THESE DE ANTONIO SERAPHIM D'ALMEIDA VIEIRA, FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA THESE APRESENTADA PARA SER SUSTENTADA EM NOVEMBRO DE 1867 POR ANTONIO SERAPHIM D'ALMEIDA VIEIRA PHARMACEUTICO POR ESTA FACULDADE NATURAL DE SERGIPE LxyUíYYia n UakWa AoAwiOA CÍvwua <N!mAa, PARA ORTER O CRÁO DE DOUTOR EM MEDICINA Dirigcz toutes vos actions de manière á atteindre, autant que possible, le der- nier terme de votre profession, que est de conservei- la vie, de retablir la santé, et d'alleger les souffrances d'autroi. (Hufelahd.) BAHIA: TYP.-CONSERVADORA-RUA DOS CAPITÃES N. 39. 1867. FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA. DIRECTOR O EXM. SR. CONSELHEIRO DR. JOÃO BAPTISTA DOS ANJOS. VICE-DIRECIOR 0 EXM. SNR. CONSELHEIRO DR. VICENTE FERREIRA DE MAGALHÃES. OS SRS. DOUTORES l.° ANNO. MATÉRIAS QUE LECCI0NAO Cons. Vicente Ferreira de Magalhães. i Physica em geral,e particularmente em suas i applicaçòes á Medicina. Francisco Rodrigues da SilvaChimica e Mineralogia. Adriano Alves de Lima Gordilho . . . Anatomia descriptiva. 2. ANNO. Antonio de Cerqueira PintoChimica organica. Jeronimo Sodré PereiraPhysiologia. Antonio Mariano do BomfimBotanica e Zoologia. Adriano Alves de Lima Gordilho . . . Repetição de Anatomia descriptiva. 3. ANNO. Cons. Elias José PedrozaAnatomia geral e pathologica. José de Góes SiqueiraPathologia geral. Jeronimo Sodré PereiraPhysiologia. 4. ANNO. Cons. Manoel Ladisláo Aranha Dantas. . Pathologia externa. Pathologia interna. Partos, moléstias de mulheres pejadas e de meninos recemnascidos. Mathias Moreira Sampaio. . . . 5.° ANNO. . • Continuação de Pathologia interna. Joaquim Antonio d'01iveira Botelho . . Matéria medica e therapeutica. José Antonio de Freitas .... Anatomia topographica, Medicina operató- ria, e apparclhos. 6.» ANNO. Antonio José OzorioPharmacia. Salustiano Ferreira SoutoMedicina legal. Domingos Rodiigues SeixasHygiene, e Historia da Medicina. Clinica externa do 3.° e 4.° anno. Antonio Januario de Faria Clinica interna do 5.° e 6.° anno. Rozendo Aprigio Pereira Guimarães . . Ignacio José da Cunha Pedro Ribeiro de Araújo José Ignacio de Barros Pimentel. . . . Virgilio Climaco Damazio Secção Accessoria. José Afionso Paraizo de, Moura . . . ., Augusto Gonçalves MartinsI Domingos Carlos da Silva' Secção Cirúrgica. Demetrio Cyriaco Tourinho .... Luiz Alvares dos Santos João Pedro da Cunha Valle .... Secção Medica. SECRETARIO 0 SR. DR. CINCINNATO PINTO DA SILVA. OTFICIAL DA SECRETARIA 0 SR. DR. TIIOMAZ DÃQUINO GASPAR. A Facudade nâo approva nem reprova as opiniões emittidas nas theses que lhe são apresentadas. dissertação. AFFECÇÕES CARBUNCULOSAS. Les faits guident le jugement avec plus de sureté,que les opinions, quelque sages et quelque eclairées qu'elles soient. (Baudelocque.) - EXPRESSÃO gencrica d'affecções carbunculosas fabrange um grupo notável de moléstias, tendo por principal, senão indispensável, a apparição «sobre alguns pontos do corpo de um ou mais tumores inflammatorios ou gangrenosas, que se desenvolvem espontânea ou contagiosamente, atacando sobre tudo a pelle e o tecido cellular. Estas affecções datam de remota antiguidade; de sua historia quasi nada sabemos, apénas colligimos da pequena leitura, que jul- gamos indispensável faser, que á Celso coube a gloria de assignalar uma das suas variedades, isto é a pustula maligna, a qual fora depois descripta com alguma lucidez por Gmj de Chauliac e já no íim do ultimo século perfeitamente estudada porEnaua? et Chaussier, aos quaes rendemos nossos encomios pelos ponderosos serviços, que que nos legaram. Além doutros quedo mesmo assumpto tratarão, não devemos esquecer o nome de Chabert, director e inspector ge- ral das Escolas veterinárias de França, que em um trabalho notável por elle elaborado nos prodigalisou bastantes luzes acerca d'essas af- fecções, e recentemente deparamos um nome illustre M. Bourgeois, medico do Hospital d'Etampes, o qual publicou em 1861 uma obra sobre a pustula maligna e edema maligno, que, dizem, merecer isg 2 grande interesse e portanto digna de ser consultada por todos; mas que, por não existir entre nós publicado o fructo de suas lucubra- ções, não o fóra, máo grado nosso. Estas aífecções, ou melhor esta aíTecção acommette mais fre- quentemente aos animaes irracionaes, do que ao homem, e na maioria dos casos é transmissivel d'aquelles á estes. Sendo assim, é logico e até util comecar o nosso humilde trabalho, dando antes de tudo uma succinta idéa da moléstia car- bunculosa dos animaes. Partindo d'ahi, poderemos claramente ex- por a sua origem no homem, bem como fazer conhecer aquella dos animaes, que pode ser-lhe transmittida: conhecimento que se torna indispensável maxime para os Práticos, que exercem sua profissão n'esses vastos campos e immensos sertões, onde a creação se faz em grande escala e onde certas localidades não oíferecem as condições hygienicas requeridas contra a explosão de moléstias, quer virulen- tas, quer miasmaticas. PRIMEIRA PARTE. Ma moléstia carimnculosa nos animaes. O Carbúnculo acommette as principaes especies de mammife- ros e algumas aves domesticas. Esta moléstia se apresenta debaixo de muitas formas: ora é uma aíTecção local seguida logo d'acciden- tes geraes; ora é uma aíTecção geral representada primeiro por um estado febril e por symptomas adynamicos ou ataxicos,ao que accresce mais tarde uma alteração local; outras vezes emíim se não observa exteriormenre aíTecção alguma, consistindo tão somente a moléstia nos symptomas geraes. Estes tres estados designou-os Chabert sob os nomes de Carbúnculo essencial, carbúnculo symptomatico c febre car- bunculosa E' á falta de uma boa hygiene, que deve se attribuir a mani- festação d'esta tão cruel enfermidade. Âssim entre os animaes do- 3 mestiços ella se desenvolve pelo uso, que fazem elles das aguas li- mosas e estagnadas dos charcos, ou d'agoas enpoçadas carregadas d'argilla, selenites, etc., assim como entre aquelles, que fazem uso de forragens alteradas pelas inundações infeccionadas de grande quantidade deinsectos e.'sobretudo de gafanhotos putrefeitos. A moléstia carbunculosa ainda observa-se em certas aves do- mesticas em consequência da immundicie, das emanações fétidas exhaladas dos lugares, que as abrigam durante á noite. Todas estas circunstancias devem alterar profundamente o sangue e a nutrição, bem como a de se acharem os animaes excessivamente cançados são de natureza tal, que tendem igual- mente a alterar esse liquido, cujo resultado é a producção da moléstia. A affecção carbunculosa não é absolutamente ligada á exis- tência de um tumor exterior. Com effeito, o sangue pode achar-se envenenado pelo principio carbunculoso,o animal ressentir-se profun- damente d'essa alteração, sem que entretanto se mostre tumor al- gum exteriormente: n'este caso, os nossos sentidos só poderão apre- ciar os symptomas geracs, e post mortem, as alterações cadavéricas, que nada revelam de especial. O carbúnculo não é somente uma affeccão epizootica, é tam- bém uma moléstia virulenta e portanto contagiosa. Os liquidos sa- hidos de tumores carbunculosos têem uma propriedade séptica tão pronunciada, que produzem, introdusidos por qualquer via em animaes sãos, desordens tão profundas e a morte, se soccorros prom- ptos não são logo administrados: é o que tem sido demonstrado pe- las experiencias feitas pelos Mrs. Barthelemy et Lcuret. Não é somente o pus fornecido pelos tumores, que é virulento, o proprio sangue tãobem o é; as experiencias de Leuret hão prova- do que este liquido, extrahido de um animal carbunculoso, pode fazer originar um carbúnculo essencial, por seu contacto ou inocu- lação e uma affecção carbunculosa geral, por sua injecção nas veias de um animal são ou por sua transfusão da artéria de um indivi- duo doente para á de um individuo são e vigoroso. 4 Os symptomas geraes e locaes do carbunculo nos animaes são semelhantes aos do carbunculo no homem. Convêm notar que nem sempre todos os tumores carbunculo- sos apresentam uma coloração toda especial semelhante á do carvão, por que tem-se admittido com factos a existência de um carbun- culo branco; mas são tão raros os exemplos d'essa ordem, que não alteram a regra geralmente estabelecida. Áchando-se o principio contagioso do carbunculo no sangue do animal affectado, quando a moléstia é geral, faz-se rigorosamente preciso que o homem se afaste d'elle, logo que suspeitar que o ani- mal acha-se tocado do mal. Ás experiencias ainda têem provado o virus existir no humor sanioso, provindo dos tumores carbunculosos dos animaes, no muco segregado pela mucosa do pharinge, pela do recto e até mesmo po- der entranhar-se á pelle e aos pêllos. Finalmente ha um facto, que nos deve importar muito para o estudo ethiologico, e é a possibilidade acceita por todos de que pos- sam insectos apoderar-se d'esse agente, importal-o longe de sua origem e deposital-o sobre os animaes e até mesmo sobre o homem e d'esta sorte plantar o mal, cuja causa seria para nós um mysterio impenetrável. SEGIOA PARTE. Moléstia carbiinculosa no homem. Na primeira parte do nosso trabalho,fizemos ver que entre os ani- maes podiam-se manifestar tres variedades da affecção carbunculosa. Também admittimos com Mrs. Berard e Dernonvilliers que podem ac- commetter ao homem estas tres variedades, que são: Io. a pustula maligna, que corresponde ao carbunculo essencial dos animaes; 2.° carbunculo maligno, que corresponde a seu carbunculo symptomatico, 3.° emíim a febre carbunculosa,que pertence especialmente áMedicina. 5 Da pustula A pustula maligna é uma moléstia virulenta, que se transmit- te ao homem por certos animaes domésticos, caracterisada por uma inílammação gangrenosa dos tegumentos, e que raramente vai alem do tecido cellular. (Grisolle.) Pode ser considerada como uma especie de carbúnculo ou a forma mais benigna d'este, como pensa mui bem, além d'outros, Mr. Vidal de Cassis. Causas. Como já dissemos, a pustula maligna tem por origem um vi- rus, que provém dos animaes. Pode se dizer que em geral todos os animaes herbivoros e car- nivoros, sejam selvagens ou domésticos, podem communicar esta moléstia. E' necessário que estes se achem no estado pathologico, para que possam por sua vez transmittir a pustula maligna; estado que não apresenta sempre identidade em seus caracteres. A pustula maligna provém o mais das vezes de uma das varieda- des da aífecção carbunculosa, de que já temos idéa; facto, que se dá por uma verdadeira transmissão. Mas parece que não é preciso que os animaes estejam carbuncu- losos para produzirem, dadas certas condicções, a pustula maligna no homem. E' assim que vê-se nas obras de Bidault de Villiers a historia de muitos indivíduos affectados d'esta moléstia, adqui- rida simplesmente por haverem tocado os despojos de um boi cança- do. Morand relatou igualmente em seus opusculos de cirurgia cpaedous magarefes foram atacados de pustula maligna, por terem esfollado e retalhado um boi, que nem cançado ao menos se achava. Não cremos que n'este caso o animal se achasse no estado physiologico. Agora vejamos quaes as partes dos animaes aífectados, que encerram o virus. E' provável que elle exista mais especialmente nos humores, que gottejam das parles compromettidas pelo carbún- culo, assim como no sangue; mas está provado que elle reside ao 6 mesmo tempo na saliva, baba, muco intestinal, emfnn em to- dos os líquidos, e até a pelle e os pellos se tem visto impre- gnados do principio morbiíico: assim nos asseveram os factos. Julga-se maior a sua actividade, quando o cadaver acha-se ainda quente, entretanto parece que o agente morbifico da pustula con- serva por muito tempo sua virulência, por que tem se observado que pelles cFha muito tempo preparadas e até utilisadas para moveis, ainda tem dado lugar a essa entidade mórbida. A moléstia transmitte-se dos animaes ao homem, e pode ser contrahida de maneiras diversas; o mais infallivel de todos os meios de communicaçâo é a inoculação do principio virulento por qual- quer que seja o meio. Bayle referiu em sua Thése inaugural sustentada em Paris em 1802 cpie um offlcial de saude, havendo-se ferido em uma mão com um bisturi, que havia servido para abrir um animal morto de car- búnculo fora acommetlido tresmezes depois de uma pustula maligna. A acção do virus é tanto mais segura, quanto a pelle é mais delicada, a epiderma mais fina, outro sim sua acção é mais frequente sobre partes, que habitual ou accidentalmente vivem descobertas. Até agora temos visto a pustula maligna resultar do contacto mais ou menos intimo do homem com os animaes doentes; mas di- zem alguns, o que facilmente concebe-se, que ella pode manifestar- se d'outra fornia; verbi gratia, a matéria mórbida transportada do corpo do animal vivo ou morto até ao homem, ifeste ser deposta ou inoculada por insectos, que por ventura tenham-se nutrido de restos d'animaes, ou que tenham sugado os liquidos transsudados de feridas carbunculosas. A pustula maligna é transmissivel de um indivíduo a outro, pelo contacto da parte affectada, ou dos liquidos, que escoam do tumor: para prova cfisso apontaremos dous factos experimentaes: Thomassin falia em sua disssertaeão da mulher de um trabalhador, que havendo penetrado com um alfinéte as vesiculas, que cobriam uma pustula maligna desenvolvida por sobre a palpebra de seo ma- rido, e acontecendo passar os dedos impregnados de serosidade em 7 seu rosto, fora atacada duas horas depois de uma pustula maligna, a qual tornou-se bem grave, deixando após a cura grande deformidade . Ilufeland apresenta o caso de uma mulher, que contrahira a pustula maligna pelo facto de deitar-se com uma sua amiga, que soffria d'esta moléstia. A pustula maligna não nasce espontaneamente no homem, as- sim dizem o Barão Boyer, Enaux et Chaussier Thomassim, Chambon, etc. Poderá o homem fazer uso impunemente da carne dos ani- maes doentes da moléstia carbunculosa, sem receio de que lhe possa ser nocivo? Ainda que alguns opinem que o homem possa nutrir-se da carne d'esses animaes convenientemente preparada e bem cosida; todavia por cautela aconselhamos que se não use de semelhantes car- nes, e nem tão pouco se consinta que sejam expostas ao mercado, até mesmo aquellas, cuja origem seja suspeita. Enaux et Chaussier e o Doctcur Turcheti citados por Mr. Grisolle referiram factos, que demonstram que a carne dos animaes mortos de carbúnculo podia dar origem, senão á pustula maligna, pelo menos á moléstias graves de forma pútrida ou gangrenosa. Concluimos a parte ethioligica d'esta affecção dizendo que esta moléstia é sempre de causa externa; que se manifesta pela depo- sição na superfície ou no interior da pélle de um virus, desconhe- cido em sua essencia, apreciável somente pelos seos effeitos; e que finalmente o principio virulento deve encontrar no indivinuo sub- mettido a sua acção disposições, quer geraes, quer locaes, favoráveis á sua reproducção; por quanto tem se visto algumas pessoas, que, aliás haviam-se exposto ao contagio por mais de uma vez, ficarem illesas e não accusarem o menor soffrimento. Syiiiptoinas. A pustula maligna não é precidida por phenomeno algum precursor; os primeiros momentos de sua invasão são tão pouco sen- síveis que as mais das vezes os doentes nada sentem, e encaram o bo- tão primitivo, como cousa insignificante. 8 Dividem os autores esta moléstia em quatro períodos. Primero período.-À matéria virulenta, deposta na superfí- cie da pélle, presagia seos effeitos por uma ligeira comichão in- commoda e por uma picáda viva, passageira, sem calor, rubor e tensão; destaca-se aepiderma, e forma-se uma pequena vesícula do tamanho de um grão de milho, que se desenvolve pouco a pouco, enche-se de uma serosidade mais ou menos escura; a comichão exas- pera-se, o doente coça-se, dando lugar a ruptura da vesicula, que também se pode abrir espontaneamente; corre um pouco de serosi- dade; cessa por algumas horas a comichão-24, 36, 48 horas. Segundo período.-Debaixo da vesicula, ou no lugar que ella oc- cupava, forma-se na espessura mesmo da pélle uma especie de tu- bérculo lenticular, circunscripto, achatado, reconhecível á principio só pelo toque; logo depois torna-se elle visível, sua superfície é se- meada de pequenas imminencias e de ligeiras excavações, de sorte á offerecer um aspecto granuloso; sua côr é livida tirante a amarel- lo; comichão mui forte, mas frequente, se acompanhando de um sentimento de calor, ardor e erosão. À pelle visinha se engorgita, parece tensa elusidia, e em torno do ponto central forma-se um segundo tumor circular» mais molle, mais superficial, de largura variavel, de côr pallida, avermelhada, livida ou de matiz alaranja- do que Chaussier chama-areola. Esta é sempre enrequecida de phlictênas, á principio isoladas, depois reunidas e cheias de uma serosidade acre, arruivada; o tubérculo central torna-se escuro, cada vez mais duro c perfeitamente insensível: é 'uma verdadeira es- cara, que rapidamente toma novas proporções. E' quasi sempre e infelizmente n'este periodo que o medico é consultado e que portanto tem occasião de observar a moléstia, que tende a pro- gredir em sua marcha destruidora e cruel. Este periodo não tem d'ordinario senão algumas horas de duração; raro quando se pro- longa dias. Terceiro periodo.-0 mal vai além da pélle até o tecido cel- lular, sua marcha é rapida. Á escara central torna-se inteiramente negra, mais dura e profunda, e se estende em superfície, precedida 9 pela areola vesicular, que continúa a cercal-a, e que annuncia seos progressos. Ao mesmo tempo sobrevêm uma t urgência da pélle vi- sinha, e a areola vesicular se alarga. Este enfarte, que não é de caracter inílammatorio, nem edematoso, parece antes ter alguma cousa de emphysematoso, se bem não se possa verificar a crepitação. A quentura abrasadora e excessiva do segundo periodo é subs- tituída n'este por um sentimento de entorpecimento, mesmo de estrangulamento e de pêzo na parte. E' curto este periodo, quando o exito tem de ser fatal; nos casos felizes pode durar dias, nunca exce- dendo do 5.° Quarto periodo.-N'este periodo nota-se que todos os acciden- tes locaes crescem de intensidade, a turgencia torna-se considerá- vel, e propaga-se ao longe, e o tecido cellular parece intumescer. A escara é levantada pelos líquidos decompostos, que se accumu- lam abaixo d'ella. A mortificação faz progressos espantosos; occu- pa primeiro o tecido cellular, que cerca a escara, sem propagar-se á pélle; depois esta, que parecia nada soffrer, se gangrena prompta- mente, o que augmenta de repente a grandesa da escara. E' che- gado o momento em que sente-se debaixo da pclle, em torno da escara central, uma crepitação denunciadora da mortificação do te- cido cellular. Ao passo que o estado local aggrava-se, a moléstia, que parecia até aqui concentrada na parte affectada, estende-se a to- do o organismo; o pulso é pequeno, alguma vez duro, outra vez molle, muita vez desigual. A pelle é sêcca, o calor parece mode- rado, e entretanto o doente experimenta um ardor em suas en- tranhas, que bebida alguma é capaz de acalmar; a lingua sêcca e arida; as urinas pouco abundantes, escuras, e espêssas. A angus- tia e o abatimento extremos, a respiração é curta, anciosa, entre- meiada de suspiros e soluços; muita vez sobrevêm vomitos; rara- mente diarrhéa, suores colliquativos, hemorrhagias. Lá apparece por fim cardialgias, syncopes, elle delira e acaba por pagar o tri- buto á Natureza,-morrendo! Seo cadaver decompõe-se rapida- mente, e derrama-se um cheiro insupportavel. Muito satisfeitos devemos ficar, quando, tratando d'esta mo- 10 lestia, descubrimos um circulo inílammatorio, por que diz, entre os outros, Mr. Vidal de Cassis, é o presagio feliz de uma favoravel terminação; elle se desenha em torno da escara; a turgidez abaixa; o calor é brando; descobre-se batimentos na parte; suppuração dentro do circulo; movimento febril ligeiro e regular, acompanha- do de transpiração branda ou lentura. Estes phenomenos revelam ainda que a reacção é providencial, e que ella expellirá a escara, depois de cuja quéda se admirará quão estensa fôra a desordem causada pela pustula. Alguma vez a moléstia tem uma marcha tão rapida e irregu- lar que os períodos parecem se confundir, pelo menos, sua duração não é senão ephemera, por que em 18 ou 2 4 horas os doentes morrem victimas de uma gangrena considerável, e com accidentes geraes os mais graves. Existem algumas variedades de formas, que apresenta a pus- tula maligna, segundo os pontos do corpo, que ella invade, apenas chamamos a attenção para uma forma, que Mr. Bourgeois tem mui- tas vezes observado na Beócia e que consiste em uma turgencia pal- lida á principio ou azulada e semi-transparente e raramente rosea das palpebras; nada de dor local; apenas o doente accusa uma li- geira comichão; no fim de dous ou tres dias vesículas, depois es- caras se encontram sobre estes véos membranosos; emfim todo o ap- parelho symptomatico, tanto interno, como externo da pustula car- bunculosa a mais franca se desenvolve. Mr. Bourgeois crê que n'este caso o virus devia de ser absorvido pela mucosa ocular, bem que esta não apresente vestígio algum de botão. Marcha* A marcha da pustula maligna não deixa de oíferecer algum in- teresse. Esta affecção, limitada á principio a phenomenos locaes, parece passar de repente ao estado de moléstia geral, e complica-se então de perturbações funccionaes mui graves, que podem arrastar á 11 morte. Álgnmas veses a marcha da pustula maligna suspende espanto- samente no 2. gráo; a inflammação francamente phlegmonosa se de- senvolve, e uma pequena suppuração regeita a pequena porção de pel • le, que fora mortificada. Esta forma foi estudada por M. Dewy de Chevrie sob o nome de pustula maligna proeminente e que M. Rayer chama pustula maligna de gangrena circunscripta. Quando chega ella aos dous últimos periodos, a gangrena segue sua marcha destruidora e os symptomas graves se apresentam: M. Rayer chama pustula ma- ligna de gangrena diflusa. Um tratamento activo e bem regularisado pode inverter e até im- pedir essa marcha tão regular, qual a que acabamos de delinear: é a expressão de grande parte dos autores. Iliaguostico. E' de incontestável importância reconhcer de prompto a exis- tência d'esta moléstia, para podermos com segurança, logo comba- te-la; pois o bom exito do tratamento será tanto mais certeiro, quanto mais cedo for elle iniciado. Para esse conhecimento, é mister discri- mina-la tanto, quanto possivel de outras doenças, com que pode a pustula maligna ser confundida, maxime em seu começo. Exem- plifiquemos: Á picada de certos insectos dá lugar a uma comichão viva e ar- dente, e forma-se uma pequena vesieula, que ao coçar abre-se e per- cebe-se abaixo d'ella um ponto engorgitado, duro e amarellado. E' assim que vemos representado o primeiro periodo da pustula mali- gna; entretanto se compararmos attentamente os symptomas colli- gidos de ambos os lados, chegaremos quasi sempre á distineção; na mordedura do insecto, observa-se que o pequeno engurgitamento é menos circunscripto e mais largo; forma um relevo bem patente e de forma cónica; a comichão é menos viva e tenaz; não se nota areola vesicular, e a pellc apresenta um rubor diffuso e como erysipelatoso, havendo no centro um ponto amarellado. O Furunculo ou o que vulgarmcnle chamão cabeça de prego, até 12 um certo ponto assemelha-se á pústula maligna, quando no 2. pe- ríodo. E' verdade que poucos inconvenientes haveria, se tomássemos esta moléstia por uma pustula maligna; porem não devemos dizer assim, se cahissemos em um erro contrario, erro incorrido por alguns autores, bem que involuntário. O Furunculoé alguma vez precedido de uma vesícula, como a pus- tula, com adifferença porem que n'aquelle o mal começa no tecido cel- lulare na camada mais profundada pellee marcha de dentro para fora; ao passo que, na pustula o seu progresso tem lugar em sentido inverso; o furunculo forma sempre quando apparece exteriormente uma ponta dura, vermelha, dolorosa; o doente ahi sente calor e dores pulsa tivas; não ha circulo vesiculoso, suaduresadiminue á medida que a suppu- ração se faz. Os mesmos caracteres distinctivospertencem ao anthraz. • Finalmente, alguns teem querido confundir a erysipela miliar ou pustulosa com a pustula maligna. Talvez encarado pelo lado pra- tico se possa dar semelhante confusão; mas pelo theorico, achamol-a impossível; por quanto vemos que a erupção própria da erysipela occupa sempre grande superfície, que a pelle é vermelha, molle e sensível; ao passso que na pustula a lesão é mui circunscripta, e as vesículas são dispostas em circulo, em volta do ponto central, achata- do duro, de cor pardilha, depois escura, etc. Quando tratarmos do carbúnculo, faremos a distineção de com a pustula maligna, cujos pontos de contacto são tantos, que torna-se difficil discrimina-los satisfactoriamente. Necropsia. Pouco nos tem esclarecido a sciencia á respeito das lesões, que se encontram em pessoas, que hão sido victimadas pela pustulamaligna: seo cadaver se putrefaz rapidamente, em derredor da pustula o tecido cellular apresenta uma infiltração gelatiniforme, de aspecto seme- lhante á superfície deixada por um limão cortado. A pelle vê-se mui interessada pela escara, que raras vezes vai alem d'esta membrana. 13 Nada sabe-se em relação ao estado das vísceras; alguém disse tel-as visto gangrenadas. Em um discurso pronunciado em Lyon por Mr. Vir icei, tratou- se de uma pustula encontrada no cólon. M. Bonnet sustenta ter visto placas grangrenosasnoesío/nay/o. Prognostico. Se bem que a pustula maligna seja susceptivel alguma vez de ser curada pelos únicos exforços da natureza, todavia deve ser considera- da uma moléstia grave, e quando não sempre mortal, deixa, após a cura, deformidades mais ou menos consideráveis. Ella compromette a existência, quando ou torna-se desconheci- da para o Medico, ou quando, convidado este para ministrar os valio- sos soccorros de sua arte, ja è tarde, porque a moléstia ja houvera to- mado um caracter assustador, por modo á zombar de todos os meios indigitados pela sciencia: por tanto não serà fora de proposito recom- mendar á todo aquelle que por fatalidade, nutrindo suspeita de que acha-se ameaçado de tão temivel enfermidade, que recorra a pessoa habilitada, afim de ser convenientemente tratado. O Prognostico varia segundo certas circunstancias inherentes ao indivíduo, ou que dependem da moléstia, de sua séde, extensão, es- tado de temperatura, etc. A pustula maligna é menos atterradora, quando sobrevem em uma epoca em que a temperatura é moderada e branda, do que du- rante os ardores do verão ou o frio rigoroso do inverno. A moléstia torna-se mais grave, quando arroja-se sobre infeli- zes exhaustos de forças, cacheticos ou escorbuticos; ella os bafeja de uma maneira traiçoeira, e depois adquire grandiosa actividade, etal progresso vai fazendo a gangrena, que os doentes cahem em completa adynamiaepor fim morrem. O Sexo não inílue sobre a marcha d'esta aífecção, salvo nas mu- lheres gravidas, sobretudo se sua prenhez acha-se adiantada. Cham- bon cl Chaussicr são accordês em considerar mais grave a pustula 14 maligna, que sobrevém n'estas circunstancias; por que ella pode de- terminar abortos, partos prematuros e hemorrhagias uterinas, que, occasionam o enfraquecimento da doente, e levam-n'a á uma pros- tração considerável, Ã gravidade do mal é proporcional á extensão e ao numero dos tumores gangrenosos. Ã pustula maligna é tanto mais perigosa, quanto mais fôr enriquecido de tecido cellular o lugar que occupar. Nos pontos do corpo, que apresentam uma disposição opposta, n'aquelles sobre- tudo em que o tecido muscular forra a pelle, e parece com ella se confundir, como a maxilla, os lábios, o nariz, a escara limita-se fa- cilmente, e não ganha em profundeza. Todas as vezes que a pustula maligna procura occupar a visi- nhança de vasos, nervos, ou de orgãos importantes, o caso tem mui- ta gravidade. Regnier cita a observação de nm fasendeiro affectado de pustula maligna, na parte interna do braço, onde vira os tron- cos nervosos d'essa região descobertos, logo que cahiram as partes mortificadas. Estabeleceo-se suppuração abundante e de boa na- tureza, e o doente considerava-se já livre do perigo, quando foi surprehendido pelo tétanos que matou-o no fim de tres dias. Tratamento. E' tão terrivel a pustula maligna, que os médicos não devem cuidar somente em combate-la, quando ella se desenvolve; faz-se al- tamente preciso que conheçam os meios de prevenir a sua invasão, afim de que possam prodigalisar conselhos preventivos, em virtude dos quaes possamos todos escapar á furiade tão pernicioso hospede. Declara-se uma epizootia carbunculosa, é conveniente queimar á porta dos curraes, estribarias ou por outros lugares infeccionados, o esterco, que se apanhar todos os dias; enterrar os cadaveres dos ani- maes, quesuccumbirem, o mais profundamente possivel, depois de ter inutilisado os couros, afim de que ninguém lembre-se de aprovei- ta-los: ao contrario, poderão muita vez espalhar por diversas para- 15 gens pelles, que contém o germen da doença: em summa é mister destruir todas as partes, que provieram dos animaes, bem como os objectos, que podem se achar impregnados dos humores escapados de suas feridas. Todoaquelle, que tratar de animaes doentes evitará o mais pos- sível o contacto immediato com elles; poderá proteger as partes ex- postas de seu corpo, verbi gratia, seus dedos, engordurando-os com oleo ou manteiga, ou usando de luvas apropriadas, e seu rosto ser- vindo-se de uma mascara. Se praticar uma sangria, tomará cautela de não molhar as mãos de sangue, e sobretudo não leva-las ao rôsto n'este estado. Em- fim, quando tenha sido arrastado á pegar nos objectos precisos para o curativo dos animaes, no seu sangue, tocar em suas feridas, deverá lavar com todo cuidado suas mãos com agoa e sabão, ou accidulada com vinagre ou limão, isso repetidas vezes durante o dia. Recommendamos á pessoa, que exposera-se a contrahil-a, velar attentamente para as partes de seo corpo, que estiveram em contacto com as matérias sépticas. Se descobrir, verbi gratia, algum botão, trate de cauterisa-lo, porque assim prevenirá as consequências ulteriores, que alias poderão ser bem desagradaveis. Os accidentes da pustula maligna, sendo de causa externa e lo- cal, permanecem circunscriptos á principio ás partes, onde houve- rem nascido, e não se estendem além, senão no fim de certo tempo: são pois as alterações locaes, que constituem essencial e primitiva- mente a moléstia: é por conseguinte sobre ellas, que devemos enca- minhar as nossas vistas. Não queremos com isso dizer que devemos desprezara medicação interna, não, ella é empregada, como auxiliar para combater alguns accidentes particulares, ou ajudar os eífeitos do tratamento local. Está hoje reconhecido geralmente por todos, que, para limitar a gangrena, para dar cabo do virus, e prevenir a absorpção do prin- cipio séptico, deve-se escariíicar as partes doentes, depois destrui-las pelo cautério. 16 Alguns cirurgiões julgaram o melhor meio de sustar a moléstia em seo principio extirpar as partes escarificadas; mas achamos que semelhante pratica deve ser banida; porque sua execução daria em resultado, ou separar a escara, sem tocar as partes vivas, ou interes- sa-las; ora parece um impossivel que se possa demarcar exactamente a linha divisória, que separa as partes vivas das mortificadas. No pri- meiro caso, ficaria uma parte da escara, e então a operação seria de inútil resultado; no segundo, teria o doente de padecer dores mui vi- vas, sobreviria hemorrhagia as mais das vezes considerável e assusta- dora, e por fim nada se conseguiria, ainda á custo d'estes accidentes; visto como experiencias hão comprovado que o mal reincide depois da operação; apodera-se a gangrena dos lábios da ferida; extende-se e propaga-se de uma maneira admiravel; alem de que tem-se notado que, quanto mais renovada for a extirpação, mais intensos vão sendo ou tornando-se os accidentes locaes e geraes. Em summa; convimos que nenhum meio mais efflcaz haverá, que possa satisfazer o nosso espirito em relação ao tratamento d'essa doença, senão o do uso combinado e bem entendido das escarifica- ções e dos cáusticos, ou do cautério actual. As escarificações devem ser feitas com muita circunspecção; as incisões superficiaes são inú- teis, porque não dividindo nem toda a escara, nem todo o tumor, que forma o fóco do mal, os remedios serão applicados sobre partes já mortas, e não penetrarão até aquellas, que são ameaçadas de mor- tificação; mui profundas, são perigosas, já pelo lado da dor, já pelo da hemorrhagia, já porque atacando as carnes vivas, cuja sensibili- dade é ainda excessiva pela tensão inflammatoria, debilitam por as- sim dizer a acção vital, e assim dispõe taes partes á gangrena. Para a cauterisação, teem se servido os práticos alternativamente do fogo, chlorureto d'antimonio, nitrato de prata, potassa caustica e dos diversos ácidos mais ou menos concentrados, como os ácidos nitrico, azotico, chlorydrico, etc. Entre estes últimos, é o acido nitrico (ou agoa forte) aquelle, que se tem empregado as mais das vezes. Mr. Vidal de Cassis o em- prega do modo seguinte:-Faz-se uma incisão crucial sobre o núcleo 17 da pustula, molha-se um pincel de fio no acido, e passa-se nas in- cisões. Quando é abundante o corrimento de sangue, limpa-se a fe- rida bem, e repete-se até 5 vezes a applicação. Depois ensopam-se muitas pequenas bolas de fios no mesmo acido, deixam-se ficar nos lábios da ferida, e continua-se o curativo como para uma ferida, que deve suppurar. No dia immediato, tiram-se as bolas, que são subs- tituidas por uma prancheta coberta por uma mistura de cerólo e es- toraquc. Se a inflammação sobrevier com bastante intensidade, será conveniente cobrir a prancheta com uma cataplasma emolliente, que se mudará duas vezes por dia. Aconselhamos também o uso do cautério actual, firmado nas experiencias de Carré cirurgião do Dijon, homem sabio c instruido por continuadas observações, assim como de Dupuytren e Lisfranc, que pugnavam em favor d'este meio debellador. Será util o emprego da sangria, contra a pustula maligna? A apparencia inflammatoria d'esta moléstia tem levado alguns práticos á abraçal-a. Thomassin a praticava immediatamente em indiví- duos moços e robustos; refere ter sangrado metade de seos doentes, e não ter perdido um só. Todavia, consideramos que a sangria é um meio de que é preciso, cm geral, não só n'esta moléstia, como em outras muitas affecçõos gangrenosas, usar mui sobriamento, e que no caso em questão,pode ser perigosa, mesmo d'esde o começo; porque arriscaríamos de alguma fornia subtrahir ao organismo as forças, de que elle tanto precisa para reagir contra os efieitos sépticos do vírus. Entretanto, parece que alguma vez deverá ser util essa indi- cação, quando depois da applicação do cáustico, sobrevier uma rea- ção inflammatoria mui viva, esi o doente for vigoroso e de um tem- peramento sanguíneo: ainda assim, confessemos, deve haver muita parcimónia em seo emprego. E' bom, além da cauterisação, usar de topicos, quando seja preciso reanimar a vitalidade das partes: taes como-decocção de qui- na, as fomentações aromaticas, vinosas, alcoólicas e camphoradas. Torna-se necessário ás vezes o emprego de certos medicamen- tos internos, afim de combater o estado geral e as compllicões, ex: 18 ostonicos, comoa quina, as bebidas vinosasetc. contra os phenomenos adynamicos, à cujos tonicos convém ás vezes associar os excitantes geraes. Em geral, os meios debilitantes devem ser proscriptos no trata- mento d'estamolestia, por que, como sabemos, favorecem a gangrena; salvo a sangria, que como já dissemos, emprega-se em casos mui reservados. Os evacuantes e os emeticos não devem ser empregados, senão quando é preciso combater um embaraço gástrico. Antes de concluirmos a 2.a parte de nosso trabalho, chama- mos a attenção para um remedio contra a pustula maligna, propos- to por Mr. Poymarols e recentementc empregado com bom exito por Mr. Raphacl (de Provins;) queremos fallar das folhas frescas da nogueira, vegetal muito espalhado em toda França. Seo uso é da maneira seguinte:-Sem cauterisação previa, cobre-se a parte doen- te de uma camada de folhas frescas d'esta planta, das quaes des- troe-se com cuidado a nervura principal, para que a applicação seja immediata em todos os pontos, e faz-se sustentar o curativo por uma atadura apropriada. Recommenda-se renovar o topico de duas ou de tres em tres horas. Logo no dia seguinte, observa-se uma mudança considerável, e a cura completa-se, dizem, no fim de poucos dias, mesmo nos casos apparentemen te os mais graves e os mais desesperados. Si é verdadeiro o eífeito prodigioso attribuido a esta planta, dependente ainda de experiencias vindouras, não devemos ficar des- contentes, por que muitos outros vegetaes haverão em nosso tão rico paiz, que gosem de iguaes virtudes, e, quem sabe? talvez de acção mais prompta e energica contra a doença, que descrevemos. TERCEIRA PARTE. »o carbúnculo ou antliraz maligno. O carbúnculo ou anthraz maligno é uma moléstia caracteri- sada por um tumor inflammatorio e gangrenoso, pouco saliente, 19 muito duro e muito doloroso, cujo desenvolvimento é precedido e acompanhado de symptomas geraes, e que apresenta uma escara central negra, como carvão, (d'onde seo nome,) cercado de um cir- culo rubro e lusidío. O carbúnculo pode ser-pestilencial, symptomatico, e idiopathico; pestilencial quando forma um dos symptomas da peste; symptoma- tico é aquelle, que é precedido de uma infecção geral; idiopathi- co, é aquelle, que resulta da acçâo do virus sobre um ponto dos te- gumentos. Causas. O carbúnculo sobrevém umas vezes espontaneamente, isto é, o virus, ao em vez de ter sua origem em um organismo estra- nho, se manifesta no homem pelaacção de causas geraes, ainda hoje mal determinadas; outras vezes, é contrahido por contagio. O que já foi dito á respeito das circumstancias, que favorecem a apparição do carbúnculo nos animaes, pode se applicar em parte ao homem; dizem ellas em tudo respeito á condicções hygienicas; bem como a maior parte d'aquellas, que predispõem ao desenvolvimento da pustula, podem dar lugar ao do carbúnculo. Ãssim elle se declara durante os grandes calores, e assalta os obreiros e a pobre gente do campo, que já extenuados pelo trabalho, exercem-n'o debaixo da acção de um sol ardente, nutrindo-se de máos alimentos, bebendo aguas insalubres, e vivendo em um completo desaceio. Ás chuvas inundantes, o viver em proximidades d'agoas es- tagnadas, ou lagoas incompletamente e de novo desecadas, que exha- lam as vezes vapores mephyticos e bem damnosos, podem dar lu- gar ao desenvolvimento do mal. Os velhos são mais expostos á contrahil-o, ao passo que a pus- tula maligna sobrevém em qualquer idade. O homem, como o animal irracional, pode ser aífectado, tan- to do carbúnculo symptomatico, como do idiopathico; porém este ultimo lhe é mais frequente; sua origem vem do primeiro. D'ahi 20 se vê que os indivíduos, que estão em contacto com os animaes são os que mais frequentemente soffrem de carbúnculo idiopathico: (por exemplo) os marchantes, creadores, pastores, etc. 0 carbúnculo pode ser transmittido de muitas maneiras; ora pela applicação do virus carbunculoso sobre a pelle; ora pela in- troducção de matérias sépticas nas vias respiratórias ou digestivas. A serosidade, que gottêja do carbúnculo desenvolvido no homem pode communicar á outrem a moléstia, só por sua simples deposição ou contacto: amenos que não sejam tomadas as devidas precauções. Mas, sào principalmente os humores, o sangue dos animaes mortos de carbúnculo, que dão lugar ao desenvolvimento da doença, quando chegam á ser absorvidos pela pelle; esta verdade é attestada por factos, que é escusado de enumerar, apresentados por Chaberl Chaussiere Duhamel. O carbúnculo poderá ser occassionado pela ingestão nas vias digestivas de carnes aproveitadas d'animaes carbunculosos? Somos inclinado á responder pela afíirmativa, confiado nas authoridades de Collôt, Thomassin, Chaussier e Fodcrê que estudaram esta ques- tão, dizendo que o virus carbunculoso pode por esse meio ser trans- mittido, resultando de sua passagem no tubo digestivo, ora somente uma indisposição geral, nauseas, vomitos, um estado como dothinien- therico, que se termina ou por dejecções mui copiosas, fétidas, ou por algumas manchas gangrenosas por sobre a pelle: traducção de uma verdadeira febre carbunculosa; ora vê-se sobrevir abscessos gangrenosos ou carbunculosos bem caracterisados em differentes par- tes do corpo. Devemos, por consequência, nos precaver do uso de taes carnes, e nem tão pouco dever-se-ha assentir que ellas sejam expostas ào mercado por interesseiros ou especuladores, aosquaes nada importa o bem de seos semelhantes. Somos de parecer que as affecções carbunculosas, geralmente fallando,são na essenciaidênticas, isto é, que não reconhecem os mais que um principio, que chamaremos-carbunculoso. Este principio nasce, ás mais das vezes, nos animaes, alguma vez no homem, isso ajudado de influencias especiaes já mencionadas. 21 0 verdadeiro carbúnculo, isto é, o symptomatico é sempre mortal e contagioso; sua inoculação, ora faz nascer o carbúnculo idiopathico, ora a pustula maligna; duas variedades nascidas de uma só fonte, não tão graves, principalmente a ultima, cujo virus, (quem sabe?) talvez se ache tão modificado ou enfraquecido em suas qualidades, que sua inoculação, dizem, dá um resultado todo negativo. Symptomas. A moléstia pode manifestar-se indistinctamente em todas as partes do corpo, salvo quando resulta da inoculoção do virus car- bunculoso, ou de sua deposição sobre um ponto qualquer da pelle. As mais das vezes o tumor é unico; entretanto, alguma vez observam-se muitos ao mesmo tempo. 0 carbúnculo apresenta prodromos, caracterisados por que- brantamento e prostração de forças, que se manifestam, quando os doentes entregam-se á suas occupações, ou fazem algum movimen- to. Algumas vezes experimentam uma certa indisposição inexpli- cável, um sentimento de receio, e até mesmo de terror indefinivel, de que lhes é impossivel descortinar a causa; queixam-se de nau- seas, apparecem cardialgias e syncopes. Quando o carbúnculo é causado pela inoculação, ou contacto do virus, surgem estes symptomas ao mesmo tempo, que o tumor. O periodo de invasão dura geral mente vinte e quatro horas, fin- das as quaes sobrevêm uma dor ardente, que annuncia a apparição do tumor. Se examinamos a parte dolorosa, ahi percebe-se quasi sempre- uma ou muitas pústulas, que ennegrecem promptamente, presto abrem-se, e deixam derramar uma serosidade arruivada, corrosiva, que produz sobre as partes tocadas um calor e comichão intolerá- veis. Estas pustulas são um pouco elevadas por um pequeno tumor saliente, superficial, mui duro e doloroso, de um vermelho ruti- lante, mais brilhante para a circumferencia, sempre lividoenê- 22 gro no centro: é uma escara dura ou difluente, como á da potassa. A baze do tumor é rodeada por um circulo inflammado lu- zidio, que toma depois diversas cores, que se expande mais ou me- nos rápido para as partes visinhas, segundo os diíTerentes gráos de malignidade do carbúnculo. Um calor, que parece abrazar, e uma dor mui viva são inse- paráveis do carbúnculo maligno; essa dor parte do circulo inflam- mado, e vai ao centro, onde, dizem alguns, tomar ella seo ponto de partida, apresentando um caracter lancinante, e tão intenso, que causa desmaios. A dor manifesta-se também com um outro carac- ter: os doentes accusam um sentimento de conslricção mui penivel, comparável ao efleito produzido por uma ligadura. Declara-se uma febre intensa, o pulso é frequente, pequeno,con- centrado e alguma vez mui desenvolvido; a pelle é sêcca, arida, os olhos fixos, olhar inquieto, symptomas, que exasperam-se, e ao depois se resolvem cm uma adynamia. Alguns doentes experimentam uma sede continua,outros não pe- dem bebida alguma; alguns transpiram bastante; raro quando se não queixam de angustias e crispaturas na região precordial. En- tretanto, o mal cada vez mais solapa o organismo; as partes visi- nhas do carbúnculo tornam-se molles, lividas e negras; formam-se ahi vesiculas obstruidas de serosidade ichorosa, e cahem em gangrena. Diz o grande Boyer que a mortificação, estendendo-se ao lon- ge debaixo da pelle deixando-a illesa, é muito mais ampla, do que se suspeita; outro sim; acrescenta elle, no caso em que o mal to- ma sede sobre artérias, podem ellas se achar comprehendidas na gan- grena, de maneira que a separação das escaras seja acompanhada de hemhorragia temivel. O delirio, o soluço, as convulsões,o coma, a suf- focação, a face vultuosa vem-se ajuntar aos symptomas geraes preceden- temente enumerados, e por fim acabamos por lamentar o desfeixo d'essa tão horrorosa scena,vendo a pobre victima exhalar o seu derra- deiro suspiro! Eis enumerados os caracteres do verdadeiro carbún- culo, sempre incurável. 23 Convém aqni notar que o circulo inflammado e luzidio, que ro- deia o carbúnculo não tem sempre a. mesma cor; em certos casos, vêem-sc raios violetes lividos,anegrados,que partem do circulo luzen- te, prolongam-se progressivamente á medida que o tumor abaixa: quando isso observarmos , encaremos, como presagio de uma morte propinqua. Ha outro carbúnculo de forma erysipelatosa ou idiopathico,que distingue-se do symptomatico propriamente dito, por sua extensão maior, irregularidade em sua area de circumscripção, e intensi- dade menor deseos accidentes; ainda que não seja mui grave, toda- via o é mais que a pus tuia maligna. Nenhuma moléstia pode ser confundida com o carbúnculo, á exccpção da pustula maligna, cuja intimidade de parentesco é tão grande, que muita vez lião sido confudidas. Engano justificável. Emfim, por amor ao estudo, e em consideração á therapeutica, con- vêm, authorisado,pelo que nos legaram de um lado Enaux c Chaussier e d'outro lado Fournier fazer a distincção d'estas duas entidades mórbidas, ou melhor duas variedades de uma mesma moléstia, tan- to mais quando não deixam de apresentar algumas differenças dignas de importância. A pustula maligna é sempre o resultado d'acção externa e pri- mitivamente pouco extensa do virus carbunculoso sobre a pelle. E' verdade que o carbúnculo pode alguma vez se manifestar da mesma maneira; porém, em geral, elle sobrevém às mais das vezesesponta- neamente, ou em virtude da introducção do virus séptico nas vias res- piratórias ou digestivas. O carbúnculo desenvolve-se indiíferente- mente sobre todas as partes do corpo; ao passo que a pustula aggri- de sobretudo as partes do corpo, que são habitualmente descobertas. A pustula maligna marcha de fóra para dentro; é circums- cripto seo ponto de partida. Sua influencia sobre a economia des- ponta, depois d'acção local.-Não existem prodromos.-Pequena ve- 24 sicula e ligeira comichão; camada superficial da pelle somente aífec- tada; tubérculo granuloso, areola vesicular, comichão mais viva, extensão do mal em profundeza e largura, formação de escara, e apparecimento de tumor túrgido, antes de toda vesicação. O car- búnculo marcha em sentido contrario, isto é, de dentro para fora. D'esde o principio, symptomas geraes, precedendo ao tumor, ás vezes sobrevindo ao mesmo tempo que elle, cuja apparição é ca- racterisada por dor ardente; seos progressos ulteriores se fazem com uma rapidez extrema, as perturbações geraes augmentam exaspe- radamente. Á areola vesicular, o tubérculo granuloso amarellado pertencem exclusivamente á pustíila, e sobretudo essa lurgencia du- ra, enorme e sem crepitação do tecido cellular das regiões circum- visinhas. O tumor que constitue o carbúnculo, á principio mais largo e mais bem circumscripto que o da pustula, éde um verme- lho vivo na circumferencia, e de um negro propriamente carbuncu- loso no centro. Negativo é o effeito da inoculação da pustula ma- ligna, no entretanto que o da inoculação do carbúnculo pode ser de desagravadavel resultado. Não pensem os nossos mestres que, á vista do quadro minu- cioso, que apresentamos d'estas duas expressões mórbidas de tanta parecença, queiramos consideral-as essencial mente diflerentes.- Não.-Propendemos á pensar, com grandes illustrações, versadas n'essa matéria, que ambas as enfermidades são,repetimos, antes duas variedades de uma mesma afTecção; ainda que, entretanto, apresen- tem algumas differenças notáveis, como se deprehende da descripção comparativa, que acabamos d'estabelecer. Prognostico. O Carbúnculo, como ja dissemos, é uma moléstia mnito mais grave que a pustula maligna, e isso é de primeira intuição. « Lc Charbon, dit Fournier, est de toutesles tumeurs, externes, la « plus vive,et la plus rcdoutable; elle parcourt pour l'ordinaire ses perio- « des avec une rapidité incroyable, entraine constamment après elle les 25 « accidents les plus graves, les plus puissants, et se termine toujours de « une manière aussi prompte que funeste. Son nom seul porte Veffroi et « la consternation dans les familles, et telle etait-autrefois la terreur qu' « inspirait cette maladie quon isolait ceux qui en etaient atteints, et qu « on les abandonnait sans leur porler sccours. A moléstia oílerece mais susceptibilidade de cura, quando occu- pa os membros; aquella porem que occupa o rosto, o pescoço,a parte superior do peito é muito mais perigosa, e em poucas horas deter- mina os accidentes os mais atrozes, como suffocação, soluço, convul- sões e delirio. O Carbúnculo de forma erisypelatosa,ainda que mais grave que a pustula maligna, não offerece com tudo tanto perigo, quanto o carbúnculo maligno propriamente dito, e sua gravidade torna-se me- nor,quando, ao em vez de ser livido e negro,é vermelho e inílammado. Aquelle, cuja inflammação desapparece de chofre é ordinariamente mortal, e acompanhado de maior risco; por que então uma metasta- se interior é muito de temer; ao contrario, deve-se nutrir alguma es- perança, quando o tumor se desenvolve ao mesmo tempo que decli- nam os symptomas geraes. Finalmente o carbúnculo pestilencial é em geral grave, maxime quando é vasto e múltiplo. Marclia. O Carbúnculo tem uma marcha mui rapida, e tão rapida que os soccorros jamais se devem fazer esperar um só instante; e chegando ao leito de um doente carbunculoso, deve immedialamente o medico tratar de suífocar o mal pelas armas, que nos fornece a sciencia,como indicaremos em lugar competente. A' despeito dos soccorros promptamente ministrados, ás mais das vezes a moléstia zomba de tudo, e torna-se completamente inex- orável, ainda aos meios os mais heroicos. Tratamento. Sendo o carbúnculo o effeito de um principio virulento, cuja ac- 26 ção se exerce ao mesmo tempo sobre toda a economia, o tratamento interno torna-se aquimais importante que o cirúrgico. Segundo Boijer, este tratamento deve de ser dirigido segundo os mesmos principios que o das febres adynamicas e ataxicas; a sangria deve ser banida, até mesmo no começo, quando a moléstia revela ap- parencias inflammatorias, estado que é, diz elle, violento e passageiro, consecutivo ao qual, cahe o enfermo em um abatimento, que por certo recrudesceria, se a phlebotomia fosse praticada, e por tanto imminencia á um paradeiro funesto. Não duvidamos alguma vez abrir a veia, porem em casos mui restrictos, em que a reacção é mui viva, o pulso mui forte, isto é cheio e duro as memo tempo; advirlindo que o abuso de semelhante indi- cação seria apressar o termo fatal do doente; pois qnasi sem- pre tudo annuncia uma perturbarção geral do systema vivo e acção profunda do agente morbiíico sobre a força vital, ou causa da vida. Fournier adopta o emprego das emissões sanguíneas; porém não quer que otratamento seja uniforme. Para elle, são os vomitivos e purgativos, que fazem a base da medicação, tornando-a invariável; podendo tudo mais ser modifi- cado, segundo as circunstancias. Diz elle: quando o tumor carbunculoso se apresenta com for- midável inílammação, reacção franca e pulso forte, deve se começar por tirar sangue ( alguém diz, ecom razão, que mesmo ifeste caso é mister que a sangria seja moderada.) Depois do que, prescreve o tar- taro stibiado em dose vomitiva, e nada mais, á não ser alguma bebi- da refrigerante ou agua pura. No dia seguinte, se não ha evacuações alvinas, deve se minis- trar um purgativo. Ao 3. dia, fica-se na espectativa, e observa-se por mais de uma vez o estado do doente e da moléstia. Si a inílammação, seccura e a dor diminuírem, si é mais lison- geiro o estado geral, convém deixar repousar o doente,e substituir agoa pura por alguns caldos: si ao contrario, a gangrena progride, ossym- ptomas tornam-se mais graves, urge que se repita o vomitivo, algu- 27 ma vez o purgativo; devendo depois o doente fazer uso da agoa pura ou acidulada. Quando são abatidas as forças desde a invasão do mal, que o pulso é pequeno, concentrado, intermittente. o calor mui enfra- quecido, a sangria (diz elle) seria perigosa; é mister empregar bebi- das excitantes. Duas horas depois, administra-se o tartaro stibiado e o purgati- vo como no primeiro caso figurado;porém,ao em vez d'agoa pura, re- correr-se-ha aos remedios tonicos e estimulantes, como-vinho, cam- phora, ammoniaco, e especialmente a quina, que dada em substan- cia ha produzido bellos resultados. Fallcmos agora dos meios locaes ou cirúrgicos.-E' adoptavel o processo da extirpação completa do carbúnculo? Pensamos que por uma vez se devia proscrever tão vã pratica; por que alem de tor- nar-se uma operação dolorosissima, é ate impraticável: é esta a ex- pressão solemne da maioria dos Pathologistas modernos; e, ainda concedendo tental-o, poder-se-hia conhecer os limites do mal, estabe- lecer uma linha divisória entre a parte affectada e a sã? Cremos que não. O que succederia, depois de praticada a extirpação? E' que fi- caria uma extensa ferida ameaçavel pela gangrena, e, longe de di- minuirmos o mal, augmentariamos sua extensão; e, depois a caute- risação ou applicação de um emplasto suppurativo por sobre ella, deverá determinar dores atrozes, e uma forte reacção local, que o organismo não poderia supportar: d'ahi renovamento da gangrena, mais abatimento de forças, e por conseguinte maior tendencia ao termo fatal. Ainda quando, dando de barato, que fosse possivel traçar cla- ramente o circulo limitatorio da gangrena, seria improcedente a ex- tirpação; por que o seo apparecimento vêm d'alguma forma presa- giar que a natureza chamará a si o trabalho de eliminação: portan- to, seja, como for, é inconveniente e até mesmo anti-cirurgico o pro- cesso da extirpação. O cirúrgico, o meio mais admissivel é a cauterisação depois de um desbridamento multiplico, por ser o menos doloroso e de menos 28 perigo, ainda que quasi sempre inefficaz; por que as experiencias e os factos assim o attestam. E em verdade, de que serve o emprego de topicos contra uma moléstia, como o carbúnculo, principalmente o symptomatico, cujo virus já tem contaminado por tal sorte o organismo em sua totali- de, epor uma maneira tão caprichosa e desapiedada?! Parece pois mais rasoavel e de mais fundamento o tratamento interno, (*) contra o inimigo que nos surprehende, ainda que fan- tasticamente. Ás escarificações, segundo Boyer, não devem chegar até as par- tes vivas. Não achamos rasoavel o seu conselho, por que para con- seguir-se fixar o principio virulento e destrui-lo, torna-se preciso que o cautério potencial ou actual não seja apagado pela escara. • Parece-nos racional, no caso em questão, o emprego dos anti- septicos preconisados por Mrs. Chomel e Bouillaud contra as febres de máo caracter; seria bom que fossem experimentados. Si se reconhecer que o carbúnculo é idiopathico, o tratamento externo jamais deverá ser regeitado, devemos adoptal-o; devendo consistir, como acima dissemos, no emprego da cauterisação, depois de um desbridamento multiplice. Infelizmente ás mais das vezes o resultado não corresponde á ex- pectativa, aos incansáveis esforços e penoso trabalho da parte d'aquel- le, que tão solicito deseja aniquila-lo. (*) O tratamento interno consistirá, como dissemos, em emissões sanguíneas alguma vez e mui poupadas, cordiaes, evacuantes e talvez os anti-septicos. SECCACDISCIMAS «MICAS. a CONVIRÁ SANGRAR A MULHER DURANTE A PRENHEZ? NO CASO AFFIRMATIVO, QUAL A EFOCHA CONVENIENTE? PROPOSIÇÕES. I. Na generalidade dos casos, d'esde que a mulher concebe, é sujeita a certos padecimentos solicitados, já pelas modificações por que passa outero em sua forma,volume eestructura,durante o tempo que percorre a prenhez suas diversas phases, até que chega o termo da expulsão doféto, já pela intima sympathia que desperta esse orgão sobre os outros; trazendo desordens em seo funccionalismo. II. Às perturbações occasionadas pela prenhez dizem não só respeito ás funcções da vida de nutrição como ás da de relação; d'ondo as le- sões da digestão, respiração, circulação, secrecções, locomoãço e innervação. III. Quando ás mulheres gravidas sobrevêem vomitos incoerci- veis ligados á plethora sanguinea, é indicada a sangria geral, so- bre tudo na primeira metade da prenhez. IV. O mesmo se deve dizer á respeito das congestões do utero liga- das a plethora serosa, porem com parcimónia. V. Seo emprego é igualmente vantajoso nas congestões sthenicas do utero. 30 VI. As vertigens, tonturas, zumbidos de ouvido, rubor súbito da face, calor espontâneo por todo o corpo, sobretudo li- gados á plethora sanguinea, reclamam a phlebotomia. VIL As hydropisias, que se apresentam no começo da prenhez, acom- panhadas de congestões uterinas, não contraindicam seu uso. VIII. As vertigens, hallucinações, syncopes, ligadas a um estado nervoso, contraindicção a sangria. IX. A inflammação das symphises da bacia, acompanhada de dores intensas, de reacção febril bem manifesta, reclama o emprego de emissões sanguineas locaes e geraes. X. O contrario devemos seguir, si os phcnomenos inflammatorios forem pouco manifestos. XI. As phlegmasias francas, que sobrevêem durante o curso da pre- nhez são frequentemente debelladas pela phlebotomia. XII. Devemos nos abster de sangrar durante a prenhez, as mulheres debeis, á não ser reclamado o seo emprego por alguns dos casos su- praditos. SECCAO DE SC1EWAS ACCESSORIAS, EXTRACTOS EM GERAL. PROPOSIÇÕES. I. A Pharmacia prestou relevantes serviços á Medicina, inventan- do os extractos. II. Extractos são medicamentos molles ou sêccos obtidos por ex- tracção de diversas substancias. III. Os extractos são vegetaes ou animaes. IV. Os extractos dividem-se em ethericos, alcoholicos, vinosos, e aquosos, segundo o vehiculo empregado. V. A eleição dos simplices, purêsa do vehiculo, applicação do ca- lor, o bom apparelho, e processo á seguir, são considerações essen- ciaes para o operador conseguir um bomextracto. VI . Os extractos são as preparações pharmaceuticas mais complexas em sua composição elementar. VII. Os extractos representam todos os princípios medicamentosos 32 encerrados no indivíduo, d'onde se houveram, conforme o vehiculo empregado. VIII. Os extractos encerram substancias communs á maior parte dos sêres organisados, alemdoseo principio activo especial. IX. Nem todos os extractos contêm extrativo. X. Os extractos, que contiverem em seos elementos um alcali são inalteráveis. XI. A presença de um alcali elementar em um extracto preserva atéaquelle que encerrar substancias sacharinasem sua composição. XII. A conservação dos extractos, sendo motivo de grande cuidado dos Pharmaceuticos, consegue-se-a, privando-os do ar, humidade e calor. 8ECÇAD DE SCIEMÍAS MEDICAS. OPIO, SUA ACÇÃO PHYSIOLOGICA E THERAPEUTICA. PROPOSIÇÕES. I. 0 opio é o sueco concreto fornecido pelas capsulas da papoula -(papaver somniferum,) planta dafamilia das Papaveraceas. II. Diversos principios têm sido extrahidos do opio, d'entre os quaes são os mais empregados em medicina: amorphina e a codeína. III. Em virtude dos variados phenomenos, que se manifestam no homem, depois da applicação do opio, deve se induzir com ra- são que os hemispherios cerebraes, medullas alongada e espinhal, e os plexos dos nervos ganglionares, soffrem modificações espe- ciaes. IV. As mais notáveis modificações que o opio e seos productos de- terminam nas funeções de nutrição, ou seja dado internamen- te, ou applicado pelo methodo endermico, são: sede, perda de ap- petite, difficuldade das digestões, desejos de vomitar, vomilos, cons- tipação, e alguma vez diarrhéa. X, A influencia dos saes de morphina sobre a secrecção urina- 34 ria dá ás mais das vezes lugar a diminuição da secrecção, e difficul- dade na excreção da urina. VI. Em compensação, ou em sentido inverso da secrecção urinaria, o opio e os saes do morphina, applicados pelo methodo endermico, provoca a secrecção exagerada da pelle, e, juntamente com esse re- sultado, apparece quasi sempre um prurido insupportavel. VIL A acção dos saes de morphina sobre o apparelho genital da mu- lher deve merecer nossa attenção, se é verdade, como suppõem Trous- seau cl Pidoux, que seu emprego determina não só augmento do fluxo catamenial, como fal-o apparecer prematuramente, e mes- mo em certos casos restabelecer, quando cessado d'esde algum tempo. VIII. E' inegável, que os saes de morphina produzem alguma mo- dificação sobre os apparelhos da circulação e respiração, quando ve- se, que com os suores, manifesta-sc augmento de calor, coloração mais viva da pelle, acceleração do pulso, e frequência maior dos movimentos respiratórios. IX. Em virtude das propriedades hypnoticas do opio, sua appli- cação ó na generalidade dos casos preconisada contra a insomnia; mas habituando- se o organismo a seu uso, faz-se mister muitas vezes elevar progressivamente a dóse, a fim de tal conseguir: o que se tor- na inconveniente. X. O opio ordinariamente mitiga a dôr, qualquer que seja aliás 35 sua causa: seo effeito é sobre o cerebro, que o torna menos apto a percebera sensação dolorosa. XI. E' um excellente meio o opio contra os accessos nervosos d'as- thma, e melhor ainda se torna associado as solaneas virosas, ou combinado com os antispasmodicos. XII. O opio é uma das melhores armas, de que dispõe a therapeutica para combater o vomito, mas não devemos esquecer que esta subs- tancia,d'esde que determina accidentes nervosos,é uma causa podero- síssima d'esse symptoma, XIII. Tem prestado valiosos serviços o opio contra a diarrhèa aguda e chronica: n'esta, tèm-se notado que seu efleito é temporário. XIV. Tem-se preconisado ultimamente com grande proveito o Lau- dano liquido de Sydcnham, (um dos preparados de mais voga,) con- tra a dysenteria chronica, antes do emprego da poaya em alta dóse, XV. E' vantajosa a applicação do opio con tra as dores uterinas,quer ellas sejam symptoma precursor d'abôrlo; quer sejam ligadas á uma phegmasia aguda ou chronica do utero, à um deslocamento ou ne- vralgia d'esse orgão. XVI. Paul Dubois tem empregado o opio com muita vantagem para prevenir ou suster o aborto, ou modificar e trazer á um typo normal as contracções pathologicas do utero, durante o trabalho do parto. 36 XVII. Em algumas gastralgias violentas e rebeldes, tem se applicado o opio com bom exito, um pouco antes da comida, com o fim de fa- zer cessar as dores, e tornar mais fáceis as digestões pervertidas. XVIII. Finalmente o opio, seos preparados, a morphina e seos saes têem sido ministrados ás vezes com bellos resultados em quasi todas as nevroses; principalmente contra o hysterismo, choréa, delirium tremens, tétanos e hydrophobia. HIPPOCRATIS APBORISMI. I. Omniasecundumrationemfacienti, et non secundam rationem evenien tibus, non aliud transeundum, manente eo quod ab initio visam est. (Sect. 2.a Aph. 52.) II. Sudor multas unà cum febribus acutis oboriens, damnandus. (Sect. 2.a Aph. 22 ) III. Perfrigeratio cum duritiâ, perniciosum. (Sect. 2a Aph. 44.) IV. Mulieri, menstruis deficientibus, è naribus sanguinem íluere, bonum. (Sect. 5.aAph. 33.) V. Si magnis et pravis existentibus vulneribus, tumores non ap- pareant, ingens malum. (Sect. 5.a Aph. 66.) VI. Ab hepatis inflammatione singultus, malum. (Sect. 7.a Aph. 17) BAHIA-TYPOGRAPHIA-CONSERVADORA-RUA DOS CAPITÃES N. 39. SAtivmUÀAa A (sÁMvnwvbyía AtmbA\a. efôcAúa t 3*jat\JàaAt At cMtAÂ- Avvta 5 At A* A86°í. ô'xitxÂAaAt At JWtAvàua Aa $\<Aúa A' At QaúwJiAa At Am. 'WAV. G. At (MatVia. t At (MtAiáma Aô At ©xAubva At Am.