fitlBil BE «iltim EI PIfflIffill I til BE IIlEIi DO Br, tear Cândido Pereira da. Ponceca RIO DE JANEIRO Papelaria Mendes, Marques & C.—Rua do Ouvidor n. 38 1 89 7 DISSERTAÇÃO Ia CADEIRA DE CLINICA MEDICA VALOR CLINICO 00 ELECTRO-DIAGNOSTICO PROPOSIÇOES Tres sobre cada uma das cadeiras da Faculdade THIS1 APRESENTADA Á FUME de rio dejaiei EM 7 DE OUTUBRO DE 1896 E PERANTE ELLÀ SUSTENTADA A 14 DE JANEIRO DE 1897 PELO DR. (Ml CÂNDIDO PEREIRA DA FONCECA UNTORND DO DSTKOO DO B\0 OD àkUtVBO FILHO LEGITIMO DE £1112? Qvitonio $ztziz,a 3a ffionceca E Q). eSíuva 0/inc/a 0'M cát efionceca Bacharel em lettras pelo Gymnasio Nacional. Ex-interno do Estabelecimento Hydro eElectro-tlierapico dosDrs. Avellar Andrade e Werneck Machado, da 8a enfermaria do Hospital da Misericórdia (Ia cadeira de clinica medica) e da Policlínica da Capital Federal. SENDO APPROVADA COM DISTINCÇÃO RIO DE IANEIRO Papelaria Mendes, Marques & C.—Rua < o OuvHor|li .g3B i8 97 Pmldade is Msdicm s is Plamacía is Eis is Jansiro DIRECTOR — Dr. Albino Rodrigues de Alvarenga. VICE-DIRECTOR—Dr. Francisco de Castro. SECRETARIO — Dr. Antonio de Mello Muniz Maia. Drs. : João Martins Teixeira Physica medica. Augusto Ferreira dos Santos Chimiea inorgânica medica. João Joaquim Pizarro Botanica e zoologia medicas. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descriptiva. Eduardo Chapot Prevost Histologia theorica e pratica. Artliur Fernandes Campos da Paz Chimiea organica e biologica. João Paulo de Carvalho Physiologia theorica e experimental. Antonio Maria Teixeira. Matéria medica, Pharmacologia e arte de formular. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Henrique Ladisláo de Souza Lopes Chimiea analytica e toxicologica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medico cirúrgica. Marcos Bezerra Cavalcanti Operações e apparelhos. Antonio Augusto de Azevedo Sodré Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Albino Rodrigues de Alvarenga Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetrícia. Agostinho José de Souza Lima Medicina legal. Benjatnin Antonio da Rocha Faria Hygiene e mesologia. Antonio Rodrigues Lima Pathologia geral. João da Costa Lima e Castro ... Clinica cirúrgica — 2? cadeira. João Pizarro Gabizo Clinica dermatológica e syphiligrapbica. Francisco de Castro Clinica propedêutica. Oscar Adolplio de Bulhões Ribeiro Clinica cirúrgica — 1? cadeira. Erico Marinho da Gama Coelho Clinica obstétrica e gynecologica. Hilário Soares de Gouvêa Clinica oplithalmologica. José Benicio de Abreu.... Clinica medica — 2? cadeira. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias ner- vosas. Cândido Barata Ribeiro Clinica pedriatica. Nuno de Andrade Clinica medica—1? cadeira. LENTES CATHEDRÁTICOS Drs. : 1? Secção Tiburcio Vaieriano Pecegueiro do Amaral. 2? ,, Oscar Frederico de Souza. 3? ,, Genuíno Marques Mancebo e Luiz Antonio da Silva Santos. 4? ,, Philogonio Lopes Utinguassú e Luiz Ri- beiro de Souza Fontes. 5? ,, Ernesto do Nascimento Silva. 6? ,, .. Domingos de Góes e Vasconcellos e Fran- cisco de Paula Valladares. 7? ,, Bernardo Alves Pereira. 8? ,, Augusto de Souza Brandão. 9a ,, Francisco Simões Corrêa. 10? ,, Joaquim Xavier Pereira da Cunha. 11? ,, Luiz da Costa Chaves Faria. 12? ,, Mareio Filaphiano Nery. N. B. A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas tlieses que lhe são apresentadas. LENTES SUBSTITUTOS PREFACIO “ L/Électricité parait être l’agent le plus actif, Tesprit, la vie, 1’âme, du monde. ” Barrièrk. TmDas as applicações da electricidade \u'á medicina, grande parte das quaes tivemos occasião de apreciar no Estabe- lecimento Hydro e Electrotherapico dos \y D rs. Avellar i\ndrade e Werneck Ma- chado, nos mereceu especial attenção a referente ao diagnostico Dissertando sobre o “valor clinico do electro- diagnostico ” tivemos em vista contribuir, ainda que parcamente, para solver alguns pontos ainda hoje controvertidos sobre tal assumpto e, ao mesmo tempo, salientar-lhe as vantagens. Não usaremos para esse fim de tropos de rhetorica: nossa linguagem será simples e concisa. De tres capítulos consta essa nossa prova final do tirocínio académico. Os dois primeiros são mais especialmente consagrados á parte descriptiva ; no terceiro e ultimo estudaremos as questões mais impor- tantes nue, no estado actual da sciencia, é \ ossivel formular sobre tão delicado quão util recurso clinico. Em nossa dissertação sómente trataremos do processo de exploração electrica neuro-muscular, por- quanto, a referencia que fazem os autores ao electro- diagnostico especial dos orgãos dos sentidos, além de infundada, pois tudo se reduz a explorar nervos e musculos, é extremamente difficil e os dados que for- nece pouco ou nada adiantam ao diagnostico e pro- gnostico de lesões que lhes são próprias. Partidários da sentença latina— res, non verba— as nossas asserções são as resultantes de acuradas e escrupulosas pesquizas que realisámos em presença de nossos distinctos collegfas e dos illustres clinicos Drs. Avellar Andrade, professor Augusto Brandão e Álvaro Paulino. Não pedimos benevolencia para o nosso modesto trabalho ; muito ao contrario, desejamos caia sobre elle todo o rigor da critica, certos de que o exe- cutámos escudados pela observação imparcial dos factos e d’ahi deduzindo nos limites do nosso precário cabedal scientifico, Para terminar, um agradecimento sincero aos distinctos amigos Drs. Avellar Andrade e Werneck Machado pelos valiosos auxílios materiaes e profis- sionaes que nos prestaram e também ao Dr. A. Paulino e aos bons companheiros de internato, os intelligentes collegas e dedicados amigos Augusto Cesar de P reitas e Paulino de Avellar Werneck. DISSERTAÇÃO CAPITULO I SUMMARIO—Historico. Material e condições essenciaes para a exploração da excitabi- lidade electriea. Teclinica. Conhecida desde a mais remota antiguidade a energia electriea, entretanto, só foi applicada á medi- cina no anno de 1744 A Kruger, professor em Holmstadtt, cabe a prioridade dessa applicação. Sob a forma statica elle foi o primeiro a empregar a electri- cidade comò meio therapeutico e obteve bom resul- tado. Em breve divulgou-se a noticia dessa primeira e feliz tentativa de Kruger, não tardando que outros therapeutistas seguissem seu exemplo. Data, porém, de 1859 a utilisação deste precioso agente physico como meio de diagnostico. De facto, naquelle anno a publicação feita pelo professor alle- mão Baíerlacher de um caso de paralysia facial em que os músculos paralysados conservando-se indiffe- rentes a fortes correntes faradicas, reagiam, entre- tanto, contra as correntes continuas despertou sobre- modo a attenção daquelles que se dedicavam á electrotherapia. 4 O facto assignalado pelo professor allemão foi con- statado posteriormente por outros experimentadores, não só em relação á paralysia do nervo facial, mas tam- bém á dos demais nervos do organismo, principalmente as que reconheciam por causa um traumatismo. Segundo Onimus e Legros não pertence a Baíer- lacher a primasia de tal observação, mas sim a Hallé que muito antes daquelle notara o facto, comquanto lhe não ligasse a devida importância e não o tivesse verificado em todos os casos idênticos. Seja, porém, como for, a verdade é que só posteriormente á com- municação de Baierlacher o facto mereceu a attenção do mundo scientifico. Runge, Barwinkel, Grunewald, etc., chegaram a observar mais que os musculos só reagiam contra excitações directas, partindo dos nervos, ao passo que as excitações indirectas eram sobre elles de acção completamente nulla. Erb, notável professor de Heidelberg, pensou logo em tirar partido da singular particularidade assignalada por Baíerlacher. Repetindo cuidadosa- mente e ampliando os estudos de seus antecessores, procurou demonstrar as variantes da excitabilidade electrica de modo correlato ao maior ou menor gráo da lesão. Grupando essas variantes sob a denominação “Reacção de degenerescencia” e estudando-as minu- ciosamente Erb prestou assigalado serviço á sciencia do diagnostico. Tal é, a traços largos, a historia do electro- diagnostico, utilíssima creação de Krb. 2o Assim como em therapeutica os bons resultados da medicação estão directamente ligados á qualidade e quantidade dos agentes de que o clinico lança mão, ao modo e opportunidade de applicação desses mes- mos agentes, etc., assim também o critério fornecido pela exploração da excitabilidade electrica depende intimamente do material para ella utilisado e de certos preceitos de que em breve nos occuparemos detalha- damente. Estabelecida essa preliminar vamos dar, em pri- meiro logar, a lista do instrumental imprescindível para essa exploração e de que, de accordo com os tra- tadistas, nos temos servido : a) bateria electrica de 6o elementos, fornecendo correntes continuas e munida de duplo collector, gal- vanometro, rheostato medico, commutador e inter- ruptor. Para explorações domiciliarias pode ser utili- sada uma pequena bateria portátil de 24 cu 36 elementos, munida dos mesmos accessorios. b) Apparelho de correntes faradicas typo — chariot. c) Electrodos de tamanhos differentes. ( Vide pag. 9.) d) Uma cinta elastica destinada a manter um dos electrodos. e) Rheophoros para a ligação dos electrodos ás fontes de energia electrica. 6 Com esse material, estamos habilitados á pro- ceder ao exame electrico da excitabilidade neuro- muscular, em uma palavra ao electro-diagnostico. Para podermos aquilatar com firmeza dos resultados de nossas pesquizas, cumpre que a ellas presida o má- ximo rigor de technica. O confronto de duas ou mais explorações, no mesmo indivíduo ou em indivíduos differentes, só merece confiança, só póde dar logar a conclusões seguras si sempre observarmos certos preceitos geraes. Assim, devemos sempre ter em vista, antes de tudo, o perfeito funccionamento de todo o material. Cumpre que nos sirvamos sempre dos mesmos apparelhos ou, pelo menos, de apparelhos em igual- dade de condições. Muitas vezes os apparelhos, prin- cipalmente os galvanometros, differem segundo o fabricante. A maior ou menor extensão dos diâmetros dos electrodos, seu gráo de humidade, seu modo de fixação sobre a pelle influe n de modo espantoso sobre os resultados da pesquiza. São essas, além de outras que mais adiante citaremos, algumas das causas que estabelecem differenças notáveis entre as explorações dos differentes investigadores. E’ de grande vantagem o concurso de um auxiliar habilitado no manejo das fontes de energia electrica. Assim, o observador, occupando-se exclusivamente do doente, poderá, com mais segurança, registrar todos os detalhes da exploração por mínimos que elles sejam. Em nossos trabalhos fomos sempre vantajosa- 7 mente auxiliados pelo intelligente e prestimoso col- lega de internato o doutorando Augusto de Freitas. O paciente deve estar deitado em leito collocado em compartimento bem illuminado afim de que não passem despercebidas as menores contracções mus- culares. O leito deverá estar de modo a permittir ao experimentador franco accesso por qualquer dos lados. A posição do paciente é a de decúbito dorsal com os membros collocados de modo a conservarem os mús- culos em relaxamento. Muitos outros detalhes de technica que só a pra- tica faz conhecer, concorrem para tornar a exploração da excitabilidade electrica um meio delicado e traba- lhoso de diagnostico. Muita razão teve o professor Erb escrevendo, em referencia ao assumpto, no seu magistral tratado sobre electrotherapia : “ La question riest pas aussi facile qu on le croirait après une étude superficielle ; il faut une grande habitude, de la dex- térité technique et un jugement expérinientépour faire une recherche électrique qui mérite confiance et émettre un avis décisif quand il sagit de modijications dé~ licates.” A confusão que lavra ainda entre os autores é devida também ao facto de alguns dentre elles to- marem para unidade de força electrica o numero de elementos de uma bateria, ao envez de se guiarem pelo galvanometro que, como vamos demonstrar, é indispensável. E’ cousa por demais conhecida que os tecidos do organismo não offerecem todos a mesma resistência á 8 corrente electrica ; que essa resistência varia conside- ravelmente de um para outro indivíduo; que o maior ou menor gráo de humidade facilita ou difficulta a passagem da corrente. Assim, torna-se facil de con- cluir que, por exemplo, empregando io elementos poderemos actuar com maior ou menor intensidade de accordo com as resistências encontradas pela corrente, o que nos deixa em duvida, pois, não podemos, com precisão, referir os resultados obtidos a uma inten- sidade cuja invariabilidade não podemos garantir. Como poderemos, pois, concluir com segurança dos resultados obtidos, quer em pontos homologos de um mesmo indivíduo, quer em dous ou mais indivíduos ? Por meio do galvanometro temos certeza de actuar sempre com a mesma intensidade, para ponto de partida. Além das causas que citámos como influindo sobre a intensidade da corrente, muitas outras existem, Taes são a maior ou menor pressão exercida sobre os electrodos, o gráo de humidade destes, etc. A essas causas que tornam infiel o processo de pesquiza sem auxilio do galvanometro vem juntar-se outra da maxima importância: a variabilidade de energia das pilhas electricas. Por minimas que sejam essas differenças de intensidade, não devemos despre- zal-as, porquanto são causas de erro. Assim como um decimo de gráo a mais ou a menos na escala thermo- metrica indica oscillação na temperatura febril, assim também mais ou menos um decimo de milliampére traduz maior ou menor gráo de excitabilidade. 9 A intensidade da corrente electrica não depende, pois, sómente do numero de elementos que a geram. Sempre devemos ter presente a lei formulada por Ohm “ a intensidade da corrente electrica é directa- mente proporcional á força electromotriz empregada e inversamente proporcional á resistência encontrada pela corrente ” lei que é expressa pela formula: I — ■— Em apoio do que dissemos sobre resistência cita- mos a seguinte phrase de Erb: “Un príncipe doit prési- der à ces explorations, c est que la resistance au courant doit toujours être étudiée simultanément; c est seulement quand ou a trouvé égales les ?esistances aio courant que l'ont peut, toutes les autres conditions de l'expe*ience restant les numes, être, en quelque sorte assuré d'obtcnir des valeurs comparables, c’est-à-dire, de deduire des conclusions utilisables, relativement aux dijferences qui peuvent exister dans Vexcitabiliié électrique. ” Apparelho fakadico - Em nossas pesquizas cos- tumamos nos servir dos apparelhos denominados chariot. Nestes apparelhos a bobina inductora é fixa e a induzida póde mover-se ao longo de uma prancheta dividida em millimetros. Conforme se affasta ou appro- xima uma bobina da outra, obtem-se correntes mais ou menos fortes. A’ exploração pelas correntes faradicas são appli- caveis os mesmos preceitos geraes que mencionámos em relação ás correntes galvanicas. E’ preferivel empregar a bobina de fio grosso porque actuando mais sobre a excitabilidade neuro- muscular não causa dor como a de fio fino. Electrodos—Não é indifferente a dimensão, a forma e a natureza dos electrodos. Conforme os pontos a examinar e a densidade de corrente que se quer dar aos polos, variam as dimen- sões dos electrodos. A densidade da corrente, considerada em diversos pontos de um conductor, é inversamente proporcional á superfície de secção do conductor nesses pontos. De accordo com essa lei, devemos escolher para polo indifferente um electrodo maior que o do polo activo. Temos empregado como polo indifferente um ele- ctrodo de 7 centimetrose para polo activo um de menor dimensão, (conforme o local em que o applica- mos), nunca menos de 2 a 3 centímetros. Electro- dos menores devem ser desprezados, não só por causa da dor que provocam, como também por serem muito intensos sobre a pelle seus effeitos chi- micos, chegando mesmo a produzirem escharas si insistirmos por demais sobre um dado ponto com uma corrente forte ; accresce ainda que, si nestes electrodos pequenos a densidade augmenta muito, a resistência encontrada pela corrente é também maior, em virtude da diminuição da secção transversal. São preferíveis os electrodos de carvão reves- tidos de agarico e camurça. Para pólo indifferente póde-se também empregar uma pequena chapa de estanho preparado, também revestida de agarico e camurça. Alguns experimentadores utilisam ainda como pólo indifferente uma cuba contendo uma so- lução de chlorureto de sodio, cuba em que o paciente immerge a mão ou o pé. Este meio não deve ser usado : a), porque as regiões a que é applicado são impróprias, como veremos mais adiante quando tra- tarmos da technica ; b), por tornar-se de diflicil manejo e obrigar o paciente a posição incommoda ; cJ, por não ser susceptivel de offerecer menor densi- dade que o pólo activo. Nunca ligamos esses electrodos a cabos munidos de interruptor porque a pressão exercida pelos dedos do experimentador sobre elle não permitte perfeita estabilidade do electrodo, o que muito difficulta e pre- judica a observação nitida das contracções. Preferimos sempre que o interruptor esteja collocado na própria bateria electrica. 3° Antes de tratarmos dos processos de technica devemos dar as razões que nos levaram a divergir dos autores no emprego de expressões usadas na pra- tica do electro-diagnostico. Por simples questão de adaptação ao nosso idioma, quando, abreviadamente nos referimos a con- tracções de fechamento ou de abertura do anodo ou do kathodo escrevemos : CF A n, CFK, CA A n, CF An. Ao pólo que se destina a exercer acção local, intencional, que é applicado á parte cuja excitabilidade se vai explorar, preferimos, com o professor F. Ray- mond, denominar—pólo activo—; tal denominação melhor exprime, sem duvida, seu papel do que a de— pólo differente — proposta pelo professor Erb. Ao outro pólo, cujo fim unico é fechar o circuito, cabe perfeitamente a denominarão que conservamos de — pólo indifferente. Entrando agora propriamente no assumpto ex- clusivo deste paragrapho, vamos estudar os methodos de exploração da excitabilidade electrica. De todos os methodos descriptos pelos electro- therapeutas, aquelle que mais confiança merece é o da exploração dos nervos motores e dos musculos, pois sendo cuidadosamente seguido, offerece menos causas de erro que qualquer outro. E’ delle, portanto, que nos vamos occupar, começando pelas : Correntes galvanicas - Comquanto as difife- renças observadas nos effeitos produzidos pela exci- tação dos nervos motores e sensitivos sejam devidas á direcção das correntes electricas, como cabalmente foi demonstrado pelas experiencias de Matteuci, Ma- riani, Remak, etc., todavia, o methodo de exploração electrica que se basea na influencia da direcção das correntes não é fiel porque precisamos actuar, ora, sobre nervos e musculos superficiaes, ora, sobre os mesmos profundamente situados. Em virtude da diffusão das correntes, isto é, da formação das cor- rentes derivadas, não é possivel agir superficial e pro- fundamente com a mesma intensidade, nem, tão pouco, contar com uma direcção exclusiva da corrente de tal ponto a tal outro, o que mascara os resultados da pesquiza. Não tem os mesmos inconvenientes o methodo baseado na diversidade de acção dos polos —o methodo polar— hoje quasi geralmente seguido. Devido a Chauveau que o empregava em suas investigações physiologicas e, mais tarde, introdu- zido em electro-diagnostico por Brenner, este me- thodo consiste em applicar-se sómente um polo (o activo) sobre a parte cuja excitabilidade se explora e outro (o indifferente), em ponto distante. Por esta forma faz-se predominar, á vontade, a acção do polo positivo ou do negativo sobre o orgão que se examina. Pontos de applicação dos electrodos—E’ facto de observação cliaria que os musculos e os nervos são mais excitáveis em certos pontos, por isso denomi- nados pontos, excito-motores. Estes pontos de eleição, determinados por Erb, Duchenne (de Boulogne), Remak, Ziemssen, corres- pondem aos pontos de entrada do nervo no musculo, quando este é superficial, ou ao local em que o nervo mais se approxima da pelle, quando o musculo é pro- fundamente situado. Sobre os pontos excito-motores, cuja relação minuciosa para aqui transportamos extrahida do Traité dEletricité Médicale de Lecercle, é applicado o electrodo que representa o pólo activo. “Posição dos pontos exito-motores—Cabeça “ —Nervo facial: a) O tronco deste nervo póde ser “ excitado abaixo do pavilhão da orelha, entre a apo- “ phise mastoide e o condylo do maxillar inferior ou “ abaixo e adiante do conducto auditivo externo (i “ fig. i) ; b) o ramo superior a igual distancia do an- “ guio externo das palpebras e do limite dos cabellos Fig. 1 Fig. 1 — a, circumvoluções rolaudicas. — b, circumvoluçâo frontal e insula. — 1. Tronco do n. facial.— 2. Ramo sup. do facial.—3. Ramo tnedio do facial.—4 Ramo inf. do facial. — 5. M. frontal — 6. M. euperciliar. — 7. M. obicular das palpebras. — 8. Musculos do nariz.—9. M. zy- gomaticos.—14. M. orbicular dos lábios.—15. M. da cristã do mento, quadrado do mento e triang. dos lábios indo de dentro para fóra. — 18. M. Masseter. — 19. M. temporal. — 20. N. giande hypoglosso.—21. M. spinal. —22. N. plirenico. — 23. N. do grande dentado. — 24. N. axillar. — 25. Plexo bracbial. —26. M. sterno-cleido-mastoideo. — 27. M. infra- hyoideos.—2S. M. omo-hyoideo —29. Ponto supra-clavicular de Erb. — 30. M. splenius capitis.—31. M. supra-liyoidéos.—32. N. auricular post —33. M. angular do omoplata. —34. M. trapézio. -—35. N. dos peitoraes. “ (2 fig. i ); c) o ramo médio tem seu ponto de exci- “ tação abaixo e um pouco adiante do angulo inferior “ do osso malar (3 fig. 1) ; d) o ramo inferior é exci- “ tado ao nivel do bordo inferior do maxillar inferior “ pouco mais ou menos a igual distancia da symphise “ e do angulo do maxillar (4 fig. 1). “ M. frontal: Immediatamente para traz da apo- “ physe orbitaria externa do frontal (5 fig. 1). “ M. superciliar : Quer directamente ácima e ao “ lado da palpebra (6 fig. 1), quer pela excitação do “ nervo, seguindo uma linha parallela ao ramo su- “ perior do facial e passando pelo ponto de excitação “ do musculo. “ M. orbicular das palpebras : Ou directamente, “ abaixo e fora da palpebra inferior, ou antes, pela “ excitação do nervo sobre o osso malar (7 fig. 1). “ M. pyramidal e constrictor das narinas : Sobre “ os ossos proprios do nariz (8, fig. 1). “ M. levantador commum da aza do nariz e do “ labio superior: Perto do bordo inferior dos ossos “proprios do nariz (8, fig. 1). “ M. levantador proprio do labio superior: Sobre “ o maxillar ao lado do nariz. “ M. pequeno zygomatico : Ao nivel do bordo “ inferior do osso malar em sua união com a apo- “ physe zygomatica do maxillar superior (9, ftg. 1). “ M. dilatador das narinas: Sobre a aza do “ nariz em sua parte posterior e em sua parte média. “ M. grande zygomatico : Ao nivel do bordo in- “ ferior do osso malar (9, fig, 1). “ M. orbicular dos lábios : Qmitro pontos mo- “ tores situados ácima e abaixo da commissura dos “lábios; é preciso excital-os simultaneamente para “ obter uma contracção total do musculo (14, fig. 1). “ M. da cristã do mento : Póde ser excitado di- “ rectamente ao nivel do lado anterior do musculo “ triangular (15, fig. 1). “ M. triangular dos lábios : No meio do bordo “ inferior do ramo horizontal do maxillar inferior “ C15> fig- O- “ M. masseter: Ao nivel da chanfradura sigmoide “ do maxillar inferior entre a apophyse coronoyde e o “ condylo (18, fig. 1). “ M. temporal . Applicar um eh-ctrodo sobre seu “ bordo anterior e outro sobre o posterior ou então “ cobrir os dois com um electrodo largo (19, fig. 1). “ M. buccinador: Sobre o bordo interno do mas- “ seter ou pelo interior da bocca. “ Pescoço—M. grande hypoglosso : Acima do “ grande corno do osso hyoide (20, fig. 1). “ N. accessorio de Willis ou Spinal : Entre o “ musculo sterno-cleido-mastoideo e o trapézio, pouco “ mais ou menos no meio do triângulo constituido por “ estes dois musculos e a clavícula (21 . fig- 0- “ N. phrenico : Sobre o bordo posterior do mus- “ culo sterno-cleido-mastoideo ácima do omohyoideo “ (22, fig. 1). “ N. do grande dentado. Acima da clavícula, “ perto do bordo anterior do trapézio 03. ')• “ N. axillar: Para fóra do plexus brachial ácima “ da clavícula (24, fig. 1). “ Plexus brachial : Acima e abaixo da parte “ média da clavícula (25, fig. 1). “ M. sterno-cleido-mastoideo : Ao nivel do terço “ superior do musculo ou ao nivel de seu bordo pos- “ terior (26, hg. 1), “ M. sterno-hyoideo : Entre os dois feixes de “ origem do sterno-cleido-mastoideo (27, hg. 1). “ M. sterno-thyroideo; Sobre o bordo interno do “ sterno-cleido-mastoideo (27, hg. 1). “ M. omohyoideo : Sobre o bordo inferior do “ sterno-cleido-mastoideo ou entre os dois tendões “ deste musculo (28, hg. 1). “ O ponto SMpra-clavicular de Erb é situado a “ dois ou tres centímetros ácima da clavícula, a um “ dedo do bordo posterior do sterno-cleido-mastoideo “ (29, fig. 1). A excitação deste ponto determina a “ contracção simultânea dos musculos deltoide, biceps, “ brachial anterior e longo supinador. “ Membro superior—Lado da flexão—N. mus- “ culo-cutaneo : Entre os dois feixes do biceps ou “ entre o coraco-brachial e o biceps. (1, fig. 2). “ N. mediano: Ao longo do bordo interno do “ triceps (2, fig. 2) ou ácima da articulação radio- “ carpiana sobre a face anterior do ante-braço (3, “ fig. 2). “ N. cubital : Ao longo do bordo interno do “ biceps ; escolhe-se geralmente um ponto situado a “ cerca de dois dedos ácima do condylo interno (4, “ fig. 2) ; pode-se, também excital-o no sulco epi- “ trochleo-olecraniano, ou ainda, ácima da articulação Fig. 2. — 1. N. 28 musculo-cutaneo. — 2 e 3. N. mediano. — 4. g N. cubital. — 5. M. deltoide (met. ant.) — 6. M. bíceps. — 7. M. ]4 bracbial ant. — 8. M. redondo pronador — 9. M. cubital ant.— 10. M. flexor commum 13 profundo. —11 e 13. M. flexor com. sup.— 12 Feixes flexores do 15 index e do auricular.— 14. M. grande palmar. 3 —15. M. flexor pro- prio do pollegar. — 16. .p M. curto abductor do } pollegar.—17. Oppo- , „ neute. — 18. M. curto flexor do pollegar. 1Q •— 19. M. addúctor do 18 pollegar. — 20. M. lombricaes. — 21. M. 19 p. palmar. — 22. ad- ductor do dedo mínimo. — 23. M. c. flexor do dedominhno. — 24. M. opponente do dedo mi- nimo.— 25. N. cubital. — 26. M. tríceps (longa porção.) — 27. Vasto interno.—28. M. longo supinador. FlG. 2 “'radio-carpiana para fóra do tendão do cubital an- ‘‘'terior (5, fig. 2). “ M. deltoide : Ha dois pontos de excitação “ suas duas metades anterior e posterior (5, fig. 2 e “ 1 fig. 3), um adiante e outro para traz. “ M. biceps : Póde ser excitado por seu nervo na “ união de seus dois feixes de origem (6, fig. 2). A “ excitação directa do musculo requer correntes muito “ intensas. “ M. brachial anterior: Ao nivel do terço in- “ ferior do musculo biceps e abaixo deste musculo <• (2, fig. 2). “ M. redondo pronador: Sobre seu bordo externo “ ao nivel de seu terço superior (8, fig. 2). “ M. cubital anterior: Abaixo da epitrochlea (9, 41 fig. 2). “ M. flexor commum profundo dos dedos : No “ meio do ante-braço entre o grande palmar e o “ cubital anterior (10, fig. 2). “ M. flexor commum superficial: Na parte infe- “ rior de sua porção carnosa (14, fig. 2). “ M. grande palmar : sobre o bordo cubital de u sua porção carnosa (14, fig, 2). “ M. flexor proprio do pollegar : A quatro dedos “ acima da articulação radio-carpiana lado do tendão “do longo supinador (15, fig. 2). “ M. adductor do pollegar : Entre o segundo e o “ terceiro metacarpianos (19, fig. 2). Os pontos de “ excitação dos musculos da eminencia thenar se suc- “ cedem assim, de cima para baixo : curto abductor, “ opponente, curto flexor (16, 17 e 18, fig. 2). “ M. lombricaes : Sobre o bordo externo dos “ metacarpianos correspondentes ( 20, fig. 2). “ M. adductor do dedo minimo : Na parte interna “ do pisiforme (22, fig. 2 e 17, fig. 3;. “ M. curto flexor do dedo minimo: Adiante da “ apophyse do osso ganchoso (23, fig. 2). “ M. opponente do dedo minimo : Um pouco “ abaixo e para fora do precedente (24, fig. 2). “ Lado da extensão — N. radial : Sobre o bordo “ externo do humerus, no meio do intervallo que “ separa a inserção deltoideana do epicondylo (3, “ fig- 3)- “ M. triceps : E’ preciso excitar directa e sepa- “ radamente seus tres feixes de inserção (26 e 27, “ fig- 2 e 5,fig. 3). “ M. longo supinador: Acima do epicondylo “ (28, fig. 2 e 6, fig. 3). “ M. radiaes externos : Na parte supero-ex- “ terna da face posterior do ante-braço (18, fig. 3). “ M. cubital posterior : Ao nivel de seu bordo “ externo (7, fig. 3). “ M. curto supinador : Na parte superior da face “ posterior do ante-braço (16, fig. 3) ; excitável só- “ mente nos indivíduos magros. “ M. extensor commum dos dedos: E’ preciso “ excitar separadamente os diversos feixes no logar “ marcado na figura 3 (8). “ M. extensor proprio do index : Sobre o bordo ‘‘ externo do extensor commum (9, fig. 3). Fig. 11. — 1. M. del- toide (metadepost.) — 2. M. brachial ant. — 3. N. radial •— 4. M. tríceps (longa por- ção.) — 5. Vasto externo. — 6. M. longo supinador. — 7. M. cubital post. — 8. M. extensor commum dos dedos. —9. M. extensor do index. —10. M. estensor proprio do pequeno dedo. — 11. M. longo .abductor do pollegar. — 12. M longo extensor proprio do pollegar. —13. M. curto extensor do pol- legar. — 14. Io e 2o inte- rosseos dorsaes. — 15. 3o e 4o interosseos dorsaes. — 16 M. curto supinador. — 17. M. abductor do- pequeno dedo — 17. M. radiaes ext. Fig. 3 “ M. extensor proprio do dedo minimo: Para “ dentro do precedente e um pouco mais para cima “io, fig. 3). “ M. longo abductor do pollegar : Seu ramo de “ innervação pode ser facilmente excitado perto do “ musculo (i i, fig. 3). “ M. longo e curto extensores proprios do pol- “ legar: Sobre o bordo externo do tendão do extensor “ commum (12 e 13, fig. 3). “ M. interosseos : Sobre a face dorsal da mão “ (i4 e 15, fig. 3)- “ Tronco—N. dos peitoraes : Ao nivel do bordo “ superior do musculo grande peitoral ou então ácima “ e atraz da clavícula (35, fig. 1). “ M. intercostaes externos : Contra o bordo in- r “ ferior da costella perto dos feixes de inserção do “ grande dentado. “ M. grande recto : Sobre seu bordo externo. “ M. grande obliquo : Nos últimos espaços inter- “ costaes ou melhor sobre o bordo livre da ultima “ costella. “ M. transverso do abdómen : Sobre a cristã a do osso illiaco perto do bordo externo do quadrado “ dos lombos. , “ M. grande dorsal . Sobre a parede posterior “ da axilla entre o omoplata e a parede thoraxica. “ M. splenius capitis : Um pouco abaixo da apo- “ physe mastoide (30, fig. 1). “ Membro inferior. Face anterior—N. crural : “ Abaixo da arcada de Fallopio, para fóra da “ artéria crural (1, fig. 4). u N. sciatico popliteo externo : Para traz da “ cabeça do peroneo (1, fig. 6 e 12, fig. 5). “ N. obturador: Póde ser excitado na sahida do l( buraco obturador applicando o electrodo perpendi- u cularmente ao ramo horizontal do pubis (2, fig. 4). Fig. 4 Fig. õ Fig. 4.—1. N. crural.— 2. N. obturador. — 3 M. tensor do faseia lata. — 4 M. quadriceps. — 5. M. recto anterior. — 6. M. crural. —7. M. vasto ex- terno. — 8. M. vasto interno. -—9. M. pectineo. — 10. M. grande adductor. — 11. M. Io adductor. — 12. M. costureiro. C.—4 Fig. õ. — 1. M. tibial ant, — .2 M. extensor dos artelhos. — 3 M. extensor proprio do grande artelho. — M. longo peroneiro lateral. —5. M. curto peroneiro lateial. —6. M. gemeo ext. — 7. M. solear. —8. M. longo . flexor do grande artelho. — 9. M. pedioso. — tO. M. interos- seos dorsaes. 11. M. adductor do pequeno artélho. — 12. 1?. sciatico popliteu ext. “ M. tensor do faseia lata : Recebe dois ramos do u nervo glúteo superior e do nervo crural e póde “ ser excitado no ponto de entrada destes dois ramos “ nervosos (3, fig. 4). “ M. recto anterior: sobre seu bordo interno “ (5. fig. 4 - “ M. crural : Em vários pontos (6, fig. 4). “ M. vasto externo : Em dois logares sobre o “ bordo externo do musculo recto anterior (7, fig. 4). “ M. vasto interno : Entre este musculo e o cos- “ tureiro (8, fig. 4). “ M. pectineo : Abaixo do ponto de excitação “ do nervo obturadoro (9, fig. 4). “ M. grande adductor : Abaixo do pectineo (10, “ fig. 4) ou sobre a face posterior da coxa (2, fig. 6). “ M. i° adductor : Abaixo do ramo horizontal do “ pubis, ou mais inferiormente, abaixo do ponto do “ grande adductor (11, fig. 4). “ M. tibial anterior : A 9 centímetros da cabeça “ do peroneo, (1, fig. 5). “ M. extensor commum dos artelhos : Um pouco “ para fóra do precedente (2, fig. 5). “ M. extensor proprio do grande artelho : Para “ fóra da cristã do tibia (3, fig. 5). “ M. longo peroneiro lateral: a 4 centímetros “ abaixo da cabeça do peroneo (4, fig. 5)' “ M. curto peroneiro lateral : No meio da face “ externa da perna (5, fig. 5). “ M. gemeos : Na parte su- “ perior de sua porção carnosa, 1 “ o externo um pouco mais ácima “ que o interno (6, fig. 5; 3 e 4 “ fig. 6). “ M. solear : Seu ramo ner- “ voso é situado mui profunda- “ mente; é necessário applicar “ fortemente o electrodo sobre “ o bordo dos gemeos (7, fig. 5; 5 e 6, fig. 6.) “ M. longo flexor proprio ‘ do grande artelho : ‘Abaixo do “ ponto motor do musculo solear “ no meio da face externa da perna (8, fig. 5 e 7, fig. 6b “ M. pedioso : Abaixo do “ maleolo externo (9, fig. 5). . “ M. interosseos dorsaes : “ Sobre a face dorsal do pé entre “ os metatarsianos (10, fig. 5(. “ Face posterior—N.grande “ sciatico: Sobre o bordo inferior “ do grande glúteo a igual dis- “ tancia do grande trochanter e “ do ischion (8, fig. 6). “ N. sciatico popliteo inter- “ no: No meio dapréga transver- “ sal do concavo popliteo (9, fig. 6). Fig. 6 Fig, 6. —1. N. Sciatico po” pliteo externo. — 2. M. grande adductor. — 3. M. gemeo ext. —4 M gemeo int,. — 5 e 6' M. solear. — 7. M. longo flexor dá grande artelho.—8.N. grande sciatico — 9. M sciatico popliteo interno. — 10. M. grande glúteo.'—11. Longa porção dobiceps. — 12. Curta porção do biceps. — 13. M- semi- tendinoso. — 14. M. semi- membranoso. —15. M. flexor eommuin dos artelhos. — 16. N. tibial posterior. “ M. grande glúteo: Deve ser excitado ao nivel “ dos nervos glúteos superior e inferior (io, fig. 6). “ M. biceps: Pela longa porção, no meio da face “ posterior da coxa (i i, fig. 6) ; um pouco para fóra e u para baixo pela curta porção (12, fig. 6). lí M. seini-tendinoso : Para dentro da longa por- u ção do biceps e na mesma altura (13, fig. 6) ; para 11 dentro e para baixo se acha o ponto de excitação do “ semi-membranoso (14. fig. 6). “ M. flexor commum dos artelhos : Sobre o bordo “ interno do tibia (r5, fig. 6).” Vejamos, agora, em que ponto da superfície do corpo deve ser fixado o electrodo que representa o polo indífferente. Erb e a maioria dos autores preferem fixar o pólo indífferente na região sternal, attendendo, não só ao facto de achar-se esta situada 11a linha mediana —o que permitte a exploração de orgãos symetricos em maior igualdade de condições — como lambem, á ausência até de nervos ou musculos que possam em- baraçar a investigação. Casos ha, porém, (lesões da pelle, zonas de hyperesthesia, etc.) que não per- mittem a escolha da região stérnal. Em taes casos, para ponto de applicação do pólo indífferente, recor- re-se ás regiões lombar ou sacra, contanto que, pelos meios anteriormente citados, se diminua, o mais pos- sível, a densidade da corrente, em taes regiões. Como se deverá proceder ao exame?—Observados rigorosamente todos os preceitos já referidos come- çaremos a exploração pelas partes não lesadas, no caso de ser unilateral ou limitada a certos pontos a lesão. Para pólo activo tomaremos o kathodo por ser o que maior excitação determina. Estabelecida a cor- rente, de pequena intensidade a principio lê-se no galvanometro o numero de milliampères dessa pri- meira corrente e por duas a tres vezes abre-se e. fecha-se o circuito por meio do interruptor: si alguma contracção si manifestar diminue-se gradativamente a intensidade, até obter o minimo de energia electrica que produza contracção ; em seguida eleva-se a inten- sidade até o máximo que o paciente supporte. Obtem- se assim os gráos minimo e máximo de contracção. Registram-se os resultados obtidos e procede-se de igual modo nas partes lesadas. Esse processo de exploração applica-se tanto aos musculos como aos nervos. Tratando-se de uma lesão bilateral o processo é o mesmo e os dados obtidos serão comparados aos que a exploração fornece em um indivíduo em estado hygido. (No capitulo II faremos considerações espe- ciaes a este respeito.) Correntes faradicas—Tendo sempre em consi- deração os preceitos geraes descriptos anteriorinente, aqui também procuraremos obter o minimo e o máximo de contracção. Si bem que em relação ás correntes faradicas a distincção dos polos não tenha o mesmo valor que para as correntes continuas, entretanto, é de vantagem empregar também na exploração por aquella especie de correntes o methodo polar. E’ de boa regra começar os exames pelas cor- rentes faradicas porque estas não modificam as resis- tências, como succede com as correntes continuas. Eletricidade statica — Alguns experimentadores allemães, dentre os quaes citaremos Schwanda, util- isam também a electricidade statica nas pesquizas electro-diagnosticas. Entretanto, dessa não nos occupa- remos, não só porque não sendo susceptivel de rigo- rosa medida só póde fornecer indicações qualitativas, como também porque as parcas conclusões deduzidas de seu emprego em nada compensam as difficuldades múltiplas que apresenta para ser convenientemente applicada. CAPITULO II SUMMARIO—Reacções normaes dos nervos e dos musculos á excitação pelas correntes electricas. Variantes dessas reacções nos estados pathologicos. Reacção de degene - rescencia. Reacção myotonica. No capitulo anterior vimos quaes os processos empregados e as regras indispensáveis a seguir para a pratica do electro-diagnostico. Temos de nos occupar agora do modo por que reagem os nervos e musculos, em estado hygido e em estado morbido, quando percorridos por uma corrente electrica. Si sobre um nervo-motor ou sobre um musculo— em estado hygido e observados á risca os preceitos anteriormente citados — applicarmos uma corrente electrica, notaremos : a) contracção muscular por occasião do fecha- mento e da abertura do circuito. b) essa contracção é brusca, mais ou menos vio- lenta, segundo a intensidade da corrente e cessa emquanto dura a passagem da corrente. c) a contracção do fechamento do kathodo manifesta-se primeiro e é maior do que a contracção do fechamento do anodo. d) só por meio de correntes muito fortes pode- remos provocar contracções de fechamento e de aber- tura do anodo e de abertura do kathodo. Eis, em resumo, o que a pratica nos ensina. No estado morbido do organismo as cousas nem sempre se passam do mesmo modo. A excitabilidade ele- ctrica em certas lesões apresenta variantes cuja importância perante o diagnostico e prognostico é hoje incontestável, 2o De duas ordens são as variantes ou modificações que a excitabilidade electrica apresenta em um indi- víduo portador de uma lesão nervosa : modificações quantitativas e modificações qualitativas. Por modificações quantitativas entende-se o facto de—uma reacção á corrente electrica exigir para sua manifestação maior intensidade que no estado normal. Diz-se que as modificações são qualitativas quando—a ordem natural da lei dos abalos for inver- tida, isto é, quando a CF An se manifesta antes de CFK e quando a conctração é lenta, ondu- latória. Analysemos separadamente cada uma destas modificações. Modificações quantitativas—Querer estabelecer, para os indivíduos em estado physiologico, um limite minimo de intensidade capaz de produzir contracções musculares apreciáveis ; fixar esse limite para diffe- rentes pontos do organismo; finalmente, reunir essas observações quantitativas e delias concluir para os estados morbidos, — além de ser impossível, não poderia ter importância còmo vamos demonstrar. Não é exagerada, como ao primeiro golpe de vista póde parecer, esta nossa proposição. Ella repousa no facto de variarem extraordina- riamente de um para outro indivíduo as condições de ordem anatómica e physiologica que, modificando por sua vez as resistências, impedem a verificação de dous resultados iguaes. Como saber, portanto, si um indi- víduo acommettido de uma lesão nervosa tem a exci- tabilidade electrica augmentada ou diminuída ? Si essa lesão for unilateral o problema é fácil de resolver, si bem que, mesmo neste caso, não possamos concluir de modo absoluto, isto porque, apenas comparamos os resultados obtidos do lado lesado com os do lado são. Ao contrario, si nos occorrer o caso de. uma lesão bilateral nunca poderemos affirmar com precisão o gráo dessas modificações da excitabilidade, salvo o caso de termos explorado o indivíduo quando em estado de perfeita integridade organica e funccional: A importância das variações quantitativas torna- se ainda menor si considerarmos que : a) em pleno estado physiologico observa-se tanto a hypo como a hyperexcitabilidade ; b) ellas se manifestam em varias especies de moléstias que não dependem de lesão nervosa ; c) na mesma lesão póde-se observar desde o augmento até a abolição da excitabilidade. Mas, como resolver a questão do exame quanti- tativo da excitabilidade nas lesões bilateraes ? Neste caso, si até então nunca tivermos examinado o doente, o exame quantitativo só poderá auxiliar com segu- rança e vantagem o diagnostico si revelar abolição completa da excitabilidade, porquanto, tal phenomeno não se manifesta sem que haja lesão ou total ou parcial da fibra nervosa. Modificações qualitativas—Muito ao inverso das modificações quantitativas, as qualitativas possuem sempre valor diagnostico,ou se trate de lesão unilateral ou de lesão bilateral. No estado de integridade perfeita da fibra ner- vosa, quaesquer que possam ser as condições dos individuos examinados em relação á resistência, é sempre possível observar que a contracção muscular produzida pela excitação electrica obedece ás leis qualitativas seguintes : Ia A contracção de fechamento do kathodo manifesta-se antes da contracção de fechamento do anodo. 2a A contracção do fechamento do kathodo é mais forte do que a do anodo. 3a A contracção muscular é brusca, mais ou menos violenta, conforme a intensidade da exci- tação, e cessa emquanto dura a passagem da corrente electrica. Desde que essas leis se apresentem invertidas a pratica tem demonstrado achar-se o clinico em pre- sença de uma lesão nervosa. Entrando agora em maiores detalhes sobre as variantes da excitabilidade electrica vamos fazer o estudo da Reacção de degenerescencia—Sob tal designação Erb comprehende “ um cyclo de variações de excita- bilidade quantitativa — qualitativa o qual se des- envolve, em determinadas circumstancias pathologicas nos nervos e nos musculos e guarda as mais intimas relações para com certos processos de degenerescencia hystologica que se desenvolvem simultaneamente nos ditos nervos e musculos.” Os caracteres desta reacção consistem no se- guinte : d) Perda completa da excitabilidade galvanica e faradica do nervo. b) Perda da excitabilidade faradica e augmento exagerado da cralvanica do musculo. c) A—CF An—manifesta-se primeiro e é maior do que a—CFK—ou igual. d) As contracções musculares produzidas pela corrente galvanica são lentas, morosas, o musculo como que ondula brandamente. Segundo o professor Erb, desde que um nervo motor soffre uma acção paralysante (secção ou con- tusão) sua excitabilidade augmenta a principio, assim mantem-se por espaço de um a dois dias, depois decresce rapidamente até a abolição completa que se verifica no fim da primeira semana ou no começo da segunda. Esse decrescimento da excitabilidade segue marcha centrífuga, isto é, invade primeiro o fóco da lesão e cTalii estende-se até a peripheria. O indiffe- rentismo completo e persistente do nervo ás exci- tações faradica e galvanica indica que o caso é incurável; quando, ao envez disso, porém, no fim de algum tempo de moléstia o nervo começa a reagir, ainda que muito brandamente, o prognostico é favo- rável, um processo de regeneração da libra nervosa se inicia. O restabelecimento dos movimentos voluntários, no caso de regeneração, precede sempre a reacção á excitação electrica e, na maioria dos casos, é contra a corrente galvanica que o nervo reage primeiro. Erb explica este facto appellando para a circumstancia de serem a conductibilidade e a excitabilidade electrica dous phenomenos distinctos e independentes e liga a precedencia da conductibilidade sobre a excitabili- dade electrica a uma differença do ponto de ataque da lesão. Para elle, a myelina é a parte encarregada de receber e transmittir as excitações ekctricas, ao passo que o cylinder-axis é o conductor das excitações voluntárias : ora, como o processo de regeneração da fibra nervosa dá-se do centro para a peripheria, isto é, começa pelo cylinder-axis, é logico que a funcção deste dos movimentos voluntários) seja a primeira a realizar-se. O espaço de tempo que mede’a entre a reappa- rição dos movimentos voluntários e a reacção á excitação electrica está na razão directa da gravidade da lesão, da rapidez do processo regenerador e da dis- tancia que separa o logar excitado da séde da lesão. Quanto aos musculos, as modificações não são as mesmas para as duas especies de correntes. As reacções provocadas pela corrente faradica no musculo são muito semelhantes ás do nervo :—a prin- cipio diminuição da excitabilidade faradica, diminuição essa que marcha progressivamente até que no fim da primeira semana ou no começo da segunda o mus- culo é totalmente indifferente a essa especie de excitação. O processo de regeneração muscular é annun- ciado pela reapparição lenta e progressiva da excita- bilidade faradica. Esta é mais tardia que a do nervo. O espaço de tempo que no musculo decorre entre a volta da excitabilidade electrica e a dos movimentos voluntários é também muito mais longo que no caso do nervo. No musculo, a persistência da inexcitabilidade galvanica está também na dependencia da gravidade da lesão, o que, por sua vez, influe directamente sobre o processo de regeneração da fibra muscular. Inteiramente diverso do do nervo é o modo de reacção do musculo á corrente galvanica. No começo da moléstia nota-se ligeira diminuição da excitabili- dade galvanica; no decurso da segunda semana a excitabilidade começa a augmentar rapidamente, augmento que se mantém durante algum tempo. Além dessas modificações quantitativas observam-se então modificações qualitativas, assim expressas : a) CFAn manifesta-se primeiro, e é maior do que CFK ou igual. b) As contracções musculares são lentas, ondu- latórias. c) CAK = ou> CAAn (Estas contracções dimi- nuem progressivamente até a extincção). clJ T F K e TF An manifestam-se facilmente. Quando a moléstia progride a excitabilidade galvanica passa do máximo ao minimo : CAAn e CAK, antes de quaesquer outras, deixam de se mani- festarem ; em seguida desapparece CFK ; CF An persiste por muito tempo sendo a ultima a des- apparecer. Nos casos incuráveis a excitabilidade vai dimi- nuindo cada vez mais até a abolição completa, o que só se dá no fim de muito tempo de moléstia. Nos casos curáveis as cousas se passam do mesmo modo que em relação ao nervo. Reacção parcial de degenerescencia—Quando as modicações qualitativas são as mesmas descriptas precedentemente e as quantitativas consistem, apenas, em diminuição da excitabilidade galvanica e faradica do musculo, isto é, não ha abolição da excitabilidade electrica Erb conclue que o processo de degeneração não atacou completamente o nervo ou o musculo, algumas de suas fibras conservam sua integridade anatomo-physiologica. Reacção myotonica—Ultimamente Erb assignalou uma reacção electrica especial, caracteristica da myo- tonia congénita ou moléstia de Thomsen, reacção cujos caracteres são os seguintes: i° O nervo conserva sua excitabilidade electrica normal. 2o A contracção farado-muscular é obtida mesmo por meio de correntes muito fracas e cessando a cor- rente o musculo permanece em contracções ainda durante algum tempo. 3° As contracções de fechamento, tanto do anodo como do kathodo, são lentas e continuam ainda depois de aberto o circuito. 4° A corrente galvanica (sem que se torne neces- sário produzir interrupções) determina contracções ondulatórias e rythmadas do kathodo para o anodo. A respeito desta reacção não fazemos juizo critico, porquanto, nunca tivemos opportunidade de observal-a. Modificações raras da excitabilidade electrica — Alguns experimentadores tem assignalado diversas forftias especiaes de reacção electrica as quaes, pela difficuldade com que são apreciadas e pela sua inconstância em casos iguaes, nenhum valor possuem como meio de diagnostico e taes são : a reacção con- vulsiva de Bcned.ikt, que consiste na producção de fortes contracções musculares em seguida á curta acção de uma corrente electrica; o palmos pasmo electrico denominação dada por Artens ao facto de, logo após a excitação electrica forte em um caso de atrophia muscular progressiva da extremidade su- perior direita, se produzirem movimentos violentos de lateralidade, extensão e flexão por espaço de dois minutos e meio ; a reacção de esgotamento, o aug?nento da excitabilidade secundaria de Brenner ; as contra- cções diplegicas de Remak, etc. Nunca se nos tendo offerecido ensejo de verificar qualquer dessas modificações e, ainda, pela pouca ou mesmo nulla importância que as mesmas têm na pra- tica, nos limitamos apenas a enumeral-as. CAPITULO III SUMMARIO—Estados morbidos em que se mauiiesta a reacção electrica de degene- resceucia — A reacção de degenerescencia de Erb póde por si só dar a conhecer o gráo, a séde e a natui’eza da lesão ?—E’ possível a regeneração histo-physiologica consecutiva aos processos morbidos em que ha a reacção de degenerescencia total de Erb?—Uma unica exploração da exci- tabilidade electrica neuro-museular é, em todos os casos, sufficiente para esclarecer o diagnostico ?—Conclusão. Eis-nos chegado ao ponto capital de nosso des- pretencioso trabalho : a apreciação clinica do electro- diagnostico. Desapaixonadamente e apenas baseado em pes- quizas escrupulosas, realisadas em sua quasi totalidade em presença de collegas e clínicos distinctos, vamos emittir nossa modesta opinião sobre o valor semeiolo- gico da reacção de degenerescencia de Erb. Io Si folhearmos os tratados de neuro-pathologia, no tocante aos estados morbidos em que se manifesta a reacção degenerativa de Erb, nos surprehenderá immediatamente a extrema discordância de opiniões que entre os tratadistas existe sobre tal assumpto. A nosso ver, o motivo de tal discordância reside em dois factos—erros de diagnostico ou falta de cuidado na exploração da excitabilidade electrica. Quer considerados conjunctamente, quer cada um de per si, ambos esses factos são inquestionavelmente susceptiveis de explicar taes discordâncias de opinião. Autores ha, como, por exemplo, I.ecercle que em relação á exploração electrica classificam as moléstias por grupos cujos caracteres distinctivos consistem em apresentarem uns, apenas, modificações quantitativas (hypo e hyperexcitabilidade) outros exclusivamente modificações qualitativas, e finalmente outros, re- acções electricas normaes. Esse modo de ver é erroneo, porquanto, do conjuncto dos resultados fornecidos pela exploração electrica é que podemos concluir para o diagnostico e não tomando por base modificações quantitativas ou qualitativas isoladamente. No capitulo anterior, quando tratámos de reacções electricas, demonstrámos o minimo valor do exame quantitativo quando não seguido do qualitativo e, por isso, não mais insistiremos sobre essa questão. Vejamos qual a opinião do professor Erb que é, d’entre todos os experimentadores, o que mais se dedicou ao assumpto- Em suas múltiplas e detalhadas observações verificou o distincto professor de Heidelberg a reacção de degenerescencia : nas paralysias de causa trauma- tica (despedaçamento, secção ou lesão notável do nervo motor), nas paralysias rheumaticas (p. do facial), nas produzidas por compressão, nas periphe- ricas graves; nas moléstias nteduiares, principalmente se a lesão attinge a substancia parda dos cornos ante- riores (poliomyelite anterior, quer no seu periodo agudo, quer nas fôrmas sub-aguda e chronica) ; na paralysia bulbar (em ambas as fôrmas) ; accidentalmente nos casos de hemorrhagia para o lado da medulla spinal (quando é lesada a sub- stancia parda dos cornos anteriores) ; na quasi totalidade dos casos de paralysia satur- nina ; nas paralysias consecutivas a moléstias de na- tureza infectuosa (diphteria principalmente) ; finalmente, em todas as fôrmas de paralysias consecutivas a moléstias de marcha aguda (nevrites, hemorrhagias, poliomyelites, etc.). Estas asserções de Erb, no todo ou em parte, foram confirmadas por vários pathologistas notáveis como Remak, Brenner, Schultze, Seligmuller e outros. Na sclerose lateral amyothrophica, Eisenlohr e Pick verificaram também em todos os caracteres a reacção de Erb. Por nossa parte temos a dizer o seguinte : Em um caso de polynevrite beriberica que se nos apresentou á observação na 8o enfermaria do Hospital da Misericórdia não verificámos a reacção de Erb; apenas, notámos ligeiras modificações da excitabili- dade electrica. (*). Em quatro casos de paralysia facial de fundo rheumatico que observámos no Estabelecimento Hydro e Electrotherapico não obtivemos também essa reacção. Esses casos terminaram pela cura. Em dous indivíduos accommettidos de hemi- plegia consecutiva á hemorrhagia cerebral apreciámos a reacção de degenerescencia; ambos, após haverem esgotado todos os recursos therapeuticos sem conse- guirem vantagens, submetteram-se ao uso da electro- therapia, no estabelecimento citado, succumbindo ao cabo de algumas applicações. Em dous casos de paralysia facial de causa trau- matica verificámos a manifestação da reacção de Erb. Um desses doentes, em que se manifestava em sua phase final (perda completa da excitabilidade ele- ctrica) a reacção degenerativa, esteve em tratamento durante muito tempo e não obtendo resultado retirou- se do Estabelecimento sem que até a presente data tenhamos noticia delle ; o outro, porém, que apresen- tava a reacção em uma segunda phase (perda da excitabilidade faradica e augmento da galvanica) curou-se. Encontramol-a ainda em um caso de sclerose atrophica cerebral infantil com hemimyelite antero- (*) V- Tribuna Medica, n. 13 de 15 de Julho de 1896 : Obs. de um caso de arterio-scelerose com dilatação das cavidades direitas do coração, congestão asphyxica do figado e polvnevrite beriberica concomitante pelo Dr. A. Paulino e A. deFreitas. lateral descendente e polynevrite consecutiva e em um de poliomyelite anterior aguda. Não nos sendo possivel dar aqui a historia cli- nica de todos os doentes em que praticamos a explo- ração electrica limitar-nos-emos a fazel-o em relação aos tres últimos, mesmo porque nesses os nossos exames tiveram o testemunho de pessoas fidedignas e insuspeitas. OBSERVAÇÃO I Paralysia facial, de causa traumatica, com reaeção de Erb ; cura pela eleetrottierapia, (observação por nós colhida uo serviço de moléstias nervosas no Estabelecimento Hydro e Electrotherapico dos Drs. Avellar Andrade e Werneck Ma- chado). A. Z., 32 annos presumíveis, italiano, solteiro, de consti- tuição robusta, apresentou-se ao Estabelecimento citado a 27 de Agosto de 1894 e referio ao nosso distincto e particular amigo Dr. Avellar de Andrade o seguinte : fazendo um pas- seio a cavallo cahiu, batendo com o lado esquerdo do rosto sobre uma pedra tendo immediatamente abundante liemor- rhagia pelo ouvido do mesmo lado. Determinada ahemostasia pelos meios therapeuticos geral mente empregados, deitou-se e dormiu calmamente durante a noite ; no despertar, porém sentiu o rosto contrahido e servindo-se de um espelho teve occasião de notar o estado de asymetria que elle apresentava. Não ligou a devida importância ao caso porque suppoz que se tratava de um simples geito, segundo expressão sua. Vendo porém, mais tarde, que o mal não cedia resolveu consultar um facultativo o qual prescrevendo-lhe vários medicamentos internos nada conseguiu. Muito desanimado recorreu então ao Dr. Avellar Andrade que lhe indicou a electrotherapia. O exame do doente revelou o seguinte : face esquerda lisa, sem as rugas naturaes que, ao contrario, eram mais pronunciadas que normalmente na face direita, tortura oris manifesta, a bocca apresentava direcção obliqua para cima e para a direita ; diminuição da gustação no lado esquerdo, palavra perturbada, não podendo o doente pronunciar com clareza linguaes e labiaes nem soprar e rir. A aza esquerda do nariz estava voltada para a direita. Em virtude de para- lysia do orbicular das palpebras o donte não podia appro- ximar estas, mesmo durante o somno (lagopbtalmia) ; o musculo de Horner também se adiava paralysado dando em resultado a epipbora. Os plienomenos da visão e audição conservavam-se normaes. A exploração electriea revelou : perda completa da exci- tabilidade faradica nos musculos compromettidos e, quanto á corrente voltaica, ligeiro augmento da excitabilidade em re- lação ao lado opposto. Quanto a alterações qualitativas da excitabilidade galvanica apenas notámos que as contrações eram mais lentas que em estado normal, e a ordem natural dos abalos não se achava invertida. Havia,pois,um começo de degeneração. Nao havia, pois, duvida que se tratava de uma paralysia facial traumatica : a anamnèse e a symptomatologia, princi- palmente a epiphora, symptoma, patliognomonico impuzeram tal diagnostico. Foi instituído o seguinte tratamento: voltaisaçãopositiva durante 15 minutos, diariamente, de todos os musculos inner- vados pelo facial ; intensidade da corrente 8 milliampères, pólo positivo labil e pólo negativo stabil na nuca. Encetado o tratamento a 27 de Agosto, a 2 de Setembro aa melhoras já eram patentes. A não ser a asymetria reve- lada por occasião do riso,a paralysia passaria despercebida. Animado pelos resultados obtidos o doente persistio com assiduidade no tratamento, obtendo alta curado a 16 de Se- tembro tendo recebido 15 applicações electricas. OBSERYAÇAO II Um caso de sclerose atrophica cerebral infantil (obser- vação colhida na enfermaria da Ia Cadeira de Clinica Medica pelo Dr. Álvaro Paulino, assistente e César da Fonseca, interno. F. A. F., 20 annos de idade, pardo, brazileiro, natural do Estado do Pio, morador em Belém, entrou para o Hospital da Misericórdia a 20 de Abril de 1890, indo occupar o leito n. 24 da 8a enfermaria (Ia C. de Clinica Medica) a cargo do pro- fessor Conselheiro Nuno de Andrade. Interrogado pelo Dr. Álvaro Paulino, assistente, re- spondeu que procurara o Hospital para tratar-se de febres tremedeiras que contraíra em Belém e de que soffria ha 12 dias. De facto examinado nesse sentido, impoz-se o diagnos- tico de palndismo simples intermittente, de typo quotidiano pelo que foi desde logo instituída a medicação classica. A simples inspecção do doente denotava além do palu- dismo a presença de uma moléstia ou antes affecção nervosa interessante, a qual passou immediatamente a occupar a nossa attenção. Procurando obter dados anamnesticos nesse sentido, apenas conseguimos saber que o doente era orplião, ignorava a causa da morte de seus progenitores e era aleijado fsicj desde a infancia, o que porém não o impede de, na casa onde está empregado em Belém, entregar-se a serviços domésticos que demandam esforço muscular, como carregar lenha e agua. Pela inspecção do habito externo verificou-se que a phy- sionomia era melancholica, aparvalhada, revelando certo gráo de imbecilidade, intelligencia pouco desenvolvida, respon dendo com difficuldade ás perguntas que se lhe fazia, assus- tando-se ante o minimo apparato de um exame clinico. Asymetria facial e craneana (plagiocephalo), denotando desenvolvimento desigual da caixa craneana. Todo o lado direito do corpo apresentava-se atropliiado, retardado em seu desenvolvimento, prejudicado em sua nu- trição, comparativamente ao lado esquerdo que se most rava normal e regularmente desenvolvido. O braço direito, ao contrario do que normalmente se dá, era muito mais fino e delgado do que o esquerdo, pouco des- envolvido e atrophiado na sua musculatura. A mão direita, pelo seu aspecto e posição, denunciava paralysia dos exten- sores 5 a mão em flexão sobre o punho e os dedos sobre o metacarpo. O membro abdominal direito também se achava atro- phiado, si bem que em menor grão que o membro thoraxico correspondente. No terço inferior do tibia notava-se uma encurvação rachitica. Os músculos da metade direita do thorax também se achavam em estado de atrophia manifesta, de modo que a columna vertebral se deformou, apresentando seoliose que tornava bem manifesta a asymetria da parte posterior do thorax. Pelo exame dos reflexos verificámos augmento dos tendi- nosos e cutâneos, principalmente o patellar direito (ausência portanto, do signal de Westhphall). A sensibilidade (táctil, dolorosa e thermiea) eonserva- vâ-se normal. Em relação á motilidade, observámos que a marcha era embaraçada porque o membro abdominal direito se retardava em relação ao esquerdo. A estação vertical com os olhos fechados (signal de Bomberg) era impossível. O exame do fundo do olho, praticado pelo distincto dou- torando e especialista Abreu Fialho, revelou atrophia simples do nervo optico, pupillas brancas, regularmente contornadas e com ligeira excavação, ausência dos últimos vasos papil- lares e quasi normalidade dos vasos retinecanos. Não houve conseguintemente inflammação anterior. Pelo exame electrieo a que procedemos verificámos : li- geiro augmento da excitabilidade galvanica e sensivel dimi- nuição da faradica do lado direito; as alterações qualitativas eram já patentes quanto a forma e ordem dos abalos. Havia, portanto, a reacção de degenerescencia de Erb no fim de sua phase inicial. Debellado o paludismo, os demais orgãos internos apre- sentaram-se normaes e o doente teve alta, quatro dias depois de sua entrada para o Hospital, a instancias de seu patrão que o foi buscar. Vejamos si ó possível com os dados antecedentes tentar um diagnostico da lesão deste doente. Tratar-se-ba de uma lesão nervosa periplierica ou central, medullar ou cerebral "? Evidentemente os nervos peripbericos estão degenerados parcial mento. A exploração electrica assim o mostrou. Entretanto, a séde da lesão não é peripbcrica, os reflexos estão exagerados em vez de abolidos, a paresia é ligeiramente espastica e, além disso, não se encontra nesse doente a etio- logia das polyuevrites. A lesão é, pois central. Nas lesões medullares as paralysias são bi-lateraes, sendo que as liemi-myelites são raras. As alterações bemilateraes da motilidade e da sensibi- lidade constituem, por assim dizer, o apanagio das lesões cerebraes. E talvez não estivessemos longe da verdade affir- mando que, no caso em questão, em virtude de uma lesão atropliica e esclerotica de um dos bemispberios cerebraes, lesão que data da infaneia, ficou a parte correspondente do corpo prejudicada no seu desenvolvimento e atropbiada. Parece mais que a lesão cerebral já se propagou por via descendente aos cordões de metade da medulla, uma bemi- myelite descendente antero-lateral compromettendo talvez de preferencia os feixes lateral, mixto e cerebelloso directo. Da medulla, sempre por via descendente, a lesão se propagou aos nervos peripbericos. Poder-se-liia, portanto, para o nosso doente formular 4) diagnostico seguinte : sclerose cerebral atropbica infantil, hemi-myelite antero lateral descedente, polynevrite conse- cutiva. Quanto ao prognostico, attendendo ao gráo da reacção de degenerescencia e aos demais symptomas, julgamos apenas poder sustar a marcha da atropliia dos membros e obter mesmo a regeneração dos nervos e musculos que se não acha- rem ainda totalmente compromettidos. Quanto ao tratamento, o iodureto e o bromureto de potássio, as applicações electricas de accordocomos preceitos da electrotherapia moderna devem a nosso ver constituir a base do tratamento a seguir. Tnfelizmente não nos foi possivel pol-o em pratica, pois, a permanência do doente no Hospital foi apenas de quatro dias. Um caso semelhante ao que acabamos de descrever é o referido por J. Cruvellier em sua Anatomie Pathologique vol. I, 8o livraison, pl. 5, sob o titulo Hémiplegie droite incom- plcte. Facultes intellectuels, ordinaires—Atrophie sans lesion organique de Vhémisphère gauclie du cerveau. Apenas, cumpre notar, nesse artigo não se refere Cruvellier á exploração da excitabilidade electrica. OBSERVAÇÃO III Poliomyelite anterior aguda post-partuui (observação coibida 11a enfermaria de Clinica Obstectrica e Gynecologica a cargo do professor Augusto Brandão pelo interno Augusto Torrêaõ Roxo). Deu entrada no dia 30 de Jullio do corrente anuo para o serviço da Maternidade da Faculdade, uma doente, M. M., para se tratar de uma paralysia nos membros superiores e inferiores a qual sobreviera 5 dias depois do ultimo parto. Ella é portugueza, tem 38 annos de idade, entrega-se habi- tualmente a misteres domésticos, vive em domicilio despro- vido dos menores preceitos hygienicos, é casada, contando já a 8a gravidez. Os signaes anamnesticos que precederam a enfermidade de que aetualmente está affeetada, são julgados na seguinte historia : quanto a dados hereditários, apenas nos diz que nascera de um casal de lavradores portuguezes, fortes ; é primogénita, nada informando sobre sua única irmã (pie dei- xara em Portugal ainda creança ;sua progenitora fallecei a, não ha muito tempo de uma affecção do peito ; julga que seu pai vive ainda, gozando saude perfeita; por via collateral nenhum valor merece sua exposição histórica. Até depois de ser púbere, se entregava aos mesmos la- bores que os seus progenitores e accusa, nessa época, soffrer de caimbras e dores nas pernas o que attribuia á necessidade que tii ha de trabalhar nos campos exposta ao frio e humi- dade, porém, que nunca estivera doente ; guardou o leito sómente nas oito vezes que déra á luz, produetos de conce- pções dos quaes seis sobrevivem. Destas gestações refere ter abortado tres vezes; os outros puerperios foram normaes, nem mesmo appareceu durante elles a conhecida febre de leite. Os seus soífrimentos começaram no decorrer da ultima gravidez, no terceiro trimestre desta. Teve a principio vomitos alimentares, conservando sómente no estomago alimentos extravagantes—no dizer da doente—laranjas, apimentados, etc.; cada vez mais enfraquecida, emmagrecia rapidamente ; as pernas se infiltraram um pouco ; teve um pouco de febre e guardou o leito. Foi medicada por um profissional e melhorou a ponto de se achar boa; comtudo, ainda sentia-se fraca,o que não a impediu de continuar entregue a seus labores habituaes. O desenvolvimento exagerado do abdómen lhe embara- çava também a locomoção ; finalmente, vieram as dores do trabalho de parto e ha tres semanas deu á luz um feto do sexo masculino, a termo; as dores expulsivas continuaram a pezar do secundamento da placenta, sendo expellido mo- mentos depois um feto do sexo feminino, menos desenvolvido do que o primeiro, o qual veio envolvido nas membranas de uma segunda placenta. Perdera ella durante e depois do parto grande quan- tidade de sangue, perda que cedera ao emprego de um semi. cupio quente. Depois disso prestou, ella mesma, os cuidados necessá- rios aos seus filhinhos ; descia da cama á procura dos uten- sílios de que necessitava mas, n’uma das vezes, no quinto dia depois do parto, tendo-se de pé, sentiu que as pernas Ilie faltavam debaixo do corpo, chegando mesmo a cabir ; desde então nunca mais andou. Os membros tlioraxicos foram attingidos, logo depois, da mesma impotência funccional da mobilidade voluntária ; não accusa de ter tido febre nessa occasião, diz apenas ter tido seccura 11a bocca e ceplialalgia passageira. Demais, acha-se melhorada, pois, já executa alguns movimentos nos membros lesados, o que não fazia : isso faz acreditar que a lesão akne- tica, a principio diffusa nos membros, circuinscreveu-se mais tai de. Exame autuai—Xo exame dos signaes de diagnose explo- rados encontramos para o habito externo grande emmagre- cimento, mais accentuadona face externa de ambas as pernas, nos pés, nas mãos e 11a face posterior dos antebraços; os pés em extensão, as mãos em garra lembram a statica da amyo* trophia Charcot-Marie ; não ha asymetria da face, a lingua é mediana. Para o lado da motilidade, impotência voluntária dos extensores dos dedos de ambas as mãos, apenas os flexores respondem diffieultosa e limitadamente á volição. As mãos cahem em flexão sobre os antebraços pelo proprio peso e pela falta de energia entre as funcções de flexão e extensão. Os pés não soffrem a influencia da vontade, estão também paralyticos. Estas paraplegias superiores e inferiores de forma flacida não lembram as aknesias corticaes, estas são monoplegicas ou parciaes ; não se filiam também as paralysias por lesão dos centros ovaes ou dos bulbos protuberauciaes,ao typo superior de hemiplegia alterna nem ao syndroma de Millard-Oubler j finalinente, por exclusão, duas hypotheses se formula : ou se trata de uma paralysia spinal, ou de uma paralysia peri- pherica. A investigação de outros dados esclarecerá o dia- gnostico. Os reflexos rotulianos estão abolidos ; o clonus pedis não se observa e nos membros superiores apenas o biceps e o flexor proprio do pollegar reagem á excitação mecanica ; o maxillar inferior entra em ligeiras contracções clonicas por pressão sobre a arcada dentaria inferior. Os reflexos cutâneos plantar e abdominal não existem, os lombares epigastricos e mammarios estão normaes. Os pbenomenos pupillares não soflVeram alteração. Não lia perturbações reflexas para o recto nem para a cavidade vesical, A sensibilidade nos pareceu conservada ; o tacto está normal, não lia exagero dos circulos tactis explorados pelo compasso de Weber a sensibilidade thermica é normal ; 110 emtanto a sensibilidade dolorosa é exagerada, verdadeiras nevralgias se provoca por compressão das massas musculares. Demais, queixa-se ás vezes, de formigamentos nos pés e ao longo das pernas e que estas lhe ficam frias ; para os membros thoraxicos não apresenta taes perturbações. Não foram apreciadas desordens sensonaes ; 11a esphera psyeliica, a intelligencia é clara, a doente responde ás per- guntas 110 gráo de mentalidade que lhe é proprio ; quanto ao caracter, talvez se note um certo gráo de tristeza e desanimo, certa desordem da sensibilidade moral. Ella chora julga-se perdida e duvida da cura de sua enfermidade. As distrophias são todas musculares; nos antebraços lia atropina eircumscripta aos exteusores e principalmente dos interosseos; nas peruas os exteusores dos artelhos, o pedioso os peroneiros e o tibial anterior deixam uma falha em que a pelle toca o esqueleto,o que contrasta com o relevo muscular, dos flexores na face posterior e interna. Nos servimos também da exploração electrica; experi- mentámos a electricidade faradica—tanto os nervos como os musculos lesados não respondiam á excitação ; no antebraço os flexores e o longo abductor do pollegar muito morosamente reagiam ; nos membros inferiores os mesmos musculos distro- phicos não reagiam, os gastrocnemios ondulam de cima para baixo. Não possuiamos então na enfermaria electricidade vol- taica, pelo que o exame electrico completo foi realisado mais tarde como veremos mais adiante. O apparelho digestivo está em boas condições, lia falta de appetite ; a lingua é larga, húmida e corada normal- mente. O figado e baço normaes, nada se assignala de maior nas funeções intestinaes. O apparelho pulmonar respira bem, a ventilação chega até aos ápices desembaraçadamente. No coração as bulhas são nitidas de rythmo physiologico e a impulsão cardíaca não está exagerada. O pulso é regular sem alteração apreciável. Os rins funccionam bem ; as urinas que enchiam a capaci- dade de 70 centímetros cúbicos n’uma micção tinham por den- sidade 1.021, eram amarello claras e o exame chi mico delias nega a presença de albumina. O utero puerperal está bem reduzido, não é muito sensível á pressão ; o collo deixa passar o dedo com diíficuldade ; não ha exsudatos lochiaes fétidos nem lacerações vaginaes e pe- rineaes. As perturbações vaso motoras não eram reaes; o abai- xamento de temperatura local das pernas, differente de 1/2 gráo da raiz dos membros, fazia suppor má distribuição de circulações locaes e, por isso, um certo gráo de desordens no tonismo vascular peripherico ;não ha cedemas. Do exposto salientamos alguns dados : paralysia flacida bi-lateral symetrica, reflexos abolidos nas regiões affectadas y a sensibilidade conservada ; amyotrophia rapida e systema- tica coincidindo com a invasão brusca, ausência de infecção demonstrável ou intoxicação. No arco reflexo a perturbação é para a motilidade na corrente centrífuga e, por isso, duas hypotheses clinicas entram em discussão : ou uma polynevrite motora bi lateral symetrica e systematica primitiva, o que é problemático, ou uma poliomyelite anterior aguda proto- pathica. A inyasão brusca da affecção, raro nas polynevrites (só nas apoplectiformes), a diffusão da paralysia e sua cir- cumscripção em pouco tempo (as melhoras de que nos fallou a doente) a systematisação principalmente da paralysia a um grupo de musculos synergicos, systematisacão cujo valor se não conhece nas suppostas polynevrites de causa interna e entre estas na saturnina cujas lesões sommaticas existem pri- mitivamente na medulla spinal, pensamos com Erb e Remak —a amyotrophia rapida indicando suppressão brusca de in- fiuxão tropliica, a relatividade dos tres elementos morbidos paralysia, amyotroi)hia e degeneração faradica, fazem acre- ditar na poliomyelite anterior aguda. De accordo com esse diagnostico embora nos parecessem irreparáveis as lesões diante do exame eleetrico parcial, ten- tamos medicação revulsiva por meio de pontas de fogo ao longo do rachis e internamente usamos de uma poção de ergotina com o fim de restringir a circulação medullar, como agente anti-congestivo ; 11a falta de electricidade voltaica, fez-se massagem nos membros paralyticos. Mais tarde, esta doente foi examinada pelos collegas Gurgel, Fonseca, Paulino Werneck e A. Freitas, a convite do professor Augusto Brandão. A 2 de Agosto com o auxilio do liabil collega Gurgel, tivemos occasião de verificar a explo- ração faradica que havíamos feito nas vesperas. Aquelles outros collegas repetiram o exame pela corrente faradica, 10 ou 12 dias depois, com os cuidados necessários e chegaram ás mesmas conclusões já citadas anteriormente. Fuma conferencia clinica que nos proporcionou o pro- fessor Augusto Brandão, o collega Paulino Werneck aventou a liypothese da paralysia geral spinal de marcha rapida e curável de Landouzy e Dejerine,(1) porém os tres caracteres— ausência de febre, as lesões irreparáveis (que julgamos pela exploração íaradica) e a falta de extensão da lesão aos mús- culos do tronco poupando unicamente os da face 11a entidade citada—fizeram ealiir a hypotliese. Certos autores não dão mesmo importância a tal distineção entre a poliomyelite anterior aguda e a fórma descripta por Landouzy e Dejerine. Discutiu-se ainda a symptomatologia differencial entre a polynevrite motora e a poliomyelite acreditando o collega Paulino Werneck que só o tempo poderia firmar 0 diagnos- tico differencial e pondo em duvida a irreparação das lesões paralyticas e distrophicas terminou appellando para o exame electrico pela corrente voltaica. Esta applicada dois dias depois da conferencia não contrahiu nenhum musculo das pernas ; apenas, 11a coxa se obteve contracção no fechamento e 11a abertura da corrente no vasto interno, nos membros supe riores os exteusores reagem francamente sendo mais caracte- ristica a reacção dos flexores o que não dá direito a acreditar que os músculos dos membros pelvianos não se restaurem, (1) Esta ubstíi’vaçâo mereceu annotação de um dos conferentes o oollega Pau- lino Werneck a cujas mãos foi ella ter quando já impressa não lhe cabendo, portanto, a responsabilidade do que está escripto : De facto foram por elle au- sentadas tres hypotheses diagnosticas—a da paralysia geral spinal de marcha rapida e curável de Landouzy e Dejerine, a da poliomylite motora e a da polio- mylite anterior. A primeiia d’essas hypotheses foi desde logo prejudicada não só pela marcha da moléstia, como pelos phenomenos actuaes que a doente apre- sentava . Restavam portanto as duas outras hypotheses. Ora. apresentando a doente, perda da contractilidade e paralysias de certas massas musculares e tendo as duas entidades mórbidas laços de semelhança tão intimas o nosso collega P. W. acreditou que só o tempo o levaria a diagnos- tico. Tendo sido solicitado o exame electrico e resultando deste a manifestação da reação de Erb em sua phase final o nosso collega accordou no diagnostico da po- liomyelite anterior já formulada pelos outros collegas porquanto, a vitalidade não voltaria as massas musculares compromettidaspela degeneração nervosa. liem tampouco, ser possível a restauração funccional volun- tária nos extensores dos membros superiores, pois, o argu- mento de valor na formulação do prognostico se tira da exploração electrica a qual por sua vez é favoravel á polio- myelite e não á polynevrite. Nas tres vezes em que íizemos a exploração electrica os musculos se mostraram degenerados ; não é commum nas polynevrites tal facto que serve de base ao electro-diagnostico differencial destas e das poliomyelites. Para nós é fóra de duvida que a tepkromyelite anterior foi lesão primitiva no caso presente e também não duvidamos de uma polynevrite secundaria degenerativa do typo wale- riano cuja evolução ainda se processa. Nem é outra a opinião do professor A. Brandão. A lesão entrou em elironieidade e a doente teve alta a pedido. A medicação a instituir devia ser ioduretada e electro- tkerapia sob a forma de voltaisação medullar descendente, voltaisação alternada com faradisação dos membros. Por esses meios talvez se conseguisse evitar o eompromettimento de maiores massas musculares, nunca porém reconstituir a funcção morta. 2° Já vimos—e Erb e Duchenne de Bolonha cons- tataram e explicaram o facto—que pode haver perda por completo da excitabilidade electrica e, entretanto, jáse estar iniciando um processo de regeneração, pro- cesso este que se traduz pela reapparição dos movi- mentos voluntários. D’ahi deduz-se claramente que a exploração electrica da excitabilidade neuro-mus- cular, apenas, nos póde indicar se ha ou não degene- ração da fibra nervosa: si quizermos descera mais particularidades, si procurarmos averiguar se esta degeneração attinge todas as partes constituintes do nervo ou si ao contrario o cylinder-axis foi poupado, isto é, si se trata de degeneração walleriana caracte- risada ou antes de degeneração segmentaria peri- axil de Gombault temos de recorrer necessariamente ao exame da motilidade voluntária. Entretanto, não pensa assim o professor Erb : para elle a questão de aquilatar do gráo da lesão resolve-se simplesmente pela differença das modifi- cações quantitativas da excitabilidade electrica e mais ou menos assim se exprime: na reacção de degene- ração total, todo o segmento do nervo compromet- tido, ha perda total da excitabilidade electrica, na parcial, cylinder-axis poupado, ha apenas dimi- nuição, conservando-se os mesmos os demais cara- cteres da total. Pelo que ficou dito no começo deste paragrapho se conclue que quando a exploração electrica revelar os phenomenos por Erb denominados reacção de dege- nerescencia parcial poderemos, sem mais recursos, firmar juizo immediato e seguro em favor de um caso de degeneração segmentaria peri-axil de Gombault, porquanto, temos plena certesa que parte do nervo — aquella por onde transita a excitação electrica — existe ainda. No que respeita ao conhecimento da séde da lesão só podemos concluir da exploração electrica, como muito bem diz o professor Erb, que “a presença da reacção de degenercencia indica tratar se de uma mo- lestia nevrotica ou dos nervos periphericos ou das raízes motoras ou das massas centraes pardas.” Em certas moléstias medullares (de marcha chro- nica (syringomyelia, atrophia muscular progressiva, etc.) a reacção de Erb passa muitas vezes desperce- bida e até mesmo falta. Nesses casos, o processo morbido marchando lentamente, as fibras musculares vão sendo invadidas pouco a pouco; d’ahi, o facto de, ainda muito tempo depois de iniciada a moléstia, haver ao lado das fibras degeneradas grande numero de fibras sãs que, rea- gindo perfeitamente contra a excitação electrica, mascaram a reacção de Erb A exploração electrica não revela degeneração e entretanto ella existe dependendo de- uma lesão me- dullar. Por ahi se conclue facilmente que a reacção de Erb por si só não resolve si se trata de lesão me d u llat ou dos nervos periphericos. A ausência da reacção degenerativa nas moléstias medullares chronicas vem contrariar evidentemente a affirmação de Erb. “a presença da reacção degenera- tiva permitte eliminar com certeza toda affecção ce- rebral propriamente dita”. Queremos dizer com isto que, dado o caso da ausência da reacção de Erb, não podemos propender immediata e exclusivamente para uma affecção cerebral, pois que, mesmo nas moléstias medullares ella falta como já o dissemos. Si não nos é possível, como ficou demonstrado, diagnosticar o gráo e a séde da lesão só pela explora- ção electrica o mesmo não succede quando, com um tal auxilio, procuramos saber si a lesão assesta-se no centro trophico ou na continuidade do nervo. A pra- tica nos tem mostrado e todos os autores são unanimes em affirmar que nos casos de lesões trophicas a reacção de Erb se manifesta sempre e em todo o per- curso do nervo; quando a lesão assesta-se em um ponto situado abaixo do centro trophico essa reacção manifesta-se abaixo do ponto lesado, o que está de accordo com a physiologia, porquanto, a parte do nervo que fica em relação com o centro trophico não degenera. Dejerine e Vulpian dizem ter observado em cinco casos de paraysia do nervo radial por com pressão o phenomeno curioso da perda completa da excitabilidade electrica acima e ao nivel do ponto le- sado, ao passo que, abaixo ella conservava-se normal. Esse phenomeno nãopôdeserrepetido nas experiencias a que taes autores procederam em cães. Como se vê, trata-se de uma questão inteira- mente contraria ao que está estabelecido em physio- logia e, sendo assim, nos julgamos sem base para in- terpretal-a. A reacção de degenerescencia sendo commum a processos morbidos os mais diversos é evidente que, por si só, ella não caracterisa o genero da lesão. Para esse fim temos de juntar ainda á exploração electrica outros recursos. 3° Outra questão que muito se tem debatido é a da possibilidade da regeneração histo-physiologica nos casos que apresentam a reacção completa de dege- nerescencia. Erb affirma ter conseguido a cura de doentes que manifestaram essa reacção em sua phase ultima. Comnosco nunca succedeu o mesmo. Entretanto, não nos repugna admittir a veracidade da afíirmação de Erb, porquanto, a reacção que tem o seu nome nem sempre indica, como já o demonstramos, que ha dege- neração walleriana. E’ hoje principio corrente em physiologia não haver regeneração autogenicada libra nervosa. De accordo com este principio, sempre que ao lado da reacção completa de degenerescencia verifi- carmos também perda da motilidade voluntária po- demos perder a esperança da cura do doente por ser o mesmo portador de degeneração walleriana cara- cteristica. Do que ficou dito resulta a seguinte deducção: a presença da reacção de Erb indica, sempre e sem mais auxilio de qualquer especie, prognostico gi ave, ella evidentemente traduz, como a pratica o tem de- monstrado peremptoriamente, alterações histológicas profundas dos musculos e dos nervos que os animam. 4o Grande é o numero dos que entendem ser suffi- ciente uma unica exploração electrica para decidir do diagnostico. A esse modo de pensar não duvi- damos ligar o pouco e mesmo nullo valor por muitos clinicos attribuindo a tão precioso recurso. E’fora de duvida haver casos em que uma uniea exploração electrica basta para firmarmos nossa opi- nião: taes são aquelles em que, logo no primeiro exame, a reacção degenerativa de Erb em todos os seus caracteres se nos manifesta sob os electrodos Mas, quando apenas observarmos modificações quantitativas ? Inquestionavelmente não nos será possível interpretar-lhes a significação sinão proce- dendo a explorações repetidas, em dias consecutivos afim de verificar si ellas se mantêm, augmentam ou diminuem, em ultima analyse, si são a expressão ini- cial da reacção de Erb ou ao contrario, nada têm que ver com o processo morbido em questão. E’ nesses casos que a exploração electrica se re- veste de maior somma de difficuldades. Em geral, o doente fatiga-se com explorações repetidas e, não raro, a ellas se recusa, além de que o clinico perde maior somma de tempo. Na clinica hospitalar a exploração electrica é cousa facil de praticar, attendendo á classe e ás condições dos doentes Na clinica civil, porém, as cousas mudam de figura Nós, que fomos interno do Hospital de Misericórdia e de um estabelecimento onde os doentes eram contribuintes muitas vezes nos vimos seriamente embaraçados com estes, ao passò que, d’aquelles tudo conseguíamos. As explorações repetidas, a posição penosa em que ficam o doente e o clinico, a grande somma de cuidados que é preciso pôr em pratica, taes são, a nosso ver, outras tantas causas do desprezo em que, força é confessal-o, é tido entre nós e mesmo no es- trangeiro o electro-diagnostico. 5? Para concluir o presente trabalho resta-nos fazer algumas considerações sobre o lado pratico do ele- ctro-diagnostico. Já por vezes nos referimos a muitas das difficul- dades que é preciso vencer para proceder a uma ex- ploração electrica cujos resultados possam ser con- scienciosamente aproveitados. Demonstrámos que a reacção de Erb por si só não basta para o clinico conhecer do gráo, da sede e do genero da lesão ; que o facto exclusivo de sua ma- nifestação não indica máo prognostico. A’ primeira vista parece, portanto, ser quasi nuilo o valor semeio- logico da exploração electrica. Entretanto, assim não é. De facto, si passarmos em revista, um por um, todos os recursos que são utilisados para o diagnostico um só não encontraremos que tenha valor exclusivo e absoluto. A importância da exploração electrica é incontes- tável. A presença da reacção de Erb traz logo ao es pirito a certeza de degeneração nervosa e muscular; d’est’arte torna-se um meio de diagnostico differencial que muito auxilia o clinico dirigindo-o immediatamente á pesquiza dos dados symptomatologicos de um dos estados morbidos citados no paragrapho primeiro deste capitulo ; sua ausência fal o-á propender para uma paralysia de causa cerebral propriamente dita, de na- tureza hysterica, peripherica, etc. Para bem avaliarmos o auxilio que presta a ex- ploração electrica, basta ver que ella constitue um meio seguro para concluirmos si a perda da motilidade vo- luntária de um musculo corre por conta de uma simples paresia ou antes de paralysia consecutiva a lesão da fibra nervosa ; na paresia falta a reacção de Erb, na paralysia por lesão nervosa ella é patente. D’entre alguns physiologistas que negaram a exactidão das asserções de Erb, Vigouroux, dizendo-se baseado em experiencias concludentes, modificou em seus pontos capitaes a noção da reacção de degene- rescencia. Para elle tanto as correntes voltaicas como as faradicas produzem, com a mesma intensidade, iguaes acções contracteis, comtanto que se empregue sempre o mesmo pólo. A conclusão que d’ahi tirou Vigouroux é que o caracteristico da reacção de Erb reside na acção mais pronunciada e predominante do pólo positivo sobre a fibra muscular degenerada, quer se proceda á exploração voltaica, quer á faradica, isto é, justamente o contrario do que se passa em estado hygido. Como se vê, a objecção de Vigourox visa exclusi- vamente o modo de actuar da electricidade no indiví- duo doente. Elle não nega, pois, que as cousas se passem di- versamente do estado hygido. Sendo assim, pouco importa interpretar d’esta ou d’aquella maneira, o facto principal e incontestável é que no caso de degeneração nervosa ou muscular a exploração electrica fornece dados inteiramente di- versos dos observados em estado normal. Além disso, Erb não descura da acção diversa dos pólos em sua reacção typica: apenas, elle não se limita só a tal facto para dizer que ha degeneração, e isto por coincidir elle sempre com outras alterações quantitativas e qualitativas da excitabilidade electrica. Não tem razão ainda Yigouroux em dizer que com uma ou outra especie de correntes os effeitos não são os mesmos em relação ás contracções musculares, desde que se conserve o mesmo pólo. As experiencias de Neumann, confirmadas por vários experimenta- dores, provaram á evidencia serem os musculos que soffrem alterações em sua estructura sómente excitá- veis por correntes de uma certa duração; ora, a cor- rente faradica não sendo mais do que uma série de correntes distinctas, de curta duração, succedendo-se com grande rapidez, não realisam a condição neces- sária para contrahir o musculo alterado. As condições são diversas: n’um caso (c. voltaica) temos uma cor- rente unica actuando de modo permanente, n’outro (c. faradica) temos uma série de correntes actuando todas muito rapidamente, não permittindo assim uma certa estabilidade de acção. Demais, si lançarmos uma vista retrospectiva para o historico do electro-diagnostico, veremos quão infundada é a objecção de Vigouroux (os mesmos ef- feitos serem observados com ambas as especies de cor- rente), pois foi justamente o facto de ter Baierlacher observado a diversidade dos effeitos das correntes vol- taicas e faradicas que lhe despertou a attenção, fa- zendo-o repellir a ideia de um estado normal do mus- culo e acceitar a de um estado pathologico. Para nós a exploração da excitabilidade electrica constitue um auxilio valioso para o diagnostico e, no tocante aos estudos de Erb, a unica objecção que jul- gamos merecerem, á vista dos factos, é que a reacção de degenerescencia total nem sempre traduz degeneração walleriana, como já demonstrámos. Pela applicação da electricidade ao diagnostico, não duvidamos dizei o, muitos pontos ainda obscuros da pathologia nervosa talvez possam ser de futuro com vantagem esclare- cidos. Para exalçar ainda mais o valor da exploração electrica ahi estão os estudos de Apostoli referentes á electricidade como meio de diagnostico em gyne- cologia. Esse illustre gynecologista que creou um methodo seu de tratamento dos fibromas uterinos pela electri- cidade, observou que: “em seguida á applicação ele- ctrica faradica as ovaralgias hystericas cedem por tempo variavel, ao passo que, as provocadas por lesão peri-uterina ou dos annexos (de natureza inflamma- toria), são rebeldes ou apenas se attenuam;” “pela corrente galvanica apresentam intolerância desde o começo as moléstias uterinas curáveis, dando-se o in- verso para com as incuráveis.” Finalmente, conclue Apostoli, “além, com effeito, dos grandes serviços the- rapeuticos que ella presta todos os dias, a electricidade poderá ainda nos servir de pedra de toque, esclarecer mais directamente ainda os interesses da cirurgia, quer para evitar em certos casos alguma operação inútil ou perigosa, quer parademonstrar em outros sua urgência e sua necessidade. Mutatis, mutandis, fazemos nossas em relação á clinica de moléstias nervosas as palavras de Apostoli referentes á exploração electrica em gynecologia. Terminando diremos: o clinico nunca perde por ser minucioso ; quanto maior for o numero de ele- mentos de que lançar mão para o diagnostico, tanto mais facilmente livrar-se-á de possíveis enganos : O systema desastroso de diagnostico a distancia deve ser condemnado por todo aquelle clinico que prezar a sciencia, mesmo porque, diz o provérbio — as appa- rencias não raro illudem. — PROPOSIÇOES Physica Medica I A electricidade é um poderoso agente physico que se caracterisa por um certo numero de pheno- menos especiaes II E’ actualmente muito empregada em medicina, quer como meio de diagnostico quer como meio therapeutico. III Seus effeitos therapeuticos variam segundo a fórma sob a qual é utilisada. Chimica Inorgânica Medica I A electricidade imprime ao oxygeno differenças sensíveis em suas propriedades organolepticas, phy- sicas e chimicas—transforma-o em ozona. II Esse corpo goza de acção oxydante mais energica do que a do oxygeno ordinário. III Um dos processos de preparação do ozona con- siste em fazer passar scentelhas electricas pelo interior de um tubo contendo oxygenio. Botanica e Zoologia Medicas I Para poder germinar, a semente deve preencher certas condições e também encontrar outras no meio que a cerca. II São pois de duas ordens essas condições: in- trínsecas (maturidade, perfeita conservação das sub- stancias de reserva) e extrínsecas (calor, humidade e oxygeno). III A electricidade negativa, quando applicada mo- deradamente, exerce sobre a germinação da semente acção das mais vantajosas (Becquerel). Anatomia Descriptiva I O encephalo e a medulla com os seus envoltorios (meningeas) constituem os—centros nervosos. II Compõe-se o encephalo do cerebro, cerebello e isthmo do encephalo. O cerebro, parte a mais volumosa, é formado de duas partes symetricas—hemisplierios—limitadas pela scisura média ou interhemispherica. Histologia I Ha d uas especies de tubos nervosos : myelinicos ou de Ranvier e amyelinicos ou de Remak. II A parte principal do tubo nervoso é o cylinder- axis. III O cylinder-axis não é mais do que a continuação do prolongamento de Deiters da cellula nervosa. Chimica Organica e Biologica I O acido salicylico—C7 H6 O3—é um acido dia- tomico, monobasico, do grupo aromatico muito em- pregado para a conservação das substancias ali- mentícias. II E’ facilmente reconhecido pela coloração violeta que toma quando tratado por uma solução de per- chlorureto de ferro. Sua dosagem nas substancias alimentícias é feita pelo processo colorimetrico (Pellet e Grobert). Physiologia I A acção de uma corrente electrica continua mo- difica a excitabilidade do nervo. I A excitabilidade diminue do lado do anodo e augmenta do lado do kathodo. III Entre os dois electrodos, na região intra-polar, ha um ponto em que a excitabilidade primitiva do nervo se não altera—éo chamado ponto indiferente. Fathologia Geral I A‘ exaltação de sensibilidade dá-se o nome de hyperesthesia. II E’ symptoma frequentemente observado nas ne- vroses, maxime na hysteria. III A mais leve pressão sobre a zona de hyperesthesia produz grande soffrimento, e na hysteria é muitas vezes o bastante para determinar o ataque. Anatomia e Physiologia Fathologicas I As placas de sclerose são pardas, apresentando mais ou menos o aspecto da substancia parda normal, de contornos bem circumscriptos, ás vezes salientes e turgescentes, outras vezes deprimidas e na maioria dos casos perdendo um liquido transparente. II Pela exposição ao ar tomam coloração roxa, tor- nando se então facil de nellas distinguir a presença de vasos abundantes. III Em numero variavel acham-se espalhadas em toda a extensão do systema nervoso, ora sob a fôrma dis- creta ora sob a confluente. Chimica Analytica e Toxicologia I O mercúrio nos casos de envenenamento é en- contrado no fígado e nos rins. . , II Os processos de pesquiza deste corpo baseam-se nas reacções caracteristicas de seus saes. III A electrolyse—processo de Flandin e Danger— é de todos os processos o mais sensível. Clinica Propedêutica I Em estado hygido o homem respira de 16 a 18 vezes por minuto, a mulher de 18 a 20 e a criança 44 nos primeiros mezes e 26 na idade de cinco annos. II Nos casos de stenose das vias respiratórias e em certas afíecções cerebraes com phenomenos compres- sivos a respiração se retarda. III Quando uma inspiração ordinaria é dolorosa (le- sões da parede, pleurodynia, etc.); quando as trocas gazosas são embaraçadas nos alvéolos (moléstias do coração, bronchite generalisada com pneumonia ca- tarrhal, congestão pulmonar, etc. ; quando a tempe- ratura é elevada; sobquma influencia nervosa (asthma bronchica, dyspnéa hysterica, anémica, etc.), a respi- ração se accelera. Clinica Dermatológica e Syphiligraphica I E’ actualmente fóra de duvida que a maior parte das moléstias cutaneas está em relação com pertur- bações do trophismo. II A electricidade por sua acção notável sobre o systema nervoso e sobre os phenomenos da nutrição, em geral, constitue, por si e algumas vezes alliada á hydrotherapia, um meio efficaz de tratamento dessas moléstias. III Como para as demais applicações da electrici- dade utilisa se nesses casos as acções geraes e locaes. Pathologia Medica I A occlusão intestinal reconhece por causas a re- tracção, a compressão, o estrangulamento, a torsão ou retracção e a invaginação do intestino. II O tratamento da occlusão intestinal é conforme o caso, medico ou cirúrgico. III Entre os meios de tratamento medico occupa logar saliente o clyster electrico. Fathologia Cirúrgica I D’entre as complicações das feridas o tétano é uma das mais graves. II Reconhece por causa a acção excitante que sobre a medulla exercem as toxinas secretadas pelo bacil- lus de Nicolayer. III No tratamento do tétano é empregada com van- tagem a electricidade sob a fórma de correntes conti- nuas descendentes ao longo do rachis Matéria Medica, Pharmacologia e Arte de Formular I D’entre as múltiplas fôrmas pharmaceuticas fi- gura como uma das melhores o extracto. II O extracto representa grande quantidade de principio activo em pequena porção de substancia. III Pela administração do extracto tem se a vanta- gem de só empregar a parte util do medicamento. 77 Clinica Cirúrgica (2a cadeira) I Um dos accidentes graves da chloroformisação é a syncope chloroformica. II Muitos têm sido os processos empregados para combatel-a, sendo um dos melhores a excitação ele- ctrica. III Empregam-se para esse fim as correntes fara- dicas, collocando um dos electrodos na bocca e outro no recto. Clinica Ophthalmologica I A electricidade é empregada em ophthalmologia, quer como meio de diagnostico quer como agente therapeutico. II Como meio de diagnostico é de difficil emprego, em virtude da situação profunda dos nervos e mus- culos do orgam da visão. III Como recurso therapeutico dá bons resultados, principalmente nas paralysias dos musculos do globo occular. Operações e Apparelhos I A electricidade é com vantagem empregada em cirurgia, quer como meio de exerèse quer como agente therapeutico propriamente dito. II Como meio de exerése a alça galvanica tem a vantagem de não produzir hemorrhagias. III E’ sobretudo empregada com successo para a ablação de tumores situados em cavidades mais ou menos profundas. Anatomia Medico-Cirurgica I Duas grandes cavidades apresenta o corpo huma- no : uma anterior mais ampla—cavidade splanchnica—, e outra posterior — cavidade nervosa, neural ou da vida animal. II A cavidade neural apresenta seu maior diâmetro na parte superior e a splanchnica na parte inferior. III Os orgãos da vida animal estão alojados na ca- vidade neural, os da vida vegetativa na splanchnica. Therapeutica I A cataphorése é um modo vantajoso de adminis- tração de certos medicamentos. II Consiste na introducção de soluções medicamen- tosas atravez da pelle por meio da corrente electrica. III As analyses dos líquidos orgânicos revelam a presença dos medicamentos administrados por esse processo, cuja base é o phenomeno da electrolyse. Clinica Cirúrgica (X? cadeira) I Os processos cirúrgicos empregados para a cura das varices consistem na extirpação das veias vari- cosas, na incisão das nodosidades, ligadura do tronco venoso e na secção da veia acima das varices. II Nas varices dos membros a electro-punctura dá bons resultados. III Nas varices hemorrhoidarias a extirpação pela alça galvanica constitue um processo seguro. Clinica Medica (2a cadeira) I A applicação de correntes faradicas é de grande vantagem no tratamento da splenomegalia devida á infecção palustre. II A corrente faradica é empregada de 2 modos: i° para fazer contrahir directamente o stroma glan- dular (um electrodo sobre a glandula e o outro á es- querda da columna vertebral, bobina de fio grosso e interrupções raras); 20 para actuar por via reflexa e fazer contrahir os vasos da glandula (bobina de fio fino, um electrodo na mão do paciente e outro sobre a região splenica). III Por esse meio tem-se conseguido a cura em casos que resistiram á medicação classica. Clinica Pediátrica I E’ principalmente na idade de i para 3 annos que se manifesta a paralysia spinal atrophica infantil. II No período agudo desta moléstia o tratamento consiste no emprego de anti-phlogisticos (Laborde), de revulsivos energicos (Selim Fahmy). III Quando o período de regressão começa o trata- mento mais racional e mais util é a electrisação. Hygiene I O sólo, a agua e o ar são os tres modificadores cosmicos que mais influencia exercem sobre as colle- ctividades. II Em media, o sólo tem uma espessura quenãovae além de tres metros salvo condições especiaes de im- permeabilidade. III A influencia sanitaria de qualquer sólo depende de sua estructura e não de sua natureza minera- lógica. Medicina legal I De todas as moléstias nervosas, a mais frequente- mente simulada para diversos fins é a epilepsia. II Por mais habil que seja a simulação do ataque epiléptico o medico-legista descobre a fraude pela au-, » sencia de tres signaes importantes : immobilidade das pupillas, insensibilidade da pelle e das mucosas e di- crotismo do pulso. III Fóra do ataque epiléptico é extremamente difficil reconhecer a fraude. Obstetrícia I A metrorrhagia post-partum constitue um acci- dente grave. II D’entre os hemostaticos empregados para sustal-a é de grande efficacia a faradisação uterina. III O melhor processo de faradisação para esse fim consiste em applicar um electrodo no collo do utero e um no abdómen. Clinica medica cadeira) I Diversos são os methòdos de tratamento medico dos aneurismas, sobresahindo d’entre todos, como mais vantajoso, o methodo electrotherapico. II Dous são os processos pelo methodo electrothe- rapico: a “ galvano-punctura ” (processo cirúrgico) sustentado em França por Dujardin-Beaumetz e na Italia por Ciniselli—e o da “voltaisação positiva ex- tra-aneurismal” (processo medico brazileiro). III Pela voltaisação positiva extra-aneurismal conse- gue-se deter a marcha da moléstia e em muitos casos obtem-se acura, como já tem sido observado entfe nós. Clinica obstétrica e gynecologica I O tratamento dos tumores fibrosos do utero póde ser medico e cirúrgico. II Um dos melhores methodos de tratamento é a electrisação pelo processo de Apostoli. III Por esse processo consegue-se abrandar as dores, supprimir as hemorrhagias e diminuir mais ou menos rapidamente o volume do tumor. Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas I A hysteria é mais frequente no sexo feminino, a neurasthenia mais no masculino. II Os indivíduos acommettidos por qualquer dessas nevroses são, em sua quasi totalidade, irresponsáveis moraes. III No tratamento de ambas essas nevroses não pódem ser dispensadas a hydro e a electrotherapia. HIPPOGRATIS APHOMI \- . ' . J I Natura corpôris est in medicina principium studii. (Ap. VII Sec. II) II Ad extremos morbos, extrema remedia exquisite óptima. (Ap. VI Sec. I) III Quoe medicamenta non sanat, ea ferrum sanat, quoe ferrum non sanat, ea ignis sanat, quoe vero ignis non sanat, incurabilia reputare opportet. (Ap. VI Sec. VIII) IV Cibus, pótus, venus, omnia moderata sint. (Ap. VI Sec. II) V Poto quam cibo refici proclivius est. (Ap. X Sec. II) VI Spontaneoe laditudines morbus denuntiant. (Ap. XI Sec. I) VII Sangufs frenat nervos; sanguis moderator ner- vorum. (Ap. VI Sec. III) Visto.—Secretaria da Faculdade de Medicina e da Pharmacia do Rio de Janeiro, em 7 de Outubro de 1896. Dr. Eugênio de Menezes, Sub-secretario.