FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO VÍCIOS DÁ NOSSA LWMEM MEDICA THESEINAUGURAL DO Dr. Pedro Antonio Basilio APRESENTADA Á Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro EM 29 DE MARÇO DE 1904 E APPROVADA COM DISTINCÇÃO PELA 3® BANCA DE MEDICINA COMPOSTA DOS PROFESSORES Drs.: João Joaquim Pizarro, Oscar Frederico de Souza e Rodolpho Galvão f<io DE ^JMUino TYPOGBAFHIA LEUZINGER 1904 7326 THESE FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO VÍCIOS DÀ NOSSA LINGUAGEM MÉDICA THESEINAUGURAL DO Dr. Pedro Antonio Basilio APRESENTADA Á Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro EM 29 DE MARÇO DE 1904 E APPROVADA COM DISTINCÇÃO PELA 3* BANCA DE MEDICINA Composta dos professores Drs.: João Joaquim Pizarro, Oscar Frederico de Souza e Rodolpho Gajvão fOo pe Janeiro TYPOGRAPHIA LEUZíNGER 7326 1904 FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO DIRECTOR Dr. Luiz da Cunha Feijó Júnior VICE-DIRECTOR Dr SECRETARIO Dr. Eugênio do Espirito Santo de Menezes Drs.: TiburcioValeriano Pecegueirodo Amaral. Chimica medica. João Joaquim Pizarro Historia natural medica. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descriptiva. Eduardo Cliapot Prévost Histologia. João Paulo de Carvalho Physiologia. Antouio Maria Teixeira Matéria medica, pharmacologia e arte de formular. Rodolpho Galvão Bacteriologia. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medico cirúrgica. Domingos de Góes e Vasconcellos Operações e apparelhos. Antouio Augusto de Azevedo Sodré Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Henrique Ladisláu de Souza Lopes Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetrícia. Ernesto do Nascimento Silva Medicina legal e toxicologia. Benjamin Antouio da Rocha Faria Hygiene. João da Costa Lima e Castro Clinica cirúrgica - 2» cadeira. João Pizarro Gabizo Clinica dermatológica e syphiligraphica. Miguel de Oliveira Couto Clinica propedêutica. Marcos Bezerra Cavalcanti Clinica cirúrgica - 1» cadeira. Erico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologica. Joaquim Xavier Pereira da Cunha Clinica ophthalinologica. José Beuicio de Abreu Clinica medica - 2" cadeira. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas Cândido Barata Ribeiro Clinica pediátrica. Nuno de Andrade Clinica medica - 1» cadeira. João Martins Teixeira 1 „ .. .... . Antouio Rodrigues Lima 1 hl" ^ispombilidade. LENTES Prs.: Luiz Autonio da Silva Santos 1» Secção. Autouio Dias de Barros 2a Oscar Frederico de Souza 3» » 4» » Fraucisco de Paula Valladares 5* » Pedro de Almeida Magalhães 6a » Autonio Teixeira do Nascimento Bittencourt 7a » Augusto de Souza Brandão 8a » Francisco Simões Corrêa 9a » José Antonio de Abreu Fialho 10a » Luiz da Costa Chaves Faria 11a » Mareio Filaphiano Nery 12a » SUBSTITUTOS N. R. - A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas. PARANYMPHO - Dr. Nuno de Andrade Doutorandos de 1903 1. Aloysio de Castro. 2. Raul Leitão da Cunha. 3. Oscar Rodrigues Alves. 4. Humberto Netto Gottuzzo. 5. João Marciano de Almeida. 6. Antonio Vieira Marcondes. 7. Eduardo dos Santos Lima. 8. João Olavo do Canto. 9. Esperidião de Queiroz Lima. 10. João Hypolito de Azevedo Sá. 11. Amador de Almeida Magalhães. 12. Oscar Publio de Mello. 13. Aristoteles Dutra de Carvalho. 14. Abel de Noronha Gomes da Silva. 15. Raul Barbosa Gonçalves Penna. 16. Raul Manso Sayão. 17. Jonas Thales de Miranda. 18. Francisco Ottoni Mauricio de Abreu. 19. Joaquim Gonçalves de Menezes. 20. Maria da Gloria Fernandes. 21. Saturnino Nicoláo Cardozo. 22. Álvaro Guimarães Maia. 23. Alexandre Ribeiro de Carvalho. 24. Joaquim Vieira Lins Petit. 25. Pedro Antonio Basilio. 26. Leopoldo Felix de Souza. 27. Henrique Fernandes Trigo Loureiro. 28. Álvaro Borges Dias. 29. Octavio Andrade Lima e Castro. 30. Maurício Leitão da Cunha. 31. João Augusto Bezerra. 32. Delphino Pinheiro de Ulhôa Cintra. 33. Moysés Alves Menezes. 34. Raul Azevedo. 35. José Marcellino Teixeira de Rezende. 36. Manoel Feliciano da Motta e Albuquerque. 37. Sebastião Barroso Nunes. 38. Alberto Brandão de Magalhães. 39. Joaquim Crissiuma de Toledo. 40. Octavio Augusto Borges. 41. Nelson de Vasconcellos e Almeida. 42. Alexandre dos Santos Castagnino. 43. Octacilio Francisco Pessôa. 44. Rodemark Symphronio C. de Albuquerque. 45. Cassio Barbosa de Rezende. 46. Gaspar Barbosa de Rezende. 47. Maurício João Barbalho Uchôa Cavalcante. 48. João Ferrara. 49. Arthur Neiva. 50. Levy Coelho da Rocha Leão. 51. Aristides Ferreira Caire. 52. José Jeronymo Macedo. 53. Claro Cezar. 54. Mario de Miranda Valverde. 55. Samuel Gomes Prado. 56. Caramurú Luiz Paes Leme. 57. Carlos Peixoto da Costa Rodrigues. 58. Augusto Brandão. 59. Licurgo Pereira. 60. José Teixeira Lima. 61. Custodio Fernandes. 62. Ernesto Crissiuma Filho. 63. Arthur Carino Pinheiro. 64. João Penido Burnier. 65. Francisco Gomes Spinola e Castro. 66. Augusto Tavares de Souza Vaz. 67. José Vieira Romeiro. 68. Nicoláo Abramo. 69. Eloy de Barros Lessa. 70. Carlos Dutra Vaz. 71. Artidonio Pamplona. 72. Eduardo Dutra Vaz. 73. Juvenil da Rocha Vaz. 74. Adolpho Gomes Pereira. 75. Henrique Lindgren. 76. Domingos Conde Filho. 77. Ulysses da Rocha Cavalcante. 78. Eduardo Gaspar Santiago. 79. Rodolpho Vaccani. 80. Attila Thiery de Alvarenga. 81. Justino Menezes Júnior. 82. Manoel Alexandre Marcondes Machado. 83. Carlos da Silva Loureiro. 84. Laudelino Gomes de Almeida. 85. José Peregrino Leite de Araújo. 86. Antonio Reis. 87. Henrique Rodrigues Caó. 88. Joaquim Ribeiro de Souza. 89. Álvaro de Souza Sanches. 90. Álvaro Nunes Furtado. 91. José Pereira de Magalhães. 92. Octavio Vieira. 93. Rodolpho Machado Masson. 94. Bento de Almeida Nobre. 95. Nilo Cairo da Silva. 96. Eduardo Vidal d'Oliveira. CORRECÇÕES PRINCIPÁE8 Pags. Linhas Em vez de: Leia-se : 11 4 <puxoç 11 9 <pu%<)ç <puxoç 13 25 Lexiogenia lexiogenia 22 5 muitos muito os 22 25 acharam-na acharam-n-a 32 25 terminadas por ceie terminadas em ceie 33 10 vícios da linguagem vícios da linguagem médica 50 7 auctorise auctorize 52 12 separar se separar-se 60 1 Dr. Queiroz de Vascon- Dr. Vasconcellos de cellos Queiroz / 69 11 bígamo dígamo P 75 9 cer responde corresponde r 75 19 terminadas por phyta terminadas em phyta 76 3 terminadas por stase terminadas em stase 100 21 devida devido 100 25 lexigogênicos lexicogênicos 100 26 ás vêzes nos fazem ás vêzes nos faz 100 27 sobrecarregam sobrecarrega 101 6 ou (adj.) (adj.) 107 28 melhor que melhor do que 113 22 119 1 representam-no representam-n-o 125 14 pretentem pretendem 129 4 xki[ia^o^ xÁifiaxoç 134 36 séptico scéptico 135 1 Não sei Não sabemos 136 9 Tzapoxo^ Ttapo^o^ 136 11 napoxoç Tcapo^o^ 136 15 napoxoç Ttapo^o^ 136 21 Tcapoxoç Ttapo^o^ 136 21 itapexo nape^o Pags. Linhas Em vez de : Leia-se: 148 8 o (to) ou (to) 152 13 v (to) v, ou (ro) 153 20 prósodia prosódia 162 11 podrôma prodrôma 163 17 tabetique tabétique 163 21 tábide tabide 163 22 tabido tábido 163 23 tabetique tabétique 164 21 rachideano rachidiano 164 26 mentoneano mentoniano 165 15 o não e não 181 27 dysistolia dyssystolia 182 5 asystololia asystolia 189 15 a ruais e mais 195 22 nom non 215 14 ov (to) ou (ro) 216 22 Mezezes Menêzes 217 13 cardioiuôtor cardiômotôr 219 1 sétima séptima 226 14 bourelet bourrelet 226 16 erysipeala erysipela 216 16 é c ourélo é o ourélo 226 25 bourretet bourrelet 226 25 canforme conforme 228 25 embrocação embrochação 229 5 embrocação embrochação 229 10 embrocação embrochação 232 2 craneana craniana 241 7 camas óptimas camas ópticas 245 26 kisto kysto 274 7 Grandgagnane Grandgagnage 274 27 ot et 276 3 Dr. Silva Dr. Silva Lima 299 20 /?oo/?oy ^ouêov 304 23 Tpl[Í0 Tptêo 305 24 ffykvípspa GxXTjpep-a 305 24 ffxXfjpoç 306 18 ex 309 28 poSta 309 28 tpo^oç ipoftoç 337 21 próprio própria 338 24 stegocéphalo estegocéphalo 338 28 naturelle, naturelle; DISSERTAÇÃO vícios da nossa linguagem médica Correcções A pag. 13 linha 25.a em vêz de Lexiogenia leia-se lexiogenia. A pag. 13 linha 25.a em vêz de Etymologia leia-se etymologia A pag. 25 em continuação a linha 16a leia-se o seguinte: Córtex significando casca, cortiça ê do gênero masculino, mas'no sentido figurado signilicandocapa, envoltório é do gênero feminino. A pag. 117 linha 14.a em vêz de : Quem escreve cheiróptero deve também escrever cheirologia, cheiromancia, cheirógraplio, cheiragraetc. para serem cohenmtes leia-se : Quem escreve cheiróptero deve por coherência escre- vêr tambémcheirologia, cheiromancia, cheirógraplio, chei- ragra etc. A pag. 156 linha 16.a em vêz de : como melhor sôa também dizêr artérias meningéas do que meníngeas leia-se : sôa por ventura melhor dizêr peronêos como melhor sôa também dizêr artérias meningéas do que meníngeas. A pag. 209 linha 1.aem vêz de Nucleopasma leia-se Nucleoplasma. A pag. 209 linha 11a em vêz de : significa obra mode- lada leia-se : significa substância, obra modelada. ANTELÓQUIO La connaissance des mots conduit à la connaissance des choses. Le mot est 1'image de la chose. Platon. A nomenclatura scientifica, mais que nenhuma outra, precisa e deve ser rigorosa, e a todo o brazileiro cabe o dever do não fallar vasconço. Plácido Barbosa. Quando a phrase é simples e pura, através delia penetra direi- tamente a intelligencia ao encontro do pensamento escripto. Mas se ella se desvia da expressão natural e correcta, forçosamente se ha de transformar a leitura em tedioso esforço de critica e decifração. Ruy Barbosa. Se uma lingua tem poucas palavras, é signal de que a nação dos que a falam tem poucas idéas ; - e se a significação das palavras é mal determinada, é signal de que as idéas dos que a falam são confusas. CONDILLAC. De toda a educação do espirito a Grammatica é a base. A Gram- matica é a sciencia das palavras, isto é, dos signaes de nossas idéas: e entre estas e aquellas, - pela construcção physica do homem, por suas relações com os outros e com o resto do mundo visivel, poi- sua educação, por sua natureza, - é tão intima a connexão, tão estreita e quasi indivisível, que jamais conhecerá bem as coisas o que não conhecer bem as palavras, jamais adquirirá idéas exactas, ou formará juizos distinctos o que das palavras, suas combinações e ligações, não tiver noção exacta, clara,-e no modo de as empregar e usar não for egualmente correcto e habil. Gabbett. - Da Educação. sendo ella, Grammatica, o alicerce de toda a Rhetórica e Lógica, a primaria condição de todo o discurso e a indispensável ar- gamassa de todo edificio de sciencia, nada ha mais miserável, e inso- lente ao mesmo tempo, do que o despreso em que hoje, commummente a têm, - que a cada passo a esfolam e desconjuntam, escrevendo, imprimindo, orando, legislando o governando. A. F. Castilho . (Prólogo á traducção das « Metamorphoses » de Ovidio ) Aquelles que nunca meditaram sobre o valor dos termos empregados em medicina, julgarão, talvez, ser este estudo de nem uma utilidade. 10 Mas enganam-se muito. A célebre pbrase de Platão : « La connaissance des mots conduit à la connaissance des choses» é uma grande verdade. Quantas vezes pela simples decomposição dos elementos conseguimos saber a significação de uma palavra ouvida pela primeira vez ! Em medicina, muitas vezes pela simples feição dos termos, chegamos a ter idéa de certos assumptos antes de termos a definição ou explicação do auctor que as descreve. Os adversários da philologia dirão que, para curar doentes, não são necessários conhe- cimentos de etymologia e que ha muito médico dis- tincto que nada conhece d'estes assumptos. Não negamos este facto, que é perfeitamente acceitavel, mas o que pretendemos demonstrar é que o conhecimento das raízes grêgas e latinas nos faci- lita e esclarece muito o estudo de qualquer sciência, principalmente o das sciências médicas e chirúrgicas, cujos termos são, 'na sua quási totalidade, oriundos do grêgo e do latim. Para demonstrar as vantagens do estudo d'estas duas línguas, vamos apresentar alguns exemplos : Supponhamos um estudante que nada conheça de sciências médicas, mas bem preparado em grêgo e latim. Se lhe perguntarmos que cor têm os vapores de iódo, poderá responder, ainda que nada saiba de Chímica, que devem ser roxos, porquê a raiz dá idéa d'esta cor. Se a este mesmo estudante, que nada 11 conhece de botânica, perguntarmos o que vem a ser phycologia, dirá immediatamnte que é a parte da botânica que tracta das algas, porquê o Io elemento, <pv%oç, significa alga, e o 2°, Zoyoç, quer dizer estudo, sciência; se perguntarmos por cyanophyceas e ery- throphyceas, dirá que o 1? termo se refere a algas azues e o 2? a vermelhas, porque xvavoç significa azul e epv^poç quer dizer vermelho e a terminação phyceas, commtim aos dois, vem de pv^oç, que quer dizer alga. Se, tractando de zoologia, fallassemos em cyanóptero, comprehenderia logo que nos referíamos a animaes, insectos de asas azues, porque o l9 ele- mento xvavoç significa azul e o 29 Ttrepóv quer dizer asa. Se em Anatomia descriptiva lhe perguntarmos sobre a situação da glândula parótida, poderá res- ponder logo que deverá ficar perto do ouvido, por- quê 7tapa quer dizer perto, ao lado, e ofç-QTÒç signi- fica ouvido. Se perguntarmos pela forma do calamus escri- ptorius, dirá que deve ser similhante a um bico de penna, porquê em latim significa esta expressão: penna de escrever. Se fôr interrogado sobre a fórma do osso hyóide, dirá que é similhante ao (v) grêgo. Se em uma aula de ophthalmologia ouvir fallar em blepharoptose, comprehenderá immediatamente que se tracta d'a queda da pálpebra, porque 6%épapov significa pálpebra e TtTíocrtç quer dizer queda. 12 Podiamos aponctar ainda muitos outros exem- plos percorrendo todas as cadeiras do curso médico- chirúrgico, porém os que apresentámos são já em número sufficiente para demonstrar o nosso assêrto. Escolha do assumpto Dois são os motivos que presidiram a escolha d'este assumpto : l9 o gosto que temos pelos estudos de philo- logia. 29 a vontade de apresentar um trabalho original que pudesse agradar mais do que as sempre repe- tidas e por demais batidas theses sobre hérnias, febres, affecções cardíacas, etc., que já têm servido innúmeras vezes para dissertação. Não nos achando apto para trazer novidades sobre estes e outros ponctos de medicina práctica, comoé de praxe entre nós se escrever, preferimos es- tudar a nossa linguagem médica que merece toda a attenção, pois que se acha muito viciada contendo vícios que facilmente poderiam ser evitados, se en- trássemos em algumas investigações philológicas; mas como não costumamos ligar importância a estas questões, o resultado é termos uma linguagem cheia de expressões impróprias e de barbarismos inadmis- síveis. 13 Plano da obra A feição que tem hoje o nosso trabalho é bem diversa da que lhe pretendíamos dar quando come- çámos a estudar o assumpto. Fomos obrigado a modifical-a devido a escassez do tempo, pois o poncto era por demais vastíssimo para tão curto prazo de alguns mêses. . A nossa primeira idéa era escrever sobre os termos de todas as cadeiras do nosso curso médico e chirúrgico fazendo sobre cada um d'elles o estudo de sua Orthographia, Prosódia, Etymologia, 0) Significação litteral, Accepção médica, Definição, Descripção, Synonymia, Expressões equivalentes, História e Razão do termo. Não tendo sido possível realizar este nosso de- siderato, resolvemos deixar para mais tarde este es- (1) Em vez de Etymologia podíamos dizer Lexiogenia queé termo mais expressivo. 14 tudo, afim de que com mais preparo e mais vagar pudéssemos apresentar um trabalho de mérito. Vamos dividir o nosso trabalho em 8 partes. 1* Dos vícios em relação ao gênero. 2^ Dos vícios que se referem sómente á gra- phia. 3* Dos vícios que se referem sómente á pro- sódia. 4^ Dos vícios que se referem á graphia, pro- sódia e forma. 5^ Denominações impróprias. 6^ Hybridismos. 7^ Vícios de traducção. 8^ Dos termos que não têm equivalentes em português. PRIMEIRA PARTE Vicios em relação ao gênero Muitas são as palavras que pertencendo a um gênero são empregadas 'na nossa linguagem médica em gênero differente. Quási sempre são termos do gênero feminino que costumamos empregar 'no mas- culino. Aneurysma.- Tem sido este termo empre- gado indifferentemente, ora 'no gênero masculino ora 'no feminino. Muita divergência se observa entre os dicciona- ristas. Alguns dão-lhe o gênero feminino (Fonseca e Moraes) outros, ambos os gêneros (Roquete, João de Deus, Faria, Lacerda) e finalmente outros o gê- nero masculino (Caídas Aulete, Francisco de Almeida, Cândido de Figueiredo e Frei Domingos Vieira). Este último diccionarista diz que tem encon- trado 'nos livros de chirurgia esta palavra empre- gada 'no masculino por uns e 'no feminino por ou- 16 tros. 'Na chirurgia do professor Ferreira este termo apparece sempre 'no feminino; á pag. 82 encontrámos « Toda a aneurysma é muito difficultosa de curar» mas no trabalho de Antonio da Cruz encontramol-a empregada 'no gênero masculino : « Todos os aneu- rysmas são muito perigosos e quasi incuráveis (pag. 107). » Somos d'a opinião d'aquelles que a consideram d'o gênero masculino. Tanto 'no latim (aneurysma, atis) como 'no grêgo (dveápucqza, aroç (rò) pertence esta palavra ao gê- nero neutro e á 3^ declinação. Vem do verbo àvevpvvsLv que significa dilatar, estender, que se compõe de: dvà indicando extensão e nípàç que si- gnifica largo. Em rigor se deveria dizer anevrysma em vez de aneurysma porquê o diphthongo ev quando se liga a uma palavra que começa por p fica valendo em portuguez ev como se póde observar em nevrite, nevroma, nevróptero, nevralgia e nevrópatha. Em francês observa-se esta mesma regra e a este res- peito dizem Garnier et Delamare (Dictionnaire des termes techniques de médicine) o seguinte : «II est d'usage en français, de remplacer l'v par un v, quandil précède un p. Cette façon de faire est très rationelle car elle est d'accord avec la prononciation grecque. C'est ainsi quon dit très justement nevralgie, nevrite, nevrome, nevrotomie. Les Allemands et les Anglais orthographient 17 différemment, ils remplacent l'v par un u. Or, nous leur avons emprunté des mots dérivés du grec et nous avons conservé leur orthographe ; nous disons neurasthénie, neurone, neuropathologie. II faudrait, si cette façon d'écrire était adoptée, suivre com- plètement 1'exemple des Allemands et des Anglais et dire comme eux, neuralgie, neurite, neurome, neurotomie ; ou ce qui voudrait évidemment mieux, il faudrait franciser tous les mots et adopter nevras- thenie, nevrome, nevropathologie. Ce qui est encore plus curieux, c'est que le inême mot, suivant qu'il est orthographié à allemande ou à la française, peut avoir deux sens différents. Neurologie (orthographe allemande) veut dire étude des maladies nerveuses; nevrologie (même mot écrit d'après les règles françaises) désigne 1'étude anatomique du système nerveux.» Podemos fazer sobre a nossa língua as mesmas considerações que fizeram Crarnier e Delamare em relação á língua francêsa. Apostema. - Segundo Fonseca, Corrêa de Lacerda e Roquete pertence ao gênero feminino; segundo Moraes pertence ao masculino e feminino; segundo Caídas Aulete, Francisco de Almeida, Cân- dido de Figueiredo e Frei Domingos Vieira pertence ao gênero masculino. Somos d'a opinião d'aquelles que a consideram d'o gênero masculino. 18 Tanto em latim (apostema, atis) como em grego (anócrT^a, aroç (to) pertence esta palavra ao gênero neutro e á 3' declinação. A respeito desta palavra diz o erudito Dr. Silva Lima: « apostema é do gênero neutro 'no latim, masculino em português. O povo em geral diz uma postêma, que por homonymia se confunde com um apostêma; 'nisto o imitam algumas vezes os profissionaes dizendo em linguagem vulgar a postêma em vez de o apostema ». Antes de terminar devemos declarar que a ver- dadeira graphia d'este termo é apostema e não apos- thema (com th) como muitos escrevem e a razão é simples, em grêgo não se escreve com 0 (theta) mas sim com t (tau). Cândido de Figueiredo diz que este termo se compõe de apo + staein. Segundo Littré vem de que significa eu divido, eu separo, eu afasto, de ànò indicando afastamento e que quer dizer esta- belecer, assentar, pôr, collocar. Acne. - Para uns pertence ao gênero masculino e para outros ao feminino. Aulete, Fonseca, Moraes e Roquete nada dizem a respeito. Francisco de Almeida diz pertencer ao gênero feminino porém escreve desta forma: achne. Cândido de Figueiredo adopta o gênero feminino. Estão de accordo 'neste modo de ver Corrêa de 19 Lacerda e Frei Domingos Vieira, divergindo apenas quanto á graphia, pois escrevem ácnea. Em vez de acne muitos escrevem acme. Alguns como Corrêa de Lacerda e Fr. Domingos Vieira distinguem um termo do outro. Para elles acne vem do grego akné que significa borbúlha, efflorescência, e akme do gr. akmé que quer dizer vértice, cume, fastígio. Para Fonseca, Lacerda e Domingos Vieira acme é o período de uma doença 'na qual os symptomas offerecem o mais alto gráo de intensidade ; era outr'ora uma das phases de uma moléstia cyclica; as outras se denominavam arche, anábasis e paracme. Acne é uma affecção da pelle que se caracteriza por uma lesão ou uma perturbação funccional das glândulas sebáceas ou pilo-sebáceas. Acme é do gênero masculino, porém acne é do feminino. Frei Domingos Vieira diz « que acne vem do grego akne^ que significa efflorescência e que por um erro de copista se converteu em akme, que pre- valeceu até ao presente 'na sciencia médica - Littré foi o primeiro que propoz a substituição ». A notícia que nos dá o Frei Domingos é inteiramente falsa, pois está em completo desaccordo com a opinião de Littré; manuseando o diccionário de mêdicina d'este sábio hellenista encontrámos á pag. 18 o seguinte : « acme - s. f. c'est ainsi quon devrait dire au lieu de acné, car dxv»? est une faute de copiste dans Aetius pour -efflorescence. Cette faute a pris 20 place dans la langue médicale ». A respeito d'este termo diz o illustrado Dr. Silva Lima, citado pelo Dr. Vasconcellos de Queiroz, que não lhe devemos dar o gênero masculino e sim o feminino - que elle tinha em grego, como implicitamente affirmam quer os que com elle a fazem derivar de achne (a palha, o fumo, tenuíssima pars rerum) quer os que com mais visos de razão a derivam de acme. Para estes acne não é senão um erro de copistas trocando o n por m. Esta questão não fica ainda bem resolvida porquanto a opinião de Chassang, auctor de várias obras sobre litteratura grêga e professor emérito de grego 'no collégio de França, diverge completamente da do sábio Littré, para quem acme quer dizer efllorescência e acne é um erro de copista admittindo assim sómente o termo acme ao contrário de Chassang que distingue acme de acne dando a este termo significação que Littré dá áquelle e para acme dá a significação indicada pelo Frei Domingos Vieira. De facto procurando estes termos no diccionário grêgo-francês de Chassang, encontrámos á pag. 35: ax^, xig (>7), pointe, point culminant, extrémité, etc. e á pag. 177: - (rç) - efflorescence quelconque à la surface des corps etc. Em grego ambos os termos são do gênero feminino e pertencem á P declinação. Pelo estudo que acabámos de fazer parece-nos : 1? que não houve 0 supposto erro de copista. 21 2° que o termo acme em vez de significar efflores- cência como diz Littré significa extremidade, poncta, cume, assim é que o adjectivo acmástico empregado pelos antigos para significar a doença que augmentava gradualmente de intensidade até um certo poncto, e decrescia depois na mesma proporção) se deriva de acme.-A febre contínua decrescente tinha entre os gregos o nome de epacmástica e augmentando de intensidade até a terminação, paracmástica. - « Quando continúa egual (a febre) chama-se acmástica» Morato, Luz da Medicina, pag. 390. 3 9 que não existe a palavra acne. 4o que o termo grêgo que corresponde a efllores- cência não é acme nem acne mas sim achne conforme escreve o diccionarista Francisco de Almeida, de accôrdo com as regras de lexicogenia. Chemose-para Aulete, Moraes e Domingos Vieira pertence ao gênero masculino, porém para Lacerda, Francisco de Almeida e Cândido Figueiredo pertence ao feminino. Em grêgo pertence ao gênero feminino e é este o gênero que lhe devemos dar em português. Frei Domingos Vieira diz que este termo vem de khêmôsis que se deriva de khêmê, buraco, porquê 'no caso que a palavra designa, a córnea parece estar 'no fundo de um buraco. Littré diz que vem de que se deriva de que significa buraco. 22 Cândido Figueiredo menciona 'no seu diccioná- rio: chemose, espécie de conjunctivite e chimose - inchação na conjunctiva. Cholera (morbus) - A que gênero pertence este termo ? Sobre este poncto divergem muitos diccionaristas. Alguns ha como Aulete, Moraes, Domingos Vieira e Roquete que lhe dão o gênero masculino, como que para distinguir de cólera (ira, raiva) a qual dão o genero feminino e dispensam o h; outros como Fonseca, Lacerda, Cândido de Figuei- redo e Francisco de Almeida que só empregam 'no feminino. Tanto em latim (cholera, se) como em grego ^oZépa, aç (>7) pertence este termo ao gênero fe- minino e á primeira declinação; por este motivo devemos dizer a chólera e não 0 chólera. Não é só quanto ao gênero que os dicciona- ristas divergem; em relação á etymologia tem tam- bém havido muita discussão. Desnos diz que chólera vem do hebraico : - choli4-ra que quer dizer moléstia terrivel; Lacerda é de opinião que se derive do grego kholé (bilis) e rhéô (eu corro); Decaisne e Gorecki são também d'esta opinião. Esta etymologia não é acceitavel; provém de uma grande confusão. Lacerda e outros que assim pensam acharam-na razoavel porquê sup- punham que chólera fosse escripta com 77 (eta) lettra esta que existe 'na palavra ^oZ?7 (bilis) mas não em /oXepa (goteira) que se escreve com e (epsilon). 23 Para nós a verdadeira etymologia é a de Littré. Diz este sábio philólogo que a chólera (do- ença) vem de (com epsilon) que significa propriamente goteira em allusão ao escorrimento incessante das evacuações e não de (bilis) e çielv (correr) porquê a isto se oppõe a formação da palavra. Em relação ao termo que estamos discutindo escreveu o professor Cândido Figueiredo :« - Ao ler os numerosos telegrammas que nos anunciam os casos coléricos da Rússia, de Paris e da Italia, sinto destes calefrios que não exprimem terror, mas uma repugnância instinctiva pelo nome que dão á epide- mia - o cholera ! Desde 1883, em que, dirigindo o Diário de Por- tugal, sustentei uma campanha de Caturra contra a masculinidade da epidemia, até ao Jornal do Com- mercio de 1884, em que voltei á vacca fria, reba- tendo ás suppostas razões, de o cholera, para que se diga a cólera ou a cholera; e até ao Portuguez de 1884, em que recapitulei todas as razões, apre- sentadas de um lado e outro, registando mais uma vez o absurdo e a improcedência de o cholera: tenho observado, entre desalentado e satisfeito, as alternativas por que tem passado a nomenclatura daquella doença. Ha até Jornal, que, tendo dito a cholera, por muito tempo, diz hoje o cholera. Evidentemente os redactores não mudaram de opinião; o Jornal é que mudou de typographos e 24 revedôres. E, tão insistentemente se reproduz a asneira, - perdoem-me o qualificativo, - que, visto o noticiário ter agora um lugar obrigado para as noticias da cólera, julgo opportunissimo sintetisar os motivos porque se deve dizer a cólera ou a cho- lera e não o cholera. A palavra cholera, de origem grega, é femi- nina em todos os diccionarios do respectivo idioma; passou para o latim, e ali conservou também o gê- nero feminino ; passou para o português e aqui foi sempre feminina, na boca dos mestres da lingua e nos diccionarios de melhor nome. Alguns médicos menos peritos no uso da lingua nacional do que na therapeutica e nos livros fran- cêses, importaram a novidade do cólera, masculino, e a novidade lançou raizes no vulgo inconsciente e estendeu-se aos noticiaristas. Entretanto, contra este abuso, e contra o máo serviço de alguns médicos á linguagem portuguêsa, já em 1833 protestava praticamente a commissão medica da Academia Real. de Sciencias, que escre- via sempre a cólera. Dessa commissão fazia parte o eminente homem de sciencia Dr. Fonseca Benevides. O relatorio do Consêlho de Saúde Pública, em 1855, diz sempre a cholera. Esse relatorio é assignado por Barrai, Mazarem, e outros homens distintíssimos. Na literatura médica contemporânea posso ainda citar os nomes de Bernardino Gomes, Macedo Pinto, 25 Alvarenga, Sousa Martins, Cunha Vianna, Antonio Maria Barbosa, Silva Pinto, Silveira Amado que sempre escreveram a cólera. Os documentos officiaes assignados por esta- distas como Rodrigo da Fonseca, Duque de Loulé, Rodrigues Sampaio, Serpa Pimentel, Andrade Corvo e outros dizem sempre a cólera ou a cholera. Podia citar ainda o instituto Homopathico do Brasil e outras autoridades technicas. » Córtex. - A que gênero pertence ? Os diccionários da língua portuguesa não men- cionam nem este nem o termo córtice empregado pelo Dr. Vicente de Souza. O diccionário latino-português de Saraiva, diz que em latim é do gênero masculino e se declina córtex, icis. O laureado professor Francisco de Castro con- serva 'nesta palavra a forma latina e lhe dava o gênero feminino. Ainda me lembro muito bem que o nosso glorioso mestre dizia sempre a córtex ce- rebral, e agora mesmo acabo de verificar que era esta sua opinião lendo uma carta que dirigiu ao eminente professor Dr. Vicente de Souza a respeito da traducção da obra sobre as localisações cerebraes e a physio-pathologia da linguagem, que lhe fora offerecida. O trecho a que me refiro é o seguinte: « Para quem quizer inteirar-se das funcções da córtex cere- 26 bral desde o processo psychomotor até o mechanismo da linguagem, os seus factores e as suas desordens, as licçoes de Bianchi são preciosas. » O Dr. Vicente de Souza prefere a forma córtice e adopta para ella o mesmo gênero (masculino) que em latim. Logo no começo da licção I das locali- sações cerebraes diz este illustrado latinista: «Antes de iniciar o estudo dos diversos feixes commensu- raveis que ligam o córtice cerebral com os ganglios e os outros orgãos da base e particularmente com o mesocéphalo e a medula espinhal, quero deter-me algum tempo na doutrina das funcções daquella região do cerebro ». Coryza. - A este termo dão todos os diccio- naristas o gênero feminino. Moraes é o unico que o emprega 'no mascu- lino. Tanto 'no latim (coryza, se) como 'no grego (xópv^a, 37$ (a?) pertence este termo á P declinação e ao gênero feminino, razão pela qual deve em por- tuguês ter também este gênero. Diabetes. - Muita discussão tem havido sobre 0 gênero d'este termo. Entre os diccionaristas alguns 0 consideram feminino (Corrêa de Lacerda, Cândido de Figueiredo) e outros masculino (Fonseca, Ro- quete, Aulete, Francisco de Almeida e Frei Do- mingos Vieira). Este ultimo distingue diabetes (termo de medi- 27 cina) cie diabete (termo de physica) dando a este o gênero feminino e áquelle o masculino. Moraes dá-lhe os dois gêneros. Tanto 'no latim (diabetes, oe) como 'no grêgo (áca-^T^ç, ov (ó), per- tence este termo á 1^ declinação e ao gênero mas- culino. Deriva-se de ^aSaívo (passar, atravessar) que se compõe de áta (através) e ^atvo (andar, marchar). A respeito d'este termo diz o Dr. Silva Lima: Diabetes, é masculino 'na lingua latina e o mesmo gênero é geralmente adoptado 'no Brasil; entretanto os auctores portuguêses, como por ex. os Drs. Ma- cêdo Pinto e Abel Jordão escrevem a diabetes; os italianos e hespanhoes dão-lhe igualmente o genero feminino. Aulete e Frei Domingos Vieira, Aos seus diccionarios dão-lhe o gênero masculino o que é mais conforme com a lingua de onde directamente nos veio o termo. Gramma. - A que genero pertencerá este termo ? Entre os diccionaristas alguns dão-lhe ambos os gêneros (Moraes e Aulete), outros dão-lhe o feminino (Francisco de Almeida e Corrêa de La- cerda) e outros finalmente dão-lhe o gênero mascu- lino (Fonseca, Roquete, Domingos Vieira e Cândido de Figueiredo). A respeito d'este termo diz o Dr. Silva Lima: «Gramma, 'no systema decimal de pesos é consi- 28 derado masculino por alguns médicos e pharmaceu- ticos e feminino pela maior parte, em Portugal e no Brasil, apesar de o fazerem masculino os francêses. E' feminino no latim (?) e entretanto Frei Domingos Vieira e Chernoviz escrevem o gramma. Todos os termos compostos com o suffixo gramma embora elle tenha outra accepção que a de peso... são invariavelmente precedidos do artigo masculino. Não vejo razão para essa incoherencia na 'nossa lingua, dizer-se uma gramma e um telegramma, uma gramma e um kilogramma. » O Dr. Vasconcellos de Queiroz distingue gramma (peso) de gramma (linha, lettra) e depois de algu- mas considerações sobre a questão diz o seguinte: «neutro em grego, o gramma (letra) passou para o masculino português, através do latim e se encontra em epigramma, anagramma, metagramma, mono- gramma todos masculinos. Quanto ao gramma (peso) veio, não do grego, mas da forma já latinizada gramma, atis, neutra, abreviada do grammazion grego. Com effeito dos diccionarios gregos que pude con- sultar nenhum dá essa palavra gramma como pêso e quasi todos dão grammazion. E este gramma, atis latino, neutro, não se deve confundir com gramma, ae, feminino, forma latina de gramme (palavra grega que também significa letra). Esta confusão tem sido feita por muitos e se encontra no Magnum Lexicon, d'onde talvês o 29 Dr. Silva Lima tirou aquella sua affirmação de que gramma (peso) é feminino em latim. De accordo pois com a etymologia; de accordo ainda com os princípios da coherencia (visto que dizemos mascu- linos o deci, - o centi, - o milligramma, - o deca, - o hecto, - o myria, - o kilogramma) o correcto será dizer-se o gramma. Era masculino entre os latinos, masculino em França e masculino passou para nós » aflirma Cân- dido de Figueiredo, dando á questão uma nova face que a faz cahir no II postulado. Pois se foi mascu- lino quando passou para o português, porque lhe havemos de mudar agora o genero contra todos os princípios ? » - A respeito d'esta questão conhêço ainda uma outra opinião a do Sr. A. T. auctor do «Estudo da lingua vernacula» que ao termo gramma prefere a forma grammo. Diz este conceituado professor: «A palavra grammo não é derivada do termo gramma, como muitos erradamente ensinam, porque gramma signi- fica lettra, escripta, carta, litteratura, gravura ou o que tem referencia com as lettras; mas nunca peso ou coisa que com elle se relacione, como poderemos verificar nas seguintes palavras formadas de gramma: anagramma, diagramma, epigramma, grammatica, monogramma, programma, telegramma. A palavra grammo vem do grego grammarion, nome de um peso grego igual a ou de uma onça, etc. 30 0 professor A. T. e o Dr. Vasconcellos de Queiroz não encontraram nos diccionários grêgos a palavra gramma 'no sentido de peso. O Dr. Queiroz encontrou o termo grammazion e o professor A. T. grammarion de onde suppoem ter se derivado o termo grammo ou gramma. Mais feliz do que ambos, fomos pois, ao folhear o grande dic- cionário grego-francês de Chassang, encontrando á pagina 212 o que não conseguiram achar: ypag.ua aro<; (ró) écrit de tout genre : livre, lettre, mémoire, placet, quittance etc. tableau, scrupule, gràmme^ poids; et au pluriel, lettre ( caractères), lettres (épitre); littérature; pièces écrites dans un tribunal; actes publiques. Em relação ás formas grammazion, grammarion já não fomos feliz, porquanto por mais que pro- curássemos não conseguimos encontral-as; o que en- contrámos porém de semelhante foi: ypaggátLOv, òv ( tó ) petite lettre, petit caractère d'écriture. Tanto 'no latim (gramma, atis) como 'no grego (Vpágga, aroç) pertence este termo ao gênero neutro e á 3- declinação. Gramma, atis - subs. neutro, significa gramma ou escrópulo (peso de 2 obolos) = 1,5 grammas. Gramma, m, que se derivou do grego 'ypaggr/, vjç (tí) significa linha, traço, fim, termo, e grammm, arum, significa lettras, caractères. Não se confunda grama (planta) com gramma (peso); o 1? se escreve com « m» e se declina em 31 latim gramen, inis, ao passo que o 2o se escreve com «mm» e se deriva de gramma, atis. Em relação a esta questão (etymologia da pa- lavra gramma) escreveu o erudito philólogo Sr. Cân- dido de Figueiredo analysando o livro do professor A. T. o seguinte : « - Grammo. - Sob esta epigraphe, entende o autor que não aportuguezamos bem os termos fran- ceses gramme, mètre, litre, are, stère, etc., e que em nossa lingua deviamos dizer grammo, aro, este- reo..., assim como outras nações amoldaram esses termos á indole de sua lingua. A tal respeito deve notar-se que o italiano, que depois do castelhano, é a lingua mais irmã da nossa, diz, como nós, gramma ; e inda que num caso ou noutro possa ser objecto de reparo a termilogia do systema métrico, seria inultil tentar a transformação daquillo que se vul- garisou. A própria graphia kilo, como prefixo e como abreviatura de kilogramma, é graphia errónea, por- que do grego kilioi só devemos formar quilio ou chilio. Mas essa graphia errónea, inventada com o systema métrico, não só se vulgarisou entre nós, mas tem até o caracter de convenção internacional, que os grammaticos não podem recusar embora a reconheçam defeituosa. Vai mais por diante o autor, advertindo que gramma^ ou como elle diz, grammo não vem do grego gramma^ cujo significado não é nada que se relacione com pesos; mas sim do grego 32 grammarion, que é neutro, e só pode passar para o português sob a forma de grammo. Vai nisto um punhado de confusões. Efléctivamente, o significado proprio ou primitivo do grego gramma é lettra, ca- rácter, gravura Mas o que o Sr. A. T. poderia saber também é que esse termo, entre os médicos gregos, significava em accepção extensiva um deter- minado peso: e daqui veio o francês gramme e o português gramma. E não será preciso demonstrar que grammarion não podia produzir tal palavra. Não ha grammatico nem philologo que pudesse descobrir as leis phone- ticas que presidiram á evolução de grammarion até se converter em gramme (francês) em gramma (por- tuguês), ou em grammo. Hematocele. - Em relação a este termo di- vergem os diccionaristas, uns quanto ao gênero e outros quanto a prosódia. Francisco de Almeida, Caídas Aulete e Cândido Figueiredo opinam pelo gê- nero masculino, porém, Roquete, Moraes, Lacerda e Domingos Vieira adoptam o feminino. Com ex- cepção do Sr. Cândido de Figueiredo, que pronuncia hematócele, todos os demais diccionaristas mandam pronunciar hematocéle, isto é, como paroxytonas todas as palavras terminadas por ceie (tumor). O professor Cortesão 'no seu diccionário diz até o seguinte : de- vemos pronunciar hematocéle e nunca hematócele- O que dicemos em relação a hematocéle pode- 33 mos dizer com pequena alteração em relação a hydro- cele, enterocele, epiplocele etc. O Dr. Silva Lima diz que hydrocéle, hematocéle, bubonocéle, encephalocéle, epiplocéle são do gênero feminino 'no latim; nós em geral fazemo-los todos masculinos com excepção de hydrocele a que uns dão o gênero feminino outros sem razão plausivel o mas- culino. O Dr. Vasconcellos de Queiroz diz 'no seu excel- lente trabalho sobre os vícios da linguagem o se- guinte a respeito de hematocéle e outros termos acabados em ceie : - « Como já se viu a respeito de hybridismos os nomes assim compostos com ceie devem ser femininos. Entretanto encontro-os com o genero masculino em escriptos em português como em diccionarios; muitas vezes succede que o mesmo autor dá um genero a um e outro a outro dos compostos de kele como faz Roquette; João de Deus dá-os todos masculinos. Entre nós ainda ha quem os faça masculino, mas me parece que tende o erro a desapparecer. E não duvido de que para isso tenha concorrido a opi- nião do Dr. Silva Lima exarada em seu glossário». - Compõe-se esta palavra de 2 elementos grê- gos, a saber: atoç (rò) sangue e (37) que significa hérnia tumor. Epulis.- O Dr. Vasconcellos de Queiroz diz a respeito deste termo 0 seguinte : 34 - « Tomado do grego em sua forma inalterada, feminino naquelle idioma, é feito muito frequente- mente masculino em português. ( Em alguns diccio- narios encontra-se a forma epúlida, (tirada de um dos casos obliquos) a qual resolveria essa questão como ainda uma outra levantada pelo Dr. Silva Lima sobre a pronuncia deste termo ».) O Dr. Silva Lima acha que se deve pronunciar epúlis e não epulis. Todos os diccionários que con- sultámos (Fonseca, Roquete, Francisco de Almeida, Aulete, Figueiredo, Lacerda, Moraes e Domingos Vieira) dão a fornia epúlida e o genero feminino. Alguns d'entre estes diccionaristas mencionam tam- bém a forma epúlia que é análoga á parúlia muitas vezes empregada em vez de parúlida. Os francêses usam de 3 formas : epulide, epulie ou epulis. Epulis vem do grego e7tovXí$, íáoç (>7) que si gnifica excrescência 'na gengiva. Compõe-se esta palavra de 2 elementos : 0 1? ení (sobre) e 0 2o ovhíç, íboç (>7) que quer dizer gengiva. Na palavra parúlia ou parúlida 0 2? elemento é 0 mesmo que 0 de epulia e 0 1? elemento Ttapa signi- fica perto ao lado. íris. - Em relação a este termo diz 0 Dr. Silva Lima em seu glossário médico : « Tenho ouvido e visto escripto 0 iris e a iris para designar a mem- brana do olho que tem este nome. Em português, 35 francês e hespanhol o termo é masculino quer signi- fique essa membrana, quer o conhecido phenomeno meteorico também assim chamado; no latim, porem quer designe este phenomeno quer a divindade my- thologica dos antigos, quer a membrana a que os anatomistas deram este nome é do genero feminino.- Como a maioria dos que escrevem em português dizem o iris e o arco celeste, de onde se tirou o simile, se chama também o arco-iris julgo razoavel que se adopte invariavelmente para aquella palavra o genero masculino». O Dr. Vasconcellos de Queiroz não está de accordo com o Dr. Silva Lima quanto ao gênero da palavra íris. Em relação a este termo diz o illustrado Dr. Queiroz : « Em linguagem pura- mente medica se encontra sempre a iris, correcta- mente. Fallando porem do arco-celeste se diz ge- ralmente o iris por uma ellipse da palavra interme- diária arco - só se encontrando isto, entretanto em certa esphera mais culta, porque na linguagem cor- rente todos dizem sem excepção : o arco iris. Propõe o Dr. Silva Lima que também em medicina se diga o iris em bem da uniformidade, para que não destoe do iris da linguagem commum. É bom o fim mas o meio está máo. O que se passou na linguagem commum, a ellipse da palavra intermediária dando em resultado a juncção do artigo ao elemento secundário iris passar-se-á a cada mo- mento com a expressão medica a membrana iris, mais logo supprimindo membrana, ninguém terá o cuidado 36 de se lembrar que num caso deverá dizer a e no outro o. Remediando um mal é preciso saber aproveitar as tendências naturaes : e que estas são contrarias ao meio proposto pelo Dr. Silva Lima prova-o a frequência de casos semelhantes a este : a hymen, a membrana hymen; o cholera, o cholera-morbus (aqui ha proposição da idéa principal) as vogaes, as secundinas etc. Aproveitemos antes esse acaso feliz que deu mais uma cousa correcta á linguagem medica : con- tinuemos a dizer a íris. O povo continuará a dizer o arco-iris e os litteratos, esses tomem o exemplo de Vieira que dizia do arco celeste, a iris).» Quási todos os diccionaristas dão á iris (termo de anatomia) o gênero masculino, alguns dão-lhe porém ambos os gêneros (Aulete, Francisco de Al- meida e Figueiredo). Como termo de botânica todos o consideram feminino ex.: a iris lusitana é ama- relia. E também feminina como termo de Zoologia, de Mineralogia, de Astronomia e Mythologia. Tanto 'no grêgo (Zptç, e loç (ti) como 'no latim (iris, is ou idis) pertence esta palavra á 3^ de- clinação e ao gênero feminino em todas as accepções, excepto quando significa o rio da Asia hoje deno- minado Kassalmak ou lekil-irmak que desagua no Ponto Euxino. O diccionarista Corrêa de Lacerda diz que em atim e 'no grêgo a palavra iris quer se refira ao 37 arco celeste, a deusa íris, mensageira dos deuses, quer á flor do lirio, pertence sempre ao gênero fe- minino. Os etymologistas derivam o nome grego de eiro que significa dizer, prognosticar, porquê o arco- iris annuncia o bom tempo depois da chuva. Em egypcio iris significa a aurora e iorh a pupilla do olho. O professor Cortezão emprega sempre iris (termo de anatomia) 'no gênero feminino como podemos observar 'no seguinte período; 'na seguinte definição de iridorréxia - : - termo de c.-rasgadura da iris, que se practíca quando esta membrana está infima- mente unida ao crystallino por synéchias posteriores totaes. Lumbago. - A respeito d'este termo diz o Dr. Silva Lima em seu glossário médico: « Lumbago : é feminino em latim. Nos o faze- mos masculino indevidamente, pois que o caso é analogo ao de pélvis, etc.: Lumbago, inis teria dado em português, pelos processos etymologicos ordiná- rios, lumbagem como virgo deu virgem (virginem) como imago deu imagem (imaginem) etc. Assim lumbago é a forma latina tomada erudi- tamente para a linguagem scientifica, á qual não se póde perdoar certos desvios ». Todos os diccionários que consultámos (Roquete, Aulete, Francisco de Almeida, Moraes, Cândido Fi- gueiredo, Domingos Vieira) dão a esta palavra o 38 gênero masculino. Em latim se declina lumbago, inis; pertence á 3^ declinação, é do gênero feminino e significa fraqueza dos rins. Omoplata. - Todos os diccionaristas dão a esta palavra o gênero feminino, entretanto temos ou- vido sempre de estudantes e mesmo de professores o omoplata e alguns ha que não duvidam em escre- ver desta forma em suas publicações. Em um trabalho mui conhecido sobre Anatomia descriptiva encontrámos á pag. 170 o seguinte: - A espinha do omoplata tem 2 faces, etc. Os anatomistas portuguêses dão a esta palavra o gênero feminino. Em Serrano (osteologia humana) encontrámos á pag. 11: a espinha da omoplata, a cristã da omoplata. Na pag. 9 diz este anatomista: «No século passado, João Lopes Corrêa, e o traductor português da cirurgia de Leclerc, com Dufan e Leitão, e ainda ao presente o professor brasileiro Pereira Guimarães, escrevem o omoplata, crendo provavelmente applicar com critério a conhecida regra de que os substan- tivos em a, derivados do grego são masculinos em português. Ora omoplata, de omos e platê, não termina em a na lingua originaria; fica pois sugeita á regra commum, devendo com Santucci, Santos de Torres, e o traductor português da Anatomia de Sabatier, no século passado, e no século actual com Soares 39 Franco e o professor brasileiro Nunes Garcia, dizer- se singelamente a omoplata, como aliás penso, hoje por toda a parte é de uso em Portugal.» Pélvis ou pelve - é do gênero feminino e não do masculino como muita gente diz. Em todos os diccionários vem mencionado como pertencendo ao gênero feminino; vem do latim pélvis, is (a bacia) que se deriva do verbo perluo ou pelluo, is, ui utum, uere que significa humedecer, banhar-se. Na Osteo- logia de Serrano encontrámos este trecho: «Falia da pelve que hoje nomeamos bacinete, e dos vasos ure- téres; dos vasos sanguíneos e lymphaticos dos rins, bem como dos seus nervos». Podemos empregar qualquer uma das formas pélvis ou pelve; a P é latina e a 2^, portu- guêsa. Pubis ou pubes. - Quási todos os dicciona- ristas dizem ser esta palavra do gênero masculino. Serrano a emprega sempre 'no feminino. 'Na sua Osteologia encontrámos o seguinte tre- cho á pag. L : « seguem-se a clítoris de substancia esponjosa e com dous corpos a modo de pernas nas- cidas dos ossos da pubes ». Em latim é do gênero feminino e se declina pubes, is que significa pen- nugem, buço, pello. 'No seu diccionário da lingua portuguêsa diz Corrêa de Lacerda que esta palavra vem do egypcio pifui que quer dizer cabellos. 40 Pubis ou pubes podem ser usados indiíferente- mente; ou á latina ou á portuguêsa. Pharynge e larynge. - A respeito d'estes dois termos diz o Dr. Silva Lima em seu glossário médico : « - Os portuguêses e hespanhoes dizem a pharynge e a larynge, posto que eu já li algures em escriptos do fallecido professor A. M. Barbosa, ambos os modos de escrever, talvez por erro typo- graphico. Nós dizemos invariavelmente como os francêses o pharynge e o larynge, mas no grego e no latim ambos os termos são do genero feminino e não vemos razão para que lh'o mudemos, sendo nós os únicos á excepção dos francêses a afastar-nos das linguas mães e dos demais da familia latina». O Dr. Fragoso Tavares escreveu em resposta ao Dr. Silva Lima 'na Medicina Contemporânea o seguinte : «Foi novidade o facto de ter alguma vez escripto o professor A. M. Barbosa o pharynge e o larynge. Tem perfeitamente razão o Sr. Dr. Silva Lima quando prefere fazer femininas estas palavras. Está provavelmente a causa do erro no habito d'aprender por livros francêses, e afrancesar pro- núncia e até construcção grammatical, o que não é vicio especial dos médicos, mas de toda a gente tanto em Portugal como no Brasil. Condemnavam já isto os nossos Filinto Elysio, Tolentino e outros. Talvez 41 pelo mesmo motivo dizem muitos médicos portugue- ses o tabes em vez de a tabes quando a palavra é latina e do gênero feminino. Se fosse do neutro ainda poderia haver duvida. Chólera também é feminino em latim mas alguns portugueses dizem o cholera e creio haver bastos vo- lumes escriptos a este respeito; cá vou continuando a escrever a cholera. » Em relação á palavra pharynge divergem os diccionaristas. Alguns como Fonseca e Roquete dão-lhe o gê- nero masculino porém outros como Moraes e Domin- gos Vieira dão-lhe ambos os gêneros e ainda outros Aulete, Francisco de Almeida e Cândido Figueiredo adoptam o gênero feminino. A palavra pharynge 'no grego 0apuy^, i>yyo$ pertence á 3^ declinição e ao gênero feminino, pro- veiu de 0apay£, ayyog que significa valle profundo, precipício, abysmo, garganta entre duas montanhas; hoje significa propriamente a porção do tubo diges- tivo situada entre a bocca e o esóphago. A palavra larynge é commummente empregada 'no masculino, não só pelos estudantes como também pelos professores. De modo diverso pensam os Drs. Vasconcellos de Queiroz e Silva Lima que aconse- lham empregal-a 'no feminino, pois que 'no grêgo pertence a este gênero; do mesmo modo pensam em relação á palavra pharynge. 6 42 Quanto a esta última estamos de accôrdo, mas não quanto á primeira que em grego pertence ao gênero masculino e não ao feminino como se póde observar 'no diccionário grêgo-francês de Chassang. Durante muito tempo suppuzemos ser incorrecto dizer-se o larynge como se costuma dizer vulgar- mente, porém hoje temos dúvidas visto como o pro- fessor Chassang a menciona como pertencendo ao gênero masculino e entre os diccionaristas as opi- niões divergem muito; assim é que: Fonseca e Roquete a empregam 'no masculino; Moraes e Do- mingos Vieira dão-lhe ambos os gêneros; e Aulete, Cândido de Figueiredo, Francisco de Almeida e Cor- rêa de Lacerda dão-lhe o gênero feminino. A palavra larynge 'no grêgo é do gênero mas- culino 0), pertence á 3^ declinação e se declina Zapéyç, vyyoç que se compõe do prefixo Za e do verbo pey^o que significa soprar com ruido. A respeito da etymologia d'esta palavra encon- trámos no diccionário da língua portuguêsa de Cor- rêa de Lacerda o seguinte : « Larynge ou larynx - s. f. (do gr. larynx ; de la rad. de lalein, fallar, derivada do egypcio la ou laç, lingua e rhynkhos, abertura da bocca.) As palavras pharynge e larynge em francês pharynx e larynx conservam a fórma do nominativo grego $apD/$ et Zapuyç o que se não dá em por- (1) Vide diccionário Grec-français de Chassang. 43 tuguês cuja fôrma fazemos derivar do genitivo e temos então pharynge e larynge. Todas as palavras que têm o nominativo grego em vyç conservam a mesma fôrma em francês mas em português mudam porém o vyç em ge (fôrma do genitivo) excepto em crvpíyç que conserva sempre a mesma fôrma. Alguns diccionaristas como por ex.: Lacerda e Domingos Vieira mencionam a fôrma no- minativa larynx usada antigamente. Os anatomistas antigos empregavam sempre a fôrma larynx como podemos verificar no seguinte trecho de Bernardo Santucci transcripto por Serrano no vol. II d'a sua Osteologia humana: « Q Descreve com clareza e exactidão os actos mechanicos da respiração, a qual divide em livre ou insensivel e coacta ou grande. Por ultimo define as especies violentas da respiração, a saber: soluço, riso, tosse e bocejo; e o som e tons da voz de que a glottis ou rimula da larynx é o orgão proprio e immediato Ozêna.-Esta palavra é empregada por uns 'no gênero feminino e por outros 'no masculino. Todos os diccionaristas dão-lhe o gênero feminino. Tanto 'no latim ozena, se, como 'no grêgo >7$ (ti) pertence este termo á declinação e ao gê- nero feminino, devendo por este motivo ser também feminino em português. (1) Este trecho foi transcripto da Anatomia de Bernardo Santucci que foi tra- duzida do italiano para o português pelo padre D. Celestino de Seguineau em 1739. 44 Rachis, ou melhor Rhachis, segundo Littré (l). - E' sempre empregada 'no masculino (talvez seja devido a influencia francêsa; os francêses dizem le rachis) entretanto pertence ao gênero feminino. Com excepção do diccionário do Frei Domingos Vieira que regista esta palavra 'no masculino, todos os ou- tros dão-lhe o gênero feminino. Em grêgo pertence á 3^ declinação, se declina e pertence ao gênero feminino. Tabes.-Do mesmo modo que a palavra rhakhis é esta commummente empregada 'no masculino de- vido a influencia francêsa: os francêses dizem le tabes. Tabes é uma palavra latina do gênero feminino razão pela qual em português deverá pertencer tam- bém a este gênero. Dos diccionários portuguêses consultados sómente o de Cândido de Figueiredo a menciona considerando-a do gênero feminino. Tenia.-Alguns a empregam 'no masculino e outros 'no feminino. Estão com a razão aquelles que dizem a ténia, porque esta é uma palavra latina do gênero feminino, da P declinação, (tmnia, ae) que quer dizer fita, faixa. 'No grêgo também pertence esta palavra ao gênero feminino e se declina raivía, ag (97) (P declinação). (1) Littré prefere & graphia rhachis pôr estar mais de accordo com a etymologia. Se quiséssemos ser mais rigorosos deveríamos escrever rhakhis á maneira de Julio Ribeiro, que propõe representar sempre por kli o signal grego % em vez do ch afim de facilitar a pronúncia, pois que o ch tem diversos sons. 45 Tibia. - E' erro imperdoável empregar-se esta palavra 'no masculino. Em relação a este termo o accôrdo é unanime entre todos os diccionaristas re- gistando o gênero feminino. Pertence á declinação latina tibia, se e é do gênero feminino 'nessa lingua. 'Na poesia significa frauta pastoril, 'na zoologia é a 3' articulação das pernas dos insectos e 'na anatomia é o mais grosso dos dois ossos da perna situada 'na parte anterior da mesma, conhecida também pelo nome de canella. Corrêa de Lacerda diz 'no seu diccionário da língua portuguêsa que tíbia vem do egypcio tibis que significa pé, calcanhar, perna de animal e de homem. SEGUNDA PARTE Dos vícios que se referem sómente á graphia Poucas são as palavras que teremos de discutir 'nesta parte. Vamos começar pelo vocábulo: Camphora. - (termo de chimica orgânica). Esta é a forma mais usada, entretanto a graphia cânfora parece ser mais racional. Quási todos os dic- cionaristas conquanto reconheçam ser esta palavra de origem árabe (kafur) escrevem não obstante com ph em vez de f, como se fosse de origem grêga. Os diccionários portuguêses de Aulete, Corrêa de Lacerda, Francisco de Almeida, Frei Domingos Vieira e Roquete escrevem sempre cámphora. Os francêses usam sempre a graphia camphre. 'No diccionário de medicina de Littré encon- trámos : - Camphre -, do latim camphora, do persa khafur, do grego xa^ovpa. 48 'No diccionário de Hatzfeld e Darmestetér en- contrámos : - Camphre - tirado do baixo latim cam- phora, alteração do árabe kafour. O diccionário etymológico da língua francêsa do abbade J. Espagnolle dá - : Camphre - - dor, por xa<povça e por contracção xa<pça cafra e depois canfre que é o velho francês. O professor Pereira Coruja diz 'no seu compên- dio de orthographia da língua nacional preferir a graphia cânfora; do mesmo modo pensa o Sr. Adol- pho Coelho que assim se externou 'no seu livro denominado : a língua portuguêsa. Finalmente Frei João de Sousa 'na sua obra «Vestigio da lingua arábica em Portugal» diz que esta palavra é árabe e deve ser escripta com f. Frei Domingos Vieira diz que a palavra cám- phora se encontra em todas as linguas românicas e 'no baixo grêgo (kaphoyra) ; vem do árabe (cafar) que se crê vir do sánskrito (carpura) palavra que se liga á raiz kar (ser duro) assim como outros nomes de árvores taes como karpâsi, o algodoeiro, karpâsa, o algodão e 'no grêgo kárpasos e latim carbasus, etc. - Moraes menciona 'no seu diccionário ambas as formas sem todavia declarar qual a melhor. O Sr. Cândido de Figueiredo, ao contrário dos outros diccionaristas declara positivamente 'no seu diccionário da língua portuguêsa que esta palavra deve escrever-se com f. pois cânfora vem do árabe cafur, do sánskrito carpura, e á pag. 25 do seu 49 livro «O que se não deve dizer» escreve e com muita razão : - « Mais curiosa ainda é a camphora, que appa- rece em toda a parte com o tal ph como se a pala- vra fosse de origem grêga. Do arabe al-cafur tirámos alcânfor, e os nossos sábios de quotiliquê, mais affeiçoados a hellenismos e latinismos do que a arabismos, imaginaram um latim chímico camphora que não tem nada que se justifique. A escrita exacta é cânfora, canforar, canforeiro, canforífero ». Massagem.-Como deverá escrever-se a pala- vra massagem ? Será com ss ou com ç ? Eis aqui um caso de difficil solução. Os francêses dizem massage. Tanto 'no francês como 'no português deve ter esta palavra a mesma origem e idêntico processo lexicogênico. Em todos os diccionários francêses que consul- támos, encontrámos a palavra massage sempre gra- phada com ss, ao passo que 'nos portuguêses encon- trámos com ç. Entre os diccionaristas francêses não ha diver- gências em relação a gráphia, mas sim quanto á origem. Dizem alguns como : Littré, Dechambre, Duval- Lereboullet, Landouzy et Gorecki, Galtier-Boissière, Garnier et Delamare que massage se deriva do verbo grêgo poaMeiv que quer dizer amassar; porém outros 6 50 como Bouillet, Hatzfeld e Darmestetér, Grimblot e Stappers acham que se origina do verbo árabe mass (etymologia de Pihan) que quer dizer tocar, esfre- gar, apalpar. Se vem do grego ([lacGElv) devemos escrever em português massagem com ss e não ç, a não ser que haja alguma regra de grammática que auctorise a permuta do 55 das palavras gregas em ç; mas se assim fosse deveríamos por ex.: escrever masséter com ç, porquanto a graphia grega é ^acoer^p que se escreve com ss. Mas se vem do árabe talvez seja legítima a gra- phia maçagem. Com effeito, 'nos diccionarios de Moraes, Frei Domingos Vieira, Cândido de Figueiredo e 'no livro «Vestígios da lingua arabica em Portugal» de Frei João de Sousa, encontrámos escriptas com ç palavras que 'no árabe se representam com ss como se pode verificar ás pags. 6, 7, 9 e 10 do citado livro de Frei João : « Açacal- Assacá. Participio do verbo sacá, regar, dar de beber. Significa Aguadeiro. Bois de carga, que servião de açacáes de carretarem agua. (pag. 6). Açafate - Assafate. Cestinho sem arco, nem asas em que se mette pão, roupa, ou outra qual- quer cousa, (pag. 7). Açular- Assala. Enfurecer, irritar, (pag. 10), Açucena - Assusana. Flor bem conhecida. Deriva-se do Hebraico zuzan. (pag. 9). Açude - Assode. Lugar, onde a agua do rio, ou 51 levada faz preza. Deriva-se do verbo surdo - Sadda, tapar, impedir, reprezar o curso da agua, etc. (pag. 9). Açougue - Assoco. Praça, ou lugar onde se ven- dem comestiveis: os Árabes não só dão este nome ao lugar onde se vende a carne; mas também o peixe, fruta, hortalice e mais cousas. Os Castelha- nos o pronunciam sem corrupção assoco. Deriva-se do verbo saca, que na oitava conju- gação significa comprar, feirar, fazer negocio com compras, e vendas, (pag. 9). Açúcar - Assocar. Deriva-se do Pérsico xaccara que significa o mesmo (pag. 9). » Como acabámos de ver todos estes termos ára- bes em que entra o ss são escriptos em português com ç. Parece ser esta a razão 'na qual se funda o Sr. Cândido de Figueiredo em aconselhar a graphia maçagem. Em relação a este termo escreve o eminente grammático á pag. 189 do seu livro « O que se não deve dizer»: -E, já agora, preso por dous, preso por três. Não porei ponto, sem alludir também á sem- ceremónia com que vários terapeutas receitam aos seus doentes algumas sessões de massagem. E' disparate análogo ao da massada. Um douto professor já pretendeu sustentar a coisa, allegando- me que a palavra veio directamente do francês onde masse também significa maça. Estávamos servidos, se a ortographia francêsa nos servisse de norma ! 52 Para os nossos dois verbos maçar e amassar, também distintos no castelhano e no italiano, os francêses têm só a fórma masser, se bem que o Littré duvide da origem da palavra no sentido terapêutico; e, quando se ignora a origem de uma palavra, a sua escrita considera-se convencional ou arbitrária. Para nós ha maçar e amassar, vocábulos distin- tíssimos ; e, ainda que massagem pudesse estribar-se no substantivo massa, donde se fez amassar, seria- mos levados a dizer amassagem e não massagem, porque o a protético do verbo, nunca podia sepa- rar se do substantivo verbal. Ora, se a amassagem não serve, nem se usa, menos nos serve a massagem. E comtudo acho prová- vel que os terapeutas se façam desentendidos e con- tinuem, de animo leve, a receitar massagens.» Sobre esse mesmo assumpto escreve o Sr. Fi- gueiredo á pag. 278 de seu livro : Lições práticas da língua portuguesa: « Não me lembro onde, nem a que propósito, estranhei que os médicos digam habitualmente mas- sagem, por me parecêr que a respectiva operação consiste em maçar e não massar. Em abono da praxe, e contra o meu parecêr, veio lidar comigo um lente da escóla médica de Lisboa, Bettencourt Raposo, que, num diário da capital, me distinguio com as seguintes referencias: «Quer Caturra Júnior que escrevamos maçagem, como se o termo derivasse de maça (clava, etc.) ou 53 de maço. Peço vénia; mas não tal. Ha em portu- guez maçagem, significando a acção de maçar, bater com maça ou maço; todavia sem parentesco algum com a massagem medica. Esta sim que nos veio de França, e que se mantém gallicismo pela forma; por- quanto o portugez pedia amassagem pelo verbo amas- sar ; ao passo que o verbo amassar nem se usa, nem seria muito proprio que se usasse. Originariamente franceza, estava em seu direito de conservar a orthographia que trouxe de França; onde aliás masse (clava) massue (idem) e masse (pasta) tudo tem ss. Quando, porem, não fosse por essa razão, também pela que Caturra Júnior invoca em contrário, á massagem medica pertencem dois 55 ; porque ella não deriva, nem por linhas tortas, de maça ou maço. E chama-se massagem porque sobre 0 orgão ou região do corpo a ella submettidos, se fazem movimentos como de amassar. A parte enferma é amassada pelos dedos e mãos do operador». Que extraordinárias teorias me revela a lição do esclarecido professor ! Por ser originariamente francesa, estava, (a massagem) no direito de conservar a orthographia que trouxe de França 1 Mas isso é inaudito ! Por que razão não conserva 0 doutor a orto- graphia que 0 seu chapéu trouxe de França ? Porque não lhe chama chapeau? Para mim a questão má- xima não é saber se massagem vem de maça ou de massa. O doutor diz que vem de massa; mas, 54 nesse caso, se não é maçagem, também não pode sêr massagem: seria amassagem; e o doutor que tem voz e crédito no cenáculo dos técnicos e tera- peutas, e que timbra em rebuscar as mais lídimas palavras portuguêsas, tem o imprescritível devêr de dizer aos seus collegas que amassem os doentes, e que sejam destros na amassagem. Na massagem nunca porque tal não deve dizer-se em boa linguagem por- tuguêsa. Perante as razões do doutor e as mi- nhas, é simples o dilemma : amassagem ou maçagem. Aceito, para uso alheio, qualquer das duas : massa- gem, nunca ». O Sr. prof. Cortesão auctor dos «Subsídios para um diccionário completo (historico-etymologico) da lingua portuguêsa» não está de accôrdo com o Sr. Cândido de Figueiredo, mas limita-se apenas em dizer que escreve massagem e não maçagem e que a palavra se deriva do grego mássein que significa amassar e que tem analogia com o hespanhol masage e o francês massage. O Dr. Chernoviz em vez de maçagem adopta o termo maçadura. (Formulário, 17* edição, 1904, pag. 793). Em relação a este termo diz o illustrado lati- nista Dr. Castro Lopes, á pag. 82 do seu livro (Neo- logismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis) o seguinte : - Chama-se modernamente em medicina Massage certo processo, que consiste em fazer me- thodicamente com as mãos em diversas partes do 55 corpo pressões e calcaduras no intuito principalmente de provocar a actividade vital para esses ponctos. Ora esse processo era conhecido e empregado pelos Egypcios e na índia geralmente praticado. A sciencia Occidental adoptou-o, e com o nome de Massage o empregam os médicos no tractamento de varias doenças principalmente nas paralysias. Deve porém quem quer falar com a possivel pu- reza o idioma vernáculo admittir sem mais ceremo- nias o barbarismo Massage ? That is the question. Consultado por um meu collega medico, moço recem-formado, e louvando-lhe o desejo de evitar a barbariloquia, propuz o termo premagem, substantivo derivado do verbo português - premar - cuja signi- ficação é opprimir, calcar, etc., podendo ser cha- mados, premadores os médicos que de tal modo de tractar fizeram estudo especial. Aos meus collegas, offereço o neologismo, que me parece de todo o poncto acceitavel». O Sr. Cândido de Figueiredo acha inútil o neo- logismo proposto pelo Dr. Castro Lopes, porquê já temos em português o termo maçagem que escripto com ç não é gallicismo. - Em relação a este termo escreve o erudito professor ainda mais uma vez no Jornal do Commercio de 1 -11- 1903 analysando o «Estudo da lingua vernacula do Sr. A. T.» as seguintes linhas : Massage. - Neste poncto o auctor transcreve e 56 subscreve um parecer do Dr. Castro Lopes; que massage, termo medico, é um barbarismo que deve ser substituído por premagem. Não discuto a vantagem da substituição, que apenas se me figura improfiqua, pelo menos em Por- tugal, onde a francezia massage só pode ser substi- tuída pelo seu verdadeiro aportuguesamento. Massage ou massagem é inadmissível, porque o termo francês não vem de masse (massa J nem de verbo que signifique amassar. Relaciona-se com outro verbo. O latim matea deu em francês masse, mas em castelhano é maza e em português maça. - De maça derivamos maçar e de maçar, maçagem. Parece-me esta a fornia portuguesa do alludido termo, e em tal caso, a substituição não é apenas difficil, é inútil». Crossa ou croça. - D'estas duas graphias qual será a legítima ? Nem um dos diccionários portuguêses que con- sultámos menciona a palavra crossa escripta com ss mas sim com ç, fazendo ver que esta palavra é uma corrupção de coroça assim como cronha é cor- rupção de coronha. Os diccionários francêses registam crosse porém declaram que 'na língua antiga se escrevia croce que a meu ver seria a forma preferível por ser a que mais se approxima da etymologia. 57 A palavra croça ou melhor coroça tem duas signi- ficações. Significando capote ou casacão de palha contra a chuva é termo de origem desconhecida, mas significando báculo, cajado provém do baixo latim (crucea). Segundo o Dr. Silva Lima o termo crossa não tem a significação restricta que lhe dão os anato- mistas, porquanto não significa tão sómente a porção curva da aorta, mas sim a sua totalidade que dá a configuração de báculo, cajado, etc. Em logar de croça da aorta poderíamos dizer á maneira dos inglêses e norte-americanos o arco ou a curva da aorta. A' opinião do Dr. Silva Lima oppõe-se a do ab- bade Espagnolle, auctor do : Le vrai dictionnaire ety- mologique de la langue française, que nos garante que a palavra «crosse vem do grego zpóocr^, que quer dizer croça, significando esta palavra a parte curva de uma croça». Este trecho final parece-nos pleo- nástico e confuso porque o auctor emprega a mesma palavra crosse para significar factos diversos. O que elle pretendia dizer é que a palavra crosse exprime a parte curva de unia artéria, isto é, de um vaso que tenha a forma de cajado (crosse), isto é, que crosse em relação a aorta significa justamente a curvatura d'esta artéria, e não toda ella como diz o Dr. Silva Lima. D'estas duas explicações parece-nos mais razoavel a do Dr. Silva Lima. 58 0 termo grego xpócrcr^ que nos refere o padre Espagnolle não vem registrado 'nos diccionários gregos pelo menos 'nos que consultámos; cremos ter havido algúm engano da parte do illustrado philólogo. A ser verdade o que elle nos affirma, isto é, que o termo crosse vem do grêgo xpócmrç, será errónea a graphia croçe do francês antigo e do mesmo modo a nossa croça ou coroça, sendo então legitima a forma crossa com ss conforme a opinião que emittimos quando tractámos da palavra massagem. Vejamos agora o que dizem os diccionaristas em relação a este termo. Cândido de Figueiredo e Mo- raes preferem a forma coroça á croça. Frei Domingos Vieira diz que antigamente se chamava coroça o báculo episcopal, a que 'na baixa latinidade diziam crocia e d'ahi proveiu a locução : « Ter um beneficio em coroça » que quer dizer tel-o com titulo jurídico e canónico e ser 'nelle collado e instituído pelo bispo. Esta palavra significando báculo, cajado, nada tem que ver com coroça (palhoça) cuja etymologia é desconhecida. Coroça (báculo) é a mesma palavra que o francês crosse, o hespanhol croza, o italiano croccia, gruccia, fôrmas que vêem todas do baixo latim crucia, crocia (e crossa, croceus) que deriva do latim crux, cruz. H. Stappers em seu diccionário synóptico de etymologia francêsa diz que antigamente se escrevia 59 croce e não crosse e que esta palavra significa o báculo pastoral, a parte curva da coronha da espin- garda e que em allemão krummstad (croça) si- gnifica litteralmente bastão recurvado, e mais adiante diz ser este termo de origem céltica, provindo da raiz crog. Laurent et Richardot, e Grimblot dizem que crosse, cuja graphia 'no francês antigo é croce, vem do baixo latim crucea (subentendendo-se o substan- tivo fustis) cujo sentido primitivo era mulêta em forma de cruz ». Augusto Brachet escreve o seguinte 'no seu diccionário etymológico da língua francesa : Crosse. - Ancien français croce en italien crossia, dans le latin du moyen age crucea derivé de crucem (croix.) Crucea signifie proprement une be- quille en forme de croix (le sens exclusif de crosse episcopal est moderne). On dit encore dans quel- ques provinces marcher aux crosses, en parlant des persones infirmes qui marchent à 1'aide de béquilles placées sous 1'aisselle ». Bouillet escreve 'no seu diccionário de sciências, lettras e artes o seguinte : - Crosse (du b. lat. crucia; de crux) bâton pastoral des evêques et autres pré- lats. La crosse a d'abord été de bois; aujourd'hui elle est d'argent ou d'or. Les anatomistes donnent ce nom aux courbures arterielles en forme de crosse ; telle est la crosse de 1'aorte », 60 Em relação a este termo escreve o Dr. Queiroz de Vasconcellos : - « Em português não existe crossa; croça ex- istiu mas com significação muito diversa da que tem a crossa anatómica. ( Segundo Cândido de Figueiredo, Lacerda, Faria, croça era uma especie de capote) E' pois crossa um gallicismo. Precisamos delle ? Tem para nós alguma vantagem ? Não parece. Si a simples palavra crossa fosse empregada para indicar o dado trecho da aorta, seria crossa na verdade insubsti- tuivel. Mas para quem diz (como todos dizem) a crossa da aorta, em tres palavras, tanto faz dizer crossa como curva, como outro termo qualquer de idêntica significação. Ora, nesse caso é preferível o termo vernáculo ». 'No seu glossário médico escreve o Dr. Silva Lima as seguintes palavras : « Crossa - em francês crosse e em hespanhol croza, é termo usado para designar o que os inglezes chamam arch of the aorta, e que nós também pode- ríamos ao monos como synonymo dizer arco da aorta. Mas crossa não se encontra na generalidade dos léxicos portuguêses e sim coroça ou croça com analoga significação á da palavra francêsa, isto é, de báculo de bispos e abbades, e originaríamente ca- jádo de pastor de onde vem a dupla analogia do symbolo da hierarchia ecclesiastica, e a da confi- guração da curvadura da grande artéria thorácica. Poderíamos adoptar por mais portuguêsas a palavra 61 croça alterando apenas a orthographia invariavelmente usada no Brasil e em Portugal e escrevendo croça da aorta ». O Dr. Fragoso Tavares analysando o artigo precedente do Dr. Silva Lima escreveu 'na Medicina Contemporânea de Lisboa o seguinte : Parece que o Sr. Dr. Silva Lima leu o que aqui disse o nosso A. Cirrhado ; até hoje ninguém escreveu melhor a respeito de croça ». Pouco tempo depois de publicado o artigo do Dr. Fragoso Tavares o Dr. Silva Lima escreveu as seguintes linhas : « Não tenho noticia de A. Cirrhado, nem do que elle disse ou escreveu a respeito de crossa, mas tenho quasi certeza de que não foi a da aorta que lhe serviu de thema. A respeito d'esta ultima direi ainda que rigoro- samente crossa ou croça (configuração de báculo) seria mais applicavel a toda a aorta do que á sua curvadura sómente. Arco da aorta como a deno- minam os inglêses e americanos designa a parte re- curvada do grande vaso thoráco - abdominal o que só convencionalmente succede com a expressão fran- cêsa crosse de T aorte ». Chyronomus ou chironomus ? - Todos ou quási todos os estudantes de histologia escrevem este termo com y. Durante muito tempo escrevi por essa fórma, 62 pois não cogitava fosse errónea. Lembro-me perfei- tamente que era esta a graphia usada pelos estu- dantes. Em diversos cadernos de aponctamentos de histologia que me oífereceram alguns collegas para copiar, verifiquei que a graphia adoptada foi sempre chyrónomus. Não ha motivo para se escrever com y. A palavra vem do grêgo oç (a mão) e vopoç, ov (ó) (a lei). Como acabámos de ver ^ap, oç em grêgo se escreve com t (ióta) e não com v (ypsilonn); por- tanto quem quiser escrever direito deverá escrever chirónomus com i. Quem escreve com y deve por coherencia es- crever : chyróptero, chyragra, chyrógrapho, chyro- mancia, chyrotonia, chyroscopia, chyroplasto, etc. A palavra chirónomus é latina (oriunda do grêgo ^eíporo^oç); se quisermos dar-lhe forma portuguêsa devemos escrever: chironomo. Dower ou Dover ? - Não sei por que motivo, nós e os francêses escrevemos Dower em vez de Dover que é a graphia legítima seguida 'na Ingla- terra, onde nasceu Thomas Dover. Manuseando diversos livros de pharmácia e diccionários portuguêses e francêses afim de verifi- car se algum d'elles registava o nome Dover escripto correctamente, notei que sem excepção todos escre- vem Dower. 63 Peço licença ao Dr. Silva Rodrigues para tran- screver aqui o seu brilhante artigo « Orthographia » publicado 'na Revista médica de São Paulo, afim de esclarecer bem o poncto em discussão. Escreve este distincto médico: a Não sei a razão Sr. redactor em virtude da qual a litteratura medica da França e do Brasil sempre que se refere ao pulvis ipecacuanhoe compo- situs em seus tratados de matéria medica e thera- peutica escreve o nome de seu inventor com w em vez de v. Livros francêses e brasileiros trazem - Pós de Dower, quando a verdadeira orthographia é - Pós de Dover, com v. O jornal medico Londrino The Lancei, em uma contribuição para a Historia da Medicina escripta por um dos mais distinctos médicos americanos William Osler, dá o seguinte, relativamente ao Ca- pitão Thomaz Dover, author dos pós que trazem o seu nome : Dover nasceu em Warwickshire em 1660, mais ou menos, era Bacharel em Medicina pela Univer- sidade de Cambridge; clinicou em Bristol onde ha- vendo angariado uma fortuna regular, ligou-se a uns negociantes e com elles fez uma viagem pelos mares sul-americanos, viagem cheia de aventuras que lhe trouxe considerável augmento de fortuna. Em 1721 mudou sua residência para Londres, onde salientou-se como clinico notável. 64 Falleceu na ultima parte do anno de 1742, aos 82 annos de edade havendo clinicado durante 59 annos, pois recebera o gráo de medico em 1683. Foi discípulo do Hippocrates inglês Sydenham de cuja predilecção pelo opio e seus derivados dão testemunho o aphorismo : - « Ad laudanum, tanquam ad sacram anchoram confugiendum est; e sine pa- paveribus, sine opiatis, et medicamentis, et iis con- fectis, manca et clauda esset medicina». E' muito possivel que o fanatismo do mestre pelos preparados de opio tivessem influido no espi- rito do discípulo para a invenção do pulvis ipeca- cuanhoe compositus, ou como trazem outros-pulvis ipecacuanhoe et opiis. Não sei, como acima disse, a razão pela qual franceses e brasileiros escrevem Dower, quando o nome do discípulo de Sydenham, author dos pós referidos é Dover escripto com v. Esta é a legitima orthographia da palavra, a unica seguida na Ingla- terra e nos Estados Unidos. Sei que é esta uma questiuncula de nenhuma importância, futil mesmo; entretanto parece-me que o acerto ó preferível ao erro e por isso tomei a liberdade de escrever estas linhas. » Rachis, raquis, rhaquis, rakhis, rhachis, rhakhis. - A Ia fórma é a mais usada. A 2? é usada por alguns grammáticos que ado- ptáram representar por qu o signal grêgo £. 65 As 3a e 4a fôrmas serão discutidas mais tarde. A 5a forma é preferida por Littré. Para Júlio Ribeiro a verdadeira graphia deve ser: rhakhis, porque representa fielmente a palavra Como acabámos de ver o signal grego £ corres- ponde para uns a qu para outros a ch forte, isto é, que equisona ao k, e para outros mais rigorosos a kh. D'entre os tres modos de representar o signal grego x me parece ser este último o melhor, pois tem diversas vantagens sobre os outros. 'No primeiro modo o leitor não sabe se a re- presentação qu pertence a uma palavra latina ou grêga; 'no segundo fica embaraçado não sabendo, se este ch provém de uma palavra latina do grupo pl, cl,fl, etc., ou se de uma grêga, e por consequência vacillará 'na prosódia por não saber se este ch tem som forte ou brando, o que se não dará 'no terceiro modo que indica facilmente não só a proveniência da palavra mas também sua prosódia. Raquis, rachis, rhakhis. - Quem olhar para o primeiro termo não poderá garantir logo que seja grêgo, porque temos muitas palavras originadas do latim graphadas com qu (como por ex., loquaz, in- quérito, questão, quotidiano, etc.) 'No segundo exemplo o leitor não avisado po- derá dar ao ch som brando. 'No terceiro caso estas dúvidas desapparecem; 66 pela simples inspecção da palavra o leitor ficará informado em relação á origem e prosódia do termo. Não nos causará estranhêza se nos objectarem que com este systema de graphia gastam-se muita tincta e papel; e que uma palavra de pollegada passa a ser de um palmo. Digam lá o que quiserem, o que é verdade é que as vantagens aponctadas destroem estes peque- nos defeitos. A palavra rhakhis vem do verbo grêgo paucro que quer dizer quebrar. Este nome lhe foi dado segundo Grimblot, devido ao seu fraccionamento em 24 vértebras. Em grêgo declina-se pa%iç, eoç (ti) e não pa^tç, l8oç (vi) como suppoem alguns diccionaristas. D'este engano resultou o adjectivo rhachideano que pecca por dois vícios : Io por ter em sua com- posição uma lettra (d) que não é etymológica (o ge- nitivo de pa^tç sendo pa^eoç e não pa^oç constitue a persistência do d 'nesta palavra um erro indescul- pável) ; 2o é o hybridismo de composição reunin- do-se um suffixo latino (anus) a um elemento grêgo (rhakhis). Síphilis ou syphilis ? - Qual d'estas duas graphias é a legítima. Quási todos os diccionaristas escrevem este termo com y. Poucos são os que preferem a graphia de Bosquillon (siphilis). 67 Diz este auctor que a palavra siphilis vem de vi, ov que quer dizer detestável. Divergem mais os diccionaristas em relação á etymologia, do que em relação á graphia. Para Swediur esta palavra se compõe de dous elementos gregos: cvç (porco) e (amar) ; pois considera este auctor a syphilis como resul- tando de relações immundas. Para Rejes, Fallopio e Castel esta palavra se deriva de Gvv (com) e (amor, companheira de amor). Em relação á origem da palavra syphilis es- creve o Dr. Buret no seu livro «La syphilis aujour- d'hui et chez les anciens » o seguinte: « Toutefois nous pouvons dire sans autre commen- taire, que ce terme a été inauguré par Fracastor Q dans un poème latin resté célèbre et à juste titre. Le médicin italien, s'inspirant des temps heroiques met en scène les divinités du paganisme, et suppose quun berger quil appelle Syphile (ou Syphilus au choix du traducteur) avait adressé des paroles offen- santes à Apollon et deserté ses autels. Le dieu pour le punir, lui envoya une maladie des parties géni- tales « que les habitants du pays appelèrent, en raison de cette circonstance, mal de Syphile » et par suite syphilis.)) (1) Jerôme Fracastor - médecin et poète, né à Vérone, 1483-1553 enseigna dès Vâge de 19 ans la philosophie à Padoue, puía exerça la médicine et devint médecin du pape Paul III. II a composé un poème intitulé: Syphilidis sive Morbus gallicus, en 3 livres, Verone, 1530, traduit en français, 1753 par Macquer et mis en vers par Barthélemy, 1840. Sea oeuvres complètes ont été publiées à Vénise, 1555. 68 Uma outra opinião que não pode ficar em es- quecimento é a do padre Espagnolle. Diz este considerado philólogo em seu diccio- nário etymológico da língua francêsa -: « Syphilis, ou - le même que av - syphilis, avec les branches, c'est-à-dire maladie que le père communique à tous ses enfants. Frascator a com- posé ce mot de ovv, avec et de branches, maladie qui passe du père aux enfants ». TERCEIRA PARTE Dos vicios que se referem sómente á prosódia Agra. - As palavras terminadas em agra são paroxytonas e não proparoxytonas, por isso devemos dizer : chirágra, gonágra, mentágra, podágra, pellágra, rachiságra etc.; esta terminação declina-se em grego áypa, a$ (>7) e significa acção de prender, caça, presa. Gamo. - São proparoxytonas as palavras ter- minadas em gamo como por exemplo : bígamo, pha- nerógamo, cryptógamo etc. Genese. - São também proparoxytonas as palavras terminadas por genese razão pela qual de- vemos dizer pathogênese, parthenogênese e não pathogenése, parthenogenése como muitos pronunciam. Geno. - Em relação a este elemento diz 0 Dr. Silva Lima em seu glossário médico: «geno, 70 por gigno, eu gero; é muito commum entre nós ouvir pronunciar longa a primeira syllaba n'este suffixo na composição de nomes adjectivos como por exemplo, morbigêno, hematogêno, pathogêno etc., é ainda habito de ler e ouvir o francez que nos leva a estas incorrecções. Ou devemos respeitar a phonologia latina em palavras compostas que terminam em genus ou pre- ceder de um i a ultima vogal ou de um e como em homogeneo, como se fez com oxygeno, que se converteu em oxygenium dizendo morbigenio, hema- togenio etc., o que me não parece muito apropriado tratando-se de adjectivos. » Hemia. - As palavras terminadas por hemia devem ser paroxytonas ou proparoxytonas ? Os médicos não são coherentes 'na prosódia d'estes termos porquê ao mesmo tempo que dizem hyperhemia, hypohemía, leucemia, leucocythemia, melanemía, anemia etc., pronunciam hyperglycêmia e cholihêmia. Não ha motivos que justifiquem esta divergência; devemos, ou considerar todas paro- xytonas e pronunciarmos também hyperglycemia ou então proparoxytonas como quer o professor Cor- tezão e (com muita razão) pronunciarmos hyperhêmia, hypohêmia, leucêmia, leucocythêmia, melanêmia, anêmia etc. Este suffixo hemia provém de acua, roç (tó) que significa sangue. 71 Litho. - São proparoxytonas as palavras ter- minadas em litho e por isto devemos dizer : coprólitho, otólitho, hysterólitho etc., e não coprolitho, otolitho etc., como se costuma pronunciar. - Este elemento se declina em grego Àtdoç, ov - que quer dizer pedra. Lyse.-As palavras terminadas em lyse são proparoxytonas como por exemplo: electrólyse, plas- mólyse, hematólyse anályse ao envez de electrólyse, plasmolyse etc. Este elemento terminal lyse dá idéa de dis- solução, provém do verbo Ànw que quer dizer dissolver. Opsia. - Em relação á pronúncia das palavras terminadas em opsia divergem os grammáticos. Cân- dido de Figueiredo, Cortesão e Moraes pronunciam autópsia, parópsia, myiodópsia, ao passo que Aulete, Francisco de Almeida, Lacerda, Vieira, dizem autopsia, parópsia, micropsía, myiodopsía etc. Em relação á palavra autopsia tem-se discutido muito. O Sr. Cândido de Figueiredo escreve 'no 3° volume das licções prácticas da língua portuguesa o seguinte : - « Com que então, Henrique de Pdãua, que pêlo nome não perca, quer saber porque é que escrevi autópsia num brinde do Diário de Noticias, em quanto outros dizem autopsia, acentuando toni- camente o i ? Em orthoépia ha muitas coisas que são, porque são, refugindo ás regras e até contrariando-as ; mas, 72 neste caso, não me parece que eu esteja em opposição á boa doutrina. Attendendo-se aos dois elementos grêgos que formam a palavra (autos + opsis), a palavra poderia ser autópse, e era assim que o Sousa Martins dizia e escrevia. Mas, de autos e opsis formou-se uma palavra grega, {autópsia), que passou para os latinos da decadência, entre os quaes se lia autópsia. Ora se é regra manterem o acento tónico as palavras que do latim passaram para nós, eu creio estar ao lado da regra dizendo e escrevendo au- tópsia. » Para o Dr. Castro Lopes a prosódia autópsia é incorrecta e a legítima é autopsia, porque a palavra se compõe de : auto, de autos (proprio, por si proprio) de opsis (acção de ver) e da desinência portuguesa ía que é longa.» Como acabámos de ver existem argumentos para ambas as prosódias ; a difficuldade está apenas em reconhecer qual seja o mais valioso. 'Nestas circumstancias melhor seria que adoptas- semos a fórma autópse lembrada por Sousa Martins, emquanto não ficasse resolvida a questão da ver- dadeira prosódia á similhança da palavra synopse, da qual o segundo elemento opsis é o mesmo que se encontra em autópse, a não ser que a terminação ia venha dar um sentido especial. A palavra synopse se compõe da preposição avv (com, ao lado de, em favor de, com auxilio de,) 73 e do substantivo «os (77) (vista, visão, olhar, espectáculo, aspecto, apparência); «oç (>7) significa summário, synthese, resumo, compêndio e arroba, a; (>7), acção de ver com os proprios olhos ; intuição. Patha. - As palavras terminadas em palha são proparoxytonas razão pela qual devemos pro- nunciar allópatha, homópatha, nevrópatha, cardiópatha etc., como ensinavam os Drs. Silva, Lima e Castro Lopes, e alguns grammáticos e não allopátha, homo- pátha como se costuma dizer. Pedia. - Em relação á prosódia das palavras terminadas em pedia reina grande confusão, diver- gência e incoherência entre os diccionaristas. Alguns consideram-nas paroxytonas, outros, pro- paroxytonas e ainda outros paroxytonas e propa- roxytonas conforme 0 primeiro elemento de com- posição. Caídas Aulete e Cândido de Figueiredo registam 'nos seus diccionários: encyclopédia, orthopedía, callipedía. Não vejo motivos para esta divergência visto como 0 elemento pedia (do gr. 7tat;, Ttaí^oç) é 0 mesmo em todas ellas. O Sr. Cândido Figueiredo consultado a respeito da prosódia da palavra encyclopedia escreveu 'no 3o volume das lições práticas da Lingua portuguesa 74 « Quanto a encyclopédia, bem sabe que todos lêm encyclopédia. « A origem grega (enkuklopaideia) justifica outra pronuncia, pêla posição do ditongo ei; mas também há o ditongo ai, e não me repugna collocarmos no logar dêlle o acento tonico : enciclopédia. » Nem sempre foi esta a opinião do illustrado philólogo, porquanto no posfácio de seu diccionário da língua portuguesa declara logo 'na primeira página que a rigorosa pronúncia deve ser encyclopédia. Diz o insigne mestre : « há situações, em que o dic- cionarista embora conheça o preceito scientífico, não póde expungir o que a pratica geral estatuiu contra esse principio. Assim é que toda a gente diz e lê e os diccionários reproduzem nigromância, homóphono, myope, acróstylo, aerolitho, theodolhito, quadrumâno, aristocrata,acrobata, encyclopédia, nephelibáta, allopátha, homopdtha, etc., etc. e comtudo a rigorosa pronúncia ordenada pêla sciencia e justificada pêla quantidade phonética das vogaes que entram naquellas palavras, seria : nigromancia, homophóno, quadrúmano, myope, encyclopédia, acrostylo, aerolitho, theodólitho, acrobata, nephelibata, allopatha, homópatha etc. ». O Dr. Castro Lopes é de opinião que se diga encyclopédia e nunca encyclopédia. Diz elle nas suas « palestras com o pôvo » que a palavra encyclopédia se compõe de : en (prefixo), kyklos (circulo), pedia, de paideia (instrucção, co- nhecimentos) de pais (menino) e daiein (aprender)? 75 - encyclopedia quer pois dizer o complexo de conhe- cimentos humanos. Uma outra opinião valiósa é a do Dr. Gonçálvez Viana que se manifesta claramente contra a prosódia encyclopédia e a favor de ency- clopedía. Escreve o eminente professor 'no seu recente trabalho sobre a Ortografia portuguesa: « Outra palavra, enciclopédia, pela sua o rijem, deveria acen- tuar-se na penúltima, enciclopédia, visto ser o i longo no latim encyclopedia, cerresponde ao grêgo ryxvxZoTtaíêeía, com ditongo na penúltima. E' tanto mais de admirar a acentuação errada quanto seria de esperar a verdadeira sobre o i, pois é natural que para português viesse do francês encyclopédie esta palavra ». As considerações feitas em relação a encyclo- pedia, cabem perfeitamente a orthopedía, callipedía ou a qualquer outra terminada em pedia derivada do grêgo Ttaiç, nac^oç. Phyta. - As palavras terminadas por phyta são proparoxytonas, razão pela qual devemos pro- nunciar, epiphyta, micróphyta, sapróphyta em vez de epiphyta, micróphyta, sapróphyta como se ouve habitualmente. Ptero.-Têm sempre o accento na antepenúltima syllaba as palavras terminadas em ptero, por isso devemos pronunciar : áptero, diptero, chiróptero, lepi- dóptero, coleóptero, orthóptero, nevróptero etc., e 76 não aptéro, diptéro, chiroptéro, lepidoptéro, coleoptéro, orthoptéro, nevroptéro etc. como se costuma dizer. Stase.-Em relação ás palavras terminadas por stase diz o Dr. Silva Lima em seu glossário médico: «Hemostase, hypostase, diastase, e outros termos com o suffixo stase são frequentemente pronunciados á franceza com accentuação na penúltima syllaba, exceptuando-se não sei porque a palavra metástase que ouvimos de ordinário pronunciada correctamente, como deveriam ser todas compostas que têm a mesma terminação ». Stoma. ■- São proparoxytonas as palavras ter- minadas em stoma, por cujo motivo devemos pro- nunciar dístoma, ankylóstoma, ophióstoma etc., e não distôma, ankylostôma e ophiostôma. Therapia. - As palavras terminadas em the- rapia (^rpaTteta) são paroxytonas, o que quer dizer que devemos pronunciar: hydròtherapía, chromò- therapía, cyanòtherapía, photòtherápia, escotòthe- rapía, thalassòtherapía etc., e não hydrotherápia, chromòtherápia, photòtherápia etc., como dizem al- guns grammáticos. Todos os diccionaristas mandam pronunciar hydròtherapía, photòtherapía etc., mas apezar d'isto muitos médicos brasileiros e portu- gueses pronunciam hydròtherápia, photòtherápia etc., por não saberem talvez que o diphthongo grêgo 77 de ei corresponde em latim e em português ao i longo. A palavra therapía vem do grego deparre/a, (>7) - (0 tractamento) derivada do verbo depaTtrvco que quer dizer servir, tractar, cercar de cuidados. Tomo. - As palavras terminadas em tomo são proparoxytonas, por isso devemos pronunciar lithó- tomo, amygdalótomo, craniótomo e não lithotômo, amygdalotômo e craniotômo. Tribo. - As palavras terminadas em tribo de- vem ser accentuadas 'na antepenúltima syllaba, razão pela qual devemos pronunciar basiótribo, cephaló- tribo etc., e não basiotríbo, cephalotribo etc., como fazem os estudantes de Obstetrícia, em geral e alguns médicos. Dromo. -As palavras terminadas em dromo são proparoxytonas, por isso devemos pronunciar pródromo, syndromo, hippódromo, velódromo em vez de : prodrômo, syndromo, hippodrômo, velodrômo. A lista dos suffixos é longa. O escasso tempo de que dispomos não nos permitte continuar este estudo afim de não serem prejudicados outros assumptos que merecem ser tractados. Deixámos de fallar Aos seguintes suffixos e prefixos : 78 agogo adeno coraco clastia crinia aryteno anthropo ceie centese cyto cardia dynia ema emese echino énchyma gyno genesia genia glossia gnosia hemato igo kerato myelo me ria mero mnesia metro mya myia morphia nomia nomo olygo opia pbago phoro philo phobo phoro phylla plasia plastia plegia podo rhagia scopo sialo spora thermia trophia tropia tom ia e muitos outros de que não nos lembramos. Em relação ás palavras compostas vamos tam- bém ser breve. E' commum ouvir dizer-se : vésico-vaginal, vé- sico-intestinal, vésico inguinal etc., entretanto para se pronunciar correctamente deveria dizer se : vesíco- vaginal, vesíco-intestinal, vesíco-inguinal etc., porquê em latim se diz vesíca e não vésica. Em relação a este assumpto diz o Dr. Silva Lima 'no seu glossário médico: « Ouço frequente pronunciar erroneamente 'nestas locuções a palavra componente inicial vésico em vez de vesíco sendo aliás derivada de vesíca em que o i é longo. Os ingleses accentuam correctamente o i em vesícal; os Americanos do Norte, pêlo contrário, fazem-n'o breve, dizendo vésical. 79 Para nós deve prevalecer a pronunciação latina de onde nos vem o termo. » Cérvico-escapular (artéria).-E' erro dizer-se cérvico-escapular porquê 'no latim cervix, icis o i é longo; devemos portanto dizer cervíco-escapular como pronunciavam os Drs. Silva Lima e Francisco de Castro, intelligentes cultores do idioma pátrio. Végeto-mineral (agua) ou vegéto-mineral ? A primeira fôrma é errónea, devendo ser ado- ptada sómente a segunda como aconsêllia o professor Cândido Figueiredo 'no Io volume das lições prá- cticas da língua portuguêsa. Diz o insigne mestre á pag. 249 do citado vo- lume : «Bella Dona continúa a preoccupar-se da prosódia farmacêutica, e hesita, em pronunciar água de végeto-mineral, ou água de vegeto-mineral. De qualquer das maneiras diz mal. Água de vegeto... não há: é água vegeto-mine- ral sem de; e lê-se vegéto-mineral, como quem diz um composto de vegetal e mineral. Também há végeto, mas isso é outra coisa, que não diz respeito a farmácias. Antes pelo contrário : quem é végeto, isto é, robusto,. vigoroso, não precisa de farmácia. E' o que eu desejo a Bella Dona: que seja végeta, e que guarde para os freguêses a água ve- gétò-mineral.» 80 Passemos agora a discutir em separado cada uma das palavras que peccam sómente quanto á prosódia. São ellas as seguintes : Antitrágo ou antítrago ? - Frei Domingos Vieira e Cândido Figueiredo pronunciam antitrágo, ao contrário de Aulete, Moraes, Lacerda e Fran- cisco de Almeida que aconselham a prosódia antí- trago. O Dr. Silva Lima aconselha esta ultima pro- sódia. Dá-se este nome em Anatomia á saliência do pavilhão auricular fronteira ao trago : - e deno- mina-se trago uma pequena saliência que existe á entrada do ouvido externo e que se cobre de pêlos quando se chega a certa idade (Cândido de Figuei- redo). Antítrago quer dizer contra ou em frente ao trago. Segundo a opinião do diccionarista Lacerda deriva-se esta palavra do latim antitracum, do grêgo anti (contra) e tragos (extremidade). Em latim tragos, i (gr. rpá/o$) significa especie de junco marinho, especie de esponja dura de espi- nhos ; - tragum, i significa especie de papas feitas de espelta ; - tragus, i (gr. rpa/oç) significa catinga, axilla, certa casta de peixes. Não sei por que motivo o diccionarista Aulete 81 diz antítrago e tragus. Quem escreve antítrago deve também escrever trago e nunca tragus que é forma latina adoptada pelos franceses. Em relação a este termo os diccionários gregos mencionam o seguinte : rpáyoç, ov (ó) o bóde, cheiro de bóde, puberdade, signaes da puberdade - bóde marítimo (peixe) - trago - (nome commum a várias plantas) - espécie de trigo ou de espelta que produz a farinha d'aveia e por extensão farinha d'aveia; - figueira selvagem. Trago (uma parte da cavidade da orelha). O substantivo rpáyo;, ov (ó) vem do verbo rpo/o que significa comer fazendo barulho com os dentes, comer depressa e com avidez, ruminar, roer. Grimblot diz em seu diccionário de synónymos á pag. 135 que «tragos, (bóde) vem de trago que quer dizer eu pasto, por causa da voracidade d'este animal, e adeante accrescenta: de tragos (bóde) se derivou trágico (gr. tragikos, lat. trágicus) tragédia [lat. tragmdia, gr. tragôdia que quer dizer canto de bóde, de rpáyoç (bóde) e oòé (canto) ]. - Tragos (bóde) mais tarde veio a significar puberdade, signal de puberdade; d'onde parte da cavidade da orelha que se cobre de pellos. Tragédia era 'na sua origem um canto acompa- nhado de dansas em honra de Baccho, ao qual deus o auctor immolava um bóde que lhe fôra offerecido. Trago significa também a eminência da orelha que á uma edade avançada fica coberta de pellos.» 10 82 Astragalo.- Em relação á prosódia d'esta pa- lavra divergem os diccionaristas. Frei Domingos Vieira, Moraes, Francisco de Almeida e Roquete mandam pronunciar astragalo, ao contrário de Lacerda, Aulete e Cândido de Fi- gueiredo que aconselham a prosódia astrágalo. ' Frei Domingos Vieira diz que este termo vem do grego astragalos que quer dizer junctura, vértebra. Para Moraes astragalo vem de strogg, gytos (redondo). Corrêa de Lacerda diz que asiragalo, no latim astragalus, no grêgo astragalos se deriva de strongylos que quer dizer redondo, em fórma de cylindro ou de columna, rolo grosso, cordão composto de mol- duras alternadas semi-circulares unidas por filetes. Os lexicógraphos derivam astrágalo de strephô vol- ver e, a congregativo, mas parece vir antes d'este verbo, e de agaMo, armar, adornar. Diz Lacerda que alguns empregam este nome com referência ás septe vértebras do pescoço. No diccionário latino-português de Saraiva en- contrámos o seguinte : « Astragalus, i (gr. aoTpáyaZoç - articulação, ossinho) astragalo. Como termo de architectura significa parte do capitel e base da co- lumna ; significa também chicharro, grão de bico sil- vestre (planta leguminosa). No diccionário grêgo francês de Chassang en- contrámos : acrrpáyaZoç, ov (ó) significa vértebra, talão, calcanhar, ossinho, jogo de ossinhos, astrágalos. 83 Littré diz que : astrágalo 'no latim astragalus, do grego á<TTpá/aZo$ que significa dado de jogar, é um osso curto que fica situado 'na parte superior e média do tarso onde se articula com os ossos da perna, de modo que sua parte média fica encravada entre os 2 malléolos. Em baixo se articula com o calcáneo e 'na frente com o escaphoide. Teve o nome de astrágalo devido a sua forma mais ou menos cuboide. » O diccionário francês de Hatsfeld e Darmes- teter dá a esta palavra varias significações : P - Osso do tarso de fórma cuboide, encra- vado entre os malléolos da tíbia e do .peronêo. 2^ - moldura collocada entre o fuste e o ca- pitel. 3^ - planta leguminosa que fornece a gomma adraganta. Anconeo ou anconeu ? - Quási não valia a pena mencionar este termo, porquê aqui 'no Brasil, todos pronunciam correctamente anconeo, mas como um ou outro diccionário manda pronunciar anconeu e ha alguns termos similhantes a este, porém com pronúncia differente, resolvi registar também este com o fim de evitar confusões : - A palavra anconeo, 'no latim ancon, onís e 'no grêgo ayxáv, ovoç (ó) quer dizer: anconeo, fim, extremidade, cotovello etc. 84 Colchico. - Ha muita gente que pronuncia colxico dando ao ch d'esta palavra o som de x em vez do de k. Isto só se dá com quem não conhece a ety- mologia da palavra. Quem souber que ella é de origem grega e que se escreve 'nesta língua com % e que em por- tuguês costuina-se representar este signal por ch tendo som de k não hesitará em pronunciar cólkico. Si ao envez de representarmos o £ grego por ch representássemos por kh que é escripta grega ninguém erraria a pronúncia e a palavra tomaria uma feição definida indicando sua proveniência. Quando temos á nossa frente uma palavra es- cripta com ch e não conhecemos sua etymologia ficamos embaraçados em pronuncial-a não sabendo se este ch tem som de x, isto é, se provém do latim de algum grupo pl, cl, fl etc. ou se, do grêgo do signal £. Em latim se declina colchicum, i e em grêgo ov (ró) que provém de xo%%ig, a Cólchida, província da Ásia Menor, ao nascente do Ponto- Euxino, hoje Mingrélia, pátria de Medéa, famosa mágica, filha de Eetes, rei do Colchos. O cólchico ou melhor cólkhico é uma planta herbácea de raiz bulbosa, da família das colchicá- ceas conhecida pelo nome de: dedo de Mercúrio, lírio verde ou narciso do outono. Deu-se a esta planta o nome de cólchico por 85 ser originária de Colchos, cidade da Cólchida onde havia em grande quantidade. Teve 'no vulgo o nome de matta-cães por serem estes animaes muito sensiveis á sua açção tóxica. Suas folhas são muito venenosas podendo cau- sar 'nos animaes que a comem a morte por paralysia dos músculos respiratórios. Esta acção já era conhecida dos antigos ; pois a Mythologia nos ensina que foi por meio de umas hervas encantadas existentes 'nos arredores de Col- chos, que Jasão conseguiu mattar o celebre mino- tauro, que guardava o vello de ouro. Estas hervas foram fornecidas ao chefe dos Argonautas pela fa- mosa Medéa, a quem elle inspirára uma paixão pro- funda. Erysipela. - Em logar da verdadeira graphia erysipela muitos escrevem em português eresipela imi- tando a fórma errónea do francês erésipèle. Em relação á prosódia mandam alguns diccio- naristas como Moraes e Lacerda que se pronuncie erysipela e outros como Aulete e Francisco de Al- meida, erysipela. O Dr. Silva Lima considera errónea a prosódia erysipela, e opta por erysipela que está mais de accordo com a prosódia grêga. A este respeito escreveu este illustrado clinico 'no seu glossário médico : Erysipela - pronuncia-se geralmente este voca- 86 bulo com a penúltima syllaba longa, devendo dizer-se erysípela e não erysípela, de conformidade com a prosódia grêga e alguns lexicons portugueses, como o de Aulete. A pessoas do pôvo ouve-se algumas vezes dizer isipla contracçào de erysípela. » O Dr. Silva Lima tem toda razão; as prosódias latina e grêga nos indicam que a, palavra deve ser proparoxytona. Tanto em latim erysípela, atis, como em grego aroç, (tó) pertence esta palavra ao gê- nero neutro e á 3' declinação. Em relação á etymologia dizem alguns diccio- naristas como Stappers e Carré etc. que erysípela vem de epvcroç por (qwdpóç, que quer dizer vermelho e 7tfZZa, (>7) que quer dizer pelle, e outros como Littré, que vem de épretv que quer dizer levar, puxar, attrahir e de TtrZa que quer dizer proximo, perto, devido á marcha extensiva da mo- léstia. Moraes diz que alguns clássicos da língua por- tuguêsa escrevem erisipula. Feto. - O pôvo, os estudantes, os professores e até mesmo os diccionaristas não fazem distincção prosódica entre feto (embryão) e feto planta. Entretanto existe tal distincção. 'No seu precioso diccionário da língua portu- guêsa ensina-nos o Sr. Cândido de Figueiredo que feto, synónymô de embryão, deve escrever-se com e 87 aberto (féto), porém significando planta deve ser com ê fechado (feto). Segundo o diccionarista Corrêa de Lacerda/^o (einbryão) declina-se em latim fetus, us e provém de feia, ce (mulher ou fémea grávida) ou do verbo feto, as, avi, atum, are que significa pôr ovos, fe- cundar, emprenhar. Fêto (planta) provêm de fillctum i que se ori- gina de filix, icis. Se o tempo permittisse poderíamos ainda dis- cutir os seguintes termos : Aconito Albumina Alopecia Anodyno Arnica Cannabis Diapedese Dierese Ectasia Ectopia Epitrochlea Glúteo Guaiaco Hematia Laudano Meliceris Myope Parenchyma Polypo Quadrumano Reptil Thoracocentese QUARTA PARTE Dos vícios que se referem á graphia, prosódia e forma Abcesso - esta é a graphia mais empregada, entretanto a forma abscesso deverá ser preferida por estar mais de accôrdo com a etymologia. Em todos os diccionários da língua portuguêsa que pu- demos consultar encontrámos a forma abscesso como preferível a abcesso. Q 'No diccionário contemporâneo de Caídas Aulete encontrámos: « abcesso ou abscesso. A orthographia de abscesso é a mais coherente com a etymologia; mas o uso abandonou-a pela de abcesso ». Corrêa de Lacerda regista em seu diccionário (1) A palavra abscesso do latim abscessus vem do verbo abscedo, is, cessi, cessum cedere, que significa afastar, separar. Compõe-se este verbo de 2 elementos ; o prefixo latino abs que indica afasta- mento, separação, poncto de partida e do verbo cedo, is, cessi, cessum, cedere, que si- gnifica ir, caminhar, retirar-se, desapparecer, etc. O professôr João Kibeiro opta pela forma abscesso; á pag. 3 de seu diccionário grammatical encontrámos : a - ab - abs - prefixo latino que várias vezes se confnnde com ad. Marca afastamento, separação, poncto de partida; exemplo : ab-usar, ir além do uso ; ab-horreeer, ter horror excessivo ; ab-jurar, sahir do juramento. Nota-se em abundar, abolir, absolvição, etc. A forma abs é mais rara : abstracto, abscesso e só se emprega antes de c, q e t como em abscedo, absque, abstraho, etc. , 90 a forma abscesso a qual deriva do latim abcessus de abscedere que quer dizer afastar. Os francêses dizem abcès ; não sei se é para imital-os que escrevemos abcesso. O diccionário da língua francêsa de Ilatzfeld e Darmesteter regista : abcès derivado do latim abcessus ou abscessus e diz que 'no século XVI a graphia corrente era abscès. Littré escreve o seguinte em seu diccionário de medicina: « abcès - derivado de abscessus, de abscedere, afastar, separar, isto é, cedere, abs ou ab. - Em grêgo aTtour^a. Amido - Muita divergência se observa entre os diccionaristas em relação á graphia d'esta pala- vra. Em relação á prosódia estão quási todos de ac- côrdo em pronunciar amido, mas em relação á gra phía querem uns que se escreya amido (graphia mais usada), outros como o Cardeal Saraiva, Amydo e outros ainda amilo. D'estas duas graphias amido e amydo, parece-me ser esta última a mais razoavel, porquê o v grêgo se representa em português pela lettra y e não i que é representante do t (iotá) grêgo. Actualmente alguns grammáticos, os phone- ticistas não fazem tal distincção; representam sem- pre por i a palavra original quer se escreva ella em grêgo com v (ypsilon) quer com t (iota). Os phoneticistas baniram o y da escripta por- tuguêsa bem como as lettras geminadas e os grupos 91 ph, th e rh que correspondem ao 0 (phi), 0 (theta), p (rho) da graphia grêga julgando facilitar a escripta com estas suppressões Q. Elles escrevem amido (com «), entretanto não consideram errónea a graphia amydo. Um outro poncto a discutir é : se devemos es- crever amydo ou amylo. Os diccionaristas registam as duas formas, porém distinguem uma da outra. Para Francisco de Almeida amydo ou amido é uma fécula que se extráe especialmente do trigo. E' uma substância branca, sêcca, pulverulenta, in- odóra, insípida, inalterável ao ar, insolúvel 'nágua fria, mas muito solúvel 'nágua a ferver com a qual quando arrefece forma a gomma; e amylo é o hy- drogênio carbonado extrahido do óleo de batata ou alcoól amylico. Alguns auctôres empregam indistinctamente amylo para significar uma e outra coisa. Para estes a graphia amylo é a melhor, porquê é a que mais se approxima da escripta grêga. Os que preferem a graphia amydo ou amido á amylo, ou acreditam em uma forma grêga como ensina o padre Espagnolle ou então justificam- se dizendo que ha casos em que o Z (lambda) grêgo (1) As vantagens que Veste processo de simplificação resultam para a graphia se transformam em desvantagens para a semântica, porquê muitos termos que se diffe- rençavam pelo signal gráphico tornam-se d'este modo iguaes prestando-se muitas vezes a confusões lamentáveis. 92 se transforma em d e que esta palavra 'nas outras línguas novi-latinas é sempre escripta com d. Frei Domingos Vieira pensa d'este modo e a este respeito escreveu 'no thesouro da língua portu- guesa o seguinte : « Amido - s. m. (do latim amy- lium; no francez âmidon; no italiano amido e no espanhol almidon, d'onde se vê que nas principaes línguas romanas a mudança do « 1 » em « d » é uma lei geral». Iguaes considerações faz o Sr. Alfredo Brachet 'no seu diccionário etymológico da língua francesa dizendo que em francês a palavra amidon é uma corrupção do latim amylum e que já viu a forma latina amydum empregada em diversos documentos do século dezenove. Em relação á prosódia, como dicemos acima, quási todos os diccionaristas mandam pronunciar amido e amylo; divergem, porém, d'este modo de vêr os Srs. Gonçálvez Viana, Cândido de Figuei- redo, Silva Lima e Frei Domingos Vieira que pro- nunciam, correctamente tímido e amylo. O latim amylium, i e o grêgo áyvhov, ov (ró) indicam perfeitamente que amido ou amylo é pala- vra proparoxytona. Em relação á etymologia diz o padre Espa- gnolfe 'no seu diccionário de etymologia da língua francêsa: « amidon, ayt^ov le même qu' ayuAov, parce que IV prend le son de lá et le Z permute avec le <5. Exemple: Xat^wi-òa^vv;, etc. » 93 Hatzfeld et Darmestetér dizem que amidon é corrupção do latim amylum e que 'na idade média os franceses escreviam amilon e que só muito depois é que modificaram para amidon. Em relação á história e etymologia d'este termo escreveu o sábio Dr. Domingos Freire em seu excel- lente livro de chímica orgânica : « A palavra amido vem de amylum, que quer dizer - sem mó. Dioscórides diz que é porque não se fazia moer os grãos dos cereaes, que assim se chamou ao producto delles proveniente ». Corrêa de Lacerda diz que amido vem de a privativo, e mylè mó de moinho, isto é, massa que se faz com trigo posto de molho e seccado sem ter sido moido. A palavra ámylo declina-se em grego ov (ró) ; pertence ao gênero neutro e á 2- decli- nação. Compõe-se de dois elementos grêgos : a prefixo que denota privação, falta, ausência e do substantivo feminino da primeira declinação 17$ (77) que quer dizer mó. Amylo significa, pois, litteralmente, sem mó, isto é, farinha feita sem mó, farinha não moída. A palavra mó tem em português duas signifi- cações : 1° significando pédra redonda e chata com que se tritura 0 grão 'no moinho, ou a azeitona 'nos lagares e pédra em que se amolam instrumentos cortantes e perfurantes corresponde ao francês meule 94 (de moulin) (4) e se deriva do mesmo modo que elle do latim mola, se, (2) que quer dizer moinho (3). 2? Significando grande quantidade, grande ajun- ctamento, montão, acervo, cúmulo, corresponde ao francês meule (4) (de monceau) e deriva-se do latim moles, is (5) que significa massa. (1) Meule (de moulin).- Na língua antiga escrevia-se a principio muele e de pois moule proveniente do grego p.úAi) que quer dizer mó de moinho. D'este meule se derivaram : meulard, meularde, meulerie, meulière. (2) Mola, ae em latim não significa sómente moinho mó, queixo, queixada, maxillar; significa também rótula (osso do joelho), mola (embryão informe) e farinha sagrada (farinha de trigo torrado, misturado com sal, que era espalhada sobre a cabeça das victimas). D'este termo derivou-se o substantivo latino molaris, is, o molar. Dens molaris significa dente queixai, mastigador, molar, isto é, dente que mas- tiga, que móe, que tritura. Corresponde ao grêgo ó yop.<luoí, ou subentendendo-se o substantivo oSovç, ou então a /zvAoç, ov (ò) ou a fivhoSovs, ovros (ò), o dente molar. De mola, se derivou-se também o verbo molo, is, ui, itum, ere que significa pisar, moer, reduzir á farinha, mastigar, triturar e immolo, as, avi, atum, are, que quer dizer immolar. sacrificar, dar a morte. Corrêa de Lacerda diz 'no seu dicciouário encyclopédico que o verbo immolar se compõe do prefixo in que se altera em im (quando a palavra seguinte começa por m) e do verbo molare que se formou de mola, x, que é uma espécie de bolo de farinha que se dava ao animal destinado a ser sacrificado. Em relação a este verbo diz H. Stappers o seguinte 'no seu diccionário étymo- lógico: « Immoler- du latiu immolare (de in et mola, farine sacrée de blé torrefié melée de sei, qu'on repandait sur la tête des victimes) et proprement reprendre cette farine sur la victime avant de 1'égorger, puis par extension, sacrifier, tuer. » Grimblot, 'no seu vocabulário synthético da língua francêsa diz o saguinte: « Immoler, c'est égorger en sacrifice. Sacrifice... 11 y avait chez les anciens des sacrifices d'expiation et des sacrifices de purificalion. Chez les Hebreux les sacrifices consistaient en parfums, en gateaux faits avec de la farine et de 1'huile ; en libations de vin, ou de farino mêlée avec de l'huile qu'on versait sur les victimes. Chez les grecs, on sacrifiait des animaux et des gateaux faits de farine et de miei. (3) A palavra moinho corresponde em latim a mola, x, molina, x e molinum, i e em grego a jxvAwv, wvos (ó). (4) Meule como synonymo de massa, monte, agrupamento, ajunctamento deriva- se de metida, x (deminutivo de meta, x) que quer dizer pyramidezinha. Meta, x significa pyrámide, mêda de forma pyramidal, figura cónica etc., c por extensão empilhamento regular de fêno, de palha, de trigo. Em relação a este termo diz o abbade Espagnolle o seguinte: « Meule (monceau) du v. fr. múlon nvKov, de p.vAos, meule. » D'este termo derivaram-se meulette, meulon, mulette, mulon, moulon. (5) Em latim moles, i significa massa de matéria, volume, corpo, mole, con- strucção, edifício, molhe, obra de alvenaria e 'no rentido figurado massa, grande número, multidão, cúmulo, montão, esforço, empecilho, embaraço, estorvo. D'este substantivo derivou-se o verbo niolior, iris, itus sum, iri que significa amontoar, accumular, edificar, construir etc., e o substantivo molécula que é deminutivo de mola, x. De mola, x derivou-se ainda o verbo demolir que se conjuga em latim: demo- lior, ires, itum sum, ire que significa destruir, deitar abaixo e compõe-se do prefixo de e do verbo moliri que quer dizer edificar, construir e que provém de moles que signi- fica estructura, edificio. 95 Ankilostomiasis Ankylostomiasis Ankilostomyasis Ankylostomyasis Ankilostomyiasis Ankylostomyiasis Anchilostomiasis Anchylostomiasis Anchilostomyasis Anchylostomyasis Anchilostomyiasis Anchylostomyiasis Todas estas formas são erróneas. Alguns erram escrevendo o primeiro elemento com /r e y ankylo em vez de ancylo ; outros erram escrevendo este mesmo elemento com ch, chi ou chy em vez de cy ; outros ainda escrevendo... myasis, m^zasis com y e yi em vez de z, e a terminação asis (forma grega) em vez de ase que é a terminação portuguesa das palavras gregas terminadas em asis. Ha além d'estas uma outra graphia que é pouco conhecida: ankylostomásia. Se não nos enganamos esta graphia é seguida pelos discípulos de um emi- nente professor d'esta Faculdade, o qual apregoava ser esta a legítima correcção das outras graphias. Nós também a adoptámos suppondo-a exacta, che- gando mesmo a aconselhal-a a um collega que nos consultára a respeito. Hoje pensamos de modo di- verso. Parece-nos que a verdadeira graphia deve ser: ankylostomiase ou ainda melhor ancylostomiase. A facil adopção da fórma ankylostomásia talvez fosse devida ao confronto feito com o termo francês ankylostomasie. Não ha duvida nem uma que do estudo com- 96 parativo das línguas resultam muitas vantagens para a lexiogenia, mas é necessário que muito cri- tério presida esse confronto para não nos deixarmos levar por falsas analogias. Não podemos garantir ser exacta a graphia ankylostomásia só pelo facto de ser similhante ao francês ankylostomasie. 'Na língua francesa ha também do mesmo modo que 'na nossa muitos vícios e incoherências como por ex.: diagnostic e pronostic etc. e até mesmo o termo que estamos discutindo ora se escreve com ch anchylostomasie ora com k ankylostomasie e ainda ankylostomiase. I De que modo pois fundamentar ankylostomásia pelo termo francês ? Das tres formas aponctadas em francês qual será a legitima ? E' o que nos resta a saber. 'Na primeira vê-se logo a graphia errónea do primeiro elemento anchylo escripto com ch em vez de k. Seria exacta esta graphia se o primeiro elemento em grêgo se escre- vêsse com £ (khi) e não % (kappa). 'Nas segunda e terceira fôrmas o primeiro ele- mento também não está bem transposto, porquê costumamos escrever ankylo com k em vez de ancylo com c. A verdadeira graphia deve ser tanto em francês como em português ancylostomiase differindo a pala- vra apenas 'na pronúncia. Devemos dizer ancylostonnase e não ankylosto- 97 míase, porquê o x grego quando precede as vogaes e, yj, t e v se transforma em português em c brando, isto é, que tem som de s; assim o prefixo grêgo dyxéZoç se transforma em português em ancylos e por este motivo devemos dizer: ancyloblépharo, an- cylodontia, ancyloglossa, ancyloglossótomo, ancyló- inelo, ancylócero, ancyloide, ancyroide, ancylótomo, etc. em vez de ankyloblépharo, ankylodontia, anky- loglossa, ankyloglossótomo etc. Não nos causará, extranheza se alguém nos objectar que estas formas aponctadas são inaccei- táveis por anti-euphônicas. Não ha dúvida que serão todas anti-euphônicas emquanto não nos habituarmos a ellas. Haja vista a palavra caryocinese que ninguém hoje condemna como anti-euphônica, mas que ha bem poucos annos se escrevia karyokinese. Não sa- bemos quem foi que corrigiu a forma karyokinese introduzindo a legítima graphia caryocinese; mas um facto chamou nossa attenção: é que depois d'a publi- cação d'o livro de histologia de Mathias Duval, pro- fessores e estudantes que diziam karyokinese dizem hoje caryocinese. Em trabalhos anteriores á histologia, Mathias Duval escrevia sempre karyokinese; mas em boa hora lembrou-se de empregar caryocinese que é a legítima graphia e hoje muito seguida. I Por que motivo os Srs. que acham anti- euphônicas as palavras 'nas quaes o c brando pro- 12 98 vém da transformação do x grego, não adoptam também a graphia kytologia? £ O primeiro elemento xvtoç, ovç (ró) não se escreve em grego com x ? 4 Por que razão não escrevem: kytoblasto, kytoplasma, kytomítomo, kytoniícrósomo, kytogênico (tecido), kytoblastema, kystoscópio, kystorrhagia, kystoplegia, kystoplastia, kystodynia, kystocele, kys- tite etc. que estão 'nos mesmos casos que ankylos- tomiase, mas sim, cytoblasto, cytoplasma, cytomitomo, cytomicrósomo, etc. Kytoblasto, kytoplasma, kytomítomo, kytomi- crósomo serão mais euphônicos ? ; Acharão por ventura mais euphônico dizer-se kinemática, dokimásia, kyanose, kyanúria, e kyclite em vez de cinemática, docimásia, cyanose, cyanúria e cyelite ?' £ Será mais euphônico dizer-se espasmos kyni- cos em vez de espasmos cynicos ? Pelo que acabámos de expor se vê claramente que quem diz cyclite, cinemática, cyanúria e cyanose não deve dizer ankylostomíase nem kinesitherapia etc. só se quiserem que estas palavras sejam exce- pções injustificáveis porquê o tal pretexto de eu- phonia 'neste e em casos similhantes é inadmissível. Passemos agora a discutir os outros elementos d'a palavra ankylostomíase visto como o primeiro termo já foi discutido. Ao que dicémos a respeito d'elle podemos ainda accrescentar que: como substantivo se declina em 99 grêgo : dyxúZrç, >7; (>7) e significa freio, gancho, adhe- rencia, objecto curvo, dobra do joelho, dobra do cotovello, laço, cordel, annel, argolla, e como adje- ctivo : ayxuXoç, 57, ov significa curvo, adunco, termi- nado em dente, ou gancho, retorcido, astuto, sagaz, manhoso, ardiloso. Quanto ao segundo elemento nada temos que dizer; declina-se em grêgo Groya, aroç (tó) , per- tence á terceira declinação, ao gênero neutro e significa bocca, abertura, oritício. O terceiro elemento é a terminação asis que toma em português a forma ase; e 0 i que a pre- cede é uma vogal de ligação como podemos observar em muitas outras palavras como por ex.: distomíase dochmíase rhabdoneniíase teníase helminthiase ophíase sauríase satyríase trichíase leontíase elephantíase siríase lithíase mydríase, etc. Ao termo grêgo ancylostomíase corresponde lit- teralmente o latino uncinariose Q. Como synonymia de ancylostomíase conhecemos ainda o termo dochmíase cujo primeiro elemento é: >7, ov que significa curvo, tortuoso. (1) Em outro logar discutiremos a etymologia d'este termo. 100 Além de uncinariose e dochmíase, conhecemos como synónymos de ancilostomíase mais os seguintes termos : estrongylose, opilação, cansaço, chlorose do Egypto, anhemia dos mineiros, cachexia aquosa, hypo- hemia, hypohemia intertropical, anhemia dos trópicos, etc. f). Batracio. - Todos os diccionaristas preferem a forma batráchio, excepto Corrêa de Lacerda e Fon- seca e Roquete que registam batracio. Em Portugal já ninguém mais escreve batrácio ; 'nos livros de auctôres portugueses tenho sempre visto a recta graphia batráchio. Aqui 'no Brasil também pouco a pouco vae ficando de lado a graphia batracio e sendo acceita a forma batráchio, graças ao nosso provecto lente de botânica e zoologia, o illustrado Dr. Pizarro que já há muitos annos tem demonstrado quer em aula 'na Faculdade de Medicina, quer em conferências públicas 'no Pedagógium ou em publicações diversas, ser batráchio a verdadeira graphia e não batrácio. Talvez fosse devida ao termo francês batracien que começámos a escrever batrácio limitando-nos em imitar o francês errado em vez de investigar a origem da palavra e construil-a segundo os nossos processos lexigogênicos. (1) Nem sempre o datismo traz vantagens; ás vezes nos fazem confundir factos simples e nos sobrecarregam a memória inutilmente. 101 A palavra batráchio vem, segundo os dicciona- ristas, do grêgo : /?aTpa^o$, ov (ó) a rã. De ^aTpa^oç, ov - devíamos formar em por- tuguês bátracho - e batráchio devia provir de Tpaxtov, ov (tó), entretanto é mais lógico pensar que batráchio venha de ^arpa^sioç, oç, ov (adj.) que quer dizer: de rã, relativo a rã, semelhante a rã. A palavra batráchio é um adjectivo que empre- gamos sempre como substantivo. Quando dizemos os ba.tráchios empregamos sem- pre uma ellipse, isto é, queremos dizer répteis batrá- chios, isto é, répteis (Q similhantes, da mesma classe ou categoria que as rãs;.- do mesmo modo dizemos os chelônios, isto é, animaes da mesma classe ou categoria das tartarugas 77$, (77) - e os saurios isto é, animaes da classe ou categoria dos lagartos craupog, ov (ó), etc. /^arpa^og, ov (ó) significa rã. /3aTpa^tor, ov (tó) significa (como termo de botânica) ranúncula, chelidônia (herva andorinha). /3arpa^í$, tóog (77) significa perereca, réla (rana arbórea} e fiarçayáhov, ov (tó) significa rãzinha verde, rubêta (") rã de çarçal, rã de moita. (1) A palavra réptil está 'nos mesmos casos que batráchio: é um adjectivo em- pregado como substantivo. Quando dizemos os répteis queremos dizer, animaes répteis, isto é, que rastejam. (2) Rubeta, oe (substantivo latino feminino da primeira declinação) significa rã de çarçal ; vem de rubus, i que quer dizer silva, çarça. 102 Devemos escrever batráchio e não batrácio, por- quê o termo grêgo correspondente se escreve com (khi) e não com x (kappa). Grimblot diz que o termo grêgo /?arpa^o$, pro- vém da mesma raiz que (3artoç e que o grito da rã - bré ké - kex, koax observado por Aristóphanes se assimilha ao modo de fallar dos gagos. Não ha dúvida nem uma que esta explicação é muito interessante, mas resulta, a nosso vêr, de alguma confusão do illustre Grimblot. Não estamos inclinados a acceital-a por parecer- nos que o termo batráchio tem relação mais directa com fiaroç, ov (y - ó) - a çarça - do que com ov (ó) - rei de Cyrene, que era gago, ou com qualquer facto que se relacione com a gaguez. Dizemos que batráchio tem relação mais directa com paroç, ov (77-0) - a çarça - do que com (3aTTo<;, ov (ó) - rei de Cyrene, - porquê fiarpa- ^lov, ov (tó) que tem evidentemente a mesma raiz que batráchio significa, como tivemos occasião de verificar ao iniciar o estudo d'este termo,- rã de çarça. Além da analogia semântica ha também a ana- logia gráphica, isto é, batráchio e (áaToç, ov - ó) - çarça - se escrevem com um t, ao passo que ftaTToç, ov (ó) - rei de Cyrene - se escreve com' tt. Foi de ^arrog (com tt) que proveiu o termo battologia f) que quer dizer gaguez. (1) A palavra battologia vem do verbo grêgo (fallar) ou de paBaÇo (ga- guejar). 103 Para alguns etymologistas Batto era o nome de um poeta grêgo muito inepto que repetia muitas vezes a mesma coisa; para outros era o nome do rei de Cyrene que era muito gago e tinha o costume de repetir cada coisa duas ou mais vezes; outros ainda attribuem este nome a outro poeta que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado á primeira vez; e outros finalmente attri- buem a um pastor que fazia o mesmo. Em relação a este pastor conta-nos Ovídio 'no segundo livro de suas metamorphoses que : Mercúrio antes de despojar Neptuno de seu tridente, Marte de sua espada, Apollo de suas flechas e Venus do cinto das graças, já conhecia bem os segredos da arte de furtar e era ainda bem moço quando se apoderou do gado do rei Admeto que Apollo pasto- reava. 'Na occasião d'este furto houve quem o presen- ciasse : foi um velho pastor chamado Batto. Tendo-o percebido quis Mercúrio tapar-lhe a bôcca e para o conseguir procurou compral-o ofterecendo-lhe a mais formosa rez das que furtára. Batto, encantado perante a grande valia da mimosa ofierta, prometteu guardar o mais completo sègredo. Mercúrio não se fiando nas promessas do pastor e querendo averiguar ao certo se a palavra de Batto merecia ou não confiança, simulou retirar-se; voltando, porém, d'ahi a pouco, já todo dififerente e çom a vos disfarçada, apresentou-se ante o pastor 104 inculcando-se como dono do gado roubado e offere- cendo-lhe como prémio uma vacca e um boi se elle descobrisse onde pairava o roubo. Nada mais foi preciso; o velho não podendo resistir á tentação do prémio que o disfarçado lhe oíferecia e esquecido já da promessa que fizera de guardar segredo respon- deu-lhe : « Agora ha pouco ao pé d'aquelles montes estavam, e estavam ao pé d'aquelles montes», (...sub illi montibus, inquit, erant et erant sub montibus illis) ». Mercúrio indignando-se com o procedimento do pastor, diz Ovídio, transformou-o 'na pedra chamada index, que quer dizer descobridora ou denuncia- dora. Como a palavra grega significa gago ou tartamudo; e como os que o são repetem duas, tres ou mais vezes as syllabas iniciaes das palavras até que rompem a fallar, d'aqui se chamaram battos a todos os que repetiam, sem necessidade, uma mesma palavra. Celidônia. - E a graphía que sempre encon- trámos 'nos livros de botânica portugueses e 'nos diccionários. D'entre os diccionaristas exceptua-se o Sr. Fran- cisco de Almeida que escreve sempre chelidônia. 'Neste termo os francêses respeitaram a etymologia escrevendo chelidoine, e observaram a prosódia pro- nunciando khelidoine em vez de çhelidoine. Em rela- 105 Ção ao termo chimie a prosódia não foi respeitada • pois pronunciam çhimie em vez de khimie. Nós que costumamos sempre imitar a graphia francêsa e que muitas vezes temos errado por o fazer, perdemos 'nesta, uma occasião excellente de imital-a. O termo francês chelidoine que traduzimos por celidônia vem do grêgo óro$ (37) que quer dizer ando- rinha. Sendo o termo escripto em grêgo com £ (khi) e não % (kappa) deverá em português ser escripto com ch forte ou qu mas não c brando, por- quê o equivale ao ch forte. Ha 2 espécies de chelidônias : a maior e a menor. A chelidônia maior ou ordinária (chelidonium majus) pertence á família das papaveráceas e é conhecida vulgarmente pelo nome de herva andori- nha (l) herva dos bodes, herva dàs verrugas (2), etc. A chelidônia menor (ranunculus ficaria) pertence á familia das ranunculáceas e é conhecida pelo nome de herva das hemorrhoides (3). A chelidônia maior é uma planta vivaz de cheiro (1) Deram-lhe os antigos o nome de herva andorinha, porquê suppunham que a andorinha curava os olhos dos filhinhos com o sueco da chelidônia maior. A agua distillada da planta foi durante muito tempo considerada como específico contra as moléstias dos olhos. Os antigos a empregavam com o fim de retirar as manchas da córnea. (2) Chamam-lhe também herva das verrugas, porquê o,sueco amarello que d'ella emana tem a propriedade de cauterizar as verrugas destruindo-as completamente. (3) Teve este nome porquê era empregada contra as hemorrhoides. 13 106 muito desagradavel. Sua raiz encerra um alcaloide, a chelidonina, que parece ser o principio mais activo da planta. Além da chelidonina encontram-se outros alcaloides como a chelerythrina Q (similhante á san- guinarina) (2), a chelidoxanthina (3) e diversos ácidos : acido chelidonico, chelidoninico, málico, cítrico, etc. 0 seu sueco ou latex é amarello; foi outfora empregado com o fim de cauterizar as verrugas. Attribuem-se á chelidônia propriedades narcóticas e estupefactivas devidas a chelerythrina. Calomelano. - Tem-se errado 'na prosódia d'este termo pronunciando calomelano em vez de calomelano, e 'na graphia escrevendo callomelano. Em grêgo diz-se xaZo^áZaroç. Compõe-se de dois elementos, a saber : xaZóç, >7, óv que quer dizer bello e gé^aç, áiva, av, gen. avoç, aívvis, avoç que significa preto, escuro, sombrio, obscuro, etc. A palavra xa%ogé%avoç foi creada por Hartmann, auctôr da descoberta do calomelano, a qual se effe- ctuou em 1611. Os francêses, ingleses e allemães usam a pala- (1) A chelerythrína (do gr. xeX. abreviação de xe^^v e epuéípoç, que quer dizer vermelho), é um alcaloideidêntico á sanguinarina encontrado com a chelidonina 'nas raizes e 'na semente não madura da chelidônia maior e 'nas raizes da nigreta amarella e da sanguinária. Administrada internamente produz phenómenos de excitação sobre diversos appa- rèlhos orgânicos ; excita a secreção do figado, as secreções mucosas do intestino e actua assim ao mesmo tempo como purgativo cholagogo e hydragogo. (2) Sangninarina. - Este alcaloide foi descoberto em 1829 por Dana 'na raiz da sanguinária canadensis idêntica a chelerythrina extrahida do chelidonium majus e do glaucium luteum. , (3) Chelidoxanthina (do gr. xeÀiáúv e JavOoç, (amarello). - E' uma matéria çorante amarella e amarga extrahida das folhas e das flores da chelidônia maior, 107 vra 'no nominativo calomel, calomelas, porém nós usamos o genitivo calomelanos. Em relação a esta palavra diz Lacerda o se- guinte : Calomelano (do grego kalós (bello) e melainos, (preto) ; porquê antigamente era o nome que se dava ao mercúrio sublimado reduzido a pó escuro). Bouillet diz em seu Dictionnaire des Sciences que o chlorurêto mercuroso Q teve o nome de calome- lanos, porquê torna-se preto com a acção da luz. Littré manifesta-se do modo seguinte em rela- ção a este termo: « calomelas, aquila alba, mercurius zoticus et de Hartmann, auteur de la découverte du calomel, 1611, etc., Kalomelas parait venir (la chose n'est pas certaine), de %aZó$, beau, et noir; on dit aussi que Turquet de Mayerne a créé ce nom en 1'honneur d'un jeune nègre qui 1'aidaít dans ses préparations; quelques-uns le font venir du changement des termes mercurius dulcis, em xaZZóç, et mel, miei. Dans 1'origine, protochlorure de mercure ayant subi six sublimations. // Aujour- d'hui protochlorure de mercure sans acception de son mode de préparation ». Grimblot refere-se á palavra calomelanos 'nos seguintes termos: « Calomel: il est blanc, mais la lumière le noircit en le décomposant à la surface en chlore et en mercure. (1) A denominação chlorêto usada em Portugal é melhor que chlorurêto. 108 « Toutefois, connu dès le XIII6 siècle, son nom de calomel lui a été donnée par Turquet de Mayerne, médecin du XVII6 siècle, en l'honneur d'un nègre qui lui servait daide dans ses préparations chimi- ques ». Laurent et Richardot exprimem-se do seguinte modo 'no Dictionnaire étymologique de la langue fran- çaise: « Calomel ou calomelas (gr. zaXoç - beau -f- + - noir) parce que le chimiste qui le décou- vrit vit dans cette préparation une belle poudre noire se changer en poudre blanche ». O calomela- nos é conhecido pelos nomes : mercúrio doce, preci- pitado l)ranco, muriato de mercúrio, aquila alba, chio- rurêto mercuroso, sub-chlorurêto mercuroso, sub-chlorurêto de mercúrio e proto-chlorurêto de mercúrio. O sublimado corrosivo é também conhecido pelo nome de: proto-chlorurêto de mercúrio. Este synóny- mo deve ser banido tanto para o sublimado como para o calomelanos afim de evitar enganos prejudi- ciaes. E o consêlho que nos dá á pags. 577 de suas: Noções de chímica inorgânica, o incomparável professor de physica médica Sr. Dr. Martins Tei- xeira. Escreve este eminente professor 'na citada pá- gina 577 as seguintes palavras: - «O nome de protochlorureto de mercúrio tendo sido dado, conforme os autores, a cada um dos dois chloruretos, compre- hende-se a vantagem de designal-os, seja pelos nomes vulgares de calomelanos e sublimado corrosivo, seja 109 pelos nomes regulares de chlorureto mercuroso e chlo- rureto mercúrico afim de se evitar toda a confusão, que tornar-se-ia lamentável ». O sublimado corrosivo é conhecido pelos nomes: sublimado, proto-chlorurêto de mercúrio, bi-chlorurêto de mercúrio, deuto-chlorurêto de mercúrio e chlorureto mercúrico. O mercúrio dá com o chloro duas combinações, o chlorureto mercuroso ou calomélanos e o chloru- rêto mercúrico ou sublimado. Preparado por via sêcca, o chlorurêto mercu- rôso toma os nomes de protochlorurêto de mercúrio por volatilização, calomélanos mercúrio doce, calomé- lanos por vapor ; obtido por via húmida constitúe o chlorurêto mercuroso por precipitação ou precipitado branco. O calomélanos é frequentemente empregado em medicina como purgativo e vermífugo para as crean- ças e algumas vezes como anti-syphilítico. Os alchimistas submettiam o mercúrio á nume- rosas sublimações, acreditando assim em augmentar a actividade como medicamento: o mercúrio doce não tomava o nome de calomélanos senão depois de 6 sublimações; á 9* recebia o nome de panacéa universal. O professor Cândido de Figueiredo menciona em seu diccionário da língua portuguesa as palavras calomel e calomélanos. Calomel é o protochlorêto de mercúrio 'na an- 110 tiga nomenclatura chímica e calomélanos é o sub- chlorêto de mercúrio. Vamos apresentar agóra a opinião do illustrado Dr. Silva Lima. Escreve este distincto médico em seu glossário de termos de medicina o seguinte: « Calomelano. Calomélanos - de ambas as fôr- mas tenho ouvido e lido a antiga denominação do proto-chlorêto de mercúrio, isto é, a denominação anterior á moderna nomenclatura chimica, pois que os antigos não conheceram esta substancia; não menos variavel é o modo de designar com o artigo masculino aquelles nomes dizendo uns o calomelano - outros o calomélanos e outros ainda os calomélanos. O vocábulo é composto do grego kalos (bom ) e melas ( preto ) e segundo Jonathas Pereira fSelecta e prescriptis) ha diversas opiniões acerca da sua ver- dadeira significação dizendo uns que Sir Theodore Turguet de Mayerne (o primeiro que usou do termo calomelas e mercurius calomelaniusJ o empregara por- que teve ao seu serviço um preto que preparava aquella substancia; outros quod nigro humori sit bonum, isto é, um bom (kalos) remedio para a bilis preta (melas ) ou atra-bilis. Como quer que seja é certo que a palavra pri- mitiva é calomelas com a penúltima syllaba breve tendo por genitivo na declinação grega e latina calomélanos, sendo o dativo calomélani, o accusativo calomélana e em caso nenhum calomelano que nós pronunciamos calomelano como também os italianos ; 111 os hespanhoes escrevem calomel como os francêses e inglêses. A maioria dos nossos médicos adopta o genitivo grego calomelanos, mas com alteração da pronuncia original que é com a penúltima syllaba breve ; e já agora que impera o uso de longos annos difficil será restabelecer a pronuncia correcta original. Mas para o que não ha razão é para se dizer e escrever os calomelanos estando a palavra no geni- tivo singular grego; e quer se escreva ou diga calomelano ou calomelanos deve ser precedida do ar- tigo masculino singular o. Creio que a razão do uso do artigo no plural provém da terminação da pala- vra em os que dá a falsa noção do plural do nome ; e que a de havermos adoptado o genitivo de prefe- rencia deriva-se do facto do invariável emprego do genitivo dos nomes dos medicamentos que entram nas formulas latinas regidas pelas quantidades em nominativo como grana, drachma, uncia, etc. : como ainda hoje é uso em alguns paises onde não é obri- gatorio nas receitas medicas o emprego da lingua vernacula. » Chalasion. - Em relação a este termo erram uns quanto á graphia escrevendo-o com a terminação on, erram outros escrevendo com 5 em vez de z, e outros ainda quanto á prosódia dando ao ch 0 som de sh em vez do de k. Devemos pronunciar khalazion e não shalazion. 112 D'entre os diccionaristas alguns há como Cân- dido de Figueiredo e Frei Domingos Vieira que traduzem o chalazion francês por chalazião, e outros como Aulete e Francisco de Almeida que preferem a forma chalaza não distinguindo o termo de botâ- nica do de ophthalmologia. Moraes menciona duas formas: chalazion e chalazião. O Sr. Çándido de Figueiredo 'no seu diccio- nário da língua portuguêsa distingue chalazião de chalásio. Diz que chalásio (com s) quer dizer kisto 'na pálpebra, e vem de um termo grêgo que signi- fica granizo, e chalazião (com z) significa tumor na borda da pálpebra, torçól, chalaza; vem do grêgo khalazion, de khalaza. Não nos parece razoavel tal distincção gráphica. Não concordamos com a graphia chalásio (com s) porquê deriva-se esta palavra do mesmo modo que chalazião de um termo grêgo que significa gra- nizo, o qual corresponde ao grêgo ^aZafa, >7$ (>7) que se escreve sempre com £ (dzeta) e não $ (sigma). Tenho muitas vezes ouvido em português e visto escripto chalazion (forma francêsa), em vez de chalázio que é a forma que mais se coaduna com a índole de nossa língua. Para os Francêses a forma chalazion é correcta, porquê costumam elles 'nas palavras grêgas termi- nadas em ion conservar a forma grêga, e applicar 113 esta regra a todos os termos que estiverem 'nestas condições. Em português o caso é diverso; sempre ou quási sempre o n final desapparece como por exem- plo em eyxófiLov que termina em ion e que ninguém diz em português o encomion, os encomions, mas sim o encómio e os encómios. Alguns diccionaristas francêses mencionam o termo chalasie 'no mesmo sentido que outros men- cionam chalazion; creio que o fazem por engano. Ao termo francês chalasie corresponde o por- tuguês chalásia que se não deve confundir com chalázio., porquê este escreve-se em grêgo sempre com £ (dzeta) e não $ (sigma), ao contrário de chalásia que deve ser graphada com s, porquê em grêgo se escreve com $ (sigma) e nunca f (dzeta). O termo chalázio parece vir de XxZa^íor, ov (tó) que é deminutivo de ^aZafa, >7$ (>7) e significa pequeno tubérculo que se forma debaixo das pál- pebras. ^aZa^a, >7$ (77) significa granizo, saraiva, etc. - e ^áZcrtç, (77) - acção de afrouxar, de rela- char, de distender; relaxação, amollecimento, atonia 'no physico e 'no moral; luxação, acção de abrir. Chalásia (chzzk) é a separação parcial espon- tânea, ou traumática da córnea e da esclerótica. Chalaza (ch=zk) - termo de botânica - é 0 poncto da túnica interna dos óvulos por onde entra 0 funículo e que leva a alimentação ao embryão 114 fecundado; ou mais simplesmente é o poncto de contacto da nucella com as membranas do invol- tório, ou ainda é o hilo interno do óvulo vegetal. Chalaza (ch-k)-termo de zoologia-é a cica- trícula ou poncto embryonário que apparece 'na superfície da gemma do ovo fecundado e por ex- tensão os cordões que mantêem a gemma do ovo das aves suspensa 'no meio do ovo. Darmesteter diz que chalaza em zoologia é o poncto germinatívo do ovo do pássaro e por exten- são o ligamento que mantém a gemma suspensa. Chalazio - Dá-se em ophthalmologia o nome de chalazio a um pequeno tumor que provém da obliteração de uma das glândulas de Meibomius ou Meibom 0) ou de um hordéolo que passou para o estado chrónico. O tumor se assésta ordinariamente em uma das pálpebras, podendo todavia ser encontrado em ambas. Não é raro encontrar diversos ao mesmo tempo que se desinvolvem simultaneamente ou appa- recem em seguida um ao outro. O tumor se assésta de ordinário entre a car- tillagem tarsa e o orbiculár a uma certa distância (1) Heurique Meibom ou Meibomius (médico allemão) nasceu em Liibeck, em 1638 o morreu em 1700, professou a medicina, a poesia e a história em Helmstaedt. Deixou os seguintes trabalhos: uma dissertação - De incubatione in fanis, 1659 ; uma collecçao dos - Scriptores rerum germanicarum 1688, e vários escriptos de physiologia e de Anatomia, entre outros-: De consuetudinis natura et vi et sanitatem, et De vasis pal- pebrarum, onde são descriptas pela primeira vez as glândulas de Meibomius. O Dr. Joseph-Auguste-Aristide-Fort, diz á pag. 896 do terceiro volume de sua Anatomia descriptiva, que muito antes de Meibomius havia Charles Estienne assigna- lado estas glândulas, e Casserius as havia feito desenhar e gravar em 1610. Foi por volta de 1666 que Meibomius as descreveu em uma carta impressa em Helmstced, cidade do ducado de Brunswick. 115 da borda da pálpebra ; só por excepção é que elle se implanta na própria espessura da cartillagem. Movei a principio, isolado por assim dizer 'no meio dos tecidos que o cercam, e com os quaes não tem senão ponctos de contacto, acaba por con- trahir adherências com estes últimos á medida que cresce; de um lado a pelle que o cobre se tumefaz levemente e se inflamma; de outro lado, a conjun- ctiva (virando-se a pálpebra e salientando-se o cha- lázio) parece como que deprimida 'no centro, mais vermelha que as partes visínhas e adherente pelas partes profundas ás camadas mais superficiaes do tumor. Opera-se por vezes 'no chalázio um trabalho de reabsorpção que fal-o desapparecêr, quando não adquiriu ainda um desinvolvimento bem grande; ou então o tumor depois de ter abortado um certo número de yezes, acaba por se estabelecer definiti- vamente ; e é preciso então extirpal-o a menos que não seja de um volume muito pequeno. Para terminar este poncto insistiremos mais uma vez sobre a fôrma chalázio que é a legitima e não chalazion que é empréstimo do francês. O que dicemos em relação a chalazion apro- veita também a pterygion, entropion, ectropion e hy- popion que são formas correctissimas em francês, mas que não devem permanecer em português, porquê não se coadunam com a índole de nossa língua. 'Nas palavras grêgas terminadas em on, a queda 116 do n é uni facto constante 'na passagem do termo para o português, devendo portanto dizer-se pterygio entrópio, ectrópio, hypópyo etc., em vez de pterygion, entrópion, ectrópion, hypópyon como se diz geral- mente. Convém não confundir a terminação pio de en- trópio e ectrópio, com pyo de hypópyo. Em entrópio e ectrópio a terminação pio per- tence ao verbo e deve sempre ser escripta com i e não com y; ao passo que em hypópyo a a terminação pyo deve sempre ser escripta com y; porquê vem do grêgo nvov, ov (ró) (pus) que se escreve sempre com v (ypsilonn). As palavras entrópio e ectrópio compõem-se de dous elementos grêgos; o segundo elemento com- mum aos dois deriva-se do verbo TpÉniò que signi- fica voltar, mudar de logar, transferir, transportar. Entrópio (do gr. Év que quer dizer para dentro e nçéncò, - voltar, virar), é o reviramento das pál- pebras para dentro. Ectrópio (do gr. ex que quer dizer para fora e nçsncò - voltar, virar) é a inversão das pálpebras para fóra. Cheiroptero - Em relação a esta palavra erram alguns quanto á prosódia accentuando a pe- núltima syllaba em vez da antepenúltima, e outros, quanto á graphia escrevendo cheiroptero em vez de chiróptero. 117 Já temos dicto diversas vezes que o diphthongo grego de ei corresponde em latim e português a i longo. Os que escrevem cheirópteros são os mesmos que escrevem semeiologia, semeiotica e meiopragia etc., em vez de semiologia, semiótica e miopragia etc.; para serem coherentes deviam também dizer elleipsis, crocodeilos etc., que estão 'nos mesmos casos que semeiologia e cheirópteros. Talvez seja devido ao termo cheiroptères que escrevemos em português cheiroptero erroneamente. Em francês também o termo está errado devendo a justa graphia ser chiroptères. Quem escreve cheiroptero deve também escre- ver : cheirologia, cheiromancia, cheirógrapbo, chei- ragra, etc., para serem coherentes. Compõe se esta palavra de dois elementos grê- gos : £ftp, oç (mão) e Ttrrpor, ov (to) asa. Chirópteros, dá-se esse nome a uma ordem de mammíferos conhecidos commummente pelo nome de morcêgos. Seu caracter essencial é a adaptação ao voo que se traduz anatomicamente pela transfor- mação dos membros anteriores em asas. Para isto todos os ossos dos membros anteriores são delgados e alongados e sustentam á maneira de varêtas de chapéo de sol uma membrana chamada patagio. Esta membrana se insere 'nos membros ante- riores, 'no corpo e 'nos membros posteriores e se 118 estende quási sempre até á cauda de modo a se reunir á membrana alar de outro lado. Só o pol- legar permanece curto e independente da mem- brana. Cirrurgia. - Ainda não vi escripta de outra fórma. E' um erro de graphia e consequentemente de prosódia que já ha muito devia estar reparado. E' facil demonstrar que esta graphia é errónea e que a legitima deve ser chirurgía ou ainda melhor khirurgía segundo a opinião do illustrado philólogo Júlio Ribeiro. Compõe-se esta palavra de dois elementos gre- gos a saber : oç (>7)-a mão - e êpyov, ov (ró) - trabalho, obra, resultado do trabalho. Quanto ao segundo elemento nada temos que dizer; pretendemos nos occupar apenas com 0 pri- meiro. Como sabemos, 0 signal grêgo / se transforma sempre em português em ch forte, isto é, que equisona ao k e por consequência em kh que é representação legitima do signal grêgo. O ch ora tem som brando similhante ao x ora forte equivalente ao k; quando provém do latim do grupo cl, pl, etc. deve-se pronuncial-o com 0 som de x, mas se deriva do grêgo, isto é, do signal %, deve ser pronunciado com som de k. Alguns grammáticos, preferem representar 0 si- gnal £ por qu, escrevendo por este motivo quirurgía ; 119 outros representam-no por ch (forte) ou melhor kh como prefere o erudito professôr Júlio Ribeiro. A graphia do Dr. Castro Lopes, em relação ás palavras portuguesas escriptas com ch provenientes do latim ou do grego, diverge muito das precedentes Sobre este assumpto escreve o insigne latinista, 'no seu livro sobre neologismos e barbarismos, o se- guinte : « O ch tên en portuguez úas vezes son duro, outras chiante. O leitor illitterato, e o estrangeiro não saberão de certo quando devão pronunciai-o d'este ou d'aquelle modo. Não vaie o argumento dos que dizem que o sentido da phrase guiará o leitor; por- que a seguinte proposição, por exemplo, é tão am- bigua, como as respostas dos antigos oráculos : Un grande choro de crianças echoava por toda a sala. Esse - choro - assim escripto e desprovido de distincção graphica, póde, sem offensa da lógica, ser ou o derramamento de lagrymas, ou a reunião de vozes cantantes. A cedilha porém no çh tira toda a dúvida; lê-se çhoro com som çhiante. China, e China, escriptos sem cedilha, não in- dicam qual das palavras é nome da casca Peru- viana e qual o do celeste império. » A graphia do prof. Júlio Ribeiro deve ser pre- ferida, porquê além de esclarecer bem a phrase tem a vantagem de se approximar mais da escripta grêga. 120 'Na phrase que o Dr. Castro Lopes nos apre- senta, se quisermos referir a um derramamento de lágrymas escreveremos - choro - com ch sem cedi- lha, porquê o ch tem quási sempre som chiante; se quisermos exprimir uma reunião de vozes can- tantes deveremos escrever khoro á similhança da graphia grêga %oço. Não sei de que modo escreverão esta palavra aquelles que com o professor Cândido de Figueiredo querem que o grego corresponda em português ao qu. Escrevendo quoro não poderão pronunciar do mesmo modo que aquelles que escrevem choro e khoro. Quando o signal £ for seguido de i ou e como por exemplo em quirrurgía e esquema acho acceita- vel esta graphia, mas 'no caso de ser seguido de a ou o a pronúncia não estará de accôrdo com a gra- phia a não ser que estabeleçam a seguinte regra : o qu seguido de qualquer vogal forma sómente uma syllaba ou então a seguinte distincção: quando a palavra for escripta com um trema 'no u a lettra seguinte ficará separada do qu constituindo a se- gunda syllaba da palavra, mas se não houver trema a vogal seguinte deverá ficar reunida ao qu, for- mando uma unica syllaba, como se fosse o qu sub- stituido por um k. Parece-nos que o Sr: Cândido de Figueiredo e os outros grammáticos que representam o grêgo 121 por qu adoptam a seguinte regra : Quando o é seguido de e, i, u, y deveremos represental-o por qu, mas se for seguido de a ou o será representado por c, que tem sempre som de k antes d'estas vogaes. A língua francesa tem a mesma origem que a portuguesa ; suas palavras são egualmente como as do português derivadas do latim e do grêgo. A palavra cirurgia derivada de /ap, o$ (77) - a mão - e eçyov, ov (tó) 0 trabalho - se escreve em francês com eh de accôrdo com a etymologia, mas pecca quanto á prosódia, porquê costumamos pro- nunciar shirurgie em vez de khirurgie. Não sabemos por que motivo dão os francêses ao ch desta palavra som de sh como se escrevessem shirurgie (l) ao passo que 'no da palavra chiroptère dão 0 som kh (khiroptère). Por que motivo esta divergência quando 0 pri- meiro elemento ;çap, 0$ (77) é 0 mesmo em ambas as palavras. Em português erramos quanto á graphia escre- vendo cirrurgia em vez de chirurgia (quirurgia ou khirurgia) e quanto á prosódia, pronunciando cir- rurgia. Como acabámos de ver 0 erro prosódico é consequência do erro gráphico. Aquelles que escrevem a palavra cirrurgia com c para serem coherentes deveriam escrever a pala- (1)0 mesmo podemos observar em relação à palavra chimie que os Francêses pronunciam shimie em vez de khimie. 122 vra chiróptero sem h e apenas com c brando do se- guinte modo : ciróptero, porquê o primeiro elemento d'esta palavra é o mesmo que o da outra. A palavra chiróptero ou khiróplero está bem formada porquê obedeceu ás regras de lexiogenia; a palavra cirrurgia é que por analogia á chiróptero ou khiróptero deve ser chirurgía ou khirurgía como quer o insigne professor Júlio Ribeiro ; pois é o que se deprehende do artigo que escreveu á pag. 346 de sua grammática portuguêsa acerca do grupo kh. E' do seguinte modo que se exprime o erudito professor : « Os Latinos, querendo representar o / grêgo, que é % aspirado, pospozeram ao c, equiva- lente exacto do x entre elles, o h, signal de aspi- ração, constituindo o grupo ch. Andaram bem, e ^ópo$, ficaram perfeitamente representados por chorus, echo, monar- chia. Com o volver dos tempos, alterou-se a pronún- cia do Latim, e o grupo ch, em vez de continuar a representar somente o valor de / grêgo, assumiu também em algumas palavras de origem diversa um som particular, o som de x em faxa, e, transmittiu- se assim geminado em funcções a certas línguas romanicas, ao Portuguez por exemplo. Que fazer então para orthographar nesta lingua palavras oriundas do Grego, e nelle escriptas com ^ ?- Usar de ch latino? Mas, em virtude do facto acima exposto, isso abre logar a enganos deplora- 123 veis. - Representar o £ por outro symbolo, por outro grupo que não ch, por c, por k, por qu ? Mas isso dá ás palavras um aspecto bárbaro, obscure- cendo as filiações etymológicas. O remedio é simples e intuitivo: é fazer o que fez Constando, o que fez Baudry, o que fez Regnier, o que fez Bopp, o que fez Dubner, o que fizeram todos os hellenistas que representavam kharacteres gregos com lettras latinas; é pospor o h a k e con- stituir o grupo kh. E tal grupo não é novo, como o entende o sá- bio professor de Munich, Dr. von Reinhardstoethner. Muito pelo contrario, é mais antigo do que o /; é vetustissimo. Ora, attenda-se : L'alphabet latin n'a point de caractères pour exprimer le son des explosives sourdes aspirées. Quand les Latins écrivaient ph, ch. th, ils ne faisaient que transcrire 0, g, qui s'écrivaient, avant 1'invention de ces lettres aspirées, IIH, KH, T II. C) N'elf antichissimo alfabeto greco, che appare nelle iscrizioni delle isole di Thera e di Meios, il è ancora espresso con KH, ed anche $ con II H. (2) Inoltre la metatesi accenata delfaspirazione, il K H, p. X, ed il IIH p. <1>, e la transformazione de (i) Guardia et Wierzeyski-Grammaire de la Langue Latine.- Paris, 1876, pag. 22 , (2) Domenico Pezzi.- Grammatica Storico Comparativa delia Lingua Latina, Roma, Torino, Kirenze. 1872, pag. 89 nota. 124 K, T, II in X, 0, Ç>, allorquando adderiscono ad uno spirito aspro, ci dimonstrano che 1'elemento fonético, il quale aggiungeva se alfesplosive sorde nelle as- pirante greche, era la mera aspirazione h, non la aspirante omorganica, come altri suppose. » Q Provada a legitimidade do grupo, estabelecido o seu antiquíssimo direito de cidade no dominio hellênico, que se póde objectar de serio contra a sua adopção em Portuguez ? A sua extranheza de aspecto no meio dos gru- pos usuaes ? Mas isso é devido ao descotume, e uma vez que nos tenhamos affeito, elle será para a nossa vista como um outro grupo qualquer. O que se deve considerar é que a adopção desse grupo nos traz duas vantagens reaes : P-Poupar-nos a erros vergonhosos de pronun- cia, quando encontremos escriptas palavras que não conheçamos, ex: archote, arkhonte; choro, khoro. 2^-Habituar-nos a reconhecer a filiação da pa- lavra ao primeiro relance, ex: archote de arseda (baixo Latim por arsataeda} arkhonte de àp^ovroç ; choro de pioro, khoro de ^ópog. Climatérico.- Este adjectivo é muitas vezes empregado em vez de climático e climatológico ; esta (1) Domenico Pezzi, - Grammatica Storico Comparativa delia Lingiia Latina, Roma Torino, Firenze, 1872, pag. 89, nota. 125 confusão tem-se dado em virtude da similhança que existe entre o primeiro elemento de ambos os termos. Tem-se errado ' nesta palavra primeiro quanto á graphia supprimindo o c que é etymológico e se- gundo quanto á semântica dando-se-lhe significação que não possue. Climático e climatológico significam relativo ao clima e climactérico quer dizer relativo a qualquer das épochas da vida consideradas antigamente como críticas. A confusão de climático e climatológico com climactérico é feita até pelos diccionaristas. Aulete e Francisco de Almeida pretentem dis- tinguir climactérico de climatérico, dizendo que cli- mactérico quer dizer: que pertence a uma das épochas da vida consideradas pelos antigos como críticas para a existência ou fortuna dos indivíduos, e climatérico quer dizer relativo ao clima (synónymo de climático ou climatológico). Accrescentam estes diccionaristas que annos climatéricos são todos os annos da vida do homem que são múltiplos do número septe e que em medi- cina são os difíêrentes períodos da vida em que se verificam mudanças consideráveis 'no organismo, taes como o da puberdade e o da menopausa. Lacerda não confunde climatérico com climatoló- gico., tanto assim que não menciona 'no seu diccio- nário a palavra climatérico (que outros dizem ser 126 relativo ao clima) mas sim o adjectivo climactérico 'na sua legítima accepção. Em relação a este termo escreve o insigne dic- cionarista: « climácterico, a - adj. - termo que significa propriamente por escala, por degraus, e ap- plicado pelos philosophos da antiguidade a certos períodos da vida humana, que consideravam como críticos. Os annos climatéricos eram segundo uns todos aquelles que são múltiplos do numero sete; outros deram este nome aos annos que resultam da multiplicação de sete por numero ímpar; outros finalmente applicaram-no aos múltiplos de nove; porém todos reconhecêram climatérico o sexagésimo terceiro anno, denominado o grande climatérico pela razão de ser o número 63 o producto de 7 multi- plicado por 9. Toda esta theoria é fundada na doutrina dos numeros de Pythágoras ». O adjectivo climatérico parece ter sido intro- duzido 'no português por alguém que quis traduzir o termo francês climatérique, que se não deriva de climat como parece á primeira vista. Contra este termo protesta Littré á pag. 323 de seu Diccionário de Medicina do seguinte modo: « On dit quelquefois : constitution climatérique d'une contrée; locution vicieuse, puisque climatérique ne vient pas de climat ». Grimblot também distingue climatologique de climatérique; assim podemos affirmar porquê a respeito 127 d'este termo encontrámos á pag. 828 de seu diccio- nário synthético da língua francêsa o seguinte: « Climatologique - qui a rapport à la climato- logie; qui depend du climat. Ne pas le confondre avec climatérique, de clímax ». Climatérico e climatológico - não difíerem só- mente quanto á graphia e semântica mas também em relação á origem. A palavra climatológico é um adjectivo que provém do substantivo climatologia; o 2.° elemento logia vem de Àoyoç, ou (ó) que quer dizer estudo, sciência e o l.° vem do latim clima, atis - e do grego xZíjUa, arog (tó) que quer dizer declive, ladeira, inclinação, isto é, obliquidade de uma região da Terra em relação ao Sol. Propriamente significa inclinação do céu; zona comprehendida entre dois círculos pa- rallelos ao equador d'onde se vê a estrella polar sob uma inclinação variável e onde consequentemente faz mais ou menos calor. A palavra clima (xZí^ua, aro$ [tó]) vem do verbo grego xZtrcj que quer dizer inclinar, esten- der-se 'no chão, deitar 'na cama, etc. D'este verbo xZtuío derivaram-se os seguintes termos: clinare (inclinar, fazer pender), clivus (la- deira) e clemens (que tem declive suave), que são latinos ; (>7) - (leito) - que é grêgo e clima, clinica, enclitico, proclitico, heteróclito, etc., que são portugueses. A palavra climatérico (do latim climactericus, 128 a, um) vem do grego xZt^axT^píxóç, 77 (ov) - que se deriva do substantivo zZt^ar^p, (ó) (em latim climacter, eris) que significa degrao e provem do latim climax, acis e do grego axo$ (77) que quer dizer escada, escada de mão, palanque, assento de amphitheatro, degrao, gradação, etc. O grego pertence á mesma raiz xZt que xZí^a (inclinação) e xZtrw (eu inclino). Da raiz x%l (que desperta em nosso espírito a idéa de inclinação) derivaram-se os seguintes termos: (gregos) : l9 x^lvg) (verbo) que produziu: xZirrç, >7$ (77) - que significa leito para dormir ou tomar as refei- ções, viç, sç (obrigado a ficar de cama), x^lvl^lov, ov (tó) (cama, liteira), xhwixoç, 77, óv (que se conserva ao pé do leito). 29 x^L-fia (substantivo) que produzio: x%t[ia^, axoç, (y) (degráo, escada, etc.), x^L^axcov, ov (ró) (degráo, passo para subir ou descer). 39 x^L-oia, a$ (77) (logar onde se deita, tenda, cabana, liteira, leito de repouso). 4 9 x^l-tvç, voç (77) e xhi-oç, eoç-ovç (tó) (incli- nação, ladeira, collina, região, clinia etc). Os derivados latinos são: clivus, inclinare, de- clinare, clemens, clitumnus, etc., e os portuguêses são: inclinar, declinar, inclinação, clínica, clemência, clemente, clima, etc. Do substantivo grêgo xZtua^, axoç (77) (degráo, escada) derivou-se 0 adjectivo x^t^axoç (climaco) que 129 se tornou depois substantivo próprio como por exemplo quando dizemos o Sr. Clímaco de tal - ou S. Clímaco. O nome de S. João Clímaco proveiu do adje- ctivo Convém dar algumas noções históricas a respeito de S. João Clímaco afim de comprehendermos bem a relação entre o nome próprio e o adjectivo. S. João Clímaco, doutor da Egreja, nasceu 'na Palestina em 525 e morreu em 605; consagrou-se á vida solitária e passou 59 annos 'nos desertos do monte Sinai. Deixou varias obras espirituaes escriptas em grego e latim. A principal é o clímax ou Escada do Céo. Foi desta obra que elle tomou o nome Clímaco. Em relação a este termo diz Grimblot o seguinte : « Climaque-surnom de Saint Jean de Palestine, au VIe siècle, parce quil avait écrit un ouvrage in- titulé: Clímax (Echelle [des vertus] ), divisé en trente chapitres ou degrés par lesquels il faut monter l'âme jusqu'au sommet de la perfection ». A palavra grega corresponde ao latim gradativo, - significa em ambas as línguas : degráo de uma escada e gradação. Dá-se em Rhetórica o nome de clímax a uma espécie de gradação 'na qual o discurso se eleva ou desce como que por degráos, d'onde vem a distincção de clímax em ascendente e descendente. D'este último existe um bello exemplo no su- blime episódio de Adamastor, descripto por Camões: 16 130 «O' nympha, a mais formosa do oceano Já que minha presença não te agrada Que te custava ter-me neste engano Ou fosse monte, núvem, sonho ou nada?» Em relação a palavra climax ou gradação es- creve Bouillet o seguinte, em seu diccionário de sciências e artes : Gradation (du lat. gradatio) nom donné en Littérature, à certain arrangement des idées tel que reflet va en augmentant sans cesse, et comme par degrés. Un orateur, par exemple, en disposant ses preuves, aura soin de réserver les plus fortes pour les dernières. Un auteur dramatique, un ro- mancier, fait succeder les scènes et les tableaux de manière que les emotions deviennent de plus en plus vives et profondes. En rhétorique la gradation {climax} est une figure de mots par laquelle on accumule des images ou des expressions qui encherissent l'une sur l'autre; elle est ascendante comme dans cet hémistiche de Cor- neille : va, cours, vole et nous venge; ou descendante comme dans ce vers de Boileau: Soupire, étend les bras, ferme l'oeil et s'endort. » 'Na grande encyclopedía francêsa encontrámos em relação a climax a seguinte apreciação do dis- tincto litterato A. Waltz : « Climax - Figure de rhé- torique, sorte de gradation, dont chaque terme est repeté deux fois; c'est une sorte d'échelle (d'oú son nom) sur chaque degré de laquelle on met deux fois le pied, comme on peut le voir par cet exemple de 131 Calvus, donné entre autres par Quintilien (IX, 3): Non ergo magis pecuniarum repetendarum quam ma- j esta tis, neque majestatis magis quam Plantioe legis neque Plantioe legis magis quam omnium legum est. - Cette figure, trop visible et trop cherchée, est pour cela même assez rare, suivant le même écrivain ». Em relação aos adjectivos climatérico e climato- lógico escreve o Dr. Silva Lima 'no seu glossário de medicina : « E' muito commum a confusão d'estes dous adjectivos, aliás de origem e significação muito diversa ! Climatérico que mais correctamente se deve es- crever climactérico vem de climax, acis, a escada em es- piral, a gradação na subida, o ponto mais elevado, etc. Climatológico vem de clima, atis, a inclinação da Terra, do equador para os polos, de onde as re- giões chamadas, zonas, etc.... Já Littré censurava esta mesma confusão entre os franceses. Frei Domingos Vieira distingue perfeitamente a significação dos dous termos ; Aulete escreve clima- cterico e climatérico, referindo o primeiro a climax e o segundo a clima com ligeira modificação orthogra- phica, insufficiente para assegurar a distincção entre os dous vocábulos; além de escusada, porque elle também dá o termo climatologico e com a significação análoga a de climatérico, mas com especial referencia á climatologia. As locuções : annos climatéricos, epochas, mo- léstias, climactericas, nada tem que ver com a noção de 132 clima; assim como as condicções, influência, agentes climatológicos não se referem a gradação dos períodos da vida, á idade critica etc. Comettem, portanto, um erro de significação os que usam de um termo por outro ou um só para ambas as excepções. Em referencia a clima só se deve empregar o qualificativo climatologico, climático se quiserem ac- ceitar este neologismo que já tenho visto empregado por alguns escriptores brasileiros e que poderíamos adoptar á imitação dos inglêses que empregam o triplo adjectivo climatic, climatical e climatological, re- ferindo-se este último somente a climatologia e os dous primeiros a clima sem jamais os confundirem com climacteric ou climacterical que se derivam de climax.» Esqueleto. -E' d'esta fórma que todos escre- vem ; e é assim que se encontra em todos os dic- cionários ; entretanto ninguém é capaz de demonstrar que esta graphia seja razoavel, nem, que seja ba_ seada em alguma regra. Para nós a verdadeira graphia do termo deve ser sceleto e não esqueleto, o que se pode demonstrar não só pela applicação da regra, como também pelo confronto com palavras idênticas. Como á regra deve precedêr a etymologia vamos primeiramente occupar-nos com esta. A palavra esqueleto corresponde em grêgo ao substantivo do gênero neutro cxeZeror, ov (tò). 133 Esta noção era necessária para, depois de enun- ciada a regra, applical-a ao caso. A regra a que nos referimos e que já tivemos muitas vezes occasião de enunciar é a seguinte : o x em grego quando é seguido das vogaes a ou o representa-se em português por c que equisona a k, mas quando precede as vogaes c, i, y abranda-se em português em c que equisona a s; ora appli- cando-se esta regra á palavra GxeÁrtov teremos em português sceleto e nunca esqueleto. Para que a graphia esqueleto fosse legítima seria necessário que a correspondente em grêgo fosse c^e^nov (com £-khi) e não com (x-kappa); mas 'neste caso a palavra não exprimiria o que pretendemos, porquê a raiz (skhe) exprime coisa diversa da raiz cxe (ske). Se a regra por si só não bastasse para de- monstrar o nosso assêrto poderíamos ainda appellar para o latim e para os princípios de coherência. Por via de derivação latina a palavra esqueleto não se justifica em português, visto como o grupo sce, que existe também 'na palavra sceletus, i, nunca passou para o português modificado em sque e até pelo contrário a regra é permanecer intacto como poderemos observar em : scena, (que em latim se declina, scena, oe) sceptro (que se declina sceptrum, i) scepticos (que se declina sceptici, orum). Como acabámos de ver, quem diz scena, sceptro, sceptico etc., não pode dizer esqueleto e quem diz 134 esqueleto deve, por coherência e pela mesma regra que o diz, dizer também esquena, esqueptro, esque- ptico, pois em todas ellas : gx^v^ 0), Gxvjnr^ov (2), gxetwixoç, (3) observa-se do mesmo modo que em Gxs^erov, o x (kappa) seguido de e. A palavra esqueleto empregada como adjectivo corresponde em grêgo a (TxrZfToç, 77, ov e significa seccado, endurecido. 0 substantivo grêgo gx&etov deriva-se do verbo crxeZZoío (seccar, endurecer) que provém da raiz gxe% que desperta em nosso espírito idéa de seccar, endurecer. D'esta raiz derivam-se, além dos já aponctados, mais os seguintes termos: gx&lç, (vi) (presunto, perna de porco, perna de carneiro); crxrZoç, eoç - ovç (tó) (perna, tíbia) e axZ>7pó$, á, ov [sêcco (litte- ralmente)] e por consequência duro; e 'no sentido figurado : rude teimoso, violento, magro etc.) (1) Declina-se em grêgo trKtjvri, tjç (^) e significa tenda, barraca, cabana, habi- tação temporária ; / logar coberto ou umbroso ; / armação de uma igreja ou de uma sala, pavilhão, scena (parte do theatro onde ficam os actôres). Provém este termo da raiz ave (que desperta em nosso espirito idéa de sombra) de onde se originaram os termos: l.° o-kijvoç, eos-ovç (tó) que quer dizer tenda, barraca, habitação, morada temporária da alma; - 2.° aKiá, âç (q) que significa sombra, logar sombrio ; - 3 o vKi-após ou aKi-epóç, á, óv que quer dizer sombrio, umbrôso, opaco ; 4? aKi-á^w que quer dizer sombrear, obscurecer;-5° <rKÍ-pov, ov (tó) que significa guarda- sol;- 6? vkó-tos, ov (ó) que significa obscuridade, trevas, logar obscuro; - 7? a-Ko-reivós, Ó, óv que quer dizer obscuro, tenebrôso, e muitos outros. (2) Declina-se em grêgo crKÍjirTpoi', ov (tó) e significa bastão, sceptro. Provém este termo da raiz <tko.it que dá idéa de bater, de apoiar-se. D'esta raiz derivaram-se os termos: l.° (verbo) que quer dizer apoiar sobre, pesar sobre, ferir, acabrunhar; 2.° <TKrpr<w, wvoç (ó) - o bastão; 3.° ojojtttóç, p, óv - lançado com fôrça ; 4.° o-k^tttoç, ov (ó) - raio, relâmpago, meteoro, tempestade ; 5.° oklptm (verbo) - apoiar, afundar, cravar ; 6.° <tkpttí<»v, uvot (ó) que significa bastão e Scipião, nome próprio de homem. (3) Declina-se em grêgo: a-KeirTÍKÓí, rj, ov que significa-séptico, que tem cos- tume de examinar. Provém este termo da raiz okítt que desperta em nosso espírito idéa de examinar. D'esta raiz derivaram-se os termos : l.° <TKenTopa< (verbo) que significa olhar, considerar, observar, examinar, ; 2.° vicoTrew (verbo) que significa observar, examinar, espiar ; 3.° axorná, âç (íj)-que quer dizer logar de observação, logar elevado; 4.° OKOiriá^o (verbo) significa observar de um logar elevado, e muitos outros. 135 Não sei se 'no português antigo havia a fórma sceleto que hoje discutimos ; não a encontrámos em nem um dos escriptos antigos ; nem 'no diccionário de Bacellar, nem 'no elucidário de Viterbo nem 'no livro de archaismos de Oliveira Mascarenhas. Em França os escriptôres do século XVI não conheciam a fórma actual squelette^ pois empregavam sómente scelete (como se pode verificar 'nas obras de Ambroise Paré) que, não sei por que motivo deixou de ser o que devia ser para ser o que não devia. 'Nas mesmas condições em que está a palavra esqueleto se acha o termo paróchia que provém ou de alguma confusão ou da má applicação da regra enun- ciada. Do grego derivou-se o latim paroecia e o português paróchia (fórma errónea que deve ser substituída por parecia que é como deve ser, isto é, que é a fórma etymológica. Naturalmente este erro se originou da confusão da palavra napoíxox com o substantivo Ttapo/o. A palavra paróchia compõe-se de dois elementos grêgos, a saber: Ttapa (para) que signi- fica perto e otxoç, ov (ó) (oikos) que quer dizer casa. Procurando a palavra paróchia no diccionário latino - português de Saráiva encontrámos: paro- chia, oe ved. paroecia e mais adiante encontrámos paroecia, oe do grêgo (7tapo(,xía) que significa diocese districto ecclesiástico governado por um bispo. 136 'No diccionário grego-francês de Chassang en- contrámos : Ttapoixia, aç (77) quer dizer habitação visinha, reunião de habitações visinhas. Vamos ver agora a palavra napoixoç e depois Ttapoxoç com a qual houve confusão. nápotxoç, oç, ov quer dizer que mora ao lado, em casa de. - Como substantivo significa esta pa- lavra : visinho, estrangeiro domiciliado em um país. A respeito da palavra Ttapoxoç, ov encontrámos 'no diccionário de Saraiva 0 seguinte : - parochus, i - s. ap. m. do gr. (Ttapoxoç) que quer dizer forne- cedor dos que viajam em serviço público e em outra accepção ; dono da casa, amphitryão. No diccionário grêgo-francês de Chassang en- contrámos : Ttapoxoç, ov (6) quer dizer aquelle que dá jantares, amphytrião. Tem também outra accepção e como tal é pa- lavra archaica e significa fornecedor de víveres, magis- trado encarregado, 'nas cidades e aldêas, de fornecer víveres aos soldados em marcha. 'Nestas accepçoes deriva-se Ttapoxoç do verbo Ttapéxo que significa dar, fornecer, procurar ; - offerecêr, presentear. A palavra Ttapoxoç, conforme a origem ou a accepção em que empregamos pode ser simples ou composta. Sendo simples vem do verbo naps^ e significa amphitryão, fornecedor de víveres, como dicemos ha pouco; sendo composta provém da preposição napa, que significa ao lado de, perto de; juncta ao sub- 137 stantivo o^oç, ov (ó) que quer dizer apoio, susten- táculo e por extensão carro, barca e qualquer meio de transporte. A palavra 7tapo%oç como termo composto per- tence ao mesmo gênero e declinação que Ttapo^oç (termo simples) derivado do verbo Ttapá^o e significa aquelle que está num carro stntado ao lado de outro e como termo archaico ou da língua byzantina significa - aquelle que está sentado ao lado do esposo 'no carro nupcial. A respeito do termo paróchia escreve o pro- fessor Júlio Ribeiro á pag. 35 de sua grammática portuguesa : - « Escreve-se geralmente paróchia e para isso ha razão: S. Jeronymo e Isidóro de Se- vilha escreveram em latim paróchia. Este vocábulo, porém, não é de bom cunho; veio do grego napoypç Por uma confusão. A palavra genuina emprega-a Santo Agostinho ; é paroecia do grego Ttapoixía. » Flocconnôso - E' muito commum ouvir di- zer-se flocconnôso. Já o temos ouvido e visto escripto muitas vezes em livros de medicina. I Quem é que ainda não leu em livros de chí- mica alguma explicação ou qualquer referência sobre um precipitado branco flocconnôso ? O nosso adjectivo flocconôso nada mais é do que o francês flocconneux mal traduzido. O adjectivo francês flocconneux está bem for- 17 138 mado, porquê ao substantivo flocon junctou-se a ter- minação eux que corresponde em português a oso; ora flocon se traduz em português por flocco - ao substantivo flocco junctando-se o suffixo oso teremos o adjectivo floccoso e nunca flocconnôso. Para termos, flocconnôso era necessário, ou que o substantivo português, fosse floccon ou que o suffixo a accrescentar a flocco fosse onnoso; mas como em português não existe nem o substantivo floccon nem o suffixo onnoso3 segue-se que o adjectivo flocconnôso constitue um erro indesculpável, vergonhoso, e es- candaloso, e tanto mais digno de censura, porquanto não ha um diccionário em português que o registe, sendo todos unânimes em indicar o adjectivo floccôso como derivado de flocco. Esta palavra deriva-se do latim floccus, i, que quer dizer vello de lã, frisa de panno, pello, e 'no sentido figurado : coisa de nem um valor, ninharia, nonada. Segundo Corrêa de Lacerda o floccus latino corresponde em grêgo a TtZoxoç, ov (ó) que quer dizer trança, annel de cabello, penteado, monte de cabello, tufo e mais ainda collar em forma de trança, corda trançada, - n^oxoç vem de (verbo) que si- gnifica trançar, enlaçar, embaraçar, entrelaçar e 'no sentido figurado - combinar, tramar, machinar. O verbo grêgo nksxGi corresponde ao latino plecto, is, xi e xui, xum, ectere que significa annellar, en- caracolar (o cabello), encrespar, frisar e ainda en- laçar, tecêr, entrelaçar. 139 Lymphatite (x)-E' este um dos erros que não merecem desculpa. De modo algum pode-se jus- tifical-o. Nem um diccionário o regista, e pelo contrário são todos unânimes em mencionar a forma lymphan- gite. Está bem visto que os que se servem da pa- lavra lymphatite o empregam em vez de lymphan- gite. (2). O termo lymphatite é erróneo não só quanto á significação, mas também quanto á fórma. Pecca quanto á semântica, porquê não exprime o que pretendemos, pois significa litteralmente in- flammação da lympha e não inflammação dos vasos lymphâticos que é o que se queria dizer. Pecca quanto á forma, porquê ao termo lympha junctando-se a terminação ite, que indica inflamma- ção teremos o termo lymph-a-ite que se contrahe em lymphite (desapparecendo o a terminál de lym- pha) ficando d'este modo sem explicação o t que ahi encontramos. A palavra lymphangite compõe-se dos seguintes elementos : Io lympha (3) que em latim se declina lympha, ce (a água) e provém, segundo Moraes, do grêgo (a fonte) e segundo Littré, Delamare e Cândido de Figueiredo de vvy<pri, pç (p), a água. (1) Este termo nos foi lembrado pelo illustre pediatra Dr. Moncorvo Filho. ( 2 ) Algúns auctôres empregam o termo lymphite como synónymo de lymphan gite. O termo lymphatite é também empregado pelos Franceses como synónymo de lym- phangite, estando elles do mesmo modo que nós, sujeitos â censura. 140 A palavra grêga vvp<p7] não significa somente água; significa também virgem, noiva, mocinha re- cem-casada; nora, enteada; nympha (divindade my- thológica); nympha (larva de insectos); covinha do queixo, boneca. Segundo o diccionarista Corrêa de Lacerda o l que existe na palavra lympha é indicativa de fluidos, ou de corpos molhados e escorregadios; por isso entra em lar are, luere, eluere, diluere. O rad. é o gr. Zvó, solver. No diccionário francês-grêgo de Defaucompret encontrámos como traducção do termo lympha o substantivo r^óp, õpoç (ó) e 'no diccionário grêgo- francês de Chassang para traducção de i^cop, °P°S (ó) encontrámos : - l.° sangue dos deuses (em Homero) 2.° humor, serosidade, pús, 3.° seiva das arvores. O 2.° elemento da palavra lymphangite é : - ayyaor, ov (tó) que quer dizer vaso e o 3.° é a terminação que dá idéa de inflammação. Mentoneiro e mentoniano. - Das variantes erróneas do adjectivo mental são estas duas as mais usadas. Este erro é um dos devidos a influência francêsa; pertence ao grupo dos que não devem ser tolerados. 'Na realidade causa pasmo ouvir dizer-se mento- neiro e mentoniano quando todos os diccionaristas da língua portuguêsa registam o adjectivo mental e são omissos em relação á mentoneiro e mentoniano. 141 Por que razão não incluiram estes termos em seus diccionários, os insignes diccionaristas Cândido de Figueiredo, Aulete e Moraes ? £ Serão por ventura mentoneiro e mentoniano termos tão téchnicos, tão especiaes, a determinado facto mé- dico que passassem despercebidos a tão illustres in- vestigadores da formosa língua de Camões ? Não o cremos. Para nós mentoneiro e mentoniano estão 'nos mesmos casos que o adjectivo floconnôso^ do qual já tivemos occasião de fallar. O mesmo motivo que nos levou a usar o adje- ctivo fiocconnôso nos levou também a adoptar mento- neiro e mentoniano. Adoptou-se flocconnôso^ porquê se parece com o francês floconnenx e mentoneiro e mentoniano por se parecerem com mentonier e mentonien. Do substantivo menton formaram os francêses correctamente o adjectivo mentonnier accrescentando ao dicto substantivo a terminação ier que corres- ponde quási sempre ao sufíixo português eiro. Como acabámos de vêr em francês póde expli- car-se facilmente a formação do adjectivo mentonnier. Mas em português de que modo poderá expli- car-se a formação dos termos mentoneiro e mentoniano ? Decompondo-se a palavra, isto é, separando-se ou tirando-se do primeiro termo o sufíixo eiro (que corresponde ao francês ier) e do segundo o sufíixo ano (que corresponde ao francês en) com sua vogal 142 de ligação i, fica restando a palavra menton que não existe nem 'no português antigo nem 'no moderno. Junctando-se ao termo mento os sufixos eiro e ano teremos os adjectivos portuguêses mentoeiro ou menteiro e mentoano ou mentano que nem um diccio- nário regista. Devem existir estes adjectivos? Temos necessidade de creal-os ? 4 Haverá em francês necessidade dos adjectivos mentonier e mentonien ? 4 O adjectivo francês mental que corresponde ao portuguez mental não é sufficiente ? ^Não poderíamos dizer em francês trou, nerf mental e em português buraco, nervo mental em vez de trou mentonnier nerf mentonnier, buraco mentoneiro, nervo mentoneiro, do mesmo modo que dizemos (nós e os Francêses) artéria sub mental e artère sub-mentale ? Devemos e podemos segundo Littré; pois em seu diccionário declara este illustre philósopho que o adjectivo mentonnier deve ser substituído por mental. 4 Haverá em francês alguma differença entre os adjectivos mental, mentonnier e mentonien? I Terá cada um delles sentido preciso, apro- priado, restricto, para este ou aquelle facto anatómico ? Poderão ser supprimidos e em logar d'elles ser usado sómente o adjectivo mental e dizermos indis- tinctamente trou, nerf, artère mental e mentale ? Se existe alguma differença entre estes adje- ctivos, ou se sua suppressão ou substituição pelo 143 adjectivo mental possam ser feitas sem fazer falta ou causar embaraços á linguagem médica não o sabemos, porquê a este respeito nada nos esclareceu a con- sulta que fizemos aos nossos livros. Se tivéssemos podido, como pretendíamos, con- sultar os nossos mestres sobre as difficuldades do as- sumpto que escrevemos, ficariam de sobra esclarecidos este e muitos outros ponctos de technologia médica. Infelizmente não pudemos fazer sequer uma con- sulta e tivemos que sozinho arcar com todas as difficuldades tendo unicamente por auxiliar nossa mo- desta livraria, em cujos livros não pudemos encontrar solução para todas as objecções que se formavam em nossa mente. Proseguindo 'no assumpto declaramos que em nem um dos diccionários francêses que consultámos encontrámos o adjectivo mentonien nem mesmo 'nos diccionários de medicina de Lereboullet e Littré que mencionam o termo mentonnier. Não há dúvida nem uma que as fôrmas mento- neiro e mentoniano são erróneas devendo permanecer tão sómente o adjectivo mental. Do nosso glorioso mestre Dr. Francisco de Castro, cuja linguagem primorosa era sempre escudada 'na mais lídima e pura fórma vernácula ouvimos sempre dizer : nervo mental, buraco mental, plexo mental. Antes de ouvirmos as sábias licções do incom- parável professor de propedêutica, isto é, quando ainda cursávamos as aulas de Anatomia descriptiva 144 'no segundo anno médico dizíamos sempre nervo men- toneiro, plexo mentoniano, mas assim que o ouvimos empregar o adjectivo mental em vez de mentoneiro que era a forma corrente, tractámos logo de investigar sua origem e emquanto isso fazíamos tivemos occa- sião de verificar que todos os diccionaristas portu- gueses registam o adjectivo mental e nada dizem sobre mentoneiro ou mentoniano. Os anatomistas portugueses também escrevem correctamente nervo mentál, plexo mentál, cristã mental, protuberância mentál, como se pode observar á pags. 552 da Osteologia de Serrano. Paladar - palato. - Qual d'estas duas fôr- mas é a preferível? Para designar a abóbada palatina ou céo da bôcca a última fórma parece-nos melhór, não só por- quê se distingue de paladar (sentido do gosto) como também por se approximar mais do termo de origem, palatum, i. Todos os diccionaristas mencionam as duas formas sem todavia declararem qual a melhór. A respeito destes dois termos escreveu o Dr. Silva Lima o seguinte 'no seu glossário médico: « Palato-Paladar. - Ouvi a alguns médicos portu- guezes dizer o palato, para designar o que nós cha- mamos a abobada palatina; e veo do palato o que nós chamamos o veu do paladar ; os anatomistas que escreveram em latim diziam palatum durum e pala-' 145 tum molle para exprimir as mesmas partes compo- nentes da bôcca e os inglezes traduzindo aquellas locuções latinas dizem liar d palate e soft palate ; os italianos escrevem il palato, e os espanhoes, paladar como nós; é vulgarmente o céo da bocca em por- tuguês ; ciclo de la bocca em castelhano, roof of the month (tecto da bocca) em inglez. Parece-me mais apropriado o termo palato da antiga linguagem medica portuguesa; Io pelo facto de já estar em uso em Portugal; 2° por ser mais conforme á immediata derivação latina; 3? porque os nomes anatómicos são todos derivados de palato paladar, como abobada palatina, osso palatino e os componentes /Wózfo-labial, /Wwfo-pharyngeu, palato- staphylino; 4 9 porque na nossa lingua paladar ex- prime também sabor, gustação, sentido do gosto; a significação dos dois termos ficaria melhor determi- nada e com accepções differentes uma da outra, reservando-se o de palato para a linguagem anato- mica embora o palatum dos latinos também figura- damente exprimisse gosto e sabor ». Perineo ou perinêu ? - Qual d'estas formas será a melhor ? Eis aqui uma pergunta que não é facil de ser respondida. A maior parte dos diccionaristas prefere a se- gunda, mas não nos explica bem o motivo de sua preferência. 146 0 que mais nos embaraça é a divergência que reina entre elles quanto á fórma que deve ser ado- ptada. Francisco de Almeida e Carlos Aulete preferem a fórma períneo e a derivam do grêgo perineos. Corrêa de Lacerda não escreve períneo mas sim perinéo ou perineu e diz que o termo compõe-se do prefixo peri que quer dizer em torno, em redor e de anus, (o ano). Moraes pensa do mesmo modo que Lacerda, porém decompõe o termo do seguinte modo: peri (em torno) e naiô (eu habito) e diz que alguns pronunciam períneo e outros perineu. Witkowski diz a página 50 de seu livro La Génération Humaine que períneo compõe de (ao redor) e váoç, (templo). Decaisne e Gorecki divergem de Witkowski só- mente quanto ao ultimo termo; pois em seu diccio- nário de medicina encontrámos veoc, (templo) e não vaoç, como diz Witkowski. Cândido de Figueiredo regista em seu diccio- nário períneo e perineu, que provêm de perineos e perinaios, sem todavia declarar qual das duas fôrmas é a melhor? Como acabámos de vêr os diccionaristas diver- gem quanto á fórma e consequentemente quanto á prosódia. O Dr. Silva Lima admira-se de havêr quem diga períneo em vez de perinéo. 147 Não julgamos a questão tão facil como pensa o illustre médico bahiano. Se encontrássemos 'nos diccionários latino e grêgo perinceum e TtEpivaiov e nos declarassem os auctô- res serem estas fôrmas legítimas e que perineos, i e TtepivEog, ov eram incorrectas não haveria dúvida nem uma que a fôrma adoptada seria perineu. Mas o que precisamos sabêr para firmarmos a prosódia é qual das duas fôrmas latina e grêga deve prevalecer. Se consultássemos somente os diccionários : francês-latino de Goelzer, da língua francêsa de Darmesteter, o das sciências e artes de Bouillet, o de etymologia francêsa de Laurent e Richardot, o contemporâneo de Aulete e o de Francisco de Al- meida e as raizes grêgas de Lancelot, teríamos adoptado desde logo a graphia períneo, pois diz o auctor do primeiro que o termo períneo vem do latim perineos, i ; o do segundo acha que o termo vem do latim perineos e do grêgo TtEpwEoç e os outros dizem provir do grêgo TtEpcvEoç. Proseguindo em nossa consulta entrámos 'no domínio da dúvida quando lemos 'nos diccionários de Littré e Lereboullet que períneo vem do latim perinceum e do grêgo TtEpívEoc,, cuja fôrma não cor- responde, está visto, á latina perinceum. Esta dúvida augmentou ainda quando consul- támos os diccionários grêgos e latinos. De facto 'nos diccionários: latino-português de 148 Saraiva e latino-francês de Quicherat encontrámos as formas perineos, i e perineon, i correspondentes ao grego Ttepiveoç e perinceon equivalente a nspivaiov. A consulta que fizemos aos diccionários francês- grego de Defaucompret e grêgo-francês de Chassang nada nos adiantou. 'No primeiro encontrámos para traducção de perineo, 1" Ttep/uatog, ou (ó)-e 2° nepLveoç, o (ró). 'No segundo encontrámos : - n£pcvaLov, ov (ró) e nepivaioç, ov (ró) precedidos de duas estrellinhas que indicam segundo convenção do auctôr que os termos são archaicos e pertencem á lingua byzantina. 'Na mesma página e um pouco mais abaixo encontrámos as fôrmas 7t£pív£ov, ov (ró) e 7t£piv£oç, ov (ó) sem signal, o que quer dizer que a palavra pertence á língua áttica do tempo de Péricles. São estas as considerações que tínhamos de fazer em relação ao termo perineo. Passemos agora a citar as opiniões dos com- petentes. Tem a palavra o Dr. Silva Lima, para contar- nos o que pensa em relação ao termo que discutimos. Para esclarecer este assumpto escreveu o Dr. Silva Lima o seguinte em seu glossário médico: « Perineo e perineu - Parece incrível que em Por- tugal e no Brazil, na Bahia ao menos, se diga pe- rineo em vez de perineu como ensinava Jonathas Abott. O termo latino escreve-se perinceum em que o 149 diphtongo é longo por sua natureza. E isto succede não obstante a nossa tendencia a afrancesar a pro- nuncia, pois os francêses dizem perinée ». Analysando o artigo do Dr. Silva Lima escre- veu o Dr. Fragoso Tavares 'na Medicina Contem- porânea de Lisboa publicada em 1893, o seguinte: «Períneo dizemos nós também em Lisboa. E aqui peço licença ao Dr. Silva Lima para discordar do seu argumento em favor de perineu. No latim nem sempre a syllaba longa é predo- minante, e por isso o escrever-se perinceum não im- plica que predomine a terceira syllaba ». O Dr. Silva Lima responde a esta anályse do modo seguinte: «Aqui peço eu também permissão ao illustrado collega para discordar. E' certo que nem sempre cáe o accento tónico em syllaba longa, como por exemplo quando se lhe segue outra egualmente longa; assim diremos perios- teum que tem a terceira longa sobre a qual recáe ao mesmo tempo o accento tónico; e periostitis, periostosis^ periostomo,^ nas quaes a accentuação tó- nica passa para a quarta syllaba que fica sendo predominante. Em perinceum que tem breve as duas primeiras não póde deixar de predominar a terceira que de mais a mais é constituida por m diphthongo. E tanto assim é que nas seguintes linhas o collega diz que pronuncia peritonêu o que em latim se escreve peritonceum; entretanto n'este caso as 150 razões prosódicas são as mesmas que militam em favor de perinêu sendo a quarta syllaba um m diph- tongo e breves as tres primeiras. » Já tivemos occasião de dizer que o Sr. Cân- dido Figueiredo prefere á períneo a forma perineu, que é graphia mais exacta, segundo escreveu 'no seu diccionário da lingua portuguêsa. Em relação ao mesmo assumpto, escreveu o distincto grammático mais as seguintes linhas á pá- gina 175 de seu apreciado livro O que se não deve dizer: « Vamos agóra ao perineo, com que os ana- tomistas designam o espaço entre o ânus e os organs genitaes. Pela mesma razão por que pronunciamos peritonéu devemos pronunciar perinêu, visto que o grêgo perinaios tem um ditongo que torna agudo ou oxítono o vocábulo português ». Peritóneo ou peritonêo ? - A maioria dos diccionários regista a forma peritonêo. Poucos são os que adoptam outra graphia. Roquete e Lacerda adoptam a forma peritóneo dizendo este último que a palavra vem do latim peritoneum. Frei Domingos Vieira regista as duas formas peritóneo e peritonêo sem declarar qual a melhor. Moraes, Aulete, Cândido de Figueiredo e Fran- cisco de Almeida adoptam a forma peritonêo deri- vando do latim peritonceum ou do grêgo neçurovaLov. Em relação á etymologia dizem alguns diccio- 151 naristas que a palavra vem do latim peritoneum e do grêgo nsçcTÓvsov, e outros, do latim peritonoeum (com se diphthongo ), e outros do grêgo Ttfpcromíov (com at diphthongo). São estas divergências que difficultam a pro- sódia, pois o consultante hesita 'nella por não saber qual das fôrmas é a legitima. Se não houvesse divergências, ou os dicciona- ristas nos explicassem a razão por que preferem esta, á aquell'outra fôrma então a coisa seria facil porquê teriamos elementos para, raciocinando, podêr adoptar esta ou aquella; mas infelizmente os dic- cionaristas muitas vêzes fogem da difíiculdade ou então julgam os factos tão simples que se dispensam de discutil-os. D'entre os diccionaristas francêses que consul- támos, apenas dois, Moreau e Stappers, derivam o termo que discutimos, de neçrfovLov ; todos os mais o derivam do latim peritonoeum ou do grêgo Tteptro- raior; mas nem um declara por que razão prefere uma fôrma e despreza a outra, ficando d'este modo o consultante sem saber se deverá empregar uma das fôrmas ou se poderá sem erro empregar ambas indifferentemente. Só do seguinte modo, cremos, podem ser inter- pretadas as divergências dos diccionaristas, isto é, uns derivam a palavra de neçvrovwv que consideram propriamente substantivo e outros de como adjectivo substantivado. 152 Grimblot, Lancelot e Brachet dizem que peri- toneo vem do grego TtepíTorator subentendendo o substantivo vpcv (membrana). Do mesmo modo pensa Saraiva; pois 'no seu diccionnário latino-português encontrámos : - « peri- tonoeos membrana (do gr. TtspiTovaLoç ) é o mesmo que peritonceum, i ou peritoneum, i (peritonêo ». 'No diccionário lati no-francês de Quicherat en- contra-se, sobre o assumpto que nos preoccupa, o mesmo que encontrámos em Saraiva. 'No diccionário francês-latino de Goelzer en- contrámos peritonceum, i e 'no francês-grêgo de De- faucompret nEpurovoaov (ró). A palavra peritóneo compõe-se dos seguintes elementos grêgos : nept, ao redór em torno e tovlov do verbo ^elvcò que significa estendêr. A respeito do termo que discutimos escreveu o Dr. Silva Lima em seu glossário médico as se- guintes linhas : « Peritóneo e peritonéu - Os médicos portu- guêses dizem correctamente peritonêo e não sei a ra- zão porque modernamente se pronuncia aqui peritóneo sendo o termo latino peritonceum ». O Dr. Fragoso Tavares respondeu do seguinte módo ao Dr. Silva Lima 'na Medicina Contemporâ- nea de Lisboa: « Peritonêo é que nós pronunciamos; não é peritonêo com é e sim com ê. Pelo menos as- sim soa aos ouvidos de todos ». Em relação á graphia e prósodia de peritoneo 153 escreveu o Sr. Cândido de Figueiredo á pagina 174 de seu interessante trabalho : « O que se não deve dizer » o seguinte : « A membrana serosa, que reveste interiormente o ventre chama-se, na Escola Médica de Lisboa, pe- ritóneo, com acento tónico na terceira syllaba; e na Universidade chamam-lhe peritonéu. A pronúncia exacta é esta última, a de Coimbra. E de facto, provindo a palavra do grêgo peri- tonaion, e correspondendo o ditongo grêgo ai a uma syllaba longa ou tónica em português, não sei como alguém duvide de que o vocábulo português é agudo e deve escrever-se peritoneu ou peritonéu. Provavelmente foi o francês peritoine que arras- tou alguns professores á preconização do peritóneo; mas o francês, só por si, não nos dá regras de pro- nuncia nem de escripta ». Quanto á prosódia do termo que discutimos diz o Sr. Cândido de Figueiredo que 'na Eschola Médica de Lisboa adoptam a prósodia peritóneo e que 'na Universidade de Coimbra pronunciam peritonéu. Não sei se entre as nossas Faculdades de Me- dicina existe tal divergência. 'Na do Rio de Janeiro não existe entre os es- tudantes ; de todos tenho ouvido peritóneo; nunca ouvi peritoneu. Entre os professôres a maior parte pronuncia peritóneo; mas recordo-me ter ouvido de algúns a prosódia peritoneu. 154 Peróneo ou peronêo ? - 'Neste, como 'nos dois termos anteriores períneo e peritóneo divergem os diccionaristas quanto á forma e prosódia. Francisco de Almeida e Caídas Aulete registam sómente peróneo ; Frei Domingos Vieira, peróneo e peronêo; Moraes e Cândido de Figueiredo preferem peronêo. Em relação á etymologia são todos os dicciona- ristas unânimes em derivar o termo do grêgo n^ovv[, (>7) (que quer dizer fivela, poncta de fivela, col- chete) que provém do verbo nsipo) que significa furar, penetrar, atravessar. Em relação a este termo diz Stappers 0 seguinte 'no seu diccionário synóptico de etymologia francesa : « Pero-nê, os exterieur de la jambe (gr. peronê, propr. pointe de 1'agrafe, esse ou cheville qui tient la roue attachée à 1'essieu; de peirô percer». Em Grimblot (vocabulaire synthétique de la lan- gue française) encontrámos á pagina 831 0 seguinte : « Peronê, os long et grele de la jambe qui a quelque ressemblance avec une sorte d'agrafe en usage chez les anciens, et s'accroche en quelque sorte au tibia ». 'No diccionário de raizes grêgas de Moreau en- contrámos 'no começo da pagina 254 o seguinte: « ne^óvvi (agrafe, chavette d'une roue) de Trapo per- cer comme le latin fibula (agrafe) contract. de figibula, vient de figo (attacher, percer) e em seguida : Peronê -l'os anterieur de la jambe, ainsi nommé parce quil a quelque ressemblance avec une genre d'agrafe em- 155 ployé par les anciens. L'os postérieur s'appèlle (tibia) ». Em relação á fórma d'este termo temos as mes- mas dúvidas que em relação aos dois anteriôres (pe- rineo e peritóneo). Julgamos que os que adoptam a fórma peróneo devem derivar o termo não de 7tepór>7 mas de seu deminutivo Ttepóiuor, ov (tó) por ser esta derivação mais regular, não só quanto á fórma mas também quanto ao gênero da palavra em ambas as línguas. Os que pronunciam peronêo o derivam do adje- ctivo Tte^ovaio que quer dizer relativo ao osso pe- róneo ; d'onde se vê que quando dizemos peronêo empregamos um adjectivo substantivado subenten- dendo o substantivo osso. Sobre este termo escreveu o Dr. Silva Lima o seguinte em seu glossário médico : «Peroneo - Os portuguêses dizem peróneo e nós peronêo. Qual a pronúncia que deve prevalecer ? Os inglêses e americanos não usam d'este termo e sim do latino fibula (fivela ou colchete) mas em- pregam o adjectivo peroneal^ accentuando o e, o que não fariam se o considerassem breve, porque neste caso diriam peróneal. Mas como os americanos dizem cervical e vê- sical (Webster) sem accentuarem o i longo do latim e os inglêses dizem mais correctamente cervical (segundo Power e Sedgwick) não me julgo com 156 autoridade para decidir se peróneo é mais correcto do que peronêo conquanto me incline para o se- gundo modo de pronunciar. » O Dr. Fragoso Tavares respondeu ao Dr. Silva Lima 'nos seguintes termos: «Peróneo dizemos em Lisboa; em Coimbra pronunciam peronêo. Não entrarei também neste ponto que apparece sempre que ha discussões sôbre pronúncia. Peronêo não é erro seguramente, ainda que se opponha á indole verdadeira da nossa língua que prefere accentuar a penúltima ou ante-penúltima syllaba, ao contrário do francês. Neste particular tinha razão completa o Dr. Lima Leitão. Isto quanto a peroneo substantivo ; porque quando dizemos artérias ou musculos peroneos como melhor soa também dizer artérias meningéas do que meningeas ». Sobre este termo escreveu o Sr. Cândido de Figueiredo á pagina 175 do livro: «o que se não deve dizer» o seguinte : « Quanto ao peroneo que é o osso longo delgado ao lado da tíbia, na perna, já em tempo hesitei sobre a exacta pronúncia do termo, porque o grego perone parecia indicar peróneo e não peronêo; e nas Lições Práticas (vol. II, 2* ed., pag. 81), cheguei a insinuar a leitura peróneo. Succede porém que no latim scientífico apparece peronoeum o que indica um hellenismo hipotético (peronaion); e tanto a fórma grega como a latina mostram que a accentuação tónica em português vai 157 para a última síllaba : peronéo. Donde não será dif- ficil concluir que, no pleito prosódico entre Coimbra e Lisboa, a razão é toda a favor da velha e garrida cidade do Mondego ». A' pag. 150 do primeiro volume das lições prácticas da língua portuguesa escreveu o Sr. Cân- dido de Figueiredo mais as seguintes linhas em re- lação ao termo peroneo : « Há quem leia peronéo (e é assim que deveria escrever-se, tendo tal pronúncia) mas a raiz grêga leva a Escola Médica de Lisbôa a pronunciar peróneo. Diz me porém Silvestre Algarvio, um erudito caturra, que é mestre em coisas grêgas: - « Do thema substantivo perona (este é que é o thema, pérone é já um caso, o nominativo singular) temos o th. adjectivo perona-io -peronaio e o adjectivo peronaion, ( ostoún ) - lat. peronseum ( os ) - port. peronéo ou peroneu ». Sciatico. - Esta graphia é errónea; não obe- dece ás leis de lexiogenia. Quem procurar este adjectivo em algum dic- cionário de etymologia verá que elle corresponde ao latim ischiaclicus e ao grêgo icr^raáíxoç que provém de ia%íov, ov (ró) que quer dizer anca, quadril) por intermédio de á^oç. Não sei por que motivo aquelles que dizem 158 nervo sciático não dizem também artéria sciática, hér- nia sciática, mas sim artéria e hérnia ischiáticas! Para serem coherentes deveriam dizêr: nervo sciático, artéria e hérnia sciáticas ou então nervo ischiático e artéria e hérnia ischiáticas. A palavra resulta talvez de alguma confusão entre o e o x gregos, 'na passagem do termo para o latim e o português. Esta confusão tem sido obser- vada em muitos outros termos idênticos. A palavra sciático, pela sua fórma, pela sua feição, desperta em nosso espírito idéa de sombra, a qual não se relaciona de modo algum com o nervo ou a artéria ischiático,. Desperta em nosso espírito idéa de sombra, porquê 'nella vê-se claramente a raiz gxt;, d'onde proveiu o substantivo Gxia, aç (>7) que quer dizer sombra. Como acabámos de vêr a forma sciático não tem razão de sêr, sendo ischiádico a legítima graphia do termo. Em todos os diccionários de português que consultámos encontrámos sómente a graphia sciático, com excepção do diccionário do professor Cortezão onde encontrámos apoio para nossa opinião. Diz este illustre médico 'nos seus subsídios para um diccionário completo (histórico e etymoló- gico) da língua portuguêsa 0 seguinte: « Ischiático - Por influência da litteratura francêsa, nós e os hispanhoes, assim dizemos e escrevemos; mas deve- 159 riamos antes dizer ischiádico (do lat. ischiadicu, do gr. ischiadikos) como os italianos; e similhantemente sciádica e não sciática (1). O proprio Dictionnaire de médecine, de Littré et Robin, no seu Gloss. lat. traz-Ischiadicus fischia- diquej, no Gloss. angl.- Isehiadic áischiatique !d e no Gloss. ital.-Ischiádico ou ischiatico Stoma, stómate, stómatos, estorna, estó- matos, estomátos. - D'entre todos os diccionários portugueses que consultámos apenas quatro (os dos Srs. Cândido de Figueiredo, Francisco de Almeida, Aulete e Moraes) registam o termo que vamos dis- cutir. Todos elles registam estómatos, excepto Moraes que manda pronunciar estomátos. As fôrmas estómato e estorna são as que mais frequentemente se encontram 'nos livros de botânica. A fórma do genitivo parece ser mais usada em Portugál do que 'no Brasil onde é mais commúm a nominativa. Encontrámos estómatos 'no compêndio de botâ- nica do Sr. Guilherme de Sousa e estornas 'nos dos Srs. Dr. Maximino Maciel (licções de botânica geral) e Paulo Tavares (traducção da História Natural de Langlebert). (1) N'este poncto não concordamos. Somos de opinião que se diga ischiádico, por- quê aqui é o mesmo adjectivo °v empregado substantivadamente, suben- tendendo o substantivo vocroç, ov (>j) que significa doença, moléstia. 160 A fórma nominativa (estorna) comquanto seja melhór do que a do genitivo (estómato) não é toda- via tão adequada como a deminutiva (estómios) que (com permissão de nossos mestres) ousamos apre- sentar. Este termo declina-se em grego oró^iov ov {ro) e é deminutivo de aro$ (tó) que quer dizer bocca, abertura, etc. As razões que nos fizeram preferir esta última fórma são as seguintes : P porquê as aberturas que servem para a res- piração do vegetal não são simplesmente orifícios, mas sim bôccas tão pequenas que não podem ser vistas a olho nú. 2^ porquê a palavra estorna significa simples- mente bocca, sem indicar o tamanho. 3* porquê essas bôccas ou póros, que servem para a respiração do vegetal, chamam-se em latim stomatium, ii (que é o mesmo que o grêgo gho- (.uov, ov (ró)) que equivale ao termo vulgar oscillum, i que é deminutivo de os, oris (a bocca) assim como GTOf-uov, ov (ró) é deminutivo de 6T0(ia, aroç (ró) que também significa bocca. A fórma estomátos que encontrámos 'no diccio- nário de Moraes é inexplicável; não sei onde é que o illustre diccionarista arranjou argumentos para esta prosódia. As formas stoma, stómatos não se coadunam com a índole de nossa língua; o st inicial, do grêgo ou 161 do latim, deve ser sempre precedido de um e em português. A forma stómates é que não pode ser acceita de modo algum, é indigna de apparecêr em livro impresso. Naturalmente foi creada pelos mesmos que crea- ram o termo stígmates e que outro intuito não tive- ram senão o de imitar o francês stomate e stigmate. Syndrôma e Syndromo. - A primeira destas formas é a que está em circulação. A segunda era adoptada pelo nosso pranteado mestre Dr. Francisco de Castro e um ou outro de seus discípulos. Comquanto não seja errónea a forma syndrôma todavia preferimos dizer syndromo (accentuando a antepenúltima syllaba) por nos parecêr mais razoavel. Os que empregam a fórma syndrôma podem jus- tificar-se dizendo que ella provém do substantivo grêgo da primeira declinação (37) que quer dizer encontro, concurso, affluência, estando porém 'na obrigação de banir 0 termo pródromo e adoptar a forma prodrôma, que se deriva (de um modo análogo a syndrôma} do substantivo -da primeira declinação grêga (37) que quer dizer acção de corrêr 'na frente, de precedêr. Os que adoptam a fórma syndromo (com accento 'na ante-penúltima syllaba) derivam 0 termo do grêgo cwp-ápo^osjOÇjor que quer dizer: que corre juncto, 162 que se encontra, e por coherência adoptam a fórma pródromo que provém de 7tpo-bpopoç,oç,ov que quer dizer que corre antes, que precede, anterior. Como acabámos de vêr podemos empregar uma ou outra fórma ; porém o que se não pode admittir é a incoherência dos que aqui escrevem syndrôma e acolá pródromo. Devemos por coherência dizer syndrôma, pro- drôma, ou então, o que é melhor, syndromo e pró- dromo, assim como dizemos velódromo e hippodromo. As palavras syndrôma e podrôma compoem-se de dois elementos grêgos : o 2o que é commúm aos dois é o substantivo feminino da primeira declinação Apo^^^ç (>7) que é 0 mesmo que êpo^o^ov (ó) sub- stantivo masculino da segunda declinação. O primeiro elemento do primeiro termo é a pre- posição cvv que dá idéa de juncção, concomitância; e 0 segundo é a preposição 7tpó que indica antece- dência, anterioridade. Quanto a syndromo e pródromos, está claro que se compoem das preposições avv e 7tpó e do substan- tivo ^po^og commum aos dois, que quer dizêr corrida. Tabetico. - 4 Por que razão empregam os es- tudantes e até mesmo os professores a palavra ta- bético em vez de tábido ? Q) (1) Raro é o estudante que, em vêz de tabético emprega a forma tábido, algúns não a empregam com receio de se afastarem do uso, outros por ignoral-a. Estes não têm desculpa porquanto dos dignos lentes Drs. Francisco de Castro e Cyprianode Freitas que se exprimem sempre em português legítimo, tiveram muitas vezes occasião de ouvir tábido que é a verdadeira fórma do termo. 163 i Será por terem encontrado este termo alguma vêz em algúm diccionário ? Não o cremos. Em muitas outras palavras temos observado sérias divergências entre os diccionaristas, porém quanto á esta não ha nem um que a mencione e são todos unânimes em registar tábido. Littré é, talvez, o único que a menciona, porém com o louvável intúito de corrigil-a. Diz o eminente philólogo francês 'no seu dic- cionário de medicina: « -Tabetique -adj. de tabes, consomption; mot mal fait et barbare; il n'y a point de t dans tabes ; il faut dirè ou tabide ou tabescenty> e um pouco adiante « tabide (de tabidus) hectique, consumé par le marasme. » Em todos os outros diccionários encontrámos sempre tabide e nunca tabetique; devemos portanto tra- duzir o tabide francês por tábido. Tanto o tabide francês como o tábido português se derivam do adjectivo latino tabidus, a, um, do qual formámos tabide e tábido, mas que nunca consegui- ríamos tabetique nem tabético. O próprio adjectivo latino tabidus, a um, provém do verbo: tabeo, es, ui, ere que significa consumir-se, definhar-se. Como acabámos de vêr não ha um dicciona- rista, que registe a palavra tabético, nem uma regra de lexiogenia que auctorize a formação de tal vo- cábulo. 164 Por que motivo então foi elle admittido 'na nossa linguagem médica ? A razão é muito simples. E' porquê costumamos estudar em livros franceses; ora, os franceses dizem tabétique e em português a palavra mais parecida com tabetique é tabético. Por ahi se vê que a culpa não é nossa, mas sim dos francêses que formaram erradamente a />«- lavra tabétique. 'Nos mesmos casos d'esta ha muitas outras (podalique por ex.: que será discutida em outro logar). Estes e outros erros grosseiros que contamos por centenas justificam plenamente o assumpto de nossa these, isto é, a necessidade de se banir da nossa lin- guagem certos termos e expressões, cuja permanência muito depõem contra os nossos estudos de huma- nidades. Comprehende-se que os estudantes e mesmo os professores errem, e persistam 'na nossa linguagem erros taes como: rachideano, orchidopexia e orchi- dotherapia cujas origens são difficeis de pesquizar ('), mas o que é absolutamente inadmissivel é que se continue a propalar com todo o desembaraço certos termos como: tabético, varices, mamelão, fambagem, poãdlica, mentoneano, que são por demais repugnantes. (1) Estes erros passaram despercebidos até mesmo aos diccionaristas, pois estão registados nos diccionários : de termos téchnicos de medicina de Garnier e Delamare e glossário médico de Landouzy. 165 Trépano. - Antes de declarar se a forma tré- pano é ou não errónea, diremos que quási todos os dic- cionaristas derivam este termo do grêgo tpv7tavov,ov (tó) (verruma, trépano) que se relacciona com o sub- stantivo Tpv7ta,>;$ (r;) que significa buraco, fenda e também verruma. Originam-se ambos (rpvTtavov e rpvna) do verbo Tpunao que quer dizer furar, perfurar, penetrar, atra- vessar. Provindo a palavra do grêgo rpvna.vov não ha razão para se escrever trépano, porquê como já sa- bemos o v grêgo quando não forma diphthongo repre- senta-se em português por y. Applicando esta regra á palavra Tpi>7taror te- remos em português trypano o não trépano. A palavra trypanósomo provém do mesmo modo que trypano do verbo rpertac.) que quer dizer perfurar. Nem todos os diccionaristas derivam a palavra trépano do substantivo grêgo rpvTtavor; alguns ha como Cândido de Figueiredo, Aulete, Lacerda e o abbade Espagnolle que a derivam do verbo grêgo rpEno que quer dizêr volvêr, voltar, movêr circular- mente, e outros que derivam do francês trepan, que proveiu do italiano trépano que se originou do baixo latim trepanum. Q Para esses a verdadeira graphia deve ser trépano. Aos Srs. philólogos é que compete decidir qual das duas • graphias deve ser preferida. '(1) E' o mesmo qne terebra, oe. 166 Varices. - Constitue este erro um grave atten- tado contra a pureza de nossa língua. Sua permanência em nossa linguagem médica significa tão sómente preguiça de traduzir. Realmente causa pasmo ouvir de tantos médicos e estudantes de medicina o termo varices que não tem feição portuguesa! ; Por que razão não o traduzem ? ; Não haverá por ventura em português um termo que corresponda ao francez varices? Certamente que ha. Se os estudantes se dessem ao trabalho de abrir qualquer diccionário francês-português ficariam logo sabendo que o varices francês se traduz em português por varizes. Se abrissem diccionários portuguêses haveriam de notar que todos mencionam o termo varizes e que nem um regista varices. Não é preciso têr-se grande conhecimento de philologia para sabêr que o termo francês varices se deriva do latim varix, icis que quer dizêr variz ou veia inchada. A? vista do que acabámos de expor, deixará de empregar o termo varizes só quem for muito caturra ou então sábio de mais. Viável e viabilidade. - São termos já con- sagrados pelo uso. 167 Estão tão enraizados em a nossa linguagem que parece impossível qualquer tentativa de substituição. O Dr Souza Lima á pag. 190 de seu tractado de medicina legal, chama a attenção do leitor para a palavra viabilidade que considera errónea, devendo ser substituída por vithabilidade que é termo cor- recto. A alludida nota do eminente mestre é a se- guinte : « Devia-se dizer vithabilidade de vitce, habilis ; habilitado, apto para a vida; por corrupção da pa- lavra se tem adoptado essa outra ». O eminente jurisconsulto Sr. Dr. Ruy Barbosa teve occasião de discutir estes termos 'no parecêr que apresentou ao Senado sobre a redacção do pro- jecto do código civil elaborado pela Câmara dos deputados. 'Neste parecêr e na réplica que foi publicada em 1903, a longa exposição e os argumentos que apresentou o eminente Senador bahiano sobre a não vernaculidade dos termos «viável e viabilidade » e a substituição que propôs, revelam um estudo profundo e um saber immenso. Sentimos não poder transcrevêr aqui todos os seus argumentos por não nos permittir o tempo es- casso. Limitar-nos-emos a citar a nota da página 12 do parecêr, e as primeiras linhas do parágrapho 58 (pag. 121) da « réplica ». A nota do « parecêr » é a seguinte : « * Domingos 168 de Azevedo (Gr. Dicc. Contemp. Franc. Port.) diz viável, traduzindo viable, o feto apto para viver, e do francês viabilité faz egualmente, com essa acce- pção, o português viabilidade. No mesmo sentido adopta o uso médico, em geral, entre nós, ambas essas palavras. Mas nada justifica a applicação tal dos dois vocábulos, cujo sentido vernáculo é absolutamente diverso. Vitalis chamavam os latinos áquillo que pôde ou ha-de viver muito tempo. (Saraiva: Noviss. Dicc. Lat. Port.) Tam immaturè magnum ingenium, dizia Seneca, non esse vitale: não é para viver muito engenho tão precoce. Assim Horacio : O puer, ut sis vitalis metuo. E outro latino: Vix etiam fuera paucis vitalis in horas. (Ad. Liv.; 419.) Os italianos verteram, não viabile, cobrindo o francês, mas vitale, segundo o latim vitalis. « Vita e vitalità... Conviene per 1'acquisto delia personalità, che il feto nasca vivo e vitale;... vitale, cioè in con- dizione di capacità fisiológica atta alia vita extra- uterina... Dal ponto di vista medico, vitalità può dipendere da cause embriologiche; cosi il parto pre- maturo, ancorchè vivo, per la sua debolezza ed in- completo sviluppo non è vitale... Nel caso che pos- sano nascere dubbi sulla vitalità se consta che il feto sia nato vivo, la legge lo presume vitale. 169 « Bensa: Comp. d'introd. all stud. del scienze giurid. e d'ist. di dir. civ. (1897), pgs. 95-96. E, se nos vocabulários desse idioma procurar- mos a expressão viabilidade, viabilità, encontraremos esta definição : « condizione buona delle strade publi- che ». (Petròcchi: N. Diz. Univ. del Ling. Ital.) Ora, abaixo do latim, já o ensinava Castilho Antonio, é o italiano a melhor pedra de toque da vernaculidade do português. Diremos, pois, sempre vital e vitalidade, a res- peito do embryão ou do recem nascido idóneo para viver, em vez de viável e viabilidade, que, em nossa lingua, tendo o seu etymo no latim viare são termos de viação, destinados a indicar os caminhos transi- táveis e a sua transitabilidade. Bem pode a medicina, portanto, escusar essa corruptela, que o uso jurídico nada lucra em accei- tar, havendo, no bom vocabulário do nosso idioma, as expressões vital e vitalidade, que tão vantajosa- mente a supprem ». Não podendo, como dicemos ha pouco, transcre- ver toda argumentação da réplica limitar-nos-emos a citar as primeiras linhas do parágrapho 58, que são as seguintes: « Viável - viabilidade Vital - vitalidade 170 243. - Occupara-me eu, em nota a uma das minhas notas, por occasião do texto deste artigo, com os neologismos viável e viabilidade, que rejeitei na accepção, já de cousa ou pessoa capaz de viver, já de capacidade ou aptidão que para a vida têm essas pessoas ou coisas, arbitrando, em logar daquelles dois, os vocábulos vital e vitalidade. Pois isso mesmo não escapou ao illustre pro- fessor. Até isso era, a seu ver, parte do substitutivo. Ainda nisso lhe parecia estar revendo o código civil. Nem um pingo da minha penna se havia de furtar ao olho inexorável do mestre. Estou convencido hoje de que a grammatica é uma especie de bestia insatiabilis. Nada lhe satisfaz a dureza dos instinctos, ainda bem que exercidos em arena incruenta. Felizmente não está só o misero de mim nesta bulha, comprada mui de seu gosto pelo Dr. Car- neiro. Que tinha a revisão do projecto com a minha sub-nota, se eu não alvitrára que se admittisse á contextura delle nem o vital, nem o vitalidade ? O caso é, porém, que foi esse um dos pontos, de que mais á larga dissertou o illustre revisor. Sua opinião vem a ser que daquelles neologis- mos não podemos prescindir. 171 Mas os motivos do seu parecer não combaliram o meu. Ao menos é o que, com o melhor fundamento, se me affigura. Antes, porém, de oppôr as minhas ás suas razões, outra autoridade contraporei á sua auto- ridade. 244. - Num livro que atravessava os prelos exactamente quando o meu parecer os transpunha, o Sr. Cândido de Figueiredo, incontestavelmente a maior das nossas competências actuaes em matéria de lexicologia portuguêsa, rejeita as expressões de- fendidas pelo philologo bahiano. Leiamol-o : « Mudou, porém, de resolução, porque tal plano não era viável». «.Viável, em tal sentido percorreu já muitas obras de escriptores de mérito, e está registado nos nossos diccionarios. « Tal palavra, todavia, é um claro francesismos (cf. o francês viable, de vie, vida). Não tem. portanto formação, nem derivação, que a torne ao menos apa- rentada com palavras nossas. « Nós temos viável (que se póde percorrer ou transitar, caminho viável, campo viável); mas este é um vocábulo distincto de viável, no sentido de que pode viver, que é vivedoiro, que póde ter effeito, e muito justificável com o latim viare. 172 «No sentido, pois, do francês viable, é estran- geirismo que o bom escriptor deveria pôr de lado.» (Os estrangeirismos \ p. 70) e etc., etc.» Não sendo possivel por absoluta falta de tempo discutir todos os termos existentes em o nosso ca- derno de notas limitar nos-emos em enumeral-os afim de lembrar aos dignos leitores outros termos que devem ser estudados. São elles os seguintes : amiba ou ameba ? amnios ou amnio ? bilis ou bile ? bulbo ou bolbo ? cheilo-plastia ou chilo - plastia ? chicória ou cichória (chzzk) ? choroide ou chorioide ? cleisagra ou clisagra ? cutis ou cute ? dispensário e dispensatório. epigastro ou epigástrio ? esterno-cleido - mas- toideu ou esterno - elido - mastoi- deu ? filariose ou filariase ? fleimão - freimão ou phlegmão ? hematogêno ou hematogêneo ? hemo - ou - hemato- poiese ou hemo-ou-hematopoése? 173 hombro ou ombro t homeopatha ou homópatha ? húmero ou úmero ? hypochondro ou hypochóndrio ? iodo ou iódo ? iódo ou ióde ? karyokinese - caryoki- nese ou caryocinese ? kinesitherapía ou cinesitherapia ? kymógrapho ou cymógrapho ? kysto ou cysto ? lithoclasia ou lithoclastia ? mamelão ou mamniillo-mammilla - mammula ? meiopragia ou miopragia ? morbigêno ou morbigêneo ? myósicos ou myóticos ? nephrético ou nephrítico - néphrico ? olécrana ou olecránio ? onychogriphose ou onychogrypose ? opisthótono ou opisthótonos ? orchidopexia ou orchi-ou-orchiopexia ? orchidotherapia ou orchi - ou - orchitherapia ? orchidocele ou orchi - ou - orchiocele ? orchidotomia ou orchi-ou-orchiotomia ? osteoclasia ou osteoclastia ? ourina ou urina ? panarício ou paronychia ? pélvis ou pelve ? 174 perichondro ou perichondrio ? podálica ou podai ? polia ou polé ? pubis ou pube ? rachideano ou rachiano - racheu ? rachidotomia ou rachi-ou-rachiotomia? reactivo ou reagente ? scissura ou scisura ? semeiogênesis ou semiogênese ? semeiologia ou semiologia ? semeiotica ou semiótica ? seringa ou syringa ? squirrho ou scirrho ? tétano ou tétanos ? trachea ou trachia ? terçól ou torçól ? thyroide ou thyreoide ? uncinariose ou uncinaríase ? Questões de forma ankylóstoma ou ankylóstomo ? ou ou ancylóstoma ou ancylóstomo ? bactérias ou bactérios ? bordos ... ou bordas ? carpellas ou carpellos ? cornetos ou cornetas ? nucello ou nucella ? 175 oxyura ou oxyuro ? pétalas ou pétalos ? podophyllina ou podophyllino ? quinino e quinina ? sépalas ou sépalos ? trypanosonia ou trypanósomo ? QUINTA PARTE Denominações impróprias Adenite. - Dá-se em medicina o nome de adenite á inflammação dos gánglios lympháticos. Este termo é impróprio; significa litteralmente inflammação de uma glândula. Compõe-se de dois elementos grêgos, a saber: 1? abrir, évoç (ró) (a glândula) e itlç suffixo que denota inflammação. Em vez de adenite seria melhor dizêr-se ganglite. Anemia. - Dizem Garnier e Delamare em seu « diccionário de termos de medicina » que : anemia é o empobrecimento do sangue pela deminuição no- tável de um, de vários, ou de todos seus elementos (anemia total, anemia parcial) ». A palavra anemia significa litteralmente ausência de sangue; compõe-se de 2 elementos grêgos : 1? o prefixo a (denota privação, ausência, falta) que 'no caso presente se transforma por euphonia em aio 178 porquê a palavra seguinte começa por vogal, e 29 o substantivo at^a, to$ (ró) que quer dizêr sangue. Em rigor deveria escrevêr-se anhemia em vêz de anemia convindo notar que 'neste caso o nh não tem som molhado como por exemplo 'na palavra rebanho. O h tem ahi apenas caracter etymológico não influindo de modo algum 'na prosódia. O nh tem som molhado somente quando per- tence á mesma syllaba como por exemplo em inhame i-nha-me. Quando o n final de um elemento se juncta ao h inicial do seguinte o nh que d'ahi resulta não tem som molhado, devendo a palavra ser pronunciada como se 'nella não houvesse o tal h. Deve portanto ser considerado erro pronunciar-se com som molhado o nh dos seguintes termos : anhelo (an-helo) anhemia (an-hemia) anhematopoése (an-hematopoése) anhista (an hista) anhydrico (an-hydrico) inhabil (in-habil) inhabitavel (in-habitavel) inhalação (in-halação) inharmónico (in-harmónico) inherente (in-herente) inhibição (in-hibição) inhóspito (in-hóspito) inhumação (in-humação) 179 porquê todas ellas são palavras compostas, 'nas quaes o n pertence ao l9 elemento e o h ao 29 Não deve causar estranheza o facto de escre- ver-se anhemia (com nh) porquanto é muito commum a graphia anhemaiopoése (ausência de hematoblastos 'no sangue, deminuição rápida das hematias) que do mesmo modo que anhemia se compõe do prefixo a alterado para ar e do substantivo aqza, aroç (tó) que quer dizer sangue. Quem escreve anheinatopoése (com nh) pode sem medo nem um, escrever anhemia (com h) que ninguém por este motivo o chamará de incoherente, e até pelo contrário incoherente será aquelle que procedêr de modo diverso. Designando a palavra anemia sob o poncto de vista clínico, não a ausência de sangue, mas um empobrecimento d'elle, como dizem Garnier e Dela- mare talvêz fosse melhor dizer-se peniemia, penemia ou penihemia-, [penhemia (do grêgo nevia, (rç) que quer dizer pobreza)] se fosse possível abandonar o termo anemia e houvesse necessidade ou vanta- gem em substituil-o. Artéria. - A etymologia d'esta palavra (d>?p, époç (ó) - o ar - rrçpetr - contêr, conservar) indica perfeitamente que os antigos não sabiam que que 'nos vasos arteriaes circulava sangue, e ao con- trário suppunham que elles continham, encerravam ar; d'esta falsa noção proveio a palavra artéria (vaso 180 que contém ar) que exprime bem a idéa que tinham, mas que não convém de modo algum á nossa tech- nologia, porquê não traduz bem o nosso pensamento, isto é, não corresponde á concepção actual. Si quiséssemos empregar um termo adequado, isto é, um termo que exprimisse exactamente a noção que hoje temos sobre os vasos arteriaes, pode- ríamos substituir a palavra artéria por hemotéria, (do grego at^a, atoç (ró) - o sangue e r^Eiv - conservar, encerrar) que significa litteralmente vaso que contém sangue. Conservando a palavra artéria conservamos uma idéa errónea. A palavra artéria póde ainda hoje ser conser- vada, sómente quando estiver ligada á palavra tra- chea. 'Neste caso ella está bem applicada porquê exprime uma verdade visto como a trachéa não con- tém sangue mas sim ar. Esta noção já tinham os grêgos ha muito tempo e tanto assim é que foi primeiro á trachea que elles deram o nome de artéria; porém como suppunham que, do mesmo modo que 'na trachea, houvesse ar 'nos vasos artériaes, deram também a estes vasos o nome de artéria, mas como não eram eguaes ao canal aéreo, nem em fórma nem em estructura, resolveram então distinguir um do do outro dizendo trachea-ar- téria quando se referiam ao canal aéreo e simples- mente artéria, quando aos vasos que contêm sangue mas que elles suppunham conterem ar. Os antigos chamavam ao canal aéreo trachea- 181 artéria, porquê ao contrário dos vasos arteriaes, era elle cheio de asperezas. Trachea-artéria em grêgo quer dizer artéria áspera. Hoje já não se usa mais dizêr trachea-artéria. Quási todos dizem trachéa, substantivando o adje- ctivo rpa^tia, que em grêgo quer dizer áspero. Quando dizemos simplesmente trachéa subenten- demos o substantivo artéria. Asystolia. - Segundo Garnier e Delamare asys- tolia é um syndromo caracterisado pela insufficiência cardio-vascular com perturbação profunda das cir- culações geral e local. Littré define asystolia do seguinte modo 'no seu diccionário de medicina : - « Estado pathológico que resulta de um enfraquecimento da systole cardíaca, e cujas causas mais frequêntes são as affecções or- gânicas do coração e do pulmão.» Esta palavra é imprópria, pois significa litteral- mente «ausência de systole» e não systole incom- pleta que é o que se queria dizêr. Em vez de asystolia poderíamos talvez dizêr me- rosystolia ou átelesystolia que significam litteralmente systole incompleta, mas o Dr. Santos Abreu consi- derando que 'nos estados chamados asystólicos o co- ração tem grandes difficuldades e grandes embaraços a vencêr, deu a este syndromo o nome de dysistolia, que significa litteralmente systole difficil. 182 Escreve o Dr. Santos Abreu as seguintes linhas 'no número 23 do Brazil Médico de 1897 : « - Dyssystolia. - O que vamos escrever tem por objecto : demonstrar a impropriedade do termo asystololia ; propor a sua substituição por dyssystolia. Esses dous termos podem servir de epigraphes aos dous capítulos de que constará o nosso trabalho. I Pela etymologia da palavra, asystolia significa « ausência da systole » estado aliás incompatível com a vida. Beau, que a creou, apresentando-a ao mundo médico no seu « tratado de auscultação », definiu-a : o resultado de uma contracção mais ou menos incom- pleta de uma das cavidades do coração, » Do confronto da etymologia, do termo com o enunciado do syndroma que elle representa, resalta sem maior exame a sua impropriedade. Verdadeiro aleijão na litteratura medica, encon- tramol-o, apezar disso, correndo livros clássicos. Auctores ha, porém, que o repudiam em abso- luto, outros procuram libertar-se delle, já recorrendo a expressão que mais fielmente define a situação mórbida, já mesmo empregando termos incontesta- velmente mais acertados. Vanlair, professor da Academia de Medicina de Liège, Bélgica em sua apreciável pathologia interna, 183 define asystolia: « a perturbação cardíaca que dá-se quando a irregularidade e a fraqueza dos batimentos cardíacos são muito accentuados (pag. 381). Define esse autor asystolia, mas não lança mão desse termo, nem mesmo em certo momento em que seria talvez applicavel, como quando, a pagina 372, tratando da endocardite, diz : a « morte resulta de um collapso do coração; o mesmo que Eichorst quando falia á pag. 84 do volume I de sua pathologia interna em « paralysia do coração » : porquanto a verdadeira asys- tolia deveria ser a parada do coração. Na edição italiana do Diccionario Encyclopedico de Medicina e Cirrurgia, tão universalmente conhe- cido, em o vol. II, á pag. 56, encontra-se a seguinte definição de asystolia : «difficil contracção systolica e difficil esvasiamento do coração, particularmente nas moléstias cardíacas, em estado de ruptura da compensação (diffettosa contrazione sistolica e dif- fettoso svuotamento del cuore singolarmente nei morbi cardiaci, nello stadio del distúrbio di compenso). « Enfraquecimento da systole do coração », diz o Diccionário Encyclopédico das sciências medicas, á pag. 34 do v. VII. E as palavras de todos aquelles que têm-se en- tregado á pena de definir asystolia são, mutatis mu- tandis, as mesmas, e todas as definições acham-se em completo desaccordo com a idéa representada ethy- mologicamente por esse termo. Vários escriptores, pathologistas principalmente, 184 já o tem abandonado; é assim que vemos Barth dizer adynamía cardíaca; A. Petit paresia cardíaca, desfal- lecimento do coração; Eichorst asthenia cardíaca, en- fraquecimento do coração; Byron-Bramwell hypos- thenía cardíaca ; Hanot, Strumpell, Granger- Sterwart e outros insufficiencia cardíaca, expressões que são mais ou menos rasoaveis, porém, que não satisfazem de todo. Explicando a asystolia, Hallopeau dá superficial - mente o mecanismo de sua producção : « Na grande maioria dos casos a asystolia provém de uma dege- neração do musculo, e eis como, ordinariamente se produz : -sob a influencia de um obstáculo ao curso do sangue, quer no proprio coração quer no systema vascular, o coração acha-se submettido a um trabalho forçado que tem por fim manter a circulação nas condições normaes. Frequentemente elle consegue isso, a principio, e os seus elementos estão, sob a influencia dessa funcção exaggerada, hypertrophiam-se; mas, chega o momento em que não dão conta do trabalho que lhes é imposto, os capillares que os irrigam não são completamente permeáveis, a nutrição altera-se pelo facto da dilatação, e experimentam a degene- ração. E' uma degeneração gordurosa. O coração é vencido na luta; as suas contracções tornam se insufficientes. » Contracções insufficientes não são a mesma cousa que ausência completa de contracções, como devera ser o phenomeno designado por asystolia. 185 0 syndroma em questão é deveras complexo. Elle abrange de um módo geral as perturbações seguintes : Insufliciencia cardíaca, ou melhor, difficul- dade funccional do coração; a circulação geral, a circulação local mesmo resentem-se; depressão da tensão arterial, estase venosa, producção de oedemas, dyspnéa etc.; e, quaesquer que sejam as suas causas, como veremos depois, o coração é responsável por toda a série de perturbações, ou porque elle sente- se lesado em seus elementos anatómicos, de modo a crear embaraços ao seu funccionamento, enfraque- cendo-se portanto, ou porque alterações organicas ou funccionaes de outros orgãos reflitam-se sobre elle, de modo também a oppor-lhe obstáculos no desem- penho de suas funcções. Na clinica, entre nós, é frequente o emprego do termo asystolia, qumdo pretende-se significar que o coração enfraquece, principalmente nas pyrexias graves, nas aífecções agudas do pulmão etc., quando necessita-se administrar os tonicos cardíacos, os ex- citantes diffusivos. Ainda maior peccado observa-se entre aquelles que chegam a elevar esse syndroma á altura de uma entidade mórbida definida, como temos visto na publicação do obituário, em que figura ao lado da febre amarella, do beri-beri, da hemorrhagia cere- bral, do diabetes, etc., a asystolia! Temos esperança, porém, de ver isso em breve completamente abandonado. 186 II O prefixo « dys » vem-nos da lingua grega an- tiga com a significação de embaraço, obstáculo. A technologia medica é rica de termos em cuja composição entra esse prefixo. Enumeremos alguns : dysmenorrhéa dyslalia dystocia dysuria dyspnéa dysmnesia dyschesia dyscinesia dyspareunia, etc. significando, respectivamente, embaraço ao corrimento menstrual, difficuldade na articulação da palavra, parto difficil, embaraço á emissão da urina, difficul- dade na respiração, memória embaraçada, defecação difficil, embaraço nos movimentos voluntários, coito doloroso. O termo « dyssystolia », que propomos, signi- fica, ethymologicamente, difficuldade da systole, e, pelo estudo physio-anatomo-pathologico a que vamos proceder d'esse syndroma, veremos que o termo sa- tisfaz plena e cabalmente os intuitos, tanto do cli- nico, como do pathologista. Dizer aqui a physiologia do coração, para mostrar que a systole é a funcção principal, essen- cial, mesmo, d'esse orgão, é prolixidade. Julgamo-nos dispensado d'essa tarefa. 187 No estudo physio-anatomo-pathologico desse syn- droma, estudo que faremos o mais methodicamente possível, teremos occasião demonstrar que em todos os casos ha sempre um embaraço, um obstáculo á funcção systolica, e d'esse modo teremos justificado a creação do termo que propomos. Processa-se a dyssystolia: a ) nas alterações do musculo cardíaco; b J nas alterações dos seus annexos; c) nas alterações da sua innervação; dJ nas alterações dos vasos; ej nas alterações do musculo cardíaco. Degeneração gordurosa. E necessário fazer-se aqui uma distincção: existem duas affecções em que predomina o elemento gordura: - a adipose cardíaca, também chamada obesidade do coração, sobrecarga gordurosa, que é constituída pela accumulação anor- mal de gordura; e a degeneração gordurosa, propria- mente dita, que é um processo regressivo, em que o elemento muscular é lesado, em que a substancia cardíaca altera-se na sua constituição histológica, é a steatose cardíaca. A gordura existe normalmente no coração, mesmo entre as fibras musculares, mas o augmento exag- gerado d'essa gordura, já entra no dominio da patho- logia, sob a designação que deu-lhe Lancereaux de adipose. O que mais directamente nos interessa é a steatose, indice de uma dystrophia, processo que 188 colloca o coração em critica situação de impotência funccional. Quando examinar-se, em necropsia, um coração cujas fibras soflreram esse processo degenerativo, verifica-se que as paredes musculares rompem-se á menor tracção; o musculo cardiaco perdeu as suas propriedades physicas, principalmente a elasticidade e a gordura, inerte, como é, deixa-se fragmentar. Os pathologistas têm dado como séde de pre- dilecção da steatose os ventrículos, e destes princi- palmente o ventrículo esquerdo que, na producção do syndroma de que tratamos, representa um papel, não exclusivo, mas preponderante.» A palavra asystolia compõe-se do prefixo a que denota privação, falta, ausência, e do substantivo >7; (>7) que quer dizêr acção de contrahir; aperto, contracção do coração, systole. A palavra systole provém do verbo crvaTéZZG) que quer dizêr contrahir, estreitar, apertar, compri- mir // encerrar, envolvêr, cobrir // reduzir, reprimir, humilhar etc. O verbo compõe-se do prefixo ovv (com) e do verbo crréZZco que significa preparar, abastecer, armar // expedir, enviar, fazer vir. Provem da raiz que desperta idéa de en- viar como pode observar-se em apóstolo, epístola, etc. Autopsia. - Compõe-se esta palavra de 2 ele- mentos grêgos : arróç (em si mesmo) e o^tç (vista). 189 Litteràlmente significa exame em si mesmo, inspecção de si mesmo, observação interior. Por abuso de sentido e erradamente tem-se admittido esta palavra 'no sentido de necroscopía. Para substituir a palavra autopsia que é im- própria, foram propostas as palavras necropsia (do grego vexpòç - cadaver, e d&s - vista) e mais tarde necropsia do grego vtxpog - cadaver e oxotieIv - examinar) que é ainda mais adequada. Em relação a este termo escreve o illustrado Dr. Silva Lima 'no seu glossário médico as seguintes linhas : « A palavra autopsia para ter a exacta si- gnificação que impropriamente se dá ao termo iso- ládo, deve ser seguida do adjectivo cadavérica; melhor é necropsia (acto de ver o morto) ; a mais expressiva e correcta do que todas é necroscopía (acto de examinar o cadaver)». Cataracta.-Dá-se em ophthalmologia o nome de cataracta á opacificação do crystalino. Cataracta declina-se em latim cataractes, ce - e em grego xaTappocxr??;, ov (ó), segundo algúns, e segundo outros : xaTapaxT^ç. Provém este termo do verbo xavapá^acò (lan- çar-se, precipitar-se) que se compõe da preposição xava (^ que 'neste caso quer dizer de cima para (1) A preposição «ara seguida de genitivo significa contra; seguida de accusa- tivo significa em, sobre, para; em composição indica movimento de cima para baixo, fixação, estabelecimento, ou reforça o sentido da palavra simples. 190 baixo, e do verbo dpacrcrw que significa chocar, ba- ter, ferir, impressionar, causar impressão ('na vista, 'na imaginação, etc.) O verbo dpácrmj por sua vêz se compõe da partícula expletiva a e do verbo pautrco (cair) que provém da raiz pa/ que desperta em nosso espírito idéa de romper, despedaçar. Corrêa de Lacerda distingue graphicamente ca- taracta (queda d'água) e cataracta (opacidade do crystalino). Cataracta significando queda d'agua, diz La- cerda, «vem do grego kataráctés, que se compõe do prefixo cata, contra, e arássô, romper, quebrar com ruido. Como termo de ophthalmologia escreve-se sem c e se compõe do prefixo cata que significa contra e do verbo rheò que significa correr, porque os an- tigos suppunham que a causa d'esta enfermidade era o fluxo dos humores.» Em relação á palavra cataracta escreve Frei Domingos Vieira 'no Thesouro da língua portuguêsa: « 1) - Cataracta (do grego kataractês, dique : de katarássein, fazer irrupção em baixo). Espécie de barreira ou grade collocada diante das pórtas das cidades. No plural em estylo biblico, portas ou diques que se suppõe reterem as aguas celestes. 2) - Cataracta (do baixo latim cataracta, cata- racta, cataractus, cataracta do olho e clausura. 191 Do sentido de porta corrediça, clausura (d'onde a idéa de dique, barreira, etc.) que tem caiar ada 1) se passou ao de opacidade do crystallino, especie de clausura da vista ». Epithélio. - Segundo Mathias Duval epithélio é uma membrana formada pela juxtaposição directa de céllulas servindo em geral de revestimento ás superfícies externas do corpo. A palavra epithélio compõe-se de dois elementos gregos, a saber: em que quer dizer sobre e Qvpdi, viç, (ri) (mammilla) que pertence á raiz da que des- perta em nosso espírito idéa de nutrir, alimentar. Epithélio significa litteralmente: sôbre a mam- milla. Comparando-se a definição com a significação litteral vê-se que o termo epithélio é impróprio. Em relação a este termo diz Renaut o seguinte 'no seu tractado de histologia práctica: « Le terme epithelium a eté créé par Ruysch, qui nommait ainsi la pellicule, comparable à 1'épiderme, que 1'ébullition fait lever sur les papilles de la langue. - D'oii la dénomination (ání, sur, et déZrç, mamelon, papille) d'épithelium que l'on a généralisée depuis aux revê- tements analogues des autres surfaces naturelles.» Lithontriticos. - Dá-se este nome em medi- cina ás substâncias que têm a propriedade de dis- solvêr os cálculos, principalmente os vesicaes. 192 Compõe-se esta palavra de dois elementos grê- gos : - XiOog, ov - a pedra e rp^tç, fwg que quer dizer esmagamento. Pelo que acabámos de expor, se vê claramcnte que a palavra lithontríptico significa ao pé da lettra : - o que é próprio para esmagar cálculos. Melhor seria que em vez de dizermos substâncias lithontrípticas (com o fim de' designar substâncias que dissolvem cálculos) dicessemos instrumentos ou appa- rêlhos lithontrípticos, isto é, instrumentos ou apparêlhos que servem para esmagar cálculos e quando qui- séssemos nos referir ás substâncias que têm a pro- priedade de dissolvêr os cálculos empregássemos o termo litholytico que estaria mais de accôrdo com a lógica, com os princípios de coherência e com as regras de lexeògenia. D'este modo traduziríamos melhor o nosso pen- samento, visto como a palavra litholytico significa litteralmente : - substâncias que dissolvem cál- culos. Compõe-se esta palavra de 2 elementos grêgos Ztfloç, ov (77) - a pedra e hvtng, sog - disso- lução. Não sei por que motivo os diccionaristas portu- gueses e francêses não mencionam em seus diccio- nários os adjectivos litholytico e litholy tique e en- tretanto registam a palavra litholysia e litholysie dizendo que esta é a dissolução dos cálculos 'na be- xiga por meio de injecções de lithontrípticos 1 193 Era mais lógico e natural que do substantivo litholysia ou lithólyse se derivasse o adjectivo litho- lytico e não lithontríptico. Sob o poncto de vista, etymológico-lithontríptico quer dizer que esmaga pedras e litholytico, que as dissolve. Lithótomo. - Dá-se em chirurgia o nome de lithótomo a um instrumento que tem por fim fender a bexiga. Esta palavra está mal formada porquê não justifica a definição. Litteralmente quer dizer : que corta pedras, isto é, instrumento que tem por fim cortar pedras. Compõe esta palavra de 2 elementos :-XtOog, ov (a pedra) e (secção). A palavra cystótomo (do grego-xvanç, euç (y;) - a bexiga-e Tspvsiv- cortar) substitue perfeita- mente o termo lithótomo que não traduz a idéa de cortar a bexiga. Littré diz que a princípio esta palavra foi bem empregada porquê era applicada a um instrumento que servia para cortar os cálculos vesicaes. São do illustrado philólogo as linhas seguintes : « Lithotome - Instrument invente par une chi- rurgien grec, Ammonius d'Alexandrie, pour couper un calcul trop gros. De la sorte, le nom était juste. Depuis on l'a appliqué à un instrument avec lequel on incise la vessie (couteau lithotome) et non la pierre ». Em 194 relação á palavra lithotomia que está 'nos mesmos casos que lithótomo, diz o notável hellenista : Lithotomie - Signifie proprement section de la pierre. Or, dans la taille, on ne coupe pas la pierre, mais les parties molles. II est donc plus exact de se servir du mot cystotomie. - Cet abus de langage vient de l'inintelligence d'un passage de Celse (VII, 26,3) oú il est dit qu'Ammonius d'Alexandrie avait été surnommé:-parce qu'il était l'inven- teur d'un instrument (lithotome) à 1'aide duquel il brisait la pierre dans la vessie, quand elle était trop grosse pour passer à travers 1'incision des parties molles. L'invention d'Ammonius contient en germe celle de la lithotritie. » Micróbio.- A palavra micróbio é um adjectivo que se declina em grêgo ^oepóómç, o$ ov e significa litteralmente que vive pouco, isto é, que tem vida curta; oppõe-se a macróbio (jiaxçof) loç, oç. ov) que si- gnifica litteralmente que vive muito, que tem vida longa. Os termos micróbio e macróbio compoem-se de 2 elementos grêgos : l9 ^txpóç, a, ov (pequeno) e fiaxçoç, á, ov (grande) 29 ^loç, ov (ó) que quer dizêr vida. O Sr. Dr. Rodolpho Galvão diz á primeira pá- gina de suas apreciadas « noções de bacteriologia » que o termo micróbio foi creado em 1878 pelo Dr. Se- dillot, ex-professôr da Faculdade de Medicina de Stra- sburgo, e que o professor o define do seguinte modo • 195 é um ser tão pequeno que só pode ser visto com o auxílio do microscópio. Pela definição que acabámos de enunciar vê-se que o termo micróbio não exprime bem e que pode- ria ser substituído por qualquer outra expressão que significasse mais aproximadamente o que se pretende dizêr, como por exemplo: sêres microscópicos, micro- organismo. Em relação ao termo micróbio diz Littré o se- guinte em seu diccionário de medicina : « Microbe - Mot proposé par Sédillot pour designer les organis- mes inferieures qui existent, à 1'état de germes au à l'état adulte, dans l'air, dans l'eau, sur les corps qui nous entourent, et qui produisent, ainsi que Pasteur l'a démontré, un grand nombre, sinon la totalité, des maladies infectieuses et virulentes de rhomme et des animaux. Les termes de microbe et de bactérie nont pas tout á fait la même signification, malgré la synony- mie généralement usitée entre eux. Le premier s'ap- plique a tous les organismes microscopiques, à quelque règne quils appartiennent, et comprend nom seule- ment, des vegetaux, comme les levures, les moissis- sures etc., mais encore des animalcules, tels que les coccidies des neoformations épithéliales et les hema- tozoaires de 1'impaludisme. Les bacteries, aux con- traire, sont toujours des vegetaux, que leur organi- sation et leur role pathogénique suffisent à distinguer des autres êtres inferieures. » 196 Necrophobia. - Nas descripções dos auctôres que se occupam com a hypochondria não é raro en- contrar-se a palavra necrophobia para significar o medo exaggerado da morte, que é um dos symptomas d'esta moléstia. Esta palavra é imprópria porquê não corresponde ao sentido que se lhe dá. Necrophobia - (do grego l9 elemento rrxpó$,á,óv se for adjectivo e vsxpóv,òv (yo), da 2^ declinação dos nomes neutros se fôr substantivo, e o 29 elemento <pó6og,ov (ó) - que quer dizer medo, terror) significa litteralmente: medo dos cadáveres, medo dos mortos, que não é o symptoma acima mencionado. Se quisermos exprimir com exactidão o nosso pensamento devemos adoptar a palavra thanatophobia (do grêgo Oavarog,ov (ó), - a morte e <pó6oç,ov (ó) medo, terror, horror) que quer dizer horror á morte e não necrophobia que quer dizer horror aos mortos. Sensações inconscientes. - Esta expressão é muitas vezes empregada para designar uma exci- tação que não foi transmittida ao cérebro. E' uma expressão imprópria, porquê não exprime uma verdade. A este respeito escreveu o professor Perrier o seguinte 'no seu «dictionnaire des Sciences : « Sensation (Physiologie) - Une sensation est un état de conscience determiné par une impression 197 venue du dehors, ou par un état particulier de nos organes internes. La sensation ne se produit que si 1'excitation provenant de 1'impression primitive a été transmise jusqu'au cerveau. Ce dernier est donc 1'organe des sensations, et par suite le siège de la conscience. Toute excitation qui n'a pas été transmise au cerveau ne determine pas de sensation, et c'est par un singulier abus de langage qu'on a designé de pareils phénomènes sous le nom de sensations in- conscientes; c'est impressions inconscientes qui'il fau- drait dire. » SEXTA PARTE Hybridismos Dá-se este nome a todo vocábulo composto de elementos tirados de linguas diversas. Em relação a este assumpto escreve o erudito professor João Ribeiro 'na sua grammática portu- guêsa do curso superiôr, o seguinte : - « Quando o hybridismo é popular e de uso vulgar é admissivel. Os eruditos, porém, devem formar as palavras de elementos homogéneos, tirados do mesmo idioma. Por isso os hibridismos scientificos são con- demnados pelos puristas e grammaticos». Escreve ainda o illustrado professor sobre o mesmo assumpto á pagina 133 dos « estudos philolo- gicos » as seguinte linhas : « Cumpre-nos dizer que até hoje, em nossa lingua, não ha quasi publicação sobre este assumpto; o que reclamamos é que os materiaes que reunimos hoje, sejam um dia utilizados por aquelle que levantar a synthese ulterior em um diccionário etymologico onde essas migalhas e outras sempre tidas a conta de grammatiquices, tem o seu modesto cabimento. 200 Não é comtudo de minima importância o saber-se ao menos que aos eruditos conviria escrupulisar na formação de neologismos, já que desassombradamente os scientistas pejaram as sciências novas (como por exemplo a geologia) de uma infinidade de vocábulos absurdamente compostos. » O professor Pacheco da Silva Júnior acaba seu artigo sobre hybridismos 'na sua grammática histórica da língua portuguêsa, do seguinte modo: « a hybri- dade das palavras scientificas é uma vergonha para os sábios ». (T) Ha casos em que o hybridismo se torna admis- sível e mesmo inevitável como por ex.: 'na palavra calorímetro que se compõe de um elemento latino e outro grêgo. Se substituíssemos o primeiro elemento calor que é latino pelo seu correspondente grêgo dé-p^ó, teríamos a palavra termómetro que não é hy- brida mas que já existe 'na sciência com significação muito diversa da do calorímetro. Vamos agora enumerar alguns dos hybridismos mais vulgares que se encontram 'na linguagem médica. 'Na nossa linguagem médica os hybridismos mais commúns e algúm tanto admissíveis são os que re- sultam 1? - da juncção de prefixos grêgos a, hyper - hypo - endo - anti - peri - com algúm termo latino (1) Augusto Conite foi censui'ado por ter creado o neologismo sociologia que é termo hybrido. 201 como por exemplo em: aglobulia, hypersecreção - hypotensão - hypo-globulia - endoapexiano - anti- acido - anti-pestôso - hemilaterál - peri-vasculár - peri-medullár etc. 2° - Da juncção dos prefixos latinos: intra - extra - pre - post etc. com algúm termo grego como por exemplo em : intra-craniano extra-cardiaco, pre- systólico, postsystólico etc. 3° Da juncção de algúm termo latino com os suffixos grêgos [irtç (ite) que denota inflammaçãol algia (dor) tomia (acção de cortar) como por exem- plo em : rectite, capsulite, tibialgia, pelvitomia, va- gotomia, etc. 4° Da concordância de um nome grêgo com o adjectivo latino ou de forma latina como por exem- plo em chólera morbus; ankylóstoma duodenalis, stegomyia fasciata ; chirónomus plumosus, etc. O hybridismo de concordância não se dá só- mente com termos grêgos e latinos. Em algúns o qualificativo é latino, e o 1° elemento é árabe como por exemplo em asa-fcetida em outros é tupy como por exemplo em manihot utilíssima, etc. Passemos agora a discutir alguns dos hybri- dismos mais conhecidos começando pelo termo appen- dicectomia. Appendicectomia. - Compõe-se de dois ele- mentos. 202 0 primeiro é latino e se declina appendix, icis, e significa appêndice, supplemento, accrescentamento, accessório, o que depende e se ajuncta como com- plemento a alguma coisa, tudo que depende ou está agarrado a alguma coisa. Deriva-se do verbo adpendo ou appendo, is, di, sum, ere, que significa pesar, tomar ou averiguar o pêso, têr pêso, ser pesado, pendêr, dependêr, sus- pender, pendurar, ligar, atar. Compõe-se este verbo da preposição ad (2) que se transforma em ap pela assimilação do d em p e do verbo pendeo, es, pependi, pensum, dere, que quer dizer pendêr, estar suspenso, dependurado, estar pe- gado, prêso; estar a poncto de cair, estar suspenso, irresoluto ; hesitar, estar 'na incertêza, 'na duvida; dependêr de, etc. O 2° elemento é grêgo, declina-se sxropvh (ri) e significa excisão, ablação, extirpação; compõe-se da preposição ix que significa de, fóra de, a partir de, d'entre, por consequência, por causa de, e do substantivo ropri, (>7) (que quer dizêr córte, in- cisão, etc.) que provém da raiz rep. (que dá idéa de cortar, incisar) d'onde se derivaram os termos epítome, tmése, tomo, anatomia, etc. Em relação á palavra appêndice diz Littré o seguinte em seu diccionário de medicina : - « Appen- (1) A preposição ad em composição ordinariamente fica inteira antes das vo- gaes, e antes de b, d, h,j, m e v. 0 d assimila-se quando seguido de c,/, g, l,n,p, r, s, t. 203 dice - partie adhérente ou continue à un corps, au- quel elle est comme surajoutée; tels sont: l'appen- dice auriculaire, xyphoide ou sternal, 1'appendice vermiculaire, vermiforme ou coecal, les appendices epiploiques ou colique de 1'epiploon, digitaux, sus- sphenoidal du cerveau.» Appendicectomia significa litteralmente ablação do appêndice. O termo latino appêndice corresponde ao grêgo Trpócr^vmç, fújç (ti) (adherência, connexão) que se deriva do verbo Ttpoo^vío que significa fazer adhe- rir, ligar a, e se compõe da preposição n^oç, que quer dizer do lado de, da parte de, em nome de, por, por causa de, e do verbo (fazer nascer, gerar, produzir, dar á luz) cuja raiz <pv dá idéa de nascimento, origem, crescimento. Correspondendo o termo latino appêndice ao grêgo Ttpocr^vdtç podemos em vez do hybridismo appen- dicectomia dizer prosphysectomia que é a operação que consiste em retirar o appêndice ileo-cecal. A palavra prosphyse significa também a adhe- rência anormal de partes que deveriam estar sepa- radas. Cecotomia, ou Coecotomia f).- E'palavra hybrida, pois se compõe de elementos de línguas diversas. (1) Coecotomia é a operação que consiste em incisar o coecum com o fim de crear um ano artificial. 204 0 primeiro elemento é latino e se declina coecum, i, (o intestino cégo) e o segundo ro/zia provém de roy^, (r;) que significa córte, incisão. Se quiséssemos evitar o hybridismo deveríamos em vez de cecotomia dizer: typhlotomia, porquê o coecum latino corresponde ao grego rvc^ov, ov (ró) isto é, rv(p2.ov èvrepov. Não ha motivos para rejeitar o termo typhlo- tomia. visto como typhlite (inflammação do coecum) e typhlodiclidite (inflammação da válvula ileo-cecal) são geralmente acceitos. Espectroscópio.-'Neste termo o primeiro ele- mento é latino e se declina spectrum, i Q que signi- fica espectro, phantasma, visão, imaginação; o se- gundo é grego (uxotíio) proveniente do verbo ct^otiég) que significa olhar, examinar, observar. Se quisermos evitar o hybridismo poderemos se- gundo nos ensina o prof. João Ribeiro á pag. 180 de seu diccionário grammatical, dizer: phasmoscópio ou phasmatoscópio que se deriva do grego cpáopa, aroç (tó) (2) fórma, imagem; apparição ; espectro, phan- tasma ; prodígio, preságio) que corresponde ao spe- ctrum latino. Dá-se em physica o nome de espectroscópio a todo apparêlho que serve para o estudo dos espectros; e (1)0 spectrum latino se deriva do verbo: specio, is, exi, ere que significa vêr, olhar, contemplar. (2) 0 grêgo <f>a<r^a se deriva do verbo <j>aivu> que significa apparecêr, tornar visí- vel. descobrir, tornar evidente, etc., e que porém, da raiz </>a que dá idéa de luz ! 205 espectro á toda imagem colorida que se obtém sub- mettendo á acção de um prisma refringente a luz proveniente do sol ou de qualquer fonte luminosa. Littré define espectroscópio á pag. 148 de seu diccionário de medicina do seguinte modo :- «Appa- reil composé d'un prisme dispersant les rayons de la lumière et les projectants sur les corps transparent qui modifient les raies du spèctre de telle ou telle manière, suivant leur nature molécuJaire intime». Frigotherapia.- 'Neste termo o primeiro ele- mento, frigo, ris (o frio) é latino ; o segundo OépaTtaa, aç (>7) é grego e significa tractamento, cuidado, ser- viço, etc. Este termo deve ser substituido por cryo - ou crymotherapia. Em crymotherapia ambos os elementos são grê" gos; 0 segundo já conhecemos ; 0 primeiro se de- clina xpv^óç, ov (ó) e xpnoç, eoç - ovç (ró) e significa frio excessivo, geada, gêlo. Em relação a este termo encontrámos 0 seguinte 'no diccionário de termos de medicina de Garnier e Delamare : - «Crymothérapie - (xpv^óç, grand froid ; Ospaneía therapia). Syn. Frigotherapie.-Methode the- rapeutique qui utilise les températures très basses- celles pour lesquelles le corps humain devient diather, mane, c.-à-d. laisse passer les vibrations calorifi- ques sans les arrêter (application de la méthode de Pictet) ». 206 'No glossaire médical de Landouzy, e Jayle en- contrámos o seguinte : - « Frigotherapie - (frigus? froid; 0epa7t£ía, traitement). Méthode therapeutique, consistant à placer dans des appareils frigorifiques á 1009 ou 1109 audessous de zero, les membres infe- rieurs et le trone, préalablement emmaillotés , la tête et le haut des épaules restent dehors. (Incorrect) ». Em relação á cryotherapia encontrámos 'no mes- mo glossário médico o seguinte : « Cryothérapie (xpáoç, froid ; fopaTtaa, traitement) V, crymothérapie.-Cry- mothérapie - xpípoç, froid ; Oe^aneLa, traitment). -- Application sur la surface cutanée, d'un corps pos- sédant une température très basse, telle que la neige carbonique (83? audessous de 0?) ». Lactómetro.- E' palavra hybrida.que póde ser substituida pelo termo galactómetro que se compõe de 2 elementos gregos : yóZa, yáZaxroç (tó), o leite e /ietçov ov (tó) a medida. - Em lactómetro o pri- meiro elemento é latino e se declina lac. lactis. Para Littré galactómetro é o instrumento que serve para determinar a riqueza do leite; para De- chambre, Duval e Lereboullet é o nome genérico de diversos instrumentos destinados a fazer conhecêr a riqueza do leite, como por exemplo o lactodensímetro que indica o valor do leite pela sua densidade ; o lactoscópio que indica o valor do leite pela sua opa 207 cidade ; emfim o lacto butyrómetro que méde a pro- porção da manteiga. Lactoscópio (1).-Pela mesma razão que se diz galactagogo e não lactagogo deve dizer-se gala- ctoscópio e não lactoscópio. E' verdade que para escrevêr-se ou lêr-se gala- ctoscópio tem-se um pouco mais de trabalho do que para lactoscópio; mas em compensação tem-se o acerto que é preferível ao erro. Não precisamos discutir os elementos d'este termo, porque já tivemos occasião de fallar 'nelles. Lactodensimetro.-E' um hybridismo duplo, pois corresponde a duas palavras hybridas : lactó- metro e densímetro. De lactómetro já tractámos. Quanto á densí- metro, achamos que deve ser substituído por pycnó- metro que se compõe de 2 elementos grêgos, a saber: l9 nvxvóç,, vj, ov (denso, compacto, espesso) que corresponde ao Tatím densus, a, um e 29 gÉvpov, ov (yó) que quer dizer medida. Se em logar de densímetro adoptarmos pycnó- metro devemos também em vez de lactodensimetro, dizer galactopycnómetro. (1) Lactoscópio é um pequeno instrumento inventado por Donné para avaliar a riqueza do leite em matéria butyrosa, suppondo esta riquêza proporcional á opacidade do líquido. (2) Dá-se o nome de galactagogo a toda substância capaz de augmentar a secre- ção láctea. 208 Lithotrícia.-E' palavra hybrida. 0 l9 elemento é grêgo, declina-se %i0oç, ov (ó, yj), significa pedra e provém da raiz Za F (que dá idéa de pedra) de onde se originaram o substantivo la- tino lápis, idis e os adjectivo e verbo lapidar. O 29 elemento é latino e provém do verbo tero, is, trivi, tritum, terere que quer dizer esmagar, moer, pisar. Littré acha que este termo deve ser substi- tuído por lithotripsia, porquê 'nelle ambos os ele- mentos são grêgos. O l9 já foi estudado. O 29 (>7) significa attricto, fricção, esmagamento; resulta do verbo rp^w (esfregar, es- magar, gastar pelo uso ou pelo attricto) que provém da raiz rpt (que dá idéa de gastar pelo attricto) que se relaciona com a raiz rep (que dá idéa de gastar pelo attricto e principalmente perfurar) d'onde se originaram os termos TÉperpor, ov (ró) que quer dizer verruma-, ovoç (>7) que significa - verme que róe a madeira perfurando-a do mesmo modo que uma verruma; 0 verbo Teipíô que quer dizer gastar pelo attricto e muitos outros termos. Lithotrícia é a operação que consiste em es- magar um cálculo 'na bexiga e d'ella extrahir os fragmentos pela urethra. Dechambre, Duval e Lereboullet dão a lithoce- nose e lithoprisia como synonymo de lithotrícia ou melhor lithotripsia que é a forma correcta. 209 Nucleopasma.- E' palavra hybrida. O l9 elemento é latino, declina-se nucleus, i - é contracção de nuculeus, i, significa amêndoa de certos fructos de casca dura (como noz, amêndoas) e também a parte mais dura de um corpo, pevide, núcleo, caroço, interior, centro e meio; provém de nux, nucis - que significa noz (fructo da nogueira), amêndoa (fructo da amendoeira) e ainda todo fructo de casca ou que é de casca dura. O 29 elemento plasma é grêgo, declina-se TtZacr/za, aro; (tó), significa obra modelada e 'no sentido fig. ficção, artifício, obra 'na qual a arte apparece; provém este termo do verbo nZanoQ que quer dizêr modelar, formar, e 'no sentido fig. fingir, imaginar. Para substituir o hybridismo nucleoplasma creou o nosso illustrado lente de botânica e zoologia Dr. Joaquim Pizarro o termo caryoplasma que signi- cando o mesmo que nucleoplasma tem sobre elle a vantagem de sêr um termo correcto. O l9 elemento declina-se em grêgo: xáptor, ou (ró) e significa noz, núcleo. O 29 já foi discutido quando se tractou de nu- cleoplasma. O caryoplasma é pois, o plasma ou protoplasma nuclear assim como o cytoplasma é, o cellular. Dá-se o nome de nucleoplasma ou melhor caryo- plasma a uma substância de natureza análoga ao cyto- plasma contida 'na vesícula nuclear. 210 Cytoplasma é, segundo Perrier 0), uma substância geralmente viscosa mais ou menos liquida segundo o gráo de hydratação que apresenta: é uma sub- stância albuminoide, ou antes uma mistura de sub- stâncias albuminoides. Pelvitomia. - E' termo hybrido. O 1" elemento é latino; declina-se pélvis, is (subs. fem.) significa bacia e provém do verbo perluo ou pelluo, is, ui, utum, uere que significa banhar, tomar banho, humidecêr, ungir, unctar. O verbo perluere ou pelluere é composto, sendo o primeiro elemento a prep. per e o segundo o verbo luo, is, i, ere, que quer dizer lavar, banhar, regar etc. 0 2" - elemento (de pelvitomia) vem de 'topú, yjç (y) que quer dizer córte, incisão. Landouzy ('no seu glossaire medicai) e Littré 'no seu dictionnaire de médicine) consideram incorrecto este termo, propondo este último a palavra pelyco- tomia para substituir o hybridismo pelvitomia. A palavra pelycotomia compõe-se de dous ele- mentos grêgos. 0 segundo já foi estudado. 0 primeiro declina-se vxoç (y) e significa bacia. Pelvitomia é segundo Garnier e Delamare, o nome que se dava outr'ora á ischiopmbiotomia; e ischio-pu- (1) Cours élémentaire de zoologie. 211 biotomia, segundo os mesmos auctôres (que a deno- minam também operação de Farabceuf) é a operação destinada a produzir o augmento momentâneo da bacia a poncto de permittir a passagem da cabeça 'nos casos de bacia obliqua ovalar. A respeito do termo que discutimos diz Littré o seguinte em seu diccionário de medicina : «Pelvi- tomie: Section du pubis pratiquée à droite et à gaúche de la symphise, en sciant la branche horizon- tale du pubis et ascendante de l'ischion, pour rem- placer la symphyséotomie. Elle a été pratiquée, sans succès sur le vivant (Golbiati et Nunziante), et nest pas usitée. Pelvimetro. - E' termo hybrido. O primeiro elemento é latino pélvis, is e o se- gundo é grêgo yÉrçov,ov (pó). Em vêz de pelvimetro Littré diz pelycómetro. Dá-se o nome de pelvimetro a um instrumento destinado a medir as dimensões da bacia óssea e so- sobretudo o diâmetro autero-posteriôr do estreito su- perior. Puerímetro. - E' do mesmo modo que pelvi- metro um termo hybrido (o 1° - elemento puer, i - o menino, a criança - é latino e o 2° pÉvpov,ov (tó) é grêgo), porém um dos que pertencem a categoria dos hybridismos admissíveis. Este neologismo foi introduzido em a nossa lin- 212 guagem médica pelo Sr. Dr. Moncorvo Filho, que é também auctôr do apparêlho que tem este nome. Bem facil seria ao auctôr evitar este hybridismo. para isto bastaria antepor ao 29 elemento (metro) o prefixo pedo [rtalçptadtóç o menino, a criança] que é o termo grego que corresponde exactamente ao latim puer, i; mas se não o fez foi com o louvável intúito de evitar a confusão que poderia resultar com o termo pedómetro que já existia. Cabem ao termo puerímetro as mesmas conside- rações que fizemos em relação a calorímetro que é hybridismo admissivel, porquê se o primeiro elemento, latino, fosse substituido pelo correspondente grego, teríamos a palavra thermómetro que já existia e com significação diversa. Do mesmo modo que puerímetro o termo pedó- metro é hybrido. Significando o que significa puerímetro não seria hybrido, pois seria formado regularmente, por serem os dois elementos [ptaiç, (ó, >7) e pérpov, ov, (tó)] de uma mesma língua (grega); mas com a significação que tem, isto é, significando instrumento com que se contam os passos de quem anda é termo hybrido, porquê 0 1° elemento (pes, pedis-0 pé-) é latino e 0 2°, grêgo. Para evitar 0 hybridismo pedómetro poderíamos substituir 0 primeiro elemento pes, pedis, pelo termo grêgo novç, noóóç, (podo) que quer dizêr pé, formando assim a palavra podómetro que não é hybrida; mas 213 como a palavra podómetro já existe (significa instru- mento com que se mede o pé, especialmente o pé dos animaes, para se fazerem ferraduras adequadas á medida do respectivo pé) e não podemos substi- tuil-a por nem uma nem outra, melhor seria em todo caso que tivéssemos em duplicata o termo podómetro (que de qualquer dos modos seria regular) do que pedómetro que 'num caso seria regular, mas 'no ou- tro, hybrido. Pelo que acabamos de expôr se conclue que o neologismo do Dr. Moncorvo longe de merecer cen- sura é hybridismo admissível e que tem sua razão de sêr. O puerímetro (ideado pelo Dr. Moncorvo) é um apparêlho destinado a pesar e medir immediatamente qualquer creança desde a edade do nascimento até a de quinze annos, indicando 'no mesmo momento, por dispositivo que 'nelle existe, as médias normaes para as differentes edades e o pêso que deve ganhar as creanças 'nas diversas phases da vida. Não podendo descrevêr aqui o ingenhôso appa- rêlho do illustre directôr do « Instituto de Protecção e Assistência á Infancia do Rio de Janeiro », re- commendamos ao leitor o n. 13 do Brazil Médico de Io de Abril de 1904 onde poderá encontrar feita pelo auctôr uma descripção clara e minuciosa de seu apparêlho. Rectotomia.-E' termo hybrido. 214 0 primeiro elemento é latino, declina-se redum, i, e significa o intestino recto; o segundo já foi dis- cutido. Para evitar o hybridismo, Littré propõe o termo prodotomia, 'no qual o primeiro elemento é grêgo e declina-se Ttpwxroç, ov (ó ) e significa ano. A respeito da palavra redotomia diz Littré o se- guinte em seu diccionário de medicina : « Prodotomie - [de Tipux^og, anus et ro^, section]. La dissection, 1'incision faite en vue de combattre les rétrécisse- ments de cette partie de 1'intestin : c'est cette opé- ration quon designe, á tort sous le nom de redo- tomie. - Emploi du proctotome. Serumtherapia.- E' palavra hybrida. O 1? elemento serum, i - é latino e o 2? depaTteta é grêgo. Para evitar o hybridismo podemos empregar o termo orrother apia indicado pelo Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcellos, lente cathedrático da Uni- versidade de Coimbra. A palavra orrotherapia compõe-se de 2 elementos grêgos. O primeiro declina-se op^og, ov (ó) e significa sôro; o segundo já foi discutido em outro logar. Em relação ao termo serumtherapia escreve o Dr. Ribeiro de Vasconcellos (depois de tractar de ou- tros hybridismos) o seguinte em sua grammática his- tórica da língua portuguesa: «A orrotherapia (gr. orrós, 215 soro + gr therapeia, tratamento) tratamento por meio de soros, é por alguns denominada sèro - therápia (port. 4" gr.) e Por outros sèro-therápia (1. serum + gr. therapid) compostos viciosos pelo seu hybri- dismo ». Urinómetro. - E' termo hybrido. O l9 elemento é latino, declina-se urina, ce, e provém a nosso ver do verbo urere que significa queimar. Devemos evitar este hybridismo empregando o termo urómetro como já o fazem muitos auctôres. A palavra urómetro compõe-se de 2 elementos grêgos. O l9 declina-se ovpov, ov (aró) - a urina, e o 29 pérpov, ov (ró) que quer dizer medida. Pelo mesmo motivo que não dizemos urinologia mas sim urologia devemos dizer urómetro e não uri- nómetro. O nosso illustrado mestre Sr. Dr. Souza Lopes, quando lente de chimica analytica e toxicológica, em- pregava sempre em aula o hybridismo urinómetro, mas propositadamente o fazia, porquê muitos dos seus discípulos confundiam o termo urómetro com ureó- metro. Tanto o termo urómetro como ureómetro per- tencem á urologia. Vamos definir ambos para mostrar a differença. Urómetro - é um areómetro de pêso constante 216 e volume variavel, que serve para verificar a den- sidade de uma urina. Ureómetro é um apparêlho destinado a dosar a quantidade de uréa contida em uma urina. Comquanto nem um dos diccionários que con- sultámos diga coisa algúma sobre a origem da pa- lavra urina julgamos todavia que ella se deriva do verbo latino uro, is, ussi, ustum, urere, que significa queimar, visto como nos parece que a raiz de ur- ina é a mesma que de wr-ere e provém do hebraico ( ) ur que significa fogo, chamma, como podemos observar 'nos termos hebraicos : Ur, Urias, Uriel. Ur - conhecida hoje pelo nome de Moqayyar e situada segundo Halevy 'nas proximidades de Da- masco, é uma das mais antigas cidades da Chaldéa, onde nasceu Abrahão, pae de Isaac e filho de Tharé. A palavra Ur significa fogo segundo nos ensina o Cónego Dr. Fernandes Pinheiro em o seu «pe- queno vocábulário geográphico de história sagrada. Em relação aos termos Urias e Uriel escreveu o Sr. Mezezes Drummond o seguinte em seu diccio- nário de nomes próprios masculinos e femininos : « Urias - (fogo ou luz do Senhor) era marido de Bethsabé, servia no exército de David. Este príncipe tendo concebido por Bethsabé uma paixão criminosa, mandou Urias ao cerco de Rab- 217 bath e deu ordem para que o expozessem 'no logar perigoso; Urias ahi morreu combatendo. David cho- rou depois amargamente este crime e d'elle fez pe- nitencia. Uriel - (luz ou fogo do céo) o anjo do meio- dia segundo os rabbinos, é segundo uns o anjo da luz e segundo outros um dos ministros da justiça divina ». Tínhamos em nosso caderno de notas os se- guintes hybridismos que por falta de tempo não serão discutidos. Eil-os : acanthopelvis aglobulia albuminúria alcoómetro anilóphilo anti-ácido antipestôso anti-rábico anti-sudoral assa ou asa foetida bacillemia bactericida balneotherapia calorímetro campimetria cardiomôtor cardiopunctura cardiovascular claustrophobia clido-escapular coxalgia cremómetro cyaniventris densímetro dermopapillar ebulliómetro ebullioscópio endo-apexiano endo-mucronico endoveia 218 epileptiforme estrumectomia extra-cardíaco hemi-albumose hemi-clavicular hemi-lateral hemoglobina hypersecreção hypersudação hypoglobulia hypo-tensão indicanúria intra-cardíaco macrodentismo mentagra microbicida ne o-formação neuro-glandular palato-estaphylino palato pharyngêo peri-medullar perivascular pre esphygmico pre-systólico post-systólico psychomotôr rectalgia rectite sebólitho seborrhéa sopróide urinemia urobilina urogenital vagotomia varico-céle visiómetro SÉTIMA PARTE Vícios de traducção ' Nesta parte devíamos indicar a traducção por- tuguesa de certos termos que são muitas vêzes em- pregados em a nossa língua com a mesma forma (ou com pequena modificação) que possuem 'na língua a que pertencem, e a traducção legítima de algúns outros que têm sido mal trasladado para o vernáculo. Não dispondo de tempo sufíiciente para inves- tigar todos os termos que reunimos em o nosso ca- derno de notas e reconhecêr suas raizes para assim obtêr a traducção vernácula destes termos, pedimos permissão ao Dr. Plácido Barbosa para utilizarmo- nos de seu artigo Terminologia medica inserto 'no «Jornal do Commércio» de Abril de 1901. Vamos começar pelos termos ballotter, que mui- tos traduzem por ballottar, (já muitas vêzes ouvi- mos a seguinte pergunta: O Sr. já ballotou ? Não 220 senhor, ainda não ballotei) e ballottement que não traduzem e dizem com o maior desembaraço o ballot- tement abdominal, o ballottement vaginal, como se bal- lottement fosse também termo português. Entretanto se quisessem, poderiam com pouco trabalho sabêr a traducção d'este termo; bastaria para isso lêr qual- quér compêndio de obstetrícia de auctôres portu- guêses, pois tôdos elles traduzem o ballottement pelo termo rechasso. 'Na medicina legal de Lopes Vieira, lente ca- thedrático d'esta matéria 'na Faculdade de Medicina de Lisboa encontrámos o termo rechasso (traducção de ballotement) 'no seguinte trecho á página 312 : « O movimento de balanço do feto dentro da cavi- dade uterina, também dito embalanço, rechasso e li- bração, torna-se apreciável desde o quarto ao sexto mez da gravidez, estando a mulher de pé, collocando uma das mãos sobre a parede do ventre, na altura do fundo do utero, e imprimindo com o indicador da outra mão, introduzido na vagina, um abalo brusco ao collo uterino, que faz com que a cabeça do feto, elevando-se, cáia logo contra a região uterina do collo, denunciando-se ao dedo ». Em relação a este termo escreveu o Sr. Dr. Plá- cido Barbosa o seguinte 'no Jornal do Commércio de Abril de 1901: « Em numeros passados do Jor- nal do Commércio, o Sr. Cândido de Figueiredo, na serie dos artigos em que com tanto ardor tem de- fendido a pureza de nossa língua, tratou dos voca- 221 bulos que em vernáculo, devem corresponder na te- chnologia médica aos termos francezes ballottemcnt e grippe ou influenza; e a proposito das publicações do philologo portuguez, o Sr. Dr. Pires de Almeida no « Jornal do Commércio » de 4 de Abril, lembra aos « meticulosos investigadores da linguistica a necessi- dade de mais frequentemente dirigirem sua attenção para a technica medica» e apresenta os termos francezes courbature, muguet, gavage, entrainement e gravelle, como não tendo em português corresponden- tes próprios. Bem que não nos contemos no numero « dos me- ticulosos investigadores da linguistica » não nos tem ficado arredias taes cogitações, já pelo dever commum a todos, de fallar, escrever, com pontualidade, já porque no meneio de nossa profissão, frequentes vezes temos sentido a difficuldade de encontrar vo- cábulos portuguezes que exprimam com propriedade idéas que em linguas estrangeiras já têm expressões adequadas. No particular da technologia medica muito de- vendo ao labor esclarecido do professor Francisco de Castro que nas suas licções oraes de clinica e no- meadamente no seu Tractado de clinica propedêutica, fallando sempre o portuguez lidimo que lhe conhe- cemos tem introduzido na lingua muitos termos re- ferentes á. medicina que nos faltavam ou eram im- próprios ; e si não fosse um quasi desprimor para a elevada posição do professor brazileiro o vir elle 222 discutir, como cousa principal essas nugacidades, ficariam de sobra satisfeitos os desejos do Sr. Dr. Pires de Almeida, com lucro para todos nós. Não se nos leve, entretanto, a mal que, sem intenção de me- trear, venhamos trazer ao assumpto um pouco do nosso fraquissimo cabedal. A questão antes de tudo, não é simplesmente de traduzir francez, como por mais de uma vez temos ouvido dizer com desdém, é a de dar á cousa a deno- minação portugueza própria e legitima que ella já possue em outras linguas. Si, na maior parte dos casos e é para a palavra franceza que temos de procurar a palavra portu- gueza correspondente, á inópia de Brasileiros e Portu- guezes em espirito de indagação scientifica e em trabalhos fundamentaes, creadores, á nossa maior familiaridade com aquelle idioma o devemos. Este ultimo facto vem a ponto dizer-se, ao con- trario do que a muita gente se pinta, não nos des- lustra, pois ainda hoje a universalidade da lingua e cultura francezas é um facto, e para não sahir do diminuto terreno em que pisamos, citemos apenas que no mais importante vocabulário medico polyglotta até hoje publicado {Terminologia medica polyglotta com- piled by Theod. Maxwell, Lond., 1890) foi o francez a lingua escolhida como base fundamental, isto é, os termos de todas as linguas foram referidos ao termo correspondente francez e sob a sigla franceza hão de ser procurados. O grammatico portuguez Cândido de 223 Figueiredo, a quem foi pedido por medico brazileiro o termo vernáculo que coubesse ao francez ballotte- ment, lembrou que o termo rechaço já era empregado pelo Dr. Magalhães Coutinho para designar esse phe- nomeno obstétrico, e achou-o bom. Podemos acceita-lo na falta de outro mais exa- ctamente adequado. O signal diagnostico que em obstétrica se obtem pela apalpação de certas regiões e que em francez se denomina ballottement é, em resumo, a sensação que se tem de um corpo que, fluctuando n'um li- quido, foge ao choque da mão do operador, tal qual se procurássemos com o choque do dedo afundar um fragmento de gelo fluctuando num copo d'agua. Esse é o ballottement. O facto de se sentir o corpo, que fugiu ao im- pulso dos dedos, voltar á primitiva posição, é todo secundário - constitue o choque de retorno. (Ribe- mont - Dessaignes.) Ora, rechaço, que significa «re- flexão do corpo elástico que, em batendo n' outro, torna para d'onde veio» (Moraes, Vieira), corresponde em rigor, aos dous factos reunidos, não exclusiva- mente ao primeiro que por si só já constitue o bal- lottement. Entretanto, como na maioria dos casos sente-se e pesquiza-se o choque de retorno, e o vo- cábulo rechaço, peculiar ao jogo da pella, traduz com muita analogia o phenomeno da ida e volta do feto, achamo-lo aceitavel e nenhum outro mais proprio vemos ». 224 Bourrelet. - Em relação a este termo escreve o illustre Dr. Plácido Barbosa 'no « Jornal do Com- mércio» de Septembro de 1901 o seguinte : « A nós muito mais frequentemente que aos portuguezes, que foram os creadores da lingua e guardam a tradicção delia, faltam no discurso termos technicos próprios. Pelo descuido e desestimulo caracteristicos do nosso povo, a quem tanto é indiíferente a especie do seu Governo como a vernaculidade e propriedade dos instrumentos de sua linguagem, vão sendo esquecidos ou mal usados termos já consagrados na lingua em acepções precisas; ou, sendo facil e natural a deriva- ção do termo que falta, tirando-o das linguas classicas, mananciaes legitimos da nossa, é preferida a pratica de um barbarismo com o uso da palavra estrangeira aportuguezada grosseiramente ou empregada tal qual. No caso particular que nos occupa, tórtos e anhelação são exemplos do primeiro vicio, flambar^ secretar e creche do segundo. Entretanto, em uma lingua tão rica como a por- tugueza, da qual bem podemos dizer que cousa ne- nhuma existe que não tenha já um termo exacto que a nomeie, devemos olhar de travez para esses vocábulos mal mettidos na linguagem, que por sua origem estranha ferem a pureza e o genio da lingua, que não obedecem, na sua formação e derivação, aos preceitos usuaes, cuja adopção não se justifica nem pela necessidade, nem pela analogia; nem pela pro- priedade, nem pela belleza. 225 Das phrases sem castidade diziam os antigos clássicos que eram «meiadas de hervilhaca», pois a linguagem scientifica deve desinçar a sua phrase da hervilhaca do barbarismo e do estrangeirismo. Tratando no «Jornal do Commercio» de 14 de Abril desta questão da terminologia medica portu- gueza, notámos que não nos pruia a ambição de ser apontado ao dedo como mestre, e que da frequência das vezes que em medicina falta o termo vernáculo proprio, da obrigação que a todos se impõe de usar com pontualidade o seu idioma, da precisão que deve ter a nomenclatura scientifica, fazíamos nós a razão do nosso apparecimento em publico. Repontando no assumpto a proposito de outros vocábulos - que também serão tirados do francez, porque essa é a lingua de nossa cultura scientifica - esses mesmos motivos com que cobríamos nos servirão ainda agora de pavezes. Nesta disquisição de termos médicos vernáculos equipollentes a termos francezes em moda, occorre-nos hoje buscar os que correspondem a bour- relet, flamber, surmenage, creche, tranchées, efface- ment, ronflement, ballonnement, essouflement, badi- geonnage, pétrissage, effleurement, tapotement, pous- sée, sécréter, excréter, engelure, gercure, cuisson, suinter e rale. A significação geral de bourrelet, em technologia medica é a de uma, saliência, elevação, ou resalto de tecidos ao longo ou em derredor de uma superfície ou cavidade ; é um tracto de tecido que limita ou- 28 226 tro tecido e é diverso d'elle por alteração patholo- gica ou differenciação physiologica. O vocábulo portuguez correspondente é ourelo, que estreitamente e com a maior propriedade se ap- plica a todas as variadas accepções do termo bour- relet em medicina. Ourelo é o tecido especial quasi sempre de cor e espessura differentes que se faz ao panno para impedir o seu desfio; é com a graphia ouréla, a borda, a beirada das vestimentas, dos rios, dos mares. Temos, pois, em ourelo como em bourrelet as idéas geraes de prominencia, de limitação e de dif- ferença que lhe dão propriedade e precisão para os sentidos qne em medicina tem bourelet. Assim, o contorno, o limite papaliforme da placa de erysipeala é c ourélo, erysipelatoso ou da erysipela; o annel fibro-cartillaginoso que completa a cavidade glenoide do omoplata, onde se encaixa o hu- mero, é o ourelo glenoide ou da cavidade glenoide; na cavidade cotyloide ha o ourélo ou supercilio co- tyloide; no onyx lateral ou unha encravada ha o ourélo de tecido fungoso, que se sobrepõe á unha e dá á lesão seu aspecto caracteristico. » Além do termo ourelo que traduz exactamente o bourrelet francês canforme demonstrou o Dr. Plá- cido Barbosa temos também o termo orla que cor- responde ao bourrelet. Segundo nos informaram, o il- lustrado professor de anatomia descriptiva da nossa Faculdade de Medicina, o Sr. Dr. Crissiuma, traduz 227 e muito bem a expressão bourrelet du corps calleux por orla do corpo calloso. Ballonement.- Escreve o Dr. Plácido Barbosa em seu artigo sobre terminologia médica o seguinte a respeito d'este termo : « Aos estados do ventre em que elle se mostra augmentado de volume, distendido como a vela do navio que o vento enfuna ou como um balão e as mais das vezes sonoro á percussão, estados entre os quaes se incluem a pneumatose e a tympanite, e fre- quentes nas creanças dyspepticas, na occlusão intes- tinal, na peritonite etc., dão os francezes o nome de ballonement, a que commumente se faz corresponder em portuguez abahulamento, que não tem o sentido exacto e a propriedade do termo francez. Ora, temos o verbo bojar (ao francez bouge, a pansa dos barris) que significa enfunar, pandear, fazer bojo, pansa, barriga; e o substantivo correlato bojadura ou boja- mento tem a sua significação completa de ballonement, sendo proprio e castiço. Bojadura ou bojamento do ventre é o que se de- verá dizer. Notando-se, porém que bojadura como ballonement.) e tympanite ou pneumatose não são sy- nonimos; os primeiros designam um aspecto no ven- tre commum a vários estados morbidos e os segundos dous desses estados morbidos em que ha bojadura do ventre ». 228 Badigeonnage. - A respeito d'este termo es- creve o Dr. Plácido Barbosa em seu artigo sobre terminologia médica o seguinte : « Badigeonnage em seu sentido primitivo é a acção de pintar as paredes com a tinta preparada e deluida. Em medicina é a applicação sobre a pelle ou mucosas por meio de pincel, ou instrumento se- melhante de um medicamento liquido. O substantivo francez vem de badigeon, o liquido com que se faz a badigeonnage; o nome correspon- dente em portuguez não poderá ser derivado de modo idêntico, pois não temos nenhum vocábulo com a comprehensão de badigeon, mas poderemos derival-o do nome que genericamente, designa o instrumento por meio do qual se faz essa applicação medica- mentosa. Assim, de pincel formaremos pincelagem^ diffe- rente e melhor que pincelada, como alguns médicos usam; pois pincelagem não dá idéas de traços pre- cisos, nitidos, de golpes de pincel, qual é o sentido do outro termo, e portanto exprime com mais justeza o sentido de badigeonnage, que não comporta preci- samente essa idéa de nitidez ». Muitos traduzem o termo badigeonnage por em- brocação, que não corresponde bem a pincelagem e que não exprime como elle a applicação de um me- dicamento liquido, sobre a pelle ou mucosas por meio de um pincel ou qualquer outro instrumento 229 similhante, mas sim fomentação oleosa; irrigação que se faz em alguma parte enferma por meio de uma esponja ou panno que deixa cahir o liquido pouco a pouco. Littré diz que embrocação é a acção de derramar lentamente um líquido, sobretudo um líquido oleoso sobre uma parte doente. Stappers define : é uma espécie de banho local que consiste em irrigar lentamente a parte doente. A palavra embrocação vem do grêgo á^po^>7, >7; (>7) (loção, irrigação, envolucro húmido) que se deriva do verbo : é^Ópe^co (imbebêr, irrigar, molhar, humidecêr) que se compõe da preposição er [(que antes de S se transforma em qu) que significa em, dentro, sobre, por e em composição : sobre, "no meio de, perto dé)~\ e do verbo : /3pé/o (- molhar, irrigar - d'onde se derivou 0 termo bregma) que provém da raiz ^ex (que desperta em nosso espirito idéa de irrigação) da qual se originaram os termos : /?pé^ - w, ^po/->7, ^ox-erói, P^x-^ e ^a- Em relação a este último termo (bregma) es- creveu 0 professor Landouzy 'no seu glossário-mé- dico 0 seguinte : « Bregma partie supérieure de la tête ; de mouiller, soit à cause de la grande fon- tanelle qui s'y trouve chez le foetus, soit parce qu'on croyait que les humeurs y affluaient). Point d'inter- section de la suture sagittale ». Corrêa de Lacerda diz 0 seguinte em seu dic- 230 cionário encyclopédico : « Bregma ou bregmate : s. m. (gr. hrekhma, de hrekho, molhar, porque esta parte da cabeça está sempre húmida nas creanças) (anat.) o sinciput, a parte da cabeça onde se ajunctam as su- turas coronal e longitudinal; é o que chamam vul- garmente molleira. » Chassang 'no seu diccionário grego-francês dis- tingue ftçÉypa de ^éj^pa. Derivam-se ambas do verbo ^pr/o, mas o primeiro significa infusão e declina-se ^páy^a, aróç (ró) ao passo que o segundo declina-se : ^éj^pa, aroç, (ró) e ^é^poç,, ov (ó) e significa a parte superior da cabeça para onde affluem os hu- mores. Calotte - Em relação a este termo escreve o Dr. Silva Lima o seguinte em seu glossário médico : « Calotta - Assim tenho visto designar a porção do crânio que os francezes chamam calotte (barrête). Em português é empregado este termo em geometria e architectura. Em anatomia os inglezes usam da palavra latina calvaria (do verbo calveo) ; calvaria para de- signar o segmento do craneo a que os francezes cha- mam calotte, poderiamos nós também dizer e creio com mais propriedade do que usando de um galli- cismo escusado». O Dr. Fragoso Tavares analysando o artigo do Dr. Silva Lima escreveu o seguinte 'na Medicina Contemporânea: « Em relação a calotta-D'accordo, 231 mas seria custoso metter em circulação o proposto neologismo calvaria. Tanto mais que calvaria quer dizer caveira (Cels) e não corresponde exactamente ao francez calotte. Este ultimo gallicismo tem também o inconveniente de se confundir com o calote portuguez, que tanto desagrada a médicos ». O Dr. Silva Lima respondeu do seguinte modo á analyse do Dr. Fragoso Tavares : «Peço licença para observar que os médicos que escreveram em latim usaram do termo calvaria e cranium como sy- nonymos (Jonathas Pereira) e que a definição ingleza de calvaria corresponde á definição franceza de ca- lotte du crâne. Definição franceza: - Parte superior da caixa craneana (Littré). Definição inglesa : - Parte do craneo acima das orbitas, têmporas, orelhas e protuberância occipital (Mayne, Power e Sedgwick). Determinada assim e identificada a significação anatómica dos 2 termos, ambos extranhos á nossa língua, na escolha entre elles o meu voto seria pelo derivado do latim calvaria e não pelo francez calotte ; o primeiro além de mais conforme á indole da lingua portuguêza, teria a vantagem de se não prestar á confusão de que fala o illustre collega lisbonense e de não precisar como o segundo da explicativa du crâne, para o distinguir das outras especies de ca- lottes ». 232 Calotte du crâne - é a parte superior da caixa craneana. A palavra calotte significa propriamente boné- zinho de panno, de velludo, etc., de forma arredon- dada que cobre a parte superior da cabeça. Por analogia diz-se calotte du crâne, nome vulgar do sinciput (') ou vertex (2). A palavra calotte provém segundo Stappers do latim calantica òu calantica, ce que quer dizer touca ou coifa de mulheres. Segundo Darmesteter e Ilatzfeld provém de cale - pequeno boné de homem que cobre a parte superior da cabeça que usavam os clérigos, e os lacaios e que significa também penteado antigo e uma espécie de boné; boné. (de mulhér) que cobre as orelhas e é chanfrado anteriormente. Courbature-A respeito d'este termo escre- veu o Sr. Dr. Pires de Almeida as seguintes pala- vras 'no seu artigo « philologia » publicado 'no Jornal do Commércio de 4 de Abril de 1901: « Lendo, como sempre, com satisfação e curiosidade, o artigo em que o philólogo portuguez Cândido de Figueiredo opina com Magalhães Coutinho que, ao termo de obstetricia ballotement, melhor corresponde o termo (1) E' synónymo de bregma. E' a parte superior da cabeça, Compõe-se de 2 ele- mentos, a sabêr: semi que quer dizêr meio, metade e caput que significa cabeça, (2) Deriva se este termo do latim vertex, icis (de vertere) que é o mesmo que vortex, icis; significa coroa (da cabêça) ; cabêça (das pessoas) e ainda : poncto mais alto do céo, eixo, polo //cume (d'um monte, d'uma serra) //summidade, píncaro; //zimbório, cúpula, cimo, //serra, monte, promontório, collina, outeiro, cabêça, chefe, etc., etc. 233 portuguez rechaço, occorreu-me lembrar aos meti- culosos investigadores da linguistica a necessidade de mais frequentemente dirigirem sua attenção para a technica medica. Assim, com effeito, nós, Brazi- leiros e Portuguezes, acostumados aos livros fran- cezes, ou não traduzimos certas expressões, ou as trasladamos íielmente, mas erroneamente para o ver- náculo. Palavras ha na linguagem medica que os pro- fissionaes mal traduzem. Vários exemplos me occor- rem : a que corresponde em portuguez courbature ? Já me lembrei em tempo traduzir por lassidão, tanto mais quanto os Hespanhóes chamão a este incommodo lassitud ; mas, na courbature, ha, não só a lassidão, isto é, a frouxidão dos membros, a pros- tração, o cansaço, o estado do corpo que pede cama, porém ainda sensação dolorosa por todos os mús- culos como si sobre elles tivesse actuado pertinen- temente uma causa traumatica.- _ . Eis porque está a me parecer que o vocábulo lassidão não é bastante comprehensivo. E' o caso de virem á baila os grammatico- graphos». , „ Dias depois do artigo do Dr. Pires de Almeida escreveu o Dr. Plácido Barbosa sobre o mesmo termo e 'no mesmo jornal o seguinte : « Lassidão, que significa cançaço, fadiga, abatimento, quebra- mento de forças, no physico e no moral, corres- ponde bem a courbature, que enquadra essas mesmas 234 accepções. Não achamos que lassidão seja menos expressivo que courbature, o que ha é que nos acos- tumámos a enfeixar em courbature todos os pheno- menos que constituem esse symptoma, e não damos a lassidão mais que a sua accepção banal. O diccionario de Vieira, depois de definir o termo por seus vários significados, especifica que lassidão cabe também a «sensação semelhante cau- sada por má disposição de saúde ». Creche. - A respeito d'este termo escreve o Dr. Plácido Barbosa 'no Jornal do Commércio de 1901 o seguinte : Pugnando pela instituição das crèches, a illustre escriptora Sra. D. Julia Lopes de Almeida verteu o termo francez pela circumlocução - casa para berços - que não é própria, nem con- cisa, nem comprehensiva. Melhor que essa peri- phrase é sem duvida a locução - casa nutrida - (do latim nutricius- proprio para ama de leite) que quer dizer a casa em que se cria e amamenta a criança. Mas é possivel incluir em um só vocábulo portuguez a significação de crèclie^ derivando-o á semelhança, do correspondente inglez nursery^ de nu- trire que em latim significa nutrir, criar, alimentar; nutritorio seria esse vocábulo, que, á legitimidade de sua origem e formação, allia a propriedade, pois inclue dentro em sua comprehensão os attributos de nutriz (ama de leite). Nenhum outro termo melhor que nutritorio po- 235 derá substituir crèche, e ao lado de sanatorio, de pretorio, de refeitório, de unctorium (entre os roma- nos, o logar de fazer massagem) e de tonsorium (o logar de cortar cabellos), elle designará muito bem e conscientemente - o logar onde se cria e ama- menta a criança ». Esta palavra já está muito em uso 'na língua portuguêsa. Os diccionários portugueses já a mencionam 'no meio de outras palavras de fórma vernácula. 'No diccionário da língua portuguêsa de Cân- dido de Figueiredo encontrámos : « Crèche - s. f. asylo diurno para crianças pobres. (Fr. crèche, do germ)». e 'no de Moraes : «Creche - s. f. - Estabe- lecimento de caridade em que se dá asylo e ali- mento a crianças pobres, durante o dia para facilitar ás mães o trabalho ». Boissière diz 'no seu diccionário analógico da lingua francêsa que crèche significa manjadoura, bêrço de Jesus Christo; logar onde se guardam os filhos dos pobres. 'No diccionário da língua francêsa de Darmes- teter encontrámos : « Crèche - emprunté de l'anc. haut aliem, krippja. // Mangeoire pour les bestiaux. Specialt. La crèche de Venfant Jesus ou Jésus fut placé à sa naissance // P. ext. 1: Asile pour les enfants trouvés. / 2: Asile pour les petits en- fants pauvres, pendant le temps que leur mère s'ab- sente pour le travail». 236 Em relação a este termo diz Littré o seguinte em seu diccionário de medicina: «s. f. Asile dons lequel sont reçus pendant la journée, les enfants que leur mère, obligée de travailler hors de la mai- son, ne peut garder auprès d'elle. Les crèches ne reçoivent pas d'enfants sevrés avant 1'âge de 9 mois; les enfants non sevrés doivent avoir 2 mois au moins, et sont nourris par la mère, qui a accès dans rétablissement aussi souvent quil est necessaire». Mathias Duval e Lereboullet escrevem o se- guinte : « Crèches - s. f. pl. Lieux destinés à rece- voir les jeunes enfants que leurs parents ne peuvent garder à la maison. Ces établissements datent seu- lement de 1844, et ont été définitivement organisés par le decret de 1862, qui divise les crèches en publiques et privées.. On y admet les enfants se- vrés, âgés de 9 mois au moins, ou ceux, plus jeunes, que leurs mères s'engagent à venir aliai ter. Le Service hygiènique et médical est dirigé par un mé- dicin. L'usage des crèches s'est propagé a 1'étranger ». A respeito d'este termo escreve Bouillet o se- guinte em seu diccionário de Sciências e Artes: « Crèche. Proprement c'est une mangeoire à 1'usage des bestiaux. La Crèche ou S.te Crèche est celle ou 1'enfant Jésus fut mis au moment de sa naissance. Mais on. designe aussi sous. ce nom des établisse- ments hospitaliers qui.gardent pendant la journée les enfants au-dessous de trois ans dont les mères sont obligées de travailler pour vivre. . 237 La première crèche à Paris a été fondée le 14 nov. 1844 par Firmin Marbeau; elle fut suivie de beaucoup d'autres en France et à 1'étranger. Le decret du 26 févr. 1862 a réglé cette utile institution. D'après ses dispositions, chaque crèche est visitée tous les jours par un médecin. On y admet que les enfants en état de santé et qui ont été vaccinés. Un grand nombre de crèches sont reconnues comme établissements d'utilité publique. II en a été de même en 1869 pour la Société des Crèches, dont le siège est à Paris et dont le but est d'aider et de soutenir 1'institution des crèches ». Quasi todos os diccionaristas derivam este termo do allemão krippa. Stappers escreve 'no seu diccionário synóptico de etymologia francesa o seguinte : « Crèche (comp. sèche, du 1. scepia) all. krippe m. s - mangeoire à 1'usage des bestiaux; asile pour les enfants encore à la mamelle; berceau de 1'enfant Jésus ». O abbade Espagnolle não aceita a etymologia de Littré que é abraçada pela maior parte dos phi- lólogos. Não acredita que o termo crèche se origine do allemão krippa, mas sim do grego. Em seu diccionário de etymologia francêsa en- contrámos o seguinte a respeito de crèche : « Crèche - xpócrxíç ou zpárzíç, le même que - (foin, herbe, fourrage, et, par extension, fendroit ou les animaux mangent le fourrage ». 238 Vamos transcrever as considerações que sobre este termo fez o illustrado philólogo Dr. Castro Lopes em seu livro intitulado : Neologismos indis- pensáveis e barbarismos dispensáveis. « - Creche - significa, significou e ha de sempre significar presepio, manja doura, estrebaria, estábulo, cavallariça. Não sei porque ha de agora em Portugal e no Brazil dar-se o nome de crèche a uma casa pia, a um estabelecimento de caridade. Será porque, dieta a palavra em francez fica esquecida e disfarçada a significação ? Fórma-se, crêa-se, por exemplo, um asylo da infancia desvalida; eis que annunciam logo os jor- naes : « Estabeleceu-se uma creche com o fim de re- colher e manter as crianças desamparadas ». Por ventura, só pelo facto de quererem assim chamar a casa em que caridosamente são recolhidos esses enteados da Fortuna, perderá crèche a signi- ficação ? Em minha humilde opinião é tal metaphora infeliz e deprimente. Ah! que reflicto agora, e caio em mim !... Jesus nasceu em uma crèche (presepio, estrebaria, estábulo) e d'ahi a lembrança de designar com a palavra fran- ceza crèche o recolhimento, o asylo de caridade. Como Jesus prégou a caridade e nasceu em uma crèche (presepio, estrebaria, estábulo), chame-se crèche a casa, onde se exerce a caridade !... 239 Ora louvado seja Jesus !... O presepio, a estre- baria, embora tivessem sido o logar, em que Jesus veiu ao mundo, continuou, continua e continuará a ser o estábulo, em que bois e cavallos se recolhem e comem na manjadoura a ração. A cruz, replicar-me-hão talvez os hypocritas neologistas, foi outrora infamante instrumento de supplicio; mas desde que nella padeceu e expirou o redemptor da humanidade, transformou-se em sym- bolo de adoração. Estou de perfeito accôrdo com a replica; e por isto mesmo insisto em que, não obstante bus- carem impropriamente denominar creche a casa de caridade, creche, continua e continuará a ser presepio, estábulo, estrebaria; e não se transformou, nem se transformará em symbolo de adoração, nem em casa pia ou asylo de caridade. Que necessidade ha de semelhante neologismo barbaro e até vilipendioso ? Existindo tantos termos em portuguez para ex- primir essa idéa, nenhum haverá que sirva?... Querem chamar ao recolhimento, ao asylo de caridade, crêche 2 Pois traduzam a palavra... Ah ! isso não; porque então ficaria claramente demonstrada a impropriedade do termo ; ter-se-hia de dizer : - Estrebaria - estábulo ou presepio. 240 E' como eu já disse, advenomania linguística; não posso achar outra explicação. Felizinente estou já velho; porque si fosse criancinha e desvalida, lá iria também para o pre- sépio, para a estrebaria, para o estábulo... não ; ... para a creche. Oh ! tempos !... Oh ! costumes !... » Cuisson e cuisant - significam adurência e adurente. (Plácido Barbosa). Couches optiques - Em relação a esta ex- pressão escreve o Dr. Silva Lima o seguinte em seu glossário médico : « Thalamos opticos - Não sei porque se diz - camadas opticas em logar de tha- lamos traduzindo mal o termo francez couches, de couche, cama cousa muito differente de camada. Todos sabem as diversas accepções d'aquelle vocábulo francês, e a de camada não se adapta á idéa dos anatomistas antigos em denominarem thalamos á parte do cerebro que dá nascimento ao nervo optico; thalamo ou mesmo leito optico podemos dizer; camada é que não, porque involve um erro de significação ». O Dr. Fragoso Tavares respondeu ao Dr. Silva Lima 'nos seguintes termos, 'na Medicina Con- temporânea de Lisboa: - « Thalamos opticos - Apoiadissimo - Embora camada derive de cama (ou vice-versa) é preferível thalamo. Sempre assim ouvi 241 dizer ao professor Thomaz de Carvalho, e tanto bas- tava para lhe seguir a nomenclatura » Este vício de traducção aponctado pelo Dr. Silva Lima talvez seja geral 'na Faculdade da Bahia; 'na do Rio de Janeiro não ha um só estudante que commetta tal erro. Todos traduzem o « couches op- tiques por thdlamos ópticos ou camas óptimas. Se não soubessem a traducção e quisessem conhecêr a ex- pressão equivalente em português poderiam encon- tral-a na Anatomia descriptiva do professor Pereira Guimarães onde vimos sempre o « couches optiques » bem traduzido por thálamos ópticos ou camas ópticas. Delivrance. - O Dr. Plácido Barbosa traduz delivrance e delivrer por deslivramento e deslivrar e censura os que dizem delivramento e delivrar. Não devemos extranhar que estudantes, médicos e professores digam delivramento em vêz de des- livramento, porquê os diccionaristas sem condemnar nem uma d'ellas mencionam em seus diccionários deslivrar ou delivrar deslivramento ou delivramento e o Sr. Cândido de Figueiredo, grammático notável, escreve este termo muitas vêzes 'no seu livro «Es- trangeirismos» sem condemnal-o. 'No diccionário da língua portuguêsa de Frei Domingos Vieira encontrámos : « Delivrar - termo de obstetrícia. Lançar as pareas, secundinas, e De- livrar-se - v. refl. Parir a mulher, lançar a creança. Vid. Dequitar-se, e á página 902 : - Deslivrar - v. 30 242 n. (De des prefixo, e livrar). Parir, expulsar as pa- reas, secundinas ou placenta. » 'No diccionário de Lacerda encontrámos o mes- mo que 'no de Vieira. 'No diccionário de Moraes encontrámos : « Deli- vrar-se - v. ref. Parir a mulher; dar á luz a creança; dequitar-se, e Deslivrar - v. intrans. Lançar as pa- reas : « se a mulher parida se assentar em cosimento de ébulo, deslivrará facilmente » Costa, Egl, de Virg. 40 v. Card. B. P. ». A respeito d'este termo escreve o Sr. Cândido Figueiredo 'no seu livro « Estrangeirismo » o se- guinte : « - A esposa do nosso amigo R. teve na quarta- feira a sua delivrance...» A supposta civilisação, que fruimos trouxe-nos a mania de evitar palavras, que são de grande pro- priedade e vernaculidade, mas ás quaes a malicia indígena liga sentido plebeu ou chulo. Não registrar rei agora certos vocábulos que todos nós considera- mos obscenos ou impróprios de gente limpa, mas que são genuinamente portugueses e foram usados por graves escritores, como Fernão Lopes, e por poetas que eram ouvidos e applaudidos na Corte, como Gil Vicente. Mas vejam ao menos os tratos que damos á imginação e ao vocabulário, para nos servirmos de eufemismos hippócritas, evitando pro- positadamente um termo, que precisa e claramente exprimiria a nossa ideia. 243 - « Deu-lhe o pontapé no fundo das costas » - « As longas marchas a cavallo ferem-lhe as nádegas ». - « Occupava com o assento o espaço de duas cadeiras. » etc. E tudo isto, tendo nós á mão de semear o mais verdadeiro termo, e tão antigo, que já o recebemos dos latinos. A obscenidade e o plebeismo são meras con- venções, que aliás nos cumpre respeitar, mas contra as quaes deveriam os reagir, sempre que o apodo de plebeismo procura condenar vocábulos portuguesis- simos e necessários. Assim é que João de Deus, e outros escritores, que toda a gente lê, estima e admira, nunca hesitaram em servir-se da palavra cor- nos, em quanto a maioria dos meus pudicos contem- porâneos prefere « as armas do boi » « as pontas do boi »; «a armação do veado...» A um médico ainda toleram chamar-se especia- lista em partos; mas numa reunião selecta, sobre- tudo na presença de damas, tornou-se palavra tão crua, que os menos alambicados conversadores re- correm ao bom successo, e os mais presumidos agar- ram-se á délivrance dos francêses. De maneira que, a pouco trecho, a palavra parto passará á categoria de plebeismo, como já succedeu ao verbo parir, que a gente culta das cidades despreza, para o substituir por circumlóquios, mais ou menos violentos ou re- buscados. Pelas nossas aldeias em fóra, onde geralmente o idioma pátrio teima em mantêr o seu vigor e as 244 suas tradições, o verbo parir, ao lado de outras lo- cuções que a gente culta considera plebeias, quando não obcenas, continúa entretanto a fazer parte da lin- guagem commum, natural, espontânea; e neste seu desprendimento das mentiras convencionaes da civili- zação, são os nossos aldeãos algumas vezes acom- panhados pela vizinha Espanha, que nas mais sole- nes oportunidades, como nas boas do Natal, não se peja de cantar : Esta noche es noche buena y no es noche de dormir que está la Virgem de parto y a las doce ha de parir. Mas concluamos. A proscripção, a que os es- critores e os jornalistas condenaram o verbo parir, ameaça estender-se ao substantivo parto, que, como acima se viu, até já é substituido pelo francês dé- livrance ! Nem ao menos um eufemismo nacional! Porque, entre as duas hipóteses, antes a más- cara do eufemismo, do que o remendo francês ; an- tes o bom successo e a boa hora do que délivrance. A boa hora, no sentido de parto, acha-se até consagrada pela linguagem popular: - Quando uma mulher se apresenta no seu estado interessante (ou- tro eufemismo, com que se mascára o estado res- peitável da gravidez ou prenhez),-diz-se entre o povo : «Nosso Senhor lhe depare nma boa hora!» 245 Mas até sem recorrer a eufemismos, nós temos vocábulos perfeitamente decorosos e sinónimos de parto. Em documentos antigos, em que geralmente se espelha a linguagem corrente dos tempos idos, eu encontro delivramento no sentido de parto. E' provável que a palavra tenha parentêsco pro- ximo com a francêza delivrance^ mas tem fórma por- tuguesa e usou-se entre portugueses que inda não estavam gafados pela francesia de hoje. E, se algum purista recalcitrar contra o delivra- mento tem ainda o recurso da desgravidaçào, que é autorizada por Filinto, pelo menos, e bem derivada de desgravidar^ verbo que Filinto também usou, e que eu supponho criação dêlle, porque não vejo a palavra em outro autor. Nos hospitaes de Lisboa, usa-se entre os médicos, dequitar-se e clequítação ou dequítaõtura, em vez de parir e parto. Também são formas que se justificam. Em summa: tudo, menos a delivrance ». Como acabámos de ver o Sr. Cândido de Fi- gueiredo condemna tão sómente o emprego do termo delivrance, mas, adopta delivramento Drainage (T). - Dá-se este nome em chirur- gia á operação que consiste em collocar um ou vários tubos de cauchú para limpar um kisto ou (1) Este processo chirúrgico foi introduzido pelo chirurgião francês Charles. Marie-Edouard Chassaignac nascido em Nantes em 1805 e morto em 1879. 246 abcesso, ou facilitar o escorrimento do pus 'nos casos de phlegmões profundos dos membros, etc. O verbo drenar ou drainar (de onde se derivou drenagem ou drainagem) que adoptámos por influên- cia francêsa veio do inglês to drain que significa : exgottar, escorrer, tirar água, enxugar, dar saida ás águas de uma terra. Entre os diccionaristas portuguêses alguns es- escrevem drainar e drainagem (Cândido de Figuei- redo, Lacerda e Vieira) e outros, drenar e drenagem (Aulete, Francisco de Almeida e Moraes). O Dr. Castro Lopes propôs o verbo hauricanular e o substantivo hauricanulação para substituírem drenar e drenagem (em chirurgia) que não têm fei- ção vernácula. A respeito de drenar e drenagem escreveu o il- lustrado philólogo 'no seu livro sobre neologismo as seguintes linhas: « Drainage- Algumas luctas tenho sustentado contra os que vêem com máos olhos os novos nomes, por mim creados para separar do nosso idioma a grança, que o tem invadido. Os que não entendem de matérias litterarias (por que hoje todos, lettrados e illetrados, se jul- gam aptos para discutir tudo) suppoem que nada adianto, condemnando os vocábulos francezes e in- glezes, e substituindo-os por novos, formados do grego ou do latim, ou de hybridismos greco-latinos, ou finalmente dos elementos da própria língua vernacula. A esses não dou resposta. 247 Outros, não obstante o esmero, que ponho na formação dos neologismos, confessam que o novo termo exprime a idéa contida na palavra franceza ou ingleza; (e ás vezes muito melhor, por exemplo runimol, plutenil, e outros) mas tal é a força do máo habito, que parece deixarem com mágua o vocábulo exotico, para usarem do nacional. Entretanto, devo declarar que certos espiritos rectos e despidos de más paixões têem acceitado com gosto a creação de grande numero dos novos vocábulos, e até todos. Ha quem me tenha procurado, pedindo neolo- gismos para certas expressões francezas e inglezas que até agora não tinham termo equivalente nos diccionarios bilingues, sendo a significação, não uma definição lexicologica, como cumpre, uma palavra portugueza correspondente á estrangeira, mas des- cripção longa, ou prolixa circumlocução. Examinemos agora, si ha necessidade de dizer e escrever drainagem, aportuguezando o duplo bar- barismo inglez e francez, como infelizmente o fez quem o admittiu no Thesouro da lingua portugueza de Frei Domingos Vieira, onde se encontra draina- gem e drainar /... A palavra drainage, ingleza, significa escoamento de aguas, escoadouro ; e o verbo drain fazer esgotar, enxugar. Além d'isto o substantivo drain quer dizer rego, canal, escoadouro para dar sahida ás aguas. 248 De 1840 para cá começou a ser empregado em livros inglezes de agricultura e economia rural o termo drainage, para significai' o processo de esgotar as aguas do sólo, tendo por fim enxugal-o. Os francezes adoptaram logo o britannismo ; e tanto bastou para que Brazil e Portugal sem mais demora admittissem drainagem. Consistindo, como consiste, aquelle processo na extracção das aguas, que do sólo são hauridas por meio de bombas, não aconselho que se traduza a palavra ingleza drainage pelo vocábulo portuguez enxugo; visto que enxugo por si só não daria idéa da extracção das aguas por tubos e canaes com o auxilio de bombas. Lembro e apresento o substan- tivo haurinxugo como traducção de drainage; e o verbo haurinxugar para exprimir a acção de haurir (çhupar, sugar) o liquido, enxugando o logar que o contenha. Os elementos constitutivos do novo termo são haurir, verbo portuguez, que significa extrahir li- quidos, sorver, çhupar, e o substantivo vernáculo enxugo (acção de enxugar). Exprime portanto a nova palavra com toda a exactidão as idéas contidas no termo estrangeiro drainage. Quem não souber inglez, ao encontrar em es- cripto portuguez o vocábulo drainage, não compre- henderá o pensamento, sem que lh'o expliquem; entretanto que a nova expressão portugueza dá logo 249 a conhecer, pelos elementos de sua composição, que o vocábulo significa extracção de líquidos para en- xugar o logar, em que estes existem. Por imitação, usam também na linguagem cir- rurgica os autores francezes do termo drainage: os nossos médicos operadores empregam sem o menor escrupulo em portuguez a mesma expressão; a qual eu com o maior respeito lembro que se pode mui bem substituir por hauricanulagão; visto que o ins- trumento (de metal ou de borracha) é um tubo ca- nelado, aberto em ambas as extremidades, e tendo ao longo das paredes orificios equidistantes sugando e haurindo por exosmose os líquidos, pus, ou outra qualquer secreção em diversas regiões do corpo. Hauricanulação, e o verbo hauricanular sejam pois os termos cirrurgicos, que substituam os barba- rismos drainagem, e drainar. » Ecouvillonage e ecouvillon. - Escreve o Dr. Plácido Barbosa : «A' pequena operação deno- minada ecouvillonage^ que se pratica na cavidade uterina, e ao instrumento chamado ecouvillon^ que serve para pratica-la, chamaremos pelos vocábulos portuguezes escovilhagem e escovillião^ um e outro lidimos e traduzindo a mesma idéa que comportam os referidos termos francezes. » Effacement. - Escreve o Dr. Plácido Barbosa 'no Jornál do Commércio : «Á modificação do utero, 250 durante o trabalho do parto, em que o collo, depois de amollecido, adelgaça-se, alarga-se, desapparece insensivelmente, indo em prolongamento ás paredes do utero contribuir para a ampliação da cavidade uterina, chamam os francezes ejfacement, effacement du cot. A isso denominaremos nós em portuguez de es- vaecimento, esvaecimento do còllo, de esvaecer, que sig- nifica desfazer, desapparecer, tornar em nada, que se applica ao nevoeiro que se dissipa ao sol, que se evapora ou deliquesce. Esvaecimento do cotio é como devemos dizer ». Engelure. - O Dr. Plácido Barbosa diz que engeture significa frieira ; e que no beiço se chama cieiro. Entorse. - D'entre os estudantes e médicos algúns há que dizem o entorse, outros a entorse e outros ainda que traduzem entorse por distorsào. Em relação a este termo escreve o Sr. Cândido de Figueiredo o seguinte 'no Jornal do Commércio de 22 de Junho de 1902: «Entorse -Este barba- rismo pegou de estaca, cresceu, frondejou, e até os diccionaristas se viram obrigados a regista-lo indul- gentemente. Ora, o francez entorse justifica-se facilmente com o prefixo en e o antigo participio tors, de tordre (torcêr) ; mas, para nós o substantivo verbal de torcer é torcedura. 251 Não servirá a torcedura para designar a distensão violenta e súbita dos ligamentos e tecidos que ro- deião as articulações? Eu creio que sim; mas, se não servisse, e se muito nos enamorasse o entorse francez, poderiamos talvêz, approximar-nos desta forma, sem nos accusarem de francezia: bastava que procedessemos analogamente aos Francezes, aprovei- tando o prefixo en, que também é nosso, e aportu- guezando o participio latino torsus (torcido) para formarmos entorso. Entorso, e não entorse, será forma portugueza ; e embora não dissesse mais que a torcedura, poderia conciliar as sympathias dos que acham feio o entorse. Valeu ? » Entrainement. - 'No seu artigo «philologia» inserto 'no Jornal do Commércio de 4 de Abril de 1901 escreveu o erudito Dr. Pires de Almeida o seguinte : « E o mesmo succederá com a pa- lavra entrainement, conjuncto de meios hygienicos postos em pratica, não só no homem, como nos ani- maes, para favorecer o desenvolvimento dos orgãos, em determinada direcção. Comprehendendo uma série de meios, que têm por fim eliminar os liquidos, vi- ciados ou inúteis á harmonia das funcções e imprimir uma actividade duradoura á nutrição, limitamo-nos, entretanto, quando não conservamos a palavra fran- ceza letra por letra, a substituil-a por esta phrase, que apezar de longa, não abrange os oito meios que 252 constituem esse poderoso recurso da hygiene thera- peutica: exercido moderado e progressivo. » A respeito d'este termo escreve o Dr. Plácido Barbosa o seguinte 'no Jornal do Commércio de Abril de 1901: «Para entrainement já existe em portuguez puro o termo apropriado: é o substantivo treinamento, derivado de treinar que em altaneria significa habituar, acostumar, exercitar a ave de ra- pina a fazer a presa: é o mesmo treinamento ou en- trainement, usado em hippologia e applicado especial- mente aos cavallos de corrida. Treinamento exprime, pois, com exactidão a cousa a definir e não exprime mais que ella. O conjuncto de exercicios e meios hygienicos, variaveis em cada caso, que em medicina se applica e constitue o treinamento ou entrainement, tem o mesmo fim, obedece ás mesmas exigências que em volateria e em hippologia. Quando, por exemplo, em um tu- berculoso se procura, por meio de exercicios ade- quados, dirigidos e coordenados da respiração, me- lhorar a condição dos pulmões, faz-se treinamento; quando se tenta do mesmo modo, pôr um pouco de ordem na marcha de um tabético, ou adiantar a condição psychica do idiota, faz-se ainda treinamento, etc. ». 'No Jornal do Commércio de 27 de Maio de 1902 escreveu o insigne mestre Sr. Cândido de Fi- gueiredo as seguintes linhas em relação ao termo 253 que discutimos : « Entrainement - O cosmopolitismo da linguagem franceza, revertendo muitas vezes em benefica vulgarisação scientifica e litteraria, é ao mesmo tempo, e a cada hora, origem de sérias diffi- culdades na representação de uma expressão extranha por expressão vernacula. Tal é a difficuldade que surgio ultimamente entre os zooteclmistas portuguezes, acerca do termo que melhor representaria em nossa lingua o entrainement francez. Como se sabe, entrainement é um substantivo verbal. Mas, no francez há dous verbos distinctos, sob a mesma fórma de entrainer: um derivado de train, relacionado com o latim trahere, com o caste- lhano trajinar, com o italiano trainare e significando arrastar; e outro derivado do inglês to train que por seu turno, é a fórma inglesa do francês trainer. Entrainer neste segundo caso, pode considerar-se neo- logismo, é termo de corridas e gymnastica, e quer dizêr o mesmo que adestrar ou preparar para certos serviços ou effeitos, por meio de um regímen apro- priado, que pode consistir em exercícios, determi- nada alimentação, etc. Uma das nossas summidades scientíficas e pro- fissionaes, o Dr. Ricardo Jorge, num seu relatorio que precede o Regulamento dos serviços de saude, ser- viu-se da palavra trainagem, para designar o que a zootechnia franceza a exprime por entrainement. Não é alvitre despiciendo, mas o estudo attento da pa- 254 lavra franceza e das suas origens e analogias póde conduzir-nos a outros alvitres talvez preferiveis. O traine francez deu em portuguez o vocábulo treina, de que se formou o verbo treinar, com o significado de dar cevo ás aves, acostumar, adestrar. A treina cahira em desuso com a caça de al- tanaria, mas fora já termo corrente, que póde ler-se na Arte da Caça de Diogo Fernandes Pereira, e para omittir outras citações, na Eufrosina de Jorge Ferreira (edição de 1786), onde se lê, á pag. 263 : -« notay quanto fez em my a treyna de vossa conversação. » - Ora, tendo nós de casa o vocábulo treina, que nos veio do francez traine, irmão collaço do entrai- nement, creio que não precisamos ir mais longe, para dar ao entrainement traducção vernacula. E' verdade que de treina formámos treinar e que deste verbo se poderião derivar os substantivos treino e treinagem (e não trainagem) ; mas, desde que, para designar uma idéa, nós temos vocábulo feito e adulto, não ha justificação plausivel para derivações ou creações desnecessárias. Aceitemos pois a treina, e usemol-a sem receio pois com ella se derão bem os velhos, cercando-a de direitos que se impõem aos novos ». Essouflement - A respeito d'este termo es- creve o Dr. Plácido Barbosa o seguinte : « A' dys- pnéa de esforço, rápida, transitória, a que são occa- 255 sionados os chloróticos, os cardíacos, os nephriticos, etc., em francez essouflement, denominaremos com pro- priedade anhelação, que é um termo medico que significa difficuldade, frequência e brevidade da re- spiração. E assim dirá anhelação tudo o que poderá dizer essouflement ». Flamber e flambage- Tenho ouvido muitas vezes de estudantes, médicos e professores os termos flambar e flambagem formados á similhança do francês flamber e flambage, mas que não são vernáculos. O Dr. Plácido Barbosa traduz flamber e flambage por chamuscar, rescaldar e chamusco, rescaldamento. O il- lustrado médico fundamenta sua traducção do se- guinte modo : « Flamber, em medicina significa passar pela chamma o objecto a esterilisar ou fazer a chamma actuar sobre elle ; seu sentido primitivo é o de expor á chamma a ave morta e depennada para queimar-lhe a penugem; corresponde-lhe por- tanto na nossa lingua, o verbo chamuscar, passar chamma, queimar superficialmente, cuja accepção geral é idêntica. A flambage corresponderia chamusco. A proprie- dade desses dous termos vernáculos, a estreita con- cordância do sentido delles com o do termo francez, o rigor com que elles exprimem essa especie de esterilisação em medicina, dispensa pesquiza de qual- quer outro. Mas a riqueza inopinavel do vocabu- lário portuguez permitte e facilita o encontro de um 256 synónymo que, á mesma propriedade de chamuscar, allia um mais accentuado sabor clássico e exprime uma acção do calor talvez mais energica e eflicaz, parecendo mais de harmonia com o sentido medico de flamber - é rescaldar que quer dizer queimar pelo contacto de objecto quente, solido, liquido ou ga- zozo, communicar muito calor, esterilisar, que se diz, por exemplo, do sol que rescalda as terras e esterilisaas, não deixando que as plantas medrem. Chamuscar é o termo vulgar portuguez correspon- dente ao termo vulgar francez flamber, mas o sen- tido de rescaldar, a acção mais accentuada do calor que indica em opposição a extrema superficialidade de acção que exprime chamuscar, co-indicão a sua preferencia para o vocabulário medico. A rescaldar corresponderia rescaldamento. Qualquer dos dous termos pois, poderá ser adoptado em substituição de flamber ». Fessier - Aqui no Rio de Janeiro todos tra- duzem fessicr por glúteo. 'Neste termo não ha diver- gências. O Dr. Silva Lima escreveu o seguinte no seu glossário medico . « Glúteo (musculo, artéria, nervo) adjectivo de um nome grego que tem a significação de nadega. Em Portugal chama-se nadegueiro (traducção do francez fessier'} ao que nós chamamos glúteo como dizia Jonathas Abbott e creio que mais apropria- 257 damente quanto ao sentido, mas com um erro de pronunciação porquanto os anatomistas antigos fi- zeram do substantivo grego o adjectivo latino glu- toeus, e não glutão, o que me parece mais razoavel». Em resposta ao Dr. Silva Lima escreveu o Dr. Fragoso Tavares 'na medicina contemporânea de Lisboa o seguinte: «Glúteo.- Perdão exm. collega bahiano : em Portugal só pequena minoria prefere a chula palavra nadegueiro. Na escola de Lisboa só se usa glúteo Gavage. - Em relação a este termo encontrá- mos as seguintes linhas num artigo « philologia » do Dr. Pires de Almeida, inserto 'no Jornal do Com- mercio de 4 de Abril de 1901 : « Lembra- ria ainda aos mestres que nos soccorressem, a nós, os médicos, na traducção do termo, quasi novo, gavage, operação pela qual se introduz no estomago, através da garganta, uma sonda de borracha, em cuja extremidade livre acha-se um funil para re- ceber, ou os fluidos nutritivos, quando se quer pra- ticar a superalimentação, isto é, a alimentação for- çada, ou os liquidos medicamentosos, quando se quer proceder á lavagem do estomago. A palavra gave, no francez popular significa a garganta de certos passaros e na mesma linguagem do povo o verbo gaver se emprega com relação a certas aves para exprimir o acto pelo qual se introduz forçadamente pela garganta certa quantidade de alimento para a 258 engorda artificial e prematura. Foi sem duvida nestas fontes que os médicos francezes foram buscar a expressão gavage-, os nossos philologos onde irão procural-a ? A respeito d'este termo escreve o Dr. Plácido Barbosa o seguinte: « Gaver, d'onde provém gavage significa alimentar com abundancia os animaes, para que engordem; ou fazendo-os tomar a força alimen- tos proprios e em excesso, como fazem os cevadores de pombos e patos, ou simplesmente fornecendo-lhes para que elles proprios os tomem, como é entre nós o caso para a ceva dos suinos; gavage tem em me- dicina, exactamente as duas significações, mas a si- gnificação dominante é a da superalimentação forçada conseguida com a introducção no estomago, pela sonda esophagiana, das substancias alimentares pre- cisas. Ora, a gaver corresponde ponto por ponto o nosso cevar (do latim cibare) ; a gavage respondem ceva e cevadura. Nenhum desses dous substantivos, porém, pa- recem servir, porque além de outras razões, ambos têm significações outras mais geraes e conhecidas do que a acção de cevar; e como gavage em sua signi- ficação mais generica, é a introducção de alimentação no estomago por meio da sonda, significa uma ali- mentação que o medico executa, tel a-hemos deno- minado propriamente si lhe dermos um nome deri- vado de cibus, o alimento, a ceva, e agere fazer, 259 executar - cevagem seria bom portuguez, teria filiação legitima e significaria precisamente tal modo de ali- mentação » : Gravelle.- 'No artigo «philologia» do Dr. Pires de Almeida encontrámos o seguinte a respeito d'este termo : « A proposito destas questões, não será demasia trasladar para aqui esta proposta que, para traducção da palavra gravelle, apresenta o Dr. Dias da Cruz, em o n9 2 dos Annaes de Medicina Homoeopathica: « Nem arêas, nem lithiase, diz o Dr. Dias da Cruz, correspondem precisamente a este vocábulo, pois que arêas tanto podem ser renaes como hepaticas; entretanto gravelle, só áquellas se refere. O mesmo dá-se com lithiase, que póde ser dos rins ou do figado. Ora, a palavra franceza é o diminutivo do sub- stantivo grave ou grève, e todas tres, que significão um terreno cheio de seixos e de arêa, vem do termo usado na baixa latinidade gravaria. Não é, pois, de extranhar que busquemos haurir na mesma fonte commum o vocábulo portuguez que traduz a idéa expressa por gravelle, nem que nos approximemos do francez na troca do r pelo l, estas duas letras liquidas que tão frequentemente se per- mutão. Guardando, porém, a tradição originaria es- crevamos a palavra com um só l. Proponho pois para traduzir a palavra franceza, o neologismo gravália ». Sobre o mesmo termo escreveu o Dr. Plácido 260 Barbosa em seu artigo « Terminologia medica o seguinte : « A' palavra gravelle, diz o Dr. Dias da Cruz, citado pelo Sr. Dr. Pires de Almeida, « nem areias, nem lithiase correspondem precisamente, pois que areias tanto podem ser renaes como hepaticas » e gravelle só á lithiase renal se applica, c propõe para a lithiase renal, traduzindo gravelle, o termo gravália, derivado do baixo latim gravaria. Não nos parece valedouro o argumento que justifica a pro- posta do termo. Alguns autores, com effeito, principalmente os inglezes, dão a gravelle e gravei a significação limi- tada de lithiase renal, mas não é essa a noção mais corrente e certa. A accepção genuina de gravelle é a de todo o deposito mineral ou orgânico do orga- nismo que se inclue na expressão lithiase; a unica limitação á significação do termo é que os grãos do deposito não excedam certo volume; e em francez, para differençar os vários tamanhos das concreções da lithiase, ha a gradação de termos - sable, gra- velle, calcul, aos quaes correspondem os portuguezes - areia, saibro, calculo. E' o que ensinão os pathologistas e os léxicos. O professor G. Dieulafoy diz : « Les seis que charrie 1'urine, en se precipitant, forment, dans le rein, des concrétions qui, suivant leur volume, sont designées sur le nom de d'infarctus, de sable, de gravelle, de calculs.» (Pathologie, 11? ed. t. II, p. 170). E em outra parte : « On trouve dans la vésicule des 261 concrétions biliaires, de toute dimention, depuis le sable et la gravelle, jusquaux calculs plus volumineux qu'une noix et qu'un oeuf.» (Ibd., t. TU, p. 595.) Charcot (Maladies des Vieillards, etc.) diz sem- pre gravelle au rein; e os proprios manuaes e for- mulários assim se expressão, o que mostra que o termo gravelle, por si só, não basta para significar a lithiase renal, nem significa somente ella. Lithiase renal tem propriedade, é simples, elegante, expres- sivo e já consagrado; para que gr avalia, que se está vendo ser filha de barbaros ? ». Grippe e influenza.- A respeito d'este termo escreveu o Sr. Cândido de Figueiredo o seguinte 'no seu livro «Estrangeirismos» á página 161 : «O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros está um pouco melhor do seu ataque de influenza.» Este italianismo da influenza, ou antes da doença que elle designa, tem uma curiosa história, que nem todos conhecerão. As notícias mais antigas daquella doença, com carácter epidemico, creio que remontam a 1827. Por êsse tempo, appareceu ella em Paris, e as maiores summidades médicas viram-se em cer- tos apêrtos, para lhe dar nome exacto. Como é contagiosa, de pequena duração, e acom- panhada de ligeira erupção cutânea, alguns doutores lhe chamaram dengue. Mas outros, observando que a dengue não se complica com accidentes pulmonares e que a tal é 262 um chamariz de pneumonias, preferiram chamar-lhe grippe. Esta denominação também suscitou dúvidas, alegando-se que a grippe é uma constipação com fe- bre e que a outra é uma epidemia, que ás vezes traz embaraços gástricos e vómitos e bronquites e traqueites. Em meio de tão encontrados parecêres surgiu no intellecto de um doutôr uma ideia lumi- nosa, que devia cortar o nó-gordio : a doença era exótica; viera das regiões intertropicaes, transpor- tada por uma girafa, que estava em exposição no Jardim das Plantas, aonde attrahia diariamente uma concorrência enorme. E o alvitre pegou : toda a gente attribuiu á girafa a impertinente doença, que por isso ficou conhecida por doença da girafa ou simplesmente por girafa. Adoêcia-se da girafa, morria-se da girafa; e os sábios dormiram tranquillamente sobre a resolução do problema. Tempos depois, a girafa, como doença de arri- bação, deixou a Europa, e toda a gente se esque- cêra delia, quando há 11 ou 12 annos, aí por 1889, ella reappareceu na Rússia, passou á Allemanha, atravessou a Europa e saltou para a America, pro- duzindo na sua passagem, como um tufão devas- tador, assolações e mortes... Os sábios de 1889, deslembrados dos seus col- legas de 1827, capitularam de grippe a epidemia, e declararam que não havia motivo para sustos. 263 Foi o que os doentes quiseram saber : como a coisa não era de cuidado, foram entretendo a sua tosse e a sua febrezita, não deixando de ir aos thea- tros, nem de passear de noite e fazêr idillios á luz da lua... Daqui o agravamento da epidemia, com o seu cortejo de pneumonias, congestões pulmonares, o de- mónio ! Seguramente não era uma simples grippe, e, se o era, apparecia complicada, tomando a forma de nervosa umas vêzes, outras a fórma de gástrica, e outras ainda a de catarral. Em qualquer dêstes três casos, a medicina novissima foi buscar á Italia o termo influenza, de que aliás os italianos se servem para designar a grippe geral. Mas, em summa, se o italiano influenza equivale precisamente ao português influência, por que é que não havemos de chamar influência á alludida epidemia ? Só se receiam que ella se confunda com influência política de certos magnates; mas esta é mais nociva, e distingue se bem. Os espanhóes é que não estiveram com cere- mónias e escrúpulos de terminologia; como a doença produz geralmente a impressão que sente quem le- vou uma boa sova de pau ou de tranca, chamaram á doença trancazo, que em português seria trancaço. Mal, por mal, antes isso que a influenza. E aqui está no que deu a girafa do Jardim das Plantas. Um bello animal, com uma chrónica triste ». 264 Honteux (artères et nerfs) - Em relação a este termo escreve o erudito Dr. Silva Lima o se- guinte em seu glossário médico : « Artérias e nervos pudendos. - Traduzindo o adjectivo francez honteux, que designa as artérias e nervos destinados a algum dos orgãos da geração diz- se em Portugal e também modernamente na Bahia - artérias e nervos vergonhosos. Jonathas Abbott ensinou sempre - artérias e nervos pudendos, expressão derivada do latim pu- dendum, termo este que se applica em geral aos orgams genitaes em ambos os sexos e que passou adjectivado para a lingua portuguesa; tenho-o por mais apropriado á linguagem medica ainda que a si- gnificação de vergonhoso e pudendo exprima a mesma idéa. Os inglezes adoptaram o adjectivo pudico para o mesmo fim (pudic arteries) ». O Dr. Fragoso Tavares respondeu ao Dr. Silva Lima 'na Medicina Contemporânea de Lisboa, do modo seguinte : - Na escola de Lisboa sempre ouvi dizer pudendos e só um alumno de meu tempo disse uma vez vergonhosos. Claro está que a idéa é a mesma, embora dif- firam as palavras. Em Coimbra e no Porto hão sei como dizem ». 'Na Faculdade do Rio de Janeiro ninguém tra- duz honteux por vergonhoso ; todos dizem artérias e nervos pudendos. 265 Illion, illiaco e os des iles. - A respeito d'estes termos escreve o Dr. Silva Lima em seu glossário médico o seguinte : « Tenho visto escriptas descuidosamente com 2 ll estas palavras; e nas com- postas confundir as componentes ileo de ileon com ilis de ilia ou vice-versa, escrevendo por exemplo ileodombar em vez de ilio-lombar, ilio-cecal em vez de ileo-cecal. Os francezes também denominam ilium ou ilion - os des iles, o que tem dado logar em algumas the- ses á traducção extravagante de osso das ilhas ! Verdade é que um estudante, que não tenha tempo de esmerilhar etymologias, não tem culpa de que os francezes nossos exclusivos expositores tra- duzam por um só termo - ile-as duas palavras latinas de muito differente significação, ile (intestino) e insula (ilha). A querermos um equivalente em por- tuguez para - os des iles, poderia servir a locução : osso da ilharga, osso do quadril ou da anca, do ilhal em anatomia veterinária ». O professor J. A. Serrano faz (em relação a este termo) em seu tractado de Osteologia humana considerações similhantes ás que fez o Dr. Silva Lima em seu glossário médico. Escreve o eminente anatomista : « Os ossos dos quadris, das cadeiras ou das ancas (ossa ancharum, de Zerbis) são de remota data - desde Galeno e Ori- basio - conhecidos pelo nome de ossos innominados (ou anonymos}, que ainda ás vezes se usa, appelli- 266 dando-se hoje mais commummente ossos coxaes, de coxa - quadril (como aliás Celso já os denominára : « Ima vero spina in coxarum osse desidit) », e tam- bém ossos iliacos, de ilia, um, que significa ilharga. Os anatómicos francezes, com Chauliac e Paré, por tempos lhes chamaram os des iles, que, com es- cândalo da boa linguagem, tenho ouvido estudantes e vejo o professor P. G., na sua anatomia, traduzi- rem sem escrupulo por ossos das ilhas ; ora cumpre saber que a palavra iles, plural de ile, vindo de in- sula, ilha, é distincta de iles, sem singular, que vem de ilia e quer dizer ilhaes ou ilhargas. Em Portugal os anatómicos dos séculos XVII e XVIII usavam com frequência chamar estes ossos, além de innominados, ossos coxendicos ou osssos das cadeiras. Dufau dizia - as coxendices, mas não teve seguidores. O coxal ou iliaco é um osso par, e o mais agigantado dos placoides ou chatos, formando por si toda a extensão antero-lateral da bacia (os pélvis la- terale), entre o sacro e o femur do lado respectivo, e o iliaco do opposto - o primeiro por dentro de sua parte superior, o segundo por fóra e ao mesmo tempo por baixo da sua porção media, o terceiro unido no plano sagittal á sua parte mais interna. O extravagante feitio d'esta peça do esqueleto debalde suscita a sagacidade dos escriptores, pois esquiva-se sempre a ser fixado, num simile accei- tavel. Comparou Valverde a um leque aberto a sua 267 porção mais alta; Gavard assemelhou o osso inteiro a duas azas de um moinho de vento; Henle ao contorno de um arieiro antigo, Holden por sua vez ao de uma ampulheta, e por fim Bland Sutton - sobreexcedendo todos - ao helice dos navios, imagem que mereceu ser em França repetida por Poirier. Para boa intelligencia da terminologia complexa dos vários accídentes a descrever neste osso, im- porta saber, que em periodo atrazado do seu des- envolvimento, mostra-se constituido por união de tres peças - uma dorsal, superior e posterior, formando o alargamento, á maneira de pá, que ao símile de ha pouco corresponde ao trapézio da banda de cima cuja area é continua, e duas ventraes, ambas infe- riores, uma antero-interna, outra postero-externa, construindo juntas o trapézio de baixo, e limitando entre si o buraco considerável que lhe occupa a area. A peça dorsal tem o nome de ilion, cuja ety- mologia Parras e Lecat no século passado, e Hyrtl actualmente encontram em ileon, a terceira das por- ções do intestino delgado, que de facto possue re- lação de contacto, com esta parte do osso. Ora, ileon - intestino, e ileus - volvo, em lin- guagem vulgar, vêm de um verbo grêgo cuja signi- ficação é a do latim volvere, de que se derivou volvo; e ilion- osso e ilium e iliacus, vêm como já disse, de ilia, um - ilhaes ou ilhargas.» 268 0 Dr. Silva Lima e o professor Serrano esque- ceram-se de dizer que ilhas e ilhargas se distinguem em francez um do outro graphicamente; Mes (com accento circumflexo 'no i) significa ilhas e provém do latim insula, oe. O accento circumflexo que 'nelle vemos denota suppressão do s, pois antigamente se escrevia isle. Iles, sem accento circumflexo, significa ilhargas, etc., e provém do latim ilia, ium. Mamelon.-Em relação a este termo escreve o Dr. Plácido Barbosa o seguinte : « Também a pa- lavra mammillo, cuja graphia correcta, segundo o professor Francisco de Castro, é mammilla, porque essa é a forma latina, parece-nos dever ser substi- tuida. Mammilla foi escolhida para designar a mamma do homem evidentemente por ser um diminutivo de mamma, pois o que temos em vista quando nos re- ferimos á mamma do homem é significar por termo diíferente que não é uma mamma verdadeira como a das mulheres, mas uma mamminha, um rudimento de mamma que não chegou a desenvolver-se. Mas em latim existe um outro diminutivo de mamma, muito mais expressivo, não possuindo outras signi- ficações, e cuja euphonia dá logo e muito melhor a idéa de mamma, é a palavra mammula que substi- tuirá mammilla com vantagem. Mammilla ou mammillo ficaria então significando com precisão a parte pontuda da mamma, o bico do 269 peito, como o povo diz. E' esta a significação do francez mamelon, que apenas se applica ao bico do peito ». Muguet. - Em relação a este termo escreveu o Dr. Pires de Almeida o seguinte 'no Jornal do Commércio de 4 de Abril de 1901: « O mesmo se dá com Muguet, que o vulgo chama sapinhos. Os médicos, porém, querendo usar de uma linguagem mais alevantada, que a popular, pejam-se de em- pregar o termo e traduzem-no por aphtas. Entre- tanto, a traducção é má; aphta é uma lesão ulce- rosa que deixa no forro mucoso da bocca, lábios, lingua, bochechas, soluções de continuidade circula- res, mais ou menos profunda; ao passo que no muguet (sapinhos) só haverá ulceração da mucosa se com uma attracção proposital se pretender eli- minar a leve massa branca do parasita (Oidium al- bicans) que pullula e se alastra pela bocca.» Sobre este termo escreveu o Dr. Plácido Bar- bosa, o seguinte : « A' estomatite especifica, tão commum nas crianças rachiticas, athrepsicas e nos velhos, que em francez se denomina muguet, dá o vulgo entre nós o nome de sapinhos, e não vemos razão que justifique o repudio do termo já consa- grado pelo fallar do povo, e que a nenhum outro objecto mais se applica; se é um termo popular, também o é o seu congenere francez que não vem de estirpe nobre. Se quizermos, porém, para os 270 sapinhos uma notação scientifica, nenhuma melhor ficará do que a que se póde derivar do nome scien- tifico do parasita productor da moléstia. Este para- sita é, não o Oidium albicans de Ch. Kobin, mas o Faccharomyces albicans de Audry ; e assim os sapi- nhos terião, em linguagem sábia, a denominação de saccharomycose^ á semelhança da actinomycose, pro- duzida pelo actinomyces bovis ; da aspergillose, gerada pelo aspergilus fwmigatus; da trichinose causada pela trichina spiralis; da bothryomycose do cavallo, de- vida ao bothryomyces equi, etc. Morgue - A respeito d'este termo escreve o Sr. Cândido de Figueiredo á pag. 180 do 3o volume de suas « lições práticas da língua portuguesa, o se- guinte : « Recebi de Frei Francisco a seguinte epís- tola piedosa e opportuna: « Illm. Sr.- Grande prazimento me têm dado as suas letras Lá fora ha uma coisa que se chama morgue; e nós, que temos ou podemos ter essa coisa, parece não termos palavra para ella, e todos dizem a mor- gue^ no falar e no escrevêr. « Diga-me vossa mercê se a lingua dos Vieiras e Bernardes será tão pobre que nella se nos não depare palavra equivalente ao tal barbarismo. « E desculpe a curiosidade a este velho egresso. Pax vobis. Frei Francisco de S. Bento.» 271 Descance Frei Francisco. A nossa bella língua não é tão pobre como a julgam os francêlhos. E a prova é que não temos necessidade nenhuma do vocábulo morgue^ porque temos o equivalente em bom português, para desi- gnar a casa, o compartimento ou o logar onde se expõem cadáveres, antes de sepultados. E' necrotério. Em português, só dirá morgue quem não fôr por- tuguês a valêr. Tempos depois de escriptas e publicadas em jornal as linhas precedentes, e decorrendo já o úl- timo anno do século XIX, tentou a morgue lançar raizes, sugerindo a seguinte epístola, que appareceu no Século de Lisboa : « Meu prezado amigo e Sr. Silva Graça. O meu amigo que conhece alguns dos meus defeitos, já não estranhará, de certo, que eu sentisse tristeza ao lêr no Século que o Sr. conselheiro Silva Amado par- ticipara estar pronta a funccionar a Morgue... Se ainda é lícito têr algum amor ás coisas da nossa terra, peço-lhe que, pelos meios ao seu alcance, contribua para que, na formosa língua camoneana, - que é o nosso orgulho e o nosso melhor título de independência, não se vá serzir mais aquêlle de- plorável remendo francês Bem bastam as fran- cesias e ingresias que já cá temos, toleradas umas, irremediáveis outras. Se não tivéssemos termo próprio para designar 272 o que os francêses chamam morgue, devia criar-se e não importar-se. Mas temol-o, póde vêr-se em diccionários e é muito conhecido no Brasil, onde a morgue se chama, á portuguêsa, necrotério. E não nos envergonhemos de acompanhar nisso o Brasil, que, talvês por sêr mais novo do que nós, tem andado mais e melhor, a muitos respeitos. E é este um dos casos em que o pai póde aceitar lições do filho Não lhe parece? 'No mesmo volume á pag. 340 escreveu o Sr. Figueiredo: « Depois de impresso o que se lê a pag. 180 e 181, verifiquei que no decreto de 20 de janeiro de 1899 já se propôs a criação de um ne- crotério, mas a redacção da lei que o criou houve por bem servir-se da palavra morgue, ou por igno- rância de outra que em português exprimisse a ideia, ou porque o redactôr da lei era um patriota ao ser- viço da França. Esta audácia legal, de que não apareceu defêsa que valêsse discussão, levantou geraes e significa- tivos protestos, não só na imprensa, mas até no par- lamento, onde um digno par do reino, Sr. Costa Lobo, chamou oportunamente a atenção do govêrno para o descuido, com que são encarregados de re- digir leis os que menos conhecem a língua de sua terra. As palavras do digno par não foram precisa- mente estas, mas traduzem-lhe a ideia. 273 0 certo é que, não obstante a supposta legali dade da morgue, as estações officiaes, tendo reparado no carimbo francês de tal legalidade, vão-na pondo de lado, servindo-se do necrotério, á portuguêsa, como ainda succedeu há pouco, com a ordem do commando da polícia de 18 de Janeiro de 1900, na qual se communicam aos delegados e sub-delegados de saúde várias instrucções relativas ao necrotério,- ao ne- crotério e não á morgue. Ainda bem ». Quasi todos os diccionaristas dão como desco- nhecida a origem do termo morgue. Somente dois, d'entre os que consultámos, (Stap- pers e Espagnolle) explicam a origem d'este termo. O abbade Espagnolle escreve o seguinte em seu diccionário etymológico da língua francêsa: « Morgue (petite chambre), gópyog, morgue, cloison. On ap- pelait morgue, dans notre vieille langue, de petites chambres dont le devant était cloisonné et qui ser- vaient de prison provisoire aux coupables, avant leur enregistrement dans l'écrou. C'est par assimi- lation qu'on a nommé aussi morgue 1'endroit oii l'on expose les corps des personnes mortes hors de leur domicile, parce que le public qui vient les reconnaitre est séparé par une grille ». II. Stappers em seu diccionário synóptico de etymologia francêsa escreveu o seguinte : « Morgue, vient de morguer. 274 Morguer 1) regarder fixement, examiner; 2) braver d'un air fier et menaçant; de la le subs' tantif morgue, 1) mine fière, air grave et orgueilleux ' 2) endroit oú l'on examine les prisonniers qu'on écroue, les corps morts dont la justice est saisie. L'origine de ce mot est controversée. Grandgagnane cite le Langued. morga, museau. Chevallet le rapporte au celtique: Ecoss. moircas, hauteur, flerte, orgueil, morgue, de mor, grand, ma- gnanime, majestueux, noble; Cymr. mawrvalc, de mawr ; Armor, meur, grand, majestueux, magnanime, meurded, grandeur, meurdez, m&jesté ; Irl. mor, grand, moireis, grandeur, morughadh, magnificence, moraige antachd, magnanime. D'un autre côté, Delâtre rapporte morgue à l'Angl. muki, Dan. moerk, éteint, sombre, quil rat- tache au Sanscr. murkha, troublé, de la racine murkh, troubler; morgue aurait été primitivement adjéctif et aurait signifié sombre, grave, d'oú l'acception de mine sombre et grave, orgueil, fierté. Quant à la Morgue ou l'on expose les corps des personnes inconnues, Ménage fait venir le mot de morgue, visage. « De là, dit il, on a appelé morgue le second guichet ou l'on tient quelque temps ceux qui entrent en prison, afin que les guichetiers les regardent fi- xement ot s'impriment si bien 1'idée de leur visage dans rimagination qu'ils ne puissent manquer de les reconnaitre. De là aussi on appèle morgue un 275 endroit du Grand Châtelet, à Paris, ou les corps morts dont la justice se saisit sont exposé à la vue du public afin quon puisse les reconnaitre ». A palavra necrotério, que corresponde ao morgue francês, compõe-se de 2 elementos gregos, a saber : vex^ov, ov (ró) que significa cadaver e do verbo que quer dizêr guardar, conservar. Moraes define necrotério: « casa, sala ou capella onde se expõem, antes de levados a sepultura, os cada veres de pessoas mortas por accidentes para ser reconhecida a sua identidade, proceder-se á autopsia ou para os outros fins policiaes». Orteil - A respeito d'este termo escreveu o Dr. Silva Lima o seguinte 'no seu glossário médico: « Artelho - Tem-se introduzido modernamente na nossa linguagem medica este termo para designar impropriamente o dêdo do pé; é a traducção in- corre cta do francez orteil. Não é raro ouvir e ler - o grande, o pequeno artelho em logar de dêdo grande e dêdo minimo do pé. - Artelho (de articulus J significa em português uma ou ambas as saliências da articulação tibio-tar- sica ou do tornozelo, e é nesta accepção que se deve empregar e entender; uma vez que a nossa língua não possue como a francesa, inglesa e allemã vocábulo especial como orteil, toe e sehe para deno- minar os dedos dos pés, devemos continuar como os hespanhoes e italianos a fazer uso d'esta locução 276 para designar estes appêndices como os latinos que os chamavam digitis pedis ». O Dr. Fragoso Tavares respondeu ao Dr. Silva 'na medicina contemporânea de Lisboa, do seguinte módo : « Artelho (como dedo do pé) não diz nenhum medico portuguez; terá apparecido em escriptos de estudantes que menos advertidamente traduzam o francez ». Poussée - Em relação a este termo escreveu o Dr. Plácido Barbosa o seguinte: « Outro termo que, por seu emprego na phraseologia medica, pre- cisa ter o seu equivalente vernáculo fixado de uma vez é poussée. Em medicina sua accepção primitiva é a de erupção medicamentosa, isto é, erupção que apparece depois do uso de certos medicamentos, mas na lin- guagem commum suas significações principaes são as de impulso, choque, grande quantidade, pressão de baixo para cima; as noções que a comprehensão do termo abrange são as de força, violência, subi- taneidade. Um unico termo em portuguez lhe poderá ser equivalente ; é o surto, que designa o voo impe- tuoso da ave que, de uma arrancada remonta ao alto. Alargando-lhe a comprehensão, surto, que contém dentro em si as idéas de força, violência e subita- neidade, poderá applicar-se a todas as accepções que, no seu tanto, trazem todas as respectivas idéas de impeto súbito. 277 Assim, diremos que nos tuberculosos são fre- quentes os surtos congestivos para o pulmão; que a erupção nas cataporas, ao contrario do que se dá na variola, se faz em surtos successivos; que o oedema agudo do pulmão se inicia por um violento surto de estertores crepitantes; que o surto das epidemias de grippe é desde logo impetuoso (neste sentido já o vimos empregado pelo professor Nuno de Andrade), etc. Ronflement.- A respeito d'este termo escreve o Dr. Plácido Barbosa: « A' variedade de esterto- res seccos e sonoros a que o professor Francisco de Castro denomina roncaria - e é o ronflement ou rale ronflement dos francezes - assenta melhor o termo ronquido, que está para ronco (ronflement) como es- talo (craquement) está para estalido^ já adoptado. Roncaria, na linguagem vulgar, designa geral e taxativamente toda a especie e o conjuncto de rui- dos morbidos audiveis no peito como na asthma, nas bronchites etc., sem distinguir entre elles nem va- riedades, nem gráos, nem tonalidades ; depois, é tam- bém geral e usada a sua significação de fanfarrice, jactancia, bravata. Ronqundo, ao contrario, só se applica em veteri- nária, ao ronco sonoro que se produz em certas an- daduras do cavallo, e este sentido restricto, desi- gnando um ruído sonoro, é mais uma razão para seu emprego em logar de roncaria. 278 Assim, as cinco especies de estertores, de Laen- nec serão: 1) crepitação, do estertor crepitante ; 2) gargarejo, do estertor mucoso; 3) ronquido; 4) sibillação (F. de Castro); 5) estalido ». Région de la joue et région du poignet. - O Dr. Vasconcellos de Queiroz traduz a primeira expressão por região da bochecha, e a segunda, re- gião da munhéca. A' pag. 107 de seu excellente trabalho : « vicios de nossa linguagem médica » encontrámos : « Quem diria região da bochecha ? região da munheca ? Prefere-se dizer « região geniana » e « região do punho », adoptando na primeira expressão um termo que se presta á confusão com os compostos de genio (genioglosso, genio-hyoideu) e na segunda um que tem outra significação em portuguez. A respeito das mesmas expressões escreve a pag. 127 o seguinte: « Geniano (de bochecha) vem de gena, oe, lat; genio (genio-hyoideu) é um elemento de composição formado de genyos, gr. que quer dizer queixo, mento. Vê-se que o ultimo se devia escrever genyo. Quanto ao nome da região também já ouvi dizer-se região da face, expressão que me parece inda mais incor- recta do que as outras ; é um vicio que tem uma certa analogia com o que o Dr. Silva Lima censura em « seio ». Os Francezes têm poing e poignet; poing é o 279 nosso punho (a mão fechada) ; poignet é a nossa mu- nheca. A' influencia de poignet creio que é devido o chamar-se punho, em anatomia, á região intermédia, ao ante-braço e á mão. Nos velhos diccionarios da lingua não se encontra em punho essa applicação á munheca. Por mim, vejo, nisto uma confusão viciosa, que se devia evitar ». Sein.-Em relação a este termo escreveu o Dr. Vasconcellos de Queiroz : « Seio só significa mam- ma quando tomado no plural. Dar o peito é que é a phrase correcta em por- tuguez, que pouco a pouco vão substituindo por dar o seio, traducção mal feita de donner le sein. Um tumor não póde ser no seio mas no peito, ou melhor na mamma ; não se extirpa o seio, mas a mamma ». Em relação a este termo escreve o Dr. Silva Lima em seu glossário médico : « Seio (sinus) - E' muito commúm dar-se ao termo francez sein (glân- dulas mammarias) o equivalente seio; mas em por- tuguez na linguagem commum só no plural os seios têm aquella significação. Para designar esta glandula na especie humana temos os vocábulos - mamma, peito; na linguagem medica entretanto é usado ordinariamente o primeiro ; seio nesta accepção é gallicismo escusado que em por- 280 tuguez significa toda a região onde assentam as glân- dulas mammarias e não cada uma das próprias glân- dulas em particular. Mesmo em francez scin derivado também de sinus é restrictamente a depressão, ou sulco entre os peitos e passou por extensão a designal-os tam- bém individualmente ou ambos e a ter outras ac- cepções. De sinus derivamos nós também as palavras seio e seno ; esta ultima é usada em geometria e physica e a primeira tem numerosas applicações em anato- mia como sejam seio laryngêo, frontal, maxillar, mas- toidêo etc., com significação de cavidade, depressão mais ou menos irregular ou anfractuosa, de entrada relativamente estreita ; o seio cavernoso, longitudinal, coronário, esphenoidal, etc. E sendo a palavra golfo outra equivalente de sinus, e muito menos em uso do que seio, pergunto se em anatomia e physiologia, por maior precisão de linguagem não seria mais conveniente dar o nome de seio ás cavidades que não são occupadas por li- quidos em movimento e reservar o de golfos ás di- latações sinuosas e diverticulos de vasos e canaes que os contêm correntes ou mais ou menos estag- nantes ». Secreter e excreter. - A respeito d'estes ter- mos escreve o Dr. Plácido Barbosa o seguinte : « Sé- creter (de secernere - separar, apartar, escolher, dis- 281 tinguir) tem seu equivalente vernáculo na forma synonyma segregar (de segregare - separar, apartar, escolher, distinguir), pois não possuimos verbo de- rivado de secernere; e a identidade de sentido de sécreter e segregar mostra a exactidão com que esses termos designão o processo physiologico da secreção em que as glandulas apartão, escolhem, segregão, de entre os materiaes que lhe são apresentados, aquel- les que hão de constituir a secreção de cada uma. Traduzindo excreter (de excernere)^Q contrario, já não dispomos nem de derivado nem de synonymo. Para uniformidade, pois, sinão para clareza da terminologia, poderemos formar de secreção {secretio) e de excreção (excretio) os verbos correspondentes a sécreter e a excreter; diremos então secrecionar e ex- crecionar, os quaes figurarão irmãmente ao lado de sanccionar^ {de sancção) accionar {de acçãd) leccionar {de licção} etc Quanto aos adjectivos correlativos poderão ser empregados, por mais elegantes os derivados legiti- mamente de secretum e excretum : secretor e excretor ». Surmenage. - Em relação a este termo es- créve o Dr. Plácido Barbosa o seguinte : « Surme- nage designa em alveitaria o cansaço, a fadiga, o esgotamento, o afrouxamento do animal por trabalho demasiado, em quantidade ou em duração; é o aguamento de nossos tropeiros e tratadores de ca- vallos; é o estazamento dos veterinários. 282 A categoria e o valor desses tres termos são, nas duas línguas, os mesmos : todos tres são igual- mente vulgares; todos tres são termos de alveitar e exprimem com igual precisão a mesma idéa. Entretanto, se disséssemos que alguém estava com aguamento ou aguado, rir-se-hia todo o mundo, e dizemos surmenage e surmené que valem o mesmo que valem os termos vernáculos. Aqui, como fizemos para rescaldar, achamos pre- ferível, para corresponder a surmenage, o termo esta- zamento, porque é talvez menos chulo que aguamento, e entre nós menos familiar, de onde maior facilidade para sua adopção na technologia medica. Estaza- mento e estazar, pois, em logar de surmenage e sur- mener ». Para traduzir o surmenage francês, creou o Dr. Prado Valadares o neologismo ergasthenia, que se compõe dos seguintes elementos grêgos : ep/ov, ov (ró) obra, trabalho, resultado do trabalho; e àaOÉvEia, (rç) - fraqueza, impotência, enfermidade, moléstia, langor, etc., etc., que se compõe de a prefixo que denota ausência, privação, e gO&voç eoç-ovç (ró) que significa força, vigor, potência e energia. O nosso distincto collega Raul Manso Sayão teve occasião de empregar este neologismo em sua these de doutoramento denominada : A ergasthenia physica como factôr pathogênico. 283 Tranchées. - Em relação a este termo es- creve o Dr. Plácido Barbosa : « Em obstetrícia ainda não acharão os nossos médicos como appellidar com termo proprio as cólicas post-partum das multiparas ; dizem tranchées, tranchées uterines, como os francezes. Entretanto se observássemos a tradição da lingua se escutássemos o fallar do povo para qualquer idioma fonte de expressões, veríamos que os antigos par- teiros e a gente do povo chamavão a essas cólicas tortos, os tortos, dor de tortos e por corrupção dor de torta. E em que o termo francez é melhor que o nosso tortos, já consagrado pelo uso e tradicção da lingua nessa accepção restricta ? Tórtos vem do latim tórtus, a volta, a torcedura, e a forma analoga torsio que significa torsao, tor- silhão, cólica, mostra em que bom sentido foi este termo adoptado significando essa especíe de cólicas. Dever-se-ha dizer, pois, tórtos, tórtos uterinos ou do utero, toda vez que couber fallar em tranchées, ou tranchées uterines. » Tampon e tamponnement. - Em relação a estes termos escreveu o Dr. Castro Lopes em seu livro de neologismos e barbarismos : « Tenho de percorrer hoje domínios da minha profissão de medico. Si pouca, ou para melhor dizer nenhuma é a esperança de ver vingarem estes neo- logismos, que proponho, muito menos creio que quei- 284 ram os meus collegas adoptar a palavra, que lhes vou oíferecer para traduzir tamponnement. E' por livros francezes principalmente que se estudam a medicina, a jurisprudência e todas as scien- cias hoje cultivadas. Muitos termos technicos que teem seu perfeito equivalente em portuguez, por desidia não os pro- curam nos diccionarios os cultores da sciencia. D'aqui nasce uma das mais copiosas fontes de gallicismos. Outras vezes, mas não tantas quantas a muitos parece, a lingua portugueza não tem vocábulo corres- pondente ao estrangeiro; nestes casos, que, como já disse, não são muitos, grudam os preguiçosos ao termo francez uma desinência portugueza, e ahi fica sup- plantado o gallicismo. Quando tal agglutinação não se faz, enxertam sem ceremonias a própria palavra franceza; e con- siderando bagatelas e minudencias ridículas o apuro da linguagem, falam ao mesmo tempo portuguez e francez. De grande numero de barbarismos d'este genero occorreu-me agora tamponnement. Nas hemorrhagias violentas, que irrompem por algumas cavidades do nosso organismo, e principal- mente nas metrorhagias, costumam os médicos ap- plicar, concomitantemente com os medicamentos ade- quados, um chumaço de fios mais ou menos volumoso, em uma palavra, um tampão. 285 Este vocábulo é portuguez: e por isso seu em- prego nada tem de censurável. Para exprimir porém a acção de introduzir esse tampão, não teem os médicos empregado a palavra própria, levados talvez por mal entendido pudor; e como não querem dizer arrolhamento, preferem dizer o termo francez tamponnement. Pois bem ; çhame-se tampão, ou operculo, que é também palavra portugueza synonima de tampão, aquelle çhumaço de fios ; e a acção de introduzir o tampão ou o operculo, -operculisação : tamponnement será operculisação ». Bourgeonnement-corresponde em português a gemmação, e bourgeon, - broto, gomo, grelo, rebento, gemma. (M. Bomfim - compêndio de Zoologia). Enchiffrenement.-Dá-se este nome ao phenó- meno que se observa 'nos recemnascidos heredò-sy- philiticos, devido a rhinite específica 'nelles commum. O Dr. Moncorvo Filho traduz muito bem este termo pela espressão « sibilo » nasal que corresponde exactamente ao enchiffrenement francês. Hanche. - Não é erro traduzir hanche, por anca ; preferimos, porém, o termo quadril, que além de mais elegante é talvêz mais apropriado. O Sr. Francisco de Almeida faz em seu diccio- nário de synónymos da língua portuguêsa a seguinte distincção entre anca, quadril e cadeira; 286 « Anca - é a parte saliente do corpo formada pelo osso iliaco. Quadril - é a parte do corpo que, principiando na anca, e comprehendendo-a, se extende até á parte superior da coxa. Cadeira - é a denominação hespanhola da anca humana. Usa-se pouco entre nós, a não ser no plural, para designar os dois quadris ». Talvez por ser o termo quadril não só mais elegante, porém mais preciso do que anca, é que o nosso mui estimado mestre Dr. Paes Leme faz questão que seus discípulos traduzam hanche por quadril. Envie - corresponde em português a antôjò. Mole hydatique-traduz-se por mola (massa) hydática. Vergetures.- O nosso distincto mestre Dr. Augusto Brandão, traduz este termo por estrias abdominaes. * Cuisson Q significa adurência * Cuisant » adurente * Effleurement » esfloramento * Engelure » frieira (1) Foi 'no artigo « Terminologia medica » do Dr. Plácido Barbosa, inserto 'no Jornal do Óommércio de Abril de 1901, que encontrámos traducção para os termos mar- cados com asterisco. 287 * Gerçure significa rhagadia * Pétrissage » malaxação * Rale » sarrido * Suinter » resudar * Tapotement » percutimento. Não tivemos tempo de obter a traducção dos seguintes termos : alitement bec de flute clamp clampage clapotage chantage cornage coup de chaleur coup de soleil cul de sac engouement froidure greffe lint marbrure soussée steppage thrill ventre en bésace OITAVA PARTE w Dos termos que uão têm equivalentes em português São os seguintes os termos que temos em o nosso caderno de notas e que por falta de tempo não pudemos estudar: biceps craw-craw delirium tremens fórceps hour-glass looch matzellen plasmazellen quadriceps railway-brain railway-spine rash rouget shunt triceps whansinn verrucktheit (l) Devido á absoluta falta de tempo fica esta parte completamente sacrificada, PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciências médicas e chirúrgicas Devido á natureza do assumpto serão todas as proposições annotadas com a explicação histórica e etymológica dos termos PRIMEIRO ANNO História Natural Médica I D'entre os répteis dinosáurios herbívoros dos tempos primitivos é o iguanodonte bernissartense um dos mais conhecidos. II Pela descripção que d'elle nos faz o sábio Flam- marion, parece ser o maior dos animaes terrestres. III O nome iguanodonte (*) dado a este animal foi, segundo Pizon, devido á similhança que existe entre seus dentes e os dos iguanos actuaes. Chímica Módica I O argônio (2) é um dos elementos componentes do ar atmosphérico. (1) A palavra iguanodonte é hybrida. O primeiro elemento iguano vem do Ca- raibe yuana e o Begundo óáóvs, óvroç (ó) - dente - de origem grega. (2) apyov è contracção de a prefixo negativo e épyov, ov (ró) trabalho, açção, actividade. 294 II - Foi descoberto em 1895 pelos sábios inglêses : lord Rayleigh e William Ramsay. III Pelo facto de se não combinar com nem um outro corpo, é que se lhe deu o nome argónio que quer dizer inerte, inactivo. SEGUNDO ANNO Anatomia Descriptiva I * . A parótida Q é a mais volumosa das glândulas salivares. II D'entre os diversos orgams que a atravessam é a artéria carótida externa o mais importante. III Pelo facto de achar-se bem próximo ao ouvido foi que se lhe deu o nome parótida. (1) Compõe-se esta palavra de dois elementos gregos: irapa (pref.) que quer dizer juncto, próximo, e ovç, àróç que significa ouvido. 295 Histologia I Antes de Malpighi e Leuwenhoek ninguém havia feito uso de instrumentos de augmento para o estudo da Anatomia. II A combinação das lentes que constituem o mi- croscópio é attribuida pôr uns a Zacharias Jansen (1590) e por outros a Cornelius Drebbel (1610). III O nome microscópio (Q foi dado a este appa- rêlho por Giovanni Faber de Roma em 1625. TERCEIRO ANNO Physiologia I Toda sensação nervosa gasta um certo e deter- minado tempo para se transmittir pelos nervos ao cérebro, séde da percepção. II Quando uma pessôa queima a poncta de um dêdo não sente immediatamente que se queimou, porém sim passada uma fracção de segundo. (1) Compõe-se esta palavra de 2 elementos grêgos: piKpoç, a, ov (pequeno) e <rKO7rew (observar, examinar). 296 III A velocidade da corrente nervosa é de 30 metros por segundo para os nervos motores e de 60 para os sensitivos. (x) Bacteriologia I As bactérias que têm a propriedade de luzir 'na obscuridade chamam-se photogênicas. (2) II E' por meio d'ellas que se explica o curioso phenómeno dos suores luminosos. III Mais curiosas do que as photogênicas são as bactérias chromogênicas (3) que são assim chamadas porquê coram os líquidos ou matérias em decom- posição á custa das quaes vivem. (1) Em um dos seus bellíssimos livros sobre a sciência do Céo, 'no capítulo que se refere ás distâncias intersideraes, o sábio astrónomo Camillo Elammarion, compa- rando o espaço de tempo que seria necessário para ser transposta a distância do Sol á Terra pelos diversos agentes como a electricidade (422 mil kilómetros por segundo) a luz (300 mil kilometros por segundo) o som (340 metros por segundo) verificou que a referida distância seria transposta em 5 minutos e 9 segundos pela electricidade, 8 minutos e 13 segundos pela luz, e 13 annos e 9 meses, pelo som; e de passagem occupou-se com a velocidade da corrente nervosa calculando em perto de 200 annos o tempo decorrido entre o poncto de partida (o Sol) e o de chegada (a Terra) da corrente nervosa ; e para exemplificar o caso disse: - Se uma criança tivesse um braço tão com- prido que com elle pudesse tocar o Sol e ahi se queimasse poderia passar toda a phase de sua existência sem soffrer a menor dôr ; pois não sentiria a queimadura sinãe pas- sados 167 annos ! poderia até morrer antes de a sentir. O mesmo succederia se pudés- semos tocar 'no Sol com uma varinha metállica que tivesse a propriedade de transmittir o calor com uma velocidade similhante. (2) Compõe-se esta palavra de </><òs, </>wtós (tò) a luz e do verbo yevváw que quer dizer gerar, produzir. (3) O primeiro elemento é xpôjua, aros (tò)-a cór, e o segundo ytvrów-gerar, produzir. 297 Matéria médica, pharmacologia e arte de formular I As pílulas Q são medicamentos de fórma es- phérica. II Devem ser engulidas e não mastigadas. III A fórma esphérica das pílulas pode ser obtida ou rolando-as uma a uma entre o indicador e o pol- legar ou por meio de apparêlhos, d'entre os quaes é o disco de Giordano um dos mais simples. Clínica propedêutica I A distincção entre o edema cardíaco e o renal pode ser feita por diversos modos. II 'No edema (2) de origem cardíaca quando se aperta com o dedo a região edemaciada, a cova pro- duzida pela impressão digital desapparece pouco (1) A palavra pílula quer dizer bolinha ; é deminutivo de pila, oe que significa bola. (2) Em grego se declina oiSq/aa, aros (tò) e significa inchação, tumefacção. 37 298 tempo depois da compressão da região, ao passo que 'no de origem renal a impressão persiste por muito tempo. III 'No edema de origem cardíaca a região edema- ciada tem uma cor que a princípio é rósea, mas que em pouco tempo se vai tornando escura e mesmo cyanótica ao passo que 'no de origem renal a região edemaciada fica reluzente como se ahi ti- véssemos passado verniz, tendo uma cor clara de um branco alabastrino. Clínica dermatológica e sypbiligráphica I 0 emprego do mercúrio Q 'no tractamento da syphilis é antiquíssimo. II Já era conhecido pelos chineses, ha muitos sé- culos antes da descoberta da América. III Não é verdade que a syphilis seja de origem americana. (1) A maior parte dos philólogos derivam este termo de <rv (coin) e (piÁia, ia$ (^) - amor. 299 QUARTO ANNO Anatomia e physiologia pathológicas I 'Na lepra anesthética Q as alterações dos nervos são constantes. II Começam ellas pelos nervos da pelle e se ge- neralizam em seguida aos troncos nervosos cujo vo- lume augmenta extraordinariamente. III O perinevro se inflamma e numerosos bacillos se incorporam ás céllulas que occupam os inter- stícios. Pathologia médica I A peste (2) bubônica (3) é uma moléstia mi- crobiana. II O agente que a produz é um cocco-bacillo desco- berto em 1894. (1) Em grêgo se declina Kenpa., aç (^); vem de Xeirpóç, a, ov que quer dizer ru- goso, áspero, que por sua vez se deriva de Ae?riç, i8oç (r/) que significa caspa (da pelle), casca, escama. (2) Em latim se declina pestis, is e significa calamidade, flagello, desgraça.' (3) Bubônica vem do grêgo ^ovpov, wvos (ó) que quer dizer virilha, tumor 'na virilha. 300 III A glória d'esta descoberta cabe sómente a Yersin. Pathologia chirúrgica I A osteomalácia 0) consiste 'no amollecimento progressivo de todos os ossos do esqueleto. II Segundo alguns chirurgiões este amollecimento é devido á presença do ácido láctico ao nivél dos ossos e segundo outros é produzido por uma sub- stância secretada pelos ovários, e que tem a proprie- dade de dissolver os elementos calcáreos do osso. III Não se deve confundir a osteomalácia com o rachitismo, porquê 'neste os ossos são molles por falta de calcificação, ao passo que 'naquella este phenomeno se dá em virtude de um processo de descalcificação. (1) Oompõe-8e esta palavra de dois elementos: oareov, ov (tó)-osso-e /zaXaxoç , ov que quer dizer molle - de ^aAaicia, aç (^) fraqueza, molleza. 301 Clínica chirúrgica 2r Cadeira I Dá-se o nome de osteoclastia Q a um mé- thodo chirúrgico que consiste em esmagar os ossos com o fim ou de remediar certas deformidades dos ossos e das articulações ou de endireitar um membro que devido a uma fractura ficou viciosamente con- solidado. II O apparêlho que empregamos para practicar a osteoclastia chama-se osteoclasto. III Foi inventado por Purmann em 1692 e aper- feiçoado por Bosch. Clínica ophthalmológica I 0 crystallino é uma lente bi-convexa e trans- parente que situada entre a iris e o corpo vítreo, refrange os raios luminosos e preside á accommodação, graças ás modificações de curvatura que lhe im- prime o músculo ciliar. (1) Compõe-se esta palavra de 2 elementos grêgos: o<rreov, ov (tó) - o osso - e KÁáeiv que quer dizer esmagar. 302 II E' formado por uma lente propriamente dieta e por uma cápsula extremamente delgada, elástica e transparente chamada crystalloide. III A ausência congénita do crystallino tem em ophthalmologia o nome de aphakia Q. QUINTO ANNO Operações e apparêlhos I Consiste a gastrectomia (2) 'na extirpação total ou parcial do estômago. II A gastrectomia total é rarissima e difficíllima. III 'No Brasil quem primeiro a practicou foi o dis- tincto chirurgião paulista Dr. Arnaldo Vieira de Car- valho em 26 de Março de 1900. (1) Compõe-se esta palavra do prefixo grego a que indica privação, negação e do substantivo </>axos, ou (ó) que quer dizer lente, crystallino. (2) Compõe-se esta palavra de ya<rrr)p, yaarpóç (o ventre, o estômago) do pre- fixo ck que quer dizer fora de e ro/xia do verbo Tepvw que significa cortar, dividir, se- parar, incisar. 303 Anatomia médico chirúrgica I A scisura de Sylvius é a mais notável das scisuras cerebraes II Dá-se o nome de vallécula á depressão onde começa a scisura de Sylvius. III A porção do hemisphério cerebral que cobre o lóbo central chama-se opérculo. (l) Therapêutica I Dá-se o nome de mithridatismo (2) á immuni- dade para os venenos adquirida pelo hábito, - ou o (1) Operculo vem do latim operculum, i, que significa tampa, coberta. Deriva-se do verbo latino operio, is, erui, ertum, erire que significa fechar, cobrir. Compõe-se este verbo da prep. o ou ob e do verbo pario, is, pepere, partum, parere. (2) A palavra mithridatismo vem de Mithridates (nasceu 'no anno 136 antes de Christo) o Grande, rei do Ponto. Era um rei muito instruído, pois fallava 22 línguas ; era amigo das sciências e artes. Desde bem môço se entregou a toda a espécie de estudos e adquiriu com uma força de vontade e habilidade extraordinárias um conhe- cimento profundo dos venenos e seus antídotos. De volta para o Ponto, depois de uma ausência de 7 annos, conquistou o Bósporo Cimmeriano, repartiu a Paphlagonia com Nicomedes, rei da Bithynia e pouco depois se apoderou da própria Bithynia e Canpadócia. Contam os historiadores que com o receio de ser envenenado, Mithridates se habituou pouco a pouco com os venenos ingerindo em doses progressivamente crescentes de tal modo que o seu organismo ficou indifferente á acção d'elles. Contam ainda mais que querendo Mithridates sublevar os povos do Ponto Euxino e do Danúbio e declarar guerra aos Romanos, seus soldados se revoltaram e proclamaram rei a seu filho Pharnácio. Mithridates vendo-se perdido tentou suicidar-se, porém não o conseguiu, porquê o veneno não tinha mais sobre elle acção tóxica, porém um soldado gaulez lhe fez o grande obséquio de o matar atravessando-lhe uma espada. A palavra mithridate vem do sánskrito mithridatta, que quer dizer presente do Sol, dado por Mithra, (o Sol) que é a divindade suprema dos antigos Persas, cujo culto foi introduzido em Roma 'no anno 67 antes de Christo. 304 estado de immunisação em relação aos venenos mi- neraes, vegetaes e animaes. II O mithridatismo póde ser adquirido ou heredi- tário. III O mithridatismo adquirido consiste 'na ingestão de doses progressivamente crescentes de venenos. Clínica chirúrgica Ia Cadeira I A chirurgia das vias biliares é um ramo muito recente da chirurgia abdominal, pois data apenas de 1880. II A cholecystenterostomia (q) consiste em estabe- lecer uma communicação entre a vesícula biliar e o in- testino delgado, 'nos casos de obstrucção do cholédocho por algum cálculo. III A choledocholithotripsia (2) consiste em esma- gar através das paredes do cholédocho os cálculos que elle contém e recalcar os fragmentos 'no intestino. (1) Compõe-se esta palavra de x°M>ís (b)-bílis - xv<rTtí> e"s (n) a bexiga) evrepov, ou (tó)-o intestino aropa, aros (rò) a bocca. (2) Compõe-se de: 1? M) - bilis ; 2? óo^óç, óç, ov que significa «que pode conter » ou de SoxVt ís (v) que quer dizer receptáculo, reservatório ; 3? Aidos, ov (ó) -a pedra ; 4° rpv^ia de rpi^o que quer dizer esmagar. 305 Clínica módica 2a Cadeira I A moléstia de Addison é difficil de ser diagnos- ticada. II A chalcodermia Q é o signal mais importante, mas só apparece 'num período bem adiantado da moléstia. III Para alguns auctôres a cor bronzeada da mo- léstia de Addison (2) é devida a lesões das cápsulas supra-renaes, mas para outros é devida ás lesões do sympáthico abdominal. Clínica pediátrica I 0 esclerema (3) ou edema álgido dos recem- nascidos é uma moléstia peculiar ás crianças recem- (11 Compõe-se esta palavra de yaÀKÓç, ou (ò)-o bronze e Seppca. que vem de Sépp.a, aroç (ro) qne quer dizer pelle. (2) Foi Trousseau quem deu o nome de moléstia de Addison á moléstia descripta pelo illustre médico de Lorig-Benton. Addison a descreveu em 1855 dando-lhe o nome de moléstia bronzeada. Thomas Addison, médico-inglês, nasceu em Long-Benton em abril de 1793 e morreu em Brighton em 29 de junho de 1860 com 66 annos. Doutorou-se em Edimburgo em 1? de agosto de 1815 e entrou em 1824 para o Guy's hospital de Londres onde leccionou matéria médica. (3) Vem do gr. crxXypepa que se deriva de <rxVP°^> °s> ov que quer dizer duro. 306 nascidas, caracterizada pelo endurecimento da pelle e do tecido cellular sub-cutáneo com abaixamento da temperatura central. II O abaixamento de temperatura é considerável chegando 'nos casos graves a 23 gráos. III Os ponctos de eleição do esclerema são: - as regiões : gastrocnêmica e tarsiana. SEXTO ANNO Obstetrícia I Hysterectomia é a operação que consiste 'na extirpação parcial ou total do útero. II A hysterectomia pode ser feita por via abdo- minal ou vaginal. III Quando a extirpação do útero é feita por via vaginal dá-se a esta operação o nome de colpohys- terectomia. 0) (I) Compõe-se esta palavra dos seguintes elementos: 1° xoàttos, ov (ó) - a va- gina - ; 2° va-repa, aç, (rç) -o útero ; 3» a prep. e* que quer dizer fora de e 4o ropia que se deriva do verbo rép.vw que significa cortar, dividir, separar, iucisar 307 Hygiene I Hygiene (r) é, segundo Bouchardat et Riant a sciência que nos ensina a conservar e a melhorar a saúde. II I Dá-se em hygiene o nome de bromatologia (2) ao estudo dos alimentos sob o poncto de vista da dietética. III Dá-se o nome de pedotrophia (3) á parte da hygiene que tracta do regime alimentar da creança, de modo a desenvolver-lhe compleição vigorosa. Medicina legal I Dá-se o nome de chronothanatognose (4) ao conjuncto de meios que permittem por meio do exame do cadaver conhecer a data da morte de um dado indivíduo. (1) Hygiene vem de vyieia, as (^) que quer dizer saúde. (2) Compõe-se de 2 elementos, Io ^popa, aros (rò) que quer dizer alimento e 2° Àóyos, ov (ó) qu significa discurso, tractado, estudo (3) Compõe-se este termo de: Io Traís, rratSós (ò, ^), o menino, a creança e 2o rpo0^, ís (t?) alimentação. (4) Compõe-se esta palavra de 3 elementos grêgos: Io xpóvos, ov (ó) o tempo; e 2o ^avaros, ov, (ó)- a morte e 3° yvoais, ecos (^) - conhecimento, noção, sciência, sa- bedoria . 308 II Para se determinar a data da morte de um indivíduo é necessário que sejam bem conhecidos os signaes de morte. III Os signaes de morte se dividem em: signaes de certeza e signaes de probabilidade. Clínica médica Ia Cadeira I A febre typhoide (') é uma moléstia micro- biana. II A ausência completa de chloruretos 'na urina é um signal diagnóstico pathognomônico da febre typhoide. III Em qualquer outra febre que não a typhoide a quantidade de chloruretos encontrada 'na urina é sempre grande. (1) A palavra typhoide quer dizer que se assimilha ao typho, palavra grega que significa estupor e se declina tv</>oí, ov, (ò). 309 Clínica obstétrica e gynecológica I Dá-se em gynecologia (2) o nome de salpin- gite (3) á inflammação da trompa de Fallópio (4). II E' raramente primitiva, sendo 'na maioria das vezes consecutiva a uma metrite de origem puer- peral. III 0 principal symptoma da salpingite consiste em uma dor, ao nivél da trompa, que desapparece du- rante o repouso e recrudesce ao menor movimento. Clínica psychiátrica e moléstias nervosas I Dá-se o nome de nosophobia (5) ao receio exag- gerado que têm certos indivíduos de contrahir mo- léstias. (2) Compõe-se esta palavra de 2 elementos grêgos : yvvíj, yvvaiKÒs (ij) a mulher e Aóyos, ou (ò) - discurso, tractado, estudo. (3) Vem do grêgo aaATriy^, tyyoç (^)-a trompa e itiç - terminação que denota inflammação. (4) Gabriel Fallopio, anatomista e chirurgião italiano, nasceu em M odena em 1523 e morreu em 1562 com 39 annos. Começou a leccionar a anatomia em Ferrara em 1547 quando contava apenas 24 annos ; tempos depois leccionou em Pisa e Padua onde succedeu a Colombo. Tinha tal admiração por Heróphilo, a quem considerava infallivel, que chegava a dizer « Con- tredire Herophile c'est contredire 1'Evangile.» O seu nome se prende a muitas desco- bertas anatómicas. Assim temos pois: Arcada de Fallopio, canal ou aqueducto de Fallopio, hiato de Fallopio, trompa de Fallopio, etc. ; descobrio o nervo pathético e estudou as artérias das meníngeas e do cérebro. (5) Compõe-se esta palavra de 2 elementos grêgos: vóçoç ov (^) a doença, a moléstia e <póf3ia que vem de <£o|3os, ov (ó) que quer dizer mêdo, receio. 310 II Indivíduos ha que andam sempre enluvados ou que lavam as mãos cem vezes por dia com o receio de serem contaminados por qualquer objecto que acaso tenham tocado. III Alguns d'estes nosomaníacos compromettem sé- riamente a saúde por se submetterem a regime, hy- giene e medicações que não são indicadas, e outros se tornam dyspépticos, anémicos, etc., por diminui- rem a quantidade de alimentos com o receio de ataques de apoplexia. Visto. - Secretaria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 30 de Março de 1904. Dr. Brito e Silva, Sub-Secretario. POSFÁCIO Muito já teriam lucrado as lettras médicas se professores da alta competência dos Drs. Francisco de Castro, Joaquim Pizarro, Ramíz Galvão, Fortu- nato Duarte, Vicente de Souza e Alfredo Gomes já tivessem publicado alguma coisa sobre a nossa lit- teratura médica. Não tendo êstes illustres médicos e ao mesmo tempo professores, se occupado ainda com tal assumpto não vem fóra de propósito o nosso modesto trabalho que outra mira não tem senão lem- brar ou fazêr vêr a estes competentes as grandes vantagens que colheriam os médicos e especialmente os estudantes de medicina se elles publicassem qual- quér trabalho sobre a nossa linguagem médica cor- rigindo os seus vícios e conservando sua pureza. Duas difficuldades tivemos ao escrevêr este li- vrínho : 1? conservar coherência gráphica; 2° enfren- tar a corrente popular e luctar contra o uso já en- raizado em relação a fórma, prosódia e graphia de certos vocábulos, sabendo embora que esta diver- gência iria desagradar a certos espíritos rotineiros que a tudo se oppõem por mais lógico que seja. Bem 312 sabemos que estes misoneistas e misólogos, promptos sempre para combater tudo quanto seja progresso não perderão occasião de desmerecêr o assumpto pro- clamando-o inútil. Já prevemos que investirão logo contra a graphia adoptada e rir-se-ão da prosódia de certos termos, por estar em manifesta opposição á opinião geral. Comquanto reconheçamos que não poderiam dei- xar de causar extranhêza ao vulgo certas modifi- cações gráphicas e prosódicas, somos todavia obrigado a d'ellas nos abeirar, porquê assim o exige o assumpto que escolhemos. Fóra d'aqui as coisas passam-se de outro modo, sendo preciso que cada termo modificado seja posto em circulação lenta e insensivelmente, afim de não chamar attenção sobre si aquelle que o introduzio. Terminando declaramos aos nossos leitôres que re- conhecemos que, apezar de todo o esforço que fize- mos para bem attingir o nosso escopo, resente-se ainda o nosso trabalho de graves lacunas e êrros que merecem ser reparados, e por este motivo pedimos se dignem corrigil-os afim de que mais tarde com mais estudo e experiência possamos voltar ao as- sumpto, de modo a podêr esclarecêl-o por compléto. BIBLIOGRAPHIA Obras citadas Lições de botânica geral pelo Dr. Maximino de Araújo Maciel. História natural de Langlebert traduzida por Paulo Tavares. Cours élémentaire de zoologie par Remy Perrier. Compêndio de zoologia pelo Dr. M. Bomfim. Noções de chímica inorgânica pelo Dr. João Mar- tins Teixeira. Lições elementares de chímica orgânica pelo Dr. Domingos Freire. Osteologia humana de J. Serrano. Anatomie descriptive par le Dr. Joseph Au- guste Aristide Fort. Anatomia descriptiva pelo Dr. José Pereira Guimarães. 314 Precis d'Histologie par le Dr. Mathias Duval. Histologie pratique par le Dr. J. Renaut. Noções de bacteriologia pelo Dr. Rodolpho Galvão. Formulário e guia médico por Pedro Luís Na- poleão Chernoviz. La syphilis aujourd'hui et chez les anciens par le Dr. Buret. Artigo «puerímetro» do Dr. Moncorvo Filho publicado 'no n. 13 do « Brazil Médico» de l9 de abril de 1904. Licções sobre as localisações cerebraes e a phy- sio-pathologia da linguagem do Dr. Leonardo Bian- chi, compiladas pelo Dr. Manfredo Pelli e traduzidas pelo Dr. Vicente de Souza. La génération humaine par le Dr. G. J. Wit- koswki. Tractado de medicina legal pelo Dr. Agostinho de Souza Lima. Medicina legal pelo Dr. Adriano Xavier Lopes Vieira. Medicina contemporânea pelo Dr. Fragoso Ta- vares. 315 Artigo « dyssystolia » do Dr. Santos Abreu pu- blicado 'no n° 23 do « Brazil Medico » de 1897. Artigo «philologia» do Dr. Pires de Almeida, publicado 'no « Jornal do Commércio » de 4 de Abril de 1901. Artigo «terminologia médica» do Dr. Plácido Barbosa publicado 'no « Jornal do Commércio » de Abril de 1901. Vicios de nossa linguagem médica (these) pelo Dr. Vasconcellos de Queiroz. Parecêr do Senador Dr. Ruy Barbosa sobre a redacção do projecto (do código civil) da Câmara dos Deputados. 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Diccionário da língua portuguêsa por Antonio de Moraes Silva. Diccionário da língua portuguêsa por Faria. 318 Diccionário encyclopédico ou novo diccionário da língua portuguesa por D. José Maria de Almeida e Araújo Corrêa de Lacerda. Novo diccionário da língua portuguêsa por Cân- dido Figueiredo. Grande diccionário português ou thesouro da língua portuguêsa pelo Dr. Frei Domingos Vieira. Subsídios para um diccionário completo (histó- rico-etymológico) da língua portuguêsa pelo Dr. A. A. Cortesão. Diccionário da língua portuguêsa por Bernardo de Lima e Mello Bacellar. Dicciónario prosódico de João de Deus. Diccionário dos nomes próprios masculinos e femininos por João Hylário de Menezes Drumond. Novíssimo diccionário latino-português por F. R. dos Santos Saraiva. Dictionnaire latin-français de L. Quícherat et A. Daveluy revisé par Emile Chatelain. Nouveau dictionnaire français-latin par Henry Goelzer. Nouveau dictionnaire grec-français par A. Chas- sang. 319 Dictionnaire français-grec par Alexandre, Plan- che et Defauconpret. Dictionnaire général de la langue française par Adolphe Hatzfeld et Arsène Darmesteter. Dictionnaire analogique de la langue française par P. Boissière. Vocabulaire synthétique de la langue française par L. Grimblot. Dictionnaire synop tique d'étymologie française par H. Stappers. Dictionnaire étymologique de la langue française par Auguste Brachet. Le vocabulaire français (mots dérivés du latin et du grec) par I. Carré. Le vrai dictionnaire étymologique de la langue française par L'Abbé Y. Espagnolle. Petit dictionnaire étymologique de la langue française par Laurent et Richardot. Dictionnaire des termes techniques de médicine par M. Garnier et V. Delamare. Dictionnaire illustré de médicine usuelle par le Dr. Galtier - Boissière. 320 Dictionnaire élémentaire de médecine par E. De- caisne e X. Gorecki. Dictionnaire de médicine par E. Littré. Dictionnaire usuel des Sciences médicales par A. Dechambre, Mathias Duval, L. Lereboullet. Nouveau dictionnaire des Sciences et de leurs applications par Paul Poiré, Remy Perrier, Edmond Perrier et Alex. Joannis. Dictionnaire universel des Sciences, des lettres et des arts par M. N. Bouillet. Dictionnaire universel d'Histoire et de Geogra- phie par M. N. Bouillet. Obras consultadas Grammática analytica da língua portuguêsa pelo Padre José de Noronha Nápoles Massa. Grammática portuguêsa do Dr. Augusto Freire da Silva. Grammática philosóphica da língua portuguêsa por Jerónymo Soares Barbosa. Grammática nacional por Domingos Azevêdo. 321 Grammática descriptiva por Maximino de Araújo Maciel. Grammática portuguesa por Bento José de Oli- veira. Grammática portuguêsa por Francisco Sotero dos Reis. Grammática portuguêsa por José Gonçalves Lage. Elementos de grammática portuguêsa pelo Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro. Grammática da língua portuguêsa por Pacheco da Silva Júnior e Lameira de Andrade. Grammática portuguêsa por Manuel Olympio Rodrigues da Costa. Grammática portuguêsa pelo Dr. Alfredo Gomes. Grammática analytica por Maximino de Araújo Maciel. A língua portuguêsa por Antonio Maria Baptista. O gênio da língua portuguêsa por Evaristo Leoni. Estudos da língua portuguêsa por Mário Barrêto. Vocábulos e locuções da língua portuguêsa por Guilherme Bellegarde. 322 Reflexões sobre a língua portuguesa por Fran- cisco José Freire. Exposição da pronúncia normal portuguesa por Aniceto dos Reis Gonçálvez Viana. Orthographia portuguesa pelo Dr. Santos Va- lente. A arte orthográphica da língua portuguesa por Manuel do Canto e Castro Mascarenhas Valdez. Da orthographia portuguêsa (conferência) por Hemetério José dos Santos. Philologia portuguêsa (vestígios da declinação latina) por Lameira de Andraúe. Philologia portuguêsa por Maximino de Araújo Maciel. Philologia por Antonio Paulino d'Andrade. Noções de philologia por I. J. da Fonseca. I Estudos de português (a accentuação do - A e a syntaxe dos pronomes pessoaes) por Arthur Rag- gio Nóbrega. Manual do examinando de português por A. Estevam da Costa e Cunha. A arte de dizêr por José Antonio Muniz. 323 Noções de Semântica por Pacheco da Silva Júnior. Da glóttica em Portugal por M. de Mello. Os gallicismos por A. da Silva Tullio. Gallicismos, palavras e phrases da língua fran- cêsa introduzidos por descuido, ignorância ou neces- sidade 'na língua portuguêsa por J. Norberto de Souza e Silva. Synónymos portuguêses por Jacob Bensabat. Ensaios sobre algúns synónymos da língua por- tuguêsa por D. Frei Francisco de S. Luís. Verbos - por Arthur Gomes. Tractado completo da conjugação dos verbos francêses regulares e irregulares por Casimir Lieutaud. Conjugação dos verbos - por Augusto Pinto Duarte de Vasconcellos. Revista didáctica. Palestras com o pôvo pelo Dr. Castro Lopes. Origens de anexins, prolóquios, locuções popu- lares, siglas etc., pelo Dr. Castro Lopes. Manual da Sciência da linguagem por Giacomo Gregorio, traducção de Cândido Figueiredo. 324 Flores históricas (diccionário das allusões aos factos e aos dictos memoráveis que se encontram 'nos escriptôres) por Narciso José de Moraes. Phrases e locuções da literatura (sua origem e applicação) pelo Monsenhor Vicente Lustoza. Observações sobre as emendas (do projecto do código civil) do Sr. Senador Ruy Barbosa, com additamento sobre a «réplica» por J. J. de Oliveira Fonseca. Grammaire française par A. Chassang. Grammaire supérieur par Pierre Larousse. Grammaire historique de la langue française par Auguste Brachet. Grammaire historique de la langue française par Ferdinand Brunot. Esquisse d'une dialectologie portugaise par le Dr. J. Leite de Vasconcellos. Manuel de philologie classique par Salomon Reinach. De l'étude des langues par Albert Michel. L'enseignement des langues anciennes et mo- dernes par Henry Bernec. 325 Príncipes généraux de linguistique par Paul Regnaud. Le langage et la formation des idées (chapitre IV - Dieu et l'âme) par Adolphe Coste. L'origine des idées eclairées par la Science du langage par Paul Regnaud. De 1'origine du langage par Ernest Renan. La vie du langage par W. D. Whitney. La vie des mots par Arsène Darmesteter. La place des mots par Arsène Beauvais. Les mots qui restent par Roger Alexandre. Les mots historiques par Trogan. Fleurs historiques, par Pierre Larousse. Fleurs latines par Pierre Larousse. Petites ignorances historiques et litteraires par Charles Rozan. Petites ignorances de la conversation par Charles Rozan. Méthode pratique, physiologique et comparé de prononciation française par Adolphe Ziind-Burguet. 326 Phonologie historique de la langue française par J. E. Blondel. Les déformations de la langue française par Emilie Deschanel. Les transformations de la langue française por F. Gohin. Mélange d'étymologie française par Antoine Thomas. Les vraies origines de la langue française par Marsillac. Grammática latina do Padre Antonio Pereira. Grammática latina de Clintock. Grammática latina de J. N. Madvig reduzida a epitome por Augusto Epiphánio da Silva Dias. Grammática elementar da língua latina por Joa- quim Alves de Souza. Prefixos e suffixos da língua latina pelo Dr. An- tonio José de Souza. Novo systema para estudar a língua latina pelo Dr. Castro Lopes. Restituição da pronúncia latina pelo Dr. Vi- cente de Souza. 327 Ponctos de Latim por João Vieira d'Almeida. Odes e épodes de Horácio traduzidas por Fran- cisco Antonio Picot. Eneida de Virgílio traduzida por Manoel Odo- rico Mendes. Prosadores e poetas latinos pelo Dr. César Zama. Petite grammaire méthodique de la langue latine par Chatelain et Hamel. Grammaire latine por Riemann et Goelzer. Exercices latins de Henry Goelzer. Jardin des racines latines par Pierre Larousse. La question du latin par Raoul Frary. Le latin et le problème de la langue interna- tionelle par Ch André. La latinité d'Ennodius par Dubois. Histoire de la litterature latine par E. Nageotte. Histoire de la littérature latine par René Pichon. Methode pour étudier la langue grecque par J. L. Burnouf. Exercices d'application sur les premières leçons de grammaire grecque par J. Petitjean et V. Glachant. 328 Exercices sur 1'abregé de grammaire grecque par J. Petitjean et V. Glachant. Premières leçons de grammaire grecque par A. Croiset et J. Petitjean. Abregé de grammaire grecque par A. Croiset et J. Petitjean. Grammaire grecque par A. Croiset et J. Pe- titjean. La première grammaire grecque par Riemann et Goelzer. Premiers elements de grammaire grecque par Ed. Tournier et O. Riemann. Grammaire grecque (cours élémentaire et moyen) par Chassang et Clairin. Grammaire grecque (supérieure) par Chassang et Clairin. Grammaire grecque complète par Riemann et Goelzer. Grammaire comparée du grec et du latin (pho- nétique et étuãe des formes) par Riemann et Goelzer. Ilíada de Homero por Manoel Odorico Mendes. CEuvres completes d'Homère par P. Giguet. 329 Extraits de la Cyropédie et de 1'anabase par A. Monginot. Vies des grecs illustres par Plutarque. Minerva (introduction à l'étude des classiques scolaires grecs et latins) par le Dr. James Gow. et adapté por Salomon Reinach. Chrestomathie grecque par H. Brebet. Nouvelle chrestomathie grecque (l'étude simul- tanée de la grammaire et des racines) par Chassang. Nouvelle chrestomathie grecque (Liste des prin- cipaux mots simples de la langue grecque et des de- rivés français) par Chassang e Clairin. Petit manuel de la langue grecque par M. Theil Jardin des racines grecques par Pierre Larousse. Manuel d'histoire de la littérature grecque par Croiset. Lexicum medicum polyglottum par le Dr. Emile Laurent. Vocabulário italiano-português por R. de Mes- quita. Diccionário português inglês e inglês-português por João Fernandes Valdez. 330 Glossário das palavras e phrases da língua fran- cesa introduzidas 'no português por Frei Francisco de S. Luís. Diccionário grammatical por José Alexandre Passos. Diccionário grammatical de Felisbèrto de Car- valho. Diccionário bibliográphico brazileiro pelo Dr. Au- gusto Victorino Alves Sacramento Blake. Diccionário homophonológico da língua portu- guêsa por Augusto Pinto Duarte de Vasconcellos. Diccionário português-latino por Manuel Ber- nardes Branco. Diccionário português-francês e francês portu- guês por Fonseca e Roquete. Diccionário português-francês e francês portu- guês por João Fernandes Valdez. Diccionário partuguês francês e francês-portu- guês por Souza Pinto. Diccionário francês-português de Castro Freire. Dictionnaire des synonymes de la langue fran- çaise par B. Laífaye, 331 Dictionnaire complet illustré par Pierre La- róusse. Dictionnaire français encyclopédique par La- rive et Fleury. Dictionnaire des idées suggérées par les mots par Paul Rouaix. Dictionnaire des Sciences usuelles par E. Bouant. Dictionnaire des connaissances pratiques par E. Bouant. Dictionnaire de médicine pratique par le Dr. Vernon. Dictionnaire de médicine et de thérapeutique médicale et chirurgicale par E. Bouchut et A. Des- près. ERRATA Uma explicação necessária 0 leitor que se dér ao trabalho de lêr tôdo este livrinho encontrará muitos erros e incoherências grá- phicas que nos passaram despercebidos por sermos principiante e não termos ainda práctica de revêr próvas. Encontrará por exemplo em um logár a palavra maior com accento agudo 'no o (maiór) e em outro logar sem o accento; encontrará ainda o verbo saber com accento circumflexo 'no e (sabêr) e adiante o verbo dizer sem accento; encontrará a palavra forma ora com accento agudo no o (forma) ora sem elle (forma). Não nos sendo mais possivel corrigir 'no logar competente estes erros ou incoherências gráphicas vamos dizêr alguma coisa sobre a régra que adoptá- mos em relação a accêntuação das palavras. Para nós as vogaes e e o quando não forem mudas (como por ex:. em sobr é, traç o) dévem sêmpre sêr accêntuadas, ex pédaço pessego, mérito, esquelêto, (para a vogal e) e flor, amôr, abrasadôr, 334 mór, melhor, todo, salobra, módo, tuberculóse ther- mòdynámica (para a vogal o). Ha um outro poncto que precisamos informar ao leitor; é que, d'entre os diversos systemas de accen- tuação, preferimos aquelle que manda indicar por meio do accênto, em todas as palavras, a syllaba predo- minante, exceptuando-se 'nas paroxytonas que exis- tindo em nossa língua em número maior do que as outras fica por exclusão subentendida accentuada. 'Nas palavras cabo q velhaco por ex o a não precisa sêr accentuado, porquê se a syllaba predo- minante fosse 'no primeiro caso a última, e 'no se- gundo a última ou a ante-penúltima teríamos de es- crever cabó ou cabo, velhacó ou velhacô, vélhaco ou vêlhaco. O til suppre o accento 'nas palavras terminadas em ã ou ão que são consideradas como oxytonas exestação, cidadão, e o futuro do indicativo dos verbos : saberão, passarão etc. 'Nos outros termos empregaremos sempre a ter- minação ám quer para os verbos, quer para os sub- stantivos ex louvam, louvavam, louvariam e orgam, Christovam etc.' Se escrevêssemos essas palavras com a termi- nação ão teríamos que accentuar a penúltima syllaba para indicar que ella era a predominante, isto é, que a palavra era paroxytona, visto como consideramos como regra sêrem oxytonas todas as palavras ter- minadas em ão. 335 Logo 'no comêço dicémos que as palavras paro- xytonas existindo em número maior do que as ou- tras, podiam dispensar o accento sendo elle obriga- tório 'nas oxy tonas e paroxytonas. Assim sendo devemos escrevêr : sábia (adjectivo) e sabiá (substantivo) com accento, e sabia (verbo) sem accento. Accentuando -se o adjectivo para indicar que é uma palavra proparoxytona e o substantivo para indicar que é oxytona fica por exclusão desnecessário accentuar a syllaba predominante do verbo, porquê não sendo a palavra oxytona, nem proparoxytona deve forçósamente ser paroxytona, motivo pelo qual deve o accênto ca.ír 'na penúltima syllaba. Muitos grammáticos empregam o accento 'nas palavras paroxytonas quando a sua terminação é a mesma que a de outras que são oxytonas ; ex :. as palavras terminadas em il são em regra geral oxy- tonas (Brasil, anil, funil, juvenil, etc.) portanto não precisam ser accentuadas. As palavras paroxytonas terminadas em il devem ser accentuadas, porquê são excepções, como por ex :. o adjectivo útil que sendo escripto sem accento deverá em virtude da regra citada ser considerado palavra oxytona e portanto pronunciada como se tivesse sido escripta d'esta fôr- ma (com o accento no i): utíl. Aqui 'no Brasil tem-se o mao hábito de se não accentuar as palavras. Não se costuma empregar o accento para indicar se uma vogal é abérta ou 336 fechada, nem também para indicar qual a syllaba predominante de uma palavra. Este módo de graphar as palavras é muito cômmodo, porquê d'esta maneira escondêmos muitas vêzes nossa ignorância a respeito da prosódia d'este ou d'aquelle têrmo, o que não acontece a aquelles que usarem do accênto, porquê assim indicarão a prosódia que adoptam. O indivíduo que tivér, por ex.: de escrevêr a palavra parenchyma e que não saiba se ella é para ou proparoxytona, esconde sua ignorância a tal res- peito não accentuando a syllaba predominante, e o leitor ao encontrar um têrmo dêstes assim escripto ficará sem sabêr se deverá pronunciar parénchyma ou parenchyma, (accentuando a penúltima) pois que o escriptôr não manifestou sua opinião. Segundo o systema gráphico que adoptámos quem escrevêsse a palavra parénchyma e não accen- tuasse, indicaria por exclusão que a palavra deveria sêr paroxytona, e portanto teria accentuada a penúl- tima syllaba. A próva de que não costumamos indicar a syllaba predominante é que 'nas nossas typographias não se encontra o typo y com accênto. Em muitas palavras como: synthese, cynico, syllaba, oxytona, litholytico, etc., tínhamos necessi- dade do accênto para indicar que a palavra era proparoxytona, e não paroxytona como parece sêr quando desprovida de accênto, mas não o podíamos 337 fazer por falta de accênto, inconveniente este que podia sêr remediado por meio de palavras indicando qual a syllaba predominante. 'Na palavra synlhese por ex.: éramos obrigado a dizêr entre parêntheses que a palavra era propa- roxytona; mas este processo era muito incômmodo, por isso tivemos que renuncial-o e deixar sem accênto todas estas palavras. 'Nos termos latinos não pudemos também in- dicar as syllabas breves ou longas por falta de typos. Cumpre notar ainda que d'entre os diversos systemas de graphar as palavras, o adoptado pelos mais exigentes não é ainda completo. 'No advérbio sómente por ex.: o accento do o da primeira syllaba indicaria por si só que a palavra era proparoxytona, o que não é verdade (é paroxytona) porquê quando a pronunciamos costumamos accentuar a syllaba men. O accento da primeira syllaba não poderia sêr dis- pensado, porquê a palavra compõe-se do adjectivo só, que se escreve sempre com accento, e da ter- minação mente próprio dos advérbios de modo. Devíamos fazêr a seguinte distincção gráphica: empregar os accentos: agudo, circumflexo e grave quando quiséssemos indicar o som abérto ou fechado das vogaes, e o signal - (que se usa em latim 'nas syllabas longas) tão sómente quando tivéssemos de indicar a syllaba predominante. E assim as palavras : sómente, pédaço e tuberculose deveriam ser escri- ptas : sómênte, pédãço e tubérculõse. 338 Antes de terminar devemos nos referir a uma outra questão de incoherência gráphica, isto é, a questão do apóstropho. Poderíamos 'no nosso trabalho ou banir com- pletamente o apostrópho ou então usal-o sempre que houvesse suppressão de lettra em um vocábulo, mas infelizmente temos que registrar algumas inco- herências como por exemplo : l9 no que é contrac- ção de em 4- o ás vêzes vem graphado correctamente 'no, outras vêzes no sem apóstropho como geralmente se usa ; 2.° do, contracção de de + o que vem algu- mas vêzes graphado correctamente d'o e outras, do sem apóstropho. São estas as considerações mais importantes que tínhamos a fazêr em relação á graphia que ado- ptámos. Em relação ás proposições ha uma que não póde passar sem reparo : é a 2- de história natural. Di- cémos que pela descripção que lemos em Flamma- rion nos parecia sêr o iguanodonte bernissartense o maior dos animaes terrestres. Teríamos evitado êste êrro se, ao envêz do que dicémos, dicéssemos um dos maiores, porquê iguaes a elle, em altura temos : o stegocéphalo e o tricerátopo que medem dez metros cada um; e maiores : o brontosauro que méde quinze metros e o atlantosauro (o maior de todos) com 40 metros, segundo nos afíirmam Pizon 'no seu : Précis d'histoire naturelle, Flammarion 'no seu bello livro : Le monde avant la création de 1'homme ; Perriei' 339 'no seu: dictionnaire des Sciences e Trouessart 'na Grande encyclopédie franrcaise. Por serem interessantes transcrevemos aqui al- gumas linhas d'estes insignes naturalistas. Pizon escreveu 'no seu Précis d^histoire naturelle : « enfin les atlantosaures, dont quelques restes ont été trouvés dans les Montagnes Rocheu- ses, étaient certainement les plus grands animaux qui aient existé : leurs vertèbres avaient un mètre de diamètre, et l'os de la cuisse 2m,70 de longueur, ce qui suppose une longueur total de 30 à 40 mè- tre s ! » •Perrier escreveu 'no seu dictionnaire des Scien- ces : « Atlantosaurus-Genre de reptiles fossiles, type de la famille des atlantosauridés, appartenant à l'or- dre des dinosauriens, sous-ordre des sauropodes. C'est le plus grand animal terrestre que l'on connaisse aujourd'hui; sa taille pouvait atteindre 40 mètres, et elle n'a été depassée depuis que par les cétacés; le fémur seul atteignait 2m,70. Ce fossile a donné son nom aux couches ou on le trouve, que appartiennent au Jurassique supérieur des Montagnes Rocheuses ». Trouessart escreveu o seguinte 'na Grande en- cyclopédie française : « Atlantosaurus-Genre de re- ptiles fossiles, créé par Marsh en 1877, mais dont il n'avait pas encore donné les caractères lorsque Cope, dans la même année (1877), caractérisa son genre camarasaurus, qui lui est identique. Marsh 340 avait d'abord appelé ce genre titanosaurus, mais ce nom étant preoccupé fut changé peu après en atlan- tosaurus. Marsh donne le nom de couches à atlan- tosaurus (atlantosaurus beds) aux terrains jurassiques de 1'Amérique du Nord, ou l'on trouve les débris de ces dinosauriens gigantesques, qui navaient pas moins de quatre-vingts pieds de long. Sous le nom de camarasaurus Cope a désigné en 1877, un genre de reptile gigantesque des terrains jurassiques su- périeurs des Etats-Unis, que Marsh a depuis designé sous le nom d'atlantosaurus. Le camarasaurus appar- tient à la sous-classe des dinosauriens et à 1'ordre des sauropoda. Le sacrum est composé de quatre ver- tèbres; 1'ilium est court et massif; 1'ischion est moins massif que le pubis. Les vertèbres de la région cer- vicale sont opisthocéliennes; les vertèbres précau- dales sont creusées de larges cavités ». Além d'estes, o leitor encontrará ainda mais al- guns erros que nos passaram despercebidos, e outros que não corrigimos por falta de tempo.