THESE INAUGURAL RIO DE JANEIRO Papelaria CENTRAL, José Ayres & C.-Rua da Quitanda, 116 1905 FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO THESE Apresentada á Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro Em 20 de Março de 1905 E DEFENDIDA EM 16 IDE MAIO IDE 1905 PELO &oào ^etzeiza de- NATURAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO FILHO LEGITIMO DO TENENTE-CORONEL ^z^iza 3e ©Coraco e S. ãmctia cL ©IConcico. DISSERTAÇÃO CADEIRA DE HISTORIA NATURAL MEDICA MIMETISMO PROPOSIÇÕES sadze cada ama das cadeizas- da czzzsa de sctenczas medica - c-izuz^zcas RIO DE JANEIRO Papelaria Central de José Ayres & C.,-Rua da Quitanda, 116 1905 FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO Director - Dr. Luiz da Cunha Peijó Júnior. Vice-Director - Secretario - Dr. Eugênio do Espirito Santo de Menezes, LENTES Drs. : Tiburcio Valeriano Pecegueiro do Amaral.... Chimico medico. João Joaquim Pizarro Historia natural medica. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descri ptiva. Eduardo Chapot 1'revost Histologia. João Paulo de Carvalho Physiologia. Antonio Maria Teixeira Matéria medica, pharmacologia e arte de for- mular. Rodolpho Galvão Bacteriologia. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medieo-cirurgica. Domingos de Góes e Vasconcellos.. Operações e apparelhos. Antonio Augusto de Azevedo Sodré Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Henrique Ladislau de Souza Lopes Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetrícia. Ernesto do Nascimento Silva Medicina legal e toxicologia. Benjamiu Antonio da Rocha Faria Hygiene. João da Costa Lima e Castro Clinica cirúrgica - 2a cadeira. Luiz da Costa Chaves Faria Clinica dermatológica e syphilogi aphica. Miguel de Oliveira Couto Clinica propedêutica. Marcos Bezerra Cavalcanti Clinica cirúrgica - la cadeira. Erico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologica. Clinica ophthalmologica. José Benicio de Abreu Clinica medica - 2a cadeira, João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. Cândido Barata Ribeiro Clinica pediátrica. Nuuo de Andrade Clinica medica - Ia cadeira. João Martins Teixeira 1 , . > Em disponibilidade. Antonio Rodrigues Lima SUBSTITUTOS Drs. : Luiz Antonio da Silva Santos- La Secção. Antonio Dias de Barros 2 a « Oscar Frederico de Souza 3.a « 4.a « Francisco de Paula Valladares 5.a « Pedro de Almeida Magalhães 6.a « Antonio Teixeira do Nascimento Bittencourt.. 7.a « Augusto de Souza Brandão 8.a « Francisco Simões Corrêa 9.a < José Antonio de Abreu Fialho 10.a « 11.» « Mareio Filaphiano Nery 12.a « N. B .- A Faculdade nào approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresantadas. Celui qui met au jour ses pensées pour faire briller ses talents. doit s'attendre à la severité de ses critiques, mais celui qui n'écrit qui pour satisfaire un devoir, dont il ne peut se dispenser, à une obligation qui lui est imposée, a sans doutes de grauds droits â 1'indulgence de ses lecteurs et de ses juges. La Bruyère. Je désire qui wes juges voieiit en moi, uou 1'homme qui écrit, mais celui qui est force d'écrire. Montesquiuu . INTRODÚCÇÃO Nunca tive a pretenção de apresentar para these um tra- balho original, mesmo porque muito poucos são os que têm essa facilidade, que só podem dar a clinica e a experiencia de longos annos. Cumpre-me aqui agradecer ao meu mestre e amigo o Dr. João Joaquim Pizarro, o ter me indicado para these um assumpto tão interessante como este e ao mesmo tempo por ter posto á minha disposição os seus bons livros que me facilitaram extraordinariamente a confecção d'este pequeno trabalho. Agradeço também aos Drs. Silva Santos, Chapot Prevost, Chagas Leite e Austregesilo, os bons conselhos que me deram para uma bôa orientação a seguir n'esta tarefa. DISSERTAÇÃO MIMETISMO CAPITULO I Definição e historicó Os phenomenos que a palavra «mimetismo» serve para designar eram desde muito tempo conhecidos dos naturalistas, mas o seu emprego em sciencia appareceu com os trabalhos de Wallace e Darwin. Entretanto, se examinarmos os trabalhos mais recentes, veremos esta palavra empregada sob pontos de vista tão dilíe- rentes, em accepções tão diversas para caracterizar phenomenos que nos parecem tão dissemelhantes á primeira vista, que é mister antes de usal-a, precisar o modo porque a comprehen- demos e a que especie de phenomenos nos dispomos a applical-a. Acabamos de dizer que os auctores modernos a tinham empregado em um grande numero de sentidos differentes. E' o que vamos provar com as citações que se seguem: (L. Fredericq. Physiologie du Poulpe commun)... Os cepha- lopodes não são os únicos seres cuja pelle muda assim de colo- ração. O cameleão, muitos batrachios, peixes e crustáceos apre- sentam phenomenos analogos. Em geral, entre os peixes, as 8 mudanças de coloração têm por fim harmonisar o matiz do animal com o do fundo sobre que vive. E' um caso de mimetismo. (Pouchet. Des changements de coloration sons l'infiuence des nerfs)... Em Zoologia esta relação demonstrada entre a côr de certos ani- maes e o fundo sobre que vivem, se liga directamente aos factos de mimetismo que levantaram n'estes últimos annos discussões tão vivas até no paiz de M. Darwin (V. Beneden. Commensaux et parasites}.-Um crustáceo interessante é a Nebalie de Qeoffroy, que existe em abundancia na costa da Bretanha; aloja um com- mensal que M. Hesse tomou por um animal visinho dos Histrio- bdellos e que não é outra cousa senão um rotador que parece affectar a physionomia dos Histriobdellos e póde ser dado como um exemplo de Mimetismo. Finalmente, para terminar, um exemplo de Wagner: Todo o entomologista conhece a lagarta de uma das espe- cies communs de nossas phalenas listradas, a Catocala nupta e sabe o quanto é difficil distinguil-a da casca dos velhos troncos de salgueiros entre as fendas e os sulcos da qual ella descança ordinariamente durante o dia. Para isso conseguir, é preciso uma experiencia de vários annos. Em toda a estructura de seu corpo, nos menores detalhes das partes, esta lagarta imita tão perfeitamente pela fórma, como pela côr, a casca dos troncos de arvores sobre que ella repousa» que a vista pouco exercitada das pessoas ás quaes a mostramos, não conseguúi sempre distinguil-a. Este caso muito notável de Mimetismo se produz de pre- ferencia durante o dia. (Wagner. De la formation des espéces par la segregalion.) Vê-se, pelos exemplos que precedem, que se a palavra Mimetismo é empregada por M. Fredericq no sentido de adaptações successivas aos differentes meios que o animal é levado a habitar, Pouchet d'ella se serve para caracterisar esta seme- lhança entre o habitat e o animal, que constitue para este ultimo um meio efficaz de protecção. M. Van Beneden a emprega no sentido de imitação de um animal por um outro e Wagner para 9 explicar o phenomeno pelo qual um insecto assemelha-se a uma planta. Quanto a nós, guardaremos apenas estas duas interpreta- ções para só ahi vermos casos de Mimetismo. A concordância e a harmonia que existem entre a côr do meio e a de seus habitantes é um phenomeno por assim dizer geral. Ahi não ha outra cousa, senão a influencia do meio actu- ando sobre a côr, como ella actua sobre a fórma, sobre o porte, o instincto, os hábitos dos animaes que o habitam. Parece-nos mesmo que esta influencia sobre a côr dos animaes não deve ser separada da influencia sobre as outras maneiras de ser, porque ella lhes é intimamente ligada, qualquer modificação de uma parte acarretando mudanças nas outras.. Contrariamente, a imitação de um ser vivo por um outro ser vivo é um phenomeno particular. E' para casos d'esta ordem que conservaremos o nome de Mimetismo. Além d'isso, essíi distincção foi já feita pelo sabio que em primeiro logar apresentou um estudo d'estes phenomenos em uma classe de insectos. Wallace separa do Mimetismo, sob o nome de côres protectoras dos animaes, os phenomenos mencionados, reco- nhecendo além d'isso que ha entre estas duas especies de factos, um grande numero de transições. Assim comprehendida a questão deve theoricamente se dividir em quatro capitulos, segundo o reino, ao qual pertencem os seres em questão: Imitação de um vegetal por um vegetal. Imitação de um animal por um vegetal. Imitação de um vegetal por um animal. Imitação de um animal por um animal. Para a primeira classe de phenomenos não possuímos nenhum dado; deixaremos pois completamente de lado esta parte de nosso estudo, para desenvolver as outras. Sem querer tentar aqui um estudo sobre a semelhança animal das plantas, não podemos deixar de fazer notar a analogia que existe entre certas 10 fôrmas de vegetaes e certos animaes ou certos orgãos. E' sobre- tudo na família das Orchidéas que encontramos fôrmas estranhas. O genero Ophrys, principalmente, fornece vários exemplos: Ophrys myodes, cujas flores parecem moscas. Ophrys apifera, de côr ferruginosa e parecendo uma abelha. Ophrys aranifera, que lembra as aranhas pelas | linhas brancas sobre o fundo escuro de seu labio. Pretendeu-se assim vêr na «Saxifraga sarmentosa» a figura de dipteros repousando em ramos seccos. Uma semelhança analoga fez dar a todo um grupo de leguminosas, o nome de Papilionaceas. O nome de Arum dracunculus lembra também que as manchas da haste d'esta planta assemelham-se ás da pelle de uma serpente. N'este caso, além d'isso, a planta tem o cheiro de matérias animaes em putrefacção, cheiro que engana muitas vezes os insectos necrophilos. As azas membranosas do fructo de certas acerineas (erablos) foram comparadas ás azas de alguns hemipteros. Os cogumelos nos offerecem também fôrmas interessantes. E' preciso notar n'estes casos apenas fôrmas estranhas ; mesmo n'aquelles em que ha analogias, devemos notar seme- lhanças vagas e fortuitas. Ha apenas as Orchidéas em que estas semelhanças apre- sentam um certo interesse por causa do papel que têm os insectos na fecundação d'estas plantas, papel que foi observado não ha muito tempo. A imitação da planta pelo animal ou do animal pelo animal foi notada d'esde muito tempo. Réaumur em suas memórias sobre os insectos, consagra um capitulo ao estudo «das moscas de duas azas» que se parecem com as abelhas, e d'estas que se parecem com vêspas ou formigas. Estes factos porém têm sido melhor estudados n'estes últimos tempos, graças as descobertas dos viajantes. E' com effeito nos paizes intertropicaes que encontramos estas fôrmas que parecem extravagantes e que apenas são protectoras. Bates 11 refere-se a innumeros exemplos de animaes que imitam outros, observados na sua viagem do Rio A.mazonas. Wagner apresenta um bom numero no seu Traité sur la formation des especes par la segregation. Wallace, principalmente em seus Essais sur la selection naturelle, refere-se a innumeras observações, principalmente de Lepidopteros que fez durante suas viagens a Malasia. Darwin, em sua Origine des espéces consagra um capitulo ao estudo d'estes phenomenos, referindo-se a um ou dois casos em Le voyage d'un naturaliste. Van Beneden, em seus Commen- saux et parasites estende estas observações até aos insectos, e as outras classes do reino animal. Estes factos, bastante numerosos, como acabamos de vêr, estão esparsos em um grande numero de trabalhos. Não temos a pretensão de cital-os e reunil-os todos. Tentaremos apenas grupal-os em secções naturaes, citar exemplos e dizer algumas palavras a respeito das explicações que deram os auctores. CAPITULO II Imitação das plantas pelos animaes E' muito commum vêr os animaes tomarem a côr das plantas em que vivem. E' um phenomeno que se observa na maior parte dos grupos, até mesmo nos mais elevados do reino animal. Os esquilos são de um vermelho escuro imitando exacta- mente a côr da casca dos pinheiros, em cima da qual é muito difficil distinguil-os. 12 Os papagaios apresentam a mesma côr verde que as flo- restas intertropicaes que lhes servem de refugio. Nos climas europêos, os passaros apresentam duas plumagens: uma na pri- mavera, mais brilhante que se harmonisa com as côres mais vivas da natureza n'esta epocha e uma plumagem no outomno, amortecida e sombria, que reproduz a côr das folhas mortas e das cascas durante o inverno. Nos reptis, encontramos o mesmo phenomeno. Um lagarto, o Phylodrias viridissimus é quasi invisivel entre as folhas em que serpeia. A pereréca que se adapta as plantas verdes dos logares pantanosos, apresenta uma côr uniforme de um bello verde claro. Quasi todas as serpentes que vivem em arvores, quer sejam venenosas ou inoffensivas, das regiões inter- tropicaes apresentam uma côr verde com manchas cinzentas que lhes permitte occul tarem-se completamente á vista. Os peixes dos recifes de coral são, segundo Darwin ornados de colorações muito vivas, o que não se observa nos peixes dos rios. Assim também, um Hippocampo da Australia (Wallace) apresenta appendices foliaceos de um vermelho vivo, analogos ás algas, entre as quaes elle habita. Mas é sobretudo entre os in- sectos que os factos d'esta ordem são em grande numero. A ordem dos orthopteros quasi toda apresenta, ou a côr verde dos campos, ou a côr amarellada das palhoças, meios habitados por estes animaes. Os hemipteros encostados ás plantas ou ao tronco das arvores são muito difliceis de distinguir da casca que os rodeia. Os lepidopteros diurnos em estado de repouso, só mostram a parte inferior de suas azas, cuja coloração escura se con- funde com as folhas e as hervas que os cercam, ao passo que entre os nocturnos, é a parte superior das azas que é sombria e as azas inferiores que guardam as côres brilhantes. Os ramos das roseiras são muitas vezes completamente cobertos de insec- tos cuja côr uniformemente verde parece pertencer a própria planta. 13 Muitas arachnideas apresentam também côres verdes, brancas ou vermelhas, conforme as partes das plantas em que ellas esta- cionam de preferencia. Poder-se-hia multiplicar estes, por assim dizer ao infinito, porque esta côr protectora é, de alguma fórma, a regra no reino animal. Mas ha casos em que a semelhança entre o animal e a planta é levada muito mais longe. São estes casos principal- mente que devem ser citados como exemplos de Mimetismo, os outros sendo apenas o resultado da influencia do meio, de um meio vegetal. Não é só pela côr que o animal procura se furtar a vista, mas tudo na sua maneira de sêr, na côr, na fórma, no porte, na attitude, na immobilidade, contribue a entreter a illusão protectora. Nenhuma parte da planta, caule, folha, flôr, a própria semente, está ao abrigo d'esta imitação. Animaes qne imitam liastes de plantas Os animaes que imitam a haste das plantas são bastante numerosos e chamaram desde muito tempo a attenção dos natu- ralistas. Temos citado exemplos, apenas entre os insectos, seja porque temos estudado estes animaes mais de perto, seja porque sua fórma se preste melhor ás exigências d'esta mimica. Citemos primeiramente na ordem dos orthopteros, o Ba- cillus Rossii e o Bacillus granulatus, especies indígenas da cir- cumvisinhança do Mediterrâneo, apteros, assemelhando-se a peque- nos bastonnetes, um liso, o outro coberto de rugosidades. Estes insectos tomam exactamente o aspecto de pequenos ramos. EHes se fixam por uma de suas extremidades ao proprio tronco da planta de que elles se affastam como um ramusculo, prendem algumas de suas patas contra o corpo e estendem as outras como outros tantos ramos secundários. A côr verde, a fórma 14 cylindrica, a attitude, a immobilidade que estes insectos con- servam dias inteiros n'esta posição, os tornam muito difíiceis de distinguir. Mas estes casos são apenas reducções minúsculas ao lado dos insectos do mesmo grupo que habitam as regiões inter- tropicaes. Estes últimos são grandes ramos algumas vezes espi- nhosos, outras vezes munidos de apprehendices foliaceos. Pode-se citar como exemplo do primeiro caso o Phibalosoma acanthopus que tem 21 centimetros de comprimento, cuja femea, aptera, assemelha-se a um ramo errante. A femea, aptera também da Bactéria Aurita traz em cima das costas duas especies de appen- dices em fórma de folhas arredondadas ou antes de lichens parasitas e mede 31 centimetros, as patas estando estendidas. O Gongylus gongyloides é munido por todo o corpo de expansões foliaceas. E' a estes animaes que se dá o nome de ramos errantes. Os Eurycanthos. estudados pelo prefessor Kunckel, per- tencem ao mesmo grupo e são caracterisados por seus corpos sempre espinhosos assim como por suas patas, munidas também muitas vezes de dilatações foliaceas que as dissimulam no meio da casca das arvores velhas carregadas de plantas parasitas das quaes fazem sua morada. Animaes que imitam as folhas Depois de termos fallado dos animaes que tomam o aspecto de ramos, fallemos dos que imitam as folhas. Estes últimos são em menor numero. Explica-se eom effeito, muito melhor que um animal cujo corpo é em geral cylindrico, se pareça çom um bastonnete, com uma haste, do que com uma folha. Neste caso temos evidentemente um gráo de mimica mais adiantado mais dif- ficil de obter, demonstrando um aperfeiçoamento maior na imi- tação. E' ainda em uma tribu dos Orthopteros, visinha dos 15 Plasmianos, a dos Phyllianos, que encontramos primeiramente typos d'esta cathegoria. Trazem dois elytros, tendo a fórma e a côr de uma folha, que cobrem o abdómen quasi de maneira a occultal-o. Os membros, patas e coxas são bastante largos em fórma de foliolos: O proprio abdómen é bastante dilatado em fórma de membrana ou de folha oval. Dir-se-hia qne o animal inteiro experimentou de cima até em baixo um enorme achatamento. O genero inteiro e (até um genero vizinho) apre- senta esta fórma foliacea. Ha assim um grande numero de especies. A mais commum é o Phyllum siccifolium (ou Phy- llia, folha secca) assim chamada pelos colleccionadores que apenas tinham visto o animal morto ou descorado. Durante a vida é de côr verde. Um outro orthoptero, o gafanhoto gi- gante tem as azas inferiores verdes, parecendo folhas. Um certo nnmero de Lepidopteros apresentam também o mesmo pheno- meno. Refiro-me ao Bombyx folha morta ou Bombyx folha de carvalho, de que se fez o genero Lariocampo (Lariocampus quer- cifolia). Em repouso, as azas superiores excedem as inferiores, o que o faz parecer com um feixe de folhas seccas, pela sua còr escuro-amarellada. As duas azas superiores têm o aspecto de uma folha dobrada longitudinalmente, cujo grande eixo e nervura mediana corresponderiam á juncção das duas azas, ao passo que os bordos das duas azas inferiores que excedem de cada lado as precedentes, assemelham-se a uma folha unica, es- tendida e coberta pela primeira. Temos observado nas plantações de café um insecto que se assemelha extraordinariamente a um galho de café a ponto de haver confusão ; porém o caso mais curioso entre os phe- nomenos d'esta natureza é um citado por Wallace na Selection Naturel e do qual encontramos uma excellente reproducção nas licções sobre o Darwinismo de Mathias Duval. Trata-se da se- melhança notável que existe entre dois Lepidopteros das índias (Kallima Inachys) ou da Malasia (Kallima paralekta) e uma folha secca. O vertice das azas superiores acaba em ponta 16 aguda e o das azas inferiores em uma cauda estreita e curta. Entre estes dois pontos estende-se uma linha escura represen- tando a nervura mediana, d'onde partem outras linhas secunda- rias imitando as nervuras lateraes. O esqueleto da folha se acha assim constituído. Quanto á côr, não se deí/e acreditar que ella seja uniforme. Observamos exemplares de folhas mortas em differenres gráos de decomposição : esbranquiçadas, furadas e manchadas, etc. Estas borboletas encontram-se nas florestas seccas. Elias pousam em um ramo quasi vertical e de maneira a occultar entre a base das azas, a cabeça e as antennas, e a apoiar ao longo do ramo estas pequenas caudas das azas inferiores, que formam assim o peciolo da folha representada pelas duas azas. N'esta posição o insecto é quasi impossível de se distinguir- Animaes que imitam as flores Se á primeira vista parece difficil um animal imitar uma folha, mais difficil então será imitar uma flôr. A folha tinha ainda de commum com a maioria dos animaes, ser um objecto de symetria bilateral, ao passo que a estructura geralmente ra- diada da flôr combina pouco com a constituição morphologica dos animaes. E' preciso, porém, não suppormos que vamos en- contrar n'este caso esta semelhança perfeita que observamos a proposito das hastes e das folhas. Andrews Murray, citado por Wallace, faz notar que as lagartas de uma borboleta nocturna (Saturnio Pavonia - Minor) assemelham por sua côr principal aos brotos de tojo de que se nutrem e que as manchas róseas que as cobrem lembram as fiôres e os botões da mesma planta. Podemos fazer a mesma obrervação sobre um pequeno co- léoptero herbívoro (Gonioctena litura) que se encontra abundan- temente nas giestas que crescem nas charnecas, na occasião em 17 que estas plantas estão em florescência. Encontram-se com effeito entre estes insectos colorações muito diversas. Uns são de um bello amarello como a flòr da giesta bem desabrochada, outros apresentam uma còr esbranquiçada como a que começa a murchar, ha alguns emfim que são de um vermelho alaranjado bem ca- racterisado como os botões ao nascer. Os autores não assigna- lam, como imitando a còr das flores que habitam, certos re- presentantes indígenas da classe dos arachnides. Bates refere unicamente a respeito d'esta familia, que algumas aranhas da zona tórrida assemelham-se aos botões das flores e se conservam immoveis, esperando a preza nas axillas das folhas. Encoutram-se também commummente no verão, nas flores do Daucus carotta, nas umbellas, uma aranha cujo abdomem é mais ou menos do tamanho de uma hervilha, e que é de uma brancura notável com uma mancha vesmelho-escuro no meio. E' exactamente a mesma disposição das flores que na umbella que ella habita. Em algumas especies ou variedades vizinhas, a mancha é escura, verde ou prolongada em uma linha ver- melha. Uma vez que falámos n'este momento das arachnides, faremos notar que as côres protectoras se encontram muito fre- quentemente n'esta classe de animaes. Encontra-se muitas vezes á beira dos bosques o Sparasus virecens, grande aranha de uma côr verde-pallido na femea, misturada de vermelho no macho que apresenta a coloração das hervas em que se esconde. A fa- milia inteira dos Salticidos ou Saltigrados apresenta também um envohicro eminentemente favoravel á sua protecção. Animaes que imitam sementes Um certo ilumero de animaes apresentam também o aspecto de sementes, mas, como para este fim é preciso em geral que os tegumentos apresentem uma certa dureza, é sobretudo entre os coleopteros que se encontram os exemplos d'esta ordem de 18 phenomenos. Kirbi menciona o antophibus sulcatus como tendo uma grande analogia de fórma e de côr com as sementes de umbelliferas. Ha uma familia inteira de coleopteros, a dos Byr- rhideos, que munidos de côres sombrias, de fórma arredondada, podendo fazer entrar completamente suas patas em depressões ou sulcos feitos para os receber, tomam inteiramente um aspecto espheroidal que lhe dá semelhança de uma semente redonda. Falemos também de um grupo de gorgulhos, os Ceuthorynchi- deos, que tomam também um aspecto semelhante. Elles curvam o seu esporão contra o peito e o abdómen de maneira a occul- tal-o completamente entre a origem das patas, contraem estas ultimas e as retraem contra o corpo de maneira a assemelhar completamente a pequepas espheras ou a sementes seccas. As suas côres amarelladas ou escuras são além d'isso eminentemente favoráveis a esta assimilação. Uma especie de Bruca (Spermo- phagus cardui) possue a mesma propriedade de se contrahir e assemelhar-se absolutamente a estas sementes brilhantes de le- guminosas que se encontram em abundancia no trigo, assim como o proprio animal. A familia dos Histerides comprehende também insectos de fórma ovalar dotados de uma dureza de tegumento extrema e podendo contrahir suas patas de maneira a occultal-as inteiramente. As sementes chatas e membranosas não estão isentas de imitação. O Cossyphus Hoffmanseggi, insecto muito commum na Algeria assemelha'se a uma semente de olmo. Os Crustáceos Isopodes terrestres, os Cloportes, têm também o habito quando prevêm qualquer perigo de se enrolarem em uma pequena bola que os faz assemelhar á um objecto inanimado, á uma baga secca por exemplo. O animal em que esta semelhança attinge o seu mais alto gráo é o Ixodes rícinus ou Carrapato dos cães, cujo corpo, no estado ordinário, assemelha-se ao de uma aranha. Quando este parasita se fixa sobre sua preza, absorve a tal ponto o sangue d'esta, que distende o seu abdómen que apparece só- mente (a cabeça e a parte anterior do corpo estando occultas 19 entre os pellos) e toma o aspecto de uma semente allongada redonda, munida de manchas e signaes que lembram exactamente a fórma e a côr de uma semente de ricino, ou algumas vezes sem mancha, tem o aspecto de uma semente molle e esbran- quiçada. Animaes que imitam os musgos e lichens Algumas plantas de fôrma simples servem de modelo em totalidade a certos animaes inferiores. E' assim que uma especie de Syngnatus de côr verde e de cauda própria a aprehender se agarra por sua extremidade caudal e se deixa levar na direcção da agua. N'esta posição é quasi impossivel [distinguil-o das algas da mesma côr no meio das quaes se acha. Outros animaes marinhos, os Bryozoarios, assemelham-se a pequenas algas, a musgos, formam sobre os rochedos das praias do mar, sobre pedaços de madeira, finas rendas herbaceas de apparencia asolutamente vegetal. Os Flustres assemelham-se muitas vezes a folhas (Flustra membranacea, Flustra foliacea). Os musgos, os lichens que vivem sobre as cascas das arvores são muitas vezes imitados pelos ani- maes que frequentam estes mesmos logares : um pequeno Le- pidoptero o Agriopis aprilina toma colorações de lichens. Dá-se o mesmo com a Acronyta psi, uma das especies indigenas mais espalhadas (nocturnas) assim como a Acronycta aceris, especie vizinha. As suas azas anteriores são de um cinzento esbranqui- çado salpicado de amarello e escuro. Estes insectos se con- servam durante o dia nos troncos de arvores e não se distin- guem dos lichens que os cercam. Nos micro-lepidopteros, en- contra-se um certo numero de especies que apresentam este mesmo phenomeno de coloração idêntica a dos lichens, mas que, além d'isso, tem as azas viradas de uma maneira tal que pa- 20 recem se implantar directamente na arvore, o que completa a illusão. Esta fórma ondulada torna além d'isso a semelhança mais completa. O pygoera bucephala, segundo Wallace, assemelha-se, em repouso, a extremidade quebrada de um ramo coberto de lichens. O exemplo mais frisante d'este genero de disfarce nos é fornecido por um orthoptero (o Ceroxylus laceratus) encon- trado em Bornéo, por Wallace e que era coberto de excressen- cias foliaceas de um verde azeitona claro, o que lhe dava exac- tamente a apparencia de um bastão coberto de musgo parasita. O individuo que o tinha trazido, affirmava que este insecto vivo era assim coberto de musgo e sómente um exame minucioso poude provar que estas expansões foliaceas pertenciam perfeita- mente ao proprio animal (Darwin, Origine des Especes}. Alguns hemipteros da família das Capsides, os Tingis, os Aradus, por exemplo são muito achatados e apresentam também expansões membraniformes; o mesmo se dá com algumas especies do genero Phyllomorpho. A familia inteira dos Mem- bracidas, cuias fôrmas principaes habitam os paizes quentes, é notável pelas protuberâncias de seu prothorax, tão extensos que cobrem muitas vezes o animal inteiro (Centrotus cornutus e Mem- bracis elevata, Membracis foliacea). Os pulgões das roseiras se acham algumas vezes em tão grande numero nas hastes e nos botões d'estas plantas e estão por tal fórma reunidos uns contra os outros, que dão um aspecto musgoso ao ramo que habitam. Finalmente as Cassides se applicam sobre os vegetaes e o seu corpo chato e cortante sobre os bordos, lhes dá o aspecto de uma pequena protuberância da folha ou da haste de que tomam a côr. Algumas que apresentam além d'isso reflexos dou- rados, têm o aspecto, como faz notar Wallace, de gottas de orvalho sobre os vegetaes. As cochonilhas femeas agarram-se sobre as plantas de que se nutrem, e se deformam por tal modo que tomam o aspecto de uma fina pellicula de casca secca ou de uma pequena turgencia da haste ou do parenchyma da folha. 21 Interromperemos aqui este estudo e esta serie de exem- plos de animaes que se assemelham a plantas. Vimos que muito poucos animaes superiores e muito pouco animaes inferiores nos apresentam, no estado actual da sciencia, phenomenos d'esta natureza. A classe de insectos parece possuir de alguma maneira o monopolio d'este meio de protecção. Podemos observar, que se os phenomenos de imitação animal são menos localisados, é entretanto na mesma classe de animaes que se encontra o maior numero. Não citamos todos os casos de Mimica que se encontram nos livros; quizemos sómente dar exemplos dos differentes modos porque ella se manifesta. CAPITULO III Mimetismo animal Os casos de mimetismo que vamos examinar agora sendo mais perfeitos e mais numerosos que os que passamos em revista até aqui, importava escolher uma ordem de exposição que per- mittisse apresental-os da maneira mais racional. No capitulo pre- cedente tomamos alternativamente as differentes partes da planta que eram imitadas pelos animaes. Não podiamos evidentemente pensar em seguir aqui uma mesma ordem. Foi preciso, para examinar com methodo os casos que vamos apresentar, partir dos mais simples, dos que se approximam mais dos casos pre- cedentemente citados e das côres protectoras (por exemplo), os casos d'estes parasitas .que, fixados sobre um animal muito maior 22 que elles, tomam a côr d'este ultimo, que coustitue então para elles um verdadeiro meio, para passar em seguida aos casos mais complexos de imitação perfeita de um animal livre por um outro animal, mas mesmas condições biológicas, mas guardando uma ordem affastada na serie animal. Entretanto, pensamos que esta maneira de expor os factos, levando-nos constantemente de um limite a outro do reino animal, e nos fazendo citar ao lado um do outro, sêres bem differentes, tivesse introduzido confusão no assumpto. E' pela mesma razão que não achamos boa a divisão em Mimetismo parasitario e não parasitario. Estudaremos pois simplesmente os phenomenos de que trata, fazendo uma revista das principaes classes que os apresentam, percorrendo a escala Zoologica. E como não ligaremos a successão d'estes factos idéa alguma de evolução progressiva, começaremos por examinar os que apresentam os animaes mais elevados, os Vertebrados. Deter- nos-hemos por mais tempo nos insectos que melhor estudados sob este ponto de vista, nos forneceram amplo assumpto, e reu- niremos em um ultimo paragrapho os que apresentam os outros grupos. Vertebrados Os casos de Mimetismo são pouco numerosos entre os ver- tebrados, e isto é facil de comprehender, porque a sua fôrma exterior se presta pouco a todas estas mudanças. Além d'isso, tendo em geral um porte bastante grande e sendo bem armados em vista da lucta pela existência, não têm necessidade, no interesse de sua conservação, de recorrer a sub- terfúgios semelhantes, Demais, em relação aos outros ramos, são em pequeno numero e formam especies muito menos diversas, todas estas condições eminentemente desfavoráveis á producção dos phenomenos de mímica. 23 Mammiferos.-Assim, não temos entre os mammiferos, senão um só caso de mimetismo a referir, porque não se podem classi- ficar n'esta ordem de phenomenos, algumas apparencias produ- zidas sobretudo pelo genero de vida, por exemplo o aspecto pis- ciforme dos cetáceos. O caso de mimica bem observado é o que nos offerece o genero Cladobates (Wallace). O Cladobato é um pequeno mammifero da ordem dos Insectivoros (chamado Tupaia) e ao qual os naturalistas deram o nome de Glisorex para lembrar suas affinidades, porque, com a dentição e o regimen dos muza- ranhos, este animal ou algumas das especies d'este genero pelo menos, assemelha-se ao esquilo. O mesmo porte, as mesmas côres e a mesma maneira de trazer a cauda igualmente com- prida'e espessa. Graças a este disfarce, o cladobato tomado por um inoffensivo sauridio, póde approximar-se de sua presa sem espantal-a. Passaros. Entre os passaros, um certo numero de casos de mimica foram observados entre animaes da mesma classe. O mais notável é o caso referido por Wallace (Selection naturelle) entre o Tropidorynchus e o Mimeta. O Tropidorynchus ou Philedon pertence a ordem dos par- daes syndoctitus. Possue um bico forte e adunco e garras pode- rosas que lhe permittem dar batalha ás aves de preza, tanto mais facilmente quando estes animaes se reúnem em pequenos bandos. Suas côres são amortecidas. No mesmo paiz habita o mimeta. Os mimetas são passaros que foram separados da familia dos verdelhões com a qual- têm as maiores affinidades. O typo do novo genero é o Mimeta ou gramula viridis. Em vez das côres brilhantes dos Oriolideos, elles têm uma plumagem sombria e amortecida, que, em algumas especies, assemelha-se absoluta- mente a dos Tropidorynchus. Na Ilha Bouru encontra-se conjunctamente o Tropidoryn- chus e o Mimeta bouruensis que se assemelham pelas super- fícies superiores, escuro carregado e as inferiores, escuro claro, 24 em uma e outra especie. O logar negro, desnudado, periorbitario do Tropidorynchus é substituído no Mimeta por um circulo de pequenas plumas negras. O alto da cabeça do Tropidorynchus tem uma apparencia escamosa repreduzida no mimeta por pequenas linhas esbranquiçadas que formam estrias em suas plumas. Encon- tra-se a mesma porção de côr pallida por detraz da nuca nos dous passaros, e emfim, apresentam um e outro acima do bico, a mesma protuberância cornea, caracter unico dos Oriolideos. Nota-se uma imitação também .perfeita entre o Tropido- rynchus subcornutus e o Mimeta Torsteni (Ilha de Ceram). Uma imitação analoga, porém muito menos perfeita, existe igualmente entre o Tropidorynchus Timoriensis e o Mimeta ou Gramula Virescens, o typo do grupo, os quaes habitam, todos dous, Timor. Emfim uma imitação imperfeita tamb em [existe entre o Tropi- dorynchus fuscicapillus e o Mimeta phloeochromus que habitam as mesmas localidades. Um outro exemplo de Mimetismo imper- feito entre passaros, nos é fornecido por um gavião insectívoro (Haspagus diodon), e um gavião carnívoro (Accipiter pileatus) que têm as côres inferiores exactamente as mesmas. Este facto apresenta, além d'isso, de notável, que nos districtos em que as duas especies não habitam ao mesmo tempo e onde só se encon- tra o Accipiter pileatus, suas côres mudam e deixa de asseme- lhar-se ao outro, Finalmente, accrescentaremos a estes casos, a semelhança que existe na Europa, entre o Gavião Accipiter nisus e o Cuco (Cuculus canorus. Reptis.- Encontramos entre os reptis um certo numero de casos de Mimetismo. E' assim que o Sul da America possue os Elaps, serpentes com dentes venenosos, porém de maxillares pouco dilatáveis, o que os distingue das viboras, de cabeça coberta por grandes placas e continuando quasi directamente com o corpo, munidos de côres vivas, d'onde o seu nome vulgar de serpentes de coral, e algumas outras especies que lhes asse- 25 melham. A cor dos Elaps é em geral o vermelho vivo mistu- rado de listas negras e amarellas, variaveis segundo as especies. O Elaps fulvius, vermelho e negro, é acompanhado do Pliocerus oequalis que apresenta exactamente a mesma coloração, mas que é inoffensivo. O mesmo habito externo caracterisa também ao mesmo tempo o Elaps corallinus e o Homalocranium semicinc- tum inoffensivo também. Todos dous habitam o México. A mesma observação para o Elaps lemniscatus e o Pliocerus ela- poides. Um terceiro grupo de reptis assemelha-se também aos Elaps. E' o genero Oxiropus que Wallace, por erro sem duvida, diz que póde ser venenoso, pois Wagler que se occupou muito d'estes reptis, faz d'elles um genero visinho das serpentes e collocado como este na sua secção de Ophideos não vene- nosos. Encontra-se com effeito revestidos ao mesmo tempo das mesmas côres, o Elaps mipartitus, o Pliocerus eurysomus e o Oxyrhopus petolarius, vermelhos com anneis pretos approximados e todos tres habitantes dos Andes. O Elaps lemniscatus e o Oxyr- hopus trigeminus têm uma coloração vermelha variada por anneis pretos dispostos tres a tres (Brazil). O Elaps hemi- prichii e o Oxyrhopus formosus, têm um fundo negro variado de listas amarellas. (America do Sul), Estes factos são tanto mais notáveis quanto não encontramos em nenhuma parte da America, serpentes coloridas d'esta maneira. Na Europa, a serpente viperina recebeu o seu nome da analogia que apresenta o seu exterior com o da Vipera aspis. Emfim, uma imitação da serpente de chocalhos foi assigmalada por parte do Coluber vulpinus e de uma especie nova de Pityophis, As observações de Mimetismo faltam para os batrachios. Wallace pretende ter observado bem nas Ilhas da Ma- lasia, pequenas rãs, o que é muito dif&cil, na sua attitude normal, de distinguir de certos coleopteros ou de outros insec- 26 tos collocados sobre folhas, mas elle não indica que especies eram o objecto d'esta imitação, Não temos conhecimento de factos analogos, entre os peixes. Insectos Lepidopteros.- E' na classe dos insectos que vamos obser- var o maior numero d'estes phenomenos e os mais caracteris- ticos. Como os Lepidopteros foram sob este ponto de vista objecto de numerosos trabalhos, vamos nos occupar primeira- mente d'esta ordem. Explicam-se o grande numero de casos obser- vados aqui, porque o aspecto d'estes animaes depende sobretudo de suas azas cuja côr póde variar sem acarretar variações or- gânicas na estructura do proprio corpo do insecto, modificações sempre muito lentas a se produzir. Os casos que vamos citar serão quasi todos tirados das seguintes memórias : Bates (Sur les Keliconides de 1' Amazone), Wallace (Sur les Papillonides des lies Malaires), Trimen (Des resseinblauces Mimiques ches les Papilloiis d'Afrique) et Boisduval (Species des Lepidopteres). Os pintaroxos (Lepidopteros de França) demonstram também algumas analogias. Na America do Sul ha uma familia de borboletas exces- sivamente espalhada, a dos Heliconides. Apezar de suas bonitas côres vivas que parecem chamar a attenção, estes insectos são numerosos porque um cheiro muito acre impede a maior parte dos animaes insectivoros de comel-os. Elles não têm pois ne- cessidade de côres protectoras. Elles são ao contrario imitados por muitas outras especies. A familia das Pierides (typo a bor- boleta branca da couve) encerra entre outros o genero Leptalis que é de pequeno porte. O maior numero das especies que compõem este genero são semelhantes, pela fórma e côr das azas, ás Heliconides, tão bem que apezar da differença de ca- racteres, entomologistas eminentes se tem enganado. Durante sua exploração das regiões banhadas pelo Amazonas, exploração 27 que durou onze annos, Bates refere ter encontrado numerosas especies de Leptalis, sendo cada unia uma cópia mais ou menos exacta de uma Heliconide que liobitava o mesmo districto. A imitação se estende não sómente á côr, mas também á fórma das antennas que se allongam assim como o abdómen. Ha vá- rios typos para a coloração das azas nas Heliconides. Umas são de um escuro listrado de preto e amarello (G. Mechanites). Outras tém as azas transparentes listradas de preto (G. Me- thona). Outras, menores, tém também as azas transparentes lis- tradas de preto e alaranjado (G. Ithomia). Todos estes typos de côres são imitados pelas Leptalides. Deve-se notar que as especies de Heliconides imitadas são muito communs, muito nu- merosas, muito ricas em individuos, ao passo que as que as imitam são raras e pobres em representantes. O grupo das Heliconides tão bem protegido tem outros imitadores além das Beptolides entre as outras familias de Lepidopteros. B' assim que algumas especies de Eryeinides e tres generos de borboletas diurnas, apresentam individuos que imitam as fôrmas dominantes de algumas Heliconides. Por outro lado, outros grupos de Lepido- pteros, além das Heliconides, são imitados por seus congeneres. Alguns representantes do genero Papilio, munidos de côres pretas e vermelhas, que habitam a America, o genero Stalactis da familia das Eryeinides, têm também imitadores e apresentam as mesmas propriedades, relativamente ao numero das especies e dos individuos, que as Heliconides. Um outro facto não menos extraordinário, é a imitação das Heliconides por outros insectos do mesmo grupo. O genero Neapogenus comprehende especies de Heliconides que imitam as dos outros generos vizinhos. As Heliconides propriamente ditas são da America, mas têm seus equivalentes no Antigo Continente na familia das Danaides e das Acreides, que têm uma fórma, uma secreção, hábitos se- melhantes porém côres menos variadas (Fundo negro manchado de azul e branco). São sobretudo imitados por Lepidopteros dos generos Papilio e Diadema. 28 Na África equatorial encontra-se principalmente um grupo de Danaides caracterisado por listas alternativas escuras e brancas. N'este grupo, o Danais Niavius é imitado ao mesmo tempo por dois Lepidopteros (Papilio hypocoon e Diadema Anthedom). No Natal, uma outra variedade de Danais traz na extre- midade das azas uma mancha branca imitada por uma borboleta do mesmo paiz. As côres de um Lepidoptero da familia das Acreides (Acrea gea) são imitadas ao mesmo tempo pela femea do Papilio cynovice, pela do Elymneas phegea e pelo Panopea hirce, emquanto que o Acrea Euryta do Calabar é imitado por uma variedade femea do Panopea hirce. Nas índias encon- tramos o Danais Tytia de azas azuladas, meio transparentes, cuja coloração se encontra de uma maneira idêntica no Papilio agestor e no Diadema nama. Nas Ilhas Philippinas a Idoca. Leuconõe de grandes azas brancas e pretas, é imitada pela rara Papilio idocoides que tira o seu nome especifico d'essa parti- cularidade. Na Malaria, Wallace refere ter muitas vezes tomado por uma especie commum ao Papilio paradoxo e P. oenigma que é raro, mas que se imitam de modo a tomar a fórma e a côr da Euploca Midamus. A imitação n'este caso é levada tão longe que cada sexo do Papilio paradoxa imita o sexo cor- respondente da Euploca Midamus. Um outro Lepidoptero do mesmo genero, Euploca Rhadamanthus, de listras brancas sobre fundo azul e preto, muito commum, é imitado pelo Papilio caumes. Na mesma região ha também dois ou tres casos de imitação do mesmo grupo por differentes insectos do genero Diadema. Nota-se ainda na Malaria o Papilio Thule que imita a Danais sobrina, o Papilio macareus que imita a Danais aglaia, o Papilio Deluserti que imita uma outra Danaide de um ge- nero vizinho, Odeopsis Daos. A imitação se produz também entre Lepidopterus do genero Papilio dos quaes alguns são melhor protegidos que outros. E' assim que o Papilio Hector negro 29 e vermelho é imitado pelo Papilio Romulus, por tal fórma que o segundo passou por muito tempo pela femea do primeiro. Duas borboletas pretas e amarellas, de cauda curta, as Papilio Antiphus e P. Diphilus, são imitadas pelo Papilio Theseus que se confundiu muitas vezes com ellas. A Papilio Liris, de Timor, é acompanhada da Papilio Oenomaiis, cuja femea lhe parece exactamente. A Papilio Coon é imitada absolutamente por nma fórma caudata da femea da Papilio Mennon. (N'esta especie, como em algumas outras, ha polymorphismo das feiueas. Todos dous habitam Sumatra. No norte das índias, a Papilio Dou- bledayi, que não é senão uma Papilio Coon de manchas ver- melhas, é imitada por uma fórma analoga da femea da Papilio Androgeus. Uswood descreveu algumas especies do genero Epi- copéa (Sopliingides) como imitadoras das Papilio Polydorus e Papilio Vanina. Emíim? um genero de Morphites, genero Dru- silla, é imitado ao mesmo tempo por algumas especies de tres outros generos distinctos (G. Melamites, Hyantis, Papilio.) As Drusilla são borboletas esbranquiçadas, numerosas, de vôo fraco. Uma das que se lhes parecem mais é a de uma femea di. phorma de Papilio Ormenus. Na America do Norte uma bor- boleta vermelha e preta, Danis eryppus, muito espalhada, é muito bem imitada pela Limenitis archippus que differe de todas as outras especies do genero Limenitis. Swanoson faz notar que a Spilosoma menttastoi (familia das Phalenides), especie de bor- boleta branca, é regeitada pelos passaros e deve sem duvida a esta propriedade, ser imitada pela Diaphora mendica femea. Accrescentaremos que existe na Europa um pequeno lepi- doptero da familia dos Euchelias, Euchelia Jacobeve, vulgar- mente chamado o Carmin do cardo. Este animal tem todas as côres dos Zygeneos, em companhia dos quaes se acha frequente- mente. As azas anteriores são bronzeadas, com duas listras e uma mancha vermelha. As azas superiores são vermelhas guar- necidas de preto. O Zygeno do trevo tem as azas anteriores de um verde bronzeado com cinco manchas (dispostas duas a duas 30 na mesma linlia) e as azas posteriores vermelhas com uma orla de um azul carregado. Mas os Lepidopteros não imitam sómente insectos da mesma ordem, imitam também as côres de animaes differentes. E' sobretudo a familia das Sesiides que nos offerece phe- nomenos d'esta natureza. Citemos a Sesia apiformis que tem as côres das vespas e até as suas azas enfumaçadas e transparentes. A Sesia bombyli- formis que se assemelha muito ao macho do besouro. A Spliecia craboniformis que se assemelha ao moscardo sobretudo quando está vivo pelo modo de collocar suas azas. A Sesia empiformis que tem um corpo de um pardo escuro luzidio com um annel vermelho na base do abdómen. O Trochilium tipuliforme que se assemelha a uma pequena vespa preta (Odynerus sinnatus) muito abundante nos jardins durante a mesma estação que o Trochilium. Todo o grupo além d'isso apresenta estas semelhanças, como fazem crêr os nomes específicos da maior parte de seus representantes (Vespiformis, Ichneumoniformis, Scoliformis, Shegiformis etc.) Nas índias existem especies de patas posteriores pelludas e terminadas em fórma de vasculho (o que não é para os lepi- dopteros de utilidade alguma) e que assemelham as abelhas de patas pelludas (Scopulipedes) abundantes Testa região (Wes- twood). As lagartas apresentam também alguns casos de mimetismo. As da familia brazileira das Erycinides, da qual só existe na Europa um unico representante (Nemeobius lucinia) foram cha- madas lagartas millipedes. Porém o caso d'este genero o mais notável é o que cita Bates de uma lagarta que o impressionou pela semelhança com uma pequena serpente. Ao lado dos pri- meiros segmentos, que eram dilatáveis a vontade, uma mancha preta representava o olho do reptil e por sua attitude e fórma o insecto lembrava de preferencia uma serpente venenosa do que uma serpente inoffensiva. 31 Coleopteros. Entre os coleopteros temos também que citar alguns casos analogos. EHes imitam ora insectos da mesma ordem, ora insectos de ordens differentes. Mas quasi todos os coleopteros que têm a faculdade de imitar pertencem ao grupo dos Longicornos. Citemos na familia das Anisocera o Cyclopeplus Batesii, que toma exactamente a fórma e a côr de um pequeno clavi- cornio, o Corynomalus globulus e imita mesmo a maça das antennas d'este ultimo por meio de uma tumescencia situada um pouco adiante da terminação de suas antennas. (Bates). Existe na America do Sul um pequeno coleoptero da familia das Hispides (grupo dos herbívoros) que se chama Ce- phalodonta Spinipes. E' um animal chato e largo, muito commum e que tem um cheiro desagradavel que o faz ser regeitado pelos carnívoros e pelos incectivoros. Serve de typo a dois outros insectos da familia dos longicornos, que perdem completamente, por esta imitação, o fácies geral do grupo a que pertencem ; são o Erythroplatis corralifer e o Streptolabis hispoides ; ao qual Bates que o descobriu deu um nome lembrando esta analogia. Um outro longicorno, o Poeciloderma terminale, da Jamaica, toma exactamente a côr de um Mollipenne do mesmo paiz per- tencendo ao genero Eycus. Um outro Mollipenne é também imi- tado por um longicorno de um outro genero, o Eroschema Po- weri. E' preciso acreditar além d'isso qne os Mollipennes têm uma protecção especial, porque são muito numerosos em especies e indivíduos e imitados muitas vezes pelos insectos dos outros grupos. E' assim que Wallace pretende ter encontrado em um Mollipenne uma especie da familia das Eucnemides, que lhe pa- recia exactamente pelo porte, pela côr e até pela fórma. Todos dois tinham o corpo de um bello .zul carregado e a cabeça de uma côr alaranjada. O mesmo autor refere que os passaros re- cusam comer certas especies de Malacodermos indígenas, os Te- lephorus por exemplo ; não haveria pois nada de admirar se as 32 especies exóticas fossem assim protegidas contra os carnivoros, pois que os insectos dos outros grupos tomam muitas vezes o seu aspecto. Faremos uma observação que vem ao apoio d'esta, maneira de ver : é um caso de mimetismo analogo entre um longicorno e um pequeno mollipenne vizinho dos Téléphoros. O longicorno é a Polyopsia proeusta, especie bastante commum na primavera e no verão nas cercas e o maladermo é a Rha- gonycha femoralis que se apanha em grande numero nos mesmos logares e na mesma epocha. Todos dois têm o corpo, o corsolete e a cabeça negros e os elytros amarellos. A polyopsia proeusta tem somente a extremidade d'estas sombreada em um pequeno espaço e mesmo esta linha escura é quasi indistincta em alguns individuos. Quando os recolhíamos juntos, como não se encontrava em geral senão algumas Polyopsias sobre uma grande quantidade de Rhagonychas, acontecia-nos quasi sempre na occasiãa confundil-os. Coleopteros protegidos de um outro modo são os Curculionideos. Estes devem a sua segurança, á espessura e á consistência de sua carapaça que os torna muito duros de se cortar e até se fende brusca- mente e se quebra sob a pressão se não tomarmos as precauções necessárias. Assim muitos longicornos assemelham-se a estes ani- maes. Bates refere ter encontrado no Brazil um longicorno o Acanthotribus dorsalis que se assemelha muito a um gorgulho do genero Heiliphus e um Gymnocerus que se encontrava na mesma arvore que um outro rliynchophoro do genero Cratosomus, ao qual se assemelha por tal fórma que elle lhe deu o nome de Cratosomoides. Um outro Anthriba, ou pelo menos um insecto de um genero vizinho (G. Ptychoderes) é também imitado por um longicorno, o Phallocera Batesii. Uma outra especie de An- thriba muito commum nas Ilhas Molucas é também imitada por um pequeno longicorno do mesmo paiz, o Cacia anthriboides, Os Anthribas são insectos vizinhos das brucas e dos gorgulhos. O Mecocerus gazella é um gorgulho commum ás Ilhas Molucas, que é imitado por um outro longicorno, o Capnolymma Stygium (Wallace). 33 Existem, segundo o mesmo autor, nas Ilhas Philippinas, gorgulhos de côres verdes com pontos escuros, bem conhecidos dos colleccionadores por- sua belleza e porte, os Pachyrhynchus, que parecem estar isolados ahi. Existe no mesmo logar um grupo inteiro de longicornos que imita estes gorgulhos de uma maneira curiosa. O nome de Curculionoides dado a um d'elles (Doliops) lembra esta particularidade. Um outro grupo de coleopteros muito imitado por espécies do mesmo genero é o dos Cicindeletos. Os Collyris (Lacordaire) são coleopteros pentameros da familia dos Cicindelos. São muito vizinhos do genero Cicindela de que se distinguem pela fórma da quarta articulação de seus tarsos. Elles são como os Cicindelos armados de mandibulas poderosas, de um carnívoro natural, de uma locomoção rapida. No mesmo paiz habita uma especie de longicorno muito raro, o Collyrodes Lacordairei, que toma exactamente a fórma e a côr do Collyris. Uma outra especie de Cicindeletos do genero Therates imita um Diversitarso descoberto por Wallace e que foi visto correndo em um tronco de arvore, habito commum entre os Therates. Emfim, para terminar estes casos de mimetismo entre coleopteros, citemos a imitação de um logicornio Àgnia fasciata, familia das Hypse- lonima, por um outro longicorno Nemophas Grayi, familia dos Eamiares. Estes insectos foram apanhados na mesma arvore morta em Amboine e eram tão semelhantes que se acreditou primei- ramente que elles pertenciam á mesma especie (Wallace). A sua côr é de um negro azul metallico com faxas fulvas. O segundo (N. Grayi) é o melhor armado, pertence a um grupo mais rico em especies e deve ser imitado pelo outro. Os coleopteros imitam também outros insectos. O Charis melipona da America do Sul recebeu este nome de sua semelhança com as Melipones, pequenas abelhas sem aguilhão, da America. N'este caso, o co- leoptero tem o thorax coberto de pellos como a Melipone, e para tomar a imitação mais perfeita, tem as patas posteriores munidas de umas especies de escovas, o que é unico na ordem 34 dos coleopteros. O Charis pertence além d'isso á família das Necydalidoe, que toda ella, por causa da ausência dos elytros e da persistência das azas membranosas se approxima bastante do aspecto geral dos Hymenopteros. Existem na Europa repre- sentantes do genero Necydalis, grandes insectos. que não têm relação com os Sirex. Os Molorchus, de menor porte e de côres mais sombrias se approximariam de preferencia de certos Ichneumonides. Finalmente, se sacudirmos as velhas cestas de vime, d'ellas saem muitas vezes nuvens de um outro insecto do mesmo grupo, Leptidea brevipeunis, cujos enxames lembram os das formigas que se deixam cahír aos bandos em algum logar depois de terem esvoaçado no ar. Outros longicornos imitam vespas e isso de um modo tão notável que seu abdómen sendo estreitado na base parece reunido ao thorax por um pediculo, como nas Vespides. Tal é entre outros o Odontocera odyne- roides que tem o abdómen listrado de amarello e preto e asse- melha-se por tal fórma a uma vespa do genero Odynére que Bates que refere o caso, diz ter hesitado em tomal-o. Uma outra especie de longicornos, o Sphecomorpha chalyboea, maior, assemelha-se ás grandes vespas de um azul metallico (Bates). Elle tem o abdómen pediculado. A imitação das côres das ves- pides se faz no maior numero das especies do genero Clytus, principalmente em muitos dos que habitam a Europa (Clytus detritus, C. arcuatus, C. arvicola, floralis, arietis, gazella, ver- basci, etc.) mas de um modo menos completo, porque n'este caso o abdómen não é pediculado. Entretanto a fórma allongada d'estes animaes, suas côres vivas, de listras alternativamente amarellas e pretas, fazem á primeira vista hesitar o entomologista. Varias especies de Oberea (genero de longicornos, família das Saperdidoe) assemelham quando vôam ás Tenthredines e algumas especies do genero Hestesis andejam nos bosques e são muito difficeis de se distinguir das formigas. Finalmente, ha longicornos da America do Sul que imitam os percevejos dos bosques ou Pentatomides (G. Scutellera). 35 O Gymnocerus capucinus toma o aspecto de uma scutel- leride, o Pachyosis Fabricii. Um outro longicorno do mesmo genero, o Gymnocerus dulcissimus assemelha-se ao mesmo grupo de hemipteros sem que se tenha determinado a especie que elle imita especialmente. Existem em França, nos departamentos proximos do Me- diterrâneo, longicornos que têm o aspecto exterior de uma aranha pelluda. São os parmena, familia dos lamiares. O corpo é grande, curto, reforçado. O abdómen é redondo e muito pelludo, o pro- thorax grande, a cabeça pequena, a côr escura de todo o corpo é disfarçada por pellos pardo-escuro. Estes animaes, ao contrario dos outros longicornos que têm em geral movimentos rápidos, são lentos e se deixam cahir dobrando as patas como a maior parte dos arachnides. Ha na França duas especies (Parmena Fasciata e P. So- lieri. A imitação é mais perfeita na Parmena Solieri. Orthopteros. Ha alguns casos notáveis de mimetismo entre os orthopteros. Um insecto da familia dos Scaphuros, o Condylodera tri- condyloides, das Ilhas Philippinas, é muito semelante a um Tri- condyla, genero de cicindeletos, para que um entomologista dis- tincto o tenha guardado por muito tempo em sua collecção confundido com esta especie sem reconhecer o seu erro (Wallace). Os Scaphuros são orthopteros da tribu dos Eocustios, cujo typo é o Scaphura Vigorsi. Habitam o Brazil ; a especie citada andeja ao longo dos troncos de arvores como os cicindelos e é muito rara em relação ao tricondyla. Bates encontrou também em Santarém, durante suas viagens de descobertas nas margens do Amazonas, um gafanhoto que imitava um coleoptero do ge- nero Odontocheila e vivia nos mesmos logares. Outros Scaphuros assemelham-se também aos Ammophilos, dos quaes são além d'isso a preza na America do Sul (Bates). Uma especie do genero Mantis assemelha-se também á Termite que lhe servia de alimento. 36 Hémipteros. A família dos Hémipteros é bem defendida pelas secreções odorantes que apresentara os seus representantes, assim citam-se poucos casos de mimetismo. Uma especie de Nepide, a Ranatra linearis, por sua fórma allongada, suas azas cobrindo o abdómen como ura tecto, porém em cima arredondado, sua côr amarellada, e por cima suas patas anteriores próprias para apprehender, offerece quando anda á beira das aguas em que elle habita ordinariamente, o aspecto de um indivíduo da família das Mantides, semelhança puramente fortuita sem duvida, porque o Ranatra é por si mesmo bastante armado. Diremos outro tanto da analogia exterior que existe entre os Cydnicoe, pequenos hémipteros heteropteros, de corpo ovalar sombrio e brilhante e a familia das Histerides. Finalmente certas especies de Hémipteros do genero Flata (familia das Fulgorides) são inteiramente comparáveis ás borbo- letas ; elles lhes assemelham, com effeito, por suas largas azas salpicadas. Nevropteros. Entre os nevropteros ha também alguns exemplos analogos : os Phry ganes, nos seus meios e suas côres, têm o aspecto de pequenas borboletas que esvoaçam á beira d'agua. As côres de suas azas se affastam das dos outros generos da mesma familia para se approximarem das dos Eepidopteros. O nome de borboletas e Mites aquaticus, que lhes dão muitas vezes os autores, explicam esta analogia. Ha na Europa um outro genero de Nevropteros que imitam alguns dipteros. Refiro-me ao Bittaco. A especie mais commum é o Bittaco ti- pulario (Bittacus tipularius) que attinge 25 mm. de comprimento. A' primeira vista, este animal assemelha-se exactamente a uma tipula, como indica o seu nome. Com effeito, elle tem as patas muito compridas e muito finas, o abdómen quasi linear, as azas estreitas e amarelladas. Seus hábitos e sua posição são também analogos. Elle se fixa por suas longas patas a algum ramo, e ahi fica sem se mover, apanhando na passagem os insectos de que faz sua preza. 37 Comprehendemos perfeitamente que sob a capa de um animal inoffensivo como a Tipula, o Bittaco possa se approximar mais dos insectos de que se nutre. Finalmente devemos dizer algumas palavras de um animal singular que experimentou, antes de ser classificado em sua ordem, as mais notáveis vicissitudes. Latreille creou para um animal encontrado por Geoffroy nos regatos dos arredores de Paris, o genero Prosopistome : diz clle, que sómente com os Limules, os Apus, os Argules podemos comparar o animal de que se trata. Elle o classificou entre os seus Crustáceos bran- chiopodes. Milne Edwards o classifica entre os seus Crustáceos sugadores. Este animal apresenta effectivamente como os Cru- stáceos, uma especie de escudo succedendo a cabeça sem prothorax. Joly demonstrou n'este animal a existência de trachéas e provou assim que era um insecto. Voyssier obteve sua transformação em nymphas de Ephe- meride. Temos pois n'este caso um exemplo de larva de Nevro- ptero assemelhando-se por tal fórma a um crustáceo que natura- listas como Latreille e Milne Edwards enganaram-se. Dipteros.- Os Dipteros apresentam de notável, sob o ponto de vista em que nos collocamos, que é a primeira ordem em que se descobriu um caso de mimetismo, o das Volucellas. Réaumur, Geoffroy tinham já desde muito tempo notado a semelhança d'estes insectos com certos Hymenopteros. O pro- fessor Kunkel de Herculais publicou um estudo sobre estes ani- maes (Recherches sur l' organisation et le developpement des Volu- celles, 1875}. As Volucelles, em estado de larva, são parasitas dos Hyme- nopteros. Assim, o insecto perfeito deve ir pôr seus ovos no ninho d'estes animaes. Para penetrar na habitação dos hyme- nopteros, elle é munido de côres mais ou menos semelhantes ás da especie que elle dizima, de maneira a não chamar a sua attenção. 38 Eis aqui, segundo Kunkel de Herculais, as relações que existem sob o ponto de vista parasitario entre as differentes especies: os ninhos da vespa commum occultani larvas de Volu- cella pellucens, inanis, e muitas vezes, mas sem duvida por accaso de Volucella Zonaria. Esta ultima se affeiçoaria parece sobretudo aos ninhos da vespa germanica e da vespa crabro. Outras Volucelles tomam o aspecto dos moscardos de que são parasitas. E' assim que a Volucella bombylans tem o corpo preto terminado por um feixe de pellos ruivos e assemelha-se ao Bombus lapidarius. A Volucella mystacea, por causa dos pellos amarellos do bordo do thorax e do primeiro annel abdo- minal e por causa dos pellos brancos da extremidade do abdó- men assemelha-se ou ao moscardo dos musgos (Bombus musco- rum) ou ao moscardo dos jardins (B. hortorum). A Volucella hoemorrhoidalis, com thorax de pellos ama- rellos, e abdómen terminado por pellos ruivos assemelha-se ao Bombus pratorum e ao Bombus lapidarius macho. Finalmente a Volucella inflata Fab que se assemelha a Volucella pellucens pareceria habitar o mesmo local que o Bombus terrestris. Não se está ainda bem de accordo sobre a questão de saber se as Volucelles só põem ovos junto das especies ás quaes se assemelham. Accrescentaremos além d'isso que na familia das Syr- phides muitos insectos parecem ter tomado o habito externo com listras amarellas que caracterisa as Vespides. Citemos entre outros o Oecoena conopoides, o Chryso- notum arcuatum e varias especies de Conops. Estes animaes são parasitas dos Hymenopteros e podem assim se approximar d'elles sem excitar desconfiança em razão d'este disfarce. Encontra-se a mesma semelhança entre Dipteros exoticos. Algumas grandes moscas do Brazil (Midas dives, Bates) têm as azas escuras e o corpo alongado azul metallico como os grandes 39 Sphex da Europa. Uma outra grande mosca do genero Asilus assemelha-se a abelha chamada Euglosas dimidiata. Todos dous têm as azas transparentes com listras pretas e a extremidade do abdómen de côr alaranjada. Elias habitam a America do Sul (.Bates). Na Europa existe uma especie de Bombylius muito seme- lhante a uma abelha. A familia das Asilides apresenta também em vários de seus membros, linhas amarellas sobre fundo negro. Citemos os Dasypogon, algumas Leptis, finalmente os Asilus dos quaes uma especie recebeu sob este ponto de vista um nome typico (Asilus crabroniformis). Finalmente alguns dipteros decahidos, perdem suas azas e tomam o aspecto de piolhos parasitas : por exemplo a Braula cocca, vulgarmente chamada Piolho de abelha. Outras, as Ny- cteribias, que vivem sobre os morsegos, assemelham-se por suas longas patas a representantes da classe dos Araclinides. Hymenopteros. - Os hymenopteros são os mais bem ar- mados da classe dos insectos. E' assim que muitas vezes servem elles de modelo e são muitas vezes imitados pelos de outras ordens, menos dotados em relação á defesa e ao ataque. Con- trariamente, só se tem observado entre elles alguns casos de mimetismo. Citemos em primeiro logar os Psithyrus. São hy- menopteros tão vizinhos dos moscardos que se os confundiu por muito tempo com elles, e que até hoje, é muito difíicil distinguir os machos dos dois generos. Estes Psithyrus vivem como parasitas sobre os moscardos como as Volucelles sobre as vespas. Tomam o aspecto da especie em que vão depôr seus ovos, de tal modo que a côr de um Psithyrus indica mais ou menos de que moscardo elle é parasita. As femeas dos Psithyrus se distinguem bem das femeas dos moscardos pela ausência de pellos nas patas posteriores, porém os machos só differem por gra- dações quasi imperceptiveis. O Psithyrus vestalis apresenta em 40 grande parte a coloração do Bombus hortorum. O Psithyrus rupestris a do Bombus lapidarius ; o P. campestris a do B. ter- restris. etc. Algumas abelhas, chamadas abelhas cucos, (genero No- mada) são parasitas de Hymenopteros do genero Andrena. Elias se assemelham ou ás vespas, ou aos Hymenopteros do genero Andrena (Wallace) Bates refere que encontrou nas margens do Amazonas um grande numero de abelhas cucos, assim como moscas cucos, isto é, indo depôr seus ovos no ninho de outras especies e todas tinham o aspecto particular das abelhas trabalhadeiras do mesmo paiz. Animaes inferiores Os Myriapodes têm um fácies por tal fórma especial que lhes é muito difficil imitar um outro animal. Assim não encon- tramos n'elles mimica propriamente dita. Quando muito poder- se-hia approximar d'estes phenomenos a semelhança perfeita que existe entre o genero Cloporte e o genero Glomeris. O Glo- meris marginado é muito commum na Europa e só se distingue dos Cloportes, assim como de outras especies do genero, por seu apparelho respiratório. Bates pretende sem citar exemplos precisos ao apoio de sua opinião que as aranhas da zona tórrida assemelham-se muito commummente a outros insectos e tomam attitudes estranhas e enganadoras. Existem, segundo Wallace,|nas regiões intertropicaes aranhas que se assemelham absolutamente a pequenas formigas de que se nutrem. N'estes últimos tempos, têm-se citado casos novos de mimica n'esta familia. Os Crustáceos nos offerecem alguns casos de mimetismo e imitam animaes marinhos os mais differentes. 41 Um crustáceo decapode macruro, a Galathéa spinirostris, habita também em uma Comatula da qual toma a cor o que lhe dá as mesmas vantagens. Um ultimo exemplo nos é fornecido pelos Anilocros (Crus- táceos Isopodes. São pequenos crustáceos que, sem sêr propria- mente falando, parasitas, se collam a pelle de um animal bem nadador, de um peixe em geral e suprem assim os meios de loco- moção que a natureza lhes recusou. Quasi todos, quando estão fixos em um peixe, sem que experimentem além disso nenhuma degradação, nem nenhum desenvolvimento regressivo, tomam como simples meio de protecção a côr exacta de seu hospede. Os Amphipodes offerecem também casos analogos. Durante muito tempo, baseando-se no aspecto exterior de certos animaes que vivem como parasitas nas fossas nasaes do cão e do cavallo, os anatomistas e o proprio Cuvier os tinham collocado no genero Toenia, (Toenia lanceolata). Van Beneden demonstrou que com o aspecto de Cestodes estes animaes são Helminthos. Ao lado d'esta semelhança pouco concludente veiu se collocar um outro exemplo mais notável. Os Epibdellos são animaes que têm mais ou menos um centi- metro de comprimento e uma fórma lanceolada. São munidos de ventosas que lhes permittem se fixar sobre a pelle de outros animaes e de alguma maneira, fazer corpo com ella. Encontra-se uma especie nos peixes chamados Flétans, uma outra no peixe chamado Peixe Santa-Virgem. O Epib- dello se cobre de manchas de maneira a assemelhar-se absolu- tamente ao peixe que escolheu para seu domicilio. A sua fórma os approxima já das grandes escamas do animal, e pouco importa o logai' que escolhe o parasita, por- que a côr do peixe (Scioena aquila) é a mesma nas costas e no ventre. Os mulluscos offerecem poucas adaptações perfeitas ás côres de outros animaes. Citemos entretanto uma Cyproea que habita em companhia do Pisa stya, um polypeiro de que ella toma a 42 côr. As Cyprooea são estes molluscos de casca salpicada, que se chamam vulgarmente Porcelanas. Muitas vezes a semelhança de um animal com os de uma outra classe depende do genero de vida que adoptou. Alguns Bryozoarios do genero Loxosoma tomam tão bem a apparencia externa dos vermes Trematodes, que se os tinha classificado entre estes últimos e que suas verdadeiras affini- dades só foram reconhecidas mais tarde. Um echinodermo o Hémieuryale impustulata (assignalado por Mobius) vive em um polypo do genero Vorucella (V. gua- dalupensis) e toma exactamente a côr de seu hospede. Entre os rotadores citemos o commensal da Nebalia de Geaffroy (crustáceo) de que falia Van Beneden e que, segundo este autor, em vez de ser um Histriobdello, como pretende Hesse, é um rotador qua teria tomado por imitação a apparancia d'estes animaes. A imitação não se limita muitas vezes só- aos animaes, mas se estende também a seus detritos. Alguns pequenos bu- prestides do Oriente repousam de ordinário na nervura mediana das folhas e assemelham por tal fôrma a pedaços de excrementos de passaros que o naturalista hesita em apanhal-os. Sidgwick (citado por Wallace) faz esta observação : Tomei mais de uma vez a Cilix compressa, pequena borboleta nocturna branca e cin- zenta, por excremento de passaro cahido em uma folha e vice- versa. Accrescentaremos que a mesma confusão seria possivel com muitos microlepidopteros da família das Noctuellas e das Pyralides, e que é muito difficil de distinguir também dos excre- mentos de lagartas ou de outros insectos, alguns pequenos li- gnivoros que são como cortados em angulo recto em suas duas extremidades. Os que nos pareceram mais notáveis sob este ponto de visto foram os do genero Hypoborus (H. ficús, da figueira, principalmente) e os do genero Phloeosinus que vivem em coníferas. 43 Depois de termos examinado e enumerado alguns d'estes phenomenos tomados mais ou menos em todos os grupos do reino animal, vamos vêr a que considerações geraes elles dão logar, e que explicações d'elles nos deram os autores. Leis do Mimetismo De todos os phenomenos de Mimetismo que observou, Wallace deduziu as tres seguintes leis : I. - Em uma grande maioria de casos de Mimetismo, os animaes ou os grupos qne se assemelham habitam a mesma região, o mesmo districto, e em muitos exemplos o mesmo logar. II.-As semelhanças não existem entre differentes animaes sem distincção ; ellas são limitadas a certos grupos que são, em todos os casos, abundantes em especies e em individuos e são muitas vezes providos de um meio de defesa especial bem obser- vado. III.--As especies que imitam estes grupos predominantes são comparativamente pouco abundantes em individuos e quasi sempre muito pobres. Pôde-se accrescentar uma quarta lei a estas já observadas e expressas por Wallace. IV.-Na immensa maioria dos casos, os animaes que imitam são fracos, lentos e desprovidos de meios de defesa effe- ctivos. Relativamente á quarta lei, vemos que os casos de Mime- tismo mais numerosos foram encontrados entre os lepidopteros ; as borboletas pelo seu apparelho maxillar transformado em trompa molle e flexível, por suas fracas patas de unhas microscópicas, por seu corpo pouco resistente e a delicadeza de suas azas, são os mais inoffensivos de todos os insectos. 44 Elles são além d'isso expostos a numerosas probabilidades de destruição e formam a base de nutrição de muitos insecti- voros. As intemperies de clima destroem também um grande numero d'elles, porque não têm como muitos outros animaes um abrigo para os receber; além disso, o tamanho de suas azas que constitue todos os seus meios de defeza difíiculta-os de se occultarem e os expõe mais a serem atacados. Assim, muitas especies devem sem duvida a sua existência a semelhança que têm com outros animaes mais fortes. Entre os coleopteros vemos que é a família dos longicornos que offerece quasi que exclu- sivamente os casos de Mimetismo que foram observados entre estes animaes. Assim os longicornos são os mais inoffensivos de todos os coleopteros. Muito poucos possuem secreções odorantes e todos são exclusivamente herbívoros. Além disso, a singularidade de suas fôrmas, o comprimento de suas antennas, o seu porte bastante considerável, a flacidez relativa dos tegumentos de um grande numero d'clles, os indi- cam naturalmente aos animaes insectívoros e augmenta muit^ as suas probabilidades de destruição. Por isso, o Mimetismo lhes é de grande utilidade. Nos reptis, é sempre entre as serpentes não venenosas que observamos casos analogos. E' pois entre os animaes mais expostos ás probabilidades de destruição que encontramos os casos de Mimetismo mais per- feitos e mais numerosos. Theorias e causas do Mimetismo O fim do Mimetismo é fornecer aos animaes imitadores, um meio de protecção de alguma sorte, objectivo, isto é, ou occultal-os á vista de seus inimigos, ou fazel-os passar por 45 sêres em estado de se defenderem ou impróprios de| serem devo- rados. Como puderam se produzir as especies imitadoras ? Para resolver esta questão é preciso primeiramente saber d'onde provêm as côres protectoras dos animaes, pois, os phenomenos de côr protectora, passam por transições por assim dizer, insensiveis, aos phenomenos de Mimetismo propriamente ditos que se po- deria chamar phenomenos de fórma e côr protectoras. A côr dos animaes é devida ao pigmento. O pigmento consiste em pequenas granulações de diversas côres situadas nas cellulas conjunctivas de differentes partes do corpo (cellulas pi- gmentares). Nos mammiferos, encontramol-as no tecido subarachnoi- diano, na pia mater, nas membranas do olho e na camada pro- funda do epiderma, onde ellas se formariam no Jogar segundo uns, provindo do ectoderma, onde segundo outros autores, che- gariam por migração depois de se terem formado a custa do mesoderma. Nos vertebrados inferiores, as cellulas pigmentares são mais numerosas e encontramol-as em toda a serie animal. Em alguns peixes, reptis, molluscos, estas cellulas adquirem um grande desenvolvimento ; chamamol-os orgãos pigmentares, mas têm a mesma origem e as mesmas propriedades que nos outros ani- maes, exageradas entretanto. Nos Cephalopodes, diz Pouchet (Changements de coloration sons l'iuflueiice des nerfs), os orgãos pigmentares são na origem, simples chromablastos analogos aos que se encontram nos molluscos e nas outras classes de animaes. Então, depois de se terem mostrado taes, na primeira edade, offerecem em seguida utn desenvolvimento extraordinário. Fun- ccionam por um mecanismo superior aos das outras manifestações habituaes da substancia sarcodica. Graças a elles, o Cephalopode não offerece mais estas lentas mudanças de colloração dos outros animaes. Elle se modifica instantaneamente, reveste seguidamente hábitos externos os mais diversos, a funcção chromatica enca- minha-se n'elle para uma especie de paroxismo. 46 Wagner demonstrou que as mudanças de coloração eram devidas a expansão ou a retracção successivas das cellulas de pigmento. Parece resultar das experiencias de Pouchet que o anima^ toma de si mesmo a côr do meio em que se acha. As obser- vações d'este autor sobre os peixes pleuronectos, sobre alguns crustáceos do genero Palemon, sobre os molluscos cephalopodes, assim como outras observações feitas depois no laboratorio de Roscoff, sobre os mesmos animaes, mostram que elles mudam de côr segundo a coloração do fundo sobre o qual os collocamos e procuram hàrmonisar o mais possivel a sua côr própria com a do meio. E' preciso para isso mais ou menos muito tempo segundo a funcção chromatica é mais ou menos desenvolvida nos animaes em experiencia. O habito parece além d'isso ter uma certa in- fluencia sobre a rapidez d'esta adaptação. Por conseguinte segundo a theoria de Pouchet e genera- lisando-a, todo o animal chegando em um meio de uma côr dada, harmonisaria tanto, quanto lhe permittisse a sua funcção chromatica, o matiz de sua pelle com a côr do meio em que se encontrasse. Uma observação feita em alguns insectos vem con- firmar esta maneira de vêr. Assim, Lefebvre refere que encon- trou, nos desertos do Egypto, uma especie de mantide aptera, a que elle denominou Erémiaphilo: «Porém o que me impressio- nava vivamente, accrescenta elle, era a mudança de coloração que observava n'estes insectos, conforme o terreno em que os encontrava e com a coloração do qual elles oífereciam a mais perfeita identidade, a tal ponto que eu só podia distinguil-os por seus movimentos no sólo que parecia desprovido de vida.» Parece effectivamcnte que os Erémiaphilos mudam de colo- ração, segundo a côr da areia que elles habitam. Cousa interessante, diz Maurice Girard, se furarmos os seus olhos, esta curiosa propriedade cessa immediatamente. 47 A luz tem também uma influencia sobre o desenvolvi- mento das côres. Os indivíduos que habitam as grutas (os in- sectos por exemplo) são translúcidos. As partes coloridas são sempre as que estão expostas a luz; nos passaros, por exemplo, a base das pennas é quasi sempre cinzenta. A theoria de Pouchet faz pois de algum modo appello á individualidade animal para explicar as mudanças de côr. Uma outra theoria que faz também representar um papel preponde- rante na actividade do animal é a de Wagner. Moritz Wagner insistiu principalmente na importância da segregação na formação das especies e o seu nome, assim como o de Lanessan que sustenta a sua doutrina ficará ligado a esta theoria do isolamento. Eis como Wagner explica o facto das côres protectoras : Todo o animal comprehende os perigos que corre na lucta pela existência e faz o possivel para se livrar d'elles. Também, um animal de uma côr dada, que habita um meio de uma côr inteiramente differente da sua, reconhece per- feitamente os perigos que o ameaçam, assignalando-se á attenção de seus inimigos. EHe põe-se então a caça de um meio favo- rável que possa disfarçal-o a seus olhos, que lhe permitta passar desapercebido, isto é, com uma côr analoga a sua. Assim se explicam as maravilhosas semelhanças de coloração entre o animal e o seu habitat. E' por isso que os animaes que offerecem os casos mais perfeitos de Mimetismo são também os mais inoffensivos. Ao contrario, um animal que tem com que se defender de seus ini- inig-os, não receia habitar um meio que trahisse a sua presença; pouco lhe importa porque tem pouco risco que correr. Assim a maior parte dos animaes munidos de côres bri- lhantes, são providos ou de poderosas armas offensivas e deffen- sivas, ou de secreções ou cheiros que os collocam ao abrigo dos attaques. Para confirmar a sua theoria, Wagner cita a obser- vação seguinte: «Qualquer quarto forrado de côres diversas pôde servir de logar de experiencia para o dito phenomeno. Se dei- 48 xarmos entrar n'elle lepidopteros diurnos e nocturnos recem-nas- cidos, de matizes differentes, não tardaremos a observar que cada um d'elles irá se collocar, com as azas curvadas, sobre as tapeçarias, cujas cores concordam com as suas.» Em summa, tudo se reduz para Wagner a um acto de migração, o insecto deixando o seu meio para tomar um mais de accordo com a sua côr. De outro lado, diz elle, todo o ser que por uma variação individual se affasta do typo normal de sua especie, deve deixar o habitat ordinário dos de sua raça e procurar um novo habitat mais de accordo com as suas proprie- dades. Assim se formam as differentes especies que apresentam o phenomeno da côr protectora pela reproducção em meios ad hoc de individuos apresentando predisposições especiaes. Quanto a razão das côres, Wagner não diz uma palavra; a sua theoria diz porque um animal que tiver uma côr exacta de uma casca, irá habitar esta casca, mas não diz d'onde nem como lhe virá esta côr. Taes são as theorias em que a reacção do animal sobre o meio representa o maior papel. Nas que vamos examinar, ha antes reacção do meio sobre o animal; o animal que era activo experimenta passivamente as suas transformações. A theoria de Wallace sobre a côr prote- ctora foi primeiramente formulada por Bates; é a seguinte : As côres dos animaes da mesma especie não são sempre as mesmas ; ha não sómente ligeiras variações sob o ponto de vista da côr, mas ainda consideráveis differenças. Ora, algumas d'estas gradações, tornam o animal mais apparente que alguns sêres da mesma especie, do mesmo modo que algumas outras o dissi- mulam melhor. «Um coelho branco, diz elle, é particularmente exposto aos attaques do Bussardo e do Gavião; uma toupeira ou um camondongo branco não escaparão ao mocho que os espreita; do mesmo modo um desvio do estado normal que tor- naria um carnivoro mais apparente, o collocaria em uma posi- ção desvantajosa o impedindo de perseguir a sua preza com a 49 mesma facilidade que os outros e em um caso de carestia, este inconveniente poderia causar a sua morte. Em compensação, se o animal se estende de um districto temperado a uma região arctica, as condicções se mudarão. Em uma grande porção do anuo, e precisamente aquella em que a luta pela existência é mais difficil, o branco predomina na na- tureza e as côres mais sombrias são as mais visiveis. As varie- dades brancas terão pois a superioridade, garantirão a nutrição e escaparão aos seus inimigos, ao passo que as variedades escuras serão destruídas pela fome ou devoradas. A regra sendo além d'isso que todo o sêr produz o seu semelhante, a raça branca se estabelecerá e tornar-se-ha perma- nente, ao passo que as raças escuras, se ellas reapparecem occa- sionalmente, se extinguirão logo. Em todos os casos, os mais aptos, sobreviverão, e com o tempo produzir-se-ha uma raça ada- ptada ás condicções que a cercam. « Eis porque methodo ao mesmo tempo simples e efíicaz, os animaes se põem em consonância com o resto da natureza. O gráo intimo de variação nas especies, que consideramos muitas vezes como uma cousa accidental, anormal ou muito insignifi- cante para merecer nossa attenção é entretanto o fundamento de todas essas analogias admiráveis ou harmoniosas, que representam um tão grande papel na economia da natureza. N'este caso o animal não intervem ; elle nasce de modo a resistir ou a succumbir, e conforme, em relação á côr, elle está mais ou menos em harmonia com o matiz do meio que elle habita, tem maiores ou menores probabilidades de sobreviver. E' um exemplo das vantagens da adaptação, o que Herbert Spencer chamou a persistência do mais apto. Uma outra theoria: defendida por André Murray (Les dc- guisements de la nature) afhrma que estas semelhanças são devidas a condicções semelhantes de nutrição e de circumstancias vi- zinhas, e até alguns pretendem que a côr de um animal provem muitas vezes da nutrição que elle absorve. 50 E' assim que vários insectos herbívoros deveriam a sua côr ás plantas de que se nutrem. Finalmente, uma ultima theoria é a da fixidez das espe- cies : os animaes foram creados desde a origem taes como os vemos hoje, e é pela vontade, pelo capricho do creador, que elles apresentam as cores com as quaes os vemos munidos, assim como as fôrmas que elles nos offerecem. Entre todas estas theorias, só nos deteremos nas tres pri- meiras. As duas outras effectivamente são fáceis de refutar. A theoria que quer que a côr dos animaes provenha de sua nutrição é evidentemente errónea. Temos de facto um grande numero de animaes de diversas côres que vivem da mesma planta. Finalmente é impossível explicar d'esta maneira as imi- tações mais perfeitas, as manchas, as misturas de côres, e prin- cipalmente a semelhança de animaes com os meios de que não se nutrem ; a da lagarta do salgueiro, por exemplo, que come as folhas d'esta arvore que zão verdes e assemelha-se á casca que é cinzenta. Quanto a theoria da creação, ella é incomprehensivel, é uma affirmação sem nenhuma prova em seu apoio, e finalmente admittir uma theoria semelhante, é fechar a porta a toda pes- quiza scientifica. As únicas theorias que merecem uma certa critica são as de Poucliet, de Wagner e de Wallace. A theoria de Pouchet faz representar o principal papel na actividade do animal. Está fóra de duvida, desde as experiencias d'este auctor que um certo numero de animaes pertencendo a differentes ordens na serie animal, têm a propriedade de modificar a sua côr e de adaptal-a a do meio ambiente. São, ou animaes de pelle núa como os Batrachios e os Cephalopodes, ou animaes cobertos de escamas. 51 Desde já vemos que esta tlieoria não póde se applicar nem aos mammiferos, nem aos passaros, nem aos articulados, nem aos molluscos de uma maneira geral porque estes animaes são revestidos de pellos, de pennas, de cliitina ou de saes cal- careos. Além d'isso, está longe de ficar demonstrado que todos os animaes tenham uma acção directa, por meio dos nervos sobre sua coloração própria ; alguns d'elles ficaram negativos a estas experiencias. Finalmente, não está demonstrado tampouco, que, se mesmo com um tempo bastante longo elles chegam a modi- ficar a sua côr exterior de uma maneira apreciável, elles possam por isso mesmo chegar a semelhanças tão perfeitas como as que consideramos aqui. Seria necessário, para que isso pudesse ter tido logar, admittir que estas influencias tivessem agido durante uma longa serie de séculos, e que só pela selecção, pela sobrevivência dos que se adaptassem melhor e mais rapidamente, que os descen- dentes d'estas especies apresentassem hoje uma imitação tão admiravel. Mas então cahimos na hypothese de Wallace que vamos examinar d'aqui ha pouco. A theoria de Wagner attribue ao discernimento do animal, a escolha de um meio protector para elle. Esta theoria não dá conta dos factos que ella queria explicar. A theoria de Wagner nos diz porque um animal que é da côr exacta de uma planta escolhe esta planta para n'ella viver, mas não nos diz d'onde lhe vinha primeiramente esta semelhança, e é isso justamente o que se trata de explicar. Além d'isso, é ainda absolutamente erroneo que o animal esco- lhesse o meio onde deve viver procurando tornal-o de uma côr analoga a sua. A experiencia que cita Wagner, dos lepidopteros diurnos e nocturnos encerrados em um quarto e que vêm se collocar nas tapeçarias cuja coloração se approxima mais da d'elles dá resultados muito negativos segundo experiencias posteriores. 52 Finalmente, uma ultima objecção a fazer á theoria de Wagner, é que ella não explica como o mesmo animal, transpor- tado de um meio para outro, toma a côr do novo meio em que se acha, depois de um certo numero de gerações e algumas vezes immediatamente. A theoria^ de Wagner, n'esta questão, da selecção dos meios pelos insectos deve, ser absolutamente regeitada. Vamos examinar a de Wallace que é pelo contrario a demonstração da selecção dos insectos pelos meios. A theoria de Wallace sobre as cores protectoras foi elabo- rada primeiramente por Bates segundo os exemplos que elle tinha encontrado em suas explorações nas margens do Amazonas. Ella baseia-se unicamente na selecção natural, os animaes melhor adaptados á cór do meio, tendo mais probabilidades que os outros de sobreviver e de perpetuar estes caracteres por he- rança. O numero dos individuos theoricos, possiveis, de uma es- pecie sendo maior que o numero real, d'aquelles só existem os que são melhor adaptados que os outros, e têm probabilidades de se reproduzirem. A theoria de Wallace foi adoptada e defendida por Darwin e reproduzida por Haeckel. Fizeram-lhe um certo numero de objecções, ás quaes os seus autores responderam victoriosamente. A primeira, a que foi feita por Mivart, baseia-se na própria variabilidade das especies. Segundo Darwin e Wallace, as variações se produzem ao acaso, em todas as direcções, quer sejam uteis ou prejudiciaes. Elles devem então, pelos cruzamentos, se neutralisar mutuamente, e não se explica, como pódem nascer d'esta variabilidade, especies tendo exactamente a côr do meio que ellas habitam, qualquer aperfeiçoamento sob este ponto de vista tornando-se assim im- possível. A esta objecção, Darwin respondeu com razão, que a variabilidade dava-se na origem em todas as direcções, que os individuos de uma mesma geração, tinham caracteres pessoaes 53 uns uteis, outros prejudiciaes, é verdade ; mas que todo animal apresentando um caso particularmente prejudicial para elle era levado a desapparecer bem depressa, em razão de sua inferio- ridade na luta pela existência. Por conseguinte as variações uteis se perpetuam sómente, e occupando o primeiro logar, a côr favoravel a dissimulação do animal. Uma segunda objecção era esta : na liypothese acima enunciada, a côr parecida com a do meio sendo uma condição de existência para a especie, como se explica que algumas es- pecies, mesmo as que não são carnívoras e que não têm armas naturaes, sejam munidas de côres vivas e brilhantes que os devam assignalar á attenção de seus inimigos. Darwin demonstrou que em algumas das especies de que se tracta, é sómente o macho que é ornado de côres vivas e que estas côres brilhantes dos machos lhes servem para attrahir as femeas e assegurar assim a reproducção da especie. Mas a explicação só era satisfactoria em parte, porque em muitas espe- cies os machos e as femeas são igualmente munidos de côres vivas e algumas vezes até encontram-se estas côres vivas em indivíduos sem sexo, que não estão em estado de se reprodu- zirem, as lagartas por exemplo. E' a Wallace que se deve a explicação d'este phenomeno. Elle demonstrou, com effeito, por experiencias numerosas e decisivas que os animaes inoffensivos e munidos de côres vivas tinham um meio de defeza occulto ou em um cheiro insupportavel, ou em secreções de máo gosto que os tornavam impróprios para comer áquelles que pudessem apanhal-os. Elle provou assim não sómente que as côres vivas d'estes animaes não lhes prejudicavam, mas ainda que ellas lhes eram uteis permittindo reconhecel-os de longe e de passar além sem os attacar. Ha entretanto casos em que especies absolutamente inoffen- sivas são munidas também de côres brilhantes sem apresentar apezar d'isso nenhum meio de defeza secreta. N'este caso as côres d'estes animaes assemelham-se mais ou menos a de outros 54 animaes, que são munidos d'estes meios de defeza, de modo a fazer beneficiar os primeiros da immunidade dos segundos. Estes exemplos entram precisamente na serie dos pbenomenos de Mi- metismo que vamos procurar explicar de accordo com o que têm dito os auctores. Depois de termos visto como se produzia a imitação da côr dos meios, quer mineraes, quer vegetaes, quer animaes, só nos resta para ter a explicação completa dos pbenomenos de Mimetismo, domonstrar como se faz a imitação das fôrmas. A mesma theoria explica muito bem este segundo phenomeno. Com effeito, em uma geração pôde se encontrar tal ou tal indivíduo que apresente de um modo mais ou menos grosseiro, a fôrma ou de um objecto inanimado, ou de um outro ser vivo. Mas esta semelhança grosseira basta muitas vezes no principio par^. garantir ao animal que a possue uma vantagem sobre seus congeneres. Por uma selecção continua esta semelhança, tem se affir- mado, se accentuado cada vez mais e chega assim a produzir os phenomenos dos quaes citamos exemplos tão curiosos. N'este caso estas mudanças de fôrma não podem ter logar em direc- ções quaesquer, pois que só as semelhanças com objectos ou animaes que não estão expostos a destruicção asseguram aos que os possuem uma vantagem assignalada. Toda a semelhança, não diremos sómente prejudicial, porém mesmo inútil, isto é, não podendo trazer para o seu proprietário nenhuma superiori- dade é destinada a desapparecer. Pelo contrario, toda a seme- lhança util é destinada a se perpetuar, pois que todos os ani- maes que a possuem têm muitas probabilidades não somente de conserval-a, mas de se reproduzir e de transmittil-a d'este modo a seus descendentes. Por outro lado, nos casos de Mimetismo bem observados, as especies imitadoras são pobres em indiví- duos, em relação ao numero dos representantes das especies imitadas. Comprehende-se perfeitamente a utilidade dTste phe- nomeno e Bates a demonstrou perfeitamente; mas poder-se-hia 55 perguntar porque especies ricas em representantes, porém com- pletamente inoffensivas e dizimadas por outros animaes não apre- sentam este phenomeno de Mimetismo. E' preciso considerar que o Mimetismo não seria n'este caso de utilidade alguma ; com effeito se um grande numero de animaes bons para serem comidos pelos carnivoros, se assemelhassem a outros que o não são, os carnivoros não deixariam de apanhar os primeiros, pois que encontrariam n'elles um alimento abundante, , porém, enga- nados pela analogia, fariam também caça aos que são sempre impróprios de serem comidos, regeitando-os em seguida. A theoria de Wallace dá igualmente conta dos casos em que a imitação é limitada ás femeas; ha diversos motivos: Em geral, os machos, como demonstrou Darwin, devem ser munidos de côres vivas se querem chegar a se reproduzir. Qualquer imi- tação de côres menos brilhantes lhes é vedada, porque, consti- tuindo desvantagem, ella não poderia se perpetuar. Além d'isso, os machos são geralmente mais fortes, mais robustos, mais ageis que as femeas, por conseguinte menos ex- postos a todas as probabilidades de destruição e qualquer disfarce lhes seria menos necessário que a estas. Emfim, a conservação das femeas, sob o ponto de vista da continuação da especie é muito mais importante que a dos machos. Assim, as probabilidades de supervivencia devem ser mais numerosas nas femeas e entre as primeiras probabilidades, deve-se citar o Mimetismo. E' pela mesma razão que as côres pallidas são mais numerosas nas femeas. Tal é a theoria de Wallace. Ella dá conta de um modo muito logico, muito satisfactorio para o espirito, dos phenomenos que estudamos. Assim, acceítamos inteiramente esta theoria, fazendo notar entretanto que muitos animaes favorecem a sua adaptação á côr do meio por modificações pessoaes na sua própria côr. A theoria de Wallace nos mostra a côr protectora se produzindo de uma maneira fatal, sem que o proprio animal possa favorecer ou im- 56 pedir esta adaptação. As experiencias de Pouchet nos demonstram pelo contrario que muitos animaes possuem esta propriedade. Mas se a theoria de Wallace nos dá conta dos factos de Mi- metismo propriamente ditos, é preciso não esquecer que ha na natureza, semelhanças que podem ser devidas a outras causas. E' assim que o desenvolvimento no mesmo sentido de orgãos similares, em vários animaes de classes differentes, lhes dá um certo ar de familia, desmentido aliás por todos os seus cara- cteres orgânicos. Citamos no curso d'este estudo a semelhança do Ranatra linearis com as mantides. Esta analogia vem primeiramente da fórma alongada d'este animal, differente da dos hemipteros em geral, mas principalmente da fórma de suas patas anteriores que se assemelham ás das mantides. E' uma semelhança da qual o animal não tira utilidade alguma, mas que provém sem duvida de que orgãos similares se modificarão de um modo analogo nos dois generos, para se adaptarem aos mesmos hábitos. Na mesma cathegoria de factos, faremos entrar o phenomeno de semelhança que existe entre os cetáceos e os peixes, semelhança que provém da adaptação dos dois grupos a um mesmo meio. Depois de todos estes factos, somos obrigados a concordar com o principio de Wallace : Os phenomenos da vida são, como os outros, sujeitos ao reino da lei. PROPOSIÇÕES PROPOSIÇÕES Historia Natural Medica I Em uma grande maioria de casos de Mimetismo, os ani- maes ou os grupos que se assemelham habitam a mesma rqgião, o mesmo districto e em muitos exemplos o mesmo logar. II As semelhanças não existem entre differentes animaes sem distincção; ellas se limitam a certos grupos que são em todos os casos, abundantes em especies e em individuos e são muitas vezes providos de um meio de defeza especial bem observado. III As especies que imitam estes grupos predominantes são comparativamente pouco abundantes em individuos e quasi sempre pobres. 60 Chimica Medica I O Mercúrio encontra-se principalmente em combinação com o enxofre, formando o sulfureto de mercúrio conhecido pelo nome de cinabrio. II E' o unico metal liquido nas condições ordinárias. III Diversos de seus compostos têm grande applicação em medicina. Anatomia descriptiva I O coração é o orgão central do apparelho circulatório. II No homem, como em todos os mammiferos, o coração occupa a parte média da cavidade thoraxica. III O coração tem a fórma de um cône achatado de diante para traz. Histoiogia I Os globulos vermelhos do sangue são discoides, bicon- cavos e não têm núcleo. II A agua pura descora-os. III A sua côr é amarello-alaranjado. 61 Physiologia I Dos tres ganglios intra-cardiacos, dois são motores e um moderador do orgão. II A acção moderadora do pneumogastrico provém de fibras de empréstimo oriundas do ramo interno do spinal. III O pneumogastrico encerra também fibras accelleradoras do coração. Bacteriologia I O pneumococus é geralmente envolvido por uma capsula. II Essa capsula é composta por uma paraglobulina. III Só este germen é capaz de produzir a pneumonia lobar franca. Matéria medica e Arte de formular e Pharmacologia I O limite de saturação é designado sob o nome de coeffi- ciente de solubilidade. II Um litro d'agua não póde dissolver mais de 40 grammas de acido borico em uma temperatura dada. III O airol é dotado de uma acção cicatrisante muito enér- gica. 62 Clinica propedêutica I A percussão é um bom meio para o exame do baço. II A melhor posição para se percutir essa viscera é a dia- gonal direita. III Quando á percussão associamos a apalpação, o exame é mais completa. Clinica Syphiligraphica e Dermatológica I O cancro é o accidente inicial da syphilis adquirida. II Anatomicamente, o cancro é um neopiasma tegumentar de superfície erosiva ou mais raramente ulcerosa. III Os cancros erosivos se curam mais depressa que os cancros ulcerosos. Anatomia e Physiologia Pathologicas I Thrombose é a obstrucção completa ou incompleta, em um indivíduo vivo, de um vaso por um coalho sanguíneo. II O mechanismo da thrombose é complexo. III Um certo numero de circumstancias são primeiramente causas que a favorecem. 63 Pathologia Medica I A Dyspepsia é um symptoma commum a um grande nu- mero de moléstias agudas ou chronicas. II Nos arthriticos e gottosos, as perturbações dyspepticas associam-se muitas vezes a congestão do fígado, a uma hyper- secreção da bile. III Estas perturbações hepatogastricas alternam muitas vezes ou coincidem com erupções cutaneas de fórma eczematosa. Pathologia Cirúrgica I O tétano é provocado pela penetração no organismo do bacillo de Nicolaier. II Os indivíduos apresentando ferimentos estão sujeitos a serem victimas d'elle. III O tétano agudo é quasi sempre mortal. Clinica Cirúrgica (2a Cadeira) I A Erysipela é uma moléstia microbiana. II E' sujeita a complicações. III O tratamento prophylactico consiste no isolamento dos casos de erysipela e no curativo antiseptico das feridas. 64 Clinica Ophtalmologica I Trichiasis é a implantação viciosa dos cilios, revirados para o globo occular. II Os cilios attrictando constantemente sobre a cornea acabam por alteral-a. III A trichiasis póde ser total ou parcial. Operações e Apparelhos I A trepanação do rachis póde se fazer sobre uma gotteira vertebral ou sobre as duas ao mesmo tempo. II A trepanação é unilateral ou mediana bilateral. III No primeiro caso applica-se uma corôa de um centimetro, no segundo de dois centimetros. Anatomia Medico-Cirurgica I Nos ferimentos por arma de fogo na caixa craneana, nunca se procura extrahir a bala, tendo penetrado. II As lesões dos centros nervosos, a hemorrhagia e a in- fecção são fataes. III A morte as mais das vezes dá-se por infecção ou meningo- encephalite. 65 Therapeutica I A pilocarpina extrahida do pilocarpus pinnatifolius, Jabo- randi, é muito empregada em Medicina. II O Jaborandi produz logo depois que é absorvido uma vaso- dilatação peripherica. III Parece indicado nos casos em que se póde .esperar um effeito curativo da provocação de uma abundante secreção salivar ou sudoral. Clinica Cirúrgica (1a Cadeira) I Os cálculos vesicaes formam-se pelas deposições dos saes da urina. II Póde-se extrahil-os ou pela lithotricia ou pela talha. III Esta póde ser perineal ou hypogastrica. Clinica Medica (2a Cadeira) I Os phenomenos allucinatorios são relativamente frequentes na choréa. II As allucinações da vista são as mais communs. III As do tacto., do ouvido, do olfacto e do gosto são muito raramente observadas. 66 Clinica Pedriatica I Os vomitos e a diarrhéa são dous symptomas precursores da enterite das creanças. II A diarrhéa verde das creanças se observa ás vezes nos hospitaes, em estado epidérmico. III A diarrhéa verde das crianças é vantajosamente comba- tida e modificada pelo acido láctico. Obstetrícia I O delivramento é constituído pelo segundo acto do parto. II Raramente póde se apressar a ruptura do bolso de agua. III A placenta previa constitue caso de dystocia. Hygiene I Poeiras atmosphericas são todos os elementos solidos que accidentalmente fluctuam na atniosphera. II Estes elementos, em grande abundancia, variam com o estado de maior ou menor seccura da atniosphera. III Após as chuvas os corpúsculos fluctuantes da atniosphera são precipitados no sólo. 67 Medicina Legal e Toxicologia I Aborto é a expulsão do elemento fecundado, antes de attingir a viabilidade. II O aborto póde ser ovular, embryonario ou fetal. III No aborto criminoso a mulher encontra, mesmo quando logre illudir a justiça, merecido castigo em suas consequências. Clinica Obstétrica e Gynecologica I A versão é uma operação que consiste em substituir uma apresentação por uma outra. II Tem como fim transformar a apresentação actual em outra mais favoravel ao parto. III Póde ser praticada por manobras externas, internas o.u mixtas. Clinica Medica 0a Cadeira) I Abstracção feita do coração, das serosas o do cerebro, os orgãos internos participam raramente do rheumatismo articular agudo. II A pneumonia lobar não se observa senão em casos parti- cularmente graves. III Ella tem de ordinário uma grande extensão e provoca uma dyspnéa considerável. 68 Clinica Psychiatrica e de Moléstias Nervosas I A hereditariedade mórbida tem a sua maior confirmação na alienação mental degenerativa. II A herança similar não é a mais commnm em relação a estas enfermidades. III A observação demonstra a maior importância da herança materna. BIBLIOGRAPHIA V. Beneden - Çommensaux e parasites. Darwin - Origine des espèces. Fredericq - Physiologie da Poulpe cominam. Murray - Les deguisements de la nature. Pouchet- Des changements de coloration soas rinflueuce des nerfs. Wagner - Formation des espèces par la segregation. Wallace- De la Selection Naturelle. Bates - The Naturalist on the River Amazons. VISTO. - Secretaria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 20 de Março de 1905.- Dr. Brito e Silva, Sub-Secretario.