, ás vezes, augmentados. O Dr. Fuhrmann dá como norma o exagero dos re- flexos tendinosos na demencia senil, o que vem em desaccordo com as nossas observações. A razão disto reside provavelmente em que os nossos 70 observados eram doentes já muito antigos no Hos- pício, tendo soffrido ataques de moléstias intercor- rentes, alguns mesmo tendo sido victimas do be- ribéri. Entretanto, o prof. Julio de Mattos vem dar-nos alguma razão, quando escreve que os reflexos se exageram pela invasão da demencia, podendo ser diminuídos nos estados demenciaes avança- dos. Ora, não é absurdo pensar que as observações de Fuhrmann versaram sobre dementes ainda não muito antigos, attenío o facto de que provavelmente foram ellas tomadas na occasião de entrada dos doentes, ao ser firmado o diagnostico. Assim pois, pensamos que na demencia senil, como na demencia precoce, o estado dos reflexos tendinosos varia com o evoluir da moléstia. Quanto aos reflexos cutâneos, a sua normalidade sendo a regra, temos em sua exploração um bom meio para distinguir a demencia senil dos outros estados demenciaes secundários. Nestes, segundo Agostini, ha exagero dos tendinosos e diminuição dos cutâneos e mucosos. Na idiotia e na imbecilidade é geralmente admittido que os reflexos são exagerados. E’ a formula de Agostini. Q quadro abaixo dá o resultado de nossas obser- vações. 71 QUADRO VII ' K Ir 1 p w 1 m 1 m P \ - | o o O- Idiotia 0 o o OJ lml»ee. = - o o Idiotia =- o | o ° 00 Irnbec. F-: ! o i - - oo idiotia f o 1 o - to Í!!!Í)eO. •—s ) S ! o j o - 4i- Idiotia — o | o o 0J linbec- O j to to - Idiotia l ° ! o o to linbae. P o | to to - Idiotia M i - í o ! o 1 Iiiiiiee P ; Examinamos 5 idiotas e 3 imbecis; e, senão fizemos quadro á parte, foi porque o numero de doentes era muito pequeno e mesmo porque tivemos em vista a estreitissima relação entre as duas psychoses congé- nitas. A formula reflexa tirada do quadro acima pôde ser expressa do modo seguinte:—os reflexos tendinosos e cutâneo plantar são quasi sempre exagerados, tanto na idiotia como na imbecilidade; os cutâneos, cremas- teriano e abdominal, são normaes ou diminuídos na imbecilidade, o inais das vezes. Tanzi fáz notar que a desegual intensidade dos reflexos rotulianos nos dous lados, na imbecilidade, é o indice de uma pregressa cerebropathia infantil extincta, causa da moléstia. N. Casillo diz que o phenomeno de Babinski se 72 encontra em 50/° dos idiotas, como em todas as mo- léstias mentaes tendo uma lesão anatomo-pathologica certa. O facto é dependente de lesões dos feixes pyra- midaes. O signal dos artelhos não foi por nós encontrado nos idiotas ou nos imbecis. Aliás bem raramente o encontramos no decurso de nossas observações. Na neurasthenía é de regra o exagero dos reflexos tendinosos, com a normalidade ou diminuição dos cu- tâneos. As psychoses degenerativas trazem o exagero de to- dos os reflexos, maximé dos tendinosos. Estas formulas, tiradas do exame feito em 3 degene- rados e 4 neurasthenicos, vão expressas em um qua- dro commum. QUADRO VIII Patellar. Aebiil. Olet ran. Plantar. Cremast. AMoill. Estado tios reflexos. cê S-I ca SpB 1 =2 C=3 cê S=3 toD C=3 ~*ã& CCS CS g-H C» «2 CSS CS a-T § 5gD ãT sJ. | Síií Angmeatados.... 3 3 4 3 2 3 0 2 0 2 0 3 Sormaes 1 0 0 0 2 0 2 1 3 2 0 Biniiimiiios 0 0 0 0 0 0 2 0 0 0 1 o ! Abolidos 0 0 0 0 0 0 0 1 0 1 0 0 73 Este quadro discorda um tanto do de Agostini que dá como norma o exagero de todos os reflexos na neu- rasthenia. Giuseppe Severino, em pesquizas feitas sobre 75 neu- rasthenicos, encontrou o exagero dos reflexos tendino- sos (66 a 92%) de par com a diminuição ou aboli- ção dos reflexos cutâneos, maximé do cremasteriano (70%). Diz que estes factos objectivos são de real valor para o diagnostico da neurasthenia e que esse antagonismo acha sua explicação, naturalmente, na di- versidade de vias seguidas pelas duas ordens reflexas. Deixamos sem commentario a opinião de Severino, ém vista da deficiência de nossas observações nesse sentido. E’ provável, porem, que elle tenha razão. As modificações reflexas na paranoia não prestam, confessamos, grande auxilio para o seu diagnostico, se as considerarmos em absoluto. Comparando-as, porém, ás das outras psychoses, vemos que ellas são um bom adjuvante para o diagnostico differencial. Nos trez doentes que observamos, os reflexos se apresentavam do seguinte modo:—tendinosos e cutâneo plantar, exagerados em todos os trez casos; cremas- teriano e abdominal, normaes em dois; abdominal, au- gmentado em um. Os autores não se occupam dos reflexos na paranoia, ' pelo que não conhecemos casos alem dos trez que menci- onamos acima. No grupo das psychoses endocrinicas observamos um 1 A 74 unico exemplar, uma doente mixedematosa. O exame dos seus reflexos revelou:—o exagero dos patellares, achilleano e plantar; normalidade do olecraneano e do abdominal. Dentre as psychoses não observadas entre nós a unica em que os reflexos tendinosos e cutâneos teem sido bem estudados é a pellagra. Todos os autores dão como regra o exagero dos re- flexos tendinosos nessa moléstia. Agostini estabeleceu uma formula constante, assim expressa:—os reflexos cutâneos e mucosos, diminuídos; tendinosos e idio-muscular, exagerados. Na exaltação maritaca da pellagra ha normalidade de todos os reflexos. Aqui findou o nosso estudo sobre os reflexos ten- dinosos e cutâneos nos alienados. Em vista da falta absoluta de casos outros de observação no campo on- de desenvolvemos a nossa actividade e mào grado o nosso esforço e bôa vontade, não foi possível irmos adiante. Forçoso è confessar que o nosso trabalho è pobre, muito pobre mesmo: nem outra cousa se poderia es- perar do seu autor. Dizer, porém, que é de todo destituído de valor, não è exprimir a verdade. Procuramos dar-lhe um cunho essencialmente prati- co; fugimos das theorias, do terreno das hypotheses, e fomos elaboral-o no campo da realidade—a obser- vação e a clinica; dahi o seu valor, pequenino embora. 75 Foi para os práticos que o fizemos, despretencio- samente simples, á custa de uma grande somma de esforço e boa vontade. Possa elle ser-lhes util, como a nós proprio já o tem sido, e estaremos plenamente recompensado.— «Os nos- sos julgadores que digam se o podemos conseguir.» CONCLUSÕES Do estudo que deixamos feito podemos tirar as se- guintes conclusões: Ia.) A exploração dos reflexos tendinosos e cutâne- os é imprescindível do exame somático dos alienados. 2a.) Os reflexos cutâneos teem uma importância egual á dos tendinosos. 3a.) As modificações reflexas interessam sob o duplo ponto de vista da intensidade e da forma. 4a.) Elias fornecem dados de valor para o diagnos- tico das psychoses. 5a.) Em geral todas as psychoses modificam os re- flexos de uma maneira mais ou menos constante. 6a.) Existem formulas certas para essas alterações na demencia paralyíica, na epilepsia, na psychose ma- níaco depressiva, na demencia precoce e no alcoolis- mo chronico. 7a.) Os syndromos reflexos da demencia precoce e da paralysia geral, quando unidos a outros symptomas, são pathognomonicos. 8a.) Na hysteria pura é possível a abolição dos re- flexos tendinosos, sendo frequentes as suas modifica- ções. 9a.) E’ injusto o abandono em que tem sido deixado o estudo dos reflexos nos alienados. 10a.) Como em neuropathologia, deve elle occupar um logar saliente na propedêutica das moléstias mentaes. BIBLIOGRÁPHIA (Relação das principaes obras consultadas) C. Regaud—Les terminaisons nerveuses et les orga- nes nerveux sensitifs de 1’appareil locomoteur. Paris. 1907. A. Rochas. L’exteriorisation de la motricité. Paris. 4.e édit. 1906. P. Sollier—Guide pratique des maladies mentales. (Séméiologie-pronostic-indications). Paris. 1893. Eug. Tanzi Trattato delle malattie mentali. Milano. Societá Ed. Libraria. 1905. E. Tramonti. Guida alia diagnosi delle affezioni del sistema nervoso. Roma. 1909. C. Agostini—Manuel de psichiatria, Milano. Vallardi 1897. Dejerine—Séméiologie des réflexes. (Traité de pa- thologie générale-vol. 5). Paris, 1901. H. Dufour—Séméiologie des maladies du système nerveux. Paris Doin, 1907. E. Kraepelin—Trattato de psichiatria. Milano. 7.a edz. 1907. E. Régis—Précis de psycbiatrie. 3.e édition. Paris. O. Doin (Coll. Testut). Krafft—Ebitig—Traité clinique de psycbiatrie. Trad. 5e édition aliem. Paris, 1907. J. de Mattos—Elementos de psychiatria. Porto, 1911. 80 G. Ballet—Traité de pathologie mentale. Paris. 1903. M. Fuhrmann—Diagnosi e prognosi delle malattie mentali. Trad. Milano. 1908. Morat et Doyon—Traité de physiologie. Paris. 1902. E.Gley—Traité élémentaire de physiologie. Paris. 1910. Van Gehuchten—Réflexes cutanés e réflexes tendi- neux. XIII congrès internationai de Médecine. Section de Neurologie et Psychiatrie. Paris. 1900. G. H. Roger—Intròduction á 1’étude de la Médecine. 4.e édition. Paris. 1909. M. Fleury—Manuel pour 1’étude des maladies du système nervéux. Paris. 1904. Tomas et Dejerine—Maladies de la moelle epinière (Nouveau traité de Médecine et de thérapeutique de Brouardel-Gilbert-Toinót. vol. 34). Paris, 1909. Dr. M. Pinheiro de Andrade—Do reflexo pharingêo nos alienados. These inaugural, Rio. 1907. Revue neurologique—Organe officiel de la société de neurologie de Paris. Paris. 1905 a 1909. Eencéphale. Journal de neurologie et de Psychiatrie. Paris. 1907 a 1911. Rivista sperimentale di Freniatria e di Medicina legale. 1907 a 1909. G. Lessa—Sobre alguns reflexos no pithiatismo. (Ar- chivos brazileiros de Psychiatria, Neurologia e Medi- cina legal.) N.os 1 e 2. Rio. 1909. Babinski—Diagnostic de 1’hemiplegie. Comptes rendus. XIII congrès internationai de Médecine. Paris. 1900. 81 Eulenburg-Kolle—Tratíato de diagnostica medica. Milano. 1906; Palasse de Champeaax—Manuel de séméiologie mé- dicale. Paris. 1905. A. Rémond—Précis des maladiesmentales. Paris. 1904. G. Weygandt—Atlas-manuel de psychiatrie. Trad. Paris. 1904. Rogues de Fursac—Manuel de psychiatrie. Paris. 1905. J. Roux—Diagnostic et traitement des maladies ner- veuses. Paris. 1901. Grasset—Diagnostic des maladies de 1’encéphale et de la mõelle. Paris. 1908. B. Roxo—Moléstias nervosas e mentaes. Rio. 1906. Bianchi—Trattato de psichiatria ad uso dei mediei e degli studenti. Napoli. 1900. PROPOSIÇÕES jl jt' C3 S í Ç 0 £ & HISTORIA NATURAL MEDICA I Ao genero cinchona da familia das rubiaceas pertence a quina. II Suas variedades empregadas em medicina são: a vermelha, a cinzenta e a amarella. III O seu alcaloide—a quinina, segundo as doses, excita ou modera a reflectividade nervosa. CH1MÍCA MEDICA I A strychnina é um corpo solido, inodoro, muito amargo, insolúvel no ether, pouco solúvel na agua fria e no álcool, solúvel no chloroformio. II Forma diversos saes, sendo o sulfato o mais im- portante. III Muito empregada em medicina, é o melhor ex- citante do poder reflexo do systema nervoso. ANATOMIA DESCRIPTIVA I A substancia branca da medulla espinhal é con- stituída por trez cordões: anterior, posterior e lateral. II O cordão lateral comprehende cinco systemas: 86 feixe cerebelloso directo, pyramidal cruzado, de Gowers, lateral profundo e feixe restante do cordão lateral. ÍII Segundo van Gehuchten, as vias cortico-espinhal e rubro-espinhal, vias conductoras da ordem reflexo- motora, descem no cordão lateral da medulla onde ambas são formadas de fibras cruzadas. HISTOLOGIA I O neuronio é a cellula nervosa munida de todos os prolongamentos que delia partem. II Comprehende trez partes: o corpo cellular, o cy- lindroeixo e os prolongamentos protoplasmicos. III E’ ao nivel das articulações dos prolongamentos nervosos que se faz a transformação da excitação sen- sitiva ou centrípeta em excitação motora ou centrífuga. BACTERIOLOGIA I O tétanos é uma moléstia infecto-contagiosa e inó- culavel, devida ao bacillo de Nicolaier. II Este se fixa no ponto de penetração e actua á distancia pelas suas toxinas. III Exercem ellas sobre a cellula nervosa o seu poder, produzindo notável exagero dos reflexos. 87 PHYSIOLOGIA I O systema nervoso é a séde de duas ordens de phenomenos, conforme as impressões sejam ou não percebidas. II Quando ha percepção, isto é, quando intervem a consciência, chama-se phenomeno voluntário ou consciente. III Quando, ao contrario, a percepção não entra em jôgo, ha o acto reflexo puro, ou acção reflexa propriamente dita. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I O bromureto de potássio nos epilépticos deve ser administrado sem interrupção, salvo excepções muito raras. II A elle deve ser associado um antiseptico, de prefe- rencia o benzoato de sodio, afim de regularisar a sua absorpção e evitar erupções cutaneas. III E’ um moderador dos reflexos e sua acção sobre a pu- pilla fornece signaes que servem para estabelecer a dose safficiente. CLINICA PROPEDÊUTICA I O exame dos reflexos tendinosos e cutâneos é um excellente meio propedêutico. 88 II Nas moléstias nervosas adquire elle uma impor- tância considerável. . III Na tabes, por exemplo, offerece ás vezes signaes de certeza para o seu diagnostico. CLINICA SYPHILIGRAPHICA E DERMATOLÓGICA I As gommas circumscriptas das meninges apresen- tam um tamanho variavel. II Quando attingem dimensões consideráveis, pro- duzem compressões á maneira dos tumores cere- braes. III O diagnostico topographico dessas lesões póde ser facilitado pelo exame dos reflexos. PATHOLOGIA CIRÚRGICA I A intervenção curativa nos tumores cerebraes con- siste na trepanação com extirpação do tumor. II Para isto é preciso que se determine a natureza e a séde exacta da neoplasia. III Ao lado de outros meios, a exploração dos refle- xos auxilia essa determinação. 89 PATHOLOGIA MEDICA I Os principaes symptomas do beriberi são os de uma nevrite peripherica, começando de ordinário peles membros inferiores. II Ella attinge, separada ou simultaneamente, as fi- bras motoras, sensitivas, vaso-motoras, secretorias ou trophicas. III As modificações que soffrem os reflexos muscu- lares e cutâneos devem ser collocadas entre os mais precoces signaes do beriberi. ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGICAS I Kalbaum, em autopsias feitas sobre sete catato- nicos encontrou congestão com exsudação de todos os vasos encephalicos e amollecimento do córtex ce- rebral. II Mais tarde notou a retraeção e a atrophia do tecido amollecido e organisação do exsudacto, com aspecto escuro da arachnoidéa, principalmente ao nivel da base. III Essas lesões justificam, ao menos em parte, as modificações reflexas tão communs na demencia precoce. CLINICA CIRÚRGICA (2A CADEIRA) I A anesthesia cirúrgica é a que se provoca por 90 meio dos anesthesicos geraes e locaes, afim de se fa- zerem as operações sem dor. II O anesíhesico geral mais empregado entre nós é o chloroformio, moderador da reílectividade nervosa. III Para que a anesthesia geral pelo chloroformio eeja exempta de perigos, o pratico deve conhecer bem certas regras e pol-as em execução. CLINICA OPHTALMOLOGICA I A irite é a inflammação da iris, revestindo formas diversas devidas á etiologia variavel e aos detalhes anatomo-pathologicos. II Seus symptomas podem ser objectivos e subje- ctivos; dentre os primeiros deve-se notar a mudança de cor da iris e o aspecto turvo do humor aquoso. III Como signal de começo deve ser tida em conta a preguiça do reflexo iriano. OPERAÇÕES E APPARELHOS I Na secção intra-craneana do trigemeo deve-se res- peitar sempre o Io ramo, ou nervo ophtalmico. II A exerese deste nervo expõe a lesões graves dos seios cavernosos e do globo ocular. 91 III Os reflexos pupillares serão abolidos, havendo myosis permanente, devida á secção dos filetes sympa- thicos irido-dilatadores. ANATOMIA MEDICO—CIRÚRGICA I A região masseterina contem um unico musculo—o masseter. II O orgão principal dessa região é o prolonga- mento anterior da parotida, munido de seu canal ex- cretor, o canal de Stenon. III A contractura permanente do masseter traz a constriccão das maxillas, ou trismus; a percussão do seu tendão inferior produz uma contracção rapida e brusca, chamada reflexo masseterino. THERAPEUTICA I A electrotherapia é um dos bons processos dentre os innumeros aconselhados para o tratamento dahysteria. II Pode ser empregada, segundo os casos, sob qual- quer de suas formas: galvanisação, faradisação, fran- cklinisação. III O estado dos reflexos indica o momento em que se deve empregar tal ou qual forma. 92 CLINICA CIRÚRGICA (Ia CADEIRA) I A thyroidectomia é a extirpação tota) ou parcial da glandula thyroid.e. II Quando total, é uma operação muito séria que expõe o paciente a accidentes gravíssimos, quer pró- ximos, quer tardios. III Entre estes nota-se o syndromo da insufficiencia thy- roidiana, em que são de regra as perturbações reflexas. CLINICA MEDICA (2.a CADEIRA) I A pneumonia é u’a moléstia infectuosa, de come- ço brusco e apparatoso, suscitada no pulmão pelo pneu- mococus de Talamon e Fránkel. II Inicia-se por um frio intenso e unico, seguido de calor e febre, ardor no peito, vomitos e uma pontada aguda e pungente no lado. III Como todas as afíecções febris em começo, a pneumonia produz o exagero dos reflexos. CLINICA PEDIÁTRICA I A paralysia infantil começa o mais das vezes por um syndromo febril sem caracter nitido. 93 II Pode entretanto sobrevir sem a precedencia de reacção geral. III A paralysia é flasca, trazendo diminuição dos reflexos tendinosos. Os esphincteres são poupados. OBSTETRÍCIA I Os accessos eclampticos são caracterisados por crises convulsivas e tónicas, acompanhadas de perda da sensibilidade e intelligencia, com ou sem febre. II O ataque de eclampsia comprehende trez perío- dos: periodo de invasão, periodo de convulsões tóni- cas, periodo de convulsões clonicas. III No primeiro periodo as pupillas perdem a refle- ctividade á luz; no segundo, ha exagero dos reflexos tendinosos. HYGIENE I A prophylaxia da peste é muito complexa e com- prehende uma série de medidas, até de ordem inter- nacional. II Em tempo de epidemia é indispensável que to- dos os casos suspeitos de moléstia sejam levados ao conhecimento das autoridades sanitarias. 94 III Estas devem logo procurar estabelecer o dia- gnostico, recorrendo aos diversos meios para isto apon- tados: exame dos symptomas geraes e locaes (não es- quecendo o dos reflexos) e o exame bacterioscopico. MEDICINA LEGAL E TOXICOLOGIA I O exame do globo ocular fornece para a con- statação da morte numerosos signaes de valor. II São de duas especies estes signaes: vitaes ou agonicos e cadavéricos. III Notam-se como principaes: dilatação da pupilla, abolição do reflexo á luz, transparência da cornea e da conjunctiva e parada da circulação capillar da re- tina. CLINICA MEDICA (1.* CADEIRA) I A raiva, moléstia virulenta própria ao cão e ao gato, cuja mordedura a transmitte ao homem e a outros animaes, produz notável exagero dos reflexos. II Consiste em uma perturbação profunda da iner- vação, attingindo ao mesmo tempo sensibilidade e o movimento. III Uma vez declarada, a morte é inevitável, não se co- nhecendo um só caso de cura no homem. 95 CLINICA OBSTÉTRICA E GYNEÇOLOGICA I Para o diagnostico das affecções gynecologicas o interrogatório tem grande vaior. II Deve versar sobre os antecedentes uterinos, syrn- ptomas geraes, differentes apparelhos, catamenio, sym- ptomas locaes. III Sobre o systema nervoso indaga-se da frequên- cia de crises nervosas, da emotividade, do estado da sensibilidade geral e dos reflexos, etc. CLINICA PSYCHIATRÍCA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I Na demencia precoce o exame dos reflexos tem considerável valor. II O modo de producção destes é mais importante que as variações de sua intensidade. III O sygnal de Maillard é quasi pathognomonico da demencia precoce. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia, em 5 de Novembro de 1912. O Secretario, Vr. iMenandro dos fieis JHcireJJes