DO VALOR TH ERAPEUTICO DAS 1NJECGÕBS HYDRIGAS SUBCUTÂNEAS PELO \ I IDR. Membro da Academia de Medicina do Rio de Janeiro, correspondente das Sociedades de Medieina de Paris, Marselha, Lisboa, Algcr, Genebra, ele., etc. (Extraindo do Progresso Medico) rio m. j%Mi)ino "KC: TYPOGRAPHIA ACADÉMICA 73 Rua Sete de Setembro 73 1877 DO VALOR THERAPEUTICO DAS INJECÇÕES HÍDRICAS SUBCUTÂNEAS PELO IDDR. ON/ÍOIIMQOZE^VO Meoibro da Academia de Medicina do Ilio de Janeiro, correspondente das Sociedades de Medicina de Paris, Marselha, Lisboa, Alger, Genebra, etc., etc. (Extrahido do Progresso Medico) RI» IIE JANEIRO TYPOGRAPHIA ACADÉMICA 73 Rua Sete de Setembro 73 1877 Do valor therapeutico das injecções hydricas subcutâneas Foi em 1869 e no hospital Necker, em Pariz, que pela primeira vez parece haverem sido devidamente ensaiadas as injecções subcutâneas da agua pura ou distillada. Foram ellas experimentadas no serviço do professor Potain, pelo Sr. Dr. Dieulafoy, sendo o re- sultado dessas numerosas experiencias annunciado por este distincto medico no artigo — Dor, que redi- gio para o diccionario de Jaccoud. (1) Pela seguinte maneira se exprimia elle então a esse respeito: « Quand un individu est atteint d’une douleur, quel que soit' son siège et quelle que soit sa nature, on peut sans inconvénient combattre sa douleur par les injections d’eau et dans une grande majorité de cas, le résultat obtenu est immédiat. Je suppose un malade atteint de rhumatisme articulaire aigu généra- lisé; les poignets et les genoux sont tumefiés et dou- loureux : on recherche le point maximum de la dou- leur au niveau de chaque articulation, et l’on fait une ou plusieurs injections d’eau, de buit à dix gouttes chacune ; comme le liquide n’est chargé d’aucun principe médicamenteux, on peut sans inconvénient pratiquer coup sur coup, et séance tenante, dix, douze ou quinze injections. Au moment ou Tinjection vient d’étre faite, le malade éprouve une sensation assez (1) Nouv. dict. de méd. et de chir. prat., t. XII, Paris, 1869, p. 614. 4 vive de brúlure, qui dure de vingt à trente secondes et qui disparait subitement. « Avant qufiine minute se soit écoulée, cette arti- culation qui était le siège de souffrances atroces, est maintenant degagée de toute douleur, c’est à ce point que le malade peut à peine à le croire ; nous avons bien souvent été témoins de ce résultat, à notre grand étonnement, et à la joie du pacient. Ce qui est en- core plus singulier, c’est que le résultat obtenu a souvent été définitif, et des injections nouvelles n’ont pas été utiles. » As injecções praticadas pelo Dr. Dieulafoy foram, pois, multiplicadas nas condições as mais variadas, e, quasi em totalidade, seguidas do mais completo exito. Em casos sobretudo de myodinia o effeito desta facil intervenção foi quasi sempre instan- tâneo. Neste mesmo anno em que foram dados á publici- dade os excellentes resultados colhidos das injecções hy- dricas pelos Srs. Dieulafoy e Potain,inventou o Sr. Ma- thieu (de Pariz) um pequeno instrumento destinado a substituir a seringa de Pravaz na aquapunctura. Este instrumento, que nunca aliás empregamos, por lia- ver-nos servido sempre vantajosamente daquelle á á cuja substituição era destinado, foi por esta fórma descripto na Gazeta dos Hospitaes (1): « A une pom- pe foulante est adapté un tube en plomb, et, à l’ex- trémité de ce dernier, un ajustage filiforme qui est tenu éloigné de Tendroit à aquapuncturer, de 1 centi- mètre environ. Une pression, exercée sur le levier de la pompe, suífit à faire pénétrer sous la peau, par (1) Gas. des hôp., 30 Octobre 1869. 5 une petite piqúre capillaire, quelques grammes d'eau par lesquels le tissu cellulaire sous-cutané est soulevé et forme une petite élevure blanchâtre qui laisse par- fois écouler de son centre une gouttelette de sang. » Cremos que o primeiro a fazer uso do instrumento concebido pelo Sr. Mathieu foi o Sr. Dr. Mallez, distincto especialista das moléstias das vias urinarias, em Pariz. As vantagens do seu emprego se fizeram sentir particularmente nas nevralgias musculares sym- pathicas, quando haviam estas resistido a todos os de- mais meios indicados em taes casos,aos proprios revul- sivos energicos e ainda mesmo á faradisação. Este foi o assumpto de uma tbese defendida, em 1870, perante a Faculdade de Medicina de Pariz, pelo Sr. Dr. Pasquier-Labroue (1), que, testemunha dos resultados obtidos pelo professor Potain e pelo Dr. Dieulafoy, contribuio, para maior esclarecimento desta questão, com a primeira e até agora unica mono- graphia sobre ella escripta. Apezar dos trabalhos que acabámos de enunciar, dos successos obtidos pelos práticos declinados, não se vulgarisou este precioso meio, aliás muito aceitavel, já pela sua facil e simples applicação, já pela sua per- feita inocuidade. Elle parecia mesmo quasi inteira- mente esquecido, quando, em 1875, no Congresso Scientifico de Nantes, foi lido pelo Sr. Leopoldo La- fitte, medico de Contras (Gfironde),uma muito interes- sante nota sobre os effeitos therapeuticos das injecções hypodermicas d’agua pura ou distillada. A maneira persuasiva por que se enunciou o Dr. Lafitte, nesse congresso, sobre os extraordinários effeitos colhidos, em sua pratica, das injecções hydricas, conseguio (1) Bes injections sous-cutanées hydriques. Th. de Paris, 1870. 6 quebrar o silencio que até então reinára a esse res- peito, e vários collegas acudiram a confirmar, pela imprensa, os resultados por aquelle apregoados. Ao lado destes, dous outros asseguraram, entretanto, haverem sido em muitos casos improfícuas as injecções sem negar inteiramente a sua efficacia em vários outros (1). Neste mesmo anno, em seu tratado das injecções subcutâneas, consagrou o Sr. Dr. A. Luton (de Reims uma pagina á aquapunctura (2). O autor não se mostra muito entliusiasta desta sorte de injecções, confes- sando, todavia, têl-as visto produzirem bom resultado em certas dores localisadas e recentes, especialmente no rheumatismo muscular. Nos casos mais rebeldes mostraram-se ellas ineffícazes. O Sr. Luton considera este meio inferior ás injec- ções d’agua salgada, de álcool, e sobretudo da solu- ção de nitrato de prata. Até certo ponto as conclusões do distincto professor de Reims, a quem se deve hoje o mais completo trabalho sobre este methodo thera- peutico, são accordes com a de seus predecessores, que não tiveram nunca em vista generalisar o em- prego da aquapunctura, mas tornar saliente a sua effícacia em certos casos especiaes, como um pode- roso auxiliar para combater o elemento — dor. Muito recentemente, o Sr. Dr. Dessan, de Chicago, acaba de publicar sete observações de rheumatismo articular agudo, cujas dores foram consideravelmente alliviadas mediante o emprego da agua quente em in- jecções hypodermicas loco dolenti. Estas injecções,, (1) Vide—Union Médicale, n. 125, 21 Octobre, 1875, p . 605 (Nota publicada pelo Sr. Dr. Dresch), e n. 116, 30Septembre 1875. (Nota pelo Sr. Ur. Pillet). (2) Traitè des injections sous-cutances á effet local, Paris, 1875. 7 feitas exclusivamente com agua quente, alcançavam tanto maior resultado quanto maior era a quantidade d’agua empregada (1). A modificação operada pelo Sr. Dessan, elevando a temperatura d’agua, é de data tão recente, que não cremos haja ainda sido experimen- tada por outro. Pela nossa parte ainda não tivemos occasião de ensaial-a. Despertada nossa attenção pela communicação já acima referida do Sr. Lafitte ao Congresso de Nantes, temos feito uso, dessa época em diante, da aquapun- ctura em vários casos de nevralgias com tão provado exito que não podemos deixar de confessar-nos ani- mados a proseguir no seu emprego, evocando também para ella a attenção dos nossos collegas brazileiros. Havemos seguido a pratica cominum, mas ultima- mente tentámos experimentar os effeitos da agua ge- lada; a nossa primeira tentativa teve por fim observar si alguma modificação poderia operar a agua a 0 em relação á dor causada pela injecção, dôr que, como já foi dicto, é bastante intensa. Para melhor aqui- latar a differença, praticámos em nós mesmos a pri- meira injecção d’agua gelada, e, comquanto o ponto eleito não fosse em uma região das mais sensiveis (face externa da perna), devemos confessar que nos foi absolutamente impossivel tolerar mais da metade da agua contida em uma seringa de Pravaz, quando já havemos supportado com muito menor incommodo até quatro injecções successivas na face, região muito mais sensivel que aquella. Ainda não encontrámos opportunidade para ensaiar a injecção assim modifi- cada em um caso pathologico; podendo bem acon- (1) The Chicago Medicai Journal and Eccaminer, 1876.— Revista Me- dico-Quirurgica de Buenos-A ires.—Noxiembre 8 de 1876. 8 tecer que a agua a 0 produza o effeito desejado em muito menor quantidade que a empregada pelo me- tliodo commum. Daqui a pouco veremos que em certos casos o resultado só se apresenta apóz a injec- ção no tecido cellular subcutâneo de 4, G, 8 e mais grammas d’agua em temperatura ordinaria. O processo seguido por nós e o que seguiram todos quantos nos precederam no emprego das injecções liy- dricas foi o mesmo usado para as demais injecções kypodermicas. Como a dor causada pela projecção do liquido no tecido cellular, embora de curta duração, é muitas vezes considerável, e nem sempre pacientemente tolerada por certos doentes, maximé pelas crianças, adoptamos e aconselhamos, em taes casos, a pratica seguida pelo Sr. Luton. Este distincto professor faz, de ordinário, preceder á injecção aanestliesiada parte em que vai ser aquella feita, empregando para isso a ducka de etlier pulverisado por meio do apparelho de Kichardson. A pulverisação de etlier pode ainda, em alguns casos, ser renovada apóz a injecção. Como muito bem diz o Sr. Luton, este meio decide muitos doentes a se deixarem operar, quando oppo- riam, em qualquer outra hypotliese, a mais obstinada resistência. O modus operandi nada tem de especial : si o individuo não é provido de abundante tecido adiposo, e si apresenta a pelle perfeitamente elastica, toma-se uma prega desta entre o indicador e o pol- legar da mão esquerda, de modo a formar-se um pequeno espaço vasio entre ella e o tecido cellular subcutâneo, e na base desta prega insinua-se a agulha da seringa, previamente unctada de oleo, ató a profundidade de 2 a 3 centimetros, conforme a es- 9 pessura da pelle. Logo em seguida injecta-se a quan- tidade d’agua que se queira. Quando o doente é bastante gordo, de maneira que se não possa tomar a pelle entre os dedos, faz-se então penetrar a agulha obliquamente através delia ; on pousse dans le lard, na phrase faceta do Dr. Lafitte. Algumas vezes é bruscamente introduzida toda a porção do liquido previamente designada, mas a dor então despertada é muito mais intensa que a provo- cada pela injecção feita gradualmente. Ella se manifesta logo que chega ao tecido cellular a primeira gotta d’agua, mas a nossa observação demonstra que a toleram assim melhor certos doentes, particularmente os pusillanimes. E’ por esta forma que procedemos, quando não temos á mão o appa- relho de Richardson para a prévia anesthesia da parte em que vai ser feita a operação, Da mesma sorte que o Dr. Dieulafoy, temos ob- servado que a dôr despertada pela injecção hydriea é muito mais pronunciada do que a que produzem as injecções medicamentosas, sobretudo a morphinada. A intensidade daquella é, todavia, variavel, segundo o ponto em que é praticada. Nas regiões mais ricas de nervos, e portanto mais sensiveis e irritáveis, ella mostra-se, de ordinário, mais aguda do que naquellas que o não são. A sua duração é muito rapida, de alguns segundos mesmo por vezes ; mas, apezar disso, constitue-se esta circumstancia um obstáculo futuro, si forem novas injecções necessárias. E’ o que nas crianças se observa quasi que invariavel- mente. Em alguns doentes, entretanto, é tão rapida a melhora que mal se percebem estes do effeito dolo- roso da operação. 10 A quantidade d’agua empregada varia, segundo as exigências do caso, a partir de 2 grammas; podendo-se praticar, successivamente, em uma mesma sessão, 2, 4, 6, 8, e até mesmo 20 e mais injecções de 2 gram- mas cada uma, como chegou á fazer o Sr. Dr. René Richoux, de Pliilippeville, em uma senhora subjeita á crises periódicas de convulsões hystericas (1). Nunca tivemos occasião de exceder de quatro injecções, isto é de 8 grammas d’agua, havendo-nos sido sufficiente uma só na grande maioria dos casos. O Dr. Lafitte diz que nunca foi obrigado a ir além de 6, havendo também, com,o nós, conseguido com uma só resul- tados satisfactorios. Em relação ao instrumento, devemos dizer que ás seringas de Béhier, Mathieu, Leiter, Lúer, Rind, Bourguignon, Graefe e de Luton, preferimos a de Pra- vaz, modificação de Charrière, que póde conter appro- ximadamente 2 grammas de liquido. Ella é de uma manobra facil e commoda, preenchendo inteiramente os fins que temos em vista com as injecções hydricas. Cremos ser até o instrumento o mais geralmente em- pregado e a elle temos sempre recorrido com proveito. Quando se torne porventura necessário repetir a ope- ração, convirá guardar-se entre uma e outra um certo intervallo que não exceda pelo menos de dous mi- nutos : assim havemos nós procedido e também assim procederam os Srs. Dieulafoy, Potain e Lafitte. Nos casos de pleurodynia, e de nevralgia intercostal, de sciatica, aconselha este ultimo um modus faciendi, que lhe tem valido excellentes resultados: consiste em fazer-se as injecções sobre todo o trajecto dos (1) Gax. Hebdom., n. 22, 2 Juin 1876, p. 342. 11 nervos comprekendidos na regido dolorosa, particu- larmente no seu ponto inicial e no terminal, quando fo- rem accessiveis. Cumpre-nos confessar que nunca ti- vemos o ensejo de verificar esta maneira de proceder. Quando a intensidade ou a .persistência da dor liajam reclamado mais de uma operação, havemol-a reproduzido, quer em um ponto muito proximo do pri- meiro, quer mesmo neste, não fazendo mais que augmentar a ampoula produzida pela injecção prece- dente; nas nevralgias faciaes, entre outras, tem sido esta practica proficua. As injecções hydricas subcutâneas offerecem, em um grande numero de casos, decidida vantagem sobre as injecções morphinadas, como meio de de- bellar o elemento—dor. Dessa vantagem se hão de certificar mais promptamente os practicos que já têm podido verificar os sérios inconvenientes que resultam muitas vezes de uma injecção de morphina, precipi- tadamente feita, sobretudo em doentes cuja tolerância não é de antemão conhecida. Ainda quando os effei- tos de ambas fossem equivalentes em todas as espe- cies, seria certamente preferivel o emprego d’agua commum ou distillada, sempre e em todas as hypo- theses inoffensiva, á uma solução de sal de morphina, nem sempre exactamente dosada, variando segundo a procedência, e, em muitos casos, capaz de provocar desordens geraes mais sérias do que aquellas que tinha em vista o practico remover. Aos médicos clínicos seria inútil recordar aqui os innumeros exemplos de accidentes a que alludimos para tornarmos saliente a vantagem da adopção de um meio simples e inocuo, sufficiente, em grande numero de casos, para subtrahir os doentes aos cruéis soffri- 12 mentos da dor. Procuraremos frisar algumas liypo- theses para tornar mais claras as nossas ponderações. E’ facto vulgar a intolerância que manifestam as crianças para os preparados opiados; o opio é um dos mais terríveis inimigos da primeira infancia : nesta época da vida nenhum practico consciencioso se atre- verá a fazer o emprego de uma injecção subcutânea de morphina, por mais urgente que seja a indicação deste meio. Em casos taes ficará uma infeliz criança privada do benefico recurso que encontra tao facil- mente o adulto, desde que tenha a seu lado um me- dico. Esse precioso meio que traz, tantas vezes,, ins- tantâneo allivio, jugulando dores intoleráveis, não póde ser posto em practica no caso vertente. Entre- tanto, que inconveniente poderá provir, nesta hypo- these, de uma ou mesmo muitas injecções sub-cuta- neas d’agua commum ou distillada, meio prompto e expedito,facilmente practicavel na criança menos tran- quilla? De tão valioso recurso já nos temos servido em casos desta ordem com decidido proveito. Supponhamos agora um individuo adulto que tem compromettidas pelo rheumatismo agudo muitas arti- culações, cada qual mais dolorosa, origem, cada uma por sua vez, de cruéis martyrios, que não lhe per- mittem um só momento de repouso. Esgotados, por inefficazes, os meios postos em practica em casos taes, surge a indicação urgente das injecções hypoder- micas ; é preciso actuar, o doente não póde tolerar por mais tempo tal supplicio. Ter-se-ha, portanto, de proceder a injecções em todos os pontos dolorosos, isto é, em tantas articulações quantas são as compro- mettidas. Mas como deveremos obrar neste caso ? repetir as 13 injecções de morphina em todas as articulações? Dalii nascem duas hypotheses: ou não conhecemos de antemão a tolerância do doente, ou delia já está informado o practico. No primeiro caso, seria uma re- matada imprudência a multiplicação das injecções ; no segundo, repetindo-as mesmo cautelosamente, po- deria chegar o medico a um certo numero capaz de narcotisar o seu doente, sem attingir o fim principal, isto ó,adecrementação ou cessação das dores, ou peior, podendo acarretar accidentes sérios e aggravar a si- tuação. Alguns médicos bem distinctos e practicos esclarecidos ainda abraçam hoje os conselhos de Sy- denliam, Boerhaave e de Cliomel, recusando o em- prego do opio no rheumatismo articular agudo. Pois bem, uma vez inúteis ou contraindicadas as injecções opiadas, no caso que figuramos, que inconveniente haverá em recorrermos á aquapunctura, que pode- derernos reproduzir á vontade, sem receio do mais ligeiro accidente? Abraçamos com Grueneau de Mussy o preceito hippocratico que quer que o medico, pro- curando ser u til, trate antes de tudo de não ser no- civo. Quando tivermos, pois, urgência de multiplicar em uma mesma sessão e em um mesmo doente o numero das injecções, como nos casos de rheumatismo poly- articular, deveremos preferir sempre a aquapunctura, por isso que, não sendo absolutamente nociva, pro- mette resultados sornrelien dentes. Quando nos acharmos diante de um doente que sofíre horrivelmente, entregue, por exemplo, ao martyrio de uma nevralgia rebelde, e que já accuse phenomenos de narcotismo resultantes das poções calmantes, opia- das e belladonadas, que já lhe foram prescriptas, de- 14 veremos ainda insistir nas injecções medicamentosas, diante de taes phenomenos de saturação ? Não con- virá preferirmos então a aquapunctura ? Urgindo uma intervenção energica e prompta, não poderemos re- correr certamente a nenlium outro meio mais provei- toso. Não ha, pois, duvidar: as injecções liypodermicas d’agua commum ou distillada constituem um pre- cioso recurso que tem sempre á mão o clinico para debellar a dor, o mais cruel inimigo do homem, o mais feroz adversário do medico. Tratando de exemplificar por factos o que havemos procurado demonstrar theoricamente, passaremos a expor as observações mais concludentes, colhidas em nossa practica e na de collegas, tanto nacionaes como estrangeiros. Em nenhum caso se notará incon- veniente serio proveniente da presença do liquido no tecido cellular subcutâneo: raras vezes, quando so- bretudo foram as puncções practicadas em grande nu- mero em uma mesma área muito limitada, vieram a suppurar alguns dos pontos em que foram feitas as puncções (1). Nunca esse accidente assumio impor- tância, nem erysipelas ou lymphatitis succederam a essa pequena operação e por conta delia. (1) Convém notar que o mesmo pôde succeder ás iDjecções medicamen- tosas . 15 1ST EVRA.jQIAS OBSERVAÇÃO I FEBRE RHEUMATICA ; NEVRALGIA CONGESTIVA A Sra. X., 43 annos, brazileira, viuva, de temperamento nervoso, tem tido sofTrimentos uterinos em épocas remotas, febre intermittente, e ultimamente dyspepsia atonica flatulenta, que acabou por acarretar phenomenos salientes de anemia. Sobreveiu-lhe, no dia 8 de Abril de 1876, uma nevralgia muito intensa, como nunca tivera, assestada nas ramificações do trigemio e do facial, cuja violência não permittiu-lhe o menor repouso por espaço de tres dias e ou- tras tantas noites. As atrozes dòres eram acompanhadas de grande agitação, de reacção febril accentuada (38,5), seguida de suores geraes copiosos e de dòres contusivas nos membros. Dia 10.—As dòres resistem a vários meios successivamente empregados. A’s 8 horas da manhã pratica-se uina injecção de 2 grammas d’agua com- mum, por meio de uma seringa de Pravaz, no ponto correspondente á raiz da apophyze zygomatica. Um allivio considerável e immediato succede a essa pequena operação, e algumas picadas, que ainda reappareciam por in- tervallos, dissipassam-se completamente ás 5 horas da tarde; entrando a doente em um periodo de calma e bem estar. OBSERVAÇÃO II CHLORO-ANEMIA J NEVRALGIAS À Sra .X.,21 annos, casada, de temperamento lympliatico, chloro-anemi- ca, soífro de frequentes hemicraneas, acompanhadas de fortíssimas nevral- gias supra-orbitarias. Por occasião de um dos accessos, que foi o ultimo, practicámos uma injecção (2 gramraas) d’agua commum no ponto de im- inersão do nervo supra-orbitario. A dòr, cuja violência fazia soffrer profun- damente a doente, dissipou-se subitamente ainda não liaviamos retirado a canula-torcater da seringa de Pravaz. OBSERVACÃO III A Sra. X., profimdarnente anémica e soffrendo de constantes perturbações digestivas, era acommettida de frequentes gastralgias de pouca intensida- de, todavia. Em um dos dias de Julho deste anno fomos chamados a ver a doente, que se via sob a influencia de uma intensissima dôr epigastrica. En- 16 contrámol-a soffrendo atrozmente: extorciase, convulsa no leito, e não po- dia suffocar os mais cruéis gemidos. Estava pallida, desfallecida, banhada em copioso suor frio ; o pulso já se mostrava lento e pequeno ; observavam- se, em summa, os signaes de uma lypothimia imminente. Poções calmantes e outros vários meios já postos em practica haviam-se mostrado inúteis ; a dòr mantinha-se invariável. Sem mais demora enchê- mos uma seringa d’agua commum e injectámos todo o seu conteúdo no centro da região epigastrica. A doente soltou ura grito agudo, mas o alli- vio súbito que se seguiu fel-a sorrir. Com effeito, poucos minutos depois nos retirávamos, deixando a Sra. X. em perfeita calma, apenas abatida pelo pro- fundo soffrímento de que fôra victima. OBSERVAÇÃO IV 0 Sr. X. sofTria de uma nevralgia do rnaxillar superior direito, consecu- tiva á carie adiantada de um dos grossos molares respectivos. As dòres da- tavam já de oito dias e se mostravam refractarias ás immensas applicações calmantes e narcóticas, e aos anesthesicos locaes. Duas grammasd’agua com- muin são injectadas em um ponto situado logo abaixo da raiz da apophyse zygomatica. As dôres cessam promptamente e não se reproduzem mais. OBSERVAÇÃO V Homem de 52 annos de edade, lymphatico, muito impressionavel, soffre desde muitos annos de fortíssimas nevralgias superciliares acompanhadas de injecção do globo occular, de abundante lagrimejamento e photophobia. Estas cruéis nevralgias apresentam-se em certas epochas do anno com pequenos intervallos de repouso, sem que pudesse jamais delias libertar-se o doente, apezar das innumeras applicaçõcs tópicas de que tem feito uso e da medicação interna instituída por dilferentes médicos. Ultimamente, por occasião de uma das rnais violentas crises, recorreu á nossa intervenção. Trazia a mão applicada sobre a séde da dôr—região frontal esquerda—, mantendo a cabeça e interceptando ao mesmo tempo a luz, que o olho esquerdo, injcctado, não podia supportar. A pupilla deste apre- sentava-se contrahida e as lagrimas corriam abundantes. Parecia ao doente que o globo ocular era impellido para o exterior; as dôres da região orbi- taria e superciliar eram intensas, lancinantes. Sem maior demora, tomámos uma seringa de Pravaz, cheia d’agua commum, e injoctámos todo o seu con- teúdo cm ura ponto situado ao nivel da itnmcrsão do nervo supra-orbitario. Ainda não havíamos retirado a canula da seringa e o doente soltava uma cx- 17 clamação de prazer, declarando-nos que todo o seu soíFrimenfo se havia dissipado como por encanto. No ponto em que foi practicada a injecção formou-se uma ampoula, que se tornou bem saliente, graças ao plano osseo subjacente ao tecido cellular. Conservámos o doente em nosso gabinete por cerca de uma hora, e, até o momento de retirar-se, assegurava-nos, muito satisfeito, que nada mais sentia. Alguns mezes depois voltou-nos este doente, queixando-se que a nevral- gia começava de novo a manifestar-se, sem todavia attingir a intensidade da crise precedente. Propunha-se, pois, a soífrer uma nova injecção hydrica antes que o mal fosse além. Uma outra injecção lhe praticámos, com eífeito, sobre o mesmo ponto em que fòra feita a primeira, e o resultado não desmentio a espectativa do doente. Nunca mais tornámos á vel-o. OBSERVAÇÃO VI Mulher parda, escrava, de 35 annos, apresentou-se-nos era Julho deste anno queixando-se consideravelmente de intensa dòr no globo ocular esquerdo e na região superciliar, dòr que não a deixava dormir desde tres noites, nem ter um momento de tranquillidade e repouso durante o dia. Diversos meios topicos calmantes haviam-se mostrado improfícuos. 0 globo ocular estava injectado; havia lagrimejamento e photophobia. Praticámos uma injecção d’agua commum (2 grammas) no ponto da immer- são do nervo supra-orbitario. A doente experimentou uma dôr aguda, que era, alguns segundos depois, substituída pelo mais completo allivio. Uma unica injecção foi sufliciente para acalmar a dôr. Vinte e quatro horas depois tornámos a vôr esta doente; a nevralgia não se havia reproduzido. OBSERVAÇÃO VII A Sra. X., de 2G annos, nervosa, chlorotica, sofTrendo de frequentes ne- vralgias faciaes, apresentou-se, em um dos dias de Agosto de 187G, com uma forte crise nevrálgica; toda a porção esquerda da face era séde de intensas dôres, que llie causavam um verdadeiro martyrio. Propuzemos-lhe uma injecção hydrica sub-cutanea, que com dilflculdade foi acceita. Passámos pois a injectar-liie, ao nivel da articulação temporo-maxitlar, duas terças partes da quantidade d’agua contida em uma seringa de Pravaz. 0 receio que experimentava a doente não permittia-nos projectar todo o conteúdo da seringa. Tal foi, todavia, o aliivio consecutivo, que a própria doente, apezar 18 de timida, lastimava-se por não haver permittido mais tempo antes a prac- tica dessa pequena operação. OBSERVAÇÃO VIII O Dr. X. apresenta-se em nosso gabinete, trazendo o semblante magoado por terríveis dòres, que tinham por origem a carie de um dos grossos mo- lares do lado esquerdo da arcada dentaria superior. As dòres haviam se pro- pagado a toda a porção correspondente da face; exacerbavam-se por mo- mentos fazendo soffrer cruelmente o nosso collega. A seu pedido praticámos- Ihe a injecção subcutânea de 2 grammas d’agua commum ao mvel da articulação temporo-maxillar do lado esquerdo. A dòr dissipou-se immediatamente. Alguns momentos depois não dava o nosso collega mostras do mais ligeiro solírimento. OBSERVAÇÃO IX 0 Sr. X., de 30 annos, estava sob a influencia de uma terrível nevralgia do trigemio do lado esquerdo, consecutiva a urna forte odontalgia do ul- timo molar superior desse mesmo lado. Havia tres dias que soíTria inces- santemente, apezar de applicações de duchas de vapor, de fricções Jaudani- zadas, com chloroformio, ether, etc. Praticámos então a injecção de 2 grammas d’agua coinmum, ao nivel da articulação temporo-maxillar esquerda, a qual produzio-ibe algum allivio, mas sem fazer cessar inteiramente a dòr. Duas novas injecções foram, com pequeno intervallo, praticadas cm pontos muito visinhos do primeiro, proporcionando ao paciente o mais deci- dido allivio. Tornou-se neste caso necessária a injecção de 6 grammas d’agua para a completa calma da dòr, não havendo, todavia, sobrevindo a mais ligeira inflammação dos pontos em que foram feitas as puncções; a grande ampoula formada pelo liquido injectado foi gradualmente se aba- tendo á medida que era este absorvido. ( 1) MYALQIAS Em casos de myalgias, sympathicas as seguintes observações, pertencentes á clinica do Sr. Dr. Mal- lez (2), mostram os excellentes effeitos da aquapunc- (1) Temos archivados muitos outros casos desta ordem, que deixam os de reproduzir, porsua inteira analogia com os que já íicam ahi exarados. (2) 6raz. des hôp.} 30 Oct., 1869. 19 tura (1) em casos em que se haviam mostrado impro- fícuos os revultivos, a faradização e vários outros meios valiosos em taes casos. OBSERVAÇÃO X B., 65 annos, dòres musculares da massa sacro-lombar acompa- nhando, como tantas vezes succede, uma atonia vesical já antiga e uma hy- pertropliia prostatica. 28 pontos de aquapunctura sobre a região dolorosa produziram um aliivio instantâneo, e que durava ainda quatro dias depois. OBSERVAÇÃO XI V., empregado na casa da moeda, affectado de rachiaigia com pros- tatorrhéa. Com 8 pontos de aquapunctura sobre o perineo e 4 sobre a região tombar, obteve o Dr. Mal tez o desapparecimento instantâneo da dòr. 0 doente foi visto por duas vezes em oito dias: a dòr não havia reapparecido. OBSERVAÇÃO XII Mme. B.: metrite acompanhada de cystitis pouco intensa e de dôres cir- culando a base do thorax. 15 pontos de aquapunctura fizeram cessar comple- tamente a dòr peri-abdominal. 0 effeito foi instantâneo; a doente não tornou a ser vista. OBSERVAÇÃO XIII F., morador á rua Saint-Louis-en-l’lle: em tractamento desde muito tempo, affectado de contractura do sphinter externo da uretra,e de dôres per- sistentes de toda a região perineal, que já haviam sido combatidas por di- versos meios, taes como fricções irritantes, semicupios frios, suppositorios narcóticos no recto, supporta por 2 vezes 8 puneções sobre o perineo, e, em- bora muito pusillanime, voltou espontaneamente, declarando que se achava quasi curado desde a primeira applicação; nada mais sente. O seguinte e interessante facto, relatado ao Con- gresso de Nantes pelo já citado Sr. Lafitte, vem cor- roborar os resultados colhidos pelo Sr. Mallez. (1) Empregamos indistinctamente os termos—aquapunctura e injec- ção hydrica, por isso que designam apenas modificações de um mesmo processo, sendo idênticos os resultados : a penetração d’agua no tecido cellular subcutâneo. 20 OBSERVAÇÃO XIV Em Setembro de 1872 foi o Dr. Laffitte chamado a 11 kilometros do seu domicilio para soccorrer uma mulher que, havia dous dias, soffria horri- velmente, extorcendo-se com dòres atrozes que a impediam absolutamente de alimentar-se. Essas dòres assestadas sobre a região lombar não a deixa- vam deitar-se, nem conservar-se um só instante em repouso. Apenas che- gado e com extrema difficuldade tendo feito deitar-se a doente, injecta-lhe successivamente o Ur. Lafitte na região renal o conteúdo de 4 seringas de Pravaz ou 8 grammas d’agua distillada. Com grande estupefaeção dos assis- tentes, pôde em acto continuo levantar-se a doente e andar sem o mais leve embaraço. No dia seguinte o Dr. Lafíitte tornou a vêl-a sem o mais ligeiro vestígio do soffrimento da vespera. COLIOA NEPHEITICA OBSERVAÇÃO XV Esta observação nos diz respeito, e nella damos um pleno e sincero testemunho em favor da efficacia notável das injecções hydricas. Em um dos últimos dias de Junho do corrente anno fomos, pelas 7 ho- ras da tarde, subitamente acommettidos por uma violenta dôr, que, partindo da região lombar direita, se irradiava para a região inguinal do mesmo lado. A dòr declarou-se com tal violência que, poucos momentos depois, já nos achavamos exhaustos de forças, quasi sem pulso; a temperatura baixara e tínhamos a pelle banhada em copioso suor frio. Em posição alguma podia- mos obter o menor allivio; o soffrimento era indescriptivel. Banhos quentes, poção com chloroformio, fricções laudanisadas, ventosas escariíicadas sobre o trajecto da dòr , vários outros meios, emflm, á porfla empregados, se mos- traram completamente inertes. As dòres tornavam-se cada vez mais intole- ráveis e acompanhadas de vomitos. Nestas condições tivemos a fortuna de ser soccorridos pelo nosso distincto collega e amigo, o Sr. Dr. Júlio Brandão, que, já devendo ás injecções hydricas não poucos successos, lem- brou-se immediatamente de recorrer ainda uma vez a ellas. Acreditando, porém, diante da acuidade das dòres, que uma injecção de morphina nos proporcionasse mais prompto allivio, assim o fez em acto continuo sobre a 21 região lombar. Devemos confessar que apenas sentimos mui pequena mi- noração da dòr, na zona circumvisinha do ponto em que fòra feita a injecção. Rellectindo então que se tornariam precisas muitas injecções para acalmar os soífrimentos a que nos via entregue, passou o Dr. Julio Brandão ás in- jecções d’agua commum, que praticou em numero de cinco, com mui curtos intervallos entre uma e outra, em diversos pontos do trajecto da dòr, e parlicularinente na região inguinal, onde era ella mais intensa. Em poucos minutos o allivio obtido era considerável e, cerca de meia bora mais tarde, apenas uma leve sensação dolorosa perdurava. Neste caso a injecção de 10 grammas d'agua commum alcançuu o mais notável resul- tado, e resultado duradouro, porque a dòr não reappareceu mais, conse- guindo dormir mais ou menos regularmente durante a noite. A nenhuma outra medicação poderíamos attribuir a duração das melhoras conseguidas, porque, depois das injecções, apenas ingerimos duas colheres de uma poção com chioral, que foram logo depois eliminadas pelo vomito, deixando de insistir no seu uso. As dòres tinham razão de ser de tão grande intensidade e violência, por isso que o diagnostico de cólica nephretica, que formulámos com os Drs. J. Brandão e Fazenda, chegado por ultimo, mas a tempo de testumunhar os resultados da aquapunctura, foi plenamente confirmado 20 horas depois pela expulsão de um calculo urinário. ARTICULAR No começo deste trabalho fizemos sentir que os primeiros successos devidos ás injecções hydricas pelos Srs. Potain e Dieulafoy verificaram-se em casos de rheumatismo articular agudo e muscular. Fizemos igualmente notar os resultados ultima- raente colhidos pelo Sr. Dessan,de Chicago,em casos também de rheumatismo articular amido, usando, 0 7 7 porém, da agua quente. Entre nós não se têm desmentido os bons effeitos da- aquapunctura em taes circumstancias, e, como confirmação dos resultados já archivados, passaremos a transcrever as seguintes e muito curiosas observa- 22 çoes, que devemos á obsequiosidade do nosso mui distincto collega e digno amigo, o Sr. Dr. Jalio Brandão, o unico sectário que conhecemos até agora entre nós das injecções hydricas subcutâneas. OBSERVAÇÃO XVI Em fins de Junho de 1875, veio ao nosso consultorio o Sr. M. M. V. P. 0 Sr. P. soíTria de um rheumatismo poly-articular chronico e rebelde, que o atormentava já havia alguns annos, a ponto de deixal-o por varias vezes completamente entrevado no leito durante dias consecutivos, apezar de ter sido seguidamente tractado por diversos médicos desta capital sem proveitj algum. Tão prolongados soffrimentos deixando-lhe apenas um ou dous me- zes da allivio e de descanso entre cada insulto rheumatico para cuidar de sua profissão, acabaram por lançal-o em um estado profundo de desanimo e de abatimento physico. Actualmente, islo é, na occasião em que procurou- me, estava o Sr. P. no começo de um desses ataques e accusava dòres em quasi todas as articulações, sobretudo na do punho esquerdo, onde eram essas dòres atrozes ; notando-se ainda lluxão com tumefacção extensa, cir- culando todo esse punho até o dorso da mão. 0 doente mal podia andar e trazia a mão e o punho correspondente envoltos em uma larga cataplasma de linhaça e suspensos em um lenço atado ao pescoço ; o menor abalo ou movimento dessa parte despertavam dòres vivíssimas. A íluxão e a tumefac- ção do punho e da mão eram tão intensas que simulavam perfeitamente um phlegmão suppurado, chegando a dòr a perceber aos dedos a sensação de uma falsa fiuctuação. Depois de um minucioso exame a que sujeitei o Sr. P., prescrevi-lhe para uso interno iodureto de potássio associado ao vinho quinado, como costumo a fazer sernpre que convenço-me da urgente in- dicação daquelle medicamento em um indivíduo cachetico e depauperado, como o que eu tinha em minha presença ; reservando para mais tarde o uso do iodureto de ferro e de banhos de mar. Mandei applicar ás articulações affectadas o emplastro de Ricord, que também me tem sido muito proveitoso em cases idênticos. Era mister, porém, procurar dar um allivio immediato ás dòres da articulação do punho esquerdo, que não davam um só momento de descanço ao meu cliente, e não perder a occasião de apreciar, pratica- mente e pela primeira vez, o effeito das injecções subcutâneas d’agua fria. Não hesitei, pois, e propuz immediatamente ao Sr. P. fazer-lhe aquclla pe- quena operação, dizendo-lhe que talvez desse ella um allivio prompto. Eu disse ao doente talvez : eu queria deste modo salvar a minha reputação e 23 evitar uma decepção que acrediiava certa. Meu cliente soffria tanto nessa occasião, que promptarnente acceitou a minha proposta. Não obstante o es- tado de fluxão e de tumefacção da articulação, alii fiz, uma apoz outra, suc- cessivamente, seis injecções hypodermieas, servindo-me só e unicamente d’agua commum, cujo estado de pureza tive o cuidado de verificar, e esgo- tando completamente a seringa em cada injecção. Cada vez que a agua pene- trava no tecido cellular subcutâneo, o meu doente accusava uma dòr aguda e fina, que elle comparava á sensação que produziria um liquido fervendo que lhe penetrasse nas carnes; essa dòr desapparecia subitamente em menos de um minuto depois de cada injecção. 0 allivio foi immediato e as dôres intensas que tanto atormentavam o doente desappareceram como por en- canto, deixando o Sr. P. maravilhado e contentíssimo e a mim bastante surprehendido. No fim pouco mais ou menos de dez minutos pôde o doente fazer todos os movimentos com a articulação do punho, tocar e fazer pressão com o dedo em todos os pontos tumefactos sem despertar dôr alguma. 0 Sr. P. reti- rou-se summamente agradecido pelo immenso allivio que eu lhe tinha dado, levando fóra do lenço a mão com todos os seus movimentos livres e des- embaraçados, e conservando apenas a tumefacção já existente. No dia seguinte vi-o de novo ; as dôres da articulação do punho tinham des- apparecido, e, contra a minha espectativa, toda a tumefacção e íluxão dessa parte haviam-se dissipado completamente. 0 emplastro que mandei ap- plicar nas outras articulações dolorosas tinha produzido grande allivio e, po>s, não julguei necessárias as injecções subcutâneas nesses pontos. Desde então, graças ao uso rigoroso da medicação acima referida e do iodureto de ferro e banhos de mar, a que sujeitei este doente mais tarde, conse- guio elle recuperar as forças e a saude. Esse estado tem-se mantido até hoje, tendo elle apenas tido ha tres me- zes um novo insulto rheumatico, limitado á articulação do punho, com os mesmos phenomenos inílaminatorios, o que tudo cedeu rapidamente a no- vas injecções d’agua fria. OBSERVAÇÃO XVII No dia Io de Agosto de 1876, o Sr. L. M. dos S.. guarda-livros de uma importante casa commercial nesta capital, veio ao meu consultorio, quei- xando-se de dôres fortíssimas no liombro direito e que se irradiavam para todo o braço correspondente e impediam-n’o de escrever ou de executar qualquer outro movimento. Eu prometti-lhe dar-lhe allivio immediato, se me deixasse azer-lhe um certo numero de injecções d’agua fria no foco da dôr, ao que accedeu elle promptamente. Em acto continuo pratiquei no ponto máximo 24 da dôr quatro injecções liypodermicas d’agua commum. Ainda desta vez o resultado não falliOL e o Sr. L., que antes não pudera despir o paletot sem que eu o auxiliasse, isso mesmo a custa de grandes soffrimentos. mo- via agora muito melhor o braço e por si mesmo vestio-se sem ditíicuIdade, retirando-se para o seu trabalho, não inteiramente livre da dor, mas mui- tíssimo alliviado. Bem certo estou de que elle sahiria inteiramenle curado,se me tivesse deixado fazer, em vez de quatro, seis ou mais injecções ; mó - acobardou se com a dôr que lhe despertava a penetração d’agua nos tecidos subcutâneos. Ainda neste caso accusou o doente, no acto da injecção, uma doi tina, urente, irresistível, que também desappareceu subitamente em menos de um minuto. OBSERVAÇÃO XVlIi 0 Sr. J. F. L., morador á rua do Carmo, estava ha dias em íractamento de uma infecção syphilitica do segundo periodo, quando foi acommeffido de riu umatismo nas articulações dos joelhos. As dòres eram tão fortes que embaraçavam-lhe o andar, obrigando-o a claudicar fortemente. ISão tendo allivio, uem podendo conciliar o somno. pois |ue as dòres exacerbavam-se á noite, procurou-me no dia W de Janeiro do corrente anno. Itmediatamente pratiquei em cada joelho tres injecções ii\ podermicas coin agua fria, e logo depois elle saliio completamente alliviado e andando como se nada tivesse. Accusou no acto das injecções a mesma sensação de dòr fina e urente, de curta duração. OBSERVAÇÃO XIX Em principio do mez de Acosto proximo passado, o Sr. A. S. proeurou-me' pedindo-me que llie desse allivio ás dores fortíssimas que, havia dons dias, senlia no joelho esquerdo e na raiz do dedo polle 'ar do mesmo lado, e que não lhe deixavam um só momento de socego, apezar de haver ja applieado em casa diversas fomcotações. Notei que file claudicava da perna esquerda quando entrou e que apresentava uma tumefaeção acompanhada de íluxão, limitada á articulação do pollcgar da mão esquerda, onde o menor movi- mento despertava dóres fortíssimas; accrescia ainda que o Sr. S. desejava ir nessa noite á opera lyrica, de que é grande amador. Pois bem ; prometti- Jhc que não só podia allivial-o immediatamenle, como até permitti-lhe a ida, nessa mesma noite, ao desejado espoctaculo, comtanto que me deixasse fazer algumas injecções dbigua loco dolenti. Corajoso e decidido, como é, elle não me deixou repetir a proposta. Trts injecções subcutâneas d’agua fria, applicadas ao joelho direito e duas outras ao nivel da articulação de 25 pollegar esquerdo, trouxeram allivio prompto, e o Sr. S. sahio maravilhado e andando regularmente. A’noite encontrei o no theatro, completamente livre das dô.es, e queixando-se apenas que lhe ardiam um pouco as picadas produzidas pela agulha-canula da seringa. No dia seguinte esta/a comple- tamente bom de tudo, e até hoje as dòres não reappareueram mais. Accusou ainda a mesma sensação Fina de dòr aguda no acto da injecçáo. OBSERVAÇÃO XX Em meiados de Agosto proximo pasmado, entrou para o hospital da Miseri- córdia e foi occupar um dos quartos da Ia informaria de cmurgia, actual- mente a meu cargo, o Sr. F. F. L’., antigo negociante d<'s os meios empregados, inclusive o emplastro de Ricord, os vesicatórios e a tin- tura de iodo. Foi então que no dia 7 do corrente mez de Setembro resol- vi-mo a applicar nesse ponto injecçõcs d’agua fria, o que levei então a eífeito na presença do Sr. Guilherme Silva, distinoto quinto-annista de medicina e interno do meu serviço. f’ois bem, a dòr, locaiisaJa com tanta pertinácia naquelle ponto e que parecia alli querer adquirir direito de domicilio, dis- sipuu-se complotamente apoz quatro injecções dagua fria. 0 Sr. P. foi o unico doente que não accusou grande dòr no acto das injecções. No dia immediato e nos que se seguiram, o Sr. P.,nadu mais sentindo, pedio alta’ que obteve uo dia 11 do corrente ; tendo vindo no dia 14 deste mez com- pletamente bom ao meu cousui orio agradecer os serviços que eu lhe havia prestado. OBSERVAÇÃO XXI No dia 7 do corrente mez de Setembro appliquei ainda duas injecçõcs d’agua fria em outro doente dos quartos particulares, ao nivel do mamellão direito, onde elle sentia uma pontada agudíssima, em consequência de uma pneuu.oma existente do lado direito. A dòr lancinante que este doente accu- sava impedia-o de respi.ar livremente, o que concorria para mais augmentar a dvspnéa própria da moléstia. Quando terminei a visita, voltei para ver de novo este doente e achei-o já mudo alliviado e com a respiração muito mais natural. Este doente não accusou mais d.,;- em ponto algum até hoje, e vai 26 d»s melhores condições possíveis, pois que a sua pneumonia marcha reçu- larmente para uma resolução completa. Neste caso foi também testemunha ocular do successo que obtive o mesmo interno Guilherme Silva. Associamos esta observação ás precedentes rela- tivas ao rheumatismo articular, por pertencer igual- mente á serie de casos que transmittio-nos o Sr. Dr. Julio Brandão. Delia nasce uma nova indicação para a pratica da aquapunctura, isto é, o emprego delia para combater a dôr pleuritica. Provavelmente nào se tratava de outra cousa no doente do nosso distincto collega. Esse primeiro successo autorisa-nos pois, o ensaio do meio em questão nos casos de dôr pleuritica. HYSTERIA A seguinte observação, devida ao Sr. Dr. René Ricoux (de Phiiipeville), e publicada na Gazeta Heb- domadaria de 2 de Junho de 1876, offerece o maior interesse sob o ponto de vista do assumpto em ques- tão. Os extraordinários efíeit.os das injecções liydricas nella se patenteiam de modo a não deixarem a menor duvida sobre o seu verdadeiro valor therapeutico. Não só o phenomeno dor, mas ainda as crises convul- sivas da hysteria, o que é por sem duvida bem digno de attenção, foram por ellas dominadas. OBSERVAÇÃO XXII 27 HYSTERIA 1NTERMITTENTE, DE TYPO, Á PRINCIPIO INDECISO, DEPOIS FRANCAMENTE TERÇÃO. ACÇÃO FAVORAVEL DA QUININA (1) J PARTICULARIDADES INTERESSANTES No dia 29 de Jullio de 1875 foi o Dr. René chamado a ver uma moça de 18 annos, que se achava sob a inlluencia de uma crise, como diziam-lhe. A doente soltava gritos agudos, entregue a contorsões, com a mào apoiada sobre a região precordial e a bacia projectada para diante; ora ria-se, ora soluçava, sem perda dos sentidos ; haviain alternativas de rubor e pailidez da face. 0 Dr. René não hesitou em diagnosticar—Iiysteria. A doente queixava-se de intensa dòr pre-cordial, e immediatamente prac- ticouelleuma injecção hypodermica de chlorhydrato de morphina (1 centi- gramma). A calma foi prompta ; e o Dr. René msistio nos antispasmodicos. Duas vezes durante o dia tornou a ser chamado o Dr. René a soccorrer a doente, acommettida de crises idênticas. Os ataques reproduziram-se nos dias seguintes, regularmente ás mesmas horas : 9 horas da manhã, 2 da tarde e 7 da noite. A dòr precordial mostrava-se cada vez mais intensa e para acalmal-a pra- cticava o Dr. René a injecção hypodermica de 6 grammas de morphina em Ires vezes. « Um dia, diz elle, não tendo mais morphina, íiz, sem conhecimento da doente, uma injecção d’agua pura; a dòr e a crise cessaram. Curioso de ex- perimentar se havia mera coincidência, não empreguei mais d’ahi em diante» sendo de tal prevenida a doente, sinão agua distillada ou agua da fonte, e obtive invariavelmente a cessação tanto da dòr como da crise. » Apezar de haver percorrido a escala dos calmantes e antispasmodicos, de haver recorrido a hydrotherapia e a todos os demais meios recommendados era casos taes, os accessos não fizeram mais do que se reduzirem ao nu- mero de dous por dia e tomarem afinal o typo francamente terção. Recordando-se de já haver tractado em outras épocas a mesma doente de accessos intermittentes, resolveu-se, diante da periodicidade das crises hyste- ricas, a empregar o sulphato de quinina, administrando-o na dose de 1 gramma, quatro horas antes do accesso.que apparecia ás 7 horas da noite. « Quanto ao tractamento do accesso prosegueem sua observação o Sr. René, devo insistir sobre este ponto, porque tenho de assignalar algumas particularidades,que não me recordode haver visto indicadas em parte alguma (1 )A quinina operou neste caso, preenchendo a indicação causal, debellando o fundo paludoso da moléstia. As injecções liydricas não preencheram mais que a indicação symptomatica, combatendo a crise convulsiva e o elemento — dôr. 28 Mandavam-me prevenir no começo de cada crise: eu achava geral mente a minha doente entregue a convulsões caracteristicas, ■ns qu-1 haviam pro- gressivamente adquirido desde o seu começo um asperlo d e gravidada. Assim, a perda dos sentidos, que não existia nos primeiro- l.as. m-i mompanhada de divagações passageiras, as mãos crispadas am uavam as cobertas, le- vavam o lençol á bocca para rasgal-o; o corpo mostrava-se arqueado em virtude da projecção da bacia para diante, de tal sorte que a cabeça tocava os calcanhares; esta posição desfazia-se depois subitamente, movimentos rá- pidos e alternados da cabeça da direita para a esquerda; sobrevinha um segundo de repouso e de volta dos sentidos, depois a mesma scena se re- produzia. Para reconhecer a causa destes movimentos desordenados pratiquei a pressão ovarica ; ella produziu uma calina momeutanea. Obtinha egual re- sultado com urna pressão vigorosa sobre o baço e a parte lateral do pescoço, ao nivel da apophyse transversa da terceira vertebra cervical ; era mesmo a applícação sobre este ultimo ponto que aetuava mais rapidamente ; mas a mão, uma vez retirada, as convulsões reappareciain com a mesma imen- sidade. Yeiu-me a idéa de generalisar o processo das injecções hypodermicas d’agua distillada. Desde a primeira injeeção (eu as practicava rapidamente, emquanto tres pessoas mantinham a hystcrica), os movimentos desordena- dos cessavam, algumas convulsões tónicas persistiam com gritos, prantos ou risos, depois de 7, 8 ou 10 injecções (por vezes 15,20 ou mais, quando a crise era forte e eu havia chegado logo no começo), e a doente, voltando a si, me indicava os ponctos em que devia eu fazer as injecções ; soltava um ah ! exprimindo allivio, «c’est la boune», dizia ella. E tudo entrava em ordem. Para não duvidar da efficacia deste tractamento palliativo, tenho uma ex- periencia de tres mezes. A crise nunca dissipou-se espontaneamente e sem a minha intervenção; ella durou muitas vezes horas inteiras até a minha chegada ; um dia mesmo, estando ausente, a doente passou toda a noite com a crise, que ainda durava no dia seguinte ás.9 horas da manhã, e não cedeu, como sempre sinão ás injecções d’agua distillada. Vários collegas meus foram testemunhas deste resultado, e dous dYntre elles, que me substituíram durante a minha ausência, tiveram de recorrer a este meio que eu lhes havia recommendado e obtiveram o mesmo successo. Eu accrescentarei, como prova confirmativa,uue, tendo sido chamado depois disso para ver uma moça acommettida pela primeira vez de um ataque hys- terico, não hesitei em experimentar o processo em questão. Duas injecções 29 d’agua fresca na região ovarica fizeram abortar uma crise, que durava já havia uma hora e não reappareceu mais.» As injecçoes hydricas nunca puderam fazer mais que jugular a crise, mas não obraram corno me;o curativo. 0 Ur. René passou a insistir no emprego do sulfato de quinina por todas as formas de administração, sendo as me- lhoras manifestas, porém não duradouras. A remoção da doente para Mar- selha completou o tractamerito, não reapparecendo os accessos depois da mu' dança. As picadas das injecçoes, que podiam contar-se por mi heiros, não acarretaram consequências serias. Apenas sobrevieram, no dizer do Dr. Re- né, oito abcessos extensos, superficiaes, e que, uma vez dilatados, cicatriza raro, sem descoílamento ou outra complicação. Eis-alii, pois, por conta do distincto medico de Pliilippeville, dous casos bem definidos de hysteria, cujas crises foram dominadas promptamente, mediante as repetidas injecçoes d’agua distillada ou commum. Estas injecçoes puderam ser repetidas na primeira doente em numero avultado, sobre diversas partes do tronco e dos braços, sem que maior accidente resultasse, além de oito abcessos superficiaes, que promptamente cicatrizaram depois de dilatados.— Estas observações e particularmente a primeira, para a qual já anteriormente appellámos, deixam vêr claramente a inocuidade dessa pequena operação, que poderá ser reproduzida tantas vezes, quantas o exigirem a intensidade ou a tenacidade do mal. Nào constitue, nesta especie, a aquapunctura um meio curativo, mas um valioso, sinão heroico pal- liaii\ o que, além de conseguir jugular prompta e facilmente uma crise muitas vezes terrivel, offerece sobre os meios congeneres a indisputável vantagem de poder se sobre elle insistir sem o menor pre- juízo para a doente. Po d emos, assim, deduzir desta observação duas conclusões : 30 1. Que as injecções hydricas são susceptiveis de fazer cessar certas crises hystericas; 2. Que para esse fim podemos impunemente repe- tir as injecções sobre as differentes partes do corpo, tantas vezes, quantas o tornarem necessário a in- tensidade e a tenacidade dos ataques. Havendo-nos occupado até aqui da aquapunctura como excellente meio para debellar-se o elemento dôr, resta-nos archivar mais uma propriedade delia, que julgamos ser o primeiro á .tornar conhecida. Esta propriedade, que chamaremos—preventiva da dôr, é a que possue ella de supprimir os soffri- mentos causados por um vesicatório, uma vez prac- ticada, em numero variavel, no centro da zona es- colhida para applicação daquelle e poucos momentos antes desta. Tal emprego das injecções hydricas foi-nos sug- gerido por uma communicaçao dirigida, em Outubro de 1875, á Revista Medica do Rio de Janeiro pelo nosso respeitável e distincto amigo, o Sr. Dr. Silva Castro, do Pará. Esta communicaçao versava sobre o tractamento empregado pelo nosso collega em um doente que sofftia de uma nevralgia dorso-intercostal direita muito intensa, datando de dous annos Vários meios ensaiados por outros collegas haviam-se mos- trado, nela totalidade, improfícuos. O Dr. Castro passou então a practicar injecções hypodermicas de chlorhydrato de morphina, que proporcionavam ao doente muitas horas de allivio. Este meio, porém, era simplesmente palliativo, e tornava-se necessário usar de agentes mais energicos e seguros. Apezar 31 de haver já soffrido o doente a applicação de vesi- catórios, recorreu de novo á elles o Dr. Castro, empregando successivamente uns após outros, e de pe- quenas dimensões; cumprindo notar que tal applica- ção coincidiu com a practica ordinaria das injecções hypodermicas de morphina. t Qual não foi então a minha admiração e maior ainda a do doente, diz o Dr. Castro, quando re- conheci maravilhado o effeito completo dos vesica- tórios sem o comparecimento da mais leve dor ou ardor, quer no processo da vesicação, quer no cura- tivo diário dos ditos vesicatórios! »• Attribuindo ás injecções hypodermicas a ausência das dores neste caso, tractou de associar os dous meios em vários outros doentes, e vio a sua hypothese con- firmada. Não podendo esquecer tão facil e vantajoso recurso, para poupar aos nossos doentes os dolorosos soffrimentos que provocam os vesicatórios, oecorreu- nos a idéa de substituir a solução c. morphina pela agua commum, e nos applaudimos dessa substituição, sendo plenamente realizada a nossa espectativa. Mais simples e mais accessivel se tornou por tal fórma esse recurso preventivo, que qualquer doente, por mais timido que seja, será facil em preferir aos demorados soffrimentos inherentes á vesicação. Para não ser demasiado longo, limitar-nos-hemos á transcripçào de algumas das nossas mais conclu- dentes observações, em prova do que asseveramos. Em um velho, em um moço e em uma criança, isto é, em tres edades distinctas, foram os resul- tados idênticos. Em um velho de 77 annos, extremamente depauperado, que soffria de profunda intoxicação palustre e de cirrhose do fígado, resolveu-se o seu OBSERVAÇÃO XXIII 32 medico assistente a applicar-lhe um vesicatório de Albeipeyres sobre o hy- pochondrio direito. Por nosso conselho practicou elleuroa injecção subcutânea d’agua commum no centro da area que deveria ser occupada pelo vesicatório, de fórma cir- cular e de 5 centímetros de diâmetro. Resultado : vesificação e suppuração completamente indolentes. OBSERVAÇÃO XXIV 0 Sr. X., de 30 annos de edade, brazileiro, casado, fazendeiro na provín- cia do Rio de Janeiro, soífrendo de dysenteria subordinada a profunda into- xicação palustre, com enorme engorgitamento hepático, veiu para esta capi- tal, no dia 14de Outubro de 1875, afim de subjeitar-se ao nosso tractamento. Apezar dos repetidos meios empregados para remover a forte congestão hepatica, a qual se achava em grande parte subordinada á dysenteria ; ape- zar das emissões sanguíneas locaes, dos revulsivos brandos (tinctura de iodo e oleo de croton), purgativos salinos, podophyllina, etc., resolvòmo-nos no dia 8 de Novembro, a lançar mão de um vesicatório sobre o hypochon- drio direito. Gomo se achasse o doente assás abatido, imp. essionavel, e nunca houvesse solfrido a applicação de tal meio, propuzemos-lhe, e elle acceitou, o emprego de uma injecção d’agua commum no centro da area em que devesse ser posto o revulsivo. Este, de forma circular, tinha 8 cen- tímetros de diâmetro. 9 de Novembro.—0 vesicatório produziu uma grande.bolha em quasi toda a area por elle occupada, sem que experimentasse o doente a menor dôr ou ardor. Nós mesmo fomos cural-o pela manhã : encontrámos o doente ainda no leito, havendo apenas despertado de um profundo somno, em que estivera naturalmente immerso desde a noite anterior. 0 vesicatório havia sido ap- plicado á tarde, e desde essa hora até o despertar nenhum signal havia dado elle de si. A’ nossa chegada, ainda ignorava o doente se elle tivera tido resultado, fi- cando sorprehendido ao vêr aampoula formada. As melhoras obtidas por essa revulsão foram por tal fórma accentuadas que, fechando-se o vesicatório, tivemos que recorrer a mais dous outros, com pequeno intervallo, sempre precedidos da injecção hydrica e sempre insen- síveis para o doente, quer durante a vesicação, quer durante a suppuração. DYSENTERIA, HYPERMEGALIA HEPATICA, CACHEXIA PALUDOSA 33 OBSERVAÇÃO XXV Um menino de dous annos, de constituição bastante forte, soíTria desde 6 mezes de diarrliéa lienterica subordinada á infecção palustre e acompanhada de grande engorgitamento hepático, refractario a vários tractamentos. Havendo-se accentuado a moléstia com o appareci mento de accessos febris fraucamente intermittentes e persistência da hypermegalia hepatica, resolveu-se o medico assistente da doentinha a lançar mão, em concurso com outros agentes, de um vesicatório sobre o hypochondrio direito. A. criança estava inquieta e com difflculdade supportaria os soífrimentos des- pertados pela vesicação da pelle. Chamados como consultante, nós insistimos 11a ideia de revulsivo e aconselhámos fazèl-o preceder de uma injecção hy- drica sobre a região em que ia ser elle applicado. 0 vesicatório, circular, de 6 centímetros de diâmetro, foi, com effeito, ap- plicado sobre 0 referido hypochondrio, á 1 hora da tarde, sendo precedido de uma injecção hydrica. A’ noite já a vesicação estava adiantada, sem que a criança desse mostras de soffrimento, sendo curada na manhã seguinte. A ampoula formada comprehendia toda a área occupada pelo vesicatório. A suppuração loi egualmente indolente. Estas trez observações, colhidas d’entre as muitas que possuimos deste genero, são, cremos, sufficientes para induzirem os nossos collegas ao ensaio deste recurso preventivo, completamente inocuo, quando porventura se mostre improfícuo. O numero das iujecções deverá variar, segundo a area occupada pelo vesicatório: sendo este pe- queno, como nos casos acima referidos, uma só torna-se de ordinário bastante. Quando a revulsão tem de -preencher duas in- dicações associadas: por exemplo, de moderar a dôr e activar a reabsorpção de exsudatos, como succede em casos de pleuriz, a aquapunctura, pre- venindo as dores da vesicação, póde auxilial-a em seu primeiro effeito* a subtracção da dôr inflam- matoria. 34 Como se poderá explicar a acção das injecções hydricas? Eis unia questão assás interessante, que ainda não encontrou razoavel solução da parte dos poucos que se têm com ella occupado. ÍSerá effeito da impressão moral ? perguntam uns. Não o cremos nós e não o acredita egualmente o Dr. Leopoldo Lafitte, em contrario á opinião do Dr. Bonnemaison, professor de clinica medica em Tolouse. Poder-se-hia comparar o effeito dessa pequena operação com aquelle pro- duzido pela simples presença do dentista ou do seu instrumental sobre um indivíduo mortificado por uma odontalgia rebelde aos mais heroicos calmantes e anesthesicos? Quem não conhece innumeros exemplos de pa- cientes nestas condições, que, entregues aos mais cruéis soffrimentos, sentem-se subitamente alliviados apenas recebem a impressão desagradavel do appa- ratôso gabinete onde penetram ? O abalo, a emoção, são por tal modo conside- ráveis, que a dor cede lugar á impressão que domina o paciente. A impressão moral dispertada pela idéa de uma operação, em um indivíduo apprehensivo e pusillani- me, póde, algumas vezes, contribuir para os sorpre- hendentes effeitos das injecções hydricas; nem sem- pre, porém, occorre ella de modo á ser-lhe attribuida a paternidade dos immensos successos archivados. Primeiro que tudo, nem todos os doentes são tão impressionáveis e timidos, que recebam de uma seringa de Pravaz abalo moral capaz de fazer dissi- parem-se bruscamente dôres profundas e rebeldes. Nós temos a prova disto comnosco, pois que temos conseguido dominar mais de uma odontalgia intensa, 35 pracíicando, nós-proprios, uma ou mais injecções hy- podermicas d'agua. Não é crivei que, sendo nós o operador, pudéssemos soffrer tão grande impressão moral, capaz, só por si, de suffocar a dor. Si a idéa da operação, dirão outros, não ó, em gran- de numero de doentes, susceptivel de abalal-os, a dor causada pela penetração d'agua no tecido cellular subcutâneo ê muitas vezes superior á que a precedia, e, portanto, capaz de suffocal-a, de abatêl-a. Não acceitamos egualmente esta maneira de vêr, entre outras razões, porque, alóm de ser de muito rapida duração, essa dor é extremamente variavel, conforme a região anatómica em que for practicada a injecção. Em certas regiões menos sensíveis, mas onde as dôres sejam aliás muito intensas, a dôr devida á presença da agua, apenas presentida pelo paciente, não chega a superar, em sua acuidade, a pa- thologica. Uma prova muito valiosa disto temos nas injecções liydricas que são practicadas poucos mo- mentos depois de uma outra morphinada, feita na mesma região. Esta, que não conseguio então acal- mar a dor, deixa, todavia, um certo torpor loco- dolenti, uma quasi-anesthesia da pelle; então as injecções hydricas são apenas percebidas pelo doente, e, comtudo, a sua efficacia faz-se rapida- mente sentir de um modo sorprehendente. Na obser- vação que nos diz respeito, a primeira injecção mor- phinada que practicou-nos o Dr. Brandão, apezar do torpor geral e de certa insensibilidade cutanea con- secutiva, não conseguio dissipar as cruéis dôres que nos torturavam. As múltiplas injecções d’agua que em seguida fez o nosso distincto collega, não sendo quasi percebidas, proporcionaram-nos, entre- 36 tanto, de ura modo prompto e duradouro, o mais decidido allivio. Lembraremos, finalmente, que as injecções se mostram também profícuas, quando fazemos precedêl-as da anesthesia da pelle, segundo o.methodo de Luton, já acima enunciado. A impressão moral, pois, póde concorrer, em certos doentes timidos e pusillanimes, para o effeito dese- jado; não explica, porém, racionalmente a vanta- josa acção das injecções liydricas liypodermicas. Duas hypotheses aventa o Dr. Lafitte para ex- plicar a maneira de actuar das injecções desta nature- za: attribue elle os seus eífeitos : quer á paralysia dos pontos terminaes dos nervos, devida á compressão sobre elles exercida pelo liquido injectado, quer ainda « á situação súbita desses mesmos filetes ner- vosos em um meio liquido deshabitual, que, por absorpção, por imbibição, eomo queiram, os torne impróprios para sentir ou conduzir a dor. » A pri- meira liypothese invocada é de todo o ponto inac- ceitavel, si nos recordarmos que nem sempre a com- pressão se póde effectuar sobre as radiculas ner- vosas. Quando a injecçâo é feita em uma região, como a frontal, por exemplo, onde existe um plano osseo resistente, a ampoula formada pelo liquido agglomerado póde, com o auxilio da superfície ossea subjacente, determinar uma compressão susceptivel de paralysar as radiculas nervosas comprehendidas em a sua esphera de acção; mas, sendo esta a causa dos resultados da agua injectada, taes eífeitos não se fariam sentir naquellas regiões anatómicas onde similhante compressão não póde ser levada ao ponto de abolir as funcções das extremidades nervosas, 37 como succede, por exemplo, em toda a região ab- dominal. Mais plausivel nos parece antes a hypothese de uma atmosphera nova, deshabitual, em que se acham subitamente engolpliadas as radiculas nervosas, sem a precedencia do plienomeno de absorpção ou de im- bibição, visto que nenhum delles se poderia effectuar em tão rápidos instantes, isto é, com a mesma promp- tidão com que se dissipa a dor. A temperatura do liquido ou antes a mudança brusca da temperatura do meio em que se acham immersos os filetes nervosos não contribuirá, por sua parte, para as modificações que operam a cessação da dor? Não estamos longe de acredital-o, pois que as injecções d’agua quente produzem excel- lentes resultados, idênticos aos da agua em tem- peratura ordinaria. Ainda não tivemos opportunidade de observar em um caso pathologico os effeitos comparativos d’agua em temperaturas extremas. No individuo são pudemos verificar que a agua á 0j é muito mais sensivel, menos supportavel que a agua á 45° ou 50°. Resta, portanto, saber qual das duas tem- peraturas é a mais favoravel ao effeito que se tem em vista. Si se verificasse a hypothese da impressão moral como origem do allivio immediato, as injec- ções d’agua gelada seriam, certamente, as mais pro- fícuas. E esta ainda por emquanto uma questão á resolver-se. Algumas observações, como a do Dr. René Ricoux (de Philippeville), despertam-nos a idéa de uma acção reflexa favoravel, determinada pelas múltiplas injecções subcutâneas. De facto, neste caso a que nos referimos, não era sómente o elemento dár, 38 mas também o spasmo, o dominado pelo meio thera- peutico em questão. Não só a nevralgia pre-cordial, mas também as convulsões hystericas, eram supplan- tadas pelas injecções, não fosse embora tal recurso sinão um mero palliativo ; achando-se as crises hys- tericas subordinadas á intoxicação palustre. Não podemos, no caso vertente, appellar para a compressão ou a imbibição, mas antes com maior razão para uma acção reflexa, oriunda dos pontos injectados. Accresce ainda que, no doente do Dr. Ricoux, as injecções eram em grande numero feitas em pontos remotos da séde da dôr, — a região pre- cordial. Novas e successivas observações virão orientar-nos sobre este interessante assumpto, ainda litigioso ató este momento. CONCLUSÕES Os argumentos que adduzimos no correr deste tra- balho, as provas clinicas fornecidas tanto pela nossa observação como pela de muitos collegas distinctos, dignos de toda a fé, parecem deixar perfeitamente de- monstrado : 1. Que as injecções liydricas subcutâneas, quer d’agua distillada quer d’agua commum, constituem um valioso recurso, prompto e facil, a que pode re- correr o medico para combater o elemento dôr, seja qual fôr a sua origem ; 2. Que as mesmas injecções podem ser utilisadas para subtrahir aos doentes as dôres causadas pela applicação de um vesicatório ; 3. Que o numero das injecções pode variar consi- deravelmente conforme as exigências do caso ; 4. Que as injecções hydricas são completamente inócuas, vindo só raramente a suppurar alguns dos pontos das puncções, quando repetidas em grande numero em uma area limitada.