BIBMOTfiÈf BS BH11 ÍMB1TÊ BI Bg aiHlMê (BRÈSIL) torno NEIRO em 14 de ( 905 JBr- de S. Paulo Filho legiti.) Emilia Vacc ENAM_/f^ F £IRA 1»< SERODIAG1VOSTICO THESE APRESENTADA Á Fa» de Medicina do Rio de Janeiro em 14 de Outubro de 1904 e defendida publicamente em 23 de Janeiro de 1905 PELO J^r. J^aviere jraurino Natural do Estado de S. Paulo Filho legitimo de Raphael Laurino e D.a Emilia Vaccaro Laurino APPROVADA PLENAMENTE S. PAULO Typ. Espíndola, Siqueira & Comp.-R. Direita, io-A 1905 Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro Director:-Dr. Luiz da Cunha Feijó Júnior. Vice-Director :- SecretarioDr. Eugênio do Espirito Santo de Menezes. LENTES Drs. : Tiburcio Valeriano Pecegueiro do Amaral . . Clinica Medica. João Joaquim Pizarro Historia Natural Medica. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descriptiva. Eduardo Chapot Prevost Histologia. João Paulo de Carvalho Physiologia. Antonio Maria Teixeira Matéria medica, pharmacologia e arte de formular. Rodolpho Galvão Bacteriologia. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medico-cirurgica. Domingos Goes e Vasconcellos Operações e apparelhos. Antonio Augusto de Azevedo Sodré . . . Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologica. Henrique Ladislau de Souza Lopes .... Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetrícia. Ernesto do Nascimento Silva Medicina legal e toxicologia. Benjamim Antonio da Rocha Faria. . . . Hygiene. João da Costa Lima e Castro Clinica cirúrgica-2.a cadeira. Luiz da Costa Chaves Faria Clinica dermatológica e syphilographica. Miguel de Oliveira Couto Clinica propedêutica. Marcos Bezerra Cavalcanti Clinica cirúrgica-i.a cadeira. Erico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologica. Joaquim Xavier Pereira da Cunha .... Clinica ophthalmologica. José Benicio de Abreu Clinica medica-2.a cadeira. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. Cândido Barata Ribeiro Clinica pediátrica. Nuno de Andrade Clinica medica-i.a cadeira. João Martins Teixein. 1 „ ,. ...... . a 4. • t> j • t • / Em disponibilidade. Antonio Rodrigues Lima / r SUBSTITUTOS Drs. : Luiz Antonio da Silva Santos i? Secção. Antonio Dias de Barros 2.a » Oscar Frederico de Souza 3 " » 4 a » Francisco de Paula Valladares 5." » Pedro de Almeida Magalhães b." » Antonio Teixeira do Nascimento Bittencourt . 7 " » Augusto de Souza Brandão 8.a » Francisco Simões Corrêa g.a » José Antonio de Abreu Fialho 10.a » 1 1.a » Mareio Filaphiano Nery I2.a » KT. ZB. - A Faculdada não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas fio f/e Offereço esfe froSoífio ■ / J^tya ç$wa/mtnpa fâgraèíeço o muifo que por mim fez sjffffj Á/mà, f ff f ff c<j & f f fff ff ffj ^luifa amizade ^Saudosa recordação ^o meu bom cunbaclo ^ferna omizocíe E' antiquíssimo o conceito que resa: scribunt omnes sed omnes non scribzmt recte. Um trabalho no genero deste que se apresenta como ultima pagina da vida escolar e salvo-conducto da carreira profissional, deve encerrar o caracter soberano das obras feitas com amoroso apúro. A lealdade scientifica e a consciência de estudos longos e firmes devem primar no animo de quem as escreve. Maior realce lhes virá se houver para enfeibal-as formosura de estylo. Com esta mente escrevemos, mas não pudemos attingir á méta das aspirações que nos dominaram. Debuxamos apenas como em resumido mappas altos e baixos do limitado campo que lavramos, pequena e parca systematisação do assumpto esparso nas obras doutas. Observação pessoal também nos fallece no gráo em que a devêra- mos possuir. Apenas buscamos compendiar o melhor doutrinarismo ou o que assim nos pareceu. Rio de Janeiro, 14 de Outubro de 1904. e ^aff/únt^ INTRODUCÇÃO A microbiologia clinica dispõe de tres (3) metliodos para reco- nhecer a existência de uma moléstia infecciosa; i.° procura pôr em evi- dencia o agente pathogenico; 2.0 tracta de obter uma reacção especial injectando, no organismo doente, toxinas microbicas (maleina, tuberculina) ; 3.0 finalmente utilisa da acção das secreções organicas sobre o microbio. E' sobre o ultimo d'esses processos que assenta o methodo do Serodiagnostico proposto por Widal, em 26 de Junho de 1896, á Sociedade Medica dos Hospitaes de Paris e por elle applicado na febre typhoide. As communicações de Widal sobre o pouco conhecido phenomeno da sero-agglutinação dos microbios despertaram a attenção dos sábios e suscitaram grande numero de pesquizas em differentes infecções experi- mentaes e humanas. Neste insignificante trabalho, fructo de observações de sábios illustres, procuraremos, na medida de nossas forças, estudar e examinar a agglutinação dos microbios analysando rapidamente os tra- balhos que a este respeito se tem escripto e tirando dos mesmos conclu- sões nossas que nos pareceram admissiveis, até prova contraria. Rio de Janeiro, 14 de Outubro de 1904. DISSERTAÇÃO CAPITULO I HISTOLFU-A. Revista dos principaes trabalhos sobre o phenomeno d'agglutinação As numerosas pesquizas feitas, n'estes últimos annos, sobre a immunidade natural e adquirida estabeleceram que o sangue dispõe d'alguns meios para defender o organismo na lucta contra os agentes deleterios. Age directamente sobre os microbios, destruindo-os (acção bactericida), bem como sobre as suas secreções, neutralisando-as (pro- priedade antitoxica). A propriedade bactericida do serum foi estu- dada no cholera e nas infecções produzidas pelos germens pseudo cholericos. Pfeiffer recorreu á propriedade bactericida dos sôros para fazer o diagnostico bacteriológico e differencial do vibrião de Kock indiano e de outros vibriões'. Segundo elle, inoculando em animaes o cholera indiano obtem-se um sôro capaz de neutralizar unicamente o respectivo vibrião e não os outros semelhantes e vice-versa. Este facto que tem uma certa importância no diagnostico do cholera tem algum valor na prophylaxia desta moléstia? ou fazendo estas inoculações consegue-se preservar o organismo do contagio? Se bem que Pfeiffer o acredite é difficil responder, porquanto a verdadeira acção immunizante e curativa dos sôros consiste na destruição dos productos dos microbios, as toxinas; logo em sôro bactericida e não antitoxico difficilmente immuniza. 12 N'um mesmo sôro, as propriedades bactericida e antitoxica gozam d'uma certa independência; assim o sôro anti-diphterico, uma gotta do qual preserva uma cobaya da diphteria não consegue destruir o bacillo de Lôeffler. O sôro d'animaes vaccinados pelo bacillo d'Eberth, pyocianico, etc., possue, além dos poderes bacteri- cida e antitoxico, a faculdade de modificar os caracteres morpholo- gicos d'esses microbios. Uma d'essas modificações consiste na sua transformação em grânulos (phenomeno de Pfeiffer) a outra na sua reunião em massas agglutinosas, (phenomeno d'agglutinação). Depois de haver servido a explicação de theorias novas sobre a immuni- dade estes phenomenos receberam duas applicações importantissimas: a primeira (i.a) interessa os bacteriologistas e consiste na distincção dos typos ou especies microbicas ou microbios por meio de sôro d'animaes infectados experimentalmente. (Serodiagnostico dos micro- bios) ; a segunda (2?) interessa os clinicos e consiste no diagnostico da natureza das infecções humanas utilizando-se para isso do sôro de convalescentes. (Serodiagnostico das moléstias). § l.° Serodiagnostico dos microbios l.°-Phenomeno de Ffeiffer Em 1894 Pfeiffer fez a seguinte experiencia fundamental: injectou na cavidade peritoneal d'uma cobaya nova, uma emulsão de vibriões do cholera e serum dum animal immunizado; no fim de 20 minutos extrahiu um pouco de liquido peritoneal e constatou que os microbios infectados haviam perdido os seus movimentos, a sua forma alongada e se haviam transformado em grânulos. Pfeiffer, como já vimos, propoz utilizar este phenomeno para distinguir o agente pathogenico do cholera indiano dos outros vibriões; mais tarde, em 1896, para differenciar o bacillo d'Eberth do coli bacillo. Mostrou também que o soro de convalescentes de cholera e de febre typhoide póde substituir, no diagnostico dos microbios, o soro de animaes vaccinados? Admittiu ainda o mencionado Pro- fessor o facto inverso, isto é, que se pode fazer o diagnostico re- trospectivo d'uma infecção por meio da transformação granulosa. Metschnikoff, simplificou notavelmente este processo de diagnostico dos microbios mostrando que o phenomeno de Pfeiffer também se produz in vitro\ independentemente do animal. 13 2.°-Phenomeno d'agglutinação Graças aos trabalhos de Metschnikoff e Bordet, possuímos actualmente um processo facil e rápido para differenciar, in vitro, os microbios com o soro de animaes immunizados experimentalmente. As cousas haviam chegado a este ponto, quando, no prin- cipio de 1896, Gruber reepilogando os trabalhos feitos com Durham, propoz diagnosticar o vibrião do cholera indiano e o bacillo d'Eberth mediante uma outra modificação dos microbios, phenomeno tinação. Eis em que consiste este phenomeno: examinando ao micros- copio, unia cultura de bacillos d'Eberth a veremos percorrida em todos os sentidos, de microbios isolados e moveis. Si á preparação juntarmos uma gotta de sôro d'um animal immunizado, veremos que os bacillos já não são moveis nem isola- dos, perderam a sua mobilidade e se reuniram em massas, «se ag- glutinaram,» de modo a formar segundo a bella expressão de Vidal grandes e pequenas ilhas dum archipelago. (Reacção instantanea). Este phenomeno é visível a olho hú, quando examinamos uma cul- tura de bacillos d'Eberth, por ex.: e se nella juntamos serum d'um animal infectado experimentalmente por esses bacillos 12 ou 14 horas depois o caldo não é mais turvo; os microbios se precipitam no fundo do provete em grossos flocos esbranquiçados. Este methodo de Gruber e de Durham foi em breve con- firmado por Pfeiffer e seus alumnos. O trabalho de Vidal, sobre o Serodiagnostico da febre ty- phoide, trouxe esta importante noção que o sôro de indivíduos affectos de typho agglutina o bacillo d'Eberth, no periodo de infec- ção da moléstia. Este sôro pode ser utilizado no diagnostico da febre typhoide. Nas infecções experimentaes, a propriedade agglu- tinante apparece no terceiro ou quarto dia depois da inoculação. (Achard e Bensande). Bordet e Pfeiffer todavia viram que, o sôro de animaes normaes não immunizados (cavallo, cabra, cobaya, lebre) póde exercer uma certa acção agglutinante sobre os vibriões do cholera, bacillo d'Eberth. Vagedes mostra que os vibriões cholericos, além do de Kock, se agglutinam ás vezes com o sôro cholera, mas esta acção desappa- rece se empregarmos um sôro mais diluido. O bacillo d'Eberth é o unico microbio que se deixa agglu- tinar pelo sôro-typho-. As primeiras experiencias responderam em modo discordante, até que Widal e Sicard, por seus trabalhos, concluíram que, adoptando ou empregando um sôro typho muito 14 diluido, elle agglutinará sómente uma cultura de bacillos d'Eberth. Fazendo outro tanto com os sôros diluidos de vibriões cholericos, de bacillos de Jersin, etc,: elles agglutinarão sómente os respectivos bacillos, isto é, um sôro diluido de cholera não agglutinará nunca o cocco-bacillo de Jersin e vice-versa. § 2.» Serodiagnostico das moléstias Emquanto se realizavam estas experiencias sobre a differen- ciação dos microbios pelo sôro, um facto importante dava-se na Sociedade Medica dos Hospitaes de Pariz, (26 de Junho de 1896), o da communicação, por parte de Widal, do phenomeno &agg/uti- nação, applicado ao diagnostico das moléstias. Antes da communicação de Widal nada se havia feito a este respeito nem sequer a mais leve allusão á probabilidade de obter a reacção agglutinante com o sôro de individuos no principio da moléstia e no periodo d'estado de infecção. O methodo do Sero- diagnostico foi logo estudado em França e confirmado por quasi todos os clinicos; se não fosse a descoberta de Widal que o pheno- meno d'agglutinação passaria desapercebido ainda hoje. Tres ou quatro mezes depois appareceram as primeiras experiencias feitas pelos Allemães e Inglezes. Bresser propoz ao Serodiagnostico o nome de processo de Widal. Agora as observações favoráveis ao methodo do Sercdiag- nostico são tão numerosas que longo seria apenas enumeral-as. Houve quem obtivesse a reacção em individuos sãos. A maior parte dos casos contradictorios não enfrentam a critica porque ou não se poude fazer o diagnostico na meza ana- tómica visto o doente ter-se curado, ou não se usaram todas as regras que uma perfeita technica nos mostrou indispensáveis. Desde o inicio das suas pesquizas, o Professor Widal, indi- cou diversos processos para pôr em evidencia a sero-agglutinação, mostrou que o phenomeno se produz com o sangue fresco e secco. N'uma série de memórias publicadas em collaboração com Sicard, precisou os detalhes da technica; mostrou que os bacillos mortos conservam a propriedade agglutinante do sangue dos indi- viduos .atacados de febre typhoide. Widal e Sicard procuraram es- tabelecer a data do apparecimento e desapparecimento da reacção agglutinante. Achard e Lenotte citam casos em que a reacção per- sistiu depois da apyrexia. Widal e Wimberg publicaram observa- 15 ções nas quaes a reacção persistiu em indivíduos curados, depois de annos. Brener, Thoinot e Cavasse publicaram todos uma obser- vação cada um, em que o phenomeno appareceu numa recahida de typho. Achard e Bensande chamam a attenção, depois de Widal, para certos casos excepcionaes em que a reacção é tardia e appa- rece depois do periodo bestado das moléstias. «Eu penso, escreve o Professor Achard a este respeito, que os casos de reacção tardia por mim citados, são uteis de conhecer, afim de evitar erros de in- terpretação, mas não tiram a importância do Serodiagnostico da febre typhoide. Elles mostram sómente que, uma indicação nega- tiva não poderá jamais constituir um elemento de certeza, e, que a ausência d'um signal, seja elle mesmo de grande valor, não é sufifi- ciente a fazer-nos abandonar ou negar um diagnostico que parece verdadeiro sob outro respeito.» Widal e Sicard fazem ver a impor- tância do Serodiagnostico, com sangue secco, sob o ponto de vista da Medicina Legal e da Hygiene Publica; as suas observações foram confirmadas por Johnston e Togart, os quaes organizaram no Conselho de Hygiene do Canadá, um serviço do Serodiagnostico usando sangue secco. Achard e Courmont, publicaram observações nas quaes o Serodiagnostico praticado depois da cura da febre ty- phoide permittiu reconhecer a infecção. O Professor Courmont julgou tirar do Serodiagnostico um elemento de prognostico; mas como bem fez relevar o Professor Widal, não se poderão estabelecer relações constantes entre a gra- vidade da infecção e o apparecimento e a intensidade da Sero- reacção. Agora, porém, segundo as estatísticas de vários clínicos, ha quasi sempre uma analogia entre uma reacção agglutinante dos pri- meiros dias da infecção com poder agglutinante elevado e o curso leve da infecção e vice-versa. Achard e Bensande em Setembro de 1896 publicaram que, o methodo do Serodiagnostico póde extender-se ao cholera asiatico e estabeleceram que a reacção agglutinante existe no homem no periodo d'estado e na convalescença; mostraram que esta reacção é utilizável para o diagnostico, mas essas pesquizas apresentam dif- ficuldades maiores do que para a febre typhoide. O methodo do Serodiagnostico foi tentado, mas em vão em casos de psytachose. Num doente do Professor Achard infeccio- nado pelo bacillo de Nocard, o serum agglutinou nitidamente o bacillo. Descobriu-se depois nas índias a acção agglutinante do soro de animaes vaccinados contra a peste e dos que já a haviam con- 16 trahido: depois d'essas experiencias o methodo do Serodiagnostico foi applicado na differenciação do Coccus-bacillo de Jersin e no diagnostico da peste. Para terminar a enumeração das applicações praticas do Serodiagnostico lembrarei finalmente as tentativas feitas por Fade- geam no Mormo, por Davidson no Cholera dos porcos e as pes- quizas muito interessantes de Besançon e Griffon sobre o poder agglutinante do sôro nas infecções experimentaes e humanas do Pneumococcus. O Professor Nicolas assignalou a agglutinação' do bacillo de Lõeffler, pelo sôro anti-diphterico. § 3-° Natureza e origem da substancia agglutinante. Distribuição, formação e destruição dessa substancia no organismo A interpretação e a natureza do phenomeno d'agglutinação levan- taram vivas controvérsias. Gruber attribue essa modificação a substancias especificas con- tidas no sangue «agglutininas» e faz tomar a estas substancias parte importante na producção do phenomeno de Pfeiffer. Para elle a reacção agglutinante e a transformação granulosa dos microbios es- tão sob a dependencia uma da outra; Pfeiffer, Sanarelli, Salimbeni e outros no mez de valia, depois de longos estudos sobre este ramo de medicina fizeram crer em cousas do Arco da velha, todas sem valor algum; outros sustentam que a transformação granulosa dos mi- crobios se obtem independentemente das substancias agglutinantes dizendo que são duas substancias differentes. . Por isso como se havia dado o nome d'agglutinina a uma del- ias, Fraenkel, propoz chamar a outra lisogena, isto é, substancia que produz a dissolução dos microbios. Para o illustre Dr. Salimbeni, existe uma dififerença nitida entre o phenomeno d' agglutinação e o de Pfeiffer, pois que este se produz no organismo emquanto que aquelle apparece in vitro\ Widal e Sicard julgam que, num mesmo sôro as propriedades bactericida, attenuante e agglutinante, são inde- pendentes. Para Widal o phenomeno d'agglutinação é uma reacção do periodo d'infecção e não uma reacção d' immunidade, como o ha- viam admittido Gruber e Pfeiffer; apparece no curso do periodo de infecção, pode desapparecer nas primeiras semanas da convalescença, no periodo de immunidade no máximo e pode existir na apyrexia, alguns dias antes d'uma recahida, quando não se possue nenhuma 17 immunidade. As experiencias d'Achard e de Bensanden estabelece- ram que as substancias agglutinantes existem no plasma vivente e que os leucocytos não as possuem em maneira exclusiva e predomi- nante; mostram até que a passagem da propriedade agglutinante nos diversos liquidos orgânicos parece não estar em relação com a pre- sença dos leucocytos. Widal e Sicard chegam aos mesmos resulta- dos e mais constatam este facto: que, as substancia albuminoides, como o fibrinogeno, as globulinas, isolados dos humores de um doente de febre typhoide, tiram desses liquidos primitivos as propriedades agglutinantes e as retêm ao menos em parte. Destas primeiras. pes- quizas constataram que, filtrando as urinas dos doentes de typho na vela de porcellana, ellas perdem o seu poder agglutinante si primei- ramente o possuíam. Achard e Bensand mostraram que isto tam- bém era applicavel ao leite e que filtrando um liquido orgânico de poder agglutinante elevado este liquido apenas ficava d'acção enfra- quecida. A substancia agglutinante é muito tenaz, resiste á luz solar, á putrefacção e ao dissecamento. Não obstante esses trabalhos, a origem e o lugar de formação das «agglutininas-» nos são desconhe- cidos. As tentativas experimentaes feitas por Achard e outros para precizar este ponto ficaram sem resultados. Sabe-se apenas que, to- dos os modos d'inoculação podem originar, nos seres viventes, a ac- ção agglutinante: a ingestão de culturas, em grande quantidade, fica em geral sem effeito, debaixo d'esse ponto de vista. A injecção sub-cutanea de culturas de bacillos d'Eberth este- rilizados na vela de porcellana (Widal), a inoculação nas veias d'uma pequena quantidade de toxina typhica solúvel (Chantemesse), fazem apparecer no animal as agglutininas. No homem, as injecções sub- cutâneas de vibriões cholericos, de bacillos d'Eberth vivos ou mortos conferem ao sangue propriedades agglutinantes, como provam as ex- periencias de Pfeiffer e Kolle. Em certos casos excepcionaes a sub- stancia agglutinante persiste indefinidamente no sangue. Desapparece a miudo na convalescença e nas creanças alguns dias depois de nascidas, (segundo as experiencias de Nicolas, nas creanças o poder agglutinante apenas dura de 2 a 3 semanas). Nas amas doentes de febre typhoide a Sero-reacção desapparece mais no leite, que no sangue. Este problema do desapparecimento da substancia aggluti- nante exige mais estudos; agora não podemos senão fazer hypothe- ses; segundo Arloing, a substancia agglutinante é mais ou menos destruída e eliminada pelas glandulas, especialmente pelo baço. Ao mesmo tempo estudou-se a distribuição da propriedade agglutinante nos humores. Widal achou-a inconstantemente; Achard e Bensande mostraram que a reacção existe no leite das amas atacadas de ty- pho mas falta no sangue da creança.-Widal e Sicard fizeram depois as suas experiencias com o liquido dos vesicatórios, as serosidades 18 peritoneas, pleuraes, e pericardicas, a bilis, as lagrimas, o liquido ce- phalo-rachidiano e o liquido dos edemas; Achard e Bensande com a saliva, sueco gástrico, descargas diarrhoicas e com a expectoração bronchica. Estes dous últimos auctores (Achard e Bensande) constataram que a urina não dá sempre a reacção.-Thiercelin teve resultado ne- gativo em suas experiencias. Menetreir, refere a observação d'um caso de febre typhoide complicado de pleuriz em que o serum dava a reacção agglutinante emquanto que o liquido pleural cheio de bacillos d'Eberth não pro- duzia o phenomeno. Courmont chegou aos mesmos resultados e estabeleceu esta hypothese: o poder agglutinante diminue nos orgãos e nos liquidos em que se localiza o bacillo d'Eberth. A passagem da propriedade agglutinante atravez da placenta suscitou numerosas pes- quizas. Etienne, Achard, Bensande, e outros referem casos em que a transmissão da propriedade agglutinante de mãe a filho (feto) fa- lhou; porém a esses casos negativos se oppôem os positivos observa- dos por Widal, Widal-Mossé. Procurando interpretar estes resultados, Achard veio a esta conclusão; «a intensidade do poder agglutinante é a condição ou ao menos uma das condições da sua transmissão ao feto». CAPITULO II Applicação do phenomeno d'agglutinação. Infecção typhoide. Methodos para o Serodiagnostico da febre typhoide Widal, na sua primeira communicação, indicou 3 processos para pôr em evidencia, no sangue dos doentes de febre typhoide, a reacção agglutinante.- Como em cada um destes 3 processos o exame microscopico é indispensável, procuraremos descrever os vários as- pectos da reacção agglutinante sobre o microscopio. Ella é caracterizada por 2 processos : a immobilidade dos bacillos e a sua reunião em massa. Estes dous processos devem existir sempre juntos, a immo- bilisação dos bacillos somente é insufficiente. As massas são cons- tituidas de grupos de bacillos deformados, retrahidos e separados por espaços claros onde se acha algum microbio immovel. Nos casos ordinários, porém, a reacção não apresenta esta intensidade; os bacillos são numerosos nos espaços intermediários e ás vezes estão ahi como que fechados, outros conservando um certo movimento. 19 Quando a reacção é fraca ou a preparação é antiga n'ella não acha- mos verdadeiras massas apenas centros agglutinados (Widal). O as- pecto das massas é importante de conhecer-se, pois que se tivermos debaixo de nossos olhos uma delias mesmo typica por si só não caracterizará a reacção. Para ser a preparação decisiva exigem-se n'ella massas disseminadas e centros agglutinativos dispostos á ma- neira d'ilhas d'um archipelago. l.°-Processo Extemporâneo Este processo é justamente o mais pratico. Recolhe-se uma certa quantidade de sangue d'um dedo ou do lobulo da orelha, num provete; quando elle já se tiver coagulado, destaca-se o grumo das paredes do provete com um fio de platina esterilizado; isto é des- tinado a ajudar a transsudação do soro si n'elle vier algum globulo vermelho, não faz mal, porém si forem muitos, nos impedirão de vêr as massas bacillares, e convém n'este caso esperar que se depo- sitem. Esta consideração nos deve fazer regeitar o emprego do san- gue fresco ao envez de secco. A cultura de bacillos d'Eberth a em- pregar deve ser muito pura. Antes de usar o bacillo d'Eberth se deve procurar os seus caracteres morphologicos e biologicos e se deve ter certeza de que o microbio presente é justamente o agente pathogenico da febre typhoide. O poder agglutinante quasi não se altera nas infecções secun- darias; não é indispensável observar neste processo uma antisepsia ri- gorosa. Continuemos a discripção acima iniciada; faz-se a emulsão da cultura em caldo e não em agua distillada, porque neste liquido a sero agglutinação quasi sempre não se obtem. A cultura deve ser a mais fresca possivel, T2 ou 14 horas de estufa são mais do que sufficientes. Com úma pipeta bem afiada, tiram-se desta cultura dez gottas, levam-se n'um provete, junta-se ahi uma gotta de sôro e mistura-se tudo muito bem. Examina-se finalmente ao microscopio a gotta pendente no fio de platina, e quasi sempre a reacção é instantanea. Si no fim de mezes, porém, não se formam as massas, na diluição a 1:10 e os bacillos conservam a immobilidade, o resultado é negativo e devemos no dia seguinte recomeçar as experiencias. As culturas em caldo de bacillos d'Eberth, porém, apresentam ás vezes expontaneamente fôrmas de massas, que se tomam por agglu- tinações verdadeiras. Nunca se deve deixar d'examinar a cultura antes do accrescimento do serum. 20 2.°-Processo de cultura na estufa Este processo exige um tempo mais longo d'observação e uma technica mais complicada. O methodo de cultura na estufa presta serviços especialmente como processo de comparação e dá também resultados mais perfeitos. A asepsia do sôro é indispen- sável n'este processo; deve-se obter sangue da mais absoluta pureza, ferindo a veia da dobra do cotovello. Para obter-se n'este processo, a reacção convém lançar mão d'um tubo de caldo intacto ao qual se addicionam traços de cultura typhica e sôro. A proporção do serum e do caldo deve ser a i : 10. Leva-se a mistura á estufa e mais um tubo de comparação que não tenha sôro. Examinam-se, depois de 12 ou 14 horas, os dous tubos e vê-se que o tubo não contendo serum é turvo e d'aspecto ondulado emquanto que o outro é lím- pido (clarificação do caldo) e a cultura deposita-se em flócos esbran- quiçados. Agitando, estes flócos sobrenadam no liquido, mas não se dissolvem completamente. Esta reacção visivel microscopicamente deverá ser confirmada ao microscopio e mostrar-nos que os flócos são constituídos de massas de bacillos d'Eberth immoveis. 3.°-Terceiro processo de Widal Este processo é uma variante do segundo. Envez d'intro- duzir no caldo intacto ao mesmo tempo sôro e a cultura de bacillos d'Eberth, faz agir o sôro typhico numa cultura já desenvolvida e com uns dous dias de vida. Esta reacção vae muito sujeita a erros; o principal é que os tubos muitas vezes se turvam depois de haver manifestado uma nitida reacção. A reacção n'este processo é rapida conforme o sôro typhico empregado. Para obviar ao inconveniente d'uma nova turvação depois d'haver apresentado a reacção, deve-se examinar frequentemente os tubos postos na estufa. O caldo pode-se turvar não observando a asepsia do liquido, pela presença de microbios extranhos; a reacção n'este caso invisivel a olho nú observa-se bem ao microscopio. 4.°-Medida do poder agglu.tin.ante Procurando a reacção agglutinante nas soluções de serum a r.io, alguns auctores obtiveram ás vezes a formação de pequenas massas com o serum d'individuos sãos ou affectos d'uma moléstia 21 qualquer exceptuada a febre typhoide. Disto resulta que, todas as vezes que a reacção d'um serum observado fôr debil e que se qui- zer trabalhar com certeza absoluta convirá medir o poder agglutinante. A rapidez de formação das massas, o seu numero, o seu volume podem dar uma ideia exacta da intensidade da reacção, mas não ha meio d'investigação approximativa que tenha o rigor d'uma demonstração scientifica. Widal e Sicard mediram o poder agglu- tinante com o processo de cultura na estufa; prepararam uma serie de tubos esterelizados contendo um, dous, tres, quatro, cinco cen- timetros cúbicos de caldo; juntaram a cada um traços de cul- tura e uma gotta de serum e observaram que o tubo que se cla- rificava por ultimo indicava o limite do phenomeno; um tubo clari- ficado se póde turvar, o limite da clarificação ordinariamente se at- tinge antes do d'agglutinação extemporânea; emfim os bacillos nas- centes duma cultura são mais sensiveis. Widal e Sicard procuraram o poder agglutinante na reacção extemporânea. Eis a technica por elles seguida: fazem primeiramente um exame a 1:10 para julgarem da intensidade do phenomeno approximativamente, depois 2 diluições de serum a 1:50 e 1:100. As gottas devem ser eguaes o mais que fôr possivel. Si na solução a 1:50 não se produz o phenomeno no fim de 15 ou 20 minutos, experimentam-se decrescendo as outras, isto é 1:40, 1:30, 1:20, si porém acontecer o inverso e a reacção fôr negativa para a diluição a 1:100, lançam mão das soluçõos a 1:60, 1:80, etc. Apresentando-se, na diluição a 1:100, o phenomeno de Widal experimentaremos as de 1:150 e 1:200 etc; até que tenham desappa- recido as massas no tubo d'ensaio. Certamente se toma como di- luição limite aquella em que se não produzem centros agglutinativos. 5.°-Modificações nos processos do Serodiagnostico Foram propostas tantas modificações á technica do Serodi- agnostico, que até podemos dizer que cada observador procurou algu- ma modificação. Não fallaremos senão de duas, propostas por Widal, isto é, o emprego dos bacillos mortos e o uso do sangue secco. Antes de descrevel-os mencionaremos uma particularidade aconselhada na Allemanha. Muitos experimentadores submettem o sangue á cen- trifugação para delle obter rapidamente plasma sem globulos: outros preferem o emprego de pipetas graduadas para medir o titulo de diluição d'um serum. Alguns auctores propuzeram titulos de diluição além de i : 10 afim d'evitar uma reacção em serum d'individuos não atacados de 22 typho. Durham servio-se d'uma solução a 1 : 17 ou 1:20; Scheffer de 1 : 20 (reacção microscópica): Kolle de 1:30; Grumbaum, Gru- ber (processo extemporâneo depois d'uma hora ou 1/2 na tempera- tura do quarto) de 1:32; Stern (processo extemporâneo depois de 2 horas d'estufa n'um quarto húmido) de 1 : 50, Trãnkel começa por misturar uma gotta de serum a uma de caldo da cultura; o resul- tado sendo positivo prepara um tubo contendo 5 gottas (1 em 3) de caldo de cultura typhica ás quaes junta uma de sôro; faz assim uma primeira preparação, junta depois uma outra e faz a segunda preparação; finalmente derrama uma 3? gotta e faz a terceira. N'este processo o illustre Professor examina 3 soluções diffe- rentes do mesmo sôro feitas a 1 : 50, a 1 : 25 e a 1 :. 15. O Dou- tor Fiocca assim procede no serodiagnostico da febre typhoide: da cultura recente de typho toma uma gotta com o fio de platina que leva á objectiva; punge o dedo ou a orelha do enfermo e, da gotta de sangue tira com um alfinete a menor quantidade, e a mistura logo ao caldo. A laminula vae sobre a lamina, como succede na preparação da gotta pendente. Em tal maneira a quantidade de san- gue misturado do caldo está na proporção de 1:17 ou 1:20; nem a presença dos globulos obstaculam o phenomeno, como já observou Courmont. Porém é bom que a quantidade d'esses globulos seja pequena afim de que o phenomeno seja muito claro. Com este me- thodo a reacção se produz em 10 minutos, raramente em 20 ou 25. 6.°-Emprego de bacillos mortos Widal e Sicard mostraram que se pode empregar no Sero- diagnostico culturas esterilizadas sem prejudicar a clareza da reacção. Para a esterilização, estes observadores serviam-se do calor a 57°. e 6o.° durante meia hora ou tres quartos d'hora e do formal 1 gotta para 150 de caldo de cultura de febre typhoide durante 24 horas. Nande-Velde, recommendam o emprego do sublimado corro- sivo e do acido phenico a 1:100 e mais do tymol. O contracto prolongado dos bacillos d'Eberth nessas substancias antisepticas não diminue á nitidez do phenomeno. Este methodo permitte observar nos laboratorios culturas esterilizadas: com ellas se póde obter sem- pre um resultado immediato; mas é conveniente comparal-as alguns dias depois com uma cultura fresca. 7.°-Serocliagnostico com o sangue secco A segunda modificação importante proposta por Widal con- siste no emprego de sangue secco em logar do soro e do san- 23 gue fresco. A disseccação do sangue e do sôro faz-se ao ar, espe- cialmente em papel gommado. Si tivermos d'examinar o sangue na madeira, no vidro e no papel-gommado lançaremos, n'um crystaliza- dor, uma d'essas substancias e ahi faremos a diluição do mesmo em 2 gottas d'agua; é preferível diluir no sangue e no caldo esterilizado porque a agua esterilizada impede a producção do phenomeno de Widal: agita-se com um bastão de vidro até que o sangue se tenha dissolvido e finalmente ahi se juntam 8 gottas de cultura e exami- na-se o preparado ao microscopio. Este methodo deu bons resul- tados a Johnston (22 casos); a principal critica que se lhe póde fazer é que o titulo de diluição se mede approximativamente. O emprego do sangue secco nos expõe a erros; pensamos que este methodo deve ser mais restricto. Widal e Sicard fizeram ver que este pro- cesso de Sero-diagnostico póde prestar serviços em Medicina Legal. § 2.» A reacção agglutinante na febre typhoide 1°-Epocha do apparecimento da reacção agglutinante na febre typhioide Quando se injecta no tecido cellular das cobayas i cm. de cultura de bacillos d'Eberth a reacção agglutinante apparece, salvo raras excepções, no 3.0 ou 4.0 dia. (Achard e Bensande). O Prof. Widal observou alguns casos em que - o phenomeno, o poder agglu- tinante, manifestou-se além do 5.0 dia. No homem a data do apparecimento da reacção é muito dif- ficil estabelecer-se; os doentes quasi sempre dão entrada no Hospi- tal em período adeantado de moléstia e não sabem precisar a data do inicio da infecção. A este respeito parece-nos util referir uma longa estatística de casos de febre typhoide afim de convencer a quem quer que seja que a reacção agglutinante se manifesta no periodo de infecção da moléstia. Bensande nos fornece uma estatística de 4 5. doentes de typho em que 28 deram a reacção no i.° septenario e 17 no 2.0, em dous casos sómente o phenomeno se manifestou no 1 7.0 dia e 14° da moléstia. Courmont apresenta uma estatística de 200 doen- tes, em 120 dos quaes a reacção apparece no fim do i.° septena- rio; em 20 no 9° dia; em 45 no fim do 2.0 septenario; em 15 nos 19.0 e 2 6.° dias. O Prof. Widal, na Semaine Médicale, de 1897 (Julho) apre- senta uma estatística de 240 doentes nos quaes apparece a reacção 24 entre o 5.0 e o io.° dia da moléstia; só em limitados casos na apy- rexia. 2.°-Epocha do desapparecimento da reacção agglutinante A data do desapparecimento da agglutinante no sangue muito difficilmente se estabelece porque a maioria das vezes perde-se de vista o doente com a sua sahida do Hospital. Geralmente a reac- ção desapparece na 2.a ou 3? semana da convalescença; porém, ha casos em que a reacção se prolonga indefinidamente, tanto que ella foi achada diversos mezes depois d'uma convalescença. Widal e Sicard, mediram o poder agglutinante d'individuos muitos annos depois de curados; um d'elles tinha tido a febre ty- phoide e no emtanto apresentava a reacção a 1 : 800; em outros casos publicados obtiveram o phenomeno com titulos 1 : 50. Esta persistência do poder agglutinante serve no diagnostico retrospectivo d'uma febre typhoide mezes depois de curados. Os Profs. Achard e Courmont, tiveram occasião d'apreciar esta importante applicação do Sero diagnostico. Mas, isto póde ser causa d'erro para o methodo do Sero-diagnostico; uma leve infecção que passou quasi desapercebida póde conferir ao sangue virtudes agglutinantes persistentes e confundir o Medico n'uma infecção ulte- rior. Por conseguinte é necessário que a anannese próxima e re- mota do enfermo seja clara e perfeita, o mais possivel. Nos casos em que se obtem a reacção sem que o doente apresente uma infecção typhoide devemos admittir uma remota. § 3.' Do valor do Sero-diagnostico na febre typhoide A critica do Serodiagnostico se divide em 2 partes: i.° a ausência da reacção agglutinante deve-nos fazer sempre excluir o dia- gnostico da febre typhoide? 2.0 a presença da reacção aggluti- nante é sufficiente a fazer-nos admittir sempre o diagnostico da fe- bre typhoide? Widal e Sicard, em principios de 1897, publicaram uma observação de febre typhoide com recahida, em que não obti- veram o phenomeno d'agglutinação durante o periodo febril e a con- valescença. Não se podia pôr em duvida que se tractasse da infecção, pois que feita a puncção no baço, no i.° ataque da molés- tia e na recahida dava culturas de bacillos d'Eberth.-Devo relatar que existem outros casos em que a reacção não póde ser utilizada 25 na pratica porque apparece n'um período adeantado da moléstia, quando os symptomas já nos fazem estabelecer o diagnostico. Assim Widal e Bensande referem casos em que o phenomeno só se mani- festou depois do 19.0 dia da moléstia. Em Abril do corrente anno apresenta-se ao Hospital da Misericórdia uma enferma e dá entrada na enfermaria de clinica medica; do quadro phenomenico de diver- sos dias resulta tractar-se d'um caso de febre typhoide: para confir- mar o diagnostico, com a permissão do titular da Cathedra, procurei observar durante alguns dias a reacção de Widal, mas sempre com resultado negativo.- No 18.0 dias empreguei novamente o processo do Sero-diagnostico e obtive o mesmo resultado; o curso da doença, porém não havia senão feito confirmar o primitivo diagnostico; de- pois fiz uma puncção no baço e com o liquido obtido culturas em caldo as quaes deram resultado, isto é, confirmaram a existência da infecção. Julguei logo tractar-se d'um caso idêntico ao de Widal. No 22.0 dia da moléstia a febre declinou para reapparecer no fim de 4 dias. Novamente lancei mão do Sero-diagnostico, d'esta vez, porém, eu obtive a reacção; as massas agglutinadas eram nitidas e a immobilidade dos bacillos perfeita. Esta 2.0 elevação de temperatura durou 5 dias; e duas semanas depois abandonava o Hospital, curada. -N'um outro doente a puncção do baço me dava culturas puras de bacillos d'Eberth, mas só obtive a reacção no 2.0 dia da moléstia e no quarto da apyrexia. (Este segundo enfermo observei no Hospital d'Isolamento de São Paulo em 21 de Janeiro de 1904 e chamava-se Luigi Benia- mino Stocco). No Hospital de São João Baptista de Nicteroy ob- servei na enfermaria de Medicina do Dr. Plinio Travassos, um caso de Typho em que o doente appareceu no curso duma recahida e obtive a reacção agglutinante. (Chamava-se o doente Francisco An- tonio dos Santos, tinha 24 annos d'edade e era natural do Estado do Rio de Janeiro). Estes factos não são isolados, pelo contrario se observam frequentemente. Achard e Castaigne dividiram as reac- ções tardias em duas cathegorias: n'uma classificou os casos em que apparece a reacção no periodo febril e n'outra os que dão o pheno- meno de Widal na apyrexia. Apezar de raros estes casos de reacção tardia, devemos conhe- cel-os porque muitas vezes não se obtem a reacção num caso de febre por falta de persistência nas experiencias, outras vezes succede o contrario. • Estes factos de reacção tardia não contradizem as leis do Sero-diagnostico, como disse o Prof. Widal no Congresso de Nancy «um resultado negativo obtido com o sôro d'um doente suspeito fornece uma probabilidade no diagnostico do typho; as pesquizas sendo 26 feitas nos primeiros dias da moléstia o exame do preparado deve ser repetido. A probabilidade é maior si o exame fôr praticado n'uma época mais adeantada da moléstia. Nós somos da opinião do Prof. Achard, expressa por elle na Sociedade Medica dos Hospitaes (i de Abril de 1897) nos seguin- tes termos: «Eu penso que os casos de reacção tardia são citados a cada passo, são uteis de conhecer-se para evitar erros diagnósticos; mas não tiram a importância do Sero-diagnostico na febre typhoide. Mos- tram só que uma indicação negativa não constitue jamais um ele- mento de certeza e que a ausência d'um symptoma, seja mesmo de grande valor não basta a fazer-nos regeitar um diagnostico ver- dadeiro sob todos os outros aspectos.» SEGUNDA QUESTÃO A presença da reacção agglutinante é bastante para o diagnostico da febre typhoide O problema d'esta segunda questão não pode ser resolvido senão depois do estudo comparativo do poder agglutinante do sôro nos individuos que não tem a febre typhoide, e nos que estão ata- cados desta infecção. Quanto ao poder agglutinante do sôro nos individuos que não apresentam a febre typhoide o Professor Gruber assignalou este facto: que o serum normal do homem pode exercitar uma acção agglutinante sobre o bacillo d'Eberth quando em solução concen- trada. O Professor Widal emprega um sôro a i : 10 afim de evitar a producção do phenomeno com o sôro normal de individuos não atacados de febre typhoide. Achard e Bensande foram os primeiros a assignalar n'uma affecção excepcional, o phenomeno de Widal, servindo do sôro a i : 10. Depois dessa observação Widal perguntou se não era me- lhor augmentar, por estes casos excepcionaes, a diluição primitiva a i : 10 empregada pelos Professores Achard e Bensande. O mencionado Professor observou que o serum de um doente de febre typhoide, no periodo d'estado, age bem na diluição i : 6o ao menos. Procuremos agora estabelecer a diluição, limite além da qual o sôro de individuos normaes e o dos que não apresentam a febre typhoide não age mais sobre o bacillo Eberth. 27 Differentes observadores citam factos de individuos não tendo ou que nunca tiveram febre typhoide, em que o sôro agglutinou o bacillo d'Eberth, na diluição de 1:10 (Zienke 1 vez sobre 28), de ] : 20 (Ziembre 1 vez sobre 13), de 1:40 (Du Mesnil de Bahie- mont, 1 caso) e de 1:50 (Van Oerdt, 1 caso). As experiencias de Stern com o sôro de individuos não typhosos são as mais interessantes; em 70 sôros de individuos não affectos de typho examinados, vinte vezes obteve o phenomeno de Widal a 1:10, d'estes 20 casos 18 também deram a reacção a 1 : 20 e 2 a 4 : 40. A diluição dos serums a 1:10 não produz nunca massas tão caracteristicas e intensas como as do sôro de individuos doentes de febre typhoide. As cifras d'estes differentes observadores não são todavia comparáveis entre si, porque todos elles não observaram a mesma technica. Isto nos mostra a necessidade de medir o poder aggluti- nante nos casos duvidosos e de ter na consideração os contradicto- rios ao methodo do Serodiagnostico. Admittindo que, em todos os casos, a technica empregada tenha sido a mesma e que as observações tenham sido completas e perfeitas (o que a meu ver está longe da verdade) e finalmente que ellas se refiram a individuos não typhosos o que resultará d'isso para o Serodiagnostico da febre typhoide? Depois de ter sido pro- curado em milhares de casos o Serodiagnostico foi positivo em nu- mero limitadíssimo, como se vê do quadro abaixo: 1 só vez na diluição de 1 :4o; 1 só vez n'uma diluição a 1:30; 7 vezes n'uma a 1:20 e 35 vezes a 1:10. «Em todos os outros casos o sôro diluido a 1:10 foi inactivo sobre os bacillos d'Eberth». Poder agglutinante do sôro nos individuos affectos de febre typhoide Comparando os algarismos, acima mencionados com os obti- dos por Widal e Sicard na medida do poder agglutinante, saltará logo aos olhos a differença dos resultados. Em 33 casos de individuos atacados de febre typhoide, em que o sôro havia sido examinado por Widal e Sicard obtiveram: 4 vezes o poder agglutinante inferior a i : 100; 9 vezes a 1:500; e 1 : 2000; 3 a 1 : 500, etc. Num destes últimos casos o poder agglutinante foi tão forte a ponto de precipitar uma gotta de sôro os bacillos contidos em 1/2 litro de caldo. 28 Os casos mais interessantes para a pratica do Sero-diagnos- tico são aquelles cujo poder agglutinante foi medido nos primeiros dias da infecção. Segundo as observações de Widal e Sicard o poder agglu- tinante medido 1 : 50 1 : 80 1 : 70 no 5.0 dia em 3 observações de . no 6.° dia n'uma observação de . . 1:50 no 8.° dia n'uma de 1 : 11000 no 9? dia n'uma de 1 : 5000 Si as differenças entre o poder agglutinante d'um sôro de indivíduos enfermos de febre typhoide e o de indivíduos não ty- phosos fossem grandes as discussões seriam inúteis. Casos existem e que o poder agglutinante do sôro não é su- perior aos dos não typhosos. Assim, em dous casos observados por Haedke obteve a ag- glutinação a i : 10 e foi negativo a 1:25. Achard escreve n'uma sua observação que o poder aggluti- nante era 1:12 no 20o dia e 1:20 no 220o dia. Meunier e Quinon n'uma observação de febre typhoide e de tuberculose associadas não constataram nunca uma reacção superior a 1:20. Widal depois observou oscillações d'um dia para outro na intensidade do poder agglutinante. Resumo-i?-Na maioria dos casos o poder agglutinante do sôro de indivíduos affectos de typho é maior de 1:50 e pode attingir 1 : 500 a 1 : 2000 e mais; nos indivíduos normaes ou não tendo a febre typhoide póde elevar-se a 1:10, 1 : 20 e até 1:40 em que foi observado um unico caso. Como se faz na pratica para superar as difficuldades constan- tes d'estas ultimas constatações acima referidas? O problema foi resolvido deste modo: alguns observadores propõem empregar no Sero-diagnostico um só titulo de diluição, com o qual o serum nor- mal nunca dará o menor vestígio de agglutinação. Deste modo, dizem elles, o campo das applicações do Sero- diagnostico poderá ser mais restricto, mas o methodo ganhará em precisão o que tiver perdido em intensidade. 29 Os titulos das diluições propostas variam segundo os experi- mentadores entre 1:17 e 1:50. Widal, porém, aconselha começar o exame microscopico de uma mistura a 1:10 e de proceder immediatamente á medida exacta do poder agglutinante. § 4.» Conclusão O methodo do Serodiagnostico proposto por Widal repousa n'esta base scientifica inatacavel: que o sôro d'individuos affectos de febre typhoide tem, em geral, um poder agglutinante superior ao dos não enfermos d'esta infecção. Do ponto de vista practico o Serodiagnostico constitue um meio diagnostico superior a todos os que a microbiologia clinica dispõe até hoje. Uma reacção negativa não exclue o diagnostico de febre ty- phoide, mas o torna menos provável, especialmente si o exame fôr practicado n'uma época adeantada da moléstia. Uma reacção posi- tiva n'um individuo que nunca soffreu de typho dá em favor do diagnostico probabilidades que se approximam da certeza empregando um titulo da diluição do sôro bastante elevado 1:50. Não podemos melhor terminar estas conclusões do que citando a auctorizada opi- nião d'um illustre bacteriologista allemão, o Dr. Frãnkêl: «eu empre- guei até agora sempre a reacção com os melhores resultados em 66 doentes e convalescentes; confirmei o diagnostico clinico da febre typhoide e esclareci a natureza de certas affecções obscuras; por isso apoiando-me na minha longa experiencia pessoal, considero o Sero- diagnostico um methodo seguro e extremamente precioso adequado aos nossos meios d'investigação. O methodo do Serodiagnostico prestou serviços nos diagnós- ticos : i.° das formas normaes de febre typhoide no principio da doença; 2? das formas leves ou anómalas; 3.0 da febre typhoide associada a uma outra moléstias in- fecciosa; 4.0 da febre typhoide já passada; 5.0 dos estados typhoides produzidos por diversas affecções. 30 CAPITULO III Distribuição da substancia agglutinante no organismo § 1" Presença da propriedade agglutinante nos diversos liquidos do organismo A propriedade d'agglutinar os microbios não reside unica- mente no sangue: os diversos líquidos do organismo a possuem, mas com uma diversidade admiravel; ella depois varia, não só se- cundo os individuos, como de dia a dia no mesmo indivíduo. As experiencias sobre a presença da substancia agglutinante nos diversos líquidos orgânicos foram feitas sobretudo nos doentes de febre typhoide. Alguns resultados obtidos das infecções dos Protistas ou Protozoários, dos coli-bacillos, do cholera humano e experimental, do tétano, auctorizam a acreditar que a passagem da propriedade ag- glutinante nos diversos líquidos obedeça á mesma lei da infecção typhoide. A propriedade agglutinante existe antes de tudo nos humo- res cuja parte liquida deriva mais ou menos directamente do plasma sanguíneo e que ás vezes contem alguns elementos figurados do sangue. A reacção agglutinante se observa, por exemplo, no pús, como foi constatado nos animaes e no homem. Alguma vez foi também encontrada nas descargas diarrhoicas evacuadas exponta- neamente pelos typhosos, as quaes contem sangue e pús provenien- tes das ulcerações intestinaes. Pelo contrario, faz falta a propriedade agglutinante nas des- cargas obtidas com os clysteres, as quaes por consequência differem do conteúdo do intestino delgado ulcerado. Faltou também nas dejecções intestinaes de 6 doentes de cholera, usando uma diluição de 2 ou 3:10. Nestes últimos casos, a ausência da reacção agglutinante pode ser attribuida á falta de transudamento atravez das glandulas intes- tinaes e á vegetação abundante de vibriões cholericos, já que sabe- mos que nos líquidos onde se acham muitos microbios não se obtem a reacção. 31 As differentes serosidades possuem o poder agglutinante e Bensande o constatou nos liquidos do pericárdio, do peritoneo e da pleura (uma vez durante a vida e duas depois da morte). Widal e Sicard obtiveram a reacção do mesmo modo com o liquido dos vesicatórios. O liquido do edema sub-cutaneo tam- bém apresenta a reacção agglutinante; porém, é de observar que não é possível recolher este liquido sem vir a elle misturado uma certa quantidade de sangue. A reacção faltou constantemente no liquido cephalo-rachidiano dos doentes de infecção typhica (Widal e Sicard 3 casos, Achard e Bensande um só). Também foi procurada a reacção nas secreções propriamente ditas, nas quaes se manifesta a acção effectiva de um epithelio glandular. Nas urinas, Widal e Sicard, acharam a propriedade aggluti- nante em maneira variavel e inconstante. Como observaram Achard e Bensande e como viram depois Thiercelin e Lenoble, o leite das amas affectas de typho, exercita uma acção agglutinante sobre o bacillo d'Eberth. O Professor Bensande observou que a reacção falta no leite de ama san ou affecta de outra infecção que não seja a febre ty- phoide. Se obtiveram egualmente resultados positivos com o leite de coelhos infectados pelo bacillo d'Eberth e pelo vibrião do cholera emquanto amamentavam. Nestas pesquizas é conveniente que o leite seja fresco e puro, do contrario se observam differenças notáveis no phenomeno d'ag- glutinação. Estas modificações não dependem só das mudanças da reacção do liquido, porque a acidificação e a alcalinização leves do leite não alteram o seu poder agglutinante. As lagrimas possuem este poder intensamente; Widal e Sicard em quatorze vezes sempre obtiveram a reacção agglutinante á excepção de quatro vezes, na secreção lacrimal physiologica. Estes auctores, porém, não a constataram senão raramente e em modo leve nas lagrimas artificialmente provocadas. A bilis recolhida numa autopsia de dous indivíduos falleci- dos de infecção typhoide, deu resultados negativos; n'um dos ditos casos este liquido continha o bacillo d'Eberth em estado de pureza. Mas, esta ausência de reacção na bilis não é constante, já que Ben- sande a constatou uma vez no coelho e Widal e Sicard a constata- ram uma vez sobre duas na bilis humana. Os resultados obtidos por Achard e Bensande foram sempre negativos para a saliva, para 32 o sueco gástrico retirado em jejum do estomago em diversos doentes e para a expectoração dos bronchios. O liquido das vesiculas seminaes (Widal e Sicard), o suor (Thiercelin e Lenoble) não seria dotado de poder agglutinante. Courmont fez suas pesquizas no sueco dos differentes orgãos, colhidos na autopsia; assim poude demonstrar a existência da pro- priedade agglutinante no sangue do fígado, do baço, dos ovários e do corpo tyroide. Para terminar esta revista dos diversos humores do orga- nismo, devemos mencionar um facto observado por Achard e Ben- sande: a existência da propriedade agglutinante no liquido, claro como a agua, dos kystos hydaticos do coelho. A distribuição da substancia agglutinante soffre grandes va- riações; mas, como fizeram notar Achard e Widal e, como diversos auctores o demonstraram pela medida, no sangue existe sempre o poder agglutinante no máximo, emquanto que nos outros humores do organismo existe em proporções variaveis. No curso destas experiencias, na destruição da substancia agglutinante, Courmont observou a fraca proporção desta substancia nos orgãos em que se localiza o bacillo d'Eberth. O Professor Ménetrier, refere um caso de febre typhoide complicado de pleuriz em que o serum dava a reacção agglutinante, emquanto que o liquido da pleura, cheio de bacillos d'Eberth, não o dava. Comparando estas diversas constatações, Courmont emitte a hypothese que o bacillo d'Eberth se oppõe, ou por si mesmo ou pelas suas toxinas á producção da substancia agglutinante e que destróe nos orgãos infectos. Apoia este seu modo de ver neste facto experimental: que o poder agglutinante de um sôro de indivi- duo atacado de febre typhoide, diminue consideravelmente quando se cultiva o bacillo d'Eberth. A hypothese de Courmont não pode deixar de ser criticada: Achard viu o sangue de uma cobaya ag- glutinar o Protêo, e conservar durante tres semanas o seu poder agglutinante intacto, depois de haver nelle posto juntamehte o pro- tozoário e o staphylococcus py o genes aureus. Widal e Sicard, conservaram num provete pus de um asno fortemente immunizado com successivas inoculações de bacillos d'Eberth. Depois de haver estado em contacto do bacillo d'Eberth quinze mezes, este pus ainda possuia um poder agglutinante de i : 13000. O poder agglutinante do sôro deste animal conservado egualmente quinze mezes era de 1 : 14000. A presença de um bacillo de in- 33 fecção num humor não é sempre bastante a explicar a ausência ou a diminuição do phenomeno de Widal. Já vimos que a secreção, provocada artificialmente, das lagri- mas não tem acção agglutinante e que no mesmo liquido orgânico e n'um mesmo individuo o poder agglutinante póde variar sem razão apparente de dia a dia e quasi de hora a hora (Widal). Logo as condições que regulam a passagem das substancias agglutinantes nos diversos liquidos do organismo são, no estado actual dos nossos conhecimentos, difficeis de precisar. Sómente se sabe que estas substancias são retidas no filtro de porcellana quando se opéra com as urinas ou com o leite e que, pelo contrario, ellas o atravessam si operamos com o sôro. Bensande e Achard procuraram a resistência que oppõem as substancias agglutinantes ás membranas usadas na dyalese. Dis- pondo em pequenos dyalisadores esterilisados sôro agglutinante e caldo-cultura não misturados, viram que, excepcionalmente, o caldo adquire a propriedade agglutinante depois de um contacto prolon- gado. Mas estes resultados talvez eram devidos a um defeito de experiencias porque, operando em melhores condições, não se obteve a passagem da propriedade agglutinante. E' evidente, escreve o Professor Achard, que estes resultados obtidos in vilro, não se podem applicar tal e qual a diffusão que no organismo vivente se opéra. A passagem dos elementos do plasma atravez das membra- nas vasculares serosas, glandulares é infinitamente mais complexa da que se dá atravez do filtro ou de uma membrana dyalisadora. Se mostra com um caracter electivo para uma membrana ou uma cathegoria de membranas analogas; comporta variações ás vezes grandes e a razão disto nos é actualmente desconhecida. Ora, estas apparentes irregularidades se acham precisamente quando se estuda a propriedade agglutinante. § 2.» Passagem da propriedade agglutinante atravez da placenta nos doentes de febre typhoide A placenta, barreira tão frágil, póde oppor-se a passagem da propriedade agglutinante; constataram este facto Etienne Charrier e Apert no féto humano e Achard e Bensande no do coelho. 34 Mas, a estes factos negativos se oppõem as observações de outros observadores, os quaes estabelecem que, na febre typhoide humana a propriedade agglutinante pode-se transmittir de mãe a féto. Exemplos d'esta passagem foram observados experimental- mente por Widal e Sicard na infecção typhica, por Lamelongue e Achard nas infecções do Protozoário e por Achard e Bensande no cholera. Nas experiencias positivas o liquido anniotico manifestou um poder agglutinante superior ao do sangue fetal. Os recem-nasci- dos que viveram, não deram signal de infecção assim como os fétos nascidos mortos. Logo a passagem da propriedade agglutinante de mãe a filho não póde ser attribuida á infecção. A placenta san, ca- paz de detêr os germens, oppõe á substancia agglutinante uma bar- reira imperfeita, como faz o filtro de porcellana que d'ella apenas retem uma certa quantidade; a substancia agglutinante passa em menor proporção no sangue fétal, que mantém algum tempo depois de nascimento a impressão e a lembrança da infecção materna, Achard tendo observado n'estas experiencias que os casos negati- vos se apresentam quando os animaes já soffreram uma ou duas inoculações e de bacillos d'Eberth emittio a hypothese que a inten- sidade da acção agglutinante no sangue materno é a razão ou ao menos uma das razões de sua transformação no féto. § 3." Presença da propriedade agglutinante no plasma sanguíneo Das pesquizas feitas resulta que o sangue da circulação geral contem as substancias agglutinantes no máximo. E' o sangue que dissemina ou espalha as substancias mencionadas no organismo, e que fal-as passar nos diversos humores e atravez da placenta. No sangue essas substancias ficam mais tempo; de facto em amas com infecção typhica, Achard e Bensande constataram no leite agglutinação durante a moléstia, porém na convalescência obtiveram resultados negativos si bem que o sangue apresentasse o phenomeno de Widal. Logo é interessante procurar a parte do san- gue onde as substancias agglutinantes abundam. E' o plasma ou são os leucocytos principalmente? O estudo dos múltiplos liquidos orgânicos nos mostra, a pri- meira vista, factos que nos parecem mais difficeis de interpretar no que se diz respeito a passagem das agglutininas para os globulos brancos do que á differença das substancias agglutinantes espalha- das no plasma. Liquidos ha sem os elementos figurados no sangue, que agglutinam os microbios. 35 A existência da propriedade no liquido dós kystos hydaticos do coelho parece-nos devido a transsudação das «agglutininas» atra- vez da membrana kystica. Em todos os casos não ê a presença ou a ausência dos leucocytos que baste a explicar porque não se acharam as propriedades agglutinantes na saliva, no sueco-gástrico, na bilis, quando ellas foram encontradas no leite, nas lagrimas e no humor aquoso dos olhos. Mas, existem argumentos indirectos. Das experiencias minu- ciosas emprehendidas por Bensande sob a direcção do Professor Achard, se vê evidentemente que as substancias agglutinantes existem no plasma e que os leucocytos vivendo separados do plasma primi- tivo não retêm a propriedade agglutinante. A principal difficuldade encontrada por Bensande no curso das suas experiencias, resultou da coagulação do sangue. Para evi- tal-a, utilizou-se do poder anti-coagulante do extracto de cabeças de sanguisugas ; este extracto se prepara com agua salgada a 7 : 1000 ou com o soro do sangue normal; se obtem um liquido que não altera os elementos figurados do sangue, os leucocytos conservam Intacta a sua victalidade, a sua mobilidade e sua propriedade de absorver o carmin. Este liquido depois não põe nenhum obstáculo ao pheno- meno de agglutinação. E' facil obter o sangue da puneção d'um dedo e de recolhel-o directamente n'um tubo de vidro que contenha o extracto de sanguisugas, afim de evitar que o sangue coando ao longo das paredes do tubo se coagule. Effectivamente realizada a puneção recebe-se o sangue num provete e agita-se o tubo afim de que a mistura seja hemogenea e a camada superior não seja constituida unicamente de liquido anti-coagulante. Geralmente a mistura deve ser composta d'uma parte de san- gue puro para uma ou duas partes de liquido anti-coagulante. Fa- zendo repousar um pouco deste sangue incoagulavel n'um tubo ou recipiente bastante estreito, logo se depositam os globulos vermelhos, tanto que a camada superior a pouco e pouco se clarifica, torna-se transparente e não contem mais nenhum elemento figurado, como se póde verificar pelo exame ao microscopio. Se póde obter o plasma sem globulos mais rapidamente, sub- mettendo o sangue a centrifugação. Qualquer que seja o processo empregado, se constatou sempre que o plasma, privado de todos os elementos figurados, fica perfeitamente dotado do poder agglutinante. Comparando depois este plasma á camada profunda, estão depositados os globulos brancos e vermelhos; Bensande não notou differença nitida em seu poder agglutinante. Bensande procurou en- 36 tão isolar os globulos brancos em maior proporção que os verme- lhos do sangue normal. Abandonando por um certo tempo a si mesmo, sangue mis- turado ao extracto de sanguisugas, elle vio formar-se pouco a pouco da coagulação uma camada intermediária, situada immediatamente acima da formada de globulos vermelhos; esta ultima camada turva e lactea encerra numerosíssimos leucocytos. Todavia a formação desta camada leucocytaria é muito rara quando se opera com o sangue humano. Mas, o melhor e mais se- guro processo d'obter globulos brancos ern grande quantidade consiste em filtrar, como já disse, o sangue misturado ao extracto de sangui- sugas, atravez de algodão banhado do mencionado extracto. O filtro deve ter i centímetro de diâmetro e o algodão deve ahi ser pouco comprimido e permittir o gottejamento do liquido independente d'as- piração. - O sangue a filtrar se derrama aos poucos no tubo, com uma pipeta; delle escoa á medida que atravessa o algodão onde são retidos os leucocytos. Para maior segurança se faz passar duas ve- zes seguidas o sangue e pelo exame microscopico nos asseguramos que o liquido filtrado contem muitos globulos vermelhos e hemato- plastos e poucos leucocytos. Terminado de filtrar-se retira-se com cui- dado o algodão do tubo, expreme-se bastante e o liquido de que es- tava embebido se recolhe no crystallizador de vidro. Este liquido contem sempre globulos vermelhos e hematoplastos, mas leucocytos em maior numero. Comparando este plasma muito rico de globulos brancos ao plasma privado de elementos figurados, se acha que o poder agglutinante é quasi o mesmo nos dous. Sómente, ás vezes, uma differença insignificante se mostra a favor do plasma contendo muitos leucocytos. Assim d'estas experiên- cias se vio que a presença de numerosíssimos globulos brancos e vermelhos não augmenta em modo notável o poder agglutinante do sangue. Todavia estas experiencias não estão isentas de critica. A' primeira vista a medida do poder agglutinante não tem razão ma- thematica, e, si se tracta de sangue que o possue n'um gráo bastante elevado, é necessário fazer diluições muito fracas para chegar ao ponto em que ou não se tem apenas a reacção e po- der assim apreciar as difíerenças que podem existir no plasma puro e no plasma rico de leucocytos. Esta diluição deverá ser rigorosa- mente egual e d'ella deveremos ter dous tubos afim de compararmos, e de não termos uma causa d'erro. E' difficil achar o ponto em que se deve parar, já que a reacção não cessa bruscamente, mas de- cresce progressivamente á medida que a diluição augmenta. Assim a comparação de duas reacções muito attenuadas é bastante delicada e é muito incerta. 37 A esta primeira causa d'erro se junta uma segunda; de facto se poderá objectar que, não obstante a sobrevivência da maior parte dos leucocytos, um pequeno numero d'elles morre durante o longo tempo da depositação dos globulos ou durante a centrifugação, e se poderá sustentar que estes leucocytos mortos communicaram ao plasma a propriedade agglutinante. Bensande pensou corrigir esta causa de erro e achou que os leucocytos viventes, separados do plasma primitivo, não retiveram em si a propriedade agglutinante. Além disso a perda é definitiva porque si se deixam viver por algum tempo os globulos brancos ao sôro e na estufa, se constata que elles não recuperam a propriedade desapparecida.-E' pois no plasma e não nos elementos figurados que se accumulam as substancias agglutinantes do sangue. Widal e Sicard chegaram aos mesmos resultados; deixando depositar o san- gue que se tornou incoagulavel pelo oxalato de potássio, constataram que o plasma sanguineo puro e o plasma rico de leucocytos tem um poder agglutinante sensivelmente egual. Mas, nem as experiencias de Achard e Bensande, nem as de Widal e de Sicard auctorizam a acreditar que os leucocytos jun- tam algum que na formação das substancias agglutinantes se sabe que elles (leucocytos) tomam uma parte importante na producção das substancias bactericidas (alexinas) e das substancias lisogenas que pro- duzem a transformação granulosa dos microbios. Resumo O sangue contém o poder agglutinante no máximo entre to- dos os outros liquidos do organismo e o conserva mais tempo. Se- gundo as experiencias de Achard e de Bensande, se vio que os ele- mentos figurados do sangue, e em modo particular os leucocytos têm o poder agglutinante quasi egual ao do sôro do sangue. Os leucocytos viventes separados do plasma primitivo, não retiveram em si a propriedade agglutinante, que perdem definitivamente. CAPITULO IV Natureza da substancia agglutinante § Io Propriedade da substancia agglutinante Como se attribuiram as propriedades bactericidas e antitoxi- cas do sôro á substancias particulares, as alexinas e as antitoxinas, 38 assim se quizeram explicar as suas propriedades lisogenas e aggluti- nantes pela existência das substancias lisogenas e das agglutininas. D'estas diversas substancias, sómente as antitoxinas foram isoladas; as outras (alexinas, agglutininas) são hypotheticas e conhecidas pelos seus effeitos. Sabe-se apenas que as substancias agglutinantes são extremamente tenazes.-Achard mostrou que a luz diffusa, durante dias e semanas, não altera em nada a propriedade agglutinante do sôro typhico. Esta propriedade resiste egualmente a diseccação (Wi- dal e Sicard) e á putrefacção (Achard e Bensande). A sua presença no leite d'uma ama typhosa, com a reacção . agglutinante permittio a Bensande de estudar a influencia que o calor exercita sobre esta propriedade; de facto, com o leite ella não é detida como o sôro pela coagulação da albumina. Bensande vio que um contacto prolongado de 6o.° não modifica esta propriedade. Este resultado foi confirmado por Widal e Sicard no leite d'uma cabra á qual haviam sido inoculados os bacillos Eberth. To- davia nas experiencias d'estes observadores, o leite aquecido a 8o° não determina a menor reacção; nas experiencias de Bensande, pelo contrario, existiam traços de agglutinação a ioo.° Estas differenças se devem ou a natureza do leite ou a intensidade do poder agglu- tinante que não era o mesmo nos dous casos. Hayem fez ver que o aquecimento do sôro typhico a 57.0, a 59.0 e também 63.0 não modifica em nada o seu poder agglutinante. Este facto é interessante a notar-se, porque, como Hayem por primeiro mostrou, estas tempe- raturas fazem desapparecer as propriedades bactericidas e globulici- das dos soros. Achard e Bensande mostraram que as membranas usadas na dyalise se oppõem em geral a passagem das substancias agglutinantes. Também se sabe que estas substancias são retidas pela véla do filtro Chamberland, quando se opéra com as urinas (Widal) ou com o leite (Achard) e que pelo contrario atravessam-na se filtrarmos um humor de poder agglutinante muito elevado. As substancias agglutinantes se comportam em relação digo a respeito dos filtros de porcellana como as substancias albuminoides. As pes- quizas chimicas de Widal e de Sicard mostraram este interessantis- simo facto: que as substancias agglutinantes são retidas por diver- sas albuminas do plasma e dos humores (fibrinogeno, globulina, caseina). Mas, as suas experiencias não estabeleceram si a substancia agglutinante é de natureza albuminoide ou simplesmente attrahidas nos humores pelas substancias albuminoides que se acham em so- lução nesse liquido. A unica cousa que se conhece é que nos ty- phosos, cujo sôro tem um poder agglutinante elevado, a urina pode conter albumina, por isso dar a reacção agglutinante, (Achard e 39 Bensande). Widal e Sicard viram também que a substancia agglu- tinante se elimina pelas urinas quando ellas não contem traços de albumina. Kraus fez recentemente uma constatação, que talvez nos po- derá esclarecer a natureza e a origem da substancia agglutinante. Misturando na estufa (37o) sôros do cholera e da febre typhoide em culturas filtradas de vibriões cholericos e de bacillos d'Eberth, viu no fim de um certo tempo que as culturas se turvavam e preci- pitavam. O precipitado obtido com as culturas cholericas lhe deu a reacção dos albuminatos alcalinos e dos peptonatos. Resumo As substancias agglutinantes são dotadas de grande resistên- cia; não se modificam pela acção da luz solar, do calor moderado, da diseccação e da putrefacção; são retidas pelo filtro de porcellana e pelas membranas dyalisadoras, são retidas pelas substancias albu- minoides dos humores, mas não sabemos si são de natureza albu- minoide. § 2.» Formação e destruição da substancia agglutinante no organismo E' muito provável que as substancias agglutinantes rosultem da acção reciproca das cellulas do organismo e dos microbios ou dos seus productos de secreção; todavia não sabemos positivamente quaes elementos participem na sua formação. Todos os meios de inoculação podem original-as, injectando microbios nas veias, nas serosas, nas cavidades mucosas e hypoder- micamente. A injecção sub-cutanea de culturas de bacillos d'Eberth es- terilizadas na véla de porcellana e a inoculação intravenosa de uma pequena quantidade de toxina typhica solúvel (Chantemesse) fazem apparecer a reacção agglutinante no animal. Levy e Bruns mostraram que a reacção se observa egual- mente depois da injecção intravenosa de culturas filtradas de vibrião cholerico, de bacillo pyociano e de Proteo. As experiencias de Bordet e Widal provam que a reação agglutinante já se acha no fim de alguma hora no sangue, injec- tando a uma cobaya sôro de poder agglutinante muito elevado. 40 No homem são as inoculações subcutâneas de culturas de vibriões cholericos e de bacillos d'Eberth, que conferem ao sangue a propriedade agglutinante, como o provam as experiencias de Pfeiffer e de Kolle em indivíduos artificialmente vaccinados pelo vibrião do cholera e pelo bacillo d'Eberth. As substancias agglutinantes appa- recem ordinariamente no sangue do animal no 3.0 ou no 4.0 dia depois da inoculação dos microbios. Porém é conveniente esperar 5 ou 8 dias si tractarmos de culturas filtradas. A formação de substancias agglutinantes, no or- ganismo exige algum tempo d'incubação. Elias depois apparecem de repente e não progressivamente. «Ignora-se, escreve Achard, si primeiro de existir no sangue existem em outra parte do organismo ou si se formam repentinamente.» Algumas tentativas experimentaes que fizemos para precisar este ponto ficaram sem resultados; depois d'uma injecção sub-cutanea ou n'uma serosa nunca vimos apparecer o poder agglutinante no sangue. Parece que a elaboração completa da substancia agglutinante se faz logo, n'este logar, ou ao menos si se produz estas substancias são logo absorvidas e espalhadas em todo o organismo de modõ que o sangue as contem no máximo. Estudando a epocha do desapparecimento da reacção agglu- tinante no sangue dos typhosos, se vio que em certos casos excep- cionaes ella parece persistir indefinidamente A' miudo desapparece no fim d'algumas semanas ou de mezes nos convalescentes de febre ty- phoide e nos recem-nascidos poucos dias depois. As propriedades agglutinantes do sangue se comportam no ponto de vista de seu apparecimento e dasapparecimento como as propriedades immunizan- tes. Apparecem e desapparecem rapidamente quando se adquire a agglutinação injectando sôro fortemente agglutinante (passivamente Widal) injectando culturas e toxinas (activamente Widal). O pro- blema do desapparecimento das substancias agglutinantes necessita de novas observações; actualmente não podemos senão fazer hypo- theses. Tendo-se constatado que o figado e o baço são pobres de substancia agglutinante, Arloing pensa que ella é mais ou menos destruída e eliminada por estas glandulas. O baço a destróe com mais rapidez e intensidade do que as outras glandulas. § 3? Relações da propriedade agglutinante com as outras propriedades do serum com a immunidade e com a infeccão 9 N'um mesmo sôro a propriedade agglutinante parece poder ser desassociada da propriedade bactericida, que destróe os micro- 41 bios e impede o seu desenvolvimento, da propriedade attenuante, que diminue a sua virulência e da propriedade lisogena que produz a transformação dos microbios em grânulos. Collocando bacillos d'Eberth em sôro puro de indivíduos atacados de febre typhoide, Widal e Sicard viram que os bacillos quasi sempre se transformavam em grossas massas que iam ao fundo do provete. Estes auctores con- servaram os microbios em contacto do sôro typhico dous mezes e meio. Depois desta longa permanência, os bacillos, bem agglutina- dos, haviam conservado a sua vitalidade, como o provava o seu desenvolvimento no caldo. Para procurar as relações que existem entre a propriedade agglutinante e a propriedade attenuante de um mesmo sôro, é necessário recorrer a uma especie micobrica mais virulenta do bacillo d'Eberth. Nicolas, em suas experiencias se ser- viu do bacillo de Lõeffler culturado em sôro antidiphterico. Este auctor chegou a conclusão, que a producção da propriedade agglu- tinante, addicionando sôro anti-diphterico em pequena quantidade, ás culturas em plena vegetação de Lõeffler, attenua incontestavel- mente este bacillo (Lõeffler). Mas este facto não póde ser gene- ralizado. Já em 1893 Issaef, discípulo de Metschnikoff, mostrou que as culturas de pneunococcus conservam toda a sua virulência depois da agglutinação com o sôro dos vaccinados. Este observador, nas suas experiencias teve cuidado de desembaraçar as culturas micro- bicas de sôro, lavando-as depois e pondo-as em caldo ordinário. Ora estas culturas, filhas, apresentavam uma virulência muito superior áquella da cultura mãe feita no serum. Assim, este não havia exercitado nenhuma acção attenuante nas culturas de pneunococcus. As relações entre a propriedade lisogena e a propriedade agglutinante de um mesmo sôro, levantaram vivas controvérsias nos primeiros trabalhos. Para Gruber o phenomeno da transformação granulosa de Pfeiffer (que deu a acção lisogena do sôro) e o phe- nomeno de agglutinação estão sobre a dependencia um do outro. Segundo este observador, as transformações morphologicas dos microbios apresentam duas phases: na primeira, a membrana de in- vólucro dos microbios torna-se viscosa e incha-se, o que provoca a irnmobilidade e a reunião em massas dos microbios (phenomeno de agglutinação); na segunda phase a membrana, assim modificada, torna-se permeável ás substancias bactericidas do sôro; são estas substancias que transformam os microbios em grânulos e os dis- solvem. 42 Assim, segundo Gruber, o phenomeno de Pfeiffer é devido a acção combinada das substancias agglutinantes e bactericidas. Fize- ram-se numerosas objecções á theoria de Gruber; Pfeiffer e Kolle constataram á primeira vista, que o serum dos homens submettidos a injecções sub-cutaneas de vibriões cholericos, depois de cinco me- zes possue um poder agglutinante quasi egual ao normal. Ao contrario, o sôro d'esses mesmos individuos injectado no ven- tre d'uma cobaya, produz a transformação granulosa dos microbios na dose de 30 ou 40 vezes menos do sôro normal. O sôro d'um indi- viduo vaccinado poderá conservar a propriedade de transformar os bacillos em grânulos, mesmo que tenha perdido a propriedade de reunil-os em massa. A propriedade agglutinante e a propriedade lisogena não caminham de egual passo, mas devem ser distinctas. Um outro argumento contra a theoria de Gruber é aquelle apresen- tado pelo Dr. Salimbem:-Depois das pesquizas de Pfeiffer, de Mets- chnikoff e de Bordet se sabe que o phenomeno de Pfeiffer se produz no organismo e in vitro ; ora resulta das experiencias de Salimbem que o phenomeno da agglutinação apparece unicamente fora do or- ganismo «á maneira da coagulação do sangue que se produz na sa- hida dos vasos. Widal. Emfim, a inchação da membrana na qual se basêa a • theoria de Gruber, foi procurada em vão por Pfeiffer, Bordet e outros. Estes observadores viram perfeitamente as transfor- mações morphologicas dos microbios no curso do phenomeno de agglutinação; mas ellas consistem na deformação e atrophia dos ele- mentos. Achard e Bensande observaram que sob a influencia do sôro antistreptococcico os grânulos de Streptacoccus soffrem ás vezes um augmento de volume apreciável; tomam um aspecto refrangente, que os faz assemelhar aos vibriões do cholera que soffreram a tran- sformação granulosa. Os mencionados observadores (Achard e Ben- sande) avisinham as experiencias de Gruber ás de Roger sobre o oidium album cultivado em sôro de animal vaccinado contra o oidium mucosum. «As pesquizas sobre o oidium mucosum, escreve Roger, per- mittem precisar o mechanismo do phenomeno estudado primeira- ramente por Gruber. Observando a agglutinação dos bacillos d'E- berth e do vibrião de Koch, Gruber havia emittido a hypothese, que o sôro dos vaccinados continha uma substancia agglutinante que elle chama glabrina ou globrificina e que tem a propriedade de tumefa- zer a cuticula dos bacterios.» Esta asserção não foi acceita senão com uma certa reserva, porque é difficil, senão impossivel, de verificar isto em organismos tão pequenos. O estudo torna-se menos difficil quando se tracta de pa- rasitas relativamente mais volumosos, como o oidium; então se póde 43 estudar facilmente a acção do sôro que effectivamente tumefaz a cu- tícula deixando o protoplasma intacto e que parece tornar essa cu- tícula viscosa e adherente, o que explica a cohesão dos elementos e a sua disposição em Zooglee. Esta observação muito interessante de Roger é pois em favor da theoria de Gruber. A maioria dos observadores continua a admittir que num mesmo sôro, tanto as propriedades lisogenas como as bactericidas e attenuantes devem ser desassociadas das propriedades agglutinantes. Gruber, Pfeiffer e muitos outros pensam que a propriedade aggluti- nante é inherente á ímmunidade. Para estes observadores a sero- reacção é uma reacção de ímmunidade. Widal, porém, para chegar a concepção do Sero-diagnostico, teve de abandonar esta idéa; mos- trou que a reacção apparece no curso duma infecção, que ella póde desapparecer nas primeiras semanas da convalescença, (periodo em que é grande a Ímmunidade), e que pode existir alguns dias antes de recahida (quando não se tem ímmunidade). Bensande, estudando o sôro dum doente, cuja propriedade agglutinante havia desapparecido no io.° dia, achou algumas difíerenças em relação ao poder immu- nizante, entre este sôro e o de doente, affectos da febre typhoide no periodo de estado. N'estas experiencias inoculou parallelamente duas séries de cobayas do mesmo peso. Os animaes da série numero 2 foram ino- culados com a mesma quantidade de sôro proveniente d'um doente, do qual havia desapparecido no io.° dia o poder agglutinante. Os animaes das duas séries recebiam ao mesmo tempo que o sôro, doze horas depois a mesma dose de cultura pura de bacillos d'Elberth (3 centimetros cúbicos). A sobrevivência foi sensivelmente egual nas duas séries de cobayas.-O Prof. Bensande poude constatar que o poder agglutinante já em desapparecimento augmenta na recahida. Widal julgava o Sero-diagnostico uma reacção de in- fecção.- Gruber regeitou esta hypothese; para elle uma reacção não pode merecer este epitHeto si não principia com a infecção e não desapparece com a morte do microbio no organismo. Ora, a reac- ção agglutinante persiste longo tempo depois da cura e, ella pode apparecer também depois do periodo de infecção. Para Chantemesse a reacção agglutinante é o resultado duma intoxicação', o que de- monstra que o Sero-diagnostico é independente da ímmunidade e que, n'um animal fortemente immunizado a sero-reacção enfraquece-se a partir da segunda inoculação de toxina, emquanto a Ímmunidade não faz senão crescer. Nicolle, depois de muitas experiencias che- gou á conclusão de considerar a agglutinação dos microbios um phe- 44 nomeno passivo; segundo elle, o poder agglutinante não é um signal de infecção, porquanto um microbio privado de toda a sua virulên- cia e uma cultura filtrada, podem dar o poder agglutinante com a sua inoculação. Assim este poder agglutinante não seria outra cousa senão o simples signal de passagem no organismo da substancia ag- glutinante especifica. A nós parece difficil, senão impossivel, na hora actual fixar as relações precisas que unem a sero-reacção á im- munidade e á infecção. Não fica menos estabelecido, como o provou Widal, que a reacção agglutinante que s'observa algum tempo nos seus immuni- zados, é, na maioria dos casos uma reacção defensiva do organismo contra a infecção. Mas esta não é senão uma hypothese e o significado da re- acção agglutinante ainda não se conhece. Courmont, considerando o phenomeno de Widal uma reacção de defeza do organismo, crê poder tirar da medida d'acção agglutinante, um elemento de pro- gnostico da febre typhoide. Segundo este observador a elevação do poder agglutinante é um bom prognostico, maximé si attinge uma cifra elevada no momento em que a temperatura começa a ceder. Inversamente um poder agglutinante pouco elevado, maximé a partir do segundo septenario, é de prognostico grave. § 4.' Caracter especifico da reacção agglutinante O caracter especifico da reacção agglutinante deu logar a nume- rosas discussões. Os sôros typhico, cholerico, etc.; agglutinam só- mente os microbios correspondentes? Bordet vio que o sôro de certos animaes recém-nascidos, não infectos (cavallos) exercita uma acção agglutinante sobre o vibrião de Kock, sobre o vibrião de Mets- chnikoff, sobre o bacillo do tétano, coli-bacillo, bacillo d'Eberth, e streptococcus. O serum normal do homem ás vezes agglutina fra- camente o vibrião de Kock, o bacillo d'Eberth e o coli-bacillo. Mas nas diluições fracas, a acção agglutinante do serum nor- mal desapparece e a do sôro dos organismos infectos persiste. Achard e Bensande fizeram ver que o sôro dos organismos infeccionados pelo bacillo de Nocard agglutina o bacillo d'Eberth. Porém o sôro d'estes organismos não possue no estado normal a propriedade ag- glutinante para o bacillo d'Eberth e não havia senão momentanea- mente adquirido esta acção no curso da infecção typhica. A acção agglutinante n'estes casos não se podia comparar á do sôro normal; 45 isto nos mostra o parentesco do bacillo de Nocard como de Eberth. Todavia se deve notar que o sôro dos organismos infeccionados pelo ba- cillo de Nocard agglutina o bacillo d'Eberth em gráo menor que o sôro typhico. O vibrião de Kock, o bacillo d'Eberth, etc.; não são os únicos microbios que se deixam reunir em massas, pelo sero-ty- phico, sero-cholerico, etc. Vagedis, em 24 especies de vibriões cholericos, achou tres (3) que se deixavam agglutinar pelo sôro d'animal infeccionado pelo vibrião de Kock. Também s'encontraram microbios visinhos do bacillo d'Eberth, que soffriam a influencia do sôro typhico; taes são bacillus enterides Gaertner (Gruber), (Petruschky) Ziemke achou uma variedade de coli- bacillo (que dá o indol e faz fermentar a bactose) que se deixa ag- glutinar nitidamente pelo sôro typhico diluido 1:50. Estes diversos microbios, são, porém, agglutinados pelo sôro-cholerico e pelo sôro- typhico em gráo bem menor do que o vibrião de Kock e o bacillo d'Eberth. Estas differenças de gráo são as que podem servir para differenciar o vibrião de Kock e o bacillo de d'Eberth dos microbios visinhos. A propriedade agglutinante não é, rigorosamente limitada do microbio infectante; ella s'exercita também nas especies microbicas visinhas, mas em menor gráo. O que é pois especifico, não é a acção agglutinante por si mesma, mas o gráo em que ella s'exercita. CAPITULO V Applicações do Serodiagnostico no Cholera, Tétano, na Pneumonia, na Peste, nas infecções pelo bacillo de Nocard, nas infec- ções do staphilococcus, nas infecções coli-bacillares, etc.: § l.° Peste Poucas são as observações que possuímos do Serodiagnostico da peste. A commissão alleman enviada a Bombaim, nos fez conhecer a acção agglutinante do sôro dos animaes immunizados contra a peste e dos pestosos em convalescença e recommenda o emprego da sero-reacção para o diagnostico bacteriológico do bacillo de Jer- sin. Paltanf vio apparecer a reacção agglutinante no sôro de coelhos antes que tivessem morrido das inoculações de culturas mortas de bacillo de Jersin. As infecções intra-venenosos communicam ao san- 46 gue rapidamente a propriedade agglutinante. Segundo as pesquizas de Zabolonty feita em 40 pestosos, a reacção agglutinante não ap- parece na i.a semana; o poder agglutinante é a 1:10 durante a se- gunda semana e de 1:50 na terceira e quarta semana (convalescença). A acção agglutinante do serum faz apparecer uma capsula, ao redor do bacillo de Jersin. Zabolonty continua as suas pesquizas nos ma- cacos, os quaes, se mostraram sensibilissimos á acção do cocco-ba- cillo de Jersin. O Prof. Roux resumindo os trabalhos feitos até hoje, diz que o poder agglutinante do sangue comparece, no sétimo dia, augmenta até a quarta semana e diminue depois. § 2.» Tétano O bacillo de Nicolaid soffre o phenomeno d'agglutinação n'uma maneira typica quando se o mistura a sôro-normal de cavallo. Os bacillos espalhados numa cultura se reúnem, e tomam o aspecto de feixes de alfinetes. Isto foi constatado primeiramente por Bordet, e verificado por Achard. Com o sôro de um cavallo infecto de té- tano, depois de 4 dias a reacção era instantanea e muito mais clara do que com o sôro normal n'uma diluição de 1:20. Bensande pro- curou 4 vezes no homem normal o phenomeno agglutinante e sem- pre com resultado negativo. Agindo nos individuos affectos de té- tano, o achou num caso a 8°/0, num segundo a 10%, num terceiro no 2.0 da moléstia e num quarto no 20 dia da convalescença. Excepto o doente que se achava no 2° dia, todos os outros haviam sidos tractados com as infecções de serum anti-tetanico do Instituto Pasteur. Os 3 primeiros casos morreram e a procura da reacção agglutinante, repetida com o sangue escolhido na autopsia, não deu nenhum resultado. O resultado das experiencias de Rivière dá que o serum normal do homem e do cachorro, o sôro antidi- phterico e o sôro anti-treptococcico não produzem o phenomeno de Widal em contacto do bacillo de Nicolaier, o qual porém é agglu- tinado pelo sôro do homem e pelo dos animaes affectos de tétano e pelo sôro anti-toxico dos animaes vaccinados contra o tétano. O liquido cephalo-rachidiano do cão tetânico agglutina fracamente. O sôro sanguineo, o liquido cephalo-rachidiano e a polpa dos centros nervosos que possuem o poder agglutinante, são desprovidos de to- xinas tetanicas activas. 47 § 3.0 Mormo Fadejean foi o primeiro a chamar a attenção sobre o pheno- meno agglutinante do bacillo de mormo com o serum de um ca- vallo doente desta infecção. O serum deste animal, diluido na pro- porção de i : 20, dá uma reacção nitida depois de uma hora. Nas mesmas condições o serum de um cavallo normal quasi não exerce acção sobre o bacillo do mormo. Sendo muito facil o emprego da maleina como meio de diagnostico do mormo animal, acreditamos que o methodo do Sero- diagnostico deve ser reservado para conhecer a doença nos animaes mortos. O professor Foulerton em 1897 obteve a sero reacção de um creado de estrebaria affecto de mormo; a reacção foi immediata quando empregou o serum diluido a 1 : 10 e obtido depois de 10 minutos quando o sôro empregado foi a 1 : 20. O processo de cultura na estufa feito com as mesmas doses, forneceu também resultados positivos. As pesquizas de confronto, realizadas com o sôro de homem são, não deram o phenomeno. Porém os bacillos do mormo se deixam reunir em massas pelo sôro de homem infecto de typho e pelo cavallo immunizado contra a diphteria; para ter as massas convém usar diluições concentradas. Ultimamente Bourges e Mery mediram o poder agglutinante do sôro de dous cavallos mormosos. Em cada um destes dous cavallos o serum determinou uma agglutinação em pequenas massas usando diluições a 1 : 1000 no fim de meia hora de contacto e na temperatura do laboratorio. Repetindo estas experiencias com o sôro de cavallo febrici- tante se produz nas mesmas condições com diluições de sôro a 1 : 50, 1 : 100, 1 : 200 e raramente a 1 : 300. Estas constatações permittem de exprimir a opinião que, empregando uma diluição limite (1 : 500), se poderá estabelecer por meio do Sero-diagnostico se um cavallo é mormoso ou não. Como meio de diagnostico precoce deve-se pre- ferir a maleina; porém o Sero-diagnostico poderá prestar serviços como methodo de confirmação e será applicado em particular modo no mormo agudo, no qual a reacção com a maleina fica occulta ou não se tem absolutamente. 48 § 4-° Infecções provocadas pelos bacillos da familia dos Protozoários Segundo as experiencias de Achard o grupo dos Protozoários soffre o phenomeno de agglutinação quando se põem em contacto do sôro de animaes que resistiram á sua infecção. O serum agglutina nitidamente e claramente o Protista que serviu na inoculação; isto foi notado também para o vibrião de Koch e no bacterium coli. Quasi sempre a reacção se obtem com o Protista inoculado, sómente, emquanto que nos outros de prove- niência diversa e que offerecem caracteres semelhantes de fórma e de cultura, a reacção é nulla. Porém fazendo inoculações successivas a propriedade agglutinante se reforça. Achard propoz utilizar a propriedade agglutinante do serum para fazer o diagnostico das especies microbicas, por exemplo, como outros haviam distinguido mediante o sôro o vibrião de Koch dos outros e o bacillo d'Eberth dos semelhantes, assim procurou fazer com o Proteo. A propriedade agglutinante em geral apparece no 3.0 ou 4.0 dia depois da inoculação. Ella existe no sangue, mas não foi achada na bilis e no conteúdo das vesiculas seminaes; na urina é attenuada e é inconstante no humor aquoso. Persiste depois da morte e também durante a putrefacção. Não se produz no animal que foi infectado pouco tempo antes de morrer e cuja morte tenha sido accidental ou determinada pela infecção. § 5.» Infeccões do Pneumococcus 9 Depois dos trabalhos de Widal sobre o Sero-diagnostico da febre typhoide, quando foi demonstrado que o poder agglutinante se manifesta no principio das moléstias infecciosas, no momento do periodo d'infecção, Besançon e Griffon emprehenderam uma série de pesquizas sobre o poder agglutinante do sôro nas infecções experimen- taes humanas do pneumococcus. Metschnikoff por primeiro mostrára em 1891 «que o microbio da pneumonia fórma no sôro dos coelhos vaccinados contra este microbio rozarios de streptococcus muito longos.» No anno seguinte Mosny viu que o sôro de coelho vacci- nado contra a pneumonia, reunido ao pneumococco não se turva. 49 Emfim, Issaeff em 1893, depois de haver confirmado as pes- quizas dos dous observadores precedentes constatou que quando se junta sôro de coelho vaccinado a uma cultura de pneumococco, não só este soro não se turva como o sôro de coelho são, mas se produz também um deposito no fundo e nas paredes do tubo de cultura. Besançon e Griffon perguntaram si a propriedade aggluti- nante que se acha nos animaes vaccinados existe no periodo d'in- fecção. A sensibilidade extrema dos animaes ao pneumococcus e a rapidez com que se dá a morte, tornam as experiencias bastante de- licadas. Porém se pode augmentar a resistência do coelho ao pneu- mococco por meio de vaccinações incompletas e examinando o sôro dos animaes assim tractados depois de haver determinado uma in- fecção de caminho lento. Agindo assim nota-se que o sôro de coe- lhos infeccionados possue a propriedade agglutinante já observada nos animaes vaccinados, e possue-na em gráo muito mais elevado. No fim de 24 horas o sôro infecto fica claro como o do vaccinado; o fundo do tubo não apresenta os grumos que se constataram nas cul- turas de serum de vaccinados. Todos os pneumococcus são precipitados e agglutinados neste coagulo, ao microscopico em diplococcus capsulados, muito isolados, como se vêm no sôro de coelho normal, mas em grandes massas que perderam a sua capsula. O poder agglutinante persiste em modo absolutamente certo nos animaes infeccionados pelo Pneumococco, no homem também existe, mas em menor gráo. Sete doentes de pneumonia foram examinados pelos Professo- res Besançon e Griffon. N'um i.° grupo se tracta de cinco casos de pneumonia lobular, dous dos quaes complicados um de pleuriz purulento e outro de meningite. Os resultados obtidos foram sempre nitidamente positivos.-Em 4 casos a reacção foi constatada no 6.° e no 7.0 dia; no 5.0 porém o sôro agglutinante no 2° dia. N'um d'estes doentes o poder agglutinante já estava muito enfraquecido no 7.0 dia. No 2° dia se comprendem os casos espe- ciaes, nos quaes o sôro não agglutina o Pneumococcus. N'um destes casos não se tractava d'uma verdadeira pneumo- nia, mas d'uma lesão suppurante do pulmão acompanhada duma es- pecie de estado necrotico com grossos blocos hemorrhagicos. Besançon e Griffon que examinaram os sudatos pulmonaes de- pois da morte, acharam com microbio que apresentava caracteres muitos visinhos mas differentes dos pneumococco de Fraenkel. A pro- priedade agglutinante se encontra pois em todos os casos de infec- 50 ção de pneumococcus tanto no homem como nos animaes. As inte- ressante pesquizas de Besançon e de Griffon, estabelecem que o sôro dos doentes é um reactivo extremamente delicado que permitte dif- ferenciar uns dos outros os vários typos de pneumococcus em appa- rencia muito semelhantes. Elles de facto encontraram dois typos de pneumococcus insensiveis á acção do sôro d'um animal infecto de pneumococco, e que se deixam agglutinar pelo serum d'um animal por elles infectados. § 6." Infecções coli-bacillares l.°-Acção do Serum humano no coli=bacillo No congresso de Nancy, Widal e Sicard communicaram ex- periências de sero-diagnostico nas infecções coli bacillares, humanas. As suas pesquizas foram feitas em dez (10) doentes de infecções hu- manas, as massas pareceram mais numerosas e volumosas do que ordinariamente succede. O Sôro não mais reage em presença do coli-bacillo proveniente do mesmo doente. Achard obteve resulta- dos negativos com o sôro de 3 doentes, affectos de infecção coli-ba- cillar fazendo agir este sôro sobre coli-bacillo que se teve da lesão do doente 2.0 Acção do sôro dos animaes infeccionados pelo bacterium- coli sobre o coli-bacillo. As pesquizas d'este argumento foram feitas por Achard e Bensande com 13 coli-bacillos de proveniência diversa. Todos estes bacillos coagulam o leite, fazem fermentar a lactose, o mathose, a mannita, a glycose e não liquefazem a gelatina. Entre esses microbios se acham typos diversos de coli-bacillos; era então necessário procurar saber si a acção do serum do organismo infectada por uma variedade de coli-bacillo permitte egualmente dis- tinguir mais typos. Nicolle estudou um typo de coli-bacillo por elle obtido do Instituto Pasteur e que por dous annos cultivou em seu laboratorio de Rouen.-Vio que não tinha acção agglutinante nas culturas de bacillo d'Eberth, do bacillo de Nocard e do vibrião de Massahua e d'um grande numero de variedades de bacterium-coli das aguas. Este coli-sôro de Nicolle não era sensivel a acção do serum normal do homem ou do coelho, nem á acção do sôro de coelho vaccinado com culturas do bacillo d'Eberth e do vibrião de Massahua. O poder agglutinante d'este serum era de 1 : 15000 no fim de meia hora; obtinha-se a reacção quasi instantaneamente á 1 : 5000. 51 Nicolle fez para este coli-bacillo o que Widal e Achard ha- viam feito para o typho, isto é, injectou bacillos mortos e culturas filtradas e obteve sempre o poder agglutinante no sôro do animal infectado. Das suas pesquizas se conheceu que a substancia aggluti- nante do bacterium coli é muito resistente aos diversos agentes phy- sicos, como não é destruído por algumas substancias antisepticas, acido phenico, thymol, formol e sublimado. § V Infecções pelo bacillo de Nocard l.°-Caracteres do bacillo de Nocard Em 1892 Nocard descobriu e estudou nos papagaios um mi- cróbio especial, do qual fez a descripção no Conselho de Hygiene e de Saúde Publica de Pariz (24 de Março de 1893) Este bacillo provoca uma moléstia mortal nos papagaios e é igualmente pathogenico para diversos outros animaes. O bacillo de Nocard, segundo a descripção feita pelo auctor é um bacterio curto, muito duro, de extremidades arredondadas ae- robio e anaerobio, extremamente movei, se desenvolve rapidamente na maior parte dos meios, solidos ou líquidos, usados em bacterio- logia; não liquefaz a gelatina, não faz fermentar a bactose, e não coagula o leite. O bacillo de Nocard é extremamente virulento para diversas especies de animaes, e conserva a sua virulência por um longo pe- ríodo de tempo (Gilbert e Fournier). Apresenta caracteres communs as bacteriumcoli e ao bacillo d'Eberth e outros que permittem differencial-o nitidamente destes dous bacillos. O bacillo de Nocard differe do bacterium-coli pelos seguintes caracteres: não faz fermentar a lactose, não coagula o leite, não produz indol, é muito movei e possue 10 ou 12 cilios vibra- teis; a sua virulência é maior que a do bacterium-coli. O bacillo de Nocard differe do d'Eberth pelos caracteres seguintes: vive na gela- tina e nas batatas, como o coli-bacillo faz fermentar a glycose, o maltose; se desenvolve ao mesmo tempo que o coli-bacillo em caldo (Gilbert e Fournier) e é mais virulento do que o bacillo d'Eberth.- 52 Achard e Bensande acharam que o bacillo d'Eberth, não vive nas velhas culturas de bacillos d'Eberth, de bacillos de Nocard e do ba- cterium-coli; o bacterium-coli, se póde cultivar em culturas velhas de bacillos d'Eberth, e, raramente naquell.as do bacillo de Nocard e do bacterium-coli. O bacillo de Nocard é pois uma especie distin- cta, que póde considerar-se como um dos aneis de união entre o bacterium-coli e o bacillo d'Eberth, tanto que Gilbert e Lion o de- signaram com o nome de paracoli-bacillo. 2.°-Acção do sôro typhico sobre o bacillo de Nocard Gilbert e Fournier, e, depois delles Achard, constataram que o bacillo de Nocard agglutina o sôro typhico, mas em menor gráo do que o bacillo d'Eberth; Widal e Sicard mostraram que a diffe- rença do gráo de agglutinação é tal que póde servir a differenciar os dous microbios. Si juntarmos em 10 gottas do caldo de bacillo de Nocard uma gota de sôro typhico usando o processo extemporâneo formam- se massas de microbios; mas se empregarmos um sôro de febre ty- phoide diluido a i : 40 ou 1 : 60 e o fizermos agir sobre bacillos nascentes, a agglutinação do bacillo de Nocard não se obterá. 3.°-Acção do serum dos organismos infeccionados pelo bacillo de Nocard sobre o bacillo de Nocard O serum dos organismos infectos pelo bacillo de Nocard ag- glutina este bacillo mais fortemente do que o sôro typhico e o bacillo d'Eberth ou o serum cholerico e o vibrião de Koch. Podemos assim empregar culturas muito diluidas para differenciar o bacillo de No- card dos microbios visinhos com o auxilio do serum; se póde muito bem applicar a sero reacção no diagnostico das infecções humanas dadas por este bacillo. 4.°-Acção do serum dos organismos infectos pelo bacillo de Nocard sobre o bacillo d'Ebertb A observação mostra que o serum dos homens infeccionados pelo bacillo de Nocard, provoca a agglutinação do bacillo d'Eberth. A agglutinação se exercita na diluição a i : 10. Esta acção do se- rum sobre o bacillo d'Eberth cessa quando se emprega uma diluição 53 muito fraca. O erro que poderia resultar para a pratica da febre ty- phoide ou do sero-diagnosticodo bacillo do Nocard se póde pôr de parte. Estes resultados são também interessantes no ponto de vista theorico; mostram que sob a influencia de uma infecção, o sôro de um animal adquire a propriedade de agglutinar, não só o mi- cróbio inoculado, como, em gráo menor, os typos vísinhos, confir- mando assim o facto estabelecido por Achard que, quando com ino- culações successivas se reforça o poder agglutinante do serum, «este torna-se activo para os microbios visinhos de que primitivamente se inoculou.» Este facto é um argumento em favor da especificidade da reacção agglutinante ou contra ella ? (vide iheorias do phenomeno de agghitinaçào). § 8.' Serodiagnostico da Tuberculose Nos princípios do anno 1897 Aloing, e com elle outros ob- servadores, se occupou do serodiagnostico da tuberculose e, dos seus estudos, chegou a estes resultados: i.° o bacillo de Koch póde ser agglutinado. Pondo algumas gottas de cultura ou de emulsão homo- génea de bacillos num tubo contendo serum de cabra sã na pro- porção de 1:50, quasi não se obtem agglutinação, emquanto que isto se dá rapidamente si o sôro pertencia a uma cobra a qual se havia injectado tuberculina ou bacillos de Hoch; 2.0 o poder agglu- tinante do sangue normal das diversas especies de animaes está em razão inversa da receptividade dos mesmos animaes para a tubercu- lose; é nullo no sangue de cobaya e de coelho, vem depois em or- dem a cabra, o boi, o asno e o cavallo; 3.0 as culturas e as emul- sões homogéneas do bacillo da tuberculose das aves tem acção ag- glutinante no serum de animaes tuberculosos.-Aloing acredita que isto seja em favôr da opinião que o bacillo da tuberculose aviaria é uma variedade de Hoch; 4.0 o poder agglutinante se tem poucos dias depois das injecções de tuberculina ou do bacillo de Hoch; 5.0 as pesquizas feitas pelo Professor Aloing sobre o poder agglutinante do sôro humano para d'elle tirar signaes diagnósticos ainda mere- cem largas applicações. Elle achou que o sangue de pessoas sans em apparencia, agglutina as culturas de bacillo de Koch a 22 : 100, o sôro de tuberculosos a 94 : 100 e o de indivíduos affectos de tu- berculose cirúrgica a 91 : 100. Courmont no Congresso de Pariz, em Agosto de 1897, communicou os resultados por elle obtido. Elle disse que muitas vezes é difficil demonstrar a natureza tuberculosa d'um derrame seroso com os meios que agora se têm a 54 nossa disposição; o exame bacteriológico immediato fica quasi sem- pre sem resultado; a prova para a inoculação é muito longa de se fazer, e nem sempre o medico pratico tem a sua disposição a tuberculina. Por isso elle quiz assegurar-se si a serosidade d'um derrame tuberculoso não tinha propriedades especificas para agglutinar o ba- cillo de Koch em cultura liquida homogenea. Obteve esta reacção misturando a serosidade tuberculosa á cultura na proporção de i : 5 de 1 : 10 e de 1:20. Abaixo da proporção 1:5a agglutinação se faz com as serosidades não tuberculosas. O exame dos derrames em 11 pleurizes clinicamente tuberculares lhe deu dez vezes a reac- ção especifica; faltou n'um caso de pleuriz chronico que parecia tu- berculoso ; porém os escarros do enfermo não continham bacillos e, inoculando o liquido pleurico n'um coelho não se obtinha resultado. Em 9 pleurizes que não pareciam de origem tuberculosa, apenas em 4 obteve a reacção positiva; nos outros casos a reacção foi nega- tiva, n'estes porém se tractava de hydrothorax em pessôas affectas de vicios cardíacos e de pleuriz não tuberculoso. Em 13 ascites examinadas, 5 pertenciam a peritonites tuberculares e davam a agglu- tinação a 1 : 10. Os outros 8 não davam a reacção mas n'estes ca- sos a ascite dependia de cirrhose hepatica. Em 8 casos de sinovite tuberculosa a agglutinação se produziu mas era menos manifestado que com o liquido da peritonite ou do pleuriz tuberculoso. De quanto expuzemos podemos resumir que a reacção agglutinante sobre o ba- cillo de Koch, determinada por uma serosidade de origem tubercu- losa, constitue um elemento importante e muito practico ao diagnos- tico etiologico. CAPITULO IV Resumo e conclusão do presente trabalho I N'um certo numero de infecções experimentaes e humanas, o serum possue a propriedade de reunir em massas os microbios in- fectantes espalhados n'uma cultura (phenomeno de agglutinação). Esta propriedade parece ser geral. Foi constatada no sangue dos orga- nismos vaccinados ou infectos pelo bacillo d'Eberth, vibrião do Koch, bacillo pyocianico, Proteus, pneumococcus, coli-bacillo, bacillo de No- card, bacillo de Yersin e bacillo icteroide da febre amarella (Sana- relli); em algumas d'estas infecções o serum do organismo doente não adquire senão difficilmente o poder agglutinante. 55 No carbúnculo e no staphylococcus fizeram-se algumas expe- riências que deram resultados negativos.-As pesquizas feitas no oídium mucosum provam que a sero-reacção póde estender-se a or- ganismos mais elevados do que os bacterios. II O phenomeno de agglutinação dos microbios recebeu duas applicações praticas muito importantes; a primeira consiste na dis- tincção dos typos microbicos com o sôro dos animaes vaccinados experimentalmente; a segunda consiste no diagnostico da natureza da infecção com sôro dos doentes. O methodo do Sero diagnostico é applicavel, em Bacteriolo- gia, no conhecimento de todos os microbios que conferem a pro- priedade agglutinante ao sôro infectados ou vaccinados. Este me- thodo é optimo para differenciar as diversas especies microbicas; permitte separar uns dos outros, n'uma especie idêntica, typos que não se distinguem pelos caracteres das culturas usuaes. Na patho- logia humana a sero-reacção é applicavel ao diagnostico das molés- tias, não só durante o periodo de estado, como durante a convales- cença e depois da cura. O methodo do sero diagnostico estendeu-se ás moléstias seguintes: i.° Febre typhoide.- A febre typhoide é a unica affecção na qual o methodo do sero-diagnostico assenta em base solidamente pro- vada. Uma só vez, n'um caso rigorosamente observado, a reacção não foi obtida (Widal). Na grande maioria dos casos, ella apparece no sangue dos doentes, nos primeiros dias da moléstia. Excepcional- mente se mostra tardia depois da apyrexia, precisamente quando delia não mais necessitamos em clinica. Uma reacção positiva obtida com uma diluição de sôro bastante fraca, e n'um individuo que nunca teve a febre typhoide, permitte affirmar com segurança a molés- tia. Um resultado negativo não será nunca um elemento de certeza, mas fornece uma probabilidade contra a febre typhoide. «A proba- bilidade é maior si o exame fôr practicado numa época mais adean- tada da moléstia.» 2° Cho/era.-Fs pesquizas ainda pouco numerosas estabele- cem que a reacção agglutinante existe no periodo de estado e na convalescença do cholera. Mostram assim que a reacção agglutinante póde prestar serviços no diagnostico do cholera, mas ainda não po- demos apreciar o justo valor d'estes serviços. Poderá talvez sub- stituir com vantagem o exame bacteriológico das dejecções para de- terminar promptamente a verdadeira natureza de uma epidemia sus- peita. 56 Peste bubomca.- A reacção agglutinante foi constatada em muitos casos, a partir do segundo septenario. Não ha duvida que ella possa vir a ser utilizada no diagnostico clinico da moléstia na séde da epidemia e no decurso da mesma. 4? Infecção de pneumococco.-As applicações do methodo do sero-diagnostico, nas infecções, pneumococcus, humanos, não é tão simples como na febre typhoide, por causa da pluralidade de typos de pneumococcus e da difficuldade de cultura do pneumococco no sôro humano. 5.0 Infecção pelo bacillo de Nocard.-A sero reacção permittio affirmar uma vez, n'um homem, uma infecção geral dada pelo bacillo de Nocard. A clareza e a intensidade da reacção no homem e nos animaes nos auctorizam a crêr que poderá ser utilizada no diagnos- tico clinico d'esta affecção. 61, p9 e 8.°-Os resultados raros obtidos no homem nas in- fecções de coli-bacillos, de streptoccus e no mormo não permittem ainda nenhuma conclusão. g? Tétano.-O sero-diagnostico deu resultados positivos no tétano humano; i vez em 8 casos. E' impossível agora pronunciar- se sobre o valor deste methodo no tétano humano. io? Diphteria.- Ç) sôro de individuos a quem se injecta sôro antidiphterico adquire fugazmente a propriedade de agglutinar o ba- cillo de Lõeffler. III O sôro dos doentes de febre typhoide, de cholera, de peste, etc., é só capaz de exercitar em gráo elevado a sua acção aggluti- nante sobre os microbios respectivos desta. Moléstias infectivas. De outra parte o bacillo d'Eberth, o vibrião de Koch, o coccus-bacillo de Yersin, etc., são os únicos microbios que se deixam fortemente agglutinar dos respectivos sôros, typhico, cholerico, etc. Esta acção reciproca constitue pois uma demais em favor da parte que tem estes microbios' na etiologia das diversas moléstias infecciosas. A proprie- dade agglutinante parece relativamente independente das outras que adquire o sôro dos organismos vaccinados ou injectados (proprie- dade bactericida, e propriedade antitoxica). Parece também distincta da propriedade lisogena. A transformação granulosa, segundo alguns observadores, seria inteiramente diversa do phenomeno de aggluti- nação; o primeiro phenomeno não se observa sinão com o concurso de um organismo vivente, emquanto que o phenomeno de aggluti- nação se produz exclusivamente fóra do organismo. (Dr. Salimbem). 57 A natureza das substancias agglutinantes é desconhecida. Se sabe apenas que estas substancias são entretidas pelas diversas albu- minas do plasma e dos humores. Se sabe também que resistem á acção do calor moderado, da luz solar prolongada, da putrefacção e são geralmente detidas no hltro de porcellana e nas membranas dya- lisadoras. O logar de formação e de distribuição das substancias agglutinantes no organismo não se poude até agora determinar. Todos os modos de inoculação podem fazer nascer a reacção agglutinante. No homem as injecções sub-cutaneas de culturas esterelizadas confe- rem ao sangue a propriedade agglutinante. Os leucocytos viventes, separados do plasma primitivo, não retêm em si as substancias agglutinantes. E' sempre o sangue que contem no máximo a propriedade agglutinante; os outros liquidos do organismo também apresentam esta reacção mas variavelmente. A's vezes as substancias agglutinantes atravessam a placenta; os recém-nascidos, que têm o poder agglutinante sempre menor do que a mãe, conservam-no algum tempo depois de virem á luz. A propriedade agglutinante não é limitada rigorosamente ao microbio infectante; póde também exercitar-se, mas em menor gráo, nas espe- cies microbicas visinhas. Capital Federal, 14 de Outubro de 1904. FIM DA DISSERTAÇÃO PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras da Faculdade Cadeira de Historia. Natural I O crescimento da estructura dos seres organisados póde ser central ou axial. II Cada uma dessas modalidades póde ser uni ou multicentral ou axial subdividindo cada uma ainda em continua e descontinua. III Em cada uma das subdivisões dos reinos orgânicos a mu- dança da homogeneidade incoherente e indefinida em heterogeneidade coherente e definida é representada d'uma maneira quadrupla. Cadeira de Chimica Medica I Existem duas grandes ordens nas matérias assucaradas: as saccharoses e as glycoses. II E' a esta ultima que pertence o assucar que se -encontra no organismo. 62 III O assucar do diabete é idêntico ao assucar de uvas e apre- senta os mesmos caracteres e propriedades. Cadeira de Histologia theorica e pratica I Os corpúsculos tactis do bico do pato domestico apresentam a fórma a mais simples no sentido do tacto. II Segundo a sua distribuição nas partes da pelle que servem essencialmente ao tacto póde-se considerar essas diversas especies de corpúsculos de Meissner como os orgãos terminaes especialmente affectados á sensibilidade táctil. III Observa-se além d'isso na profundeza de tecido conjunctivo sub-cutaneo e do derma, corpúsculos mais volumosos, appensos aos tubos nervosos e visiveis a olhos nús, são os corpúsculos de Pacini ou Water (M. Duval). Cadeira de Anatomia Descritiva I Os ganglios semi-lunares, em numero de dois, estão situados adiante dos pilares do diaphragma, immediatamente abaixo do bordo superior do pancreas, entre a origem do tronco coeliaco e as ca- psulas supra-renaes. II Suas extremidades externas recebem o grande nervo es- planchnico e uma ou mais divisões do pequeno esplanchnico. 63 III Suas extremidades internas são os pontos de partida de grossos feixes plexiformes que unem-se um ao outro, se anastomo- sando adiante da aorta; com estes pontos o pnenmogastrico e o grande esplanchnico formam a alsa memorável de Wrisber (Sappey). Cadeira de Physiologia I As sensações podem dispersar-se ou armazenar-se nos orgãos cerebraes. II As impressões que ahi se fixam pódem reapparecer mais tarde produzindo os phenomenos designados sobre o nome de memória. III As sensações, assim conservadas como em estado latente, re- apparecem então por um mechanismo semelhante das sensações as- sociadas e a reviviscencia d'uma sensação particular póde despertar uma multidão de outras visinhas e analogas: é o processo da asso- ciação das idéas (M. Duval). Cadeira de Bacteriologia I Em 1892 o Prof. Nocard descobriu e estudou nos papagaios um microbio especial a cuja descripção apresentou ao Conselho da Hygiene e Saúde de Pariz. II Este bacillo provoca uma moléstia mortal nos papagaios e é igualmente pathogenico para outras especies de animaes. 64 III O bacillo de Nocard, é um bacterio curto, de extremidades arredondadas, aerobio e anaerobio, muito movei, se desenvolve nos meios usados não liquifaz a gelatina. Cadeira de Matéria Medica, Pharmacologia e Arte de formular I O creosoto é um producto muito complexo formado essen- cialmente pelo phenol e seus homologos superiores cresylol, xylenol e guayacol. II E' preparado ou retirado do alcatrão vegetal, por distillação. III E' muito solúvel no ether e no álcool e a sua prescripção póde ser feita de múltiplas fôrmas (vinho, emulsão, capsulas, xaropes, oleos, etc.) (Dourvault). Cadeira de Anatomia e Physiologia Pathologicas I Parece certo que na grande maioria dos casos as loucuras agudas não deixam traços anatomo-pathologicos. II Pode-se supôr que os estados maníacos ou de excitação cor- respondem a uma hyperhemia e os estados melancholicos ou depres- sivos a uma ischemia de certas regiões do cerebro. 65 III E' preciso reconhecer também que n'um grande numero de casos a hyperhemia e a ischmia cerebraes são insufficientes para pro- vocar as psychoses. Cadeira de Pathologia Medica I A pathogenia da Choréa não está ainda de uma maneira sa- tisfatória, elucidada. II Contam-se tres (3) theorias principaes: a rheumatismal, a ner- vosa e a infectuosa. III Parece-nos que a symbiose das theorias rheumatismal e ner- vosa melhor satisfaz as condições pathogenicas (Charcot). Cadeira de Pathologia Cirúrgica I Sob o nome de mal de Pott comprehendem-se todas as le sões não traumaticas do rachis podendo-se acompanhar de gibosi dade, de paralysia e abcessos por congestão (Ferrier). II Estas lesões são na immensa maioria dos casos, senão em todas, de natureza tuberculose (Lannelongue). III Esta affecção cirúrgica não pode ser circumscripta (cavernosa) ou diffusa. 66 Cadeira de Anatomia Medico Cirúrgica I Os corpos opto-striados (os núcleos) estão situados a 5 cen- timetros abaixo da convexidade do cerebro; apresentam esse com- primento no sentido antero posterior e 4 centimetros de altura. II Elles correspondem a fossa temporal e estão situados defronte da scisura de Sylvius e da insula; cavalgam de algum modo o conducto auditivo externo e póde-se dizer que a extremidade supe- rior ou pavilhão da orelha coincida mais ou menos com o seu li- mite superior. III Uma hasta ou instrumento neste ponto horizontalmente os attingiria mais ou menos no meio do seu comprimento (Tillaux). Cadeira de operações e apparelhos I Em seguida a uma queda sobre o craneo pode-se produzir uma fractura da taboa interna com integridade da externa e do diploé. II O principal facto reside na maior elasticidade da taboa ex- terna e a pequena elasticidade da interna. III Si houver sido feito o diagnostico, havendo phenomenos com pressivos, a melhor operação é a applicação da coroa de trépano. 67 Cadeira de Therapeutica I O salopheno pertence a base dos salols. II O salopheno preparado por Beyer é o salycilato de acetyla paramido phenol. III E' antiseptico interno como o salol e benzo. - Naphtol (?) e goza ainda de propriedades analgésicas. Cadeira de Obstetrícia I A retroversão do utero gravido consiste no deslocamento para traz d'este orgão na escavação pelviana. II As causas são numerosas e muitas d'entre ellas concorrem para produzir o desvio uterino. III A multiparidade, o prolapso uterino, os tumores fibrosos da parede posterior do utero, a retenção de urinas, retroversão lenta e retro versão brusca são as causas mais importante^. Cadeira de Medicina Legal I A estirilidade feminina em casos especiaes é uma medida de alto valor prophylatico social. 68 II Não envolve elemento de criminalidade, não ataca a moral publica e guarda em si um problema de alto valor economico. III Deve ser preconisada em casos de affecções ou lesões em que a prenhez ou a concepção venha deturpar a vida materna em caso e de misérias dos cônjuges. (Francisco de Castro). Cadeira de Hygiene I As moléstias zymoticas ou especificas se repartem em tres classes; as contagiosas (variola), as infectuosas propriamente ditas (cho- lera) e as niasmaticas (malaria). II Entre as contagiosas a variola é a mais espalhada e a mais remitente. III A vaccina obrigatória é o meio prophylatico por excellencia para as reacções. Cadeira de Clinica Propedêutica I Os esthetoscopios são intrumentos destinados a transmittir o som á distancia. II A sua funcção bem como a theoria physica que lhes serve de base, são, até certo ponto, idênticas áquellas dos tubos acústicos e dos porta-vozes. 69 III No esthetoscopio clássico de Laennec é o mais solido que prevalece no transito de som. Cadeira de clinica Dermatológica e Syphiligraphica I As lesões syphiliticas dos envolucros molles cerebraes se apre- sentam sobre dois aspectos: especificas e esclerosas. II Das lesões syphiliticas, especificas, o typo é a gomma me- ningéa com sua variedade, gomma em caixo e infiltração gommosas difiusas. III Nas meningites esclerosas as lesões mais communs são a pa- chimeningite externa e a pachimeningite interna, que pode-se acom- panhar de uma symphise meningo-cerebral total. Cadeira de Clinica Ophtalmologica I Encontra-se na conjunctiva tumores benignos e malignos. II Dos tumores benignos o mais importante é o dermoide. III Como tumores malignos observam-se o epithelioma e o sar- coma (Fuchs). 70 1. Cadeira de Clinica Cirúrgica I As feridas do encephalo podem ser produzidas por esquiru- las ósseas, instrumentos cortantes, perfurantes e apresentam-se ou como picadas, ou glopes, ou contusões. II Estas diversas feridas, são fáceis de reconhecer se o cerebro está a nú, no caso contrario o diagnostico, unicamente baseado sobre as conclusões ou paralysias ulteriores, fica incesto. III O tratamento consiste nos curativos antisepticos, ablação dos corpos extranhos, esquirulas ósseas, antiphlogisticos, etc. 2. Cadeira de Clinica Cirúrgica I As collecções purulentas produzidas, ou por feridas ou por contusões ou gomma, etc., constituem os abcessos do cerebro. II Os symptomas podem ser vagos como cephalalgia localisada, torpor, vertigens, ou antes podem ser sypmtomas localisados como contractura, paralysias, convulsões, segundo os centros cerebraes, ata- cados, seguido de uma febre mais ou menos forte. III A trepanação é indicada quando os symptomas observados permittem precisar a séde do abcesso. 71 Cadeira de Clinica Fediatrica I A paralysia infantil ou paralysia atrophica da infancia é uma myelite aguda das pontas anteriores, talvez de origem infectuosa, observando-se na primeira infancia. II Ella começa ás vezes pela febre, ás vezes pelas convulsões. III A paralysia súbita, extensa ou generalisada, não tarda a re- troceder e se ficar n'um pequeno numero de musculos; os intestinos e a bexiga escapam a paralysia e a sensibilidade é conservada. 1. Cadeira de Clinica Medica I Na uremia, habitualmente o delirio apparece a titulo de epi- phenomeno nos períodos últimos do mal de Bright, porém em al- guns casos toma elle o papel preponderante. II O doente póde simular um caso de alienação mental e é isto que constitue a loucura brightica. III Ella póde revistir diversas fôrmas, mas a mais commum é a fôrma maniaca simulada. 72 2. Cadeira de Clinica Medica I Toda icterícia é de origem bilifeica. II E' um symptoma intercurrente de algumas affecções e mo- léstias. III O desapparecimento subitaneo da bilis no sangue é signal prognostico gravíssimo desde que o doente apresente outros sym- ptomas somáticos engravescentes. Cadeira de Clinica Obstétrica e Gynecologica I A craneotomia consiste na perfuração do craneo, habitual- mente praticada sobre a aboboda, a cabeça sendo primeira. II As indicações da craneotomia simples, sem esmagamento da cabeça fetal. III Não ha prognostico a estabelecer para a parturiente; esta operação mutiladora do féto só póde ser perigosa se for praticada sem os cuidados antisepticos. 73 Cadeira de Clinica Psychiatrica e de Moléstias nervosas I A mania é uma affecção que se manifesta pela exaltação da personalidade. II Ella póde ser idiopathica ou syndromica. III Parece que a entidade mórbida maniaca idiopathica tende a desapparecer do quadro das psycho-nevroses. (Ballet). Visto. - Secretaria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 14 de Outubro de 1904. Sub-Secretario BIBLIO GK. (i) Engels, Centralbatt fúr Bakteriologie, 1897, XXI, 30 de Junho. 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