w ^3fzj> )^-^<^$$ THESE) THESE QUE SUSTENTA EMN0VEMBR0DEI87 3 PARA OBTER O GRÃO DE DOUTOR EM MEDICINA PELA ,. FACULDADE DA BASI A CT&n/oweo c/fácls/ic/icaí/c/e* c/e (baàüa Filho legitimo de José de Araújo Castro e D. Virgínia Angélica de Castro Curar algumas vezes, aliviar muitas, consolar sempre: Eis nossa divisa. BOUCHUT & DKSPRKS. BAHIA Tyiioflfapliiu de ã. Cr. Touriuho. 1873 FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA. UP£X&«r i DIRECTOR O Ex.m0 Snr. Conselheiro Dr. Vicente Ferreira de Magalhães. OSSRS. DOUTORES l.*ANNO. matesiasque leccionam . . ,.„„„„..- f Physica em geral, eparticularmente em suas Cons. Vicente Ferreira de Magalhães . ^ applicaçõcs ã Medicina. Francisco Rodrigues da Silva.....Chimica e Mineralogia. Barão da ltapoan.........Anatomia descripliva. 2.* ANNO. Antônio de Cerqueira Pinto.....Chimica orgânica. Jeronymo Sodré Pereira. ... - . Physiologia. Antônio Mariano do Bomnm.....Botânica e Zoologia. Barão da ltapoan.........Repetição de Anatomia dcscriptiva. 3." ANNO. Cons. Elias José Pedroza......Anatomia geral epathologica, José de Góes Sequeira.......Palhologia geral. Jeronymo Sodré Pereira......Physiologia. 4.' ANNO; Cons. Manoel Ladisláo Aranha Dantas . Palhologia externa. Deinelrio Cyriaco Tourinho.....Palhologia interna. ■*. • .* íu- u .„c«m„,4/v v Partos,moiesti»de mulheres pejadas e de meninos Conselheiro Malhias Moreira Sampaio j recemnascidos^ ».• ANNO. Demetrlo Cyriaco Tourinho . . . : . Continuação de Palhologia Interna. , . _ ., . í Anatomia topographica, Medicinajoperatorla, José Antônio de Freitas.....s .\ apparelhosT Luiz Alvares dos Santos......Matéria medica, e therapeulíca. 6.* ANNO, Rozendo Aprigio Pereira Guimarães . . Pharmacia. Salustiano Ferreira Souto......Medicina legal. Domingos Rodrigues Seixas.....Hygiene, e Historiada Medicina. JosèAfTonso de Moura........Clinica externa do 3.* e 4.» anno. Anlonio Januário de Faria......Clinica internado 5.° e 6.'anno. Ígnac"io Jos*é da Cunha.......I _ Pedro Ribeiro de Araújo......) Secçao Accessoria» José Ignacio de Barros Pimenlel. . .1 Virgílio Clymaco Damazio...../ José Pedro de Souza Braga.....) Augusto Gonçalves Martins...../ _ Domingos Carlos da Silva......> Secçao Cirúrgica. Antônio Paciflco Pereira......\ Alexandre Affonso do Carvalho . . .) José Luiz de Almeida Couto. . . . -j Manoel Joaquim Saraiva......f Ramiro AíToüso Monteiro......> Secçao Mediea. Egas Carlos Moniz Sodré de Aragão . ,\ Claudemiro Augusto de Moraes Caldas ./ O Sr. Dr.Cincinnato Pinto da Siha. dííjbjüil aja eisiivürnaii O Sr. Ilr. Tltoiuaz «1'Aquino Gaspar* k Faculdade não approva, nem reproya as opiniões emiltidas nas theses que lbe são apresentadas^ A MEOS QUERIDOS PAES OS SENHORES JOSÉ 0'ARAUJQ CASTRO . D. VIRGÍNIA ANGÉLICA OE CASTRO Feliz, n'este momento, por vós tão extremosamente desejado, eu sinto minh'alma s'elevar do júbilo ao extasis, vendo minha victoria sanctificada por vossas bênçãos que- ridas. A MEO PRESADO TIO, CUNHADO E VERDADEIRO AMIGO O ILLUSTRISSIMO SENHOR Já que a vossa bondade e os vossos disvellos me erguerão a aquella altura em que vos achaes elevado pelo vosso mérito, acolhei as flores de rainha coroa de Medico, que Cambem exhalão o perfume da gratidão. Amor fraternal. 4 MEO TIO E BOM AMIGO 0 SENHOR cJloiitoiuo í) QADtail 10 \L/CltibtO ô Muita estima e reconhecimento. Retribuição. c. A EXCELIENTÍSSMA SENHORA .©. M A R 0 A LA ©-B-.R ® ■& © 1 A IL RS I D ® A e sua eicellentissima família Pequeno tributo de sincera amisade. A MEOS AMIGOS os senhores TENENTE-CORONEL AUGUSTO FRANCISCO DE LACERDA JOAQUIM FRANCISCO DE LACERDA Lembrança. & $0808 08 MM® A38SQ03 Testemunho do affecto que vos consagro. A MEOS COLLEGAS DOUTORANDOS Adeos i >1»*~~- RESIMEl! DIETETICO HÁS MOLÉSTIAS AGUDAS E CHROITICAS ÍNTRODUCClO S idéas que a medicina moderna possue sobre a palavra dieta, não são aquellas mesmas que lhe forâo legadas pela remota antigüidade. Esta palavra tem sua origem de um verbo grego, que quer dizer:—eu prescrevo um regimen de vida, eu faço viver. No entender de Galeno a dieta comprehendia todas as influen- cias que podem obrar sobre o homem são ou doente; para elle a hygiene e a therapeutica estavão incluídas na dietetica. E ainda hoje esta accepçâo dada á palavra dieta parece dominar na Allemanha, onde existem—uma dieta conservadora, uma dieta preservadora, uma dieta cu- rativa, uma dietetica do apparelho auditivo, do larynge, do estômago, etc. No espirito do povo dieta é synonimo de abstinência: estar em dieta é para elle, estar prohibido de alimentação. A medicina de França, e de outros paizes cultos emprega esta palavra para designar o emprego raciocinado e methodico, ou a interdicção dos alimentos: a dietetica é a hygiene alimentar, é a therapeutica alimentar, porque a therapeutica muitas vezes acha na alimentação recursos para preencher certas indicações prescrevendo tal, ou tal regimen, e prohi- bindo outros. A dieta láctea, vegetal, a dieta se.cca, a privação dos fecu- lentos são regimens que tornão-se meios therapeuticos destinados a lutar com a moléstia. Estes dous últimos modos de interpretar a dieta não são modernos. Celso distinguia duas sortes de dietas: uma em que o doente não recebe alimento algum; outra em que elle recebe, porem de accordo com a arte. No reinado da medicina antiga o estudo da dietetica alimentar obteve a importância, que ligamos aos agentes therapeuticos da medicina hodierna, e esta preponderância se explica não só pela deficiência do diagnostico de então em conseqüência da penúria de meios investigadores, pelo esta- do empyrico e confuso de sua matéria medica, como também pela espé- cie de culto que os médicos antigos rendião á natureza medicadora. Hip- pocrates, emíim, que pode ser considerado o tundador da dietetica medi- ca, bem deixa ver a pouca attenção que os antigos prestavão á matéria medica como meio curativo, quando diz: « Mais convém respeitar as ope- rações espontâneas do organismo, considerando que ellas são tendências conservadoras que é preciso dirigir, auxiliar, e até utilisarmo-nos d'ellas, do que perturbar esse trabalho providencial com uma medicação impro- ficua; é proveitosa para o enfermo a submissão do raciocínio á autocracia da natureza.» Entretanto uma methodisação mais scientifica e adiantada da matéria medica, o aperfeiçoamento dos meios diagnósticos, uma desconfiança ex- cessiva n'esse trabalho, (que os antigos chamarão providencial) o qual é empregado pela natureza nas diversas evoluções mórbidas, inspirarão mais tarde a razão medica a quebrar o jugo d'essa submissão, e intervir nas operações pathologicas. O orgulho scientifico pareceu então brilhar na face da arte de curar; os medicamentos enpregarão-se com uma an« ciedade febril e delirante. Esta reacção, como todas as que tem apparecido na arena das scien- cias médicas, não poude sustentar-se sem ultrapassar os limites da pru- dência; mas, pois que o embate das idéas lampeja muita vez a luz da verdade, ella serviu incontestavelmente para guiar os práticos a portos mais seguros. A sciencia moderna procura conciliar as idéas da eschola de Cos com as da sua antagonista, tirando materiaes de uma e de outra, e fundindo-os para formar um só ediíicio. Mas, para que a dietetica chegasse a essa altura de aperfeiçoamento o que não foi preciso ? Procuremos na historia dos regimens apreciar as modificações graduadas que lhe íorão imprimindo os tempos, que tem corrido desde Hippocrates até hoje. = 5 = A doctrina do pai da medicina, a que primeiro reinou na arte de cu- rar,—já nós a conhecemos—foi creação d'esse gênio. A eschola dogmática, fundada por Dracon, Thessalo e Polybo,. susten- tou, e procurou perpetuar as idéas da eschola grega; foi ella que primei- ra escreveu uma obra sobre — Regimen salubre, de accordo com os seus antecessores. E Platão, que nas suas indagações philosophicas também pizava o terreno medico, repetiu as leis estabelecidas pelos que lhe pre- cederão. A eschola d'Alexandria, não contentando-se com as noções vagas que tinha sobre a anatomia e pratica de operações cirúrgicas, estudou mais minuciosamente o organismo humano em sua parte material, e o estudo curioso d'esta sciencia quasi que a distrahiu completamente da parte die- tetica no tratamento das moléstias. Asclepiades, da Bithynia, exhumou do esquecimento em que estavão os preceitos da dieta antiga; demonstrou as vantagens da therapeutica baseada sobre a hygiene; prescreveu, com um rigorismo magistral, regimens particulares, convenientes ás diflerentes affecções; exaltou as propriedades tônicas do vinho; mostrou o papel hygienico da gymnastica medica; offereceu á arte de curar um recurso de que tanto ella hoje se vale: a hydrotherapia. Elle mostrou-se o maior apologista da hygiene therapeutica d'essa epocha. Segue-se a eschola de Ccelius Aurelianus e Themison, chamada também methodicaf a qual insistia pela applicação de meios curativos tirados do regimen alimentar nas moléstias chronicas. Animada nos regimens, essa eschola instituiu a base d'esse tratamento designado por ella com a denominação de Cyclo analeptico. Este methodo foi igualmente chamado systema ou regra cyclica. Aresteo, de Cappadocia, continuou os estudos das dietas, e para dar um retoque mais vivo ao quadro de preceitos sobre este assumpto eslabelecidos pela eschola de Cós, achou em Galeno um fervoroso imitador. A propaganda scientiíica dirigiu-se á Arábia ; em breve Khazés, d'Ali, d'Avicennes reproduzirão em seus escriptos, e fizerão vigorar a dietetica hippocratica com todas as suas regras adaptáveis a este ou áquelle estado mórbido, mostrando ao mesmo tempo a influencia que sobre o regimen exercem o clima, os hábitos, etc. Chegou a idade media. As artes, como as sciencias, dominadas por um monopólio estulto, forão clausuradas nos estabelecimentos monasti- = 6 = cos, e estudadas com affinco. A eschola benedictina de Salerno oc- cupou-se particularmente dos estudos hygienicos, e mais uma vez as tradições da dieta hippocratica tiverão de ser lembradas, porem debaixo de uma expressão mais adiantada. De xofre esses lampejos das doctrinas da eschola grega, aperfeiçoadas pela de Salerno, forão sepultados nas trevas do esquecimento pela alchimia e astrologia, que por sua vez tiverão seu império na arte de curar, postergando a observação pratica pelas relações chimericas de influencias sideraes, e os meios therapeuticos pelas praticas mysticas. Mas, como o luzeiro vivo e brilhantissimo da sciencia cresta todos os rebuços que sobre ella pretendão lançar o charlatanismo e a vã impostura, viu-se, apezar da tendência do espirito humano para o mysterioso, brilhar no meio dos destroços das theorias mysticas e das superstições cegas o pharol que mais tarde devia de conduzir o medico ao conheci- mento da verdade. Arnaud de Villeneuve, Raymond Lulle, Gentilis de Foligno levantão o estandarte da revolução scientiíica, que no século XVI imprimiu tanto impulso aos estudos positivos da anatomia e da cirurgia, e n'esse mesmo tempo instituiu as regras de uma therapeutica tirada dos meios hygienicos. Não parou ahi o tropel das theorias. O espirito do homem da sciencia, no desespero de curar a moléstia, procura penetrar por todos os meios o abysmo insondavel do organismo são ou doente; procura, por assim dizer, surprehendel-o, prescrutal-o no segredo do seu funccionar normal e pathologico; mas baldados são sempre os seus esforços quando pretende o conhecimento da essência da vida. Surgirão no fim da idade media as escholas chimiatrica e mecânica, as quaes apresentarão reformas á therapeutica antiga de accordo com os seus princípios. A eschola chimiatrica, representada por Paraselso, Van-Helmon, Fran- cisco de Boè, acreditava que todos os phenomenos do organismo, phy- siologica ou pathologicamente fallando, erão devidos á combinações chi- micas ; ella não via n'esses phenomenos senão fermentações, distillações, effervescencia dos humores etc. De accordo, pois, com essas idéas, só se prescrevia ao doente preparações chimicas ou pharmaceuticas ; a dieta foi esquecida; as leis do regimen hygienico forão postergadas pelos antído- tos chimicos. Assim que o medico procurava neutralisar os ácidos, quando suppunha que elles abundavão no organismo: destruir os fermentos, os princípios acres erão outros tantos appellos da sciencia então reinante para os anlidos chimicos. Pelo abuso das preparações pharmaceuticas no tratamento das molés- tias a palavra chimiatria, que designa essa eschola, é synonima de poly- pharmacia. A eschola mecânica ou antes iatro-mecanica tem o seu berço na Itália. Para ella a saúde não era mais do que o equilíbrio das forças regidas pela hydraulica e mecauica; a moléstia era a ruptura d'esse equilíbrio. Essa eschola, prototypo do materialismo em physiologia e em medicina, que negava aos tecidos anatômicos, vegetaes e animaes, propriedades differentes das dos corpos brutos, imperou na sciencia no fim do século XVII, e também por sua vez desviou a attenção da dieta. « Entretanto admira, diz Fonssagrives, que as escholas chimica e me- cânica, que só vião no organismo, são ou doente, phenomenos chimicos ou mecânicos, não procurassem estudar aprofundadamente o papel do re- gimen alimentar, que muito influe sobre esses phenomenos, e se esque- cessem d'esse modificador de todos os dias. » Em breve tornou-se urgente restituir ao organismo seus direitos con- testados, e expellir da physiologia as usurpações grosseiras da physica e da chimica de então. A grande alavanca da sciencia não poude por mais tempo sustentar em um de seus braços o pezo d'esse materialismo rude; foi necessário para o equilíbrio scientifico a troca de exagero por exagero. Stahl instituiu o animismo; para explicar os phenomenos da vida physio- logica e mórbida fez intervir nos corpos organisados, considerados como inertes, a alma por principio de acção, por causa primordial, repellindo todas as luzes fornecidas pela physica, chimica, anatomia, etc. Desde então a physiologia consistiu no estudo dos phenomenos vitaes considerados em si mesmos, independentes da textura dos órgãos, e das acções chimi- cas e physicas que ahi se passão. Para a eschola animista este ser im- material, imaginário, por Stahl chamado alma, preside a todas as func- ções da nutrição, e sua missão é manter a integridade das funcções que tendem a perturbar-se por causas morbificas: da luta que se estabelece entre os esforços d'essas causas e a resistência da alma, é que nascem os phenomenos mórbidos. Tal foi a concepção d'este grande homem, deter- minada pelas aberrações á que a chimiatria e a iatro-mecanica conduzirão o espirito medico. Esta doctrina que procurou tão ousadamente levantar o dogma da au- tocracia da natureza, da mesma sorte que a sua antagonista não estudou os regimens alimentares; os médicos dessa eschola confiavão tudo da expectação, mui poucas vezes recorrião aos agentes therapeuticos, e estes em nunriero muito limitado. O redemoinho das theorias médicas, que se chocarão no fim do século XVII, acarretou para si os espíritos pensadores; a eschola materialista, como a animista procura cada uma sustentar a sua doctrina; o fumo des- prendido d'essa effervescencia scientifica sepultou nas trevas do passado os preceitos dieteticos, e o homem doente gemeu sob o pezo d'esse duro exclusivismo. Foi concedido a Sydenhan acalmar essa ebulição de theorias. Os es- píritos fatigados procurarão refocilar-se do cansaço, e entregarão-lhe a resolução do problema; e esse homem, que n'essa epocha foi para a medi- cina moderna o que o enviado de Cós fora para a medicina antiga, pro- curando inspirar-se nas glorias de um passado muito remoto, restabeleceu as doctrinas da eschola grega desprendendo-as do humorismo em que se achavão envolvidas. Foi considerado como dogma scientifico o conselho de Hyppocrates: Respeitar, até certo ponto, as operações espontâneas do organismo, e a potência attribuida aos modificadores hygienicos para con- duzir a economia ao typo do seu funcionalismo normal, A medicina do século passado conservou manifestamente esta direcção salutar. A diversidade dos systemas médicos; os progressos notáveis que realisou a therapeutica medicamentosa n'esse século, que se assigna- lou por acquisições preciosas, como são: a ipecacuanha, o stramonio, o colchico, a água de louro-cereja, a digitalis—não forão capazes de des- viar a attenção dos médicos dos estudos dieteticos. Pelo contrario, diz Ribes: as obras de medicina do século XVIII são notáveis pelo cuidado extre- mo com que formulão as regras dieteticas de accordo com os princípios professados. As doctrinas que mais estiverão em voga n'essa epocha, forão a de Brown e a de Broussais. Analysemos o regimen alimentar que cada uma d'ellas prescrevia aos enfermos, A excitabilidade, é a base na doctrina de Brown. Segundo este svste- ma, todas as causas capazes de obrar sobre o corpo vivo e de determinar o exercício de suas faculdades são potências excitantes. A excitação é nada mais do que o resultado da acção d'essas forças sobre a excitabilidade; si a excitação desapparece, da-se a morte; si ella é conduzida alem, ou. aquém dos limites normaes do organismo, a saúde é compromettida. Es- ta resulta, pois, do perfeito accordo da acção das potências excitantes com a excitabilidade do organismo. Si essa excitação é muito forte, en- torpece ou esgota a excitabilidade; si muito fraca, ha o acumulo de ex- citabilidade nos órgãos. D'ahi duas classes de moléstias que envolvem todas as enfermidades humanas: por excesso de excitação, moléstias sthe- nicas; e por falta de excitação, moléstias asthenicas. Desde então as moléstias não differião sinão pelo gráo de excitação, e todo tratamento consistia em augmentar ou diminuir a acção das potên- cias excitantes, em restabelecer o equilibrio entre a excitação e a exci- tabilidade. Brown, pois, foi forçado por seus princípios a admittir que as moléstias por falta de excitação erão muito mais freqüentes, visto como em quasi todas ellas havia queda das forças orgânicas. E de accordo com esta doctrina o medico empregava os estimulantes continuada e abusiva- mente para remediar a fraqueza. Tal foi a therapeutica dominante na Inglaterra, Allemanha e Itália, na epocha em que o brownismo se propagou. Conseguintemente a dieta, que acompanhava pari passu, ou melhor ainda, fazia parte da therapeutica, soffreu também alterações similhantes. O regimen tônico e estimulante era mui freqüentemente empregado; a abstinência quasi que foi riscada do quadro das dietas; e entre os ele- mentos do regimen foi sem duvida alguma o álcool o mais usado. A dieta alcoólica achou grande apoio nos médicos inglezes; e si, como pen- sa Behier, a eschola de Broussais não oppuzesse algumas barreiras ao emprego immoderado do álcool, elle resumiria em si ioda a therapeutica ingleza. Ainda n'este século foi o Dr. Todd o promotor ou, antes, o reno- vador d'esse regimen incendiario; elle o aconselha na pneumonia, na erysipela, na diphtheria, na infecção purulenta, no rheumatismo articular agudo, e com muita insistência, na phthisica pulmonar. Quanto ao emprego do álcool no tratamento d'esta ultima affecção não perdemos occasião de repetir a opinião de Fonssagrives em sua obra sobre a therapeutica da phthisica pulmonar: Helas ! Válcool, qui decime et abrutit les populations, nous devrail bien une compensation pareille; mais ce serait une purê illusion que d'y compter. A doctrina de Broussais, que teve immensa influencia sobre a thera- peutica, também não deixou de procurar no regimen alimentar recursos que lhe auxiliassem na medicação antiphlogistica. As emissões sangüíneas, = 10 = as bebidas emolientes e temperantes — erão prescriptas a par da mais severa abstinência. Tal era o regimen debilitante de Broussais, ao qual elle attribuia um eminente poder antiphlogislico. O contra-stimulismo, emfim, considerado como doctrina, é o fundo da theoria de Brown com a pratica de Broussais. Como Brown, os médicos italianos admittem as diatheses sthenica e asthenica; como Broussais, elles vêem a indicação dos debilitantes ou contra-stimulantes com muito mais freqüência que os stimulantes da eschola ingleza. Perante o contra-stimulismo o regimen debilitante ou antiphlogistico de Broussais (a abstinência ) é considerado um contra-stimulante. Eis as mudanças que a dietetica tem soffrido em suas applicações, segundo os differentes modos de considerar a moléstia. As herezias revolucionárias que se produzem nas sciencias, não nos agitão em vão; ellas deixão sempre em nosso espirito alguma cousa de fecundo em sua passagem. E, de facto, esta verdade acha inteira appli- cação á hygiene therapeutica dos alimentos. Cada eschola medica que surgiu, considerasse como entendesse o organismo são ou doente, legou á medicina moderna meios de que muito ella hoje se vale nas suas múltiplas e variadas applicações; e em relação aos conselhos cheios de sabedoria e prudência de Hippocrates em matéria de regimen dietetico, se pode dizer que essas escholas forão outros tantos filtros onde ellas se tem despojado dos andrajos da sciencia da antigüidade. A dieta hippocratica de todo não cahiu, os auctores modernos a louvão e admirão. Litré, Ribes, Fonssagrives, Bouchut, Levv, Hirtz e Benhein conseguirão consorciar a physiologia, a therapeutica e a pathologia moderna com esse regimen, soffrendo elle algumas modificações. Estudemos a dieta tal como ella deve ser prescripta perante a medi- cina moderna. = 11 = DOS REGIMENS De même que Ia solidilé d'un édifice depend à Ia fois de Ia sagacité de 1'ai'chitecte et de Ia nature des inateriaux qu'il emploie, de même aussi Ia perfection de 1'édifice organique est subordonnée à Ia nature des materiaux ali- mentaires, et au bon usage que Ia vie en fait. Fonssagrives. O estudo dos seres organisados, colloca o observador em presença de dous importantes phenomenos da vida:—o primeiro consiste nas perdas incessantes, que soffre a economia; o segundo, na reparação çTellas. O agente, que principalmente se incumbe de fazer face, ou reparar essas despezas é, sem duvida, a alimentação. Quando as funeções do organismo humano são regidas pelo estado physiologico, os princípios alimentares são destribuidos com uma econo- mia industriosa naquelles pontos onde as necessidades se fazem sentir: no estado mórbido, porem, a natureza perde de alguma sorte o instineto das necessidades reaes da nutrição; desapparece então essa força, que a medicina grega chamava intelligencia, e que para a physiologia moderna é nada mais que a assimilação, e o organismo manifesta todos os seus actos, suas funeções por completas desordens. É pois, no meio d'essa anarchia funccional que a arte deve exercer o poder de uma dictadura absoluta, sem o qual o organismo caminha para o suicídio pelos próprios esforços que o devião conduzir á salvação. Certamento, nada mais difficil do que a direcção que o Medico deve dar ao regimen alimentar dos doentes; não ha therapeutica mais perigo- sa do que aquella que é fornecida por este modificador de todos os dias, cujos effeitos apparentes, muitas vezes, não chegão ao nosso conheci- mento senão depois de algum tempo, e que pode mudar o estado de toda nutrição (Fonssagrives). A physiologia hodierna nos ensina que a alimentação deve de ser mix- ta para que satisfaça a todas as exigenicas da nutrição: tal é o regimen hygienico do homem são, tal o do homem doente na maioria dos casos; po- = 12 = rem moléstias ha, em que o Medico, pouco ou nada esperando da thera- peutica medicamentosa, precisa de elevar o regimen alimentar á altura de uma medicação, e de uma medicação enérgica. N'estas condições o doente se submette a um regimen particular, ou exclusivo, que tem por fim, como o nome indica, reduzir a nutrição dos doentes a um só alimen- to, ou a uma só cathegoria de alimentos, tanto quanto permittem a tole- rância do estômago e as exigências da economia. O numero d'esses regimens tem sido diversamente multiplicado, con- forme cada um o comprehende; nós adoptarnos a seguinte divisão por entendermos que todas as outras se acham incluídas n'ella: 1.°, regimen negativo ou abstinência;—2.o, regimen animal;—3.o, regimen vegetal;— 4.o, regimen lácteo. Seja-nos permittido dizer em poucas palavras o que ha de essencial sobre cada um d'esses regimens como noções preliminares a nosso tra- balho. Regimem negativo ou abstinência — O homem doente condemnado a esta dieta, a tolera 20 e 30 dias nas affecções agudas, em que os tecidos constituintes do organismo são comburidos pela febre, e nas affecções chronicas de certa cathegoria, como, por exemplo, a catalepsia, que colloca o paciente em condições de tolerância, análogas á que mostrão os animaes hibernantes. O Jornal de Medicina de Vandermonde refere um caso de uma moça hysterica que passou seis mezes (!) sem receber alimento algum, nem mesmo água. É inútil advertir que durante esse tempo todas as excrecções forão suspensas. Em um outro caso de hysteria, no primeiro ataque a abstinência prolongou-se por 34 dias; no segundo, porem, por 50. i São factos esses excepcionaes, é verdade, mas que mostrão que a vida, á similhança de uma lâmpada em que mingua o óleo, mas cuja flamma de todo não se esvae, pode sustentar-se em authophagia por um tempo, que só é determinado pelo império capri- choso dos differentes estados mórbidos, das idiosyncrasias, das consti- tuições, dos temperamentos e das idades. A abstinência alimentar tem por si só um grande poder medicamen- toso : negando á nutrição os materiaes com que ella se mantém e repara, esta dieta força a economia a procurar em si mesma os elementos de Fonssagrives — Hygiene alimentaire. = 13 = renovação orgânica, e a obriga do mesmo modo a transformar a causa perturbadora do physiologismo orgânico em sua natureza intima a ponto de eliminal-a. Posto que a alimentação não s^ja de todo privada no regimen diete- lico de que falíamos, todavia está muito aquém de satisfazer as exigên- cias da nutrição, e então deve o Medico collocar o seu doente em uma distancia prudente do escolho formidável á que conduz o abuso d'esse regimen, aliás tão precioso, — queremos fallar da inanição, que, no pen- samento de Chossat, é a causa de morte que caminha pari passu e silen- ciosa em algumas moléstias, em que se não permitte a alimentação pedida pelo enfermo. A inanição chega ao seu termo mais cedo ou mais tarde do que a moléstia que ella acompanha ; no segundo caso pode mesmo tornar-se a moléstia principal, sendo no primeiro apenas um epi-phenomeno. Ella determina uma ordem de symptomas, que se confundem com os do estado mórbido dominante, apezar dos louváveis esforços em que se tem empenhado os pathologistas para distinguil-os. Analysemos, com Marotte, os phenomenos da inanição, e vejamos si pode haver distincção possível entre elles e os que se filião a muitas moléstias. A seccura da pelle e das mucosas; a diminuição progressiva do volume do corpo, principalmente das massas musculares; o cheiro pútrido do hálito e das secreções ; o vomito, que reconhece por causa occasional, algumas vezes, o uso prolongado ou antes, o abuso das tisanas emolientes e a abstinência dos alimentos, dupla causa que des- envolve um erethismo do estômago por atonia; perturbações intestinaes, entre as quaes a diarrhéa colliquativa occupa o primeiro logar; emfun a depressão das três funeções mais importantes da economia: a calorifica- ção, a respiração, a circulação; o delírio precedido ou complicado de adynamia — são os symptomas da inanição. Esta exposição rápida de symptomas, enunciada pelo auetor das Memórias dos Estrangeiros sábios, mostra a extrema difíiculdade, senão impossibilidade de distincção entre os phenomenos da inanição e os de numerosíssimos estados mórbidos ; para que elles adquirão algum valor diagnostico será preciso que a moléstia primeiro se tenha de todo terminado. Quando, por exemplo, na febre typhica a convalescença se prolongar em razão ou das lesões locaes, ou de um período infeccioso = 14 = consecutivo ao da evolução typhica propriamente dicto, como discernir o que pertence á inanição do que pertence ás complicações, do que pertence á lebre,que se prolongou, ou voltou depois d'alguns dias de convalescença? A sciencia, se apropriando das bellas investigações experimentaes de Chossat sobre a inanição, nos ensina que a diminuição do pezo do corpo c uma conseqüência forçada da inanição, e que a vida cessa quando o animal tem perdido 4/io do seu pezo primitivo, exceptuando os animaes muito gordos, que só morrem quando tem perdido metade do peso: o sangue soffre uma diminuição notável em seus elementos sólidos, a quantidade d'agua, porem, augmenta, e d'ahi a tendência extrema que apresenta o inanido ás hemonhagias: a lympha augmenta em principio para depois diminuir gradualmente, torna-se mais concreta e coagulavel: a diminuição atrophica dos órgãos segue uma progressão própria a cada um d'elles, a qual para alguns se afasta da attenuação geral do corpo.— Taes são as modificações staticas que Chossat encontrou nos animaes, que condemnou á inanição. As modificações funccionaes que sobrevém ao uso prolongado da dieta negativa não são menos importantes ; entre ellas apontaremos a diminuição gradual do appetite e de todos os suecos digestivos, a diarrhéa, a super-actividade da absorpção intersticial, a fraqueza do pulso e dos movimentos cardíacos, que se nota quando o paciente está em repouso, mas que se denuncia o contrario quando se lhe faz executar um movi- mento, notando-se que o sangue se agita nos vasos como se ondulasse em tubos inertes, e o pulso que era fraquissimo, eleva-se ao rythmo normal, podendo até excedel-o, os movimentos respiratórios são muito lentos e enfraquecidos; nota-se um acerescimo muito sensível nas proporções do azoto absorvido, como se a nutrição, por esse artificio, procurasse supprir a falta dos materiaes azotados da alimentação; o abaixamento da temperatura orgânica, emfim, é um facto que também foi observado com muita precisão por Chossat, que diz: « A diminuição do calor « do corpo dos inanidos é de 0,3 por dia, exceptuando-se o dia, « em que a morte tem de dar-se que a temperatura sobe lo?29 por « hora.» E para completar o quadro dos effeitos physiologicos da abstinência, o mesmo observador menciona a diminuição das secreções orgânicas, e principalmente do vehiculo aquoso d'ellas. 2 2 Chossat — Recherches experimentales sur 1'inanition. Eis o quadro de symptomas ou, por outra, dos effeitos physiologicos da inanição apresentado por Chossat depois de uma serie de experiências feitas sobre diversos animaes, A therapeutica hygienica, pois, pode valer- se dos dados fornecidos por este observador para instituir o regimen ne- gativo? A abstinência no homem doente dará os mesmos resultados que Chossat observou em animaes que gosavam de saúde? Porventura o homem doente não tolera por mais tempo a abstinência, como si a vida,intorpecida pelo estado pathologico, exigisse menos o ronovamento dos seus mate- riaes para manter-se? A lei geral de Chossat: « um animal morre inani- do quando perde pela abstinência alimentar 0,4 de seu pezo normal ou ini- cial ■» é verdadeira para o homem doente ? São questões estas que não se acham resolvidas na sciencia, apezar da subida importância do assumpto. Mas, a despeito da densa obscuridade que existe na descriminação entre os symptomas de muitas moléstias e os que apresenta a abstinência prolongada dos alimentos; a despeito do quadro horrendo esboçado pelos sectários da eschola de Brown, os quaes propondo-se empenhar o delicado pincel de Dante encontram em cada enfermo em uso da abstinência um outro Ugolino; a despeito d'estes e ou- tros exageros, dizemos, esta dieta tem sido empregada com proveito. O espirito illuminado de alguns práticos poude erguer-se acima dos prejuí- zos do exclusivismo, collocar-se entre Brown e Broussais, e dizer-nos com os documentos da experiência o preceito—In médio stat veritas. Haja á vista os felizes resultados obtidos por Albertini e Vasalva nas lesões do coração, e muito especialmente nos aneurysmas; o recurso que offerece o regimen debilitante na obstetrícia, o qual é capaz de fazer di- minuir o volume da cabeça do feto si se temer a dystocia por estreita- mento da bacia; o adjuvante útil do tratamento mercurial—a cura-famis —; o bom resultado colhido em certas affecções rebeldes, como a obesi- dade e diversas hypertrophias (Hirtz). A utilidade da abstinência sobe de ponto nas moléstias inflammatorias febris; no meio do tumulto funccional que ellas acarretão ao organismo o regimen negativo é talvez o mais poderoso dos remédios. A abstinência deixa repousar os órgãos digestivos doentes, supprime um alimento á febre, apressa a resolução das neo-formações inflammatorias, porque o sangue, em logar de nutrir-se dos alimentos communs, se nutre dos te- cidos do próprio corpo, o trabalho de reabsorpção intersticial se exagera,, = 10 = e luta com o trabalho de absorpção que a cellula inflammada exerce so- bre os elementos do sangue. Regimen animal — Este regimen, também chamado fibrinoso, acha sem- pre indicações favoráveis todas as vezes que o organismo se acha alterado pala atonia, nos casos em que a sanguinificação se faz de um modo len- to e incompleto, nos innumeros casos em que o sangue, privado de sua cifra normal de glóbulos, não cede aos tecidos senão elementos insuffi- cientes para a reparação plástica e excitação vital. Debaixo da influencia d'este regimen, que é um dos instrumentos in- dispensáveis da medicação analeptica, o estômago funeciona, e segrega abundantemente o sueco gástrico, as dejecções são mais raras, o pulso e os movimentos respiratórios accelerão-se, a exhalação de ácido carbôni- co diminue (Hervier), a hematose é mais activa, e o sangue se enriquece de glóbulos, a urina, menos abundante, porem mais sobrecarregada de materiaes sólidos—uréa e ácido urico, pouco contem de matérias extrac- tivas (Lehmann). Similhante regimen predispõe á plethora, ás congestões, á gota, a certas affecções cutâneas, e aos cálculos urinarios, segundo a opi- nião de Magendie, a qual foi contestada por Civiale. A dieta fibrinosa convém em todos os casos em que a nutrição perver- tida soffre ou pelo máo estado das vias digestivas, ou em razão de certas perdas á que ella estásugeita quando capturada pelo estado valetudinario. Alem d'estas applicações geraes, communsatodos os agentes da medicação analeptica, ha algumas indicações particulares em que este regimen tem de- monstrado aos práticos o seu elevado valor therapeutico: os auetoros mui- to insistem sobre a sua applicação na glycosuria, nas diarrhéas chronicas, no rachitismo, e no marasmo, qualquer que seja a sua fonte produetora. Regimen vegetal — Renhidas discussões se tem levantado na sciencia em favor e contra a aptidão da dieta vegetal para manter a integridade das forças e a saúde. Por mais arrebatadores que fossem os sonhos dos pythagorianos, e as declamações sentimentaes dos admiradores da natureza no que diz respei- to á vegetação; por mais arrebatadores que fossem esses sonhos, dizemos, não poderam abalar a convicção do physiologista, que vê na estructura do apparelho digestivo do homem, na disposição do systema dentário, e, com maioria de razáo, na appetencia que elle demonstra pelos alimentos diri- gem animal, a prova mais cabal de seu destino a uma alimentação com- plexa. Todavia se pode dizer com o testemunho dos factos que o habito, — segunda natureza, como alguém já disse —, pode, modificando pouco a pouco as exigências do appetite e o estado das vias digestivas, fazer com que o homem encontre na alimentação vegetal todos os elementos preci- sos para a manutenção de suas forças e estado de saúde. Para demonstração d'este facto nos lembramos do regimen alimentar dos religiosos da abbadia de Nossa Senhora da Graça, na Mancha, regimen que os condemna a tirar toda sua alimentação do reino vegetal, sem que por isso não sejão robustos e sadios. O regimen exclusivamente animal daria o mesmo resultado? Debaixo do emprego exclusivo da dieta fibrinosa o habito terá o poder de transmu- tar a face da nutrição a ponto de fazer com que as forças orgânicas e a saúde se mantenhão em sua altura normal ? — Responde Fonssagrives: « As carnes, tão ricas em princípios asotados, não offerecem á reparação orgânica senão quantidades insuf- ficientes de carbono, emquanto que os vegetaes, verdadeiros reservatórios d'este principio, reúnem em si, por intermédio de alguns de seus materiaes, albumina, legumina, gelatina vegetal, alcalóides diversos etc, quantidades de asoto que são sufficientes, em rigor, para supprir as necessidades do desenvolvimento, e da reparação dos tecidos animaes. » Os trabalhos de Liebig sobre este assumpto, insertos na Gazeta Medica de Paris, demonstrão que a albumina, a fibrina e a caseina vegetal tem, pouco mais ou menos, a mesma composição chimica que as substancias animaes correspondentes, e que o asoto entra n'ellas guardando quasi as mesmas proporções. Portanto os herbívoros achão na sua alimentação todos os elementos necessários para a constituição de seus tecidos. Sob a influencia do regimen vegetal as vias digestivas são distendidas, produzem-se flactuosidades, dyspepcia gastro-intestinal, diarrhéas fre- qüentes. O sangue é pobre de glóbulos e d'albumiua, o pulmão exhala mais ácido carbônico, ha supersecreção nas mucosas, a urina augmenta de quantidade, e perde em materiaes sólidos —• em uréa, as matérias extractivas achão-se em excesso. Na maioria dos casos, pensão os auctores, o regimen mixto offerece as mesmas vantagens hygienicas e therapeuticas que o regimen vegetal exclusivo sem apresentar os inconvenientes que este occasiona até que a insistência do habito o concilie com a nutrição. Com tanto ardor empregada pelos médicos antigos, a dieta vegetal em nossos dias applica-se em poucas enfermidades; entre ellas menciona- c. , 3 = 18 = remos o escorbuto, a gota, a plethora cerebral, os cálculos urinarios, as constipações pertinazes sem causa conhecida (Hirtz e Bernhein). Regimen lácteo — Destinado pela natureza para servir de alimento exclusivo do homem no primeiro período da vida — a infância —, o leite reúne em si todos os predicados, que a nutrição exige, e encontra na alimentação mixta. A propósito do regimen lácteo, de que vamos tratar de um modo geral e succinto, não perdemos occasião de repetir as eloqüentes palavras de Proust, quando classificou os alimentos fundando-se no exame do regimen absolutamente exclusivo que a natureza destinou á primeira infân- cia — a amamentação — «O leite, sendo essencialmente composto de três substancias: gordura, assucar e caseina — , eu sou forçado, diz Proust^ a concluir que todos os alimentos do homem e dos animaes superiores podem ser reduzidos a estas três origens; é na alimentação factícia do homem que achamos a prova mais peremptória d'este principio impor- tante. O homem, não contente com as producções que lhe prodigalisa a natureza, põe em acção todos os recursos do seu espirito ou, antes, de seu instincto com o fim de realizai por todas as maneiras possiveis essa mixtura sem a qual a nutrição definha: tal é o fim único da arte culi- nária. Conduzido pelo próprio instincto, o homem foi levado a reunir as gorduras com as substancias feculentas e com as vegetaes em geral. A mesma força instinctiva o levou a ingerir carnes animaes para que a nu- trição achasse n'esse alimento substancias gordurosas e albuminoides em mixtura. No meio das subtilezas do luxo das iguarias, que fazem o ornato eas delicias das mezas, as múltiplas e variadas combinações do amidon, da manteiga e dos ovos não são mais do que um arremedo fiel do prototypo de todos os alimentos — o leite — (Muler). Repetindo as palavras do illustre Proust, damos prova de que o leite é o alimento por excellencia; conseguintemente a dietetica se utiliza d'elle com todo o interesse que elle é capaz de inspirar. Todas as vezes que se quer nutrir o doente sem estimular, sem fatigar as vias digestivas, sem lhes deixar um residuo, a dieta láctea acha applicaçâo útil. Este regimen tem sido empregado com bom resultado nos derramamen- tos sorosos, e sua efficacia tem sido confirmada por Legroux, Chrestien Quinier, Fonssagrives e outros. Pécholier, em um artigo do Montpellier me- dicai, diz que a cura dos derramamentos sorosos não é devida ao poder diuretico do leite, mas sim á influencia modificadora que elle exerce so- =. 19 == bre as funeções d'absorpçâo ; e o mesmo auctor o aconselha nas lesões cardíacas: « Debaixo de sua influencia se verá suecessivamente diminuir as palpitações, ? turgescencia da face, as congestões cerebral e pulmona- res. y> Alguns auetores louvam o resultado que tem alcançado por meio d'este regimen na phthisica pulmonar, nas alienações mentaes etc. Em resumo se pode dizer que a dieta láctea é de favorável indicação toda a vez que se quer provocar a diurése, o fluxo diarrheico com o fim de diminuir os der- ramamentos sorosos, v. g. na hydropizia : quando se tem em mira alterar a natureza do plasma no seio do qual se engendrão tecidos anormaes homceomorphos ou heterologos, como acontece nas moléstias diathesicas ; é de boa applicação na gota, na hypertrophia do coração, em certas affecções gastro-intestinaes, taes como ulcera chronica. (Fonssagrives) O leite é contra-indicado, diz o medico de Cos, aos febricitantes, áquelles enfermos que tem os hypocondrios crescidos e cheios de borborygmos, áquelles que tem sede pertinaz, áquelles que no decurso de uma moléstia febril aguda expellem biles ou sangue nas dejecções. Não nos propomos a sustentar, diante das luzes da sciencia medica moderna, as asserções do Pai da Medicina; mas ellas mostrão, ainda que repousem sobre prejuízo e subtilezas de observação, com que sagacidade e cuidado elle estudava a hygiene alimentar do seus doentes. Terminando a noticia suecinta que procuramos dar dos diversos regimens mais usados na dietetica, temos a notar que esta, acompanhando os vôos da physiologia moderna, que ensina que a alimentação deve ser complexa, sob pena de acarretar as anemias por perdas e inanição; rarissimas vezes institue um regimen exclusivo, e quando o faça, elle não é comprehendido no rigor absoluto; freqüentemente ella se utiliza dos regimens mixtos. É difficil formular preceitos geraes; seria errar na applicação d'elles aos casos particulares; cada moléstia tem indicações dieteticas diversas e somente suas, como pretendemos demonstrar. = 20 = REGIMEN D1ETETIC0 NAS MOLÉSTIAS AGUDAS Hlolestias iiiflaiumatorias agudas t Nulla res in^gis adjuvat laboralem, quain tempestiva abstinentia » Celso—De re medica. Qualquer que seja o ponto da economia escolhido pela inflammação aguda para manifestação de suas diversas evoluções, se por ventura ella invade uma superfície mais ou menos extensa, desperta no organismo phenomenos de reacção, que guardão, na maioria dos casos, uma pro- porção directa não só com a natureza do órgão lesado, mas também com o gráo de erethismo vascular de que é susceptível o indivíduo. A superac- tividadedo movimento fibrillar, as congestões, as alterações das secreções, das exhalações, dasabsorpções etc, as quaes são augmentadas, diminuidas e transformadas em sua natureza durante o trabalho phlegmasico, formão o quadro dos phenomenos pathologicos que Broussais designava sob a denominação de sympathias orgânicas, e que no seu todo nada mais representão do que a febre de reacção. O cérebro é o foco para onde convergem todas as impressões que lhe são enviadas pelo tecido inflammado, e ao mesmo tempo é o centro de irradiação das sympathias que o tecido reclama em auxilio de sua con- servação. Os agentes que se incumbem de transmittir ao cérebro as impressões mórbidas dos órgãos, são os nervos da sensibilidade geral, para os órgãos da vida de relação; para os órgãos internos e sensoreaes a natureza dispoz um systhema particular de nervos transmissores, que são: — o pneumo-gastrico, o trigemeo e o glosso-pharyngêo. São estes os nervos que a physiologia pathologica reconhece como encarregados de conduzir aos centros nervosos as impressões mórbidas dos órgãos, nos quaes elles desdobram seus filêtes. O trisplanchnico se incumbe da transmissão das impressões physiologicas á medulla, onde ellas terminão. e d'ahi, ausência de percepção cerebral; emquanto que as impressões mórbidas, transmittidas dos órgãos pelos três pares nervosos já mencionados, vão despertar phenomenos de reacção no cérebro, origem commum de todas as sympathias mórbidas. Hypothetica,como são todas as theorias que versão sobre este assumpto, esta, que se acha exarada na obra do Dr. Fonssagrives, parece-nos con- vincente na explicação do movimento febril symptomatico que accompanha as moléstias inflammatorias; todavia, qualquer que seja a maneira de explicar o modo de transmissão das impressões mórbidas, o mecanismo da producção da febre symptomatica de uma irritação local não é difficil de conceber-se. Si ha dor, o cérebro, já advertido da sua existência, associará os piinscipaes apparellios á inílammação local, precipitará os movimentos cardiacos, e este erethismo circulatório, por sua vez, ha de alterar o rythmo physiologico da respiração e da calorificação: d'ahi provem modificações correspondentes nas secreções e nos actos da chimica intersticial, — em uma palavra, a febre se manifestará. Desde a mais alta antigüidade, a sciencia acceita como verdade que a intensidade e a natureza de uma febre são o ponto de mira das indicações e contra-indicações dieteticas. Dicto isto, examinemos mais de perto a • questão do regimen dietetico nas febres inflammatorias. « Pretender-se que toda febre seja ligada a um catarrho do estômago é um exagero em sciencia: nem o exame da língua, nem a falta de appetite dos indivíduos febricitantesnos auetorizão a emitlirsimilhante supposição. Porem, como em qualquer febre a eliminação das parles aquosas pela pelle e pelo pulmão é excessivamente augmentada em razão da alta temperatura, pode-se admittir á priori que, por compensação, o sueco gástrico será secretado em menor quantidade: esta conclusão é justificada não só pela diminuição das outras secreções, como também pela obser- vação directa. Si os febricitantes não levão em conta esta circumstancia, si não colloção o seu regimen em relação com a diminuição da secreção estomacal, como resultante d'este abuso terão o catarrho agudo do estô- mago. Grande parte das complicações gástricas que se junetão ás pneu- monias e outras muitas moléstias inflammatorias, provém seguramente do erro, que se commette, de esquecer as regras hygieniças. » 3 3 Nicmcycr — Palhologic interne et ihérapeutique. = 22 = N'esta passagem o eminente pathologista bem nos deixa ver que o regimen, senão negativo, porem ao menos moderado deve ser prescripto aos febricitantes nas moléstias inflammatorias agudas. Nas phlegmasias francas, em que o apparelho febril é vehemente, a escolha do regimen faz surgir uma das mais ardentes questões da hygiene therapeutica. Áquelles que tractão as phlegmasias pelos antiphlogisticos, exigem a abstinência alimentar; áquelles que as tractão pelo álcool, prescrevem a alimentação tônica. Seguindo, porem os dictames d'aquelles que, tendo encanecido na pratica da medicina desprendidos de preoccu- pações systhematicas, seguem o que lhes mostra a experiência, — mestre universal que os innovadores appellidão de rotina — ; associaremos ao tractamento antiphlogistico e anti-pyretico a abstinência toda vez que se tractar dê inflammações francas accompanhadas de febre intensa, na intenção de que a dieta negativa é um adjuvante útil dos antiphlogisticos, é um espoliador indirecto, que em logar de subtrahir ao sangue alguns de seus elementos constituintes, como acontece nas sangrias, o empobrece recusando-lhe materiaes de reparação, e d'est'arte obrigando-o a tiral-os da própria economia. No meio do tumulto funccional que as inflammações agudas accarretâo • symptomaticamente, concedido mesmo que as digestões se facão sem embaraço, a alimentação elaborada pelas vias digestivas não fornecerá ao sangue senão elementos de estimulo inopportuno, a febre se augmen- tará, e com ella todos os outros phenomenos geraes e locaes. Si na escolha da prescripção dietetica nas moléstias inflammatorias francas fechamos os olhos ás doctrinas systematicas exclusivas para encarar os conselhos prudentes da pratica dos mestres, com maior ardor o faremos nas indicações do regimen d'essas inflammações insidiosas, que, sem estado febril intenso, escolhem quasi sempre constituições fracas e deterioradas pela anemia para descarregar o seu golpe. Alimentar um doente que se acha n'estas condições, dizem os mestres, é uma indicação vital. Independente mesmo das constituições e discrazias sangüíneas, algu- mas moléstias inflammatorias revestem esta forma na zona tropical, entre ellas prima a pneumonia, — moléstia em que sem grave incoveniente a ali- mentação do enfermo não deve ser de todo suspensa, sob pena de esgo- tar-lhe as forças, e dar a esta phlogose uma tendência á transformação çaseosa. Como se vê, acima de tudo que se possa dizer sobre o assumpto em = 23 = questão está o tacto clinico; é pelo exercício reiterado, ou antes, pela educação d'estc sexto sentido, como o chamou Oré, que o medico institue o regimen dietetico, mesmo á cabeceira do enfermo. MOLÉSTIAS INFECTUOSAS AGUDAS Febres Typhieas .......judiciam difficile. IllPPOCRATES A grande importância pratica que deriva do emprego opportuno do regimen alimentar nas moléstias agudas de longa duração, principalmente nas febres typhicas, originou na sciencia numerosas controvérsias. De facto, si de um lado vemos as palavras de Hippocrates: quando a • moléstia desenvolve suas forças, a abstinência mais severa deve ser pres- criptay>, serem acceitas como dogma pelas gerações de médicos que lhe succederão, entre os quaes citaremos Herodico, Heraclido, Oribase, Aetio, Celso e, entre os mais modernos, Baillou, Hoffmann, Sydenhan c Cullen; si de um lado, dizemos, vemos estes vultos eminentes jurarem fidelidade ás palavras do decano da medicina no que diz respeito ao emprego da dieta negativa no período invasor das febres infectuosas, vemos de outro lado a direcção inteiramente nova e contraria que imprimiu á dietetica medica a eschola de Brown. A doctrina do illustre reformador escossez, considerando que as febres typhicas, como todas as moléstias infecciosas agudas, revestem um caracter essencialmente asthenico, promulgou um regimen dietetico que tivesse por fim levantar as forças do doente; n'esle intuito prescreveu o regimen tônico e estimulante, constante de carnes, vinho e outros alcoólicos a par de agentes therapeuticos de iguaes propriedades. A medida, porem, que a dieta das febres typhicas formulada por Brown tomava incremento na Inglaterra, a doctrina do Val-de-Grace, = 24 = sahida do gênio investigador de Broussais, oppoz-lhe serias barreiras, e a evocação incessante da existência da gastro-interite que quasi sempre acompanha as febres typhicas, — circumstancia que levou essa eschola a localisar a moléstia, exagerou a dieta hippocratica. Contra a dieta da eschola de Broussais surgirão as opiniões de Chossat e Marotte, os quaes, depois de uma serie de observações notáveis sobre a inanição, concluirão que muitas victimas das febres typhicas poderião ser poupadas si a abstinência immoderada não as conduzisse á inanição. Em uma interessante discussão levantada na Sociedade de Medicina dos Hospitaes sobre a dieta da moléstia em questão, o Dr. Cahen, invocando as experiências de Chossat sobre a inanição, exprimiu-se assim: «Chossat viu que uma abstinência completa, diminuindo gra- dualmente o pezo do indivíduo, acarretava a morte logo que essa perda o reduzisse a 0,4 de seu pezo primitivo. Ora, continua elle, nas febres typhicas nós vemos sobrevir rapidamente um emmagrecimento conside- rável, que attinge algumas vezes aos últimos gráos da emaciação. Não é provável que a morte, quando dá-se, possa resultar menos pelo pro- gresso da moléstia em si do que por essa perda, além da qual a vida é impossível ? » • As sabias reflexões d'esse Medico illustre, feitas a outros de igual quilate, acharão apoio no espirito illuminado de Trousseau. « Submettido á abstinência, diz elle, o indivíduo se nutre a custa de sua própria substancia, e é para se oppôr a esta authophagia, que extingue a vida ou produz gravíssimos accidentes, é para sustentar a organisação em lucta com uma moléstia de longa duração, que ha necessidade de prescrever rigorosamente uma alimentação conveniente » 4 Vejamos qual seja essa alimentação : « J'exige, continua Trousseau, que mes dothienenteriques, dès le debut, mangent chaque jour deux petites potages maigres et quils prennent quelques cuillerées de bouillon sans te- nir compte de Ia repugnance que quelques-uns manifestent, sans méme me laisser arrêter par les vonussements que sembleraient contre-indiquer l'a- limentation. Dans ce dernier cas, je recommende d'essayer chaque jour les potages gras et les potages maigres jusqua ce que les um ou les autres soient bien supportés. » * Clinique medicai de PHotel-Dieu. Em Inglaterra os Médicos, prestando homenagem ás idéas do seu com- patriota Brown, não trepidão em submetter os typhicos ao succulento regimen de costclletas e roast-beef, ainda quando os doentes mostrem repulsão por estes alimentos e a febre seja intensa. O Dr. Todd, profes- sor do King's College, acha-se á frente d'esta cruzada que tão absoluta e ardentemente se declara contra a dieta hippocratica; elle tracta quasi todas as moléstias febris pela associação de um regimen succulento, do qual bcef-tea abre a serie, á doses consideráveis de bebidas alcoólicas. Graves, partidário da alimentação continua, cuja obra é considerada por Trousseau como o seu vademecum, e que desejou que as palavras he fed fevcrs fossem gravadas como epitaphio do seu túmulo, não foi tão absoluto como seus compatriotas modernos no regimen do typhus fever elle não permitte mais do que água e soro de leite nos primeiros dias da moléstia, deixando para dar os caldos e extractos de carne no fim do primeiro período. Conservar o doente no uso da dieta negativa no momento em que o movimento febril decresce, nos parece um erro que os exporá a novos accidentes; porem entre este excesso e o que é ostentado pela pratica de Todd e d outros médicos inglezes ha um médium dietetico, nas palavras de Fonssagrives, cujos limites não convém ultrapassar. A febre typhica de forma inflammatoria é a que mais formalmente exclue o emprego dos alimentos no começo da moléstia; ainda que os symptomas de turgescencia inflammatoria mascarem a natureza da molés- tia, que em sua essência é adynamica, como observou Chomel, a intensi- dade e similhança d'esta febre com as febres de reacção inflammatoria justificão o uso da dieta negativa. Não ha forma de febre typhica em que os doentes mais se conspirem contra a alimentação, do que a biliosa. A lingua saburrosa, as náuseas e vômitos biliosos protestão instinctiva e salutarmente contra o uso dos alimentos; mas, si por accaso a insistência do clinico vence esta repul- são, accidentes terríveis podem ser a conseqüência d'essa pratica: algu- mas vezes os doentes os expellem immediatamente depois da ingestão outras vezes, porem, o que é mais grave, os alimentos ficam no estôma- go, e então ou decompõem-se espontaneamente, visto como as forças digestivas são nullíficadas pelas perdas secretorias, ou, si o apparelho consegue digeril-os, elles nada mais fazem do que elevar a temperatura orgânica fornecendo mais um alimento á febre, e não ao doente. = 26 = Quando a febre typhica apresenta symptomas de adynamia desde a sua invasão, o emprego dos tônicos e estimulantes tem sido aconselhado por muitos práticos; mas, adverte Chomel, deve-se preferir os tônicos medicamentosos, porquanto estes exigem do estômago phenomenos chi- micos menos, complicados do que os que são exigidos pelos alimentos. Si a febre typhica se apresenta com a forma ataxica, na qual o systhe- ma nervoso mostra superexcitação em suas funeções, igualmente c contra-indicado alimentar o doente; porem ordinariamente o pratico, mais cedo do que nas outras formas de febre typhica, julga preencher uma-indicação vital mandando alimental-o logo após os phenomenos ataxicos, quando o systhema nervoso se abate em razão da perda consi- derável á que a moléstia o condemnou. Este systhema de dieta, que é seguido por muitos práticos eminentes, é o que nos parece mais consentaneo com os conhecimentos que a patho- logia moderna possúe concernentes ás febres typhicas. Si na exposição das idéas que adquirimos sobre o assumpto em questão, nos mostramos apologista da dieta negativa, não queira isto indicar que somos sectário da doctrina de Broussais, não: Broussais negava alimento aos doentes em todo o decurso das febres infectuosas, tanto negava ás crianças, como aos adultos e velhos, não distinguiu idades, tempera- mentos, constituições, sexo, nem tão pouco attendia ás necessidades or- gânicas reclamadas pelo appetite. Considerando que a febre typhica é uma das moléstias em que a tem- peratura orgânica se eleva a ponto de collocar-se no limite extremo compatível com a vida, e que a digestão, no caso que ella possa effectuar- se, determina inevitavelmente o augmento da calorificação, temos re- ceio de alimentar quando a febre estiver no seu auge de intensidade. Portanto, abstrahindo das indicações dieteticas que podem ser fornecidas palas idades, sexo, temperamento e constituições individuaes, o thermo- metro deve, no estado actual da sciencia, ser a bússola das indicações do regimen nas febres typhicas. = 27 = Febres paludosas La malária, qui a son próservatif dans une alimentation réparatrice, y trouve aussi l'un de ses meilleurs remédes. Fonssagrives. Attendendo ao progresso incontestável que a medicina contemporânea tem realizado no que diz respeito á etiologia das febres paludosas e á sua therapeutica. o regimen dietetico d'estas moléstias, deduzido d'esses estudos modernos, regeita os preceitos da dieta antiga tomando, com razão, uma direcção absolutamente contraria. Os interessantes trabalhos de Dutrouleau, Griesinger e outros muitos pathologislas demonstrão que o envenenamento palustre imprime á crase de sangue alterações profun- das, que dão como ultimo resultado a anemia. Si isto é verdade, como quer a sciencia moderna, a dieta negativa, empregada n'estes casos, não faria mais do que contribuir poderosamen- te para que a anemia se aggravasse. A therapeutica, que no estudo da acção do sulfato de quinina nas febres da Malária nos demonstra que ellas são de natureza essencialmente asthenica, por sua vez protesta contra a abstinência. Conseguintemente, é de rigorosa necessidade alimentar os doentes de febres paludosas. Mas, pergunta-se, a alimentação é bem indicada qualquer que seja o typo d'essas febres? Está hoje provado que a febre palustre de typo intermíttente, assim como a remittente e a continua, nada mais são do que manifestações va- riadas, ou formas particulares pelas quaes se apresentão ou se denuncia o envenenamento palustre. Mas, apesar de se acharem ligadas entre si as febres da Malária por caracteres essenciaes, como são os das etiologia e da therapeutica d'essas affecções, importa estabelecer distineções, posto- que ligeiras, no regimen dietetico. » Sinão existem complicações do lado do tubo digestivo, e a febre palustre for intermíttente simples, a alimenta- ção deve de ser reparadora, afim de que, sendo elaborada, muna o organismo de uma certa garantia para a volta de outro accesso. Nas febres remitteníes simples as indicações de uma abstinência relativa == 28 = são mais apparentes. Nas de typo continuo a alimentação é indicada no momento em que a febre decresce. » 3 Parece-nos que nas febres palustrcs, como em todas as pyrexias em que o elemento phlogose não domina, e a febre cyclica é, segundo muitos auctores, subordinada a uma dyscrazia aguda, se deve alimentar os doentes desde o começo da moléstia. Febres eruptivas As febres eruptivas são verdadeiras funeções pathologicas, cujo fim, essencialmente conservador, nos é revelado pelo caminho fatal e cyclico percorrido por ellas desde os symptomas de invasão até a eliminação, que se faz pela superfície mais vasta do organismo, a qual melhor que todas as outras membranas se presta ao trabalho das eliminações mórbidas: queremos fallar da pelle. Convencidos de que na marcha das febres eruptivas os phenomenos de reacção manifestados pelo organismo tendem a um fim eliminador, e portanto salutar, os práticos na arte de curar, temendo perturbar esse trabalho todo providencial, regeitão os medicamentos para confiar tudo da expectação; reservando, porem* a intervenção medicamentosa para os casos cm que o trabalho eliminador põe em acção meios tão desorde- nados e violentos, que possão comprometter a vida. Sydenhan, inspirado por Hippocrates nas idéas de effervescencia do sangue e de movimentos tumultuosos dos espíritos animaes, como causas productoras d'essas moléstias, formulou o regimen dietetico da rugeola n'estes termos : A carnibus quibuscumque arcebam; juscula avenacea, hordeacea et similia nonumquam et pomum coctum concedebam. O regimen da varíola era concebido nos mesmos termos com a differença de, no undecimo dia, dar-se um pouco de vinho ao enfermo. 6 A etiologia das febres eruptivas é, no espirito da pathologia moderna, muito diversa da que foi imaginada por Hippocrates e acceita por Syde- nhan; mas o regimen que este medico instituiu para essas moléstias é ainda hoje acòeito por alguns. 5 Fonssagrives—Hygiene alimentaire, 6 Obra citada. = 29 = A prescripçâo do regimen dietetico nas moléstias, que por emquantc nos occupão a attenção, não está sugeita a regras absolutas, a observação d'este ou d'aquelle caso nos fora varial-a muitas vezes. Assim, por exemplo, si se tratar de indivíduos enfraquecidos antes da apparição da febre eruptiva por antecedentes de natureza diversa, se concederá des- de a invasão da moléstia os caldos e extracto de carne, as tisannas feculentas, certos fructos acidulados, etc; finalmente se prescreverá alimentos de fácil digestão, não perdendo de vista os effeitos produzidos pela ingestão d'elles. Fouquet exaltava os resultados que colhia da applicação do leite mixturado á água de cevada. « O leite, diz Ribes, ó de indicação oppor- tuna depois do período de erupção, tempo em que as vias digestivas estão livres, ou em estado mais favorável para elaborar um alimento tão nutritivo. O vinho e as carnes são de necessidade nos casos em que a extrema prostração das forças orgânicas e a temperatura do corpo são insufficientes para produzir a erupção. » 7 Ainda n'estas febres o Medico deve ter em muita consideração o estado do pulso e da temperatura orgânica para instituir o regimen dietetico. Julgamos que o emprego inopporluno dos alimentos pode, desviando o trabalho mórbido de seu fim intencionalmente salutar, produzir accidentes gravisssimos. A expectação não se entenda, portanto, só em referencia aos medicamentos, ella abrange também os alimentos. Diphtheria Na epocha em que a medicina estava sob o império do physiologismo de Broussais, epocha em que a inflammação dominava toda a pathologia; a diphtheria, a titulo de moléstia inflammatoria localisada n'este ou n'aquelle ponto do organismo, era combatida pelos anti-phlogisticos. As tisanas emollientes, as emissões sangüíneas, eram os meios therapeuticos prescriptos a par de rigorosa abstinência alimentar. A sciencia moderna, por intermédio de Nieraeyer, Trousseau e outros nos mostra que a diphtheria é uma moléstia especifica por excellencia* 7 Ribes — Hygiene tlierapeutique. = 30 = cujas manifestações locaes e geraes, constituindo somente variedades na espécie, devem ser attribuidas á acção tóxica de um principio eminente- mente deletereo. Si isto é verdade, como cremos, e si a diphtheria é uma moléstia as- thenica, como bem nos deixão ver a extrema prostração das forças do enfermo logo após os phenomenos prodromaes, e subseqüentemente as paralysias chamadas diphthericas; renunciamos, com as poucas forças de que somos capaz, não só o tractamento pelos anti-phlogisticos, mas ainda a dieta negativa. Não é de nosso propósito negar que o elemento inflammatoreo deixe de tomar parte no trabalho mórbido da diphtheria ; apenas, de accordo com auetores de nota, nos couvencemos de que o papel que elle repre- senta n'esta moléstia, longe de ser o principal, como queria Broussais, é absolutamente secundário. De accordo com o juizo que a palhologia contemporânea faz da diph- theria, Iractaremos os doentes d'esta moléstia pela associação dos tôni- cos medicamentosos aos tônicos dieteticos. As carnes, os ovos, o leite, o vinho e outros muitos agentes da alimentação analeptica serão prescri- ptos ao diphtherico na intenção de levantar-lhe as forças orgânicas que tendem a desfallecer. Em apoio do que havemos dicto sobre a dieta na diphtheria invocamos a sabia opinião de Trousseau: « Dans le trailement de Ia diphlhérie, Vali- mentation occupe le premier range, et plus Ia maladie est grave, plus je vois Ia necessite de nourrir les malades. Un des signes les plus alarmants pour le prognostic, cest ledefaul d'appélil; tant que Vappètit est conserve, ily a de grandes chances de guerison. Lorsquc dans Vangine pseudo-mem- braneuse il existe de Ia gene et de Ia douleur dans Ia déglutition, je donne des aliments demi-solides, des potages épais, des pâtes, du chocolat à Veau, des cremes, des ceufs a Ia coque etc, et aussitol que je peux,j'arrive à une nourrilure animale plus reparatrice. » No esboço do regimen dieteiico das moléstias agudas nunca perdendo de vista o estado do pulso e da calorificação orgânica, dizemos também cm relação á diphtheria que a pouca freqüência do pulso e a pequena elevação da temperatura, que apresentão os indivíduos diphthericos, nos favorece no conseguimento de nosso desideratum, isto é — alimentar o doente para fortalecel-o. = 31 = Cliolera-inorbus Recommender Ia circonspeelicn, et condamnez 1'abus. [MoKwx—CItolera-morbus.) Sem penetrarmos no dedalo das questões palhologicas concernentes á etiologia, natureza e explicações physio-pathologicas dos symptomas da cholera-morbus, nos cingimos apenas ao regimen dietetico a seguir n'esta moléstia, que por sua terminação ordinariamente funesta é o flagello das populações. A forma asphyxica da cholera é, no entender de Niemeyer, o exagero maior á que pode chegar o processo chnlerico: é nesta forma que a moléstia, desenvolvendo todas as forças de acuidade de que é capaz, pode matar os doentes em 6,12, ou 24 horas, e raras vezes lhes concede tempo para recorrer á medicina. Mas quando por accaso a moléstia dê tempo a qne a arte intervenha, o estado eminentemente mórbido das vias digestivas, a (alta de appetite, os vômitos contínuos e a probabilidade da não absorp- ção são rasões por demais poderosas para prescrever-se abstinência severa. « Dar alimentos aos cholericos durante o accesso propriamente dicto é uma cousa que por si mesma se condemna. » 8 Felizmente a cholera-morbus de ordinário não se apresenta com tão fulminante terminação; o seu período inicial é ou uma diarrhéa, chamada pelos pathologistas preventiva, premonitora, ou a cholerina preepidemica. No primeiro caso, isto é—quando os prodomos da moléstia são annun- ciados pela simples diarrhéa, a alimentação não deve ser de todo sus- pensa, mas a ração deve ser diminuída, composta de alimentos nutrientes e que não estejão alterados. As carnes devem ser preferidas á farinha, em nosso paiz principalmente onde a farinha de mandioca, que, desprovida do amidon, somente rica em matéria cellulosa, não é absorvida, e accumula grandes resíduos nos intestinos, favorecendo d'est'arte á fluxão diarrheica. Dizemos mais, qualquer que seja a natureza de uma diarrhéa, o uso da farinha de mandioca deve ser proscripto, sob pena de aggravar-se o mal. 1 Isicmeyer — pathologie inle-iiG, = 32 = A fecula, que na preparação da farinha de mandioca é extrahida, a qual é vulgarmente chamada gomma, é um elemento do regimem dietetico cujo emprego não deve ser esquecido nos doentes de diarrhéa ; porquanto, alem de prestar-se á alimentação, é ella um poderoso emolliente. D'ahi deriva o emprego proverbial dos mingáos de gomma nos doentes de diar- rhéas e dysentherias, — emprego que é sanccionado pelo bom resultado que muitos clínicos tem obtido por esse meio. Não affirmamos que a diarrhéa prodromica da cholera -morbus possa desapparecer pelo uso d'este alimento; não devemos confiar tudo de sua applicação, tanto mais quanto nos mostra a pratica dos mestres que « uma diarrhéa premonitora convenientemente combatida pelos meios therapeuticos pode sustar o ataque da cholera »; apenas indicamos o uso da gomma como alimento, « Deve ser prohibido aos doentes o uso das substancias gordurosas, os peixes de qualquer espécie e os fructos. o 9 Si por ventura a diarrhéa não cede aos meios therapeuticos e a este regimen, a abstinência alimentar é indicada. Quando a diarrhéa prodromica da cholera-morbus não é simples, mas vem accompanhada de borborysrnos, tensão abdominal, eólicas, náuseas, sede intensa, vertigens etc, tracta-se, segundo os pathologistas, da chole- rina. N'este caso a prudência exige que se prescreva abstinência alimentar, mas esta não deve ser tão absoluta, que não se conceda ao enfermo o uso d'agua para mitigar a sede, nem tão pouco outras bebidas que por suas propriedades estimulantes entrão no numero das indicações thera- peuticas, quando são empregadas no período em que a moléstia propende para o estado algido: referimo-nos ao café, chá, vinhos etc. Qualquer que seja a forma sob a qual se apresente a cholera-morbus confirmada, no período de reacção, somente se deve permittir ao doente o uso d'agua no seu regimen dietetico. A anatomia pathologica tem demonstrado que as alterações das vias digestivas n'esta moléstia se eleva do catarrho agudo dos intestinos até o descollamento da membrana epithelial dos mesmos: nas dejecções dos cholericos se encontrão em fragmentos o tecido epithelial, e esta destrui- ção cresce a ponto de desarmar o intestino d'esta camada protectora, phenomeno que Niemeyer compara com a lesão produzida na pelle pela 9 Noticia histórica da epidemia de 1855-pelo Dr. Domingos Rodrigues Seixas. = 33 = queimadura do 2.o gráo. Ora, si o intestino acha-se tão profundamente lesado, o que devemos esperar como resultado da ingestão dos alimentos, senão a aggravação dos padecimentos do enfermo? Felizmente ha uma grande força que se oppõe á execução d'esta pratica adephagica—é a própria natureza do enfermo; é ella que entorpecendo o appetite, clave sympathica da nutrição, desperta simplesmente a sensação da sede, que deve ser observada pelo medico com grande attenção: Um dos mais cruéis supplicios do cholerieo é a sede que oabraza; o que o doente deseja acima de tudo e com um ardor indiscriptivel, é água fria. Quando o temível flagello da cholera-morbus deixou o seu berço no Oriente para estender seus estragos no continente Europeo e no Americano, muitos infelizes atacados por esta moléstia forão victimas, segundo o testemunho de Morvan e de muitos médicos, não do mal propriamente, mas da sede, a qual com firmeza inabalável não se permittia que fosse mitigada. A água, dizia-se então, augmentando o fluxo diarrheico, é um veneno, que a mão imprudente do medico addiciona ao envenenamento miasmatico da cholera-morbus. A sciencia se foi enriquecendo de conhecimentos mais positivos sobre esta moléstia, e a experiência veio depois demonstrar que a diarrhéa cholerica, fazendo-se á custa da parte sorosa do sangue, condensa-o a ponto de não poder circular nos vasos. Esta noção explicou a estáse d'este liquido em diversos pontos do organismo dos cholericos; o sangue, ávido de líquidos, chama a si os que se achão nas malhas dos tecidos; dahi, a rápida diminuição do volume do corpo, e alteração do facies, que pela rapidez de sua transformação e cunho de especialidade tomou o nome de facies-cholerica; finalmente a seccura da pelle, das mucosas, e outros muitos symptomas graves, como são as anemias cerebraes, as pulmonares, as asphyxias, as paralysias cardíacas, e outros muitos symptomas achão-se hoje explicados simplesmente pela espessura considerável que adquire o sangue depois da perda sorosa abundantíssima occasionada pela cholera. Conseguintemente, si da pobreza do sangue em partes aquosas estão dependentes symptomas tão graves, não deve se desprezar o único re- curso de salvação possível: dê-se água á beber aos doentes, sem mesmo attender aos vômitos e á diarrhéa. Com esta pratica ha mais probabili- dade de salvar-se o cholerico, segundo nos dizem os auctores, e com ella c. 5 == 34 = se satisfaz o violentíssimo e único desejo que é capaz dé dispertal-o do lethargo gélido a que está condemnado pela moléstia. No período de reacção a dieta negativa é indicada quando ella é vio- lenta, quando o pulso é febril e a calorificação exagerada; porem nas reacções irregulares da cholera, nas quaes o organismo, longe de galgar os limites de uma reacção favorável, se curva a cada momento desfal- lecido ainda sob o pezo da intoxicação da moléstia, e se esgota em esfor- ços successivos e improficuos, deve-se procurar levantar-lhe as forças prescrevendo um caldo de carne com vinho, um pouco de chá, café, ou mesmo um pouco de álcool. 12 Nas moléstias cirúrgicas de marcha chronica o regimen deve geral- mente ser reparador, principalmente quando ellas produzem no orga- nismo abundantes perdas humoraes e nervosas pela suppuração e pela dor. Tal deve ser a dieta dos doentes de caries, de osteites escrofulosas, de abcessos por congestão de tumores brancos e das ulceras atônicas. O extremo abatimento das forças do organismo, as alterações das operações da nutrição, tão difficeis de debellar-se, o mau estado das vias digestivas, são motivos por de mais poderosos para que o pratico espere melhores resultados do tractamento hygienico do que do therapeutico. Moléstias tliathesieas Ainda que se não possa descobrir a natureza do vicio humoral que constitue as diatheses, a sua existência é incontestável perante os seus effeitos mórbidos. Ha em toda diathese um período primitivo, em que se dão as alterações viciosas dos homores; este período escapa á nossa observação; ha, porém, um secundário, que é caracterisado por lesões que estão em relação com a causa morbifica que o produzio. São estas lesões, obseçvadas no período secundário das diatheses, que as caracterisão, e o que propriamente &e chama em pathologia moléstias diathesicas. 12 Fonssagrives — Hygiene alimentaire. = 38 = Na impossibilidade de traçar em nosso pequeno trabalho o regimen de todas as moléstias diathesicas, mencionaremos apenas as que mais ordinariamente se observa, nas quaes o tractamento dietetico offerece mais vantagens. Syphilis — A ineficácia, que algumas vezes mostrão os preparados mercuriaes e iodicos para combater certas affecções syphíliticas rebeldes, em presença das quaes a therapeutica está desarmada, deo logar a que os médicos lançassem suas vistas para o regimen alimentar, e procurassem n'elle recursos curativos. Debaixo da denominação de cura-famis foi a abstinência alimentar empregada pelos médicos antigos. Ainda hoje na Suécia e Dinamarca esta pratica tem vigor nas affecções syphíliticas, cancerosas e rheumatis- maes rebeldes, e a persistência com que esta dieta é empregada n'estes paizes não deixa de provar que os resultados tem sido favoráveis. Ordina- riamente os médicos d'estes paizes alimentão os syphiliticos com quatro onças de carne de vacca, cosida ou assada, e igual quantidade de pão. Esta alimentação, que é dividida por duas refeições, é a única que o doente recebe por dia, e é prolongada por seis semanas. Como tractamento therapeutico dão salsa, cicuta, guaiaco etc. Gibert aconselha que se empregue a dieta restrita, quando se quizer tornar mais activa a absorpção dos mercuriaes nos syphiliticos. « Se tem visto pessoas, em que doses elevadas de mercúrio nenhum effeito produzem, serem aliviadas por pequenas doses d'este metal quando se o applica durante este regimen hygienico. Uma simples fricção basta algumas vezes para trazer a salivação. » Nos casos a que nos referimos, isto é, n'aquellas manifestações syphíli- ticas que apresentão resistência contumaz aos meios therapeuticos ordinariamente empregados, e triumphão a despeito do seu emprego reiterado, entendemos que a cura-famis é um recurso que não devemos desprezar. A abstinência das bebidas, levada aos limites rasoaveis de tolerância dos indivíduos que a ella se sugeita, imprime na absorpção orgânica uma superactividade de que a therapeutica pode tirar proveito para apressar a acção dos medicamentos. Os felizes resultados obtidos pelo tractamento arábico em certas mo- léstias syphíliticas inveteradas se attribue á influencia da dieta secca sobre a absorpção das preparações mercuriaes. O tractamento arábico da = 39 = syphílis consiste essencialmente no emprego combinado de pílulas dè mercúrio e de um regimen baseado na dieta secca. Os doentes submetti- dos a este processo curativo se alímentão com os fructos ácidos e mucilaginosos, os quaes tem a vantagem de mitigar a sede, sem todavia levar grande quantidade d'agua ao estômago. Se poderá alguma vez conceder carnes ; mas estas não devem absolutamente conter o sal marinho, nem outro qualquer condimento que disperte a sensação da sede. Este methodo, que na opinião de alguns auctores conta numerosas victorias, é reservado, como a cura-famis, para os casos em que a sy- phílis constitucional resiste com pertinácia as preparações de iodo e mercúrio. Alem d'este tratamento, que ê o arábico mercurial, ha um outro, que chamão arábico simples, o qual nada mais é do que a abstinência dos líquidos. É o regimen que alguns práticos instituem para os syphiliticos que se achão, por assim dizer, saturados pelo mercúrio, para áquelles em que a acção d'este precioso medicamento se tem gasto, ou que ma- nifestão contra elle uma intolerância idyosincrasica invencível. Payan 13 affirma que o ptyalismo é extremamente raro sendo o mercúrio dado de concumitancia com a dieta secca, e quando este accidente sobrevem é para o quadragesimo dia do tratamento, epocha esta azada para sua sus- pensão. Talvez que a diminuição relativa das bebidas, tendo o poder de activar a absorpção estomacal e intersticial, explique os bons êxitos d'esta pratica: o mercúrio, sendo absorvido com facilidade, desenvolve sua acção benéfica; a dieta secca alterando a hydraulica viva, e estabe- lecendo um movimento rápido de depuração orgânica, favorece a eliminação do virus. A cura-famis e o tractamento arábico da syphílis, ou porque não mereção a importância curativa que alguns lhes attribuem, ou porque encontrem os embaraços que todos os regimens exclusivos encontrão na pratica — repulsão obstinaz da parte dos enfermos — não são usados pelos nossos clínicos. O regimen dietetico nas moléstias syphilicas, como em quasi todas as outras, é inferido do estado das forças do indivíduo, e das condições mórbidas em que elle se acha collocado. Em geral, dizem os auctores, o regimen alimentar mais favorável á cura das affecções 13 payan — Note sur le traitemen arabique contre lu syphilie — cit por Fonssagrives. = m = syphíliticas, é o que não impõe ao estômago grande esforço de elabo- ração digestiva, é o caldo de carne, o leite, o pão, as canjas feculentas, etc., quando a syphílis progride no seu caminho destruidor; mas quando as ulcerações syphíliticas melhorão de aspecto, as adenites se resolvem, o puz torna-se louvável, a superfície da ferida se cobre de botões carnosos regulares — é occasião de permittir ao doente uma alimentação mais variada, visto como ella por este modo se torna mais substancial; deve-se até estimular um pouco o organismo, conceder o vinho de boa qualidade, o café, o chá, a carne mal assada, os ovos, tendo-se o cuidado de destribuir a alimentação diária em muitas e pequenas refeições; finalmente deve-se conduzir o regimen pouco a pouco para aquelle com que o indivíduo estava habituado no estado de saúde. Quando pela influencia da diathese syphilitica se produz na economia este estado adiantado de corrupção orgânica que invade filbra por filbra sem deixar um ponto que não seja atacado; em uma palavra quando ha cachexia syphilitica; esta, como todas as cachexias, tem por base uma anemia, e portanto exige o emprego de uma alimentação substancial e reparadora, cuja composição e medida são reguladas pela tolerância e integridade das vias digestivas. Affecções cancerosas — A cellula cancerosa é, no entender de muitos auctores, a manifestação de uma diathese que pode por tempo indeter- minado estar alojada no organismo em estado virtual, como igualmente pode, ab initio, denunciar- se por meio das alterações locaes. Ordinaria- mente convencidos da impossibilidade de eliminar da economia o cancro, desde que este é reconhecido por seus caracteres especiaes, os médicos ou entregão-se á inacção no tractamente d'esta moléstia, ou então extirpão os tumores sem esperar mais do que prolongar mais uns dias a vida do doente, que muito provavelmente terá novas recahidas. O regimen dietetico nas affecções cancerosas nos deve merecer mais confiança do que a therapeutica, até que esta ultima nos mostre pela experiência um meio capaz de combater esta esta fatal diathese como nos mostrou o mercúrio para a syphílis, a quinina para as febres paludosas, a cochlearia para o escorbuto, o ferro para anemia etc. A hygiene deve com todos os seus recursos e esforços procurar meios que sejão capazes de mo- dificar o organismo de maneira a extinguir d'elle o vicio mórbido que a arruina. Quaes são os meios de que ella tem usado em relação á dieta ? = 41 = A cura-famis, como ja dissemos, tem sido aconselhada por alguns práticos; mas o seu emprego, muito limitado, não tem merecido a sancção da maioria. Todavia, se o experimentar é licito (em presença d'este implacável ílagello cuja incurabilidade é proverbial), nos parece que tal regimen não deve ser esquecido por nós. Talvez que a cura-famis alterando o estado de nutrição do organismo, esfaimando-o, e exagerando o trabalho de reabsorpção intersticial, possa, no meio da destruição molecular que se effectua n'estas condições, eliminar o principio diathesico: é possível. O regimen exclusivamente animal tem sido empregado por muitos médicos; e, si se tracta do cancro do estômago, o Dr. Auvert muito insiste sobre o uso da carne crua reduzida ao estado de polpa, e attribue a este meio a dupla vantagem de sustentar as forças do doente e diminuir os vômitos. Si o estado da diathese já se acha adiantado a ponto de que o medico possa affirmar que existe a cachexia cancerosa, o regimen febrinoso deve ser preferido ao precedente. O regimen lácteo é indicado por muitos auctores, e conta maior numero de apologistas que todos os outros. A Gazette des Hopitaux cita um caso interessante de cura de um cancro da face, o qual ja se tinha reproduzido depois de algumas extirpações, pela dieta láctea rigorosamente instituída. Dermatoses — Inclinamo-nos a crer que certas affecções cutâneas são produzidas por uma diathese, quando vemos indivíduos que simulão estar em boas condições de saúde, apresentarem-se por vezes repetidas atacados por um eczema, ou um lichen, ou uma urticaria, ou um ptyriasis, que desapparece algumas vezes para mais tarde reapparecer. As dermatoses, humidas ou seccas, que apresentão esta marcha successiva de curas e recahidas, nos convencem de que o organismo que a ellas está sugeito foi capturado por uma diathese, que, a seu capricho, incuba as manifestações locaes, e de novo as determina por motivos alheios a nossos conhecimentos. Considere-se ou não que as dermatoses são diathesicas, o que nos parece verdade é que n'estas moléstias o plasma organisador das cellulas epidérmicas não se acha nas condições normaes ; e visto como os meios tópicos n'estas lesões apenas nos ofíerecem uma acção muito limitada e passageira, procuraremos modificar o estado geral da nutrição. = 42 == Alguns auctores tem notado que os herpeticos ingerem maior quanti- dade de alimentos do que ingerião no estado de saúde « Esta espécie de bulimia herpetica, diz Hardy, exige (com o fim de prevenir perturbações digestivas, as quaes aggravão as lesões cutâneas) que se não dê a quantida- de de alimentos que os doentes apetecem. » A natureza do alimento influe poderosamente sobre o estado da pelle nos herpeticos: é um facto este de observação vulgar. O povo acredita vivamente que a carne de porco, certos molluscos, e os peixes chamados do raso, são alimentos que devem ser banidos do regimen dietetico n'estas moléstias. Com Casenave e Fonssagrives nós respeitamos, com alguma reserva, esta crença popular. O regimen alimentar nas moléstias em questão deve de ser nutriente, mas que não exija do apparelho digestivo grandes esforços de elaboração ; devem ser prohibidos os condimentos acres e as bebidas alcoólicas. A dieta láctea tem sido indicada por alguns práticos, que affirmão que similbante regimen pode ser de resultado muito favorável, ainda mesmo quando todos os outros meios curativos tenhão sido baldados. Escrofulose e turreculose — Não consideramos, como fazem alguns auctores, que a escrofula e o tuberculo sejão manifestações produzidas por um mesmo vicio diathesico ; mas, não desconhecendo, com outros, que estas affecções achão-se ligadas por intima consangüinidade etiologica e therapeutica, não separaremos as considerações bromatologicas que lhes são applicaveis. Julgamos que a má alimentação por si só não pode, sem o auxilio de outras circumstancias hygienicas desfavoráveis, dar origem á escrofula; mas o que não soffre contestação é que, quando esta moléstia se declara, uma alimentação viciosa ou insufficiente favorece ao seu desenvolvi- mento. O regimen lácteo e o animal, instituídos segundo as regras hygieni- cas, representão um papel tanto mais importante na dieta dos escrofulo- sos quanto mais jovens são os indivíduos. A mobilidade da estática orgâni- ca , a rapidez de sua evolução, a energia da nutrição n'esta epocha da vida, muito nos animão a esperar felizes resultados do emprego d'esla alimentação. A alimentação feculenta não deve ser usual aos escrofulosos; quando muito ella será reservada para uma ou outra vez variar-lhes o regimen. Indica-se, na intenção de estimular o appetite e combater o torpor do t= 43 = lymphatismo, o vinho generoso associado ás águas mineraes ferruginosas: applica-se mais as infusões excitantes e aromaticas — chocolate , chá , café, etc. A escrofulose nos mostra pela sua marcha urna associação singular de atonia geral do organismo com uma certa irritabilídade inflammatoria dos tecidos, duplo elemento constitucional que requer a nossa attenção na determinação do regimen dietetico. Resulta d'esta ultima consideração que na prescripção da dieta aos escrofulosos o pratico muita vez reconhe- cerá necessidade de applicar as regras que a hygiene institue para as moléstias agudas, si a febre de reacção e os próprios phenomenos locaes o exigem ; nunca perdendo de vista que a escrofula, como o tuberculo, se acha incluída no grande grupo de moléstias que Brown chamou asthe- nicas. Piitiiysica pulmonar — Na antigüidade, quando o thorax dos phthysicos não era submetlido a explorações tão rigorosas, como foi depois do brilhante descobrimento de Laeenec, a therapeutica, livre do circulo de ferro do facto anatômico, ao qual nos tempos modernos está ligado a idéa de incurabilidade absoluta, era mais emprehendedôra no tratamento da phthysica. A moléstia era observado por seus symptomas geraes e sua marcha. « Mieux valait être phthisique de leur temps que de nôtre. » 14 De facto, hoje toda a nossa attenção voltada para o processo anatomo- pathologico do fatal tuberculo nos faz cahir no scepticismo therapeutico. « Eh bien, diz Noel de Mussy, il ne faut pas desespérer, Ia phlhisie peut guérir, elle guérit plus souvent quon ne pense. Sa marche nest pas uni- forme, dans un gr and nombre des cas elle nest pas continue. On peut rendre définitives ou prolonger indéfiniment ees trêves qui succedent si souvent aux premiers assauts du mal; on peut du moins ralentír Ia marche de Ia maladie, quelquefoxs même en prevenir 1'evolution, et on le pourra bien plus efficacement quand t'hygiene aura penetre plus profonde- ment dans les inslitutions et dans les moeurs publiques. » 15 De accordo com este e outros auctores de nota estamos convencidos de que a arte pode intervir muito utilmente no tractamento da phthysica, e que um dos recursos mais poderosos de que dispomos é o regimen " Fonssagrcves — Hygiene alimentaire. 15 Noel Mussy — Leçons cliniquns faites a 1'Hôtel-Die.u . = 44 = dietetico. A dieta dos phthysicos deve ser determinada pela phase á que tem chegado a affecção. No primeiro período ordinariamente se emprega a alimentação tônica: as carnes mal assadas, os ovos quentes, o vinho generoso, o chocolate, etc Quando, porem, a febre chamada hectica se declara, os doentes devem ser submettidos á dietetica das febres lentas. Mas n'estes casos não convém abstinência rigorosa; deve-se, pelo contrario procurar pela alimentação levantar as forças do indivíduo afim de que elle possa resistir ás perdas humoraes a que está sugeito. No juízo do povo, que muita vez é tabernaculo da crença nas doctrinas sabias dos grandes mestres da antigüidade, a dieta láctea é reputada como o meio mais efficaz para combater a phthysica; e para os médicos do século XVII e XVHI este regimen era um artigo de fé therapeutica. Cullen preferia o leite de jumenta a todos os outros durante a apyrexia, no caso porem em que a febre se manifestava, elle substituía o leite pelo soro. Hoffmann e Gui Patin seguem a mesma pratica. Baumes e Haller considerando que o leite é por excellencia o medicamento dos phthysicos, muito insistem no seu emprego, e para remediar as pertur- bações digestivas que o leite acarreta, estes práticos formulão estas regras: Si o indivíduo digere mal este alimento, si produz dyspepsia, aconselhão que se ajunte decocto de quinina, de quassia etc.; si produz diarrhéa, os decoctos adstringentes; si sobrevem a pyrosis, magnesia calcinada ; no caso de haver flatulencia, emprega vão água d'anis, de flores de larangeira, etc. A. Latour prescreve aos phthysicos um tractamento, que é ao mesmo tempo dietetico e medicamentoso, por quanto o leite serve de vehiculo ao chlorureto de sódio. « Eis a formula do regimen alimentar, diz Latour, que eu costumo applicar aos doentes: l.o muitas e pequenas refeições diárias em logar de uma só ou duas copiosas ; 2.o pela manhã mingáos ou papas preparadas com a farinha de milho ou trigo e leite de vacca addicionado de um pouco de sal; 3.» ás dez horas uma costelleta de carneiro assada e um fructo da estação ; 4.o as quatro horas uma sopa gordurosa, carne de boi assada, legumes e fructos da estação; 5.o as nove horas um mingáo de sagú ou de tapioca ; 6.o nas refeições o doente receberá como bebida o vinho Bordeaux fino. » 1C 16 Note sur le traitement de Ia plithisie pulmonaire — cit. por Fonssagrives. = 45 = O regimen dietetico estabelecido por este modo tem sido adoptado por diversos práticos, os quaes affirmão que por este meio tem conse- guido melhorar os soffrimentos do enfermo. Attendendo ao que sobre este assumpto tem dicto os mestres, depositamos na dieta láctea muita confiança; mas não nos deixamos levar por suas virtudes therapeuticas a ponto de consideral-a, como alguns o tem feito, um especifico que faz esquecer todos os outros recursos hygienicos e therapeuticos. No emprego dos meios que a sciencia aconselha aos phthysicos, esperamos menos curar a moléstia, resultado este excepcional, do que prolongar os dias do infeliz. MOLÉSTIAS NERVOSAS O regimen dietetico nas nevroses cujos accessos se succedem pór in- tervallos mais ou menos longos: na hysteria, na epilepcia, na asthma, e ainda n'aquellas cujas manifestações não são sujeitas á intermittencia, taes Como a choréa e a hypochondria ; não se aparta das regras geraes que a hygiene institue para a alimentação commum. Na terminação do regimen n'estas moléstias, o que principalmente nos occupa a attenção não são os casos particulares, mas sim o estado adian- tado de deterioração á que qualquer d'estas affecções pode levar o organismo: queremos fallar d'essa cachexia especial que com o tempo é adquirida pelos indivíduos sujeitos a estas moléstias, a qual é caracte- rizada por superexcitação desordenada das funeções nervosas e pelo em- pobrecimento chloro-anemico do sangue, formando o quadro synthetico do nervosismo de Bouchut, do hystericismo de Gullen, da cachexia nervosa de Lorry, da nevropathia de Malcolm. « A anemia que primordialmente era effeito, torna-se finalmente causa, e por sua vez dá origem ás numerosas perturbações nervosas que se perpetuão sob sua influencia. » n Ainda que não se deva affirmar de 17 Fonssagrives—Hygiene alimentaire. — 4G = modo absoluto que a anemia seja condição invariável sem a qual não se produz este estado adiantado de depravação orgânica, todavia se pode dizer (sans crainte d'erreur, diz o auctor precitado) que as moléstias ner- vosas, principalmente as que dactão de muito tempo, são dependentes da anemia, e o regimen alimentar, portanto, deve ser prescripto tendo-se em vista este estado constitucional. A abstinência, indicada quando ha febre, ou tendência ás bemorrhagias, será formalmente contra-indicada nas affecções nervosas propriamente dietas, porque as aggrava, ou mesmo da-lhes origem. Caslel foi o primeiro medico que reagiu contra o emprego da absti- nência professada por Broussais, nas affecções d'esta natureza, e mostrou o damno que causava aos enfermos a therapeutica que não se baseasse no uso dos analepticos. « Em 1836 um alienista Belga demonstrou que a debilidade podia produzir symptomas análogos aos que são determinados por um accrescimo de forças, symptomas estes que se aggravão com o uso da abstinência » 18 A therapeutica moderna no emprego dos tônicos e analepticos, coroados sempre de bons resultados n'estes casos, mostra- nos peremptoriamente qual deve ser a nossa prescripção dietetica. Quanto á natureza dos alimentos a empregar, dizemos com alguns auctores que a escolha das substancias alimentícias deve ser em grande parte confiada aos emfermos, quando não for ella de encontro ás leis da hygiene. O appetite, que os doentes d'estas affecções mostrão por tal ou qual alimento, deve até certo ponto ser respeitado, ainda mesmo que esse alimento não entre no quadro d'aquelles que a hygiene ordinariamente escolhe em taes casos. O appetite só deixará de ser um guia precioso no emprego da dieta quando o medico reconhecer que as perturbações ner- vosas perverterão este sentido orgânico. Obra citada. SECC2Ú0 KSDIOi. 0 EMPREGO DAS EMISSÕES SANGÜÍNEAS NA PNEUMONIA PROPOSIÇÕES I — O uso tradicional da lanceta na pneumonia não justifica em nossos dias o seu emprego empyrico. j[ — A anatomia e physiologia pathologicas da lesão pulmonar não justiíicâo-no igualmente. III — É impossível jugular a moléstia, mesmo em seu primeiro período. IV — Nem sempre é fácil distinguir a pneumonia da congestão pulmo- nar idiopathica ou da hemo-pneumonia, affecções sobre que tem reco- nhecida efficacia as emissões sanguineas. V__Com as sangrias não se encurta a duração da moléstia, e pode-se em muitos casos protrahir a convalescença. yi__Nem na consideração da etiologia, nem na das estatísticas se encontra apoio á pratica da phlebotomia. YH__Ê maia que duvidoso que as pneumonias tenhão mudado de typo, como alguns affirmão. YHI__Em presença das experiências modernas e observações clinicas de Thomaz, é muito problemática a acção antipyretica da sangria. IX — A lanceta ficará reservada para os casos em que uma congestão fluxionaria intensa se vier incorporar á pneumonia em principio de des- envolvimento nos indivíduos fortes. X — Uma outra indidicação, si bem que muito rara, é fornecida pela existência de uma estáse encephalica. = 48 = XI — A sangria local é seguida de benéficos effeitos contra a pontada que existe nos primeiros dias. XII — Nas zonas tropicaes, onde a anemia é um facto commum, ainda mais prudente deve ser o medico no emprego das sangrias. SECÇA.0 CIE.TJFÍ.3XCA HEMORRHAGIA TRAUMÁTICA PROPOSIÇÕES I — Hemorrhagia traumática é a extravasaçâo mais ou menos conside- rável do sangue atravéz da solução de continuidade de um vaso, deter- minada por um corpo estranho. II — Segundo a natureza do vaso lesado, a hemorrhagia é arterial, venosa, ou capillar. III — A côr do sangue, a maneira pela qual elle se extravasa, e as alterações, que a compressão exercida no trajecto do vaso imprime ao corrimento d'este liquido, fornecem dados sufficientes para o diagnostico differencial. IY — O prognostico das hemorrhagias traumáticas está em relação com a quantidade do sangue perdido e cathegoria do vaso lesado. V —A sciencia tem recolhido factos de hemorrhagias pertinazes a todo tractamento, que independentes da constituição do indivíduo, das discrazias sangüíneas conhecidas e da natureza da lesão vascular, nos levão a crer na diathese hemorrhagica. YI — A água fria, a compressão e os adstringentes são as primeiras indicações do tractamento da hemorrhagia capillar. VII— Casos ha, em que a hemorrhagia capillar requer a ligadura do vaso principal da região. VIII— A hemorrhagia venosa requer, segundo o calibre e extenção da lesão vascular, o emprego da compressão e da ligadura. c. *= 50 = IX — Rara vez o cirurgião precisará ligar a extremidade cardíaca de uma veia para sustar a hemorrhagia d'este vaso. X — Os casos freqüentes de pyohemia resultantes da ligadura venosa resumem o emj^ego desta operação na hemorrhagia d'esta natureza! XI — A pratica Langembeck, isto é, ligar a veia e a artéria corres- pondente nas hemorrhagias venosas persistentes e graves, tem sido sanccionada por alguns cirurgiões. XII — As soluções adstringentes, os absorventes, a caulerisação, a torsão, a compressão directa ou indirecla e a ligadura, são os recursos que a sciencia põe á nossa disposição nos casos de hemorrhagias arteriaes. \ XIII—-A transfusão do sangue será praticavel como recurso extremo no tratamento das hemorrhagias traumáticas. SECÇAO A.COE5SOB.1ÍL RESPIRAÇÃO NOS VEGETAES PROPOSIÇÕES I — Os vegetaes, compartilhando de algumas das funeções exercitadas pelos seres do reino superior—os animaes, também executão a funcção de respiração. II — A respiração nos vegetaes consiste essencialmente em uma troca de gazes. III — As folhas são principalmente os órgãos da respiração. IV — As folhas absorvem ácido carbônico da atmosphera, e exhalão oxygenio, o qual resulta da decomposição do mesmo ácido. V — A decomposição do gaz ácido carbônico é determinada pela acção combinada da luz solar não diffusa e das partes verdes. YI — Na ausência d'estes agentes, concurrentemente, os vegetaes ab- sorvem oxygenio, e desprendem ácido carbônico. VII — É incontroverso hoje que neste caso o ácido carbônico exhalado não tem outra origem senão a absorpção pelas raizes e haste. VIII — A respiração nos vegetaes é uma funcção complexa que resume a conversão da seiva em fluido nutritivo pelo contacto com a atmosphera, constituindo-se também órgãos respiratórios, alem da haste, os vasos em que se tem realisado a ascensão da seiva, as escamas, e todas as partes verdes. IX__x esse processo de decomposição não escapão o gaz ácido car- bônico, vapor d'agua e ammoniaco, qualquer que seja sua origem. = 52 == X — A seiva é inteiramente análoga ao sangue dos animaes, e da sua modificação pelo contacto com a atmosphera é que resulta a formação de elementos anatômicos a custa do oxygeneo, carbono, hydrogeneo, e azoto. XI—Nas plantas que vivem n'agua a estructura anatômica da folha dá conta do seu modo particular de respiração, em tudo análoga á res- piração, brancbial dos peixes. XII — A absorpção do ácido carbônico pelos vegetaes estabelece um equilibrio providencial sobre a quantidade d'este gaz á cada instante e de tantas origens mandado para a atmosphera, e faz recommendavel a arbo- risação como meio hygienico. HIFFOGRASIS ÀFHOE.XSKX I Vita brevis, ars longa, occasio proeceps, experientia fallax, judicium difficile. (Sect. i.a aph. i.o) II Cum morbus in vigore fuerit, tum vel tenuissimo victu uti necesse est. (Sect. í.a aph. 8.0) III In exacerbationibus cibum subtraherc oportet: exhibere enim, noxium est. Et quoecumque per circuitus exacerbantur, in exacerbationibus subtrahere opportet, (Sect. í.» aph. il.o) IV Victus humidus, cum febricitantibus omnibbus, tum maximè pueris, et aliis tali victu uti consuetis, confert. (Sect. í.a aph. I6.°J V Impura corpora quo magis nutriveris, ea magis Icedes. (Sect. 2.» aph. 10.°) VI A morbo bellè comedenti nihil proficere corpus, malum est. (Sect. 2.* aph. 3Í.°J Typographia de J. G. Tourinho—1873. avente/tida â fêetnintáão M>evt4ola. oSa/ta e Sbcu/c/ade c/e *s/6ec/c- ema em sy c/e //etemáto c/e têy3. êa*. fâtnctna/o ê/fènto. Óótá cow/oime oâ Od/a/u/od. Sracu/aac/e c/e ^/wec/cc/na o/a £&an/a sp o/e ye/em/wo de *êy3. SDf. ühnacw c/ da <&etnna 2z)p. te/audeinito &a/aad. £&*. ó£ gacféo geéeàa. JkiÁvttna-ae. £6aái'a e Sracu/dade a*e %/m>ee/t'ctna 46" de (yu/uvèo «é /é/J. //■. ^€tPaga-C/iae<) tülce-£Dttectot. *»' ^-