&t ISSERIICI SOBRE A FORMAÇÃO E PROPAGAÇÃO DOS SONS DA M HDHMA. SOBRE O PROGRESSO DO DESENVOLVIMENTO ORGÂNICO. AS IDADES PODEM SERVIR Á DETERMINAÇÃO DA VASGULOSIDADE DO CORPO HUMANO E ESPÉCIE DELLA? ALGUMAS PROPOSIÇÕES SOBRE-QÜAES OS TRABALÜOS DA ANTIGA SOCIEDADE, E IMPERIAL ACADEMIA DE MEDICINA QIE MAIS TEM CONTRIBUÍDO PARA 0 PROGRESSO DA MEDICINA OPERATORIA ? APRESENTADA Á FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO, E SUSTENTADA EM 19 DE DEZEMBRO DE 1850 POR JOSÉ FRANCISCO NETTO FILHO LEGITIMO DE FRANCISCO JOSÉ WETIO E ^yfé alta tY/a S&áied Membro efleclivo da Sociedade Auxiliadora da Industria Nacional, e do Gymnasio Brasileiro NATURAL DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAES DOUTOR EM MEDICINA PELA MESMA FACULDADE. Edidi quod potui, non ut volui; sed ut me temporis angustia coegerunt. RIO DE JANEIRO TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO DE PAULA BRITO Praça da Constituição n. 64 1850. FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO. DIRECTOR O Snr. Dr. José' Martins da Cruz Jobh LENTES PROPRIETÁRIOS. Os Srs. Drs. I —ANNO. Francisco de Paula Cândido, Examinuãor.......... Physica Mediria. „ „ . ... S Botânica Medica, e princípios elementares de Zoo- tTancisco Freire Allemao......................•• < , ■ C logia, II —ANNO. . „. , ,,, „ $ Chimica Medica, e princípios elementares de Mine- Joaquim Vicente Torres Homem................. < ralo Seccâ ao cirúrgica. SECRETARIO O Snr. Dr. Luiz Carlos da Fouceca. A Faculdade uHo apprcva nem desapprova as o;>iniõe? cmittidas nas Theses, que lhe são apresentai!;; A PROVÍNCIA DE MINAS GERAES, ONDE NASCI. i niii iiTMieiâ ffi&s Sincero amor e verdadeira gratidão levam-me a offerecer este meu trabalho á vós que sois a melhor das Mães. A MEU CARINHOSO PAE Os sacrifícios que haveis feito por mim jamais serão esquecidos. AOS MEUS IRMÃOS OS SNRS. PADRE ANTÔNIO JOSÉ NETTO SILVERIO JOSÉ NETTO JOÃO JOSÉ DA CRUZ NETTO FRANCISCO JOSÉ NETTO Pequeno signal do muito que vos amo. A MEU COMPADRE, PRIMO E AMIGO, O SNR. FRANCISCO GOMES DE CARVALHO, Á MINHA COMADRE SUA SENHORA, E A MINHA AFILHADA Amizade sincera. A MEUS TIOS, OS 1LLMS. SNRS. CORONEL JOÃO JOSÉ ALVES TENENTE FRANCISCO FERREIRA ALVES, E A SUA FAMÍLIA FRANCISCO LEITE, E A SUA FAMÍLIA Muita simpalhia e respeito. A MEUS PRIMOS, OS ILLMS. SNRS. FORTUNATO ANTÔNIO DE CARVALHO CAPITÃO MANOEL JOSÉ BAIÃO JOSÉ DA COSTA CARVALHO CAPITÃO ANTÔNIO DA CUNHA CAPITÃO ANTÔNIO DA COSTA CARVALHO C1PRIANO DA COSTA CARVALHO, E ÃS SUAS FAMÍLIAS Affecto e simpathia. AOS MEUS COLLEGAS E MUITO CONSTANTES AMIGOS Os Snrs. DR. GERVAZIO PINTO CÂNDIDO GÓES E LARA FRANCISCO GRAM-MOGOL VIEIRA DE AZEREDO COUTINHO Recebei este tributo de uma amizade que vos consagro a muitos annos. AOS MEUS COLLEGAS E AMIGOS, OS SNRS. DR. ANTÔNIO OLINTO PINTO COELHO DA CUNHA DR. DOMICIANO MATHEUS MONTEIRO DE CASTRO DR. DOMINGOS DE CARVALHO TEIXEIRA PENNA DR. JOSÉ MARIA CHAVES DR. MANOEL ESTEVES OTTONI DR. ROMUALDO CEZAR MONTEIRO DE MIRANDA RIREIRO DR. FRANCISCO DE PAULA TRAVASSOS Sempre me lembrarei com saudade da vossa companhia. Á MEMÓRIA DO MEU COLLEGA E AMIGO, O SNR. ANTÔNIO FELICIANO PINTO COELHO DA CUNHA. AOS MEUS AMIGOS E AFFEIÇOADOS OS S.MIS. PEDRO MARIA DA FONSECA FERREIRA DOMINGOS MARTINS GUERRA CASSIANO AUGUSTO DE OLIVEIRA LIMA MANOEL FAUST1NO CORRÊA RRANDÃO DR. JOAQUIM ANTÔNIO DE ARAÚJO SILVA ERNESTO FERREIRA FRANÇA FILHO JOÃO RIREIRO DE ALMEIDA JOAQUIM CLÁUDIO DE SALLES JOSÉ CONSTANCIO DE OLIVEIRA E SILVA JOÃO NOGUEIRA PENIDO. JOÃO VIEIRA DO NASCIMENTO SILVERIO JOSÉ LESSA PROPICIO PEDROSO BARRETO DE ALBUQUERQUE Mesquinha prova de amizade e simpathia. Á ILLMA. SNR A. D. ROSA MARIA DO SACRAMENTO E SILVA, E A SUA RESPEITÁVEL FAMÍLIA Signal de gratidão e estima, AO 1LLM. SNR. SEBASTIÃO VIEIRA DO NASCIMENTO, E A SUA FAMÍLIA Respeito e gratidão. Á ILLMA. SNR A. D. LU1ZA FELICIANA DE AMORIM Prova de reconhecimento. AO ILLM. SNR. CAPITÃO JOSÉ JOAQUIM FERREIRA, E A SUA FAMILIA Simpathia. AO ILLM. SNR. CÂNDIDO FRANCISCO FREIRE DE AGUIAR Verdadeira amizade. AOS MEUS MESTRES OS REVERENDOS PADRES PROFESSORES NO SEMINÁRIO DE CONGONHAS DO CAMPO Uma lembrança. k FACULDADE DE IfEDICIM DO RIO DE JiflEIM EM PARTICULAR AOS ILLMS. SNRS. DR. JOAQUIM JOSÉ DA SILVA DR. JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA DR. LUIZ DA CUNHA FEIJO1 DR. FRANCISCO FREIRE ALLEMÃO Veneração á probidade, talento e saber. Ao Illm. Snr. Aceitae, Senhor, este meu oferecimento como prova do meu respeito á eloqüência, talento, e saber; assim como da minha gratidão pela benevolência com que vos dignastes presidir a esta these. Á MEMÓRIA SAUDOSA DR. FRANCISCO JÚLIO XAVIER. AO MEU AFFEIÇOADO AMIGO O Illm. Snr. DR. FRANCISCO BONIFÁCIO DE ABREU Consideração ao talento. AOS ILLMS. SNRS. FRANCISCO XAVIER DIAS DA FONSECA JERONIMO PEREIRA PINTO Pequena demonstração do meu agradecimento. & S^ee/of. FORMAÇÃO E PROPAGAÇÃO 9 —**m99i§§§§0994 Sempre simples se ostenta a natureza em todos os seus actos. ENDO a sabia natureza deixado aos cuidados dos animaes de certas classes a procura, e apprehensão das substancias necessárias á conser- vação do indivíduo; tendo separado os órgãos sexuaes ern seres diffe- rentes; era indispensável que uma sensibilidade os advertisse da occasião opportuna para tomar alimentos, c procurar o seu par, e que uma locomotilidade lhes facultasse os meios para isso. São com eíTeito estas duas grandes e importantes funcções que em geral distinguem os animaes dos vegctaes, alem de outras qualidades peculiares aos dous reinos. Como porém para unir-se o macho á fêmea é preciso que saiba um o que quer o outro; como o tenro filho ainda fraco depende da coragem, e forças de seus pais para sua sustentação; como uns inoffensivos estão sugcitosá perseguição de outros, que na qualidade de carnívoros fazem-lhes guerra de morte; é evidente que estes entes devem communicar-se seus desejos, sensações, e soffrimentos, jâ para satisfazerem a alta missão da repro- ducção, já para protegerem-se reciprocamente. Na verdade quasi todos os ani- maes transmittem suas impressões por meios expressivos, que vão-se aperfei- çoando na razão das necessidades e do poder que tem aquelles no universo. E assim que o homem que em conseqüência de sua infância muito prolongada está dependente por muito tempo das caricias e desvellos dos pais; o homem que fraco __ 2 __ de forças, hoje assaltado por famintos e ferozes animaes, amanhã terá de os atdm- metler, c lutar com clles; o homem que capaz de sentimentos de gratidão, utili- zado e philantropia, ou de sórdida avareza o infame ambição dá um leal apoio ""ao seu semelhante, ou è d'elle o mais detestável inimigo; o homem, que pela sua intel- ligcncia eleva-se a idéas abstraclas, é lambem o animal, cujos meios de cOmmuni'- cação são mais numerosos, e aperfeiçoados: assim não só a altitude o os gestos modi- ficam-se segundo as diversas aflecções; mus ainda o olhar 6 terno, gracioso o franco, ou malicioso, mofador e furioso; o sorriso é sinceroe meigo, ou sardonico; a pelle se cora, ou empallidece; a respiração é moderada, ou anhelosa conforme ta*I indi- víduo experimenta bem-estar, contentamento, sinceridade, e amor, 'ou desprezo* raiva e desespero.. Não são porém esses os únicos signaes das sensações dos homens: alento da pintura,, dança e musica elles tem a voz que lhes sendo commum com os outros mammiferos, com as aves e reptis é n'el!es muito mais aperfeiçoada. E1 deste importante dom que vamos tratar. Adclon, Pouillet, Riot, Pelleían, o Muller definem—voz—o som produzido no larynge no momento em que o ar expirado atravessa este orgao. Não podemos duvidar de que a voz seja formada no larynge, porque, dando-se uma abertura accidenlal na trachea-arleria, cessa a voz para reapparecer logo que se tape a abertura, ao contrario, se uma solução de continuidade for feita nas vias aéreas acima do larynge, a voz não dcsapparecerá: alem d'isso fazendo nós passai o ar com alguma força pelo interior do larynge de um cadáver, embora fique da Irachea um pedaço muito pequeno, obteremos som, com tanto que estejam um pouco tensos os ligamonlos inferiores da glole. Sabe-se igualmente que a secção dos nervos laryngeos dos dous lados produz a mudez completa. E1 portanto o larynge a parte das vias aéreas onde forma-se a voz; mas será só durante a expiração? alguns physiologistas não o crem; e, levados por alguns factos de indivíduos que fallavam durante a inspiração, definem—voz—o sotrr ocea- sionado no larynge pela passagem do ar, não attendendo ao tempo da respiração. Entretanto acreditamos que esses factos não deixam de ser anomalias; visto que o relaxamento dos ligamentos da glote no decurso da inspiração, 6 estado incontesta- velmente contrario ao que lt m lugar quando se falia. Estudemos agora o apparelho da voz. Altrachea, o larynge, a bocea, fossas nasaes, os músculos respiratórios e os pul- mões constituem o instrumento vocal. — 3 — A trachea, tubo que se continua em cima com o larynge, e inferiormente divi- de-se em dous ramos, chamados bronchios, que vão igualmente distribuir-se nos pulmões 6 formada de anneis cartilaginosos incompletos, representando três quartos do circulo, collocados horisontalmente uns acima dos outros, intermediando-lhes pequenos espaços cheios por uma membrana íibrosa. Fibras musculares dispostas tira-ns versai mente fecham o quarto posterior dos anneis; e uma membrana mucosa reveste o interior da trachea. O larynge, tubo oblongo, quadrilátero abrindo-sc em cima na bocca posterior, embaixo continuando com a trachea, compõe-se de cartilagens, uma fibro-cartila- gem, ligamentos, uma membrana mucosa, e músculos: as cartilagens, em numero de seis são a cricoido immediatamente unida á trachea,» thyroide e as duas arytenoides, todas articuladas com a cricoide : aquella anterior c lateralmente, estas posterior- mente. No ápice de cada arytenoide está uma cartiíagem de Santorini. A fibro-car- tilagem, ou epiglotte é uma lamina pouco mais ou menos romboidal, livre por sua extremidade mais larga e fixa no angulo superior da thyroide pela sua extremidade mais estreita. Todas as cartilagens articulam-se entre si por meio dos ligamentos crico-thyroidianos e arytenoidianos, pelas cápsulas que unem as cartilagens de Santorini ás arytenoides, emíirn pelos ligamentos thyro-arytenoidianos que di- videm-se em superiores, que vão da face anterior da arytenoide ao angulo da thyroide, e inferiores que partindo da extremidade inferior da face anterior da arytenoide dirigem-se para a parte inferior da face posterior da thyroide; estes úl- timos tem lambem o nome de cordas vocaes inferiores. Além destes ha ligamentos que unem a epiglotte ás arytenoides e á thyroide, e outros entre esta ultima e o hyoide. Todos os ligamentos são formados em parte por um tessido elástico amarello, idêntico ao que se encontra no ligamento ccrvical dos mammiferos. Os músculos in- trínsecos do larynge são os crico-thyroidianos, crico-arytenoidianos posteriores e lateraes, thyro-arytenoidianos, e arytenoidiano. Estes músculos são animados pelos nervos laryngeos superiores, e inferiores ou recurrentes, ramificações do oitavo par, e servem para mover as cartilagens umas sobro as outras, dilatar ou apertar a glote. Os músculos extrinsecos ou slyio-mylo genio-hyoidianos, stylo-palato-pharingiano, hyo-thyroidiano, e o constrictor inferior do pharinge (elevadores do larynge) e os scapulo-hyoidianos, e sterno-thyroidianos, (abaixadores) servem para elevar e abaixar o larynge em totalidade. O interior deste órgão è tapizado por uma membrana mucosa, continuando de um lado com a da bocca, c de outro com a da trachea, e contendo muitos cryptos mucosos. Agora se examinarmos o interior do larynge, encontraremos de cima para baixo a epiglotte, uma fenda triangular com a base para diante, circunscripta ahi pela cartiíagem thyroide, atraz pelas arytenoides e lateralmente pelas cordas vocaes supe- riores; algumas linhas abaixo vê-se a glote, fenda oblonga, limitada adiante pela cartiíagem thyroide, atraz pelo músculo arytenoidiano, lateralmente pelos ligamen- — h — tos thyro-arytenoidianos inferiores, e músculos do mesmo nome que todos juníos constituem as cordas vocaes inferiores propriamente ditas. Entre essas duas fendas estão os ventriculos de Morgangne. Teríamos de descrever os músculos respiradores, os pulmões, a bocca e as fossas nasaes que concorrem os primeiros para a formação da voz pela sua acção na intro- ducção e expulsão do ar, os segundos para certas modificações da mesma voz; mas isto nos levaria muito longe, e far-nos-hia exceder os limites de uma these. Demais o estudo anatômico desses órgãos é de importância muito secundaria para quem de- seja analysar o mecanismo da funcção que nos occupa. Portanto passemos a exa- minar como o órgão vocal se porta na producção dos sons. Muitas e diversas lheorias tem-se apresentado para explicar a formação da voz, comparando o seu apparelho com instrumentos de musica. Galeno e os antigos diziam que o larynge ó um instrumento de vento semelhante a flauta, cujo tubo sonoro é a trachea, e a embocadura a glote. Esta explicação caduca completamente á simples observação de que praticando-se uma abertura na trachea logo a baixo da glote, a voz desapparece; o que não aconteceria, se por ventura o ar contido naquelle tubo fosse o corpo sonoro. Se isto porém não basta, lembremo-nos da maneira porque os pais d'essa theoria ex- plicavam as diversidades de tons ; diziam elles : « nos instrumentos de vento a agu- deza dos sons está na razão directa do encurtamenlo dos tubos e do estreitamento da embocadura; o contrario tem lugar para a gravidade. Ora, estas modificações se operam no órgão vocal pelo abaixamento e elevação do larynge, pelo estreitamento e maior largura da glote; assim nos sons agudos a glote se estreita, e a trachea encurta-se pelo abaixamento do larynge, nos sons graves se alarga, e a trachea alonga-se pela elevação do larynge ». Não podemos negar de uma maneira absoluta o facto em relação á glote ; porém quanto á trachea, quem não sabe que o que avançaram esses autores éopposto inteiramente á observação quotidiana de que o la- rynge eleva-se nos sons agudos, e abaixa-se nos sons graves? Á vista disto regei- tamos esta theoria. Fabrice d'Aquapendente e Casserius seu discípulo comparando ainda o instru- mento vocal com uma flauta separavam-se de Galeno quanto a parte que corres- ponde ao tubo. Acreditavam estes physiologistas que a trachea fosse o porta- vento, a glote a embocadura, e o tubo todas as partes comprehendidas entre a glote e a bocca. E como este tubo encurta-se ou alonga-se com a elevação ou abaixamento do larynge, a agudeza e a gravidade dos sons ficavam explicadas. Mas por ventura este abaixamento e elevação do larynge darão ao tubo vocal com- primentos correspondentes á todos os gráos de elevação e abaixamento dos sons, e capazes de por si sós produzir todas essas modificações ? Em frente dos factos acha- ~ 5 — mo-nos aulorisados a responder, que não : sabe-se com efleito que o som occa- sionado por um tubo é tanto mais grave, quanto mais longo fôr este ; será a oita- va a baixo ou a cima se o comprimento desse tubo for duplo ou metade menor que o primeiro ; os comprimentos intermediários darão os sons comprehendidos entre uma e outra oitava. Assim se quizessemos formar uma escala musical não precisa- riamos mais, do que tornar oito tubos da mesma matéria e largura na relação de 1: 8/9: 4/5: 2/3: 3/5: 8/15: 1/2. Ora, a voz do homem chega qu.isi até três oitavas, e a da mulher pode ir até 3 1/2; emquanto que a maior elevação do larynge é de uma pollegada, e o maior encurtamento do tubo vocal é de 1/5; o que deveria dar somente a terça maior do tom primeiro, e nunca uma, duas c três oitavas. Lem- bramo-nos entretanto de uma objecção que talvez se possa offerecer ao argumento ultimamente exposto. Na verdade se os sons produzidos por um tubo são mais agu- dos quando se sopra com mais força, parece que uma expiração mais ou menos forte, que expellisse uma maior ou menor quantidade de ar, deveria determinar todas as variedades de tons da voz ; mas quando attender-se a que os sons nessas circumstan- cias elevam-se na razão dos números impares 1, 3, 5, 7, etc, nos tubos fechados, e que correspondem á simples serie dos números naturaes 1, 2, 3, 4, 5, etc, nos tubos abertos; convencer-se-ha de que a força do sopro jamais por si só será sufíi- ciente para causar essas innumeras e admiráveis modificações da voz humana. Por- lanto a theoria de Fabrice d'Aquapendente deve sugeitar-se á sorte da primeira. Vem depois Dodart, cujas memórias sobre a voz, publicadas em 1700, 1703, e 1707 foram recebidas, como diz Haller, magno cum plausu. Comparando o la- rynge com uma trombeta, Dodart opinava que os diversos gráos de agudeza dos sons eram devidos á variabilidade da largura da glote; condição esla, que era de- terminada pelas vibrações das cordas vocaes e sua maior ou menor tensão, assim como pela elevação e abaixamento do larynge ; de sorte que o alongamento ou en- curtamento da trachea artéria, e do tubo boccal a nenhuma utilidade se prestavam. Nós ainda regeitamos esta hypothese que é absolutamente inexacta ; porquanto uma mudança muito notável na amplitude da glote não faz alterar-se o som, logo que seja mesma a tensão dos lábios daquella fenda. Alguns annos depois Ferrein emittiu a idéa de que o larynge é um instrumento semelhante ao violão; os ligamentos da glote são as cordas, cuja maior ou menor tensão, maior ou menor comprimento são a causa de todos os tons. Com estas vistas Ferrein fez muitas experiências sobre larynges de cadáveres, e seus resultados foram um tanto satisfactorios. Com elíeito, este sábio observou : 1.°, que soprando-se pela trachea ar- téria unida á um larynge, obtem-se sons semelhantes aos da voz ; 2.°, as cordas vo- caes vibram ; 3.°, os sons são tanto mais agudos quanto mais curtas são essas cor- das e maior sua tensão ; fazendo-se vibrar somente metade, esta dá a oitava acima do som primeiro ; ao contrario os sons são tanto mais graves quanto maior é o relaxa- mento daquellas. São estas sem duvida as leis das vibrações das cordas ordinárias. — 6 — Portanto até aqui é exacfa a theoria de Ferrein. Mas debaixo de outro ponto de vista não admittimos analogia entre as cordas ordinárias o as vocaes ; porque nas pri- meiras o som torna-se mais grave com uma percursão mais forte, emquanlo que nas segundas elle eleva-se com a força do sopro, como adiante mostraremos. Cuvier aperfeiçoando a theoria de Fabrice d'Aquapendente considerou o órgão vocal como um instrumento de sopro semelhante a uma flauta ; sendo os pulmões o reservatório do ar, a trachea artéria o porta-vento, o larynge a embocadura, a bocca o tubo sonoro, emíim as aberturas das fossas nasaes os buracos lateraes que variam a estensão do tubo. Assim a variedade dos tons dependia do encurtamento e alon- gamento do tubo vocal pela elevação e abaixamento do larynge, como queria Fa- brice d'Aquapendente, mas também do gráo de abertura da glote e dos lábios da mesma maneira porque em um tubo ordinário formam-se diversos tons variando a grandeza da embocadura e o orificio, por onde sabem os sons. Segundo Cuvier é bastante que haja um pequeno numero de sons fundamentaes, para conseguir-se innumeros harmônicos. Esta theoria por muito seduetora que seja, não podemos aceital-a por causa das fortes objecções que lhe oppoz Dulrochet. Diz este physiologisla «se o compri- mento do instrumento musical é que dá os sons fundamentaes, e a abertura da em- bocadura os seus harmônicos, é evidente que o larynge deveria á maneira da cometa dar todos os harmônicos de um som sem mudar de posição ; o que não acontece. Demais se os movimentos dos lábios influíssem sobre o tom, o canto articulado seria diflicil; emlim fechando-se a bocca ou a abertura das fossas nasaes, o som dever-se- hia tornar mais grave». Por estas objecções que são irrespondíveis Dulrochet aba- lando nas suas principaes bases a idéa de Cuvier, substituio-a por outra, que é a re- vivificação da de Ferrein ; com a differença de que naquella é o músculo thyro-ary- tenoidiano o corpo vibrante, e nesta são os ligamentos da glote. Quanto á theoria de Liscovius, ella não è outra cousa mais do que a de Dodart, que não aceitamos. Emlim muitos Physicos e Physiologistas admitlem hoje, que o órgão vocal é um instrumento de palhelas membranosas, com porta-vento, e um tubo de sahida para o ar, queé o agente das vibrações das palhelas que são as cordas vocaes inferiores. Para demonstrarmos quanto fundo de verdade tem esta theoria, procuraremos apresentar aqui os resultados das experiências do physiologisla Muller, cujos traba- lhos sobre a voz são sem duvida os melhores dos que chegaram ao nosso conhe- cimento. Muller, tomando o larynge de um cadáver com parte da trachea, fixa-o sobre uma mesa por meio de laços, que prendem a cartiíagem cricoide, e uma agulha passada previamente através da parte inferior das arytenoides. A agulha é dirigida obliquamenle, e de maneira que as cordas vocaes não soffram uma distensão desi- gual quando obrar-se sobre a cartiíagem thyroide cuja articulação media com a cri- coide ó destruída á fim de evitar-se a resistência que o ligamento dessa articulação possa oppôr aos movimentos necessários á experiência. São igualmente cortados os ligamentos superiores da glote, a epiglotte e as cartilagens de Santorini, assim como a parte superior da cartiíagem thyroide até a inserção das cordas vocaes inferiores. Disposto assim o larynge, póde-se estender n" vontade as cordas vocaes mais ou me- nos por meio de uma linha que fixa no angulo superior da cartiíagem thyroide, faça esta mover-se para adiante, quando se puxar por ella. Agora soprando por um tubo de páu introduzido na trachea, Muller obtém os seguintes resultados. Estando a glote estreita produz-se sons cheios e puros muito semelhantes aos da voz. Os sons sabem com mais facilidade quando a parte posterior da glote está fechada; mas n'um e n'outro caso elles não mudam de elevação, com tanto que conserve-se a mesma tensão das cordas. A tensão igual das cordas vocaes o maior ou menor estreitamento da glote não exer- ce influencia notável sobre a elevação dos sons; mas estes são formados com mais difíi- culdade quando a glote está muito larga. Sendo a mesma a tensão das cordas ouve-se algumas vezes um som muito mais elevado que o fundamental; sobretudo quando cilas roçam com parte de sua esten- são uma na outra ou em qualquer corpo estranho. Póde-se dar oceasião á sons embora estejam as cordas muito relaxadas com tanto que a glote esteja bastante curla. Quer a glote esteja muito curta, quer esteja longa consegue-se sons tanto graves como agudos, logo que para os primeiros estejam nimiamente relaxadas as cordas vocaes na glole curta, e para os segundos sejam estas fortemente estendidas na glote longa. A força do sopro, coeteris paribus, eleva o som até uma quinta e mais. Quando se toca a parte exterior das cordas os sons ficam mais agudos. Á vista destes resultados das experiências de Muller qualquer convencer-se-ha, que o ar não pôde ser o corpo sonoro no apparelho vocal; porque se assim fosse, no momento em que a glote estivesse mais larga os sons seriam mais graves e vicis- sim ; o que evidentemente não aconteco, como nos mostram a segunda, terceira e sexta conseqüências acima apresentadas. Demais comotodo osomèdevido a vibrações do uma matéria ponderável; e no larynge tomado por Muller para suas observações alem do ar não soflVem manifestamente movimento vibratil senão as cordas vocaes inferiores; óevidente que são estas o corpo sonoro por eicellencia no órgão da voz, e que conseguinlemente os ligamentos superiores da glote, e os ventriculos de Morga- gne não são pelo menos indispensáveis á producção dos sons da voz humana, \er-se- ha também que as cordas vocaes não se portam da mesma maneira que as cordas or- dinárias, como queria Ferrein, porque naquollas o som eleva-se com a força do - 8 — sopro, emquanto que nas ultimas elle torna-se mais grave com a percussão mais forte. Restando-nos agora o estabelecer o parallelo entre as cordas vocaes e as palhelas membranosas continuaremos a pedir emprestadas as admiráveis observações do phy- siologisla Allemão sobre esta espécie de palhelas. Se, diz este sábio, estendida uma lamina estreita de gomma-elastica sobre um quadro de oilo linhas á uma pollegada de diâmetro, soprar-se por meio de um tubo fino sobre um dos seus bordos perpendicularmente a sua superfície, ou directa e obliquamente sobre a mesma superfície, obter-se-ha sons fortes e puros princi- palmente no segundo caso; fazendo-se vibrar somente a metade da fita, inu- tilisando a outra de qualquer maneira, o som eleva-se a uma oitava; a maior força do sopro elevará também de um semi-tom e mais o som fundamental; se a lamina em suas excursões oscilatorias roçar sobre alguma desigualdade das paredes que a cercam formar-se-ha abi um nó vibratório, e o som percebido será muito mais ele- vado que o primeiro ; a largura da ferida entre a fita e as paredes do quadro não exerce influencia sobre a elevação dos sons ; mas estes sahem com mais diííiculdade quando a fenda está muito larga. Esta é a forma mais simples das palhelas membranosas. Ha ainda mais duas espé- cies das quaes só tocaremos na ultima que offerece mais interesse : queremos fallar de duas lâminas estendidas sobre a extremidade de um tubo, de sorte que deixem entre si uma fenda. Este instrumento segue as mesmas leis que as palhetas mais simples precedentemente descriptas; além disso raras vezes ouve-se isolados os sons das duas lâminas quando se sopra sobre ellas desigualmente estendidas. Se nos lembrarmos das leis que regem as vibrações das cordas vocaes, encontra- remos toda analogia entre ellas e as palhetas membranosas. Na verdade notamos que as differenças de largura da glote em nada influem sobre a elevação dos sons; as cordas vocaes roçando uma sobre outra durante suas vibrações, produz-se sons muito mais elevados do que o fundamental; a maior força do sopro augmenta a agudeza dos sons; emlim quando as cordas vocaes estão desigualmente tensas não determinam em geral senão um som. Ora tudo isto acontece exactamente com as palhetas mombranosas. Portanto, para nós o órgão vocal é um instrumento de pa- lhetas membranosas com porta-vento e tubo. Os differentes tons dependem da maior ou menor tensão das cordas vocaes, assim como (mas secundariamente) do maior ou menor encurtamento do porta-vento e tubo. Em ultima analyse acredita- mos com Malgaigne, Reli, Muller, e outros que os ventriculos de Morgagni não ser- vem senão para tornar livres para dentro as cordas vocaes. Entretanto esta theoria não foi geralmente abraçada : Savart e Fechner objectam que se os lábios do glote obrassem como palhetas os sons dependeriam das alternati- — 9 — vas de abertura e occlusão da glote, condição indispensável para as interrupções pe- riódicas da corrente de ar, interrupções estas que são a verdadeira causa dos sons nesta espécie de instrumentos; ora sabe-se que o larynge produz sons sem essa al- ternativa de abertura e occlusão da glote; logo não são palhetas as cordas vocaes. E Savart, indo mais adiante, pensa que o corpo sonoro no órgão vocal é o ar dos ventriculos, e que os sons formam-se pelo mesmo mecanismo que em um pequeno instrumento chamado reclamo ; isto é, o ar expellido dos pulmões sahindo pelo la- rynge com mais ou menos velocidade arrasta comsigo parte do ar dos ventriculos, então tornando-se ahi muito fraca a pressão, o ar exterior precipita-se para essas fossas; è de novo arrastado por outra corrente do mesmo gaz, e assim repetindo-se as mesmas scenas formam-se sons ma is ou menos agudos. Breve analysaremos esta hypothese; entretanto, vamos responder a objecção pro- posta por Fechner e Savart á theoria que defendemos. Não é pelas interrupções do vento que formam sons os instrumentos de palhetas; porque, para obter-se sons é bastante fazer-se vibrar por uma corrente de ar uma palheta que não esteja collocada em goteira alguma que podesse ser fechada pe- riodicamente em conseqüência das vibrações d'aquella. Emfim, nos larynges artifi- ciaes de lâminas de gomma elástica é muitas vezes possível o som, ainda que os lábios da glote deixem entre si uma fenda muito considerável. Por estas razões somos levados a crer que os sons das palhetas devem ser attribuidos ás próprias vi- brações destas, e que conseguintetnente não ha que sorprender na producção da voz com a glote aberta. Quanto a hypothese de Savart, depois do que temos dito das experiências de Mul- ler, vê-se que não podemos aceital-a: porquanto, ella suppõe a existência dos liga- mentos superiores da glote indispensável para a formação dos sons, emquanto que provámos, que se consegue sons perfeitamente distinetos e puros em larynges em que se amputou todas as partesjsuperieres á glote. Depois de termos vencido a diííicil tarefa de acompanhar a historia da voz, e de- monstrado em definitiva como se ella fôrma, procuraremos explicar o mecanismo de sua propagação, para depois tocarmos de leve em algumas modificações que apre- senta essa interessante faculdade do homem. A propagação da voz, assim como de todos os sons, suppõe a existência de um vehiculo que não pôde deixar de ser matéria ponderável: a prova disto é a conse- qüência do facto de uma campa tocando dentro do recepiente da machina pneu- matica: emquanto existe ar no interior daquelle, ouve-se o som, que se enfraquece com a diminuição do gaz, para desapparecer completamente com a extracção to- tal deste. Sendo o ar o conduetor mais geral dos sons, não é comtudo o único. Todos os mais fluidos elásticos são também capazes de receber, e transmittir as vibrações de um corpo — 10 — sonoro; porque, se na experiência precedente substituímos o ar por meio de um vapor do ether ou álcool, &c., o som que deixara de ser ouvido torna-se sensivel, e tanto mais quanto maior a quantidade do fluido introduzido no recipiente da machi- na, até que por fim fica perfeitamente distincto. Os líquidos não são estranhos à trans- missão dos sons. Com effeito, os peixes fogem ao ruido causado ás margens do lago que lhes serve de habitação ; nós percebemos o choque de uma pedra contra outra dentro d'agua ; os mergulhadores sentem o murmúrio de uma conversação ás bordas do rio quando mergulhados. 03 corpos sólidos também transmittem os sons ; por- que, se por meio de um fio metallico estabelecermos continuidade entre o nosso ouvido, e um piano no qual se execute uma bella ária, apreciaremos esta em dis- tancia tal que deixaríamos de n ouvir com auxilio somente do ar; o pequeno roça- mento que, praticado sobre a extremidade de longo madeiro se perderia no ar, é percebido pelo observador que tem o seu ouvido applicado sobre a outra extremidade desse tronco. Notaremos ainda que a velocidade da propagação dos sons depende da elasticidade e densidade dos corpos; è de 332,049 metros no arseccoa zero; o calor augmen- la-a; nos valles o som é também mais forte que no cimo das altas montanhas. A ve- locidade da propagação dos sons é n'agua quatro vezes maior do que no ar, e ainda maior nos corpos sólidos. Temos, portanto, que a voz pôde ser transmittida pelo ar atmospherico, pelos ou- tros fluidos elásticos, líquidos e pelos sólidos; como porém o ar rodeia-nos por toda parte, é elle não só mnis próprio como também o mais commum propagador da voz. Qual o mecanismo dessa transmissão ? sem entrarmos em muitos detalhes sobre esta questão que nos levariam muilo longe, diremos somente que as cordas vocaes vibrando determinam oscilações no ar expirado ; este a seu turno põe em oscila- ção a primeira camada do ar exterior, que também por sua vez causa os mesmos mo- vimentos nas camadas visinhas; e assim por diante, até maior ou menor extensão, conforme a força do som. Se estas ondulações encontrarem a certa distancia uma su- perfície de natureza differente, serão reflectidas a maneira dos raios luminosos, dando assim oceasião ao phenomeno conhecido pelo nome de echo. Concebe-se, portanto, que haverão echos múltiplos quando o som fôr segunda vez reflectido. Resta-nos presentemente tocarem algumas modificações da voz. Nesta ordem de phenomenos comprehendemos os differentes timbres, o grito, o riso, o soluço, o canto e a palavra. Nos diversos indivíduos os timbres da voz são muito distinetos; o da voz da mulher. - 11 - doce e mavioso, se discrimina muito do grosso e áspero timbre do homem; a voz ele- vada e fina na infância passa à rouca e desigual na puberdade para ganhar mais gravidade na idade adulta do homem, emquanto que na mulher e no castrado con- serva o mesmo gráo de elevação que no menino. Observaremos todavia que no cas- trado o timbre da voz modifica-se alguma cousa com o crescimento. As difíerenças entre a voz dos dous sexos emquanto a elevação dependem do comprimento diverso das cordas vocaes do homem e da mulher, comprimento que está na relação de 3:2. Quanto ao timbre, esta inherente a fôrma e disposição das paredes resonantes que são muito maiores no homem em que a cartiíagem thyroide faz um angulo muito pronunciado para adiante. Estas condições das paredes resonantes explicam as mu- danças da voz humana em todas as épocas da vida, soffrendo o larynge modificações em sua extensão o flexibilidade em todas as idades. É ainda possível que os sopranos e altos, assim como os tenores e os baixos devam suas qualidades de voz a essas mes- mas circumstancias. O grito ou voz nativa é uma linguagem não convencional. Percebido por todos os povos, em todas as épocas o grito de dôr, de alegria, e de sorpresa, tem a mesma significação para todos e em toda a parte. Independente de aprendizagem elle ma- nifesta-se no recém-nascido, no idiota e surdo-mudo, tão bem como no adulto e no homem intelligente. Considerado no mecanismo de sua producção ê um som vocal forte de um timbre particular e formado por expiração enérgica, acompanhada de contracção convulsiva dos músculos do larynge. O riso é um meio expressivo que consiste em um som particular determinado por contracções convulsivas do diaphragma e dos músculos da glote, e coexistente com expressão mais ou menos alegre da face. Signal quasi sempre do sentimento de ale- gria, ou e mais ordinariamente do ridiculo, causado algumas vezes pelacossega, o riso pode ser symptoma de lesões do diaphragma. O soluço, cujo mecanismo é muito semelhante ao do riso, com a differença de que as contracções do diaphragma são mais estensas e menos repetidas, quasi sem- pre consagrado ás affecçoes tristes, pôde entretanto ser occasionado por outras circumstancias. O canto, esse dom divino, não é senão a voz modulada. Natural ao homem como são a dansa e a voz, elle é tosco no selvagem, emquanto que nas sociedades cíyíH- sadas serve de interprete de uma arte mais ou menos aperfeiçoada, e que aspira a — 12 — pintar objectos determinados. O seu mecanismo nos é conhecido desde o momento que havemos estudado a voz. Portanto, abstemo-nos de nelle tocar. A palavra, emfim, faculdade sublime, é um som, mas som articulado e constituído signal de idéa por uma intellcctualidade superior. E' esta a modificação a mais in- teressante da voz, e que suppõe um mecanismo o mais complicado: todo o appa- relho vocal concorre para a sua producção. Abstrahindo-nos de dar explicação da pronunciação, accrescentaremos somente que a palavra é natural e exclusiva do ho- mem, embora alguns outros animaes articulem sons automaticamente, como os pa- pagaios, por exemplo. O engastrimismo ou ventriloquia, terminarão este nosso primeiro trabalho. Esta rara habilidade de illudir ao ouvinte a respeito da pessoa e do lugar d'onde parle a voz, foi, segundo Adelon, considerada como cousa sobre-natural em tempos em que as sciencias estavam muito atrazadas, para conhecer-se que é uma arte como as outras, que se aprende com tempo e applicação. Nós ideámos a admiração que inspirariam ao povo ignorante os ambiciosos ventrilocos, mormente os oráculos, que abusando da sua arte, pretendessem firmar suas influencias por meio da revelação (1) 1 Quanto ao seu mecanismo, parece consistir na producção dos sons por meio de curtas expi- rações depois de uma forte e larga inspiração. E' o que nos diz o Physiologista Muller, que por esta maneira tem conseguido imitar os ventrilocos. Eis o nosso primeiro ponto escripto : se bem ou mal não sabemos, o leitor ajuizará. (1) E muito sorprende-nos, que certa classe de charlatães ainda não tenha recorrido a este meio (ao menos pelas roças, onde o povo conserva a simplicidade, não direi do selvagem, mas do rústico camponez, que sendo bella e interessante, não deixa de ser muitas vezes perigosa); não tenha recorrido, dizemos, á ventriloquia, para propagarem com o auxilio da voz divina apura medicina, a única e verdadeira sáencia de curar! Certa- mente que o charlatão que disto se lembrasse, tiraria mais vantagem em um só dia do queaquelle que depois de muitos annos de lucubrações, põem-se a vender iníinitesiraaes glóbulos, apezardo cuidado de mandar di- zer missas por tenção de alguns que tem sido curados com as suas milagrosas dinamisacões.... PROBRESSO DO D2SE1I70L7IKE11TC CRSA1TICO. AS IDADES PODEM SERVIR Á DETERMINAÇÃO DA VASCULOS1DADE DO CORPO HUMANO E DO GÊNERO DELLA? Merveilleux tableaus que Ia vue decouvre ú Ia pensée. (Chafi. Nodieii). O que ha de mais bello e magestoso na natureza se traduz pela organisação. ÃO é por certo pequeno o interesse que nos offerece o estudo de todas as cousas do Universo, nem poucas são as bellezas que abi se encon- tram : admira-se a regularidade na successão dos dias e das estações, o aspecto respeitável do tosco e soberbo granito, assim como as pedrinhas que em myriadas brilham nos valles ás bordas dos límpidos rios; arrebata-se na ob- servação do simples complicado da organisação, do florescer e fructificar das plantas, do providente instincto dos animaes, e da intelligencia, que mais aperfeiçoada na mais nobre dascreaturas —o homem—, leva-o a affrontar impávido a fúria das on- das, voar aos ares, e descobrir innumcros mundos na immensidade do espaço. Mas em nada inferior o estudo do desenvolvimento orgânico, nelle o philosopho se em- bala em real sentimento de doce voluptuosidade. Com effeilo, nascendo toda a or- ganisação de uma cellula, muito poucas metamorphoses se operam nos indivíduos da mais infima classe, emquanto que vão se tornando (regra geral) de mais a mais nu- merosas á proporção que se sobe, té que chega-se ao homem, onde se vê a formação da machina a mais perfeita e harmoniosa. E' no desenvolvimento orgânico que se reconhece a Potência Creadora em toda a sua grandeza ; ó ahi emíim que o homem pôde encontrar estudos verdadeiramente embriagadores, embora difficeis. Pois bem, a sorte sempre cega em suas escolhas nos deparou com esta importantíssima matéria. Não tendo a presumpçüo de tratal-a como devia-o ser, nós esperamos benevolência e — 14 - desculpa da parte dos censores justiceiros a quem afiançamos não nos ter faltado von- tade e esforços. I.— VEGETAES. As plantas inembryonadas abrem o caminho do reino vegetal. Nestes indivíduos, cuja organisação olTerece o mais alto gráo de simplicidade, a faculdade creadora re- side igualmente em todas as partes, ou concentra-se de mais a mais sobro certos pon- tos. No primeiro caso uma simples cellula separada do todo multiplica-se e produz a plantula da mesma espécie (protoecocus e grande parte das confervas); no segundo apparecem utriculos cheios de matéria amorpha, separados sobre o corpo, ou reuni- dos em receptaculos de fôrmas variadas. Destes utriculos chamados sporulos, ou gon- gylos, alguns ha que movem-se com caracteres de espontaneidade, conservam esta qualidade por algum tempo, c depois param como pelo receio de renegar sua origem; e então desenvolvendo-se por multiplicação de cellulas assim como os outros, trans- formam-se em seres completamente semelhantes á mãi. Até aqui o germen fica ca- paz de por si só e independentemente de fecundação manifestar a intensidade de sua vitalidade; porque não havia senão o sexo feminino. Porem não se tarda a vfir on- theroides: correspondendo aos estamesdas phanerogamicas são estes órgãos compos- tos de ulriculos reunidos em massas, e contendo cada um no seu interior um corpo fi- liforme que executa movimentos perfeitamente idênticos aos dos espermatozoides. Dondo se vô que mesmo nas plantas inembryonadas, se não ha órgãos sexuacs, ha pelo menos os seus análogos. Mas subamos c detenhamo-nos um pouco nas embryonadas ou phanerogamicas: gozando já de uma organisação mais complicada, as embryonadas podem estender sua espécie por meio de bolões, bulbos, bulbilhos e turiões. Os bolões, pequenos rebentos formados de escamas intimamente imbricadas, e contendo ein si os rudimentos de todas as partes do indivíduo, apresentam-se na axilla das folhas, nas suas dentadu- ras [bryo.philum calicynum), nas extremidades dos ramos e do caule debaixo da fôr- ma de mamillos constituídos por tecido utricular; pouco a pouco sua superfície mos- tra pequenas elevações; estas produzem as escamas e as folhas rudimentaes, o mais tarde emíim apparecem os vasos. O bulbo, bulbilho e turião, variedades dos bolões, em nada differindo dolles quanto oo desenvolvimento, são outros tantos apparelhos do proercação que se não pôde recusarmos seres que nos occupam. Mas não são estes os meios de que eommummcnle se serve a natureza para multiplicar esta importantissi- ma classe: dotados os seus membros de órgãos sexuacs bom distinetos, a idéa da repe- tição do todo se concentra sobro o óvulo, que incitado pelo pollcn cresce, aperfei- çoa-se, c toma a fôrma de um grão, que a seu turno irá pelo correr do tempo consti- tuir o.vegetal. Como se operam estas metamorphoses? Eis o que sabemos presentemente: um - 15 - tuberculo celluloso, liso, e sem distincçãode partes representa o óvulo na sua menor idade. Pouco a pouco ahi se desenvolvem duas membranas (primiiut e secundina ie Mirbel) traspassadas em seu vértice por uma abertura e envolvendo um corpo utri- cular, o nuceolo; este algum tempo depois transforma-se em uma vesicula {tereina de Mirbel), no interior da qual apparece o sacco embryonario {quintina de Mirbel ou sacco amnioticode Malpighi). Entretanto a anthera abre-se, o pollen cabe sobre o stigma; consumma-se o grande mysterio da fecundação, e a vesicula embryonaria se apresenta dentro da quintina. Das cellulas desenvolvidas na nova vesicula, uma mais volumosa, occupando a sua parte inferior, organisa-se em um tecido utricular; este se alonga, toma a fôrma de um eixo, e as partes que devem compor o embryão se pronunciam de mais a mais. Mas á proporção que o óvulo absorve tanta vida, a corolla,os eslames, o stigma, e ostillo já desnecessários perdem o seu viço, murcham, s(eccam e cabem; emquanto que o ova.rio persiste, cresce, e fôrma o frueto (1). Este amadurece, abre-se, deixa sahir o grão, que posto em terra não tarda a germinar : toda a sua massa se embebe de humidade, e amollece; o episperma rompe-se irregularmente ; a radicula alonga-se, penetra pela terra, e dá ramifica- ções bastante delicadas ; pouco depois a gemula, que estava occulta entre as coty- ledones, endireita-se, e apparece no exterior; o cauliculo cresce, elova as cotylcdones até a athmosphera, estas se apartam; a gemula fica livre, seus foUiculos estendem-se, e tomam a côr verde. Eis terminada a germinação do grão dycotyledoneo. Nos mo- nocotyledoneos ó ainda a extremidade radicular a primeira a desenvolver-se : alon- garse, rompe o seu coleorryso e entra pela terra ; das partes lateraes e inferiores do cauliculo nascem muitas radiculas igualmente coleorrysadas; estas adquirem maior crescimento; a raiz principal desapparece; ao mesmo tempo a cotyledone augmenta de volume, a gemula a atravessa, e mostra-se fora algumas vezes cercada de um coleoptilo. D'ora á vante começa uma nova época da vida tfo vegetal: apropriando-se da athmosphera, do solo, ou das oguas os princípios alimentares, elle passa da infância á idade adulta da mesma maneira que os animaes pelo crescimento de seus diffe- rentes órgãos. Como não nos pertence tratar deste crescimento, iremos estudar a evo- lução dos animaes. 1I.-ZOOPHITOS OU RADIADOS. Este vastíssimo ramo comprehendendo animaes da maior simplicidade de organi- (1) Nós nos referimos aqui á grande maioria dos casos deixando de tocar nas excepções para não inter- rompermos 0 fio do nosso discurso. - 16 - sação offerece também quasi todas as diversas espécies de geração que acabamos de notar nos vegetaes. Quanto mais homogêneas são as parles de um todo, tanto mais independentes c próprias a satisfazer a reproducção. Assim, encontramos bolões, divisão espontânea e ovos nos In fuso rios; emquanto que nos Polypos apparecem mais os bulbilhos (2), e a divisão forçada; ao contrario nos Entozoarios a procreaçâo è confiada á ovos, sporulos e botões, e á ovos somente nos Acalephos (3). Analyse- mos agora o desenvolvimento destes animaes. Deveríamos começar pelos Infusorios, porém infelizmente não tendo podido obter noções algumas a respeito de sua evolução, contentar-nos-emos com esperar que os Physiologistas venham lançar luzes sobre este objecto tão difíicil. Entretanto prose- guirernos no nosso estudo. Pequenos tuberculos formados pela extensão dos pelles externa e interna, desen- volvidos ordinariamente na base do pé, algumas vezes sobre as outras partes do corpo, excepto braços, constituem os botões das Hydras. Estes alongam-se por multiplica- ção de cellulas, o tomam a fôrma de outras tantas Hydras, cuja cavidade interna communica-se com a materna; mas uma constricção se manifesta no ponto de in- sersão, augmenta-se pouco a pouco, e separa os^noYOS seres que vão viver uma vida independente. E este pouco que sabemos do desenvolvimento das Hydras, quando produzidas por bolões. Vejamos o que se passa na divisão artificial. Tomemos um destes animaes, dividamo-1'o em milhares de partos, de maneira que cada uma seja composta das duas pelles interna e externa: immedialamente as extre- midades de cada pedaço arredondam-se, a ferida cicatriza-se, e em uma dessas extre- midades a camada de glóbulos da pelle interna levanta a externa e determina botões, que para o futuro formarão braços de Hydra, emquanto que no pólo opposto apparece um tubo pela retirada dos glóbulos para o meio do corpo. O desenvolvimento pro- gride, e se apresenta um todo perfeitamente semelhante ao primitivo. Se porém o pedaço do Polypo é lão pequeno que seus bordos unindo-se não podem dar lugar á cavidades, tem lugar outros phenomenos não menos admiráveis: a membrana interna adquire a fôrma de um núcleo espherico, e a externa estende-so sobre toda a peripheria deste núcleo e o envolve por uma pellicula delgada o trans- parente. Nesta oceasião o microscópio nos mostra o corpo central da esphera com- posto de glóbulos cercados por um tecido glutinoso; este executa movimentos de (2) Em uma nota á Physiologia de Muller, 2.o vol., p. 582, diz Jourdan, que Quatrefages examinou um animal marinho visinho das Hydras (Synhydra parasita), composto de muitos indivíduos reunidos, e em que a reproducção se faz por ovos, botões e bulbilhos; estes últimos órgãos semelliam-se no principio aos verdadeiros botões, porém em vez de se desenvolverem sobre o mesmo ponto em que nasceram, destacam-se e vão soffrer em outro lugar as modilicações necessárias á formação do novo Polypo. É também este o único facto que nos consta de procreaçâo por bubilhos no reino animal. (3) Carus anatomie comparèe, p. 415. - 17 - expansão e contracçao ; aquelles furam-se, e o estômago se fôrma. Depois disto os braços começam logo a se mostrar e o indivíduo se completa (4). Quanto á evolução do ovo dos Polypos nós nada sabemos; portanto, saltemos nos Entozoarios. Entozoarios sem sexos.—Noções muito vagas são as nossas a respeito do desenvol- vimento dos Coenuri cerebrales. Ê entretanto certo que estes animaes multiplicam-se por meio de botões nascidos sobre a vesicula em que estão as suas cabeças. Pouco mais adiantados estamos no que toca os Echinococos: segundo observações de Bourdach sobre o Echinococus hominis e o Echinococus veterinorum, eis como se passam as cousas: na face interna da vesicula materna apparecem pequenos tuberculos continuando-se com as suas paredes por meio de um pediculo es- treito; elles tornam-se ováes, depois alongam-se mais, e tomam a fôrma de vesi- culas, no interior das quaes se manifestam os animaes reunidos uns aos outros; estes ficam pendentes por algum tempo á face interna da vesicula materna, rompem de- pois o seu envoltório, c separam-se uns dos outros. Phenomenos ainda bem extraordinários são os da multiplicação e crescimento dos Ccrcarios: na cavidade de sporocystos, que são certos corpos desenvolvidos no paren- chima dos órgãos dosMolluscos, dotados algumas vezes de movimentos espontâneos e mesmo de um tubo intestinal, produzem-se sporulos. Estes, de redondos que são, passam a ováes, engrossam-se pela formação do granulações no seu interior, alon- gam-se de mais a mais e representam os novos animaes que começam seus movimen- tos, rompem os sporocystos, perdem as caudas, e exhalam do corpo um sueco viscoso que endurecendo-se os envolve em uma espécie de crysalida. O que depois acontece neste estado está para nós coberto com espesso véo de obscuridade. Anles de passarmos aos Entozoarios com órgão sexuaes, demos uma idéa geral da composição dos ovos ovaricos de todos os animaes. As suas partes essenciaes, são: uma gemma envolvida com a sua membrana chamada vilellina, no interior da gcmma uma pequena vesicula, descoberla por Purkinge, com o nome deste autor, ou de vesicula germinaliva contendo no seu inlerior um liquido claro, e uma pequena mancha, que é a mancha germinativa de Wagner. Nos ovos dos Vertebrados ovi- parosha o disco proligero, ou germinativo sobre a \esicula de Purkinge. Todas as mais partes que se encontram nos ovos são adquiridas no o\iducto. Entozoarios com órgãos sexuaes.—Emquanto alguns ovos dos Cestoides como progresso do desenvolvimento conservam simples o seu envoltório {Tonia crassicollis, (i) Lauront, nota de Jourdan áPhvsiologia de Muller, 2.°vol,, p. 570. 5 - 18 - scolecina, $c), outros adquirem mais um {Botkriocephalus infundibuliformis, Tcenia cyathiformis, àc.), ou dous {Tcenia angulata, lanceolata, &c.) e mesmo três {Tcenia slylosa); e então mui diversas são as fôrmas que tomam; ao mesmo tempo a massa vitcllina perde o aspecto granuloso, retira-se da membrana interna, c o embryão ap- parece : seis ganchos {Crochets) se produzem sobre o terço superior do corpo; a postura do ovo tem lugar ; cabem os ganchos daquelle que tiver de ser inerme, for- mam-se a cabeça, os anneis, se o verme é articulado, e finalmente os órgãos sexuaes; rompe-se o ovo, e sabe o novo indivíduo. Finalmente, osNcmatoides, primeira ordem dos Entozoarios, já mostram algumas analogias entre o seu desenvolvimento e o do certos animaes vertebrados. Com ef- feito, seus ovos logo que chegam ao utero soffrem mudanças notáveis: depois de desapparecer a vesicula de Purkinge um rego transversal divide a gemma em dous hemispherios, tendo cada um uma área clara e arredondada; outros rêgos se succe- dem, multiplicam-se, e a tal ponto, que momento ha em que a massa vitellina do aspecto de amora passa a ficar lisa completamente. Antes porém de acabar a segmen- tação, uma chanfradura de mais a mais profunda penetra pela massa externa, e repre- senta o embryão dobrado sobre si mesmo : formam-se o esophago, as extremidades cephalica e caudal, e o animal rompe o ovo. lU.-MOLLUSCOS (5). Estes animaes já de uma organisação mais elevada reproduzem-se por ovos e botões. Acephalos.— Segundo observações de Meyen, muito singular é o desenvolvimento dosRiphoros: em um dos lados do ovo apresenta-se urn cuTto pediculo (placenta), que o fixa no corpo materno ; do lado opposto nasce uma verruga ; esta, estrangu- la-se em sua base, e formam-se vasos sangüíneos no pediculo. Entretanto, a parte média do ovo torna-se corpo do embryão; a massa vitellina diminúe, some-se, rom- pe-se a connexão do fructo com a mãe, e o animal apparece no mundo exterior (6J. (5) Nós aqui seguimos a ordem dos ramos animaes adoptada por Miln Eduard, Carus, e Bourdach. (6) Bourdach não acredita que a evolução dos Biphoros se faça como descreveu Meyen; elle pensa que estes animaes se reproduzem antes por sporulos formados interiormente, do que por ovos. Nós, sem termos dados para abraçarmos exclusivamente a opinião deste ultimo Physiologisla, acreditamos, entretanto, que a descri- pção de Meyen é muito contraria ás analogias; porque em todos os animaes em que ha formação de placenta, esta apparece sempre depois do embryão. - 19 - Muita analogia existe entre a evolução dos Rotryllos e dos Cercarios; porque os novos animaes daquella família são igualmente encerrados em corpos gelatinosos postos pelos adultos, e que gozam de caracteres de animalidade, e representam con- seguintemente espécies de sporocystos. Nos Anodontos e Mulettos são os ovos compostos de uma chorion transparente, e grande quantidade de albumina além das suas partes essenciaes. Uma ligeira impres- são apparece na gemma; esta achata-se de dous lados, toma a fôrma de triângulo, e executa movimentos de rotação, que duram alguns dias. A base do triângulo con- verte-se em dorso do Mollusco, eahi constitue-se a junetura da concha: o coração, os músculos da concha se manifestam, e o embryão rompe o ovo. Gasteropodos.— Alguns dias depois da postura dos ovos do Limnoeus stagnalis, for- ma-se na superfície da gemma uma pequena mancha ligeiramente saliente; aquella offerece movimentos de rotação que vão-se tornando mais fracos gradativamente até desapparccerem no fim de certo tempo; entretanto a mancha que se transformou em pé, alonga-se em torno deste e produz a membrana proligera. Despontam os dous tentáculos na extremidade cephalica ; apparecem os bordos do manto; a substancia vitellina retira-so para traz, toma um caracter mais vesiculoso, e determina ahi uma intumescencia da parede dorsal; vem depois os olhos e o coração; a intumescencia pronuncia-se mais, volta á direita, para diante, e para a esquerda, e vai assim deter- minando verdadeiras espiraes; a concha nasce do muco deMalpighi, forma-se o fí- gado, c o embryão rasga a chorion. O Helix pomatia muito se approxima das Aves e Ophidios quanto ás partes dos seus ovos: estes com effeito, além de uma chorion composta de duas camadas, uma externa calcaria, outra interna muito mais delgada e membranosa, contém a gemma envolvida pela sua membrana bem distineta e unida á chorion por delgado eordão que atravessa uma clara. No fim de trinta a trinta e dous dias o embryão deixa os seus envoltórios. Cephalopodos.— Quanto ao desenvolvimento destes Molluscos, muito poucas ob- servações tem sido feitas: o estudo sobre os Seichos, e Calmars (7) nos indica que os seus ovos são constituídos por uma chorion de dous folhetos, um externo cariaceo, outro interno mais delgado, e por uma clara, além das suas partes essenciaes. Ã pro- porção que o embryão se aperfeiçoa, apparece um sacco vitellino collocado fora da cavidade do corpo, c communicando-se com o esophago por meio de um pequeno (1) Deixamos estas palavras em francez para não nos responsabilisarmos por alguma má traducção. — 20 - canal. Entretanto a gemma augmenta de volume e passa, segundo Carus e Cuvier, pelo conducto vitello-esophagiano para o esophago, e daqui para o estômago, afim de ser digerida. IV.—ARTICULADOS. Nesta estensa divisão do reino animal, um pouco mais elevada que a precedente, é ordinariamente confiada a ovos a propagação da espécie. Entretanto, ha algumas Annelides em que se encontra a reproducção por divisão forçada (8J. Insectos.— Mui poucas observações tem sido feitas sobro a evolução do embryão; entretanto, todas as apparencías levam a crer que estes animaes começam a desen- volver-se pela superfície ventral: uni pejueno ponto escuro apparece na gemma, es- tende-se, curva-se sobre si mesmo: é o embryão. Algum tempo depois rasga-se o ovo, e sabe a larva com a fôrma de um verme composto de anneis semelhantes uns aos outros, ordinariamente sem membros, e sempre sem azas. A larva parece con- centrar todos os seus esforços sobre a nutrição: com effeito, logo que rasga o ovo, come, e se acaso encontra bastante alimento, e o frio não vem obstar á satisfação de suas necessidades, ella vai comendo desmedidamente e sem interrupção (9). O cres- cimento marcha com rapidez extraordinária; a epiderme larga o corpo, e é substi- tuída por outra nova, resultado da condensação de liquido secretado. As mudas repetem-se, e o desenvolvimento progride: despontam os rudimentos das patas,' das antennas, dos órgãos de sucção, ea larva deixa de comer; procura um lugar seguro onde encontre abrigo para passar a época de uma vida puramente vegetal; a epi- derme da larva rasga-se ao longo do dorso, e o animal sabe no estado de crysalida. Então elle não tem mais relação com o mundo exterior: a sua actividade sensorial, e os movimentos voluntários se não exercem; o ânus está fechado, as patas dobrai das, e os anneis encurtados; emfim, a vitalidade apenas se patenteia no interior pro- duzindo novos órgãos e aperfeiçoando outros. Assim o tubo digestivo divide-se em partes dislinetas por linhas bem notáveis; a pelle endurece-se, separa-se de uma outra recentemente produzida e que está logo abaixo; a cabeça, o thorax e o abdô- men se caracterisam; o cordão ganglionar é mais curto, e o gânglio anterior loma um volume considerável; apparacem as azas; todos os mais órgãos desenvolvem-se ■ (8) Carus, obra já citada, p. 451. (9) A este respeito faremos lembrar o previdente instíneto que determina os insectos a ajuntar em torno de seus ovos os alimentos de que a larva precisará. - 21 - os movimentos peristalticos restabelecem-se no tubo digestivo ; a nova pelle se en- durece, e o insecto recuperando todas as suas faculdades fica disposto a ir viver nas condições que lhe marcou a natureza. Arachnides.—O primeiro rudimento da cauda se manifesta em uma membrana proligera ; esta estende-se sobre a gemma, e apresenta logo vinte e dous pontos es- pessos dispostos por pares ao lado uns dos outros, annunciando as futuras paredes ventráes; mais tarde, entre os cinco pares anteriores, vê-se um igual numero de engrossamentos que se convertem em oito patas ambulatórias, e dous maxillarescom seus palpos; o folheto mucoso toma a fôrma de um utriculo em torno da gemma, alonga-se atraz para produzir a parte posterior do intestino, e adianto para formar o esophago, emquanto que a sua porção media não tarda a dividir-se por meio de seis chanfraduras lateraes em sete pares de bolsas, dando lugar no seu centro á parte mediana do intestino; as bolsas transformam-se em corpos adiposos; ao mesmo tempo o cérebro, a medulla Yentral e o coração se apresentam. Todas as partes to- mam mais crescimento, e o animal nasce. Crustáceos.—Em toda esta classe são os ovos constituídos por uma membrana testacea e um pouco de clara, além das partes que lhe são communs com os outros. Demais, é sempre de um blastoderma que parte o desenvolvimento. Isopodos.—A membrana proligera cerca a gemma ; uma goteira profunda se mos- tra em um ponto de sua superfície : é o indicio da parede dorsal ; a membrana espessa-se em um dos lados dessa goteira e dá nascimento á parede ventral; dahi despontam as antennas, os órgãos manducadores, as patas, as branchias, e os appen- dicescaudaes; distinguem-se os anneis do corpo ; e os olhos se apresentam dentro das paredes lateraes. Ao mesmo tempo que se dão estas producções do folheto seroso da membrana proligera, o mucoso transforma-se em tubo intestinal, e adiante, perto da extremidade cephalica, determina de cada lado uma expansão (fígado) em fôrma de catcum que se enche de substancia vitellina, emquanto que um segundo appendice desta se conserva vasio ; emfim, todos os órgãos aperfeíçoam-se, e o animal sahe da cavidade encubatoria. Amphipodos. —Ligeiras differenças são as que existem entre a evolução destes animaes e a dos Isopodos: com effeito, os phenomenos que notámos nestes, aqui se repetem na mesma ordem successiva ; porém a goteira da proligera não se converte em dorso, e o fígado não tem appendice algum. Além disto, os Amphipodos sahem mais completos dos órgãos maternos. Decapodos.—O folheto seroso da proligera determina uma dobra, da qual se desen- volverão as paredes ventráes e todos os appendices, os olhos, centros nervosos, e o coração; o folheto mucoso constituindo o estômago e o intestino conserva-se em parte debaixo da fôrma de um utriculo cheio de gemma, e cuja communicação com o intestino vai-se diminuindo pouco a pouco; deste utriculo, ou sacco vitellino, parte uma expansão para cada lado, não encerrando gemma, e dando nascimento ao - 22 — fígado ; aperfeiçoam-se os outros órgãos, e o animal rasga os seus envoltórios ainda com o dorso muito abobadado, por causa da gemma encerrada na cavidade do corpo, e que não foi toda absorvida; mas pouco a pouco a convexidade dcsapparece, os órgãos genitaes se mostram e o novo indivíduo se completa. Annelidcs. — Os ovos das sanguesugas consistindo em uma chorion espessa, uma segunda membrana lisa, algum albumen, e muitas gemmas lenticulares, contém também a vesicula de Purkinge, e a membrana proligera. É a ventosa-bocal o pri- meiro órgão que apparece debaixo da fôrma de uma cavidade infundibuliforme; logo depois vem as paredes ventráes, centros nervosos, a ventosa caudal, os vasos sangüí- neos, e as vesiculas respiratórias, productos do folheto seroso, ao mesmo tempo que o mucoso se converteu em tubo digestivo. Entretanto, a clara foi consumida, e da gemma apenas resta mui pouco. Passam-se seis semanas, e o embryão larga o ovo. V.—VERTERRADOS. Peixes.—Mudanças mui consideráveis da gemma precedem á apparição do em- bryão nesta classe e em parte da seguinte. É aqui que se reproduzem esses rêgos já tão singulares no ovo dos Nematoides entre os Entozoarios, e cuja regularidade é muitíssimo admirável. Nós vamos tratar da sua suecessão, tal como Muller a des- creve: dous campos, um negro, outro claro, se notam na superfície da gemma; no meio do primeiro vê-se um vasio (ponto germinativo de Raer). Uma linha, que partindo desse ponto se dirija para o campo claro será o eixo do ovo; os rêgos meri- dianos passarão pelo eixo, o equatorial cortará este em duas partes pouco mais ou menos iguaes, emquanto que os parallelos se approximarão mais dos pólos. Pouco depois da fecundação eleva-se da superfície da gemma um engrossarnento como que produzido por uma ventosa, e cm cuja base se juntam granulações; meia hora mais tarde fórma-se ahi o primeiro rego meridional; um segundo vem logo, corta-o em angulo recto, e a massa vitellina fica dividida cm quatro lobos ; um ter- ceiro parallelo ao primeiro dá nascimento a mais dous lobos; um quarto ainda pa- rallelo determina mais dous; apparece um outro meridional, multiplicam-se outros e outros de uma maneira considerável, e a massa vitellina toma o aspecto mamillo- nado, depois o de lixa, e finalmente torna-se tão lisa como antes. Peixes cartilaginosos.—Nos Esqualos e nas Raias uma camada de albumina cobre o ovo. Depois de desapparecerem os rêgos da gemma, um pequeno disco eleva-se da sua superfície, estende-se sobre ella e transforma-se em membrana proligera; pouco depois esta cerca o vitellus á maneira de vesicula; e enlão no ponto que era oecupado pelo disco apresenta-se uma depressão, aos lados da qual desenvolvem-se duas lin- — 23 - guetas (lâminas dorsaes) (11), e no meio um filéle delgado (corda dorsal ou verte- bral); as lâminas dorsaes prolongam-se demais a mais; seus bordos livres curvam-se um para o outro, unem-se, e constituem assim um canal que é mais largo na futura porção cephalica. Enlretanto, a proligera separa-se em dous folhetos, um externo, seroso ou animal, outro interno, mucoso ou orgânico; este ultimo divide-se por meio de um estrangulamento em duas parles, uma vai formar o tubo digestivo, a outra cheia do vitellus e envolvida pelo folheto animal, que aqui toma o nome de sacco umbilical, constitue um utriculo ou sacco vitellino pendente ao lado externo da cavidade abdominal, e continuando-se com o grosso intestino pelo conducto vi- tellino bastante alongado. Apparecem os rudimentos da massa encephalica, me- dulla espinhal, olhos, órgãos auditivos, olfactivos, coração, e vasos; destes uma veia e uma artéria vão ramificar-se sobre o sacco vitellino debaixo do nome de vasos om- phalo-mesentericos; formam-se os arcos branchiaes, pouco depois o figado de uma expansão do intestino, e mais tarde o baço. O conducto vitellino offerece na cavidade ventral um appendice cheio de gemma e que toma o nome de sacco vitellino interno. Na mesma occasião apresentam-se a columna vertebral, e o craneo; despontam os natatorios; produzcm-se os órgãos genitaes; o sacco externo desapparece, e o indi- víduo rompe seus envoltórios. Nos Charcarios não existe sacco vitellino interno, e o externo offerece desigual dades em fôrma de villosidades que dão nascimento a uma placenta fcetal unida â outra materna. É este facto bastante singular; porque, comoveremos, depois dos Charcarios só existe nos Mammiferos este meio de união entre o fructo e a mãe. Pas- semos aos peixes ósseos. Peixes ósseos.—No Rlennia vivipara o embryão começa a apparecer antes de se ter fechado a membrana proligera; mas esta cerca logo o vitellus, e determina um sacco vitellino externo como nos Esqualos e nas Raias; nunca porém se encontra o interno, nem também placenta, quer foetal, quer materna. Nos Cyprinosao contrario, a pro- ligera já tem cercado perfeitamente a gemma, quando se mostra o embryão. Demais o folheto externo sendo todo empregado á producção dos órgãos animaes, e envol- vendo o sacco vitellino, fica este contido na cavidade abdominal: por outra, os Cy- prinos não tem sacco vitellino externo, e conseguintemente são também desprovidos do placenta. Quanto ao resto do desenvolvimento faz-se da mesma maneira que nos Esqualos e nas Raias; lembrando-nos entretanto de que cs Peixes que nos occupam tem um esqueleto ósseo. Reptis.— Nesla classe em que se observa tantas analogias com as Aves e Mam- miferos, já pelo sacco vitellino, já pelo apparecimento da allantoide e da amnios, en- (11) Segundo observações recentes de Reichert estas lâminas são rudimentos dos centros nervosos e não da rolumna vertebral, como queriam os predecessores deste Physiologista, e conseguintemente o nome de corda? ilorsaes não 6 muito próprio, pelo menos no sentido que lhe davam os autores. _ 24 — contra-se todavia alguns indivíduos {Reptis nws), em que a membrana proligera sen- do toda empregada á formação do novo ser, nem ao menos produz um sacco vitellino: ainda mais, vê-se a rã seguir um typo de evolução inteiramente excepcional entre os Vertebrados. Reptis nús.—■ Começaremos pela rã, e da maneira porque Reichert descreve seu desenvolvimento. Depois que desappareceram os rêgos da gemma, uma pequena sa- liência, correspondendo ao cumulus do ovo das Aves,^se eleva da sua superfície, es- tende-se, e fôrma uma membrana que envolve a gemma toda inteira. Então no ponto de que partiu a membrana produz-se uma depressão; no meio desta apresenta-se a corda dorsal, e aos lados elevam-se as lâminas impropriamente chamadas dorsaes (12). Estas augmentam de volume, approximam-se uma da outra, limitam um canal muito mais largo na futura região cephalica, e não tardam a transformar-se em rudimen- tos distinetos dos hemispherios cerebraes, tuberculos quadrigemeos, cerebello, me- dulla alongada e espinhal; os olhos e o Iabyrintho já existem também em cada me- tade do cérebro. Nesta época duas outras lâminas desenvolvidas aos lados da corda dorsal, e cobertas pelas massas nervosas, annunciam o systema vertebral; apparece também o systema cutâneo; as partes primordiaes daquelle adquirem maior volume, sahem para fora, tocam este ultimo, e crescem com elle para cima formando as lâmi- nas dorsaes, e para baixo as lâminas visceraes. Dous órgãos sugadores ou ventosas, e os arcos branchiaes se apresentam; o canal vertebral se fecha; o animal rompe o ovo e fixa-se por meio das suas ventosas na superfície da massa albuminosa de um fragmento do ovo. Então começam a apparecer o coração, os arcos aorticos, asbran- chias, os corpos de Wolf, o fígado e pancreas; o systema nervoso central perde a fôr- ma tubulosa, e o peripherico se torna visível. Nesta occasião desenvolve-se o intestino da maneira seguinte: a camada mais su- perficial do resto da gemma determina uma membrana em fôrma de tecto, cujo bordo superior insere-se na columna vertebral; as porções pendentes desta membrana unem-se embaixo envolvendo o vitellus; parto das cellulas deste produz a camada musculosa, e parte a camada glandular; o resto estende-se sobre a face interna do intestino, e constituo a membrana mucosa. Entretanto o sacco intestinal alongan- do-se retira-se da columna vertebral; os appendices que ahi se inserem unem-se entre si, e dão nascimento ao mesenterio; ao mesmo tempo uma nova camada separa-se da superfície livro do intestino e de todos os outros órgãos contidos na cavidade abdo- minal, e fôrma o peritoneo. Mostram-se os pulmões, rins, membros, e órgãos ge- nitaes; somem-se as branchias, os natatorios, e o animal se aperfeiçoa. Ora, aqui observa-se que não ha uma proligera de dous folhetos, e ainda mais que toda a substancia vitellina é empregada á formação do embryão; o que certamente (li) Já notámos que Reichert não admitte esta denominação; e se nós ainda continuamos a usar delia é para nos fazermos entendidos, e porque não. temos a pretenção de querer mudal-a. - 25 - se não dà nos outros Vertebrados. Quanto aos demais Reptis nús, tendo elles uma proligera de dous folhetos, de que o interno se converte em tubo digestivo, nunca oflerecem um sacco vitellino distincto. Finalmente o seu desenvolvimento faz-se nos pontos essenciaes da mesma maneira que nos peixes. Como os Reptis escamosos seguem o mesmo typo da evolução das Aves, nós os in- cluiremos nesta ultima classe no que toca ao desenvolvimento. Aves.— Como o mais bem estudado desenvolveremos o ovo da gallinha. É elle composto de uma membrana chalaseana, uma camada de albumina mais fluida, uma membrana testacea de dous folhetos, e finalmente da casca (camada de carbonato calcário), além das suas partes essenciaes. Durante a encubação eis as mudanças que se operam: o germen alonga-se e toma a fôrma de uma membrana [proligera), di- versas elevações [halos) circulares e concentricasse produzem na gemma; a mem- brana proligera divide-se em dous folhetos, seroso e mucoso; a sua parte media tor- na-se transparente, e toma o nome de área pellúcida, emquanto que o resto é escuro e tem o nome de área vitellina. Mas não tarda vêr-se mais um outro campo cercando immediatamente a área pellúcida, è a área vasculosa, devida a um outro folheto de nova formação, folheto vascular, ou membrana intermedia de Reichert. Entretanto a nota primitiva ou bandeleta primitiva apresenta-se no eixo da área pellúcida com a fôrma de uma estria branca annunciando o embryão; aos lados desta elevam-se as lâminas primitivas do systema nervoso {lâminas dorsaes dos predecessores de Reichert), e no fundo a corda dorsal; esta curva-se de cima para baixo na sua extremidade mais grossa ou cephalica; a proligera seguindo-a determina em torno dessa extremidade uma dobra que toma o nome de capuz cephalico; pouco depois offerece a extremi- dade caudal uma igual curvatura, e o capuz caudal se fôrma pelo mesmo mecanismo que o precedente; as partes primitivas do systema nervoso alongam-se, curvam-se uma para a outra, ao mesmo tempo que o folheto vascular dá nascimento aos systemas vertebral e cutâneo; estes acompanham em cima o systema nervoso, afim de o en- volver, embaixo prolongam-se constituindo os rudimentos das lâminas ventráes (do- bras ventráes de Pander, lâminas abdominaes de Wolf). O embryão curva-se mais; o folheto seroso separa-se do mucoso nas extremidades cephalica e caudal, dobra-se mais sobre estas, e as cerca completamente; produzem-se capuzes lateraes. A mem- brana intermedia continua a gerar: o coração mostra-se na parte posterior e inferior do capuz cephalico, e ilhas de sangue apparecem na peripheria. O cérebro distingue-se da medulla espinhal; os capuzes reunem-se e formam o sacco amniotico, ou membrana amnios; esta bem depressa se enche de liqúidos; as lâminas ventráes crescem, dão nascimento adiante aos arcos branchiaes, atraz tor- nam-se verticaes e augmentam assim o isolamento do embryão, ficando muito mais pequena a abertura de communicação entre este e a gemma. Emquanto se passam estes phenomenos, a membrana mucosa, ea porção peripherica da vascular unidas na face inferior do embryão, curvam-se para baixo e para dentro, determinando o tubo - 26 - intestinal; pouco depois um pequeno botão vesicular ou a allantoide desponta da ex- tremidade posterior daquelle; pequenos diverticulos do intestino annunciam os futu- ros pulmões e pancreas, assim como o fígado; mostram-se os corpos de Wolf, e os rudimentos dos membros; fecham-se as fendas branchiaes; apparecem os nervos ra- chidianos; a allantoide alonga-se mais, seu pediculo se estreita, e fica contido no umbigo com o canal vitellino. Emfim, apresentam-se os bulbos daspennas, os maxillares, os músculos, as palpe- bras e o peritoneo; o tubo intestinal divide-se em esophago, papo, moella, intestinos delgados e grosso ; diminuem-se os corpos de Wolf; formam-se os rins e os órgãos genitaes; a ossiíicação começa nas extremidades; a gemma entra para o intestino ; desapparece o sacco vitellino; cicatriza-se o umbigo, e o pinto rompe a casca. Mammiferos. — Emfim, o nosso maior anhello está satisfeito: chegamos aos Mam- iniferos, onde se acha o mais nobre dos animaes —o homem—. Desejávamos fazer pelo menos uma suecinta descripção das metamorphoses porque passam todos os in- dividuus desta importantíssima classe, porém o nosso trabalho já vai bem longo e não nos sobra tempo. Além disso, seguindo elles essencialmente o mesmo typo do desen- volvimento do homem, pôde este mui dignamente represental-os. Portanto, analyse- mos o como se produz uma tão complicada organisação. A mulher, que ha pouco menina confundia-se com os companheiros de seus brin- cos, já no physico, já no moral, agora manifesta phenomenos de uma grande revo- lução na sua organisação; é que a natureza prepara-a para a grande funeção da re- producção. Assim, além de um mais bello contorneamento das fôrmas, desenvolvi- mento dos seios, &c, mudanças mui notáveis se operam nos órgãos genitaes. Nós a suppomos púbera entregando-se á copula fecundante : uma vesicula de Graaf cresce, approxima-se da superfície do ovario, continua a crescer, rompe-se, e deixa sahir o o\ulo composto da membrana vitellina, vitellus, vesicula germinativa ou de Purkinge com a sua mancha germinativa de Wagner; o óvulo é apanhado pela trompa, a co- pula e a fecundação se suecedem. Então uma grande aclividade se desenvolve no ulero : o sangue para ahi aflue çom energia, os vasos se dilatam, as villosidades se alongam ; um liquido sero-albuminoso transuda dasuperficie interna, coagula-*e, e conslitue a membrana caduca, ou ankista de Velpeau, &c. (12), forrando a mesma superfície, e mandando algumas vezes prolongamentos às trompas. Entretanto o óvulo caminha por um destes órgãos; a vesicula germinativa desap- (12) Coste, Sharpey, e Weber consideram a caduca como formada pelas glândulas utriculares do utero, entre as quaes marcham numerosos vasos (Cazeaux traité d'accouchements, pag. 177); porém nós aceitando com elles o desenvolvimento maior da mucosa uterina, admillimos a exsudação scro-albumiuosa como a verda- deira! ase da caduca. — 27 — pareceu; a membrana vitellina é mais espessa e envolta por uma camada de substan- cia albuminosa; a gemma divide-se em dous, quatro, e oito lobos; divide-se mais, e a tal ponto que toma o aspecto de amora, e finalmente torna-se outra vez lisa. Mas o óvulo penetra pela cavidade utcrina, recua diante de si a membrana caduca, e dá assim occasião â caduca reílectida ; a transudação continua entre a face interna do utero o uma porção do óvulo, coagula-se e constitue a caduca secundaria ou inter- utero-planccntaria. As granulações vitellinas reunem-se ã face interna da membrana vitellina, e dão nascimento a unia nova vesicula, conhecida com o nome de membrana proligera, (blastodcrmica de Coste); esta separa-se em dous folhetos, um externo ou seroso, ou- tro interno ou mucoso; uma mancha (mancha embryonaria ou germinativa), se apresenta em um ponto desta vesicula, alonga-se, eleva-se acima da sua superfície, e mostra no centro uma linha mais escura, primeiro indicio do embryão que começa pelo eixo cerebro-spinal da mesma maneira que nas Aves. Entretanto pequenas vil- losidades se desenvolvem na face externa da membrana vitellina; as extremidades do embryão curvam-se de cima para baixo; o folheto seroso dobra-se ahi no mesmo sentido, depois volta sobre a face dorsal de cada uma das extremidades, e fôrma assim os capuzes cephalico e caudal; ao mesmo tempo o mucoso contrahe-se perto da face venlral do embryão, e estabelece uma separação incompleta entre este e o resto da gemma ; os capuzes se approximam um do outro, reunem-se, e determinam o sacco amniotico que não tarda a encher-se de um liquido límpido (água d'amnios). A com- municação entre a face ventral do embryão e a vesicula blastodcrmica estreita-se, e então esta ultima toma o nome de vesicula umbilical; a porção cephalica engrossa-se mais; eum pequeno tuberculo eleva-se da extremidade posterior da cavidade venlral annunciando a allantoide. Nessa occasião o embryão tem uma a duas linhas de com- primento ; a cabeça é apenas distineta do tronco; as paredes lateraes partem do eixo vertebral, dirigem-se para baixo, e reunem-se adiante para formar o peito eo pes- coço, onde affuctam a fôrma de três lâminas transversaes separadas umas das outras o do resto do corpo por quatro fendas (fendas branchiaes) (13) e chamadas arcos branchiaes; o coração apparece horisontalmente com a ponta para diante e consis- tindo em uma auricula e um ventrieulo donde partem as artérias aorta e pulmonar; emfim os vasos omphalo-mesentericos ramificam-se na vesicula umbilical, e se en- chem de sangue rubro. Todas estas mudanças tiveram lugar até a quarta semana. Quinta semana.—O ovo c oblongo, seu diâmetro longitudinal tem 16 linhas, pouco mais ou menos; as villosidades da chorion crescem mais, principalmente no ponto em que esta não esta coberta pela caduca reílectida ; a allantoide dcsapparece, a amnios (i3) Jacquemier diz que Serres demonstrou não existirem estas fendas na espécie humana, porém como a n,aior parte dos autores as admittem, e a analogia falia em favor destes, nós as consideraremos por emquanto como rcaes. - 28 - toma um volume maior, approxima-se da membrana externa, e as suas águas au- gmentam-se. O embryão tem 5 linhas de comprimento, a cabeça iguala o tronco em estensão; a medulla espinhal semelha-se a um canal transparente cheio por um li- quido esbranquiçado; o cérebro é representado por vesiculas fechadas; a face começa a formar-se: os olhos são annunciados por dous pequenos pontos escuros collocados lateralmente ; a cavidade bocal se mostra ainda fechada; dous pares de botões collo- cados lateralmente indicam as metades dos maxillares superior e inferior ; apparecem os corpos de Wolf com o seu conducto : no lado externo deste está o oviducto ou o canal defferente. Sexta semana.—O maior diâmetro do ovo tem quasi duas pollegadas; a bainha umbilical estreita-se, e adquire o comprimento de 6 linhas; o embryão offerece 7 li- nhas longitudinalmente; a boca se abre; e apresentam-se os orifícios dos conductos auditivos, o fígado, o diaphragma, os pulmões, o larynge, a trachea, e o cerebello, assim como o penis ou o clytoris. Sétima semana.—O ovo tem duas pollegadas de comprimento e 2 8/o de peso, o embryão 9 linhas no seu maior diâmetro; a fenda bocal estende-se, e occupa toda a largura da face; o intestino delgado descreve circunvoluções; o grosso intestino está disposto atraz deste em linha recta; o ccecum mostra-se debaixo da fôrma de um pe- queno tuberculo; o ânus abre-se; o grande epiploom se fôrma; o coração é já com- posto de dous ventriculos que entretanto ainda se communicam enlre si por uma abertura oblonga na parte superior do septo; as cápsulas super-renáes, os rins, os ovarios, os testículos, e os ureteres já existem; os olhos approximam-se da parte an- terior; a cartilaginificação se estende partindo da espinha, o os primeiros pontos ósseos se manifestam na clavicula, e depois no maxillar inferior; a extremidade coccigiana faz saliência além do tronco, e os membros despontam com a fôrma de pequenos tuberculos. Oitava semana.—Pequenas dobras cutâneas, rudimentos dos lábios limitam a abertura da cavidade bocal; esta separa-se da cavidade nasal pelas apophyses pala- tinas do maxillar superior, que se desenvolvem de fora para dentro, e de diante para traz; produz-se a bexiga; a separação dos ventriculos se completa, e no meio da au- ricula começa a elevar-se um septo; as costellasse distinguem melhor na face interna do peito; os rudimentos das palpebras cercam os olhos; o quadro do tympano affecta a fôrma cartilaginosa; os membros tem duas linhas de comprimento, pouco mais ou menos; o braço é grosso ; o anti-braço mui curto, e começa a dobrar-se sobre o peito; a mão é mais longa, e tem cinco cartilagens metacarpianas; os membros in- feriores dividem-se em coxa e pé, depois em coxa, perna, e pé : a coxa inclina-se para o ventre. Terceiro mez.—O ovo tem 13 pollegadas e meia no seu maior diâmetro; a cho- rion contrahe mais intimas adherencias com a caduca reílectida, e as suas villosi- dades desapparecem nesses pontos; a amnios une-se com ella por meio de urn tecido — 29 — albuminoso laxo (túnica media); a vesicula umbilical desapparece, ou atrophia-se consideravelmente, seu pediculo e seus vasos se obliteram; os vasos umbilicaes pene- tram a chorion na parte correspondente á superfície livre de adherencias com a ca- duca reílectida; ramificam-se nas suas villosidades e produzem a placenta fcetal; ao mesmo tempo desenvolvem-se os vasos utero-placentarios na caduca secundaria; e a placenta ulerina assim formada se une intimamente com a primeira. O foeto adquire três pollegadas de comprimento, e 1 8/0 de peso; os músculos, a membrana pupillar, as glândulas salivares, o pancreas, e o thymus apparecem; as palpebras unem-se; a boca se fecha peloapproximamento dos lábios; o pavilhão da orelha offerece alguns pontos cartilaginosos; o quadro do tympano se ossiíica; o nariz é pouco saliente, e chato; as ventas são separadas por um largo septo; a arcada zygomatica, e a apo- physe palatina tem pontos ossificados; a separação entre a cabeça e o tronco é mais sensível; as cartilagens thyroide e cricoide offerecem duas partes lateraes bem dis- tinctas; o hyoide se manifesta; os membros superiores são mais longos e grossos que os inferiores; as costellas se ossificam; o coração torna-se conico com a base um pouco para a direita, e o vértice para a esquerda; a válvula de Eustaque é muito pronun- ciada; a artéria pulmonar vai ainda abrir-se na aorta, depois de ter mandado dous pequenos ramos aos pulmões; fórma-se a bacia, e um ponto de ossificação apresen- ta-se em cada osso coxal; as nádegas começam a bombear-se; a cauda desapparece; o tibia, peroneo, radius, e cubitus, offerecem pontos de ossificação; os tegumentos ainda mui róseos, sem textura fibrosa apparente são entretanto mais consistentes; e todos os outros órgãos se aperfeiçoam mais. Quarto mez. —A placenta continua a crescer; a amnios ainda contém algumas 8/q de liquido; o fceto tem 4 pollegadas do vertex á extremidade coccigiana e o peso de 2 8/0; libras desenvolvem-se na peripheria da medulla espinhal; os hemispherios cerebraes augmentam de espessura, e já algumas anfractuosidades regam a sua superfície ; o esp°henoide tem um ponto de ossificação; os olhos são maisconvexos; as palpebras unidas pela epiderme; as azas do nariz, bem assim o angulo e condylo do maxillar inferior, e os buracos mcntonnianos apparecem; o nervo grande sympatico se faz notar pelo seu grande volume; o coração está mais oblíquo; e a abertura de commu- nicação entre as duas auriculas torna-se mais pequena; o grosso intestino começa a tomar a posição que conservará no adulto; os membros inferiores crescem com mais rapidez que os superiores, de maneira a igualal-os em comprimento; o penis curva-se para baixo, ou o clytoris adquire um prepucio, e retrahe-se para traz ; ao mesmo tempo as nymphas separam-se mais dos grandes lábios ; os músculos são mais fortes e vermelhos; e a ossificação se estende. Então os movimentos do fceto vem despertar a attenção da mulher : ella olha para o seu ventre, sente-o volumoso, lembra-se igual- mente que devera ter sido menstruada, como se lhe o dissera, e que não foi quando o esperava, e conhece que é mãi. E1 nestas condições que mudanças tão admiráveis se operamno physico, nos sentimentos, na imaginação e na intelligencia delia. — 30 — Quinto mez. - Entretanto o ovo continua a augmentar de volume, tem 0 pollega- das de longo, 5 de largo, e pesa 68/0; a placenta adquire um diâmetro de 4 polle- gadas ; o foeto tem 5 a 7 p. do vertex até o ânus, e 8 a 10 p. até os pés; o seu peso é de 5a 8 8/0 ; as palpebras são muito convexas, e não estão mais unidas pela epider- me; distingue-se vasos na membrana pupiliar; a orelha caminha para traz; o coração tem a ponta mais voltada para a esquerda ; o buraco oval é mais pequeno, e a sua válvula mais pronunciada. Sexto mez.— O peso do ovo é de 8 8/0, e o do foeto é de 12 a 16 8/q ; a cabeça está para o resto do corpo como 1:4 ; as peças do craneo acham-se em grande parte ossificadas; a pelfe se desenvolve mais e cobre-se de pellos lanuginosos por toda a parte, excepto na palma das mãos e planta dos pês; na axilla e verilhaapresentam-se folliculos sebaceos, e o verniz cazeoso : a gordura começa a formar-se debaixo da pelle; as unhas se tornam corneas, os cabellos, supercilios, e ciliosse mostram, assim como os mamillos ; o lobulo da orelha se desenvolve ; as artérias, que se ramificam nos pulmões, são mais fortes. O foeto já é viável. Sétimo mez. — O ovo pesa 12 8/q ; o foeto tem 15 p. de longo, e pesa quasi 2 lib.; a epiderme se desenvolve, sobretudo nas mãos e pés; a gordura produzida em abun- dância torna as fôrmas mais arredondadas; os testículos se approximam do annel in- guinal; a membrana pupiliar desapparece ; emfim, o progresso é geral. Os membros superiores estão dobrados sobre o peito, assim como as coxas sobre o ventre ; os joe- lhos conservam-se vollados para fora, e os pés para dentro. Oitavo mez.— O ovo opresenta 9 p. de comprimento e 1 lib. de peso ; o foeto já tem 16 a 17 p., e 3 a 4 lib. de peso; um testículo desce para o escroto, ou abre-se a vulva ; as cartillagens do larynge e da trachea são mais duras, e os pulmões mais cellulosos; emfim os pellos lanuginosos começam a cahir. Nono mez.— O foeto offerece os seus órgãos mais aperfeiçoados, tem 18 a 20 p. de comprimento e 6 a 7 lib. de peso. Já não precisa do seio materno para sua conser- vação; é emfim chegado o dia, em que estando tudo disposto tem elle de entrar em um mundo novo e immenso ! Dores fracas e separadas por longos intervallosannun- ciam á mãi a approximação do parto : é que a natureza (diz Velpeau) experimenta suas forças; as dores tornam-se mais intensase prolongadas; a mulher não pôde ca- lar mais seus soffrimentos, torna-se triste e irritavel; ao mesmo tempo as dores ine- xoráveis a atormentam com mais agudeza, ella dá gritos e desespera ; entretanto o collo uterino se dilata, o sacco das águas se rompe, e uma dôr atroz, acompanhada de um grilo penetrante, expulsa o fceto. Está terminado o parto. É aqui que o ho- mem pensador aprecia as tão sublimes scenas do amor materno, eque foram com tanta felicidade descriptas por Velpeau. Entretanto a actividade que antes se desenvolvia no utero concentra-se sobre os peitos : a secreção do leite é mais abundante, c a mãi não cuida sinão em nutrir e proteger á fraca creatura. - 31 - Ao mesmo tempo as artérias umbilicaes, o canal arterial e a veia umbilical vão di- minuindo de calibre até o oitavo dia pouco mais ou menos, em que se obliteram. Mais tarde o buraco oval fecha-se, e a circulação se estabelece como no adulto. D'ora avante o menino cresce, seus órgãos desenvolvem-se, elle passa a idade pubera, e emfim tor- na-se homem. Eis terminado o que tínhamos a dizer á respeito do desenvolvimento orgânico. Passemos, portanto, a responder á pergunta que se nos faz:—As idades podem servir a determinar a vasculosidade d]o corpo humano, e espécie desta ? Se attende-se ao que dissemos sobre as metamorphoses porque passa o organismo humano em toda a vida intra-uterina ; se se lembra dos principaes phenome- nos que se operam dias depois do nascimento, convence-se de que o systema san- güíneo não é o mesmo em todas as idades; que mudanças mui notáveis ahi se fazem, que conseguintemente póde-se por meio das idades conhecer a sua disposição. Na verdade, um simples vaso um pouco mais dilatado—o coração—, a veia cava infe- rior, a aorta e os vasos omphalo mesentericos o constituem na primeira época do seu desenvolvimento; breve o coração se divide em uma auricula e um ventriculo: deste, partem a aorta c a artéria pulmonar, a qual depois de mandar dous pequenos ra- mos aos pulmões vai abrir-se na primeira com o nome de canal arterial; as veias cavas superiores se apresentam c os vasos umbilicaes consistindo em duas artérias (ramos das hypogastricas) e uma veia que parte das villosidades da chorion, distri- buem-se nesta membrana; a veia umbilical chegando ao nivel do fígado divide-se em dous ramos, um com o nome de canal venoso, communica-se logo com a cava infe- rior; o outro volta um pouco á direita, une-se á veia porta formando com ella um tronco chamado canal de reunião, ou confluente das veias porta e umbilical; ao mes- mo tempo os vasos omphalo mesentericos se obliteram e o coração se complica: os dous ventriculos se separam de sorte que a aorta e a artéria pulmonar sabem cada uma da sua cavidade; entretanto, as auriculas se communicam por meio do buraco de Botai e a válvula de Eusthaque é muito considerável. Porém as arlerias pulmonares tomam maior calibre e o canal arterial, assim como o venoso, diminuem.O fceto larga os órgãos maternos. . . . . e o sangue não chegando mais ao canal arterial, venoso, e aos vasos umbilicaes, elles se obliteram; o buraco de Botai se fecha, e fica então o systema sangüíneo com a fôrma que conhecemos no adulto. Accrescente-se mais, que elle é muito desenvolvido no adulto e na idade viril, menos na infância, e na velhice, e teremos (acreditamos) respondido á questão que se nos fez; por outra, temos provado que pelas idades póde-se conhecer as dis- posições diversas dos vasos sangüíneos. É terminado o nosso segundo ponto. Não foi tratado como devia-o ser; porém a nossa insuflíciencia? Certo nosso leitor de que tivemos vontade, e se nada mais fize- mos, é porque não podemos, nos hade desculpar. íMãiafSÉí ÍS 01A ES OS TRABALHOS DA SOCIEDADE, E DA ACADEMIA DE MEDIC1XA DO RIO DE JAXE1RO, QUE MAIS TEM CONTRIBUÍDO PARA O PROGRESSO DA MEDICINA OPERATORIA. Necesse est. I. 0 memorável dia 28 de maio de 1829, Médicos muito dignos, ardendo em zelos pela sciencia estabeleceram a Sociedade de Medicina, vigi- lante protectora da humanidade soffredôra. II. Com pouco mais ou menos cinco annos de existência foram suas sessões sempre enriquecidas por discussões mui luminosas sobre medicina pratica; emquanto que a cirurgia parecia ser esquecida. III. Mas uma curta discussão sobre a dilatação ou não dilatação dos abscessos do fígado, e as observações de algumas operações praticadas por membros da sociedade provam que esse importante ramo das Sciencias Médicas não estava desprezado. IV. Entre as observações desse tempo as que mais interesse offerecem são as seguin- tes:—obliteração congênita da vagina, e prenhez apezar disso; prenhez extra-ute- 9 — 34 — rina com extracção dos ossos do fceto pelo recto, tomadas pelo Sr. Dr. João Alvares Carneiro—; ligadura da poplitéa em conseqüência de aneurisma; amputação scapulo- humeral, pelo Sr. Dr. Joaquim Cândido Soares de Meirelles—jtrepanação com felizes resultados pelo Sr. Dr. Antônio Freire Allemão—; emfim, muitas foram apresenta- das pelo Sr. Dr. Manoel Feliciano Pereira de Carvalho. V. Por decreto de 8 de maio de 1835 tomando a Sociedade o titulo de Academia Im- perial de Medicina, veio este acontecimento dar mais fogo aos talentos cansados, en- corajar, e enthusiasmar os moços que começavam. Então trabalhou-se com vontade, esforços, mesmo sacrifícios, e a arte de curar muito ganhou no Brasil. VI. Ê depois desse acontecimento que além de numerosas e importantíssimas observa- ções dos Srs. Drs. Pereira Carvalho, Borges Monteiro, Antônio da Costa, Feijó, &c., observou-se discussões interessantes sobre o ether, cloroformio, e finalmente sobre a ligadura e torsão. Foi então que se produziram algumas memórias que nos orgulham. VII. A memória do Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia sobre os ferimentos do estôma- go è (a não errarmos) uma excellente peça, em que transpira muito saber, e talento. VIII. Do mesmo Sr. ha outra memória sobre uma cadeira de partos, que não fica in- ferior â primeira. IX. A memória do Sr. Dr. Borges Monteiro a respeito da ligadura da aorta abdomi- nal pelo processo do Sr. Dr. Feijó, é um dos principaes monumentos de gloria para a Cirurgia Brasileira, e que muito honra ao talento d'estes dous distinctos operadores. X. Vem ainda uma memória do Sr. Dr. Borges, sobre os cálculos vesicaes, e outra do Sr. Dr. Feijó sobre a ruptura ulerina que consideramos obras primas. - 35 — XI. São essas as memórias cirúrgicas de que temos noticias. Agora encontra-se alguns relatórios, entre os quaes muito figura o do Sr. Dr. José Maurício sobre a memória do Sr. Biagini dePistoja a respeito de um novo methodo de lithotomia pubio-rectal. XII. Eis os trabalhos da Sociedade e da Academia de Medicina, que apresentamos como os melhores e que mais tem concorrido para o progresso da Medicina Ope- ratoria no Rio de Janeiro. Se nós os julgámos é porque foi necessário, indispensá- vel, não porque nos achemos com habilitações para isso. Portanto, desculpa pedimos. HIPPOCRATIS APHOR1SMI. i. In morbis acutis extreinarum partium frigus, malum. (Sect 7.a, aph. 1). II. Somnus, vigilia utraque modum excedencia, malum. (Sect. 7.% aph. 71). III. Non satietas, non fames, neque aliud quicquam bonum est, quod naturae modum exce- dat. (Sect. 2.% aph. U). IV. Spontaneae lassitudines morbos denunciant. (Sect. 2.% aph. 5). v. Mulieri menstruis defficientibus é naribus sanguinem fluere, bonum. (Sect. 5. % aph. 33). VI. Quce medicamenta non sanant, ea ferrum sanat. Quce ferrum non sanat, e- ignis sanat. Quce vero ignis non sanat, ea insanabilia existimare oportet. (Sect. 8, aph. C). TYP. DE PAULA BRITO—1850. Esta These está conforme os Estatutos. Rio de Janeiro, 12 de Dezembro de 1850. ür. Cândido Borges Monkiro.