â \ I ■ít 1 V 2>§(: 5©e <*+J, -mà*i DO í? S (D UHr. jJeíuo ttolasco JJmúva ffeitc:_____ JMÍ ?. 8 1935 A m x sg -)o(- -VK-'?* THESE APRESENTADA 4 FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO EM 30 DE AGOSTO DE 1859 E PERANTE ELLA SUSTENTADA NO DIA 31 DE MARÇO DE 18(30 pou Jfoirro ttolasco {hriira SciXc DOUTOR EM MEDICINA PELA MESMA FACULDADE FIDALGO CAVALLEIRO DA CASA IMPERIAL, BACHAREL EM BELLAS-LETRAS PELO IMPERIAL COLLEGIO DE PEDRO II NATURAL DE SANTO ANTÔNIO DE JACOBINA (PROVÍNCIA DE MATTO-GROSSO) FILHO EjKCÍITIIIO «O CORO.\i:i, JOÃO PEKE1KA LEITE EIDALGO CAVALLEIRO DA CASA IMPERIAL, COMMENDADOR DA IMPERIAL ORDEM DE S. BENTO DE AVIZ E DE D. MARIA JOSEPHA DE JESUS LEITE RIO BE JANEIRO Typ. d.) Correio Merca-ntil, deM. Barreto, Filhos &Octaviano.—Rua da Quitanda n. 55, 1SGO FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANE 111 ■ i i i-iti o r^ j— director. — O Exm. Sr. conselheiro Dr José Martins da Cruz Jobim. VICE-DIRECTOR. — O ILLM. Sr. Dr. LüIZ DA CUNHA FEUO\ Os Srs. Drs.: PRIMEIRO ANNO. _ (Phvsica em geral, e particularmente em suas appli- Conselheiro Francisco de Paula Cândido . . . . ( CaÇões á medicina.. Manoel Maria de Moraes e Valle. . {E.rpminador). Chimica e mineralotna. José Ribeiro de Souza Fontes . . . ,Eccaminador\ Anatomia desenpt-va. SEGUNDO ANNO. Francisco Gabriel da Rocha Freire . (Presidente) Botânica e zoologia. Francisco Bonifácio de Abreu........Chimica orgânica. Conselheiro L. de A. P. üa Cunha.......Physiolqgia. . José Ribeiro de Souza Fontes .-........Anatomia descriptiva. TERCEIRO ANNO. Conselheiro L de A. Pereira da Cunha......Physiolqgia. . Francisco P. de Andrade Pertence.......Anatomia geral e patológica. Conselheiro Antônio Felix Martins.......Pathoiogia geral, QUARTO ANNO. Antônio Ferreira Franca...........Pathoiogia externa. \iitonio Gabriel de Paula Fonseca.......Pathoiogia interna. . , j Partos, moléstias de mulheres pejadas e pandas e de Luiz da Cunha Feijo.............{ meninos recém-nascidos. QUINTO ANNO. \ntonio Gabriel de Paula Fonseca.......Pathoiogia interna. „ (Anatomia topograplnca, medicina opcratona e ai.iin- Conselheiro Cândido Borges Monteiro.....{ relhos. Conselheiro João José de Carvalho......Matéria medica e therapeutica. SEXTO ANNO. Conselheiro Thomaz Gomes dos Santos.....Hygiene e historia de medicina. Francisco Ferreira de Abreu.........Medicina legal. Ezequiel Corrêa dos Santos..........Pharmacia. Conselheiro M. F. Pereira de Carvalho.....Clinica externa do 3o e 4.° Conselheiro M do Valladão Pimentei......Clinica do 5U e 6.° Luiz da Cunha Feijo'.............Clinica de partos. João Joaquim de Gouvêa........... Francisco José do Canto e Mello Castro Mascare-> Seccão de sciencias accessonas. NUAS. Francisco de Menezes Dias da Cruz.......j Seccão de sciencias msdicas. Antônio Ferreira Pinto • • •.........' José Maria Chaves ■■ Examinado)-)........!■ Seccão de sciencias cirúrgicas. Antônio Ieixeira da iíucha . . =.......) José TnoMAZ de Lima............\ \ .'...................? Seccão de sciencias accessorins. José Joaquim da Silva............\ Francisco ''ixheiho Guimarães.........ge a de scienciaa medicas. íntonio Corrêa de Souza Costa...... . . l José Maria de Noronha Feital. . . {Examinado)')) Francisco José Teixeira da Costa .... Vicente Cândido Figueira de Saboia. . . -ecçao que lhe e 3esits Ceite Tudo vos devo, minha boa mãi; a vida, a intelligencia, a educação, e a posiçãj bella, santa e nobre que neste momento assumo na sociedade é o fructo dos vossos sacrifícios, dos esforços constantes que incansável tendes empregado para ver-me um dia habilitado a servir com dignidade e a honrar a nossa província. Nada poupa si ->s para conseguir o vosso empenho:—o amor de uma extremosa mãi que separa-se de seu amado íilho; as saudades de longos e tardios annos de separação; os cuidados e ;:s angustias de um coração de mãi, tudo esquecestes,tudo soffrestes, para ver-me hoje bemdizat o vosso nome, e pedir-vos como o prêmio mais valioso aos meus tra- balhos a vossa benção para o vosso extremoso filho Peilro. AO MEL" MANO, PADRINHO E MELHOR AMIGO 0 ILLM. SR. CAPITÃO JOÃO CARLOS PEREIRA LEITE Eis-me chegado, meu querido mano, ao desejado marco que me indicastes ao abraçar-me no nosso Olho d'Água quando eu, muito menino ainda, preparava-me para vir a esta corte encetar os meLis estudos. Quinze extensos e fastidiosos annos gastei em percorrer a longa vereda que me conduziu â realização dos meus ardentes votos e dos vossos mais caros anhclos! Du- rante todo esse tempo, é para mim uma grande consolação dize-lo, não desperdicei as minhas horas: lutei com incalculáveis difficuldades, soffri os ataques de graves e dolorosas enfermidades; mas, envidando todas as minhas forças e vontade, venci os tropeços que se antepunhão aos meus passos, e pude alcançar o término da minha carreira escolar—trazendo em minhas mãos este ramo de louros, embora mirrado e estéril, para offertar-vos em prova do amor que vos tributo e do reconhecimento que me faz bater o coração em um momento em que me açodem â memória todos os sa- crifícios que vos devo. Não estou comtudo feliz, meu amado mano, nesta hora em que recebo o prêmio dos meus trabalhos, fadigas e dores; recordando-me da cruel,.e irreparável perda que soffrestes, e dos desgostos dilaceradores que ainda vos magoão e pungem o coração, somente tenho forças para associar-me aos vossos pezares, e pedir-vos que aceiteis nesta pagina da minha pobre these os testemunhos de amor e gratidão que vos dedica o vosso mano e afilhado AO MEU CUNHADO, PADRINHO E AMIGO 0 3lhn. Jgr. Icncnic-covoncl 3o$é doaqnim í>e Carn alija Vós fostes, meu bom padrinho, o ensejo, para assim dizer, da minha educação ^ do titulo honroso que adquiro hoje na sociedade. Durante os longos annos de meus estudos servistes-me sempre de amigo e pro- íector desvelado: jamais se desmentiu um só instante a vossa paternal sollicitude para comigo; déstes-me constantemente os melhores conselhos, e com as vossas ani- mações e justos encomios aos meus trabalhos soubestes encaminhar-me ao fim da penosa viagem que hoje concluo. Recebei, pois, meu bom amigo, os signaes de .rrat:dão, verdadeira estima e respeito que vos consagra o vosso afilhado PeiBrw» AO MEU MANO E EXTREMOSO AMIGO 0 ILLM, SR. CAPITÃO LUIZ BENEDICTO PEREIRA LEITE Foste meu companheiro de exilio por muitos annos: nesse tempo aprendeste a conhecer-me e a convencer-te de que, além dos vinculos de sangue que nos prendem, outros laços não menos poderosos —os da amizade pura, santa e verdadeira—ligarão e para sempre unirão os corações de Luiz e Pedro—na vida e na morte! AOS MANES DO MEC QUERIDO 1IAIVO Saudade. AOS MEUS MANOS E MANAS OS ILLMS. SRS. 3osc ^lugustfl pereira Ceite. 2tutüma iltaria pereira £eite. Ceauaríw Soares t>e $oix)a. (Generoso 2ltt0ust0 atoes JHbei™. 5>. JSentyoriulja ^Ijeresa í>a Silva. H). 2lnua iHaria Iba Biiva €an>all)0. £). iHaria í»a 6laria pereira Ceite ia &iiw. A mais extremosa amizade fraternal. A MINHA SOGRA A ILLMA. SRA. D. MARIA JOAQUINA DE ARAÚJO Recebei, senhora, nesta pagina de minha these os protestos de sincera amizade e do eterno agradecimento que vos devo pelos desvelos, cuidados e carinhos de uma verdadeira mãi que comigo haveis despendido no meu leito de dores. 3 AOS MEUS CUNHADOS Os Illms. Ses. : DR. JOSÉ MARIA DE MATTOS GUAHYBA ALFERES MANOEL FERNANDO DE MATTOS GUAHYBA Sympathia e grata amizade. O 1LLM. SR. MANOEL JOAQUIM FERREIRA DUTRA E A' SUA ILLUSTRISSIMA FAMÍLIA A nossa amizade nasceu do seio das dificuldades, bem como a fragrante rosa desabrocha sobre um peduncLilo de espinhos; cresceu com ellas, e nesta hora, meu bom amigo, escrevendo com satisfação o teu nome nesta pagina da minha mesquinha these, faço votos para que a nossa affeição, ao contrario das pétalas dabella flor, que se destacão ao menor sopro do vento, perdure sempre firme e bella. AO MEU PARTICULAR E BOM AMIGO 0 3 Um. 0r. 3-toar0 IVoier ire Camargo e ti sua üluôtrissima família Meu bom amigo.—Jamais se apagará na minha memória a lembrança das obsé- quios e finezas que devi á boniade do vosso generoso coração durante os poucos dias que demorei-me em vossa casa: consenti, pois, que eu inscreva o vosso nome na minha these, como prova da verdadeira amizade, da alta estima e sincero reconheci- mento de que vos soli devedor. AOS MEUS SÁBIOS E ILLUSTRADOS MESTRES OS ILLMS. E EXMS. SES. DRS. : CONSELHEIRO MANOEL DO VALLADAO PIMENTEL JOSÉ RIBEIRO DE SOUZA FONTES Deuois de Deus eu vos devo a vida; relevai, pois, meus bons mestres, que eu illustree honre a minha these inserindo os vossos nomes em uma de suas paginas, em signal de homenagem, e da mais justa veneração que rendo ao vosso saber e as virtudes que ornão os vossos excellentes e nobres corações. a* 3Uma. e €sma. Sra.. B. ülatljilto (Ümilia í>e ttawanccllo* pinta pevroto e á sita ercellentissima íamilia Profunda gratidão, verdadeira amizade e respeito. AOS MEUS ÍNTIMOS AMIGOS Os Ilbxs. Srs. Drs.: HENRIQUE PEREIRA DA POME RIBEIRO JOAQUIM MARIANNO CAMPOS DO AMARAL GlIRGEL E SUAS ILUSTRÍSSIMAS FAMÍLIAS Verdadeira amizade de irmS' . AOS ILLMS. SRS. DRS.: FRANCISCO CORRÊA LEAL ANTÔNIO FRANCISCO CORRÊA LEAL JOSÉ CORRÊA VALLIM E SUAS ILLUSTHISSIIWAS FAMÍLIAS Amizade. AO 1LLW. SR. COIIIIENDADOR JOÃO AUGUSTO FERREIRA DE ALMEIDA E A' SUA TLLUSTRISSIMA FAMÍLIA Amizade; reconhecimento. Os Illms. Srs. Drs. : 3ntoni0 3nito$ Cappnr. Joaquim ÜtxiXo òe So^a ftttòxaòe. Ôffltemwtfto dirimo òt 3lmatra ©uttraa. Manoel fyonoxato páxoto ire fyvoebo. Saudosa recoedação dos tempos escolasticos. © autor. SCIENCIAS CIRÚRGICAS. PATHOLOGU EXTERNA. Tetanos traumático. Etymologia.— Os termos - Tetanos traumático—, que na cirurgia designão a mo- léstia que faz o assumpto de minha dissertação, mas que em rigor são apenas a expres- são do principal symptoma e da causa efficiente dessa moléstia, derivão-se dos vocábulos greg0S_ TçTavo;, estendido, arripiado, do verbo teívw estender, e Tpauy.a, axo;, ferida, de v.Tft.Wío ferir. Definição—O tetanos é uma moléstia caracterisada pela contracção involuntária, dolorosa, permanente, com reduplicações, dos músculos da vontade,— e notável ainda pela persistência ordinária da sensibilidade e das faculdades intellectuaes. Variedades.-Conforme o numero das partes affectadas e a sede especial das contrac- ções espasmodicas dos músculos, o tetanos toma os nomes de recto, completo, geral, tônico ou hyperstenico ; emprosthotonos, opisthotonos, pleurosthotonos ou tetanos lateral de Sau- vages. Segundo a sua marcha e o seu typo, o tetanos tem sido dividido em — agudo, chro- nico e intcrmittente ; e, attenta a época da vida em que se manifesta esta affecção, é denominada trimus nascentium, mal de queixo, tetanos dos rcccmnascidos. O modo, finalmente, pelo qual o tetanos se apresenta deulogar á sua divisão em— tetanos idiopalhico ou essencial, e symptomatico ou traumático, do qual vou occupar-me. Etiologia. São predisponentes e determinantes as causas que dão origem aos tetanos. A' primeira série dessas causas pertencem a idade, o sexo, os climas intertropicaes, as estações mui frias ou mui quentes, as variações da temperatura atmospherica, e a existência de vermes nos intestinos, segundo Laurent;— na segunda se achão compre- hendidas as emoções moraes vivas, as suppressões súbitas da transpiraoão, o resfria- mento occasionado pela chuva, a exposição ao ar humido e frio no estado de nudez, a intemperança, o abuso dos prazeres venereos, o retrocesso de exanthemas, e muito prin- cipalmente as pancadas, as feridas irregulares, contusas, os curativos mal feitos, repetidos ou mui demorados, etc. — 2 — Passarei ao exame de algumas das causas mencionadas, e procurarei mostrar o seu valor e sua importância relativos. Começarei pela Idade.—O tetanos acommette todas as idades; no entretanto, ao passo que nos paizes temperados são os adultos as victimas escolhidas por essa terrivel moléstia, na zona tor- rida são a infância e a puericia as idades em que ella grassa com mais furor. Sexo. — Na Europa o tetanos aff.cta de preferencia os homens; entre nós acontece o mesmo. Climas,, frio, humidade.— Em alguns paizes do globo o tetanos faz-se notável por sua freqüência. EmCayena, por exemplo, cujo clima é quente, humido, pouco saudável, onde a estação pluviosa dura de ordinário oito mezes no anuo, essa affeccão desenvolve-se com tal facilidade que, conforme Bajon, mais de dous terços dos recemnascidos perecem victimas do mal de queixo conseqüente á ligadura do cordão umbilical. No Brasil, e geral- mente em toda a America meridional, o tetanos não é menos commum. Na Europa, ao con- trario, esta moléstia poucas vezes apparece, e, á excepção dos cirurgiões militares, os practicos de tempos em tempos somente observâo algum caso de tetanos. Os aphorismos de Hippocrates, que em seguida transcrevo, mostrão que desde re- mota antigüidade é conhecida a influencia do frio na producção do tetanos. Tò G£ Esta pratica é admissível unicamente quando as feridas são pouco estensas e não conteem órgãos de importância em cuja integridade se não pôde tocar sem perigo. Muitos práticos, e entre elles também Larrey, logo que presentião os signaes premo- nitores do tetanos, cobrião as feridas e as partes vizinhas dellas de largos vesicatorios, destinados a favorecer a suppuração ou a faze-la reapparecer se porventura se havia ella estancado. Ambrosio Parêo jamais se descuidava de velar sobre o estado dos órgãos da deglu- tição, de prevenir o trismus e suas fataes conseqüências. « Quando o doente, diz elle, começa a ser acommettido do espasmo, o cirurgião deve introduzir-lhe entre os dentes uma pequena cunha de madeira, afim de que os maxillares e os dentes não se fechem de todo.... e, se os dentes estiverem já de todo serrados, a boca será aberta por um instrumento que se dilate a favor de um parafuso. Se existem na boca algumas faltas de dentes, por ellas se introduz os medicamentos destinados a debellar a moléstia, as bebidas e os alimentos tendentes a mitigar a sede e a entreter as forças do doente; se, porém, todos os dentes são perfé"ítos e sãos, a exem- plo de Lengrand, faz-se passar essas substancias pelo intervallo que as arcadas alveola- res apresentão entre o ultimo dente mollar e a apophyse coronoide. Os cirurgiões contemporâneos de Hippocrates derramavão as bebidas pelas narinas do doente quando a sua boca não podia ser aberta. Esta pratica foi logo e com muita razão abandonada. Se a dysphagia provém da contracção espasmodica dos músculos pharyngianos, o — 13 - liquido introduzidona boca franquêa o isthmo da garganta,mas,desviando-se do cesopha- go, insinua-se no larynge e provoca a tosse, convulsões e suffocação. Nestas circums- tancias, o cirurgião é forçado a soccorrer-se da introducção da sonda cesophagiana, afim de por meio delia fazer chegar ao estômago as substancias indispensáveis á conservação da vida do doente. Esta operação pôde ser praticada pela boca ou pelas narinas, como Boyer aconselha, todas as vezes que os maxillares, rijamente apertados, não permittem a penetração da sonda na cavidade bocal. Em alguns doentes a introducção da sonda ceso- phagiana, longe de ser benéfica, contribue muito para exacerbar os accidentes tetanicos; nesta extremidade os clysteres são o único meio que tem o pratico de levar á economia as substancias alimentares e medicamentosas. Aos meios locaes que deixo mencionados o pratico deverá accrescentar o emprego enérgico e reiterado dos diaphoreticos, antiphlogisticos e antiespasmodicos mais effica- zes, regulando a sua administração pelo gráo de intensidade e violência da moléstia. Tratando dos symptomas do tetanos, eu disse que quando este accidente tem de ter- minar favoravelmente o corpo do doente cobre-se de ordinário de um suor copioso e quente, os músculos progressivamente se distendem e a rigidez remitte-se. Pois bem ; nestes casos os sudorificos, e mormente os que operão directamente sobre o systema cutâneo, devem obter vantagens maiores e ser empregados com mais probabilidades de resultados felizes. Hippocrates, apresentando o frio como uma das causas do tetanos, reconheceu tam- bém que o calor era um agente importante para combater essa affeccão. Ambrosio Parêo, narrando o caso de um soldado que em seguida a uma amputação do braço foi acommet- tido de accidentes tetanicos, vem ainda em auxilio da asserção que avancei sobre a ap- plicação dos diaphoreticos; e finalmente não é menos significativo em favor de minhas idéas o facto referido por Francisco Fournier. Achando-se este cirurgião, em 1781, a bordo de um navio ao mando de Lapeyrouse, prestava seus cuidados a um tetanico quando repentinamente houve essa embarcação de sustentar um combate. O doente foi transportado ao porão, onde ficou durante quatro horas successivas, immergido em uma atmosphera mui quente e uniforme. Finda a pe- leja, foi elle tirado do porão banhado em abundante suor, extremamente fraco, mas de todo livre das contracções espasmodicas. Quanto ao primeiro caso a que alludi, não posso esquivar-me ao prazer de reproduzi- lo aqui integralmente na própria linguagem, pittoresca e singela, do decano da cirurgia franceza: « Por efeito do frio e como eu prognosticara, sobreveiu um espasmo ao pobre sol- dado, que se achava deitado em um celleiro, onde não somente dispunha de poucas cobertas mas ainda estava exposto a todos os ventos, sem fogo e outras cousas indispensáveis á vida. Vendo-o em tal estado de espasmo e retracção dos membros, com os dentes serrados, toda a face e os lábios retorcidos e retrahidos, como se quizera rir com riso sardonico,signaes estes manifestos de convulsões, condoído e desejoso de soccorre-lo, na falta de outros recursos conduzi-o para um curral onde havia muito gado e grande quantidade de estrume, collo- quei junto delle dous fogareiros acesos, e friccionei-lhe a nuca, os braços e as pernas com Unimentos antiespasmodicos. Envolvi depois o paciente em umpanno quente, cobri-o de palha secca e metti-o no estrume, dentro do qual esteve sem levantar-se por espaço de três dias e três noites, durante os quaes apparecêrão-lhe ligeiro fluxo de ventre e suor abundante. Entretanto pôde o poente abrir um pomo a boca epermittir-me que lhe introduzisse 4 — 14 — uma cunha de madeira entre os dentes, e que o fosse alimentando com leite e ovos até a sua completa cura. » (*) Ambos estes casos de cura forão puramente devidos ao acaso, meio do qual muita vez se serve a natureza, a verdadeira e sabia mestra do homem, para instrui-lo e indicar- lhe os recursos de que pôde dispor em qualquer emergência, nos momentos de mais ur- gente perigo. Tendo sempre em vista quanto acabo de expor, desde que for chamado a prestar meus auxílios médicos a qualquer tetanico, e que vier na sciencia de que os phe- nomenos atmosphericos de algum modo influirão no desenvolvimento da moléstia, prin- cipiarei por submetter o doente a prolongados banhos de vapor, cuja acção farei cessar unicamente depois da inteira remissão das convulsões. Presentemente existem no com- mercio apparelhos portáteis, apropriados â applicação desses banhos, mesmo no leito do doente; comtudo, visto nem sempre ter o homem clinico ao seu dispor os meios indis- pensáveis, os auxiliares mais necessários nasoccasiões em que trata de minisirar os soc- corros da arte a qualquer infeliz, servir-me-hei sem escrúpulo do meio de que se utilisou Ambrosio Parêo para salvar o seu tetanico, ou dos expedientes que na pratica se empregão sempre que se tem por fim restabelecer ou favorecer o calor exterior e desenvolver a transpiração cutânea. Fournier Pascay recommenda que os banhos tepidos sejão empregados ao mesmo tempo que as sangrias, visto como elles operão topicamente e diminuem a tensão muscu- lar, a rigeza da pelle, e favorecem a diaphoresis, cuja abundância indica uma feliz terminação. O Dr. Chalmers, que igualmente applicava as affusões tepidas, observou que este meio aproveita facilitando mais a deglutição ; porém eonfessa que elle nunca promove a cessação das convulsões, nem mesmo o melhoramento das condições do tetanico. De fei- to, muitos casos funestos confirmão a asserção de Chalmers: sem tocar em outros, so- mente direi que no hospital de S. Luiz os Drs. Berard e Dénonvilliers forão testemunhas da morte de um indivíduo que, sendo acommettido de tetanos após a operação da castra- ção, foi submettido ao uso dos banhos tepidos e expirou mesmo na banheira. No principio do presente século, segundo o Dr. Fabre, empregou-se vantajosamente os banhos quentes compostos de lixivia de cinzas ordinárias e com addicção de uma a duas onças de pedra infernal. Estes banhos promovião uma transpiração copiosa e davão ao doente grande allivio: assim o afflrmão aquelles que os applicárão, e desse numero o Dr. Stultz, que foi o seu inventor, e que apresenta na sua memória intitulada Maniêre nouvelle et süre de guerir le tetanos publicada na Bibliotheca Germânica, tit. VI pag. 127, muitas observações de curas felizes obtidas por meio do emprego desses banhos e do uso interno de carbonato de potassa na dose de dous, três e mesmo quatro drachmas em seis onças de água destinada, a tomar em seis partes no dia. Boyer empregou algumas vezes o methodo de Stultz, e não obteve vantagem al- guma: em dous doentes que elle experimentou esse tratamento teve o desgosto de os ver expirar, não obstante todos os cuidados e cautelas por elle tomados. Assim, não me inspira grande confiança o meio curativo de Stultz. As affusões e banhos frios teem sido igualmente preconisados por vários cirurgiões como excellente meio curativo de tetanos, sempre que a rigidez dos músculos da cabeça e do pescoço é considerável, toda a vez que o pulso mostra-se cheio, e quando afinal se (*) Livro xh, cap. xxxvii : Das contmôei, combustão e gangrenas. — 15 — revelão os indícios de uma congestão na massa encephalica: Bajon, Larrey, Heurte- loup, "Wright e outros applicárão os refrigerantes no intuito de debellar os accidentes tetanicos e colherão resultados mui diversos. Bajon não obteve vantagem alguma do emprego das emborcações frias, ao passo que o Dr. Barrière, que anteriormente áquelle pratico clinicava no mesmo paiz, alcançou com a applicação dellas mui assignalados successos. Heurteloup menciona em seu Tratado sobre o tetanos dos adultos um caso de cura obtido com o auxilio dos refri- gerantes, e o Dr. "Wright, que exercia a cirurgia nas índias Oceidentaes, refere que nesse paiz os banhos frios são mui proveitosos e úteis na debellação do tetanos. Fournier Pescay, tratando desse meio therapeutico, diz o seguinte: « Penso que é vantajoso associar-se aos banhos tepidos as affusões de-água fria á cabeça. Colloca-se o doente no banho, e no fim de um quarto de hora derrama-se-lhe sobre a cabeça um certo numero de barris d'agua fria; por exemplo: de 12 a 25 de seguida: deixando-se então decorrer o espaço de 10 a 20 minutos, recomeça-se a operação; depois do que o doente é conduzido a seu leito. Cumpre entornar a água fria no ápice da cabeça, de maneira que ella escorra por todas as partes : deve-se, porém, ter o cuidado de não a der- ramar do alto: o vaso, contendo um ou dous quartilhos de água fria, deve ser apoiado de leve sobre a cabeça, e convém despeja-la immediatanrente, afim de não prolongar muito a acção do frio e também de deixar o doente respirar. » Fournier Pescay limita-se, porém, tão-sómente a indicar o modo por que se deve empre- gar os banhos frios e os casos em que estes aproveitão : elle nunca os experimentou no tratamento do tetanos, confia nas observações de outros, e por conseqüência neste caso a sua opinião me não merece muito peso. Larrey assevera que jamais obteve proveito algum da applicação dos refrigerantes Quanto ao meu fraco entender, as emborcações e banhos frios nem somente são um meio muito infiel, mas também inconveniente e mesmo funesto na maioria dos casos. Demais, eu acredito, e comigo pensão Berard e Dénonvilliers, que é mais prudente provocar a diaphoresis por outros meios menos violentos; taes são: o chá, a infusão de sabugueiro, de borragem, de tilia, e mesmo a ammooia liquida, etc. Francisco d'Auxèrre empregava eontra o tetanos as bebidas diaphoreticas, e o alcali volátil flúor na dose de doze gottas em seis onças d'agua de cada vez: esta ultima subs- tancia era para d^Auxèrre tanto meio curativo como preservativo ; e, a crer-se nas pala- vras de Fournier Pescay, aquelle cirurgião obtinha sempre bons resultados. Francisco Fournier faz menção de cinco casos de cura obtidos pela administração do chá e de outras bebidas sudorificas: todos esses doentes apresentarão suores abun- dantes, seguidos logo da cessação das convulsões tetanicas. De quanto acabei de expender não concluão os meus- sábios mestres que eu depo- sito plena confiança na efficacia dos diaphoreticos, ou externos ou internos; elles falhão muitas vezes. Alguns dos feridos de Larrey aos quaes me referi quando tratei da etiolo- gia do tetanos, e que succumbirão victimas deste accidente, a despeito da applicação dos banhos frios, tepidos, dos revulsivos, e maxime das bebidas sudorificas, são a prova mais expressiva da fallibilidade destes meios. Fournier obteve algumas curas do tetanos, ministrando aos seus doentes a camphora e o almiscar, associados á infusão de arnicae á água de Luce; cumpre, porém, confessar que estes bons effeitos forão alcançados em casos mui benignos do tetanos: e, pois, ainda o almiscar, a camphora, etc, não me inspirão confiança em sua efficacia. — 16 — Os preparados mercuriaes teem sido administrados algumas vezes com êxitos felizes por alguns práticos. Segundo Maubec, Heurteloup obteve excellente resultado applicando fios untados de unguento mercurial sobre a ferida de um indivíduo acommettido de tetanos conse- qüente a uma amputação da perna : os accidentes cessarão com o apparecimento da salivação. Os Drs. Bonafos, Renault, Young, de Maryland, conforme rezão as obras de Valen- tin, colherão mui valiosas observações sobre as vantagens do emprego das preparações mercuriaes no tratamento da moléstia de que me occupo. Entre ellas faz-se notável a do Dr. Young, que, havendo tentado em vão todos os medicamentos na debellação de um tetanos traumático, soccorreu-se do sublimado corrosivo, do qual ministrou ao seu doen- te uma forte dose: a salivação manifestou-se e o tetanico melhorou: por três vezes a sus- pensão do medicamento foi seguida da reincidência das contracções espasmodicas dos músculos, até que por fim, sendo continuo o uso do sublimado, a cura teve logar. Monteggia obteve igualmente bons effeitos administrando aos seus tetanicos as preparações mercuriaes. Samuel Cooper, tratando desse meio therapeutico, expressa-se do modo seguinte no Edimburgphysical and litterary essais,Xit. III. « O mercúrio tem sido empregado em Franca com a maior vantagem; comtudo, deve-se recorrer a elle no começo da moléstia. São preferí- veis as fricções mercuriaes; estas devem ser levadas ao ponto de produzir viva afeccão na boca: cumpre no entretanto evitar a producção de muita dor e de uma salivação mui abun- dante. Alguns práticos pretendem que pouco importa ser o mercúrio administrado inte- riormente ou em fricções. Todos estão de accordo que é mais vantajoso administra-lo con- junctamente com o ópio. Este modo de tratamento foi pela primeira vez empregado nas índias Occidentaes, onde produziu muito bons efeitos. » Os compostos mercuriaes não são todavia, por maiores que sejão os benefícios que com o seu auxilio teem alcançado alguns práticos, um medicamento por excellencia effi- caz e prompto para sempre vencer os accidentes tetanicos e fazer descansar o cirurgião na esperança de uma terminação feliz dos mesmos: da mesma sorte que a camphora o almiscar e outros meios que até aqui hei apontado, esses compostos aproveitão apenas nos casos benignos e pouco intensos, e, segundo Samuel Cooper, também no período inva- sor da moléstia; da mesma sorte emfim que outros meios, o mercúrio conta revezes e triumphos. Eis as provas: Nos ensaios feitos pelo barão Larrey, no Egypto, as fricções parecerão antes aggra- var do que minorar os symptomas do tetanos. (*) Os Drs. Emery,Guthriee outros cirurgiões militares prescreverão fricções geraes com unguento mercurial em doses excessivas, por três vezes ao dia, e não alcançarão proveito algum. Depois da batalha de Toulouse, um indivíduo que se achava em trata- mento mui rigoroso de umas sarnas foi acommettido de um tetanos fatal, não obstante ter estado em uso das preparações do mercúrio. O subnitrato de mercúrio unido á ipecacuanha não tem igualmente offerecido utili- dade alguma. A digitalis foi empregada por Mac-Gregor: nenhum resultado vantajoso apresentou a sua applicação. [*) Memoire d© Chir. nailit. tomo I pag. 257. Os clysteres de decocção forte do tabaco fornecerão algumas vezes bons effeitosa Obeirn, Anderson, Barton e Rogers. Boyer aconselha as fomentações constantes nos pés e nas pernas. Posto que este meio, com o qual diz Boyer haver obtido algumas curas, apresente inconvenientes meno- res que os dos banhos e possa aproveitar em alguns casos, pouca ou nenhuma fé inspira quanto á efficacia de seus effeitos. Outros muitos methodos de tratamento forão empregados e recommendados por vários práticos; alguns delles são banaes, algum outro mesmo censurável. Taes são: o carbonato de ferro, na dose de uma libra por dia, preconisado por Dehanne e Elliotson ; o vinho da Madeira, por Hosack; a polygala senega, por Barton; a tintura de cantha- ridas, por Brown, do Kentucky; e finalmente a bronchotomia, pelo Dr. Physic, de Philadelphia. Boyer, Berard e Dénonvilliers aconselhão as sangrias do braço e as applicações de sanguesugas: as primeiras quando o tetanico é plethorico e vigoroso, as segundas sempre que ha suppressão de alguma evacuação sangüínea habitual, cujo restabeleci- mento convém ser favorecido no órgão que lhe servia de sede especial. Fournier Pescay, como já eu disse, empregava as emissões sangüíneas, com o au- xilio das quaes conseguiu abortar mais de uma vez vários casos de tetanos inci- piente. No hospital da Pitié o Dr. Lisfranc applicou durante 19 dias successivos 19 sangrias do braço e 772 sanguesugas ao longo da columna vertebral em um indivíduo affectado de tetanos espontâneo: a cura foi obtida. O Dr. Lepelletier alcançou tam- bém felizes resultados empregando em um tetanico cinco sangrias de duas libras no es- paço de dous dias e meio. Não obstante, as emissões sangüíneas não representão um papel muito importante no tratamento dos accidentes tetanicos: além de fallivel, nem sempre é applicavel este meio curativo. Resta-me finalmente fallar do ópio e suas preparações em relação á sua pro- ficLiidade e efficacia na debellação do tetanos. Esta substancia tem sido empregada por todos os cirurgiões, e raro é aqLielle que não conta em sua pratica um ou outro caso de cura obtida com o auxilio da sua acção sedativa e das suas outras propriedades: ella pôde por conseqüência ser considerada com muita razão o me- dicamento mais útil de todos quantos até aqui forão mencionados. As seguintes linhas escriptas por Samuel Cooper, e que vou reproduzir integralmente, bastão para fa- zer a merecida apologia do ópio, e dispensão-me de destmir com phrases toscas e imperfeitas o valor dos encomios que são rigorosamente devidos ao medicamento que mais triumphos tem alcançado sobre um accidente tão terrível qual é por sem du- vida o tetanos. Ei-las: .....é de toda a necessidade que se comece o uso do ópio desde a apparição dos primeiros symptomas, que elle seja dado em mui forte dose, e que a sua administração seja repetida em intervallos pouco afastados, de sorte que a economia esteja constantemente sob a influencia deste medicamento. £' certa- mente para admirar o ver um doente affectado de tetanos supportar a acção deste remédio e de outros que no estado ordinário serião mais que suficientes para ani- quilar todas as propriedades vitaes. Quantidades de ópio que em outros momentos terião sido infallivelmente mortaes são impunemente ingeridas. Citão-se casos nos — 18 — quaes cinco, dez e mesmo vinte grãos de ópio forão tomados com o intervctllo de duas a três horas de uma a outra dose, sem que dahi resultasse narcotismo. £' no en- tretanto sempre prudente começar por doses moderadas, como quarenta ou sessenta gottas de tintura de ópio repetidas de três em três ou de quatro em quatro horas; augmeniar- se-ha a dose em cada administração, até que dahi resulte algum effeito notável.» Emprega-se o ópio internamente, pelo methodo endermico, e em clysteres, se a deglutição é de todo impossível. Neste ultimo caso, para que sejão os clysteres conservados e produzão effeito, devem ser administrados em diminuta quantidade e por varias vezes no dia. O Dr. Lambert faz menção de um caso de tetanos traumático felizmente curado pela applicação do acetato de morpliina endermicamente; e Hyppolito Larrey, filho do celebre cirurgião francez barão Larrey, diz que do seu lado obteve maravilhosos resul- tados administrando o ópio pela epiderme. A tintura de ópio, o extracto gommoso e oLitros de suas preparações conveem mais internamente; a morphina, o acetato e hydrochlorato de morphina são mais úteis empregados endermicamente ; os clysteres, enfim, podem ser feitos tendo por base qualquer composto de ópio. A dose do medicamento deve ser elevada gradual e progressivamente emquanto persistem os accidentes, visto como a experiência tem mostrado que a virtude do ópio é passageira, de curta duração, e que se deve insistir na sua administração mesmo dias depois do desaparecimento completo das contracções tetanicas. No entretanto, visto este medicamento produzir sempre obstinadas constipações de ventre, deve-se combater este inconveniente por meio de laxantes ou de clysteres purgativos. Por estas Liltinias palavras já se pode ver que, se o ópio conta grande numero de partidários e contem propriedades que o tornão precioso no tratamento do tetanos, en- cerra ao mesmo tempo outros tantos inconvenientes dignos da attenção do pratico, qu.e só o deve empregar oll no comer;o da moléstia, ou nos casos da manifestação dos in- dícios do estado dehyposthenia em que se achar o tetanico. O óleo essencial de therebentina é mui geralmente prescripto pelos clínicos do nosso paiz, mormente pelos Srs. Drs. João Evangelista Rangel (já fallecido) e Pereira Rego, cujo tratamento é dirigido do modo seguinte: Ministrando internamente o óleo essencial de therebentina associado ao de ricino, afim de combater a prisão de ventre, o Sr. Dr. Rego auxilia o effeito destes agentes therapeuticos prescrevendo fricções á columna vertebral com as pomadas mercurial e de belladona; em seguida ordena os banhos tepidos, dados com cautela, recommenda a continuação do liso dos óleos de therebentina e ricino até que o doente os repugne ou esteja isento dos contracções espasmodicas dos músculos; e finalmente aconselha a agLia de louro-cerejo administrada em alta dose, se porventura o delirio e outros symp- tomas de congestão para os centros nervosos se revelão. Em certos casos especiaes o Sr. Dr. Pereira Rego emprega igualmente as bebidas nitradas, o tartaro emetico, a san- gria geral, e as sanguesugas na extensão da columna vertebral. A strychnina, o extracto de belladona, o stramonio, a noz vomica, etc, teem sido empregados com vantagem por alguns dos nossos práticos. No entretanto, o meu- illustrado mestre o Exm. Sr. Dr. SoLiza Fontes asseveroLi-me que emquanto não empre- gou o ópio em altas doses perdeu 18 doentes affectados do tetanos traumático, ao passo que desde qu.e começou a ministrar em doses empíricas esse ultimo me- dicamento conseguiu o restabelecimento de 36 tetanicos. 19 — De tudo quanto acabo de expor se deduz : 1», que não ha meio tberapeutico algum efficaz, seguro, enérgico, capaz de vencer o tetanos toda a vez que este accidente attinge o seu auge de intensidade ou que tem de terminar desagradavelmente; 2o, que somente á cabeceira do doente pôde o pratico prescrever os medicamentos mais convenientes á salvação do mesmo. Se a therapeutica do tetanos é muitas vezes impotente, a sua anatomia patho- Iogica não o é menos quando procura descobrir no cadáver as lesões tradutoras ou explicativas dos symptomas manifestados em vida do doente, e de cujo estudo po- deria o pratico deduzir o conhecimento da natureza e da sede dessa affeccão. Em verdade, nada de exacto, de preciso ou bem averiguado apresentão as necropsias so- bre esse assumpto, que até o presente ha sido o objecto das pesquisas para todos os observadores, um verdadeiro campo de lutas infructiferas, e no qual1 todos aquelles que teem empenhado suas armas, se não se retirarão vencidos, ao menos não obti- verão os louros da victoria. Desta sorte, tão adiantado como poderia achar-me na época em que viveu Hippocrates, outro recurso não vejo, forçado a expor o meu mesquinho parecer a respeito de uma questão que não tem podido ser elucidada convenientemente por intelligencias respeitáveis e abalisados práticos, senão repe- tir com Vidal(de Cassis): —A natureza do tetanos refere-se a umia lesão dos nervos cuja essência nos é tão desconhecida como a de quaesquer outras alterações cadarericas de- vidas ás affecções designadas com o nome de nevroses. Quanto á sede do tetanos, posso dizer igualmente que a conheço tanto quanto a sua natureza; no entretanto, valendo-me dos dados anatômicos colhidos nas ne- cropsias feitas pelos autores de maior critério e nomeada, vou procurar demons- trar quaes são os órgãos que mais notáveis alterações offerecem ao exame do ob- servador. Nesta breve revista não deixarei de começar pela autópsia praticada em presença do meu ilLustre professor o Exm. Sr. Dr. M. F. Pereira de Carvalho pelo meu talentoso collega o Sr. Antônio Pinheiro de Ulhôa Cintra no cadáver de Lim doente da sexta enfermaria da Santa Casa da Misericórdia, o qual falleceu (*) victima de um tetanos traumático sequente a um tiro de espingarda que recebeu na região supra- clavicular. Essa autópsia mostrou : as meningeas cerebraes injectadas, as partes do cérebro a ellas subjacentes pontuadas, ao passo que as camadas mais internas desse órgão em seu estado normal; o cerebello amollecido; a medulla espinhal pon- tuada e envolvida pelas suas membranas, evidentemente hyperemiadas; um grão de chumbo encravado no sétimo par cervical, offendendo a este nervo no ponto de cruza mento do quarto e quinto pa-es cervicaes com o oitavo e o primeiro dorsal; o oitavo par cervical denegrido e contuso ; o músculo scaleno em SLia inserção inferior, e bem assim fora delle uma cavidade, formada á custa dos tecidos superiores ao vértice do pulmão esquerdo, cheia de pus, contendo muitos grãos de chumbo, simulando fôrmas diver- sas ; o ápice do pulmão offendido, contendo um bago daquelle mesmo projectil que perfurou a pleura visceral, inflammado, adherente á face interna da cavidade thoracica,. e apresentando além disso os seus lobulos inferiores manifestamente hyperemiados. (*) A 21 de v.go»[o do 1857. — 20 - Larrey insiste sobre a existência de serosidade no rachis; Poggi d'Udine encon. trou a piamater espinhal e os feixes anteriores da medulla fortemente injectados; Bouil- laud observou esses mesmos feixes amollecidos, e o pericardio contendo uma pequena quantidade de pus resultante de uma inflammação local cujos symptomas havião sido mascarados pelos do tetanos durante a vida do doente. As observações de Begin, Trackn, Fournier Pescay, d'Udicelle, Bréard, Monod, Gen- drin, Combette, Dupuytren, Tully e outros muitos hão demonstrado com poucas differen- ças as mesmas lesões; e, pois, para terminar direi que, segundo as complicações da mo- léstia e as circumstancias que precedem ou acompanhão a morte, desordens secundarias mui diversas revelão-se no cadáver. Assim, aqui manifestão-se os vestígios de uma gastro-enterite; alli a injecção do cérebro e serosidade derramada nos ventriculos; além o coração contrahido, molle ou endurecido, o pulmão de ordinário hyperemiado, rubros a garganta e o pharynge; neste outro ponto, emfim, os músculos, contrahidos durante a vida, offerecem quasi sempre, como conseqüência de sua prolongada rigidez, echymoses, injecções e mesmo rasgadu- ras mais ou menos extensas. De tudo quanto acabo de expender infere-se que a sede do tetanos é o systema ner_ voso, sem que até hoje se possa conhecer o ponto especial deste systema onde essa mo- léstia se localisa. Finalisando aqui a minha dissertação, vejo-me partilhado entre dous sentimentos bem oppostos: a satisfação de haver confeccionado, mal ou bem, um trabalho que me conduz â realização dos meus sonhos e dos anhelos de minha família, e o desprazer de não possuir os recursos intellectuaes indispensáveis á elaboração de uma these digna de ser submet- tida á sabia apreciação de meus doutos e distinctos mestres. Sou o primeiro a reconhe- cer que este humilde trabalho é tão imperfeito quanto quem o formou, e que eu, não po- dendo interpretar devidamente os autores cujas obras compulsei para escreve-lo, não soube também exhibir na sua confecção as provas de aproveitamento inherentes a quem por espaço de seis annos ouviu as luminosas doutrinas dos dignos professores desta fa- culdade. Resta-me ao menos a consolação de que jamais faltárão-me a boa vontade e os desejos de offerecer eousa melhor; e de que, se porventura não o pude conseguir, a exiguidade dos meus recursos scientificos, a pequenhez da minha intelligencia, a escassez do tempo, e sobretudo o estado melindroso da minha saúde, serão para a minha justifica- ção, eu o espero, razões mui attendiveis na benevolência dos meus mestres e daquelles que tomarem o incommodo de ler esta dissertação. SEGUNDO PONTO. SECCÃO MEDICA. CADEIRA BE PATHOLOGXA GERAL. Prognostico. I. 0 juizo anticipado que forma o pratico a respeito das alterações supervenientes no decurso de qualquer moléstia é em pathoiogia geral denominado prognostico. II. A sciencia do prognostico distingue o homem da arte do homem vulgar. Um prognos- tico bem feito grangêa ao medico a confiança do doente e dos circumstantes. III. O prognostico não consiste apenas em annunciar que tal ou tal moléstia será o li não fatal. IV. A arte do prognostico é mais difficil que a do diagnostico. V. O habito exterior é uma origem de signaes prognósticos mui valiosos. VI. A rigidez dos membros, os sobresaltos, o tremor, a carphologia e as convulsões epileptiformes denuncião ordinariamente a imminencia de uma terminação funesta. VIL A intensidade das dores e as diversas alterações dos sentidos nem sempre fornecem signaes prognósticos valiosos relativamente á gravidade da moléstia no decurso da qual se declarão. As paixões tristes, salvo se o indivíduo é hypocondriaco,e a indifferença absoluta são presagios sinistros nas moléstias. O valor do somno, como signal prognostico de qualquer moléstia, depende da inten- sidade dos symptomas da mesma. 6 - 22 — X. O appetite voraz que se apresenta durante o período de acuidade ou de chronicidade de qualquer moléstia, e bem assim a sede viva que sobrevem a um indivíduo apparen- temente bem disposto, são signaes prognósticos importantes. XI. A hydrophobia, a dysphagia, e a impossibilidade de deglutir nas moléstias cere- braes e outras, são indícios de funesto presagio. XII. As náuseas continuas no decurso de certas moléstias agudas, e a diarrhéa quando é tenaz e acompanhada de evacuações líquidas e copiosas, são fontes de um prognostico bastante grave. XIII. A respiração apresenta signaes prognósticos de immenso valor. XIV. Os dados fornecidos pelos escarros merecem muita attenção no prognostico. XV. O pulso nas affecções agudas, o resfriamento das extremidades, os calefrios irregulares e a suppressão das seccreções naturaes, supervenientes no decurso ou em época avan- çada de qualquer moléstia, são signaes prognósticos preciosos. XVI. O estado das forças é de muita valia para o prognostico. XVII. O aspecto das feridas é uma fonte valiosa de indícios prognostieos. TERCEIRO PONTO. SECCÃO CIRÚRGICA. CLINICA EXTERNA. Bleniiorrhagia uretral. jp» 3EK. «n» ^a» mm ass jbc «r^ óO» e: s»» _ I. A blennorrhagia uretral é uma espécie de inflammação da mucosa uretral do ho- mem de ordinário superveniente a um coito impuro, ou excessivo, caracterisada quasi sempre por uma seccreção mais ou menos abundante de mucus purulento. II. A principal complicação da blennorhagia é a cordée. III. O volume do penis, a largura do meáto ourinario, o hypospadias, a idade, o tempera- mento, etc, são causas predisponentes da blennorrhagia uretral. IV. A copula impura, excessiva, a masturbação, o contacto dos lochios, do fluxo mens- trual, do ichor canceroso, etc, as injecções irritantes, o catheterismo forçado e a passagem de um calculo pela uretra são causas determinantes da blennorrhagia. V. Qualquer ponto da mucosa uretral pôde servir de sede á moléstia. VI. O período de incubação da blennorrhagia uretral é mui variável. VII. Pequeno apparato febril, peso no perineo, crispações nas virilhas, sensação no ex- tremo da uretra de um prurido que se torna em viva dôr durante a micção, resudação nesse conducto de um producto análogo ao mucus nasal, que mana ao principio cau- sando certo allivio e mesmo prazer ao doente; taes são os symptomas em geral denun- ciantes da invasão blennorrhagica. VIII. A intumescencia do meáto ourinario, a sensação penosa de queimadura na uretra du- — 24 — rante a emissão da ourina, o augmento de violência das dores, que com a inflammação da uretra se propagão até a próstata, as erecções freqüentes, seguidas ás vezes de dolo- rosas ejaculações, a dysuria e mesmo strangurias, etc, são os principaes symptomas do período inflammatorio. IX. O mucus purulento varia de aspecto e composição, de côr e densidade: branco turvo, cremoso ao principio, torna-se depois amarello, verde amarellado, e mesmo sangui- nolento. X. O período agudo da blennorrhagia é incerto em sua duração. XI. A menor freqüência das erecções, a diminuição das dores na micção e da quantidade do mucus pus, que empallidesce e adquire a elasticidade e consistência do mucus,annun- cião o período de declinação, mesmo a terminação feliz da moléstia. XII. O diagnostico da blennorrhagia uretral não é difficil; o seu prognostico depende da sua sede. XIII. Durante a phlogosis da affeccão o tratamento abortivo pelo methodo das injecções irritantes quasi nunca é proveitoso. XIV. As emissões sangüíneas geraes e locaes, as bebidas nitradas, calmantes, etc, conveeni muito no período inflammatorio da blennorrhagia uretral, sendo sempre o seu emprego regulado pelo gráo de intensidade da moléstia. XV. A cubeba e a copahyba aproveitão muito mais no período de declinação. XVI. As unções, no trajecto da uretra, das pomadas mercurial e de belladona, as appli- cações feitas sobre o penis, o escroto e o perineo, com pannos molhados em água fria laudanisada, em aguardente, óleos camphorados, etc, teem aproveitado muitas vezes no período agudo da blennorrhagia. XVII. As injecções adstringentes moderadas são vantajosas no período de declinação. XVIII. Um regimen hygienico severo deve ser observado até mesmo dias depois da completa desapparição da blennorrhagia uretral. QUARTO PONTO. SECCÃO ACCESSORIA. CADEIRA DE CHIMICA. Tratar chimicamcnte do arsênico c do ácido arscnioso. 0 arsênico (As) é um metalloide de côr parda mui brilhante, análoga á do aço, alte- ravel ao contacto do ar, quebradiço, solido â temperatura ordinária. II. O arsênico é insoluvel na água, facilmente reductivel a pó, insipido e de textura or- dinariamente crystallina. III. Na temperatura ordinária é inodoro; aquescido ao rubro ou lançado sobre carvões ar- dentes, o arsênico desprende um cheiro alliaceo característico. IV. Obtem-se a fusão do arsênico aquescendo-o em um tubo metallico fechado nas suas extremidades. V. Aos 300° de temperatura o arsênico se volatilisa e seus vapores condensão-se em crystaes octaedricos. VI. O arsênico une-se ao enxofre e fôrma cinco compostos, dos quaes só o rosalgar (AsS2) e o ouro-pimente (AsS3) são interessantes. VII. O chloro absorve o arsênico desprendendo calor e luz, e dá logar á formação do chlo- rureto de arsênico (AsCls.) O iodo e o bromo combinão com o arsênico emittindo luz e calor, IX. O phosphoro aquecido com o arsênico em pó, ao abrigo do ar, fornece um phospho- reto brilhante, quebradiço, facilmente decomponivel pelo ar ou pelo oxigeno em alta temperatura. 7 — 26 — X. O arsênico decompõe a água a 100.° XI. O ácido nitrico a quente transforma o arsênico em ácido arsênico e arsenioso. XII. O arsênico une-se ao oxigeno em três proporções. XIII. O ácido arsenioso (As03), arsênico branco, mort aux rats, oxydo branco de arsênico, é solido, pulverulento, de aspecto analcgo ao do assucar branco refinado, mui venenoso, de um sabor acre e nauseante. XIV. Lançado sobre carvões acesos o ácido arsenioso desprende o cheiro alliaceo. XV. As fôrmas isomericas do ácido arsenioso são devidas ao modo por que se procede ã sua distillação. XVI. Aquecido em vaso fechado o ácido arsenioso se condensa. XVII. O ácido arsenioso é solúvel na água fervendo, mui solúvel na ammonia, solubilissimo no ácido hydrochlorico. XVIII. Os corpos ávidos de oxigeno reduzem facilmente o ácido arsenioso. XIX. O soluto aqLioso do ácido arsenioso precipita: em branco (CaO, As 03) pelo excesso da água de cal; em verde (CuO, As 03) pelo sulphato de cobre ammoniacal; em amarello pallido (AgO, As 03) pelo nitrato de prata ammoniacal. XX. O ácido sulphydrico liquido ou gazozo determina na solução aquosa do ácido arse- nioso um precipitado (As Sõ) amarello, floconoso, completamente solúvel na ammonia, com descolorisação do liquido, e reapparecendo pelo ácido chlorhydrico. XXI. O arsênico e o ácido arsenioso são em geral obtidos pela ustulação dos mineraes do cobalto e estanho. IIHI0KPAT0Y2 A$0PI2M0I. 'Eç os tò. £ vwriaícp , [/.ueXco to Ss 6£0[JLÒV , or^ÉXiixov. [TpuAac. i. Acpop. 18..] 'E>x£<7i tò [xèv ^xpòv 3axvwo£ç, S£p|xa rapi<70x)a]ptjv£i , ôSúvp àvexTOviTOV toiIs , peWvsi, pfyea" iwpsTW&a iroi&t, enraffjiwwç xal tetccvouç. [T^fxa. e'. Acpop. 20.] 'Oxoaa cpáp[xaxa oux ííjTat, atòvipoç tvjxai • osa <7ÍSr)poç oôx 'wJTOti, mlp írJTar oca & rcup írprai, Tauxa ypví voixíçscv àvtaxa. [T[xy)fta. 6'. Acpop. 87]. íÇp7do~CoRKEio Mercantil de M. Barreto, Filhos & Octaviano, rua da Quitanda n. Esta these está conforme os estatutos. Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1859. Dr. Antônio Correia de Souza Costa. Dr. José Maria de Noronha Feital. Dr. Francisco Pinheiro Guimarães.