DO BR. ALBERTO GE ANDRADE MACHADO DISSERTAÇÃO CADEIRA DE CLINICA MEDICA ZDa -u.rcm.ia e suas -varied.aca.es clinicas PROPOSIÇÕES J Tres sobre cada uma das Cadeiras da Faculdade THESE APRESENTADA A’ Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro Em 28 de Outubro de 1896 e perante ella defendida em 15 de Janeiro de 1897 POR Mlbepl© de âfídpade Malhada Natural do Estado de Minas Geraes Filho legitimo de Carlos José Machado e D. Anna Joaquim Machado SENDO APPROVADO PLENAMENTE RIO DE JANEIRO TYPOGRAPHIA BESNARD FRÈRES — RUA DA ALFANDEGA 124 1897 Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro DIRECTOR— Dr. Albino Rodrigues de Alvarenga. YICE-DIRECTOR — Dr. Francisco de Castro. SECRETARIO — Dr. Antonio de Mello Muniz Maia. LENTES CATHEDRATICOS Drs.: João Martins Teixeira Physica medica. Augusto Ferreira dos Santos Chimica inorgânica medica. João Joaquim Pizarro Botanicae zoologia medicas. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descriptiva. Eduardo Chapot Prevost Histologia theorica e pratica . Arthur Ferrandes Campos da Paz Chimica organica e biologica. João Paulo de Carvalho Physiologia theorica e experimentai. Antonio Maria Teixeira Matéria medica, Pharmacologia e arte de fõrmular. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Henrique Ladislàu de Souza Lopes Chimica analytica e toxicologia. 4u#usto Brant Paes Leme Anatomia medico-cirurgica. Marcos Bezerra Cavalcanti Operações e apparelhos. Antonio Augusto de Azevedo Sodré Pathoíogia medica. Gypriano do Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Albino Rodrigues de Alvarenga Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetrícia. Agostinho José de Souza Lima Medicina legal. Benjamin Antonio da Rocha Faria Hygiene e mesologia. An , . O vomitos a principio, são compostos de matérias aquo- sas e glutinozas e são frequentes pela manhã, são além disso amargos e acres, mais tarde tornam-se alimentares. A origem destes vomitos é attribuida a passagem da uréa atravez da mucoza do estomago. Muitas vezes os vomitos predominam e podem tornar-se incoerciveis, outras vezes é a diarrhéa, que pode ser seroza ou dysentherica, que é também attribuida a possagem da uréa atravez da mucoza intestinaí. Marcha, duração e terminação da uremia A duração da uremia é indeterminada e varia com as ma- nifestações cerebraes, digestivas ou respiratórias que se pro- duzem. A moléstia que lhe tem dado origem influe também sobre sua duração : assim a duração da uremia consecutiva a ne- phrite escarlatinoza não passa de 24 horas, trez dias no má- ximo, se a terminação é fatal, ou ao contrario favoravel. Nas nephrites intersticiaes ou parenchymatozas, a uremia pode durar mezes. A terminação tem lugar por cura ou por morte e a termi- nação fatal pode sobrevir desde o primeiro ataque. Alguns autores consideram como prenuncio de cura cer- tos phenomenos criticos : suores profusos, urinas abundantes e diarrhéas. A uremia pode também dar lugar a recahidas. Quando a uremia termina-se pela morte, esta pode ser súbita e devida então á syncope ou asphyxia, que acompa- nham a forma dyspneica. A morte dá-se mais commumente durante o coma, po- dendo as vezes dar-se também durante as convulsões. Na uremia gastro-intestinal a morte pode ser o resultado da cachexia profunda, a que é reduzido o doente, ou então é devida a peritonite, resultante da perfuração intestinal. Diagnostico O diagnostico. E’ muitas vezes difficeí, em vista das va- riadas affecções, que podem simular a uremia, porém o au- xilio de certos elementos, uma anamneze completa do doente, o exame das urinas e da temperatura, podem facilitar o diag- nostico. Estes elementos podem muilas vezes ser insuficientes,en- contraremos então um grande recuso no estudo detalhado dos symptomas especiaes a cada uma das variedades clinicas da uremia. A uremia cerebral pode apresentar-se sob quatro formas diversas : a convulsiva, a comatoza, a delirante, e a para- lytica. A convulsiva, pode tomar o typo epiléptico ou tetânico. O typo epiléptico pode canfundir-se com a epilepsia es- sencial e com a eclampsia nervoza. A uremia epiléptica distingue-se da epilepsia verdadeira por não apresentar nunca em um só ataque reunidos todos os phenomenos d’esta—o grito inicial, perda de conhecimento espuma na bocca, e pronação forçada do pollegar, que podem se manifestar em sua evolução, porém sempre isoladamente. O diagnostico entre a epilepsia uremica e a nervoza é ex- tremamente difficil, visto terem ambas quasi os mesmos symp- tomas. A temperatura elevada, que se nota na ultima em oppo- sição a hypothermia, de que se acompanha a primeira, cons- titue um caracter differencial, que deve ser levado em muita consideração. A eclampsia nervosa explica-se sempre pela indigestão, pela existência de vermes intestinaes ou por uma dentição dif- ficil, quando se manifesta nas crianças. O typo tetânico pode confundir-se com o tétano, a te- tania, as convulsões e contracturas dos hemiplegicos. O diagnostico entre estas differentes |aífecções pelo es- tudo dos antecedentes, o exame minuciozo dos symptomas pe- culiares a cada uma d’ellas, a analyse das urinas e a marcha da temperatura, se tornará patente e nenhuma duvida nos poderá deixar quanto a sua veracidade. A pesquiza do acido láctico, que sempre se encontra nas urinas do tetânico, é um meio de diagnostico, de que se pode lançar mão, segundo pensa Lecorché. A ausência do trismo, como caracter difFerencial, não é, todavia, um facto absoluto, pode ser encontrado na uremia uremica, segundo Aran, Jaccoud, etc. A forma comatoza pode apresentar os phenomenos pró- prios a todos os estados comatozos, com os quaes pode-se confundil-a facilmente á primeira vista ; i o seu diagnostico, que é as vezes bem difficil, será, porém, estabelecido com mais ou menos segurança depois de um exame seguro e at- tento. O coma uremico distingue-se do coma devido ao opio ao álcool pela natureza dos vomitos, estado da pupilla, suppres- são dos suores e cheiro caracteristico do hálito. O diagnostico entre o coma uremico e o que se manifesta nas encephalopathias gottoza e saturnina, será estabelecido pelos exames das urinas e pela anamneze do doente. O coma da apoplexia paludica não será confundido com o coma uremico, uma vez que o clinico volva sua attenção para os antecedentes do enfermo, para o exame do baço e do ftgado e mormente para a analyse das urinas. O coma da apoplexia cerebral é persistente e não apresenta os periodos de remissão e exarcebação, que se observam no coma uremico, que além disso se acompanha de respiração si- bilante e não estertoroza, que é especial ao primeiro destes dois estados. A forma delirante raramente apresenta-se isolada e nesse caso só por exclusão se fará o diagnostico do delirio uremico, que é em tudo semelhante ao delirio que se manifesta em cer- tos estados morbidos. O delirio nervozo e o symptomatico de alguma inflam- mação facilmente se distinguem do uremico ; o primeiro é sempre o resultado de emoções moraes muito intensas ou de grandes lezões, principalmente si estas se produzem em pes- soas, que se entregam ao abuso do álcool. A forma paralytica da uremia apresenta as mais serias difficuldades em seu diagnostico, pois que em geral sua evo- lução dá-se sem os phenomenos communs da uremia, edema, cephalalgia, perturbações digestivas e a diminuição da tem- peratura (Ghantemesse e Teneson). As vezes a paralysia uremica é precedida de certos sym- ptomas prodromicos : tendencia á vertigens, urinação fre- quente, sobre tudo a noite e um estado dyspneico passageiro. Quando a forma paralytica se manifesta na idade avan- çada, em que nota-se sua maior predominância, o seu diag* nostico torna-se em extremo difficil ou mesmo em alguns casos impossivel de ser estabelecido. A uremia paralytica pode-se confundir facilmente com a hemorrhagia cerebral, de que se distingue, todavia, por cer- tos caracteres : na primeira ha sempre elevação de tempe- ratura e a hemiplegia não dura tanto e não é tão completa, como na segunda. A ueremia gastro-intestinal em seu começo pode confun- dir-se com as diversas formas da dyspepsia, o que não se dará se praticarmos o exame da urina. Esta forma uremica apresenta muita semelhança com as perturbações digestivas da insufficiencia cardiaca. A uremia dyspneica pode confundir-se com as inflamma çoes thoraxicas, pleurizia e pneumonia, sobretudo se estas complicações derem-se nos períodos adiantados do mal de Bright. O estado da temperatura e os signaes fornecidos pelo es- thetoscopio serão poderozos auxiliares para bem firmarmos o diagnostico entre estes estados morbidos. O hydrotorax, as aneurismas da crossa da aorta e os tumores mediastinos por se acompanharem sempre de dysp. néa apresentam também semelhança com a uremia dyspneica; um exame attento e minucioso dos symptomas proprios a cada um destes estados bastará para estabelecermos um dia- gnostico differencial. A hypothermia, que acompanha os phenomenos uremi- cos, exceptuando-se unicamente a eclampsia puerperal, onde ha sempre hypethermia, era um facto até bem pouco tempo admittido por todos os autores e principalmente Bourneville que estudou com muita minuciosidade este symptoma ; recen- temente muitos casos de hypethermia tem sido observados nos casos de uremia aguda. Dentre as perturbações visuaes insistiremos especial- mente sobre a amaurose uremica, que se distingue por sua apparição e desapparição rapidas, pela ausência de alterações pupillares, que possam ser verificadas pelo ophtalmoscopio e ainda pelas contracções da pupilla, que não perde aqui sua actividade -própria. O professor Bouchard dá grande valor á myosis como meio de diagnostico, porém, tal caracter não deve ser tido como absoluto, visto que recentemente Henoch, Lepine e Ha- jech referiram factos, em que observaram a existência de my- driase. Prognostico Não são igualmente graves todos as fôrmas da uremia, e, portanto, o seu prognostico variará segundo se trata de uma ou outra de suas manifestações clinicas. A uremia dyspneica é considerada por todas como amais grave, depois a cerebral, e em ultimo lugar a gastro-intestinal que é a menos perigosa de todas, porquanto raramente de- terminará por si só a morte, que é devida em geral a compli- cações, sendo preciso notar-se, todavia, que a intensidade e tenacidade dos vomitos ás vezes conduzirão o doente a ina- nição completa. Conforme a marcha aguda ou lenta da uremia cerebral, o prognostico varia ainda, sendo mais grave na segunda, porque esta resulta de nephrites chronicas, que sempre serão fataes. As diversas modalidades da uremia cerebral aguda não se apresentam com a mesma gravidade. A fórma comotosa é a mais grave ellas, porquanto pode dar lugar á morte em poucas horas e além d’isso é a ter- minação habitual das outras fôrmas cerebraes. Depois segue-se a fórma convulsiva e sobretudo o typo tetânico e em ultimo lugar a fórma delirante. A gravidade do prognostico varia com a maior ou menor intensidade dos symptomas observados. Accessos espaçados e pouco intensos, a volta da intelli- gencia em seus intervallos e sobretudo si a urinação voltar a sua média physiologica, muito concorrem para um prognos- tico favoravel; ao contrario, o prognostico será fatal, ou ao menos duvidoso, si os accessos forem mais repetidos, de ex- trema intensidade ou subintrantes, ou se o doente conservar-se no estado comatoso no iutervallo dos accessos, mesmo que estes sejam afastados, sendo a diminuição da respiração e a irregularidade do pulso o prenuncio da morte. Indicações de algum valor nos podem ser dadas por certas condições etiologicas, taes como a idade e o sexo. A uremia consecutiva á escarlatina, á dyphteria e ao es- tado puerperal póde ás vezes ser muito grave, mas a cura ob- tida será definitiva em muitos casos, ao passo que nas pessoas de idade, nas quaes a uremia é sempre o resultado de uma sclerose-renal, sua terminação será com segurança mais vezes fatal. O prognostico, deve, pois, ser tanto mais reservado quanto se tratar de um doente mais idoso. Tratamento A uremia é um estado morbido determinado pela accu- mulação no sangue dos princípios constituintes da urina, que deixarão de ser eliminados por uma perturbação do apparelho Uropuietico. O seu tratamento, pois, deverá consistir principalmente emjprocurarmos eliminar por todos os meios possíveis os prin- cípios toxicos retidos no organismo. E’ assim que tentou-se eliminar pela pelle e pelo pulmão esses princípios, aconselhando-se aos uremicos o uso de ba- nhos de ar quente e secco, que, carregando-se de humidade ao nivel do pulmão, retirasse ao organismo uma certa quanti- dade de agua. Esta espoliação era também provocada pela sudação, activada por meio de banhos de vapor e medicamentos sudo- ríficos, taes como o jaborandi e seu alcaloide, a pilocarpina. Incontestavelmente este systema de descarga organica rouba ao sangue alguns productos que devem ser eliminados pela pelle, porém nunca os que seguem a via renal. O que torna sobretudo condemnavel este meio espoliador é que elle subtrahede preferencia a agua, trazendo como con- sequência inevitável uma diminuição da urina, que nestes doentes já se acha excessivamente diminuída em quantidade e em densidade. Mais logico seria augmentar-se a secreção urinaria por certos meios. Nas moléstias agudas e mesmo nos casos de insultos con- gestivos, que se manifestam muitas vezes no curso das affec- ções chronicas dos rins, procurou-se ora diminuir o estado 28 congestivo destes orgãos por meio de ventosas seccas ou es- carificadas, sanguesugas e sinapismos, ora estimular o systema nervoso, irritando suas extremidades cutaneas, por meio de fricções, afim de obter por via reflexa uma uma acceleração da circulação renal, e portanto, uma superactividade da se- creção urinaria. Com o mesmo fim tem-se recorrido á cafeina e a digi- talis. Esta ultima, porém, não deve ser empregada indifferen- temente em todos os periodos das moléstias dos rins. Quando a funcção renal é embaraçada e que a imper, meabiiidade tornou-se tal que o orgão não pôde mais eliminar as matérias toxicas fabricadas pelo organismo, claro está que as substancias medicamentosas também serão ahi retidas. Deve-se ter muita reserva no emprego das substancias to- xicas, porquanto é bem possivel que um envenenamento the- rapeutico se manifeste ao lado da intoxicação uremica. A digitalis produz bons effeitos em certos brighticos, quando as lesões renaes se associam perturbações cardíacas e que o rim não se acha muito impermeável. A prudência no emprego da digitalis não está em sua ad- ministração por pequenas doses ; ao contrario deve-se pres- crevel-a em dóses elevadas, que arrisquem mesmo a ser toxi- cos, mas que sejam bastante fraccionadas, com os intervallos necessários para que possamos velar sobre seus effeitos e sus, pender seu emprego, logo que se manifestem os vomitos e nau. seas, signaes de sua accumulação. A digitalis, é além dfisso, contra-indicada na uremia gastro-intestinal. A introducção da agua fria no abdómen pelo emprego 29 dos clysteres frios tem dado alguns resultados, conforme diz o professor Bouchard, que vio em certos casos uma anuria grave ceder a este recurso, cujo emprego elle recommenda. O estimulo levado a contractibilidade dos vazos abdomi- naes por este meio permitte deslocar-se para a circulação ge- ral uma reserva quasi estagnante de sangue, que se acha accumulada entre os capillares arteriaes do abdómen e o fí- gado, o que augmenta a tensão geral e, portanto, traz como consequência uma maior actividade funccional para o lado dos rins. As bebidas frescas, além de gozarem da propriedade de contrahir os vasos abdominaes, auxiliam a absorpção de uma certa quantidade de agua, concorrendo assim para o aug- mento da diurése. D’entre estas bebidas o leite é uma das mais poderosas e seguras contra os accidentes uremicos, porquanto é um ali- mento e um medicamento da maior utilidade nestes casos. Para combater a uremia o professor Bouchard indica o emprego da própria uréa, que suas experiencias demonstraram ser extremamente diurética e capaz mais que nenhum outro agente de provocar a secreção urinaria. A uréa administrada pela via digestiva não parece dar em resultado o augmento da urina. Tem-se procurado eliminar os productos toxicos por meio do tubo digestivo, recorrendo-se ora aos vomitivos, ora aos purgativos. Os vomitivos tem sido aconselhados com o fim de pro- vocar na superfície do estomago uma secreção de matérias extractivas, porém não está demonstrado que os vomitivos augmentem notavelmente as secreções gastricas. O que se sabe é que diminuem a tensão arterial c pro- vocam a secreção cutanea, phenomenos estes de uma mani- festa inconveniência, porquanto se exercem em detrimento da urinação, que deve-se a todo preço manter em estado nor- mal. Os purgativos e d’estes principalmente os drásticos tem sido empregados com o fim de retirar uréa ao sangue por meio da secreção intestinal, que se pode subtrahil-a na pro- porção em que esta existe no plasma. Si este contem por litro 32 centigrammas de urea, e exac- tamente esta a mesma quantidade que encontramos no tubo intestinal. Si retirássemos ao sangue um litro d’agua pela via intrs, tinal, seria um litro de agua de menos que deixaria de passar pelos rins ; ora esta quantidade d’agua eliminaria em estado de urina 5o vezes mais uréa. Esta agua que passa o faz á custa da deshydratação do sangue e dos tecidos, diminue os edemas e os derramamentos e facilita a eliminação de algns venenos ; mas é indispensável que depois da deshydratação, proceda-se logo a hydratação porquanto, se assim não fizermos, apenas teremos deslocado o veneno fazendo-o passar das cellulas para os plasmas. Entretanto estas alternativas de subtracção e restituição d’agua do sangue aos tecidos não deixam de ser perigozas, porque nem sempre poderemos gradual-as á vontade. Apezar d-esses argumentos, que contra-indicam o em- prego dos purgativos, a observação clinica nos mostra que elles são de uma utilidade incontestável em certos e determi- nados casos. A sangria é sem duvida alguma um dos melhores recurso therapeuticos contra os accidentes uremicos, considerando-a como via eliminadora dos elementos toxicos retidos na tor- rente circulatória. Uma sangria de 32 grammas descarrega o sangue de 5o centigrammas de matérias extractivas, o que corresponde a i/i6 do total dessa eliminação (8 gr.) em 24 horas pelas urinas. Exceptuada a via renal, é a sangria a que nos permitte retirar á economia mais substancias toxicas. Uma sangria de 32 grs. extrahe do sangue tanta matéria toxica quanto 280 grs. de liquido diarrheico e 100 litros de suor. Bright, Abercombrie, Marshall-Hol, Rayer e tantos ou- tros empregaram com bom resultado contra os accidentes uremicos a sangria copioza. O seu emprego é, pois, bem indicado nas nephrites agu- das, curáveis, como a escarlatinoza, quando complicam-se de uremia, porque a cura tem tudo a esperar da maior duração da moléstia e uma emissão sanguinea regular pode oíferecer ao pratico esse tempo de acção. . 3 Nas moléstias chronicas do rim a utilidade da sangria é duvidoza. Para que produzisse resultado seria precizo pratical-a muitas vezes, o que teria consequências desastrozas pelo abai- xamento da tensão vascular, que deve ser evitado a todo custo nestes doentes. A sangria copioza é perfeitamente indicada em certos casos agudos, aos quaes Peter dá o nome de serumuria, por- quanto nestas condições o organismo é por assim dizer sor- prehendido pela accumulação rapida de uma grande quanti- dade de matérias solidas e liquidas, uma sorte de plethora, que só poderá ser combatida efficazmente por este meio prompto de espoliação. O tratamento da uremia proposto pelo professor Bou- chard repousa sobre o conhecimento das fontes de intoxi- cação da economia por elle admittidas : a desassimilação, a secreção hepatha, a alimentação e as putrefações intestinaes. Os productos de desassimilação organica augmentam se- guramente a toxidez das urinas, mas podemos nós obstar que se realize esta desassimilação por meio do arsénico e da va- leriana, que são medicamentos de poppança e que moderam, portanto, as trocas nutritivas ? Seria inútil esta pratica, responde.Bouchard, porquanto a própria moléstia encarrega-se de impedir a desassimulação. A accumulação das matérias toxicas obstando as condi- ções da osmose estabelece um equilibrio de tensão'entre os li- quidos intra e extra-cellulares, sò podendo dar-se de modo inv perfeito a circulação da matéria atravez da cellula. O exigeno só com difficuldade poderá exercer sua acção sobre os elementos, a temperatura pode baixar a 3o* no recto, o que prova a lentidão da nutrição, que não deve, portanto, ser mais provocada, uma vez que ella já existe em um grão tão elevado. O que existe de toxico na desassimilação são os productos da vida sem oxigeneo. Si este augmentar-se pouco crescerá a desassimilação, mas seus productos tornam-se menos toxicos. A habitação no ar comprimido diminue a toxidez da u- rina e por conseguinte, as inhalações de oxygeno aconselha- das por Jaccoud são bem indicadas para combatermos os phe- nomenos uremicos. Um dos melhores meios, que podemos oppor ao veneno biliar, é sem contestação o leite, que desde muito era empira- camente empregado para este fim. Quando não é tolerado, como pode dar-se algumas vezes o leite produz effeitos purgativos e augmenta a bilis ; mas quando sua digestão fór completa, se estabelece a constipa- ção e no seu residuo fecal não se encontra pigmento biliar. Com o fim de expellir a bilis mais promptamente empre- gam-se os saes neutros, que atravessam com rapidez o tubo intestinal; mas devem ser evitados os purgativos potassicos, o cremor de tartaro solúvele o sal de Seignette. A bilis descorada é muito menos toxica, porquanto sua toxidez é devida principalmente ás suas matérias corantes. O melhor meio de descoral-a no tubo digestivo é o emprego do carvão em dóse suíflciente. Combate-se a fonte de intoxicação alimentar por meio de um regimen, em que só entrem substancias pobres de matérias mineraes e sobretudo de saes potassicos, que devem ser evi- tados com o maior cuidado, porque são reconhecidamente to- xicos. As substancias alimentares devem ser de digestão e ab- sorpção fáceis, afim de impedir-se a putrefação intestinal. Deve ser proscripto o uso da carne mal assada, que é muito rica de saes potassicos e outras matérias extractivas. O leite satisfaz ás condições de uma excellente alimenta- ção, já por sua facil digestão, já por conter uma diminuta quantidade de saes potassicos. Além do leite devemos dar a clara d’ovo, o queijo, a carne cosida, porém de modo algum os caldos. Deve-se evitar sempre a introducção de matérias putres- eiveis, afim de que os residuos das digestões se apresentem em massas solidas, que não offereçam ao contacto da mucosa ab- sorvente senão superfícies duras e pouco extensas. Quando os residuos são pastosos as revoluções constantes que provocam-lhe os movimentos peristalticos, do intestino, apresentam successivamente á absorpção da mucosa os vene- nos, que se acham em suas camadas superficiaes e profundas. A alimentação lactea, quando é bem tolerada, produz sempre o melhor resultado, dando matérias fecaes pouco abun- dantes e solidas. Podemos combater a putrefaeção intestinal por meio do carvão e também praticando-se a antisepsia intestinal. Esta pode ser realizada rigorosamente pela associação do iodoformio ao carvão e pela naphtalina, meios estes theoricos? mas dos quaes a clinica já tem tirado proveito. Além do tratamento geral, que até aqui temos analysado os phenomenos uremicos devem ser combatidos por um trata- mento todo symptomatico, conforme predominar esta ou aquella de suas variedades. E’ assim que as uremias agudas da escarlatina e da gravi- dez reclamam pela intensidade e rapidez de suas manifestações um tratamento dos mais energicos como sangrias copiosas, de* vendb-se retirar de uma só vez 3oo, 400 ou mesmo 5oo gram- mas de sangue, ventosas escarificedas ou seccas sobre a região lombar e dieta lactea. A uremia gravidica pode também ser combatida com muita vantagem pelas inhalações de chloroformio. Quando predominarem os accidentes cerebrees, empre- garemos, além do tratamento geral, sanguesugas sobre os apo* physes mastoides, o hydrato de chloral e o bromureto de sodio. A uremia dyspneica será combatida pela applicação das ventosas seccas sobre o thorax e pelas inhalações de chloro- formio. Contra o typo asmathtico desta variedade recorrere- mos á tintura de quebracho, as inhalações de iodureto de etyla ou de nitrito de amyla. Os vomitos que apparecem ordinariamente no curso da nremia gastro intestinal, devem ser promptamentecombatidos porquanto elles tornam-se desde logo incoercivos e impedem assim toda tentativa de alimentação. Os meios clássicos, bebidas geladas, gelados, fragmentos de gelo, poção de Rivière, etc., não dão em geral resultados satisfactorios. Com o mesmo fim tem sido aconselhados o creosoto e a tintura de iodo, ambos na dóse de uma a duas gotas em uma colher d’agua. Lecorché e Talamon conseguiram algumas vezes comba- ter os vomitos incoercivos com o emprego de 2 a 6 grammas de acido láctico em poção e também por meio da lavagem do estomago praticada pelo siphão. PROPOSIÇOES PROPOSIÇÕES Cadeira de Pliisica medica—iLaryii^oscopios I Os laryngoscopios são instrumentos de optica destinados ao exame do interior do larynge. II E’ precizo ter-se o cuidado de aquecer o espelho do la- ryngoscopio antes da sua introdução. III Este instrumento presta relevantes serviços ao diagnos- tico de muitas affecções do larynge. Cadeira de Cliimiea iuorg-auica medica.—Estudo mcdico- ehiiuico do mereurio e seus compostos I O mercúrio puro não adhere ao vidro, nem a porcellana. II Elle serve para a construcção de thermometros, baró- metros e manómetros. III Seu composto, salycilato de hydrargirio empregado pela primeira vez em therapeutica pelo Dr. Silva Araújo em i886, tem dado excellentes resultados em diversos dermatozes, prin- cipalmente nas affecções syphiliticas. Cadeira de Botaniea e ZooIs^Sa.—B*arazitas animaes I Todo e qualquer animal que vive a custa da substancia de outros é denominado parasita. II Ha parazitas que vivem no tegumento externo e são cha- mados ecto-parazitas ; neste caso estão as especies de pulex, > acarus, etc. III Outros vivem nas cavidades visceraes, de preferencia nas vias digestivas e na intimidade dos tecidos ; estes são cha- mados ento-parasitas, taes como as diversas especies de ver- mes, infuzorios, trichinas, que residem nos musculos etc. S V,. t Cadeira da Anatomia dcscripíiv.'». -lístiido anatomico do cràneo I O craneo é uma caixa ossea collocada acima da columna vertebral com a qual se articula por meio da articulação occipcto-atloidea. II O craneo envolve o encephalo e suas membranas, for' mando-lhes uma verdadeira caixa protectora. 111 Esta caixa, geralmente ovoide, é constituída por 8 ossos: i. . ..-ir- . . ..>• • . 4 ímpares, frontal, ethmoide, sphemide e occipital ; 2 pares, os temporaes, e os parietaes. Cadeira de Cliimiea e SSioS«>j»-iea I A saliva, o sueco gástrico, o sueco pancreatico e a bilis, são os liquidos que transformam os alimentos, tornando-os aptos a serem absorvidos e assimilados. II O bolo alimentar, em contacto com estes suecos, passa por transformações complexas que variam com a especie do alimento. III A saliva e o sueco pancreatico tranformam substancias amylactas em destrina e glycose ; o sueco gástrico e pan- creatico peptonizam as substancias albuminoides ; o sueco pancreatico tem ainda a propriedade de emulsionar as gor- duras, que igualmente são saponificadas pela bilis. Cadeira ilc pliysiologla.—18e*»g>âraeào I Dá-se o nome de respiração ao acto physiologico pelo qual absorvemos o oxigénio da atmosphera e expellimos acido carbonico. II A respiração divide-se em dous tempos, a inspiração e a expiração. III Durante a respiração o sangue venozo tranforma-se no 42 pulmão em sangue arterial por oxidação. Dá-se a este phe- nomeno o nome de hemathoze. Cadeii*a «lê Geral I A pathogenia da febre tem sido explicada por duas theo- rias : humoral e nervoza. II A humoral suppoe que os agentes pyretogenos aug- mentam as combustões organicas. III A nervoza, comdrehende a dos centros nervozos calori- ficos e a dos vasos motores ; a primeira diz que o sangue conduz o agente pyretogeno aos centros para excital-os, por- duzindo a febre ; a segunda, que este agente excitando os vaso-motores, modifica a circulação, do que resulta a febre. €iuleii>a il<‘ TSicragficuiiea I A papaina é um fermento extrahido do sueco do mamo- eiro (carica papaya). II Tem a propriedade de transformar a fibrina animal em peptona e n’i>m producto amidonado cristalizavel. III Este poder transformador da papaina é muito mais enér- gico do que a pepsina. Cadeira «le Patliologia Cirúrgica I Dá-se o nome de tumor, a uma producção mórbida per- sistente, de geração nova e caracterizada por uma tumefação limitada, quaesquer que sejam seus caracteres physicos. II As leis do nascimento e desenvolvimento dos elementos e tecidos no estado normal, as de sua constituição no estudo embrionário, adulto ou senil, explicam as perturbações que dão lugar a producção de um tumor. , III Sua cura varia conforme a especie do tumor. Ca«leira’«le Anatomia e ft*liy$iolog*ia - Dege- nerações secundarias «la meduIla I As degenerações secundarias da medulla são ascendentes e descendentes. II As ascendentes são sempre de origem medullar e tem por séde os cordões posteriores e feixe cerebellozo directo de Flechsig. III As descendentes podem ser de origem encephalica ou medullar e tem por séde os cordões anteriores. Cadeira de fi*atlio!og‘ia Medica I A alimentação vicioza é uma das mais importantes causas do rachitismo II O rachitismo na muiher é uma das causas de distocía pela deformação que produz sobre os ossos da bacia: III O tratamento do rachitismo se resume no emprego dos tonicos ; contra suas consequências só os meios rirurgicos podem oíferecer vantagens. Cadeira de KEistologia Tlicoriea c Pratica I O epithelio pode ser constituido por uma só camada ou por camadas superpostas. II As principaes formas de cellulaa epitheliaes são a pavi- mentoza, a cylindrica e a de cílios vibrateis. III Qualquer que seja a forma destas cellulas ellas possuem sempre um núcleo. Cadeira de Obstetrícia - J , j , l •; <•. (' «*v I A hemorrhagia è bastante grave durante o trabalho do parto nos casos de inserção vicioza da placenta. II No segundo periodo ella é ainda mais grave, portanto, além dos acidentes maternos, põe em perigo a vida do feto. III }!) No terceiro periodo as hemorrhagias são gravissimas. Cadeira de llateria medica, Pliarmacologia e aric ile formular I O oleo de fígado de bacalháo é extrahido dos fígados'de diversos peixes do genero Gaddus. II Os processos de preparação consistem na expressão e no aquecimento dos fígados, cujo assucar tem soffrido a fermen. tação alcoolica. III Da preparação resultam 3 qualidades de oleo, que são reparadores por excellencia das forças nutritivas. Cadeira de lledieiua legal L Na embriaguez desapparece o livre arbitrio, achando-se a razão abolida e os sentidos perturbados ; não deve, por- tanto. haver responsabilidade. 1L No alcoolismo chronico o delinquente é também irres- ponsável. III A embriaguez é uma circunstancia aggravante, quando o individuo tenha propositalmente abusado do álcool. Cadeira de Hygiene I A fragmentação do hospital para a disseminação dos doentes é um principio básico na construcção dos hospitaes. II A superposição de andares n’um hospital augmenta os focos de infecção. III A boa orientação de um hospital é indispensável á hy- giene hospitalar. Primeira Cadeira de Clinica Alediea I • A albumina, si bem que possa apparecer nas urinas em diversas circunstancias, é todavia um signal importante para o diagnostico da nephrite. II Na nephrite intersticial a quantidade de albumina é muito menor do que na nephrite parenchymatoza. III Ha casos em que a albuminúria é intermittente, pelo que pode as vezes faltar ao exame albumina. Secunda Cadeira de Cliuiea Alcdica I A alimentação goza de uma influencia incontestável no apparecimento das manifestações gottozas, como o demons- tra sua predilecção para a classe abastada. II O elemento anatomo-pathologico mais constante é cons- tituido por depositos de uratos nos tecidos enas articulações III A anchylose é uma consequência quasi natural, uma vez que o interior da articulação é occupado pelos iophus. Primeira Cadeira 'de Clinica Cirúrgica I Chama-se ulcera, a solução de continuidade das partes moles, mais ou menos antiga, acompanhada de um corri- mento de pus. II Pode ser occasionado e entretida por uma causa parti- cular, geral ou local, interna ou externa. III Seu tratamento deve ser baseado na causa que o produ- zio, ou que a entretem. Segunda Cadeira de Clinica Cirúrgica 1 A anesthezia local obteve um grande recurso com a des- coberta da cocaina, cujas vantagens na clinica cirúrgica são incontestáveis. II E’ principalmente na cirurgia occular que a cocaina tem dado brilhantes resultados. Sua acção se faz notar de prefe- cia para as mucozas. III Emprega-se este medicamento sob a forma de chlorhy- drato de cocaina. Elle leva vantagem incontestável ao frio, as pulverizações de ether e chloroformio, ao amyleno, em fim a todos os antigos recursos da anesthezia local. Caileira de operações e apparellios I A amputação da lingua é indicada, geralmente nos casos de tumores e macro-glossite. II Ella pode ser parcial ou total conforme a extensão da lezão que a determina. III Os meios de dierese mais empregados hoje para execuç30 desta operação são os instrumentos cortantes como bisturis, tesouras, ou o esmagador linear, o thermo-cauterio e a alça galvano-caustica. Cadeira de Clinica Obstétrica c dyneeologic» 1 O pulso e a temperatura guardam um certo parallelismo durante o estado puerperal, II Depois do parto o pulso torna-se lento e a temperatura cahe ou conserva-se normal. III Quando ha mais de 38° e ha grande acceleração do pulso o parteiro deve suspeitar a existência de uma infecção. Cadeira de Clinica e Sypiiili^rapliica 1 A lepra é contagioza por que é microbiana. II Seu microbio é o bacillus de Neisser. III E’ pouco curável. Cadeia*» de Clidiea IVopcílcuiica I Os reflexos, quando abolidos, são um dos signaes typos de algumas moléstias medullares. II Podem ser abolidos passageira ou permanentemente. III Os principaes são o pupillar e o patellar. CarfcHi°a de Clinica I As ophthalmias são frequente causa de cegueira no Brazil. II São graves, quando sem tratamento. III Esse tratamento obedece a antisepsia geral. Cadeii1:! ale Clilmlea anaByláca e íoxicolo^iea I A analyse de uma urina, pode, em determinadas cir- cunstancias, servir só por si á afíirmaçao de certos estados morbidos. II A micro-chimica applicada a analyse das urinas é um dos alicerces mais solido sobre que appoiar -se-ha a medicina do futuro. III Principios aromáticos (amnios primários) podem combi- nar-se com sulfo-diabenzol formando cores caracteristicas que apparecem apenas em certos estados morbidos. Cadeira de Anatomia mcdico-cirurjçica I A cadêa cerebral guarda justas relações com a caixa ossea craneana. II A determinação das sisuras de Rolando e de Silvius são pontos de reparo para o conhecimento dessas relações, III Dos planos oriundos do conhecimento dessas sisuras os mais importantes são o de Henry e de Camper. Cadeira de clinica psyclniatrica e de moléstias uervozas I Todas as nevrozes presuppôem um vicio degenerativo. II Sua base anatómica não é ainda conhecida sufficiente- mente. III Alguns auctores as enquadram hoje no grupo das mo- léstias mentaes. Cadeira dc clinica pediátrica I Athrepsia foi assignalada poi;Parrot. II E’ uma moléstia de desnutrição. III A intervenção medica deve ser energica e immediata, nesse caso. IlypocraíiK A|»Bioi»ismã I Vita brevis, ars longa, occasio preceps, experienciafallax judicium difficile. II In febribus, ex sornnis pavores, am convulsiones malum. III Naiura corporis est in medicina principinm estudie. 1Y Ubi somnus delirum sedai, bonum. V Cibus, potus, venus, omni moderata sint. VI In febribus non inlermittentibus si partes externa algeant interna urantus, et sitiant, lethale est. Visto—Secretaria da Faculdade de Medicina e de Phar- macia do Rio de Janeiro, 28 de Outubro de 1896.—O secre- tario, Dr. Antonio de Mello Muniz Maia,