Faculdade de Medicina e Pharmacia do Rio de Janeiro DISSERTAÇÃO CADEIRA DE HYGIENE E MESOLOGIA VACCINA ANTI-VARIOLICA PROPOSIÇÕES TRES SOBRE CADA UMA DAS CADEIRAS DA FACULDADE THESE APRESENTADA A FRCUItDRDE DE ÍDEDICIJIR DO RIO DE JRflEIRO EM 29 DE OUTUBRO DE 1896 PARA SER SUSTENTADA POR Qscat icffi Filho legitimo do Dr. João Baptista Kossutth Vinelli, e D. Maria Emilia Leal Vinelli AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR EM SCIENCIAS MEDICO-CIRURGICAS RIO DE JANEIRO Typ. da revista catholicaJ i896 Faculdade de f/Iedieina e Pharmacia do Rio de Janeiro DISSERTAÇÃO CADEIRA DE HYGIENE E MESOLOGIA VACCINA ANTI-VARIOLICA P R 0 P 0 S I Ç 0 E S TRES SOBRE CADA UMA DAS CADEIRAS DA FACULDADE THESE APRESENTADA A FACULDADE DE JWEDICIflA DO RIO DE JANEIRO EM 29 DE OUTUBRO DE 1896 PARA SER SUSTENTADA POR õòcais Filho legitimo do Dr. João Baptista Kossutth Vinelli, e D. Maria Emilia Leal Vinelli AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR EM SCIENCIAS MEDICO-CIRURGICAS RIO DE JANEIRO Typ. da revista catholicU i896 FACULDADE DE IVIEDICINA DO RIO DE JAflEIRO D1RECTOR — Dr. Albino Rodrigues de Alvarenga. VICE - DIRECTOR — Dr. Francisco de Castro. SECRETARIO Dr. Antonio de Mello Muniz Maia. LENTES CATHEDRATICOS João Martins Teixeira.. Physica medica. Augusto b erreira dos Santos Chimica inorgânica medica. João Joaquim Pizarro Botanica e zoologia medicas. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descriptiva. Eduardo Chapot Prevost Histologia theorica e pratica. Arthur Fernandes Campos da Paz Chimica organica e biologica. João Paulo de Carvalho Physiologia theorica e experimental. Antonio Maria Teixeira Matéria medica, pharmacologia e arte de for mular. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Henrique Ladisláo de Souza Lopes Chimica analytica e toxicologica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medico cirúrgica. Marcos Bezerra Cavalcanti Operações e apparelhos. Antonio Augusto de Azevedo Sodré Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Albino Rodrigues de Alvarenga Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetrícia. Agostinho José de Souza Lima Medicina legal. Benjamin Antonio da Rocha Faria Hygiene e mesologia. Antonio Rodrigues Lima Pathologia geral. João da Costa Lima e Castro Clinica cirúrgica—2a cadeira, João Pizarro Gabizo Clinica dermatológica e syphil.graphica. Francisco de Castro Clinica propedêutica. Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro Clinica cirúrgica — 1a cadeira. Erico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologica. Hilário Soares de Gouvêa Clinica ophthalmologica. José Benicio de Abreu. . . Clinica medica — 2a cadeira. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. Cândido Barata Ribeiro Clinica pedriatica. Nuno de Andrade Clinica medica—Ia cadeira. Drs. : LENTES SUBSTITUTOS 1. a secção . ... : Tiburcio Valeriano Pecegueiro do Amaral. 2. a » Oscar Frederico de Souza. 3. a » Genuino Marques Mancebo e Luiz Antonio da Silva Santos. 4. a » Philogonio Lopes Utinguassú e Luiz Ribeiro de Souza Fontes. 5. a » Ernesto do Nascimento Silva. 6. a » Domingos de Góes e Vasconcellos e Francisco de Paula Valladares. 7. a > Bernardo Alves Pereira, 8. a » Augusto de Souza Brandão. 9. a » Francisco Simões Corrêa. 10.a » Joaquim Xavier Pereira da Cunha. ria » Luiz da Costa Chaves Faria. 12.a > Mareio Filaphiano Nery. Drs. : N. B. — A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas» PREFACIO Tendo occupado durante o período de cerca de dois annos consecutivos, o lugar de auxiliar vaccinador do Instituto Vaccinieo Municipal, e enthusiasmado com os resultados admirá- veis obtidos, não só na cultura da vaccina animal, como também nos effeitos prophylacticos com ella alcançados, escolhemos para ponto de dissertação de nossa these inaugural o assumpto que serve de epigraphe, que de perto julgamos conhecer e com alguma observação própria. Na confecção do nosso modestíssimo trabalho fomos buscar inspiração nos auctores mais modernos e de cuja competência scientifica não temos o direito de duvidar. Quem lêr as nossas apoucadas linhas, verá que somos fervo- rosos adeptos da vaccinação animal, eque a pratica da vaccinação jeneriana só achará explicação de ser, quando em epidemias de variola de todo não pudermos dispor da primeira. 4 Dividiremos o nosso despretencioso estudo em duos parles: uma theorica o a outra pratica. Fecharemos a nossa lhesccom um pequeno artigo á respeito da importantíssima questão da obrigatoriedade da vaceinação e revaccinação, cuja necessidade, íirmado em documentos elo- quentes, sustentamos catliegoricamente. E’ natural que o nosso primeiro trabalho seientifleo apresente innumeras lacunas e imperfeições. A benevolencia dos mestres as relevará. Fiados irella comecemos. DISSERTAÇÃO PRIMEIRA PARTE varíola, variolisação, vaccina í Tendo de nos occupar da vaceina anti-variolica, é natural que primeiro digamos algumas palavras sobre o terrível morbus de que ella é inimigo poderoso. O conhecimento da variola dizimando as populações é de data antiquíssima. Ao que consta a primeira epidemia appareceu na China, 112:2 annos antes de Christo. Passou depois ás índias, de onde foi para o Egypto, e par- tindo deste ultimo paiz, fez o seu terrível apparecimento na Europa. Vò .se pelo modo por que se desenvolveu, que neste particular teve imitação em suas duas irmãs em etíeilos destruidores: ckolera e peste. Foi da Europa que trouxeram para America esta terrível moléstia. Terrível, cm verdade, pois, quando não leva á sepultura o desgraçado mortal victima do seu ataque, póde pelo menos styg- matisal-o para sempre. 8 Com a mortandade produzida pela varíola, mortandade que espalhava o pânico entre os povos, era natural que se procurasse um meio de evitar o mal, ou que pelo menos lhe attenuasse os eííeitos. Ora, era facto de observação constante que os indivíduos, uma vez atacados pela moléstia, fosse embora benigno este ataque, estavam isemptos de pagar-lhe novo tributo. D’ahi a idéa de artificialmente se procurar determinar a mo- léstia, tomando-a dos casos benignos, aíim de impedir-lhe o ap- parecimento com toda a sua intensidade. Eis a origem da primeira inoculação preservadora, dando nascimento ao processo da variolisação. Era assim denominado o processo immunisador que tinha por fim provocar artificialmente no indivíduo uma moléstia be- nigna, pondo-o em contacto com o pus variolico de outro indi- víduo atacado de varíola discreta. Nem sempre os variolizadores exigiam o contacto directo do pús do varioloso com o indivíduo a variolizar, obrigando-o apenas á convivência com o indivíduo atacado. Outros meios mais directos eram empregados na variolisação E’ assim que a applicação de pannos embebidos de pús va- riolico ao redor dos braços e pernas da pessoa a preservar, era pratica muito recommendada. Outras vezes, como si quizessem que a introducção do pús variolico fosse feita perfeitamente, e por facil porta de en- trada, era elle introduzido pelas narinas do paciente. Finalmente, mais tarde a variolização foi praticada por picadas. Este processo foi introduzido na Europa por Timoni, que a este respeito publicou um trabalho, reputado importante n'a- quella épocha. 9 A variolização estendeu-se pela Europa e America, e como parecesse dar algum resultado, o abuso no emprego deste sup- posto preservativo da variola, foi a consequência immediata. Assim, é que vemos em 1755 o Collegio de Medicina de Londres approvar a variolização. Médicos distinctos praticavam-na largamente, chegando-se mesmo á fundação de hospilaes nos quaes a classe pobre recebia a inoculação. Explicam-se facilmente os bons resultados obtidos em começo com a variolização: na inoculação variolica lia 2 erupções da moléstia. A primeira apparece rapidamente nos pontos inoculados, a segunda é geral e apparece alguns dias depois. E’ claro que o tra- balho local exercendo sobre a economia uma acção preservadora, diminuia a energia da erupção geral, tornando-a mais benigna. Hoje consideramos um verdadeiro crime a pratica da varioli- zação, pois além de trazer como consequência phenomenos locaes muito graves, lynphangites, adenites, abalo em todo o organismo, a observação demonstrou que o pús embora provindo de variola benigna pode produzir variola grave, e a morte como terminação, ficando derrocado o principio: que toda variola adquirida artifi- cialmente é mais benigna que a natural. E ainda mais. E’ tão perigosa a sua pratica que pôde tornar cada indivíduo inoculado em agente de propagação da moléstia, tendo mesmo ha- vido epidemias de variola devidas a este exquisito meio pre- servador. Os desastrosos resultados obtidos com a variolização fizeram com que fosse abandonada desde que se encontrou meio mais se- guro e menos perigoso de evitar-se a variola. Surge então a vaccina. Não faremos aqui o historico detalhado da descoberta da vac- cina, por ser bem conhecida a intuição genial de Eduardo Jenner, 10 i[uo procurando inocular a variola ein indivíduos (juo so incum- biam de mugir as vaccas, observou que a inoculação era im- profícua. Impressionado com este facto, procurou estudar a questão, e notou que as vaccas eram sujeitas a uma erupção pustulosa, que se apresentava em ger.il no ubre; tomando o producto dessas pústulas, viu que inoculando-o no homem, este ficava immune para a variola. Observou mais que, introduzindo em uma criança o virus vaccinico retirado da mão de Sarali Nelmes, que fora accidental- mente infeccionada por uma vacca, esta criança apresenta no lim de alguns dias e nos pontos de inoculação, pustulas iguaes ás que apresentava Sarali, e que esta postulação se fizera sem maior gra- vidade, a não ser um ligeiro ineommodo que em breve se dissipou. Estava achada a prova da virulência do cow-pox sobre a especie humana, e mais que esta virulência podia passar de um indivíduo a outro. Este menino, Phipps, inoculado mais tarde pela variola, esta não apresentou-se absolutamente. Eis como o talento ligido ao espirito de observação, faz com que um homem descubra um facto que sempre até então existira c que passara completamente despercebido. Este benemerito da humanidade, cujo centenário celebrou-se o ano 5 passado, foi o verdadeiro descobridor da vaccina, reser- vando-lhe um lugar na sciencia, pois que até então o elTeito do cow-pox, posto que conhecido, não passava de lenda popular. Como soe acontecer com a maioria d is grandes descobertas scientificas, o seu auctor solíreu guerra tenaz por parle dos igno- rantes e invejosos, que impediam que o povo se sujeitasse ás ino- culações preconisadas por Jenner. Só muito mais tarde é que vemos em Londres, Cline empre- gando a vaccina, e para conseguir este tini, gastando bôa dóse de 11 paciência em convencer á população das vantagens que do novo preservativo lhe adveriam. Os resultados por elle obtidos foram muito animadores, o que deu em resultado um completo reviramento na opinião publica em relação a vaccina. Já não era necessário rogar e rogar com instancias para ob- ter-se do povo o seu consentimento ás inoculações vaccinicas. Este, de motu-proprio, se apresentava c pedia a applicação do recurso, que o livraria da variola. Aconteceu então o que era de esperar: saldo a vaccina do estado de estagnação emquejasia, e rapidaseguio o seu caminho brilhante. Passou da Inglaterra á Áustria e á Allemanha, e deste paiz difundio-se por todo o mundo. A vista do successo da descoberta de Jenner, que aconteceu á variolização ? Foi banida completamente do território scientitico, como de- vem ser banidas todos aquelles meios, cujo emprego não só é in- prolicuo em debellar um mal qualquer, como também pôde trazer graves damnos á collectividade. Nada mais resta da variolisação, a não ser uma funesta lembrança... 0 processo de variolisação que estudamos, foi muito seguido nointerior do nosso paiz, sendo conhecido pelo nome de —enxerto. Desta pratica de desastrosas consequências, á qual, sem du- vida, se alliava a imperícia operatória á ignorância dos que a executavam, nasceu o preconceito que ainda hoje domina nas ca- madas populares de que «em tempo de epidemia não se deve vaccinar». DEFINIÇÃO E DIVISÃO DA VACCINA Que é a vaccina ? Não é mais que uma moléstia virulenta, idêntica por sua na- tureza ao cotv-pox e ao horse-pox. Ella distingue-se dos dois últimos de uma maneira evidente. No homem é sempre o resultado de uma inoculação, nas especies cavallar e bovina o seu apparecimento ora dá-se espon- tâneo apparentemente, ora resulta de uma transmissão evidente por contagio directo. Na especie humana, via de regra, a inoculação vaccinica é provocada; entretanto, ella póde ser natural ou melhor accidental, e depende do contacto das pustulas vaceinicas. A operação pela qual a vaccina é inoculada constitue a vaccinação. Esta póde ser praticada por 2 methodos fundamentaes, que baseados em a natureza das fontes cm que foi haurida, recebeu os nomes de vaccinação humana e vaccinação animal. NATUREZA E COMPOSIÇÃO DA VACCINA 0 modo do agir da vaccina ó idêntico ao das moléstias ge- racs, conhecidas sob a denominação de febres cruptivas, e jul- gamos poder consideral-a mesmo como o typo mais benigno destas febres. Qual o agente virulento que produz a vaccina ? E’ esta uma pergunta, cuja resposta positiva ainda não po- demos dar. Muito se discutio, e se discute ainda, sobre o verdadeiro agente capaz de produzir a vaccina. O que, no estado actual da scieneia se conhece a respeito da composição e natureza desta moléstia, õ o seguinte: 13 Examinando-se microscopicamente a massa vaccinal colhida em uma pustula no 7.° ou 8.° dia de sua evolução, encontramos: elementos figurados normaes do organismo: globulos brancos que tornam-se mais numerosos a contar do 6.° ou 7.° dia, alguns globulos vermelhos, cellulas epidérmicas, rcsiduos ccllulares. Encontramos mais particulas solidas, formando granulações de fórma regular, refringentes; estas granulações são facilmente coloridas com o violeta de methyla. Para Ghauveau estas granulações constituíam a parte activa da vaccina,pois em experiencias por eíle feitas,verificou que a lym- pha privada destas granulações, perde, ipso facto, asna virulência. Posteriormente, experimentadores da estatura intellectual de Klebs, Gornil, Strauss, Fliigge e outros, demonstraram que estas particulas solidas eram verdadeiros microbios, cellulas vegetaes infecciosas, sem chlorophyla, do tvpo micrococcus. O diâmetro destas cellulas è muito diminuto, e apresen- tam-se com a fórma espherica. Antony diz que a cultura deste micrococcus em agar, deter- mina o apparecimento de cotonias achatadas,brancas, semelhando a porcellana. Por este ultimo aspecto Antony denominou este micrococcus de porcellanicus. Não parou ahi a observação de Antony. Notou ainda que o desenvolvimento deste coccus, cultivado em gelatina, é lento, e as colonias só apparecem no fim do 7o ou 8o dia. A unica conclusão positiva a que chegou o notável experi- mentador foi que é constante na vaccina a presença do coccus porcellanicus. O que se dá com outros virus, não se repete com o agente virulento da vaccina, isto é. nunca póde ser isolado nem cultivado apezar dos esforços ingentes de sábios como Pasteur, Koek. Strauss e muitos outros homens de sciencia. 14 Quist, de Helsingforst, tinha obtido, pela cultura de parcellas de pustulas vaccinicas em liquido sero-alcalino, um producto em que se apresentaram micrococcus e cuja inoculação determinou a evolução da vaccina. O liquido de cultura empregado por este experimentador apresentava a seguinte composição : Serum de boi 1 parte Glycerina 1 parte Agua distillada 1 parte Carbonato de potássio 1/300 parte As experiencias de Quist, não tiveram- sancção pelos ensaios ulteriores emprehendidos por bastear, Rock, Strauss, Chambon, Antony c muitos outros observadores. Ruete, em uma communicação feita em Maio de 93, á So- ciedade Medica de Hamburgo (1) diz ter, neste particular, obtido resultados satisfactorios. Por outros observadores não fo- ram, porém, confirmados experimentalmente, estes resultados. O proprio micrococcus porcellanicas, cuja presença é constante nos productos vaccinaes recentes, não póde ser considerado como o agente especifico da vaccina. pois, como muito bem observou Antony, certa* polpas antigas não o manifestando na cultura, conservam entretanto a sua virulência e por outro lado, a cultura de polpas recentes em que é manifesta a sua presença, empre- gadas estas polpas em inoculações, foi nulla a sua acção viru- lenta. - Os Srs. Chaumier e Boureau (de Tours) verificaram na vac- cina a existência de bactérias fixas (staphijlococcus) e a de bacté- rias variaveis e acham que estes elementos tem acção attenua- dora sobre a virulência vaccinal. (1) Hublé — Précis de vaccine et vaccination moderne. 1896. 15 Dizem mais estes dois experimentadores qne entre os micro- organismos par ellcs encontrados, um existe, o staphylococcu cernis, que injectado em uma vitella pareceu favorecer a erupção das puslulas. Não é esti a opinião do Sr. Mènard St. Yves, argumentando da seguinte maneira : Se estes microbios existem na vaccina somente no momento em que é colhida e desapparecendo algum tempo depois, como se explica que esta vaccina conserva a sua virulência perfeita ? Conclue portanto, pela completa inércia destes micro-ger- mens em relação á virulência vaccinaI. Encontraui-se mais germens saprophylas, como o baccillus subtilis, obaccillus da batata, etc. cuja presença parece não ter nenhuma acção nociva sobre a evolução da vaccina (1) A ultima palavra sobre o agente de contagio da vaccina, ainda não foi, pois, pronunciada. Contemos, porém, com o talento e a perseverança tenaz dos verdadeiros scientistas, e como resultado, talvez tenhamos a ventura de, em futuro não muito remoto, ver surgir, á luz brilhante da experimentação, esse pequenino e bemfazejo ser tão rebelde em se mostrar ! ESTRUCTURA DA PUSTULA VACCINICA Pensão os dous grandes histolngistas francezes Cornil e Ban- vier, que a disposição histológica da puslulavaccinalé perfeitamen- te analoga á da variola. Pincus, tendo observado o seu desenvolvimento no vitelio, assignala 3 zonas ao niv.el do ponto de inoculação : Ia zona vaccinal, caracterisada pela destruição das ccllulas, multiplicaçãodos micrococcus, multiplicação esta que já 6 bastante sensivel após as 48 horas que se seguem á operação. (1) Hublé «— Précis de vaccine e vaccination moderne — 1896. 16 A necrose cellularè explicada por Pincus por esta proprie- dade dos micrococcus. 2a zona de tumefaeção, que se caracterisa pelo espessamonto do protoplasma e dascellulas. IIa zona de irritação. A multiplicação dos núcleos caracterisa esta terceira zona. A contar do quarto dia quasi todos os micrococcus desapparccem do fóco central de infecção e vão se apresentar em colonias, ora na camada superficial cornea, parallelamente á superfície cutanea, ora profundamente ao nivel do tecido conjunctivo. Strauss, estudando a questão, diz ter encontrado estas col onias em toda espessura do derma, e isto do 6o ou 7o dia em diante, sobretudo nos espaços lymphaticos. Babés e Gornil, observaram que nas pustulas vaccinicas do bovino, os micrococcus apresentam-se dispostos nas cavidades areolares do corpo mucoso, do mesmo modo que na pustula va- riolica. IMMUNIDADE VACCINAL — CAUSAS CAPAZES DE IMPEDIR QUE A VACCINA PRODUZA OS SEUS EFFEITOS Infimunidade é a qualidade que tem o organismo de ser re- fractario a uma moléstia que póde atacar outras pessoas. A immunidade póde ser natural ou adquirida. A immunidade natural só póde ser reconhecida á posteriori, porquanto não temos elementos exteriorisados em virtude dos quaes possamos afíirmar que o organismo A ou B, gozem de im- munidade. A immunidade adquirida resulta do facto de uma moléstia contrahida ou por contagio accidental ou provocada por processos artificiaes. Na immunidade nada ha de positivo e certo; ella varia muito e depende de varias circumstancias. 17 Assim, a idade inilue na sua producção : o viteilo, ra- rissimas vezes contrahe a tuberculose, o bovino adulto en- tretanto, pôde, frequentes vezes,ser victima do baccillus de Kock. Às raças, as espccies, são outros tantos elementos que fazem variar a immunidade: o negro, por exemplo, è refractarioá febre amarella, de eííeitos mortíferos tão consideráveis na raça cauca- sica. ..... 1 ' V •" * : ' ; * Na mesma especie a immunidade varia muito. E’ de observação banal nas epidemias de varíola, indivíduos não vaccinados, habitando o mesmo local, uns escapando á acção morbigena, outros soffrendo pelo contrario o ataque da moléstia. Na predisposição e receptividade, qualidades justamente op- postas á immunidade, as mesmas variantes são observadas. A vaccinação constitue um dos pontos capitaes da immu- nidade adquirida, que, como já dissemos, è a concedida a qual- quer indivíduo por meio de uma moléstia anterior ou por meio das vaccinas. Quando se dá a intcrcurrencia de uma moléstia anterior na producção da immunidade adquirida, esta moléstia representa no organismo o papel de verdadeira vaccina. Deste modo podemos dizer que a immunidade adquirida é a produzida por meio vac- cinal. (1) O modo de producção da immunidade adquirida, não está ainda bem explicado. Muitas são as theorias invocadas a explicar esta immuni- dade. Não resta duvida que a experiencia nos animaes tenha dado resultados extraordinários, quanto a esta ou aquelia moléstia, mas traJando-se de systematizar os resultados a todos os orga- nismos, verifica-se que cada doutrina falha, e isto porque cada organismo apresenta uma reacção differente. (2) (1) Rocha Faria— Lições de pathologia geral professadas em 1896. (2) Idem. 18 Não nos deteremos aqui no estudo de todas as doutrinas con- cebidas para explicar a immunidade,dizendo apenas que a primeira foi apresentada por Pasteur, em 1880, (1) e que clle denomi- nou theoria do esgotamento do terreno. Por ella, o virus penetrando no organismo em quantidade sufílciente,esterilizaria o terreno de cultura pela pullulação das ra- ças microbianas, cujo eífeito seria consumir e destruir certas sub- stancias necessárias a sua nutrição; a economia assim esgotada achar-se-hia incapaz de servir a alimentação dos elementos mi- crobianos da mesma natureza durante o tempo máis ou me- nos longo. Experimentadores notáveis, (Bitter, Chaveau, Metschnikoff, etc.) provaram que o pretendido esgotamento do terreno não se dava, e a theoria de Pasteur ruio por terra. Hoje, a doutrina mais commumente acceita, neste particular é a da phagocytose e estado bactericida das cellulas do orga- nismo. (2) Deixando de parte esta questão, diremos que na immunidade adquirida podemos considerar dois casos: inoculação da mesma moléstia, isto è,inocular o germen attenuado da moléstia (vaccinas pasteurianas) ou então inoculação de germen difTerente do da mo- léstia, cujo ataque queremos evitar. Esta é que é a verdadeira vaccina, a vaccina typo, a vaccina anti-variolica, a descoberta do grande Jenner. À ella podemos referir os seguintes dados relativamente á immunidade que produz, e que representam verdades incontes- táveis : 1. A immunidade conferida pela vaccina não é permanente. 2. A immunidade é maior quanto mais recente fôr a vac- cinação. (1) Após seus estudos sobre o cholera das gallinhas. (2) Isto é a theoria de Bouchard (poder bactericida das cellulas do organismo) refor- çada pela de Metschnikoff (phagocytose). 19 3. Nas crianças a pratica da vaccinação tem por fim livral-as da mortandade determinada pela variola, que neilas faz verda- deira hecatombe, devido á grande receptividade que apresentam. 4. A vaccina, mesmo que não confira uma immunidade per- feita, torna a manifestação variolica muito menos grave. (I) Temos agora que resolver outra questão. Quando começa a immunidade vaccinal ? O trabalho orgânico necessário á producção do estado refrac- tario, exige para se dar, um tempo variavel, segundo a especie do virus que originou-o. No organismo humano, o microbio vaccinal exige dez dias antes de conferir a immunidade contra a variola; antes desta data, inoculações vaccinicas pódem se feitas com successo nos individuos os botões vaccinaes já começam a evoluir. (2) Na immunidade vaccinal pois, não se dá o mesmo que se observa com a injecção dos seruns preventivos, em que a immu- nidade é adquirida immediatamente. N’ella o facto se produz progressivamente. Estudemos agora as causas que podem influir sobre a acção preservadora da vaccina. O effeito immunizante da vaccina póde ser annullado ou at- tenuado mediante a occurrencia de causas differentes, cujas prin- cipaes são as seguintes : l.° Causas sobordinadas a uma perturbação que se póde dar de maneiras diversas, e em consequência da qual, a vaccina se desnatura, impedindo por isto que o seu effeito immunizante se manifeste. As causas que acabamos de apresentar, pódem ser de duás ordens: internas ou externas,conforme dependem do proprio indi- víduo ou encontram sua razão de ser fóra d’elle. (1) Dr. Caetano Junqueira—These—1892. (2) Hublé—liv. citado. 20 Neste primeiro grupo de causas temos que considerar os traumatismos, attrictos, etc. Vejamos como elles pódem modificar a evolução da pustula vaccinal. O prurido que acompanha a formação da pustula, em seu pe- ríodo inicial, difíicilmente é tolerado, mormente pelas crianças, que, procurando fazel-o cessar, podem despedaçar a pustula, que portanto, não evolue. Algumas vezes, após a destruição das pustulas primitivas, apparecem outras pequenas, que se reúnem,dissecando-se rapida- mente, e que, com a quéda da crosta, deixam ver uma cicatriz irregular, sem os caracteres proprios á verdadeira cicatriz vaccinal. Nem todos os auctores são concordes em não attribuir acti- vidade preservadora á vaccina, cujas pustulas forem assim des- truídas. Podemos dividir as opiniões existentes sobre o assumpto em questão, em quatro grupos: l.° Aquelles, que, como Woltf, acreditam que a immunidade conferida pela vaccina existe, muito embora se dê o despedaça- mento da pustula vaccinal. 2o Os que concedem poder immunisante á vaccina, cuja pus- tula tiver sido destruida logo no começo da sua evolução. 3. Os que pensam, como Brisset, que haverá immunidade, apezar da destruição pustular, si a febre vaccinal se apresentar. 4. Os que fazem questão do apparecimento da areola, para admittirem a acção preservadora da vaccina cuja pustula fôr despedaçada. Entre as causas internas capazes de influenciar sobre a vac- cina, neutralizando seu effeito preservador, devemos salientar a falta de receptividade para o virus no momento da inoculação. Duas vaccinações em indivíduos differentes são feitas nas mesmas condições: em ambos a pustulação se faz regular^ 21 mente, entretanto, um é atacado pela varíola, emquanto o outro não soffre o ataque da moléstia. E’ nesta falta de receptividade para o vírus vaccinico em determinado momento, que devemos haurir bons argumentos a favor da necessidade das revaccinações. Um estado morbido já existente no momento da operação vaccinal, ê uma outra causa apontada como capaz de annular os beneficos eífeitos da vaccina. O Dr. Demeuninch (1) diz que em uma pessoa doente no momento da vaccinação, a erupção local póde seguir sua marcha normal, mas o eíTeito geral não ó obtido, donde é negativa a acção preservadora. Outros auctores não concordam com esta opinião, e entre el- les, Hublé diz que o estado de moléstia, nenhuma influencia pre- judicial exerce sobre o poder immunizante da vaccina. Vejamos as outras causas indicadas como capazes de destruir o grande poder da vaccina. Falsas erupções que pódem apparecer nos pontos inoculados. E’ o caso da falsa vaccina, sobre a qual nos manifestaremos na segunda parte do nosso trabalho. Causas dependentes da má qualidade ou alteração da vaccina empregada.—São varias as causas capazes de influenciar sobre a vaccina, ora alterando-a completamente, ora attenuando a sua virulência, e como consequência immediata a sua acção preservativa chegando mesmo a de todo destruil-a. Neste caso está a vaccina mal conservada. Do frio intenso, do calor, da humidade, de uma athmosphera corrupta, devemos sempre abrigar a vaccina que queremos ino- cular. Quanto á má qualidade, é quasi sempre devida á fonte im- pura em que foi colhida. (1) These de Paris. Não devemos lambem utilizar-nos de pustuias vaccinaes esgo- tadas, ou abertas durante longo tempo. (4) Quando tivermos de fazer vaccinaçõcs de tubn a braço, uma vez aberto o tubo, todo o seu conteúdo deve ser logo empregado, do contrario nos arriscamos a alterar a vaccina. Comprehende-se facilmente, que o nosso cuidado no emprego da vaccina a inocular, deve ser o mais escrupuloso possivel, pois o pouco caso em questões desta ordem, não sô nos levará a resulta- dos negativos quanto ao poder immunizado do grande prophylac- tico da variola, como também pôde acarretar funestas consequên- cias, devidas ás inlecções resultantes de uma vaccina alterada. Causas dependentes de processo imperfeitos de vaceinação. Neste grupo estão os processos antigos de inoculação vacci- nica: applicação de vesicatórios, tios embebidos de vaccina, etc. Nos processos modernos, também o modus faciendi, pôde nul- lificar a acção altamente benefica da vaccina. Assim éque, si a incizão (para nós o melhor processo de vac- cinar) fôr profunda, naturalmente a etíusão de sangue que resulta naturalmente, póde, acarretando mechanicamente a vaccina, impedir que no organismo se dè a penetração do virus. INFLUENCIA QUE O NUMERO E AS DIMENÇÕES DAS PUSTULAS EXERCEM SOBRE A IMMUNIDADE São divergentes as maneiras de pensar em relação ao assumpto supra. Na Allemanha faz-se grande cabedal do numero e tamanho das puslulas, sobre o ponto de vista prophylactico da vaccina. Heim na sua estatística, mostra que os individuos portadores de maior numero de cicatrizes vaccinaes, são muito rcfractarios á revacci- nação e, segundo Steinbrenner mais á variola do que os que pos- suem em menor escala estas mesmas cicatrizes. (I) Nos referimos á vaccina animal, pois, como já dissemos, preferimol-a systema- ticamcnte á de braço a braço, da qual só lallaremos incidentemente. 23 Ellis combate violentamente a pratica de vaccinar-se por uma única picada ou incisão. Eis como elle se exprime: «Quando a vaccina deu bom resul- tado, quando produziu, por exemplo, quatro ou cinco pustulas caracteristicas, protege efficazmente até a idade da puberdade, epocha em que a revaccinação deve ser feita. Os práticos que, temendo fazer picadas ou desagradar a clientes ignorantes ou inconscientes, tornam-se culpados e deveriam ser passiveis de penas rigorosas. Semelhante vaccinação é incapaz de proteger suíTicien emente. Ser pouco hábil na pratica de cinco ou seis picadas vaccinaes, seria facto desculpável, em rigor, mas é imperdoável indignidade, ser destituído de coragem, a ponto de não poder dizer que são necessárias pelo menos quatro ou cinco lancetadas para produzir a immunidade.» (4) De accôrdo com a ideia de Ellis pensão muitos observadores. O comité de vaccina de França é de opinião inteiramente opposta á precedente. Para o referido comité a immunidade é conferida igualmente, por uma única ou muitas pustulas. (2) Dubreuil manifesta-se do seguinte modo: «E’ acceito por todos boje, que a immunidade não está na razão directa do numero das pustulas. Entretanto não se deve desprezar o facto observado por muitos auctores antigos e modernos, de que a variola é mais frequente ou mais grave nos indivíduos portadores de pequeno numero de cicatrizes vaccinaes, ou cujas cicatrizes são irregulares ou pouco apreciáveis. Outros observaram que o exito das revacci- nações estava na razão inversa do numero de cicatrizes deixadas pela primeira vaccinação.» (1) Vaccina—Artigo publicado na Provinda, jornal de Pernambuco, numero de 3 de Novembro do corrente anno. Çl) Idem. 24 Em 1820 o Instituto Vaccinico de Londres, recommendava •s que na pratica das vaccinações si fizessem varias incisões, com o fim de tornar mais energico a reacção geral do organismo, e por- tanto, obter-se um maior gráo de preservação. Este conselho deu occasião a abusos extraordinários; é assim que se praticavam 16, 20 e mais incisões com o fim de inocularem a vaccina. Husson e Bousquet não acreditam que o virus vaccinico só poderá produzir osseus effeitos sendo introduzido em quantidade mais ou menos considerável no organismo por muitospontos de entrada, pois dizem elles: não põde haver paridade entre os virus e as outras causas morbiferas: o veneno levado ao organismo produzirá descalabros tanto maiores, quanto maior fôr a quantidade empregada; o con- trario observa-se na vaccina, basta apenas um átomo de bom virus para produzir a moléstia e, portanto, obter-se a immu- nidade. (1) Acreditamos que o numero de pustulas não inlluc sobre a immunidade vaccinal. Costumamos fazer tres incizões em cada braço para garan- tirmos a inoculação, e a consequente passagem do elemento virulento para a corrente circulatória. O que acabamos de dizer foi por nós verificado experimental- mente: individuos portadores de uma unica pustula vaccinal, sof- frendo mais tarde nova inoculação, esta não deu absolu tamente resul- tado; por conseguinte a immunidade para a vaccina estava adque- rida;que também a resistência para a variola se manifesta com pus- tula unica, conhecemos mais de um facto que afíirma a verdade da nossa asserção. Portanto, uma bella pustula apresentando os seus caracteres essenciaes, que evoluir normalmente, tendo determinado o appa- recimento da febre vaccinal, e deixando uma cicatriz bem cara- cterizada, póde conceder a immunidade. CIJ These do Dr. C. Junqueira, 1896. 25 Eis a razão porque deve-se systematicamente verificar os re- sultados da inoculação vaeciniea, e não capitular de successo, senão aquellas vaccinaçòes ou revaccinações, em que a erupção se produ- zir nas condições por nós explicadas na segunda parte do nosso trabalho. Si assim não procedermos, será bem possível que passemos por dissabores dosagradaveis, concorrendo para que a pratica da vaccinação anti-variolica, possa não merecer do conceito popular a confiança de que incontestavelmente ella é merecedora, e que de dia para dia mais se affirma á vista dos benefícios reaes por ella trazidos á humanidade. REVACC1NAÇÃO Não determinando a vaccina, senão por um tempo limitado, a immunidade anti-variolica, torna-se racional que, em certas epochas da vida, a repetição do acto vaccinal deve ser feita, em ordem a conferir ao organismo novamente accessivel ao ata- que da variola, uma nova immunidade. D’ahi a necessidade da revaccinação, que não é mais do que a operação praticada com o fim de corrigir a, fallibilidade da vaccina. O tempo da duração da immunidade vaccinal é muito ditficil de ser estabelecida calhegoricamente, [>ois varia notavel- mente conforme os indivíduos. As revaccinações praticadas a principio por numerosos obser- vadores, deram resultados negativos, o que não è do extranhar, pois elles operaram deixando entre as duas inoculações, um es- paço de tempo muito limitado. A’ vista d’estes insuccessos foi a revaccinação considerada como inútil, e attribuiram ã vaccina maior virtude do que ella 26 merecia, isto é, julgaram quo seus elfeitos preservadores eram indefinidos. Não durou, porém, por muito tempo, esta illusão. Pessoas vaccinadas eram atacadas pela variola, o que deu em resultado, a idèa de nova vaccinação que viria retemperar a immunidade esgotada. A primeira inoculação vaccinica concede ao vaccinado um gráo maior ou menor de immunidade, que tende a dissipar-se no fim de alguns annos, variaveis conforme os organismos, mas que em geral é de 0 annos, epoclia em que devemos praticar a primeira revaccinação. Aos 12 annos é sempre boa pratica fazer-se nova revaccinação. Na idade de 20 a 30 annos a revaccinação é de rigor. Na opinião de Longet (i) é a este preceito seguido no exer- cito francez, que se deve a resistência offerecida pelos soldados ás epidemias de variola. Os indivíduos revaccinados podem na idade de 35 a 40 an- nos, soffrer um insulto variolico, d'onde a necessidade da revacci- nação iresta epocha da vida. D’ahi em diante é sempre bom aconselhar-se esta operação, c uno medida de prudência, sendo que em tempo de epidemia, este conselho deve ser insistente, maximé, quando sabemos, que na velhice, muitas vezes a variola aííecta uma fôrma extrema- mente grave. Para mostrarmos quão alto faliam os factos em prol da re- vaccinação, apresentamos a seguinte estatística feita por Layet, estatística esta referente a dous mil variolosos. (2) (1) Dictionnaire de Sciences médicales Delcambre. (2) Journal de medecine e chirurgie— 1894. 27 Em 100 variolosos de menos de onze annos, 82 % foi a porcentagem em não vaccinados, e 15% a dos vaccinados não re- vaccinados. A’ vista d'este resultado elle conclue pela necessidade da revaccinação a contar dos seis annos de idade. Em 100 variolosos entre dez e doze annos a porcentagem foi de 31 % em não vaccinados, 68 % em vaccinados, mas não revaccinados, e 1 % em revaccinados. N’este segundo grupo os revaccinados não pagaram tri- buto de vida. Em indivíduos de quinze a vinte annos, houve a seguinte porcentagem: 15 % em não vaccinados, 81% em vaccinados nunca revaccinados, 3,6 % em revaccinados. Os obitos n'este terceiro grupo de idade apresentaram-se na seguinte proporção: 23 % em não vaccinados, 18,5 % em vaccinados nunca revaccinados, 3,5 % em revaccinados. De cincoenta annos para cima, sobre cem variolosos, 14 não eram vaccinados, 82 eram vaccinados, mas nunca revacci- nados, e 4 revaccinados. A mortalidade n’este ultimo grupo foi na seguinte proporção : 4 % em não vaccinados, 32,22 % em vaccinados, nunca revac- cinados e 25 % em revaccinados. Vê-se, pois, á vista d’esta estatística, que a necessidade de revaccinar os revaccinados, se impõe, sobretudo em tempo de epidemia. VACCINA ANIMAL E’ a fornecida pelo cow-pox 011 horse-pox naturaes, cultivados em vitellos, sem nunca ter abandonado este terreno de cultura. As origens da vaccina animal e jenneriana são as mesmas, isto é, inoculação do cow-pox primitivo; sendo de notar, que 11a 28 jénneriana, a vaccina é cultivada no homem, e a animal nos bovinos. E’ perigosa a cultura da vaccina do cavallo, (horse-pox) pela facilidade com que este animal contrahe o mormo, que, nas suas fôrmas larvadas, escapa muitas vezes ao mais habil veterinário. Além d’isto, a virulência d’esta vaccina ò muitíssimo enér- gica, provocando quasi sempre graves accidentes, quando ino- culada no homem. A pratica da vaccinação animal nos vem da Italia, tendo sido introduzida em Nápoles cm 1840, por NegrL Começou a ter larga pratica na Europa depois que a impor- tantíssima discussão sobre o syphilis vaccinal foi travada no seio da Academia de Pariz, ficando resolvido, que a transmissão do terrível virus svphilitico era capaz de se dar pela vaccinação jérme- riana. A principio, não deu os resultados que era de esperar, e isto devido á imperfeição da technica operatória então seguida. Estes insuccessos obtidos em começo explicam a má vontade com que foi recebida a vaccinação animal, cèdo, porém, a reacção operou-se. Tendo-se aperfeiçoado os processos technicos até alli usados, observou-se logo as grandes vantagens que ella apresentava, em confronto com a vaccinação humana. Foram croados então estabelecimentos para a cultura e pro- pagação da vaccina animal, em Pariz, 11a Bélgica, Hollanda, Alle- manha, e emfun, em todos os paizes capazes de comprehenderem 0 valor prophvlactico da vaccina. Hoje nos parece impossível que haja quem conteste a supe- rioridade real da vaccina animal sobre ajenneriana. Para fazer sobresahir esta superioridade, mostremos em pri- meiro lugar os 29 INCONVENIENTES DA VACCINA JENNERIANA D’entre os inconvenientes principaes que encontramos nesta vaccina, destacamos os que resultam da transmissão de mo- léstias pelo virus vaccinico. E quando vemos que entre estas moléstias figura a syphilis, mais cresce de ponto a nossa natural repulsa pela vaccina supra- citada. Mas, nos perguntarão si não é possível evitar um desastre d’esta ordem, procedendo com todo o cuidado na escolha do vaccinifero. A nossa resposta será negativa, pois como muito bem diz ó professor Depaul, o exame o mais cuidadoso de mna criança, deixa muitas vezes indecizo o medico incumbido deste exame, e que portanto não poderá responder com toda a segurança si cila è ou não syphili tica. Em muitas crianças com todas as apparencias de saúde, exis- te em estado latente o germen da syphilis, que póde perfeita- mente ser levado a outra pessoa pela inoculação vaccinica. Esta questão que estudamos da transmissão dasvphilis pela vaccina, è facto averiguado del830 em diante. Até então não se suppunha que esta transmissibillidade existisse, e a propiia Academia de Medicina, dizia aos vaccina- dores francezes: Vaccinez sans craintc, vaccinez toujours, car le virus vaccin puisé chez des sujets atteints de maladies susceptibles de se commu- niquer par contagiou, comme la syphilis, ne se charge dans aucun cas d’autres príncipes, et ne donne que le vaccin» Eni 1859, o professor Rollet, estudando o contagio da syphi- lis secundaria, assignalou um caso typico de cancro vaccino-sy- philitico. 30 Pouco tempo depois, cm 18(j(), um de seus discípulos, Vien- nois, interno no Hospital de Antiquailles, publicou uma interes- sante memória, na qual eram referidos muitos casos legitmos de syphilis vaccinal. Vários outros casos desastrosos de syphilis vehiculada pela vaccina humana são referidos, e que muito concorrem para des- acredital-a perante a sciencia. (1) Os partidários da vaccina humana atfirmam que esta trans- missão, corre por conta da falta de cuidado do vaccinador, pois que si o exame do vaccinifero for feito com a maxima circumspecção, não é inoculado o grande mal. Dizemos nós: — este exame cuidadoso do indivíduo que de- ve fornecer a vaccina, é tão difficil, tão cheio de desiliusões futu- ras, que é bem possível que alguns dos seus propugnadores tenha sido victima de sua própria maneira de pensar. Que accidentes desta ordem se deem por contaminação instru- mental, não é crivei, pois é preceito banal, em operações desta ordem, a mais perfeita asepeia. (1) Gitaremos alguns destes deplorabilíssimos accidentes, e que vêm especificados na these inaugural do Dr. Payerne (de Leão). Em 1861, em Rivalta, o Dr. Goggiola passou pelo dissabor de, vaccinando 63 crian- ças, em 45 observar manifestações syphiliticas, ficando provado pelo inquérito a que se procedeu, que a contaminação se dera pela vaccina utilisada, e que tinha sido colhida em duas creanças syphiliticas. Em 1882 o Dr. Auzias Turenne apresenta á Academia de Medicina de Paris, tres cri- anças victimas de syphilis vaccinal. Hervieux, em 1889, refere á Academia de Medicina de Paris cinco casos legítimos de syphilis por via vaccinica, chamando a attenção para o facto de que os vacciniferos que trans- mittiram a infecção tinham sido escolhidos com cuidada escrupuloso, e apresentando todos apparertcia de florescente saude. Para não alongar demasiado o assumpto, diremos apenas que Payerne, em seu traba- lho, reunio sobre o assumpto de que nos occupamos, trinta observações, formando um conjuncto de seiscentos casos de syphilis vaccinal, sendo de notar, que em quasi todos, o vaccinifero apparentava um aspecto invejável de saude. 31 Para terminar estas poucas palavras sobre o sypliilis vaccinal diremos que a reserva natural em factos desta natureza, sobresalta extraordinariamente as famílias em cujo seio elles se produzem, e teem como consequência transformar em verdadeiros pariás o vaccinifero e seus paes, na feliz expressão do Sr. Hervieux. (1) Outras moléstias podem ser vehiculados pela vaccina humana. Assim, em um dos últimos numeros da Sêmaine mêclicalc, encontramos um trabalho dos Srs. Auché o Carrière, em que elles admittem a possibilidade da vehiculação da lepra pela vaccina humana, e para isso se baseiam na opinião de Swift, e outros observadores, os quaes são unanimes em acccitar esta possibilidade de transmissão. Eis como procederam Auché e Carrière: Vaccinaram um indivíduo em região apparentemente sã, ao nivel de um leproma anesthesico e notaram : 1. que a vaccina não modifica a evolução da lepra, e que esta não perturba o desenvolvimento da primeira; 2. que nas preparações histológicas da pustula vacciniea ob- tida, se encontram bacillos de Hansen. Concluíram então, e em nossa modesta opinião, concluíram muito bem, que os germens da lepra podiam perfeitamente ser vehiculados pela vaccina colhida em indivíduo affectado do mal, tendo, entretanto, a pustula fornecedora da vaccina, se desenvol- vida em região que se patenteiava normal. Comprehende-se muito bem que as opiniões que acabamos de citar, não puderam ter confirmação experknontal, pois tal con- firmação importaria em um crime, mas a possibilidade do facto (1,) Dr. Payerne—these de Paris. 1892. 32 è tão racional, tão logico, que nem por isso as conclusões profe- ridas perdem de valor. (1) Não nos deteremos mais neste ponto de transmissibilidade de moléstias por intermédio da vaccina humana. Diremos, apenas, que ainda ha outras. Mostremos agora um outro inconveniente da vaccina jen- neriàna. Referimo-nos á sua diminuta produçção. De facto, é do conhecimento de todos, a dilficuldade enorme com que se consegue vencer a opposição natural dos paes em con- sentir que seus filhos sirvam de vacciniferos. Opposição natural, dizemos nós, e que affecta a sensibilidade paternal e sobretudo maternal, pois si a extraeção da lympha vac- cinica não é operação extremamente dolorosa, pelo menos ó bastante incommoda para as crianças. Ha uns dez annos atráz no Hospital Civil da Charité.por oc- casião de uma epidemia de variola em Lyão, dava-se um prémio de tres francos a cada mãe de família que consentisse que seus filhos servissem de vacciniferos, e para obrigal-a a voltar na oe- casião propicia á extraeção da lympha, era-lhe exigido o deposito de um objecto qualquer de valor: annel, brinco, etc. ! (2J (1) Sabemos que entre nós, na visinha cidade de Campos, se exigia, ainda no cor- rente anno, e pór falta de lympha vaccinica, a presença da creança inoculada para ser- vir de vaccinifero, sob pena de multa rigorosa. (2) No livro de Layet, (vaccination anianile,) encontramos, referido pelo Dr. Gaydnner, um caso legitimo de transmissão de lepra pela vaccina. 33 Este processo de obter vaccina, nos parece bastante inmoral, o só acha explicação na intensidade da epidemia, á qual, de qual- quer modo era preciso oppor uma barrreira. Pois bem, a vaccina humana é tão insufficiente como quan- tidade, que, apezar do esquisito recurso de que se lançou mão para obtel-a, o Dr. Perroud encarregado da vaccinação na cidade acima citada, no seu relatorio publicado no Lyon Mêdical. queixa- se da falta de vaccina ediz: « Dans les communes autour de Lyon, dans VIsère, les vaccinations nont pas étó faltes, faute de vaccin.» Em que pese aos defensores da vaccina humanisada, diremos que o seu poder preservador é inferior ao da vaccina animal, e para isso nos apoiamos não só em opiniões de verdadeiros mes- tres no assumpto como também em nossa observação própria. Sempre que tínhamos de verificar obitos ou casos de variola, satisfazendo assim as exigências do registro do nosso Instituto, fazíamos principal questão de conhecer a natureza da vaccina inoculada anteriormente nos indivíduos accommettidos. Em grande numero de casos averiguamos que tinha sido utilisada a vaccina humanisada, para prevenir a immunidade. Era insignificantissimo, entretanto, o numero dos vaccinados por vaccina animal. Isto é por demais expressivo! Alem disto ella degenera transmittida de braço a braço. Com este inconveniente concordam a maioria dos seus adeptos, mas procuram removel-o, dizendo que mui facilmente se a póde regenerar, desde que se a retempere pela vaccina animal. Quando nos occuparmos da retro-vaccinação, procuraremos explanar esta questão. Resumindo, eis como o nosso mestre o Dr. Pedro Affonso, (1) mostra as desvantagens da vaccina jenneriana, e com elle con- cordamos plenamente : 1 Variola e vaccina, 1888. Dr. Pedro Affonso. 34 1. a Transmitte a syphilis e em condieções de não poder ser ella evitada. 2. E’ menos energica que a vaccina animal e o seu poder preservador é muito menor. 3. E’ de producção muito limitada, de sorte que os vaccina- dores vêm-se em sérios embaraços quando têm que vaccinar grande numero de pessoas. 4. Degenera transmittida de braço a braço. A vista, pais, das considerações que apresentámos, nos parece que temos o direito de dizer que a pratica da vacclnação jenneriana deve ser abandonada, não só por nos parecer de eífeito prophilactico duvidoso,como, o que mais é, pode em alguns casos, attentar contra a saúde publica. Vejamos agora as VANTAGENS DA VACCINA ANIMAL Basta considerar o que se passa relativamente ás duas vacci- nas, a animal e a jenneriana, para comprehender-se as vanta- gens incontestáveis d’aquella sobre esta. Com effeito, emquanto a primeira, de dia para dia, mais se acredita no conceito publico, a segunda, pelo contrario, mais de- cahe no mesmo conceito, e estamos certos de que alguns dos pou- cos que ainda hoje se dizem seus enthusiastas, o fazem mais por uma questão de rotina e pyrrhonice, do que por convicção in_ abalavel. Senão, vejamos : E’ impossivel não comprehender logo que a producção da vaccina animal é muito mais abundante do que a da humana. De facto, si considerarmos a extensão da superfície inoculada eo tamanho das pustulas vaccinicas obtidos pela inoculação, pús- tulas de tres a quatro centimetros de extensão, usando-se o pro- cesso da incisão, que é o mais empregado,è intuitivo que a pro- 35 ducção da vaccina é abundantíssima, podendo um só bovino servir á inoculação de 1.000 a 1.500 pessoas. Este argumento e irrespondivei. A pratica da vaccinação animal è isempta de perigos, quanto á transmissão de moléstias. Vejamos: As moléstias que poderiam ser vehiculadas pela vaccina ani- mal seriam principalmente : Tuberculose — Foi até bem pouco tempo o cavallo de batalha dos inimigos da vaccina animal, achando que este facto de algum modo contrabalançava a detestável influencia que á vaccina por elles preconisada, determinava a transmissibilidade da syphilis. Hoje está provado que o receio de transferir ao homem pela vaccina animal, o germen da tuberculose è infundado, sinão chi- merico. Temos de considerar duas ordens de factos na supposta trans- missibilidade da tuberculose por via vaccinal: 1. Os vitellos são com frequência victimas do bacillus de Koch ? 2. O producto da pustulade um vitello evidentemente tuber- culisado, encerra o agente productor da tuberculose? A negativa se impõe a ambas as perguntas. A tuberculose raras vezes ataca os vitellos. Vaillard, em seu Manual pratico de vaccinação animal, diz que em 21.320 vitellos sacrificados no matadouro de Augsburgo, nenhum apresentava a tuberculose. Em Munich, se verificou que a proporção dos vitellos tuber- culisados era de 0,0006 para 100, ou seja sobre 100,000 só um aífectado do mal. Emfim, Leclerc, inspector geral do matadouro em Lyon, diz que em um periodo de cinco annos, tendo assistido á matança de mais de 400,000 vitellos só encontrou cinco tuberculosos. 36 A nossa primeira asserção está, pois, amplamente demon- strada. Vejamos agora a segunda. E’ quasi que certo que o conteúdo das pustulas de um vitello tuberculisado não encerra o germen de Koch. E dada mesma a hypolhese que o bacillo em questão exis- tisse na pustula animal, si procedessemos de modo a obtermos no homem uma pustula vaccinica de pouca profundidade, a trans- missão da moléstia quasi podemos dizer, não se daria. Foi a este resultado que chegaram Lothar-Meyer, Bollinger, Strauss, Ghauveau, Josserand e Vaillard, pelas suas brilhantes experiencias. A infecção tuberculo-vaccinal, é, pois, chimerica como já dissemos atraz. (1) Mormo e carbuncalo — Estas duas graves moléstias im- primem aos bovinos taes symptomas, de facil percepção, que sò muita ignorância ou muito pouco cuidado na escolha do vaccinifero, por parte do indivíduo encarregado deste serviço, explicaria a possibilidade de sua transmissão á especie humana. E n’este caso todo o rigor seria pouco para punir o causador de um mal facilmente evitável. Quanto ao poder preservador, está demonstrado que o da vaccina animal é superior ao da jenneriana, conforme já foi dito e repetimos : tem-se observado que em casas em que ha pessoas vaccinadas, umas com vaccina animal, outras com a jenneriana com mais facilidade as primeiras são atacadas pela variola. Nas revaccinações o facto da superioridade do poder preser- vador da vaccina animal sobre a humana, ainda se accentúam. Em energia de virulência também a vaccina cujas vantagens estamos preconizando, vence a desacreditada vaccina humanisada. (IJ Vaillard—Manuel pratique de vaccination animale. 37 Layet, em sou importante « Tratado pratico de vaccinação animal » apresenta a este respeito uma estatística que é bem expressiva. Eil-a em parte : Parola (partidário da vaccina jenneriana) confessa ter em successos de inoculações feitas com vaccina animal em Turim, a bella porcentagem de 98 %>; cm Milão esta porcentagem foi de 99,5 %. A porcentagem dos successos obtidos por DelTAcqua, em 235,494 vaccinações que fez, foi de 95 %. Entre nós, consultando o livro respectivo do Instituto Vac- cinico, encontramos a porcentagem de cento por cento. As vantagens incontestáveis da vaccina animal estão pois perfeitamente demonstradas. Os inimigos da vaccina animal procuram combatel-a, dizen- do que ella facilmente se altera, e que, portanto, a sua conser- vação é problemática. Quando tratarmos dos meios de conservação da vaccina, res- ponderemos a essa objecção com factos positivos. -VACCINAÇÃO Para sanar um dos grandes defeitos da vaccina humana, nasceu o processo da retro-vaccinação. Como sabemos, ella degenera transmitlida de indivíduo em indivíduo, e para obviar a esse inconveniente, imaginou-se retem- peral-a, fazendo-a passar pelo organismo do animal. A relro-vaccina, pois, não é mais do que a vaccina humana que passou pelo vitello, com o fim de recuperar sua actividade primitiva. Podemos dizer que a pratica da retro-vaccinação e tão anti- ga como a vaccina, e o proprio Jenner a praticava. 38 A principio os insuccessos obtidos com esto processo foram immensos, e attribuo-se-lhes á má escolha do anim al, relativa- mente á edade, que quasi sempre era superior áquefla exigida na operação de que falíamos, tendo sido Bousquet o primeiro que assim íntrepretára o facto. A Allemanha é um dos poucos paizes que ainda hoje em- prega larga manu a retro-vaccinação, sobretudo em seus institu- tos particulares de vaccina. Nóscondemnamos o processo cujo estudo estamos fazendo, por achal-o ineíficaz, como passamos a provar, bazeando-nos em competências scientiíicas como Geely, Layet, Bousquet, Peuch e muitos outros. Na retro-vaccinação temos (fue responder a dois (£uesitos. Io E’ de facto real o rétemperamento da vaccina humanizada passando pelo organismo do animal ? 2o A vaccina humana pelo facto de passar pelo organismo do animal, regenera-se, e pertanto, fica purificada dos elementos nocivos que possa conter ? A opinião de Bousquet é que os bovinos restituem a vaccina como a receberam, sem absolutamente influenciar sobre ella. Gee- ly responde pela negativa a ambas as perguntas acima. Peuch (de Tolosajé de parecer que a vaccina jenneriana, passando pelo animal se enfraquece em vez de retemperar-se. O Sr.Layet (i) apresenta a seguinte porcentagem de insucessos obtidos com a retro-vaccinação, em algumas cidades da Al- lemanha : Breslau 7 %>, S. Florian, 50 % Bernburgo 10 °/0—media 22 •/,. Este illustre professor, querendo provar que a pretendida puri- ficação da vaccina humana, contaminada por algum germen per- nicioso não se dá com o processo da retro-vaccinação, cita o caso ( 1 ) Layet. Traité pratique de vaccination animale. 39 de transmissão de erysipela em 30 soldados que tinham sido inoculados com retro-vaccina, tendo ficado amplamente demons- trado que a infecção se dera, trazida na lympha vaccinica da criança que a fornecera e que estava affectada ao mesmo mal. Posto que não acreditemos na efficacia da retro-vaccinação, citaremos em nosso trabilho,recentes experiencias que sobre este processo, fez na Batavia, o Dr. de Haan, e que vèm consignadas nos Annaes do Instituto Pasteur, em um dos numeros deste anno: Este medico hollandez, partidário acérrimo da retro-vacina- ção, procedeu da seguinte maneira. /a experiencia—Nesta, como em todas as outras experiencias, o macaco foi o animal escolhido. Depois de raspado e desinfectado o dorso do animal, nelle de Haan fez 5 inoculações com retro-vaccina recentemente co- lhida em uma vitella. Quatro dias, depois observou a formação de papulas, que no fim do 7o dia apresentavam-se escavadas e que evoluíram nor- malmente. A mesma experiencia foi repetida em mais seis macacos, obtendo os mesmos resultados. O macaco póde receber a retro-vaccina—tal foi a Ia conclu- são de de Haan. 5a experiencia— Os sete macacos, após a sécca das primeiras pustulas, são novamente inoculados com retro-vaccina fresca; não foi observado o apparecimento de pustulas. D’onde concluiu de Haan, que o macaco retro-vaccinado, fica immunizado para a retro-vaccina. Gomo se vê, as experiencias são curiosas, sobretudo quanto á escolha animal. 40 VA RIOLO-VACCINA De ha bastantes annos se discute a questão relativa á iden- tidade ou não dos germens da vaccina e da variola, e a possibili- dade de transformação de uma das moléstias na outra. Idcntistas e duallistas; eis as denominações dos defensores de uma e de outra bypothese. A nossa modesta opinião é svm- patbicaá doutrina dos segundos e para nos manifestarmos d’este modo, nos baseamos na leitura de importantes trabalhos cxperi- mentaes, cujos resultados se nos a (figuram assas concludentes. Depaul, inspirando-se nas analogias de caracteres objectivos das pustulas vaccinica e variolica,no modo de evolução das duas erupções, e sobretudo nas immunidades reciprocas que a expe- riencia demonstra resultar para certos organismos susccptiveis de impregnação respectiva pelos virus (cow-pox, horse-pox, vaccina e variola), chegou á seguinte concepção : em difinitiva só existiria uma moléstia eruptiva commum ao homem e §ms animaes — a variola. Em Io de Dezembro de 1853, na Academia de me- dicina, desenvolveu a sua theoria e apresentou uma serie de pro- posições, cujas principaes foram as seguintes : Não existe virus vaccinico. O pretendido virus vaccinico, considerado o antagonista, o neutralisador do virus variolico, outra cousa não é que o proprio virus variolico. As especies bovina e cavallar estão sujeitas a uma moléstia eruptiva, idêntica por sua natureza, á variola da especie humana. Os phenomenos locaes e geraes que apresentam os animaes; são os~mesmos que~os observados no homem: quanto ds pustulas aunica differença depende exclusivamente da estructura da pelle e da pre- sença depellos abundantes. Estas proposições tão cathegoricamenteformuladas, não eram entretanto apoiados por Depaul, em nenhuma experiencia positiva. 41 Gomo era de esperar os arrojados ennunciados que acaba- mos de citar, foram violentàmente atacados por experimentado- res notáveis, e dentre elles podemos citar Bousquet, que após discussão renhida, lançou a Depiul o seguinte repto, que mão traduzimos transcrevondo-o tal qual se acha no importante livro do Dr. Luiz Berthet : Vaccine et variole.—Gontiibuition a 1’ctude de leurs rapports. « Que M. Depaul vienrie ici dire ces simples paroles: Oui, j'ai inocule la variole ii la vaclie et la vache, ma rendu la vaccine. Je nen demande pas davantage, j'ai foi en son honneur, et, sur sa declaration je me convertis dses doctrines. Jusque-lá je vcux douter.» Chegada a discussão a este ponto, a Sociedade de Sciencias medicas de Lyão, por proposta de Chauveau nomeou uma com- missão para estudar experimentalmente o importante assumpto.(1) A 30 de Maio de 1865, Chauveau expoz á academia de me- dicina os resultados das experiencias feitas. Orelatorio por clle apresentado, é bastante extenso ; eneon- tramol-o textualmente transeripto no livro de Berthet, por isso nos limitamos a mostrar aqui quaes as conclusões apresentadas pela commissão lyoneza. Foram as seguintes : Io A varíola humana pôde ser inoculada nas especies bo- vina e cavallar. tão bem como a vaccina. 2o Os eífeitos produzidos pela inoculação dos dous virus, diífe- rem completamente. Nos bovinos a variola só produz uma erupção de papulas tão pequenas que passam despercebidas, quando não se está pre- venido de sua presença. A vaccina, pelo contrario, se manifesta pela erupção vaccinal typo, pústulas largas e bem caracterisadas. Ella se inocula per- (1) Berthet. Vaccine et variole.— Contribuition à Vetude de leurs rapports. 42 feitamenteaos animaes atiçados dc febre aphtosa, donde a febre aphtosa e a vaccina são moléstias perfeitamente distinctas. No cavallo, a erupção determinidi por inoculação variolica é também populosa, sem secreção, nem crostas, mas embora e eru- pção seja caracterisada por papulas mais largas do que as do bovino, não é possível que se a confunda com o horse-pox, no- tável pela abundancia de secreção e crostas. 3* A vaccina inoculada isola lamente aos animaes das espe- cies bovina e cavallar preserva-os em geral da variola. 4o A vaccina inoculada nas mesmas condições, oppõe-se, ge- ralmente, ao desenvolvimento ulterior da vaccina. 5o Cultivada methodicamente nestes animaes, a variola não se aproxima absolutamente da erupção vaccinica. Esta variola fica o que ó ou extingue-se completamente. 6o Transmittida. ao homem, produz-lhe variola. 7o Colhida do homem e transportada de novo aos animaes não determina, nesta segunda invasão, e cow-pox ou o horse- pox. A’ vista destas conclusões, a commissão apresentou uma ultima : As duas moléstias variola e vaccina, são perfeitamente indepenientes e não se podem transformar uma na outra, Mais tarde, o mesmo Chauveau faz novas experiencias, com o fim le verificar si não haveria possiblilidade de uma influencia e de uma modificação reciproca dos dous virus variolico e vaccini- co, cultivados simultaneamente no mesmo indivíduo, e como consequência disto a transformação possível da variola em vac- cina. Ia cxperiencia — Inoculou simultaneamente no mesmo in- divíduo por picadas distinctas, virus variolico e virus vaccinico, fornecidos por indivíduos differentes. Chegou aos seguintes resultados : 43 Cultivado durante duas gerações na especie bovina, ao lado do virus vaeeinico, o virus variolico não muda de natureza e não recebe do primeiro a sua benignidade constante. Cultivado durante duas gerações, na especie bovina ao mes- mo tempo que o virus variolico, o virus vaccinico conserva todos os seus caracteres proprios, sobretudo a sua benignidade. 2a experiencia — Inoculação simultânea no mesmo individuo por picadas distinctas de virus variolico e vaccinico provenientes de um mesmo individuo. Esta experiencia deu-lhe os seguintes resultados : a evolução simultânea da vaccina e da varíola 11a especie humana, não im- prime ao virus d’esta ultima, modificação alguma em sua natureza, d’onde a autonomia perfeita da vaccina e da variola, pois os virus d estas moléstias ficam inteiramente independentes um do outro, desenvolvendo-se conjunctamente 110 mesmo organismo. 3a experiencia —Inoculação simultânea de virus vaccinico e variolico infimamente misturados e introduzidos no individuo pelas mesmas picadas. Quando a inoculação d’esta mistura ó feita em bovinos ou cavallos, obtem-se os eífeitos da inoculação da lymplia vaccinica pura. A vaccina, pois, se desenvolve como si 0 virus variolico não figurasse ao lado do virus vaccinico. Para explicar este facto, Berthet apresenta duas hypotheses: (1) destruição do virus variolico pelo virus vaccinico, ou então que os efleitos objectivos do primeiro se acham mascarados pelos do segundo. Chauveau inoculou no homem esta lymplia rnixta, e só obteve vaccina. Mas a lymplia empregada tinha sido colhida em um bo- vino ao qual 0 virus duplo só chegara após seis transmissões successivas. (1) Louis Berthet. Vaccine ct variole— Contribuition a l’étude de lcurs rapports. 44 Estas transmissões que em nada alteram a actividadedo virus vaccinico, actuam, ao contrario sobre a actividade do virus variolico, a ponto d) extinguil-a a partir da quarta geração. (1J Póde-se, pois, acreditar que no caso actual o organismo do bovino exerceu sobre a lympha mixta submettida á inoculação, uma especiede acção dialytici, em consejuencia da qual passou o viros vaccinico, ficando retido completamente o virus variolico. E\ pois, na serosidade extrahida das pustulas produzidas pela primeira inoculação di lymplu mixta no bovino que se deve pro- curar encontrar o virus variolico inoculando-se esta serosidade na especie humana. Em 1883 e 1884 Chauveau e Bertbet, estudando aquestão que ora nos occupi, fizeram no cavallo, iujecções intra-venosas de pás variolico, e nenhum resultado obtiveram que fortalecesse a theoria identista. \ As experiencias emprehendidas em 1893 por Ducamp e Pour- quier, deram resultados negativos quanto a possibilidade de trans- formação dos virus vaccinico e variolico. Podemos ainda citar, em prol da theoria duallista as con- clusões negativas em relação á identista, a que chegaram em 1894 os Srs. Ausset e Barret, por seus trabalhos experimentaes. Emfim, em Maio do anno passado, Hervieux, autoridade in- contestável em questões de vaccina e variola, em brilhante discurso pronunciado na Academia de Medicina de Pariz, combate perem- ptoriamente a opinião dos identistas e termina ifestes termos: «Gomo se explica o facto de nunca ter-se observado no homem um caso sequer de transformação de vaccina em variola, mesmo attenuad a,assim como nunca se observou uma epidemia de vaccina?» Nunca, pois, a vaccina pòde produzir varíola, e felizmenle o povo vai comprehendendo a verdade d’esta asserção. (\) Berthed — Ob. cit. 45 Até bem pouco tempo era com dittlculdade que se conseguia vaccinar em tempos de epidemia, pois a possibilidade de trans- formação da vaccina em variola era bem acceita, e então dizia o povo : que a vaccina virava bexiga ! Ainda boje causa desagradável impressão nas camadas po- pulares, o facto de certos indivíduos serem atacados de var.ola alguns dias após a inoculação vaccinica. O facto, entretanto, é facilmente explicável: trata-se de pessoas que buscam tardiamente o grande prophylaclico, n’ellas já está incubado o mal, dalii a irrupção simultânea das duas erupções: vaccinica e variolica. i Mesmo n’estas condições a beneíica vaccina ainda aproveita, pois attenua quasi sempre a manifestação variolica. Conhecemos mais de um facto d’estes, sendo que um,referido pelo illustrado professor da nossa Faculdade Sr. Dr. Benicio de Abreu. SEGUNDA PAUTE segunda parte do nosso trabalho, será constituída pela pratica relativa ao ponto' sobre o qual dissertamos. Não nos parece descabido fazer aqui uma rapida descripção do nosso Instituto Vaccinico Municipal, que, graças aos esforços do nosso illustrè mestre, o Dr. Pedro Affonso, presta relevantes serviços á população. ' • iíónsla éste importante estabelecimento de 4 salas, destinada cadà uma a uns differentes : >k la saíà. Êvaestinada á matricula dos vaccinandos e revac- cinandos. Em iim livro especial são registrados o nome, filiação, morada e em quarta columna é declarado, oito dias após a inoculação, o resultado obtido. E’ claro pois que é recommendado a pessôa que volte ao Instituto para a competente verificação da vaccina. (1) 2a sala. Nella se procede ás inoculações. Ahi existe a meza em que é collocado o vitello vaccinifero. Da descripção deste nos occuparemos mais tarde. Contém mais a sala em questão*: um carrinho tal como os usados para curativos nos hospitaes, munido de um grande (1) E’ isto mesmo exigido por intermédio de pequenos cartões nos quaes se impõe a condição de volta. Ahi também se registra pelos artigos respectivos de Hygiene, a obrigatoriedade da vaccina. 47 reservatório de vidro, com lima torneira e contendo uma solução boricada a 4 %>. destinada a fazer-se a antisepcia do campo vaccinal, nas pessoas a inocular; quatro pequenas mezas de madeira, servindo de supporte a grande numero de vasos de vidro cheios com uma solução de acido borico, onde mergulham as ancetas de Chambon, que são as empregadas no Instituto. 3* sala. N’esta sala se procede á vaccinação e revaccinação nas senhoras. 4* sala. E’ propriamente o laboratorio vaccinicogenicò. Encontramos ahi um esterilisador de Poupipel, destinado á desinfecção de todo o instrumental pinças, lancetas, graes, tamiges, tubos de vidro de diâmetro muito reduzido; estes guardados em uma caixa metallica, etc. Formando angulo com uma das paredes lateraes existe uma mesa de madeira envernisada, munida de quatro lampadas de esmaltador, que funccionam com luz fixa, e destinadas ao fecha- mento dos tubos. Ao lado dt mesa vê-se o triturador vertical de vaccina, apparelho moderno e cujo funccionamento daremos quando tra- tarmos da trituração da vaccina. Além das quatro salas descriptas, no fundo de um pequeno jardim, existe o estábulo em que ficão os vitellos inoculados. 48 CULTURA DA VACCINA ANIMAL Na cultura da vaccina animal, devemos attender: l.° Escolha do vaccinifero. Esta escolha deve ser feita com todo o cuidado e critério e n’este particular temos de nos referir á edcide, á raça e côr, ao sexo c ao estado de saiuldo animal. Edade — Naò resta duvida que a cdade tem grande influencia sobre o desenvolvimento das pustulas vaccinicas. E’ sabido que um animal novo tem grande receplividade para a vaccina. Ha ainda uma consideração que milita em favor do um ani- mal de pouca edade na escolha que fazemos, pois não tendo pro- porções avantajadas, com elle so póde m3lhor lidar na pratica operatória. E’ assim que a sua fixação ó mais facil, os movimentos de revolta são com pouca ditficuldade dominados, ao contrario do que se obtem com animaes de grande corpulência e que por sua força muscular, pódem até causar sérios damnos aos encar- regados da operação. Depois, comprehende-se facilmente que a pelle de um vitello é muito mais fina do que a de um animal adulto, o que sobre- maneira influe no resultado local das inoculações. Raça — De um modo geral devemos sempre preferir a raça de animaes de pelle delicada, pellos curtos, abundantes, sedosos e brilhantes, isto é, vitellosdo campo creados nos estábulos da cidade. Côr — Temos observado que nos animaes de ventre negro, o desenvolvimento da vaccina não é perfeito, e sobretudo é pouco apparente. 49 Sexo — E’ indifferente na cultura da vaccina animal, esco- lhermos o vitello ou a vitella. Em ambos, a vaccina evolue perfeitamente; sobre o ponto de vista economico, porém, ha um argumento que milita em favor do vitello e è que a sua acquisição è mais facil e portanto, menos dispendiosa, o que não deixa de merecer alguma importância attendendo a que nos Institutos Vaccinogenicos é necessário grande numero de bovinos a inocular. O nosso Instituto Yaccinico escolhe sempre de preferencia o vitello para a cultura da vaccina. Layet diz que pela disposição dos orgãos genitaes do vitello, a urina, pôde ir contaminar a superfície vaccinada. Este receio è infundado. Em todos os institutos de vaccina, evita-se este inconveniente, sem duvida importante, garantindo-se a superfície inoculada por meio de aventaes. Além d’isto os animaes ficam isolados do sólo por meio de estrados de madeira perfurados, e nos estábulos faz-se propositalmente a inclinação do terreno para que prompta- mente se escôem os liquidos. Estado de saude—Quando temos de escolher um animal a vaccinar, todo o cuidado é pouco no exame das suas condições de saude. Assim devemos regeitar immediatamente um vitello que se apresente magro, olhos amortecidos, pelle espessa, pellos duros e quebradiços, pois, via de regra, os animaes n’estas condições não estam em estado de plena florescência vital. Ao contrario, de um vitello, cujos movimentos são lestos, o olhar brilhante, o focinho roseo, a região peitoral larga e saliente póde-se affirmar quasi sempre que goza a mais perfeita saude, e, portanto, póde perfeitamente servir de vaccinifero. 2.° Inoculação da vaccina. — Depois de havermos escolhido o novo vaccinifero, vejamos como se procede á sua inoculação. 50 Podemos dividir esta operação em tres tempos: a. Fixação do animal. b. Preparo da superfície a inocular. c. Inoculação propriamente dita. Estudemos cada uma d’estas partes em separado. t a) Fixação do vitello. O animal é fixado por meio de correias a uma mesa que apresenta o seguinte dispositivo : Duas partes distinctas, uma movei, que é a superior, e a outra fixa correspondendo ao supporte da mesa. Nas extremidades da parte movei, existem fendas ou argollas onde se collocam correias que devem fixar o animal. Uma d’ellas prende-lhe o tronco, as outras os membros. Para collocarmos o vaccinefero na posição apropriada á ino- culação, tornamos vertical a parte superior da mesa, a ella encos- tamos o vitello, prendemos-lhe o tronco e os membros com as correias acolchoadas de que falíamos, depois com um movimento rápido, fazemos o lampo voltar á posição primitiva e termina-se a operação fixando a cabeça e a cauda. Deitado assim, temos á vista o campo vaccinal do vitello. b) Preparo da superfície a inocular. O preparo da região a vaccinar comprehende, o córte com a tondeuse dos pellos mais abundantes que a cobrem, a raspagem com a navalha, a lavagem com uma solução antiseptica, que em geral é aboricada, a4ô/0, emfim o enxugo, que deve ser feito com pannos finos e bem limpos. Na raspagem devemos manejar a navalha com todo o cuidado afim de não nos arricarmos aferir o animal. cj Inoculação propriamente dita. Este terceiro tempo póde ser praticado ou com a vaccina colhida directamente das pustulas de um outro vitello, ou então, podemos nos servir da vaccina conservada em tubos. 51 Para fazermos a inoculação é preciso abrir a porta por onde ella deve se dar. Esta é constituída por incisões em geral de tres a quatro cen- tímetros de extensão, e numerosas 40, 50 e mesmo mais e asses- tadas no ventre e região escrotal (no vitello), no ventre e região inguino-mamaria (na vitella). Nos intervallos deixados pelas incisões, podemos fazer algu- mas inoculações por picada. E’ bom declarar que estas incisões não devem ser profundas, mas só interessando a pelle, e para isso a lanceta deve ser utilisada com toda a leveza de mão. Estamos em condições de semear a vaccina, e para esse fim, com uma lanceta de lamina larga, collocamol-a em cada uma das soluções de continuidade operatórias. Deixamos o inoculado cm repouso por algum tempo sobre a mesa, afim de que se dê a competente impregnação vaccinal. Um avental é collocado de modo a proteger a superfície ope- rada, o animal é retirado da meza e levado para o estábulo, onde deve ficar isolado dos outros vacciniferos, devendo também pren- der-se-lhe a cabeça com uma colleira, de modo a impedir que elle possa lamber o campo operado. EVOLUÇÃO DA VACCINA NO ANIMAL Feitas as inoculações, observemos os phenomenos por ellas determinados. Digamos desde já, qne no animal a evolução vaccinica é mais rapida do que no homem. Dois dias após a vaccinação, vemos apparecer ao redor das incisões feitas, um ligeiro circulo avermelhado; no decorrer do terceiro dia, observa-se uma verdadeira placa endurecida debaixo de cada inoculação, no quarto dia os bordos da placa tornam-se mais salientes, depressão central escura, areola de um vermelho vivo. 52 Entre o quinto e sexto dia obtemos a pustula em todo o seu desenvolvimento. Apresenta-se com uma base vermelha e endurecida, e affecta a fórma alongada de uma fava com centro deprimido e coberto de uma crosta, tendo mais ao redor uma zona entumescida, tran- sparente. E’ n’estas condições que ella deve scrvirpara a colheita da accina. Do nono dia em diante começa o processo de dessicação. No fim do 16° e 17° dia cahem as crostas que cobrem as pustulas. Esta é a evolução normal da vaccina no vitello, quando pro- cedemos por incisão ou escharificação. Quando as inoculações são feitas por picadas, a pustula apre- senta-se arredondada, e a sua evolução se fez pouco mais ou me- nos, como uas obtidas pelo primeiro processo. Diz Warlomont, que o apparecimento da erupção vaccinal é mais tardio nas inoculações por picadas ; nõs, porem, não temos observado este facto. Nem sempre o desenvolvimento das pustulas se faz assim regularmente. Ora a erupção se precipita, e nestas condições o animal tem muita febre, e abundante suppuração. Podemos apresentar uma pustula que se apresente d’este modo ? Divergem as opiniões : uns acreditam que deve ser abando- nada completamente, e portanto, absolutamente regeitado o seu aproveitamento na colheita da vaccina : outros, que tendo-se prévio cuidado de expurgal-a de todo o pús que contém, la- vando-a com uma solução phenicada fraca, podemos, sem receio, delia nos utilizar. 53 A nossa opinião é que em matéria de vaccina devemos primar pelo maior escrupulo, que n’este caso é perfeitamente justificável e portanto nos filiamos á maneira de pensar dos primeiros. Algumas vezes os vitellos vaccinados apresentam-se com diarrhéa, e meteorismo, o que se reflecte sobre a evolução vacci* nica, retardando-a. Se estes symptomas cedem facilmente a uma medicação apro- priada, como sejam, mignesia calcinada, poções laudanizadas, o bismutho, etc., podemos aproveitar as pustulas de que são pos- suidores; mas si persistentes se mantiverem, então é de boa praxe não colhermos a vaccina nas pustulas, que se apresentarem. 9.° Colheita e conservação da vaccina — Já dissemos que a evolução vaccinica no vitello, se manifestaem todo o seu desenvol- vimento entre o quinto e o sexto dia após a inoculação. E’ justamente esta a occasião propicia á colheita da vaccina. Isto não quer dizer que si a colhermos no fim do terceiro ou quarto dia não obtenhamos resultados satisfactorios, podemos sobretudo fazel-o nas vaccinações urgentes ou isoladas. Mas comprehende-se igualmente que esta colheita precoce não è recommendavel quando tivermos de inocular grande numero de individuos, pois precisamos dispor de uma fonte abundante de elemento vaccinal, abundancia essa que só obteremos quando todas as pustulas apresentem o máximo desenvolvimento. E podemos colher a vaccina em epocha posterior áquella acima fixada (quinto ao sexto dia)? Não o devemos fazer, pois poderiamos passar pelo dissabor de incluirmos no producto d’esta colheita, os elementos de uma suppuração que já se estivesse processando. Lanoix acredita que no correr do sétimo dia éque a operação a que nos estamos referindo, faz-se com mais vantagem, e para 54 isto appella para a variabilidade da evolução vaccinal segundo as condições de temperatura. O facto, n’cste ponto é verdadeiro ; sabemos perfeitamente, que durante o verão a evolução se apressa, emquanto que o in- verno retarda-a. Em nosso paiz, porém, não sendo estas variantes de tempe- ratura muito accentuadas, adoptamos o quinto e o sexto dia para a pratica da operação que estudamos. Vejamos como ella é feita. O processo é bastante simples, e o instrumental empregado nada tem de complicado : pinças de Chambon (de pressão continua e rectasj e que nós preferimos a quaesquer outras, como as de Lanoix (curvas), Belluzi, etc., e a lanceta, modelo do auctor que primeiro citamos; si a este resumidissimo instrumental juntarmos os tubos de vidro afilados nas extremidades, e o gral, se queremos preparar a polpa vaccinica, estamos aptos a começar o nosso trabalho. Retirado o avental que cobre a superfície vaccinada do animal, e que elle deve trazer até a occasião da colheita vaccinal, é esta superfície lavada com uma solução boricada. Cada pustula é presa pela sua base por duas pinças de Chambon, uma collocada acima, a outra inferiormente. Pela àcção da lanceta destaca-se a crosta, e apparece-nos a supperficie da pustula. A compressão determinada pelas pinças faz então correr a lympha, a ella encosta-se o tubo afilado de que falíamos, e por elle penetra a vaccina liquida, que differe bastante da lympha humana, pois a animal apresenta uma notável plasticidade, e tem grande tendencia á coagulação. A vaccina humanizada conserva-se fluida, e não tende a espessar-se. E’ este o meio de fazermos a colheita da vaccina em estado liquido, mas ella é pouco activa, actividade que em geral não se manifesta além das 24 ou 48 horas que se seguem á operação. 55 No Instituto Vaccinieo é preparada e empregada systhematica- mente a chamada polpa vaccinica glycerinada ou vaccina semi- líquida. Eis a technica do seu preparo : E’ a mesma empregada na colheita da lympha, até ao ponto da retirada da crosta que cobre a pustula. Esta é raspada com a lanceta, e o producto da raspagem é recebido em um gral de porcellana esmaltada, perfeitamente aseptico. Naturalmente a lympha também é acarretada, e então pri- meiramente fazemos uma pequena trituração d’estas duas partes das pustulas, a solida e a liquida, ajuntamos depois partes iguaes de glycerina perfeitamente neutra e agua destillada, misturamos bem o producto obtido, e para que a. polpa apresente-se homo- génea, levamol-a ao triturador de vaccina. Ha dous modelos d’este apparelho, o horizontal e o vertical. Ambos desempenham perfeitamente o papel importante que lhes é incumbido; o primeiro, porém, tem o inconveniente de funccionar por meio de pedal, o que é bastante fatigante para o operador, d’onde resulta maior demora no trabalho. O triturador vertical não apresenta esta desvantagem, é mo- vido por meio de um motor a gaz. Gomo o primeiro, é metallico e compõe-se de duas parles principaes: um funil collocado superiormente e uma haste em espiral que o atravessa* No funil é collocada a polpa, que, atravessando a segunda parte do apparelho, sahe na inferior perfeitamente triturada. A trituração da vaccina póde ser feita também sem o em- prego de apparelho algum especial; è o chamado processo de tri- turação cí mão, n’estes casos basta que se disponha de um gral e do seu competente pilão. 56 0 resultado do trabalho, rrestas condições deixa algum tanto a desejar sob o ponto de vista de perfeição. Para maior cuidado, e como a polpa póde encerrar alguns pellos, detrictos epidérmicos e outras impurezas, é de boa pratica leval-a a um tamis de téla bastante delicada, afim de expurgal-a d’estes corpos extranhos. Estamos agora habilitados a proceder ao enchimento dos tubos. Para isso empregamos tubos de vidro de 8 a 9 centimetros de extensão e com um diâmetro de 1 millimetro nos quaes a vac- cina penetrará por uma ligeira aspiração. O operador deverá ter o cuidado de não encher completamente o tubo, e sim deixar um espaço vasio de 2 a 3 centimetros em cada extremidade. Esta precaução é necessária para evitar que se queime a vaccina, na occasião do fechamento dos tubos, fechamento que è feito por intermédio da lampada de esmaltador. Acabamos de mostrar n’estas rapidas linhas o processo de preparação e conservação da vaccina usado em o nosso Instituto Vaccinico Municipal, a exemplo do que pratica em Pariz o Sr. Chambon, e podemos garantir com toda a convicção que nos dá a nossa observação pessoal, que os resultados com elle obtidos são magníficos, quer sob o ponto de vista da actividade virulenta, quer quanto á durabilidade d’esta actividade. Enviando vaccina para quasi todos os Estados da União, o Instituto recebe constantemente das autoridades sanitarias d’estes Estados, confirmação escripta do que acabamos de dizer. Seja-nos permittido transcrever aqui dois finaes d’estas communicações: Eis como se exprime o Dr. Marinho de Andrade, inspeclor de hygiene do Geará : «A inoculação da vaccina nos indivíduos foi feita com o mais brilhante resultado. 57 Só no collegio das educandas, 60 meninas ficaram perfeita- mente vaccinadas.» A inspectoria de hygiene de Ouro Preto termina o officio cm que accusa o recebimento dos tubos vaccinicos, deste modo «o resultado das inoculações é sempre lisongeiro, sendo a proporcio" nalidade de successos nos vaccinados de 100 %.» E como estes muitos outros attestados comprobatorios da efficacia da vaccina por nós preparada, e que se encontram espe- cificados no folheto que o nosso illustrado director o Dr. Pedro Affonso, publicou este annosob o titulo — Destribuição da vaccina pelos Estados. Consignaremos agora um facto que vem provar que a conser- vação da polpa glycerinada é perfeita muitos mezes mesmo após o seu encerramento nos tubos : Da ultima vez que o Dr. Pedro Affonso partio para a Europa» d’aqui levou 10 tubos de vaccina. Lá demorou-se onze mezes e quando voltou, com ella inoculou não só um vitello, como praticou a vaccinação em algumas crianças. Pois bem, quer em um, como nas outras, obteve pustulas vaccinicas esplendidas. D’este successo foram testemunhas além do auctor do presente trabalho, os seus amigos e companheiros de serviço, Drs. Toledo Dodsworth, Sylvio Muniz, S. Thiago e Abreu Fialho. Cremos ter conseguido demonstrar com argumentos poderosos o que anteriormente tinhamos affirmado ; ficando complelamente batido o principio estabelecido pelos inimigos da vaccina animal, e mesmo por alguns de seus adeptos, de que ella é dificilmente conservada. Não podemos deixar de citar alguns outros processos de preparo e conservação da vaccina animal, o que faremos rapida- mente : 58 0 de Pissin fLeipzig) — Elle colloca o conteúdo da pustula em um vidro de relogio, e ajunta glycerina diluida na razão de uma gotta para cada pustula, faz a mistura de modo a obter uma especie de ex trado, que no fim de algum tempo é encerrado nos tubos. O de Pfeiffer (Weimar) — As pustulas são raspadas ligeira- mente, e sobre ellas colloca-se um pouco de glycerina, depois, a raspagem ó feita de modo a destacar a base da pustula. Faz-se a trituração com uma mistura de cincoenta partes de agua e glycerina e meia parte de acido salycilico, de modo a obter- se uma pasta imputrescivel. Warlomont preconisa a polpa glycerinada e a pomada por elle preparadas. No preparo da primeira elle aproveita a base da pustula que tritura em agua glycerinada. O uiodus-faciendi da segunda, elle não descreve conveniente- mente no seu Tratado de vaccina. (I) Leclerc prepara e conserva uma especie de electnario vaccinico. Recolhe primeiro a lympha ; quando ella deixa de correr, raspa e aproveita toda a pustula, crosta e partes superficiaes do derma, e o producto d’esta operação é collocado em um vaso de vidro, contendo uma mistura de partes iguaes de agua distillada e glycerina; esta polpa, á qual elle ajunta os coalhos formados na lympha previamente coibida, é triturada com um pouco de assucir. Ao pó húmido assim obtido ajunta a glycerina e termina a operação incluindo um pouco de gomma. Vaccina em pó.—Pontas de marfim.—Na Inglaterra ha muito tempo é usado este processo na conservação da vaccina humana. Warlomont applicou-o á da vaccina animal. O seu emprego está hoje completamente abandonado. ( 1 ) Como muito bem diz Vaillard em seu Manual pratico de vaccinação animal. 59 Polpa dessicada.—Foi Troppoli o primeiro que empregou este meio de conservação da vaccina. Foi imitado por Verardini, que teve numerosos imitadores* Em Darmstadt, o Dr. Reissner, prepara o pó vaccinal por intermédio de um dessicador a acido sulpliurico, no qual é collo- cado a polpa retirada das pustulas. No fim de alguns dias esta apresenta-se completamente secca, segue-se a trituração e a tamização atravéz da musselina. Quando se quer empregar este pó, colloca-se-o em um vidro de relogio com uma quantidade igual de agua glycerinada. Furst, grande apologista da conservação da vaccina em pó, prepara-a em uma estufa secca ; utilisando-se de um filete d’agua como aspirador, elle dirige sobre a vaccina uma corrente de ar tépido, filtrado em algodão salycilicado, e dessicado pelo chloru- reto de cálcio. Os tubos contendo a polpa glycerinada, de cujo preparo nos occupámos em primeiro lugar, devem ser conservados ao abrigo do calor e da luz, tal é % opinião da maioria dos auctores que se occupam d’este assumpto, outros, porém, acreditam que ella não é visivelmente influenciada pelos dois agentes physicos referidos. O processo de fechamento dos tubos pela acção do calor, é incontestavelmente superior a quaesquer um dos outros empre- gados: parafina, cêra, etc. Em nosso paiz, sobretudo, elle adquire um valor considerável, á vista da temperatura elevada em certos mezes do anno, tempe- ratura que póde actuar sobre estas substancias, e tornando por isso incompleta a sua acção occlusora. As conservas de vaccina apresentam vantagens reaes : Assim, nem todas as cidades podem dispor de um instituto vaccinogenico, cuja manutenção acarreta sempre despezasmais ou menos consideráveis. 60 E depois comprchende-se facilmente a dilíiculdade que ha no transporte dos vitellos vacciniferos. Demais sendo a vaccina conservada perfeitamente inoffensiva, e mantendo, sobretudo uma d’estas conservas,(polpa glycerinada) por longo tempo a sua virulência, é curial o grande beneficio por ella trazido na prophylaxia da terrível variola, assolando popula- ções longínquas. PROCESSOS DE INSERÇÃO DA VACCINA NA ESPECIE HUMANA 0 viras vaccinico póde ser introduzido no organismo ou retirado directamente do vitello ou então por intermédio da Yac- cina conservada. O Dr. Hublé, em seu «Précis de la vaccine e de la vaccination moderne», assignala um facto, que temos tido occasião de observar: a inoculação feita com a vaccina recentemente retirada do animal, produz phenomenos inflamatórios muito intensos, emquanto que com o emprego da polpa, obtendo-se um resultado muito satis- factorio, estes phenomenos não se manisfestam com tal violência. Para elle a polpa preferida é a conservada por espaço de dois mezes. O ideal da vaccinação seria para este illustre medico militar, a praticada com a polpa glycerinada, como se depreliende do sego in te trecho do seu trabalho : «C’est à cette conserve ( polpa glycerinada ) qivappartient de la transformation, que nous souheterions aussi radicale qu’elle est justifiée, de la pratique de la vaccine.» Dos methodos empregados na operação que estudamos, uns são pouco usados, outros completamente abandonados, e que só têm valor historico, emfim a classe dos actualmente acceitos como capazes de preencherem os fins a que se destinam. Comecemos por estes últimos: 61 Io Inoculação por picada ou puncção. E’ este um processo muito antigo, e foi o único empregado emquanto durou a supre- macia da vaccina jenneriana. Elle tende, incontestavelmente a cahir em desuso, a vista das vantagens reaes que n’este particular offerece um outro processo, que estudaremos em segundo lugar. A inoculação por picada é feita por meio de agulhas cha- madas de vaccinar, e de que ha ditferentes modelos. (Depaul, Ma- thieu, Lorain, etc.) 2o. Inoculação por incisão ou escharificação. E’ este o processo hoje usado mais geralmente nas vaccinações e para nós domina qualquer outro. A sua pratica requer o emprego da lanceta, cujo modelo pre- ferido é o de Chambon, de cabo fixo, de lamina triangular. Outros instrumentos tem sido recommendados na technica d’este processo, (inoculador de Monteils, vaccinador trephino de Warlomont, etc.) mas têm sido abandonados visto como, sendo ém geral complicados, a sua desinfecção è sempre diíficil e duvidosa. O Dr. xMareschal apresenta como typo mais perfeito de instru- mento de vaccinar, o vaccinostylo de sua invenção, pequeno instru- mento de aço e que affecta a fórma e a extensão de uma penna de escrever sem fenda. A maior vantagem que tem este instrumento é que sendo individual, dispensa a desinfecção de rigorosa necessidade quando inoculamos varias pessoas com a mesma lanceta. Em todo o caso a anti-sepcia d’esta ultima não é cousa difiicil de obter-se, e, portanto, não achamos vantagem alguma em sub- stituil-a pelo vaccinostylo. Quando praticamos directamente a inoculação do vitelio a individuo procedemos do seguinte modo: retirada a crosta que cobre a pustula, raspamol-a com a lanceta, e o producto obtido é 62 collocado em pontos um pouco aífastados, na região anterior ex- terna dos braços dos vaccinandos. Sobre estes pontos marcados, é que fasemos as incisões cruciaes (em geral tres em cada braço). E’ inútil dizermos que antes da operação desinfectamos per- feitamente o campo vaccinal, com uma solução bórica (4 %). Estas incisões devem ser pequenas, um a dois millimetros de extensão, e superficiaes interessando somente o epiderma, o que evita quasi sempre a eífusão de sangue, que tão má impressão causa em quem assiste ao trabalho e que tem o grande inconve- niente de poder acarretar a vaccina, impedindo que a sua pene- tração se dê. Este processo tão simples tem ainda a vantagem de não de- terminar dòr, que se no adulto não tem grande importância, nas crianças a sua manifestação não só muito incommoda o vaccinador pelos movimentos bruscos por ellas determinados, como também o chôro que inevitavelmente apparece, muita influencia tem nos âni- mos dos paes. Nós mesmos, em nosso serviço de vaccinação em estalagens, tivemos occasião de verificar a efficacia deste modo de inserção vaccinal. Pessoas que a principio nos recebiam com toda a má vontade, e até certo ponto impedindo que cumprissemos o nosso dever, ter- minada a operação, nos perguntavam cheios de espantos — si isto é que era vaccinar ? ! A inoculação de tubo a braço é feita do mesmo modo. Quebradas as 2 extremidades do tubo, por uma delias so- pramos o conteúdo sobre a lanceta, que assim carregada é levada ao braço do vaccinando. Vejamos agora os processos completamente abandonados : d° Methodo das fricções, ou dia-epidermico.— Aqui a vaccina penetraria no organismo por uma verdadeira endosmose. Ora sabe- mos perfeitamente que para que um germen penetre na economia é preciso uma porta de entrada. Com certeza os resultados apre- 63 sentados por Morlanne, que foi o iniciador d'este processo, corre- riam por conta das soluções de continuidade que estas fricções violentas produziam no epiderma. (1) Além disso comprehende-se perfeitamente que grande quan- tidade de matéria vaccinal era necessária para operar em tão ex- quesito processo! 2o Methodo endermico.—Este era um verdadeiro processo de barbaros, pois consistia em descobrir o derma por meio de vesi- catório, e alli inserir a vaccina. Faltemos agora dos methodos pouco usados: São dois os principaes. Io Methodo hg poder mico. Aqui a vaccina é introduzida em grande quantidade nas partes profundas da pelle,rede de Malpighi, e tecido cellular sub-cutâneo. O instrumento usado neste processo é chamado vaccinador de Bourgeois, que consiste em um recipiente flexivei, do qual se faz, por pressão, surgir a vaccina de uma agulha fina, tubulada, á semelhança das que se adaptam á seringa de Pravaz. Gomo se vê, este modo de vaccinar, deixa algum tanto a de- sejar sob o ponto de vista de simplicidade, complicando de al- gum modo operação tão simples e que deve ser praticada rapidamente. Começou a ter applicação naltalia, no começo deste século, sendo o seu introductor Sacco, que teve como continuadores em França, Bourgeois e Caídas. 2° Methodo de raspagem epidérmica. Encontramos em um dos numeros deste anno do Bulletim Geral de Therapeutica um ar- tigo do Dr. Jorissene no qual este medico apresenta um processo de vaccinação, de cuja concepção e execução elle reclama a prio- ridade e extranha que o Sr. Hublé, em seu livro «Précis de la vac- cineet de la vaccination moderne», não se refira á seu nome.e at- tribua esta innovaçãoaos Srs.Baffinesque, Masson e Paul Raymond. (1) Hublé—ob. citada. 64 Antes de apresentar a technica do seu processo, o auctor da communicaçâo estabelece as seguintes conclusões: Io Não é bôa a vaccinação que acarreta escoamento de sangue. 2o As incizões superíiciaes são superiores quer como me- thodo de vaccinação quer relativamente aos resultados a obter, ás picadas ou puneções. 3o As incizões dão muitas vezes origem a pustulas enormes (géantes) confluentes e múltiplas. Estamos plenamente de accôrdo com o Dr. Jorissene quanto ás duas primeiras affirmativas, mas quanto á terceira, podemos garantir, de accôrdo com a nossa observação pessoal, que ha por parte do articulista, visivel exagero. Com effeito, em nossa pratica de serviço de vaccina- ção, nunca observamos as taes pustulas gigantes, e entretanto só vaccinamos pelo methodo da incisão, que é o seguido no Instituto Vaccinico Municipal. E como explica elle estas pustulas enormes e confluentes ? Só em uma hypothese ellas poderão manifestar-se nestas con- dições, e neste caso o defeito correrá por conta do vaccinador, que, verdadeiramente desastrado, fizer grandes escharificações, muito aproximadas umas das outras. Tendo-se porém, o cuidado de operar por pequenas incisões de 1 a 1 x mill. de extensão, (3 em cada braço, como já disse- mos) e mediando entre ellas um espaço de 5 a 6 centimetros, ab- solutamente não corremos o risco de obter uma pustulação com os caracteres assignalados pelo auctor citado. Eis o processo: Com uma lanceta, bisturi, ou pequeno tenotomo, instru- mento preferido por Jorissene, attrita-se fortemente a pelle pre- viamente destendida, do braço do individuo a vaccinar. Por este attricto é destacado um pequenino quadrado epi- dérmico de 3 mill. de lado. 65 Descoberto assim o corpo mucoso do derma, ahi é collocada a gotta vaccinal. Apezar dos elogios que merece por parte do seu descobridor, não achamos absolutamente que o processo apresentado, possa supplantar o das incizões. Primeiramente, a sua pratica deve ser mais demorada, o que não deixa de ser bastante inconveniente, sobretudo quando é grande o numero de pessoas a vaccinar, depois, por mais que ga- ranta o Dr Jorissene, não podemos acreditar, que a vaccinação pelo methodo em questão, se faça sem dòr, determinando apenas, como diz elle, um ligeiro prurido muito passageiro. Em conclusão, o moclus faciendi por excellencia, da in- serção vaccinica, é para nós o methodo das incisões, que acha- mos deve ser sempre preferido a qualquer outro; eis a razão por que collocámos o processo da raspagem epidérmica no grupo d’a- quelles pouco usados, nas operações vaccinaes. EVOLUÇÃO DA VACCINA NO HOMEM Penetrando na economia o germen productor da vaccina, quaes phenomenos por elle determinados ? São de 2 ordens estes phenomenos:—os de reacção local e os de reacção geral. Estudemol-os: A evolução normal da vaccina comprehende quatro phases distinctas: 4 a Incubação. 2a Erupção. 3* Maturação (periodo de estado). 4a Dessicação. O periodo de incubação dura geralmente tres dias. No fim do terceiro dia, ou ao começar o quarto, manifesta-se a erupção,sob a fórma de pequena elevação papulosa avermelhada. 66 No decorrer do quarto dia a papula enche-se de liquido (lym- pha) e toma a forma de vesícula um pouco achatada. No quinto dia o botão achata-se ainda mais, apresentando no centro uma depressão umbellicada, ao redor da qual se fórma a zona lymphogenica, apparece uma pequena areola peripherica, e ligeiro endurecimento. Entre o 6o e o 7o dias surge a pustula umbellicada, e rode- ada de uma areola mais ou menos vermelha e brilhante. No 7o dia manifesta-se a pustula em todo o seu esplendor, a depressão central é excavada, a zona lymphogenica é bem clara, transparente, de rebordos elevados e direitos, o endurecimento é muito manifesto. No 8o e 9o dias os phenomenos que se passam são os seguin- tes: a pustula apresenta grande desenvolvimento, a depressão umbellicada augmentada, não ha mais a transparência da zona lymphogenica, a areola é extensa e diíTusa, os ganglios axillares se engurgitam. Este signal de infecção póde apparecer desde o 6° ou 7o dias. No 10° dia os phenomenos de reacção local perdem a sua in- tensidade, a areola descora-se e apparece a crosta. Do 11° dia em diante começa o periodo de dessicação,a crosta torna-se espessa e apresenta uma coloração pardacenta. Dias depois, da-se a quèda desta crosta, deixando vêr uma cicatriz avermelhada e indelevel, que mais tarde torna-se branca. E’ do 6o ao 9o dia que se mostra a febre da vaccina, febre ephemera, sem maior gravidade, acompanhada apenas de ligeiro máo estar. Este symptoma de reacção geral é mais commum no adulto do que nas crianças, e podendo-se apresentar com igual frequência quer nas vaccinações quer nas revaccinações, não sendo esta a opinião de Hublé que acredita ser mais commum nestas do que n’aquellas. 67 Acabamos de apresentar o typo da evolução normal vaccinica na especie humana. Não é raro observarem-se modificações e anomalias no evo- luir da vaccina, e que devem ser conhecidas, pelo menos as principaes. a) Erupção retardada. Muitas vezes na evolução da vaccina, o periodo de incubação é muito longo. Nestas condições a erupção apresenta-se em tempo muito mais remoto que aquelle em que ordinariamente sóe ma- nifestar-se. Ha um caso citado por Bousquet em que á pustulação só appareceu no fim do 20° dia após a inoculação. Esta demora no apparecimento das pustulas caracteristicas da vaccina, póde nos induzir a pensar que a inoculação não se tenha dado, e portanto tornamos a fazer uma segunda inserção vaccinal, e obtemos dias depois a erupção simultânea das duas inoculações. A anomalia que estudamos, em geral reconhece como causa a constituição debil e doentia dos individuos, ou então póde cor- rer por conta de um certo gráu de resistência do organismo, o que explica quasi sempre o facto de inocularmos sem proveito duas e tres vezes a mesma pessoa, conseguindo por fim a erupção vac- cinica, apresentando-se esta tardiamente. b) Vaccina generalizada. Pode-se algumas vezes observar fóra dos pontos em que foi feita a inserção da vaccina, uma erup- ção constituída por botões em numero muito variavel, e cujos ca- racteres são os da pustula vaccinal. São as chamadas vaccinides. Gomo se explica esta erupção generalizadada ? Eis uma questão muito descutida, e sobre a qual ainda não se chegou a um -accôrdo. Layet e muitos outros autores as attribuemá auto-vaccinação em consequência do contacto das pustulas vaccinicas com uma superfície desnudada, irritada. 68 Outras vezes, diz o auctor citado, o transporte da vaccina a uma região em que a pelle já affectada offerece uma via facil á sua inserção, se faz indirectamente, ou por intermédio dos dedos do proprio vaccinado, ou por pessoas extranhas, Peter, em um artigo publicado no Mercredi Medicai, refere o seguinte facto, que parece dar valora opinião de Lavet: Trata-se de um menino de seis annos affeetado de eczema generalisado. Apresentava-se com o corpo litteralmente coberto de pustulas com todos os caracteres da erupção vaccinica. Esta criança nunca tinha sido vaccinada, mas referia que se banhara na mesma agua em que se tinha lavado a irmã vac- cinada alguns dias antes. Gonclue Peter que a absorpção do virus vaccinico se fez n’este caso pela pelle desnudada', o que determinou a erupção da vaccina generalisada. Que o transporte da vaccina póde dar por intermédio dos dedos a pontos mais ou menos distantes d’aquelles em que existe a pustula primitiva, não ha duvida. O Dr. H. Bresson, refere um caso de vaccina accidental na palpebra superior, e no qual elle figura como victima. Estanto este medico a vaccinar publicamente, casualmente levou o dedo, cuja unha continha um pouco de vaccina, á palpebra superior, e attritando-a, ahi determinou uma excoriação que veio a ser a séde de uma pustula umbellicada typica. Outros autores acreditam que o virus vaccinico, independente da acção local que exerce nos pontos em que é inserido, actúa sobre toda a economia, absorvido, comoé, pelos vasos que o levam á corrente circulatória, isto é, a todos os pontos do organismo ao mesmo tempo. Tal é a opinião de Dauchez, Longet, Hublé Jeanselme, etc. Para elles essas erupções supra-numerarias, apparecem quasi sempre alguns dias após o começo da evolução local da vaccina, antes que a immunidade vaccinal seja adquirida. 69 Admittimos o auto-contagio estabelecido por Layet, até certo ponto, isto é, quando as pustulas supranumerárias são em pe- queno numero e circumscriptas. Gomo, pergunta Hubíé, admitlir que a totalidade do exan- tliema, tenha por causa o transporte da vaccina por intermédio dos dedos, quando o indivíduo se acha coberto de grande numero de botões vaccinaes, disseminados e assestados em partes do corpo inaccessiveis á mão ? c) Falsa vaccina. Gomo se apresenta esta fôrma anormal de erupção vaccinal? Nos pontos de inserção da vaccina apparecem erupções insi- gnificantes, vesículas pouco desenvolvidas, perceptiveis logo no segundo dia após a inoculação. Estas pequenas vesículas, que alguns denominam de vacci- noides, seccam rapidamente, sem apresentarem a umbellicação caracteristica da pustula vaccinica. Devemos attribuir poder immunisante a estas manifestações attenuadas da vaccina ? Eis uma questão que tem sido e é muito controvertida na sciencia. De um lado vemos Hervieux sustentando o actividade preser- vadora da falsa vaccina e nos seguintes termos: «La fausse vaccine n’est que la vaccine vraie, parce qu’elle peut fournir la vaccine eomme elle e preserver comme elle. Nier cette verité, j’estime que ce serait un contresens phy- siologique et une hérésie pathologique: un contresens pbysio- logique, parce que je ne sache pas qu’on ait jamais vu les pro- duits d une espòce quelconque appartenir a une espèce autre que celle de leurs auteurs; une hérésie pathologique parce que la fausse vaccine, n’est pas comme son nom findiquerait, toul autre chose que la vaccine, mais de la vaccine, rien que la vaccine modiíiée par les vaccinations anterieurs.» 70 Montpellier nega a existência da falsa vaccina, e diz que todas as vezes que a vaccinação fôr seguida de erupção local, esta é ver' dadeira vaccina, e, portanto gosa da acção immunisante, Temos mais na arena da discussão, combatendo pela legiti- midade da falsa vaccina Reverehon, M. Olivier, Berthier, e muitos outros mestres em vaccina. Layet discorda da opinião que acabamos de citar e diz que a falsa vaccina è caracterisada por um trabalho inflammatorio local significando a resistência que o organismo oppõe a servir de meio de cultura ao virus vaccinico e a sua consecutiva penetração. E’, diz elle, como que uma lucta entre a vaccina e o orga- nismo dotado de immunidade, immunidade esta que quanto maior fôr, mais probabilidades terá a falsa vaccina de apresentar-se. O professor de Bordeaux concede, entretanto, á falsa vaccina, o poder de, em terreno perfeitamente reccptivel, apresentar-se com os caracteres de uma verdadeira vaccina. Chama mais a attenção para a differença notável que existe entre a falsa vaccina existente em crianças revaccinadas, e a que é observada no adulto. Nas primeiras, os phenomenos inflammatorios determinados pela erupção vaccinal não são tão intensos, os botões mostram-se sob o aspecto vesicular, o tempo de sua duração é mais demorado. No segundo, os botões vaccinaes são muitas vezes dolorosos, tomam o aspecto íurunculoso, cobertos por uma crosta negra- espessa. Emfim, acredita que em certas circumstancias, raras, a falsa vaccina signifique uma verdadeira alteração séptica do virus vac- cinico, já por ter passado por organismos suspeitos, já como con- sequência de uma irritação local de natureza infecciosa e refere um facto d’estes no qual houve a lamentar a morte de seis crianças. Para nós, um individuo estará verdadeiramente vaccinado, isto é, estará em plena posse das garantias que o grande prophy- 71 láctico da varíola lhe concede, quando n’elle a pustula evoluir d° modo normal, e apresentar os caracteres essenciaes da verdadeira pustula vaccinal. Todas as vezes, pois, que pela inoculação obtemos uma falsa vaccina, systematicamente aconselhamos á pessoa por nós vacci- nada, que se sujeite a uma vaccinação, e só assim ficaremos com a nossa consciência tranquilla. E’ este o modo de proceder do pessoal, que sob a proficiente direcção do Dr. Pedro Affonso, funcciona no Instituto Vaccinico Municipal. Hublé, cita ainda uma anomalia, que a seu ver, póde se apresentar, bem que excepcionalmente na evolução da vaccina. E’ a vaccina sem erupção local, e que ello denomina vaccine fruste. Garactcriza-se apenas pela febre vaccinal. O auctor citado refere que inoculações vaccinicas ulterior- mente praticadas nos possuidores desta vaccina especialíssima ficaram sem resultado, provando por conseguinte, que se dera a absupção do elemento virulento. Nunca tivemos occasião de observar o facto citado por Hublé, por isso apenas o referimos. OBRIGATORIEDADE DA VACCINA Salus populi suprema lex esto. A vaceinação deve ser obrigatória ? Percorrendo as paginas de nossa these, pesando os conceitos que emittimos, analysando os trabalhos dos grandes vultos da sciencia, e nos detendo ante a eloquência esmagadora das esta- tísticas sobre os resultados da vaccinação anti-variolica, não é licito duvidar da affirmativa a esta interrogação. As grandes descobertas scientificas só projectam luminoso clarão illuminando o mundo quando firmadas em factos indiscu- tiveis, provados á saciedade, resistindo aos mais violentos emba- tes, sem que nada possa alluir os alicerces de um editicio assim construído pela verdade da observação de todos os tempos, de to- dos os dias e de todas as horas. E assim é a descoberta de Jenner ! Não obstante a consagração universal sobre seus beneficos ef- feitos, ella obedece á lei de todas as grandes descobertas: a lucta contra a ignorância, contra a má vontade, contra o espirito de seita e contra a má comprehensão de uma liberdade individual que não póde absolutainente deixar de ceder ante a necessidade do beneficio da totalidade. A obrigatoriedade da vaccina importa n’um attentado contra os direitos do cidadão ! 73 E’ este o argumento unieo de bem raros, felizmente, contra esta medida de tanto alcance sob o ponto de vista da hygiene publica. Bem fraco é o argumento ! Em todos os paizes cultos onde os governos procuram zelar pela felicidade do povo, se vè esta medida de prophylaxia incluída em seus codigos sanitários, muito embora sua utilidade pratica não possa atravessar todas as camadas sociaes e se impor a todas as mentalidades. A revolta contra os dogmas seientificos encontra sempre ele- mentos nas classes menos instruídas da sociedade e por isso, para que as auctoridades sanitarias possam imprimir o prestigio dos seus conselhos no espirito rebelde das populações, faz-se mister que haja a imposição da lei e o seu exacto cumprimento, porque só assim elles poderão produzir salutares eífeitos. A obrigatoriedade da vaccina se impõe, a nosso ver, como uma medida social de alevantado patriotismo. Impedir que as populações sejam dizimadas pelo terrível ílagello da variola, que victima cidades inteiras, arrastando de envolta com as vidas perdidas de milhares de indivíduos, o pâ- nico, o exodo, a desorganisação do trabalho, emfim um cortejo sinistro que se termina fatalmente pela ruina e pela miséria, con- stitue imperioso dever. Não ha quem em bôa fé, possa contestar a influencia da vaccina eque o meio unico de evitar-se de uma vez a explosão de terríveis epidemias é a vaccinação obrigatória. Por demais eloquentes são os documentos dos seus resulta- dos em todos os paizes do mundo e que adiante transcreveremos. Em nossa patria infelizmente a obrigatoriedade da vaccina, estatuída pelo Decreto de n°. 68 de 18 de Dezembro de 1889, em seu artigo 5o, decreto promulgado pelo Governo Provisorio, não tem tido execução. E facto notável, esse Decreto promulgado pelo Governo de que fazia parte Benjamin Conslant, que, mais que ninguém zelava pela liberdade individual, de accôrdo com as doutrinas que pro- fessava, estabeleceu essa medida a titulo de protccção á infanda! E para mostrar como se torna urgente a regulamentação desse meio presentivo, até boje esquecida pelos poderes públicos, transcrevemos sem commentarios o seguinte trecho do Relatorio do anno de 1895, do illustre director do Instituto Vaccinico Mu- nicipal, e publicado no Jornal do Commerdo de 14 de Maio do cor- rente anno: «Os obitos em numero de 499 foram : 367 em não vaccina- dos ( 90%), 41 cm vaccinados, sendo 35 em adultos nunca revac- cinados, e 6 em crianças de 6 mezes e 3 annos, em periodo de incubação, e em 91 mortes as informações não foram bem precisas. Os obitos em não vaccinados, em extraordinária maioria, fo- ram de crianças de 1 a 3 annos de idade! O simples enunciado dos algarismos é mais que suííiciente para um protesto vehemente contra a indifferença dos poderes pú- blicos, na importantíssima questão de regulamentar a vaccinação obrigatória no Brazil.» Para vermos o que se passa nos outros paizes do mundo, passrms para o nosso trabalho o conceituoso artigo do Jornal do Commerdo de 8 de Outubro de 1891, que resume tudo quanto ha a respeito desta questão : « A famosa descoberta de Jenner, que nos deu seguro preser- vativo contra a variola, teria sido arma poderosa para que seme- lhante mal epidemico desapparecesse da nomenclatura dos agentes da mortalidade, se não fosse a imperdoável negligencia que sem- pre se tem notado na importantissima questão de vaccinação e re vaccinação. 75 À sciencia tem provado até a evidencia, que a vaccinação em caso algum traz consequências más, e que, bem pelo contrario, offerece garantias de immunidade, ou, pelo menos, de resistência á enfermidade. Disse Jaccoud, que na variola a morte é a regra e a cura a excepção, nos individuos não vaccinados. A estatística de grande numero de paizes attesta o que a sciencia nos ensina. Com semelhantes dados ninguém póde pôr em duvida a efficacia da vaccina : seja ella praticada com a devida regularidade, e a variola desapparecerá, ou pelo menos só terá manifestações de caracter benigno. A vaccinação obrigatória é uma medida altamente huma- nitaria. E foi isso que tornou a variola quasi desconhecida na Allemanha : no período de 10 annos ( 1873-1883 ) sómente 9 soldados do exercito allemão foram acommettidos deste mal, íal- lecendo um apenas. O exercito inglez compõe-se de 170.000 homens e annual- mente recebe 35.000 a 40.000 recrutas. A mortalidade pela variola em 1883, desde que se estabeleceu a vaccinação regula- mentar, foi esta: 11 fallecimentos, dos quaes 9 na índia, onde, como se sabe, é a variola muito commum nos naturaes do paiz. 0 mesmo exercito inglez offerece outro exemplo: em 1885 falleceram 10 soldados, dos quaes 7 no Egyplo. No exercito francez poderíamos ir buscar muitos exemplos. Basta dizer, porém, que antes da vaccinação regular falleciam 200 variolosos por anno, termo médio, e que hoje a mortalidade por essa moléstia apenas attinge a 7 % Em quasi todas as cidades da Europa a vaccinação e revacci- nação são obrigatórias, como também a declaração dos casos de variola. Na Inglaterra a vaccinação é obrigatória (lei de 12 de Agosto 76 de 1867,) e toda a criança deve ser vaccinada nos tres primeiros mezes de idade ; estas infracções são punidas com prisão e grandes multas. Em varias cidades dos Estados-Unidos é também obrigatória a vaccinação, como é obrigatória a declaração da existência de variolosos. Em todo o império Allemão é obrigatória a vaccinação (lei de 8 de Abril de 1874) e as moitas por infracção são cobradas pela policia. Na Áustria não existe lei de obrigatoriedade, mas exigem-se certidões de vaccinação ás crianças para serem admittidas nas escolas, e a todos aquelles que se apresentam candidatos a qual- quer lugar na administração publica, no exercito, etc. Na Hungria a vaccinação e revaccinação são obrigatórias» como na Roumania, na Servia, desde 1872, e na Suécia, desde 1815. Na Noruega foi a vaccinação imposta por lei em 1810. Não ha sancção penal, mas ninguém se póde casar sem ter sido antes vaccinado. Na Dinamarca a lei de 4 de Fevereiro de 1871 tornou obri- gatórias a vaccinação e a declaração das enfermidades infecciosas. Na Rússia a vaccinação é obrigatória para o exercito, para as escolas, etc. Na Finlandia é também obrigatória. Na Relgica exigem-se certidões de vaccinação para admissão nas escolas, no exercito e na administração publica. Gomo em outros paizes, foi o clero convidado a fazer propaganda em favor da vaccina, afim de obter que as crianças se vaccinem ou revacci- nem por occasião da primeira communhão. Na França não é obrigatória, mas o governo não cessa de recommendal-a. E’ obrigatória no exercito, c em certos estabeleci- mentos exigem-se certidões de vaccinação. 77 Os sábios francezes esforçam-se no sentido da obtenção da lei obrigatória. Assim é que no Congresso Internacional de IIy- giene, em Pariz (1889) todos os illuslres congressistas manifes- taram, em brilhantes discursos, a necessidade de obterem do Poder Legislativo uma lei que consagre o principio da obrigatoriedade. Na sessão de 27 de Maio de 1890, o Comité Consultivo de Hygiene Publica da França approvou, em todos os seus pontos, o seguinte voto — formulado pelo Dr. Proust sobre a vaccina: «Considerando o Comité que a vaccinação e a revaccinação são os únicos meios de impedir o desenvolvimento da variola; Que estes meios prophyiacticos não apresentam perigo algum, quando praticados de accôrdo com as regras da arte ; Que não só não são perigosas em tempo de epidemia, como também que são o unico meio de deter a propagação do mal; Que a variola tem desapparecido quasi completamente nos paizes em que são regularmente praticadas a vaccinação e a re- vaccinação ; Que tal enfermidade deve dessapparecer dos paizes civilisados: Considerando, finalmente, que possuimos na vaccina animal uma fonte pura de vaccina que proporciona completa e absoluta segurança, podendo garantir todas eventualidades ; Emitto o seguinte voto ; Que por lei se tornem obrigatórias, na França, a vaccinação e a revaccinação.» Terminando, chamaremos a attenção dos poderes públicos para o seguinte quadro extrahido dos documentos recolhidos pela Commissão do Parlamento inglez, e que indicam a mortalidade annual média sobre um milhão de habitantes, antes e depois da introducção da vaccina em alguns paizes europeus: 78 PAIZES períodos antes e depois DA INTRODUCÇÃO DA VACCINA, AOS QUAES SE REFEREM OS DADOS SO- BRE A MORTALIDADE PELA VARÍOLA MORTA MÉDIA UM MI HABIT jtir * $ £ N .55 ts* LI DA D E SOBRE LHÃO DE ANTES § ** Áustria inferior 1777-1806 e 1807-1850 2.484 380 Áustria superior e Salzburgo.. Estiria 1777-1806 e 1807-1850 1777-1806 e 1807-1850 1.421 1.051 501 446 Hiria 1777-1806 e 1807-1850 518 244 Trieste 1777-1806 e 1838-1850 14.046 182 Tirol 1777-1803 e 1807-1850 911 170 Bohemia 1777-1806 e 1807-1850 2.174 215 Moravia 1777-1806 e 1807-1850 5.402 255 Silesia austríaca 1777-1806 e 1807-1850 5.812 198 Salicia 1777-1806 e 1816-1850 1.194 676 Westfalia 1876-1800 e 1807-1850 2.643 114 Bukovini 1787-1806 e 1807-1850 3.528 516 Berlin 1781-1805 e 1810-1850 3-422 176 Suécia 1774-1801 e 1810-1850 2.050 158 Copenhague 1751-1800 e 1801-1850 3.128 286 Na Allemanha onde a vaccinação obrigatória é perfeitamente praticada rezam as estatisticas: No anno de 1893 houve em todo o Império Allemão apenas 107 obtidos por variola, isto é, 2/2 por milhão de habitantes. No anno antecedente deram-se apenas 58. Todos esses obitos deram-se em regiões fronteiras. Estes algarismos demonstram claramente as vantagens da vaccinação obrigatória. Não são precisos mais valiosos argumentos em prol da obri- gatoriedade, essa é a idèa dominante em todos os tratados de Hygiene. 79 Quem quer que se tenha algo oceupado com a vaecinação e a varíola, chega sempre á mesma conclusão. Michel Peter, com uma violência de linguagem que a verdade jusliílca assim se exprime: « II esthonteux iVètre atteint par la variole.» ({) Com estas palavras terminamos o nosso modesto trabalho. Oxalá possamos chegará perfeição de ver apagado do quadro nosologico de nosso paiz o terrível morhus da varíola ! São estes os nossos sinceros votos e para sua realidade não economizaremos os nossos esforçcs, que de bom grado uniremos aos de tantos outros que como nós acreditam que: Salas populi suprema lex esto. (1) Hvblé,—Liv. citado. PROPOSIÇÕES CADEIRA DE PHYSICA MEDICA I As lentes biconvexas são verdadeiras lentes convergentes. II A distancia focal principal, differe quanto ao raio de cur- vatura e indice de refracção. III O fóco principal nas lentes biconvexas communs, quasi coin- cide com o centro de curvatura. CADEIRA DE CHIMICA INORGÂNICA MEDICA I A electrolyse é um phenomeno chimico. II O primeiro corpo que soffreu a electrolyse foi a agua em 1800, por Carlislee Nicholson. III Decomposta a agua pela electrolyse, o hydrogeno se accumula no pólo negativo e o oxygeno no positivo. CADEIRA DE BOTANICA E ZOOLOGIA I Os vegetaes, como os animaes, respiram. 82 11 O vegetal que não respira, morre III E’ de grandes vantagens para o homem, o oxygeno despren- dido pelos vegetaes. CADEIRA DE ANATOMIA DESCRIPTÍVA I Bulbo rachidiano é a porção do encephalo que se estende da protuberância e do cerebello á medulla espinhal. II As faces do bulbo, em numero de quatro, são distinctas em: anterior, posterior e lateraes. III A face posterior, que constitue o soallio do quarto ventriculo, apresenta grande importância, pelas numerosas origens nervosas. CADEIRA DE HISTOLOGIA I As artérias se compõem de tres túnicas: externa, media e interna. II A túnica media é a mais importante e se compõe de tecido elástico e libras musculares lisas. III Nas grossas artérias predomina o elemento elástico, nas pe- quenas, o muscular. 83 CADEIRA DE CHIMICA ORGANICA E BIOLOGICA I O chloroformio (C H C L3) foi descoberto em 1831 por Sou- berain, em França, e Liebig, na Allemanha. II Na industria o processo de preparação do chloroformio con- siste em fazer reagir em apparelho distillatorio, alcool|ethylico so- bre chlorureto de cal em presença de uma certa porção d’agua e empregando-se calor moderado. III O chloroformio é a substancia commumcnte empregada para a anesthesia geral. CADEIRA DE PHYSIOLOGIA THEORICA E EXPERIMENTAL 1 Pela respiração o sangue venoso transforma-se em sangue arterial. II Chegando aos pulmões o sangue apresenta-se escuro (venoso), quando sahe dos pulmões é vermelho, rutilante (arterial). III A transformação que acabamos de apontar faz-se á custa do ar athmospherico. CADEIRA DE ANATOMIA E PHYSIOLOGIA PATHOLOGICAS I Até hoje não se conhece ao certo qual seja o germem pro- ductor da vaccina. Este facto decorre do seguinte : o germen vaccinal não poude ainda, como o germen de outras moléstias infecciosas, ser isolado e cultivado. II 84 Tentativas feitas neste sentido não tiveram confirmação ul- terior. III CADEIRA DE PATHOLOGIA GERAL E HISTORIA DA MEDICINA I A herança é um attributo fatal 11 Grande numero de moléstias a reconhecem como factor de sua producção. III D’entre ellas, a syphilis, por es'sa razão chamada hereditária, é uma das mais communs. CADEIRA DE CHIMICA ANALYTICA E TOXICOLOGICA N’uma pesquiza toxicologica, deve-se separar primeiro o veneno da matéria organica. 1 II Quando o veneno é constituído por corpos metallicos, são o fogo a nú ou certos agentes chimicos enérgicos, os empregados n’esta pliase da operação. III Para os venenos de outra especie empregam-se os processos physicos: distillações, etc., ou processos chimicos; composições, decomposições, precipitações, etc. CADEIRA DE PATHOLOGIA INTERNA I O agente productor do paludismo é o plasmodio de Laveran. II O paludismo affecta fôrmas variadas. Os sáes de quinina constituem o seu tratamento soberano. III 85 CADEIRA DE THERAPEUTICA I O leite, verdadeiro alimento completo, constituo um dos bons medicamentos. II Festas condições é um bom diurético. E’ largamente empregado no tratamento das nephrites. CADEIRA DE MATÉRIA MEDICA, PHARMACOLOGIA E III ARTE DE FORMULAR I Podemos administrar o chloroformio, interna ou externamente. II No segundo caso clle é empregado ou em natureza ou em pommadas, linimentos, etc. III A agua chloroformada (solução aquosa do chloroformio) póde representar o papel de excepiente ou o de agente principal. CADEIRA DE HYGIENE E MESOLOGIA I O unico prophylactico da variola é a vaccina. II A pratica da vaccina jenneriana deve ser abandonada. 111 A obrigatoriedade da vaccina é uma necessidade impres- cendivel em todos os paizes que se dizem civilisados. CADEIRA DE OPERAÇÕES E APPARELHOS I A tracheotomia é uma operação que podemos considerar de urgência. 86 II A sua principal indicação é nos casos em que ha receios de asphyxia. III Póde ser praticada por dous methodos: o rápido (de Chas- saignac) e o lento (de Trousseau). CADEIRA DE ANATOMIA MEDICO-CIRURGICA E COMPARADA I Ante-braço é a porção do membro superior que vae do pu- nho ao cotovello. II Apresenta dous bordos (interno e externo) e duas faces (ante- rior e posterior). III Das duas faces a anterior é a mais importante, pela impor- tância dos vasos e nervos que ahi se encontram. CADEIRA DE OBSTETRÍCIA 1 A mensuração da bacia se faz por meio de instrumentos chamados pelvimetros. II A pelvimetria, pelo facto de poder ser executada no interior e exterior, recebe as denominações de pelvimetria interna e externa. III 0 parto prematuro está muitas vezes sujeito aos resultados do exame pelvimetrico. 87 CADEIRA DE MEDICINA-LEGAL I Os crimes praticados por loucos estão sujeitos a jurisdicção da medicina-legal. II Casos ha em que o criminoso simula a loucura para escapar á acção da justiça. III N’estes casos o papel do perito consistirá em contastar a simulação. CADEIRA DE CLINICA PROPEDÊUTICA I Nas moléstias dos orgãos respiratórios, é imprescindível a auscultação. II Esta, conforme empregamos ou não instrumentos proprios á sua pratica, chama-se mediata e immediata. III Estes instrumentos de que falíamos são os sthetoscopios. CADEIRA DE PATHOLOGIA CIRÚRGICA I Uma das complicações cirúrgicas mais graves ê o tétano. II A sua natureza infecciosa está demonstrada. 88 111 O seu tratamento ainda é symptomatico: o chloral e a mor- phina são os medicamentos que melhores resultados têm dado. PRIMEIRA CADEIRA DE CLINICA MEDICA I O diagnostico da infecção malarial é em geral facil II Nas febres larvadas do envenenamento palustre, as nevralgias constituem uma das suas fôrmas mais communs. III Seja qual fòr a fórma por que se apresente a intoxicação ma- larial, sempre é indicado o quinino na sua therapeutica. CLINICA OBSTÉTRICA E GYNECOLOGICA I A septicemia puerperal é sempre um accidente grave no decurso do puerperio. 11 O seu tratamento deve consistir em meios médicos e cirúrgicos. III A curettagem uterina, seguida de injecções intra-uterinas de líquidos antisepticos: eis o melhor tratamento cirúrgico a empregar CLINICA DERMATOLÓGICA E SYPHILIGRAPHICA I AfíecçÕes parasyphiliticas são aquellas manifestações que, dependentes ordinariamente da syphilis, não são entretanto de natureza syphilitica. II 0 tratamento especifico da syphilis não tem influencia sobre ellas. 89 III Foi o sabio professor Fournier, quem regularisou o estudo d’estas affecções. SEGUNDA CADEIRA DE CLINICA MEDICA I A endocardite é a causa principal das lesões oro valvulares. O rheumatismo constitue o principal factor na producção da endocardite. II III Todas as moléstias infecciosas, porém, podem produzir os endocardites. CADEIRA DE CLINICA PEDIÁTRICA I A coqueluche, moléstia contagiosa ataca de preferencia as crianças. II Dois estados caracterisam a sua marcha : um catarrhal, e outro covulsivo. III Suas mais graves complicações são as pulmonares. CADEIRA DE CLINICA PSYCHIATRICA E DE MOLÉSTIAS NERVOSAS I A hysteria è uma nevrose. E’ bastante mais frequente na mulher do que no homem. II III Herança e educação, eis os seus principaes factores etiologicos. 90 PRIMEIRA CADEIRA DE CLINICA MEDICA I A descoberta da serumtherapia veio trazer maior probabi- lidade de cura á angina diphterica. II Empregado o serum não se deve abandonar o tratamento local pelos antisepticos, afim de se evitar a acção dos streptococci que se podem associar ao bacillo da dyphteria. III Este é o bacillo de Klebs Loífler. CADEIRA DE CLINICA OPHTALMOLOGICA I A evolução da blepharite simples não determina lesões ana- tómicas importantes nas partes constituintes do bordo ciliar. II O caracter essencial da blepharite ulcerativa è a destruição por suppuração dos folliculos pillosos. III A marcha da blepharite é, em geral, chronica. PRIMEIRA CADEIRA DE CLINICA CIRÚRGICA I O tratamento do genun valgum póde consentir na osteotomia ou na osteoclaria. II O primeiro é o mais geralmente praticado. III Dos diversos processos de 09teotomia o mais empregado è o de Mac-Ewen. 91 SEGUNDA CADEIRA DE CLINICA CIRÚRGICA I A rhinoplastia constitue uma operação autoplastica. II O processo indiano é muito empregado na pratica da rhino- plastia. III Não devemos fazer a torsão do pediculo exageradamentç, para não prejudicarmos a circulação no retalho. HirrOCRtTIS 1FH0RISMI I Ad extremos morbus, extrema rcmedia exquisite óptima. (Aph. VI, sect. I.) II Cum media prcmit, laborare minime convenit. (Aph. XVI, sect. III.) III Somnus. vigilia, utraque modum excendia, malum. (Aph. VI, sect. III.) IV Natura corporis est in medicina studii. (Aph. VII, sect. I.) V Naturam morborum curationes ostendunt. (Aph. III, sec. II.) VI A lethargo tremor, malura. (Aph. XVI, sect. VII.) Visto.— .Secretariada Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 1896. O Secretario, Dr. Antonio de Mello Muniz Maia.