Esta these está conforme aos Estatutos. Rio de Janeiro 1." de Novembro de 1847. 1 t Dr. João José de Carvalho. „/# pás sCTo^c^&P' e~-^ t^-/^a c/l< cryd/; r*4-# '0t€*VÍr*4S{ 7— *—?-—« ■ - / A ) ) DjIMlffilâ^A,® ACERCA DA iJIOUÉA OU DANSA DE S. GUIDO. DISSERTAÇÃO ACERCA DA CHORÉA OU DAMA DE S. GUIDO. Que foi apresentada a' Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e tuttentada em 16 de Dezembro de 1846 lottntljo pmtra Jttacljaito, Filho legitimo de João Luiz Pereira., natural da Província do Rio de Janeiro; DOUTOR EM MEDICINA PELA MESMA FACULDADE. Flomincs ad Deos nulla t* proprius accedunt «juam hominibua salutera dando. Cm. RIO DE JANEIRO TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE LAEMMERT, Rua do Lavradio, 53. FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO, 11 ai| $i ii i. -------- DIREGTOR. O St. CorselheieoDr. JOSÉ MARTINS da CRUZ JOBIM. LENTES PROPRIETÁRIOS. Os Sbs. Doctobbs : 1.° Anno. F. »b P. CÂNDIDO.............. Physica Medica. F. F. ALLEMÃO, Examinador.......j """j" Medka' * prÍnCÍf>ÍOÍ element«» d< i Zoologia. 2.° Anmo. Ghymica Medica, e princípios elementares de J. V. TORRES HOMEM, Examinador. . Mineralogia J. M. NUNES GARCIA........... Anatomia geral e descriptiva. 3.° Anuo. J. M. NUNES GARCIA............ Anatomia geral e descriptiva. L. de A. P. da CUNHA........... Physiologia. 4.° Anuo. L. F. FERREIRA............... Pathologia externa. J. J. da SILVA................ Pathologia interna. * , .r,. x,,,., r,~ í Pharmacia, Matéria Medica, especialmente a J. J. de CARVALHO.............{ . \ | Brasileira, Therapeutica e Arte de formular. 5.° Ani»o. C. B. MONTEIRO.............. Operações, Anatomia topographica e Apparelhos. i- i vitrirn r> •, . Ç Partos, Moléstias de mulheres pejadas e paridas, F. J. XAVIER, Presidente........../ r ' r 1 e de meninos recém-nascidos. 6.» Anuo. T. O. oos SANTOS.............. Hygiene e Historia de Medicina. J. M. da C. JOBIM.............. Medicina Legal. 2.» ao 4.» M. F. P. de CARVALHO..... Clinica externa e Anat. Pathologica respectiva. 5.' ao 6.° M. de V. P1MENTEL....... Clinica interna e Anat. Pathologica respectiva. LENTES SUBSTITUTOS. A. M. de MIRANDA e CASTRO......) _ r. r. t»^í-iti» douidc r. • j » Secção das Sciencias accessorias. F. G. da ROCHA FREIRE, Examinador. ' 3. B. da ROSA, Examinador A. F. MARTINS....... D. M. de A. AMERICANO. L. da C. FEIJO'....... \ Sccção Medica. j Secção Cirúrgica. SECRETARIO. De. LUIZ CARLOS da FONSECA. A". B. A Faculdade nãu approva, nem reprova as opiniões emittidas nas Theset que lhe são apresentadas. A MEU PRESADO PAE E MEU MELIIOR AMIGO (D Sv. 3oão ííxí) pereira, Á MINHA EXTREMOSA E ADORADA MÃE % Sta. O. Jgnacio Jtlaria it %tsas. Senhores.— Desejara neste momento solemne de minha existência poder fallar a linguagem dos Anjos, que a dos homens exprimir não pôde os diversos e multiplicados sentimentos , que ora predominão no*meu coração; mas não! vós, que me conheceis, vós, que fostes filhos, me haveis de comprehender!. .. . Nem a trabalhos, nem a sacrifícios vos poupasles, Senhores, e mais do que podieis, fizestes para me assegurar huma posição honrosa na sociedade, e me tornar assim digno dos homens. Vós o conseguistes : preenchidos estão os vossos mais ardentes desejos. Permitti pois, ó meus queridos Pais, que, como exigua prova de amor filial, e de minha eterna gratidão por tantos benefícios, vos dedique hoje o primeiro frueto de minhas lucubrações, que eu vos rogo, acceiteis, abençoando O vosso obediente e dedicado filho JACINTHO. AOS MEUS QUERIDOS IRMÃOS, IRMÃS, E PRIMOS, E EM PARTICULAR AOS MEUS IRMÃOS, E MEUS ÍNTIMOS AMIGOS OS SEHHORES Sosé itladjabcr pereira t Antônio Jíladjaíio pereira. Sincera prova da fraternal amizade que vos consagro. Ã MINHA ESTIMAVEL MADRINHA H 311.m" Sm. BI. 5lnna Kosci íia donteiçOo, Á MINHA QUERIDA TIA a 311."' Sro. H). 2lnna Kosa lia donciiçao, filfja. Forçado a viver longe do lár paterno, em vós, Senhoras, encontrei sempre aquelle mesmo agasalho, carinho e desvélos, que huma Mãe sôe prodigalisar a seus filhos; com vossos conselho» bem soubestes dirigir meus mal seguros passos no caminho da honra e da virtude, c se hoje occupo huma posição honrosa na sociedade, a vós em grande parte o devo. . .. Hum desinteresse qual o vosso, tantos benefícios sobre mim derramados por vossas prolectoras mãos, jamais esquecerei: eu vos prometlo eterna gratidão guardar em meu peito, e já que nada tenho a ofTcr- tar-vos, além de hum coração agradecido, consenti que vos dedique o primeiro fructo de meus trabalhos litterarios, para o qual tanto concorrestes. A INDELÉVEL MEMÓRIA DO MEU PRESADO AVÔ E PADRINHO CG) %x. dapitito Joaquim Cuij pereira, DA MINHA NUNCA ASSAZ CHORADA TIA % Ôra. JD. ^rcljangela Jttaria òa (tfonceiçõo, E DO MEU ESTIMAVEL TIO E BOM AMIGO (D Sr. ^ranciBeo Hunes íie Jttenironça. Huma lagrima de dor e de saudade 1 -------rai>»|ici A MINHA MUITO RESPEITÁVEL E PRESADA AVÓ 21 Sva. ?D. iltaria fíernarira ire 3tsns. Não vos contentastes, Senhora, com os privilégios de Avó; como a mais terna e desvelada Mãe soubestes enraizar em meu coração amor que só a eUa devera; acalentastes-me no choro da minha infância, e o vosso collo foi o leito do meu dormir infantil: oh! quanto vos devo e de quanto sois digna I . . . . Eu ancioso aguardava este momento solemne para, offerecendo-vos o fructo primeiro de minhas fadigas escolares, dar-vos huma provado quanto vos sou grato. Acceitai pois, ó minha querida Avó, a mesquinha offerta deste meu imperfeito trabalho, como o penhor de minha gratidão e eterna amizade; e abençoai 0 vosso obediente e affectuoso neto. AO MEU CARO TIO, MEU PADRINHO, E MEU VERDADEIRO AMIGO, © 8x. loflo Jílacrjalro ttmtes, In freta dum fluvii current, dum montibus umbrse Lustrabunt convexa, polus dum sidera pascet, Semper honos, nomenque tuum, laudes que manebunt; Quae me cum que vocant terrae......... Vinc A TODOS OS MEUS PARENTES MATERNOS, E COM ESPECIALIDADE AO MEU PRESADO TIO E VALIOSO AMIGO (D 0r. $r. Sebastião Ülacrjabo tlmtes. Permitti, que, inscrevendo o vosso nome na frente de minha These, eu vos dê hum testemu- nho publico de respeito, e de acatamento devido ás vossas virtudes, e huma limitada prova da eterna gratidão, sympathia e amizade que vos consagro. A TODOS OS MEUS PARENTES PATERNOS, E COM ESPECIALIDADE AOS MEUS TIOS E MEUS AMIGOS DO CORAÇÃO ©0 Srs. $l)otna? £iú) pereira e Jranciaco Cui? Pereira. Pequena, porém sincera prova de minha gratidão e eterna amizade. AO ILL.™° E EX.m0 SR. TENENTE-GENERAL 3osé Soaqnim ire Cima e Sitoa, Dipnissimo Membro do Conselho d'Estado, Conselheiro de Guerra, condecorado com varias ordens, &c, &c. Dignai-vos, Senhor, de acceilar este opusculo, como humsignal, se bem que mesquinho da alta consideração, estima, e da eterna gratidão que vos tributo. >*Jx^»»^=»- AO MEU PRESTIMOSO AMIGO E COLLEGA (D JU.mo fír. íDr. Joaquim iílarianno ò^eueòo Soares, E A SUA RESPEITÁVEL FAMÍLIA. Sincero testemunho de amizade, gratidão e sympathi;i. ■ „_s»atni^4»^L-3» AO MEU AMIGO E COLLEGA 3U.mo 8x. JDr. Sosé Cuij be (Earüatljo 5ouja íllontetro. Signal de estima e amizade. '»*>&>*•< AO MEU ESTIMAVEL AMIGO © 311.mo 0r. 3ost Bento %ives, E Á SUA PRESADA FAMÍLIA. Expressão ingênua de cordial amizade, e eterno reconhecimento. AO ILL.rao SR. 3osé 2lpollinar ire Jflattos, ftlrjo, E À SUA ESTIMAVEL FAMÍLIA. Testemunho de merecida amizade e gratidão. AOS MEUS RESPEITÁVEIS MESTRES E AMIGOS OS ILL. SRS. }3ai>re ^Igostinljo 3osé ira ôihm, t loão ire Castro e Siloa. Tributo de respeito, amizade e gratidão. «-s^g^#>g-» AO MEU ILLUSTRADO MESTRE E AMIGO © 111.™ 5r. 2Pr. Jxanústo Mio Xaoier. Homenagem de respeito e gratidão ao aaber e ao mérito. AOS DIGNÍSSIMOS PROFESSORES DA ESCOLA DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO, E PARTICULARMENTE OS ILL.m0* SENHORES DOUTORES Joaquim José da Silva, José Mauricio Nunes Garcia, José Bento da Rosa, Manoel de Valladão Pimentel, Francisco Freire Allemão, Luiz da Cunha Feijó, Cândido Borges Monteiro, Manoel Feliciano Pereira de Carvalho. Homenagem de respeito c reconhecimento. A TODOS OS MEUS AMIGOS, E ESPECIALMENTE OS ILL.mM SRS. Dr. Marcelino Pereira da Silva Manoel, Joaquim de Sá Gharem, Sebastião Vieira do Nascimento Júnior, Francisco Claro Ribeiro, Saturnino de Souza e Oliveira Júnior. Lembrança do vosso amigo e collega. A TODOS OS MEUS COLLEGAS E COMPANHEIROS DE ESTUDO, EM PARTICULAR AOS MEUS ÍNTIMOS AMIGOS , OS ILL.m0' SRS. DUS. Cândido Teixeira da Cunha, Francisco de Menezes Dias da Cruz, Frederico João Ormerod, João d Oliveira Fausto, João Fernandes da Costa Thibáu, José Marianno da Silva, José Joaquim Monteiro dos Santos, Luiz d'Almeida Brandão, Manoel Maria de Moraes e Valle, Manoel José da Costa Pires, Salathiel de Andrade Braga, Vicente de Andrada Araújo. Testemunho de sincera amizade e ternas recordações. AO MEU PREDILECTO AMIGO E COMPANHEIRO DA INFÂNCIA O 111.mo Sr. Dr. Henrique José de Mattos. Meu caro Collega! » Além de hum coração mais nada tenho; • Mas dou-vos coração constante e grato. JACI1YTBO PEREIRA MACHADO ^t-p StSSERíâfA® ACERCA DA CHORÉA OU DANSA DE S. GUIDO. nome de saltalio sancti-Piti, e refere que as pessoas assaltadas d'esta nevrose, acreditando-se accommettidas do espirito maligno, ião com o fim de buscar remédio aos seus males , dansar á maneira dos individuos affectados do taren- lismo, em uma capella rural dedicada a um saneio chamado S. \Vitt pelos Allemães, e S. Guy pelos Francezes ; d'onde provém o nome de dansa de S. Guido, que se deo a esta affecção. Achando curiosa a origem do nome dansa de S. Guido, dado a esta moléstia singular, seja nos permiltido insistir ainda sobre ella , expondo o que a respeito ciizem os escriptores que da matéria tratarão; e então veremos a maneira pela qual era considerada esta nevrose n'esses tempos de barbaria, de fanatismo e superstição, em que para explical-a se recorria a uma causa praeternatural. {*) Vêm de duas palavras gregas que signiíicâo — perna , e desordem. — 3 — Assim pertendem alguns authores que no fim do 14.° século, e no principio do 15.°, sendo a choréa endêmica na Bélgica, e acontecendo ser d'ella affec- tado S. Guido, foi a este sancto erigida aquella capella em Zobern, perto de Ulm, na Suabia. Cada anno em o mez de Maio os habitantes para alli se di- ngião em peregrinação a celebrarem a morte do sancto, e invocarem sua in- tercessão para com a Divindade, afim de que ella os curasse, ou preservasse da moléstia que elles encaravão como o producto de potências infernaes, ou o resultado de sortilegios e malefícios. Conta-se que elles dansavão durante nove dias e nove noites até perderem os sentidos, esperando com este exercício alcançar o restabelecimento da saúde. Sydcnham faz menção da affluencia de povo para aquella capella, onde pessoas de ambos os sexos vinhão em dia determinado saltar e dansar de uma maneira extravagante e fanática. Todavia a historia d'este sancto é assaz obscura, e M. Hecker, professor na Universidade de Ber- lim , em a sua interessante e erudita obra sobre as epidemias da choréa na idade media, nos diz que S. Guido era um joven Sciciliano que partilhou o mar- lyrio de Modestus e Crescentia no reinado de Diocleciano; que elle, antes de entregar o pescoço ao algoz, supplicára a Deos a graça de preservar da choréa a todos aquelles que celebrassem o anniversario da sua morte, e que depois d'esta supplica se ouvira uma voz do céo pronunciar estas palavras : « Guido, tu serás attcndido. » No século actual é desnecessário provar que a choréa não é o resultado de sortilegios nem de malefícios; todavia esta opinião foi por muito tempo, como acabamos de ver, geralmente admittida: todas as medicações erão dirigidas segundo esta indicação, e a cura dos choréicos estava abandonada aos padres, que supponhão poder obtêl-a por meio de exorcismos. Paracelso foi o primeiro que imaginou recorrer a algum meio therapeutico; ao mesmo tempo porém prescrevia os jejuns, uma disciplina severa, as mor- tificações , os banhos frios, &c.; recommendava também que se buscasse uma pequena imagem de cera, e n'ella se estampasse mentalmente todos os peccados do doente, devendo depois ser ella queimada. Tal era a idéa falsa que Para- celso formava d'esta moléstia! iN'esses séculos de ignorância e de superstição, nem os mesmos homens que por seu gênio, pelos seus talentos se elevavão acima do vulgo, ficavão isentos da cegueira geral; por isso não é de admirar que elles tivessem laes opiniões a respeito d'esta, e de muitas outras moléstias nervosas. É assim que Sennerti, chamando a esta aíTecção sallus-Viti, julga poder ella ser em alguns casos pro- duzida pelo demônio, e em outros simulada por alguns individuos « gratia col- ligendimajores eleemosynas » porém que as mais das vezes provem de uma causa natural, isto é, da presença de um humor maligno, como acontece na hydro- — A — phobia, no tarentismo, &c. Parece-nos porém que Sennerti está injustamente collocado entre os que suppoem a choréa produzida por potências infernaes, seguindo n'esta parte o prejuízo d'esses tempos. Verdade é que elle fallando da dansa de S. Guido, diz (*) : « Subesse quoque vim interdum superiorem et a daemone, talia Deo permittente proficisci credibile est; mas immediatamenle de- pois accrescenta: impossibile tamem etiam non est a naturali causa ha:c symptoma provenire et facilius hoc credit qui ea leget qua de tarentulce morsu scribit Matliio- lus, etc. Comeffeito, depois de ter referido os singulares effeitos que são attri- buidos á mordedura da tarentula, Sennerti conclue assim : >< Hoc itaque si de morsis a tarentula accidit, non absurdum est Viti-chorèam, quce non parvam cum hoc affectu similitudinem habere videtur, etiam a naturali causa ortum habere posse. Não é portanto evidente que Sennerti só admittia as causas oceultas por condescendência ás superstições do seu século, e que sua intenção secreta era, ao contrario, combatel-as? Não é assim que tem procedido todos os espíritos superiores dos séculos 16.° e 17.°, e o mesmo Descartes? Façamos pois justiça a Sennerti; não calumniemos os mestres da sciencia! Byron , medico do duque de Saboya (Carlos II.°), em Sua obra publicada em 1560, faz também menção d'esta moléstia debaixo do nome de disposição saltante dos membros (saltuosa membrorum dispositio). Parece, segundo a narração de alguns historiadores, que a choréa reinou al- gumas vezes epidemicamenle. Assim os soldados de Germanicus, ao dizer de Plinio, contrahirão a scelotyrbe sobre as margens do Rheno; mas certos au- thores «creditão que Plinio com este nome quiz antes designar uma moléstia escorbutica. Na verdade a descripção especial que o historiador romano faz da scelotyrbe que assolou o exercito de Germanicus, e o uso da cochlearia que elle aconselha para a combater, também nos fazem crer, ao menos, que Plinio e Galeno chamarão scelotyrbe duas affecções inteiramente differentcs. Mézeray diz que a choréa também reinou epidemicamente na Hollanda em 1373. Cullen cita também uma epidemia choreica que diz elle ter apparecido em certa província da Allemanha (**). Recentemente M. Hecker aponta em sua obra (Histoire de Ia Chorée épidémique) muitas epidemias d'esta aíFecção, e attri- bue à choréa as dansas regulares dos Choribantes e dos Sacerdotes Salicos, as de S. João da idade media, o tarentismo; &c., &c. Suppôr isto, diz M. Bla- che, é levar muito longe a analogia. Até aos pobres Saint-Simonianos M. Hec- ker considera como choréicos por causa de algumas das suas opiniões sobre a dansa e sobre a musica. (*) Sennerti Opera omnia, t. 3.°, p. 427. (**) Elém. de Méd. prat., t. 2.°, p. 636. _ 5 — Taes são as principaes noções que os antigos authores nos transmittirão á cerca da choréa; mas convém remontarmo-nos á época do illustre Sydenham, que foi o primeiro que bem a observou e descreveo com mão de mestre, de- nominando-a — choréa Sancú-Vili. Mais tarde Cullen, Baillie, Wight, Mead, Dotwers, Fothergill na Inglaterra; Felix Plater, Dehaen e muitos outros na Allemanha, também apresentarão sobre esta affecção descripções, mais ou me- nos exactas, e é nos escriptos d'estes sábios que colhemos os primeiros conhe- cimentos verdadeiramente médicos sobre sua etiologia e tratamento. Esta singular nevrose, diz Mr. Musset, não attrahio senão mais tarde a alten- ção dos médicos francezes, pois foi somente no principio d'este século que elles começarão a observal-a; até então elles não a conhecião senão de nome, e tão pouco havia merecido ser objecto de suas indagações, que Lieutaud, primeiro Medico de Luiz XV, chegou até a negar a sua existência. Eis-aqui a maneira por que elle se exprime a tal respeito: «Jene dois pas oublier une autre espèce de convulsions encore plus singulicre, qui fait danser et cabrioler les malades; on Vappelle choréa Sancti-Fiti, ou Danse de Saint Guy; elle est familière aux fanatiques et aux enthousiastes. II ny a pas longtemps quelle se montra au milieu de Paris, et elle y serait encore si les ordres du Boi ne 1'avaient fait cesser , car elle est plus du ressort de lapolice que de Ia médecine. » Si é exacto o que diz Lieutaud, como o devemos acreditar, seria mui commodo, convém confessar, curar as moléstias por meio de edictos reaes; mas desgraçadamente não é assim! Deve- mos lastimar, diz ainda Mr. Musset, que um homem tão distincto como Lieu- taud cahisse em um erro tão grosseiro! Muitos médicos se occupárã:> depois e tratarão d'esta affecção de uma maneira mais conforme com o estado actual da sciencia, quer nas monographias, quer nas obras geraes de pathologia; mas o trabalho mais completo, e ao mesmo tempo mais exacto que se tem es- cripto sobre a choréa, é o Tratado ou Monographia publicada em 1810 pelo Dr. Bouteille; é o melhor que possuímos sobre este objecto, e o que mais attrahio a attenção dos práticos francezes. O author divide a choréa em três espécies: 1.° choréa essencial (choréa protopatica) , que não é nem o symptoma, nem o effeito de nenhuma outra moléstia; 2.° choréa secundaria (choréa deuteropa- tica), que succede a uma ou outra moléstia como seu effeito; 3.° choréa falsa (choréapseudopalica), que, sendo muito differente da choréa propriamente dita, comtudo apresenta alguma de suas formas. O simples enunciado d'esta divisão basta para sua refutação. Paracelso também distinguio três espécies de dansa de S. Guido: a \..", segundo elle, tem sua origem na imaginação, e por isso a denomina choréa imaginativa; a 2.' depende de desejos sensuaes voluntários, choréa lasciva; a 3.a provém de causas corporaes, choréa naturalis, coacta, que é, segundo o parecer d'este 2 — 6 — author, devida á excitação do sangue pelos espíritos vitaes. Não é de admirai que Paracelso apresentasse uma classificação tal a respeito da choréa, altentas as idéias extravagantes que elle tinha acerca d'esta nevrose. Sauvages admilte cinco espécies de scelotyrbe: 1." scelotyrbe choréa-viti; 2." scelotyrbe festinans ; 3.a scelotyrbe instabilis; U*a scelotyrbe intermittens; 5." scelo- tyrbe verminosa, segundo os symptomas predominantes e as causas prováveis do desenvolvimento d'esta moléstia, de maneira que, a ser admissível a classi- ficação de Sauvages, poderíamos também formar maior numero de espécies, sendo tão diversas as causas e tão variáveis os symptomas d'esta affecção; mas no estado actual da sciencia sendo isto absurdo, claro fica que não podemos admittir tal classificação. Mr. Rufz, em uma memória interessante, publicada em 1834, acerca da choréa observada no Hospital des enfans, a divide cm geral e parcial. Na choréa geral todos os músculos do corpo são acommettidos de contracções spasmo- dicas; na parcial contrahem-se somente os músculos de um membro, ou de uma parte do corpo. Esta divisão, adoptada pela maior parte dos authores modernos, é a melhor, ou ao menos a que está mais em relação com os factos, com os phenomenos observados: é também a que adoptamos. Talvez que os antigos a não tenhão preferido a todas as outras, porque não conhecião senão a choréa parcial, ou, o que é mais provável, porque não tinhão bem obser- vado os factos. Esta moléstia teve ainda differentes nomes: assim Preysinger a denomina— scelotyrbe pituitosa; Linnaeo, Cullen, Vogel, choréa; Ploucquet, Swediaur, bal- lismus ; Chaussier, myotirbia; Good , synclonus choréa; Young, clonus choréa, epilepsia saltaloria. Outros authores considerando esta affecção como uma espé- cie de alienação mental, como um desejo insensato , um furor de dansar, ainda a designarão com os nomes seguintes: dansomania, choreomania, orchestroma- nia, &c. Nós, de accordo com o que existe de mais moderno na nomenclatura medica, lhe conservamos o mesmo nome com que actualmente a designão os pathologistas, deplorando que os diversos trabalhos até hoje publicados acerca da choréa nenhum esclarecimento nos tenhão fornecido sobre a natureza intima, nem mesmo sobre a verdadeira sede da lesão interna por onde podessemos explicar satisfactoriamente os phenomenos observados; do que muito se ressente a therapeutica especial d'esta nevrose; porquanto, o empirismo, e só o empi- rismo, como logo o veremos, tem quasi sempre guiado os práticos no trata- mento da dansa de S. Guido. Pelo que temos expendido, facilmente se vê que o conhecimento das nevroses até o fim do século XVI só offerecia duvidas e incertezas, pois que não pro- vindo elle da anatomia, pathologica, que então começava de ser cultivada, s* bazeava apenas em meras conjecturas sobre alguns factos mal averiguados; não havia nenhuma classificação, e nem tão pouco se conhecia o caracter dis- tinctivo de cada uma d'estas moléstias, de maneira que foi fácil confundir-se a choréa com a epilepsia, esta com a hysteria, ou com a hypocondria, &c. No principio do século XVII apparecendo Cullen, foi elle o primeiro que debaixo da denominação de nevrose comprehendeo um certo numero de affec- ções dos nervos; sua classificação foi igualmente adoptada até 1799, época em que Pinei, estudando melhor estas moléstias, dividio-as em duas classes; col- locando na primeira aquellas que dependem da inflammação ou de uma alte- ração qualquer na struetura dos nervos; reunindo na segunda aquellas que não são accompanhadas de nenhuma alteração especial d'estes órgãos; ás primeiras elle chamou nevralgias, e ás segundas nevroses. N'esta classe nós compre- hendemos a choréa, porque a autópsia ainda não demonstrou nenhuma alte- ração da parte dos nervos. Aqui terminamos a parte histórica do nosso traba- lho , certo de que deixamos muito a desejar. Passemos agora a tratar das causas, dos symptomas, e do tratamento da choréa; e conforme nossas fracas forças o permittirem, faremos muito em geral algumas considerações sobre a sede e natureza prováveis d'esta moléstia singular, e para este fim invocaremos o auxilio dos práticos que melhor estu- darão a matéria, já que não temos observações próprias em que nos baseemos. ETIOLOGIA. Ü desenvolvimento da choréa, como o de quasi todas as moléstias, suppõe o concurso de duas ordens de causas; 1.° predisponentes, ou aquellas que não determinando por si mesmas a moléstia, para ella todavia contribuem consti- tuindo a predisposição, ou a aptidão do organismo a contrahil-a; 2.° determi- nantes , ou aquellas que obrão directamente sobre a parle que é a verdadeira sede da moléstia, ou desenvolvendo-se espontaneamente, ou sendo transmittidas accidentalmenle. Na choréa, como em todas as affecções nervosas, não podemos deixar de reconhecer um estado de predisposição, que deve ser bem estudado, e analysado, pois de sua apreciação tiramos preciosas indicações, senão para uma therapeutica racional, ao menos para a boa escolha dos meios prophy- lacticos. Causas predisponentes. Entre estas causas, as mais favoráveis ao desenvolvi- — 8 — mento da dansa de S. Guido, admittidas por quasi todos os authores, são ordinariamente: a infância, a puberdade, o sexo feminino, o temperamento nervoso, a herança, o clima, a temperatura, e finalmente as estações. Entremos em algumas considerações a este respeito. A infância é a idade em que a choréa tem sido mais freqüentemente obser- vada. Assim o Dr. Prichard cita o caso de uma criança que soffreo d'esta moléstia desde o seu nascimento; Mr. Constant observou um joven choréico em quem esta affecção se manifestou no quarto mez de sua idade. Mr. DuffossO falia de um outro que foi acommettido de choréa logo no começo do terceiro anno de sua vida: mas taes exemplos são raros; a choréa quasi nunca sobrevem nos primeiros annos da vida, e a grande maioria dos authores não nos fazem d'ella menção. A dansa de S. Guido se mostra mais commumente da segunda dentição â puberdade ; parece mesmo affectar uma espécie de predilecção para esse período da nossa existência; não se conclua d'aqui porém, que ella seja como quer Sydenham o apanágio exclusivo da infância, por quanto outros práticos a tem observado em quasi todas as idades; por exemplo, Rostan refere o facto de uma mulher que na idade de cincoenta annos suecumbira a esta affecção; podemos pois dizer que em rigor nenhuma idade está inteiramente izenta de soffrer insultos choréicos. Segundo Mr. Rufe, esta moléstia ataca os individuos de ambos os sexos desde a idade de seis até quinze annos; e segundo Sydenham e Bouteille, os de dez a quatorze. Todos os choréicos do hospital de Edim- burgo, áexcepção de duas meninas, uma de cinco, e outra de seis, tinhão mais de nove annos, e a maior parte entre nove e quinze; só duas meninas havião já passado os vinte e um. Por uma estatística publicada por Mr. Rufz, vê-se que o numero das choréicas recebido no Hospital dos innocentes desde 1824, até 1833, é superior ao dos choréicos; assim de 189 individuos affectados de choréa, pertencião ao sexo masculino somente 51, sendo os mais do sexo opposto. Ainda que, segundo a opinião de Rufz e outros, esta moléstia não seja nem mui rara nem mui commum na infância, todavia não podemos deixar de dar-lhe grande importância, como causa predisponente da choréa, tanto mais quanto sabemos que n'esta idade predominando o systema nervoso , este torna-se então mui susceptível de ser perturbado no exercício de suas funeções, resultando d'ahi que a acção da menor causa bastará para o desenvolvimento da choréa em um indivíduo assim organisado. Emfim damos tanto maior importância á infância como causa predisponente da dansa de S. Guido, quanto vemos que na grande maioria dos casos esta affecção consiste antes em simplices desarranjos func- cionaes do systema nervoso, do que em lesões maleriaes, como mostraremos em logar competente. — 9 — A puberdade é, depois da infância, a época da vida a mais favorável á invasão da choréa, maximè no bello sexo: uma existência insólita e toda nova se annuncia então para as moças puberes, e sabemos quanto sua saúde é muitas vezes compromettida, e mesmo alterada n'essa época. A virgindade lambem muito contribue para o desenvolvimento d'esta affecção, maximè quando a joven é dominada pelo vicio da masturbação, ou quando perdido tem a espe- rança de achar um marido, vendo que as flores que viçosas desabrocharão na primavera de seus dias, vão sendo esmagadas uma por uma pela pesada mão do tempo. O restabelecimento da primeira menstruação, a amennor- rhea, a dismenorrhea, as difficuldades inhorentes á passagem da infância â puberdade, são circumstancias que também devemos considerar como causas predisponentes da choréa; em apoio do que avançamos muitos exemplos poderíamos citar tirados das observações de Bouteille, Rufz e outros, mas os estreitos limites de uma these não o permittem. Se é na infância e puberdade onde observamos maior numero de choréicos . não é rnenck verdade que a idade adulta não é izenta : tem-se visto a choréa sobrevir aos vinte e dous annos e aos quarenta; a velhice mesma tem sido algumas vezes victima, e a este respeito alguns authores apresentão exemplos que confirmão esta nossa asserção, e por isso os vamos referir. Assim Mr. Rostan cita o caso de que já falíamos, de uma mulher que suecum- bira a esta affecção na idade de cincoenta annos; Sauvages falia também de uma mulher sexagenária que soffria d'esta moléstia; Mr. Coste affirma ter vislo um professor de Astronomia, que na idade de sessenta annos fora assaltado da dansa de S. Guido em conseqüência de um violento susto. Bouteille nos refere um outro exemplo que tem por objecto uma senhora octogenária; taes exemplos, porém, são raros em comparação aos numerosos casos de jovens choréicos, que vem mencionados nas observações dos diversos práticos, que tem escripto sobre o objecto que nos oecupa, e que se achão consignados nas diversas gazetas médicas. Todos os autores são concordes em reconhecer a freqüência da choréa nas jovens. Sobre 39 observações colhidas por Bouteille , trinta e duas pertencião a individuos do sexo feminino: sobre os 189 casos de choréa observados no Hospital dos innocentes por Mr. Rufz, cento e trinta c oito erão meninas: d'estes e outros factos, estes authores concluem que as meninas são mais predispostas que os rapazes a contrahirem a choréa, dadas as mesmas circumstancias, no que nós também concordamos. Do que fica dito, vê-se que a dansa de S. Guido não poupa sexo, nem idade; mas ainda que ella possa se manifestar em todas as idades, sexos, &c., parece todavia buscar de preferencia os individuos nervosos, irritaveis, delicados, de 3 — 10 — cavidades thoracicas e abdominaes pouco desenvolvidas, que apresentão emfim todos os caracteres do temperamento nervoso. Com effeito este temperamento é o que mais predispõe o organismo para o desenvolvimento de moléstias do gênero da que nos occupa. Em geral caprichosos e precoces, os meninos assim ' constituídos tem grande tendência ás convulsões; apresentão uma delicadeza extrema dos sentidos, uma sensibilidade exquisita; seus movimentos são vivos o precipitados, sua physionomia é de uma mobilidade extraordinária. Se a tudo isto ajunlarmos uma vida sedentária, uma educação molle e effeminada, o abuso dos prazeres e bebidas alcoólicas, dos alimentos e bebidas estimulantes. o uso quotidiano do chá e do café, o onanismo, &c. , veremos então a que ;j;ráo não se elevará em taes individuos a predisposição para esta moléstia. Além d'eslas causas os authores apontão a hereditariedade também como uma predisposição ; e em particular o Dr. Elliotson assegura-nos ter tido muitas occasiões de observar choréa hereditária: ora isto posto que não esteja verificado a respeito da choréa, comtudo nós não temos nenhuma repugnância em adoptar, porque assim como herdamos a physionomia de nossos pães, seu caracter, seus costumes e mesmo sua intelligencia, também herdamos disposições para nas mesmas circumstancias adquirirmos as moléstias de que elles forão victimas; e n'isto todos os aulhores estão concordes, pois não é raro ver-se filhos de pães phthisicos, escrophulosos, &c, morrerem das mesmas enfermidades; por conseguinte, uma mulher que tiver sido victima de accessos repetidos da choréa, e por muito tempo, vindo a ter filhos, estes podem herdar estas disposições, para nas mesmas circumstancias, e mais facilmente, serem attacados da mesma moléstia; o que ninguém terá duvida de admittir, si se lembrar que muitas vezes as perturbações determinadas por um accidente qualquer na economia durante a prenhez, se communicão ao produclo da concepção, como poderíamosTeferir exemplos tirados da historia. Dada por tanto esta explicação, admittiremos choréas hereditárias, islo é, que os filhos nascendo recebem de seus pães, não o germen do mal, como pertendem alguns authores, mas sim a mesma organisação; além disto práticos de grande peso, e que nos devem merecer toda a fé, apresentão factos d'esla ordem, e que vamos referir. Assim Mr. Coste diz, ter observado em 1826, no Hospital da Caridade, uma choréica de 16 annos de idade, cuja mãe asseve- rou-lhe ter soffrido da dansa de S. Guido n'esta mesma idade. Lm outro caso é referido pelo Dr. Young, um terceiro por Mr. Constant. Richter falia-nos também de uma menina que fora acommettida de choréa na idade de quinze annos, época em que a mãe suecumbira affectada da mesma moléstia: Dethar- ding apresenta igualmente alguns factos em favor da hereditariedade, como uma predisposição para a dansa de S. Guido. — 11 — Tem-se observado que esta moléstia era mais freqüente no estio, do que em outra qualquer estação ; e os mezes mais quentes do anno, Junho e Agosto, erão também os mais favoráveis ao desenvolvimento da ehoréa; ora, isto quanto á Europa, mas entre nós existindo uma primavera quasi continua, não podemos 1'f-m determinar a época do anno mais própria para o desenvolvimento d'est» nevrose. Spangenberg em sua these acerca da choréa, já havia feito a mesma observação. MM." Rufz, Dugés e Blache, também tiverão occasião de observar este facto no Hospital dos innocentes em Pariz. Todavia a opinião geral dos practicos francezes, é que a dansa de S. Guido só tem existido, e existe ainda nos climas frios e temperados, sendo mui rara nos climas quentes, e quasi desconhecida no meio dia da Europa. Entre estes practicos nós citaremos: Mr. Dariste que diz jamais observara um só caso de choréa durante trinta annos, que praticou na Martinica; Mr. Rochoux que também afíirma nunca ter observado, durante o tempo que esteve na Guadelupe, e da mesma sorte Mr. Chervin, que percorreo todas as Antilhas: Mr. Dugés suppõe a humidade uma condição favorável ao desenvolvimento d'esta moléstia, c por isso, diz elle, a choréa é mais vezes observada nos habitantes do littoral, do que nos do continente, onde a temperatura é igual, e o ar secco. A' vista pois da opinião d'estes practicos francezes que affirmão nunca terem observado a dansa de S. Guido na zona torrida, vem a propósito citar- mos não menos de três casos de choréa , que no anno passado vimos no Hospital da Misericórdia d'esta corte, afora muitos outros que sem duvida terão existido, e passado desappercebidos no mundo medico, por terem talvez merecido pouca attenção dos nossos practicos; d'estes três casos só mencio- naremos um que é o mais importante. Era um moço de vinte e cinco annos pouco mais ou menos, que em princípios do anno passado fora recebido na enfermaria de medicina, dirigida então pelo Sr. Dr. de Simoni; o doente entrou para o hospital, affectado de choréa bem caracterisada: os músculos dos membros superiores , do pescoço e da face, se achavão agitados por movi- mentos desordenados e rápidos , sobretudo as palpebras, que estavão em continuas agitações; de maneira que o doente fazia tregeitos, caretas, con- torsões as mais extravagantes: elle respondia com acerto ás questões que lhe erão dirigidas, mas gaguejando, balbuciando apenas. Este doente esteve por muito tempo na enfermaria submettido a um tratamento longo e variado; obteve melhoras consideráveis com o uso do valerianato de zinco, e parecia marchar para o seu completo restabelecimento: n'este estado o deixámos, ". relirámo-nos para fora da cidade; quando voltamos, soubemos, que um uiez depois elle succumbira perfeitamente alienado. E assim perdemos este facto importante para o nosso trabalho. — 12 — Causas determinantes. Como todas as nevroses, a choréa pôde sobrevir sem causa conhecida; todavia no maior numero de casos estas causas podem ser apreciadas: o terror, o susto é a que as mais das vezes a produz; é uma das mais freqüentemente invocadas pelos doentes, e mais geralmente admittidas pelos médicos, como causa occasional a mais commum do desenvolvimento d'esta affecção. Dupuytren partilhava também esta opinião, e julgava que esta mesma causa é a que quasi sempre determina o reapparecimento da moléstia. Entre os numerosos exemplos de choréa que este celebre practico nos apresenta em apoio de sua opinião, apenas citaremos os dois seguintes: dois meninos , aliás bem constituídos, assistião em uma festa publica a um fogo de artificio; estavão imprudentemente collocados muito perto do theatro, e durante o espectaculo davão repetidas demonstrações de um vivo terror. No dia seguinte um foi subitamente acommettido de choréa, e o outro pouco tempo depois foi tam- bém assaltado da mesma moléstia, com a differença que n'este ella se desen- volveo gradualmente. Outro facto: uma menina apenas com quinze annos de idade estava a cozer no seu quarto, quando um individuo embriagado se apresenta diante d'ella com as partes sexuaes descobertas, e em estado de erecção : summamente atterrada, a menina foge, porém de tal sorte assustada que sentio-se logo indisposta e aborrecida; apparecerão-lhe calefrios, estremeci- mentos , febre com cephalalgia, e logo depois a choréa , cujos primeiros symp- tomas se manifestarão primeiramente nos braços e na língua (*). Mr. Andral vio um homem de quarenta e quatro annos tornar-se chroréico em conse- qüência do terror que elle experimentara, vendo os estrangeiros no solo francez. Mr. Guersent pensa sem duvida com muita justeza, que não é o medo que causa a choréa, mas sim que é a disposição de cada individuo para contrahir esta moléstia que os torna, sobretudo as crianças, mui fáceis de se atterrarem. Depois do susto ou o terror, as causas mais freqüentes da choréa são: as commoções moraes vivas, as grandes dores, as contrariedades, os màos trata- mentos, uma profunda tristeza, a alegria immoderada, a cholera, o ciúme , o amor desgraçado, os excessos venereos, o onanismo, as fortes contensões do espirito, maximè na mocidade. Segundo Hand, a odontophya muitas vezes também produz a choréa: Mullier e Monro dizem tel-a observado muitas vezes em adultos por occasião do appa- recimento dos grossos molares. Os desarranjos da menstruação, a sua suppressão, o attrito, e a inflammação das partes sexuaes, os desejos venereos, &c., são outras tantas causas, que os authores apontão como capazes de em certas (*) Lancette française, 1833, T. v\\, pag. 72, Clinique de Mr. Dupuytren. — 13 - circumstancias darem logar ao desenvolvimento da dansa de S. Guido. Em uni caso, a choréa sobrevem em uma mulher grávida que a tinha tido na sua inocidade: a moléstia durou todo o tempo da gravidez, que se terminou seis inezes depois pelo aborto; a choréa também desappareceo logo. Em outra mu- lher pejada de alguns mezes a choréa foi occasionada pela vista de um accesso de epilepsia; o parlo teve logar a termo, mas a moléstia persistio. Sauvages c Evcrard fallão também de um pintor aílectado d'esla nevrose, provavelmente occasionada pelas emanações dos sáes de chumbo. Alguns authores ainda dão como causas determinantes d'esla moléstia, as suppressões do suor dos pés, do sedenho, de um caulerio; a repercussão de algumas moléstias de pelle, como dartros, &c.; a cura mui prompta de uma ulcera antiga, o abuso dos licores alcoólicos, as irregularidades, ou o penoso estabelecimento dos cala- menios, uma abundante hemorrhagia nasal, o embaraço gástrico, &c. Emfim tudo quanto é capaz de perturbar, excilar, super-excitar, e mesmo irritar o systema nervoso , podemos dar como causas, que, dadas certas circumstancias, podem determinar a choréa. Mr. Guersent vio muitas vezes esta moléstia se manifestar conseculivamente ás gastro-enteriles, contra as quaes muito se tinha abusado dos meios debilitantes; Mr. Blache a vio manifestar-se em um seu irmão depois de uma febre typhoide, que havia durado muito tempo. Outr'ora dava-se lambem muita importância à presença dos vermes intestinaes como causa determinante da choréa. Assim Stahl e Gaubius pensavão que esla affecção era quasi sempre devida á presença de vermes no tubo intestinal; mas os factos desmentem esta opinião. Nenhum dos doentes observados por Mr. Rufz v Blache (segundo elles affirmão), lançou vermes; em outros não choréi- cos, pelo contrario tem-se achado ascarides lombricoides em quantidade pro- digiosa. Em um caso os vermifugos havião determinado a expulsão de um grande numero de vermes, entretanto nenhuma diminuição notou-se nos symptomas choréicos: em outros casos a choréa tem cedido ao emprego dos anthelminlicos, sem que se tenha obtido a evacuação dos vermes que se sup- punha entertel-a. Todavia em um individuo nervoso e irritavel é muito provável que a presença de um grande numero de vermes contribua muito para o appa- recimento da moléstia. Georget diz tel-a observado consecutivamente a attaques de epilepsia e hys- leria. O Dr. Elliotson refere o caso de um individuo, em quem se manifestou a choréa logo depois de se ler fechado subitamente uma ulcera que elle tinha em uma perna (*). Uma dòr viva, uma inflammação tem algumas vezes sido sufficienle para produzir esta moléstia, como provão alguns factos referidos " l/iincette française (loco citato.) 4 — ia — pelos práticos : assim ella tem sido observada em conseqüência de feridas d»>s membros superiores ou inferiores, de um rheumalismo, &.c. As feridas e con- tusões sobre a cabeça, e a columna vertebral, tem lambem dado nascimento á choréa, como se vê de alguns exemplos referidos por Bouteille. A hysteria e a epilepsia são ora causas, ora effeitos da choréa, e parecem alternar com ella: a affecção nervosa, diz Mr. Musset, não faz então senão mudar de fôrma. Quasi todos os authores dão também a imitação como causa determinante da choréa, maximè nas crianças: e em seu apoio elles apresentão casos de individuos, em quem só a vista de movimentos choréicos, de accessos epilép- ticos, tem sido sufliciente para produzir n'elles a dansa de S. Guido. Mas pro- vavelmente esta causa obra aqui determinando um terror súbito, e então vem a ser o susto, e não a imitação, que produzio a moléstia: além d'isto não com- prehendemos como se possa avançar que um individuo contrahio por imitação uma moléstia, só porque elle a recebeo olhando para outro individuo affectado da mesma moléstia, sem ler, por assim dizer, arremedado o doente, cuja mo- léstia elle acabou de contrahir (dando-se á palavra imitação a sua verdadeira significação). Segundo Cullen a reunião de um grande numero de choréicos pôde dar occasião ao desenvolvimento d'esta moléstia. Mr. Albers cita uma epidemia de choréa, que durante dois mezes grassou em um collegio de me- ninos, e que só deixou de se propagar quando se fechou o estabelecimento. Dorfmueller diz, que cm uma mesma casa entre quatro irmãs, todas robuslas e bem constituídas, tendo a primeira 13 annos, a segunda 9, a terceira 6, e a ultima 15 semanas de idade, as três primeiras forão em uma mesma época suecessivamente acommettidas de choréa; que uma prima d'estas meninas com 19 annos de idade, passando, havia algum tempo, a maior parte do dia na mesma casa, fora também affectada da mesma moléstia; que o mesmo suecedera a duas criadas, uma de 19 e a outra de 23 annos de idade; que além d'islo morava na casa um parente já bastante velho, o qual desde muilo tempo soffria de convulsões; que emfini o pae das meninas também padecia de cerla moléstia convulsiva. Muitos outros factos análogos se achão consignados nas diversas gazetas médicas, e com elles estes authores pertendem mostrar a importância da imilação como causa determinante da choréa; nós porém limi- ta mo-nos apenas aos que acabamos de referir, pois se fossemos a mencionar todos, transporíamos muito os limites de uma these. Em nossa fraca opinião cremos que estes exemplos de choréa, desenvolvida em muitos individuos reu- nidos, provão a existência de uma outra influencia, diversa da imitação , isto é de uma espécie de contagio nervoso (permitta-se-nos a expressão); e é sem duvida por esta maneira que explicaremos as epidemias de choréa da idade media, referidas por authores que nos devem merecer inteira fé. Entretanto — 15 — não queremos com isto negar a possibilidade do facto; pelo contrario con- cordamos, e admittimos mesmo que em muitos casos a dansa de S. Guido uóde ser occasionada por imitação; por quanto se não lemos factos bem averi- guados que o comprovem, comtudo sabemos a facilidade com que algumas pessoas, especialmente as mulheres e as crianças, contrahem por imitação certas affecções nervosas. Taes são as principaes causas da dansa de S. Guido. SYMPTOMATOLOGIA. Os individuos ameaçados d'esta nevrose, especialmente as crianças, começão de ordinário por experimentarem uma indisposição geral, cephalalgia, entor- pecimentos, formigações nos membros, e manifesta exaltação da sensibilidade; estes individuos tornão-se então mui susceptiveis, irritão-se, e assustão-se por qualquer cousa; ora alegres, ora tristes, elles riem-se e chorão alterna- tivamente; volúveis, passão rapidamente de uma idéa a outra, e não podem-se entregar a occupações serias; sentem fortes palpitações, e estão em uma continua emoção, queixão-se de dores no estômago accompanhadas de náuseas, e ás vezes de vômitos: seu somno, as mais das vezes agitado, é inter- rompido por sonhos aterradores. Em alguns meninos seus movimentos são mais vivos, mais impetuosos, do que de costume; algumas vezes mesmo observa-se n'elles um não sei que de extravagante, de singular, que ordi- nariamente se attribue á sua vivacidade, mas que de certo não illudirâ ao medico experiente, que tomando o estado d'esses individuos já como o prelúdio de uma affecção nervosa imminente, irá dispondo os meios para o combate. Desgraçadamente porém nem sempre assim succede, nem sempre a moléstia vem precedida de signaes precursores; no maior numero de casos ella se declara bruscamente depois de um susto, ou sob a influencia de uma causa qualquer capaz de a produzir, e então o apparato de symptomas que caraclerizão a choréa se manifesta logo em toda a sua intensidade, como se vê das numerosas observações de que abundão os annaes da sciencia. Ence- temos pois a descripção d'esta nevrose, procurando expor com clareza e exactidão os diversos symptomas que a caracterisão: tarefa por sem duvida árdua , e superior ás nossas forças! Depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, a choréa começa a — 16 — se manifestar primeiramente por pequenos movimentos convulsivos, que, limi- tados durante muitos dias em alguns músculos isolados, na face, no pescoço, em um braço, em uma perna, são a principio fracos, e semelhantes a um ligeiro tremor; logo depois estes movimentos tornão-se mais pronunciados, consistindo em sacudidelas bruscas e desordenadas, ora fracas, ora fortes, guardando entre si intervallos de repouso mui desiguaes c indefiniveis. Não se pôde fazer parar taes movimentos comprimindo os músculos: elles são in- teiramente involuntários. Os movimentos voluntários, ainda que possíveis, leni comtudo já perdido muito da sua força e da sua precisão. Assim os dedos não podem mais apertar tão fortemente como d'antes, e deixão escapar os objectos que lhes são apresentados. Esta irregularidade, esta nenhuma uniformidade no modo pelo qual um choréico aperta entre seus dedos os objectos, é consi- derada por Mr. Duffossé como um symptoma característico d'esta affecção no seu começo. Os svmptomas mais apparentes e conslanles da choréa são os que resullão das desordens musculares: estas são geraes ou parciaes. No primeiro caso os membros, o tronco, a face, e emfim todo o corpo, são agitados por movi- mentos irregulares e quasi contínuos; no segundo os movimentos são, como dissemos, limitados na face, no pescoço, ou somente em um dos membros. No começo da moléstia observa-se algumas vezes espécies de conlracções musculares mais ou menos fortes, e uma mudança nolavel na altitude dos doentes; de taes contracções resultão ás vezes tregeitos, pequenos movimentos convulsivos dos músculos da face, que á primeira vista parecerião voluntá- rios , c darião assim logar a que os meninos fossem reprehendidos pelas pessoas que os cereão, como já tem acontecido. Quando a moléstia oecupa os bra- ços , estes membros são levados em mil sentidos diversos; os doentes não os podem dirigir a um fim determinado, resultando d'aqui as gesticulações as mais burlescas. A invasão da choréa nem sempre é lenta e graduada, como dissemos; no maior numero de casos ella póde-se effectuar repentinamente, e os symp- tomas adquirirem logo intensidade notável, como acontece depois de um vivo terror. Estes movimentos insólitos tendo sua sede no tronco e nos mem- bros, podem oecupar todos os músculos, tanto os da vida orgânica, como os da vida animal; podem ser geraes ou parciaes, e existir em uma só metade do corpo, constituindo o que se chama hemichoréa. Georget pensa que n'este caso a dansa de S. Guido pôde depender de uma affecção orgânica, desen- volvida no hemispheria. cerebral do lado opposto; mas nenhum facto este aulhor apresenta em apoio d'esta sua opinião. Todos os práticos concordão em que o lado esquerdo é mais vezes affectado que o lado direito. Mr. Dugès — 17 — é o único de uma opinião contraria (*). Sobre trinta casos por Mr. Rufz e Blache observados, dez vezes a choréa oecupava os membros esquerdos, três vezes os membros direitos, quatro vezes o braço esquerdo, uma só vez o direito ; dezeseis vezes a moléstia era geral, e n'este caso os movimentos erao mais pronunciados á esquerda do que á direita: elles acerescentão que nunca tiverão occasião de ver esta moléstia circumscripta aos membros infe- riores: circumstancia esta a que estes authores dão muita importância para estabelecerem a diíferença entre a choréa e as affecções encephalicas, onde (como na apoplexia, no amollescimento, &c.,) a paralvsia dos membros infe- riores é mais freqüente e mais persistente. Voeltge citado por Baumes, obser- vou casos em que a dansa de S. Guido era cruzada, isto é, oecupava v. g. o braço esquerdo e a perna direita; mas á excepção d'este nenhum dos autho- res que consultámos falia de factos análogos. Tendo Sydenham sido o primeiro que encarou a choréa debaixo de um ponto de vista verdadeiramente medico, e que d'ella nos deixou uma des- cripção que tem servido de modelo aos authores que lhe succederão, nós julgamos conveniente reproduzi-la aqui: « A choréa, diz este profundo obser- « vador, é uma espécie de convulsão a que estão sujeitos os meninos de um « e outro sexo desde a idade de dez a quatorze annos. Ella se manifesta por « uma sorle de claudicação, ou antes não stabilidade de uma ou de outra « perna, de maneira que o doente anda á maneira dos idiotas. A mão do « lado da perna affectada o é também, e sendo applicada sobre o peito, « ou sobre outra qualquer parte do corpo, não pôde ahi permanecer fixa, « ainda que momentaneamente: arrastada, impellida por um movimento « involuntário ella muda logo de posição, qualquer que seja o esforço que « faça o doente para o impedir: E se este quer, por exemplo, levar um copo « á boca para beber, não o pôde fazer directamente, mas só depois de mil « gesticulações, á maneira dos histriões: emfim o acaso fazendo-lhe encontrar « a boca, elle despeja o copo rapidamente, e de um só trago engole o liquido « como se elle quizesse fazer rir os espectadores (**). » A descripção traçada por Sydenham póde-se applicar a um bom numero de casos particulares; mas enganar-se-hia completamente quem julgasse repre- sentar ella todas as fôrmas de que é susceptível a choréa; fôrmas infinita- mente variadas segundo que a desordem muscular é mais ou menos pronun- ciada , e que occupa maior ou menor numero de parles. Com effeito não são somente os membros os que n'esta moléstia apresentão as contorsões as mais (*) Essai physiologique pathologique sur Ia nature de Ia fièvre, &c. T. u, pag. 475. '*) Sydenham, opera omnia, T. i, pag. 361. 5 — 18 — extravagantes, as agitações as mais singulares, as diversas divisões da face também podem em muitos casos offerecer semelhantes alterações, dando assim logar á mímica a mais ridícula, bem como aos saltos, pulos, piroctas, ou gesti- culações as mais extraordinárias, segundo que estas aberrações do movimento oecupão os membros superiores ou inferiores. Os movimentos do pescoço, e consequentemente os da cabeça, apresentão em alguns individuos as mesmas irregularidades, que os das parles que acabamos de mencionar. Os movimentos da língua, bem como os da larynge, não estão isenlos de taes irregularidades ou desordens, como logo o veremos: e d'aqui nascem phenomenos particulares, taes como uma certa difliculdade no exercício da voz e da palavra, a gagueira, gargalhadas sem motivos, &c., &c. Emfim só percorrendo as numerosas observações particulares de choréa é que se poderá fazer uma idéa mais ou menos justa das diversas fôrmas de que é susceptível esta espécie de loucura muscular (folie musculaire), como se exprime Mr. Bouil- laud (*). Para sermos mais methodicos estudaremos os movimentos choréicos nas differentes regiões do corpo. Cabeça e pescoço. Difficil é senão impossível, imaginar-se uma physionomia mais movei e mais singular quando a affecção occupa a face. Os lábios se allongão e se encurtão, passão e repassão sobre o cortante dos dentes; são puxados para a direita ou para a esquerda; dir-se-hia que os meninos (vic- timas mais freqüentes d'esta terrível moléstia) ora affectáo um riso sardonico, ora apresentão ares de quem quer chorar. As azas do nariz se contrahem e se relaxão successivamenle; o mesmo acontece às palpebras, que se abrem e sefechão alternativamente com grande rapidez; os olhos em continuo movi- mento de rotação parecem querer desviarem-se de um para outro ponto de sua orbita. Os supercilios, a pelle da fronte, o couro cabelludo se abaixâo e se elevão; se approximão e se affastão com extraordinária rapidez: o pes- coço toma mil direcções diversas. A cabeça é então levada para diante ou para traz, para a esquerda ou para a direita; emfim não nos é possivei apre- sentar uma descripção exacta de todas estas diversidades de symptomas de que são susceptíveis os choréicos: só vendo um doente é que se poderá fazer uma idéa approximada da variedade e singularidade dos movimentos invo- luntários. Lingua e larynge. Quando os músculos d'estes órgãos são affectados, nota-se maior ou menor difliculdade no exercício da palavra e da voz. Esta torna-se rouca e discordante; a lingua escapa-se da boca com velocidade, entra da (*) Dicc. de Ch. Med., art. Choréa, T. v, pag. 265. — 19 — mesma sorte para de novo sahir; algumas vezes chega a tocar o paladar com força, e faz então ouvir-se um ruido comparável ao latido, ou atro de um cão. Certos doentes gaguejão, balbucião, pronuncião diíficilmente, e ás vezes ficão reduzidos ao estado de não poderem articular uma só palavra. O Dr. Ferrari refere um caso d'esta nevrose com perda da linguagem articular; o doente objecto d'esta observação, não podia articular som algum, e se o fazia era apenas balbuciando. Mr. Blache diz ter observado dous casos análogos, um dos quaes tinha por objecto uma menina de oito a nove annos, em quem os movi- mentos choréicos limitavão-se aos músculos da larynge. Pharynge. A deglutição pôde ser embaraçada em conseqüência das fortes contracções involuntárias dos músculos da pharynge, e não se fazer senão á custa de penosos esforços, tornando-se algumas vezes mesmo impossível. 0 diaphragma, os músculos abdominaes e intercostaes podem igualmente parti- cipar d'esta extraordinária mobilidade, e produzir assim grande difliculdade na respiração. São também muitíssimas vezes affectados de taes desordens a bexiga e o recto, assim como todos os músculos da vida orgânica, e d'ahi resulta maior ou menor perturbação nas funeções d'estes órgãos. Membros superiores. Quando são os braços os órgãos affectados, estes se movem em todos os sentidos para cima e para baixo, para diante e para traz: a adducção e a abducção, a pronação e a supinação se suecedem então com tal rapidez, que todos estes movimentos parecem o effeito de impulsões eslra- nhas ao systema muscular; poder-se-ia mui bem comparar estes doentes a certos bonecos com que as crianças brincão fazendo-os mover por meio de um barbanle. Eslas contracções musculares são de tal sorte desordenadas, os músculos adquirem às vezes uma mobilidade tal, que os doentes não podem pegar em um objecto qualquer, senão depois de um grande numero de rodeios, e de mil hesitações. Elles tornão-se incapazes de exercerem qualquer oecupação manual, como coser, escrever, desenhar, &c.; e mesmo ficão impossibilitados de tomarem alimentos, necessitando então que outrem lhes faça chegar à boca as substancias necessárias á sua existência. Quando os doentes tentão tocar um objecto qualquer, não o podem fazer senão depois de uma suecessão de con- tracções, das quaes umas voluntárias, tendem a approximar, outras involun- tárias a affastal-os d'esse objecto. Se querem beber, approximão muito perto da boca o copo cheio do liquido que elles appetecem; mas, novo Tantalo, no momento de tocar o copo com os lábios, os músculos flexores, ou extensores do anle-braço contrahem-se, e a mão é assim immediatamente desviada mo- vendo-se para a direita, para a esquerda, ou mesmo para traz. Victimas de laes contrariedades quantas afilicções e soffrimentos não experimentão então estes desgraçados!.... Se por um acaso, ou antes, se depois de muitos esforços, — 20 — elles conseguem levar o copo á boca, então engolem o liquido rapidamente, e de um só trago, impellidos pelo temor de verem o braço ainda desviado por essa força a que elles não podem resistir. Membros inferiores. Os movimentos desordenados que apresentão estas partes são também tão extraordinários como os que acabámos de notar nas extremi- dades superiores. Assim os membros inferiores conlinuamenle agitados não podem permanecer em repouso; dirigidos para dianle e para traz, para dentro e para fora, conservão-se em perfeita rotação. Se a choréa existe só de um lado, o doente, para dar um passo puxa para si o membro affectado; e a perna correspondente descreve então um semi-circulo, arrastando-a o doente, como se essa perna fosse mais longa do que a outra. Algumas vezes o choréico arrasta a perna á maneira dos idiotas, como diz Sydenham, isto é, coxeando, e sem consciência dos movimentos que executa: alguns doentes não podem caminhar seguindo uma linha recta; por quanto depois de terem elles dado alguns passos, sobrovem uma forte contracção no membro affectado, que é então desviado para um lado, parecendo á primeira vista que o doente escor- regou. Estes symptomas se observão quando, como dissemos, um só lado se acha affectado; mas quando são ambos lesados, o andar do choréico é então mais singular. A titubeação , a pouca firmeza da perna sobre que elle se apoia, as sacudidelas bruscas da que elle move para diante, e que muitas vezes embaraça-se com a oulra, tornão a progressão do doente mal segura, e aos saltinhos. Na estação os doentes collocão ordinariamente os pés e as- pernas como para fazerem passos de dansa; ou antes são as contracções involuntárias dos músculos d'essas partes que obrigão os pobres doentes a guardarem essa posição. Outras vezes os choréicos não podem andar senão correndo, facto este que fez sem duvida Sauvages designar esta affecção debaixo do nome de scelo- tyrbe festinans: elle acredita que esta espécie de choréa não ataca senão as pessoas avançadas em idade e refere dous exemplos em favor d'esta sua maneira de pensar. Tem-se observado casos de choréa, em que os doentes andando ou antes cambaleando sobre suas pernas, vião-se obrigados a pararem sem o que- rerem ; depois davão de repente muitos passos precipitados, como quem receava alguma cousa , ou pisava sobre um terreno coberto de formigas. Em certos casos finalmente quando a choréa chegou ao seu maximum de intensidade, toda a progressão é impossível, e o doente se vê forçado a guardar o leito. Tronco. Ainda aqui observa-se as contorsões as mais variadas. Assim sendo a choréa geral o corpo se move em todas as direcções; pôde mesmo executar movimentos vermiformes, curvando-se para diante, para traz, ou sobre os lados. Algumas vezes todos os músculos affectados não se contrahem ao mesmo lempo; por quanto tem-se visto que em quanto os músculos de uma parte do — 21 — tronco contrahem-se, os da outra conservão-se em completo repouso, para de novo taes phenomenos se manifestarem, quando os primeiros tem por sua vez deixado de se contrahirem. As desordens musculares sobem às vezes de ponto, são tão consideráveis, que os doentes apenas podem ser mantidos nos seus leitos; victimas de uma agitação continua elles ahi se debatem em todos os sentidos, chegando mesmo algumas vezes a cahirem no chão, e a tomarem, quaes oulros pelotiqueiros, as mais extravagantes posturas que imaginar-se pôde : uma camisola de força é então necessária para conter em os seus leitos esses desgraçados! As contracções dos músculos, dizem os práticos, são tão violentas, que chegão as vezes a produzirem verdadeiras luxações; Mr. Blache vio meninos em quem os movimentos choréicos havião dado occasião a escoriações na parte posterior da cabeça, do tronco, e sobre todas as grandes articulações, o que é natural que succeda á vista de desordens musculares tão intensas. Taes são os symptomas característicos da dansa de S. Guido. Mas uma perturbação tão profunda do systema nervoso como nos indicão os symptomas que acabamos de referir, não pôde de certo existir sem que as faculdades intellectuaes sejão também perturbadas: é com effeito o que nos vem confirmar as observações de Bouteille, Georget, e outros. Assim esles práticos collocão ainda no numero dos symptomas da dansa de S. Guido o enfraquecimento da intelligencia, ou antes ligeira alteração das funcções intel- lectuaes, e mesmo um primeiro gráo de idiotismo. Este phenomeno se nota effec ti vãmente em muitos individuos atacados de choréa; rnas não é menos verdade, diz Mr. Bouillaud, que este phenomeno, quando apparece, é o indicio de uma complicação e não um symptoma essencial da choréa, como quer Bou- teille : além d'isto pôde-se facilmente explicar a freqüência d'esta complicação reflectindo-se, que os centros nervosos que presidem à intelligencia e aos mo- vimentos voluntários, fazem parte de um mesmo systema, e que portanto a lesão simultânea d'esses centros nervosos deve ser mui commum. M. Blache nunca notou semelhante symptoma, e Rufz apenas o observou em dous casos de choréa chronica. Mr. Musset (*) affirma ter sempre observado nos choréicos a quem elle prestou seus cuidados, a diminuição ou perda total, mas momen- tânea , das faculdades intellectuaes, e elle crê ser este um dos caracteres essen- ciaes d'esta nevrose. Podemos ainda ajuntar a estes symptomas a perturbação, ou antes a perversão dos sentidos. L'ma cousa bem singular é que os doentes que deverião ficar bastante fati- gados depois de um accesso de choréa, no dizer de Rufz, pouco ou nada sentem ; não accusão nenhuma dôr nos membros: a hora de dormir não é avançada, (•) Maladies nervenses, pag. 172. 6 - 22 — nem retardada; alguns doentes apenas se queixão de cansaço geral, lorpõi nas articulações; effeito talvez da nevrose e não dos movimentos choréicos. MM. Rufz e Blache affirmão que nunca observarão perturbação alguma nas funcções da vida orgânica, que por sua repetição nos casos de choréa poss;i >er considerada como uma dependência d'esta affecção; outros pensão o con- trario, e com elles também nós; pois é impossível dar-se o systema nervoso profundamente alterado em suas funcções sem que se perturbe todo o orga- nismo, ou ao menos aquelles órgãos que mais sympalhia tem com os centros nervosos. Bouteille cita observações de choréicos que nos seus accessos injuriavão, maltratavão as pessoas que os cercavão, chegando mesmo a cuspirem, e a arremessarem sobre ellas tudo o que lhes vinha á mão. É evidente que em taes doentes havia complicação de moléstias menlaes. Forão sem duvida estes últimos symptomas que a ignorância e a superstição da idade media fazião loraar por actos do demônio. Tal é a descripção resumida da choréa recente, ou d'aquella que, desen- volvendo-se súbita ou lentamente, permanece no mesmo gráo, ou se pronuncia mais, e acaba por desapparecer no fim de uma semana, ou de um ou dous mezes, quer sob a influencia de um tratamento appropriado, quer sem trata- mento algum. A choréa chroníca, sendo a que se prolonga indefinidamente e i esiste ao emprego de todos os meios therapeuticos, é quasi sempre parcial: seus symptomas são os mesmos que os da choréa recente, e só differenles por serem parciaes, pouco intensos, e de uma duração indefinida. Quanto à choréa sim- ples, esta não produz nenhuma desordem notável nas funcções dos órgãos, Mijo lodo constitue a vida orgânica; e nem excita reacção alguma febril. MARCHA, E DURAÇÃO. Ordinariamente continua, a choréa é algumas vezes intermittente, ou remit lente. No primeiro caso os movimentos se calmão, ou cessão as mais das vezes lurante o somno para reapparecerem com o despertar, e algumas vezes mesmo precederem-o; todavia, quando a moléstia é geral, a agitação póde-se tornar lão intensa, que a insomnia é a sua conseqüência immediata; mas esta ultima liypotheseé rara. No segundo caso, isto é, affectando a choréa o typo inter- TniMcnte, os accessos podem então apresentar períodos tão regulares, que o.« — 23 — doentes já sabem com antecedência o dia, e mesmo a hora, em que os acceso? Icin de sobrevirem; outras vezes elles são advertidos por certos signaes, taes como a tosse, bocejo , &c. , ou por uma sensação de frio, que principia ordi- nariamente do pollegar, a que os authores chamão aura-choreica. Didier, Dr. de Montpellier, foi testemunha, segundo elle nos affirma, de um caso de dansa de S. Guido, cujos ataques sobrevinhão de dois em dois dias; Mr. Guérin lam- bem refere outro facto análogo. Bouteille falia de um choréico em quem os accessos apparecião todos os dias ao meio dia, e se termínavão às seis horas da tarde. Rufz observou um facto semelhante em uma menina no Hospital áo> innocentes. Medicus considera a periodicidade como mui freqüente na choréa, e faz d'este symptoma o caracter principal da moléstia. Estes, e muitos outros exemplos que poderíamos ainda citar, provão de sobejo o que avançamos no principio d'este artigo, isto é, que a choréa, como todas asncvroses, segue lambem uma marcha intermiltente. Os accessos intermittentes, porém, nem sempre guardão a mesma regularidade que se nota nos exemplos apontados : ordinariamente elles sobrevem, em épocas indeterminadas, uma só vez por semana, ou uma e mais vezes por dia, durando de cinco, dez e quinze minuto até meia a uma hora : em certos casos tem-se visto elles persistirem um ou mais dias, ou mesmo uma semana inteira. A periodicidade é portanto um dos symptomas mais constantes da choréa, assim como de muitas outras moléstias nervosas; porquanto, ainda que no maior numero de casos não guarde ella sempre a mesma regularidade, como dissemos, tendo em vista os exemplos referidos por práticos respeitáveis, comtudo não se pôde negar que a periodi- cidade constitue um dos caracteres principaes da moléstia. A marcha d'esta nevrose é em geral mui variável: apresenta alternativas de diminuição e de augmento; como todas as nevroses ella não vem ordinaria- mente acompanhada de febre, a menos que não sobrevenha alguma complica- ção. Quando os choréicos percebem que elles estão sendo o objecto de attenção das pessoas que os cereão, commummente observa-se augmento de intensidade nos symptomas caracteristicos da moléstia : a vergonha, que se apodera dos doentes, é talvez a principal causa d'este phenomeno. Quanto maiores esforços empregão estes desgraçados por oceultarem o mal, que faz o tormento de sua rida, tanto menos o podem conseguir. As contrariedades, as emoções viva* d'alma tem muitas vezes dado logar, ou á exacerbação do mal, ou á sua sus- pensão : Mr. Serres cita o caso de um individuo em quem a choréa suspen- deo-se depois de um accesso de cólera; em um outro facto, também citado por este medico, as constracções não se effectuavão senão quando o doente punha-se de pé, e desapparecião logo que elle se sentava. As phases lunares que, segundo Hand, exercem grande influencia sobre a volta dos paroxismos, — 2íi - na opinião de Mr. Rufz nenhuma importância tem no caso vertente, conside- rando elle esle phenomeno na choréa como uma simples coincidência; hkk, de accordo com o que se observa em quasi todas as moléstias nervosas , durante essas phases lunares, não poremos duvida em também admittir o mesmo plie nomeno para a choréa; pois não devemos negar um facto só porque o não podemos explicar. A musica tem muitas vezes acalmado a intensidade dos symplomas d'esta moléstia, e outras vezes produzido um effeito inteiramente flpposto. Uma moça, diz Mr. Musset, affectada de choréa, punha-se a dansar todas as vezes que ouvia musica, e só cessava quando perdia o compasso. As complicações que podem sobrevir a esta affecção nenhuma influencia notável exercem sobre sua marcha, nem sobre a intensidade de seus sympto- mas: facto este admirável e observado por quasi todos os authores que consul- támos acerca d'esta matéria. As pessoas affectadas d'esta nevrose tem ordinariamente a sua sensibilidade moral pervertida: com effeito, nada ha tão variável como o humor dos cho- réicos, e debaixo d'este ponto de vista, como de muitos outros, a choréa apre- senta intimas relações com a hysteria, òcc. A duração d'esta nevrose é mui variável, indeterminada, e em geral assaz longa. Assim tem-se visto a dansa de S. Guido durar oito dias, algumas sema- nas, muitos mezes, e mesmo annos, conforme a causa que a produzio, e as complicações que sobrevierão. Em geral, os casos em que esta affecção dure somente alguns dias, são manifestamente os mais raros; entretanto não é me- nos raro vêl-a passar ao estado completamente chronico , e durar mais de quatro a cinco mezes, ou mesmo annos, como se vê do exemplo citado por Mr. Rostan, da mulher que durante cincoenta annos soffreo de choréa! Da mesma sorte que a hysteria e a epilepsia, a choréa pôde reapparecer um grande numero de vezes. Taes recahidas são muitas vezes provocadas pelos calores do estio, e devemos temêl-as tanto mais quanto os symptomas tiverem sido mais rebeldes, e durado um lapso de tempo mais longo. Não é raro con- tar-se quatro, seis, oito e mais recahidas; Mr. Dufossé falia de uma moça que soffreo de choréa por cinco vezes. Segundo Sydenham, as recahidas quasi sempre sobrevem na mesma época do anno, em que teve logar a invasão da moléstia. — 25 — TERMINAÇÃO. A dansa de S. Guido termina-se ordinariamente pela cura; mas nem sempre se obtém este feliz resultado, e então ou ella passa ao estado chronico, ou se converte em uma outra moléstia: sua terminação pela morle é mui rara. Como dissemos, a cura é a sua terminação mais freqüente; effectua-se spon- taneamente, ou depois de uma medicação opportunamente administrada. No primeiro caso apparecem phenomenos críticos, taes como erupções abundantes, infiltrações ligeiras, o estabelecimento ou a volta das regras, se a sua suppressão foi a causa do mal. Bouteille refere a observação de uma moça choréica, que deveo a sua salvação a uma diarrhea, que lhe sobreveio depois de longos e penosos soffrimentos. Muitos outros authores apresentão-nos ainda exemplos de choréa, que, tendo resistido a vários tratamentos, vierão por fim a desappa- recer spontaneamente na época da puberdade. Quando a dansa de S. Guido marcha para uma terminação feliz, os movi- mentos musculares vão pouco a pouco tomando o seu typo normal, tornando-se por conseguinte menos irregulares, menos desordenados : no principio fortes e contínuos, agora estes movimentos só apparecem quando o doente tenta mo- ver algumas partf s de seu corpo ; depois jà não sobrevem senão de longe em longe alguns movimentos mais fracos, que vão assim diminuindo gradualmente até que por fim desapparecem de todo, e a cura se estabelece. Em circumstan- cias menos favoráveis nada do que acabamos de referir se observa; os sympto- mas persistem na mesma intensidade, e a moléstia passa ao estado chronico; então os músculos perdem sua consistência, ou se alrophião. As contracções são menos violentas, é verdade , mas não quer isto dizer que a affecção seja menos perigosa; porquanto é ella então mais diflicil de ser desenraisada. Algumas vezes vê-se sueceder á dansa de S. Guido moléstias muito mais graves, taes como a epilepsia, a hysteria, a alienação mental, &c.; este ultimo caso obser- va-se mais freqüentemente, maximè na choréa chronica. Outras vezes os doentes conservão ticos convulsivos dos músculos dos olhos, das palpebras, de uma porção da face, ou apresentão grande propensão às recahidas, e uma suscepli- bilidade extrema do systema nervoso, de maneira que o menor ruido os faz estremecer e cahir em syncope. Finalmente nos casos em que a moléstia tem de se terminar de uma maneira fatal, os pobres choréicos emmagrecem, são 7 — 26 — assaltados de phlegmasias chronicas, de febres lentas, de consumpção, e d'este modo uma morte lenta, c ha muito esperada, vem pôr termo a uma existência assaz angustiada! DIAGNOSTICO. Pondo de lado todas as considerações que se poderião fazer debaixo de um ponto de vista geral a respeito do diagnostico das moléstias nervosas, nós tra- çaremos apenas algumas linhas sobre o da choréa em particular. Em geral o diagnostico d'esta nevrose é fácil, e basta têl-a observado uma só vez para a não confundirmos mais com nenhuma outra moléstia do mesmo gênero. Com effeito, quem deixará de reconhecer a dansa de S. Guido, á vista d'esses movimentos spasmodicos, involuntários, manifestados por sacudidelas, jà fortes, já fracas, e que constituem o caracter principal d'esta moléstia? Ninguém, de certo; pois quem uma vez a tiver bem observado, facilmente a distinguira das moléstias do eixo cerebro-spinhal. Entretanto em certas circum- stancias alguém se tem enganado, capitulando como tal moléstias inteiramente differentes: assim a choréa tem sido confundida com as moléstias encephalicas, com as convulsões e os ticos dolorosos da face, com certos tremores nervosos, que succedem aos excessos venereos, ou ao abuso de bebidas alchoolicas, &c. Mas a ausência de febre, coma, delírio, rigeza tetanica, paralysia, e con- vulsões , nos affastará toda a idéia de uma moléstia inflammatoria dos centros nervosos : também não a poderemos confundir com as convulsões propriamente ditas, porque consistindo estas em contracções fortes, longas, vindo por ata- ques, e não de uma maneira contínua, e seguidas do relaxamento dos tecidos, os movimentos choréicos são vivos, bruscos, instantâneos, e de um caracter todo especial. No tremor nervoso os dedos são aptos a tomarem ou a reterem um corpo qualquer apertando-o uniformemente; o contrario se observa na choréa; se se mantém as partes affectadas o tremor diminue ou desapparece : apoiado, ou não, o órgão affectado de choréa permanece ainda agitado; emfim a força, a intensidade dos movimentos choréicos é mui superior ás oscillações do tre- mor nervoso, signaes estes por onde poderemos, mais ou menos, distinguir uma da outra affecção. Quanto aos ticos da face, imitando elles algumas vezes u choréa limitada n'esse órgão, o engano a este respeito será fácil; mas s^hi- — 27 — remos d'este erro lembrando-nos que nos casos de choréa os músculos das outras partes estaráõ mais ou menos agitados pelos mesmos movimentos que caracterisão esta nevrose. Como a dansa de S. Guido, além dos pontos de contacto que tem com a epi- lepsia e a hysteria, coincide muitas vezes com estas affecções, julgamos conve- niente o estudo do diagnostico differencial, que faremos em duas palavras, e quanto baste para o nosso caso. Distinguir-se-ha esta moléstia da epilepsia e da hysteria porque na primeira d estas nevroses ha perda súbita de conhecimento e sentimento, suspensão com- pleta do exercício dos sentidos, espuma na boca, cobrindo os lábios, respiração stcrtorosa , olhos torcidos e convulsos, embaciados e sallientes, &c., &c.; na segunda ha, além de outros symptomas, a sensação do globo hysterico, que parece partir do hypogastrio, elevar-se á parte superior do abdômen e do peito, c d'ahi até á garganta , onde o doente experimenta então um sentimento de es- trangulação ou de suffocação imminente: ora nenhum d'estes symptomas se observa na choréa. Temos portanto preenchido o nosso fim, e d'este modo estabelecido as principaes differenças entre esta e as affecções que com ella mais similitude apresentão. PROGNOSTICO. Todos os authores considerão a choréa mais como uma moléstia espantosa, singular, do que perigosa. Em geral, quando esta affecção é recente, e sua causa tem obrado de uma maneira instantânea, é susceptível de ser removida; e se o doente fôr moço e pouco irritavel, póde-se quasi com certeza esperar a cessação definitiva da choréa, sendo cuidadosa, e opportunamente comba- tida. Se, pelo contrario, o doente fôr de idade avançada, ou mesmo moço, porém de uma constituição fraca e deteriorada, e nimiamente irritavel; se as recahidas forem freqüentes e de longa duração, accompanhadas de symptomas violentos e aterradores, como phenomenos de epilepsia, de hysteria, de alie- nação mental, &c, &c.; se a choréa for chroníca, coexistindo com lesões orgânicas das principaes vísceras, então o tratamento será assaz longo e a cura duvidosa: entretanto nunca devemos desesperar de obtel-a. Finalmente, o prognostico da choréa está subordinado á gravidade das suas complicações, — 28 — a todas as circumstancias individuaes, e á natureza das causas sobre cuia influencia ella desenvolver-se pôde: assim se ella se manifestar depois de um terror súbito, de uma affecção moral profunda que tenha, por assim dizer, abalado todo o organismo, e em um individuo fraco e nimiamente nervoso, grande será a gravidade da moléstia; o mesmo poderemos dizer quando a choréa tem por causa o abuso nos prazeres de amor, a masturbação, ou quando emfim, como diz M. Rostan, ella é symptomatica de tuberculos, ou cancros dos centros nervosos; mas então, para fallarmos com mais precisão, não é o prognostico da choréa, que é grave; é sim o da affecção orgânica, de que ella é o symptoma. Eis o que em geral podemos dizer acerca do prognos- tico da dansa de S. Guido. ANATOMIA PATHOLOGICA. ("orno nunca tivemos occasião de testemunhar autópsia de cadáver choréico. justo é que impetremos soccorro áquelles que tem tido occasião de observar casos de semelhante natureza, e que translademos para aqui o resultado das investigações de homens que, por seu saber e critério, merecem inteira fé; é pois o que vamos fazer na carência de factos próprios que nos esclarecer possão no exame de tão grave e importante questão, qual é a que versa sobre a natureza e sede da choréa. Infelizmente são pouco satisfactorios os dados que a anatomia pathologica nos fornece para o conhecimento das moléstias nervosas, maximè da que nos occupa. Algumas vezes não se tem achado lesão alguma apreciável depois da morte; outras vezes as alterações que se encontrão podem com justa rasão ser tomadas, não como causas, mas sim como effeito da moléstia primitiva. N'outras circumstancias essas lesões apenas indicão complicações que nenhuma relação tem com a affecção de que tratamos. Por muito tempo desprezou-se as aberturas cadavericas; nos nossos dias quer-se tudo explicar por meio d'el- las, materialisando assim as funcções tão admiráveis da economia humana: encontra-se, por exemplo, a degenerescencia de um ponto imperceptível do •^ncephalo, imagina-se logo ser essa a causa da affecção, quando milhões de cadáveres apresentarão a mesma alteração orgânica sem ter jamais sentido um só symptoma da moléstia. Não queremos com isto negar a importância da anatomia pathologica; pelo contrario reconhecemos com todos os pratico? — 29 — pianlo ella tem concorrido para os progressos da pathologia, esclarecendo com suas luzes muitos dos pontos até então obscuros d'esle importante ramo das sciencias médicas : queremos somente fazer ver que, aqui, como em todas as cousas, ha um meio termo, do qual não devemos nos affastar sem cahirmos em erros graves. Como quer que seja, a choréa quasi nunca se terminando pela morte, poucas occasiões tem se lido de abrir cadáveres choréicos, e no pequeno numero de autópsias a que se tem procedido, nota-se grande diver- gência entre os práticos; além d'isto as alterações anatômicas características d'esta affecção, quando existem, são pouco pronunciadas: dizemos quando existem , porque as mais das vezes não se tem encontrado a menor alteração nos centros nervosos. Nos cadáveres de dous meninos choréicos, Georget achou tuberculos no cérebro: Soemmering e Frank encontrarão falsas membranas em dous outros individuos mortos da mesma affecção. M. Gendron achou um amollescimento da medulla espinhal na região cervical; M. Bergeon encontrou endurecido o bulbo rachidiano. Em um caso observado por M. Andral, havia tuberculos no cérebro e no cerebello. M. Monod refere o caso de dous individuos affecta- dos de choréa, em quem pela autópsia elle achou uma hypertrophia com in- jecção mui notável da substancia cortical do cérebro e da medulla espinhal; o cerebello e as meningeas rachidianas estavão também mui injectadas. M. Es- quirol affirma ter algumas vezes procedido á autópsia em cadáveres choréicos, e de notável somente haver encontrado uma considerável quantidade de se- rosidade na cavidade meningeana do rachis. M. Bazin encontrou placas ósseas formadas â custa da arachnoide, na superfície do cerebello de um.individuo que havia succumbido a esta affecção : o Dr. Brown refere que numa moça choréica de 16 annos, que succumbíra a violentas convulsões seguidas de co- ma, encontrou-se toda a superfície do cérebro extremamente injectada, e na substancia medullar do hemispherio esquerdo uma concreção calcaria de forma irregularmente cúbica (*). N'uma observação de Roeser os symptomas de choréa succederão a uma epistaxis considerável, e a doente, de 9 annos de idade, succumbio oito dias depois a uma pericardite; pela autópsia achou-se os ven- iriculos cerebraes contendo mais serosidade doque no estado normal; o canal vertebral um pouco mais; a medulla espinhal cercada de uma rede vascular mui desenvolvida, c a substancia cerebral amollecida. (**). Segundo M. Hutin pôde se explicar a choréa por um endurecimento com hypertrophia da parte anterior da medulla espinhal; mas nos casos, que este pratico cita em seu (•) J.mrnal des Progrès, &c., t. l.«, 1830, p. 242. ;•"' Journal d'Hufeland. 1828, Arch. gen. de Méd., t. XX, p. 431. 8 — 30 — apoio, havia simplices movimentos choréiformes, coexistindo com uma paralysia mais ou menos geral, e além d'isto havia muitas outras lesões do eixo cére- bro espinhal (*). O Dr. Prichard publicou nos Archivos geraes de Medicina de 1825, T. MU. pag. 275, três factos, e d'elles conclue que a causa dos phenomenos irregulares, que se observa na choréa, reside na medulla espinhal , e que é igualmente n'esta parte do systema nervoso onde está a origem da paralysia que suecede a esta moléstia, bem como á epilepsia; elle se firma para assim avançar em outros factos por M. Esquirol publicados sobre a mesma matéria. 1.° Caso. — Um menino de 7 annos, affectado de choréa desde seu nasci- mento, morre em delírio pouco tempo depois de sua entrada para o hospital de Bristol. Na abertura do cadáver encontrou-se quantidade considerável de serosidade na cavidade das meningeas rachidianas, e os vasos que se distribuem ua superfície da medulla espinhal mui injectados. 2.° Caso. — Uma moça, de 19 annos de idade, entrou para o hospital afim de se tratar da choréa, de que ella se achava affectada: morre no fim de um mez de tratamento depois de alguns accessos de delirio. Na autópsia não se observa nenhuma alteração da substancia do cérebro: havia alguma serosidade infiltrada no tecido cellular sub-arachnoideo : a cavidade meningeana do rachis continha duas a três onças de serosidade; os vasos da pia-mater rachidiana es- tavão mui injectados. 3.° Caso. — Um moço de 14 annos foi, em conseqüência de um accesso de furor, assaltado de tremor e de uma agitação geral, que insensívelmente tomou todos os caracteres de choréa; conservou-se n'este estado até á sua morte. Encontrou-se pela autópsia uma onça de serosidade na cavidade das membra- nas do rachis; os vasos da medulla dilatados, e cobertos de lympha coagulada. A substancia do cérebro estava mais rubra do que no estado normal, e mui injectada. Estes factos porém são apenas indicados, faltando-lhes os precisos detalhes por onde podessemos bem aprecial-os : por exemplo, o aulor não determina com exactidão a quantidade de serosidade de que elle falia; sabe-sc que em geral ella é mais abundante nas crianças do que nos adultos, o que Louis attri- bue à duração da agonia; além d'isto M. Magendie , nas suas experiências so- bre animaes vivos, e sobre cadáveres de individuos que jamais havião soíTrido de nevroses, reconheceo que o espaço comprehendido entre a medulla e a (*) Ilistoire anatoni., physiolog, et patholog. de Ia nioèlle, et Nouv. Biblioth. Mtdic, 1828. l>. 35, &.c. — 31 — dura-mater está ordinariamente occupado por um liquido inc©lor. Vejamos mais alguns factos. Tendo examinado o encephalo de quatro pessoas que havião succumbido a esta singular affecção, Mr. Serres encontrou os tuberculos quadrigemeos alte- rados ; mas n'um d'esses casos a alteração consistia em um tumor implantado sobre estes tuberculos; em outro, em uma irritação viva com derramamento sangüíneo occupando a base d'esses órgãos: nos dous outros casos, toda a massa dos tuberculos se apresentava inflammada, e esta inflammação se estendia mais ou menos sobre o soalho do quarto ventriculo. Para dar mais certeza ás pre- sumpções da anatomia pathologica, Mr. Serres tentou varias experiências, ferindo os tuberculos quadrigemeos sobre animaes vivos, e conslantemente obteve, segundo elle afíirma, phenomenos mui análogos aos symptomas da dansa de S. Guido. Ora á vista d'estes, e de outros factos, teremos por ventura achado a condição material dos phenomenos choréicos? Quantas alterações idênticas não nos mostrão as autópsias de individuos que jamais apresentarão os symptomas da choréa? Mr. Serres mesmo não nos diz que possue ainda um grande numero de factos onde a abertura dos cadáveres nenhuma alteração apreciável lhe in- dicou? O numero e a diversidade de taes alterações, quanto a nós, provão quando muito que a choréa não depende de nenhuma das lesões apontadas porquanto as differenças de taes alterações são, como mui bem dizMr. Rostan, fortes objecções contra a opinião d'aquelles que fazem a choréa depender de taes lesões pathelogicas, sendo mui numerosos os casos em que nada se tem podido descobrir. Traslademos mais alguns factos, e vejamos que conjecturas podemos ainda d'elles tirar relativamente à sede e natureza d'esta moléstia. Mr. Guersent observou por duas vezes um amollecimento notável da medulla espinhal em individuos choréicos; em um outro caso este mesmo author encon- trou concreções calcárias na substancia cerebral. Referiremos aqui a observação de um facto de igual natureza que vem publicado no vol. iv dos Archivos geraes de Medicina, de lS3£i. Uma moça de 16 annos apresentava movimentos choréicos no braço direito, e arrastava, quando andava , a perna desse mesmo lado; o pulso era freqüente. A doente, mui pallida, achava-se em um estado de stupor; além d'isto soffria de vertigens e cephalalgias. Em 25 de Janeiro de 1829 foi ella atacada de con- vulsões geraes, e então sangrada. A 16 de Fevereiro, primeira menstruação : desapparecem os movimentos choréicos: dois dias depois o corrimento extin- guio-se, e logo no dia seguinte todos os symptomas violentos se manifestarão de novo. Empregárão-se os mesmos meios que precedentemente, mas d'esta — 32 - vez sem bom resultado. No dia 11 de Março á larde manifeslou-se coma e a doente fallesceo no dia seguinte de manhãa. Pela abertura do cadáver achou-se toda a superfície do cérebro extremamente injectada. Havia entre a pia-mater e a arachnoide um derramamento consi- derável de serosidade; os ventriculos lateraes continhão onça c meia dVste liquido: os vasos do plexus choroide se achavão mui injectados. A vêa de Galeno, e os seios da dura-mater estavão repletos de sangue. A substancia medullar do hemispherio esquerdo apresentava no seu interior uma concreção calcaria de forma cúbica, e tendo pollegada e meia, pouco mais ou menos, de extensão sobre cada um de seus lados. As vísceras do thorax e do abdômen estavão perfeitamente sãas: achou-se uma pequena liydatide adherente à su- perfície do ovario direito. Pondo de parte o derramamento de serosidade lymphatica no tecido cellular sub-arachnoide, que muilas vezes se tem encontrado em diversas outras affec- ções , a concreção calcaria achada na substancia medullar, por ventura nos explicará melhor a desordem nos movimentos musculares ? Considerando no numero de casos, nos quaes não se tem observado lesão alguma anatômica apreciável em grande numero de individuos mortos em conseqüência da dans;i de S. Guido, estamos inclinados a não encarar a presença de taes concreções calcárias como causas da moléstia; tanto mais quanto no presente caso havia mais alguma cousa que choréa: o estado de stupor, vertigens, cephalalgias, e convulsões geraes. Além d'isto como explicar o desapparecimenlo dos movi- mentos choréicos, logo que se manifestou a primeira menstruação, se adniit- tirmos que taes movimentos, ou desordens, erão determinados pela presença das concreções calcárias? A cessação da choréa durante intervallos mui pro- longados, e suas freqüentes recahidas, devem talvez nos indicar a ausência de qualquer lesão permanente, salvo se admittirmos simplices congestões, por- quanto por ellas poderemos até certo ponto explicar esta forma intermitlcnte e irregular das moléstias nervosas. Dissemos que as mais das vezes as autópsias cadavericas não nos moslrão as lesões anatômicas que apoz si possa deixar a choréa : os exemplos seguintes vem ainda em apoio do que avançamos. Em quatro casos observados por Mr. Rufz, os resultados da autópsia forão negativos: da mesma sorte em duas outras observações que lhe forão commu- uicadas não encontrou-se pela abertura do cadáver, quer na medulla espinhal, quer nos seus envoltórios, lesão alguma característica da choréa. As affecções que causarão a morte dos doentes observados pelo author que acabamos de citar são: o sarampo para os dous primeiros (os traços de inflammações mu- cosas, e de pneumonia eommum em istuaes casos forão as únicas allcraçóes — 33 — observadas) : a peritonile para o terceiro, e emfim a choréa mesma para o quarto doente. N'este ultimo individuo a morte pareceo ter tido logar por asphyxia. No dizer do aulhor, Mr. Guersent teve mais de uma vez occasião de ver meninos suecumbirem unicamente á choréa, sem nenhuma outra alte- ração de funcções, e só pela exasperação das desordens nos movimentos mus- culares : em todos estes casos a morte foi rápida, e os accidentes dos últimos momentos apresentarão caracter adynamico. Não se poderia suppôr n'estes individuos a morlc devida à perda do fluido nervoso, como em cerlas operações graves vê-se os doentes perecerem de dôr? Duas vezes, diz Mr. Dugès (*), tive occasião de examinar crianças mortas durante a marcha d'esta affecção, e nas quaes nada de notável encontrei no cérebro, nos nervos, e no cordão rachidiano, que aliás se apresentava como no estado normal. Eu tive, diz também Mr. Olivier d'Angers (**) , occasião de abrir, na presença de Mr. Guer- sent, o rachis de um menino affectado de choréa, e nenhuma alteração apre- ciável notei na medulla espinhal: sua consistência, sua côr, e a de suas membranas estavão como no estado natural. Ora com os quatro factos obser- vados por Mr. Rufz, e com mais duas observações de casos absolutamente análogos colhidas pelo Dr. Gherard, dePhiladelphia, e por Mr. Hâche, temos ainda nove casos de choréa que, juntos ao citado por Mr. Rostan, prefazem o numero de dez, nos quaes o exame detalhado dos órgãos deo sempre resultados negativos. Em resumo devemos concluir que a choréa não deixa apoz si nenhum traço apreciável, e que, quando se encontre algumas alterações, estas devem ser attribuidas a uma coincidência accidental, pois outra conclusão não se pôde tirar de lesões tão variáveis, e de tantos resultados negativos. Na exposição que acabamos de fazer dos factos pathologicos relativamente á dansa de S. Guido, vemos que os diversos authores, procurando determinar sua sede, somente estudavão as alterações d'aquelle órgão onde a collocavão, considerando estas mesmas alterações como os caracteres principaes e essenciaes da choréa, resultando d'ahi grande confusão e discordância entre esses authores, e para nós maiores embaraços na solução de tão grave e importante questão. Mas seda anatomia pathologica passamos á analyse dos symptomas próprios, e da marcha d'esta affecção, poderemos por ventura determinar a priori qual a sua verdadeira sede e natureza? De certo que não; porquanto d'esse exame apenas podemos avançar que esta moléstia reside, tem sua sede no systema nervoso, ou quando muito nos centros nervosos, e nada mais. Com effeito, se os symplomas são a expressão dos desarranjos e lesões dos nossos órgãos, é (♦) Essai physiol. et patliol. sur Ia nature de Ia fièvre, &c.,t. n, pag. 478. (**) De Ia moelle épinière et de ses maladies , pag. 383. — u — evidente que elles já nos devem annunciar a sede das moléstias, e é realmente pelos symptomas próprios que nós a conhecemos nos diversos estados que a pratica diária nos offcrece: appliquemos esla consideração a respeito da choréa, qual é o symptoma próprio e essencial da choréa, se me posso assim exprimir? Não ha a menor duvida a este respeito: são os movimentos desordenados, involuntários do systema muscular que descrevemos; ora á lesão de que órgão <>u systema podemos altribuir esta contracção muscular anormal? Eu creio que indubitavelmente devemos referil-a ás mesmas partes que presidem á con- tracção muscular natural, isto é, ao systema muscular e ao systema nervoso; mas no estado presente da physiologia ao systema muscular não podemos dar n'esle phenomeno senão um papel secundário; com effeito a contracção mus- cular normal opera-se sob a influencia do systema nervoso, e a contracção muscular mórbida não apparece também senão ainda debaixo d'esta influencia por occasião de estados anormaes d'este systema; a choréa pois éuma affecção do systema nervoso. Eis a primeira conseqüência a que nos conduz a sympto- matologia d'esta moléstia, conseqüência que está de accordo com a opinião de quasi todos os authores que sobre a matéria escreverão; mas se levarmos esle exame mais longe, poderemos chegar a um resultado um pouco mais satisfac- torio, precisar melhor ainda a sede da moléstia que nos occupa, e teremos dados para estabelecer esta sede nos centros nervosos. Com effeito na choréa ha ordinariamente contracção simultânea de muitos, e, algumas vezes, da maior parte dos músculos de ambos os lados do corpo: ora isto não pôde ser attri- buido senão a uma parle central do systema nervoso ; porque os nervos lendo influencia somente sobre as partes em que se distribuem, as suas lesões tem lambem uma influencia puramente local, e de nenhuma sorte podem provocar taquella contracção, mais ou menos geral, independentemente dos centros ner- vosos. D'estas inducções physiologicas que me parecem de força e valor incon- eslaveis, eis a conclusão a que podemos chegar com tal qual certeza; mas se pelas considerações expendidas parece termos provado que a choréa é uma affecção dos centros nervosos, poderemos ainda determinar se ella é uma moléstia de todo o eixo cerebro-cspinhal, ou somente de uma parte d'esle centro? Aqui as difficuldades sobem de ponto; porquanto, se por um lado nos talião as luzes da anatomia pathologica, como vimos, para o esclarecimento d'esta questão , por outro lado não conhecemos bem o papel que representa cada parte dos centros nervosos nos phenonienos do movimento, como era mister, para coinprehendermos perfeitamente a sua influencia nas pertur- bações mórbidas d'esle phenomeno. Se as pesquizas clinicas e experimentaes nos permilüsscm determinar rigo- rosamente a qual dos centros nervosos pertence a funeção de reger e coordenar — 35 — os movimentos, cuja perturbação, cuja desordem caracterisa a dansa de S. Guido, de certo teríamos dados sufficientes para conhecermos, ou determi- narmos a sede d'esta moléstia; mas desgraçadamente um véo espesso envolve, e talvez envolverá ainda por algum tempo todos os mysterios que cercão este ponto de physiologia. Entretanto, se reflectirmos, diz Mr. Bouillaud, que um dos caracteres fundamentaes da choréa consiste na impossibilidade de coordenar os movimentos de progressão, estação e apprehensão; e que o cerebello é segundo as experiências de MM. Flourens, Rolando, e as minhas próprias, que preside á coordenação d'estes movimentos; se, continua este illustre medico, reflectirmos n'estas duas circumstancias, seremos naturalmente levado a pensar que reside no cerebello, ao menos em certos casos, a sede da lesão, qualquer que ella seja, que determina a choréa (*). Mas esta hypothese não repousa sobre facto algum conhecido, se bem que Duquenel nos refira ter observado três militares, que soffrerão da dansa de S. Guido, em conse- qüência de cutiladas que receberão na parte posterior da cabeça; além d'isto, ajunta este pratico, não vemos nós a freqüência com que esta affecção se manifesta nos individuos dados ao vicio da masturbação? A isto responde- remos, que o onanismo não limita seus estragos somente no cerebello, estende-os por toda a economia, enervando, esgotando, em uma palavra anni- quilando, ou destruindo as pobres victimas de seus terríveis effeitos, e que individuos feridos no occipital jamais soffrerão de choréa. Por outro lado Magendie nos assegura ter visto animaes privados do cere- bello executarem ainda movimentos mui regulares; observando somente que elles erão obrigados a recuarem mesmo contra a sua vontade. Que concluir de opiniões tão oppostas, professadas por authoridades igual- mente respeitáveis por seu saber e critério? Que fazer para sahir de taes embaraços? Sem duvida seguir o meio termo, conservando-nos na duvida, e esperando do tempo, e de fados melhor observados, a solução da grave questão que nos agita; por quanto no estado actual da sciencia apenas pode- remos avançar, que provavelmente a sede da dansa de S. Guido reside no encéphalo, pois é n'este órgão, onde existe a condição material da vontade locomotora, como no-lo prova a physiologia, e a pathologia d'esta parte do svstema nervoso. Eis quanto podemos dizer relativamente á sede d'esla mo- léstia. Outra questão não menos importante se nos apresenta, questão, que como a precedente não esperamos resolver definitivamente, attenta a difliculdade da materia e a mesquinhez de nossos meios; mas força é que d'ella tratemos (*) Diccion. de Cir. e Med., luco citato. — 36 — para podermos então entrar no tratamento d'esta molcslia, sem maior im- perfeição do nosso trabalho. Queremos fallar da natureza da dansa de S. Guido. Entendemos por natureza de moléstia o modo de ser da parle doente; relativamente á moléstia que nos occupa, esse conhecimento só nos poderá vir da anatomia pathologica, que nos ensina a achar no mesmo órgão as causas maleriaes da perturbação de suas funcções; mas ainda assim ella não merece da nossa parte tanta importância quanta desejáramos dar-lhe, por- que de um lado nós sabemos que uma moléstia desde seu principio até seu termo funesto, passa por differenles gráos, de modo que deve perder seu caracter primitivo; e quando vamos examinar as alterações que ella produ/.io, temos debaixo dos olhos, não a natureza doente regida pelas forças da vida, mas a natureza morta, abandonada ás leis geraes da matéria; de outro lado, quando procuramos conhecer os molivos de tantos gritos de dôr que o órgão dera durante o curso de uma moléstia, e para isto consultamos a anatomia pathologica, o silencio é a sua única resposta : desgraçadamente é, como vimos. o que sempre suecede para com as nevroses. Entretanto á priori não podemos deixar de admittir uma modificação qualquer da parte do systema nervoso, porque se não concebemos phenomenos funecionaes sem órgãos, conseguin- temente não podemos dar moléstia sem perturbação das disposições orgânicas. Fazendo a applicação d'este principio ao nosso caso, temos que a choréa , residindo no systema nervoso, deve reconhecer por causa uma alteração qual- quer que modifique este systema; mas de que natureza será essa alteração que determina phenomenos tão singulares? Não sabemos: para o que em vão se tem recorrido, como acabamos de ver, á anatomia pathologica, cujo facho, ainda pouco luminoso, se apaga de todo, quando com elle procu- ramos dissipar as trevas onde se oceultão talvez os phenomenos os mais importantes da nossa organisação. Não podendo pois, como dissemos, deixar de admittir uma modificação qualquer do systema nervoso , que explique a producção dos phenomenos cho- réicos, resta saber em que consiste esta modificação. Será uma inflammaçao do cérebro e da medulla espinhal, como pensa Mr. Louvet-Lamarre, ou uma irritação particular do cérebro, como quer Georget? Nada o prova; além de que, se attendermos que as irritações, as inflammações e perturbações fune- cionaes dos órgãos que são ordinariamente os pontos de partida da choréa, nem sempre determinão esta affecção; que mil irritações physicas, moraes ou mórbidas, tem logar no systema nervoso sem que se desenvolva a choréa, de cerlo que não poderemos dar a esta moléstia o caracter irritatorio ou inflammalorio que estes authores lhe querem attribuir. Será a choréa o — 37 *- resultado da inflammação dos tuberculos quadrigemeos, como pensa Mr. Ser- res, que a observou em quatro individuos? Mas não poderemos nós em opposição a estes factos oppôr muitos outros, em que ou existia a inflam- mação dos tuberculos quadrigemeos sem os phenomenos choréicos, ou estes sem aquella? De certo que sim; e tanto mais que Mr. Serres é o mesmo que confessa ter observado casos de choréa sem que lhe fosse possível encontrar alteração apreciável dos centros nervosos. Mas se não é uma irritação ou inflammação, de que natureza será então essa modificação? Será, como querem Mrs. Bouillaud e Andral, uma simples per- turbação na associação, combinação e coordenação dos movimentos de pro- gressão , apprehensão, &c, ou, como querem outros, uma excitação, ou augmento de actividade das funcções do systema nervoso? E d'este modo teremos melhor explicado o phenomeno? Não certamente; não fazemos senão recuar a difliculdade, e nada mais. Em resumo concluamos, que no estado actual dos nossos conhecimentos não nos é ainda dado determinar com exac- tidão qual a verdadeira natureza desta affecção; questão na verdade impor- tantíssima de se decidir, senão para o diagnostico, ao menos para a lherapeutica. É pois o quanto podemos dizer a cerca da natureza da dansa de S. Guido. Seja-nos permittido transcrever aqui as palavras que se lê no tratado do Dr. Bouteille, publicado em 1810, e com ellas terminaremos este artigo: e na verdade, podemos hoje fazer as mesmas reflexões que fazia Bouteille n'aquelle tempo!! .« Après avoir (diz este celebre pfatico) parcouru tant « d'ouvrages publiés sur Ia chorée, ou danse de Saint Guy, il resulte de « cette recherche un sentiment pénible; c'est Ia conviction intime, que « les travaux des savans médecins, qui s'en sont oecupés, n'ont pas eu un u résullat uniforme sur Ia nature de cette maladie, sur les caracteres de ses « symptômes pathognomoniques, de telle manière quon peut regarder Ia « collection de faits concernant cette maladie, épars dans une foule d'obser- « vations, comme un amas confus et embarrassant de matériaux bruts, dont « 1'artiste ne peut faire 1'eenploi auquel il les destine. <> TRATAMENTO. Sendo a natureza da choréa duvidosa, e muito obscura para o maior numero s aulhores, devemos encontrar a maior incerteza e vacillação na sua therapeu- 10 — 38 - tica: o numero dos meios que tem sido empregados, ou simplesmente propostos. é infinito, não ha quasi medicamento algum que se não lenha posto em pratica: esta riqueza apparente é a melhor prova da carência de meios ver dadeiramente eflicazes, pois se se tivesse achado um verdadeiramente conve- niente, não se recorreria a novas experiências em detrimento da humanidade enferma; para a choréa, como para todas as moléstias, o numero dos meios está em razão inversa de sua efficacia. Entretanto vamos apresentar em breve quadro os diversos methodos de tratamento aconselhados por práticos abali- sados, e por uns seguidos com suecesso, e por outros não. As emissões sangüíneas geraes e locaes tem sido aconselhadas por alguns médicos, e proscriptas por outros como perigosas. Assim, Sydenham suppondo que um certo humor produz esta affecção irritando os nervos, aconselhava, para evacua-lo, o uso de sangrias, e purgativos mais ou menos repetidos, e em seguida tônicos para fortificar o systema nervoso, ad corroborandum gentis nervosum. Cullen reserva as sangrias para os doentes plethoricos, e diz serem os purgativos contra-indicados nos casos de fraqueza, aconselhando então os tônicos, e entre estes preferindo a quina e os ferruginosos. O Dr. Bouteille segue o tratamento de Sydenham com alguma modificação; o numero das sangrias que elle prescreve é ordinariamente de duas, jamais excedendo de três, e tirando de cada vez somente quatro onças de sangue: segundo este pratico, a sangria em pequena quantidade obra não só como meio deplc- tivo, mas também como calmante e antispasmodico; «e n'esta intensão é que elle as aconselha: além dos purgantes e das sangrias, o Dr. Bouteille recommenda os temperantes ou refrigerantes, bem como os calmantes, quer mucilaginosos quer antispasmodicos. Mr. Serres, guiado por suas opiniões theoricas sobre a sede da choréa, acon- selha a applicação de sanguesugas à parte superior da região cervical, e ao redor do occipital, e diz ter sempre tirado vantagem d'este tratamento na choréa recente. O Dr. Peltz, encarando esta moléstia como uma inflammação da arachnoide, propõe na fôrma aguda, as applicações reiteradas de sanguesu- gas ás têmporas, os purgativos e os pediluvios sinapisados : na fôrma chroníca, prescreve a tintura de iode em uma poção antispasmodica. O Dr. Pritchard prescreve, depois das emissões sanguineas locaes, a applicação de vesicatorios e de cauterios ao longo do rachis: Mr. Richerand, diz-se, empregava desde muito tempo os mesmos meios em o hospital de S. Luiz com felizes resultados. Os Drs. Mac Andrew, Strambio e Byrne preconisão muito a pomada stibiada em fricções sobre todo o corpo, e especialmente sobre a columna vertebral, e apresentão numerosos casos de choréas que havião resistido aos purgativos, aos tônicos e aos antispasmodicos, e que cederão a este methodo de tratamento. — 39 — O Dr. Hamilton attribuindo esta affecção, assim como muitas outras molés- tias, à constipação, e ao máo estado das vias digestivas , nada vê de melhor que os purgativos, para combater a dansa de S. Guido; elle divide a marcha d'esta moléstia em dois períodos : recommenda no primeiro o uso dos purgantes brandos, dados com algum intervallo; no segundo, purgantes mais enérgicos, que devem ser administrados com constância até o completo restabelecimento do doente. Os purgativos de que elle lança mão são, os calomelanos associados á jalapa; a gomma-gutta, o alóes e a coloquintida. Mr. Guersent diz, que esta medicação foi por elle posta em pratica com grande vantagem no hospital dos innocentes: o Dr. Chapman fallando da mesma medicação diz, que não conhece outra que mais promptamente cure a choréa. Mr. Breschet, tendo em 1831 de prestar seus cuidados a uma moça de quatorze annos, affectada da choréa, e sabendo que na Itália muitas nevroses erão combatidas por meio dos drásticos, administrados concurrentemente com o tartaro stibiado em alta dose, recorreo a um igual tratamento, e no fim de mui pouco tempo a doente ficou completamente curada da moléstia, que até então resistira a todos os meios empregados por diversos médicos; Breschet affirma ter depois constan- temente empregado esta mesma medicação com suecesso. Os drásticos de que este practico se servia, são umas pilulas compostas de aloes, ou gomma-gutta, de scamonea e jalapa. Laénnec também aconselha o emprego do tartaro eme- tico em alta dose administrado segundo a formula rasorianna; os suecessos porém parecem não ter coroado suas tentativas. A valeriana, preconisada por Spangenberg, pelo Dr. Bouteille, e por Marray, é também empregada por Mr. Guersent, em pó na dose de quinze a desoito grãos, até muitas oitavas por dia; elle administra esta substancia unida ao mel, ou a um xarope qualquer. No dizer de Blache, Bayle e Jadelot prescreverão sempre com suecesso, em crianças de dez a quinze annos, a asa-fcetida na dose de três a trinta grãos por dia. Mr. Fouquier diz também ter tirado vantagem d'este tratamento, mas em dose mais alta: os seus doentes tomavão até uma oitava e mais durante as vinte e quatro horas. O Dr. Elliotson diz, ter sempre administrado com muita vantagem o sub-carbonato de ferro na choréa recente especialmente, sendo os doentes mocos e de boa constituição. Baudelocque também obteve bons effeitos do emprego'd'esta substancia dada em alta dose, tendo-se sempre o cuidado de fazer os doentes conservarem o ventre livre. O Dr. Bardsley, medico dos hospitaes de Manchester, querendo determinar a eflicacia comparativa dos diversos tratamentos propostos contra a choréa, ,tn «rande numero de casos empregou separadamente quasi todos os meios recommendados nesta moléstia, a saber: os purgativos; os antispasmodicos, como a camphora, o ópio, a valeriana, o ether sulfurico e o alm.scar; os — AO — tônicos, como o sulphato de ferro, o oxido e o sulphalo de zinco, c o carbonato de ferro: o nitrato de prata, a solução arsenical, o sulphato de quinina ; emfim o iode, a strychnina, a eleclricidade, as affusões frias , os vesicatorios, e as fricções emelisadas sobre toda a extensão da columna vertebral: este practico diz ter tirado pouca vantagem do emprego de cada um d'esles meios, falhando-lhe no maior numero de casos. Eis o melhodo de que elle tirou mais vantagens. Prescreve primeiramente os purgativos, e continua o seu uso até que as matérias alvinas tenhão tomado seus caracteres normaes: n'esta época, e por menor que seja a diminuição dos movimentos choréicos, lança mão dos antispasmodicos , preferindo o almiscar e a camphora na dose de quatro grãos de cada substancia, de cinco em cinco horas; de tarde dá elle ao doente um clysler composto de quatro a cinco onças de uma mistura de asa-foetida, e de três gottas de laudano. O author diz ter por este methodo curado mais de quarenta doentes. A todos estes meios ajuntaremos os banhos sulfurosos, mui preconisados por Baudelocque no tratamento d'esta affecção : no espaço de cinco mezes, diz este medico, vinle e sete choréicos forão submettidos ao uso d'esles banhos, e vinte e cinco se curarão. MM. Bonneau, Jadelot e Guersent também empregarão os banhos sulphurosos contra a dansa de S. Guido, e nos citão um grande numero de observações de doentes curados por este meio. Parece-nos portanto que á vista da efficacia quasi constante d'este modo de tratamento, de sua inno- cuidade, e da facilidade de sua administração , o deveremos preferir aos outros meios, não excluindo todavia os purgativos, a valeriana, o sub-carbonalo de ferro que collocamos em primeiro logar. Estes banhos sulphurosos se compõem de quatro onças de sulfureto de potássio para oito baldes d'agoa, tomando os doentes um por dia, segundo o methodo seguido por Baudelocque. Continuando ainda a indicar os diversos meios aconselhados pelos practicos no tratamento da dansa de S. Guido, citaremos em primeiro logar o ópio, que Mr. Trousseau diz ter empregado com suecesso na dose de quarenta grãos por dia. Os Inglezes empregão muito o nitrato de prata; substancia perigosa, e que como todos os venenos deve ser administrada com muito cuidado, pois o nitrato de prata, como se sabe, corróe e cauterisa a mucosa do estômago mesmo em dose pouco elevada , c assim os doentes serão antes envenenados do que curados. Dos narcóticos os mais empregados são: o meimendro, o slramonio, e sobre tudo a belladona; Mr. Piostan julga estes medicamentos mui efficazes no trata- mento da dansa de S. Guido; elle também aconselha muito a valeriana em pó, e encorporada a uma polpa de fructo afim de mascarar o seu gosto desagradável. Taes são os principaes methodos de tratamentos seguidos pelos practicos: — hl — muitos ainda existem que por serem pouco importantes não mencionaremos, limitando-nos aos que ficão apontados; além de que é mesmo impossível enu- merar todos os remédios empregados contra a choréa, remédios empíricos que algumas vezes tem curado, e outras exasperado a moléstia. A maior parle dos médicos que empregão as sangrias locaes na choréa recente, aconselhão, quando esta affecção é chroníca, de recorrer-se também aos revulsivos, taes como vesicatorios, cauterios, sedenhos e moxas sobre os lados do rachis: no numero d'estes médicos se nota Richerand, Lisfranc e Pritchard. Quando nos decidirmos pelas emissões sanguineas, devemos ter o cuidado de as proporcionar à força, á idade do doente , á violência e gravidade dos symptomas; e reserval-as especialmente para as pessoas plethoricas : póde-se ainda recorrer a este meio preferindo a sangria de pé á applicação de sanguesu- gas á parte interna das coxas, quando houver suppressão de regras, ou quando a menstruação se effectua diflicilmente, e nos pareça ser a causa da moléstia; mas convém muito distinguir os casos em que pôde aproveitar este methodo de tratamento; por quanto se empregarmos em individuos fracos, debilitados , nervosos ou mui jovens, teremos sem duvida de ver o doente peiorar, pois as sangrias farão predominar muito os symptomas nervosos. Os vesicatorios e os cauterios ao longo da espinha, e na parte superior da região cervical, são indi- cados e mesmo devem aproveitar no fim da moléstia, julgando nós esles revul- sivos contra-indicados no começo ou na sua invasão: o valerianato de zinco (medicamento hoje muito preconisado nas affecções nervosas) , a agoa de louro- cerejo, e os de mais calmantes e antispasmodicos de que temos fallado', podem ser empregados com vantagem; emfim a sagacidade do medico , e as circums- tancias individuaes do doente o dirigirão na escolha dos meios a empregar. Como dissemos, Sydenham e Bouteille aconselhão o emprego dos purgativos concurrentemente com as sangrias, e quasi todos os authores estão de accordo sobre sua utilidade. Segundo Richter os purgativos salinos não convém na choréa, porque augmentão facilmente a fraqueza e a atonia dos órgãos abdominaes; elle dá preferencia aos calomelanos e á jalapa. Os banhos tepidos a 26 ou 28 gráos de Réaumur tem também sido aconse- lhados por vários práticos, e entre outros Mr. Rostan, que diz ser este o meio mais heróico que elle conhece para combater a choréa: os doentes tomaráõ estes banhos durante seis ou oito horas cada dia, começando por meia hora; se apparecerem porém symptomas de congestões para a cabeça, se lhes farão affusões frias, ou antes frescas, na lemperatura de 12 a 15 gráos, de maneira a entreter para ahi uma frescura constante sem que todavia se provoque reacção. Os banhos frios empregados opportunamente são mui vantajosos no tratamento li — 62 - da choréa; este meio, nas mãos de Dupuytren, forneceo sempre resultados felizes. Eis de que maneira este pratico os administrava: dous homens vigorosos, depois de terem tomado o doente, um pelos braços , o outro pelas pernas , o fazem passar cinco a seis vezes entre duas camadas d'agoa, na temperatura de 12 a 18 gráos, tendo o cuidado de lhe mergulharem a cabeça no liquido ao mesmo tempo que o resto do corpo. Depois enxuga-se bem e veste-se o doente , e se elle não pôde passear, ou fazer um exercício baslante violento afim de que appareça uma transpiração abundante, será então collocado em um leito cuja temperatura seja sufficiente para provocar suor copioso. No momento em que os doentes são mergulhados n'agoa fria, experimentão um calafrio mui intenso, uma horripilação geral, accompanhada de tremor e de torpor dos membros, o pulso diminue ordinariamente de freqüência, e a temperatura do corpo se abaixa. Resulta além disto um spasmo muscular mui violento, particularmente na região pecloral: a respiração torna-se diffícil e embaraçada, em conse- qüência do refluxo do sangue da peripheria para o centro; o doente crê suffocar-se, mas depois se habitua a esta temperatura. Ainda que os banhos d'agoa fria aproveitem muito quando opportunamente administrados, comtudo devemos ser mui cautelosos no seu emprego, sobretudo nas mulheres, pois algumas ha que não podem molhar as mãos em agoa fria sem que fiquem logo doentes, e muitas vezes de pleuresias, pneumonias, &c. Depois dos banhos frios, Dupuytren dava aos seus doentes a infusão de valeriana , e as pilulas de Meglin. A cainphora só, ou associada a outros anti-spasmodicos, tem sido empregada com suecesso, sobretudo quando a choréa depende de uma excitação dos órgãos genilaes. Hufeland não conhecia nenhum meio preferível ao oxido de zinco; elle começava por um grão de manhãa e outro á tarde, ia depois augmentando a dose progressivamente. Os vomitivos são indicados quando a choréa depende de um embaraço gástrico; se ella provém de uma moleslia de pelle repercutida, ou de um exutorio bruscamente supprimido, convém recorrer aos banhos quentes, ás bebidas calmantes, a um regimen emolliente, e sobretudo resta- belecer o exutorio. Se nos parecer, ou tivermos certeza de que a moléstia depende da presença de vermes no tubo digestivo , devemos empregar os anthelminticos afim de expellir os vermes; mas teremos sempre muito cuidado na administração de taes meios, pois sabe-se que em geral os anthelminticos costumão deixar quasi sempre uma irritação , que por si só bastará para aggravar o estado do doente em vez de guarecel-o. Na choréa intermittente empregaremos o sulfato de quinina como anti-periodico. Na choréa, assim como na maior parle das affecções dos centros nervosos, os banhos e as affusões constituem meios de que se pode tirar as maiores - 43 - vanlagens: os banhos de mar e de rio tem com effeito sido aconselhados por vários práticos, e, por alguns, empregados com suecesso em certos casos, como se pôde vêr das innumeraveis observações publicadas nas gazetas médicas. As simples affusões d'agoa fria sobre a cabeça , estando o doente assentado sobre uma cadeira de braços, e repetidas sete ou oito vezes seguidas, tem apresentado as mesmas vantagens que os banhos frios. Alguns médicos pensão, que submettendo por meio da dansa os movimentos ao rhythmo e à cadência, poder-se-ia sugeital-os ao império da vontade; mas sendo a choréa uma moléstia independente da vontade, todos os esforços volun- tários reunidos não serão capazes de obstar os movimentos choréicos taes quaes os temos descripto. Em vão procuraríamos submettel-os á cadência, elles obedeceria© ainda menos ao compasso e á musica, do que ao importante e admirável órgão do pensamento! Entretanto é mais um meio que temos a empregar, e que poderá ser tentado talvez com proveito, quando esses movi- mentos irregulares que caracterisão a choréa, continuem por uma espécie de habito que os músculos tenhão adquirido, e que então o exercício poderá fazer desapparecer. Devemos attender muito ás causas que tenhão produzido a choréa, ou que a complicão, afim de que sendo ellas removidas, possamos melhor combater a moléstia; também devemos ter muito em attenção a idade, o sexo, a consti- tuição, e mil outras circumstancias inherentes ao doente. Convém sobretudo termos muito em vista o regimen do doente: em geral os authores não fallão d'elle, e todavia é a parte a mais essencial de uma therapeutica bem entendida. Os meios hygienicos devem sempre concorrer com os meios therapeulicos: assim far-se-ha o doente seguir um regimen brando, evitando os excitantes do ^vstema nervoso; as carnes salgadas, as iguarias mui apimentadas , as bebidas alcoólicas, o uso diário e abusivo do chà, do café, &c. Evitar-se-ha ainda as emoções moraes vivas, as fadigas intellectuaes, as oecupações serias que exigem alguma conlensão de espirito; emfim tudo quanto enterter possa a moléstia deverá ser cuidadosamente removido. A natação, a equitação, as viagens, emfim as distracções e o exercício ao ar livre e secco do campo, onde, como diz o sábio Ex.m0 Marquez de Maricá, se respira a divindade, convém muito aos choréicos. Os jogos de toda a espécie, e os exercícios gymnasticos são outros tanlos agentes poderosos e elíicazes contra a choréa depois do emprego dos meios pharmaceuticos. Os choréicos da meia idade, indo em peregrinação á capella de S. Witt, provavelmente adoptárão este costume, menos pelo desejo de dansarem, do que por terem notado que o exercício lhes era profícuo. Terminaremos emfim estas considerações therapeuticas repetindo que é de uma grande importância favorecer a acção dos remédios que tivermos de — hh - prescrever conlra a choréa, pelo emprego opportuno dos agentes hvgienicos. e sobretudo pela remoção das causas quer physicas, quer moraes, que poderão contribuir para o desenvolvimento d'esta moléstia, esperando que chegue um dia em que, sendo a sédc e a natureza da choréa rigorosamente determinadas. possamos assentar o tratamento d'esta affecção sobre bases mais racionaes. e por conseguinte mais fixas e mais sólidas. Aqui concluímos o nosso por sem duvida imperfeito trabalho; oxalá mereça elle a approvação dos nossos Illustrados Juizes!! Antes porém, de depormos a penna, seja-nos permittido repetir com o desterrado do Euxino: Da veniam scriptis, quorum non gloria nobis Causa, sed utilitas ofiüciumque fuit. ■» :n>'j>