MMi jfe Medicma e Ae Phannacia Ao Rio lo Janeiro DISSERTAÇÃO CADEIRA DE PATHOLOGIA MEDICA IKEIPAATITIE SILTUVPTJCFLAVID.A. DA Proposições TKES SOBRE CADA UMA DAS CADEIRAS DA FACULDADE FACULDADE DE MEDICINA E DE PHARMACIA DO RIO DE JANEIRO EM lô DE MARÇO DE 1899 sp. Cosíabile liúmm FORMADO PELA UNIVERSIDADE DE NÁPOLES AFIM DE PODER EXERCER A SUA PROFISSÃO ITALIA NA REPUBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRAZIL 1899 FACDLDADEDE MEDICIMA E DE PHARMACIA X3O RIO DE JANEIRO IDO •Th. (oo)lubili *]KalaíUt :0 1899 IFLA-CTJIjICLAHDIE De Hcii e ie FMnacia do lio de Janeiro DIRECTOR —Dr. Albino Rodrigues de Alvarenga. VICE-DIRECTOR Dr. Francisco de Castro. SECRETARIO Dr. Antonio de Mello Muniz Maia. LENTES CATHEDRATICOS Drs.: João Martins Teixeira Physica medica Augusto Ferreira dos Santos Chimica inorgânica medica. João Joaquim Pizarro Botanica e zoologia medicas. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descriptiva. Eduardo Chapot Prevost Histologia tbeorica e pratica. Artbur Fernandes Campos da Paz Chimica orgcnica e biologica. João Paulo de Carvalho Physiologia tbeorica e experimental. Antonio Maria Teixeira Matéria medica, Pharmalogia e arte de formular. Pedro Severiano de Magalhães... Pathologia cirúrgica Henrique Ladisláo de Souza Lopes Chimica analytica e toxicologica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medico cirúrgica. Domingos de Góes Vasconcellos Operações e apparelhos. Antonio Augusto de Azevedo Sodré Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Albino Rodrigues de Alvarenga, Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó, Júnior Obstetrícia. Agostinho José de Souza Lima Medicina legal. Beniamin Antonio da Rocha Faria Hygieue e mesologia. Antonio Rodrigues Lima Pathologia geral João da Costa Lima e Castro Clinica cirúrgica —2a cadeira. João Pizarro Gabizo Clinica dermatológica e syphiligraphica. Francisco de Castro Clinica propedêutica. Marcos Bezerra Cavalcante Clínica cirúrgica—la cadeira. Enrico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologiea. Joaquim Xavier Pereira da Cunha Clinica ophthalmologica. José Benicio de Abreu Clinica medica 2a cadeira. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. Cândido Barata Ribeiro Clinica pediátrica. Nuno de Andrade Clinica medica— la cade ira LENTES SUBSTITUTOS Drs,: la secção Tiburcio Valeriano Peceguoiro do Amaral. 2a « Oscai Frederico de Souza. 3a “ Genuíno Marques Mancebo e Luiz Antonio da Silv» Santos. 4a « ... ( vago ) 5a « Ernesto do Nascimento Silva. 6a " .... Francisco de Paula Yalladares. 7a ® Miguel de Oliveira Couto, 6a “ Augusto de Souza Brandão. 931 Francisco Simões Corrêa 10a « Jocé Antonio de Abreu Fialbo. 11a « Luiz da Costa Chaves Faria. 12ç. « Mareio Filaphiano Nery, N. B. A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas Dissertação ETIOLOGIA E PATHOGENIA A hepatite suppurada é uma affecção especial aos paizes quentes, excepcioiialmeute se manifestando nos climas temperados; e, dentre as causas que a podem determinar apontemos desde jà as contusões do hypocondrio direito e a penetração de um corpo estranho no fígado, penetração esta que se pode fazer pelas vias biliares ou pelo duodeno. Quanto á primeira causa o facto tem sido observado por vá- rios clínicos, e bem se com prebende que um traumatismo da região hepatica embora raro, possa determinar, mesmo nos climas tempera- dos, uma hepatite suppurada. Não queremos entretanto cora isto asseverar que todo trau- matismo determine forçosamente uma suppuração da glandula he- patica; pensamos mesmo que, embora isto aconteça raramente, a contusão levada à região do fígado pode concorrer para a formação de uma collecção purulenta. Quanto aos corpos estranhos, alguns auctores reterem a presença de ascarides lornbricoides, cálculos biliares obliterando o canal choledoco, alfinetes deglltidos, etc. A temperatura elevada exerce reconhecida influencia sobre a producção da hepatite, todavia se o calor representa na verdade um factor importante na etiologia d’esta affecção, não é este entretanto o unico. E não somente o ca- lor elevado, mas também as mudanças de temperatura devem ser tomadas em consideração por isso que è justamente nas regiões quentes, em que ao calor torrido do dia succedem noites húmidas e frias, que a differema considerável de temperatura favorece as con- gestões das vísceras e póde ser causa occasional da abcedacão do fí- gado. A alta temperatura favorece aos germens dysentericos e dár- lhes uma maior energia. Estes germens representão, como veremos, um proeminente papel na etiologia da hepatite suppurada. 6 A humidade tem sido apresentada também como umas das causas; entretanto ella falta completamente na Algeria, onde essa moléstia reina epideraicamente. As inflammações do domínio da veia porta são causas fre- quentes da hepatite suppurada, como acontece nas operações do re,cto, intestino e estomago, etc., formando-se abcessos metasta- ticos no ligado, sendo provavelmente levados ahi os agentes da in- flamrnação por intermédio da circulação porta e provocando uma iiçtiammação secundaria, podendo o transporte se dar também por in- termédio da veia porta e excepcionalmente pela veia umbilical, como pode acontecer nos recem-nascidos. Pela infecção puerperal ou simplesmente séptica da ferida umbilical, os agentes infiamma- torios podem chegar ao fígado por aquella veia e provocar a for- mação do abcesso. Outras causas podem ainda ser apresentadas como factores etiologicos da hepatite suppurada, assim os focos inflaminatorios peri- phericos, feridas insignificantes, corno o panarício, feridas dos ossos, etc. Os tubérculos e os ecJmococcus podem suppurar e provocar en- tão à distancia processos purulentos secundários. Oufora acreditava-se que o abcesso do ligado era uma determinação do paludismo; ninguém, porem, admitte mais hoje tal opinião, que muito sustentada foi principalmente pelos médicos francezes da Algeria. Para mostrar a falta de fundamento de uma tal asserção basta lembrar que justamente nos centros malaricos da nossa bella Italia a hepatite suppurada é rara; ao passo que mpstra-se frequente entre os tropicos, em certas localidades isentas de influencia malarica. Portanto, o elemento palustre por si só não é capaz de provocar a suppuração do figado, embora pela congestão que elle determina para o lado d’esta glandula possa ter influencia na evolução da affecção como causa predisponente ou occasional. Identidade existe com a dysenteria„ que jà na opinião de Broussais era a mais commum das causas. Ha, com oífeito, uma coincidência perfeitamente verificada, constituida pela dupla mani- festação de uma só e mesma causa mórbida. 7 A dysenteria e a hepatite suppurada appresentão a mesma distribuição geograpbica, sendo quasi sempre inseparáveis uma da outra, e se nem sempre o facto é clinicamente comprovado é porque tem passado despercebidas as ulcerações, intestinaes no caso da veri- ficação do abcesso do figado, ou da suppuração no caso da dy- senteria. E’ a opinião de Kelsch e Kiener que, n’ uma estatistica de cem casos poderão averiguar a precedencia da dysenteria em setenta e cinco, acreditando que os outros também o tivessem sido talvez sob uma forma chronica, não bem patente de modo a não ser perfeitamente reconhecida. Ese nem sempre á dysenteria segue-se a hepatite, isto explica-se pelo papel importantíssimo que represen- ta o figado de não só reter como destruir os miero organismos, que por elle .passão. Esta funcção da glaudula hepatica è a garantia da vida, e isto, que acontece para as auto-intoxicações, succede também para os toxicos ingeridos, guardada sempre uma certa relatividade. Eibbert explica a razão porque os casos de ulcerações dy- sentericas são mais frequentes do que os de suppurações hepaticas pela propriedade que têm as peredes intestinaes, como os ganglios de fixar certos agentes infecciosos. Portanto, para a producçao de abcesso hepático a condição principal é a d’esse factor etiologicos que acabamos de estudar, mas são necessários, são mesmo indispensáveis certas condições para que elle possa evoluir. As causas que diminuem a resistência do organismo contra o agente productor da hepatite e as que favorecem a hyperhemia hepatica, devem ser consideradas como causas pre- disponentes, sò a presença d'aquelle agente sendo capaz de produzir a hepatite suppurada dos paizes quentes. Se é verdade que a dysenteria pode se desenvolver em qualquer ponto do globo, o mesmo não acontece à hepatite suppu- rada que se observa quasi só na zona tropical. 8 Ainda outras causas devemos apontar como podendo influir na supperação do ligado, embora de menos valor, como a idade, sendo extremamente rara até a segunda infaucia. e nos velhos, oscillando entre os 20 e 50 annos a maioria dos casos observados até açora. o Seja pelo facto das mulheres se exporem menos que os homens ás privações, às fadigas e aos exessos de todo o' genero, seja por outro qualquer motivo è certo que è mais commum no sexo masculino do que no feminino. Na raça branca e principalmente nos estrangeiros não habi- tuados aos climas quentes a hepatite suppurada é mais frequente do que nos negros e ncs indígenas. II A NATOMIA PATHOLOGÍCA DivldLiemos este assumpto em dois períodos, um compre- liendendo a hjjperhemia hepático e outro a suppn ração. Niaquelle a glândula hepatica acha-se mais engorgitada de sangue ou ao menos de serosidade sanguinolenta do que no estado physiologico, constituindo este accumulo de sangue nos vasos hepáticos o pheno- raeno primordial da hepatite, e o augmento de volume do fígado é a sua consequência natural, augmento este que perdurará no periodo da suppuração e que é facto constante, a menos que não se trate de um fígado previamente atacado de cirrhóse ou quando uma abundante suppuração teiiha destruído parte do parenchyma hepá- tico. A consequência natural de uma hyperhemia prolongada para um orgão tão vascular como este é a suppuração, quer o pus seja proveniente da modificação da cellula conjunctiva pre existente, quer do globulo branco emigrado, segundo Wirchow ou segundo Cohnheim, e o ponto inicial d’essa suppuração é o espaço de Kiernan. Na opinião de Kelscho abcesso tem seu ponto de partida não nos conductos biliares, nem nas paredes dos vasos sanguíneos, mas nos lobulos e nos espaços interlobulares. fee o agente infeccioso é a causa do abcesso, ser. do elle le- vado ao fígado por via vascular, o ponto de partida parece dever ser o espaço inter-lobular. onde esta causa primeiramente actua. O trabalho de suppuração se fazendo nos espaços interlobu- lares. augmenta os seus volumes, emquanto os lobulos diminuem pela atrophia, resultando d'ahi as tranformações d’esses esnaços em cavidades cheias de píis, separadas por massas lobulares, que ten- dem a desapparecer pela atrophia das cellulas hepaticas. 10 Por fim, estes focos de suppuração fundem-se um nos outros constituindo o abcesso do figado. N’este periodo da inflammação a glandula apresenta uma •coloração vermelha intensa, uniformemente distribuida ; de ordiná- rio, porém, a congestão se localisa na peripheria dos pontos abece- dados, em placas irregularmente disseminadas. O pús acha-se em contacto directo com a substancia hepatica quando o abcesso é dc recente formação, mais tarde, porem, os leucocytos que se accu- mulam na superfície interna do foco, em logar de se necrosar, se transformam em tecido embryonario; uma rede capillar de nova formação se desenha n’este tecido, constituindo uma membrana pyogenica, que contorna o abcesso. Este continua a se desenvolver •á custa daquella membrana e do tecido conjunctivo inflammado, que o contorna, e como este tecido se continua com a lamina con- junctiva peripheriça da veia, porta, se manifesta a periphlebite com fprmação de um cpalho fibrinosoç no ponto inflammado da veia. Estas partes periphericas podem ser completamente destruidas pela suppuração de tal sorte que o abcessp 1 augmepta por expansões la- teraes, seguindo os ramos da veia porta. (Gornil e Ranvier). Algumas vezes a membraiia pyogenica se transforma em espessa membrana fibrosa, cuja folha externa está inteiramente li- gada ao tecido glandluar e a interna, desigual, é banhada de pús, e como consequência o abcesso pára em sua marcha invasora ficando enkistado no meio da substancia hepatica; Vejamos agora os caracteres macro e microscopicos do ab- cesso; as alterações que elles determinão na glandula hepatica e n’outro orgãos. Ordinariamente os abcessos intertropicaes são em pequeno numero ou unico e volumosos; este caracter differenciando-os dos dejorigern metastaticas, que são numerosos e pequenos. Embora o foco apresente-se muitas vezes de forma ir- regular, seja pela reunião de abcessos primitivamente distinctos, 11 seja pela inabilidade do tecido hepático em vários pontos, a for- ma espherica, quando o abcesso é chcumscripto, é a que se deveria imaginar como a da collecção purulenta do íigado. Elle pode occupar qualquer ponto da glandula hepatica todavia o lobulo direito è sede mais commum do que o esquerda, raramente se observando no de Spigel. Quanto ao volume, o abcesso pode circurascre ver-se a uma pequena parte do orgão ou generalisar-se, convertendo-o em uma es- pecie de kysto purulento, apresentando-se do tamanho de uma noz no primeiro caso Embora em alguns paizes a collecção purulenta possa attingir ao volume de uma cabeça de criança, na maioria dos casos a quantidade varia de 300 a 1000 centimetros cúbicos de pus- Na maior parte das vezs e sse augmento de volume não é mais do que a consequência da di&tenção do orgão pelo phs accumu- lado no interior dos abcessos. Quando o abcesso é recente o pus è de boa natureza; quan- do, porem, existe haja um certo tempo, um cheiro picante ammo- niacal, mais raramente fétido, caracterisa-o. Nas collecções anti- gas elle se apresenta já com uma cor vermelha, devida á presença de um certa quantidade de sangue ou de detritos cellulares prove- nientes do íigado, já com uma coloração verde, que se transforma muitas vezes em uma cor de borra de vinho, escuro amarellado ou chocolate, resultado da mistura da bile com o pus. Se o abcesso se conserva enkistado o pús é inodoro, desde, po rem, que uma fis- tula bronchica ou abdominal existe, a fermentação pútrida do li- quido é a consequência. * Profundas alterações esperimenta o tecido hepático que cir- cunda o abcesso e a sua consistência é diminuida, outras vezes, po- rém, elle apresenta-se condensado, encmstado de pigmento, resul- tados estes da inflammação. Quanto ás lesões dos vasos sanguineos e biliares, ellas re- presentam um papel secundário na hepatite suppurada, o processo 12 Inflamatório se propagando a esses vasos por intermédio do tecido conjunctivo que constitue uma bainha commum a esses mesmos vasos. Qando o abcesso do figado está collocado superíicialmente o revestimento seroso participa da inflammação e deste modo se forma, felizmente, adherencias com os orgàos visinhos. Ora, sendo a tendencia dos abcessos crescer e romper-se, a consequência seria, se não se formasse a adherencia, o derrame do pus na ca- vidade peritoneal e morte rapida por peritonite. A ruptura, porém, pode se fazer para o cstomago, colon ou duodeno, etc., e o perigo diminue consideravelmente. Do mesmo modo que uma adherencia da pleura parietal pode se dar com a visceral quando o pús se dirige paro o lado do thorax e então é lançado do figado ao pulmão e bronchios e d’este modo eliminado quasi sem gravidade. Para outros pontos a sua abertura também pode se dar, como no veia porta, bassinete do rim direito, veia cava infe- rior, veias hepaticas, conductos e vesículas biliares e d'este modo levado ao intestinos. Nem sempre, porém, a eliminação do pús se dá, e um enkystamento pode, como dissemos, ser observado, vindo mais tarde- se juntar o seu espessamento e a sua Gaseificação ou a transformação calcarea da massa caseosa. Isto é o que se observa nos abcessos profundamente situados. A abertura do abcesso é indubitavelmente uma circunistafi- cia para a cura do doente em muitos casos, mas não queremos também affirmar que o facto da sua não eliminação possa ser motivo de ameaça para a vida, a que a collecção puru- lenta não seja tão grande que uma intervenção se imponha como meio salvador. 111 S Y MPTOM ATOLOGIA E’ muito comrnum passar completamente despercebido ao clinico um abcesso do fígado e a autopsia muitas vezes inesperada- mente nos dá disto ò attestado, tendo os doentes fallecido d’uma moléstia intercurrente sem ter apresentado nunca manifestação mórbida para o lado do fígado, ou ainda quando a sua abertura na- tural e espontânea se dá para um orgão visinho. Outras vezes a he- patite suppurada se dissimula com manifestações intermíttentes, principalmente o typo quotidiano, maxime quando o indivíduo tem soífrido anteriormente do impaludismo. A febre deve,com effeito,chamar muito a attenção do clinico; sendo diversa a sua intensidade em cada periodo da moléstia. Assim, no primeiro periodo pode ser intensa, como pode faltar completa- mente, mas em alguns casos ella constitue o unico symptoma. Ella sd tem um caracter proprio quando está estabelecida a suppuração, manifestando-se então por accessos intermittentes ; é o resultado da absorpção dos productos sépticos da suppuração hepatica e não se manifesta quando o abcesso está cercado por um trama de tecido conjunctivo, conservando-se enkystado no orgão. A evolução do ab- cesso sem febre é rara. Em alguns casos a symptomatologia da collecção purulenta na glandula hepatica tem quasi as mesmas manifestações d’uma feltre typhoide grave ou ainda da tuberculose pulmonar, havendo .aqui emagrecimento, pallidez notável, calafrios por occasião do ac íesso febril, que se termina à noite por abundantes suores. Antes, porem, de bem descrevermos o quadro symptomatico ■do abcesso do fígado, vejamos como a moléstia evolue até aquelle termo, e pois estudemos as manifestações da hepatite aguda. Sob a influencia do traumatismo, resfriamento, ou qual- quer outra causa,o doente é logo accommettido de um intenso cala- frio, marcando o thermornetro 40° poucas horas depois. Então ha dyspnéa, tosse secca, sede intensa, lingua secca, pulso frequente, etc., e depois o embaraço gástrico apresenta-se com os seus pheno- menos : lingua coberta de espessa saburra amarella, vomitos, a prin- cipio constituídos por substa'ncias alimentares e depois biliosos, inap- petencia, ligeira icterícia e notável augmento do volume do ligado, que invade os limites do epigastro e do hypochondrio esquerdo. E’ doloroso á pressão. Se a phlegmasia se termina pela resolução estes phenomenos vão se dissipando e no fim de alguns dias têm desapparecido comple- tamente ; no caso da suppuração ou da passagem á forma chronica persistem ou apenas se attenuam. Tal é em traços largos, na maioria dos casos, o quadro de symptomas da hepatite aguda; mas por elle só nem sempre nos de- vemos guiar, pois o período da suppuração pode se apresentar ape- nas pelo notável abatimento de forças, anorexia, insomnia, mani- nifestações febris intermittentes, rebeldes ao quinino, ou icterícia mais ou menos pronunciada. No estado chronico—a duração pode ser longa, ou a sua evo- lução lenta pode ser apressada por uma circumstancia fortuita e então o abcesso formar-se. Ordinariamente os primeiros symptomas da hepatite appa- recem no decurso da dysenteria, após os factores occasionaes res- friamento, traumatismo, infecção malarica, etc., embora em ou- tros casos primitivamente seja o ligado aífectado. Na primeira hypothese os symptomas dysentericos desappa- recem por completo. Com a formação do abcesso uma sensação de peso é experi- mentada pelo doente para o lado do hypocondrio direito, sensação esta que se incrementa pela pressão, impossibilitando mesmo o de- cúbito lateral direito. 15 A scapuldlgia se não tem o valor que a principio se quiz dar todavia é um elemento poderoso de diagnostico, principalmente no começo da moléstia. Ella se assesta de ordinário na espadua direita e pode constituir mesmo a unica manifestação dolorosa durante a moléstia. A dor existe, como vimos, no periodo congestivo da hepatite ena maioria dos casos ella permaneqe durante toda a evolução da moléstia, assestando-se ordinariamente no ponto da lesão, embora possa generalisar-se á toda a região hepatica. Os espaços intercostaes apresentam-se alargados, a sua depressão desapparecendo, a rede venosa snb-cutanea pode ser bem observada. A febre é mais moderada do que no periodo agudo e acom- panhada de ligeiro calafrio, tomando ella o typo intermittente quo- tidiano.—Ha pouco appetite, evacuações raras e endurecidas, pulso frequente, duro e cheio. O exame do fígado denota augmento em seu volume, e se o augmento é considerável o hypocondrio direito parece mais ou menos proeminente. Os espaços intercostaes inferiores do lado di- reito são retrahidos e as costellas inferiores levantadas. Algumas vezes se reconhece a íhictuação, o mais importante phenomeno para o diagnostico do abcesso hepático, mas que, n’aquelles que estão situados profundamente, sd se apresenta quando ha a destruição de uma notável porção do figado, dado este com- prehendido na apalpação. Por ella nós podemos delimitar o bordo inferior da glandula, algumas vezes muito claro á apalpação, em outros se o reconhecendo apenas pela resistência mais considerayel da região hepatica. O figado pode ser sensivel á pressão, no caso porém, da col- lecção purulenta a attenção é logo despertada por ser muito mais seria ; ás vezes essa pressão fazendo a dor apparecer á espadua di- reita ou provocando a tosse. Para alguns auctores ella é o mais im- portante e o mais frequente dos symptomas. Em alguns casos, ma- nifestando-se espontaneamente, é lancinante, tensiva, pungltiva, se 16 incrementando pela tosse ou pelo decubitus lateral e até pela per- cussão. Se a dor é aguda e violenta, indica a existência de um foco superficial e a inflammação da serosa visinha, si de intensidade pe- quena, uma dor vaga, a presumpção é para um abcesso central. Quanto á sua interpretação, os auctores não estão de accordo com- pleto, dando Frerichs, Rendu, Kelsch e Kiener, etc., interpretações diversas. O facto do apparecimento de uma saliência nos espaços in- tercostaes é de grande valor, e mais importante é a sensação de um tumor. Quando estes dados vêm se reunir ao edema da região pode- se não só asseverar a existência do abcesso como até determinar a sua sede. A ictericia, que também pode ser observada, não é um sym- ptoma frequente, podendo mesmo só apparecerem uma época tardia quando o abcesso já está formado. Entretanto ella pode manifestar- se nas conjunctivas escleroticaes e nos sulcos naso-labiaes, a pelle cobrindo-se de uma ligeira cor amarella. Ella pode ser a consequência da compressão dos conductos biliares visinhos pelo abcesso, ser ainda o resultado d’um catarrho ou d’urna inflammação fibrinosa d'esses conductos, d’uma compres- são do canal choledoco ou do canal hepático. Uma attitude especial toma o doente, mas que não tem im- portância quando as dores e adyspnéa não são pronunciadas,quando porém ellas são agudas e a respiração é difícil elle procura facilitar o mais possivel o funccionamento dos musculos que auxiliam a res- piração e permitia o relaxamento d’aquelles que podem comprimir o figado. Os doentes se conservam deitados sobre o lado direito ou em decubitus dorsal, a parte superior do corpo inclinada para diante e as coxas curvadas. Ainda podemos verificar para o lado do tubo gastro-intesti- nal vomitos e dejecções coradas de bile, ora diarrheicas, ora dysen- tericas, ou mais communemente normaes. 17 Algumas perturbações se apresentam também para o lado do apparelho respiratório, devidas á dor hepatica, á uma pleurisia ou pneumonia por propagação ou mesmo à penetração do pús na pleura ou nos broncbios. Os movimentos inspiratorios diminuem,de- vido á dor provocada pelo deslocamento do figado e pressão do diaphragma e pois verifica-se a dyspnóa. A tosse, segundo alguns auctores, apparece frequentemente no abcesso do figado, constituin- do a tosse hepatica. Pretende-se ter encontrado algumas vezes a diminuição da quantidade de uréa na urina, mas este facto tem sido contestado por certos auctores, não estando ainda hoje perfeitamente elucidado o seo augmento ou a sua diminuição. - O abatimento geral do doente é notável, principalmente quando a hepatite suppurada apparece na convalescença da dysen- teria ou ainda no seu curso. A magreza é notável e a pelle do doente apre senta-se secca e ar ida. IV DIAGNOSTO E PROGNOSTICO. MARCHA. TRATAMENTO.— Diagnostico O diagnostico do abcesso do íigado não é fá- cil por isso mesmo que nem sempre o quadro symptomatico se apre- senta ern cada caso tal qual acabamos de descrever, podendo a for- mação da collecção purulenta se fazer lenta e insidiosarnente, sem nenhum característico. Todavia a confusão com a inalaria sob a forma intermittente se dissipará desde que seja feito o emprego do quinino, que na hepatite suppurada será sem resultado. A’s vezes desordens occasionadas pelo abcesso do fígado são levadas à conta de uma tuberculose pulmonar, mas a ausência de lesões dos pulmões ede fibras elasticas ou do bacillus de Koch, ■concorrerá para firmar o diagnostico d’aquella aífecção. A confusão se pòde ainda dar, quando existe a fluctuação, eom. os sarcomas molles, pseudo-fluctuantes ou com a dilatação kys- tica da vesícula biliar. Todavia com uma certa pratica, e tendo em vista a presença possível de uma umbilicação no sarcoma, e que na ectasia da vesícula biliar o tumor è notavelmente pyrifórme e uniformemente destendido, consegue-se ainda formar juizo seguro. E quando porventura a duvida ainda persista, quando os dados não se apresentão de um modo claro, nenhum inconveniente existe numa puncção exploradora com um fino trocart. Quando o abcesso do fígado se apresenta com a maioria dos seus symptomas o diagnostico torna-se facil, mas, como nem sempre isto acontece, è preciso certo cuidado para evitar enganos. Nos casos duvidosos e obscuros do abcesso do íigado, quatro signaes existem que muito valor merecem, e que forão magistralmente descriptos pelo clinico brazileiro, professor Torres Homem. Tra- nscrevemos das paginas do seu livro: 19 Primeiro Grande augmento de volume do lobo esquerdo do figado, superfície lisa e uniforme do tecido hepático; o orgão invade os limites do epigastro, desce ate quasi ao nivel da cicatriz umbilical, imprime à região superior do ventre uma proeminência notável, que attrae logo a attenção do medico; a apalpacão e per- cussão em toda a porção da glandula que se torna saliente desper- tão ante uma sensação de angustia e máo estar, do que de verda- deira dor; não se percebe em ponte algum d’esta zona o phenomeno da tluctuação. Segundo A percussão praticada, ora superficial, ora porfundamente, na parte do hypochondro occupada pelo lòbo direito do figado, revela, em uma zona mais ou menos ampla, a existência de um som obscuro mixto e complexo, uma matidez alternativamente jecoral e humorica. Para que se perceba este phenomeno de plessimetria eelle possa inspirar confiança, è mister que o doente fique em decúbito lateral esquerdo, um pouco incli- nado sobre o ventre, e o medico recorra ao método exploratorio com todos os preceitos da sciencia propedêutica percutindo successiva mente de leve e com força, e prestando muita attenção, não só à tonalidade do ruido obtido pelo choque dos dedos que servem de martello, como também á sensação percebida pelos que servem de plessimentro. Terceiro O doente tem todas as tardes, especial mente ao entrar da noite, un pequeno accesso febril, interrnittente, regularmente quotidiano, que começa às vezes por calafrio, outras, vezes por ligeiras horripilações, depois apparece o periodo de calor, que quasi sempre é pouco intenso, marcando o thermometro de or- dinário de 3S? a 38°, 5, finalmente, sobrevem pela madrugada uma copiosa transpiração que torna necessária a mudança das ves- tes do corpo e muitas vezes também das roupas do leito. Esta excessiva diaphorese, sem a menor relação como intensidade dos dous outros estádios do accesso, concorrem muito para acentuar cada vez mais a adymamia, e tem quanto a mim ura grande valor no diagnostico da hepatite suppurada. 20 Quarto—Collocandose o doente na attitude que recommendei pura se observar o segundo signal, completamonte descoberta a meta- de direita do ventre e do thorax, o medico, recorrendo ao dedo médio ou indicador da mão em que é mais adextrado, ligeiramente encurva- do, percute com força, directa e immediatamente os espaços intercos- taes, tanto na face lateral, como na posterior, até o angulo inferior do omoplata. Se ha um abcesso hepático, no ponto correspondente ao foco purulento essa percussão determina uma dor aguda, que è revelada pelo grito do paciente e pelo movimento brusco que elle faz para livrar-se da mão do medico que o examina: em outros pon- tos, a exploração não se torna dolorosa comquanto ás vezes provo- que a mesma sensação de angustia e mão estar que provem do em- prego da plessimetria nos limites da região do figado occupados pe- lo seu lobo esquerdo enórmemeute congesto. Continuando no estudo do diagnostico da hepatite suppu- rada, diremos que a sua confusão com a pleurisia so se pode dar quando o limite superior do figado está muito elevado; mas a forma da rnatidez do abcesso do figado é irregular e particular- mente mais elevada para diante do que para traz. As saliências fluctuantes da região do figado podem também depender de um abcesso da parede abdominal, mas se distingue por isso que este não acompanha os movimentos inspiratorios. Assim como pode se diagnosticar uma outra affecção em se tratando de um abcesso do figado assim também a collecção puru- lenta péde ser julgada existir quando não existe ; é o que acon- tece muitas vezes na pyoemia, quando o figado está augmentado de volume por causa da infecção geral ao mesmo tempo que se observa a ictericia sob a mesma influencia. Terminando o estudó do diagnostico nos referiremos ainda uma vez a puncção exploradora por isso por muitas vezes so ella pode nos garantir a existência do pús no figado. Ella pode ser feita cora um apparelho aspirador, como o de Dieulafoy, e ne- nhum inconveniente traz desde que haja toda a asepsia. Com este recurso não so fazemos a verificação do diagnostico como também conseguimos determinar a séde e a profundidade do abcesso. 21 Prognostico.— OutEora quando a cirurgia não contava com os recursos de que dispõe hoje e quando a asepsia e antisepsia não tinham chegado ao ponto de agora, o abcesso do figado era considerado uma affecção extremameute grave, alguns auctores affirmando mesmo que a cura não era possivel. Os resultados de hoje, porém, já não são desfavoráveis, principalmente se se re- corre á intervenção cirúrgica deixando de lado o tratamento medico. E' preciso, entretanto, tomar ern consideração certas . cir- cumstancias, como sejam o 'momento da intervenção, condi" ções do doente,' extensão do foco, etc. Assim, se a suppuração se desenvolve surdamente, sem nenhuma manifestação bem acen- tuada, o prognostico é de ordinário fatal; si, porém, a forma é franca e o tratamento é feito conveuientemente, podemos quasi garantir a cura. A terminação pela morte será a consequência se uma intervenção tardia é feita, isto é, quando já ha pheno- menos de septicemia, gangrena, etc. Marcha. A marcha da moléstia nada tem de caracterís- tico, evoluindo nesse doente de um modo e com um quadro symptomatologico, emquanto que em outro a sua evolução é completamente diversa. A’s vezes o abcesso processa-se rapidamente. A hepatite dysenterica termina-sc pela resolução ou pela suppuração ou ainda pode passar ao estado chronico. A abertura es- pontânea do fòco se observa mais commuramente nos bronchios ou na pleura e isto se explica pela maior frequência dos abcessos na face convexa e bordo posterior do figado. Tratamento. Não ha duvida que o tratamento do abces- so do figado pertence ao dominio da cirurgia, todavia, em todos os auctores encontramos diversos meios empregados já interna- mente, já topicamente, constituindo o tratamento medico. Por isso, antes de nos referirmos á intervenção operatória, diremos algumas palavras sobre aquelles meios. E’ certo, porém, que elles só poderão ser empregados na hepatite quando ainda não tem at- tingido á suppuração, caso em que somente a eliminação pela puncção, aspiração ou incisão poderá dar resultado, para nos re- ferirmos a nossa intervenção e não da natureza, isto e quando o píis é eliminado pelo pulmão, estomago, intestino, etc. Assim pois, no primeiro periodo da phlegmasia é de regra fazer-se a applicação de sangue-sugas não só á região hepatica como á margem do anus, ou de ventosas sarjadas ao hypocon- drio direito; mas são recursos estes de valor muito contestado, em- bora um certo numero de auctores acredite no seo valor pela dimi- nuição da tensão sanguinoa á região hepatica, acalmando as dores e permittindo uma evolução que não chega á collecção purulenta e alguns tão confiantes estão na espoliação sanguínea que empregão ate a phlebotomia. O calor e o frio, a tintura de iodo e o vesicatório, o unguento mercurial, etc, são meios topicos de que os clínicos também têm lançado mão, sem um proveito manifesto, mas ainda hoje commura- mente empregados. Internamente os purgativos, o emetico e os tonicos são os recursos preconisados. Aquelles são aconselhados pela acção sobre a circulação hepatica, activando a secreção biliar e agindo como um derivativo intestinal. Os purgati vos devem ser utilisados quando ha constipação de ventre, mas não quando ha dysenteria, e o calome- lanos é o evacuante preferido. Elle é um agente collagogo, podendo a sua administração ser feita em alta dose ou fraccionadamente. O emetico deve ser empregado quando ha um embaraço gas- tro bilioso muito pronunciado, e os tonicos quando se procura elevar ou manter as forças até que a moléstia chegue ao termo da sua evolução. Vários agentes medicamentosos têm sido também aconse- Ih ados, mas sem duvida de menos importância do que estes e por 23 isso não os apontaremos, tanto mais quanto lium caso de hepatite e aos evacuantes, purgativos brandos, caloraelanos só ou associado- ao opio, e aos revulsivos locaes que recorremos. Se com elles com- batemos as manifestações da affecção, rejululemos; mas, se a febre, com o seo typo intermittente quotidiano apparece, se ba suores no- cturnos, etc, então deixaremos de persistir em qualquer indicação medica porque só a intervenção cirúrgica pode curar o doente. Com eífeito, quando o diagnostico está firmado, quando a collecção purulenta está reconhecida, não ba a escolher entre os meios de acção ; é preciso evacuar o pus para fora e isto o mais ra- pidamente possível. Quanto á necessidade da eliminação do piis não ba diver- gência alguma entre os clínicos, e este accordo e antigo, apenas a divergência começa do momento em que se trata da necessidade de esperar a adherencia do figado á jDarede abdominal, julgando uns indispensável que isto succeda, pois do contrario a queda do pus á cavidade abdominal trará como consequência uma peritonite puru- lenta e fatalmente isto aconteceria se não houvesse tal adherencia ; outros pensam que não se torna necessário esperar por ella para fazer a intervenção. Este modo de proceder é justamente o dos ci- rurgiões de boje, e elle é razoavel por isso que não ba meio algum efficaz, seguro, para produzir adherencias entre o figado e a parede abdominal antes da intervenção, e nós não temos mesmo um meio para diagnosticarmos se quando existe ella é o resultado dos topicos empregados ou produzida espontaneamente. Portanto, tendo em consideração os inconvenientes da retenção do pus, não se deve es- perar uma adherencia, que pode não se dar. Demais, quando mesmo a queda do pus se desse na cavidade peritonial, uma lavagem rigo- rosamente antiséptica poderia evitar a inflammação da serosa ; e foi por certo do receio da intervenção antes de se dar adherencia ou sò quando os signaes objectivos do abcesso se revelavam, que no co- meço os meios cirúrgicos tiveram o seo descrédito. Mas boje a van- tagem é reconhecida e ninguém mais trepida em recorrer ao meio operatorio para a eliminação do pús hepático. 24 Ha vários processos para abrir as collecções purulentas, mas já abandonados, outros ainda seguidos pelos clínicos ou modificados por elles mesmos. Tende em vista que a abcedação hepatica é quasi sempre acompanhada de uma peritonite perihepatica, agente natural de adherencias espontâneas e não se podendo de um modo seguro dia- gnosticar as suas existências, parece que não se deve esperar por ellas para se fazer a intervenção cirúrgica e portanto deve ser feita o mais cedo possivel. Assim, desde que se presume da existência do abcesso do fígado, faz-se uma puneção exploradora com uma agulha calibrosa, tendo o cuidado de desinfectar previamente a região onde ella deve ser feita, sendo muitas vezes necessário funccionar em vá- rios pontos e ás vezes penetrar até T ou 8 centímetros para então reconhecer a sua existência ou affirmar a sua ausência. Nenhum inconveniente ha n’este procedimento desde que os cuidados de anti- sepsia não sejam desprezados. Quando a presença do pús é reconhecida não se faz a eva- cuação completa pelo aspirador, mas, deixando ainda introduzida a agulha, junto a ella penetra-se com um bisturi, incisando toda a es- pessura das paredes. Aíasta-se depois os lábios da incisão e compri- me-se a face inferior do fígado através as paredes abdorninaes para facilitar a evacuação do pus. Com uma solução phenicada a 1 °[o faz-se a lavagem do foco até que a agua saia limpida, applicando-se então um tubo de draínage, bastante calibroso, e o curativo de Lis- ter renovado diariamente, uma ou mais vezes, vem completar o me- thodo operatorio ue Stromeyer Little. Assim, pois, ifeste processo, primeiramente o auctor procura com a puneção determinar a séde do abcesso e, mais ainda, se elle na verdade existe, puneção que pode ser feita em qualquer ponto sem inconveniente algum, embora sempre se prefira aquelle em que fôr mais doloroso á pressão ou em que houver modificação da pelle. Os cirurgiões lanção mão,para fazer essas innocentes punções capillares, dos apparelhos aspiradores de Potain e de Dieulafoy. In- 25 troduzida a agulha em um ponto, feito o vácuo e não vindo piis, outras e mais outras puncções far-se-ão ainda,porque somente d’este modo se poderá afíirmar ou negar a existência do piis. O bisturi faz a incisão atravessando simultaneamente a pa- rede abdominal e o figado e Little a fazia n’uma extensão de cinco a seis centimetros conservando a agulha, que antes havia intro- duzido para determinar a existência e séde do abcesso. Mas parece não haver grande necessidade disto, podendo ella ser retirada desde que se marque o ponto da introducção, mesmo porque tomada a ex- tensão da agulha introduzida teremos a profundidade do abcesso, E’ conveniente introduzir-se na ferida até o foco um tubo de caoutchouc para facilitar a eliminação dos grumos de pus e ate mesmo a lavagem da cavidade do abcesso. As injecções têm sido muito apregoadas por uns e comba- tidas por outros, estes receiando a ruptura das paredes do foco pelo esforço do liquido injectado, o que não se justifica; aquelles confian- tes nas suas vantagens antisépticas. Ou seja o de Lister ou outro qualquer, é de necessidade fa- zer-se curativos depois da intervenção, curativos que serão reno- vados logo que os seus bordos estiverem molhados de um liquido seroso ou seroso purulento. Recommendaremos ao doente que se conserve em decubitus dorsal em repouso absoluto no leito, prescrevendo internamento um pouco de opio para paralysar o intestino, e como alimentação exclusivamente o leite, de modo a poupar a concurrencia do figado no trabalho digestivo. Quando verificamos que as costellas tem já porções compro- mettidas é uma. indicação a resecção das porções ósseas em taes •condições. Proposições —PROPOSIÇÕES— PHYSICA MEDICA I. Thermometros dinicos são instrumentos destinados ao estudo das temperaturas nas differentes moléstias. II O thermometro de maxima é o que mais vantagens offerece. 111 As indicações thermometricas são indispensáveis em muitas moléstias. CHIMICA INORGÂNICA MEDICA I O oxygenio é um gaz comburente, mas não combustivel. II Combina-se com o hydrogenio produzindo grande quantidade de calor. 111 E’ applicado com vantagem em inhãlações nos casos de as- phyxia e para combater os accidentes da anesthesia geral. BOTANICA E ZOOLOGIAS MEDICAS I A chlorophylla ou matéria corante verde dos vegetaes é um producto derivado do protoplasma cellular. 30 II Luz, calor e certos princípios nutritivos, entre os quaes avulta o ferro, são os elementos indispensáveis á producção d’esta substancia. 111 A’ chlorophylla cabe o papel de decompor o gaz carbónica necessário a alimentação do vegetal, fixando o carbono e despren- dendo oxygenio. ANATOMIA DESCRIPTIVA I O coração é o orgão central da circulação. II O coração é dividido em quatro cavidades. 111 As cavidades direitas estão em relação com o sangue venoso, as esquerdas com o sangue arterial. HISTOLOGIA I O tecido epithelial é o que constitue as mucosas. II Ha duas especies de epithelios: o pavimentoso e o cylindrico. 111 Os epillielíos são dispostos em uma só camada, ou em ca- madas estratificada s. 31 CHIMICA ORGANICA E BIOLOGICA I A antipyrina, também conhecida por analgesina, tem por formula C 22 H 12 Az 2 0 2. II A antipyrina dá uma cor vermelha com o per-chlomreto de ferro 111 A antipyrina além de sua acção antithermica é um poderoso analgésico. I PHYSIOLOGIA THEORICA E EXPERIMENTAL Irritabilidade muscular é a propriedade que tem o musculo de se contrahir sob a influencia de uma excitação. II Esta propriedade recebeu o nome particular de contracti- lidade. 111 Ella desapparece algum tempo depois da morte. MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E ARTE DE FORMULAR I A pelletierina, principio activo da casca da raiz da romeira, é um excellente taenifugo. II Emprega-se sob a forma cie tannato de pelletierina. 111 Não deve ser administrada ás crianças PATHOLOGIA CIRÚRGICA I O diagnostico dos abcessos profundos da coxa é muitas vezes difficil, attenta a grande massa muscular ahi existente. II A penetração do pús nos interstícios musculares, produ- zindo grandes descollamentos, torna o diagnostico reservado. 111 A incisão ampla, a drenagem e a mais rigorosa antisepsia constituem o tratamento básico. CHIMICA ANALYTICA E TOXICOLOGIA I O arsénico como corpo simples não é toxico. II A economia tem grande tolerância para o arsénico. 111 Em doses convenientes, os saes arsenicaes são muito em- pregados em medicina. AMATOMIA MEDICO-CIRURGICA I A aponevrose cervical comprehende tres folhas. 33 II As folhas aponevroticas do pescoço delimitam quatro- espaços. 111 A classificação medico-cirurgica dos abcessos cervicaes pode ser vantajosamente baseada na distribuição das lojas aponevroticas.. OPERAÇÕES E APPARELHOS I O etber e o cbloroformio têm applicações determinadas na cirurgia moderna. O II Não se deve ser exclusivista no emprego de um ou outro d’esses anesthesicos. 111 Na anesthesia local, o etber ê muito inferior ao cblorureto de ethyla e á cocaina. PATOLOGIA MEDICA I A ulcera do estomago apresenta pathogenia muito litigiosa. II Dor, vomito, hemorrbagia, taes são os tres symptomas d’essa moléstia. 111 A propagação da dor ás regiões xyphoidiana e vertebral cons- titue um symptoma muito valioso no diagnostico. OBSTETRÍCIA I Na quasi generalidade dos casos o fórceps applica-se sobre a extremidade cephalica do feto. II O fórceps è um instrumento de tracção e não de redacção. 111 Á applicação do fórceps necessita que o cólo uterino esteja sufficiente mente dilatado, e que as membranas se tenham rompido. MEDICINA LEGAL I Aborto criminoso é a expulsão prematura do producto -da concepção, provocado com intensão dolosa. II O aborto criminoso é raro nos dois primeiros mezes da ges- tação 111 Nos casos de suspeita de aborto, o medico legista deve syn. dicar: 1? se houve aborto, 2o a época provável e 3? se foi provocado- THERAPEUTICA I A morphina é o mais importante dos alcalóides do opio. II A morphina é o mais toxico dos alcalóides do opio no ho- mem, mas no cão é a thebaina. 111 Cl. Bernard dividio esses alcalóides era excitadores e mode- radores reflexos. HYGIENE E MESOLOGIA I Uma das partes mais importantes da hygiene social é n pro- phylaxia das moléstias transmissíveis. II Ella pode ser de defeza e de aggressão. 111 Com este fim os meios empregados são: a desinfecção, a vac- cina e o isolamento. ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHO LÓGICAS I Uma das mais importantes auto-intoxicações é a uremia. II Ella é a expressão de uma polyintoxicação. 111 Tem sempre por causa immediata uma deficiência da func- ção renal. PATHOLOGIA GERAL I Os parasitas representam um papel importante na etiologia de um grande numero de moléstias. II Os parasitas são divididos em animaes e vegetaes. 111 Os agentes infectuosos devem ser classificados entre os para- sitas vegetaes. CLINICA CIRÚRGICA ia CADEIRA I 0 tratamento dos aneurismas cirúrgicos, pela ligadura, é o mais geralmente empregado. II Ha tres processos : Hunter, Brasdor e Antillus. 111 A ligadura das duas extremidades, com estirpação do tumor aneurisraal, quando applicavel. é o mais efficaz. CLINICA PEDIÁTRICA I A syphilis nas crianças pode ser adquirida pela amamenta- ção ou ser hereditária. II A syphilis hereditária pode manifestar-se precoce ou tar- diamente. 111 A administração dos mercuriaes nas crianças neo-natas sy- philiticas pode ser feita vantajosamente pelo leite. CLINICA PROPEDÊUTICA I O microscopio presta grande auxilio ao diagnostico. II 0 exame bacteriológico dos escarrhos é muito importante no diagnostico da tuberculose. 111 Diversos são os processos para a pesquiza do bacillus de Koch CLINICA CIRÚRGICA 2a CADEIRA I No tratamento das fracturas expostas, um dos principaes cuidados do clinico deve ser procurar reduzir os fragmentos. II A immobilisação do membro é uma das condições do bom resultado do tratamento. 111 A mais rigorosa antisepsia deve ser observada cuidadosa- mente. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECOLOGICA I As rupturas do perineo são mais communs nas priraiparas II Muitas vezes resultam da falta de cuidados á parturiente. As rupturas podem ser completas ou incompletas. 111 CLINICA OPHTHALMOLOGICA I A conjunctivite purulenta é muito frequente nas crianças. 38 II As cauterisações de nitrato de prata associadas a outros meios dão excellentes resultados. 111 E’ um dos mais importantes factores da cegueira. CLINICA MEDICA 2a CADEIRA I A hepatite suppurada é moléstia própria dos paizes quentes rara nos de clima temperado. II Seus symptomas são muito variaveis. 111 Quando ha collecção de pús a indicação para a sua evacua- rão é formal. CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I ■capital A herança, nas psychopathias, é um elemento etiologico II Na origem e evolução das nevrosese psychoses certas causas occasionaes têm mais valor que outras. 111 As ataxias menstruaes representam importantes factores occasionaes das nevroses e psychoses. CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPHICA I A syphilis é uma moléstia infectc-contagiosa. ■ II A sua transmissão se dá por contagio e herança. 111 A syphilis hereditária pode manifestar-se muito tardiamente. CLINICA MEDICA ia CADEIRA I mem. Atè bem pouco tempo não se acredivava na hysteria do ho- II Hoje está provado que ella não é o apanagio só do bello sexo. Esta moléstia constitue no sexo masculino tanto como n o feminino o Protheu da pathologia nervosa. HIPPOCRATIS APHORISMI I Übi somnus deliriurn sanat, bonum. II Oibus, potus, vénus, omnia moderata sint. 111 Extremis morbis exquisite extrema remedio óptima. IV Lassitudines sponte morbus denunciant. V Sanguine multo effuso, convulsio aut singultus superve- niens VI In febris non intermittentibus, si partes extremae sunt fri- gida.e„ internae vero urantur, et siti vexentur, lethale est. Visto. Secretaria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 16 de Março de 1899. O Secretario