1)0 EMPREGO DO CHLORATO DE POTASSA NA DIARRHÉA DAS CRIANCAS V / t [ i M D L m. IE6860&TO »S mgms&e I MED IC «hhwmkiv ■ L 1 *1 Membro da Academia de Medicina do Rio de Janeiro, corres- pondente da Sociedade de Medicina e da Sociedade Medica de Emulação de Pariz, etc., etc. RIO DE JANEIRO TYP. DE—BROWN & EVARISTO 12 Rua do Senado 12 1875 Extraindo da« Revista Medica» do Rio de Janeiro Do emprego do chlorado de potassa na diarrhéa das crianças A coincidência entre um facto por nós observado e quinze casos referidos pelo medico italiano C. Bonfigdi no jornal II movimento, de Fevereiro do corrente anno, acerca dos felizes resultados colhidos do emprego do sal de Bettliollet no tratamento da diarrhéa vaso-para- lytica das crianças cacheticas, levou-nos a invocar a attenção dos nossos collegas para esta nova proprie- dade therapeutica, attribuida ao chlorato de potassa. A doente, sobre que versou a nossa indicada obser- vação, era uma menina de dous annos, de constituição extremamente debil e gravemente compromettida por numerosas causas deprimentes, entre outras por uma longa viagem transatlantica, nas peiores condições imagináveis. Logo que embarcou na Europa, com destino ao Rio de Janeiro, em virtude de péssima alimentação recebida a bordo, declarou-se-lhe uma diarrhéa serosa abundante, que, subordinada a uma causa permanente e prolongada, foi gradualmente se incrementando, ao ponto de tornal-a extremamente cachetica: a criança, que já começava a andar, perdeu inteiramente o uso da locomoção, e conservava-se em constante estado de profunda languidez. 4 Chegando ao Rio de Janeiro, depois de uma viagem de perto de 40 dias, em condiçOes tão pouco lisongeiras, nós começámos desde logo a medical-a com insistência, attendendo á gravidade qne offerecia a prolongação da moléstia. Percorremos então a escala de todos os variados meios indicados em taes casos: opiados, adstringentes vegetaes e mineraes de toda a sorte foram, á porfia, empregados, sem maior successo que algumas melhoras ephemeras; o mesmo succedeu com a administração dos preparados de bismutlio, com a ipecacuanha (metliodo europeu e brazileiro), com os tonicos nevrostlienicos, etc. Apezar da relutaucia da moléstia, do máo estado geral, a nossa pequena doente resistio entre alternativas de melhoras e peioras por espaço, seguramente, de oito mezes; havendo a notar-se que tinhamos ultima- mente interrompido, por infructifera toda medicação, sugeitando-a apenas a um severo regimen. Neste interim, são dous irmãos seus acommettidos de angina membranosa e nós, chamados a vêl-os, prescrevemos-lhes, entre outros meios, uma poção composta d’agua distillada com 4 grammas de chlorato de potassa. Por essa occasião, declarando-nos a mâi que a nossa primeira doente apresentava grande pneumatose intestinal, ordenámos-lhe o uso de uma bebida carmi- nativa. No acto da administração das duas poções ás differentes crianças doentes foram aquellas trocadas, vindo a ser o chlorato de potassa tomado pela que soffria de diarrhéa. Muitos dias depois, quando voltámos a visitar estes doentinlios, declarou-nos sua inãi, com visíveis signaes de grande contentamento, que haviam sido maravilhosos os efteitos produzidos na nossa primeira doentinha pelo remedio ultimamente prescripto. Pequena não foi a nossa sorpresa quando reconhecemos 5 que a troca dos medicamentos houvera sido seguida dos resultados que nunca pudéramos alcançar com a longa série de outros já consagrados pela experiencia e longa observação. De facto, as abundantes e profusas dejecções serosas desappareceram qaasi bruscamente, o appetite incrementou-se notavelmente; do que resul- taram melhoras patentes para o estado geral da doente. Ainda pouco convencido que pudesse o chlorato de potassa presidir a essas tão consideráveis melhoras insistimos na sua administração, e os effeitos succes- sivos desta dissolveram todas as nossas duvidas. A cura operou-se e só ao sal de Berthollet podemos attribuil-a. Este facto despertou-nos grande interesse, por não conhecermos outro algum desta ordem, nem haverem mesmo os therapeutistas verificado acção alguma deste sal de potassa sobre o tubo intestinal. Trousseau, entre outros, assegurava ser nulla a influencia delle sobre a mucosa dos intestinos. Guardavamos-nos, pois, para ulteriores provas a este respeito, quando chegou-nos, por acaso, às mãos o já referido jornal italiano, onde vimos reproduzidos nada menas de 15 factos analagos ao nosso e pertencentes á clinica do Dr. C. Bonfigli. Elle havia usado do chloroto de potassa em casos de diarrhéa, que designou sob a denominação de vaso-paralitica, observados ordinaria- mente em doentes cacheticos, cujo systema nervoso se acha abalado, que são caracterisados por frequentes e abundantes dejecções serosas, acompanhadas de grande meteorismo abdominal. As dóses applicadas pelo Dr. Bonfigli variavam entre 2 e 10 grammas, nas vinte e quatro horas. Em nossa doentinlia, a dóse não exedeu de 4 grammas em 150 grammas de vehiculo, sendo admi- nistrado uma colher de chá todas as duas horas. Daqui se conclue uma nova propiedade. até então 6 desconhecida, do clilorato de potassa: propiedade esta muito valiosa, visto como se tem verificado diante da impotência dos adstringentes, narcóticos, etc., como aconteceu no caso da nossa observação e nos 15 pertencentes ao collega italiano. Como poderá actuar o clilorato de potassa sobre a diarrhéa serosa das crianças cacheticas"? A acção directa dos medicamentos sobre a mucosa das vias digestivas ainda é objeto de sérias duvidas e motivo de estudos constantes a que ainda se entregam grande numero de experimentadores. Em relação â diarrhéa da infancia, a primeira discordância vem da classificação estabelecida por aquelles que delia se lião occupado; e dessa maneira pouco harmoniosa de enca- rar os factos, tem resultado a incerteza dos meios a empregar-se, ou melhor o imperismo que ainda preside muitas vezes ao tratamento das differentes especies de diarrhéa. Certamente que sem uma boa classifi- cação e o conhecimento bem firmado dos signaes que caracterisam as diversas especies clinicamente estabe * lecidas, mui difficil, se não impossível, será a pratica de uma therapeutico racional. Não viria aqui a proposito insistirmos sobre este ponto, no qual apenas tocamos para lembrarmos que a acção therapeutica dos medicamentos sobre as molés- tias do tubo intestinal só poderá ser bem interpre- tada depois do conhecimento exacto da natureza desses estados morbidos. A confusão que ainda reina na sciencia a respeito desta questão é a principal causa da hesitação que acompanha muitas vezes os práticos nos casos meuos benignos. Em nossa opinião as diarrliéas que não são a expressão symptomatica de uma neoplasia desenvol- vida no aparelho digestivo (câncer, tubérculos, etc.), ou de outro qualquer estado morbido independente desse aparelho, ou é a exageração de uma fluxão 7 physiologica como é insalivação, abundante a polycho- lica simples, etc , ou o resultado de uma plilegmasia do tubo intestinal. As diífrentes especies chamadas diarrhéas serosas, verdes, catarrliaes, etc., são quasi sempre ligadas a cntero-colitis. As condições pliysicas anteriores influem consi- deravelmente sobre as consequências mais ou menos graves que possam produzir este estado e por ,sua vez elle actua poderosamente sobre os differentes systemas, particularmente o nervoso. D’alii vem que certas diarrhéas, como as que chama Bonfigli vaso-paraliticas são verdadei.ias diarrhéas inflammatorias chronicas, que aífectaram profundamente a nutrição, acarretando, por intermédio desta causa a atonia de todas as visceras, sem escapar o tubo digestivo, onde a circulação capil- lar enlanguece consideravelmente por falta de conve- niente influxo dos vaso-motores. Esse trabalho morbido uma vez prolongado, determi- na afinal, por falta de vitalidade da mucosa, um processo ulcerativo que empresta a moléstia maior gravidade: os folliculos e as glandulas de Peyer são a séde de pequenas ulcerações, que tornam cada vez mais infruc- tiferos os variados agentes therapeuticos empregados. Conliecendo-se, como tem demonstrado sobre todos Isambert, os effeitos produzidos pelo chlorato de po- tassa sobre a mucosa buccal e pharyngeana, o qual actua como um verdadeiro antiphlogistico, modificando especificamente o trabalho inflammatorio dessas mem- branas, não se poderá também admittir, attenta a ho- mogeneidade dos tecidos, que idênticos resultados possa aquelle sal determinar sobre a mucosa que reveste o resto do tubo digestivo ? Não será altamente efficaz o emprego do sal de Berthollet nas gastro-entero-colitis agudas ou nas exacer- bações destas, uma vez chronicas? 8 Na hypothese de que se trata, nos casos que per- tencem-nos e ao Dr. Bonfigli, não actuaria o medica- mento por sua acção especial e bem demonstrada sobre as ulcerações desenvolvidas na mucosa intestinal? Quanto á minlia pequena doente, não tenho a menor hesitação em acceitar esta hypothese, tanto mais que nas dejecções eram frequentemente encontrados pequenos coágulos sanguíneos, que revelavam a existên- cia de ulcerações intestinaes. Nas stomatitis e anginas ulcerosas nenhum medi- camento excede em vantagem ao chlorato de potassa, que tornou-se, nesses casos, um verdadeiro especifico ; não será, pois, para extranhar que taes effeitos se pro- longuem a outra porção das vias digestivas. Por sua acção cicatrisante muito poderá auxiliar acuradas entero-colitis, que, por sua crhonicidade, hájaíri provocado a producção de ulcerações intestinaes. f * . Sua acção, nestas circumstancias, podia ter sido de antemão prevista, mas a pratica ainda não havia corroborado a simples hypothese. Por emquanto, limitar-nos-hemos a estas conside- rações, suggeridas pelos factos já declinados; appel- lando para a observação de outros; que virão negar ou confirmar esta nova e valiosa propriedade, que julga- mos poder attribuir ao sal de Berthollet.