MEMÓRIA HISTÓRICA DOS ACONTECIMENTOS MAIS NOTÁVEIS DA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA NO ANNO DE 1863 oeul)úvíe. A illustrada congregação da Faculdade de Medicina incumbio-nos, na sessão do encerramento do anno que acabou de expirar, de escrever a Memória histórica em conformidade ao disposto no art. 197 de nossos Estatutos. Sentimo-nos bastante penhorado por tão grande prova de confiança; honra que tanto mais é para agradecer, quanto, altendendo ás nossas qualidades, vemos que só por bondade poderíamos ser encarregado desta nobre, mas espinhosa tarefa. 0 mais moço dentre todos vós; ainda sem a experiencia, que só os annos podem dar, mesmo sem sciencia e conhecimentos de que tanto se precisa neste mister, não nos animariamos a aceitar o honroso encargo que nos conferistes , se prévia- mente não contássemos com vossa benevolencia, para desculpar as faltas que com- mettermos. Aceitai, pois, os sinceros agradecimentos do humilde escriptor, que vos apresenta hoje o trabalho que lhe ordenastes. A Faculdade encetou seus trabalhos no dia 3 de Fevereiro, como determina o art. 80 dos seus Estatutos; principiarão os exames preparatórios; increverão-se 211 aspi- rantes, e íizerão-se 450 exames, cujo resultado foi o seguinte: 194 plenamente, 133 simplesmente, e 123 reprovados. Antes de passarmos adiante faremos algumas reflexões, que julgamos de neces- sidade, vital ácêrca deste ramo do ensino publico. Não comprehendemos como se tem conservado até hoje o habito dc sujeitar os estudantes de humanidades a exames nas escolas superiores. E; este um defeito, que devemos sanar o mais cedo que se puder; razões de todas as ordens militào em favor de nosso modo de pensar. Em primeiro lugar o juizo emittido, a approvação, ou reprovação não indica a o facto real dos exames ; começamos por contestar a competência dos juizes, e bem vêdes que nestas condições outra não podia ser a conclusão. -1. i 2 Ha qualro armos um dos mais fecundos talentos que conhecemos, e dos mais hellos ornamentos desta Faculdade, em iguaes circumstancias ás em que ora nos achamos, assim se exprimia sobre tal assumpto: haveis de convir que não pôde ser muito consciencioso em uma matéria o voto de quem não faz delia o objecto especial de seus estudos; sendo assim, collocai-me um professor forte de clinicas ou pathologias, de hygiene ou therapeutica a julgar dos polyedros e enthymemas, e dizei-me que abalos lhe estremecem a consciência quando é hora de proferir o seu juiz o final! j Claro é que muito antes de nós já se tinha presentido esta falta, que cumpre remediar; além disto occorre o que se segue o art. 332 do Regulamento comple- mentar dos Estatutos determina que tres lentes da Faculdade fação parte da com- missão, a qual, com mais dous professores especiaes, se incumbirá de julgar os exa- minandos : por esta disposição vê-se, que, uma de duas, ou a commissão julga por si, e portanto é incompetente, como acabamos de dizer, ou louva-se nas notas dos professores especiaes, e então é excusada. Outra razão de ordem moral ainda falia contra este systema; pouca ou nenhuma é a força, que tem o examinador, quando de antemão sabem aquelles que vão passar por estas provas, que seu juiz é alheio á matéria. A’ vista pois destas considerações, e não é preciso que repilamos, pedimos reforma neste ponto do ensino. A condição do bacharelado em letras e sciencias, como titulo de admissão aos cursos superiores, é o unico meio que ha para evitar-se o perigo que acima re- ferimos. Em toda Europa civilizada se tem adoptado esta medida, reputada a melhor pela experiencia, e observação de longos séculos; entre nós bastarião os bons desejos do Governo: o Estado despenderia pouco, attendendo ás bases de que dispomos; a creação de Lycêos encarregados desta missão é daquellas cousas que facilmente se podem effectuar. E’ urgente acabar essa babel, que tem subsistido; é preciso encaminhar o ensino regularmente; é necessário tornal-o menos laborioso e ao mesmo tempo mais pro- fundo e solido. Antes porém de dizermos a ultima palavra sobre tal objecto, releva, notar a pouca severidade que caracteriza estes actos. O algarismo de 327 approvações em 450 exames é avultado, diremos até escandaloso! Será que os candidatos á matricula era nossa Faculdade se apresentem prepara- dos, de modo que se possa justificar semelhante resultado? Absolutamente, não. Desgraçadaraente, Senhores, a corrupção lavra em tamanha escala, que desde tenra idade só se procurão os meios de illiidir a lei e a consciência: quem ha por ahi que se lenha sentado na cadeira de examinador, e que não fosse presa de um sem numero de cartas de empenho? O filhotismo, o patronato, e a protecção mais decidida tem invadido em larga esphera a instrucção; cumpre portanto pormo-nos em guarda,- reagir fortemente contra a onda que ameaça inundar todo o edifício social; é mister que levantemos uma barreira insuperável aos ataques combinados dos empenhos, e da condescen- dência ; é finalmente de primeira necessidade que nossas decisões sejão a expressão da consciência. De que serviráõ estes estudos preparatórios, se não forem accurados, reflectidos e sérios? Quem não sabe que sobre elles repousão todos os estudos superiores, que por ventura se houverem de seguir? No dizer do erudito Cousin maior cuidado ainda deve haver, se é possível, nos preparatórios, do que nos cursos superiores; assim se revela o illustre philosopho nos seguintes termos; Quelle idée se fait-on des études appelés àsi juste titre nu- manités, si on suppose qu’elles se bornent d déposer dans la mémoire et à la sur- face de Ventendement quelques connaissances plus ou moins precieuses sans exercer aucune influence sur toutes les aidrôs facultes, et sur Vâme entière? Bem estais vendo, Senhores, que bastante razão nos assiste, quando clamamos tao alto contra estes abusos; importa sobretudo impedir que continuem barateadas as approvações, e que principie cedo a mocidade a contar com a tradicional beneyolencia de seus "juizes : pedimos a mais estricta justiça, ese houvermos de peccar, seja antes por severidade, do que por condescendência, que nestes casos seria criminosa. Não se persuada, no emtanto, a nossa mocidade, entre a qual nós mesmos co- nhecemos tantos jovens distinctos por seu talento e applicação, que lhe queremos 3 cerrar as porias de nosso edifício, ou que desejamos gravar em seus humbraes a horrível maldição do poeta de Florença; não. O que estimamos é que de hoje em diante o ensino seja entre nos uma verdade, um sacerdócio a que só se devera votar aquelles que se acharem com forças para bem deserapenhal-o. No dia 2 de Marco houve congregação, a fim de cumprir-se o que marca o art. 97 dos Estatutos.—Foi lido nesta sessão um Aviso de data de 21 de Dezembro em que se communica que Sua Magestade o Imperador não se dignou conceder a mercê de jubilação pedida pelo Sr. Dr. Alxandre José de Queiroz. Nesta mesma sessão foi lida uma Portaria de data de 17 de Janeiro, em que se participa que íôra nomeado continuo da Faculdade José Leandro Gomes. Foi lido um outro Aviso de 6 de Fe- vereiro, no qual se declara que o Governo Imperial resolveu que o impressão das Memórias históricas fosse feita na Corte. Finda a leitura dos Avisos, e de outras communicações, que por pouco impor- tantes deixamos de transcrever, passou a Congregação a preencher o fim principal de sua reunião. Forão nomeados por escrutínio secreto ; o Dr. Jeronymo Sodré Pereira para reger a cadeira de Physiologia, que eslava vaga por haver passado para a de Clinica medica o Sr. Dr. Antonio Januario de Faria; e o Dr. João Pedro da Cunha Valle para a de Hygiene, por se achar na Assembléa Provincial o Dr. Domingos Rodrigues Seixas. Os Lentes declararão que os programmas e compêndios de suas aulas erão os mesmos que no anno anterior; o que foi approvado pela Congregação; e bem assim o horário dos trabalhos da Academia. Acabada esta parte do expediente, passou a lêr a Memória Histórica o Sr. Dr. Antonio de Cerqueira Pinto. Não reviveremos este passado de erros em que tanto figurou o despeito e o odio; as scenas desagradaveis e pungentes que se reproduzirão desde esta primeira sessão até á de 23 de Março, que approvou a Memória do Sr. Dr. Cerqueira; felizmente não apparecêrão mais entre nós, e portanto nem mais uma palavra sobre este assumpto, que só daria em resultado o deslustre de nossa sabia e circumspecta corporação. Não havendo concorrido os alumnos aos logares de internos das clinicas, a Con- gregação sob proposta dos respectivos Lentes, approvou para a clinica cirúrgica os alumnos do 5.° anno Galdino Tobias de Lemos e Antonio Celestino Sampaio, os quaes no anno findo já tinbão desempenhado este encargo; e para a clinica medica o es- tudante do 6.° anno Alexandre Aífonso de Carvalho. Continúa, Senhores, a apalhia e indifferença para logares que em todos os paizes civilizados são reclamados avidamente pela mocidade; e tanto mais é para notar isto, quanto vê-se que, á excepção da clinica obrigatória, não ha entre nós hospitaes, em que cada um possa ser admittido e fazer estudos práticos, de que aliás somos tão carecidos. Em nosso modo de entender esta indifferença resulta da certeza, que tem os es- tudantes, de serem providos nos referidos logares sem concurso; além desta razão ha outra, que nos parece de maior peso: —Se os exames de clinicas não fossem em nossas Faculdades mera formalidade; se presidisse nelles a justiça e severidade, certamente taes empregos serião sollicitados a custa de todos os sacrifícios, A con- fissão é dolorosa: a clinica entre nós é mal aprendida, apezar dos esforços que fazem seus illustrados professores, que sem lisonja de nossa parte são de primeira nota em qualquer logar; deriva este grave defeito, principalmente, da frouxidão que acabamos de censurar. E’ com o mais profundo pezar que vamos relatar ura facto succedido pela primeira vez nos annaes do nosso professorado; lastimamos que pudesse ter sido pronun- ciado por um crime vergonhoso um de nossos collegas, o qual felizmente demons- trou sua innocencia perante os tribunaes. Desejáramos calar semelhante acontecimento; mas fora isto uma falta, de que poderíamos ser arguido. Em data de 29 de Abril foi remetlido pelo Sr. Secretario do Governo ao Director da Faculdade a cópia do despacho de pronuncia a prisão e livramento, dado pelo Dr, Juiz Municipal da 1.a vara da Capital contra o Sr. Dr. Domingos Rodrigues Seixas, pelo crime de falsidade; em virtude do que em officio do I.°“ de Maio communicou o Sr. Director ao referido Lente que pela legislação vigente não podia permittir que exercesse o magistério, emquanto não fosse despronunciado: sendo sustentada a pronuncia pelo Juizo de Direito da 2.a vara, teve o Sr. Dr. Seixas de comparecer ao 4 jury, onde foi absolvido: pelo que reassurnio as funcções de sua cadeira no dia 29 de Agosto. Somos tão rigorosos em matéria de instrucção, que para nós os seus encarregados devem ser puros e illibados: o magistério éum sacerdócio igual ao da religião e da justiça: toda a severidade nos usos, toda a rigidez de caracter é pouca: entiíim, Senhores, acabemos esta narração tão cheia de pezares para todos nós. Passemos a outro ponto. O Sr. Dr. Góes na sessão de conferencia mensal de 27 de Abril propôz que a Congregação procedo.\ á nomeação de uma commissão, para que esta de accordo com os facultativos da Santa Casa, que deveráõ ser competentemente convidados, organize um novo plano, ou reforma concernentes ás bases de estatística medica do Hospital, afim de que da execução de semelhante medida possamos obter vantagens rcaes que preenchão o duplo fim—o bem da humanidade e o progresso do ensino, Esta proposta foi adiada por se acharem ausentes os professores de clinica: duas ou ires vezes fora discutida, e sendo sempre adiada, nenhuma resolução se tomara a tal respeito. No meio do anno alguns académicos, animados pelo enthusiasmo nobre que abrazou todos os corações brasileiros, ávidos de prestar soccorros de sua profissão a nossos irmãos, que defendem no sul do Império nossa integridade e honra na- cionaes, marcharão para o theatro da guerra que sustentamos contra o selvagem e despotico governo do Paraguay. Honra a esta mocidade cheia de vida e de aspirações generosas, que foi a pri- meira a dar exemplos não vulgares de patriotismo; louvores a elles, que sem outro fim além da gloria de tão esplendida acção, caminharão intrépidos e desassombrados para os perigos de uma lucta cruenta é sanguinaria. Permitli, Senhores, que citemos seus nomes, como uma prova sincera do alto apreço em que temos tão bei lo feito. São elles os Srs. Arthur Cezar Rios, José de Teive e Argôllo e Eutichio Soledade (do 4.° anno); Ulysses da Silveira Bastos Varella, Raymundo Caetano da Cunha, Ge- raldo Francisco da Cunha, Antonio Celestino Sampaio, Jesuino Borges, Manoel de Aguiar Freire, José Theodosio de Souza Dantas, Francisco Joaquim da Silveira Santos, e Pedro Gomes de Argôllo Ferrão fdo 5.° anno); Jayme Soares Serra, Augusto Cezar Torres Barrense, Isidoro Antonio Nery, Pedro Affonso de Carvalho e Ulysses Leonesio Pontes (do 6.° anno); Pharrnaceuticos : Augusto Alves de Abreu, Ignacio Manoel de Almeida Chastinet, (do 2.° anno); Joaquim da Silva Cajueiro de Campos (do 3.° anno). Dous dos nossos collegas seguirão também para o Sul: os Drs. Luiz Alvares dos Santos e Francisco Rodrigues da Silva: foi mais uma demonstração solemne do ci- vismo que caracteriza estes tão distinctos cidadãos ; já não é a primeira vez que se apresentão diante dos perigos, quando a patria precisa de seus serviços; fazem dez annos, que em outra crise, por ventura mais assustadora durante a terrivel cholera-morbus, forão elles campeões denodados nos logares em que estiverão. A Congregação da Faculdade offereceu ao Sr. Dr. Rodrigues uma legenda de Vo- luntário da Patria, com a seguinte inscripção A Facuidade de Medicina da Bahia a seu collega o Dr. Francisco Rodrigues da Silva. Na sessào ordinaria de 26 de Outubro os Drs. Cerqueira e Sodré apresentarão esta proposta Requeremos que se nomeie uma commissão para entregar a nosso col- lega o Dr. Rodrigues a legenda de Voluntário da Patria , que lhe offerecem seus collegas lentes da Faculdade de Medicina, que sendo approvada, foi escolhida a commissão, da qual fizeráo parte os Drs. Cerqueira, Góes e Moura. A Commissão por seu relator o Dr. Góes dirigio ao Dr. Rodrigues uma carta, que foi logo respondida: abaixo publicamos ambas ellas, que são credoras de todo elogio. Não sabemos o que mais devemos admirar no Sr. Dr. Rodrigues: se sua intel- ligencia, que não conhecemos alguma mais robusta e illustrada, ou se seu amor ao bem do paiz e á causa publica. O Sr. Dr. Rodrigues é um homem de tempera antiga; não degenerou a geração, que se representa por indivíduos de seu jaez. Aceite, pois2 o nosso illustre collega os mais sinceros e cordiaes parabéns pelo seu proceder tão nobre e digno de inveja. Aqui vão as cartas; « Illm. Sr. A Congregação da Faculdade de Medicina encarregou-nos da agra- davel, e honrosa missão ae oíferecer a V. S. esta legenda com que se distinguem os Voluntários da Patria. A Congregação, apreciando em extremo a espontânea e patriótica resolução, que V. S. tomou, cíe concorrer com suas luzes e serviços em prol dos nossos" bravos, que nos campos da batalha expõem sua vida, pugnando heroicamente pela causa mais santa e justa —a honra e dignidade nacional; a Congregação, dizemos, não podia deixar de dar a V. S. uma demonstração, comquanto exigua, porém allamente sin- cera, do modo por que associa-se aos sentimentos patrióticos, que se aninhão no coração de Y. S., sentimentos que V. S. revelou da maneira a mais solemne, acu- dindo pressuroso aos justos reclamos da Patria A Congregação está convicta de queV. S., seguindo as veredas abertas e trilhadas pelos Percys, Desgeneltes, Larreys e outros eminentes vultos da cirurgia militar, mos- trará quanto a nossa profissão no theatro da guerra póde elevar-se ás maiores al- turas, e importância, quantos soffrimentos póde minorar e debellar, quantos recursos maravilhosos sabe crear e desenvolver no meio dos successos variados e pungentes que alli occorrem; só com o fim de poupar viclimas, de salvar a vida daquelles que se achão sob a influencia benefica dos seus cuidados e dedicação. Os louros iramarcessiveis, que Y. S. necessariamente ha de colher no honroso e humanitário pleito em que se vai empenhar, não só reverterão em proveito da sciencia, como viráõ ainda augmentar o credito e renome da terra que nos vio nascer, e desta Faculdade, da qual é V. S. um dos mais brilhantes ornamentos. Digne-se, pois, Y. S. de aceitar esta offrenda, a qual, se não tem outro mérito, ao menos symboliza fielmente a identificação dos sentimentos da Congregação cora os que nutre V. S, facto este assás importante, e que puramente ficará registrado nos annaes da nossa Faculdade. Deus Guarde a V. S.—lllm. Sr. Dr. Francisco Rodrigues da Silva, Dignissimo Lente Calhedratico da mesma Faculdade.— Dr. José de Góes Siqueira, Dr. Antonio de Cerqueira Pinto, Dr. José Affonso de Moura. » Resposta: —«Illm.05 Srs. A honra com que ainda uma vez distingue-me a illus- trada Faculdade de Medicina, augmenta de mais em mais a divida do meu reconhe- cimento para com ella; penhorão-me em extremo as expressões de affectuosa cor- dialidade com que vós, interpretes de seus elevados sentimentos, glorificaes a humilde resolução que era hora feliz dictou-me a consciência do dever, e o-amor da patria. Encarecendo-a por modo tão assignalado, esquece a benemerita Faculdade a ex- tensão dos sacrifícios, a abnegação sem exemplo de que dera publico testemunho, quando em dias tristes de recordar, envolta n’um manto de dores e lagrimas, de aíílicção e de angustia, de desconforto e miséria, lutava esta província com o flagello epidemico, que a esta hora longe de nós accorda no horror do humanidade, para cevar-se nos despojos das victiraas que encontra em sua fatal peregrinação! Esquece a patriótica Faculdade que do peito de alguns dos seus velhos menbros pende ainda, a recordar glorias passadas, a veneranda medalha da Independencia, que commemora prodígios de valor que nos derão Patria e Liberdade! Perpetuar por feitos illustres, dignos delia e de nós, as tradicções desse passado, é missão que nos está promettida nas esperanças do futuro, na religião de nossos brios, nos estímulos de nossa consciência. Grande e santa missão é esta, meus collegas: uma eternidade que eu vivera não bastára para vê-la realizada; mas que importa? Quando um pensamento do Céo en- carna-se na vontade do homem, e a voz de Deus desperta-lhe n’alma um sentimento generoso, desce logo do infinito dessas origens a força que aflronta os perigos, que dá vigor aos martyres para morrerem, glorificando seu Deus em palavras ungidas de amor e caridade. No apostolado da Medicina, nesse sacerdócio que approxima o homem da Divin- dade, e em que a gloria de ura dia compensa em demasia os sacrifícios de longos annos, mais de um genio predestinado, que sentia era si a vocação de seu destino, tem cahido vencido; mas a fé não tem entibiado, e á sombra da Cruz do Redemptor caminha a Medicina immorlalizada nas bênçãos da humanidade. E’ por isso, meus amigos, que eu me sinto forte de minha própria fraqueza; de um lado as esperanças do Céo, de outro a consciência do dever; aqui a enxerga de um hospital, um irmão a finar-se em transes de agonia, alli uma dor a remir, uma saudade a mitigar, uma vida prestes a extinguir-se, uma alma que voa ao Céo nas harmonias mysteriosas das orações do christão; depois as palmas da gloria, o en- grandecimento da patria, e a exaltação da Cruzl Eis aqui, meus collegas, o alvo onde ponho a mira de minhas únicas ambições: se lá chegar não esquecerei os exemplos que me propondes; se cahir em meio da estrada, não será pela honra o derradeiro de meus votos. - 1. 2 6 Dignai-vos de transmittir-lhe, meus collegas, as expressões de meu perdurável re- conhecimento, e aceitai por vossa parte os protestos de minha estima e subida con- sideração. Bahia, 3 de Novembro de '1865. —lllms. Srs. Drs. José de Góes Siqueira, Antonio de Cerqueira Pinto, José AíTonso de Moura. Vosso collega e amigo, Francisco Rodri- gues da Silva.» Em sessão de 16 de Novembro o Sr. Dr. Góes apresentou a proposta seguinte, que foi unanimemente approvada : —Proponho que a Congregação nomeie uma commis- são de pessoas residentes na Côrie afim de que comprimente S. M. o Imperador pelo Seu feliz regresso e também pelo triumpho obtido em Uruguayana. A Commíssão foi composta dos Exms. Srs. Conselheiro José Antonio Saraiva, Vis- conde de Jequitinhonha, Conselheiro Antonio Pereira Rebouças, Dr. Francisco Bonifácio de Abreu e Dr. Antonio Ferreira Franca. Senhores, cada dia que se passa, é registrado na historia de nosso paiz por um facto grandioso, praticado pelo nosso illustrado e sabio Monarcha; estudai o seu reinado, analysai os vinte seis annos de seu governo, e vereis que, dotado de todas as qualidades de um grande Príncipe, tem sabido infiltrar nos corações de todos os seus súbditos o amor e dedicação á Sua Augusta Pessoa, e á sua nobilíssima dynastia. Na paz é o Rei erudito, que na própria Europa é conhecido pelo sabio Imperador; é o Príncipe clemente e caridoso, que firma seu throno sobre a base inabalavel do respeito e alta estima de seu povo; na guerra é o primeiro dos Brasileiros que se julgão oífen- didos, é lambem dos mais apressados a-correr para o campo da luta, demonstrando, por seus actos de coragem e generosidade, que lhe circula nas veias o sangue heroico do Mestre de Aviz, e do immortal Henrique IV. Gloria portanto, Senhores, ao nosso virtuoso Imperador: em nome de todos nós e do Brasil inteiro, ainda ura voto de gratidão ao Augusto vencedor de Uruguayana ! Pela aposentadoria do Conselheiro Cabral passou para Clinica o Dr. Faria, ficando vaga a cadeira de Physiologia. Senhores, o nosso mestre Conselheiro Cabral já não existe! Uma lagrima de dor e de saudade sobre o tumulo do illustre medico ! Falleceu o decano da medicina em nossa terra victima de uma moléstia dos cen- tros nervosos, de que ha muito soffria. O que diremos de seus talentos, de sua illustração e de seu saber, tão conhecidos por todos nós e no Império inteiro? O Dr. Antonio Policarpo Cabral era um verdadeiro professor; assistimos ás clinicas medicas dos primeiros paizes da Europa, e nada vimos de superior; o seu tino e sua perspicácia diante do enfermo bem indicavão o génio da medicina; o Dr. Cabral era medico de primeira ordem em qualquer parte do mundo. Com sua morte perdemos uma de nossas glorias, e um dos mais brilhantes repre- sentantes de nossa sciencia. Seja a confissão justa, que ora fazemos de toda vontade, uma prova de muita gratidão ao nosso sabio e desvelado mestre. Yoga, como dissemos, a cadeira de Physiologia, inscreverão-se para o concurso os Drs. Antonio Alvares da‘Silva, Jeronymo Sodré Pereira, Demetrio Cyriaco Toucinho, e Luiz Alvares dos Santos. Mais uma necrologia, Senhores! O Dr. Antonio Alvares da Silva pertence já á historia ! Atacado por urna febre perniciosa succúmbio em tres dias ! Coitado ! ainda tão moço, cheio de tanta erudição e de tanta sciencia, cahio inani- mado, quando por ventura ia colher o fructo de suas vigi!ias c lucubrações ! Quem não se recordará nesta Faculdade da palavra,enlhusiasta, fecunda e animada do Dr. Alvares? Quem negará a vastidão de seus conhecimentos precoces e o vasio insupprivel que nos deixára ? Ura tributo, urna saudade na lousa de nosso joven e distincto collega, que em tão pouca idade admirava a todos por sua illustração nem só medica, como lideraria. Depois do fallecimento do Dr. Alvares, inscreveu-se mais o Sr. Dr. João Pedro da Cunha Valle. Houve lugar o concurso entre os candidatos acima nomeados: acabada a prova de theses, o Sr. Dr. Cunha Valle oíilciou á Faculdade, que, sendo salteado por uma hemo- ptyse, era-lhe impossivel continuar no certame encetado : como ordenão os Estatutos, sustou-se o concurso por oito dias, findos os quaes, e ainda achando-se no mesmo estado o Sr. Dr. Cunha Valle, continuárão as provas entre os restantes inscriptos. Termi- 7 nou-se o pleito a 2 de Junho, e o resultado foi: Dr. Demetrio em primeiro lugar; Dr. Luiz Alvares em segundo, e Dr. Sodré em terceiro. Ao Governo Imperial foi remettida a lista. Por Decreto de 6 de Setembro houve por bemS. M. o Imperador nomear o humilde autor da presente Memória para a cadeira que occupa, e da qual tomou posse por autorização do Exm. Sr. Presidente da Província em 6 de Novembro do mesmo armo. Agradecemos a nossos mestres os Srs. Conselheiro Director, Magalhães, Aranha, e Faria, seu comparecimenlo no dia de nossa posse; não fomos honrado com a presença dos outros professores, alguns por motivos alheios á sua vontade, outros porque talvez entendessem que não devião se apresentar. No dia 30 de Outubro, como manda a lei, foi encerrado o ponto nas aulas. Em 3 de Novembro houve congregação a fim de dar cumprimento ao mareado no art. 109 dos Estatutos. Forão examinadores nos differentes annos dos cursos medico e pharrnaceulico os Srs. Doutores; l.°armo, Magalhães, Cunha, e Moura; 2.°, Cerqueira, Gordilbo, e llozendo; 3.°, Pedrosa, Góes e Sodré; 4.°, Aranha, Sampaio, e Cunha Valle ; o.°, Queiroz, Freitas, e Botelho ; 6.°, Ozorio, Seixas, e Virgílio ; Clinicas, Faria, Alves, e Martins ; I.° anno pharrnaceutico, Magalhães, Cunha, e Rozendo ; 2.°, Cerqueira, llozendo, e Cunha; 3.°, Ozorio, Botelho, e Virgílio. No dia mencionado na lei tiverão começo os exames do curso medico. Antes de continuar, permitti que chame toda vossa altenção sobre este assumpto. Que bonança, que frouxidão !!! E’ digno de reparo que só uma reprovação no curso medico, e duas no pharma- ceutico figurassem no quadro dos exames! ! E entretanto sabem todos que medidas sérias devem ser tomadas ; nesta Faculdade o exame do anno é uma mera formalidade, muito mais brando do que os de preparatórios, e por isto é que nossas Academias tem perdido seu antigo brilho e esplendor! Precisamos de reforma no ensino; mas a primeira deve ser a do nosso mesmo pessoal; ou uma regeneração no modo de proceder nosso, ou remedios de outra ordem, comtanto que por cima de tudo salve-se a instrucção, a própria humanidade, e afinal nosso credito tão justamente verberado! Desconheceis acaso os perigos que ameação a sociedade, as famílias, em virtude da ignorância dos médicos ? Não é preciso que vol-o digamos. Arripiemos, Senhores, ainda em tempo : severidade catonica nos actos; de hoje por diante seja em nossa Escola a approvação o attestado-mais cabal e sincero tio saber; acabemos o escandalo que tem reinado, dominemos a situação e zelemos nossa reputação de juizes e de mestres. Perdoai, Senhores, a veliemencia das phrases; é urgente, porém, reformar seme- lhante maneira de pensar: é verdade que desde muito tempo já se dizia que era mais fácil e commodo ser hora do que justo-, a justiça requer sacrifícios, e quem não tiver forca para fazel-os deverá renunciar o honroso, mas espinhoso encargo de distribuil-ã. Duas collações de gráo houve no anno findo: a primeira a 10 de Junho, dia em que se doutorou o estudante Francisco José de Mattos, que por moléstia deixou de sustentar theses na época ordinaria; a outra teve lugar, como costuma ser, a 29 de Novembro, recebendo o gráo quinze doutorandos, dos quaes foi orador em resposta ao discurso da Direcloria o Sr. Dr. José Gomes Moncôrvo de Carvalho. Comparecerão apenas a este acto solemne os Srs. Conselheiros Director, Magalhães e Aranha, e Drs. Faria, Gordilho e Sodré. Resumido foi o numero! E já que nisto locamos, não podemos passar em olvido o indifTerentismo que alguns collegas ligarão aos exames de theses. Nem um só doutorando foi arguido por cinco lentes, como manda a lei! , E’ mister cumprir severamente nosso dever; é forçoso que o exemplo parta de nós, a fim de que se compenetre a mocidade de que nada está acima do dever, e da obrigação. Ainda perdão, Senhores, por estas palavras, que só revelão de nossa parte o amor e dedicação que votamos a esta Academia, da qual nos reconhecemos o mais humilde de seus filhos; não tivemos em mira oífender-vos no vosso pundonor, e sim despertar-vos da apathia a que vos tem arrastrado dissabores, talvez aqui mesmo originados. Na reunião de encerramento, effcctuada a 30 de Novembro, o Sr. Dr. Faria propôz que a Congregação da Faculdade nomeasse de seu seio uma commissão da qual fará parte indispensável o Dr. Inspector da saude publica, a fim de apresentar algum 8 trabalho relativo a medidas hygienicas tendentes a prevenir a invasão da eholera—■ rnorbus entre nós, ou a minorar-lhe a intensidade e a duração, se infelizmente tal (iagello fizer explosão em nossa provinda. Esta proposta foi approvada, constando a commissão dos Srs. Conselheiro Aranha, Faria e Góes. Foi lido um Aviso do Ministério do Império, em que communica-se ao Sr. Con- selheiro Director da Faculdade que por Decreto de 26 de Outubro íoi concedida ao Dr. Elias José Pedroza a gratificação annual de 400$000 a contar de 28 de Agosto, em que compleiou 25 annos de eífectivo exercido, segundo o que determina o art. 54 dos Estatutos. Â Faculdade, concluindo os seus trabalhos nomciou para escrever a Memória Histórica o Sr. Dr. Antonio José Ozorio, que, se achando doente, declarou que lhe era absolulamcnte irnpossivel aceitar o mandato: a Congregação admittindo a es- cusa, escolheu para esse fira o Dr. Jeronimo Sodré Pereira. Passemos agora a tratar dos cursos da Faculdade. PHYSICA. Não tivemos a honra de ser informado do curso desta Cadeira, apezar de nos di- rigirmos a seu distincto e digno Professor, por se achar fóra da cidade; sabemos comtudo, que se esforça para completar o curso desenvolvendo-o, e até formulando leis e theorias de nova ordem na sciencia. CHIMICA MINERAL. Nenhuma das matérias da Faculdade é melhor estudada, do que a chimica mi- neral ; o illustrado Sr. Dr. Rodrigues satisfaz sempre seu programma, e torna pra- tico o ensino, até onde lh’o perrnittem os meios de que dispõe nosso incompleto laboratorio. ANATOMIA DESC RIPTIVA. O Sr. Dr. Gordilho fizera-nos o obséquio de ministrar-nos as informações que vamos reproduzir : « Dividi o estudo da anatomia descriptiva em quatro grupos: no l.° grupo, ou de locomoção, ensinei a osteologia, arthrologia e rayologia: no 2.°, ou de nutrição, ensinei os apparelhos digestivo, urinário, respiratório e circulatório; sendo os tres primeiros apparelhos objecto da esplanchnologia, e o ultimo da angiologia: no 3.° grupo, ou de reprodução, ensinei os apparelhos genitaes, que fazem também parte constituinte da esplanchnologia: no 4.° e ultimo grupo, ou de sensação, ensinei os apparelhos dos sentidos, objecto da estheseologia; o eixo cerebro-espinbal e nervos sob a denominação de nevrologia. » « Do exposto se vê que fiz, como nos annos antecedentes, curso completo, theo- rica e praticaraente, de anatomia descriptiva, accrescendo igualmente observar que obriguei meus alumnos ás dissecções. » BOTANICA E ZOOLOGIA. O intelligente Professor desta Cadeira seguio á risca seu programma. Quando chamado pelo Exm, Sr. Presidente da Provinda para prestar serviços de outra es- pecie á causa publica, passou a regencia deste curso ao digno oppositor o Sr. Dr, Rozendo, que com as aptidões, que todos lhe reconhecem, completou-o, adoptan- do o methodo delineado pelo cathedralico. Abaixo transcrevemos o trecho da carta do Sr, Dr. Rozendo, relativo ao que ensinára: « Continuei a descripção da familia dos dicotyledoneos, e terminando dei a zoo- logia; começando esta pela circulação, acabei pela classificação, chegando até á dos insectos. » CHIMICA ORGÂNICA. O iHustrado Lenle da Cadeira, que ora nos occupa, seguio inteiraraente o plano que traçára no anuo anterior; plano que não reproduzimos por já ter sido publi- cado ná sua Memória histórica. PHYSIOLOGIA. Vaga a cadeira de Physiologia, como já ficou narrado, fomos nomeado pela Con- gregação para regê-la. Aceitámos o programma do nosso illustre antecessor. No anno que se findára, linhão-se estudado funcções da vida animal; cumpria-nos pois explicar funcções da vida vegetativa. Leccionámos até 4 de Junho, tempo em que obtivemos uma licença do Governo Provincial: haviamos dado a digestão, absor- pção e circulação ; em nosso impedimento tomou conta do curso o Sr. Dr. Luiz Al- vares, que o concluio. Quando fomos nomeiado Lente proprietário, reassumimos o exercicio, e gastámos o resto do anno em recordar os pontos mais interessantes e diíficeis das funcções nutritivas. ANATOMIA GERAL E PATHOLOGICA. Copiamos aqui a carta do nosso muito digno collega e mestre o Sr. Dr Pedroza. Por ella vê-se que o estudo da histologia e da anatomia palhologica, hoje de tanta transcendência nas sciencias medicas, já é, se não perfeito, ao menos muito bem des- empenhado. « Encetei o estudo da anatomia geral, procurando mostrar, depois de um curto esboço de sua historia, que matérias tem feito desse tempo para cá o objecto delia, cingindo-me a seu objecto principal, ou ao que diz respeito ao arranjo particular dos elementos dos tecidos, eslructura intima, anatomia de textura—histologia pro- priamente dita, e considerando os elementos anatómicos em sua primeira divisão amorphos ou não figurados, e figurados em fórma de cellula, fibra, ou tubo, expli- cadas da melhor maneira as differenças que cada um daquelles typos põde apresentar na formação dos tecidos, quer por méra união, ou simples juxtaposição, quer por entrelaçamento, trama, ou tecedura. Tudo isto conslitue a primeira divisão da histologia normal, ou physiologica dos autores, sob o titulo de geral, sendo a segunda divisão a especial, que se occupa dos systemas e apparelhos, os quaes são estudados de maneira perfunctoria com o fito somente de descer de novo aos elementos dos orgãos, que são os tecidos, e recordar desfarte os elementos anatómicos figurados, e não figurados ou amorphos acima referidos. Assim encarada a anatomia geral, torna-se mais razoavel a applicação á anatomia palhologica, que a lei colloca na segunda parte do curso de minha cadeira. Na lesão dos orgãos são os elementos cios tecidos os aggredidos em seu arranjo: é portanto neste que reside a lesão de textura, que cumpre conhecer e estudar; á vista do que fica a anatomia palhologica reduzida á mais simples expressão, a saber: a histologia mórbida, desprendida de tudo quanto complica o quadro das especies mórbidas dos autores, arranjadas em classes, sub-classes, generos, sub-generos, ordens, sub-ordens, especies, sub-especies, etc., que o anatomista descreve com o escalpéllo em punho sem assignar classe, genero, ou especie de elemento anatomico, que lhe serve de séde, e que seria essencial apontar e conhecer. Eis em resumo a ordem seguida no meu curso; que é modificado, alterado mesmo, ou invertido segundo as observações, e experiencias das differentes escolas européas allemã e franceza procurando o mais possivel pôr-me a par, ou ao menos o mais approximado aos melhoramentos, que por ventura fôr adquirindo este ramo do ensino medico. » PATHOLOGIA GERAL. O distincto lente o Sr. Dr. Góes seguio o seu programma; citaremos a resposta da carta, que tivemos a honra de dirigir-lhe: « ••• Durante o anno findo segui íielmente o programma, pormim proposto e ap- provado pela Congregação: minhas lições íbrão sempre oraes, e fiz sabbatinas, con- forme o disposto nos respectivos Estatutos, I. 3 As matérias, que constituem o objecto do curso, e que se achão incluidas no pro- grarama, esforcei-me por explanal-às, e desenvolvôl-as de um modo compatível com minhainteliigencia, procurando não apartar-me dos progressos e doutrinas, tão bri- lhantemente sustentadas pelos mestres, e legisladores da sciencia hodierna. » PATHOLOGIA EXTERNA. O Sr. Conselheiro Aranha preenche, como é notorio, sua cadeira de um modo mere- cedor de todo o elogio; não é o professor atrazado, e retrogrado, que se limita ás ligeiras noções de um compendio velho, ao contrario sempre se mostra na dianteira das doutrinas e idéas novas da sciencia; o Sr. Conselheiro Aranha é justamente considerado um de nossos melhores lentes: não lhe podem attingir a inveja e mal- querença; seus créditos estão firmes e inabalaveis. Basta olhar para a resposta, que nos fizera a honra de dar, para ver-se a verdade no que levamos dito: « Não direi extensamente as ampliações e correcções feitas na exposição das doutrinas era meu curso de pathologia externa. Antes porém de apontar as mais impor- tantes destas ampliações e correcções, cabe-me declarar que por circumstancias me não tem sido possível concluir a segunda edição do opusculo, que publiquei sõ por amor da sciencia, e quando nenhum prémio era prornettido aos que escrevessem; mas nem abandonei esse trabalho, nem césso de me esforçar por acompanhar os progressos da sciencia, a despeito das envenenadas sélas da calumnia, ora disparadas contra mim no cumprimento de meus deveres. Começando o curso por algumas generalidades da sciencia, adoptei a classificação de Mr. Estor, professor de Montpellier, dividindo as moléstias em quatro grandes classes—l .a, lesões physicas ou anatómicas—2.% lesões reactivas—3.a, alterações pri- mitivas, ou essenciaes da vida 10ca1—4.% alterações primitivas ou essenciaes da vida geral. Tratei da inílamrnação em geral, e de suas consequências nas complicações das feridas ; e procurei fazer o diagnostico differencial entre o infecção pútrida (hecticidade purulenta de Gerdy], a infecção purulenta (pyohemia) e a díathese purulenta, pro- priamente dita. No estudo das gangrenas, adoptei a divisão destas em quatro grupos, attenta a averiguação das causas efficientes: f.° gangrenas directas; 2.° gangrenas indirectas; 3.° gangrenas toxicas; 4.° gangrenas virulentas. Estudando as do 2.° grupo, insisti particularmente na gangrena por deficiência de oxigenação do sangue, na chamada espontânea (também senil), consequência do athe- roma arterial e na que resulta da embolia, thrombose secundaria de alguns : quanto ás do quarto grupo, occupei-me cuidadosamente da pustula maligna, do edema maligno, e do carbúnculo, mostrando não ser acceitavel a opinião da intransmissibilidade da pustula de homem a homem, pois irrefragavelmente está provado por factos o con- tagio desta aífecção gangrenosa. Depois das queimaduras, tratei dos eííeitos do raio, como sejão a commoção, a paralysia do movimento e do sentimento, queimaduras, feridas, e até mutilações graves, quando a mortp não se segue immediatamente ã acção violenta e instantanea deste phe- nomeno electricq, mencionando de passagem um de seus eífeitos, em verdade singular e curioso, que é por vezes a formação de imagens photographicas sobre o corpo dos fulminados. Opportunaraente fallei da deformidade das cicatrizes, muito notável após as queima- duras, do nevroma, do epithelioma e do cancro, que desenvolvem-se ás vezes nas mesmas cicatrizes. Nas feridas de armas de fogo notei as differenças provenientes da acção das balas esphericas e das cylindro-conicas sobre os tecidos, tendo por fim as novas modifi- cações dos projectís dar ao tiro mais justeza, maior alcance, augmento da quantidade de movimento e da força de penetração em igual distancia, e íinalmente communicar ao projéctil um movimento differente do da bala espherica; d’onde os caracteres especiaes dos ferimentos por balas expedidas de armas raiadas. Nos accidentes das feridas não omilti o delírio nervoso, mostrando sua distineção da meningite, do tétano e do delirium tremens. Esmerei-me, quanto pude, na explanação dos casos, mais frequentes entre nós na pratica cirúrgica, como fracturas, luxações e feridas envenenadas, especialmente empeçonhadas e virulentas. » PATHOLOGIA INTERNA. O erudito Sr. Dr. Queiroz tratou da primeira parte de seu curso, durante o anuo findo, isto é, das febres, inflarnmações, etc., seguindo o methodo de Grisolle. Não é preciso que o digamos: o Sr. Dr. Queiroz é um dos Lentes que mais honrão nossa Faculdade pelos seus talentos. PARTOS. O digno professor desta Cadeira, o Sr. Dr. Moreira Sampaio, merece os maiores louvores pelo modo por que ensina, completando sempre o seu curso. Eis o que nos respondera o Sr. Dr. Sampaio : « O compendio adoptado é o de Cazeaux, que divide sua obra em seis partes. Da primeira parte omitti a descripção anatómica dos orgãos da geração, por consi- deral-os estudados na cadeira respectiva; occupei-me, porém, da bacia em geral em relação a suas dimensões, forma, situação, etc.: tratei também demostrar as cliffe- Íenças do collo do utero nas primiparasj e multiparas, assim como a estructura uterina o estado de gestação. » Depois tratei dos ovários, das modificações que soffrera as vesiculas de Graaf, da irmaçáo dos corpos amarellos e da menstruação. A segunda parte foi toda estudada, á excepção das dimensões e peso do feto nos ifferentes periodos da vida inlra-uterina, e apenas importando-me com esse estudo no "prmo da prenhez. t A terceira, quarta e quinta parte forão completamente explicadas. A sexta foi sacrificada por pertencer exclusivamente á hygiene. Na exposição das matérias comparei as opiniões de Cazeaux com as dos outros parteiros, dando preferencia ás que me parecem mais de accordo com õs progressos actuaes da sciencias; pelo que muitas vezes tive de adoptar doutrinas não aceitas pelo compendio. O curso de moléstias dos recem-nascidos foi incompleto, nem só porque a obra de Cazeaux, longa, como é, rouba muito tempo, como por terem havido algumas interrupções no curso; assim apenas tratei de algumas moléstias mais importantes. » MATÉRIA MEDICA E THERAPEUTICA. O distincto Sr. Dr. Botelho communicára-nos que seguira o programma de sua aula approvado pela Congregação, e que não pudéra completar o curso em virtude de inter- rupções motivadas por moléstia grave, que o atacara durante o anno. OPERAÇÕES. Esta Cadeira é uma das mais bem leccionadas em nossa Academia; o Sr. Dr. Freitas não se poupa a sacriíicios para bem desempenhar seu arduo mister: estudou os me- lhores processos operatorios, analysando-os e criticando-os; praticou, quanto lhe per- mittirão os meios á sua disposição, as operações mais importantes e usuaes da cirurgia, e também fez lições anatómicas das principaes regiões da economia. PHARMACIA. O illustrado Sr. Dr. Ozorio desenvolveu seu programma da maneira mais conve- niente, servindo-se dos diversos ramos do curso medico para esclarecer o estudo desta matéria, e fazendo, sempre que era possivel, applicação a outras sciencias ligadas ao ensino, de modo que se tirasse o maior proveito, e fosse mais amenizado o curso de tão arida, quanto diííicil sciencia. MEDICINA LEGAL, 0 Lente da Cadeira participára-nos que só estivera regendo-a por alguns dias, nem só por lh’o impedirem as fracções de Deputado geral, como depois as commissões de que ídra incumbido pelo Exm. Sr. Presidente da Provinda; á vista do que nada nos poderia informar; mandámos uma carta ao Sr. Dr. Yirgilio, que o substituio, e infe- lizmente não tivemos solução delia. HYGIENE. O Sr. Dr. Seixas não nos respondera; nada sabemos de seu curso. CLINICAS. O Sr. Dr. Faria, que por muito titulos, e com toda razão, é reputado um dos mais brilhantes talentos, e ao mesmo tempo uma de nossas maiores itluslrações medicas, faz a clinica medica, seguindo, a nosso modo de vêr, o melhor methodo. Tivemos occasião de apreciar, e aquilatar suas habilitações, quando, na qualidade de chefe de clinica, acompanhamos seu curso. O Sr. Dr. Faria estudou na cabeceira dos enfermos os meios de exploração, o dignos- tico, a lherapeutica empregada em taes casos, e os cuidados hygienicos indicados , fazia lições no araphitheatro, arguindo também as memórias clinicas dos alumnos. . Occiípou-se principalmente das moléstias do peito, das syphiliticas, das febres graves,, e eruptivas, das diatneses mais communs, como a escrophula e o escorbuto, e de al- gumas lesões dos centros da innervação, a saber; cólica saturnina, amollecimento ce- rebral, tétanos e diversas paralysias, *etc. O Sr. Dr. Alves é digno emulo do seu collega da clinica interna; um de nossos mais delicados operadores, desempenha perfeitamente a difficilima missão de professor de clinica cirúrgica: sabemos que seu curso foi regular, e que as operações indi- cadas erão sempre praticadas com a maior limpeza e proveito; não podemos, entre- tanto, dar um esboço de seu curso, porque acha-se gravemenle enfermo, e inhabi- litado de nos fornecer os meios que lhe pedimos. Aqui findamos nosso incompleto trabalho. Nem uma reforma, de que aliás tanto carecemos, fôra apresentada por nós; isto resulta da razão, que vamos expor*, quando estivemos na Europa, escrevemos ura plano de reforma para o estudo secundário, e medico de nosso paiz; tivemos a honra de oíferecel-o ao nosso Augusto Soberano, que Se dignou de acceital-o ; pretendemos brevemente publical-o, e por conseguinte, nos abstivemos de reproduzir aqui, o que já fizemos em outro logar; por esse escripto se verão as idéas que nutrimos acerca da instrucção. As clinicas entre nós vão melhorando de dia em dia. Damos por acabado nosso encargo, repetindo-vos a sentença latina—feciquid potui, faciant alteri meliora. Dr. Jeronymo Sodró Pereira, Lente cathedratico de physiologia. Approvada pela Congregação da Faculdade de Medicina no dia 2 de Março de 1866. Dr. Thomaz d'Aquino Gaspar, Secretario interino.