\du& <^ye 'óU4^ír*iS[ yy y *rZ&. tSy5t^vc^'£0 uSÍ em *wal da maior estima e fraternidade. A MEU CUNHADO O CAPITÃO FRANCISCO RODRIGUES DE CARVALHO; como penhor de minha consideração e reconhecimento. AO ILLM. SR. JOAQUIM JOSÉ DOS SANTOS JÚNIOR : mesquinho, mas merecido tributo, que lhe rende minha cordial e eterna ainizadt. A MEU MANO JOSÉ MARÍSIIO DE AZEVEDO. HA NO E AMIGO ! Dedicando-vos o primeiro trabalho de meus estudos, alem de cumprir hum dever, obedeça «s leis da gratidão. Outro deveria ser o meu procedimento ? naõ certamente. Em huma idade, onde naõ se tem ainda nem previdência do futuro, nem experiência do passado, nem moderação para dirigir o presente , perdi a existência da hum pai amante. Que se calcule quanto esta perda he sensível, quanto irreparável ! Restou-me, he verdade , huma rr.âe sobremaneira extre. tno6a; mas o bello sexo nâo he feito para comprehender, e muito menos para dirigir os traba- lhos do Lycêo, ou do Pórtico. Quem dirigiria na verdura de meus primeiros annos meus passos racillantes ? Quem dar-me-hia o ílo de Ariadne, para que neste dédalo inextricavel de vicissittt. des, que soffre a vida humana, eu seguisse huma carreira mais feliz ? A Providencia, dando-vos n existência, qxtiz que hum dia supprisseis a falta d'aquelle, que a injusta Parca me roubou. Assim vossos esforços , e os de huma mie carinhosa, dando-me huma educação litteraría, habilita- rão-me para hum dia ser útil á vós , e aos meus concidadãos , e seguindo a carreira das letras me julgo feliz. Ha por ventura motivos mais potentes para que vos seja agradecido? Se os votos de amor, reconhecimento, e gratidão, rendidos publicamente tem algum valor para as alma;, co- mo a vossa, bem formadas, eu hoje vos rendo , e o faço com tanto mais boa vontade , quanto estou certo, que vós os aceitáveis com aquella mesma dispoaiçâo de coração , com que eu os oUJerU. Quí- mais vos offerecerei ? « Alem de liuni coraeão* mais nada tenho, » « Mas dou-te uuui coração constante e grato. » Vosso Mano e amisr* D. M. de A. Américas©. s&t&m?&m»* Fazer, e sustentar huma these para se obter a formatura em medicina, eis a ultima con- dição , que nos empoem a lei. Sendo-me livre a escolha do objecto, preferi a phrenolo- gia. Fiz bem? Se a mocidade brasileira tem o direito inauferivel de ser iniciada em toda e qualquer espécie de sciencia, se para o aperfeiçoamento intellectual e moral dos in- divíduos muito concorre o engrandecimento da esphera de seus conhecimentos, e a varie- dade de suas idéas, se o estudo da maior importância, e que tem occupado os gênios de todos os tempos epaizes, he o conhecimento do mesmo homem, e as estreitas relações que unem entre si sua parte physica e moral, se nenhuma outra sciencia melhor que a phrenologia pode conduzir-nos á estes resultados, claro fica, que não deixava de ser útil huma these, que, concebida debaixo deste ponto de vista, começasse â divulgar entre nós os princípios de huma sciencia nova, e de tanta importância eoriginalidade. Em tempo algum, como na época actual, se tem feito melhor sentir a necessidade de saber, e de variar os conhe- cimentos. A Deosa Minerva he hoje o único idolo, que se adora, a única Divindade, que se insensa; certo, depois da virtude a rasão diz, que o saber he a origem e a medida de toda a nobreza, e que o mais intelligente dos entes he também o mais nobre. Pelo que me toca, declaro alto e de bom som, que não reconheço e nem obedeço á outra aristocra- cia que a do talento, á outra nobreza que a da sciencia. Se, como disse, o estudo da maior importância he o conhecimento do homem, a phre- nologia deve ser propagada, pois só ella explica a sua naturesa com toda perfeição pos- sível ; perfeição que não tem podido obter todos os systemas philosopjbicos concebidos desde a origem dos tempos até a época actual. Se a franqueza he huma virtude, he necessário que eu seja franco. Força he por tanto, que eu diga, que esposo em tudo e por tudo as idéas e os princípios desta sciencia, e estou de tal maneira convencido de sua exactidão , que não duvido, imitando á Cicero, avançar huma exaggeração e dizer que prefiro errar com a phrenologia e não acertar com a philosophia; pois este illustre Romano também dizia, eu prefiro errar com Platão, e não acertar com os de mais philosophos. Todavia esta Sciencia tem encontrado e ainda encontra incrédulos e oppositores. He minha convicção, que en- tre nós ella não terá, ou se tiver, serão muito poucos os seus inimigos. Paiz algum ef- ferece huma mocidade mais dócil, mais anciosa por saber, e mais própria para abraçar e propagar toda e qualquer sciencia como o Brasil. Releve-se-me esta explosão de orgulho \patrio, pois ella he justa e bem fundada. A os brasileiros só faltãomeios, mas não intelligencia, e debaixo deste ultimo ponto nada teii^elles que invejar á culta Europa." Entre nós não existem esses prejuízos, que fazem olhar como\verdadeiros os systemas antigrcs só porque são taes, e movem guerra ásinnovações, bem que necessárias ; e quando existissem eu nunca sufTocaria a vóz de minha consciência, e nem tão pouco assassinaria os dictames de minha razão para fazer a corte ás opiniões domi- nantes. Nada revela melhor a indignidade de qualquer pessoa como o despreso de seus sentimentos só por motivos de considerações subalternas, principalmente em hum me- dico, que he considerado como o único e verdadeiro interprete da naturesa. Se á este ultimo IV compete o tomar conhecimeeto da organisação, c se desta depende a intelligencia, certo, os ideologistas tem invadido terrenos, que lhes não pertencem. O philosopho, que não for medico, he incapaz para estudar o homem , e deve ser expulso deste domínio como invasor de alheias propriedades. Em conclusão tendo mostrado a importância da phrenologia julgo ter dito bastante para recommendar sua cultura. Existe presentemente no Rio de Janeiro hum homem capaz de dar impulso á qualquer sciencia mesmo a mais diíficil. A huma intelligencia penetrante, e que sabe tirar partido ainda dos factos mais insignificantes, elle reúne em si todas as qualidades indispensáveis á hum bom observador. A paciência nos trabalhos, a assiduidade nos estudos, hum amor dicidido para ás sciencias naturaes, a severidade em suas deducçoes, nunca precipitando ronsequencias com dados infiéis ou pouco fortes, existem neste cidadão em gráo eminente. Livre de prejuízos, elle está sempre disposto á abraçar a verdade, seja qual for a sua ori- gem, seja qual for o caracter, de que ella se revista. Eu fallo do Sr. Dr. Manoel doVal- ladão Pimentel, Lente de Clinica medica, e digno presidente desta these. O que acabo de dizer deste medico distincto não he lisonja, mas sim hum tributo, que rendo ao mérito. Nao tenho motivos e nem preciso lisongear o amor próprio d'alguem. Era necessário, que eu fosse distituido de dignidade e elevação de sentimentos, qualidades estas, que preso possuir em hum gráo subido, para lançar mão de huma arma, que julgo despresivel. Aphrenologia por tanto tem tudo á esperar do Sr, Dr, Valladão, e como elle foi hum dos primeiros, que abraçarão seus princípios, constituio-se por isso mesmo no rigoroso dever de faze-la progredir. Eu assim o espero. Esta these terá não pequenos deffeitos e imperfeições. Quem o duvida? A magnitude e a importância da matéria comparadas oom a fraqueza de minha intelligencia c a cxigui- dade do tempo, que tive para entregar-me á seu estudo detalhado cxplicão este facto. Todavia fiz o que pude: outros que toquem á perfeição. Quod potui feci, faciant meliora potentes' PRIMEIRA PARTE- ANALYSE PHILOSOPHICA* CONSIDERAÇÕES GERAES. j A phrenologia he a sciencia, que trata das faculdades intellectuaese moraes do homem , «dos órgãos, que servem para seu exercicio, e manifestação. Começando por definir, satisfaço huma das primeiras curiosidades do espirito humano ; a desaber, qual a natureza, utilidade, e fim da sciencia que estuda. Se o homem he o resultado de dous princípios, physico, e moral; se de hum para outro ha numerosas, e reciprocas influencias, se osactos, cujo todo constitue sua intelligencia, c moralidade, sáo dimanados de sua actividade simultânea; se o simples facto de sua juneção he razão bastante para concluir sua mutua dependência, e attrahir nossas indagações, qrfe sciencia mais que a phrenologia poderá oíferecer maior somma de utilidades? Seu estudo he de igual importância para o medico, e o moralista. Conhecendo a poderosa influencia, que as paixões humanas exercem sobre os desarranjos da organisação, e a producção das enfermidades, o medico escolherá, e graduará os remédios segundo a naturesa e intensidade das causas. E remontando ás origens mais obscuras, de que dimanão as operações da intelligencia, e as determinações da vontade, convencido, que as leis moraes são inherentes, e recebem modificações do organismo, o moralista, estudando huma e outra cousa, deduzirá preceitos, que, regularisando nossas acções, nos alcancem a felicidade. ^Desgraçadamente o homem nunca foi estudado debaixo deste duplo ponto de vista. Nunca seus dous princípios constituitivos forão regularmente analysados em suas relações de dependência. Sem duvida, hum dos maiores obstáculos, que se tem opposto ao conhecimento da natureza humana, he de a ter isolado do estudo dos outros seres organisados, e de querer subtrahi-la ás leis, que os governão. Este erro foi practicado pela quasi totalidade dos philosophos. Em seus systemas, em suas theorias metaphysicas a alma era tudo, o corpo — 2 — nada A exagerarão checou á tal ponto que a existência da matéria foi a principio duvidada; e por ultimo negada p~or hum scepticismo, que não conhecia limites. A ignorância, e o desprezo em que erao tidas asseiencias naturaes, as disputas theologicas, as commo- çoes intestinas promovidas, c fomentadas pelas seitas religiosas oascet.smo, o êxtase pre- gados pelos ministros do culto como osuprasummum da sabedoria, e perfeição chamando à si a attenção de todos os espíritos, e repudiando como offensivo á religião o estudo da parte orgânica do homem, o despotismo dos governos , a ausência da liberdade do pensamento, a perseguição ás novas descobertas, a exigência de huma obdiencia e crença regas nas tradições antigas, tudo finalmente de mãos dadas concorria para que senão podesse bem determinar qual o verdadeiro caracter intellectual, e moral da espécie humana. Se em huma, ou outra época alguém se erguia para advogar a existência, e os direitos da matéria organisada: materialismo ! impiedadel gritava-se logo; e o miserável imprudente que assim pensava, coberto deanathemas, sepultado em prisões, ou victima das fogueiras da inquisição, pagava bem caro o seu arrojo. Como desta maneira esperar progressos para a sciencia! Felismente o Brasil vive sob os auspícios da liberdade. He livre a publicação do pensamento, e das convicções individuaes, e a mocidade brasileira ávida de conhecimentos, e bastante illustrada repellirá com indignação, e desprezo tudo que se opposer ao desenvol- vimento da razão, e aos progressos da sciencia. Sim: eu não me animaria a tomar a palavra a favor da phrenologia t se a época actual fosse a dos Torquemadas, onde o pensar livre era hum crime, o saber hum prejuízo. Voltando ao nosso ponto, força he confessar, que o estudo das faculdades do homem exigia huma nova direcção' Era necessário hum systema, que considerando nossos actos intcllectuaes, e moraes como hum produeto, cujos factores são o organismo, e a substancia intelligente, determinasse a esphera de actividade , as funeções, e a extensão da influencia de cada hum. Os trabalhos infruetuosos de tantos séculos, as disputas intermináveis dos metaphysicos, que, despresando a influencia do corpo humano, pairavão nas regiões estéreis, e elevadas da especulação, a multiplicidade prodigioza de systemas feitos para marcar o numero, e determinar a naturesa das faculdades d'alma, nunca satisfasendo em suas explicações, e quasi sempre desmentidos pelapractica dasacçõeshumanas, con- tinu amente reformados, e substituídos por outros igualmente falliveis, demonstravão esta necessidade. Quem seria o gênio reformador? A natureza dando a existência ao Doutor Gall reservava-lhe igualmente esta gloria. Vendo a esterilidade, e a má direcção das indagações philosophicas, Gall disse: Se o homem he composto de alma, e corpo, todo o systema sobre o entendimento humano, à não querer fundar-se em hypotheses inexplicáveis, e compostas de cousas contraditórias, ifbve, para ser verdadeiro, abranger ao mesmo tempo estes dous elementos em si e suas relações. Sendo a alma huma substancia espiritual, inaccessivel aos nossos sentidos, e por conseguinte fora da esphera das observações directas, claro fica que a manifestação de suas faculdades não se effectuando se não por meio da organisação, esta deve ser a mais importante base de huma philosophia racional. E se a organisação he a condição indis- pensável para a eíTectividadê da intelligencia, se o estudo material, e funccional de suas partes he da alçada da anatomia, e physiologia, estas duassciencias devem igualmente entrar nos cálculos do philosopho, e do moralista. Se isto he Innegavel, o homem deve ser estudado como os de mais seres organisados, e por conseguinte submettido aos mesmos processos, ás mesmas analyses, que emprega o anatomista, ochftnico, e o bota- nist.i na pesquiza das propriedades, e funeções da matéria. He necessário portantt es- tnda-lo, não no gabinete como fazem os metaphysicos, mas sim no theatro do natureza. He necessário ve-lo nascer, crscer, florecer, decair, e morrer; obsenar, e notar a causa da diversidade de seus talentos, e inclinações; analysar os phenomenos variados, 1 suecessivos, que precedem, acompanhão, ou seguem os diversos períodos desuaexis- — 3 — tencia; examinar a influencia que os modificantes exteriores, taes como alimentação, clima, educação, instituições civis, e religiosas, fortuna, desgraça, e as diversas profis- sões exercem sobre o desenvolvimento de suas faculdades; observar, e comparar finalmente as alterações produzidas em suas funeções intellectuaes, e moraes pelo estado de saúde ou de enfermidade. He somente com os íactos fornecidos por estes dados, que se poderá bem determinar o numero, e a natureza das nossas faculdades, e o verdadeiro caracter da espécie humana. Eis a empresa, á que se propoz, e effectuou o Douctor Gall. A' dar huma curta idéa de sua doutrina be o, que me proponho na presente these. Mas como o estudo das faculdades do homem tem sido a partilha exclusiva dos philosophos antes da existência da phrenologia, convém primeiro dizer quaes tem sido suas opiniões sobre esta matéria, e seellas resolvem o problema da determinação das faculdades fundamentaes, e primitivas do homem, e qual o seu numero, e natureza; o que fará objecto desta primeira parte. OPIKIÕES PHILOSOPIIICAS. Na infância da sciencia, quando a physiologia, e anatomia por seu atrazo não podião ainda bem dirigir as observações, o moral humano era julgado pelas impressões, que os objectos exteriores exercem sobre nós, e pelas determinações da vontade para adquirir ou evitar a posse desses objectos segundo sua boa ou má natureza. Em conseqüência todas as faculdades redusião-se á duas, entendimento, e vontade. O entendimento era a facul- dade, ou capacidade de receber, reconhecer, raciocinar, combinar, e julgar as idéas; e a vontade, a faculdade ou capacidade de ser agradável, ou desagradavelmente affectada, de desejar, querer, e obrar em conseqüência. Mas como suas operações, ou pela sim- plicidade , ou pela rapidez, com que erão executadas, parecião não ter relação alguma com a matéria, cuja inactividade, peso, e resistência ao movimento, julgava-se ser o ca- racter fundamental, admittio-se hum ente eminentemente activo, intelligente, existindo por si só, cuja presença diffundisse a vida e actividade sobre todas as partes do corpo, e cuja separação as abandonasse â morte e á destruição. Este ente foi chamado alma; e satisfez de tal maneira as pretenções dos philosophos, que todas as operações da vida lhe erão attribuidas independentemente da organisação. Assim elle tornou-se a causa efli- eiente da organisação mesma, do movimento, das secressões, excressões, dos accidentes da cura, ou da enfermidade, o conservador da saúde, etc. etc., finalmente hum soberano, que assentado nos ventriculos, no corpo calloso, na glândula pineal, ou em outro lugar imaginado pelos philosophos, dieta, e não recebe leis da organisação, de que era abso- lutamente independente. Esta doutrina dominou com algumas excepções todos os philosophos desde Aristóteles até o século 17. Com tudo, mostrando a experiência á alguns philosophos, que havia huma certa ligação entre a intelligencia e os órgãos; pois que, faltando, ou sendo imperfeito hum sentido, faltava ou era imperfeita huma certa serie de idéas, foi admittida a intervenção dos sentidos como correios, ministros, de que a alma se servia, para tomar conhecimento unicamente dos objectos materiaes- Da mesma maneira mostrando a experiência, que só duas faculdades não bastavão para explicar todos os phenomenos da intelligencia, e da vontade, foi a alma considerada como possuindo hum maior ou menor numero de faculdades segundo as theorias de cada philosopho. Não sendo compatível com huma these longo desenvol- vimento, eu só exporei a opinião d'aquelles que me parecerem mais conspicuos. Pithagoras distinguioduasordens de faculdades; sensíveis, e intellectuaes. As primeiras presidem ás sensações, e as segundas combinão as idéas. Admittio duas almas distinetas, sensitiva, e intelleotual, presidindo cada huma á huma ordem de faculdades; subordinando todavia a sensitiva á intellectual. —i— Ileraclito admittia huma só faculdade, o entendimento, ou razão commum. Só esta julgava com acerto, e podia conhecer a verdade, em quanto que os sentidos erão falliveis. Protaçoras, e Critias redusiao as faculdades d'alma a huma única, a de sentir, ou a sensibilidade, c fasião consistir toda a sciencia na sensação, Segundo Leucippo, e Demoerito a alma he material, composta de átomos de fogo, e tem duas faculdades, a força motriz, e o pensamento. Platão, c seussutvcssores admittião três almas, vegetativa, animal, e racional. Esta ultima tinha duas faculdades, a sensibilidade, e o pensamento. Lstc dividia-se em duas outras, o entendimento, c a razão. Aristóteles considerava a alma dotada de faculdades rommuns com os animaes, e de outras, que lhe erão exclusivas. As primeiras erão: a sensibilidade, a faculdade appetitiva, e a forçu motriz, e as segundas, o entendimento agente, o paciente, o especulativo, e o practico. Zeno, o sloico, reconhecia oito faculdades; os cinco sentidos, a faculdade geradora, ft Iingoagem, o entendimento, o qual se exerce, segundo elle, de cinco maneiras, pelos de»ojos, approvaçao, as idéas, a imaginação, e a sensação. Santo Agostinho destribuia em sete ordens as faculdades d'alma; a 1." contém aquellas, que animão, e conservão o corpo; a 2.* a sensação, e a geração; a 3.a a memória, e a in venção, applicada as artes e sciencias; na 4.a a alma reina sobre o corpo pela sabedoria; m 5.* obra, e vela sobre si mesma para conservar sua pàz e pureza interiores; na 6." ttNido á contemplação intellectual; e na 7.a communicadirectamente com a Divindade, donde tira os mais sublimes conhecimentos. Bacon distinguia duas almas, sensitiva, e racional. A sensitiva tinha por faculdades, a I >rç.a motriz, ca sensibilidade, e a racional, a memória, o appetite, a vontade, a ima- ginação, a razão, o entendimento e o raciocínio. Loke admitte duas origens de idéas, os sentidos e a reflexão, ou a faculdade de elaborar ecombinar as impressões, que nos transmittem os sentidos para formar idéas. Em »na opinião a alma he dotada de dez faculdades, que são; a sensibilidade, a percepção, ixzttenção, a reflexão, a memória, a contemplação, a reminiscencia e a razão, que se divide em três outras; a faculdade de inventar, ou a sagacidade, a faculdade de deduzir, i»u o raciocínio e a faculdade de apreciar as relações, ou o juízo. No systema de Condillac, contando a sensação, vem haver sete faculdades, que na ordem de seu desenvolvimento, são; a sensação, attenção, comparação, juízo, reflexão, imaginação e o raciocínio. Segundo este philosopho todas as operações d'alma, todas as idéas intellectuaes e moraes, e todos os nossos conhecimentos não são outra cousa mais do que as sensações transformadas. Descartes admitte quatro; a vontade, o entendimento, a imaginação e a sensibilidade. ', o eu. Este eu actwo, ou recebia as impressões que lhe transmittião os sentidos ou elaborava as impressões já recebidas, ou tomava conhecimento de suas dis- posições interiores; donde a origem de três espécies de idéas, adventicias, factícias e • ** 7t U í Ctô * Mallebranche admitte duas faculdades, o entendimento e a vontade. Compara o entendimento com a capacidade que tem os corpos de receber diflerentes figuras: e a vontade com a capacidade de receber diflerentes direcções e movimentos; fazendo con- sistir a actividade d^lma na liberdade, que, segundo elie, he o poder que temos de dirigir a vontade para o bem universal, a Divindade. Tracy reconhece primeiro huma faculdade fundamental, o pensamento, que em sua opinião he o mesmo que sentir, e sentir o mesmo que existir. Esta faculdade, ou sente actualmente as impressões, ou recorda-se das passadas, ou percebe relações entre os objectos presentes, ou suas lembranças quando passados, e ausentes, ou sente em fim desejos por occasião destas relações. Assim o pensamento divide-se em quatro faculdades, a sensi- bilidade, a memória, o juízo, e a vontade. Laromiguiere admitte primeiro dous attributos fundamentaes, a sensibilidade, ou a capa- cidade de receber impressões e modificações tanto exteriores como interiores; e actividade, ou este poder que tem nossa alma de elaborar, trabalhar as impressões para formar idéas.' Esta actividade, ou se applica á adquirir conhecimentos ou a dirigir nossas acções. Para o primeiro caso tem três faculdades, altenção, comparação e raciocínio; e para o segundo outras três, desejo, preferencia e liberdade. As três primeiras formão o en- tendimento, e as três ultimas a vontade. Segismundo Storchenau admitte huma faculdade fundamental, a de conhecer, ou como lhe chama, a faculdadecognoscitiva. Esta se exerce de três maneiras, percebendo julgando e raciocinando. Azias, no seu tratado das compensações nos destinos humanos, admitte cinco fa- culdades; a memória, o juiso, a imaginação, a vontade e a liberdade. Seria hum nunca acabar se fossemos a narrar as opiniões de todos os philosophos. O expendido basta para o meu fim, e por elle pode o leitor julgar de tudo mais, que ommitto das opiniões philosophicas. REFLEXÕES. Conhecer, e determinar o numero, e naturesa das faculdades intellectuaes e aflectivas do homem, eis o grande fim, á que se tem proposto exclusivamente os philosophos de todos os tempos, e ultimamente os phrenologistas. Todos os indiví- duos , que compõem a espécie humana, são dotados dos mesmos germes de faculdades, talentos, disposições, inclinações, aptidões etc. etc. Porém todos estes germes não estão igualmente desenvolvidos em todos elles, ou seja isto proveniente dá organisação pri- mitiva do homem, ou o resultado da educação e circunstancias exteriores, ou o produeto de huma e outra cousa combinadas. O grupo de todas estas qualidades reunidas constitue o caracter da espécie, assim como a diversidade no numero, energia e desenvolvimento de cada huma dellas, constitue o caracter próprio, o suigeneris, dos indivíduos. Da mesma maneira que todo effeito suppoem huma causa efliciente, todo acto, toda acção humana suppoem, e demonstra a existência de huma causa, de huma força, de huma potência em fim, que dê a rasão de sua existência. Ora como os actos da hu- manidade são muito diversos, oppostos, e não apparecem na mesma época da vida, elles não podem dimanar de hum só principio, de huma só causa. He necessário por conseguinte diflerentes princípios, diflerentes causas, que expliquem a diversidade das nossas acçoens; e são estas causas, estas forças, estes princípios diflerentes, o que se chama, as faculdades do homem. Já vimos qual tem sido o pensar dos philosophos á respeito do numero e naturesa das nossas faculdades. Depois de tantos séculos decorridos não ha dous philosophos unanimes; e este desacordo bem prova a fallibilidade de seus princípios, e a direcção tortuosa de seus estudos. A phrenologia não admitte como faculdades fun- damentaes e primitivas do homem se não seus ^alentos, aptidoens, e propensoens deter- minadas. Deste numero são, por exemplo, a força, que nos arrasta á propaga- ção, a que nos obriga á amar nossos filhos, o talento para a pintura, a musica, a poesia, a eloqüência; o sentimento de associação; a coragem, a firmeza de caracter; o talento para as sciencias mathematicas; o amor próprio; o sentimento de amisade; a circunspecção, o sentimento de adoração; em fim outras muitas faculdades das quaes ~"~6T trataremos especialmente™ 3.a parte%desta these. Eis as únicas faculdades, que a phre* nilogia reconhece como fundamentaes, e primitivas; e só ellas podem determinar o ca- racter intellectual, e moral da espécie humana, e dos indivíduos em particular. A phre- nologia admitte as faculdades philosophicas, não como fundamentaes e primitivas, mas stm como qualidades geraes, attributos communs, diflerentes modos de acção d'aquellas faculdades, que ella reconhece como fundamentaes, e das quaes já demos alguns ex- emplos. Nao ha homem algum, á não estar collocado no ultimo gráo de imbecillidade, que não possua, e exerça com perfeição, a memória, attenção, a comparação, o jutzo, a imaginação, a reflexão eo raciocínio sobre aquelles objectos, que são da alçada de sua profissão, como o musico, o pintor, o mecânico á respeito de suas artes. Da mesma maneira não ha alguém, que não deseje a fruição dos praseres da vida, e que tendo muitos á escolher não prefira huns á outros com toda liberdade, e se determine em conseqüência. Estas qualidades são communs á todas as faculdades, e não servem para dar a co- nhecer alguma em particular. Como se poderá pela attenção, comparação, memória, dezejo, preferencia., e liberdade, explicar a origem do instincto da propagação, do amor dos filhos, do talento diflerente que cada hum tem para a musica, a pintura, a poesia, ou as mathematicas? a rasão por que huns tendo a cabeça recheada de casos e acconte- cimentos, não são todavia capazes de conservar as datas e épocas, cm que tiverão lugar e ríceversa? porque huns são corajosos á pesar dos maiores perigos, em quanto outros fogem ao aspecto do mais insignificante espantalho? por que huns são orgulhosos, frau- dulentos, egoístas, avàros, em quanto outros são affaveis, sinceros, beneficentes e libe- raes? por que aquelles que mostrão grande talento para a guerra, são muitas vezes miseráveis legisladores, e mais que inhabeis administradores? por que de hum para outro sexo ha huma diflerença tão assignalada, e por maior que seja o talento femenil, e sua educação litteraria systematisada, nunca huma mulher pode chegar pelos esforços de sua rasão ás alturas de Newton, Broussais, Hippocratis, Voltaire, e se alguma apparece, como Madama Stael he hum phenonemo raro na historia? Apparent rari nantes in gurgite vasto. Certamente pelas faculdades philosophicas não se pode explicar estas diflerenças individuaes, e entretanto são estas diflerenças de talento e inclinações, que convém saber, e que só podem determinar o caracter intellectual, e moral de cada homem em particular. A phrenologia invoca á favor de sua opinião o senso commum do povo, dos mestres de escola, e o testemunho da historia. No trato ordinário dos homens, no centro dns famílias, nas aulas de educação, .os indivíduos são distinguidos por qualidades deter- minadas. Hum he notado como tendo grande habilidade para a musica; outro para a pintura, e outro para as artes mecânicas, ou estudo das lingoas; hum por sua gran- de memória para a geographia, a historia, ao mesmo tempo que manifesta grande in- capacidade para tudo, que exige longos cálculos, e profundas combinações; outro por hum grande talento e penetração para as sciencias mathematicas, e abstractas, contras- tando com huma inhabihdade pronunciada para as bellas artes; hum por seu orgulho, maldade, ayaresa e espirito turbulento; outro por sua affabilidade, bondade, generosi- dade, e espirito quieto e pacifico; este em fim por sua fidelidada e caracter sincero - amante da verdade, aquelle outro por hum espírito trahidor, falsário e mentiroso. Consultando a historia ella nos diz, que Newton fora grande nas sciencias m,i- thematicas, Descartes em philosophia, Rossini na niuzica, S. Vicente de Paula na be- ficencia, Camôrns, Filinto Elysio na poesia; Cicero, Demosthenesna eloqüência; Nci\f na maldade; Alexandre, César, Napoleão na arte militar; o capitão Cook na geogra- phia; Boiassi d'Anglas na firmeza de caracter; Praxiteles na escultura; Talleyrand nadis- — 7 — simulação etc. etc. Assim tanto o pensar do povo, dos pais de familia, dos mestres de escola, como o testemunho da historia distinguem e assinâlão os homens por talentos, faculdades determinadas, e não pela attençào, comparação, memória, reflexão, desejo, preferencia e liberdade, que não são outra cous a mais do que attributos communs, modos geraes de exercício, que, convindo á todas as faculdades fundamentaes, e só servindo para classifica-las e mostrar o que ellas tem de commum entre si, não podem dar á conhecer alguma em particular. O physico, o chimico limitando-se as propriedades geraes dos corpos, taes como, o peso, o volume, a divisibilidade, a compressibilidade, a elas- ticidade, a côr, a resistência, a solidez, a íluidez; conhecendo mesmo certas qualidades dos metaes, de certa classe de ácidos; não conhece ainda o ouro, o cobre, a pedra cal- cária, a platina, a agoa, o carbonato de cal, o sulfato de ferro, de cobre etc. etc. Em historia natural não basta dizer, que se possue huma pedra, hum animal, huma planta, hoir netal, huma arvore fruetifera, ou huma ave: he necessário determinar a espécie, >' depois sua individualidade pelos caracteres próprios e exclusivos; emais variedades ha nos indivíduos de huma mesma espécie, mais seus caracteres devem ser distinguidos e assinalados. Assim os naturalistas não se contentão somente com as propriedades geraes da matéria; elles observão, e analysão todas as qualidades particulares e exclusivas, como únicas capazes de determinar a naturesa peculiar dos objectos. O anatomista no estudo physico do homem, antes da extrahir a somma das propriedades communs aos órgãos e suas funeçoens, analysa primeiro todos os systemas, todos os apparelhos do mais simples até o mais composto, e todas as funeçoens da mais simples até a mais complicada. Se elle quer tratar de hum aparelho, de huma funeçao determinada, como do aparelho mus- cular, da secressão urinaria, por exemplo, vai directamente á suas propriedades, á seus caracteres exclusivos» Assim em quanto os naturalistas fazem preceder a analyse á syntese no estudo dos entes materiaes; os philosophos seguem o systema inverso empregando so- mente a syntese; e eis a rasão por que as sciencias naturaes tem tido hum progresso espantoso, ao passo que as sciencias philosophicas tem estado na ra.<ão inversa dos esforsos feitos, das obras publicadas em todos os tempos para seu adiantamento. O mesmo erro commetterão os moralistas no estudo moral das acçoens humanas. Fallando constantemente de virtude, crime, acçoens boas e más, afiecçoens, paixoens e suas conseqüências, dezejos, vontades bem ou mal dirigidas, nunca se lembrarão de de- talhar as causas, as forças primitivas, que produzem a diflerença, opposição e diversidade de nossos actos, e se o querião fazer, recorriao sempre a admissão de hum só principio, de hum só movei, que para huns era hum sentido moral e innato do justo, e do injusto, como Torombert o avança na introducçao de sua obra feita para refutar*o contracto so- cial de Rousseau; e para outros, como os moralistas do 18.° século, era a mesma intel- ligencia do homem. Estes últimos dizem que nossas acçoens boas ou más, virtudes, ou rrimes, são o resultado do acerto ou desvario da intelligencia, e que para tornar os ho- mens melhores basta cultivar-lhes a rasao. Tanto huma como outra opinião sao falsas; e he fácil a prova. Por hum só movei não se pode explicar tantas acçoens diversas e oppostas do homem; e por que certas pessoas sendo virtuosas cm hum sentido, são criminosas em outro? Homens ha, que sendo muito beneficentes para cornos estranhos, pouco estimão, e muitas vezes maltratão seus filhos, e esposa, e vice versa. Huns não dtrvidão sacrificar sua fortuna, comprometter sua pessoa para conservara amisade, em quanto outros alem de suas commodidades não co- nhecem outro idolo. Ora hum só movei, o sentido moral, não pode ser a causa de tantos actos contraditórios. Accresce mais que o menino practica muitos actos em huma idade, em que o sentido moral ainda não tem exercido, o qual só toma vigor da puber- dade por diante. O mesmo se pode dizer á respeito da intelligencia. Esta não gosa da plenitude de suas funeçoens senão na idade adulta; e pode-se dizer, que antes desta época o homem 2" — 8 — não tenha sentimentos, que não practiquc acçoens boas, e más? Alem disto he suppor, que se ama, ou se odeia, se procura, ou se evita a posse de certos objectos segundo a reflexão baseada sobre o conhecimento do mundo exterior, entretanto que o menino practica todos estes actos sem que a sua rasão esteja desenvolvida. A intelligencia pode refrear, ou dar mais vigor ás inclinaçoens, e sentimentos, porem ella não os produz, e muitas vezes para vencer aquelles que são prejudiciaes ao estado social, lhe he ne- cessário hum habito, huma força á toda prova. Quantas vezes a razão em vez de cum- mandar obedece ao choque impulsivo de nossas afléiçoens? Quantas vezes conhecendo-H- o melhor segue-se o peior impellido por huma força, por huma paixão irresistível, a do amor, por exemplo? Video meliora proboque, sed deteriora sequor. Se a intelligencia fosse a única origem de nossos actos e inclinaçoens, o homem que tivesse a rasão mais illuslrada deveria ser o mais virtuoso ; ora isto he o que i ao acontece. Se folhearmos a historia, onde vem consignada a gloria, ou a vergonha dos homens celebres, veremos muitos d'entre elles bem sábios, e malvados ao mesmo tem- po. A sabedoria, se dá ao homem mil recursos para a virtude, da-lhe outros tantos par.i a perversidade. De tudo isto resulta que os nossos actos, as nossas inclinaçoens essenci- almente diflerentes des"de a mais instinetiva até a mais intellectual são dimanadas de outras tantas faculdades, de outras tantas forças determinadas. A terceira pai te desta these melhor desenvolverá o que agora não faço senão esboçar. Que diremos agora dos theologos? O estudo das faculdades humanas, trazendo com- sigo a independência do homem, o conhecimento de seus direitos, a legitimidade de suas prerogativas, a igualdade das condiçoens, destruindo o edilicio do erro e da im- postura, não podia certamente progredir entre homens, que firmavão o seu império sobre a ignorância, cegueira e credulidade dos povos. Crer, e obdecer cegamente, comer, ou jejuar, fazer a guerra, ou pregar a paz, ficar em casa, ou fazer perigrinaçoens, levar oferen- das á Deos, ou cantar psalmos em sua gloria, supplicar em pé ou de joelhos, eis o que elles pregavao. As novas descobertas, as verdades physicas, as sciencias naturaes, e seus authore* erão perseguidos como prejudicando os dogmas religiosos, como se o erro, e nao a ver- dade, podesse melhor sustenta-los. Assim quasi todos os chefes religiosos tem declarado guerra ás sciencias. Ou os livros que ornão a bibliolheca de Alexandria, contem as ver- dades do alcorão; dizia Ornar, e então derem ser queimados por inúteis, pois tudo quanto ha de verdade existe no ai cor ao, ou não; e neste caso devem igualmente ser queimado» por serem mentirosos.» Como desta maneira esperar progressos para a sciencia! ! Cumpre porem notar que fallando deste modo nao he meu fim atacar a religião que seguimos; sua moral he santa, seus preceitos divinos e sagrados. ' Eu os sigo e adoro de todo meu coração. He sempre necessário nestas questoers distinguir os homens das cousas. Temos visto por esta suecinta analyse que tanto os philosophos, como os moralistas estudando as qualidades geraes do espirito, e nao suas faculdades determinadas nao po- diao jamais chegar a precisar, e conhecer o verdadeiro caracter intellectual e moral do homem. Cumpre agora antes de dar fim á estas reflexoens mencionar hum erro que todos elles tem commettido. Persuadidos que a nossa alma era absolutamente independente do corpo, e que os animaes, puros autômatos, não possuião esta entidade, a maior parte dos philosophos e moralistas julgavão degradante para estudar as faculdades do homem compara-lo com 'os an.maes^ Theodoro de Almeida, por exemplo, dá tratos á sua imaginação, torce e cita pas- sagens da escritura santa, para provar à Eugênio que o sangue he a alma dos brutos — 9 — e que todos os seus actos, e movimentos sao produzidos pela ordenação, e coorde- nação automática das partes constituintes do corpo postas em acção pela impressão dos objectos exteriores. Com effeito he necessário fechar os olhos â luz para senão ver que os animacs, e o homem são formados pela naturesa debaixo do mesmo plano. Nao tem elles os cinco sentidos como nós? Vêem, cheiráo, gostão, ouvem, e são impressionados porventura de huma maneira dlfferente? Não estão sujeitos ás mesmas leis de nascimento, crescimento, decadência e morte que a espécie humana? Não se propagão, não amão seus filhos, não são susceptíveis de amor, ódio, alegria, tristesa, inveja, ciúme, cólera , esperança; não sao dotados de coragem, ou pusilaniraídade; nao são dóceis, ou altivos, fieis, ou trahidores; não mostrão em fim possuir muitas faculdades elevadas, taes como a circunspecção, a reflexão, a sagacidade, a memória etc. etc. da mesma maneira que o homem? Os verdadeiros detractores da espécie humana sao aquelles que julgáo necessário negar a intelligencia aos anímaes para manter a digni- dade do homem. Como o conhecimento de huma maquina suppoe o de todas as peças de que he composta; assim também o conhecimento do homem suppóe o dos elementos de què se forma. Tanto os animaes partilhão com o homem hum grande numero de faculdades, e de órgãos semelhantes e iguaes, que o naturalista mais abalisado ve-se em muitos embaraços para dicidir, onde a animalidade acaba, c onde a humanidade começa. Na segunda parte desta these mostraremos que o cérebro he o órgão e o foco de todas as nossas faculdades intellectuaes, e moraes. Partindo do homem o numero das partes constituintes do cérebro, e das faculdades vai gradativamente diminuindo até chegar aos animacs microscópicos, onde huma e outra cousa se reduzem à unidade. Ora não he visível, que estudar o physico, eo moral dos anima- es, heo mesmo que estudar o homem em suas decomposiçoens? e o estudo que começa por partes nãoheo único capaz de avançar o conhecimento de suas faculdades? Como então pode ser de gradanle a comparação do homem com os animaes? Se he perigoso, diz Pascal muito fazer ver ao homem quanto elle he igual aos animaes sem lhe mostrar sua gran- desa , ou de lhe fazer muito ver sua grandesa sem sua baixesa, he ainda mais peri- goso fazer-lhe ignorar huma e outra cousa. SEGUNDA PARTE. BASES FUNDAMENTAES DA PHRENOLOGIA. HISTORIA. A phrenologia deve sua existência ao Doutor Gall, Medico deVienna. Ainda joven, e dotado de talento observador Gall foi tocado da diversidade de talentos. gostos e inclinações, que observava entre seus irmãos, camaradas e mais companheiros da infância. Huns se distinguiao por huma memória feliz sem juízo, outros por hum juízo solido sem memória, alguns tínhão aptidão para as mathematicas, ou para a historia e nenhuma para o estudo das línguas, ou musica, estes nascião naturalmente poetas ' aquelles erão arrastados irresistívelmente para as artes mecânicas, que cultívavâo com successo Gall tinha huma memória preguiçoza, e em matérias de estudo, bem que se fizesse notável pela originalidade de suas composições, era todavia excedido por aquelles de seus cond.sc.pulos, que possuião esta faculdade em hum gráo eminente, e contra os quaes seus esforços erão baldados. Deixando as aulas primarias, e indo estudar na Uni- versidade de Strasbourg lá encontrou eollegas de memória igualmente prodigiosa Observou í°JUen tfnt0 .estes com(; seus ^g08 companheiros tínhão os olhos salientes'; observação que fo, confirmada por todos aquelles que primaváo em decorar paginas, citações o para! graphos inteiros de authores, oflerecendo todos a mesma conformação de olhos Bem que o numero de factos por elle colhidos não bastasse para authori ar huma ÍnseqTenc1a universal, nao podia todavia crer que a coincidência destes dous phenomlos S nUra- mente acc.dental; e se a memória tinha hum sinal sensível exterior pa^mani estar sul energia, o mesmo deveria acontecer com as outras faculdades intellectuaes e mo aes So homem. Desde então não havia homem algum notável por qualquer titulo queTosse cuia cabeça podendo, nao examinasse e comparasse com a de outro^ que debaixo do mesmo ponto de vista mostravao a maior imbecillidade, á ver se as elevações cra\eanas de Lns correi pondiao com as depreçõesdeoutros, paraassim melhor firmar o seu juizo. Com efTeitoencontrou — 11 — entre outros hum mendigante que lhe confessara ser o estado deplorável de mendicidade, á que se achava redusido, conseqüência de hum orgulho excessivo, que manifestara desde seus mais tenros annos julgando-se superior a tudo e a todos, e nada querendo apprender que lhe garantisse hum dia a subsistência. Examinando sua cabeça Gall achou muito saliente a summidade do cranco deste desgraçado, conformação esta, que já Lavater tinha notado como sinal de orgulho, c que nao se encontrava nos homens obedientes e sub- missos. Sempre persuadido que, se o craneo se modellava sobre o cérebro para dar hum sinal sensível da memória, deveria igualmente modellar-se para indicar as de mais faculdades, continuou infatigavel neste sentido suas indagações, e de facto em facto, de observação em observação chegou á descobrir no craneo sinaes sensíveis dos talentos da pintura, musica, poesia etc. etc. quando pronunciados. Todavia appresentou-se-lhe hum dia huma menina de huma memória prodigiosa , bastando-lhe assistir huma só vez a qualquer concerto de musica para decorar e recitar exactamente quantas árias tinha ouvido. Esta menina de huma memória infinita não ti- nha os olhos salientes fazendo assim falhar a sua primeira observação. Convencido por este facto, que o poder de conservar as cousas deveria ser commum ã todas as faculdades, estudou dahi por diante Gall a memória ligada à talentos particulares e chegou assim a determinar memória dos factos, das palavras, dos lugares etc. Nesta epocha Gall ainda ignorava qual a opinião dos physiologistas sobre as funeções do cérebro, e dos methafisicos sobre as faculdadesd'alma. Applicando-se á medecina, ma- ravilhou-se de ver a divergência, que existia entre os physiologistas, collocando huns , como Galeno, líaller etc. , as faculdades intellectuaes, e a alma no cérebro como sua sede; outros nb coração, como osStoicos, e Aristóteles; nas meningeas, como Erasistrato; no corpo calôso, como Lancisi, c Lapeyronie, nos corpos cstriàdos, como Willis; nos grandes ventrieulos dos cérebro como Herophilo, etc. etc. ; e concordando quasi todos em dar as vísceras do baixo ventre como sede das faculdades aftectivas. Impossível era que esta divergência lhe não fizesse duvidar da exactidáo de taes observações. Consultando os philosophos, huns dizião, que nossas faculdades erão o resultado dos sen- tidos exteriores; outros que nascíamos com talentos iguaes, c que a differença deveria ser attri- buida á educação, ás circunstancias exteriores ouá huma e outra'cousa combinadas; e opinando a maior partedelles, que a nossa ai ma exerce suas funeções independentemente da organisação. Le.mbrando-se que seus irmãos, parentes, camaradas e mais companheiros da moci- dade sugeitos á influencia dos mesmos agentes exteriores, e por conseguinte das mesmas impressões e seusações, recebendo todos a mesma ou nenhuma educação, erão todavia diflerentes em seus talentos e inclinações , não podia Gall abraçar a opinião dos philosophos á tal respeito, e muito menos aquella que consagrava a independência entre a alma, e o corpo: por quanto nesta hypothese, para se explicar as diflerentes capacidades indivi- duaes era necessário admittir tantas almas diflerentes, quanta he a diversidade dos talentos e aptidões, opinião contraria á natureza de huma substancia espiritual por essência im- possível de modificações e diflerenças. Ao contrario admittindo-sea organisação, e sendo ella tão diversificada como he , tudo se explica; pela mesma razão que nas artes a diversidade dos instrumentos diversifica os artefactos. Desertou Gall por tanto das opiniões philosophicas, e physiologicas por contrarias á observação da natureza, e depois de ter colligido grande numero de factos, que firmar podessem sua doutrina, deu em 1800 huma lição publica de seu systema em Vienne, a qual, além de numerosos ouvintes, assistio hum homem de grande gênio, J. G. Spurzheim, que, abraçando suas idéas, associou-se com elle em 1804 para ajuda-lo em seus traba- lhos. Em 1805 partirão ambos a viajar, e fazer indagações sobre a anatomia , e physiologia comparadas do systema nervoso até o anno de 1813 em que pozérão em commum todos os factos e indagações colhidas. — 12 — Convencidos estes dous phrenologistas, que o cérebro he o órgão de nossas faculda- de-. , s,> applicárão de novo á seu estudo. Até então os anatomistas se contentavao em cortar, e dividir este orgao cm diversos compartimentos, e impor nomes ás suas emmi- nencias e cavidades, etc. entretanto que ignorarão suas funeções especiaes , e qual a marcha primitiva de sua formação. Seguindo hum methodo contrario elles analvsárão as leis, que o systema nervoso, e o cérebro seguem cm sua formação, a natureza, direcção e diversas camadas formadas por suas libras , a origem das emminencias das circunvoluçoes , a disposição respectiva das duas substancias branca e parda, e o desenvolvimento gradativo das diflerentes porções cérebraes. L comparando as partes orgânicas com as funeções descobrirão no cérebro órgãos para cada huma das faculdades primitivas do homem, como veremos na terceira parte. Creada assim esta sciencia nova ella ramilicou-se por toda á Europa , foi abraçada por muitos homens de grande nome, e cultivada por distinetos naturalistas até a época actual, onde acaba de receber em seu apoio huma das maiores pedras angulares, hum homem em fim do qual só basta o nome para acredita-la, c he Mr. Broussais. Esta sciencia funda-se em cinco princípios essenciaes; e são: 1.° que nossas faculdades sao innatas; 2.° que sua manifestação depende da organisação; 3.° quo o orgao que torna possivel esta manifestação he o cérebro; 4.° que o cérebro he composto de muitos or^aos, e cada hum delles preside á huma faculdade determinada; 5.° que o craneo mo- dcllando-se sobre o cérebro podG-se por suas elevações e depressões conhecer os órgãos mais ou menos desenvolvidos, c por conseguinte a energia ou fraqueza das faculdades. Provarei cada hum destes princípios com aquella brevidade, que exige huma these, nao me empenhando em discussões, nem nem tão pouco em refutar, quantas objecçoes tem apparecido ; por quanto se as provas directas são concludentes, tudo o mais he sophistico e secundário. 1.° INSE1DADE. í) homem, bem como os animacs, nascendo traz comsigo a essência de suas facul- dades que nao pode ser mudada, da mesma maneira que o cão não pode transformar- se em ovelha, esta em lobo , e o lobo em leão. A espécie humana he essencialmente a mesma em todos os tempos e paizes. Por toda a parte o homem conhece o mérito e demérito de suas acçoes; distingue-se dos animaes por idéas moraes e religiosas; procura praseres artificiaes; inventa sinaes para exprimir suas idéas e sentimentos; ama o sexo contrario, idolatra seus filhos, procura viver em sociedade; indaga a razão dos aconteci- mentos; se intnstece com as desgraças de outrem, manifesta sentimentos de amisade- he susceptível de ódio, ambição, orgulho, vaidade etc. Estes e outros attributos são'lhe essencialmente innatos, e não podem ser destruídos pelo poder dos tempos, e a forca das circunstancias ou das instituições. Tão innatos sao no homem, e nos animaes os instinetos, sentimentos e faculdades, como são aos mincraes e vegetaes as propriedades, qualidades e eis, que os governão. Em tudo a natureza tem a iniciativa, e desde o momento primi- tivo em que ella crêa os entes os dota de hum certo numero de attributos. Só os espiritua- listas exclusivos poderião abraçar oerro, que somente o espirito tem por essência a actividade sendo a merca a partilha da matéria. A gravidade, a cohesão, a força attractiva, e repulsiva' as alTen:dados c antipathias de huns para outros corpos, são propriedades resultantes de suà mesma composição, e estão com elles de tal maneira ligadas que a destruição destas envolve aamquilaçao d'aquelles. Abstrahi de hum corpo suas propriedades, vereis sua existência desapparecer. — 13 — O mesmo accnntecc com os vegetaes. As leis de sua organisação, a formação e ger- minação da semente, a transformação aunual da casca em substancia lenhosa, o arranjo symetrico das diversas camadas desta, suas propriedade physicas, chimicas, e therapeuticas nao são certamente qualidades adquiridas, mas sim o resultado de sua mesma natureza. Se d'aqui passarmos aos animaes, c rellectirmos sobre suas faculdades, veremos que algumas, taes como a de se mover e sentir, tem já exercício na vida uterína, onde nao se pode allegar a influencia das circunstancias exteriores. Toda espécie animal nas- cendo traz e segue a lei de suas tendências, o impulso de suas faculdades. O castôr procura logo com ramas de arvore construir sua habitação; a aranha forma a têa para apanhar insectos sem ter antes apprendido as regras da tecelagem; a perdiz, a codorniz, apenas nascem, correm logo apoz do grão ou bixinho sem que saibão por experiência suas qua- lidades nutritivas; o patinho, a tartaruga, arrastando ainda os fragmentos do ovo, se encaminhao para a agoa mais próxima, o cão com os olhos ainda feixados muitos dias depois do nascimento procura e não erra o peito da mãe para nutrir-se com seu leite; todas as aves pacificas só com a presença do gavião ou outra ave de rapina se escondem com huma velocidade admirável, sem que tenhao experimentado por factos sua ferocidade; todos os animacs finalmente, sem experiência, sem educação, sem nada de arteficial , manifestão e execuetao perfeitamente os instinetos e faculdades, com que a natureza os dotara. Ora se as propriedades e qualidades, que ornão os indivíduos dos três reinos da natureza, sao innatas, como acabamos de vôr, só o homem formado debaixo do mesmo typo, e que reúne cm si todas as leis, que regem os diversos seres orgânicos desde a matéria mais grosseira até o animal mais perfeito, faria excepção á esta lei imprescriptivel? Que seria elle se nascendo nao trouxesse suas faculdades, suas disposições, seus talentos? Huma quimera. Se o homem nascesse puramente taboa rasa, o legislador não teria na forma- ção das leis de consultar o caracter, os costumes dos povos, para quem legisla. Toda utopia em política seria boa forma de governo, e bastaria somente imaginar, como fez Platão com sua republica, para constituir huma nação. Iíc necessário por tanto reconhecer o poder da natureza, e saber que em tudo ella tem o primeiro voto. Assim he ella, que diversificando nossa organisação, desproporcionando a actividade de nossas faculdades es- tebelece as diflerenças individuaes, e faz que nasçamos com disposições mais ou menos felizes, com talentos mais ou menos pronunciadas. He ella qne destina huns para serem gênios, condemna outros á imbecilidade, e vota huma grande maioria á mediocridade. Quem nasce para ser grande, já desde a infância o mostra. Themistocles ainda menino já mostrava hum caracter ambicioso; Voltaire seu talento para a poesia, Pascal na idade de doze annos fez-se notável por hum tratado sobre as secçoes conicas, Mozart com treze annos, sem ter bem aproveitado as lições de seu pai morto ainda moço, compunha peças de mu- sica admiráveis; Gall menciona hum menino de cinco annos, que sabia já muitas linguas. e corrigia as antigas traduecoes. lia portanto huma aristocracia natural que consiste na desproporção dos talentos., que a natureza estabelece entre os homens; e nao he por conseguinte tão distituida de fundamento, como parece á primeira vista, a opinião de Aristóteles de que huns nascem para governar, e outros para obedecer. Esta verdade he de importância para a ordem so- cial; por quanto, se todos os homens são iguaes em talentos, todos são aptos para os cargos do estado; mas se são desiguaes, cada hum deve ser empregado segundo a escala de suas capacidades. A inneidade foi reconhecida desde a mais remota antigüidade. Em todos os tempos se tem fallado dos dons e das qualidades naturaes. Porém os antigos exagerávão de tal ma- neira o principio da inneidade que julgaváp innatas até as idéas. Platão dizia que as idéas, sem exceptuar huma só, ei ao gravadas em nossa alma pela Divindade no momento da creação. Assim quando o homem estudava não fazia senão recordar idéas já existentes — li- porém amortecidas em conseqüência da união entre o corpo e alma, e a sciencia á seus olhos era huma pura remíniscencia. Esta opinião he falsa. Os objectos exteriores devem fazer impressões sobre os sentidos, que sendo percebidas formao as idéas. Nao ha de innato senão a faculdade. Nascemos com a faculdahe de formar huma lín- gua arbitraria, mas esta não he innata. Nascemos com o poder de julgar, raciocinar, e amar, porém ojuizo, o raciocínio, eo amor não sao innatos. He por tanto necessário distinguir as faculdades de seus actos, assim como o efleito de suas causas. Dizer que as nossas idéas são innatas, he dizer que nascemos em estado de sciencia, e não de ignorância, contra o que depõem a experiência e os factos. Combatendo esta opinião realmente falsa os modernos cahirão em outro erro de nao menos gravidade, o que sempre acontece todas as vezes que se ataca com exageração, e em totalidade hum principio só em parte falso. Assim tem se dito com Helvécio , que todas as nossas faculdades são produzidas pela educação, ou com Lecat, Buflón, Condillac , e outros, que são produzidas pelos sentidos. Certamente a educação he indispensável para dirigir, cultivar, e desenvolver as fa- faculdades e talentos, porém cultivar não he o mesmo que produzir. Se a educação he origem de faculdades quem educaria os primeiros homens? Existirião elles sem faculdades? Como explica- remos os instinetos, os sentimentos dos animaes, que não recebem alguma educação? Nesta hy- pothesc bastava estabelecer escolas, academias, ensinar as sciencias e artes para formar homens grandes. E então porque motivo os mestres são muitas vezes excedidos pelos discí- pulos? porque motivo todos, que ouvem os mesmos preceitos, não são iguaes nos talentos e disposições, e muitos se queixão de qualidades, que nunca desejarão possuir, e de outras que quizerão ter em hum gráo mais perfeito? 5c os preceitos dessem a eloqüência , diz Quintilianno, quem não seria eloqüente? » Néro, c Commodo tivérào bons mestres, mas estes não forão capazes de destruir-lhes a disposição para a maldade. A educação náo he capaz de inverter os talentos, e transformar Newton em grande poeta, nem Milton em grande mathematico. Porque não transforma ella o idiota em grande capacidade? Por que motivo os gênios sao tão raros e a mediocridade tão vulgar? He necessário por tanto convir que se nasce comfaculdadesdeterminadas, que a* educação cultiva e aperfeiçoa, mas que s nao produz. A natureza e a educação são tudo, mas esta sem aquella he pouco ou nada. Os homens de grande gênio o devem à natureza, e para elles a verdadeira educação he nao não ter alguma, he o mesmo vôo arrojado de sua intelligencia. Mas dizem os adversári- os; os gênios fazem excepçáo. Avançar tal proposição he mostrar ignorância das leis da na- tureza. Entre o gênio, a mediocridade e a imbecilidade a diflerença está só no gráo. Quem tem o talento para a musica ou poesia muito pronunciado descobre, e applica relações novas, que serão sempre ignoradas por quem tiver estes talentos medíocres. Eis o que se chama crear, eis o gênio, que nada mais he que hum gráo de força, e de ener- gia fora do commum. Os sentidos não podem também ser origem de faculdades. Files não sao outra cou^i mais do que instrumentos, de que nos servimos para colher as impressões, e sobre ellas exercermos as funeções intellectuaes. A faculdade de perceber, conservar, combinar as idéas e applicar o resultado de nossas combinações às artes e sciencias, não está em relação com os sentidos, como nos attestão os idiotas, muitos dos quaes tem estes órgãos bem desenvol- vidos e perfeitos Ora na hypothese, que combato, isto não deveria ter lugar Se os sentidos fossem origem de faculdades, os animaes superiores deverião possuir todas aquellas de que o homem he dotado, e n'hum gráo mais enérgico; porquanto não so elles possuem estes órgãos, como os tem em hum gráo mais elevado de perfeição muitos d entre elles. A águia excede ao homem pela vista penetrante; o cão pelo olfacto, a maior parte dos quadrúpedes pela audição, como o burro, por exemplo, que sente muito ao longe o tropcl de outros animaes, e geralmente as aves pelo gosto, pois que el'as saboréão subs- — 15 — tancías inteiramente insipidas ao homem, taes como pedrínhas, arêas, e sementes inteiras de frutas. Accressc mais que nesta hypothese tanto o homem como os animaes deveriao ter os mesmos sentimentos, instinctos, e inclinações, por serem todos dotados das mesmas causas, os órgãos sensuaes, entretanto que a experiência mostra o contrario. Mais ainda: no homem a perfeição das faculdades intellectuaes estaria em relação com a dos sentidos, o que he desmentido pela observação. He por ventura melhor pintor quem tem a vista mais penetrante, melhor musico o de melhor ouvido , melhor artista o de tacto mais deli- cado ? Concluamos portanto que nossos instinctos, sentimentos e faculdades são in natos. 2'e INFLUENCIA DÁ ORGANISAÇÃO.' A substancia intelligente exerce e manifesta suas faculdades independentemente da organisação, ou esta he a condição indispensável, sem que este exercício e manifestação não podern ter lugar? Não ha hum só facto, huma só razão plausível em apoio da pri- meira hypothese, quando tudo converge, factos, e raciocínios, para demonstrar com toda evidencia a veracidade da segunda. Se o moral fosse independente do physico, seu es- tudo estaria collocado fora da esphera da intelligencia humana. Só os methaphysicos pre- sumidos he que julgão poder transpor os limites á que he dado chegar o physiologista esclarecido. Bem que não demonstre senão no artigo seguinte ser o cérebro o orgao exclusivo de nossas faculdades, todavia muitos argumentos á favor da proposição actual serão dedu- zidos desta importante viseera. Primeiramente tudo quanto muda, altera , enfraquece, ou irrita a organisação , produz mudanças correspondentes na manifestação das faculdades. He de observação que hum crescimento muito rápido dos órgãos debilita suas funeções. He o que accontece principalmente nos annosclimatèricos, ou períodos de desenvolvimento, onde senão he capaz de huma applicação seguida, e a instrucção se acha como que parada em seus pro- gressos: mas logo que passa esta crize orgânica, as faculdades recuperão sua força primi- tiva. Quem pode desconhecer a influencia, que sobre nossas faculdades exercem as estações, os climas, as variações de temperatura, as diversas comidas e bebidas, as evacuações im- moderadas ou retidas', a boa ou má digestão dos alimentos? Quem pode negar a in- fluencia das enfermidades, principalmente as lesões cerebraes, taes como, inílammações, der- ramamentos, compressões, etc.? Como sem a dependência entre o physico e o moral ex- plicar a razão, porque em conseqüência de certas feridas, quedas na cabeça, se desenvol- vem faculdades até então adormecidas, ou se muda o caracter individual? O padre Ma- billon até os 18 annos era dotado da maior imbecilidade; não sabia ler, nem escrever, e apenas fallava. Em conseqüência da queda de huma telha apanhou huma forte ferida na cabeça, e foi obrigado a soffrer a trepanação. Depois da cura não só appresentou os talen- tos mais assignalados, como fez grandes progressos em geometria. Hum moço soflrendo igual accidente foi trepanado por Acrel. Sendo antes dotado de bons costumes, desenvolveo depois a propensão mais desenfreada para roubar. Haller tratou hum imbecil de nascimento de huma ferida na cabeça. Em quanto durou a enfermidade, este indivíduo perdeo a imbecili- dade, tornando a recupera-la depois de curada a ferida. Esquirol refere o caso de hum menino de dous annos, que apanhara huma ferida na cabeça procedida de huma queda , e bem que delia fosse curado, todavia dahi por diante sempre se queixava de dores de cabeça, e aos 17 annos ficou maníaco. Outros muitos exemplos podéra citar de que abunda a obra de Gall, para onde envio o leitor curioso. Se a alma exerce suas faculdades indepen- tentemente da organisação, como explicar estes phenomenos? Dir-se-ha, que ella necessitava de levar huma queda, receber huma ferida, para desenvolver ou alterar suas faculdades? Não he absurdo suppo-la passível de lesões physicas? — 16 — A não ser peia organisação diflerente dos dous sexos não se pode explicar como certas faculdades são mais enérgicas no homem, e outras na mulher. Tanto o bello sexo excede ao homem pela delicadesa de seus sentimentos, quanto he por este ex- cedido na força e solidez do pensamento. Mallebranche fazia derivar esta differença dos diversos gràos de solidez, seccura , ou humidade das fibras cerebraes. Condorcet em huma pequena obra analysando os progressos do espirito humano attribuia esta differença á não receberem- as mulheres a mesma educação literária que os homens. Tanto huma como a outra opinião são falsas. A differença provem do desenvolvimento desigual dos or"ãos cerebraes. As faculdades sentimentacs occupão' no cérebro huma região distincta da occupada pelas intellectuaes. Assim sendo a região destas ultimas geralmente mais desenvolvida no homem , e aquella nas mulheres, e vice versa, claro fica a razão da di- fferença. A naturesa assim o ordena para preencher seus fins. Destinando ella o homem para trabalhos grosseiros, para com a energia de sua intelligencia fazer conquistas nas artes e nas sciencias, e applicar seus resultados aos misteres dá vida; e destinando a mulher para ser a companheira inseparável do homem , condição primaria de sua fe- licidade, para velar os productos da creação, acudir ao menor sentimento de dôr adoçar e muitas vezes soffrer injustas exigências de seu esposo, era natural que di- versificando a organisação desse ao homem a supremacia na intelligencia e á mulher nos sentimentos, para com a humildade de seu coração, a doçura de suas expressoens, a amcnidadede suas maneiras, desarmar o coração altivo do homem e com elle viver em doce paz^ Em quanto o homem , diz Cabanis , obra sobre a naturesa e sobre os outros entes animados pela forea de seus órgãos ou pelo ascendente de sua intelligencia , a mulher deve obrar sobre o homem pela seducção de suas maneiras e pela observação contiua de tudo que pode lisongear seu coração ou captivar sua imaginação. Ora se esta diversidade de sentir e pensar, que distingue os dous sexos, não tem a sua origem na organisação segue-se que a alma do homem he diflerente da da mulher. He de observação que certas qualidades moraes, assim como certas enfermidades, se transmittem de pais á filhos e se propàgão muitas vezes por longo tempo nas familias subsequentes. Sempre que isto acontece os filhos, appresentão a mesma conformação, a mesma organisação, e a mesma estructura de seus pais, e por conseguinte huma grande disposição para adquirir todas as enfermidades de que forão elles acommettidos. He neste sentido que se diz hereditárias a gotta, a pulmonia tuberculosa, as escropholas etc. Gall refere hum caso observado por Gaubius sobre huma rapariga, cujo pai era de tal maneira impellido pelo desejo de comer carne humana, que com- mettfira muitos assassinatos para satisfazer esta brutal inclinação. Esta rapariga foi separada da casa paterna e educada por pessoas virtuosas e de familia diflerente; mas não obstante desenvolveo-se depois nella a mesma inclinação e veio a succumbir do mesmo crime. Quem não observa que todas as vezes que dous indivíduos se assemelhão , ou se diversificão por sua organisação, se assemelhão ouse diversificão igualmente pela maneira de sentir e pensar, como acontece entre os irmãos e os gêmeos? Verdade he que esta regra soffre muitas excepçoens provenientes da educação e outras causas exteriores, porem em geral he verdadeira. Ora se estes phenomenos não provão huma estreita ligação entre o physico e o moral do homem, segue-se que as almas dos pais se transmittem aos filhos, o que he pôr em vigor o systema absurdo das transmigraçoens ou metempsycose. As modificaçoens, que as faculdades soffrem percorrendo os diflerentes períodos — 17 — da vida não se explicao senão pela organisação. Na vida uterina, onde todas as partes orgânicas e principalmente o cérebro se achão*'ainda em hum estado imperfeito de organisação , o< feto não exerce huma só faculdade intellectual e moral. Na infância todas as funeçoens d#,recemnascido são muito limitadas e de hum caracter correspondente á fraquesa e imperfeição de seus órgãos. Satisfaser a fome e a sede, manifestar senti- mentos obscuros de praser e dôr, executar movimentos espontâneos, e não deliberados , eis todos seus actos. Elle não pode ainda conhecer sua existência pessoal, distingui-la dos objectos da naturesa, e muito menos co/ihecer as estreitas relaçoens que unem hum filho á seu pai: vive finalmente, mas não sabe se vive. Vivit et est vitee nescius ipse sua>. A medida porem que seus órgãos se desenvolvem, que adquirem mais consistência e por conseguinte mais energia, o menino começa a fixar attenção sobre os objectos exteriores, a manifestar desejos determinados, e a formar idéas e combinaçons. Acompa- nhando sempre o desenvolvimento graduado dos órgãos elle se torna suecessivamente adolescente , moço, e homem feito. ^ Nesta época tanto seu organismo, como suas^iculdades intellectuaes, tem adquirido o maior gráo de energia e perfeição até o momento em que começão a decrescer e a perder insensivelmente suas forças. Na velhice e dècrepitude em fim, a pár de huma organisação mirrada , de órgãos fracos, de sentidos poucos ou nada sensíveis à impressão dos objectos, as sensaçoens se embotão, as faculdades se enfraquecem, a memória se torna infiel, o juizo menos sólido, a imaginação pouco ardente, tudo, tudo annuncia ao velho decrépito próximo o termo de sua existência pbysica e moral. Ora nada po- deria mostrar com mais evidencia, quanto a manifestação das faculdades depende da organisação. Se a alma exerce suas funeçoens independente da organisação, porque motivo as não exerce na vida uterina, na infância, e na dècrepitude com aquella mesma ener- gia e perfeição, que tem na idade adulta? Quando a organisação e com particularidade o cérebro em seu desenvolvimento segue huma marcha irregular, adquirindo muito cedo ou muito tarde o crescimento neces- sário , a manifestação das faculdades soffre variaçoens correspondentes. Gall vio em Pariz hum menino de trez annos, tendo o instincto da propagação tão desenvolvido, que avançava com audácia e obstinação sobre raparigas e mulheres já feitas para satisfaser os seus desejos; e a pesar dos órgãos sexuaes não serem bem desenvolvidos, todavia appresentavão dimensoens proporcionadas e erecçoens mais que momentâneas. Menciona igualmente hum rapaz de 10 annos, que fora prezo em Leipzig por ter estuprado huma , menina ; outro de idade de 5 annos tendo as partes sexuaes tão crescidas como se fosse de 16 annos, e que já tinha satisfeito tempo antes seus desejos amorosos; e como este, outros muitos exemplos cita de meninos de tenra idade appresentando relativamente á este ponto todos os sinaes de huma virilídade completa. Em todos elles Gall encontrou o ccrebello com hum desenvolvimento extraordinário e prematuro, e com effeito nós vere- mos na 3.a parte ser este órgão a sede do instincto gerador. Quem não sabe que os meninos rachiticos appresentão huma energia intellectual não ordinária com sua idade? Ora hum dos effeitos ordinários do rachitismo he dar ao cérebro huma irritabilidade e desenvolvimento prematuros. Ao contrario se o cérebro pára em seu crescimento até os 10 ou 12 annos, e depois se desenvolve, a manifestação das faculdades offerece huma — 18 — marcha igual. Gessner hum dos melhores poetas da Suissa até os 10 annos era inteira- mente imbecil, e como tal declarado por seus mestres. Gall falia de hum medico de Berlin que até os 13 annos não era capaz de combinar duas idéas, tornando-se depois huma notabilidade. Se o cérebro nunca chega á adquirir aquellc desenvolvimento que lhe he natural ou traspassa os limites de seu crescimento ordinário, os indivíduos ou são idiotas, ou ficao no estado commum á todos os homens, ou são gênios. Compare-se a cabeça dos idiotas, dos homens ordinários e dos homens grandes, e se conhecerá esta verdade. O idiota, ou tem a cabeça mal conformada, ou muito pequenina, de sorte que, tirando-se hnma linha cirç.ular, que passe pela parte mais convéxa do occipital, dos temporaes, e a mais saliente do frontal, e medindo-a, ella não dá ao craneo mais que doze para 17 pollegadas de circunferência, segundo a maior ou menor imbecilidade do indivíduo , pequcnhéz esta que importando outra correspondente do cérebro he causa da imbecilida- de, como o prova a experiência. Os homens ordinários appresentão nunca menos de 18 para 20 pollegadas , sendo mesmo de muito medíocre condição aquelles que só tem 18 para 19 pollegadas de circunferência. Pelo contrario os homens de gênio universal tem huma cabeça de 21 para 22 pollegadas; o que indica hum volume proporcional do cérebro. Para confirmar estes factos Gall cita vários exemplos como são ; o cérebro de hum imbecil de nascimento descripto por Wiljis, que tinha somente a quinta parte do volume do de hum homem ordinário; hum idiota de nascimento, que vivêo até os 2o annos, cuja cabeça era tão pequena, e attrahia tanto a attenção por sua estupidez, que se o mostrava por dinheiro ; hum menino de 7, e huma rapariga de 20 annos, ambos idiotas cu- jos çraneostinhão somente 11 para 12 pollegadas da raiz do nariz ao grande buraco occi- pital, e lâ para 14 de circunferência, e outros muitos exemplos finalmente que ommitto e que achará quem ler a sua obra. Confronte-se agora estas cabeças assim viciadas e pequenas com as grandes e bem conformadas cabeças de Voltaire, Bacon, Gallileo Or- tila Aevvton, Rousseau e outros muitos homens grandes, e se ficará convencido' que o desenvoMmento da intelligencia está em relação com o bom desenvolvimento do cérebro Cumpre todavia notar que não he a grande massa do cérebro a única condição de huma grande capacidade mtellectual; he indispensável que este órgão seja bemTgantado e que tenha hum certo gráo de força e tonicidade necessárias para dar energiaTfunccoJn! intellectuaes. Ogrande volume simplesmente sem as precedentes condiçoenfpodeZ nemi com a estupidez, como tem acontecido; donde o adagio popular arossa cabeia nZ /elctoT5 T? Sa° adagͰS s-ã^-era.isaçoensgfor aTs a; huT pequena '-££ de factos particulares sempre impotentes para destruir a reera eeral? O IZ\ ? irregularidade 7ZL.A d,ese™|V'Tnt0 d°s, «g»», «carretar neoesariamente a diz OttT «i Z? «T n m d,eseOTol"m™t° «as faculdades? No*aorganimçao > D.1! ». T e"a "?*? a(dm^"> Sira toda nona ezüUncl. » ,ue &^*J5zFt^Ttttt?*^rr~ etc. etc. equem nasce com hum destes talentos bem desenvolvido, ainda que — 19 — tenha huma educação contraria, nunca deixa de mostrar seu talento primitivo, e fica sempre medíocre abraçando huma profissão contraria á sua inclinação natural. Se estes phenomenos não tem a sua causa na diversidade da organisação individual, segue-se que devem ser directamente attribuidos á alma , o que he hum absurdo ; por quanto a subs- tancia espiritual he supposta a mesma para todos, e não variar com os indivíduos. O somno he outra prova de que a manifestação da intelligencia depende da organisa- ção. Depois de longo tempo de exercicio os órgãos necessitão de repouso, descanço, e se recusão à toda actividade. Nesta inactividade e quietação completa dos órgãos as faculdades intellectuaes suspendem seo exercício até que elles se dispertando ellas entrem outra vez em actividade. Ora se a substancia espiritual he independente, como he possível que se fatigue, se esgote, necessite de repouso, durma e se disperte mais vigorosa e activa? Terminarei finalmente esta questão chamando em meu favor a authoridade de hum homem respeitável. O homem tem necessidades, diz Cabanis: recebeo faculdades para satisfaze-las; e humas e outras dependem immediatamcnte de sua organisação. He possível certificar-se que os pensamentos násçõo, e que as vontades se formem por effeito de movimentos par- ticulares executados em certos órgãos; e que estes órgãos estão submettidos ás mesmas leis que os de outras funeçoens ?...... Em todos os tempos, continua elle, se quiz convir, á este respeito, á cerca de alguns pontos incontestáveis, ou olhados como taes. Cada philosopho fez sua theoria do homem: aquelles mesmos que para explicar as diversas funeçoens julgarão dever suppor nalle dous princípios de naturesa differente , igualmente reconhecerão que he impossível subtrahir as operaçoens intellectuaes e moraes ao império do physico: e na estreita relação que admittem entre estas duas forças motoras, o ge~ nero e o caracter dos movimentos ficão sempre subordinados ás leis da organisação. 3.* CÉREBRO , ORGAÕ DAS FACULDADES. Demonstrado que o exercício e manifestação das funeçoens intellectuaes e moraes dependem da organisação, resta-nos determinar agora qual o órgão material executor destas funeçoens. Ora este órgão he o cérebro , como provão as consideraçoens seguintes : Todas as partes do corpo podem ser amputadas, distruidas, comprimidas, quer por causas physicas exteriores, quer em conseqüência de enfermidades; mas em quanto o cérebro não soffre, ou directa ou simpathicamente, as faculdades intellectuaes e moraes conservão sua integridade. Órgãos mesmo essenciaes á vida, taes como o coração, os pulmoens, o estômago, tem soffrido desorganisaçoens profundas em seus tecidos, sem que d'aqui resulte suspensão , ou perversão da intelligencia. Pelo contrario tudo quanto tende á alterar o órgão encephálico, perturba, suspende, ou perverte inteiramente o exercicio regular dos actos intellectuaes e moraes, como são , as inflamaçoens, compres- soens, exostózes do craneo, derramamentos e outras muitas enfermidades, que tendem á lesar mais ou menos profundamente o cérebro. A proposição, que trato de firmar, tem a seu favor experiências e factos directos. Richerand tratava huma mulher, que em conseqüência de huma caria do craneo tinha o cérebro descuberto em grande extensão. Esta mulher respondia muito bem á todas as questoens; porem hum dia comprimindo elle de cima para baixo o cérebro, e inter- rogando-a ao mesmo tempo, ella ealou-seno meio de huma phrase. Cessando a compressão, — 20 — c perguntando-lhe depois, se entendera as ultimas questoens, que lhe dirigira, respondeo-lhe que não. Reiterando três vezes a experiência observou, que em todas ella perdia a intelligencia, o sentimento, e a memória do que se passava durante o tempo da compressão cerebral. O mesmo author refere o caso de hum homem, trepanado em conseqüência de hum derramamento de sangue e puz, oceasionado por huma fractura, que sentia no intrcvallo do curativo, á medida que a collecção se augmentava, diminuirem-se suas facul- dades , entorpecei e ameaçar de se extinguir o sentimento de sua existência. Hildanus menciona a observação de hum rapaz de 10 annos, cujo craneo fora deprimido em conseqüên- cia de hum accidente. D'ahi por diante começou a perder pouco á pouco a memória , o juízoi, e por ultimo tornou-se completamente estúpido, tendo antes mostrado disposiçoens as mais felizes. Jluma senhora talentosa leva huma queda , e dá com a cabeça sobre a ombreira de huma chaminé. Em conseqüência deste accidente ficou sujeita á accessos periódicos de mania, e perdeo suas brilhantes qualidades. Hum homem, por effeito de huma pedrada , que recebera na cabeça , fica com o craneo deprimido. E sendo antes deste successo cidadão pacifico , tornou-se depois brigador, turbulento, procurando de propósito rusgas com todos. Esquirol refere o caso de huma senhora, que voltando de hum passeio battèra coma cabeça na porta ao entrar em casa. Em conseqüência tornou-se maníaca al- guns mezes depois, até que morreo d'ahi à dous annos de huma enfermidade cerebral Ou- tros muitos factos pudera citar de que abunda a obra de Gall, para onde envio o leitor curioso Ora em todos estes casos o resto do corpo não tinha soffrido alteração alguma, donde se pudesse dedus.r a causa de taes phenomenos; o que prova de huma maneira incontestável se, o cérebro o orgao exclusivo da intelligencia. Accresce ainda que se o cérebro não fosse o orgao dasfaculdodes intellectuaes, nenhuma outra funeção se lhe poderia assinar na eco- nomia animal; por quanto não se pode dizer que elle exerça as funeçoens da vida orgânica clcerètr;3. r"' "?°' ^ fe effeCtUS° P°F 0r*S0S Próprios, que não são o cérebro, e se fazem sem interrupção alguma tanto na vigília, como no somno em d s,;;: 2,ü. ,Ü1,nnaCtlV0-.0meSTaCC,°nteCe c™°"ncçoensda vida vegetaíi" c soru que .e da economia animal excluirmos suecessivamente todas as partes cuia fm.eoens sao conhecidas, vem a ficar de resto o cérebro para as faculdade intellectua z™2Ti:r^™'assim cot as outras'de hum e~ -^ s ^^ii^^zr^r^zrdou?sexos acha sua- ™° - e posteriores mais desenvXi.L „ • " tem 8eralmente as partes superiores , • com effeito TZZZ^^L''*"1*"™"' ?"t/T"5' 1Ue SSo mais "<> homem primeiras, e asi„2cTaes TestT „í, ^ ." faCU,daados, a da do occipiíal, enao guarda^ r^To de graXa !-" '^ ' Parte P0^" média lia Ar. .-vk^«____=■ _ O em nas sexo gencia. ornem iíã j« ~u - —v— uu gianueM com os outros -3k- phenomeno está em relação com o desenvolvimento e decadência graduaes do cérebro. Nos primeiros tempos da vida , em que o moral humano' he nullo absolutamente, o cérebro he também huma massa pulpòsa, incapaz de executar funcção alguma. Na infância são os lobos posteriores e médios os primeiros que se desenvolvem, e como estas partes são destinadas á presidir ás funeçoens, que mais relação tem com a conservação individual, todos os actos do menino limitao-se ao exercicio dos cinco sentidos, ao movimento, á sensação de fome, dor, prazer, etc.; e tudo isto de huma maneira imperfeita. Pouco á pouco o cérebro se desenvolve nos seus lobos anteriores ejio cerebéllo, e só depois de muitos mezes he que se mostrão com evidencia as partes superiçres e anteriores., onde residem as mais bellas faculdades do espirito. Desta maneira elle creesce suecessivamente até os quarenta annos, época em que todas as faculdades do homem tem pleno exercicio, e principalmente as intellectuaes, que gosão de toda energia possivel. Daqui por diante, assim como as faculdades vão-se diminuindo , enfraquecendo, e desapparecendo até a extre- ma velhice, da mesma maneira o cérebro vai perdendo gradativamente sua turgencia nervosa, se atrophía, e a consistência de suas duas substancias soffre alteraçoens profundas. Nesta decadência elle segue huma marcha inversa d'quella de seu crescimento, começando pelos lobos superiores, e anteriores, e acabando pelos inferiores, por onde começara seu de- senvolvimento. Consequentemente são as faculdades intellectuaes, que primeiras principião a perder a sua força, e vão-se extinguindo insensivelmente huma por huma , de sorte que em huma dècrepitude avançada só restão ao velho os hábitos e os gostos da infância por isso mesmo que os órgãos, que presidem ás funeçoens desta idade, são os últimos, que perdem o seu vigor e morrem. Eis a razão porque se diz que o velho he menino , e o menino velho: In puericia senex, in senectute puer. Ora, em quanto se observa huma relação constante entre o desenvolvimento e deca- dência graduaes das faculdades, e o desenvolvimento e decadência graduaes do cérebro , todas as partes do corpo completão seu crescimento em épocas diflerentes, ou deixão de exercer suas funeçoens em conseqüência de alteraçoens mórbidas, sem que dahi resultem irregularidade , transtorno, ou ausência na marcha e apparição das faculdades; donde se concluo que ellas não são o órgão da intelligencia. Pelo contrario todas as vezes que o cérebro não adquire seu crescimento completo , ha sempre falta no numero e manifestação das funeçoens intellectuaes. Gall vio em Hamburg hum rapaz de 16 annos tendo as partes anteriores e superiores tão ponco dsenvolvidas que sua testa tinha apenas huma pollegada de altura. Este indivíduo era incapaz de combinar, comparar, e julgar; so- mente aprendia e recitava maquinalmente os nomes, os números, e a historia , cujas -fa- culdades , como veremos, residem nos lobos anteriores e inferiores do cérebro, que elle possuía. Richerand cita dous casos iguaes era seus elementos de physiologia. Se o cerehro não fosse o órgão das faculdades , o desenvolvimento destas estaria em porporção com os outros systemas da economia; e neste caso os indivíduos fortes, robustos, e corpulentos, deveriao ser constantemente os mais intelligentes, e he o que se não observa. Em gerai as pessoas de grande talento e de gênio são indivíduos de compleicção média, e muitas vezes bem débil. O grande mathematico, o grande poeta, os homens finalmente universais são quasi sempre pelo seu physico inferiores á outros de huma organisação athletica, e que entretanto não possuem seus talentos. — 22 — * Huma prova finalmente há, que por si só seria sufficicnte, quando faltassem ou- tras para demonstrar a proposição actual, eJbè que, percorrendo a cadéa dos diversos animaes desde os infusorios até o homem, vè-se, que as faculdades, que compõem a psycologia própria de cada espécie zoológica, não começão a existir, senão quando ap- parece hum cérebro já formado. Com efleito nos zoophytos, onde se não observa sinal algum de éerebro, nao se descobre também faculdade alguma determinada. A medida porem queyos animaes se aper- feiçoão, que apparece hum systema nervoso e especialmente o cérebro , que este he mais volumoso, e por conseguinte mais composto, vai successivamente apparecendo maior nu- mero de faculdades até chegar-se ao homem , que, se na ordem moral representa o pri- meiro papel, he também aquelle, cujo órgão encephalico hc mais complicado, e qu« por isso mesmo reúne em si todas aquellas funeçoens, que se achão disseminadas, e como truncadas nas classes inferiores. PLURALIDADE CEREBRAL. Sendo muitas e diflerentes as faculdades intellectuaes e moraes, pergunta-se : se todas e cada huma delias exigem para seu exercicio a acção simultânea de todas as partes do cérebro, ou se pelo contrario cada faculdade he exercida por huma porção cerebral determinada ? A segunda opinião he seguida pelos phrenologistas, e sendo huma das bases mais principaes da sciencia, que professão, he também aquella, que tem soffrido a mais viva opposição de seus detractores. Rasoens fortíssimas provão o principio da pluralidade, * eu começarei por huma de anatomia comparada, que demonstra sem réplica ter cada faculdade seu órgão determinado. Seguindo a naturesa na formação gradativa dos animaes, vê-se que a medida que se engradece o numero das funeçoens, se engrandece igualmente o numero dos órgãos, e que o cérebro e todo systema nervoso são tanto mais compostos , quanto mais numerosas "ão as faculdades e os phenomenos da sensibilidade; o que certamente não teria lugar se cada funeção nova, que rpparece, não exigisse hum órgão particular. Com effeito nos animaes infusorios, onde se não distingue vestígio algum de cérebro, « se existe não he apreciável, não ha também sinal algum de instincto, sentimento, p muito menos de faculdades intellectuaes. Os cinco sentidos faltão inteiramente. Excep- tuando-se a sensibilidade, e o movimento , phenomeno este único por onde se conclue para a existência d'aquella, nenhuma funeção mais se descobre. Pode-se dizer que a molécula orgânica primitiva, conforme he simplesmente vitalisada, ou vitalisada e ani- mada ao mesmo tempo, assim se converte em vegetal, ou animal; tal he a simplicidade orgânica e funccional dos infusorios. Em huma ordem superior, nos articulados, já se descobre hum esboço de systema nervoso, e outras funeçoens alem da sensibilidade e o movimento. Existem hum ou dous cordoens nervosos estendidos de huma á outra extremidade de animal, offerecendo de espaço em espaço vários engrossamenlos ou gânglios, e con- eidera-se como rudimento de cérebro o primeiro situado na extremidade superior do corpo. Este nervo faz as vezes de nutritivo e sensitivo, e determina movimentos para ap- prehencão de alimentos, e a geração; porem todas estas acçoens são determinadas por — 23 — hum puro instincto, primeira faculdade de relação, que apparece, não havendo ainda sentimentos e faculdades superiores. Os sentidos são reduzidos geralmente avista, muito preponderante nos insectos, e ao tacto, que em muitos he exercido por órgãos par- ticulares chamados - antênna$. Nos animaes de huma classe superior á esta , nos moiiuscos, o systema nervoso he mais composto , e as funeções por conseguinte mais numerosas. Elle consiste em diflerentes massas nervosas disseminadas por diversos pontos do corpo, communican- do-se entre si por filetes intermediários, e destacando outros, que vão terminar nos feecido9, e que são tanto mais numerosos , quanto mais complicada he a organisação, e maior o numero das vísceras. Já existe nestes animaes huma pequena cabeça, con- tendo hum diminuto cérebro; assim seus instinctos são mais aperfeiçoados, bem que não hajão ainda sentimentos e outras funeçoens elevadas. Os caracóes, por exemplo , recolhem-se para dentro de sua concha , quando sentem aproximar-se algum objecto nocivo, apalpão os corpos exteriores, evitão huns, procurão outros, subtrahem-se ás influencias atmo9phcricas, que lhes podem causar damno, e se expõem á aquellas de hum effeito contrario. Os sentidos são geralmente reduzidos ao tacto,, gosto, e vista, não sendo todavia estes dous últimos constantes em todos elles. Chegando finalmente â grande classe dos vertebrados, vamos verá pâr de hum cérebro cada vez mais complicado, desde os peixes até o homem, faculdades mais extensas e multiplicadas. Nos peixes e reptis o cérebro consiste em muitas massas distinetas, porem unidas entre si, e donde partem os nervos sensitivos externos. Os h emispherios propriamente ditos consistem em dous gânglios situados atraz dos nervos olfactivos, e tanto mais compostos, quanto mais extensas são suas faculdades instinetivas; e o cerebêllo representa a forma de hum pequeno tuberculo distituido das massas lateraes. Nestes animaes já se descobrem sentimentos e algumas faculdades elevadas, principalmente nos reptis ; por quanto muitos peixes e rans vivem erà sociedade, e se reúnem em bandos para viajarem juntos, e nos reptis mais aperfeiçoados pode-se dizer que existe huma dose não pequena de intelligencia , e deliberação. Com effeito, quando estes animaes querem se deffender de hum inimigo, ou atacar huma preza, que julgão poderosa, empregão a fraude , a astucia, a sagacidade ; calculão mesmo suas forças, e, se as julgão superiores, avanção atrevidamente . sobre o adversário, ou fogem no caso con- trario. Estes animaes, como todos os da classe dos verteèrados , tem os cinco sentidos completos. Nas aves os hemispherios são muito mais consideráveis, posto que as circunvoluçoens sejão pouco distinetas e profundas. O cerebêllo consiste ainda na parte média ou emi- nência vermicular, offerecendo todavia já muitos anneis circulares. Da mesma maneira suas funeçoens são mais extensas. As aves conservão a representação dos corpos, re- conhecem os que já tem visto, manifestão sentimentos de amor e amisade humas para com outras, e algumas mesmo, como na ordem dos papagaios, são suceptiveis de educação, decórão certas palavras, e apprendem outras cousas, que se lhes ensina. Nos mammíferos, principalmente cs mais aproximados do homem, os dous hemis- pherios cerebraes são muito mais consideráveis que 'os dos animaes precedentes, ap- presentando grandes circunvoluções, e sinuosidades bem distinetas. O cerebêllo offerece , além da parte media, dous hemispherios lateraes com circunvoluções circulares bem sensíveis. Assim estes animaes gosão de maior numero de funeções. Instinctos, senti- mentos, e muitas faculdades intellectuaes, existem nelles em hum gráo não pequeno de — 21 — perfeição. Quem não conhece as habilidades do elephantc, do macaco, do ourãng- outang, do cão etc. ? Sem que estes animaes nos fallem , he focil conhecer que elles gozao de discernimento, que amao e afagao, ou odeião e se vingão das pessoas, que os bem ou maltrátao. O cão manifesta mesmo sentimentos de respeito, e amisade para com seu senhor, e amigos deste; entretanto que persegue seus inimigos. Nao poucos animacs desta classe vivem em sociedade, e a deflendem , quanto he possível. Assim a maior parte das faculdades, de que o homem he dotado, se achão diversamente modificadas e destribuidas cm numero proporcional á composição do cérebro em todos vertebrados desde os peixes e reptis até este ente, que, terminando a cadôa ascendente zoológica, he justamenre chamado o rei da natureza. Chegando finalmente ao homem, se o vemos possuir maior numero de,faculdades lie por que seu cérebro he composto de maior numero de partes. Com effeito nenhum animal tem como elle as partes anteriores c superiores do cérebro, onde residem as mais bellas faculdades do espirito , aqucllas, que nos fazem indagar a razão das cousas , conhecer o author da nossa existência , o sentimento do justo e do injusto, as idéas moraes e religiosas, e mais outras qualidades de que os animaes inferiores, por não possuirem estas partes, são privados. Neste ente as circunvoluções do cérebro , como as do cerebêllo , são mais numerosas, e segundo os naturalistas, o volume total da massa encephalica comparado com o do corpo, he proporcionalmente maior que o de outro qualquer animal examinado debaixo da mesma relação. De tudo quanto fica dito conclue-se, e conclue-se mathematicamente, que cada 1 faculdade he exercida por hum orgao particular, e nao pelo cérebro em totalidade. E com effeito, que outra conseqüência se pode tirar quando se vô, que, na formação gradativa e ascendente dos animaes, á medida que o cérebro adquire partes novas, adquire igualmente novas funeções ? O numero das faculdades e das partes constituintes do cérebro cemparado com estes mesmos objectos os mais complicados no homem , nullos nos animaes »infusorios, e apenas esboçados nos articulados, não faz hum contraste bem convincente á favor da pluralidade? Sc huma só fibra cerebral fosse bastante para exercer todas as funeções ainda as mais diversas, porque daria a natureza ao homem hum cérebro mais composto e volumoso? Não he absurdo procurar a perfeição na multiplicidade inútil •• de agentes idênticos? Não he do excers-j de maleriaes da mesma natureza empregados para o mesmo fim que resultão o entrave e a desordem ? Analyse-se agora directamente o corpo humano , e, certo, não se encontrarão duas funeções, por pouco diflerentes que sejão, exercidas por hum mesmo órgão. A circulação, a respiração, a digestão, todas em fim tem seus apparelhos próprios. Nó» nao vemos, ouvimos, cheiramos, gostamos, e apalpamos por hum e o mesmo sentido, e he mais que provável, se nao certo, que o nervo óptico nunca preencheria as fune- ções do nervo auditivo, olfactivo, etc. e vice versa. Os movimentos do corpo são exer- cidos pelos nervos, *jue nascem da parte anterior da medúlla espinhal, e a sensibilidade pelos, que nascem da parte posterior. O que prova he, que cortando-se os pares anteriores ou posteriores somente, assim se destróe o exercicio dos movimentos ou dos sentimentos unicamente ; e, quando não houvesse esta experiência directa , a paralesya de huma fune- ção coincidindo com a integridade de outra em muitas enfermidades nervosas, era bastan- te para nos fazer concluir que estas duas funeções não podião ser executadas por agentes idênticos. Ora se todos os actos do corpo humano, logo que são diversos, exigem órgãos — 2o — diflerentes, só as faculdades intellectuaes e moraes, que não são menos diversas entre si e numerosas, fariao excepçãoá esta lei? Se foi impossível á natureza concentrar em hum só ponto material as funeçoens distinetas da vida orgânica, ser-lhe-hia fácil faze-lo para aquel- las, que constituem a esphera moral do homem? Não certamente, e se argumentos ha de analogia concludentes, este he hum delles. Além das provas precedentes deduzidas da anatomia comparada, e directa sobre o corpo humano, ha outras de rgual importância em favor da pluralidade cerebral tiradas das mesmas funeçoens intellectuaes, e sao as seguintes. Se todas as faculdades fossem exercidas pelo cérebro em totalidade, quem sobressahisse em hum gênero de estudo, deveria igualmente sobressahir em todos; e assim o grande poe- ta deveria ser ao mesmo tempo grande mathematico, grande musico, grande pintor, grande orador, etc. etc; porquanto se hum mesmo órgão exerce todas as funeções, es- tando elle bem desenvolvido para manifestar com energia huma, deveria o mesmo acontecer for- çosamente para com outras, visto ser elle o executor universal de todas. Entretanto o con- trario he que tem lugar. Não ha homens universaes. Quantas vezes o bom geômetra he imbecil para a musica, nullo na poesia, e hum grande philosopho miserável maquinista, ainda que todos elles se tenhão applicado com assiduidade á estas diflerentes profissões? Ora estes phenomenos, inexplicáveis na hypothese da unidade cerebral, são de fácil expli- cação no systema contrario; por quanto admittindo-se que cada faculdade he exercida por hum órgão particular, e podendo, estes órgãos o que se não pode negar, pois que as observações o demonstrão ) desenvolverem-se independentemente huns dos outros, claro fica que se o indivíduo prevalece em huma espécie de talento e em outra não, he que seu órgão respectivo está mais desenvolvido, que aquelles, cujas funeçoens são fracas ou nullas. Nossas faculdades não se desenvolvem e se extinguem ao mesmo tempo, porem sim suecessivamente. Este facto he de observação commum, e sobre elle já tenho tido oceasião de fallar mais de huma vez. Como he possível explicar, na hypothese de que o cérebro em massa exerce todas e cada huma das funeçoens ck intelligencia, estaapparição e desappari- ção suecessiva e não simultânea de nossas faculdades? Não he absurdo dizer que hum mesmo órgão está apto para manifestar na infância huma faculdade, e outra não, que vai appa- recer na puberdade ou na virilidade? E na decadência do homem estará esse mesmo órgão inhabilitado para exercer huma funeção, em quanto que outras executa com energia ? Ora tudo isto inexplicável na hypothose, que combato, he comforme á razão, e de fácil com- prehensão no systema da pluralidade. Tendo cada funeção intellectual seu órgão determi- nado no cérebro, e as diflerentes partes cerebraes desenvolvendo-se e atrophiando-se gradativamente, e em épocas diflerentes da vida, assim também as faculdades, que lhes são deparadas, se desenvolvem e se extinguem gradativamente, e em épocas diflerentes. Não ha quem não tenha observado sobre si, que, depois de hum longo trabalho de es- tudo serio e meditativo, nossa rasão se fatiga , e sentimo-nos cansados; porém se passar- mos á outros objectos, taes como a musica, a leitura de hum romance, de hum poema, da historia; á divertimentos, que exigem mesmo attenção, como o jogo de cartas, o bilhar, etc, achamo-nos com boa disposição, e não sentimos nossa razão fatigada. Ora se hum mesmo orgao exerce todas as funeções, como he possível estar elle ao mesmo tempo fati- gado para huma cousa e para outra não? Digamos antes, seguindo a pluralidade, que, quando nos entregamos á huma espécie de estudo, os órgãos de outras faculdades repousão, e se, quando mudamos de objecto, sentimo-nos bem dispostos, he que os órgãos, que até então repousavão, passao á ter exercicio, e aquelles, que trabalhavão, passão á ter des- canso. Se, depois de cansados por estarmos longo tempo em pé, assentamo-nos, ou caminhamos, o encommodo clesapparece. Que physiologista ha, que ignore que a fadiga, ou o descan- ço provém da assiduidade, ou actividade intermi/ente, em que pomos os órgãos muscu- lares , e do emprego dos mesmos, ou de outros» segundo as attitudes e posiçoens que toma- 111(1 — 26 — «5e a fadiga cessa, diz Charles Bonnet, quando a alma muda deobjecto, he que ella obra por outras fibras. » Este sábio fallou a verdade. Cada espécie animal tem faculdades, de que huma outra he privada. Este aetc ser a inexplicável, se cada funeção não tivesse hum órgão particular. O castôr tem o talento da construcção, o rouxinol o da musica, o cão o sentimento de amisade, a onça o instinc- to destruidor, huns animaes vivem em sociedade, outros no isolamento, finalmente a historia natural de huma á outra extremidade nos offerece as espécies animaes d^vsi- ficada« tanto pelo phvsico, como pelo numero e destribuição differentes de faculdades e qualidades, com que a natureza as dotara; eserá sempre impossível que cada espécie adqui- ra as qualidades de outra: assim o rouxinol nunca terá o talento da constrücçao como o rastor, a fidelidade, e amizade do cão, o instincto destruidor e sanguinário da onça, do tigre, do leão, da mesma maneira que estes animaes nunca teráo o talento para a musica como o rouxinol. Esta mesma observação se pode applicar â outras espécies. Ora »e o cérebro fosse o órgão único e universal de todos estes attributos, todos os animaes deveriao possui-los indistinetamente, por quanto todos elles possuem o órgão cerebral. Nesta hypothese não se poderia achar a razão orgânica, que determina a superioridade de huns sobre outros, e a supremacia do mesmo homem ficaria sem fundamento. Mas admittindo- se que cada faculdade tem huma porção cerebral própria, concebe-se facilmente que não só cada animal, como as differentes espécies em geral, podem ser privadas de certas partes cerebraes, de que outras são dotadas, e assim não ter certas faculdades e qualidades, que outras possuem. Esta verdade tanto maÍ9se evidencia, quanto, comparando os animaes entre sir vê-se, que á medida que o ente animado tem maior ou menor numero de faculdades. assim o seu cérebro he composto de maior ou menor numero de partes. E com effeito mais intelligente he o animal, mais as partes anteriores e superiores do cérebro são desen- volvidas. A' proporção que 6e desce na escala zoológica, partindo do homem, primeiro na ordem intellectual, e que as faculdades da intelligencia vão-se desapparecendo, também a* partes cerebraes anteriores e superiores vão-se ausentando, a testa vai-se deprimindo, e abatendo pouco á pouco até chegar-se aos entes mais estúpidos, onde a cabeça, e a face estão situadas no mesmo plano. Nos animaes hermaphroditos, onde não existe amor dos sexos, não ha também cerebêllo; entretanto que este órgão não falta em todos aquelles que se reproduzem por sexos distinetos e separados. Os animaes carnívoros tem as partes Lateraes situadas acima do condueto auditivo muito desenvolvidas, o que se não encontra nos animaes frugivoros e pacíficos, e nós veremos na 3.' parte que neste lugar exis- te o órgão da destruição, que são possuem estes últimos animaes. Que conseqüência ti- raremos agora destes factos? Certamente se a existência ou a falta de certas partes cerebraes involve a existência ou a falta de certas faculdades e não de todas, segue-se rigorosa- mente que cada intineto, cada sentimento, e cada faculdade, tem no cérebro bumórgão par- ticular, e que o principio da pluralidade, fundando-se em factos e observaçoens desta im- portância, está solidamente constituído. Do exposto resulta huma verdade, e he que a esphera intellectual e moral década animal está na rasão do numero das partes constituintes de seu cérebro. E com effeitc na serie dos entes viventes mais simples he este órgão, menos extensa he sua esphera moral. A medida porém que elle se compõe e se multiplica o numero de suas partes or- gânicas, as relações moraes, as faculdades se estendem, e setornão mais numerosas. Pode se mesmo debaixo deste ponto de vista fazer-se huma escala gradativa desde os animaes maissimplices até o homem, e mostrar-se a condição material, que neste ultimo ente cons- titue o caracter da humanidade. Eu espero que isto será alcançado pelos progressos ulteriores da phrenologia eomparada, já gloriosamente encetada pelos trabalhos recentes de lír. Vimont. Resulta igualmente d'aqui que a perfectibilidade do homem não he indifi- nida, como querem muitos philosophos. A verdadeira perfeição he aquella que consiste na acquisição de novas faculdades, e como isto não he possível sem hum acréscimo corres- — 27 — pondente de novas partes cerebraes, e em quanto a espécie humana fôr tal qual he, não podendo este numero ser augmentado, nem diminuído, pois que não dependo nem de nosso arbítrio e influencia, nem a naturesa o faz, o que envolveria huma mudança ra- dical na essência actual da natureza humana, claro fica , que debaixo deste ponto de vista o homem não pode ser perfectivel. Ha outra espécie de perfectibilidade no entender dos philosophos, e he aquella, que consiste no aperfeiçoamento sempre progressivo e illimitado das faculdades, que possuímos. Certamente he doce, glorioso e lisongeiro ao nosso orgulho o emballarmo-nos da esperança de hum aperfeiçoamento sempre crescente da nossa espécie. Mas ah! ávida humana he huma successào de enganos 1 as leis da organisação e osfastos da historia destroem ainda as illusões dos philosophos. Os homens de hoje são e seráõ o que sempre forão os da mais remota idade. E nem se diga cm contraposição, que a época actual he mais civilisada ; por quanto este argumento bem analysado perde a força que parece ter á primeira vista. Hoje, como em todos os tempos, a civilisação sempre foi concentrada em hum pequeno nu- mero de homens. Às grandes massas sempre existirão sepultadas na ignorância, no erro ,. no prejuiso e na superstição. A escravidão, a brutalidade, os prazeres sensuaes e grosseiros sempre forão a partilha das maiorias; se a geração actual não tem os vícios e os prejuisos da antiga, tem em compensação outros de igual conseqüência, Da mesma maneira antigamente houverão homens, cujas producçoes literárias, ou das bellas artes, ainda hoje nos causão admiração, e são de huma perfeição igualá aquellas dos gênios maÍ6 sublimados dos séculos modernos. Quando he que as obras de Homero , Horaciò, Virgílio, Ovidio, e outros muitos deixaráõ de ser consideradas? Quando he que as obras de Praxiteles serão tidas em menos preço? Quando he que os talentos mP litares de César, os talentos políticos de Pericles etc. etc. deixaráõ de ser admirados? Ora tudo isto prova que a perfectibilidade do homem está determinada por sua organisa- ção, e esta organisação sendo a mesma em todos os tempos, segue-se que os homens com o volver dos séculos, não podendo mudar a sua natureza, não podem ser infinitamente perfectiveis. Todavia eu não nego que nossas faculdades não sejão susceptíveis de aperfei- çoamento. Longe de mim tal pensar. Certamente he innegavel a grande distancia que ha entre o homem bruto, e o homem civilisado. Porém este aperfeiçoamento estando na ra- são composta do maior ou menor desenvolvimento de cada órgão cerebral, e da educação, e não sendo illimitada a influencia destes dous elementos, segue-se ainda desta conside- ração, que a perfeição humana tem limites determinados. O indifinido neste ponto pro- vem da impossibilidade em que estamos de assignar e marcar estes limites; porem elles não estão tão distantes, como julgão os philosophos em suasillusoens. Esta matéria he de tan- ta importância que só ella mereceria huma these consagrada ao seu desenvolvimento. Terminarei finalmente este artigo â favor da pluralidade cerebral por algumas rasoens, que nos ministra a medicina. Quem tem amais leve tintura desta sciencia sabe, que nas monomanias os indivíduos desarrasôão sobre hum ponto fixo, entretanto que sobre tudo mais raciocinão e conversão com a maior ligação e seguimento. Monomaniacos ha, com os quaes se pode entreter huma conversação por muito tempo, e se ella nuncn, versar so- bre objectos, que tenhão relação com a faculdade lesada, não se poderá conhecer qual a espécie de loucura de que o indivíduo he affectado, Demangeon refere hum caso galante de hum doudo que se julgava ser o Padre Eterno. Este homem conversava com hum es- trangeiro mostrando o maior bom senso e sem nunca manifestar sua espécie de lousura ; mas passando este á vesitar outro alienado, que se julgava ser filho do Padre Eterno, gri- ta^-Ihe o primeiro: «Senhor não faltai com esse homem; he hum louco, que julga ser o filho demos; o que he falso: por quanto eu, que sou o Padre eterno, o saberia melhor que ninguém. » O mesmo autor conta o caso de huma Senhora, que raciocinava mui con- sequentemente sobre todos os objectos em quanto se Ihefallavaem huma certa distancia; porém aproximando-se-lbe ella recuava assustada dizendo: « accquiellai-vos para nãoqus- — 28 — brar o meu vidre. » A monomania desta Senhora era imaginar-se estar dentro de huma garrafa de espirito de vinho. Como este mil outros exemplos pudera citar de que abundao os authores, para onde remetto o leitor curioso, pois numerosos exemplos não são compa- tíveis com huma these. Ora, se todas as faculdades fossem exercidas por hum e o mesmo orgao, como seria possível conceber que hum mesmo agente material esteja lesado para exercer huma funcçao, entretanto que executa outras com perfeição e regularidade ? Não he mais conforme á rasão e aos factos dizer-se que tendo cada faculdade seu órgão deter- minado, e podendo os órgãos cerebraes independentemente huns dos outros se alterarem por causas mórbidas apparentes ou occultas, assim as faculdades respectivas soffrerem alteração ou perversão, em quanto que outras, cujos instrumentos materiacs estão illesos, manifes- tao em seu exercicio toda a perfeição e integridade? Em conclusão, tendo demonstrado que a contradição e o absurdo resultão de todas as supposçoens óontrarias á pluralidade de orgaos para as diversas funeçoens primitivas, segue-se que ou devemos admiti-la, ou feixando os olhos aos factos , ao raciocínio e á experiência , nao devemos então fazer uso algum da nossa rasão. 5.° MODELAÇAÕ DO CRANEO SOBRE O CÉREBRO. Como cada faculdade tem seu órgão particular, e oecupando os órgãos no cérebro «lillerentes posiçoens , a phrenologia seria huma sciencia incompleta, senão tivesse hum meio de conhecer suas posiçoens respectivas. Para isto era necessário, que o craneo mo- clelando-se sobre o cérebro, suas eminências e depressoens fossem determinadas pelo maior ou menor desenvolvimento dos instrumentos materiaes das faculdades , e assim ndicassem a energ.a ou fraqueza destas. He com effeito o que tem lugar, como se prova observando o desenvolvimento do craneo em relação ao cérebro segundo as idades >o feto o cérebro já existe sem que se desrubra vestígio algum do craneo. Aquclle or-ão he somente coberto por suas membranas, sendo a exterior cartilaginósa e destinada wí mui ada em osso. Apparecem da sétima á oitava semana sobremesa mem ana taYto ontos de oss.hcaçao quantos são os ossos do craneo. Com os progressos ulteriores da or ganisaçao, estes ponfos se estendem pela deposição de novas molécula^s Zuc ^ contrando-se huns com os outros formão os ossos, cujas extremidades e"numndl" ,Tfaá8UUraSKefecháVavÍda,le' que contém o cérebro. Ora contesta òs^ de indivíduo para bdivfduo dTfferenea ÜT.CTl ° C<""P0' dÍITcrC "'-inariameuté relaeoeos «J. que a t^ntfSti o o^gao ^ ^^e^Zol ^^ supposiçao contraria. « que teriameute nao teria lugar na e5eep"r„„stgaarÍm:„i°e'^deT °7T H*" ^"^ COnsisten- ««>«**. * he e„nue„eiad„ ^','£% SSÍS «n^t'de°t^^eT"'l U'^ huma substancia pulpòsa como esta seia imnot?^ !•••,' C nem S(í (l,=a ultimas só comparão, e percebem as relaçoens existentes entre os objectos (•ort orehendidos na esphera de sua actividade , em quanto que aquella involvc e combina todas as noçoens, seja qual for sua origem. A numeratividade , per exemplo , só pode perceber as relaçoens numéricas; a coloridade , as differentes cores; o tom , as differentes notas ; a localidade, os diversos lugares etc. etc.; porem comparar para descubnr re- laçoens os sons com as cores, as fôrmas com as consistencias, a extensão com o pezo, o amor com amisade, a estima de si com a beneficência etc. etc. são funeçoens só próprias da comparatividade; donde se vê que esta faculdade não tem porobjecto immediatn os entes da natureza, mas sim a elaboração , ou antes a combinação das sensaçoens, e noçoens, que delles nos offerecem as perceptivas. O juízo he hum de seus attributos: pode-se também dizer sem perigo de erro, que as faculdades perceptivas julgão; visto JÍ — que ellas sentem as relaçoens de semelhança ou differença entre aquelles objectos, de que tomão conhecimento. Quando a comparatividade he bem pronunciada, os indiwduos não explicao suas ideas c sentimentos senão por comparaçoens ; e como estas nem sempre são justas, elles são mais plausivcis e brilhantes que rigorosos e conseqüentes. Sua combi- nação com a individualidade, eventualidade e causalidade pronunciadas constitue o homcvn de gênio nesta ou n'aquella profissão , conforme o desenvolvimento predominante de huma das outras faculdades, como a da musica, poesia, construcção etc. A comparatividade he indispensável aos poetas, e oradores, que se servem continuamente de figuras e com- paraçoens para melhor fazer sobresahir certos pensamentos, que as expressoens directas não podem manifestar com aquella energia necessária. Quando esta faculdade he fraca, o indivíduo não sabe tirar proveito para suas argumentaçoens das semelhanças ', ou difle- renças existentes entre os objectos ; e se o fazem, são sempre mal trazidas suas compara- « çoens. 35. CAUSALIDADE. O órgão desta faculdade existe no alto da testa ao lado externo do precedente. Sua impulsão fundamental he procurar a causa das cousas ; e nos leva sempre a indagar a o porque, o quomodo dos phenomenos. Esta faculdade da mesma maneira que a pre- cedente extende a esphera de sua acção ã todos os objectos f e abrange igualmente todos É os phenomenos assim phvsicos como moraes. Pela comparação e eventualidade nós co- , nhecemos c Julgamos da evidencia directa dos factos , e pela causalidade descobrimos as i relaçoens oceultas de causa á effeito , tiramos conseqüências de premissas dadas , remon- (H tamos por meio de intermediários bem ligados dos effeitos mais distantes às suas causas .4* mais remotas, e estabelecemos assim a evidencia demonstrativa. Ilé desta maneira que ir: analysando os phenomenos da natureza, vendo que todos elles necessitão de huma causa, '**» que nenhum traz consigo a razão sufliciente de sua existência , que todas as partes do corpo humano , como também as de todo universo , e os immensos globos , que girão no Í espaço infinito, estão entre si de tal maneira ordenados, que he impossível deixar de reconhecer-se huma intelligencia infinita que òs regularisasse, he desta maneira, digo eu, que, observando ser tudo neste mundo passageiro, finito e contingente, elevamos nosso pensamento á huma causa primeira e omnipotente, e descobrimos a existência augusta da Divindade. Todavia no estudo da natureza nós nao podemos conhecer a natureza in- trinzeca das causas primitivas dos phenomenos , e a essência dos princípios : nós só obser- vamos as apparencias e as mudanças sensíveis, sem termos muitas vezes os meios de reco- nhecer como estas apparencias tem lugar, e porque se operão estas mudanças : eis porque diz Yirsilio : í Felix qui poluit rerum cognoscere causas. Quando a causalidade he muito desenvolvida, e as faculdades receptivas fracas, os individuos assim conformados, pouco se importando com os factos e as experiências sensíveis, entregão-se ás especulaçoens abstractas, edificando sobre ellas theorias e svs- tenii.s metliaphysicos, que não tem applicação alguma aos phenomenos da natureza. Sua fraqueza determina a superficialidade nas sciencias; porquanto de nada valem os factos, se a pessoa , que os colhe, não sabe liga-los por meio de suas rela- çoens naturaes, e dellcs tirar conseqüências, que, tornadas em princípios, possão fazer progredir os diversos ramos dos conhecimentos humanos. Aqui terminamos a suecinta, e mais que ligeira discripção dos órgãos e suas fun- eçoens. A obra de Broussais não deixa nada á desejar nesta parte, quer em relação ao homem , quer aos animaes, dos quaes não fallei por não ser possível em huma these. Ninguém portanto , querendo ter idéas exactas de organologia especial, deve dis- pensar-se de a ler. Todos os órgãos, quando são muito desenvolvidos, determínão huma elevação no craneo , por onde se pode, e se chegou à conhecer sua posição respectiva no cérebro. Mas não pense alguém, que examinando phrenologicamente huma cabeça, lá vá encontrar eminências do tamanho de hum ovo , pois huma , ou duas linhas mais de crescimento orgânico fora do oídinario, he bastante para dar á sua funeção respectiva hum gráo não pequeno de energia. Alem disto , para que huma elevação craneana, deter- minada por hum órgão subjacente, se torne sensivel, he necessário que os órgãos cir- cumvesinhos nao estejão igualmente desenvolvidos; pois neste caso ha nivellamento de superfície. Por conseguinte, quem quizer bem estudar huma cabeça, e não commetter erros, deve observar os preceitos seguintes, que dão os phrenologistas. REGRAS DE OBSERVAÇÃO EM PHRENOLOGIA. Divida-se primeiro mentalmente a cabeça em três partes, tirando duas linhas, que partindo do órgão da constructivídade ( n°. 9 ) , huma passe pelo alto do frontal entre a beneficência e a comparação ( nos. 13 e 34) , e vá terminar no mesmo órgão do lado opposto, e a outra, passando entre os órgãos da acquisividade e idealidade^ secretivi- dade e circunspecção, affeccionividade e approbatívidade, habitatividade e estima de si ( n08. 8 e 19, 7 e 12, 4 e 11 , 3 e 10 ) , daqui volte, seguindo a mesma direcção, e vá terminar no mesmo ponto, que a primeira. Esta divisão tem por fim demarcar as três grandes regioens, onde residem as três ordens distinetas de faculdades; assim tudo quanto fica adiante da primeira linha pertence aos órgãos da intelligencia; os sentimentos ficãõ entre a primeira, e acima da segunda linha; e os instintos abaixo desta. Quando porem sequer conhecer as proporçoens relativas de desenvolvimento das três massas cerebraes, e por conseguinte, que ordem de funeçoens domina o individuo, se os instintos, sentimentos, ou a intelligencia, procede-se de outra maneira. Tira-se então de hum á outro condueto auditivo três semícirculos, dos quaes hum passe pela parte mais saliente do frontal, outro pela mais alta da cabeça, e o terceiro pela mais proeminente do occipital. Isto feito, calcula-se pela grandeza relativa dos semícirculos, qual das três regioens he mais desenvolvida , ou se todas o são igualmente; porquanto he de observação que este três semícirculos estão entre si, como as três regioens cerebraes; de sorte que a razão ou o quociente d' aquelles he a medida do desenvolvimento destas. As três regioens cerebraes podem se achar em seis combinaçoens principaes, for- mando outros tantos gêneros differentes de cabeça, tendo cada hum sua significação própria. Io. Gênero. As faculdades intellectuaes prevalecem sobre os instinctos e sentimentos, que são fracos. Quando isto acontece, a testa he espaçosa, saliente, e elevada. Se as faculdades receptivas predominão sobre as reflectivas, a parte inferior he mais — oG — proeminente, que a superior, que neste caso recua para trás. Todavia para se apreciar esta differença, e não se commetter erros, lie necessário sempre tirar a linha do condueto auditivo à estes dous lugares, e nunca se contentar çom a simples vista d'olhos; por- quanto muitas vezes a proeminencia inferior he devida á saliência dos seios irontaes, <' o observador pode enganar-se , julgando ser das faculdades receptivas, entretanto que tirando a medida, e fazendo a deducção dos seios, se convence do contrario , e acha esüi parte com suas dimensoens ordinárias. Outras vezes quando os seios são muito pouco desenvolvidos, a parte superior, parecendo dominar a inferior, dá áentender grande pre- dominio das faculdades reflectivas , apezar d' ellas estarem no seu estado natural de desen- volvimento. Quando há igualdade de crescimento entre os órgãos das faculdades perce- ptivas e reflectivas, as partes superior e inferior da testa ficão situadas no mesmo plano vertical levantado sobre a raiz do nariz , nao tendo isto lugar em nenhum dos dous casos antecedentes. Os indivíduos, que apresentao esta conformação de cabeça, são rectos, suas acçoens são conformes à razão e á moral, são amigos da verdade, sacrificão seus interesses ao bem geral, julgão com equidade as fraquesas e opinioens alheias, perdoão gene- rosamente as offensas, são superiores á ingratidão e à perseguição , são finalmente homens modelos de virtude e bondade. Este gênero offerece três espécies secundarias. Ia. Espécie. As faculdades receptivas dominão as reflectivas , que são fracas. São as cabeças dos homens muito observadores, que amontoão muitos factos , muitos materiaes, porem que não os fecundão, e observão só pelo prazer de observar sem nada ou pouco concluir. Semelhantes individuos são úteis nas sciencias descriptivas, porque fornecem materiaes e muitos factos sobre os quaes outros edificão. 2\ Espécie. As faculdades reflectivas prevalecem , e as precedentes são fracas. São as cabeças d'aquelles homens, que achão pouco prazer nas experiências e observa- çoens sensíveis, e querem estabelecer as sciencias sobre theorias á priori, e especula- çoens metaphysicas. Assim suas obras são obscuras e recheadas de mil distinçoens, divisoens, e subdivisoens. Sirva de exemplo a metaphysica de liant. 3a. Espécie. As duas ordens de faculdades estão igualmente desenvolvidas. Os individuos, que offerecem esta combinação, são os mais aptos para fazer avançar as sciencias, porquanto ao mesmo tempo que colhem pelas faculdades receptivas muitos factos, os fecundão pelas reflectivas, ligão huns á outros, remontão ás causas mais remotas dos phenomenos, e por deducçoens suecessivas e rigorosas descem á seus effeitos mais distantes. Hé desta maneira, que elles descobrem verdades novas, princípios até então oceultos e ignorados, e sobre elles edificão systemas scientificos, que nem sempre são comprehendidos por seus contemporâneos, que os tratão muitas vezes de visionários, porque não podem acompanhar o elevado vôo de suas idéas. 2o. Gênero. Os sentimentos dominão a intelligencia e os instinctos. Os homens desta organisação são todos sentimentaes, crédulos, reverentes, e muito dispostos ao fanatismo e á superstição. Se a esperança, a maravilhosidade, e a veneração, são muito desenvolvidas , e as faculdades reflectivas fracas , elles se tornão visionários, mysteriosos, e de maneira tal, que muitas vezes acabão por se enlouquecer. Este gênero offerece a combinação seguinte. Espécie única. He quando as faculdades receptivas, e as chamadas theatraes, como a imitação , o maravilhoso , e a idealidade , são bem desonvolvidas , e combinadas com a fraquesa das reflectivas. He a organisação própria d' aquelles, que executao com toda perfeição as producçoens de outros em musica, pintura, ou arte dramática etc. en- — 5/ — trelanto que elles não são capazes de produzir a menor cousa. E com effeito o hábil executor em musica pode ser huma nullidade em composição, de eme ha numerosos exemplos. 3o. Gênero. Os instinctos, ou funeçoens animaes, dominão a intelligencia e os sentimentos. São as cabeças dos malvados, assassinos, e salteadores de todo o gênero, cuja vida he huma suecessão de crimes, eque, entregues á sensualidade e ao erro, tem sempre resistido aos bons exemplos e á educação. Cumpre porem não confundir com estes, aquelles que se tornão màos, ímpellidos pela miséria e circunstancias imperiosas. Quando a tendência ao mal he o resultado do predomínio dos órgãos das funeçoens animaes, ella já se faz sentir desde a infância. 4o. Gênero. Todas as faculdades estão no mais alto gráo de desenvolvimento com- patível com a espécie humina. São as cabeças dos homens raros, extraordinários debaixo de muitas relaçoens, e que se diz serem os mais perfeitos da nossa espécie; bem que a perfeição completa da humanidade, como demonstramos na segunda parte desta these, não seja senão ideal. Quem ha neste mundo que não tenha deffeitos, efraquesas! Estes homens raros, se oecupão lugares eminentes na sociedade, e são dominados pela am- bição, podem fazer a felicidade ou a desgraça da nação, â cujos destinos prezidem, se- gundo que empregáo os seus talentos para o bem ou para o mal. Neste ultimo caso, unindo á huma vasta intelligencia todos os recursos , que ministrão as faculdades affectívas , elles põem em movimento todas as mollas do coração humano, amoldão-se, para não perder a popularidade, ás opinioens dominantes, até que possão dirigi-las, tirão proveito de todas as circunstancias, fazem nascer outras favoráveis á seus fins, seus amigos são todos aquelles, que os sustentão, e inimigos todos aquelles que os combatem, ou divergem de suas opi- nioens , são finalmente homens irresistiveis. Ainda mesmo desacreditados tarde ou nunca perdem a influencia , e sempre conseguem o que ambicionão , porquanto como nos go- vernos livres os partidos se suecedem e se batem, aquelle, que triumpha, chama á si o homem extraordinário, em cujos hombros pretende firmar a victoria, e, quando julga tc-lo por instrumento, he por elle dirigido, e, pensando trabalhar á favor de suas idéas, não faz senão concorrer para que vinguem os projectos de hum só homem. 5.° Gênero. Todas as faculdades são igualmente medíocres. Nesta classe se com- prehende a grande maioria dos homens. O estado ordinário he o mais commum e geral. O gênio he raro, e a natureza só o concede á certos escolhidos. 6.° Gênero. Huma só faculdade he muito desenvolvida, sendo as outras medíocres. Sao as cabeças dos homens notáveis em hum só ponto, e nullos em tudos mais. A socie- dade apresenta não poucos exemplos de individuos desta natureza. Assim huns se dis- tinguem pela memória das palavras, outros pela perfeiía execução da musica , huns pela poesia, outros pela pintura ou artes mecânicas etc; porem tirai-os .daqui, que elles são nullidades, ou pouca cousa em outra profissão. Estes homens são os próprios para obser- vação , porquanto aquelles, onde tudo he igualmente desenvolvido, apresentao huma superfície lisa e sem proeminencia no craneo, pois que nenhum órgão predomina, e a desigualdade de seu crescimento he que constitue as elevaçoens e depressoens. He com cabeças desta natureza somente que os phrenologistas tem chegado á descubrir a posição respectiva dos órgãos, e quem quer obsenar cm phrenologia não deve e nem pode seguir outro mcthodo. O observador depois de estar bem ao facto destes seis gêneros de cabeça e suas significaçoens respectivas, depois de ter adquirido hum conhecimento exacto do volume - 58 — e configuração geral do cérebro, e apreciado as proporçoens relativas de suas três regio- ens , deve applicar-se ao estudo de cada hum dos órgãos em particular. Neste exame procurará sempre casos extremos, isto be , começará por aquelles órgãos, que esícjao mais desenvolvidos que for possível, e deverá compara-los debaixo da mesma relação com os daquelles individuos, que os tenhão para assim dizer atrophiados: fará, por exemplo, a comparação do órgão da secretividede em Talleyrand com esse mesmo órgão em outro individuo , que nunca soubesse dissimular os seus sentimentos, o órgão dos números em Newton m>m seu idêntico n'aquelle, que para as mathematicas tenha a maior inha- bilidade, os orgaos da musica em Rossini, da localidade no capitáo Cook, da pintura em Raphael, e da poesia em Camões etc, etc, com esses mesmos órgãos n'aqnellas pessoas que para estas differentes profissoens apresentem a maior-imbecilidade. He só desta maneira que elle pode evitar erros e convencer-se da exactidão da phrenologia, e e hum dos erros mais graves nesta sciencia he começar o seu estudo pela observação directa dos mais pequenos órgãos, e de examina-los sem comparação. Para dar maior exactidão ao seu juizo, quando quizer comparar entre si diversos individuos, deve procurar saber; 1.° se seus temperamentos são iguães , e se elles gosão perfeita saúde; 2.° se he regular o exercicio de suas faculdades; 3.° se o volume geral do cérebro he igual entre elles, excepto n* aquelles órgãos particulares entre os quaes quer instituir a comparação. Quando quizer conhecer a potência da manifestação das faculdades, deve attender, que ella depende de três condiçoens indispensáveis, que são, l.a hum grande desenvol- vimento do órgão, que se conhece por seu volume, 2.a sua boa organisação, ou es- truetura , 3.a o exercicio. Daqui resultão as seguintes proposiçoens; l.a de dous cérebros de igual volume , e ignalmente exercitados, manifestará com mais energia suas funeçoens aquelle, que for mais bem organisado, e cujas fibras gosarem de maior tonicidade; 2.a se houver igualdade de volume c organisação, será o que tiver mais exericio , 3.a se o exercicio e organisação forem iguaes, será o que formais volumoso; 4.° dedous individuos comparados debaixo deste ponto de vista, será mais intelligente aquelle, cujo cérebro apresentar, ou estas três condiçoens em hum mais alto gráo, ou, cceteris paribus, huma dellas predominante. Estas ^eis são tão invariáveis, que a phrenologia desafia seus antagonistas, que apresentem hum só facto em contrario de hum indi- víduo , em quem se encontre grande intelligencia coincidindo com sua transgressão; e, se o fizerem, ella lhes promette ceder de suas pretençoens, e dar-se por falsa. O maior ou menor exercicio se conhece pela applicação mais ou menos assídua do individuo; a boa ou má organisação pela disposição geral do corpo; por quanto sendo toda a economia viciosa, fraca, cachética, he natural, que o cérebro, participando de iguaes alteraçoens, apresente sua estruetura da mesma maneira viciosa. Quanto ao volume, elle he o resultado da extensão e largura. A extensão de hum órgão em par- ticular se mede por huma linha tirada da medulla alongada, ponto de nascimento de todos elles, à sua peripheria no cérebro; mas como isto não he possível, tomão os phrenologistas para ponto de partida o orifício externo do condueto auditivo , que, situado no mesmo plano que a medulla alongada, dá ás dimensoens orgânicas o mesmo gráo de certeza. A largura he determinada pela expansão periphérica, pois he huma lei geral de physiologia, que a largura de hum órgão em toda a sua extensão está em relação com sua expansão na superfície. Segundo Spurzheim a disposição para huma acção freqüente he o resultado do comprimento do órgão , em quanto que sua espessura lhe dá maior intensidade. — 59 — Para se calcular o volume geral do cérebro e suas relaçoens com os diversos griios de intelligencia, eis aqui o processo de Gall: tire-sc duas linhas, das quaes huma passe pelas partes mais salientes do frontal e occipital, e dé a medida da circunferência da cabeça, c a outra vindo da raiz do nariz até a fossa do pescoço, ou a nuca, determine sua peripheria. Se a circunferência tiver 11 para 13 pollegadas, e o periphería 8 para 9, pode-se concluir que a massa cerebral he igual á quarta, quinta, ou sexta parte da de hum adulto bem constituído , e que com !«.um cérebro tão pequeno o exercicio regular das faculdades he impossível, e o individuo desta conformação hade ser necessariamente idiota. Se a circunferência tiver 14 para 17 pollegadas, ea peripheria 11 para 12, a massa cerebral será igual pouco mais ou menos à metade da das mais fortes cabeças. Com esta organisação ainda ha grande incapacidade e huma estupidez mais ou menos pronunciada. Se a circunferência tiver 18 para 20 pollegadas, e a peripheria 13 para 14, a massa cerebral he igual á dos homens ordinários. Com esta organisação o exercicio das faculdades he regular, e esta conformação he a que se encontra no commum dos homens. Todavia ainda he de grande mediocridade aquelle, cuja cabeça tem somente 18, e mesmo 19 pollegadas de circunferência. Finalmente quando a circunferência tiver 21 para 22 pollegadas, e a periphera 15 pouco mais ou menos, a massa cerebral he a maior que comporta a espécie humana. Este gênero de cabeça só se encontra nos ho- mens raros, de gênio, e de talentos extraordinários. Eis aqui em resumo as regras,'sem as quaes não se pode bem observarem phrenologia, e quem as desprezar hade necessaria- mente commetter grandes erros. Cumpre agora livrar esta sciencia de huma aceusação odiosa , que lhe fazem seus detractores. A PHRENOLOGIA CONDUZ AO MATERIALISMO ? Que a phrenologia conduz ao materialismo, destróe os fundamentos da mural, da religião, e por conseguinte, sendo huma sciencia perigosa, não deve ser cultivada, taes sao is armas, com que os inimigos da verdade a tem combatido, e procurado entorpecer os seus progressos. A tactica não he nova. Desde a mais remota antigüidade os adversários de todo adiantamento dos conhecimentos humanos tem-se opposto ãs novas descobertas e á propagação de princípios úteis, principalmente se elles conduzem á grandes resultados. Quando se não pode destruir os fundamentos d'huma doutrina, procura-se, deduzindo conseqüências perigosas e forçadas, apresenta-la de huma maneira odiosa e suspeita aos olhos da multidão crédula e irreflectída. Tal he o estratagema dos hypocritas, que fazem guerra ás innovaçoens, bem que úteis, só por motivos de interesses particulares. Se todos os homens fossem de boa fé, e tivessem bastante coragem para desprezar seus prejuízos, elles serião mais felizes, e as sciencias estarião mais avançadas. Mas nada ha neste mundo de que se não faça hum escândalo, porem ^.segundo Gall, S. Bernardo dizia : «que he ne- cessário julgar differentemente do escândalo dos ignorantes e do dos pharízêos. Os pri- meiros se escandalisão por ignorância^ e os outros por malignidade, huns por que não conhecem a verdade, e outros porque a odeião. « Quando eu considero na opposição, que todas as sciencias encontrão no começo de seu desenvolvimento, vem-me á memória dous pensamentos; ou que o estado de erro e prejuízo hco natural do homem, eo de sciencia forçado, (o que não hepossivel, e o con- trario devemos suppor mesmo para honra da espécie humana) ou, (o que he mais pro- — GO — vavel, senão certo) que he lei da natureza submetter as verdades novas á perseguição para i que sejao melhor estabelecidas. E com effeito, quem huma vez chegou á tirar do nada qual- quer veidade de importância, apresenta hum peito de aço ás agudas e hervadas' settas d'aquclles, que fazem opposição, ou por inveja de não serem os authores da nova doutri- na, ou porque sentem, que esta vem desmoronar os systemas fantásticos por elles forma- dos, ou em que já estão encanecidos. Mas em fim vejamos se com effeito he, ou nao fun- dada á aceusação, que se faz á phrenologia. Esta sciencia não especula; como as outras sciencias physicas, ella apresenta factos c observaçoens sobre os quaes estabelece suas theorias. Ora ou estes factos e observações sao falsos, ou verdadeiros; se falsos, elles não podem conduzir ao materialismo, e nem tão pouco ser nocivos á moral, e á religião; porquanto a falsidade, c o erro, tendendo por sua mesma natureza à sepultar-se no nada, e no esquecimento, não podem de maneira al- guma prejudicar aquillo, que se funda na verdade e nas leis invariáveis do coração humano • mas se são verdadeiros, a sciencia, que os apresenta, não pode ser perigosa á estes sagra- dos objectos; porque de hum principio verdadeiro he impossível deduzir-se huma conseqüên- cia má, e o que he innocente em sua origem não se torna nocivo nas applicaçoens. Não ha verdades úteis, e verdades nocivas; todas ellas são úteis. O abuso inseparável dos ho- mens, e não a verdade, he a única origem de nossos males. « Tudo he hum bem, diz Rous- seau no sea Emílio, sahíndo das mãos do author da natureza; tudo degenera entrando nas mãos do homem. » Dado, mas não concedido, que a phrenologia conduzisse ao materia- lismo. deveríamos por isso dar por falsos seus princípios, e rejeitar os factos, que apre- senta ? He por ventura nossa razão, ou nossa vontade, quem determina a verdade ou fal- sidade, a innocencia ou amaldadedas cousas ? « Huma verdade perigosa, diz Charles Bonnet, ; não deixaria por isso de ser huma verdade: o que he, he; e nossas concepçoens, que não i podem mudar o estado das cousas, devem-lhe ser conformes. O entendimento não crea nada; . elle contempla, o que está creado; e contempla o aconito, como a genciana; e a serpente, como a pomba. » Se, a pezar das razoens expendidas, ainda se pretenda em boa lógica, que ;. a.phrenologia conduza ao materialismo, e se toda a sciencia deve ser considerada como a ver- , dadeira interpetração da natureza, então diga-se que o materialismo he a constituição da t natureza; e que a phrenologia he perigosa porque faz conhecer esta constituição; pois se- gundo Juvenal, Nunquam aliud natura, aliud sapientia dicit. A significação da palavra—materialismo—he tomada em hum sentido mais, ou menos ntenso. No primeiro, que se identifica com o athcismo, entende-se o systema, ou a opinião d'aquelles, que não admittem outra existência que a da matéria necessária e eterna. Se al- guém ha que ainda adopte tal absurdo, não sao certamente os phrenologistas, e nem a scien- cia, que professão, conduz á tão funestos resultados. Quem haverá, que reflectindo sobre a j; boa ordem, harmonia e exacta proporção, que reinao entre todas as partes do universo, desde * a matéria mais grosseira até o animal mais perfeito, e intelligente, desde o planeta menos importante até o astro luminoso, deixará de reconhecer huma intelligencia infinita, hum Deos creador e ordenador de tudo ? Nada ha neste mundo isolado; todas as cousas estão li- gadas; Os meios estão com os fins, a natureza animada com a inanimada, os entes vivos huns com os outros, todos os globos finalmente, que girão nesses espaços infinitos, onde a ima- ginação se perde, guardáo entre si justas relaçoens, e obedecm ás leis invariáveis das forças < entripeta, e centrifuga. Ora sem huma causa de todas as causas, sem hum ordenador de } todas as ordens, sem hum principio de todos os princípios, sem hum Deos finalmente, estas maravilhas alem de inexplicáveis, serião incomprehensiveis. « Se Deos não existisse, diz Vol- tai re , necessário era inventa-lo ; » Si Dieu n existait pas, il faudrait Vinventer. — Gl — Em hum sentido mais limitado, entende-se por materialismo, quando se sustenta, que o homem não he composto de corpo e alma, e que todos os phenomenos, que se attribuem áesta, são o resultado da combinação e das formas da matéria. Ainda neste ponto não cabe á phrenologia tal inculpação. Ella reconhece que existe em nós hum ente que prezide ao pensamento. Que elle seja chamado alma, espirito, principio pensante, poucr» lhe importa, e nem he de sua attribuição tratar da essência desta substancia em particular, pois isto pertence aos theologos. O que ella diz e demonstra he que a alma, ou o principio pen- sante, seja qual fôr,a sua natureza, não pode manifestar suas funeçoens, senão por meio de hum instrumento material, o cérebro. Se isto he assim, se com effeito as manifestaçoens aflectivas e intellectuaes do homem estão em relação com a organisação de seo cérebro, p or mais que se opponha áesta verdade, ella nao será anniquillada senão pela causa omnipoten- te, que a estabeleceo, e a sciencia, que reconhece e ensina este facto, cuja existência he inde- pendente de sua vontade, não pode conduzir ao materialismo, e ser nociva á moral e á reli- gião. Sé dizer que a alma necessita de hum instrumento material para tornar possível o exercicio de suas funeçoens, he estabelecer o materialismo, materialistas são muitos padres da Igreja e theologos respeitáveis, que reconhecerão este facto, materialistas sao todos os phy- siologistas, que sem a organisação não podem explicar as funeçoeus da economia animal, em cujo numero entrão igualmente as faculdades intellectuaes, materialista he finalmente a mes- ma Divindade, que assim nos organisou, que fez toda natureza, e sujeitou todos os entes anima- dos á mesma lei.. Se o principio, que em nós pensa, he huma creação immediata da Divindade, e se he innegavel que elle está unido ao corpo, esta união deporia contra os cálculos da Sabedoria eterna, se houvesse entre estas duas substancias huma absoluta independência. Mas hoje os mesmos adversários da phrenologia reconhecem que o cérebro he o instrumento dalma. O que elles não podem levar á bem he, que esta sciencia admitta, não o cérebro em massa, mas hum órgão particular para cada faculdade determinada. Que tem demais que outra esta doutrina para a questão do materialismo? Não há objecção mais futil, mais trevial e menos digna mesmo de merecer huma resposta, como esta. Que o cérebro seja considerado como único e homogêneo, ou composto de 35 ou 37 órgãos distinetos, deixa acaso de ser huma substancia material, de ter o mesmo pezo, o mesmo volume, a mesma massa e a mesma densidade? Se a mão direita nascesse com os cinco dedos unidos, seria por este facto menos material, que a esquerda que os trouxesse livres? A alma para tomar co- nhecimento dos objectos exteriores não se serve de hum, mas de cinco sentidos differentes, e lhe he impossivel empregar o apparelho visual para ouvir, e o auditivo para vêr. Ora se a diversidade de instrumentos materiaes para as differentes funeçoens sensitivas não conduz ao materialismo, a doutrina, que exige igualmente huma diversidade de órgãos cerebraes para as differentes operaçoens da intelligencia, o conduziria? O principio, que julga, quer, e ra- ciocina, não he o mesmo, que vê, ouve, cheira, e gosta? Retorquindo o argumento eu direi que mais materialistas são aquelles, que sustentão a doutrina contraria ao systema da plura- lidade, porque neste caso elles vem admittir huma maior massa organisada para exercer qual- quer operação intellectual. Demais o cérebro tomado na extensão geral da palavra, pondo mesmo de parte outros órgãos bem distinetos, he composto de dous hemispherios, do cere- bêllo, do corpo callôso, e do mesocephalo. Ora que sabida darão á estas cinco partes bem distinetas, de que se compõe a massa encephalica, aquelles, que sustentão o systema da unidade cerebral? Certo, queirão, ou não queiráo, elles são forçados á confessar, que pelo menos cinco órgãos differentes entrão simultaneamente em actividade para exercer a mais ligeira operação da intelligencia, o que em verdade he serem cinco vezes mais materialistas do que os que admittem hum só órgão para cada faculdade determinada. Quem para comba- ter huma doutrina serve-se de objeçoens tão miseráveis, atraiçôa a fraqueza de seus ar- gumentos, e dá sinaes ou de má fé, ou da maior ignorância da anatomia, physiologia, c das leis, que regem o corpo humano. Que se não confunda os instrumentos com a alma, nem as funeçoens com as faculdades, que são suas causas, e, certo, não se dirá mais que a phre- — G2 — nologia estabelece o materialismo, o qual não pode ser admittido senão quando se demons- trar rigorosamente que a alma possue todas as qualidades da matéria. Os músculos sao a condição material do movimento, mas nao são a faculdade locomotora ; os aparelhos da vi- são, audição e gustação, são os instrumentos materiaes destas funeçoens, mas não são cer- tamente a faculdade de vêr, ouvir, e gostar. Da mesma maneira o cérebro he a condição ma- terial, sem a qual não pode ter lugar a manifestação de nossas faculdades intellectuaes, de nossas idéas e pensamentos, mas concluir deste facto, que o ente que quer, e que pensa, hc o cérebro, ou que o cérebro he o ente, que quer e que pensa, he hum dos maiores absurdos, he como se dissesse que o estômago he a funeção, que digere os alimentos, o fígado a funeçãe. que secreta abilis; os músculos a faculdade de se mover, e o olho a faculdade de vêr. Or;i ha porventura maior absurdo, e mais revoltante inconsequencia? A questão do materialismo ainda he apresentada debaixo de outro ponto de vista, e então pergunta-se: he material ou espiritual a natureza do principio pensante? temos algum meio de a conhecer? Seja qual fôr a opinião do homem sobre este ponto, ella não pode mu- dar a natureza essencial da substancia intelligente. Material, ou espiritual, cila tem exis- tido, existe, e existirá até a total extincçào da raça humana. Nossas opinioens e discussoens são sem influencia sobre suas propriedades e faculdades, e ella as manifestará e conservará sem alteração alguma, quer se escreva pro, quer contra. Se o author da natureza lhe tem destinado huma existência sem fim, ella persistirá por toda extensão dos séculos; porem se existe nos cálculos do Omnipotente extingui-la conjuntamente com o corpo, todas as nossas conjecturas e argumentos, todas as decisoens e assersoens dos philosophos antigos e moder- nos não augmentaráõ hum só millesimo de tempo á sua existência. Por conseguinte a mor- talidade, ou immortalidade da substancia intelligente depende da vontade do Eterno, c não de ser ella espiritual ou material. O contrario disto involve hum ataque formal contra a Om- nipotencia divina; pois he suppo-la habilitada á tirar do nada para a existência a alma, o ao mesmo tempo impossibilitada de a reduzir ao mesmo nada, donde sahira. Os dous únicos meios que temos para conhecer qual a natureza do principio pensante isto he , a observação sobre o que se passa nos outros , e a consciência intima de nossas pró- prias operaçoens, são improficuos. Nossa vista não he tão penetrante que possa traspas- sar as capas ósseas e membranosas do cérebro para ahi observar e descobrir a substan- cia , que no estado de vida prezide á intelligencia, e mesmo quando os invólucros cerebraes fossem transparentes nós não poderíamos nunca conhecer sua natureza, e nem tão pouco as es- treitas relaçoens, que unem suas operaçoens com a massa cerebral, pela mesma razão que não podemos saber qual o mecanismo , ou a acção vital pela qual os demais orgaos da economia exercem suas funeçoens. Omesmo acontece á respeito da consciência. Reflectindo sobre nossas operaçoens intel- leetuas nós não sentimos se he huma substancia èsperitual, que produz , elabora nossas idéas c pensamentos, enem tão bem se hea matéria, que produz os mesmos effeitos. Só sentimos o exer- cicio de certos actos , à cujas causas damos o nome de faculdades intellectuaes; mas ignoramos, e ignoramos completamente, se elles resultão do espirito, ou da matéria; se Deos, creando o ho- mem , dotou seus órgãos da faculdade de pensar,ou se o primeiro germen do pensamento, an- tes de fazer parte do nosso sôr, existia no nada, ou vagava como substancia ethèrea nas regioens elevadas do espaço. He inconcludente o argumento, que parte da simplicidade e in- divisibilidade de nossas operaçoens mentaes para a espiritualidade da substancia, que as pro- duz. As forçasattractivas erepulsivas dos corpos, agravidade, acohesão , asaffenidades chimicas aelastidade etc. etc. são igualmentesimplicese indivisíveis; e, certo, ninguém concluirá deste facto para a espiritualidade da matéria. Por conseguinte a questão de saber, se a natureza do principio pensante he material, ou immaterial, he impossível de resolver-se, e nem nos convém incetar questoensinsoluveis, donde só podem resultarerros e males, e não verdades e bens. Não nos he dadoconhecer a essenciadas cousas. No estudo dos entes da natureza nós sò observamos as apparencias e as mudanças sensíveis sem podermos muitas vezes conhecer a causa pri- — 63 — mcira cm virtude da qual estas apparencias tem lugar e porque se operão estas mu- danças. Alem disto tudo he noite para nós e espessas trevas. Mas o homem he orgulhoso. Como que envergonhado de circumscrever-se dentro da estreita e limitada orbita de suas faculdades, elle arroja-se atrevido á querer saber aquillo, que estará sempre fora de al- cance de sua curta intelligencia , e eis a origem inexgotavel de seus erros. Assim o mai- or beueficio, que a Divindade poderia fazer ao homem, era impossibilitar o exercicio de suas faculdades logo que elle quizesse traspôr os limites, alem dos quaes não lhe he da- do passar. Então poder-se-hia aflirmar que não haverião erros no mundo, ou elles serião em muito pouca quantidade. Oque huma mulher na antigaGrccia disse áThalisde Mileto por oceasiao deste levar hum tombo, quando contemplava os astros, he digno de ser meditado e gra- vado na memória de todos: « como conhecerias tu o Ceo, disse ella ao philosopho , pois que tu não vês a terra diante dos teus pês?» Tenho-me pronunciado com alguma franquesa sobre esta questão. Não he meu fim negar a existência de huma alma espiritual, para o que não tenho razoens nem pró , nem contra, e ninguém concluirá ,que se nega a existência de hum ente qualquer, quando sé diz que se ignora qual he sua natureza e essência. Concluindo este artigo julgo ter demonstrado, que seja qual for o ponto de vista, debai- xo do qual se considere a phrenologia, ella não pode conduzir ao materialismo, e nem tão pouco destruir a crença da immortalidade d'alma e ser por conseguinte nociva à mo- ral e á religião. Certo, ninguém tirará delia hum sò corollario, em virtude do qual se ve- ja authorisado à dizer, que : Post mortem'nihil est, ipsaque mors nihil; Como nos diz Volta'u*e, que no theatro de Roma cantava o choro na tragédia de Tròadcs. Agora he fácil conhecer quanto he injusta a opposição, que se faz aos progressos desta sciencia. Mas isto não nos deve admirar, pois tal he a sorte do todas as sciencias novas. O homem tem huma predilecção supersticiosa para tudo quanto he antigo quer nas ar- tes , quer nas sciencias. Dizei ao povo que elle pôde melhorar o seu trabalho, apresen- tai ao lavrador hum novo instrumento para rotéar a terra, elles preferirão hum processo mau, sò porque he antigo á outro melhor sò porque he novo; elles dirão sempre que tal foi a practica de seus maiores. Da mesma maneira huma doutrina nova, mas verda- deira, custa â destruir outra antiga, bem que falsa. Os homens huma vez chegadosá cer- ta idade não despresão mais as idèas recebidas, seja qual fôr a importância das razoens contrarias; eis porque os velhos fazem sempre opposição às innovaçoens. Como elles não podem mais mudar sua maneira de pensar e sentir, não sò não apprender» como muitas vezes não querem que outros apprcndão. He a mocidade, que limpa de prejuisos pro- cura anciosa e desenvolve os conhecimentos novos e originaes. Felizmente para as scien- cias os homens morrem; as geraçoens se suecedem; e debaixo deste ponto de vista a mor- te he hum dos principaes elementos de progresso. De outra maneira, ou era necessá- rio perpetuar a mocidade ou tudo seria estacionario. Pode-se dizer, que a geração ac- tual he velha para receber as idèas phrcnologicas. Assim esta sciencia ainda encontrará muitos oppositores; mas se a verdade tem por essência o triumpho, ella hade triumphar, e o tempo, que tudo julga, mostrando a incapacidade de todos os systemas philosophicos para explicar a natureza do homem, fará que hum dia a phrenologia se torne a sciencia das sciencias. 9 ** — 64 — CONCLUSÃO. Escrevendo sobre esta matéria, era minha intenção dar huma idéa ao menos apro- ximada da phrenologia. Terei alcançado este fim? Não posso ser juiz. Trez artigos ain- da erão indispensáveis para que esta these ficasse menos incompleta, e cuja extensão já não pequena obrigou-me à supprimil-os. 0 1° versava sobre a maneira, pela qual os phrenologistas explicao as faculdades chamadas philosophicas, como percepção, attenção, memória, juizo, raciocínio etc. etc. visto que elles as considerão como modos geraes de activi- dade communs á aquellas, que elles descrevem somente como primitivas e fundamentaes; o 2 ° sobre a anatomia do cérebro encarada debaixo do ponto de vista phrenologico, e se- gundo os trez systemas de Gall, Foville, e Broussais; o 3 ° sobre o modo com que a phrenologia explica a diversidade infinita de caracter, e das acçoens humanas pelas pro- porçoens variadas de desenvolvimento em volume, actividade, e educação, que os orgaos guardão entre si. Como para dar huma idéa exacta sobre estes pontos cra-me neces- sário entrar em detalhes incompatíveis com huma these já bem extensa, preferi antes sup- primil-os do que dará tal respeito noçoens incompletas, ficando livre ao leitor recorrer ás obras especiaes nesta matéria. Duas grandes questoens, ou antes, duas grandes difliculdadcs occupão os phre- nologistas. A primeira consiste em determinar o numero exacto das faculdades primi- tivas e fundamentaes do homem ; a segunda em procurar a sede d'aquellas faculdades, cujos órgãos situados na superfície interna dos hemispherios ou na base do cérebro não se podem tornar sensíveis à vista ou ao tacto, visto que elles por seu maior ou me- nor volume não podem determinar elevaçoens ou depressoens no craneo. No meu con- ceito a segunda difficuldade he mais apparente que real, e sua destruição he fácil,. destruída a primeira. Por quanto se houvesse huma estatística exacta de todas as fa- culdades primitivas do homem, deduzindo-se desse numero todas aquellas, cujos ór- gãos estão situados na superfície do cérebro, as restantes deveriao necessariamente per- tencer á aquelles órgãos, cuja situação existe nos dous lugares já mencionados. Isto posto, todas as vezes que hum individuo qualquer se tornasse notável por huma fa- culdade desta segunda classe, se deveria procurar seu órgão respectivo ou na super- fície interna dos hemispherios ou na base do eerebro, analysando , comparando , e me- dindo com a maior attenção possível as proporções relativas de desenvolvimento em vo- lume de todas as circumvoluçoens situadas nesses dous lugares: e assim comparando e agglomerando muitos exemplos positivos e negativos poder-se-hia chegar ao maior grão possível de evidencia. He evidente que esta analyse orgânica não poderia ser feita se- não depois da morte do sujeito, visto ser ella impossível durante sua vida , na qual só se poderia conhecer a energia da faculdade.. Não acontece outro tanto com o pri- meiro problema, cuja resolução he mais difficil. E com effeito como o único meio, que temos para determinar a natureza e o numero das faculdades primitivas do ho- mem , he suas acções e seos differentes caracteres, e como estas acções e seus dif- ferentes caracteres são quasi sempre complexos, isto he, o resultado da combinação» de duas, trez , quatro , ou mais faculdades fundamentaes , complexidade tanto mais con- siderável , quanto mais elevadas são as funeçoens da intelligencia, he na verdade não — 65 — pouco difficil em hum acto qualquer distinguir o que ha nelle de primitivo, e acci- dental ou modificado ; por quanto como ha órgãos auxiliares e antagonistas, e elles não se exercem quasi nunca isoladamente, a impulsão ou a tendência primitiva deve necessariamente modificar-se logo que elle* entrarem em operaçoens combinadas. Po- rem esta difficuldade não he tão grande que se não possa vencer tendo bem em vis- ta os caracteres distinctivos, que dei na introdução da 3.a parte. Outros pontos havia ainda à tratar, e que mostrão a grande importância e utilidade da phrenologia, como são suas numerosas applicaçoens à educação da mocidade, à legis- lação criminal, ào julgamento dos criminosos, ao melhoramento dasprizoens, e casas de correcção etc. etc. Mas he isto matéria para ser tratada em hum escripto da natureza deste ? e a empresa alem disto não era ella superior ás minhas forças? Non omnia possumus omnes. FIM. / Esta These está conforme com os Estatutos. Dr. Manoel de Valladão Pimentel. DESPEDIDA AOS MEUS COLLEGAS AMIGOS, E COM MUITA ESPECIALIDADE AOS MEUS AMIGOS DO 6o. ANNO. AMIGOS! Se o acaso nos unio , a imperiosa força das circumstancias nos separa; tal he a con- tingência da vida humana! Quem ha, que, escravisando à si as vicissitudes , os caprichos do tempo e da fortuna, poderá dizer ufano, «eu vivirei em tal paiz, terei tal residên- cia, alcançarei estes e aquelles meios de vida, existirei na obscuridade ou fora delia, pas- sarei só dias venturosos, e nunca de afllicção! » Certo, o homem he o ludibrio das circums- tancias; mas seja qual fôr o destino, que a sorte me depare, seja qual fôr o lugar para onde imprevistas causas me arremessem, podeis contar com a minha amisade. Meu cora- ção não terá para com vosco variações, e se alguma fôr possível, será para mais vos amar, se com effeito ainda he capaz de se engrandecer hum amor que já toca os limites da grandeza. Se em recompensa eu contar com a vossa estima e consideração, terei alcança- do o que desejo; he quanto basta para quem se preza de ser sensível. VOSSO COLLEGA E AMIGO D. M. de A. Americano, PROPOSIÇOENS PHRENOLOGICAS. I Todos os phenomenos do mundo material são primitivamente effeitos da combinação e da forma das partes elementares, e não existe força ou qualidade sensível sem matéria. II Existem tantas forças ou qualidades differentes, quanto ha de princípios elementares differentes, e quanto suas combinações e suas fôrmas differem; consequentemente deve-se *inferir de huma organisação differente qualidades differentes, e de qualidades differentes huma differente organisação. III As forças ou as qualidades dos princípios elementares, assim como as qualidades, que resultão da diversidade de suas combinações, de suas fôrmas, e de suas relações, não podem ser conhecidas senão pela experiência. IV Todos os phenomenos da matéria vivente não podem ser attribuidos aos nervos; nos animaes mais perfeitos, sobre tudo, os nervos contribuem para a nutrição, a digestão, a respiração, a producção do calor etc.; porem elles não executão sós estas operações. V Cada systema nervoso parcial tem suas funeçoens particulares, posto que elles exer- ção todos huma influencia reciproca, e que sejão todos mais ou menos subordinados huns aos outros. VI Todos os systemas nervosos podem debaixo de certas condiçoens produzir sensaçoens no cérebro; porem todos não podem ser empregados no movimento voluntário. VII Todos os systemas não transmittem todas as irritaçoens ao cérebro; porem cada sys- tema recebe e transmitte principal e especialmente tal ou tal irritação. VIII Os gânglios e os plexos não embaração nem em totalidade nem em parte a acção reciproca do cérebro e dos outros systemas nervosos. IX As funeçoens de cada systema nervoso em particular não se manifestao senão em pro- porção de seu desenvolvimento. X A potência de cada systema está na razão directa de seu desenvolvimento. XI A pluralidade dos órgãos, que são necessários para hum fim commum, não excluea unidade de sua acção; assim huma vida tem lugar com muitos órgãos, e huma só vontade com muitos instrumentos do movimento voluntário. (Vide anatomia do cérebro e do systema nervoso por Gall, e Spurzheim). HIPPOCRATIS APHORISMI. I Cum morbus in vigore fuerit, tunc vel tenuissimo victu uti necesse est. Secç. 1., Aph. 8. II Sommus, vigília, utraque modum excedentia, malum. Secç. 2., Aph. 3. III Ubi somnus dclirium sedat, bonum. Secç. 2. Aph. 2. IV Duobus doloribus simul obortis, non in eodem loco, vehementior obscura t ai ter um. Secç. 2., Aph. 46. Frigida, velut nix, glacies, pectori inimica, tusses movent, sanguinis eruptiones ac catarrhos inducunt. Secç. 5., Aph. 24. VI Ad extremos morbos extrema remedia exquisite optima. Secç. 1., Aph. 8. i !4 V\ /5 ?/ sg- s ;V-^"^ , 10 , -m / .;