FACULDADE DE BUA DA BAHIA THESE APRESENTADA Á Faculdade de Medicina da Bahia Em 26 de Outubro de 1907 PARA SER SUSTENTADA POR Salvador Vaz Galvão NATURAL DO ESTADO DA“BAHIA AFIM DE OBTER 0 GRÁO DE DOUTOR EM MEDICINA DISSERTAÇÃO Carteira rte Medicina Legal e Toxicologica «ESTUDO MEDICO LEfiAL SOBRE 0 ENFORCAMENTO» PROPOSIGOES Tres sobre carta uma das Cadeiras do Curso de Sciencias Medicas e Cirúrgicas OFFICINAS DO «DIÁRIO DA BAHIA» 101 —PRAÇA CASTRO ALVES —101 BAHIA 190 7 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA DIREGTOR—Dr. Alfredo Britto VIGE-DIRECTOR —Dr. Manoel José de Araújo LENTES CATHEDRÁTICOS C_A OQ MATÉRIAS QUE LECCIONAM Dr. J. Carneiro de Campos 1.* Anatomia descriptiva Dr. Carlos Freitas )) Anatomia topographica Dr. Antonio Pacifico Pereira 2." Histologia Dr. Augusto G. Vianna » Bacteriologia Dr. Guilherme Pereira Rebello. . . . » Anatomia e Physiologia patho- logicas Dr. Manoel José de Araújo Phvsiologia Dr. José Eduardo F. de Carvalho Filho . » Therapeutica Dr. Luiz Anselmo da Fonseca .... 4.* II vgiene Dr. Josino Correia Cotias )) Medicina legal e Toxicologia Dr. Braz Hermenegildo do Amaral. . . 5.“ Pathologia cirúrgica Dr. Fortunato Augusto da Silva Júnior . » Operações e apparelhos Dr. Antonio Pachèco Mendes Clinica cirúrgica, 1." cadeira Dr. Ignacio Monteiro de Almeida Gouveia. Clinica cirúrgica, 2.“ cadeira Dr. Aurélio R. Vianna 6.* Pathologia medica Dr. Alfredo Britto » Clinica Propedêutica Dr. Anisio Circundes de Carvalho . . . » Clinica medica, 1." cadeira Dr. Francisco Braulio Pereira .... » Clinica medica, 2.” cadeira Dr. A. Victorio de Araújo Falcão . . . 7.* Matéria medica, Pharmacologia e Arte de formular Dr. José Rodrigues da Costa Dorea. . . )) Historia nalural medica Dr. José Olvmpio de Azevedo v> C.himica medica Dr. Deocleciano Ramos 8.- Obstetrícia Dr. Climerio Cardoso de Oliveira . . . )) Clinica obstétrica e gynécologica Dr. Frederico de Castro Rebello. . . . 9.* Clinica pediátrica Dr. Francisco dos Santos Pereira . . . JO.* Clinica, ophtalrpologica Dr. Alexandre E. de Castro Cerqueira . «.* Clinica dermathologica e syphi- ligraphica Dr. Luiz Pinto de Carvalho Dr. João E. de Castro Cerqueira. . . . Dr. Sebastião Cardoso 12.“ Clinica psychiatrica e de molés- tias nervosas Em disponibilidade )' )> LENTES SUBSTITUTOS Dr. José Affonso de Carvalho 1.* secção Drs. Gonçalo Moniz Sodré Aragâo e Julio Sérgio Palma 2 .* » Dr. Pedro Luiz Celestino ti.' Dr. Oscar Freire de Carvalho 4.* Dr. Antonino Baptista dos Anjos 5.“ Dr. João Américo Garcez Frões G.* Drs. Pedro da Luz Carrascosa e ,1. .1. de Calasans. 7.* * Dr. José Adeodato de Souza 8.* » Dr. Alfredo Ferreira de Magalhães 9.* Dr. Glodoaldo de Andrade 10.* 9 Dr. Albino Arthur da Silva Leitão 11.* * 12.* y> SECRETARIO —Dr. Menandro dos Reis Meirelles SUB-SECRETARIO — Dr. Matheus Vaz de Oliveira A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas lheses que lhe são apresentadas. DISSERTAGAO Cadeira de Medicina Legal e Toxicologiea ESTIDO NEOICO-LEG.IL ME 0 EWHUIIEMO CAPITULO I Considerações sobre o enforcamento efinir não é tarefa de tão facil emprehendi- mento, nem deve ser o primeiro escopo de quem almeja traçar os limites e as leis de um phenomeno qualquer para a exposição concisa da verdade. E devem subir de ponto tacs considerações, quando se tracta de um phenomeno que se nos apresenta á luz baça de uma genese desconhecida. Empregando este modo de pensar e de sentir no encetar deste nosso estudo sobre o enforcamento, não nos cançamos de formular definições, senão, somente, procuramos seguir os conceitos valiosos dos mestres da sciencia medico-legal, applicando, no correr da nossa these, o cunho pratico que requer um trabalho de tal quilate, com as poucas experiencias que pudemos conseguir, com máximo esforço. Comecemos pela definição de Tardieu que se tornou classica por muitos annos, devido ao grande conceito scientiíico que gosava este importante medico legista. 4 «O enforcamento é um acto de violência no qual o corpo, preso pelo pescoço a um laço amarrado em um ponto fixo, e entregue ao seu proprio peso, exerce sobre o laço suspensor uma tração bastante forte para produzir, bruscamente, a perda dos sentidos, a parada da funcção respira- tória e a morte». Deante de tal definição, não podemos concordar, in totum, com o notável professor de França; por- quanto procurou elle synthetizar numa sò causa, a apresentação de um phenomeno tão complexo como o enforcamento. Ora, no enforcamento, como depois veremos, não é sò a parada da respi- ração que determina a morte; ha muitos outros agentes que concorrem, concumitanternente, para a cessação da vida. . Vibert assim o define: «a morte que succede á suspensão do corpo por um laço em torno do pescoço ». Apezar de muito succinta, não podemos, de modo algum, acceitar a definição de Vibert, por- quanto, ahi, nos deparamos com a palavra—sus- pensão—como se todo o enforcamento se realizasse com a suspensão completa do corpo. Rrouardel, depois de fazer considerações sobre o assumpto, chegando até a dizer que se sabe o que seja o enforcamento, mas, não se o pode definir, assim se expressa: «é o acto em que o corpo, com o laço atado ao pescoço e preso a um ponto lixo, é entregue ao seu proprio peso». Muito se asse- 5 melha esta definição com a precedente, e, por con- seguinte, o reparo que ali fizemos deve aqui ter cabimento. Para que haja a morte por enforcamento basta o peso da cabeça e das espadoas, como já se tem observado em diversos casos, sem que, portanto,* nem sempre, necessário seja o peso de todo o corpo. Alguns auctores, como Minovici, declaram ser a definição de Tourdes a mais accorde com os conhecimentos actuaes. Não concordamos com Minovici, porque, na definição de Tourdes não ha a precisão necessária, assim como o defeito encontrado nas duas prece- dentes ahi se estampa, despresando a especie de enforca men to incomipleto. Eil-a: «O enforcamento é a suspensão do corpo pelo pescoço por meio de um laço, cuja pressão occasiona a morte, produzindo uma asphyxia sú- bita mais ou menos favorecida por uma perturba- ção circulatória e da innervação». Pensaria melhor, e mais cxactamente, o pro- fessor Tourdes si se expressasse collocando os adjectivos complementares total ou parcial após a palavra suspensão, justamente porque suppomos ahi existir a sua falha. Lacassagne, o emerito professor de Lyon, lançou a seguinte definição: «O enforcamento é um acto de violência pelo qual, um indivíduo preso pelo pescoço, num laço amarrado a um ponto fixo, 6 determina pelo peso de seu corpo, conforme esteja este suspenso no todo ou em parte, a compressão dos vasos do pescoço com a parada da circulação cerebral e syncope, ou a occlusão das vias respira- tórias e asphyxia; quando uma inhibição ou um choque bulbar se produz, o coração pára, brusca- mente, e a morte é rapida». Este conceito de Lacassagne transpõe os limites de uma definição para ser mais exacto do que os outros. E quasi uma descripção. Não fosse o lado fraco que encontramos rfesta definição, em que não somos que para haver en- forcamento seja preciso sempre um ponto lixo ao qual esteja ligado o laço, daríamos o nosso absoluto apoio á sentença do provecto medico-legista, que, apezar disso, julgamos a única que se tem apro- ximado da verdade scientifica. Um ponto movei, como o galho envergadiço de uma arvore, capaz de suspender o peso total de um corpo, açoutado, a principio, pelas con- vulsões do enforcamento e, depois, balouçado pelos ventos, por mais ílexivel e movediço que seja, pôde supportar a maxima tensão de um en- for carne n t o com pl et o. Ha uma outra forma de asphyxia por compressão do pescoço denominada—estrangulação—e que os tractadistas hão differenciado do enforcamento, não só pela íalta de suspensão da corda ao ponto fixo, como pela forma do sulco deixado no pescoço. No enforcamento, ordinariamente, o laço produz 7 compressão, não em toda circumferericia cervical, e sim em certas Partes, notadamente nas antero- lateraes; na estrangulação, também, a compressão se exerce, mais geralmente, em toda a circum- íerencia do pescoço; em um genero de morte, no primeiro, as vias respiratórias, vasos cervicaes e, as vezes, nervos são constringidos pela acção do peso do proprio corpo; em outro, no segundo, o pheno- meno constrictor é produzido pelas mãos, quer directamente, quer indirectamente, com o auxilio de corda; além disso, o enforcado é, quasi sempre, um suicida, e o estrangulado procede, no maior numero de casos, do homicídio. Differenciadas que se acham estas duas especies de morte asphyxica, é justo que aqui digamos:— existe uma outra especie de asphyxia por com- pressão do pescoço que se não amolda na classifi- cação do enforcamento, nem da estrangulação: é a esgana dura. E uma especie de morte asphyxica produzida pela compressão da parte anterior do pescoço (de ordinário somente o larynge ou a parte superior da trachéa) por uma só mão, deixando impressa n esta placa cervical, de um lado, o direito, um ou dous signaes depressivos de dedos; c de outro, o esquerdo, de quatro ou oito dedos, conforme foi uma ou duas vezes exercida a violência criminosa. Não impede, porém, essa forma de asphyxia me- chanica de se nos apresentar, em uma perícia, ao contrario do que se deve observar, de accordo coiri 8 o que dissemos; tractandó-se, por exemplo, de um homicida mancinista, ou «canhoto», na phrase vulgar, pode-se encontrar os signaes de esganadura, na ordem inversa, impressos no pescoço. A morte por enforcamento, quer como suicídio, quer como meio legal de punição, é conhecida desde a mais remota antiguidade. Homero, Sophocles, Virgílio e tantos outros portadores da historia antiga rezam-nos muitos suicídios por enforcamento. Plutarco falla-nos da epidemia do enforcamento suicida entre as raparigas de Mileto, e que só en- controu um termo, quando coagiram os éditos, estabelecendo, como castigo publico ao succcssivos casos desta especie de morte, a exposição do corpo nú aos olhos e á grita da multidão. Na edade media, tempo em que o feudalismo plantou o regimen barbaro dos castigos, encon- travam-se ás portas das cidades estas especies de altar onde se iam immolar as victimas do absolu- tismo medievo. Eramforcas naturaes, servidas de braços de arvores, e eram forcas trabalhadas pela mão do vassallo para seus proprios irmãos. Nessa epocha em que a historia costumava referil-a com pezar c odio, havia distincção das penas para os ricos e pobres, ou, seja dito, havia uma nobresa na morte para os que tinham o bafejo da fortuna. $ Estes eram decapitados, como honra á sua superioridade social, e os desprotegidos da sorte— enforcados. Dizem auctores que os suicidas eram enforcados, para exemplo do castigo das leis contra os que tentassem se extinguir pela sua própria vontade. Emquanto que o enforcamento suicida e o supplicio penal por este meio vêm desde a mais alta antiguidade, era desconhecida, até bem pouco tempo, a sua historia medico-legal. Os autores francezes dizem que a medicina legal só interveio por conclusões rigorosas, na occasião do enforcamento, em Toulouse, no anno de 1761, na pessoa de Marc-Antoine Calas, e que trouxe, como consequência fatal, o supplicio de seu pae. D’essa epocha até 1830, somente era considerado como capaz de causar a morte, a quem quer que fosse, o enforcamento completo. Suicidando-se n’esta occasião o príncipe de Condé, por enforcamento incompleto, novas investigações apparecèram no vasto campo scien- tifico, chegando-se a conclusão d’esta segunda espccie de enforcamento que a medicina legal, de então, desconhecera, mas que existia em muitos casos, e urgia fosse estudada para a elucidação de tão importante problema. Foi o enforcamento em muitos paizes, e, hoje, felizmente em muito poucos, o modo de execução penal contra os condemnados pela justiça publica. Na França, este castigo desapparecera com 10 a explosão da Revolução Franceza, erguendo os revolucionários uma guilhotina, na praça publica, ao cm vez da forca ali armada, ha muitos séculos. Em nossa Patria, em pleno regimen monarchico, em que a pena de morte era um dos claros artigos do Codigo Criminal, se a executava em meio a multidão, no alto de uma forca, como se esta triste exhibição honrasse a memória do nosso povo. Um dos exemplos mais flagrantes da nossa antiga historia penal foi aquelle que se deu, aqui na Bahia, em 1849, c duc a tradicção nos revela entremeado com as lendas horrorosas que vêm revestindo o horrendo facto. Referimo-nos ao grande faccinora e salteador de nome Lucas Evangelista, por alcunha Lucas da Feira, o tvpo pathologico do criminoso nato, que semeou os sertões da Bahia dos mais famigerados assaltos a propriedade, á vida e á honra, plantando o terror em toda zona onde armava o acampa- mento para a expansão das suas perversidades. Preso que foi, a multidão o viu estortegando no cimo de uma forca armada no Campo do Gado na, então, villa da Leira de Sant’Anna, ao meio dia de 26 de Setembro de 1849, cl-ijos derradeiros gemidos eram amordaçados pela gritaria da mul- tido em delirio. Eelizmente a transformação política que veio a 15 de Novembro de 1889, estatuindo o regimen 11 republicano, riscou do estatuto penal que nos governa a pena capital, e com ella o processo infamante da extincção legal pelo enforcamento. Ao jidgarmos pe’os auctores francczes, os suicídios por enforcamento são tão frequentes que chegam a constituir quasi metade dos casos de suicídio, em geral. Realmente, pelas estatísticas que nos apresentam Brouardel, Vibert, Lacassagne, Minovici e outros, os enforcamentos são os mais irequentes dos suicídios em quasi todos os paizes, exceptuando a Italia e a Kumania; assim é que, na Italia, os afogamentos sendo muito numerosos, os enforca- mentos ahi quasi não existem; e, na Rumania, este genero de suicídio vem em terceiro logar. Entre nós, na cidade do Salvador, os enforca- mentos, assim como os-outros generos de suicídio são muito raros, ao contrario do observado em paizes extrangeiros, como na França, onde : ão constantes, e crescem os numeres das estatísticas. Por ligeiro estudo comparativo vamos ver esta verdade. Segundo a; nossas estatísticas demographo- sanitarias, de i.° de Julho de 1896 a 31 Dezembro ce 1906, suicidaram-se com veneno—14 homens e 7 mulhers (21)—com armas de fogo, 16 homens e 1 mulher (17), De i.° de Julho de 1896 até 10 12 de Setembro de 1907 deram-se 7 enforcamentos, sendo 2 homens e 5 mulheres; donde se infere que, entre nós, vem como suicídio mais frequente o envenenamento; em segundo logar, os suicídios por armas de fogo; e em terceiro logar, o enforca- mento. E’ verdade que as estatísticas a que nos referimos acima, são um pouco confusas em relação a tres casos de enforcamento, porquanto, dizem— suicídio por ('enforcamento ou estrangulação», mas, tirou-nos desta duvida o nosso solicito medico-legista da policia Dr. Octaviano Pimenta, garantindo que foram, de facto, enforcamentos; Independentemente da afhrmação do Dr. Pi- menta, era de suppor-se que se tractava de enforca- mento, tendo em consideração a circumstancia de que o enforcamento, como suicídio, é muito mais frequente do que a estrangulação. Diz-nos Brouardel que, nos campos, os enforca- mentos são mais numerosos que nas cidades; parece-nos que Brouardel tem perspicácia e pratica quando nos falia assim, porque, entre nós, no Estado da Bahia, a sua confirmação é acceitavel e verdadeira; porque, afóra raros casos dentro da capital, outros mais numerosos, de que temos conhecimento, se dão nos sertões. Passámos, muito de longe, a respeito da influen- cia dos suicídios por enforcamento, por julgarmos matéria extranha, no nosso modo de pensar, ao estudo que ora fazemos. *3 Não entramos mesmo na estatística dos enfor- camentos, em cuja media se note a influencia dos suicidios passionaes, ou o desequilíbrio mental destes infelizes attingidos ao auge do desespero. Portanto, não tencionamos, e nem nos é dado, neste paragrapho de mero recenseamento, estudar a etiologia desta morte por asphyxia, porquanto, isto nos levaria a um immenso capitulo sobre a influencia social das imitações, onde nos fal- lece a competência, e que arrastam, inncgavel- mente, grande numero de victimas ao cimo de uma forca. Terminadas estas ligeiras considerações sobre a definição, o historico e a estatística, entre nós, do enforcamento, entremos na parte mais interes- sante do assumpto. A compressão dos nervos e, notadamente, a dos vasos que até bem pouco tempo gosava um papel de segunda ordem no enforcamento, hoje, de accordo com os progressos scientificos modernos, e com as operações experimentaes feitas por operosos scientistas, como Minovici, Hofmann, Brouardel e outros, é de transcendente importância para a explicação do modo por que se dá a morte por enforcamento. Para affirmar o que acabamos de alludir, basta ijue nos lembremos dos enforcamentos incompletos i4 em que a compressão do tubo aereo, outr’ora o principal factor da producção da morte, é minima, e, portanto, incapaz de, por si só, concorrer para o desfecho fatal do suicídio; também devemos, para corroborar a nossa asserção, mencionar os casos de enforcamentos incompletos onde extensas partes do corpo attingem o sòlo ou moveis sobre os quaes permaneça. Nestes casos, se o indivíduo não se. salva é porque a perda do conhecimento, devido a anemia cerebral, segundo Minovici, o impossibilita. Este mesmo auctor observou casos, nos quaes houve rompimento do laço, e que, não este incidente, os indivíduos permaneciam por terra, mortos, em conseq. teia, portanto, da com- pressão dos vasos cervicaes acarretando, para o lado do cerebro, desordens que impediam o bom funccionamento do encephalo. As perturbações que soífie o cerebro em suas funcções com a compressão dos vasos do pescoço, são, de ha muito, conhecidas; e, para explicar esta compressão i os enforcamentos,' basta ter- e em consideração a disposição anatómica destes vasos. O celebre cirurgião francez Louis, insistindo sobre o valor da compressão vascular, dizia que a morte provinha de uma apoplexia cerebral, devida i5 á occlusão das veias jugulares e, consequente- mente, da parada da circulação de retorno. Hofmann, dando muito credito ás idéas de Louis, que tinham sido olvidadas por algum tempo, fez algumas experiências que lhe deram as seguintes conclusões: uma pressão de 2 kilogrammas é sufficiente para impedir a passagem do sangue nas veias jugulares; uma pressão de 5 kilogrammas é capaz de obstruir as carotidas; 15 kilogrammas obliteram a trachea; e 30 determinam a obstrucção dos vasos vertebraes. Nestas experiencias, o nó do laço estava em relação com a nuca; mudando-se sua posição, isto é, ficando o nó em contacto com as partes anterior ou lateraes do pescoço, estas pressões, como é muito intuitivo, variam, conforme observou experimentalmente Nicolas Minovici notando, to- davia, que, quasi sempre, para a obstrucção dos vasos da região carotidiana, na posição a que nos referimos, ha pouco (laço corredio em que o nó corresponde a nuca), pressões menores eram suffi- cientes para occasional-a. Não nos sendo possível a citação de todos os ensaios experimentaes, relativos ao aperto do pes- coço, limitamo-nos a lembrar os que nos parecerem mais convenientes, ao nosso modo de ver. Descoust e Lévy, por meio de trepanações, de antemão preparadas, conseguiram verificar, como sendo facto inicial, a parada da circulação cerebral e que a syncope era immediata á occlusão das 16 carotidas e das vertebraes, e mais tardia, quando estas ultimas, em virtude da sua protecção pelas apophyses das vertebras cervicaes, deixam o san- gue continuar, ininterrupto, o seu curso. No enforcamento a importância que se deve attribuir á compressão desses vasos é de maxima relevância; mesmo porque ha muita rapidez, na transmissão, para o cerebro, das perturbações de qualquer natureza, que soffre a circulação cerebral. O curso do sangue, diz Hofmann, é rapidamente detido no cerebro; e, como este reage immediata- mente sobre as alterações de nutrição (oxydação), é natural que d’ahi provenha um symptoma que é, ás mais das vezes, representado pela perda de conhecimento. «F interessante saber, pergunta o professor Soutza, se sobre o ponto de vista physiologico, os accidentes mortaes observados na asphyxia dependem da falta de oxvgenio ou do acçumulo de anhydrido carbonico nos differentes tecidos». Sendo a falta de oxvgenio e o excesso de anhy- drido carbonico phenomenos que possuem ligações estreitas, a resposta, segundo Minovici, é diíhcil. Não ignoramos que, a este respeito, os physio- Aogistas, divididos em dous grupos, criminem, não só o accumulo de anhvdrido carbonico, como a ausencia de oxvgenio: o facto é que, não se effectuando a circulação de retorno pelas jugulares, porque estas se acham impermeáveis, e sendo os vasos vertebraes de calibre diminuto, não havendo, i7 por esse motivo, immediatamente, completa cir- culação collateral, o sangue torna-se hvper-venoso e, por isso mesmo, nocivo ao mais nobre dos nossos orgãos. De experiencias que Nicolas Minovici fez em si proprio e em pessoas outras, observou elle, e foi-lhe referido, que pela compressão dos troncos vasculares ao nivel do osso hyoide e do larynge, em menos de quatro segundos, o seguinte: um véo parece antepor-se aos olhos e a vista principia a diminuir até attingir ao obscurecimento; este symptoma precede ao phenomeno da perda de conhecimento que ninguém, experimentalmente, a elle chegou; e nem assim poderia deixar de ser, sob pena de pagar-lhe ò tributo, talvez oneroso e fatal—a morte. Depois de lermos a obra d’este insigne medico-legista de Bukarest, tivemos ensejo de, embora com grande receio, observar, em 5 segundos, os phenomenos acima descriptos. Ao retirar-se os dedos, sente-se como que uma queimadura e um peso, comparáveis a um formiga- mento, se estender da região occipital aos dedos dos pés. O que temos dito sobre a compressão dos vasos cervicaes, nos enforcamentos incompletos, isto é, naquelles em que os pés, pernas, côxas, região pélvica e tronco, não incluindo as espaduas, ou qualquer destas partes está em contacto com o solo ou outros objectos, diminuindo, por essa razão, a pressão sobre a corda, nos enforcamentos incom- iB pletoS, dizemos, e a compressão dos vasos quâsi que o unico factor determinante da morte. A não continuação da respiração, a quem, em tempos idos, davam os foros de principal causa determinante e talvez unica da morte por enforca- mento, tem hoje também o seu valor, mormente nos enforcamentos completos, onde observamos, cóntinuadamente, a constricção do tubo aereo em sua parte superior. Sem querermos citar as experiências realisadas cm cádaveres por Tourdes e Yibert, aliás compro- batorias da alta importância da occlusão das vias respiratórias, nos contentamos em dar os resultados de investigações feitas por Brouardel em coelhos, e que constam da seguinte conclusão: um coelho tracheotomizado e submettido ao enforcamento, perece depois de vinte minutos de suspensão, em quanto que um outro, no qual não se procedeu a semelhante operação, morre num espaço de tempo muito menor, isto é, seis minutos. De accordo com todos os auctores, diremos que podem existir numerosos casos fatacs, sem que para isso concorra a completa obstrucção dá trachea, e, segundo mesmo observação pessoal de Faure, havendo somente reducção, a metade do seu volume. Minovici diz que, nem sempre, ha necessidade T9 do peso correspondente a quinze kilogrammas para obturação completa da trachéa. Como prova d’esta asserção, elle invoca o teste- munho de experiencias feitas em sua pessoa; estas foram executadas da seguinte maneira: a corda passando acima do osso hyoide (garante Minovici que nesta condição não ha perigo nas experimen- tações) onde, devido ás partes molles ahi existentes, o laço recalca para traz a base da lingua, appli- cando-a de encontro ao íundo do pharynge, im- pede a passagem do ar atravez da glotte. O peso necessário para a producção do pheno- meno asphyxico, nas condições acima descriptas, é egual a cinco kilogrammas. Parece-nos que a corda de diâmetro pequeno, e sob menor peso que o exigido por Minovici, con- corre mais facilmente para occlusão* tracheal e vascular. A compressão do nervo pneumogastrico, situado em grande parte de seu trajecto no pescoço, tem sido considerada por alguns scientistas, se bem que exageradamente, como o principal factor deter- minante da morte. Tanhofer, medico legista em Buda-pest, com outras auctoridades na matéria, observando nas exe- cuções penaes os batimentos muito fortes do cora- çào, a principio, e logo depois o seu relaxamento e consequente parada, experiencia muito observada nos exames physiologicos do pneumogastrico com a excitação, deu como causa principal da morte a compressão deste nervo. Em 1870, Waller, por meio de experiencias em animaes, verificou uma anesthesia completa do corpo, consecutiva a um enforcamento e que foi tida por Broualdel como consequência natural da syncope. Sendo a compressão do nervo a causa essencial da morte por enforcamento, deduz-se que, no caso de sua compressão e da não compressão dos vasos e trachéa, a morte é immediata ao acto constrictor; mas, a pratica tem-nos demonstrado ao contrario. Deixamos de citar as muitas experiencias reali- zadas, n’este sentido, por muitos scientistas, para não cançarmos a benevola attenção do leitor. Levando-se em consideração a disposição que teem, Lesta região, a veia jugular interna, carotida primitiva e nervo tri-splanchnico, onde são encon- trados envoltos em uma mesma porção de tecido cellular frouxo, constituindo o feixe vasculo-nervo- so da região carotidiana,estando o nervo por detraz dos vasos, não se póde dar valor egual ao empres- tado por Thanhofer na compressão nervosa: que- remos crer que ella se dê, porém, num grão menor que a dos dous vasos que lhe são antepostos. Com estas noções anatomo-topographicas ex- plicamos, com Nicolas Minovici, o incidente noti- ciado por Tanhofer, do estudante que, procurando comprimir os seus pneumogastricos com os dedos 21 e com a inspirada intensão de uma experiencia physiologica, cahiu com perda dos sentidos e sem pulso: não nos parece possível que o pobre estu- dante tenha attingido a tal resultado, com a compressão exclusiva do pneumogastrico. Alguns auctores têm-se lembrado da compressão do nervo laryngeo superior que, produzindo a asphyxia, concorreria para apressar a morte.. Dous factos, comtudo, podem demonstrar o compromettimento do nervo vago no enforca- mento; a aphonia nos enforcamentos falhos e uma congestão polmonar com pequenos fócos apo- plecticos. Em conclusão diremos, estribados que somos na opinião dos melhores autores, que a compressão dos tri-splanchnicos gosa um papel de somenos valor, o que faz collocal-a a um plano de terceira ordem. Devido ao desejo altruistico e louvável, ao mesmo tempo perigoso, de bem servir a sciencia, certos indivíduos, com o risco de sua própria vida, teetn experimentado um auto-enforcamento, obser- vando, então, o que se passa antes do periodo da perda dos sentidos. Não esqueceremos de citar d’entre muito desses martvres da grande causa, os nomes de Fleichmann e de Njcolas Minovici. Para methodizar o estudo, os auctores têm divi- dido em tres periodos o lapso de tempo comprehem 22 dido entre o momento em que o corpo, amarrado pelo pescoço e ligado a um ponto de ordinário lixo, é entregue ao seu proprio peso, e aquelle em que a morte vem como fatal desfecho. Estes periodos são: i.° Periodo; anesthesia com perda de conhecimento. 2.0 Periodo; convulsões com espasmos e contracções musculares. 3.0 Pe- riodo: asphyxia, morte apparente seguida de morte real. i.° período.—Este é de todos os periodos o em que são melhormente conhecidas as sensações dos enforcados, porque, bem o supportam os auto.-ex- perimentadores sem a perda do conhecimento. Os symptomas aqui são observados na seguinte ordem chronologica: vermelhidão da face, che- gando, algumas vezes, á cyanose (o que se vê com maior frequência quando a obliteração de todos os vasos cervicaes não se faz, em vista do não contacto com toda a circumferencia do pes- coço); sensação de calor no rosto; sibilos nos ouvidos seguidos, em determinados casos, de perda da audição; perturbações na vista com appareci- mento de luzes fugitivas; um peso do corpo que parece ser duas ou tres vezes maior, e que, desde os primeiros momentos/exerce sua acção no nivel do pescoço, onde se faz sentir a constricção, e finalmente, a perda do conhecimento. Em consequência deste ultimo phenomeno, 23 dêduz-se que no enforcamento, como em algumas mortes asphyxicas, ao inverso do que se dá em outros suicídios, não existe instincto de conser- vação. Numerosos são os factos que corroboram o que acabamos de dizer. Como já tivemos opportuni- dade de ver acima, Minovici refere casos em que a corda se parte por causa das convulsões e os indivíduos morrem, não pela queda, mas por falta do instincto de conservação. Tem se verificado também casos em que o sui-y'* cida conserva as mãos entre o laço e o pescoço, o que, com certeza, prova que houve intenção de se salvar, mas, não poude haver execução. Minovici, em ■ uma de suas experiencias, por imprudência, ou por esquecimento de um de seus . auxiliares, ia sendo victima de tal desastre, porque, na occasião em que desceu, não foi desatado im- mediatamente o laço. Em quasi todos os auctores que temos consul- tado, vemos e nos são referidos, os casos de insensibilidade, em virtude da rapida perda de conhecimento que advém no fim deste periodo. Apresentam elles, como argumento de máximo valor, a confissão das victimas de enforcamento falho em que dizem não experimentar a sensação dolorosa. Minovici, um dos auto-enforcados, que no caso merece a summa confiança dos que o ouvem, prova que esta atfirmação é destituída de verdade, H porquanto, elle, em suas experiencias de enforca- mento completo, teve atrozes que im- pediram a continuação de suas provas. Dá-nos, ainda, outra razão também importante, confirmando sua opinião nos seguintes termos:«é sabido que na maioria dos casos ha amnésia quanto aos factos que precedem e seguem ao enforcamento; sendo assim, como é que pessoas salvas podem, pelo interrogatório ulterior, mani- festar-nos as dores soffridas no acto do aperto do pescoço, por suspensão?» Achamos justissimos estes motivos fornecidos pelo illustre medico de Bukarest, mesmo porque, em muitos casos desta ordem, existem no pescoço, região de sensibilidade tão delicada, excoriações e muitas outras fontes de dores. O Dr. Léonce Verse, em sua these sobre «Lrt Pendaison incornpJéte ou ratce», obra que, pelo titulo, traz-nos a duvida da boa comprehensão do auctor sobre a especie, assignala dores e refere-sc ao facto de que os ataxicos submettidos ao trata- mento por meio da suspensão, se queixam de dores na nuca c no occiput, após o acto suspen- sivo. Também se verifica nos enforcados salvos, lesões que só podem denunciar que, no acto da suspensão, houve manifestação dolorosa, como sejam as deglutições difficeis que a isto se seguem. Abramos um ligeiro parenthesis para mencionar o que se passa em relação aos enforcamentos falhos. 25 Enforcamento falho é todo aquelle em que, por circumstancias muito independentes da vontade ou do poder da victima, cila é tirada das podero- sas garras da morte. Os signaes commummente observados n’esta especie de enforcamento sào os seguintes: perda de memória, convulsões, perturbações psychicas que se manifestam por estados de excitação ou de depres- são acompanhadas, algumas vezes, de confusões mentaes. Estes signaes são ordinariamente ephemeros e raramente tornam-se prolongados de maneira a trazer, como consequência, o enfraquecimento da intelligencia. Todavia, alguns auctores mencionam o lacto da cura de perturbações psychicas por tentativas de suicidio (Wagner, Féré e Bréda, Wite, Pick, Wolf, Platanow e Leonce Verse). Logo que um enforcado se salva, verifica-se que o paciente não se lembra do que oecorreu durante o enforcamento; do que precedeu ao acto de vio- lência e, as vezes, até de factos succedidos muito antes (amnésia, retrograda). Em certas lesões, auctores, como Belin, dizem existir este phenomeno amnésico; taes são a epilepsia, a commoção cerebral, a intoxicação e mesmo o afogamento. Estudados, rapidamente, os signaes existentes num enforcado salvo, prosigamos na verificação do que se desenrola no primeiro período. 26 Até certa epocha se acreditava que a pessoa sujeita ao enforcamento experimentava sensações voluptuosas e, hoje, ainda reina esta crença no espirito popular. Brouardei diz que é provável este facto ser originário do seguinte: «Em 1572, Guion, medico francez, confessa ter assistido ao enforcamento penal de quatorze negros, dos quaes nove tiveram erccção durante o supplicio». Já antes de Guion, Zacchias, Paré, Morgagni c outros, tinham verificado, em caso semelhante, ejaculações e até erecções. Devergie considera este phenomeno como vital. Actualmente está ractificado que as ejaculações e erecções podem apparecer, mas, somente post mortem e que, portanto, todo esse quadro tão narrado de sensações voluptuosas, não passa de ligeira imaginação. Graerne, medico inglez, foi chamado para dar sua assistência a tim velho que, tendo se enfor- cado, foi salvo, em tempo, pelos visinhos. Este homem tinha ouvido dizer que aquelles que se enforcavam, haviam de experimentar volu- ptuosidades, e, como elle não mais sentisse tão sonhado prazer, porque os longos annos já lhe haviam arrebatado o vigor da mocidade, tentou pol-o em pratica, por esse meio. Por infelici- dade sua, este systema lhe não deu o resultado almejado, por quanto, declarou, com profundo pezar, que não sentira o menor prazer. 2 7 2.° período.—Este periodo que, pela enscena- ção estrepitosa das convulsões, impressiona mais sensivelmente o observador, é também denomi- nado convulsivo. Elle se caracterisa por contrac- ções musculares e espasmos que têm sido assignalados no genero humano por aquelles que assistiram a execuções penaes nos paizes em que o enforcamento era mantido como exe- cução da condemnação á morte. E’ também de uso, entre esses povos que executam a pena de morte por esse meio, vendar o rosto do condemnado para evitar a penalisação dos circumstantes, conta-nos a histo- ria medico-legal. Na ilha Mauricea, diz o Dr. Pellereau (De la peiidaisofi dans les pciys chauds), a cabeça do con- demnado ê coberta por um capuz negro; seus joelhos e punhos são ligados por um laço, e, depois dc atada a corda ao pescoço, deixa-se cahir o paciente de uma altura de oito pés, fi- cando completamente suspenso. As convulsões seguem-se immediatamente á perda dos sentidos. Inicia-se a convulsão pelos musculos do rosto e das orbitas, e depois vêm as convulsões dos membros superiores seguidas,emfim, dos membros inferiores. Os condemnados e reclusos á detenção de 28 Mazas, não encontrando outro meio de pôr termo á existência que os amargurava com as tor- turas quotidianas, recorriam ao enforcamento; e, como não dispuzessem de meios fáceis para a realização de seus desígnios (caibros, travessas no tecto, etc.) suspendiam-se por meio de laços á alguma saliência da parede, ou á porta das cellas que lhes apontavam o fim de uma vida miseranda. Porém, devido ás convulsões, principalmente dos membros, havia um certo rumor que Brou- ardel comparou ao rufar dos tambores, e que, por isso, perseguidos pela guarda,- tentavam os suicidas abafal-o com pannos de toda a espe- cie, adrede preparados, para diminuir os choques. Também é fácil provar-se que, na maioria dos casos, existe o periodo convulsivo, pelo modo porque se encontra, em completo desar- ranjo, os objectos que se achem proximos do enforcado, devido ao arremesso convulsivo que os prostra ou os quebra; pelo estado do corpo com a queda consequente do quebramento da corda ou do arrancamento do ponto ao qual se ligava o corpo pelo laço, que tudo se observa Teste momento doloroso cm que falta o ins- tincto de conservação e as convulsões começam a triste scena da morte. O enforcamento completo ou incompleto, como as moléstias, nem sempre, apresenta os mesmos symptomas, diz Minovici. Quer-nos 29 dizer o valoroso scientista que ha alguns casos onde não se manifesta o espasmo convulsivo; e dá-nos então um exemplo d’esta asserção, apontando-nos um individuo, que, sendo visto com um laço ao pescoço e suspenso ao galho de uma arvore, tinha uma das mãos collocada em um outro galho, a maneira de quem segura levemente um objccto. Nesta posição, não se pode admittir á exis- tência da phase convulsiva. E para tal excepção, diz-nos Minovici que a omissão do periodo convulsivo não mais significa que uma morte por inhibição. Tivemos occasião de levar de vista o que acaba de ser descripto, em cães por nós submettidos ao enforcamento completo, em presença de pessoas outras interessadas no bom êxito da experiencia scientifica. Assim é que uma observação curiosa nos prendeu a attenção: terminada a phase con- vulsiva de uma cadella que conseguimos enforcar, presenciamos a contracção com endurecimento, durante trinta segundos, dos membros anteriores, e a completa relaxação dos posteriores, que, cfesta forma, permaneceram. 3-° período.—Morte apparente ou periodo as- phyxico—taes são as denominações deste periodo que precede immediatamente á morte real. 3^ Nos casos de enforcamento em que as victimas são surprehendidas nesse periodo, dizem os auctores que o observaram e experimentaram, pode haver possibilidade de salvação, e, por isso mesmo, é chamado de morte apparente. E’ neste periodo que se tem verificado a emissão de urinas, de fezes, e até de esperma. Eis ahi um facto que, afòra o accumulo de discussões que tem provocado, chama, de feito, muito a attenção do perito ou de quem se dedique ao estudo medico-legal. Minovici conta-nos que, em sua estatística de cento e trinta e seis casos (136), apenas, dous manifestaram os phenomenos acima referidos. Outros auctores dão proporções pequenas em suas bem confeccionadas estatísticas, e alguns outros, como Tardieu, Brouardel e Hofmann, negam o facto, estribando-se em resultados numéricos. Em nossas poucas observações tivemos ensejo de verificar o escoamento completo da urina e o accumulo de fezes na parte inferior do recto, apenas, sustadas em sua marcha por um estado de semi- relaxação do esphincter anal externo. No enforcamento do celebre salteador Lucas da Feira, sobre quem já nos referimos com al- guma fidelidade histórica, e muito rancor pela historia dos seus feitos, foi observada a emissão de urina, como nos confirmam os documentos, sobre o facto, existentes. Pensa Minovici que se deve collocar essas emis- 3i sões involuntárias no segundo periodo; e, neste particular, estamos de pleno accordo com o abalizado medico-legista, porquanto chegamos a observar o escoamento de urina antes de termi- nada a phase convulsiva. E muito variavel o espaço de tempo necessá- rio á morte por enforcamento. De accordo mesmo com a complexidade de causas que cercam e antecedem o phenomeno da morte por enforcamento, devido mesmo á maior ou menor resistência individual baseada na força organica que têm certas pessoas sobre outras, devido ainda á disparidade dos perio- dos no modo porque elles se nos apresentam ou fogem á nossa attenção, não se pode, ao certo, dar uma media segura, sobre o praso má- ximo da morte por enforcamento. Entretanto, somos que, talvez devido á deli- cadeza organica, e á sua maior complexidade, o homem morre mais depressa, em taes casos, que quaesquer outros animaes; e ha mesmo quem avance a determinar, um espaço de tempo correspondente a oito minutos, para a morte de um indivíduo a enforcar-se. Em as nossas experiencias, se bem que em limitado numero, conseguimos calcular este tempo em pouco mais de nove minutos. 32 Vejamos, agora, alguns casos de sobrevivência. Bruhier narra-nos os dons casos seguintes; uma mulher executada em Oxford, a 14 de Dezem- bro de 1850, apezar das violências, sobre ella, exercidas pelo carrasco, sobreviveu após uma sus- pensão durante 30 minutos. Um ladrão poude viver ainda, depois de uma suspensão que durou vinte e cinco minutos. O Dr. Sikor assistiu em Raab, na Áustria, a um enforcamento penal. Depois da execução, oito minutos, elle não percebeu òs batimentos cardiacos; continuou ainda suspensa por tres minutos a victima. Declarada morta, esta é tirada da forca e collocada no carro de transporte para o Instituto anatomico, depois de atravessar ruas de péssimo calçamento. Na occasião da retirada do cadaVer do carro para a meza de dissecção, se notou que não havia um cadaver c, sim, um indivíduo abatido e maltratado pelas violências do enforcamento. Informou-se ao ministro austríaco o occorrido, e tratou-se do emprego dos meios de salvação; mas, esta não foi alcançada, w totmn, porquanto, vinte e duas horas depois, falleceu de uma con- gestão pulmonar, justamente quando a resposta do ministro decidia da sua sorte. Um outro caso mais interessante,ainda, occorreu em Boston. Os Drs. Clark, Ellis e Schaw exami- nando o coração de um enforcado, que permaneceu suspenso durante vinte e cinco minutos, declararam que elle não se contrahia, pelo que, retiraram da 33 forca o executado; mas, trinta e seis minutos decorridos da terminação do acto suspensivo, sentiram movimentos regulares na veia sub-clavia, e, pela auscultação, chegaram a contar oito bati- mentos cardíacos, por minuto. Investigadores como são os norte americanos, não mais trataram da salvação e sim da origem de tal accidente, pela autopsia. Esta curiosidade não foi satisfeita, porque os batimentos diminuíram até o desapparecimcnto total que se cflectuou •quando terminavam a autopsia, isto é, tres horas depois. Tendo em vista osdous casos citados, Brouardel affírma-nos que—a duração do enforcamento c tão variada que é quasi impossível determinar, mesmp approximadamente, o tempo durante o qual um inlhviduo permanece suspenso, para que a morte cfellc se apodere. ■ ■ E ahi está porque não podemos accrescentar, depois de taes observações e de valiosos conceitos, um ceitil sobre o praso medio da morte por enforcamento. CAPITULO II Tlianaíoscopia do enforcamento m ' . (W estudo thanatoscopico no enforcamento será dividido em nosso desvalioso trabalho em—exame externo, constituindo o que se deno- mina inspecção cadavérica, e em —exame interno ou, mais restrictamente, autopsia. Inspecção cadavérica.—Não devemos somente nos concentrar na simples analyse ocular do sulco existente nos casos de enforcamento; porquanto, a simpleza de tal exame não revela, muita vez, o mysterio de algum homicídio, contra o qual nos obrigamos, por amor a ethica profissional, a auxi- liar a sociedade para o desforço de uma affronta recebida. Os signaes de violência que, por ventura, se nos apresentem em taes cadaveres, merecem da nossa parte a maxima attenção; porque, se ao medico perito elles podem traduzir uma tentativa crimi- nosa, anterior ao acto fatal da suspensão, podem significar, o que é commum em casos de tal morte, os choques do corpo no periodo convul- )6 sivo contra outros corpos solidos que lhe cercarem no momento derradeiro. Além da verdade theorica que encerra esta nossa asserção, tem ella um valor pratico, por isso que alguns observadores têm verificado taes signaes em cada veres de suicidas. Tourdes conta-nos o caso de um indivíduo que se enforcara em um pinheiro, apresentando, por esse motivo, em seu corpo, grande quantidade de picadas provenientes dos espinhos desta arvore no referido periodo das grandes convulsões. Brouardel, em sua obra- La Tendaison, reíere-se ao caso de uma mulher que havendo se enforcado com um fio, este lhe havia produzido profunda incisão no pescoço, conforme o seu concei- tuado exame. A outro, que não Brouardel, pudera parecer uma violência criminosa com um instrumento cortante, exercida contra a victima antes de sua morte. Eis ahi dous casos, onde a delicadeza de uma pericia pode resolver tão complexo problema que, a muitos, podia passar sem a devida valorização medico-legal. São muito frequentes as excoriações nos membros, principalmente no dorso das mãos e parte anterior das pernas. Com a permanência do cadaver na posição ver- tical formam-se as hypostases nas partes declives 37 dos membros inferiores, e no mesmo nivel nos membros superiores. A intensidade da cor que apresentam as hvpos- tases, depende, em geral, do grande espaço de tempo decorrido na suspensão. Muitas vezes, os capil 1 ares da pelle, não conse- guindo supportar o sangue abundantemente accu- mulado, rompem-se, dando origem a ecchymoses que não são mais do que um conjuncto de hemor- rhagias punctiformes. Minovici, o grande martyre abnegado scientista, considera-as como producto de um phenomeno post mortaii. Após estes primeiros exameS da inspecção cada- vérica, provoca-nos a um exame a curiosidade da rigidez que apresentam taes victimas, em praso curto, relativamente ao estabelecido para este phenomeno nas outras especies de morte. E’ corrente em matéria medico-legal que a circumstancia geographica ou climatérica influe, substancial mente, para o maior ou menor aprasa- mento da rigidez. Sutze diz-nos que nos paizes trios ella, e, consequentemente, a putrefacção acce- leram-se, apezar do clima, com a apparição das convulsões. Pellereau, que levou de vista varias execuções penaes nas colonias francezas do sul da África, affirma-nos que nos paizes tropicaes, a rigidez dos enforcamentos é rapida. 38 Vejamos, agora, em particular, como se nos apresenta o fácies do enforcado. A coloração do rosto do cadaver tem intima dependencia com as posições e a forma do laço que contorna o pescoço. Commummente, quando o laço da corda está em contacto com toda a circumferencia do pes- coço, ou mesmo quando elle comprime as suas partes anterior e lateraes, o rosto se nos afigura paUido; ao contrario, torna-se congestionado, quando o nò da corda está em uma das partes lateraes do pescoço. Pelo que acima dissemos, quando tractamos da parada da circulação, se deduz que a pallidez ou congestão do rosto cadavérico é consequência immediata da occlusáo de todos ou de alguns dos vasos cervicaes. A relação existente entre a posição do laço e a congestão ou pallidez do rosto é tal que a expe- riencia do grande professor Brouardel manda-nos desconfiar de todo o cadaver de face congestio- nada, tendo o nò do laço correspondente a sua nuca, E’ que a argúcia do emerito professor não pode admíttir que se tracte de um enforcamento, mas, que se deve acreditar na probabilidade de um caso simulado. Ao .encontro de Brouardel vem Casper 39 affirmando que a constituição individual davictima é quem dita a hyperemia ou anemia da face. O Dr. Fritz Reuter confirma, com estatísticas, que, geralmente, a. congestão do rosto é um phenomeno raro; e Nicolas Minovici conseguiu verificar em suas observações de 136 casos, 23 enforcados de rostos congestionados. Nota-se, em grande numero de casos, uma cyanose limitada ás orelhas; e diz-nos Minovici não haver correlação entre esta cyanose e a do rosto, em virtude d’elle ter observado um indivíduo enforcado com o rosto pallido e as orelhas cyano- sadas. Os lábios em alguns enforcados tornam-se cyanosados, e trazem em seus bordos numerosas e pequenas ecchymoses; e o emerito medico legista da Rumaniá teve o ensejo de provar em suas observações de enforcamento, nove casos de cyanose labial, e dous com ecchymoses pro- nunciadas. Ha um facto curioso que, as vezes, se encontra nos casos de enforcamento: queremos nos referir a espuma quasi sanguinolenta que permanece na bocca e entre os lábios. Hofmann, querendo dar uma explicação ao phe- nomeno, acredita que a espuma seja proveniente da expulsão de saliva, por pressão das glandulas sub-maxillares que, nessa occasião hyper-secretam; em virtude dos movimentos convulsivos a saliva se transforma em espuma que, encontrando 4o qualquer porção de sangue oriundo de alguma erosão, adquire a côr avermelhada, observada commummente. Brouardel, não achando base na explicação pre- cedente, diz-nos que a espuma vem dos bronchios, em vista de haver igualdade entre ella e a desses tubos que continuam a trachéa; sobre o facto da côr sanguinolenta, Brouardel não tenta nenhuma explicação, talvez porque sejam múltiplas e de pequena importância, as suas causas occasionaes. A opinião do conspicuo professor de Paris é verdadeira na maioria dos casos, isto é, n’aquelles onde a morte não é instantanea. Podemos ainda accrescentar que, em grande numero de casos, não se dá a occlusão completa do tubo trachçal. Dissertando sobre o assumpto, alguns auctores, taes como Morgagni, \’asalva, Wilne, Taylor, Lannois, etc. têm assignalado hemorrhagias nasaes, otorrhagias, rupturas e ecchymoses do tympano. Nicolas Minovici especialmente, por diversas vezes tem notado ecchymoses sobre os doustym- panos, e, numa de suas observações, assignalou uma vez a presença de uma otorrhgia esquerda. Auctores outros, como Legroux e Gellé, presen- ciaram ecchymoses na membrana tympanica de certos cães que elles os submetteram a prova expe- rimental. Para a comprehensão deste ultimo phenomeno, teem surgido na arena scientifica diversas opiniões 41 algumas das quaes somos levados, por amor a cla- reza, a trasladal-as para o nosso trabalho. Dando-se um caso de enforcamento, a lingua da victima ò recalcada para cima e pode, por isso e em virtude da disposição das trompas de Eus- tachio, chocar, de encontro a membrana do tym- pano, o ar, trazendo em consequência a ruptura. A esta hypothese de Zanfal, oppoz Hoímann o seguinte argumento: se assim succedesse as duas membranas se rasgariam, não acontecendo'o que commummente se observa, isto é, a ruptura so- mente de uma d elias. Wilde aflirma que o despedaçamento da mem- brana tympanica pelo mecanismo idealisado por Zanfal não merece acceitação, porque o ar deslo- cado pelo recalcamento brusco da lingua encontra as. vias nazaes por onde se precipita. Politzcr e Trautmann, attrituindo este pheno- meno á queda'do cadaver, querem nos dar uma explicação também plausível de um accidente post moí tem. O facto é que não se chega a uma solução satisfa- ctoria do problema medico-legal; havendo, todavia, quem conceba este phenomeno como denunciador de uma suspensão do indivíduo em vida. Estes signaes últimos, por nós alludidos, não foram encontrados nos exames feitos nos animaes de nossos ensaios experimentaes. Para o lado do apparelho vizual, tem-se obser- vado exorbitismo, e, algumas vezes, ecchymoses 42 nas pálpebras, conjuilctivás, e carunculas lácri- maes. O exorbitismo que se traduz pela propulsão de traz para diante do globo ocular, tem sido assi- gnalado por muitos auctores. Entre nós, se tem verificado chemosis, como aconteceu, não ha muito, em um caso de observa- ção do Dr. Octaviano Pimenta, medico legista da policia da nossa capital, em um exame cadavérico procedido numa mulher enforcada no mez. de Abril ultimo. Adilataçào pupillar foi averiguada por Tourdes que lhe emprestou alto valor, secundado por Mi- novici, assim como em muitos casos as palpebras têm sido encontradas entre-abertas. Não nos extendemos sobre este ultimo assumpto, relatando com minudencia a observação de Etienne Martin seguida de outras observações de Minovici, por considerarmol-o, de accordo com os profes- sores Brouardel e o. proprio Minovici, commum a todos os generos de morte. Comtudo, não omittircmos a origem desses phenomenos que, segundo Etienne Martin, é a compressão ou a alongação do nervo svmpathico que por sua vez resulta do peso do corpo no acto suspensivo. Etienne Martin considerava a dilatação pupillar como um signal certo, ou, pelo menos, muito provável do enforcamento em vida.; e chegou ao. ponto de lhe reconhecer a importância da 45 ecchymose retro-pharyngiana e da Iesào de Amussat. Antigamente, tinha-se como certa a proemi- nência da lingua, nesses casos. A lingua ou está em sua posição normal, ou entre os dentes ou, ainda, na posição em que os auctores antigos, como Paré, a consideravam, isto é, procidente, excedendo para diante as arcadas dentarias. A rasão destas varias posições ainda não encon- trou explicações cabaes. Conforme alguns auctores, a sabida da lingua relaciona-se com a posição do laço. Somos de parecer que a posição da lingua só depende do laço, quando este está collocado acima do osso hyoide, porque, se tem averiguado que Cestas circumstancias, sempre a lingua está recalcada para cima e para traz, arrolhando o pharynge. Fleichmann procurava interpretar as collocações diversas da lingua, pela maior ou menor rapidez da morte. Um tacto está hoje quasi unanimemente appro- vado em medicina legal:—é que a procidencia (noscasos em questão) é um bom indicio de que não houve simulação de enforcamento; pensa-se ser isto uma consequência do estado convulsivo. Não devemos ligar muita importância a sabida da lingua nos casos em que a putrefacção se acha adiantada; porque, este phenomerio não é peculiar ao enforcamento, e, sim, comimim aos outros 44 generos de morte, como, por exemplo, á sub- mersão. Tem se provado feridas sanguinolentas em linguas de enforcados, signal de grande valor para o perito. Nos enforcamentos que tivemos occasião de realisar com certos cães, não tivemos ensejo de demonstrar o procidencia da lingua. No exame externo do pescoço, devemos empe- nhar a maxima attençào, porque, n’elle encontra- remos um dos signaes mais caracteristico d’essa especie de morte suicida: é o sulco ou a impressão deixada pelo objecto de que lançou mão a victima para terminar o tirocínio de sua amargurada existência. Ha uma cousa que nos parece real nos enfor- camentos, principalmente nos completos, e só- mente o é para um limitado numero de obser- vações: é o alongamento do pescoço, como é corrente na pratica. Na maioria dos casos, não se ve este signal nos cn'orçamentos incompletos. No emtanto, as execuções penaes observadas em certos paizes, como na Inglaterra e no Brasil sob o dominio do antigo regimen, onde o enfor- camento era a pena capital estabelecida por lei, o carrasco, dependurando-se aos hombros do suppli- ciado, procurava augmentar o seu manyrio, dão 4) exemplos eloquentes de alongamento forçado do pescoço; como também naturalmente se verifica nos casos de enforcamentos demorados. Minovici que suspendeu cadaveres, deixando-os cahir pesadamente com o fim de separar a cabeça do tronco, apenas conseguiu o alongamento, em virtude do afastamento das vertebras, pelo abalo e mobilidade das articulações vertcbraes. O sulco do pescoço que tem sido considerado por alguns scientistas como signal pathogno- monico do enforcamento, mostra-nos somente, sem mais duvidas nem objecções, que houve suspensão do corpo. Para comprovar a asserção inconteste que allu- dimòs, ha outro argumento mais pratico e até experimental nos cadaveres que permaneceram pouco tempo em suspensão, em os quaes não se nota o pronunciamento do sulco. Hofmann diz-nos que não presenciou em todos os casos, a impressão, em torno do pescoço, do laço de que se utilisou o suicida ; Olivier (d’Angers) refere-nos o caso de um enforcado suspenso por io minutos, cm que o sulco desappareceu. Nòs, em uma experiencia feita em um cão que ficara meia hora suspenso, não encontramos p pronunciamento do sulco. Não é absolutamente propriedade do enfor- camento o sulco em torno do pescoço; ha casos 4 6 onde se veem recem-natos, e até adultos adi- posos, apontarem-n-o tào nítido como em os enforcados. Nas pessoas gordas mortas por quaesquer causas e# postas sobre um leito, formam-se sulcos, em vista da flexão da cabeça produzida, com- mummente, por travesseiros; todas as partes se apresentam cyanosadas, emquanto que o sulco existente entre as dobras permanece pallido, cir- cumstancia que pode perturbar o diagnostico de um medico inexperiente, na occasiao de attes- tar o obito. Nos recem-natos o engano pòde ser mais fácil, em consequência do adelgaçamento da pelle, a ponto d’ella, muita vez, apresentar-se com ero- sões. Os signaes do sulco como são de intima depencia da natureza especial do objecto que serviu de laço, podem, ipso facto, ter vários tvpos que muito difficultam a diagnose. Quando a corda circula o pescoço uma só vez, ha somente um só sulco; e, no caso de dous ou mais círculos, os sulcos serão tantos quantas as. voltas dadas pelo laço. Já que tractamos de caracteres do sulco, não olvidemos o interes*sante caso narrado por Tar- dieu: um indivíduo com o auxilio de um cinto de couro, de 24 millimetros de largura, cujos bordos eram salientes em demasia, enforcou-se: ora, sendo o sulco a. copia fiel da impressão 47 deixada péla corda, ou cousa que possa exercer funcção idêntica, é claro que, na observação lie Tardieu, existiam dons sulcos transversos capazes, portanto, de enganarem á mais intelligènte péricia. A sua profundidade está na rasão directa da pequenez do cliametro da corda e do peso do indivíduo. Como já nos referimos, ao encetar o estudo deste capitulo, tem havido casos em que se vê a pelle incisada pela corda. Outra circumstancia que muito concorre para a profundidade do sulco é o estado de lizura da corda que ordinariamente depende do tempo de serviço pela mesma prestado, ou da besun- tadella com substancias gordurosas ou sabão; já se vê que, íVestas condicções, o laço torna-se mais escorregadio, e, portanto, comprime, em gráo mais elevado, as partes molles exteriores do pescoço. A proposito, Minovici confessa-nos que em seu museu existem duas cordas, uma unctada com cêra amarei la e outra com sabão. Casos ha \em que o sulco está quasi desapda- recido, como acontece nos enforcamentos com tiras de panno largas e macias, lenços de seda, etc. Aqui, portanto, além da macieza do laço, existe a circumstancia da sua largura. Certos accidentes concorrem para a disconti- nuidade do sulco, taes como os dedos postos entre o laço e a pelle. Ha exemplos*de casos d’esta natureza. 48 Ha circumstancias outras que muito difficul- tam a visibilidade e clareza do sulco; como a barba, ou .outros impccilhos externos. Estas considerações de alta significação para a evidencia dos diagnósticos, devem estar pre- sentes na mente de todos os peritos que, deante de casos de certa gravidade, precisam manter, illesa, a consciência, e, salvo, o amor profissional. Tourdes tomando por ponto fixo o larynge, denomina o sulco de—superior, médio c inferior— segundo a limitação a cima, sobre, ou abaixo d’esse orgam. Os dados tirados dos numerosos auctores con- firmam a maior frequência do sulco superior, muito pouco do médio e finalmente do inferior. As estatísticas de Tardieu dão o seguinte resul- tado: de 141 casos, 1 17 apresentavam a impressão deixada pelo laço acima do lqrvnge; 21 sobre o larynge; e 3 abaixo. Hofmann verificou que em 159 enforcamentos, 127 enforcados tinham o laço collocado acima do larynge, 26 sobre o larynge, e 6 abaixo. Minovici em 136 casos de seus estudos obser- vou 98 vezes o laço na parte superior, 22 na media, e 16 na inferior. A rasão de ser da frequência extraordinária do laço collocado superiormente ao larynge é 49 fácil ser interpretada, tendo-se em consideração a mobilidade excessiva da pelle do pescoço; ainda o peso do corpo fazendo com que o laço, na hypothese de se achar sobre ou abaixo do orgam que encima a trachéa, se desloque para cima. Na estatística- de Hofmann, por nós ha pouco alludida, um dos enforcados que apresentava o laço abaixe; do Iarynge, possuia um bocio de volume capaz de estorvar a sua subida. Minovici dá como testemunho deste facto experiencias-em si, brilhantemente realizadas, e lambem sobre cada veres. Ger.almente a direcção do sulco no enforcado é obliqua, contrastando com a direcção horisontal do sulco na estrangulaçâo produzida por corda, como sc vc e como é , dc caracteristica diffe- rença. Expressamo-nos d’esta maneira, porque casos existem, onde a direcção é horisontal ou então a obliquidade do sulco é attenuadissima, im- possibilitando, ás vezes, a distincção; como, por exemplo, nos enforcamentos onde são passados duas ou mais vezes os laços cm redor do pes- coço (rfestas condicçõcs só é obliqua a volta, que se continua com a parte da corda inter- mediária ao pescoço e ao ponto fixo), ou nos incompletos em cpie apenas a cabeça e espa- 5o duas actuam sobre a corda no sentido da gravi- dade. Outra circumstancia pode ainda determinar a horisontalidade, pelo menos incompleta, do sulco, é a compressão exagerada do laço corredio. Conforme as numerosas posições do pescoço c da cabeça, este trajecto obliquo pode ser vol- vido para a direita, para a esquerda, para diante, para traz ou ainda, o que não é dilhcil, ser incli- nado a um plano antero-posterior passando pela linha mediana do corpo. Algumas vezes a corda pode abranger os dous terços anteriores da cabeça, de modo que passe sob o mento e por detraz das. orelhas, produzin- do uma direcção quasi vertical. O sulco pode ser completo, quando existe em toda a circumferencia cervical, chamado n’este caso typico, ou incompleto no -caso opposto, também denominado atvpico. Os sulcos da segunda cathegoria são mais abundantes, porque se os encontra também nos enforcados com laços corredios; é o caso de compressão imperfeita em que, do lado do nó, acha-se uma solução de continuidade. Comtudo, ha casos onde, 'Sendo completo o sulco, fica deprimido o logar da pellc em que actua o nó. 5i Já vimos, acima, as diversas causas que dão ao sulco um aspecto discontinuo, assim como já dissemos que a sua forma depende do laço com que foi efFectuado o enforcamento, de maneira a depararmos, algumas vezes, com sulcos con- tendo depressões e relevos absolutamente iguaes as cordas trançadas que aliás não são raras para o emprego do enforcamento. Acontece, não raramente, que o indivíduo, não obstante se ter utilizado de uma corda, fa- zendo-a com que circulasse o pescoço uma só vez, traz em sua porção cervical diversos sulcos: tal é, supponhamos, o que succede quando a victima, de posse de uma corda em quem não deposita confiança, em consequência da sua finura, dobra-a em duas ou mais voltas para reforçai-a propositadamente. Neste caso a pelle existente entre os sulcos differencia-se da pelle das impressões deixadas pela corda, não só pela côr, como pela presença, em seu seio, de ecchvmoses punctiformes em numero considerável e que presumem, como causa occasional da morte, o enforcamento. Minovici diz-nos que em suas 136 observações, só viu 17 casos em que o sulco era unico. Digamos algumas palavras sobre o que se deno- mina sulco pergaminhado. 52 O sulco è o 'signa! gravado 'pelo objecto de que se utilisou o suicida ou, raramente, o homicida para "a suspensão do corpo. A maior ou menor nitidez deste signal, dependente do diâmetro do laço, esta em .relação com o tempo de suspensão; depois de uma suspensão de quinze minutos, o sulco se nos afigura molle, anémico, esbranquiçado, cor que é, para logo, transformada em amarello, ao mesmo tempo que se effectua o endurecimento da pelle que lhe corresponde. Quando a compressão é longa e pronunciada, a pelle torna-se muito consistente, signal este que, por si sò, é susceptivel de a differenciar e distinguir de todo o corpo. Eis a razão por que se diz sulco perganiinhàdo "dos enforcados. O endurecimento que se nota na pelle do sulco deve ser proveniente do seu desseccamento. Uma cousa curiosa deve chamar bem a attenção da perícia no exame do sulco e que é, como já vimos, a mudança da coloração esbran- quiçada do principio, pela amarello-pardacenta, depois. Insistimos ifesse ponto, para trazer pre- venção ao espirito do perito que, em segundo exame um tanto espaçado do primeiro, pode arrastar uma controvérsia, aliás justa, sobre a colo- ração do sulco. Quer em um verdadeiro enforcamento, quer em um caso simulada, isto é, suspensão de um cada- ver,o sulco pode apresentar os mesmos caràctefes; 5 3 efn vista desta semelhança, Nevding manda se recorrer ao microscopio para iazel-a desapparecer. Este observador conseguiu presenciar em vinte e cinco casos dos trinta e dous que compunham seu campo de observação, pequenas extravasações, a quem dava grande importância, considerando-as como produzidas em vida: outros fizeram pes- quizas analogas, sob a direcção de Eimann, e notaram que estas extravasações microscópicas riem sempre se originavam durante a vida. Hofmann afiirma que ellas podem se produzir nos próprios cadaveres. Minovici concorda com a sua produção’ nos cadaveres, apesar de tel-as achado, com maior frequência, nos entorcameritos em os vivos. Eesser e Coutagne são accordes com Minovici; afiirmando o primeiro ter encontrado, entre as espiraes da corda, as extravasações sanguíneas. Alguns auctores, como Devergie, attribuem á congestão do bordo superior do sulco uma impor- tância excessiva, porque, dizem elles, ella procede de uma congestão cerebral, de uma estase venosa; por isso, para elle, esse phenomeno congestivo localisado no bordo superior do sulco, é produzido antes da morte. A congestão do bordo do sulco é devida a ptitrefacção, no modo de pensar de Brouardel. Tratando ainda do sulco, Minovici chama a attenção para o lacto seguinte; em sete enforcados sobre cento e trinta e seis, antes do inicio da 54 putrefacção, encontrou elle, tanto acima como abaixo da impressão deixada pela corda no pescoço, do mesmo modo que sobre a porção compre- hendida entre dous sulcos, uma serie de phlyctenas dispostas em cadeia (rosário) e cheias por um liquido de coloração citrina, e, cujo tamanho podia attingir á dimensão de um grão de milho. O professor Tourdes, assignalando a existência destas phlvctenas, está em plena harmonia com Minovici sobre constituírem ellas um signal de mais certeira prcfva da producção do sulco antes da morte, do que as extravasações e ecchvmoses do bordo. autopsia.—E’ de bôa regra, em todas as perícias medieo-legaes, terminado o exame externo ou inspecção cadavérica, promover-se o exame interno ou autopsia. , Como as autopsias, em geral, extendem-se a todo o organismo, condicção indispensável para aquellas que necessitam de firmeza e segurança em seus resultados, nós, na autopsia do enforca- mento, procuraremos realizar o exame das partes que para o caso tenham mais importância, come- çando pelo estudo dos signaes gravados no pescoço, por ser esta região o ponto onde elles se mani- festam com maior probabilidade de precisão para a descoberta e averiguação de qualquer facto, cuja 55 origem e cuja maneira de realização são desco- nhecidas. O exame dessa região, que deve ser procedido como em anatomia topographica, isto é, de camada por camada, e com o máximo cuidado, se o faz pelo modo descripto por Lacassagne,e que consiste em uma incisão mediana indo do mento a furcula esternal e incisões que, partindo das extremidades da precedente, se dirijam para fóra acompanhando, as duas superiores os bordos inferiores das duas ametades do maxillar inferior e as duas inferiores os bordos anteriores das clavículas, como se tivéssemos de trabalhar na região carotidiana. Paliemos da linha argêntea. A linha argêntea é a parte correspondente ao fundo do sulco pergaminhado que, vista a sua pellc por transparência se. nos apresenta esbran- quiçada, assemelhando mais ou menos a coloração da prata; esta coloração caracteristica é determi- nada pela compressão do musculo cutâneo e tecido cellular sub-cutaneo que torna-se exangue e secco. A ratificação da linha argentea só se faz com uma dissecção delicada, levantando-se a pelle com o musculo cutâneo. Em relação ao seu valor diagnostico todos os auctores estão de accordo em lh’o fornecer pouco, porque, ella existe não sò nas suspensões em cadá- veres, como nos enforcamentos verdadeiros. >« As ecchymoses profundas no pescoço tem sido verificadas por diversos auctores que as consi- deram frequentes. Em nossas experimentações de enforcamento completo tivemos a opportunidade de ver duas ecchymoses situadas no lado direito do pescoço c localisadas, uma entre o esterno-cleido-mastoideo e o omoplato-hvoideo, e outra nas proximidades da bainha do teixe vasculo-nervoso (carotida primitiva, jugular interna e pneumogastrico); estas ecchvmoses pouco excediam ao volume de um grão de milho, tamanho que corresponde a observação de diversos auctores. Minovici diz que nos enforcamentos atypicos (quando o sulco não abraça inteiramente o pes- coço), essas ecchymoses são mais communs que nos enforcamentos typicos. Existe no grupo das ecchvmoses, que ora es- tudamos, uma que, incontestavelmente, é de muito mais significação que todas as outras; esta é a ecchymose retro-pharyngidmi, muitas vezes obser- vada por Vibert, Dcscoust e Brouardel. A Brouardel se deve um estudo mais apura- do sobre essa ecchymose; elle procura explicar a sua producção pela compressão exercida pelo larynge violentamente projectado de encontro á parede pharyngiana e pelas convulsões que acom- panham a morte dos enforcados. 57 Acha-se portanto, a ecchymôse retro-pharyngia- na situada entre o pharynge e a columna verte- bral, donde o qualificativo. A espessura e a largura da ecchymôse são variaveis.' Diz o professor Brouardcl que o seu tama- nho é variavel, reduzindo-se, algumas vezes, á dimensão de uma- moeda de cinco francos e outras se extendendo da base do craneo ao mediastino. Eis o que nos aífirma Mirovici: em vinte enforcados, apenas a ccchymo.se niro-pharyngiana se revelou em cinco e com dimensões muito me- nores que as apresentadas por Brouardel, pois não excediam ao volume de uma moeda de cinco cêntimos. Produzem-se somente essas ecchvmoses nos vivos; por este motivo e pela frequência, Brouar- del as classificou entre os principaes signaes para o reconhecimento do enforcamento. Minovici, seguindo o resultado de suas ex- periências que, como já dissemos, foi muito pe- queno, não lhes confere tanta importância como Brouardel. » Levamos de visu a eccbwiosc relro-phiiryngiana cm um dos nossos enforcamentos completos que se achava representada por pequeno numero com um tamanho um pouco menor que um nikel de 100 reis, do novo cunho. 58 Entre as lesões encontradas no pescôço pode-se verificar a ruptura parcial de alguns musculos, cuja intensidade e frequência estão em relação com o modo de enforcamento. Não deixam de ser numerosas estas rupturas nos condemnados á pena de morte que, como já vimos, além dò corpo ser lançado com ím- peto de grande altura, se lhe addicciona o peso ■ do carrasco; e também nos enforcamentos com- pletos de pessoas bastante pesadas; pode ainda acontecer, que o indivíduo a se enforcar, utilize-se de cordas finas e, mesmo, de fios de arame, e, nestas circumstancias, não é difficil a ruptura muscular. Dos musculos, o que mais commummente é rupturado, é o esterno-cleido-mastoideu, em vir- tude de sua disposição anatómica; vêm em se- guida os musculos digastricos, os da nuca e os hyoidianòs. A ruptura muscular, apezar de não ser ■ um signal frequente, produz-se depois da morte, comtanto que se effectuem as condicções-acima alludidas. Observa-se nos enforcados fracturas do osso hyoide. Estas íracturas dependem do genero do laço, 59 ae sua disposição no pescoço, do peso e da edade do indivíduo; como não ignoramos, nos velhos os ossos estão desprovidos de elasticidade, e, por esse motivo, sujeitos ás' íracturas. Muitos são os auctores que têm presenciado a íractura do osso hvoide; e Fritz Reuter chega a aíiirmar que ellas são frequentes. Do osso hvoide, as partes tnais accessiveis ás íracturas são as suas grandes pontas. O professor Brouardel diz que o que se dá, em varias vezes, é uma luxação das grandes pontas. Um aúctor, Houmeder, explicando a ruptura do osso hvoide, a attribue, antes, á tracção que á compressão da corda sobre o osso. Realmente elle, passando o laço sobre a mem- brana thyrahyoidiana em cadaveres, conseguiu essa íractura. Eis alguns dados estatisticos colhidos de alguns auctores: Minovid em 136 casos, achou doze fracturas da grande ponta direita, onze da esquerda, e quatro das duas conjunctamente—total 27; Lacas- sagne duas vezes em vinte e tres enforcados; Tourdes tres casos, sendo dous em velhos; Fritz Reuter em 300 suicídios por enforcamento, diz-nos que encontrou a proporção de 60 % (que con. sideramos um pouco elevado) de íracturas nos enforcamentos typicos, isto é, naquelles ‘em que o laço abraça completamente o pescoço €*30 °/0 6 o nos atvpicos, ou iVaquelles em que o sulco circula parte do pescoço. Lacass.agne, verificou em duas mulheres enfor- cadas, fracturas da apòphyse estvloide; não nos consta que outra pessoa tenha assignalado este facto. As fracturas do larynge e de seus annexos estão dependentes, como nas fracturas do osso hvoide, da largura do laço, de sua posição no pescoço, do peso nos enforcamentos completos e até da edade do indivíduo. Comtudo, as fra- cturas mais frequentes são as das grandes pontas da cartilagem thvroide. As extravasações sanguíneas nos focos destas fracturas, assim como para o* osso hvoide, são, para Brouardel, um excellente signal para a prova do enforcamento propriamente dito. Citemos um facto communicado a Brouardel por Homolle e Rendu. Um homem enforcando-se com o auxilio de uma corda pouco resistente cahiu immediata- mente; por circumstancias outras, dentre as quaes os soccorros médicos que lhe vieram em auxilio, volta elle ao seu estado primitivo, morrendo seis dias após, em consequência de uma hemiplegia. Yeriíicou-se, então, uma luxação do larynge que impossibilitava a sua collocaçâo na posição normal. 61 Tourdes em setenta enforcamentos, provou tres fracturas da cartilagem thvroide; Minovici em 136 casos, verificou quatro rupturas da grande ponta direita da cartilagem thvroide, seis da esquerda e tres das duas pontas, simultaneamente; Coutagne, ao contrario dos auctores precedentes, notou taes fracturas com maior frequência, porquanto, em cin- coenta casos de observação, encontrou vinte e tres fracturas da cartilagem thvroide. Antigamente quando não se possuia um estudo, mais ou menos perfeito do enforcamento, se assi- 1 gnalavam rfeste genero de morte, e com frequência, as lesões da columna vertebral, principalmente, as fracturas; porém, hoje, a não ser casos de execuções penaes, estas lesões têm sido assigna- ladas por um ou outro auctor, e isto mesmo muito raramente. Nos casos de enforcamento penal, além das fracturas, os musculos e os ligamentos adjacentes á articulação atloido-axoidiana se contundem, mo- tivo pelo qual a cabeça de um suppliciado fa- cilmente volta-se para todos os lados. Isto mesmo já se tem obtido em cadaveres, empregando-se os meios semelhantes aos usados nos supplicios. As fracturas são, comtudo, mais frequentes nas pessoas avançadas em edade; Brouardel conta-nos o facto de uma mulher de 68 annos apresentar a fraetura da y* vertebra cervical. 62 Quando tractamos da inspeçção cadavérica, aventamos a probabilidade do alongamento do pescoço-; pois bem, com as lesões dos ossos e ligamentos da região cervical, pode-se confirmar o alongamento do pescoço, pelo menos, por meio de medidas. Para concluir: — somos que nos suicidios ou accidentes em pessoas adultas, não ha lesão algu- ma para o lado da columna vertebral. Passemos agora a um estudo que. merece, por sua grande importância, muita attenção que é o da lesão das artérias carotidas, também cha- mado lesão de Amussat. Em 1828, pela primeira vez, Amussat commu-, nicou a Academia de medicina de Paris ter visto ' num enforcado, a ruptura da túnica interna da carotida primitiva. A descoberta tão util de Amussat não deixou de ser esquecida por muito tempo em França (o que sòe acontecer com todas as descober- tas de grande valor), em consequência das con- testações de Orfila e Malle que se baseavam nas experiencias em cadaveres. Ao contrario do que se passou na França, na Allemanha, a lesão de Amussat encontrou logo fervorosos adeptos. Consistem essas lesões em rupturas da túnica interna das carotidas e em ecchymoses nas suas bainhas. São devidas á compressão e á tracçao para cima; por este motivo são julgadas mais communs nos suppliciados, onde as condições e os meios desse genero de morte, já por nós mais de uma vez referido, representam factores prí.ncipaes de determinação. As ecchymoses da bainha vascular são fre- quentes; além da ruptura da túnica interna, po- demos encontrar a ruptura das túnicas media e externa. Ordinariamente, estas rupturas dão á carotida, no logar da compressão, o aspecto de trachéa, pelo relevo bastante visivel de suas fibras transversaes notado na superfície exterior. Estas rupturas, numericamente, se accentuarn nas carotidas primitivas, portanto antes da bifur- cação. Tem-se dito que a edade avançada muito concorre, em vista do endurecimento dos vasos, representado pela arteria-sclerose e os athefomas* para a producção deste phenomeno; porém Brouar- del, como que propositadamente, cita dous casos interessantes, por serem verdadeiramente oppostos: um rapaz de 18 annos, em que não havia endure- cimento das artérias carotidas, tem-nAs rupturadas "em consequência de um enforcamento, emquanto que um velho de 84 annos enforcado não possuia rupturas nos vasos cervicaes. Somos que provavelmente, são causas deter- minantes das rupturas carotidianas as cordas finas. 6 4 O sangue infiltra-se nos bordos da ruptura da túnica, mormente da ruptura da túnica media, o que constitue, algumas vezes, diz Minovici, uma bôa prova de que cila se produziu cm vida; mas, ha casos, todavia, confirma o mesmo auctor, em que o sangue se pode infiltrar nos bordos após a morte, o que causa sérios erros. Minovici opina pela raridade d’este signal, aítribuindo-o, muitas vezes, á falta de pericia nas autopsias c ao processo, para elle atrazado, de puxar-se com a mão esquerda a artéria e, com a thezoura, cortal-a. Aconselha elle que se introduza na artéria uma tenta-canula e, com o máximo cuidado, se corte a túnica arterial no logar desejado, evitando por todos os meios a tracçào. Rapidamente apresentemos alguns dados estatís- ticos de certos autores, no que concerne ás rupturas: Lacassagne em vinte e trcs enforcamentos observou quatro vezes a ruptura da túnica arterial; Pebam (de Yienna) viu-a na razão de 8 %; Simon, em seis casos, encontrou duas; Coutagnc, em dez, notou cinco, e Minovici, em 136 observações, verificou quatorze rupturas, sendo duas na carotida direita, oito na esquerda e quatro simultaneamente nas duas. Não ha nos pulmões lesões que caracterizem, por sua frequência, o enforcamento, sendo, 65 comtudo, innumeros os signaes, ahi, presen- ciados. O volume dos pulmões pode augmentar ou diminuir; em muitos casos estão elles reduzi- dos á metade do seu volume, justamente o que nos succedeu, ha poucos dias, em uma autopsia de uma pequena cadella enforcada e permanecida suspensa durante meia hora; o augmento de volume por sua vez tem sido observado, asse- melhando ao que se passa no afogado. Até hoje ainda se não conhece, verdadeiramen- te, a causa d’estes phenomenos diametralmente oppostos; ha quem os attribua ás phases de ins- piração e de expiração; isto é, no primeiro caso a morte succede á uma expiração, e no segundo á uma inspiração. Vários são os auctores que têm assignalado no enforcamento as ecchymoses subpleuraes ou manchas de Tardieu. Não ha logar de predilecção para ellas na su- perfície pulmonar, porque se as tem encontrado, indifferentemente, nos lobos pulmonares. A procura das manchas de Tardieu nas auto- psias deve ser cuidadosa, porquanto, em casos de adherencia da pleura á parede costal, o exame não sendo delicado, ha rupturas de pequenos vasos e portanto será mascarado o resultado. Tivemos ensejo de, numa das nossas expe- rimentações, presencear as ecchymoses sub- pleuraes dispostas, em numero de quatro, na 66 face anterior dos pulmões, e do tamanho de uma pequena ervilha. Minovici, nas suas cento e trinta e seis obser- vações, achou cm quarenta e cinco casos, as echy- moses sub-pleuraes. A congestão pulmonar é um dos muitos signaes verificados por alguns auctores, e que o illus- tre medico legista de Bukarest diz apenas ter encontrado congestas as bases dos pulmões, em consequência da posição vertical; não nega, to- davia, elle a congestão pulmonar. Donders admitte, como causas determinadoras do phenomeno congestivo, a dispnéa e os mo- vimentos inspiratorios energicos do thorax. Muitos são os scientistas que discordam da opinião de Donders e diversos são os que a abraçam, entre os quaes se destaca Patenko (de S. Peter- sbourg) que, após varias experiências cm cães, considera como verdadeira a theoria de Donders. A coloração do pulmão no enforcado, onde não se manifestou ainda a putrefaeção, é ge- ralmente egual á do pulmão normal; mas, nos casos em que já se iniciou o trabalho da pu- trefaeção, o pulmão apresenta-se vermelho escuro, de maneira a impossibilitar ou, pelo menos, diífi- cultar a garantia de que se tracta de uma hemo- rrhagia ou de uma congestão. A atelectasia dos dous pulmões já íoi vista por Minovici em um enforcado de 6o annos. Entre as lesões que podem existir nos enfor- 6j cados ainda figura o edema pulmonar que, em determinados casos, possue uma cor vermelha bem accentuada quando se expõe ao ar livre, constituindo o que Lacassagne designa de edé me carmine; o edema carminado foi notado, ha poucos dias, pelo Dr. Diogenes Sampaio, intelli- gente medico-legista da policia do Rio de Janeiro, numa autopsia de enforcado por elle praticada. Não é este edema peculiar ao enforcamento; elle figura em outros generos de morte, como nas racturas do craneo, sob a acção directa do systema nervoso. Raramente se verifica o emphysema sub-pleural no enforcamento, ao contrario do que se dá na estrangulação, onde é frequente; e, para ser notada a sua presença, deve-se procural-o antes da extracçào dos pulmões; porque, no momento da introducção da mão com o proposito de retirar o pulmão, podem se formar artificial- mente os emphysemas. Em seus casos de enforcamento, Minovici pre- senciou em quinze d’elles o emphysema sub- pleural. Focos hemorrhagicos podem existir na super- fície pulmonar e, ordinariamente, se assestam nas metades inferiores dos dous pulmões. Os bronchios c a trachéa podem apresentar a sua mucosa hyperemiada e, ás vezes, coberta de espuma branca. Outro phenomcno, não menos interessante, 68 se dá no interior dos bronchios: queremos nos referir á presença de matérias alimentares que não está ligado a vida, porquanto Minovici julga muito provável a passagem para os bronchios dessas matérias, depois da morte. De todas as lesões mencionadas no pulmão, assim como das outras existentes nas diversas partes do organismo, deduz-se que não ha uma só constante. Certos auctores, devido a investigações de- moradas, concluíram, que o peso do coração do enforcado é inferior ao do coração do normal. O incansável Minovici, ponderando sobre esta asserção, assevera que ella não tem valor, desde quando o coração do enforcado pode, ás vezes, ter sido attingido por lesões que contribuíram para a modificação de seu peso. Existe, ordinariamente, maior porção de sangue liquido no coração direito que no esquerdo; ha também uma differença de coloração entre o sangue das duas cavidades. Ha quem pretenda explicar a differença em quantidade do sangue dos dous corações, pela rigidez do orgam cardíaco mais accentuada na cavidade esquerda. A presença de coalhos sanguíneos nos ven- trículos e aurículas é uma realidade. Estes coalhos são molles, negros, pouco consistentes e se discer- 69 nem, mais ou menos, facilmente, cfaquelles en- contrados nas agonias lentas. Vimos numa autopsia realisada em um cão, depois quatro horas de terminada a vida, o sangue de todo o coração completamente transformado em coalhos, e com as mesmas propriedades que ha pouco descrevemos, sendo que os das cavidades direitas sobrepujavam os das cavida- des esquerdas. Estes coalhos não permanecem por muito tempo, visto como, com o progredir da putrefacção, desapparecem. Minovici assignala ainda ecchymoses puncti- formes sub-pericardicas e na origem dos grandes vasos. Para o lado do cerebro não se obtém elementos de grande valia nas mortes por enforcamento, desde quando os auctores que tractam do assumpto têm achado, como em algumas outras vísceras, uma inconstância do apparecimento dos signaes, nesse orgam, assignalados. Comtudo, pelas diversas estatísticas, estão quasi todos os auctores propensos a acreditar que, pelo menos, na grande maioria de casos, não ha con- gestão cerebral. Nos poucos casos em que se nota a hyperemia, esta é caracterisada por uma rede tenue de capil- lares meningeos, 7o Diz Minovici ser esta hyperemia, ás vezes, acompanhada de edema cerebral. Este notável scientista e alguns outros, como Devergie' Woodford e Mascka, affírmam ter pre- senciado extravasações sanguineas nos espaços arachnoidianos e irregularmente dispostas em toda a convexidade do cerebello. Nos casos em que a putrefacção já se mani- festou, apparecem nas mcninges imbibições por parte da matéria corante do sangue, que, mui facilmente, se confundem com os signaes ante- riores. O professor Brouardel considera a congestão como um phenomeno procedente da putrefacção. Tem-se verificado algumas vezes que o bulbo se apresenta lesado pelo choque violento que suc- cede á queda. Quando ha deslocamentos, ou mesmos fracturas das vertebras cervicaes, a medulla sofifre muito em sua estructura; o exame microscopico feito em taes casos revela restos de tubos nervosos e ery- throcytos enr profusão, Aproveitamos a opportunidade para dizer que existem sob a pelle da cabeça, em alguns casos, grandes ecchymoscs que, geralmente, se localisam abaixo da aponevrose epicraniana. Estas eccbymoses e outras punctiformes tam- bém existentes no exterior do craneo são, segundo Minovici, consequências da asphyxia; portanto, nos exames desta natureza, deve haver muita 7i attenção, afim de se opinar certamente sobre o valor destas ecchymoses. A observação da maioria dos autores assevera a hyperemia da mucosa estomacal e, algumas vezes, dos intestinos. Taylor garante existir uma pseudo-inflamação da mucosa estomacal, originando suspeitas de envenenamento. A hyperemia, por nós ha pouco alludida, póde, em certos casos, confundir-se com uma hypostase ou com uma putrefaeção. F explicada a sua origem, ordinariamente, pelas contracções vaso-motoras sobrevindas no periodo asphyxico e sobretudo d’aquellas dos vasos do in- testino e do baço; é a hyperemia, por conseguinte um phenomeno vital. Não tivemos a felicidade de encontrar no apparelho digestivo signal que cha- masse a nossa attenção. Ha quem pense existir uma hyperemia dos rins; esta hyperemia é, então, proveniente da hypostase, quando o cadaver permaneceu longo tempo sus- penso. Quanto a bexica não encontramos, ahi, signal relevante; ordinariamente se nos apresenta vasia, como tivemos ensejo de verificar, devido ao escoamento do seu conteúdo, caso exista urina pouco antes do acto suspensivo, quando sobrevêm as convulsões. 72 Não tem sido assignalados outros signaes no apparelho urinário. Falhando sobre os signaes do enforcamento, tivemos occasiao de mostrar qual a origem da falsa voluptuosidade, geralmente acreditada pelo vulgo, e também de fazer ligeiras considerações sobre as ejaculações. Apenas accrescentaremos agora algumas pala- vras sobre este assumpto que já fruiu mais impor- tância. Brouardel dá a seguinte explicação à emissão de esperma: são o coração e as vesiculas seminaes que, primeiramente, entram em rigidez cadavérica; por isso, devido a influencia desta contracção, a vesícula seminal impelle para a uretra parte do esperma ahi contido, que virá até o exterior, se, porventura, o cadaver estiver na posição vertical. As erecções se explicam pelo accumulo de sangue nos corpos cavernosos, em virtude da posição vertical, ás vezes, bastante demorada. Póde acontecer que o esperma fique depositado no meato urinário e ahi a autopsia vae revelar a sua presença e o exame microscopico vae eviden- ciar a vida dos espermatosoides; Os orgãns genitaes interiores, quer. do homem, quer da mulher, podem se apresentar congestio- nados. Minovici tem encontrado, além da turgescen- 73 cia dos orgãos genitaes femininos interiores, mor- mente do utero, uma secreção exagerada. Na cavidade uterina já o mesmo observador demonstrou a existência de coalhos pequenos. Concluindo este assumpto, diremos, de accordo com os autores de rnais conhecimentos, que as sensações voluptuosas não passam de simples phantasia do espirito popular que tem dado margem a alguns accidentes sérios; assim como as erecções não são verdadeiras e, sim, verdadeiros phenome- nos passivos. CAPITULO III Tliaiialiiíjiiose do enforcamento ENFORCAMENTO VERDADEIRO E SIMULADO enumeração, assás longa, que aca- bamos de escrever, podemos diser e provar que exista algum signal pathognomonico do enfor- camento ? De certo que não. Em qualquer occasião em que seja encontrado um cadaver de enforcado, é de bôa regra, de feliz inspiração, e de rigoroso dever profissional enveredar o medico perito por um methodo de melhor observação, inspeccionando, detida- mente, o cadaver, desde a posição em que foi encontrado, vestes, laços, excoriações e mesmo os moveis que o cercam, até a profunda e se- gura observação da autopsia, para bem sortir o effeito de uma perfeita pericia medico-legal. Infelizmente, nem sempre, as pessoas encarre- gadas de distribuir justiça podem verificar sus- pensão do cadaver, porque, os individuos que 76 o descobrem, procuram tiral-o dessa posição, suppondo, talvez, que lhe levam valioso socorro, tirando-o da dura situação, quando,. se o não fizessem, podiam amparar a justiça na felicidade de um exame. A organisação do serviço medico-legal ainda não attingiu á perfeição que deveria ter, sobre este ponto de vista. Dos exames procedidos em cadaveres que não foram vistos suspensos nos proprios logares do accidente, pelas autoridades e peritos, ás vezes, as deducções não são verdadeiras pela falta das observações iniciaes. Supponhamos que os descobridores de taes Crimes deixem os corpos suspensos, e procurem levar ao conhecimento da autoridade o resul- tado de sua descoberta; nestes casos pode succe- der que não se salve a victima que se acha pendente, mas se salva, muita vez, a origem de uma desgraça simulando um triste mysterio. Em Pariz, um velho foi encontrado suspenso, ainda com vestigios de vida, conservando os joelhos sobre o assoalho, em um dos commodos de um hotel, pelo seu proprietário que, em vez de tiral-o das garras da morte, foi communicar o occorrido á autoridade que, ao chegar á lo- calidade indicada, verificara ter «viajado para o outro inundo», na phase expressiva da giria popu- lar, o inditoso velho. Censurando este modo de proceder do povo, 77 notadamente dos centros civilisados, isto é, o cos- tume de cortar a corda como expressão da piedade, embora embarace a acção da justiça, porquanto a presença de individuos, o acto de desespero, a queda do corpo podem apagar ves- tígios para um bom reconhecimento medico- legal, ou difficultal-os na sua observação, refere-nos o professor Brouardel, a respeito, o seguinte con- ceito, muito judiciosamente: «Em Pariz e nas grandes cidades o medico legista, raramente, tem occasião de ver o cadaver de um enforcado em estado de suspensão; com effeito, quando elle é chamado para intervir, o corpo quasi sempre não está mais pendurado; entretanto nos campos o perito pode presenciar as cousas em seu estado natural, graças ao seu povo que deseja que, somente á autoridade, caiba o direito de despendurar o indivíduo, mesmo quando este ainda apresente signaes de vida; esta tradicção é um costume da edade média, porque, nessa epocha, se alguém ousasse cortar a corda de qualquer enforcado, arriscar-se-ia a sofffer o mesmo processo de suspensão». Aproveitando o ensejo do criterioso conceito do notável professor, vamos relatar um facto significativo passado, ha annos, numa fazenda dos nossos sertões, o que prova não ser somente na velha Europa um habito campesino, o que se refere Brouardel. Um vaqueiro, percorrendo o campo, deparou-se, 7$ de súbito, com o cadaver de um indivíduo da mesma profissão, completamente suspenso ao galho de um umbuzeiro por uma corda (relho) de que muito se utilizam aquelles homens da vida sertaneja; não conseguindo denunciar o facto á autoridade, desde que esta se achava a 70 kilometros, mais ou menos, lembrou-se de fazel-o ao proprietário da fazenda, homem res- peitável, o que eífectivamente realizou, depois de uma trajectoria não pequena. Ao chegarem ao local do accidente, as pes- soas que foram testemunhar o facto procuraram com o máximo cuidado rastos (no que são eximia- mente aperfeiçoados os filhos do sertão, a ponto de cultivarem isto como uma verdadeira arte) ou vestígios de lucta, nada conseguindo em demons- tração que]os levasse a crêr em simulação succedida a homicídio; notaram, ao contrario, por intuição, um logar onde, pelas circumstancias em que se apresentava, o infeliz homem esteve sentado, pro- vavelmente meditando sobre o seu sinistro plano, assim como, em um dos galhos do umbuzeiro existia um sulco, attingindo apenas a parte cortical da arvore, que, pela forma caracteristica, denotava ser proveniente da roseta da espora, conservada cal- çada na occasião em que, com o pescoço á corda, se entregou ao peso do proprio corpo. Este íacto vem, portanto, corroborar a opinião de Brouardel. O exemplo seguinte de Hans Gross muito 79 concorre para afirmar o que todos os scientistas aconselham em relação ao exame completo dos enforcados, levando-se, de visa, todas as circum- stancias existentes no campo de acção do facto sinistro. Foi encontrado suspenso a um gancho do tecto de sua habitação, que sustinha um candieiro, o corpo de um homem que, a principio, se julgou tratar de um suicidio; mas, o Dr. Hans Gross, vendo que o cadaver estava completamente sus- penso, e que não havia junto a elle objecto algum ao qual o individuo subisse para, então, lançar-se em plena suspensão, desconfiou que, provavel- mente, se tractava de uma criminosa simulação, o que foi confirmado depois de severa observação histórica: tractava-se de um velho doente que tra- zia comsigo dous criados que, de uma feita, fo- ram a uma íesta sem a devida permissão. Nesta ausência, o velho teve um ataque de apoplexia, e sem o minimo soccorro, veio a falle- cer. Temendo accusações, os criados decidiram-se a simular um suicidio, pendurando o cadaver por meio de uma corda previamente amarrada ao refe- rido gancho com o auxilio de um cabo de vas- soura. Exemplo eloquentíssimo da necessidade de acurada observação visual e histórica do perito, antes de proceder ao meticuloso exame propria- mente cadavérico. 8o ■5f * * Os objectos de que lançam mão os suicidas por enforcamento são representados por cordas, cor- dões, gravatas, lenços, correias, cintos, etc., etc. Nas prisões, onde elles não possuem taes obje- ctos, apoderam-se das roupas usuaes para o fim almejado da morte. Podemos memorar o facto, entre nós, passado, ha uns nove annos, da morte, na prisão, do anspe- çada Marçellino Bispo, barbaro assassino do Marechal Machado Bittencourt, no Rio de Janeiro, de volta de sua viagem patriótica á campanha de Canudos. Temendo castigos que lhe adviriam, e vendo desvanecidas todas as esperanças de liberdade, pôz termo á sua existência, enforcando-se com um lençol nas grades da prisão. O mesmo facto se deu na Italia com relação ao anarchista Angelo Bressi, após o homicidio, não menos perverso, do rei Umberto. Quanto a curiosa questão dos nós, nada podemos adeantar, a não ser o estudo especificado que podíamos fazer das impressões permanecidas no pescoço, segundo a variedade dos nós conhecidos em medicina-legal. Os nós profissionaes têm muitos typos que poderiam ser estudados, como magistralmente o foram por Lacassagne. Cada classe, cada profissão tem a sua forma 8i especial de dal-o, Anatomia teriptiva I— As artérias que nutrem e concorrem para a funeção dos corpos cavernosos provem de dous troncos: da dorsal do penis e das cavernosas. II— A dorsal do penis somente envia aos corpos cavernosos ramos anastomoticos. III — As cavernosas, em numero igual ao de corpos esponjosos, estão situadas na parte central destes, c em toda a sua extensão. Anatomia topoppMca I — O tendão do musculo biceps, a artéria hu- .meral e o nervo mediano estão situados no mesmo nivel, na porção inferior do braço. íl—O tendão e o nervo mediano, que se representam por cordões arredondados, distin- guem-se pelo volume e pela cor; sendo que aquelle é mais volumoso e possue uma côr branca mais brilhante que este. III—O primeiro forma com a sua expansão aponevrotica uma especie de gotteira para o alo- jamento da artéria humeral. 9o Histologia I— Os feixes musculares estriados compõem-se de membrana envoltora—sarcolcma—, de núcleos a este envolucro subjacentes, de protoplasma e de substancia contractil. II— Osarcolema é uma membrana difficilmente visivel pela sua transparência e delgadeza ex- trema. III— Está ligado á substancia muscular em determinados pontos appellidados discos del- gados. Bacteriologia I — O tétanos é um morbus raro, não obstante a frequência no solo do micro-organismo bacillar que o engendra, porpue as feridas, que poderiam dar-lhe entrada, são frequentemente providas de ar. II—O isolamento do bacillo de Nicolaver, do solo, requer muita delicadeza de exame, em vir- tude das impurezas cie toda a sorte existentes neste meio. III.—Apresentam-se estes bacillos, constante- mente, com a forma de bagueta de tambor, ou de palmatória,, por achar-se em uma de suas extre- midades o sporo, por meio do qual ha a sua repro- ducção. 9i Anatomia e plpolop patholopas I. —A thronrbose é o processo anatomo-patho- logico, em virtude do qual ha uma obliteração expontânea de um vaso por um coalho sanguíneo. II. —A este coalho de sangue chama-se thrombus. III. — O processo da thronrbose é oriundo das alterações experimentadas pelo liquido sanguíneo e dbaquellas que se assestam nas paredes vasculares. Plpolop I. —O sueco pancreatico exerce sobre as gor- duras neutras uma dupla acção: a) uma acção physica e b) uma acção chimica. II. —A acção physica consiste na emulsão; isto é, reducção das substancias gordurosas a pequenis- simas gottas que não têm mais tendência a reunir-se. III. —Da acção chimica resulta o phenomeno da saponificação, ou desdobramento em ácidos gordurosos e glycerina; os ácidos gordurosos livres combinam-se com as bases, formando sabões alcalinos. Tharapeutica J.—O principio activo da quassia (Quassia amava) é a quassina que se nos apresenta ou crys- tallisada, ou amorpha. 92 II. —A acção mais considerável deste medica- mento é sobre o estomago; é estomachico. III. —Das duas especies de quassina a mais frequentemente empregada é a crystallisada. cuja dosagem é dez milligrammas e cujo modo melhor de emprego é em pilulas. Higiene I. —Nas construcções modernas das casas deve- se tornar o solo impermeável. II. —Não havendo esta condição, no inverno, os gazes produzidos no solo precipitam-se no inte- rior das habitações, em consequência da maior rarefacção do ar, ahi existente. III. A consequência do desprendimento destes gazes do solo é o enfraquecimento do organismo que se torna predisposto a moléstias infectuosas, ou a prováveis intoxicações. Medicina legal e toxicologica I. —«Concausas são círcumstancias ligadas intima- mente a uma acção imputável, a ella preexisten- tes ou sobrevindas, mas, em qualquer caso com uma relação de dependencia reciproca e immediata». II. —A divisão mais acceita pelos mestres da sciencia medico-legal é a de—preexistentes e super- venientes. 93 III.—As primeiras são circumstancias anteriores á infraeção penal; as segundas são posteriores, e, no entender de alguns professores, asmais difíiceis, quando não de justificativa, pelo menos de com- provação. PatMop cirúrgica I— As fracturas do craneo podem se dar na abobada ou na base: ellas podem se localisar na abobada, ou irradiar para a base. II— Muito frequentes são as fracturas da abo- bada, quer permaneçam in sita, quer se propaguem á base craniana: o contrario se observa rela- tivamente ás fracturas desta. III— A protecção da base do craneo pelos ossos da face e pelos musculos da nuca expli- cam a raridade de suas fracturas. Operações e apparels I— A ligadura da artéria femoral se faz na base do triângulo de Sccirpa, no vertice deste triângulo e no annel de Hunter. II— A artéria tibial posterior é ligada em dous pontos: na extremidade inferior da perna, por detraz do malleolo interno e na união do terço superior com o terço medio da perna. III— A peronnea é ligada na mesma altura da precedente, tendo como ponto de reparo o bordo externo do gemeo externo. 94 Clinica cirúrgica (Ia Caieira) I— As hérnias abdominaes são tumores cons- tituidos pela sabida de uma parte, de uma ou de diversas visceras através ás paredes abdomi- naes, por algum ponto de pouca resistência ou dotado de perda de substancia. II— As partes visceraes herniadas são envol- vidas por uma porção do peritoneo, constitu- indo o sacco herniario. III— Todas as visceras abdominaes, a exce- pção do duodeno, têm sido herniadas. Clinica cirúrgica (2.a caieira) I. —Chama-se ferida penetrante abdominal, toda aquella que atravessar a parede do abdómen. II. —Ella é simples quando não lesa viscera alguma. III. —F complicada quando, de si, resultam lesões visceraes. Pathologia medica I. —A uremia c a intoxicação do organismo pelos elementos que normalmefitc constituem a urina, II. —As suas causas podem ser essenciaes e occasionaes. 95 III.—As primeiras são representadas pelas nephrites agudas, mal de Bright chronico, dege- nerações e neoplasmas renaes, compressão ou obs- trucção dos ureteres, etc.; e ás segundas se filiam o frio, a fadiga, a indigestão, etc. Clinica propedêutica I. —Existem duas formas especiaes do rythmo respiratório pathologico denominadas respiração de Biot e respiração de Cheyne-Stokes. II. —A respiração de Biot ou meningitica se caracterisa pela respiração-regular e profunda con- secutiva a paradas bruscas dos movimentos respiratórios. III. —A respiração de Cheyne-Stokes se diffe- rencia do typo precedente pela intensidade progres- sivamente crescente dos movimentos respiratórios que, depois de attingido o máximo do periodo respiratório, diminuem, tornando-se superficiaes, aié a volta do estado dyspneico primitivo, e assim por deante. Clinica medica (Ia cadeira) I.—Nas moléstias do apparelho circulatório de tratamento demorado, o iodureto de sodio é pre- ferível ao de potássio. ÍI.—A rasão desta preferencia é a tolerância c>6 mais accentuada do estomago para aquella medi- cação. III.—Por serem as afFecções cardio-arteriaes causas predisponentes da insuíficiencia e imper- meabilidade renaes, póde haver o accumulo na economia de saes de potássio que são toxicos. Clinica medica (2.a cadeira) I. — Quando ha bradicardia, ha hypertensão arterial. II. — Quando ha tachicardia, ha hyportensão arterial. III. —Mas, na clinica, nem sempre são obser- vadas estas correlações que constituem a celebre lei de Marey, podendo, ahi, se verificar bradi- cardia com hypotensão e tachicardia com hyper- tensão. Matéria meia, pharmacologia e arte de formular I. —Quando por sua associação, duas ou mais substancias constituem uma mixtura defeituosa, quer pela insolubilidade, quer pelos resultados physiologicos que sua administracção dá lugar, lia incompatibilidade. II. —Existem quatro especies de incompatibili- dades: physica, pharmaceutica, physiologica e chimica. 97' III.— De todas ellas a que deve preoccupar mais seriamente a attençâo clinica é a chimica; porque, de sua inobservância, periclita a vida do pa- ciente. Historia natural medica I. —O cardo santo (argemone mexicana L.) é o unico representante da familia das Papaveraceas, no Brasil. II. —O latex que circula nesta planta é diversa- mente corado e contém, em si, dissolvidos, os princípios medicamentosos mais importantes do vegetal. III. —-No norte do nosso paiz é essa planta empregada como hemostatico. Clmnica medica I. —Os alcoes são compostos orgânicos mentes dos hydro-carburetos mono-atomicos pela addicção de um atomo de oxygenio. II. —Dos alcoes, o mais conhecido e usual é o ethylico. • III. ——Elle entra na composição de quasi todas as bebidas, por isso denominadas alcoólicas e cujas consequências são sempre íunestas á huma- nidade. 98 (Metricia I. —Expulsão do feto antes de terminarem os nove mezes—media de tempo para a prenhez na- tural, tal é a que se denomina prematura. II. —A expulsão prematura divide-se em aborto e parto prematuro. III. Diz-se que ha aborto, quando o nascimento do feto se realiza nos seis primeiros mezes; e parto prematuro do sexto ao oitavo e meio mez. Cínica otetrica e pccologica I. — Versão é o acto operatorio que tem por objecto transformar a apresentação do feto em outra que facilite a sua salnda do utero. II. —Existem duas principaes versões: a cepha- lica e a pélvica ou podalica, sendo que a ultima é mais frequente por serem mais numerosas as apresentações do vertice. III—Modernamente, ha uma tendencia em substituir-se as extracções fetaes a fórceps, pelas versões. Clinica peÉtrica 1 — A coqueluche é um morbus contagioso, especifico, epidemico, provavelmente microbiano que, ordinariamente, confere immunidade ás pes- soas que já lhe pagaram tributo. 99 II — Ella é constituída por um elemento infla- matório, o catarrho dos bronchios, e por outro nervoso—o accesso quintoso. III—Toda a vez que á ella junctarem-se com- plicações, o seu prognostico torna-se muito serio. Clinica opliÉioiogica I— As keratitcs podem suppurar ou não; por isso, se as divide em keratites suppurativas e não suppurativas. II— As não suppurativas podem ser superfi- ciaes ou profundas. III— As não suppurativas superficiaes com- prehendem: íí) keratite phlyctenular, />) keratite vascullar,— pannus, r) ulcera transparente, d) herpes da cornea, c) keratite filamentosa. Clinica dermatológica e sjplilf aplica I— A cephaléa syphilitica pode se manifestar por tres maneiras: a) por nevralgias affectando os ramos do 5.0 par e outros nervos sub-occi- pitaes, />) por dores internas, cephaléa propria- menfe dita e c) por dores externas, originando-se do systema osseo. II— A forma de cephaléa mais commum é a ultima. 100 III—Pela palpação da cabeça do indivíduo submettido a cephaléa syphi :tica oriunda do sys- tema osseo, nota-se, ou un.a ligeira saliência endurecida, — periostite ou periostose, ou, então, um ponto que só desperta a nossa attenção por uma dôr exagerada—ostealgia. Clinica psjcliiatrica e das moléstias nervosas I— Os phenomenos dolorosos no labes são geralmente precoces e revestem as seguintes formas: dores fulgurantes, terebrantes, lancinan- tes e ardentes. II— A coexistência das dôresl|com as pertur- bações trophicas é, em alguns casos, notável. III— Certas visçeras, no tctbes, podem ser attingidas por acccssos dolorosos. <_dzccc/dz<3?é' tdi- (S- /d:- - ?:/*<■_: f u ct, ?'/?£■ ■ . d’íz// 'rí"í', tds /<* /' í/t y '/Çdy. *Ç> JbECRETARIO, c)o-ó- c.s^ffeireffleô'.