IDO EIvIIPIREGKD DO CHLORATO DE POTASSA NA DIARRHKA DAS CRIANÇAS \ PELO 1 \f ÍINDE X 7", K- MONCORVO iMEDVeUS Membro correspondente da Sociedade de Medicina de Pariz, da Sociedade Medica de Emulação de Pariz, da Sociedade de Medicina de Marselha, etc., etc. (Exfrailido do Progresso Medico) mo ni; j\m:iiio TYPOGItAPHTA ACADÉMICA 73 Rua Sete de Setembro 73 1877 JDO EMFZREOO DO CHLORATO DE POTASSA NA DIARRHÉA DAS CRIANÇAS / PELO \ DK- MONCORVO Membro correspondente da Sociedade de Medicina de I’ariz, da Sociedade Medica de Emulação de 1’ariz, da Sociedade de Medicina de Marselha, etc., etc. RIO »i; JAKCIRO TYPOGRAPHIA ACADÉMICA 73 Rua Sete de Setembro 73 1877 DO EJVCIPiRDQ-O DO CHLORATO DE POTASSA NA DIARRHÉA DAS CRIANÇAS Em Agosto de 1875 demos á publicidade na Re- vista Medica do Rio de Janeiro (16 de Agosto, n. 13) (*) uma curta memória, na qual annunciavamos a nossa primeira observação sobre o emprego do sal de Berthollet no tractamento de certas especies de diarrhéa na infancia; fazendo por essa occasião sentir o silencio que até então reinára na sciencia a esse res- peito, excepção feita de idênticas observações publi- cadas pelo Dr. Bonfigli, e das quaes só tivéramos conhecimento quando já havíamos descoberto essa propriedade. Similhante coincidência veio dar ganho de causa á hypothese que então agitavamos. Essa prompta con- firmação do nosso primeiro ensaio animou-nos a pro- seguir em nossas experimentações. Estas foram desde então unanimes em comprovar a notável efficacia do chlorato de potassa no tractamento em questão, não só em nossa pratica, como na de vários outros distinctos collegas, que obsequiosamente nos hão transmittido o resultado de suas pesquizas. Pelo que diz respeito aos resultados clínicos, a ques- (*) TideGaz. Méd. de 1’Algérie, janv., 1876., trad. franceza da mesma memória pelo Sr. Dr. E. L. tíertherand. 4 tão parece definitivamente resolvida ; a hypothese ce- deu logar ao facto comprovado. A questão, porém, que ainda se conserva envolta na maior obscuridade vem a ser: o conhecimento da acção intima do medicamento, a interpretação da sua maneira de actuar sobre a mucosa intestinal. Ninguém ignora que a acção tlierapeutica deste precioso agente medica- mentoso é ainda agora o objeeto de estudos experi- mentaes que tendam a lançar uma luz mais viva sobre a questão. Si é verdade que sobre a acção physiolo- gica do chlorato de potassa tenhamos adiantado sen- sivelmente os nossos conhecimentos, tem ao contrario a experimentação clinica feito progressos menos rá- pidos, apezar dos trabalhos deLaborde, Milon, Rabu- teau e particularmente dos de Isambert, que desde longos annos se consagra incessantemente ao estudo experimental do chlorato de potassa. Sobre a acção therapeutica deste sal, ainda por esta fórma resume este ultimo os seus estudos em seu recente trabalho lido á Sociedade de Biologia : a Sur les organes de la digestion, il agit, en général, comme excitant et modifie spécialement les sécretions de la bouche et des premières voies. II excite 1’appetit, et parait à peu pres scms actions sur les intestins et les fontions du foie. » (*) (♦) Nouvelles expériences sur Vaction physiologique et thêrapeu tique du chlorate de potasse, lues à la Société de Biologie, le 25 Novembro 1874. In — Gaz. Méd. de Paris, 1875. 5 Fica, assim, bem provada a carência em que nos achamos de observações sobre a influencia do sal de Berthollet nos fluxos intestinaes. Poder-se-ha attribuir a efficacia do medicamento nestes casos a uma acção tópica, a uma acção de con- tacto sobre a mucosa ? Essa acção tópica será directa ou consecutiva á absorpção e eliminação pela secreção intestinal ? Esta ultima hypotliese nos parece a unica aceitavel depois das determinantes experiencias de Isambert, pelas quaes ficou demonstrado que o clilo- rato de potassa é um sal fixo, que se não deixa de- compor pelas fracas reacções do organismo, em con- trario á theoria que parecia definitivamente acceita, segundo a qual o chlorato de potassa, introduzido no organismo, se decompunha cedendo uma parte do seu oxygeno aos tecidos. Conhecendo-se, pois, a rapidez com que é absorvido esse sal pela mucosa gastrica, c de outro lado, demonstrando as experiencias que ci- tamos a sua eliminação em natureza por todos os emunctorios do organismo, não será para regeitar-se a opinião que admitte a possibilidade de actuar indi- rectamente o medicamento sobre o intestino, após a sua absorpção pela mucosa gastrica. De que natureza será, porém, essa acção tópica ? Eis a questão que apenas se acha esboçada em relação á mucosa buccal. e pharyngiana, mas ainda não estu- dada absolutamente em relação á intestinal. Contra- riedades invencíveis nos impediam até agora de ten- 6 tar a solução, embora incompleta, deste interessante problema, que depende toda da experimentação. Por emquanto éramos obrigados a argumentar por ana- logia, presuppondo, por uma vista puramente theo- rica, que o mecanismo da acção pkysiologica ou medicamentosa do sal de potassa fosse mais ou menos semelhante em toda a extensão do tubo digestivo. Com effeito, referindo-se á acção do chlorato de potassa sobre as stomatites, diz Isambert: « Mais quel est son mode d’action ? C’est un topique revenant par la salive, apres son absorption par Tes- tomac, et dont par conséquent rapplication est con- tinue par suite de la sécrétion salivaire. Nous n’avons plus aujourd’hui de raison suffisante de croire ã une action générale du clilorate sur Féconomie, et nous pensons que Vaction topique suffit à expliquer la guê- rison. > Porque razão, pois, não se poderia verificar idêntica acção tópica do medicamento, quando eliminado pelas secreções intestinaes ? Isso nada seria para extrai)liar quando a mesma efíicacia tem sido reconhecida no tractamento do coryza e das bronchites, como se de- prehende das observações de Laborde, confirmadas por Isambert. Finalmente, si o chlorato de potassa é, com provada vantagem, empregado no tractamento da leucorrhéa e da blennorrhagia clironica, isto ó, molés- tias caracterisadas por hypersecreqão mucosa, porque 7 razão deixaria de revelar-se igualmente util em uma affecção congenere da mucosa intestinal ? Por uma outra propriedade parece actuar o clilo- rato de potassa de modo altamente efficaz nas diar- rhéas chronicas. Em nossa primeira memória in- sistimos sobre a circumstancia que * esse trabalho morbido, uma vez prolongado, determina afinal, por falta de vitalidade da mucosa, um processo ulcerativo que empresta á moléstia maior gravidade : os folliculos e as glandulas de Peyer são a séde de pequenas ulce- rações, que tornam cada vez mais infructiferos os va- riados agentes therapeuticos empregados. » Ora, a propriedade desinfectante e cicatrizante do chlorato de potassa é universalmente confirmada por todos os observadores. Em applicações tópicas sobre as differentes feridas atonicas, como diz Isambert, elle obra como um cicatrizante energico, sem exercer acção alguma cliimica sobre os tecidos, provavelmente por uma simples acção de osmose. E’ desta fórma o sal de Bertliollet applicado com extrema vantagem nas ul- ceras fétidas, atonicas, nas erosões superficiaes dos orgãos genitaes, nas fendas do prepucio, etc. Firmando-nos sobre a analogia, não poderemos já por ella acceitar igual propriedade do sal em questão sobre as diarrhéas ulcerosas ou simplesmente erosivas ? Pelo que diz respeito ao emprego deste sal de po- tassa no tractamento das phlegmasias intestinaes, os 8 nossos actuaes estudos são os primeiros effectuados; Isambert, que melhor que ninguém investigou todas as applicações tlierapeuticas que atd lioje tem o sal de Berthollet, declara positivamente, em seu interes- sante e minucioso artigo inserto no Diccionario de Dechambre, nenhum ensaio haver ainda sido feito de tal medicamento no tractamento das inflammações simples do tubo intestinal. Quanto á acção cicatrizante, varias tentativas já hão sido postas em pratica e algumas seguidas de feliz exito. Elias verificaram-se no tratamento das ulcerações dysentericas, tuberculosas, e produzidas pela febre typhoide. Resumindo as communicações feitas em 1855 á Sociedade medico-cirurgica de Londres sobre as ap- plicações tópicas do chlorato de potassa por Moore, Mayo e Mawking, Debout, redaetor do Boletim de Therapeutica, lembi'ou-se pela primeira vez, a propo- sito destes factos, que o chlorato de potassa poderia convir, administrado pelo recto. (•*) Em sua excellente monograpliia sobre o chlorato de potassa publicada em 1856 (**), agitou de novo Isambert esta questão e recentemente, em 1874, no (*) Bul. de ther. 1855, t. 49, p. 127. (*») Etudes chimiques, physiologiques et cliniques sur Vemploi théra- peutique du chlorate de potasse, specialement dans les affections dipli- tlieriques.—Th. dc 1’aris, 1856, em 8°.—Gcrmer Baillcrc. 9 já citado artigo do Diccionario de Decliambre, tocando neste assumpto, declara ninguém haver desde aquella época procedido a uma só experiencia em tal sentido. «Nous mêrnes, accrescenta elle, ayant eu fort peu d’occasions d’observer des dysenteries, avons perdu de vue cette idée.» Um caso, todavia, arcliiva este autor, que, em- bora unico, muito valor merece relativamente á tliese que sustentamos. Seja-nos, pois, relevado o transcrevel-o aqui. «En octobre 1875, nous avons essayé 1’action du lavement chloraté chez une petite filie de cinq ans, atteinte de dysenterie aiguée, et chez laquelle hipéca, le calomel pris par en haut avaient à peine ramenés quelques selles bilieuses. Le lavement de nitrate dhirgent s’était aussi montré impuissant á modifier les selles dysenteriques. Nous étions aux dix-hui- tièrne jour de la maladie, 1’idée nous vient d’associer le chloraté de potasse au nitrate d’argent, dans un premier lavement, qui amena des selles vertes abon- dantes, et le chloraté seul les jours suivants. Pen- dant quelques jours, les selles furent bilieuses et le tenesme attenué. L’enfant succomba cependant à 1’épuisement général, dont il ne put se relever, mais les selles dysenteriques avaient cessées depuis huit jours. II ne restait plus que de la diarrhée simple.» O autor não quiz tirar conclusão alguma deste caso unico ; mas, tivesse embora fallecido a criança, 10 pois que a moléstia havia attingido um período ex- tremo, não se deverá desprezar o facto de se haverem supprimido as dejecções dysenterieas oito dias antes, sobrevindo essa modificaçàio em seguida á adminis- tração do chlorato de potassn, quando se havia mos- trado refractaria a moléstia á todos os meios prece- dentemente empregados, e até mesmo ao nitrato de prata, considerado como um dos mais heroicos re- cursos em casos taes. Demais, o mesmo autor da observação a que ha- vemos alludido refere ainda um caso de dysenteria chronica em um indivíduo adulto, no qual a adminis- tração do chlorato de potassa foi seguida de favo- rável modificação das dejecções, tornando-se estas menos fétidas, menos saniosas e mais raras. O resultado ficou incompleto porque Isambert vio-se forçado a interromper essa medicação, visto como queixava-se o doente de dores, de uma sensação de queimadura intestinal, que este distincto observa- dor attribuio á alta dóse em que houvera empregado o sal de potassa (10 a 12 grammas). Comquanto incompleta, esta observação é para nós de valor, associada á primeira ; são, pois, dous casos em que o sal de Berthollet operou sensíveis modificações em affecções intestinaes. Isambert convida os médicos da marinha e exer- cito, que mais frequente ensejo têm de observar 11 casos de dysenteria aguda e chronioa, a estudarem esta obscura questão. Infelizmente, porém, até esta data nenhuma expe- riencia a este respeito ainda foi tentada por um só dos collegas para os quaes appellou Isambert. (*) Ensaiando a administração do medicamento em questão, sob a fórma de clyster, no tractamento das ulcerações intestinaes dos tuberculosos, nenhum re- sultado poude colher este distincto medico, notando ainda que despertava o medicamento dôres intes- tinaes, que incommodavam assaz os doentes. O Dr. Taliaferro (d’Atlanta) (**) ensaiou o chlorato de potassa com o fim de modificar as ulcerações intes- tinaes na febre typhoide, e observou a diminuição da pneumatose, da diarrhéa e da sensibilidade do ventre. As vistas do Dr. Taliaferro, diz porém Isambert, sobre a possibilidade de cicatrizar as ulcerações in- testinaes, são racionaes e seductoras, á primeira vista. Elle houvera já concebido essa idéa. mas accres- centa : «Nous n’avons rien publié sur ce sujet, parce que nous n’avons eu que des insuccès.» Acredita que tal effeito poder-se-hia alcançar, (*) Vide : Repertoirs bibliographique des travaux des mêdecins et de» pharmaciens de la marine française, appenso ao tomo 29 dos Arch, de mèd. nav., Paris, 1874. (*•) Gazette hebdomadaire, 1858. 12 si se conseguisse fazer chegar o sal de potassa aefs intestinos delgados. Entretanto, as suas experiencias nunca lhe de- monstraram a presença do cldorato de potassa no intestino delgado, sendo todo absorvido na cavidade gastrica. Ensaiando a administraçào do medicamento em clysteres, o resultado ainda foi nullo. De tudo quanto precede póde-se, pois, concluir que, no estado actual da sciencia, é ainda objecto de con- jecturas toda e qualquer acção do sal de Berthollet sobre a mucosa intestinal. Si, por um lado, algumas raras observações cli- nicas parecem denunciar a propriedade cicatrizante do sal de potassa nas ulcerações dessa mucosa, tendem, por outro, a contestal-as as experiencias physiologicas de Isambert, Milon (*) e Rabuteau (**). Deante dos successos colhidos com este medica- mento no tractamento das phlegmasias intestinaes, na infancia, achavamo-nos embaraçados para explicar os effeitos que observamos, deante dos resultados affirmados pela experimentação physiologica. Isambert, uma só vez, em seis experiencias, hou- vera podido reconhecer a presença do cldorato de potassa nas fezes ; uma unica vez também conse- (*) Tliese de Paris, 1850. (**) Mém. de lasoc. de Biologie, 1858. 13 guira descobril-o Milon e nenhuma Rabuteau. Quanto ao exame directo da secreção intestinal, uma única experiencia encontramos practicada por Isam- bert, sobre um cão, em cujas mucosidades intesti- naes poude este reconhecer traços de chlorato de potassa, administrado pelo recto. Essas experiencias sobre as fezes e a unica, duvi- dosa, sobre o liquido intestinal não eram, pois, suf- ficientes para negar-se peremptoriamente a elimi- nação do chlorato pela mucosa intestinal. Tornava-se urgente a contraprova e nós a ella recorremos com vantagem para a hypothese que sustentávamos. Antes, porém, de referirmos algumas das nossas mais concludentes experiencias feitas em nosso labo- ratorio, cumpre-nos declarar que nos servimos dos mesmos processos usados tanto por Isambert, como por Milon, Laborde e Rabuteau. Os reactivos em- pregados foram os que usava Fresenius para o reco- nhecimento dos chloratos e do qual foi Isambert o primeiro a servir-se para a pesquiza do sal de potassa nos nossos humores ; compõe-se, como se sabe, de uma solução sulfurica de anil e do acido sulfuroso. Si em uma solução de um chlorato, azulada por al- gumas gottas do sulfato de anil, fizer-se cahir gotta a gotta o acido sulfuroso diluido, obter-se-ha o prompto descoramento do liquido; o cliloro, posto em liber- dade pela acção oxydante do acido sulfuroso, fará 14 desapparecer rapidamente o colorido communicado pelo anil. Esta reacção é, como se sabe, de uma sensibili- dade extrema, podendo denunciar, segundo verificou Isambert, menos de de chlorato de potassa exis- tente em qualquer liquido. No artigo do diccionario de Dechambre reproduzio Isambert todas as experiencias a que recorreu para evitar as objecções que pudessem pôr em duvida a excellencia de sua reacção. Não insistiremos mais, portanto, sobre o seu valor e superioridade a qualquer outra conhecida. As nossas experiencias, que versaram quer sobre as mucosidades intestinaes, quer sobre as fezes, nos demonstraram definitivamente a eliminação do chlo- rato de potassa pelo intestino, em contrario á previsão de Isambert e aos exames a que procederam sobre os productos excrementicios o mesmo Isambert, Milon e Rabuteau, como já ficou acima indicado. Por esta fórma ficámos autorisados a archivar mais esta pro- priedade pliysiologica do sal de Berthollet, proprie- dade que sancciona a sua efficacia therapeutica, exuberantemente provada pela observação clinica, na diarrhéa da infancia. Seria prolixo reproduzir inte- gralmente todas quantas experiencias practicámos com o intento de resolver esse problema ; julgamos levar a convicção a quem nos lêr com aquellas que 15 passamos a transcrever, aproveitando a opportuni- dade para agradecer aqui o auxilio que prestou-nos o nosso distincto collega, o Sr. Dr. Martins Costa, coadjuvando-nos em muitos dos nossos trabalhos. 1» EXPERJENC1A A's tres horas e um quarto da tarde administrámos pela boca á um porco da Índia, regularmentc desenvolvido e em perfeito estado de saude, uma solução de clilorato de potassa (15 grammas d’agua para uma gramma de sal). Deixámos repousar o animal durante meia hora e, depois de ha- vel-o ethcrisado completamente, praticámos-lhe a abertura do ventre. Extrahimos toda a urina contida na bexiga por meio de um pequeno trocater explorador. Antes, porém, de submettel-a á analyse, tractamos de verificar a pureza e a sensibilidade dos reactivos que tinhamos a empregar, isto é a solução sulfurica de anil e o acido sulfuroso. Tingindo ligeira- mente com o primeiro destes uma solução de chlorato de potassa, obti- vemos completo e prompto descoramento do liquido, logo que lhe fizemos chegar algumas gottas do ac:do sulfuroso. Esta reacção não se verificou procedendo em seguida com os mesmos reagentes sobre agua pura. Pro- vada, assim, a pureza e sensibilidade dos nossos reactivos, passámos á ana- lyse da urina. Colorida uma certa porção desta por uma pequena quantidade da solu- ção de anil, fizemos cahir gotta a gotta o acido sulfuroso e observámos o descoramento do liquide, tornando-se patente a presença nelle de chlorato de potassa. Esta reacção repetida deu um resultado inteiramente seme- lhante ao primeiro. 0 conteúdo das duas vesículas seminaes foi, em quasi totalidade, dissol- vido em uma pequena quantidade d’agua dentro de um tubo de vidro ; sobre essa solução previamente colorida de azul lançámos gotta a gotta o acido sulfuroso. 0 descoramento do liquido teve lugar immediatamente’ sendo verificados por quantos se achavam presentes em nosso labo- ratorio. Tornámos depois quasi a totalidade do intestino delgado, á partir de 20 cenlimetros distante do estomago, e todo o seu conteúdo, escorrido por expressão para o interior de um tubo de analyse. Addicionámos-lhe uma pequena porção d’agua pura e passámos a íiltral-o. O liquido filtrado foi dividido em tres partes. Sobre cada uma delias fizemos actuar, pela mesma fôrma, os • cagentes de que nos havíamos servido para a analyse dos outros 16 productos de secreção. Em todas as tres porções analysadas observámos, assim como os nossos assistentes, o descoramento quasi total do liquido’ sobrevindo immediatamente após a presença de algumas gottas do acido sulfuroso sobre elle lançadas. Processo inteiramente idêntico empregámos na analyse das matérias recolhidas do grosso intestino. Aqui o descoramento obtido foi menos pronunciado que no exame precedente, denotando assim apenas traços de chlorato de potassa eliminado pelo grosso intestino. Estas experiencias deixam bem claramente verifi- cada a eliminação do sal de potassa, meia liora depois de sua introducção na cavidade gastrica, ao mesmo tempo que era descoberto em outros liquidos do organismo, taes como a urina e o licor seminal. Quanto a este ultimo, releva notar que fomos o pri- meiro a descobrir a presença nelle do cldorato de potassa : quer Isambert, quer Rabuteau, obtiveram sempre resultados negativos, e acreditavam, portanto, que não era este sal eliminado por aquelle producto de secreção. A reacção que observámos, evitando todas as causas possiveis de erro, demonstra positi- tivamente o contrario. 2a KXPERIENCU Um indivíduo adulto, em perfeito estado de saude, ingerio, ás 4 horas da tarde, 100 grammas d’agua commum saturada de chlorato de potassa. Os reagentes a cmprcgar-se foram prcviamente ensaiados e verificadas a sna pureza e sensibilidade. A’s 4 horas e tres quartos, recolhêmos uma certa quantidade de urina e de saliva. Tanto uma como outra, depois do coloridas pela solução sulfu- rica de anil, descoraram prompta e completamente logo que lhes addicio- námos algumas gottas de acido sulfuroso. As fezes, recolhidas á mesma hora que a urina e a saliva, em perfeito isolamento, foram conveniente- mcntc filtradas c o liquido oldido, depois de clarificado e azulado pelo reac- 17 tivo de anil, desmaiou sensivelmente ao addicíonamento do acido sulfuroso, denotando a presença de uma certa quantidade de sal de potassa, embora pequena. Esta experiencia foi reproduzida com idêntico resul- tado sobre as differentes porções do liquido filtrado e clarificado. Por ella vê-se que muito rapidamente, tres quartos de hora após á sua ingestão, denunciava-se o chlo- rato de potassa nas secreções intestinaes, como de- monstrou o ligeiro descoramento observado no liquido analysado. Na urina e na saliva o descoramento foi completo e rápido, provando isso que a eliminação do chlorato de potassa faz-se muito mais promptamente por esses emunctorios do que pela secreção intestinal. Outras experieneias nos demonstraram que, muitas vezes, não se percebem mais traços do sal de potassa na saliva e na urina, emquanto que o descoramento é ainda sensivel nos liquidos intestinaes, tractados pelos reagentes de Fresenius. 3a EXPERIENCIA Administra-se, ás 11 lioras da manhã, a um porco da índia em hom estado de saude, uma solução saturada de chlorato de potassa. A’s 5 1|2 horas da tarde, aneslhesiado completamente o animal por meio de ether, praticámos-lhe a abertura do ventre e retirámos com um pequeno trocater explorador toda a urina contida na bexiga. Depois de ensaiados os reagentes e verificada a sua pureza e sensibi- lidade, procedômos á analyse da urina. Em successivas porções desta, coloridas pela solução de anil, lançámos o acido sulfuroso, sem que obti- véssemos uma só vez a menor alteração no colorido do liquido analysado. Variámos a intensidade do colorido comcmnicado pelo anil, assim como a 18 quantidade do acido sulfuroso empregado ; o resultado foi sempre negativo, não se operando o mais ligeiro descoramento. Separámos depois uma grande aza de intestino delgado, á partir de 15 centímetros distante do estomago, e todo o conteúdo delia, depois de conve- nientemente filtrado, foi, cm differentes porções successivas, tractado pelo reactivo de Fresenius, como procedèmos nas experiencias anteriores. Obser- vámos completo e instantâneo descoramento do liquido, todas as vezes que reproduzimos a reacção, o que denotava a presença de não pequena quanti- dade de chlorato de potassa, que aliás deixára de ser encontrado na urina como vimos. Por esta experiencia fica sufficientemente demons- trado o que jâ acima dissemos, isto é, que a elimina- ção do sal de Berthollet é muito mais tardia pela secreção intestinal do que pela salivar e urinaria. Por ella ve-se que, seis horas depois da adminis- tração do sal de potassa ao animal, os reagentes não descobriram mais na urina a sua presença, quando esta era evidente nos liquidos de procedência intes- tinal. Para a these que procuramos demonstrar é este resultado bastante concludente. 4a EXPEIUENCIA A um porco da índia em regular estado de saude, embora ainda pouco desenvolvido, administra-se pela boca, ás 3 horas c 5 minutos da tarde, uma gramma de chlorato de potassa dissolvido em uma certa quantidade d’agua commum. Meia hora depois é o animal submettido á anesthcsia por meio do ether, após o que praticámos-lhe a abertura do ventre c procedômos á analyse da urina encontrada na bexiga por meio do reactivo de Frcsenius ; manifestando-se immediatamente o descoramento do liquido ; o que denun- ciava a presença do chlorato de potassa. Tomámos depois uma grande porção do intestino delgado, a partir de 20 centímetros longe do estomago, c todo o conteúdo dclle, escorrido por expressão para o interior de urn tubo de analyse, foi, depois de convenientemente filtrado, submettido ao exame com os reagentes já indicados. 0 descòramento obtido foi menos pronunciado 19 que 0 da urina, dando a conhecer que existia nesta maior quantidade de chlorato de potassa que naquelle. Vê-se por esta experiencia que 0 chlorato de potassa foi, meia hora depois da sua administração pela boca, encontrado nos liquidos intestinaes, indicando um co- meço de eliminação pela mucosa intestinal, quando já se operava ella largamente pelo emunctorio renal. A eliminação intestinal prolonga-se muito além da renal e salivar, por isso mesmo que é mais tardia. Em uma das precedentes experiencias, pudemos verificar que, 6 1[2 horas depois da ingestão do sal de potassa, este era apenas encontrado nos productos de secreção intestinal. 5a EXPERIENC1A A um indivíduo adulto, em boas condições de saude, é administrada pela boca uma certa quantidade d’agua commum saturada de chlorato de potassa. Vinte e quatro lioras depois desta administração, que teve logar ás 4 horas da tarde, procedêmos á analyse da saliva e da urina successivamente, empregando os reagentes de Fresenius. Em ambos os Jiquidos o descora- mento immediato denotou a presença do chlorato de potassa. As fezes recolhidas nessa mesma occasião, perfeitamente isoladas, foram, depois de filtradas pelo addicionamento de uma certa quantidade d’agua commum, tractadas, em differentes porções, pelos mesmos reagentes; tendo sido antes clarificado pelo carvão animal o liquido filtrado. 0 descoramento teve logar immediatamente e de modo bastante sensível para denotar a existência de não muito pequena quantidade de sal de potassa. Mais concludente não podia ser a presente expe- riencia, feita com as cautelas requeridas para evitar-se qualquer causa de erro. Procedemos sobre as fezes 20 recolhidas 24 horas depois da ingestão do chlorato e os reagentes indicaram nellas a presença deste, de maneira a não duvida sobre a sua eliminação pela mucosa intestinal. Destas experiencias e de varias outras que seria longo reproduzir aqui, por serem inteiramente analo- gas ás precedentes, parece ficar demonstrado : 1. Que o chlorato de potassa é, com effeito, elimi- nado pela mucosa intestinal, em contrario á opinião sustentada por Isambert, Milon e Rabuteau ; 2. Que essa eliminação é ordinariamente mais tar- dia que a operada pela secreção renal e salivar ; 3. Que algumas vezes póde ser ella mais precoce, apresentando-se em um pequeno animal, como o porco da índia, meia hora e tres quartos de hora após a administração do chlorato pela boca ; 4. Que a eliminação do sal de potassa ainda se opera muitas vezes pela mucosa intestinal, quando já não é mais encontrado na saliva e na urina. Si, pois, a experimentação pliysiologica como acabámos de ver, os resultados colhidos da experimentação clinica, razão não ha para poder-se pôr em duvida a acção therapeutica do sal de Ber- thollet nas affecções intestinaes , como acreditava Isambert. A contraprova dos factos virá apurar me- lhor o fundamento de nossas conclusões. 21 Agora duas palavras sobre a administração do medicamento. Que o chlorato de potassa é uma substancia inof- fensiva, mesmo em dose um pouco elevada, bem o demonstrou Isambert, que chegou a ingeril-o na dóse de 20 grammas de uma só vez. Esta inocuidade explica-se perfeitamente pela rapi- dez com que é essa substancia eliminada pelos diffe- rentes emunctorios. As contra-indicações estabelecidas por Henry Os- born (*) deixaram de ser confirmadas por quantos, posteriormente a elle, tem experimentado ou empre- gado clinicamente o chlorato de potassa. Mesmo na infancia, póde-se elevar a dóse acima da média sem receio de accidente. «A la dose de 4 gram- mes, diz Blache, je ne l’ai pas vu produire d’effects physiologiques appréciables ; il est perfaitement sup- porté, sans nausées, ni vomissements, ni diarrhée ; 1’appetit est plus vif et 1’état général a paru s’amélio- rer. (**)» Este distincto clinico referia-se ás suas obser- vações feitas em crianças do seu serviço. Pela nossa parte podemos assegurar que havemos elevado as dóses do medicamento em crianças, em- pregando o chlorato em affecções diversas, sem ter tido occasião de observar o menor inconveniente. (*) The Lancei, Oct., 1859. (**) Nouvelles observatíons sur lechlorate de potasse, etc., Bul. de tliér. t, 49, 1855, p. 120 e seg. 22 No tractamento das diarrhéas, na infancia, prescre- vemos ordinariamente o chlorato na dóse de 4 até 10 grammas, para ser administrado em uma poção de 100 a 120 grammas nas 24 horas. 23 OBSERVAÇÕES OBSERVAÇÃO I 0., menino de tres annos de idade incompletos, de constituiçãq profun' damente lymphatica ; gozando, porém, de uma saude bastante regular. Nunca soffreu de moléstia nenhuma grave, mas desde ha muito apresenta manifestações bastante accentuadas do vicio escrophuloso, taes como : erup- ções impetiginosas, conjunctivites catarrhaes e sobretudo uma asthma que ainda ho.je perdura. Os ganglios mostram-se engorgitados, sobretudo os das regiões Iateracs do pescoço. Tem tido em varias épocas ligeiras diarrhéas catarrhaes, con- secutivas á perturbações digestivas transitórias. Ha cerca de tres mezes, nas melhores condições de saude, salvo as manifestações acima indicadas, sem prccedencia de desordem alguma para o lado da digestão, sobreveio-tiie um fluxo intestinal muco-bilioso, precedido de ligeiras cólicas e acompanhado de meteorismo abdominal. Os paes do menino não ligaram, á principio, grande importância a este estado, que não era acompanhado de reacção febril, nem de modificação do appetite e do estado geral. Entretanto, as dejecções, que haviam começado em numero de 2 á 3 por dia, foram pro- gressivamente augmentando, até attingirem íinalmente o numero de 4 a 8 diariamente. As dejecções tornaram-sc serosas e só por vezes eram biliosas. Nós o vimos então e começámos á medical-o, empregando successivamente saes neutros, ipecacuanha (segundo o methodo brazileiro), opiáceos, bis- mutho, adstringentes mineraes (sulfato de zinco em clysteres), adstringentes vegetaes, chegando a administrar-lhe o acido gallico em elevada dóse. Esses meios foram combinados, sob diversas fôrmas, e repetidas vezes. Si algumas melhoras seguiam-se á um ou outro delles, eram pouco dura- douras c o mal reproduzia-se com a mesma intensidade ; sobretudo quando havia alguma quebra no rigoroso regimen á que se achava sujeita fa criança. Ultimamentc, o estado geral entrou a comprometter-se e o appetite a dccrementar-se; diante da inefflcacia de todos os agentes therapeuticos empregados, resolvèmo-nos a lançar mão do chlorato de potassa, prescre- vendo-o na dose de 4 grammas em 120 grammas de vchiculo, para tomar uma colher de sopa todas as duas horas. No vinte e quatro horas, 24 as melhoras eram notáveis ; havendo-se reduzido á uma unica as dejecções que apresentavam-se liabitiía!mente em numero de quatro á cinco. Dous dias depois, não reappareceu e desde então não houve mais repro- ducção do mal. São decorridos mais de 20 dias e o nosso doentinho acha-se curado. Engordou e goza de um appetite excellente. Os effeitos imme- diatos e decisivos do sal de Berthollet patentearam-se, neste caso, de modo a não deixar a menor duvida sobre a sua admiravel efficacia. 25 OBSERVAÇÃO II Um menino de 3 annos de idade, de temperamento sanguíneo e consti- tuição forte, foi accommettido de uma intensa gastro-interite, que compli- cou-se mais tarde de pharyngite e stomatite aplitosa. 0 phenomeno capital era uma diarrliéa muco-serosa muito abundante ; atfingindo as dejecções alvinas o numero de dez a quatorze no espaço de vinte c quatro horas. 0 estado geral do doentinho aflectou-se seriamente: ficando muito magro e inteiramente depauperado. 0 nosso amigo, Dr. Fazenda, a quem devemos obsequiosamente esta observação e que medicou o doentinho em questão, um mez após a manifestação de todos os symptomas indicados, prescreveu-lhe diversas substancias adstringentes vegelaes, preparados de bismutho, ipecacuanha e opiáceos, meios que poucas melhoras alcançaram. Finalmente, administrou-lhe o Dr. Fazenda o chlorato de potassa na dóse de 2 grammas em uma poção de 180 grammas, da qual tomava o doentinho tres colheres por dia. A’ vista das sensíveis melhoras obtidas, foi a dóse ele- vada a 4 grammas e a cura não se fez esperar, sendo completo o resultado obtido. O testemunho do nosso collega é uma prova valiosa da acção do sal potassico na diarrliéa das crianças. 26 OBSERVAÇÃO IIIH E., de idade de 6 annos, temperamento lymphatico, constituição fraca, morador á rua das Larangeiras, achava-se doente desde lõ de Janeiro do corrente anno. Desde este dia começou o doente a ter dejecções frequentes, acompa- nhadas de dôres pelo ventre, febre e falta de appetite. Cada dia mais se exacerbava a moléstia, porquanto o doente chegou a ter, por dia, 20 dejec- ções muco-sanguinolentas e fétidas. Nestas condições a mãe do doente, atemorisada pela fraqueza que oíTerecia a criança, a qual cahia cm progres- sivo marasmo, consultou á um collega distinclo pela sua applicação e pra- tica esclarecida. Este nosso collega, pelos symptomas que apresentava o doente, acreditou com fundamento na existência de uma diarrhéa e medi- cou-o neste sentido. Os adstringentes vegetaes e mineraes foram empre- gados externa e internamente sem grande vantagem, continuando o doente a soífrer muito. As dejecções, que até poucos dias eram muco-sanguino- lentas, apezar do tractamenlo, tornavam-se exclusivamente sanguinolentas e muito fétidas, como tive occasiáo de observar. Nestas condições foi-me apresentado o doente. Desde que soube da duração da moléstia e das prescripções do distincto collega que havia medicado o doente, e attendendo ao estado de depaupera- menlo do mesmo, não contava muito com o resultado da therapeutica que já havia seguido. Prescrevi a seguinte poção com chlorato de potassa, na qual insisti até o termo da moléstia, aconselhando também uma alimen- tação analeptica. A poção era (l.a prescripção no dia 14 de Fevereiro): Agua distillada 200 grammas Chlorato de potassa 6 » Xarope de cascas de laranjas 32 » Para tomar ás colheres, de meia em meia hora. No dia 15, as evacuações tornaram-se menos frequentes e o seu numero já foi de dez. No dia 16, chegaram somente á quatro. Nos dias 17, 18 e 19 continuou o mesmo estado. Nos dias 20 e 21, o doente teve só duas evacuações, usando elle do chlo- rato de potassa até o dia 21, e tendo somente tomado em dóse menor. Dahi em diante não se tem apresentado a moléstia ; acha-se mais forte e com bastante appetite. (*) Esta observação foi-nos obseqníosamente communicada pelo nosso distincto collega, Dr. Ilenicio de Abreu, que assegurou-nos haver obtido idêntico resudado com o medicamento em questão em uma outra criança de 2 rnezes; observação que não transmittio-rios por haver perdido as respec- tivas notas. 27 OBSERVAÇÃO IV (*) Em 4 de Outubro de 1876 fui chamado para a villa do Rio-Claro (província do Rio de Janeiro), afim de prestar cuidados médicos ao menino Homero, de 6 annos de idade, filho do Sr. Joaquim Rarbosa Nogueira, morador na mesma villa. Este menino fòra atacado, havia cerca de 20 dias, de saram pão; antes dessa moléstia fruia prospera saude, era forte e bem constituído. A erupção seguindo a marcha normal, entrára no periodo de descamação e no fim de 6 dias o doentinho estava em convalescença. Uma quebra de dieta, tendo dado lugar a uma indigestão, fizera rcapparecer a febre e produzira forte diarrhéa e cólicas, que longe de diminuir fôram sempre em augmento e prostravam completamente o doentinho. Tendo a diarrhéa resistido aos medicamentos empregados, em cujo numero entrava o bismutho, o Sr. Barbosa chamou me para prestar meus serviços a seu filho. Encontrei o doente deitado em decúbito dorsal, quarto quasi escuro, com os olhos semi-fechados, por não poder supportar a luz, queixava-se de cepha- lalgia intensa, maxime na região fronto-parietal, cólicas pouco intensas e hyperesthesia da parede anterior do ventre, sêde intensa, inappetencia abso- luta, e diarrhéa frequente, serosa com algumas strias sanguinolentas e féti- das, sentia cólicas. Fazendo abrir a janella, observei que o doentinho estava quasi marasmatico, os olhos brilhantes, mas não havia strabismo, a tempera- tura elevada, o pulso filiforme e frequente, a lingua secca e aspera, o ventre abahulado e sensível á pressão, o ligado muito pouco augmentado de volume, não havia gargarejo e nem dôr na fossa illiaca direita, á pressão, e mesmo no ventre a dôr não era intensa, pois que permittio-me profundo exame, apezar da impertinência do doentinho, que não o queria consentir. Fez-me ver o pai do menino que a febre não era constante e que pela manhã o calor da pelle parecia normal e que o estado do doente tornára-se inquietador no dia antecedente, quando lhe appareceu a cephaialgia e a pho- tophobia, augmentando igualmente de então para cá a febre e apparecendo- lhe á noite algum delirio. (*) Esta observação e as duas que se lhe seguem pertencem á clinica do nosso dislincto collega, o Sr. Dr. Aureliano Portugal (Dôres do Pirahy), o qual teve a bondade de nol-as transmittir taes quaes as transcrevemos. Somos em extremo gratos á delicadeza do nosso digno collega. 28 Diagnostico.— Diarrhéa subsequente ao sarampão. Congestão das mc- ningeas. (*) Prognostico. — Muito grave. Prescrevi-lhe para uso interno : Ilydrolato de alface 200 grammas Hydrolato de louro-cerejo t » Tinctura de belladona 8 gottas Xarope de tlores de larangeira 30 grammas Tome 2 colheres de 2 em 2 horas. Uso externo : Vesicatórios á face interna das coxas. Sabendo pela Revista Medica dos resultados colhidos pelo Dr. Moncor- vo e pelo Dr. H. Cesar, em casos de diarrhéa quasi idênticos, com o emprego do chlorato de potassa, iutroduzido entre nós pelo primeiro, e havendo o pequeno doente tomado improficuamente outros medicamentos, prescrevi também para uso interno: Solução de gomma-arabica -200 grammas Chlorato de potassa 8 » Xarope de meimendro 30 » Tome 1 colher de 2 em 2 horas, alternando com a outra poção. Uso externo: Linimento antipasmodico de Selle .... 30 grammas Para friccionar o ventre. Ria 6 de Outubro.— Consideráveis melhoras: cessaram não só a febre, a cephalalgia e a photophobia, como a diarrhéa dezeseis horas depois que começou a tomar a poção com o chlorato de potassa ; reappareccu o appetite e o doente já dormio bem a noite passada. Fiquei maravilhado com o resultado obtido, porque á vista dos sympto- mas cerebraes julguei o doente perdido e esperava que logo se manifestariam symptomas evidentes de meningite aguda. — Diminua na poção n. 2 quatro grammas de chlorato de potassa ; suspenda a outra poção e passe a tomar 4 colheres de vinho quinium de Labarraque por dia. Deixei de ver o doentinho por consideral-o restabelecido, e, com eífeito, vi-o oito dias depois já bastante nutrido e perfeitamente bom. (*) Diagnostiquei: —Congestão das meningeasl — tomando estes vocá- bulos como a expressão de um estado que precede por instantes a invasão de uma meningite, si não é o primeiro signal de invasão, e não attribui e nem podia attribuir esses symptomas cerebraes á afTecção intestinal, que, á excep- ção do começo, não era acompanhada de febre; sobrevindo este symptoma na vespera da minha visita, quando a diarrhéa não havia augmentado ao menos apparentemente. 29 OBSERVAÇÃO V Em dias de Fevereiro do corrente anno o Sr. Marciano Silva, colono da fazenda do Sr. capitão Joaquim Gomes de Souza, morador no districto da freguezia das Põres do Pirahy, pedio-me para ver um seu filhinho de 2 annos e meio de idade, que estava com uma forte diarrhéa havia cerca de 15 dias. Vendo o menino encontrei-o muito abatido, com o olhar sem expressão, a lingua em toda a mucosa buccal coberta de ulcerações aphtosas, o ventre abahulado e tympanico, e doloroso á pressão; frequente diarrhéa serosa. Prescrevi-lhe immediatamente: Para uso interno : Solução de gomma arabica 150 grammas Chlorato dc potassa 4 » Xarope de meimendro 20 » Duas colherinhas de hora ein hora. No outro dia já encontrei o doentinho melhor, a diarrhéa tinha dimi- nuído muito, assim como as ulcerações da boca. No quarto dia a diarrhéa cessou completamente, e comquanto ainda bas- tante abatido, em consequência da diarrhéa, entrou em convalescença, e ape- zar da alimentação inconveniente que davam-lhe, porque o pai era pobre, vi-o dias depois em boas disposições. N. B.~ No presente caso a diarrhéa não estava ligada á dentição; reco- nhecia como causa primaria também o sarampào. 30 OBSERVAÇÃO VI A crioulinlia Luiza, de cerca de 3 annos de idade, ingénua, fillia de uma escrava do Sr. capitão Joaquim Gomes de Souza, estava, havia muitos dias, com uma diarrhéa intensa, acompanhada de febre e sôde. Pelo exame obser- vei que o ventre estava tympanico, abahulado e doloroso. Prescrevi-ihe a poção de chlorato de potassa e a diarrhéa cessou em menos de 34 horas e doentinha restabeleceu-se. Como no caso precedente, a diárrhéa não era dependente da dentição. 31 OBSERVAÇÃO V[[ (Recolhida pelo Sr. Dr. H. Vazl (') U pequeno doente que se offereceu á minha observação era um menino de oito mezes de idade, louro, de olhos azues, bem desenvolvido, sem ante- cedente algum de moléstia, filho de pais robustos; nelle não havia ainda começado a erupção dos dentes de leite. Quando o vi pela primeira vez trazia quatro dias de moléstia, que havia começado por movimento febril pouco intenso, mão estar, fastio, cólicas intestinaes intensas e evacuações serosas mui frequentes. Na minha segunda visita (quinto dia de moléstia), achei-o em peiores condições, á despeito da medicação a que o submetti; pulso muito frequente, pdle bastante quente, secca e arida, somno agitado, lingua secca, rubra para a ponta, coberta na base por uma camada espessa de saburra amareilada, sêde intensa, ventre tympanico, sensível á pressão, íigado Jigeiramente hyperhemiado, evacuações biliosas muito repetidas. De- balde empreguei a ipecacunha, os opiáceos, com prudência, em attenção á idade do doente, o subnitrato de bismutho, os purgativos salinos brandos, os adstringentes vegetaes, pois no oitavo dia de moléstia, ás 9 horas da noite, era desanimador o seu estado; então era o pulso quasi imperceptivel, es- tava a criança mergulhada em profundo coma, tinha mãos e pés frios, pupillas dilatadas, traços physionomicos decompostos, orla azulada em torno das orbitas. Julgando-a perdida, suspendi toda medicação até então empregada, prescrevendo-lhe sómente o seguinte: R. Uso interno: Agua distillada 250 grammas Chlorato de potassa 4 » Xarope de violetas 35 » Para tomar ás colheres de chá, de meia em meia hora. Uso externo : Vesicatório de Albespeyres com 6 centímetros quadrados ; n. 2. Para serem applicados aos jumellos. Appareceram algumas melhoras á meia noite ; voltou o calor ás extre- midades, cessou o coma, tornou-sc menos frequente e mais cheio o pulso; já as pupillas reagiam contra a acção da luz. No nono dia de moléstia eram ainda mais pronunciadas as melhoras: pelle fresca e ligeiramente húmida, (*) Vide: Do emprego do chlorato de potassa na diarrhia das crian- ças, in-Revista Medica, n. 22, 31 de Dezembro dc 1875. 32 cessaram as dejecções serosas, reappareceu o appetite. Durante tres dias mais insisti no uso do chlorato de potassa internamente, diminuindo progressiva- mente a dóse, ao passo que era o doente submettido á um regimen dietetico rigoroso; no decimo segundo dia considerei-o completamcnte restabele- cido. Esta observação é uma das ruais valiosas que havemos recolhido; quando todos os phenomenos indicavam a maior gravidade, quando o vasto arse- nal therapeutico posto em practica se mostrára de todo improticuo, consegue o cldorato de potassa as mais promptas e decisivas melhoras, que terminam pelo completo restabelecimento do pequeno doente. Tracta- va-se de uma enteritis agudissima, que, no periodo de oito dias, levára o pequeno doente á beira do tu- mulo ; e, quando já haviam sobrevindo os terríveis phenomenos do periodo terminal, quando já era quasi imperceptivel o pulso e achava-se a criança mergulhada em profundo coma, é o sal de Berthollet empregado pelo distincto collega : em menos de vinte e quatro horas as dejecções serosas cessavam com a decrementação sensivel dos graves symptomas geraes. O cldorato é continuado por rriais tres dias, em doses decrescentes, e no fim desse curto periodo o restabelecimento se opera. Não poderia ser mais concludente esta importante observação. 33 OBSEltVAÇAO VIII (Communicada pelo Sr. Dr. Fazenda) Uma menina, moradora no Rio, de 2 annos de idade, começou a soffrer de serias desordens para o lado do tubo digestivo, sobretudo em sua porção intestinal, de tal modo persistentes, que o distincto collega que a tractava chegou a conceber suspeitas da existência de uma tuberculisação mesenterica. Durante tres mezes os phenomenos observados foram os seguintes : diarrhéa intensa ; seis a oito dejrcções diarias, verdes, pastosas, muito fétidas, con- tendo algumas vezes strias sanguinolentas; tenesmos, tympanismo, sensibi- lidade exagerada do ventre á pressão ; emmagrecimento notável e progres- sivo, anorexia pertinaz. Foram-lhe administrados diversos medicamentos adequados ás condições da moléstia: preparados laudanisados, de bismutho, adstringentes vegetaes, etc. 0 Sr. Dr. Fazenda prescreveu então a seguinte poção: Agua distiliada 200 grammas Chlorato de potassa 4 » Uma colher de chá todas as duas horas. Uma semana depois do uso desta medicação, grande parte dos sympto- mas supracitados haviam cedido- o numero das dejecções diminuio sensivel- mente, chegando á duas por dia; as fezes tornaram-se mais solidas e de colorido normal. Quinze dias depois apresentava a criança um estado geral satisfactorio; mostrando-se mais nutrida, evacuando regularmente, uma vez por dia, ma- térias solidas e de aspecto normal. 0 restabelecimento foi julgado completo. Tres mezes depois nada apresentava a criança que fizesse suspeitar do reap- parecimcnto da moléstia. Havendo sido o mesmo collega chamado a tractal-a de uma ligeira bronchite e hesitando em applicar-lhe preparados stibiados, fêl-o todavia, sem que provocassem estes diarrhéa, nem desordem alguma intestinal. E’ este facto bastante significativo ; uma enteritis chronica, que, pela sua pertinácia e profundo depau- peramento acarretado, levára o nosso collega a sus- peita de uma tuberculose mesenterica, foi prompta e efficazmente debellada pela administração exclu- siva do chlorato de potassa, associado á um regimen 34 dietetico appropriado. A moléstia, que zombára du- rante tres mezes de todos os variados e energicos meios therapeuticos perfeitamente manejados pelo nosso digno amigo, não poude resistir á benefica in- fluencia do sal de potassa ; sendo completo o restabe- lecimento da doentinha no curto periodo de quinze dias. Ainda mais, foi a cura radical e definitiva, pois tres mezes mais tarde encontrava o Dr. Fazenda a sua doente nas melhores condições de saude, que era apenas alterada pela existência de uma rapida e ligeira bronchitis, e, apezar de empregar vários pre- parados antimoniaes, que na infancia, sobretudo, são tão fáceis de provocar a diarrhéa, nenhuma alteração observou para o lado do tubo intestinal ; provando-se desta sorte a ausência mesmo de uma predisposição mórbida nesse ponto do canal digestivo. 35 OBSERVAÇÃO IX (Recolhida pelo Sr. Dr. R. Alves) Maria, fillia de F. Machado, de tres annos de idade, de constituição fraca e de temperamento lymphatico, residindo na cidade de Guaralinguetá (província de S. Paulo). Filha de pais sadios, esta criança era fraca e nella a dentição e a des- mamação não se haviam feito sem alguma difíiculdade, manifcstarido-se phe- nomonos sympatliicos para o lado do tubo digestivo, os cjuaos cederam, toda- via, cmnapplicações caseiras. Desmamada aos 11 mezes. esta criança, que gozou comtudo de boa saude, era activa e folgazã. Como cominemorativo contou- nos seu pai que já havia perdido um filho de dous annos de idade do mesmo mal. Segundo o systcma que havia em casa, já os pais tinham-lhe dado um pequeno clyster com proveito, porque expcllira vermes lombricoides. Estava ella doente desde 25 de Dezembro de 1875, começando a moléstia por uma in- digestão, em consequência de haver comido pecegos logo depois dc uma pe- quena talhada de melancia. Teve vomitos, cólicas, sobrevindo uma diarrhéa pertinaz, que durou até esta dala. Havia sido esta criança tractada por todos os médicos (tres) da cidade e curandeiros em maior numero ; tendo sido una- nimes em considerar perdida a doente. Nesta occasião, 2 de Fevereiro, fui chamado para vol-a e encontrei-a no seguinte estado : Deitada em uma rêde, com a physionomia abatida, pallida, muito magra; os olhos fundos e circumdados por uma orla livida, o ventre crescido, algum tympanismo; membros delgados, museulos atrophiados e a pclle ro- lando sobre os tecidos subjacentes. Escutando os pulmões, achei a respiração enfraquecida, mas nada indi- cando que houvesse nesses orgãos alguma lesão e bem assim no coração. 0 ligado estava pouco augmentado de volume, o ventre era sensível, particularmente quando se exercia alguma pressão sobre as fossas iIlíacas e na direcção do grosso intestino ; linha repetidas evacuações ; estas sobrevi- nham involuntariamente, assim con o a emissão das urinas, denotando rela- xamento dos sphyncteres. A temperatura não se apresentava muito alterada ; o pulso era um pouco frequente ; iingua coberta ue ligeira camada de saburra no centro e vermelha na ponta e nos bordos. Não havia dilatação das pu- pillas, nem prurido nazal. 2 de Fevereiro.—Infusão de ipecacuanha ICO grammas Laudano 8 gottas Xarope de diacodio 20 grammas Para tomar ás colheres, todas as duas horas. Caldos de carne com vinho. 36 4. Nenhuma modificação, a prostração mais accentuada; diarrhéa mais abundante, consistindo em muco-puz. 5. Mesmo estado; mesma prescripção. 6. Encontrando a doente no mesmo estado prescrevi: Solução de gomma 90 grammas Chlorato de potassa 2 » Para tomar ás colheres de sopa, todas as horas. 7. Augmentei 2 grammas de chlorato de potassa á poção anterior. 8. — As dôres não são muito intensas; a doente já tolera alguma pres- são sobre o ventre; a diarrhéa ainda abundante. Mais 2 grammas addiciona- das á poção de chlorato de potassa. 9. — Não teve mais evacuações ; mais animação; dormio á noite. 10. Teve sete dejecções; já se senta no leito c pede alimentas. E’ con tinuada a mesma poção. 11. Proseguem as melhoras ; a doente reclama alimentos. 14.— Uma evacuação anormal; encontrei-a andando, alegre e satisfeita ; o ventre flácido e indolente e o estado geral bom. Suspendi a medicação, fazendo observar todo o regimen dietetico a que se achava submettida a doente. 16. — A doente acha-se completamente restabelecida. Mais um facto de subido alcance que comprova exuberantemente a acção especifica do clilorato de potassa sobre a phlegmasia da mucosa intestinal. Ahi vemos o caso de uma forte interitis provocada por uma indigestão de fructas em uma criança muito debil, depauperada por má alimentação, e por- tanto em extremo predisposta aos maiores desarranjos do tubo digestivo. Esta interitis proseguio inaba- lavel, a despeito dos multiplicados tractamentos a que era submettida a pequena doente pelos médicos da cidade em sua totalidade ; os proprios milagres, tantas vezes operados pelos charlatães, não se fizeram sen- tir desta vez. 37 No fim de trinta e oito dias, durante os quaes a diarrhéa e todas as suas consequências haviam ca- minhado sempre em progressão ascendente, achava-se a pobre criança no maior gráu de marasmo : esqualida jazia immovel em uma rede, onde as fezes e as urinas corriam involuntariamente. Acabava de ser abando- nada pelos médicos e até pelos charlatães, quando foi chamado a medícal-a o Sr. R. Alves, que havia che- gado á cidade de Gruaratinguetá, nas férias do seu quinto anuo medico. Sem a menor esperança de exito prescreve-lhe elle uma poção com ipecacuanha e opio; insiste nella por espaço de cinco dias, sem que a me- nor modificação favoravel se opere. Lembrando-se então do que havíamos escripto sobre as vantagens do chlorato de potassa em casos taes, decide-se a empre- gal-o. O resultado é, á principio, quasi nullo, augmenta porém elle a dóse progressivamente até 6 grauimas em uma poção, e, á proporção que isso tem logar, as melhoras se manifestam gradualmente até a cura completa, que se verifica no fim de 15 dias ! Não se poderá, por forma alguma, contestar que fosse este brilhante successo devido ao chlorato de potassa, pois que foi esse medicamento o único administrado â pequena doente desde o dia 7 de Fevereiro. Só dous dias depois se manifestam as pri- meiras melhoras : certamente que só o chlorato as havia operado. 38 Ainda mais, ellas se apresentaram depois que foi a dóse do medicamento augmentada. Temos para nós que bastaria só por si este caso para tornar patente a acção especifica do chlorato nas phlegmasias intestinaes. A elle tão sómente attri- buimos essa verdadeira resurreição. (*) (*) Não podemos fartar-nos ao desejo de transcrever aqui a interessante observação que acaba de ser-nos communicada pelo nosso distincto quanto amavel collega, o Sr. Dr. A. Portugal, relativa ã um indivíduo adulto, no qual revelou-se muito elílcaz o clitorato de potassa. Eis a observação: « Aclia-se subjeito ao meu tractamento um moço, lavrador, de 20 annos de idade, sofTrcndo de hypohemia intertropical, em grão muito adiantado. 0 symptoma, porém, que mais o acabrunhava e me desanimava de poder cu- ral-o era uma diarrltéa abundantíssima (.20 e mais evacuações em 24 horas), rebelde aos adstringentes de que lancei mão e especialmente do oxydo negro de ferro, do qual tenho tirado bons resultados. Tendo, pois, percorrido a vasta escala dos adstringentes, applicando a ipecacuanha, com o duplo fim de combater a diarrhéa e desembaraçar rs primeiras vias, e vendo ultimamente a diarrhéa recrudescer, empreguei o chlorato Je potassa na dose de 10 gram- mas em uma dccocção de quina, para tomar em vinte quatro horas. Desde que o doente tomou a primeira dóse cessaram as dejccções diarrheicas, e só no íim de 32 horas teve uma evacuação solida. Já se completaram 4 dias e a diarrhéa não reappareceu, sendo bastante animador o estado do doente. A' vista dos admiráveis resultados que tenho colhido, embora pouco numero- sos, accrescenta o Dr. Portugal, julgo-me habilitado a poder dizer que não temo as diarrhéas, podendo empregar em tempo o precioso sal de Her- thollet (•) » 0 facto que acabamos dc archivar offercce, como se vè, duplo interesse; além de uma diarrhéa, tractava-se de uma oppilação, á qual se achava aquella subordinada. E' o primeiro caso desta ordem em que foi ensaia- do o chlorato de potassa e o resultado satisfactorio. Embora sem acção espe- cifica sobre a causa do mal (verminose), não poderá ser tal medicamento um auxilio valioso como meio adjuvante do tratamento? (.) Communioação esoripta ao autor. 39 OBSERVAÇÃO X Um menino, de trcs mezes de idade, filho de pais robustos e moços, nasceu bastante desinvolvido, nas melhores condições de saude. Sua rnãi não podendo amamental-o por escassez de leite e temendo o aleitamento mercenário, preferio submeftel-o desde os primeiros dias ao uso do leite de vacca (ne bibzron), diluido n’agna. Durante os tres primeiros mezes a criança, não tivesse embora notável desenvolvimento e augmento de peso, não revelou soíTrimento algum. Para o meiado. porem, do terceiro mez começou a emmagrecer e a mos- trar-se menos tranquilla do que de ordinário e a ter, finalmente, a’guns vomitos de leite e cólicas flatulentas. Ambos estes phenomenos foram ga- nhando de intensidade e frequência, sendo por fim acompanhados de diar- rhéa: dejecções liquidas esverdeadas, contendo grumos de leite coalhado e muito fétidas; precedidas e seguidas de grande expulsão de gazes. A febre não tardou a apresentar-se, por accessos nocturnos, augmentando o numero das evacuações, até attingirem o numero de 10 a 12, nas vinte quatro horas. O estado geral comprometteu-se ao mesmo tempo e notava-se : pallidez. olhar desanimado, prostração, lingua secca e vermelha nos bordos, sêde e inappe- tencia. Ventre meteorisado em sua totalidade, sensível sobretudo na direcção do grosso intestino, ausência de congestão do figado e do baço. Insomnia c agitação durante a noite. E’-lhe, á principio, administrada uma poção coin bismutho, passando a ser amamentado por uma ama: nenhuma alteração para o lado das desordens intestinaes. A ipecacuanha, sob a fôrma de clysteres, é em seguida administrada igualmente sem maior resultado. Finalmente, é prescripto o chlorato de potassa na dóse de 4 grammas, em uma poção de 120 grammas. Desde então começam a diminuir as dejecções e a sensibilidade do ventre; a medicação foi continuada durante oito dias, no fim dos quaes haviam ces- sado todos os symptomas da enteritis, entrando a criança em plena conva- lescença, mamando muito regularmente. Neste caso, na verdade pouco grave, relativamente aos que já havemos citado, o chlorato, empregado muito cedo, sem recorrermos antes delle á série ex- tensa dos agentes anti-diarrheicos, obstou prompta- mente a marcha da moléstia, corrigindo facilmente a 40 plilegmasia intestinal. Quanto mais cedo administrado mais efficaz a sua acção. Varias outras observações analogas poderíamos re- produzir, confirmativas da nova propriedade do sal de Berthollet; deixando, porém, de fazêl-o para evitar a prolixidade e dar desnecessária extensão a este tra- balho. Dentre os factos que havíamos colleccionado pro- curámos dar preferencia áquelles commnnicados e re- colhidos pelos collegas que se propuzeram a ensaiar o medicamento ern questão, julgando tornar desta sorte mais valiosas as provas clinicas que associamos ás demonstrações experimentaes. Estamos convenci- dos de que a observação futura virá sanccionar os resultados até agora obtidos.