/ í ' // / V (r» FACULDADE DE MEDICINA DO RTO DE JANEIRO jíTtóKígd ^T^' {F^- 1 IL JlL r^ V DO / Dr. Jonim Irá fle Ho 1886 DISSEETAÇÃO CADEIRA DE CLINICA OPHTHAMOLOGICA Irite — suas causas e tratamento PROPOSIÇÕES Três sobre cada uma das cadeiras da Faculdade THESES APRESENTADAS Á FACULDADE Dl MEDI» DO RIO Dl JâilItO Em 30 de Agosto de 1886 E perante ella sustentadas em 7 de Janeiro de 1887 (Sendo approvadas com distincção) PELO 3)r. loaquim üfao de lastro Natural da província do Rio de Janeiro RIO DE JANEIRO Typographia, lithographia e encadernação a vapor LAEMMERT Óc C. 71 Rua dos Inválidos 71 1886 FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO DIRECTOR. — Conselheiro Dr. Vicente Cândido Figueira de Saboia VICE-DIRECTOR. — CONSELHEIRO DR. ALBINO RODRIGUES DE ALVARENGA SECRETARIO. — DB. CARLOS FERREIRA DE SOUZA FERNANDES LENTES CATHEDRATICOS Os Illms. Srs. Das: João Martins Teixeira.........Physica medica. Augusto Ferreira dos Santos.......Chimica medica e mineralogia. João Joaquim Pizarro.........Botânica medica e zoologia. José Pereira Guimarães (Examin.).....Anatomia descriptiva. Conselheiro Barão de Maceió.......Histologia theonca e pratica. Domingos José Freire.........Chimica orgânica e biológica. João baptista Kossuth Vinelli......Physiologia theorica e experimental. João José da Silva..........Pathologia geral. Cypriano de Souza Freitas.......Anatomia e physiologia pathologicas. João Damasceno Peçanha da Silva.....Pathologia medica. Pedro Affonso de Carvalho Franco .... Pathologia cirúrgica. Conselheiro Albino Rodrigues de Alvarenga . . Matéria medica e therap,especialmentebraz.« Luiz da Cunha Feijó Jumor (Eximin.) . . . Obstetrícia. Cláudio Velho da Moita Mais......Anatomia topographica, medicina operaloria experimental, apparelhos e peq. cirurgia Nuno Ferreira de Andrade.......Hygiene e historia da medicina. Jusé Maria Teixeira.........Pharmacologia e arte de formular. Agostinho José de Souza Lima ...... Medicina legal e toxicologia. Conselheiro João Vicente Torres Homem . . • iclinica medica de adultos. Lomingos de Almeida M. Costa.....J Conselheiro Vicente Cândido Figueira de Saboia. í c,. . . j de adull0; João da Costa Lima e Castro.......( n Hylario Soares de Gouvèa (Pres.).....Clinica ophtalmologica. Erico Marinho da Gaija Coelho (Examin.) . . Clinica obstetrica e gynecologica. Cand do Barata Ribeiro........Clinica medica e cirúrgica de crianças. João Pizarro Gabizo.........Clinica de moléstias cutâneas e syphiliticas. Joào Carlos Teixeira Brandão.......Clinica psychiatrica. LENTES SUBSTITUTOS SERVINDO DE ADJUNTOS Os Illms. Srs. Drs.: Antônio Caetano de Almeida.......Anatomia topographica, medicina operaloria experimental, apparelhos e peq. cirurgia. Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro.....Anatomia descriptiva. José Benicio de Abreu (Examin.).....Matéria medica e therap. especialmente braz." ADJUNTOS Os Illms. Srs. Drs. ...............Chimica medica e mineralogica. ...............Physica medica. Franci..co Ribeiro de Mendonça......Botânica medica e zoológica. ...............Histologia theorica e pratica. Arlhur Fernandes Campos da Paz.....Chimica orgânica e biológica. Juão Paulo de Carvalho........physiologia theorica e experimental. Luiz Ribeiro de Souza Fontes.......Anatomia e physiologia pathologicas. ...............Pharmacologia e arte de formular. Henrique Ladislau de Souza Lopes.....Medicina legal e toxicologia. ...............Hygiene e historia da medicina. Francisco de Castro..........\ Eduardo Augusto de Menezes......fpiini«iim«Ji,.j».j 1. Bernardo Alves Pereira........í Clinica medica de adultos. Carlos Rodrigi.es de Yascuicellos.....1 Ernesto de Freitas Crissiuma......J Francisco de Paula Valladares......Inl. . . . . . , Pedro Setenano de Magalhães......> Clinica cirúrgica de adultos. Domingos de Góes e Vasconcellos.....] Pedro Paulo de Carvalho........Clinica obstetrica e gynecologica. José Joaquim Pereira de Souza......Clinica medica e cirúrgica de crianças. Luiz da Costa Chaves Faria.......Clinica de moléstias cutâneas e syphiliticas. Joaquim Xavier Pereira da Cunha.....Clinica ophtalmologica. ...............Clinica psychiatrica. jY.B. A Faculdade não approva nem reprova asopiniõeseiniUidasnasTliesesque lhe são apresentadas A's minhas irmãs Aos meus irmãos Aos meus parentes AOS MEUS MESTRES e especialmente aos Srs. CONSELHEIRO DR. ALBINO R. DE ALVARENGA DR. HILÁRIO SOARES DE GOUVÊA CONSELHEIRO DR. JOÃO V. TORRES-HOMEM DR. LUIZ DA CUNHA FEIJÓ JÚNIOR DR. ERICO MARINHO DA GAMA COELHO DR. JOSÉ PEREIRA GUIMARÃES DR. ANTÔNIO CAETANO DE ALMEIDA e suas Exmas. famílias. AOS DIRECTORES DA Casa de Saude N. S. d'Ajuda Os Illms. Srs. Drs. JOSÉ LOURENÇO DE MAGALHÃES D. DE ALMEIDA MARTINS COSTA E suas Exmas, famílias AOS COMPANHEIROS DE TRABALHO DA CASA Dl WIN. S. D'AD PHARMACEUTICO CARLOS FRANCISCO XAVIER EDUARDO FERNANDES DE MAGALHÃES BERNARDO RODRIGUES BASTOS LUIZ DE ALMEIDA MARTINS COSTA ANTÔNIO JOSÉ DE ARAÚJO COUTINHO 77 07 AO DISTINCTO ADJUNCTO DA CLINICA OPHTHALMOLOG1CA 0 Sr. Dr. J. I» F«tlr& da, Cunha e Sua Exma. família AO ILLUSTRADO CLINICO 0 SR. DR. V. R. BARBOSA ROMEU Aos meus compaieiros àe iiMo Ia clinica opltüaliloiica: Dr. Manoel Joaquim Corrêa Leal Júnior Dr. José Ferraz de Magalhães Castro e Suas Exmas. familias. A' SEXTA SERIE MEDICA DE 1886 AOS DOUTORADOS DE 1887 INTRODUCCÃO Interno que somos da clinica ophthalmologica desta Fa- culdade, esta circumstancia só por si explica perfeitamente a preferencia que demos a um assumpto deste ramo das scien- cias médicas para sobre elle dissertar. Assim procedendo, seja-nos mesmo dispensado justifical-o, não tivemos em mente offerecer um trabalho completo ou es- clarecer algum ponto obscuro da pathologia ocular, mas uni- camente registrar o resultado da nossa observação durante o espaço de tempo em que exercemos aquelle cargo. Occupar-nos-hemos da irite em geral e, com mais largo desenvolvimento, das suas causas, e bem assim dos meios the- rapeuticos que a pratica tem aconselhado como mais efficazes no tratamento dtquelle estado mórbido. E assim julgando fielmente interpretar o enunciado da nossa these, seguiremos neste nosso trabalho o seguinte plano: Em primeiro logar definiremos a irite e mencionaremos as suas diversas modalidades, segundo a moderna classifi- cação . Em seguida estudaremos os vários symptomas de que se reveste aquella entidade pathologica em cada uma das suas fôrmas. 1 1886—T — 2 — Em terceiro logar daremos os caracteres essenciaes da irite, caracteres que a distinguem dos outros estados pathologicos das membranas do globo ocular. Por essa occasião indica- remos as diversas circumstancias que podem influir favorável ou desfavoravelmente para a terminação da moléstia, e bem assim a marcha de ordinário seguida por esta. Depois de haver estabelecido os precedentes dados,entra- remos na indagação das causas pathogenicas da entidade mór- bida de que vamos nos occupar. E, conhecida a pathogenia da irite, estudaremos por ul- timo os recursos de que pôde o clinico dispor afim de satisfazer as indicações therapeuticas que soem ofíerecer as suas varia- das fôrmas. DEFINIÇÃO Designa-se em pathologia sob a denominação de irite o trabalho inflammatorio que se processa para o lado da iris. Confundido por muito tempo com outros estados inflam- matorios das membranas oculares, sob a designação de ophthalmia interna anterior, só em princípios do presente sé- culo é que na Allemanha e na Inglaterra foram feitos os pri- meiros estudos a respeito deste estado nosologico considerado como entidade mórbida distincta. Dahi em diante tornou-se este assumpto um dos de maior predilecção sobre o qual foram elaboradas importantes monographias, cujos autores tentaram apresentar uma clas- sificação que satisfizesse as exigências clinicas, alvo que só mo- dernamente pôde ser attingido. Os autores antigos procuravam classificar as fôrmas desta moléstia, baseando-se nos dados etiologicos, donde dividirem-na em: escrophulosa/ rheumatica, traumática, sypfálitica, tuber- culosa, leprosa, etc. Graves são os inconvenientes que apresenta a classificação assim fundamentada, não só pela grande confusão que dahi resulta em conseqüência de sua extrema diversidade, como também porque os caracteres fornecidos pela etiologia só por si não nos habilitam para assignalar com segurança a classe — 4 - a que deva pertencer cada uma das fôrmas da irite, por isso que o rheumatismo, a syphilis, os traumatismos, etc., podem, segundo o gráo de intensidade com que actuam, produzir não uma única, mas fôrmas variadas de inflammação. Mais modernamente, porém, baseados nos estudos ana- tomo-pathologicos consideram os autores apenas três divisões principaes, a saber : irite simples ou plástica, irite serosa e irite parenchymatosa, classificação que, mais do que nenhuma outra, offerece o verdadeiro cunho pratico. Assim a designação de plástica lembra a adherencia da iris á cristalloide anterior; a qualificação de serosa a transuda- ção cellular, e o termo parenchymatosa nos recorda a partici- pação do trama da membrana no processo inflammatorio. — 5 — Os symptomas da irite podem se dividir em objectivos e subjectivos. Os symptomas objectivos ou anatômicos da irite oíferecem em cada uma das suas fôrmas clinicas, que acima estabelece- mos, difFerenças notáveis no modo pelo qual se manifestam ; portanto, para que em sua enumeração possamos seguir com methodo, descreveremos separadamente os symptomas respe- ctivamente pertencentes a cada fôrma em particular. Na descripção dos symptomas subjectivos, porém, apre- sentando elles apenas modificações de intensidade, enume- ral-os-hemos englobadamente. symptomas objectivos.— Irite plástica.— O primeiro symptoma que impressiona o observador ao examinar um doente affectado de irite, é uma injecção perikeratica dos vasos scleroticaes, que manifesta-se mais ou menos pronunciada conforme a intensidade e a duração da moléstia. De cor rubro-vinhosa caracteristica, só não se mostra bem patente a injecção, quando a perturbação circulatória produ- zida pela inflammação é muito intensa, determinando edemacia da conjunctiva; observamos então que a sua cor é de um rubro amarellado e pouco pronunciada, 385827 — 6 — O empanamento do brilho do olho, que é o que logo depois attrahe a attenção, é determinado quer pela modificação de côr que soffre a iris, tornando-se pallida, quer pelo turvor do humor aquoso. A* primeira vista este estado pôde simular uma opacifi- caçâo da cornea, mas examinada esta membrana pela illu- minação oblíqua verificamos achar-se lisa, transparente e desprovida de rugosidades. O turvor do humor aquoso é determinado por flocos exsu- dativos que nelle sobrenadam ; outras vezes, por massas exsu- dativas mais ou menos consideráveis, que enchem e invadem toda a câmara anterior ; ou ainda por productos purulentos que se accumulam na parte que offerece maior declive. A quantidade de exsudato varia consideravelmente. Ainda outro característico da irite é a preguiça, a difíicul- dade com que se contrahe a iris e afinal a immobillidade que é determinada quer pela turgencia do tecido próprio, quer por adherencias parciaes ou totaes, que por meio de exsudatos que se depositam entre as bordas da pupilla e da cristal- loide, se estabelecem ; estas adherencias denominam-se sy- nechias. As synechias, quando parciaes, facilmente se rompem sob a acção da atropina ; porém quando são completas, ou quando em conseqüência da falta de tratamento se completam, tor- nam-se muito fortes e offerecem uma resistência algumas vezes impossível de vencer. As synechias são constituídas não por um tecido organi- eado, mas por uma massa amorpha, entremeiada de cellulas, algumas pigmentadas. Quando por meio da atropina conseguimos a ruptura das synechias, permanecem na cápsula cristalliniana depósitos pigmentados, que pouco a pouco se atrophiam, diminuem de — 7 — volume, deixando, porém, algumas vezes vestígios indeléveis da existência deste estado inflammatorio. O que se verifica também não raras vezes é que os exsu_ datos não se limitam a produzir a adherencia da iris, mas que, depositando-se no centro da pupilla, determinam a sua occlusão. ; Irite-serosa. — Convencidos out'rora os autores da exis- tência de uma membrana hyaloide que forrava como um sacco seroso as câmaras [anterior e posterior, consideravam esta fôrma de irite como o resultado da inflammação daquella mem- brana, donde as designações por elles admittidas de hydrome- ningite, aquo capsulite, descemetite. Modernamente, porém, considerando .como característico principal uma hypersecreção serosa, lhe deram a denomi- nação de irite serosa, expressão que, segundo o professor Wecker, deve ser eliminada da pathologia ocular, baseando-se este seu modo de pensar em duas razões, que por sua vez se fundam em estudos anatomo-pathologicos feitos por elle e nos que são devidos ao professor Knies. Em primeiro logar contesta que o elemento essencial desta variedade de moléstia seja uma transudação serosa e que semelhante inflammação de producto seroso não se poderia limitar somente á iris, á vista da connexão íntima que existe entre os vasos e o tecido da iris com as partes vizinhas. Aífirma, em segundo logar, que o producto inflammatorio é de natureza não serosa, mas essencialmente cellular ; que, originando-se dos lymphaticos do olho aquelle mesmo pro- ducto, de que se acha a iris secundariamente infiltrada, a irite serosa não é mais do que uma lymphangite anterior do olho, tendo por sede principal os lymphaticos pericorneanos. Sendo assim, parece não se poder de um modo absoluto admittir que possa existir isoladamente a inflammação da iris ^ 8 — sob esta fôrma, em conseqüência da communicaçâo directa que existe entre os lymphaticos das membranas oculares. E' esta uma questão muito con trovertida e que carece ser elucidada p or trabalhos anato mo-pathologicos mais po- sitivos. Apenas por falta de outro termo, que com mais proprie. dade designe esta fôrma de irite, conservamos a denominação de serosa, convindo não esquecer que se trata de uma lym- phangite anterior do olho com infiltração cellular da iris. A injecção perikeratica manifesta-se na irite serosa de um modo pouco patente e muitas vezes insignificante. Occasiões ha em que a inflammação se traduz apenas por imbibição serosa, edema da iris, ligeiro turvor do humor aquoso, e depósitos na membrana de Descemet, os quaes neste caso são muito pouco abundantes. Occasiões ha ainda em que mais grave se apresenta a irite ; a transudação torna-se fibrosa, tem logar a agglutinação da borda da iris á cristalloide, e a iris, quando a agglutinação de suas bordas é completa, em conseqüência da transudação disten- de-se, subleva-se, e as vezes mesmo rompe-se. A infiltração cellu- lar se mostra algumas vezes muito intensa ; os cortes desta mem- brana assim infiltrada apresentam o aspecto de uma ferida coberta de granulações. Semelhante infiltração pôde attingir um tal gráo de intensidade que o tecido da iris, despedaçado, par- ticipe também da inflammação. Em outros casos a irite serosa complica-se de numerosas extravasações sangüíneas que se combinam com uma exsudação fibrinosa ou gelatinosa, como mostrou Arlt. O que então se nota é que as hemorrhagias têm logar na intimidade do parenchyma da iris, ficando a parte liquida do sangue derramada na câmara anterior, ao passo que os ele- mentos cellulares ficam depostos na parte inferior da mesma — 9 — câmara, dissolvem-se e decompoem-se em duas camadas — ge- latinosa e fibrinosa. Quando esta fôrma de irite é intensa e persistente, vemos muitas vezes a cornea participar do processo inflammatorio por imbibição de seu tecido, dissociação dos elementos da camada epithelial e emigração dos elementos cellulares. Irite parenchymatosa. — O cunho característico desta variedade é a participação do parenchyma da iris no processo inflammatorio, participação que se revela por nucleação e pro- liferação, concomittantemente com uma infiltração cellular muito mais activa do que na lymphangite ocular. Aqui, como sempre, a anatomia pathologica não nos fornece dados precisos com que possamos de um modo abso- luto firmar os limites da fôrma parenchymatosa desta moléstia; entretanto a participação do tecido da iris imprime-lhe certos signaes que lhe são próprios. Produz-se em conseqüência da infiltração cellular um en- gorgitamento da iris, ora limitado, ora generalisado, o qual se manifesta de um modo muito mais pronunciado nesta fôrma do que nas anteriores. Quando limitado, o engorgitamento pôde determinar a formação de tumores isolados, como é observado nas varie- dades gommosa e tuberculosa. Quando generalisado, a iris parece pallida com manchas pigmentares isoladas, produzidas pela hypergenese das cellulas pigmentares do stroma. Na iris uma vascularisação apparente se manifesta, devida em parte á formação de vasos novos, em parte á perturbação da circu- lação ; e os vasos tortuosos e turgidos se mostram na superfície anterior da membrana. Constitue isto um symptoma caracte- rístico, que nenhuma das anteriores formas offerece. Predominando a infiltração das cellulas lymphoides sobre os resultados da invasão do tecido próprio, vemos ter então 2 1886—T — 10 — logar uma variedade desta fôrma, principalmente caracterisada pela suppuração; é a irite suppurativa. Quando assim se manifesta, a irite parenchymatosa pôde dissipar-se, desapparecer sem muitas vezes deixar vestígios ou lesão do trama da iris ; mas quando o gráo de entumescimento do trama é tal que pôde ter logar a abcedação, póde-se nestes casos observar destruição da parte assim compromettida. Analysando os diversos phenomenos mórbidos apresen- tados pela fôrma parenchymatosa, vemos que podem elles dar variadas feições a esta mesma affecção. Assim, da nucleação ou segmentação das cellulas do stro- ma da iris resulta a formação de focos, em que são encontrados nucleolos, reunidos por uma substancia inter cellular, e poucos elementos cellulares fusiformes; em período mais adiantado da moléstia se produz a transformação destes nucleolos em detrictos gordurosos e caseosos, que são reabsorvidos e dão logar a uma perda de substancia,conforme anteriormente vimos. A irite plástica pôde determinar a atrophia da iris; mas onde de ordinário é observada, e de um modo muito mais pronunciado, é na fôrma de que estamos nos occupando. Conjunctamente com a atrophia observou Arlt algumas vezes, nos casos de insulto grave, uma degenerescencia colloide da camada endothelial da iris, que se mostra sob a fôrma vitrea. A proliferação cellular, que, como acima dissemos, opera-se em grande copia, algumas vezes determina a agglu- tinação das bordas da iris á cristalloide anterior sob a forma de synechias pigmentadas, que immobilisam a pupilla. Ainda por vezes a proliferação cellular produz exsudatos, que se apresentam sob a fôrma de membrana, provida de vasos ; produz além disso massas cellulares pigmentadas, as quaes, quando se assestam no campo pupillar, dão em resultado a -- 11 — occlusão da pupilla, o que acarreta grave compromettimento para a visão. As adherencias de que acima falíamos não se limitam muitas vezes ás bordas da pupilla, mas estendem-se a toda a face posterior da iris, produzindo o que propriamente se chama synechias completas. A injecção perikeratica se mostra nesta fôrma de modo bem manifesto. A congestão conjunctival e chemosis também se apre- sentam como symptomas deste estado inflammatorio, que pôde se estender ás palpebras, tornando-as rubras, brilhantes e edemaciadas. Comquanto tenhamos admittido as três divisões da irite sob o ponto de vista anatômico—irite plástica, serosa e paren- chymatosa, comtudo estudaremos resumidamente as diversas modificações, que lhe imprimem a syphilis, o rheumatismo e a infecção blenorrhagica. Irite syphilitica. —A inflammação da iris, dependente de diathese syphilitica, pôde manifestar-se sob qualquer das fôr- mas acima descriptas, e, com mais freqüência, sob a da irite plástica. Nesta ultima fôrma nenhuma modificação vem reve- lar-nos o seu caracter especifico. Com effeito, os exsudatos fibrinosos sob a fôrma de membranas vesiculares, que esta algumas vezes apresenta ; a lymphangite do olho de que cos tuma complicar-se, a circumstancia de affectar a maior parte das vezes ambos os olhos, nenhum destes factos pôde caracte- risar a sua natureza diathesica, por isso que outras causas, que não a syphilis, determinam os mesmos phenomenos. E, como por esse meio não era dado fixar com segurança as bases do diagnostico, têm de ha muito os clinicos se empenhado na indagação de signaes pathognomonicos. As tentativas feitas até hoje neste sentido têm sido — 12 — infructiferas, de modo que permanece de pé a mesma hesitação acerca dos caracteres differenciaes da irite especifica. Assim, uns julgaram entrever nas differenças de colorido da injecção perikeratica esclarecimentos a respeito da origem especifica da affecção; outros em um annel azulado constituído pelo limbo conjunctival menos hyperemiado que o tecido epis- cleral, cuja côr contrasta com a das partes vizinhas nos indi- víduos de idade avançada ; outros emfim, na coloração cuprea que apresenta o pequeno circulo da iris. Mas o que podemos afürmar é que nenhum destes signaes possue valor real. Só o que nos pôde orientar a este respeito são os dados fornecidos pelo doente, os commemorativos a respeito dos an- tecedentes ou ainda o exame da garganta, da bocca,dos gânglios do pescoço e do braço, e ainda ò exame do corpo, afim de ver se existe ou existio alguma erupção suspeita. Em certos casos entretanto a irite syphilitica apresenta signaes especiaes que revelam a sua natureza. Assim é que, quando se manifesta no fim do periodo secundário ou no co- meço do terciarío, geralmente a irite se apresenta sob a fôrma parenchymatosa generalisada a toda a membrana ou limitada, tendo lugar neste caso a irite gommosa, que é acompanhada muitas vezes de alterações graves das membranas profundas. A irite gommosa é caracterisada pela mudança de côr em uma parte da iris, parte que se entumesce e cerca-se de vasos turgidos e tortuosos, que podem ser vistos por meio de uma lente. Estes pontos entumescidos se mostram sob a forma de no- dulos amarellados de aspecto semelhante ás gommas das outras regiões e contrastam vivamente com as outras partes da iris e são designadas com os nomes de vegetações, condylomas ou pústulas. Apresentam-se em numero variável, assestando-se de preferencia no quarto interno e superior da iris, razão pela — 13 — qual os antigos autores, entre elles Beer, estabeleciam o desvio da pupilla para cima e para dentro, como caracter pathogno- mico da irite especifica. Outras vezes o processo inflammatorio não se limita a pontos isolados; accommette a metade da iris e mesmo a totali- dade da membrana tem sido obervada como sede deste estado phlegmasico. Algumas vezes notamos o apparecimento de um hypopion durante a evolução da irite gommosa, o que dá lugar a que o confundamos com um abcesso da iris, pois este depo- sito de pús na câmara parece proceder das gommas que apre- sentam-se amarelladas, assemelhando-se a focos purulentos estabelecidos na iris. Estes pequenos tumores apresentam uma estructura aná- loga ás gommas das outras regiões. Para a determinação dessa estructura, ainda não tendo se offerecido occasião de, por meio da autópsia, recolher espe- cimens que pudessem servir para os estudos microscópicos desta producção mórbida, recorreram á excisão, no vivo, da parte da iris affectada. Esta excisão deve ser feita logo no principio da moléstia, pois que, em um período adiantado, a gomma já é sede de uma degenerescencia regressiva, que faz com que, quando se quer extrahi-la com a pinça, se desfaça entre os ramos desta e torne-se assim impossível a obtenção de um specimen para o estudo. E' assim que o Sr. Alfredo Graêfe obteve uma gomma de um caso importante de irite syphilitica e que servio ao Sr. Colbert * para seus estudos microscópicos, por meio dos quaes provou haver inteira identidade entre estes condylomas e os tumores gommosos. Verificou o Sr. Colbert que esse tumor compunha-se de elementos cellulares de nova formação * Archiv fuer Ophthalmologie t. VIU, parte I pag. 286, — 14 — e um grande numero de núcleos livres em uma massa blas- tematica, além de cellulas fusiformes dispostas em series lineares que provavelmente apparecem como vestígios dos vasos em via de formação. Os elementos do tecido não são encon- trados, mas unicamente aquelles a que acima nos referimos. Esta ausência dos elementos que constituem o trama normal da membrana manifesta-se por uma atrophia, no ponto em que se produzio a neoplasia determinada pela nucleação do tecido próprio e pela degenerescencia ulterior da gomma. Esta é a razão porque, quando nos referimos a esta fôrma, a propósito da irite parenchymatosa, dissemos que era a que menos se presta á reparação do tecido affectado. Havendo, pois, o Sr. Colbert estabelecido uma perfeita identidade entre a gomma da iris e a gomma cutânea, fica provado que podemos considerar a producção destes tumores como característico da especificidade da affecção. Este facto recebe na clinica o mais brilhante acolhimento, pois que, sempre que observamos indivíduos de idade adulta com estas produc- ções, verificamos por meio dos commemorativos ou pelo exame do doente a existência dainfecção especifica. A irite gommosa é própria da syphilis galopante ou ma- ligna e succede aos symptomas secundários, dos quaes ainda se encontram vestígios ao tempo da manifestação da irite. Irite rheumatica. — Estão actualmente os clínicos de accordo em attribuir á diathese rheumatica a irite, quando esta existe concomittantemente com o rheumatismo. O rheumatismo determina, na verdade, uma fôrma de irite plástica que, comtudo, não pôde ser considerada typo, porque o tecido episcleral manifesta uma episclerite genera" lisada ao redor da cornea, que constitue para esta fôrma um caracter próprio. Os symptomas da fôrma plástica em sua phase inicial não — 15 — se manifestam claramente; só depois de algum tempo é que os seus symptomas vão pouco a pouco se accentuando. As syne. chias da fôrma plástica produzida pela diathese rheumatica difíicilmente cedem á acção da atropina. Raramente, portanto, a irite de causa rheumatica se dissipa sem deixar adherencias. Sob a acção dessa diathese a irite segue uma marcha muito lenta, e muito demoradamente se desvanecem a injecção e o entumescimento do tecido episcleral que rodeia a cornea. O que é notável nesta variedade é a extrema facilidade com que, sob a acção de um resfriamento, ella reincide. E estas reincidências devem ser cuidadosamente evitadas, pois que determinam adherencias cada vez mais extensas entre as bordas da pupilla e a cristalloide, e desde que taes adherencias com- pletam-se, effectua-se a propulsão da iris para a cornea, e mani- festa-se o glaucoma, com tanto maior facilidade quanto o tecido sclerotical acha-se lesado em sua elasticidade e extensibi- lidade. Dizem os Srs. Wecker e Landolt que um olho exercitado pôde, mesmo nos casos de ha muito dissipados, reconhecer vestígios de focos de antigas episclerites, pela côr de ardosia da sclerotica. Irite blennorrhagica.— A irite blennorrhagica pôde ser considerada como uma localisação de um processo infeccioso, como se dá na articulação do joelho. E Lebert explica a manifestação do processo infeccioso nestes órgãos, admittindo que em uma blennorrhagía urethral se dê uma ruptura da mucosa, penetrem por essa viagermens microscópicos que levados pela torrente circulatória vão determinar este estado mórbido na iris e na articulação do joelho. A concomitante manifestação do processo nestes dous — 16 — órgãos explica-se pela identidade de estructura e distribuição dos vasos sangüíneos e lymphaticos. A infecção blennorrhagica não apresenta uma fôrma de irite bem definida. E' assim que se mostra sob a fôrma plástica, mas com uma certa tendência para lymphangite, isto é, um mixto de plástica e serosa. Alguns consideram esta fôrma como uma variedade da irite rheumatica, mas não só desapparece em pouco tempo, quando convenientemente tratada, como também apresenta uma fôrma plástica pouco pronunciada, tendendo para a lym- phangite, caracteres que a distinguem daquella fôrma. Igualmente apresenta a tendência para reincidências, po- dendo se processar mesmo quando não tenham do accometti- mento anterior resultado synechias permanentes. Quando a moléstia se acha entregue a si mesma e as reincidências se renovam muitas vezes, o caracter plástico torna-se mais pronunciado. Eis em poucas palavras o que podemos dizer acerca desta variedade. Symptomas geraes ou subjectivos . — Em qualquer das fôrmas de manifestação da irite o symptoma mais freqüente é a dôr. A principio, quando a inflammação acha-se ainda em seu inicio, os doentes apenas accusam sensação de calor, de peso e difficuldade de movimento do globo ocular. Mais tarde, porém, com o progresso da moléstia, sobrevêm aos doentes dores vivas e lancinantes intra oculares e circum-orbitarias, que exarcebam-se ao tocar. Outras vezes estas dores se propagam pelos ramos nervosos do quinto par, que torna-se sede de uma nevralgia intensa, que se estende muitas vezes ás gengivas e á metade da face e cabeça, reincidindo por accessos com uma periodicidade algumas vezes muito sensivel. As dores não se manifestam com igual intensidade nas - 17 - diversas fôrmas da irite ; em geral são mais vivas na irite parenchymatosa e na irite plástica do que na irite serosa e resultam provavelmente da compressão dos nervos ciliares pelo tecido hyperemiado e pelo exsudato. Emfim qualquer que seja a causa das dores, o que é certo é que, quando diminuímos por uma paracentese a pressão intra ocular, estas dores cessam bruscamente, reproduzindo-se logo o humor aquoso. Ha exacerbação das dores á tarde e á noite o que não constitue, como pretendeu Lawrence, symptoma próprio da irite syphilitica. Em toda a irite as dores ciliares são acompanhadas de photophobia e lacrimejamento que se acham em relação di- recta com aquellas, não se manifestando jamais as dores tão pronunciadas como nas keratites em que impedem muitas vezes o exame. A visão se acha mais ou menos perturbada o que depende do turvor do humor aquoso e dos exsudatos, que se antepõem ao campo pupillar. Esta perturbação pôde ser permanente ou passageira e variar de intensidade. Assim, algumas vezes os doentes accu- sam uma simples nuvem que torna a vista menos clara,outras, porém, o doente conta difíicilmente dedos a pequena distancia e pôde mesmo ser accommettido de perda.completa da visão. A permanência da diminuição ou perda da visão não re- sulta de synechias múltiplas que se tenham formado adherindo toda a borda da pupilla, mas, de exsudatos semi-transparentes pouco espessos que se depositam no campo pupillar. Muitas vezes entretanto podemos observar uma diminuição da agudeza visual que não se acha em relação com alterações impressas pelo processo inflammatorio; é, pois, indispensável explorar o fundo do olho com o ophthalmoscopio, pois muitas vezes essa diminuição depende de choroidites ou opacidades do 3 1886—T 18 — corpo vitreo, complicações muito freqüentes de certas fôrmas de irite. Os annexos do olho raramente soffrem a influencia da phlogose da iris; em alguns casos, quando a inflammação é muito viva, nota-se edemacia da conjunctiva bulbar, secreçao muco-purulenta do sacco conjunctival e excepcionalmente edema das palpebras. Aos phenomenos locaes se juntam muitas vezes pheno- menos geraes que variam com intensidade da moléstia. Nos casos benignos o estado geral não soffre a menor alteração,e o doente só percebe a manifestação deste estado mórbido pela deformação da pupilla e pela perturbação da visão. Em outros, porém, principalmente quando os indivíduos affectados são fracos e irritaveis, as dores provocam insomnia, manifesta-se uma reacção febril, anorexia, vômitos e até delírio. DIAGNOSTICO, PM» EIIIICIII Diognoitieo O diagnostico da irite é relativamente fácil, mas vamos em todo o caso mostrar quaes os signaes de que podemos lançar mão para distinguil-a das affecções das membranas vizinhas. Nos casos em que a injecção perikeratica attinge a um tal gráo que a conjunctiva bulbar se mostra rubra, congestio- nada, póde-se á primeira vista confundir o estado inflammatorio dairis com uma conjunctivite. Mas differenciam-se pelo se- guinte: a iris apresenta-se com alteração de côr na irite e norma na conjunctivite; a secreçao das lagrimas acha-se augmentada em ambos os casos, mas na conjunctivite as lagrimas se acham de mistura com a secreçao catarrhal; as dores são mais intensas e lan- cinantes na irite ; emfim a adherencia da iris á cristalloide vem affastartoda e qualquer duvida. Mas além daquelles signaes um outro existe, e o mais importante, que nos leva de prompto ao diagnostico; vem a ser a differença de côr da injecção, que na conjunctivite é rubra, verdadeiramente côr de sangue, devida a turgencia dos vasos da conjuntiva, e na irite é de côr vi- nhosa determinada pelo embaraço opposto ao curso do sangue nos vasos sub-conjunctivaes ou scleroticaes. - 20 - Para chegar á determinação dos vasos que se acham turgidos e que concorrem para a manifestação deste estado, podemos nos utilizar da differença das cores que elles apre- sentam, e bem assim da mobilidade ou immobilidade dos mesmos, quando com a palpebra ou por qualquer outro meio fazemos deslizar a conjunctiva sobre o globo do olho. Por meio das cores verificamos que em um caso é rubro- sanguinea e em outro é rubro-vinhosa. Ora, sabendo nós que a côr rubra se decompõe quando vista atra vez de uma membrana, chegamos á conclusão de que, em um dos casos figurados, trata-se de vasos superficiaes, que são os da conjunctiva, e, no segundo, de vasos profundos situados por baixo da conjunctiva, que são os da sclerotica. Quando mesmo a côr não nos sirva para adquirir um gráo de certeza absoluta, podemos, deslizando a conjunctiva sobre o bulbo, vêr que umas vezes os vasos movem-se acompa- nhando a conjunctiva, e que em outros não soffrem abalo, verificando-se assim se a perturbação da circulação é devida á conjunctiva ou á iris. Ainda póde-se confundir a irite com a inflammação da cornea, e se neste caso não podemos somente pela injecção distingui-las, pois nas affecções profundas da cornea também tem logar a perturbação da circulação dos vasos scleroticaes, podemos no entretanto por meio da illuminação oblíqua verificar se a cornea se acha transparente, polida e despro- vida de rugosidades. Quando este phenomeno se dá, depre- hende-se logo que a causa da perturbação circulatória não provém de inflammação da cornea, mas da iris. Concluindo, vemos que os dous signaes diagnósticos mais importantes são a injecção sub-conjunctival e as synechias, — 21 — Prog&o-atleo A irite, de todas as affecções oculares, é talvez aquella que sob a acção de um tratamento racional permitte um pro- gnostico mais favorável. Se assim acontece quando a therapeutica é criteriosamente dirigida, o mesmo não tem logar quando esta não se acha de accordo com os sãos princípios estabelecidos pela experi- mentação clinica. Em conseqüência da variedade de fôrmas anatômicas de que se reveste esta entidade mórbida, variedade que influe poderosamente no juizo prévio que possamos formar acercadas circumstancias que modificam favorável ou desfavoravelmente a irite era si mesma ou em sua duração, entendemos que para maior clareza de exposição devemos destacar o prognostico relativo a cada uma daquellas fôrmas. Irite plástica.—Relativamente ás outras fôrmas admit- tidas, esta é a que se reveste de menor gravidade. Quando se offerece á observação um caso de irite plástica em seu começo, embora os symptomas que apresenta se mani- festem com caracter agudo, podemos formar um juizo muito favorável, desde que ainda não se tenham estabelecido adhe- rencias entre a borda da iris e a cristalloide anterior, ou, no caso de serem estas recentes, possam ser facilmente destruidas pela atropina. Nestas condições, a moléstia cede rapidamente, sem conseqüências que perturbem a integridade do globo ocular e da respectiva funcção. Quando encontramos formadas numerosas adherencias resistentes á acção dos mydriaticos, menos favorável é o nosso juizo, por isso que, sem o devido tratamento, e em conseqüência — 22 — de posteriores accessos, dentro em pouco as synechias se formarão em toda a borda pupillar. E bem grave se torna o diagnostico, si se estabelecem as synechias em todo o perímetro da pupilla, porquanto dahi resultam compromettimentos graves da nutrição do olho, mani- festação de irido-choroidite e por fim a atrophia do globo ocular. Occasiões ha em que os exsudatos collocam-se por diante da pupilla, determinando a sua occlusão. Si isto nenhuma influen- cia exerce sobre a nutrição do olho, o mesmo não se dá quanto ao seu funccionalismo, por isso que os exsudatos impedirão a passagem dos raios luminosos, obstáculo que só pôde ser remo- vido por meio de uma operação. Admittem muitos ophthalmologistas que as synechias concorrem para a reproducção da irite plástica. Pensam outros, ao contrario, e entre estes o professor H. de Gouvêa, que só devemos attribuir a reincidência desta fôrma de irite a uma causa diathesica. Para assim se exprimir, baseam-se os sectários da causa diathesica das reincidências em que muitos doentes apresentam numerosas synechias sem que nelles se observe a reincidência; succedendo também que algumas vezes reincide a irite plástica sem que existam synechias. Expondo factos idênticos de sua clinica, tivemos occasião de ouvir do professor da cadeira de clinica ophthalmologica a affirmativa de que sempre conseguira debellar as reincidências desta fôrma de irite por meio de um tratamento de ex- tincção. Irite serosa. — O prognostico da irite serosa é, na maioria dos casos, apparentemente benigno. Si considerarmos porém, nas complicações que soem sobrevir durante a sua marcha, veremos que torna-se grave. — 23 — Com effeito. A pouca intensidade da injecção perikeratica, a ausência de synechias, a cessação mais rápida nesta do que nas outras fôrmas do estado inflammatorio sem deixar traços de sua passagem, a mais fácil reparação do tecido da iris, todos estes factos concorrem para que formemos a respeito da terminação desta fôrma da irite, um juizo favorável. Mas a par destas, outras circumstancias tornam o pro- gnostico grave, como sejam : o accumulo de cellulas na zona de filtração do olho, produzindo fluctuações na pressão intra- ocular e consequentemente o glaucoma ; as complicações de sclerose corneana e de sclero-choroidite anterior, devidas á in- filtração cellular nas partes vizinhas da cornea e da sclerotica, e a tendência a propagar-se ás partes profundas, deter- minando como conseqüências irido-choroidites e irido cyclites serosas. Casos ha, em menor numero, em que na realidade o prognostico da irite serosa é benigno. Assim devemos consi- derar quando observarmos uma simples imbibição serosa, um edema da iris com ligeira infiltração do seu trama e depósitos raros sobre a membrana de Descemet, porquanto dentro em pouco será reabsorvido o producto seroso, tendo logar ao mesmo tempo a reabsorpção das cellulas a que se acha infil- trado o trama da iris, observando-se em seguida o desappare- cimento do edema e da infiltração, e consequentemente a cura do doente. Si, como vimos, grave é o prognostico da irite serosa, em virtude das complicações a que dá origem, mais grave ainda não podemos deixar de julgal-o, quando o producto inflam- matorio, de ordinário seroso, se manifesta com caracter fibroso, produzindo-se assim uma fôrma mixta. Neste caso observamos a formação de synechias, cujas conseqüências, já por demais graves em si mesmas, vêm se — 24 — juntar ás complicações sobrevindas em razão da própria na- tureza da moléstia. Occorre mais algumas vezes que a infiltração da iris tem logar«tão abundantemente que a iris se despedaça e o seu tecido participa do estado inflammatorio por proliferação. Em taes condições não podemos esperar obter, como nos casos simples, uma reparação completa do tecido affectado e devemos consi- derar grave o prognostico. Irite parenchymatosa. —E'esta a fôrma que offerece prognostico mais grave, e, para justifical-o, lembraremos que é nella que observamos a mais profunda alteração do tecido da iris. Apezar disso, porém, attendendo ás varias gradações que pôde apresentar a gravidade do mal, ainda podemos considerar mais ou menos grave o seu prognostico, conforme o caracter predominante em cada caso desta fôrma de irite. Assim, na irite suppurativa aguda, variedade da forma parenchymatosa em que a inflammação do tecido próprio é pouco activa e a infiltração cellular muito abundante, vemos em geral dissipar-se este estado, sem occasionar alteração do trama da iris. Indubitavelmente, dentre os casos em que o parenchyma da iris é compromettido pelo trabalho inflamma- torio, este é o que se nos affigura menos grave, devendo também assim ser considerado o seu prognostico. Cumpre desde já, no emtanto, resalvar o caso especial e pouco freqüente em que a iris abceda-se e destroe-se simulta- neamente com todo o globo ocular (Arlt), caso em que é gra- víssimo o prognostico. Na irite gommosa caracterisada principalmente pela nu- cleação das cellulas da iris, observamos a degeneração dessas cellulas que são reabsorvidas, dando logar a uma perda de substancia do tecido próprio da iris. E' esta a variedade da — 25 — irite parenchymatosa em que mais pronunciadamente se dá a atrophia da iris, e por todos estes motivos aquella, cujo pro- gnostico é mais grave. Marcha A duração da irite depende do estado agudo ou chronico em que se acha a moléstia. Algumas vezes, no primeiro caso, mesmo sem a admimV tração de medicamento algum, a irite, depois de attingir o gráo mais elevado de intensidade, desapparece no fim de 2 1/2 a 5 semanas; no segundo caso, si bem que o estado inflammatorio seja pouco pronunciado e pouco visível, comtudo permanece durante mezes e mesmo annos. No estado agudo, quando chega a inflammação da iris ao maior gráo de intensidade, si o doente não houver sido sub- mettido a uma medicação racional, formar-se-hão rapidamente as synechias, que multiplicam-se a ponto de interceptar a com- municação entre as câmaras anterior e posterior ; em conse- qüência disto os líquidos accumulam-se por detraz da iris, a qual, destendida, toma a fôrma de funil. Dahi resulta o ap- parecimento de uma irido-choroidite, que por sua vez deter- termina a atrophia do globo ocular. Ao contrario, quando uma therapeutica conveniente é posta em pratica, a irite modifica-se promptamente, como não nos é dado mesmo observar em outra qualquer affecção ocular. Os symptomas se manifestam então com as seguintes modifica- ções : a injecção conjunctíval torna-se menos pronunciada e desapparece ; a côr da iris torna-se normal ; o humor aquoso e a cornea recuperam a sua transparência e as synechias deixam de se estabelecer ou rompem-se, quando recentes e fracas, sob a 4 1886—T — 26 — acção da atropina. Outras vezes, porém, este mydriatico ap- plicado, quando as synechias se acham consolidadas, torna-se impotente. Destruídas as adherencias, encontram-se na cápsula traços de sua existência representados por pequenos depósitos pigmentares, sob a forma circular, mas que podem depois de algum tempo desapparecer completamente. A marcha da irite depende muito da fôrma de que se reveste a moléstia, assim como das alterações motivadas por ella e existentes por occasião de ser iniciado o seu tratamento. Assim a irite serosa, comquanto de marcha lenta e rebelde ao tratamento, desapparece muitas vezes sem deixar traços, e presta-se mais que qualquer das outras a uma reparação perfeita dos tecidos. A fôrma plástica, si bem que mais fácil de ser debellada, deixa comtudo muitas vezes synechias e não se presta á per- feita reorganisação do tecido affectado. A fôrma parenchymatosa é a que deixa alterações mais graves e é raro terminar espontaneamente. A irite serosa, quando complicada de symptomas de irite plástica, persiste por longo tempo, a menos que não seja empregado um tratamento muito enérgico e prolongado. ETIOLOfilA Importante é o estudo das causas productoras do estado inflammatorio da membrana iris. Dividem-se em causas predisponentes e determinantes. No primeiro grupo acham-se: a idade, o sexo, a consti- tuição e o temperamento. As causas comprehendidas no segundo grupo subdividem- se em primitivas e secundarias: na primeira subdivisão in- cluímos as diatheses e na segunda os traumatismos e a influen- cia exercida sobre a iris pelo estado mórbido das membranas vizinhas. Passaremos em revista o valor de cada um desses elemen- tos na constituição mórbida da irite. Causas predisponentes . — Idade. Si bem que possa se manifestar a irite em qualquer idade do indivíduo, desde os primeiros dias de sua vida extra-uterina até a velhice, comtudo é mais freqüente dos vinte aos quarenta annos. Na infância a irite é primitiva ou secundaria. No primeiro caso pôde ser considerada, segundo os oph- thalmologistas inglezes, como manifestação de syphilis heredi- tária, o que é confirmado pelo apparecimento de symptomas característicos, como pemphigus etc. No segundo caso é considerada como conseqüência da conjunctivite purulenta dos recemnascidos ou de uma inflam- mação das camadas profundas da cornea, — 28 — A observação nos ensina que a idade adulta é aquella em que com mais freqüência se manifesta a irite, o que encontra explicação na circumstancia de achar-se o indivíduo mais exposto á influencia das varias causas determinantes de que adiante fallaremos. Considerando agora a velhice, cumpre reconhecer que se nenhuma influencia directa esta idade do homem exerce na manifestação da irite, indirectamente ella concorre para que se produza esse processo inflammatorio. Com effeito, é na ve- lhice que se observa com mais freqüência a formação de ca- taracta, estado que reclama a pratica de uma operação da qual resulta algumas vezes a irite. Sexo. —Arlt, de Ammon,Ruette e de Hasner affirmam que a irite accommette mais freqüentemente os indivíduos do sexo masculino. Apezar de ser da mesma opinião, de Wecker observa que nos indivíduos de idade inferior a 20 annos é mais freqüente a irite nos do sexo feminino. Attendendo a que a enfermaria da clinica ofücial é uni- camente destinada a indivíduos adultos do sexo masculino, im- possível nos é apresentar um estudo comparativo da freqüên- cia da irite em cada um dos sexos e nas diversas idades. Constituição e temperamento.— Como em toda a inflam- mação, são os indivíduos de constituição fraca e temperamento lyniphatico aquelles que se achão mais predispostos á invasão da moléstia, facto perfeitamente explicável pela menor resis- tência que offerece a iris á influencia das causas determinantes. Causas determinantes.— Primitivas, Seguindo a clas- sificação que adoptamos, em favor do methodo necessário em trabalhos deste gênero, vamos entrar no estudo das diatheses que concorrem mais ou menos directamente para a producção da irite. — 29 — Diathese syphilitica.— E' facto geralmente sabido que a infecção syphilitica é freqüentes vezes seguida de inflam" mações localisadas em differentes partes do corpo. Semelhantes phlegmasias ora apresentam uma fôrma simples, ora hyper- plasica, ora são caracterisadas por neoplasias cellulares deno- minadas tumores gommosos. O globo ocular é uma das partes de preferencia affectadas por essas producçôes diversas, cuja sede mais habitual é a iris. Acreditamos ficar assim claramente explicada a influencia da syphilis na manifestação da irite. Para comprovar esta etiologia da irite, quando ella se ma- nifesta sob a fôrma de inflammação simples ou hyperplasica, não podemos nos utilisar de caracter algum apresentado por esta lesão. Já vimos que neste caso devemos dar toda a impor- tância a anamnese e ao exame do estado geral do doente. O mesmo não acontece quando tratamos da inflammação da iris, a qual é caracterisada por neoplasias cellulares (tumores gommosos) e denominada irite gommosa, porque taes producçôes revelam a especificidade de affecção. Por demais freqüente é esta manifestação ocular da syphilis, e, se confrontarmos o numero dos affectados de irite attribuida ás varias causas admittidas, veremos que avulta o dos affectados de irite especifica. Em verdade, os professores de Wecker e Landolt* obser- varam na sua clinica, em 100 indivíduos em que se mani- festara a irite, 60 a 70 que apresentavam manifestações syphi- liticas. O Sr. Dr. Drognat Landré, em uma memória que sobre a irite syphilitica publicou nos Annales d'Occulistique (1875), diz haver observado em 100 dos seus doentes 74, nos quaes * Traitéd'Ophthalmologie. Paris 1886 t. 2o pag;{ 299. - 30 — a natureza syphilitica da irite estava perfeitamente provada; em 20 °/o era incerta, por falta de dados, a syphilis, o que no emtanto era muito provável, considerando os symptomas espe- ciaes anteriores á irite ou coexistentes com a sua manifestação ; que em 6 % não era possivel excluir a syphilis de um modo absoluto. A irite syphilitica ou coincide com as manifestações se- cundarias da syphilis, apresentando na maioria dos casos a fôrma plástica, ou manifesta-se posteriormente e no começo do período terciarío, revestindo-se da fôrma parenchymatosa (irite gommosa). Diathese rheumatica.—Entre as causas da irite occupa esta diathese posição saliente, por isso que, segundo os profes- sores de Wecker e Landolt, a quasi totalidade dos 30 a 40 °/0 das irites reconhecidas como especificas são determinadas pela dyscrasia rheumatica. A observação tem demonstrado que grande numero dos individuos accommettidos de irite chronica accusam dores rheumaticas musculares ou articulares, e que como estas a irite rheumatica manifesta-se por accessos em conseqüência das mesmas causas que o rheumatismo, o resfriamento, etc. Como já ficou dito, a irite rheumatica não affecta uma fôrma característica, e, como para a irite de causa syphilitica os autores em vão têm procurado descobrir symptomas pró- prios, que a caracterisem. Assim pretenderam considerar a nflammação exagerada do tecido episeleral, produzindo um a injecção pericorneana violacea, eo edema das palpebras coino isignaes pathognomonicos. Comquauto tenham os autores observado a relação que existe entre a irite e o rheumatismo, °omtudo ainda não puderam explicar a condição de depen. encia da irite em relação á dyscrasia rhe\xmatica. — 31 — DlATHESES : ESCROPHULOSA, TUBERCULOSA E CANCEROSA.— Ad. Schimidt e Arlt ainda apresentam mais uma outra causa da irite—a escrophulose. Acreditavam elles que uma irite serosa que se desenvol- vesse em um indivíduo affectado de escrophulose, devia se referir a essa diathese; e attribuiam a essa causa o desenvol- vimento da synechia posterior total com distensão e adheren- cia á cornea das partes periphericas da iris, terminando por atrophia ou hydrophthalmia do olho. De facto estas lesões são encontradas nos indivíduos fracos, cuja pelle se acha muito irrita vel. Mas, segundo a opinião dos professores de Wecker e Landolt, devemos antes attribuir esta irite serosa, de marcha lenta, com tendência a deixar um exsudato se assestar entre as bordas da pupilla e a cápsula, á syphilis hereditária. Em conseqüência das dyscrasias tuberculosa e cancerosa também tem logar a inflammação da iris, mas somente depois que todo o globo tem sido affectado. Causas determinantes . —Secundarias. —Sob esta deno- minação são grupadas as múltiplas causas que determinam uma irritação intensa e prolongada da membrana iris. Causas traumáticas,— Os traumatismos podem ser de- vidos : a corpos estranhos encravados na iris ou depositados na câmara anterior, e a operações, com especialidade a de cataracta. Como sabemos, todo o corpo estranho introduzido no trama de um tecido qualquer produz uma irritação e consecuti- vamente uma inflammação do tecido. A iris sendo uma membrana dotada de um grande nu mero de vasos, mais do que nenhuma outra região do corpo, está apta para sob a acção desta causa manifestar a mesma hlegmasia. - 32 — O mesmo se dá em virtude do attrito produzido sobre a membrana iris pelo corpo estranho depositado na câmara an- terior . Até bem pouco tempo,a suppuração produzida após as ope- rações praticadas sobre o globo ocular determinava uma ir- ritação da iris em conseqüência da acção do pus sobre esta membrana, e este facto levava a admittir essas operações como causas da irite. Hoje, porém, com os progressos da antisepsia applicada á cirurgia ocular, evitam os operadores a formação da irite na- quellas circumstancias. Se podemos por isso eliminar do quadro etiologico da irite uma das suas causas mais freqüentes, no emtanto vemos per- manecerem ainda, após a operação de cataracta, outras circum- stancias que favorecem a manifestação daquelle estado phle- gmasico. Essas circumstancias são: 1.*—Contusão e distensão que soffre a iris em conseqüên- cia da passagem de um cristallino de volume relativamente exagerado por uma ferida comparativamente estreita. 2."—Permanência da cápsula do cristallino ou de massas corticaes na câmara anterior após a operação. Vejamos como podemos approximadamente explicar a acção de cada uma destas ultimas causas. 1.a A influencia da primeira circumstancia é comprovada pela observação clinica, que não nos fornece caso algum em que a passagem do cristallino por uma abertura sufiiciente- mente larga determinasse a manifestação da irite. Isto está de accordo com o que tivemos occasião de observar na clinica ophthalmologica da Faculdade. A irite devida a esta circumstancia é pouco intensa; mani- festa-se no segundo dia depois da operação, cede ao emprego — 33 — de algumas instillações de atropina e deixa como conseqüência apenas a adherencia da iris com a cápsula, o que é reconhe" cido pela ausência do tremblottement, movimento particular que apresenta a iris do operado de cataracta. 2.' Permanecendo na câmara anterior a cápsula do cris- tallino ou massas corticaes, não só actuam como corpos estranhos, mas também modificam a composição chimica do humor aquoso. Dahi resulta um estado inflammatorio muito mais grave do que o produzido pela contusão e distensão consecutivas á extracção da cataracta. Concorrem para a aggravação da irite, neste caso, a adherencia da iris á cápsula do cristallino e as que se formam entre as bordas da pupilla, podendo mesmo ser abolida a visão em conseqüência dessas adherencias. Estado mórbido das membranas vizinhas.—A relação intima que existe entre os tecidos e vasos da choroide e da iris, e a proximidade em que esta se acha da cornea, influem poderosa- mente para que se manifeste a irite, quando aquellas mem- branas são sede de estados mórbidos. A inflammação da cornea pôde algumas vezes transmit- tir-se á iris, quando muito intensa e principalmente quando são affectadas as partes profundas da membrana. Assim é que, na maioria dos casos de keratite parenchy- matosa grave, a iris participa da inflammação, manifestando-se sob a fôrma serosa; mas esta complicação deixa algumas vezes de ser percebida em conseqüência do turvor geral da transparência da cornea. Um outro processo inflammatorio que pôde complicar-se de irite é o das partes anteriores da choroide, sendo, porém, mais geralmente esta choroidite determinada pela inflammação da iris. Não devemos omittir aqui a influencia sympathica. 5 1886—T — 34 — E' por esse modo que se explica o apparecimento da irite em um olho, quando o outro soffreu um traumatismo ou se a inflammação é entretida pela existência de um corpo estranho neste olho. Emfim, assim como a irite pôde determinar uma choroidite ou cyclite pela tracção que soffrem estas partes em algumas das fôrmas da irite, a iris pôde igualmente ser irritada por racção exercida pelos exsudatos da choroide, pelo descollamento do corpo vitreo e da retina. O tratamento desta affecção depende de circumstancias múltiplas, representadas principalmente pelas causas que a determinam. Como em todo estado inflammatorio, existe na inflam- mação da iris uma indicação que deve ser immediatamente posta em pratica, qualquer que tenha sido a sua causa, e vem a ser o repouso do órgão affectado. No caso vertente não podemos por influxo da vontade fazer cessar os movimentos da iris, pois, em razão da maior ou menor intensidade de luz, ella contrahe-se ou dilata-se, sem que o indivíduo possa dominal-a. Cumpre, portanto, empregar uma substancia que goze da propriedade de paralysar os movimentos da iris. Com este intuito recorremos aos mydriaticos, medicamentos que além do repouso que proporcionam aquella membrana, em virtu- de da sua acção paralysante sobre o sphincter pupillar, pos- suem ainda duas outras propriedades, ambas importantes e utilisadas com vantagem no tratamento da irite. E' assim que, em conseqüência da sua acção dilatadora da pupilla, affasta as bordas da iris do ponto em que se acham em contacto com o equador do cristallino, desta sorte impe- dindo a formação de adherencias entre estes dous órgãos. 264693 — 36 - Ainda é utilisada esta acção dos mydriaticos com o fim de destruir as synechias já formadas. Outra propriedade é aquella, em virtude da qual os my- driaticos diminuem a hyperemia da iris pela sua acção constri- ctora sobre as fibras musculares dos vasos desta membrana e dos da região ciliar. A congestão, não sendo mais do que a exaltação da pressão nos vasos capillares com dilatação destes, o emprego das substancias que diminuem a mesma pressão constitue ra- cional indicação em todos os estados mórbidos caracterisados por este symptoma. E os mydriaticos estão neste caso em re- lação a irite. O emprego dos mydriaticos, comquanto seja a primeira indicação, comtudo não deve ser feito sem que primeiro veri- fiquemos não haver augmento da tensão do globo ocular ou rigeza da sclerotica, porquanto podem nestas condições deter- minar a producção de um processo glaucomatoso. Dentre os mydriaticos o que maiores vantagens offerece, e como tal é de uso mais freqüente na pratica ophthalmologica, é a atropina, principio activo daAtropa belladona e de outras espécies do mesmo gênero. A atropina, applicada sabre o globo ocular, actua quasi instantaneamente em conseqüência da organização da cornea, que, nutrindo-se por imbibição, é extremamente permeável ás substancias dissolvidas, e permitte em poucos segundos a endosmose de uma parte do agente mydriatico. Este facto da endosmose rápida foi comprovado por experiências physiologicas de Gosselin, Donders e de Graef, que, após instillações feitas com uma solução de atropina no olho de um coelho, retiraram da câmara anterior poucos mo- mentos depois por meio de uma seringa de anel uma porção do mydriatico capaz de dilatar uma outra pupilla. — 37 — Mas algumas vezes sobrevêm certas circumstancias que impedem a endosmose e, portanto que a solução do mydriatico seja absorvida pelo olho e vá por-se em contacto com a iris. E' assim que, em conseqüência da infiltração da iris e do seu entumescimento, ainda que a solução de atropina exista na câmara anterior, a iris não pôde facilmente absorvel-a. Outras vezes a solução nem pôde chegar á câmara ante- rior por causa do augmento de tensão do globo ocular, e ainda em outras occasiões deixa de ser absorvida por ser expellida do sacco conjunctíval pela hypersecreção lacrymal. Aconselham neste ultimo caso o emprego do mydriatico sob a fôrma de pommada com vaselina, pela razão de que demoram assim por mais tempo estas substancias em contacto com a cornea e a absorpção pôde dar-se apezar das lagrimas. A fôrma pharmaceutica sob a qual mais geralmente é a atropina empregada, e que offerece maiores vantagens, é a solução, que pôde ser formulada do seguinte modo: Água distillada................ 30 grámmas Ácido borico.................. 12 decigr. Sulfato neutro de atropina....... 3 decigr. Pôde ser esta solução empregada em maior ou menor numero de instillações, conforme a intensidade da moléstia, a existência ou não das synechias e a maior ou menor resis- tência á absorpção. Esta solução, assim formulada, é forte e o clinico só deve fazer uso delia, quando é o próprio a administral-a. Quando, porém, é necessário que o doente faça uso deste medicamento em seu domicilio, e repetidas vezes, devemos prescrevel-o na seguinte proporção: — 38 — Água distillada................ 30 grammas Ácido borico.................. 12 decigr. Sulfato neutro de atropina....... 1 decigr. Quando a iris está engorgitada de exsudatos e infiltrada de cellulas, condição em que é difficil a absorpção do mydria- tico, e a iris tem contrahido adherencias com o cristallino, devemos recommendar ao doente ou ao enfermeiro que o collyrio seja instillado muitas vezes durante o dia, de 2 em 2 horas. Cumpre, porém, premunir o doente contra os acci- dentes tóxicos que se podem produzir pela absorpção que tem logar pela mucosa do canal nasal e das fossas nasaes. E' assim que devemos prevenil-o que suspenda a applicação logo que se manifeste seccura da garganta, dysphagia, etc. Para obviar estes inconvenientes aconselhão os autores a compressão do sacco lacrymal no momento da instillação, o que o próprio doente pôde fazer com a polpa do dedo. Quando as synechias são muito resistentes, conseguimos romper estas adherencias somente pela distensão continua que soffre a iris, em virtude do emprego prolongado do mydriatico. Alguns aconselhão para ober este resultado fazer uso alternadamente da atropina e da ezerina, evitando comtudo empregar esta ultima em uma época próxima da irite, porque o emprego dos myoticos poderia de novo dar logar a inflam- mação da iris. A experiência tem demonstrado que esta applicação alter- nada dos dous medicamentos não offerece grandes vantagens e que é preferível o emprego prolongado dos mydriaticos, quando convenientemente applicados. Varias são as desvantagens attribuidas ao uso dessa classe de medicamentos ; a única, porém, que se nos affigura de valor é a producção de accessos glaucomatosos, dado o caso de — 39 — augmento de tensão intra ocular ou de alteração senil da escle* rotica. E' assim que accusão os mydriaticos de determinarem uma dilatação pupillar permanente, observada, porém, somente, ou quando existe atrophia da iris ou nos casos de irite plástica, em que o estabelecimento das synechias se faz emquanto per- dura a acção mydriatica. Do emprego da atropina resulta um inconveniente, que consiste na producção de uma conjunctivite follicular, em con- seqüência da formação de mucedineas na solução daquelle alcalóide. Mas semelhante desvantagem é obviada, desde que tornemos aseptica a solução de atropina na água distillada pela addição de 4 °/0 de ácido borico. E' por observar esta precaução aconselhada por Max Kroener que tem conseguido o professor H. de Gouvêa evitar em sua clinica a formação de catarrhos folliculares, de ordinário consecutivos ao uso prolongado da solução de atropina. Já a este facto se referio o actual adjunto da clinica ophthalmolo- gica, o Sr, Dr. Pereira da Cunha, em suathese inaugural, publicada em 1883. Desde então até hoje, período durante o qual temos acom- panhado a clinica ophthalmologica da Faculdade, não observa- mos caso algum em que do uso da solução de atropina re- sultasse a formação de catarrhos folliculares. Alguns autores, attendendo ao inconveniente indicado, propõem a substituição da atropina por outros medicamentos * de acção análoga, dentre os quaes sobresahe a Duboisina, prin. cipio activo extrahido de uma solanea de origem australiana, a Duboisia myoporoides. A sua acção local sobre os olhos é com- parável, segundo Landenburgo, á da hyoscyamina. A duboi- sina tem a propriedade de determinar a mydriase mais rapida- mente que a atropina, mas é muito menos enérgica, o que é - 40 — comprovado pela menor persistência de sua acção comparati- vamente á de sua congênere. Outra substancia de acção synergica da atropina é a homatropina, producto artificial obtido tratando os saes de tropina pelo ácido chlorhydrico. A sua acção mydriatica é, •porém, muito menos prolongada do que a da atropina*. Attendidas por meio dos mydriaticos as três indicações que offerece a irite e a que já nos referimos, cumpre collocar o doente em condições hygienicas convenientes e necessárias, para que se torne menos prolongado o seu tratamento. E' com esse fim que deve ser aconselhada a permanência do doente em um aposento ao abrigo da luz e das variações atmosphericas. E' intuitivo que o esforço empregado pela iris sob a acção da luz para contrahir-se seria contrario á necessidade de conservar em completo repouso aquelle órgão affectado. Igual- mente prejudicial seria a exposição do doente á acção do frio, do que resultariam repercussões congestivas e phlogotícas para a iris. Caracterisando-se o estado inflammatorio da iris por uma congestão deste órgão e dos vizinhos, acham-se perfeitamente indicados os meios que têm por fim diminuir a tensão vascular. Como taes, são aconselhados por alguns as depleções sangüíneas por meio de sangrias ou de sanguesugas applicadas nas têmporas, na mucosa nasal, como recommenda Desmarres e mesmo no globo ocular. Mas acontece que, quando as sangue- sugas são applicadas na mucosa nasal, podem determinar * Depois de haver sido apresentado á Faculdade este trabalho, recebemos o 2o nu mero àa, Revista Pharmaceutica, domez de Setembro, onde á pa* 3j lemos a spcminip noticia extractada da The Therapeiitic Gazette: l °" ' a seSumle « Segundo experiências feitas pelo Dr. Pierd Hony com a Scopolina, alcalóide In pouco descoberto na Scopodia Japonica, ficou verificado ser a sua accão sobre a n 1 pilla mais accentuada e persistente do que a da atropina, e de tal modo aue ao 3° dia depois da instülação, a pupilla acha-se mais dilatada do que quando se annliea a atropina. A scopolina parece não ter nenhuma acção irritante sobre a conjunctiva ■> - 41 - hemorrhagias difficeis de jugular, e, quando no globo do olho, podem occasionar o descollamento da retina. Quer seja empregado como descongestionante, quer como calmante, poucos são os benefícios que resultam do emprego de semelhante recurso therap eutico. Relativamente de maior importância é o serviço que com este ultimo fim prestam externamente as fricções com o unguento napolitano belladonado, as fomentações quentes e a applicação de compressas imbibidas em infusão de flores de camomilla ; e internamente —os opiaceos, o chloral, e, em injecções subcu- taneas, a morphina, medicamentos que além de acalmar as dores proporcionam um somno tranquillo. Em alguns casos, porém, acontece que a tensão do olho augmenta, o humor aquoso se turva, fórma-se um hypopion e o doente é atormentado por dores insupportaveis que não con- seguimos acalmar por nenhum daquelles meios. Deve então ser praticada a paracentese da câmara anterior, recurso que proporciona ao doente grande allivio. O descongestionamento dos vasos da iris pôde ser obtido também por meio dos excitantes das secreções. E' assim que com grande proveito são applicados os purgativos, os sudori- ficos e diureticos. Dá-se nos casos de irite aguda o apparecimento de um exsudato plástico que offerece racional indicação para o em- prego dos alterantes, de entre os quaes destacaremos os mer- curiaes, que, além dessa mesma acção alterante, actua contra a syphilis, causa freqüente da irite. Expostos de modo perfunctorio os recursos de que pôde dispor o clinico, Kfim de satisfazer as indicações geraes de todas as modalidades da irite, passemos a considerar as varias fôrmas desta affecção sob o ponto de vista do seu tratamento. Irite plástica .—Além das indicações geraes, cumpre ú 1886—T — 42 — nesta fôrma attender á necessidade de favorecer a reabsor- pção dos exsudatos depositados na câmara anterior. Tal é o fim que vem preencher o empre go não só dos alterantes representados pelos mercuriaes e pelo iodureto de potássio, como também dos derivativos, medicação satisfeita por meio dos purgativos salinos administrados amiudada- mente, dos sudorificos e dos diureticos. Com excepção do caso em que a irite plástica é devida a uma causa traumática, podemos seguir o tratamento que acabamos de mencionar, qualquer que seja a causa desta fôrma da irite— isto é, quer seja devida á diathese syphilitica, rheumatica, ou outra qualquer. O emprego mais ou menos enérgico de toda a medica- ção a que temos alludido depende da maior ou menor gravi- dade de que se revista a irite. Quando a irite plástica se mani- festa pouco intensa, vemos que ella cede facilmente pelo emprego destes meios geraes auxiliados pelo do iodureto de potássio e fracas doses de sublimado — Na clinica tivemos occasião de presenciar alguns casos, em que sob a acção deste tratamento todos os symptomas cedião rapidamente. O iodureto de potássio é applicado segundo a seguinte fórmula: Infusão de lupulo ou genciana. .. 100 grammas. Iodureto de potássio........... 2 grammas. Para tomar em 2 doses. Quotidianamente é augmentado de 1 decigrammaa dose de iodureto até attingir a 3 grammas, nos casos simples; porém quando manifesta-se mais pronunciada a irite, podemos em- pregar até 5 grammas de iodureto de potássio diariamente. O sublimado nestes casos benignos era applicado sob a fôrma pilular do seguinte modo : — 43 — Sublimado corrosivo...... 3 decigrammas. Extracto de meimendro..... 15 centigrammas. Extracto de alcaçus......... q. b. Dividirem 30 pilulas. Tomar de 2 a 3 por dia. Nos casos, porem, em que a inflammação é muito pronun- ciada, em que a dor é insupportavel, prescreveremos os sudori- ficos sob a fôrma de injecção hypodermica de pilocarpina, e applicaremos os mercuriaes por meio de fricções de unguento napolitano. E' assim que mandaremos que o doente com a sua própria mão faça fricções 4 vezes por dia, sendo de cada vez em cada um dos membros (pernas e braços), com : Unguento napolitano.............. 30 grammas Divida em 15 papeis iguaes; cada uma destas partes deve conter 2 grammas do unguento, que deve ser applicado pelo modo e na dose que acima indicamos. Concomittantemente com esta prescripção deve ser indi- cado aos doentes o uso de um collutorio de chlorato de potás- sio para impedir o apparecimento de stomatite, o que porém nem sempre conseguimos evitar. Em alguns casos convém provocar a stomatite, afim de utilisar o seu effeito revulsivo em ordem a fazer cessar u ma exsudação plástica muito abundante. Ainda que a irite plástica não seja devida á diathese syphilitica, é efficaz o emprego dos mercuriaes em taes con- dições, operando-se rapidamente a reabsorpção dos exsudatos e sensivel diminuição do estado inflammatorio. Algumas modificações soffre o tratamento da irite plástica, quando esta tem por causa um traumatismo. Diversas são as causas productoras da irite traumática, a saber: — 44 — l.a A contusão do globo ocular; 2.a Penetração de um corpo estranho na câmara anterior ou encravamento na iris ; 3.a A extracção de cataracta; 4.a Entumescimento do cristallino após um trauma- tismo ; 5.a Prolapso parcial da iris em conseqüência de ulcera perfurante da cornea. A primeira indicação fornecida por este estado é a sup- pressão da causa que o determinou. Quando a irite traumática é provocada pela contusão do globo ocular, podemos dominar a inflammação por meio de in- stillações de atropina, de uma injecção hypodermica de chlor- hydrato de morphina a 1 °/0 e recommendar ao doente re- pouso absoluto e dieta rigorosa. Quando o traumatismo é dependente da penetração de um corpo estranho no globo ocular, o nosso primeiro cui- dado deve ser praticar com uma faca de Graefe a abertura da câmara anterior, donde com uma pinça ou uma cureta de Daviel extrahiremos o corpo estranho. Algumas vezes, achando-se o corpo estranho encravado profundamente no tecido da iris, inútil seria o emprego da pinça ou da cureta, e então somos obrigado a junctamente com o corpo estranho retirar uma dobra da iris correspondente ao ponto em que se acha depositado aquelle corpo. A irite traumática que sobrevem consecutivamente á extracção de cataracta tem causas variáveis, das quaes de- pende a diversidade dos meios empregados. Quando resulta do traumatismo determinado pela passagem do núcleo cristal- liniano por uma abertura relativamente pequena, o estado inflammatorio se manifesta pouco intenso e cede sob a acção daquelles mesmos meios therapeuticos. Quando se deriva da — 45 — permanência de massas corticaes e da cápsula do cristallino na câmara anterior, depois da operação de cataracta, obser- vamos a producção de uma verdadeira exsudação plástica seguida de agglutinação das bordas da iris á cápsula, pheno- menos estes que reclamam uma medicação muito mais enérgica. Recorreremos em taes casos á mesma medicação já acon- selhada,quando tem logar uma irite plástica de caracter grave, devendo, porém, algumas vezes, antes de pôr em pratica estes meios, mesmo durante o estado inflammatorio, praticar a iride- ctomia e a expulsão da cápsula do cr istallino e das massas corticaes. O que geralmente é observado depois desta operação é que as dores acalmão-se completamente e os symptomas inflamma- torios cedem com muita rapidez. Ainda que nenhuma destas circumstancias concorra para a producção da irite traumática, nos indivíduos anêmicos e de constituição débil manifesta-se este estado após a operação de cataracta. O caracter predominante da irite nestes casos é a formação de cellulas de pús e tendência a communicar á choroide esse estado inflammatorio. Apezar disso, em conseqüência do depauperamento geral do doente, não podemos em casos seme- lhantes empregar os antiphlogisticos, que nenhum resultado dão e, ao contrario, contribuem para enfraquecer o doente c acce- lerar, portanto, os progressos da moléstia. Cumpre, á vista do que fica dito, empregar uma medicação inteiramente opposta, que auxilie o organismo a luctar contra o mal. Empregaremos os tônicos, as duchas de vapor quente sobre o globo ocular ou compressas imbebidas de infusão de camomilla ou mesmo de uma solução de 4 °/„ de ácido borico em uma temperatura mo- derada . Quando a manifestação da irite é determinada pelo _ 46 — entumescimento do cristallino após um traumatismo do globo ocular, devemos procurar debellar a inflammação pela extracção do cristallino, sendo de toda a vantagem que o seja pelo processo linear modificado. De facto, a operação por este processo, além de possuir a propriedade de, pela abertura da câmara anterior, alliviar o globo ocular da forte tensão determinada pelo en- tumescimento do núcleo do cristallino, e de retirar a causa da inflammação, offerece mais a vantagem de proporcionar uma emissão sangüínea local por meio da secção da iris, o que constitue condição obrigatória no referido processo. Como vimos a irite traumática pôde ser determinada pelo prolapso parcial da iris consecuti vãmente a uma ulcera perfurante da cornea. O primeiro cuidado do clinico deverá ser praticar a ex- cisão de toda a parte da iris que faz saliência para o exterior. Em conseqüência desta operação, desapparecem quasi imme_ diatamente a inflammação e os symptomas de irritação, que se manifestam tão intensos nos indivíduos fracos e irritaveis que chegam a produzir vômitos. Além do recurso operatorio, não deverá ser olvidado o emprego dosmydriaticos edos meios hygienicos já aconselhados. Irite serosa.—Evitar a manifestação das complicações que costumam sobrevir durante a marcha desta fôrma da irite, eis o primeiro dever do clinico. Si bem que por um lado nesta fôrma não tenhamos a temer a formação de synechias e por isso não seja necessário empregar a atropina tão energicamente como nas outras fôrmas, devemos comtudo applicar esse mydriatico, afim de paralysar a iris, acção sempre benéfica em todo estado inflam- matorio desta membrana. Cumpre ainda ser cauteloso no emprego da atropina, sus- pendendo a sua applicação sempre que for observado augmento - 47 - de tensão ocular, afim de impedir o apparecimento do glau- coma. Vem a propósito aconselhar aqui os mesmos meios hy* gienicos indicados por occasião de estudar o tratamento da irite plástica. Sendo a diathese rheumatica a causa mais freqüente desta fôrma, devemos principalmente evitar que o doente sotfra a acção do resfriamente, que, como é sabido, produz a aggravação de todos os estados rheumaticos. A pouca intensidade das manifestações congestivas não exige a applicação dos antiphlogisticos, mas devemos consi- derar o augmento de secreçao do humor aquoso e a infiltração cellular como indicações que reclamam de preferencia o em- prego dos derivativos, taes como os sudorificos, os purgativos repetidos e os diureticos. Dentre os sudorificos aconselharemos as injecções com 2 a 4 gottas de chlorhydrato de pilocarpina (0gr,20: 2g',00 de água distillada),a tisana de Zittmann e o salicylato de sódio. Por demais vantajosa é a preferencia dada á pilocarpina, por isso que, além da sudação que provoca, determina a sia- lorrhea e a diurese, tríplice acção derivativa que nenhum outro medicamento possue. Quando for reconhecida na irite serosa alguma manifes- tação da diathese syphilitica, convirá administrar, juntamente com os mercuriaes e o iodureto de potássio, a tisana de Zit- tmann. Quanto aos mercuriaes empregaremos : o xarope de Gi- bert na dose de 1 a 2 colhéres das de sopa por dia, as pilulas de sublimado, cuja formula já mencionámos, na dose de 2 a 3 por dia, e as injecções hypodermicas, ultimamente tão preco- nisadas, de peptonato de mercúrio. — 48 — Acerca do emprego dos preparados de mercúrio, em in- jecções hypodermícas, no tratamento das manifestações ocu- lares da syphilis, não podemos deixar de trasladar para aqui as considerações feitas pelo nosso illustrado mestre, o pro- fessor H. de Gouvêa, em um artigo publicado na Revista dos Cursos Práticos e Theoricos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (2°anno, 2o numero, Dezembro de 1885). < O methodo endermico do emprego dos mercuriaes,iniciado pelo professor Lewin, no tratamento da syphilis,seria incontes- tavelmente o preferido por todos os práticos pela promptidão de sua efficacia, se não occorressem com freqüência accidentes locaes de certa importância, ligados á acção tópica e irritante das soluções mais fracas, que se podem empregar com vanta- gem. Para obviar a esses inconvenientes, recorreu-se ora ao albuminato, ora ao peptonato, ao cyanureto, ao formiato de mercúrio, associando-lhes ou não em certas proporções a gly- cerina; o que, tendo attenuado bastante a acção irritante, não eliminou os accidentes inflammatorios, precedidos de dôr mais ou menos intensa e duradoura. « Desde as minhas primeiras observações sobre a cocaína imaginei corrigir os accidentes ligados á irritação produzida, já pelo cyanureto, já pelo peptonato de mercúrio, que emprego com mais freqüência nas manifestações oculares da syphilis, associando ás simples soluções desses saes em água distillada nas proporções de 5 milligrammas a 1 centigramma para cada gramma de água, Ia 2 centigrammas de chlorhydrato de co- caína. Nessas proporções tenho obtido não só tornar essas in- jecções completamente indolores, como evitar os accidentes in- flammatorios, não já de graves suppurações, mas mesmo de formação de nodulo3, mais ou menos sensíveis. « Entre diversos doentes a quem tem aproveitado esta associação está um distincto negociante desta praça, que soffreu - 49 — tanto com as injecções de peptonato, feitas em Paris pelo il- lustre de Wecker, que nem queria ouvir fallar em taes appli- cações, e a muito custo prestou-se a ellas, sendo que hoje pre- fere-as ás fricções mercuriaes! « A associação da cocaina influe beneficamente ainda, evitando, tanto quanto tenho observado, a formação de nodu- los sensiveis de que acima faliei. Devo observar que depois que associei a cocaina ás injecções de peptonato, supprimi da formula, por desnecessária, a glycerina. « Eis as formulas que tenho empregado : N. 1. Água distillada...................... 10 grammas Peptonato de mercúrio............... 5 centigrammas. Chlorhydrato de cocaina............. 10 centigrammas. N. 2. Água distillada..................... 10 grammas. Peptonato de mercúrio............... 1 decigramma. Chlorhydrato de cocaina.............. 2 decigrammas. « Para dez injecções nas nádegas, sendo uma diaria- mente . « Convém observar que não se deve elevar a dose da cocaina muito além do máximo acima indicado, porquanto mesmo na dose de dous centigrammas já tenho visto sobrevi- rem tonteiras, ainda que leves e de pouca duração.» O iodureto de potássio empregaremos nas doses indica- das no tratamento da irite plástica ; e a decocção de Zittmann na dose de 500 grammas, simples ou diluída em igual quanti" dade de água quente. Em conseqüência de hypersecreção do humor aquoso e do augmento de tensão intra-ocular que observámos na irite serosa, manifestam-se dores muito violentas que reclamam o 7 T—J88G — 50 — emprego das injecções de chlorhydrato de morphina feitas com meia seringa de uma solução a 2 °/0, as compressas quen- tes e, si a tensão intra-ocular se acha notavelmente augmentada devemos recorrer á iridectomia, ou á sclerotomia, sendo a pra. tica de qualquer destas operações de grande vantagem. Quando durante a marcha da irite serosa manifestam-se complicações de natureza plástica, devemos attender á indica- ção que taes complicações offerece em relação ao emprego do respectivo tratamento, não devendo, ^comtudo, perder de vista a tensão do globo ocular e o estado do campo visual, afim de intervir por meio do mais adequado processo operatorio —a iridectomia, logo que se manifestem os primeiros symptomas de glaucoma. Irite parenchymatosa.—Por isso que é esta a fôrma que offerece maior gravidade, é também a que exige da parte do clinico a mais séria attenção e a applicação enérgica de recursos de efficacia comprovada pela pratica. Nesta mais do que em qualquer das outras fôrmas de irite, deve ser aconselhada ao doente a observância rigorosa dos preceitos hygienicos apontados no tratamento geral. Como vimos, a causa mais freqüente da irite parenchy- matosa é a diathese syphilitica, o que só por si determina o tratamento mercurial, máo grado a opinião contraria dos anti- mercurialistas que preferem uma medicação a nosso ver menos enérgica. Ainda mesmo nos casos raros em que esta modalidade da irite não tem por origem aquella diathese, convém o trata- mento mercurial que, como anti-plastico, actua contra a hyper- genese dos elementos do tecido cellular devida á irritação inflammatoria, produzindo ao mesmo tempo a reabsorpção da infiltração cellular de nova formação. Devemos dar preferencia ás fricções mercuriaes no — 51 — período agudo da moléstia com o fim de ser aproveitada a sua acção anti-plastica contra a abundante proliferação cellular, acção devida principalmente á stomatite que resulta do emprego dos mercuriaes por este meio. Simultaneamente com as fricções mercuriaes devemos prescrever o uso do iodureto de potássio em xarope de cascas de laranjas amargas, ou em infusão de genciana na dose de 2 grammas, que augmentar-se-ha diariamente de 1 deci- gramma até attingir a dose de 5 a 6 grammas por dia. Asso- ciaremos a esse mesmo tratamento o uso de injecções de chlor- hydrato de pilocarpina e a tisana de Zittmann, nas mesmas doses já indicadas. Quando observamos uma exsudação intensa que torna imminente a occlusão pupillar ou no caso de grande desen- volvimento das gommas na iris, devemos tentar a excisão de uma parte desta membrana, e de preferencia a que nos parecer mais affectada, si bem que nem sempre seja efíicaz a adopção deste recurso. Perseverar no tratamento diathesico, mesmo depois da cessação completa dos symptomas inflammatoríos, e com critério dirigir a restauração radical do organismo, deve ser a preoccupação do clinico, em ordem a evitar a reincidência tão commum, desde que persista a diathese. Com semelhante intuito deve ser prescripto um trata- mento a um tempo hygienico e therapeutico. Assim, como medidas hygienicas, aconselharemos os passeios ao ar livre e a localidades de clima temperado, a pro- scripção das bebidas alcoólicas e dos excitantes, o uso de ali- mentos que forneçam a mais completa nutrição. Deve consistir a medicação no emprego dos preparados ferruginosos e mercuriaes, convindo, quanto a estes, distin- guir dous casos: — 52 — 1.° Emquanto puder estar o doente sob as vistas do cli- nico, será preferível a applicação das injecções sub-cutaneas com o peptonato de mercúrio. 2.° Desde, porém, que o doente por qualquer circumstancia não puder ser observado freqüentemente pelo clinico, de preferencia serão prescriptas as pílulas de sublimado corrosivo, ou o xarope de Gibert, quando fôr conveniente associar ao trata- mento mercurial o iodureto de potássio. Eis quanto nos occorre dizer sobre o assumpto da nossa dissertação. Com o fim de corroborar as asserções que emittimos no correr deste trabalho, apresentamos em seguida algumas obser- vações colhidas na enfermaria de clinica ophthalmologica da Faculdade, a cargo do resptivo professor, o Sr. Dr. H. de Gouvêa. PRIMEIRA OBSERVAÇÃO Manoel Rodrigues Crespo, branco, 25 annos, portuguez, sapateiro, residente na Parahyba do Sul, entrou para a enfer- maria de clinica ophthalmologica a 4 de Agosto de 1885,sendo inscriptono registro das observações sob o n. 60. Anamnese e symptomas subjectivos. — Refere achar-se doente ha um mez e accusa antecedentes syphiliticos que datam de um anno. Apresenta alopecia, dependente da mesma diathese. Conjunctiva. —A conjunctiva das palpebras nada apre- senta de anormal; a conjunctiva bulbar do olho esquerdo apresenta injecção sub conjunctíval. — 53 — Globo.—Tensão normal, Cornea.—Completamente transparente e lisa. Câmara anterior.—Desprovida de exsudatos. Pupilla e iris. — A pupilla do olho esquerdo se acha es- treita e de côr acinzentada. A iris reage fracamente á luz e acha-se adherente ao cristallino. Cristallino.—Apresenta deposito exsudativo e pigmen- toso em fôrma semi-circular de onde romperam-se as adheren- cias iridicas. t A. O. V.=l Visão e refracção. \ O. D. V. =1 (O. E. V.=2/3; + e—não modificam. Diagnostico.—Irite incipiente do olho esquerdo. Marcha e tratamento.—4 de Agosto. — Foi prescripto : Água distillada............... 10 grammas. Ácido borico.................. 4 centigrammas Sulphato neutro de atropina.... 1 decigramma. Chlorhydrato de cocaina....... 2 decigrammas. Em instillações duas vezes por dia. Unguento napolitano......... 30 grammas Divida em 15 partes iguaes.—Friccionar quatro partes por dia (uma de duas em duas horas) nas pernas e nos braços. Água distillada............... 400 grammas. Chlorato de potássio.......... 10 grammas. Para lavar abocca quatro ou cinco vezes por dia. Água distillada.............. 2 grammas. Chlorhydrato de pilocarpina... 2 decigrammas. Em injecções hypodermicas—injectar quatro gottas por dia. 10 de Agosto.—Está inteiramente restabelecido da irite; no campo pupillar persistem ainda resíduos pigmentados semi- circulares. Suspende-se todo o tratamento e fica em observação. — 16 de Agosto—Teve alta restabelecido. - 54 - SEGUNDA OBSERVAÇÃO Joaquim Luiz de Souza, branco, 39 annos, portuguez, cozinheiro, residente na rua de S. Francisco Xavier, entrou para a enfermaria da clinica ophthalmologica a 20 de Agosto de 1885, sendo inscripto no registro das observações sob o n. 6(j. Anamnese e symptomas subjectivos.—Refere estar doente dos olhos ha 15 dias e ter contrahido ha cerca de um mez um cancro infectante, que ainda acha-se incompletamente ci- catrizado . Tem o corpo e principalmente a face e o thorax coberto de syphilides. Queixa-se de dores ciliares, principalmente á noite, em que são muito mais intensas. Palpebra e conjunctiva.—Injecção sub conjunctíval in- tensa do bulbo de ambos os olhos. Globo.—Tensão normal. Cornea.—Transparente e lisa. Pupilla e iris.—Pupilla regular e dilatada no olho di- reito, e irregular com synechias posteriores no olho esquerdo. Cristallino.— Normal. (A. O. V=l Visão e refracção \ O. D. V=l (O.E.V=l/G Diagnostico.—Irite syphilitica de ambos os olhos. Marcha e tratamento.—20 de Agosto. Foi prescripto collyrio de atropina e cocaina e injecções subcutaneas de : Água distillada........... 30 grammas Glycerina................ 10 » Peptonato de mercúrio.... 2 decigrammas Injectar por dia uma seringa (5 milligrammas de pepto- nato de mercúrio). — 55 — 24. —Foi prescripto : Infusão de lupulo........ 100 grammas Iodureto de potássio...... 2 » T. em 2 doses. —Repetir diariamente a mesma poção. Io de Setembro.—A irite modificada sensivelmente; a injecção sub conjunctíval muito reduzida; ainda notam-se al- gumas synechias no olho esquerdo, as do olho direito rompe- ram-se todas. A erupção cutânea tem-se modificado muito. Accusa algumas dores no olho esquerdo. Continua com o collyrio de atropina e cocaina, injecção de peptonato e poção de iodureto de potássio. 3. —Desde hontem cederam as dores; no olho esquerdo notam-se apenas duas pequenas synechias. Continua o mesmo tratamento. 6.—Continua a melhorar e a fazer uso da mesma medi- cação. 22. —Depois de haver quasi cedido a irite, reincidio sob a fôrma aguda pelo que é prescripto : fricções mercuriaes, collutorio de chlorato de potássio. 24.—Continua o mesmo estado. Além da medicação anterior, é prescripto : injecções de chlorhydrato de pilocar- pina. 25.—Continua o mesmo tratamento,ao qual é addicionado xarope de Boinet, na dose de 2 colhéres das de sopa por dia. ' 27.—Cessaram inteiramente as dores; a injecção dimi- nuio muito consideravelmente, synechias quasi inteiramente rotas. Continua todo o tratamento. 29.—Não tem mais traços de irite; observa-se no olho direito uma synechia inferior e no olho esquerdo uma interna e inferior. Continua o mesmo tratamento. Io de Outubro.—Teve alta a pedido para continuar a tratar-se na sala do Banco. O. D. V—l/3. — 56 — TERCEIRA OBSERVAÇÃO Francisco Ventura de Moura, branco, 32 annos, portu- guez, trabalhador, residente á rua do General Pedra n. 147; entrou para a enfermaria da Clinica Ophthalmologica a 7 de Setembro de 1885 e foi inscripto no registro das observações sob o numero 71. Anamnese e symptomas subjectivos.—Refere estar sof- frendo do olho direito ha cerca de um mez, soffreu de uma febre que foi qualificada de remittente palustre; cephaléa e irite syphiliticas (sic). Observa que ha dous mezes teve cancros venereos seguidos de erupção cutânea e dores rheumaticas. Palpebras e conjunctivas.—No olho direito injecção sub- conjunctival pronunciada, principalmente da metade interna. Globo.—Tensão normal. Cornea. —Normal. Pupilla e iris.—Pupilla do olho direito dilatada por effeito de collyrio de atropina e cocaina, sendo na parte infe- rior menos. Crystallino.—Normal. ÍA. O. V.=l Visão e refracção. — \ O. D. V.=l mal. (O. E. V.=l Diagnostico. —Irite syphilitica do olho direito. Marcha e tratamento.—7 de Setembro. E' prescripto: collyrio de atropina e cocaina,e injecções hypodermicas de pe- ptonato de mercúrio. 10.—Cessaram as dores; a injecção sub-conjunctíval quasi inteiramente extincta. Pupilla dilatada ad maximum. Suspende-se o uso das injecções de peptonato de mercúrio e prescreve-se xarope de Gibert na dose de 2 colhéres por dia. - 57 — 24.—Restabelecimento da irite. 26.—Apresenta-se hyperemia da iris principalmente na parte interna e superior da mesma, pelo que continua com atropinisação e injecções de peptonato de mercúrio. 8 de Outubro.—Tudo bem.—Restabelecimento completo com : A. O. V.=l. Alta, curado. 21 de Novembro.—Volta á enfermaria por sentir dores fortes.—Injecção perikeratica intensa; reincidio a irite—O. D. V=l. E prescripto: Collyrio de atropina e cocaina ; injecções de peptonato de mercúrio. 22.—Está melhor. 23.—Tudo bem; passou completamente a dôr ; a injecção desapparece de todo ; pupilla bem dilatada, continua com o collyrio e as injecções. 4 de Dezembro.— Tudo desappareceu.— Suspende-se toda a medicação. 10. —Continua bem V=l no OD e no OE. Alta, curado. QUARTA OBSERVAÇÃO William Garrete, preto, 40 annos, inglez, marinheiro, entrou para a enfermaría da Clinica Ophthalmologica a 15 de Setembro de 1885, e foi inscripto no registro das observações sob o n. 79. Anamnese e symptomas subjectivos.—Diz que cahio-lhe no olho direito um liquido irritante.—Está soffrendo ha 6 para 7 dias. o 1886 — 58 — Palpebras e conjunctiva.—Injecção sub-conjunctival do bulbo direito. Globo. —Tensão norm ai. Cornea.—Transparente. Iris.—De côr carregada. Cristallino.—Normal. (A. O. V=l. Visão e refracção. — j O. D. V=2/s- (O. E. V=l. Diagnostico.—Irite plástica incipiente do O. D. Marcha e tratamento.—E prescripto : fricções de 4 gram- mas de unguento napolitano por dia; collutorio de 10 grammas de chlorato de potássio para 400 grammas de água distillada; e instillações de 2 em 2 horas de um collyrio de sulfato neutro de atropina na proporção de 1 0/Q • 17. — Cessam as dores; a injecção é menor; a pupilla está dilatada ad maximum. Continua a mesma medicação. 22. — Tudo bem. Suspende-se a medicação. 30. —Completamente restabelecido; teve alta com VI em ambos os olhos. QUINTA OBSERVAÇÃO. Balthazar Affonso, branco, 25 annos, portuguez, traba- lhador, residente á rua do Rio Comprido n. 42, entrou para a enfermaria da Clinica Ophthalmologica a 10 de Março de 1886 e foi inscripto no registro de observações da mesma clinica sob o n 151. Anamnese e symptomas subjectivos.-.Refere que, haverá um mez, foi tratado em uma das enfermarias da Santa Casa de Misericórdia de rheumatismo e que ha 12 dias appareceu-lhe — 59 — inflammação do O. E. acompanhada de forte dôr, lacri- mejamento e photophobia. Accusa ter soffrido ha 4 mezes de infecção syphilitica, seguida do apparecimento de syphilides. Conjunctiva — Injecção conjunctíval e sub-conjunctíval no O. E. Globo. — Tensão normal. Cornea. —• Lisa e transparente. Pupilla e iris. — O. E. Pupilla dilatada por atropina; sy- nechias na parte infero-externa. Cristallino. — O. E. — Depósitos pigmentares na cápsula anterior, (A. O. V. =1. Visão e refracção JO. D. V. =1. (O. E. V. =1. Diagnostico. — Irite syphilitica do O. E. Marcha e tratamento. — 10. — E receitado : instil- lações de collyrio de atropina e injecções de peptonato de mercúrio. 13.—Diz sentir dores fortes na região supra orbitaria. E' receitado: unguento napolitano belladonado para usar em fricções na fronte. 15—-Poucas melhoras se notão; a injecção ainda é consi- derável . E' receitado : Xarope de genciana. . .. 200 grammas. Iodureto de potássio.... 20 » Citrato de ferro ammon. 2 » Tome duas colhéres por dia. 18. — Tem continuado a soffrer grandes dores ; injecção muito intensa; pupilla pouco dilatada; iris muito infiltrada. Continua com a mesma medicação e mais : injecções de chlo- rhydrato de pilocarpina. — 60 — 19.—Dilatação média da pupilla; injecção ainda muito notável; as dores persistem. Continua a mesma medicação. 27.—Injecção subconjunctival quasi extincta: pupilla dilatada; não existem synechias; symptomas subjectivos des- apparecem.—Continua ainda com o mesmo tratamento. 29.—Ainda alguma injecção sub-conjunctival. O. D. V.=l; O. E. V. = 2/3 (atropinisado). 31. Diz ter peiorado um pouco desde hontem; reappa- recem as dores ; injecção perikeratica um pouco mais pronun- ciada.—Cont. com: collyrio de sulfato de atropina; xarope de iodureto de potássio e citrato de ferro ammoniacal; e injecções de peptonato. 2 de Abril— Pupilla bem dilatada, nenhuma dôr; in- jecção perikeratica quasi nulla. Continua o mesmo tratamento- 8.—Ainda injecção perikeratica; se bem que muito ligeira. O. D.V. = l;O.E. V. = l. Continua com a mesma medicação. 10.—Suspende-se o collyrio de atropina—Continua com o xarope de iodureto de potássio e citrato de ferro e com as injecções de peptonato. 14. Queixa-se de dores ciliares á direita; injecção perikeratica muito notável do lado esquerdo. E' receitado: collyrio de sulfato de atropina, fricções de unguento napolitano e collutorio de chlorato de potássio. 16.—A dôr diminuio consideravelmente, bem como a in- jecção perikeratica.—Prescrevem-se injecções de chlorhydrato de pilocarpina continuando ao mesmo tempo com a medicação anteriormente prescripta. 20.—Tem ainda alguma dôr de cabeça; não existe mais injecção perikeratica. Continua cornos mesmos medicamentos. 25.—Apresenta stomatite ; a irite que havia reincidido, desapparece. Suspende-se o uso das fricções de unguento - 61 — napolitano. Continua com o collutorio de chlorato de potássio e o collyrio de atropina. 28.—Tudo vai bem. A. O. V.= l; O.D.V.= l;0. E. V. = l. Teve alta curado. > '=»SCg32c ■: f mmmi^èm CADEIRA DE PHYSICA MEDICA Estudo especial sobre os tliermometros clínicos I Nos thermometros clínicos a álcool ha o inconveniente de ser a columna muito frágil. Esta desvantagem desapparece nos thermometros a mercúrio. II No thermometro de Burg o reservatório de mercúrio é substituído por uma spiral desenvolvida em um plano perpen- dicular ao do tubo graduado. III Os thermometros de máxima devem ser preferidos na clinica por ser com elles mais fácil e precisa a observação. CADEIRA DE CHIMICA MEDICA E MINERALOGIA Estudo chiniico dos compostos de mercúrio e suas applicaçòes a medicina. Do chlorureto e do iodureto mercuricos como substancias anti- septicas. I Os compostos de mercúrio resultam ou da absorpção lenta do oxygeno a 300° (oxydos), ou da combinação do metal com o enxofre, o chloro, o bromo, o iodo, e os ácidos azotico e sulfurico. Distinguem-se duas ordens de compostos: os mer- curicos ou no máximo e os mercurosos ou no mínimo. II Os compostos de mercúrio têm larga applicação em medicina, principalmente nas affecções syphiliticas. III O chlorureto mercurico é reputado o mais enérgico anti- septico; o iodureto mercurico tem pouca importância como tal. .1 1886—T — m — CADEIRA DE CHIMICA ORGÂNICA E BIOLÓGICA Quinina e seus derivados I A quinina fôrma com o ammonio um radical hypothetico. II A hydroquinina contém uma molécula de água mais do que a quinina (C20 H25 Az2 O3). Alguns dos seus saes são mais solúveis do que os da quinina. III A oxyquinina (C20 H24 Az2 O3) contém um átomo de oxygeno mais do que a quinina. CADEIRA DE BOTÂNICA E ZOOLOGIA MÉDICAS Estudo geral dos vegetaes parasitários do homem e dos damnos que podem elles produzir I Os vegetaes parasitários podem se desenvolver na pelle e na mucosa do corpo humano ; alguns, quando estes órgãos se acham no estado normal,outros só se desenvolvem, quando um estado pathologico tem modificado estas membranas. II Os mais importantes dos mycrophitos que se fixam no tegumento externo são: o achorion, o tricophyton e o micros- poron, classificados, segundo Marchand, no grupo dos schizo- mycetos. III As moléstias determinadas pelos parasitas vegetaes são pouco graves. - 67 — CADEIRA DE ANATOMIA DESCRIPTIVA Órgão central da circulação I 0 órgão central da circulação, o coração, é um órgão contractil formado de dous conductos musculares estreitamente unidos entre si. II 0 órgão central da circulação acha-se dividido em quatro cavidades; duas superiores, as auriculas, e duas inferiores, os ventriculos. III O órgão central da circulação é sustentado na cavidade do thorax por um envolucro fibro-seroso, o pericardio. CADEIRA DE HISTOLOGIA THEORICA E PRATICA Serviços prestados pela histologia á pratica da medicina e cirurgia I No exame histologico dos tumores basêa-se o diagnostico differencial dos mesmos. II Para o diagnostico das nephrites a histologia presta á me- dicina innumeros serviços. III Ao auxilio do microscópio são devidos os progressos das doutrinas parasitárias. — 68 — CADEIRA DE PHYSIOLOGIA THEORICA E EXPERIMENTAL Da irritabilidade muscular I A irritabilidade muscular é a propriedade que apresen- tam os músculos de contrahir-se sob a influencia de um exci- tante qualquer. II A irritabilidade é propriedade inherente ao tecido mus- cular. III A irritabilidade pôde manifestar-se nos músculos sem que somente seja determinada pela excitação procedida do systema nervoso. CADEIRA DE ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGICAS Relações existentes entre a tuberculose e a escrofulose I E' tal a semelhança entre a tuberculose e a escrofulose que alguns autores descrevem-nas conjunctamente sob a denomi- nação de affecções estrumosas. II E' impossível, dizem os Srs. Cornil e Ranvier, em grande numero de casos estabelecer-se um diagnostico differencial entre um gânglio tuberculoso e um gânglio escrofuloso. III Acreditamos que a escrofulose e a tuberculose são gra- dações de um mesmo processo mórbido. — 69 — CADEIRA DE PATHOLOGIA GERAL Do parasitismo I Sob o nome de parasitas são denominados todos os seres vivos que, depois de invadirem a superfície do corpo de outro vivente, de penetrarem no seu interior, se nutrem á custa dos elementos chimicos e histologicos do organismo. II Os agentes productores das moléstias infecciosas são or- ganismos vivos inferiores que, penetrando no organismo, dão origem aos processos mórbidos infecciosos. Estes micro-orga- nismos têm sido considerados ora como plantas, ora como animaes, ora como zoophytos. III A doutrina do contagio vivo ou animado é de todas as theorias imaginadas até o presente para explicar a gênese e a natureza das moléstias infecciosas e contagiosas a mais se- ductora, a mais racional e a que actualmente tem mais aceitação. CADEIRA DE PATHOLOGIA MEDICA Rachitismo I As lesões produzidas pelo rachití&mo consistem em uma parada da ossificação normal, determinada pela ausência de matérias terrosas nos ossos e por modificações especiaes na estructura do tecido ósseo. II A idade dos individuos accommettidos de rachitismo de- termina modificações na marcha, nos symptomas e nas conse- qüências deste estado mórbido. III O rachitismo pôde ser considerado como moléstia here- ditária, — 70 — CADEIRA DE PATHOLOGIA CIRÚRGICA Dos tumores em geral I Os tumores são muitas vezes hereditários. II Um tumor transmitte-se habitualmente idêntico á sua natureza. III O contagio não existe nos tumores da serie conjunctiva ; é duvidoso a respeito do carcinoma. CADEIRA DE MATÉRIA MEDICA E THERAPEUTICA PRINCIPALMENTE BRAZILEIRA Electrotherapia I A eletrotherapia presta excellentes serviços, quer como agente principal de tratamento, quer como meio auxiliar. II O methodo de tratamento pela electrotherapia ainda não está vulgarisado,porque só a elle recorrem depois de esgotados todos os meios therapeuticos, ou então em moléstias incuráveis. III O opportunismo representa um grande papel no em- prego das correntes electricas, como em toda a therapeutíca. — 71 - CADEIRA DE PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR Estudo pharmacologico do ópio e seus alcalóides I Os preparados gallenicos do opío são instrumentos infiéis nas mãos do clinico. II Os princípios obtidos do opío não existem, em grande parte, assim constituídos no látex do Papaver somniferum. III A forma granular é a preferível para a administração dos alcalóides do opío, observado o processo do Codex para a sua preparação. CADEIRA DE HYGIENE PUBLICA E PRIVADA E HISTORIA DA MEDICINA Das condições que explicão a mortalidade das crian- ças na cidade do Rio de «laneiro I A fraqueza congênita é uma causa importante da morta- lidade das crianças no Rio de Janeiro. II A má qualidade da alimentação muito concorre para o augmento da cifra da mortalidade das crianças da cidade do Rio de Janeiro. III As mudanças bruscas de temperatura, produzindo affec- ções do apparelho respiratório, concorrem poderosamente para o augmento dos quadros da mortalidade das crianças do Rio de Janeiro. - 72 — CADEIRA DE ANATOMIA TOPOGRAPHICA, MEDICINA OPERATORIA EXPERIMENTAL, APPARELHOS E PEQUENA CIRURGIA Da talha hypogastrica I A operação da talha se divide em dous grandes methodos distinctos : methodo do alto apparelho ou talha hypogastrica, e pequeno e grande apparelho ou talha perineal. II A talha hypogastrica é uma operação grave e reserva-se exclusivamente para os cálculos de grandes dimensões. III A. talha hypogastrica consiste em extrahir cálculos volu- mosos da bexiga por uma incisão das paredes do ventre. CADEIRA DE OBSTETRÍCIA Causas de morte súbita durante o parto I Um grande numero de mortes súbitas durante o parto são explicadas pela thrombose ou embolia do coração e das artérias pulmonares. II Além de lesões orgânicas do utero ainda podem determi- nar a morte súbita durante o parto, a syncope, o abalo ner- voso e o esgotamento* III Alguns casos de morte súbita durante o parto devem sei referidos á introducção de amas veias. - 73 — CADEIRA DE MEDICINA LEGAL E TOXICOLOGIA Definição e classificação dos venenos, sua absorpção, distribuição e eliminação. I D'entre as varias classificações de venenos estabelecidas aceitamos, como a mais racional, a physiologica. II A plenitude do estômago retarda a absorpção dos venenos. III Só se manifestam os phenomenos de envenenamento, quando os agentes tóxicos se distribuem pelos tecidos. PRIMEIRA CADEIRA DE CLINICA MEDICA Das condições pathogenicas do delirio nas aflecções orgânicas do coração I A pathogenia do delírio nas affecções cardiacas acha-se ligada á sede e á natureza da lesão. II A stase na circulação geral é uma das causas mais com- muns do delirio. III A irritação produzida pelo edema cerebral concorre muitas vezes para a producção do delirio. iu 1886—T — 74 — PRIMEIRA CADEIRA DE CLINICA CIRÚRGICA Estudo comparativo do methodos de tratamento dos aneurismas cirúrgicos I Os methodos cirúrgicos aconselhados para o tratamento de alguns aneurismas internos e de quasi todos os aneurismas externos, podem, sob o ponto de vista do modo pelo qual pro- porcionam a cura, dividirem-se em : Io, methodos que actuão pela destruição do sacco ; 2o, methodos que actuão pela intro- ducção de agentes coagulantes no sangue; 3o, methodos que actuão pela diminuição ou suppressão da circulação no vaso ou no tumor. II Os methodos que actuão por destruição do sacco tem o inconveniente de determinar a morte por esgotamento ou infec- ção septica; os que actuão pela introducção directa de agentes coagulantes no sangue offerecem grandes perigos. III De todos os processos empregados para a cura dos aneu- rismas os que mais vantagem offerecem são os que actuão pela diminuição ou suppressão da circulação no vaso ou no tumor. CADEIRA DE CLINICA OPHTHALMOLOGICA Blepharoplastia I Podemos referir todos os processos blepharoplasticos a dous methodos geraes: por escorregamento e por trans- plantação. II Toda a operação de blepharoplastia deve ser precedida de blepharoraphia. III Consideramos o enxerto dermico como um meio prophy- latico da blepharoplastia. I Ophthalmia laborantem ab alvi profluviocorripi bonum. (Sect. I, Aph. Io.) II Quibus oculi in morbis spontè illacrimant, bonum, quibus vero non spontè, malum. (Scct. VII, Aph. 83».) III In doloribus oculorum, postquam merum bibendum de- deris, et multa calida lavaveris, venam secato. (Sect. VII, Apll. 56o.) IV Oculorum dolores mer potio aut balneum aut fomentium, aut ven sectio aut medicamentum purgant exhibitum solvit. (Sect. VI, Aph. 31<>.) V Somnus, vigília, utraque modum excedentia malum denunciat. (Sect. II, Aph. 43».) VI Ubi fames non oportet laborare. (Sect. II, Aph. 14o.) 6152 Esta these está conforme os Estatutos. Rio de Janeiro, 16 de Setembro de 1886. Dr. Brandão. Dr. Crissiuma. Dr. Francisco de Castro. J /