Faculdade de Medicina da Bahia THESE APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Em Í31 de Outubro de 1008 PARA SER DEFENDIDA POR ((e/?/Mc c/e rJeZ/metc/a //aóUe NATURAL DO ESTADO DA BAHIA AFIM DE OBTER 0 GRÁO DE DOUTOR EM MEDICINA Ligeiras considerações sobre o determinismo CADEIRA DE PSYCHIATRIA PROPOSIÇÕES Tm sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas IBAJEIIAl 1908 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA Director—Dr. AUGUSTO C. VIANNA Vice-Director—Dr. MANOEL JOSE’ DE ARAÚJO LENTES CATHEDRATICOS OS DBS. MATÉRIAS QUE LECCIONAM l.a SECÇÃO Carneiro de Campos Anatomia descriptiva. Carlos Freitas • . . Anatomia medico-cirureica 2.a Antonio Pacifico Pereira Histologia- Augusto C. Yianna Bactereologia. Guilherme Pereira Rebello .... Anatomia e Physiologia pathologicas v 3-a Manoel José de Araújo Physiologia. José Eduardo F. de Carvalho Filho . Therapeutiea. 4. a Luiz Anselmo da Fonseca .... Hygiene. Josino Correia Cotias Medicina legal e Toxicologia. 5. a Braz Hermenegildo do Amaral . . . Pathologia cirúrgica Fortunato Augusto da Silva Júnior . Operações e apparelhos. Antonio Pacheco Mendes Clinica cirúrgica 1.» cadeira. Ignacio Monteiro de Almeida Gouveia Clinica cirúrgica 2.” cadeira. 6. a Aurélio R Vianna Pathologia medica. Alfredo Britto Clinica Propedêutica. Anisio Circundes de Carvalho . . . Clinica Medica 1.» cadeira Francisco Braulio Pereira .... Clinica Medi«a 2.a cadeira 7a A. Victorio de Araújo Falcão . . . Matéria medica, Pharmacologia Arte de Formular José Rodrigues da Costa Doroa . . Historia natural medica. José Olympio de Azevedo .... Chimica Medica. 8.a Deocleciano Ramos . . . . . . Obstetrícia. Climerio Cardoso de Oliveira . . . Clinica obstétrica e gynecologica. 9. a Frederico de Castro Rebello . . . Clinica pediátrica. 10. a Francisco* dosSantos Pereira . . . Clinica ophtalmologica. 11.a Alexandre E. de Castro Cerqueira . . Clinica dermatológica e syphiligraphica. 12.a Luiz Pinto de Carvalho Clinica psyehiatrica e de moléstias ner- vosas. João E. de Castro Cerqueira ...„,. .... . Sebastião Cardoso . Em disponibilidade. LENTES SUBSTITUTOS OS DOUTORES José Adenso, de Carvalho . . 1.» Gonçalo Moniz Sodré de Aragão . ( 2.a Julio Sérgio Palma ( Pedro Luiz Celestino .... 3.a Oscar Freire de Carvalho . . 4.“ Antonino B. dos Anjos . . . . 5.a João Américo Garcez Froes . . 6.a Pedro da Luz Carrascosa e . . J. J. de Calasans . . * J. Adeodato de Souza .... 8." Alfredo Ferreira de Magalhães . 9." Clodoaldo de Ahdrade . . . .10. Albino Leitão 11. Mario Leal 12. Secretario-Dr. MENANDRO DOS REIS MEIRELLES Sub-Secretario Dr. MATHEUS VAZ DE OLIVEIRA A Faculdade não approva ueiu reprova as opiniões exaradas nas tlieses pelos seus auctorcs « A sciencia não é idealista, nem espiritualista, nem materialista, mas simplesmente natural; ella procura de- terminar os factos e suas connexões’ racionaes, sem incli- nar-se, a priori, deante de um systema, nesta ou naquella direcção.» Bughner. «A sciencia não conhece inclinações e aversões: seu unico fim é a verdade.» Grove. « Os deuses e os dogmas não perecem num dia. » Le Bon. « 0 homem moderno perdeu suas velhas crenças, e, agora, pede á sciencia novas doutrinas para a orientação de seus pensamentos. » Le Bon. «O espirito humano não é absoluto, não é infinito, e, para encontrar a verdade, necessita trabalhar, porque a verdade é o prémio do trabalho.» Castellar. Proemio Vae, minha these... Espera-te, anciosa, a valia, commum dos papeis esque- cidos, entre as velharias inúteis, ninho fecundo de insectos e ratos. Consola-te; outras irão comtigo. * Yae, minha these. Bôa viagm. Alea jacta est \ Trabalhoso combate. Tenho receio, aliás bem justo, de que não resistam as minhas armas ao forte embate de tão grande luta. A arena é escabrosa, e nella se esforçam vários contendores, em prol de opiniões contradictorias. O assumpto é diíflcil, cheio de perigos. Combaterei humildemente. Noviciado em tal questão, desafeito ás lutas, procurarei pensar tanto quanto me permitia o fraco entendimento. Que ine guie, nas trévas de tão grande labyrintho,' a luz, embora vaeillante, do meu apoucado saber. Apezar de fraca, estou certo me não deixará em completa escu- ridade. Direi o que penso; nem se fará mister encobri-lo. I ) LSS E RTAÇÃO Ligeiras considerações sobre o determinismo CADEIRA DE PSYCHIATRIA 1NTR0DUCCÃ0 d M orkem as crenças, vacillam os dogmas. Deante da luz poderosa da sciencia, recuam espavoridas as velhas doutrinas. Derruído o vetusto monumento, que a fé sustentava, sobre as suas ruinas levanta-se o solido editicio da sciencia moderna. Tombam com fragor as columnas das chimeras e illusões do passado. Na treva das falsas concepções penetra a luz devassadora da experimentação. A fé era um empecilho no caminho complicado da ver- dade; sua suppressào foi uma imperiosa necessidade. A fé crê, a sciencia investiga. A primeira acceita o mysterio, a segunda busca des- venda-lo. «Uma tendencia natural ao homem, diz Réclus, é a de contemplar-se como um sèr, absolutamente estranho, no conjunclo do universo. » 4 0 deus recem-creado era immortal, como elle também o era, pois tinha em si o principio eterno. Por isso, quando viu seu similhante, victima inlallivel da lethalidade, sem luz os olhos, sem calor o corpo, rigida e sem movimento aquella excepcional compleição, se lhe afigurou apparente aquelle espantoso facto. Então lhe veio ao espirito a idéa de que aquelle corpo era o simples e mortal involucro de alguma cousa que » dali fugira, rompendo os laços da matéria vil. Era a alma, eterna, íluidica, deixando a morada terrena em busca dos céos azulinos, dos paramos ideaes. Era o abandono da mundana vida, em troca da peregri- nação pela mansão dos justos, onde ia gozar, na pureza de sua immortalidade, intermináveis delicias. Na edade media, epoca de sombras e de.crimes, de bruxarias e torpezas, o fanatismo religioso imperou aspliy- xiante e desmoralisador; o mundo era a arena, exten- sissima, onde os espíritos do bem travavam luta franca e terrível com os espíritos do mal. Erá a consciência abafada pela fé e pelos temores. Era o mysticismo doentio, enervante; acomtemplação extatica do azul, mansão desejada, deliciosa mansão; eram os cilícios cruéis, o castigo da carne, vertendo o sangue impuro, causa das misérias humanas. Era preciso enfraquecer o corpo, para fortalecer a alma. 5 «Deixao as riquezas da terra, as misérias da terrena vida. «Lcvantao os olhos para o alto, a verdadeira e eterna morada.» Desta cpoea terrível, somente se ouve o echo das dis- putas theologicas e do semi-obscurantismo da philosophia. Em tempos menos remotos, Luthero, o grande reformador, dizia (hoje ha quem diga o mesmo) que « mão daria um segundo de estada no céo por todos os bens e alegrias da terra, embora durassem milhares e milhares de annos.» Iloje, porém, o homem, intelleclualmente desinvolvido, alliando o resultado de sua experiencia ao esforço dos seus antepassados para a comprehensão da existência, pensa differentemente. Os deuses morreram, tombaram os idolos, cairam os dogmas. O Olyrnpo, despovoado, tremeu, e cahiu no abysmo das concepções falsas. Por sua vez, a mansão celeste é devastada; os anjos correm, a crença vacilla. A luz da sciencia espanca as trevas do abysmo, e inter- roga o mysterio do céo. * O homem, que pensa, e estuda, sabe que é producto da natureza, e que no seu organismo não ha uma cellula divina. Verdade é que alguns se julgam rnais que animaes, 6 e se revoltam com a idéa de que possam ser descendentes de um macaco. Um escriptor francez diz, referindo-se a isto: «E’ prefe- rível ser um macaco aperfeiçoado a um Adão degenerado.» Os que sejulgam divinos não conseguirão tolher aquelles que lutam pelo conhecimento da verdade. Em todos os tempos, homens laboriosos, sem temor nem prejuizo, têm procurado a investigação dos enigmas do universo. O Timor Domini, as torturas inlligidas, a inquisição, e quejandos absurdos, não conseguiram impressionar a fortaleza do animo, enfraquecer a fibra resistente de simi- lhantes lutadores. Elles vão em busca da verdade. CAPITULO I Ligeiro liisíorico da opinião da philosophia antiga sobre a liberdade moral A religião é a origem das idéas moraes. Fila tem sido, até hoje, a dominadora de todas as sociedades. Na historia da sciencia, não se póde negar a sua influencia poderosa. No paganismo é que se origina o tradicionalismo phi- losophico. Ahi é que começam as theorias sobre o poder do homem e a presciência divina. O homem, na pratica do hem, é uma simples dependencia de Zeus, senhor abso- luto do céo. As boas acções são uma graça do poderoso deus. Só havia liberdade para o mal. De maneira que a religião hellenica, como a christã, deixou ao homem o unico privilegio da liberdade do mal. «Nessa universal harmonia, o homem só pode produzir dissonâncias, e até estas são talvez artiíicios do artista divino, para melhor fazer sentir o concerto.» (Fonsegrive). As idéas philosophicas nasceram, e, pouco e pouco, tomaram um certo desinvolvimento. 8 Os primeiros pensadores explicavam, por uma necessi- dade rigorosa, todos os phenomenos da vida, e também as acções humanas. Era a doutrina de lleraclito, e outros. Tudo dependia de causas naturaes. Socrates, o fundador da sciencia moral, queria resolver o problema do universo pela finalidade. O fim era a verdadeira causa. O philosopho explicava o mundo pelo pensamento. A utilidade das cousas era a determinante do sêr humano. Se este praticava o mal, era pela ignorância do bem. A virtude era o ideal, o intellectualismo, a base da theoria socratica. Platão, o querido discípulo de Socrates, o mestre de Aristoteles, aclarou e desinvolveu estas idéas. Suas doutrinas, que têm grande similhança com as christãs, são a mais bella expressão do ideal. A idóa do bem era a Idéa, principio da virtude e da luz. A intelligencia considerava, a utilidade determinava. Quando aquella julgava util uma acção, subrnettia-se a vontade. A razão era a grande directora da alma. O conhecimento do bem era o determinante absoluto. Os ignorantes, porem, desconhecendo o bem, na impos- sibilidade de aspiral-o, praticavam o mal. O poder de escolha era o privilegio de uma classe intermediária. 9 Esta qualidade, segundo o philosopho, era potência e fraqueza. Potência, porque era a expressão do livre arbítrio. Fraqueza, comparativamente aos sábios, que a idóa do bem determinava. O livre arbítrio, dizia-o um defeito, visto o homem poder escolher o bem e o mal. Aristoteles, que personifica talvez o espirito philoso- phico antigo, deu uma influencia maior ao indeterminismo. 0 homem tinha o poder de escolha, sendo esta o resultado da reflexão. Aquella somente se exercia sobre as acçõos, physica e racionalmente possíveis. O homem adulto gozava do privilegio da contingência. Aristoteles, contrariamente a Socrates, pensava que o homem podia, em pleno conhecimento do bem e do mal, pratical-os livremente. Todavia reconhecia a attração do bem. Admittia, embora negando o livre arbítrio absoluto, um indeterminismo relativo. Epicuro, o celebre philosopho, fez uma verdadeira revolução doutrinaria. O prazer era o bem soberano. Morta a dôr, o prazer seria eterno. As dôres do corpo, julgava-as passageiras, as da alma, aniquiladoras. E. £ 10 0 temor da morte e dos deuses, um martyrio da humanidade. A quéda dos deuses, assim como a descrença na immor- talidade da alma, era o sustentáculo de suas idéas. Kecorreu ao systema physico de Democrito, que ria da loucura humana, causa das lagrimas de lleraclito. Esse systema negava a existência dos deuses. Havia uma parte prejudicial ás theorias de Epicuro, pois que Democrito acreditava na existência de uma neces- sidade directora do mundo. Querendo evitar um novo temor, proporcionado por este modo de pensar, substituiu esta íorça inexorável por uma creação hypothetica. Ideou, para aplanar difliculdades, atheoria dos clinames3 segundo a qual, os átomos se desviavam insensivel- mente. O indeterminismo universal era o fundamento de suas idéas. Pouco se lhe dava a base mentirosa e anti-scien- tifica, comtanto-que bem se amoldasse ás exigências dos seus principios moraes. Firmado na liberdade do atomo, sustentava a indepen- dência do homem. Era um indeterminismo inintelligente, considerando que o atomo se desviava casualmente. O atomo livre, o homem era livre. Os effeitos dessa doutrina foram extraordinários. Livrou 11 os indivíduos do timor deorum, o do jugo avassallador das superstições. O philosoplio [>regava o prazer, mas não o prazer exclu- sivo dos sentidos. « E\ diz Fénelon, por uma falsa interpretação, que se tem julgado devasso um homem de uma continência exemplar. » A palavra «epicurista» designa, infelizmente, o indivíduo entregue aos prazeres da carne. Horacio, escarnecendo do rigorismo dos estoicos, dizia: Epicuri de grege porcum. Estoiscismo.—Os adeptos desla escola eram fervorosos adversários dos epicuristas. Pensavam tjue o acaso não existia, pois que não ha eíTeito semmausa. Os princípios da physica deviam determinar os princípios da moral. A providencia estava contida na natureza ; desta se originavam o bem, a bondade, c outras virtudes. Deante dos seus desígnios, o acaso não passava de uma illusão. Necessidade e contigencia; eis tudo. Só o sabio era livre, porque sabia que todo o aconteci- mento era bom, e elle o desejava. Maior que um Deus, porque se tornava livre. i Dizia Soneca: Liber autem est, qui servitutem eíTugit. Assim pensavam os estoicos, que tinham preoccupações scientifieas. Mais tarde, os discípulos do Portico deram ao homem uma independencia relativa. 12 Epicteto distinguia as cousas que dependem do homem e as que não dependem. À saúde, a riqueza, e a mo- léstia, fazem parte do segundo grupo; a opinião, o desejo, a volição, pertencem ao primeiro. Ghrysippo não admittia o acaso, e acreditava no destino. Possidonio, mestre de Cicero, assim pensava. São delle estas* palavras: «Em vão me fazes soffrer, dôr! Jamais confessarei que és um mal!» Escola metaphysica.—Esta quiz conciliar a razão e o livre arbítrio. Plotino pensava que a providencia era a organisadora do mundo. Tudo, na sua opinião, tinha uma causa determinante. O homem, porem, possuia uma independencia relativa, Assim é que o bem e o mal lhe eram livremente pra- ticáveis. Christianismo. — Esta religião fez uma verdadeira revo- lução no seio da antiga philosophia. Declarava a existência de um deus, unico e verdadeiro, senhor absoluto de todas as cousas. 0 mundo era dis- tincto do seu principio: o Poder supremo. Os deuses perderam o prestigio deante de um ente, incommensu- ravelmente bom, grandemente justo. A doutrina christâ lutou francamente com o polytheismo religioso e o athe- ismo philosophico. Completou e desinvolveu o Mosaismo. 13 Os seus golpes foram dirigidos contra o-paganismo e a escola do Pontico. Ao homem é indispensável o auxilio divino para o cumprimento das boas acções. Deus é quem faz triumphar a idéa do bem. Para que o homem obtenha esta graça, é preciso que se approxime do Ente Supremo. S. Jacques dizia : Appro- pinquate fíeo, et appropinquabit volris, O homem, por seu esforço unico, nào se pode salvar, e é Ghristo quem o diz: Apud homines hoc impossibile esl: apud Denm autem omnia possibilia sunt. A pratica do bem exige a graça divina e a cooperação humana. Admittiro destino é negar a liberdade humana, e for- necer desculpas ao mal. Estas idéas embora abaladas, subsistem ainda. O chris- tianismo tem dominado quase todas as civilisações. Seria a melhor e inais bella escola de moral, se não fosse o descrédito em que o lançaram muitos dos seus representantes. São Paulo declara-se determinista absoluto: «Quando eu faço o mal, não sou eu quem o faz, é o peccado que em mim habita; quando eu faço o bem, não sou eu quem o faz, é a graça de Deus quem age em mim. » S. Agostinho, o mais celebre doutor da igreja, c o auctor do tratrado do Livre Arbítrio. 14 No fim de sua vida, defendendo o favor divino, atacado pelo heresiarcha bretão Pelagio, escreveu o tratado da Graça. O bretão dizia que o livre arbítrio «é a possibilidade de peccar ou não.» 0 bispu de Hyppona declarava que esta liberdade é insignificante; a verdadeira liberdade (libertas major) consistia na impossibilidade de com- inetter o peccado. Antes da falta original, o homem podia decidir-se pelo bem ou pelo mal. Acreditava no determi- nismo providencial. Os outros doutores da igreja seguiram as mesmas doutrinas. A idéa do livre arbítrio domina, ainda, na orthodoxia catholica. No século XIV, houve um movimento determinista, explicando tudo pela necessidade. Mais tarde, Luthero, reformador religioso, bateu-se energicamente contra o livre arbítrio, que considerava um titulas sine re. Deus dirige tudo. Erasmo, de Rotterdam, contestou esta opinião, dizendo não haver incompatibilidade entre o livre arbítrio e a presciência divina. Em sua obra De Servo Arbítrio, em resposta a Erasmo, o monge reformador desce ao insulto: Spiras grandem Epicuri cr apulam. Mais rigoroso que os escolásticos, nega a liberdade, 15 quer para o bem, quer para o mal. A consciência da volição 6 o único privilegio do homem. Galvino descrê do livre arbitro, e affirma a existência de um Deus independente de toda necessidade, perfeitamente sahio, eternamonte bom. E’ a causa primeira. À sua von- tade determina o sèr humano. Luthero diz que Deus é infallivel; duvida e ataca a infallibilidade do papa. Satan domina o indivíduo, quando o abandona a graça divina. O concilio de Trento foi uma reacção. Os catholicos con- firmaram as velhas doutrinas, pregando a verdade da li- berdade moral. Dogmaticamente affirmaram a harmonia do poder divino com a independência volitiva. Outra doutrina*revolucionaria foi a de Jansenio. O thoo- logo hoilandez supprimm o livre arbítrio. À graça deter- mina o homem, que absolutamente lhe não póde resistir. O auxilio de Christo determina o indivíduo. Adjutorium Chrisli determinai, ac proedeterminat etiam phys ce voltin- ta tem, ut velil et ardentitês velit. A doutrina jansenista tem relações com o determinismo de Galvino. Foram os seus adeptos que, em 4727, foram a p pe 1 i d a d o s co n v u Isio n a rios. Eis ahi um rápido resumo da opinião da antiga philo- sophia e da religião christã sobre a liberdade volitiva. Os seus effeitos chegaram até nós. As suas idéas ainda vivem. Abaladas embora, resistem. CAPITULO 11 La Science n’a pas encore aíluitie les flambeaux capables de illuminer les ténèbres qui enveloppent notre passé et voilent 1’avenir. Elte peut copendant projetor quelques lueurs dans cette nuit proíoiíde. Le Bdn. Homo sura, et nihil húmani a mc alienum puto Terencio. O homem não descança, e á divisa pessimista «Igno- ra bimus » de Reymond prefere a palavra animadora de Fouillée: « Sperabbnns.» A sciencia experimental ganha terreno, batalhando em prol do determinismo, ao passo que os defensores do livre arbítrio se debatem no ambiente rarefeito do classicismo tradicional. A logomachia destes últimos nada prova, nada adianta, tacteando sempre nas nebulosidades dametaphysica. Suas fileiras rarêam, angmentarn os claros, emquanto que avulta consideravelmente o numero dos deterministas. Estes, espíritos fortes, denodados, ávidos da luz da ver- dade, que orienta e consola, sem temerem as escabrosi- dadesdo caminho, trabalham, esperançados, na decifração E. 3 18 do íemma que tem sido a mira de todas as philosophiasv a ancia de gerações innumeras: Nosce te ipsum. íntelligencias robustas, destemidos lutadores, que se> lançam na vereda das investigações, desprezando o fogo- fatuo das illusões, difíerentemente daquelles que, vivendo em commodidade ociosa, se aquartelam na hypocrisia de mentirosas crenças. Esses, não os discutirei. Occupar-me-ei dos campiões, que, na arena luminosa da sciencia, quebram lanças pelo conhecimento da verdade. Que me não falleçam as forças ao enfrentar a grandiosi- dade da questão. Passo a tratar do assumpto, começando pela definição da liberdade volitiva. «Nós chamamos livre arbitrio, diz Fonsegrive, o poder, em virtude do qual o homem escolhe entre duas acções contrarias, sem ser determinado pela necessidade.» Toda acção é, segundo a opinião classica, indetermi- nada, e simples resultado de uma deliberação indiflerente ; é a theoria da volição espontânea. A acção livre deve ter três caracteres essenciaes : con- tingência, espontaneidade, intelligencia. A these classica é : o homem è livre; a determinista : o homem é determinado. A doutrina livre-arbitrista admitte, no mundo, um 19 poder inteirarnente estranho o independente das leis naturaes. Seria « um offeito sem causai como diz Schopenhauer, O acto seria espontâneo, indeterminado. Ora, no dia em que seja indicado um effeito sem causa, este acontecimento será o raio que hade ferir,destruindo, o bem architectado edifício da sciencia.O resultado será a anarchia. Felizmente, porém, a idéa da liberdade moral não resiste aos factos experimentaes e á uma rigorosa obser- vação introspectiva. A phraseologia dos adeptos desta escola faz lembrar a locução latina: Nnn liquet. O barão de Montesquieu, um dos precursores da Revo- lução, autor do « Espíritos das leis» dizia, falando da liber- dade, que não havia «palavra que tenha recebido mais variadas significações, e que tenha impressionado tão diversamente os espíritos ». E’ uma palavra admiravelmente elastica, um bom ele- mento de exploração politica. Schopenhauer define a liberdade « a ausência de todo o impedimento e de todo obstáculo». Pode ser considerada sob aspectos diversos, sendo os mais interessantes: « a liberdade physica, a liberdade intellectual, e a liberdade moral.» 20 A primeira é applicavel, segundo ellc, ás pessoas e aos animaes. Diz que «se entende pela palavra livre a qualidade de todo sêr que se move por sua unica vontade ». « Nesta accepção toda physica da liberdade, os homens e os animaes são livres, quando nem cadeias, nem peias, nem enfermidade, e obstáculo physico ou material de nenhuma espocie, se oppõern ás suas acedes, mas que, ao contrario, estas se executam conforme sua vontade.» Esta liberdade «implica simplesmente o poder de agir». Ora se o homem somente pratica uma acção, quando não ha obstáculo que o prive, claro c que não é livre, pois que sua liberdade depende da não existência de obstá- culos. Concluo, pois, que o homem não possue a liberdade physica, porque está sujeita a acontecimentos exteriores, á causas que lhe são estranhas. E’falsaaidéa da liberdade exterior. À segunda não existe. O indivíduo não pode pensar desta ou daquella maneira. As suas idéas inteliectuaes são depen- dentes de sua educação, do meio, dos costumes, e do grào de intelligencia. Não é livre de seguir esta ou aquella theoria, acreditar nesta ou naquella doutrina. A terceira especie de liberdade é a que mais interessa ao titulo da minha these. 21 <(\ idéa daliberdade psychica não se pode applicar se* mo a urn sêr capaz de uma acção intelligente».(Naviile) Mais adiante diz o mesmo: «A Uberdade psychica é a da vontade, que è o caracter dos espíritos, e que se deve distinguir da liberdade de natureza, que pertence a todos ■os sêres». Existe a liberdade moral?E?o queprocurareidemonstrar. Dizem os clássicos que a consciência de ser livre é a provacabal eesmagadora da liberdade inoral, E’ puraillusão. A consciência varia de indivíduo a indi- víduo. Este não tem consciência dos actos que se passam no organismo. E’ uma illusâo arraigada no espirito do homem de todas as épocas,e oriunda da ignorância das causas physio-psychologicas que o determinam. Educado nesta escola, o livre arbitrista julga-se inde- pendente,porque tem a consciência de que o é. Se a consciência de ser livre é o unico fundamento da liberdade moral, não se poderá affirmar sua exsitencia. Se o clássico tem a consciência de sua liberdade, os seus adversários, por sua vez, sentem-se determinados. O exame subjectivo mostra a falsidade da conclusão da vontade livre. Moleschott dizia ter consciência de ser determinado. Eu conheço, sinto que, em todas as minhas acções, ha um mo- tivo que me determina. 22 Por terem todos os povos a consciência da verdade de sua religião, são todas verdadeiras? Até o secnlo dezasseis a consciência geral admittia o movimento rotatorio do sol, mas a affirmação deCoper- nico foi mais forte e convincente. Tempos depois, contra a som ma de todas as consciências theologicas, prevalece- ram as celebres palavras de Gallileu: Epur si rnuove! Não se tem, ainda hoje, consciência do movimento do do globo, e, pelo contrario, o sol é que parece o eterno viajor de um caminho immutavel. Estados psychopathicos fazem que os indivíduos tenham a consciência de phenomenos que não existem. Provar, assim, o livre arbítrio é uma tarefa inútil e absurda. A liberdade moral, em tal argumento baseada, não se equilibra, rúe. A maioria de phenomenos, que se dão no intimo do organismo, passa despercebida á consciência. Certos indivíduos têm plena consciência da posse de uma alma immortal, outros negam peremptoriamenie a veracidade do principio dualista. Não ha tantos presumpçosos? Não têm elles consciên- cia absoluta de seu grande mérito c real valor? Indivíduos, arredios do movimento scientiíico actual, imbuídos de idéas arruinadas, não se julgam descenden- 23 tes, em direita linha, dos habitantes do paraiso, daquel- les que foram causas do eterno peccado? E’ verdade? Desmente-o a sciencia. O argumento clássico falha, cede. «A liberdade humana, diz Stuart Mill, consiste sim- plesmente em que o homem tem consciência de sua von- tade, e não dos motivos quo a determinam. São de Fouillèe estas palavras: «A consciência da independencia pode ter, por funda- mento real, a inconsciência da dependencia» Pode-se ter consciência de um acto sem o conhecimento de sua causa determinante. Aquella, por sua vez, è determinada, não pode ser in- íallivel. A escola espiritualista fè-la uma «entidade immaterial, simples e una, inextensa e indivisível, e sempre idêntica a si mesma, servindo de base definitiva a todas as activi- dadesda alma». (Biichner) A pratica e a observação claramente demonstram sua mutabilidade e complexidade. «A consciência é divisível, como prova a experiencia que consiste em cortar em pedaços certos animaes, vermes ou polypos, depois do que cada fragmento continúa a viver, no estado de novo indivíduo, com urna consciência distincta». (Biichner) No homem são frequentes os casos de dupla consciência. 24 E’ um phenomeno, como todos os outros, sujeito ás leis da natureza. As manifestações psychicas dependem também do determinismo universal. A consciência pode iiludir; as allucinações trans- formam-na. O hypnotismo tem, sobre ella, incontestável iníluencia. Falando delle, diz Tarde «que nada ha mais proprio para nos curay da iilusão do livre arbítrio. () hypnolico desperto ( pelo menos apparentemente) que, sob a inílu- encia persistente de uma ordem recebida, durante o somno, rouba um relogio ou espanca um amigo, julga que assim o faz por vontade própria, e funda sua persuasão nos falsos pretextos que sua imaginação lhe fornece para, a si mesmo, justificar seu acto absurdo etc. ». A consciência, provam-no trabalhos de grandes scien- tistos, não é uma entidade metaphysica e immaterial. E' um phenomeno de ordem natural; é mutável, va- riável. O argumento clássico, pois, não sustenta a theoria. De tadas as provas, apresentadas pela velha escola, esta é a mais solida; o baluarte onde se defende dos golpes certeiros que lhe atira a escola positiva. 25 Muitos phenomenos íntimos, como já disse, passam despercebidos e podem actuar sobre os centros, tornando- se « a causa ignorada de movimentos, idéas e determina- ções de que não temos consciência» (Beaunis). O psychismo inconsciente é o que mais rapidamente se executa. A actividade cerebral é consciente ou inconsciente, gozando esta ultima bem considerável papel. O habito de certos actos conscientes torna-os automá- ticos. O estado de consciência depende de causas diversas, múltiplas. Os phenomenos psychologicos relacionam-se com os physiologicos, que, por sua vez, dependem da nutrição, circulação e causas outras. Os processos psychicos seguem sua marcha, quer o indivíduo tenha consciência ou não. As observações introspectivas não têm o cunho de iníalli- bidade que lhes querem attribuir; a experimentação in- vade o dominio da vida psychica. O subjectivo não basta á elucidação de todos os actos. A consciência, é sabido, não intervem na ordem dos acontecimentos naturaes. Porque um surdo não tem consciência de um som, con- cluir-se-a não se ter dado o movimento vibratório que o produz? Não, decerto. E- 4 26 A consciência de um acto não prova a liberdade de quem o praticou. « Supponhamos, diz Cresson, uma pedra capaz de consci- ência. Ella é arremessada por uma creança. Sente seu movimento. Procura explica-lo. Ignora ter sido lançada, e considera-se a própria causa do movimenio que a anima.» Numerosos exemplos poderiam mostrar a illusão que resulta, muita vez, da auto-analyse-psychologica. Destruída, pois, a trincheira, os livre-ai bitristas perdem terreno. De todas as provas que apresentam, nenhuma se sus- tenta e equilibra. Das suas longas discussões, somente se ouvem a nihili- dade de seus argumentos e o strepitus syllabarum de com- plicada e nebulosa phraseologia. Insensivelmente vão caindo no indeterminismo relativo. Assim é que Fonsegrive diz « que o habito e a paixão, unindo-se, enfraquecem o livre arbítrio », E, mais adiante, escreve: « A paixão supprime a razão; o habito, a consciência ». Esta deixa a sua posição de juiz iníallivel. 27 «ITm corpo chimico dado reage setupre da mesma maneira, nas mesmas condições. A conclusão ó o determinismo chimico. Ura estudo profundo dos phenomenos vitaes leva-nos também, ainda que mais difficilmente, á conclusão do determinismo biologico, quando procedemos do simples ao complexo. » Le Danteu. 0 determinismo é uma verdade, é a base de todos os jthenomenos. O livre arbítrio é uma illusão, porque se diria uma entidade directora dos actos, superior à natureza, causa primeira das acções humanas. Creação puramente metapbysica, não resiste á inves- tigação. À aurora brilhante da sciencia, aspirando a verdade, invadiu as trevas das especulações; as falsas entidades, deslumbradas, fogem, desapparecem. O homem pensa, sente, deseja, mas não é livre de pensar, sentir e desejar. E’ uma vaga no oceano tormentoso da vida universal. Dominado pelo amor e pelo interesse, impellido pela paixão, desiquilibrado pela cólera. Escravo do meio; da natureza, escravo. Suas illusões multiplicam-se, sua imaginação varia. Seus actos são «absolutamente determinados ... A 28 vontade é um phenomeno da mesma ordem que as reacções do mundo orgânico » (Schopenhaeur). Elle «como ser physico c intelligente é obra da natureza Conclue-se, por consequência, que todo seu sêr e suas acções, seu pensamento e seus sentimentos são fatalmente submettidos ás leis que regem o universo.» E’ determinado por suas qualidades hereditárias, e está sujeito ás influencias mesologicas. Suas acções não têm espontaneidade. A Moniz cita: «Não ha espontaneidade nos phenomenos vitaes; desde o simples movimento amiboide do proto zoario até a mais elevada manifestação da actividade psychica humana, até o acto voluntário, consciente e deli- berado, tudo, como no mundo inorgânico, é o resultado, a reacção fatal, mais ou menos próxima ou remota, de determinadas provocações ou excitações, simples ou múl- tiplas. O acto voluntário, do mesmo modo que qualquer phe- nomeno cosmico, está, em surnma, subordinado á severa lei do determinismo » (Gonçalo Moniz). ) Para se demonstrar a falta de espontaneidade dos seres, deve-se começar pelos inferiores, cuja extructura mais simples sobremodo facilita a observação. Assim pensa Le Bon, dizendo «que não é no sêr superior que se devem estudar os phenomenos vitaes e psychicos, porque sua composição os torna inexplicáveis. 29 K’, descendo aos organismos mais simples, que se descobrirá o esboço de uma explicação dos phenomenos psychicos». Naturalíssimo è o principiar pela base da escala, pois que, em verdade, não existe, entre o homem e outros sêres, uma diversidade profundamente essencial. Descartes pensava que, entre o genus homo e o reino animal, havia uma linha nitida de separação. Os espiritualistas ainda dizem: «O homem è uma intelligencia servida por um grupo de orgãos; o animal, um grupo de orgãos servidos por uma intelligencia ». O cartesianisiuo ia mais longe, quando dizia que o animal não tinha representação. consciente, era uma simples machina. Tudo nelle se reduzia ao puro reflexo inconsciente. « O homem tem intelligencia, o animal tem o instincto». A doutrina de Descartes negava a consciência dos animaes; os espiritualistas, ainda hoje, assim o pensam. A sciencia moderna, porem, reconhece que o homem é o mais intelligente dos animaes; mas nega o privilegio exclusivo desta faculdade. O sêr humano é o resultado lento e gradual de uma longa evolução. Suas qualidades psychicas e intellectuacs acham-se, embora em menor grau, em outros animaes. 30 Seu estudo psyehico deve., pois, ser feito por meio de* uma regressão á ontogenia. No começo de sua existência, o homem é um ovo» eellular, um plastidio simples (Huxley). Quando em completo desinvalvimento, é composto de milhares- desses pequeninos sêres protoplasmicos. Gfaro é que demonstrado o determinismo desses ele- mentos, provado estará o do homem, aggregadoplastidiario. Apurados estudos de cuidada observação e seria expe- riencia affirmam que estes corpos unicellulares são absolutamente determinados. Parece qne os plastidios se movem espontaneamente, mas isto é simples illusão que mui rapidamente se desfaz. Le Dantec, estudando bellissimamente este facto, assim escreve: ((Numerosas experiencias tèm provado uma influencia., manifestamente directora, dos diíferentes agentes empre- gados, substancias chimicas (chimiotropismo ) luz (pho- totropismo) calor (thermotropismo) etc., o que faz pensar que o movimento dos plastidios é unicamente uma con- sequência das reacções chimicas que nellas se dão .» Assim é que a falta de oxigénio lhes tira o movimento, A presença deste gás fá-lo recomeçar. «Em resumo, no estado actual da sciencia, se pode considerar como demonstrado que todas as manifestações da vida elementar dos corpúsculos vivos são resultantes 31 de suas propriedades chimicas, que seus movimentos são devidos a reacções chimicas, etc. » Le Dantec conclueque, sendo as reacções determinadas, os movimentos e outras manifestações também o são. Os movimentos desses sêres inferiores dependem e são eííeito das reacções chimicas. Suas faculdades «são unicamente as propriedades chi- micas de suas substancias consituintes». Se têm vontade, «estes infelizes devem constante- mente ser contrariados em seus projectos e estar frequen- temente de muito mau humor». (Le Dantec). Entretanto, ao observador ignorante parecerá bem verdadeira a manifestação de uma vontade consciente e perfeita. « Numa gotta de uma infusão, ao microscopio, a vida é extraordinária. ■ Os plastidios pullulam e movem-se nos sentidos os mais differentes e segundo os trajectos os mais irregu- lares. Uns caminham para a direita, outros para esquerda, uns obliquam num sentido, outros desviam-se noutro, uns apprehendem estas ou aquellas granulações, outros quedam-se immoveis. O espectaculo é o de uma popu- lação occupada nos seus negocios, movendo-se activa- mente em todos os sentidos, vagneiando á espreita de caça, devorando os alimentos que descobre, ou dei- 32 xando-se irmnobilisar na branda quietação dos repletos em idyllica contemplação de seu firmamento. (Bombarda) Não parecerá que estes seres unicellulares, apezar da singeleza de sua vida, se movem voluntariamente, com' pletamente estranhos ás determinações do meio? O mesmo escriptor diz : « Temos aqui uma preparação, uma gotta de liquido, contendo ciliados e flagellados. Quer-se a imagem de uma batalha, em que os soldados se precipitem furiosos uns sobre os outros? Nada mais facil. Façamos actuar sobre a preparação uma corrente galva- nica; flagellados accumulam-se num eléctrodo, ciliados no outro. Invertamos a corrente; os plastidios atiram-se uns sobre os outros como inimigos até que de novo se accumulem nos respectivos pólos. E tudo isso, a repa- ração nitida desses organismos, bastam poucos segundos para a realisar completa.» Le Dantec, que estuda bem este phenomeno e me serve de guia em taes demonstrações, descreve : «Eis aqui uma bactéria que parte (chimiotropismo) ao encontro de uma região da infusão onde achará uma substancia que lhe agrada !) Eu lhe dirijo, de um outro ponto, um raio de luz azul, e ella é obrigada a mudar de direcção. Mas, dirão, é que lhe é melhor a luz que o alimento ; então eu a faço mudar de rumo por uma substancia attractiva que lhe seja 33 prejudicial; ella corre atè ahi, e morre; será porque eu a torture ao ponto de lhe ser preíerivel o suicídio ? » Provado está que não ha escolha nem reserva na assimilação dos seres inferiores. Sua vontade é apparente e iIlusória. Tudo se reduz ao resultado dos phenomenos physico- chimicos. Jinglobam substancias diversas, quer sejam uteis ou prejudiciaes. Tudo nelles é simples, singelo, como a própria estructura. Ora, não havendo vontade no plastidio, não poderá existir no homem que é um animal polyplastidiario. A conclusão, em que peze aos espiritualistas, é lógica e verdadeira. Conclúe-se, ainda, que, não havendo no interior do cospusculo o principio vital, nem a alma impalpável, é falsa a divisa: Meus agitai molem. li’ o que mui verdadeiramente se deduz, subindo a escala zoologica. Provas outras, que não estas, annullam também a idéa da liberdade volitiva. A conclusão, que a elimina, é sanccionada pela sciencia. Acham-na falsa aquelles que esmagados vivem sob o jugo ferrenho do misoneismo. Que ella não baste e outras apresentadas serão ; assim o exija a demonstração da verdade. E. 5 34 Sufficiente será recorrer à lei da causalidade natural, que o livre arbitrio destruiria. A vontade humana resulta de causas naturaes, e delias depende. E’ um effeito e, sendo assim, varia sob a influencia poderosa de íactores vários, como o prova cabalmente a physio-pathologia. A sua independencia seria uma novidade no inundo, porque íaria delia um producto espontâneo. A volição, diz Ribot, não é uma causa, mas um effeito. Os estoicos, Spinoza, Diderot, Schelling, Wirchow, Biichner, Le Dantec, e outros, negam a liberdade volitiva como um poder illusorio e falso. Stuart Mill, «o mais logico dos deterministas e o mais determinista de' todos os logicos», como alguém o deno- minou, proscreve o livre arbitrio, porque todos aconte- cimentos se explicam pelos antecedentes. O effeito resulta sempre de uma causa. Um phenomeno é causa de outro. Do nada, nada vem. Attesta-o Lncrecio em seu apho- rismo. Ex nihilo, nihil, in nihilun nil posse revesti. O livre arbitrio seria uma causa primeira. Esta, porém «é tão impensável quanto o começo do tempo ou o limite do espaço.» (Schopenhaner). Outro argumento, opposto pelos deterministas aos clássicos, é que tal entidade iria ferir, desmentir a lei 35 da conservação da matéria, com a qual está em completa contradicção. Lucrecio, o notável poeta, dizia em seu livro De nalura rerum, que Leíèvre traduziu: «Rien ne vienl du néant, rien non plus n’y retourne, La raatière en un cercle éternelleraent tourne Sans diminuer jamais, produisant terre et cieux, De l’univers, enfin, le tont harmonieux». Rernardino Telesio, no século XYÍ, escreveu : «A substancia dos corpos é a mesma por toda parte, e fica eternamente a mesma; a indolente e sombria matéria não pode ser augmentada nem diminuída». Dizia Giordano Bruno : Ali, onde pensamos que alguma cousa morre, apenas se trata de uma passagem a uma nova existência, de uma dissolução dessa combinação por onde começa uma dissolução nova». A descoberta da lei, acima mencionada, íoi um dos acontecimentos maiores do século XIX. Novos horizontes rasgaram-se à perspectiva do methodo experimental, e phenomenos diversos foram explicados. Os effeitos de tal lei foram mais consideráveis, quando, algum tempo depois, descoberta foi a da transformação das forças. E, como a matéria é inseparável da força, que é attributo daquella, Hceckel, o grande sabio, sob o nome de lei de substancia, resume «as duas leis, extremamente 36 geraes, de origem e épocas differentes; a mais antiga é a lei chimica da «conservação da matéria», a mais recente, a lei physica da «conservação da força». Lei da conservação da matéria. A matéria é indestructivel e constante; transforma-se, mas não desapparece. O atomo é sempre idêntico, sómente pode mudar de combinação. «Um simples atomo elementar, diz Stewart, é um ser immortal, gozando do privilegio de ficar intacto e immutavel, apezar dos mais terriveis choques ». A chuva, que do alto desce, não é mais que a conden- sação dos vapores atmosphericos; o carbono, que queima, combinando-se com o oxygenio do ar, forma acido car- bónico. Tudo se transforma, nada perece. E’ a evolução eterna. Lavoisier, chimico francês, victima da revolução, foi o descobridor dessa famosa lei, que se resume nestas cele- bres palavras : a Nada se crêa, nada se perde. » 2a. Lei da ■conservação da força. A somma de forra, que actúa no espaço infinito eproduz lodos os phenomenos, é constante. A força emana da matéria, logo é immortal. Nas mais complicadas transformações, não se perde a minima par- cella de matéria, assim como a menor quantidade de força. Em 1837, Mohr em seu livro «Úber die Natur der Warme » aproximou-se da concepção desta lei. 37 Coube a Mayer, era 184-2, descobrir o equivalente me- cânico do calor. As íorças transformam-se frequentemente umas nas outras. O calor e a luz podem ser o producto da queima do carbono. O calor, por sua vez, pode tornar-se movimento. Este, por meio de attrito, transforma-se novamente em calor, em electricidade e luz. « A transformação esta em toda a parte, diz Tyndall, a destruição em nenhuma parte. No mundo orgânico, como no inorgânico, nos corpos vivos, como nos inani- mados, reina um eterno movimento. Não ha repouso abso- luto. Tudo se transforma, e do seio da poeira surge, sem cessar, uma nova vida. » A lei da substancia, como se concilie, é contraria ao livre arbítrio e completamente o aniquila. Essa lei, em dogma erigida, acaba de ser desmentida pelas experiencias, em parte concludentes, de um phy- sico notável. Abrirei um parêrithese para apresentara questão. A opinião da indestructibilidade da matéria vem desde remotíssima antiguidade. Apesar de alguns physicos, como Faraday, terem pen- sado na unidade provável da matéria e da energia, nin- guém havia dado a esta concepção o cunho do precisão e 38 o caracter de verdadeira resultado de estuda experi- mental. As hypotheses, até então apresentadas, eram simples argumentos metaphysicos, em que haver não se notava ? um fundamento solido. Gustavo Le Bon, aetualmente, é quem vibra, contra o velho dogma, destruidoras concepções. A matéria não é indestructivel; a lei fundamental cos- mologica não é suprema nem verdadeira. A matéria pode ser dissociada. Não é inerte, pois que é um reservatório de grande- energia. Os velhos princípios da thermodynamica vão caindo em ruinas, por isso que lhes é pesado o pó de muitos séculos. A matéria, segundo as conclusões do mencionado sabio, é uma variedade muito simples da energia. O calor, a electricidade, a luz, são formas de energia, resultantes todas da dissociação dos átomos. São mani- festações poderosas da força intra atómica. Deante dos estudos geniaes e cuidadosos de Le Bon, a dualidade da força e da matéria é aniquilada. «Não ha separação entre a matéria e a energia, pois que aquella é simplesmente uma forma estável desta ». A indestructibilidade da matéria é julgada uma conce- 39 pção errónea. E' falso o velho principio: «Nada se crêa, nada se perde». «Os elementos dos átomos, que se dissociam, são irrc— vogavelmente destruídos» (Le Bon). Elles perdem o peso, que a balança não accusa. O distincto sabio, depois de 10 ânuos de longos e apurados estudos, chegou á conclusão de que a matéria não é indestructivel. Nega a indivisibilidade dos átomos, até agora um principio de fé scientiíica, uma especie de dogma im- perecível. «Ora, diz o grande physico, os dogmas scientificos inspiram o mesmo temor supersticioso que os deuses das antigas idades, bem que, como estes, tenham toda fragilidade.» Elle resume as idéas classicas, que combate, nesta passagem de uma obra de Janct: «O mundo, em que vivemos, é, em realidade, um mundo duplo, ou composto de dous mundos distinctos: um que è o mundo da matéria, o outro, o da energia. O cobre, o ferro, o carvão, eis formas da matéria. O trabalho mecânico, o calor, eis formas da energia. Cada um desses mundos é dominado por uma lei idêntica. Não se póde crear nem destruir a matéria, não se póde crear nem destruir a energia. « Matéria e energia podem revestir um grande numero 40 de formas diversas, sem que a matéria possa trans- formar-se em energia ou a energia em matéria.» Considerando, diz Le Bon: .« A impossibilidade de transformar a matéria em energia parecia então evidente, e é com razão que ella é invocada nas obras cíassicas para estabelecer uma separação muito nitidaentre o mundo da matéria e o da energia.» O eminente physico prova a unidade da força e da matéria, dizendo ser o átomo um immenso gerador de energia. O atomo, em sua theoria, é mortal. A sua dissociação dá os seguintes paoductos: «1.® Emanações; 2.° Ions negativos; 3.° Ions positivos; 4.° Electros; 5.° Raios catódicos; 0.° Raios X e radiações analogas. São causas frequentes da desmaterialização: a luz, as reacções chimicas, (como seja uma simples hydratação) I as acções electricas, os phenomenos de combustão, a energia calórica. Affirma Le Bon que ã matéria se dissocia espontanea- mente. Este processo lentamente se executa; é um pheno- meno geral. A substancia, que soffre a desmaterialização, apresenta propriedades intermediárias do ponderável e do inpon- deravel. Elle resume os resultados experiméntaes de suas investi- 41 gações nas seguintes proposições: «l.aA matéria, outrora supposta indestructivel, desapparece lentamente pela dis- sociação continua dos átomos que a compõem. » « 2.a Os productos da dissociação da matéria constituem substancias intermediárias, por suas propriedades, dos corpos ponderáveis e do ether imponderável, dous mundos que a sciencia, até agora, tinha separado. » « 3.a A matéria, outrora considerada inerte, não podendo restituir a energia que lhe tinha sido fornecida, é, ao contrario, um colossal reservatório de energia — a ener- gia intra-atomica — que ella pode despender sem receber de fóra. » « 4.a E’ da energia intra-atomica libertada que resulta a maior parte das forças do universo, principalmente a electricidade e o calor solar. » « 5.a A força e a matéria são duas formas diversas de uma mesma cousa. A matéria representa uma forma estável da energia intra-atomica. O calor, a luz, a ele- ctricidade, representam formas instáveis da mesma energia. » «6.a Dissociando os átomos, isto é desmaterializando, não se faz mais do que transformar a forma estável da energia, chamada matéria, em formas instáveis, conhecidas 4>elos nomes de electricidade, luz, calor, etc. A maté- ria transforma-se continuamente em energia. » « 7.a A lei de evolução applicavel aos sêres vivos também E. 6 42 o é aos corpos simples; as especies chimicas e as especíes vivas não são invariáveis.» «8.a À energia não è indestructivel, assim como a ma- téria donde aquella emana. » O producto da dissociação vae cair no ether. Dahi em deante? Gustavo Le Bon recorre ao dominio das hypotheses. A matéria dissociada cae no ether. Àhi;está o seu termo. O ether é o nirvana. «Fazer hypotheses, verifica-los por experiencias, depois procurar relacionar, com o auxilio de generalizações- os factos observados, tudo isso representa os estados necessários da edificação de todos os conhecimentos». (Le Bon). Das « edades heroicas aos tempos modernos, a hypo- these foi sempre um dos grandes recursos da actividade humana. » (Le Bon). O eminente sabio julga completamente destruído o prin- cipio fundamental da chimica, assim como o dogma da conservação da força. « Nada se crê. Tudo se perde. » Duclaud, na Revista Scientifica, em 1904, escreve com muita razão: «Ora, a não ser que se admitta haja perda do ether, saida do reservatório, durante esta perpetua troca entre o ponderável eo imponderável, concluir não se poderá 43 o desapparecimento de qualquer quantidade de ma- téria. A idéa de uma perda da parte do ether é inadmis- sível, pois que, por hypothese, o ether enche todo o espaço.» Laisant, também por Le Bon citado, discutindo o supposto fim da matéria no ether, escreve: «Em logar desse eterno cemiterio dos átomos, eu quero que o ether seja o perpetuo laboratorio da natureza». O distincto sabio declara não contradizer as duas ultimas opiniões. Diz somente que, caindo no ether, « a matéria tem irrevogavelmente cessado de existir para nós». « Ella, diz, se tornou alguma cousa incognoscivel e eli- minada da esphera do mundo accessivel aos nossos sen- tidos e instrumentos.» E, em outro ponto, opina que aàmateria, « volvida ao ether, não pode mais voltar ao que era, ou, pelo menos, não o poderia senão por accumulações colossaes de energia, durante longas successões de edades...» Elle mesmo confessa que a conservação da matéria e da força fica parcialmente intacta, attendendo que*o átomos dissociando-se, restitue a energia armazenada na origem da sua formação. Das investigações, incontestavelmente geniaes, do grande sabio, não se concluirá a negação absoluta da lei cosmologica. 44 0 que parece indiscutível é a unidade da energia e da matéria. A morte do atomo está, ainda, no dominio da hypothese. E’ um pouco arriscada a afíirmação: «Tudo se perde ». A hypothese pode servir de guia, mas não pode ser oráculo. A lei de substancia, se me não engano, não está abso- lutamente aniquilada. O principio «Nada se crêa, nada se perde» ainda não recebeu o golpe esmagador. Porque o resultado da dissociação do atomo, no ether, não é accessivel aos nossos sentidos e instrumentos, conclu- dente não é que se o diga mortal. O mais acreditável é a transformação. Os antigos instrumentos não tinham a percepção de certas forças, entretanto estas existiam. Cousas, que se nos passam imperceptiveis, pelo homem futuro serão conhecidas. Não se pode limitar o alcance da razão. Todavia, verdadeiro ou falso o principio «Tudo se perde», fica ainda o outro «Nada se crêa». Isto basta. 45 A causalidade applica-se á producção de todo os pire* nomenos do universo. Desde a irritabilidade do protozoário até a actividade consciente do homem, tudo é determinado. Da parte inferior da escala animal até o ultimo grau de seu desinvolvimento, a causalidade domina e dirige. As acções espontâneas são puramente illusorias; somente a rnetaphysica pode concebê-las. A vontade livre é um falso rotulo, uma reminiscência histórica. Ella, na concepção antiga, era tida, á feição de entidade symbolica, como uma força autonoma, increada. Era umafaculdade independente, uma entidade psychica. Os scientistas actuaes, desprezando o methodo syste* maticamente especulativo, guiados pela experiencia, jul- gam-na urna manifestação physio-psychologica. A vontade é simples volição. Esta é um reflexo. Antigamente o acto reflexo consciente era considerado como differente do reflexo inconsciente. Hoje «o acto reflexo é o eschema universal.» A cellula nervosa é a formula anatómica do arco reflexo; é o centro onde chega e se reflecte o influxo nervoso. O neuronio é o elemento estructural do psychismo. Os ncuronios não se soldam; ha simples contiguidade entre suas fibrilhas. O arco reflexo antigo tornou-se arco mono ou poly- 46 neurico, segundo é constituído por um ou mais nenro- nios. Cada arco neuronico é uma unidade physiologica. A unica differença entre os actos reflexoséa complexi- dade. Diz Debierre: «A acção reflexaé essencialmente constituída por uma reacção motriz, automatica e inconsciente ou voluntária e consciente. Reduz-se aos phenomenos seguintes: 1. Impressão ou recepção dos movimentos exteriores pelos orgãos sensitivos; 2. Transmissão centrípeta da agitação, por intermédio dos nervos centrípetos ou sensitivos que ligam a periphe- ria aos orgãos nervosos centraes; 3. Reacção interna ou reflexão da agitação recebida pelos elementos nervosos dos centros, acompanhada on não de consciência; 4. Transmissão centrífuga da excitação por meio dos nervos centrífugos ou motores que ligam os centros aos musculos; 5. Reacção externa ou restituição da energia recebida (momentos musculares, gestos palavras etc.)» <(A funcção dos centros nervosos consiste, pois, em restituir, reflectir, sob forma de impulsão motriz, a im- pressão sensitiva que lhes vem do exterior. Mas devido á complexidade do mecanismo, a energia recebida é não 47 só restituída iinmediatamente ou amarzeriada para reap- parecer depois, sob certas condições, mas é também modificada. O organismo recebe do exterior somente mo- vimento, mas sob formas diversas, como sejam movi- mentos de massa ou molecular (ondulações sonoras, vi- brações luminosas, caloricas, movimentos chimicos.» As impressões exteriores podem ser. pois, luminosas, auditivas, caloricas, chimicas ete. O organismo reage conforme a intensidade e a demora das impressões. A volição, cujo estudo muito interessa ao assumpto, não è effeito da vontade, mais uma manifestação psychiea, um acto retlexo superior e consciente. <x\ volição, diz Dallemagne, é um retlexo de pliases successivas e deeomponiveis, assim digamos, em actos ligados uns aos outros. Estes actos, numa volição typo, são acompanhados de processos conscientes, que são os seus attributos psychicos.» O primeiro acto de uma volição eschematizada é a excitação ou incitação causal. «O segundo acto, diz Dallemagne, o segundo processo de uma volição consiste na percepção da excitação.» A complexidade é maior neste periodo. Podem influir as inclinações individuaes, as aptidões hereditárias, a reflexão, a comparação, e outros motivos determi- nantes. 48 A percepção, é incontestável, pode ser quasi incon- sciente, existindo, todavia, physiologicamente. Dallo- magne diz mesmo que pode ser inconsciente. Eu contesto, pois que não cornprehendo que se perceba sem consciência. O terceiro periodo da volição consiste em uma serie de processos de associação, donde, systematicamente, resulta a decisão. A ultima phase da volição é a execução. «Se existem, diz Dellamagne, volições de origem externa-interior e exterior-podemos entãoadmittir volições de origem interna, de natnreza ideogenica.» Estas são as que têm a apparencia, a illusão perfeita, de espontaneidade. São manifestações de actividade psychica. São reflexos mais complexos. A percepção varia na razão directa da excitação. Varia de indivíduo a indivíduo. Uns possuem-na pouco sensível, outros têm-na hyperesthesiada. Volições ha que dependem de grande reflexão e de impressões anteriores. São as que dão mais francamente a illusão da liber- dade volitíva. Outras ha que são rapidas e simples. «Diz-se, então, uma volição lenta, ponderada, refle- ctida, experimentada ou uma volição rapida, super- ficial, inconsiderada, etc.» Algumas são quasi automa- ticas. 49 À determinação, em casos taes, ganha rapidamente os territórios motores. Nas volições complicadas, ao envez de rápido o pro- cesso, ha, entre a determinação e o acto definitivo, con- dições diversas que produzem modalidades varias. A volições formam uma escala, que vem desde o quasi-automatismo até a maior complexidade. Como se deduz, ao revés do que se pensava outrora, a volição não é uma entidade psychica. O acto voluntário e o inconsciente são sempre deter- minados; distingue-os a complexidade. Darei, para maior clareza, o seguinte eschema de toda acção individual: « 1.® Uma phase physica, fora do centro nervoso, a qual pode ter sua origem no mundo exterior ou no corpo do / indivíduo: por exemplo, uma vibração doar e do ether que vem impressionar a peripheria do corpo, ou então um movimento que, nelle mesmo, se produza, seja no esto- mago., no fígado, ou em outra parte; 2.° Uma phase phy- siologica dupla, isto é, primeiramente uma vibração centrípeta na substancia do nervo cuja extremidade peri- pherica é excitada pelo movimento physico e que propaga, até o centro nervoso, a vibração determinada pelo mesmo movimento; e, em seguida, um movimento centrífugo que percorre esse mesmo nervo em sentido inverso e propaga a mesma vibração do centro á peripheria; 3.° Nova phase E. 7 50 physica que é o movimento muscular, mecânico, a acção exterior, effeito da corrente nervosa centrífuga.» «Um homem dirige-me a palavra: resulta dahi um movimento exterior do ar, uma corrente centrípeta da orelha ao cerebro, uma corrente nervosa centrífuga do cerebro ao braço, um movimento do proprio braço.» «Ora, este processo evolutivo fundamental pode ter duas modalidades: ou, no momento em que a corrente nervosa centrípeta chega ao cerebro, somos advertidos, e então elle se torna consciente, passa, como diz Sergi, á phase psychica, e se manifesta na sensação, no sentimento, na idéa, no esforço voluntário; ou então não attinge esta manifestação psychica, e fica no domínio do inconsciente, como simples acto reflexo. Neste ultimo caso, que é o mais simples, o processo evolutivo é, como acabo de o dizer, composto de tres phases, sendo uma dupla; no segundo caso, ao contrario, da manifestação consciente, ha mais uma phase physica que biparte a phase physiolo- gica dupla, e então se produzem estes cinco periodos do phenomeno complexo: movimento physico externo no começo — corrente physiologica centrípeta — manifesta- ção psychica — corrente physiologica centrífuga — final- mente, movimento physico externo.» « Se este processo não chega até a phase psychica, fica no estado de simples acto reflexo inconsciente e involuntário, em que não entra a idéa de livre arbítrio; 51 se, ao contrario, attinge a manifestação psychica e se torna aeto consciente ou voluntário, então se produz na consci- ência, em consequência da illusão indicada, o sentimento de liberdade volitiva durante a phasepsychica, sobretudo nos casos especiaes de deliberação demorada e, por conse- quência, mais nitidamente percebida.»(Ferri). O acto, seja voluntário ou automático, 6 o fim de uma cadeia de phenomenos; é sempre resultado, eífeito de determinadas causas. «A actividade psychica, sob suas differentes formas, toca sempre, afinal, numa reacçâo motriz, voluntária ou automatica, consciente ou inconsciente.» (Hamon). CAPITULO Itl XDallemagne diz que « apezar da variedade das voli- ções, ellas estão longe de resumir tudo que ordinaria- mente se entende sob o nome de vontade». Casos ha em que a determinação não mostra tendencia especial, parecendo brotar espontânea e incondicional- mente, livre de circumstancias. Outras vezes, a orientação é o resultado de inclinações e disposições individuaes. «A determinação, uma vez nascida, diz Dallemagne, ê claro que nos achamos em pleno dominio do que se chama actividade voluntária. À vontade, doravante, vae intervir continuamente ». Servirá para vencer e aplanar resistências, superar impecilhos, dominar escrúpulos e temores. Será o ele- mento fortificante da resolução. Todavia a sua importância não é essencialmente pri- maria, pois que predominam factores outros, como sejam os attributos de excitação, a complexidade dos circuitos, a apathia ou a actividade dos centros motores. 54 Alem disso, a vontade nem sempre corrobora a exci- tação. Pode, ter, como provam as experiencias, uma influen- cia contraria,como seja o poder de aniquilar a excitação, de intervir em cada periodo reflexo, produzindo1 inversos phenomenos. Será, então, inhibitoria, ao envez de adju- vante. Este phenomeno de inhibição, quando descoberto, arruinou completamente a lei da manifestação reaccional infallivel de toda excitação. Hoje esta propriedade (inhi- bição) é considerada, como um dos modos da neuro- actividade. O citado phenomeno poderá intervir em qualquer phase reflexa, impedindo, por assim dizer, a exteriorização. Assim, como se vê, a onda nervosa pode ser impedida como a luminosa. Influencias inhibitorias podem detê-la na serie dos cyclos. E’ uma especia de barreira, que se oppõe a determinação. Esta força, ora adjuvante, ora inhibitoria, é que se chama vontade. Deve-se notar que não tem a significação que lhe dão os clássicos. E' um nome antigo que baptisa uma concepção nova. À palavra pode licar, a velha idéa não se sustenta. Ella pode, como já disse, desviar, impedir, impossibi- litar o reflexo. E’ um attributo do nosso caracter, uma 55 synthese de nossas inclinações, de nossos hábitos, e da própria educação. Quando a vontade parece ser a origem consciente do acto voluntário, o indivíduo tem a illusào de sua espon- taneidade, pois que similha uma causa primeira, isto é, independencia de.causas provocadoras. O estudo psycho- physiologico reduz a nada essa illusào. A ignorância e a inconsciência das causas precedentes dão a íalsa intuição de independencia. Uma parte do processo passa-se no inconsciente. A intercurrenciadas volições, isto é, da vontade, na expressão synthetica da palavra, na significação moderna, fortifica, enfraquece, ou mesmo inhibe a execução. Por isso não é contrasenso, embora o pareça, dizer-se que um indivíduo tem vontade fraca e irresoluta ou forte e energica. Isto significa maior ou menor intensidade de manifestação psychica. Não haincoherencia na conservação da palavra vontade. A reacção depende da excitação, da energia ou apathia do processo, da força ou fraqueza das causas determi- nantes. A qualificação é baseada no modo de realização dos actos. A’ luz da consciência podem surgir determinações diversas, donde se origina a indecisão, que exige uma * reílexão maisou menos demorada. A intervenção desses factores dá-se por causa da 56 independencia dos circuitos, que guardam uma certa quantidade de impressões, chamadas resíduos pelos phy- siologistas. Â receptibilidade delles explica o acto voluntário. «Definamos rapidamente, diz Dallemagne, antes do proprio acto, esta dupla condição de sua producção; será a estatisca ante a dynamica, alguma cousa que lembre a anatomia precedendo a physiologia». À independencia dos circuitos explica, como já disse, a intervenção da vontade. E’ uma propriedade dos arcos polyneuricos. Se ella não existisse, se os arcos fossem absolutamente ligados e dependentes uns dos outros, é claro que seria o auto- matismo. Não seria permittido desvio nem também variação no processo reflexo, se houvesse ligação impenetrável dos circuitos. A reflexão não se poderia dar, e esta, ainda que se produzisse, não influiria sobre a marcha do reflexo. Condição indispensável ainda se apresenta: a existência do residuo, que é a impressão recebida pela cellula e no seu intimo guardada; é o resultado de todo phenomeno psychico que ahi se passa. E’ uma grande necessidade no caso vertente, desde que, sem tal estereótypo, haver não poderia a memória. 57 Como seriam possiveis a educação, a experiencia, a adaptação e a aprendizagem ? Diz Dallemagne que esses residuos possuem proprie- dades dynamicas, sendo provável que vibrem sob certas condições. Os estados de consciência são talvez dependentes da intensidade dessas vibrações; a hypotensão fá-los-ia entrarem no dominio do inconsciente, ao passo que a elevação os poria na altura de concepções conscientes. A memória seria o despertar dynamico, o resultado dessas vibrações, que trariam, ao campo da consciência, antigas impressões, existindo latentes no interior das cellulas. Assim é que se explicam a reminiscência e a retenção das imagens. A energia dos residuos «bastaria para dar a substancia corlical uma especie de autonomia funccional ». As vibrações reforçam-se «em virtude da relação que existe entre o residuo e a excitação ». A vontade «não tem existência -própria, é uma meta- phora usada por nossa mentalidade para evitara repe- tição dos processos mentaes essenciaes, que, no curso de um reflexo, despertam o eu e lhe attribuem a paternidade querida e deliberada do acto que caraoterisa essa reflexão», f Dallemagne). Diz ainda o mesmo physiulogista « que a vontade se 58 apresenta como a resultante de um atttributo commum, idêntico a si mesmo em sua expressão physiologica, em sua formula mecanica; muito variavel, entretanto, nas formas sob as quaes se manifesta a consciência ». A exuberância do trabalho em um centro, com pre- juízo dos outros, trará, como resultado, uma vontade, impetuosa e energica. A insufficiencia de actividade pro- duzirá, bem ao contrario, uma vontade irresoluta e fraca, Depende, pois, de factores, como sejam a natureza dos elementos e a somma de energia latente. As tendências individuaos enfraquecem e modificam-se com a idade. A funcção volitiva, no velho, declina sensivelmente na ul- tima quadra do existir, que, muita vez, morosamente vae, ao passo que se elle apega á vida, dominado pelo temor da morte, que próxima vem, despiedosa e cruel. E' uma segunda infancia, mas decrepita e triste; ali é oflorecer da existência, aqui o declinar da vida, esvaindo lenta. A vontade pode extinguir-se, por effeito de manifes- tações pathologicas. O hypnotizado perde a vontade, que é substituída pela do agente. Causas outras influenciam-na. Dcscrevê-las é o que vou tentar. O procedimento do indiuiduo depende do seu caracter. Este è um effeito complexo, não ha nega-lo, de circums- 59 tancias psycho-physiologicas eda educação. A herança, por sua vez, prepara o substracium onde agirão as iuflu- encias estranhas. O caracter é, segundo o professor Ribot, a expressão psychica de um organismo individual. Depende de cau- sas diversas, predominando incontestavelmente a heran- ça, o meio cosmico. a instrucção, a saude, a profissão, o clima, o meio social e quejandos factores. «As faculdades moraes do indivíduo, diz Schmidt, tra- zem o typo de sua origem, e são determinadas pelas leis da herança.» Debierre escreve: «O homem pensa e age, não espontaneamente, mas con- forme o sangue que tem nas veias, isto é, segundo sua herança. Elle sente, pensa, quer muito mais por seus avós do que por si mesmo. E’ o morto que, do fundo do seu tumulo, onde se tornou poeira, governa o vivo.» (Cit. de A. Moniz.) «As descobertas anthropologicas e psychiatricas mos- traram como o homem é despoticamente regido pela orga- nização e pelo meio social.»fBombarda) A herança éo maior íactor do caracter; é o terreno onde irá influir o meio social. Aquella determina o caracter; o meio, a sua reacção. «A personalidade humana, diz Dallemagne, é o resul- 60 tado de dous factores essenciaes,reagindo um sobre outro: o òrgauismo e o meio.» O ser humano é o joguete de condições múltiplas, se- jam physicas ou sociaes. A vontade humana varia em cada indivíduo, e está sujeita ás influencias meteóricas. O clima quente, influenciando a actividade cerebral, modifica a energia rolitiva. O calor pode ser causa de apathia, assim como de acções violentas. O frio tem uma acção depressiva sobre os centros ner- vosos, donde o caracter brando dos habitantes desse cfima. A geologia, a orograhia, a raça, o vento, tudo isto tem um poder modificador do caracter. O opio produz considerável enfraquecimento da von- tade. A fome, a miséria, a posição, e o exemplo têm influ- encia incontestável sobre as manifestações volitivas. A ci- vilização, é sabido, possue uma acção inhibitoria sobre as tendências criminosas. O meio social dirige, modifica, eleva ou corrompe o caracter. A imitação também dirige a von- tade, assim como o exemplo. A educação é um factor po- deroso. Dous indivíduos, que tenham caracteres similhan- tes, poderão, dirigidos pela educação, proceder difleren- temente. « O caracter e os motivos, eis, em summa, os factores que produzem todas as acções humanas.» (Hamon). 61 0 homem deseja naturalmente o prazer e a com- mod idade. «Em todos os actos, achamos o determinismo sob sua forma inexorável. A vida humana leva, por toda a parte, o mesmo sentimento: fugir á dôr, procurar o prazer.» (Dallemagne). Conclue-se então do que até agora escrevi a inexistência da liberdade volitiva. O homem é escravo dos motivos que o determinam. «A unica liberdade que o ser humano possue, diz Ilamon, é a de proceder segundo sua vontade, seus proprios gostos, suas inclinações, seus motivos.» Adeante, elle observa: «JàFIobbes, Rayle, Voltaire e tantos outros haviam dito que a liberdade de proceder era a unica que possuiamos. Collocavam a liberdade no poder de executar o que se havia querido. Racionalmente demonstravam que era isso a unica liberdade possuída. Hoje, pelo methodo positivo, se chegou á mesma de- monstração: O ser humano não possue a liberdade de proceder». Ferri e outros assim o pensam. Concordo absolutamente com a negativa do livre arbítrio, mas contesto a existência da liberdade de proceder. Para melhor pôr a questão, transcrevo a seguinte definição: « Por liberdade physica, exterior, explica Herzen, en- 62 tende-se a ausência de obstáculos á execução do que* se tem querido, ou em geral, ao exercício da activi- dade própria do indivíduo; é assim que se diz: — «uma ave livre de voar, o ar livre de circular,—a balança livre de descer de um lado ou de outro,—o homem livre de licar em casa ou de ir passear.» Primeiramente, declaro que não conheço balança livre de descer ou de subir. Quando perfeita, não póde, por sí mesma, pender para um ou outro lado. O homem não tem liberdade de acção, pois que de- pende da presença ou ausência de obstáculos. Uma acção, que póde ser impedida, merece o quali- ficativo de livre? Ha um evidente paralogismo, fnhibido pela civilização, dominado pelas conveniências sociaes, vigiado pela lei, não pode o homem proceder livremente.- Elle é livre, quando não impedido por obstáculos. «Se nada me embaraçar, procederei livremente », diz o tal raciocínio. E’ o caso de dizer: « Se eu não morrer, terei a liberdade de viver». Para mim, não existe absoluta liberdade de acção. Ella está na razão inversa do gráo de civilização. Esmagados pelos raciocínios da escola positiva, que lhes aniquila as concepções idealistas, os clássicos lentamente se retiram, fazendo concessões que bem mostram a fraqueza da escola. 63 Vão, pouco e pouco, rareando, levadoá pela caudal regressiva de avellienladas idóas A escola psycho-physioldgica determinista não lhes dá tréguas, apertando-os no circulo absoleto dos seuS proprios sophismas. Fracos na provança da tliese livre-arbiírista, vão admittindo um Indeterminismo relativo. Na concepção classica, que alguns espiritos atavicos ainda acceitam, a vontade é independente, livre directora. Fila pode decidir-se entre dons motivos equipollentes, E’ a liberdade de indifferençã: libaram arbitrium indi- fferentke. Reid acceita e discute sua existência. «Motivos não são nem causas nem agentes; elles suppõem uma causa efíicienle, e, sem ella, nada podem produzir... Um motivo ò egualmente incapaz deacção e de paixão, porque não é uma cousa que existe, mas que è concebida; é o que os escolásticos chamavam um ser de razão, em rationis. Os motivos podem, então, influir sobre a acçao, mas elles não agem.» A contradicção é clara, evidente. Ao passo que diz que os motivos não existem nem podem ser cansas, concilie que [iodem injlair sobre nossas acções. 64 E’ visível a nullidade do raciocínio; a these é absurda. A liberdade de indifTerença é uma illusão. Beconhecendo a falsidade da posição, a maioria classica sustenta que a vontade não é determinada pelos motivos. «Guiado pelas luzes da razão, o homem pode dirigir sua vontade para este ou para aquelle acto, tendo plena liberdade de escolha». (Filinto Bastos). ' Adeante, descreve o mesmo : «Ora, os motivos actuam sobre a vontade; esta, ponderando-os á luz da consciência, calculando-lhes a importância, despreza-os ou acceita-os; depois desse labutar psychologico, é que o homem externa a sua resolução, dirigindo-se para este ou para aquelle lado». Os motivos actuam sobre a vontade, que os escolhe pela importância que têm. Ora, ahi está a importância do motivo determinando a escolha da vontade. Está ahi um livre arbítrio que deseja evidentemente uma certa conciliação com o deter- minismo. E’ o indeterminismo relativo, como dizem. E’ uma especie de mãe de S. Pedro. Logico é o livre arbítrio ou o determinismo. « O meio termo, diz Ferri, é um contrasenso. » Conciliação similhante, pretendeu fazer Fouillée. Este philosopho buscou synthetizar todos os systemas, para a formação de uma unidade superior. Dominado, 65 como Kant, pela idéa do dever e da moral, procurou um ineio termo salvador. Embora determinista, não queria vêr destruídos, o dever, o mérito, a responsabilidade. Foi essa mesma preoccupação que arruinou a doutrina kantista. Despreza os numénos e crèa a idéa força, sustentáculo de sua philo- sophia. A illusão da liberdade será esta idéa, cujo poder julga incontestável. Ella é a base da moral, porque «a moral mais elevada. . . é a moral da liberdade. » «O homem não é livre, torna-se livre.» Fouillée esquece que, admittindo a hypothese da idéa- força, cae no determinismo absoluto. A razão é que a idéa- força, efíeito de uma illusão, se torna causa determinante. Discordo de Fouillée, quando elle diz que a idéa da liber- dade faz o homem livre de querer. Eu a julgo um motivo, e nada mais. Diz elle: 1. Livres ou não, tendemos á liberdade, á indepen- dência absoluta de que temos a idéa. 2. Estatendencia, segundo as próprias leis do deter- minismo, eleve dar-nos um certo poder proporcional, parece, à sua intensidade. 3. Não tardamos em reconhecera effieacia pratica desta tendencia, e até, em grande numero de casos, não perce- bemos limite determinado e preciso á extensão do nosso 66 poder: resulta dahi uma confiança, em nós mesmos, que vae augmentando.» E’ incontestável a força desta illusão, não comogeradora da liberdade, mas um motivo que determina. Fouillée dá um exemplo do poder da idéa de Uberdade. « Supponhamos que eu seja dominado por uma cólera violenta. Se estiver persuadido da minha impotência ante a minha paixão, não pensarei nesta Torça, e minha cólera, claro é, seguirá fatalmente seu curso. Eis, porem, que uma idéa, trazida pelas leis de associação ou do habito, toma um poder novo em meu espirito, e,de confusa que era, torna-se distincta: é a idéa (subjectiva ou não) de uma resistência possivel á minha cólera, de um império que eu creio poder exercer e minha razão, além disso, julga racional e bom exercer.» E’ porque seja livre? Não é claro que a idéa do pre- juizo é o motivo que inhibe a cólera? A idéa-força tem valor como simples motivo. Aeducação é uma poderosa idéa-força; ella ensina o homem a se habituar « ás circumstancias, ás ordens, às instrucções recebidas, a toda esta pressão mais ou menos nitida, mais ou menos explicita e precisa que envolve interiormente o indivíduo.» Melhor do que a idéa-força, seria o sentimento-força. Ha sentimentos (como a honra o pudor, a probidade), que são verdadeiros motivos de determinação. 67 Kstão longo, porem, de influir sobretudos os caracteres. Nestes é que está a verdadeira força. Assim é que, ponderadas todas estas considerações, eu, convicto, concluo: O liontem não é livre. Considerando... Homem ! Pela verdade, intrépido e sereno, Emborca a taça do veneno! Pela verdade inteira. Dá leo corpo ao baraço, ao cutelo, e á fogueira! Guerra Junqueiro. Homem! És o escravo de tua própria.natureza. És dominado pelo meio em que vives. Debalde procuras uma origem divina, soberbo animal, que a intelligencia eleva! Em vão, buscas o céu ; elle será uma miragem eterna. Debalde queres ser divino, pois que to impede a simiana origem ! Sentes, no intimo, a amargura intensa de tão grande verdade? Tanto peor [tara o teu orgulho. Que te vale a revolta continua, se estás preso á cadeia da vida, á linha multi-rnillenaria dos teus antepassados? Envergonhas-te? Que te faz isto? Porque não descobres um divino ascendente na tua genealogia? Adi! eu to comprehendo; preferias ser um habitante do paraíso, e melhor te é ser o eterno condemnado, trazendo na fronte o scllo terrível do eterno peccado. 70 Não vês que a nau da verdade singra o mar enca~ pellado do mysterio, levando, no topo do mastro, o ruti- lante pharol da esperança, e deixando, após, a branca espuma de illusões desfeitas? Não ouves o martellar infrene da sciencia, destruindo as fornalhas do inferno? Impressiona-te, ainda, o calor das chammas do inferno ? Ignoras que a luz da psychiatria deslumbrou Satanaz,. encerrando-o no asylo ? Não tens visto que se foram os milagres, que as visões celestes abandonaram o mundo ? Chegoli ao teu conhecimento o desabar de falsas crenças, espancadas pelo látego luminoso da sciencia? Oh! tu bem o sabes. Finges não o saber. Terminando... Vós, que trazeis o ouvido acariciado pelo tinir das taças e pela harmonia da vida, volvei os olhos, num relance de misericórdia, ao tremedal, onde se debatem os infelizes da sorte. Animaes felizes, attentae na miséria dos desherdados, que vivem em tétricos abysmos, sem um raio de luz qne lhes illumine a escuridão tristíssima das longas horas. Considerae o futuro; o dia de amanhã é um mysterio. Bem podeis rolar do cimo luminoso da vossa grandeza à valia commum da miséria terrível. 71 Vede que ali, na Correcção, vivem homens que, embora criminosos, têm direito ao ar, têm direito á luz. Sêde misericordiosos para quem tira um pão, pois que prestaos honras ao que rouba um povo. § «Faminto, nú, sem mãe, sem leito, Roubei um pão. Quem vae além de farda e de gran-cruz ao peito ? — Um ladrão!» Uns, impedidos pela fome, que as entranhas devora, praticaram um furto. Aquelles, no delírio do álcool, que as magnas espanta, commetteram um assassínio. «Álcool! veneno que conforta, Monstro satanico e sublime! Beber! beber... e a magna é morta!... Quem é que espreita á nossa porta? — 0 crime! » Outros ainda, degenerados e epilépticos, foram arre- messados ã estrada da deshonra e do vicio pela força irresistível de mórbidas tendências. Porque lhes dais uma prisão infecta, sem ar, sem luz, onde mal chega o alimento que lhes vae de esmola!? Se quereis dormir socegados, na doce paz do lar con- fortável, collocae-os em lugares sadios que não sejam 72 «... .estufa tenebrosa Onde esbraceja, nocturnal, À verde, a negra, a sanguinosa Flora epiléptica do mal... » Tirae-os desses antros de morte e*loucura, onde a A Lei, violando a natureza Da unha adunca extrahe a garra, Da mão sinistra faz a preza. » Tirae-os dali, onde se não corrigem, mas se envenenam com a impureza do ar e a insuíficiencia de luz. Ou então sêde mais francos: ateae a fogueira nas ruas, ou armae o espectro horripillantc da guilhotina nas praças publicas. E’ mais simples, e mais barato. PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas PROPOSIÇÕES ANATOMIA DESCRIPTIVA I O cerebro é um apparelho volumoso, envolvido por tres membranas. li A forma ovoide do cerebro varia naturalmente com a cavidade craniana que o contem. A anatomia comparada fornece a prova manifesta do desinvolvimento [gradual de seus caracteres anatómicos, através de toda a serie animal, até o homem. III O cerebro do homem civilizado é mais denso e com- pacto. O seu volume está na razão da cultura intellectual de uma raça. ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA I A bacia é uma cavidade visceral, onde se alojam o apparelho da defecação e uma importante parte do appa- relho uro-genital. 76 II A bacia em anatomia topographica c menos extensa que em anatomia descriptiva. iii Ella tem considerável importância para a cururgia clinica e operatória. HISTOLOGIA I O neuronio é formado por um corpo cellular e prolon- gamentos. II O corpo cellular 6 uma massa protoplasmica,sem envo- lucro, com um núcleo arredondado, claro, contendo fre- quentemente um nucléolo. III Os prolongamentos são distinctos: cellulipetos e celluli- fugos. BACTERIOLOGIA I O meningococco intra cellular de Weichselbaum pode existir nas fossas nasaes de indivíduos sãos. Quando viru- lento, penetra até as meninges através do ethmoide. II São variáveis as suas dimensões. 77 III Seus caracteres de cultura similham os do pneumo- cocco. 1 ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGICAS I Thrombose é a obstrucção completa ou incompleta de um vaso. O coagulo obturador chama-se thrombo. li Ha duas variedades de thrombo: vermelho e branco. O primeiro é um coagulo sanguíneo; o segundo é cons- tituído por globulos brancos e não tem fibrina. III Aprova da ausência de librina é que a agua açucarada e o sulfato de soda, que retardam sua precipitação, não impedem a formação do thrombo. PHYSIOLOGIA I À cellula, para viver, assimila e desassimila. li A vida resulta da troca entre o sêr e o meio. A insta- bilidade é a vida. ill A estabilidade é a morte. 78 TftERAPEUTICA I A hyoscyamina é um alcaloide isomero da atropínra; desdobra-se, sob a acçâo dos alcalis, em: hyoscina e acido hyoscinico. II Acalma as dôres e contracções musculares. III Dilata a pupilla. HYGIENE I A zoonose,, que se chama vaccina, é o maior recurso1 prophylatico contra a variola. II À innoculação, no homem, do humor virulento, reti- I rado das pustulas de um animal doente, produz a pre- servação contra a variola. III A vaccinação não dá lugar á variola, senão quando esta, no momento da operação, já se acha incubada. MEDICINA LEGAL E TOXICOLOGIA I O segredo profissional é um dever imposto ao medico. 79 Deve ser inviolável. m Somente casos especialíssimos poderiam abrir uma excepção. PATHOLOGIA CIRÚRGICA I Denomina-se mal de Putt a tuberculose da columna vertebral. A região dorsal é mais frequentemente inte- ressada. II Os corpos das vertebras, attingidos de amollecimento, não sustêm o peso do tronco. ui v Dahi a curvatura da columna, resultado da saliência das apopbyras espinhosas. OPERAÇÕESE APPARELHOS I A cystotomia é uma operação, cujo fim é abrir uma via para a penetração na bexiga. li A cystotomia pode ser hypogastrica e perineal. Iil Também se pode praticar, no homem, a cystotomia recto-vosical; na mulher, a cystotomia vagino-vesical. 80 CLINICA CIRÚRGICA (1.» Cadeira) I 0 tumor branco apparp.ce ordinariamente nos indivíduos lymphaticos, já tendo apresentado manifestações escrofu- losas. Embora se encontre em todas as idades, è incon- testável sua frequência nas creanças. II Geralmente o tratamento exige a resecção. m Casos ha, em que o unico recurso éa amputação. CLINICA CIRÚRGICA (2.a Cadeira). I Ulcera é uma solução de continuidade das partes molles, com perda de substancia, II A ferida difTere da ulcera; esta resulta de causa inhe- rente ao organismo; aquella é eífeito de causa exterior, III A ferida é curável; a ulcera tende geralmente a se perpetuar. PATHOLOGIA MEDICA I I O impaludismo é uma moléstia infecciosa, produzida pelo hematozoario de Laveran, reinando endemicamcnte nos lugares pantanosos. 81 II 0 hematozoario, causa da moléstia, que se traduz clini- camente por accessos febris, fica no baço, donde sae, em um dado momento, para provocar novas manifestações. III A quinina constituo o medicamento especifico. CLINICA PROPEDÊUTICA í O phonendoscopio é um instrumento que serve para recolher e transmittir á orelha as vibrações provocadas pelo dedo no orgào que se deseja explorar. II As vibrações recolhidas são ampliadas pelo apparelho, e bem apreciadas pelo observador. ui Graças a essa sensibilidade, o phonendoscopio serve para limitar os orgãos, embora profundamente situados. Hasta que tenham ponto de contacto na parede em que se applica o instrumento. CLINICA MEDICA (i.a cadeira) I Denomina-se ordinariamente uremia, o conjuncto de alterações que resultam da insufíiciencia das funcções venaes. E. II 82 IJ As principaes formas,, que ella reveste, são: cerebral,, respiratória ou dyspineica e gastro-intestinal. m À forma cerebral é a mais grave. CLINICA MEDICA (2 a cadeira) I A varíola éumá moléstia geral, contagiosa e epidemicar caracterizada por uma erupção de papulo-vesículas que geralmente se transformam em pústulas. II À varíola hemorrágica é a forma considerada mais- grave. III 0 tratamento da moléstia é essencialmente symptoma- tico. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGU E ARTE DE FORMULAR I As incompatibilidades podem ser: chimicas, physicas, physiologicas e therapeuticas. II À incompatibilidade pathogenica é determinada pelo antagonismo dos eífeitos physiologicos de dous medica- 83 mentos: o opio é antagonista da belladona, pois que faz cessar o delírio que ella provoca. III A incompatibilidade therapeutica não é consequência necessária do antagonismo physiologico: o opio, que faz cessar o delirio produzido pela belladona, não neutraliza sua acção calmante. HISTORIA NATURAL MEDICA I O homem, considerado zoologicamente, é um mammifero da ordem dos primatas. II Seu corpo tem uma conformação similhante a do macaco. III As differenças de grandeza e de forma, entre elle e o macaco anthropoide, não são maiores que as observadas na comparação de certas raças humanas. CHIMICA MEDICA I Um sèr vivo é constituído por grande numero decom- postos chimicos. II Estes se manifestam constantemente por caracteres physiologicos. 84 III 1 Destes dependem os phenomenos vitaos. OBSTETRÍCIA I A ruptura do utero c um accidente da gravidez. ii Pode ser eITeito de lesões das paredes do orgão ou de violências exteriores. m O prognostico é grave. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECOLOGICA I A febre puerperal é resultado de uma infecção. ii O tratamento curativo consiste na evacuação do utero e em grandes lavagens antisepticas. ui O tratamento prophylatico é: empregar todos os meios antisepticos, antes, durante e depois do parto. CLINICA PEDIÁTRICA I O cephalematoma é um tumor circuinscrito, indolente e íluctuante, observado algumas vezes nos recem-nascidos. 85 E' devido ao derramamento de sangue entre o craneo e pericraneo. ir Seu sitio preferido è o parietal. m Ordinariamente termina pela cura, por effeito da re- absorpção. CLINICA OPHTALMOLOGICA I O glaucoma é uma moléstia que se caracteriza frequen- temente pela côr esverdeada que apresenta a pupilla. n Consiste esta moléstia num augmento de tensão intra- ocular, por effeito da grande abundancia de liquido ou da obliteração das vias de filtração. ui O seu tratamento é essencialmcnte cirúrgico: a iri dectomia. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPHICA I À iris é a parte do orgão da visão mais atacada pela syphilis 86 II A irite syphilitica apparcce írequentemente no periodo secundário. ui O seu diagnostico não depende sempre do exame do olho. CLINICA PSYCHIATR1CA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I A moléstia de Parkinson manifesta-se ordinariamente na edade adulta, e começa insidiosamente. li Os symptomas caracteristicos são: tremor, marcha difficil, e rigidez muscular (Charcot) que determina um fades particular. III Quando os symptomas se aggravam, resultam emma- grecimento, perda de forças, paralysia que se genera- liza, delirio e morte. Wi-jà. Secretaria da Faculdade de Medicina da Bahia em 31 de Outubro de 1908. O Secretario, l)r. Menandro dos Beis Meirelles. Errata LINHA PAG. ONDE LEIA-SE 6 1 — viagm — viagem 4 2 — authropocenttico — anthropocen tricô 9 2 — ceo — céu 2 3 — contrariamente.. — contrariamente. II 3 — ceo — céu 14 3 — Phaniasiam — Phantasiavam 17 3 — panheismo — pantheismo II 4 — ceos — céus 21 5 — ceo — céu 3 6 — francez — francês 16 9 — pratical-os — pratica-los 2 13 — Pontico — Portico lo 18 — 0 poder — ao poder 10 19 — á uma — a uma 16 20 — cá causas — a causas 16 24 — scientistós — scientistas 20 24 — tadas — todas 19 25 — infallibidade — infallibilidade 2-5 23 — conclui r-se-a.... — concluir-se-a 22 28 — extructura — estructura 8 31 — consituintes — constituintes 18 33 — Meus — Mens 16 33 — cospusculo — corpúsculo 21 34 — revesti — reverti 8 35 — le tont — le tout 26 36 — Warrae... — Wárroe 18 37 — concludentes.... — concludentes 7 37 — de attrito — do attrito 7 37 — transforma-se.... — se transforma 12 40 — paóductos — productos 23 40 — inponderavel — imponderável 21 41 — isto é — isto é, 10 42 — verifical-os — verifica-las 21 42 — crê — crêa 16 46 — on — ou 22 46 — momentos — movimentos 7 49 — quasi — quase 3 54 — pode, ter — pode ter 17 54 — especia ■. — especie 7 54 — estatisca • — estatica 17 57 — corlical — cortical 23 58 — indiuido — indivíduo 7 60 — rolitiva.. — volitiva 4 63 — absoleto — obsoleto