FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO THESE DO DISSERTAÇÃO CADEIRA DE THERAFII1TICA E MATÉRIA MEDICA ESPECIALIIEKTE 6RA1ILEIKA Acção physiologica e therapeutica dos alcoolicos PROPOSIÇOHS Cadeira de piiannacia — OPIO CHiMICO-PHARMACOLOGICÀMENTE CONSIDERADO Cadeira de clinica cirúrgica—TRATAMENTO DA RETENÇÃO DAS OTRINAS .Cadeira de pathologia medica—HYPOEMIÂINTERTROPICAL THESE APRESENTADA i' FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO EM 20 DE SETEMBRO DE 1883 E PERANTE ELLA SUSTENTADA A 1 5 DE DEZEMBRO DO MESMO ANNO PELO SífoimceC cie IScSoTicA (Approvado com distiucção na defeza desta these, e plenamente em todos os exames do curso medico-cirurgico) Socio benemerito do G-ymnasio Académico, socio fundador da Sociedade Libertadora Académica e membro da Associação Beneficente Pernambucana no Rio de Janeiro, etc. NATURAL DE PERNAMBUCO XjtEG-iTxnM:© xxe: Luiz Cleinentino Carneiro de Lyra e de D, Guillieraina da Conceição Barros Carneiro RIO DE JANEIRO Typ. Central, de Evaristo Rodrigues da Costa 7 TRAVESSA DO OUVIDOR 7 1883 FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO DIRECTOR Conselheiro Dr. Vicente Cândido Figueira de Saboia VICE DIRECTOR Conselheiro Antonio Correia de Souza Costa SECRETARIO Dr. Carlos Ferreira de Souza Fernandes LENTES CATHEDRATICOS Drs. : João Martins Teixeira Physica medica. Conselheiro Manoel Maria de Moraes e Valle Chimica medica e mineralogia. João Joaquim Pizarro Botanica medica e zoologia. José Pereira Guimarães Anatomia descriptiva. Conselheiro Barão de Maceió Histologia theorica e pratica. Domingos José Freire Júnior Chimica organica e biologica. João Baptista Kossuth Vinelli Physiologia theorica e experimental. João José da Silva Pathologia geral. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. João Damasceno Peçanha da Silva Pathologia medica. Pedro Affonso de Carvalho Franco Pathologia cirúrgica. Conselheiro Albino Rodrigues de Alvarenga... Matéria medica e therapeutica, especialmente brasileira. Luiz da Cunha Feiió Júnior Obstetrícia. Cláudio Velho da Motta Maia Anatomia topographica, medicina operatória experimental, apparelhos e pequena cirurgia Conselheiro Antonio Correia de Souza Costa.. Hygiene e historia da medicina. Conselheiro Ezequiel Correia dos Santos Pharmacologia e arte de formular. Agostinho José de Souza Lima Medicina legal e toxicologia. i -«di» *,.**<». jS'd7cS!?LfaS c«S?!e!™.d6. ,Saboía::: í <*■*» <=***«*, Hilário Soares de Gouveia • • • Clinica ophtalmologica. Erico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologica. Cândido Barata Ribeiro Clinica medica e cirúrgica de crianças. João Pizarro Gabizo Clinica de moléstias cutaneas e syphiliticas. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica. LENTES SUBSTITUTOS SERVINDO DE ADJUNTOS Augusto Ferreira dos Santos Clinica medica e mineralogia. Antonio Caetano de Almeida Anatomia topographica, medicina operatória experimental, apparelhos e pequena cirurgia. Oscar Adolpho de Bulhões Ribeiro .. Anatomia descriptiva. Nuno Ferreira de Andrade Hygiene e historia da medicina. José Benicio de Abreu Matéria medica e therapeutica, especialmente brasileira. ADJUNTOS José Mana Teixeira Phisica medica. Francisco Ribeiro de Mendonça ' • Botanica medica e zoologia. Histologia theorica e pratica. Arthur Fernandes Campos da Paz Chimica organica e biologica. ; Physiologia theorica e experimental. Luiz Ribeiro de Souza Fontes Anatomia e physiologia pathologicas. Pharmacologia e arte de formular. Henrique Ladislau de Souza Lopes Medicina legal e toxicologia. Francisco de Castro \ Eduardo Augusto de Menezes I Qpnjea medica de adultos. Bernardo Alves Pereira 1 Barlos Rodrigues de Vasconcellos J Ernesto de Freitas Crissiuma \ Francisco de Paula Valladares Clijdca cirúrgica de adultos. Pedro Severiano de Magalhaes i Domingos de Góes e Vasconcellos J Pedro Paulo de Carvalho Clinica obstétrica e gynecologica. José Joaquim Pereira de Souza Clinica medica e cirúrgica de crianças. Luiz da Costa Chaves de Faria Clinica de moléstias cutaneas e syphiliticas. Carlos Amazonio Ferreira Penna Clinica ophthalmologica. Clinica psychiatrica. N. B.—A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas. AO MED EXTREMOSO PAI O ILLM. SR. Luiz Clementino Carneiro de Lyra Ouvindo os vossos sagrados conselhos cumpri a minha ardua missão, satisfazendo os vossos desejos. Abençoai o vosso muito obediente filho Manoel Clementino. A: MINHA IDOLATRADA MÃI A EXMA. SRA. D. Guilhermina da Conceição Barros Carneiro Recebei, minha bôa mài, esta minha these como prova de muito amor e respeito. Lançai-me neste momento a vossa sagrada bênção, afim de que eu possa seguir firme e tranquillo a longa viagem, que hoje enceto pela sinuosa estrada da medicina entre os gemidos e a dôr, esperando no Altíssimo consolar a todo aquelle, que soffrer. O vosso amoroso filho Manoel Clementino. AO M£ll PRIMÊIRO AMIGO E RESPEITATEL PADRINHO O ILLM. SR. Manoel Francisco Pontes Tanto quanto a meus pais vos devo. Se elles são credores do meu reeonhecimento por me terem dado o ser e a educação, vós também muito trabalhastes para a honrosa posição que actualmente occupo no mundo social. Aceitai, pois, meu querido Padrinho, este meu ultimo trabalho esco- lástica, como testemunho sagrado da eterna gratidão do vosso obediente afilhado Manoel Clementino. PREFACIO O medico é mais que um apostolo, é o sacer- dote de uma religião, e quando a humanidade entra em seus templos o seu primeiro dever ó descobrir-se; porque está diante de quem a cura. Vieira de Castro). Eis o primeiro trabalho scientifico que exhibimos ao publico, legando ao término do nosso longo curso medico. E o cumprimento da lei, ante a qual curvamo-nos para re- ceber o baptismo social das luctas escolásticas. O conjuncto de palavras exaradas neste pequeno folheto, é simplesmente o que se denomina em linguagem académica’. —These Inaugural. Neophyto em escrever sobre questões scientificas, a timidez de claudicar na exposição de nossas icléas foi o espectro negro, que nos acompanhou desde a escolha do ponto, sobre que tínhamos de dissertar, até o momento de inscrever os aphorismos do medico de Cós. Abem o s ante Imo, que fascina a vista do nauta atravez dos negrores da tempestade, nem mesmo esse luminoso phenomeno me- tereologico nos foi permittido contemplar, para amenisar as fadigas da nossa longa viagem por mares inteiramente desconhe- cidos ! Escrever uma these nada mais facil, porém discutil-a convenientemente, nada mais dijfcil. Que respondam por nós aquelles, que também têm satisfeito .este imperioso mandatum. — Acção physiologica e therapeutica dos Alcoolicos — foi o ponto da cadeira de therapeutica e matéria medica, especialmente a brazileira, que escolhemos para a nossa dissertação. Grande foi o voo que alteámos, porém maior foi o desejo de aprender. Que importa que succumbamos na lucta da intelligencia, quando em nosso espi- rito existe a idéa de que havemos de receber, como honrosa morta- lha, a lição dos mestres! Façamos nossas estas palavras de Blanqui: En toutes les Sciences les erreurs mêmes sont profita- bles, parcequ’elles servent de leçon, ainsi que la perte d’une vaisseau découvre souvent aux navigateurs 1’existence d’un écueil. E do estudo dos alcoolicos, como medicamento, que vamos ?ios occupar. O álcool é uma verdadeira espada de Damocles. Mata, quando ingerido demasiadamente, arrastando o homem á ultima degra- dação das misérias sociaes. Dá vida, quando administrado segundo os preceitos scientificos, arrancando não poucas vezes das bordas do tumulo dezenas de victimas, decretadas a uma morte quasi inevitável. Esforçámo-nos por obter armas, com que podessemos demons- trar no certamen scientifico quaes as idéas, que abraçamos sobre a importantíssima questão dos alcoolicos. Pura illusão! Triste presentimento temos, de que adiante nos espera a coroa de espinhos, em troca da grinalda de louros, que o estudo e a sciencia somente dispensam aos abençoados pelo talento ! Eis o plano que adoptámos para a dissertação desta nossa these : dividir o nosso trabalho em duas partes. Na primeira nos occuparemos da vulgarisação dos alcoolicos em Medicina, do estudo chimico do álcool ethylico e das bebidas alcoólicas mais conhecidas, e em seguida nos prenderá a aitenção mais mi- nuciosamente o estudo do papel physiologico do álcool nas fmi- cções mais importantes da nossa economia. A segunda parte versará sobre a acção therapeutica e indicações, em que a medicação pelo álcool tem conquistado não pequenos triumphos na immensa arena da medicina pratica. Aos mestres, que nos hão de julgar, assim nos dirigimos: — De nós pouco deveis exigir, porque este nosso trabalho académico representa despretenciosame?ite a resul- tante de duas forças concurrentes : — o cumprimento do dever e a aspiração á sciencia. 0 cJDfttcto-ú. DISSERTAÇÃO PRIMEIRA PARTE CAPITULO I Breves considerações históricas sobre o álcool em medicina Procedendo a uma rapida analyse sobre os diversos me- thodos de tratamento, encontraremos, cinzeladas em cara- cteres indeleveis, as luctas incessantes, em que o espirito humano se tem empenhado, ha tantos séculos, para supplantar as dôres dos nossos semelhantes. Consultado o dynamometro das scien- cias medicas — a sua historia —, nella contemplamos a evolução assombrosa, com que a therapeutica, essa parte basica da medi- cina, tem marchado nestes últimos annos proclamando, como principio inabalavel, o dogma sublime — Primo sanare deinde philosophare. Se os médicos dos tempos, que bem longe vão, desconheceram certas preciosidades, que hoje adornam a matéria medica e therapeutica, representando as maiores conquistas da 8 physiologia moderna; nós os filhos da geração hodierna devemos absolvêl-os, porque desappareceram elles da arena do trabalho, muito antes do despontar do dia da emancipação e do engrande- cimento para as sciencias experimentaes, que actualmente se pro- fessam na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Hoje o estudo da chimica biologica, da histologia, da anatomia patholo- gica, da physiologia e da therapeutica, apresenta aos nossos olhos estas sciencias como verdades inconcussas, porque as noções, aprendidas hontem no livro do gabinete, encontramol-as hoje demonstradas no recinto dos laboratorios. Bem significativas são aquellas maximas, quaes pontos lumi- nosos, que se destacam das lousas dos nossos ateliers de estudos : La méthode expérimentale est la méthode qui recherche la verité par l’em- ploi bien équilibré du sentiment, de la raison et de 1’experience. Elle proclame la liberté de 1’esprit et de la pensée. Com bastante eloquência proferio-as o grande genio, que passando sobre a terra se chamou Claude Bernard, tão cedo roubado á sciencia, enluctando de fúnebres crepes todo o mundo medico. O álcool antes de ser empregado em França por Arnaud de Villeneuve, affirma o professor Béhier, já era aconselhado em grande numero de affecções. Assim Hyppocrates, Paulo d’Egine, Ambrosio Paré (dizem-nos os autores), também já preconisavam o álcool em diversos estados morbidos. Na época em que a cirurgia se achava em sua infancia, não dispondo ainda de agentes capazes de supprimir a dor durante as operações, os cirurgiões administravam as bebidas alcoóli- cas, como um meio de anesthesia que tinham ao seu alcance. Quando os indivíduos estavam sob a influencia do somno alcoolico e o seu organismo já havia attingido ao estado de completa resolução muscular, então o cirurgião com a mão armada manejava o seu bisturi no campo operatorio. Mas com o correr dos tempos e com a estupenda descoberta do chloroformio, sanccionada pelos excedentes resultados obtidos pelo cirurgião inglez Jacob Bell, os alcoolicos, como meio 9 de calar a dôr, desappareceram do quadro da anesthesia cirúr- gica, por ser aviltante em face da sociedade moderna arras- tar-se um homem ao somno da embriaguez em nome da scien- cia! Em datas muito afastadas de nós já vemos o álcool ter aceitação, como antiseptico, no tratamento das feridas trauma- ticas, ou resultantes das operações, sendo hoje mais empregado o acido phenico, segundo os preceitos estabelecidos pelo pro- fessor Lister; vindo deste modo a cirurgia moderna a coroar a brilhante theoria do imminente Pasteur, que sustenta a presença dos seres infinitamente pequenos, como causa de todas as septi- cemias cirúrgicas. A medicação alcoolica, como soe acontecer com as importantes descobertas, teve seus dias de grandeza com Brown, e de decadência com Broussais. Cabe, sem duvida, ao Dr. R. Bentley Todd da Inglaterra a gloria de ter restabelecido por uma vez na therapeutica o emprego da medicação alcoolica. Foi Todd quem primeiro empregou o álcool no tratamento das phlegmasias e. de certas moléstias febris, á cuja acção os doentes apresentavam sempre tendencia á adynamia. As substan- cias alcoólicas tinham para o Dr. Todd a tríplice vantagem de constituir um alimento facilmente assimilável, de levantar as forças do doente, e de conservar o calor animal. Na Italia para mais engrandecerem o valor do álcool, como medicamento, chamavam-n’o — agucivitce —; destacando-se Bruno Cibali, como um dos mais vehementes propugnadores, que com o enthusiasmo das recentes descobertas aconselhava ao vulgo o álcool, como meio de conservar a saude e de debellar todos os estados mór- bidos. Em França a medicação pelos alcoolicos teve seus adeptos, sendo o primeiro, que hasteou a bandeira de propaganda, o insigne professor Béhier. Muitos outros clínicos, respondendo ao appello de Béhier, vieram alliar-se ás suas gloriosas fileiras. É assim que o imminente Laennec, erguendo uma barreira ás idéas da escola de Broussais (que encontrava no álcool, como irritante, a unica causa morbigenica), abraçou o methodo de tra- tamento iniciado por Todd. Chomel, não ficando estacionário, empregou os alcoolicos em diversas moléstias agudas febris, e com beneficos resultados. O grande pratico do Hotel Dieu, o sabio Trousseau, também se ergueu prescrevendo o vinho de Malaga ás colheres, nas febres typhicas adynamicas, sendo acom- panhado nesta medicação pelo Dr. Monneret. Aran diz ter tra- tado pela aguardente, só ou misturada com vinho, a febre ady- namica e a pneumonia dos velhos. Finalmente pelas lições do professor Béhier as applicações therapeuticas do álcool tornaram- se muito frequentes em toda a França. Constantinés, em sua these apresentada á Faculdade de Medicina de Pariz em 1863 (1), traz observações de muitos casos de febres intermittentes, tratadas pelos alcoolicos. Gaulejac (2), seguindo as pegadas de Constanti- nés, inicia também ouso do álcool no curativo das feridas, sendo esse seu methodo de tratamento patrocinado pela autoridade do professor Guerin. O Dr. Guingeot (3), estudando de um modo brilhante a acção heroica do álcool nas moléstias agudas das crianças, sustenta uma these importantíssima sobre este asumpto. Quando o emprego do álcool, como agente therapeutico, ia tomando desenvolvimento, graças ás doutrinas de Todd da Ingla- terra, muitos trabalhos sobre esta questão se publicavam na Allemanhae em França. Por esse tempo, em 1869, a Sociedade de Medicina de Bordeaux, attrahidasem duvida pelas theorias ainda contradictorias, que se apresentavam para explicar a acção physiologica do álcool, propunha um prémio para o seu concurso annual, sobre o estudo : A acção physiologica e therapeutica cio álcool. Das quatro Memórias, que foram apresentadas, obteve o prémio o livro monumental do Dr. Marvaud (4). Sendo a applicação do álcool, como agente therapeu- tico, uma questão de sciencia largamente debatida em toda a Europa, d’onde se erguiam opiniões pro e contra o seu empre- go, o Congresso de Bruxellas em 1875 tratou deste ponto de (1) Constantinés — Médication alcoolique dans lesfievres intermittentes — r 863. (2) Gaulejac — L'álcool dans le pansement desplaies. Th. de Paris— 1867. (3) Guingeot — Emploi de Válcool chez les enfants, son role dans le traiie- mentdes maladies aigues. Paris— 1868. (4) Marvaud — L'álcool, son action physiologique et thérapeutique— 1872. therapeutica, submettendo-o ao estudo dos sábios alli reunidos. Uma discussão muito viva teve logar sobre este assumpto na sessão medica presidida pelo Dr. Thiry, professor na Universalidade livre de Bruxellas. O Dr. Desguin (d’Angers), encarregado do relatorio, insistio sobre a acção excitante do álcool, limitando sómente á ella os resultados favoráveis, que se podiam tirar da medicação alcoolica; rejeitando ao contrario como perigosa a acção depressiva sobre o pulso e a temperatura, que se observa com a administracção do álcool. Terminada a leitura do relatorio, as opiniões dos sábios dividiram-se em dous grupos. A maioria dos oradores, que tomaram parte no debate, também rejeitou a acção depressiva do álcool, defendendo apenas a sua excitação geral, resultante dos primeiros effeitos da sua absorpção. O pro- fessor Semmola (de Nápoles) e o Dr. Dujardin Beaumetz, que ahi se achavam, ergueram o seu protesto, negando a acção peri- gosa do álcool, como queria Desguin. Demonstraram aquelles dous distinctos professores, que em menor perigo incorreríamos em- pregando o álcool como antithermico, que a digitalis e a veratrina, cujos effeitos sobre a depressão e o coração são incontestavel- mente mais perigosos para se manejar; o que não observamos com o álcool, que é um antithermico inoffensivo. A febre typhoide sendo, como todos nós sabemos, uma moléstia que zomba muitas vezes da therapeutica a mais racional, tem sido jugulada pela medicação alcoolica, como o affirma Aboulker (1). O professor Gubler, (2) em seu precioso livro publicado em 1880, depois de estudar clara e precisamente o papel physiologico dos alcoolicos, discute de um modo satisfatório o emprego do álcool em diversos estados morbidos. O pranteado professor do Collegio de França, o illustre Cláudio Bèrnard, dispensou também algumas horas de sua vida tão laboriosa, quão cheia de louros, ao estudo do álcool, espe- cialmente sobre o systema nervoso. Jaccoud aconselha iniciar-se (1) Aboulker —Pathogenie et traitement de la fièvre typhoide— Paris, 1871. (2) Gubler — Leçons de thérapeutique, 1880.— Coinpendium Therapeutique du Codex medi — 1868. o tratamento pela medicação alcoolica nas pneumonias, que ata- cam os indivíduos de constituição fraca e doentia; prescreven- do-a igualmente nesta mesma moléstia, quando sobrevêm a adynamia ou phenomenos ataxicos, que soem apparecer nos indiví- duos nervosos e excitáveis, ou nas mulheres hystericas. Ainda este anno Bouchut (i) publica em seu Compendium um importan- tíssimo artigo, preconisando as preparações alcoólicas no trata- mento da febre typhoide. Em quasi todos os paizes da Europa, o álcool é encontrado como agente de incontestável valor no arsenal therapeutico. Na Allemanha Nothenagel apresenta-se como um dos vulgarisadores da escola de Todd da Inglaterra. Entre nós a medicação alcoolica tem sido recebida com muitos applausos, quér na clinica civil, quer na do Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Alli naquelle sombrio recinto de misérias, onde se abriga a dôr ao lado do infortúnio, o trata- mento instituído por Todd é empregado diariamente, e com ex- cedentes resultados. Muitas vidas, compromettidas pela extrema adynamia, têm sido poupadas, graças á acção tónica e estimu- lante do álcool. Nós mesmo tivemos occasião de empregar a medicação alcoolica, para combater uma febre exanthematica de fórma ady- namica, cuja observação publicámos na Gazeta Académica (2), um dos periódicos que se publicam em nossa Faculdade. Conside- ramos a medicação pelo álcool como uma das maiores acquisições da therapeutica moderna, porém não somos tão enthusiasta como o Dr. Danet, que empregava o álcool cí larga manu em toda e qualquer phlegmasia; porque, se assim procedessemos, seriamos tão exclusivista como os proselytos de Broussais, que no reinado das sangrias sempre encontravam uma indicação a preencher. No exercicio de sua profissão, o medico nunca deve ser syste- matico. (1) Bouchut— Compendium Annuaire de Therapeutiqne — 1883. (2) Gazeta Académica — Junho, 1883 — Observações de Barros Carneiro. CAPITULO II Estudo chimico do álcool ethylico e dos alcoolicos Versando o nosso ponto sobre a — “ Acção Physiologica e Therapeutica dos Alcoolicos ”—, assiste-nos o dever de tratar, neste capitulo, do estudo chimico do álcool, e das bebidas alcoólicas mais conhecidas e usadas entre nós. Faremos apenas um ligeiro esboço sobre a composição desses differentes liquiclos, que devem, como sabemos, a sua acção principal e as suas mais notáveis propriedades ao álcool ethylico, que elles encerram em seu seio. Assim, no desenvolvimento da nossa these, emprega- remos indistinctamente os vocábulos — Álcool e Alcoolicos — como synonimos, tendo unicamente em vista não nos affastar da triade philosophica —methodo, clareza e precisão—, que pro- curamos sempre observar em toda e qualquer argumentação que emprehendemos. Álcoois. — Dá-se o nome de álcoois “ a um grupo considerável de compostos, derivados dos hydrocarburetos fundamentaes, pela substituição de um ou mais átomos de hydrogenio por outras tantas hydroxylas. (t) Como o hydrogenio da hydroxyla acha-se ligado ao carbono por intermédio do oxygenio, póde-se dizer que o atomo de oxygenio reune um atomo de hydro- genio ao radicai do hydrocarbureto fundamental; o álcool é pois um hydrato (i) Dr. Domingos Freire — Lições Elementares de Chimica Orgânico, — Rio, 1882. deste radical, que por isto tem o nome de — radical alcoolico. O álcool ordi- nário por exemplo: O H 6 O == O H 5 O EIA o H deriva do hydrocar- bureto C 2 j ; substituindo — H — pelo grupo theorico monoatomico (O H). Aquelles, em que um só atomo de hydrogenio é substituído, dizem-se—monoatomicos, representando o grupo dos álcoois propriamente ditos. Outros, em que dous átomos de hydrogenio são substituídos, dão álcoois — diatomicos ou glycols', sendo tres formam-se álcoois — triatomicos ou glycerinas. É por demais extensa a serie dos álcoois, de que hoje a chimica nos falia. Desses corpos muitos têm sido obtidos pela synthese, de harmonia com as previsões que a philosophia chimica tão lógica e mathematicamente estabeleceu. Grande numero de corpos, que a theoria pre-estabeleceu, ainda não foi possível obtêr, não só pela instabilidade dos compostos intermediários que se originam, como também pelo desiquilibrio molecular dos proprios corpos que se tentam produzir. Acreditamos todavia que esses óbices hão de desapparecer, e então a sciencia conseguirá vêr realisadas todas as suas maravilhosas previsões em uma época não muito remota. Álcool ethylico=G2 H6 0 — Syn. (Hydrato de ethyla, álcool ordinário, espirito de vinho). Sendo conhecidas desde a mais alta antiguidade as bebidas fermentadas, só na idade média se obteve pela distillação dessas substancias o álcool, de que vamos tratar. Attribuem este invento uns ao medico arabe Aboucassis, outros a Arnaud de Villeneuve, que no século XIII fez a vulga- risação do álcool na Europa. O processo de distillação era ou- tr’ora muito imperfeito, e o álcool obtido apresentava-se muito diluido. Também temos outra fonte de obtenção do álcool, dis- tillando o vinho, a cidra e todos os líquidos fermentados, prove- nientes de substancias vegetaes assucaradas ou amylaceas; sendo industrialmente obtido o álcool da borra do vinho, da canna de assu- car,dos cereaes, etc., pela distillação em alambiques. O álcool obtido deste modo contém muita agua; felizmente hoje existem appa- relhos aperfeiçoados, em que se obtem o álcool a 90o. Para se conseguir a deshydratação do álcool, emprega-se o carbonato de potassa, a cal viva, a potassa e a baryta; mas, sendo a quantidade dagua muito diminuta, poderemos obter o fim desejado, servindo- nos do sodio. O professor Sommering prestou um grande ser- viço á chimica do álcool, descobrindo um processo engenhoso e de facil execução, pelo qual podemos deshydratar o álcool a ponto de conter apenas 3 °fQ d’agua. Consiste o processo de Somme- ring em encerrar iuima bexiga o álcool a deshydratar e expôl-a ao ar ; terminada essa primeira parte do processo, a agua atra- vessa somente a membrana evaporando-se, e o álcool vai-se concentrando. Ha um meio muito simples que temos ao nosso alcance, quando desejamos verificar se o álcool é ou não absoluto (onhydro). Para conseguir esse fim basta pôl-o em contacto com o sulfato de cobre bem secco, que de branco, que é, toma uma bella côr azul em presença d’agua. Com o progresso da chimica, Bertholet fez em 1854 a synthese do álcool, transformando o ethyleno (C2 H4) em bromureto de ethyla (C2 H5 Br.), pela acção do acido bromhydrico (H Br) ; e tratando pelo acetato de prata o composto obtido (o bromureto de ethyla), fórma-se deste modo bromureto de prata e acetato de ethyla (C2 H3 O. O Ag), que, decomposto pela potassa caustica (K PI O), fornece álcool (Processo de Bertholet). Propriedades physicas. — O álcool é um liquido incolor, movei, de cheiro espirituoso e agradavel, de sabor cáustico, menos denso que a agua, fervendo a 78 ° sob a pressão normal. Não se conseguio ainda solidifical-o mesmo a — 100o, tomando apenas, nessa tão baixa temperatura, a consistência viscosa. E muito hygroscopico, exposto ao ar absorve a humidade deste. Solúvel n’agua, e dissolve muitos gazes, liquidos e solidos, como por exemplo: os alcaloides, asessencias, as substancias gordurosas, etc. Propriedades chimicas. — É muito inflammavel, ardendo com chama azulada pouco brilhante. Em presença da esponja de platina os vapores misturados com o ar soffrem combustão lenta, pro- duzindo successivamente aldehydo (C2 H4 O) e acido acético (C2 H4 O2), representados por estas duas formulas. Com a espiral de platina encandescente collocada sobre um cálice contendo álcool, observa-se o curioso phenomeno da lampada sem chama, havendo uma grande elevação de temperatura. O thermo-cau- tério de Paquelin, tão conhecido na clinica cirúrgica, é fundado neste phenomeno chimico. Os corpos ricos em oxygenio podem oxydar o álcool em temperatura ordinaria ; assim o chloro reage sobre o álcool dando lugar á formação do chloral (C2 H C L3 O); o hypochlorito de cálcio, em presença do álcool, converte-o em chloroformio (C H C L3), que também pode ser obtido, distillando-se o álcool sobre uma mistura de cal e chlorureto de cálcio diluídos nagua. Innumeras são as applicações que nos offerece o álcool. Assim a industria o emprega em larga escala: nos laboratorios o álcool entra como um dos melhores dissolventes ; a pharmacologia aproveita-se delle quotidianamente como vehiculo de substancias medicamentosas ; a anatomia também utilisa-se das suas proprie- dades anti-septicas como meio de conservação das peças ana- tómicas destinadas aos estudos práticos. Como bebida é usado o álcool em estado de aguardente, representando, como já dissemos, o agente principal, ao qual todas as preparações alcoó- licas devem suas propriedades hygienicas e therapeuticas. Vinhos.— Segundo define o professor Becquerel (i) “são be- bidas de uma composição chimica muito complexa, e que resultam da fermentação alcoolica do sueco da uva (oitis viniferd). " Os vinhos também podem ser obtidos mediante a fermen- tação alcoolica de outros fructos, taes como: o caju, o ananaz, a pêra, a maçã, etc., dando logar aos vinhos dos respectivos nomes. (i) Becquerel— Traité elementaire d'hygiène privée et publique, 1877. Os vinhos variam segundo a quantidade de álcool que contêm, formando este o seu principio distinctivo de importância thera- peutica. Vejamos rapidamente quaes as substancias, que a analyse chimica descobre nos vinhos, a saber: agua 80 a 90 partes por cento, álcool ordinário 5 a 1 7 partes, álcool amylico (em pequena quantidade)(f), aldehydos, etheres, ácidos livres, taes como—ma- lico, tartrico, succinico, acético, sendo este ultimo o producto de oxydação do álcool contido no vinho, representando quasi sempre o resultado de uma fermentação muito activa, ou muito prolon- gada. Ainda o provête do chimico revela a presença de diversos saes, como — o phosphato de cal, sulphato de potassa, chlorureto de sodio, predominando entre elles o bi-tartrato de potassa; e também revela a presença de outros corpos, como—a-gly- cerina, o tannino e o ether acético, formado pela acção do acido acético sobre o hydrato de ethyla. Quanto á matéria corante existente nos vinhos tintos (na proporção de 2 a 5 °/ ), foi isolada ultimamente pelo Sr. Glènard (2), que a deno- minou esnolina (O H10 0IC). Os chimicos não estão de acordo sobre a natureza deste principio corante, assim outros, como Maumené, affirmam que a côr vermelha dos vinhos é devida á uma matéria corante-azul, a cenocyanina, existente no sueco e nas pelliculas das uvas, e que os ácidos fazem passar ao vermelho. Os reactivos do laboratorio attestam ainda a exis- tência de traços de acido carbonico, o qual é encontrado em abundancia no vinho de Champagne e em outros espumosos. Em resumo diremos que é principalmente ao álcool, que os vinhos devem a sua força e effeitos embriagantes; e, segundo a sua riqueza neste principio, os vinhos são mais ou menos generosos, como admitte o professor Fonssagrives (3). Pelo quadro analytico apresentado por Wurtz, vemos que são os vinhos de Lissa, da Madeira e do Porto os mais ricos em álcool, sendo por (1) Rabuteau —Eléments de Thérapeutique et Phannacologie. (2) Wurtz — Trai té Elémentaire de Chi mie Médica le. (3) Fonssagrives — Hygihie Alimentaire— 1867. consequência esses os que devem gozar de maior valor, quando tivermos de prescrevel-os para fins therapeuticos. Cerveja. — E conhecida sob esta denominação uma bebida alcoolica, resultante da fermentação da cevada germinada ou de outros cereaes, aromatisada pelo lupulo. Para o fabrico da cer- veja fazem germinar a cevada, porque esta depois de germinada contém mais dextrina e assucar, substancias tão precisas, como sabemos, para dar-se a fermentação alcoolica. A composição chimica da cerveja não deixa de ser um pouco complexa. Pelas analyses chimicas sabemos que na cerveja encontra-se agua, álcool na proporção de 2 a 3 °/Q, glúten, dextrina, matéria aro- matica de lupulo, 2 a °/0 de seu volume de acido carbonico; assim como também se encontram ácidos taes, como — o glycico (resultante da. decomposição do assucar), o láctico, o succinico, o tannico, o galhico, e traços de acido acético. Nas cervejas fortes o álcool encontra-se, segundo Brandes, na proporção de — 6,33 por cento de álcool, e nas fracas apenas existem 3,89 por cento. Em sua parte mineral a cerveja deixa em (1.000 partes) —2,88 de cinzas; contém potassa, soda, cal, magnesia, ferro, unidas estas bases aos ácidos — phosphorico, sulphu- rico e silicico, predominando porém os phosphatos. A cerveja era antigamente mais usada no norte da Europa, por exemplo na Allemanha e na Inglaterra, do que em sua parte meridional; porém hoje a cerveja goza de fóros de uma bebida universal. Consideramos essa bebida com algum valor therapeutico e hy- gienico, usando-se delia com moderação, mas não como vemos no Brazil, onde, não obstante as condições climatéricas do paiz, não se usa, mas abusa-se da cerveja e de todas as bebidas alcoólicas. A vanguarda destes agentes, que tanto concorrem para a degradação physica e moral da humanidade, encontra-se a decantada aguardente de Paraty, causa immediata de infortúnios e misérias, principalmente para as classes proletárias. Quão pe- sados tributos não acarretam para o homem estes vicios actual- mente tão enraizados entre nós, representando um dos signaes pathognomonicos da catalepsia moral, em que se debate uma pequena facção da sociedade hodierna! Que o demonstrem os pathologistas, que tão fielmente têm vasado no bronze a estatua hedionda do alcoolismo ! Deixando á parte esta pequena digressão que fizemos, ainda sob a denominação de— alcoolicos— temos a aguardente, producto da distillação dos vinhos, podendo também ser obtida de muitas outras substancias, como —a canna do assucar, a beterraba, etc., sendo por conseguinte a aguardente o álcool di- luido pela agua. A aguardente possue propriedades excitantes de que a therapeutica se utilisa para despertar o estimulo do systema nervoso. Em cióses moderadas, esta bebida é essencialmente salutar para o povo, segundo pensam Robertson e Roesch, per- mittindo ao pobre obreiro resistir ás intemperies do ar; aque- cendo-se o homem, a aguardente o reanima dando-lhe coragem, como acredita Frank. Cumpre-nos enumerar outros preparados alcoolicos, taes como — a genebra, ocognac, orhum, o kirsch e o absynthio, licôr que encerra 15 a 70 °/Q de álcool, e que é das bebidas alcoólicas a mais perigosa, em consequência dos princípios toxicos que entram em sua composição, como muito bem diz o professor Bouchardat (1). Das outras bebidas fermentadas, como por exemplo a cidra, operada, 0 koumiss (leite fermentado de jumenta), muito usadas na Europa, declinaremos apenas os seus nomes, porque entre nós ainda não se generalisou o seu em- prego como agente therapeutico. Eis o que procurámos estudar sobre os alcoolicos. (i) Bouchardat et Sandras — De la digestion des boissons alcooliques et de l ur role dans la nutnlion — (Ann. de Chim.) CAPITULO III Acção physiologica do álcool La laboratoire est la condi ti on sine qua non du développement de toutes les Sciences experimentales. (Claude Beknard.) Antes de encetarmos o estudo dos effeitos physiologicos do álcool sobre os diversos orgãos e funcções da nossa economia, seja-nos permittido descrever rapidamente o quadro variabilissimo, que nos offerece o homem sob a influencia dos líquidos alcoolicos. Assim, em seguida á ingestão de um liquido espirituoso, o indi- víduo experimenta uma sensação agradavel de calor, que se es- palha por todo o corpo. As suas forças vão se reanimando, um sentimento de bem estar e de alegria se apodera do que sente duplicar-se a vivacidade do seu espirito. Sua coragem1 sua potência muscular e sua virilidade tornam-se prodigiosas- Essa exaltação é acompanhada de alegria loquaz e expansiva, tornan- do-se a palavra clara e eloquente. No meio das expressões agra- daveis que o dominam, o homem, como que atravez de um prisma encantador, não contempla senão o aspecto risonho de tudo quanto o rodeia. O indivíduo apresenta-se franco e verdadeiro para com os seus companheiros, patenteando o provérbio:— In vino veritas. Feliz, como diz Gubler, quando o homem torna-se indulgente para o mundo exterior e para com seus semelhantes, de quem procura a sociedade, prodigali- sando-lhes provas de amisade e ternura. Mais tarde a perversão funccional succede á simples exaltação dos actos intellectuaes. Perturba-se a memória, aniquila-se a in- telligencia, desapparece a aptidão para o trabalho, transforman- do-se completamente o qaracter do indivíduo. É nesse periodo de excitação em que o ebrio, sem consciência de si, percorre ver- tiginosamente toda a escala dos desatinos e dos mais graves crimes; porque, como já disse um moralista: “— da embriaguez ao crime vai pouco; do embriagado ao louco não dista muito. —’’ bóra do auge da excitação o homem já não pensa livre- mente, por não existir mais o sentimento do dever; o infeliz só pro- cura beber e excitar-se para fazer olvidar os desacertos, queemum segundo de lucidez a sua consciência lhe apontou. Só aspira a beber para esquecer-se dos seus infortúnios, e alcoolisando-se esque- ce-se do mal, que acarreta para si e para os seus semelhantes! Arrastado pelo influxo do álcool o homem, allucinado, cerra os ouvidos ao gemido dos filhos e ás lagrimas da esposa, e, erguendo o braço homicida, planta a dôr e a desolação no sanctuario da familia, quando pelo direito natural deveria ser elle o primeiro a oppôr-se á sua profanação. Quadro tristíssimo e horripilante, em que a creatura humana perde o que possue de mais nobre no moral — a honra, para nivelar-se com o proprio irracional! Ao lado do abatimento moral, marcha o descalabro physico. De mãos dadas á racionalidade, que vai extinguindo-se, a miséria or- gânica começa a despontar com todas as suas funestas consequên- cias, tendo por ponto culminante o — delirium tremens. Não é sómente da competência do socialogista, mas também do medico como hygienista, descrever e reprimir todos esses vicios, que tanto deterioram a especie humana. Onde reinar a dôr e a dissolução dos costumes, áhi deve se achar o medico para consolar com a sua sciencia e moralisar com os seus exemplos. Descriptos resumidamente os effeitos geraes do álcool, ve- jamos de um modo particular quaes os phenomenos, que se pas- sam nos diversos apparelhos e funcções do nosso organismo. An- tecipamo-nos em assegurar que, não obstante as múltiplas expe- riências feitas por dezenas de physiologistas, muitos pontos sobre 22 a questão dos — alcoolicos conservam-se ainda envolvidos em uma penumbra de duvidas, respondendo a physiologia moderna com um ponto de interrogação para o futuro, quando pedimos a interpretação de certos factos, que se.acham na alçada da nossa observação quotidiana. Absorpção. — Esta importante funcção é, como diz o professor Béclard, o phenomeno physiologico mais geral do que a própria digestão, e commum a todos os seres organisados, não possuindo, como a maior parte das outras funcções, apparelho particular que lhe corresponda, pertencendo por conseguinte a todas as partes vivas. A penetração das substancias liquidas ou gazosas, vindas do exterior, é o primeiro termo da troca incessante estabelecida entre os corpos organisados e o meio que os cerca, sendo ella uma das condições fundamentaes do movimento vital. A respiração fazendo penetrar o ar na torrente sanguínea atravez do orgão respiratório, tem por consequência como acto principal um phenomeno de absorpção em todo o rigor da palavra. Será de facto o álcool absorvido como os demais líquidos, ou deveremos attribuir a em- briaguez a uma simples acção de contacto sobre as extremidades nervosas dos pneumogastricos, que por seu turno reagiriam sobre os centros nervosos sem haver absorpção, como queriam Orphila e Brodie ? Parece inverosímil que espíritos tão elevados admit- tissem semelhante opinião, contraria á de todos os auctores, que se têm occupado desta importante questão physiologica! Marcet, tendo conhecimento das idéas de Orphila e de Brodie, não tardou em demonstrar por suas experiencias feitas em rãs, que o álcool era perfeitamente absorvido, e que a acção reflexa, invocada por aquelles dous experimentadores, não passava de uma circumstancia muito insignificante para explicar a acção do álcool sobre a eco- nomia. Por este modo de entender deduzimos que o pratico inglez Marcet, não recusando a absorpção do álcool, também se inclinava a acreditar na influencia reflexa. Graças aos trabalhos de Magendie, Lallemand, Perrin, Duroye tantos outros, a absor- pção dos líquidos alcoolicos é actualmente um facto incontes- tavel. De todas as vias offerecidas á absorpção do álcool (tecido cellular, cavidades serosas, pulmão e vasos), é sem duvida o tubo digestivo a principal via e a rnais energica, como pensamos com a maioria dos auctores. Ingerido no estomago, ou injectado no recto, o álcool é absorvido em natureza pelas veias do tubo di- gestivo, atravessa a veia porta e o fígado, para depois penetrar na torrente circulatória. Quanto á absorpção do álcool no es- tomago, uns opinam ser ahi mesmo o scenario, onde dá-se a absorpção deste liquido; outros, como modernamente o pro- fessor Kíiss, sustentam que, em virtude de uma excitação especial que todos os líquidos exercem sobre o estomago, este se contrahe tomando a fôrma de canal, e deste modo os liquidos passam immediatamente ao intestino, onde são absorvidos. Sentimos ter a franqueza de não aceitar a opinião do illustre physiologista, porque acreditamos ser o álcool tão absorvido pela mucosa estomacal, como por qualquer outro departamento do apparelho digestivo. Chegado o álcool ao estomago, uma pequena parte se trans- forma em acido acético, como demonstraram Lallemand, Perrin e Duroy; e talvez em acido láctico (?), como presume o professor Gubler (1). A transformação, que se opera em uma pequena parte do álcool (não em sua totalidade como sustentavam Leuret e Las- saigne), tem logar em virtude do sueco gástrico e do mucus exis- tentes nas paredes do estomago, actuando estas mucosidades como fermento, e determinando a oxydação do álcool. E pelo conhecimento dessa transformação, que encontramos a expli- cação dos vomitos, que sobrevêm em certos indivíduos em seguida á ingestão das bebidas alcoólicas. Certas substancias podem retardar a absorpção do álcool no estomago, como sejam: os corpos gordurosos, as mucilagens, o tannino, etc. A pratica obser- vada entre os inglezes, de ingirirem grande quantidade de gordura (x) Gubler—Leçons de Thérapeutique— 1880. antes de beberem, não tem outro fim senão modificar a acção dos alcoolicos, diminuindo por consequência a sua absorpção. A precaução seguida por muitos indivíduos, de ingerirem substancias alimentares antes de se entregarem a copiosas liba- ções, tem a sua explicação scientifica á luz da physiologia, embora elles desconheçam a causa desta medida preventiva ; porque sabe- mos perfeitamente que o estado de plenitude do estomago con- corre para retardar a sua acção absorvente. Em contacto com as mucosas, ou com as serosas, o álcool é claramente absorvido. Assim Rayer demonstrou experimentalmente, que, injectando líquidos alcoolicos na pleura e no peritoneo, observara todos os symptomas da embriaguez. A mucosa pulmonar, depois da mucosa do apparelho diges- tivo, é o orgão que possue em gráu elevado a faculdade absor- vente do álcool, quer no estado liquido, quer no de vapor; e segundo os estudos de Délmas e Sentex é o pulmão o orgão mais apto para este phenomeno. Antes destes dous experimen- tadores, diz Marvaud (i), diversos physiologistas já haviam reco- nhecido a facilidade e a rapidez admiravel, com que os líquidos derramados na trachéa eram absorvidos. Ségalas, tendo injectado uma certa quantidade de álcool nos bronchios, verificára o desap- parecimento desse liquido, acompanhado dos symptomas da em- briaguez, e mesmo julgára ter observado que (não obstante a secção dos nervos vagos) estes phenomenos sobrevieram tão rapidamente, como se o álcool tivesse sido introduzido no sangue. Na opinião do professor Longet (2) a intoxicação, depois da secção dos pneumogastricos, se manifesta muito mais rapidamente no primeiro dia da operação, do que nos subsequentes. E habitual- mente em estado de vapor que o álcool é absorvido pelos pulmões. (1) Marvaud—Lalcool —1872. (2) Longet— Tráité de Anatomie et Physiologie du systeme iterveux — Paris — 1842. Deste modo se explica a embriaguez que se tem observado em indivíduos, que se occupam em transvasar vinho e outras bebidas alcoólicas nos grandes estabelecimentos industriaes. O professor Jaccoud em seu Diccionario de Medicina e Cirurgia (i) cita um caso, relatado por Mesnet, de um negociante de bebidas espirituosas que, residindo em cima de seu armazém, experimen- tava todas as noites symptomas de embriaguez, devidos á passa- gem dos vapores de álcool atravez das taboas do soalho, que se achavam um tanto afastadas. Esse homem, que não abusava de bebidas espirituosas, foi accommettido no fim de 18 mezes de uma paralysia geral aguda, acompanhada de phenomenos graves do alcoolismo, segundo refere Mesnet. O Dr. Marvaud, fallando desse facto observado por Mesnet, inclina-se a acreditar ser muito provável que esse negociante se entregasse ás bebidas alcoólicas. Desta ultima opinião compartilhamos, por nos offerecer ella um certo cunho de veracidade. Gubler diz ter observado no Hospital de Beaujon um indivíduo, aliás sobrio, com perda de co- nhecimento, por demorar-se algum tempo em um logar, onde existia grande quantidade de aguardente. Esse indivíduo veio a succumbir mais tarde, victima da intoxicação alcoolica, como affirma o proprio Gubler. Acção tópica. — A pelle, o envolucro protector que cerca todo o nosso corpo, a séde da sensibilidade táctil, que pelas impressões vindas do exterior faz com que os animaes percebam suas relações com o meio em que vivem, também goza de alto poder absor- vente; o que não póde soffrer a minima contestação. Hoje a cli- nica muito se aproveita da rapida absorpção que se dá pela pelle, servindo-se delia como uma das vias de introducção de medica- mentos, mais segura e energica, de que dispõe o medico, quando deseja que a substancia administrada actue immediatamente. A grandiosa descoberta do methodo hypodermico por Fourcoy, (i) Jaccoud— Nouveau Diclionaire de Medicine et Chirurgie. “ uma das maiores conquistas da therapeutica moderna (na phrase de Gubler) ” é para o Dr. Berlioz (i) “ o meio mais perfeito de asse- gurar e avaliar os efeitos dos medicamentos. ” Hoje o methodo hy- podermico tende a tomar a vanguarda de todas as vias de absor- pção. Proseguindo a therapeutica em sua marcha evolutiva, acre- ditamos que não se fará esperar muito a hora, em que não se precisará mais da via gastro-intestinal ;* e será então o methodo hypodermico a unica porta, que dará entrada aos agentes medica- mentosos. Embora os preconceitos populares procurem algemar este importantíssimo methodo, elles á luz da sciencia hão de desapparecer attonitos. Na manifestação destas nossas idéas não recorremos a hy- perboles. Já vemos o professor Bouchut (2) citar este anno dous casos curiosos; um do Dr. Ciaramelli, em que esse pratico con- seguio debellar uma anemia, mediante o emprego de injecções hypodermicas de ammonio-citrato de ferro; outro do Dr. E. Tho- mann de Graz, combatendo a syphilis com as injecções sub- cutâneas de iodoformio. Feitas estas ligeiras apreciações sobre o papel absorvente da pelle, vejamos quaes os phenomenos que o physiologista observa, quando o álcool actúa sobre o tegumento externo. O álcool applicado sobre a pelle intacta faz contrahir os vasos capillares, produzindo uma certa sensação de frio por sua evaporação, sensação essa tanto mais apreciável, quanto mais quente e agitado estiver o ar, sendo esse frio acompanhado de pallidez dos tegumentos. Marvaud (3) diz que, applicando mesmo o álcool a 90o, não observára irritação, nem calor da parte em contacto com o liquido, não obstante muitos experimentadores terem assignalado esse facto. Estando a pelle privada de sua epiderme, por exemplo, sobre uma ferida, ou uma mucosa (con- junctiva ocular), então os effeitos do álcool variarão segundo o gráu de sua concentração. Eis o que se passa: A — contracção (1) Berlioz — Manuel de Thérapeutica— 1883. (2) Bouchut — Compendiam Annuaire de Ihérapeutique— 1883. (3) Marvaud — L'alcool— 1872. dos capillares; B — uma sensação de frio resultante da evapo- ração do álcool; C — coagulação dos elementos mucosos e albuminoides; D—dilatação dos vasos consecutiva á sua con- tracção: donde resulta a excitação circulatória com sensação de calor constante e dolorosa, e finalmente estado inflammatorio dos tecidos, podendo mesmo observar-se um principio de gan- grena, segundo o grau de concentração do álcool, como affirma o professor Gubler (1). Os casos de que nos faliam os atictores, de embriaguez em seguida á applicação de compressas itnbe- bidas em aguardente ou álcool camphorado, de que Guerin e Nelaton também citam exemplos, parece-nos mais racional attri- buil-os, como pensa o Dr. Racle, á inhalação dos vapores do álcool e sua absorpção pelas vias respiratórias; phenomeno esse frequentemente observado em certos indivíduos, que pelos mis- teres de sua profissão acham-se em contacto com os vapores do álcool, como já dissemos. Dada a absorpção, suggere-se-nos logo ao espirito esta idéa : a absorpção terá logar pelas veias ou pelos chyliferos? Os auctores divergiam outrora sobre este ponto, attribuindo uns ás veias, òutros aos chyliferos. Tiédemann e Gmelin por experiencias feitas em cavallos, que foram depois sacrificados, acharam álcool na veia porta, nasplenica- e na mesenterica superior, e, não encontrando elles a presença daquelle liquido nos chyliferos e no canal thoraxico, concluíram ser as veias a unica estrada por onde o álcool transita para chegar á torrente circulatória. Muito antes Magendie já havia demon- strado, que o álcool penetrava directamente nas veias. Jacoud (2), tratando da absorpção do álcool, assim se exprime : —Les veines paraissent à l'exclusion des lymphatiqnes, les agents de cette ab- sorption. Hoje a opinião de Magendie é abraçada por todos, e sanccionada pelos recentes trabalhos de Marvaud, Lallemand, Perrin e Duroy. (1) Gubler— Commentairesdu Codex— i8é3. (2) Jacoud— Nouveau Dictionaire de Médecine et Chirurgie. Eliminação. — Demonstrada a absorpção do álcool, conhecida qual a natureza dos vasos em que esse liquido penetra para embre- nhar-se pela arvore circulatória, se nos offerecem duas questões importantíssimas, em que os physiologistas se separam, estabe- lecendo suas tendas de campanha em pontos diametralmente oppostos. Eis o movei do combate: Será o álcool eliminado em natureza, como producto excrementicio, como sustentam uns; ou será elle transformado parcialmente ou in totutn, como procuram demonstrar outros ? Neste ponto descortinamos um campo vastíssimo, onde pullulam simplesmente duvidas e divergências palpaveis ! O nosso dynamometro scientifico accusa um decrescimento das nossas forças. Não podemos recuar ; ante o dever não hesitamos. Discu- tamos, embora em meio da jornada tenhamos de cahir exhautos. Duas theorias completamente oppostas se esgrimam, tendo uma á sua frente o professor Liebig, que sustenta ser o álcool um ali- mento respiratório, um agente thermogenico, que, comburindo-se na economia, dá como resultado—agua e acido carbonico ; trans- formação essa a que o álcool chega sempre, graças á acção combu- rente dooxygenio, que para elle tem affinidade especial (1). A outra theoria acha-se patrocinada com os nomes de Lallemand, Perrin e Duroy, que acreditam ser o álcool completamente eliminado em natureza, effectuando-se a sua eliminação tão rapidamente, que no fim de 24 horas seria impossível verificar-se sua presença na urina e nos productos da respiração (2). Rover-Collard, defen- dendo como fervoroso adepto as idéas da escola de Lallemand, Perrin e Duroy, sustenta a proposição em absoluto : L’alcool passe inalteré à travers 1’organisme, est eliminé en nature par les sécrètions. (1) Discutiremos esta questão nos capítulos concernentes á Nutrição, Cir- culação e Calorificação. (O autor)f (2) Rabuteau — Traité de Thêrapeutique et de Phannacologie — 1874. Ao lado dos sectários do professor Liebig erguem-se os vultos de Bouchardat e Sandras, que admittem poder o álcool ser immediatamente convertido em agua e acido carbonico, mas dizem ter encontrado muitas vezes como producto intermediário o acido acético. Bõcker, citado por Trèpan (1), pensava do mesmo modo muito antes de ter conhecimento dos resultados obtidos pelo professor Bouchardat. Ducheck da Allemanha, segundo refere Trèpan, acreditava na transformação do álcool, passando porém esse liquido a outros productos intermediários, taes como: alde- hydos, acido acético e oxalico; e sómente em ultima phase se resolveria em agua e acido carbonico. Baudot, fazendo varias ex- periências neste sentido, conclue que, conforme admitte Liebig, o álcool é queimado no organismo, e nelle se destroe. Em face de theorias tão absolutas, Dupré em 1872, e Anstie, Albertoni e Lussana em 1874, approximaram-se um pouco da verdade, acre- ditando que o álcool era queimado “ quasi in totum", sendo uma pequena parte eliminada pelas fezes, urina e ar expirado ; notan- do que a quantidade de álcool, encontrado no estado natural, variava segundo a dóse administrada, e a dóse ingerida de uma só vez; finalmente acreditando que a quantidade do liquido apresen- tava-se mais ou menos modificada, segundo o tempo decorrido desde a primeira applicação, até o momento da observação. Evi- tando os extremos, que sempre são prejudiciaes em qualquer argu- mentação, e não nos deixando arrastar pelo scintillar das theorias de reclame, acreditamos que : — dada a absorpção do álcool, uma parte desse liquido passe por transformações (de natureza ainda para nós mysteriosa), e accumulando-se uma certa fracção em alguns orgãos da nossa economia, outra parte do liquido seja eli- minada em estado normal. Esta opinião, que abraçamos, é actual- mente a mais seguida, tendo por defensores Hugo Schulinus, Dubois e Godfrin (2), que em sua these apresentada á Eaculdade de (1) Trèpan — Thèse de Paris — Lálcool et sou adiou — 1872. (2) Godfrin — Thèse de Paris — L'álcool, adiou et applicaiious therapeutiques — 1869. Medicina de Pariz, sustenta também estas idéas. Marvaud, estu- dando a acção physiologica e therapeutica' do álcool, bem assim as suas applicações em hygiene, repelle o absolutismo das duas theorias oppostas (a de Liebig e a de Lallemand e Perrin), proferindo estas palavras: L''álcool séjourne plus ou moins longtemps dans les difforents organes (cer- veau, foie, reins) et dans le sang, et s’elimine par les divers sécretions (expirations, sueurs, urines). Proseguindo o mesmo auctor, assim se exprime, de harmonia com a nossa humilde opinião: Une partie de 1’alcool absorve subit des alterations dans 1’économie, puis qu on ne la retrouve pas dans les sécretions. Grâces à ces alterations encore peu connues, mais que consistent sans doute dans une combustion plus ou moins com- plète de ses éléments, 1’alcõol transformé dans le sang exerce une action particu- lière sur la nutrition. Le calorique qui resulte de cette combustion étanttout entier transformé en force et en mouvement (par suite de 1’excitation imprimée aux fonctions intellectuelles, sensitives et motrices, sous l’infliience de 1’alcool libre dans le sang) reste latent et ne se révéle par aucune augmentation de température. Au contraire 1’alcool abaisse la température organique, diminue la quantité d’acide carbonique exhalée par les poumons, restreient la proportion des résidus éliminés par les urines, enraye la désassimilation et favorise la stéatose (i). A transcripção, que aqui fazemos das palavras do illustre professor da escola Val-de-Grâce, é o forte alicerce sobre que repousa a nossa opinião: — do álcool absorvido, parte se transforma em sua excursão pelo nosso organismo, parte se eli- mina em natureza pelos diversos emmunctorios, .localisando-se uma certa fracção em alguns orgãos especiaes. Em occasião opportuna trataremos da distribuição e da lo- calisação do álcool, em proporções variaveis para certos departa- mentos da nossa economia. O álcool persiste no organismo durante (i) Marvaud— L'álcool, son actionphysiologiquc — 1872. uma época variavel para os differentes apparelhos, desprendeu - do-se depois em natureza pelas vias de eliminação. Essa eliminação começa algum tempo depois da ingestão; ella é constante, conti- nuando emquanto existir álcool no organismo, como affirma Godfrin (1). Em sua qualidade de corpo volátil, -como se exprime o professor Gubler (2), o álcool “se elimina pelos emmunctorios normalmente abertos á excreção das substancias voláteis”, pelos pulmões, rins e pelle. Essa mesma eliminação, no começo muito abundante (segundo Jaccoud), vai decrescendo progressivamente, á medida que se afasta do momento da ingestão. Não é sómente o álcool ingerido em excesso, como diz o professor Jaccoud (3), que passa nos productos de excreção; encontramol-o também na urina e expiração pulmonar, depois da ingestão de fracas dóses de bebidas àlcoolicas. Os pulmões também offerecem, como já dissemos, uma via de desprendimento para uma pequena quanti- dade de álcool em natureza; e para provar esta nossa asserção, apresentamos o hálito dos indivíduos, que se entregam aos festins de Baccho. Bouchardat e Sandras vão além, asseo-urando que, para o organismo saturado pelo álcool, se descobre o aldehydo de mistura com os gazes da expiração. Quando alguém nos falia de doentes, que têm ingerido dóses conside- ráveis de álcool, e cuja expiração não denota o menor odor, somos forçados a acreditar com Godfrin em uma excepção inex- plicável, ou em uma aberração do olfato do observador. E pela acção irritante local dos líquidos alcoolicos, que se explicaria, se não a frequência das pneumonias nos alcoolistas, ao menos muito provavelmente a sua gravidade excepcional. Todas as phlegmasias das diversas secções do apparelho respiratório, desde o larynge até á8 vesículas pulmonares, têm sido citadas nos alcoolistas como determinadas directamente pelas bebidas espirituosas. “A influencia continuada do álcool sobre o desenvolvimento da (1) Godfrin — Thèse de Paris— 1869. (2) Gubler— Leçons de Thérapeutique—1880. (3) Jaccoud — Nouveau Dictionaire de Medicine et Çhirurgie. tuberculose pulmonar, parece muito provável, se não provada ”, como pensa Bell (1). Finalmente para termos uma prova de que o pulmão elimina o álcool em natureza, ahi estão as alterações do orgão da phonação, patenteadas pela' voz rouca e crapulosa, bem caracteristica dos alcoolistas por profissão. A superfície cutanea é mais uma via de eliminação para o álcool, como observaram Lallemand, Perrin e Duroy ; sendo para esses autores a pelle o emmunctorio, que des- prende maior quantidade do liquido espirituoso; ao contrario do que pensa Trèpan (2), “ a exhalação pela pelle se opera de uma maneira insensível.” Acreditamos no poder eliminador da pelle, não como o principal emmunctorio, porque, nessa funcção excre- toria, parece-nos ser o rim o mais activo. Atravessando as glân- dulas renaes, o álcool passa nas urinas activando a sua secreção, em virtude do estimulo, que desperta em seu trajecto pelo orgão da uropoiése. A eliminação do álcool pelos rins decresce progres- sivamente, prolongando-se durante 12 a 15 horas (Trèpan); e então poderemos verificar a sua presença na ourina por meio do liquido de prova, muitas vezes empregado no estudo do pro- ducto, de que nos occupamos. Eis a formula do liquido de prova, apresentada pelo Dr. Trèpan: B.chromato de potássio i gramma Acido sulphurico 30 grani mas. Algumas horas depois de uma dóse moderada de aguar- dente (80 a 100 grammas), as ourinas excretadas encerram bastante álcool para fornecer na distillação “ um producto capaz de entrar em combustão ”, como affirma o auctor acima citado. Não nos resta a menor duvida de que, pela passagem prolongada do álcool atravez da substancia renal, tenham logar diversas (1) Bell — On the effecis of ihe use of akoolic liguors 011 tubereular deseases.— {Am. Journal.) (2) Trèpan—’Lalcool et sou Aciion — Thèse de Paris — 1872. 33 phlegmasias do apparelho genito-ourinario. A nephrite albumi- nosa chronica e a moléstia de Brigth podem ser frequentes, ao menos prováveis, nos individuos, que se entregam ao abuso dos alcoolicos. Um facto, que devemos ter em vista, é que, no alcoo- lismo agudo, passageiro, podemos observar a albuminúria, como o provam diversos casos publicados na Gazette des Hopitaux de Pariz (1); marchando também ao lado destas entidades mórbidas as degenerescencias—amyloide e gordurosa dos rins. Acção sobre o apparelho digestivo Os orgãos digestivos destinados a receber e a absorver os líquidos espirituosos, como a porta principal, que dá accesso ao álcool na economia, acham-se por isso mais expostos á acção local das bebidas alcoólicas. Assim, quando se ingere uma certa dóse moderada de álcool potável, v. g., a aguardente, expe- rimenta-se a principio uma sensação de calor ao nivel das mu- cosas, que se acham em contacto com o álcool; variando esta sensação segundo os- individuos, e passando mesmo desapercebida com o habito, como sóe acontecer com aquelles, que abraçam a embriaguez como profissão. Por seu contacto com as mucosas— buccal, pharyngeana e oesophageana, o álcool provoca maior activi- dade das secreções—salivar e mucosa; achando-se porém concen- trado a 90o, por exemplo, elle desperta sobre as mucosas uma sensação de queimadura mais ou menos temporária, acompanhada (i) Gazette des Hopitaux— 1864, n. 26. de turgescência das papillas linguaes. Chegado ao estomago, o álcool não actúa transformando-se em outros corpos; e os mais fieis adeptos da combustão, como os imitadores dò professor Liebig, não admittem que essa combustão se opere immediata- mente no estomago; porquanto dizem ter encontrado, algum tempo depois, álcool em natureza na veia porta. Quanto á trans- formação do álcool em acido acético, pela presença do muco gás- trico auxiliada pelo calor, como acreditam Leuret e Laissagne, já tivemos occasião de nos pronunciar, não aceitando essa transformação in totiim, mas em pequena quantidade do liquido, como acreditam Lallemand, Perrin e Duroy, em virtude das suas experiencias feitas neste sentido. Achando-se o álcool diluido e sendo administrado em dóses moderadas, actúa como um estimu- lante, provocando a hypersecreção dos suecos—gástrico, pancrea- tico e biliar, donde resulta a sua efficacia, como um agente auxiliar da digestão, segundo pensam Trousseau e Pidoux (i). O sabio professor Claude Bernard, em suas conscienciosas experiencias, deixou evidenciado que o álcool dá, como resultado de sua pre- sença, um augmento considerável de secreção nas glandulas do estomago e seus annexos. Pelas suas propriedades de estimu- lante geral o álcool, despertando as contracções da camada mus- cular do estomago, coadjuva os phenomenos mecânicos da digestão. O Se o álcool achar-se misturado com substancias assucaradas, (como já dissemos tratando da absorpção), ou se fôr ingerido em dóses consideráveis, uma parte atravessará o pyloro, e não será absorvida senão no intestino delgado; donde resulta o incon- veniente de correctivos assucarados, quando desejamos obter effeitos rápidos, como muito bem raciocina o Dr. Trèpan (2). O contrario do que acabamos de descrever observaremos, quando o álcool estiver concentrado, ou fôr ingerido em dóses elevadas. Assim o álcool produz uma viva irritação da mucosa estomacal, (1) Trousseau et Pidoux.— Traité de Thérapeutique et de Matière Médicale — i875- , , (2) Trèpan — Thése de Paris — L'álcool et sou action — 1872. 35 acompanhada de uma sensação de queimadura e ardor, podendo dar origem a gastrites rebeldes, de que falia o professor Gubler (1). Orphila pelas suas experiencias já havia mencionado a inflammação muito intensa do estomago, caracterisada pela friabilidade da mu- cosa, e outras vezes por ecchymoses e infiltrações sanguíneas deste orgão, segundo diz Marvaud (2). O muco gástrico coagula-se, a pepsina destróe-se, a digestão paralysa, d’ahi a provocação de vo- mitos que podem ser seguidos de dyspepsia dolorosa e de gastrites, como criteriosamente acredita Gubler. Os indivíduos, que se en- tregam a libações continuas e abundantes, em geral digerem mal; em muitos um certo numero de glandulas de pepsina já não existe. Com a autopsia praticada em indivíduos, que têm descido ao tu- mulo com o progresso da embriaguez, os auctores têm verificado muitas vezes a coloração vermelha da mucosa gastro-intestinal; o que também póde ser evidenciado, depois de um excesso cie aguardente, ou de qualquer outra bebida álcoolica. Acompanhamos em sua opinião Trèpan, que sustenta não considerar-se como pa- thologica essa turgescência dos vasos, a qual é apenas a conse- quência do trabalho digestivo. Godfrin (3) diz que o professor Tardieu não cita nem um caso de gastrite aguda, observado nas numerosas autopsias, a que procedêra como medico-legista. Pela irritação considerável e constante, que o álcool provoca no tubo in- testinal, esse liquido torna-se a causa de um grande numero de afie- cções do referido apparelho. Assim o amollecimento da mucosa do estomago e sua friabilidade, a hypertrophia e a degenerescencia granulo-gordurosa, a ulceração simples desse orgão, bem assim o cancro ahi localisado em indivíduos sujeitos á diathese, são, segundo Leuret e Lanceraux, o triste apanagio dos infelizes, que fazem do álcool o ideal de todas as suas aspirações. Lesões seme- lhantes e não menos graves o pathologista também irá encontrar no intestino. (1) Gubler — Leçons de Thérapcutique—1880. (2) Marvaud — Lalcool—1872. (3) Godfrin — Thèse de Paris — Válcool—1869. Distribuição e accumulo do álcool em diversos orgãos Lallemand, Perrin e Duroy procuraram demonstrar pelas suas experiencias feitas á luz do laboratorio, que o álcool,chegando a todos os tecidos do organismo, se accumulava mais no sangue, na matéria cerebral e no fígado, nas relações seguintes: “ Sangue 1,00; Matéria cerebral 1,34; Figado 1,48” (1); observando-se (se- gundo Godfrin) esta proporcionalidade, quando o álcool é levado pela via gastrica. Sendo porém o mesmo liquido injectado no sangue, aquellas relações serão alteradas, e teremos nesse caso o seguinte resultado: “ Sangue 1,00; Matéria cerebral 3,00; Fi- gado 1,79.” Outros physiologistas, como Hugo e Schulinus sustentam ser uniforme a distribuição do álcool no organismo, e que o san- gue tem proporcionalmente mais álcool, do que qualquer outro tecido. Lallemand, Perrin e Duroy admittem ser o fígado, o orgão onde se dá maior accumulo de álcool. Não nos conformando com semelhantes opiniões, acreditamos, como Trèpan, ser antes a ma- téria cerebral o tecido mais impregnado pelo álcool, como o provam as autopsias feitas em indivíduos, victimas do alcoolismo. Alguns physiologistas experimentadores explicam esse maior accumulo do álcool para os centros nervosos, em virtude de uma affínidade de elecção, conservando-se até por mais tempo do que em todos os outros orgãos, sendo por conseguinte a sua eliminação excessivamente lenta. Temos em apoio á nossa opinião estas palavras de Godfrin: (x) Godfrin— Thèse de Paris— L'álcool, sou adiouphysiologiqite d iherapeu liquc— 1869. O álcool abi (nos centros nervosos) se localisa e accumula de tal modo, que durante o periodo alcoolico é o cerelno, que (cm peso igual) contêm-n’o em maior quantidade, que todos os orgãos da economia. (1) A presença do álcool livre, na substancia nervosa, basta para explicar as perturbações suscitadas por este liquido no apparelho cerebro-espinhal e em suas dependencias, como pon- dera Marvaud. O facto de ter-se encontrado álcool em natureza, na massa cerebral, tem sido confirmado por muitos physiologistas. Assim em um grande numero de autopsias medico-legaes, prati- cadas em indivíduos mortos em estado de embriaguez, o cheiro do álcool exhalado do cerebro, tem-se revelado claramente, sendo o professor Tardieu (2) um dos primeiros a assignalar este facto. Porém manda a verdade que confessemos, que a presença do álcool, sua accumulação e dosagem não foram per- feitamente estudadas, senão depois dos trabalhos de Lallemand, Perrin e Duroy (3). O professor Jaccoud (4) em seu Diccionario refere um caso, em que a autopsia descobrio no cadaver de um soldado (fallecido 32 horas depois da ingestão de um litro de aguar- dente), álcool em natureza, não só no cerebro, como também no sangue e no figado. Sobre este ponto de physiologia do álcool agita-se a grande questão de saber — se esse liquido actúa di- rectamente sobre a. cellula nervosa, porque elle a impregna penetrando em seu interior, ou indirectamente por sua presença, como estimulante physiologico, no liquido sanguíneo? E uma das múltiplas questões da physiologia do álcool, em que a sciencia cruzando os braços, responde-nos — Néscio. Marvaud (5), conhecendo a difficuldade do problema ainda mysterioso, tem a franqueza de dizer, como homem que preza a sua probidade scientifica: Contentons nous des résultats de l’experimentation, sans nous laisser aller dans le champ des conceptions théoriques et des hypothèses. (í) Godfrin — Thèse de Paris — L'álcool, etc. — 1869. (2) Tardieu — Etude Médico-Légale sur l'Empoisonncment— 1875. (3) Lallemand, Perrin — Du rôle de 1álcool et des anesthesiqucs — 1860, (4) Jaccoud — Nouveau Dictionaire de Medicine et Çhirurgie, (5) Marvaud— Ealçoçl—1872. Se os mestres assim se declaram, o que faremos nós? A presença do álcool no sangue foi reconhecida primeira- mente pelo professor Magendi, submettendo á distillação o liquido sanguíneo, d’onde conseguio extrahir o álcool (i); Ségalas attri- buio a embriaguez aos princípios alcoolicos encontrados no “meio interno”, na eloquente phrase de Claude Bernard. Bouchardat e Sandras em 1847, procedendo á analyse do sangue de alguns animaes alcoolisados, verificaram o odôr pro- prio do álcool nos productos da distillação. Com o apparecimento dos importantes trabalhos de L. Lallemand, Perrin e Duroy, em 1860, ficou perfeitamente demonstrada a presença do álcool no sancrue, como um facto incontestável. Assim estes sinceros e in- cansaveis observadores tendo introduzido no estomago de dous cães de grande porte 120 grammas de álcool a 21o, em duas dóses com intervallo de meia hora, e recolhendo depois uma certa quantidade de sangue extrahido da carotida primitiva, retiraram pela distillação no apparelho de Gay-Lussac uma quantidade considerável de liquido, que apresentava todos os caracteres phy- sico-chimicos do álcool. Reservamo-nos para o capitulo consa- grado ao estudo do sangue e da circulação, onde discutiremos as modificações physicas, chimicas e physiologicas, que experimenta o liquido sanguíneo em contacto com o álcool. Existe ainda um outro orgão—o figado, onde o álcool costuma fixar sua perniciosa residência. Além da hypersecreção biliar, que os líquidos alcoo- licos provocam, actuando sobre a glandula hepatica, o que ha de mais interessante acha-se inscripto no sombrio quadro do alcoo- lismo. O abuso prolongado das bebidas alcoólicas traz, como con- sequências inevitáveis, gravíssimas lesões de que se resente o apparelho hepato-biliar. Lallemand, Perrin e Duroy admittem que seja o figado o orgão, que armazena maior quantidade de álcool. Tratando da accumulação desse liquido nos diversos teci- dos, tivemos occasião de nos manifestar contrario á opinião de (i) Magendi — Lcçons sitr les phénoménes physiques de la vie (cit. por Mar- váud.) Lallemand e de seus proselytos; porquanto acreditamos, de har- monia com as experiencias de muitos physiologistas, ser a massa cerebral o ponto de maior armazenagem para o álcool. Pela acção constante dos liquidos alcoolicos sobre a glandula hepatica, surgem terríveis affecções por demais conhecidas. As alterações ora interessam o trama da substancia conjunctiva, ora se assestam nas próprias cellulas hepaticas. Assim no primeiro caso teremos a cirrhose, (hepatite diffusa intersticial), inflammações catarrhaes passageiras (icterícias agudas); no segundo caso será a alteração gordurosa, ou a steatose, despontando depois a tubercularisação. E partindo destes dados pathologicos, que o clinico vai encontrar as condições pathogenicas de um grande numero de fígados gor- durosos, especialmente nos indivíduos filiados ao alcoolismo. Até quando persistirá o accumulo do álcool na economia? Sobre esté ponto nada se conhece de positivo. Consideramos por demais diffícil o problema de marcar com precisão o tempo em que os liquidos alcoolicos se conservam em nosso organismo; porquanto os auctores, que nos poderiam esclarecer essa questão, divergem muito em suas conclusões. Assim uns, como Dupré, dizem ser o álcool expellido em algumas horas; outros, como Sublotin e Duroy, adreditam que esse accumulo se prolongue até 32 horas depois da ingestão das bebidas alcoólicas. Parece-nos mais conveniente não estabelecer esses prazos ao movimento, que um corpo tem de executar; porquanto muitas causas, taes como — a quantidade do álcool absorvida, o exercido, o movimento e a temperatura animal podem influir sobre esse phenomeno da accumulação. Acção sobre as secreções Dada a ingestão do álcool, a sua influencia também vai se repercutir sobre as funcções secretorias. Estudando os pheno- menos que se passam no apparelho digestivo, tivemos occasião de demonstrar a acção manifesta, que exercem os líquidos alcooli- cos sobre a secreção das glandulas do estomago, sobre as super- fícies mucosas e sobre os suecos — pancreatico e biliar; dando como resultado uma superactividade funccional em todos os or- gãos. De todas as secreções (ou excreções como rigorosamente admittem alguns physiologistas), é sem duvida a secreção ouri- naria a mais importante, e da qual vamos nos occupar mais mi- nuciosamente. Os líquidos alcoolicos pertencem ao grupo dos poderosos diuréticos, de que hoje dispomos, graças aos estudos e ás expe- riências a que se dedicou o illustre therapeuta Rabuteau. Embora Hammond (i) se apresente negando ao álcool as propriedades capazes de provocar a diurese, acreditando antes na diminuição da excreção ourinaria; julgamos que a opinião dissonante de um auctor não poderá, de certo, invalidar a convicção de muitos, não menos dignos do nosso acatamento á sua probidade scientifica.' Marvaud, Lallemand, Perrin e Duchek (da Allemanha), estudando a acção physiologica do álcool sobre o apparelho ouri- nario, chegaram aos mesmos resultados, a que Rabuteau já havia attingido: —o álcool augmenta a diurese. Das diversas experiencias a que se devotou o professor Rabuteau, concluio este notável therapeuta, que os effeitos diuré- ticos do álcool se manifestam muito rapidamente, sendo essa (i) Hammond— Physiological and Medico-Legal Journal— 1875. diurese proporcional á dóse do liquido ingerido. É no conheci- mento “dos effeitos diuréticos do álcool, que vamos encontrar a explicação de um certo numero de phenomenos, ” como raciocina Rabuteau. Assim na polyuria, ou na diabete insípida, entre as diversas causas que podem provocar o seu apparecimento, figuram os excessos alcoolicos anteriores, ou succedendo immediatamente á embriaguez ; concluindo Lanceraux (1) pelas suas numerosas observações, ser: “ immédicitement après /'' excès de bois sons, ou le lendemain, que se sont fait sentire la soif ct la polyurie. ” Brierre de Boismont, citado pelo professor Rabuteau, diz ter observado indivíduos, inutilisados pelos progressos da embria- guez, atacados de hydropisias depois da privação do vinho e da aguardente. Essa hydropisia (continua Brierre de Boismont) começando pelos membros inferiores, e se estendendo depois ao tronco e a face, resistia a todos os meios pharmaceuticos, não cedendo senão com a volta do álcool. Sob influencia desta substancia (o álcool), a economia habituara-se, por assim dizer,—a ser atravessada por uma grande quantidade d’agua; porque no momento em que a excreção ourinaria augmentava, a sede também crescia. Mais tarde o álcool não produzindo uma eliminação sufficiente, os rins torna- vam-se languidos, d'onde o apparecimento da hydropsi.a consecutiva. (2) O poder diurético dos vinhos tem sido attribuido por uns ao álcool, por outros aos saes que entram em sua composição, e muito particularmente ao bi-tartrato de potássio. Sendo o vinho branco mais rico em bi-tartrato de potássio, e gozando além disto de maior poder diurético do que o vinho tinto, procurou-se encon- trar nesta relação o que prende a causa ao effeito; o que não é exacto. O bi-tartrato de potássio, assim como todos os saes orgânicos, taes como — os citratos, malatos, oxalatos, etc., se transformam no organismo em carbonatos de potássio. (1) Lancereaux — De la Polyurie. — Thèse de Paris — 1869. (2) Rabuteau — Eléments de ThérapeuHquc ct de Pharmacologic — 1875. Os carbonatos só manifestam os seus fracos effeitos diuréticos (que tornariam as ourinas alcalinas), quando administrados em quantidade sufficiente (6 grammas pelo menos), como diz o Dr. França, estudando o papel dos líquidos alcoolicos sobre a funcção ourinaria. E dê observação que os vinhos mais ricos em saes não os possuem em quantidade tal, que, em dóses mesmo regulares, possam tornar as ourinas alcalinas. Por consequência o effeito diurético dos vinhos, longe de ser attribuido ao bi tartrato de potássio, deve antes suas propriedades ao álcool. Assim, se com a ingestão dos vinhos brancos a excreção ourinaria torna-se mais pronunciada do que com o uso dos vinhos tintos, é por serem aquelles mais ricos em álcool e conterem menos tannino. Com a ingestão dos líquidos alcoolicos as ourinas também apresentam-se modificadas em sua composição chimica. Marvaud experimentando em si mesmo os effeitos diuréticos do álcool, annunciados por Lallemand, Perrin e Duroy, observou que (com a ingestão de ioo grammas de aguardente misturada com uma certa quantidade dagua, e tomada entre as duas refeições em pequenas dóses), as ourinas accusavam diminuição de uréa, de acido urico, e dos princípios solidos contidos em seu seio. Por esta importante conclusão apresentada por Marvaud, vemos que o álcool enfraquece a impulsão pela ourina dos pro- ductos ainda uteis á vida, restringindo também a eliminação do acido carbonico pelos pulmões. Sob este ponto de vista duplo, o álcool occupa um logar saliente entre as substancias conhecidas com o nome de “alimentos de poupança”. Ouanto á secreção sudoral, suppozeram por muito tempo os auctores que os alcoolicos não favoreciam-na, ao contrario paralysavam a funcção da pelle. O proprio Todd, o vulgarisador da therapeutica do álcool, e Edward Smith assim pensavam; e baseados nesse principio associavam ao álcool o acetato de ammonio, quando tinham em vista provocar a diaphorése. Desta opinião não compartilhamos, porque é de observação vulgar, que addicionando-se o cognac, ou a aguardente ás infusões chamadas — sudoríficas, os effeitos, que desejamos obter, são rápidos e seguros. E principalmente no campo para o uso domestico, onde vemos a pratica desse principio scientifico ser observada empiricamente pelo povo; e os effeitos diaphoreticos do álcool não se fazem esperar. O uso do leite fervido e addiccionado ao cognac, nos casos de suppressão da transpiração, não tem outro fim senão provar que o álcool é um excellente diaphoretico. Assim osfolliculos sudoríparos, activados em sua funcção, deixam passar atravez de si o álcool, o qual, excitando-os por seu turno, exagera nas glandulas sudoríparas o trabalho de diaphorése, despertado por outros agentes. Em con- clusão, admittimos o álcool como um magnifico activador da perspiração cutanea. Exercerá por ventura o álcool alguma modificação sobre a secreção do leite? Dos auctores, que consultámos sobre esta questão, só vemos destacar-se o Dr. Max Itiempf (de Munich), que acredita que o álcool e as bebidas alcoólicas, não modifi- cando a quantidade do leite, apenas augmentam os seus elemen- tos gordurosos, segundo lemos no Jornal de Therapeutica do professor Gubler (1). Acreditamos todavia que os alcoolicos possam augmentar a secreção lactica. E simplesmente uma hypo- these que formulamos, embora ella tenha de desmoronar-se ao sopro da primeira objecção. Ora, citando Charpentier o caso de uma criança que apresentára os phenomenos de embriaguez devidos ao abuso das bebidas alcoólicas, a que se entregava a mulher que a aleitava (phenomenos esses produzidos provavel- mente pela eliminação do álcool em natureza), não nos repugna admittir, partindo desse facto, por analogia de estructura e de funcção entre as glandulas sudoríparas e a glandula mammaria, que o álcool, atravessando a charpenterie desta glandula não deixe de activar o seu funccionalismo, dando como resultado um augmento de excreção. Por conseguinte podemos muito racio- nalmente aceitar os líquidos alcoolicos como capazes de activar a secreção lactica, embora os competentes para a solução deste problema conservem-se ainda em silencio. (i) Gubler— Journal d& Thérapeutique — Mars, 1883. Acção sobre a circulação e respiração Em seguida á ingestão do álcool a circulação accelera-se, os batimentos cardíacos tornam-se mais pronunciados, o pulso au- gmenta de velocidade, e a face se hyperemia. Passados alguns momentos, esses batimentos mostram-se irregulares, e vão se enfraquecendo de um modo considerável. Sendo a dóse do álcool sufficiente para produzir a morte, a observação tem demonstrado que a circulação só pára depois da cessação de todas as outras funcções, segundo diz Orphila. O coração sendo o orgão, que dá o toque inicial da vida, é sempre o ultimum moriens, na feliz ex- pressão de Lallemand e Perrin. Por ter Poiseuille observado que o álcool favorecia o corrimento dos líquidos em tubos, muitos ex- perimentadores procuraram encontrar nesse facto a explicação da maior velocidade do sangue dentro dos vasos pela acção do ál- cool. Consideramos inadmissível essa explicação, porque se assim fosse, o phenomeno deveria existir emquanto a supposta causa actuasse, o que não se observa. Effectivamente sabe-se que essa acceleração circulatória é muito passageira, tendo logar igualmente quando ingerimos muitos outros líquidos, especialmente em tem- peratura um pouco elevada. Para estudar com precisão os phe- nomenos, que se passam no apparelho circulatório, Marvaud, empregando em suas experiencias o maravilhoso instrumento de Marey—o sphygmographo, concluio que, depois da ingestão do álcool em dóses pequenas, os batimentos do coração tornavam-se a principio mais energicos e frequentes, apresentando-se por fim demorados. Neumann, tendo praticado uma pequena aber- tura com a corôa de um trépano, e posto a descoberto o cerebro de animaes, aos quaes havia administrado o álcool, observou que, de cinco a vinte minutos depois de ingerido o liquido, os vasos cerebraes se dilatavam ; augmentando, porém, a dóse de álcool, a dilatação tornava-se muito irregular, sendo substituída por uma constricção dos capillares. Dos effeitos notáveis que o álcool exerce sobre a circulação, é sem duvida o mais im- portante o que se refere ao musculo cardíaco. Servindo-nos das palavras de Marvaud diremos que: “o álcool, longe de ser um excitante do coração, modera e enfraquece as contra - cções deste orgão”; não sendo senão no começo da administração e sob a influencia de dóses moderadas, que os batimentos se manifestam com maior frequência e energia. Perguntam alguns auctores : A que devemos attribuir essa influencia? Actuará o álcool directamente sobre o musculo cardíaco, ou antes modifi- cará elle. suas contracções por intermédio do systema nervoso, quer pelos ganglios do coração, quer pelo bulbo e pelos pneumo- gastricos ? Neste ponto as difficuldades se incrementam. Diversas têm sido as interpretações dadas pelos physiolo- gistas, chegando muitos a manifestar a sua mudez. Porém actual- mente, diz Marvaud, julgamos resolvida esta importante questão, graças ás investigações scientificas de um medico allemão, o pro- fessor Zimmerberg. Este auctor, fazendo experiencias afim de conhecer qual a influencia que o álcool exerce sobre a pressão sanguínea, concluio que a demora e o enfraquecimento do mus- culo cardíaco sob a acção do álcool são devidos principalmente á excitação das extremidades centraes dos nervos vagos ; porquanto a secção desses mesmos nervos faz voltar a pressão sanguínea ao seu estado normal, parecendo também possuir o álcool uma acção directa sobre o coração, porque a injecção desse liquido nas jugulares (não obstante a acção dos pneumogastricos), produz immediatamente abaixamento da pressão sanguinea no systema circulatório. Seja ou não verdadeira a interpretação dada por Zimmerberg, o que não podemos contestar é, que a circulação apresenta-se a principio excitada e depois retardada, attestan- do-nos o proprio pulso as suas modificações, graças ao seu fiel interprete, o sphygmographo de Marey. A respiração essa importantíssima funcção, que dá como resultado a transformação maravilhosa do sangue negro ou venoso, em sangue rutilante ou arterial, pela presença do ar atmospherico na retorta animal — o pulmão, também não escapa á influencia do álcool Sobre esta funcção ainda maiores são as duvidas, que pairam sobre o espirito dos physiologistas. Os autores pouco faliam da acção dos alcoolicos sobre a respiração, acreditando Marvaud ser por intermédio do bulbo, que a respiração e a circulação soffrem a influencia do álcool. Godfrin (i) reconhecendo a magnitude da questão diz : “ a acção do álcool sobre a respiração é extremamente difficil de analysar. ” O professor Rabuteau (2), estudando os effeitos phvsiologicos do álcool, conserva-se em completo silencio sobre este ponto. Não obstante o pequeno desenvolvimento dado pelos auctores, que compulsamos, vejamos sempre o pouco que se conhece relativo ao assumpto de que nos occupamos. Assim, após á ingestão de dóses moderadas de álcool, a respiração conservando a mesma regularidade, os movimentos respiratórios tornam-se a principio mais frequentes em seu rythmo, como se observa com a circulação. Passados alguns momentos, ou em seguida á ingestão de altas dóses de álcool, os movimentos perdem a sua frequência, apresentam-se moderados, e, perturbando-se o seu rythmo normal, a respiração torna-se difficil, intermittente (saccadée), podendo o enfraquecimento ou o embaraço attingir até ao stertor. Lallemand e Maurice Perrin (3) observaram em suas expe- riências feita sobre um cavallo alcoolisado, que o animal apresen- tava por espaço de um quarto de hora apenas cinco inspirações por minuto. Marvaud applicando o sphygmographo ao sterno de um coelho, que se achava sob a influencia do álcool, obteve traçados que vieram confirmar os resultados, a que chegaram aquelles dons experimentadores. (1) Gpdfrin —These de Paris-—L' Álcool — 1869. (2) Rabuteau — Eléments de Thérapeutique e de Fhannacologie — 1875. (3) Lallemand e Maurice Perrin—Du role de l'álcool duns l'organismo—\860. Quanto aos phenomenos physico-chimicos os auctores acham- se de perfeito acordo, admittindo elles uma diminuição no acido carbonico exhalado; não acontecendo, porém, o mesmo, quando procuram explicar o facto. Assim, segundo acredita Duchek (da Allemanha), o álcool teria mais tendencia a oxydar-se, do que os outros principios do sangue ; elle se apoderaria desde logo com energia do oxygenio absorvido pela respiração e em circu- lação com o sangue. Accrescenta o mesmo auctor: “durante o lapso de tempo, que o álcool gasta para comburir-se, isto é, trans- formar-se em acido carbonico e agua, os outros principios combus- tíveis do sangue, e principalmente as matérias gordurosas, seriam temporariamente poupados ; ” explicando Duchek deste modo o vigor {embonpoint) dos ébrios de profissão. Duchek inter- preta o phenomeno da diminuição do acido carbonico exhalado, dizendo que — “sendo o álcool mais rico em hydrogenio, do que o assucar e a gordura, e, desde que elle entra em combustão, fornece, para uma mesma quantidade de oxygenio utilisado, uma proporção maior cbagua, e uma menor proporção de acido carbo- nico, do que os outros combustíveis do sangue ”. Berzelius, citado por Marvaud, attribuia a diminuição do acido carbonico exhalado ao facto de tornarem-se mais frequentes as inspirações sob a influencia dos líquidos espirituosos em geral; resultando d ahi uma diminuição de acido carbonico para cada uma inspiração ; ainda que a proporção dos gazes, eliminados em um tempo dado, se conservasse a mesma. Lallemand, Perrin e Duroy, não acei- tando como verdadeira a interpretação apresentada por Duchek, sustentam que o álcool, longe de ser muito combustível no sangue, tem pelo contrario uma grande tendencia a ser eliminado em natureza, quer pela respiração em estado de vapores álcoolicos, quer pela excreção ourinaria. O professor Bèclard (1), analysando estas opiniões, acredita que a diminuição do acido carbonico (i) Bèclard — Physiologie Humaine — 1880. exhalado com os productos da respiração, depois do uso das bebidas alcoólicas, parece ligar-se á uma outra.causa. É muito provável, diz Bèclard, que, emquanto o álcool circular no sangue, modifique o jogo natural das oxydações, paralysando-as em um certo grau sobre alguns princípios, e favorecendo-as sobre outros. Esta é a opinião mais geralmente admittida, a qual também abraçamos por achar-se de perfeito acordo com as idéas que sustentamos, porquanto não aceitamos o absolutismo das duas escolas oppostas, repi ('sentadas—uma por Liebig e outra por Lallemand, Perrin e I)uroy. Acção sobre o sangue Dada a absorpção dos líquidos alcoolicos, e transitando elles pela arvore circulatória, poderemos com segurança verificar a sua presença na massa sanguínea? Pela afifirmativa respondem todos os physiologistas. Em um dos capítulos anteriores já adiantámos algumas idéas sobre este ponto. Submettendo-se uma certa quan- tidade de sangue (retirado de um animal sob a influencia da embriaguez) á uma distillação minuciosa no apparelho de Gay- Lussac, a analyse chimica irá revelar a presença do álcool. Mas, uma vez chegado o álcool ao sangue, e acompanhando-o em sua circulação, quaes as modificações, que soffrerá a massa sanguínea em contacto com aquelle liquido? Eis-nos chegado a um dos pontos mais controversos da physiologia do álcool, em que os auctores têm-se manifestado tão differentes em suas conclusões, e cujas interpretações são algumas tão contradictorias, que nós, por falta de argumentos valiosos, ficamos indeciso em assignalar de que lado estará a verdade. Melindrosa é a attitude, em que nos achamos. ** Todavia as ' vádriencias e os estudos dos mestres permit- tem-nos aventaria importante questão, embora não consigamos encontrar o valor das incógnitas de tão difficeis problemas. Guiando-nos pelo professor Marvaud, estudemos as modificações physicas, chimicas e physiologicas, por que passa o sangue em presença do álcool. Modificações physicas. — Fibrina. — É sem duvida sobre esse elemento existente no plasma do sangue, que rnais se tem discutido relativamente á acção do álcool. Foi Schultz, quem primeiro observou, que o sangue fresco em contacto com o álcool coagulava-se, tomando uma côr ennegrecida; e sendo levado ao campo do microscopio, ahi Schultz observára, que a matéria corante abandonava os globulos do sangue, e se dissolvia no serum. Os globulos, se empallidecendo pouco a pouco, torna- vam-se incolores de tal modo, que no serum tinto de vermelho nadava um coalho descorado. Fleury e Monneret, fazendo as mesmas experiencias, dizem ter obtido resultados contrários, isto é, que o álcool não coagu- lava o sangue, apenas o ennegrecia. Injectando-se o mesmo liquido nas veias, sustentam muitos experimentadores, como Petit e Royer-Collard, que a coagulação da fibrina é rapida, e que a morte do animal segue-se immediatamente. Outros pelo contrario affirmam, como Magendie, que não apreciaram aquelles pheno- menos. Do labyrintho de opiniões tão diversas surgem Lalle- mand, Perrin e Duroy, attribuindo essas divergências á differença de gráus de concentração do álcool empregado. Dizem estes experimentadores que 20 grainmas de álcool a 28o, lançadas sobre 60 grammas de sangue fresco, produzem a sua coagulação ; se o álcool fôr de 21o, a coagulação será apenas incompleta; e se final- mente a concentração do álcool marcar sómente 16o, os effeitos coagulantes não serão observados. O professor Gubler (1) diz (i) Gubler — Leçons de Thérapentique— 1880. que o álcool muito diluído, sendo injectado nas veias, produzirá uma estimulação analoga á que contemplamos ordinariamente, quando elle é ingerido pelas vias digestivas. Achando-se porém, o liquido muito concentrado dar-se-ha, como acredita Gubler (r), a coagulação sanguínea, que por sua vez tornar-se- ha uma causa de morte, ou por thrombose dos troncos volumosos, ou por embolias múltiplas, indo ellas pôr as ultimas divisões da artéria pulmonar. Por esse modo de pensar, Gubler confirma as idéas de Lallemand, Perrin e Duroy, que encontram na con- centração do álcool a explicação da causa coagulante da fibrina. Outros physiologistas, partindo das experiencias de Schultz, acre- ditavam que o álcool devia produzir sobre o sangue, nos vasos, effeitos idênticos, d’onde concluíam elles “ o álcool coagula a fibrina”. Esta conclusão parece-nos não ser verdadeira, porquanto esse facto nunca se tem verificado, mesmo nas autopsias de indi- víduos, que succumbiram em estado de completa embriaguez. Certos observadores sustentam o contrario, isto é, admittem que a fibrina torna-se cada vez mais fluida; ao passo que outros, collocados em um plano neutro, consideram que o álcool não mo- difica a fibrina. O professor Rabuteau (2) repellindo por sua vez estas duas ultimas opiniões, diz: “ se isto acontecesse, seria con- trario á observação therapeutica, que prova a utilidade dos alcoo- licos nas hemorrhagias. ” Sobre esse ponto nada se sabe ao certo. Sómente encontramos hypotheses e mais hypotheses. O proprio Rabuteau, exprimindo-se deste modo : la Science nest doncpas fixce au sujei de 1'action exercée par Válcool sur la pbrine, reconhece o poder hemostatico do álcool nas hemorrhagias uterinas, confes- sando sinceramente não encontrar a explicação do phenomeno da hemostasia pelo álcool, como deduzimos destas duas palavras : — cette action de l'álcool est manifeste, mais encore inexpliquce. Eis o nosso fraco juizo, em face de um ponto tão litigioso. Acreditamos que, achando-se o álcool bastante concentrado (1) Gubler — Commentaires Thérapeutiques du Cod. Medi— 1868. (2) Rabuteau — Elèments de Thérapeutique ct de Pharmacologie— 1875. e sendo injectado nos vasos, é muito provável, que tenha logar a coagulação da fibrina; repugnando-nos, porém, admittir que esse mesmo phenomeno se produza, quando o álcool fôr le- vado pelas vias digestivas, por maior que seja o seu gráu de con- centração. Assim o álcool ingerido pelo tubo digestivo, chegando pouco a pouco em clóses muito fraccionadas ás radiculas venosas, para diffundir-se com a massa total do sangue, deve ahi achar-se muito diluido, pelo que não nos parece racional aceitar as suas propriedades coagulantes, quando administrado internamente. Se os alcoolicos prescriptos para uso interno gozam de fóros de he- mostaticos nos casos de hemorrhagias uterinas, julgamos essa hemostasia ser devida á contracção das paredes dos vasos pela acção tópica do álcool, phenomeno idêntico ao que se observa, quando esse liquido actúa sobre os capillares da pelle, e nunca devida essa hemostasia ás modificações por que passa a fibrina. Da retorta do chimico á retorta animal, a distancia é muitas vezes difficil ou impossível de precisar ! Efíeitos chimicos.—Terá o álcool uma acção especial sobre o globulo sanguíneo? Qual a sua influencia sobre os diversos gazes contidos no sangue? A presença dos líquidos alcoolicos modificará a proporção do oxygenio e do acido carbonico ? A esta serie de interrogações respondem os auctores, que consul- támos : A solução dessas questões deve lançar um jorro de luz sobre o papel ainda obscuro, que se concede ao álcool nas trocas tão numerosas e importantes, que se operam entre os globulos sanguíneos e o serum, seu meio sustentador e reparador. Semelhante estudo é digno de pesquizas aprofundadas e de minuciosas investiga- ções de physiologia experimental, e com especialidade da chimica organica; por- quanto este estudo acha-se apenas iniciado. Segundo os trabalhos mais recentes dos auctores francezes e allemães, diz Godfrin (i), os globulos vermelhos se compõem de duas partes — uma matéria fundamental ou stroma, e — uma (i) Godfrin — L'álcool e son action — Thèse de Paris. matéria corante a hemoglobina ; ambas de natureza albuminoide. No strorna se encontram — o protoplasma, semelhante ao dos globulos brancos; a globulina (Lacanu e Schmidt), e o pi'o- tagon, matéria gordurosa e phosphorada, descoberta em 1866 por O. Liebreich, a qual é encontrada não só na substancia nervosa, mas ainda no plasma do sangue. E sobre esse ele- mento existente no strorna—o protagon, que o álcool manifesta os seus effeitos chimicos. Assim admittem os auctores que os glo- bulos de gordura, encontrados no sangue de animaes alcoolisados, resultam do desdobramento do protagon em aciclos — oleico e phosphoro-glycerico, apresentando-se esses globulos gordurosos, como pontos scintillantes fluctuando esparsos na superfície do sangue, segundo observaram Magnus Hiiss e Perrin no campo do microscopio. Effeitos physiologicos. — Chegando o álcool á torrente circula- tória, o sangue toma a côr negra tal, qual verificaram muitos expe- rimentadores, addicionando aquelle liquido a uma certa quantidade de sangue retirado dos vasos. Bouchardat e Sandras,administrando a um gallo um pouco de pão embebido em álcool, foram os pri- meiros a assignalar aquelle facto; porquanto elles viram a cristã do animal, de vermelha tornar-se negra, quando os phenomenos de embriaguez se pronunciavam. Bouchardat explica o ennegre- cimento do sangue, appellando para a acção do álcool, o qual, reagindo sobre os globulos sanguíneos, impede-os de seu papel, — de fixar o exygenio; por conseguinte perdendo elles a sua côr vermelha, tornam-se asphyxiados, e, se a dóse do álcool fôr elevada, o animal deve morrer, como se o collocas- semos em um ambiente privado de oxygenio. Maurice Perrin considera que o álcool exerce uma “ acção catalytica ”, em virtude da qual nota-se diminuição na quantidade do acido car- bónico exhalado pela respiração; o que indicaria (segundo Mar- vaud) um enfraquecimento na actividade das oxydações inter- vasculares, e por consequência um decrescimento na producção do calor animal. Segundo as idéas de Marvaud, os resíduos das reacções intimas, que se passam no globulo sanguíneo, devem atravessar as suas paredes mais difficilmente de dentro para fóra, quando o serum encerrar uma certa quantidade de álcool; porque deste modo a corrente osmotica (Graham e Dutrochet) tende a se fazer antes de fóra para dentro. Por este simples phenomeno physico se explica, como o álcool poderá paralysar a nutrição e a vitali- dade dos globulos sanguíneos, determinando em seu interior uma parada e um accumulo dos materiaes, que se tornaram impróprios ao seu funccionamento, difficultando ao mesmo tempo o poder attractivo e electivo, que os globulos exercem sobre os materiaes uteis e reparadores, existentes no serum. No alcoolismo chronico tem-se observado uma deformação particular nos globulos san- guíneos. Assim a membrana de envolucro rompe-se, o seu conteúdo, isto é, a hemoglobina surge ao exterior, apresentando-se sob a fórma de granulações ennegrecidas, como diz ter verifi- cado Trèpan (1) em certos orgãos, principalmente nas glân- dulas sanguíneas e nas cellulas da rêde cutanea de Malpighi. É á essa alteração gordurosa, que muitos autores attribuem o estado de melanodormia, tão notável nos indivíduos habituados ás be- bidas alcoólicas. Pelo pequeno estudo, que procurámos fazer neste capitulo, poderá o leitor avaliar o quantum precisará marchar a sciencia para melhor nos explicar a acção do álcool sobre os elementos do sangue. Acçíio sobre a nutrição. Eis-nos á frente do problema, que mais tem occupado a attenção dos physiologistas, quando elles procuram precisar qual (i) Trèpan — Lalceol — Thèse de Paris — 1872. o papel do álcool nos phenomenos de nutrição. Das diversas theorias, apresentadas para interpretar a acção do álcool sobre esta funcção, nenhuma infelizmente acha-se isenta de ser supplan- tada pela mais fraca objecção. Importantíssimas discussões têm provocado os auctores, mas (triste realidade!) ainda não conse- guiram uma solução satisfatória. A opinião que reinou por muitos annos, e que ainda hoje encontra alguns defensores, havia attri- buido ao álcool o papel de alimento hydrocarbonado ou respira- tório. Essa theoria, que gozou dos fóros de classica, pertence ao professor Liebig, sendo depois aceita por Bouchardat e Duchek da Allemanha. Decorridos alguns annos, Ludger Lallemand, Maurice Perrin e Duroy publicaram os seus notáveis trabalhos: Du role de I'álcool dans 1'organismo, chegando elles a conclusões diametralmente oppostas, porquanto admittem aquelles auctores, que o álcool atravessa “ inalterável ” o organismo, sendo in-totum eliminado em natureza, não representando por conseguinte o papel de alimento. De todas as theorias, que pretendem conquistar a superioridade, a mais aceitavel actualmente é, sem duvida, a do professor Gubler, conhecida sob a denominação de — Theoria dos dynamophoros, militando ao lado delia uma outra patro- cinada por Bocker e Hammond, os quaes vêm no álcool, não uma substancia alimentar, mas sim um agente de poupança, o qual por suas oxydações diminue o trabalho de desassimilação, pa- ralysa a combustão dos alimentos respiratórios, sendo por conse- guinte um anti-desperdiçador; denominação que, segundo Gubler, “nada explica, nãò fazendo senão verificar factos. ” Procuremos analysar as diversas theorias. Theoria de Liebig, Bouchardat e Sandras. — Liebig e seus sectários concedem ao álcool as prerogativas de alimento, que, sendo absorvido e levado á circulação, é queimado sob a influencia do oxygenio, passando por uma serie de transformações, tendo como derivados — aldehydos e ácidos, e como termo final dessas combustões—acido carbonico e agua. Nessa theoria admitte-se o álcool como um alimento, que póde substituir aos assucares e ás substancias amylaceas, trazendo os alliados dessa escola a divisa do seu chefe: L/alcool occupe un rang distingué comme aliment de respiration. Son in- gestion dispense des aliments amylacés et succrés. Em apoio dos que sustentam essa theoria, citam os seus adeptos exemplos de indivíduos, que, submettidos exclusivamente ao uso dos espirituosos, têm “vivido por muitos annos” não apresentando modificação alguma em sua saude ! Na these de Godfrin (1) encontrámos estas palavras de Sulzynski e Maryan, que são um argumento poderoso para repellirem-se ás idéas do professor Liebig : O álcool, o chloroformio e o ether actuara diminuindo a troca dos materiaes, paralysando os processos de oxydação em virtude de sua acção sobre os globulos vermelhos, d’onde resultam o abaixamento de temperatura, accumulo de acido carbonico e as degenerescencias gordurosas; provindo d'ahi a impossibilidade de considerarmos estes agentes como nutritivos. Lallemand, Perrin e Duroy, apressando-se a derrocar a theoria de Liebig e Bouchardat, tiveram de soffrer por seu turno sérios ataques pelo absolutismo das suas idéas. Militamos com aquelles, que não reconhecem o álcool como um alimento hydro- carbonado, porquanto o fim principal das substancias, conside- radas como taes, é favorecer a “ combustão nutritiva ”, dando como resultado um augmento de acido carbonico nos productos da expiração, e uma elevação de temperatura organica. Ora, tratando da respiração, vimos que todos são unanimes em admittir uma diminuição do acido carbonico exhalado, sendo a tempe- ratura também deprimida, como demonstraremos no capitulo seguinte. Sob este duplo ponto de vista repellimos, por conse- guinte, a idéa de conceder ao álcool os fóros de alimento. Pela definição de alimento dada pelos phisiologistas, de ser: “toda (i) Godfrin — Thèse de Paris -— Lálcool— 1869. substancia que, indroduzida no apparelho digestivo, deva fornecer os elementos de reparação de nossos tecidos e os materiaes de calor animal ” ; e pela analyse das ourinas dos indivíduos sob a influencia dos alcoolicos ( nas quaes encontra-se diminuição da uréa e de seus princípios solidos); não podemos aceitar a theoria de Liebig, Bouchardat e Sandras. Theoria de Lallemand, Perrin e Luroy.— Para esses auctores o álcool não actúa senão, pela sua presença, como um modificador do systema nervoso; em doses fracas como excitante, e em altas dóses como stnpefaciente, sem sofírer modificação alguma em sua passagem pelo organismo, sendo por consequência completa- mente extranho aos phenomenos de nutrição. Lallemand, Perrin e Duroy, por terem encontrado álcool em natureza em certos orgãos, como — o fígado, o cerebro, etc., e verificado a sua elimi- nação pelas differentes vias, taes como — pulmões, pelle e rins, concluíram que o álcool não passava por transformação alguma, nem soffria a minima destruição no organismo. Somos forçado a não aceitar a passagem inalterável do álcool, pois entendemos que elle deve experimentar alguma modificação chimica, embora no estado actual dos nossos conhecimentos physiologicos não possamos assignalar precisamente a natureza dos corpos, que se originarão da excursão do álcool pela economia animal. A theoria de Lallemand e Perrin poderia convencer-nos, se elles, como diz o professor Gubler (i), —“tivessem demonstrado, que havia equação perfeita entre a quantidade de álcool ingerida e a quanti- dade excretada. ” Muito fundamento teve Bouchardat, quando, apreciando as idéas de Lallemand, Perrin e Duroy, disse: Pesez 1’alcool à 1’entrée et à lasortie de 1’économie vivante, puis concluez. Ora, não tendo os sectários dessa theoria satisfeito essa condição indispensável, as suas idéas perdem todo o valor, e obrigam-nos a regeitar as suas conclusões. (i) Gubler—Leçons de Thérapeutique— 1880. Theoria dos dynamophoros.— O professor Gubler, auctor desta theoria, tendo a seu lado Bocker e Hammond, admitte que o álcool não sendo um “alimento”, e não passando “inalterável ” pelo nosso organismo, exerça uma acção especial sobre o movimento de decomposição organica, tendo como effeito diminuir e enfra- quecer os phenomenos chimicos, cujo conjuncto constitue a desassimilação. Bocker (1), fazendo experiencias em si mesmo, concluio que o álcool: empêchait en quelque sorte la dénutrition cl'aller aussi vite. Sabemos que os rins representam o principal filtro de depuração, pelo qual passam em grande parte os resíduos da nutrição. Entre esses resíduos, que se chamam—uréa, acido urico, e entre os saes inorgânicos — phosphatos, chloruretos, etc., temos a uréa como o mais importante, porque essa substancia se fórma em todos os pontos da economia, constituindo, como muito bem diz Marvaud, o signal principal do movimento de oxydação, que se opera nos tecidos proteicos. A uréa representa, pois, o gráu mais elevado de oxydação desses tecidos, de tal modo que sua maior ou menor proporção nas urinas indica a actividade mais ou menos completa, que se manifesta no gasto e na desorganisação dos elementos, que fazem parte da economia animal. É baseando-se no facto da diminuição da uréa existente nas ourinas dos indivíduos, que têm ingerido álcool, que muitos phy- siologistas attribuem a esse liquido uma certa importância “ nutri- tiva”, como “ alimento anti desperdiçador”. Kiiss (2) acredi- tando, que as bebidas alcoólicas sejam até um certo ponto indis- pensáveis ao homem, que deve produzir um trabalho considerável com uma alimentação insufficiente, repelle terminantemente a idéa de figurar os líquidos alcoolicos no grupo dos alimentos. Gubler, o progenitor da theoria dos dynamophoros (a qual também abraçamos), é o auctor que mais nos satisfaz, quando (1) Marvaud—L'álcool et son action— 1872. (2) .Kiiss— Cours de Physiologie— 1S79. procura explicar o modo deacção de certas substancias, taes como — a cóca, o café, o chá e o álcool, as quaes produzem no organismo resultados physiologicos, fóra de proporção com a quantidade de substancia ingerida. Gubler acredita em sua theoria, que essas substancias trazem directamente ao organismo “ força ”, e que são por assim dizer “ dynamisadas” ; que transmittem força á econo- mia em geral e em particular a cada um dos orgãos, os quaes não necessitam mais desnutrir-se para realisar novas forças. Sabemos, diz o professor Gubler, que certos corpos requerem para a sua formação uma certa quantidade de força, algumas vezes conside- rável : ora calor, ora luz, ora electricidade. Essa força (segundo a theoria de Gubler) acha-se armazenada na substancia, que a con- serva em estado latente, gozando porém essa mesma força da faculdade de poder separar-se da própria substancia. Em um momento dado e sob a influencia desta ou daquella causa, a mesma força póde evoluir livremente, depois de ser ou não transformada, segundo a doutrina da correlação das forças physicas. São essas substancias que Gubler denominou de “ corpos dynamisados ”, e para explicara sua theoria apresenta elle, como exemplos, certos phenomenos physico-chimicos. Assim, diz elle, quando o acido arsenioso vitreo passa ao estado crystal- lino, e se acha em um logar escuro, desprende um clarão, uma especie de phos- phorescencia; segue-se que, quando o referido acido conservava-se em estado vitreo, elle possuia já uma força latente, que se torna manifesta desprendendo-se durante a crystallisação. A nytro-glycerina e a dynamite, continua Gubler, retêm do mesmo modo uma quantidade considerável de força, que se patentêa em um momento dado, se traduzindo em força mecanica sob a influencia da percussão. São estas substancias, que depois de absorvidas gozam do poder de ceder ao organismo a força latente, que encerram em si as, que Gubler chamou—dynamophoros. O álcool, o café, o chá, a cóca e o haschich entram nessa classe, sendo hoje conside- rável o numero dos — dynamophoros; figurando também nessa ... « cathegoria a maior parte dos alcaloides, taes como a quinina, a strychnina e a digitalina, como admitte o professor Gubler. Comquanto reconheçamos não achar-se essa theoria ao abrigo de ser enfrentada por muitas objecções, abraçainol-a todavia; por- que das diversas opiniões, que se gladiam para interpretar a funcção dos alcoolicos nos phenomenos de nutrição, é a theoria dos dynamophoros a que melhor parece explicar os factos por todos observados e tão differentemente analysados. Acção sobre a calorificaçao Sobre os destroços da antiga theoria de Lavoiser, que localisára o fóco do calor animal nos pulmões, a physiologia moderna plantou, como verdade inconcussa, ser a cálorificação animal o resultado das oxydações lentas, que se operam em todos os pontos do organismo. Depois de termos demonstrado que o álcool não é um alimento, mas sim uma substancia que concorre para moderar os processos de oxydação, não podemos deixar de reconhecer naquelle liquido uma acção depressiva sobre a calorificação animal, como consequência rigorosa da paresia dos phenomenos de desassimilação. Não obstante alguns auctores admittirem sómente a quéda da temperatura, quando o álcool fôr administrado em dóses toxicas, produzindo elle effeitos oppostos, quando administrado em pequenas dóses, apressamo-nos desde já a sustentar que o álcool é um importante hypothermico. Graças aos trabalhos de Duméril e Dermarquay (1) sobre as modificações da temperatura com o (i) Duméril et Demarquay — Recherches experi/nentales sur les modificatiom imprimées à la temperature —1848. emprego dos alcoolicos, ficou demonstrado que o calor animal decresce consideravelmente, quando a nossa economia acha-se sob a influencia dos líquidos espirituosos. Edward Schmidt (i) esta- beleceu de um modo incontestável o facto do abaixamento da temperatura, manifestando-se deste modo : O álcool augmenta a força do coração, fazendo affluir o sangue para as partes periphericas; donde um desperdício de calorico mais considerável na superfície, coincindindo por fim com uma sensação de calor mais intenso, sendo a pelle na realidade mais quente; a alimentação diminue a excreção da agua e da uréa, retarda a acção da saliva e a digestão dos feculentos, modifica as relações entre a circulação central e a circulação peripherica, diminuindo por conseguinte a producçâo do calor animal. Além disto, continua Edward, diminuindo o álcool a quantidade de acido carbonico, as substancias hydrocarbonadas são poupadas, e vão se depôr em estado de gordura no tecido conjunctivo. Aos mesmos resultados checaram os Drs. Rinofer e W. Ri- chards, que communicaram á Sociedade de Medicina de Londres que, pelas suas experiencias feitas com o álcool, verificaram um abaixamento notável de temperatura. Godfrin (2) e muitos auctores dizem que, para observar com precisão a queda da temperatura, chegaram a applicar o thermometro até no recto, afim de obter dados exactos, em razão das modificações da pelle e dos rins pelo álcool, e bem assim pela perda de tempo com a tomada na axilla; notando aquelles observadores uma descida de i°, 2. E princi- palmente sobre o numero de gráus, a que o álcool faz descer a columna thermometrica, o ponto em que divergem os auctores. Assim Magnan diz ter visto o thermometro baixar de 20 a 30 ; Dumèril e Dermaquay referem ter observado, nos animaes e no homem, uma diminuição de 20 a 20 %. Cuny Bouvier verificára em coelhos, gatos, cães, e no proprio homem, aos quaes havia administrado de 25 a 80 centí- metros cúbicos de álcool, uma quéda de temperatura de o°, 2 a (1) Edward Schmidt — Trad. do The Lancct— 1861. (2) Godfrin — Thèse de Paris — L'alcoal, 1869. o°,6. Marty (1) relata um caso muito curioso, de uma mulher que foi conduzida ao hospital de La Pitié, ao serviço do Dr. Peter, em plena embriaguez comatosa. Tomada a temperatura na região axillar e na vagina, a desgraçada mulher apenas accusava 26o, facto esse a que não duvidamos dar credito, porquanto é muito provável que se tratasse de uma embriaguez devida a dóses toxicas de álcool. Rabuteau (2) também cita o caso de uma mulher, que, sub- mettida porellea um regimen álcoolico, apresentava abaixamento de temperatura, verificado com a applicação do thermometro na vagina; notando-se ao mesmo tempo diminuição da uréa na por- porção de 25 °/G, mediante a administração de 200 grammas de aguardente. Riegel acredita que o álcool em dóses médias baixa a temperatura em alguns décimos, e que esse abaixamento é pro- porcional á quantidade de liquido ingerido, tendo logar no homem, tanto no estado physiologico, como no febricitante. Incli- namo-nos a aceitar esta opinião de Riegel, porque é de observação ser a descida da temperatura de pouca duração, e ser necessário, para mantermos o estado depressivo do calor animal, que o o álcool seja administrado em dóses repetidas. Ouçamos o Dr. Marvaud (3) sobre este ponto. Póde-se concluir que o álcool, mesmo em fracas dóses, produz abaixamento de calor orgânico, abaixamento é verdade pouco considerável no estado physio- logico, porquanto elle varia de c°, 5 a x°. Porém um facto, que não nos deve sor- prehender, dá-se com o álcool (e bem assim com os demais agentes de calor orgânico), vem a ser, que — a sua acção sobre a temperatura animal é tanto mais notável, quanto mais considerável e anormal é a elevação, a que esta chega, como sé verifica nas pyrexias por exemplo. Admittida a depressão da calorificação animal depois da in- gestão dos líquidos alcoolicos, vejamos como se tem interpretado (1) Marty — Cantribuition à Vétude de l'álcoolisme— 1872. (2) Rabuteau —Eléments de Thérapeutique et Phannacolope-— 1874. (3) Mar vau d — Llalçool et $011 action — 1872, o facto. Zimmergerg acredita que o abaixamento da temperatura é devido á diminuição das metamorphoses organicas, em conse- quência do retardamento da circulação pela acção directa do álcool sobre os pneumogastricos. Binz attribue esse abaixamento a va- rias causas mais ou menos problemáticas, sendo uma delias—“a acção directa do álcool sobre os elementos cellulares de nossos tecidos, acção essa que retarda os phenomenos de assimilação e de desassimilação, e que se faz sentir mesmo no cadaver, nas pri- meiras horas depois da morte de indivíduos alcoolicos. ” Dubois foi além; procurou a causa próxima, e, se não é verdadeira a sua theoria, é todavia muito engenhosa. Sabe-se, diz elle, que na fer- mentação alcoolica, quando se tem produzido muito álcool, a tem- peratura baixa e os globulos deixam de multiplicar-se. Prosegue Dubois: os líquidos atravessam tanto mais facilmente as membra- nas, quanto maior é o seu calor especifico. Assim a agua passa mais facilmente atravez de um septo membranoso, do que o álcool e o ether (de calores específicos menores), e mais facilmente quan- do existe uma mistura de agua e álcool. O álcool junto aos líqui- dos aquosos, tendo em dissolução os materiaes da nutrição dos globulos nadando em seu seio, deve diminuir esses movimentos, e moderar portanto as combustões. Ora, conclue Dubois, indo o álcool a todos os tecidos do nosso organismo (como está demons- trado), ahi pelo mesmo processo deve elle retardar as metamor- phoses, e baixar por conseguinte o gráu de calor produzido. Sejam ou não verdadeiras as theorias invocadas para explicar a diminuição do calor animal, o que não podemos contestar é, que o álcool goza de uma acção manifesta sobre a depressão da calo- rificação animal. Acção sobre o systema nervoso Se luctámos com sérias difficuldades estudando a acção dos alcoolicos sobre as diversas funcções de nutrição, agora os óbices, que- se destacam, tornam-se por demais insuperáveis; porquanto os effeitos do álcool sobre o systema nervoso são tão rápidos e variados, que a physiologia moderna ainda tactêa em trevas, quando pedimos-lhe a interpretação de certos actos, que se passam no grande scenario — o cerebro. Não se trata mais da antiga es- cola de observar simplesmente os factos e de os accumular sem comprehender. Um facto capital e dos mais salientes para o objecto, que nos occupa, é a differença dos effeitos, que se patentêam pela diversi- dade das dóses de álcool ingerido, por seu uso passageiro, ou por sua prolongação. Considerando por um momento um indivíduo com os olhos brilhantes, com a physionomia animada, palavra attrahente, facil e cheia de verve; e comparando-o depois a um outro infeliz com a face livida, physionomia estúpida, estendido como um bruto, sem movimentos, sem conhecimento do que se passa em torno de si, provocando a commiseração do transeunte intelligente, e despertando' ao mesmo tempo o ludibrio do ignorante: a que deveremos attribuir essas nuanças de côres, ora deslumbrantes, ora sombrias, destacadas de um mesmo quadro — a embriaguez? Sempre a mesma causa — o álcool, se patenteando por effeitos dissemelhantes e múltiplos, segundo a constituição, temperamento, idade, sexo, profissão, habito dos indi- víduos, variando principalmente com as dóses administradas. “ Longe se acha a época, em que se appellava para os factos maravilhosos! Nada de milagroso no organismo são ou doente. Sempre as leis physiologicas exageradas ou desviadas, porém nunca substituídas pela phantasia” ; disse-o já um physiologista. O complexo de symptomas ou phenomenos, que apresentam o homem e os animaes sob a influencia dos líquidos alcoolicos, con- stitue o que se denomina — embriaguez. Muitas têm sido as definições dadas pelos physiolgsistas, quando lhes perguntamos o que devemos entender por embria- guez. Segundo os autores do Compendium de Medicine: Embriaguez é um envenenamento determinado pelo álcool, e caracterisado pela perturbação da intelligencia, dos sentidos e da acção muscular.—Monneret e Fleury. Para melhor comprehensão dos effeitos do álcool sobre a massa nervosa, os physiologistas dirigiram a principio as suas vistas para o que se passava nos animaes, quando alcoolisados. Assim Magnan (i), Lallemand, Perrin e Duroy, por suas expe- riências feitas' em cães, gatos e coelhos, aos quaes haviam administrado aguardente (variando as dóses, desde 30 grammas até 300), verificaram os seguintes phenomenos: 1? Periodo de excitação.—Os animaes revelavam incerteza nos movimentos, marcha vacillante, acceleração do pulso e da respiração, acom- panhada de contracção pupillar. 2? Periodo de perversão. — Reso- lução muscular, que, manifestando-se primeiro pelos membros posteriores, ia invadindo successivainente todo o systema mus- cular, irregularidade nos movimentos respiratórios e no pulso, notando-se além disto dilatação pupillar consecutiva á sua con- tracção. 3? Periodo de collapso. — Paralysia completa e extineção da sensibilidade; enfraquecimento da circulação e da respiração, dilatação permanente das pupillas, parada da respiração, cessação dos batimentos cardiacos, e finalmente a morte. No homem esse quadro symptomatico apresenta a mesma gradação, observando-se a analogia e semelhança, que nos é dado contemplar nos animaes submettidos ás experiencias. Conforme a quantidade do álcool ingerido as faculdades exaltam-se, pervertem-se, ou tornam-se (i) Magnan — Rccueil de medicine véterinaire — 1S71. completamente abolidas ; donde resultam os tres grupos de sym- ptomas, ou os tres gráus de embriaguez, como admitte o professor Gubler : i? grau —Embriaguez passageira ou superexcitação func- cional; 2? grau —Embriaguez confirmada ; 3? grau — Embriaguez comatosa ou apoplectica. Vejamos a symptomatologia desses tres estados tão difierentes, representados pelo mesmo protogonista — o álcool. 1? grau. — Embriaguez passageira. O individuo mostra-se com a face injectada, suas sensações são promptas, a intelligencia torna-se mais activa, as paixões se exaltam, e revela o homem, pela physionomia expressiva, animação da palavra, loquacidade, e agilidade nos movimentos e na gesticulação. Pela superactivi- dade do centro da idealisação produzida pelos alcoolicos, muitos indivíduos vão pedir a esses líquidos verbosidade e clareza para a exposição de seus pensamentos. 2? grau.— Embriaguez confirmada. Esse estado caracterisa-se pelas perturbações intellectuaes, confusão de idéas, embaraço na palavra, irregularidade e indecisão nos movimentos. O homem apresenta perversão da sensiblidade, experimenta sensações ima- ginarias, verdadeiras allucinações; tem a marcha incerta e va- cillante, e por fim soffre a perda de equilíbrio, obedecendo o corpo inerte ás leis da attracção. Se estudarmos a face do infeliz nesse estado, havemos de encontral-a rubra, o seu olhar estúpido, palpebras cahidas ou cerradas, jugulares tumefactas, pulsação forte das carotidas, e pupillas contrahidas. A respiração difficul- tando-se a principio, torna-se depois curta e estertorosa, e o pulso de amplo e duro, que era, apresenta-se lento, cobrindo-se o tegumento externo de um suor viscoso. Nesse estado de abjecção, em que o homem pratica os mais graves attentados á moral e á sociedade, a natureza vem em auxilio do desgraçado, provocando- lhe vomitos, cujos effeitos salutares são a eliminação do liquido nocivo. 3? grau. — Embriaguez comatosa ou apoplectica. Ahi obser- vamos a perda completa da intelligencia, da sensibilidade e da motilidade. Da face livida, exprimindo o desanimo, destacam-se uns olhos ternos, de aspeto vitreo, acompanhados de dila- tação permanente das pupilas. Respiração estertorosa, pulso pequeno e depressivo, torpôr de todos os sentidos, em uma palavra, inércia completa. Segue-se então um somno profundo, ás vezes interrompido por sonhos, e acompanhado de transpi- ração abundante. Esse somno, que persiste ordinariamente por algumas horas, prolonga-se ás vezes por 16, 24 e 48 horas, como assevera Fournié. Ainda, como phenomenos consecutivos, mani- festam-se — resolução absoluta de forças e anesthesia geral; e a própria sensibilidade cornea, que é sempre a ultima a subsistir, póde desapparecer. Ataques eclampticos e um coma profundo mani- festam-se, e a morte surge fechando o desolado circuito de mi- sérias, “devendo receiar-se essa terminação fatal, principalmente quando a embriaguez attingir ao 3? grau ”, como muito bem acredita Marvaud. Pelo quadro symptomatologico da embriaguez 110 homem, vemos quanto esse phenomeno se aproxima do complexo de perturbações, apreciadas nos animaes; cumprindo observar que, pela differença dos dous organismos e segundo suas faculdades, funcções e orgãos, é a perturbação da intellectualidade, o delirio e a desordem, que abrem a scena, succedendo-se os outros phe- nomenos. No animal ao contrario é o apparelho locomotor, que primeiro se resente da influencia do álcool, d’ahi a irregularidade nos movimentos e a incerteza na marcha, constituindo o primeiro alarma da intoxicação alcoolica. Em resumo, podemos muito racionalmente concluir que, com pequenas differenças, o álcool actúa do mesmo modo no homem, como nos animaes. Afastando do nosso espirito as idéas de Orphila e de Brodie, que admittiam a embriaguez—não como o effeito da absorpção do álcool, mas — sim como a consequência de um acto reflexo; pro- curemos agora estudar o mecanismo, pelo qual produz-se o com- plexo de phenomenos, conhecido por — embriaguez. Hoje está demonstrado, que a passagem do álcool no sangue e a sua acção directa sobre as cellulas nervosas são condições indispensáveis para ter logar a embriaguez. Quanto á acção especial que os líquidos alcoolicos exercem sobre o elemento nervoso, os auctores ainda não harmonisaram as suas opiniões. Uns acreditam que o álcool respeita a estructura do nervo, abolindo completamente a sua funcção. Outros, como Roudamonski (1), acreditam que o álcool, como se dá com o opio e o chloroformio, modifica a myelina, a qual, em vez de revestir-se da fórma amorpha, toma o aspecto de corpúsculos brilhantes, não se conhecendo infelizmente qual a influencia do álcool sobre a estructura da massa nervosa. O sabio professor do Collegio de França, Claude Bernard, explica os phenomenos da embriaguez deste modo: A embriaguez é devida á presença do álcool no sangue, e á sua acção directa sobre os elementos nervosos; devendo attender-se ao estado da circulaçcão cerebral, cujas modificações são accidentes, que acompanham a embriaguez, sem consti- tuir a sua essencia. (2) Procurando Claude Bernard perscrutar os phenomenos, que se passavam para o lado da circulação cerebral, emprehendeu algumas experiencias, que consistiam em fazer uma abertura circular na caixa craneana dos animaes, administrando-lhes em seguida o agente anesthesico. Eis o que observou o professor Claude Bernard: — immediatamente á administração do agente anesthesico manifestou-se uma hyperemia do cerebro, e nessa occasião, diz o illustre physiologista, “ o cerebro se tumefez, fazendo hérnia pelo buraco do trépano; ” notando mais o crite- rioso observador que depois disto sobreveio uma anemia bem pronunciada da substancia nervosa. Sendo depois as experiencias de Claude Bernard repetidas por outros physiologistas, esses chegaram aos mesmos resultados, annunciados por aquelle professor. Assim Marvaud (3), adminis- trando o álcool, conseguio observar perfeitamente os phenomenos descriptos pelo eminente professor do Collegio de França. (1) Mascarei — Thèse de Paris— 1872. (2) Clarnle Bernard — Revue des corirs scientifiques— 1869. (3) Marvaud — L'álcool ct son action — 1872. Baseando-nos, pois, nessas experiencias, concluímos que a funcção circulatória dos centros nervosos passa por duas phases bem distinctas:—hyperemia e anemia; correspondendo aquella “ á agitação que marca o começo da administração de um agente anesthesico, ” ou ao primeiro periodo da embriaguez, e esta sendo “ a consequência do repouso absoluto do systema nervoso e de uma acção directa especial do agente anesthesico empregado sobre os nervos vaso-motores” (Claude Bernard); porquanto o somno profundo, em que se apresenta o indivíduo debaixo da acção do álcool, deve ser attribuido á ischemia cerebral exagerada» como acontece no somno physiologico, que também é acompa- nhado de uma ischemia cerebral, relativa e normal. Sanson (i) verificou por suas experiencias sobre uma pata de rã, collocada no campo do microscopio, que o álcool, como os demais anesthesicos, produz constantemente no começo um au- gmento de affluxo sanguíneo, sobrevindo mais tarde uma stase, e finalmente no momento, em que a anesthesia patentea-se, uma ischemia completa apparece. Godfrin (2) também confirma essas idéas, dizendo que, segundo os conhecimentos que possuímos do estado do cerebro durante a vigilia e no momento da excitação, podemos affirmar, graças ás experiencias de Hammond e Re- gnaud, que ha hyperemia cerebral, no sentido moderno da palavra, isto é, superactividade circulatória, hyperemia arterial activa. É pois por intermédio da circulação cerebral excitada, que tem logar o começo do delirio, ou aquella excitação intellectuai mani- festada pelo homem álcoolisado. A acção sobre o coração é in- sufficiente para explicar essas hyperemias locaes; devem, pois, haver paralysias directas ou reflexas dos vaso-motores, donde resultam as dilatações das arteriolas, segundo pensa Godfrin. Além desses phenomenos vasculares, deve haver uma acção directa de álcool em natureza sobre os elementos nervosos. Mas (1) Sanson — On the action of anesthesic andon the administratíon of chloroform — Medicai Times and Gaz. — 1864. (2) Godfrin — Lálcool — Thèse de Paris — 1869. em que consistirá essa acção? Marvaud, occupando-se da acção do álcool directamente sobre a massa nervosa, assim se exprime: Dans l’état actuel de la Science, il est impossible de la determiner. Todavia diversas explicações têm-se apresentado para re- solver o importante problema; porém a franqueza, com que nos temos manifestado na dissertação desta nossa these, obriga-nos a declarar, que nenhuma delias satisfaz o espirito daquelles, que dese- jam conhecer— o porque dos factos observados. Assim Claude Bèrnard suppõe, que a acção directa do álcool sobre a massa ner- vosa consiste em uma alteração physico-chimicapassageira, “em uma semi-coagulação da cellula nervosa ”, persistindo essa alte- ração até a eliminação do álcool. Sobre essa questão acompa- nhamos o Dr. Marvaud, que, acreditando ser ainda desconhecida em sua natureza a acção directa do álcool sobre os proprios ele- mentos nervosos e indeterminada em seus caracteres, deve ligar- se sem duvida a uma lesão organica, quer passageira (alcoolismo agudo), quer persistente (alcoolismo chronico). Pela symptomato- logia que apresentámos, descrevendo os tres gráus de embriaguez (no homem), tivemos occasião de observar, que os primeiros effei- tos do álcool se manifestam sobre o cerebro e cerebello (donde as perturbações para a intellectualidade e locomoção); vindo em seguida as desordens patentear-se na esphera da sensibilidade e da motilidade, phenomenos esses que devem ser attribuidos á in- fluencia do álcool sobre amedulla. A influencia toxica dos líquidos alcoolicos caminha nessa gradação — cerebro, cerebello, protu- berância annular, medulla espinhal, e por fim medulla alongada ; assim succedendo de harmonia com as experiencias feitas por Flourens, Lallemand, Perrin e Duroy. Como se poderá explicar essa propagação do encephalo á medulla? Eis mais um ponto da physiologia do álcool, que ainda encerra um mysterio ! Os physiologistas procuraram desvendal-o muito differente- mente. Assim Perrin acredita, que o álcool determina uma im- pressão geral e simultânea sobre o systema nervoso. Outros, como Lallemand, attribuem a successão dos phenomenos a uma excita- bilidade menor da medulla, relativamente á do cerebro, sustentando Lallemand que o álcool exerce uma acção geral e instantanea sobre o systema nervoso. Segundo a opinião do mesmo Lallemand e Perrin, a propagação da influencia do álcool na medulla faz-se sentir de baixo para cima, isto é, da cauda de cavallo para o bulbo. Esses auctores observaram, com effeito, que nos animaes alcooli- sados as perturbações da sensibilidade e da motilidade começam sempre pelos membros posteriores, e que não se estendem aos membros anteriores senão consecutivamente; sendo também esse facto verificado por Claude Bernard, no estudo dos anesthesicos. Existindo na medulla dous apparelhos distinctos — o appa- relho sensitivo e o apparelho motor, qual serão primeiro influen- ciado pelo álcool? Perrin e Lallemand, baseando-se na successão dos phenomenos, que apresentavam certos animaes (por exemplo : coelhos), reconheceram que as differentes propriedades da medulla eram impressionadas pelo álcool na ordem seguinte: i?, a sensi- bilidade; 2?, a motricidade; 3?, o poder excito-motor; donde con- cluíram, que os cordões posteriores soffrem a influencia dos líquidos alcoolicos, antes de seus effeitos se repercutirem sobre os cordões anteriores. Claude Bernard e muitos outros, estudando o modo de acção dos anesthesicos sobre o systema nervoso, chegaram a esta conclusão: consecutivamente ao ataque do systema sensitivo o systema motor é impressionado, e a motilidade é abolida; depois e em ultimo logar a medulla perde as suas propriedades excito-motoras. Os nervos são affectados simultaneamente com a parte do centro nervoso, onde elles se emergem, conservando todos a excitabilidade em presença dos agentes electricos. O bulbo, sendo em physiologia o centro moderador dos movimentos do coração e da respiração, o centro glycogenico (Claude Bernard), a sede da palavra, da voz, da deglutição, e sendo finalmente o centro da expressão do rosto e da mimica, é unicamente affectado pelo álcool, á semelhança dos demais anesthesicos, depois de se acha- rem completamente extinctas as funcções da medulla, como demonstrou Flourens, quando procurou precisar o—nó vital, o ponto primeiro motor do mecanismo respiratório. Ignora-se ainda a razão porque os anesthesicos levados pela circulação a todos os pontos do organismo, sómente em ultimo logar patenteiam os seus effeitos sobre o bulbo. Embora Parchappe acredite que o bulbo possua maior força de resistência contra as causas de destruição, e maior vitalidade do que os outros orgãos nervosos, também não é menos verdadeira a proposição enunciada por Haller, quando explica o papel do bulbo na economia — Primum vivens et ultimum moriens. Resumindo tudo quanto temos dito, concluímos que os líquidos alcoolicos produzem sobre o systema nervoso, quando administrados em dóses fracas —hyperemia e excitação ; ern dóses elevadas — ischemia e somno hypnotico; e finalmente em dóses toxicas — anesthesia geral; e prolongando-se esse estado o sangue vai-se sobrecarregando cada vez mais de acido carbonico, e os globulos se paralysam. O bulbo que conservava-se até então completamente estranho ás desordens, que se passavam pelo systema nervoso, deixa immediatamente de funccionar, e a morte surge ordinariamente no meio dos phenomenos de verdadeira asphyxia, como sustenta Bouchardat, procurando interpretar a — natureza da morte pelo álcool. Muitas outras explicações têm sido apresentadas, taes como — a congestão pulmonar, e cerebral, e mesmo os derramamentos verificados por occasião das autopsias. Racle attribue a morte no alcoolismo agudo á suspensão da acção do coração, dos pulmões, e dos musculos respiratórios. É verdade, dizem Lallemand e Perrin, a autopsia revela, nos indivíduos mortos em estado de embriaguez, uma dupla con- gestão pulmonar e cerebral; o que pode fazer crer em uma asphyxia primitiva. Porém na realidade a causa primaria da morte pelo álcool deve ser ligada á alteração funccional do systema nervoso cerebro-espinhal, alteração essa que domina a série dos phenomenos morbidos. As perturbações para o lado da respiração provêm da diminuição, e da suspensão da excitação nervosa. Pia asphyxia, é verdade, porém indirecta e consecutiva á abolição das funcções cerebro-espinhaes. De todas as theorias, consideramos como mais satisfactoria, a de Lallemend e Perrin. Assim nos casos de morte súbita, que sobrevem algumas vezes sob a influencia dos anesthesicos ou do álcool, não podemos deixar de concordar com aquelles dous auctores; porquanto elles attribuem a morte nesses casos—a uma suspensão momentânea, a um esgotamento rápido da innervação, ora devido á uma sorte de sideração do systema nervoso, sob a influencia de uma perturbação dynamica, ora consecutivo á parada dos batimentos do coração, em uma syncope cerebral. Todos esses phenomenos, que imperfeitamente procurámos des- crever, são as difierentes modalidades, com que se apresenta o estado complexo, denominado — alcoolismo agudo. Mas, desde que o homem fôr se habituando ao abuso das bebidas alcoólicas, o physiologista cederá o campo de observação ao patholo- gista, e este terá diante de si o conjuncto horroroso de moléstias, que em linguagem nosographica chama-se—alcoolismo chronico. Assim para o encephalo sobrevem a pachymeningite, principal- mente hemorrhagias meningeanas consecutivas, encephalite inter- sticial diffusa, perturbações da sensibilidade, da motilidade e da intelligencia, como as estuda Marty (1), notando-se finalmente todos os casos da alçada da psychiatria ; porquanto, diz Casper, que em Berlim um terço dos casos de alienação mental é causado pelos alcoolicos. Na Inglaterra, segundo Willam, metade dos casos de loucura é devida ao abuso das bebidas alcoólicas. Em uma palavra—nos infelizes dados ao abuso dos alcoolicos, poderemos encontrar desde o simples t7'emor até a paralysia gei'al dos alienados, que é a coroação funesta do alcoolismo com toda a hediondez de suas manifestações. (i) Marty — Cotitribuition à Fétude de falccolisme— 1S72. SEGUNDA PARTE CAPITULO IV Acção therapeutica do álcool Conserver la santé et guérir les maladies : tel est le probleme que la inédicine a posé, des son origine, dont elle poursuit encore la solution scientifique. (Claude Bernard). É partindo da experimentação physiologica e da observação clinica, que o medico vai encontrar racionalmente a indicação therapeutica de uma substancia a empregar. A experimentação physiologica, fazendo conhecer os effeitos das substancias no or- ganismo em estado hygido, tem como base esses dous princípios — o medicamento actúa do mesmo modo sobre o organismo são, como no organismo em estado pathologico ; —a acção curativa desta ou daquella substancia resulta de sua acção physiologica. Assim, do estudo physiologico dos alcoolicos, deduzem-se as suas applicações therapeuticas. Dispensamos fazer o historico do álcool como medicamento, porquanto, no primeiro capitulo desta nossa these, tivemos occasião de ver os alcoolicos já preconisados nos tempos de Hyppocrates, Paulo d’Egine, Ambrosio Paré e de Guy de Chauliac, e com magníficos resultados em diversos estados pathologicos. A therapeutica do álcool teve a sua phase de es- plendor, quando na Inglaterra dominavam as idéas de Brown, que acreditava que todas as moléstias agudas traziam como con- sequência a — asthenia, ou esgotamento de forças ; d’onde decorria a prescripção importante, por elle observada, de estimular o or- ganismo mediante o emprego de certos agentes, ao lado dos quaes figurava — o álcool. Essa medicação enthusiasticamente apoiada por uns e repellida terminantemente por outros, como nociva, não foi abraçada senão no começo do século actual, em que um genio fecundo, Bentley Todd da Inglaterra, tomando sobre os seus hombros um pesado e brilhante madeiro, vulgarisou o gran- dioso methode de— podermos com o álcool restituirá saude ao homem enfermo. A doutrina de Todd, fundando-se sobre a hypo- these da evolução natural das affecções agudas e na necessidade indeclinável de sustentar as forças vitaes, afim de trazer a reso- lução das phlegmasias, livrando em uma palavra — o doente de morrer antes da terminação da moléstia, consistia em reconhecer que a medicação alcoolica possuia qualidades necessárias para satisfazer plenamente aquella dupla indicação. A posologia do Dr. Todd, sentimos confessar, foi o ponto mais vulnerável de toda a sua obra, parecendo com efíeito o especimen de uma exageração lamentável. O mesmo diremos do absolutismo das suas indicações. Se seguíssemos fielmente os seus conselhos, e se procurássemos erguer á altura de um methodo geral e absoluto o emprego dos alcoolicos em todas as moléstias, sem distincção de casos, expor- nos-iamos a serias decepções em nossa vida pratica. Devemos ter sempre como bússola o que nos repetem os mestres — tratamos doentes e não doenças. Dividiremos o estudo therapeutico do álcool, em : — Appli- cações externas e applicações internas. Applicaçoes externas Sendo incontestável, que para o tratamento das feridas re- sultantes, quer de manobras operatórias, quer de accidentes, é ao acido phenico que todos recorrem, de harmonia com o systema de curativo de Lister, hoje universalisado, não podemos negar os beneficos resultados, que a cirurgia tem alcançado com os lí- quidos alcoolicos. Aconselhado por muitos cirurgiões, mesmo nos tempos hyppocraticos, o álcool sob a fórma de vinho para o tratamento das feridas, puro ou em dissolução em uma certa quantidade dagua, não foi senão depois dos trabalhos de Ba- tailhé e Guillet, publicados em 1859, que o álcool começou a merecer as honras de um agente de valor na cirurgia moderna. Os resultados das experiencias e dos esforços de Batailhé têm sido tão consideráveis (diz o professor Rabuteau), que podemos avançara proposição: “de que ninguém prestou tantos serviços á therapeutica cirúrgica nestes últimos tempos, como aquelle mo- desto medico Nelaton assim se manifestando: “ Quandfaccu- pai cette chaise /’hôpiial des Cliniques était réputé malsain ; depuis que jemploie 1'álcool, sa mauvaise réputation a disparu vulgarisou por seu turno o emprego cirúrgico do álcool, sendo acompanhado nessa pratica pelo não menos insigne professor Maisonneuve. Lanzoni cita o exemplo de um soldado, que, tendo recebido no campo de batalha um enorme ferimento no braço, ficou perfeitamente curado, graças á applicação exclusiva da aguardente. Ha alguns annos que os facultativos do Hospital de S. José de Lisboa empregam o álcool camphorado localmente no curativo das feridas resultantes das amputações e extirpações dos tumores do seio, como um meio bastante previdente de certos accidentes desagradaveis. Ao álcool camphorado (acreditam muitos cirur- giões) devemos attribuir uma boa parte do magnifico exito das amputações nestes últimos tempos; sendo, segundo Chéde- vergne (i), a erysipela menos frequente, como uma das complica- ções nessas operações. Quanto á acção do álcool sobre o pús, os auctores consideram-na salutar, divergindo, porém, quando inter- pretam os factos. Chédevergne sustenta que o álcool, actuando sobre os gló- bulos do pús, destruirá o seu envolucro, e deixará em seu logar granulações albumino-gordurosas, sendo deste modo a phlebite mais rara, quando as feridas forem curadas com o álcool. Guerin dá uma explicação mais satisfatória. Eil-a: Le pus est rendu fétide par la destruction des substances coagulables (albumine) qu’il contient; ces substances détruites, surviennent des phénomènes de double décomposition entre les seis d’origine minérale qui, unis aux substances organiques coagulables, ne pouvaient reagir les uns sur les autres, en raison du pouvoir qu’ont ces substances de les retenir et de les fixer par conibinaison chimique. (Robin). Que cette altération des substances coagulables soit produite par des ferments organisés du genre vibrion (Pasteur); ou par 1’action des gaz en dissolution dans le sang, il en résulte toujours production d’ammoniaque, d’acide carbonique, décomposition des sulfates et des sulfures, qui, à leur tour, décomposés par les acides, forment du sulphydrate et du carbonate dammoniaque, peut-être de l’hydrogène phosphoré et des corps gras volatils; puis altération secondaire des leucocythes et quelque fois leur destruction. L’alcool, en coagulant 1'albumine, en fixant l'eau et les seis exhalés, rétarde indéfiniment cette altération, et prévient ainsi tous les accidents qui peuvent résulter de 1'altération du pus à la surface de la plaie. Marvaud (2) O álcool actúa sobre as feridas e as queimaduras, sustem a hemorrhagia dos pequenos vasos pela coagulação da albumina do sangue, diminue a formação do pús, cujas propriedades no- civas e odôr fétido, destroe e dá assim ás feridas um aspecto (1) Chédevergne — Bulletin de Thcrapeutique— 1864. (2) Marvaud —L'álcool — 1872. roseo e agradavel, favorecendo por conseguinte o desenvol vimento dos botões carnosos, condição essencial para a cicatri- sacção das feridas. Ainda, pela sua acção de contacto sobre as soluções de continuidade, o álcool facilita a reunião immediata, combatendo ao mesmo tempo a dôr e o erethismo nervoso, que algumas vezes acompanham as feridas. Sob este ultimo ponto de vista o álcool figura como um verdadeiro anesthesico. O processo de curativo, empregado nas feridas accidentaes ou cirúrgicas, consiste geralmente no seguinte : — servem se os cirurgiões do álcool rectificado a 36o (Beaumés), ou misturado com agua addicionando-lhe também a camphora; depois de proceder-se á lavagem da ferida com o álcool, collo- ca-se em seguida uma certa quantidade de fios embebidos do mesmo liquido, • e, se a solução de continuidade prestar-se á reunião immediata, será praticada então a sutura, applican- do-se por cima — fios embebidos de álcool; porém, se a ferida tender a suppurar, encher-se-ha o espaço, comprehendido entre seus lábios, de fios impregnados do mesmo liquido. Para que a ferida conserve um certo gráu de humidade, aconselham os auctores, que a camada de fios seja espessa, e que sobreponham- se compressas e uma atadura; completando-se finalmente o apparelho com um envulocro de tafetá gommado, para prevenir-se deste modo a volatilisação do álcool. Feito imperfeitamente o estudo dos effeitos therapeuticos do álcool sobre as feridas, vejamos ainda quaes as indicações, em que elle tem sido prescripto para uso externo. O conhecimento das propriedades physiologicas do álcool, quando applicado sobre a pelle, offerece-nos uma fonte inexgotavel de indicações importantes, como agente revulsivo. Assim Hirtz, utilisando-se da acção rubefaciente do álcool concentrado, o emprega para provocar uma estimulação reflexa nos casos de syncopes, asphy- xia, nas moléstias acompanhadas de algidez, e em seguida ás commoções physicas e moraes, bem assim após ás grandes hemorrhagias. As fricções com os liquidos alcoolicos são de grande proveito contra a debilidade nas crianças da primeira infancia, como também para combater o esgotamento na conva- lescença das moléstias torpidas e de longo cnrso ; porém cum- prindo servir do álcool com muita cautela, porquanto já se tem re- gistrado casos de perturbações serias para a esphera do systema nervoso. As fomentações vinhosas quentes, feitas sobre a região hypogastrica, dão, segundo acredita Hirtz (i), excedentes resulta- dos, acalmando os vomitos incoercíveis, que soem apparecer em certos indivíduos sob a influencia de causas ás vezes desconhe- cidas. Ainda como revulsivo o álcool é utilisado, tendo suas applicações nos casos de engorgitamentos chronicos e indolentes, nos derramamentos articulares (hydarthrose), nas arthrites got- tosas (segundo Béhier), e finalmente nos tumores synoviaes assestados no punho; affirmando Houzelot e Nelaton (2) terem conseguido curas completas com o emprego de 8 ou 10 placas de amido embebidas de álcool a 36o, recobertas por uma tela de cêra. Para combater a hypertrophia das mammas, Brodie também lançou mão do álcool. Nas echymoses e nos fócos hemorrhagicos, produzidos por causas traumaticas, o álcool tem sido preconisado. Becker, citado por Trousseau, diz ter curado tres crianças, que soffriam de cephalematoma, attritando o tumor com uma escova embebida de álcool. Burns affírma ter chegado a idêntico resultado, ser- vindo-se porém de compressas impregnadas do mesmo liquido. O professor Gosselin, empregando injecções de agua alcooli- sada a 25 °/0 no tratamento das conjunctivites blenorrhagicas purulentas, refere casos de maravilhosas curas. Nos corrimentos chronicos do ouvido, por exemplo, na — otorrhéa, o professor Werber conseguio alguns successos com a therapeutica do álcool. Como substancia refrigerante, o álcool addicionado á agua iria, oíi empregado em loções ou abluções, não tem desmentido os seus fóros de anti-pyretico e adstringente, produzindo o (1) Hirtz — Nouveau Dictiona.it e de Cir. et Med. Pratiques. (2) Nelaton — Gazettc dcs Hôpitaux — 1853. abaixamento da temperatura e a constricção dos capillares de uma região inflammada; obtendo-se os mesmos effeitos nas queimaduras do primeiro gráu. Nas contusões, na erysipela (Lanzoni), no erythema e na rubefacção apreciada em torno do ponto de applicação dos vesicatórios, a intervenção do álcool ainda ostenta as suas beneficas propriedades. O eminente cirurgião Nelaton, segfundo attestam as suas criteriosas observações, poude prevenir ou mesmo paralysar o desenvolvimento dos furunculos, utilizando-se elle do álcool a 40o, e applicando-o sobre a parte affectada. Chapelle (d’Angoulême) relata 14 casos de fissura do anus, em que empregando a seguinte mistura: álcool—50 grammas, e chloroformio—10 grammas, conseguio o restabelecimento dos seus doentes. O grande syphi- lographo Ricord iniciou o tratamento,hoje vulgarmente conhecido, das loções de vinho aromatico, nos casos de cancros e ulceras syphiliticas. Em certos derramamentos das cavidades serosas, os líquidos alcoolicos ainda são invocados como agentes de valor therapeutico. Assim, do primeiro plano, destaca-se para o nosso estudo o — hydrocele. Embora reconheçamos que nessa moléstia as injecções com tinctura de iodo são indubitavelmente o meio, que tem dado resultados mais seguros; todavia temos como certo que as injecções de álcool, mais ou menos diluido, ou as injecções de vinho (como outrora) têm sido aproveitadas para a cura radical do hydrocele. Deste modo o álcool, injectado na túnica va- ginal, actuará por suas propriedades — irritante e coagulante, dando logar a infiammações adhesivas das paredes, ein que o álcool estiver em contacto, como admittem uns, ou modifi- cando, não só a vitalidade da superfície secretante e purulenta, como também corrigindo a natureza da serosidade, como sus- tentam outros. Laugier, Dupierris e Richard registram casos, em que com o álcool obtiveram curas admiráveis. Ha pouco tempo entre nós tem-se ensaiado no Hospital da Mizericordia o processo do pro- fessor Houzé de 1’Aulnoit, que consiste na injecção de algumas gottas de perchlorureto de ferro, empregando-se segundo recommenda o auctor: Agua distillada 30 grammas Soluçcão normal de perchlorureto de ferro 2 grammas Dessa solução devemos injectar de 15 decigrammas a 3 grammas, conforme o volume do hydrocele. Os resultados obti- dos naquelle estabelecimento, e as observações publicadas na Gazeta dos Hospitaes (1), animam-nos a empregar este novo me- thodo de tratamento, como vantajoso na cura do hydrocele. Na vaginite chronica, que até estes últimos annos era combatida com as injecções de solução de sulfato de zinco, alúmen, tannino, tin- ctura de iodo, etc., hoje, graças ás experiencias realisadas por Dolbeau nos Hospitaes de Lourcine e Saint-Antoine, o álcool por suas propriedades therapeuticas tem substituído a todos aquelles agentes até então empregados. Ramlow (2), acompanhando Dolbeau nesse methodo de tratamento, affirma ter obtido grande successo com o álcool em todas as fôrmas de vaginites, quer agudas, quer chronicas; não sendo necessário esperar pelos phenomenos inflammatorios, como acontecia com os demais topicos aconselhados. Ramlow conclue ser o tratamento da vaginite pelo álcool de menor duração e de maior confiança, combatendo-se ao mesmo tempo o estado geral com os amargos e ferruginosos. Brown servindo-se do álcool, ou d’agua alcoolisada, refere casos de curas radicaes de blenorrhéas muito antigas. Warren e Jobert (de Lamballe) também não se olvidaram do valor thera- peutico dos liquidos alcoolicos no derramamento ascitico. O processo por elles empregado consistia em extrahir da cavidade abdominal 300 ou 400 grammas de serosidade, por uma (1) Gazeta dos Hospitaes—Rio, Julho, 1883. (2) Ramlow — Du traitemcnt de la vaginite — Thèse — 1867. puncção prévia, substituindo depois essa quantidade de liquido por 30 ou 40 grammas de álcool diluido em uma porção d’agua, equivalente á quantidade do liquido retirado. Conservando o liquido alcoolisado, por espaço de 15 minutos, em contacto com a cavidade abdominal, Jobert procedia então á evacuação; asse- verando deste modo ter observado curas radicaes de derrama- mentos asciticos, sem os accidentes inflammatorios consecutivos, Hoffmann encetou o uso dos clysteres de vinho para os indivíduos depauperados, addicionando o illustre professor alle- mão o licor, a que ligou o seu nome. Parecendo depois ter sido arremessado á valia do esquecimento esse meio therapeutico, eis que apparece Cazin, que fal-o resuscitar, preconisando os clysteres vinhosos nas diarrhéas chronicas, aproveitando-se assim do álcool como — adstringente e tonico excellente. Os prepa- rados alcoolicos têm sido prescriptos em muitos outros casos, que seria impossível enumerar no limitado espaço de uma these. Eis o que nos cccorre dizer sobre as applicações externas do álcool como — medicamento. Applicacoes internas O insigne vulgarisador da medicação interna pelo álcool, o Dr. Todd, collocou os alicerceres do seu methodo sobre as idéas de que — todas as pyrexias e phlegmasias agudas traziam como consequência inevitável a asthenia de Brown, ou a depressão das forças organicas, donde provinha a indicação urgente do álcool, para oppôr uma barreira a esse estado de descalabro do orga- nismo. Do quadro das phlegmasias agudas foi a pneumonia o typo nosologico escolhido por Todd, para corroborar na pratica os princípios theoricos da sua propaganda. Edward Smith e Mur- chisson na Inglaterra, Béhier e Peter na França, acompanha- ram-n’o; divergindo, porém, esses auctores em muitos artigos do codigo therapeutico escripto por Bentley Todd. Servindo-nos de ponto de partida,para a apreciação do valor therapeutico do álcool, os methodos ordinariamente instituídos para debellar a pneu- monia, por exemplo — o tratamento pelo tartaro emetico,—a sangria, —o methodo mixto e o expectante, — a medicação pelos tonicos; reconhecemos ser sem duvida alguma esse ultimo methodo o que registra resultados mais animadores no tratamento da pneumonia. Assim nos pronunciamos, em face da estatística dos casos apreciados na Clinique Médicale de la Charitc, segundo refere o precioso Diccionario de Therapeutica de Dujardin-Beaumetz (i). Eis a estatística, que apressamo-nos a transcrever textualmente : PNEUMONIES TRAITÉES PAR LES SAIGNEES SEULES : Relevés d'Edimbourg.... 698 cas — Mort.... 34,52 por 100. “ de Diett 85 cas—Mort.... 20,40 por 100. PNEUMONIES TRAITÉES PAR LE TARTARE STIP.IÉ SEUL: Relevés de Rasori 648 cas — Mort.... 22,06 por 100. “ de Diett 106 cas — Mort.... 20,70 por 100. PNEUMONIES SOUMISES AU TRAITEMENT MIXTE. EXPECTATION DANS CAS LEGERS, SAIGNEES ET ÉMETIQUES DANS LES CAS SERIEUX Resultais groupés de Laennec, Grisolle e Skoda : Mortalité minimum 12,5 por 100. Mortalité maximum 16 por 100. (i) Dujardin-Beaumetz.—Dict.de Thérapeutique—1883 PNEUMONIES LIVRÉES A ELLES MEMES. EXPECTATION : Relevés de Diett 189 cas — Mort 7.4 por 100. PNEUMONIES TRAITÉES EXCLUSIVEMENT PAR LA MEDICATION TOXIQUE Relevés de Bennett 19 cas — Mort 3,10 por 100. Na verdade, muito nos impressiona a retina o brilho dos algarismos, attestando os successos obtidos pela medicação tónica e por conseguinte pelo álcool. Cumpre todavia que não nos dei- xemos fascinar unicamente pela photographia numérica; por- quanto ignoramos as condições, em que se achavam os doentes de que falia Bennett. Não repellindo a medicação alcoolica na pneumonia, e como também não abraçando o seu systematismo, devemos ter como norma de procedimento—as indicações e contra-indicações, isto de harmonia com o principio básico de que — tratamos pneumonicos, e—não pneumonias. Reconhe- cemos perfeitamente quão difficil é a solução do problema das indicações e contra-indicações de um methodo de tratamento, o qual deve estar subordinado ás condições dos doentes, a quem ti- vermos de prestar os nossos officios. Não será de certo a simples leitura dos compêndios, que nos poderá orientar; porém sim a longa pratica e a reflexão adquiridas á cabeceira do homem que soffre. Se nos apresentarem um pneumonico de temperamento san- guíneo, hercúleo, com intensidade febril, pulso cheio, impulsão cardíaca considerável; nesse caso proscreveremos 111 limine o emprego do álcool, preferindo então a medicação contra-estimu- lante, representada pelo tartaro emetico, pelo kermes mi- neral e pelas emissões sanguíneas, de harmonia com o que nos aconselham Trousseau e Monneret. Analysemos o reverso da medalha. Figuremos agora sob as nossas vistas um doente, em quem a adynamia se congrace com a ataxia, e o delirio violento contraste com a estupidez da face; nesta hypothese não trepidaremos de instituir, com grande probabilidade de victoria, a medicação francamente al- coólica. No mesmo quadro das indicações para o álcool inclui- remos — as pneumonias do apice, as pneumonias das crianças, as dos alcoolistas, e finalmente contemplaremos todos os casos, em que aquella phlegmasia pulmonar fôr observada em indivíduos cacheticos, ou depauperados por moléstias anteriores. Nas pneu- monias dos velhos a intervenção do álcool torna-se imponente; pois já o disse Trousseau: — O alcôol é o leite dos velhos. Ouçamos a opinião do nosso professor de clinica medica, o illustrado Sr. Conselheiro Torres Homem. Tratando da pneu- monia eis como se exprime o respeitável mestre : O álcool na pneumonia, bem como em outras moléstias agudas febris, obra como antipyretico, como descongestionante, e como excitante do systema nervoso. Vinte e quatro horas depois do seu emprego nota-se diminuição na temperatura axillar, menor confluência de estertores suberepitantes, devidos á hyperemia colla- teral do pulmão, menor frequência e maior amplitude nos batimentos do pulso. Proseguindo no tratamento da pneumonia, assim conclue o mesmo illustrado pratico : Como consequências salutares destas modificações vemos: i.° — a dyspnéa perder rapidamente uma parte de sua intensidade; 2.0 — a tosse tornar-se mais rara e mais húmida; 3.0 — augmentarem as secreções urinaria ecutaneajq.0—appa- recer a calma, cessar o delirio, e o doente dormir tranquillamente durante algumas horas. Em muitos casos estas melhoras sensíveis precedem de um ou dous dias a resolução franca da phlegmasia pulmonar (1). Quanto ao modus administrandi, esse variará segundo os indivíduos. Tratando-se por exemplo, de um doente não habi- tuado ás bebidas muito alcoolisadas, empregaremos uma poção composta de: Vinho branco 200 grammas Extracto molle de quina 10 „ Tintura de canella 4 „ Xarope de cascas de laranjas 30 ,, Á colheres de hora em hora, como procede em sua pratica o professor Torres Homem. (i) Dr. Torres Homem — Lições dc Clinica Medica— 1882, Se o doente estiver familiarisado com as bebidas alcoólicas mais concentradas, substituiremos então o vinho branco de Lisboa pelo vinho do Porto generoso. Finalmente se acharmo-nos em presença de um alcoolista de profissão, daremos preferencia ao cognac ou á aguardente de canna, segundo aconselham muitos clinicos. Desta opinião é o professor de clinica medica da nossa Faculdade o Sr. Conselheiro Torres Homem, o qual serve-se dia- riamente da seguinte fórmula: Cognac ou aguardente de canna io grammas Acetato de ammonea 15 ,, Agoa commum 100 „ Xarope de cascas de laranja 30 ,, Para ser administrado ás colheres de hora em hora. Quando ao lado dos symptomas da pneumonia, ou de qual- quer outra moléstia aguda, sobrevierem phenomenos nervosos, revelados pela agitação, pela insomnia e pelo delirio; o álcool será mais uma vez indicado com excellentes resultados. Secundo Trousseau, podemos considerar muitas especies de delírios, dos quaes em alguns é por demais justificável a medicação alcoolica. O delirio nervoso sendo a expressão da anemia do encephalo, e por conseguinte da falta de excitação, o álcool será de imprescin- dível vantagem, porque trazendo aquelle liquido affluxo de sangue para o encephalo, despertará o estimulo, donde resultará o des- apparecimento salutar do delirio. Nos casos de erysipela da face complicada de delirio, assim também procede o professor Jaccoud. Mas se o delirio estiver ligado ao estado hyperemico do ence- phalo, a therapeutica pelos alcoolicos será immediatamente con- tra-indicada. O delirio alcoolico, em que o cerebro acha-se habituado á acção estimulante do álcool, mas, falta-lhe por qual- quer circumstancia o seu excitante ordinário, só poderá ser jul- gado com a administração do álcool, para que se restabeleça no cerebro o seu equilíbrio. O delirio febril, ligado a uma elevação considerável de temperatura (40o, 5), Marvaud diz ter combatido com o emprego de dóses elevadas de espirituosos, sendo o desap- parecimento do delirio consecutivo ao abaixamento do calor morbido. Em outras moléstias do apparelho respiratório, taes como — as bronchites, as broncho-pneumonias, a pleurisia chronica e a tuberculose pulmonar, a medicação pelos líquidos espirituosos não deixa de ser vantajosa. Essa ultima moléstia a mais devas- tadora entre nós, tem sido enfrentada não poucas vezes pelos preparados alcoolicos. Na tuberculose incipiente é de conheci- mento geral a prescripção da poção, que em sua formula, ao lado da glycerina e do arseniato de sodio, figura o vinho do Porto. No terceiro período daquella affecção, quando já existirem ca- vernas no pulmão, e quando, na phrase do professor Torres Homem o tuberculoso estiver realmentephthisico, também se pres- creverá um licôr fortemente alcoolisado, por exemplo — o co- gnac, addicionando-lhe o creosoto vegetal. Para Rabuteau o álcool actúa na tuberculose como o arsénico, “um medicamento de poupança ”; acreditando o mesmo professor que com o álcool conseguiremos, não só moderar a febre, que devora os desgra- çados phthisicos, como também favoreceremos á digestão, com- batendo os vomitos tão frequentes naquella moléstia. O koumiss licôr alcoolisado preparado com o leite, e usado no norte da Asia e na Rússia, tem sido aconselhado também na tuberculose pelos médicos da Europa. Na laryngite diphtherica, moléstia profunda- mente séptica, que traz uma depressão considerável das forças, uma verdadeira adynamia, o Dr. Courty preconisa o álcool, não só como anti-septico, mas também como tonico e estimulante, administrando-o sobafórmade vinho de Malaga, de Xerez, de Bordeaux e de Champagne. Devemos ter o cuidado de diluir esses vinhos em uma certa quantidade d’agua, afim de evitar a irritação, que poderiam produzir em sua passagem pela garganta infiammada. Em seguida a aquellas phlegmasias, encontram-se as di- versas pyrexias, nas quaes a medicação alcoolicatem triumphado. Do primeiro plano, surge a febre typhoide a — dothienenteria de Bretomneau. Nesta pyrexia de natureza séptica ainda não especificada, de marcha cyclica, onde sempre observamos as indicações reclamadas — adynamia e ataxia ; a medicação pelos líquidos alcoolicos registra brilhantes successos. Gellety, medico residente em Vichy (diz o professor Bouchut) (1), trata os seus doentes por esse methodo, affirmando o clinico de Vichy poder o álcool, pelas suas qualidades múltiplas, sercollocado 11a cathegoria dos medicamentos anti-septicos; podendo também ser inscripto no quadro dos reconstituintes, dos estimulantes do systema ner- voso, e dos reguladores das funcções cerebro-espinhaes. Joffroy (2), occupando-se do álcool na febre typhoide, diz que a depressão considerável das forças, e o estupor, por assim dizer, exagerado, serão os symptomas geraes, que indicarão a utilidade da pre- scripção dos espirituosos. O pulso com as modificações especiaes, que apresenta nessa moléstia, torna-se também um bom conse- lheiro, marcando rle algum modo a gravidade da affecção. Assim o dicrotismo mais pronunciado (prenuncio de maior prostração das forças), marcaria pela sua própria intensidade a indicação mais urgente do álcool. Os médicos allemães empregam os tonicos e os estimulantes desde o começo da moléstia. A maioria dos auctores acham-se de acordo em não se administrar as prepa- rações alcoólicas, senão do decimo ou duodécimo dia de moléstia. Exceptuam-se, porém, alguns casos (raros), em que seriamos obri- gados a seguir a pratica instituída pelos allemães. Bouchard as- socia o carvão ao vinho, ou ao rhurn diluido n’agua, para debellar a febre typhoide, e mesmo para previnir assim certas complicações funestas; porquanto Bouchard considera que o carvão, associado ao álcool, constitue um excellente methodo de curativo das feridas intestinaes; o que achamos (segundo a nossa não auctorisada opi- nião) muito racional, visto sabermos que a febre typhoyde ana- tomo-pathologicamente considerada, é uma — enterite fullicolosa. (1) Bouchut— Compemiium annuaire de Thérapeutique — 1883. (2) Joffroy — Dc la médication par l'álcool — 1872. Em muitas outras pyrexias, como sejam — a febre amarella, as febres intermittentes, e os accessos perniciosos, os alcoolicos ainda se recommendam. No typho icteroide, ao lado do agente considerado hoje como especifico—o salycilato de sodio, graças aos importantes estudos a que se devotou o infatigável e distincto professor de Chimica Organica o Dr. Domingos Freire (i), o álcool é administrado muito vantajosamente, e com especialidade no periodo ataxico-adynamico dessa terrível moléstia. O professor Torres Homem (2) diz que as poções alcoólicas, o vinho do Porto, a agua de Inglaterra e a quina, são os meios que se destinam ao estado adynamico, e que têm por fim excitar os centros nervosos, levantando as forças radicaes do organismo. O álcool associado á agua de Seltz, ou o vinho de Champagne, concorre poderosamente para combater os vomitos tão atterra- dores nessa pyrexia; attestando ainda os alcoolicos a sua efficacia (segundo alguns práticos) nas hemorrhagias, que sóem apparecer no decurso do typho icteroide. Por conseguinte o álcool pela mul- tiplicidade de suas propriedades, como tonico, estimulante, anti- pyretico e diurético, é perfeitamente indicado. Assim procede também a maioria dos nossos clinicos, figurando entre elles o illustrado Dr. J. Maria Teixeira (3). Febres intermittentes. — Nestas manifestações agudas da into- xicação palustre não serão de certo aos alcoolicos, que recorre- remos para combatel-as. Em presença desses casos qual será o medico, que não prescreverá os saes de quinina, o especifico dessas pyrexias, de preferencia ao álcool? Os saes de quinina, parecem que vão actualmente cedendo o seu logar de honra á uma planta brazileira—a caferana. O distincto chimico brazileiro, o (1) Dr. Domingos Freire — Rccueil des Travaux Chimiques (La Fièvre Jaune)—1880. (2) Dr. Torres Homem — Lições de Clinica sobre a Febre amarella — 1873. (3) Dr. J. Maria Teixeira—O salycilaio de sodio na Febre amarella—1883. 6? annista Mello e Oliveira acaba de fazer ha poucos mezes, mais uma acquisição importante para a nossa therapeutica, preparando a tinctura desta planta febrífuga, a— Tachia Guyanensis. (Aublet). O professor Dr. Martins Costa realisando experiencias sobre o poder anti-pyretico da tinctura da caferana (planta ainda intei- ramente desconhecida por muitos dos nossos clínicos), já registra em sua enfermaria dous casos de cura, para os quaes os saes de quinina e os arsenicaes foram improfícuos. Deixando á margem de nossa these esta pequena digressão, desejamos que o nosso amigo e laborioso collega Mello e Oliveira prosiga em seus estu- dos, afim de realizar mais essa victoria para a medicina brazileira. Os alcoolicos gozando, é verdade, de propriedades anti-py- reticas, só deverão ser empregados naquellas pyrexias, a titulo de tonicos e estimulantes, principalmente nos casos em que, ao lado do impaludismo, encontrarmos depauperamento e esgotamento das forças organicas, mas nunca com a vã pretenção de debellarmos a infecção palustre. Nos exanthemas febris, como — a variola, a escarlatina e o sarampão, o álcool ainda manifesta os seus predicados therapeu- ticos. Assim Marvaud (1) diz que, achando-se encarregado do ser- viço dos variolosos no Vai de Grâce durante o terrível inverno de 1870 a 1871, teve occasião de empregar a medicação alcoó- lica em muitos doentes, e de reconhecer a utilidade dos espiri- tuosos em certas fôrmas de variola, especialmente nos casos de varíolas hemorrhagicas primitivas, nas quaes se encontram a ady- namia considerável e a depressão das forças. Nas varíolas hemorrhagicas secundarias, acompanhadas de complicações thoraxicas e de perturbações nervosas, a medicação alcoolica sai vencedora ordinariamente ; porquanto Marvaud affir- ma que, de 56 casos de varíolas hemorrhagicas secundarias, apenas registrou 18 insuccessos. Na escarlatina e no sarampão o álcool, modificando as secreções — cutanea eourinaria, modera o calor febril, sendo conseguintemente muito racional o emprego (i) Marvaud — L'Álcool—1872. dos alcoolicos nas febres eruptivas. Contra o tétano o álcool tem sido administrado, mas em dóses muito elevadas. Entre os effeitos produzidos pelo álcool, figuram a analgesia e o enfraque- cimento muscular, podendo chegar até á resolução, isto é, á abolição completa da motilidade. Na Inglaterra procuraram verificar si essas propriedades po- deriam ser utilisadas no tratamento daquella nevrose. Os resul- tados por ora não parecem ter correspondido á espectativa dos iniciadores desse methodo. Na incertesa porém de qualquer tra- tamento efficaz, para debellar aquelle estado morbido tão capri- choso, não deveremos desprezar o álcool, cujos effeitos physiolo- gicos justificam, até certo ponto a sua intervenção. O álcool também encontra no cholera morbus uma téla para desenhar os seus effeitos medicamentosos. Magendie em 1832 empregou a aguardente diluida n’agua quente, administrando-a no periodo algido dessa moléstia pestilencial, o maior flagello da humanidade. Segundo Guyot, poderemos, depois de declarado o accesso do cholera, suspender a sideração das forças pela administração de 3 a 12 centilitros de aguardente simples, ou diluida n’agua. Legrand e Guillard de Parthenay referem casos de curas por aquelle methodo, servindo-se elles do elixir de Voroney, muito recommendado na Rússia, em cuja formula entra o álcool em dóses elevadas. Em resumo, reconhecendo nós quão incertos são os meios therapeuticos empregados contra o cholera morbus epidemico, não recuaremos em utilizar-nos do álcool interna e externamente, quando no exercicio da nossa profissão tivermos de luctar contra tão horrorosa affecção. Nas hemorrhagias pas- sivas ou atonicas, que se manifestam no estado puerperal, trazendo como resultado a prostração das forças e a inércia do systema nervoso (tornando-o assim impotente para produzir a contracção dos vasos uterinos), os líquidos alcoolicos despertando o estimulo da innervação, têm sido aproveitados por muitos parteiros, como afhrmam Pajot e Chaussier. Concordando com Gubler, conside- ramos contra-indicados os espirituosos nas hemorrhagias activas, sobrevindas em mulheres pletóricas. Contra os vomitos incoercíveis da prenhez, que não forem ligados á uma lesão do tubo digestivo, ou á uma compressão exercida pelo globulo uterino, o álcool será promptamente indi- cado; porque nesse caso tratar-se-ha de vomitos produzidos por uma acção reflexa, e o álcool actuará com vantagem como anesthesico sobre os nervos do estomago, fazendo cessar por con- seguinte os phenomenos morbidos. Na dyspepsia atonica os líquidos alcoolisados são prescriptos, porque o álcool pela sua acção de contacto sobre as paredes do estomago, activará a secreção das glandulas do sueco gástrico, debellando deste modo as perturbações da digestão estomacal, de que— a dispepsia é a expressão fiel. Para minorar os soffrimentos dos cardíacos no período de asystolia, também não devemos recusar-lhes as preparações alcoólicas. Terminando o estudo da medicação interna pêlos alcoo- licos, lembraremos que, em todos os casos pathologicos, em que encontramos—depressão das forças organicas, pheno- menos ataxo-adynamicos, e torpôr na marcha e na convalescença de certas affecções medicas ou cirúrgicas, será o precioso medi- camento— o Álcool o nosso pendão de victoria no combate da vida contra a morte. Aos nossos illustrados mestres, que nos vão julgar hoje, só proferimos uma palavra : — Indulgência. PROPOSIÇOES CADEIRA DE PHARMACIA I O opio é o sueco concreto do Papaver somniferum, planta pertencente á familia das Papaveraceas. II O processo mais geralmente seguido para a obtenção do opio é o seguinte: praticam-se sobre a parede das capsulas maduras, com um instrumento de laminas curtas, incisões que attinjam sómente á mesma parede. Deste modo o sueco reune-se em fórma de lagrimas, que, quando sêccas, se destacam, e reunidas, constituem pães de fôrmas variadas. III O opio apresenta-se em massas arredondadas ou achatadas, molles, de côr escura, odor forte e viroso, de sabôr acre e amargo. IV Encontram-se varias especies de opio, porém as mais conhe- cidas no commercio são: o de Smyrna, o de Constantinopla e o do Egypto. V A analyse descobre no opio grande numero de princípios taes, como—a thebaina, papaverina, narcotina, a codeina, a nar- ceinae a morphina; alcaloides importantes, aos quaes o opio deve suas propriedades therapeuticas. VI A morphina é, de todos os alcaloides do opio, o mais impor- tante. VII O opio de Smyrna, por ser mais rico em morphina, deve ser o preferido. VIII O emprego do opio em medicina é indicado em razão das suas quatro principaes propriedades — analgésica, soporifera, ane- xosmotica e resolutiva. IX Em pharmacia as preparações mais usadas, e que têm por base o opio, são — o extracto gommoso de opio, o laudano de Sydenham, o elixir paregorico e o xarope diacodio. 97 X O opio bruto é uma preparação bastante infiel. XI Dos preparados de opio, é o laudano de Sydenham um dos mais antigos e dos mais empregados com precisão em medicina. XII O chlorhydrato e o sulfato de morphina são os mais usados diariamente e com magnificos resultados. o CADEIRA DE CLINICA CIRÚRGICA I Em presença de um caso de retenção das ourinas, é preciso que reconheçamos qual a causa, que a determinou, afim de ini- ciar-se com segurança um tratamento efficaz. II A retenção das ourinas reveste-se algumas vezes de uma gravidade tal, que o medico é forçado a intervir immediatamente. III Meios cirúrgicos e médicos: taes são as indicações a pre- encher. IV É conveniente não limitarmo-nos ao uso exclusivo de qual- quer dos meios acima indicados, porquanto, em muitos casos, elles conjunctamente empregados dão excellentes resultados. V Innumeras são as causas, que dão logar a retenção das ourinas. VI O estado morbido, de que nos occupamos, depende ora de causas intrínsecas, ora de causas extrínsecas. VII A presença de qualquer corpo estranho no canal da urethra, ou os estreitamentos orgânicos desse canal, são sufficientes para occasionar a retenção das ourinas. VIII O catheterismo deve ser empregado, quando a retenção estiver ligada a affecções medicas. IX Quando a retenção das ourinas fôr produzida por trauma- tismo da urethra, aconselharemos os antiphlogisticos locaes, as sanguesugas, os banhos mornos, as cataplasmas emollientes, os clysteres opiados; sendo muitas vezes necessário recorrermos á cirurgia, e então a sonda de demora não deverá ser olvidada. X Sendo os cálculos vesicaes a causa da retenção das ourinas, o tratamento a seguir será dirigido contra o engasgamento lithico em qualquer ponto do canal ouriario, ou contra a irritação simples, ou inflammatoria propagada ao collo da bexiga. XI Sómente como ultimo recurso deveremos praticar a puncção da bexiga. XII Gravíssimas são as consequências de uma retenção de ouri- nas, quando demorada. CADEIRA DE PATHOLOGIA MEDICA Hjpoemia inu-iirojneal I A hypoemia intertropical é uma anemia especial produzida pelos anchylostomos duodenaes. II A distribuição geographica desta moléstia, suas causas geraes, a constância dos anchylostomos nos hypoemicos, e o successo do tratamento anthelmintico, são argumentos impor- tantes para admittir-se a sua natureza verminosa. III E provavelmente pelas aguas e pelos alimentos, que os ovos ou larvas dos anchylostomos são introduzidos na economia. IV São os indivíduos, que se entregam aos trabalhos agricolas, os mais sujeitos á esta moléstia. V A raça africana é sem duvida a, que fornece maior numero de victimas. VI A perversão do appetite é muito commum na hypoemia, cumprindo observar que, —a geophagia não é symptoma patho- omomico. o VII A hypoemia, sendo uma moléstia de facil diagnostico, muitas vezes offerece serias difficuldades, quando tem de ser diagnos- ticada. VIII A marcha desta affecção é lenta e sempre progressiva. IX É principalmente na mucosa do duodeno e jejuno, onde se têm encontrado os anchylostomos. X A hypoemia é uma moléstia, cujo prognostico não deixa de ser grave. XI Os anthelminticos aproveitam consideravelmente no trata- mento da hypoemia intertropical, sendo de excellente efficacia — o leite da gameleira (ficus dobaria — Martius), ou o seu alcaloide — a dolearina (Dr. Th. Peckolt). XII Para satisfazer a indicação da moléstia, isto é, para combater a anemia consecutiva, empregaremos — os tonicos, os reconsti- tuintes e os amargos. HYPPOCRATIS APHORISMI I Ex multo potum rigor et delirium malum. (Sect. VIL Aph. VII.) II Anxietudinem, oscitationem, horrorem, vinum pari aquoe temperatum portione epotum. (Sect. VII. Aph. LVI.) III Famem vini potio solvit. (Sect. II. Aph. XXI.) IV Cibus, potus, venus, omnia moderata sint. (Sect. II. Aph. VI.) V Naturam morborum curationes ostendunt. (Sect. II. Aph. XLVI.) VI Quoe medicamenta non sanat, ea ferrum sanat, quoe ferrum non sanat, ea ignis sanat; quoe vèro ignis non sanat, ea insani- bilia reputare opportet. (Sect. VIII. Aph. VI.) Esta these está conforme os Estatutos. Rio, 28 de Setembro de 1883. Dr. Caetano de Almeida. Dr. Benicio de Abreu. Dr. Oscar Bulhões.