DO M1CROBIO DA COQUELUCHE 1'OR Arthur MONCORVO Assistente do Laboratorio de Biologia do Ministério da Agricultura e Chefe de Clinica do Serviço de Pediatria da Policlínica Geral do Rio de Janeiro de bacteriologia) (Resumo extrahido do trabalho a publicar-se sobre o mesmo assumpto.) EIO IDE CT-ô-IsrEIIRO Imprensa MonfAlverne — Ferreira A C.—Rua da Uruguayana n. 47 DO MICROBIO DA COQUELUCHE POR Arthur MONCORVO Assistente do Laboratorio de Biologia do Ministério da Agricultura e Chefe de Clinica do Serviço de Pediatria da Policlínica Geral do Rio de Janeiro trabalhos de bacteriologia) (Resumo ext rábido do trabalho a publicar-se sobre o mesmo assumpto.) BIO DS JAUEIEÔ Imprensa MonfAlverne — Ferreira & C. — Rua da Uruguayana n. 47 IHUS DO MICROBIO DA COQUELUCHE Deante dos resultados os mais contradictorios das investigações até hoje realisadas com o intuito de conhecer o verdadeiro agente microbiano da coqueluche, moléstia tão vulgar na nossa capital, fui por meu pae, o l)r. Moncorvo, encarregado de proseguir nos estudos bacteriológicos por elle já encetados desde 1882, os quaes cumpria serem aperfeiçoados com o auxilio da technica bacterio- lógica, actualmente muito mais adeantada. Empenhado em satisfazer esta incumbência, como melhor me permittiam os meus ainda escassos conhecimentos biologicos, es- iorcei-me por seguir nesta nova serie de pesquizas, a piratica e me- thodo adoptados pior aquellos que se hão consagrado a analogos trabalhos. E’ o resultado de longas e minuciosas investigações, iniciadas ha mais de um anuo sobre o micro-organismo da coqueluche, que constitue o objecto desta resumida noticia, extrahida de um tra- balho mais completo sobre este assumpto, que será proximamente publicado. Comquanto largamente observada, em quasi toda a Europa, desde o século XV, a origem parasitaria da coqueluche só foi aventada em 18(57 por Poulet, em França e por Cezari, 11a Italia. Mas esses primeiros estudos foram esquecidos, até que seis annos depois, novos investigadores se consagraram ao reconheci' mento do microbio productor desta moléstia. 4 Foi assim que Letzerich, em 1873, e logo depois Henko, Tscbamer, de Gratz, em 1874 e Burger, de Bonn, em 1883, preten- deram haver descoberto cada qual um germen, a que attribuiam a origem do mal. Entretanto, os resultados de suas pesquizas mostravam-se in- sufficientes e entre si discordantes para admittirem uma con- clusão definitiva. Em 1883 publicou meu pae o resultado das suas primeiras investigações relativas á natureza, sede e tratamento da coqueluche, sendo as seguintes as principaes conclusões desse seu trabalho: * Que a moléstia parece dever ser attribuida á presença de mi- crococci que proliferam em numero prodigioso sobre a mucosa que forra a região superglottica do larynge, infiltrando-lhe as cellulas epitheliaes, que parecem ser a séde preferida para sua prolife- ração. «Que a resorcina applicada directamente sobre a mucosa la- ryngiana, conseguio, em todos os casos em que foi empregada- fazer decrescer muito rapidamente o numero das quintas, que per- diam também sua intensidade, determinando definitivamente sua cura em muito curto espaço de tempo, independentemente da in- tervenção de qualquer outro agente medicamentoso. > Estes micro-organismos que se lhe affiguravam então simples micrococci, por effeito do pequeno augmento e da insufficiencia da technica de que dispunha, via-os elle desapparecerem nas mucosi- dades rejeitadas pelos seus pequenos doentes, à medida «pie a coqueluche declinava sob a influencia do tratamento topico pela resorcina. Mais tarde, em 1886, provido de melhor technica, reconheceu serem aquelles verdadeiros bacillos, que cultivou e inoculou em ani- maes, que contraliiram a moléstia. Neste mesmo anno um bacteriologista russo, Afanasiew, exa- minando os catarrhos de seus proprios filhos, accommettidos de coqueluche, nelles encontrou também um bacillo, o qual depois do cultivado, determinou nos animaes em que foi inoculado o appa- recimento da moléstia. Os estudos deMoncorvo e Afanasiew, apezar do perfeitamente accórdes quanto ao germen por elles assignalados, aguardaram até agora a contra prova de outros obsarvadores collocados em condi- ções semelhantes ás suas. Foi, pois, com o intuito de confirmar e alargar os resultados dos seus precedentes estudos, que encarregou-me meu pae de rea- lizar as investigações que se seguem. A despeito, pois, de todas as controvérsias, não, desistimos no entretanto de emprehender as differentes pesquizas que resumi- damente passamos a enunciar, fechando os olhos a todas as inter- pretações dos abalisados mestres europeus, que se pronunciaram Bobre a pathogenia da coqueluche. 5 No catarrho de um doente desta moléstia, existe, além de in- numeros germens communs na saliva humana, taes como o spiro- choete salivar, o leptotrix buccalis, a sarcina ventriculi, etc., um bacillo que se apresenta com o diâmetro de cerca de dons mille- simos de millimetro (pouco maior que a bactéria c diphteria) que é acompanhado de esporos de volume menor que os do leptotrix buccalis. Ha ainda no catarrho globulos de pús ou de sangue e como elemento constante, cellulas epitheliaes. quasi sempre infiltradas do bacillo pathogenico. A observação do esputo à vista desarmada, mostra aqui e ali colonias de côr amarella-ouro. Essas colonias, debaixo do exame microscopico, deixaram ver em grande numero, esporos bastantes amarellos e refringerites de fôrma variavel, ou ovoide ou redondo, cercado de uma membrana envoltoria, não muito delgada. O bacillo que me foi dado observar, sahe do esporo sob a fôrma de granulação, granulação essa que pouco a pouco se diffe- rencia para constituir mais tarde o bacillo adulto, cuja dimensão varia conforme o meio em que é cultivado. Os bacillos adultos têem a côr amarella clara, são refringentes, teem a fôrma cylindrica, às vezes ellvptica, e acham-se grupados dous a dous, ou fórmam cadeias de 3 a 5, reunindo-se as vezes em zoogleas, sem fôrma geométrica definida. Estes microbios colorem-se com grande nitidez pela violeta de methyla, pela violeta de genciana ou então pela fuschina e menos pelas outras substancias usadas em bacteriologia. Depois de examinar um sem numero de vezes os esputos de doentes de coqueluche e ter verificado sempre a existência (lesse bacillo, em maior ou menor abundancia, conforme o gráo de in- tensidade da infecção, passei a cultival-o em differentes meios nutritivos. Assim utilisei-me dos caldos, de gelatina liquida e solida, de agar-agar, de carne esterilisados; em batatas, em nabos, em cenou- ras, em rabanetes, na gomma de amylo e finalmente no pão regado com agua distillada. 0 aspecto das colonias variava segundo o meio no qual ir.» culei o bacillo. Em geral, poém, ellas apresentam-se como la- minas delgadas de gordura coalhada, com turvaçã< do caldo, se for liquido. Nos caldos de agar-agar as colonias mostram uma delicada franja em seus bórdos. Depois de algum tempo ligam-se bórdo a bórdo, estendendo-se sobre a superfície do caldo, deixando perceber um núcleo acinzen- tado ou roseo. Na batata, devido aos seus excellentes materiaes nutritivos, o germen se cultiva bem, adquirindo um volume muito mais consi- derável. 6 Além de diversas outras particularidades que nesta parte de meus estudos tive ensejo de observar, uma attrahiu particularmen- te a minha attençãó. Si os bacillos da coqueluche no catarrho provém de esporos que poliferam, ou por gemmação ou por endogenese, em alguns meios de cultura, porém, tal não acontece, nos caldos de agar e gelatina solida peptonisados, na batata, etc., a reproducção se faz por seg- mentação, deixando de apparecer o elemento esporo. O cheiro caracteristico de couves podres ou 'repolho cosido é tam- bém um signal importante (jue identifica as culturas do bacillo em questão. Sobre o liquido branco segregado pelo germen, só posso por ora dizer, que não altera os globulos vermelhos ‘do sangue, como das nossas experiencias resultou. Será assumpto de um trabalho posterior, alguns estudos que a respeito já encetei. O facto, porém, de não alterar as hematias, vem perfeitamente demonstrar, segundo a theoria mais lógica, que a coqueluche é uma infecção localisada na região laryngiana e não altera directa- mente o sangue, acarretando perturbações febris, as quaes são sem- pre a consequência de uma complicação sobrevinda no decurso da coqueluche (Cadet de Gassicourt, Moncorvo, Clemente Ferreira, etc.) O bacillo, que serve de assumpto aos nossos estudos, pelos differentes modos por que póde viver, parece-me dever collocal-o na classe dos anaeróbios facultativos (Pasteur). Depois de muito tempo de pesquizas sobre o germen no ca - tarrlio e nos differéntes meios de cultura, depois que pude obter, apóz successivas transplantações, culturas perfeitamente puras, passei a estudar a acção de diversos agentes therapeuticos, alguns dos quaes já ensaiados no tratamento da coqueluche, já atacando directamente o germen no campo da preparação, já deixando aqucllas substancias em contacto com as culturas, para melhor poder apreciar-lhe os effeitos. Seguindo assim os preceitos de Bouchard, estudei com o maior escrupulo, o acido borico, o eido phenico, o permanganato de po- tássio, a creolina, o salicylato de sodio, a quinina, a antipyrina, que me forneceram résultados completamente nullos, embora ap- plicados em soluções concentradas. O sublimado corrosivo, (1:10.000) o benzonaphtol, o acido citrico e a resorcina, porém, demonstraram grande poder antisep- tico sobre o microbio da coqueluche. Analysando detidamente, vê-se que si o bichloreto de mer- cúrio é em pequena p.ioporção vantajoso, o mesmo não se refere á pratica na clinica onde o seu emprego póde ser perigoso. O benzonaphtol é um bom antiseptico contra o germen, não obstante não tem também emprego para o caso, por ser insolúvel e um irritante da mucosa, 7 ílesta-nos, pois, como de utilíssima applicação o acido citrico e a resorcina, cujos maravilhosos resultados me levam a affirmar a sua superioridade autiseptica a todos os outros estudados. A’ resorcina, não pode mais ser negado o seu poder especifico contra a coqueluche, já tão provado por tantos centenares de curas não só no Brazil como em grande numero de paizes estrangeiros. Possuo culturas em que ha mais de um anuo foi introduzida a solução resorcinica e hoje nem mesmo são encontrados os germens para lá transplantados. Houve pois, perfeita esterilisação. Devo dizer que as culturas submettidas á temp. de 100° per- deram a sua vitalidade, tornando-se estereis. Não obstante, vimos que o bacillo tem o seu optimum entre 35 • e 45°, e que a 50° elle ainda resiste, parecendo que só 60° centígrados são sufficientes para extinguil-o. O minimo da temperatura a que resiste o germen está entre 16° e 17°, em que permanece em estado de vida latente. Inoculei o germen cultivado em grande numero de animaes, taes como: ratos brancos, cães, gatos, gallinhas e cobayas. Em todos fizemos preceder a inoculação, da irritação mais ou menos pronunciada da mucosa laryngiana, servindo-nos para isso ora da insufflação de pimenta do reino finalmente pulverisada, ora, emfim, de um bastão de vidro de ponta aspera insinuado no ori- fício glottico. Das experiencias que a tal respeito fiz, póde-se concluir: Io Que os ratos são de alguma sorte refractarios á coqueluche; 2o Que os gallinaceos, comquanto não'exprimam a tosse com caracteres peculiares a de outros vertebrados superiores não se mos- tram, comtudo, inteiramente refractarios á cultura do germen na sua tracheo—artéria ; 3° Que os cães adultos, como succede com a especie humana, dif- ficilmente contrahem a moléstia, ao contrario do que parece acon- tecer com os cães ainda novos; 4o Que a coqueluche desenhou-se com os seus caracteres pró- prios, nas pequenas cobayas inoculadas com as culturas puras do germen, quer extrahido directamente das creanças daquella affeeta- das, quer do larynge de outras cobayas inoculadas. Tive sempre o ensejo de encontrar em grande abundancia o ba- cillo já nas mucosidades daquelles animaes ainda vivos, já depois de sua morte. São as seguintes conclusões de meu trabalho acerca do microbio da coqueluche: Io Que a coqueluche é causada por um bacillo o que já fôra por meu pai assignalado e cultivado ha 10 annos passados ; 2o Que a séde principal deste micro-organismo é a cavidade bucco —* laryngiana, cujas cellulas epitheliaes parecem ser o seu habitat de predilecção. 8 3 o Que o catarrho retirado do larvnge nos casos de coqueluche adiantada, deixa perceber grande numero de corpúsculos amarel- lados, nos quaes, ao exame microscopico, se percebem innumeros esporos que aqueiles communicam á sua côr amarella ouro; 4o Que seguidos em seu desenvolvimento quer no proprio ca- tarrho, quer em vários meios de cultura, estes esporos repletos de granulações rompem-se, estravasando estas granulações, as quaes, alongando-se progressivamente, passam a constituir o bacillo ; 5 o Que este ultimo pode também resultar ou da gemmação do esporo ou da segmentação de um bacillo preexistente. 6° Que das diversas inoculações em animaes resultou a appa- rição da coqueluche com todos os seus caracteres, notando-se maior virulência nos animaes novos, terminando pela morte. 70 Que se póde definitivamente affirmar a incontestável e pre- ciosa efficacia da resorcina no tratamento da coqueluche, sobeja- mente contra-provada pelas novas investigações bacteriológicas, rigorosamente feitas.