/* J Z1 ^^r * 5/ ^^ . ^/ ,^1 THESE QUE APRESENTOU A FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA PARA SER PUBLICAMENTE SUSTENTADA EM MOVESSISE&O DE 1868, « AFIM DE OBTER O GRAU DE DOUTOR EM MEDICINA . CIADDE1MR0 AUGUSTO DE MORAES CAÍDAS, Ex-interno das clinicas medica e cirúrgica da mesma Faculdade, NATURAL D'ESTA CIDADE, e filho legitimo de Firmino Soiiano Caldas c D. Eufrosina Carolina de Morees Caldas. • Deus scientiarnm Dominus est, « Ipsi praeparantur cogitationes. I. Reg. 11, 3. BAHIA TYPOGRAPHIA DE CAMILLO DE LELLIS MASSON & C, Rua de Santa Barbara n, 2, 1868 FACULDADE DE MEDICIM DA BAHIA. DIRffiCTOR 0 Ex.m0 Sr. Conselheiro Dr. João Baptisla dos Anjos. VICE-DIRE^TOR 0 EXM.mo SR. CONSELHEIRO DR. VICENTE FERREIRA DE MAGALHÃES. LENTES PROPRIETÁRIOS. 1.» ANNO. OS SRS. doutores: matérias que leccionam. 0,„s. Yicentc Ferreira deMogalMeS......\TX^^StÍÍ^£mUBU'm'aU Francisco Rodrigues da Silva........Chimica e Mineralogia. Adriano Alves de Lima Gordilho.......Anatomia descriptiva. • 2.o ANNO. Antônio Mariano do Bomfim........Botânica e Zoologia. Antônio de Cerqueira Pinto........Chimica orgânica. Jcronymo Sodrè Pereira..........Physiologia. Adriano Alves de Lima Gordilho.......Repetição de Anatomia descriptiva. 3.° ANNO. Jeronymo Sodré Pereira..........Continuação de Physiologia. Cons. Elias José Pedrosa..........Anatomia geral e pathologica. José de Góes Siqueira...........Pathologia geral. 4.o ANNO. Cons. Manoel Ladisláu Aranha Dantas.....Pathologia externa. ..........•.......Pathologia interna. Mathias Moreira Sampaio.........J Partos, moléstias de mulheres pejadas, e de 1 1 meninos recém-nascidos. b.o ANNO. .....»............Continuação de Pathologia interna. José Antônio de Freitas..........} Ana.l°mia topographica, medicina opcrato- ) ria, e apparelhos. Joaquim Antônio de Oliveira Botelho......Matéria medica, e therapeutica. 6.o ANNO. Domingos Rodrigues Seixas.........Hygiene, e historia de medicina. Salustiano Ferreira Souto.........Medicina legal. ..................Pharmacia. •......~..........Clinica externa do 3.° e 4.° anno. Antônio Januário de Faria.........clinica interna do 5.o e 6.° anno. OPPOSITORES. José Affonso Paraiso de Moura........i Augusto Gonçalves Martins........./ Domingos Carlos da Silva.........\ Secção Cirúrgica. I?uacio José da Cunha..........j Pedro Ribeiro de Araujo........../ Rosendo Aprigio Pereira Guimarães ...... \ Secção Accessoria. José Ignacio de 'arros Pimentel.........I Virgílio Climaco Damasio.........] Demetrio Cyriaco Tourinho........./ Luiz Alvares dos Santos......'....> Secção Medica. João Pedro da Cunha Valle.........í SECRETARIO O Sr. »r. Cinciunato Pinto da Silva. OFFICIAL DA SECRETARIA *> St*. Dr. Tliomaz de A quino Gaspar, \ Fu< •' U teve a dita gloriosa de encontrar nas profundezas magestosas da fé o meio de reconciliar, em amplexo sublime, a crença e o raciocinio, e poder, por tanto, dizer ao homem : « Crede e racio- cinae »: Rationábile obsequium vestrum. O homem no esplendido consórcio da fé com a razão, que, por certo, é o mais bello e inauferivel titulo de gloria da philosophia religiosa, deparou o meio de poder, cabalmente, satisfazer as duas necessidades vitaes do seu espi- rito; porque ao passo que ahi se estatue o respeito devido a fé, proclama-se igualmente o pleno exercicio da razão na orbita legitima das suas attribuições; porque ahi, em vez da sciencia nocivar a fé, ou a fé impossibilitar a sciencia, ao contrario, mutua e harmoniosamente, se eoadjuvam e se esclarecem. Em resumo : é só no grêmio da philosophia christan que o homem se acha no seu estado natural e perfeito, porque encontrando ahi o inextimavel segredo de poder amigável e magestosamente enlaçar a fé com a razão e a sciencia com a auctoridade, satisfaz,- d'est'arte, d'um modo pleno e solemne, as duas-ten- dências ingenitas e irresistíveis de seu ser: a crença, e o raciocinio. É só no seio desta atmosphera providencialmente salutar e viviíicante, que o homem pôde amplamente resfolegar o espirito, reconhecendo, afinal, não só que a grandeza da razão é ser fiel, como a sublimidade da fé e ser razoável; mas também que, fora desta phlilosophia san e verdadeira, ou uma sciencia orgulhosa, intemperante e má esterilisa a fé, ou uã fé fatigante, inconseqüen- te e cega mata a sciencia. 4 íí Vani autem sunt omnes homines in quibus non subest scientia Dei. (Sap. 13. 1.) Hesde os primeiros séculos do christianismo a razão catholica, acceitando como bússola inseparável do seu espirito o sublime preceito do Escriptor in- psirado: Redig entes intellectum in captivitatem fidei. Rationabile obse- quium vestnwi (II Cor., x, 5. Rom. xii, 1), conseguiu desde logo, pela fir- meza da sua fé e humildade do seu coração, a luz precisa, a pedra de toque, o critério de verdade necessário para poder, devidamente, aquilatar todos os juizos, todas as opiniões, todos os systemas da intelligencia humana. Alumiando-se, assim, com a luz de cima, ella não só pôde, combatendo victoriosamente todos os erros e alargando a esphera dos conhecimentos hu- manos, pelo desenvolvimento que dera a todas as verdades, remover os óbi- ces que a ignorância, a descrença e a impiedade colligadas despeiadamente lhe oppunham; mas também lançar os sólidos e inabaláveis fundamentos d'uma philosophia, natural no seu principio, legitima na sua Índole, e razoável nas suas miras, a philosophia christan, a qual, aprendendo, em primeiro logar, com fé razoável, a sciencia da palavra de Deus, pôde, ao depois, com razão crente, explanar, illuminar e resolver todas as grandes questões que, então, se debatiam, tanto na ordem philosophica, como na theologica e natural. Os verdadeiros philosophos dos primeiros séculos christãos, conscios de que o inapreciavel thesouro de todas as verdades estava resguardado nas au- gustas e mysteriosas profundezas da fé, tudo sacrificaram, vida, fortuna e ta- lento, para alcançar esse thesouro. Entre elles a leitura dos philosophos, oradores e poetas pagãos era absolutamente proscripta, como nos attesta S. Je- ronymo, não só porque entendiam que tal leitura não era innoxia á orthodoxia da fé e a pureza dos costumes; mas também, porque preferiam, sem previa discussão, as doutrinas sans ao estylo primoroso, os princípios verdadeiros á belleza das formas, a rusticidade sancta á eloqüência peccadora, a humildade evangélica ao orgulho humano, a religião do Crucificado, em fim, á uma phi- losophia de incrédulos. Pois bem : a estes homens que, tomados da loucura da cruz, buscavam a to- do o preço, e antes de tudo, tão somente comprehender a palavra do Senhor, lhes foi concedido pela boftdade e misericórdia divinas não só o que tão ar- 5 dentemente almejavam, mas ainda, em larga enchente, todas as vantagens que derivam da sciencia e litteratura humanas. É por isso que o Apóstolo lhes dizia : Agora, eis-vos ricos de toda a espécie de verdades, de graças e virtu- des : In omnibus divites facti estis (I cor. i, o.). Ao passo, porém, que os philosophos christàos, em rcmanso, fruíam do pre^ cioso patrimônio, que com fé robusta haviam alcançado, os gregos, olvidan- do, completamente, a palavra luminosa dos Apo :olos e Doctores da Igreja que, incessantes, os revocavam a crença eao sentimento christàos, desvelavam-se em perpetuar nos séculos por vir â gloria da philosophia e litteratura pagans que, com ardor febril, cultivavam. Vejamos o reverso da medalha. Estes idolatras do espirito, que desprezavam a idéa solida e pura que edifica a intelligen- cia pelos encantos e atavios da forma que mais agradam a imaginativa e aos sentidos;que,admittindoo Evangelho, divinisavam,comtudo, Homero e Demos- thenes, Platão e Aristóteles; que, insensatos, em summa, antepunham as glo- rias e as grandezas ephemeras da terra ás glorias e as grandezas sempiternas dos céus, soffreram justa e merecida punição, perdendo nívo só estas, mas até não podendo conservar aquellas. Conpulsae a historia desta nação que teve o rotulo viluperioso de Baixo Império, e vereis a verdade do (pie levo dicto. Hoje o que resta deste povo? retalhado pelo schisma e contaminado pelo erro, vive, apenas, sob o sceptro de ferro do despotismo moslemico. Perdida a fé, d'envolta com ella perderam, também, a sciencia, acivilisação e a liber- dade. Seu divino Platão foi por dous luminares da Igreja, com justiça, pro- clamado o patriarcha de todos os heréticos (\) e o condimento de todas as heresias (21). Sua pátria, em vez de foco de luz, como ellesa reputavam, trans- formou-se em antro medonho de todos os erros, porque foi do seu seio pes- tifero que sairam, em virtude da sua cega obstinação em seguir as doutrinas pagans e as de Platão, em particular, todas as heresias que tem lacerado a tú- nica inconsutil do Christo. Emquanto a razão philosophica antiga depois de ter duvidado de tudo, de- pois de ter tudo negado, Deos e a alma, o espirito e a matéria, a virtude a scien- cia, terminou renegando-sc á si própria, na phrase severa, mas eloqüente c justa d'um eximio philosopho, christão (3); no grêmio do christianismo nas- cente a sciencia fervorosamente pugnava pela fé, ao passo que a fé desenvolvia e magniíicava a sciencia : espectaculo, na verdade, extraordinário e magestoso, pelo impensado da idéa. (1) Tertulliano. Apud. S. Hieron., epist. ad Cteíiphontem. v2) S. Ireneo. (Haeres.) ;r Ventura La Raisou Philosophiquty et Ia raison catholique. T. 1. p. 87. 6 Foi d'ahi que surgiu esta pleiade brilhante de intelligencias summas que, unanimemente, possuídas da idéa nobre, grandiosa e sublime de desenvolverem a sciencia á sombra augusta e protectora da fé, elevaram, por fim, a razão que humildava-se á crença viva até a altura potente do gênio. Os Terlullianos, os Athanasios, os Ambrosios, os Jeronymos, os Agostinhos e tantos outros mis- sionários do progresso evangélico, foram os primeiros que, fiéis depositários de todas as verdades, como o eram ricos de todas as virtudes, herdaram as ge- rações futuras o immenso thesouro de verdadeira sabedoria que elles haviam colhido aos pés da Cruz. ni .....: le moyen áge excite l'étonnement par sa littérature robusto et naíve, non moins originelle que ses beaux-arts. On s'aperçut que notre société ne derive pas directement de celle des Grecs et des Romains, mais qu'il íaut rechercher ses éléments dans cette époche justemcnt appelée moyenne,parce qu' elle signale le crépuscule entre le counhant d'une eivilisation fondée sur Ia conquête. sur Tesclavage, sur l'ego"sme,et l'aurored'une eivilisation nou- velle, baséesur l'industric, sur l'individualité, surlecatho- lieisme. César Caxtu. Hist. Univ T. 1. p. li, 23. Os bárbaros que, impetuosos, desciam do septemtrião para apressar a disso- lução da sociedade antiga, que, gasta e podre até a medulla pela própria gan- grena interior, começava já a esphacelar-se, annunciavam que não tardava a soar no quadrante da eternidade a hora fatal, em que o império abjecto dos césares, que symbolisava a civilisação possível do paganismo, havia, também, de esboroar-se. Vejamos o soberbo quadro que acerca dessa immensa metamorphose social delinea com toda a mestria e primor o grande historiador-philosopho de Portu- gal, o Sr. Alexandre Herculano: « O christianismo profundara já as suas raizes na terra, vecejava aspergido com o sangue dos martyres, abrigava as sociedades com a sua vasta sombra e, tomando os membros desse cadáver gigante que se desconjunetava, ia preparando cada um delles para o convertem'um corpo social cheio democidade e de vida. Novas migrações desciam do septemtrião ao meio- dia da Europa para o renovar, como em tempos remotíssimos tinham descido das chapadas interiores da Ásia a povoa-lo. As legiões, a política dos impera- 7 dores e a magestadc do nome romano serviram por algum tempo de dique á in- vasão. Fora, porém, Deus que soltara a torrente. Era uma lucta sublime a daci- vilisnção contra a barbaria; mas esta rompeu as barreiras. As hostes e as tri- bus selvagens do norte arrojavam-se por cima do império: a vaga seguia-se á vaga. Daquclle grande cataclysmo nasceram as nações modernas (!). * Durante as irrupções dos povos septemtrionaesque, quaes bestas-feras saindo indomitase famintas das suas lapas hediondas, assignalaram a sua passagem no solo revoluteado da Europa comadôr, a consternação e a morte, a razão cafho- hca foi obrigada a solírer um breve estacionamento no seu caminhar progres- sivo para a luz, acolhendo-se ao silencio e á solidão dos claustros, a fim de escapar á vandalica ferocia dessas tribus barbaras. Logo, porém, que cessaram as convulsões sociaes que deram o ser as nacio- nalidades modernas, logo que o mundo catholico, que surgira mais vigoroso c bello sobre as ruínas do mundo pagão, abrigando-se a sombra triumphante da Cruz, labaro saneio da paz, da civilisação eda liberdade, constituiu-se, defini- tivamente, pelo Código eterno do Evangelho, que havia sido solemnemente re- ferendado com o sangue preciosíssimo da Victima Smmaculada do Calvário, a razão christan rejuvenesceu mais brilhante e vivaz no Occidente, como os Ber- nardos, os Anselmos etantos outros vullos veneraveis o exemplificaram, e, reu- nindo em um corpo de doutrina as tradições transmittidas pela Igreja, as li- ções dosSanctos Padres e os oráculos divinos da Biblia, realisou, em todo o ponto, o louvável intento dos philosophos dos primeiros séculos do christia- nismo, creando uma philosophia christan, tanto pelo espirito, como pelo co- ração. Foi esta philosophia eminente e fecunda, porque altamente religiosa, que, d'accòrdocom os preceitos eternos da religião do Martyr do Golgotha, soube ca- balmente resolver as mais árduas questões a respeito do homem, da origem das ideas, da união d'alma com o corpo, em uma palavra, a respeito de todos os gran- des problemas attinentes as três principaes partes de que se compõe a philoso- phia: aidealogia, a psychologia e a pedagogia. Problemas, cuja solução, cum- pre claramente dize-lo, nunca poderam, de um modo satisfactorio, dar os maiores gênios da antigüidade. Foi nessas epochas virentes da philosophia catholica, que a ingratidão insul- tuosa e iniaua das gerações que ora passam na terra soem appellidar de barba- ras que o intellecto humano remontara mais alto nas azas refuigenles da fé, não só porque, com feliz êxito descortinando os mais recônditos arcanos da nature- za fizera as três pasmosas descobertas que deram nova face ao mundo social: (1) Historia (b Portugal T i. p. 27 c 28 3.» etli«;5o. 8 a pólvora que facilitou ao homem a sua soberania sobre a terra, a bússola que lhe deu o sceptro da conquista do oceano, e a imprensa que dilatou os horison- tes do império da razão pela rápida circulação da idéa; mas ainda, e principal- mente, porque legara aos séculos porvir, pelos progressos que promovera em todas as sciencias e em todas as artes, a arca sancta da verdadeira civilisação que hade, incólume, sobrenadar a todas as idades. Ouçamos a palavra auctorisada d'um publicista notável pelo seu profundo saber e pela sua critica judiciosa e eloqüente, o Sr. Danjou: «Qu*on rassemble en un faisceau toutes les ceuvres, toutes les découvertes, tousles produits de Ia civilisation paienne, quon les place en regard descréations innombrables, des inventions préciéuses, des institutions de toute sorte, des chefs-d'o3uvre de toute naturedont le moyen âgc et les sociétés chrétiennes ont dote l'humanité, et l'on verra que 1'antiquité tout entière ne peut, en ancun genre, soutenir le parallòle avec les siòcles catholiq-ues. Dans 1'ordre des découvertes utilessous le rapport matériel, cetie supériorité du génie de Ia société chrétienne ne saurait être contestée. Labussole, Ia poudre àcanon, 1'imprimerie, le verre à vitres, Ia soie, le télescope, les lunettes, les postes, 1'eau-forte, Ia gravure, les tapis, les orgues, Ia peinture à 1'huile, les glaces, 1'alambic, les spiritueux, les cheminées, le papier, les cartes marines,la connaissance de 1'Amérique et des antipodes, les horloges, les lettres de change, etc, etc, et sous un aspect plus élevé, les hôpitaux, les asiles pour Tenfance, les monts-de-piété pour les pauvres, les innombrables institutions de charité. Voilà, entre mille, quelques-uns des fruits que produisit rintelligence hu- maine, quand elle putse développer sousfaction vivifiante de Ia foi catholique, Cétaitau milieu des ténèbres de ce quon a appelé Ia barbárie du moyen âge c étaità un moment ou lepaganismeetses ceuvres étaientcomplètementabandon- nés ou oubliés; et cependant, 1'antiquité, avec tout le génie, le talent, 1'esprit, Ia supériorité que nous nous obstinons à lui reconnaitre, n'a pas su faire une seule découverte vraiment utile à 1'industrie, au travail, et par suite aubien- ètre des hommes. » Foi nesses séculos áureos do christianismo e conseguintemente do verda- deiro progresso e da verdadeira civilisação, que o gênio catholico attingiu, na pessoa de S. Thomaz, o mais Sancto de todos os sadios e o mais sábio de to- dos os sanctos, o seu máximo esplendor. Lèarnas com acatamento o que a respeito do Auctor Angélico da Summa, deste Livro quasi divino, a que o Concilio de Trento, a mais sancta, douta e augusta assemblea que se reunira sobre a face da terra, de quantas a historia faz menção, conferira a honra singular de colloca-lo face a face do Evangelho, como o seu mais fiel e seguro commentario; lêamos, com profundo acatamen^ 9 to, repito, o que a respeito do Sol luminoso da philosophia christan, o seu in- terprete por excellencia, o maior gênio, talvez, do século XIX, o doutíssimo Ventura do Raulica, cuja immensa sabedoria fora realçada pela sanctidade do viver, escreve: «Saint Paul, ayant transporte sur Ia terre Ia vérité divine quil avait ren- contrée au ciei, dans ses Communications directes avec léternelle Sagesse, avec le Verbe de Dieu lui-môme, a pose les fondements de Ia science chrétienne, ou se resume toute science et toute vérité; saint Augustin en a étalé toute Ia magnificence et toute Ia grandeur; saint Thomas en a indique tout les raisons et toute Ia solidité. Saint Paul a precise le dogme chrétien deTÉvangile, saint Augustin l'a dé- veloppé, saint Thomas l'a démontré. Dans saint Paul Ia foi rayonne d'une manière toute divine; dans saint Au- gustin elle apparait ornée de toutes les richesses de 1'éloquence, de tons les charmes de Ia poésie; dans saint Thomas elle se trouve consolidée, toujours davantage, de toutes les forces de Ia raison. Saint Paul a été 1'apôtre par excellence, saint Augustin le théologien par excellence, saint Thomas lephilosophe par excellence de Ia vraie religion (1).» Ao terminar-se a leitura da historia inspirada e synthetica desta trindade humana, mas augusta e sancta, que, excedendo na terra quanto ha de grande, magestoso e bello, fora para sempre, juncto ao suppedaneo do throno do Altís- simo, goíar da suprema beatitude nos céus, a intelligencia em extasis e o co- ração em júbilos, reconhecem quão digno delia é o historiador que a traçara. Elle, de feito, antes de ir abrigar-se ao seio immenso do Eterno, passando qual astro radiante de luz pela face da terra, constituiu-se, pelo assombro da sua intelligencia e pela virtude de seu coração, uma verdadeira gloria do chri- stianismo, que tanto estremecera, e da humaninade, que tanto illuminára. (1) La philosophie chrétienne T. 1. p. 2 3. 3 10 IV La rétrogration a commencé en Europe avec Ia restau- ration du paganisme littéraire. qui a amené successive- ment les restaurations du paganisme philosophique, du paganismo religieuxj eÇdu paganisme politique. Aujour- d'hui le monde est à Ia veille de Ia dernière de ces res- taurations, Ia restauration du paganisme socialiste. Donoso Cortês. Letlre du í juin 18Í9. A philosophia latina, que, em virtude da sua inteira submissão aos preceitos do Senhor, teve a gloria immortal de apresentar ao mundo civilisado a verda- deira magna charta do pensamenio humano, porque era authenticada pela scien- cia e pela fé, que mutuamente se haviam dado o osculo da paz, infelizmente, porém, não perseverouna sua fidelidade ao methodo christão, que docemente impellriido-a pela senda luminosa do verdadeiro progresso intellectual, lhe ha- via conquistado legitima e indisputável soberania nos domínios da sciencia. Quando em 1453 Mohammed II tomou d'assalto a capital do Império By- zantino, que a exemplo da Roma de Augustulo se havia já reduzido a Cons- tantinopola dos Paleologos, os sábios da Grécia, expulsos do seio da pátria pe- lo alfange ottomano derramaram-se, quaes ruinas ambulantes da civilisação antiga, por toda a Europa, nomeadamente pela Itália, e contaminaram as na- ções em que estanceavam, reviventando nellas o espirito do paganismo, de que a religião chistan, com feliz êxito, havia começado a expungir a litteratu- ra, a sciencia e as artes. Alienados, então, todos os espíritos contra a sciencia de Deus, a Europa dei- xou-se fascinar pela tentação diabólica de adquirir a sciencia humana sem o auxilio de cima, e tomada d'immensa vertigem poz-se a cultivar com enthu- siasmo delirante a philosophia, a eloqüência, a poesia e as artes do paganismo. Como a Grécia, pois, ella ambicionou os bens do tempo em menoscabo dos da elernidade, como a Grécia também ella foi passivel de análoga punição, porque não só perdeu a unidade da crença d'envolta com o espirito do Evan- gelho que ella vilmente havia apostasiado, mas ainda não pôde grangear van- tagens reaes na sciencia e na litteratura, a excepção das que havia conser- vado, porventura, mau-grado seu, do ensino christão dos séculos que prece- deram ao rcsurgimento da litteratura greco-romana. \\ O triste resultado desta admiração idolatrica pelo mundo antigo foi que o Occidente, que aclarado pelo Evangelho começava a percorrer com gloria as ubertosas regiões da originalidade litteraria e artística bafejadas pelo alento divino do christianismo, deixando-se tocar pelo fermento pagão, que nesta epocha de pedantismo, levedava todos os espíritos, descambou da sua fecunda originalidade que de futuro promettia mais larga seara de louros fructiferos na imitação servil, humilhante e estéril dos clássicos da gentilidade. Lê-se por toda a parte que os séculos de Leão X e o de Luiz XIV devem a sua grandeza e esplendor a restauração das letras grecas e romanas; e esta opi- nião, que espíritos superiores, mas prevenidos proclamaram, sem estudarem a questão a verdadeira luz histórica, tem sido, geralmente, acceita, com grande detrimento da verdade. A historia do genero-humano nos ensina que as grandes glorias e os gran- des progressos d'um século nunca surgem de repente, c sim são a conseqüên- cia fruetuosa dos germens de gloria e de progresso que os séculos preceden- tes semearam no seio da humanidade. Por onde se conclue que o estado florente das litteraturas, italiana e franec- za, nos séculos XVÍ, c XVII não foi senão a conseqüência lógica dos porfiosos e sérios estudos que nos séculos anteriores robustas intelligoncias alumiadas pela fé haviam feito em todos os ramos do saber humano. E assim longe do brilho litterario destes dous grandes séculos ser devido ao fanatismo estúpido destas epochas pelos clássicos pagãos, que no seu progres- so desLruidor volvia saccilego a face a tudo que era christão, ao contrario, lhes eclipsou a intensidade do brilho, desvirtuando-lhes a primitiva direcção, pol- luindo-lhcs as tendências e transmutando-lhes o movimento progressivo e flo- rescente em um movimento decadentee ruinoso. Tractando deste assumpto num dos disòursos que pronunciara, em 1857, na Caneila Imperial, das Tulherias, o sábio Ventura de Raulica assim se ex- prime : «Semblable à. une roue qui continue de tourner même après que Fimpul- sion qui l'a mise e:i mouvement a cesse, le génie chrétien conserva, au me- lieu des obstacles que lui opposa le génie paíen ressuscite, legrand mouvement quil avait reçu au douzième siècle, et finit, aux époques dont il s'agit; par ravonner avec tanl d'éelaL Ces deux grands siècles furent donc moins le com- meneement d'une ère nouvcllc que Ia fin d'uneère anciennc, et ieur gloire lit- téraire ne fut que Ia vive lumière d'une lampe qui s'éteint. En eíiet, le siècle de :/on X fut suivi par celui quen Italie on appelle le siècle des Secentisti, des corrupteurs du style et du goút; et le siècle de Louis \1V a éie cios par le grand Évèque d'Avranehes, et comme un auteur non sus- \% pect (1) l'a prouvé,le grand siècle en enfanta un \àqxipetit, et il a eu un éclat bien funesle dans Ia littérature du dix-huitième siècle (2).» De feito : foi durante o século XVII em Itália, e o XVIII em França, que a litteratura e as artes, contaminadas pela seiva venenosa do paganismo, que pe- los fins do século XV o renascimento da philosophia greco-romana, largamen- te, lhes propinara, começaram a produzir as suas abundosas colheitas de fru- clos de corrupção e de morte. Portanto a renascença, tão celebrada por corypheus do racionalismo, é ime- recidamente considerada pela historia, fria e severa, mas verdadeira e justa, do espirito humano como a epocha nefasta em que teve logar a perniciosa in- trusão do paganismo na philosophia, na litteratura, no direito publico, nas artes, nos costumes e até na religião; porque foi no seio peçonhento dessa epo- cha de retrogradação que gerou-se o embryão desta vasta e immensa heresia, (pie, mais tarde, medrando em bem triste conjunctura, ameaçou assoberbar a Europa, sob o nome de protestantismo. V. II fatto è che, con un ardore instancabile, che sarebbe incomprensibile, se non sapessimo che è diabólico, che è infernale, si adoperano essi a propagare anchenelle catho- liche contrade queste dottrine di abisso; a fare a Dio, nella personna dei suo Cristo, dei suo Messia, una guerra impla- cabile, accanita, furibonda, luciferina;a togliere dei cuore dei cristano Ia fede nel Riparatore divino; a spogliar l'uo- rao dei prezioso patrimônio delle credenze; a privarlo dei pane delia parola di Dio, alimento essenziale dell'intelli■ genza, e ridurla, come il Figliuolo pródigo dei Vangelo, a nutrirsi delle ghiande di vane e turpi opinioni umaHe, a strascinare i pepoli nell'abisso dei dubbio, dell'incredulità e deli' indifferenza; a distruggere ogniverità sulla terra; a far perdere tutti gli ajuti soprannaturali, tutti i conforti. tuttc le consolazioni, tutte lesperanze alia misera umanità' Ventura, Ornilie sopra Ia Passione dei Signor Nostro gesu cristo. Prefaz., pag. 7. A philosophia antiga, na insania da sua soberba, desdenhando as crenças da tradição universal, filhas legitimas da revelação primitiva, e julgando poder tão somente com as luzes da razão humana e sem nenhum auxilio superior cami- (1) Le Conventionnel Mercier. (2) Le pctrvoir politique chrétien p. 177 178, 13 ilhar altaneira para a conquista da verdade, terminou, depois de oito séculos de pesquizas improbas e infructuosas, de discussões vans e controvérsias ingló- rias, em que professara toda a casta de erro, incensara todos os vicios e pro- curara erradicar todas as crenças salutares do seio da humanidade, no deses- pero de toda a verdade—no scepticismo. O grande apóstolo das nações, S. Paulo, que tão bem conheceu o mundo an- tigo, compendía a verdadeira philosophiagreco-romana nas seguintes palavras: Grceci snpientiam qucerunl. Dicenies enim esse sapientes stulli facti sunt (ICor. i, j>2. Rom. i, 22). O racionalismo moderno que, no dizer eloqüente d'um escriptor contempo- râneo, é a verdadeira anarchia na ordem intellectual, como a anarchia é o racio- nalismo na ordem política, seguindo com fatídica cegueira o mesmo roteiro do racionalismo antigo; isto é, repudiando a revelação christan, como este o fizera com a revelação primitiva, e lançando-sedesvairado na vereda tenebrosa do erro em demanda da verdade, desastrada e inevitavelmente havia de abysmar-se, como de feito abysmou-se, nobarathro medonho do duvidar de tudo. Semper discentes et nunquam ad scientiam veritatispervenientes (IITimoth., m. 7). O padre Ventura, o primeiro sábio de Roma, no dizer consciencioso de Gre- gorio XVI, vindicando a philosophia christan, personificada no vulto venerando de Sancto Thomaz, das objurgatorias ignominosas e pérfidas que lhe assacara uma das notabilidades do semi-racionalismo moderno, o Sr. Jourdain, come- ça a sua luminosa apologia por estas memoráveis palavras: « Le suprême de- gré de Ia folie nest pas Ia per te de toute raison, cest Ia per te de toute pu- deur. Lliomine qui ne rougit pas est bien pias près de Ia brute, est bien pias fou que Vhomme qui ne raisonnepas; et le cy7iisme est un symptôme plus alarmant que le delire (1).» Epigraphe, nem mais adequada, nem melhor que esta, podemos, por certo, encontrar, para a historia da philosophia racionalista nestes três últimos séculos. O racionalismo, modelando-se na escandalosa impudencia com que o pro- testantismo quiz, embaindo o bom-senso universal, fazer crer que Deus, des- prezando tantos Sanetos e preclaros Doctores, que a luz divina da graça e da fé illuminára, e que, durante deseseis séculos, suecederam-se de um modo inin- terrupto no grêmio da Igreja Catholica, escolhesse o incestuoso Luthero e o pe- derasta Calvino para reformar a sua Igreja, conclamou, igualmente, pondo de margem os sábios que, pelo espaço de desesete séculos, illustraram a philosophia christan, já sollicitos descobrindo a verdade e zelosos propagando-a, já servindo de exemplares dignos da severidade da moral do christianismo a par da cren- (1) La philosophie chrétienne p. 113. 4 14 ça viva na incomprehensibilidade dos seus indcmonstraveis mysterios, que Ba- con e Descartes foram os dous entes predestinados pela Providencia para, seve- ramente, coarctar os abusos da escholastica e restaurar, em íim, a philosophia. Com este intento o cartesianismo arvorou o estandarte da independência da razão, como no século XVI o lutheranismo havia feito quando quiz estygma- tisar as demasias da cúria romana. E assim como a heresia lutherana, não do- brando a orgulhosa cerviz, em matéria religiosa, senão a razão estudando a Bí- blia, atufou-se miseravelmente no deismo e no naturalismo, assim também a es- ehola cartesiana, não reconhecendo outra auctoridade, em philosophia, a não ser a da razão estudando a naturesa, empegou-se deploravelmente no pantheis- mo e no scepticismo. Abyssus abyssuminvocat (Psalm. xli. 8). Depois lançaram o labéu vilipendioso de ignorante, supersticiosa e servil a phi- losophia escholastica, e appellidaram os séculos em que ella imperara de pro- funda lethargia intellectual, por isso que nestas epochas, em que a sciencia foi tão solida quão vigorosos foram o desenvolvimento da intelligencia e a crença do coração, o ouro fino e puro do verdadeiro saber não dava logar aos auri- chalcos fictícios de imaginações escandecidas, como nos séculos actuaes de pro- gresso racionalista costumam, ordinariamente, faze-lo os modernos cabalistas do pensamento. Eis o motivo porque os asseclas da philosophia anti-christan enredando o nome do soldado-philosopho no do monge-apostata, thurificam a fama men- tida destes dous patriarchas do erro com as seguintes palavras: Graças a Lu- thero somos philosophos em religião, como graças a Descartes somos protes- tantes em philosophia! Encomio, na verdade, bem adequado a torpe divisa dos seus negros diademas. Proclamada e acceita a emancipação autocratica e funesta da philosophia da paternal tutela do christianismo, ou por outra, paganisada de todo a philoso- phia, promovem completo divorcio entre ella e a religião, divorcio em virtude do qual, no entender de De Gerando, a philosophia teve a ventura de tornar a ser um estudo profano (Hist. comp. tom. 1). Ainda mais, do alto da cadeira do illustre chefe do racionalismo francez parte, a final, o brado horrível, que ecchoou lugubremente por todo o orbe catholico, porque esse brado importa numa blasphemia atroz, de que a philosophia é a luz das luzes, a auctoridade das auetoridades: <•'Ia philosophie est Ia lumière des lumières, Vautoríté des autorités. (Cousin. Cours de 1828, pag. 29). Bacon com seu empyrismo reviventouem Inglaterra o estúpido materialis- mo de Epicuro. Hobbes, Locke, Hume, Collins, Bolingbroke, Wooltson, Gibbon e muitos outros, milhando pelo intuito do cruel ministro da Jezabel de Ingla- terra, procuraram depois a porfia completamente materialisar a sciencia. °Foi 1o este pernicioso sensualismo inglez, pae do atheismo disfaçado do século XVIII que Condillac e Voltaire se encarregaram de circular na França, onde o plato- nismo redivivo por Descartes já havia aberto de par em par as portas ao sce- pticismo (1). Leibnitz com seu methodo de demonstração, evocando dos limbos Zenon, lança os alicerces do racionalismo allemão. O pantheismo de Spinosa e Malebranche, o idealismo de Berkeley, o scepti- cismo de Hume e de Kant, revolucionam a arena scientifica sem proveito algum para a humaninade. Evanuerunt in cogitationibus suis et obscuratum est insipiens cor eorum (. Rom. 1., 21.). De resto: a philosophia encyclopedista do século de Voltaire produz na sua viciosafecundidadeLamettrie, Diderot, d'Alembert, d'Holbach,Helvétius e tan- tos outros espíritos fortes que, capitaneados pelo sophista de Ferney, ainda hoje pasmam o mundo com o requinte da sua estúpida impiedade. O império do racionalismo não tarda a subirão cumulo da sua villania, por- quanto os seus lheophilantropos, arrebanhados pelo famoso Reveilière-Lepaux, ao passo que gritavam, blasphemos, « foi-se o Christo! » pressurosos erigiam al- tares a razão humana, symbolisada numa infame prostituta. Depois sobrevem a desordem, a confusão eocahos. Ninguém mais se entende no redemoinhar da- quella temulencia titanica. Realisa-se em todo o ponto o vaticinio do Rei-Pro- pheta: Omnis scientia eorum devorata est. (Psalm cyi, 27). O racionalismo, na verdade, tem muito de que vangloriar-se quando reco- nhece, ao folhear as paginas de sua historia no século passado, quanto se avan- tajára ao ethnicismo grego e romano. « Les siècles, escreve um grande apologista da verdade, raisonnent comme rhomme par syllogismes. L'histoire des peuples nous prouve que les erreurs d'un siècle ne sont que Ia conséquence des príncipes erronés que les siècles précédents avaient poses. La philosophie de ccs derniers temps nestquun syllogisme dont le dix- septième siècle a pose Ia majeure, le siècle dix-huitième a ajouté Ia mineure, et notre siècle a tire Ia conséquence. Au dix-septième siècle on s'est conten- te d'établir ce principe: On ne doit rien admettre comme vrai que cequipa- raít vrai à Ia raison de chacun; et toute Ia philosophie de ce siècle n'a été que le développement de cette mêmeproposition. Voilà donclam^uredusyllogis- (1) La philosophie du dix-huitième siècle est le développement du mouvement cartésien en deux systèmes opposés que le cartésianisme contenait dans son sein sans en avoir développé toutes les puissances. II fallait que ces puissances cachécs prissent tout leur développement pour qu'on les connut et dans ce quelles avaient et dans ce quelles n'avaient pas. De!à Vidéalisme de 1'école allemande et le sensualisme anglais et français (Cousin, Cours de 1828, leç. 13.) 16 me bien nettement posée. Le dix-huitième siècle arriva disant: « mais rien de cequ'on a admis comme vraijusquHci neparait vrai à Ia raison desjphi- sophes; » et toute Ia philosophie du dix-huitième siècle na été pareillement que le large commentaire de cette proposition. Voilà donc Ia mineure du syllo- gisme bien établie encore. II ne restait qu'à tirer de ces deux premisses cette conséquence: Donc on ne doit rien admettre comme vrai. Et c'est ce qu'a fait le siècle dix-neuviènne, dont toute Ia philosophie nest au fond que le sce- pticisme pur et simple (1). » De feito, hoje éumfacto histórico irrefragavel que, assim como o corypheu da impiedade do século XVI não deu a luz o protestantismo com o seu aífrontoso cortejo de abomjnações e torpezasgentilicas, que tem tanto inficionado a Europa, senão transplai t.ndo para a theologia a doutrina angular da esehola de Platão, formulada do modo seguinte: «Idverum quod unicuiqueverumvideatur; » assim também o amphitryão da philosophia do século XVÍÍ não inaugurou o cartesianismo com todos os erros e delírios do philosophismo grego senão ado- ptando em philosophia a mesma theoria platonianaque Luthero havia theologi- camente traduzido. Conseguintemente Luthero, resuscitando no século XVI o platonismo, consti- tuiu-se o patriarcha do protestantismo, como Descartes, no século XVII, espe- Ihando-se no digno auetor da Reforma, constituiu-se o decano do racionalismo. E porque a natureza é lógica, Naturanon facit saltum, apparecem como conse- qüências do cartesianimo no século XVIII, Voltaire, o apostolisadormais cynica- mente abjecto da impiedade, e no século XIXCousin, Saisset, Simon,Renane tantos outros missionários devotados do erro. O racionalismo vigente, que é filho legitimo do philosophismo do século passado, não passa d'um amálgama monstruoso de incredulidade voltairiana e de hypocrisia pharisaica. Ora, era somente para os phariseos, cujos lábios respiravam a infecção dos túmulos, ecujas linguas exhalavam o veneno das serpentes, que o Deus da man- sidão, da indulgência e da bondade tinha olhares accesos em cólera : Circum- spiciens eoscum ira. (Marc. c. m.) O Salvador dos mundos, estampando com caracteres de fogo nas frontes desses racionalistas hypocritas da religião, cujas almas tisnadas pelas mais ignó- beis paixões astuciosamente velavam-se com o manto da dissimulação e da men- tira, os fulminantes anathemas de sepulchros branqueados, de raça de víbo- ras, de geração adultera e má, presignalou, d'esfarte, com oferrete indelével de sua tremenda maldicção os philosophos pharisaicos dos nossos dias que, in- (1) Ventura. Essai sur 1'origine des idées et sur le fondement dela certitude. p. 23G. 237. 17 titulando-se illuminados do céu, para melhor monopolisarem a sciencia, são\ realmente, os mais implacáveis inimigos do ehristiaaismo e da humanidade. VI Des les premiers jous du monde, il y a eu dans le mon- da une lumière divine, une charité divine, une autorité divine, une société divine. Des champs de PÉden au som- met de 1'Ararat, de 1'Ararat au rocher du Sinal, du Sinai à Ia montagne de Sion et du Calvaire, du Calvaire à Ia collinc du Vatican, jamais Dieu n'a cesse d'agir et d'ètro présent sur Ia terre. LAcoRDAinE. Llofjc fúnebre de Daniel 0'Connell. A historia do espirito humano, essa mestra do futuro, nos revela que, abs- trahindo-se dos philosophos antigos o que elles extraíram das minas das tra- dições universaes, na phrase de S. Agostinho, o resto o um acervo monstruo- so e ignóbil de hypotheses chimericas e aventurosas, de doutrinas vaporosas e incoherentes, de systemas absurdos e Ímpios, sobre que pairava, incessante, o negro abutre do scepticismo—o mais atroz. Ora, a causa efficiente da mam- nha e estéril improduetibilidade da philosophia antiga e da sua profunda de- gradação, proveiu, como no-lo ensina a verdadeira philosophia da historia, de ter ella, no delirio do seu orgulho, ousado fechar olhos a luz inextinguivel da revelação primitiva que, jorrando através dos séculos, pcrennemente, il- hunina a humanidade inteira, e querer, guiada somente com a luz bruxuleiante de razão humana, percorrer, ufana, os paramos interminos da sciencia. Esse methodo philosophico, contra o qual eloqüentemente protestam o bom- senso universal, os monumentos da tradição e da historia, em linguagem seve- ra e inflexível, é que o racionalismo moderno, com escandaloso despejo, foi exhumar do ossuario dos séculos. A philosophia christan, porém, humilde e reverente, lustrando-se nas águas divinas da Revelação (1), desse manancial inexhaurivel de luz, de verdade e de vida, facilmente obteve as idéas as maissans, as mais puras e perfeitas so- bre o trigono symbolico de todo o saber humano—Deus, o homem eo universo. Na Biblia, nesse tabernaculo augusto do pensamento do Eterno, tanto no \nti"0 como no Novo Testamento, não só pelos Prophetas, mas também pelos 'fc>v (n Pelo termo Revelarão entendemos com o doutíssimo Ventura, não só as verdades inderogaveis que a Bí- blia encerra mas tombem as verdades eternas que, desde o principio do mundo, Deus revelara ao homem, c que a tradirão, por meio da linhagem, tem transmittido de geração a geração. 18 Apóstolos e até pelo próprio Christo, a Revelação divina é sempre comparada a luz; de modo que, no entender d'um insigne interprete, a revelação é para os olhos do espirito o que para os olhos da carne é a luz physica. Esta compara- ção, a um tempo philosophica e poética, nos instrue de que a economia da visão intellectual é semelhante a da visão corporal, e, conseguintemente, assim como para que tenha logar a visão corporal é mister não só do duplo appare- Iho dioptrico. que essencialmente constitue o sentido da vista, mas ainda da luz; assim também para que se dê a visão intellectual é necessário não só da razão, mas ainda da revelação. Portanto é a revelação, esse telescópio divino do espirito, que subministra ao intellecto humano os meios de poder pelo raciocinio elevar-se do conheci- mento a sciencia das cousas espirituaes, da mesma sorte que a luz faculta ao homem os meios de poder pela experiência passar da simples visão a sciencia dos objectos sensíveis. Mas, como a sciencia do mun do objectivo presuppõe d'um modo implícito a visão, e esta a luz, semelhantemente a sciencia do mun- do espiritual presuppõe o conhecimento, e este a revelação. Deus desde o principio do mundo fez a luz physica resplandecer para a vi- são dos corpos, como diffundiu a luz vivificante e inapagavel da Revelação, pa- ra guiar a humanidade ao conhecimento da verdade : Deus quijussit de te- nebris lumen splendescere, ipse illuxit in cordibus nostris (II Cor. iv, 6). Ao abrirmos as paginas do gênesis, no capitulo consagrado a historia da Creação, lê-se no estylo magestoso e repassado de mystica poesia em que fo- ra burilado o pensamento sacrosancto do Creador, as seguintes eloqüentíssi- mas palavras : « Dixit Deus : Fiat lux : et facta est lux.» A luz material, de que Deus innundára a natureza, espancando as trevas que obscureciam a superfície da terra, não é senão, conforme a grandiosa idéa de Sancto Ambrosio, a reverberação do radioso semblante do Creador : Deus vidit lacem, etvultu suo illuminavit. (Eexaemeron). Da mesma sorte que a luz espiritual que irradia da sciencia do céu, illuminando os apóstolos e marty- res da verdade e dissipando os erros que entenebrecem o mundo da intelli- gencia, na comparação magnífica d'um auctor inspirado, não é senão o refle- xo augusto da face divina do Redemptor : Ad illuminationem scientice cla- ritatis Deiin facie Chrisli Jesu (II Cor., iv, 6). Se a luz deixasse de aclarar o mundo, toda a actividade social paralysar- se-ía também. A dôr, a estagnação e a morte substituiriam a alegria, a circu- lação e a vida. Tudo petrificar-se-ía ante a esmagadora terribilidade das tre- vas universaes. A terra tornaria a ser fria, van, estéril e desolada de todos os seus encantos, de todos os seus primores, como o era antes da apparição da luz. Terra autem erat inanis et vácua et tenebree emnt super faciem abys- 67 (Ge>;es., 1, 2). 19 Foi por ibso que Deus, conforme os mysterios insondaveis de sua sabedoria, depois de ter feito surgir do nada a terra e o céu,creou, pela sua vontade om- nipotente, o mais bello, o mais nobre, o mais magnificente e também o mais preciso de todos os seres materiaes—a luz. Se a luz da revelação, desse mysterioso e invisível lampadario que, suspen- so da abobada cerulea do íirmamento, illumina o homem pelos áridos deser- tos da vida (1), viesse a extinguir-se, a verdade e a virtude, refugindo da face da terra, iriam acolher-se nos céus. Então a caligem de todos os erros e alu- tulencia de todos os vícios, entenebrecendo,em eelypse perpetuo, a razão, esta- beleceriam na terra a autocracia satânica do mal, constituída pelo eahos infer- nal da ignorância absoluta de todas as verdades, do naufrágio de todas as vir- tudes, da apotheose de todos os vícios e da cegueira insanável e horrifica do es- pirito humano. Foi para livrar o homem desta desdita sem nome que o Deus das miseri- córdias, immediatamente depois de dar-lhe o ser, quiz, bondadoso, revelar- lhe o inalienável patrimônio das verdades eternas, base fundamental da sua razão, as quaes ao depois foram para todo o sempre, divinamente, desenvolvi- das pelo Redemptor; porque no entender do Apóstolo S. Paulo a doutrina da verdade ensinada pelo Inigcnito do Senhor nasceu com o mundo e durará por toda a eternidade. Christus, heri ei holie, ipss et ia scecula (Heb., xiii, 8.). A luz da revelação, pois, é tão necessária ao mundo intellectual como a luz material é para o mundo physico. A luz não só é dos segredos da natureza o mais profundo e impenetrável na sua essência, mas também é de todas as creaturas sensíveis a única que goza da immutabilidade na sua belleza inenarrável. Nem o tempo, que pre- cipita os évos na voragem da eternidade, pôde envelhece-la, nem o bafo dos sé- culos, que ella transcorre, pôde deturpar-lhe a magnificência primitiva. A luz contactea os corpos os mais corruptos, perpassa pelos logares os mais infectos, atravessa os meios os mais impuros sem poder ser polluida e muito menos corrompida. A sua incorruptibilidade é filha legitima da sua immuta- bilidade. Ha sessenta séculos que ella fui creada pelo mandato soberano do Senhor, e ainda hoje se ostenta erebrilha tão virgem, tão bella e tão pura,como o fora na origem do mundo. lia dous mil annos, também, que a philosophia da Cruz, que, na sua virtuosa soberania fora solemnemente sanecionada pela Sabedoria Increada no pincaro do Golo-otha, tem, imperterritae inalterável na sua pureza primitiva, atraves- r Lucerna luceus in caügiuoso loco (II Petr. i; 20 sado as crebras procellas do oceano das paixões humanas, insufíladas por es- sa philosophia sem crenças, que, só inspirando-se na luz satânica do erro,pre- tende, a todo o transe, atufar o homem no charco podre e. dormente do vicio. E como pela vontade omnipotente d'AQUELLE QUE E a luz material se con- serva pura, incorruptível e bella como no primeiro dia que a viu nascer, assim também a luz espiritual que emana da palavra sacrosancta do Suppliciado do Calvário permanecerá pura, vivaz e inextinguivel até a consummação dos sécu- los para alumiar o homem durante a sua romagem pela terra e prepara-lo para gozar na eternidade da dupla laureola da virtude e da verdade. Lucerna pe- dibus méis Verbum tuum et lumen semüis méis (Psalm. cxviii, 105). A luz diífundindo-se por toda a natureza da-lhe a visibilidade independen- temente do sentido da vista, a revelação, igualmente, illuminando todas as cou- sas intellectuaes as torna cognosciveis sem a interferência da razão. Assim a luz é o verbo da natureza como a revelação é a luz do espirito. Quia fides lux est animaru?7i (A Lap., in n Matth.). A revelação, porém, sem a sanidade da razão, não produz a intellectuali- dade, do mesmo modo que a luz. na ordem physica não dá logar a visualidade sem que os olhos estejam sãos. Ora, a árdua e sublime conquista da verdade sendo unicamente possível pe- la razão san; isto é, que se prosterna, que se humilha eque crê : Nisi credi- deritis non intelligetis; segue-se, forçosamente, que a razão doente, isto é, orgulhosa e sem fé, nunca poderá attingir ao conhecimento da verdade, no- bre e grandioso empenho da verdadeira philosophia. On narrive à Ia vertu, diz um sábio, quen crucifiant lecceur, on arrive à Ia science quen humüiant Vesprit (1). Essas intelligencias morbosas, que a principio tocadas pela descrença e pela duvida são ao depois de todo cariadas pelo scepticismo, terminam quasi sem- pre pela cegueiia e pela morte. Eis o lugubre e lastimoso estado a que ficam reduzidos os fautores do racio- nalismo e aquelles que buscando lustrar suas intelligencias nas fontes mal-sans da philosophia van e penuriosa de verdades desses Lázaros scientificos, âhi hau- rem tão somente seiva lemifera que mais tarde lhes ha-de matar não a vida do corpo mas a vida do espirito. Cceci sunt et âuces ccecorum (Matth. xv, 14). Um dos príncipes da litteratura franceza hodierna, disse unia grande e irre- cusável verdade, quando disse: «S'il y a quelque chose de plus poignant qu un corps agonisant faute de pain, cest une âme qui meurt de Ia faim de Ia lu- (1) Ventura. La raison philosophique et Ia raison catholique. T. 1. p. 123. 21 mière (1)» De certo: nada ha mais doloroso aos olhos do pensador do que a inanição do espirito. O homem não vive só de pão, mas também da palavra do Senhor ou da ver- dade, e assim como o pão é o alimento da vida physica, assim também a pa- lavra de Deus ou a verdade é o substancioso alimento da vida intellectiva. Pauis vitce et intellectus (Eccles. xv. 3). E á mingua da palavra que sae' da bocca de Deus, na linguagem do Evange- lista (2), que muitas intelligencias definham no marasmo da duvida e tombam, por fim, cadáveres na atmosphera asphyxiante do scepticismo. É a derradeira e funesta peripécia, mas logicamente fatal, dessa philosophia apóstata da fé e da virtude que, com luciferina soberba, prefere á luz fulgurante e inalterável da Revelação a luz frouxa e vacillante do raciocinio, á sacrosancta e omnipo- tcntc palavra de Deus a frágil e mesquinha palavra do homem. \o rápido e incompleto bosquejo, que tracei da lucta suprema que actual- mente se agita no mundo scientifico entre a philosophia christan e a philoso- phia incrédula, entre o catholicismo e o racionalismo, procurei sempre rele- var, quanto esteve na pouquidade da minha intelligencia, a origem pura, sublime e divina daquelle sobre a vaidade, mentira e corrupção deste. A philosophia christan, pela respeitosa humildade do seu espirito e pela fir- meza inabalável da sua fé nas revelações do Eterno e do seu Unigenito, anhelando sinceramente opulentar-se, antes de tudo, na sciencia da virtude e da verdade: Quoerite primum regnum Dei (Matth. iv, 33); não só ficou rica da palavra do Senhor, mas até foi pela liberalidade divina investida com a singular prerogativa de, soberanamente, poder aferir com o sello da sua discreta sabedoria o verda- deiro, o bello e o útil de todas as sciencias da terra: Et haic omnia adjicien- turvobis (Ibid.). A philosophia christan, por tanto, éarealisaç.ão vivaesolemned'umapromes- sa grandiosa feita por Aquelle que não pude faltar na sua iníallibilidade divina; é a verificação magnificente d'um oráculo que a Sapiência Incarnada emittíra pelos lábios puros d'um dos seus Evangelistas. (1) Víctor Hugo.—les miscrables. (2) Matth.. iv,4. M Gloria, pois, a esta philosophia inspirada que, na sua magestade humildosa, acrísolando a sua intelligencia no fogo my stico da fé, sem cessar entoa, com inef- favel extasis, na terra,'d'accôrdo com os cânticos dos anjos nas alturas, fervo- rosos hossannahs ao Deus immortal das sciencias. Deus scientiarum Dominus est, Ipsi prceparantur cogitationes. DISSERTAÇÃO. o An raras humanas provieram duma só origem? I . . . . ♦ l'unité de l'espèce humaine n'est pas seulement un point de doctrine philanthropique inspire par les senti- ments les plus honorables, 'une conception philosophique clevée, un dogme respectable par cela seul qu'il se ratta- che aux croyances religieuses de Ia plus noble portion de l'humanité; mais cette unité est surtout—avant tout, pou- vons-nous dire,—une grande et sérieuse vérité scienti- fique. Qlatrefages, Unité de Vespèce humaine. p. xvi. Ha no mundo um livro singular que, nas suas paginas genesiacas nos des- cortinando o começo dos tempos, como nas suas paginas apocalypticas nos vati- cinandO a consummação dos séculos, relata, a um tempo, a historia pregressa, presente e futura do genero-humano, de um modo não só historiamente verda- deiro, mas também misteriosamente prophetico. Este livro único, em que a rea- lidade dà acção humana não sendo implicada pela intervenção de cima, é no entretanto exalçada na contexturà de toda a sua narrativa pela inspiração divi- na, que lhe dá a uneçao d'um interesse religioso e dogmático, este livro por ex- cellencia, porque theandrico ou humano-divino á semelhança do Homenir Deus, cujo fim e alvo elle symbolisa, finis legis Christus (1) é a Riblia. Pois bem; foi este livro portentoso, sacrario sublime da eterna sabedoria, que a sciencia ímpia do século passado, esta «vasta conspiração contra a verdade (De Maistre),» denegando-lhe a origem divina, atacou fêa e vilmente todas as suas paginas; porquanto não só rejeitou, com todo o desplante, os milagres e as prophecias que elle encerra, e cujamysteriosa veracidade tem sido, plenamente, confirmada pelo tempo a medida que se afunda na voragem do passado; mas também porque acoimou de falsidade tudo quanto elle narra concernente á ori- gem da humanidade, á creação do mundo, ao dilúvio, etc. (J)Rom. Xí, n Os infamados polygraphos do século da Encyclopedia, com a superficialida- de scientifica e má-fé que os caracterísavam, tentando illoquear o bom-senso universal com as cavillações e subtilezas ridículas com que torpemente ludi- briavam o céu e a terra, proclamaram, entre outros muitos paradoxos, que se- melhantes a herpes venenosos repullulavam por toda a parte, que o genero- humano não procedia d'um só tronco. Todavia, já em 1655, La Peyrère, dando a lume a primeira parte do seu « systema theologicum ex preadamitarum hypothesi» procurara provar que os gentios foram creados no sexto dia da magna semana da Creação, e que só depois do repouso do septimo dia é que Deus fizera Adam surgir do limo da terra; admittindo, assim, duas raças inteiramente distinctas desde o berço: a raça âdamica ou judia e a raça gentia ou ethnica. Mas a voz de La Peyrère espirou sem eccho. O antigo dogma d'Adam ficou inabalável no seu pedestal, que a crença de tantos séculos havia cimentado. Foi na epocha, porém, da soberania oligarchica dos espíritos fortes, destes malaventurados escarnicadores das mais puras e sanctas tradições sociaes, que alguns naturalistas, que se alistaram debaixo das bandeiras da philosophia brutalmente incrédula de Voltaire, fizeram guerra aberta a doutrina bíblica da unidade da espécie humana, que, aliás, muitas intelligencias eminentes, á fren- te das quaes se achavam Linneo e Buffon, animosamente, propugnavam. Acerca da transcendente questão da genealogia da raça humana o sábio Buffon assim se exprime : « Tout concourt donc à prouver que le genre humain nest pas composé d'espèces essentiellement différentes entre elles; quau contraire il n'y a eu originairement quune seule espèce d'hommes, qui, s'étant multi- pliée et répandue sur toute Ia surface de Ia terre, a subi différents changements par rinfluence du climat, par Ia différence de Ia nourriture, par celle de Ia ma- nière de vivre, par les maladies épidémiques, et aussi par le mélange varie à 1'infini des individus plus ou moins ressemblants; que d'abord ces altérations nétoient pas si marquées, et ne produisoient que des variétés individuelles,, qu elles ont ensuite devenues variétés d'espèce, parce qu'elles sont devenues plus générales, plus sensibles et plus constantes par 1'action continuée de ces mêmes causes; qu elles se sont perpétuées et qu'elles se perpétuent de géné- ration en génération, comme les difformités ou les maladies des pères et mères passent á leurs enfants; et quenfin, comme elles nont été produites originai- rement que par le concours de causes extérieures et accidentelles, que elles nont été confirmées et rendues constantes que par le temps et 1'action conti- nuée de ces mêmes causes, il est três probable qu'elles disparoítroient aussi peu à peu et avecle temps, ou mêrne qu'elles deviendroient différentes de ce qu'el- les sont aujourd'hui, si ces mêmes causes ne subsistoient plus, ou si elles ve- 25 noient a varier dans d'antros circonstances et par d'autres combinaisons (I).» As duas principaes escholas anthropologicas modernas, que são conhecidas pelos epithetos de monogenista e polygenista, remontam, propriamente falan- do, ao século XVIII. Ha além disto a theoria do Sr. Agassiz que pretende conservar o meio termo entre o monogenismo e o polygenismo e conciliar es- tes dous systemas por natureza encontrados, mas que, em substancia, é o po- lygenismo em toda a suagenuinidade. Ao passo que a doutrina da multiplicidade, em contradicção flagrante coma crença de todos os povos na origem commum da espécie humana, cae ine- luclavelmente no illogico, no absurdo e na impiedade; a doutrina da unidade, estudada á luz da verdadeira philosophia, é não somente uma crença razoável, mas também uma verdade scientifica, como o demonstraram os Cuvier, os Muller e os Humboldt. Ora, para provar esta verdade scientifica, sanctificada por uma crença tão antiga quanto o mundo; porque não só os seguidores da Cruz, mas também os sectários de Moysés e até os crentes do Islam sempre consideraram Adam como o pae do genero-humano, não é preciso soccorrer-me ás valiossismas razões que para sanccionar este dogma da philosophia christan, em grande copia, submi- nistram a creação, o dilúvio e, sobre tudo, a obra por excellencia do Homem- Deus, o augusto mysterio da Redempção; bastam-me, tão-sómente os argumen- tos de tanto momento que a historia da palavra humana fornece, se, acaso, os puder convenientemente desenvolver. II A vida intellectiva consiste na união do espirito com a verdade, como a vida physica na união d'alma com o corpo. É por isso que S. Agostinho dizia Deus é a vida da alma, como a alma é a vida do corpo; Vita cor por is a7iima vita ânimos Deus. Assim, conforme o texto sagrado, o homem saindo alma viva das mãos do seu Creador, Factus estin animam vivent em (Gen. II. 7) começou des- de esse momento a gozar da plenitude da vida, não somente na ordem physica como corpo vivo, mas lambem na ordem moral, como alma vivente. E dames- (i) OEuvres completes de Buffon mises en ordre et ptécédées d'uae notice historique par. M. A. Richard. Paris, 185o T, 2 p. 046 617. 216 ma sorte que os apparelhos sensoriaes o puzeram em relação com o mundo ob- jectivo, lhe foi dada por Deus a palavra para servir de meio communicativo do seu pensamento. A este respeito um profundo interprete do livro infallivel dos oráculos divinos escreve o seguinte: « Dieu en créant 1'homme de Ia terre, et en formant du corps mème de 1'homme lapremière femme, afin quelle fut Ia compagne de sa vie, puis quelle lui était semblable par sa nature, leur clonna à tous deux 1'usage parfait deleurs sens et de leurs facultes, Ia règie dei'intelligence, Ia loide l'es- prit et du coeur, Ia pensée, les sentiments, Ia parole; de sorte quils purent, dès le premier instant, marcher, opérer, penser, entendre, raisonner, vouloir, parlei1. Dieu leur ré vela le mal, afin quils pussent Féviter; le bien, afin quils pussent le pratiquer (1). » Adam, archetypo da perfectibilidade humana, não inventou, pois, a palavra, appareceu com ella, como apparecêra com os demais dons que o Creador, na sua munificencia infinita,|largameníe lhe conferira. Épor isso que a Escriptura Sancta nos revela que Deus, depois de collocar o homem no paraiso de delicias, fez vir ante a sua presença, como em homenagem ao rei da creação, todos os se- res viventes, todas as aves do céu e todas as bestas da terra, afim de que elle impusesse a cada animal o seu nome próprio: Adduxit Dominus Deus cuncta animantia ad Adam ut videret qui vocaret ea, appelaretque Adam nomi- nibus suis cuncta animantia et universa volatilia coeli et omnes bestias terrce. Omne enim quod vocavit Adam animce viventis, ipsum est nomen ejus (Gen., II. 49 20). Adamsuccumbindo, porém, a ambição sacrilega que lhe inspirara Satanaz de ser semelhante a Deus na sciencia do bem e do mal: Eritis sicut ãii scientes hoyium etmalum (Gen. III. 5), tornou-se, pela sua inobediencia e rebeldia ás ordens que lhe preceituára o Creador, não somente indigno dos inextimaveis privilégios que auferia do estado de natureza integra e innocente em que Deus o havia collocado, mas até odioso, com toda a sua raça, aos olhos do seu Divino Auctor, a quem tinha loucamente offendido. Reconhecendo-se, réprobo emaldicto, porque a innocencia primitiva de todo o abandonara, o príncipe desenthronisado do Éden, com gesto flente e demu- dado, ouve, por entre as lagrimas pungentes que lhe revia o coração, esmagado pela dor da condemnação e do remorso, os ecchos do paraiso repercutirem lugu- bremente o tremendo anathema da morte, que sobre todo o genero-humano, na (1) Deus de terra creavit hominem; et creavit ex ipso adjutorium simile sibi. Et linguam et aures et cor dedit illis excogitandi, et disciplina intellectus replevit illos. Creavit illis scientiam spiritus, sensuimplevit cor illorum; et mala et Lona ostendit illis. (Eccles. XV1L 1, 5). 27 pessoa do seu chefe, a voz omnipotente de Jehovah acabava de fulminar. Pul- vis es, et in pulvercui reverte ris (Gen. III. 19). Mas antes do primeiro precíto pela sciencia, não da sciencia que desce de cima, como orvalho celeste, para refrigerar e edificar a intelligencia, mas des- sa sciencia satânica, que brota da terra, fomentada pelos instinetos ruins da carne (1), dormir, envolto no seu frio sudario, o longo somno do qual não se desperta scnlo na eternidadade, o Senhor o condemndra a pedir, com o suor fadigôso do trabalho, o pão com que nutrisse a sua triste e desbotada existência, á terra que, tendo perdido a liberdade pasmosa das suas virentes campinas, e as galas luxuriantes da sua vegetação magestosa, revestia agora o aspecto tetrico e monótono deimmensa charneca, safara e erma, onde somente os cardos e os lo- jos se entresachavam com as urzes e os abrolhos d' um vegetar enfezado e doentio. O Omnipotente, porém, na clemência infinita da sua eterna justiça, não quiz que aquelle, a quem tinha creado quasianjo, e que se atufára deploravelmente num pelago sem fundo de dor e de miséria, cedendo a tentação luciferina que lhe dourara o orgulho voluptuario da intelligencia na conquista da sciencia de- fesa do bem e do mal, perdesse, ainda que despenhado, a sublimidade da sua origem divina. O foragido da felicidade, o proscripto do Éden pôde então vislumbrar lá na extrema do horisonte da sua vida, tão negra e tormentosa quanto, outrora fora pura, plácida e feliz, a aurora suspirada da Redempção, por entre os fulgo- res celestes que espargia o grandioso mysterio da [nearnação do Verbo, desse ineffavel e estupendo enigma da caridade infinita do Deus-Redemptor. Com quanto ao primeiro peccador, que se constituíra, pela malícia infinita do peccado, o triste homicida da sua desventurada descendência, fosse em grande parte expungida a terribilidade da sua punição, cm virtude do dogma sublime da reversibilidade dos méritos divinos do grande holocausto dos séculos que se havia de consummar, quatro milannos depois, na sancta monta- nha do Calvário; todavia, elle muito e muito decaíra da primitiva perfeição, perdendo as preciosíssimas prerogativas, com que a bondade e misericórdia divinas, originariamente, haviam-no locupletado. Assim, o escolhido da Creação; em quem o Senhor havia posto as suas com- placencias, despenhando-se pelo peccado noabysmo do seu orgulho, viu delle fugir espavorida, porventura para sempre, a summa ventura das vidas: moral, intellectual e physica, symbolisada pela virtude, pela verdade e pela saúde; trí- plice aureola que outrora constantemente lhe cingíra a fronte soberana. Conseguintemente a palavra, como as demais faculdades moraes e inlellec- ' 1) Non est ista sapientia desursura descendens, sed terrena, animedis, diabulica (Jac. XIV). %H tuaes d'aquelle que fora creado á imagem sublime da Divindade, perdeu de todo a sua primitiva perfeição. Os mais profundos philologos tem até hoje em vão tentado descortinar qual fosse a linguagem primitiva. O que é certo é que desde Adam até a edificação da torre de Babel pelos descendentes de Noé, todos os homens falavam a mesma linguagem, como disso positivamente nos dá testemunho o hagiographo Moy- sés; isto é, o historiador infallivel,[porque inspirado pelo Espirito]Sancto: Erat autem terra labii unius et sermonum eorumdem (Gen. XI, 1). Quando os homens, porém, na loucura da sua vaidade e na vaidade da sua loucura, quizeram.levar a escala os céus em batalha campal com o Omniponte, este para punir esta inaudita tentativa fez surgir no próprio logar do delicto confusão cahotica na linguagem, que até então tinha sido commum, de modo que fosse absolutamente impossivel a mutua comprehensão entre elles: Descen- damus et confimdamus ibi linguam eorum, ut non audiat unnsquisque vo- cem proximi sui... quia ibi co7ifusum est labiumuniversce terra; et inde dispersit eos Dominus super faciem cunctarum règionum. (Gen. XI 7, 9).. E.d'ahi data, chronologicamente falando, a historia da diversidade daslinguas. III Posto que o homem pela fraqueza da sua virtude intellectiva occupe o ulti- mo grau na escala das intelligencias, é, todavia, o único ente, que, no plano do creação, goza da bella e suprema prerogativa de conhecer o singular como o bruto, de comprehender o universal como o anjo e de articular de um modo sensível o seu pensamento como Deus. A intelligencia humana, dobrando-se sobre si mesma, reflectindo sobre as suas faculdades, sobre suas perfeições finitas, conhece-se, emprehende-se; e por isso engendra alguma cousa de indizivel que é a concepção da cousa com* prehendida, e essa concepção que ella exprime pela palavra falada, não é se- não o verbo do coração manifestado pelo verbo da voz. O pensamento, o verbo interior do homem, diz Saneto Agostinho na sua bella theoria sobre a palavra humana, comparada com a economia ineífavel da palavra divina, querendo manifestar-se aos outros homens, se une a vóz, se incarna na vóz, se fas vóz, como o pensamento, o Verbo interior do Eterno querendo revelar-se ao mundo, se unificou com a carne, se incarnou, se fez carne. A palavra, pois, é a incarnação do pensamento no vocábulo por intermédio. 29 da vóz, é a corporificação phonetica da intelligencia humana, é emfim a trans substanciação sublime do verbo interior do homem. Por conseqüência a esehola de Condillac proclamando que « a palavra não é senão o signal do pensamento >■> deve ser solemnemente condemnada, por quanto o signal, como o disse de Bonald, indica somente o cousa mas não é a cousa em si, assim a fumaça é indubitavelmente signal de fogo, mas por certo ninguém dirá que a fumaça é fogo; ao passo que a palavra humana é o pensa- mento mesmo revestido de formas sensíveis, é a própria intelligencia trans- mittindo-se, por certas modulações da vóz, que sedenominam vocábulos, do es- pirito de quem fala ao espirito de quem ouve, é, em summa, como nos ensina o grande Doutor Africano o verbo do homem que se faz vóz, como o Verbo de Deus se fez carne. Na articulação sensível do pensamento, porém, toda a anterioridade e supe- rioridade cabe indisputavclmente a razão. O homem pensa não porque fala, mas fala por isso que pensa. A palavra desperta, fixa o pensamento, ajuda o espirito na formação e conservação das idéas, mas de modo algum é a potência engendradora do pensamento. O que Aristóteles dizia referindo-se a mão do homem, diremos a respeito da pala- vra : o homem é intelligente não porque tenha a palavra, mas tem a palavra porque é um ser intelligente. Le verbe, l'àme du discours, escreve um philosopho contemporâneo, ex- prime 1'idée de 1'être. Comme cette idée pourrait-elle naitre de Ia parole si elle nétait déjà dâns lintelligence (1)? Em verdade, toda a linguagem humana cifra-se no verbo. Emquanto este não âpparece no discurso, só ha vocábulos que exprimem idéas, destacadas, isoladas, inconnexas, que nada dizem, nada significam, nada traduzem; só rei- na o inintelligivel. Logo, porém, que surge o verbo a luz irradia-se por todo o discurso, as ideas, inclusas nos vocábulos, ligando-se, produzem as phrases, ou sentidos mais completos, estas, por seu turno, concatenando-se, segundo os pre- ceitos da hermenêutica interior do espirito, dão logar a um sem numero de ideas, de imagens, de expressões que, fielmente retrahmdo as mais recônditas o magníficas operações da intelligencia, communicam a quem ouve ou lê o pen- samento inteiro de quem fala ou escreve. Mas o verbo é a expressão phonetica ou graphica da grande idéa do ser, des- sa idéa que é a pedra angular da intelligencia humana, porque pensar não é mais do que affirmar que uma cousa é ou não é, que é desta ou d'áquella ma- neira : (1) Cl:_ Binar'. P.écis de philosophie p. 162. 8 30 Logo na vocalisação do pensamento toda a preeminencia pertence legitima- mente a razão. Ora a crença robusta e sincera nas primeiras verdades sendo a base funda- mental do raciocinio, segue-se que também deve sê-lo do discurso, por quanto este, oratio, não é mais do que a razão manifestada pela bocca por intermé- dio da vóz, como dizia Cassiodoro, citado por S. Thomaz. Assim a fé é o ponto luminoso de partida não só do verdadeiro raciocinio mas também do recto dis- curso. Logo para bem raciocinar como para sanmente falar releva antes de tudo firmemente crer. Eis a razão porque o Rei-propheta, tomado de celeste ar- roubo, prorompia nas seguintes expressões sublimes de alta sabedoria: Cre- didi; propter quod locutus sum(Psa\m. CXV). IV r No dia em que a humanidade viu a luz respirou, não só para o corpo mas também para a alma; isto é, falou, porque a palavra é tão necessária para vida intellectual, como a respiração é-o para a vida physica. Se a palavra desappa- recesseda face da terra, a intelligencia humana mumificar-se-ía, e a humanida- de inteira soffreria a mais horrível de todas as mortes—a morte moral. A palavra, pois, é a respiração do espirito. O celebre philosopho de Genebra disse uma grande verdade, quando disse que a palavra era necessária para inventar a palavra; porque, de feito, é im- possível comprehender-se que os homens se cointeressas sem, se coadunassem para inventar a palavra, sem que previamente tivessem pela palavra estabele- cido a mutua communicação dos seus pensamentos e das suas volições. Se o homem, como muito bem o disse de Bonald, pensa sua palavra antes de expri- mir seu pensamento, é de conseqüência rigorosa admittir-se a preexistência de pensamentos e também de vocábulos que traduzissem esses pensamentos á in- venção humana da palavra. Por tanto a palavra presuppõe inquestionavelmen- te a palavra, ou por outra, a palavra é uma revelação e não uma convenção. Sem a palavra, que, materialisa na phrase que funde no Verbo, a metamor- phose infinita do pensamento, de que serviria a razão, essa faculdade sublime, mysteriosa, inenarrável, com que Deus dotara exclusivamente o homem, para distingui-lo de todos os seres creados. como a Biblia, repositório augusto das verdades eternas, em linguagem ao mesmo tempo simples e altamente philoso- phica, diz: Sicut equus et mulus,quibus non est intellectus. (Psal. XXXI. 9). 31 Sem a palavra o pensamento jazeria inutilmente clausurado nas insondaveis profundezas da alma, e o myslerioso phenomeno da translação das idéas de um indivíduo a outrem, base fundamental da sociabilidade humana, seria ir- realisavel. A palavra, dando forma as idéas pelas différentes entonações do som, fi- xando pelos signaes as multiplices combinações e descombinações de que o engenho humano é capaz por meio da sua chimica intellectual, intimamente entretecendo a trama do pensamento com a trama da linguagem, faz com que esta compartilhe com aquelle o movimento social de que goza. A palavra, dilatando os horisontes do império da razão com a fácil mone- tisação do pensamento, estabelecendo a communicabilidade sympathica entre os espíritos pela reciproca permutação das idéas, transmittindo, por via da tra- dição, ás gerações que nascem as glorias e as verdades conquistadas pelas gerações que foram, repercutindo, em fim, através das eras, o pensamento dos séculos que jazem na penumbra da eternidade, liga, d'est'arte, os innumeraveis mem- bros da familia humana, derramados pelo espaço e pelo tempo com os laços mysteriosos e infrangiveis da sociabilidade. Societatis humanai vinculum est ratio et oratio (Cie. de Off. 1 16). A lingua e a religião, escreve em estylo pomposo o primeiro historiographo português, são as duas cadeias de bronze que unem, no correr dos tempos, as gerações passadas ás presentes, e estes laços, que se prolongam através das eras, são a pátria (1). Mas de todos os attributos da palavra o supremo é por certo de provar que todas as gerações, que tem suecessivamente vindo a terra, encetar essa pe- regrinação irrevogável do túmulo que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama-vida, vão entroncar-se, pelos vínculos indissolúveis da consangüinidade, na familia adamica que, no delicioso berço do Éden, vira primeiro o sol, que illuminára a aurora da humanidade, fulgir com toda a pompa da sua belleza maííestatica. Ouçamos o que sobre este brilhante apanágio da palavra até um celebre es- criptor, que não pôde absolutamente ser tachado de idéas dogmáticas precon- cebidas, diz : Ainsi conduits par des guides différents, les peuples arrivaient à Ia place que Ia Providence leur avait assignée àNinive, Thèbes, Jerusalém, Athènes, Rome. Au milieu de tant d'empires dont les traces rapides s'effacent les unes par les autres, qui ne croirait que ces migrations sur Ia rosée du monde naissant (1) Lendas e marratiras T. II. p. 18o, 186. n n'ont pointlaissé de vestiges, ou quau moins Ia généalogie des ràces humai- nes est pour jamais perdue! Loin de là, cette généalogie du genre humain a été retrouvée hier par une découverte qui ne permet point de doute. Des mo- numents plus súrs que des colonnes milliaires marquent d'àge en àge, non- seulement Ia filiation, Ia descendance, le degré de parente des peuples, mais aussi leur itinéraire dans un temps ou ils croyaient ne point laisser de témoins derrière eux. Ces monuments sont les langues humaines; cette découverte es* celle defaífiliation des idiomes de 1'Onent avecceux de FOccident. « Si, en eíiet, les langues de notre Europe ont, comme il est impossible d'en douter, leurs racines dans celles q i ont étéoriginairement parléesdansle bas- sin du Gange et du golfe Persique; si celles d'Homère, de Cambyse, de David, de Valmiki, sont alliées fune à 1'autre; si à Fextrémité me me du Nord. vous retrouvez sous les neiges de 1'Islande Ia fleur glacée de Ia parole asiatique, de même que lesgéologues ont retrouvé 1'ivoire de 1'éléphant dans les glaces de Ia Scándinavie et 1'empreinte de Ia végétation de lazone torride tout près du pôle, il resulte évidemment de là que les peuples aujourd'hui les plus étrangers les uns aux autres ont vécu à 1'origine dans une relation intime; quils ont composé d'abord une grande famille, laquelle puisait Ia vie sociale à Ia même source; que leur chemin est indique par les vestiges et les échos de Ia parole qui relie tous les hommes, depuis le prender jusquau dernier, dans une même chaine, tout ensemble physique et spirituelle. Interprétez comme vous le voudrez cette parente dans les idiomes, toujours vous serez ramené à Ia necessite d'une souche centrale de laquelle sont sortis les rameaux de cet arbre de vie que l'on appelle l'histoire. Et cette conclusion tirée de ce quil y a de plus intime dans le génie de 1'homme, saccorde pleinement avec les traditions primitives, qui toutes placent â 1'origine de chaque race une même société, une même hu- manité; en sorte que des peuples qui, depuis, avaient cru être separes par toutes les circonstances de 1'organisation sociale, subiteinent rapprochés, ne formentplus, aux yeux de Ia science et de lareligion, quune même famille; leur parente se découvre, comme dans OEdipe, à Ia fin de Ia tragédie. (4). » Em vista das razões que, apesar de incompletas e mal concatenadas, ficam derramadas no que até aqui tenho expendido, creio, todavia, poder logica- mente concluir que as raças humanas provieram d'uma só origem. Cl) Edgard Quinet. Le g*nio de? rellgion-, p..2o, 26, SECÇÃO MEDICA, Medicação anti-gyphilitica. PROPOSIÇÕES. 0 mercúrio e o iodureto de potássio são os medicamentos que imperam na therapeutica da syphilis. II. Os syphilographos ainda hoje se dividem em mercurialistas e anti-mercuria- listas; mas a esehola que proclama o mercúrio como medicamento heróico da syphilis é a que tem mais seguidores. III. A syphilis fraca, servindo-me da phrase do Sr. Diday, deve, todavia, ser combatida sem mercúrio. IV. Os preparados mercuriaes devem ser cancellados da therapeutica da blen- norrhagia, excepto quando esta se complicar de cancro larvado urethral de ori- gem syphilitica. V. O cancro molle não deve ser tractado com mercúrio. VI. Nos ac ites precoces da svphilis o mercúrio é altamente reclamado. 9 34 VIL As numerosas experiências do Sr. Ricord sanccionam o emprego do mercú- rio associado ao iodureto de potássio no periodo da syphilis, chamado de tran- sição. VIII. O iodureto de potássio deve ser, especificadamente, administrado para debel- lar os symptomas tardios da syphilis. IX. Os preparados de ouro, de prata e de platina teem sido aconselhados para profligar a syphilis, mas o bom exilo do seu emprego ainda não foi ampla- mente referendado pela practica. X. Os sulphurosos, os tônicos e os ferruginosos, em particular, prestam rele- vantes serviços no tractamento da syphilis, realevantando as forças do orga- nismo, enfraquecidas pela acção do virus. XI. A syphilisaçao, como meio curativo da syphilis, foi solemnemente conde- mnada pela clinica syphilocomica. XII. Os preparados d'arsênico teem sido empregados com feliz resultado em al- guns casos de infecção syphilitica. SECÇÃO CIRÚRGICA. Feridas por anuas tle guerra PROPOSIÇÕES. I. No tractamento das feridas por armas de guerra uma questão momentosa é a que concerne ás lesões arteriaes. II. A cirurgia castrense liga grande importância a taes feridas; não só porque tem imprescindível dever de seriamente attentar para todas as rupturas vascu- lares, occasionadas no campo da peleja, mas também pelo pavor que, em vir- tude das hemorrhagias, soe saltear os feridos, e pela freqüência destas, que au- gmenta a medida que novos projectis se inventam. III. Deve-se, em boa cirurgia militar, proscrever, em geral, a ligação dos troncos das artérias feridas. IV. A ineíficacia desta practica, que Guthrie demonstrou, tem sido roborada pe- la experiência valiosa de Nélaton, Legouest, Stromeyer, Pirogoff, etc. V. Deve-se, pois, laquear o vaso lesado na própria sede do ferimento. VI. Quiz-se objectar a este expediente, recommendado pelo bom-senso cirúrgico, 36 dizendo que a friabilidade da parte empecia e, até, algumas vezes impossibili- tava a realisação da hemostase.. VII. A guerra da Criméa, porém, se encarregou de provar a falsidade desta obje- cção, mostrando que nem a gangrena nosocomial inutilisava tal recurso. VIII. As únicas objecções serias, que se podemalevantarcontra esse meio, pro- vem das difficuldades que podem sobrevir na pesquiza do vaso ferido por en- tre tecidos tumescentes e, porventura, alterados, IX. Mesmo neste caso aífirma o Sr. Roser que a dexteridade do cirurgião remo- verá todas as difficuldades. X. Outra questão de grande importância no assumpto vertente é a dos desbri- domentos. XI. O abuso que a theoria da estrangulação inflammatoria fez desse meio, pro- moveu a reacção, igualmente prejudicial, da quasi absoluta abstenção delle. XII. O desbridamento é altamente reclamado, quando ha collecções purulenta.s em via de putrefacção, clausuradas por aponevroses. SECÇÃO AGCESSORIA. Theoria chimica da respiração. PROPOSIÇÕES. Aoxydação, resultante da introducção do oxygeneo no liquor sangüíneo, tem logar por toda a economia. II. As experiências de Spallanzani, de W. Edwards, de Collar de Martigny e de Bischoff confirmam esta asserção. III. A descoberta de gazes no sangue e, nomeadamente, a do acido carbônico no sangue venoso, ainda mais testificam esta verdade scientifica. IV. Deve-se, pois, banir a idéa de que o acido carbônico se produza nos pulmões no momento da respiração. V. Os órgãos respiratórios se incumbem especialmente de apresentar superfí- cies absorventes e exhalantes, através das quaes se dá a permuta entre o oxy- geneo do ar athmospherico e os gazes que o sangue tem em dissolução. VI. O svstema capillar geral e os capillares pulmonares são que se encarregam da oxydação preparatória da assimilação e da desassimilação. 38 VII. Os pulmões, servindo-me das expressões d'um grande physiologista, devem ser considerados como um admirável artificio anatômico destinado para mul- tiplicar ao infinito as relações do ar com o fluido sangüíneo. VIII. O oxygeneo, fixando-se nos glóbulos hematicos, é pela corrente circulatória levado aos capillares geraes. IX. Na trama intima dos tecidos os glóbulos cedem o oxygeneo para as com- bustões orgânicas. X. O acido carbônico e o azoto são os príncipaes productos que, provenientes do trabalho desassimilatorio, se desprendem pelas superfícies pulmonares, XI. O oxygeneo é o agente principal de todas as transformações que os mate- riaes fornecidos pela digestão soffrem. XII. O azoto é exhalado pelo pulmão em estado livre. HYPPOCBATIS APHORISSÜI1. I. Somnus, vigiliâ, utraque modum excedentia, malum. (Sect II. Aph. 5J. II. Lassitudines sponte oborlae, morbos denuntiant. (Sect. II. Aph. 5). III. Ex anni vero constitutionibus, in universum quidem siccitates pluviosis sunt salubriores, et minúslethales. (Sect. III. Aph. 45). IV. Ubi in febre non intermittente difficultas spirandi et delirium fit, lelhale. (Sect. IV. Aph. 50). V. Mensibus copiosioribus prodeuntibus, morbi contingunt: non prodeuntibus, ab utero fiunt morbi. (Sect. V. Aph. 51). VI. Deliria, cum risu quidem accidentia, securiora: cum studio vero, periculo- $iora, (Sect VI. Aph. 53J. Mteme/àc/a a ^oomm^ào M>eváo?<cz*/6M<4. r*7ntáf<ófna-46. éaa&a e ^acuã/zc/e c/e tÃ&ecuc/na / ae ffáavewi/fpo c/e s$(fo. BAHIA—TYP. DE CAMILLO DE LELLIS MASSON & C—1868, - *1 :w W5I