Ml»! Dl Hlffl í# « Dl JWIIDO THES1 DE PIO DUFFLES RIO DE JANEIRO Papelaria Mendes - Typ., Rua do Ouvidor, 38 1805 FICIU.I»! »E MEDICINA DO RIO II! JANEIRO apresentada á Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro EM 30 DE AG0S70 DE 1905 PARA SER DEFENDIDA POR PIO DUFFLES NATURAL ©i MINAS GÊRAiS AFIM DE OBTER 0 GRAO DE DOUTOR EAJ MEDICINA DISSERTAÇÃO Cadeira de Operações e Apparelhos DA URETERECTOMIA BREVE ESTUDO CUIfUCO PROPOSIÇÕES Tres sobre cada uma das cadeiras do curso de sciencias medicas e cirúrgicas RIO DE JANEIRO Papelaria Mendes - Typ., Ouvidor, 38 XSOB FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO DIRECTOB-Dr Luiz da Cunha Feijó Júnior. VICE-DIRECTOR- SECRETARIO-Dr. Eugênio do Espirito Santo Menezes. LENTES Drs.: Tiburcio Valeriano Pecegueiro do Amaral Chimica Medica. João Joaquim Pizarro Historia natural medica. Ernesto de Freitas Crissiuma Anatomia descripti a. Eduardo Chapot Prévost Histologia. Physiologia. Antonio Maria Teixeira Matéria medica, pharmacologia e arte de formular. Rodolpho Galvão Bacteriologia. Pedro Severiano de Magalhães Pathologia cirúrgica. Augusto Brant Paes Leme Anatomia medico-cirurgica. Domingos de Goes e Vasconcellos .. Operações e anparelhos Antonio Augusto de Azevedo Sodré.. Pathologia medica. Cypriano de Souza Freitas Anatomia e physiologia pathologicas. Henrique Ladisláo de Souza Lopes... Therapeutica. Luiz da Cunha Feijó Júnior Obstetricia. Ernesto do Nascimento Silva Medicina legal e toxicologia. Benjamin Antonio da Rocha Faria.. Hygiene. João da Costa Lima e Castro Clinica cirúrgica-2? cadeira. Luiz da Costa Chaves Faria Clinica dermatológica e syphiligra- phica. Miguel de Oliveira Couto Clinica propedêutica. Marcos Bezerra Cavalcanti Clinica cirúrgica-1? cadeira. Erico Marinho da Gama Coelho.... Clinica obstétrica e gynecologica. Clinica ophtahnologica. José Benicio de Abreu Clinica medica-2a cadeira. João Carlos Teixeira Brandão Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas. Cândido Barata Ribeiro Clinica pediatiica. Nuno de Andrade.. . Clinica medica-1? cadeira. João Martins Teixeira > Antonio Rodrigues Lima $ Era disponibilidade. DRS.: Luiz Antonio da Silva Santos 1? Secção. Antonio Dias de Barros 2? » Oscar Frederico de Souza 3? » 4? » Francisco de Paula Valladares 5a » Pedro de Almeida Magalhães 6a » Antonio Teixeira do Nascimento Bit- tencourt 7 a » Augusto de Souza Brandão ... 8? » Francisco Simões Corrêa 9? » José Antonio de Abreu Fialho 10? » 11? » Mareio Filaphiano Nery 12? » SUBSTITUTOS N. B -A Faculdade não approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas. PREFACIO screvendo as linhas que se vão ler só tive em mira satisfazer a exigencia regulamentar, bem cruel, é verdade, pois, de facto, nada ha de tão difficil em nosso tirocinio académico como o desempenho do artigo do regulamento desta Faculdade que exige de nós, a troco do titulo, a apre- sentação da these, E' preciso contessar entretanto, e com muita sin- ceridade, que mais nos dedicamos ao conhecimento do assumpto que á elaboração ou confecção do trabalho inaugural. Não nos incommodam as vozes da critica, e para terminar devemos lembrar aos Mestres o que La Bruyère dizia: «a obrigação de escrever perdoa o que se escreve». CAPITULO I Escolhendo para ponto de dissertação o estudo da Ureterectomia, devemos antes de mais nada avisar que não foi nosso intento apresentar trabalho original. Assumpto novo em cirurgia, pois a primeira Ureter- ectomia foi praticada em 1892, pouco existe ainda de escripto a respeito, sendo talvez o unico mérito deste trabalho o de representar tudo ou quasi tudo que po- demos colligir em diversos autores por nós consul- tados. A operação da Ureterectomia consiste na resecção do ureter e pode ser primitiva ou secundaria, parcial ou total. A Ureterectomia é primitiva quando prati- cada no decurso de uma nephrectomia, secundaria quando praticada posteriormente. E' parcial quando sómente se retira parte do ureter, e total quando é re- tirado todo o ureter. , Anatomia do ureter Dá-se o nome de ui eter ao conducto excretor da urina que vae do rim á parede posterior da bexiga. Este conducto comprehende, a principio, diversos ca- naliculos, curtos, cylind ricos e membranosos, chama- dos cálices, que recebem a urina quando esta se escoa das papillas. Estes canaliculos, ao cabo de um pequeno trajecto, se reúnem uns aos outros e por fim formam 2 tres canaes principaes : um delles, superior, dirige-se para baixo e para dentro e recebe a urina da parte superior do rim; outro, medio, o menor de todos, se- gue horizontalmente e recolhe a urina de duas papil- las que correspondem á parte média do hilo do rim, emfim, o ultimo canaliculo, inferior e o maior de todos, dirige-se para cima e recebe a urina da parte inferior do orgão. Estes tres canaliculos, reunindo-se, formam um sacco membranoso chamado bassinete. Este é acha- tado de diante para traz, tem a fórma afunilada e cor- responde á parte côncava do rim. O bassinete, na sua parte mais estreitada, que é inferior, toma o nome de ureter e sua altura é em média de 2 a 3 centímetros, sendo sua largura maxima de 1 a 2 centímetros. O bassinete acha-se situado immediatamente atraz da artéria renal e forma o plano mais posterior do pedi- culo do rim. Do lado direito a ultima porção do duo- deno o separa do peritoneo e do lado esquerdo é o colon transverso que o separa desta serosa. Para traz o bassinete acha-se situado sobre o musculo psoas por intermédio da lamina posterior da capsula adiposa. E' na extremidade inferior do bassinete que tem seu in- icio o ureter, o qual, segundo os autores, tem para com- primento de 24 a 32 centímetros, sendo o direito um pouco menor que o esquerdo devido ao abaixamento do rim direito recalcado pelo fígado. O ureter tem a fórma tubular e o aspecto de um cordão achatado de diante para traz, sendo seu calibre muito irregular, flexuoso, e contendo diversas dilata- ções e porções estreitadas. 3 O calibre do ureter é de 8 a 10 millimetros nos logares mais dilatados e de 2 a 3 millimetros nos pon- tos mais estreitos. A sua extraordinária dilatabilidade é tal que póde ás vezes adquirir o calibre do intestino delgado. A direcção dos ureteres é de cima para baixo e de fóra para dentro. Os ureteres, cruzando a sym- physe sacro-iliaca, desenham uma linha curva, com a concavidade para cima e para dentro, e atravessam a parede da bexiga abrindo-a no angulo lateral corre- spondente do triângulo de Lieutaud. Em sua origem os ureteres medem entre si uma distancia de 10 a 12 centímetros, a qual é só de 3 a 4 centímetros nos ori- fícios vesicaes. Segundo a opinião de Glantenay, pode- mos dividir o ureter em 3 porções : lombar, iliaca e pelviana, sendo, porém, a iliaca a mais accessivel á apalpação e também mais importante, á vista dos or- gãos com os quaes se acha em relação. A porção lom- bar do ureter vae do bassinete ao estreito superior e mede cerca de 12 centímetros de extensão, sendo, po- rém, um pouco menor do lado direito. Tourneur dá o seguinte processo para se achar o ponto correspon- dente á extremidade superior do ureter lombar: tire- se uma linha ao longo do bordo superior da ultima costella e outra vertical, parallela á linha mediana e passando ao nivel da união do terço interno com os dois terços externos da arcada crural. A extremidade superior da porção lombar está situada 6 centímetros abaixo do ponto em que esta ultima linha corta a pri- meira. E' o chamado ponto de Tourneur, 4 Segundo a opinião deste autor, uma agulha in- troduzida horizontalmente neste ponto tocará a ori- gem do ureter. Para se encontrar o ponto correspon- dente á extremidade inferior do ureter, temos o processo de Halle : tire-se uma linha horizontal pas- sando pelas duas espinhas iliacas antero-superiores e outra linha vertical partindo da espinha do pubis. O ponto determinado pelo cruzamento destas duas linhas indica a situação da extremidade inferior do ureter. Vamos agora estudar as tres porções em que dividimos o ureter. I-Porção lombar Esta porção do ureter acha-se situada sobre o musculo psoas cruzando-o em diagonal e sendo delle separada por uma ligeira camada do tecido cellulo- adiposo, que forra a parte posterior do rim e se con- tinua até a origem dos vasos iliacos. Este tecido cel- lulo-adiposo forma uma especie de faseia própria sob- peritoneal que envolve o ureter, mas na realidade adherindo pouco a elle. Segundo Poncet, o peritoneo adhere ao ureter, devendo-se por esse motivo ter todo o cuidado para o separar desta serosa no decurso das ureterectomias, Mais adiante, o ureter está em relação com as alças do intestino delgado do qual é separado pelo peritoneo. A' direita, e mais para baixo, perto do es- treito superior, elle se acha em relação com a ampolla coecal e colon ascendente que está para fora, e para a esquerda com a curvatura superior do S ilíaco. Elle 5 contrahe relações mais intimas com as artérias e veias espermaticas (no homem)e utero-ovarianas(na mulher), as quaes nascem directamente da aorta entre as arté- rias renal e mesenterica inferior, ao nivel do bassinete, e também com os vasos mesentericos que nascem da aorta. Os vasos espermaticos cruzam o ureter passando adiante do mesmo e com a direcção obliqua, de cima para baixo e de dentro para fóra. O ponto onde se dá este cruzamento fica situado um pouco acima da cristã ilíaca, pouco mais ou menos ao nivel da metade do trajecto abdominal do ureter. A' esquerda, e para diante, passam a veia e a artéria mesentericas inferiores. Mais abaixo, alguns ramos da artéria mesenterica inferior passam adiante do ureter, em sentido trans- versal. E' este um logar para onde deve sempre con- vergir a attenção do cirurgião não só nas ureterecto- mias como em qualquer intervenção nesta região. Para a direita, o ureter sómente na parte média do seu trajecto lombar se acha em relação com alguns vasos, espermaticos e colicos, que o cruzam. Para traz encon- tramos a artéria iliaca primitiva, situada entre o psoas e o ureter, mais abaixo a bifurcação da iliaca primitiva a origem da iliaca externa e, emfim, dois filetes ner- vosos : os nervos inguinaes externo e interno, que nascem do plexo lombar e seguem ao lado do ureter, um internamente, outro externamente. Para dentro o ureter é acompanhado: o direito, pela veia cava inferior, o esquerdo, pela aorta que delle dista apenas dois cen- tímetros, devido á sua posição mediana. No bordo in- 6 terno também se encontram os ganglios lombares do sympathico e do plexo lombo-aortico. Para fora, o ureter corresponde á extremidade inferior do rim correspondente; mais abaixo e um pouco distante, aos colons, descendente e ascendente. II-Porção iliaca Dá-se este nome á porção cio ureter que atravessa o estreito superior ao nivel cia articulação sacro-iliaca, sendo ao mesmo tempo a que mais approximada está da parede abdominal. As relações do ureter com os vasos ilíacos variam muito não só quanto aos indivíduos como também segundo os diversos autores que se occuparam deste assumpto. Fort é de opinião que o ureter cruza os vasos iliacos externos, Cruveilhier ajunta a esses vasos os va- sos ilíacos primitivos; Testut, porém, é de opinião que o ureter cruza os vasos iliacos primitivos e segue o bordo anterior dos vasos hypogastricos. Segundo a opinão de Luschka, o ureter esquerdo passa por cima da iliaca primitiva, um centímetro antes de sua bifur- cação, e o ureter direito passa por cima da artéria iliaca externa um centímetro após a bifurcação da iliaca primitiva. Para traz, o ureter caminha no bordo interno do psoas e entra em relação com o tronco lombo-sacro, o nervo obturador, a artéria ileo-lombar e um ganglio lymphatico. Para dentro, o ureter passa a dois centime- tros do promontorio e, do mesmo modo que na região lombar, a veia cava inferior o separa da columna 7 vertebral. Para fora, éo ureter seguido pelos vasos es- permaticos (no homem) e utero-ovarianos (na mulher). Para diante, é encontrada a folha posterior do peritoneo, a qual varia em suas relações conforme se tratar do ureter direito ou esquerdo. A' esquerda, o folheto posterior, dobrando-se sobre si, constitue o meso do colon ileo-pelviano, cruzando ao mesmo tempo o ureter e os vasos iliacos. Este meso, deprimindo-se e formando a chamada fosseta sigmoide, fica collocado para diante do ureter. O orifício da fosseta, voltado para baixo, fica para dentro do ureter e algumas vezes mesmo junto a este conducto. O ure- ter, nesta região, fica encoberto pelas artérias que passam nesta fosseta : a origem da hemorrhoidaria superior e artéria sigmoide direita, isto, bem en- tendido, quanto ao ureter direito. Para o esquerdo, a artéria sigmoide esquerda o acompanha até chegar á fosseta sigmoide, onde se separam um do outro. Para o lado direito, encontra-se o peritoneo, mas sem formar fosseta e para diante os vasos mesentericos. Quando, porém, o ccecum se dilata, o ureter fica para traz, ahi encontrando muitas vezes o appendice. IlI - Porção pelvianá Esta porção do ureter mede geralmente de 11 a 13 centímetros e pode ser dividida em dois segmentos, o parietal fixo e o visceral movei entre os orgãos pel- vianos. 8 Naturalmente, conforme se trate do homem ou da mulher, o seu trajecto varia num e noutro caso. No homem, ao chegar á excavação pelviana, o ureter se dirige para baixo até chegar á grande chanfradura sciatica. Dahi, e curvando-se para diante e para dentro, ganha a face inferior da bexiga e perde-se nas paredes desse orgão. Tomando esta direcção, o ureter descreve urna curva de concavidade para cima, para dentro e para diante, podendo-se dividil-o em duas porções : uma descendente, outra transversal. A porção descendente ou parietal ficasituadajunto á parede lateral da excavação e acompanha a artéria iliaca interna. Para traz da artéria, encontram-se a veia hypogastrica e o nervo lombo-sacro. Para diante, o ureter fica encoberto pelo peritoneo parietal em toda sua extensão menos na parte mais inferior em que o vemos caminhar ao lado do musculo suspensor do anus e o bordo superior do musculo pyramidal. E' neste ponto que começa a porção transversal, também chamada visceral por se achar em contacto com as visceras da região. Deixando o pyramidal, o ureter se dirige obli- quamente para diante e para dentro. Esta porção visceral segue a face posterior da aponevrose umbilico-prevesical, cruza para traz o canal deferente e a artéria deferencial e chega ao fundo da bexiga, pouco abaixo da vesícula seminal cor- respondente. Na mulher, a porção descendente ou pa- rietal segue a artéria iliaca interna, tendo para diante o peritoneo parietal, e caminha junto á fosseta ova- 9 riana, entrando em contacto com o ovário e a trompa. Mais em baixo e um pouco obliquamente o ureter atra- vessa a fosseta já citada e une-se ao ligamento largo ; ahi começa então a sua porção transversal. Ao entrar no ligamento largo, o ureter encontra a artéria uterina e a acompanha até chegar a 15 ou 20 millime- tros do collo uterino, onde então muda de direcção, segue obliquamente pela parede vaginal anterior em direcção á bexiga, onde, depois de curto trajecto, o ureter desapparece na sua face posterior, a 10 ou 15 millimetros da linha mediana e a 2 ou 3 centímetros do orifício externo do collo do utero- IV-Porção intra-vesical O ureter penetra na bexiga a 2 ou 3 centímetros do collo do utero e quasi 6 centímetros atraz da espi - nha do pubis. Para chegar até a cavidade vesical, o ureter atravessa a túnica fibrosa, depois a musculosa e chega á túnica mucosa da bexiga depois de um trajecto de cerca de 2 centímetros. Os ureteres, em seu trajecto intra-vesical, convergem um para o outro até chegarem ao nível dos meatos ureteraes que se acham a 2 centímetros um do outro. O orifício vesical do ureter apresenta diversas fôrmas, sendo em geral pouco visivel e situado sobre uma pequena elevação, na qual existe uma dobra formada pelas mucosas vesi- cal e ureteral, dobra essa que constitue a chamada valvula ureteral, destinada a impedir o refluxo da urina, da bexiga para o ureter. Os orifícios vesicaes do ure- 10 ter estão situados cada um na extremidade da base do triângulo de Lieutaud. As distancias que separam os orificios ureteraes um do outro variam conforme a maior ou menor capacidade da bexiga. Na mu- lher, os orificios inferiores do ureter correspondem mais ou menos ao meio da parede anterior da vagina e, no homem, correspondem ás vesículas seminaes, perto da base da próstata. Devemos notar que, si a bexiga estiver distendida, os meatos ureteraes afastam- se, não só um do outro como também do orifício vesi- cal da urethra, facto importante a notar quando se pratica o catheterismo dos ureteres. Histologia e physiologia do ureter, seus vasos, seus nervos Histologia-O ureter possue tres túnicas que são: a túnica externa ouconjunctiva, a média ou mus- culosa e a interna ou mucosa. I. A túnica conjunctiva é a continuação da mem- brana fibrosa que envolve o rim e compõe-se de duas qualidades de fibras: umas são elasticas e outras con- junctivas. Na extremidade inferior do ureter esta túnica se confunde com o tecido cellular frouxo que envolve a bexiga e do qual partem as fibras que a unem ao peri- toneo. II. A túnica musculosa é bastante espessa e re- presenta quasi a metade da espessura da parede do 11 ureter. Esta túnica compõe-se de fibras lisas dispostas em dois planos : o plano profundo, formado de fibras longitudinaes e o plano superficial, formado de fibras lisas circulares. III. A túnica mucosa, a mais interna, é de cor cin- zenta, lisa e delgada. Esta túnica é a continuação do epithelio que forra os canaes collectores do rim, e em baixo se continúa com a mucosa vesical. No interior do conducto esta túnica forma algu- mas dobras que talvez exerçam alguma funcção na producção dos cálculos do ureter. Segundo Hamburger, existem na mucosa ureteral glandulas pouco numerosas e que vão do bassinete á parte superior do ureter. Vasos-As artérias destinadas ao ureter são as seguintes: a artéria renal, para os cálices e o bassi- nete ; as espermaticas ou utero-ovarianas, para a por- ção abdominal e para a porção pelviana os ramos da hypogastrica. Quanto ás veias do ureter, vão todas ter á veia renal, para a parte superior; as da porção abdo- minal, ás veias espermaticas ou utero-ovarianas e as da porção pelviana vão ou á veia iliaca primitiva ou á veia iliaca interna. Quanto aos nervos, provêm do plexo esperma- tico para a porção abdominal e do plexo hypogastrico para a porção pelviana. Estes nervos formam um plexo alongado que acompanha as artérias e está situado na túnica musculosa. 12 Physiologia do ureter O papel physiologico do ureter é conduzir a urina do rim á bexiga. Devido á acção da gravidade, a urina desce facilmente até a bexiga ; póde-se dizer, entretanto, que os movimentos peristalticos muito auxiliam a progressão da urina quando os urete- res se acham obstruídos por calculo, estreitamento, etc. Liaudet emittiu a opinião de que os movimentos dos intestinos, do diaphragma e respiratórios tam- bém concorrem para a progressão da urina nos ure- teres. CAPITULO II Exploração dos ureteres Existem dois meios de exploração dos ureteres, que são : a apalpação e o catheterismo. I-A apalpação Como já foi dito anteriormente, a unica parte do ureter susceptivel de ser sentida pela apalpação é a porção abdominal, da qual já foi indicada a maneira de de achar as duas extremidades. Estas duas extremi- dades, reunidas por uma linha ligeiramente curva, de concavidade voltada para fora, indicam a projecção da porção abdominal na parede do ventre. Fazendo-se a apalpação, seguindo a direcção desta linha curva e em indivíduos não muito nutridos, de paredes abdo- minaes flexíveis, facil será sentir o ureter. Sabemos também que o ureter, ao entrar na bacia, repousa sobre a cristã iliaca, ponto esse em que elle está muito su- perficial e é mais accessivel, Desde que seja sentido neste ponto, pode ser seguido até o rim. Para a pra- tica methodica da apalpação do ureteres, o professor Guyon recommenda o seguinte processo: deve-se collocar o doente em decúbito dorsal, a cabeça ligei- ramente mais alta que o resto do corpo, as pernas fle- xionadas sobre as coxas, e fazel-o respirar da maneira mais ampla possível para se obter o relaxamento dos 14 musculos abdominaes. Contornando-se então com a mão o bordo externo do musculo grande recto, é possí- vel sentir-se o ureter sobre a cristã iliaca ao entrar na bacia. Quanto ao ureter pelviano, inacessível pela apalpação abdominal, deve-se praticar o exame vagi- nal e rectal, na mulher, e rectal no homem. Hallé de- monstrou que, no homem, e depois de distendida a bexiga, é possível com o toque rectal sentir-se a ulti- ma porção do ureter pelviano, o qual faz saliência na parede da bexiga, ao nivel das vesículas seminaes. Na mulher, o canal vaginal é o caminho mais utilizado para exame do ureter, pois já sabemos que este con- ducto segue em relação immediata com o fundo de sacco antero-lateral e em direcção ao ligamento largo. Desta forma é possível sentir-se, diz Songer, até 10 centímetros do ureter. Na mulher estando gravida, é ainda com maior facilidade que se sente o ureter, o que se explica, pois, além da hypertrophia physiologica deste canal, temos um plano resistente constituído pela cabeça do feto e sobre o qual o ureter se adapta. O methodo da apalpação deixa de dar os resulta- dos esperados nas pessoas gordas, e neste caso utiliza-se com a maior vantagem o catheterismo dos ureteres, cujo processo vamos descrever. II -Catheterismo dos ureteres Cystoscospia-E' muito recente ainda a historia do catheterismo, pois esse processo tem talvez uns 30 annos e ainda hoje se discutem as vantagens desse me- thodo de exploração. As discussões havidas no ulti- 15 mo Congresso de Cirurgia de Paris provam o inter- esse do assumpto, Foi Simon quem praticou pela primeira vez este modo de exploração dos ureteres, mas seus instrumentos eram tão primitivos que neces- sário era introduzir um dedo na bexiga para guiar a sonda, e, assim se procedendo, o catheterismo só podia ser praticado na mulher e depois de dilatação prévia do canal da urethra. Paulick supprimiu a dilatação da urethra ; elle introduzia uma sonda no ureter, servin- do-se, para esse fim, como pontos de reparo, de certas dobras da mucosa vaginal. Comprehende-se o esforço e habilidade a empregar por parte do cirurgião que se animasse a um catheterismo dessa ordem. Hoje em dia, depois da descoberta dos cysto- scospios, dos quaes é typo o de Albarran, o mais sim- ples e o mais commodo, póde-se dizer que o cathete- rismo é de pratica corrente nos principaes hospitaes. Com o auxilio deste precioso instrumento nos é pos- sível conhecer da maneira mais precisa o estado do rim, do ureter, etc. O catheterismo feito por mãos exercitadas, com todos os cuidados que a pratica indica, com instru- mentos perfeitamente asepticos e depois de bem lava- das a urethra e a bexiga, é de incontestável utilidade. Para provar sua efficacia, bastam os casos citados por Kelly, Mayer e outros, que puderam por esse meio diagnosticar a existência de um calculo e de um estrei- tamento na parte média do ureter. O catheterismo dos ureteres é,pois,um auxiliar preciosopara o diagnostico e está destinado a prestar á cirurgia os maiores serviços. CAPITULO III Indicações da ureterectomia São bastante communs as affecções primitivas dos ureteres e as que a elle se propagam, vindo do rim, da bexiga e mesmo dos orgãos visinhos. Estas affecções exigem, na maior parte das vezes, cura radical, a qual só pode ser feita por meio da ureterectomia. Vamos, pois, passar ao estudo das af- fecções do ureter do bassinete, que exigem prom- pta intervenção. I-Uretero-pyelites Dá-se este nome ás infecções do ureter, quasi sempre consecutivas ás affecções do rim, da bexiga ou de algum orgão visinho. Pathogenia e bacteriologia-A inflammação do ureter e do bassinete, como toda inflammação, é o resultado da infecção deste canal pelos microbios como o bacterium coli communis, o bacillus pyogenes, o gono- coccus de Neisser. Estes micro-organismos podem in- ficionar o ureter e o bassinete, da seguinte forma: Io) pela via ascendente, no caso de uma moléstia da bexiga, os microbios, atravessando o meato urete- ral, sobem pelo ureter, si bem que seja difficil acceitar essa interpretação. Hallé é de opinião que, desde que 17 exista excesso de tensão na bexiga devido á estase da urina, esta, no fim de algum tempo, força a valvula ure- teral e reflue no ureter; 2°) a infecção pode se fazer por effracção no in- terstício dos tecidos nos casos de infecção de algum orgão da visinhança; 3C) póde ainda se fazer a infecção do ureter por intermédio dos germens vehiculados pelos vasos ; neste caso, os microbios se colonizam e inficionam o bassinete ou ureter-são as chamadas infecções me- tastaticas ; (E' talvez esta a melhor explicação para as urete- rites a frigore de Rosenstein, de Lecorché, etc.') 4o) os microbios provêm do rim, mais ou menos inficionado. Etiologia-Podemos dividir as uretero-pyelites em primitivas e secundarias. As uretero-pyelites primitivas são muito raras, e como causas occasionaes podemos considerar: o frio, favorecendo a acção dos micro-organismos pathogenicos, um traumatismo, ou ainda a presença de um corpo estranho, um calculo, um coalho san- guíneo, etc., os quaes, pela irritação continua quepro- duzem, determinam uma ureterite ou uma pyelite. As uretero-pyelites secundarias podem ser divididas em duas categorias: ascendentes, quando a infecção provém da bexiga ou de algum orgão visinho e descendentes quando a infecção vem do lado do rim. 18 a) As pyelo-ureterites descendentes, tendo por causa a suppuração do rim, são muito raras, e dão-se mais frequentemente no decurso de uma tuberculose ou de um carcinoma renal. b) As pyelo-ureterites ascendentes, essas sim, são muito mais frequentes e têm como causa as diffe- rentes moléstias da urethra e da bexiga, as cystites, principalmente as chronicas, generalizadas, dolorosas e muitas vezes de origem blennorrhagica. A hyper- trophia do musculo vesical, nos casos de cálculos ve- sicaes, preserva o ureter da infecção, dando-se o mesmo facto nos estreitamentos de urethra, visto estar asse- gurado o esvasiamento da bexiga. Já não se dá o mes- mo nos casos de hypertrophia da próstata, pois aqui existe a estase da urina na bexiga, e sua conse- quente alteração permitte a facil infecção do ureter. Tuffier é de opinião que a esclerose do orifício urete- ral permitte o accesso de germens pathogenicos ao ureter. As pyelo-ureterites de origem genital, são en- contradas quasi exclusivamente na mulher, o que se explica facilmente conhecendo-se as connexões intimas do ureter com o ligamento largo, o collo do utero, o fundo do sacco vaginal e com os vasos vaginaes. Por ahi vemos que todas as affecções desses orgãos citados podem promover a ureterite. Le Dentu é de opinião que as rectites, adeni- tes e abcessos frios peri-ureteraes podem também oc- casionar as ureterites. 19 A natomiapathologica-As lesões anatomo-patho- logicas da uretero-pyelite differem conforme se trata da fórma aguda ou da chronica. a) Fórma aguda-Quasi sempre nestes casos as lesões do ureter passam despercebidas por coinci- direm com lesões graves do rim ou da bexiga. A mucosa, nestes casos muito mais vascularizada, torna-se rubra, e seu aspecto é ulcerativo, ao envez de sua coloração branca e aspecto liso quando não existe trabalho algum phlegmasico. A camada sub- mucosa infiltra-se, torna-se túrgida e, augmentando de volume, fornece á apalpação a sensação de um cor- dão duro. Na cavidade ou luz do canal encontra-se quasi sempre muco, de mistura com pús e algum sangue. A mucosa, tumefacta, determina estenoses em differentes pontos, o que dá em resultado, impedido o livre escoamento da urina, a alteração destà e conse- quente augmento das lesões da mucosa. Devido ao trabalho inflammatorio, o tecido cellular peri-ure- teral reage e augmenta as adherencias deste canal com os orgãos visinhos- As vezes, este trabalho in- flammatorio sendo muito intenso, dá-se a formação de flegmmões peri-uretericos. b') Fórma chronica - Nestes casos augmenta o calibre do ureter, tomando este ás vezes o volume do intestino delgado (Tuffier). Além da dila- tação, o ureter augmenta em comprimento, torna-se sinuoso, moniliforme, com estrangulamentos, entre os quaes se notam dilatações. Calcando sobre o ureter, 20 as dilatações esvasiam o seu conteúdo na cavidade central do canal, formando este conteúdo um liquido de cor escura, mistura de pús e de sangue. A túnica musculosa, ao nivel dos estrangulamentos, fica hyper- trophiada; a mucosa torna-se espessa, desapparece o seu epithelio, substituído por manchas escuras. Os va- sos tornam-se sinuosos e dilatados, apresentando ec- chymoses nos pontos de maior distensão do canal. Nota-se quasi sempre que não existem adherencias do ureter aos orgãos visinhos, nem mesmo ao peritoneo, talvez por não haver peri-ureterite nestes casos. Pyelo-ureterite ckronica sem dilatação do zcreter -E' bem diverso, nestes casos, o aspecto do ure- ter, o qual apresenta-se fibroso, quasi recto, com o aspecto de um cordão espesso, endurecido e situado no meio de abundante tecido fibro-adiposo, inflam- mado e esclerosado. A parede do ureter fica adelga- çada, o que é devido ao espessamento da túnica ex- terna e, a adherencias com o tecido cellular que o cir- cunda. A luz do canal as vezes apresenta-se estreitada em diversos logares, obliterando mesmo o calibre do ureter. Os bassinetes soffrem as mesmas alterações, e em sua cavidade se encontra muco, pus, sangue e urina alterada. Symptomas-E' bem difficil, sinão impossível, diagnosticar a uretero-pyelite em seu inicio, pois quasi sempre os seus symptomas se confundem com os de uma cystite ou de alguma pyelo-nephrite. A fórma aguda confunde-se com a nephrite aguda suppurada, 21 morrendo o doente a mór parte das vezes. Na fórma chronica, observam-se symptomas funccionaes, phy- sicos e phenomenos passageiros: a) Symptomas funccionaes: São tres estes sym- ptomas : a dor, a pyuria e a polyuria. A dor, expon- tânea, accentúa-se pela pressão, com os movimentos do doente, com o toque rectal ou vaginal. E' mais no- tável no flanco, na virilha, bexiga, irradiando-se para o pubis, a coxa, ou fazendo uma especie de disposição em faixa ou em cinta, e póde augmentar com a fadiga, um resfriamento, o catheterismo, etc. Quando se calca a parede abdominal, a dor torna-se intensa e é sentida em todo o trajecto do ureter. A pyuria é um sympto- ma constante e caracteristico. As urinas tornam-se purulentas, espessas, amarelladas e sanguinolentas, contendo maior quantidade de pús que nas cystites. A urina, posta em um vaso, separa-se em duas cama- das : uma fica no fundo do vaso formando deposito pu- rulento e escuro, outra parte forma uma camada que sobrenada no liquido com aspecto opalescente e turvo. Hallé é de opinião que no começo da moléstia a urina conserva sua reacção normal. A's vezes a quantidade de pús é diminuta; nestes casos existindo a retenção, produz-se a pyonephrose, que se caracteriza pela for- mação de um tumor e aggravação dos phenomenos geraes. O tumor, está visto, tem por sede a região do rim, acima ou abaixo do nivel deste orgão. O exame das urinas, nestas condições, revela a presença de leucocy- tos alterados, de phosphatos e de cellulas do bassinete 22 e do ureter. A polyuria turva, é, segundo Guyon, um phenomeno que sempre acompanha a pyuria. b) Signaes physicos. - Estes signaes são os que podem ser percebidos explorando-se os bassinetes e o ureter. Praticando a apalpação seguindo uma linha que una os pontos de Tourneur e Hallé, é facil sentir o ureter inflammado, duro, dando ao tacto a sensação de um cordão espesso, de superfície muito irregular, e sente-se isto melhor no ponto em que o ureter cruza o estreito superior. Quanto ao ureter pelviano, só deverá ser examinado com o toque, rectal ou vaginal. O bassinete, distendido e formando tumor, po- derá ser sentido pela apalpação bi-manual, como a pratica e recommenda o professor Guyon. c} Phenomenos geraes-Estes phenomenos são geralmente mais accentuados nas ureterites que sobre- vêm no decurso ou após uma moléstia geral, como a febre typhoide, por exemplo. Quasi sempre, nestes casos, é notada a perda progressiva das forças, emmagrecimento, febre de 39o a 40o, á noite, com de- fervescencia pela manhã; a língua fica saburrosa e secca, avermelhada nos bordos. A pelle fica secca, o doente perde o appetite, sendo as digestões muito difficeis. Existe constipação de ventre e, nos casos em que ha retenção da urina, o doente apresenta accessos de febre urinosa, accessos estes que recrudescem, ás vezes, após um catheterismo, em seguida a um res- friado, etc. Marcha e duração-A marcha da uretero-pyelite e das mais variaveis e depende muitas vezes da causa 23 que a produziu. Geralmente, as uretero-pyelites agu- das matam o doente em muito pouco tempo, mas, nos casos em que só um ureter for affectado, a cura pode se fazer, dando-se então a transformação fibrosa do canal e mesmo do rim. Diagnostico-O diagnostico é facil desde que exis- tam os tres symptomas: dor, pyuria e polyuria; entre- tanto, a cystite póde ás vezes trazer certa confusão. E' comtudo facil reconhecer o engano, porque no caso de cystite a urina é turva, é verdade, porém, deixando- se depositar, a urina torna-se limpida, e além desse facto temos a dor, que se faz mais sensível na occa- sião da micção e também a sensibilidade da bexiga quando sujeita a pressão. O diagnostico apresenta as maiores difficuldades quando faltam estes symptomas que acabámos de descrever e analysar. A cystoscopia é um meio precioso para se conhecer si uma cystite invadiu o ureter ou não. Tratamento- Quanto ao tratamento, no caso de uma uretero-pyelite aguda deve ser simplesmente me- dico. Ez dever procurar-se restabelecer a eliminação da urina, seja debridando as estenoses seja por intermédio da sonda. Será prohibido ao doente o uso de certos ali- mentos ou de bebidas excitantes. O emprego do salol com o biborato de sodio, o sandalo, os benzoatos, princi- palmente, devem ser utilizados, colhendo-se quasi sem- pre as melhores vantagens com o uso dessas substan- cias. A cystite deverá ser debellada, para isso sendo utilizadas as grandes lavagens da bexiga, feitas com as soluções antisepticas commummente empregadas 24 para esse fim, como sejam as de nitrato de prata, de acido borico, de protargol, etc. O regimen a estatuir é o lácteo, combinado com o uso das aguas mineraes, de Lambary, Caxambú, etc., pois não só augmentam a diurese, como também ajudam a dissolução de certos saes na urina. Albarran tem colhido os melhores resultados pra- ticando o catheterismo do ureter seguido de lavagem simples do canal e do bassinete ou, ás vezes, seguido de uma injecção feita com solução de nitrato de prata. Tratando-se, porém, da uretero-pyelite chronica com dilatação do canal, a ureterectomia deve ser a opera- ção de escolha, ou ainda quando, no curso de uma intervenção qualquer no rim, nós encontrarmos o ure- ter affectado. Até hoje os resultados colhidos com a ureterectomia têm sido os mais animadores. II-Tuberculose do ureter A tuberculose do ureter, seja primitiva, ò que é muito difficil de se encontrar, seja secundaria, conse- quente a uma tuberculose do rim, bexiga ou orgão vi- sinho, póde-se apresentar sob dois aspectos princi- paes: ureterite com dilatação e ureterite obliterante. No primeiro caso, a parede do ureter fica espessa, o canal se dilata irregularmente apresentando a mucosa diversas ulcerações, de fundo amarellado. No caso de ureterite obliterante, embora o ureter augmente de volume, o seu aspecto é o de um cordão solido, o seu calibre torna-se mais estreito e revestido de tecido tuberculoso diffuso. Nestes casos, é de absoluta neces- 25 sidade o recurso da ureterectomia, por ser este o unico meio aó nosso alcance para curar o indivíduo, segundo as abalizadas opiniões de Meyer, Modlynsk e outros notáveis cirurgiões. 111-U reterhydrose E' este o nome que se dá á affecção causada pela dilatação do ureter nos casos em que um obstáculo qualquer, situado neste canal, impeça o livre curso da urina até a bexiga. Este obstáculo póde ser devido a tumor, calculo, etc. Symptomas.-A symptomatologia é a mesma dos casos de hydronephrose, com a differença, porém, de que nos casos de ureterhydrose o tumor formado pelo ureter dilatado, em vez de occupar sómente a re- gião do hypochondrio, invade rapidamente a fossa iliaca. Notam-se phenomenos de compressão, como sejam a dyspnéa, vomites e até signaes de uremia, si a retenção de urina for muito considerável. Diagnostico-A fluctuação franca é um symptoma de valor para a differenciação com a pyonephrose, mais difficil, entretanto, é o diagnostico entre um kysto do ovário e a ureterhydrose, pois já têm sido observa- das nestes casos a inflammação, a suppuração e mesmo a peritonite. Liaudet cita em sua these, como caracte- rizando a ureterhydrose, a presença de cellulas pavimentosas no liquido retirado por meio de puncção exploradora. 26 Tratamento-O tratamento é naturalmente indi- cado pela remoção do calculo ou outro qualquer ob- stáculo impedindo a urina de seguir seu curso normal. Nos casos em que o obstáculo seja produzido por um calculo, póde-se praticar a sua extirpação, com a maior facilidade. Nos casos, porém, em que o obstá- culo seja produzido por um tumor do ureter, uma ure- terite, então a operação indicada será a ureterectomia, operação salvadora desde que seja praticada em tempo. IV-Fistulas do ureter Conforme, a causa productora, podemos admíttir quatro variedades: congénitas, traumaticas,expontâneas ou pathologicas e puerperaes. Tratando-se da primeira variedade, temos diversas modalidades de fistulas; assim é que as fistulas congénitas podem se abrir na vagina, no intestino, na vesícula seminal, etc. Na se- gunda variedade temos as que são consecutivas ás contusões, rupturas do ureter, ferimentos, etc., deven- do-se também admittir a possibilidade da formação de uma fistula operatória nos casos de hysterectomia, ovariotomia, etc.; algumas vezes, como no caso de Le Dentu, o cirurgião é obrigado á fazer uma fistula no ureter acima ou abaixo do ponto compromettido ou comprimido. A terceira variedade de fistulas do ureter é a cha- mada de fistulas expontâneas ou pathologicas, as quaes se formam quasi sempre nos casos de tuberculose, cal- culo, epithelioma do ureter, ou ainda quando a com- 27 pressão produzida por algum orgão visinho ou tumor que se forme na visinhança, como um carcinoma do utero, um flegmão do utero, etc., provoque a ruptura do ureter devida a alguma ulceração. Quanto á ultima variedade de fistulas, as chamadas fistulas puerperaes, são quasi sempre situadas á esquerda, devido á po- sição mais commum do feto no utero, e explicam-se também pela compressão exercida pelo utero sobre o ureter. A natomia pathologica-Quasi sempre, nos ca- sos em que o ureter soffre alguma solução de conti- nuidade, dá-se a formação de um abcesso urinoso, o qual, abrindo-se, vae constituir o trajecto da fistula. As fistulas do ureter podem se abrir em diversas re- giões, lombar, inguinal, abdominal, etc.; são as chama- das externas, podendo-se observar também a abertura do canal fistuloso no utero, intestino e vagina. E' evi- dente que, nestes casos, a fistula toma o nome da região em que se vae abrir. Quanto á abertura do canal fis- tuloso, apresenta-se este quasi sempre tortuoso, com diverticulos, bridas, emfim, inçado de obstáculos que muito contribuem para que se dê a estagnação da urina e sua consequente alteração. O orifício interno póde-se apresentar de duas maneiras differentes : si o ureter foi seccionado inteiramente, é claro que a urina sairá pelo ponto onde se acha o orifício superior do ureter, porém si a secção do canal se fizer no sentido longitudinal ou si o ureter não foi seccionado inteira- mente, a urina continuará a correr, parte pelo condu- cto normal e parte pelo ponto seccionado. 28 Symptomatologia-Consiste naturalmente na sa- hida permanente e continua da urina. Tuffier diz que, nos casos em que a fistula é alta, a eliminação da urina faz-se continuamente, o mesmo não se dando nos casos em que a fistula esteja situada no terço inferior do ure- ter. O diagnostico apresenta algumas difficuldades nos casos em que o trajecto fistuloso tem sua abertura na vagina ou no utero, por ser nestes casos de facil con- fusão com as fistulas vesico-vaginaes ou vesico-uteri- nas. Esta duvida será sanada si fizermos alguma in- jecção colorida na bexiga. No caso em que a fistula seja vesical, naturalmente o liquido injectado escoar-se- ha pelo trajecto fistuloso. Existem, porém, outras variedades de fistulas do ureter cujo diagnostico offerece as maiores difficul- dades ; queremos fallar das fistulas que se vão abrir no intestino ou em outras partes do conducto digestivo. Em alguns casos a administração do salicylato de sodio ou do azul de methyleno muito facilita o dia- gnostico. Nos casos de que tratamos, é a urina mais ou menos clara, sem albumina, e menos densa que a eliminada na occasião da micção, variando também, de um momento para outro, a quantidade elimi- nada. Marcha e duração-As fistulas do ureter, quando incompletas, podem ás vezes curar-se expontanea- mente, já não succedendo o mesmo quando as fistulas são completas. Na realidade, nestes casos, apezar de compatíveis com a vida do indivíduo, as fistulas do 29 ureter persistem, até que a intervenção cirúrgica cor- rija o trajecto vicioso e anormal da urina. E' muito commum observar-se esta persistência nos casos em que o canal fistuloso é longo, anfractuoso, nestas condi- ções existindo infecção de todo o canal produzida pela estagnação da urina. A infecção se dá mais commum- mente nos casos de fistulas uretero-intestinaes ou ure- tero-vaginaes, reclamando nestas condições a inter- venção cirúrgica para por a salvo a vida do doente. Tratamento-E' sem duvida alguma a ureterecto- mia o meio unico a empregar. Nos casos, porém, em que estivermos em presença de uma fistula traumatica, deixando esta escoar um liquido claro e limpido, é evidente que o cirurgião deverá tentar restabelecer o curso normal da urina, unindo para isso os bordos da ferida. Nos casos, porém, em que estivermos diante de uma fistula pathologica, ou seja simplesmente in- flammatoria ou neoplasica, a intervenção se impõe. Até poucos annos atraz, nos casos acima citados, o unico meio curativo então utilizado consistia na ex- tirpação do rim, orgão cuja importância todos nós conhecemos e que muitas vezes se achava em estado de plena integridade physiologica. Antes de recorrer ao emprego da ureterectomia,deve o cirurgião tentar a união das extremidades do ureter, isso nos casos de fistula traumatica. Desde que não seja possivel recor- rer a esse meio, ainda existe o da anastomose do ure- ter com o seu congenere, ou na bexiga, mesmo na ure- thra, e ainda no intestino, apezar dos perigos que podem advir com as possíveis infecções secundarias. 30 Nos casos em que absolutamente não se nutra espe- rança deexito no resultado dos meios citados, então sim, poder-se-ha usar de outros processos. Tuffier acon- selha a nephrotomia e inais tarde então a pratica da nephrectomia secundaria. Este methodo de Tuffier já lhe tem valido successos admiráveis, mesmo em casos de pyonephroses. Quando a fistula tem por causa um neoplasma primitivo do ureter ou mesmo propagando-se do rim a este canal, quando tem por origem uma pyelo-ne- phrite, ou uma ureterite tuberculosa ou calculosa, de- vemos então recorrer á pratica da ureterectomia, total ou parcial, bem entendido, depois de tentarmos a ne- phrotomia. V-Tumores do bassinete e do ureter A historia dos tumores malignos ou benignos do ureter é, póde-se dizer, muito recente. Até pouco tem- po só era acceita a opinião dos tumores que provinham de algum dos orgãos visinhos, os quaes se propaga- vam secundariamente ao ureter. Nestes casos, é bem de ver, a lesão dos ureteres apparecia como complica- ção, acreditando-se então como perigosa a intervenção cirúrgica, muitas vezes julgada impossível. Até hoje os tumores têm sido classificados em malignos e beni- gnos, classificação esta que admittimos para facilitar o estudo do assumpto. Tumores malignos-Foi Rayero primeiro a des- crever um caso de tumor maligno, um carcinoma do bassinete. Outros vieram depois, cada qual citando 31 casos os mais interessantes, sendo, porém, os mais importantes os casos descriptos por Hartmann, Tuffier, Albarran, Spilmann, etc. Todos estes autores provaram, com o exame his- tologico das peças retiradas, a existência de tumores primitivos do bassinete e do ureter. Quanto á etiologia dos neoplamas epitheliaes, existe até hoje a maior incerteza. Alguns autores jul- gam a edade como factor principal; entretanto já foi observado um caso de tumor maligno do ureter em um individuo de 32 annos de idade. Outros julgam factor da maior importância a lithiase renal, a existência de um calculo no bassinete ou no ureter e, segundo as observações de Albarran, em 32 casos de ureterectomia por elle praticadas e reclamadas pela existência de tumores malignos, elle encontrou oito cálculos como núcleo dos tumores. Tuffier aventou a idéa, aliás muito engenhosa, da inflammação chronica, simples ou cal- culosa, podendo provocar na mucosa urinaria lesões de transformação epithelial. O epithelio normal do ureter ou do bassinete se transforma em epithelio pa- vimentoso estratificado: é a leucoplasia urinaria, sendo esta então o núcleo de desenvolvimento de um neo- plasma, de epithelio pavimentoso lobulado,constituindo o cancroide. A natomia macroscópica - K lesão pode começar pelo bassinete, invadir o rim ou o ureter, ou se loca- lizar sómente no ureter. Os carcinomas do bassinete apresentam nodosidades infiltrando a parede e mais ou menos salientes na cavidade que ellas circum- 32 screvem. Estas nodosidades são de cor avermelhada e dão ao tacto a sensação de um tumor duro. O ureter quando invadido dá a sensação de um cordão volu- moso, endurecido e com as paredes infiltradas pela massa neoplasica. A propagação do neoplasma aos orgãos visinhos é muito commum. O calibre do ureter soffre certa reducção, donde um impecilho ao livre curso da urina, trazendo este como consequência a dilatação ou a distensão do cálice com formação de hydronephrose, hematonephrose e mesmo de pyo- nephrose. Histologia, pathologica - Quasi todas as obser- vações publicadas são concordes em affirmar que o carcinoma se apresenta com a fórma de nodosidades infiltradas e incluídas nas paredes do ureter, estando estas paredes substituídas por tecido de nova formação e com vegetações. As cellulas que formam estas vege- tações, as que occupam os vacuolos ou suas paredes, são todas cellulas de epithelioma cylindrico, dispostas em diversas camadas e possuindo núcleos alongados e muito coloridos. E' muito difficil saber si o neoplasma teve inicio no ureter ou no bassinete; o que com cer- teza se póde affirmar é que o epithelioma é dos canaes excretores. Symptomas-Percorrendo diversas observações que pudemos folhear, notámos que sempre existiam os symptomas seguintes : a dor o tumor e a hematúria. A dor é quasi sempre uma dor surda, adquirindo ás vezes o caracter das cólicas nephriticas, mas em todo o caso não valendo por um signal pathognomo- 33 nico. Com effeito, a dor póde ter origem em alguma pyelite concomitante, devida a compressão, ahydrone- phrose (pela distensão nestes casos). Em 8 casos sobre 25, foi o tumor o primeiro sym- ptoma a ser observado e, como todos os tumores do abdómen prestam-se até hoje aos mais disparatados diagnósticos, não devemos dar a este symptoma valor sinão relativo. Hektoem tomou por um osteosarcoma do osso iliaco um carcinoma do bassinete e do ureter. Quanto ao ultimo symptoma, a hematúria, esse sim, adquire maior valor, mas quando não se apresenta isolado, pois é sabido de todos que a hematonephrose póde existir independente de neoplasma do apparelho urinário. Um dos signaes dessa hematúria é a sua ex- pontaneidade: apparece e desapparece sem haver razão apreciável. O exame histologico da urina é que adquire verdadeira importância, desde que revele a presença de elementos cellulares provenientes da des- camação epithelial dos neoplasmas. Foi pela presença de cellulas alongadas em uma urina sanguinolenta que Albarran diagnosticou um tumor do bassinete. Quanto á presença de albumina na urina, é elemento desprezivel. Quando o volume do tumor chega a certo ponto, podem existir phe- nomenos de compressão, como sejam : edema do membro inferior correspondente ao lado do tumor (caso de Hektoem), hydrocele por compressão da veia espermatica (caso de Spilmann). 34 Os symptomas de cachexia, como sejam emma- greci mento, perda das forças, edema dos membros in- feriores etc., vêm descriptos em algumas observações. Com o exame cystoscospico é possível diagnosticar-se directamente a presença de um tumor na bexiga, e foi dessa fórma que o professor Albarran descobriu, num doente operado pelo professor Le Dentu, um pequeno tumor situado ao nível do orifício ureteral direito. O doente, neste caso de Le Dentu, havia sido operado de uma hydronephrose. O catheterismo ureteral, este sim, é um meio ao nosso alcance que permitte quasi sempre o diagnostico dos tumores do ureter. Com effeito, auxiliados pela sonda,podemos saber si o ureter está ou não estreitado por causa do desenvolvimento de algum neoplasma, e ao mesmo tempo podemos esvasiar a hydronephrose ou alguma retenção sanguinolenta consecutiva. Diagnostico-Como acabámos de ver, não existe symptoma algum que seja pathognomonico dos tumores do bassinete ou do ureter. Para Albarran, póde-se fazer o diagnostico de neoplasma do ureter nos se- guintes casos : quando, com a presença de um tumor renal, se constata a existência de uma hydronephrose ou de uma hematonephrose. Póde-se conhecer a existência de retenção renal quando a diminuição de volume do tumor acompanha a evacuação do li- quido retido, ou ainda quando o catheterismo ureteral permitte recolher o liquido no bassinete. Quanto á hematonephrose, adquire maior valor quando o exame microscopico da urina revela os ele- 35 mentos cellulares proprios aos neoplasmas. Finalmente, quando o exame cystoscopico revela na bexiga as massas papillares sahindo do orifício ureteral, o dia- gnostico se impõe, pois está constatado de visu o tumor. 7ratamento-Nos casos em que o tumor seja an- tigo, e o doente esteja em franca cachexia, o prognos- tico fatal se impõe, porque nada pode fazer o ci- rurgião. Fazendo-se, porém, o diagnostico precoce, quando o tumor ainda não se tenha generalizado, a urgência da intervenção se impõe. Esta varia conforme os casos. Tratando-se de um carcinoma primitivo do bassinete, o cirurgião não pode se limitar só ao neoplasma, dei- xando o rim; é preciso também extirpar este orgão, o que se consegue fazendo a nephrectomia simples. Si, porém, houver generalização para o ureter, é então indispensável praticar-se também a ureterectomia. Esta ultima intervenção abrangerá naturalmente parte ou a totalidade do ureter. conforme as condições do neoplasma. E' de regra praticar-se o catheterismo retrogrado do ureter, e foi dessa maneira que Albarran, operando um caso de tumor da parte superior do canal, pôde descobrir outro tumor na extremidade vesical do ureter. Para terminarmos : o diagnostico deverá ser pre- coce e a intervenção com a maior urgência, antes que o doente esteja enfraquecido e para evitar que se dê a generalização do neoplasma. Nos casos dos tumores que são tidos como be- nignos, os mais communs dos quaes são os polypos, 36 papillomas, etc., a intervenção é idêntica á que se pra- tica nos casos de tumores malignos, e que tem sua razão de ser, visto serem também idênticas as lesões. VI-Estreitamento do ureter Até a data presente é muito pouco conhecida a historia dos estreitamentos do ureter; o que se sabe é que o estreitamento deste canal é a causa, ás vezes, de desordens ureteraes e mesmo chega a produzir graves affecções do rim, certas hydronephroses, por exemplo. A operação da ureterectomia é o tratamento racional para estes casos. CAPITULO IV Da intervenção Sendo a ureterectomia uma operação praticada de 1892 para cá, existe, comtudo, um numero bas- tante elevado de observações, das quaes retirámos o que julgámos sufficiente para, da melhor fórma, descre- ver a technica operatória. Para maior facilidade na explanação do assumpto, dividimos este capitulo da fórma seguinte: I-Caminho a seguir durante a ureterectomia. II-Linha de incisão. III - Descripção da operação. IV-Accidentes da operação. I-Caminho que se deve seguir na ure- terectomia Os ureteres, como já foi explicado, acham-se situados para traz do folheto posterior do peritoneo e acompanham a direcção da columna vertebral. Exis- tem dois meios para encontral-os : o transperitoneal e o extra-peritoneal. Segundo a maioria dos autores, deve ser abandonada, e de facto já o está, a via trans- peritoneal. Este abandono explica-se por muitos mo- tivos, dentre os quaes devemos salientar os perigos da infecção do peritoneo, Abrindo-se largamente o peri- toneo o perigo é imminente e, com effeito, basta ás 38 vezes derramar-se na serosa uma quantidade mínima de pús para que o resultado da operação seja funesto. E' verdade que no curso de uma operação pela via ex- tra-peritoneal a serosa póde ser lesada, mas nestes casos a incisão do peritoneo é sempre tão pequena que podemos considerar nullo o perigo de uma infecção. Accidentes desta natureza já se deram nas mãos de Hartmann, Kelly, Morris,mas uma pequena sutura com catgut ou seda muito fina bastou para prevenir a in- fecção. A via extra-peritoneal foi recommendada ha muito tempo como a melhor a seguir nos casos de extirpação de cálculos do ureter, isso desde Thomas Smith e Gi- gon em 1854. De então para cá os autores se têm ser- vido quasi que exclusivamente desse methodo, pois seguindo-se a via extra-peritoneal póde-se fazer a ex- ploração mais completa do rim, que póde ser incisado sem perigo. E' o methodo de escolha, o que põe a cavi- dade peritoneal ao abrigo de qualquer infecção. As vias extra-peritoneaes para se descobrir o ureter pelviano são as seguintes : a via abdominal, a via sacra, a via intra-vesical, a via perineal e a via rectal, podendo-se fazer na mulher pela via vaginal. Nos casos em que se procura achar o ureter pela via sacra as difficuldades são enormes; não só se torna- se necessário resecar ás vezes o coccyx como também é preciso retirar uma parte do sacro. O ureter deve ser procurado junto ao recto, atraz do peritoneo, mas quasi sempre é difficil encontral-o, pois os dedos do 39 cirurgião perdem-se no tecido cellulo-gorduroso que existe em grande quantidade na pequena bacia. A via intra-vesicalnem devia ser mencionada, pois serve de caminho para a infecção da base da bexiga. Quanto ás viasperineale rectal, os inconvenientes ainda são maiores: é difficilimo o accesso ao ureter e as infecções são certas. Na mulher existe uma importante via de accesso para o ureter, é a chamada via vaginal. II-Linha de incisão Depois de descriptos os differentes meios usados para attingir o ureter, vamos agora descrever onde e como se deve fazer a incisão Operatória. Todos os autores variam na descripção da linha operatória, vendo-se, em todo caso, que a maior preoccupação de todos elles é a de attingir o ureter pelo caminho mais curto e que evite quanto possível o descollamento do peritoneo. A linha de incisão transversal cruza, é verdade, o trajecto do ureter, mas o espaço para se operar é muito restricto, tanto que só permitte libertar o ureter de suas adherencias em mui pequena extensão. A li- nha vertical, partindo da ultima costella e terminando no bordo superior da cristã iliaca, não permitte inter- venção no ureter pelviano. Reynier, o primeiro a fazer a ureterectomia, reti- rou o ureter em diversas vezes. Da primeira, com uma incisão lombar, elle extrahiu o rim com alguns centi- 40 metros do ureter abdominal. Da segunda vez e com a mesma incisão elle retirou o que ficára do ureter lombar e parte do ureter pelviano. Na terceira vez, para extrahir o resto do ureter pelviano, começou a incisão ao nivel do orificio externo do canal inguinal prolongando-a parallelamente á cristã iliaca. Poncet começava a incisão num ponto situado a um centímetro abaixo da ultima costella, a tres cen- tímetros para diante e para fóra da massa lombo-sacra, e seguia até a parte média da arcada crural, paralle- lamente a ella, e passando a um centímetro para den- tro e para cima da espinha iliaca superior. Tuffier incisa sobre uma linha, bisectriz do an- gulo que forma a massa lombo-sacra com a 12a costella e que vae á parte superior da cristã iliaca e de lá até a parte superior do canal inguinal. Le Dentu e Albarran incisam numa linha que vae do bordo externo da massa lombo-sacra, ao nivel da 12a costella, até o bordo externo do musculo recto- abdominal. Hartmann, em seu tratado de medicina operató- ria ultimamente publicado, diz: a incisão por nós usada é obliqua, ligeiramente curva e começa ao nivel da 12a costella, no angulo que faz esta costella com o bordo externo da massa lombo-sacra, desce obliqua- mente para baixo e para fóra e dahi, curvando-se para diante, segue parallelamente e a um centímetro da cristã iliaca. Como se vê, a linha de incisão usada por Hartmann é, com pequena differença, a empregada por Tuffier. 41 Poderíamos ainda citar diversos autores mas, para não prolongar a nossa dissertação, vamos agora descrever a linha de incisão que nos parece mais facil para attingír o ureter. E' nossa opinião que esta linha deve começar a um centímetro para baixo da ultima costella e a dois centímetros para fóra da massa lombo-sacra, seguir para baixo até um centímetro acima da espinha iliaca anterior e, curvando-se para diante, deve terminar junto ao bordo externo do musculo recto, passando parallelamente e a um centímetro do ligamento de Poupart. Naturalmente, em caso de ureterectomia parcial, a linha de incisão deverá corresponder sómente á parte do ureter que se quizer extrahir. 111-Descripção da operação Antes de começar qualquer operação devem ser tomados todos os cuidados de asepsia e antisepsia, cuidados esses que não serão descriptos neste traba- lho para não o tornar mais fastidioso. Escolhida a linha de incisão, que é variavel como já foi dito no capitulo anterior, deve-se collocar o doente em decúbito latero-abdominal, posição esta mais conveniente para as intervenções, sejam no rim ou no ureter, e também póde-se dizer que a unica ad- mittida pela maioria dos cirurgiões. A região sobre a qual vae o cirurgião agir deve ser raspada e lavada, devendo-se também fazer a lavagem da bexiga e da vagina com as soluções antisepticas usuaes. 42 E' inútil descrever as regras de antisepsia que devem ser empregadas; bastará saber-se que delias depende quasi que o successo da operação. E' de re- gra collocar-se um calço no flanco do lado opposto para tornar mais saliente a região em que se vae operar. O operador deverá ter pelo menos tres ajudantes, um no chloroformio, outro para afastar os bordos da incisão e enxugar o campo operatorio e outro, emfim, para lhe dar os instrumentos. Deve-se também collo- car os ferros proximos da mão do cirurgião. Os ferros necessários para a operação da ureterecto- mia são os seguintes: dois bisturis, um recto, outro abotoado, uma pinça de dissecção, uma tentacanula, tesouras, recta e curva, pinças de Péan e de Kocher em quantidade necessária para acudir a alguma emer- gencia, agulhas de Reverdin, recta e curva, seda, cat- gut e crina de Florença. Vamos agora acompanhar a operação nos diffe- rentes tempos, conforme os dividiu Liaudet e que são: Io tempo-incisão da pelle e tecidos subjacentes. 2o tempo-procura do ureter. 3o tempo-isolamento e ablação do iireter. 4'tempo-toilette da ferida operatória, suturas, drenagem, curativo occlusivo. Io tempo-Incisão da pelle e dos tecidos molles.- Depois de anesthesiado o doente e lavada a região, o cirurgião, operando no lado direito, por exemplo, col- loca-se desse lado e com o bisturi recto faz a incisão da pelle começando num ponto situado junto ao bordo externo da massa lombo-sacra, a tres ou quatro dedos 43 da linha mediana e abaixo da ultima costella, dahi a incisão segue para baixo em direcção á espinha iliaca anterior e superior até chegar a um centímetro desta espinha. Deste ponto segue parallelamente ao liga- mento de Fallopio até terminar no musculo grande recto, tomando-se então os cuidados necessários para não serem lesados os elementos do cordão. Depois de incisados a pelle, o tecido cellulo-adiposo subcutâneo e o faseia superficialis, encontra-se uma camada muito delgada de tecido adiposo que cobre o musculo grande obliquo. Incisa-se a aponevrose do transverso e do pe- queno obliquo que também devem ser divididos, so- bre a tentacanula, por precaução, pois a face profunda desses mesmos musculos adhere ao peritoneo, do qual se acham apenas separados pelo faseia trans- versalis. Neste ponto da operação encontram-se algumas arteriolas que podem ser torcidas e que são ramúsculos da artéria sub-cutanea abdominal. Eis-nos chegados ao peritoneo. Levantando com cuidado essa serosa, póde-se reconhecer o tecido gor- duroso que cobre o rim, pela presença dos nervos abdomino-genitaes que atravessam obliquamente a região. 2o tempo-Procura do ureter.- E' este o tempo ás vezes mais difficil e trabalhoso da operação, pois, como já foi dito acima, o ureter adhere intimamente ao peritoneo (face posterior do folheto posterior'. Glan- tenay, em seu excellente trabalho, descreveu os me- 44 thodos usados por differentes autores e dos quaes só descrevemos os que nos parecem ser de maior valia. Deve-se descollar o peritoneo insinuando-se a mão em baixo do labio direito da incisão (caso a ope- ração seja do lado direito.) Por esse processo, separa-se o peritoneo da parede lombar, ao mesmo tempo que a mão segue em direcção á columna vertebral. E' necessário ter o cuidado de terminar esse tempo ao chegar ao musculo psoas, diante do qual é preciso procurar o ureter. Como se vê, por esse meio podemos ser induzidos em erro, pois podemos descollar ao mesmo tempo a serosa com os vasos e nervos que cru- zam ou cercam o ureter. Póde-se também, ao chegar ao musculo psoas, sentir a cristã iliaca e procurar, com o dedo indicador seguindo esta cristã, alcançar o ureter. E' necessário, como Liaudet o recommenda, ter a face palmar do dedo explorador voltada para o peritoneo para se poder sentir o ureter. Le Dentu aconselha praticar o descollamento do peritoneo até o ponto em que os vasos espermaticos ou utero-ovarianos cruzam o ureter ; é preciso, porém, notar que o ponto onde se faz este cruzamento varia muito. Trekaki é de opinião que se descolle o peritoneo até sentir o musculo psoas e as apophyses transversas das vertebras subjacentes ; desde que se encontrem estes orgãos, também será achado o ureter, parallela- mente e a tres centimetros da columna vertebral, sob a forma de um cordão achatado. Este methodo tem o seguinte inconveniente : desde que se descolle o peri- 45 toneo, o ureter pode acompanhar essa serosa e além do mais é perigoso pois, si operarmos á direita, po- demos lesar a veia cava inferior e também descollar o ureter mais do que fôr necessário, O emerito professor Guyon recommenda, o que também faz Hartmann em seu livro ultimamente pu- blicado, o seguinte meio para a descoberta do ureter : procura-se a parte inferior do rim, como ponto de re- paro, e dahi facilmente se attingirá o ureter, pois, desde que se descubra a parte posterior do rim, e desnudada a sua extremidade inferior, o ureter será encontrado no bordo interno dessa mesma extremidade inferior. No caso, porém, de uma perinephrite esclerosa bas- tante adeantada, o ureter só poderá ser descoberto depois de retirado todo ó tecido fibroso que envolve o rim. Descoberto este orgão, e retirado para fóra, o ureter se mostrará ao olhar do operador, desde que se faça gyrar o rim sob o seu pediculo. Por esse processo nada encobre o ureter: para dentro ficam os vasos es- permaticos e, desde que se o separe das veias que su- periormente o cercam,será relativamente facil descobrir o ureter. Esse processo do professor Guyon facilita não só a exploração da face posterior do bassinete como também o exame do rim. Nos casos em que a ureterectomia seja secundaria a uma nephrectomia, é sempre de bom aviso a pratica do catheterismo do ureter, visto não mais existir o im- portante ponto de reparo que é o rim. Póde-se também fazer o que Hartmann numa ureterectomia fez, isto é, uma incisão lombar pela qual elle libertou a extre- 46 midade superior do ureter. Introduzindo depois por essa extremidade uma vela conductora e fazendo a incisão abdominal, foi possível a esse professor desco- brir o restante do ureter sem lesar vaso algum e, o que é mais ainda, sem correr o perigo de confundir o ureter com outro vaso qualquer. Para se encontrar o ureter pelviano, tanto no ho- mem como na mulher, é aconselhada a via abdominal por ser essa a que maior espaço dá ao cirurgião. Quanto aos processos usados para a procura do ureter pelas vias rectal, perineal ou sacra, quasi não valeria a pena cital-os, pois todos os autores, dentre os quaes Le Dentu. Legueu, Hartmann e outros, são unanimes em repudiai os pelas innumeras difficuldades que apresentam em sua execução. 3° tempo-Isolamento e ablação do ureter. - Uma vez descoberto o ureter, seja em sua extremidade supe- rior por exemplo, deve-se começar por affastar, o mais que for possível, os lábios da ferida operatória, depois do que começa-se a destruir as adherencias do ureter com os outros orgãos visinhos, vasos principalmente. E' necessário que este tempo da operação seja feito com o maior cuidado para evitar a ruptura do ureter doente, facto este que já se deu nas mãos de Kelly, e também para não ferir os vasos espermaticos ou utero-ovarianos. A' medida que se vae chegando perto da bexiga é também necessário toda a cautela para não ser lesada a artéria espermatica. Na bacia, dever-se-ha levantar o colon e o S ilíaco, encontrando-se 47 ahi o ureter em relação com os vasos ilíacos primitivos, externos, com o canal deferente no homem,e na mulher, além dos mesmos vasos, temos de evitar o ovário, o li- gamento largo, a artéria uterina e as veias vaginaes. E' preciso também ter cuidado com as vesículas semi- naes que são encontradas em relação com a extremi- dade inferior do ureter. Depois de isolado o ureter doente, deve-se pro- ceder da seguinte forma : o campo operatorio deverá ser isolado com compressas asepticas e sustentadas por meio de pinças ; feito isto, deve-se pinçar o ureter, no ponto em que vae ser seccionado, com duas pinças dei- xando entre si um centímetro de intervallo. Poncet aconselha forrar com gaze aseptica o logar onde se vae seccionar o ureter, e isso com o intuito de evitar que o pús deste canal inficione a ferida operatória. Feita a resecção do ureter, deve-se sempre passar um fio de ligadura na sua extremidade inferior, junto á bexiga, isso embora muitos autores achem inútil esta precaução em vista da retracção quasi immediata deste canal produzir a sua completa obliteração. Nos casos em que a ureterectomia é parcial, podemos, conforme os casos, praticar a anastomose da parte restante com o intestino, com o outro ureter, á bexiga e mesmo unilo á vagina, como já o fez Pawlick e com brilhante resultado. Ultimamente, Boari, em seu tratado de clinica ci- rúrgica, aconselha o uso de um pequeno botão de sua invenção e que serve para se fazer a anastomose do ureter. 48 Este botão compõe-se de um tubo terminado por uma pequena placa arredondada sobre a qual se póde applicar um disco movei, mantido na outra extre- midade por uma pequena mola. Um pequeno orifício situado n'uma das extremidades do botão per- mitte manter os dous discos unidos um ao outro. Para se applicar o botão, é preciso primeiro manter unidos os dous discos, o que se consegue forçando-se a mola e introduzindo um estylete no pequeno orifício do tubo. Depois de unidos os dous discos, introduz-se a outra extremidade do tubo no ureter que se vae anastomo- sar, fíxando-o ahi com uma ligadura de seda. Feito isto, deve-se circumscrever, no orgão em que se vae anastomosar o ureter e com um fio de seda e agulha fina, uma certa quantidade de tecido, um pouco maior que os discos do botão. Na area de tecido assim delimitada, faz-se uma incisão pela qual se intro- duzem os discos unidos, depois aperta-se o fio de seda, approximando assim os bordos da incisão, e finalmente retira-se do orifício do tubo o estylete ahi collocado. No momento em que se retira o estylete, a mola actua sobre o disco movei, obrigando-o a dirigir-se para a extremidade onde se acha ligado o ureter. O effeito é por assim dizer idêntico ao obtido na entero- anastomose com o botão de Murphy. 4o tempo- Toilette da ferida, drenagem, suturas, curativo.-Depois de praticada a ureterectomia, é pre- ciso proceder-se á toilette da ferida, cuidado esse que se torna mais necessário ainda quando a intervenção é reclamada por uma fístula do ureter. E' preciso, por- 49 tanto, lavar todos os cantos da ferida operatória, seja com uma solução antisepticas, ou melhor ainda, como o recommenda Elliot, com a solução physiologica commum, porém aquecida a 44o e bem esterilizada. A drenagem é de rigor, pois, operando-se um orgão inficionado, embora todos os cuidados antisepticos tenham sido postos em pratica,é possível haver infecção. Ainda mais, a drenagem é de necessidade absoluta quando o ureter apresenta trajecto fistuloso ou quando o peritoneo tenha sido aberto. Poncet recommenda que, em logar da drenagem com tubo, se faça o tamponamento de toda a cavidade operatória, com gaze iodoformada ou, melhor ainda, com gaze esterili- zada. Esta ultima pratica tem sido muito usada e é a que aconselham Elliote Hartmann. A suturada ferida deve ser feita da mesma forma usada nas intervenções na parede abdominal; os musculos serão suturados com catgut e a pelle com crina de Florença. Kelly e outros cirurgiões preferem o fio de prata para a sutura dos musculos e o catgut para a da pelle. Nos casos em que se tenha incisado o canal in- guinal, este deverá ser reconstituído, camada por camada, como bem o recomenda Reynier. Depois de terminada a sutura da pelle, esta de- verá ser coberta com um curativo aseptico commum. Nos casos em que a extirpação do ureter tenha sido praticada pela via vaginal, deve-se fazsr o tampo- namento com gaze iodoformada. 50 IV-Accidentes da intervenção Embora a ureterectomia seja uma operação bastante difficil e muito delicada, podemo dizer que os accidentes observados no decurso das pri- meiras operações foram devidos mais á falta de cuidado do que á habilidade dos cirurgiões. E' assim que Barker seccionou o colon, Braunn abriu a aorta e o proprio Bilroth abriu também a veia cava inferior. Outro accidente que pode sobrevir é a ruptura do ureter resultante de uma tracção exagerada, e esse facto desagradavel já se deu nas mãos de Kelly, o qual, nesta emergencia, reuniu com fios de sutura as duas extremidades seccionadas, tendo antes pinçado o ureter para evitar que a ferida operatória soffresse alguma infecção ao contacto do liquido que se escoava desse conducto. Nos casos de grande descollamento do peritoneo, é muitas vezes considerável o choque operatorio e deve-se temer um máo resultado, o que infelizmente já succedeu em uma ureterectomia praticada por Gerster. A's vezes produz- se uma ligeira suppuração, devido talvez aos fios de sutura do ureter, mas cessando logo em seguida á queda desses mesmos fios. No caso, porém, em que os symptomas que decorrem da suppuração se tornam alarmantes, indicando alteração séria no estado ge- ral do operado, é dever do cirurgião levantar o apparelho e ás vezes retirar os fios de sutura afim de encontrar as causas da infecção. Le Dentu e Har- 51 tmann observaram um pouco de oligúria em doentes que soffreram a ureterectomia, mas esse phenomeno cessou em poucos dias. Quanto ás desordens nervosas ás vezes observa- das, devem ser consideradas como phenomenos de origem reflexa. E' assim que Ollier observou que estas desordens nervosas consistiam em sensação de calor, ora na face, ora no pé; ás vezes formavam-se zonas de hyperesthesia ou de anesthesia porém sempre do lado do ureter reseccado. De todos os phenomenos observados após a ope- ração, certamente o da diminuição da urina é õ que mais chama a attenção. Esta anuria não é de admirar, pois é um pheno meno reflexo e também uma consequência do choque operatorio. Este facto da diminuição da urina excretada tem sido obser- vado maior numero de vezes nos casos de nephro- ureterectomia. Basta citar isso para dar a expli- cação do phenomeno, E' evidente que, retiran- do-se um dos rins, o que fica não poderá, de um momento para outro supprir as funcções do rim que foi extrahido E' necessário que a adaptação funccio- nal se faça pela hypertrophia compensadora do rim que fica. E' assim que tudo entra em ordem desde que o rim attinja um certo gráo de hypertrophia e de hyperplasia dos canaliculos urinários, o que geral- mente se observa no prazo de quatro mezes mais ou menos. 52 Findo esse prazo, o rim attinge a um volume duplo do normal. Para finalizar o assumpto, devemos declarar que de todas as observações que conhecemos, em nu- mero assás elevado, os resultados da ureterectomia são os mais animadores, obtendo-se um computo de 88 % de curas, o que é magnifico, sendo essa porcen- tagem uma das mais elevadas na cirurgia contempo- rânea. PROPOSIÇOES Chi mica medica I O acido borico foi descoberto em 1702 por Homberg. II A solução mais empregada é na proporção de 4 °/0 do sal diluido n'agua III Esta solução, depois de esterilizada e filtrada, é usada não só em lavagens da bexiga, como também é o meio liquido usado para o catheterismo cystoscopico dos ureteres. Historia natural medica I Quasi todos os vegetaes contém acido oxalico ou seus saes. II Dos vegetaes, os que mais oxalatos contêm são os que pertencem á grande família das leguminosas. III Por esse motivo estes vegetaes devem ser excluí- dos da alimentação dos indivíduos sujeitos a cálculos dos ureteres ou do bassinete. Anatomia descriptiva I O ureter é o canal que serve para a conducção da urina do bassinete á bexiga. II O ureter tem a fórma de um tubo membranoso, achatado de diante para trás e seu calibre é muito variavel. 54 III O ureter em todo seu trajecto só mantém com a serosa peritoneal relações de simples juxta posição. Histologia I O ureter compõe-se essencialmente de tres túnicas, que são de fóra para dentro : uma túnica conjunctiva, uma túnica musculosa e uma túnica mucosa. II Seu revestimento epithelial é constituído por um epithelio pavimentoso estratificado. III A túnica musculosa do ureter é composta de fibras lisas dispostas em dous planos : um circular, superficial, e outro longitudinal, profundo. Physiologia I O papel physiologico do ureter é o de levar a urina do rim até a bexiga. II Desde que o ureter soffra alguma obstrucção, a economia inteira se resente. III Um dos accidentes mais observados em casos de obstrucção do ureter é a atrophia do rim. Bacteriologia I O bacillo da tuberculose foi descoberto por Koch. II Este bacillo exerce papel saliente em certas affe- cções do ureter. III A tuberculose do ureter póde provir de algum orgão visinho. 55 Matéria medica, pharmacologia e arte de formular 1 O opio é extrahido do Papaver somniferum. II Os alcaloides do opio são em grande numero e possuem propriedades as mais diversas. III Destas propriedades, a mais notável é a anti-spas- modica exercida pela morphina. Clinica propedêutica I Dentre os processos mais usados para se fazer o diagnostico das affecções do ureter, salienta-se o ca- theterismo cystoscopico como o melhor. II Existem diversas especies de cystoscopios, sendo o mais simples o de Albarran. III O catheterismo dos ureteres deve ser feito depois de tomadas as precauções necessárias para assegurar não só a asepsia do apparelho como também a da ure- thra e da bexiga. Clinica dermatológica e syphiligraphica I A syphilis pode atacar não só o rim como o bas- sinete e o ureter. II A syphilis do ureter pode produzir a estenose deste canal. III Produzindo a estenose do conducto, é muito facil dar-se a distensão do ureter, produzindo-se então a ureter-hydrose. 56 Anatomia e physiologia pathologicas I Dos tumores malignos do ureter o mais commum é o de origem epithelial. II No caso de epithelioma do ureter as paredes deste canal são substituídas por tecido de nova formação. Este tecido é composto de cellulas de epithelio cylin- drico. III Os symptomas predominantes nos casos de tumor do ureter são os seguintes : a dor, o tumor e a hema- túria. Pathologia medica I O ureter póde ser a séde de infecções agudas e muito graves. II Das affecções agudas a mais grave é a uretero- pyelite. III A uretero-pyelite aguda póde ser causada por uma cystite. Pathologia cirúrgica I As fistulas do ureter dividem-se em quatro classes: congénitas, traumaticas, pathologicas e puerperaes. II Das fistulas pathologicas a mais grave é a origi- nada pelos tumores malignos. III O tratamento unico a empregar é a uretere- ctomia. 57 Clinica Cirnrgicsi (2a cadeira) I A hematúria é um symptoma muitas vezes obser- vado nas affecções do ureter. II Dentre as affecções que mais vezes produzem a hematúria destaca-se o carcinoma do ureter. III Nestes casos o exame cytologico da urina revela a presença de cellulas de epithelioma cylindrico. Clinica optitalinologica I A blepharite pode ser aguda ou chronica. II A blepharite aguda acompanha quasi sempre as diversas variedades de conjunctivites. III A blepharite chronica é muito commum nos indi- víduos arthriticos. Operações e apparelhos I O catheterismo cystoscopico dos ureteres faz-se com mais facilidade na mulher que no homem. II Este catheterismo dos ureteres é indicado em todas as affecções do bassinete e do ureter. III Para esse fim o apparelho de mais facil manejo é o cystoscopio de Albarran. Anatomia medico-cirur^ica I O ureter tem uma direcção geral de cima para baixo até encontrar o angulo de bifurcação da artéria iliaca primitiva. 58 II O ureter está separado da porção mais interna do psoas pelo faseia iliaco e algum tecido cellulo- adiposo. III O ureter póde ser comprimido no ponto em que elle atravessa o estreito superior ao nivel da articula- ção sacro-iliaca, Therapeutica I Nas uretero-pyelites agudas o tratamento é me- ramente expectante. II Os alcaloides do opio têm muita applicação nestes casos. III Dos alcaloides do opio, a morphina é o mais em- pregado. Clinica cirúrgica (Ia cadeira) I A ureterectomia consiste na extirpação do ureter. II Ella póde ser total ou parcial. III Antes de ser praticada a ureterectomia, deverá ser feito o catheterismo dos ureteres. Clinica medica (2a cadeira) I A uremia é a manifestação clinica da insufficiencia de eliminação dos princípios toxicos da urina. II A uremia é causada ás vezes pela estenose do ureter. 59 III O exame da permeabilidade renal nada revelará nestes casos. Clinica pediátrica I A incontinência de urinas é mais commum nas crianças. II Apresenta-se a maior parte das vezes sob a forma de enurese nocturna. III E' mais frequente nas crianças fracas e nervosas. Obstetrícia I Dá-se a prenhez extra uterina quando o ovulo se desenvolve fóra do utero. II A evolução fetal pode dar-se também na cavidade abdominal. III Esta ultima fórma é muito rara. Hygiene I A notificação compulsória das moléstias transmis- síveis é uma das bases da defesa prophylatica. II O regimen da notificação compulsória obriga a adopção de certos recursos auxiliares. III Estes recursos são o isolamento e a desinfecção. ftledicinst legal e toxicologica I A epilepsia é a affecção que mais tem sido simu- lada para fins criminosos. 60 II Existem, signaes que facilitam o conhecimento da simulação. III Estes signaes são : a immobilidade das pupillas, a insensibilidade da pelle e o dicrotismo do pulso'. Clinica obstétrica e gynecológica I A eclampsia é uma das complicações da prenhez. II Ella põe a mulher em perigo de morte immi- nente. III A sangria é meio soberano para combatel-a Clinica medica (Ia cadeira) I Em todas as moléstias é de rigor o exame das urinas. II Este exame deve ser qualitativo e quantitativo. III O exame cytologico da urina é de necessidade em todos os casos em que ha suspeita de um tumor do ureter ou do bassinete. Clinica psychiatrica e de moléstias nervosas I A epilepsia está se tornando frequente no Brazil, II Existem muitos meios para tratar tão grave af- fecção. III Destes, o mais usado é o que tem por base o em- prego do bromureto de potássio.