f-1']/ ■% ■\ THESE DE CONCURSO DO ^2/^. ct^ha^nao JwÀ&néo (^éonéíic ^rãíii i rn ri r-N> J >>:»$ \ r\i DO ELEMENTO PERNICIOSO NAS MOLÉSTIAS THESE DE CONCURSO Á CADEIRA DE PATHOLOGIA GERAL DA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA / PELO SD*. Sbccmào <5>&%on<ío Ksfáonfetéo Oppôéltot 3a òecção 3e «cveucia* me3icaò 3a metuia, tfacvitdaDe BAHIA Oflicina litho-typograptifca de J. 6. Tourinho 1SI4 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA DIRECTOR O Exm." Sr. Conselheiro Dr. Antônio Januário de Faria. VICE-DIRECTOR O Exm.0 Sr. Conselheiro Dr. Vicente Ferreira de Magalhães. LENTES PROPRIETÁRIOS 1.* ANNO. ' Cons.Vlcente Ferreira de Magalhães)^aem ggl^ViffiiSE Francisco Rodrigues da Silva . . . Chimica e Mineralogia. Barão da Itupoan.......Anatomia descripliva. 2.» ANNO. Antônio de Cerqueira Pinto. . . . Chimica orgânica. Jeronymo Sodré Pereira.....Physiologia. Antônio Mariano do Boniflm . . . llotanica e Zoologia. Darão da Ltapoan.......Repetição de Anatomia descripliva 3.» ANNO. Cons. Elias José Pedrosa.....Anatomia geral e pathologica. ............. . Pathologia geral. Jeronymo Sodré Pereira.....Physiologia. 4.* ANNO. Domingos Carlos da Silva .... Pathologia externa. Demetrio Cyriaco Tourinho. . . . Pathologia interna. rnns MAihias Mnrpira Samnain \Partos, moléstias de mulheres peja- Cons. Mattuas Moreira s>ampaio . -j das e de meninos recém-nascidos. 5.° ANNO. Demetrio Cyriaco Tourinho. . . . Continuação de Pathologia interna iniP Antônio dp Frpitas (Anatomia topographlca. Medicina jose Anionio ae treuas.....( operatoria, apparelhos. Luiz Alvares dos Santos.....Matéria medica, e therapeutica. 6.* ANNO. Rozendo Aprigio Pereira Guimarães Pharmacia. Salustiano Ferreira Souto .... Medicina legal. Domingos Rodrigues Seixas ■ . . Uygiene, e Historia da Medicina. José AfTonso de Moura.....Clinica externa do 3.» e 4.» anno. Antônio Januário de Faria .... Clinica interna do 5.» e 6.* unno. OPPOSITORES José Alves de Mello.......\ IgnacioJosé da Cunha.....i Pedro Ribeiro de Araújo.....JSecção Accessoria. José Lgnacio de Barros Pimenlel. .V Virgílio Climaco Damazio . . . ./ José Pedro de Souza Braga . . . . Augusto Gonçalves Martins . . . J ..............JSecção Cirúrgica. Antônio Pacifico Pereira.....V Alexandre AfTonso de Carvalho . J Ramiro AfTonso Monteiro . . . .> José Luiz de Almeida Couto. . . ,/ Manoel Joaquim Saraiva.....)Secção Medica. Egas Moniz Sodré de Aragão . . A Claudemiro A. de Moraes Caldas. J SECRETARIO 0 Sr. Dr. Cincinnato Pinto da Silva. 07FICIAX. DA SECRETARIA 0 Sr. Dr. Thomaz d'Aquino Gaspar. A Faculdade não approva, nem reprova as opiniões emitlidas nas lheses que lhe são apresentadas. CONCURRENTES OS SRS. DRS. Wga& Monte Sodré tíe Aragão Mtanoel JToaqwim Saraiva e o autftór. PATHOLOGIA GERAL DO ELEMENTO PERNICIOSO NAS MOLÉSTIAS MALIGNIDADE I noção de malignidade e de benignidade applicada á sciencia e á arte médicas desde os tempos mais remotos figura ainda no quadro nosologico, a despeito dos pro- gressos ultimamente realisados pela anatomia pa- thologica e pela etiologia positiva. Os antigos servindo-se da linguagem geral na explicação dos phenomenos biológicos, cuja rela- ção entre causa e effeito lhes era desconhecida, attribuindo-os, nos casos mórbidos em que so- bresahi? a irregularidade dos symptomas, á um principio oííensivo e insidioso, crearam as mo- léstias malignas por sua natureza, e malignas por uma disposição secreta e particular, análoga aos caprichos dos homens. = 8 =- Já d'essa epocha se começa a ver a tendência do espirito humano para considerar o que então chamava-se malignidade como um elemento mór- bido proveniente de duas origens distinctas: uma geral, etiologica e variável com as theorias do tempo; a outra inherente ao caracter especial do doente. Assim foi que certas febres, a peste, o suor miliar, etc, fizeram parte do primeiro grupo, e no segundo eram comprehendidas as moléstias que tendo uma evolução mais ou menos regular e conhecida, apresentavam inesperada- mente symptomas graves e violentos, como de- lírio, suores profusos, fraqueza e precipitação do pulso, etc. Este duplo sentido (maligna protopathica e deuteropathica) sob o qual era geralmente ac- ceita a noção de malignidade, perdeu muito de sua importância quando pretendeu-se que as fe- bres pútridas, acompanhando-se ordinariamente de diárrheas, hemorrhagias etc. eram as únicas que mereciam particularmente esta denomina- ção, pelo facto de se attribuir a malignidade á corrupção dos humores; e de outro lado tam- bém se reivindicava essa qualificação para outras moléstias que se complicavam de symptomas in- sólitos, como ausência de crises, pelle secca, cons- tipação, etc = 9 = D'ahi começou o predomínio da ataxia como elemento de malignidade, contra o qual Syde- nham protestou attribuindo á ignorância dos mé- dicos a grande latitude que tomaram as moléstias malignas, e fazendo derivar o apparecimento de certos symptomas graves da má direcção thera- peutica. Mais tarde Huxham, alias um dos admi- radores de Sydenham, dizia também « que este não soubera tratar as febres malignas ». É pro- vável que o eminente clinico que mereceo o ap- pellido de Hippocrates inglez, encontrasse, não raras vezes, difíiculdade em distinguir as mo- léstias cuja gravidade dependia de uma influen- cia maligna (as quaes no seu modo de pensar não eram communs) das que se tornavam graves por motivos extranhos áquella causa. Em nossos dias dois authôres distinetos, que- rendo estabelecer uma differença radical entre a ataxia e a malignidade, propõem a seguinte dis- tincçâo: « A ataxia exprime uma desordem, uma incoherencia, uma falta de harmonia funeciona em geral, mas não traz necessariamente a idéia de uma terminação funesta. É um termo genérico que abraça tudo enada especifica. Pi malignidade, pelo contrario, é uma espécie de ataxia das func- ções vilães, cujo exercicio é actual e incessante- mente necessário á continuação da vida. Se a = IO == força que preside a estas funcções for atacada directamente em sua essência, de modo que a synergia ou a simultaneidade de acção que deve reinar entre ellas seja destruída, a existência in- sidiosamente ameaçada corre perigo imminen- te. )) (Trousseau et Pidoux. Therapeutique.) Esta distincção tem se tornado cada vez mais importante, a medida que os progressos da ana- tomia pathologica vão revelando no systema ner- voso a causa anatômica de muitas perturbações funccionaes, attribuidas outr'ora á uma influen- cia perniciosa, pelo facto de sua apparente anor- malidade. A adynamia também figurou e figura ainda por ventura no quadro symptomatologico das febres malignas; e sabemos como nestes últimos tem- pos o elemento typhico vae substituindo em par- te a toda essa creação da antigüidade. Mas, apezar da febre typhoidéa comprehender todas as va- riedades de uma espécie nosologica, conhecidas antigamente pelos nomes de—febre pútrida (Stoll), febre maligna nervosa (Huxham), muco- sa (Rcederer), biliosa (Tissot), adynamicí, ata- xo-adynamica, etc, entre ella e as outras pyre- xias que lhe podem assemelhar existe a mesma confusão que outr'ora se notava entre as suas variedades. É por isso que ainda vemos, entre = 11 = nós principalmente, uma febre remittente palu- dosa confundir-se muitas vezes em seus últimos períodos com a affecção que Bretonneau descre- veo com o nome de dothienenteria. E Leon Co- lin chega a dizer, que entre a febre remittente ou subcontinua perniciosa estivai e a febre ty- phoidéaha tal connexão symptomaticaque é im- possível ás vezes fazer-se o diagnostico; por que a remittente perniciosa identifica-se anatomica- mente com a febre typhoide'a em grande nume- ro de casos ( L. Colin — Traité des fievres inter- mittentes. p. 276) Em que consiste pois a malignidade ? Dolceus e Tissot não a definiram. O primeiro comprehendeu-a nesta expressão: oc nec enim leonis robur sed et serpentis astulia » O segundo comparou-a ao cão que morde sem ladrar. Barthez fcl-a consistir na resolução das forças radicaes do organismo; e Trousseau explicando o pensamento de Barthez, tendo também o cuidado de distinguir a resolução da oppressâo das forças, acrescenta « que o ataque directo da força que preside ás funcções vitaes é que constitue a ma- lignidade. » Quanto ao seu modo de producção, este illus- tre professor se exprime assim: * =• sem reflectir que o elemento primordial de sua theoria consiste na falta de reacção do organis- mo para supprir esse calor subtrahido com ra- pidez e intensidade. Além do que, no calor ar-- dente do Sirôcco, e nas águas do Oued, onde Armand foi banhar-se, existem também as con- dições que os inloxicacionistas l invocam para explicar o desenvolvimento do miasma, que pro- duz as febres climatericas. O facto das febres di- minuírem na rasão da altitude dos logares onde ellas são endêmicas, é um argumento que o au- thôr aproveita para a sua theoria—thermo-electro- hygrometrica; porque, diz elle, nas planícies e nos valles estas condições encontram-se freqüen- temente reunidas. Porem não refuta a opiniãojá sustentada por Jacquot, que em diversos paizes, onde se offerecem condições semelhantes, idên- ticas até, de temperatura e de hygrometricidade, encontram-se também difterenças de salubridade; e que o facto de serem as febres menos freqüen- tes nas montanhas, onde as oscillações da tempe- ratura são muito maiores e a electricidade muito mais abundante (de Saussure), explica-se mais facilmente pela não elevação dos miasmas até 1 É assim que Armand denomina os partidários da into- xicação. = 29 - essas alturas, c a neutralisação dos que lá che- garem pelo ozona, que existe em maior quanti- dade nas regiões elevadas ( Schonbein). Abraçar em uma eliologia commum, tendo por unico factor as influencias meteorológicas, a febre intermittente, a febre amarella, a cholera- morbus, a peste do Oriente, etc, sem produzir um argumento contra a doutrina parasitaria, que quer invadir os domínios da pathologia, e, com a seduclora hypothese de uma etiologia animada e especifica, supprimir a pathogcnia clás- sica das moléstias infecciosas e virulentas, é, pensamos, menospresar os trabalhos importan- tes dos micrographos modernos, que de certo mereciam ser lembrados pelo authôr de um livro, decorado com um titulo tão pomposo ! A subtracção do calor interno, dando logar á * perturbação do systema nervoso, que Armand e Oldham consideram como a origem da febre e de todas as alterações funccionaes que acompa- nham-n'a, é uma hypothese como muitas outras que elles combatem, e que não se apoia em fac- tos que não tenham outra explicação. II Se para uns a morte dos vegelaes é a origem das febres da malária, para outros esta causa re- side na vida, em uma vegetação especial, a ve- getação palustre. Boudin, principal defensor des- ta theoria, acredita que a diversidade da vegetação dos pântanos explica a diversidade de sua ma- nifeslação pathogenica. Estas idéias que tem al- guma analogia com as de Humboldt, na explica- ção da causa do typho americano, approximam- se muito das emitlidas ultimamente porSalisbury. Este adinitte no organismo a presença do vegetal cryptogamico produzindo as moléstias paludosas e outras. Boudin considera as emanações febrige- nas como uma inducção da chara vulgaris, do rhi- zophoro, do calamus, do antkoxantum odoratum, etc, apezar da formal contestação de Nepple, Montfalcon e outros observadores igualmente authorisados. Lemaire encontrando no ar dos pântanos da Sologne um mundo inteiro de microzoarios e microphytas, e obtendo alguns resultados do em- prego do ácido phenico nas febres paludosas, at- tribuio o desenvolvimento destasá acção daqucl- les organismos. Van der Corput conta que, quando estudante, soffrêo diversas vezes de febres intermittentes, por ter deixado em seo quarto de dormir algas e outros vegetaes palustres. Schnitz refere a seguinte observação. Um sá- bio que se dava ao estudo das cryptogamas, con- servou em seu quarto de dormir vinte quatro bandejas contendo oscillarias em via de cultura, e no cabo de alguns dias teve accessos de febre intermittente. O mesmo observador acrescenta que é possível que as cellulas esverdinhadas que se depositam nas paredes internas das campanas que cobrem as plantas, sejam palmcllas, e que es- tas sejam um grau inferior de uma alga mais per- feita. Gigot, fazendo passar o ar de localidades pan- tanosas atravez do ácido sulfurico, reconheceo nelle a presença de grande numero de corpos = 33 =- orgânicos vegetaes é animaes, aos quaes attrl- buio a causa do impaludismo. Hammond, animado também por suas expe* riencias, pensa que as affecções miasmaticas são devidas á inhalação dos sporos de certas plantas cryptogamicas. Bolestra, em 1869, lè no congresso medico internacional de Florença uma memória em que annuncia ter achado constantemente na água das Lagoas Pontinas, um microphyta granulado da espécie alga; e declara que está inclinado a crer que o principio miasmatico dos focos palustres reside nos sporos ou em princípios que elles contenham. Gigo Suard também por sua vez analysa os va- pores condensados dos pântanos, e encontra nel- les fragmentos de vegetaes, grãos de pollen, res- tos de insectos, infusorios, etc; e Le Diberder revive ultimamente a theoria de Lancisi e Razori, dando porem toda a importância á ovulução dos animalculos no seio da circulação. Massy, emCeylão, durante a epidemia de febre intermittente de 1865, encontrou no ar, n'agua dos poços, na ourina e na expectoração dos fe- bricitantes quantidade enorme de vegetaes mi- croscópicos. E á Salisbury que cabe a gloria de ter levado = u = mais longe estas investigações; e, realmente, se as suas experiências não disseram a ultima pala- vra sobre a questão, deram contudo um tal ou qual apoio serio á theoria parasitaria. Depois de ter examinado ao microscópio a se- creção salivar, a expectoração, os suores e as ou- rinas dos febricitantes, e de ter encontrado nes- tes productos muitas cellulas de uma alga do gênero—palmella,—observou também que es- tas plantas são constantes nos terrenos pantano- sos e nos vapores que os cercam. Pela conden- sação destes Vapores, o eminente professor pou- de analysar as emanações pantanosas em diffe- rentes alturas, e verificar que acima de 35 me- tros já é raro encontrar os corpusculos da refe- rida cryptogama, cuja elevação se faz durante a noite para tornarem a cair sobre a terra com o nascer do sol. Estas observações estão de accôr- do com este facto universalmente acceito: a in- fluencia dos pântanos se exerce sobretudo á noite. Suas experiências não se limitaram a estas ob- servações. Elle colloca uma porção de terra ex- trahida dos logares , ^tanosos, contendo quan- tidade das plantas já dcscriptas, na janella do segundo andar de uma casa situada á cinco mi- lhas de distancia do paiz pantanoso, em sitio on- de não havia exemplo de febre intermittente. No cabo de doze a quatorze dias, duas pessoas que habitavam uma câmara arejada por aquella janel- la, que se conservou aberta durante as noites, foram victimas de accessos bem caracterisados de febre intermittente terça; e as pessoas que oc- cupavam o pavimento ao rez do chão, nada sof- frerarn. O mesmo observador ainda refere o facto se- guinte de origem mais recente: « No Io de Novem- bro (1871), depois de ter mostrado em uma das mi- nhas lecções um vaso cheio de terra coberta des- ta vegetação, depositei-o debaixo da mesa de trabalho do doutor House. Dias depois o doutor começou a sentir dores nas costas e nos mem- bros, e estes symptomas foram logo seguidos de um accesso bem claro de febre intermittente. » Não admira o enthusiasmo que a Memória de Salisbury produzio na Inglaterra e sobretudo na Allemanha, onde as tendências são para vèr-se um parasita em cada moléstia que se estuda, se- não muitos, produzindo uma moléstia, a cholera por exemplo, que tem sido attribuida ao desen- volvimento de para mais de trinta organismos differentcs. Ha ainda um facto contra o qual se devem acau- lelar os corifêos do parasitismo: é a facilidade com l»uo clic; acham os germens de affecções as mais - ;{f> - diversas. O próprio Salisbury não só attribuo uma origem parasitaria á certas moléstias zymo- ticas, como o sarampo, senão também á■syphilis, á blennorrhagia, etc (L. Colin ). Cumpre observar que as conclusões de Salis- bury não são taes, que se não lhes possa oppôr fortes objecções; ao contrario, ellas ainda não foram selladas com o cunho da verdade scientifica, que só lhes poderá trazer a observação ulterior escoimada de toda e qualquer causa de erro. Quer o authôr que os sporos das palmellas sejam a causa das febres intermittentes, quando elle mesmo sempre encontrou de mistura com estas plantas differentes espécies de microphvtas e de microzoarios; e nós já vimos que Lemaire descobrira um mundo inteiro destes seres onja- nisados no ar dos pântanos da Sologne. Concedamos, com L. Colin, a realidade da exis- tência dos sporos das palmellas nas terras que Salisbury examinou, e até a presença de sporos análogos nos escarros e nas ourinas dos febrici- tantes; mas, de certo, isto não constitue uma prova de tão grande valor que nos convença da acção pathogenica destes corpos organisados. Richardson bebêo uma infusão contendo my- riadas de vibrions, e uma, duas e três horas de- pois, examinando algumas gottas de seu sangue, encontrou estes mesmos infusorios, cuja presença não o incommodou! (Vénassier). Demais, este transporte pelo organismo e esta eliminação das algas provocadorasda febre, pelos escarros o pelas ourinas, nos levariam porventura a admittir com Armand Gaulier o contagio das moléstias palustres, contra o qual protesta so- lemnemcntc a mais seria observação clinica. Quem tem, como nós, observado a febre inter- mittente em seus verdadeiros focos de infecção o fora deües, sabe que não é em distancia de cinco milhas da zona pantanosa, que se pôde dormir impunemente doze noites consecutivas ! « Eu admitto, diz Leon Colin, que as pessoas da experiência fossem intoxicadas realmente pela terra collocada na janclla; mas quem me provar;! que esta intoxicação foi devida aos sporos das palmellas, c não á terra mesma? » Aqui, os par- tidários da putrcfacçâo dos vegetaes também po- dem sustentar a sua theoria. Em suas excursões scientificas pelo estado do- Ohio, o doutor Salisbury com os doutores Effin- gen e Brcestlcr, inspirando partículas desprendi- das das plantas febrigenas dos terrenos pantano- sos, sentiram uma sensação particular e muito incommoda de secura na boca com aperto na- = :',s = garganta e na larynge, a qual tornando-se ardente propagara-se á mucosa bronchica. Nós residimos, ha muito tempo, cm uma lo- calidade onde a malária é endêmica, e recrudesce sob a forma epidêmica, em diversas epochas do anuo. Temos tido por diílerentes vezes accessos de febre intermittente, e innumeras occasiões tivemos de observar os seus efíeitos, desde as primeiras manifestações; porem nunca sentimos nem observamos em doente algum, esse pheno- meno de que falia Salisbury, produzido pelas plantas pantanosas. D'onde concluímos que, ou as nossas algas febrigenas não possuem as pro- priedades irritantes dos gemiasmas de Salisbury, ou as nossas febres paludosas são de origem dif- ferente; proposições que actualmente são insus- tentáveis. Se de um lado, Calvert e outros tem obtido excellentes resultados do emprego do ácido phe- nico nas febres intermiltentes, e dahi tem con- cluído com alguma segurança a natureza parasi- taria da malária; do outro, médicos distinetos, e entre estes um de New-York, cujo nome não no diz o authôr de onde extrahimos esta nota (L. Colin), tem sido infelizmente bem mal suecedi- dos em casos de idêntica natureza. = 3,9 = Na opinião de Arthur Sansun (de Londres) o Dr. Ilallier produzio um argumento poderoso contra a acção directa das palmellas na provo- cação das febres da malária. Estas plantas, diz Ilallier, pertencem á classe das algas que produ- zem chlorophilla e que carecem de luz, da qual provavelmente depende a existência dellas. Ora, acrescenta Hallier, é muito rasoavel que as pal- mellas não proliferem no interior do corpo, onde necessariamente não ha luz. O mesmo Arthur Sanson, depois de ter ana- lysado as diversas theorias que correm na scien- cia para explicar a natureza da malária, diz—I do not ihink toe can 'fail to come to amj other con- clusion than that the plwnomena of malária, like lho- se o f infectious diseases, are due Io minute particles of bioplasm; and that these are derived from, and idcntical in naturewith, the minute particles of vegetable protoplasm wich determine putrefa- ction. (The Antiseplic System, p. 193). O authôr admitte a presença do bioplasma (living matter) para explicar o desenvolvimento das febres intermittentes; mas, partidário da theoria de Beale, que se harmonisa com a theo- ria zymotica na explicação das moléstias infec- ciosas, estabelece entretanto uma differença pro- = 40 = funda entre estas moléstias e as produzidas pelo miasma paludoso, fundada na propriedade não conL»;;iosa destas ultimas; o que elle atlribue á qualidades especiaes das partículas do bioplas- ma. MISSINGPAGES 41-48 / MISSINGPAGES 41-48 «== 49 *= plicação dos instrumentos per meio dos quaes ella se manifesta, multiplica a variedade dos ty- pos individuaes, sob o mesmo typo de organisa- ção geral. O homem.confirma em alto grau esta lei de correlação: o numero, a delicadesa das peças do seu organismo, as relações sympathicas que as ligam entre si, comportam uma serie illi- mitada de matizes, quer na estruetura intima dos órgãos, quer no modo como eiles funecionam e se correspondem. Diversidade na unidade: a na- tureza apraz-se em resolver incessantemente este problema, e a espécie humana é o melhor teste- munho da inexgotavel originalidade de sua força produetiva; raças, nações, famílias, indivíduos, são ramos de um mesmo tronco, porem separa- dos, e que plantados em um outro solo e respi- rando outra atmosphera, vegetam, cada um a seu modo, e communicam á seus rebentos uma vitali- dade particular. » ( Michel Levy.) No terreno da pathologia a exhibição do ele- mento individual é tão commum, que todos os práticos sabem que não curam-se moléstias e sim doentes (Bouchut), e que a natureza não apre- senta e a arte não trata senão o indivíduo. (Re-i veillé—Parise.) Nas moléstias geraes que se manifestam sob a fôrma epidêmica, onde se pôde observar conjun- ctamente grande numero de casos da mesma na- tureza, ao lado do caracter universal do gênio pathologico, surge sempre a modificação indivi- dual, proveniente do modo de ser particular a cada docmte. Seja a cholera-morbus um exem- plo. Aqui vê-se a cholera mucosa, ali a serosa, acolá a asphyxica (paralytica de Jaccoud ) com todo o çeu cortejo de symptomas graves. Em uns predomina a algidez; em outros são as dejecções choleriformes que superabundam. Poder-se-ha talvez attribuir tudo isto á dose e á actividade do veneno somente; mas quantas vezes é indispen- sável soccorrer-se á receptividade individual para explicar-se tanta dessemelhança na forma clinica da moléstia! Vemos ainda na varíola um doente apresentar a fôrma discreta da erupção, outro a fôrma con- fluente, e alguns a varíola cobereníc (Niemeyer), que é, para assim dizer, o termo médio entre os dois typos precedentes ; sem fallar d'aquelles que uma disposição particular torna refractarios no meio da epidemia mais voraz. E se, nesta mesma moléstia, chamarmos a attenção para certo gru- po de symptomas, veremos ainda que em uns manifesta-se o delírio, n'outros as convulsões '■> n'estes sobrevem a dyspnéa, n'aquelles as he- raorrhagias, etc; e que*a rachialgia, symptoma constante na maioria dos casos, falha também algumas vezes. A que se deve attribuir a fôrma da moléstia na qual a erupção falha completa- mente, e que por isso os authôres denominam varíola sine varíola ? A pratica da vaccinação também nos offerece exemplos satisfactorios da influencia individual na elaboração do processo pathologico. Em uns as pústulas rebentam nos logares punctuados, com todos os caracteres da verdadeira pústula vaccinica; em outros ellas vem completamente degeneradas por um principio diathesico (siphy- les por exemplo), desenvolvendo-se ás vezes por toda a superfície do corpo; em alguns, final- mente, ellas fiHiam uma, duas e mais vezes. As experiências de Chauvcau, confirmadas pelas de Sanderson, cem as quaes provou-se que as qualidades contagiosas da vaccina residem nas partículas sólidas insoluveis n'agua, e não nas partes líquidas da lyrnpha, tendem a explicar até certo ponto os casos figurados em ultimo lo- gar, admittindo-se que a ponta da lanceta não levara, no acto da vaccinação, senão as partes liquidas da lyrnpha. lias os exemplos de reite- rada acção refractaria em um mesmo indivíduo são tão constantes e relativamente numerosos, que não se pôde deixar de invocar a resistência ;;2 individual na explicação de phenomeno tão cla- ramente manifesto. Todos sabem a disposição particular que crèa no organismo a influencia da edade, do sexo, dos temperamentos, dos hábitos, da herança, das pro- fissões, etc, e o modo como estas causas inter- nas intervém na producção das moléstias em ge- ral, e de cada symptoma em particular. Estudemos ainda um apparelho orgânico, o systema nervoso, por exemplo, que domina a economia inteira. Sem fallar dos phenomenos da intelligencia, o systema nervoso apresenta uma grande variedade de manifestações pathologicas,, quer em suas propriedades motrizes, quer em suas faculdades sensitivas. Entre a paralysia mais completa e as convulsões mais extensas, entre a analgesia mais profunda e a hyperestesia mais aguda, existe uma serie de gradações que variam com os diversos casos mórbidos, e com os-diffe- rentes indivíduos, em affecções da mesma natu- reza. A hysteria é um protèo que reveste mil fôr- mas, e que se pode dar como exemplo da volu- bilidade symptomatologica do systema nervoso, e do papel que nella representa o elemento indi- vidual. Temos tido occasião de vêr doentes, que não supportam a acção de um vesicatorio, senão com = 33 = um esforço inaudito, acompanhado de lamenta- ções as mais dolorosas; e no acto de cuval-os, so- mos obrigado muitas vezes a accudir á uma lipo- ihymia que sobreveio em meio da operação Ou- tros, porem, resistem calmos á todo esse processo doloroso, ou porque gozem de uma idiosyncrasia especial, ou porque, verdadeiros Sccevolas, resig- nados com a esperança de v. aa cura próxima, so- pitem pela força da vontade todo aquelle soffri- mcnto; como o joven Romano que animado dos desejos de salvar a sua pátria, não sentia a car- bonisação da mão! Agora referindo-nos especialmente ás febres da malária, vejamos o que ahi se passa com rela- ção ao indivíduo, no modo de producção da per- niciosidade. Guido Baceelli, professor na universidade de Roma, falia da maneira seguinte cm suas lecções clinicas. « Eu so vos fallarei da minha pratica; tenho visto creanças de peito ou recentemente desmamadas que, expostas sem defeza á um grau absoluto ou relativamente considerável da malá- ria, cabiam fulminadas por uma eclainpsia perni- ciosa que as levava ao túmulo. Vi também mo- ças delicadas, no período que precede e segue o tributo mensal, morrerem, sob a influencia da malária, de metrorrhagia perniciosa. Recordo-me - 84 = de um sexagenário robusto que dirigia trabalhos no campo e fatigava excessivamente a voz e a respiração; um dia leve um calefrio prolongado, e, conduzido á casa, abi succumbio á uma hema- ptyse perniciosa. Não ha muito que meu amigo o excellente doutor Mazzoni convidou-me para vêr uma joven partcira, a qual assistindo a um parto Iaberioso deprimipara, aterrou-se de tal modo com os gritos penetrantes da paciente e com o procedimento do marido, grosseiro e estú- pido, que, mal chegada á casa, foi atacada de uma nevralgia lombo-abiorAinul perniciosa; sem poder failar, soltando gemidos agudos, cila pare- cia ler soffrimentos semelhantes aos da partu- riente. E este peronismo febril, a despeito das preparações administradas, reappareceu segunda e terceira vez, até que, emíim, o remédio heróico triumphou completamente. » « Os accessos de febre perniciosa vem muitas vezes de assalto, depois das moléstias graves, antes mesmo que os doentes tenham deixado o leito. Foi assim que observei em minha irmã, no 15o dia de uma febre typhoidéa grave, ja em de- fervescencia, e começo de convalescença, acces- sos ameaçadores, precedidos de calefrio violento, e que só vieram a ceder á doses consideráveis do remédio. ■» = .).) = « Menos feliz foi a mulher de um dos meus dislinclos collegas; depois de ter triumphado de um typho terrível, no meio das alegrias da saúde renascente, ella foi victima de accessos cephalicos perniciosos de grandes intervallos; a temperatura desce abaixo da normal, os sympto- mas que já desappareciam, rebentam de novo com suores profusos, e a infeliz suecumbe ao terceiro acesso, a despeito do ame.- afervorado do ma- rido e de minha profunda amizade. Fiz tudo, em- preguei todos os meios para salval-a. As prepa- rações de quina administradas de todas as ma- neiras foram inúteis ! » «Eu já observe:, continua o professor romano, e descrevi a perniciosa endocardica em um ho- mem sujeito ás irritações rlemmatismaes do cora- ção; a perniciosa erga em uma duqueza que fa- lienva habitualmente a vista; a asthmatica, no curso da. qual o doente solíria accessos diurnos que já não tinha ha muito tempo; a syncopal em indivíduos gottosos que soffriam pczares profun- dos; a icterica e a sanguin -n em pessoas sujeitas ás hvparemias de fígado com stase hemorrhoi- dal e fíuxo espontâneo, que se davam aos estu- dos, ou tinham hábitos sedentários. Ainda mais, se em um território invadido pela malária apre- sentar-se uma nova endemia ou epidemia que 56 = occupe um domínio mais extenso, e lorne-se por isto mesmo a rasão individual do symptoma, os doentes succumbirão más depressa á primeira do que á segunda aflecção. »